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O Pensamento de Buda

Por Ananda Coomaraswamy (s/d) Martins: São Paulo

Abreviações:
A. - Angutara – Nikaya; AA. - Comentário do Angutara; BG. – Baghavadgita; BU. -
Brhadaranyaka – Upanishad; Com. – Comentário; D. - Digha – Nikaya; DA. - Comentário do
Digha; Dh. – Dhammapada; E.R.E. - Enciclopédia da Religião e da Ética; G.S. - Gradual Sayings;
HJAS. - Harvard journal of Asiatic Studies; It. – Itivuttaka; ItA. - Comentário do Itivuttaka; J. –
Jataka; K.S. - Kindred Sayings; M. - Mojjhima – Nikaya; MA. - Comentário do Mojjhima; Mil. –
Milindapanha; Min. Anth. - Minor Anthologics of the Pali Canon; S. - Samyutta Nikaya; SA. -
Comentário do Samyutta; Sn. – Suttanipata; Ud. – Udana; Uda. - Comentário do Udana; Up. –
Upanishad; Vin. - Vinaya – Pitaka; Vism. - Visuddhimagga
As referências às obras em Páli dizem respeito às edições da Pali Text Society, exceto no caso
da Vinaya e da Jataka. [introdução omitida]

EXTRATOS DE TEXTOS BUDISTAS


I. TEXTOS QUE PODEM SERVIR DE INTRODUÇÃO
Outrora, Ãnanda, havia neste lugar uma cidade rica e florescente onde se comprimia uma
grande população; e perto desta cidade, Ananda, residia o senhor Kassapa (30), o perfeito, o
totalmente desperto. E Gavesin (31) era um discípulo de Kassapa, mas não observava os
hábitos morais (32). Ora, devido a Gavesin, havia muitos ouvintes leigos que testemunhavam
e, que estavam interessados, mas não observavam os hábitos morais. Então veio-lhe esta
idéia: "Eu servi bem êstes numerosos ouvintes leigos sendo o primeiro a me interessar; mas
nem êles nem eu observamos os hábitos morais. Dêste modo, há uma exata igualdade [entre
nós] que não deixa a sombra de qualquer outra coisa. Vamos! Estou disposto a mais alguma
coisa!" Então Gavesin foi ao encontro dos outros e lhes disse: "Sabeis que a partir de hoje sou
um cumpridor dos hábitos morais". Então, Ãnanda, os outros pensaram cada um de per si: "Se
êste mestre Gavesin se torna cumpridor dos hábitos morais, por que não o seríamos nós
também?". Gavesin pensou ainda: "Dêste modo ainda, há uma exata igualdade (entre nós) que
não deixa a sombra de qualquer outra coisa. Vamos! Estou disposto a mais alguma coisa!" e
lhes disse: "Sabeis que a partir dêste dia sou um companheiro de Brahma, um que vive isolado,
que se abstém da vida sexual". E êles pensaram: "Por que não o faremos também?" Gavesin
pensou ainda: "Dêste modo ainda, há uma exata igualdade (entre nós) que não deixa a sombra
de qualquer outra coisa. Vamos! Estou disposto a mais alguma coisa! e lhes disse: "Sabei que a
partir dêste dia só tomarei uma refeição por dia, abster-me-ei de me alimentar à noite e de
comer a horas impróprias". (33) E êles pensaram: "Por que não o faremos também?" O
Ãnanda, Gavesin refletindo em tudo o que fizera, e os outros também, pensou: "Dêste modo
há verdadeiramente uma exata igualdade (entre nós), que não deixa sombra de qualquer
outra coisa. Vamos! Estou disposto a mais alguma coisa”. E solicitou ao senhor Kassapa o exílio
(34) (na ordem monástica) em sua presença, e a ordenação. E os outros fizeram o mesmo;
todos receberam o exílio e a ordenação, e pouco depois Gavesin tomou-se um Perfeito. (35)
Pensou então: "E um fato que eu possa obter esta beatitude suprema da liberdade, à minha
vontade, facilmente, sem dificuldade. Possam somente êsses outros monges a obter
também!" E pouco tempo depois, os monges recolhidos, fervorosos, ardentes, resolutos, com
Gavesin à frente, esforçando-se peja elevação em atingir maiores alturas, e pelas suas forças,
forças mais poderosas, chegaram a realizar a liberdade suprema. Por isso, Ãnanda, é que vos
deveis exercitar assim: do que é alto ao que é mais alto, de uma força a outra, esforçar-nos-
emos para avançar e chegaremos a realizar a liberdade suprema. "Em verdade, Ãnanda, é
assim que vos deveis exercitar". [A. III, 215-218]
[30. O Buda que precedeu Gotama].
[31. Este nome significa literalmente "aquêle que procura suas vacas". É, pois, "o que
procura"].
[32. Ver o capítulo dos hábitos morais].
[33. Entre o meio-dia e o nascer do Sol].
[34. Pabbajjã].
[35. Arahant, V, pág. 66].
A viagem com Brahma foi perfeitamente exposta, está aqui e agora, é não-temporal. [Sn. 567].
Pela viagem com Brahma toma-se um brâmane. [Dh. 655].
No mundo são "brâmanes" os que são sem especilhos e despertos. [Ud.4].
Ó monges! Esta viagem com Brahma não se realiza para enganar ou iludir os indivíduos. Não
há nela preocupação de obter lucros, vantagens ou a notoriedade. Não há nela preocupação
de um dilúvio de falatórios nem de idéias. "Que as pessoas me conheçam por êste ou aquêle
nome." Não, meus monges, esta viagem com Brahma se realiza com a finalidade de abandono,
com a finalidade de impassibilidade, com a finalidade de fazer cessar. O senhor ensinou a
viagem com Brahma e não por rumores; a abstinência é sua finalidade, o abandono é sua
finalidade; ela conduz à imersão no Nirvâna. É a Via seguida pelos grandes Sêres, os grandes
santos. Os que seguem como o ensinou o Desperto, falando a vontade do Mestre, porão termo
ao mal. [A. II, 26, It. pág. 28].
[Um brâmane, Sangãrava, dirigiu estas palavras a Buda:] "Permite-me que te diga, excelente
Gotama, que os brâmanes oferecem sacrifícios e conseguem que outros façam o mesmo. É por
isso, excelente Gotama, que aquêle que consegue que outros façam o mesmo, todos êsses
fazem uma obra meritória que é útil a muitos e que é devida ao sacrifício. Mas aquêle, que,
desta ou daquela família, abandonou seu lar para viver sem lar, êsse só doma um único eu
(36), só acalma um único eu, só faz atingir o absoluto Nirvâna (37) a um único eu. Ele realiza
pois uma obra meritória que é útil a uma única pessoa e que é devida à sua saída [do mundo]".
"Eu responder-te-ei, brâmane, formulando-te uma pergunta. Que pensas tu? Um Descobridor
da Verdade (38) surge neste mundo, um Perfeito, um totalmente Desperto, dotado de
conhecimento e de boa conduta, caminhando bem, conhecendo os mundos, incomparável
condutor (39.) dos homens que é preciso domar, mestre dos devas e dos homens, desperto,
senhor. Ele diz isto: "Vinde: eis a Via, eis a estrada que eu trilhei até o momento de a fazer
conhecer, tendo realizado pelo eu próprio conhecimento superior à inigualável imersão na
união com Brahma. Vinde, vós também, segui igualmente (a Via) a fim de que tendo realizado
pelo vosso próprio conhecimento superior à inigualável imersão na união com Brahma, aí
possais permanecer. É assim que o próprio Mestre ensina o dhamma, e outros o seguem para
atingir êste estado. Além do mais, êstes são em número várias centenas, vários milhares,
várias centenas de milhares. Que pensas disto, brâmane? Sendo assim, a obra meritória que se
acumula trará benefícios a um único ou a muitos? - "Numa vez que é assim, excelente Gotama,
a obra meritória que se acumula, como conseqüência da saída (do mundo) traz benefícios a
muitos." [A. I, 168.169].
[36. "Um eu" como no Dh. 103: "Comparado àquele que na batalha é vencedor de mil vêzes
mil homens, é o maior dos vencedores da batalha o que só vence um único eu (o seu). Cf. D. III,
onde é dito que os monges só domam... etc. "um único eu", ao contrário, do rei que a muitos
domina. Ver o capo do Sacrifício, pág. 150"].
[37. parinibbãpeti].
[38. tathãgata].
[39. J. VI, 252: "O Eu é o condutor do carro"; S. I, 33: "Dhamma é o condutor do carro"; Dh.
151: "Os carros apodrecem, não o Dhamma; S. III, 120: "Aquêle que vê o Dhamma me vê"].

II. O FUNDADOR E OS ARAHANTS


1. GOTAMA: PASSAGENS AUTOBIOGRAFICAS
Outrora, meus monges, eu residia em Uruvelã, sobre a margem de Neranjarã, sob o Banyan
dos Cabreiros; foi logo depois de ter alcançado o grande Despertar; meditando na solidão,
pensava: "É um mal viver sem respeitar nem obedecer. Que eremita, que brâmane existe junto
do qual eu poderia viver rendendo-lhe homenagem e respeito?" Visando tomar perfeita a
soma total dos hábitos morais, da contemplação, da sabedoria, da liberdade ainda não
perfeita, eu quereria viver junto de um outro eremita ou brâmane rendendo-lhe homenagem
e respeito. Mas no mundo com seus devas, Mãras, Brahmãs em toda a raça - eremitas,
brâmanes, devas ou homens - não vejo nenhum outro eremita ou brâmane mais perfeito
nestes ramos do estudo que não o seja eu mesmo e junto do qual, por esta razão, poderia
viver rendendo-lhe homenagem e respeito.
Então pensei: "Este dhamma no qual recebi o despertar total, se eu vivesse junto dêste
dhamma rendendo-Ihe homenagem e respeito?” Sobre isto, meus monges, Brahmã
Sahampati, tendo desaparecido do mundo de Brahma, se apresentou diante de mim e disse:
"É bem assim ó Altíssimo! bem assim, é bom viajante! Os que outrora foram Perfeitos,
totalmente despertos, êstes Altíssimos, êles também, só viveram junto do dhamma, honrando-
o e respeitando-o. Os altíssimos que virão no futuro farão o mesmo. Que o Altíssimo, senhor,
que é agora um Perfeito, mu totalmente Desperto, só viva junto do dhamma, honrando-o e
respeitando-o". E Brahmã Sahampati acrescentou ainda isto:
“Os Budas perfeitos que se foram
os Budas perfeitos que virão
O Buda perfeito do presente
e que para numerosos sêres baniu o sofrimento
todos viveram honrando o verdadeiro dhamma.
vivem e viverão: Tal é o seu Caminho.
Assim aquêle a quem o Eu é precioso
e que deseja ardentemente o Grande Eu,
deve prestar homenagem ao dhamma
lembrando-se da palavra de Buda (40)
[A, II, 12-20, cf. S. I, 138].
[40. A tradução da estância está de acôrdo com SS. II, 12, exceto que substituímos por "o
verdadeiro dhamma", "seu dhamma"].
Quando estais reunidos, ó monges, de duas coisas uma podeis fazer: seja falar do dhamma, ou
guardar o silêncio ariano. (41) Estas, monges, são as duas buscas: a busca ariana (42) e a busca
não-ariana. Em que consiste a busca não-ariana? Tomai o caso de um homem que, sujeito ao
nascimento, devido ao eu, busca o que é igualmente sujeito ao nascimento: uma mulher e
filhos, escravos de ambos os sexos, ovelhas, cabras, galos e porcos, elefantes, gado, cavalos e
égua, ouro e prata; e que, sujeito à velhice, ao declínio, à morte, à dor, à impureza, sempre
devido ao eu, busca o que está igualmente sujeito a êstes estados [enumeração como esta
acima, exceto o ouro e a prata que são omitidos dos casos de declínio, de morte, e de dor]. Eis
aí a busca não-ariana. E qual, é, então, a busca ariana? Neste caso um homem sujeito ao
nascimento devido ao eu, mas tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao
nascimento, busca o não-nascido, a mais absoluta segurança contra a escravidão (43), o
nirvâna. Um homem, sujeito à velhice devido ao eu...busca o que não envelhece, a mais
absoluta segurança contra a escravidão, o nirvâna. Um homem sujeito, à dor devido ao eu...
busca o que não conhece a dor, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o nirvâna. Um
homem sujeito à impureza devido ao eu, tendo visto o perigo no que é igualmente sujeito à
impureza, busca ó imaculado, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o nirvâna. Eis aí a
busca ariana.
Eu também, monges, antes do meu total despertar, quando era ainda bodhisatta, não
totalmente desperto, e pelo fato de que estava sujeito ao nascimento, devido ao eu, buscava o
que estava igualmente sujeito ao nascimento, etc. Veio-me esta idéia: Por que, sujeito ao
nascimento devido ao eu, busco o que é igualmente sujeito ao nascimento?.. etc. Se [sendo]
sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao
nascimento, buscasse o não nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvâna; E se,
sujeito à velhice, à morte, à dor, à impureza devido ao eu, tendo percebido o perigo no que
está igualmente sujeito a êstes estados, eu buscasse o que é sem velhice, sem morte, sem dor,
sem mácula, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvâna?
Então abandonei meu lar para viver sem lar, em busca do que é bom, buscando a
incomparável vereda da paz. Eu me dirigi primeiro para junto de Alãra Kãlãma, depois para
Uddaka Rãmaputta; mas do dhamma e da disciplina dêstes dois [mestres] compreendi o
seguinte: êste dhamma não conduz à indiferença, à impassibilidade, à cessação, à
tranqüilidade, ao conhecimento superior, ao despertar, ao nirvâna, mas somente com Alãra,
até o plano de aniquilamento do eu; com Uddaka, até o plano de nem percepção nem não
percepção. Então, buscando o que é bom, buscando a incomparável vereda da paz, e
percorrendo a pé o Magadha, terminei por chegar a Uruvelã, a Povoação do Campo. Ali eu vi
uma deliciosa extensão de terreno plano, um bosque encantador, um rio que corria com águas
bem claras; não muito longe havia uma aldeia onde era possível viver. (44) Pensei: a um jovem
que está resolvido a fazer esforços, que mais necessitaria para seus esforços? Sentei-me, pois,
ali, achando o local conveniente para meus esforços. Então, ó monges, sujeito ao nascimento
devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito ao nascimento, e
procurando o não-nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvâna, encontrei meu
caminho até o não nascido, até a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana...
procurando o que não envelhece... o que não morre... o que é sem dor... encontrei meu
caminho até o que não conhece nem velhice, nem morte, nem dor. Então sujeito à impureza
devido ao eu, tenho percebido o perigo no que está igualmente sujeito à impureza, buscando
o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvâna, consegui o imaculado, a
segurança absoluta contra a escravidão, o nirvâna. Conhecimento e visão surgiram em mim:
inabalável é minha liberdade, êste meu último nascimento, não mais existe nôvo porvir. [M. I,
161-167].
[41. Ud. 31].
[42. Isto é, nobre, correto, no sentido de que pertence a êste dhamma, a esta disciplina].
[43. Yogakkhema: geralmente é a imunidade contra os dado, fornecidos pelos seis sentidos (o
intelecto é o sexto sentido); literalmente: "repouso, cessação de aplicação"; é antes uma
"recompensa do trabalho" do que a prática do domínio dos sentidos].
[44. Onde poderia mendigar seu alimento].
Os que dizem, ó Vaccha: o eremita Gotama é onisciente, tudo vê; êle tem a pretensão de um
conhecimento e de uma visão que tudo abarcam; êle pensa: "Caminhando ou imóvel,
adormecido ou desperto, eu disponho contínua e perpetuamente do conhecimento e da visão:
êsses não falam de mim com exatidão; êles me descrevem mal, em traços que são falsos e não
de acôrdo com os fatos”. Se tu dissesses, ó Vaccha: "O eremita Gotama é um homem de triplo
conhecimento", explicando-me assim tu falarias com exatidão, não me descreverias em traços
não de acôrdo com os fatos; tu me explicarias de conformidade com o dhamma, e um frade
em religião não teria lugar de fazer uma exposição sectária para o refutar. Pois, Vaccha, eu me
lembro de muitas moradas anteriores tão longe quanto quero no passado, isto é, de um
nascimento ao precedente, com todos os seus detalhes e todos seus traços. Depois, Vaccha,
eu vejo com a visão purificada dos devas, que supera a dos homens, criaturas morrendo [aqui]
e surgindo [alhures]. Enfim, Vaccha, pela destruição dos fluxos, (45) tendo realizado neste
mundo e desde agora, graças a meu próprio conhecimento superior, a liberdade do coração e
a liberdade do espírito que são sem fluxos, é nesta liberdade que permaneço. (46) [D. III, 28].
[45. ãsava].
[46. A noção destes três “conhecimentos” se encontra mais desenvolvida alhures].
Do comêço das coisas, em última análise, eu tenho a presciência, ó Bhaggava: tenho a
presciência daquilo e de mais do que aquilo. Tenho esta presciência, a ela não concedo
importância. Não lhe concedendo importância, conheço subjetivamente esta calma que é tal
que, conhecendo-a intuitivamente o Descobridor da Verdade não cai em nenhum êrro. [D. III,
28].
"A Roda que eu pus em movimento, diz o Senhor,
a roda do dhamma, ó Sela, sem igual,
e Sãriputta que continua a fazê-la girar.
É êle o herdeiro nascido ao Assim-vindo. (47)
Tôdas as coisas próprias a serem conhecidas, são por mim conhecidas, próprias a serem
abandonadas, são por mim abandonada.
Assim estou eu desperto, ó brâmane!
Dissipa tuas dúvidas a meu respeito, inclina teu coração.
É de longe em longe, bem raramente, que se vêem os Despertos.
Dêstes homens raros, raramente vistos no mundo, eu sou um; médico sem igual,
plenamente desperto, ó brâmane, tornado
tal como Brahma, superior a tôda comparação.
Todos os inimigos foram abatidos,
esmagadas as hostes de Mãra, e sem medo eu me regozijo”. (48)
[Sn. 557-561].
[47. Tathágata que em outro lugar traduzimos também por “Descobridor da Verdade”].
[48. Tradução inglêsa por E. M. Hare, Woven Cadences. Trata- se ainda em outra parte da
questão de Sãriputta fazendo girar a roda do dhamma].
Minha idade está agora madura, minha vida chega a seu término; eu vos deixo, eu me vou; é
ao Eu que tomei por refúgio. [D. II, 120].
O brâmane Dona aborda o Mestre e lhe pergunta:
- O venerável deseja tornar-se deva?
- Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-me deva.
- O venerável deseja tornar-se gandharva?
- Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-me grandharva.
- Yakkha, talvez?
- Não, em verdade, brâmane, também não yakkha. - O venerável deseja tomar-se um ser
humano?
- Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-me um ser humano.
- Quem, por gôsto, deseja tornar-se o venerável?
- Brâmane, êstes fluxos que, se não fôssem abandonados, far-me-iam tomar deva, êstes fluxos
em mim estão abandonados, extirpados na raiz, tomados iguais a um cêpo de palmeira,
inexistentes, não suscetíveis de reaparecer no futuro. Estes fluxos que, se não fôssem
abandonados, far-me-iam tornar gandharva, yakkha, ou ser humano... todos êsses fluxos em
mim estão abandonados...não suscetíveis de surgirem no futuro. Da mesma maneira, ó
brâmanes, que um lótus, azul, vermelho ou branco, se bem que nascido na água, se ergue
quando atinge a superfície acima dela, sem ser maculado pela. água, também, ó brâmane,
embora nascido no mundo, embora tendo crescido no mundo, eu venci o mundo e permaneço
não maculado pelo mundo. Reconhece, ó brâmane, que eu estou desperto. (49)

Os fluxos pelos quais poderiam nascer


um deva, um gênio do ar
um gandharva; ou pelos quais eu mesmo
poderia atingir o estado de yakkha,
ou bem ir nascer no seio de uma mulher:
êste fluxos agora estão por mim
aniquilados, destruídos, extirpados.
Como um lótus, puro, admirável, pelas águas não é contaminado,
eu não sou contaminado pelo mundo,
é por isso, brâmanes, que eu estou desperto. (50)
[A. II, 38-39].
[49. Buddha, como na passagem procedente do Sn. Ou, se se deseja "o Desperto por
excelência"].
[50. Seguimos F. L. Wood Ward, GS. II, 44-45, mas traduzimos ãsava pelos "fluxos" e Buddha
por "despeito"].
Depois de ter ensinado, despertado, incitado e reconfortado a assembléia falando-lhe o
dhamma, entrei no estado de fogo, (51) e me elevei acima do solo à altura de sete palmeiras;
após ter produzido uma chama que ardia e fumegava à altura de sete outras palmeiras, eu
tomei a descer à sala dos Pinhões no Grande Bosque. [D. III, 27].
[51. Tejadhãtu samápajjítva. Tejas é o calor, o fogo, ou a energia ardente. Esta passagem
parece provir de alguma lenda apresentando Buda como uma coluna de fogo].

2. ALGUMAS PROFECIAS ATRIBUÍDAS A GOTAMA


Houve um tempo, ó monges, em que êste monte Vipula levava o nome de Tortuoso: as
pessoas daqui se chamavam Rohitassas, e a medida de sua vida era de trinta mil anos. Eram-
lhes preciso três dias para escalar o monte Tortuoso e três dias que dêle tornar a descer. O
venerável Konãgama tinha nesta época surgido no mundo e tinha por dois principais discípulos
Bhiyyosa e Uttara: um belo par. Mas eis que o nome desta colina desapareceu, esta população
morreu, e êste venerável atingiu o absoluto nirvâna. Tal é a impermanência, tal é o caráter
efêmero, a pouca solidez de tudo o que é construído. Houve um tempo em que êste monte
Vipula levava o nome de Linda Colina e a população daqui se chamava os Suppiyas, e a medida
de sua vida era de vinte mil anos. Eram-lhes preciso dois dias para escalar o monte Linda
Colina e dois dias para dêle tornar a descer. O venerável Kassapa tinha surgido no mundo
nesta época, e tinha por dois principais discípulos Tissa e Bhãradvàja: um belo par. Mas eis que
o nome desta colina desapareceu e esta população morreu, e o venerável atingiu o absoluto
nirvâna. Tal é a impermanência, tal é o caráter efêmero, a pouca solidez de tudo o que é
construído. E agora a êste monte Vipula vem de ser dado o nome de Vipula, e a esta população
vem de ser dado o nome de Mãgadhis; a medida de sua vida é pequena, breve, efêmera, e
aquêle que vive muito tempo, vive cem anos ou um pouco mais. As pessoas de Magadha
escalam o monte Vipula em pouco tempo e dêle tomam a descer em pouco tempo. E eu surgi
no mundo, o Perfeito, o totalmente Desperto. E por meus dois principais discípulos tenho
Sariputta e Moggallãna: um belo par. Virá um tempo em que o nome desta colina
desaparecerá e em que esta população morrerá, e eu atingirei o absoluto nirvâna. Tal é a
impermanência, ó monges, tal é o caráter efêmero, a pouca solidez de tudo o que é
construído. Tanto basta, ó monges, ser indiferente, ser impassível, ser livre a respeito de tudo
o que é construído. [S. II, 191-193].
Outrora, ó monges, os Dãsarahas possuíam um tambor chamado o Convocador. Como
começava a rachar, os Dãsarahas nêle cravavam sempre novas cavilhas: chegou o momento
em que o tambor original do Convocador tinha desaparecido: só restava uma armadura de
cavilhas. É assim, ó monges, que sucederá aos monges do futuro. Estes discursos pronunciados
pelo Descobridor da Verdade, profundos, profundos de significação, falando de um outro
mundo tratando do vácuo: êles não escutarão mais tais como são pronunciados, não prestarão
atenção, não voltarão seus pensamentos para o profundo saber, e não sustentarão que êsses
são ensinamentos dignos de ser estudados e possuídos. Mas os discursos, Ó monges, que são
feitos pelos poetas, que pertencem à poesia, que são uma pluralidade de palavras e de
expressões, que são estranhos. (52) que são as palavras de discípulos: eis o que êles ouvirão
tais como são pronunciados e sustentarão que êsses são ensinamentos dignos de ser
estudados e possuídos. É por esta razão que os discursos pronunciados pelo Descobridor da
Verdade, profundos, de significação, falando de um outro mundo, tratando da vacuidade,
acabarão por desaparecer. [S.II, 266-267]
Na época, ó monges, em que os homens viverem até a idade de oitenta mil anos, surgirá no
mundo o Perfeito, o totalmente desperto, o senhor chamado Metteyra, (53) dotado de saber e
de boa conduta, caminhando no bem, conhecendo os mundos, incomparável condutor de
homens que devem ser domados, mestre dos devas e dos homens, o Desperto, o senhor - da
mesma maneira que eu, no presente, surgi Prefeito, dotado de saber e de boa conduta,
caminhando no bem, conhecendo os mundos, incomparável condutor de homens que devem
ser domados, mestres dos devas e dos homens, o Desperto, o Senhor, Esse, pelo seu
conhecimento superior, compreenderá e fará conhecer êste mundo com seus devas, seus
Mãras, seus Brahmãs, esta criação com eremitas e brâmanes, com devas e homens, da mesma
maneira que eu, no presente, pelo meu conhecimento superior, os compreendi e fiz conhecer.
Ele ensinará o dhamma, êle proclamará o caminhar com Brahma, admirável no princípio,
admirável no meio, admirável no fim, com sua finalidade e sua significação, completamente
realizados, absolutamente puros como o faço no presente. Ele ficará à frente de uma ordem
que- compreenderá vários milhares de religiosos, da mesma maneira que eu, no presente,
estou à frente de uma ordem que- compreende várias centenas de religiosos. [D. III, 76]
[52. Isto é, exteriores ao ensinamento de Buda].
[53. Este nome significa “amizade”].
- Quem são êstes homens, Ãnanda, empenhados em construir uma cidade fortificada em
Pãtaligãma?
- Sunidha e Vassakãra, senhor, principais ministros de Magadha, estão empenhados em
construir uma cidade fortificada em Pãtaligãma para repelir os Vajiis.
- Fazendo, ó Ãnanda, como se êles o tivessem deliberado com os devas dos Trinta e três; é
assim Ãnanda, que- Sunidha e Vassakãra, principais ministros do Magadha, constroem uma
fortaleza em Pãtaligãma para repelir os Vajiis. Ora, eu, Ãnanda, levantando-me no fim desta
noite, na proximidade da aurora, pela minha visão de deva purificado e superando a dos
homens, vi muitas devatãs ocupando lugares em Pãtaligãma. Ora, em uma região em que
poderosas devatãs ocupam lugares, elas inclinam o espírito dos reis poderosos e de seus
principais ministros a construir aí habitações; em uma região em que as devatãs de [poder]
médio- ocupam lugares, elas inclinam o espírito dos reis de [poder] médio e de seus principais
ministros a construir aí habitações; em uma região em que as devatãs de [poder] medíocre
ocupam lugares, elas inclinam o espírito dos reis de [poder] medíocre e de seus principais
ministros, a construir aí habitações. O Ãnanda, tão longe como se [estende] a região ariana,
tão longe como se estende o comércio, haverá agui uma cidade dominante, Pãtaliputta, (54)
[ali onde havia] a ruptura das cápsulas de sementes. Mas, Ãnanda, três perigos ameaçarão
Pãtaliputta: o do fogo, o da água, o das disputas intestinas”. [Vin. I, 228; Ud. 88; D. II, 87]
[54. A moderna Patna. Segundo Waddell (E. R. E., sub o. Patna) a árvore pãtali é a bignomia
suaveolens. Uma tradição afirma que a aldeia de Pãtaligãma foi assim chamada porque os
troncos de patali surgiram do solo no dia em que se fundou a aldeia; é ao que fazem alusão as
palavras "a ruptura das cápsulas de sementes"].

3. O ARAHANT (55)
Eu o chamo homem sereno; indiferente aos desejos (56) Sem um único vinculo, êle transpôs a
lama sórdida. Nem filhos, nem bois, nem campos, nem bens lhe pertencem; Nada encontra
para tomar ou rejeitar. Desaparecidas a inveja e a aspereza para os lucros, o sábio não diz "alto
nem "baixo", nem "igual"; não procura o tecido do tempo e nada tece. Aquêle que nada possui
neste mundo, nem se aflige por perder, nem abraça uma opinião, êste merece ser chamado
homem sereno. (57) [Sn. 857 - 858, 860 – 861].
[55. Homem de valor que se tomou perfeito].
[56. Kãma, traduzido em outro lugar por "prazeres dos sentidos"].
[57. E. M. Hare, Woven Cadences].
Aquêle, ó monges, em que a paixão não é abandonada, em que o ódio não é abandonado, em
que a ilusão não é abandonada, é dito escravo de Mãra; os laços de Mãra o envolvem e
suceder-lhe-á o que o Mau quiser. Aquêle, ó monges, em que a paixão é abandonada, é dito
não escravo de Mãra; os laços de Mãra não o retêm, e não lhe acontecerá o que quer o Mau.
Aquêle que a paixão, o ódio e a ignorância abandonaram Diz-se que êle realizou o Eu, Que êle
se tomou Brahma, que êle é o Descobridor da Verdade, um Desperto, que passou ao lado do
mêdo e do terror, um que tudo abandonou. [It. págs. 56-57].
"Aquêle do qual nem devas nem homens nem gandharvas não poderiam dizer os limites, o
homem de valor purificado dos fluxos, é a êle que eu chamo um brâmane”. (58) [Sn. 644; Dh.
420].
[58. Cf. na passagem sôbre as opiniões justas e heresias].
Não se pode seguir a carreira dêstes monges que são homens de valor, em que os fluxos são
destruídos, que viveram largamente, que fizeram o que havia a fazer, depositaram seu fardo,
atingiram seu objetivo, destruíram completamente os obstáculos do porvir, e se libertaram no
conhecimento correto e profundo. [M. I, 141].
Vêde, Upasiva, (responde).
Como a chama, projetada pela fôrça do vento,
Voa para seu fim, atinge o que ninguém
poderia contar, o sábio silencioso, liberto
do nome e forma, caminha para seu objetivo
e atinge os estados que ninguém poderia contar.
Saiba, Upasiva, (diz então)
que não se pode medir o homem
que atingiu o objetivo; não se poderia dizer
que sua medida é esta ou aquela; isto não se aplica.
Quando todas as condições são afastadas,
todos os modos de computar são afastados. (59) [Sn. 1074, 1076].
[59. E. M. Hare, Woven Cadences].

III. A ASCESE
1. A ASCESE E O PROGRESSO
Levantai-vos (da ociosidade) sentai-vos (em meditação).
Para que vos hão de servir os sonhos? Que sono existe para os aflitos,
varados, feridos por uma ponta?
Levantai-vos, erguei-vos.
Exercitai-vos depressa na tranqüilidade;
Que o rei da morte não vos encontre no orgulho, nem faça de vós papalvos e súditos.
Os desígnios pelos quais
devas e homens permanecem ligados,
passai por cima de tôdas as suas rêdes. Não deixai passar o "instante", (65)
pois o "instante" frustrado, nós o lamentamos,
encerrados no inferno Niraya.
A ociosidade é apenas poeira;
o gôsto da ociosidade é poeira; pelo zêlo, pelo saber,
retirai o aguilhão do eu.
[Sn. 331-334].
[65. Este "instante" é o Eterno Agora].
Pois bem, cabe a ti afligir-te (66)
Dhotaka (respondeu o Senhor),
Se tu és aqui prudente, atento,
uma vez que aqui mesmo aprendes o que é isto, prepara-te para o nirvâna do eu.
[Sn. 1062].
[66. a. Dh. 276, pág. 202].

Ativamente, Upasiva, busca


o estado do homem que nada é;
auxiliado pelo pensamento de que "nada é"
tu atravessarás a corrente; noite e dia
livre de desejos, as dúvidas dissipadas, tu verás cessar a apetência
Sim, Upasiva (diz em seguida)
Quem põe fim à paixão dos prazeres
ajudado pelo estado do homem que nada é,
livre de tudo, liberto na última
libertação dos sentidos, quererá permanecer
imutável, sem empecilhos, neste estado, (67)
[Sn. 1070, 1072].
[67. E. M. Hare, Woven Cadences].

A fé é a semente, a austeridade a chuva;


a sabedoria meu jugo e meu arado;
minha liteira é a modéstia, meu espírito a correia, e eu estou atento
à relha e ao aguilhão. Moderado em atos e palavras, temperado no comer,
eu limpo as ervas com a verdade; (68) plena de beatitude é minha libertação.
Da segurança contra a aflição se aproxima passo a passo
meu vigor, minha canga sob o jugo;
êle avança sempre, êle não recua: caminha
para o lugar onde não existe o sofrimento.
E é assim que a lavoura é lavrada
e dela resultará o fruto que não morre;
e aquêle que faz este trabalho com perfeição,
está liberto de todos os males (69)
[Sn. 77-80; S. I, 172].
[68. Ou: A Verdade é a colheita que eu faço a ceifa].
[69. E. M. Hare, Woven Cadences].
Ó monges, eu não louvo que se permaneça imóvel, e ainda muito menos que se decaia nos
estados que são bons. Eu louvo, ó monges, o progresso nos estados que são bons, em lugar de
aí permanecer imóvel, em lugar de aí decair. E como se pode aí decair em lugar de permanecer
imóvel e de progredir? Tomai o caso de um monge que faz esforços na fé, nos hábitos morais,
no entendimento da doutrina, na renúncia, na sabedoria, na eloqüência. Suponde que êstes
bons estados não permanecem imóveis, mas não mais progridem nêle. Eis ai, monges o que eu
chamo de cair nos estados que são bons, sem permanecer imóvel, sem progredir. E como se
pode permanecer imóvel nos estados que são bons, sem decair, sem progredir? Tomai o caso
de um monge que faz esforços nos estados já mencionados. Suponde que êstes estados não
decaiam, mas não mais progridam nêle. Eis ai o que eu chamo permanecer imóvel nos estados
que são bons, sem declínio, sem progresso. E como se pode progredir nos estados que são
bons, sem permanecer imóvel, sem decair? Tomai o caso de um monge, que faz esforços na fé,
nos hábitos morais, no entendimento da doutrina, na renúncia, na sabedoria, na eloqüência.
Suponde que êstes estados não permanecem imóveis e não decaiam nêle. Eis ai, monges, o
que eu chamo o progresso nos estados que são bons, sem permanecer imóvel, sem decair.
Assim, ó monges, há um progresso nos estados que são bons, sem permanecer imóvel, sem
decair. [A. v, 96].
Eu não digo, brâmane, que tudo deva ser cultivado: eu não digo também que tudo não seja
cultivado. Se resulta do que foi cultivado que a fé aumenta, que os hábitos morais aumentam,
que o saber aumenta, que a renúncia aumenta, que a sabedoria aumenta, eu digo que essa
coisa deve ser cultivada. [M. II, 180].
Príncipe, existem cinco fatôres de esforço. Quais são? Eis um religioso de fé no Despertar do
Descobridor da Verdade; êle pensa: "Em verdade, êste senhor é um Perfeito, um totalmente
Desperto, dotado de saber e da boa conduta, caminhando no bem, conhecendo os mundos,
incomparável, condutor dos homens que devem ser domados, mestre dos devas e dos
homens, é o Desperto, é o Senhor". O religioso é sem doenças, sem indisposições; dotado de
uma boa digestão que não é fria nem muito aquecida, mas média, favorável aos esforços. Ele
não é nem velhaco nem enganador, mostra-se tal como é verdadeiramente a seu mestre ou a
um companheiro inteligente no caminhar com Brahma. Segue seu caminho empregando
energia para afastar os maus estados e para estabelecer bons; é fiel, poderoso no esforço,
perseverante na busca dos estados que são bons. Chega a ser sábio, dotado de uma sabedoria
que é ariana, do discernimento no que concerne à origem e ao término, e isto leva à
destruição completa de todo o mal. Tais são, ó príncipe, os cinco fatôtes do esfôrço. Dotado
dêstes cinco fatôres do esfôrço, o religioso que toma o Descobridor da Verdade por guia, que
compreendeu pelo seu saber superior êste fim supremo do Caminhar com Brahma, para o qual
os jovens têm razão de abandonar o lar e de se tomarem sem lar, êste religioso, afirmo, pode
caminhar para o seu objetivo. [M. II, 95, 128].
Eu não digo, ó monges, que a obtenção do conhecimento profundo venha de uma vez;
contudo ela vem por uma ascese progressiva, fazendo progressivamente o que há a fazer, por
um curso progressivo. (77) A êste propósito, um homem que ao mesmo tempo se aproxima,
vem muito perto; êle dá ouvidos, ouve o dhamma e o aprende de cor; examina o alcance das
coisas assim aprendidas, está em êxtase a respeito delas; um forte desejo nêle surge, êle se
anima, êle pesa o todo, se esforça como sua resolução é tomada, compreende em seu corpo a
mais alta verdade; depois êle a penetra pela sabedoria, êle a vê. Eu vos exporei uma quádrupla
proposição e vós compreendê-la-eis de meus lábios. Mesmo um mestre que dá importância a
coisas materiais, que delas faz seu patrimônio, que vive associado a elas, mesmo êsse mestre
não se o abordará por regateios, estipulando que seus adeptos farão ou não farão certas
coisas segundo que elas lhe agradem ou não.. Conseqüentemente, como delas se trataria
junto do Descobridor da Verdade que vive longe das coisas materiais? Para o discípulo que tem
fé no ensinamento do Mestre, que é uníssono com seu ensinamento, será logo um princípio
que "O Mestre é um senhor, eu sou um discípulo; o senhor sabe, eu não sei". Para um tal ser o
ensinamento do Mestre será em pouco um auxiliar de seu desenvolvimento, uma fonte de
fôrça. Para um tal ser será logo um princípio [pensar]: “Eu seria feliz de ser reduzido a pele, a
tendões e a esqueleto, de ver a carne e o sangue do meu corpo se dissecarem, se se
produzisse um turbilhão de energia para o que não foi ainda obtido pudesse ser obtido pela
fôrça humana, pela energia humana”. [M. I, 497-481].
[77. Cf. Vin. II, 238].
Eu não digo que para cada um dos monges haja qualquer coisa a fazer pelo zêlo no domínio
dos seis sentidos. Mas, de outra parte, eu não digo também que para cada um dos monges
não haja qualquer coisa a fazer pelo zêlo no domínio. dos seis sentidos. Para aquêles que são
tornados perfeitos, que fizeram o que havia afazer, que estão libertos com um conhecimento
completo e profundo, para êsses eu digo que nada há a fazer pelo zêlo no domínio dos seis
sentidos. Mas daqueles que ainda aprendem, esforçando-se diligentemente em obter a
absoluta segurança contra a escravidão; dêsses eu digo que êles podem fazer qualquer coisa
pelo zêlo no domínio dos seis sentidos. É por isso que, para cada um dos seis órgãos de
sentidos, há dados que são deleitáveis ou repugnantes mas se bem que êles voltem muitas e
muitas vêzes a impressionar o espírito, não é inevitável que êles dêle tomem posse nem que
êles persistam. Se se consegue empregar uma energia inquebrantável estabelece-se uma
atenção lúcida, o corpo está tranqüilo, sem perturbações, o espírito é contemplativo, e
[concentrado] numa única direção. É por isso que eu, que constato êste fruto de zêlo, digo a
respeito dêstes discípulos que êles podem fazer qualquer coisa pelo zêlo no domínio dos seis
sentidos. [S. IV, 124-125; cf. M. I, 477].
Quando o nome e a forma (O número e o fenômeno) tiverem sido completamente
compreendidos, então eu digo que lada mais resta a realizar. [S. II, 100; cf. S. IV, 124].
Ó monges há cinco temores para o futuro; contemplando- os o religioso sincero, ardente,
resoluto, habitante da floresta, deve viver de modo a atingir o que não é atingido, a se tornar
senhor do que não possui, a realizar o que não é realizado. Quais são os cinco temores? Tomai
o caso de um religioso, habitante da floresta, que faz esta reflexão: "Eu estou agora
inteiramente só na floresta, e enquanto vivo só na floresta uma serpente poderia-me morder,
ou então um escorpião, ou então uma centopéia; e como eu poderia morrer, isto seria um
obstáculo imprevisto. Vamos! Eu vou empregar energia para atingir o que não é atingido, para
me tornar senhor do que não possuo, para realizar o que não é, realizado." Eis o primeiro
temor. Ou então um religioso, habitante da floresta, faz esta reflexão: "Eu poderia tropeçar e
cair: a comida que tomei poderia-me tornar doente; a bílis poderia-me dar convulsões; a
fleuma pode-me sufocar; um vento lancinante no interior me sacudir; e como eu poderia
morrer, isto seria um obstáculo imprevisto. Vamos! Eu vou empregar energia...para realizar o
que não é realizado". Eis ai o segundo temor. Ou então faz esta reflexão: "Enquanto estou
sozinho na floresta, posso encontrar animais selvagens: um leão, um tigre, um leopardo, um
urso, uma hiena; êles poderiam-me privar da vida, e como eu poderia morrer, isto seria um
obstáculo imprevisto. Vamos! Eu vou empregar energia... para realizar o que não é realizado".
Eis ai o terceiro temor. Ou então faz esta reflexão: "Enquanto estou sOzinho na floresta, posso
encontrar ladrões. Eles poderiam-me privar da vida, e como eu poderia morrer, isto seria um
obstáculo imprevisto. Vamos! Eu vou empregar energia. .. para realizar o que não é realizado.
Eis ai o quarto temor. Ou então, ó monges, um religioso, habitante da floresta, faz esta
reflexão: "Estou agora inteiramente só na floresta, e há sêres não humanos, muito ferozes, na
floresta; êles poderiam-me privar da vida, e como eu poderia morrer, isto seria um obstáculo
imprevisto. Vamos! Eu vou empregar energia...para atingir o que não é atingido, para me
tornar senhor do que não possuo, para realizar o que não é realizado". Eis ai, ó monges, o
quinto temor para o futuro. Contemplando-os, o religioso sincero, ardente, resoluto, habitante
da floresta, deve viver de modo a atingir o que não é atingido, a se tornar senhor do que não é
possuído, a realizar o que não é realizado. [A. III, 100-102].
A contemplação da morte, ó monges, quando a realizamos, quando se faz grande caso,
termina por ser de um grande fruto, de uma grande vantagem; há então a imersão no que não
morre, a consumação do que não morre. Como assim? Tomai o caso de um religioso que no
fim do dia, ao cair da noite, faz esta reflexão: "Numerosos em verdade são os riscos que eu
corro de morrer. Uma serpente, um escorpião, uma centopéia poderia-me picar: se disto
sucedesse que eu morresse seria um obstáculo imprevisto para mim. (84) Eu poderia tropeçar
e cair; o alimento que tomei poderia-me adoecer; a bílis poderia me dar convulsões, a flegma
poderia-me sufocar; um vento lancinante no interior me sacudir; ou ainda sêres humanos
poderiam-me atacar; se isto sucedesse que eu morresse, isto seria um obstáculo imprevisto
para mim".
[84 O Comentário explica: "no meu prosseguimento da Via"].
Ó monges, há cinco objetos que deve contemplar freqüentemente uma mulher, ou um
homem, um membro de um lar ou aquêle que é saído (do lar para viver sem lar). Quais são
êstes cinco objetos? Eu estou sujeito à velhice; eu não venci a velhice; isto deve ser
contemplado freqüentem ente por uma mulher ou um homem, por um membro de um lar ou
por aquêle que saiu do lar. Eu estou sujeito à doença; eu não venci a doença. Eu estou sujeito à
morte; eu não venci a morte. Entre tudo o que me é próximo e me é caro, há a mutabiIidade,
há a separação. Eu sou o resultado de meus próprios atos, herdeiro de atos; os atos são a
matriz [que me trouxe], os atos são meu parentesco; os atos recaem sôbre mim; qualquer ato
que eu realize, bom ou mau eu dêle herdarei. (85) Eis o que deve contemplar freqüentemente
uma mulher ou um homem, o membro de um lar ou aquêle que saiu do lar. Ó monges, a que
fim convêm que o pensamento "eu sou sujeito à velhice, eu não venci a velhice" seja
freqüentemente meditado pelo homem, a mulher, o membro de um lar ou por aquêle que
dêle saiu? Ó monges, na juventude dos sêres, há o orgulho da juventude; embriagados dêste
orgulho êles vão fazendo o mal pelo" corpo, o mal pela palavra, o mal pelo pensamento.
Aquêle que meditar freqüentemente neste assunto, tão forte como possa ser em sua
juventude o orgulho da juventude, êste orgulho é completamente afastado ou ao menos
diminuído. Ó monges, é a êste fim que convém que êste assunto seja meditado
freqüentemente. Ó monges, a que fim convém que o pensamento: "Eu estou sujeito à doença;
eu não venci a doença" seja meditado freqüentemente...(86) Ó monges, na saúde dos sêres há
o orgulho da saúde; embriagados dêste orgulho, êles vão praticando o mal pelo corpo... pela
palavra... pelo pensamento... Aquêle que me medita freqüentem ente sôbre êste assunto, tão
forte como possa ser na saúde o orgulho da saúde, êste orgulho é completamente afastado ou
ao menos diminuído. Ó monges, é a êste fim... etc. Ó monges, a que fim convém que o
pensamento: "Eu estou sujeito à morte, eu não venci a morte", seja meditado
freqüentemente? Ó monges, na vida dos sêres há o orgulho da vida: embriagados por êste
orgulho, êles vão praticando o mal pelo corpo... pela palavra... pelo pensamento... Aquêle que
medita freqüentemente neste assunto, tão forte como possa ser na vida o orgulho da vida,
êste orgulho é completamente afastado ou ao menos diminuído. Ó monges, é a êste fim...Ó
monges, a que fim, convém que o pensamento: "Entre tudo o que me é próximo e me é caro,
há a mutabilidade, há a separação", seja freqüentemente meditado?.. Há, ó monges, entre os
sêres um desejo apaixonado das pessoas e das coisas que são próximas e caras; embriagados
desta paixão êles vão praticando o mal pelo corpo, a palavra e o pensamento. Aquêle que
medita freqüentemente neste assunto, tão grande como possa ver seu desejo apaixonado
daqueles que são caros, êste desejo é completamente afastado ou ao menos diminuído. Ó
monges, a que fim convém que o pensamento: "Eu sou o resultado de meus próprios atos, eu
tenho os atos por matriz, atos por parentesco; os atos recaem sobre mim, qualquer ato que eu
realize, bom ou mau, dêle eu herdarei", seja freqüentemente meditado pela mulher ou pelo
homem? Há, ó monges, entre os sêres uma prática do mal pelo corpo, uma prática do mal pela
palavra, uma prática do mal pelo pensamento. Aquêle que medita freqüentemente neste
assunto... a prática do mal é completamente afastada ou ao menos diminuída. Ó monges, é a
êste fim que o pensamento: "Eu sou o resultado de meus próprios atos, o herdeiro dos atos. ..
qualquer ato que eu cumpra, bom ou mau, dêle eu herdarei" deve ser freqüentemente
meditado pela mulher ou pelo homem, pelo membro de um lar ou daquêle que saiu. Ó
monges, o discípulo ariano faz esta reflexão: "Eu não sou o único que está sujeito à velhice,
que não venceu a velhice; pois por tôda parte onde há idas e vindas, mortes ou nascimentos
de sêres, todos os sêres são sujeitos à velhice; êles não venceram a velhice. Eu não Sou o único
que está sujeito à doença... sujeito à morte... eu não sou o único para quem, entre tudo o que
me é próximo e caro, há mutabilidade e separação... eu não sou o único que é o resultado de
seus próprios atos... enquanto êle meditar freqüentemente neste assunto, o Caminho abrir-se-
á este Caminho, êle o segue, êle o transforma, êle o desenvolve; e fazendo isto, os empecilhos
(87) são rejeitados, as tendências (88) são afastadas.
Afetado destas coisas: doença, velhice e morte, como êles, assim como os homens -
repugnante o pensamento ao [homem médio] seria inoportuno que eu tivesse aversão pelas
criaturas que dêles são afetadas, embora eu mesmo leve minha vida não diferente da dêles.
Enquanto eu vivia aqui, fiquei conhecendo o dhamma que não tem nenhum substrato. Eu que
me orgulhava de saúde, juventude e vida, eu venci todo o orgulho, e com segurança
contemplei. a renúncia. Em meus esforços para o nirvâna, a fôrça me veio. Jamais doravante
poderei me entregar aos desejos dos sentidos. Eu me tornarei aquêle que não volta para trás,
que segue seu caminho no caminhar com Brahma. [A. III, 71-75. (As estâncias se encontram
em A. I, 147, com algumas lições diferentes)].
[85. Ver a seção dos “Atos e a da Transmigração”].
[86. O texto se repete in extenso como em tôdas as passagens análogas].
[87 D. II, 2,84 enumera os dez empecilhos da seguinte maneira: opinião errônea sôbre o que
acompanha o corpo; crença na eficácia dos ritos e dos costumes; desejo dos prazeres sensuais,
malevolência, desejo de (renascimento nos estados de) a forma, do informal, orgulho,
agitação, ignorância].
[88 D. III, 254 enumera sete espécies: a paixão pelos desejos sensuais, a hostilidade, a falsa
opinião, a dúvida, o orgulho, a paixão do porvir (do renascimento), a ignorância].
2. A FÉ
A fé é neste mundo a melhor riqueza do homem;
o dhamma seguido traz a felicidade;
a verdade é de uma doçura sem igual.
A vida sabiamente vivida é, diz-se, o melhor dos bens.
Pela fé nós atravessamos a torrente, pela sinceridade o mar
pelo vigor nós passamos o mal [sãos e salvos] pela sabedoria o mal é purificado.
Tendo esta fé que os homens de valor
podem atingir o refrescamento (93) por meio do dhamma,
aquêle que é sincero e desejoso de aprender
obterá ao mesmo tempo conhecimento e sabedoria. [Sn. 182, 184, 186].
[93. nibbãna].
Do mesmo modo que Vakkalin, Ãlavi - Gotama
e Bhãdravudha obtiveram pela fé
a libertação, pela fé tu também obterás
a libertação, e tu, Ó P'ngiya, tu irás
no além, do outro lado do reino da morte. (94) [Sn. 1146].
[94. E. M. Hare, Woven Cadences].
Ó monges, não há invasão do mal enquanto a fé é fixada nas coisas boas; mas se a fé
desapareceu, a incredulidade se introduz e permanece; então há invasão do mal. Não há
invasão do mal enquanto a boa vontade conscienciosa...o temor de ser censurado... a
energia... a sabedoria é fixada sôbre as coisas boas; mas se a sabedoria desapareceu, a falta de
sabedoria se introduz e permanece; então há invasão do mal. [A. III, 5].
Quase todos os sêres, ó monges, se deleitam com os prazeres dos sentidos; e do jovem que
depôs a foice é o pingo, que saiu do lar para viver sem lar, é justo dizer: "é pela fé que êste
jovem saiu". Por que isto? Os prazeres dos sentidos, ó monges, se experimentam na
juventude: prazeres de tôdas as sortes. Além disso, ó monges, os prazeres baixos, os prazeres
médios, os prazeres elevados, são todos simplesmente contados como prazeres dos sentidos.
Monges, suponde que um menino, uma tôla criancinha, deitada de costas, enfia, pela
negligência de sua ama de leite, um pedaço de madeira ou um eixo na bôca. Com que presteza
extrema, ela se ocuparia logo para o retirar! E se ela não o conseguisse da primeira vez,
passaria sua mão esquerda em volta da cabeça da criança, e com a mão direita, de um dedo
recurvado, retiraria a pedra, mesmo ao risco de fazer correr o sangue. Por quê? Monge, é que
um tal acidente é perigoso para a criança; eu vos asseguro que não é anódino. Além disso, ó
monges, é o dever da ama de leite agir assim por amor, pelo bem da criança, por piedade, por
compaixão. Mas quando êste menino tiver atingido idade e compreensão, ela não o vigiará
mais, sabendo que êste menino é agora seu própria guardião, que cessou de ser negligente.
Exatamente da mesma maneira, ó monges, enquanto as coisas boas a fazer não são feitas por
êste religioso por feito da fé, da consciência, do temor de ser censurado, da energia e da
sabedoria, é necessário que eu vele por êste monge mas quando as coisas boas são assim
feitas, eu não me ocupo mais dêle sabendo que êste monge é seu próprio guardião, que
cessou de ser negligente. (95) [A. III, 5].
[95. Tradução muito aproximada daquela do G. S. III, 4].

3. OS HÁBITOS MORAIS
Ãnanda, os bons hábitos morais têm a ausência de má consciência por fim e por resultado; a
ausência de má consciência tem a deleitação por fim, e por resultado: a deleitação tem a
alegria, a alegria tem a calma, a calma tem a comodidade; a comodidade tem a contemplação;
(96) a contemplação tem o saber e a intuição do que realmente se produziu; o saber e a
intuição do que realmente se produziu têm a impassibilidade que é devida ao desprêzo [do
conhecimento empírico]; a impassibilidade devido ao desprêzo [do conhecimento empírico]
têm o conhecimento e a intuição da libertação por fim e por resultado. É assim, ó Ãnanda, que
os bons hábitos morais se encadeiam até o mais alto. [A. v, 2].
[96. Cf. adiante].
É somente de coisas sem importância, ó monges, de coisas insignificantes, de hábitos morais,
que uma personalidade ordinária poderia falar fazendo o elogio do Descobridor da Verdade.
Em seu elogio, êle diria por exemplo: "Renunciando à violência contra as criaturas, abstendo-
se dela, o eremita Gotama vive como um homem que depositou o bastão e o gládio; é
escrupuloso, bom, amigável, e compassivo por tudo o que respira, por tôdas as criaturas.
Renunciando a tomar o que não é dado, abstendo-se disso, o eremita Gotama vive como um
homem que só toma o que lhe é dado, que espera que se lhe dê; vive, não pelo furto, como
um Eu tornado puro. (97). Renunciando à luxúria, o eremita Gotama, é casto, permanece longe
da luxúria, abstém-se de ter relações com mulheres. Renunciando às palavras caluniosas, o
eremita Gotama a delas se abstém: tendo ouvido qualquer coisa aqui êle não é homem de
repeti-Io adiante para criar a discórdia; nem tendo ouvido qualquer coisa adiante, de repeti-Io
aqui para criar a discórdia. Assim êle é o reconciliador das pessoas que não estão de acôrdo,
êle aproxima os que são amigo. A concórdia é seu prazer, seu deleite, sua alegria; a concórdia
é o móvel de sua palavra. Renunciando às palavras duras, Gotama delas se abstém. A palavra
que é doce, agradável ao ouvido, afetuosa, que vai direita ao coração, que é cheia de
urbanidade, de ameinidade, que é agradável às pessoas, eis aí a palavra que êle pronuncia.
[97. Cf. A. II, 221: "Como um Eu tornado Brahma"].
"Renunciando à tagarelice frívola, o eremita Gotama dela se abstém; êle fala no momento
preciso, êle diz o que é, fala do objetivo, fala do dhamma, fala da disciplina; diz palavras dignas
de serem conservadas, com comparações nos momentos precisos, palavras cheias de
discernimento, com referência ao objetivo". Eis aí de que modo, ó monges, falaria um homem
ordinário fazendo o elogio do Descobridor da Verdade. [D. I, 3-5].
Aquêle que ataca os sêres vivos, que diz mentiras,
toma o que não se lhe dá, se aproxima da mulher
de seu vizinho; aquêle que é dado às bebidas capitosas, aqui mesmo
neste mundo, cava na raiz do eu (98)
[Dh. 246-247].
[98. Mesma interpretação aproximada na tradução da Sra. Rhys Davids na Min. Anth, I].
Ó monges, a prática, a violência contra as criaturas, se se a continua, exercendo se se a realiza,
se ela vos interessa muito, leva ao inferno, a uma matriz animal, ao reino dos mortos. O
resultado muito desprezível da violência contra as criaturas, é que ela encurta a vida do
homem, ó monges, o roubo, se se continua exercendo... leva ao inferno... O resultado muito
desprezível é a perda dos bens. Ó monges, as concupiscências carnais, se se continuam
exercendo, levam ao inferno... O resultado muito desprezível, é a rivalidade e o ódio de um
outro. - Ó monges, a mentira, se se a pratica, leva ao inferno... O resultado muito desprezível,
é a calúnia e a duplicidade. Ó monges, a maledicência, se se a pratica... leva ao inferno. O
resultado muito desprezível é a ruptura- de tôdas as amizades. Ó monges, as palavras duras, se
se as praticam... levam ao inferno... O resultado muito desprezível, é uma disputa
desagradável. Ó monges, a tagarelice frívola, se se a pratica... leva ao inferno... O resultado
muito desprezível é uma palavra que ninguém aceita. Ó monges, o uso de bebidas fortes, se se
o pratica... se se realiza, se interessam muito levam ao inferno, a uma matriz animal, do reino
dos mortos. O resultado muito desprezível do uso de bebidas fortes, é a loucura. [A. IV, 247].

4. O QUE SE DEVE FAZER, O QUE NÃO SE DEVE FAZER


Ãnanda, eu afirmo expressamente que a má conduta do corpo, da palavra e do pensamento é
coisa que se deve evitar. Fazendo-se isto que se deveria evitar, pode-se esperar o seguinte
perigo: certamente o Eu censura o eu; (99) os sábios tendo constatado (que o sujeito agiu
mal), o censuram; uma má fama circula a seu respeito; êle morre no êrro; depois da
decomposição de seu corpo, em seguida à morte, êle surge no deserto, no mau Destino, na
Queda, no inferno do Niraya. Ãnanda, eu afirmo expressamente que a boa conduta do corpo,
da palavra e do pensamento é coisa que deve ser adotada. Fazendo o que se deve adotar,
pode-se esperar a seguinte vantagem: certamente o Eu não censura o eu; os sábios tendo
constatado [que o sujeito agiu bem] o louvam; uma fama amável circula a seu respeito; êle
não morre no êrro, depois da decomposição de seu corpo em seguida à morte êle surge no
Bom Destino, no mundo celeste. Renunciai ao que é mau. É possível a êle renunciar. Se não
fôsse possível renunciar ao que é mau, eu não diria "renunciai a êle." Mas porque é possível,
eu digo: Renunciai ao que é mau”. Realizai o que é bom. É possível fazer realizar o que é bom.
Se não fôsse possível realizar o que é bom, eu não diria "realizai o que é bom." Mas porque é
possível, eu digo; Realizai o que é bom. [A. I, 57-58].
[99. Cf. A. v, 88. Por exemplo, quando Buda vê seu estômago se revoltar diante do resto de
comida de que se lhe dá esmola, "o Eu censura o eu", J. I, 66. Nos casos dêste gênero, o "Eu" é
análogo ao Daimon socrático (o Yakkha) búdico ou à nossa consciência"].
Rãhula, quando desejas realizar uma ação pelo corpo, a palavra e o pensamento, tu deves
refletir: leva ela a prejudicar a si mesmo, a prejudicar a outrem, a prejudicar a si e a outrem? É
ela errônea, produtora de mal, má em seu resultado? Se tu sabes que realmente a ação leva a
se prejudicar ou a prejudicar a outrem, ou a si e a outrem, e que ela é errônea, então, Rãhula,
uma ação como essa não deve, tanto quanto possível, ser cometida por ti. Tu deves dela te
desviar, tu a deves confessar, revelá-Ia para dela te abster daí por diante. Mas se após a
reflexão tu sabes que uma ação do corpo, da palavra ou do pensamento que tu desejas fazer
não leva a se prejudicar, a prejudicar a outrem, ou a prejudicar a si e a outrem, e que ela é
correta, produtora do bem, boa em seu resultado, então, Rãhula, uma ação como essa deve
ser realizada por ti! Disto resultará que tu caminharás na alegria e no deleite, exercitando-se
dia e noite nos estados dos que são corretos. [M. I, 415-417].

5. A MEDITAÇÃO E A CONTEMPLAÇÃO.
Ó monges, desembaraçando-se de seis coisas, toma-se capaz de entrar na primeira [etapa da]
meditação (100) e aí permanecer. Quais são as seis coisas? O desejo dos prazeres sensuais, a
malevolência, a preguiça e o torpor, a agitação e a preocupação, a dúvida; desde aí o perigo
que ameaça entre os prazeres sensuais é nitidamente percebido pela sabedoria correta, tal
como é. Ó monges, desembaraçando-se de uma [nova] série de seis coisas, toma-se capaz de
penetrar na primeira [etapa-da] meditação. Quais são as seis coisas? A preocupação dos
prazeres sensuais, da malevolência, da malignidade; a consciência dos prazeres sensuais, da
malevolência, da malignidade. [A. III, 248].
[100. samãdhi].
Há na meditação, ó monges, quatro etapas. Quais são elas? Na primeira, ó monges, um
religioso [que se mantém] acima dos prazeres dos sentidos, acima dos estados errôneos de
espírito, penetra na primeira etapa da meditação e aí permanece; ela comporta a análise e o
inquérito, ela nasce da posição superior [aos prazeres, etc.]; ela é êxtase e felicidade.
Suprimindo a análise e o inquérito, com sua fé interior, o espírito concentrado e voltado numa
única direção, êle penetra na segunda [etapa da] meditação e aí permanece; ela é sem análise
e sem inquérito, ela nasce da contemplação; ela é êxtase e felicidade. O êxtase se atenuando,
êle permanece indiferente, vigilante, pensativo, experimenta a comodidade do corpo, de tal
modo que, penetrando na terceira [etapa da] meditação, aí permanece um ser do qual os
arianos dizem: "Ele é indiferente, vigilante, permanece na comodidade". Desfazendo-se da
felicidade, desfazendo-se do sofrimento, pela diminuição de suas antigas alegrias e dores, êle
entra na quarta [etapa da] meditação, e aí permanece, ela é sem sofrimento e sem alegria; ela
é a pureza absoluta da vigilância, que é diferente. Tais são, ó monges, as quatro [etapas da]
meditação. Ó monges, da mesma maneira que o rio Ganges se dirige, desliza, e gravita para o
Leste, da mesma maneira, ó monges, quem realiza as quatro [etapas] da meditação, torna-se
aquêle que a aprecia, que se dirige, desliza e gravita para o nirvana.[S. v, 307-308].
Estas quatro [etapas da] meditação são chamadas a contemplação (101) correta. [S. v, 10].
[101. jhãna].
No momento, ó monges, em que o religioso, [se mantendo] acima dos prazeres sensuais
atinge a primeira [etapa da] meditação, lhe vem êste pensamento: "Procurando refúgio contra
o que é temível, eu permaneço agora unicamente no Eu e não tenho mais relação com Mãra".
E a Mãra, o Mau, lhe vem também êste pensamento: "Este religioso que procura refúgio
contra o que é temível, permanece agora unicamente no Eu, e não tem mais contactos
comigo". E o mesmo se dá, ó monges, quando o religioso atinge a segunda, a terceira e a
quarta [etapa da] meditação. No momento, ó monges, em que o religioso, passando
completamente além da percepção da forma, abafando as percepções da repugnância, não
prestando nenhuma atenção às percepções diversas, pensa: "O éter não tem fim", atinge a
esfera do Éter infinito. Ó monges, êste religioso é chamado Aquêle que cegou Mãra, o Sem-
traços, aquêle que tendo destruído a vista de Mãra marcha invisível ao Mau. No momento, ó
monges, em que o religioso, passando completamente além da esfera do ter infinito, pensa: "A
consciência não tem fim", atinge a esfera da consciência infinita. Passando completamente
além desta, se êle pensa: "Nada existe", atinge a esfera do aniquilamento do eu. (102)
Passando completamente além desta, atinge a esfera [onde não há] nem percepção nem não-
percepção. Tendo passado completamente além desta, êle atinge a interrupção da percepção,
do conhecimento, de sensação, e, porque êle viu com sabedoria, os fluxos são inteiramente
destruídos. Ó monges, chama-se êste religioso. Aquêle que segou Mãra: sem traços, tendo
destruído a vista de Mãra, marcha invisível ao Mau, e transpõe as cidades do mundo. [A. IV,
433; cf. M. I, 159-160].
[102. ou da "niilidade"].
Um dia, um monge entrou na sua cela, sentou-se observando o silêncio, e não quis ajudar os
outros monges no momento em que era preciso se fazer roupas: o Mestre lhe perguntou a
razão da sua atitude. "Eu faço, Senhor, o que tenho a fazer", respondeu êle. Então o Mestre
tendo conhecido em seu espírito o espírito do monge, disse aos religiosos: Ó monges, não
fiqueis irritados contra êste monge. É um [religioso] que obtém à vontade, sem dificuldade,
sem- trabalho, as quatro [etapas] da meditação, que são moradas na beatitude dêste mundo e
desde agora, e quem pertence ao espírito. Tendo realizado neste mundo e desde agora, pelo
seu conhecimento superior direto, esta incomparável consumação do caminhar com Brahma,
que é o objetivo pelo qual Os jovens têm razão de deixar o seu lar para viver sem lar, êle aí
permanece. Nem aquêle que é dado ao relaxamento, nem aquêle que tem pouca força,
poderia atingir o nirvâna, a libertação de todos os males. Mas êste jovem monge, êste homem
excelente entre os homens, traz agora seu último corpo, tendo triunfado de Mãra e de seu
séquito. [S. ll, 278].
Eu vos ensinarei o dhamma, ó brâmanes; escutai, estai atentos, eu falarei. Representai-vos
quatro homens colocados nos quatro cantos da Terra, cada um dotado de uma velocidade
extrema, de um extremo comprimento de passos, como a flecha que o arqueiro hábil,
exercitado, destro, bom atirador, pode atirar fàcilmente através da sombra de uma palmeira:
suponde-vos dotados de uma velocidade semelhante: e de um comprimento de passos como
êste: [a distância] do mar ocidental ao mar oriental. Imaginai que aquêle que se mantém no
quadrante Leste [da terra] fala assim: "A fôrça de caminhar eu atingirei o fim do mundo."
Mesmo se a duração da vida humana fôsse de cem anos, mesmo se êle vivesse cem anos, se
êle caminhasse durante cem anos - exceto para comer, beber, trincar, mastigar, satisfazer as
necessidades naturais e dissigar a fadiga descansando - êle morreria antes de ter atingido o fim
do mundo. Imaginai que aquêle que se mantém no quadrante Oeste... ao quadrante Norte...
ao quadrante Sul dizem igualmente... êles poderiam caminhar cem anos - exceto para comer,
etc...- êles morreriam antes de ter atingido o fim do mundo. Por quê? Ó brâmane, eu não digo
que uma tal viagem permita alcançar, ver atingir o fim do mundo; e portanto, eu afirmo, ó
brâmanes, que sem atingir o fim do mundo não se poderia pôr fim ao sofrimento. Ó brâmanes,
as cinco meadas de prazeres sensuais, são chamadas "mundo", na disciplina ariana. Quais são?
São as formas perceptíveis pelo ôlho, desejadas, sedutoras, agradáveis, amáveis, ligadas aos
prazeres dos sentidos, causando excitação; os sons perceptíveis pela orelha, os cheiros
perceptíveis pelo nariz, os sabores perceptíveis pela língua, as coisas tocadas perceptíveis pelo
corpo, desejadas, sedutoras, agradáveis, amáveis, ligadas aos prazeres dos sentidos, causando
excitação. Ora, considerando um monge, ó brâmanes, que se mantendo acima dos prazeres
dos sentidos, atingiu a primeira [etapa da] meditação e aí permanece. Diz-se que êle atingiu o
fim do mundo, que êle aí permanece. Alguns dizem dêle: "Ele está ainda ligado ao mundo: êle
ainda não deixou o mundo". Eu também digo: "Esse está ainda ligado ao mundo, êle ainda não
deixou o mundo." Considerai ainda um monge, ó brâmanes, que penetra na segunda, na
terceira, na quarta [etapa da] meditação e aí permanece, na esfera do éter infinito, a esfera da
consciências infinida, da nülidade, do nem-perceber nem não-perceber. Em cada um dêstes
casos diz-se que êste foi ao fim do mundo, que êle permanece no fim do mundo. Alguns dizem
dêle... (como acima). Eu também digo: "esse está ainda ligado ao mundo, êle ainda não deixou
o mundo". Mas, ó brâmanes, eis um monge, que passando inteiramente além da esfera do
nem-perceber nem não-perceber, entra na interrupção da percepção e aí permanece,
conhecendo o sentido; no que viu, pela sabedoria, que os fluxos são cedo inteiramente
destruídos. Brâmanes, diz-se dêste monge que "tendo chegado ao fim do mundo, êle
pennanece no fim do mundo, que transpôs as armadilhas do mundo." (103) [A. IV, 429-432].
[103. Quase a mesma tradução é dada por E. M. Rare, G. S; r 288-291].
Ó monges, eu vos ensinarei a realizar a correta contemplação ariana em cinco artigos. Escutai
com cuidado, prestai atenção, e eu falarei. Quais são os cinco artigos? Ó monges, tomai o caso
de um religioso que, afastado dos prazeres dos sentidos, afastado dos estados de espírito
errôneos, penetra na primeira [etapa da] meditação e aí permanece, aquela que comporta a
análise e o inquérito, que é o zêlo e a comodidade nascidos do afastamento. Ele embebe,
impregna, enche, penetra êste corpo mesmo do zêlo e da comodidade que são nascidos do
afastamento, de modo que não há parte de todo o seu corpo que não seja penetrada do zêlo e
da comodidade que nascem do afastamento. Ó monges, da mesma maneira que um banhista
hábil, ou seu aprendiz, tendo espalhado o pó do banho num vaso de bronze poderia aí verter
pouco a pouco a água, de modo que a bôlha do sabão absorvendo a umidade, bebendo a
umidade, se penetraria de parte em parte de umidade sem delas deixar escorrer gôtas:
também, Ó monges, o religioso embebe, impregna, enche, penetra êste corpo mesmo do zêlo
e da comodidade nascido do afastamento. Isto, ó monges é o primeiro modo de realizar a
correta contemplação ariana em cinco artigos. Em seguida, ó monges, um religioso suprimindo
a análise e o inquérito, possuindo a fé interior, o espírito concentrado num único ponto, sem
análise, sem inquérito, penetra na segunda [etapa da] meditação e aí permanece, aquela que é
o zêlo e a comodidade nascidos da contemplação. Ele embebe, impregna, enche, penetra o
próprio corpo... do zêlo e da comodidade nascidos da contemplação. Ó monges, da mesma
maneira que um lago que tem uma fonte, mas nenhuma adutora de água nem a Leste nem a
Oeste, nem ao Norte nem ao Sul, e na qual o deva [da chuva] não faz cair aguaceiros de vez em
quando, entretanto pelo fato que águas frescas brotam neste lago, o lago estaria de tal modo
molhado, impregnado, cheio, penetrado de água fresca que nenhuma parte do tanque inteiro
não penetrada de água fresca, do mesmo modo! Ó monges, o religioso embebe, impregna,
enche, e penetra êste corpo mesmo do zêlo e da comodidade nascidos da contemplação, de
modo que não há nenhuma parte do corpo inteiro que não seja penetrada do zêlo e da
comodidade nascido da contemplação. E em seguida, ó monges, o religioso, o zêlo se
amenizando, permanece indiferente, vigilante, senhor de si, experimenta esta comodidade do
corpo que faz dizer aos homens que aquêle é indiferente, vigilante, que permanece na
comodidade; e êle penetra na terceira [etapa da] meditação. Ele embebe, impregna, enche,
penetra êste mesmo corpo de uma comodidade que é sem zêlo, de modo que não há
nenhuma: desta parte do corpo inteiro que não seja penetrada desta comodidade sem zêlo. Ó
monges, da mesma maneira que em um lago de lotos vermelhos, em um lago de lotos azuis,
em um lago de lotos brancos, alguns lotos de cada lago são nascidos na água, crescem na áglla,
sem jamais se elevar acima da água, mas, florescendo embaixo, são embebidos, impregnados,
cheios, penetrados desde a raiz até a extremidade [do talo] pela água fresca, de modo que não
há nenhuma parte de todos êstes lotos vermelhos, azuis e brancos que não seja penetrada de
água fresca; da mesma maneira, ó monges, o religioso embebe, impregna, enche e penetra
êste corpo mesmo da comodidade que é sem zêlo, de modo que não há nenhuma parte do
corpo inteiro que não seja penetrada desta comodidade sem zêlo. Em seguida, ó monges, o
religioso se desfazendo da comodidade, desfazendo-se do mal, pela diminuição de suas antigas
alegrias e dores, penetra na quarta [etapa da] meditação que sendo sem comodidade, sem
mal, é a absoluta pureza da indiferença e da vigilância. Quando, tendo penetrado êste corpo
mesmo de um espírito que é purificado e limpo, retoma seu lugar, não tem nenhuma parte de
seu corpo inteiro que não seja penetrada de um espírito purificado e limpo.
Como no caso de um homem que se sentasse, tendo revestido mesmo a cabeça de um pano
branco, não haveria nenhuma parte de seu corpo inteiro não penetrada do pano branco; da
mesma maneira, ó monges, o religioso, tendo penetrado êste corpo mesmo de um espírito
que é purificado e limpo, quando retoma seu lugar, não há nenhuma parte de seu corpo
inteiro que não seja penetrada por um espírito purificado e limpo. Em seguida, ó monges, um
objeto a considerar é em breve corretamente escolhido pelo religioso; corretamente
estudado, corretamente meditado, corretamente penetrado de sabedoria. Ó monges, é como
se considerasse uma outra pessoa: como um homem em pé consideraria um homem sentado,
como um homem sentado consideraria um homem deitado; da mesma maneira, ó monges,
um objeto a considerar será logo... penetrado de sabedoria. Isto, ó monges, é o quinto modo
de realizar a correta contemplação ariana em cinco artigos. Ó monges, quando o religioso a
realizou e se empenhou na correta contemplação ariana em cinco artigos, êle inclina seu
espírito para a realização pelo seu conhecimento superior, do estado qualquer que deve ser
realizado pelo conhecimento superior, de modo que, em cada caso, chega a testemunhar tal
ou tal faculdade...
Assim, se êle tem êste desejo: "Possa eu, de um que sou, me tornar muitos: de muitos que
sou, tornar-me um", (100) em cada caso, chega a testemunhar tal ou tal faculdade.. . Se tem
êste desejo: "Possa eu pelo meu espírito ter conhecimento de outras coisas, de outros
homens, de espíritos apaixonados como tais; de espíritos sem paixão, como tais; de espíritos
odiosos como tais; de espíritos sem ódio como tais; de espíritos estúpidos como tais; estúpidos
sem estupidez como tais; espíritos congestionados como tais; espíritos difusos como tais;
espíritos liberais como tais; espíritos sem liberalidade como tais; espiritos inferiores como tais;
espíritos não inferiores como tais; espíritos contemplativos como tais; espíritos não
contemplativos como tais; espíritos libertos como tais; espíritos não libertos como tais; em
cada caso a testemunhar tal ou tal faculdade. Se tens êste desejo: "Possa eu me lembrar
muitas diversas moradas anteriores, tais é, em um nascimento... e morrendo lá eu surja de
nôvo aqui (107)"; em cada caso, chega a testemunhar tal ou tal faculdade. Se tem êste desejo:
"Possa eu ver os sêres pela vista dos devas, que é purificado e que supera a dos homens. . ." ..
êsses, quando a dissolução do corpo, surgem no Bom Destino, no mundo celeste"; em cada
caso chega a testemunhar tal ou tal faculdade. Se tem êste desejo: "Possa eu, pela destruição
dos fluxos, tendo realizado neste e desde agora, pelo próprio conhecimento superior a
liberdade do espírito, a liberdade da sabedoria que são sem fluxo, possa eu permanecer
nêles"; em cada caso chega a testemunhar tal ou tal faculdade. [A. III, 25-29].
[106. Como pág. 125, seção das Maravilhas].
[107. Cf. seção da Transcendência].

6. NÃO SE FIAR NOS RUMÔRES


Escuta, Kalãmas. (108) Não sêde enganados. pelo que é relação, tradição ou rumôres. Não
sêde enganados pela posse (oral) das compliações. (109) nem pelas simples lógica e dedução,
nem após ter considerado as razões, nem após ter refletido sôbre uma opinião e a ter
aprovado, nem porque ela convém ao porvir, nem porque o eremita [do qual é a opinião] é o
vosso mestre. Mas quando souberdes por vós mesmos: "Estas coisas não são boas, estas coisas
são errôneas, estas coisas são condenadas pelas pessoas inteligentes, estas coisas executadas
ou compreendidas, levam a perdas e a dores", então rejeitai-as. [A, I, 189: II, 191].
[108. No A. II, 191, o conselho é dado a Bhaddiya].
[109. Pitaka: os “cestos de adágios sôbre Dhamma (Sutta-pitaka), sôbre a disciplina
(Vinayapitaka), sôbre o Dhamma Anterior (abhi-dhamma pitaka)”].
Ó monges, eu vos farei conhecer as quatro grandes autoridades. Escutai, prestai bem atenção,
e eu falarei. Ó monges, quais são as quatro grandes autoridades? Aqui, ó monges errantes, um
brâmane (110) diz isto: "face a face com o Senhor, Venerável, eu o ouvi: face a face com êle eu
o recebi. É o dhamma, é a disciplina, é o ensinamento do Mestre". Ora, as palavras dêste
religioso não são -nem a acolher nem a desprezar; é necessário examiná-Ias de perto, justapô-
Ias aos discursos, compará-Ias à disciplina. Se elas não estão em conformidade e de acôrdo,
vós deveis disto tirar esta conclusão: "Certamente não é a palavra dêste senhor, do Perfeito,
do totalmente Desperto; ela foi mal compreendida por êste religioso". Portanto rejeitai-a. Mas
se as palavras dêste religioso estão em conformidade e de acôrdo com os discursos e a
disciplina, vós dela tirareis esta conclusão: "Certamente é bem a palavra dêste Senhor, ela foi
corretamente compreendida por êste religioso". Guardai isto no espírito, é a primeira grande
autoridade. Ou ainda um religioso poderia dizer: "Em tal e tal habitação reside uma ordem de
monges com um ancião que é dela o chefe. Face a face com esta ordem, eu o ouvi...", etc...
Guardai isto no espírito, é a segunda grande autoridade. Ou ainda um religioso poderia dizer:
"Em tal ou tal habitação reside um grupo de monges idosos que muito ouviram, a quem a
tradição foi transmitida, que são versados em dhamma, versados em disciplina, versados nos
Sumários, Face a face com êstes monges idosos, eu os ouvi..." vós disto tirareis a conclusão
que tal era bem a palavra dêste Senhor e que ela foi corretamente compreendida por êstes
anciãos. Guardai isto no espírito, é a terceira grande autoridade. Ou ainda um religioso poderia
dizer: "Em tal e tal habitação reside um monge idoso, solitário, que muito ouviu, a quem a
tradição foi transmitida, que é versado em dhamma, versado em disciplina, versado nos
Sumários. Face a face com êste ancião, eu o ouvi..." Mas se as palavras dêste ancião estão em
conformidade e de acôrdo com os Discursos e a disciplina, vós tirareis a seguinte conclusão:
"Certamente é a palavra dêste senhor, do Perfeito, do totalmente Desperto, e ela foi
corretamente compreendida por êste ancião. Guardai isto no espírito, ó monges; é a quarta
grande autoridade. [A. II, 167-170; D. II, 124-126].
[110. O budismo em seus primórdios conservou a palavra brâmane, dando-lhe a acepção de
“excelente”, “o melhor”, O comentário. (AA. Ill. 61) o explica nesta passagem por khinãsava,
aquêle cujos fluxos estão “destroídos”, o que equivale a arahany homem de valor, Um
Perfeito].

IV. RELAÇÕES COM O PRÓXIMO


1. OPINIÕES CORRETAS E HERESIAS
Em verdade, a Verdade é uma, não há uma outra. [Sn.884].
Esta liberdade (do conhecimento da destruição de todo o mal), baseada na verdade termina
por ser inabalável. Aqui- lo é falsidade que é por natureza falsa. Aquilo é verdade que não é
falsa por natureza, que é nirvana. Isto, ó monges, é a mais alta verdade dos arianos: é dizer o
que não é falso por natureza, o que é nirvana. [M. III, 245].
O nirvana não é da natureza da falsidade: eis o que os arianos conhecem por verdade. [Sn.
758].
Ó monges errantes! As quatro verdades bramânicas, eu as fiz conhecer após tê-Ias realizado
pelo meu próprio conhecimento superior. Quais são elas? Aqui, ó monges, um religioso
poderia dizer: "Não se deve fazer mal a nenhum ser vivo". Falando isto o brâmane diz uma
verdade e não uma falsidade. Ele não pensa, dizendo isto, no "eremita" ou no "brâmane"; êle
não se diz "Eu sou melhor, ou igual ou inferior. (111) Além disso, compreendendo plenamente
esta verdade, êle se torna um ser que caminha cheio de piedade e de compaixão para com as
criaturas" Ou ainda, ó monges errantes, um brâmane diz isto: "Todos os prazeres dos sentidos
são impermanentes, maus, sujeitos a mutação". Falando assim, o brâmane diz uma verdade,
não uma falsidade; isto dizendo êle não pensa...etc. Além disso, compreendendo plenamente
esta verdade, êle se torna um ser que caminha para a indiferença, para a impassibilidade em
relação aos prazeres dos sentidos, e [disposto] a neles por t^rrmo. Ou ainda, ó monges
errantes, um brâmane diz isto: "Todos os porvires são impermanentes, maus, sujeitos à
mudança". Falando assim, o brâmane diz uma verdade, não uma falsidade; dizendo isto êle
não pensa...etc. Além disso, compreendendo plenamente esta verdade êle se torna um ser
que caminha para a indiferença, para a impassibilidade em relação aos porvires, [disposto] a
nêles pôr têrmo. Ou ainda, ó monges errantes, um brâmane, diz isto: "Eu não sou nada de
ninguém, em parte nenhuma; não há em parte nenhuma, nada [que seja] meu". Falando
assim, o brâmane diz uma verdade, não uma falsidade. Isto dizendo êle não pensa "eremita"
“brâmane" [êle não se diz] "eu sou melhor, igual ou inferior". Além disso, compreendendo
plenamente esta verdade, êle se torna um ser que caminha para a prática do aniquilamento do
eu. Tais são, ó monges errantes, as quatro verdades bramânicas que eu fiz conhecer, após tê-
Ias realizado pelo meu próprio conhecimento superior. [A. II, 176-177].
[111. Cf. 143 e segs].
Ó monges, há seis ordens de fatos que é preciso conservar presentes ao espírito; êles causam
a afeição, causam o respeito, êles levam à harmonia, à ausência de rivalidade, à concórdia, à
unidade. Quais são? Se os atos do corpo de um religioso são devidos ao amor para os seus
companheiros de jornada com Brahma. tanto em público como particularmente (112) é uma
ordem de fatos que é preciso conservar presentes ao espírito, que levam a... etc. Se os atos em
palavras de um religioso são devidos ao amor... Se os atos em pensamento são devidos ao
amor... Sejam ainda estas aquisições legítimas, legitimamente adquiridas, quando não fosse
que pelo que foi depositado na tigela de esmolas: se o religioso se põe a repartir estas
aquisições, a aproveitá-Ias em público e em particular com seus companheiros de jornada com
Brahma, que tem o hábito moral, isto igualmente é uma ordem de fatos... etc. que levam...à
unidade. Sejam ainda êstes hábitos morais que são sem lacunas, sem defeitos, sem mácula,
sem censuras, libertadores, louvados pelos sêres inteligentes, sem obscurecimento, que
favorecem a contemplação; se um religioso vive dotado dêstes hábitos na sociedade de seus
companheiros de jornada com Brahma, tanto em público como em particular, isto é
igualmente uma ordem de fatos... etc. Ou ainda, tudo que é opinião [correta] ariana,
salvadora, que leva aquêle que a mantém à total destruição do mal: se um religioso vive
dotado destas opiniões perante seus companheiros de jornada com Brahma, tanto em público
como em particular, isto igualmente é uma ordem de fatos que é neces- sário ter presente ao
espírito; que causam a afeição, que causam o respeito e que levam à harmonia, à ausência de
rivalidade, à concórdia e à unidade. Tais são, ó monges, as seis ordens de fatos que é
necessário conservar presentes ao espírito... e que conduzem... à unidade. Destas seis ordens
de fatos que se devem conservar presentes ao espírito esta é a principal, esta é o rome, esta é
a cúpula: isto é a opinião que é ariana, salvadora, e que leva aquêle que a mantém à total
destruição do mal. Ó monges, como no caso de uma casa com seu acabamento êste é o seu
principal, êste é o cume, êste é a cúpula, ou seja, o acabamento; pois destas seis ordens de
fatos que é preciso conservar ao espírito, esta é a principal, esta é o cume, esta é a cúpula: a
saber, a opinião que é ariana, salvadora, que leva aquêle que a mantém à total destruição do
mal. [M. I, 322; cf. A. III 289; D. III, 245].
[112 M. A. II, 395: “Tanto diante dêles como diante dos outros”].
Ó chefe de família Quais são os três modos de caminhar no dhamma, de caminhar na
igualdade por meio do espírito? É caso em que um homem se torna livre de inveja, nao mais
inveja o bem do vizinho, não mais se diz: "Se isto que pertence a outrem fôsse meu!" A
característica de seu espírito torna-se benevolente, seus desígnios não são malevolentes; êle
pensa: "Possam êstes sêres, livres de hostilidade, livres de opressão, na segurança, na
comodidade, tomar cuidado como o eu". A opinião correta torna-se uma vista não pervertida
[que inspira êstes pensamentos]: "Há esmolas, há o sacrifício, há a ablação, há o fruto e o
resultado dos atos bons e dos atos maus, há êste mundo, há o mundo do além, há a mãe, há o
pai, há a geração espontânea dos sêres, há eremitas e brâmanes que caminham e vivem na
igualdade, e que tendo compreendido êste mundo e o mundo do além, pelo seu próprio
conhecimento superior, os fazem conhecer". [M. I, 288; cf. A. v, 267].
Se bem que não encarando diretamente o surgir e a interrupção da consciência, nem a via que
leva à interrupção da consciência, é essa a razão da infinita diversidade de opiniões (113) que
surgem no mundo: por exemplo, que o mundo "é eterno" ou "não é eterno"; que o corpo "é a
vida" ou "é outra coisa que a vida"; que um "Descobridor da Verdade" "continua após a
morte"; ou "não continua" ou "continua ao mesmo tempo que não continua", ou "nem
continua nem não continua". [S. III, 262-263].
[113. As opiniões dos filósofos, ou melhor, dos sofistas, das quais nenhuma é adotada por
Buda. Perante tôdas as alternativas, ele ensina um caminho do Meio].
Ó monges, eu não discuto com o mundo, mas o mundo discute comigo. Nenhum homem que
professa o dhamma, ó monges, não discute com o mundo. Lá onde os sábios do mundo estão
de acôrdo para dizer: "Isto não é", eu também digo, ó monges: "Isto não é". Lá onde os sábios
do mundo estão de acôrdo para dizer: "Isto é", eu digo também, ó monges: "Isto é". E qual é
esta coisa da qual os sábios do mundo estão de acôrdo para dizer: "Isto não é", e da qual eu
digo. "Isto não é"? É que a forma material é permanente, estável, eterna, não sujeita à
mudança: os sábios do mundo estão de acordo que isto não é, e eu digo também que isto não
é. Da mesma maneira para o sentimento, a percepção, as construções, a consciência. E qual é,
ó monges, esta coisa da qual os sábios do mundo estão de acôrdo para dizer: "Isto é" da qual
eu digo "Isto é"? É que a forma material está sujeita à impermanência, ao sofrimento, à
mudança; os sábios do mundo estão de acôrdo em dizer "isto é" e eu -também digo "isto é." O
mesmo se dá com a sensação... a consciência. Há neste mundo, uma condição do mundo que
um Descobridor da Verdade compreende a fundo, capta a fundo; e quando êle a compreendeu
e a captou fundo, êle a proclama, a ensina, a promulga, a estabelece, a abre, a analisa e a
torna clara. A forma material é uma destas condições do mundo; tal é também a sensação, tal
a percepção, tais são as construções, tal é a consciência. Se êle é um homem que, ouvindo,
proclamar, ensinar, promulgar, estabelecer, abrir, analisar e tornar claro isto, não o sabe, não
o vê, êsse, ó monges, é um homem ignorante, comum, cego, sem vista, que não quer nem
saber nem ver: e não faço dêle caso. Ó monges, da mesma maneira que um loto azul,
vermelho ou branco, se bem que nascido na água, tendo mergulhado na água, surge atingindo
a superfície sem ser maculado pela água, também um Descobridor da Verdade, embora tendo
crescido no mundo, (114) supera o mundo e vive não maculado pelo mundo. [S. III, 138-140]
[114. Aqui as palavras "nascido no mundo" não se encontram como no extrato de A. II, 38-39].
[Um brâmane conta a Gotoma que outrora um jovem brâmane, chamado Sonakãyana, lhe diz:]
"O eremita Gotama dá por regra uma interdição a respeito de todos os atos. Mas dando esta
regra, êle anuncia o aniquilamento do mundo, pois a verdade sôbre os atos, é que o mundo
dura graças aos atos". - "Mas eu, ó brâmane, eu não conheço mesmo de vista êste jovem
brâmane Sonakayana. Então de onde tira êle êste propósito (que me atribui)?”[A. II, 232].
Ó brâmanes chefes de família já que não tendes mestre favorito, deveríeis empreender e
praticar êste impecável dhamma. Qual é? Há, ó chefes de família, eremitas e brâmanes, que
falam desta maneira, que sustentam esta opinião: "Não há esmolas, sacrificios, nem oblações;
não há frutos dos atos bons nem maus, não há o mundo presente, não há o mundo do além,
não há pai nem mãe, não há geração espontânea dos sêres, não há no mundo eremitas ou
brâmanes que caminham e vivem "igualmente"; nem que, tendo compreendido êste mundo e
o mundo do além pelo seu próprio saber superior, os declaram". Mas outros dizem
exatamente o contrário dêstes e declaram que tudo isso existe. Dos que sustentam a primeira
série de opiniões pode-se esperar isto: tendo rejeitado as três boas condições - a conduta
correta do corpo, da palavra e do pensamento - êles adotam e praticam as três más condições:
a conduta errônea do corpo, da palavra e do pensamento. Estes eremitas e brâmanes não
vêem o perigo, a grosseria, corrupção das condições más, nem a vantagem que teriam em
renunciar a elas a favor das boas condições, o que seria qualquer coisa como uma purificação.
Mas, uma vez que de fato existe um mundo além, se um homem pensa: "Não há mundo do
além", se esta é sua opinião, é uma opinião errônea. Já que de fato existe um mundo do além,
se êle decide: "Não no mundo do além", é uma, decisão errônea. Uma vez que de fato... etc.,
êle pronuncia estas palavras: "Não há mundo do além", são palavras errôneas. Uma vez que de
fato..., diz: "Não há mundo do além" êle contradiz os Perfeitos que conhecem o mundo do
além. Uma vez que de fato... se êle persuade a outrem que; não há mundo do além, esta
persuasão não pertence ao dhamma correto e por esta persuasão que não pertence ao
dhamma correto, êle se exalta a si mesmo e despreza os outros. É como se sua antiga boa
conduta fôsse destruída e substituída pela má conduta. E esta falsa opinião, falsa decisão, falsa
palavra, esta contradição [oposta] aos arianos, esta persuasão que não pertence ao dhamma
correto, esta exaltação de si mesmo, êste desprêzo dos outros, todos, êstes diversos estados
errôneos tomam nascimento decorrente da falsa opinião. Tomai o caso em que um homem
inteligente faz esta reflexão: "Se não há mundo do além, êste digno indivíduo! tomará o seu eu
por garantia quando seu corpo se decompor; é mas se há um mundo do além quando seu
corpo se decompor após sua morte, êle reviverá na Queda o Mau Destino, o Abismo, o
Inferno. Se se diz que não há mundo do além e se é o dogma verdadeiro dêstes eremitas e
brâmanes, então nosso indivíduo se encontra neste mundo e desde agora condenado pelos
homens inteligentes que o declaram errôneo em seu hábito moral, errôneo em suas opiniões,
e negador. Se há um mundo do além, nosso indivíduo perde sôbre os dois tablados, pois êle é
condenado neste mundo e desde agora pelos homens inteligentes e quando da decomposição
de seu corpo após a morte êle ressurgirá na Queda, no Mau Destino, no Abismo, no Inferno.
Assim o impecável dhamma é por êle mal adotado e mal praticado; êle dêle só tocou um lado,
êle negligencia a ocasião do bem. Mas dêstes eremitas e brâmames que dizem: "Existem as
esmolas, os sacrifícios e as oblações, existe o fruto dos atos bons e maus, existe êste mundo,
existe o mundo do além, exisae pai e mãe, existe a geração espontânea, existem eremitas e
brâmanes que caminham e vivem "igualmente" e que tendo compreendido êste mundo e o
mundo do além pelo seu próprio saber superior os declaram"; nêsses pode-se esperar que
tendo rejeitado as três condições más: a má conduta do corpo, da palavra e do pensamento,
êles adotarão e praticarão as três condições boas; a boa conduta do corpo, da palavra e do
pensamento. Qual é a razão disto? é que êstes eremitas e brâmanes vêem o perigo, a grosseria
e a corrupção das condições más e a vantagem que êles têm de a êles renunciar a favor das
condições, o que será qualquer coisa como uma purificação. Atendendo que existe de fato um
mundo do além, se [nosso sujeito] pensa: "Existe o mundo do além", se esta é ;" a sua opinião
é uma opinião correta... uma decisão correta... uma palavra correta. Atendendo que existe de
fato um mundo do além, se êle diz: "Existe um mundo do além", êle não contradiz os Pedeitos
que conhecem o mundo do além. Atendendo que existe de fato um mundo do além, se êle
persuade a outrem que existe o mundo do além, essa persuasão pertence ao dhamma correto,
e por esta persuasão que pertence ao dhamma correto, êle nem se exalta a si mesmo, nem
desacredita aos outros. É como se sua antiga má conduta fôsse destruída e substituída pela
boa conduta. E esta opinião, decisão e palavra correta, esta não-contradição dos arianos, esta
persuasão que pertence ao dhamma correto, esta não-exaltação de si mesmo, esta não-crítica
dos outros, tôdas essas diversas boas condições tomam nascimento decorrentes da opinião
correta. Tomai o caso em que um homem inteligente faz esta reflexão: Se existe um mundo do
além, êste digno indivíduo, quando da decomposição do seu corpo após a morte vai viver em
um bom Destino, num mundo celeste. Se se diz que o mundo do além existe e se êste dogma
dos eremitas e brâmanes é a verdade, nosso indivíduo se encontra neste mundo e desde agora
glorificado pelos homens inteligentes que o declaram bom em seu hábito moral, correto em
sua opinião, afirmadora do que é. Se existe de fato um mundo do além, êste indivíduo ganha
sôbre os dois tablados; uma vez que êle é glorificado pelos homens inteligentes neste mundo e
desde agora, e já que, quando da decomposição de seu corpo após a morte, êle ressurgirá em
um bom Destino, no mundo celeste. Assim êste impecável dhamma é por êle bem praticado,
êle tocou os dois lados, êle negligencia a ocasião do mal. Há eremitas e brâmanes que falam
como segue, e que sustentam a seguinte opinião: "O mal é feito pelo agente, nem o mal nem o
mérito produzem resultado". Outros têm uma opinião contrária. Dos primeiros pode-se
esperar a mesma coisa que daqueles que pretendem que não existe o mundo do além. Pois de
fato existe um "o que se deve fazer", se um homem pensa que não existe uma "qualquer coisa
que é preciso "fazer", se essa é sua opinião, é uma opinião errônea... uma decisão errônea...
uma palavra errônea... uma contradição [oposta] aos Perfeitos, que afirmam que a existência
de um "o que se deve fazer". Atendendo que existe de fato um "o que é preciso fazer", se êle
persuade a outrem que não há um "o que se deve fazer", sua antiga conduta fôsse destruída e
substituída por esta persuasão que não pertence ao dhamma correto, êle se exalta a si mesmo
e critica os outros. É como se a sua antiga conduta fôsse destruída e substituída por uma
conduta errônea. E esta opinião, decisão e palavra errôneas, esta contradição dos arianos, esta
persuasão que não pertence ao dhamma correto, esta exaltação de si mesma, esta crítica dos
outros, todos êstes diversos estados errôneos nascem decorrentes da opinião-correta. (O
parágrafo seguinte como na discussão do "mundo do além" substituindo o têrmo pelo
"qualquer coisa que se deve fazer").
Tomai o caso em que um homem inteligente faz essa reflexão: Se existe um "o que se deve
fazer", êste digno indivíduo, quando da decomposição do seu corpo após a morte, surgirá num
Bom Destino, num mundo celeste. Se se diz que existe um "o que se deve fazer" e se dêste
dogma dos eremitas e brâmanes é a verdade, nosso indivíduo se encontra neste mundo e
desde agora exaltado pelos homens inteligentes que o declaram bom em seu hábito moral,
correto em sua opinião, afirmador de alma coisa que se fazer. Se existe de fato um "o que se
deve fazer", êste indivíduo ganha sôbre os dois tablados, uma vez que êle é glorificado pelos :
homens inteligentes neste mundo e desde agora, uma vez que quando da decomposição de
seu corpo após a morte êle surgirá num Bom Destino, num mundo celeste. Assim êste ,
impecável dhamma é bem dotado e bem praticado por êle, êle tocou os dois lados, êle
negligencia a ocasião do mal. Há eremitas e brâmanes que falam como segue, que mantêm a
seguinte opinião: "Não há causa, não há razão para depravação nem para pureza dos sêres: os
sêres são depravados ou puros sem causa, sem razão. Não há fôrça, não há energia, não há
perseverança humana, não há esfôrço humano; todos os sêres, tudo o que respira, tôdas as
criaturas, tôdas as coisas vivas são sem poder, sem fôrça, sem energias, amadurecida em seu
porvir pelo efeito da necessidade, encontrando o prazer ou a dor em [uma das] seis classes de
sêres". Outros eremitas e brâmanes sustentam opiniões exatamente opostas. Uma vez que a
causa existe de fato, se êle pensa: "Não há causa", se tal é sua opinião, é uma opinião falsa (a
continuação como para opinião: "Não há mundo do além"...). Tomai o caso de um homem
inteligente que faz esta reflexão: "Se não há causa, êste digno indivíduo; quando da
decomposição de seu corpo fará do eu sua garantia; se há uma causa, êste digno indivíduo
quando da decomposição de seu corpo após a morte, surgirá de nôvo em Queda, no Mau
Destino, no Inferno. Se se diz que não há causa, e se êste dogma dos eremitas e brâmanes é a
verdade, êste indivíduo se encontra neste mundo e desde agora condenado pelos homens
inteligentes, que o declaram errôneo no hábito moral, errôneo em sua opinião, afirmador do
sem causa"... Tomai o caso de um homem inteligente que faz esta reflexão: "Se há uma causa,
êste digno indivíduo quando da decomposição do corpo após a morte, sobreviverá no Bom
Destino, em um mundo celeste. Se se diz que há uma causa, se é um dogma verdadeiro dêstes
eremitas e brâmanes, então êste indivíduo se encontra neste mundo e desde agora glorificado
pelos homens inteligentes que o declararam bom em seu hábito moral, correto em sua
opinião, afirmador da causa". Se de fato existe a causa, êste indivíduo ganha sôbre os dois
tablados, atendendo a que êle é glorificado pelos homens inteligentes neste mundo e desde
agora, e que quando da decomposição do corpo após a morte êle surgirá em um Bom Destino,
em um mundo celeste. Assim êste impecável dhamma é bem adotado e bem praticado por
êle; êle dêle tocou os dois lados, êle negligencia a ocasião do mal. [M. I, 401-410].
Ó monges, vós podereis possuir qualquer coisa que fôsse permanente, estável, eterna, não
sujeita à mudança, que duraria como o que é eterno. Mas onde vêdes uma posse dêste
gênero? Eu não vejo nenhuma. Queríeis-vos possuir a noção do "eu", tal que não se produziria
nem desgôsto, nem dor, nem sofrimento, nem lamentação, nem desespêro. Mas onde vêdes
uma tal posse? Eu não vejo nenhuma. Vós quereríeis um fundamento das opiniões tal que não
se produziria nem desgôsto, nem dor, nem sofrimento, nem lamentação, nem desespêro. Mas
onde vêdes um tal fundamento? Eu não vejo nenhum. Ó monges, se existisse um eu, haveria
em mim alguma coisa da natureza do eu? E se existisse alguma coisa da natureza do eu haveria
em mim um eu? Mas se eu e tudo o que pudesse ser da natureza do eu e mesmo quando
estão presentes, permanecem incompreensíveis, não é uma completa loucura tomar
fundamento, destas opiniões [esta idéia]: "de uma parte o mundo, de outra parte o eu que eu
vou tornar-se ulteriormente, permanente estável, eterno, não sujeito à mudança, e que
duraria como o que é eterno?" Portanto, se a forma material é efêmera, e se o que é efêmero
está sujeito ao sofrimento, vós não podeis considerar o que é efêmero, sujeito ao sofrimento e
à mudança [pensando] : "Isto é meu, eu sou isso, isso é meu Eu". O mesmo se dá para com a
sensação, a percepção, as construções, a consciência. Daí resulta que tôdas as formas
materiais, sensações, percepções, construções, tôda a consciência passada, futura ou
presente, subjetiva ou objetiva, grosseira ou sutil, vil ou excelente, próxima ou remota, devem
ser consideradas [pensando]: "Isto não é meu, eu não sou isso, isso não é meu”.Reconhecendo
assim tôdas essas coisas, o discípulo esclarecido dos arianos, é indiferente às formas materiais
e a todo o resto; pela indiferença êle é impassível; pela impassibilidade êle é libertado; se êle é
liberto, êle terá em breve o conhecimento de que êle está liberto, êle terá em breve o
conhecimento de que êle está liberto e a presciência que: “O nascimento é destruí do, a vida
com Brahma é vivida, o que havia a fazer foi feito, não resta mais a ser êste ou aquêle”.[M. I,
187-189; cf. S. III, 68].
Quando o coração do religioso está assim liberto, nem mesmo lndra, ou Brahmã, ou Pajãpati
com seus devas não conseguiriam tomar a encontrar esta consciência discriminante que é
própria ao Descobridor da Verdade. Por quê? Eu digo, ó monges, que um Descobridor da
Verdade é neste mundo o desde agora, impossível de tomar a encontrar. Se bem que seja isso
o que eu afirmo e o que eu prego, certos eremitas e brâmanes me acusam de um modo
errôneo, vão, falso, contrário aos fatos, de ser um desviador, de promulgar a supressão, a
destruição, a extirpação da entidade existente. E é isso precisamente, ó monges, o que eu não
ensino absolutamente, por conseguinte, êstes eremitas e brâmanes me acusam de modo
errôneo, vão, falso e contrário aos fatos. Outrora, como agora, ó monges, o que eu declarei é:
somente o mal e a interrupção do mal. Se outros aí encontram motivos de denunciar e injuriar
o Descobridor da Verdade, êste não experimentará nem ressentimento nem zanga. Se outros
ainda o reverenciam e o honram êle não experimentará nem prazer nem satisfação. é preciso
que o mesmo se dê convosco: Sôbre esta questão é preciso que isto se dê convosco? o que
está bem compreendido é que tais atos foram outrora aqui praticados por nós. [M. I, 140].
- Ora, excelente Gotama, o sofrimento é feito por nós mesmos?
- Certamente que não, Kassapa.
- O sofrimento é feito por um outro?
- Certamente que não, Kassapa.
- O sofrimento é feito por nós e por um outro?
- Certamente que não, Kassapa.
- Mas êste sofrimento, que não é feito nem por nós nem por um outro, tem sua origem no
acaso?
- Certamente que não Kassapa.
- Isto quer dizer, excelente Gotama, que o sofrimento não existe?
- Não é, Kassapa, que o sofrimento não exista; pois, Kassapa, o sofrimento existe.
- Então o excelente Gotama não conhece o sofrimento, não o vê?
- Não é, Kassapa, que eu não conheça o sofrimento, que eu não o veja; pois, Kassapa, eu
conheço o sofrimento, eu o vejo.
- Mas, excelente Gotama, a tôdas as minhas perguntas tu respondestes: "Certamente que não,
Kassapâ”. Tu disseste que o sofrimento existe e que tu o conheces, tu o vês. Senhor, queira o
senhor me explicar o que se passa com o sofrimento; senhor, queira o senhor me instruir a
respeito do sofrimento.
- Aquêle que age é aquêle que sofre [o resultado de sua ação]: o que disseste para começar,
Kassapa, êste "sofrimento causado por nós mesmos", conduz à teoria etemalista. Mas dizes:
"Um age, é um outro que sofre" - ou então esgotado pela emoção se pensa: "O sofrimento é
causado por um e outro", isto conduz à teoria aniquilacionista.
Sem ir para uma ou para outra destas conclusões sem saída, o Descobridor da Verdade te
ensina o dhamma pelo caminho do meio, Kassapa; condicionadas pela ignorância são as
construções... etc. (122) Assim se produzirá a interrupção de todo êste conjunto de males. [S.
II, 19-20]
[122. Cf. adiante a cadeia causal]
- Ora, senhor em que consistem a velhice e a morte, e de que o envelhecimento e a morte são
o resultado? - A pergunta está mal formulada, responde o senhor. Que um monge diga isso, ou
que um monge diga: "Envelhecimento e morte são uma coisa, mas envelhecimento e morte
são o resultado de uma outra" as duas questões têm o mesmo alcance, só sua forma difere. Se
um monge é de opinião que o princípio vital e o corpo só constituem uma coisa, não se
produzirá [nêle] a vida com Brahma. Como também se o religioso é de opinião que o princípio
vital é uma coisa e que o corpo é uma outra. Sem ir para uma nem para outra destas
conclusões sem saída, o Descobridor da Verdade vos ensina o dhamma pelo Caminho do Meio:
o envelhecimento e a morte são condicionados pelo nascimento. [os monges interrogam em
seguida o Mestre sôbre cada um dos fatôres da "cadeia causal"; a cada pergunta êle responde
como acima e termina citando o fator que está em causa.] "Em verdade, ó monges, é pelo
desaparecimento completo e pela interrupção da ignorância que as deformações,
desinteligência, brutalidades de tôda a espécie, e todos os apoios dêste gênero acabam por
serem abandonados, cortados rente à raiz, tornados semelhantes a um tronco de palmeira,
destruídos a tal ponto que êles não poderiam regressar à existência". [S. II, 60-62].

2. AS MARAVILHAS
Há estas três maravilhas. Quais são elas? A maravilha dos podêres psíquicos, a maravilha da
leitura do pensamento, a maravilha do ensinamento. Em que consiste a maravilha dos podêres
psíquicos? Neste caso, um religioso goza de diversas espécies de podêres psíquicos e de
diferentes modos. De um que era, se tornou diversos: de diversos, um; manifesto ou invisível,
êle passa sem resistência através de um muro, através de uma muralha, através de uma
montanha, como se passasse através do ar: êle mergulha na terra e torna a subir à superfície
como o faria na água; caminha sôbre a água sem a separar como se caminharia sôbre terra
firme; circula nos ares, sentado nas pernas cruzadas, como um pássaro que voa. Mesmo esta
Lua e êste Sol, tão possantes, tão majestosos, êle os maneja e os acaricia com a mão. Até no
mundo de Brahma êle tem poder; sôbre seu corpo. É a isso que eu chamo maravilha dos
podêres psíquicos. Em que consiste a maravilha da leitura do pensamento? Neste caso, um
religioso pode, por um indício, declarar:"Tal é vosso espírito. Isto ou aquilo está em vosso
espírito, Tal é vosso pensamento." E por pouco numerosas que sejam suas revelacões isto será
exatamente assim e não de outro modo. Tal outro, talvez, não diz tudo isso por um indício ou
por tê-Io ouvido sêres humanos ou não humanos ou devas, mas devido a algum som que êle
ouve, por uma afirmação inteligentemente feita por alguém que raciocína inteligentemente.
Ouvindo, êle declara: “Tal é vosso espírito. Isto ou aquilo está em vosso espírito. Tal é vosso
pensamento", E por numerosas que sejam suas revelações, isto será exatamente assim e não
de outra maneira. Ou ainda, responde que um [adivinho] não faça suas revelações por algum
dêsses meios pode acontecer que tendo chegado à contemplação, estando ôco de reflexão e
de intelecto, êle saiba com antecedência, êle capte plenamente o pensamento [de outro] por
seu pensamento: "Segundo que o funcionamento mental dêste homem Fulano será dirigido
para aqui ou para ali, aplicará o raciocínio de seu espírito imediatamente a isto ou aquilo". E
por numerosas que sejam suas revelações, isto será exatamente assim e não de outra maneira,
Eis o que se chama a maravilha da leitura do pensamento. Em que consiste a maravilha do
ensinamento? Neste caso, um [religioso] ensina por exemplo: "Raciocinai desta maneira e não
daquela. Aplicai vosso espírito desta maneira e não daquela, Abandonai êste estado, adquiri
êste outro estado e nêle permanecei". Eis o que eu chamo a maravilha do ensinamento, Tais
são as três maravilhas. [A. I, 170; cf. D. I, 212].
[Mas as duas primeiras maravilhas poderiam ser postas em dúvida nestes têrmos:] Um homem
de pouca fé, incréu, poderia dizer a um homem de grande fé, a um crente: "Há, senhor, um
sortilégio chamado Gandhãri. é graças a êste sortilégio que êle exerce diversas espécies, de
podêres psíquicos, de diferentes modos; de um que era, torna-se diversos, etc.. . ." é por isso
que eu percebo um perigo nesta maravilha de podêres psíquicos, que êles me entristecem,
que eu os detesto, que eu os abomino, Da mesma maneira, no que concerne à maravilha da
leitura do pensamento, um homem de pouca fé, incréu, poderia dizer a um homem de grande
fé, a um crente: "Há, senhor, um sortilégio chamado Jóia: é graças a êste sortilégio que êle diz
o pensamento de outros sêres, de outros homens, e que êle declara: “tal é vosso espírito; isto
ou aquilo está em vosso espírito; tal é vosso pensamento", é porque eu percebo um perigo na
maravilha da leitura do pensamento, que eu disto estou triste, que eu o detesto, que eu o
abomino.[D. I, 213].
[Um grande negociante de Rãjagha fêz um dia fixar uma tigela de sândalo na extremidade de
uma alta vara de bambu, e disse: "Se um eremita ou brâmane que seja um Perfeito, que seja
dotado de podêres psíquicos, venha arrancar esta tigela, e a tigela ser-lhe-á dada". Os chefes
de seis grandes seitas heréticas o tentaram sem êxito; mas o monge Pindola Bhãradvãja o
conseguiu. A população de Rãjagha saudou a notícia de sua vitória com estrepitosos aplausos.
Com efeito, êle se tinha erguido do solo, tinha tomado a tigela, e voado três vêzes em círculo
em tôrno de Rãjagha, depois, a pedido de um rico negociante, êle tinha vindo pousar
exatamente em casa dêle. O Mestre, escutando os clamores da multidão, pergunta a razão a
Ãnanda. Este responde:] "Senhor, o venerável Pindola, o Bhãradvãja, arrancou a tijela
pertencente ao grande negociante. Eis por que a população faz um grande tumulto e grita
muito alto". Em seguida, o Mestre censurou o venerável Pindola, nestes têrmos: - "Isto não é
conveniente, Bhãradvãja; isto não é digno, é chocante, indigno de um eremita, não é
permitido, é uma coisa que não se deve fazer. Como pudeste, por uma miserável tigela de
madeira, exibir um estado dos homens primitivos, uma maravilha de podêres psíquicos, a
êstes leigos? Da mesma maneira que uma mulher exibisse sua tanga para ganhar um miserável
mãsaka cunhado, também tu, para ganhar uma miserável tigela de madeira, exibiste aos leigos
um estado dos homens primitivos, uma maravilha dos podêres psíquicos". Tendo-o o
repreendido, o Mestre dirigiu-se aos monges nestes têrmos: "Ó monges, um estado dos
homens primitivos, uma maravilha dos podêres psíquicos, não deve ser exibidos aos leigos. Se
um de vós dêles faz exibição, é uma falta de má ação. Quebrai, ó monges, esta tigela de
madeira; reduzi-a a pó que distribuireis aos monges para perfumar os ungüentos." [Vin. II, III]

3. BENEVOLÊNCIA E MALEVOLÊNCIA
Ó monges, quando a liberdade do coração que é o amor, é perseguida, realizada, tomada a
peito, escolhida como veículo e como base, praticada, aumentada, e completamente posta em
estado de agir pode-se esperar dela oito vantagens. Quais são? Felizes se adormecem, felizes
se despertam; não se sonham maus sonhos, se é caro aos homens; se é caro aos sêres não
humanos, os devas vos protegem, nem o fogo nem o veneno vos podem prejudicar, e mesmo
se se penetra mais a fundo, atinge-se o mundo de Brahma. Aquêle que realiza um amor sem
limites vigilante, vê os laços todos destruidos. Seus empecilhos caem por si mesmos. Se, puro
em seu coração êle ama seu ser, disto resulta bem. O ariano de coração compassivo acumula
mérito em abundância para tõda a humanidade. Estes sábios reais, que sobrepujaram a terra
generosa, fazem amplos sacrifícios; mas como a multidão das estrêlas, ao lado da Lua; os
sacrifícios chamados o Cavalo, o Homem, "o Rito da bebida", o "Lançamento da cavilha", "a
Casa desaferrolhada", (124) não tem a décima-sexta parte do valor de um coração enriquecido
pelo amor. Aquêle que não mata, nem faz matar, que não rouba, nem faz roubar a outrem,
tem em seu coração uma parte para todos, não odeia a ninguém. [A. IV, 150-151].
[124. Os sacrifícios são igualmente citados no S. I, 76; A. II, 42; It. pág. 21. O "Lançameto da
cavilha", "ou Lugar onde se jogou a cavilha" seria, segundo os Comentários o lugar destinado a
um altar, determinado pelo lugar onde cai uma cavilha de madeira que se , lançou; por
conseguinte êste não é exatamente o nome de um sacrifício. Pretende-se que todos êstes
ritos, inofensivos na origem, tinham degenerado em sacrifícios sangrentos].
Eu não digo, ó monges, que sem que se perceba se apagam assim os atos intencionais,
cumpridos e acumulados, isto se produzindo seja na vida presente, seja mais tarde, seja ainda
em tôdas uma sucessão [de vidas]. Eu não vos digo que sem que se perceba, haja um têrmo ao
mal dos atos intencionais cumpridos e acumulados. Ó monges, êste discípulo ariano que é sem
inveja e sem malevolência, não alucinado, mas Senhor de si, advertido, com um coração
possuindo amor, êsse permanece brilhante em um quadrante do mundo, e de modo idêntico
no segundo, no terceiro e no quarto quadrante do mundo, e igualmente em cima, abaixo,
através, por tôda a parte, em favor de todos os sêres - em todos os estados [do ser]:
permanece brilhante no mundo inteiro, de seu coração que possui o amor universal, vasto,
sem limites, puro de hostilidade e malevolência. Ele tem a seguinte presciência: "Outrora meu
coração era limitado, não estava realizado; no presente o meu coração é sem limites; e bem
realizado. Além do mais, nenhum ato pertence ao que é limitado nem aí permanece nem aí se
mobiliza"; que pensais disso monges, Se depois de sua juventude êste jovem discípulo realiza a
liberdade de coração que é o amor, cometeria uma má ação.
- Certamente que não, senhor.
- Se êle não comete uma má ação, poderia êle tocar em nada de mau?
- Certamente que não, senhor. Se êle não comete uma má ação como poderia tocar no mal?
- Em verdade, ó monges, esta liberdade do coração que é o amor, mulheres e homens
deveriam realizá-Ia. Uma mulher ou um homem não podem tomar êste corpo e ir-se. O ser
mortal que ali está é apenas um intervalo de pensamento. r.le tem esta presciência: "Tôda a
má ação cometida anteriormente por mim neste mundo, por êste meu corpo nascido pelos
atos, deve ser ressentida e conhecída neste mundo; não é necessário que ela se tome
[qualquer coisa] que virá em seguida". A liberdade do coração assim realizada, leva a um
estado de não retôrno o religioso que possui a sabedoria neste mundo, sem ter chegado a uma
liberdade mais alta ainda. Além disto, êle inunda um quadrante do mundo de um coração que
possui a compaixão... de um coração que possui a alegria... de um coração que possui o
equilíbrio; e igualmente o segundo, o terceiro, e o quarto quadrante do mundo... (a
continuação como acima, substituindo "amor" por "compaixão", "alegria", "equilíbrio")... sem
ter chegado a uma liberdade mais alta ainda. [A. v, 269-301].
Da mesma maneira que as famílias em que há poucas mulheres e muitos homens são
dificilmente molestadas pelos bandidos e ladrões de imagens, também o religioso que realizou
a liberdade do coração que é o amor e que o tomou a peito, é dificilmente molestado pelos
sêres não humanos. É por isso, ó monges, que vós assim vos exercitareis: a liberdade do
coração que é o amor, nós a realizaremos, nós a tomaremos a peito, nós dela faremos nosso
veículo e nosso suporte, nós a praticaremos nós a aumentaremos, e nós a poremos
completamente em estado de agir. [S. ii, 264].
Ele avança tendo inundado os quatro quadrantes de um coração que possui o amor, a
compaixão, a alegria, o equilíbrio; acima, abaixo, através, por tôda a parte, êle avança com seu
coração dilatado, vasto, sem limites, sem hostilidade nem malevolência, que inundou o mundo
por tôda a parte, em favor de tôdas as categorias e estados de ser. Ele tem esta presciência:
"Há isto, há o que é inferior, há o que é superior; há uma evasão mais alta (125) desta
percepção". Para êle, que tem êste conhecimento, esta visão, o coração está liberto dos fluxos
dos prazeres sensuais, do porvir, da ignorância. Produz-se êste conhecimento; "Na liberdade
eu estou liberto"; êle sabe que o "nascimento está destruído, a vida com Brahma está vivida, o
que havia a fazer foi feito, não lhe resta mais a ser isto ou aquilo". É o que se chama um
religioso levado pela lavagem interior. [M. I, 38].
[125. Ver a seção da Evasão].
Ó monges, existem cinco meios de se rejeitar a malevolência, cinco meios pelos quais se deve
rejeitar tôda a malevolência que se produz. Quais são? Naquele no qual a malevolência se
encontra engendrada, é necessário que o amor seja realizado, e também a compaixão e
também o equilíbrio. Aquêle no qual a malevolência se encontra engendrada, é necessário
produzir a não-preocupação, a inatenção a respeito da malevolência. Aquêle no qual a
malevolência é engendrada, é necessário que seja presente ao espírito a a responsabilidade de
seus atos, e êste pensamento: “Fulano é responsável de seus atos, herdeiro de seus atos, tem
os atos por matriz, atos por pais, seus atos recaem sôbre êle. Qualquer ato que êle cumpra,
bom ou mau, êle dêle será o verdadeiro. Por êstes cinco meios se deve rejeitar a
malevolência”. [A. iii, 185-186].
Matai a cólera se quereis viver felizes.
Matai a cólera se quereis não mais chorar. Vencedor da cólera com sua raiz venenosa,
O mais doce dos venenos Matador do dragão!
Eis aí a matança que louvam os arianos:
eis aí vossa vítima se não quereis mais chorar. [S. I, 47].

Pela não-cólera vós vencereis a cólera;


pelo valor vós sobrepujareis o que é vil. vós derrotareis a avareza por um dom,
e pela verdade as palavras mentirosas. (127) [Dh.223].
A vitória engendra o ódio; o vencido. vive na miséria. Mas. aquêle que está em paz e sem
paixão, Vive na felicidade: êle abandonou vitórias e derrotas. (128) [S. I, 83; Dh. 201].
Um homem pode bem despojar outro, contanto
convenha a seus fins; mas despojado por sua vez
outrem, todo despojado que é, êle os despoja ainda.
Quanto que o fruto do mal não amadureceu,
O tolo se imagina: "Eis a minha hora, eis a minha ocasião!"
mas quando seu ato trouxe seus frutos, tudo se estraga para êle.
matador se faz matar por seu turno;
o vencedor encontra alguém para o vencer;
o insultador se faz insultar, o perseguidor tem preocupações.
assim pela evolução do ato
êle que despoja é despojado por seu turno. (129) [S. I, 85].
[127. Trad. da Sra. Rhys Davids, Min. Anth. i].
[128. Trad. da Sra. Rhys Davids, K. S. I, 109].
[129. Trad. da Sra. Rhys Davids, K. S. I, 110, Cf. Apocalipse. Xiii, 10: "Quem leva para o cativeiro
rara o cativeiro irá; quem a pela espada será morto pela espada”].
Ai de mim! Eu vejo os homens em luta
Como a violência engendra o temor!
eu direi a angustia e o terror que experimento.
Como peixes em águas rasas eu vi homens se debater;
eu vi os ódios entre os homens, o medo penetrou em mim.
Sem valor era o mundo; todos os seus quadrantes pareciam tremer,
buscando um teto eu não encontrei nenhum abrigo para mim mesmo.
ódios, ódios, nenhum outro fim; e êste espetáculo me repugnava.
De um golpe eu percebi o aguilhão
que atravessa o coração, tão difícil de ver.
De um reino a outro êle corre, êle corre aquêle que feriu êste aguilhão;
mas aquêle que o retirou de sua carne
não corre mais, nem se prostra. (130) [Sn.. 935-939].

4. CUIDADOS COM OS DOENTES


- Há, ó monges, em tal ou tal mosteiro, um doente?
- Há um, senhor.
- Qual é sua doença?
- O venerável sofre de disenteria, senhor.
- ó monges, há alguém para tratar?
- Não senhor.
- Por que os monges não tratam dêle?
- Senhor, êle não lhes presta algum serviço, é por isso que êles não o tratam.
- O monges, vós não mais tendes pai, não mais tendes mãe para vos tratar. Se vós não vos
tratais uns aos outros, quem cuidará de vós? Aquêle, ó monges, que quiser tomar cuidado de
mim, que trate dos doentes. (131) [Vin. I, 302].
[130. E. M. Hare, Woven Cadences].
[131. Cf. o Evangelho: "O que tiverdes feito pelo menor destes, o fizestes para mim"],

5. OS PAIS
Ó monges, as famílias das quais a mãe e o pai são honrados em seu lar são comparadas a
Brahma (132) e colocados na mesma categoria que os Mestres de outrora; dignas de receber
oferendas são tais famílias! "Brahmã", ó monges, é um nome para pai e mãe. "Mestres de
outrora" é um nome para mãe e pai. "Dignos de receber oferendas" é um nome para mãe e
pai. Por que isto? Porque mãe e pai fazem muito por seus filhos; êles os criam, os alimentam e
lhes fazem conhecer êste mundo. Os pais são chamados "Brahmã", "Mestre de outrora";
dignos de dons; são compassivos com sua gente infantil. Assim o sábio reverenciá-los-á, lhes
prestando digna homenagem, lhes servirá alimentos e bebidas, roupas e pousada, ungirá seus
corpos, banhá-los-á, lavará seus pés. Para êstes serviços prestados aos pais, um homem é
louvado pelos sábios neste mundo; e mais tarde êle será recompensado pela felicidade no céu.
(133) [A. I, 132, ii, 70; It. pág. 109].
Há, ó monges, quatro fundamentos da simpatia. Quais são? São: a caridade, a boa palavra, o
serviço prestado, o tratamento igual para todos. (134) A Caridade, as boas palavras, os serviços
prestados. o tratamento igual para todos segundo seus méritos. Estes laços de simpatia estão
no mundo, como a cavilha do eixo da carreta que marcha. Se êstes laços faltam, a mãe que pôs
no mundo. o pai que engendrou, não receberiam a honra e o respeito [que lhes são devidos].
Mas como os sábios têm uma justa consideração por êstes laços Cabe-Ihes obter o Grande Eu.
Tornar-se-ão assim dignos do louvor dos homens (135)... E é segundo o dhamma que êle deve
servir seus pais. [Sn. 404].
[132. Chefe do mundo de Brahma: não Brahma, a divindade].
[133. F. L. Woodward, G. S. I, 114-115, ii, 79; Min. Anth, ii, 192 e segs.].
[134. Cf. A.ii, 248; iv, 364; D., iii, 152]
[135. F. L. Woodward, G. S. ii, 36, nós nos afastamos de sua tradução nos dois últimos versos].
Aquêle que é rico e não sustenta seus pais em sua velhice quando sua juventude desapareceu;
aquêle que bate em seus pais e fere seu irmão com palavras más; ou sua esposa, ou então sua
irmã, considerai-o como um vil fora da lei. [Sn. 124-125].

6. O DHAMMA PARA OS LEIGOS


Direi agora a regra para os chefes de família e que ação convém a êstes ouvintes, pois em suas
ocupações nenhum dêles saberia completamente se ajustar ao que é exigido dos monges. Que
êle não mate as criaturas; que êle não incite a matar: que êle não aprove as que tiraram a vida;
que êle deixe de lado tôda a violência para com tudo o que vive, e para com tudo que resiste
ou que treme neste mundo. Que o ouvinte começando a despertar se abstenha totalmente de
tomar o que não é dado, não incite ninguém a roubar, não aprove o roubo: que se abstenha de
tôdas as formas de roubo. Que se abstenha de tôda a luxúria, como o sábio se afasta da fossa
cheia de brasas: se êle não pode viver na continência, que êle não peque com a mulher do
próximo. Indo à sala de reunião, à assembléia que êle não fale falsamente a outrem; que êle
não incite outrem a mentir; nem aprove. Que se abstenha de tudo o que não é verdade. Que
não tome bebidas embriagantes, o chefe de família que escolhe êste dhamma! Que não incite
outrem a beber nem aprove a bebida, sabendo que ela só pode terminar na loucura. Pois em
verdade, os tolos que bebem, cometem más ações, e encorajam outros em suas loucuras; que
êle evite êste ciclo de atos maus, desatinados e mentirosos, delícias dos imbecis. Que êle não
mate nem tome o que não foi dado: que êle não minta nem se embriague; que êle fuja das
práticas nocivas; que êle não ooma à noite de refeições inoportunas. Que êle não traga
grinaldas nem use perfumes; se deite numa esteira estendida ao sol. É isso que se chama a
óctupla observância, chamada pelo Desperto, para pôr têrmo ao mal. Segundo o dhamma êle
servirá seus pais, mas o dhamma, exercerá seu ofício; chefe de família que leva esta vida
sincera perguntará novamente aos devas chamados os Luminosos. (136). [Sn.898-404].
Aquêle que age, se aflige, e faz esforços bom caminho, encontrará riquezas; para verdade êle
adquirirá a glória s dotes êle atrairá amigos. Aquêles que amam seu lar e fielmente observam
êstes quatro princípios: seridade, dhamma, firmeza, generosidade, tendo deixado êste mundo
não conhecerão mais o sofrimento. Com os brâmanes e os eremitas. esclarecei-me bem esta
questão: há neste mundo melhor coisa que a moderação, a sinceridade, a paciência e dom?
(137) [Sn.187-189].
[136. E. M. Hare, Woven Cadences].
[137. Id.. ibid].
Manifesto é o lado bom da vida,
manifesto também seu sofrimento.
Prosperará quem ama o dhama. sofrerá quem o detesta.
Ter como amigos os maus não se ligar com os bons
preferir os vícios dos homens.
é uma fonte de sofrimento.
Amar demais a companhia e o sono. ser indolente
e relaxado, ser conhecido pelas suas cóleras.
é uma fonte de sofrimento.
Sendo rico. não sustentar os pais na sua velhice
quando sua juventude desapareceu. é uma fonte de sofrimento.
Enganar com palavras mentirosas um brâmane, um eremita,
ou outro monge-mendicante, é uma fonte de sofrimento.
Possuindo fortuna e poder
montões de ouro e de riquezas
e se deliciar sozinho com a doçura é uma fonte de sofrimento.
O orgulho do nascimento, da fortuna, da família
e vergonha do parente [pobre] é fonte de sofrimento.
Homem ou mulher que se entrega à bebida e aos dados
dissipando todos os seus haveres. é fonte de sofrimento.
Não satisfeito de sua mulher, se mostrar com a de outrem freqüentar cortesãs,
é fonte de sofrimento
Passada a juventude esposar
mocinha de seios arredondados e não mais dormir de ciúme é fonte de sofrimento.
O pródigo, homem ou mulher ou o idiota a que é confiado um poder soberano,
é uma fonte de sofrimento.
Ser nascido de raça nobre mas ser pobre e desejar riqueza e autoridade.
é uma fonte de sofrimento.
Todos êstes sofrimentos do mundo os sábios os reconhecem;
abençoados da visão ariana,
êles buscam o mundo da beatitude. (138) [Sn.92-95].
[138 .E. M. Hare, Woven Cadences].
Desenvolvendo-se nas dez [vias do] desenvolvimento o discípulo ariano cresce no
desenvolvimento ariano; torna-se capaz de captar a essência, de captar o bem supremo para si
mesmo. Quais são estas dez vias? Ele cresce imóvel, em riqueza, e em celeiros, em sua mulher
e seus filhos, em escravos, servidores e operários, em animais de quatro patas; êle cresce na
fé, no hábito moral, na boa doutrina que ouve, na generosidade, na sabedoria.
Aquêle que neste mundo cresce em riqueza e provisões em filhos e mulheres, em animais de
quatro patas, goza da h.onra e do renome de homem afortunado junto de seus pais e amigos,
e dos poderosos. (139) Mas aquêle que neste mundo cresce igualmente em fé, em virtude, em
sabedoria, em generosidade. em saber, o homem que é assim, o ôlho aberto, cresce ao
mesmo tempo em todos os bens (140) [A. v. 137].
[139. As últimas estâncias se encontram igualmente no A, iii, 80, e S. iv, 250. O comêço se
aproxima das estâncias de D. iii. 165].
[140. F. L. Woodward. G. S. V. 93 e segs].
Ó chefes de família! Há cinco inconvenientes para o homem de maus hábitos, que decai no
hábito moral. Quais são? Os chefes de família, o homem de maus hábitos que decai no hábito
moral, sofrem um grande decréscimo de sua riqueza em conseqüência de sua moleza. É o
primeiro inconveniente. Além, do mais, ó chefes de família, a respeito do homem de maus
hábitos uma deplorável reputação se espalha. É o segundo inconveniente. Além, do mais, ó
chefes de família, quando o homem de maus hábitos, decaído no hábito moral, quer se juntar
a uma companhia de nobres, de brâmanes, de chefes de família, de eremitas, êle a aborda sem
confiança, pois êle está envergonhado. É o terceiro inconveniente. Além disso, ó chefes de
família, o homem de maus hábitos morre no êrro. É o quarto inconveniente. Além disso, ó
chefe de família, o homem de maus hábitos, decaído no hábito moral, quando seu corpo se
decompôs após a morte, surge no deserto, o Mau Destino, a Queda, o inferno Niraya. É o
quinto inconveniente para o homem de maus hábitos, decaído do hábito moral. Tais são os
cinco inconvenientes. Ó chefes de família! Há cinco vantagens para o homem de hábito moral,
que cumpre o hábito moral. Quais são? Ó chefes de família! Um homem de hábito moral, que
é perfeito no hábito moral, adquire uma grande soma de riquezas pelo seu zêlo. É a primeira
vantagem. Além disso, ó chefes de família, a respeito do homem de hábito moral uma amável
reputação se espalha. É a segunda vantagem. Além disso, ó chefes de família, quando um
homem de hábito moral quer se juntar a uma companhia seja de nobres, seja de brâmanes,
seja de chefes de família, seja de eremitas, êle a aborda com confiança, pois êle não está
envergonhado. É a terceira vantagem. Além disso, ó chefes de família, o homem de hábito
moral morre sem estar no êrro. É a quarta vantagem. Além disso, ó chefes de família, o
homem de hábito moral, perfeito no hábito moral, quando seu corpo se decompôs após a
morte, surge em um Bom Destino, no mundo celeste. É a quinta vantagem para o homem de
hábito moral, perfeito no hábito moral. [Vin. I, 227-228; A. iii, 252-253; D. ii. 85-86; iii, 235-236;
Ud. 80-83].

7. A CASTA
Eis, senhor, as quatro castas: a dos nobres, a dos pobres, a dos comerciantes, e a dos
trabalhadores. Entre elas, duas têm a supremacia: a dos nobres e a dos sacerdotes: isto pelo
modo com que se dirigem a seus membros, com que os saúda levantando-se e juntando as
mãos em homenagem, e com que são tratados. Há cinco qualidades que devem ser
procuradas: a fé, a saúde, a sinceridade, a energia, a sabedoria. As quatro castas podem ser
dotadas das cinco qualidades que se deve procurar e recebem a bênção e a felicidade por
muito tempo. E eu não digo que em seu caso que haja uma distinção em seu esfôrço. É como
se se tivesse um par de elefantes domesticados, cavalos ou bois bem domesticados,
exercitados; e um outro par não domesticado e não exercitado. O primeiro par seria contado
como domesticado, atingiria o valor dos animais domesticados; o segundo, não. Da mesma
maneira não é possível que o que se adquire pela fé, a saúde, a sinceridade, a ausência de
velhacaria possa se obter onde há falta de fé, a má saúde, o engano, a velhacaria, a inércia, a
sabedoria limitada. No caso das quatro castas se [seus membros] são dotados de cinco
qualidades que se deve procurar, se êles fazem os esforços devidos, eu digo que neste caso
não há diferença entre libertação e libertação. É como se quatro homens, um trazendo lenha
bem sêca, outro uma acha sêca da árvore sãla, o terceiro uma acha sêca de mangueira, o
quarto uma acha sêca de figueira, fizessem cada um fogo que produzisse calor. Haveria uma
diferença entre os fogos produzidos por estas diferentes madeiras quanto à sua chama, sua
ror, ou seu clarão? O mesmo sucede com o calor aceso pela energia e produzido pelo esfôrço.
Eu não digo que haja diferença entre libertação e libertação. [M. ii, 128-130].

8. OS DEVAS
- Ora, excelente Gotama, existem devas?
- é uma coisa por mim conhecida de modo certo, Bhãradvãja; existem devas.
- Não é isso vão e falso? ..
- Existem devas, Bhãradvãja. Se [um mestre] interrogado responde que existem devas, ou se
êle diz: "é uma coisa conhecida de certo modo, conhecida por mim", é bem esta conclusão a
que chegarão os homens inteligentes.
- Por que não explicaste isso desde o princípio, excelente Gotama?
- Mas é uma coisa reconhecida no mundo, que existem devas. [M. ii, 212-213]

Mahãnama, o filho-família, com suas riquezas legitimamente adquiridas, honra, respeita e


reverencia, venera as devatãs que são dignas de receber suas oferendas. É por isso que essas
devatãs lhe são compassivas e dizem: "Longa vida! Possa sua longa vida ser protegida!" Graças
à compaixão das devatãs, pode-se esperar para êste filho-familia o desenvolvimento, não o
declínio. [A. ll, 77].

9. O SACRIFÍCIO
Mãha, faz tua oferenda (diz)
Mas fazendo isto, purifica teu coração
em todos os seus movimentos.
Aquêle que oferece, a oferenda vem em auxílio
sustentado por ela, êle abandona o ódio.
Tôda a paixão desaparecida, todo o ódio banido,
que reaviva então, e sem limites.
um coração de benevolência (150)
e noite e dia irradia com zêlo
em todos os quadrantes do mundo até o infinito.
Aquêle que oferece, ó Mãgha (diz então) a oferenda triplamente dotada (151)
tornará as oferendas prósperas
dando a homens dignos dêstes dons.
Oferecendo assim em um espírito justo,
o homem de coração caridoso surge, eu o proclamo.
até no mundo de Brahma! [Sn. 209, 506, 507]
[150. A mesma palavra que nós temos em outras passagens traduzida por “amor”],
[151. Cf. A. llI. 336. onde vemos que a vantagem do doador é tripIa: antes de dar, êle sente
uma alegria em seu coração; dando, ele tem o coração satisfeito; quando êle deu, seu coração
é exaltado].
Ó brâmane, mesmo antes do sacrifício, aquêle que prepara o fogo, que coloca a viga, ergue na
realidade três espadas malfazejas, más em sua eficácia más em seu fruto, Quais são estas três
espadas? A espada da ação, a espada da palavra e a espada do pensamento. Mesmo antes do
sacrifício, ó brâmane, aquêle que prepara o fogo, que coloca a viga, provoca o aparecimento
de pensamentos como êste: "Que por êste sacrifício sejam massacrados tantos touros, vitelas,
novilhas, cabras e carneiros!" Acreditando adquirir mérito êle faz demérito; acreditando fazer
o bem, êle faz o mal; acreditando procurar o caminho que leva à felicidade, êle se afunda no
caminho da infelicidade, Ó brâmane, mesmo antes do sacrifício, aquêle que prepara o fogo,
que coloca a viga ergue em primeiro lugar esta espada do pensamento que é malfazeja, má em
sua eficácia, má em seu fruto. Além disso, ó brâmane, mesmo antes do sacrifício, aquêle que
etc... provoca dizer isto: "Que por êste sacrifício sejam massacrados...etc...", Acreditando
adquirir mérito, êle faz o demérito... êle se afunda no caminho da infelicidade, O brâmane,
aquêle que etc.., ergue em segundo lugar esta espada da palavra. E o que é mais, brâmane,
mesmo antes do sacrifício, aquêle que prepara o fogo, coloca a viga, inicia êle mesmo todo o
trabalho dizendo: “Que se abatam touros, vitelas”; faz o demérito...êle se afunda no caminho
da infelicidade. Ó brâmane, mesmo antes do sacrifício, aquêle que prepara o fogo, e coloca a
viga, ergue em terceiro lugar esta espada da ação. Estas três espadas malfazejas são más em
sua eficácia, más em seu fruto. Brâmanes, há três fogos que devem ser abandonados,
evitados, dêles se deve fugir. Quais são? São os fogos da paixão, do ódio e da ilusão. E por que
devem ser abandonados, evitados e dêle se deve fugir? Quando o espírito é enganado,
dominado obsedado pela paixão, o ódio ou a ilusão, o homem escolhe um caminho mau em
ação, em palavra e em pensamento; quando da decomposição de seu corpo após a morte, êle
surge no Deserto, no mau Destino, a Queda, o inferno Niraya. É por isso que êstes três fogos
devem ser abandonados, evitados e dêles se deve fugir. Brâmanes, os três fogos seguintes,
estimados, reverenciados, venerados, respeitados, não falham em trazer a felicidade perfeita.
Quais são? São os fogos do Venerável, do chefe de família do digno de oferendas. Em que
consiste o fogo do Venerável? Considera, Brâmane, o homem que honra sua mãe e seu pai: eis
o que se chama o fogo do venerável. E por quê? Porque esta veneração se produziu [como
uma chama perpétua]. É por isso, ó brâmane, que o fogo do venerável, se êle é estimado,
reverenciado, venerado, respeitado, não falha em trazer a felicidade perfeita. Em que consiste
o fogo de chefe de família? Considera, brâmane, o homem que honra seus filhos, as mulheres
de sua casa, seus escravos, seus mensageiros seus trabalhadores: eis o que se chama o fogo de
chefe de família. É por isso que o fogo de chefe de família, se êle é estimado...não falha em
trazer a felicidade perfeita. Em que consiste o fogo do digno de oferendas? Considera,
brâmane, êstes eremitas e brâmanes que se abstêm do orgulho e da indolência, que suportam
tudo com paciência e humildade, cada um domando seu eu, cada um levando o eu à obtenção
do perfeito Nirvâna: eis o que se chama o fogo do digno de oferendas. É por isso, ó brâmane, o
fogo do digno de oferendas, se êle é estimado, reverenciado, venerado, respeitado não falha
em trazer a felicidade perfeita. (154) Não, brâmane, eu não aprovo todos os sacrifícios. Eu não
recuso também minha aprovação a todos os sacrifícios onde se massacram vacas, cabras,
carneiros, aves domésticas e porcos e onde sêres vivos são destruídos, todo sacrifício, ó
brâmane, que traz uma matança eu não o aprovo. Por quê? De um sacrifício dêste gênero que
acarreta uma matança, nem os Perfeitos, nem aquêles que entraram no caminho da pedeição
jamais se aproximam. Mas o sacrifício onde se não massacram vacas, nem cabras, nem
carneiros, nem aves domésticas, nem porcos onde sêres vivos não são destruídos, todo
sacrifício que não acarreta matança, eu o aprovo: por exemplo, se é uma liberalidade de
fundação antiga, uma oferenda pela prosperidade da família. Por quê? Porque de um sacrifício
dêste gênero, que não traz matança, os perfeitos e os que entraram no caminho da perfeição
se aproximam de bom grado. Os sacrifícios chamados o Cavalo, o Homem, o Lançamento da
Cavilha o Rito da bebida, a casa desaferrolhada, (155) são cheios de crueldade e de poucos
frutos. Ali onde cabras, ovelhas e gado de tôdas as espécies são sacrificados, não vão os
grandes sábios que seguiram a via correta. Mas os sacrifícios desprovidos de crueldade, Que os
homens perpetuam para a vantagem do clã, não são jamais sacrificados aos sacrifícios dêste
gênero; vão os sábios que seguiram o caminho correto. Os prudentes devem celebrá-los;
grande é dêles o fruto: êles trazem ganho e não perda. Prodigai vossas oferendas: elas
agradam aos devas. (156) [A. 11, 49.-43; as estâncias se encontram também em S. I, 76].
[154. parinibbãpenti “se dominar, se acalmar, se tomar inteiramente calmo”. A palavra se
encontra também no A. I. 169; lI, 68; III, 46; D. lll. 61. Ver pág. 35].
[155. Estes sacrifícios são mencionados igualmente em A. iv. 151; S. I, 76; lt. pág. 21]
[156 F. L. Woodward. G. S. ii. 49 e segs].

10. OS ANIMAIS
Vêde, ó monges, êste pescador que após ter massacrado: uma prêsa de peixes, vende suas
rêdes? Jamais, ó monges eu ouvi ou ouvi falar de um pescador que graças a seus atos, graças à
vida que leva, passearia no dorso de elefante ou de cavalo, ou num carro ou palanquim, que
festejaria nos banquetes ou viveria na abundância de uma grande riqueza. Por quê? Porque
êle tem uma alegria má de ver o peixe massacrado ou levado ao massacre. O mesmo acontece
para o açougueiro que mata e põe à venda gado, carneiro, porcos, caça animais da floresta. É
porque êle tem uma alegria má de vê-Ios massacrados ou levados ao massacre que êle não
passeia no dorso do elefante etc... que êle não vive na abundância de uma grande riqueza.
Mas aquêle que experimenta uma alegria má de ver um ser humano massacrado ou levado ao
massacre, são reservados desgostos e dores por muito tempo; quando da decomposição de
seu corpo após a morte, êle surgirá no Deserto, no Mau Destino, na Queda, no inferno Niraya.
[S. iii, 301].
Eu poderia por muitas imagens ó monges, explicar-vos o que é um nascimento animal, mas
ficarei nisto: não é fácil, monges, de o descrever completamente, tanto o nascimento animal
comporta misérias. [M. I, 169].
Homens tolos! Como poderias cavar o solo ou fazê-Io cavar por outrem? As pessoas pensam
que há sêres vivos no solo. Um religioso que cava o solo ou o faz cavar comete uma falta de
expiação. [Vin. IV, 32].
Homens tolos! Como podeis derrubar uma árvore ou fazê-Ia derrubar por outrem? As pessoas
pensam que há sêres vivos numa árvore. É uma falta de expiação a de destruir o crescimento
do vegetal. [Vin. IV, 34].
O monge que privasse da vida intencionalmente um ser que respira cometeria uma falta de
expiação. [Vin. IV, 124].
O monge que espalhasse sôbre a erva ou sôbre o barro da água que êle sabe conter sêres que
respiram, ou que a fizesse espalhar por outrem, cometeria uma falta de expiação. [Vin. IV, 49].
O peixe e a carne são puros em três circunstâncias: se não se sabe, se não se conhece, ou se
não se suspeita que o animal tenha sido morto para consumação. [Vin. iii, 171]

V. A EVOLUÇÃO
1. A EVOLUÇÃO
Há, ó monges, eremitas e brâmanes que são em parte eternalistas, em parte não-eternalistas.
Eles assentam em princípio por quatro razões que o eu e o mundo são em parte eternos, em
parte não-eternos. Quais são os motivos? Ó monges, se produz um estado em que, a um
momento dado após um longo lapso de tempo, êste mundo está em involução. (157) Este
mundo estando em involução, os sêres na sua maioria tornam-se Radiantes. Tornam-se
compostos de espírito, gozam do êxtase, lúcido quanto ao eu, circulando no céu,
permanecendo na glória; êles duram durante uma longa, longa existência. Ora, monges,
produz-se um estado em que, a um dado momento, após um longo lapso de tempo, êste
mundo está em evolução. Este mundo estando em evolução, vem a aparecer a morada vazia
de um Brahma. Então um ser, seja que a duração de sua vida esteja esgotada seja que seu
mérito esteja esgotado tendo morrido no grupo dos Radiantes, surge na morada vazia de um
Brahma. (158) Ele se toma composto de espírito, goza do êxtase, lúcido quanto ao eu,
circulando no céu, permanecendo na glória, êle dura durante uma longa, longa existência. Se
eu estando perturbado, de aí permanecer na solidão, após uma longa existência, a falta de
contentamento e a agitação nascem nêle, e êle pensa: "Praza ao Céu que outros sêres venham
também a êste estado". Então determinados sêres também êles, seja porque a duração de sua
vida está esgotada, seja porque seu mérito está esgotado, tendo morrido no grupo dos
Radiantes surjam na morada de Brahma, na companhia dêste ser. Estes são igualmente
compostos de espíritos... etc. e duram durante uma longa existência. Em conseqüência, ó
monges, vem ao ser que surgiu ali primeiro esta idéia: "Sou eu que um Brahma, um grande
Brahmã, Vencedor, invencível, Aquêle que tudo vê, que governa, Senhor, Fazedor, Criador,
Chefe, Dispensador, Mestre, Pai de todos os sêres que vieram a ser e virão. Estes sêres são
criados por mim. Qual é a causa disto? Primeiro me veio esta idéia: "Praza ao Céu que outros
sêres venham a êste estado". E tal era minha resolução que êstes sêres vieram a êste estado. E
também aos sêres que suspiram mais tarde veio esta idéia: "este Brahmã venerado é um
grande Brahmã... Pai de todos os sêres que vieram a ser e virão. Nós fomos criados por êste
Brahmã. Qual foi a causa disto? É que vemos que êle surgiu aqui primeiro e que nós surgimos
depois dêle". Mas pode suceder, ó monges, que um ser tendo morrido neste grupo, venha a
êste estado e abandone o lar, viver sem lar. Tendo feito assim, pode suceder que pelo
resultado de seu ardor, por um resultado de seu esfôrço, por um resultado de sua aplicação,
por um resultado de sua sinceridade, como resultado de seu trabalho mental correto, êle
atinja a uma contemplação mental tal que, seu espírito estando em contemplação, êle se
possa lembrar desta habitação anterior: êle não se lembra de nenhuma outra anterior a essa.
Ele diz: O Brahmã venerado que é um grande Brahmã, Vencedor, invencível etc... Pai de todos
os sêres que vieram e virão a ser, é por êste Brahmã venerado que fomos criados. Ele é
permanente, estável, eterno, não sujeito à mudança, igual ao eterno pois durará como êle.
Mas aquêles dentre nós que foram criados por êstes Brahmã, tendo chegado a êste estado,
são impermanentes, instáveis, de curta vida, sujeitos à morte. É a primeira consideração pela
qual alguns eremitas e brâmanes assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte
eterno, em parte não-eternos. Em segundo lugar, ó monges, há devas que são chamados
"Corrompidos pelo prazer”. Durante um tempo prodigiosamente longo êles vivem
inteiramente para as coisas do riso, do prazer do deleite; por isso sua memória é confusa, e
como sua memória é confusa êstes devas morrem neste grupo. (159) Mas pode suceder, ó
monges, que tendo morrido neste grupo, um ser vem a êste estado e abandona o lar para
viver sem lar. Tendo feito assim. .. (etc. como acima). .. êle não se lembra de nenhuma
habitação anterior a essa. EIe pensa: "Os dignos devas, que não estão corrompidos pelo
prazer, não viveram durante um tempo prodigiosamente longo inteiramente para as coisas do
riso, do prazer, do deleite; assim sua memória não é confusa, e sua memória, não sendo
confusa, êstes devas não morrem neste grupo. EIes são permanentes, estáveis, ternos, não
sujeitos à mudança; êles são semelhantes ao eterno, pois durarão como êle. Mas aquêles
dentre nós que viveram inteiramente para as coisas do riso, do prazer, do deleite durante um
tempo prodigiosamente longo, têm a memória confusa: nossa memória sendo confusa, nós
morreremos neste grupo e chegaremos a êste estado. Nós somos impermanentes, instáveis,
de curta vida, sujeitos, à morte”. É a segunda consideração pela qual alguns eremitas e
brâmanes assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte eternos, em parte não-
eternos. Em terceiro lugar, ó monges, há devas que se chamam "Corrompidos em espírito".
Durante um tempo prodigiosamente longo, êles são considerados e julgados entre êles de uma
maneira invejosa. Como conseqüência disto seus espíritos são maculados uns em relação: aos
outros, e em conseqüência seu corpo é cansado, seu espírito é cansado. Eles morrem neste
grupo. Mas pode suceder, ó monges que tendo morrido neste grupo, um ser vem neste
estado, e abandona o lar para viver sem lar... (como acima); êle não se lembra de nenhuma
habitação anterior a essa. Ele diz: "Os dignos devas que não são corrompidos em espírito não
são considerados e julgados entre si de modo invejoso durante um tempo prodigiosamente
longo. Assim seus espíritos não são maculados uns em relação aos outros, seu corpo e seu
espírito não estão cansados. Estes devas não morrem neste grupo. Eles são permanentes...
(etc.), êles durarão. Nós que somos Corrompidos em espírito, que somos considerados e
julgados entre nós de modo invejoso durante um tempo prodigiosamente longo, nós cujo
corpo e espírito estão cansados, nós que, tendo morrido neste grupo, chegamos a êste estado;
nós somos impermanentes, instáveis, de vida curta, sujeitos à morte." É a terceira
consideração pela qual alguns eremitas e brâmanes assentam em princípio que o eu e o
mundo são em parte eternos, em parte não-eternos. Em quarto lugar, ó monges, um eremita
ou brâmane raciocina e estuda. (160) De acordo com um sistema por êle inventado, elaborado
sóbre o raciocínio, baseado sóbre o estudo, êle fala da seguinte maneira: "Tudo o que se pode
chamar ôlho, orelha, nariz, língua, corpo, êsse eu é impermanente, instável não eterno, sujeito
à mudança. Mas o que chama espírito, pensamento ou consciência êste eu é permanente,
estável, não sujeito à mudança; semelhante ao eterno, pois como êle durará." É a quarta
consideração pela qual alguns eremitas e brâmanes que são em parte eternalistas, em parte
não-eternalistas, assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte eternos, em parte
não-eternos. Disto, ó monges, o Descobridor da Verdade tem a presciência: Estas opiniões
especulativas, sustentadas desta maneira, afirmadas deste modo, terminarão por levar a êste
ou àquele destino, a êste ou àquele estado futuro. Disso o Descobridor da Verdade tem a
presciência, e tem a presciência de outras coisas ainda. Mas mesmo tendo esta presciência êle
nela não insiste. Como êle não insiste, o nirvana se encontra nêle, conhecido de si mesmo;
conhecendo tais como são verdadeiramente a origem e o desaparecimento das sensações, sua
doçura; seu perigo, e o modo de dêles se evadir, o Descobridor da Verdade, ó monges, é
libertado sem que subsista nêle um resíduo qualquer [levando a outra existência]. [D. I. 17-22;
cf. D. iii. 84].
[157. Conforme a teoria tradicional dos ciclos que é mais desenvolvida no Vism. 414 e segs. cf.
também DA. I, 110].
[158. Como Baka Brahmã, M.I, 329 e o próprio Buda. A. iv.88].
[159. É o equivalente exato das expressões de Platão no Phoedrus 248 e].
[160. Posição que Buda declara expressamente não adotar ele próprio: M, i, 68 e segs; pois seu
conhecimento não é indutivo, mas a priori].

2. A UNIDADE DO GÊNERO HUMANO


Vãsettha responde êle, eu te irei expor segundo a verdade e gradualmente, a divisão em
espécies dos sêres vivos; pois as espécies os dividem. (161) Considera ervas e árvores! êles não
raciocinam; entretanto êles são marcados cada um segundo sua espécie; pois em verdade as
espécies se diferenciam.
Considera em seguida os besouros, as borboletas, as formigas, cada um segundo sua espécie,
êles também são marcados...
Da mesma maneira os quadrúpedes, grandes e pequenos, os répteis, as serpentes, os animais
de longo dorso, os peixes, os hóspedes do lago, os habitantes das águas, os pássaros, as
criaturas aladas que povoam o espaço; todos são marcados segundo sua espécie, pois as
espécies se diferenciam. Cada um segundo sua espécie leva sua marca. (162)
No homem não há multiplicidade, (163) nem na cabeleira, nem na cabeça, as orelhas ou os
olhos, nem na bôca, no nariz, os lábios e as sobrancelhas, nem na garganta, quadris, o ventre
ou o dorso, nem nas nádegas, os órgãos sexuais, ou o peito, nem nas mãos, os pés, os dedos
ou as unhas,
nem nas pernas e as coxas, nem a tez nem a voz,
não há uma marca que diga sua espécie, como em todos os outros. Nada que seja único (164)
nem se encontre no corpo humano: a diferença dos homens é puramente nominal. (165) [Sn.
600-611].
[161. Há nêles uma diversidade de espécies].
[162. Ou nódoa de nascimento].
[163. Não há várias marcas de nascimento].
[164. Isto é, específico].
[165. E. M. Rare, Woven Cadences].

VI. A DOUTRINA
1. A CAUSALIDADE
Eu vos ensinarei o dhamma. Se isto é, aquilo vem à existência; do surgir disto surge aquilo; se
isto não é, aquilo não vem à existência; da cessação disto, aquilo cessa. (166) [M. ii. 32].
[166 Aristóteles, Met. VI, 3, I: "A será ou não será? - Elo será se B fôr, de outra maneira, não"].
Aquêle que vê o surgir pelo meio das causas vê o dhamma; aquêle que vê o dhamma vê o
surgir pelo meio das causas. [M. I. 190-191].
Este surgir pelo meio das causas, Ãnanda, é profundo e tem a aparência de ser profundo. É não
conhecendo, não descobrindo, não penetrando neste dhamma que a presente geração,
emaranhada como uma meada de cordel coberta de nigela como um campo de ervas, não
pode escapar ao Deserto, ao Mau Destino, à Queda, à continuação das existências. [D. ii, 55; S.
ii. 92].
Em que consiste, ó monges o surgir pelo meio das causas? As construções são condicionadas
pela ignorância; a consciência é condicionada pelas construções; o nome-e-forma é
condicionado pela consciência; as seis esferas (dos sentidos) são condicionadas pelo nome-e-
forma; o contacto é condicionado pelas seis esferas (dos sentidos); a sensação é condicionada
pelo contacto;. a apetência é condicionada pela sensação; a posse é condicionada pelo nome-
e-forma; o contacto é condicionado pela posse; o nascimento é condicionado pelo porvir;
condicionado pelo nascimento e velhice e a morte, o desgôsto, o sofrimento, a dor, o
desespêro e as lamentações vêm à existência. Assim se produz a origem de todo êste conjunto
de males. Eis monges, o que se chama o surgir. A interrupção das construções resulta do
completo afastamento e da interrupção da ignorância; a interrupção da consciência resulta da
interrupção das construções; a interrupção do nome-e-forma da interrupção da consciência; a
interrupção das seis esferas (dos sentidos), da interrupção do nome-e- forma; a interrupção do
contacto, da interrupção das seis esferas; a interrupção da sensação da interrupção do
contacto; a interrupção da apetência da interrupção da sensação, a interrupção da posse, da
interrupção da apetência; a interrupção do porvir ou da interrupção da posse; a interrupção do
nascimento, da interrupção do porvir; e pela interrupção do nascimento, a velhice e a morte, o
desgôsto, o sofrimento, a dor, o desespêro, e as lamentações se encontram interrompidas.
Assim se produz a interrupção de todo êste composto de males. [S. ii 1-2]
Do surgir da ignorância vem o surgimento das construções: da interrupção da ignorância a
interrupção das construções. Esta óctupla via ariana é em si mesma o caminho que conduz d
interrupção das construções: isto é, à opinião correta, a concepção correta, à palavra correta,
à ação correta, à conduta correta, ao esfôrço correto, à vigilância correta, à contemplação
correta. Na medida em que o discípulo ariano conhece assim a causa, concebe também o
surgimento da causa, conhece assim a interrupção da causa, conhece assim caminho que leva
à interrupção da causa, dir-se-á, ó monges, que é um discípulo ariano dotado da opinião
[correta], doado de vista, que chegou a êste verdadeiro dhamma, que vê o verdadeiro
dhamma, que é dotado do saber do noviço; doado da doutrina do noviço, que atingiu a
corrente do dhamma, que possui a sa ria discriminante ariana; e que bate agora à porta do
imortal. [S.ii u, 43].
Do surgir do nascimento vem o surgir do envelhecimento da morte; da interrupção do
nascimento vem a interrupção o envelhecimento e da morte. Esta óctupla via ariana é em si
mesma o caminho que leva à interrupção do envelhecimento e da morte: isto é: à opinião
correta... [etc. como acima]... à contemplação correta. Na medida em que o discípulo ariano
conhece assim o envelhecimento e a morte, conhece também seu surgimento, conhece assim
sua interrupção, conhece assim o caminho que leva à sua interrupção, possui monges, o
conhecimento do dhamma; e por êste dhamma que se vê, que se discerne, o que não é
temporal, que se obtém, no qual se mergulha, êle tira relativamente ao passado ao futuro
estas conclusões: "Todos os eremitas e brâmanes os tempos passados que compreenderam
perfeitamente o envelhecimento e a morte, seu surgimento, sua interrupção, o caminho que
leva à sua interrupção, todos êstes [sábios] compreenderam perfeitamente estas questões
como eu as compreendo agora. E todos os eremitas e brâmanes dos tempos a vir, que
compreenderão perfeitamente o envelhecimento e a morte, seu surgimento, sua interrupção,
o caminho que leva à sua interrupção, todos êstes [sábios] compreenderão estas questões
perfeitamente como eu as compreendo agora." Este é o seu conhecimento da relação [lógica].
Na medida em que êstes dois conhecimentos: o do dhamma e o da relação [lógica], são limpos
e purificados no discípulo ariano êste, ó monges, é chamado discípulo ariano dotado da
opinião correta, dotado da vista, que veio a êste verdadeiro dhamma, que é dotado do saber
do aprendiz, dotado da doutrina do aprendiz, que atingiu a corrente do dhamma, que possui a
sabedoria discriminante ariana, e que bate agora à porta do imortal. [S. ii, 57-58]

2. O EU
A. Os dois "eu".
O Eu é O mestre do eu; que outro mestre poderia existir? [Dh. 160].
O eu não está no Eu. [Dh.62]
Aquêle, perseverante, liberto das opiniões, não é maculado pelo mundo, nem censurado pelo
Eu. [Sn. 918].
Ele deve refrear todo o desejo de um ou outro fim (167) iem cometer nenhuma falta que o Eu
censurasse. [Sn. 778].
Se se conhecesse o Eu por muito precioso, deve-se mantê- lo bem guardado. [Dh.157].
[167. Anta. Comparar outros "extremos sem saída". O seguir-se um ou outro dêstes extremos
é uma falsa opinião, Vin. 1. 172].
B. O Grande Eu
Da contemplação intensa (171) nasce a sabedoria; pela falta de contemplação intensa a
sabedoria empalidece; conhecendo esta dupla vereda, pelo porvir e o não-porvir êle dará ao
Eu tal abri-lo que sua sabedoria crescerá. [Dh. 282].
[171. O Yoga]
Eis o que é bem dito, Sãriputta, eis o que é bem dito! E precisamente nisso que consiste todo o
caminhar com Brahma: a amizade, a camaradagem, a familiaridade com o amável. (173) Do
religioso que possui a amizade, a camaradagem, a familiaridade com o amável, pode-se
esperar que êle virá a ser a óctupla via ariana, que êle a tomará a peito... A mim, Sáriputta, que
pertence a familiaridade com o amável, graças à qual os sêres sujeitos ao nascimento são
libertados do nascimento, os sêres sujeitos à velhice são libertos da velhice, os sêres sujeitos à
morte são liberto da morte, os sêres sujeitos ao desgosto, ao sofrimento, às lamentações, ao
desespêro são libertos. [S. v, 3].
[173. O amável só pode designar o Grande Eu].
Eu não vejo outro estado que permita à óctuple via ariana surgir se ela já surgiu ou ser levada à
perfeição de sua cultura se ela surgiu, a não ser esta amizade com o amável. [S. v, 35].
Da mesma maneira que a aurora, ó monges, precede e anuncia o levantar do Sol, também a
amizade com o amável precede e anuncia o erguer dos sete membros da sabedoria no
religioso. [S. v, 101].
Quanto aos fatores exteriores (ao corpo) eu não vejo outro que contribua ao surgimento dos
sete membros da sabedoria que esta amizade com o amável. [S. v, 102]
Caminhai, ó monges, tomando o Eu por candeia, o Eu por refúgio, e nenhum outro; tomando o
dhamma por candeia, o dhamma por refúgio, nenhum outro. Os que caminham com o Eu e o
dhamma por candeia e por refúgio, e nenhum outro, devem procurar a fonte mesma [das
coisas] se perguntando: "Em que consiste o nascimento e a origem da dor, do desgôsto, da
infelicidade, das lamentações e do desespêro?" E qual é, pois sua origem, ó monges? A
multidão das pessoas não esclarecidas, incapaz de reconhecer os arianos, pouco versada,
pouco exercitada no dhamma, encara a forma material como o Eu ou [se representa] o Eu
possuindo uma forma material, ou a forma material como estando no Eu, ou o Eu como
estando na forma material. Mas nossa forma material muda e se torna outra, e
conseqüentemente a dor, o desgôsto, a infelicidade, as lamentações e o desespêro surgem.
Mas o discípulo ariano esclarecido pensa: "Outrora como agora, tôda a forma material era
impermanente, sofredora, sujeita à mudança. Graças à sabedoria correta, que vê as coisas se
passam verdadeiramente, a dor, o desgôsto, a infelicidade, as lamentações, o desespêro
declinam” Longe de estar inquieto de seu declínio, êle vive sem inquietude e na comodidade;
do religioso que atingiu o nirvana a respeito de tudo isso, diz-se que êle vive assim. O mesmo
sucede com a sensação, a percepção, as construções, a consciência. [S. ii. 42-43]
C. O pequeno eu.
O mal é feito pelo eu; pelo eu se cai na infelicidade;
O eu nos traz sempre o mal; o eu nos purifica.
O puro e o impuro, isso pertence ao eu;
Não se poderia tornar puro outrem. [Dh. 165].
O mal é feito unicamente pelo eu, nasce do eu, é trazido à existência pelo eu. [Dh. 161].
Os bem domados devem pôr-se a domar; pois, diz-se, o eu é muito duro para domar. [Dh.
159].
A forma material é efêmera. O que é efêmero é sofrimento. O que é sofrimento não é o Eu. O
que não é o Eu não é meu; eu não sou aquilo, aquilo não é o Eu. Deve-se discerni-lo pela
sabedoria correta tal que aquilo vem à existência; e reconhecendo-o assim pela sabedoria
correta, o espírito não faz mais caso dêle e se encontra liberto dos fluxos sem nenhuma
apetência. Estando liberto, êle é perseverante, sendo perseverante, êle é feliz; sendo feliz, êle
não é perturbado; não sendo perturbado chega-se individualmente ao nirvana absoluto
(parinibbayati) e diz-se isto: "O nascimento foi destruído, a vida com Brahma foi vivida, o que
havia a fazer foi feito, não há mais vir a ser isto ou aquilo”. O mesmo sucede com a sensação, a
percepção, as construções, a consciência. [S. iii, 44-45].
Pode existir, ó monges, que um tolo, sem inteligência, sem saber, o espírito dominado pelos
apetites, pensa em se afastar da doutrina do Mestre nestes têrmos: "Assim, dizeis, a forma
material não é o Eu; a sensação... a percepção... as construções...a consciência não são o Eu.
De que Eu se trata então quando se fala de ações que não são devidas ao eu? Vós outros,
meus monges, fostes instruídos por mim na causalidade (patipucha) por tôda a parte e em
todo objeto. A forma material e o resto são efêmeros, sujeitos ao sofrimento, sujeitos à
mudança. Por conseguinte, deve-se reconhecer como é o caso realmente, que nenhuma forma
material, nenhuma sensação... [etc.] não é minha; eu não sou isto, não é meu Eu. [M. iii, 19; S.
iii, 109].
Ó monges, tudo arde. O que é êste tudo que arde? O ôlho arde, as formas materiais ardem, a
consciência pelo ôlho arde, o contacto pelo ôlho arde; em outras palavras, a sensação que
resulta do contacto pelo ôlho, quer seja agradável quer dolorosa, ou bem nem dolorosa nem
agradável, esta sensação ela também arde. O que é que a faz arder? Eu digo que ela arde do
fogo da paixão, do fogo do ódio, do fogo da ilusão; que ela arde do nascimento, da velhice, da
morte, do desgôsto, da dor, do sofrimento, das lamentações e do desespêro. A orelha arde, os
sons ardem... o nariz arde, os odôres ardem... o corpo arde, os objetos tangíveis ardem... o
espírito arde, os estados mentais ardem, a consciência pelo espírito arde, o contacto pelo
espírito arde; em outras palavras, a sensação que resulta do contacto pelo espírito arde
também, quer seja agradável ou dolorosa, ou bem nem dolorosa nem agradável. O que é que a
faz arder? Eu digo que ela arde do fogo da paixão, do fogo do ódio, do fogo da ilusão; que ela
arde do nascimento, da velhice, da morte, do desgôsto, da dor, do sofrimento, das
lamentações e do desespêro. Reconhecendo isso, o discípulo ariano esclarecido não faz
nenhum caso de todos os órgãos dos sentidos nem dos dados dos sentidos que eu digo
estarem ardendo. Não fazendo nenhum caso disto, êle é impassível; pela impassibilidade êle é
liberto, na libertação nasce êste conhecimento: "Eu estou liberto e êle sabe que o nascimento
é destruído, a vida com Brahma foi vivida, o que havia a fazer foi feito, não há mais para êle de
vir a ser isto ou aquilo." [Vin. I, 34].
Não crer que "Eu sou", é a liberdade. [Ud.74].
Rejeitar a noção "Eu sou". [M. I. 139].
O que é efêmero é mau; o que é mau não é o Eu; O que não é o Eu não é meu; eu não sou
aquilo, aquílo não é meu Eu. .. Felizes em verdade os Perfeitos! O pensamento "Eu sou"
estando extirpado; a rêde da ilusão se rasga. [S. iii. 88].
Quando o pensamento "Eu sou" foi extirpado, o religioso não está mais em chamas. [A. ii. 216]
"Senhor, como o espírito daquele que sabe, daquele e vê, acaba por se libertar da idéia "Eu
sou o agente, o ente é meu" e do "Eu sou" implícito a respeito dêste corpo modo pela
consciência, ou dos elementos que lhe são exteriores, de modo, a atingir a transcendência de
tôdas as distinções, a tranqüilidade, a verdadeira libertação? - De tôda a forma material, ó
Rãhula, de tôda a sensação percepção, construção, consciência, passada ou futuro da qual êle
terá pensado "Aquilo não é meu, não sou aquilo, aquilo não é meu Eu, se êle reconhece ia
sabedoria correta desta forma material, esta sensação...etc., pelo que ela é verdadeiramente,
êle se torna liberto sem resíduo [de nascimento possível]. [S. iii, 136-137].
Monges, se o religioso percebe seis vantagens, elas lhe bastarão para estabelecer, sem
nenhuma reserva, a consciência do que não é o Eu. Quais são? Estas vantagens são o
pensamento: "Eu me tornarei sem desejo a respeito do universo inteiro" e a noção "Eu sou o
agente" serão sufocadas; a noção "O agente é meu" será sufocada; eu entrarei na posse do
saber que não se comunica; eu discernirei do modo justo a causa e a origem causal das coisas.
[A. iii, 444].
Pode suceder, Ãnanda, que um religioso adquira a contemplação de tal sorte que a respeito de
seu corpo que é contemplado pela consciência, assim como dos elementos que lhe exteriores,
êle não possa mais conservar a noção: "Eu sou agente, o agente é meu" meu nenhum "Eu sou"
implícito; a liberdade do coração, tôda liberdade do intelecto em que o religioso penetra e
permanece sem ter a noção "Eu o agente, o agente é meu" meu nenhum "Eu sou" implícito,
tendo penetrado nesta liberdade do coração, esta liberdade intelecta, êle poderia aí
permanecer. Pois, Ãnanda, virá ao espírito do religioso [esta idéia]: "Isto é a paz, isto é
excelente, isto é o apaziguamento de tôdas as construções, a rendição de todo o resíduo [de
nascimento possível] a destruição da apetência, a impassibilidade, a interrupção, o
nirvana”.[A. I, 132-133].

3. OS ATOS E A TRANSMIGRAÇÃO
Não faz parte dos hábitos do Descobridor da Verdade de assentar em princípio "O castigo, o
castigo". É hábito do Descobridor da Verdade de assentar em princípio "os atos, os atos." Eu, ó
Tapassin, assento em princípio que há três espécies de atos quando se comete uma ação má,
quando se executa uma ação má, isto é: o ato do corpo, o ato da palavra, o ato do espírito. O
ato do corpo é uma coisa, o ato da palavra outra, o ato do espírito outra ainda. Destas três
espécies de atos assim classificados, assim particularizados, assento em princípio que o ato do
espírito é o mais censurável no cometimento de uma má ação, na execução de uma má ação; o
ato do corpo não o é tanto, o ato da palavra não o é tanto. [M. I, 373].
Monges, há três fontes na origem dos atos. Quais são elas? a cupidez, o ódio, a ilusão, são
cada um uma fonte na origem dos atos. Todo o ato realizado por cupidez, tendo sua fonte na
cupidez, sua origem na cupidez; por tôda a parte onde poderá surgir a individualidade, êste
seu ato amadurecerá; e quando êste seu ato tiver amadurecido, o sujeito sofrerá o resultado
de seu ato, seja neste mundo e desde agora, seja mais tarde, ou numa sucessão [de
existência]. O mesmo sucede com o ato praticado por ódio, o mesmo com o ato praticado por
ilusão. [A. I. 134].
Todo ato, ó monges, deve ser conhecido; conhecido em sua fonte e suas ligações, sua
variedade, seu fruto, sua interrupção e no caminho que leva à sua interrupção. Por que isso?
Eu digo, ó monges, que o querer é um ato. Querendo cumpre-se um ato do corpo, da palavra
ou do pensamento. O contacto é a fonte e a ligação do ato. As variedades do ato são as
seguintes: sofrem-nas no inferno Niraya, numa matriz animal, (renascendo num corpo animal)
no reino dos mortos, no mundo dos homens, mundo dos devas. O fruto do ato é tríplice: pode
surgir neste mundo e desde agora, ou mais tarde, ou numa sucessão [de existências]. A
interrupção do ato é a interrupção do contacto. A presente Óctuple via ariana - a opinião
correta, etc... - é em si mesma o caminho que leva à interrupção do ato. E na medida em que o
discípulo ariano possui a presciência do ato, da fonte e da ligação do ato, de suas variedades,
de seu fruto, de sua interrupção, do caminho que leva à sua interrupção, êle tem a presciência
que esta vida com Brahma, em que se sabe discernir, é a interrupção do ato. [A. iii, 415].
O que chamamos pensamento, ó monges, o que chamamos espírito, o que chamamos
consciência, é a isto que a multidão das pessoas pouco esclarecidas se agarra: é isto que êles
insistem em dizer ser "meu", pensando: "Isto é meu, eu sou isto, isto é meu Eu". Melhor
valeria, ó monges, que a multidão das pessoas pouco esclarecidas se voltasse para o corpo,
antes que para o espírito, para aí reconhecer o Eu. Por quê? Ó monges, vê-se êste corpo durar
um ano, dois anos, três, quatro, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta anos, durar cem
anos e mais ainda. Mas, ó monges, o que se chama pensamento, espírito e consciência se
dissolve, noite e dia, e de uma coisa que era reaparece com outra. Como o monge que viaja na
selva agarra um ramo, o solta e apanha outro, o que se chama pensamento, espírito e
consciência, tudo isso, noite e dia, se dissolve, e, de uma coisa que era, reaparece como uma
outra. [S. ii. 94].
A consciência é sustentada pelo corpo, a sensação, a percepção, as construções... Não se pode
dizer que na ausência dêstes elementos haja um ir e vir ou um surgimento futuro da
consciência. Desde que o religioso rejeitou sua paixão por êstes sustentáculos, não resta mais
sustentáculo para a consciência. Por sua liberdade, é um homem cujo Eu é liberto; por sua
estabilidade, é um homem cujo Eu, é estável; por seu contentamento é um homem cujo Eu é
contente; por conseguinte, não há mais preocupação e não tendo mais preocupação, êle entra
individualmente em posse do nirvana absoluto; e êle sabe que o nascimento terminou, que a
vida com Brahma foi vivida, que o que havia a fazer foi feito; não há mais vir a ser isto ou
aquilo. (201) [S. iii. 55 (abreviado)].
[201. Isto é que arahant, desperto, que não mais existe em nenhum modo].
Lembrando-se de suas "moradas anteriores" [suas existências passadas], do que o religioso se
lembra, são as cinco bases da apetência, ou uma delas; êle pensa: "Desta ou daquela forma era
meu corpo, ou minha sensação, ou minha percepção, minhas construções, minha consciência",
e êste pensamento lhe dá a indiferença a respeito de seus corpos anteriores, sensações
anteriores, etc... Pois todos êstes [elementos] são impermanentes; nem de seu conjunto nem
de um dêles em particular se poderia dizer: "Aquilo é meu, eu sou aquilo, o aquilo é meu Eu".
Ele rejeita tôdas estas apetências e não procura mais captá-Ias. (202) [S. iii. 86. e segs.
(abreviado)].
[202. Notar a distinção entre o “eu” e o meu “Eu”, de uma parte e tudo o que “eu” não fui e
que o “eu” não sou de outra parte].
Ó chefes de família, se alguém que marcha segundo o dhamma, que segue uma marcha igual,
desejasse [um dêstes estados]: Possa eu, quando da decomposição de meu corpo após a
morte, surgir na companhia de ricos nobres, de ricos brâmanes, de ricos chefes de família, com
os devas dos quatro grandes Regentes, com os devas dos Trinta-e-três, com os devas de Yama,
com os devas Satisfeitos, com os devas que se deleitam em criar, com os devas que têm todo o
poder sôbre as criações dos outros, com os devas do séquito de Brahmã, com os devas do
Esplendor, com os devas do Esplendor limitado, com os devas do Esplendor infinito, com os
devas Luminosos, com os devas Belos, com os devas da Beleza limitada, com os devas da
Beleza infinita, com os devas Irradiantes, com os devas Vehapphalã, com os devas Avihã, com
os devas Novos, com os devas Graciosos, com os devas da Boa Vista, com os devas Antigos,
com os devas que atingiram a infinidade do Éter, com os devas que atingiram a infinidade da
Consciência, com os devas que atingiram o aniquilamento de si mesmos, com os devas que
atingiram a "não percepção nem a não-percepção" - poderia suceder que surgisse e dessa
maneira. Por quê? Porque é um ser que caminha segundo o dhamma, que segue uma marcha
igual. Ó chefes de família, se alguém que caminha segundo o dhamma, que segue uma marcha
igual, desejasse: "Possa eu, graças à destruição dos fluxos, tendo neste mundo e desde agora
realizado pelo meu próprio saber superior a liberdade de coração e a liberdade de intelecto
que são sem fluxos, aí permanecer" - poderia acontecer que êle ai permanecesse. Por quê?
Porque é um ser que caminha segundo o dhamma, que segue uma marcha igual. [M. I, 289].
Constata-se que existem no mundo quatro tipos de indivíduos. Quais são? Há os sombrios, que
caminham para as trevas, os sombrios que caminham para a claridade; os claros que
caminham para as trevas, os claros que caminham para a claridade. Qual é aquêle que é
sombrio, que caminha para as trevas? É, por exemplo, o homem nascido numa família
humilde; êle é pobre, mal nutrido, vivendo numa condição miserável, aflito, disforme. Sua
conduta do corpo, de palavra e de pensamento é má, de modo que quando da decomposição
de seu corpo após a morte êle surge no Abismo, o Mau Destino, a Queda. É como se o ser
caminhasse de cegueira em cegueira, das trevas a outras trevas, de uma mancha de sangue a
outra. Qual é aquêle que é sombrio, e que caminha para a claridade? É, por exemplo, aquêle
que é nascido nas condições más que acabo de dizer, mas cuja conduta de corpo, de palavra e
de pensamento é boa, de modo que quando da decomposição de seu corpo após a morte êle
surge num Bom Destino, num mundo celeste. É como se o ser se elevasse do solo num
palanquim, do palanquim ao dorso de um cavalo, do dorso do cavalo ao dorso de um elefante
ou do elefante sôbre um terraço. Qual é aquêle que é claro mas que caminha para as trevas?
É, por exemplo, aquêle que nasceu numa família de elevada estirpe, muito rica, e com tudo
que pode assegurar o prazer. Mas sua conduta de corpo, de palavra e de pensamento e mau,
de sorte que quando da decomposição de seu corpo após a morte, êle surge no Abismo, o Mau
Destino, a Queda. É como se o ser descesse de um terraço sôbre um elefante, do dorso do
elefante ao dorso do cavalo, daí em um palanquim e do palanquim a terra. Qual é aquêle que é
claro e que caminha para a claridade? É por exemplo, aquêle que nasceu nas circunstâncias
felizes que eu acabo de dizer e cuja conduta de corpo, de palavra e de pensamento é boa, de
modo que quando da decomposição de seu corpo após a morte, êle surge num Bom Destino, e
num mundo celeste. É como se o ser passasse de um palanquim a um outro, de um cavalo a
outro cavalo, de um elefante a um outro elefante, de um terraço a outro terraço. É por esta
imagem que eu descrevo êste tipo de indivíduo. [S. I, 93-95]
[Quando o Mestre soube que tinha rejeitado diversos estados subjetivos maus, e que êle tinha
concluído tomando diverso estados bons, êle se exprimiu por esta máxima:] Foi outrora e não
foi mais; não foi mais e depois foi: Não era, isto não virá. isto não existe agora. [U.d. 66].
[O Mestre diz:] "Se isso não tivesse sido, isto não seria meu; isto não será, isto não será meu
(209) E acrescentou: "O religioso que está bem convencido disto pode romper os empecilhos
que o prendem às coisas inferiores". [S. iii, 55-56].
[209. Trata-se da individualidade, do eu, do ego empírico, de tudo o que não é "meu Eu". O
primeiro verso enuncia o êrro, o segundo a verdade].
[Mas sustentar que:] "Se eu não tivesse sido, aquilo não seria meu; eu não serei, isto não será
meu": é a posição aniquilacionista. [S. iii, 99].
O apóstata Citta sustenta esta proposição: "Eu era no passado, eu serei no futuro, eu sou no
presente"; e por conseguinte, que seu eu, sua individualidade era, será e é agora, verdadeira e
real. Buda responde que: "Estas três modalidades do eu, passado, futuro e presente, são
meramente têrmos convencionais da linguagem corrente. Eu mesmo os emprego, mas não me
deixo por êles enganar". [D. I. 178-203; cf. S. I, 14].
A velhice, a doença e a morte, eu delas ainda não triunfei... Mas serei bem sucedido, sem
jamais voltar para trás, a travessia que se obtém pelo caminhar com Brahma. [A. iii, 75].
Inumeráveis são os nascimentos nos quais eu girei e corri em volta, procurando sempre sem
jamais encontrar o construtor da casa. É mau renascer e renascer sempre. Agora eu te vi,
construtor da casa; tu não construirás mais nunca para mim! Tôdas as pranchas estão
rompidas, a viga-mestra do telhado está em pedaços; meu coração está livre de tôdas as
construções, o desaparecimento da sêde é atingido. [J. I, 76; Dh, 153-154]
Em que sentido um monge é um caminhante? No sentido de que êle caminha rapidamente
para o objetivo (210) desta longa estrada em que ainda não estêve; aí onde há a cessação de
tôdas as construções, o abandono de tôdas as condições, o desaparecimento da apetência, a
ausência, a ausência de concupiscência e a interrupção do porvir, o nirvana. (211) [A, iii, 164].
[210. O objetivo, disã yad “esta região em que”. Em outros têrmos, o viajante está a caminho
para o “fim do mundo”, um destino que está “em nós” e que “não se atinge dando passos”, A,
ii, 46].
[211. Assim o discípulo “vai, vai sempre”, mas o adepto lá “foi”].

4. O CAMINHO
Aquêle que caminha segundo o ensinou o Desperto a todos os que procuram, iria do não-além
ao além; realizando o Caminho superior, atingiria o além partindo do não-além. [Sn. 1129-
1130].
Aquêle que por uma vereda que o eu abriu. ó Sabhiya, diz o Senhor, foi ao absoluto nirvana,
triunfou dos desejos, rejeitou o porvir e o não-porvir. viveu sua vida e destruiu todo o
retornar-a-ser, êsse é um religioso. [Sn. 5]
Supõe agora, Tissa, dois homens, um ignorante do Caminho, outro versado no Caminho.
Aquêle que é ignorante pergunta seu caminho àquele que é versado no caminho. O outro
responde: "Sim, vós estais no caminho, senhor. Quando vós o tiverdes seguido por algum
tempo, vereis que êle se divide em duas veredas. Deixai aquela da esquerda, tomai aquela da
direita. Continuai a caminhar um pouco e vereis uma espêssa floresta. Um pouco mais longe
vereis um grande pântano. Um pouco mais longe vereis um precipício escarpado. Um pouco
mais longe vereis uma deliciosa planície de solo plano." É uma parábola, Tissa, para me fazer
compreender, e eis dela a significação. O homem ignorante do caminho, é a multidão. O
homem versado no caminho, é o Descobridor da Verdade, o Perfeito, o totalmente Desperto.
A divisão em duas veredas, é o estado de hesitação. O caminho da esquerda, é a Óctuple via
errônea: a da opinião errônea, dos conceitos errôneos, das palavras errôneas, dos atos
errôneos, da conduta errônea, dos esforços errôneos, da vigilância errônea, da contemplação
errônea. A vereda da direita é o símbolo do Octuple caminho ariano, o da opinião correta,
etc... A floresta espêssa, Tissa, designa a ignorância. O grande pântano designa os prazeres
sensuais. O precipício escarpado é sinônimo da turbulência, da cólera. A deliciosa planície de
solo plano designa o nirvana. Sê reconfortado, Tissa. Eu te exortarei, te ajudarei, te instruirei.
[S. iii, 108-109]
Supõe agora, Tissa, dois homens, um ignorante do Caminho, outro versado no Caminho.
Aquêle que é ignorante pergunta seu caminho àquele que é versado no caminho. O outro
responde: "Sim, vós estais no caminho, senhor. Quando vós o tiverdes seguido por algum
tempo, vereis que êle se divide em duas veredas. Deixai aquela da esquerda, tomai aquela da
direita. Continuai a caminhar um pouco e vereis uma espêssa floresta. Um pouco mais longe
vereis um grande pântano. Um pouco mais longe vereis um precipício escarpado. Um pouco
mais longe vereis uma deliciosa planície de solo plano." É uma parábola, Tissa, para me fazer
compreender, e eis dela a significação. O homem ignorante do caminho, é a multidão. O
homem versado no caminho, é o Descobridor da Verdade, o Perfeito, o totalmente Desperto.
A divisão em duas veredas, é o estado de hesitação. O caminho da esquerda, é a Óctupla via
errônea: a da opinião errônea, dos conceitos errôneos, das palavras errôneas, dos atos
errôneos, da conduta errônea, dos esforços errôneos, da vigilância errônea, da contemplação
errônea. A vereda da direita é o símbolo do Octuple caminho ariano, o da opinião correta,
etc... A floresta espêssa, Tissa, designa a ignorância. O grande pântano designa os prazeres
sensuais. O precipício escarpado é sinônimo da turbulência, da cólera. A deliciosa planície de
solo plano designa o nirvana. Sê reconfortado, Tissa. Eu te exortarei, te ajudarei, te instruirei.
[S. iii, 108-109]
Dois extremos sem saída, ó monges, não devem ser seguidos por aquêle que "saiu". Quais são
êles? É aquêle de se dar aos prazeres sensuais atraentes, baixos, os do rústico, do homem
médio, não ariano, sem relação com o objetivo; e aquêle de se dar à tortura do eu, que é mau,
não-ariano, e sem relação com o objetivo. Ora, meus monges, sem adotar um ou outro dêstes
extremos sem saída, há um caminho do meio perfeitamente compreendido pelo Descobridor
da Verdade, favorável à visão, favorável ao conhecimento, conduzindo à tranqüilidade, ao
conhecimento superior, ao despertar, ao nirvana. E qual é, ó monges, êste caminho do meio? É
precisamente êste Octuple Caminho ariano, isto é a opinião correta, o conceito correto, a
palavra correta, conduta correta, o esfôrço correto, a vigilância correta, a contemplação
correta. (217) [Vin., I, 10]
[217. o comentário (Ma. I, 236) diz que é um óctuple caminho ariano].
Este caminho é o único que leva à purificação dos sêres, ao triunfo sôbre a dor e o desgôsto, à
queda dos males e da tristeza, à aquisição do Método, à realização do nirvana; isto é, às quatro
etapas da vigilância. [D. ii. 313; M. I. 55-63; S. v. 167-185].

5. A TRAVESSIA
Monges, eu vos ensinarei o dhamma, a parábola da balsa para transpor, não para reter. Ouvi-
a, prestai bem atenção, e eu falarei. É como um homem, ó monges, que realizando uma
viagem vise a uma grande extensão de água; a margem de cá repleta de perigos e de terrores,
a margem de lá segura e sem terrores; mas pode suceder que não haja barco para atravessar,
e não haja ponte, para passar do não-além ao além. Vem-lhe ao espírito que para passar dos
perigos desta margem à segurança da outra êle deve fabricar uma balsa de bambus e paus, de
galhos e folhagens, de modo que agitando braços e pernas e fiando-se nesta balsa, êle poderia
atravessar com segurança até a margem de lá. Tendo feito assim, tendo passado ao lado de lá
êle diz que a balsa foi muito útil, e êle se pergunta se deve continuar seu caminho trazendo-a
ligada à sua cabeça e aos seus ombros. Que pensais disto, monges? Agindo assim, êste viajante
faria da balsa o que seria conveniente fazer?
-Não, senhor.
- Que deve fazer para fazer o uso conveniente, ó monges? Este viajante, tendo passado para o
lado de lá, e compreendendo quanto a balsa lhe foi útil, poderá se dizer: "Se agora eu
continuasse meu caminho encalhando esta balsa sôbre o solo sêco, ou afundando-a na água?"
Ó monges, o viajante que fizesse assim faria da balsa o uso conveniente. Da mesma maneira, ó
monges, eu vos ensinei o dhamma, a parábola da balsa, para transpor, não para deter. Vós
outros, monges, compreendendo a parábola da balsa, abandonareis mesmo os bons estados
de espírito, e com mais forte razão, os maus. [M. I. 134-135].
Bem construída foi esta balsa ligada (dizia o Mestre em resposta); mas êle não tem nenhuma
necessidade de balsa; êle atravessou, êle está do outro lado. êle transpôs a onda. (219)
[Sn.21].
[219. E. M. Hare, Woven Cadences].
Esses transpondo os abismos e os rios contribuindo uma ponte acima do pântano, Vêde! as
pessoas reúnem balsas; mas os Sábios já passaram. [Vin. I, 230; Ud. 90; D. ii. 89].
Os que não vivem professando aversão pela abstinência, que não fazem da aversão pela
abstinência uma condição essencial, que não ligam a aversão pela abstinência, podem-se
tornar aptos a atravessar as ondas. Os que praticam a pureza do corpo, da palavra e do
espírito, aquêles cuja conduta é pura, podem-se tornar aptos ao saber, ao Despertar supremo.
É como aquêle que quer transpor um rio. Ele tomaria um machado bem afiado e entraria num
bosque. Se êle visse uma possante árvore sãl, reta, nova, não torcida, êle a corta rente à raiz.
Isto feito, êle corta dela a ponta, limpa-a completamente de seus ramos e de sua folhagem.
Isto feito êle a corta com o machado e em seguida com facas. Ele a raspa com a raspadeira, êle
a pule com um seixo. Ele faz dela um barco, aí colocaremos e um leme. Isto feito, êle coloca
seu barco no rio. Pensas tu, Sãlha, que êsse homem pode-se tornar apto a transpor o rio?
- Sim, senhor?
- Por quê?
- Porque, senhor, o tronco de sãl foi bem trabalhado no exterior, bem escavado no interior,
transformado em barco, provido de remos e leme. Eis o que dêle se pode esperar: o barco não
vai soçobrar, e o homem atravessará o rio são e salvo. [A. ii. 201].
É por isso que, sempre vigilante. o homem deve fugir dos prazeres. Assim aliviado, vazando
seu bote, os viajantes do além transpõem as ondas (220) [Sn. 771]
[220. E. M. Hare, Woven Cadences]
Agitar braços e pernas, ó monges, é despertar energia. Ele passou, êle partiu para o lado de lá;
o brâmane está sôbre a terra firme; é a imagem do Perfeito. [S. IV. 174-175].
A violência para com as criaturas pertence à margem de cá, abster-se delas à outra margem.
Tomar o que não é dado pertence a esta margem; abster-se disso, à margem de lá. A má
conduta quanto aos prazeres sensuais, é a margem de cá; abster-se dêles a margem de lá. A
mentira, as palavras odiosas...as palavras amargas...a tagarelice ociosa...a cobiça...a
malevolência...pertencem à margem de cá; abster-se disso à margem de lá. A falsa opinião, é a
margem de cá; a opinião correta a margem de lá. [A. v. 252-253].
A falsa opinião, ó monges, é a margem de cá; a opinião correta é a margem de lá. O falso
conceito é a margem de cá, o conceito correto, a margem de lá. A falsa palavra é a margem de
cá, a palavra correta a margem de lá. A falsa ação é a margem de cá, a ação correta a margem
de lá. A má conduta é a margem de cá, a conduta correta a margem de lá. O mau esfôrço é a
margem de cá, o esfôrço correto a margem de lá. A falsa vigilância é a margem de cá, a
vigilância correta a margem de lá. A falsa contemplação, a margem de cá, a contemplação
correta a margem de lá. O falso conhecimento é a margem de cá, o conhecimento correto a
margem de lá. A falsa liberdade é a margem de cá, a liberdade correta a margem de lá. Tal é,
brâmanes, a margem de cá, tal é a margem de lá. [A. v. 232].

6. OS RIOS DA VIDA E DA MORTE


Deve-se rejeitar a dor e os prazeres dos sentidos,
aspirar para o futuro à segurança contra a escravidão.
Com o conhecimento correto, o coração bem liberto pode-se obter a liberdade aqui ou lá.
Quem é versado na doutrina, quem viveu com Brahma.
diz-se que "êle foi ao fim do mundo". "partiu para o além". [It. pág. 113-115].

Quando nasce o desejo do não-revelado (anakkahata, nibbana)


se o espírito está sobrecarregado dêste desejo.
se o pensamento não está encadeado aos prazeres dos sentidos
diz-se que o ser sobe a correnteza. [Dh.218]

Entre aquêles que seguem a correnteza do porvir,


que abate a paixão do porvir,
que tocam no reino de Mãra,
êste dhamma não é fácil de despertar. [Sn. 764; S. v, 128]

Para aquêles que seguem a correnteza do porvir,


que são abatidos pelos contactos,
e que entram na falsa estrada.
a destruição dos empecilhos é longínqua. [Sn. 736].

Naquele em que a apetência não vence,


no religioso que corta a correnteza,
liberto das aflições e das tarefas,
não se vê, nem se conhece nenhuma inquietação. (229) [Sn. 715].

Quem transpôs as concupiscências dêste mundo,


obstáculo tão duro de passar,
não se aflige mais nem definha;
cortador da correnteza, é o sem-empecilhos! (230) [Sn. 948].

Vêde-o vir: membros puros, sob um dossel branco; avança


seu carro de uma roda; o sem-pecado, o cortador da correnteza, o sem-cadeias. [Ud. 76; S. v,
29].
Os que cortaram a correnteza tão dura de transpor,
dos objetos caros e doces, avassaladores,
êsses atingem o absoluto nirvana:
passando completamente acima de todos os males. [lt. pág. 95].

Tôdas as correntezas que correm no mundo,


ó Ajita, diz o Mestre,
é pela vigilância que se as detém:
a vigilância é a comporta
e a sabedoria delas corta a onda. (231) [Sn. 1035]

[229. E. M. Hare, Woven Cadences].


[230. E. M. Hare, Woven Cadences].
[231. F. L. Woodward, Min. Anth. ii, pág. 92]

7. O GRANDE OCEANO
Da mesma maneira, ó monges, que o grande oceano tem uma profundidade progressiva, um
declive progressivo, degraus progressivos, sem o escarpamento de um precipício, também em
nosso dhamma e disciplina, ó monges, há uma ascese progressiva, uma ação progressiva do
que se deve fazer, um processo progressivo, (Cf. M. i, 479) sem o escarpamento da penetração
dos conhecimentos profundos. O fato, ó monges, que em nosso dhamma e disciplina há... um
processo progressivo, sem o escarpamento da penetração de conhecimentos profundos, é a
primeira coisa estranha e maravilhosa cujo espetáculo constante faz com que os monges se
deleitem com nosso dhamma e disciplina. E da mesma maneira, ó monges, que o grande
oceano é estável e não transborda de sua margem, também todo método de ascese que eu
instituí para meus discípulos, não será jamais transgredido por meus discípulos, mesmo ao
risco de suas vidas. O fato, ó monges, que meus discípulos não transgredirão, mesmo ao risco
de sua vida, o método de ascese que eu instituí para êles, é a segunda coisa estranha e
maravilhosa. E da mesma maneira, ó monges, que o grande oceano não se associa a um corpo
morto, a um cadáver, mas todo o corpo morto, todo cadáver que se pode encontrar no grande
oceano, o grande oceano o rejeita logo para a margem, e o atira sôbre a terra firme, também,
ó monges, todo o ser que tem um mau procedimento moral, uma personalidade depravada,
uma atitude impura e suspeita, ações dissimuladas, que não é o eremita que pretende ser, que
não vive a vida segundo Brahma que pretende viver, que está apodrecido interiormente, cheio
de desejos sórdidos por natureza, a ordem não vive em comunhão com êle, mas se reúne para
logo o suspender; êle está longe da Ordem e a Ordem está longe dêle...é a terceira coisa
estranha e maravilhosa. E da mesma maneira que os grandes rios, isto é, o Ganges, o Jamnã, o
Aciravati, o Sarabhü, o Mahi, quando atingem o grande oceano perdem seu nome e identidade
primitivos, e são apenas o grande oceano, também, ó monges, os membros das quatro castas:
nobres, brâmanes, mercadores e trabalhadores, tendo deixado seu lar para viver sem lar no
seio do dhamma e da disciplina proclamados pelo Descobridor da Verdade perdem seu nome e
clã primitivos e não passam de eremitas, filhos dos Sãkyas...[Vin. Ii, 237-239, A. iv, 206; Ud. 53-
56]

8. O DHAMMA
O dhamma, eu te o explicarei, Mettagu (diz então o Mestre); é coisa vista neste mundo, não
doutrina transmitida; e quem a encontra e a conhece, e caminha alerta, poderá transpor a
sórdida lama dêste mundo. (235) [Sn. 1053].
[235. E. M. Hare, Woven Cadences]
Que êle se erga, que não permaneça distraído! que êle viva segundo o dhamma do bem-viver;
quem segue o dhamma vive feliz tanto neste mundo como no outro. Que êle viva segundo o
dhamma de bem-viver, que êle não viva uma vida má! Quem segue o dhamma vive feliz, tanto
neste mundo como no outro. [Dh.168-169].
Monges, mesmo se um religioso apanhasse a orda da minha capa e caminhasse logo, atrás de
mim, passo a passo, se êle fôsse invejoso, seduzido pelos prazeres sensuais, malevolentes em
seus pensamentos, corrompido em seu espírito e seus desígnios, confuso em sua memória,
distraído, inapto à contemplação, aturdido, pouco senhor de seus sentidos, êste religioso
estaria longe de mim e eu estaria longe dêle. Mas, ó monges, mesmo quando um religioso
morasse a cem yojanas daqui, se êle não fôsse nem invejoso, nem seduzido pelos prazeres
sensuais, nem malevolente, em seus pensamentos, nem corrompido em seu espírito e seus
desígnios, se sua memória está firmemente disposta, se êle é atento, contemplativo, seus
pensamentos voltados numa direção única, se êle é senhor de seus sentidos, então êste
religioso está perto de mim e eu estou perto dêle. Por quê? Ó monges, êste religioso vê o
dhamma, e, vendo o dhamma, êle me vê. [lt., pág. 90-91].
Silêncio, Vakkali. Que buscas tu neste meu corpo vil? Aquêle, ó Vakkali, que vê o dhamma me
vê e aquêle que me vê, vê o dhamma. Pois, ó Vakkali, aquêle que vê o dhamma me vê, e
aquêle que me vê, vê o dhamma. [S. iii, 120].
Os carros do rei, acabam por ficar gastos, e nosso corpo também envelhece; mas o verdadeiro
dhamma não envelhece. [S. I, 71; Dh. 151].
É o dhamma, eu vos digo, que conduz vosso carro. [S. I. 33].
É possível, Ãnanda: instituir nesta disciplina do dhamma uma progressão para Brahma. (239)
Eis, Ãnanda, sinônimos para o Octuple Caminho ariano: "progressão para Brahma"; também
"progressão para o dhamma" e também "vitória sem igual na luta". (240) [S. v, 5].
[239. Brahmayana: veículo de Brahma, pois yana significa ao mesmo tempo a viagem e o
veículo]
[240. Vitória obtida sobre a paixão, o ódio e a ilusão]
Eu sou um brâmane, ó monges, a quem se pode pedir um favor tenho sempre as mãos puras,
trago meu último corpo, eu sou o incomparável médico e cirurgião. Vós sois meus verdadeiros
filhos, nascidos de minha bôca, nascidos do dhamma, formados pelo dhamma, herdeiro do
dhamma, não herdeiros de bens materiais. [It., pág. 101].
Aquêle que falando veridicamente, ó monges, dissesse: "Ele atingiu o domínio, atingiu a
perfeição no hábito moral ariano, na contemplação ariana, na sabedoria ariana, na liberdade
ariana", diria o mesmo, falando verldicmente de Sãriputta: "Ele atingiu o domínio, êle atingiu a
perfeição no hábito moral ariano, na contemplação ariana, na sabedoria ariana, na liberdade
ariana". Aquêle que falando veridicamente, ó monges, dissesse: "é o próprio filho do senhor,
nascido de sua bôca, nascIdo do dhamma, formado pelo dhamma, herdeiro do dhamma, não
herdeiro de bens materiais", diria o mesmo falando veridicamente de Sãriputta: "é o próprio
filho do senhor, nascido de sua boca, nascido do dhamma, formado pelo dhamma, herdeiro do
dhamma, não herdeiro de bens materiais". Ó monges, Sãriputta faz girar corretamente a
incomparável roda do dhamma que o Descobridor da Verdade pôs em movimento. [M. iii, 28-
29].
Eu não conheço ninguém, ó monges, que faça tão corretamente girar a incomparável roda do
dhamma posta em movimento pelo Descobridor da Verdade, como o faz Sãriputta. Ó monges,
Sãriputta faz corretamente girar a incomparável roda do dhamma posta em movimento pelo
Descobridor da Verdade.[A. I, 23].
Da mesma maneira, Sãriputta, que o filho mais velho de um rei faz girar a roda continua a fazer
girar corretamente a roda que fazia girar seu pai, (a roda do governo) também tu, Sãriputta,
continuas a fazer girar corretamente a roda do dhamma posta em movimento por mim. [S. I,
101].
Talvez, Ãnanda, alguns dentre vós pensem: "A palavra do Mestre chegou ao fim; não temos
mais mestre". Não é assim que se deve considerar a coisa. Este dhamma (e esta disciplina) que
eu ensinei e instrui, qual será vosso mestre quando eu tiver ido dêste mundo. Vamos monges,
tôdas as coisas compostas estão sujeitas à corrupção. Sêde diligentes na prossecução do vosso
objetivo. [D. ll, 154-156].
O religioso que ensina a outrem o dhamma no espírito de que: "O dhamma foi bem exposto
pelo Mestre", êle se refere ao que é neste mundo; e desde agora, êle está fora do tempo, é
uma coisa que se deve vir ver, que nos pode guiar, que pode ser conhecida pelos sábios de
modo subjetivo. O religioso que diz: "Vós devereis em verdade, ouvir meu dhamma; tendo-o
ouvido vós compreendereis o dhamma, e tendo-o compreendido vós estaríeis na estrada da
verdade"; êste religioso, eu o digo, ensina bem a outrem o dhamma segundo o dhamma; êle
ensina o dhamma a outrem por piedade, por bondade, por compaixões. O ensinamento do
dhamma por um religioso como êsse é muito puro. [S. ll, 199].
[Pajãpati o Grande, o Gotâmida, abordou o Mestre e lhe disse:] "Senhor, seria bom que o
senhor quisesse me ensinar o dhamma em resumo, a fim de que tendo ouvido o dhamma do
senhor, eu possa viver só, desprendido, zeloso, ardente, resoluto”. Sejam quais forem os
estados, Gotama, dos quais tu saberias que êles conduzem às paixões, não à ausência de
paixões, conduzem à escravidão, não à ausência de escravidão, conduzem à acumulação [dos
renascimentos] não à ausência de acumulação, conduzem às numerosas necessidades, não às
fracas necessidades; conduzem à sociabilidade, não à solidão, conduzem à indolência, não ao
emprêgo de energia, conduzem à dificuldade de ganhar sua vida, não à facilidade: dêstes
estados é necessário que estejas bem seguro, Gotama, que não é o dhamma, que não é a
disciplina, que não é o ensinamento do Mestre. Mas sejam quais forem os estados dos quais tu
saberias...[que êles são o oposto do que acabo de dizer] dêstes estados é necessário que
estejas bem seguro. Gotama, que é o dhamma, é a disciplina, é o ensinamento do Mestre. [V.
ii, 258].
Se o caso de um religioso que, pela sua sabedoria correta em face de toda a forma material tal
como ela se produziu verdadeiramente - passada, futura ou presente, subjetiva ou objetiva,
grosseira ou sutil, vil ou excelente, longínqua ou próxima - compreendeu que isto não é meu
Eu, e chega a ser liberto sem apetência; e da mesma maneira para a sensação, a percepção, as
construções, a consciência. Até êste ponto êste religioso se torna um Perfeito, os fluxos são
destruídos, êle viveu a vida, êle fêz o que havia a fazer, depositou seu fardo, atingiu seu
próprio objetivo; os empecilhos do porvir são completamente destruídos; êle está liberto pelo
conhecimento correto e profundo. O coração assim liberto, o religioso será cedo dotado de
três dons incomparáveis: da vista incomparável, da prática incomparável, da liberdade
incomparável. Assim liberto, o religioso respeitado, reverenciado, estima e honra o
Descobridor da Verdade, pensando: “Este senhor é um Desperto, êle ensina o dhamma para o
despertar: êste senhor se domou: êle ensina o dhamma para te domar; êste senhor
atravessou, êle ensina o dhamma para atravessar; êste senhor atingiu o absoluto nirvana, êle
ensina o dhamma para o absoluto nirvana”.[M. I, 234-235].

9. A ESSÊNCIA
Ó monges, há quatro essências
Quais? A essência do hábito moral,
A essência da contemplação (247)
A essência da sabedoria (248)
A essência da liberdade (249) [A. ii, 141]

[247. Cf. Sn 329-330, mais abaixo onde samadhi, a contemplação, é traduzida por “espírito
tenso”]
[248. Cf. Sn. 329-330]
[249. A. ii, 244 e A. iv, 385]

Boas são as palavras das quais se capta o essencial,


e capta o que se ouve, é a medula do espírito tenso.
Mas no homem violento e indolente
nem sabedoria, nem audição poderão jamais medrar.
Sem iguais em palavra, em pensamento, em ação,
os que se deleitam como o dhamma conhecido dos arianos:
suspensos na calma e a beatitude do espírito tenso
êles atingem a medula da audição e da sabedoria. [Sn. 329-330]

É assim, brâmane, que a vida com Brahma não está destinada [a assegurar] vantagens em
lucros, em honras, em renome; nem vantagens na prática dos hábitos morais; nem vantagens
na prática da contemplação; nem vantagens no fato do saber e ver. Mas, brâmane, tudo que é
inabalável liberdade do coração, é êste o fim da vida com Brahma; e disto a essência e a
consumação.[M. I, 197, 204-205].
Ãnanda, portai-vos todos comigo na amizade e não na hostilidade. Disso resultará por muito
tempo vosso bem-estar e Vossa felicidade. Eu não vos trato como o oleiro trata sua argila
úmida. Ãnanda, eu vos falarei sempre para vos refrear e vos purificar. O que é a essência será
durável. [M. iii, 118; Jp. iii, 368].

10. A EVASÃO.
É porque há satisfação neste mundo, ó monges, que os sêres estão ligados a êste mundo. É
porque há misérias no mundo que êles estão desgostosos dêste mundo. Ó monges, se não
existisse qualquer meio de evasão fora dêste mundo, os sêres não poderiam se evadir. Mas
porque há uma evasão fora dêste mundo, os sêres se evadem dêste mundo... Sêres chegam a
conhecer plenamente como são as satisfações do mundo como satisfações, suas misérias
como misérias; a evasão como a evasão; e êles caminham dai por diante evadidos, libertos, as
barreiras do espírito suprimidas. Todos os eremitas e brâmanes que conhecem plenamente
porque são as satisfações do mundo...e evasão como evasão, êsses, ó monges, são
[verdadeiramente] eremitas e brâmanes; entre os eremitas êles são contados como eremitas,
entre os brâmanes êles são contados como brâmanes, e êstes veneráveis, tendo por seu
próprio saber superior realizado neste mundo, e desde agora o objetivo da solidão e o objetivo
do estado de brâmane, aí penetram e aí permanecem. [A. I, 260; cf. S. ii, 172-173; iii, 69-71; IV,
10-11].
Monges, há cinco elementos que tendem à evasão. Quais são? Monges, é o caso em que um
religioso presta atenção aos prazeres dos sentidos, mas embora seu coração não salte entre os
prazeres dos sentidos, êle não é calmo, nem recolhido, nem liberto. Mas aquêle cujo coração,
enquanto presta atenção à renúncia é calmo, recolhido e liberto, bem encaminhado, bem-
vindo a ser, bem pôsto ao lado, bem liberto, bem desligado dos prazeres dos sentidos. Sejam
quais forem os fluxos que possam surgir, casados pelos prazeres dos sentidos, dolorosos e
ardentes, êle dêles está liberto, e não experimenta a sensação [que êles sejam assim]. Isto
significa a evasão dos prazeres dos sentidos. Ou ainda, monges, um religioso presta atenção à
malevolência...a quem faz mal...à forma material...[como acima]...Isto significa a evasão da
malevolência, de quem faz mal...da forma material. Ou ainda, monges, um religioso presta
atenção a seu corpo, mas embora seu coração não dê saltos [ao pensamento de seu corpo],
êle não é calmo, nem recolhido, nem liberto. Mas aquêle cujo coração, recolhido, liberto, bem
encaminhado, bem vindo-a-ser, bem pôsto ao lado, bem liberto, enquanto que êle presta
atenção à interrupção de seu corpo, êsse tem um coração bem desligado de seu corpo. Sejam
quais forem os fluxos que possam surgir, causados por seu corpo dolorosos e ardentes, êle
dêles está liberto e não experimenta a sensação [que êles sejam assim]. Isto significa a evasão
do corpo. [A. iii, 245-246].
Ãnanda, pensa que nesta primeira estação (thitis) da consciência, isto é, a dos corpos
diferentes, das percepções diferentes, por exemplo, entre os sêres humanos, entre certos
devas e entre certos sêres existindo na Queda, todo ser que tem a presciência [dêste estado],
e a presciência de seu surgimento e a presciência de seu desvanecimento, a presciência de
suas satisfações e a presciência de seus perigos, e a presciência [dos meios] de dêles se evadir,
pensar que êle possa, com razão, disto se regozijar? - Não senhor. - Ãnanda, quando um
religioso conheceu para o que são realmente o surgimento e desvanecimento, as satisfações e
os perigos dêste estado de consciência, e o meio de dêles se evadir, êle chega a se libertar sem
nenhum resíduo [de nova existência]. Diz-se, Ãnanda, que é um religioso liberto pela
sabedoria. [D. 11. 69-70].

11. O NIRVANA.
Monges, há cinco órgãos dos sentidos, cada um tendo sua própria esfera e seu domínio
próprio, cada um não possuindo o gôzo da esfera e domínio dos outros. São os órgãos
sensitivos do ôlho, da orelha, do nariz, da língua e do corpo. Dêsses cinco órgão sensitivos da
esfera própria e do domínio próprio, o espírito é depositário. A vigilância é depositária do
espírito. A liberdade é depositária da vigilância. O nirvana é depositário da liberdade. Mas se
me perguntais: que é o depositário do nirvana? é uma questão que vai demasiado longe e que
ultrapassa tôda resposta. A vida com Brahma se Jeva em vista da imersão no nirvana, em vista
da consumação no nirvana. [S. v. 218].
Se um religioso pela indiferença, pela impassibilidade pela interrupção, se libertou da velhice e
da morte sem nenhum resíduo [de renascimento], basta chamá-Io "um religioso que atingiu o
nirvana desde esta vida". Se um religioso pela indiferença, pela impassibilidade, pela
interrupção, se libertou da ignorância sem nenhum resíduo [de renascimento] basta chamá-lo
"um religioso que atingiu o nirvana desde esta vida". [S. ii, 18].
Da mesma maneira, que os maiores rios, o Ganges, Jamnã, o Aciravati, o Sarabbü, o Mahi se
dirigem todos, deslizam e gravitam para o leste, para o mar, também os religiosos, realizando
o Octuple Caminho ariano, aumentando-o se dirigem, deslizam e gravitam para o nirvana. [S. v.
39-40]
Eu digo que o nirvana é a destruição da velhice e morte. [Sn. 1024].
Monges, se um religioso percebesse seis vantagens, elas lhe bastariam para estabelecer sem
reserva uma consciência do sofrimento. Quais são as seis vantagens? São os seguintes
pensamentos: Entre tôdas as construções, a consciência do nirvana se estabelecerá para mim
igual a um matador com o sabre desembainhado; meu espírito se afastará do mundo inteiro;
eu me tornarei capaz de ver a paz no nirvana: as tendências latentes em mim terminarão. Eu
me tornarei aquêle que cumpre seus deveres; o Mestre será servido por mim com amor. [A. iii.
443].

12. O IMORTAL.
Ó monges, tudo o que é destruição da paixão, destruição do ódio, destruição da ilusão, eis o
que se chama o imortal. Este Octuple Caminho ariano êle mesmo é o Caminho que leva ao
imortal; isto é a opinião correta, o conceito correto, a palavra correta, a ação correta, a
conduta correta, o esfôrço correto, a vigilância correta, a contemplação correta. [S. v. 8].
Quando nisto ou naquilo êle capta o surgir e a queda dos componentes, êle adquire a alegria e
o êxtase dos que concebem o imortal Aquilo. [Dh. 374].
Eu atingi o imortal. [Vin. I, 9; M. I, 112].
Eu toquei o chamado de tambor do imortal. [M. I, 171].
As portas do imortal foram abertas. [Vin. I, 7; M. I, 168].
Aquêle que desejando méritos, permanecendo firme no bem, realiza o Caminho que leva ao
imortal, abrindo caminho para a essência do dhamma, feliz de destruir não teme ao pensar
que o rei da Morte vai vir. [S. v, 402].
Aquêle para quem não mais existe a apetência, aquêle que sabe e não duvida, que conseguiu
imergir no imortal, é êle que eu chamo um brâmane. [Dh.411].
[O mesmo se dá com as três outras etapas da vigilância, a respeito da sensação, do espírito e
dos estados mentais]. [S. v, 181-182].
Segui vosso caminho, ó monges, o espírito bem instalado nas quatro etapas da vigilância: mas
não crêde que seja isso o imortal. [S. v, 184].
Tendo para si seis condições, o chefe de família Tapussa atingiu a consumação no Descobridor
da Verdade: êle viu o imortal, e segue seu caminho tendo realizado o imortal. Quais são as seis
condições? Tem uma confiança inquebrantável no Desperto, uma confiança inquebrantável no
dhamma, uma confiança inquebrantável na Ordem; tem um hábito moral ariano, o
conhecimento ariano, a liberdade ariana. [A. iii, 450-451].

13. O INCOMPOSTO.
Existe um não-nascido, um não-tornado-a-ser, um não- feito, nem não-composto; se não fôsse
por êste não-nascido, não-tornado-a-ser, não-feito, não-composto, não seria possível neste
mundo nenhuma evasão do nascimento, do porvir. do fazer da composição. Mas porque existe
êste não-nascido, não-tornado-a-ser, não-feito, não-composto, é possível que haja uma
evasão, do nascimento, do porvir, do fazer, da composição. (A. i, 260). [Ud.80].
Eu vos ensinarei, ó monges, o incomposto e o caminho que leva ao incomposto. Em que
consiste o incomposto? Tudo o que é destruição da paixão, destruição do ódio, destruição da
ilusão, eis o que se chama o incomposto. E qual é o caminho que leva ao incomposto? É a
vigilância relativa ao corpo. E um [outro] caminho que leva ao incomposto, é a tranqüilidade e
a penetração. Assim, monges, eu vos ensinei o incomposto é um caminho que leva ao
incomposto. Tudo o que o Mestre pode fazer por compaixão, procurando o bem-estar de seus
discípulos, eu o fiz por vós por compaixão. [S. IV, 359].
Monges, há no composto três características do composto. Quais são elas? É que dêle o
surgimento pode ser visto, a destruição pode ser vista, a mudança do estado existente pode
ser vista. Monges, há no incomposto três características do incomposto. Quais são elas? É que
dêle não se vê o surgimento, não se vê a destruição, não se vê a mudança no estado existente.
[A. I, 152].
Ãnanda, quando uma forma material é passada, destruída, mudada, quando uma sensação,
uma percepção, construções, uma consciência passada foram destruídas, mudadas, se se pode
discernir seu surgimento, se se pode discernir sua destruição, se se pode discernir uma
mudança no estado exis- tente, é destas mesmas coisas que se discerniu o surgimento, a
destruição, a mudança no estado existente, é destas mesmas coisas que se discerniu o
surgimento, a destruição, a mudança no estado existente. Quando uma forma material é
[ainda] não nascida, não manifestada, quando uma sensação, uma percepção, construção,
uma consciência são [ainda] não nascidas, não manifestadas, se se pode discernir seu
surgimento, sua destruição, uma mudança no estado existente, é destas mesmas coisas que se
discernirá o surgimento, a destruição, a mudança no estado existente. Quando uma forma
material é nascida, manifestada, quando urna sensação, uma percepção, construções, uma
consciência são nascidas, manifestadas, se discerne seu surgimento, se se discerne sua
destruição, se se discerne uma mudança no estado existente, é destas mesmas coisas que se
discerne o surgimento, a destruição e a mudança no estado existente. [S. iii, 39-40].

VII. A TRANSCENDÊNCIA
Uma vez que o Descobridor da Verdade, mesmo presente de fato, não é compreensível, é
impróprio dizer-se dêle, da Personalidade Extrema, da Personalidade Superior, daquele que
atingiu o Superior, que após sua morte o Descobridor da Verdade vem a ser; que êle não vem
a ser; que êle vem a ser ao mesmo tempo que êle não vem a ser; que êle não está nem no
porvir nem no não-porvir. [S. iii, 118; IV, 384; cf. S. DI, 112; M. I, 140].
Sustentar que êle vem a ser após a morte, que êle não vem a ser, que êle vem a ser ao mesmo
tempo que êle não vem a ser que êle não está nem no porvir nem no não-porvir, é considerar
o Descobridor da Verdade como corpo, sensação, percepção, construções, consciência. Está
aqui a razão pela qual êste assunto não é revelado pelo senhor. [S. IV, 384-386].
O Descobridor da Verdade não diz nada que não saiba ser um fato, nada de falso, sem relação
com o objetivo, nada também que seja agradável ou desagradável a outrem; êle não diz nada
que saiba ser um fato, que seja verdadeiro, mas que não teria relação como o objetivo e que
seria desagradável e repugnante a outrem. Mas se o Descobridor da Verdade sabe que uma
coisa é um fato, que ela é verdadeira, que ela tem relação com o objetivo, mesmo se ela fôsse
desagradável e repugnante a outrem, êle sabe o bom momento para dizê-Ia. O Descobridor da
Verdade não diz nada que não seja um fato, que seja falso, sem relação com o objetivo,
mesmo se é agradável e deleitosa a outrem: e não diz nada que seja um fato, verdadeiro, mas
sem relação com o objetivo e [aliás] agradável e deleitosa a outrem. Mas se o Descobridor da
Verdade sabe que uma coisa é um fato, que ela é verdadeira, que ela tem relações com o
objetivo e que ela é agradável e deleitosa a outrem, êle sabe o bom momento para dizê-Ia.
Qual é a razão disto? O Descobridor da Verdade tem compaixão pelos sêres. [M. I, 395].
Ó monges, o leão, rei dos animais, sai à noite de seu covil. Fazendo isto, êle se espreguiça e
contempla em tôdas as direções os quatro quadrantes do mundo. Depois êle emite três vêzes
seu rugido de leão e se põe à busca da prêsa. Qual é a causa disto? [ele ruge, pensando:]
"Possa eu não causar â destruição, dos animaizinhos extraviados". Quanto à palavra "leão", ó
monges, é um nome do Descobridor da Verdade, do Perfeito, do totalmente Desperto.
Quando êle ensina o dhamma a uma assembléia, é com efeito seu rugido de leão. O
Descobridor da Verdade tem dez faculdades: quando êle as possui, êle pretende a hegemonia,
êle ruge com o rugido dos leões nas assembléias, êle põe em movimento a roda de Brahma.
Quais são as dez faculdades? O Descobridor da Verdade tem a presciência da ocasião causal tal
como ela se produz verdadeiramente e do que não é a ocasião causal da coisa em si Do fato
que êle tem esta presciência, é uma faculdade em virtude da qual êle pretende a hegemonia.
Além disso, O Descobridor da Verdade tem a presciência da aquisição dos atos por si mesmo,
no passado, futuro e presente, tal como se produz verdadeiramente, tanto na ocasião causal
como em seu resultado. Do fato que êle tenha esta presciência. Além disso, o Descobridor da
Verdade tem a presciência, do Caminho que leva a todos os destinos, tal como se produz
verdadeiramente. Do fato que êle tenha esta presciência. Além disso, o Descobridor da
Verdade tem a presciência do mundo tal como êle se produz verdadeiramente em todos os
seus traços variados e diversos. Do fato que êle tenha presciência. Além disso, o Descobridor
da Verdade tem a presciência do mundo tal como êle se produz verdadeiramente em todos os
seus traços variados e diversos. Do fato que êle tenha presciência. Além disso, o Descobridor
da Verdade tem a presciência dos diversos caracteres de sêres tais como se produzem
verdadeiramente. Do fato que êle tenha esta presciência. Além disso, o Descobridor da
Verdade tem a presciência do estado (Ma. Ii, 130) das faculdades dos outros sêres, das outras
pessoas, tais como elas se produzem verdadeiramente. Do fato que êle tenha esta presciência.
Além disso, o Descobridor da Verdade tem a presciência da mácula, da purificação, do
surgimento de tudo o que se pode atingir na meditação, a liberdade e a contemplação tais
como elas se produzem realmente. Do fato que êle tenha esta presciência. Além disso, o
Descobridor da Verdade se lembra de suas múltiplas moradas anteriores, isto é, um
nascimento, dois nascimentos, assim sucessivamente... até cem mil nascimentos; e igualmente
as diversas involuções das idades, as diversas evoluções das idades, as diversas involuções-
evoluções das idades; lembrando-se que: "Neste mundo eu tinha êste ou aquêle nome, eu era
desta ou daquela tribo, dêste ou daquele clã, era assim alimentado, me aconteceu êste prazer
ou aquela dor, a duração de minha vida era esta ou aquela. Sendo assim, eu morri neste
mundo e ressurgi nesta ou naquela existência. Lá, também, eu tive êste ou aquêle nome, era
desta ou daquela tribo...a duração de minha vida era esta ou aquela. Sendo assim, eu morri
neste mundo, e ressurgiu aqui". Assim êle pode lembrar-se de suas moradas anteriores em
todos os seus detalhes e todos os seus traços. Do fato que o Descobridor da Verdade tem esta
presciência. Além disso, o Descobridor da Verdade vê os sêres pela sua visão de deva que é
purificada e que ultrapassa a dos homens; êle tem a presciência dos sêres [êle vê] que segundo
a conseqüência de seus atos êles morrem e ressurgem, que êles são vis, excelentes, feios,
belos, partidos para um mau destino, partidos para um bom destino, [e êle sabe isto]: "Em
verdade êstes sêres dotados de uma má conduta do corpo, da palavra e do pensamento,
zombando dos arianos, tendo opiniões errôneas, praticando atos que resultam da opinião
errônea, êsses quando da decomposição de seu corpo após a morte, surgem no Deserto, o
Mau Destino, a Queda, o Inferno". Ou então: "Esses sêres, ao contrário, dotados de uma boa
conduta do corpo, da palavra e do pensamento, não zombando dos arianos, de opiniões
corretas, praticando atos que resultam das opiniões corretas êsses quando da decomposição
de seus corpos após a morte, surgem no Bom Destino, no mundo celeste". Uma vez que êle vê
os sêres pela visão de deva... êle tem a presciência dos sêres segundos seus atos. Do fato que o
Descobridor da Verdade tem esta presciência... Além disso, o Descobridor da Verdade, pela
destruição dos fluxos, e tendo desde esta vida atingido pelo seu próprio conhecimento
superior a liberdade do coração, a liberdade da sabedoria que são sem fluxos, aí permanece.
Dêste fato, é uma faculdade do Descobridor da Verdade, em virtude da qual êle pretende a
hegemonia, ruge do rugido do leão nas assembléias, e põe em movimento a roda de Brahma.
[A. v, 32-36].

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