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O ANFÍBIO

Revista do Corpo de Fuzileiros Navais – no 21 – Ano XXII- 2002


Foto: Odair Amancio Freire - Concurso de Fotografias do CFN
O ANFÍBIO Sumário
Nossa Capa .......................................................................................... 2
Editorial ............................................................................................... 2
Evacuação de não-combatentes, tarefa do conjugado anfíbio ........... 4
A nova Força de Fuzileiros da Esquadra .......................................... 13
O Comando da Tropa de Desembarque ............................................. 27
A importância do Batalhão de Controle Aerotático e Defesa Antiaérea na
formação dos GptOpFuzNav ............................................................ 35
Novos Navios Anfíbios ...................................................................... 41
A Companhia de Apoio ao Dssembarque .......................................... 49
Sensores ............................................................................................. 55
A transmissão de dados nos Grupamentos Operativos de Fuzileiros
Navais ................................................................................................ 61
O Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais .................................. 71
Tropas Anfíbias pelo mundo .............................................................. 77
O incremento do Apoio de Fogo Orgânico dos Batalhões de Infantaria de
Fuzileiros Navais – o morteiro 120mm é a solução? ......................... 79
Educação, formação, cultura militar e sociedade ............................. 83
Sociedade e Defesa – Passado, presente e tendências ....................... 91
O Comando do Material de Fuzileiros Navais e o Apoio Logístico aos
meios da Força de Fuzileiros da Esquadra ..................................... 101
SIGeP – modernidade na gestão de pessoal do CFN ...................... 111 BRASIL
O impacto das inovações Tecnológicas e a importância da Corpo de Fuzileiros Navais
informática para o emprego operativo do CFN ........................... 115
Trafalgar, Ülm e Midway – uma análise estratégica operacional ... 123 O ANFÍBIO – n o 21 – Ano XXII - 2002
Biografia .......................................................................................... 139 Comandante-Geral do Corpo de
Fuzileiros Navais
Almirante-de-Esquadra (FN)
Carlos Augusto Costa
Como órgão de divulgação do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), a primeira revis-
Editor Responsável
ta foi editada em setembro de 1939 com o nome de “O Naval”, circulando até 1943.
Capitão-de-Mar-e-Guerra (FN)
Em março de 1954, surgia o primeiro jornal dos Fuzileiros – “O Anfíbio” –, publi-
Fernando Cesar da Silva Motta
cado até 1977.
Aproveitando esta denominação, a partir de 1961, iniciou-se a edição da Revis-
Projeto Gráfico e Editoração
ta dos Fuzileiros Navais – O ANFÍBIO – em circulação até hoje. Destina-se a
CC (T) Yeda Lúcia Arouche Nunes
divulgar a doutrina anfíbia e o moderno emprego de Forças de FN, difundir a
Revisão
história e tradições do CFN, e constituir-se em foro para debate de idéias que
SO FN Pedro de Lima Bandeira
estimulem o aperfeiçoamento técnico-profissional.
As opiniões emitidas nos artigos deste periódico são de inteira responsabilida- Assessoria de Relações Públicas do
de de seus autores, não refletindo, necessariamente, o pensamento ou atitude do Comando-Geral do Corpo de
Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, a não ser que assim esteja expres- Fuzileiros Navais
samente declarado. Fortaleza de São José, s/n
Todos os trabalhos aqui publicados são de caráter gratuito. Ilha das Cobras – Centro
É permitida a reprodução total ou parcial das matérias. Solicita-se a citação da Rio de Janeiro – RJ – 20091-000
fonte e a remessa de um exemplar da publicação. Tel.: (21) 3870-6627

2002 - O Anfíbio - 1
EDITORIAL
Nossa Capa:
Este Editorial reveste-se de particular significado, pois o Anfíbio de
2002, vem prestar homenagem ao Alte (FN) Sylvio de Camargo, publi-
cando, a seguir, o que escreveu sobre este “reformador do CFN”, o Alte
(FN) Roberval Pizzarro Marques, em sua última colaboração para “O
Anfíbio”, antes de seu passamento ocorrido em setembro último.
Ficam os nossos agradecimentos e reconhecimento póstumos ao
Alte Roberval, ex-Comandante-Geral, oficial de brilhante carreira que
sempre engrandeceu o Corpo de Fuzileiros Navais.
“O Anfíbio” apresenta, ainda, a “Evacuação de não-combatentes,
tarefa do conjugado anfíbio”, com destaque de primeiro artigo, tendo
“O Anfíbio” em suas em vista a globalização que impõe repensar conceitos como soberania,
primeira e quarta capas, segurança e interesses nacionais, apontando o oportuno assunto como
apresenta os novos um dos mais prováveis empregos dos Fuzileiros Navais.
meios do CFN.
Outras importantes matérias que podem extravasar as paredes da
instituição, são:”A Nova Força de Fuzileiros da Esquadra”; o “Comando
do Material de Fuzileiros Navais, e o Apoio Logístico aos Meios da Força
de Fuzileiros da Esquadra”; “O Comando da Tropa de Desembarque – o
que é e para que serve”; “Novos Navios Anfíbios”; e tantas outras de
igual importância estabelecem uma relação entre dois fatos históricos
primordiais para a trajetória do CFN: a fase pós II Guerra Mundial, ou
década Alte. Sylvio de Camargo, e o CFN do 3° Milênio.

lmirante Camargo:
Almirante amargo:
o reformador do CFN*
Abaixo, o Alte (FN) Sylvio de
Camargo, durante a cerimônia
de sua promoção a Contra-
A Marinha comemora este ano o centenário do nas-
Almirante, em 1945, na
cimento do Almirante Sylvio de Camargo, o grande reformador do
Fortaleza de São José (RJ). Corpo de Fuzileiros Navais. Durante o seu longo período no
exercício do cargo de Comandante-Geral, desde novembro
de 1945 até dezembro de 1955, a corporação passou por
grandes transformações, fruto do seu idealismo, per-
severança e visão estratégica.
Por iniciativa própria, durante a sua profícua carreira,
tomou todas as medidas necessárias às grandiosas reformas
por que passou a corporação durante a segunda metade do
século passado.
Dotado de inteligência privilegiada e habilidade, ainda
como Capitão-Tenente pediu transferência voluntariamente
da Armada para o quadro de Oficiais Fuzileiros Navais,
depois de brilhante curso de aperfeiçoamento na EsAO do
EB. Após estágio no “Royal Marines” na Inglaterra, no posto
de Capitão-de-Corveta, dedicou-se principalmente ao estudo
das principais providências para a reformulação do CFN.
Com sua visão estratégica, verificou que a nossa Marinha
não possuía, em nível adequado, as indispensáveis forças de
desembarque, como componentes terrestres de uma cam-
panha naval, devidamente dotadas de equipamento moderno
e do material humano adestrado para a mais difícil das
operações militares que é o combate anfíbio.

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O Capitão-de-Mar-e-Guerra (FN) Sylvio de Camargo, durante o desfile militar


de Sete de Setembro, na Avenida Presidente Vargas, Rio de Janeiro, em 1945.
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As vitoriosas campanhas no Instrução – que hoje leva o seu evoluções inéditas e novos instru-
Pacífico, com o emprego ade - nome – mediante concurso de mentos, inclusive as famosas gai-
quado do “US MARINE CORPS”, projetos de âmbito nacional, cujas tas escocesas, transformando es-
durante a II Guerra Mundial, edificações de linhas arquitetô- sa organização musical em uni-
que tantas glórias trouxe à nicas modernistas, após quase 50 dade paradigma, sem paralelo nas
Marinha Americana, também anos, ainda representam marco forças armadas.
contribuíram para o judicioso da arquitetura brasileira. Verda- A sua personalidade vibrante,
estudo da modernização do CFN. deiro laboratório de pesquisas e a persistência nas atitudes e sua
Deu os passos decisivos para estudos do emprego das forças grande capacidade administrativa
as modificações que deveriam de desembarque nas operações davam-lhe o necessário prestígio
ocorrer na trajetória de transfor- anfíbias, esse órgão tem a im- para superar os óbices que natu-
mação de uma tropa afeita pra- portantíssima tarefa de preparar ralmente surgiram.
ticamente aos serviços de guarda os quadros do CFN e estudar e Foi esse o seu principal legado.
de estabelecimentos navais, para acompanhar a evolução da sua Legado de honradez, extrema de-
a existência de um conjunto de doutrina. Dotado de simuladores dicação ao serviço e incomum
unidades de elevado nível de pron- e modernos instrumentos de en- espírito de corpo, que influencia-
tificação para o combate, dedi- sino está em condições de mi- ram de maneira memorável o pro-
cadas, especialmente, às opera- nistrar todos os cursos especia- cesso gradual e perene do desen-
ções anfíbias, razon d´etre da lizados para os fuzileiros navais, volvimento da corporação, inte-
corporação. Com esse desiderato inclusive o de aperfeiçoamento grada aos demais componentes
conseguiu a aprovação de novo para oficiais. operativos da Marinha, nos últi-
Regulamento para a corporação, Procurou ampliar relevante- mos cinqüenta anos.
em 1950, considerado verdadeira mente o seu quadro de oficiais, Tendo assumido o Comando-
referência histórica do CFN, por inclusive com a criação de posto Geral com apenas 43 anos, teve
prescrever a criação da Força de mais elevado na hierarquia dos a oportunidade de comandá-la por
Fuzileiros da Esquadra (FFE), so- seus oficiais-generais, além de dez anos, dando o exemplo para
mente efetivamente ativada a conseguir notável aumento dos várias gerações de oficiais, que o
partir de 1957. efetivos de praças e graduados do reverenciam até hoje.
Durante o seu proficiente co- CFN. Foi promovido a Almirante
mando, tomou decisões básicas Melhorou de maneira muito (cinco estrelas) na reserva, em de-
no campo da organização da tropa, significativa o sistema de armas corrência da legislação em vigor
dos meios materiais e de recursos das unidades operativas, com a na época, e, ainda, continuou em
humanos. Promoveu, assim, além aquisição de novo armamento plena atividade, por alguns anos,
do sistema organizacional para a portátil e coletivo, inclusive subs- trabalhando na iniciativa privada
FFE, a aquisição, o recebimento tituindo os velhos fuzis de repe- como Diretor de uma importante
e ampliação de terrenos na Ilha tição por novos semi-automá- empresa de mineração.
do Governador, destinados princi- ticos, de fabricação belga, consi- O Alte. SYLVIO DE CAMAR-
palmente ao aquartelamento das derados os mais modernos para GO foi o grande reformador do
novas unidades operativas a se- a época. Corpo de Fuzileiros Navais e é com
rem criadas. Para ocupar e apro- Modernizou a ORDEM UNI- justiça merecedor de todas as
veitar logo a área recebida para DA, alterando alguns movimentos homenagens que a Marinha presta
exercícios mandou construir mo- básicos, tornando a apresentação a esse insigne Chefe Naval, no ano
derna Linha de Tiro e instalou da tropa mais marcial, o que re- que se comemora o centenário do
provisoriamente o novel Centro dundou em posterior modificação seu nascimento. O tempo, por mais
de Recrutas, com efetivo da an- do respectivo regulamento para que passe, não apagará suas
tiga Companhia Escola. as forças armadas. Valorizou a memoráveis realizações.
Como sempre esteve preocu- carreira dos músicos, profissio-
Alte (FN) Roberval Pizarro Marques
pado com preparo de recursos nalizando-os e dotando as Ban- Rio, 15.08.2002
humanos especializados, provi- das de Músicas de melhores ins-
*Este artigo foi entregue ao Comandante-
denciou o planejamento e a cons- trumentos. A Banda Marcial re- Geral pelo Alte Roberval, dois dias antes do
trução de portentoso Centro de cebeu diferenciada formatura, seu falecimento.

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Evacuação de não-combatentes,
tarefa do conjugado anfíbio
CF(FN) PAULO MARTINO ZUCCARO E CF (FN) JORGE ARMANDO NERY SOARES

“Nesse novo mundo de incertezas, nesse novo mundo em que o Brasil tem
um papel crescente, o desenvolvimento das Forças Armadas é o esteio da
nossa possibilidade de continuarmos no caminho que tem sido trilhado por
nós, de uma afirmação tranqüila dos nossos interesses, da nossa soberania,
sempre nesse espírito de paz e de concórdia, mas que não descuida da necessi-
dade da defesa”. – Fernando Henrique Cardoso

AS PECULIARIDADES DO ros sobre a estabilidade política-es- Hoje, o controle, em nível mundi-


CONTEXTO GLOBAL NESTE tratégica mundial. al, desenvolvido pelas potências cen-
COMEÇO DO SÉCULO XXI Esseclimademudançaatingeatudo trais sobre questões como o respei-
e a todos. Sociedade e Estado, junta- to aos direitos humanos; o narco-
Vivemos uma época de grandes mentecomsuasinstituições,aíincluin- tráfico; os conflitos étnicos-religiosos;
transformações políticas, sociais e do as Forças Armadas, precisam ajus- e a preservação ambiental e dos re-
econômicas. As incertezas, a im- tarem-se à nova realidade mundial. cursos naturais, indicam a necessida-
previsibilidade nas relações interna- Refletir sobre os caminhos do futuro de de se repensar conceitos como
cionais foram acentuadas com o fim procurando, tanto quanto possível, soberania, segurança e interesses na-
da guerra fria, dificultando, ainda enxergá-los com os olhos do presente, cionais. Aos poucos, novos valores
mais, a formação de conceitos segu- é tarefa vital para qualquer Estado. são introduzidos no relacionamento

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entre Estados. Expressões como di- desenvolvidos e o mundo em desen- Copenhague para o Desenvolvimen-
reito de ingerência, interesse coletivo, volvimento. Há uma percepção, por to Social, e a própria conclusão da
patrimônio da humanidade, seguran- exemplo, de que o protecionismo Rodada Uruguai, que levou à cria-
ça ecológica global, respeito à sobe- vem sendo condenado somente co- ção da OMC.
rania condicionada ao respeito aos mo instrumento de desenvolvimento As divergências e assimetrias ma-
direitos humanos, entre outros, aca- dos mais pobres e aceito quando se nifestaram-se, por exemplo, na de-
bam por intimidar aqueles que não converte em instrumento de defesa sagregação territorial da União So-
têm voz ativa e capacidade para in- dos privilégios dos mais ricos. Os paí- viética e da Iugoslávia. Outros frutos
fluir no concerto das nações. ses em desenvolvimento deparam-se desse poder fragmentador estão pre-
Por outro lado, com a revolução com barreiras intransponíveis a seus sentes também nas crises financeiras
científica e tecnológica, os Estados produtos, ameaçando anular o po- (por vezes com graves conseqüênci-
viram-se impossibilitados de atende- tencial igualitário do comércio inter- as sociais e política para os Estados
rem suas necessidades numa base nacional, gerando mecanismos de atingidos) e na proliferação de con-
exclusivamenteindividualeterritorial. congelamento das desigualdades. tenciosos comerciais, gerando rea-
As normas de mútua colaboração Este é o problema das assimetrias na ções contrárias como os protestos
provêm, por conseguinte, das exigên- globalização. anti-globalização ocorridos em
cias de cooperações decorrentes da Assim, como bem conceituou o Seattle, Washington e Gênova. Na
crescente interdependência, impulsi- Chanceler brasileiro Celso Lafer, ve- América Latina, episódios recentes
onada por avanços na comunicação, mos que “desde o fim da Guerra Fria, na Argentina e Venezuela mostraram
no transporte, na indústria moderna o sistema internacional passou a mo- o quão frágil é o sistema político na
e no comércio, levando à diluição das ver-se de acordo com duas lógicas região, mesmo buscando-se fortale-
fronteiras e ao estreitamento da dife- contraditórias. Uma delas, baseada cer as instituições democráticas. Na
rença entre o “interno” e o “exter- em forças centrípetas, centrada na África a miséria e as disputas inter-
no”, tornando o mundo cada vez mais convergência de expectativas, impul- nas pelo poder continuam presentes
interdependente, globalizado. Conse- sionada pela globalização. A outra, no dia-a-dia daquele continente, sem
qüentemente, a presença de cidadãos impulsionada por forças centrífugas, que os países mais ricos pensem em
estrangeiros em diferentes países vem indutoras de uma lógica da fragmen- amenizar essa situação. No Oriente
se tornando comum, já que represen- tação, entre elas a das identidades”. Médio, o conflito entre israelenses e
tam os interesses econômicos, diplo- A lógica da convergência pode ser palestinos surpreende o mundo a
máticos ou mesmo cultural do seu visualizada nas ações da comunida- cada dia, com sucessivos atos de vi-
país. Creio útil frisar que somos uma de internacional em encontrar solu- olência, que renegam o próprio di-
das 10 maiores economias do mun- ções negociadas em uma série de reito humanitário. No próprio conti-
do, com empresas brasileiras atuan- áreas de interesse global: a Confe- nente europeu, berço da idéia antiga
do em diferentes países, notada- rência do Rio sobre Meio Ambiente e moderna de democracia, depa-
mente na África e América do Sul, e Desenvolvimento, em 1992, a Con- ramo-nos com manifestações de ex-
além de mantermos relações dinâmi- ferência de Viena tremismo e intolerância. O terroris-
cas com a maioria dos países, em to- sobre Direitos mo internacional, por sua vez, encon-
dos os Continentes. Dispõe o Brasil Humanos, a trou na massa de miseráveis e sem
de 92 Embaixadas, 8 Representações Cúpula de esperança, particularmente
junto a organismos internacionais, 43 no mundo islâmico, ter-
Consulados e 19 Vice-Consulados, o reno fértil e conseguiu
que dá a medida da intensidade de catalisar o sentimento
nosso contato com o mundo. contrário a essas desi-
Paradoxalmente, essa globaliza- gualdades e atacou a
ção que promove oportunidades e maior potência do mun-
oferece perspectivas promissoras, do, símbolo do mundo
ainda não parece ser capaz de aca- globalizado. Assim, a
bar com as assimetrias que perpetu- paz universal parece, a
am as desigualdades entre os países cada dia, um ideal mais

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difícil de ser atingido. Política de Defesa que realizam este tipo de operação,
Nesse contexto, o Nacional (PDN), logicamente respaldados na sua ca-
Estado brasileiro pre- emanada do mais pacidade de intervenção militar em
cisa entender clara- alto nível do Estado, nível global. Esta capacidade ficou
mente às mudanças veio respaldar o demonstrada pela seqüência de ope-
em curso no cená- preparo militar na- rações de evacuação de não-com-
rio mundial e adap- cional, refletindo os batentes realizadas por sua forças de
tar-se para não per- anseios da socieda- fuzileiros navais no século XX:
der o controle do seu de e atendendo aos 1913 – México – distúrbios civis em
próprio rumo. O princípios e Yaqui Valley;
ritmo vertiginoso objetivos estabele- 1948 – China – Nanking e Xangai;
das mudanças, ine- cidos na Cons- 1954/1955 – China – Ilhas Tachen;
rente ao processo tituição Federal. 1956 – Egito – Alexandria;
de globalização, afeta hoje pratica- Diante desse quadro mundial bas- 1965 – República Dominicana
mente todas as disciplinas e tante volátil, onde o Brasil busca seu 1974 – Chipre;
atividades. No campo da defesa, as espaço, a probabilidade de situações 1975 – Vietnam do Sul (3 de abril);
alterações são marcantes. Mudaram inesperadas e repentinas acontece- 1975 – Cambodja;
os fatores de tempo e espaço bem rem em regiões de nosso interesse, 1975 – Vietnam do Sul (12 de abril)
como a natureza das ameaças e dos colocando brasileiros em situação de – evacuação de 1400 cida-
atores envolvidos. Mesmo concor- riscoiminenteaumentousignificativa- dãos norte-americanos e
dando que a função do Estado este- mente. Caso tal hipótese se concre- 5500 nacionais de diversos
ja enfraquecida pelas tendências tize, o Governo brasileiro, no uso de países amigos;
transnacionais dos dias de hoje, con- suas faculdades e em nome de suas 1976 – Líbano – retirada de 250 ci-
tinua sendo ele o ator principal nas obrigações, deverá estar em condi- dadãos norte-americanos e
relações internacionais e, juntamente ções de empregar suas capacidades europeus;
com suas instituições, aí incluídas as para salvaguardar a vida dos seus ci- 1982 – Granada;
Forças Armadas, o legítimo repo- dadãos, dos bens e recursos nacio- 1982 – Líbano – retirada de mem-
sitório dos interesses de um povo. nais ou sob sua jurisdição. Ou seja, bros da Organização de Li-
Dessa forma, um Estado tem que ser capaz de planejar e executar ope- bertação da Palestina por for-
possuir o direito de exercer sua au- rações que garantam a retirada do ças multinacionais deBeirute;
todeterminação, conforme definido pessoal de áreas de risco, batizada 1990 – Libéria – evacuação de ci-
no Pacto sobre Direitos Civis e Polí- na Marinha como Evacuação de dadãos e funcionários da em-
ticos da Organização das Nações Não-Combatentes (ENC). baixada americana em
Unidas e não se submeter a imposi- Monróvia;
ções discutíveis, como as estabe- ANTECEDENTES 1998 – Serra Leoa – retirada de
lecidas pelas grandes potências. 2500 civis e nacionais de ou-
Hoje, as questões de segurança e A história demonstra a postura de tros países;
a busca de mecanismos de gover- alguns países em relação à seguran- 1998 – Etiópia – evacuação de 500
nança no contexto da globalização ça de seus cidadãos no exterior. Es- civisefetuadapor forçascom-
impõem aos Estados a perfeita iden- tes Estados optaram por realizar ope- binadas;
tificação dos seus interesses vitais. É rações de evacuação de seus nacio- 1998 – Guiné Bissau – retirada de
dentro deste espírito que devemos nais, de território estrangeiro, quan- civis e funcionários diplomá-
fortalecer nossa posição em matéria do estes foram submetidos a uma ticos; e
de segurança e defesa, conduzindo ameaça real, seja pela escalada de 1998 – Indonésia – retirada de fa-
avaliações realistas dos cenários re- uma crise, seja pela atuação de fac- miliares dos funcionários di-
gional e mundial. Por sua vez essas ções dissidentes do governo legal- plomáticos.
avaliações devem balizar o preparo mente estabelecido.
e o emprego da capacitação nacio- Os Estados Unidos da América Podemos citar a OPERAÇÃO
nal, em todos os níveis do poder. A (EUA) são um bom exemplo de país SHARP EDGE na LIBÉRIA, como

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exemplo de uma ação bem sucedi- rentes velocidades cronológicas. Te-
da, que ficou conhecida pela forma mos, por exemplo, o tempo financei-
detalhada e inovadora pela qual o seu ro, on-line, instantâneo, onde os flu-
planejamento e execução foram con- xos financeiros especulativos, na sua
duzidos, servindo inclusive, para con- volatilidade, vêm produzindo crises
solidar a doutrina de emprego de for- sucessivas nos países de mercados
ças de fuzileiros navais americanas emergentes. O tempo da mídia, tam-
neste tipo de operação. bém um tempo on-line, impactando
As operações acima menciona- imediatamente a opinião pública, ge-
das, realizadas com sucesso e com terizadas por infiltrações sigilosas ou rando reações nos mercados e da
um número reduzido de baixas, por ações em força, seguidas de uma vida política.
exceto a ação no IRÃ, permitiram aos rápida retirada. A dimensão da for- Já o tempo diplomático é aquele
norte-americanos o desenvolvimen- ça de resgate depende das ações a em que ocorrem as negociações po-
to de técnicas e táticas específicas, serem desenvolvidas, do número de líticas ou econômico-comerciais. Por
cujas características distintas das de- elementos que mantêm os nacionais considerar todos os demais tempos,
mais operações navais, promoveram confinados, do ambiente em que se ele tende a ser mais lento, mais elás-
o estabelecimento de uma doutrina, realizará o resgate, e da possibilida- tico. Além disso, a Constituição, em
a qual, aliada ao estado da arte de de de reação da força oponente. seu Art. 4º, declara que o Brasil
seus meios, favorece a salvaguarda Operações de evacuação de não- “rege-se nas suas relações internaci-
de seus cidadãos em qualquer parte combatentes são operações militares, onais pelos seguintes princípios: in-
do mundo. em princípio não belicosas – quem a dependência nacional; prevalência
Em junho de 1998, após a eclo- executa não se encontra em estado dos direitos humanos; autodetermi-
são de nova guerra civil em Guiné de beligerância com o país hospedei- nação dos povos; não-intervenção;
Bissau, cerca de 2500 estrangeiros, ro – realizadas para salvaguardar igualdade entre os Estados; defesa da
entre eles 80 brasileiros viram-se em pessoal civil ou militar, submetido à paz; solução pacífica dos conflitos;
dificuldades para deixarem aquele situação de grande risco, em locais repúdio ao terrorismo e ao racismo;
país. Felizmente todo esse contingen- onde a situação esteja tão compro- cooperação entre os povos para o
te conseguiu embarcar em um navio metida que inviabilize a saída da re- progresso da humanidade; e conces-
mercante português que demandou gião por meios convencionais, não são de asilo político”. Assim, deve-
o porto de Dacar, no Senegal. As- estando, entretanto, essas pessoas mos esperar que, antes de realizar-
sim, constatamos que a possibilida- sob confinamento. mos uma ENC, certamente serão
de de termos cidadãos nacionais cor- A ENC poderá acontecer em um empregados todos os meios diplo-
rendo risco em terras estrangeiras é ambiente permissivo, onde não são máticos disponíveis para evitá-la, fa-
real, podendo acontecer a qualquer esperadas, em princípio, oposição à zendo com que as negociações pos-
momento e sem aviso prévio. sua execução ou em ambiente hostil, sam se estender por bastante tempo.
quando a evacuação se dará sob a Com a aceitação desta premissa,
CARACTERÍSTICAS ameaça de atos terroristas, manifes- cresce de importância o emprego do
PRÓPRIAS DAS OPERAÇÕES tações populares violentas e até mes- Poder Naval (PN), particularmente
DE EVACUAÇÃO DE mo enfrentamento com forças orga- a constituição de uma Força Tarefa
NÃO-COMBATENTES nizadas. Anfíbia (ForTarAnf). Sua mobilida-
de, associada à possibilidade de per-
Em primeiro lugar deve-se fazer RAZÕES QUE APONTAM manência, pré-posicionadas em
uma correta distinção entre operação PARA O CONJUGADO águas internacionais, por longos pe-
de regate e evacuação de não-com- ANFÍBIO ríodos de tempo, conferem ao PN
batente. A primeira é uma operação características determinantes para o
militar belicosa executada com o A globalização, como vimos, di- seu emprego em operações de ENC.
propósito de libertar e retirar pessoal minuiu os espaços e acelerou o tem- Em paralelo, a versatilidade do PN,
civil ou militar, submetido a confina- po. As transformações no mundo de ou seja, a capacidade de dosar o
mento. Estas operações são carac- hoje acontecem, por isso, em dife- poder de destruição, alterando a pos-

2002 - O Anfíbio - 7
tura militar no emprego da força, e a Se houver a anuência do governo terno, onde uma facção em luta con-
sua flexibilidade, caracterizada pela local, não haverá inconvenientes le- segue conduzir operações militares
capacidade de organizar-se de acor- gais, já que, a força a realizar tal ope- continuadas e controlando parcela
do com a missão, ratificam sua vo- ração terá seu ingresso autorizado no significativa do território do país-alvo,
cação para a realização deste tipo de território do país-alvo. Caso contrá- caracterizar-se-ia a existência de um
operação. Assim, se no decorrer da rio, o enquadramento legal da ope- conflito armado não-internacional.
operação cidadãos, por qualquer ração é de difícil caracterização. O Neste caso, o governo estabelecido
motivo, caiam prisioneiros de forças ingresso não autorizado de forças em seria forçado a admitir, nos termos
hostis, passando a uma condição de outro país é uma forma de agressão do Protocolo Adicional II às Con-
confinamento, rapidamente o Co- e, portanto, seria em princípio ilegal, venções de Genebra, a aplicação das
mandante da Força de Evacuação independentemente da natureza da regras do Direito Internacional Hu-
poderá alterar sua postura e organi- ameaça que paire sobre os nossos manitário. Em particular, a 4ª Con-
zação, de acordo com um planeja- cidadãos. venção de Genebra daria algum am-
mento prévio, de uma operação ENC Este tipo de operação é funda- paro legal ao emprego de uma força
para de resgate. Portanto, é funda- mentado no argumento de que, “o de evacuação, já que assegura a
mental que se disponha de elemen- Estado tem o dever de proteger o seu proteção aos civis nos territórios ocu-
tos e meios, não envolvidos dire- nacional e que, o Estado onde se pados e aos estrangeiros no territó-
tamente na operação de ENC, em encontra o estrangeiro também tem rio do Estado beligerante.
condições de realizar operações de o dever de protegê-lo”. Estes deve- Outra argumentação seria a de
resgate. res são previstos, no entanto não au- que o governo estabelecido já não
Contudo, não se descarta total- ferem legalidade à operação, pois mais seria o único interlocutor a ser
mente a possibilidade de uso de for- existem instrumentos específicos do consultado para a evacuação dos
ças de outra natureza, como por Direito Internacional aplicáveis a esta não-combatentes, devendo ser con-
exemplo, as aerotransportadas, nota- situação: a proteção diplomática e a siderada, também, a liderança da fac-
damente quando a operação for responsabilidade internacional. ção que disputa o poder, que teria
conduzida em regiões muito afasta- Não obstante, este argumento adquirido, nas condições acima de-
das do litoral. Contudo, não deve- poderá obter aceitação internacional, finidas, o “status” de ator beligeran-
mos esquecer que o emprego deste dependendo, naturalmente, dos Es- te. Deste modo, o governo estabele-
tipo de força, especificamente, é bas- tados envolvidos e dos interesses em cido não mais teria a prerrogativa de
tante sensível a limitações tais como jogo. Em tempos de “soberania limi- autorizar, ou negar o acesso de for-
a existência de campo de pouso tada”, tão propalada pelas potências ças estrangeiras no território do país-
compatível com as aeronaves empre- centrais, possivelmente o argumento alvo, particularmente, por não mais
gadas, permissão de sobrevôo e re- teria boa aceitação, desde que, não poder assegurar a integridade dos
abastecimento, o que reduz, em par- contrariasse os seus interesses e dos estrangeiros ali estabelecidos. É, sem
te, esta possibilidade. países aliados. dúvida, um argumento frágil, mas que
Se a ameaça contra os nossos complementa o anterior relativo ao
ASPECTOS DO nacionais advém da existência de um Direito Internacional Humanitário.
DIREITO INTERNACIONAL conflito interno, onde o governo lo- Naturalmente, uma possibilidade
PÚBLICO E A POSIÇÃO cal se encontra em luta contra uma de dar à operação um caráter ine-
DA ONU ou mais facções, a operação de res- quivocamente legal é a obtenção de
gate/evacuação não somente se con- um mandato da ONU, via Conselho
A legalidade de uma operação de figurará como um ato de agressão, de Segurança, autorizando a sua re-
resgate/evacuação de não-comba- mas também, como uma forma de alização, mesmo contra a vontade do
tentes é função, basicamente, da con- intervenção neste conflito. Todavia, país-alvo, amparando-se na Carta
cordância ou não, da realização da nesta situação, alguns argumentos das Nações Unidas. Não obstante,
operação por parte do país-alvo, in- poderiam ser utilizados para dar à ao atuar-se neste campo de ação di-
dependentemente do ambiente de operação alguns traços de legalida- plomático, há que se considerar a
permissividade em que se realizará tal de. O primeiro deles é o fato de que, grande perda de tempo – tempo elás-
operação. ante a existência de um conflito in- tico das negociações diplomáticas –

2002 - O Anfíbio - 8
já que normalmente um mandato, relações internacionais. A decisão de OPERAÇÕES
deste tipo, demandaria a realização respeitar ou violar uma norma do DE EVACUAÇÃO DE
de diversas reuniões, e, certamente, Direito Internacional continua sendo NÃO-COMBATENTES
seria precedido de resoluções instan- uma questão de custo-benefício, po- E A REALIDADE
do o país-alvo a garantir a segurança dendo a situação e os ganhos previ- BRASILEIRA
dos nacionais ameaçados e/ou auto- síveis tornar aceitáveis tais violações.
rizar o ingresso de forças específicas De qualquer modo, determinado Cenários
para este fim. Além disso, antes de país, mesmo tendo cometido viola- Os cenários visualizados para a
autorizar o uso da força, a própria ções claras ao Direito Internacional realização de uma operação de ENC
Carta recomenda o emprego de san- Público, tentará justificá-la à luz des- são os seguintes: militares e/ou civis
ções de variados tipos, em especial te próprio corpo de normas, graças integrantes de forças de paz, mem-
de natureza econômica. Assim, isto à imprecisão da reduzida instru- bros de representações diplomáticas
poderá resultar na perda da oportu- mentação vigente. Não se pode es- e nacionais estabelecidos em região
nidade para a realização da opera- quecer ainda que, uma ação ilegal cuja instabilidade política possa re-
ção. Não há registro de ocorrência poderá ser aceita pela comunidade presentar uma real ameaça à sua in-
de operações de resgate/evacuação internacional, em nome de princípios tegridade física e que não tenham tido
de não-combatentes sob mandato da “mais elevados”, o que lhe conferiria condições de deixarem a área por
ONU, possivelmente pelo um caráter legítimo, capaz de ocultar meio de transporte convencional.
fator temporal aqui anali- ou minimizar o seu caráter ilegal. O Com relação aos integrantes de
sado. conflito do Kosovo, em 1999, foi forças de paz, sempre existirá a pos-
Em suma, pode-se afir- um excelente exemplo deste sibilidade de recrudescimento do
mar que a realização de tipo de idéia. conflito que deu origem à sua mis-
uma operação de evacu- Enfim, apesar são. Nesta situação, um dos conten-
ação/resgate de não- de grandes pro- dores poderá não mais concordar
combatentes, sem o gressos ocorri- com os termos do acordo que de-
consentimento do go- dos no Direito terminou a instalação da força de
verno estabelecido e Internacional paz e exigir a sua retirada. Outra pos-
sem um mandato da Público, o mun- sibilidade seria quando uma desaven-
ONU que a autorize, é do hoje não é ça local coloca em risco a segurança
intrinsecamente uma muito diferente da tropa brasileira em missão de paz.
operação ilegal, à luz do do “estado da na- Existe, ainda, a possibilidade de que
Direito Internacional tureza”, tal como um grupo radical isolado decida pelo
Público. Isto não signi- definido por Tho- confronto, o que pode colocar a si-
fica que não se possa mas Hobbes, no tuação fora de controle, obrigando à
realizá-las sem autoriza- seu livro “O Levia- retirada da área dos integrantes da
ção do governo do than”. As relações inter- missão.
país-alvo, ou sem mandato da ONU. nacionais são ainda essencialmente No caso de empresas brasileiras
Devemos considerar, ainda, as se- relações de poder entre os diversos executando trabalhos no exterior,
guintes características do Direito In- atores existentes, dentre os quais se pode ser necessário evacuar seus fun-
ternacional Público: inexistência de encontram os Estados. Deste mo- cionários, em função de conflitos re-
órgão legislador; inexistência de ór- do, é aceitável a realização de ope- gionais, sendo sua maior probabili-
gão julgador obrigatório; e inexis- rações de resgate/ENC, mesmo em dade de ocorrência em países da
tência de vínculo de “subordinação” oposição ao governo estabelecido, África, em virtude da combinação da
entre os sujeitos. desde que, o desgaste político pre- forte presença brasileira e da insta-
Mesmo constatando a ocorrência visível resulte em benefícios com- bilidade política característica desta
de significativos avanços neste ramo pensadores, e que possam ser reu- região. Tal fato pode ser comprova-
do Direito, verifica-se que o Direito nidos argumentos capazes de, no mí- do pela crescente participação de
Internacional é apenas uma parte de nimo, amortecer os impactos resul- empresas brasileiras em licitações in-
um conjunto maior que engloba as tantes das ações a serem realizadas. ternacionais. Como exemplo pode-

2002 - O Anfíbio - 9
mos citar a Odebrecht na África Aus- Operações Navais já tem enfatizado, AF-1 SKYHAWK e pelos helicóp-
tral, Andrade Gutierrez nos Cama- nas Operações UANFEX e teros.
rões e a Petrobras no “off-shore” de INCURSEX, esta hipótese de em- Quanto aos meios de fuzileiros na-
Angola. prego. O Comando-Geral do CFN vais, a Marinha mantém uma força
Temos ainda a possibilidade de por sua vez, em 2001, fruto da ex- pronta de valor Unidade Anfíbia
evacuação de participantes de mis- periência acumulada nesses exercí- (UAnf), que possui os recursos hu-
sões diplomáticas brasileiras no ex- cios e do conhecimento específico de manos e materiais necessários ao
terior, que, à luz do Direito Interna- alguns Oficiais, publicou o Manual de cumprimento das tarefas em terra. As
cional Público, teriam asseguradas Operações de Evacuação de Não- maiores limitações para a execução
garantias de livre trânsito em segu- Combatentes Executada por desta operação são logísticas, parti-
rança. Entretanto, inúmeras vezes tais Grupamentos Operativos de Fuzilei- cularmente no que tange à manuten-
garantias são per- ros Navais. Com ção do fluxo de suprimento para a
didas, particular- essa publicação, o AOA.
mente em regiões CGCFN-1310, os Outro aspecto a ser considerado
de atuação de gru- conceitos básicos e é o raio de ação da nossa aviação de
pos guerrilheiros os procedimentos asa rotativa. Atualmente nossa capa-
organizados e for- relativos ao pla- cidade de transporte e penetração
temente armados. nejamento e à exe- com meios helitransportados é redu-
Não se deve des- cução das opera- zida. Baseando-se no alcance das
cartar, ainda, a ções de ENC por aeronaves ESQUILO (mono-turbi-
possibilidade de realização deste Grupamentos Operativos de Fuzilei- na), que fariam a escolta de uma co-
tipo de operação na América do Sul, ros Navais estão sendo consolidados. luna mecanizada ou dos helicópteros
em face da marcante presença de Quanto à operação de evacuação de transporte de pessoal, os SUPER-
nossos nacionais nos demais países, propriamente dita, o Comando de PUMA e SH-3, teríamos essa
como conseqüência da maior Operações Navais possui capacida- proteção limitada a um afastamento
integração regional. Como podemos de limitada para executar uma ENC máximo 60 milhas marítimas, a partir
acompanhar nos noticiários, as for- de grande vulto. Entretanto, dentro do ponto de lançamento. A aquisi-
ças “centrífugas” da globalização da nossa realidade, ao se organizar ção de helicópteros de transporte
continuam atuandofortemente emvá- uma ForTarAnf, podemos conside- médios e pesados, incrementaria a
rios países, com graves conseqüên- rar que: nossa capacidade de transporte, tan-
cias para estabilidade política da re- O NAe São Paulo pode ser em- to de pessoal como material, permi-
gião. pregado em uma primeira fase para tindo que uma nova dinâmica fosse
lançamento de tropa, e, em uma se- implementada na condução deste
A Capacidade do Poder Naval gunda, como navio de recebimento tipo de operação.
Brasileiro e processamento dos não-comba- Ressalta-se ainda que dificilmen-
A Marinha, apesar das constan- tentes. te poderemos contar com uma dis-
tes restrições orçamentárias, deve O 1º Esquadrão de Apoio pos- ponibilidade de 100% para meios. A
manter-se capacitada a executar sue capacidade para o transporte de disponibilidade média de 60% para
operações de evacuação de não- uma Força de Desembarque tipo as aeronaves de um mesmo Esqua-
combatentes, com o propósito de Unidade Anfíbia de Fuzileiros (Uanf). drão constitui-se num valor para
salvaguardar vidas humanas, de As fragatas e os contrator- planejamento aceitável.
acordo com a PDN. A capacitação pedeiros prestariam o Quanto aos meios de su-
para este tipo de operação deve ser Apoio de Fogo Na- perfície, historicamente a
atingida em dois campos, o operativo val, apoiando, caso Esquadra tem operado
(que envolve a preparação do pes- necessário, a mano- comumadisponibilida-
soal) e o logístico (meios modernos bra em terra. de média de 70%.
e eficientes). O apoio aéreo As regras de com-
Quanto à preparação do pessoal, aproximado poderá portamento operativo
nos últimos anos o Comando de ser executado pelos não devem ser esque-

2002 - O Anfíbio - 10
cidas e serão de tal ordem que No que se refere aos as-
deverão proporcionar ao co- pectos militares do assunto
mandante a possibilidade do em pauta, conclui-se que, pe-
emprego das armas em pre- las peculiaridades abordadas,
sença de forças hostis para a operação de evacuação de
assegurar a continuidade da não-combatentes requererá o
operaçãoeasegurançadesuas emprego de técnicas e pro-
tropas e pessoal evacuado. cedimentos próprios, que, por
Consideradas as limita- sua vez, são abordados deta-
ções do nosso PN, estima-se que te- residam, mesmo que temporariamen- lhadamente no manual CGCFN-
ríamos capacidade para evacuar te,emoutrospaíses.Comoalgunsdes- 1310. A complexidade e incertezas
aproximadamente 630 não-comba- ses estados ainda encontram-se su- envolvendo a ENC exigem que te-
tentes, mediante o emprego de uma jeitos, em maior ou menor grau, aos nhamos, em condição de pronto em-
UAnf nos moldes da Força-Pronta efeitosdasforças“centrífugas”daglo- prego, uma força adestrada e equi-
da Força de Fuzileiros da Esquadra, balização, é natural que cresça, pelo pada, capaz de fazer face às diver-
sem considerar o emprego de outros menos no meio militar, a perspectiva sas situações que por ventura surjam.
meios de transporte, que não os da de crescente probabilidade de empre- A Força-Pronta da Força de Fuzilei-
Marinha. Pesados todos os fatores go de força militar no exterior, para a ros da Esquadra em função da sua mo-
da decisão, em particular o ambiente salvaguarda dos nossos cidadãos. En- bilidade, flexibilidade, prontidão, ver-
em que se realizará a operação, po- tretanto, parece que este pensamento satilidade e capacidade logística, en-
der-se-á optar por uma força de não tem encontrado eco adequado quadra-se perfeitamente para a exe-
menor vulto, de modo a permitir um naqueles que são os responsáveis pela cução em terra desse tipo operação.
maior número de vagas para evacu- nossa política externa. Por outro lado, caso a situação evo-
ados a bordo. É freqüente o comentário de que lua rapidamente para uma operação
Diante do que foi acima descrito, a atividade militar e a diplomática se de resgate de não-combatentes, a uti-
podemos constatar a capacidade, contrapõem, já que um dos papéis lização da organização tradicional de
ainda que limitada, do nosso Poder da diplomacia seria evitar o conflito, uma Força de Incursão, prevista em
Naval realizar uma operação de eva- enquanto que o papel das Forças Ar- nossa doutrina, atenderá plenamente
cuação de não-combatentes. Para as madas seria preparar-se para o con- à execução das tarefas requeridas.
ações em terra, uma UAnf tem con- flito. Naturalmente, não existe essa Imaginemos que a situação em
dições suficientes para executar as dicotomia. As Forças Armadas e o Guiné Bissau, em 1998, não evoluís-
suas tarefas. Itamaraty trabalham, com freqüência se favoravelmente e o Brasil tivesse
juntos, em favor do Brasil, de seu de- que garantir a integridade dos nos-
CONSIDERAÇÕES FINAIS senvolvimento. Entretanto, julgo fun- sos cidadãos e evacuá-los. Certa-
damental que assuntos como as ope- mente parcela do Poder Naval, o
As peculiaridades do contexto glo- rações de ENC sejam debatidas e conjugado anfíbio,em vista das ca-
bal neste começo do Século XXI exi- exercitadas com maior intensidade e racterísticas anteriormente apresen-
gem formas eficazes de cooperação freqüência, visando ao melhor enten- tadas, teria sido, naturalmente, a me-
em todos os campos, num firme em- dimento das mútuas necessidades e lhor opção para a solução deste tipo
penhopelaconvivênciapacíficaepelo limitações. Por exemplo, as represen- de problema - logicamente em con-
respeito mútuo. Contudo, essa per- tações diplomáticas devem possuir junção com medidas diplomáticas, ou
cepçãonãodiminuiaconvicçãodeque um plano de evacuação, onde o em- em sua continuação. Assim, vemos
as assimetrias decorrentes das desi- baixador ou representante diplomá- que a Marinha deve estar preparada
gualdades de ganhos com a glo- tico local, por ser o representante do para responder tempestivamente a
balização nos levam a considerar que Governo, portanto a maior autorida- ordem de execução de uma opera-
a paz mundial ainda é uma utopia. de na área, terá um papel muito ativo ção de evacuação de não-combaten-
O emaranhado de interesses, a e importante no desenrolar das tes, mediante a rápida conformação
interdependência econômica, faz ações. Será que existe algum plano de uma Força capaz de realizar esta
com que, cada vez mais nacionais pronto? importante e complexa missão.

2002 - O Anfíbio - 11
A Nova Força
de Fuzileiros da Esquadra
CONTRA-A LMIRANTE (FN) PAULO
Após a recente inva- CESAR STINGELIN GUIMARÃES
são do Afeganistão, ini-
ciou-se, nos Estados Uni- trinas, ou internamente,
dos da América (EUA), para se adaptar às ne-
no âmbito das Forças cessidades ditadas pela
Armadas, um debate so- evolução da Política
bre a importância de se Nacional, sem contudo
ter forças de assalto le- perder de vista sua mais
ves, prontas, baseadas importante característi-
no mar, e que não depen- ca: a capacidade de pro-
dam de bases de ope- jetar poder sobre terra.
ração em território es- Rever e manter es-
trangeiro para se lança- truturas organizacionais
rem à ação. modernas, como as que
De acordo com os o CFN requer, demanda
militares americanos, os um planejamento de lon-
novos campos de batalha, go prazo. A construção,
do qual o Afeganistão é um a preparação e a acumulação de
exemplo, terão como característi- meios bélicos requer um tempo tal que
cas dominantes a incerteza, o caos, meios, com suficiente poder de com- impõe a necessidade de projetar for-
e a assimetria. As capacidades cres- bate e com grande capacidade de ças com bastante antecedência.
centes dos sensores e o grande al- manobra. Acrescenta-se, ainda, que Quando pensamos na revisão de
cance das armas de precisão asse- seus diversos Grupamentos Opera- estruturas de forças não podemos
gurarão um campo de batalha mais tivos tem capacidade para susten- deixar de considerar a influência da
fragmentado e fluído, prevendo um tar-se logisticamente, embarcam com aquisição de novos meios e tecno-
grande imperativo para a manobra. seu próprio equipamento orgânico, logias, que aumentam sua capacida-
Contra este estado de incerteza, são incluindo viaturas leves e pesadas, de global. No caso do CFN, por
necessárias forças armadas moder- carros de combate (CC), blindados exemplo, como a incorporação dos
nas, capazes de sustentarem-se na leves e helicópteros, além de pode- CC SK-105A2 afetará a doutrina
ação, com flexibilidade, mobilidade, rem ser apoiados por aeronaves A-4, de Operações Anfíbias? Será que a
e poder de combate flexível. operadas a partir do Navio-Aeró- estrutura existente do CFN suporta-
Quando analisamos estes concei- dromo (Nae) São Paulo. ria o acréscimo deste novo meio e
tos, chegamos à conclusão de que o Para manter esta capacitação ao da tecnologia que traz embutida, ou
Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) longo de sua existência e para fazer seriam necessárias novas modifica-
preenche estes requisitos. A Força face aos novos desafios do cenário ções?
de Fuzileiros da Esquadra (FFE), mundial, o CFN procura manter a- Outro aspecto a ser considerado
seu setor operativo, é composta to- tualizada sua estrutura administra- é a crescente sofisticação dos atuais
talmente por militares profissionais tiva e de combate, muitas vezes in- sistemas de armas, que torna inexe-
e voluntários, tendo a capacidade de fluenciadas pelas mais variadas cir- qüível qualquer reconfiguração de
se organizar por tarefas, combinan- cunstâncias, sejam de caráter exter- forças que não preveja um tempo de
do em si uma força leve, moderna em no, com o surgimento de novas dou- execução ao menos “razoável”, que
2002 - O Anfíbio - 13
permita não apenas a obtenção dos recursos humanos e materiais espe- Ilha do Governador e a prontificação
meios necessários, mas também o cíficos necessários à FFE. Dentre as dos GptOpFuzNav ou outros desta-
atendimento dos trâmites administra- atividades do CGCFN estão a ad- camentos específicos, além de cons-
tivos e a mudança do perfil dos com- ministração geral e a instrução do tituir elo na estrutura administrativa e
batentes. pessoal do CFN, a gerência do ma- logística da MB.
Com o objetivo de manter atua- terial específico de fuzileiros navais, A TrRef, embora tenha em sua
lizada sua estrutura administrativa e bem como aquelas que contribuem estrutura algumas unidades de Apoio
de combate, tendo em vista o recebi- para o desenvolvimento da doutrina ao Combate (ApCmb), é o coman-
mento de novos meios pelo Corpo empregada pelo CFN. do centralizador das unidades de
de Fuzileiros Navais (CFN) nos úl- A FFE representa a parcela do Apoio de Serviços ao Combate
timos anos, a evolução das conjun- CFN que reúne os principais meios (ApSvCmb). Sua destinação é logís-
turas nacional e internacional e as úl- e efetivos que formam os Grupa- tica, com o seu comando não parti-
timas alterações introduzidas na es- mentos Operativos de Fuzileiros Na- cipando das Operações Anfíbias
trutura da Força de Fuzileiros da Es- vais (GptOpFuzNav), responsáveis (OpAnf). É um elo intermediário na
quadra (FFE), em 1995, o Coman- pela condução de Operações Anfí- cadeia de comando, fator de equilí-
do-Geral do CFN (CGCFN) fez bias e Ribeirinhas, juntamente com a brio na estrutura organizacional de-
realizar, durante o ano de 2000, o Esquadra. Cabe, ainda, à FFE, par- vido ao fato de permitir a harmonia
ticipar de Operações de Paz, propor- das relações de comando, no âmbi-
simpósio “O CFN e o 3º Milênio”.
cionando ao Brasil importante vetor to da FFE.
O propósito do simpósio foi de deli-
de projeção internacional. O BtlOpEspFuzNav tem por fi-
near, à luz dos cenários prospectivos,
Com um efetivo aproximado de nalidade a execução de operações
em um horizonte temporal de 10 anos,
6 mil homens, ela enquadra dois especiais, especificamente as ações
o futuro conceito de emprego de
grandes comandos: a Divisão Anfí- de comandos e as ações de reconhe-
Grupamento Operativos de Fuzilei-
bia (DivAnf) e a Tropa de Reforço cimento especializado, contribuindo
ros Navais (GptOpFuzNav) e outras (TrRef). A FFE conta, ainda, com um para o preparo e aplicação do po-
tarefas compatíveis com organiza- Batalhão de Operações Especiais de der naval.
ções de fuzileiros navais, principal- Fuzileiros Navais (BtlOpEspFuzNav) A BFNRM provê ao Comando
mente a FFE, bem como os requisi- e com a Base de Fuzileiros Navais da FFE e às unidades aquarteladas
tos de organização, pessoal, materi- do Rio Meríti (BFNRM). em sua área o apoio administrativo,
al e adestramento decorrentes. A DivAnf tem as tarefas de pre- envolvendo pessoal, saúde, comuni-
Ao final do simpósio, foi apresen- parar os elementos subordinados para cações, transporte e segurança.
tada uma proposta de reestruturação emprego em todos os aspectos, su- Os organogramas abaixo mos-
da FFE. Este é o enfoque do pre- pervisionar as atividades de base da tram a atual estrutura da FFE.
sente artigo. Para que o leitor possa
fazer uma comparação, apresenta-
remos de forma sucinta a atual es-
trutura, as razões que levaram à ne-
cessidade de alterá-la, a nova estru-
tura que extinguiu diversas unidades
e criou outras, as principais vanta-
gens e tarefas das novas unidades e
uma breve conclusão.
A ATUAL FFE
Dentro da estrutura do Coman-
do da Marinha, a FFE está subordi-
nada ao Comando de Operações
Navais (CON), cabendo ao Coman-
do-Geral do Corpo de Fuzileiros
Navais (CGCFN), como Órgão de
Direção Setorial (ODS), prover os
2002 - O Anfíbio - 14
EMPREGO DA FFE são, o CCmdo passa a ser o Coman- levaram o CGCFN, juntamente com
A FFE, explorando a versatilida- do da ForDbq; o CCT (no caso de o CON, a reajustar a estrutura da
de e a flexibilidade de seus meios, é uma Unidade Anfíbia) passa a ser o FFE.
empregada através de GptOpFuzNav, Grupamento de Desembarque de
que são organizações-por-tarefas Batalhão (GDB); e o CASC transfor- NECESSIDADES DE
com grande flexibilidade, tecnologi- ma-se no Grupo de Apoio de Servi- MUDANÇAS
camente modernas, bem equipadas, ços ao Combate (GASC). Em 2000, O Corpo de Fuzileiros
leves, ágeis, dotadas de prontidão Basicamente, o valor do Navais realizou o Simpósio “O CFN
operacional, integradas por profissi- GptOpFuzNav é definido pelo e o 3° Milênio”. Ao final dos traba-
onais e com caráter expedicionário, CCT, que pode ser uma Companhia lhos, dentre as sugestões apresenta-
capazes de cumprir diferentes tipos de Fuzileiro Navais (CiaFuzNav), um das, destacou-se a necessidade de
de missões, principalmente as OpAnf. Batalhão de Infantaria de Fuzilei- reestruturar a FFE, cuja última reor-
Para o cumprimento de qualquer ros Navais (BtlInfFuzNav) e uma ganização ocorreu em 1995.
missão, os GptOpFuzNav são estru- Brigada de Fuzileiros Navais A partir de 2001, no âmbito do
turados em componentes, de acor- (BdaFuzNav). Estas unidades nu- CGCFN e do CON, iniciou-se um
do com a natureza das tarefas rece- clearão, respectivamente, um Ele- estudo, balizado pelo princípio da
bidas: o Componente de Comando mento Anfíbio (ElmAnf), uma Uni- economicidade e pela preocupação
(CCmdo), o Componente de Com- dade Anfíbia (UAnf) e uma Briga- permanente com a modernização ad-
bate Terrestre (CCT), o Componente da Anfíbia (BAnf), também chama- ministrativa do setor operativo do
de Apoio de Serviços ao Combate dos de Forças de Desembarque CFN, visando atender ao requisito de
(CASC) e o Componente de Com- (ForDbq). maximizar o emprego dos recursos
bate Aéreo (CCA). Atualmente, a DivAnf acumula humanos e materiais disponíveis para
O Componente de Comando as atividades inerentes ao Co- o aprestamento dos GptOpFuzNav.
(CCmdo) destina-se a supervisionar mando da Força de Desembarque Uma das componentes levada em
os demais componentes e a prover (CmdoForDbq) e do Componente consideração foi a recente reestru-
as ligações externas. Seus meios são de Combate Terrestre (CmdoCCT), turação pela qual passou o Poder
providos pela DivAnf. quando o GptOpFuzNav for de va- Militar Nacional, incluindo a ins-
O Componente de Combate Ter- lor Brigada Anfíbia (BAnf). titucionalização plena do Ministério
restre (CCT) executa as ações táti- Com a atual estrutura e os meios da Defesa. Certamente, a realização
cas, empregando as unidades de hoje existentes na FFE, podemos de operações conjuntas ou combi-
combate e de apoio ao combate. organizar, ElmAnf, Uanf e, com al- nadas aumentarão, carreando novas
Grande parte de seus meios são tam- gumas limitações, até uma BAnf, ca- demandas para a seleção dos meios
bém da DivAnf. pazes de cumprir diferentes missões e o adestramento. Isto implica que
O Componente de Combate Aé- em variados ambientes operacionais. qualquer alteração estrutural da FFE
reo (CCA) destina-se a prover todo Finalmente, partindo-se da pre- deve manter e aprimorar os seus
o apoio aéreo e a defesa antiaérea missa de que o emprego dos Fuzilei- meios, dispensando atenção perma-
necessários à operação, incluindo as ros Navais se dará, em princípio, por nente às características essenciais do
agências de controle aéreo. Os mei- meio de GptOpFuzNav, o ponto de Poder Naval: mobilidade, permanên-
os aéreos são oriundos da Força equilíbrio entre as organizações ad- cia, flexibilidade e versatilidade.
Aeronaval. ministrativa e de combate será ter Outro aspecto analisado foi a ne-
O Componente de Apoio de Ser- uma organização administrativa que cessidade da reorganização permitir
viços ao Combate (CASC) é o res- permita uma rápida transição, ou a adequação e a aproximação da sua
ponsável pelas tarefas logísticas da seja, aquela que permita, em melho- estrutura administrativa aos concei-
Operação. Sua organização está nu- res condições, o aprestamento dos tos utilizados em sua organização de
cleada nos meios da TrRef. meios em pessoal e material neces- combate, permitindo, quando neces-
Cabe ressaltar que esta estrutura sários à composição daquelas orga- sário, a rápida transição de uma para
é meramente administrativa. Após nizações-por-tarefas. outra.
organizado por tarefas para o cum- No módulo seguinte, abordare- Por outro lado, a análise dos re-
primento de uma determinada mis- mos as principais necessidades que latórios dos diversos exercícios e

2002 - O Anfíbio - 15
operações mostrou que o CmdoFFE cessita de adestramento em técnicas concorrendo diretamente para melho-
se ressentia de um Comando de For- muito parecidas. Estando em uma rar a prontificação da Força.
ça isolado capaz de consolidar a filo- mesma Subunidade, o adestramento Além da carga administrativa
sofia de emprego dos GptOpFuzNav, comum otimiza os recursos e facilita verificada acima, observou-se alguns
organizados em componentes, ne- o remanejamento de pessoal, à me- óbices para o emprego eficiente da-
cessários à condução das diversas dida que ocorre maior especialização quela Força Subordinada, a seguir
operações navais, o que retardava e acúmulo de mais experiências. relacionados:
sua prontificação. Esta lacuna dificul- A organização do BtlOpEspFuzNav 1. alguns dos elementos de apoio
tava o efetivo planejamento decor- com a integração das companhias ao combate (ApCmb), que atuam
rente das determinações emanadas reflete a grande importância do re- basicamente em seu proveito, não
pelo CmdoFFE e o desenvolvimen- conhecimento e das operações es- lhes são subordinados, como é o
to de planos-padrão consoantes com peciais no combate moderno, mor- caso das Viaturas Blindadas (VtrBld)
o contexto atual e previsto, dificul- mente nas Operações Anfíbias de transporte de pessoal, fato que di-
tando a aproximação com as demais (OpAnf ). A existência de duas ficulta a integração com os Carros de
Forças Singulares (FS) para o em- CiaOpEsp permitiria a composição Combate (CC),meios de caracterís-
prego Conjunto ou Combinado e, de diversas equipes para a execução, ticas semelhantes, que devem ope-
ainda, a obtenção de maior agilidade não só do reconhecimento afastado rar em conjunto;
na ativação e no emprego da Força (da LSAA à LCAF) e distante (fora 2. presença de Subunidade Inde-
Pronta. A existência deste elemento da CP), mas também das ações de pendente com tarefa exclusiva de ins-
organizacional na FFE, similar às Di- comandos na retaguarda profunda do talação e operação do PC da Força
visões da Esquadra, dotaria o compo- inimigo. e, conseqüentemente, reduzida apli-
nente de comando dos GptOpFuzNav Estudando-se pontualmente a cabilidade em outras atividades;
de elementos voltados inteiramente DivAnf, constatou-se uma pesada 3. restrita capacidade de controle
ao planejamento e execução de di- ingerência das fainas administrativas dos meios aéreos e de apoio ao seu
versas operações navais, tornando- sobre os Comandos, contrariando a desdobramento em terra; e
se o comando permanente de uma filosofia de criação das Bases de 4. presença de elementos de
UAnf e, quando necessário, desem- Fuzileiros Navais(BFN), principal- apoio ao combate (ApCmb), com
penhando também o mente nas atividades atribuição de apoiar tropa de outras
comando do CCT diárias das atuais forças e unidades, demandando co-
de uma BAnf. companhias inde- ordenações adicionais.
Ainda em relação pendentes, com se- Em relação ao primeiro óbice, e
ao CmdoFFE, ob- mi-autonomia admi- tendo em vista que dificilmente os CC
servamos que o nistrativa, não permi- serão empregados separadamente da
BtlOpEspFuzNav, tindo que aquelas es- tropa de Infantaria embarcada em
unidade responsável truturas estivessem CLAnf ou em VtrBId e que a
pela preparação dos especificamente vol- CiaVtrBld também poderá operar em
destacamentos de Operações Espe- tadas para suas atividades-fins. As- conjunto com estes meios, a CiaCC
ciais (DstOpEsp), otimizaria o em- sumiram tarefas administrativas que e a CiaVtrBld seriam concentradas
prego de seus recursos de pessoal e demandam o emprego de elevados em uma única Unidade, a nível de
material se concentrasse as Compa- contingentes humanos e que, hoje, Batalhão, podendo, inclusive, nucle-
nhias com emprego diversificado e são da competência das BFN. Estes ar mais uma peça de manobra da
que integram diferentes Componen- desvirtuamentos levaram ao consen- BAnf, quando necessário. Os
tes – Companhia de Reconhecimen- so de que novas estruturas, a nível CLAnf, em face de suas caracterís-
to Anfíbio (CiaReconAnf), Compa- batalhão, centralizando atividades ticas e da complexidade logística que
nhia de Reconhecimento Terrestre similares e reduzindo a amplitude de os envolve, devem ficar separados
(CiaReconTer) e Companhia de comando, trariam economicidade sob um único comando, aliviando,
Operações Especiais (CiaOpEsp)- administrativa, padronização de pro- assim, o rol de preocupações do
em uma mesma Subunidade que, cedimentos e facilidade no adestra- Comandante da Unidade. A nova
para atender a variadas missões, ne- mento e na manutenção dos meios, OM, além de otimizar os meios de

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manutenção, centralizaria o plane- de Comando da divisão Companhia Independente – a Com-
jamento, a coordenação e o contro- Anfíbia(CiaCmdoDivAnf), os relató- panhia de Comunicações (CiaCom)-
le das atividades de adestramento, rios apontavam a existência de defi- que, junto com a Companhia de
logísticas e administrativas de blinda- ciências no preparo e emprego dos Guerra Eletrônica (CiaGE), opera no
dos e Anti-Carro (AC). meios de comando e controle dos espectro eletromagnético. Em função
Outro aspecto ressaltado está no nossos GptOpFuzNav. Verificou-se de seus equipamentos e tarefas, os
fato de que esta OM, enquadrando que a ausência de um elemento efetivos destas duas companhias pos-
os novos CC SK105A2 e as VtrBld organizacional de nível Batalhão, que suem a mesma formação básica, tan-
da família M- 113, bem como uma permitisse a integração sistêmica des- to para o emprego quanto para a
seção de CCL SR Cascavel, possi- ses meios e sistematizasse seu em- manutenção, e se adestram, cada
bilitaria um melhor pre- prego, evitando sua uma, utilizando-se dos recursos da
paro e emprego dos dispersão, tem cau- outra.
meios blindados pelos sado, atualmente, Deste modo, a união da CiaCmdo
GptOpFuzNav, princi- algumas dificulda- com parcelas da CiaCom e da
palmente na execução des na condução CiaGE, sob um mesmo Comando,
das tarefas de seguran- de exercícios e sanaria as deficiências apresentadas
ça, de reconhecimen- operações. e permitiria a esta unidade desempe-
to e vigilância blinda- Outro aspecto a nhar as tarefas de montar, de ope-
dos e integrando Forças de Contra- mencionar em relação ao Comando rar, e de assegurar as facilidades de
ataque. Como exemplos destas ta- e Controle, era a necessidade de um controle e de coordenação dos mei-
refas, citam-se a constituição de van- órgão que congregasse os especia- os desdobrados de um PC de
guarda, de flancoguarda e de reta- listas destinados à análise e o GptOpFuzNav, além de garantir a
guarda de grupos-tarefa; ações de processamento dos dados coletados centralização dos meios de manuten-
segurança de área de retaguarda pelas diversas agências de busca da ção orgânica, o planejamento e a
(SEGAR); o reconhecimento de ei- Força, quando em operação, em coordenação do adestramento, e,
xos, de zonas e de áreas; e o atendi- apoio aos CmdoGptOpFuzNav. Esta ainda, otimizar o emprego dos re-
mento dos graus de resistência de nova estrutura decorre da necessida- cursos humanos e materiais disponí-
vigiar e retardar, tarefas estas que de de integração das informações veis, hoje dispersos na FFE. Esta
adquirem significado especial em fun- obtidas pelas diversas agências de agregação de meios similares sob um
ção das grandes frentes e profundi- busca hoje existentes, que abrangem comando único proporcionaria con-
dades normalmente encontradas nas meios eletrônicos, Unidades de Com- sideráveis economias de pessoal, ra-
operações dos GptOpFuzNav. bate (UCmb), de Apoio ao Comba- cionalização administrativa e flexibi-
A criação de uma Unidade com te (UApCmb), de Apoio de Serviço lidade na alocação de recursos hu-
as características descritas acima, ao Combate (UApSvCmb) e outras, manos e materiais parcialmente
além de reunir meios que demandam para garantir um desejável asses- intercambiáveis, ampliando conside-
a mesma filosofia e sistemas análo- soramento aos CmdoGptOpFuzNav ravelmente a capacidade dos
gos para a manutenção, e que exi- durante seu processo decisório e no CmdoGptOpFuzNav para o exer-
gem recursos humanos com forma- Controle da Ação Planejada. cício da autoridade e a supervisão
ção básica semelhante, preencheria Atualmente, por sua inexistência, das ações durante as operações.
importante lacuna existente na FFE, as informações e informes obtidos Quanto à capacidade dos
dotando seus GptOpFuzNav com não são adequadamente utilizados, GptOpFuzNav de controlar e coor-
tropas de alta mobilidade, ação de com a perda do princípio da oportu- denar os meios aéreos, foram senti-
choque, capacidade de comunica- nidade e com o desgaste desneces- das deficiências durante os exercíci-
ções, proteção blindada e grande sário, principalmente, dos elementos os e operações, por ocasião do re-
integração. especializados na tarefa de obtenção cebimento da aviação baseada em
Quanto à presença de uma Subu- de dados. terra e do posterior apoio requerido,
nidade independente com a tarefa Por outro lado, verificamos que, principalmente na coordenação dos
exclusiva de operar Posto de Co- além da CiaCmdo, a DivAnf, dispõe meios aéreos e de defesa antiaérea
mando (PC) de força, a Companhia atualmente de outra Unidade, nível (DAAe) a baixa altitude, intento que

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cresce de importância com a intro- Antiaérea e Controle Aerotático, A deficiência dos GptOpFuzNav
dução de aeronaves de asa fixa na otimizaria o emprego de recursos em com a Defesa Química, Biológica e
aviação naval. Outra deficiência foi a pessoal e material, fechando uma la- Nuclear (DQBN) avultou de impor-
exigüidade de sensores de vigilância cuna existente na estrutura orga- tância após os recentes acontecimen-
aérea, impedindo a divisão de meios nizacional da FFE, que é a limitada tos internacionais envolvendo atos
de Defesa Antiaérea (DAAe) e de capacidade de controle do espaço terroristas com o uso de agentes quí-
Controle Aerotático (CtAetat), e aéreo pelos GptOpFuzNav. micos e biológicos e também pela
também a carência de recursos adi- No Comando da Tropa de Re- não observância de procedimentos
cionais para o emprego dos meios forço (CmdoTrRef), as deficiências de descontaminação de pessoal e
aéreos em regiões ribeirinhas, onde visualizadas dizem respeito ao em- equipamentos, empregados pelos
os navios que têm capacidade de con- prego da Companhia de Apoio ao GptOpFuzNav em missões de paz
trole aéreo operam com restrições. Desembarque (CiaApDbq), atual- pela ONU. Acrescenta-se, ainda, a
A falta de uma Unidade com as mente inclusa no atual Batalhão de falta de uma mentalidade de DQBN
capacidades relatadas vem dificul- Engenharia de Fuzileiros Navais no CFN.
tando a coordenação eficaz entre o (BtlEngFuzNav), e a falta de uma Esta ameaça crescente seria sa-
emprego de vetores aéreos e dos Subunidade com tarefas de Defesa nada com a criação de uma organi-
meios antiaéreos, a ampliação da dis- Biológica, Química e Nuclear zação específica, que constituiria o
ponibilidade de meios para reconhe- (DQBN) núcleo do Sistema de DQBN do
cimento aéreo em áreas de risco para A CiaApDbq, além de ser uma CFN, com a finalidade de prestar o
as aeronaves convencionais, e, ain- unidade ímpar nas Forças Armadas ApCmb e o ApSvCmb, nas ativida-
da, a disponibilização de uma outra (FFAA), tem funções específicas no des relacionadas à DQBN , aos
estrutura alternativa capaz de nucle- planejamento e na execução de GptOpFuzNav, nas Operações de
ar o Centro de Controle Aerotático OpAnf, com atribuições e contatos Fuzileiros Navais ou a outras organi-
(CCA), quando necessário. em diversos níveis de comando. zações-por-tarefas que venham a ser
As restrições de controle e coor- Sua missão numa OpAnf é, atra- organizadas. Suas tarefas seriam pre-
denação dos meios aéreos pelos vés do Destacamento de Praia (DP) parar e manter os equipamentos es-
GptOpFuzNav seriam corrigidas com e do Destacamento de Zona de De- pecíficos, instruir e adestrar seu pes-
a criação de uma Unidade, valor Ba- sembarque (DZD), organizações- soal nos assuntos relacionados à
talhão, congregando os meios da por-tarefas, assegurar a continuida- descontaminação, controlar os esto-
Bateria de Artilharia Antiaérea de do movimento de tropas, de equi- ques de munições e de seus vetores,
(BiaArtAAe) com parcelas da pamentos e de suprimentos em am- realizar a detecção e identificar os
CiaCmdo e da CiaCom, hoje todas biente descontínuo mar-terra ou agentes QBN, além de contribuir
Subunidades independentes da ar-superfície no momento mais críti- para o desenvolvimento da doutrina
DivAnf. co de uma operação anfíbia, onde de DQBN, no âmbito do CFN.
A nova Unidade, além da inicia-se a edificação do poder de Como, normalmente, as tarefas de
BiaArtAAe, que manteria sua estru- combate em terra. A existência da DQBN, principalmente a desconta-
tura atual, seria organizada com uma CiaApDbq é fundamental para nu- minação, serão atividades realizadas
Subunidade dedicada especificamen- clear os diferentes níveis de DP e de na retaguarda, próximo às Áreas de
te ao Controle Aéreo, dotada dos DZD. Apoio Logístico (AApLog), a fração
meios necessários para executar a vi- Caso a CiaApDbq se tornasse a ser criada poderia se subordinar ao
gilância e o controle aéreo com rada- uma Subunidade independente, sem Batalhão Logístico (BtlLog), do
res de grande alcance e apoiar o es- autonomia administrativa, e subordi- CmdoTrRef.
tabelecimento de todas as agências de nada diretamente ao CmdoTrRef, seu Por outro lado, com a transfor-
controle de aviação em terra, poden- emprego seria otimizado, facilitando mação da CiaApDbq em Subuni-
do, quando necessário, nucleá-las e as atividades de preparo e emprego dade independente, com meios de
ao CCA também, além de prover a próprios, melhorando, conseqüen- comando, de comunicações e de
defesa antiaérea dos GptOpFuzNav. temente, a capacidade de ApSvCmb serviços gerais fornecidos pelo
Dessa Forma, a criação de uma aos GptOpFuzNav durante o desem- BtlEngFuzNav, surgiu a necessida-
Unidade, valor Batalhão, de Defesa barque. de de reestruturá-lo.

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Quando analisamos sua estrutura Ainda na TrRef, os relatórios dos Para se chegar a proposta final, al-
organizacional, verificamos que a exercícios e operações têm ressal- gumas premissas foram estabelecidas,
Companhia de Apoio (CiaAp), com tado as limitações do BtlLogFuzNav as quais tiveram influência marcante
o fim da realização de serviços re- em nuclear o comando do GASC de sobre todas as alterações na estrutura
munerados pelo Batalhão, passou a uma ForDbq valor BAnf e, em pa- da FFE. Dentre elas estão:
ser uma Subunidade sem identidade ralelo, exercer as atividades de Ø proporcionar, com o máximo
própria, uma vez que apenas detém ApSvCmb, o que indica a conveni- de facilidade, a constituição de
e mantém os meios pesados empre- ência de estabelecer-se elementos GptOpFuzNav;
gados pela outras Subunidades em para nuclear o comando do GASC Ø não haverá acréscimo no
apoio ao movimento, não tendo a ca- de uma BAnf. efetivo da FFE;
pacidade para coordenar seu empre- Analisadas as principais deficiên- Ø a Marinha do Brasil (MB) de-
go. Na prática, vem funcionando cias da estrutura organizacional da verá continuar sendo a única Força
como um depósito de equipamentos FFE e as possíveis soluções, apre- Singular (FS) com capacidade de
e viaturas. sentaremos no tópico seguinte a projeção de poder sobre terra, isto
Da mesma forma, a atual Com- reestruturação proposta e aprovada é, com capacidade expedicionária
panhia de Engenharia(CiaEng) tam- pelo Comandante da Marinha (CM), própria;
bém tem em sua dotação os equipa- bem como os fundamentos mais im- Ø a realização de OpAnf é uma
mentos pesados necessários à exe- portantes que deram embasamento capacidade inerente à Marinha do
cução de suas tarefas, havendo por- a sua adoção. Brasil e imprescindível ao cumprimen-
tanto uma superposição de meios. to de diversas tarefas do Poder Na-
Assim sendo, para otimizar o em- A NOVA FFE val (PN) decorrentes da Política de
prego de pessoal e material e com- A atual organização da FFE foi Defesa Nacional (PDN);
pensar a perda dos elementos cedi- estabelecida em 1995, quando se Ø o CFN, em face de ser uma
dos para a transformação da pretendeu, basicamente, agrupar na força profissional e com elevada
CiaApDbq em Subunidade indepen- DivAnf as unidades que constituem mobilidade estratégica, deverá ter seu
dente, a CiaAp e a CiaEng poderi- os CCmb – os Batalhões de Infanta- emprego priorizado para as tarefas
am ser fundidas numa única Subu- ria – e os de ApCmb – artilharia de que não impliquem na fixação de tro-
nidade, a qual incorporaria parte das campanha, artilharia antiaérea, car- pas, valorizando suas características
tarefas de ambas, já que as funções ros de combates etc – de nossos intrínsecas;
logísticas de transporte e manuten- GptOpFuzNav. Na Tropa de Refor- Ø a situação econômica do país,
ção, da atual CiaAp, passariam para ço estabeleceram-se as OM desti- a despeito de uma projeção otimista,
a CiaCSv. A Companhia de Pionei- nadas ao ApSvCmb, ou seja, aque- deverá continuar impondo restrições
ros (CiaPion) continuaria com a mes- las de natureza logística. orçamentárias ao desenvolvimento
ma estrutura e tarefas. A proposta de reestruturação que do poder militar, valorizando a ne-
A reestruturação proposta, além de será apresentada em seguida consti- cessidade de versatilidade das orga-
otimizar o emprego de meios e de pes- tui-se em um aperfeiçoamento da úl- nizações e do adestramento;
soal, asseguraria, pelo BtlEngFuzNav, tima reorganização e procura, pri- Ø a criação do Ministério da
o ApSvCmb e o ApCmb aos mordialmente, sanar as principais Defesa exigirá a intensificação do
GptOpFuzNav em boas condições, deficiências observadas na estrutura preparo e do adestramento em ope-
além de permitir ao BtlEngFuzNav organizacional da FFE ao longo dos rações combinadas e conjuntas, im-
fornecer os elementos para compor o exercícios e operações, analisadas no plicando na adoção de meios e sis-
Estado-Maior Especial (EM-Esp) do tópico anterior, bem como atender, temas compatíveis com os demais
CCT e do CmdoGptOpFuzNav. particularmente, às necessidades ge- atores da expressão militar do Po-
Adotando-se a mesma linha de ra- radas pela modernização do inven- der Nacional;
ciocínio seguida para o BtlEngFuzNav, tário da Força. Ø a MB é a única FS que dispõe
a saída da CiaVtrBld-M113 para A nova organização foi recente- e opera, normalmente, vetores navais,
integrar uma Unidade de Blindados mente aprovada pelo Comandante da aéreos e terrestres de forma combina-
requererá a reestruturação do Marinha, com previsão de imple- da, constituindo-se em núcleo natural
BtlVtrAnf. mentação total até julho de 2003. de Força de Ação Rápida (FAR);

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Ø necessidade de enfatizar na Ø foi considerado o estudo re- Comando da FFE
versatilidade das organizações e do cém-realizado pelo Estado-Maior da a - Estado-Maior
adestramento e, mais ainda, no apro- Armada (EMA), com a participação a.1- Justificativa
veitamento criterioso dos atuais mei- do Comando de Operações Navais Sua reestruturação será necessá-
os, otimizando o funcionamento das (CON) e do Comando-Geral do ria em virtude da ativação do
atividades-meio, e carreando recur- Corpo de Fuzileiros Navais CmdoTrDbq. O Grupo de Desenvol-
sos para as atividades-fim. (CGCFN), referente à reformulação vimento de Tática (GDT) e o Siste-
Ø as forças devem dispor de das Tabelas de Lotação (TL) das ma de Avaliação de Exercícios (SAE)
mobilidade e poder de combate; Organizações Militares (OM); serão desativados. O GDT, junta-
Ø o aumento da probabilidade Ø não haverá alteração significa- mente com a Seção de Planejamento,
de efetivação da ameaça químico- tiva nos efetivos da FFE nos próxi- nucleará o Comando da Tropa de
biológica; mos dez anos; e Desembarque (CmdoTrDbq), Uni-
Ø o valor da Força Pronta será, Ø quando novos meios forem in- dade proposta para ser criada e que
no mínimo, uma UAnf; corporados ao acervo da FFE, será será detalhada a seguir. O SAE será
Ø as OM deverão ter reduzidos necessária uma avaliação sobre a ne- incorporado pela atual Seção de
seus pesados encargos administrati- cessidade de promover ajustes na Operações. Conseqüentemente, as
vos; organização. seções remanescentes serão desig-
Ø a plena institucionalização das Da mesma forma, os documen- nadas conforme a seguir:
BFN e de sua participação no tos abaixo relacionados forneceram
ApSvCmb aos GptOpFuzNav; as orientações necessárias à proposta I - Seção de Organização e Pes-
Ø os meios congêneres devem, formulada: soal: F-10;
na medida do possível, ser centrali- Ø a Política de Defesa Nacio- II - Seção de Inteligência: F-20;
zados de forma a otimizar o prepa- nal (PDN); III - Seção de Operações: F-30;
ro, a manutenção e o emprego; Ø a proposta da Política Militar IV - Seção de Logística: F-40;
Ø as missões de paz não im- de Defesa (PMD); V - Seção de Comunicações e
põem, excetuando-se raras ocasiões, Ø a proposta da Estratégia Mili- GE: F-50; e
o uso de equipamentos específicos; tar de Defesa (EMD); VI - Seção de Planos e Progra-
Ø a nova organização deve fa- Ø a Doutrina Básica da Mari- mas: F-60.
cilitar a transição das organizações nha (DBM); e
administrativas básicas para as orga- Ø o Plano Estratégico da Mari- a.2- Principais Vantagens
nizações por tarefas empregadas em nha (PEM). a) transferir parte do acervo so-
combate; bre o planejamento de operações da
Ø a reestruturação deve facilitar Vistas as premissas e os docu- atual Seção de Planejamento para o
o preparo da força pela sua aproxi- mentos que deram o suporte neces- CmdoTrDbq;
mação ao desenho doutrinário dos sário à nova estrutura, faremos sua b) manter subordinada ao
GptOpFuzNav, buscando, dentro apresentação tendo como modelo a CmdoFFE parte da atual estrutura da
das possibilidades, reunir as unida- organização da FFE, segundo suas Seção de Planejamento, visando ao
des segundo os Componentes de Forças e Unidades subordinadas. acompanhamento das atividades do
Comando (CCmdo), de Combate Serão também citadas as alterações CmdoTrDbq; e
Terrestre (CCT), de Apoio de Ser- com suas justificativas, as principais c) manutenção do SAE e do Cen-
viços ao Combate (CASC) e, quan- tarefas e vantagens da nova organi- tro de Comando(CCmdo) na FFE.
do necessário, de Combate Aéreo zação, bem como o respectivo O organograma simplificado é o
(CCA); organograma simplificado. apresentado a seguir:

2002 - O Anfíbio - 20
b. Comando da Tropa de De- c) desenvolver e manter atuali- entre as atividades de Recon e
sembarque (CmdoTrDbq) zados planos para possível emprego OpEsp.
b.1 – Justificativa conforme determinação superior;
Será criado, nos moldes das Divi- d) manter o acompanhamento do c.2 – Principais Vantagens
sões da Esquadra, um comando per- estado de prontificação dos meios in- a) Especificidades de preparo e em-
manentemente para a UAnf em face tegrantes da Força-Pronta da FFE; prego de meios de OpEsp e de Recon;
da necessidade de dotar o CCmdo e) subsidiar os Comandantes da b) Ampliação da flexibilidade no
dos GptOpFuzNav de elementos in- DivAnf e TrRef com informações re- emprego da tropa de reconhecimen-
teiramente voltados ao planejamento lativas ao preparo dos meios subor- to pela extinção da distribuição de
e execução de diversas operações, dinados; e tarefas anteriores entre o ReconTer
ampliando a capacidade de prontifi- f) subsidiar o Comandante da e o ReconAnf;
cação da Unidade Anfíbia (UAnf) e FFE com informações visando ao de- c) Facilidade na formação básica
do (CCT) da BAnf. A Unidade não senvolvimento de procedimentos dos elementos de Recon e OpEsp;
terá autonomia administrativa e será operativos. d) Manutenção da flexibilidade do
comandada por um CMG (FN). A seguir é apresentado o orga- emprego do equipamento específico
nograma simplificado. e comum às ações de OpEsp e Recon;
b.2 – Principais e) ampliação da flexibilidade do
Vantagens BtlOpEspFuzNav; e
a) nuclear o comando de Força f) padronização do adestramento
de Desembarque (ForDbq) valor das Cias.
UAnf e o comando do CCT de uma
BAnf; c.3 – Principais Tarefas
b) desenvolver e manter atuali- a) nuclear os GptOpFuzNavforma-
zados planos para possível emprego dos especificamente para realizar
conforme orientação superior; OpEsp;
c) manter o controle do estado b) nuclear o GERR;
de prontificação dos meios integran- c) desenvolver operações espe-
tes da Força-Pronta UAnf; ciais em apoio aos GptOpFuzNav;
d) Agilidade de resposta do co- d) desenvolver a ções de reco-
mando da UAnf da Força-Pronta; nhecimento e vigilância estratégico-
e) Facilidade no acompanhamen- c. Batalhão de Operações Es- operacional; e
to da evolução da situação em cená-peciais (BtlOpEspFuzNav) e) desenvolver o reconhecimento
rios selecionados; c.1 – Justificativa e a vigilância afastados ou profundos
f) Facilidade na manutenção de Possibilitar a simplificação da sua em apoio aos GptOpFuzNav.
memória dos processos operativos
estrutura organizacional, agrupando O organograma simplificado da
relacionados ao comando da UAnf;
suas quatro companhias, duas de Unidade é o apresentado a seguir:
g) Facilidade no relacionamento
OpEsp e duas de Recon, em duas
com os comandos paralelos da Es-
CiaOpEsp que executariam tanto ta-
quadra; e refas de reconhecimento, como de
h) maior eficiência, por dispor-se
operações especiais. O Grupo Es-
de uma organização permanente, no
pecial de retomada e Resgate(GERR)
planejamento e execução de opera-
deve ser organizado em uma das
ções/exercícios. Subunidades, facilitando o adestra-
mento e o controle de seu material
b.3 – Principais Tarefas específico. Esta simplificação au-
a) nuclear o CmdoForDbq de mentará a flexibilidade do empre- Divisão Anfíbia
valor UAnf; go de pessoal do batalhão, permi- a - Batalhão de Comando e
b) nuclear o CmdoCCT de uma tindo, mediante adestramento com- Controle(BtlCmdoCt)
BAnf; plementar, intercambiar elementos a.1 – Justificativa

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Ativar uma unidade para prover Inteligência (CAI) dos GptOpFuzNav; terra pelos GptOpFuzNav, quando
o comando dos GptOpFuzNav com e) prover o apoio de sensores meios aéreos forem desdobrados em
o pessoal e o material necessários à ótico/eletrônicos de vigilância terres- terra; e a exigüidade de sensores de
coordenação, preparo e emprego tre aos GptOpFuzNav; vigilância aérea, impedindo a divisão
dos meios de comando, controle, co- f) montar e operar os Postos de de meios para as atividades de De-
municações, inteligência e guerra Comando dos GptOpFuzNav; fesa Antiaérea (DAAe) e de Controle
eletrônica, enquadrando meios e ta- g) Montar e operar um Centro Aerotático (CtAetat). A Unidade
refas das atuais CiaCmdo, CiaCom Controlador de Inteligência Ele- será ativada em torno da BiaArtAAe,
e CiaGE, que serão extintas. A uni- trônica (CECOIE) em apoio ao CAI com semi-autonomia administrativa,
dade, com semi-autonomia adminis- dos GptOpFuzNav; e comandada por um CF(FN).
trativa, sanará as deficiências atuais g) Prover apoio logístico sumá-
e ampliará a capacidade de coman- rio de todas as classes de suprimen- b.2 – Principais Vantagens
do e controle dos GptOpFuzNav. tos aos GptOpFuzNav; e a) facilita a integração operacional
Será comandada por um CF(FN). h) Prover apoio de transporte ao dos meios aéreos e de defesa antia-
comando dos GptOpFuzNav. érea, reduzindo as possibilidades de
a.2 – Principais Vantagens O organograma simplificado da baixas decorrentes de fogo amigo;
a) Facilidade na integração Unidade é apresentado a seguir. b) facilita a coordenação do des-
operacional dos meios de comando
e controle;
b) Facilidade na coordenação do
desdobramento e emprego dos mei-
os de comando e controle em ope-
rações;
c) Ampliação da capacidade de
análise de inteligência pela dis-
ponibilização de um núcleo base de
pessoal especializado para a ativação
do Centro de Análise de Inteli-
gência(CIA), a partir dos elementos
integrantes do Estado-Maior e Cia
do próprio Batalhão, a ser colocado
sob o controle do Oficial de Inteli-
gência do GptOpFuzNav; e
d) Ampliação da capacidade de b – Batalhão de Controle dobramento e emprego dos meios de
gerar conhecimentos dos Aerotático e Defesa Antiaérea aviação e de defesa AAe em opera-
GptOpFuzNav pela disponibilização (BtlCtAetatDAAe) ções; e
de sensores eletrônicos de vigilância b.1 – Justificativa c) otimiza o emprego dos meios
terrestre a serem concentrados no Criar uma unidade com capaci- de vigilância aérea disponíveis.
Pelotão de Vigilância Eletrônica dade de comando e controle dos
(PelVigElt), quando ativado. meios aéreos e de defesa antiaérea a b.3 – Principais Tarefas
baixa altitude dos Grupamentos a) nuclear o Comando do
a.3 – Principais Tarefas Operativos de Fuzileiros Navais, ten- Componente Aéreo (CAA) dos
a) nuclear o componente de co- do em vista a incorporação da avia- GptOpFuzNav;
mando dos GptOpFuzNav; ção de asa fixa na Marinha; a b) nuclear as agências de con-
b) prover o apoio de comunica- inexistência de elemento núcleo para trole aerotático dos GptOpFuzNav
ções aos GptOpFuzNav; o Componente de Combate Aéreo e instalar, explorar e manter as redes
c) prover o apoio de inteligência dos GptOpFuzNav; a deficiência na necessárias ao controle e coorde-
eletrônica aos GptOpFuzNav; coordenação do emprego dos mei- nação do apoio aéreo;
d) nuclear o Centro de Análise de os aéreos e de defesa antiaérea em c) prover a defesa antiaérea dos

2002 - O Anfíbio - 22
GptOpFuzNav e apoiar o desdobra- Leves Sobre Rodas (CCLSR) CAS- c.3 – Principais Tarefas
mento em terra de meios de aviação; CAVEL, de modo a permitir maior a) prover o apoio de CC aos elemen-
d) prover o apoio de comunica- flexibilidade no emprego desses mei-tos de manobra dos GptOpFuzNav;
ções para o apoio aéreo aos os, além de estabelecer os carros de b) participar da DAC dos
GptOpFuzNav (redes externas às combate em uma unidade com mai- GptOpFuzNav;
Unidades relativas ao apoio aéreo); ores possibilidades administrativas e c) quando reforçado por tropa de
e) Operar campos de pouso ex- operativa que a atual CiaCC. Terá infantaria, atuar como peça de ma-
peditos para o desdobramento de semi-autonomia administrativa e seránobra dos GptOpFuzNav;
meios aéreos em terra, prestando- comandada por um CF(FN). d) Prover apoio de transporte blin-
lhes segurança e ApSvCmb com seus dado para movimentos táticos e/ou
próprios recursos, incorporando os c.2 – Principais Vantagens apoio logístico;
reforços necessários; a) facilidade na integração e) Suplementar os fogos das ar-
O organograma simplificado da operacional dos meios blindados nos mas de apoio;
Unidade é apresentado a seguir. GptOpFuzNav; f) Constituir um elemento de ma-
nobra de valor Unidade, particular-
mente para o desenvolvimento de
ações que exijam as características
dos blindados; e
g) Quando reforçado, realizar
ações de reconhecimento, segurança,
vigilância e de economia de forças.
O organograma simplificado da
Unidade é apresentado abaixo.

Tropa de Reforço
a – Comando da Tropa de
Reforço
a.1- Justificativa
Atribuir ao Comando da Tropa
de Reforço (CmdoTrRef) a tarefa
de ficar em condições de nuclear o
c – Batalhão de Blindados b) facilidades logísticas pela cen- comando do GASC de uma BAnf,
(BtlBld) tralização de meios de manutenção fazendo-a constar na OA/OC des-
c.1 – Justificativa de CC e VtrBld;
Ativar uma unidade capaz de in- c) facilidade
tegrar os GptOpFuzNav com carros na formação de
de combate e viaturas blindadas, elementos de
conferindo a estes maior poder de manobra inte-
fogo, capacidade de manobra ampli- grando os blin-
ada, proteção blindada, melhores dados e a infan-
condições de desenvolver a Defesa taria ou elemen-
Anti-Carro (DAC) e meios para re- tos de reconheci-
alizar ações de reconhecimento e se- mento e de vigi-
gurança blindada, ampliando a flexi- lância; e
bilidade de organização-por-tarefas d) similarida-
dos GptOpFuzNav. A nova OM jun- de de caracterís-
ta, sob o mesmo comando, as atuais ticas dos CC e
CiaCC e CiaVtrBld (M-113) do VtrBld quanto ao
BtlVtrAnf e os Carros de Combate desembarque.

2002 - O Anfíbio - 23
sa Força. A inclusão decorre das b.2 – Principais Vantagens mando, de comunicações e de
limitações do BtlLogFuzNav em a) atribui a devida importância a serviços gerais para organizar a
nuclear o comando do GASC de este elemento organizacional, facili- Subunidade independente a ser
uma ForDbq valor BAnf e, em tando as atividades de preparo e de criada. A reorganização do
paralelo, exercer as atividades de emprego próprios; e BtlEngFuzNav agrupa as atuais
ApSvCmb. Quando ativado, o co- b) amplia a capacidade de ApDbq CiaAp e CiaEng numa única Subu-
mando do GASC será exercido por por superfície e/ou helicóptero aos nidade, chamada de CiaApEng.
um CMG (FN) da Tropa de Re- GptOpFuzNav.
forço. Seu Estado-Maior será com- c.2 – Principais Vantagens
posto por oficiais e praças, priorita- b.3 – Principais Tarefas a) Atribuição da devida impor-
riamente do próprio EM/CmdoTrRef, a) facilitar a movimentação de tância à atividade de apoio ao de-
previamente designados por esse pessoal e material através das praias sembarque, facilitando as atividades
comando, a quem caberá a manu- de desembarque; de preparo e emprego da CiaApDbq;
tenção do nível de adestramento b) ficar em condições de nuclear b) Facilita o desenvolvimento
necessário. Elemento de Apoio de Serviços ao das atividades de ApCmb e
Combate (ElmASC); ApSvCmb pelo BtlEngFuzNav; e
a.2 – Principais Vantagens c) Preparar as praias para o de- c) Permitirá a otimização do em-
a) Facilita o planejamento, o co- sembarque por superfície; prego de pessoal e material do
mando e o controle do GASC de d) Delimitar as AApP; BtlEngFuzNav, ampliando sua capa-
uma BAnf; e e) Estabelecer saídas de praia; cidade de ApCmb e ApSvCmb.
b) Permite ao BtlLogFuzNav f) Orientar as aeronaves e prepa-
concentrar todos seus esforços nas rar as ZD; e c.3 – Tarefas Principais
tarefas de ApSvCmb. g) Controlar o pessoal e o mate- Suas tarefas permanecerão as
rial desembarcados. mesmas, excetuando-se as da
a.3 – Principais Tarefas O organograma simplificado da CiaApDbq.
a) nuclear o GASC de uma Unidade é apresentado abaixo. O organograma simplificado do
ForDbq valor BAnf; e
b) ampliar a capacidade de co-
mando e controle das atividades
logísticas dos GptOpFuzNav.

b – Companhia de
Apoio ao Desembarque
(CiaApDbq)
b.1 – Justificativa
Transformar a atual CiaApDbq,
do BtlEngFuzNav, em uma Subuni-
dade independente, tendo em vista c – Batalhão de Engenharia BtlEngFuzNav é mostrado abaixo.
as peculiaridades e a importância (BtlEng)
das atividades de apoio ao desem- c.1 – Justificativa
barque para os GptOpFuzNav em Necessidade de reorga-
terra. A separação do BtlEngFuzNav nizar o BtlEngFuzNav devi-
ampliará a capacidade da CiaApDbq do a perda da CiaApDbq,
para preparar e empregar seus mei- que será transformada em
os. A OM será classificada como uma Subunidade indepen-
OM sem autonomia administrativa, dente em função da sua
sendo apoiada pela BFNIF, e co- especificidade. O BtlEngFuzNav d - Batalhão de Viaturas An-
mandada por um CC(FN). disponibilizará os elementos de co- fíbias (BtlVtrAnf)

2002 - O Anfíbio - 24
d.1 – Justificativa atuação do GptOpFuzNav em am- BtlLogFuzNav. Completando a
Será reorganizado em função da bientes de guerra química, bacterio- reestruturação da FFE, e em decor-
transferência da CiaVtrBld (M-113) lógica e nuclear. rência da criação das OM citadas,
para a criação do BtlBldFuzNav. No serão desativadas a CiaCom, a
mais, sua organização permanecerá e.3 – Principais Tarefas CiaCmdo, a Cia CC e a BiaArtAAe,
a mesma, exceto o EM, cujas Se- a) realizar a descontaminação de na DivAnf; e a CiaGE, na TrRef.
ções de Inteligência e de Operações química e nuclear de pessoal e mate- Finalmente, a estrutura da FFE
serão fundidas em apenas uma rial em apoio aos GptOpFuzNav; com suas FS/US, simplificadamente,
Seção. b) prover destacamentos técnicos apresentará os organogramas mos-
O organograma simplificado será para o assessoramento acerca das trados na pág. 14.
apresentado a seguir. operações em ambientes passíveis
CONCLUSÃO
A proposta apresentada não
introduziu mudanças radicais na atual
estrutura básica da FFE, que tem se
mostrado adequada às necessidades
do CFN. Foram sugeridos somente
alguns reajustes organizacionais
decorrentes basicamente da in-
corporação de novos meios, em
particular aqueles destinados ao
aumento da ação de choque, mo-
bilidade e da capacidade C4I dos
GptOpFuzNav, uma imposição da
guerra moderna.
e – Batalhão Logístico de contaminação química, biológica Da mesma forma, a nova estrutu-
e.1 – Justificativa ou nuclear aos GptOpFuzNav. ra consagra o uso do GptOpFuzNav,
Necessidade de ciar na sua es- O organograma simplificado será constituído pelos componentes já
trutura um Pelotão de Defesa Quí- apresentado a seguir. tradicionais, como organização-por-
mica, Bacteriológica e Nuclear tarefas padrão
(PelDQBN, com capacidade tam- para o emprego
bém para realizar as tarefas de da FFE na exe-
descontaminação, em face da atual cução das diver-
incapacidade do BtlLogFuzNav em sas tarefas, não o
apoiar as ações dos GptOpFuzNav limitando às ope-
em ambientes de guerra química, rações anfíbias.
bacteriológica e nuclear, implicando, Tal forma de or-
conseqüentemente alteração da sua ganização per-
organização. mite, não apenas
Resumidamente, na proposta a melhor divisão de responsabilida-
e.2 – Principais Vantagens apresentada, observamos o surgimen- des no emprego da força, mas
a) proporcionará ampliação de to de cinco novas Unidades: o também a modularização do seu
possibilidades de indicação dos CmdoTrDbq, o BtlCmdoCt, o preparo.
militares que serão qualificados para BtlCtAetatDAAe, o BtlBld e a A criação de um comando per-
as tarefas de descontaminação, não CiaApDbq. Ainda em decorrência dos manente para os GptOpFuzNav, nos
vinculando a atividade tão somente aspectos abordados, serão reestrutu- moldes das Divisões da Esquadra, é
ao quadro de Engenheiros (EG), ca- rados o EM do CmdoFFE, o EM do uma grande contribuição à prontidão
so ele estivesse no BtlEngFuzNav; e CmdoTrRef, o BtlOpEspFuzNav, o operativa das forças, capaz de exe-
b) Ampliará a capacidade de BtlEngFuzNav, o BtlVtrAnf e o cutar os planejamentos e rapidamente

2002 - O Anfíbio - 25
receber os meios para a realização da FFE não deixou de considerar o ções e de inteligência em todos os
de exercícios e operações, particu- quadro econômico que vivemos, escalões das forças.
larmente no nível UAnf. principalmente as restrições orça- Finalmente, a adição das novas
Com as alterações propostas, a mentárias. As mudanças sugeridas capacidades proporcionadas pela
FFE terá uma estrutura organi- serão implementadas a um custo reestruturação irão, sem dúvida,
zacional mais versátil, permitindo que baixíssimo, podendo ser cobertos, constituir um incremento significati-
as Unidades se dediquem com mais basicamente, com o PAP e PANP. vo na eficácia de condução de
eficiência ao preparo para o combate, As novas OM que serão criadas nossas operações e exercícios,
diminuindo os encargos decorrentes surgirão da aglutinação e da desa- permitindo certamente que o setor
dos aspectos administrativos, oti- tivação de unidades já existentes. operativo do Corpo de Fuzileiros
mizando o emprego dos meios de A criação do CmdoTrDbq, do Navais mantenha-se em condições
pessoal e material, além de ca- BtlCmdoCt e do BtlCtAetatDAAe de atender às características básicas
racterizar o término da transição para ressaltou a importância que a nova do poder naval: versatilidade,
o conceito de GptOpFuzNav. estrutura deu aos requisitos de mobilidade, flexibilidade e per-
Por outro lado, a nova estrutura comando, de controle, de comunica- manência.

2002 - O Anfíbio - 26
O Comando da
Tropa de Desembarque
CMG (FN) M AURO CEZAR DE CAMPOS PARALHOS

“A melhor forma de evitar baixas desnecessárias em combate é


proporcionar um adestramento de
primeira qualidade para os subordinados.”
Erwin Rommel

ANTECEDENTES DO CMDOTRDBQ
AS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS
A idéia de ser utilizado um Comando em separado para os
GptOpFuzNav não é nova, sendo que as primeiras experiências remon-
tam ao início da década de 90 do século passado. Naquela oportunida-
de, os ensinamentos adquiridos por diversos oficiais que cursaram ou
realizaram intercâmbio no United States Marines Corps (USMC), espe-
cialmente quanto à organização para o combate de grupamentos
operativos e a uma melhor integração e emprego dos diversos elementos
de combate, apoio ao combate e apoio de serviços ao combate, convence-
ram nossas autoridades navais da necessidade de serem introduzidas
modificações na organização de nossos GptOpFuzNav, de modo a au-
mentar seu poder de combate.
Assim, nos idos de 1990, durante as operações denominadas
1
GDBEx , foi testada uma organização que já previa um comando em
separado para um GptOpFuzNav nucleado em um Batalhão de Infan-
taria (BtlInf) 2 . Contudo, não havia uma separação nítida entre o Co-
mando do GptOpFuzNav e o Comando do BtlInf, pois o primeiro era
comandado pelo próprio Comandante do Batalhão de Infantaria que
nucleava o citado grupamento operativo, passando para o seu Imediato
a tarefa de comandar o BtlInf durante a operação. Além disso, também
não havia uma separação entre os Estados-Maiores (EM), pois, em sua
grande maioria, seus componentes eram originários do BtlInf.
Posteriormente, em 1992 e 1993, foram empregados vários mo-
delos, seja com um Comando em separado ou com o Comandante do
BtlInf acumulando os dois Comandos. Quanto aos EM, oficiais e praças
de outras Organizações Militares (OM), que não os do BtlInf, começa-
ram a ser indicados para compô-los.
1
O termo é originário de Grupamento de Desembarque de Batalhão (GDB), que é a organização tática específica que o BtlInfFuzNav
adota para o desembarque (ver o CGCFN-1301).
2
O termo Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais (BtlInfFuzNav) só foi adotado em 1993.

2002 - O Anfíbio - 27
O CONCEITO DE e pelos meios de Comunicações e ForDbq/ForInc, visando ao cumpri-
COMPONENTES pessoal necessários ao exercício do mento de uma missão, o Componen-
comando e controle da ForDbq/ te de Comando é sempre o Coman-
Somente a partir da adoção do ForInc. do da ForDbq/ForInc, o CCT, depen-
conceito de componentes pela Ma- O CCT pode variar desde uma dendo do seu valor, passa a ser de-
rinha do Brasil, quando da publica- CiaFuzNav (Ref) até uma BdaFuzNav, nominado CiaFuzNav (Ref), GDB ou
ção em 1994 do manual CGCFN- possuindo também elementos de Grupamento de Desembarque de Bri-
1301 – Manual para Instrução de apoio ao combate e de apoio de ser- gada (GDBda), e o CASC é cha-
Operações de Forças de Desem- viços ao combate. Normalmente, a mado de Grupo de Apoio de Servi-
barque, é que houve a formalização ForDbq/ForInc e o CCT terão co- ços ao Combate (GASC).
doutrinária quanto à possibilidade de mandos distintos. Contudo, depen- A partir de 1994, coerente com
existir um Comando em separado dendo da situação, o ComForDbq/ o manual já referenciado, os exercí-
para os GptOpFuzNav. ComForInc poderá acumular o co- cios GDBEx passaram a se denomi-
Pelo citado manual, os GptOpFN mando do CCT, sendo recomenda- nar UANFEx (corruptela de Exercí-
destinados a realização de um As- do, nesta situação, diferentes EM pa- cio de UAnf), sendo as ForDbq/
salto Anfíbio (AssAnf) podem ser os ra os componentes em questão. ForInc organizadas segundo o con-
seguintes: Quanto ao CCA, ele é organiza- ceito de componentes descrito aci-
r Elemento Anfíbio (ElmAnf), do com os meios do Batalhão de ma. Entretanto, ainda persistiam al-
caso seja nucleado em uma Com- Controle Aerotático e Defesa Antiaé- guns problemas, sendo o maior de-
panhia de Fuzileiros Navais rea (BtlCtAetatDAAe) e da Força les a inexistência de uma organiza-
(CiaFuzNav); Aeronaval visando à realização das ção permanente que constituísse a
r Unidade Anfíbia (UAnf), ca- tarefas de Reconhecimento Aéreo, base para o Comando da ForDbq/
so seja nucleado em um Batalhão Apoio de Fogo Aéreo, Guerra Ele- ForInc, sendo ainda necessário re-
de Infantaria de Fuzileiros Navais trônica, Apoio ao Assalto e Contro- manejar Oficiais e Praças de diver-
(BtlFuzNav); e le da Defesa Antiaérea. Assim como sas organizações Militares (OM) para
r Brigada Anfíbia (BAnf), caso o CCT, ele possui elementos própri- compô-lo.
seja nucleado em uma Brigada de os de apoio ao combate e de apoio
Fuzileiros Navais (BdaFuzNav). de serviços ao combate. O SIMPÓSIO
No caso da Incursão Anfíbia Por fim, o CASC congrega os ele- DO 3º MILÊNIO
(IncAnf), qualquer que seja o esca- mentos de apoio responsáveis pelo
lão considerado, a Força de Desem- apoio logístico à ForDbq/ForInc que Este simpósio, ocorrido no mês
barque adota o nome de Força de esteja além da capacidade dos ou- de outubro de 2000, no Centro de
Incursão (ForInc). Quanto à sua or- tros componentes, sendo nucleado Instrução Almirante Sylvio de Ca-
ganização, seja para realizar um As- em torno de elementos de apoio de margo (CIASC), como salientado an-
salto Anfíbio ou uma Incursão Anfí- serviços ao combate. teriormente, teve o propósito de deli-
bia, os GptOpFuzNav possuem a As denominações acima são near, num horizonte de 10 anos, o con-
estrutura femonstrada abaixo. meramente para efeitos administrati- ceito de emprego dos GptOpFuzNave
O CCmdo é formado pelo Co- vos. Por exemplo, quando da mon- outras tarefas compatíveis com or-
mandante com o seu Estado-Maior tagem da Organização por Tarefa da ganizações de fuzileiros navais, além
de requisitos de organização, pesso-
al, material e adestramento decorren-
tes, à luz de cenários prospectivos.
Dois GT foram constituídos para
que, com autonomia e independên-
cia, pudessem apresentar propostas
visando a preparar o Corpo de Fu-
zileiros Navais para a primeira dé-
cada do século 21.
Em seus estudos, os dois GT le-

2002 - O Anfíbio - 28
varam em consideração o contido na cleasse o Comando da UAnf tam- real. Como exemplo, podemos citar
Política de Defesa Nacional (PDN), bém assumisse o Comando do CCT os BtlInfFuzNav.
na Estratégia Militar de Defesa da BAnf quando esta fosse ativada. No caso das OM Facilitadoras,
(EMD) (projeto), na Doutrina Bási- Desse modo, a par de suprir uma la- elas são responsáveis pelas atividades
ca da Marinha (DBM) e também a cuna no estado de prontidão das tro- administrativas e gerenciais funcionais
análise das conjunturas nacional e in- pas de fuzileiros navais, a nova OM em tempo de paz. Sua estrutura or-
ternacional. contribuiria para uma maior difusão ganizacional adota a forma depar-
Ambos os GT, ao desenvolverem do conceito de componentes no âm- tamental, buscando atender as OM
seus trabalhos, chegaram à conclu- bito da MB. Preparadoras. Exemplo típico são as
são de que o emprego de tropas de Cada um dos GT atribuiu dife- Bases de Fuzileiros Navais.
fuzileiros navais normalmente se rentes nomes para a OM proposta. Quanto as OM Empregadoras,
dará através da constituição de O GT Alfa propôs Comando de seriam aquelas responsáveis pelo em-
GptOpFuzNav. Aliando tal conclusão GptOpFuzNav (CmdoGptOpFuzNav), prego operativo dos GptOpFuzNav
aos antecedentes históricos relativos enquanto o GT Bravo nomeou-a Co- em exercícios e combate. Também
ao emprego de GptOpFuzNav, os mando da Tropa de Desembarque seriam responsáveis pelo preparo de
integrantes dos dois GT ressaltaram Anfíbio (CmdoTrDbqAnf). Quando planos/ordens de operação, pelo
a necessidade de ser criada uma Or- posteriormente o GT constituído pelo desenvolvimento de procedimentos
ganização Militar (OM) que condu- ComFFE elaborou seu relatório, de operativos padronizados (POP) e
zisse planejamentos decorrentes das modo a detalhar a reestruturação de- pela aferição dos índices de eficácia
determinações superiores, acompa- terminada pela ORCOM/2001 do das OM Preparadoras. Sua atividade
nhasse situações potenciais de crise Comandante da Marinha, foi intro- fim é o planejamento e o controle da
e proporcionasse maior agilidade na duzido o nome Comando da Tropa ação planejada. Atualmente, a DivAnf
ativação e no emprego da Força- de Desembarque (CmdoTrDbq), o é a única OM Empregadora existen-
Pronta (FP) tipo UAnf. Enfim, uma qual foi posteriormente aprovado te no âmbito da FFE.
OM que nucleasse o Componente de pelas autoridades navais. Comparando os conceitos citados
Comando da UAnf, de modo a su- acima com as propostas apresenta-
prir sua deficiência no aspecto “pron- AS OM EMPREGADORAS das pelos GT do Simpósio do 3º Mi-
tidão de comando” e controle, pos- DA FFE lênio, fica claro que a OM a ser cria-
suindo tarefas semelhantes às atribuí- da, visando a nuclear o Componente
das às 1ª e 2ª Divisões da Esquadra. Além das conclusões já mencio- de Comando de GptOpFuzNav,
Além disso, como bem ressaltou nadas, é interessante notar a proposta seria uma OM Empregadora. Assim,
um dos grupos, a noção de compo- apresentada por um dos grupos so- passariam a existir duas destas OM
nentes ainda não estava totalmente bre os conceitos de OM Prepara- na estrutura da FFE: a DivAnf e o
difundida e aceita no seio da MB, dora, OM Facilitadora e OM Em- CmdoTrDbq. Voltaremos a abordar
sendo que uma das razões para isto pregadora. Estes conceitos classifi- os conceitos acima quando enfocar-
residia na organização por tarefa caram as OM do CFN segundo o mos o que visualizamos para o futu-
adotada pela ForDbq por ocasião papel que cada uma delas desempe- ro do CmdoTrDbq.
das Operações Dragão3 . Nestas ope- nha em tempo de paz na composi-
rações não havia a separação entre ção dos GptOpFuzNav. O COMANDO DA TROPA DE
o Comando da ForDbq e o do CCT, Assim, as OM Preparadoras se- DESEMBARQUE
cabendo ao ComDivAnf acumular os riam aquelas voltadas para o ades-
dois comandos, sendo constituído tramento a nível de Unidade, não “O Princípio da Prontidão se
somente um Estado-Maior, a nível de possuindo encargos administrativos. aplica aos campos abrangidos pelo
ForDbq. Por isto, também foi pro- Elas são voltadas para a prontidão comando, inteligência, pessoal,
posto que a mesma OM que nu- operativa e logística, além da manu- material, planejamento e logística.
tenção da moral, disciplina e higidez Subtende-se que as forças estão
física da tropa. Sua organização é providas dos meios essenciais e
3
Operação Anfíbia realizada anualmente, a funcional, não devendo haver altera- organizadas para operações de
nível BAnf, coroando o adestramento da FFE. ções estruturais no caso de emprego combate. Isto envolve o preparo

2002 - O Anfíbio - 29
antes das hostilidades e a contínua deria ser instalada a nova Unidade. para funcionamento do EM;
preparação no decorrer da guer- Além disso, foi proposto que ela fos- r inexistência prévia de indicativo
ra.” (Doutrina Básica da Marinha) se diretamente subordinada ao Co- naval;
mando da FFE. Quanto ao seu efe- r inexistência das facilidades ad-
AS PREMISSAS tivo, em parte seria oriundo de duas ministrativas inerentes à uma OM;
seções do EM do ComFFE a serem r falta de coesão do EM; e
O GT designado pela Portaria extintas: a Seção de Planejamento r com o aumento da informatiza-
065/2001 do ComFFE, para apro- (F-70) e o Grupo de Desenvolvimen- ção da MB, inexistência de equipa-
fundar os estudos sobre a reestru- to de Tática (GDT) (F-80). A Seção mentos de informática específicos
turação da FFE, estabeleceu algu- de Operações (F-30) absorveria al- para o trabalho do EM do CCmdo.
mas premissas básicas, além de ser gumas das tarefas atribuídas às cita- Com a criação do CmdoTrDbq,
obrigado a seguir outras tantas. As das seções, tais como a operação do isto será inteiramente resolvido, pois
referidas premissas tiveram influên- Sistema de Avaliação de Exercícios esta Força permanente possuirá to-
cia marcante não só sobre a propos- (SAE) e a realização das Avaliações das as facilidades inerentes à uma
ta de criação do CmdoTrDbq como Operacionais dos meios da FFE. OM, além de local adequado para
também sobre as demais alterações seu funcionamento e para o planeja-
na estrutura da FFE. Dentre as im- AS VANTAGENS DO mento de exercícios e operações.
postas encontravam-se: CMDOTRDBQ Contudo, um dos argumentos mais
r proporcionar, com o máximo fortes para criação do CmdoTrDbq
de facilidade, a constituição de Em seu relatório, o GT também reside na Doutrina Básica da Mari-
GptOpFuzNav; apontou várias vantagens advindas da nha (DBM), especificamente quan-
r não haver acréscimo no criação do CmdoTrDbq. Neste tó- do aborda o Princípio de Guerra da
efetivo da FFE; e pico teceremos algumas considera- Prontidão, cujo texto inícia este ca-
r tomar como base as conclu- ções sobre as mesmas: pítulo. Pelo mesmo, podemos notar
sões dos trabalhos realizados por a. Agilidade de resposta do Co- que esta nova Unidade preenche
ocasião do Simpósio do CFN do mando da UAnf (Força-Pronta) completamente o quesito de pronti-
3º Milênio. Conforme já foi mencionado, to- dão de comando citado na DBM.
Quanto às premissas assumidas, das as experiências passadas com a b. Facilidade no acompanha-
podemos citar: FP tipo UANF , nas quais foi consti- mento da situação de cenários
r ser considerado o estudo re- tuído um CCmdo em separado, de- selecionados e na manutenção de
alizado pelo EMA sobre a monstraram a necessidade de existir “memória” dos exercícios opera-
reformulação das Tabelas de Lo- organização anterior a ativação da FP tivos relacionados ao comando da
tação (TL) das OM; que pudesse agilizar sua resposta ante UAnf
r não haverá um acréscimo uma crise político-estratégica, pois a Estando permanentemente cons-
significativo nos efetivos da FFE reunião tempestiva de oficiais e pra- tituído, o CmdoTrDbq poderá acom-
nos próximos dez anos; e ças, oriundos de diversas unidades, panhar, em melhores condições, a
r quando novos meios forem para nuclear o Componente de Co- evolução de cenários de interesse
incorporados ao acervo da FFE, mando, consumia algum tempo. Além para o país, especialmente aqueles
será necessária uma avaliação so- disso, dentre outros óbices, somente onde haja possibilidade de a FP atuar.
bre a validade de serem feitos rea- a partir da designação é que estes Neste sentido, a OM deverá se ligar
justes na estrutura da FFE. militares poderiam tomar as providên- aos Centros de Comando da FFE,
O mencionado GT, ao abordar a cias necessárias visando ao embar- da Esquadra e do Comando de Ope-
criação do CmdoTrDbq, chegou a que e o cumprimento das tarefas im- rações Navais, de modo a obter da-
conclusão que a nova OM deveria postas à FP. Como exemplos bem dos e conhecimentos sobre aqueles
possuir instalações independentes, simples dos problemas que ocorri- cenários, devendo ser parte integran-
“status” de Comando de Força e ser am, podemos citar: te do Sistema Naval de Comando e
comandada por um Capitão-de- r inexistência de local adequado Controle (SISNC²). Do mesmo
Mar-e-Guerra (FN), tendo sido pré- para instalação do CCmdo; modo, sendo responsável por nucle-
selecionados quatro locais onde po- r inexistência de local adequado ar o Comando da UAnf da FP, fica

2002 - O Anfíbio - 30
claro que o CmdoTrDbq é o melhor uma maior capacidade e rapidez do os seguintes tópicos:
local para concentrar todo o acervo Poder Naval em projetar poder so- a) Tarefas e Propósito
relativo aos exercícios relativos àquele bre terra, em situações de crise polí- I) Tarefas
tipo de ForDbq. tico-estratégica, através de uma r nuclear o comando de Força
c. Melhor relacionamento com OpAnf. Tal fato, aliado às caracte- de Desembarque valor UAnf;
os Comandos empregadores de rísticas do Poder Naval e ao apres- r nuclear o Comando do Com-
meios da Esquadra tamento realizado anualmente pelos ponente de Combate Terrestre de
Na estrutura organizacional da meios da Marinha do Brasil, contri- uma BAnf;
Esquadra, as Divisões da Esquadra buirá para incrementar o potencial de r desenvolver e manter atualiza-
são as OM diretamente responsáveis dissuasão. dos planos para possível emprego
pelo emprego dos meios navais e Após o Comandante da Marinha conforme determinação superior;
aeronavais, especialmente aqueles ter aprovado o relatório do GT su- r manter o acompanhamento do
relativos à FP. A inexistência de uma pramencionado, o ComFFE deter- estado de prontificação dos meios
estrutura semelhante na FFE, que nu- minou que fosse feito um estudo es- integrantes da Força-Pronta da FFE;
r subsidiar o Comandante da
cleasse o comando dos GptOpFuzNav pecífico sobre os possíveis locais de
a nível de UAnf, obrigava a forma- funcionamento do ComTrDbq. Ao FFE com informações para atualizar
o repositório de conhecimentos ope-
ção de CCmdo “ad hoc”, o que tra- analisar as vantagens e desvantagens
racionais;
zia alguns inconvenientes administra- apresentadas pelo EM da FFE quan-
r subsidiar os Comandantes da
tivos no decorrer do planejamento de to àqueles locais, o Comandante da
DivAnf e TrRef com informações re-
exercícios e operações. Possuindo FFE decidiu por instalá-lo nas depen-
lativas ao preparo dos meios subor-
tarefas semelhantes às das Divisões dências do próprio prédio do EM da
dinados; e
da Esquadra e sendo considerado FFE, abarcando as instalações da F- r subsidiar o Comandante da FFE
também como um Comando de For- 70 e da F-50, além de um alojamen- com informações visando o desen-
ça, o CmdoTrDbq terá as condições to de praças contíguo ao Centro de volvimento de procedimentos opera-
necessárias para sanar aqueles pro- Comando da FFE, sendo necessári- tivos.
blemas. as algumas obras de adaptação. II) Propósito
d. Maior eficiência, por dispor- r dotar o Componente de Co-
se de uma organização permanen- A PROPOSTA DE CRIAÇÃO mando dos GptOpFuzNav de ele-
te no planejamento e execução de mentos inteiramente voltados ao
operações/exercícios. Dando continuidade aos trabalhos planejamento e execução de diver-
Complementarmente ao fato de sobre a reestruturação da FFE e em sas operações.
satisfazer ao quesito “prontidão de cumprimento ao determinado pelo b) Autonomia
comando”, conforme comentado aci- ComOpNav, foram levantados os cus- r o CmdoTrDbq foi classificado
ma, e de poder acompanhar a evo- tos relativos às novas OM a serem cri- como OM sem autonomia adminis-
lução de cenários selecionados, o adas e as ações a serem adotadas, além trativa, devendo ser apoiada pela
CmdoTrDbq poderá se dedicar, co- de ser estipulado um cronograma para Base de Fuzileiros Navais do Rio
mo organização permanente, à ela- a implantação daquelas OM. No caso Meriti (BFNRM) em todas as fun-
boração de planos/ordens de ope- específico do CmdoTrDbq, o referido ções logísticas.
ração visando ao cumprimento de cronograma previu sua criação para c) Tabela de Lotação (TL)
possíveis tarefas a serem cumpridas junho de 2002 e a ativação em agosto r a proposta de TL, baseada nas
nos citados cenários, assim como os do mesmo ano. Assim, em 14 de maio, similares das Divisões da Esquadra,
relativos aos exercícios envolvendo foi encaminhado ao ComOpNav o previu um efetivo de 5 Oficiais Fuzi-
GptOpFuzNav. Ofício nº 205 propondo a criação do leiros Navais, 1 Oficial do Quadro
Apesar de não ter sido apontada CmdoTrDbq e a instalação de um Técnico, 2 Suboficiais, 10 Sargen-
como vantagem pelo GT, a meu juízo, Núcleo de Implantação (NI). Segun- tos e 9 Cabos e 2 Soldados.
também incluiria a contribuição para do o mencionado ofício, o NI auto- Após o encaminhamento da pro-
a dissuasão, pois o fato de existir um maticamente deixaria de existir quan- posta de criação na nova OM, foi
Comando de UAnf permanentemen- do da ativação da OM em agosto de elaborada a sua Organização Admi-
te ativado, sem dúvida, redundará em 2002. A referida proposta continha nistrativa (OA), a ser aprovada pelo

2002 - O Anfíbio - 31
cessário primeiro que seja feita uma
breve comparação com estruturas si-
milares já existentes na MB: os Co-
mandos das 1ª e 2ª Divisões da Es-
quadra (ComDiv-1 e ComDiv-2).
Basicamente, o CmdoTrDbq pos-
sue as mesmas tarefas dos
ComDivEsq, ou seja, planejamento
e condução de exercícios e opera-
ções reais. Para isto, os meios são
apresentados aos ComDivEsq como
estando prontos para o desempenho
das tarefas relacionadas com o pro-
ComFFE, a qual prevê o organo- Até aqui abordamos os motivos pósito do exercício/operação, não
grama acima para a Unidade: que levaram à criação do havendo ingerência das Divisões da
Quando da finalização deste arti- CmdoTrDbq e o processo como Esquadra no tocante ao seu adestra-
go, no início de julho de 2002, a pro- isto ocorreu, além de descrevermos mento prévio e ao preparo logístico.
posta de criação estava sendo enca- as tarefas, o propósito e tecermos Freqüentemente estes meios, por di-
minhada pelo ComOpNav ao Esta- algumas considerações sobre sua versas razões, são reunidos próximos
do-Maior da Armada (EMA). Do OA. Contudo, o simples fato de ter a data do suspender, o que, se por
EMA, ela seguiria para o Ministério sido criada uma Unidade destina- um lado acarreta um maior realismo
da Defesa , via Comando da Mari- da exclusivamente ao planejamento e preparo visando o emprego da FP,
nha, a fim de ser apresentada ao das diversas operações que por outro lado ressalta uma deficiên-
Excelentíssimo Sr. Presidente da Re- GptOpFuzNav podem realizar, não cia no tocante à necessária coesão
pública para aprovação, pois a cria- significa que todos os problemas já que toda força militar deve ter.
ção do CmdoTrDbq altera o Art. 5º abordados anteriormente estejam
do Decreto nº 2153 de 20 de feve- solucionados. O PREPARO DA
reiro de 1997, que estabelece e or- É necessário que a nova OM se FORÇA-PRONTA
ganiza as Forças Navais, Aeronavais adeqüe ao ciclo de adestramento da
e de Fuzileiros Navais e dá outras FFE e que realmente possa cumprir Em qualquer unidade esta coesão
providências. as tarefas listadas no seu ato de cri- é adquirida através do convívio diá-
ação, trazendo uma maior qualida- rio dos superiores com os subordi-
O FUTURO de no planejamento, condução e nados, na troca de experiências pro-
avaliação dos exercícios envolven- fissionais, no exercício da liderança
Crise político-estratégica é do as unidades, subunidades e e pelo aumento da confiança mútua,
uma forma de conflito entre dois frações componentes da FP , além possuindo grande influência no co-
ou mais países, em que o de- da identificação dos problemas re- mando e controle durante a fase da
sencadeamento proposital de uma lacionados com o emprego dos mei- execução de uma operação, pois o
situação de tensão visa à conse- os e seus respectivos procedimen- ambiente de incertezas e desordem
cução de objetivos políticos ou tos operativos. da guerra moderna exige que o su-
político-estratégicos, mediante O propósito deste último tópico bordinado reaja de acordo com o
manipulações do risco de uma é apresentar a visão do autor quanto propósito do superior, sem perder a
guerra, com atitudes e comporta- ao futuro do CmdoTrDbq, especifi- iniciativa. É a coesão que faz com que
mento que indiquem ser a situa- camente no tocante ao relacionamen- as pessoas ajam como se fosse um
ção extrema compatível, indubita- to com outras forças e unidades su- time, visando a objetivos preestabele-
velmente, com as razões maiores, bordinadas ao ComFFE, ao contro- cidos4 . Não basta as partes consti-
quase sempre ocultas ou não le da prontificação da FP da FFE e a
declaradas.”(Doutrina Básica da sua contribuição para o ciclo de ades- 4
O Comando e Controle na Guerra de Mano-
Marinha) tramento da FFE. Entretanto, é ne- bra, O Anfíbio, edição nº 19, p.51.

2002 - O Anfíbio - 32
tuintes de uma força militar estarem do os comandantes e subordinados com o emprego de tropa ou não, en-
adestradas e prontas para o comba- firmam a confiança mútua e os pro- volvendo os meios constituintes da
te, é necessário que a própria força, cedimentos operativos comuns. FP, a cargo do CmdoTrDbq. Tal
como um todo, também esteja. exercício poderia ser realizado no
Em todos os exercícios do tipo O CASO Campo de Adestramento da Ilha da
UANFEx/FP realizados até o mo- BRASILEIRO Marambaia (CADIM), no Campo de
mento, os meios também foram Instrução de Gericinó (CIG) ou no
alocados da mesma forma que os Acreditamos que tal período tam- Campo de Instrução da Academia
exercícios das Divisões da Esquadra, bém deva existir no âmbito da FFE, Militar das Agulhas Negras. Seu pro-
ou seja, em fase III de adestramento havendo necessidade de compatibili- pósito seria integrar os diversos mei-
e prontos sob o enfoque logístico. zá-lo com a sua organização admi- os e consolidar os adestramentos re-
Contudo, foram alocados próximo da nistrativa e o seu ciclo de adestra- alizados anteriormente, sendo o pri-
realização do exercício, sem ter ha- mento. Para isto, seriam adotadas as meiro passo para a Inspeção de Efi-
vido nenhuma interação anterior en- seguintes ações: ciência da FP;
tre o Comando da UAnf e os com- 5. Em seguida, em cumprimento
ponentes subordinados e mesmo en- 1. Ao início de cada ano, ao ser ao PGACON, a FP tipo UAnf, cons-
tre estes e as subunidades e frações expedido o PGAD da FFE e de acor- tituindo uma ForDbq, tomaria parte
colocados em reforço. Assim, ape- do com o documento específico da em uma operação anfíbia (assalto an-
sar de as partes estarem prontas, o FP, seriam designadas as unidades, fíbio ou incursão anfíbia). No exercí-
todo não estava, pois faltava a ne- subunidades e frações que compori- cio, além da fase da execução pro-
cessária coesão. am a FP tipo UAnf para um período priamente dita, poderiam ser
Alguns podem argumentar que de 12 meses; enfatizados, dentre outros, os seguin-
com a criação do CmdoTrDbq esta 2. A cargo das diversas OM tes aspectos:
deficiência está sanada, o que, sob o preparadoras existentes na FFE, r o constante nos documentos
ponto de vista do autor, é parcialmen- como por exemplo os BtlInfFuzNav, específicos sobre o tempo de reunião
te certo, pois a nova unidade atende BtlLogFuzNav, BtlVtrAnf e e embarque dos meios necessários
ao quesito da prontidão do coman- BtlEngFuzNav, e sob supervisão do para o cumprimento das tarefas atri-
do. Mas ainda falta alguma coisa, algo ComDivAnf e ComTrRef, os ele- buídas à ForDbq;
para forjar a coesão mencionada aci- mentos constituintes da FP, confor- r o nível de prontidão logística
ma, algo que transforme as partes em me tem sido realizado anualmente, dos meios constituintes;
um time. realizariam, nos primeiros meses do r a prontidão dos diversos ór-
Sob o aspecto da FP, visando a ano, o adestramento desde o nível gãos de apoio da MB envolvidos
uma pronta resposta em caso de crise individual até o de subunidade; com a operação; e
político-estratégica, a necessidade de 3. Ao encerrar-se o adestramen- r o planejamento a bordo.
haver esta coesão fica ressaltada, to nível subunidade, a FP tipo UAnf 6. Durante o citado exercício se-
pois a resposta deve ser tal que iniba seria formalmente constituída, pas- ria conduzida a Inspeção de Eficiên-
aventuras ou que reduza o grau de sando seus elementos ao comando cia da FP como um todo. Sob coor-
riscos para o país. Isto é particular- operativo do CmdoTrDbq. A partir denação da DivAnf, tal inspeção es-
mente verdadeiro quando se verifica de então seriam realizados, nos com- taria a cargo tanto da DivAnf quanto
como se dá a constituição e o ades- plexos navais onde estão as unida- da TrRef nos aspectos específicos de
tramento da FP de outros Corpos de des de fuzileiros navais, sob supervi- cada uma destas forças;
Fuzileiros Navais, como o do Esta- são do CmdoTrDbq, adestramentos 7. Finalmente, após a elaboração
dos Unidos da América do Norte, específicos sobre tarefas passíveis de do relatório final sobre a operação
do Reino Unido e da Itália. Em to- serem atribuídas à FP, ministradas anfíbia e sua divulgação e análise em
dos eles, antes da FP ser considera- palestras/estudos de casos sobre todos os níveis, a UAnf da FP pode-
da como em condições de ser em- planejamento militar e consolidados ria ser desmobilizada, retornando o
pregada, há uma fase de reunião e procedimentos operativos; pessoal e meios constituintes à subor-
preparação dos meios, na qual se 4. O passo seguinte seria a reali- dinação das diversas OM prepara-
molda a força como um todo e quan- zação de um exercício no campo, seja doras da FFE;

2002 - O Anfíbio - 33
CICLO DE ADESTRAMENTO DA FORÇA PRONTA TIPO UANF
FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET/OUT NOV
DESIGNAÇÃO ADST ADST ADST SU CONSTITUÍÇÃO INSPEÇÃO DE ANÁLISE DA OUTRAS DRAGÃO
DA FP INDIVIDUAL FRAÇÕES DA FP/ADST EFICIÊNCIA INSPEÇÃO DE ATIVIDADES
DA FP DA FP EFICIÊNCIA

8. Em situações normais, a FP r grupos de trabalho ou simpósios r interação segura on-line en-


como um todo voltaria a ser emprega- sobre procedimentos operativos co-
tre o banco de dados do ComOpNav,
da durante a Operação Dragão, en- muns à FFE e à Esquadra; e da Esquadra, da FFE e a
cerrando o ciclo de adestramento r exercícios interforças. ForTarAnf no mar; e
da FFE. Nesta oportunidade, o r integração segura on-line en-
CmdoTrDbq e os meios da FP, como Finalmente, conforme previsto na tre a ForTarAnf no mar e os Cen-
núcleo de uma ForDbq valor BAnf, es- proposta de criação da unidade, o tros de Jogos da EGN e do CIASC.
tariam subordinados a outra OM em- CmdoTrDbq poderá elaborar ou ana-
pregadora da FFE: o ComDivAnf; e lisar procedimentos operativos espe- CONCLUSÃO
9. Quanto às demais unidades da cíficos da FFE e conduzir pla-
FFE, cumpririam o ciclo normal de nejamentos preliminares sobre o em- Ao longo deste trabalho, pro-
adestramento, conforme tem sido prego da UAnf/FP em cenários de curamos mostrar as origens do
realizado. interesse do país, conforme determi- CmdoTrDbq e o processo adotado
As ações acima não a esgotam a nação superior. para que o mesmo se tornasse reali-
participação do CmdoTrDbq no ci- A criação do CmdoTrDbq abre dade. Apresentamos também algu-
clo de adestramento da FFE. Em ra- novas perspectivas para a MB, em mas idéias quanto à sua inserção no
zão de suas tarefas, a OM poderia especial no tocante ao preparo e ciclo de adestramento da FFE e a
ser também responsável pela coor- emprego de sua FP. Contudo, a par contribuição que esta nova unidade
denação e emprego de GptOpFuzNav dos tópicos e ações listados anteri- pode trazer para o aprimoramento da
durante as operações Amizade e Fra- ormente, é necessário implementar e FP tipo UAnf.
terno. O quadro acima retrata a vi- /ou aperfeiçoar algumas providênci-
são do autor sobre o ciclo de prontifi-
as complementares, mas de suma im- Conforme citado inicialmente, a
cação da UAnf/FP da FFE. portância para a eficácia da FP. Den- criação deste Comando de Força faz
Caso seja ativada a FP tipo UAnf tre elas, podemos citar: parte de uma ampla reestruturação
no período anterior ao mês de agos- por que passa a FFE, fruto do
to, a mesma seria nucleada no r equipamentos seguros de simpósio “O 3º Milênio e o Corpo
BtlInfFuzNav que realizou o adestra- transmissão de dados a longa dis- de Fuzileiros Navais”. Ao receber os
mento acima no ano anterior ao da tância, de modo a unir o meios do futuro Batalhão de Coman-
ativação. ComOpNav, a FFE, a Esquadra e do e Controle (BtlCmdoCt) 5 , o
Além do citado, o CmdoTrDbq uma ForTarAnf no mar; CmdoTrDbq poderá exercer de
também poderá ter participação r acompanhamento contínuo modo significativo a autoridade e su-
efetiva em eventos nos quais normal- de situações potencialmente ame- pervisão das ações desenvolvidas
mente a FFE está presente, tais como:açadoras aos interesses nacionais; pelos GptOpFuzNav, adequando as
r coleta contínua e análise dos capacidades do CFN ao campo de
r planejamento e jogos de guer- conhecimentos operacionais sobre batalha moderno e incrementando as
ra sobre temas didáticos da Escola áreas onde a FP possa atuar; possibilidades de resposta do Poder
de Guerra Naval (EGN) e do Cen- r coleta contínua e análise de Naval diante de uma crise político-
tro de Instrução Almirante Sylvio de dados sobre possíveis forças inimi- estratégica.
Camargo (CIASC); gas;
r elaboração e/ou análise de ma- r meios seguros que permitam
nuais do setor operativo e/ou didá- videoconferência entre os navios 5 Ver O Anfíbio nº 20, pág.53, de 2001. Artigo
ticos; de uma ForTarAnf; do CF(FN) Paulo Martins Zuccaro.

2002 - O Anfíbio - 34
Uma das mais inovado- A Importância do
ras mudanças que serão
introduzidas pela recém- Batalhão de Controle
aprovada reestruturação
da Força de Fuzileiros da
Aerotático e Defesa
Esquadra e que terá Antiaérea na formação
reflexos diretos no conceito
de emprego dos gru-
dos GptOpFuzNav
pamentos operativos de CC (FN) C ARLOS CHAGAS VIANNA BRAGA
fuzileiros navais
invariavelmente, sob controle da For- forme ficou claramente demonstrado
(GptOpFuzNav) é a ça Naval (seja pela limitação da dis- pelo ocorrido nas duas operações
criação do Batalhão de ponibilidade de meios ou quaisquer reais recentes para as quais
Controle Aerotático e outros fatores), o que tenderia a tor- GptOpFuzNav foram ativados em
Defesa Antiaérea nar pouco eficiente dedicar grandes sua plenitude: ECO-92 e Operação
(BtlCtAeDAAe). estruturas de Fuzileiros Navais à Rio (94/95), ressaltando-se que
A criação desta nova formação do CCA; por outro lado, desta última participaram parcelas
unidade representa um é fato que há uma série de fatores consideráveis dos meios de dois
passo de extrema que podem demandar que os meios esquadrões, inclusive seus coman-
importância para a aéreos sejam colocados sob controle dantes, ficando o CCA sob o co-
consolidação dos dos GptOpFuzNav. Dentre estes fa- mando do mais antigo. Ambas as
tores, podem-se destacar: a existên- situações resultaram na ativação de
GptOpFuzNav como
cia de um número de aeronaves su- estruturas “ad hoc”.
organização padrão para o
perior ao números de plataformas na- Neste contexto, cabe, ainda, des-
emprego do nosso Corpo de vais para seu lançamento; prioridades tacar a recente aquisição das aerona-
Fuzileiros Navais, relativas ao emprego e posicio- ves AF-1. Sua incorporação deverá
principalmente no que se namento do NAe para o emprego de exigir o aprimoramento de nossas
refere ao Componente de aeronaves de asa fixa e asa rotativa estruturas de controle aerotático, no
Combate Aéreo (CCA), durante às OpAnf; realização de sentido de aproveitar o enorme po-
elemento até a presente operações de interesse da Marinha tencial destas aeronaves para a exe-
data pouquíssimo sem a presença plataformas navais; cução de missões em apoio aos
compreendido e explorado realização de operações ribeirinhas GptOpFuzNav, para as quais as
em nossos exercícios e com estabelecimento de base de AF-1 são perfeitamente apropriadas.
adestramentos. operações aéreas (BOA); operações O grande potencial das AF-1 para
de assistência humanitária; dentre missões de ataque ao solo, princi-
Se, por um lado, pode-se alegar outros. Assim, pode-se concluir que palmente apoio aéreo aproximado,
que tal lacuna é conseqüência do fato a possibilidade de que os meios ficou historicamente demonstrado
de que, durante a execução dos aéreos sejam colocados sob controle nas operações das quais essas aero-
nossos adestramentos, os meios aé- dos GptOpFuzNav não deve, em hi- naves participaram em apoio às
reos têm permanecido, quase que pótese alguma, ser descartada, con- forças do USMC (A-4 Skyhawk).

2002 - O Anfíbio - 35
Por todas estas razões, foi pro- elas poderão apoiá-lo e, assim sen- dos pela CiaCtAe (ex.: Centro de Co-
posta a criação do BtlCtAeDAAe do, estruturas de coordenação e con- mando Aerotático (CComAT), Cen-
que terá por finalidade apoiar a trole baseadas em terra deverão exis- tro de Direção Aerotática (CDAT) e
formação do CCA, agregando novas tir, de modo a possibilitar eficácia na Centro de Operações de Defesa
possibilidades e capacidades aos execução deste apoio. Aeroespacial (CODA)).
nossos GptOpFuzNav. No primeiro caso, tenderemos a É justamente na função Controle
ter o CCA nucleado no comando de de Aeronaves e Armas Antiaéreas
O BtlCtAeDAAe e o CAA um dos esquadrões de aviação, com que o novo BtlCtAeDAAe apresen-
De acordo com sua definição reforço de outros (conforme ocorreu tará as maiores vantagens. Até o
mais atual, o CCA é o componente durante a Operação Rio), podendo momento, a estrutura do CFN per-
básico dos GptOpFuzNav organiza- inclusive ser nucleado no comando mitia apenas exercer, em boas con-
do por tarefas para executar opera- da própria Força Aeronaval, no caso dições, o controle das armas antiaé-
ções de aviação. Cabendo a ele de envolvimento substancial de dois reas, por meio da própria BiaArtAAe.
prover todas ou parte das seis tarefas ou mais esquadrões. Neste primeiro Com a incorporação da nova uni-
de aviação necessárias ao cumpri- caso, caberia ao BtlCtAeDAAe, ou dade, tanto o controle das armas
mento da missão do GptOpFuzNav: destacamento deste, compor a orga- antiaéreas como o controle de aero-
defesa aeroespacial, apoio aéreo nização do CCA, sendo diretamente naves passarão a ser exercidos por
ofensivo, apoio ao assalto, guerra responsável pela execução da defesa meio da CiaCtAetat, que deverá ser
eletrônica, reconhecimento aéreo, e antiaérea, por prover as facilidades capaz de nuclear as principais
controle de aeronaves e armas antiaé- necessárias ao comando e controle agências de coordenação e controle:
reas. O CCA é geralmente composto das aeronaves em terra, além de q Centro de Comando Aerotá-
de um comando de aviação e de ou- apoiar, quando necessário, o desdo- tico (CComAt) – no caso do coman-
tras unidades de aviação ou desta- bramento das aeronaves em terra. do das atividades ser exercido pelo
camentos. Seu tamanho poderá variar No segundo caso, diante de um GptOpFuzNav – ou Centro de Con-
desde um pequeno destacamento de número muito reduzido ou da ine- trole Aerotático (CDAT) – no caso do
aeronaves específicas até uma ou xistência de aeronaves na organiza- comando das atividades continuar a
mais unidades aéreas. O CCA, assim ção por tarefas do GptOpFuzNav, o ser exercido de bordo, cabendo ao
como os demais componentes dos BtlCtAeDAAe, além de exercer as GptOpFuzNav apenas um setor.
GptOpFuzNav, não é uma organi- funções mencionadas no parágrafo q Centro de Apoio Aéreo Dire-
to (CAAD)
zação formal.1 anterior, poderá, eventualmente,
q Centro de Operações de
No caso brasileiro, onde inexiste constituir o próprio núcleo do CCA.
Defesa Aeroespacial (CODA)
aviação específica de fuzileiros navais 2 , De qualquer modo, independen-
q Centro de Operações Antiaé-
devem ser consideradas as duas si- temente de constituir ou não o núcleo reas (COAAe)
tuações genéricas já mencionadas no do CCA, em todos os casos expos- De acordo com a complexidade
início deste artigo, variando desde tos, o BtlCtAeDAAe será respon- da situação, em termos de meios
uma grande quantidade de aeronaves sável por executar diretamente
aéreos e ameaça aérea, e com a dis-
colocadas na organização por tarefas algumas das seis funções do CCA já
ponibilidade de recursos de coorde-
do GptOpFuzNav até, em situação apresentadas e viabilizar a execução
oposta, poucas ou nenhuma aerona- das demais. 1
O termo CCA não existe como organização
ve na organização por tarefas do No caso da função Defesa Aeroes- formal. O título formal será o constante da
GptOpFuzNav. Nos dois casos, ha- pacial3 , o BtlCtAeDAAe, em todas organização por tarefas, sendo normalmente
função da unidade que o nucleia. Assim, por
verá, também, a possibilidade do as situações, será o responsável di- exemplo, em determinada operação poderemos
GptOpFuzNav receber apoio de ae- reto pela parcela defesa antiaérea, ter HU-1 (Ref) , neste caso entende-se que o
ronaves sequer pertencentes à executada basicamente por meio de CCA é composto por uma organização por
tarefas nucleada no HU-1.
ForTarAnf ou mesmo à Força Aérea sua BiaArtAAe, podendo caber-lhe 2
A inexistência de aviação específica de
do Teatro de Operações Marítimo também a coordenação e o controle fuzileiros navais é plenamente justificada dentro
do propósito, das dimensões e das capacidades
(FATOM). Assim sendo, cabe ressal- da parcela defesa aérea, exercidos da nossa Marinha.
tar que, independentemente das ae- por meio dos centros de controle que, 3
Defesa Aeroespacial = Defesa Aérea (lançada
ronaves pertencerem ou não à orga- uma vez ativados de forma unificada a partir de plataformas aéreas) + Defesa
Antiaérea (lançada a partir de plataformas
nização por tarefas do GptOpFuzNav, ou distribuída, deverão ser mobilia- terrestres)

2002 - O Anfíbio - 36
por tarefas do CCA; ções, contribuirá para o aumento da
aeronaves pertencentes à eficiência ou mesmo viabilizará a exe-
Força Naval executando cução de cada uma das mencionadas
missões de apoio ao funções. Trata-se da operação de
GptOpFuzNav; aero- bases de operações aéreas (BOA)5 .
naves pertencentes à Prevê-se que, a médio prazo, o
nação e controle na dotação da FATOM; e, finalmente, aeronaves BtlCtAeDAAe, devidamente refor-
CiaCtAetat, todas as agências acima não enquadradas em nenhuma das çado por destacamentos de outras
poderão ser ativadas ou, alterna- situações anteriores participando de unidades, possa ser capaz de estabe-
tivamente, apenas uma delas operações de apoio, conforme lecer e operar tais bases. Para tanto,
(CComAT/CDAT) seria responsá- previsto na DBM. Em todos os casos, visualiza-se uma organização por
vel pelo exercício de todas as funções. caberá ao BtlCtAeDAAe nuclear, ou tarefas com núcleo na CiaCmdoSv
A futura unidade deverá, por apoiar, as agências de coordenação da própria unidade e com o reforço
meio de sua CiaCtAetat, ser capaz e controle necessárias a garantir o de destacamentos da ForAerNav,
de exercer o controle visual e/ou ra- adequado funcionamento do apoio, BtlLogFuzNav, BtlEngFuzNav,
dar das aeronaves no seu setor de conforme já descrito no item anterior. CiaApDbq, dentre outros.
responsabilidade. A curto prazo, o Reconhecimento O estabelecimento e operação de
Na situação atual, onde inicialmente Aéreo continuará a ser executada uma BOA pelo BtlCtAeDAAe po-
o único sensor da CiaCtAetat será o pelo(s) esquadrão(ões) de aerona- derá ocorrer em apoio a uma ope-
próprio radar Giraffe, que até então ves, ou destacamentos destes (prin- ração anfíbia, operação ribeirinha ou
constituía o núcleo do COAAe, vi- cipalmente aeronaves do HU-1 e do em apoio a qualquer outra operação
sualiza-se que apenas uma das agên- VF-1), constantes da organização naval ou terrestre, quando do interes-
cias será ativada, ficando responsável por tarefas do CCA ou por aeronaves se da MB, ressaltando-se neste úl-
pelo exercício de todas as funções de pertencentes a Força Naval exe- timo caso as operações de ajuda hu-
controle de aeronaves (neste caso, de cutando missões de apoio ao manitária6 .
forma bastante limitada) e armas GptOpFuzNav, assim como a Guerra Cabe aqui um pequeno parênte-
antiaéreas. Futuramente, com a Eletrônica continuará a ser executada sis para destacar a importância que
aquisição de novos sensores, podería- de forma limitada pelas aeronaves tais bases têm adquirido no pla-
mos evoluir para a ativação de um com alguma capacidade de guerra nejamento e nas estruturas das forças
maior número de agências, isto, é eletrônica e, de forma subsidiária, armadas. Para o USMC, o assunto
claro, apenas quando a complexidade pelos sensores da artilharia antiaérea não é novidade, uma vez que, desde
da situação (meios aéreos e ameaça – Radar Giraffe e Radar Bophir antes da II Guerra Mundial, sua
aérea) assim o exigisse. (Radar de DT do Canhão BOFI-R) doutrina já previa o estabelecimento
As funções de Apoio Aéreo Ofen- – e pela Companhia de Guerra Ele- de bases de operações aéreas ex-
sivo4 e Apoio ao Assalto continua- trônica, esta última quando atuando pedicionárias. A Força Aérea Ame-
rão a ser executada pelo(s) esqua- em proveito das operações do CCA. ricana (USAF), há três anos, em
drão(ões) de aeronaves com capaci- Entretanto, como veremos mais 1999, implantou o conceito de força
dade de ataque ao solo, ou destaca- adiante, a futura aquisição dos veícu-
mentos destes (principalmente aero- los aéreos não-tripulados (VANT) 4
Apoio Aéreo Ofensivo = Apoio Aéreo
naves do HU-1 e do VF-1) – apoio poderá adicionar novas capacidades Aproximado + Apoio Aéreo Afastado.
5
aéreo ofensivo – e pelo(s) esqua- ao BtlCtAeDAAe, acarretando em Na ausência de outro termo doutrinário mais
apropriado para as bases de operações aéreas
drão(ões) de aeronaves com capaci- grandes vantagens e maior eficiência que venham a ser estabelecidas em terra pelos
dade para o transporte de tropa e no exercício de atividades ligadas às GptOptFuzNav nos diversos tipos de
operações, adotou-se no presente artigo o
material, ou destacamentos destes funções Reconhecimento Aéreo e termo BOA, já consagrado na doutrina de
(sendo as mais apropriadas as aero- Guerra Eletrônica. operações ribeirinhas.
6
naves do HU-2 e do HS-1) – apoio Além da participação direta ou Dentro da realidade atual do CFN e da MB
considera-se que o BtlCtAeDAAe deverá ser
ao assalto. As aeronaves executando indireta em cada uma das 6 funções capaz de operar BOA apenas para aeronaves
tais tarefas poderão estar em uma (ou do CCA, conforme descrito, poderá de asa rotativa, uma vez que a operação de
aeronaves de asa fixa demandaria recursos
mais) das situações a seguir: ae- caber ao BtlCtAeDAAe uma tarefa atualmente inexistentes e totalmente des-
ronaves constantes da organização de apoio que, em determinadas situa- proporcionais às nossas atuais possibilidades.

2002 - O Anfíbio - 37
aérea expedicionária (Expeditionary ser composta da seguinte forma:
Air Force – EAF), consistindo basi- q O Estado-Maior (EM) da
camente de esquadrões e bases ex- unidade resultará da transformação
pedicionárias. Conceito com o qual, do EM da BiaArtAAe (ora em pro-
declarou seu próprio comandante, cesso de extinção como unidade in-
pretendia seguir o modelo já utilizado dependente), devidamente reforça-
pelas forças navais (US Navy e do, de modo a tornar-se compatível
USMC) americanas para obter maior com as necessidades de uma unidade
mobilidade nos teatros de operações. operativa valor batalhão;
A Força Aérea Brasileira (FAB) tam- q A BiaArtAAe (SU do novo ba-
bém caminha neste sentido, tendo talhão) resultará da estrutura anterior
criado no início do ano de 2002, as da antiga unidade, aliviada dos encar-
bases aéreas projetáveis (BAeProj) gos administrativos e de EM, além O Radar Giraffe 50AT passará à
subordinadas aos COMAR. da retirada de seus sensores de CiaCtAetat
vigilância (basicamente o Radar Gi- q A CiaCmdoSV, além de exer-
Detalhamento da estrutura e o raffe), que passarão a pertencer à cer as tarefas comuns, típicas desta
processo de formação da unidade CiaCtAetat; SU em qualquer batalhão, deverá
q A CiaCtAetat, que centralizará paulatinamente concentrar as faci-
o exercício de vigilância e controle lidades e habilidades necessárias ao
do espaço aéreo, permitindo, apoio em terra das aeronaves. Deverá
assim o eficaz controle, não tornar-se capaz de, quando neces-
só das armas antiaéreas, sário, nuclear uma BOA, recebendo
como também das aero- e coordenando os reforços neces-
Inicialmente, prevê-se para o naves. Situação totalmente compatí- sários que venham a ser recebidos
BtlCtAeDAAe uma divisão em três vel com um quadro de recursos limi- de outras unidades para tal fim.
subunidades: BiaArtAAe, CiaCtAe e tados que necessitam ter seu emprego
CiaCmdoSv, conforme consta da pro- otimizado. Para tanto deverá receber, A Provável Evolução da Uni-
posta de reestruturação aprovada. também, os recursos (pessoal e ma- dade a Curto e Médio Prazo
Resultando, desta forma, na or- terial) destinados às redes de co- Futuramente, a aquisição de no-
ganização detalhada: ordenação e apoio aéreo, atualmen- vos meios pelo CFN deverá resultar
te existentes na em duas modificações em sua es-
Companhia de trutura:
Comunicações7 ; e u Aquisição dos lançadores
veiculares do Míssil MISTRAL
– Demandará a divisão da BiaArtAAe
em duas SU: BiaMSA (com 16
lançadores de míssil, sendo 8 por-
táteis e 8 veiculares) e BiaCanAAe
(com os 6 CanAAe 40/70 BOFI-R).
Deve ser considerado que a
BiaArtAAe atual já se encontra no
limite de sua capacidade de controle,
uma vez que, concebida inicialmente
para dotar 6 CanAAe (dotação tra-
Esta estrutura detalhada, ainda dicional de uma Bia), com a in-
que não seja a ideal, retrata o que é 7
Apesar da possível polêmica decorrente, considera-se que centralização dos meios de
exeqüível com os recursos atualmente comunicações destinados à coordenação e controle do apoio aéreo na CiaCtAetat é, no momento,
disponíveis, ou seja, representa o que a solução mais apropriada por permitir uma melhor utilização destes meios, garantir maior
independência à futura unidade no desenvolvimento de suas tarefas de apoio ao CCA e por ser
pode ser feito. a solução mais apropriada , sob o aspecto doutrinário, uma vez que serão consideradas redes
Visualiza-se que estrutura deverá internas do CCA.

2002 - O Anfíbio - 38
corporação dos MSA Mistral, pas-
sou a possuir, além dos CanAAe, 8
lançadores portáteis de MSA. Assim,
a aquisição dos 8 lançadores vei-
pessoal preparado e capacitado para
culares deverá resultar na divisão da
atual BiaArtAAe. Tal divisão não o exercício das novas funções deverá
ser fundamental para o sucesso da
acarretará qualquer dificuldade sob MACG - Estrutura de controle
implantação do BtlCtAeDAAe. Os
o ponto de vista operativo, uma vez aéreo do USMC
que, conforme já visto, o planeja-aspectos já discutidos durante este oficiais é grande.
artigo e a própria designação da
mento das ações será centralizado no Assim, no caso do CFN, onde a
EM do batalhão e, no que se refereunidade já induzem, de forma ge- demanda será muito pequena, não se
a comando e controle das armas nérica, aos tipos de atividades que recomenda tal especialização exces-
seu pessoal deverá estar capacitado
antiaéreas, as atividades já estarão siva, sugerindo-se que, ao preparo
centralizadas na CiaCtAe, conformea exercer: defesa antiaérea e controle dos oficiais que já exercem as ati-
prevê a estrutura da unidade. aerotático. vidades de Defesa Antiaérea, fossem
u Aquisição de veículos Como se trata de situação, até o acrescidos os conhecimentos neces-
aéreos não-tripulados (VANT), momento, inusitada no âmbito do sários à execução das atividades de
que ora começa a ser debatida, CFN, consideramos de grande valor controle aerotático, uma vez que são
ensejará na criação de uma Cia/Pela observação e análise do perfil uti- atividades correlatas (conforme
VANT. 8 Conforme já mencionado, lizado por outra força, extraindo dele claramente identificado no modelo do
o emprego dos VANT possibilita algumas lições e adaptações neces- USMC), que estariam sendo desen-
sárias. Para tanto, sugere-se consi-
sensível incremento às atividades do volvidas no âmbito da mesma uni-
CCA, principalmente àquelas re- derar o modelo de preparo de pes- dade, evitando-se assim a criação de
lacionadas às tarefas de Reconhe- soal e de fluxo de carreira adotado mais uma habilitação específica.
cimento Aéreo e Guerra Eletrônica.pelo USMC para o pessoal que atua A exemplo do que ocorre no
Suas vantagens são inúmeras, têm nas duas áreas mencionadas no USMC, o BtlCtAeDAAe não neces-
sido amplamente divulgadas nas parágrafo anterior, onde pode ser sitaria ter oficiais aviadores navais em
verificado o seguinte: no caso dos ofi-
publicações e relatórios especiali- sua tabela de lotação, uma vez que
ciais, as atividades a serem exercidas
zados, não constituindo objeto deste tratam-se de oficiais altamente es-
pelo BtlCtAeDAAe pertencem a duas
artigo. De qualquer modo, com a in- pecializados, de elevado custo de for-
corporação destes ao BtlCtAeDAAe, especialidades principais (Main mação, cuja demanda é crescente no
Occupational Specialties - MOS) –
a unidade passará a exercer parcela âmbito da MB e que, fora de sua
substancial das tarefas de Reco- Defesa Antiaérea e Controle Aéreo atividade fim, acabariam subempre-
nhecimento Aéreo e Guerra Ele- – sendo ambas pertencentes à gados. Para o planejamento e desen-
trônica, determinando, portanto a especialidade genérica de Sistemas volvimento das operações, as organi-
criação de Cia ou Pel VANT. O de Comando e Controle Aéreo zações por tarefas receberiam os re-
(MACS). Até o posto de capitão,
valor final da SU/fração será função forços, conforme necessário, sem a
do vulto e da complexidade do ma- tais especialidades funcionam iso- necessidade de comprometer perma-
terial a ser adquirido. ladamente, fundindo-se em uma única
Com as modificações mencio- a partir do posto de major. Em cada 8
Durante o Simpósio “O CFN do Terceiro
uma das 3 Forças Expedicionárias de Milênio”, discutiu-se a aquisição dos VANT.
nadas, a estrutura final para o Na ocasião, houve consenso quanto à
BtlCtAeDAAe poderá ser a seguinte:Fuzileiros Navais (MEF) existe uma necessidade de adquirí-los futuramente. O
grande unidade – mesmo não ocorreu com relação à determinação
da unidade que deveria, futuramente, recebê-
Marine Air Control los. O autor considera que, para seu
Group (MACG) – funcionamento eficaz e coordenado com os
onde a maior parte demais sistemas, deverão ficar no
BtlCtAeDAAe, principalmente devido à
dos oficiais com imperiosa necessidade de coordenação e
O Pessoal e seu Preparo estas habilitações está concentrada. controle do espaço aéreo e ao fato dos VANT
exercerem funções de aviação (reconhecimento
Como na maior parte das ati- Pode-se verificar, pelo tamanho de aéreo e guerra eletrônica), o que recomenda que
vidades técnicas, a existência de cada MACG que a demanda de estejam na esfera do CCA.

2002 - O Anfíbio - 39
nentemente tais importantes recursos deveremos passar a ter praças habi- prazo, deverá ser estudada a aquisi-
humanos. litadas para controle aéreo. Tal habi- ção de outros meios dada a complexi-
Assim, as maiores modificações litação poderá ser obtida por meio dade das tarefas a serem exercidas
em termos de investimentos no pre- de cursos na MB e na FAB. pela unidade.
paro de pessoal estariam concen- A longo prazo, teremos servindo Deve ficar claro que outras neces-
trados na introdução de cursos (rea- na nova unidade oficiais e praças com sidades deverão surgir no decorrer
lizados na MB e na FAB) visando à as duas habilitações já mencionadas. do processo e, principalmente, com
sua capacitação para as atividades de o amadurecimento do novo batalhão,
O Material
controle aerotático, uma vez que, no uma vez que se trata de unidade com
De modo semelhante ao preparo conceito de emprego totalmente
caso da defesa antiaérea, não há do pessoal, visualiza-se a necessi- inédito no âmbito do CFN e da MB.
maiores novidades, pois já existe dade de aquisição, a médio e longo
longa tradição no CFN: desde a in- prazo, de sensores específicos para Um Futuro Promissor
corporação da antiga BiaCanAuAAe a execução das tarefas afetas ao
40/60, há quase 30 anos, até a controle aéreo. No caso da defesa an- Conforme pôde ser verificado no
atualização de nossa DAAe para o tiaérea, a situação já se encontra bem decorrer do presente artigo, o Ba-
estado-da-arte, há 15 anos, com a encaminhada, considerando-se a talhão de Controle Aéreo e Defesa
aquisição dos sistemas BOFI- aquisição já prevista de novos meios. Antiaérea representa um importante
GIRAFFE e, posteriormente, dos Dentre os sensores e material a marco no desenvolvimento pleno das
MSA MISTRAL. De modo que, serem oportunamente adquiridos, capacidades operacionais do Corpo
hoje, o CFN possui oficiais e praças deverão ser priorizados, ainda que a de Fuzileiros Navais e da Marinha do
adequadamente habilitados para o médio e longo prazo em função dos Brasil, como um todo. Tal unidade
exercícios destas atividades, com custos, aqueles necessários à exe- deverá preencher a grande lacuna
cursos no próprio CFN, no EB e no cução do controle visual/radar do existente, até o momento, principal-
exterior. tráfego aéreo, controle de aproxima- mente no que se refere à plena utili-
Tal situação de concentração dos ção visual/radar e torre de controle. zação das capacidades e poten-
oficiais em um mesmo ramo de A determinação mais detalhada das cialidades do espaço aéreo, durante
“habilitação” torna-se especialmente necessidades, assim como a espe- as operações dos GptOpFuzNav.
desejável se considerarmos que a cificação do material, só poderá ser A organização adotada para a
unidade terá, é claro, apenas um realizada após a entrada em funcio- nova unidade, ainda que não seja a
estado-maior, o qual será responsável namento da unidade e da conse- mais completa ou a ideal, é aquela
pelo planejamento de todas as qüente aquisição da experiência e dos que o CFN tem condições de adotar
atividades de suas subunidades. conhecimentos necessários. Como de nas condições atuais, até mesmo
Deste modo, a existência de apenas itens que poderão ser adquiridos porque a falta de experiência anterior
uma “habilitação” básica garantirá futuramente podemos citar: indica que a estrutura mais apropria-
maior eficiência no desempenho de - Radar de controle aéreo; da só poderá ser determinada após
suas atividades além de contribuir - Radar de aproximação portátil; a ativação do batalhão e do exercício
para maior coesão da unidade e - Sistema portátil de pouso por prático de suas atividades. Pequenos
criação do seu espírito, evitando que instrumentos; e ajustes poderão e deverão ser rea-
a mesma se torne uma “colcha de - Torre portátil “containerizável”. lizados com o passar do tempo, com
retalhos”. Em termos de material de comu- os ensinamentos adquiridos e com a
No caso das praças, a demanda nicações, considera-se que, inicial- incorporação de novos meios.
e a especificidade das atividades a mente, a unidade passará a contar O mais importante passo foi
serem desenvolvidas tenderia a re- com os equipamentos apropriados dado. A criação do Batalhão de
comendar a “criação” de uma nova atualmente existentes na dotação da Controle Aéreo e Defesa Antiaérea
habilitação. Da mesma forma que Companhia de Comunicações e que permitirá o desenvolvimento de uma
dentro da especialidade de artilharia serão transferidos para a dotação do nova mentalidade no CFN e na MB,
(AT) existem hoje aqueles cursados BtlCtAeDAAe, conforme já discu- muito mais consciente da im-
em artilharia antiaérea, visualiza-se tido anteriormente. Tais equipamen- portância do espaço aéreo para o
que nas especialidades de artilharia tos permitirão fazer face às neces- sucesso das operações que en-
(AT) e comunicações navais (CN) sidades iniciais, contudo, a médio volvam GptOpFuzNav.
2002 - O Anfíbio - 40
Novos Navios Anfíbios
CF (FN) P AULO M ARTINO ZUCCARO

O mar, assim como o ar e


o espaço exterior, só têm
significado estratégico
quando relacionados ao
lugar onde vive a raça
humana: a terra.
C OLIN G RAY

INTRODUÇÃO
que nos afastará do combate pu- O presente artigo tem o propósito de
O fim da Guerra Fria ensejou gran- ramente naval nos grandes espa- apresentar os principais projetos de
des transformações em muitos as- ços oceânicos e nos aproximará navios anfíbios da atualidade, além de
pectos da vida humana, particular- das operações combinadas, discorrer superficialmente sobre
mente nas relações de poder entre conduzidas a partir do mar. A desenhos não-convencionais de cas-
os principais atores internacionais. Na Marinha e o Corpo de Fuzileiros cos, aplicáveis a meios para ope-
área naval, ocorreu um grande ques- Navais doravante responderão às rações anfíbias. Será feita, também,
tionamento acerca do arranjo que crises e poderão prover a capaci- uma breve menção ao projeto bra-
apresentavam as principais Marinhas tação inicial para o desenca- sileiro do Navio-Transporte de
do mundo. O desmoronamento do deamento de operações combi- Apoio e, ao final, será articulada uma
império soviético e de sua poderosa nadas para a solução de um sucinta conclusão.
Marinha impôs aos Estados Unidos conflito, bem como participarão
da América (EUA) e a seus principais de qualquer esforço militar con- DESENVOLVIMENTO
aliados, particularmente os da Orga- tinuado. Nós seremos parte de Navios de Desembarque Doca
nização do Tratado do Atlântico uma ‘equipe mar-ar-terra’, trei- (com plataforma para
Norte (OTAN), uma reavaliação de nada para responder imediata- helicópteros) - NDDH
suas Armadas, já que o embate con- mente aos Comandos Unificados
tra os principais meios navais sovié- conforme necessário para a exe- Estão em curso diversos projetos
ticos de superfície e submarinos pas- cução da política nacional.”1 e construções de navios anfíbios
sou a constituir uma possibilidade enquadráveis nesta categoria, pro-
cada vez mais remota. Os anos subseqüentes testemu- vavelmente por apresentar grande
A poderosa US Navy, projetada nharam as grandes transformações flexibilidade de uso e custo mode-
como uma transposição dos concei- conduzidas nas principais Marinhas rado, fatores fundamentais para os
tos mahanianos para um ambiente ocidentais e também em algumas países de média envergadura.
nuclearizado, passou a não mais cor- orientais. A tarefa de projeção de > Espanha e Holanda:
responder às principais possibilidades poder sobre terra passou a receber classes Galicia e Rotterdam
de emprego visualizado pelo poder a mais alta prioridade. Além do de- Trata-se de um projeto comum
político de seu país. A grande mu- senvolvimento de novos meios e entre os dois países e que deu origem,
dança estratégica necessária foi con- técnicas para o bombardeio aero- em cada um deles, a uma nova classe
substanciada em 1992 em um docu- naval e o emprego intensivo dos de navio. O Rotterdam foi construído
mento denominado “From the Sea”. mísseis de cruzeiro a partir do mar, entre 1996 e 1997, enquanto o Gali-
O seguinte trecho do documento diversos projetos e conceitos para cia foi incorporado à Marinha da Es-
reflete bem a mudança de postura novos navios anfíbios foram apresen- panha em 1998.
que seria vivenciada em curto prazo: tados e a construção naval para tal
“... uma profunda mudança fim tomou grande impulso. 1
Tradução livre.

2002 - O Anfíbio - 41
Com aproximadamente 13 mil to- enfermaria, laboratório e sala de acomodações para aproximada-
neladas de deslocamento e 166 m de cirurgia. mente 400 homens.
comprimento, ambas as classes são O convôo possui dois “spots” para
bastante similares, se bem que há al- helicópteros pesados do tipo EH101 > EUA:
gumas particularidades a diferenciá-los, Merlin, sendo que o seu hangar dis- classe LPD-17 San Antonio
especialmente a propulsão, que no caso põe de espaço e meios para acolher O projeto do NDDH classe San
dos holandeses é diesel-elétrica, uma quatro Merlin ou seis aeronaves médias, Antonio é fortemente influenciado pelos
inovação em navios deste tipo, enquan- como o Super Puma ou o NH-90. novos conceitos operacionais do
to que nos espanhóis foi empregada United States Marine Corps (USMC),
uma planta diesel convencional. quais sejam, a Manobra Operacional
Esta classe de navio foi projetada a Partir do Mar (Operational Maneu-
dentro de um conceito “multipropó- ver From The Sea – OMFTS) e a
sito”, segundo o qual a principal finali- Manobra Navio para Objetivo (Ship
dade do meio é o emprego em ope- to Objective Maneuver – STOM).
rações anfíbias, mas com capacidade NDDH Galicia Tais conceitos foram determinantes no
de apoiar as demais ações de guerra estabelecimento dos requisitos para o
naval e também participar de opera- Na Espanha, foram construídos o navio, que o fazem inclusive mais
ções de manutenção da paz e outras Galicia e o Castilla, sendo que este adaptado às expectativas de futuro
de caráter humanitário. Além disso, último incorporou algumas facilidades emprego do USMC que os próprios
foram enfatizados alguns aspectos para que também possa ser utilizado poderosos navios da classe Wasp.
que repercutem positivamente nos custos como Navio-Transporte de Órgãos Tais requisitos estão diretamente
de obtenção e operação do meio: de Comando (NTrOC). vinculados à capacidade de operar a
§ Elevado nível de automação, Na Holanda, foi construído o tríade de vetores da OMFTS: o
o que permite a redução da Rotterdam, “meio-irmão” dos espa- Carro-Lagarta Anfíbio – CLAnf -
tripulação (aproximadamen- nhóis Galicia e Castilha. Avançado (Advanced Amphibious
te 200 homens); e Está prevista, também, a cons- Assault Vehicle – AAAV), a aero-
§ Emprego intensivo de equi- trução de uma segunda unidade, o nave “Tilt Rotor” MV-22 Osprey e
pamentos comerciais ou de Johan de Witt, o qual será incor- a Embarcação de Desembarque
base comercial (commercial porado em 2007. A um custo apro- Colchão de Ar – EDCA (Landing
off the shelf – COTS). ximado de US$ 205 milhões, o Johan Craft, Air Cushion – LCAC)2 .
de Witt apresentará algumas diferen- Está prevista a construção de 12
Os navios foram projetados para ças em relação ao seu predecessor, unidades, ao longo dos próximos
transportar um “Batalhão de Fuzileiros particularmente um aumento de 12 nove anos, primordialmente para
Navais completamente equipados”. metros em seu comprimento e a substituir os remanescentes das
Em termos reais, cada navio acomoda existência de instalações para receber seguintes classes:
613 militares. A capacidade de trans- o comando de uma “Força-Tarefa § NDDH classe Austin;
porte de suprimentos foi projetada Combinada” de nível Divisão, com § navios de desembarque de
para o equivalente a 10 dias de con- carros de combate – NDCC
sumo desse suposto Batalhão. – classe Newport;
Quanto ao transporte de viaturas, § navios de desembarque doca
a capacidade é de aproximadamente –NDD – classe Anchorage; e
170 blindados para transporte de § navios de transporte de car-
pessoal ou até 33 carros de combate gas de assalto – NTrCA –
pesados. classe Charleston.
Sua doca pode receber até quatro
embarcações de desembarque de 2 Na verdade, a EDCA é proveniente de
viaturas e material – EDVM – tipo 8. conceito anterior e menos amplo: o de
Desembarque Além do Horizonte (Over
O navio possui diversas instala- the Horizon – OTH), que acabou sendo
ções de saúde, como por exemplo HNLMS Rotterdam abarcado e expandido pela OMFTS.

2002 - O Anfíbio - 42
O convôo do San Antonio será ponentes navais da Força-Tarefa An- grandes navios anfíbios da classe
33% mais amplo que o do Austin, fíbia (ForTarAnf). Dentre tais itens Wasp. A sétima unidade, o Iwo Jima,
capacitando-o a operar dois Osprey estão a diminuição da seção reta ra- foi incorporada em 30/06/2001. Com
ou CH-53E Sea Stallion, ou ainda um dar e a incorporação de canhões de 40.500 toneladas e um custo apro-
número maior de aeronaves de menor 30 mm para combate a pequenas e ximado de US$ 800 milhões por uni-
porte. O hangar comportará mais uma velozes lanchas incursoras. dade, a classe Wasp representa a
aeronave pesada (Osprey ou CH- máxima capacidade anfíbia existente
53E) ou mais quatro médias, como > Reino Unido: em um único navio na atualidade,
por exemplo o CH-46 Sea Knight. classe Albion sendo apto a transportar toda uma
Seu convés-doca abrigará duas Esta nova classe de NDDH foi UAnf. A obtenção de uma oitava
EDCA e 14 AAAV. Além disso, idealizada para substituir os NDDH unidade já foi autorizada, prevendo-
possuirá capacidade para transportar Fearless e Intrepid, que se encontram se que seja a última da classe,
2.323 m2 de viaturas, distribuídas em no fim de sua vida útil. Com desloca- inicialmente estimada para possuir
três conveses. mento de aproximadamente 18.000 dez exemplares. Esta redução está
toneladas, o navio transportará até vinculada com o advento dos NDDH
um máximo de 650 fuzileiros navais, da classe San Antonio e da
oito embarcações de desembarque concepção, ainda em fase embrio-
e aproximadamente 70 viaturas, in- nária, de uma nova classe de navio
cluindo seis carros de combate pesa- de assalto anfíbio, o LHA(R), o qual
dos do tipo Challenger 2. deverá substituir os navios da classe
O Albion seguiu a tendência de 2 Tarawa.
“spots”, típica para esta categoria
LPD-17 San Antonio
de navio, para helicópteros do tipo
A capacidade normal de trans- EH 101 Merlin, porém o mesmo não
porte pessoal situar-se-á em 700 ho- ocorreu quanto à existência de han-
mens, podendo atingir um máximo de gar, já que o navio não dispõe de tal
800. Há previsão de enfermaria com instalação.
24 leitos e duas salas de cirurgia. A ré, o convés-doca acomoda
Um aspecto bem desenvolvido no quatro embarcações do tipo LCU
projeto foi a capacidade de comando Mk 10, do porte da EDVM-8.
e controle para a tropa embarcada. O HMS Bulwark, a segunda LHD-7 Iwo Jima
Ainda que não tenha sido projetado unidade da classe Albion, foi lançado
para assumir o papel de NtrOC, o ao mar em 15 de novembro de 2001,
San Antonio poderá fazê-lo sem buscando-se acelerar a sua incor-
dificuldade. Dentre outras facilidades, poração para janeiro de 2003.
o navio disporá de computadores e
equipamentos de comunicações or-
gânicos e interligados em rede, o que
significa dizer que não será necessária
LHA(R)
a utilização dos equipamentos da tropa
a bordo, que permanecerão carregados
prontos para o desembarque. HMS Albion > França:
O projeto também incorporou classe Mistral
itens dedicados ao aumento da capa- Navios de Assalto Anfíbio No final de 2000, a França, que
cidade autônoma de sobrevivência - NAAnf não possui fuzileiros navais, porém
do meio, o que normalmente não se conta com uma “Força de Desloca-
encontra nos navios anfíbios mais > EUA: mento Rápido” composta por uni-
antigos, os quais são dependentes da classe Wasp dades de seu Exército, confirmou a
proteção auferida pelos demais com- Os EUA continuam a construir os encomenda de dois NAAnf de 21 mil

2002 - O Anfíbio - 43
toneladas, denominados “Noveaux o configurar-se, portanto, como uma rance, o Resolution, o Persistance e
Transports de Challands de Debar- unidade “multipropósito”. o Endeavour, tendo sido o primeiro
quement” (NTCD), idealizados Com um deslocamento aproxima- lançado em 1998 e o último incorpo-
como “navios anfíbios multipro- do de 22 mil toneladas e um compri- rado em 2001.
pósito”. mento de 235 m, o navio deverá Trata-se de um navio de 140 m
As duas unidades, que se deno- acomodar 1.290 pessoas, sendo 450 de comprimento, com as seguintes
minarão Mistral e Tonnerre, previstas vagas destinadas à tropa. tarefas primárias:
para incorporação em 2004 e 2005, Em termos de convôo, será pos- § Transporte de pessoal, viaturas
respectivamente, substituirão os sível operar tanto helicópteros quanto e equipamentos;
atuais Orage e Ouragan e comple- aeronaves de asa fixa dos tipos Ver- § Treinamento e instrução (navio-
mentarão a capacidade anfíbia auferi- tical Take-Off and Landing (VTOL) escola);
e Short Take-Off & Vertical § Apoio a operações navais; e
da pelos navios Foudre e Siroco, que
§ Assistência humanitária (“disas-
se encontram no auge de sua opera- Landing (STOVL), como por exem-
plo o Harrier e o futuro Joint Strike ter relief”), em tempo de paz.
cionalidade.
Cada navio terá um convôo capaz Fighter (JSF). Na verdade, estes navios são hí-
de operar seis helicópteros simulta- Seu hangar de 2.500 m2 poderá re- bridos, pois, além de contar com a
neamente. Será possível também ceber um misto de aeronaves e viatu- rampa de proa típica dos NDCC, eles
transportar até 60 viaturas blindadas ras. Para o seu embarque e desloca- também possuem um convés-doca,
de transporte de pessoal ou um Es- mento a bordo, estão previstos dois de dimensões não conhecidas. Em
quadrão de carros de combate do elevadores para acesso ao convôo, seu convés principal, há dois “spots”
tipo Leclerc, de 54 toneladas. Em ter- uma rampa de popa para desova de para aeronaves de até dez toneladas
mos de transporte de pessoal, a ca- CLAnf e duas rampas laterais para o (adequados para aeronaves do porte
pacidade será de 450 homens. O na- embarque/desembarque de viaturas do Super Puma, por exemplo).
vio contará ainda com uma doca apta no porto. O navio contará ainda com Um aspecto marcante do navio é
a acomodar 2 EDCA ou 4 EDVM quatro embarcações de desembarque a sua tripulação de apenas 65 mili-
tipo 8. de viaturas e pessoal – EDVP. tares, bastante reduzida se compa-
Quanto ao apoio de saúde, o rada com outros navios de mesmo
navio disporá de três salas de cirurgia tipo e porte.
e uma enfermaria de grandes di-
mensões.

NTCD Mistral RSS Endeavour


NUM Andrea Doria
> Itália:
classe Andrea Doria Navios de Desembarque de Navios de Apoio
Após algumas indefinições que Carros de Combate – NDCC
resultaram em seguidos atrasos, a Itá- > Austrália
lia contratou, em novembro de 2000, > Singapura: Outro navio multipropósito que se
o estaleiro Fincantieri para a aquisição classe Endurance encontra em processo de concepção
de sua “Nuova Unità Maggiore” Provavelmente os únicos novos é o “Multirole Auxiliary” (MRA),
(NUM) Andrea Doria. Sua constru- NDCC em construção, uso ou pro- para a Marinha da Austrália. O
ção foi iniciada em 2001 e sua in- jeto sejam os da classe Endurance, projeto visará a substituição de uma
corporação está prevista para 2007. de Singapura. Construídas em um série de outros navios anfíbios e
Trata-se de um navio-aeródromo ao estaleiro local (Singapore Techno- auxiliares ora em uso por aquela
qual foram incorporados atributos logies Marine), encontram-se em Marinha, em particular o Manoora e
típicos de um navio anfíbio, fazendo- operação quatro unidades: o Endu- o Kanimbla, dois NDCC classe

2002 - O Anfíbio - 44
Newport (Mattoso Maia) adaptados. vios a serem substituídos pelos MRA digan Bay e Mounts Bay).
O MRA combinará as tarefas de já terão dado baixa. Dentre outras características, a
navio anfíbio, de reabastecimento no > Reino Unido classe apresentará:
mar, de apoio logístico e também de Além dos investimentos realizados § convôo com dois “spots”, po-
apoio à operação de aeronaves. dendo operar aeronaves do
O projeto deriva de uma concep- tipo Merlin, Chinook e Osprey;
ção anterior denominada “Littoral § doca para operar embarcações
Support Ship” (LSS). A estimativa é de desembarque de carga geral
de que alcance 22 mil toneladas, apre- – EDCG Mk 10 (semelhante em
sentando, dentre outras caracterís- dimensões às nossas EDVM-8);
ticas, um convôo corrido de 224 m Multirole Auxiliary § transporte e operação de 2 EDVP;
por 40 m, possibilitando a operação § capacidade de transporte de
simultânea de seis helicópteros do ti- para a materialização da classe Al- 350 homens;
po S-70 Black Hawk ou quatro do bion, o Reino Unido também está im- § 1.200 metros lineares de viaturas;
tipo CH-47 Chinook. pulsionando a construção de navios § 200 toneladas de carga geral; e
O espaço interno admitirá uma denominados “Alternative Landing § aproximadamente 500 con-
série de combinações de uso, possibi- Ship Logistics” (ALSL) da classe tenedores de 20 pés.
litando o embarque de aeronaves e Bay, projetados para substituir os já O custo aproximado das duas
viaturas de diversos tipos. O navio obsoletos “Landing Ships Logistics” primeiras unidades será de US$ 162
também possuirá dois elevadores (LSL) da classe Sir Lancelot, com- milhões e o das demais ainda está por
com capacidade para suportar a ae- posta por seis unidades, que inclusive ser definido. Os quatro navios entra-
ronave MV-22 Osprey. Em termos participaram da Guerra das Mal- rão em serviço entre 2004 e 2006.
de viaturas, haverá uma disponibi- vinas. Com aproximadamente 16 mil Além do HMS Ocean, dos dois
lidade total de 2550 m2 , com capaci- toneladas de deslocamento, mais do navios classe Albion e dos ALSL
dade para receber carros de com- dobro dos LSL, os ALSL foram acima descritos, o Reino Unido tam-
bate do porte do Leopard. projetados para duas finalidades bém está promovendo a construção
O navio ainda possuirá dois apa- básicas: de seis navios auxiliares tipo “RO-
relhos de força com capacidade de § Emprego em operações de RO”, de forma a complementar sua
até 70 toneladas, o que permitirá o baixa intensidade, como as de mobilidade estratégica. Quatro uni-
manuseio e desembarque de EDVP manutenção da paz e as de dades estão sendo construídas na
e EDVM. Em vista da tarefa de assistência humanitária; ou Alemanha e as demais na Irlanda do
reabastecimento no mar, haverá uma § Em complementação à ca- Norte, estimando-se que todos este-
expressiva capacidade de transporte pacidade de transporte dos jam em operação já em 2004.
de óleo diesel, combustível de avia- NDDH da classe Albion e Os navios, na verdade, perten-
ção e água destilada. do LPH Ocean, que são con- cerão a uma empresa de armação, a
A capacidade dos alojamentos si- siderados pelos britânicos os Andrew Weir Shipping, a qual poderá
tuar-se-á em torno de 1.200 homens, navios de “primeira vaga”, ou empregá-los comercialmente quando
sendo 400 em instalações fixas e 800 seja, os que transportarão as não forem requisitados pelo Minis-
em instalações temporárias, ocupando- tropas de assalto. tério da Defesa britânico. A empresa
se a parte dianteira do hangar. O projeto deverá sempre dispor de três uni-
contempla também 300 m2 de dades para pronta requisição, sendo
instalações de saúde. Está prevista uma de forma imediata e duas em
ainda a existência de um pequeno muito curto período de tempo.
convés-doca, capaz de operar EDVM.
O custo estimado de cada unida-
de será de US$ 253 milhões, sendo Foram inicialmente contratadas
que, se o projeto for bem-sucedido, duas unidades (Largs Bay e Lyme
diversas unidades deverão estar em Bay), porém já foi confirmada a op-
pleno em 2015, quando todos os na- ção para mais dois exemplares (Car- Navio RO-RO

2002 - O Anfíbio - 45
O NOSSO NOVO NAVIO quando a velocidade de cruzeiro se
ANFÍBIO: O NAVIO- aproxima dos 50 nós, a incidência de
TRANSPORTE DE APOIO altos índices de mareio na tropa em-
(NTrA) barcada é praticamente inevitável.
A seguir serão apresentados al-
Atenta à necessidade de pro- guns estudos e projetos em curso
porcionar ao país uma capacidade baseados em belonaves multicasco,
de projeção de sobre terra com fuzi- uma área francamente liderada por
leiros navais, com vistas à conse- australianos e norte-americanos.
A “embarcação” colchão de ar
cução de nossos objetivos nacionais, classe Zubr
> Austrália
a Marinha Brasileira está procurando
portância da capacidade de mover- Como que para honrar as tradi-
a materializar a decisão de construir
se sem dificuldade em águas pouco ções milenares de seus nativos, que
em estaleiro nacional um novo navio
profundas e pela conveniência de di- dominavam a técnica de construção
anfíbio, o NTrA. Observando-se suas de canoas multicasco, os australianos
principais características, não publi- minuir custos via redução de tripula-
ções, algumas Marinhas estão explo- vem logrando bons resultados no de-
cadas neste artigo por ainda apresen- senvolvimento e construção de navios
tarem caráter sigiloso, o navio repre- rando as potencialidades oferecidas
pelas exceções acima mencionadas. do tipo catamarã. O estaleiro Austal
sentará um substancial incremento na Ships já tem no mercado um navio
Dentre outras, a tecnologia “col-
capacidade anfíbia brasileira, possuin- comercial que possui algumas carac-
chão de ar” já pode ser considerada
do também algumas funcionalidades terísticas anfíbias denominado “Thea-
como incorporada à guerra anfíbia,
que permitirão o seu emprego em tre Support Vessel” (TSV), confor-
devido ao uso corrente das EDCA
outros tipos de operações, dentro de mado como um catamarã de 101 m.
pelos EUA e às grandes embarca-
uma filosofia multi-propósito, encon- Suas principais capacidades de trans-
ções da classe Zubr, atualmente em
trada em diversos projetos ora em porte são as seguintes:
uso por Rússia, Ucrânia e mais re-
andamento. § até 100 viaturas do tipo
centemente Grécia. Por suas dimen-
O processo licitatório deverá ser HMMWV;
sões, esta última embarcação já se
iniciado em curto prazo. aproxima de ser um verdadeiro navio, § 950 homens equipados;
§ 12 helicópteros do tipo UH-
o qual, entretanto, tem a sua capa-
NOVOS RUMOS 1N ou um número menor de
cidade de emprego limitada a águas
costeiras e arquipelágicas, devido CH-46E Sea Knight.
Não se pode dizer que a área de
projeto de cascos de navios seja principalmente à sua limitada auto- Em meados de 2001, foi firmado
propriamente afeita a grandes e rá- nomia e à não comprovada capaci- um contrato entre o USMC e o Aus-
pidas evoluções, como ocorre, por dade de enfrentar mar grosso. tal para o apoio de transporte da III
exemplo, com a tecnologia da infor- A outra grande e promissora “re- Marine Expeditionary Force (III
mação. Ao longo dos cem últimos volução” correria por conta dos navios MEF), baseada em Okinawa, com
anos, salvo por raras exceções, não multicasco (catamarãs, trimarãs e o propósito de, utilizando o TSV, as-
se pôde observar nenhuma grande outros desenhos alternativos), que segurar o desdobramento de unida-
revolução no que tange ao desenho começam a ser pesquisados com maior des valor Batalhão daquela Força na
dos cascos dos navios, especialmente intensidade para emprego militar. região do Pacífico Ocidental, em par-
na área militar que, diferentemente do Sobre tais meios também pairam ticular nos principais portos do Ja-
que ocorre na grande maioria dos dúvidas acerca de sua real capaci- pão. Justamente em função da po-
campos do conhecimento humano, dade de enfrentar condições adver- tencial área de operação do meio, o
está seguindo “a reboque” dos pro- sas típicas dos grandes oceanos, sen- TSV vem sendo apelidado pelos
jetos e pesquisas de natureza civil. do este um dos aspectos que exigirão norte-americanos de “Westpac Ex-
Impulsionadas pela necessidade de maior atenção por parte de projetistas press”. As características intrínsecas
desenvolver plataformas menos e potenciais usuários. Ainda neste do TSV ampliaram em grande
vulneráveis a ações “assimétricas”, contexto, pesquisadores afirmam medida a capacidade operacional da
como a que pode representar a amea- que, por melhor que possa ser o siste- III MEF. O número de atracadouros
ça de embarcações ligeiras, pela im- ma de governo e equilíbrio de um navio, utilizáveis por aquela força de elevou-

2002 - O Anfíbio - 46
se de menos de dez, no caso de diante de condições hidrográficas e/ navios anfíbios, uma vez que, dentre
emprego de navios de transporte ou meteorológicas adversas. O navio os requisitos a serem atingidos, estão
convencionais, para possivelmente não foi capaz de operar com ondas a elevada capacidade de transporte
algumas centenas, particularmente a partir de 4 m, ou com ventos acima e as altas velocidades a serem al-
em face do pequeno calado e da de 33 nós, ou com estado de mar su- cançadas.
flexibilidade auferida pela rampa de perior a 5. Além disso, com veloci- Nos próximos meses deverá ser
popa. dades de cerca de 43 nós, foi alta a iniciada a construção de um navio
incidência de mareio na tropa. experimental, o “Littoral Surface
O segundo navio foi desenvolvido Craft – Experimental” (LSC-X). Há
sob encomenda dos EUA para duas opções para o empreendimento:
emprego por suas forças armadas e ou será construída uma unidade
derivou diretamente do Jervis Bay. O menor, com 750 toneladas de des-
locamento e um custo aproximado de
navio foi denominado High Speed
Vessel – Experimental (HSV-X1) US$ 40 milhões, ou optar-se-á por
outra maior, com 1mil toneladas e
Joint Venture. Apresentando um com-
custo de US$ 80 milhões.
Westpac Express primento maior (96 contra 86 m do
De qualquer forma, as seguintes
Jervis Bay) e um maior índice de
características estarão presentes:
Operando com velocidades de militarização, o Joint Venture é capaz
§ casco tipo catamarã ou trimarã;
cruzeiro em torno de 35 nós, o West- de transportar aproximadamente 500 § reduzida tripulação;
pac Express tem apresentado baixos toneladas de carga a uma velocidade § velocidade de 50 nós; e
índices de mareio por parte da tropa de cruzeiro de 35 nós, em um estado § calado máximo de 3 m.
embarcada. de mar moderado. Outra caracte-
Um outro estaleiro australiano, o rística marcante é o seu pequeno ca- Diversos itens de tecnologia de
Incat, também já alcançou dois gran- lado (3,6 m). A autonomia foi consi- ponta estarão presentes, tais como a
des êxitos na construção de navios deravelmente ampliada e a capaci- propulsão elétrica, uso de polímeros
multicasco. O primeiro deles foi o dade de alojamento para tropa al- avançados e “micro-bolhas”.
HMAS Jervis Bay, que foi empre- cançou a ponderável marca de 363 As tarefas inicialmente visuali-
gado com sucesso no deslocamento militares. zadas são:
das forças australianas que intervie- O Joint Venture já “debutou” em § medidas de contra-minagem
ram no Timor Leste, perfazendo mais situação real, pois foi empregado na em águas rasas;
de cem viagens entre o território Operação “Enduring Freedom”, na § guerra anti-submarino, em
australiano e o país recém-liberado. recente campanha norte-americana particular contra submarinos
Apesar da grande eficácia de trans- no Afeganistão. diesel-elétricos;
porte alcançada, o Jervis Bay ratificou § defesa contra incursões de
todas as preocupações relativas às grupos de pequenas embar-
limitações dos navios multicasco cações;
§ operação de veículos não-
tripulados (aéreos e navais); e
§ lançamento e recolhimento de
elementos de operações es-
HSV-X1 Joint Venture peciais.

> EUA
Além de encomendarem e arren-
darem navios multicasco australianos,
os EUA também estão estudando
novos desenhos de cascos para os
navios do futuro. Tais desenhos terão
HMAS Jervis Bay grande influência na construção de Projeto LSC-X

2002 - O Anfíbio - 47
Outros empreen- Ainda com relação a este aspcto, os
dimentos estão em projetos de NDDH em curso estão
curso, como por contemplando a disponibilidade de
exemplo o SLICE, hangares espaçosos e bem equipados.
que emprega quatro Exceto os EUA, todos os demais
grandes corpos sub- países vivenciam, com maior ou menor
mersos em forma de Casco SLICE Casco Midfoil intensidade, restrições orçamentárias
gota. Projetistas afirmam que este convergência de todos os empreen- para empreendimentos de defesa, o que
desenho faz com que os efeitos dimentos ora em curso. naturalmente conduz ao uso de navios
hidrodinâmicos buscados pelos “multipropósito”, como se pôde obser-
navios multicasco sejam alcançados > Reino Unido var em boa parte dos projetos aborda-
muito mais rapidamente do que no O grupo Thornycroft, Giles & Com- dos no presente artigo.
caso de um catamarã convencional. pany patenteou o projeto de um casco O alto grau de automação da maioria
Estima-se que embarcações de híbrido, conhecido como “FastShip”. dos meios descritos é, também, fator
tecnologia SLICE possam alcançar Trata-se de um monocasco, cuja ex- contribuinte à redução de seus custos
com estabilidade velocidades em tremidade de vante conforma-se co- operacionais, em vista da possibilidade
torno de 30 nós, com estado de mar mo um típico “V” e com um perfil côn- de serem conformadas tripulações
entre 5 e 7, o que certamente cavo à ré. Segundo seus responsáveis, menores.
o FastShip combinaria as vantagens O emprego crescente de itens de
representará um ponderável avanço
em relação aos multicasco ora em uso, hidrodinâmicas dos multicascos com natureza comercial – COTS – materiali-
a grande resistência a mar grosso tí- za outra forma importante de redução
como o Jervis Bay e o Joint Venture.
pica dos monocascos, o que poderia dos custos de construção e operação
A empresa Lockheed Martin está permitir a construção de grandes uni-
propondo um “Expeditionary War- dos navios mais modernos.
dades transoceânicas dotadas de ve- Quanto aos cascos não conven-
fare Support System” (EWSS), tam-
locidades superiores a 40 nós, à cus- cionais, verifica-se que a tecnologia
bém conhecido como “Dragon Fire”, o ta naturalmente de grandes plantas
qual, valendo-se da tecnologia SLICE “colchão de ar” pode ser conside-
propulsoras, em vista da maior resis- rada como já incorporada aos meios
e incorporando características furtivas tência viscosa, se comparada à dos
(“stealth”), seria capaz de transportar para a guerra anfíbia, ainda que
verdadeiros multicascos. limitada às embarcações de desem-
cargas aproximadamente 250 to-
neladas a mais de 45 nós. barque. A classe Zubr situa-se no
CONCLUSÃO limiar entre uma EDCA e um NDCC
Um outro desenho alternativo é
Ao encerrar-se o presente artigo, de de pequeno porte e mesmo assim
denominado “Midfoil”, no qual um
hidrofólio é colocado entre os dois caráter essencialmente descritivo, vale atua em um ambiente operacional
ressaltar algumas conclusões e aspec- bastante particular, não havendo
segmentos do casco tipo catamarã,
tos comuns aos diversos empreendi- qualquer expectativa de construção
combinando-se as tecnologias multi-
mentos apresentados. de meios de maior capacidade com
casco e hidrofólio.
Pode-se afirmar, de imediato, que os a mesma tecnologia.
Espera-se que os conhecimentos
navios do tipo NDDH configuram a Já no que tange aos navios multi-
auferidos possam ser aplicados em principal tendência para a construção
casco, percebe-se claramente que no-
navios de maior porte nas próximas
de navios anfíbios para início do século vos e mais ousados empreendimentos
décadas, particularmente com vistas XXI, como bem o demonstram a
deverão deslanchar mais a longo
ao programa“Littoral Combat Ship” maioria dos projetos e construções
prazo, em face dos êxitos que vêm
(LCS), o qual poderá determinar a
efetivamente em curso nos diversos sendo alcançados pelas unidades ora
países pesquisados. em uso. Entretanto, não se pode despre-
Conseqüentemente, passa a consti- zar os aspectos de suscetibilidade às
tuir tendência, também, o emprego de condições de mar e atmosféricas e
convôo para a operação simultânea de também o alto índice de mareio da
pelo menos duas aeronaves. A crescente tropa embarcada. A superação de tais
valorização do vetor aéreo para a óbices certamente constituirá o principal
projeção de poder sobre terra é fato desafio a ser vencido pelos projetistas
Dragon Fire inequívoco. navais do presente e do futuro.
2002 - O Anfíbio - 48
A Companhia de Apoio ao Desembarque:
Elo de ligação nas Operações Anfíbias
CT (FN) PAULO SERGIO C.B. TINOCO GUIMARÃES

“Depois das tropas de Assalto terem se interiorizado, a Praia Vermelho se converteu, de


alguma maneira, em algo caótico. Não se designou mão de obra suficiente para
manobrar com as quantidades de suprimentos desde as embarcações de desembarque até
a praia, e também não havia viaturas suficientes para trasladá-los da praia aos diversos
depósitos. Ao final de D+1, o desembarque teve que ser suspenso, pois não havia espaço
na Praia para que tais suprimentos fossem colocados.”
GUADALCANAL - 1942

INTRODUÇÃO despertar o interesse e difundir um


pouco das tarefas desenvolvidas
As Operações Anfíbias (OpAnf) acerca de tão singular Companhia,
exploram o elemento surpresa e ca- velha conhecida de todos nós fuzi-
pitalizam as fraquezas inimigas pela leiros, que vai assumindo o status de
projeção e aplicação de poder de uma das mais novas OM do nosso
combate no momento e local mais Corpo de Fuzileiros Navais (CFN),
vantajosos. O que confere credibi- de acordo com a reestruturação pela
lidade a uma Força de Desembar- qual vem passando a Força de Fuzi-
que (ForDbq) é sua capacidade de leiros da Esquadra (FFE).
ser projetada em terra, numa moldu-
ra temporal que atenda os efeitos A DOUTRINA DO APOIO
desejados, e de sustentar tal poder LOGÍSTICO NAS
até o cumprimento da missão. OPERAÇÕES ANFÍBIAS
Neste momento, cresce de impor-
tância o trabalho meticuloso, diuturno O Apoio logístico numa OpAnf é
e profissional realizado por uma de bastante complexo e diferente daque-
nossas subunidades especializadas, a le desenvolvido numa operação emi-
Companhia de Apoio ao Desembar- nentemente terrestre. Nela aparecem
que (CiaApDbq). Este artigo visa a dificuldades tais como:

2002 - O Anfíbio - 49
ü Partida de um poder de com- ção, apoio ao desembarque, lavan- 3. O Batalhão de Engenharia
bate inicial zero; deria, banho e levantamento topo- de Fuzileiros Navais
ü Utilização de equipamentos e su-gráfico, entre outros. Como já men- (BtlEngFuzNav);
primentos diversificados, embarcados cionado, o apoio logístico durante a 4. A Companhia de Polícia
em diversos navios, os quais devem realização das operações de Fuzilei- (CiaPol); e
ser desembarcados de acordo com ros Navais é uma responsabilidade 5. O Batalhão de Viaturas
uma seqüência preestabelecida; e das organizações por tarefas especi- Anfíbias (BtlVtrAnf).
ü Necessidade de manutenção de almente constituídas para tal, onde
um fluxo logístico ininterrupto, a par-
cada função exige a execução de São exemplos de organizações
tir dos estágios iniciais do assalto. várias atividades que lhe são peculi- por tarefas de ApSvCmb:
ares, e é prestado a partir de uma
As Unidades de Assalto desem- Área de Apoio Logístico (AApLog), Ø Grupamento de Apoio de Ser-
barcam apenas com a sua carga pres- que dependendo das circunstâncias viços ao Combate (GASC);
crita, entretanto necessitam de uma e da natureza da operação realizada, Ø Destacamento de Praia (DP);
grande quantidade de suprimentos. pode ser de quatro tipos: Ø Destacamento de Zona de De-
As Unidades de Apoio de Serviços sembarque (DZDbq);
ao Combate são organizadas por ta- § Área de Apoio de Praia Ø Elemento de Apoio de Servi-
refas para prestarem o adequado (AApP); ços ao Combate (ElmASC); e
apoio logístico à Força de Desem- § Área de Apoio de Zona de Ø Grupo de Apoio ao Desem-
barque. Desembarque (AApZDbq); barque Administrativo (GRADA);
O Apoio de Serviços ao Com- § Área de Apoio de Serviços
bate (ApSvCmb), enquadrado na lo- ao Combate (AApSvCmb); e EMPREGO DO DP
gística militar, pode ser conceituado § Instalação Logística Sumária E DO DZDbq
como o apoio proporcionado por (ILS).
O Destacamento de Praia e o
Os recursos e as insta- Destacamento de Zona de Desem-
lações logísticas dos barque são organizações por tarefas
GptOpFuzNav são provi- formadas para facilitar o desembar-
dos por elementos de que, por superfície e por helicópte-
ApSvCmb oriundos das ros (He), de tropas, equipamentos e
diversas Unidades da FFE suprimentos, evacuar baixas e prisi-
e, eventualmente, de outros oneiros de guerra (PG), prestando o
setores da MB. Geralmen- apoio logístico inicial à ForDbq. Ve-
te integram as organizações remos a seguir que estas duas últi-
por tarefas de ApSvCmb mas tarefas deixaram de ser respon-
parcela de uma ForDbq ou Gru- dos GptOpFuzNav: sabilidade do DP e, conseqüente-
pamento Operativo de Fuzileiros mente, da CiaApDbq, em virtude de
1. O Batalhão Logístico de alterações organizacionais.
Navais (GptOpFuzNav) ao conjun-
Fuzileiros Navais No âmbito das operações e exer-
to da Força ou Grupamento, por
(BtlLogFuzNav); cícios em que hajam tarefas de apoio
meio da aplicação das funções lo-
gísticas essenciais à sua manutenção 2. A CiaApDbq; ao desembarque, atribuídas a um
em combate, cabendo a ela prover o
apoio sob condições de combate,
influenciando, assim, diretamente o
cumprimento da missão destes
GptOpFuzNav. Este apoio inclui di-
versos serviços tais como: abasteci-
mento, saúde, transporte, manuten-
ção, polícia, engenharia de constru-

2002 - O Anfíbio - 50
da ForDbq, provendo
um fluxo contínuo de
homens, equipamentos
e suprimentos. O DP é
o elemento destinado a
controlar e manter este
fluxo.
Quando apropria-
Pelotão de Apoio ao Desembarque, ForDbq no seu Movimento Navio- damente reforçada com elementos
quando nucleando uma Equipe de para-a-Terra (MNT), segundo o es- de outras subunidades de Fuzileiros
Destacamento de Praia (EqDP), ou à tabelecido no Plano de Desembar- Navais e elementos do Grupo Naval
CiaApDbq quando nucleando o Gru- que. Na praia, o DP deverá evitar a de Praia (GNP), a CiaApDbq é ca-
po de Destacamento de Praia excessiva concentração de tropas, paz de prover um máximo de 3 EqDP
(GpDP), pode ser organizado um suprimentos e equipamentos, garan- ou DZDbq ou combinações destas,
Destacamento de Apoio ao Desem- tindo um fluxo uniforme do material ou 1 GpDP e 1EqDP.
barque (DstApDbq), de acordo com da ForDbq. O Destacamento de Zona de De-
o esquema acima. A grande quantidade de suprimen- sembarque (DZDbq), como parte da
tos necessários às
Destacamos como principais tare-
operações da
fas das Seções deste Destacamento:
ForDbq, que de-
vem ser rapida-
a) Coordenar, controlar e orien-
mente recebidos
tar a EqDP;
na área de opera-
b) Efetuar o lançamento de es-
ções, logo após o
teiras para apoio ao desem-
assalto, é limitada
barque de viaturas sobre ro-
pelos espaços
das, de todos os tipos e tone-
existentes nos na-
lagens;
vios e pela distân-
c) Lançar, nos primeiros mo-
cia das fontes de
mentos do desembarque, pa-
abastecimento.
inéis demarcadores de praia
Deste modo torna-se imperioso, du- unidade de assalto helitransportada
(extremidades e centro de
rante a fase do planejamento, o es- em uma OpAnf, executa tarefas se-
praia) e de saídas de praia, pa-
tudo cuidadoso das estimativas de ne- melhantes as do DP para uma unida-
ra viaturas sobre rodas e so-
cessidades, eliminando-se suprimen- de helitransportada. O DZDbq não
bre lagartas;
tos não essenciais ou quantidades ex- é um componente do DP, apesar de
d) Instalar o sistema de baliza-
cessivas. suas funções serem basicamente as
mento noturno de praia;
O sistema de apoio logístico deve mesmas.
e) Operar equipamentos pesa-
atender prontamente às necessidades Nos momentos iniciais do AssAnf,
dos de engenharia na praia; e o controle dos ele-
f) Estabelecer e sinalizar locais mentos do DZDbq
de pouso de helicópteros na é descentralizado,
praia, provendo pessoal e
pois eles ficam à
material para orientação final
disposição das uni-
das aeronaves. dades em primeiro
Para assegurar o sucesso em um escalão. Tal fato
Assalto Anfíbio (AssAnf), a ForDbq restringe momenta-
deverá, como anteriormente menci- neamente suas ati-
onado, se estabelecer em terra, rá- vidades e limita a
pida e eficazmente. O DP apóia a capacidade de apoio

2002 - O Anfíbio - 51
desses elementos, porquanto fica im- BREVE HISTÓRICO E à formação dos núcleos do DP e do
possível reforçá-los. Essas dificulda- EVOLUÇÃO NA DZDbq, apoiando os desembarques
des devem ser avaliadas e conside- ORGANIZAÇÃO por superfície e helitransportados dos
radas durante a elaboração da orga- Grupamentos Operativos da FFE. A
nização por tarefas. Em abril de 1963, foi criado o Ba- Companhia também coordenava a
talhão de Serviços do Núcleo da 1ª evacuação de baixas e era parte in-
INTEGRAÇÃO Divisão de Fuzileiros Navais, insta- tegrante do Componente de Apoio
ENTRE A CiaApDbq E O lado no Campo da Ilha do Governa- de Serviços ao Combate (CASC)
GRUPO dor. Em 1969 foi
NAVAL DE PRAIA transferido para
(GNP) Duque de Caxias,
retornando em
No cumprimento de sua missão, 1971 para a Ilha
os Fuzileiros Navais do DP execu- do Governador.
tam tarefas, em terra, a partir da li- Sua estrutura in-
nha d’água, enquanto que as demais, terna passou a
partindo da linha d’água para o mar, sofrer inúmeras
são executadas pelos elementos na- alterações, de-
vais do GNP. Analisando as atribui- correntes da ati-
ções do DP (e portanto da CiaApDbq) vação ou mudan-
e do GNP, conforme estruturados na ça de efetivos em
MB, podemos verificar que ambas suas subunidades.
organizações trabalham com o mes- A partir de 1980,
mo propósito de facilitar o desem- tal unidade era
barque por superfície e o movimento constituída por uma CiaCmdoSv, dos GptOpFuzNav até o valor BAnf.
de tropas, equipamentos e suprimen- uma CiaApLog e uma CiaApDbq, Normalmente, a CiaApDbq é em-
tos no MNT, desde o início do esta última com a tarefa básica de pregada sob o controle descentrali-
planejamento e, durante a execução prover Comando, pessoal e equipa- zado, nas fases iniciais do Assalto
da operação, no mesmo local, ou mento para os núcleos de Destaca- Anfíbio e centralizado, após o térmi-
seja, na mesma praia. É óbvio que mento de Praia e de Zona de De- no da descarga seletiva.
tais tarefas, por serem executadas ao sembarque. Após a análise dos relatórios do
mesmo tempo e na mesma praia, exi- Com a extinção do Batalhão de Simpósio “O CFN do 3° Milênio”,
gem íntima coordenação entre o DP Serviços no final do ano de 1994, a organizado pelo Comando-Geral no
e o GNP, caracterizada por ajustes CiaApDbq foi transferida para o ano de 2000, surgiram algumas alte-
prévios entre seus Comandantes. O BtlEngFuzNav, permanecendo nos rações na estrutura organizacional da
GNP é responsável por tarefas que, aquartelamentos deste Batalhão, na FFE, dentre as quais destacamos a
naturalmente, tendem a ficar mais vo- região do Rio Meriti, até 2002. separação da CiaApDbq da organi-
lumosas à medida que os meios dis- A CiaApDbq é estruturada como zação do Batalhão de Engenharia de
poníveis aumentam. De maneira si- uma subunidade de apoio de servi- Fuzileiros Navais, em face das acen-
milar, quando aumenta o volume de ços ao combate, especialmente or- tuadas importância e peculiaridade
suprimentos necessários à tropa, e, ganizada, equipada e adestrada para que possuem as atividades de apoio
conseqüentemente, o seu manuseio o emprego em Operações Anfíbias e ao desembarque dos Grupamentos
através das praias, também aumen- Operações Ribeirinhas. Operativos em terra, passando à su-
tará a necessidade de maior coorde- Veja seu organograma, acima, ain- bordinação direta da Tropa de Re-
nação e controle para o recebimen- da como uma subunida de do forço.
to, classificação, estocagem e distri- BtlEngFuzNav. Veja, a seguir, como ficou es-
buição à tropa, atribuições da or- Assim estruturada, a subunidade truturada a nova Organização Mi-
ganização nucleada pela estava capacitada a fornecer recur- litar.
CiaApDbq. sos humanos e materiais necessários Para a consecução de sua finali-

2002 - O Anfíbio - 52
mular conceitos e proceder altera-
ções referentes ao ApSvCmb, inclu-
sive nos manuais da série CGCFN
que tratam do assunto.
Vejamos algumas das principais
alterações decorrentes destes estu-
dos, e que dizem respeito aos con-
ceitos abordados por este artigo:
O DP é uma organização por ta-
refas, nucleada por elementos da
CiaApDbq, constituída e equipada
para facilitar o desembarque por su-
perfície e o movimento de tropas,
equipamentos e suprimentos através
das praias. Em geral não será res-
ponsabilizado por nenhuma outra
atividade de ApSvCmb, salvo em si-
dade, cabe à CiaApDbq as seguin- tuações onde a interiorização dos
2003. Já foi selecionado o Encarre- demais elementos organizacionais de
tes tarefas: gado do Núcleo de Implementação ApSvCmb resultar em um isolamen-
(NI) que está realizando o estudo so- to do DP junto ao litoral e alguma
a) Preparar as praias para o de-
bre a destinação do material, arma- instalação logística deva também alí
sembarque por superfície;
mento, lançadores, viaturas e pessoal permanecer, como por exemplo, o
b) Delimitar as Áreas de Apoio
da atual CiaApDbq do BtlEngFuzNav, Posto de Evacuação (PEv); nestas si-
de Praia (AApP);
além de estar planejando as medidas tuações, os elementos que operam
c) Estabelecer saídas de praia;
relativas a símbolos, heráldica, comu- tais instalações devem ser aditados
d) Orientar as aeronaves e pre-
nicações e publicações controladas, ao DP, passando este a receber as
parar as ZDbq; e
entre outras medidas administrativas tarefas por elas desenvolvidas. Cada
e) Manter o registro do pessoal
e do material desembarcados. para, enfim, ativar a nova OM, em praia de desembarque que esteja sen-
março de 2003, na Ilha das Flores, do utilizada deverá receber uma
nas proximidades do Comando da EqDP, nucleada em um PelApDbq,
Em relação à sua capacidade
logística, a CiaApDbq é especifica- Tropa de Reforço (ComTrpRef). podendo se a situação exigir, ser ne-
mente capaz de:
NOVOS
§ Transferir os suprimentos e os
equipamentos, dos transportes ma-
CONCEITOS

rítimos para os terrestres; No ano de


§ Executar a manutenção de 1o
escalão de todo o seu material orgâ-
2002, foi organi-
zado um Grupo
nico; e de Trabalho (GT)
§ Auxiliar na abicagem, retração
e salvamento de Embarcações de
na FFE para es-
tudar e reavaliar
Desembarque e Viaturas Anfíbias, alguns conceitos
orientada por elementos navais. logísticos, bem
como foram rea-
Tais mudanças já foram ratificadas lizados estudos
pelo Comandante da Marinha, de- no Comando-
vendo ser implementadas por oca- Geral do CFN
sião das trocas de comandos em visando a refor-

2002 - O Anfíbio - 53
cessária a formação de um Grupo mente desativado quando a situação so pessoal e material para efetuar um
DP, o qual será nucleado pela permitir que o ApSvCmb possa fluir controle eficaz desta transferência, e
CiaApDbq. O DP somente operará de outra AApLog. que estejam enquadrados, pelo me-
uma AApLog quando atuar isolada- Área de Apoio de Praia é uma nos, dentro do escalão subunidade
mente, tendo, genericamente, a orga- AApLog localizada junto à praia de (SU).
nização apresentada na figura acima. desembarque que pode ser operada A Missão precípua desta SU é
O Elemento de Apoio de Servi- por um ElmASC, pelo BtlLogFuzNav facilitar o movimento das tropas,
ços ao Combate (ElmASC) é uma (Ref) integrante de um GASC maior, equipamentos e suprimentos no mo-
organização por tarefas, nucleada, ou pelo próprio GASC. Quando o mento mais crítico de uma operação
prioritariamente, por uma das três DP atuar isoladamente esta organi- anfíbia, o desembarque. Através dela
Companhias do Batalhão Logístico zação também poderá operar a re- flui a quase totalidade de nosso po-
de Fuzileiros Navais (BtlLogFuzNav), ferida área. A AApP receberá o nome der de combate, de um zero ao má-
mas podendo ainda ser nucleada pela da praia a qual estiver justaposta. ximo e, posteriormente, em alguns
CiaApDbq quando esta não for em- Pelo acima exposto, verificamos casos, de um máximo ao zero. É res-
pregada como um GpDP e houver a que a nova subunidade de apoio ao ponsável por tudo aquilo que desem-
necessidade da ativação de mais de desembarque deverá ficar em con- barca dentro da Cabeça de Praia,
três ElmASC. Os ElmASC presta- dições de assumir, principalmente, al- atribuição ímpar e específica dentro
rão o ApSvCmb à Força desde o gumas das seguintes tarefas: de nosso CFN e de nossas Forças
início das operações, recebendo, no • Nuclear um DP; Armadas, caracterizando ainda mais
caso das Operações Anfíbias, uma • Constituir um ElmASC; e nossa natureza anfíbia, e sem a qual
EqDP para as atividades de apoio ao • Operar uma AApP. teríamos um sério comprometimento
desembarque. Cada praia de desem- nas ações futuras em terra.
barque colorida receberá, pelo me- COMENTÁRIOS FINAIS Finalmente, considerando a par-
nos inicialmente, um ElmASC para o ticipação específica da CiaApDbq,
Em uma situação que envolve a no planejamento e execução de uma
apoio as tropas que aí desembar-
transferência de grandes quantidades OpAnf, com atribuições e contatos
quem, podendo algum ser posterior-
de suprimentos de navios/ae- em diversos níveis de comando, a alta
ronaves para uma área em ter- administração naval julgou pertinen-
ra, com atribuição de tarefas te que passasse a ser uma Subuni-
específicas e bem diferencia- dade independente, com semi-auto-
das de todas as tradicionais nomia administrativa, constituindo-se
ações militares, cresce de im- em um novo Comando, apoiado ad-
portância a existência de ele- ministrativamente pela Base de Fuzi-
mentos perfeitamente adapta- leiros Navais da Ilha das Flores
dos à natureza anfíbia de nos- (BFNIF).

2002 - O Anfíbio - 54
SENSORES CF(FN) L UIZ ARTUR RODRIGUES NUNES

“Existe apenas um
meio de contornar o
desconhecimento que
nos persegue até o
instante de entrar em
ação, que
consiste em buscar,
até o último
momento, por
informação”.
FERDINAND FOCH,
PRECEPTS 1919.

Por prover conhecimentos críti- res apóiam efetivamente o processo portar à Guerra de Manobra para
cos às Forças Militares, detalhando decisório dos comandantes em uma apresentar a importância do empre-
a posição de tropas, localizando al- operação, sendo elementos funda- go de sensores. Não entrarei em de-
vos e fornecendo as condições do mentais para alcançar a correta com- talhes sobre essa fascinante teoria,
campo de batalha, os sensores e o pro- preensão da situação corrente no visto que já foi bem explorada em
cessamento das informações por ele campo de batalha e vencer a guerra artigos nesta mesma publicação, li-
geradas formam um conjunto de sis- de informações. mitando a referência ao que pode-
temas com a capacidade de aumen- Cada vez mais presentes nas for- mos chamar de principal ferramenta
tar significativamente as possibili- ças militares, integrados a sistemas ou, até mesmo, de principal funda-
dades de combate, tornando-se um mento teórico dessa nova filosofia de
de armas ou empregados nas mais di-
verdadeiro multiplicador de forças. combate: o ciclo de Boyd.
versas tarefas, devemos conhecer os
Esse ciclo encerra quatro fases:
Os sensores permitem monitorar a tipos de sensores existentes, como são
observação, orientação, decisão e
direção e velocidade de movimentos empregados e as novas tecnologias ação, sendo por isso também conhe-
e, também, proporcionam uma van- que despontam para seu aperfeiçoa- cido como ciclo OODA. Inicialmen-
tagem psicológica, uma vez que mes- mento, sendo o propósito desse arti- te um comandante observa suas for-
mo que alguns sensores sejam desco- go apresentar ao leitor algumas in- ças e seu inimigo, orienta-se e de-
bertos, restará ao inimigo a dúvida formações sobre esses que são vitais senvolve um entendimento da situa-
sobre até que ponto suas atividades para a sobrevivência de combaten- ção, para, então, decidir sobre que
foram comprometidas e sobre a exis- tes e sistemas de armas no campo de linha de ação adotar e, por fim, im-
tência de outros sensores na região. batalha: os sensores. plementar sua decisão. Esse processo
Atuando como os “olhos e ouvi- se dá em um ciclo fechado, um “loop”
dos” de quase todos os sistemas de A IMPORTÂNCIA DOS sem fim. A vantagem sobre o inimigo
armas em uso pelas Forças Armadas SENSORES será alcançada sempre que, ao impor
da atualidade, assim como de seus Pegando carona em um tema mui- um ritmo decisório intenso, conseguir-
elementos de inteligência, os senso- to em voga atualmente, irei me re- mos empreender uma maior veloci-

2002 - O Anfíbio - 55
dade no ciclo OODA. Isso fará com aperfeiçoados para impedir que o ini- feiçoamentos significativos nos sen-
que o inimigo desencadeie suas ações migo faça uso de condições climáti- sores acústicos, tornando-os mais
com base em uma situação que já cas adversas a seu favor, ou simples- factíveis e popularizando seu uso. Es-
não é válida, uma vez que, ao com- mente negar que faça uso de cobertas ses são utilizados para a detecção de
pletarmos o ciclo com maior rapidez, naturais do terreno. Deve ser capaz, sinais contínuos (como o ruído de um
já tê-la-emos alterado. A conseqüên- também, de disseminar as informações motor) e sinais intermitentes (como
cia de sucessivos ciclos mais rápi- coletadas a altas taxas de transmissão o disparo de armas), envolvendo o uso
dos em relação ao inimigo faz com e com precisão, desde os sensores até de arranjos de microfones para a
que esse último venha a perder a os sistemas de armas e aos centros de detecção, localização, acompanha-
coesão e deixar de combater como comando e controle. mento e identificação de alvos ter-
uma força organizada e eficaz, levan- Em outras palavras, a superiorida- restres e aéreos. Os dados obtidos pe-
do-o à derrota. de de informação compreende a ob- los sensores acústicos são, normal-
Conseqüentemente, deve-se bus- tenção e distribuição da informação mente, transmitidos digitalmente para
car todos os meios para atingir um certa à pessoa certa e no momento uma central, possibilitando, assim, o
ritmo superior ao inimigo. Para tan- oportuno, ao mesmo tempo em que monitoramento do campo de bata-
to, devemos aprimorar a integração nega ao inimigo as mesmas vantagens. lha em tempo real. Uma nova área de
entre as fases, assim como a execu- Uma deficiência notada na Ope- aplicação é o uso de sensores acús-
ção de cada uma delas isoladamen- ração “Desert Storm” diz respeito à ticos individuais, que serão utilizados
te. É exatamente nesse ponto onde inabilidade das Forças de Coalizão pelos combatentes, aumentando sua
se insere o emprego de sensores, em gerenciar, integrar e prover a in- acuidade auditiva em termos de qua-
mais precisamente nas fases de ob- formação necessária às peças de ma- lidade – melhor definição e identifi-
servação e orientação. A utilização nobra em tempo oportuno. A quan- cação do som, incluindo faixas de
de sensores contribui para alcançar tidade de informação tática disponí- freqüência normalmente inaudíveis –
o que podemos chamar de “superi- vel pode vir a exceder a capacidade e alcance. A maioria das forças mo-
oridade de informações”, que signi- de seu processamento e distribuição. dernas possui pesquisas no campo de
fica criar uma disparidade entre o que Portanto, não adianta em nada espa- sensores acústicos, não havendo um
as forças amigas conhecem sobre o lhar uma grande quantidade de país que possua domínio de tal
campo de batalha e as operações que sensores pelo campo de batalha se tecnologia. Os esforços atuais estão
nele se desenvolvem e o que o inimi- não possuirmos uma estrutura bem voltados para a criação de algoritmos
go conhece. Se esta diferença for aparelhada e adestrada para fazer uso que possibilitem microfones de direção
grande o suficiente, as forças amigas da quantidade de dados coletados. adaptável, técnicas de supressão de
estarão decidindo baseadas em in- som e algoritmos de redes neurais
TIPOS DE SENSORES
formações corretas, enquanto que o para a identificação de alvos.
inimigo estará apenas tentando adivi- De uma forma geral, os sensores Os sensores magnéticos, por sua
nhar o que está ocorrendo. Ou seja, podem ser classificados em passivos vez, são capazes de detectar viaturas e
estaremos contribuindo para uma e ativos. Os ativos são aqueles que, pessoal, desde que este último esteja
maior velocidade de execução do ci- para seu funcionamento, emitem al- transportando material ferroso. Provê-
clo OODA, ao passo que um maior guma forma de energia, como, por em, também, dados a partir dos quais
ritmo nesse ciclo auxilia a obtenção exemplo, o radar, ao passo que os pode-se avaliar o número de objetos
da superioridade de informações. passivos contam apenas com a ener- passando por sua zona de detecção e
Seria esse o moto-contínuo da Guer- gia induzida pelo alvo para detecção. reportar suas direções de deslocamento
ra de Manobra? Nem tudo é tão per- SENSORES ACÚSTICOS, M AGNÉ- em relação à sua posição.
feito, podem existir perdas de efici- TICOS E SÍSMICOS: são sensores pas- Dentre todos os sensores, os sís-
ência no processamento da informa- sivos e possibilitam a identificação de micos são os que menos dados po-
ção e não podemos esquecer que ain- alvos e o seu acompanhamento em dem nos fornecer. Além da detecção
da existem mais duas fases nesse ci- tempo real. de um alvo, a única informação possí-
clo: decisão e ação. Os avanços nos dispositivos digi- vel de ser obtida é sua classificação,
Para alcançar essa superioridade, tais de processamento de sinais e em em termos genéricos e, algumas ve-
uma força deve possuir sensores seus algoritmos conduziram a aper- zes, pouco precisa. Normalmente,

2002 - O Anfíbio - 56
cobrir toda a faixa desde o ultra-
violeta (UV) até o infravermelho
(IR) e a faixa sub-milimétrica, con-
forme a figura ao pé da página.
O processamento em tempo
real dos dados provenientes dos
sensores EO/IR será uma ferra-
menta importante no aprimora-
mento dos futuros sensores. Fa-
cilitados pelo rápido avanço tec-
nológico na área eletrônica, os
sensores “formadores” de imagens
podem ser aprimorados por téc-
esse tipo de sensor pode classificar um temas de visão noturna e termal. Esse nicas voltadas para o melhoramento
alvo detectado apenas como tropa a tipo de sensor vem desempenhando da qualidade das imagens (para o ope-
pé, viatura sobre rodas ou sobre la- um papel cada vez mais importante rador), assim como apoiando, ou
garta, além da classificação “desco- nos sistemas de armas de toda natu- mesmo substituindo, o operador por
nhecido”, para quando não for possí- reza, tanto que quase todas as prin- meio de algoritmos automáticos para
vel identificar o tipo de alvo. Seu em- cipais plataformas militares são (ou a detecção e classificação de objetos.
prego se dará, normalmente, em con- serão em futuro próximo) equipadas Com exceção dos lasers, todos os
junto com outros tipos de sensores. com sensores eletroópticos e infraver- sensores EO e IR, assim como os sen-
Esses três tipos de sensores – a- melhos. Um bom exemplo é o nosso sores acústicos, sísmicos e magnéticos,
cústicos, magnéticos e sísmicos – são carro de combate SK-105 A2S, do- são passivos: não emitem energia
amplamente empregados como ele- tado de câmera e visor termais, além eletromagnética. São, portanto, muito
mentos de detecção primários, cuja do sistema de mísseis anticarro Bill, difíceis de detectar, uma importante van-
função é a de realizar a primeira que também possui equipamento de tagem para o reconhecimento e vigi-
detecção e, posteriormente, acionar mira com visão termal. lância em cenários onde a própria as-
e/ou orientar outros tipos de sensores, sinatura precisa ser controlada.
além de, após a identificação de um SENSORES LASER: A aquisição de
alvo, manter seu acompanhamento. dados precisos, como alcance (distân-
SENSORES ELETROÓPTICOS (EO): cia) e localização, não pode ser reali-
os sensores EO podem realizar a zada por sensores EO/IR passivos.
aquisição de alvos (detecção, classi- Nesse caso são empregados sistemas
ficação e identificação) nos modos ativos a laser, que podem medir dis-
passivo ou ativo e também possibili- tância e posição com precisão, por
tam a realização de operações mili- Imagem termal meio do emprego de telêmetros e
tares sob quaisquer condições do designadores laser. No CFN, já em-
campo de batalha, por meio de sis- Os sensores eletroópticos podem pregamos sensores laser desde 1987,

2002 - O Anfíbio - 57
quando o Batalhão de Artilharia re- alvos é a de prover sensores capa- sensor. É importante considerar que a
cebeu os primeiros telêmetros laser, zes de reconhecer e identificar alvos performance de um sistema de detec-
empregados nas tarefas de levanta- sob condições de um ambiente real ção não se baseia na taxa de detecção
mento topográfico, localização de al- de batalha. Esses sensores permiti- apresentada, mas, sim, pela taxa ob-
vos e condução do tiro. Hoje, já con- rão que os sistemas de armas reali- tida entre o número total de detecções
tamos com outros sistemas de armas zem a distinção automática entre um e o número de alarmes falsos apre-
que empregam esses sensores, como alvo que pode ser atacado e forças sentados. É entendimento comum que
o carro de combate SK-105 A2S. amigas, sem o uso de equipamentos os sistemas baseados na fusão de
Os futuros sistemas laser incluirão a IFF específicos. O desafio técnico sensores devem, não somente, ser ca-
detecção vibrométrica. Essa técnica para tal tecnologia é a necessidade pazes de aumentar o número de detec-
mede o espectro de vibração de uma de alcançar altas taxas de identifica- ções, como também diminuir o núme-
plataforma a distância e tem sido utili- ção com baixos índices de alarmes ro de ocorrências de falso alarme.
zada, em fase de desenvolvimento e falsos, para uma grande variedade de A existência de diferenças relati-
testes, na identificação de plataformas tipos de alvos. vas entre as performances dos sen-
amigas (similar a um IFF1 , porém sem Além dos tipos apresentados aci- sores conduz a distintos conceitos de
a necessidade de um transponder) ou ma, existem, ainda, sensores destina- fusão. Exemplos típicos são:
para definição da assinatura vibratória dos à detecção de campos minados • Performance similar, onde todos
de alvos para seu acompanhamento. – normalmente baseados em sensores os sensores comportam-se de modo
Outra aplicação militar do laser é a magnéticos – e à detecção de agentes igual em todas as condições: esse é o
perturbação de sensores eletroópticos QBN. clássico arranjo da fusão de sensores,
passivos por meio da saturação do em que cada sensor fornece dados pa-
FUSÃO DE SENSORES
sensor por uma forte fonte de laser. ra a solução do problema e todos os
SENSORES RADAR: o radar é o Essa nova tecnologia compreen- dados devem ser incorporados para
sensor ativo primário para a detecção de a fusão de dados oriundos de múl- chegar a uma solução.
de alvos aéreos, terrestres e sob a tiplos sensores, aumentando a confia- • Performance similar, com cada
superfície, sob quaisquer condições bilidade do processo de identificação sensor possuindo seu próprio ajuste
climáticas. Esses podem ser de diver- de alvos e possíveis ameaças, ao mes- ótimo: nesse caso, a fusão de senso-
sos tipos, como: radares de vigilância mo tempo em que provê uma visão res resulta na determinação das con-
em larga frente, radares de reconhe- aprimorada do campo de batalha. dições atuais e na seleção de quais
cimento tático e radares de controle sensores terão melhor per-
de tiro. No CFN são empregados, a- formance.
tualmente, três tipos de radares: O • Performance distinta:
radar de velocidade inicial – empre- situação muito comum na
gado pelas artilharias de campanha e prática. Ocorre, por exem-
antiaérea para aprimorar o cálculo dos plo, quando um sensor pos-
elementos de tiro para essas armas, sui excelente performance
conferindo-lhes maior precisão; o ra- na detecção de um objeto
dar de vigilância (Giraffe), emprega- enquanto outros sensores
do no sistema de defesa antiaérea para são melhores na sua iden-
alerta antecipado da ameaça aérea; e tificação. Tal situação con-
o radar de tiro, empregado para o Imagem gerada a partir da fusão de duz a um sistema onde o
acompanhamento do alvo pela peça sensores LIDAR (Light Detection and primeiro sensor é utilizado
Ranging) e Radar de Abertura Sintética
de canhão antiaéreo. para detecção e orientação
SENSORES DE IDENTIFICAÇÃO AU- Freqüentemente, a especificação dos demais sensores, que irão, en-
TOMÁTICA DE ALVO S (IAA): o pro- do melhor sensor para aplicações em tão, realizar a identificação ou con-
pósito da identificação automática de vigilância é muito difícil. Por essa ra- firmação da primeira detecção.
zão, a combinação de sensores pode A “Fusão de Sensores” é um cam-
1
Identifier Friend or Foe: equipamento empre- levar a um sistema melhor do que a-
gado para a identificação de aeronaves amigas
po emergente que pode ser utiliza-
por meio da emissão de um sinal codificado. quele baseado em um único tipo de do, também, para a obtenção da

2002 - O Anfíbio - 58
o ultravioleta até o infravermelho – abrange a compreensão situacional,
0.2 a 12 µm) em um sensor. Dentre a aquisição, discriminação e identifi-
suas aplicações destacam-se: cação de alvos, definindo, assim, seu
Ø Vigilância: a imagem hiperes- principal escopo de emprego, ou se-
pectral permite a classificação de ja, como auxiliares nas tarefas de re-
O sistema OASIS (Optical Acoustic Satcom objetos com maior precisão. Os conhecimento, vigilância e busca de
Integrated Sensor) baseia-se na fusão de algoritmos de processamento de alvos para os sistemas de armas.
sensores EO e acústicos, podendo, ainda, imagens convencionais levam em O uso de sensores possibilita am-
ser integrado a sensores magnéticos,
sísmicos, QBN e meteorológicos. consideração apenas a forma dos pliar a visão que o comandante de um
objetos para classificá-los. A ima- GptOpFuzNav terá sobre sua área de
melhor resolução de imagens ou para gem hiperespectral, por sua vez, interesse. Operando autonomamente
a identificação automática de alvos, permite a determinação das propri- e equipados com GPS, os sensores
permitindo a visualização da fusão de edades do material (ao nível de píxel podem ser empregados em posições
dados oriundos de diferentes senso- – ponto de representação da ima- cujas coordenadas são conhecidas
res óticos e não-óticos em uma úni- gem, é o menor elemento que a com- com precisão e produzir dados confiá-
ca imagem. Uma aplicação dessa tec- põe), convertendo-se em uma po- veis sobre alvos em sua área de cober-
nologia está voltada para a detecção derosa ferramenta para a identifica- tura, reduzindo, dessa forma, a neces-
de campos-minados, por meio do ção de objetos de interesse. sidade de emprego de outros elemen-
uso de sistemas de sensores EO (ima- Ø Detecção de gases tóxicos: tos de combate para efetuar a vi-
gens) com sistemas de sensores não- gases suspeitos, vazamentos de gilância em uma determinada região,
imagem, como detectores de metais gasodutos e gases provenientes de proporcionando economia de forças,
e radares de penetração no solo exaustão podem ser examinados a bem como reduzindo o risco associa-
(GPR - Ground Penetrating Radar). distância utilizando-se técnicas pas- do a esse tipo de operação.
Um dos resultados dessa nova sivas de imagem hiperespectral. Nas operações em áreas urbanas,
técnica são as imagens hiperes- grande parte do espaço encontrado
EMPREGO
pectrais. A imagem hiperespectral, é interior – o espaço existente no in-
também chamada de multiespectral, Os sensores compõem a linha de terior de construções sobre ou sob o
é a imagem de um objeto obtida si- frente da obtenção de dados para a solo. Nesse caso, o uso de sensores
multaneamente em um certo número criação de informação. Conhecer, co- aprimora a obtenção de conhecimen-
de bandas espectrais diferentes. É nhecer mais e conhecer antes que o tos, permitindo a coleta de dados in-
uma técnica que combina imagem e inimigo significa uma grande vanta- dependentemente da presença de
espectroscopia 2 (dados do alvo em gem. O espectro de dados e infor- obstáculos ao campo de visão dos
diferentes faixas do espectro desde mação obtidos a partir dos sensores combatentes. Essa capacidade tor-

2
Método de obtenção e análise dos espectros de radiação luminosa. Empregado em análise química, no estudo de estruturas atômicas e
moleculares e em investigações sobre os corpos celestes.

2002 - O Anfíbio - 59
na-se fundamental, permitindo que um ARMOR (SADARM) – submunição é uma rede C4IVR (Comando, Con-
combatente individual ou uma fração utilizada por granadas de artilharia 155 trole, Coordenação, Computação,
venha a coletar e avaliar com preci- mm com o propósito de destruir veí- Inteligência, Vigilância e Reconheci-
são dados a respeito do terreno e da culos blindados leves, primariamente mento) que proporcionará aos co-
presença de forças amigas, inimigas os obuseiros autopropulsados, cuja mandantes em todos os escalões uma
ou de não-combatentes. detecção é realizada por meio de visão adequada da situação e possi-
Um emprego especial dos sensores sensores rádio e IR. bilitará uma avaliação e planejamento
diz respeito à contra-camuflagem, por Existem, ainda, sensores especiais contínuo em todos os níveis, possi-
meio da qual busca-se a contraposição que são empregados para a detecção bilitando, desse modo, o melhor uso
ao uso da camuflagem como meio de de campos minados – há sistemas de dos dados obtidos a partir dos
ocultação e/ou dissimulação. É sensores capazes de identificar e lo- sensores. Esse será, ao meu ver, um
alcançada por meio da execução de calizar os limites de um campo minado dos desafios de uma de nossas mais
amostragens multiespectrais, exploran- – e para a detecção de agentes QBN. novas unidades: o Batalhão de Co-
do o fato de que é muito difícil de obter mando e Controle, que considero
uma camuflagem em todas as fre- CONSIDERAÇÕES FINAIS como a organização que melhor se
qüências sensíveis. A respeito do as- Na Era da Informação as opor- adapta à centralização dos dados dis-
sunto, vale citar as palavras de Dennis tunidades de alcançar os objetivos de poníveis, seu processamento e pos-
M. Bushnell, cientista-chefe do Centro segurança nacional freqüentemente terior disseminação, por meio do
de Pesquisas da NASA: serão de natureza informacional. A Centro de Análise de Inteligência.
“Dados os modernos sistemas de disponibilidade de informação e a ha- A habilidade em dispor a infor-
sensores disponíveis em todo o mundo bilidade em distribuí-la aumenta sig- mação rapidamente onde essa é ne-
e as capacidades de ataque de preci- cessária e de criar um compartilha-
nificativamente a eficiência de uma
são, considera-se que, em futuro muito mento sobre a compreensão da situa-
próximo – 10 a 15 anos –, os seguintes operação. Os benefícios incluem:
maior velocidade de comando, um ção como um todo provê uma opor-
itens não sobreviverão em uma situa-
maior ritmo de operações, maior le- tunidade de desenvolver novos con-
ção de conflito armado, devido ao seu
talidade, menores fratricídio e dano ceitos aplicáveis às operações, que
tamanho e suas assinaturas multies-
pectrais e multifísicas: ferrovias, navi- colateral, aumento da capacidade de possibilitarão uma resposta mais rá-
os de superfície, aeronaves tripuladas sobrevivência, aperfeiçoamento do pida, maior flexibilidade e aumenta-
e veículos terrestres tripulados”. apoio ao combate e um sincronismo rão o poder de combate.
Outro campo crescente no empre- mais efetivo das ações da Força co- Desse modo, o uso intensivo de
go de sensores é o de munições. A mo um todo. dispositivos de inteligência, reconhe-
cada conflito novos tipos de munições A efetividade de combate de uma cimento e vigilância interligados em
“inteligentes” permitem ataques cada plataforma – seja ela terrestre, aérea uma rede de multisensores, todos es-
vez mais “cirúrgicos”. Tal precisão é ou naval – não mais será determina- ses com uma referência geo-espaci-
fruto do uso de sensores. A seguir são da pelo alcance e capacidade de seus al comum, isto é, compartilhando de
apresentados alguns exemplos da uti- sensores orgânicos. Ao invés disso, uma mesma referência topográfica
lização de sensores em munições: as informações disponibilizadas por para sua orientação, possibilitará uma
• Espoleta VT (Variable Time) – sistemas de sensores desdobrados no descrição dinâmica, abrangente, com-
emprega sensores rádio ou laser para teatro de operações irão designar os partilhada e com qualidade de todo o
determinar, por telemetria, sua altura alvos para as plataformas ou siste- campo de batalha, permitindo aos
de acionamento. mas de armas mais indicados para a comandantes imprimir um maior rit-
• BRILLIANT ANTI-ARMOR tarefa em questão. Resultados deci- mo às suas ações – na verdade ala-
SUBMUNITION (BAT) – sub- sivos serão alcançados por meio do vancando seu ciclo OODA –, uma
munição do tipo “fire-and-forget” pro- uso de redes de alta capacidade, en- vez que dispõem de perfeita compre-
jetada para a destruição de carros de globando sensores, sistemas de ar- ensão situacional, sendo mister que
combate e outros veículos blindados mas e centros de comando, na bus- nosso CFN, em seu constante pro-
em movimento, cuja guiagem baseia- ca de um esforço integrado, tornan- cesso de modernização, venha a dis-
se em sensores acústicos e infra- do-se essas redes elemento crítico por de sistemas de sensores volta-
vermelho (IR). para o aprimoramento da efetividade dos para o reconhecimento, vigilân-
• SENSE AND DESTROY de combate. A base dessa arquitetura cia e busca de alvos.

2002 - O Anfíbio - 60
A TRANSMISSÃO DE DADOS NOS
GRUPAMENTOS OPERATIVOS DE
FUZILEIROS NAVAIS
CC (FN) S AMUEL NOGUEIRA LEAL

“Poucos comandantes Este extrato data de 1989. Ao ob-


servarmos a realidade dos nossos
conhecem o suficiente Postos de Comando e dos processos
para saber o que a de comando e controle dos grupa-
tecnologia pode fazer mentos operativos, vemos o quanto
ainda temos que caminhar a fim de
por eles ou até mesmo levarmos a automação de que já des-
dizer a um projetista o frutamos em nossos sistemas admi-
que eles realmente nistrativos, sistemas de jogos de guer-
ra e em alguns sistemas de armas iso-
querem.” lados, para uma realidade de coman-
Lieutenant General Sir David do e controle digna da importância Emprego do Megafone TRS-6 durante a
Ramsbotham Operação Dragão VI
de nosso Corpo de Fuzileiros Na-
Exército Inglês, 1989 Foto: Museu da CiaCom
vais. Acreditamos que o primeiro pas-
“Antes do advento dos so para tal seja o conhecimento das
potencialidades da digitalização apli-
computadores no campo de
cada ao campo de batalha. Este arti-
batalha, o processo de co- go buscará abordar uma das ferra-
mando e controle era apoia- mentas fundamentais para isto: a
do por uma combinação de transmissão de dados.
procedimentos manuais e Para tanto, faremos um apanhado
sistemas de comunicações dos equipamentos e procedimentos uti-
baseados em mensagens de lizados no CFN, além de uma breve
voz e escritas. A herança dos análise do nosso quadro atual. “Apro-
sistemas de comunicações veitando o êxito”, levantaremos algu-
mas perspectivas futuras para a apli-
por voz nos acompanhará
cação desta importante ferramenta.
por um longo período ainda, Rádio AN-PRC-6 e Antena AT-249/GRD.
durante o redirecionamento ANTECEDENTES
Foto: Museu da CiaCom

destes sistemas para aqueles


baseados nas transmissões As comunicações surgiram da ne- plamente utilizados para mudar os
de dados. Nos últimos anos, cessidade dos chefes militares exer- rumos da história.
entretanto, a crescente de- cerem o comando sobre suas tro- Diversos fatores combinaram-se
manda por sistemas de in- pas. Mensageiros, sinais de fumaça, para dar às comunicações um grande
pombos-correio, balões, telégrafo, impulso: a demanda por máquinas bé-
formação baseados em com-
holofotes e semáforas, dentre outros, licas cada vez mais eficazes para aten-
putadores têm levado ao de- der às nações em conflito; a velocida-
serviram (e servem) como canais am-
senvolvimento e desdobra- de vertiginosa da evolução tecnológica,
mento de sistemas especifi- principalmente no ramo da eletrônica;
camente desenhados para a 1
M. A. Rice, Communications and Informations e o desenvolvimento do comércio mun-
transmissão de dados.” 1 Systems for Battlefield Command and Control dial, estreitando relações e aumentan-
2002 - O Anfíbio - 61
do a necessidade de troca de um mai- ela é representada. Assim, informa- to e endereçamento. Conforme vi-
or volume de informações à distânciasção é o conhecimento que se tem de mos, para enviar uma informação de
cada vez maiores. determinado fato ou pessoa e a uni- um ponto a outro é preciso, inicial-
Em 1960, os americanos se per- dade básica para representar a infor- mente, convertê-la em pulsos elé-
guntavam como manter a comunica- mação num sistema digital é o bit. Ao tricos. Estes sim, são capazes de “vi-
ção entre computadores mesmo sob agruparmos e combinarmos bits de ajar” por fios condutores e outros
um ataque nuclear. Esta pergunta acordo com um código, teremos en- meios de transmissão.
daria origem à chamada “Rede In- tão representados números, letras, Quando transmitimos dados no in-
tergalática” e, mais tarde, à Internet.
palavras etc. terior do computador, como do
O estudo do eletromagnetismo, O Prof. André Moreira2 nos en- processador central para a memória,
aliado à matemática, permitiu o de- sina que transmissão de dados ou de por exemplo, não é surpresa encon-
senvolvimento de diferentes formas informação consiste na utilização de trarmos taxas de transferência de da-
de modulação e tratamento do sinal um suporte para transportar esta in- dos na casa das centenas de megabits
irradiado. formação entre dois pontos fisica- por segundo. Qual a dificuldade, en-
O amplo emprego do avião deu mente distantes. tão, quando saímos para o “espec-
ao campo de batalha uma nova di- Um método possível é guardar a tro”? As diferenças são infinitas. Den-
mensão, rapidamente ampliada em informação num suporte físico amo- tro da máquina, as comunicações
direção ao espaço. vível (disquete, por exemplo) e trans- dão-se invariavelmente por meio de
O emprego da transmissão de portar fisicamente esse suporte para cabos paralelos. Por isso bytes intei-
dados como ferramenta de coman- o ponto de destino. Outra alternativa ros ou números cada vez maiores de
do e controle, só tornou-se possível consiste em utilizar um suporte que bits (32, 64 etc) são transmitidos, si-
graças ao avanço espantoso da tec- se encarregue ele próprio do trans- multaneamente, utilizando-se peque-
nologia e da capacidade dos com- porte. Para tanto, utiliza-se um fenô- nos cabos múltiplos. Lá fora, entre-
putadores. Enquanto a performance meno físico capaz de se propagar tanto, descobrimos que a comunica-
dos transceptores e radares foi e con-
desde a origem até o destino. Este ti- ção é em série, ou seja, um bit de
tinua a ser incrementada, computa- po de suporte é chamado de sinal. cada vez, formando uma enorme fila
dores pequenos e leves o bastante Como fenômeno físico que é, um que “anda” numa velocidade – taxa
para serem transportados em mochi- sinal possui diversas grandezas físi- de transmissão – relativamente baixa
las ou utilizados em aeronaves vêm cas mensuráveis. Se o emissor pro- e sujeita a todo tipo de interferência.
tornando possível a utilização efetiva
duzir variações nestas grandezas de Neste mundo real, algumas ações
das informações que os sensores são modo a traduzir a informação a trans- melhoram a qualidade do sinal e, con-
capazes de gerar. Novos equipamen- mitir, então o receptor pode detectar seqüentemente, aumentam a taxa de
tos de comunicações, com largura de estas variações e obter a informação transmissão de dados: aumento da
banda e capacidade de transmissão que foi transmitida. potência de transmissão, emprego de
compatíveis com esta nova realida- Outro fator a considerar é que este postos de retransmissão, utilização de
de, tornam possível dividir esta infor-
sinal será transmitido num determinado antenas direcionais, correção do
mação com outros atores no Teatro meio. Este meio de transmissão pode azimute de transmissão, busca de
de Operações (TO). variar entre um pedaço de fio de cobre pontos elevados do terreno, dentre
até um link rádio envolvendo um saté- outros.
TRANSMISSÃO lite geo-estacionário de comunicações,
DE DADOS conforme veremos a seguir. MEIOS DE TRANSMISSÃO
Ao longo deste artigo, estaremos Mais um complicador: a transmis- Voltando à questão do meio de
considerando equivalentes as ex- são de dados normalmente envolve transmissão, temos, basicamente, o
pressões “transmissão de dados” e uma rede e não apenas dois pontos. par trançado, o cabo coaxial, a fibra
“transmissão de informação”. Desta forma, a transmissão deve ótica, e o espectro eletromagnético;
A questão de como transmitir in- considerar os aspectos de roteamen- este último nas diversas faixas de
formação de um ponto a outro só 2 freqüência, utilizando o multicanal, os
Professor Adjunto do Departamento de En-
pode ser bem entendida quando sa- genharia Informática do ISEP. satélites e os equipamentos-rádio de
bemos o que é informação e como (andre@dei.isep.ipp.pt) U/V/HF.

2002 - O Anfíbio - 62
O par trançado, conhecido entre mento da ligação independe das ca- um certo fluxo de rotina, como rela-
nós como “cabo 207”, tem como van- racterísticas do terreno. A “disputa tórios periódicos e “SITREP” cujo ta-
tagem a adaptação à quase totalida- pelos céus”, entretanto, revelou que manho e horário sejam previsíveis, os
de dos sistemas e o baixo custo. As há espaço de menos e satélites de- maiores picos de tráfego resultam de
desvantagens ficam por conta da mais. O ruído e as características da eventos imprevistos, como o primeiro
suscetibilidade à interferência ele- atmosfera reduzem a faixa de fre- contato com o inimigo. É paradoxal,
tromagnética e da baixa capacidade qüência utilizável entre 1 e 10 GHz, mas é nos momentos em que a rapi-
de transmissão. o que limita a largura de banda e a dez torna-se vital que encontraremos
O cabo coaxial apresenta uma ca- quantidade de freqüências disponí- todos os assinantes da rede gerando
pacidade de transmissão elevada, veis. O retardo entre transmissão e grande volume de mensagens.
além de permitir o emprego de um recepção – devido à distância da ter-
maior número de canais num único ra – eleva a sofisticação dos trans- – TEMPO DE RESPOSTA
É a medida do tempo que um sis-
cabo. Entretanto, o emprego de di- ceptores de dados e, obviamente,
versos canais pode gerar interferên- seu custo. Finalmente, e não menos tema de comunicações necessita para
cia entre eles. Além disso, as distân- importante, é o custo de lançamen- transmitir uma informação entre dois
cias em que o cabo pode ser utiliza- to/manutenção de um satélite. assinantes. É lógico que ela varia de
do são reduzidas nas aplicações mi- As faixas de freqüência de U/V/ acordo com a quantidade de dados
litares. HF possibilitam o emprego de equi- a serem transmitidos e com a locali-
zação das estações. Esta caracterís-
A fibra ótica é o meio que apre- pamentos de elevada mobilidade e
senta grande vantagem tanto em ter- facilidade de expansão da capacida- tica é especialmente importante para
mos de capacidade de transmissão – de instalada. Encontram-se sujeitos, sistemas em que o tempo é crítico,
dez vezes maior que o cabo coaxial – entretanto, aos mais variados tipos de como os sistemas de armas, por
como em resistência à interferência. interferência, o que acarreta baixas exemplo.
Apesar disso, tanto a fibra como os taxas de transmissão de dados. – CONEXÃO E
conversores eletroóticos ainda possu- Analisemos, a seguir, alguns as- ENDEREÇAMENTO
em custo relativamente elevado. pectos técnicos que facilitarão ainda Um sistema de comunicações
As ligações em microondas, tam- mais a compreensão do assunto. deve ser capaz de conectar usuários
bém conhecidas como multicanal, ga- que desejarem estabelecer uma liga-
nharam espaço tanto nas aplicações REQUISITOS ção. Além disso, é preciso identifi-
civis como nas militares, pela rapi- Além dos requisitos fundamentais car com precisão o usuário correto
dez da instalação, alta direcionalidade das comunicações, que já conhece- dentre uma variedade deles, ou seja,
do sinal e elevado número de canais. mos3 , um sistema de transmissão de o correto endereçamento.
O emprego de sistemas de microon- dados deve reunir outros atributos.
das, porém, exige linha-de-visada – CONTROLE
entre as antenas. Devido às suas ca- – CAPACIDADE Da mesma forma que as comuni-
racterísticas, o sinal pode interferir em Um sistema de comunicações cações por voz possuem procedimen-
sistemas de comunicação por satéli- deve atender à demanda de transmis- tos pré-definidos, como a chamada
te. Outra limitação é a sua sensibili- são de dados exigida pelos sistemas da estação de destino antes da ori-
dade às variações de umidade e tem- de informação que dele se utilizam. gem e o uso da palavra “câmbio” para
peratura, vez que estes fenômenos al- A definição desta demanda, entretan- indicar o fim da transmissão, a comu-
teram a direção de propagação do to, não é tarefa fácil. É incomum nicação automatizada também obede-
sinal. depararmo-nos com um sistema de ce a um conjunto de procedimentos.
Os satélites, por sua vez, têm co- informação cuja taxa de transmissão São os chamados “protocolos”.
mo grande vantagem, além da eleva- de dados seja constante. Normalmen-
da capacidade de canais e velocida- te ela é altamente variável. Assim, a SENSORES
de de transmissão de dados, as liga- definição do projeto buscará sempre Um tipo interessante de transmis-
ções a longas distâncias. Um único um meio termo. Embora haja sempre são de dados é feito pelos sensores.
satélite pode cobrir 1/3 da superfície Eles têm o propósito de recolher in-
da terra. Além disso, o estabeleci- 3
DGMM-0500, Cap. 3 formações sobre o inimigo (parte

2002 - O Anfíbio - 63
passiva) e, em seguida, transmitir TMD. Em conjunto com transcep- sendo empregado pela CiaCom nas
estes dados para uma estação de tores nas faixas de V/U/HF – digitais redes logísticas.
coleta. A informação produzida pode ou não – estes equipamentos são ca-
assumir diversas formas, de acordo pazes de enviar mensagens pré- OUTROS PAÍSES
com a técnica empregada.4 formatadas em alta velocidade. Para Neste período, países mais desen-
Sensores de área produzem nor- dificultar ainda mais a interceptação volvidos já aplicavam outros meios e
técnicas de transmissão de dados.
malmente uma imagem relativa à sua inimiga, os sinais são transmitidos por
área de cobertura. Podem utilizar a “pacotes”, ou seja, a mensagem é di- A utilização de equipamentos de
comunicações multi-canal pelos Fu-
luz visível ou o infra-vermelho e ain- gitalizada, codificada, separada em
zileiros americanos, já possibilitava o
da uma das diversas técnicas radar. segmentos denominados “pacotes” e
emprego de computadores de cam-
Apesar da eficiência, o “custo” para enviada em pulsos (burst). Isto tor-
panha em rede, além de equipamen-
transmitir os dados colhidos é muito na particularmente difícil a interferên-
tos de fac-símile.
alto devido à quantidade de informa- cia intencional ou não.
O Sistema de Comunicação e
ção produzida. Esta capacidade de enviar infor-
Determinação de Posição (PLRS) –
Sensores de ponto – são empre- mações de forma segura, rápida e
Position Locating Reporting System,
gados para detectar a presença ou acurada, permite seu emprego por em uso desde a década de 70, é um
ocorrência – num determinado nível observadores avançados de artilha- sistema capaz de prover dados de
– de um fenômeno numa área próxi- ria, controladores aéreos avançados, posição e navegação em tempo real
ma. Um exemplo é o sensor sísmico, equipes de reconhecimento, missões em todos os níveis até o escalão Di-
que detecta as vibrações no solo cau- de resgate e grupos de comandos visão. Sua versão atual, permite a
sadas pela passagem de viaturas ou anfíbios operando na retaguarda ini- transmissão de mensagens pré-for-
pessoal. Sensores mais modernos miga. matadas e faz soar um alarme quan-
possuem processadores capazes de A chegada dos equipamentos de do da entrada em zonas não-autori-
diferenciar, por exemplo, passos hu- guerra eletrônica, em 1989, traria zadas. Nossos Observadores Milita-
manos dos passos de animais, além mais uma novidade em termos de res na Bósnia comprovaram sua efi-
de identificar qual o tipo de viatura transmissão de dados: o TACTER- cácia na orientação das patrulhas
detectada. 10. Seu princípio de funcionamento norte-americanas.
Seja qual for o sensor, ele irá pro- é o mesmo do TMD, envolvendo O sistema é composto por uma
duzir um sinal elétrico a ser transmiti- transmissão em alta velocidade de rede-rádio de transceptores UHF
do, objeto de nosso artigo. mensagens digitais codificadas e por trabalhando sincronizados. Os equi-
pacotes. Ele apresenta-se, entretan- pamentos transmitem, de forma con-
EVOLUÇÃO DA to, como um computador militarizado, tínua, mensagens pré-formatadas de
TRANSMISSÃO DE DADOS possuindo tela e teclado. Assim, po- curta duração. Os dados transmitidos
Em 1986 chegaram ao Brasil os demos redigir uma mensagem em tex- são processados, a partir de uma es-
equipamentos-rádio da família to livre ou tabela com maior rapi- tação mestre, e retransmitidos. Des-
TADIRAN. Por se tratarem de rádi- dez. Além disso, a interface homem- ta forma, todos os assinantes são ca-
os com tecnologia digital, com capa- máquina é bem melhor que nos TMD. pazes de determinar a sua posição e
cidade de transmissão de dados, Nesta mesma época, o então Gru- das tropas amigas, rapidamente, den-
operar em salto de freqüência e po de Artilharia recebeu um equipa- tro do Sistema Militar de Quadrícu-
criptofonia, representaram verdadei- mento semelhante ao TACTER-10, las (MGR) – Military Grid Reference
ro salto tecnológico para nossas co- mas de uma geração anterior: o – com uma precisão de 15 metros.
municações. Além disso, serviram SACU (Stand Alone Communica- Além disso, o PLRS permite aos co-
para disseminar, no âmbito do Cor- tions Unit ou unidade de comunica- mandantes ter o controle do posi-
po, a importância das Contra-Con- ções isolada). Ele foi empregado por cionamento de suas tropas em tem-
tramedidas Eletrônicas de comunica- longo tempo na rede de comando da po real, a plotagem de campos mi-
ções e da Guerra Eletrônica. Artilharia. A confiabilidade e a segu- nados, a orientação do apoio de fogo
Em 1988 foram adquiridos os rança do equipamento permitiram, in- aéreo e de artilharia, de comboios,
transmissores digitais de mensagens, clusive, seu emprego na transmissão frações e unidades de carros-de-
4
de ordens de tiro. Atualmente ele vem combate etc.
Ibid. 1

2002 - O Anfíbio - 64
O emprego de estações-mestre sistema brasileiro, batizado de R-99A
aerotransportadas permite seu em- (vigilância do espaço aéreo e moni-
prego além do horizonte. toragem de comunicações) e R99B
O sistema também foi amplamente (sensoriamento remoto para vigilân-
utilizado na Guerra do Golfo, per- cia ambiental, territorial e de monito-
mitindo o deslocamento rápido e ramento), que entrou recentemente
O AWACS, tendo como plataforma o
coordenado de forças num terreno de em operação, contará com um total
Boeing 737. Foto: Boeing
navegação extremamente difícil. de oito aeronaves. Serão integradas
É usado tanto por tropas a pé como ção amigo-inimigo (IFF), criação de a coleta, utilização e difusão das in-
por veículos, viaturas e aeronaves. um retrato da situação, execução de formações, em tempo real, envolven-
procedimento para alvos que não se do, além das três Forças, o IBAMA,
AWACS identifiquem, tomada de decisão e INPE, IBGE, Polícia Federal,
A grande quantidade e varieda- transmissão da situação às agências FUNAI, INMET, o DPNM, a Agên-
de de meios empregados por esses interessadas. Suas antenas com ar- cia Nacional de Águas, a ANATEL,
países, obrigou o desenvolvimento de ranjo por fases, permitem a rápida a ANEEL, etc), e capacitando-as
amplos e complexos sistemas de co- recepção de enormes quantidades de para estabelecer e conduzir políticas
mando e controle. Estes deveriam in- dados e a ligação simultaneamente a públicas, de forma integrada para a
tegrar os dados colhidos pelos diver- satélites e estações móveis. Desta região.
sos sensores, analisá-los, tomar uma forma, é possível à tripulação rece- O R-99A supera sua menor ca-
decisão e enviar este produto aos as- ber dados para a missão durante o pacidade em relação ao AWACS
sinantes apropriados. deslocamento para a cena da ação. com um custo operacional bastante
Uma das primeiras e mais impor- Assim, os operadores do AWACS inferior, além de comprovada efici-
tantes aplicações deste conceito foi podem tomar decisões e disseminar ência na detecção de pequenos avi-
o Sistema de Controle e Alarme Aé- dados os mais atualizados possíveis. ões num alcance de até 350km e na
reo Antecipado (AWACS) – Airbor- continuidade do acompanhamento
ne Warning and Control System. Há RESPOSTA BRASILEIRA do alvo. Aos três operadores cabe-
mais de vinte anos que o AWACS é Outras nações, cientes da impor- rá a tarefa de avaliar dados e coorde-
um dos primeiros meios desdobra- tância destes sensores, desenvolveram nar ações táticas, além de realizar co-
dos na cena da ação em situações soluções que se adequassem às suas leta e transferência de dados.
de crise. Mesmo os primeiros E-3 – necessidades, incluindo o Brasil. O sistema venceu o americano E-
que utilizavam os jatos comerciais O radar Phalcon, empregado pelo 2C Hawkeye em concorrência inter-
707 da Boeing – já garantiam enor- Chile e pela África do Sul – monta- nacional na Grécia.
me vantagem sobre os oponentes. A do num Boeing 707 – possibilita o A MB já estuda, há algum tem-
marinha americana vem utilizando o processamento de até cem alvos. Seu po, a aquisição de aeronaves de alar-
E-2C Hawkeye, considerado por custo aproximado, segundo consta, me aéreo antecipado. Seu emprego
muitos como mais do que os “olhos” é a metade de um AWACS. Além deverá incluir a busca de superfície,
da força, mas seus “ouvidos” e até dos onze operadores a bordo, uma vigilância aérea radar, acompanha-
mesmo o próprio “cérebro”. Dada a seção da aeronave é separada para mento de alvos e controle dos AF-1
evolução destas plataformas, inclu- o PC aerotransportado, com termi- nas missões de interceptação das a-
indo a extensão de seu raio de ação, nais de dados, amplas facilidades de meaças aéreas.
o alcance de seus sensores e a capa- comunicação além de links de longo Como vimos, as aeronaves de a-
cidade de transmissão/recepção e alcance para voz e dados, ligando larme aéreo antecipado representam
processamento de dados, elas tor- outras aeronaves, forças navais e ter- muito mais que um sistema dotado
naram-se mais do que sensores, restres. de grande quantidade de sensores.
transformando-se em verdadeiros Para atender às complexas de- A evolução tecnológica, que trouxe
centros de comando. mandas do Sistema de Vigilância da enorme capacidade de processa-
O conceito de emprego do Amazônia (SIVAM), o Brasil dotou mento de dados e comunicações em
AWACS envolve a deteção de alvos, o Embraer EMB-145 com o sistema banda larga, possibilitou que dados
sua aquisição (tracking), identifica- Erieye, da empresa sueca Ericsson. O oriundos de fontes situadas ou não a

2002 - O Anfíbio - 65
inserir símbolos milita- Comando da FFE. Finalmente, esta
res na carta digitalizada informação poderia ser disponibilizada
e incluir e associar infor- na rede de computadores da Força.
mações adicionais aos
O R-99A, com a antena do Erieye. As SISCOMIS
antenas de sensoriamento do R-99B,
foram posicionadas parte inferior da
O Sistema de Comunicações Mi-
litares Via Satélite – SISCOMIS –
bordo sejam compilados e que a in- brasileiro permite o estabelecimento
formação final produzida seja en- de ligações utilizando os satélites
tregue a uma gama de usuários em BRASILSAT, na faixa de freqüências
todo TO. O propósito é claro: fazer da banda X. Parte do sistema encon-
com que os conhecimentos produzi- tra-se instalado numa rede fixa em
dos cheguem às mãos dos comba- todo o país e a outra parte opera a partir
Os segredos do TACTER-31 estão nos
tentes em tempo-real. das chamadas Estações Táticas Mó-
softwares de navegação e de comunicações.
veis. Ao todo são oito estações mó-
TACTER - 31 símbolos. O equipamento apresenta as veis, sendo cinco do Exército, duas da
No CFN, continuamos a empre- coordenadas de pontos selecionados FAB e uma do CFN. Existe ainda uma
gar os TMD e o TACTER-10, con- e calcula distâncias em linha reta e estação para uso em navios.
forme já descrito. curva. As estações móveis permitem a
Recentemente, entretanto, o Cor- Outro ponto alto do TACTER é utilização de dois canais, tanto para
po adquiriu algumas unidades do a elevada conectividade, ou seja, a voz como para dados. Os equipa-
TACTER-31 (ver O Anfíbio nº 20). capacidade de conectar-se, simulta- mentos vêm sendo empregados com
Na verdade, trata-se apenas de um neamente, a diferentes tipos de equi- sucesso nos exercícios militares rea-
computador portátil robusto que uti- pamentos. Assim, um elemento de re- lizados, incluindo a Operação Tapuru,
liza o sistema operacional Windows conhecimento, empregando um realizada recentemente.
e possui o GPS embutido. O “segre- TACTER, poderia transmitir um es-
do” do TACTER-31 está nos seus boço para o Posto de Comando (PC) EB
softwares. Ele possui um software de um GDB, por meio de uma rede O Exército Brasileiro (EB) vem
para transmissão e recepção de men- em VHF. O PC poderia acrescentar desenvolvendo um sistema de Pro-
sagens e outro para navegação, em- outros conhecimentos disponíveis e cessamento Automático de Mensa-
pregando cartas digitalizadas. Suas retransmitir a informação ao Coman- gens Operacionais (PAMO), que
possibilidades incluem ainda a pre- do da Força de Desembarque no na- visa eliminar a estrutura do centro
paração e o envio de mensagens à vio, utilizando o mesmo TACTER li- de mensagens de campanha medi-
grande velocidade; preparação e en- gado a outro equipamento-rádio. O ante a implantação de um sistema de
vio de calcos/desenhos; envio de car- Comando da Força, por sua vez, po- correio eletrônico militar. As men-
tas digitalizadas com dados de GPS; deria disponibilizar esta imagem em sagens, com opção de criptografia,
indicação (em tempo real) do posicio- diferentes pontos do navio utilizando deverão ser escoadas por meio de
namento dos assinantes da rede; im- seu TACTER e, ainda, enviá-la ao redes rádio, Internet, rede telefôni-
portar/exportar ca, fio duplo telefônico ou ainda o
imagens de câ- SISCOMIS. Os equipamentos-rádio
meras digitais; e são da marca Harris, EID e YAESU.
transmitir/rece-
ber imagens de PROJETO RUVICHÁ
vídeo em tempo O EB está desenvolvendo tam-
real. bém um sistema operacional de C 3 I,
O software o chamado Projeto Ruvichá. Ele de-
de navegação Possível configuração de uma rede utilizando o TACTER-31. Os dados verá interfacear com os Sistemas de
NEGEV, permi- podem ser transmitidos desde um elemento de reconhecimento, no C2 dos Órgãos Setoriais e do Coman-
terreno, até o Comando da Força, em Duque de Caxias – RJ,
te ao operador e vice-versa.
do do Exército, por meio da RITEX,

2002 - O Anfíbio - 66
da EBNET, das Redes Rádio Fixas, gement Capability. Este sistema,
do SISCOMIS e do Sistema Naci- quando totalmente desenvolvido, irá
onal de Telecomunicações (SNT). integrar cada unidade de um Grupo-
Tarefa num sistema único, capaz de
JTDIS E CEC engajar alvos a partir de um retrato
As Forças Armadas Americanas comum da situação tática. O concei- A OTAN vem empregando equipamentos-
estão utilizando o Sistema de Distri- to do CEC é aproveitar os sensores rádio com maior capacidade anti-CME,
buição de Informações Táticas para existentes – como o radar de um na- prevendo cenários mais difíceis em termos
de guerra eletrônica. Os modelos mais
Ações Combinadas (JTIDS) – Joint vio ou o E-2C – e interligá-los utili- recentes possuem metade das dimensões dos
Tactical Information Distribution zando um processador e um sistema modelos antigos, possuem GPS embutido e
são capazes de operar tanto por voz como
de transmissão de por dados simultaneamente. (Thales photo –
dados de alta capa- JOD Nov 2001)
cidade (10Mbits/s).
O resultado é que ricanos decidiram prover apoio seme-
cada plataforma es- lhante às operações terrestres, ou se-
tará transmitindo a ja, a detecção, identificação e ras-
sua figura radar en- treamento de alvos em terra, além da
quanto recebe o coordenação das ações para sua des-
conjunto das figuras truição. Nasceu, então o Sistema
radares de todas as Conjunto de Vigilância e Ataque
plataformas navais e (JSTARS) – Joint Surveillance Target
aéreas equipadas Attack Radar System – o E-8C. Seu
com o CEC, possi- conceito de emprego, entretanto, di-
bilitando ao grupo- fere do AWACS. Enquanto este “li-
Tela do PAMO tarefa detectar e mita-se” às funções de vigilância aé-
rea e ao comando e controle de
System – tam- ações aéreas, o JSTARS é uma
bém chamado fonte primária de dados de inteli-
“Link 16”. Este gência para o comando, além de
sistema tem prover dados sobre alvos para sis-
como propósito temas de artilharia e dados para
aumentar a capa- orientação de aeronaves de ata-
cidade de coleta que e sistemas de mísseis. Além
de informação e disso, o JSTARS auxilia no ras-
redistribuí-la pe- treamento de forças inimigas e
las plataformas apóia a destruição da reserva e das
navais, aéreas e instalações logísticas do inimigo.
terrestres, postos As estações terrestres solici-
e centros de co- tam informações ao JSTARS, que
mando, além dos 3
Tela do Sistema de C I do EB. busca a informação, processa a
AWACS. Além solicitação e envia o resultado ao
disso, o Link 16 reúne elevada ca- rastrear simultaneamente grande assinante. Tudo em tempo real.
pacidade de transmissão de dados, variedade de ameaças aéreas, des-
criptografia, resistência às CME ini- de mísseis até aeronaves inimigas. GUERRA DE MANOBRA
migas e dados de navegação. Sem dúvida alguma, a principal
A Marinha americana interliga os JSTARS contribuição da transmissão de da-
dados de suas plataformas utilizando A partir do sucesso do AWACS em dos é para os sistemas de Comando
a Sistema de Engajamento Coope- prol das operações aéreas e do E-2C e Controle. Isto deve-se ao fato de
rativo (CEC) – Cooperative Enga- para as operações navais, os ame- que os Comandantes poderão ter à

2002 - O Anfíbio - 67
sua disposição dados que possibili- Um dos fatos evidentes após a compactado poderão exacerbar a
tarão o conhecimento da situação catástrofe de 11 de setembro de incerteza e a ambigüidade – a confu-
praticamente em tempo real. Um sis- 2001, nos EUA, foi que os órgãos são da guerra.”6
tema de transmissão de dados efici- de inteligência americanos não foram
ente reduz o tempo decorrente da O FUTURO
capazes de identificar, dentro da gama
execução do tempo decisório – Ci- Em linhas gerais, caminhamos
de informações de que dispunham, a
clo OODA (Observação, Orienta- para a interligação total. O JTDIS e
preparação da manobra dos terro-
ção, Decisão e Ação), aumentando o CEC americanos constituem bons
ristas do Al Qaeda. Imediatamente
a vantagem sobre o inimigo (ver O exemplos desta tendência.
após o incidente, estes órgãos cla-
Anfíbio no 20, pág. 69). O desenvolvimento da capacida-
mavam por aumento de seus quadros
Um paradoxo que surge com o de dos sensores, da velocidade e vo-
de analistas.
emprego da tecnologia da informa- lume de transmissão de dados e da
Este aspecto deve ser especial-
ção, entretanto, é o da centralização capacidade dos sistemas de coman-
mente analisado no momento em que
das decisões. Se por um lado a inici- do, controle e informação, bem como
o CFN reestrutura a Força de Fuzi-
ativa dos comandantes de pequenas dos sistemas de apoio à decisão, nos
leiros da Esquadra, criando o Bata-
frações tem sido valorizada – des- aproximam cada vez mais dos filmes
lhão de Comando e Controle. Aos
centralização – o conhecimento de- de ficção em que, a partir de uma
nossos olhos, a estrutura que hoje
talhado da situação pelo escalão tela, grandes batalhas são ganhas e
compõe o Centro de Análise de In-
superior tende à intervenção sobre as perdidas. Não devemos nos esque-
teligência (CAI), bem como os pro-
ações dos subordinados. cer de que, integrados a esses siste-
cessos de apoio à tomada de deci-
Além da centralização, outro pro- mas, encontram-se os já digitalizados
são, necessitam ser revistos diante da
blema é o da gerência da informação. sistemas de armas, de defesa anti-mís-
busca do CFN de incorporar efeti-
Quando aumentamos a velocidade de seis, de mísseis de ataque, lançadores
vamente as ferramentas disponíveis
produção e de transmissão das infor- de foguetes etc.
nesta era da informação.
mações, é preciso que o destinatário Acreditamos que as plataformas
Os americanos relacionaram5 qua-
seja capaz de “digeri-las”. Um Posto aéreas, empregadas como sensores
tro conceitos operacionais para que
de Comando ou Comando de Força e estações de comando, poderão
suas Forças Armadas mantenham a
deverá ser capaz de gerenciar os da- evoluir para verdadeiros centros de
supremacia militar até o final desta dé-
dos que lhe forem endereçados. comando. Os dados enviados pelos
cada (Visão Conjunta 2010 – Joint
No dia-a-dia administrativo, so- sensores e plataformas de todo TO
Vision 2010): domínio da manobra,
mos sufocados por um volume de in- seriam fundidos nestes centros, apoi-
engajamento preciso, proteção em to-
formações muito maior que a nossa ando o processo decisório e, final-
das as dimensões e logística focaliza-
capacidade de administrá-lo. Nor- mente, acionando contramedidas por
da. Para que isto seja alcançado, es-
mas, memorandos, regras, diretivas meio de sistemas de armas, envio de
pera-se um aperfeiçoamento das es-
são produzidos numa velocidade que tropas, apoio de fogo naval, aéreo e
truturas de comando, controle e inte-
demanda uma completa assessoria de campanha.
ligência, principalmente no que tange
para analisá-los, implementá-los e fis- O desenvolvimento da capacida-
à transmissão de dados e a conse-
calizar sua execução. de de transmissão de dados poderá
qüente superioridade de informação.
Já vimos a importância da dimi- Diversos autores, entretanto, a- levar a um aumento do emprego de
nuição da duração do ciclo decisório. sistemas não-tripulados, como os
pontam para um aumento do atrito
Devemos observar, então, a existên- VANT, bombardeiros, embarcações
no combate devido ao maior domí-
cia de etapas desnecessárias no pro- nio da situação, o que implica a di- e carros-de-combate.
cesso de análise; o tempo de entra- minuição do período do processo Outra aplicação7 , já testada com
da de dados nos sistemas de apoio à decisório e o aumento da velocidade sucesso, é o uso de espoletas de ar-
decisão; seu processamento; e, final- de reação. “Essa nova era de enten- tilharia com dispositivo que calcula a
mente, a formatação e transmissão da dimento situacional aumenta o volu-
decisão. Temos que cuidar para não me de informações; mas o campo de 5
Major (R/1) Anthony R. Garret, A
piorar um processo manual ou semi- batalha amplificado, o ritmo de com- Superioridade de Informação e o Futuro das
Ordens de Missão, Military Review
digital já existente. bate acelerado e o ciclo decisório 6
Ibid. 1

2002 - O Anfíbio - 68
missão de dados em diversos siste-
mas de comando e controle e de
apoio à decisão no escalão Batalhão
de Infantaria, dentre eles:
w Sistema de Comando e Con-
trole Tático do Exército (ATCCS)
–Army Tactical Command and
Control Systems – que serve ao
Comandante e seu EM;
O PDA já é empregado nas versões mais
w Sistema de Controle de Mano- modernas de vários fabricantes.
bras PHOENIX (MCS/P) – Ma- Foto: TADIRAN
neuver Control System/ PHOE-
Equipamento Multi-canal GRC-2000
Foto: TADIRAN NIX, utilizado pelo S-3; SEGURANÇA
w Sistema de Análise de Inteli- Na chamada Guerra da Informa-
posição do impacto pelo GPS e a gência (All-Source Analysis System ção, como ficam as medidas de segu-
transmite à Bateria. Isto permite a – ASAS) empregado pelo S2; rança? Como assegurar as vantagens
ajustagem imediata dos fogos e o w Sistema de Difusão de Inteli-
advindas da superioridade de informa-
gência/Sistema de Distribuição de
desencadeamento da eficácia. Além ção? A expressão Confiança da Infor-
Dados do Campo de Batalha (Glo-
do aumento da letalidade da arma, bal Broadcast System-Battlefield mação (Information Assurance – IA)
este sistema reduz a demanda lo- Awareness Data Distribution Sys- reúne os procedimentos e tecnologias
gística de munição, reduzindo a ne- tem – GBS-BADD), que faz a inte- que buscam fazer face às ameaças ao
cessidade de espaço de carga nos gração/distribuição das imagens trânsito de dados no TO. Segundo
navios e nas viaturas. dos Veículos Aéreos Não-Tripula- Clarence A. Robinson10 , a proteção
A chamada telemedicina 8 , sempre dos (VANT), com o Sistema Con- dos sistemas de informação requer um
registrada como tema do futuro, pos- junto Aerotransportado de Rada- novo tipo de soldado: o guerreiro
sibilita a interferência de especialistas res de Vigilância e Ataque de Al-
cibernético, com qualidades voltadas
nos mais diversos casos, salvando vi- vos (Joint Surveillance Target
Attack Radar Systems – JSTARS) para a área técnica, além de outros
das e diminuindo sobremaneira os conhecimentos não-tradicionais.
e com outras fontes de inteligên-
custos de deslocamento de pessoal. cia disponíveis; Na defesa dos sistemas de infor-
Sua eficiência foi demonstrada na w Sistema de Dados para Arti- mação, as tecnologias de segurança
Somália, Croácia e Macedônia. lharia de Campanha (AFATDS) – envolvem mecanismos e algoritmos
Outra tendência observada é o em- Advanced Field Artillery Tactical de criptologia, espalhamento espec-
prego de PalmTops e PDA (Personal Data System – empregado pelo tral, salto de freqüência e formas de
Digital Assistant) que caibam no bol- Oficial de apoio de fogo, que pos- onda de baixa probabilidade de
so, e que incorporem recursos de na- sibilita a ligação com a rede de deteção e interceptação. São tam-
vegação (cartas digitais, GPS etc). Eles apoio de fogo da brigada;
w Internet Tática (TI) – Tactical bém utilizadas as “firewalls” e os sis-
são capazes de transmitir dados a pe- temas de deteção de intrusos.
Internet, conecta todos os elemen-
quenas distâncias (até 300m), mas a tos do EM; É preciso lembrar que o conceito
velocidade de transmissão surpreende: w Sistema Soldado Desembar- de Confiança da Informação não
1Mbps, utilizando o protocolo de co- cado (DSS) – Dismounted Soldier atinge somente a Força desdobrada
municação “bluetooth”. Para maiores System – sistema de comunicações e seus apoios. Todos os sistemas de
distâncias, entretanto, eles devem ser digital para as redes internas de retaguarda, incluindo, no nosso caso,
acoplados a um equipamento rádio. batalhão de infantaria. o CINDACTA, o EBNET,a Intranet-
MB, MB-Mail, SINGRA, BDI,
AWE SISCOMIS, RECIM etc, constituem-
O Exército americano vem reali- 7
Gen. Gordon R. Sullivan, Uma visão do se alvos altamente compensadores.
zando adestramentos chamados de Futuro, Military Review, 1st Quarter 2000
8
Ibid. 7 Imaginemos os prejuízos causados
“Experimento Avançado de Comba- 9
Tenente-Coronel James E. Harris III, Exér- por um ataque aos nossos sistemas
te” (Advanced Warfighting Experi- cito dos EUA, Combater Digital ou Ana-
logicamente?, Military Review, 2 nd Quarter 10
Clarence A. Robinson Jr, Geks in the wire,
ment – AWE) 9 , empregando a trans- 2000 JOD Outubro 2000

2002 - O Anfíbio - 69
de controle de tráfego aéreo e marí- acabamos de descrever, identifica- tos e softwares adequados. Projetos
timo, previsão do tempo, controle de mos a importância da pesquisa, da nacionais como o Mercúrio, Sistema
estoques e sobressalentes, combus- criatividade e da inventividade neces- de Jogos Didáticos, MAGE, SIVAM,
tível, medicamentos, pessoal e tele- sárias às Forças Armadas de qual- e a integração alcançada com a
fonia. quer país, independente do seu or- Intranet e RETELMA, apenas para
Como na Guerra de Guerrilha, os çamento. citar alguns, nos mostra que o cami-
países em desvantagem – aqui tec- nho a seguir é verde e amarelo. A
nológica – tendem a explorar estas e CONCLUSÃO digitalização exige grandes cérebros -
outras vulnerabilidades como armas No contexto do moderno campo matéria-prima abundante no Brasil e
importantes. O GPS, por exemplo, de batalha a transmissão de dados é produto de exportação nacional.
elemento fundamental em diversas uma das mais importantes tecnologias Além das restrições orçamentári-
aplicações, conforme vimos, apre- para multiplicação do poder de com- as, talvez o maior dos desafios que
senta pontos extremamente sensíveis. bate de uma Força, ou seja, o au- teremos diante da era da informação
O Coronel Thomas Adams 11 , do mento de sua letalidade. seja o de vencer os paradigmas que
Exército americano nos mostra que A aplicação no CFN destas e de habitam as mentes de nossos homens.
um transmissor de apenas 100W outras tecnologias, proporcionará um O CFN “manobrou”, com o primeiro
(potência do nosso rádio de HF ins- “entendimento comum do ambiente passo dado em 1996, ao incluir a
talado na Vtr ½ Ton Com) é capaz operacional” tanto no tempo como informática nos cursos de carreira de
de interferir em receptores de GPS no espaço. Isto capacitará nossos Oficiais e Praças. Conforme já comen-
a uma distância de 20Km. Da mes- Grupamento Operativos a agir e re- tamos, serão necessários homens ca-
ma forma, emissores descartáveis de agir rápida e corretamente, intensifi- pacitados nesta área para operar no
menor potência poderiam ser lança- cando o ritmo do combate a um ní- Estado-Maior e nos PC dos diversos
dos por aeronave com o mesmo pro- vel que exceda a capacidade do opo- escalões. Lembremo-nos da máxima
pósito. Ou ainda, alguns VANT equi- nente, o que significa vencer a guerra de que “nenhum navio será melhor que
pados com emissores semelhantes da informação – a chave para domi- seus homens”.
disseminariam a dúvida sobre a lo- nar a manobra, conduzir ataques pre- Outra questão crucial é a da in-
calização dos elementos de uma For- cisos, manter e proteger a força.12 teroperabilidade. Não faz sentido que
ça de tecnologia digital. Podemos O CFN já dispõe de meios que tenhamos um transceptor de última
imaginar ainda que emissores cuida- aproveitam algumas das facilidades geração, com salto de freqüência,
dosamente posicionados seriam ca- proporcionadas pela era da informa- criptofonia etc, que proporcione uma
pazes de desviar ou até mesmo ção. O TACTER-31 veio nos mos- proteção relativa tanto da localização
redirecionar mísseis que empregam trar, entretanto, como ainda estamos inimiga como do conteúdo das men-
GPS para sua orientação. O Coro- longe de contar com sistemas digi- sagens, se somos obrigados a mudar
nel nos mostra ainda que foguetes tais de apoio à decisão. Por outro seu modo de operação para “claro”,
meteorológicos são capazes de co- lado, este meio nos mostra que o numa única freqüência, para solicitar
locar em órbita até 44kg de chum- caminho é o desenvolvimento de apoio naval ou aéreo.
binhos – os mesmos das carabinas softwares, sejam eles de navegação, Bancos de dados de informações
esportivas – com uma pequena car- transmissão de mensagens etc, pois sobre alvos, redes inimigas intercep-
ga explosiva. Estes mini-asteróides o hardware é facilmente adquirido tadas e suas características, sobres-
atingiriam a incrível velocidade de “nas prateleiras”. salentes, enfim, nossos sistemas pre-
mais de 20.000km/h, destruindo os A era da informação nos inspira a cisam “falar” entre si. Quem sabe po-
satélites que encontrassem pelo ca- lutar contra a dependência despro- deríamos começar dizendo “sim” da
minho. Segundo o Coronel Adams, porcional da tecnologia desenvolvi- mesma maneira, ao invés de “afirmati-
a antiga URSS teria desenvolvido da por outros países. A excelência da vo”, “positivo” e “Ok”. O advento do
com sucesso uma versão operacional formação de nossos Oficiais, em Ministério da Defesa certamente con-
deste artifício. renomados centros nacionais e inter- templará esta importante questão.
Ao imaginarmos a diferença de nacionais, nas diversas áreas do co-
custo entre o desenvolvimento, lan- nhecimento, nos permite, com toda 11
TC (Res) Thomas K. Adams, Vulne-
rabilidades do Sistema de Posicionamento
çamento e manutenção de sistemas certeza, adquirir equipamentos off- Global, Military Review
espaciais e as contramedidas que the-shelf e desenvolver procedimen- 12
Ibid. 7

2002 - O Anfíbio - 70
O Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais
CMG (FN) N ÉLIO DE ALMEIDA e CC (FN) R OGÉRIO RAMOS LAGE

“Aptidão para a Guerra é aptidão para


movimento.”
Napoleão I: “Maxims of War”, 1831

Como parte da reestruturação da Força


de Fuzileiros da Esquadra (FFE) de 2002,
está sendo ativado o Batalhão de Blinda-
dos de Fuzileiros Navais (BtlBldFuzNav).
Tal unidade teve sua concepção iniciada
com o Simpósio “O Corpo de Fuzileiros
Navais do Terceiro Milênio”, realizado no
ano de 2000, sendo proposta, com algu-
mas diferenças de constituição, por am-
bos os Grupos de Trabalhos (GT) que es-
tudaram o assunto.
No decorrer dos estudos conduzidos pelos citados GT, a idéia de criação deste bata-
lhão buscou aperfeiçoar o preparo e emprego dos meios blindados na FFE, bem como
ampliar a flexibilidade de organização por tarefas de Grupamentos Operativos de Fu-
zileiros Navais (GptOpFuzNav).
Este artigo pretende apresentar os principais aspectos considerados na criação do
BtlBldFuzNav, além das concepções básicas de emprego que, acreditamos, devem nortear
as ações da Unidade, ou seus destacamentos, sendo, para tanto, abordados a sua orga-
nização, as formas de emprego tático e o apoio de serviços ao combate (ApSvCmb) no
Batalhão.
Tratando-se de uma Unidade que representará significativo acréscimo de poder de
combate aos GptOpFuzNav, o BtlBldFuzNav certamente oferecerá aos comandantes
táticos novas opções, mostrando que o resultado da nova estrutura constitui muito mais
que a soma de meios anteriormente disponíveis na FFE. Deste modo, o conhecimento
dos temas que aqui serão apresentados deve ser de especial interesse profissional dos
Fuzileiros Navais.
Afinal ..... , serão 50 blindados reunidos !
A ORGANIZAÇÃO

O BtlBldFuzNav será estruturado conforme apre-


sentado no organograma apresentado na Fig.1.
Com um comando de um CF(FN), a Unidade es-
tará organizada com uma Companhia de Comando
e Serviços (CiaCSv), uma Companhia de Carros de
Combate (CiaCC) e uma Companhia de Viaturas
Blindadas (CiaVtrBld), além do comando do Bata-
lhão propriamente dito.
O Comando possuirá, para assessoramento do Co-
mandante, uma Seção de Pessoal, uma Seção de In-
teligência, uma Seção de Operações e uma Seção de
Logística, possibilitando integralmente que este possa
2002 - O Anfíbio - 71
turas Blindadas CCLSR Cascavel remanescentes da
(PelVtrBld) e uma antiga família de CC do CFN.
Seção de Viaturas
O EMPREGO
Blindadas de Apoio
(SecVtrBldAp). Os Os elementos integrantes do
PelVtrBld possui- BtlBldFuzNav organizar-se-ão para
rão três Seções de prover apoio de CC aos elementos
Viaturas Blindadas de manobra, participar da defesa
(SecVtrBld), cada anticarro, reforçar os fogos das ar-
uma com quatro mas de apoio, prover mobilidade e
viaturas blindadas proteção blindada à tropa apoiada
de transporte de para ações táticas ou atividades lo-
pessoal (VBTP) gísticas. Poderão ainda o Batalhão,
M-113A1, além do a CiaCC, a CiaVtrBld, ou seus res-
comando do pelo- pectivos pelotões ser empregados
Fig. 1 tão. A organização como elemento de manobra, desde
das VBTP em dois que adequadamente reforçados, con-
desenvolver atividades operativas pelotões, ao invés forme será aqui posteriormente expli-
como “empregador de meios”1 . dos três atualmente citado.
A CiaCC será organizada existentes, visou a Assim sendo, o BtlBldFuzNav,
com uma Seção de Comando facilitar as relações suas companhias e pelotões “de li-
(SecCmdo) e quatro Pelotões de de comando entre a nha” poderão realizar ações de com-
Carros de Combate (PelCC), de tropa apoiada e as bate, de apoio ao combate e de apoio
modo a permitir ao Comando nível frações de blindados, conforme será de serviços ao combate.
Brigada alocar um PelCC em apoio abordado quando se tratar do seu em- Ficará caracterizado o emprego
a cada uma das duas unidades de as- prego. A SecVtrBldAp contará com como elemento de combate nas oca-
salto e ainda dispor da CiaCC(-) com as Vtr M-125 e as Vtr M-577 (VtrBld siões em que a Unidade, subunidade
duas peças de manobra, para cum- Comando). ou fração do BtlBldFuzNav, sendo
prir outras missões com maior flexi- A CiaCSv estará organizada com o núcleo de uma organização por ta-
bilidade. Seus PelCC serão consti- uma SecCmdo, uma Seção de Co- refas que incluirá os reforços neces-
tuídos por duas Seções, onde o co- municações (SecCom), um Pelotão sários ao cumprimento da missão a
mando de uma das seções acumula de Manutenção (PelMnt), um Pelo- ela atribuída, constituir-se em elemen-
com o comando do pelotão, a dois tão de Serviços Gerais (PelSvG) e to de manobra do escalão enqua-
CC cada, utilizando o “WINGMAN uma Seção de Carros de Combate drante, normalmente recebendo res-
CONCEPT”2 . Tal conceito prevê Leves sobre rodas (SecCCLSR). A ponsabilidade por parcela da frente
que um CC orienta o outro, estando SecCom terá a capacidade de apoi- de combate3 .
à sua direita ou à esquerda, devendo ar o Comando do Batalhão, inclusi- Tal emprego, talvez uma das prin-
o ala, na ausência de instruções es- ve estabelecendo as ligações internas cipais contribuições resultantes da cri-
pecíficas, movimentar-se, parar e necessárias quando a Unidade esti- ação do Batalhão, será particularmen-
atirar, quando o seu líder assim o fi- ver sendo empregada como um todo. te desejável quando as tarefas a se-
zer. De forma geral, esta organiza- O PelMnt possuirá as seções de ma- rem desenvolvidas exijam as caracte-
ção redundará em ganhos em termos nutenção auto, de torre e de comuni- rísticas dos meios blindados, bem
do comando e controle intrapelotão. cações/ótico/optrônicos, estando em como de suas potencialidades. Entre
A CiaVtrBld será organizada com sua dotação as VtrBld XM806E1 essas, destacam-se especialmente as
uma SecCmdo, dois Pelotões de Via- (Socorro), M113A1G “Fitter” e a Vtr seguintes ações táticas: junções; ata-
1
blindada socorro da família dos CC que coordenado em terreno franca-
Conforme definido pelo GT-Bravo do
Simpósio do CFN do III Milênio. SK. O PelSvG é composto pelas Se- mente favorável aos carros; ataques
2
Conceito do ala. ções de Material e de Saúde. A profundos “balizados” por eixos de
3
Habitualmente mediante a atribuição de uma
zona de ação ou de responsabilidade tática. SecCCLSR é constituída por dois progressão; reconhecimento de eixos,

2002 - O Anfíbio - 72
bilidade organizacional emprestada
pela nova Unidade, a seguir serão
apresentadas algumas das possibili-
dades de emprego dos meios blin-
dados como elemento adicional de
áreas ou zonas; cobertura ou proteção centralizados, tanto para atuar como manobra:
de outro elemento; vigilância4 ; van- elemento de manobra quanto para as q O BtlBldFuzNav (Ref) co-
guarda, flancoguarda ou retaguarda de tarefas de apoio ou um misto dessas mo peça de manobra do CCT da
colunas em movimento; segurança de possibilidades. Para tanto, poderão BAnf para a realização de uma
área de retaguarda (SEGAR); esta- ser empregados os tradicionais mé- junção.
belecimento de postos avançados de todos de controle e situação de co- Recebendo uma Companhia de
combate (PAC); retardamento; defe- mando – apoio ao conjunto; apoio Fuzileiros Navais (CiaFuzNav) e um
sa em larga frente como medida de direto; e à disposição. Acreditamos Pelotão de Carros de Lagarta Anfí-
economia de força; contra-ataques de que, nas situações onde o elemento bios (PelCLAnf), a unidade poderia
desorganização ou destruição; e se- do BtlBldFuzNav for empregado em organizar-se com uma CiaCC (a dois
gurança de comboios logísticos. ações de apoio ao combate ou apoio pelotões) reforçada por um Pelotão
É importante observar-se que es- de serviços ao combate, poderão ser de Fuzileiros Navais (PelFuzNav)
tas possibilidades representam uma utilizados qualquer um dos métodos embarcados em uma SecVtrBld, uma
flexibilidade adicional da organização ou situação apresentados, entretan- CiaFuzNav (-) reforçada pelo
para o combate pela disponibilidade to, quando for necessário o empre- PelCLAnf e de um PelCC, ambas para
de mais um elemento de comando e go como elemento de combate, a co- as ações principais, e uma CiaVtrBld
controle sem degradação de outros locação do meio blindado à disposi- reforçada por um PelCC e elemen-
elementos. Além disto, é fundamen- ção permitirá mais facilmente que este tos da CiaFuzNav para atuar como
tal lembrarmo-nos da necessidade formule o seu planejamento7 . Nas elementos de reconhecimento, segu-
da presença de elementos de in- situações onde o peso adicional do rança e economia de força ou reser-
fantaria em reforço aos elementos do ApSvCmb aos meios blindados for va fraca. Note-se que, mesmo tendo
BtlBldFuzNav, quando a estes forem incompatível com o elemento en- a Unidade cedido elementos de CC
atribuídas tarefas que redundem em quadrante, instruções adicionais po- ou VtrBld e não tendo recebido re-
controle de terreno ou quando a na- deriam manter parcela das respon- forço de CLAnf, ainda assim será pos-
tureza deste apresentar ameaça aos sabilidades logísticas com a organi- sível organizar-se pelo menos duas
blindados5. zação de origem dos citados meios. peças de manobra para o Batalhão.
Por outro lado, ficará caracterizado Como ponto de partida inicial, su- Além da infantaria e dos CLAnf, ou-
o emprego dos meios do BtlBldFuzNav gerimos que, até que as experiências tros reforços de apoio ao combate e
como elemento de apoio ao comba- futuramente acumuladas permitam ApSvCmb poderão ser necessários,
te quando, não sendo o núcleo de uma análise mais profunda do assun- de acordo com a tarefa atribuída.
uma peça de manobra, estes refor- to, a dosagem básica de blindados seja q A CiaCC (Ref) como peça
çarem as ações da infantaria com a seguinte: BtlBldFuzNav para uma de manobra do CCT da BAnf
carros de combate6 , transporte blin- Brigada Anfíbia (BAnf); um Grupa- para um contra-ataque de desor-
dado para movimentos táticos, de- mento Blindado, formado por um co- ganização.
fesa anticarro e apoio de fogo adici- mando de companhia8 , um PelCC, um Recebendo um PelFuzNav em-
onais. De modo semelhante, estará PelVtrBld (a quatro seções) e um barcado em uma SecVtrBld ou em
caracterizada a atuação como elemen- DstVtrBldAp, para a UAnf; e um 4
Em atendimento a requisitos defensivos e/ou
to de apoio de serviços ao combate, DstBld para o ElmAnf com um co- de inteligência.
quando for provido transporte blinda- mando de pelotão e seções de CC e 5
Terrenos cujas características restringem a
do para apoio logístico. VtrBld. Esta proposta mantém as do- observação e campos de tiro.
6
Ampliando-lhes o poder de fogo, mobilida-
Como vimos, o BtlBldFuzNav e sagens tradicionalmente usadas e bus- de, proteção e ação de choque.
suas companhias poderão empregar, ca propiciar possibilidade da formação 7
Especialmente para a organização por tare-
de modo centralizado, seus elemen- de elementos de manobra adicionais. fas e transcrição de ordens nos diversos pla-
nos.
tos subordinados ou serem estes des- Como exemplo da grande flexi- 8
Da CiaCC ou da CiaVtrBld.

2002 - O Anfíbio - 73
CLAnf, a Cia CC teria seus PelCC função da estrutura do BtlBldFuzNav, de força. A Fig. 2 apresenta uma
e o PelFuz como elemento de mano- mesmo destacando elementos para idéia de sua estrutura básica.
bra. Semelhante à situação anterior, tarefas de apoio, o Batalhão e suas w as VtrBld Comando tanto po-
a CiaCC, ainda que cedendo dois de subunidades ainda podem brindar derão ser empregadas em reforço a
seus pelotões, poderia atuar com seus comandantes superiores com pe- unidades de infantaria ou em provei-
flexibilidade. ças de manobra adicionais. to do BtlBldFuzNav ou de suas com-
q A CiaVtrBld (Ref) como Não possuindo meios orgânicos de panhias, sendo necessário dois para
peça de manobra do CCT da apoio de fogo indireto, o BtlBldFuzNav elemento de valor batalhão e uma
BAnf para a vigilância de um ou seus elementos subordinados para subunidades.
flanco exposto. deverão receber os observadores w semelhante, as VtrBld morteiro
Recebendo um PelFuzNav e um dos diversos sistemas de fogo quan- tanto poderão reforçar a infantaria
PelCC, a CiaVtrBld poderia organi- do este for empregado como peça como, recebendo-se o reforço de uma
zar até quatro “pelotões blindados”, de manobra. Especial acréscimo na seção de morteiros, serem empregadas
mesclando CC, infantaria e VBTP, capacidade de combate da unida- em proveito do BtlBldFuzNav ou de
enquadrados sob os quatro coman- de seria, dependendo da organiza- suas companhias.
dos de pelotão então disponíveis. ção para o combate visualizada para w Os CCLSR Cascavel poderão
q O Grupamento Blindado a artilharia, o reforço da unidade ser usados em ações complementa-
(GptBld) da UAnf como peça de pela BiaMrt120mm do Batalhão de res até o encerramento de seu perío-
manobra no reconhecimento em Artilharia de Fuzileiros Navais do de utilização.
zona. (BtlArtFuzNav), cujo material pode- Nas operações anfíbias (OpAnf)
Recebendo um PelFuzNav, o ria ser rebocado pelas VBTP, que o BtlBldFuzNav poderia ter seus ele-
GptBld poderia organizar até três “pe- também proveria o transporte do pes- mentos orgânicos inicialmente empre-
lotões blindados”, mesclando CC, in- soal e dotação básica de munição. gados da seguinte maneira, obvia-
fantaria e VBTP, enquadrados sob os Em adição ao que já foi aborda- mente dependendo de cada situação:
três comandos de pelotão então dis- do em termos do emprego, faz-se q os CC deveriam estar nas pri-
poníveis. necessário os seguintes comentários meiras vagas, para, em conjunto com
q O PelVtrBld (Ref) da adicionais no tocante à CiaVtrBld: os CLAnf, ampliar a potência do es-
UAnf como peça de manobra na w uma SecVtrBld apoiará um Pe- calão de assalto da Força, devendo,
SEGAR. lotão de Fuzileiros Navais embarcan- para tanto, serem pré-carregados em
Recebendo elementos de infantaria, do um GC em cada VBTP e o co- embarcações de desembarque;
o pelotão organizaria até quatro “seções mando do pelotão na quarta viatura, q as VtrBld, atuando como ele-
blindadas” para o patrulhamento da re- sendo necessário, entretanto, que o mento de manobra com os reforços
taguarda ou escolta de comboios. GC seja reduzido para até 11 milita- necessários, poderiam ser emprega-
q O PelCC (Ref) da UAnf co- res; o SG comandante da seção as- das para a segurança de um flanco
mo peça de manobra de uma sessorará o comandante do PelFuzNav ou para cobrir, com ações de reco-
CiaFuzNav embarcada em CLAnf no emprego de suas Vtr. nhecimento de zona, os intervalos
na conquista de objetivo profundo. w para o apoio a uma CiaFuzNav normalmente significativos entre os
Recebendo um Grupo de Com- deverá ser empregado um PelVtrBld, elementos de manobra, para isto de-
bate embarcado em CLAnf, o PelCC reforçado por uma ou mais SecVtrBld, sembarcando à retaguarda dos ele-
poderia constituir a vanguarda da co- de modo a garantir-se a unidade de mentos de assalto e antes da reser-
luna da companhia e, no objetivo fi- comando dos Bld e facilitar as relações va; de qualquer maneira, é fundamen-
nal, realizar uma manobra desbordante de comando com a tropa apoiada9 . tal que as VtrBld voltem a possuir es-
em terreno favorável aos carros. w de especial utilidade para o co- paços nos meios de desembarque em
Além dos exemplos acima descri- mandante tático é a organização por nossas OpAnf; e
tos, permanecem sempre disponíveis tarefas do “Destacamento de Reco- q tanto os CC quanto as VtrBld,
as opções clássicas de emprego dos nhecimento Blindado” (DstRecBld), devidamente organizados por tarefas,
blindados nas tarefas de apoio con- tendo como núcleo o PelVtrBld com
forme anteriormente mencionado, sen- reforços diversos, para ações de re- 9
Não devendo ser empregados dois PelVtrBld
do importante enfatizar-se que, em conhecimento, segurança e economia ou toda a CiaVtrBld embora possam ser ne-
cessários todos os VBTP.

2002 - O Anfíbio - 74
poderiam, precedendo os ele-
mentos de infantaria, também
ser empregados em primeiro
escalão para, efetuando ações
de reconhecimento de zona e/
ou reconhecimento em força,
buscar os pontos fracos do
dispositivo inimigo por onde
seriam empregados decisiva- Fig. 2
mente fortes elementos de
manobra nucleados pela infantaria. modo a poder durar em combate. A
Após estas ações iniciais, os mei- capacidade logística do Batalhão
os orgânicos do BltBldFuzNav exe- prevê:
cutariam as tarefas de combate, apoio w efetuar o abastecimento interno
ao combate e apoio de serviços ao da Unidade quando atuando como
combate anteriormente descritas. um todo, por meio de uma Instalação
De suma importância para o ade- Logística Sumária (ILS);
quado emprego de todas as poten- w montar e operar locais de refu-
cialidades que serão oferecidas pela gio de feridos nas subunidades e na
nova Unidade, será a presença de ILS da Unidade;
uma adequada assessoria ao seu co- w efetuar a manutenção preventi-
mandante enquadrante. Deste modo va e corretiva de seu material con- lhão Logístico de Fuzileiros Navais
visualizamos a seguinte forma de de- forme determinado pelas normas em (BtlLogFuzNav), somente desdo-
signar esta assessoria. vigor; e brando meios de estacionamento em
w na BAnf, sendo empregado o w prover limitada capacidade de situações especiais e seu desloca-
Batalhão como um todo10 – o pró- transporte leve sobre rodas. mento, habitualmente, será realizado
prio Comandante da Unidade; O ApSvCmb será prestado ao de uma só vez.
w na BAnf, sendo empregadas as BtlBldFuzNav por sua ILS, a qual se- Todo o esforço logístico feito pela
subunidades isoladamente – o oficial rá operada pelo PelSvG da CiaCSv, ILS do BtlBldFuzNav visará a for-
de operações do Batalhão; devidamente reforçado. Um Proce- necer o suprimento de que a SU ne-
dimento Operativo Padronizado cessita, oportunamente e com um mí-
w na UAnf – o comandante do (POP) da Unidade definirá sua cons- nimo de esforço para o elemento
GptBld; e tituição e a forma de desdobramen- apoiado, reduzindo o número de des-
w no ElmAnf – o comandante do to, entretanto, normalmente, a sua locamentos dos elementos da SU à
DstBld. principal característica deverá ser ILS. Com essa finalidade, serão mon-
Em qualquer dos casos, o oficial uma grande mobilidade. O posicio- tados comboios, destacados da ILS
responsável pela assessoria sobre o namento da ILS atenderá aos requisi- do Batalhão, denominados pacotes
emprego dos blindados também se- tos comuns aos de um BtlInfFuzNav, logísticos (PACLOG), contendo o
ria o assessor de Defesa Anticarro segundo os fatores manobra, terre- suprimento indispensável a uma SU
(DAC) do elemento enquadrante. no, segurança e situação logística. A para um determinado período de
ILS do Batalhão geralmente operará tempo e para uma operação especí-
O APOIO DE SERVIÇOS AO sobre viaturas providas pelo Bata- fica. O comandante da subunidade,
COMBATE baseado nas ordens emiti-
das pelo comandante do
O BtlBldFuzNav terá Batalhão, proporá: a com-
limitada capacidade de posição do PACLOG; o
ApSvCmb, necessitando horário de chegada no
de apoio externo para re- Ponto de Recebimento do
forçar sua CiaCSv, de
10
Incluindo o seu comando.

2002 - O Anfíbio - 75
PACLOG e o intervalo de recebi- do e itens críticos de suprimentos. No
mento para os demais PACLOG caso da CiaCC, esta VBTP também
ao longo das operações. A Fig. 3 servirá de transporte para o Imedia-
apresenta a constituição de um to da companhia e possíveis obser-
PACLOG, o qual deverá ser vadores, além do pessoal e material
acompanhado de elementos de se- destinado ao ApSvCmb.
gurança ditados pelo nível da ame- Fig.3
aça esperada. COMENTÁRIOS FINAIS
Em termos de saúde, o belecidas pelo escalão superior. Em
BtlBldFuzNav não possuirá o pes- combate, a manutenção continuará Como visto, as possibilidades
soal necessário à montagem e ope- sendo uma preocupação de todos na apresentadas pela nova unidade tra-
ração de seu Posto de Socorro (PS), Unidade, enquanto a atividade de re- rão significativo incremento de flexi-
devendo a Unidade ser reforçada paro será restrita às ações que de- bilidade para os GptOpFuzNav. Den-
pessoal de saúde das BFN para ope- mandem pouco tempo de trabalho. tre as principais vantagens decorren-
rar o PS, o qual, entretanto, somente O material que não puder ser repa- tes do BtlBldFuzNav explicitamos a
será empregado quando a unidade for rado deverá ser enviado para a área facilidade na integração operativa dos
empregada como um todo. Caso de apoio à retaguarda, sendo substi- meios blindados, facilidades logísticas
tuído sempre que possível (sistema pela centralização da manutenção de
de troca direta). CC e VtrBld e flexibilidade de orga-
Quanto à manutenção, a existên- nização por tarefas.
cia das viaturas especializadas de so- Com o adestramento e desenvol-
corro e manutenção proverá grande vimento dos POP, a unidade certa-
flexibilidade à sua execução, permi- mente constituir-se-á em importante
tindo o emprego de equipamentos e ferramenta para o comandante tático
ferramentas especiais com grande ra- particularmente para as ações dinâ-
pidez e em condições de combate. micas do combate, conforme se ve-
As Vtr Bld SL (SK e M113) possu- rificou no emprego de Fuzileiros Na-
em sistemas análogos, com filosofias vais na recente Guerra do Golfo.
contrário, cada uma de suas compa- de manutenção semelhantes de ma- Ressalte-se também que as faci-
nhias operará o seu Local de Refú- nutenção, possibilitando o emprego lidades geradas pelo novo conceito
gio de Feridos (LocRefgFer), a ser de recursos humanos com a mesma de emprego de blindados serão de
guarnecido pelos enfermeiros da Uni- formação básica, bem como de ofi- fundamental importância para aumen-
dade. cinas com elevado quantitativo de tar o controle dos espaços no cam-
Os padioleiros são normalmente ferramental comum. po de batalha, aspecto considerado
elementos externos ao BtlBldFuzNav, As companhias do BtlBldFuzNav como uma constante preocupação da
que o reforçam. No entanto, a Uni- deverão também operar suas respec- tropa anfíbia devido aos grandes es-
dade poderá ser forçada a recorrer tivas ILS de SU. Para tanto, normal- paços normalmente decorrentes de
aos seus próprios padioleiros, deven- mente será empregada por cada uma sua missão.
do selecioná-los dentre seu pessoal delas uma VBTP, com elementos de Em suma, o BtlBldFuzNav, cuja
de apoio administrativo. Somente em suas respectivas seções de coman- ativação definitiva deverá ocorrer no
última instância deverão ser designa- início de 2003, colocará o
dos militares das PçMan e dos mei- CFN em melhores condições
os de ApCmb para essa tarefa. de cumprir suas tarefas em um
O BtlInfFuzNav executa somen- “combate moderno” tendo ca-
te o reparo e a manutenção de pri- pacidade tanto de conduzir
meiro escalão de todo o seu materi- suas ações dentro dos precei-
al, por meio dos próprios usuários e tos da chamada “guerra de
do pessoal especializado disponível, manobra”, como participar de
de acordo com as normas esta- combates de atrição.

2002 - O Anfíbio - 76
Recentemente, em julho de
2002, ocorreu nos Estados Uni- Tropas Anfíbias pelo Mundo
dos da América a primeira CT (FN) PAULO SERGIO C. B. TINOCO GUIMARÃES
Conferência Mundial de Líde- ü Missão e Metas – adotam os
res de Fuzileiros Navais (World-
mesmos princípios e se or-
wide Commandants’ Conferen- gulham de pertencer às suas
ce). Tratou-se de um encontro
respectivas Marinhas, dan-
inédito entre os representantes
do a estas flexibilidade de
dos vários Corpos de Fuzileiros
emprego e uma força de
Navais e de Infantes de Mari-
combate com elevado grau
nha de todos os continentes, que Este artigo fará um breve
de prontidão, provendo ao
tinha como propósito promover resumo de quatro destas apre-
poder político de cada Na-
um fórum de debates com in- sentações, por julgar que são
tercâmbios de idéias e conheci- ção uma eficaz ferramenta
militar, capaz de cumprir pouco conhecidos de nossa
mentos sobre DOUTRINA, parte, no aspecto de organi-
ORGANIZAÇÃO, ADESTRA- extensa gama de tarefas,
que dificilmente estariam ao zação e meios de fuzileiros na-
MENTO e EQUIPAMENTOS
alcance de outros segmentos vais: FINLÂNDIA, PAQUIS-
para condução de operações de
do seu poder militar; TÃO, TAILÂNDIA, e UCRÂNIA.
Fuzileiros Navais, enfocando os
desafios deste século. Há que se ü Ideais Comuns – Apóiam-se
considerar também os recentes nos pilares da Honra, Inte- FINLÂNDIA
acontecimentos mundiais que, gridade e Profissionalismo, Possui, na or-
certamente, terão influência que embasam de forma in- ganização de suas
em nossos planejamentos mili- delével o nosso “Espírito de Forças Navais,
tares. Sem dúvida, tratou-se de Corpo”; uma Brigada An-
uma oportunidade inigualável ü Futuro semelhante – por fíbia conhecida
de ampliar e aprofundar o co- apresentarem desafios se- como UUSIMA/
nhecimento recíproco entre os melhantes, buscam trocar N Y L A N D
participantes, com uma intensa informações, apoiar-se mu- BRIGADE, diretamente subordina-
troca de experiências pro- tuamente, visando adaptar- da ao Comandante-em-chefe da
se as constantes mudanças Marinha Finlandesa. Desde o ano de
fissionais.
do século XXI. Procuram 1998, é a parte da Marinha respon-
De um total de 39 países que
trabalhar em comum acor- sável pelo treinamento das novas
se tem conhecimento de possuir
do, visando a tornarem-se unidades costeiras da marinha, dentre
tropa anfíbia, 32 comparece-
mais eficientes, tática e tec- as quais os Batalhões Coastal Jaeger,
ram ao evento. Destes, somente
nicamente, para um prová- especializados e adestrados para o
dois países – França e Nicará-
gua – possuem tropas subor- vel emprego em conjunto. Tal
dinadas ao Exército de suas tendência já é observada em
Forças Armadas, apesar de muitos países europeus, com
possuírem características e a formação de Forças Tare-
meios predominantemente an- fas Anfíbias que englobam combate nas áreas do arquipélago
fíbios. Os demais países estão meios e tropas de dois ou finlandês, com suas lanchas rápidas
enquadrados, de uma forma ou mais países. “G-boats”, e por unidades de infan-
de outra, dentro de suas Ma- Durante a Conferência, ca- taria, artilharia de costa e engenharia.
rinhas de Guerra. da país teve a oportunidade de A língua oficial de treinamento nesta
De uma maneira geral as realizar uma apresentação de Brigada é o sueco, visto que o ob-
tropas de Fuzileiros Navais com- cerca dez minutos sobre seu jetivo é consolidar a Força Tarefa
partilham: respectivo Corpo de Fuzileiros. Anfíbia Sueco-Finlandesa, a partir de
2002 - O Anfíbio - 77
2006. A Brigada está organizada nhia Anticarro, entre outras unidades.
com duas unidades de treinamento, A maior parte dos equipamentos
nível Batalhão, um Batalhão Coastal e armamentos utilizados pelo Royal
Jaeger e um Batalhão de Artilharia Thai Marine Corps são os mesmos,
de Costa. ou pelo menos compatíveis, com os
utilizados pelo USMC, com os quais
PAQUISTÃO realizam anualmente uma Operação
Os Fuzileiros Navais paquista- de grande vulto, o “COBRA GOLD
neses (PAK Marines) foram conce- EXERCISE”.
bidos com capacidade para realizar
uma gama variada de tarefas, que UCRÂNIA
incluem segurança de autoridades, Na missão da Infantaria Naval
reconhecimento e vigilância, ajuda Ucraniana estão incluídas algumas
humanitária e defesa do litoral. Tal
– RTMC) foi criado durante o domí- das seguintes tarefas: conduzir de-
diversidade proporcionou experiên- nio do Rei RAMA-III (1824 – sembarques anfíbios independentes,
cia suficiente para que participassem
1851). realizar operações de desembarque
de qualquer Operação de Manuten- Em 1951, como resultado de tur- conjuntamente com unidades do
ção de Paz, a cargo da ONU. bulências políticas internas, o mesmo exército, participar em Operações de
O primeiro Batalhão de Fuzileiros
foi dissolvido. Em julho de 1955 foi Paz, ações antiterrorismo, propor-
da Marinha do Paquistão foi consti-restabelecido e organizado nos mol-
cionar segurança e defesa de Bases
tuído em setembro de 1971 para des do USMC, marcando assim, o
Navais, ilhas, zonas do litoral, portos,
concretizar um sonho de operar na começo da era moderna do RTMC
campos de pouso e outros objetivos
parte oriental do país. Continuou a(notamos tal influência constatando a
julgados importantes.
existir de forma rudimentar até 1988,
semelhança no próprio símbolo dos
Criada no segundo semestre de
basicamente para proporcionar respectivos Corpos).
segurança às instalações de unidades Os impactos negativos da crise 1993, atualmente possui um efetivo
da Marinha Paquistanesa, naquela econômica pelo qual passou a de 2 mil fuzileiros, agrupados em uma
região. Devido a gradual expansão Tailândia em 1997 tiveram reflexos Brigada Anfíbia com dois Batalhões
de sua Marinha, o Batalhão foi em seu Corpo de Fuzileiros Navais, de Infantaria, subunidades de apoio
reativado em 1990, e a Força que conseguiu com habilidade ao combate e de apoio de serviços
acrescida de mais um Batalhão no preservar os seus equipamentos. ao combate.
ano de 1998, o “Creek Batallion”, Após este período buscou imple-
especializado em combater os mentar o sistema de “compradores
chamados crimes internacionais, inteligentes e usuários inteligentes”, o
como tráfico de drogas e armas, que permitiu prover uma Força de
entrada de imigrantes ilegais e o ter-
pronto-emprego para defesa dos
rorismo na região do Rio Indo, prin-
interesses do Reino da Tailândia.
cipal rio do país, e seus afluentes. Em 1999 possuía um Corpo de
Os PAK Marines recentemente Fuzileiros Navais com cerca de 20
incrementaram seus conhecimentos mil militares. Atualmente, o Corpo de
e experiências profissionais, graças
Fuzileiros Navais da Tailândia possui
a oportunidade de operar conjunta- um efetivo de cerca de 25 mil milita-
mente com o USMC na Guerra con- res, organizado em UMA DIVISÃO Cada Batalhão possui, além de
tra o Terrorismo, no vizinho Afega-ANFÍBIA que inclui dois regimentos duas Companhias de Fuzileiros, uma
nistão. de Infantaria, um regimento de Companhia de Pára-quedistas e um
Artilharia, um regimento de Apoio, Pelotão de Reconhecimento, este
TAILÂNDIA além de Batalhões de Reconhecimen- último com capacidade de desen-
O Corpo de Fuzileiros Navais da to, Engenharia, Comunicações e volver operações em áreas monta-
Tailândia (Royal Thai Marine Corps Viaturas Anfíbias, e de uma Compa- nhosas.

2002 - O Anfíbio - 78
O Incremento do Apoio de Fogo Orgânico dos
Batalhões de Infantaria de Fuzileiros Navais –
O Morteiro 120mm é a Solução?*
CMG (FN-RRM) ARMANDO S. DE ANDRADE DA COSTA
CC (FN) WLADIMIR SOARES FRANCO
CC (FN) JÚLIO CÉSAR FRANCO DA COSTA
CC (FN) FRANCISCO ROZENDO DE ANDRADE NETO
CC (FN) PAULO JOSE PINHEIRO FILHO
CT (FN) MARCIO ROBERTO MOREIRA DA SILVA
CT (QC-FN) HAROLDO JOSÉ M. BUENO PAIVA
CT (FN) CLAUDIO VICENTE ISSA VIEIRA
CT (FN) FLÁVIO DOS SANTOS NASCIMENTO

“Há cinco maneiras de atacar com fogo. A primeira é queimar os soldados em


seus acampamentos; a segunda é queimar armazéns; a terceira é queimar comboios
de mantimentos; a quarta é queimar arsenais e paióis; a quinta é lançar fogo,
continuamente, sobre o inimigo”.
(Sun Tzu, a Arte da Guerra)

A história militar tem comprovado para o apoio de fogo aos Grupa- O Apoio de Fogo
a flexibilidade de emprego e o poder mentos Operativos de Fuzileiros
de destruição dos morteiros nos Navais (GptOpFuzNav), particular- O componente básico do poder
diversos ambientes operacionais. mente, nas ações de tropa isolada ou de combate é a tropa de Fuzileiros
Seus fogos, desencadeados com que necessite de apoio de fogo Navais, à qual serão acrescidos o
elevada cadência, são eficazes contra adicional. apoio de fogo, a mobilidade, a
tropas inimigas bem posicionadas no O BtlInfFuzNav tem sido alvo de proteção e a liderança, com a fina-
terreno e contra alvos desenfiados, diversos estudos, dentre estes, o in- lidade de que esta obtenha a eficácia
pouco vulneráveis aos fogos das ar- cremento do seu apoio de fogo or- no fragor da batalha. Por sua vez, o
mas de tiro tenso. Os morteiros pos- gânico. Neste enfoque, é debatido se poder de combate tem significado
suem características específicas dotá-lo com o Mrt120mm seria uma mediante a comparação de forças,
como leveza, robustez e simplicidade. boa solução, considerando os aspec- sendo o apoio de fogo essencial para
No Corpo de Fuzileiros Navais tos táticos e logísticos que afetam esta destruir a capacidade e a vontade de
(CFN) o Pelotão de Morteiros 81mm decisão. Este artigo não pretende lutar do inimigo. O emprego do apoio
(PelMrt81mm) e a Seção de Mor- propor uma solução definitiva para
teiros 60mm (SecMrt60mm) são os este debate, tendo em vista as di-
únicos meios orgânicos dos Coman- versas situações de emprego dos
dantes do Batalhão de Infantaria de BtlInfFuzNav e as constantes ino-
Fuzileiros Navais (BtlInfFuzNav) e vações tecnológicas dos armamentos
da Companhia de Fuzileiros Navais utilizados nos campos de batalha. A
(CiaFuzNav) capazes de apoiar com proposta é abordar hipóteses de in-
fogos indiretos suas manobras táticas cremento para o apoio de fogo or-
ofensivas. Além desses, o CFN pos- gânico do BtlInfFuzNav, com base em
sui o morteiro 120mm, orgânico do suas características, possibilidades e
Batalhão de Artilharia de Fuzileiros limitações; e evidencia a importância O morteiro 81mm durante a
execução do tiro contra uma posição
Navais (BtlArtFuzNav), empregado do emprego tático dos morteiros. inimiga

*Trabalho apresentado no Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais do CFN - CIASC

2002 - O Anfíbio - 79
de fogo facilita a manobra, des- fogo orgânico dos BtlInfFuzNav de- perdas ao inimigo e favorecer a mo-
truindo, suprimindo ou neutralizando vemos estar atentos para as carac- bilidade da tropa apoiada.
armas e formações táticas inimigas, terísticas de emprego destas unida- No emprego tático desses mor-
desorganizando o seu movimento. des e suas tarefas básicas. O teiros, deve-se observar os princípios
Os fogos podem ser transferidos BtlInfFuzNav é a unidade básica de da iniciativa, profundidade, agilidade
rapidamente de um local para outro, combate capaz de planejar, ser re- e sincronização com a manobra.
dentro de uma área de operações, forçado e cumprir várias missões. Iniciativa – os morteiros contri-
batendo o inimigo nos flancos e na Suas tarefas básicas são localizar, buem para a obtenção e manutenção
retaguarda. cerrar sobre o inimigo e destruí-lo pe- da iniciativa, provendo fogos ime-
Para o seu emprego, o BtlInfFuzNav lo fogo e pela manobra e repelir o diatos de modo a interferir na ma-
pode valer-se de um sistema de ataque pelo fogo e combate aproxi- nobra planejada pelo inimigo e
apoio de fogo, portanto; além dos mado. O adestramento realizado é destruir suas forças, seja na ofensiva
morteiros, o Batalhão pode empre- baseado para o seu emprego a pé, ou na defensiva. Por sua vez, a ele-
gar em seu proveito o apoio de fogo com a finalidade de que atue em vada cadência de tiro mantida pelos
naval, os fogos de aviação e os fogos qualquer ambiente operacional. Pode morteiros e os efeitos desses fogos
de artilharia. Cada meio de apoio de ser empregado utilizando meios mo- dificultam a tomada de iniciativa pelo
fogo tem suas características parti- torizados, aéreos e blindados. inimigo. Morteiros são capazes de
culares que melhor o indica para O BtlInfFuzNav participa de O- apoiar ações bem próximo aos obje-
bater determinado alvo. Este sistema perações Anfíbias (OpAnf), Opera- tivos, de modo a atender às flutua-
de apoio de fogo, quando aplicado ções Terrestres (OpTer), Operações ções do combate e bater alvos não
sobre um alvo compensador, pode Aerotransportadas (OpAetrnp), atingidos por outras armas.
contribuir de forma significativa para Operações Ribeirinhas (OpRib), Profundidade – os morteiros pos-
que o BtlInFuzNav obtenha resulta- Operações de Segurança Interna sibilitam aprofundar o combate. São
dos decisivos. O Comandante do (OpSegInt) e daquelas ligadas à aju- capazes de bater posições inimigas
BtlInfFuzNav e os Comandantes das da humanitária, estando apto para fora do alcance das armas de tiro
CiaFuzNav devem empregar o apoio organizar-se para o embarque e o direto e em posições desenfiadas. As
de fogo disponível de forma coorde- desembarque em navios e aeronaves. granadas iluminativas empregadas
nada e integrada à idéia de manobra, Entretanto, seus elementos orgânicos concomitantemente com as alto-
de modo a assegurar a correta apli- lhe conferem apenas limitada mo- explosivas ampliam a profundidade
cação do poder de combate para o bilidade veicular e reduzidas capa- no combate noturno. Transportando
cumprimento da missão. A escolha cidades de defesa anticarro, de e- seus morteiros, elementos podem
da melhor arma de apoio de fogo é massar fogos com armas de tiro movimentar-se à retaguarda das
baseada na localização, natureza e curvo e de apoio de serviços ao posições inimigas com a finalidade de
características do alvo e na análise combate. Estas limitações são mini- atacar pontos vulneráveis e essenciais
comparativa das possibilidades das mizadas ou eliminadas quando o para o cumprimento da missão.
armas de apoio disponíveis. BtlInfFuzNav participa de organi- Agilidade – o reduzido peso dos
No combate moderno, o propó- zações por tarefas, recebendo o morteiros e sua simplicidade garan-
sito principal do apoio de fogo está apoio específico de outras unidades. tem rápidos deslocamentos e o en-
relacionado ao apoio ao movimento. gajamento imediato com elevado vo-
O apoio de fogo empregado de O Emprego Tático dos lume de fogos. Os morteiros atiram
forma adequada contra as vulne- Morteiros Orgânicos do a partir de qualquer terreno ocupado
rabilidades inimigas, numa aplicação BtlInfFuzNav pela tropa e podem transferir seus
sistemática da concentração de fo- fogos rapidamente. O BtlInfFuzNav,
Em termos de morteiros, o
gos, rápida e decisiva, pode contribuir quando empregado em terreno res-
BtlInfFuzNav possui organicamente
para o sucesso da manobra. trito, emprega o princípio da agilidade
o morteiro 81mm e o morteiro 60mm.
para adicionar poder de combate às
O Batalhão de Infantaria Estes executam fogos em apoio ao
Fuzileiro Naval durante suas ações e suas frações. O tiro vertical do mor-
de Fuzileiros Navais
permitem neutralizar o inimigo, ne- teiro e a capacidade de lançar fogos
Antes de analisar qualquer hi- gando-lhe o fogo e o movimento. Seus em 360º garantem ao Comandante
pótese de incremento do apoio de fogos são desencadeados para impor movimentar suas tropas rapidamente,

2002 - O Anfíbio - 80
sem a perda do efetivo apoio de fogo. CiaFuzNav. Esta decisão depende da
Os fogos fumígenos do morteiro li- análise da situação e da necessidade
mitam a observação e dificultam a de emassar fogos.
agilidade das ações desencadeadas O ataque visa destruir a capa-
pelo inimigo. cidade de combater do inimigo,
Sincronização com a manobra – momento em que o PelMrt81mm e
os fogos dos morteiros orgânicos as SecMrt60mm participam como
dos BtlInfFuzNav podem ser em- um componente decisivo para o Os Morteiros
pregados em sincronismo com as sucesso das operações ofensivas.
outras armas e com a manobra, de No ataque, os morteiros são empre- As armas pesadas incluem as de
modo a maximizar as perdas sobre o gados nas seguintes tarefas: neutra- calibre superior a 0.6 polegadas
inimigo. A integração do morteiro lizar ou destruir o inimigo; negar a (15,24mm). Os morteiros 60 mm, 81
com as metralhadoras, armas anticar- posse de terreno; limitar o movimento mm e 120 mm são armas pesadas,
ro (AC) e armas leves dos PelFuzNav inimigo; despistar; limitar a obser- empregadas em apoio à infantaria,
produz um efeito combinado sobre vação inimiga e iluminar a zona de com grande eficiência para bater
o inimigo maior que o simples soma- ação. alvos desenfiados, com o tiro de
tório destes fogos. Na defesa, os morteiros são em- trajetória curva.
Os BtlInfFuzNav possuem uma pregados nas seguintes tarefas: di- Os morteiros podem realizar o
Companhia de Apoio de Fogo ficultar a organização e o posicio- tiro sobre tropa a partir de posições
(CiaApF), composta por um namento dos veículos blindados ini- próximas aos elementos avançados,
PelMrt81mm, um Pelotão Anticarro migos; desorganizar concentrações o que permite, em melhores
(PelAC) e um Pelotão de Me- de tropa inimiga; reduzir a mobi- condições, concentrar e coordenar os
tralhadoras Pesadas (PelMtrP). O lidade; canalizar forças inimigas para fogos em apoio à tropa de infantaria.
PelMrt81mm é constituído de três áreas favoráveis ao engajamento; Os morteiros orgânicos podem
SecMrt81mm, a duas peças, que negar a ocupação de posições de- apoiar continuamente a idéia de
podem ser transportadas a braço ou senfiadas levando o inimigo para manobra do Comandante, indepen-
por meio de viaturas leves. Seus áreas batidas por armas de tiro direto; dente da situação das outras armas
fogos, em princípio, são realizados neutralizar armas de apoio inimigas; de apoio. É possível seu embarque
em proveito do BtlInfFuzNav. dificultar a coordenação das armas em viaturas blindadas, sobre largatas,
Para garantir maior flexibilidade, de apoio inimigas com a manobra e sobre rodas ou seu transporte a
normalmente, o Comte do BtlInfFuzNav apoiar a realização de contra-ata- braço.
emprega o PelMrt81mm de forma ques. O CFN possui três modelos de
centralizada. Entretanto, quando esta As CiaFuzNav dos BtlInFuzNav morteiro:
centralização for inviável, devido a possuem, em seus Pelotões de Pe- > o morteiro 60mm, M-60
condicionantes do terreno e ampli- trechos (PelPtr), uma SecMrt60mm, BRANDT, de origem francesa, pro-
tudes das frentes estabelecidas, esse a três peças, capazes de serem trans- vê um apoio efetivo, eficaz e flexível.
poderá empregar este Pelotão (ou portados pelo homem através de As limitações inerentes a esta arma
suas Seções) sob o controle das qualquer terreno. (curto alcance
e pequena car-
ga explosiva)
podem ser mi-
nimizadas por
um planeja-
mento cuida-
doso e pelo
conhecimento
de suas pos-
Organização da Companhia de
Apoio de Fogo Organização da CiaFuzNav sibilidades.

2002 - O Anfíbio - 81
> o morteiro 81mm, M-29A1, Recentes inovações tecnológicas do apoio do fogo? Para o incremento
de origem norte-americana, possui têm permitido o desenvolvimento de do apoio de fogo devemos possuir
maior alcance e munições e armas com maior poder um armamento de maior alcance, de
utiliza cargas de destruição e alcance, sem alterar cadência de tiro mais elevada e que
de alto grau de as características básicas do arma- possua munição com maior poder de
letalidade. É mento (raiamento, calibre e outras). destruição.
leve e pode ser Atualmente, o uso de granadas es-
transportado a peciais permite que um mesmo mor- 1ª Hipótese – substituição do
braço por lon- teiro tenha o seu alcance máximo atual morteiro 81mm por morteiro
gas distâncias, com a opção de ser
desmontado em partes para facilitar
o transporte.
> o morteiro 120mm, K6A3, de
origem israelense, pode ser auto-re-
bocado ou transportado em viaturas
e reboques, supera em alcance e
poder de des-
truição os mor-
teiros 81mm e
60 mm. Seus
fogos podem
penetrar cons-
truções e destruir fortificações ini-
migas não muito resistentes, pre-
parando o terreno para os elementos
de assalto.

Granadas padrão e de
longo alcance.

O emprego de
granadas de significativamente incrementado. 120mm auto-rebocado nos Pelo-
longo alcance A seguir encontram-se listadas tões de Morteiros orgânicos dos
permite ao
morteiro 81mm, opções de fabricantes de morteiros BtlInfFuzNav.
m-8 Vektor, 81mm e 60mm com os respectivos
atingir alvos a
até 7.600m. modelos e alcances máximos. Com a substituição do morteiro
81mm pelo morteiro 120mm, nos
Hipóteses de Incremento PelMrt do BtlInfFuzNav, é possível
a utilização de um armamento com
Qual é o significado do incremento maior alcance e uma granada de
Dados técnicos dos morteiros existentes no CFN.
Mrt Alc Min (m) Alc Max (m) Cad.Max/Normal (TPM) Peso (Kg) Transporte Dotação Orgânica
60mm 100 1850 35/8 19 a braço 3/PelPtr
81mm 90 4512 12/10 38,60 a braço 6/PelMrt
120mm 180 7200 15/4 144/418 (*) auto-rebocado 6/PelMrt
(*) com transportador.

2002 - O Anfíbio - 82
maior calibre, que confere maior po- e 81mm são armamentos que pos- 3ª Hipótese – a substituição do
der de destruição sobre o alvo. O au- sibilitam atingir com fogos um inimigo atual morteiro 81mm por morteiro
mento da capacidade de o Coman- mais distante e suas granadas são de 81mm de maior alcance nos
dante do Batalhão em intervir na maior poder de destruição, confe- Pelotões de Morteiros orgânicos
manobra por fogos e a possibilidade rindo maior grau de letalidade por dos BtlInfFuzNav; e a substitui-
de emprego centralizado do Pelotão ocasião do impacto no alvo. Nesta ção do atual morteiro 60mm por
em larga frente, em apoio às ações hipótese é possível consolidar os ob- morteiro 60mm de maior alcance
ofensivas e defensivas, são as prin- jetivos conquistados em melhores nas Seções de Morteiros orgânicas
cipais vantagens auferidas desta hi- condições e eficácia contra as ações da CiaFuzNav.
pótese. O aumento do alcance confe- dinâmicas da defesa inimiga.
rido pelo morteiro 120mm garante É importante ressaltar que dotar O incremento do apoio de fogo
ainda maior flexibilidade. a CiaFuzNav com morteiro 81mm, orgânico sem prejuízo à mobilidade,
Entretanto, a obrigatoriedade do de peso superior ao morteiro 60mm, sem alterações das tarefas básicas e
emprego de viaturas para o desloca- exigirá dos Fuzileiros Navais maior das características de emprego do
mento das peças de morteiro 120mm esforço físico, o que pode compro- BtlInfFuzNav e da CiaFuzNav, são as
impõe uma séria limitação ao seu meter a continuidade do apoio de fo- principais vantagens auferidas por esta
posicionamento em qualquer tipo de go durante as ações ofensivas e por hipótese. Nesta é possível manter a
terreno. Particularmente, para a ocasião do fogo e movimento. Além atual capacidade do PelMrt81mm e
realização das Operações Anfíbias, do que, o emprego do morteiro 81mm da SecMrt60mm de efetuar desloca-
em função dos meios de desembar- requer o trabalho de observadores mentos em qualquer terreno ou re-
que, o apoio às peças de manobra avançados (tiro indireto) e de uma giões que imponham limitada trafe-
do Batalhão, nos momentos iniciais central de tiro, exigindo que o Fuzi- gabilidade (áreas edificadas, alaga-
do assalto anfíbio, pode ser seria- leiro Naval, que pertence a um es- diças, ambientes ribeirinhos e outras).
mente prejudicado. calão essencialmente voltado para o A CiaFuzNav, que cumpre tarefas
O manuseio da munição 120mm, combate, desenvolva atividades com- essencialmente de combate, terá o in-
envolvendo maior volume e peso, plexas, quando comparadas àquelas cremento do seu apoio de fogo sem
exigirá do Fuzileiro Naval maior relativas ao emprego do morteiro que seja necessária a realização de
esforço físico e do BtlInfFuzNav um 60mm. No combate aproximado, as operações complexas por parte do
relativo aumento da capacidade das flutuações do combate requerem Fuzileiro Naval durante o fragor da
funções logísticas abastecimento e rapidez para o posicionamento das batalha.
transporte. peças do morteiro, visando à reali- Nas Operações Anfíbias é comum
zação de fogos eficazes contra o ini- que logo após o desembarque o
2ª Hipótese - substituição do migo, nesta situação verificamos que BtlInfFuzNav e a CiaFuzNav neces-
atual morteiro 81mm por morteiro o morteiro 60mm presta um impor- sitem que seus morteiros estabeleçam
120mm auto-rebocado nos Pe- tante apoio de fogo à CiaFuzNav. posições em terreno de difícil acesso.
lotões de Morteiros orgânicos dos Caso adotada esta solução, ha- No prosseguimento para o interior,
BtlInfFuzNav; e a substituição do verá um significativo aumento das ati- muitas vezes são exigidos desloca-
atual morteiro 60mm pelo mortei- vidades de abastecimento de itens mentos, sem a possibilidade de em-
ro 81mm nas Seções de Morteiros classe III (quando a Seção estiver prego de viaturas, por terrenos alaga-
orgânicas das CiaFuzNav. apoiada por viaturas) e classe V. diços ou de mata densa; e não são
Permanecem válidas as demais raras as transposições de rios ou obs-
O significativo incremento da considerações apresentadas na aná- táculos, sem o devido apoio da enge-
capacidade de os Comandantes do lise da hipótese anterior, relativas ao nharia; ou ações em áreas densa-
BtlInfFuzNav e da CiaFuzNav em PelMrt120mm, no tocante ao maior mente povoadas, com grandes quan-
intervir por fogos nas ações ofensivas alcance e poder de destruição, ca- tidades de escombros e de difícil
e defensivas, permitindo o aprofun- pacidade de intervir na manobra por acesso. Essas eventualidades ocor-
damento dos fogos em melhores con- fogos e de emprego centralizado, rem durante o combate e irão reque-
dições, são as principais vantagens bem como as restrições à mobilidade rer que o Fuzileiro Naval guarneça o
desta hipótese. Os morteiros 120mm e à logística. morteiro 81 mm (ou o morteiro

2002 - O Anfíbio - 83
60mm) a braço e se desloque para máximo. Neste processo gradual, o Na segunda hipótese há sig-
assumir uma posição favorável para Fuzileiro Naval dispõe princi- nificativo incremento da capacidade
o apoio de fogo eficaz à manobra do palmente de suas armas orgânicas e de os Comandantes do BtlInfFuzNav
BtlInfFuzNav (ou da CiaFuzNav). os fogos dos morteiros são funda- e da CiaFuzNav em intervirem por
Esta hipótese contempla com o apoio mentais, pois conferem aos Co- fogos nas ações ofensivas e de-
de fogo as circunstâncias inopinadas mandantes do BtlInfFuzNav e da fensivas. Para a CiaFuzNav é
descritas. CiaFuzNav, flexibilidade para o possível maior aprofundamento dos
A princípio, esta hipótese não emprego de suas frações de forma fogos e a granada 81mm possibilita
exigirá novas necessidades relativas ofensiva e decisiva. No combate maior poder de destruição sobre o
ao apoio de serviços ao combate moderno o apoio de fogo está intrin- inimigo que a granada 60mm.
prestado ao BtlInfFuzNav ou à secamente relacionado ao movimento Entretanto, dotar a CiaFuzNav com
CiaFuzNav. da tropa que apóia e os Fuzileiros morteiros 81mm é imputá-la com
Navais transportando seus morteiros diversos outros fatores limitativos.
Considerações podem movimentar-se à retaguarda Para a segunda hipótese, serão
Finais ou para os flancos das posições acrescidas ainda, as limitações des-
inimigas, com a finalidade de atacar critas na primeira.
A artilharia era, outrora, co- seus pontos vulneráveis e vitais.
nhecida como a “Ultima Ratio Durante o fragor do combate apro- Com a substituição dos morteiros
Regis” – O último Argumento dos ximado, quando as flutuações do 81mm e 60mm por outros de iguais
Reis . Para a infantaria, o último ar- combate exigem rapidez e precisão calibres e de maiores alcances, como
gumento do mais moderno Fuzileiro dos fogos, os morteiros são es- abordado na terceira hipótese, é
Naval é a arma que porta: o fuzil, a senciais, pois com sua elevada ca- possível o incremento do apoio de
baioneta, a metralhadora e o mor- dência de tiro, garantem agres- fogo com a grande vantagem de não
teiro. Depois que os Comandantes e sividade, impetuosidade e proteção serem alteradas as características de
os Estados-Maiores planejaram, que às ações dos Fuzileiros Navais. emprego e as tarefas básicas de o
a Força de Desembarque foi or- BtlInfFuzNav e da CiaFuzNav. Esse
Comparando as hipóteses de
ganizada, reunida e embarcada, que incremento, verificamos que a pri- incremento é decorrente das diversas
o apoio de fogo naval realizou a meira, com a substituição do inovações tecnológicas dos morteiros
preparação da praia de desembarque morteiro 81mm pelo 120mm, a- 81mm e 60mm, que lhe conferiram
e bateu as primeiras linhas de alturas, carreta maior alcance do apoio de significativos aumentos em seus
que a aviação empregou seus fogos fogo prestado às ações ofensivas e alcances e granadas com maior poder
contra o inimigo, é o Fuzileiro Naval defensivas. A granada 120mm, de de destruição.
que com suas armas nas mãos maior calibre, confere também maior
“arranca da trincheira o inimigo”. poder de destruição. Entretanto, a Este artigo tratou da importância
Logo, são as armas orgânicas da in- obrigatoriedade do emprego de dos fogos dos morteiros em apoio às
fantaria que a grande maioria dos viaturas para o deslocamento das ações dos Fuzileiros Navais e
Fuzileiros Navais maneja, amaldiçoa, peças impõe uma séria limitação ao apresentou hipóteses de incremento
traz na lembrança e mais tarde posicionamento de suas frações em do apoio de fogo do BtlInfFuzNav.
recordações saudosas. terrenos de difícil trafegabilidade. Não é o seu enfoque apresentar uma
Para a realização das Operações solução definitiva para esse in-
A infantaria é das armas a rainha Anfíbias, em função dos meios de cremento. Entretanto, qualquer so-
e a Operação Anfíbia a operação desembarque, o apoio de fogo do lução adotada deve contemplar um
mais complexa realizada. Nesta, o morteiro aos elementos em primeiro morteiro que possa ser empregado
poder de combate parte do zero escalão, durante os momentos por uma tropa leve, versátil e com
inicial e, paulatinamente, vão sendo- iniciais do assalto, pode ser pre- grande mobilidade, como é o caso
lhe acrescidos meios até chegar ao judicado. dos Fuzileiros Navais.
2002 - O Anfíbio - 84
Educação, Formação, Cultura
Militar e Sociedade*
VICE-A LMIRANTE ARNANDO AMORIM FERREIRA VIDIGAL

1. A Evolução Tecnológica e lançado ao mar em 1906, era um telégrafo sem-fio, permitindo comu-
a Arte da Guerra navio de 18.000 toneladas, construí- nicações seguras a distâncias cada vez
do em aço e com couraças do maiores, levou a maior extensão
As transformações tecno- mesmo material, provido de energia geográfica dos combates, tanto no
lógicas, desde os tempos elétrica, propulsionado por quatro teatro de operações terrestre como
turbinas a vapor que lhe imprimiam no marítimo; a 1ª GM viu ainda o
mais primitivos, estão asso-
uma velocidade de 21 nós, e armado início da guerra química, com gases
ciadas à arte da guerra: as com uma bateria principal de 10 tóxicos sendo empregados em larga
idades da pedra polida, do canhões de 12 polegadas e com uma escala pelos dois lados.3
bronze, do ferro correspon- bateria secundária de canhões de 12-
deram ao emprego de ar- pounder1 e canhões de 3 polegadas Posteriormente, prosseguiram, em
mas cada vez mais sofis- de tiro rápido, todos os canhões de especial durante e após a 2ª GM, os
aço, alma raiada e carregamento pela aperfeiçoamentos de alguns sistemas
ticadas, de crescente efi-
culatra, atirando projetis cilíndricos de armas e sensores: o radar e o so-
cácia, e à adoção de novas com ogiva carregados com alto nar que ampliaram a capacidade de
técnicas para emprego des- explosivo.2 Uma extraordinária detecção de alvos na superfície, no
sas armas. evolução em apenas 47 anos. ar e até mesmo abaixo da superfície
do mar; os submarinos passaram a
A partir, porém, da revolução Nesse mesmo período, novas usar o esnorquel, que permitia o
tecnológica, que teve início no fim do armas foram desenvolvidas: em 1867 carregamentos das baterias mesmo
século XVIII, as transformações se Whitehead e Luppis inventaram o com o submarino mergulhado, e
multiplicaram e aprofundaram e, torpedo auto-propulsado, que deu adotaram a propulsão nuclear, que
conseqüentemente, se multiplicaram origem às torpedeiras, pequenas lhes assegurava a capacidade de
e aprofundaram os seus efeitos sobre embarcações velozes e armadas com permanecerem mergulhados por
a guerra. A partir da segunda metade esses torpedos, para atacar a linha longos períodos de tempo e uma
do século XIX, há uma nítida ace- de batalha inimiga; para se contrapor
leração desse processo: o HMS a essa nova ameaça surgiram os
*
“Victoria”, lançado ao mar em 1859, contra-torpedeiros e a bateria se- Palestra proferida na Comissão de
era uma fragata de três conveses, to- cundária dos grandes navios de linha; Defesa Nacional e Relações Exteriores
da Câmara dos Deputados – Agosto de
talmente de madeira, propulsionada aperfeiçoaram-se as minas marítimas,
2002.
apenas pela força do vento, armada evoluindo das minas de impacto para 1 Que atiravam projetis pesando 12

com 121 pequenos canhões de ferro, as minas de fundo; apareceram os libras.


sem conteira, alinhados ao longo dos primeiros submarinos; o carro de 2 A Evolução Tecnológica no Setor

seus conveses, e que carregavam combate fez a sua aparição nos Naval na Segunda Metade do Século
XIX e as Conseqüências para a
pela boca projetis esféricos – sóli- campos de batalha da 1ª GM, assim Marinha do Brasil”, Armando Vidigal,
dos, de estilhaços, incendiários ou como o avião; a metralhadora trouxe Revista Marítima Brasileira - RMB 120
explosivos (carregados com pól- a sua contribuição para o que se (10/12): 131-197, out/dez 2000.
vora); já o HMS “Dreadnought”, chamou “guerra de trincheiras”; o 3 Ibidem.

2002 - O Anfíbio - 85
excepcional velocidade, tornaram-se mergulho e um eficiente sistema de dos, que inibiu o poder mi-
verdadeiramente embarcações sub- comunicações (não muito diferente litar de Saddam Hussein e
marinas e não apenas submersíveis; do emprego que Napoleão fez da que reduziu o Iraque a um
os aviões, de simples plataformas cavalaria em Marengo, Wagram, contendor cego, surdo,
para observação do tiro da artilharia, Ansterlitz, etc) – deu lugar ao con- mudo, imobilizado e des-
tornaram-se num dos mais po- ceito estratégico empregado por provido de vontade de lu-
derosos instrumentos da guerra, com Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) tar ...”4
maior raio de ação e maior capa- e na do Yom Kippur (1973), que
cidade de transportar carga e, por- consiste no emprego integrado das A Guerra do Golfo demonstrou,
tanto, melhores e mais sofisticados forças terrestres e aéreas (batalha sem sombra de dúvida, que a
sistemas de armas, e com maior aeroterrestre, assim numa única supremacia tecnológica é decisiva no
velocidade graças ao uso da pro- palavra para ressaltar a integração campo de batalha, tornando inevi-
pulsão a jato; os satélites artificiais, entre os dois elementos), mantendo tável a derrota do tecnologicamente
em sua extraordinária capacidade de o inimigo permanentemente sob atrasado.
obter informações; etc, etc. pressão de modo que ele não possa
reagir, deixando as unidades 2. Do cidadão-soldado ao
Novas armas foram desen- terrestres com ampla liberdade para soldado profissional
volvidas, como os foguetes alemães a exploração das oportunidades que
V-1 e V-2, as famosas bombas possam surgir no transcurso da A sofisticação das novas armas e
voadoras que arrasavam Londres batalha. O conceito israelense, a maior liberdade do soldado para
durante a 2ª GM; os revolucionários modificado, é hoje o conceito es- tomar decisões ad-hoc tornaram
mísseis, para todo o tipo de emprego, tratégico dos EUA. Com o propósito evidente a necessidade de preparar
e para distâncias até intercon- de evitar ao máximo baixas ame- os homens que fazem a guerra para
tinentais; o armamento nuclear tático ricanas (efeito da síndrome do Viet- esse novo cenário de alta tecnologia
e estratégico; as bombas inteligentes, nã), os americanos fazem preceder a e complexidade.
guiadas até o alvo com enorme ação terrestre por um bombardeio
precisão; as armas biológicas; as estratégico intenso e prolongado. A substituição do soldado mer-
aeronaves sem piloto que assinalam cenário por conscritos – cidadãos-
o início do emprego da robótica no soldados – que ocorreu nas Guerras
campo de batalha; e assim por A Guerra do Golfo é o primeiro da Revolução Francesa (1789 –
diante. confronto de uma nova era tec- 1802)5 que precederam as guerras
nológica: napoleônicas, criou os primeiros
A micro-eletrônica e a informá- exércitos nacionais. O sucesso des-
tica, associadas aos satélites, estão “Sensores e atuadores, ses exércitos, que enfrentaram toda
revolucionando as comunicações e operando em espectros a Europa, deveu-se não a qualquer
os sistemas de comando e controle, eletromagnéticos, interfe- superioridade tecnológica mas à sua
criando uma nova dimensão: a riram nas comunicações, incontestável superioridade moral:
eletromagnética. neutralizando sistemas de
defesa e garantindo uma
Não é apenas o hardware que supremacia eletromagné-
está mudando. A maneira de em- tica, com vistas à anulação
pregar os novos meios disponíveis – de pontos vitais de defesa e
tanto tática como estrategicamente - do sistema logístico. O re- 4 “Guerreiros Técnicos são

está em constante evolução embora, sultado foi o envolvimento necessários?”, Gal. José Carlos Albano
é forçoso reconhecer, os princípios quadridimensional (carac- de Amarante, Revista do Clube Militar,
da guerra pouco tenham mudado. A Junho 2002, p. 14 e 15.
terizado pelo domínio das 5 “The Art of War of Revolutionay
revolucionária “blitzkrieg” alemã da três dimensões espaciais e France – 1789 – 1802”, Paddy Griffith,
2ª GM – emprego conjugado de da dimensão eletromagné- Greenhill Books, London & Stackpole
carros de combate e aviões de tica) estabelecido pelos alia- Books, Pennsylvania, 1998, 304 p.

2002 - O Anfíbio - 86
eles lutavam para levar a todos os o serviço militar obrigatório deva ser Na verdade, essa realidade não
homens os ideais de igualdade, extinto. se aplica apenas na área militar mas
liberdade e fraternidade formulados em todos os campos de atividade.
pela revolução. Lutando sob esta Num país com a nossa extensão
bandeira, apesar das suas deficiências territorial, o nível de desenvolvimento É por essa razão que os países
de ordem militar (a elite do exército não é igual em toda a parte. Há mais desenvolvidos voltaram-se para
francês estava exilada), tornaram-se regiões do país em que a conscrição a economia do conhecimento, que
invencíveis. é o único instrumento que dá a uma procura difundir o conhecimento pa-
legião de jovens a possibilidade de ra todos os setores da economia e
Hoje, porém, a conscrição já não acesso à instrução, à profissio- da população (revolução da infor-
parece a melhor solução. O soldado nalização e, conseqüentemente, de mação, no sentido de dar acesso a
profissional é a melhor resposta para ascensão na escala social. Se na todos os segmentos da população das
os desafios trazidos pela tecnologia cidade grande a prestação do serviço novas tecnologias, como o compu-
aplicada à guerra. militar obrigatório parece um es- tador), de forma a acelerar o desen-
torvo 7 , no interior do país é visto co- volvimento tecnológico do país. A
A Guerra das Malvinas (1982)6 mo uma benção, uma oportunidade integração entre empresas, univer-
demonstrou, de forma inequívoca, a (a possibilidade de restringir o sidades e militares torna-se um ele-
superioridade dos soldados profis- serviço militar àqueles que queiram mento essencial para o rápido de-
sionais britânicos sobre os bisonhos fazê-lo é uma possibilidade que deve senvolvimento do capital humano,
e despreparados recrutas argentinos, ser discutida).8 através da educação, dentro do
conforme reconheceram os próprios espírito da reeducação permanente.
argentinos depois do conflito. O papel social das forças ar- Nos países mais desenvolvidos, as
madas, tão pouco conhecido por atividades ligadas à geração e trans-
Apesar dos custos mais elevados certos formadores de opinião que só missão de conhecimento já res-
para a manutenção de forças arma- conhecem o ambiente das grandes pondem por mais 50% do PIB.
das profissionais – maiores investi- cidades, é importante para o país e Países emergentes, como a Coréia e
mentos na formação e necessidade em grande parte ele é exercido a China, que hoje crescem às mais
de oferecer mais vantagens para através do serviço militar obri- altas taxas, já têm programas para
disputar no mercado o pessoal de gatório. desenvolver a economia do co-
melhor nível – sob o ponto de vista nhecimento.9
exclusivamente militar não há mais Somente depois que o desen-
lugar no exército de hoje para volvimento tenha alcançado esses 6
“Conflito no Atlântico Sul”, Armando
conscritos. É uma realidade da qual pontos isolados do território nacional Vidigal, RMB 107 (10/12): 9-50, out/
não se pode fugir. poderemos pensar em pôr fim à dez 87.
conscrição e profissionalizar, como é 7 Na atualidade, devido à crise
No Brasil, a Marinha e a Força do interesse militar, as forças ar- econômica, isso já não é mais verdade,
sendo crescente o interesse dos jovens,
Aérea são constituídas basicamente madas.
certamente os mais pobres, de fazer o
por profissionais, com um pequeno serviço militar.
percentual de conscritos. O caso do 3. A Única Certeza, é a 8 A “regionalização” do Exército,

Exército é diferente, já que depende Incerteza tornando-o menos “nacional”, pode


fundamentalmente dos conscritos ser um obstáculo. Deve-se também
considerar que o voluntariado para a
para a constituição da tropa, embora A própria formação de profis-
prestação do serviço militar carreará
disponha de quadros nos diversos sionais deve ser revista à luz das para as forças armadas apenas os
escalões de comando formados experiências recentes. Trata-se de menos capazes, com sérios prejuízos
essencialmente por profissionais. preparar o homem para atuar num para a eficácia dessas forças. O
cenário em que a única certeza, é a voluntariado com a profissionalização
Há, entretanto, algumas conside- incerteza, um cenário em que a prin- já é outra coisa
9 “A economia do conhecimento”, João
rações que devem ser feitas antes de cipal característica é a permanente Paulo dos Reis Velloso, O Globo, 30/
se concluir que, por interesse militar, mudança. 05/2002.

2002 - O Anfíbio - 87
No âmbito das forças armadas, que é o ambiente com que ele vai mais avançado nos estágios iniciais
trata-se de enfatizar a formação e o conviver. Quanto mais alta for a sua de projeto – enquanto a ciência evolui
preparo do pessoal com vistas a um posição hierárquica, mais importante de maneira muito mais lenta.
processo permanente de educação. é a sua capacitação para além do
Isso de certa forma já ocorre na nível puramente tecnológico. É comum que no período de
prática atual, já que os militares, após formação se aprendam diversas
o período de formação inicial, vão Distinguimos três importantes técnicas que, por razões óbvias, não
tendo acesso aos postos mais altos segmentos na formação e preparo do podem ser imediatamente aplicadas
da carreira através de uma série militar: o cívico-moral, o técnico- pelo aluno e por não o serem, serão
sucessiva de cursos que os qualificam científico e o humanístico. rapidamente esquecidas, já que a
para as novas funções e respon- técnica só se mantém quando
sabilidades, num processo contínuo, A formação cívico-moral é, sem fazemos uso dela. Com os princípios
de acordo com os princípios da sombra de dúvida, o mais importante científicos não ocorre a mesma coisa.
economia do conhecimento. segmento na formação militar. Ele é
responsável pela retidão do caráter Há ainda que considerar que é
Isto, porém, ainda não é o sufi- e o patriotismo que, com poucas fácil adquirir uma dada tecnologia
ciente. A conquista de graus uni- exceções, são características da quando se necessita dela: durante a
versitários – pós-graduação, mestra- classe militar, embora, evidentemente, 2ª GM, lançando mão de homens
do, doutorado – pelos oficiais, é não sejam exclusivas delas. O com uma boa formação acadêmica
prática comum nos países mais avan- sucesso obtido até agora nesse mas sem experiência prática es-
çados, para atender às exigências segmento não significa, entretanto, pecífica, os americanos, em pouco
criadas pela “revolução em assuntos que ele não possa ser melhorado. mais de três meses, foram capazes
militares” no que diz respeito ao de preparar pessoal para o exercício
preparo do pessoal, em perfeita Seria importante complementar o de inúmeras tarefas militares que
consonância com a economia do que já é feito com a introdução de exigiam o domínio de técnicas de
conhecimento. certas noções de ciência política, certa complexidade, obtendo ex-
valorizando-se os princípios da celentes resultados.
4. Humanizando a tecnologia democracia, em especial a sua
capacidade de um constante auto- Conhecimentos sólidos de física,
O processo permanente de re- aperfeiçoamento; a independência e mecânica, eletricidade, termo-
educação militar está de acordo com cooperação entre os três poderes; e dinâmica, etc, devem ser transmitidos
as exigências de um mundo em a subordinação do poder militar aos nos cursos de formação, mesmo que
constante mudança em função da poderes constituídos (uma con- se tenha de sacrificar conhecimentos
evolução tecnológica. Há, entretanto, seqüência do princípio de Clausewitz puramente técnicos – que serão
necessidade de uma revisão de certos de subordinação da estratégia à facilmente aprendidos e fixados mais
aspectos do processo para que ele política). Essa medida contribuirá tarde quando o exercício das funções
possa transcender o nível meramente para consolidar os ideais da de- o exigir.
tecnológico, apesar de toda im- mocracia multipartidária entre os
portância que , indubitavelmente, homens de armas. É nos cursos de especialização ou
ele tem. aperfeiçoamento que se dará ênfase
O segundo segmento – a à tecnologia, já que sua aplicação será
Há necessidade de temperar a formação técnico-científica – deve imediata e aplicável aos equi-
formação tecnológica com uma certa valorizar mais a ciência do que a pamentos então existentes, pos-
dose de humanismo (tecnologia tecnologia, já que a tecnologia está sivelmente diversos dos que existiam
humanística), de forma que o novo em permanente mudança – a rapidez à época da formação.
soldado possa transcender as suas das mudanças é de tal ordem que,
limitações atuais em termos de visão tão logo deixa a prancheta do O estudo do processo decisório,
estratégica e tomar decisões em projetista, o produto já está se da tática e da estratégia militares, e
ambiente de permanente mudança, tornando obsoleto porque há um outros semelhantes – embora

2002 - O Anfíbio - 88
algumas noções possam ter sido homem às circunstâncias que o certamente é também válido em
vistas durante os cursos de formação envolvem – e a Filosofia – não a qualquer carreira civil). O papel dos
– terá lugar nos cursos de estudos história da filosofia mas a discussão que atuam na formação dos futuros
superiores nas escolas de comando das questões transcendentais para chefes é o de estimular o interesse
e estado-maior e de guerra naval, em todo o homem nas suas relações com deles para que, por sua própria
dois níveis: o de Comando e Estado- outros homens e com o universo em iniciativa, procurem aumentar o nível
Maior e o de Política e Estratégia (um que se encontra – são matérias de seu conhecimento, através da
curso de altos estudos que prepara básicas, essenciais para a formação leitura e da reflexão.
os oficiais para os mais elevados de qualquer pessoa, mormente para
postos na carreira). aquelas que precisam desenvolver a A noção paternalista de que tudo
capacidade de liderar homens em deve ser ensinado é falsa: o grande
O primeiro desses níveis é situações limites, como são as papel do educador é estimular o
ministrado na fase em que o oficial situações de guerra. Noções de aprendiz a procurar respostas para
subalterno, voltado especialmente psicologia, sociologia são também as suas indagações, através do seu
para as funções técnicas, começa a necessárias. próprio esforço. Nas nossas escolas
se preparar para uma etapa superior de formação precisamos criar o
da carreira em que vai exercer Creio que estes acréscimos ambiente propício para isso.
funções em estado-maior ou co- podem ser feitos sem a necessidade
mandar, quando o até então fiel de aumentar os cursos de formação: 5. As Limitações da Tec-
executor de ordens inicia uma o tempo ganho com a eliminação de nologia
transformação que o preparará para certas matérias técnicas, conforme
ser o responsável pela emissão das sugerido anteriormente, poderia ser As nossas justas preocupações
ordens e sua execução pelos usado com essa finalidade. com os avanços da tecnologia não
escalões subordinados. Ele se devem, porém, levar-nos a esquecer
prepara para não ser apenas o re- Devemos nos lembrar que a as limitações da tecnologia.
transmissor de ordens mas o que as apresentação oral numa sala de aula
formula. não é a única forma de transmissão A derrota dos EUA no Vietnã, o
de conhecimento: conferências, fracasso da União Soviética no
O terceiro segmento – a formação simpósios, discussões dirigidas, Afeganistão e parcialmente na
humanista – é aquele do qual estamos filmes comentados, etc, são recursos Chechênia, são exemplos de que a
mais carentes. A nossa omissão válidos e devem ser largamente superioridade tecnológica, mesmo
decorre de uma visão errônea de que empregados. O intercâmbio entre as quando absoluta, não é o único fator
os conhecimentos técnico-científicos escolas militares e as universidades é determinante do resultado do conflito.
são, junto com a formação cívico- um magnífico recurso, e serve de
moral, os únicos indispensáveis para base para um futuro relacionamento Quando a organização política e
a formação de chefes militares. entre civis e militares sem as atuais social tem um razoável grau de
mútuas incompreensões. flexibilidade, por não estar muito
Eu discordo desta visão e tenho a avançada – caso do Vietnã,
convicção de que as dificuldades que A presença de oficiais nas uni- Afeganistão e Chechênia – a guer-
temos encontrado no nosso re- versidades para os cursos de pós- ra de guerrilha é uma possibilidade e
lacionamento com a sociedade graduação, mestrado e doutorado este é um tipo de guerra que elimina
decorrem, em boa parte, da falta de contribuirá, significativamente, para a praticamente as vantagens de-
“humanização” da carreira militar (não “humanização”. correntes de uma superior tecnologia.
que o outro lado não necessite
também de alguma correção). Finalmente, é importante Na atualidade, Israel não con-
considerar que nenhum curso é segue alcançar seus objetivos
Acredito que a História – não a suficientemente longo para transmitir políticos e militares no conflito com
história dos reis e das batalhas mas a tudo o que é realmente necessário os palestinos, apesar de sua absoluta
análise da permanente adaptação do para formar um chefe militar (isso hegemonia em equipamentos e

2002 - O Anfíbio - 89
tecnologia. O terrorismo como frente de todos os demais segmentos, restres, marítimas e aéreas; a
método de ação política, espe- igrejas inclusive. sociedade sabe que pode contar com
cialmente se conta com elementos os militares nas situações de cala-
suicidas como é o caso, torna-se Para um país que desde 1870 midade pública e aprova a maneira
invencível, como Ariel Sharon teima não se envolve em conflitos externos como eles atuam.
em não compreender. – a intervenção na 1ª e 2ªGMs, só
envolveu alguns contingentes das Entretanto, a minha autocrítica faz-
O fim da invulnerabilidade dos forças armadas sem que a nação me acreditar que essas relações po-
EUA a agressões externas, com os participasse – só se pode explicar a derão ser ainda melhores se fizermos
atentados às duas torres gêmeas do confiança da sociedade nas forças o esforço de “humanização” que pro-
World Trade Center e ao Pentágono, armadas pela sintonia dos militares pusemos.
é uma prova eloqüente das li- com parcelas significativas da
mitações da tecnologia. Os ter- sociedade. Uma das principais razões Há algumas medidas de ordem
roristas não necessitaram de so- para isso é o fato de que a carreira prática, já em curso, que trazem uma
fisticadas armas de destruição em militar é aberta para todos os seg- importante contribuição para a melhor
massa para atingir os seus objetivos: mentos sociais, ricos e pobres, inde- interação entre civis e militares:
aviões civis carregados de com- pendente de credo, raça ou cor. Nes-
Ä as forças armadas vêm ad-
bustível, seqüestrados em pleno se aspecto, os militares são um dos
mitindo nos seus quadros
vôo, conduzidos por terroristas segmentos mais democráticos da
de oficiais um certo contin-
suicidadas foram suficientes para sociedade e com maior consciência
gente de pessoal prove-
provocar uma tragédia que abalou social (em nenhum outro setor, a
niente, não de suas escolas
os EUA e o mundo. O mais para- razão entre o vencimento do mais alto
de formação, mas das uni-
doxal é que mesmo que estivesse e mais baixo posto é menor). O
versidades, o que poderá
pronto o mais poderoso e complexo acesso por mérito é não só justo mas
servir como um contra-
escudo antimíssil ora em desen- democrático.
ponto à nossa formação
volvimento, construído com a mais
tecnológica; e
sofisticada tecnologia que se possa De uma maneira geral, a so-
imaginar, a um custo assustador, ciedade, embora – o que é temerário Ä a presença da mulher nas
mesmo assim nem uma única vítima – não acredite em ameaças externas, forças armadas representa
teria sido poupada do desastre de conhece e aprova o papel das forças uma evolução bem-vinda,
11 de setembro de 2002. armadas na integração do país, trazendo uma contribuição
guarnecendo postos nas regiões mais importante para a “huma-
6. Os Militares e a Sociedade isoladas e inóspitas, afastadas de todo nização”, graças a certas
o conforto da civilização, onde dão características do sexo fe-
A partir de 1964, quando os assistência às populações mais de- minino que são, apenas
militares assumiram o poder político, sassistidas do país, cujo único vínculo aparentemente, incompa-
criou-se um fosso entre os militares com a cidadania é através das forças tíveis com a natureza militar:
e certos setores da sociedade, em armadas; a sociedade conhece e a fragilidade física associa-
especial o acadêmico e o dos homens aprova o esforço das forças armadas da à extraordinária força
de imprensa. Como estes setores são para o desempenho de tarefas não- moral, a ternura, a capaci-
poderosos e controlam as cátedras militares, mas essenciais para o país, dade de compreender e
e os meios de comunicação, há uma como a manutenção de uma extensa perdoar; essas caracterís-
falsa impressão de que a sociedade rede de auxílios à navegação ticas, em contraponto com
repudia as forças armadas. Essa idéia aquaviária e aérea, a prestação de as virtudes masculinas,
é falsa porque em qualquer pesquisa socorro marítimo na enorme região enriquecerão a experiência
de opinião, quando se pergunta qual onde essa atividade é da respon- militar, em nada afetando a
o segmento mais confiável para a sabilidade do Brasil; a atuação para sua eficiência em combate
população, as forças armadas têm a prevenção do contrabando e do até, pelo contrário, contri-
sido invariavelmente indicadas à descaminho em nossas fronteiras ter- buindo para torná-la maior.

2002 - O Anfíbio - 90
SOCIEDADE E
DEFESA
PASSADO, PRESENTE E TENDÊNCIAS
CF (FN) P AULO M ARTINO ZUCCARO

“Procurei o que constituía a especificidade das relações internacionais


e julgo ter encontrado este traço específico na legalidade e na legitimidade
do recurso à força armada por parte dos atores”
Raymond Aron - 1967

Desde que assumiu o papel de criatura dominante do planeta Terra, o homem vem
utilizando-se de outras espécies para sua alimentação, transporte, experimentação científica
e muitas outras finalidades.
Além disso, tem tido o ser humano uma relação bastante conflituosa com os demais
exemplares de sua própria espécie. Mesmo avançando constantemente no aprimoramento
de suas estruturas sociais, têm ocorrido conflitos tanto intra como inter-grupos, em um
amplo espectro de intensidades, variando desde disputas puramente comerciais até alguns
casos de extermínio.
O propósito do presente artigo é fazer uma sucinta resenha acerca das relações entre as
formas de organização social que a humanidade vem adotando e os correspondentes
arranjos bélicos, procurando-se, ao final, conduzir uma síntese conclusiva, de modo a
evidenciar traços constantes ao longo do tempo e a apontar ensinamentos úteis para o
nosso país.
O artigo tratará apenas dos arranjos bélicos voltados aos conflitos inter-grupos,
considerando que, normalmente, os casos de conflitos internos aos grupos ou violações ao
seu direito interno sejam de natureza policial ou, no máximo, constabular*.

DESENVOLVIMENTO do muito antes, é


As Primeiras Organizações apenas a partir do fim
Sociais e seus Mecanismos de da última era glacial
Defesa que o homem tem
deixado rastros mais
Certamente os primeiros com- significativos de sua
batentes foram os humanóides pri- vida em grupo, o que
mitivos. Nem sempre socialmente lutava unicamente pela defesa de sua nos remete para aproximadamente
organizados, aquelas criaturas tinham vida. 11.000 AC.
que caçar e lutar para não serem ca- É difícil precisar o momento em Conforme foi tomando cons-
çados. Suas armas eram também que surgiram as primeiras formas de ciência de que a sua maior oponente,
suas ferramentas. O caçador-com- organização social. Ainda que a his- a morte, era imbatível e sempre pre-
batente era desprovido de valores e tória da humanidade tenha começa- valeceria, o homem pouco a pouco
* veja quadro na pág. seguinte

2002 - O Anfíbio - 91
passou a valorizar conscientemente subjugo definitivo, conformando-se
*O termo “constabular”, a sua prole e, portanto, a sua família, um sistema bastante similar ao
não consagrado no uso cor-
já que deixar descendentes seria a conceito doutrinário atual de defesa
rente da Língua Portuguesa, única maneira possível de ludibriar a de área na variante de defesa
procura definir uma forma de sua eterna inimiga. Com isso, surgi- circular.
transição entre a ação policial ram novas boas razões para lutar: Os Impérios
e a militar. Aparentemente, da Antiguidade
filhos, reprodutoras, utensílios e
trata-se de um conceito de territórios.
origem norte-americana,
Com o desdobramento das famí- Ainda na antiguidade, a huma-
vinculado históricamente à lias em estruturas maiores, tais como nidade conheceu os primeiros gran-
manutenção da ordem nas os clãs e as tribos, novas necessi- des impérios, tais como o romano e
colônias ao final do século dades de defesa foram surgindo, o egípcio. Conformavam organiza-
XIX e também nas zonas ções sociais sofisticadas e altamente
uma vez que passaram a existir cada
recém-ocupadas pelos alia- militarizadas.
vez mais bens materiais de uso
dos na 2a Guerra Mundial,
comum e, tão ou mais importante do Sua constituição teve como base
justamente, para preencher o que isso, vínculos de afinidades a o desenvolvimento da agricultura e
vácuo de poder produzido serem ameaçados por outros agru- pecuária, abandonando-se o simples
pelo deslocamento da frente pamentos humanos dotados de di- extrativismo. A existência de exce-
de combate para diante, dentes agrícolas permitiu o sustento
ferentes características físicas, neces-
deixando para trás um ter- de cientistas, escribas, políticos e mi-
sidades conflitantes e, porque já não
ritório onde foi extinta a au-
dizer, valores culturais dissonantes litares, já que deixava de ser neces-
toridade policial original. (hábitos, crenças, costumes...). sário que cada indivíduo cuidasse de
Atualmente, chama-se Em termos mínimos, estes orga-
constabular a ação do Estado nismos sociais deveriam preparar-
na proteção de fronteiras, na se para defender seus pertences e
luta contra o terrorismo e na crias, salvaguardando, depurando e
imposição da lei em zonas ins-
consolidando, na passagem de uma
táveis, principalmente. São geração a outra, aqueles valores que
consideradas tipicamente tornariam aquele grupo coeso inter-
constabulares: o Royal Ulster namente e nitidamente diferente dos
Constabulary (Irlanda do demais. Assim é que surgiram as pri-
Norte), o Corpo de Carabi- meiras “fortificações” e a estratifi-
neiros da Itália, a Gendarme-
cação da defesa em uma área ex-
ria da Holanda e a Real Polícia terna de vigilância, uma área des-
Montada do Canadá, dentre tinada ao combate propriamente
outros. No Brasil, a ação dito e finalmente o núcleo vital da
constabular é conduzida fun- tribo ou clã, que, uma vez con-
damentalmente pela Polícia quistado, caracterizaria o seu
Federal. (Fonte: painel “Re-
laciones Cívico-Militares en
Operaciones de Paz: Identi-
ficando una Nueva Filosofia
para las Fuerzas Armadas”,
proferido por Ricardo Enrique
Neeb Cantarero, no evento
“Research and Education in
Defense and Security Studies”
– Brasília, 07 a de 10 de
agosto de 2002).

2002 - O Anfíbio - 92
sua alimentação, tal como ocorria nas outros vassalos, núcleos fortifi-
organizações extrativistas. de quem seriam cados desde
A existência de uma escrita de- os suseranos, e tempos imemo-
senvolvida também foi condição assim indefinida- riais, como o
fundamental para sua constituição, mente até que se famoso cerco a
servindo como elemento aglutinador atingissem uni- Tróia, e que, por
e propagador de idéias e valores. dades de terra outro lado, exis-
Seu crescimento estava fundamen- indivisíveis, as tiram outras for-
tado na obtenção sistemática de quais pertenciam mas de combate
colônias e escravos. Para tanto, bus- aos cavaleiros. no período, co-
cando atender à necessidade de con- Estes, por sua mo por exemplo
quistar novas terras e garantir rotas vez, eram procu- as “cargas de
de navegação apropriadas ao rece- rados pela população, em busca de cavalaria”.
bimento de matérias-primas e ao co- trabalho e proteção.
mércio de seus produtos, possuíam Com base nesta forma de orga- O Renascimento e sua
forças armadas poderosas: grandes nização social, delineava-se, então, Influência na
exércitos regulares e marinhas expe- o correspondente sistema defensivo. Questão Militar
dicionárias. Os exércitos eram formados em cor-
respondência às relações de susera- O surgimento dos exércitos per-
nia e vassalagem. Ou seja, um senhor manentes está intimamente rela-
de terra era obrigado a contribuir cionado com a decadência do siste-
com a formação do exército para a ma feudal e com a expansão comer-
defesa dos interesses de seu cial que a ela se seguiu. A conso-
suserano. Desta forma, os exércitos lidação da moeda como principal
e as guerras eram sazonais, uma vez
que os vassalos não podiam dedicar-
se permanentemente à guerra, de-
vendo atender também ao o ciclo da
produção agrícola. Os exércitos eram
normalmente reunidos por um pe-
ríodo limitado de tempo e para rea-
lizar uma campanha específica.
As cidadelas, para onde conver-
giam os camponeses e vassalos, no
afã de proteger-se a si próprios e a
A Idade Média: seus senhores, constituíam os centros
um Retrocesso de gravidade dos conflitos de então.
Dentro delas, acotovelavam-se com-
Sob diversos aspectos, dentre os batentes e não-combatentes, bus- meio de troca também teve uma in-
quais o militar, a Idade Média e o sis- cando sobreviver ao ataque do in- fluência marcante no redesenho dos
tema feudal representaram um re- vasor, à falta de alimentos e às en- “sistemas de combate”. O serviço
trocesso no desenvolvimento hu- fermidades que ali grassariam. Deste militar do vassalo era de certo modo
mano. A morte de Carlos Magno sig- modo, voltava-se fundamentalmente uma forma de escambo: trocava-se
nificou o fracasso da tentativa de para as técnicas de ataque e defesa a posse da terra e das benesses dela
unificação do Ocidente. Guerras e in- das fortalezas, ou seja, a guerra de advindas por um serviço de proteção
vasões esfacelaram o poder, obrigan- sítio. Esta foi o traço militar marcante ao suserano. No alvorecer do perío-
do o soberano a repartir a terra entre da Idade Média, ressaltando-se do renascentista, a mesma acumu-
os vassalos, os senhores da terra, porém que não foi exclusiva dessa lação de riqueza que permitiu o flo-
que por sua vez a subdividiam com época, já que há registro de cercos a rescimento das artes e da cultura

2002 - O Anfíbio - 93
também livrou os detentores do po- Mundo”, os nativos americanos, afri- Mundo por uma série de microorga-
der da necessidade de depender de canos e os nativos da Oceania viviam nismos trazidos incidentalmente nas
combatentes-agricultores, pois pas- ainda na Idade da Pedra, com a hon- expedições. Àquela época, como re-
saram a dispor de um meio de re- rosa exceção de alguns povos sul e sultado do aumento da densidade
tribuir os serviços de proteção. Não meso-americanos, como os Incas, populacional e da domesticação de
por mera coincidência, os principais Astecas e Maias. diversos animais, as cidades e as á-
exércitos permanentes deste período O contato entre o Velho e o No- reas rurais mais desenvolvidas eram
foram constituídos nas cidades-re- vo Mundo constituiu, talvez, o maior grandes “incubadoras” de varíola, sa-
públicas da Península Itálica. choque entre civilizações já ocorrido rampo, gripe, tifo e peste bubônica,
Não obstante, assim como as ci- na história da humanidade. Os povos contra os quais os habitantes do
dades-repúblicas constituíram orga- Velho Mundo já haviam desenvolvi-
nizações sociais ainda embrionárias do defesas apropriadas.
em relação ao que hoje conhecemos Uma vez mais o ciclo de domina-
como Estado-nação, os mencionados ção dos mais desenvolvidos sobre os
“exércitos permanentes” tampouco menos favorecidos ocorria em sua
poderiam ser considerados como um plenitude. A vantagem inicial de uma
arranjo defensivo plenamente cons- organização social sobre as demais
tituído, já que em geral eram com- se traduzia em uma drenagem de
postos de mercenários. riquezas que aumentava cada vez
Nicolau Maquiavel, um grande mais a superioridade econômica, tec-
pensador florentino daquela época,
foi capaz de perceber a pouca con-
fiabilidade que um exército de mer-
cenários deve merecer, pois, na au-
sência de valores de ordem superior
a motivá-los e guiá-los, poderiam
vacilar nos momentos de maior risco Sequestro e assassinato do
ou mesmo passar para o lado do Imperador Inca Atahualpa em
oponente em busca de melhor remu- Cajamarca, por Francisco Pizzarro,
que resultou na
neração. Precocemente em relação desorganização e
ao seu tempo, Maquiavel tentou destruição do Império.
constituir exércitos confiáveis com
homens provenientes das áreas cam-
pestres sob influência de Veneza. mais desenvolvidos exerceram todas
as formas possíveis de dominação, O Leviathan,
As Grandes indo desde a mera imposição cultural de Thomas Hobbes
Navegações até o extermínio, passando pela co-
lonização e pela escravização. Assim nológica e militar dos povos mais po-
As Grandes Navegações levaram o permitiram as melhores armas, em derosos, que se impunham com cada
a humanidade a tomar consciência da vista da capacidade de produzir aço, vez maior facilidade aos povos menos
imensa desigualdade em que vinha o uso de cavalos e a disponibilidade desenvolvidos.
ocorrendo o desenvolvimento huma- de outros recursos tecnológicos que,
no. Por volta do século XVI, encon- como sempre, são decisivos nos O Estado-Nação
trava-se a Eurásia em pleno uso da campos de batalha. e a Guerra
agricultura, da metalurgia, da escrita Também cumpriu papel decisivo
e da organização político-social, o efeito desastroso produzido pela Sem dúvida, a forma de organi-
enquanto que no chamado “Novo contaminação dos povos do Novo zação social mais desenvolvida em

2002 - O Anfíbio - 94
uso pela humanidade desde há apro- 800 mil homens, os exércitos com- áreas de influência, mercados e
ximadamente quatrocentos anos é a postos por alguns países nas duas matérias-primas a baixo ou nenhum
do Estado-Nação. Embalados por Guerras Mundiais e o atual exército custo.
obras como o Leviathan de Thomas dos Estados Unidos da América A conseqüência natural de uma
Hobbes e o Contrato Social de Rous- (EUA). guerra que ceifou milhões de vidas
seau, organizam-se os Estados, onde, foi a abertura de um ciclo “teórico”
mais do que em qualquer outra épo- A Revolução de pacifismo, durante o qual foi
ca, os valores coletivos se sobre- Industrial criada a Organização das Nações
põem às vontades particulares. Em
troca, o indivíduo passa a contar com A Revolução Industrial não re-
um ordenamento jurídico e uma ca- presentou nenhuma quebra na ten-
pacidade de defesa interna e externa,
dência que se estabeleceu na orga-
deixando de estar, ao menos em par-nização social humana com o adven-
te, à sanha de “alienígenas” que po-
to dos Estados-Nação. Ao contrá-
deriam subjugá-lo, escravizá-lo ou rio, ela não só a ratificou como ace-
eliminá-lo fisicamente. lerou ainda mais o processo de mi-
Não por acaso se verifica a maior
litarização das sociedades. A indus-
estabilidade dos Estados que cor- trialização não influenciou apenas a
respondem a Nações, pois dessas logística de obtenção de meios bé-
últimas os Estados retiram o po- licos e de transporte, mas também Unidas (ONU), me diante a sua
deroso amálgama da existência de levou para o campo de batalha o es- conhecida Carta das Nações Uni-
valores comunitários, consubstan- das. É deste período a mudança de
ciados por um passado de glórias e denominação, na maioria dos países,
vicissitudes em comum, por um pre- dos ministérios e demais órgãos de
sente vivido em busca da satisfação “Guerra” para “defesa”, como con-
das mesmas necessidades e pelo seqüência direta da citada Carta,
desejo de permanecerem unidos no que proscreve todas as formas de
futuro. guerra, exceto as decorrentes da
São justamente tais valores co- defesa da soberania, de libertação
muns e a profundidade de tal coesão nacional e as conduzidas sob
social que permitiram e ainda per- mandato da ONU.
mitem ao Estado-Nação conformar tilo “industrial” de condução do Na prática, não se observou ne-
combate, mediante o em- nhuma alteração significativa no
prego de crescentes efetivos comportamento dos Estados. Po-
e da guerra de atrito, tendo der-se-ia afirmar que, na grande
como conseqüência direta a maioria dos casos, tratou-se apenas
diminuição do valor da vida de uma mudança de nomenclatura,
humana. mantendo-se inalterados o poder
O auge deste processo foi militar e a postura geoestratégica de
a Segunda Guerra Mundial, cada país, tendo o mundo con-
uma continuação natural da tinuado a ser um planeta bastante
Primeira. Uma vez mais conflituoso.
esteve presente a busca de
formidáveis exércitos, baseados ou dominação por parte de alguns A Guerra Fria
não na conscrição, como por exem- povos sobre outros, inspirados em
plo o exército de Napoleão, que teorias geopolíticas que justificavam O fim da Segunda Guerra Mun-
chegou a possuir aproximadamente a também sempre presente busca de dial marca o início de um novo pe-

2002 - O Anfíbio - 95
ríodo na história da humanidade, armamento nuclear dava- do-se ao máximo do processo de
período esse marcado pelo fenôme- se por bombardeio aéreo, descolonização, e em menor medida
no denominado Guerra Fria, que, havia a necessidade de na América Latina (Brasil incluído).
talvez, tenha constituído apenas uma construir e manter aviões
breve fase de transição para o status de bombardeio e de escol- A “Nova Ordem
quo atual. ta, bases aéreas e meios Mundial”
A era nuclear tem afins; e e as Tendências
início com o lan-
çamento das bom- § posteriormente, O fim da Guerra Fria enseja a
bas atômicas de Hi- com o surgimento conformação de uma suposta “Nova
roshima e Nagasaki, Ordem Mundial”, amparada no
de novos vetores,
conformando um fenômeno da “Globalização”, que,
como os mísseis
marco tecnológico em verdade, nada tem de nova,
lançados de sub-
dentro de um pro- como veremos a seguir.
marinos, os mísseis
cesso político de O enfrentamento político-ideoló-
táticos e os balís-
divisão do mundo gico-militar entre EUA e URSS ter-
ticos intercontinen-
em áreas de in- mina com a exaustão do modelo so-
tais, foi necessário
fluência (uma vez viético e a vitória plena do modelo
erigir todo um po-
mais...), cujas se- liberal capitalista. A URSS se esfa-
der militar con-
mentes remontam às cela e deixa órfãos em todas as
vencional em nome
Conferências de partes do globo, desde suas re-
da defesa e do em-
Yalta e Potsdam, públicas-satélite, algumas das quais
prego de tais vetores.
ocorridas ainda antes do término da aderem quase que imediatamente à
Segunda Guerra. Organização do Tratado do Atlân-
Além disso, não foi necessário
Os EUA e a, então, União das tico Norte (OTAN), até diversos
muito tempo para que ambos os
Repúblicas Socialistas Soviéticas partidos políticos da Europa e
contendores chegassem à conclusão
(URSS), as duas potências ven- América Latina, que são compelidos
de que pouco ou nenhum sentido
cedoras do conflito que acabara por a rever suas bases ideológicas.
fazia a “estratégia” de mútua des-
extenuar as grandes metrópoles Os EUA passam a ser os maiores
truição assegurada (“mutual
coloniais européias, dão início a uma beneficiados desse processo e emer-
assured destruction” – MAD),
disputa pela hegemonia no mundo, gem da Guerra Fria como potência
talvez a mais representativa da era
lançando-se de imediato em uma hegemônica, passando-se da bipola-
nuclear, e que seria fundamental
corrida nuclear. A confiança naquele ridade para a unipolaridade. Esse é
buscar meios de se enfrentarem
novo armamento era tal que em justamente o momento de perplexi-
mutuamente sem o risco de uma
pouco tempo o investimento em hecatombe, o que também ensejou dade em que nos encontramos.
forças armadas convencionais haviaa reconstrução de forças conven- Quase todos os países encontram-
caído ao mínimo. cionais. se, na atualidade, reavaliando os seus
Entretanto, além de terem cons- Além disso ocorreu, mais do que sistemas defensivos.
truído um arsenal nuclear capaz deem qualquer época, o amplo uso da Para os EUA, tudo parece ser
permitir-lhes que se destruíssem mu-
guerra revolu- bastante óbvio.
tuamente várias vezes, ambas as po-
cionária e contra- Conquistaram
tências chegaram à conclusão de que
revolucionária na uma posição tal
não poderiam prescindir de forças periferia das áreas que só será man-
convencionais, por vários motivos,de influência de tida à custa prin-
dentre os quais os seguintes: EUA e URSS, cipalmente de pe-
particularmente sados investi-
§ inicialmente, tendo em na Ásia e na Á- mentos em pode-
vista que o lançamento do frica, aproveitan- rio bélico. Por

2002 - O Anfíbio - 96
outro lado, a maioria
dos países da Europa
Ocidental, hoje reu-
nidos na União Euro-
péia (UE), um bloco
econômico de pro-
fundidade organi-
zacional e amplitude
econômica sem pre-
cedentes, considera
esgotado o modelo
de defesa em que
podiam contar com o
apoio total dos EUA
contra seus inimigos
comuns reunidos em
torno do Pacto de
Varsóvia.
Ao menos nos
planos econômico e ecológico, a UE toma consciência de seu peso geo- doada com o fim da Guerra Fria, pois
vem se posicionando de modo político e cresce econômica e mi- deixou de merecer qualquer atenção
desafiador frente aos EUA e, talvez litarmente a taxas espantosas. A especial por parte dos EUA após o
por este motivo, venha buscando uma Índia prossegue investindo consi- fim da ameaça comunista no sub-
cada vez maior independência em deráveis somas no crescimento de continente. Está aparentemente des-
relação à potência hegemônica. sua capacidade militar, mesmo provida de inimigos, alguns países
Entretanto, a inexistência de uma clara porque não tem outra opção diante sendo facilmente convencidos de que
ameaça comum faz com que os de seu conflito latente com o Pa- podem prescindir de uma defesa con-
esforços de unificação dos assuntos quistão. A Rússia aparenta ter vencional porque têm um “Grande
de defesa ainda se encontrem em si- iniciado um longo e penoso processo Irmão do Norte” a zelar por sua se-
tuação bastante embrionária. Mesmo de recuperação e começa a buscar gurança, muitos crendo também que
considerando-se a existência de uma fatia maior do mercado mundial devem voltar suas forças armadas ao
alguns empreendimentos isolados, de armamentos. combate ao narcotráfico e a outras
tais como as diversas forças anfíbias Na “Nova Ordem Mundial”, a tarefas de ordem policial ou consta-
multinacionais européias, o poder periferia continua relegada ao tercei- bular, quando apenas a Colômbia
militar da UE é muito inferior ao ro ou quarto plano. A África segue teria justificativa para fazê-lo, devido
norte-americano, mesmo ostentando abandonada à à associação
um poder econômico similar (da or- própria sorte, ain- tráfico-guerrilha na-
dem de 8 trilhões de dólares de Pro- da pagando as quele país.
duto Bruto). conseqüências dos Estas diferentes
Enquanto isso, na Ásia, a China processos trau- perspectivas se
máticos de colo- refletem claramente
nização e descolo- nos orçamentos de
nização, tendo defesa, tal como
também que lidar demonstra a tabela
com lutas tribais apresentada acima,
crônicas, com escassez de alimentos na qual se buscou selecionar países
e com uma epidemia de AIDS que que possam produzir algum efeito de
já atinge proporções catastróficas. comparação com o Brasil.
A América do Sul continua ator- Os dados não deixam dúvidas de

2002 - O Anfíbio - 97
que reduções nos gastos militares em 2001, não apenas por se tratar de norte-americano e que, se levada a
relação ao Poder Nacional (aqui re- fato recente, mas também pela justa enfrentá-lo em nome dos diversos
presentado pelo PIB) não necessa- comoção mundial diante dos milha- interesses conflitantes que tem em
riamente se refletirão em benefício res de vítimas. relação aos EUA, fá-lo-ia em um
econômico palpável. Ao contrário: Não obstante, ao menos há que contexto de assimetria, onde seriam
como se pode observar, Brasil e Ar- se avaliar se existe tendência a novos admissíveis todas as formas de en-
gentina, que têm mantido seus gastos atos de mesma natureza contra os gajamento, dando a entender que
militares relativos em patamares con- EUA e outros países ou se as repu- haveria margem para ações ter-
sideravelmente inferiores aos dos paí- diáveis ações daquela ensolarada roristas.
ses desenvolvidos, têm enfrentado manhã de setembro seriam agressões A confirmação, ou não, de tal
significativos problemas econômicos isoladas que não mais se repetiriam. tendência dependerá, em grande me-
e ostentaram baixo crescimento eco- Lamentavelmente, pareceria ser dida, da postura a ser adotada pelos
nômico em relação à média mundial. que se está conformando uma nova EUA. É certo que qualquer potência
Dentre outras razões, está o fato e perigosa tendência, segundo a qual que alcance a condição hegemônica
de que tão baixos orçamentos inibem ações terroristas passam a ser ple- tem todo o direito de esforçar-se
qualquer empreendimento nacional namente justificáveis na busca da para mantê-la. Entretanto, há mar-
em termos de produção bélica e de consecução de objetivos de deter- gem para alguma divisão de poder,
desenvolvimento científico-tecnoló- minados povos ou civilizações. Os para o papel de justo mediador en-
gico, fazendo com que inexoravel- EUA alcançaram um poder militar tre partes em conflito e para o res-
mente tenhamos de recorrer a forne- peito a valores culturais
cedores estrangeiros, contribuindo dissonantes em relação ao
para a transferência de empregos e modelo ocidental. Outros
recursos financeiros para os países impérios do passado termi-
mais desenvolvidos, tal como nos inú- naram por ruir justamente ao
meros ciclos de dominação ex- não admitirem a
perimentados pela humanidade. sobrevivência das culturas
subjugadas, levando-as ao
Os Atentados que se poderia chamar de
de 11 de Setembro de 2001: guerra absoluta, em nome de
uma Ratificação sua sobrevivência.
ou Retificação da tal que não há qualquer outro país
Linha de Tendência? capaz de oferecer uma resistência de
vulto. Tal disparidade de poder CONCLUSÃO
enseja o que se está de-
nominando “guerra assi-
métrica”, na qual o partido Desde suas mais primitivas ori-
mais fraco lança mão de to- gens, o homem vem travando uma
dos os recursos, legítimos ou luta constante contra a morte, seja
pérfidos, para atingir o ela material, espiritual ou ideológica.
oponente sem enfrentá-lo Ele procura defender a continuidade
de igual para igual. de si próprio como ser vivo, de seus
A própria China, uma descendentes, de seu espírito e de
expressiva potência militar, suas idéias e valores, em diferentes
com assento permanente no ordens de prioridade, conforme uma
Conselho de Segurança da escala individual, ainda que for-
ONU, em uma recente rea- temente influenciada por aspectos
Naturalmente, é difícil analisar valiação estratégica, chegou à culturais. Isto explica tanto a razão
friamente os atentados terroristas conclusão de que não tem como ri- pela qual a maioria de nós daria a
perpetrados em 11 de setembro de valizar diretamente o poder militar própria vida em nome da sobre-

2002 - O Anfíbio - 98
vivência de nossos filhos ou da fruto de um processo de poderemos esperar de
segurança da pátria, como a exis- unificação que foi desen- nossos potenciais aliados
tência de terroristas dispostos a cadeado há aproxima- quando tais elementos
conduzir um avião contra um edifício, damente meio século, críticos estiverem em jo-
com 100% de probabilidade de fa- possui um arranjo defen- go?
lecimento, em nome da glória de seu sivo comum de muito
espírito e dos valores que constituem pouca relevância, o qual A segunda conclusão é a de que,
a sua causa. não deve ser confundido para tristeza dos pacifistas, não há,
A primeira conclusão imediata é com a OTAN, que presen- no horizonte próximo, qualquer
a de que a forma de defesa adotada temente serve apenas perspectiva de redução dos conflitos
por uma organização social é função para legitimar a ação armados de diversas naturezas. Se no
direta de seus interesses, das amea- estratégica norte-ameri- passado remoto o homem lutava
ças a estes interesses e do patamar
cana na Europa; exclusivamente pela sua sobrevi-
tecnológico por ela alcançado. Pode-
se considerar também a capacidade vência e depois pela de sua des-
§ Qual seria a disposição cendência, no passado recente e nos
econômica como um fator decisivo.
Entretanto, como poderíamos ex- que pode ser esperada de dias de hoje ele tem lutado e morrido
plicar que alguns países economica- um argentino de morrer por valores e crenças (religião, ca-
mente limitados realizem gastos de pela Amazônia? Possivel- pitalismo, comunismo, democracia,
defesa muitas vezes superior aos mente será a mesma de liberdade, dominação, preço do
gastos de outros muito mais ricos? A um brasileiro morrer pela petróleo, modo de vida, etc.). Ou
explicação fica por conta da exis- recuparação das Malvi- seja, quanto mais evoluída uma
tência, para os primeiros, de con- nas; e sociedade, maior será a quantidade
cretas ameaças aos seus interesses de “causas justas” ou “bons motivos”
mais vitais. Assim, o fator econômi- § Em campanha conduzida para combater.
co existe, porém não deve ser con- pelos EUA objetivando o Assim, qualquer redução de
siderado isoladamente, mas na afastamento do brasileiro gastos com defesa em nome do
verdade como um elemento in- José Bustani da direção- desenvolvimento humano não
fluente na caracterização dos de- geral da Organização pa- encontra respaldo na análise das
mais (interesses, ameaças e tec- ra a Proscrição de Armas tendências em curso. Os EUA, ainda
nologia). Químicas (OPAQ), aparen- que não sejam um primor de or-
Como corolário, verifica-se que temente em um movi- ganização social, mas decerto
são ineficazes arranjos defensivos mento preparatório para superiores ao nosso país neste e em
baseados em alianças puramente uma segunda guerra con- diversos outros aspectos, cada vez
econômicas, como poderia ser o caso tra o Iraque, o Brasil viu- mais incrementam e diversificam seu
do Mercosul. A inexistência de se praticamente isolado arsenal, às custas de gastos muito
ameaças ou objetivos comuns fará na defesa do referido expressivos, considerados inclusive
com que eventuais alianças militares funcionário, sendo apoia- como um dos grandes motores de
sejam de tal modo frágeis que, ante do apenas por Rússia, sua economia.
quaisquer dificuldades ou mesmo Bielorrússia, China, Cuba, Os países europeus e o Japão,
seduções externas, venham a Irã e, surpreendentemen- quando realizavam cortes acentuados
romper-se com facilidade. Vejamos te, México. Os países da A- de gastos com defesa, o faziam
alguns indícios: mérica Latina se absti- confiando na capacidade norte-
veram em peso, em um americana de prover-lhes um ade-
§ Conforme já mencionado, assunto que não lhes im- quado escudo contra ameaças ex-
a UE, um bloco econô- punha alianças militares, ternas ou de resolver “querelas” entre
mico de grande enver- nem perdas de vidas, nem seus próprios aliados. Hoje, investem
gadura e profundidade, gastos materiais. O que para obter maior independência em

2002 - O Anfíbio - 99
relação ao seu protetor, disputando questão de liberdade versus tramento de nossas forças armadas
inclusive com ele o espaço eco- dominação. Conseqüentemente, a é mais do que suficiente, pois é
nômico mundial. postura de dominador ou de adequado à dissuasão regional (o
É importante ressaltar também dominado é decisiva na formulação que gera estabilidade) e insuficiente
que, tanto no passado como no pre- do arranjo defensivo do Estado. para contrapor-se à persuasão
sente, combatentes e não-com- global exercida pelas potências de
batentes são elementos inseparáveis O Brasil, um país emergente que primeira e segunda grandezas. Ou
na defesa de uma organização social. se encontra em um momento de seja, mantidas as atuais condições,
Assim como ocorria no interior de transição, deve decidir se quer ser não somos nem seremos capazes de
cidades sitiadas, onde todos lutavam apenas um mercado emergente, tal influenciar nas principais questões
sofregamente pela sua sobrevivência como vem sendo tratado, ou uma mundiais e nos restará aguardar por
contra as armas do inimigo e as verdadeira potência emergente. Nas novos agentes e formas de do-
vicissitudes da fome e das en- palavras do saudoso e genial Al- minação.
fermidades, nos dias de hoje são mirante PAULO DE CASTRO
submetidos às mesmas conse- MOREIRA DA SILVA, “não existe Por outro lado, para o país que
qüências dos bombardeios aéreos ou desenvolvimento autêntico sem fabrica aviões (ainda que com 85%
dos ataques por mísseis, por mais invenção e o desenvolvimento de seus componentes impor-
“cirúrgicos” que possam ser. No postiço não faz uma nação, mas tados...), que exporta automóveis e
mínimo, as provações decorrentes um mercado”. Para cumprir o auto-peças (de tecnologia estran-
da destruição da infra-estrutura civil papel de mercado emergente, que geira...), computadores (montados
serão compartilhadas entre com- o mundo desenvolvido nos tem com componentes importados...) e
batentes e não-combatentes, in- reservado, é tudo muito fácil. Basta software (criados com ferramentas
clusive com mais peso para estes não fazer nada e deixar a história de desenvolvimento e em ambientes
últimos. seguir o seu curso. Hoje ainda so- operacionais importados...), que
Outra conclusão importante é a mos um grande fornecedor de deseja romper o ciclo de cinco
de que, ainda que se mudem os séculos de dominação, há muito o
matérias-primas e um grande
métodos e o discurso, as sociedades que fazer, a começar por maciços
importador de produtos de alta
oprimidas ainda lutam por sua investimentos em educação, ciência
tecnologia, exceto por raras e hon-
liberdade e as poderosas pela & tecnologia, melhoria da qualidade
rosas exceções.
dominação das demais. Assim tem de vida da população e certamente
No passado, eram toneladas de
sido nas guerras do Império Ro- também uma evolução significativa
pau-brasil e cana-de-açúcar em
mano, no processo de colonização de suas forças armadas, tanto em
troca de espelhos e miçangas. No
do “Novo Mundo”, nas guerras de termos quantitativos como quali-
presente, são toneladas de ferro,
descolonização dos séculos XIX e tativos, sem o que não seremos
XX, na fragmentação dos Bálcãs, no café, laranja e outras “commodities”
dignos de atenção no concerto das
conflito árabe-israelense e em outros em troca de carros luxuosos,
nações.
eventos da história remota e recente. aparelhos eletrônicos e calçados
Algumas vezes muda-se o campo de esportivos. Não é mera fatalidade a Estamos vivendo, portanto, um
batalha, transladando-o para o grande dificuldade que o país tem momento de decisão. Cabe-nos
âmbito econômico, no qual empre- enfrentado para obter saldos decidir qual papel almejamos. Se
gam-se armas tais como o avilta- positivos em sua balança comercial. nos decidirmos pelo de potência,
mento dos preços dos produtos Mais ainda: para o país do ferro, do então mãos à obra. Comecemos
primários, o mascaramento de sub- café e da laranja (e naturalmente do agora e quem sabe dentro de algum
sídios estatais e o protecionismo samba, do futebol e outros ícones tempo poderemos chegar a uma
contra as importações como forma do “tropicalismo exótico”, este- posição mais digna no mundo,
de proteger a atividade econômica reótipos que nos são impostos para compatível com a grandeza deste
interna de cada Estado, mas no diminuir nossa credibilidade...), o nosso belo país e com as virtudes
fundo continua presente uma atual vulto, equipamento e ades- de nosso povo.

2002 - O Anfíbio - 100


A modernização do ma-
terial de Fuzileiros Navais, O Comando do Material de
que obrigou ao aprimo-
ramento do preparo do Fuzileiros Navais e o Apoio
homem e à evolução tecno-
lógica do maquinário de-
Logístico aos Meios da Força de
dicado à sua manutenção,
levou, no início de 1997, ao
Fuzileiros da Esquadra
desmembramento do, então, CALTE (FN) A LVARO AUGUSTO DIAS M ONTEIRO
CC (FN) C ÉZAR SIMPLICIO FERNADES
Comando de Apoio do CFN
em duas Organizações Mi- zos bastante exíguos, sua operação, quado de disponibilidade é aquele
litares distintas: Comando dentro das concepções de apoio lo- que atende às necessidades do seu
do Material de Fuzileiros gístico, até então, vigentes, provavel- emprego operativo. Resulta óbvio
Navais (CMatFN) e Coman- mente, estaria comprometida pela que, se a concepção de emprego de
do do Pessoal de Fuzileiros impossibilidade de assegurar-se determinado meio exigir para sua
Navais (CPesFN). Desta índices de disponibilidade aceitáveis consecução elevados índices de
forma, o CMatFN assumiu para tais meios, não só pela escassez disponibilidade cresce a probabili-
a responsabilidade pelas de recursos (cada vez mais acen- dade de fracasso de seu ALI.
tuada) para obtenção dos sobres- Matematicamente, a disponibili-
atividades inerentes ao ma-
salentes necessários, mas, sobretudo, dade ( D ) é calculada:
terial específico de Fuzilei-
pela falta de parâmetros gerenciais Onde,
ros Navais. que indiquem os principais óbices a
Nesses cinco anos de exis- serem vencidos na condução do seu
tência do CMatFN, novos meios Apoio Logístico Integrado (ALI).
de extraordinária complexidade O equacionamento e a solução
tecnológica, tais como, os Carros de desse problema, cujos benefícios, PMEM = período médio entre
Combate SK 105 A2S, as viaturas obviamente, não se restringem a tais manutenções; e
UNIMOG e os obuseiros 105mm meios, constitui a tarefa maior do PMI = período médio de in-
LIGHT GUN, vieram juntar-se CMatFN disponibilidade.
aos Carros de Lagarta Anfíbios
(CLAnf) e outros meios, igual- O CMatFN e o apoio logístico Logo, elevados índices de dis-
aos meios de Fuzileiros Navais
mente, complexos, no acervo da ponibilidade pressupõem reduzidos
Força de Fuzileiros da Esquadra A finalidade de um sistema de períodos médios de indisponibilidade
(FFE). apoio logístico é a de garantir um (PMI) o que significa um esforço
Se, contudo, os respectivos pro- nível adequado de disponibili- que, muitas vezes, está acima da ca-
cessos de obtenção foram conduzi- dade aos meios empregados. pacidade do sistema de apoio logís-
dos com sucesso, inclusive, em pra- Para cada meio, o nível ade- tico envolvido.

2002 - O Anfíbio - 101


Isto porque: meio? Seria, realmente, a falta de so- imediatas e urgentes, a fim de não
Onde, bressalentes a causa desse PROGEM comprometer os requisitos opera-
demasiado longo? Por que conside- cionais da FFE.
rá-lo demasiado longo? A disponibi- Contudo, não se pode eliminar va-
lidade do meio, ainda que realizando riações anormais de processos, sem
TEL = tempo de espera logístico, seu PROGEM em dez meses, aten- se distinguir aquelas motivadas por
que representa o tempo de para- de às necessidades do setor opera- causas assinaláveis das provoca-
lisação debitado a deficiências na tivo? Se atende, por que empenhar das por causas aleatórias, uma vez
estrutura de apoio (falta de insta- recursos que são escassos (pessoal, que estas, por estarem presentes em
lações, equipamentos, sobressalen- material, verbas, etc) no aprimora- todos os processos, em princípio, não
tes, pessoal qualificado, etc); mento desse processo. Qual o nível é factível, técnica e economicamente,
TEA = tempo de espera admi- adequado de disponibilidade desse eliminar.
nistrativo, que representa o tempo meio? Já as causas assinaláveis são fa-
de paralisação debitado a problemas Deste modo, o primeiro passo pa- tores relevantes, decorrentes do des-
administrativos (rotina, faltas, mo- ra o aprimoramento do sistema de cumprimento de padrões estabele-
vimentações do pessoal qualificado, apoio logístico conduzido pelo cidos ou da adoção de padrões ina-
etc); e CMatFN é determinar o nível ade- dequados, que podem ser evitados,
TMM = tempo médio de ma- quado de disponibilidade de cada já que deles seremos senhores, se
nutenção, que representa o tempo, meio empregado pelo setor opera- conhecermos e compreendermos os
efetivamente, empregado na ma- tivo; tarefa que se encontra em curso, padrões de procedimento.
nutenção (levando-se em conside- com a participação da FFE, que se Portanto, a existência de padrões
ração que todos os recursos neces- pretende concluir até o final de 2002. de procedimento para os períodos de
sários estejam disponíveis). Com isso, será possível elaborar manutenção de cada meio é essencial
Se a inexistência de parâmetros de a Política de Manutenção do às suas atividades gerenciais, razão
controle impossibilitava o CMatFN de CMatFN; em síntese, a definição de porque seu estabelecimento, tornou-
identificar, corretamente, os proble- índices de disponibilidade de se outra frente prioritária a engajar.
mas envolvidos na manutenção dos controle para cada meio apoiado.
O CMatFN e a manutenção
meios empregados pela Força de Fu- Tais índices (estabelecidos apli-
dos meios de Fuzileiros Navais
zileiros da Esquadra, o que dizer das cando-se uma margem de segurança
medidas que pudessem resolvê-los? aos níveis adequados de disponibi- Todo o meio tem uma vida útil que
Se, por exemplo, o PROGEM de um lidade) atuarão como limites de con- compreende períodos de disponi-
determinado meio durasse dez meses, trole dos respectivos processos; es- bilidade e de indisponibilidade, este
o que fazer para abreviá-lo? Colocar senciais, não só para sua avaliação último denominado período de ma-
mais mecânicos no processo? Mas, (verificação se os processos são es- nutenção (PM). Os PM visam a res-
há ferramental disponível para esses táveis e capazes), mas, sobretudo, taurar as especificações técnicas
mecânicos? Adquirir mais sobressa- para indicar as variações anormais de originais do material; portanto, as
lentes? Mas, que sobressalentes processos que indiquem a neces- ações de manutenção são planejadas,
adquirir para o PROGEM desse sidade de interferências externas, executadas e controladas de acordo

2002 - O Anfíbio - 102


com o período de sua aplicação. A Para atender tal propósito, o las, além dos custos envolvidos.
execução sistemática da manutenção, CMatFN adotou como ferramenta para Quanto ao gerenciamento, o pro-
além de ampliar os períodos de dis- o planejamento e o gerenciamento da grama monitora os elementos do tri-
ponibilidade, fornece indicadores que manutenção dos meios de Fuzileiros ângulo componente de um projeto,
realimentarão o sistema, tanto na de- Navais de seu símbolo de jurisdição o quais sejam: tempo, recursos finan-
terminação de necessidades quanto programa MS-PROJECT. ceiros aplicados e escopo (metas e ta-
no planejamento da modernização, O MS-PROJECT é uma fer- refas do projeto, adicionadas do tra-
na conversão e, até mesmo, na de- ramenta de gerenciamento de pro- balho necessário a realizá-las).
sativação dos meios apoiados. jetos eficaz e flexível, que pode ser O CMatFN pretende definir para
Para tanto, é necessário conhecer usada para controlar projetos simples o PROGEM e para as manutenções
os fatores que contribuem para as ou complexos. O “software” ajuda a planejadas (semestrais) de cada meio,
flutuações do processo e evitar mu- programar e controlar as atividades sistemas que integram pessoal, insta-
danças anormais desses fatores o para que se possa acompanhar de lações, equipamentos, sobressalentes,
que só é possível mediante a padro- perto os progressos realizados. ferramental, procedimentos e normas
nização dos procedimentos e mé- Quando se cria um plano de técnicas, visando a manter o material
todos (seqüência) da execução da projeto, o MS-PROJECT calcula pronto para utilização, dentro de suas
manutenção. A padronização deve e cria uma agenda de trabalho ba- características de projeto e da maneira
indicar, além dos meios necessários seada nas informações fornecidas mais econômica, divulgando-os por
(em pessoal e material), os eventos sobre as tarefas a serem realizadas meio deCMatBotec (Boletim Técnico).
que constituem os caminhos críticos e os recursos humanos utilizados, As figuras 1, 2 e 3 apresentam ex-
do processo cujo percurso deve ser assim como, os equipamentos e os tratos do CMatBoTec do PROGEM
acompanhado cuidadosamente. suprimentos usados para concluí- das Vtr M-113.

EXTRATO DO ANEXO “B “ DO CMatBoTec Nº MAR 31000-006 / 2002 (VtrBld M-113-A1)


10- CAIXA DE TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA

2002 - O Anfíbio - 103


EXTRATO DO ANEXO “E” DO CMatBoTec Nº MAR 31000-006 / 2002 (VtrBld M-113-A1)
GRÁFICO DE GANTT DO PROGEM

Dessa forma, será possível acom- consistentes com os planejados, se O CMatFN e o abastecimento
panhar, em tempo real, se as tarefas os sobressalentes necessários foram de sobressalentes do Símbolo de
estão ocorrendo de acordo com o adquiridos tempestivamente e, se Jurisdição OSCAR
planejado; o que possibilitará nivelar efetivamente, foram empregados nas
(redistribuir) os recursos emprega- manutenções. Atualmente, o CMatFN ocupa um
dos, particularmente, os humanos, Contudo, a mera definição dos lugar de destaque no SAbM, na ge-
sempre que necessário, a fim de obter sobressalentes necessários à reali- rência do material do SJ “OSCAR”,
a máxima economia dos recursos apli- zação da manutenção de determinado desempenhando diversos papéis nas
cados. Será possível, também, ve- meio não garante sua obtenção suas fases básicas: determinação de
rificar se os custos envolvidos estão tempestiva nas quantidades desejadas. necessidades; obtenção; e distribuição.

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EXTRATO DO ANEXO “C” DO CMatBoTec Nº MAR 31000-006 / 2002 (VtrBld M-113-A1)
SOBRESSALENTES PARA O PROGEM
10 – CAIXA DE TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA

2002 - O Anfíbio - 105


As fases básicas do abastecimen- atividades técnicas. Essas ativi- sidades correntes: inexistam quais-
to são desdobradas em várias ativi- dades, são desempenhadas pelo quer metas para a distribuição dos
dades as quais, em virtude de suas CMatFN em conjunto com o Cen- sobressalentes, fossem elas físicas ou
características e requisitos, são agru- tro de Reparos e Suprimentos Espe- financeiras; o controle do estoque do
padas em dois tipos: atividades téc- ciais do CFN (CRepSupEspCFN), CRepSupEspCFN era executado
nicas e gerenciais. As atividades téc- no que diz respeito ao material do SJ por meio manual, nem sempre con-
nicas são aquelas relativas à orien- “OSCAR”. fiável; os inventários existentes no
tação especializada pertinente às A figura 4 apresenta as atividades CRepSupEspCFN (Órgão de Dis-
características qualitativas, funcio- de abastecimento, relacionando-as com tribuição ) e no CMatFN (Órgão de
nais e de utilização do material, va- o CMatFN e o CRepSupEspCFN. Obtenção e de Controle) que eram
riando conforme a natureza do ma- As atividades de abastecimento atualizados, mensalmente, por meio
terial. As atividades gerenciais são as do material do SJ “OSCAR” vinham de listas, tornavam-se inconsistentes
de caráter administrativo, diretamen- sendo conduzidas, com pequenas al- entre as atualizações, em face das
te relacionadas com a manutenção terações, segundo métodos de con- autorizações e do fornecimento do
do fluxo do material e desenvolvi- trole adotados, ainda, no antigo Co- material; e, não havia qualquer
das com base nos padrões fixados, mando de Apoio do CFN, os quais controle de estoque nos paióis das
através do prévio desempenho das já não mais respondiam às neces- OM Consumidoras (OMC), me-
dida, absolutamente,
necessária para o
adequado geren-
ciamento dos recur-
sos alocados no res-
pectivo Projeto do
Plano Básico CHAR-
LIE.
O desenvolvi-
mento pelo CMatFN
de um sistema capaz
de atender tais ne-
cessidades seria ina-
ceitável, não só pelos
elevados recursos
envolvidos, mas, so-
bretudo, porque a
Diretoria de Abas-
tecimento da Ma-
rinha (DAbM) já a-
dotara, com pleno
sucesso, o SINGRA
– Sistema de Infor-
mações Gerenciais
de Abastecimento.
Ora, como o
CMatFN integra o
SAbM, embora seja
importante ressaltar
que suas tarefas não
se limitam ao abas-
tecimento, não seria
Figura 4

2002 - O Anfíbio - 106


razoável a adoção de qualquer outro como OM Consumidoras. O SINGRA na prática, não corresponde à rea-
sistema, até mesmo, porque, as OM disponibiliza os seguintes módulos: lidade, pois, tais sobressalentes ainda
do CFN já empregam o SINGRA movimentação, gerência de projetos, permanecem no sistema de abas-
para a obtenção de material de outros catalogação, obtenção e planeja- tecimento, estocados nos paióis das
Símbolos de Jurisdição, como o pró- mento e controle. OMC, até sua efetiva aplicação.
prio CMatFN já dele faz uso para as Visando à estabelecer metas fi- Para tanto, foi desenvolvido o
obtenções no exterior. nanceiras para a distribuição do ma- Sistema de Controle de Material do
O propósito do SINGRA é ge- terial do SJ “OSCAR” às OM que CFN (SisCoMat).
renciar, dentro do escopo do SAbM, dele possuem dotação, o CMatFN O SisCoMat foi desenvolvido
a estruturação dos meios, dos equi- passou a adotar uma Fonte de Re- pelo CMatFN com a finalidade de
pamentos e equipagens, dos itens de cursos – a FR 189. Esta FR é utiliza- apoiar a tomada de decisões sobre
suprimento (suas características, for- da no abastecimento das seguintes as atividades de abastecimento, ma-
mas de classificação) e dos fabri- categorias de material do SJ “OS- nutenção e reparo não abrangidas
cantes e fornecedores desses itens de CAR”: sobressalentes, instrumentos pelo SINGRA, e de gerência de pro-
suprimentos, estabelecendo uma lin- musicais e itens de equipagens, sendo jetos do material do SJ “OSCAR”,
guagem única entre os elementos aplicada, única e exclusivamente, à bem como, apoiar outras Diretorias
envolvidos no Sistema de Abasteci- Requisição de Material de Consumo Especializadas no cumprimento de
mento através de métodos padroni- (RMC) para o CRepSupEspCFN, suas missões, no que diz respeito ao
zados para identificação, classifi- não servindo, portanto, para requisi- meios de Fuzileiros Navais de suas
cação e atribuição de símbolos a itens ções aos outros depósitos da MB. jurisdições.
de material de interesse da Marinha, Esse limite financeiro induz uma Esse sistema foi desenvolvido
facilitando a administração desse avaliação criteriosa por parte das para utilizar modernas tecnologias de
material. OM solicitantes, que lhes permite banco de dados e comunicações via
Tendo em vista a especificidade priorizar o atendimento às suas ne- Web, visando a estabelecer o con-
do material dos Fuzileiros Navais e cessidades correntes. trole do material nas Organizações
as demais tarefas do CMatFN que Os limites financeiros destina- Militares Consumidoras (OMC).
empregam o mesmo pessoal em- dos ao fornecimento de sobressa- O SisCoMat efetua o controle
penhado no abastecimento, seria de lentes para o recompletamento das sobre as quantidades existentes em
todo conveniente que, dentro do dotações de bordo das OM são estoque nos paióis das OM do CFN,
SINGRA, o CMatFN permanecesse provisionados pelo CMatFN aos permitindo uma visão hierarquizada
como Centro de Obtenção e de Con- COMARE, diretamente no SINGRA. dos dados. Assim, os setores de
trole do Material do SJ “OSCAR”, Os COMARE redistribuem ou re- logística da FFE, Divisão Anfíbia e
pleito que a DAbM acolheu e ajudou manejam os créditos às suas OM. Já Tropa de Reforço poderão consultar
a implementar. os limites financeiros destinados ao a posição atual dos estoques de suas
Após um período de seis meses fornecimento de sobressalentes para próprias Unidades, bem como, as
de testes, em 03/JUN/2002, o o cumprimento do PROGEM são Seções de Logística das Unidades
CMatFN passou a adotar o SINGRA distribuídos pelo CmatFN, direta- poderão fazê-lo em relação aos
como ferramenta gerencial do abas- mente, ao CRepSupEspCFN, de a- paióis de suas Companhias ou Fra-
tecimento do material do SJ “OS- cordo com o calendário estabelecido ções.
CAR”. pelo Comando de Operações Na- Esta facilidade é gerenciada
Desta forma, a obtenção e a mo- vais. através do controle do nível de aces-
vimentação desse material são rea- Todas essas inovações só foram so, que leva em consideração a OM
lizadas através do SINGRA. Nesse possíveis com a adoção do SINGRA. e as funcionalidades atribuídas ao
contexto, as OM do CFN nele atuam Restava, contudo, ainda, um usuário.
da seguinte forma: o CMatFN como grande desafio: controlar o estoque A figura 5 apresenta uma visão
Órgão de Obtenção e de Controle nos paióis das OM consumidoras que consolidada do estoque de cantis nas
do material do SJ “OSCAR”, o o SINGRA não executa, pois con- diversas OM do CFN.
CRepSupEspCFN como Órgão de sidera o sobressalente consumido tão O controle hierarquizado permite,
Distribuição e as demais OMCFN logo é distribuído às OMC, o que, não só ao CMatFN como, também,

2002 - O Anfíbio - 107


Figura 5

Figura 6

às Forças a ação direta sobre os itens dente, a equalização dos estoques ou, operativa, caso a mesma se encontre
em estoque em suas Unidades, pos- ainda, privilegiar determinada Unida- em estado de pronto emprego, por
sibilitando o remanejamento do exce- de em função de sua prontificação exemplo.

2002 - O Anfíbio - 108


O SisCoMat atua, ainda, com o O catálogo do SisCoMat é atua- • controle de acesso hierárquico.
conceito de Célula de Estoque lizado a partir do SINGRA, evitando Ø o nível de acesso é realizado a
(Paiol), permitindo a cada Unidade desta forma o retrabalho e substi- partir de funções autorizadas a cada
criar novos paióis e, assim, controlar tuindo, assim, a Lista de Dotação usuário, sendo este, vinculado à uma
os itens de material de acordo com Integrada (LISDIN). célula de estoque (OM ou paiol).
sua realidade. Esses paióis poderão Resumindo, o propósito do Ø a visão dos dados é limitada
ser operados por pessoal cadastra- SisCoMat é o de apoiar as tarefas às células de estoque subordinadas
do, a fim de realizar as tarefas ro- gerenciais não abrangidas pelo ao usuário em questão.
tineiras de controle de estoque. SINGRA. • Comunicação com o SINGRA
Dentre as possibilidades destacam- Para tal, implementa as seguintes Ø Permite a atualização do ca-
se: a emissão de cautelas; a trans- funcionalidades: tálogo de material do SisCoMat a
ferência de material entre OM e entre • consultas gerenciais do material partir da Base de Dados dos itens
paióis dentro das Unidades; a arre- compreendendo: catalogados no SINGRA.
cadação e a saída de material. A Ø consulta ao catálogo de ma- Com a implantação do SINGRA
figura 6 apresenta a visão de uma terial; por códigos ou descrição; e do SisCoMat, o fluxo do abas-
emissão de cautela por um deter- Ø consulta aos componentes de tecimento dos itens destinados ao
minado Paiol. equipamentos e equipagens; recompletamento das dotações de
O banco de dados do SisCoMat Ø consulta às referências (fa- bordo das OM é executado da
encontra-se centralizado no bricantes) dos itens de material; seguinte forma:
CMatFN, e seu acesso é realizado Ø consulta ao estoque, por cé- • A OM emite a Requisição do
através da INTRANET, utilizando- lulas de estoques (paiol ou OM), in- Material (SINGRA), observando os
se qualquer navegador Web. Essa formando as dotações, necessidades limites financeiros e a dotação do
centralização permite a consulta em de substituição, existente, acaute- material.
tempo real dos níveis de estoque das lados, preço, níveis máximo, mínimo • O CMatFN analisa a RM e ve-
diversas OM do CFN. Por ser uma e de ressuprimento; e rifica o estoque no CRepSupEspCFN
aplicação totalmente voltada para a Ø consulta ao movimento do (SINGRA), verifica, ainda, o estoque
Web, sua utilização não exige uma material (empréstimos, arrecadações, da OM através do SisCoMat. Então,
estação de trabalho com configuração cargas, transferência e baixas no poderá: autorizar total ou parcial-
de última geração. Qualquer com- estoque). mente a requisição, não autorizar ou
putador com acesso à INTRANET é • manutenção de usuários. registrar dívida (obrigação), no caso
capaz de acessar o SisCoMat. Outra Ø criação e exclusão de usuários; da indisponibilidade do item soli-
vantagem decorrente é que, por não Ø alteração de nível de acesso; citado.
necessitar de outro programa além do Ø alteração de senhas; e • Uma vez autorizado pelo
navegador Web, os usuários podem Ø alteração de permissões. CMatFN, o CRepSupEspCFN for-
acessá-lo de qualquer estação • manutenção de células de necerá o material requisitado.
conectada à INTRANET, indepen- estoques. • Os itens em obrigação serão,
dentemente da localização geo- Ø criação de OM e paióis; dependendo da disponibilidade de
gráfica. Ø exclusão de OM e paióis; e recursos, obtidos e, posteriormente,
Outro aspecto relevante é a cria- Ø alteração de dados de OM e entregues à OM.
ção de uma base de dados histórica paióis. A figura 7 apresenta uma visão
que facilite a análise da demanda de • movimentação de material; simplificada do fluxo do abasteci-
material, permitindo que possam ser Ø empréstimos; mento.
feitas projeções e subsídios para os Ø cautelas; Esta sistemática permite o controle
planejamentos futuros com maior Ø arrecadações; efetivo dos sobressalentes e itens de
precisão, baseados em consumos Ø cargas; material do SJ “OSCAR” existentes
reais ocorridos nas diversas OM. Ø transferência; no sistema e, particularmente, a
Esta demanda pode ser obtida por Ø baixas no estoque; e construção de uma base de dados
item de material, por OM, em um Ø alteração da necessidade de histórica que beneficiará a deter-
determinado período. substituição. minação de futuras necessidades.

2002 - O Anfíbio - 109


jamento das tarefas inerentes
Fluxo de abastecimento do material do SJ “OSCAR” à sua manutenção.
As medidas, até agora,
tomadas, constituem, ape-
nas, os primeiros passos
nesse sentido. Seu prossegui-
mento requererá desmedido
esforço de todos, não só pa-
ra aprimorá-las e para de-
senvolver outras, ainda
necessárias, mas, sobretudo,
para conscientizar as Uni-
dades de Fuzileiros Navais
que o poder de combate só
se desenvolve a partir de
uma logística adequada.
Figura 7
*****

Todos esses procedimentos todas as Unidades da FFE, diversos Bibliografia.


encontram-se em fase de implan- sobressalentes de primeiro escalão, KUME, Hitoshi. Métodos Es-
tação. Até sua total consolidação, há como radiadores de Toyota, por tatísticos para Melhoria da Qua-
um longo caminho a percorrer, re- exemplo, que são de emprego e- lidade. São Paulo: Editora Gente,
pleto de novos desafios. ventual. Sendo assim, é desperdício 1993.
A consolidação da FR-189 é o distribuí-los para todas as Unidades.
primeiro deles. O ideal é que fiquem estocados, em DELLARETTI FILHO, Os-
O total de recursos da FR-189, pequeno número, em paióis cen- mário. Itens de Controle e Avaliação
que apoia o SINGRA no que con- tralizados, sendo recompletados na de Processos. Belo Horizonte:
cerne ao SJ “OSCAR”, foi calculado medida de sua utilização efetiva. Fundação Christiano Ottoni, UFMG,
pelo valor global do estoque do Onde ficariam esses paióis é outra 1994.
CRepSupEspCFN acrescido dos história...
valores destinados ao Plano Básico A propósito, no CMatFN, dia- STONNER, Rodolfo. Ferra-
CHARLIE, nos projetos C-02.2051, riamente, há histórias para serem mentas de Planejamento. Utlizando
C-07.6090 e C-07.6089, tendo sido decididas. o MS Project para Gerenciar
distribuídos 20% do total apurado. Empreendimentos. Rio de Janeiro: E-
No entanto, como não há registro papers Serviços Editoriais Ltda,
histórico do consumo das OMC, o Conclusão 2001.
CMatFN deverá realizar um acom-
panhamento da evolução e emprego O CMatFN vem, ao longo de sua BRICK, Eduardo Siqueira e
dos recursos da FR-189, de modo a curta existência, procurando conferir ROSA, Antonio José da. O Im-
possibilitar o registro do patamar his- às suas atividades um cunho técnico- pacto da Utilização de Soluções
tórico para uso no planejamento da gerencial, na certeza de que a plena Comerciais (COTS) no Apoio
distribuição dos recursos nos anos operação dos meios da FFE só será Logístico Integrado (ALI) de
vindouros, com base em dados os alcançada com a irrestrita observação Sistemas. Pesquisa Naval nº 14 -
mais realistas possíveis. de suas rotinas sistemáticas de ma- Suplemento Especial da Revista
A revisão das dotações das OM nutenção, para cuja execução faz-se Marítima Brasileira. Rio de Janeiro:
é o segundo. essencial a compreensão de que tais Serviço de Documentação da Ma-
O SisCoMat apontou que há, em meios requerem minucioso plane- rinha, outubro de 2001.

2002 - O Anfíbio - 110


SIGeP
Modernidade na
Gestão de pessoal do CFN
CMG (FN) J OSÉ HENRIQUE SALVI ELKFURY

A Marinha, ao decidir pela obtenção


das Fragatas classe Niterói nos anos 60,
promoveu valioso avanço na tecnologia
naval nacional e contribuiu de forma
inequívoca com o desenvolvimento da in-
formática no Brasil. O conhecimento obtido
na automação de sistemas operativos expan-
diu-se para aplicações administrativas,
originando sistemas corporativos nas áreas
de finanças, material e pessoal. Os avanços
prosseguiram, aproveitando-se da revolução
da microinformática e da oferta das pos-
sibilidades da telemática, criando-se condi- Fig. 1
ções para a aplicação de sistemas descen-
tralizados. Esta evolução do conhecimento
refletiu-se na administração de pessoal e, no âmbito do CFN, em 1985, foi iniciado o
desenvolvimento do Sistema de Pessoal do CFN (SisPFN).
Embora tenha sido reformulado em 1990, o SisPFN, com dezessete anos, já está
alcançando sua maioridade – não se pode esquecer que o assunto é informática. Embora
ainda possa contribuir com a administração do pessoal do CFN, está na Fase 3 da
Curva S (ver Fig. 1), que bem representa o ciclo da vida de organizações, produtos,
serviços, projetos e mesmo de seres vivos – fase em que a inovação se faz necessária. A
linguagem utilizada, antiga, já se ressente de profissionais que a conheçam, o que,
combinado com a ausência de documentação apropriada, dificulta a manutenção e os
aprimoramentos necessários, como, por exemplo, o acesso por qualquer OM ou pelos
militares em geral. Além disso, verifica-se inconsistências nos dados armazenados,
gerando falta de confiança nas informações produzidas e necessidade de retrabalho.

Assim, em 2001 o CPesFN sub- ü facilidade de manutenção


JUN de 2001 foi designada uma
meteu à apreciação do CGCFN a Comissão Especial de Licitação para
(tecnologia atual, documentação e
proposta de substituir o SisPFN por acesso aos códigos-fonte); escolher um prestador do serviço de
uma nova ferramenta, que atendesse, ü compatibilidade com osdesenvolvimento e instalação do
principalmente, os seguintes re- padrões técnicos ora adotados pela
novo sistema. Tendo em vista que
quisitos: Marinha; e apenas uma empresa apresentou
ü desempenho e funcionali- ü acesso de Oficiais e Pra-
proposta, com valor acima do limite
dades compatíveis com exigências ças a seus dados de carreira, emprevisto para Convite, o processo
do serviço; terminais das respectivas OM. licitatório foi anulado em 11JUL2001.
ü modernos ambientes de Em AGO2001, com base em dis-
computação; Aprovada a proposta, em 18 de pensa de licitação prevista na Lei nº

2002 - O Anfíbio - 111


8.666/93, conforme termo expedido Integração. Estas fases, eminente- cumentação completa – o que
pelo CPesFN, o Batalhão Naval mente técnicas, foram acompanhadas permite a quem não trabalhou no seu
celebrou contrato com a Fundação pelo Gerente do Projeto – En- desenvolvimento entender como
Padre Leonel Franca – da PUC do carregado da Divisão de Sistemas do funciona, quais tabelas utiliza e a
Rio de Janeiro e que desde o início CPesFN. Para coordenar a conclu- finalidade de cada rotina – emprega
de 1998 mantém atualizado o Centro são da Integração e a condução das o conceito de bancos de dados
de Jogos Didáticos do CIASC – fases seguintes – Migração dos relacionais, que garante consistência
para, no prazo de um ano, desen- Dados, Implantação e Avaliação entre os dados das diferentes tabelas
volver e instalar o sistema espe- Operacional – foi constituído um que compõem o sistema. Além disso,
cificado. Aquela Fundação contra- Grupo de Trabalho, tendo em vista apresenta algumas características que
tou, então, uma de suas empresas a necessária interação dos De- o diferenciam do SisPFN e permitem
“incubadas”, a firma EasyCAE. partamentos e Assessorias do um melhor aproveitamento das
Na escolha da denominação do CPesFN com os analistas e pro- facilidades oferecidas pela moderna
produto – Sistema Integrado de gramadores da EasyCAE. tecnologia de sistemas gerenciadores
Gestão de Pessoal (SIGeP) – pro- Em JUL2002 o SIGeP entrou em de banco de dados e pela Intranet
curou-se mostrar suas principais Avaliação Operacional, fase da MB. O acesso remoto por todas
características. A “Gestão”, atividade conduzida em três etapas, inter- OM da Marinha, utilizando-se
administrativa de nível estratégico nas caladas com períodos de ajustes e interface moderna, fácil de usar e com
grandes corporações, está caracte- correções: telas feitas “sob medida” para os
rizada pela abrangência do sistema – ü Etapa 1: avaliação interna usuários, gera duas vantagens
todo pessoal do CFN – e pelo nível pelo CPesFN; comparativas: descentralização da
decisório de seus principais usuários ü Etapa 2: participação de inserção de dados e verificação dos
– o CGCFN e o CPesFN. A ex- sete OM piloto, representando os registros pelos militares.
pressão “Integrado” decorre da co- principais tipos de OM (ComTrRef; Atualmente, o CPesFN recebe,
participação de todos os setores do BFNIF; BtlArtFuzNav e Btl por diversos métodos, subsídios das
CPesFN na auditoria e operação dos Tonelero; CiaCom; CIASC; e OM para inserir no SisPFN, tais
dados fornecidos pelas OM, da CRepSupEspCFN); e como arquivos elaborados com a
descentralização da operação para ü Etapa 3: contribuições de utilização do SisDPMM, Ordens de
todas OM da MB e da possibilidade todas OM do CFN. Serviço (OS) com resultados de
de consulta e verificação de registros cursos e de provas de tiro, ofícios,
por todos militares do CFN. Concluído o desenvolvimento, em mensagens etc. Com o SIGeP, as
27AGO2002 foi expedida a Circular OM é que farão a inserção da maioria
Desenvolvimento nº 5/2002 do CPesFN, implantando dos dados, diretamente no sistema.
o SIGeP em toda MB, com início da Ao CPesFN caberá a verificação dos
A execução do contrato seguiu as operação a partir de 02SET2002. dados inseridos, realizando auditorias
fases típicas do desenvolvimento de Para isso, na última semana de com base nos documentos remetidos
um sistema. Na Análise, re- AGO2002 foi realizada a migração pelas OM. Em alguns casos, como
presentantes da EasyCAE mantive- definitiva dos dados do SisPFN, prova de tiro e TAF, a ratificação dos
ram estreito contato com todos se- trabalho meticuloso, realizado em registros pelo CPesFN ocorrerá
tores do CPesFN e com a legislação conjunto pela EasyCAE e pelo após análise estatística da pontuação
pertinente, detalhando cada rotina e CPesFN, em que os registros obtida – caso sejam identificados
tabela de dados, em conjunto com existentes no sistema antigo foram resultados atípicos numa turma de
os militares responsáveis por sua criticados e formatados segundo as tiro, por exemplo, será determinado
operação. Ao final desta fase, a especificações do SIGeP. que nova prova seja aplicada. Além
empresa obteve uma ampla e disso, considerando-se que o sistema
completa visão de como é realizada Vantagens conta com filtros para a captação dos
a administração de pessoal do CFN, comparativas dados, a ocorrência de erros de
o que permitiu prosseguir com o digitação será reduzida. Portanto, os
Projeto, Construção dos Objetos e O SIGeP, entregue com do- registros feitos para cada militar serão

2002 - O Anfíbio - 112


conferidos pela OM e pelo CPesFN, requerimentos de recurso e, espera- trador de Banco de Dados, Oficial
além de passar por mecanismos se, diminuirá a quantidade de ações da Divisão de Sistemas do CPesFN,
automáticos de verificação e de judiciais decorrentes do desco- identifique quem realizou toda e
segurança, expostos a seguir, o que nhecimento ou mesmo de eventuais qualquer manipulação em dados, pois
proporciona maior confiabilidade nos erros administrativos. estas ficam registradas em tabela
cadastros dos militares. específica que armazena o data-hora
Após os lançamentos feitos, Segurança e, a partir da senha registrada, o autor
todos militares do CFN poderão da manipulação. Para isso, nos
consultar os respectivos dados, Tendo em vista que o SIGeP acessos ao SIGeP, pede-se o NIP e
diretamente no SIGeP, a partir de guarda no seu interior registros a senha de quem está fazendo o
qualquer terminal da sua OM que pessoais e que os dados inseridos são “login”.
esteja conectado à Intranet. Atual- na realidade pontos que podem
mente, para cada processo seletivo decidir a carreira dos militares que Recuperação
o CPesFN elabora uma relação com participam de processos seletivos – de dados
os pontos dos militares participantes, com repercussões que, às vezes,
envia para as OM ou publica em transcendem a própria carreira, pois A recuperação de dados no
BONO, para verificações e cor- podem mudar o futuro do militar e, SIGeP pode ser feita de três maneiras:
reções, e, após o retorno das OM, por conseqüência, de todos os que extrações, consultas e relatórios. As
define os selecionados. Ora, com o dele dependem – o requisito segu- extrações consistem em arquivos que
SIGeP, uma vez que cada militar, a rança recebeu tratamento especial. são gerados para servirem como
qualquer momento, estará conferindo Contribuem para a segurança do “input” de outros sistemas. É o caso,
seus registros (Fig. 2), este re- sistema, primeiramente, os controles por exemplo, da extração de dados
trabalho será desnecessário, e conferências feitos na inserção de de Oficiais e Praças que são for-
resultando em menor necessidade de dados. Assim, toda inserção de matados e remetidos à DPMM, para
homens-hora nos processos seletivos registro é associada a um documento inserção no SISBOL. As consultas
e, o que é mais importante, asse- – OS, mensagem, ofício etc – que é são acessos para verificar na própria
gurando ao CPesFN e ao próprio conferido, no CPesFN. tela determinados registros. É o caso,
militar a confiabilidade na pontuação A seguir vem a compartimen- por exemplo, da consulta que todo e
que serviu de base para a seleção. tação. Mesmo levando-se em conta qualquer FN, Oficial ou Praça,
Esta co-participação das OM e dos que os militares que acessam o SIGeP poderá fazer para verificar seus
próprios militares – agora co-res- para inserir, alterar ou excluir dados dados. Não será permitido realizar
ponsáveis pelos respectivos registros são selecionados pelas OM e alteração, inserção ou exclusão, mas,
– representará economia de tempo e devidamente credenciados pelo uma vez identificado algum erro, o
maior precisão nos processos, re- CPesFN, filtros limitam seu acesso, militar poderá procurar seu Sar-
duzirá o trâmite de mensagens e compartimentando assim sua visão genteante que acionará o setor de
aos militares que estão sob Pessoal da OM. A correção será,
administração da respectiva então, providenciada – no caso de
OM. Portanto, um Sar- funcionalidade operada pela OM –
genteante cadastrado pelo ou será solicitado que o CPesFN
Batalhão Paissandu poderá faça a alteração, indicando o do-
manipular apenas registros cumento que dá amparo ao pedido.
de militares daquele Btl. Os Os relatórios podem ser arquivos
Oficiais e SG credenciados ou cópias em papel que reproduzem
pelo G-10 do ComDivAnf variados tipos de dados, tais como o
acessarão apenas os dados Mapa de Contagem de Pontos
dos militares das OM da (MCP) de militares de determinada
DivAnf – e assim por diante. faixa, para apreciação visando Re-
O SIGeP permite, engajamento ou Seleção para Es-
Fig.2
também, que o Adminis- pecialização. Também pode ser a

2002 - O Anfíbio - 113


relação de cursos realizados por um sores para identificar, em qualquer
SG, as comissões anteriores de um momento, em que ponto da curva
está situada sua organização como
Oficial ou, ainda, militares da OM que
estejam em LESM. No caso dos um todo, seus componentes e mesmo
SDP, poderão ser emitidos relatórios as ferramentas de apoio à decisão.
de ORDMOV em aberto – militares Isto é importante pois, mesmo que a
que receberam determinação para Curva S ainda esteja ascendente,
serem movimentados mas que ainda pode haver o impacto de inovações
não foram desligados da OM de que venham a acelerar o advento do
origem. ponto de inflexão e o conseqüente
Inicialmente, o SIGeP oferece declínio. Assim, sinais de mudança na
“atitude” da curva devem ser con-
vários tipos de relatórios específicos
às OM da MB FN, aos SDP e tinuamente avaliados.
Comandos de Força e ao CGCFN. A introdução do SIGeP como
ferramenta de apoio à administração Fig.3
Todavia, espera-se que, após co-
nhecerem melhor as facilidades do pessoal do CFN é um bom
oferecidas, sejam solicitadas novas exemplo de como uma corporação CPesFN e as OM da MB, que pas-
funcionalidades, as quais repre- deve evoluir. Da “pré-história” dos sam a dispor de moderna ferramenta
sentarão tarefas de manutenção do registros manuscritos e das fichas em de apoio à administração de pessoal,
SIGeP, atribuição dos programa- papel chegou-se à Era da Infor- e, principalmente, os Fuzileiros
dores da Divisão de Sistemas do mação, com plena utilização da in- Navais, que passarão a contar com
CPesFN. Isto será possível porque formática, passando pelas máquinas um sistema que prima pela
o sistema foi projetado para ser de escrever, mimeógrafo, fotocopia- transparência dos dados utilizados
construído em módulos, permitindo doras etc. Mas a informática também nos processos seletivos, sem perda
sua expansão. Algumas destas evolui – e de forma muito mais rápi- da necessária segurança.
necessidades já foram identificadas da – por isso, até os sistemas in- Vale registrar que o SIGeP é
durante a Avaliação Operacional. formatizados tornam-se obsoletos. exemplo de sucesso na substituição
Assim, poderão tanto os CmtOM Assim, as antigas – e enormes – de sistemas legados, pois cerca de
como os Comandantes de Força ou máquinas Cobra (Fig. 3) se foram, oitenta por cento deste tipo de
de SDP, para melhor exercício do mas o SisPFN, depois de anos de empreendimento sofre atrasos na
seu comando, dispor de consultas relevantes serviços prestados, já entrada em o operação e/ou aumento
que permitam apontar, entre os emite sinais de que o ponto máximo nos custos previamente estipulados
militares de sua OM, aqueles que do “S” está próximo. Daí sua – o que não ocorreu com o SIGeP.
possuam qualificação específicas – “agregação” e, ainda que disposto a Este sucesso deve-se, em grande
curso realizado na MB ou mesmo trabalhar, o início do seu Licen- parte, ao comprometimento direto de
uma habilitação adquirida extra-MB, ciamento do Serviço Ativo na Ma- todos integrantes do CPesFN com
como um curso de informática, de rinha. o êxito do projeto. Também deve ser
pedreiro, de pintura automotiva etc. O SisPFN será “desligado” do mencionado que a substituição de
SAM com todas homenagens que sistemas que ainda estejam na fase
Exemplo de merece. O SIGeP ainda percorrerá ascendente da Curva S por outro,
evolução o trecho inicial da curva, com baixa inovador, exige, por parte da go-
inclinação, até alcançar Fase 2, onde vernança corporativa, decisão au-
Conforme mencionado no início espera-se incremento acelerado no daciosa e vontade política, atitudes
deste artigo, todo sistema – e mesmo seu desempenho. Todavia, o im- típicas de lideranças transformado-
todos seres vivos – possuem um ciclo portante é que iniciou sua jornada – ras – o que também não faltou ao
de vida, bem representado pela toda grande marcha inicia com o SIGeP, ferramenta pioneira, pois sua
Curva S. Os responsáveis pela primeiro passo. Os beneficiados com operação chega ao nível OM e, na
gestão estratégica de grandes esta evolução modelar de Gestão verificação dos dados, torna os
corporações devem dispor de sen- Contemporânea são o próprio próprios militares co-responsáveis.

2002 - O Anfíbio - 114


O Impacto das Inovações Tecnológicas e a Importância
da Informática para o emprego Operativo do CFN.
CMG (FN-RRM) ARMANDO S. DE ANDRADE DA COSTA
CC (FN) WLADIMIR SOARES FRANCO
CC (FN) JÚLIO CÉSAR FRANCO DA COSTA
CC (FN) FRANCISCO ROZENDO DE ANDRADE NETO
CC (FN) PAULO JOSE PINHEIRO FILHO
CT (FN) MARCIO ROBERTO MOREIRA DA SILVA
CT (QC-FN) HAROLDO JOSÉ M. BUENO PAIVA
CT (FN) CLAUDIO VICENTE ISSA VIEIRA
CT (FN) FLÁVIO DOS SANTOS NASCIMENTO

“A destruição das forças inimigas possui um


valor superior a todos os outros meios.
É compreensível que o meio utilizado tenha
que ser custoso, porque em igualdade de
circunstância o nosso próprio dispêndio de
forças há de ser tanto maior quanto o for nossa
intenção de aniquilamento das forças do
inimigo.”
(Carl von Clausewitz, in da Guerra) Fig. 1

Introdução O campo de batalha moderno


Para que tipo de guerra o Corpo
de Fuzileiros Navais (CFN) deverá
estar preparado neste novo milênio?
Esta é uma questão que parece estar Os ataques serão rápidos, silen- inovações tecnológicas e a im-
presente na mente dos Fuzileiros ciosos e mortíferos. A tradicional portância da Informática para o
Navais. O estado da arte militar, em “linha de frente” não deverá existir emprego operativo do CFN no
constante evolução, indica uma nova nos moldes atuais e todos os com- contexto do combate moderno. Para
filosofia de combate, com ênfase no batentes serão de primeira linha, tanto, abordará as idades segundo o
militar profissional, no uso de sistemas vulneráveis aos ataques provenientes emprego da tecnologia nas guerras;
computadorizados de alta tecnologia de diversas origens e direções. as tendências decorrentes das ino-
e em uma doutrina mais flexível. Invisíveis ações de guerra eletrônica vações tecnológicas na condução do
O conflito, provavelmente, será (GE) e de informações serão cons- combate terrestre; os novos con-
travado em um cenário regional, tantes. Vírus de computadores serão ceitos doutrinários genéricos de-
conseqüência de serem transgredidos disseminados e paralisarão a vida correntes das inovações tecnológicas;
os interesses estratégicos e econô- cotidiana do cidadão comum, por o guerreiro cibernético; O CFN, a
micos de determinado Estado. Sofis- meio de colapso da eletricidade, da tecnologia e o futuro; e a tecnologia,
ticados sistemas computadorizados telefonia, da Internet, do rádio e da a origem e a natureza da guerra.
serão empregados e influenciarão televisão. Não existirá lugar seguro e
decisivamente no campo de batalha. a área de retaguarda estará vul- As Idades Segundo o
Diversas lições serão colhidas e nerável. Emprego da Tecnologia na
rapidamente disseminadas para o O CFN estuda e pesquisa a Guerra
restante do mundo e dentre estas, implementação de diversos sistemas No decorrer da história, a tec-
uma certamente prevalecerá: a ine- computadorizados para as suas nologia, ou o aparecimento de
vitável necessidade de investir-se em unidades operativas, com a finalidade inovações em produtos e processos,
pesquisa, desenvolvimento e im- de dotá-las com tecnologia no estado se confunde com o progresso. A
plementação de tecnologia de ponta da arte. O presente artigo tem o pro- guerra, como expressão extrema do
nas Forças Armadas. pósito de ressaltar o impacto das choque de interesses, é inerente à
2002 - O Anfíbio - 115
condição humana e constitui uma militar. O processo tecnológico torna- Força Armada, e depois, entre For-
atividade que lança mão dos produtos se mais acelerado. ças Armadas. A Guerra Eletrônica
e dos processos criados pelo engenho Idade dos sistemas (de 1830 a (GE) surge na Guerra Russo-Japone-
humano. Na guerra a superioridade 1945) – ocorre o emprego militar de sa, porém, após a 2ª Guerra Mundial,
tecnológica é, normalmente, deter- sistemas pioneiros como a ferrovia e esta foi usada na maior parte dos
minante para o conflito e vantajosa o telégrafo. As máquinas que antes conflitos, tornando-se notável a partir
para o lado que a detém. operavam isoladas são integradas em da Guerra do Vietnã, onde aparece-
A guerra Irã-Iraque, por exemplo, grupos complexos e interativos, que ram diversas inovações tipo: bloqueio
prolongou-se sem definição para dependem de coordenação precisa. de escolta; mísseis anti-radiação;
qualquer um dos contendores, devido A tecnologia é objeto de organi- varreduras passivas; tecnologia
aos países envolvidos no conflito zação, a matéria- “STEALTH”2 ;
estarem equivalentes em seus níveis prima predomi- etc. Atualmente,
tecnológicos, não havendo desequi- nante é o aço e é integração é a pa-
líbrio de poder de combate. A guer- instituída a ino- lavra de ordem
rilha é, normalmente, empregada por vação dos sis- das atividades
quem não possui vantagem tecno- temas. militares. Inte-
lógica e, desta forma, procura tirar Idade da au- gração entre sen-
vantagens das circunstâncias ambien- tomação (a par- sores, entre uni-
tais (população, características da tir de 1945) – a dades, entre u-
área de operações, ideologia, etc.). guerra é travada nidades e seus
O terrorismo é beneficiado pela ca- com sistemas comandos supe-
pacidade de seus agentes explorarem capazes de de- riores e, até mes-
com surpresa a tecnologia disponível. tectar mudanças mo, entre unida-
Tecnologia1 é a transformação ra- no ambiente e des táticas e os
cional em processos e produtos do co- reagir a elas auto- A tecnologia e a Guerra comandos de mais
nhecimento científico, aplicável a maticamente. A alto nível.
todas as épocas e lugares. Encontram- matéria-prima passa do aço para
se abaixo listados as idades segundo ligas sofisticadas, cerâmicas e As Tendências Decorrentes
o emprego da tecnologia nas guerras: materiais sintéticos. O processo das Inovações Tecnológicas
Idade das ferramentas (até tecnológico torna-se cada vez mais na Condução do Combate
1500) – a tecnologia militar usava a acelerado. Terrestre
energia muscular de homens e ani- Na idade da automação a tecno-
mais. A matéria-prima mais impor- logia militar aumenta de comple- As inovações tecnológicas, muitas
tante era a madeira e o processo tec- xidade e para processar a rapidez do apresentadas de forma pioneira na
nológico era tão lento que muitos fluxo de informações faz-se neces- Guerra do Golfo, foram progressiva-
utensílios existentes no início da idade sário o uso de sistemas computa- mente tornando-se mais sofisticadas,
pouco mudaram até o final. dorizados, conseqüência direta da no que está sendo denominada a
Idade das máquinas (de 1500 tecnologia já existente. Inicialmente, “revolução tecnológico-militar”. Esta
a 1830) – houve predominância de os computadores eram utilizados “revolução” está ocasionando um im-
fontes de energia não orgânicas como para os aspectos administrativos da pacto muito significativo no combate
o vento e a pólvora. A arma de fogo guerra. O impacto dos computado- terrestre, principalmente, em relação a
possibilitou grande impacto na tática, res logo passou para as comunicações cinco tendências3 : dispersão e leta-
pouco na estratégia, e o metal substi- e na Guerra do Vietnã, pela primeira lidade; volume e precisão do apoio de
tuiu a madeira como a matéria-prima vez, foram integradas as redes de fogo; integração tecnológica; massa e
mais importante para a tecnologia comunicações militares dentro da efeitos; e invisibilidade e detecção.
1
Definição de tecnologia e classificação segundo Van Creveld, “Technology and War”, 156-70.
2
Tecnologia avançada que alia estrutura angular com pintura especial, tornando o meio de guerra invisível aos radares e sistemas de
detecção inimigo.
3
Essas tendências são apresentadas pelo General Gordon Sullivan, Chefe do Estado-Maior do US ARMY, em seu artigo “Land Warfare in
the 21 st Century”, “Military Review”, Set 1993,13-32.

2002 - O Anfíbio - 116


termos de tecnologia a grandes distâncias. Mudanças que
militar induz em irão requerer os seguintes requisitos:
mudanças na tática, na ¨ Do Comandante, habilidade
organização das For- para tomar decisões rápidas;
ças, na doutrina, nos ¨ Do Estado-Maior, capacidade
equipamentos e nos de planejar o sincronismo das ações
métodos de Comando, para Forças dispersas em largas frentes
Controle, Computa- e em grandes profundidades; e
dores e Inteligência ¨ Do Comandante de frações, a
A dispersão e letalidade no (C4I) para a condução responsabilidade de tomar decisões
campo de batalha moderno do combate terrestre. rápidas, em posições isoladas, ba-
Na Guerra do Golfo seadas no efeito desejado do superior
Dispersão e letalidade – o fuzil a tendência “dispersão e letalidade” imediato.
dotado com aparelho de pontaria, foi constatada pela dispersão das Esses requisitos influenciarão di-
introduzido em grandes proporções Forças, que envolveu distâncias retamente nos aspectos mais diversos
no século XIX, aumentou a distância nunca antes observadas; e pela de emprego da Força, que deverá
em que o soldado poderia influenciar letalidade das armas, principalmente, dispor cada vez mais de militares com
no combate. De forma gradual, os as de longo alcance. Foram em- maior iniciativa e de melhor qualidade
fuzis, as metralhadoras e a artilharia pregados sistemas Lançadores profissional.
foram tornando-se mais eficazes e Múltiplos de Foguetes, helicópteros Volume e precisão do apoio de
letais, conseqüentemente, as unida- APACHE, mísseis PATRIOT, CC fogo – na era do mosquetão, quando
des passaram a dispersar-se no ter- ABRAMS, sistemas de posicio- o armamento era carregado pela
reno. Naquela época, essas inova- namento global e de direção, etc. boca, a cadência de tiros era baixa,
ções tecnológicas acarretaram mu- No futuro, esta tendência resultará o carregamento lento e o tiro impre-
danças no emprego das unidades em uma nova mudança da tática, da ciso. As inovações do fuzil de re-
militares, como por exemplo, a tática organização das Forças, da doutrina, petição, do carregador metálico, das
de marchar ombro-a-ombro, uti- dos equipamentos e dos métodos metralhadoras automáticas, das fitas
lizada na era do mosquetão, passou C4I, da mesma maneira como já metálicas para projéteis e do aparelho
a ser ultrapassada. ocorreu no passado. As Forças tor- de pontaria para as armas de in-
A inovação tecnológica está tor- nar-se-ão cada vez mais móveis, fantaria, conferiram um significativo
nando os sistemas de armas cada vez criarão inovações para tornar as co- aumento do volume dos fogos e os
mais letais e as unidades cada vez municações mais eficazes, mano- disparos foram realizados com maior
mais dispersas no campo de batalha. brarão com maior rapidez e utilizarão precisão. Inovações que produziram
A cada mudança de padrão em os fogos de plataformas posicionadas maior volume de fogos, constatado

A expansão do campo de batalha4 em diferentes épocas


Área ocupada pelo Na
posicionamento de uma Guerra de Guerra Civil 1ª Guerra 2ª Guerra
Antigüidade Guerra do
força composta de Napoleão Norte- Mundial Mundial
Golfo
100.000 soldados americana
Em km quadrado 1 20,12 25,75 248 2.750 213.200

Frente de
combate (km) 6,67 8,05 8,58 14 48 400

Profundidade (km) 0,15 2,50 3,0 17 57 533

Combatentes
por km quadrado 100.000 4.790 3.883 404 36 2,34

4
Tabela especificada no artigo “Land Warfare in the 21st Century” , “Military Review”, Set 1993, 13.Os dados são proveniente do livro “
The Evolution of weapons and Warfare”, COL T. N. DuPuy e do livro “ Moving Mountains”, LTG Pagonis”.

2002 - O Anfíbio - 117


com maior freqüência no campo de No fragor da batalha, porém, o doutrina, na organização tática e no
batalha. Desta forma, o campo de ba- combate se processa de maneira C4I das Forças. Sistemas compu-
talha tornou-se altamente letal, pela diferente. A natureza da guerra pres- tadorizados e de inteligência criarão
conjunção dos seguintes fatores: supõe medo, perigo, incerteza e fric- uma percepção comum do campo de
aumento do volume de fogos; maior ção6 . Os relatórios que os Coman- batalha por todas as unidades da
alcance e maior precisão dos tiros. dantes recebem, em sua grande Força combinada, que possibilitará
Outras inovações surgiram para con- maioria, são incompletos e incorretos. o emprego sincronizado das unidades
trabalançar tais como trincheiras, As informações colhidas precisam no campo de batalha moderno.
posições fortificadas e proteção blin- ser interpretadas para se tornarem Na tendência “integração tec-
dada. documentos de inteligência, porém, nológica” ocorrerão, porém, fatores
A tendência “volume e precisão estas se deterioram com a fricção, que limitativos, não provenientes dos
do apoio de fogoӎ , atualmente, se agrava na medida que o tempo sistemas computadorizados, mas sim
comprovada pelo emprego de mísseis passa. O uso de tecnologia avançada do fator humano, que terá que pro-
teleguiados, de arma com desig- atenua a fricção do combate, pois os cessar uma quantidade de dados
nador-laser, de munição inteligente, sistemas computadorizados de coleta nunca antes observada. O desafio
de lançador múltiplo de foguetes, etc. e de processamento de informações que acompanha esta tendência
Esta tendência modificará os fatores tornaram-se mais confiáveis e velo- permanecerá como sempre foi: au-
de planejamento no combate mo- zes, transmitindo as informações em mento na capacidade de integração
derno, adotando parâmetros dife- tempo real, conferindo ao Coman- tecnológica pode, uma vez mais, criar
rentes daqueles observados no dante e ao Estado-Maior dados de uma falsa impressão de que a tecno-
passado. inteligência que representam uma logia avançada suplanta a capacidade
Integração Tecnológica – a inestimável ferramenta de apoio à decisória do homem.
Guerra de Napoleão introduziu um decisão. Os efeitos criados pelas três pri-
telégrafo visual chamado Chapped5 , Atualmente, a busca pela integra- meiras tendências – dispersão e le-
com a finalidade de que as ordens ção tecnológica na condução da talidade, volume de fogos e precisão
emanadas fossem transmitidas ra- guerra terrestre é constante e em e integração tecnológica – somar-
pidamente de um extremo ao outro todos os níveis: entre os observa- se-ão e serão reforçadas pela quarta
do campo de batalha. Em condições dores avançados e os sistemas de tendência: a capacidade de pe-
ideais, as mensagens transmitidas apoio de fogo; entre os escalões su- quenas unidades em criar efeitos
pelo Exército de Napoleão poderiam bordinados e os superiores; entre as decisivos.
percorrer 200 km em aproximada- equipes de reconhecimento e o Es- Massa e efeitos – as pequenas
mente uma hora. Esta inovação con- tado-Maior; entre as equipes de unidades estarão aptas a criar efeitos
feriu a Napoleão melhor Comando e ligação; etc. A integração tecnológica decisivos nas forças inimigas de três
Controle (C2) de suas tropas. No iní- permitirá o enlace de toda a Força, maneiras:
cio do século XX, a rede de estradas em níveis não observados até hoje. ¨ A primeira é simplesmente
de ferro e o telégrafo representaram Em futuro próximo, os sistemas física e caracteriza-se pela soma dos
um marco da era contemporânea na computadorizados irão integrar a efeitos da utilização das armas
integração tecnológica. Naquela Força Naval, Aérea e Terrestre, per- individuais de infantaria, do emprego
época, o uso do telégrafo (para agili- mitindo o emprego destas como das armas coletivas e do emprego
zar as comunicações) integrado ao Força combinada, com qualidade dos sistemas de apoio de fogo
uso de redes de estrada de ferro (pa- muito superior quando comparado ao diretos e indiretos. A soma desses
ra o rápido deslocamento de grandes emprego de uma Força singular. Para efeitos permite que pequenas
contingentes de tropas) revolucionou implementar toda essa mudança unidades concentrem poder de
o C2 e a capacidade de deslocar For- tecnológica serão necessárias, como combate de grandes proporções em
ças na condução da guerra terrestre. ocorreu no passado, mudanças na pontos decisivos. Esta conclusão é

5
Gunther E. Rothenberg, “The Art of Warfare in the Age of Napoleon”.
6
Segundo a teoria de Clausewitz, fricção é àquilo que distingue a guerra real da guerra na teoria. Na teoria tudo é muito simples, mas a
realidade é bem diferente e, na guerra, a ausência de verdade e o exagero com o qual as coisas se apresentam revela-se instantaneamente.

2002 - O Anfíbio - 118


conseqüência direta das duas pri- aperfeiçoadas concomitante aos O combate terrestre mudou e é
meiras tendências, grande volume de sistemas C4I, o que permite a rápida natural que as Forças Anfíbias, como
fogos e precisão ocasionam disper- dispersão e concentração de Forças Forças de pronto emprego, estudem
são e letalidade no campo de bata- em pontos decisivos. mudanças para se adequarem à
lha, em compensação, os sistemas de Invisibilidade e detecção – no realidade do combate moderno. Por-
apoio de fogo estão se tornando cada início do século XX os movimentos tanto, novos conceitos doutrinários8
vez mais eficazes, permitindo maior eram feitos preferencialmente à noite, genéricos estão sendo analisados:
efeito destrutivo e decisivo no alvo. ou em trincheiras, ou usando a ve- Operações multidimensionais
¨ A segunda caracteriza-se pelo getação e o terreno como coberta. – o campo de batalha excedeu as
emprego de unidades integradas por A detecção era feita de forma física tradicionais dimensões de largura,
meios de diversas naturezas. O e o limite era a acuidade visual do profundidade e altura. A zona do
Exército de Campanha, no século combatente. A inovação do uso de espaço orbital está sendo deno-
XIX, integrava toda natureza de balões em combate aliada ao uso de minada a quarta dimensão do campo
armas e foi separado fisicamente em binóculos aumentou a capacidade de de batalha. A comunicação celular
Divisões. Em seguida, a separação detecção em combate. ampliou o campo de batalha, propa-
física desceu de escalão e atingiu as Invisibilidade e detecção com- gando informações da frente de
Divisões e Regimentos, que forma- põem a última tendência que con- combate para a retaguarda. O nível
ram as Brigadas e os Batalhões, nos figurará o cenário do campo de ba- político e o nível estratégico-militar9
mesmos moldes de emprego da 2ª talha moderno. Atualmente, o uso de podem acompanhar e interferir dire-
Guerra Mundial. Atualmente, as pe- medidas eletrônicas permite que tamente em nível operacional e, até
quenas unidades incorporam, em uma Força se torne invisível para o mesmo, em nível tático. Invisíveis
uma única estrutura, componentes inimigo, concomitante com o au- ondas de guerra eletrônica impreg-
de diversas naturezas. Esta estrutura mento de sua capacidade de detec- nam as comunicações no espectro
denomina-se Força-Tarefa 7 (FT) e ção. Paulatinamente, a tecnologia eletromagnético, buscando neutra-
é capaz de empregar os sistemas de avançada e os sistemas de inteli- lizar e monitorar o sistema C4I ad-
fogos diretos e indiretos. Quando gência continuarão a se aperfeiçoar, versário.
dotada de aeronaves de asa fixa e tornando o campo de batalha cada Operações cirúrgicas e sin-
rotativa, caracteriza-se pelo alto vez mais transparente para nossas cronizadas – precisão e sincroniza-
grau de mobilidade e grande poder Forças e mais obscuro para o ini- ção são vitais no campo de batalha
de combate. A FT com o auxílio de migo. Medidas preventivas irão con- moderno. O ataque de diversos sis-
dados de inteligência pode ser em- figurar este cenário, que inclui siste- temas de armas, executado com
pregada de forma eficaz no campo mas de alerta antecipado para o
de batalha, obtendo resultados de- posicionamento de Forças durante
cisivos. as crises.
¨ A terceira caracteriza-se pelo Todas essas medidas concorrem
emprego das manobras táticas ofen- para a dissuasão, que tem relação
sivas. Inicialmente, a manobra era direta com a tecnologia avançada e
simples resultado de esforço físico (a com a habilidade de empregá-la, em
pé e a cavalo). As inovações dos sis- condições adversas.
temas de armas terrestres, dos meios
de apoio aéreos e da proteção blin- Os Novos Conceitos
dada, permitiram que as unidades Doutrinários Genéricos
fossem capazes de executar diversos Decorrentes das O nível político e o nível
tipos de manobras ofensivas. Gra- Inovações estratégico-militar podem
interferir no nível operacional e
dualmente, as manobras estão sendo Tecnológicas até no nível tático.

7
A Força-Tarefa possui conceito semelhante ao de Organização por Tarefas, adotado no CFN.
8
David Alexander, “Tomorrow’s Soldier”, 1999, 45 e 46.
9
Os níveis de condução da guerra são: o político, o estratégico-militar, o operacional e o tático.

2002 - O Anfíbio - 119


agressão e precisão, de maneira sin- o emprego de uma Força Singular em Comunicações digitais, imagens
cronizada, contra o Centro de Gra- nível tático, porém, acima do nível de vídeo, tela de cristal líquido e
vidade 1 0 conceituado por Clau- operacional, predominará o planeja- equipamentos de visão noturna per-
sewitz, será essencial para alcançar mento integrado das Forças. O pla- mitirão que o combatente terrestre
a vitória. O propósito é evitar o en- nejamento e as ações no campo de obtenha uma noção precisa do cam-
gajamento decisivo com o inimigo, batalha estarão direcionados para um po de batalha nos mais diversos
derrotando-o com o mínimo de per- objetivo estratégico-militar comum. ambientes, contribuindo em sua ca-
das para as nossas Forças. Sistemas Não deverá existir a predominância pacidade de decisão. O armamento
de Jogos de Guerra simularão as de um Teatro de Operações único, e o equipamento individual básico de
operações e depurarão o planeja- coexistindo ambientes aéreos, maríti- combate também devem ter seu peso
mento, visando maximizar os fatores mos e terrestres. reduzido, aumentando a autonomia
de força e reduzir as influências dos do soldado em combate. Fazem par-
fatores de fraqueza e das incertezas. O Guerreiro Cibernético te ainda as seguintes inovações:
Sensores instalados no campo po- ¨ Armamento com pontaria laser
derão mostrar a configuração do ini- Apesar de todas as inovações integrada à câmera de vídeo e
migo e avançados sistemas comu- descritas até o presente momento, dispositivos de visão térmica e ótica
nicações digitais poderão disseminar pouca tecnologia foi especificamente para o combate aproximado.
as informações no espectro eletro- implementada para as tarefas do ¨ Terminal de computador digital
magnético com eficácia. soldado de infantaria. O soldado utili- com processador, rádio, GPS e re-
Operações não-lineares e dis- za hoje, basicamente, a equipagem e ceptores de imagens.
tribuídas – os combates deverão o armamento similar aos das últimas ¨ Capacete leve balístico com
ser executados simultaneamente em décadas. A lentidão das inovações proteção ocular, monóculo de exibi-
várias partes do campo de batalha. tecnológicas para o combatente ter- ção de imagens digitais recebidas,
Não é simplesmente o emprego da restre cria exagerada defasagem en- sensores de alvos diurno e noturno e
massa, como princípio de guerra, tre a tropa e os meios que normal- máscara contra substâncias químicas
tampouco a concentração de esfor- mente apóiam suas ações em terra, e biológicas.
ços em um único ponto. As opera- especificamente em termos de leta- ¨ Colete leve de proteção e e-
ções deverão ser fluidas, com cons- lidade, sobrevivência e coordenação quipagem contra ataques conven-
tante mudança de objetivos e quase e controle. cionais e de agentes químicos ou
sempre voltadas contra o sistema Hoje existem diversos projetos biológicos.
C4I do Inimigo. Forças serão con- para sofisticar e melhorar o poder de O “guerreiro cibernético” tem co-
centradas em pontos decisivos, de combate e a sobrevivência do com- mo base o seu emprego em rede, em
acordo com a evolução tática, modi- batente. Um desses projetos futuristas nível esquadra de tiro ou grupo de
ficando, sistematicamente, o planeja- identifica-se como “guerreiro ciber- combate, sendo composto por dois
mento preconizado inicialmente. Se- nético” e estabelece três prioridades: módulos: o modulo combatente e o
rão comuns as demonstrações e fin- 1ª - prover ao combatente capa- módulo líder, que se distingue por
tas, com a finalidade de iludir o inimigo cidade de infligir maior poder de possuir rádio, painel e teclado adi-
quanto ao real propósito da operação. letalidade. cional. O módulo combatente possui
Operações integradas em uma 2ª - prover ao combatente meios rádio capaz de transmitir informações
doutrina combinada – uma dou- para aumentar sua capacidade de digitais e enviar sinais de vídeo para
trina voltada para operações combi- sobreviver, em qualquer ambiente assessorar as decisões do líder. O
nadas e conjuntas1 1 será necessária hostil. sistema empregará rede local sem fio
para o emprego vitorioso no campo 3ª - maximizar o C4I das peque- para conectar os membros das equi-
de batalha moderno. Poderá ocorrer nas frações. pes. Para os escalões superiores as

10
Centro de Gravidade - conceito emanado por Clausewitz . Define Centro de Gravidade como o ponto do inimigo onde a aplicação de força
pode produzir melhores resultados. Ponto onde a aplicação bem sucedida de Força induz ao sucesso na guerra, Isto é, atende ao propósito
político.
11
Operações Combinadas - operações realizadas pela integração de componentes de Forças singulares sob um comando único. Operações
Conjuntas - operações realizadas pela integração de componentes de Forças singulares, sem o estabelecimento de um comando único.

2002 - O Anfíbio - 120


ligações serão estabelecidas por meio grafia. O SDT terá como caracte- ração das aeronaves de asa fixa na
de sinais via satélite. Deverá contar, rística principal possuir unidades e MB. Serão previstos mísseis an-
além do sistema de localização por componentes compactos e leves, tiaéreos montados em plataforma
satélite, com um sistema de nave- principalmente, o utilizado pelo ob- veiculares.
gação inercial, este composto por servador avançado. Poderá utilizar o Jogos Didáticos – O Sistema de
bússola eletrônica e contador auto- recurso de cartas digitalizadas. Jogos Didáticos (SJD) poderá ter um
mático da distância. C4I – o C4I terá como principal grande incremento em meios de
Em breve, o nosso combatente componente o Sistema de Comu- informática, visando a sua maximi-
terá sistemas computadorizados que nicações (SC), que poderá utilizar zação como ferramenta de apoio à
permitirão aos comandantes saber recursos da fonia, de criptofonia e de decisão. A simulação deverá ser bem
precisamente sua posição, disposi- salto de freqüência. A grande ino- mais abrangente e incluir: combate
tivo e até mesmo seus batimentos vação atual em termos de equi- aéreo entre aeronaves; interações
cardíacos, dando uma completa pamentos rádios é o GPS interna- entre tropas e aeronaves; interações
dimensão do campo de batalha. mente, integrado ao rádio, possibi- entre tropas e meios navais; inte-
litando a localização e a transmissão rações entre armamento AC e CC/
O CFN, a Tecnologia e o Futuro instantânea do posicionamento do Blindados; e observação (detecção)
rádio-operador para os demais assi- de pontos de passagens e de OT.
Neste contexto de combate mo- nantes da rede. O SC será provido Demais inovações poderão ser
derno, o CFN está desenvolvendo de capacetes com alto-falantes e implementadas do tipo: navegadores
sua doutrina e equipando-se com microfones, permitindo liberdade de Internet/Intranet; diversos am-
sistemas computadorizados de alta para o combatente em utilizar o seu bientes operacionais (ribeirinho, ur-
tecnologia. O surgimento das pu- armamento individual. Contará com bano, campo, montanha, selva e
blicações da série CGCFN, coleção terminais de computador para etc.); regras de engajamento; guerra
de manuais doutrinários do Corpo de comunicações digitais, utilizará o eletrônica; etc.
Fuzileiros Navais, alicerçaram e recurso de cartas digitalizadas e das Simuladores – a utilização dos
padronizaram os conceitos minis- comunicações via satélite. simuladores deverá ser maximizada
trados nos Centros de Instrução e Guerra Eletrônica – o Sistema com as mais diversas finalidades.
Escolas, permitindo uma linguagem de Guerra Eletrônica (SGE) poderá Serão utilizados simuladores para
única e elucidando as diversas formas contar com processadores potentes, todos os tipos de sistemas, princi-
de emprego dos Grupamentos Ope- capazes de executar a varredura do palmente, os que utilizam mísseis
rativos de Fuzileiros Navais. A série espectro eletromagnético com grande como munição, pois avaliam o de-
CGCFN, os sistemas computa- rapidez e possibilitar a marcação da sempenho do atirador com custo
dorizados e os sistemas de armas posição inimiga instantânea e au- mínimo.
incorporados possibilitaram manter o tomaticamente. Os postos de inter- A tropa de infantaria utilizará um
CFN em consonância com as mu- ferência operarão com alta potência simulador laser para as armas de
danças impostas pelos recentes para a ação de interferência das infantaria, que permite o adestra-
episódios da história militar. comunicações inimigas. O SGE po- mento da tropa de Fuzileiros Navais,
Para o futuro, em termos de derá ser composto por unidades pela simulação de combate real nos
tecnologia, o CFN poderá dotar suas veiculares e equipamentos portáteis, mais diversos ambientes operacio-
unidades com as seguintes confi- possibilitando seu uso nos mais nais. O sistema consiste de suspen-
gurações genéricas de sistemas diversos ambientes operacionais, e sórios com sensores para os comba-
computadorizados: utilizar o recurso de cartas digita- tentes e sensores removíveis para as
Artilharia – poderá contar com lizadas. viaturas leves e CC. O sensor ao ser
um Sistema de Direção de Tiro Artilharia Antiaérea – o atingindo por feixe laser coloca o
(SDT) com um potente processador, Sistema Antiaéreo (SAAe) poderá soldado na condição de “morto” ou
capaz de executar rapidamente os ser expandido e totalmente integrado “ferido”, e a viatura indisponível, não
comandos de tiro para os seus arma- por meio de comunicações digitais. permitindo mais a sua utilização. O
mentos. Atuará no C2, na coorde- Esta expansão deverá contar com simulador permite o registro de dados
nação do apoio de fogo e na topo- inovações devido a recente incorpo- para posterior avaliação. É capaz de

2002 - O Anfíbio - 121


simular o emprego de minas, de essência da guerra. A tecnologia As incorporações dos sistemas
artilharia e de canhão, com efeitos avançada contribuirá fortemente para computadorizados que está ocorren-
pirotécnicos para maior realismo. a vitória, porém, em iguais condições do no CFN são mais do que simples
de tecnologia prevalecerá a enge- substituições de equipamentos, essas
A Tecnologia, a Origem e a nhosidade do combatente. simbolizam a integração do CFN a
Natureza da Guerra esta “revolução tecnológico-militar”
Considerações Finais e visa prepará-lo para absorver o
Para a condução do combate processo que está em andamento em
terrestre no futuro, ocorrerão muitas A Estratégia1 2 é a arte de dispor termos de sistemas computadoriza-
inovações tecnológicas, porém, os as batalhas para a consecução do dos no campo de batalha moderno.
estrategistas não apostam em mudan- objetivo político-estratégico e a Tá- Esta “revolução” não é composta so-
ças nas origens e na natureza da guerra. tica é a arte de dispor forças para a mente pela incorporação de equi-
A origem da guerra não deverá batalha. Entretanto, as batalhas de- pamentos computadorizados de
sofrer mutações. Os povos, líderes e vem ter como propósito mais amplo última geração, encontra-se com-
as nações guerrearão, dentre outros a vitória, ou de outra forma todo es- pactuada com uma série de modifica-
motivos, como resultado da inveja, da forço despendido no campo de bata- ções no CFN. A importância da
ambição, da cobiça e da vingança. lha terá sido em vão, sendo assim, a informática para o emprego operativo
Usarão o que possuem de mais forte Estratégia depende da tecnologia do CFN se traduz pela incorporação
em termos de poder de combate por indiretamente, por meio da Tática. desses sistemas computadorizados
não conseguirem atingir seus objetivos A avançada tecnologia introduziu que trazem: mudança na mentalidade
por outros meios. Em outras palavras, uma nova dimensão à incerteza da do Fuzileiro Naval, que necessitou se
as pessoas lutarão por que não guerra. No século XIX, os planeja- especializar e maximizar o seu grau
conseguiram atingir seus desejos mais dores militares consideravam as ar- de profissionalismo; otimização dos
fundamentais. mas existentes quase como um dado sistemas de apoio de fogo, que au-
Sua natureza permanecerá imutá- fixo. Hoje em dia, ao contrário, o pla- mento de precisão e na rapidez para
vel. Incerteza, ambigüidade, fricção, nejador deve considerar todas as va- a execução dos fogos; implemen-
perigo e medo, da mesma forma que riantes e, principalmente, a tecnologia tação da sistemática de ferramentas
a liderança, a coragem, o sacrifício e que o inimigo detém. Cada uma das de apoio à decisão, que pode depurar
a honra, estarão presentes no campo cinco tendências descritas neste o planejamento, maximizar os fatores
de batalha do futuro. Morte e des- artigo, decorrentes das inovações de força e reduzir as influências dos
truição continuaram a dominar no tecnológicas, é importante por si só fatores de fraquezas e das incertezas;
campo de batalha moderno da mes- para a condução do combate terres- eficácia dos sistemas C4I dos Gru-
ma maneira que no passado e a tec- tre. Entretanto, o impacto e a sinergia pamentos Operativos de Fuzileiros
nologia avançada e os sistemas criada por estas tendências integra- Navais para a realização de Opera-
computadorizados servirão somente das está implementando significativas ções Terrestre de Caráter Naval, que
para maximizar seus efeitos. mudanças na doutrina, na tática, na auferiu um avanço sem precedentes.
O combate moderno permanece- organização das Forças, nos equi- Entretanto, independente dos
rá com a mesma essência: guerra é pamentos e nos métodos de C4I das sistemas computadorizados e sis-
ciência e arte, e sem a engenhosidade unidades para a condução do temas de armas empregados no
do homem não é possível obter re- combate terrestre. Essas projeções combate pelo Fuzileiro Naval, a
sultados positivos no combate. A tec- identificadas para cada uma dessas origem e a natureza da guerra perma-
nologia avançada será importante, tendências não são meras especula- necem e permanecerão imutáveis. A
mas não o suficiente, pois, continuará ções ou previsões, são fatos com- guerra é ciência e arte e como tal, a
a prevalecer o lado subjetivo da provados por meio de episódios engenhosidade do homem é que
guerra. Criatividade, intuição, lide- históricos e pelos sistemas computa- possibilitará vencer no campo de
rança, motivação e capacidade de dorizados avançados em uso nas batalha de hoje e do futuro. Portanto,
decisão sempre irão fazer parte da diversas Forças Armadas. criatividade, intuição, liderança e
12
Definições de Clausewitz _ general prussiano, teórico da guerra e defensor da concepção capacidade de decisão serão sempre
que colocava os valores morais acima das forças materiais, segundo sua teoria, a guerra não imprescindíveis, independente da
pode ser considerado um fato isolado na história, uma vez que ela está estritamente ligada à
consciência do povo. época e da tecnologia utilizada.

2002 - O Anfíbio - 122


TRAFALGAR, ÜLM E MIDWAY
UMA ANÁLISE ESTRATÉGICA
OPERACIONAL
CF(FN) J OSÉ CIMAR RODRIGUES PINTO

INTRODUÇÃO envolverão uma certa futurologia quena amostra subsídios que pos-
Em trabalho publicado ante- do pretérito, conforme a expressão sam contribuir para uma estraté-
riormente nessa mesma revista(1) do General Sérgio Coutinho, na gia operacional brasileira.
teve início uma aproximação com medida em que expandem as op-
o tema estratégia operacional ções adotadas na época para con- RESUMO DOS
(EO). O presente artigo pretende siderar outras alternativas e seus PRINCIPAIS CONCEITOS
dar continuidade às idéias apresen- possíveis resultados. As noções ANTERIORMENTE
tadas sobre o assunto, dessa vez, consideradas como essenciais para APRESENTADOS
por meio de três exemplos históri- a abordagem da EO e constantes
cos, os quais procuram dar um no resumo, entretanto, não esgo- A estratégia operacional, dentre
caráter mais prático àquelas for- tam os conceitos que podem ser as várias perspectivas estratégicas,
mulações teóricas. nela inseridos. Algumas são cita- é a maior herdeira do significado da
Os exemplos históricos consta- das, como as próprias concepções, estratégia clássica. Desde a Antigüi-
rão de duas articulações estraté- as alternativas de um dilema e as dade, diz respeito ao preparo e ao
gicas operacionais navais (EON) assimetrias. Muitos não são, uma emprego dos meios para alcançar fi-
e uma articulação estratégica vez que as suas inclusões sobrecar- nalidades de caráter político.
operacional terrestre (EOT), estan- regariam demasiadamente a aná- Para CLAUSEWITZ, a estraté-
do representados pelos eventos que lise dos eventos históricos. Nada gia (operacional) é o “uso dos enga-
culminaram com a Batalha de impede, todavia, que o leitor co- jamentos para o propósito da guer-
TRAFALGAR, com a derrota dos nhecedor de outros conceitos de ra” e a tática é “o uso das forças ar-
austríacos em ÜLM e com a Bata- interesse(2) para a EO venha a utilizá- madas nos engajamentos”, tanto o
lha de MIDWAY, escolhidos em face los nas suas próprias análises. aceitando quanto o negando. A defi-
dos seus conteúdos didáticos. Outro aspecto importante a res- nição (adaptada) de tática é: o uso
Antes da explanação dos casos, saltar nas análises, diz respeito à dos meios nos engajamentos (com-
será apresentado um resumo dos equivalência adotada no artigo an- bates/batalhas). A estratégia opera-
principais conceitos expostos no terior, sem caráter rígido, entre a cional, então, é aquela que faz uso
artigo anterior, assim como, será estratégia operacional e a mano- das táticas(3) – (stricto senso) (4) – e
abordada a questão das interferên- bra estratégica operacional (MEO)
cias mútuas entre as denominadas e entre as táticas e os esforços es- (1)
Revista O ANFÍBIO, n o 20.
concepções e as perspectivas, vi- tratégicos operacionais (EEO). Ao (2)
São encontrados, por exemplo, na “Joint
Pub 7 – Operational Art” (T.A.): Sinergia, Si-
sando a facilitar a leitura do pre- realizar a leitura das análises, en- multaneidade e Profundidade, Equilíbrio de
sente artigo. Os argumentos que tão, poderá ser extraído um enten- Forças, Alavancagem da Força, Oportunidade
levaram à síntese constante do re- dimento paralelo entre esses con- e Ritmo, Alcance e Abordagem, Forças e Fun-
ções, Articulação, Centros de Gravidade, Apro-
sumo encontram-se naquele arti- ceitos equivalentes, considerando- ximação (Direta x Indireta), Locais Decisivos,
go e, embora não sejam essenciais, se a EO e a(s) tática(s) representadas Culminância e Terminação. Devem ser consi-
são importante base para o enten- (operacionalizadas) na MEO e nos derados como uma prova “dos nove” à solu-
ção obtida pelo Processo de Planejamento
dimento deste tema. EEO ou vice-versa. Militar (PPM).
Após a apresentação dos casos Ao final do presente artigo, será (3)
Entendidas como os engajamentos, os com-
históricos, será efetuada a análise feita uma conclusão, na qual pro- bates e as batalhas. Neste texto, sempre que
citada, obedece a esta noção.
de cada um deles, a partir dos fa- curar-se-á sintetizar as principais (4)
A noção de tática, lato senso,corresponde a
tos relatados e em face dos elemen- lições extraídas das análises e, ao qualquer procedimento em face do inimigo
tos teóricos apresentados, as quais mesmo tempo, extrair dessa pe- (real ou virtual).

2002 - O Anfíbio - 123


de suas vitórias para obter o propó- novo fator que pode ser inserido na tático, devendo tal entendimento es-
sito (político) da guerra. articulação EO e considerado como tar inserido na articulação EO. Em
A EO trata do que cerca a(s) tá- mais um engajamento (tática). A caráter genérico, a identificação do
tica(s) e visa aquém e além da pri- ótica da fraqueza é apresentada por CG, no âmbito EO, deverá procurar
meira batalha, onde a dimensão tem- ser a de resolução mais difícil, den- características militares no mesmo e
poral tem a mesma importância da tre as combinações possíveis entre contribuir para a EO como um todo,
espacial, utilizando o espaço para ob- a força e a fraqueza. particularmente na orientação dos
ter tempo e vice-versa, resultado da A MEO operacionaliza os efei- EEO e da MEO, devendo servir para
possibilidade de articular de forma tos desejados da política com o es- alcançar as finalidades políticas da
planejada, seqüenciada em simulta- tabelecimento de objetivos estra- guerra.
neidade e sucessividade, a ofensiva, tégicos operacionais (OEO). É de- Outro importante conceito a con-
a defensiva, o retardamento, a fixa- composta nos EEO, os quais visam siderar diz respeito à noção de vul-
ção e a manutenção de reservas, en- a alcançar tais objetivos. Para cada nerabilidade crítica. O conceito
tre outras, induzindo dispersão para OEO, sem caráter rígido, é realiza- desenvolvido pelos norte-americanos
obter concentração (tática e estra- do um esforço. Os EEO, normal- complementa a noção de CG, uma
tégica) e visando a um fim. Essa arti- mente, são consubstanciados nas vez que uma vulnerabilidade crítica
culação da EO contém, intrinseca- táticas (engajamentos, combates e está diretamente relacionada com
mente, a dissimulação e a surpresa e batalhas) e, ainda, são decompos- o(s) CG(s) visado(s) e, somente é
é consubstanciada na MEO. Tal arti- tos em ações táticas (dar comba- uma vulnerabilidade crítica, caso afete
culação pode ser concebida para te) – constituídas pelas operações e o CG. Ambos os conceitos, de CG
um evento único ou cuja continui- ações de guerra (navais, aeroes- e vulnerabilidade crítica, são impor-
dade imediata deriva dele, diferen- paciais e terrestres) – ou omissões tantes balizas para orientar a EO, no
temente da sua essência, situação na táticas (negar combate). A estra- sentido de protegê-los ou atingi-los,
qual aproxima-se das concepções tégia operacional combina táticas e devem ser considerados no esta-
da blitzkrieg e da guerra de ma- da mesma forma que a tática com- belecimento dos objetivos/ esforços.
nobra. bina as armas (suas possibilidades O espaço natural onde se desen-
A presente EO privilegia a pos- e limitações) nas ações, nas nega- cadeia a atividade estratégica ope-
sibilidade do detentor da superiori- ções às ações e nas operações de racional, sem caráter rígido, é o dos
dade em meios totais (potencialmen- guerra. Teatros de Operações (TO), onde o seu
te superior) vir a ser derrotado pelo A noção clausewitzeana de Cen- comandante operacionaliza os obje-
adversário potencialmente inferior, tros de Gravidade (CG) em muito
de forma planejada, na medida em auxilia na formulação da EO, mais
que este último, por meio da MEO, particularmente na atividade funda-
(5)
pode obter a superioridade tática, mental de designar objetivos e orien- Um exemplo pode ser encontrado na EO de
MAO TSÉ TUNG, o qual utilizava diversas
em parcelas, manipulando espaço, tar esforços. Para CLAUSEWITZ os colunas (normalmente 5) em avanço ofensivo;
tempo, indução de dispersão(5) e CG são “o centro de todo o poder e em seguida aplicava as “retiradas centrípetas”
obtenção de concentração. Nesse movimento, do qual tudo depende”. das colunas, para finalmente aplicar (na tática)
cinco contra um do inimigo atraído pela apa-
sentido, a capacidade de obter con- Em sua obra inacabada, CLAUSE- rente fuga.
centração tática e estratégica dos WITZ refere-se, inicialmente, ser a (6)
Sobre os CG, ora afirma que o mesmo “en-
meios, principalmente com o primeira tarefa no planejamento de contra-se sempre onde há maior concentração
de tropa”, ora que é a capital (nos países sujei-
preposicionamento, representa as- uma guerra “identificar os centros de tos à luta interna), os exércitos dos países pa-
pecto fundamental na obtenção das gravidade do inimigo e, se possível, trocinadores (dos países pequenos e depen-
vitórias táticas e das finalidades po- reduzi-los a um só” (6). O conceito dentes), a comunidade de interesses (das alian-
ças), a personalidade dos líderes e a opinião
líticas (EO). A interferência dos no- de CG abarcaria extensa explanação, pública (nas insurreições populares) (6). Ape-
vos meios (como a bomba nuclear merecendo artigo à parte, entretan- sar de marcadamente EO terrestre (T), o livro
tática), capazes de obter os resul- to, para não deixar o tema em aber- de CLAUSEWITZ sobe algumas vezes para
níveis mais altos da estratégia, podendo-se
tados semelhantes aos alcançados to, entende-se que pode haver CG(s) depreender que a primeira referência é tática e
por grandes enfrentamentos, não al- político (em todos os desdobramen- EOT, sendo as demais pertencentes ao campo
terou essa noção, apenas incluiu um tos), estratégico operacional e, até, estratégico político.

2002 - O Anfíbio - 124


tivos políticos/militares, tornando-os versos vetores, concatenando-os por FRE) da ação direta (CLAUSE-
objetivos táticos, encadeados na(s) meio de operações tridimensionais, WITZ) e da aproximação indireta
campanha(s). O teatro pode ser, por contínuas e simultâneas. Na década (LIDDEL HART); a estratégia da
enquanto, preponderantemente naval de setenta, os EUA adotaram a con- ação indireta, da lassidão e da dis-
ou terrestre. Em qualquer caso, a EO cepção soviética e, mais recentemen- suassão (BEAUFRE); a batalha de-
integra as diversas ações (de guerra e te, estenderam o campo de batalha cisiva (MAHAN), a “jeune école”
operações) ou omissões táticas das para uma profundidade de até 500 (AUBE), a esquadra em potência, o
forças singulares. km. O sucesso geral depende da ca- bloqueio; a guerra de atrito e de ma-
Conforme ainda a lição dos sovié- pacidade de integrar a tática, a estra- nobra.
ticos, a EO exige que, no mínimo, o tégia e a logística. Como exemplo, São consideradas como perspec-
profissional militar identifique os ob- na Guerra do GOLFO, o planejamen- tivas: políticas estratégicas – a nacio-
jetivos estratégicos operacionais, vi- to logístico obteve tal eficácia, con- nal (total), a diplomática, a econô-
sualize o teatro em três dimensões(7) tornando as imposições dos pontos mica, a psicossocial (informacional),
e determine a seqüência de ações culminantes da ofensiva(8), com o a científica e tecnológica e a militar.
militares para alcançar tais objetivos. preposicionamento, em profundida- A perspectiva militar se desdobra
Aos Comandantes de Teatro, por- de, de entrepostos logísticos capa- nas perspectivas estratégicas naval,
tanto, cabe a concepção, o desenho, zes de manter a continuidade da ofen- terrestre, aeroespacial e operacional.
o vislumbre, a distribuição dos mei- siva. A EO, como corte horizontal na ver-
os e a atribuição dos objetivos aos As noções introduzidas neste tra- ticalidade das perspectivas estraté-
subordinados, entre outras atividades, balho somente ganham alcance com- gicas singulares, integra essas pers-
cuja estratégia consiste na articula- pleto quando compostas com o Pro- pectivas estratégicas (naval, terres-
ção das táticas, aplicando-as, com cesso de Planejamento Militar tre e aeroespacial), no segmento on-
vantagem, em locais (CG) e momen- (PPM), o qual permanece como a de há preponderância do emprego,
tos decisivos, planejados para obter ferramenta fundamental
vantagem e com a máxima potência, para a solução dos pro-
sobre as maiores vulnerabilidades do blemas militares.
oponente, de forma a obter os efei-
tos desejados da política. O valor AS
estético atribuído a sua concepção PERSPECTIVAS
poderá (vir a) ser reconhecido como E AS
arte. Entretanto, vale ressaltar que CONCEPÇÕES
arte é um resultado e, portanto, não
pode receber esta denominação a No artigo anterior
priori. Embora possa ser ensinada, foram citadas superfici-
não guarda relação direta com o almente as concepções.
aprendizado ou a inteligência-cog- Todavia, as concepções
nitiva, emocional ou psicomotora – interferem com as pers-
de quem a aplica, sempre foi privilé- pectivas e, por isso,
Fig. 1
gio de quem possui dom – uma mis- faz-se necessário abor-
tura dessas inteligências voltada para dar o tema. A presente
uma ou mais atividades. abordagem do assunto não tem a ve- ou seja, onde há a necessidade de
As concepções (EO) geométricas leidade de adentrar no terreno alcançar as finalidades políticas por
do “ponto único” e da “linha contí- polêmico das divisões da estratégia, meio da operacionalização das mes-
nua” tenderam a ser ultrapassadas, apenas pretende delimitar o campo
embora a história seja eternamente de interesse do tema.
recorrente. A concepção EOT so- São consideradas como concep- (7) N.A. - A terceira dimensão deverá incluir,
viética, por volta da década de vinte, ções, entre outras: a estratégia geo- caso
(8)
necessário, a profundidade submarina.
Clausewitz – Situação na qual decresce a
alterou tais concepções para inserir, métrica (VON BÜLOW); as estraté- capacidade ofensiva, em virtude de diversos
em profundidade (até 300 km), di- gias diretas (denominadas por BEAU- fatores, entre os quais o logístico.

2002 - O Anfíbio - 125


mas em objetivos militares (v. Fig. 1). damentos da ofensiva e da defen- luta contra NAPOLEÃO e, em co-
Caso haja marcada preponderân- siva (9) e tantos outros que permeiam
ordenação, com a perspectiva (po-
cia de um dos meios, poderá vir a a atividade militar. lítica) estratégica militar (naval)
ser uma perspectiva EO que leve o Para o interesse deste artigo, im-
bloqueou os portos sob o controle
nome desse meio, como a perspec- porta considerar a relevância que to-
francês no continente Europeu, inter-
tiva EO naval (N), significando que dos esses modelos têm para as di- ferindo com o comércio marítimo;
se restringe ou tem preponderância versas perspectivas, nas quais po- dentro da perspectiva (política) es-
do segmento naval e, subsidiaria- dem ser inseridos harmonicamente, tratégica militar, em coordenação
mente, permitindo abordá-la sob es- como ocorre, por exemplo, com com seus aliados planejou atacar a
se nome em fatos históricos anterio- uma EON onde o bloqueio, a bata- FRANÇA, simultaneamente, a par-
res ao advento dos meios aeroes- lha decisiva, a esquadra em potên- tir de várias frentes, com efetivos dos
paciais. Por último, considera-se tam- cia, a poeira do mar, a guerra de países continentais que superavam
bém como perspectiva, a tática. atrito e a guerra de manobra, ape- 500 mil combatentes e, em seu des-
Ressalta-se que as concepções nas para citar algumas, podem ter dobramento na perspectiva estraté-
originam-se de fatos históricos, ocor- que conviver. Uma determinada gica operacional (preponderante-
ridos em enfrentamentos anteriores, perspectiva deverá traduzir a ação mente naval), conforme já ex-
que se configuraram em modelos de visualizada por meio de um concei- plicitado, mantinha o bloqueio dos
sucesso e não apenas em rótulos. to, o qual pode vir expresso em uma portos continentais e buscava um
Por exemplo, a concepção da bata- doutrina, uma diretriz, um conceito desfecho naval para o impasse, im-
lha decisiva origina-se da tradição estratégico, de operação ou de em- possibilitada que estava de contribuir,
grega do choque, por ocasião das prego, entre outras formas, o qual com tropas, para a ação estratégia
batalhas entre as falanges. Esses virá a ser, também, uma concepção dos aliados na EUROPA, em face da
modelos que representam soluções (final) que revela a maneira de solu-
ameaça de invasão em seu próprio
extraídas da história, para problemas cionar o problema visualizado. É o território. A situação das esquadras
que envolvem desde altíssima es- caso já citado da concepção estra- francesa e britânica, em março de
pecificidade até altíssima complexi- tégica operacional soviética, refe- 1805, pode ser vista na Fig. 2.
dade, são necessários, de modo que rida no título anterior. NAPOLEÃO, cujo efetivo dis-
a solução, tática ou estratégica, para ponível era de pouco mais da meta-
o problema militar apresentado, pos- TRAFALGAR (10 ) de dos efetivos aliados, estava con-
(11 )
sa se valer dos mesmos em situações Albion era victo de que, sem a derrota da sua
que se assemelham, apesar de nunca uma Esfinge principal inimiga, a sua situação no
serem iguais. Alguns desses mode- continente ficaria permanentemente
los, em face da sua consagração no O contexto que conduziu ao de- indefinida. Apenas a anulação dessa
meio militar, foram aqui chamados de senlace em TRAFALGAR era muito
concepções, seja porque já recebem maior do que o seu desdobramento
da literatura militar essa denomina- no mar. Em 1803, a GRÃ-BRETA-
ção seja para facilitar a abordagem NHA declarou guerra à França e, por (9) Vale a pena registrar que os fundamentos da
das perspectivas, uma vez que tais meio do seu Primeiro-Ministro ofensiva e da defensiva, embora menos famo-
sos que os princípios de guerra, constituem-se
enfoques apresentam visões comple- WILLIAN PITT, estabeleceu a cha- em modelos extraordinários para serem segui-
mentares sobre o mesmo tema, a mada Estratégia Periférica, a qual, dos pelos comandantes de operações terres-
guerra. entre outras, adotou as seguintes tres, podendo mesmo ser considerados como a
prova dos nove de qualquer operação militar e,
Outros modelos de sucesso, não ações: dentro da perspectiva (polí- ao contrário dos princípios de guerra, não pos-
menos importantes para a EO, ape- tica) estratégica diplomática, en- suem qualquer contradição intrínseca.
(10)
sar de não serem considerados como gendrou a chamada Terceira Coali- A parte histórica do relato baseia-se, em
grande parte, em História do Poderio Marí-
concepções, foram sintetizados da zão (com a ÁUSTRIA, a RÚSSIA, timo, de A. STEVENS e W. O & WESTCOTT,
história, como é o caso dos tipos de a SUÉCIA e alguns estados ale- Companhia e Editora Nacional, São Paulo,
operações ofensivas, das formas de mães); dentro da perspectiva (po- 1944.
(11)
Nome da BRITANIA, anterior às invasões
manobra ofensivas e defensivas, lítica) estratégica econômica, romanas (desde PTOLOMEU), e da nova clas-
dos princípios de guerra, dos fun- apoiou economicamente os países em se de NDD britânicos.

2002 - O Anfíbio - 126


cisiva, podendo
persistir um misto
das duas concep-
ções. A esquadra
protegia a GRÃ-
BRETANHA não
somente contra
uma concentração
no MANCHA co-
mo, também, con-
tra incursões em
outras regiões do
seu interesse. Ao
mesmo tempo,
obrigava NAPO-
LEÃO a manter
consideráveis
efetivos na costa,
em face da amea-
ça de desembar-
que no continente,
impedindo-os de
serem utilizados na
guerra terrestre. A
esquadra francesa
mantinha-se em
potência, negan-
do combate ao ad-
versário, apesar de
mantê-lo disperso
pela sua própria
dispersão.

O Gênio
enfrenta a
Esfinge

O Plano de Na-
ameaça permitiria o pleno desenvol- costa do continente europeu. A ar- poleão para enfrentar o desafio im-
vimento dos seus planos em terra. ticulação EO (N) britânica tinha por posto pela Inglaterra consistia na sua
Entretanto, para alcançar a GRÃ- finalidade impedir a concentração invasão por um exército de 130 mil
BRETANHA, o Imperador sabia francesa para a travessia do canal homens, 400 canhões e abas-
que deveria enfrentar a sua maior e, para tanto, adotou a concepção tecimento para 20 dias. O embarque
defesa, a esquadra inglesa, em uma do bloqueio naval em torno dos estava previsto para ser feito em qua-
batalha decisiva, da qual sonhava sair portos onde se abrigavam os vasos tro portos da região de BOLONHA.
vencedor. de guerra franceses. Caso NAPO- A travessia seria realizada do Passo
A GRÃ-BRETANHA, por sua LEÃO decidisse levar adiante o seu de CALAIS até a costa britânica (50
vez, havia estabelecido como seu intento, tal concepção estratégica km), devendo o desembarque ser
perímetro de segurança a própria deveria evoluir para a batalha de- realizado entre DOVER e HAS-

2002 - O Anfíbio - 127


TINGS, a aproximadamente 110 km TILHAS, onde, além do próprio cançou GIBRALTAR em 5 de maio,
de LONDRES. O desafio era seme- VILLENEUVE, incluiria os navios de após informes mais precisos. Em se-
lhante ao de CAESAR e de GUI- GRAVINA (CÁDIZ), de MISSIE- guida partiu em perseguição aos fran-
LHERME, com uma grande diferen- SSY (12) (ROCHEFORT) e de GAN- ceses, chegando a BARBADOS em
ça, dessa vez existia a esquadra bri- TEAUME (BREST). Tais forças reu- 4 de junho.
tânica e, por causa dela, a expedi- nidas representariam mais de quaren- O Almirante francês, após incor-
ção deveria obter o controle do mar ta navios de linha. O plano de con- porar mais dois navios, não recebeu
a fim de possibilitar a realização da centração dos franceses, conforme o reforço da esquadra de GAN-
empreitada. Sobre o assunto, NA- admitiam, induziria a dispersão dos TEAUME, a qual jamais se fez ao
POLEÃO, em evidente arroubo, es- ingleses, uma vez que os mesmos, mar, comprimida pelo bloqueio de
creveu a LATOUCHE TRÉVILLE, preocupados com as suas colônias(13), CORNWALLIS e, ao mesmo tem-
então comandante da esquadra tenderiam a buscar protegê-las, fa- po, não pôde se reunir à Esquadra
francesa: “Fazei-nos senhores do es- cilitando a consecução do intento de MISSIESSY que partira em con-
treito durante seis horas que sere- francês. Nesse sentido, o plano con- seqüência de um erro de transmis-
mos senhores do mundo”. tinha em si mesmo dissimulação e são das inúmeras ordens de NA-
Do ponto de vista EO, todas as surpresa. POLEÃO. Nesse ínterim, recebeu
combinações de NAPOLEÃO para a notícia da chegada de NÉLSON
a invasão da Inglaterra convergiam A Esfinge no seu encalço, ocasião em que de-
para a concentração da esquadra devorou o Gênio, cidiu regressar à EUROPA, em 9 de
francesa no Canal da MANCHA e no mar junho, esperando prosseguir com o
para uma batalha decisiva. O primeiro seu projeto, juntando-se à Esqua-
plano consistia em LATOUCHE VILLENEUVE conseguiu o seu dra de FERROL.
TRÉVILLE escapar do bloqueio de intento de rumar para as ANTI- NÉLSON regressou ao MEDI-
NÉLSON em TOULON, reunir LHAS. Partiu a 30 de março de TERRÂNEO e enviou um navio à In-
mais alguns navios no caminho e pe- 1805, incorporou parte da esquadra glaterra, o qual, deparou-se com a es-
netrar no Canal com pelo menos 16 de GRAVINA, em CÁDIZ (sendo quadra francesa a 300 milhas do con-
navios de linha, enquanto GAN- que os demais navios logo o seguiri- tinente, navegando em direção a
TEAUME fixava CORNWALLIS am) e causou forte emoção no Almi- FERROL. Lorde BARHAM, Primei-
deixando seu porto. Essa manobra de rantado Inglês ao irromper no ro-Lorde do Almirantado, ao tomar
GANTEAUME se afigurava possível ATLÂNTICO. Ao final reunia 18 conhecimento do fato, em 9 de julho,
em função da concepção formalista navios. Os navios ingleses que blo- determinou a CALDER que enfrentas-
da batalha naval, a qual, somente em queavam CÁDIZ dirigiram-se para se os franceses, o que foi feito em ba-
aproximações para o desfecho, po- o seu local de concentração no Ca- talha indecisa, ocorrida em 21 de ju-
dia consumir dias. Entretanto, não so- nal da MANCHA e os bloqueios de lho, próxima ao Cabo FINISTERRA.
lucionava o fato de ter que enfrentar a FERROL e de BREST foram aler- Após a batalha, as esquadras perma-
esquadra britânica na travessia do ca- tados.
nal. A morte de LATOUCHE TRÉ- NÉLSON, após suas fragatas
VILLE, o almirante francês mais com- perderem contato com VILLENEU-
petente e enérgico, em agosto de VE, estabeleceu vigilância entre a (12)
Uma pequena esquadra britânica bloquea-
1804, assim como a entrada da SARDENHA e a CÓRSEGA, uma va MISSIESSY em ROCHEFORT e, tendo
ESPANHA em aliança com os fran- vez que, subsidiariamente, tinha a ta- este escapado ao bloqueio, dirigindo-se às
ANTILHAS, foi seguido pelos ingleses, don-
ceses, desfez esse plano. refa de proteger as linhas de comu- de pode-se inferir a adoção, pelo Almiranta-
O segundo plano foi feito sob a nicação com NÁPOLES, a SICÍ- do Inglês, do modelo histórico deestabelecer
LIA e o EGITO. Tendo recebido e manter o contato (primeiro fundamento da
orientação do Almirante VILLE- ofensiva), a fim de não correr riscos.
NEUVE, o novo comandante da es- notícias do movimento da esquadra (13)
Pouco menos de trinta anos antes, um plano
quadra francesa, o qual mantinha a francesa em 18 de abril e conside- semelhante havia contribuído decisivamente
idéia de escapar ao bloqueio de NÉL- rando que não podia “correr para as para a libertação das colônias norte-america-
nas, cujo golpe fatal foi dado contra o Gene-
SON em TOULON e alterava a con- Antilhas, sem outro motivo além de ral CORNWALLIS, em CHESAPEAKE
centração da esquadra para as AN- uma simples suposição”, somente al- BAY.

2002 - O Anfíbio - 128


neceram por mais três dias à vista te as costas espanholas. A sorte no- permanente contato com os adver-
uma da outra, sem que nenhuma das vamente apresentava-se a VILLE- sários.
duas tomasse a ofensiva. Por isso, NEUVE que dela não se aproveitou, Ao constatar tal óbice aos seus
CALDER respondeu, posteriormen- uma vez que poderia ter atacado uma propósitos, NAPOLEÃO conven-
te, a Conselho de Guerra, sendo cen- ou outra das esquadras divididas, ceu-se da necessidade de enfrentar
surado por “não ter feito o possível com superioridade (29x18 ou os britânicos. Para isso, planejou a
para recomeçar o combate e destruir 29x21). Ao chegar em CÁDIZ, ime- EO, apresentada pela primeira vez na
todos os vasos inimigos”(14). NÉL- diatamente, recebeu o bloqueio da articulação que envolvia LATOU-
SON, dirigiu-se de GIBRALTAR esquadra britânica. CHE TREVILLE, dividida em três
para o Canal da MANCHA, deixan- Em 28 de setembro, NÉLSON, táticas (esforços) navais e uma ou
do com CORNWALLIS, 11 navios, de regresso da Inglaterra, assume o mais terrestres: a fixação do inimigo
aos quais foram acrescidos os navi- comando de toda a esquadra, ex- em um setor (pela tentativa de ruptu-
os de CALDER, perfazendo um to- pede o seu famoso memorando, ra do bloqueio, por GANTEAU-
tal de 39 navios sob suas ordens. com o plano de batalha, definindo o ME), a batalha na frente decisiva do
VILLENEUVE, após breve es- que ele chamava de “Nélson Touch”, Canal e, simultaneamente, com a tra-
tada em VIGO, dirigiu-se a FER- recebido com entusiasmo pelos co- vessia da esquadra, o desembarque
ROL. As ordens do Imperador eram mandantes. Em 21 de outubro de anfíbio na costa britânica; e o pros-
para que a esquadra rumasse para 1805, livra-se a Batalha de TRA- seguimento das operações terrestres
BREST e depois para BOLONHA, FALGAR, entre 40 navios britâni- até a derrota britânica.
acrescentando: “Conto com o vosso cos e 46 navios franceses e espa- Todavia, esse plano não resolvia
zelo pelo meu serviço, com o vosso nhóis, cujo resultado conhecido foi a questão do enfrentamento inevitá-
amor à pátria e com o vosso ódio a a derrota francesa e o sepultamento vel no canal, ao contrário, constituía-
uma nação que nos oprime há 40 dos planos de invasão de NAPO- se em pressuposto. Ao mesmo tem-
gerações, e que um pouco de perse- LEÃO. po, não apresentava um planeja-
verança de vossa parte pode agora mento para compensar a evidente
fazer voltar para sempre à escala das A sorte superioridade dos britânicos, induzin-
pequenas potências” Em 13 de agos- já estava do-os à dispersão para obter a ne-
to o almirante francês dirigiu-se a decidida cessária concentração. A dispersão
CÁDIZ. Reunia, então, 29 navios, francesa, efetivada por suas esqua-
aos quais vieram se juntar os 21 de A estratégia “maior” de WILLIAN dras em potência, não visava a ob-
BREST. PITT vinha dando resultados, o que tenção de concentração, sendo mais
CORNWALLIS, em 16 de agos- irritava NAPOLEÃO. Os exércitos uma medida defensiva do que qual-
to dividiu suas forças, permanecen- aliados estavam mobilizados e já ti- quer outra coisa. Assim sendo, em
do com 18 navios e determinando a nham iniciado seus movimentos para que pese o dinamismo do comandante
CALDER que permanecesse defron- cumprir a sua parte dessa estratégia. francês, suas chances eram mínimas
NAPOLEÃO sabia que uma deci- de obter resultados positivos.
são no mar, a seu favor, jogaria um O Plano de VILLENEUVE, por
balde de água fria em toda essa es- sua vez, procurava contornar tais
(14)
A confiança britânica devia-se: a melhor
tratégia. óbices evidentes. Além da adesão
capacidade combativa de seus marinheiros e A EO britânica, por sua vez, era espanhola, alterou a seqüência das
de seus navios, em realizar duasbordadaspara essencialmente naval (EON) e con- táticas, procurando primeiro a con-
cada uma dos franceses (duplicando o seu po-
der de fogo) e numa cuidadosa comparação re-
sistia em bloquear os franceses em centração nas ANTILHAS, induzin-
lativa dos poderes combatentes em termos de seus portos, enfrentá-los e destruí- do a dispersão dos britânicos, preo-
canhões. Por exemplo, cada “três pontes” de los (caso se aventurassem no mar) cupados que eram com as suas
CALDER considerava-se que valia dois “74”
dos franceses e os seis navios espanhóis não
e, aproveitando-se da ausência de colônias, ao mesmo tempo em que
valiam três dos navios de linha ingleses. Esta alternativas, em impedir a traves- dissimulava seus verdadeiros propó-
cuidadosa medida era empregada com sia do Canal da MANCHA pela sitos e podia obter surpresa. Teve,
CORNWALLIS que sempre possuía, pelo
menos, 18 navios para bloquear os 21 de
esquadra francesa. Para isso, per- pelo menos, quatro chances de di-
BREST. manecia com as suas esquadras em minuir a sua desvantagem EO: a pri-

2002 - O Anfíbio - 129


meira quando poderia ter rumado GAR, entretanto, NAPOLEÃO cap- semelhante espírito. Sempre procu-
diretamente para o Canal, enfrenta- turava aproximadamente 60 mil rava a indução da dispersão e a ob-
do CORNWALLIS com GAN- austríacos em ÜLM, vitória prati- tenção de concentração. Para isso
TEAUME ao seu lado, uma vez que camente sem luta, decorrente de a marcha dos seus exércitos era pla-
parte da esquadra britânica tinha brilhante estratégia operacional ter- nejada e, para ganhar tempo, na a-
mordido a isca das ANTILHAS, en- restre. proximação e no combate, alterou
contrando-se, portanto, dividida, e o próprio ritmo do passo dos seus
sucessivamente KEITH, caso este ÜLM soldados. No campo de batalha,
não lhe negasse combate (opção Uma Vitória apresentava-se com um quadrado
melhor para o francês). Mesmo as- com as Pernas de exércitos que utilizava conforme
sim, teria que embarcar a tropa, o que se apresentava o inimigo, para ali,
demandaria tempo e teria ainda NAPOLEÃO era um gênio mili- também dividi-lo e derrotá-lo (v. a
KEITH (caso tivesse negado com- tar em guerra terrestre. A estética das Fig 3).
bate, opção melhor para os ingleses), suas articulações EO operacionais e ÜLM é considerada como uma
NÉLSON e CALDER para enfren- as táticas utilizadas para efetivá-las das ações decisivas da campanha
tar. A segunda oportunidade de podem ser consideradas como arte realizada contra a Terceira Coalizão.
VILLENEUVE, embora menos van- (operacional). Até que seus adver- A escolha desse evento extraordi-
tajosa, ocorreu ao enfrentar CAL- sários aprendessem com ele, por nário, para fazer parte desse artigo,
DER. A terceira e a quarta ocorre- volta de 1810, foi absoluto em seus não se deve à coincidência de datas
ram por ocasião da divisão da es- mas, principalmente,
quadra de CORNWALLIS. por ser uma vitória de-
Qualquer que fosse a seqüência bitada a articulação EO
da articulação obtinha um resultado (T) de NAPOLEÃO.
semelhante em termos de oponentes Em meados de agos-
e um único lugar para encontrá-los: to, poucos dias depois
o canal da MANCHA. De tudo isso da Batalha próxima ao
devia saber VILLENEUVE, razão Cabo FINISTERRA, en-
pela qual queria deixar tudo como es- tre CALDER e VILLE-
tava antes de sair de TOULON. A NEUVE, NAPOLEÃO
sua derrota era EO e já estava confi- tomou conhecimento
gurada desde antes de deixar seu por- Fig. 3 que as tropas da Tercei-
to. Não fosse a impaciência e a ig- ra Coalizão – formadas
norância de NAPOLEÃO em assun- embates. Contrariando a tendência do por austríacos, russos e de alguns Es-
tos navais, a esquadra francesa po- ser humano para conservar, soube tados alemães independentes – con-
deria permanecer em potência (ne- criar e inovar sobre os pilares pouco vergiam para a junção no sul da ALE-
gando o combate), a GRÃ-BRETA- firmes das novas idéias da guerra de MANHA a fim de enfrentá-lo, aten-
NHA continuaria sem poder desem- sua época e, nesse campo movediço dendo aos desígnios da Estratégia
barcar no continente, até resolver o e enevoado do saber nascente, sou- Periférica. O Imperador da ÁUS-
problema do empate francês, e NA- be escolher as idéias que iriam dar TRIA decidiu invadir, preliminarmen-
POLEÃO a utilizar seu gênio no seu firmeza ao conhecimento e a prática te, a BAVÁRIA, aliada de NA-
metier, a guerra terrestre. da guerra e, principalmente, alcançar POLEÃO, tendo no comando do
TRAFALGAR foi o prelúdio da as vitórias. flanco norte de suas tropas o Gene-
grande ópera que levaria à derrota Atuava com os Corpos de Exér- ral MACK e no flanco sul o Ar-
da Terceira Coalizão. Seus efeitos, cito (CE), independentemente, arti- quiduque JOÃO, o mais novo de seus
entretanto, foram muito mais dura- culava-os para separar e dividir seus irmãos. Pressupunha que os france-
douros e tiveram conseqüências na inimigos, em batalhas sucessivas, até ses não conseguiriam reagir antes da
derrota final da política de NA- a vitória final. Este procedimento EO chegada dos russos. O total das tro-
POLEÃO, algumas coalizões de- era secundado pela aplicação das pas aliadas, naquele teatro, era de
pois. No mesmo dia de TRAFAL- táticas, nas batalhas, onde possuía aproximadamente 100 mil austríacos

2002 - O Anfíbio - 130


tropas francesas efetivaram a tra-
vessia do Rio RENO e, em 7 de
outubro, do Rio DANÚBIO.
MACK percebeu, então, o seu en-
volvimento.(v. a Fig. 5)
NAPOLEÃO enviou o I CE de
BERNADOTTE, o III CE de
DAVOUT e o Exército da BA-
VÁRIA (DEROI) para cobrir seu
flanco esquerdo, provável direção
dos russos, e o IV CE DE SOULT
para cobrir a direção de aproxima-
ção das forças sob o comando do
Arquiduque JOÃO. Então, com os
seus II, V e VI CE, a Guarda Impe-
Fig. 4
rial e a cavalaria de MURAT dire-
e 120 mil russos e um número me- tinha por tarefa, nessa fase, a reali- cionou o seu ataque contra MACK.
nor de aliados, perfazendo um total zação de ataques através da flores- Os austríacos, presos na armadilha
aproximado de 300 mil homens. No ta NEGRA, com a finalidade de des- de NAPOLEÃO, ainda tentaram
teatro ao norte da atual ITÁLIA po- pistar e fixar as tropas austríacas co- escapar através do Rio RENO, de-
sicionava-se o Arquiduque CHAR- mandadas pelo General MACK, parando-se com o VI CE de NEY,
LES, irmão mais novo do Imperador vanguarda das tropas aliadas. (v. a o qual deteve o movimento de
FRANCISCO FERDINANDO da Fig 4) MACK para o norte, recalcando-o
ÁUSTRIA, onde fazia frente ao Exér- Em 20 de setembro, a cavala- em direção a ÜLM. No dia 14 de
cito do General MASSENA. A for- ria de MURAT já estava cumprin- outubro, NEY realizou a travessia
ça que mantinha a BAVÁRIA para do a sua missão e o General MA- do Rio RENO, em ELCHINGEN,
os franceses era comandada pelo Ge- CK havia entrado no jogo de NA- dirigindo-se para a posição de
neral DEROI que, ao ser pressiona- POLEÃO. Em 26 de setembro as MACK, a fim de manter o contato
do, retraiu para o Norte.
NAPOLEÃO reagiu rápi-
do. Antes que se efetivasse
a junção dos russos e austrí-
acos, as tropas francesas,
com aproximadamente 210
mil homens, e previstas para
compor o centro e a ala di-
reita da Grand Armée du
Terre, deixaram as suas áre-
as de estacionamento no
Canal da MANCHA e inici-
aram a marcha para as suas
áreas de reunião pré-deter-
minadas, no RENO, entre
MAINZ e STRASBOURG.
A ala esquerda proveniente
de HANOVER dirigiu-se
para o WÜRTTENBERG. A
cavalaria de MURAT, à
frente de STRASBOURG, Fig. 5
2002 - O Anfíbio - 131
estabelecido, sendo que no dia 15 flancos em torno de MACK impedi- CO, cujo último herdeiro era FRAN-
de outubro alcançou as alturas de ram qualquer possibilidade de refor- CISCO FERDINANDO.
MICHELSBERG, de onde podia ço e o emprego judicioso de suas for-
divisar ÜLM. NAPOLEÃO, então, ças concedeu a NAPOLEÃO a su- MIDWAY (15)
moveu o II CE de MARMONT, perioridade necessária sobre austría- A Gibraltar
através da ponte de ELCHINGEN, co, no momento e no local decisivos. do Pacífico
de sua posse, e o V CE de LANNES A combinação espaço/tempo
para ÜLM, apertando o cerco so- permitiu a NAPOLEÃO aproximar- A relativa facilidade e o sucesso
bre MACK. se para o combate sem que o gros- obtido pelos japoneses na conquis-
Em face da derrota evidente de so do exército austro-russo pudes- ta dos seus objetivos estratégicos na
MACK, essencialmente EO (quase se interferir na sua EO. A combina- primeira ofensiva (dez41 – jan42)
ausente de combate), iniciaram-se as ção da ofensiva limitada de MURAT, fez surgir a idéia de uma expansão
negociações. Pretendendo ganhar com a possibilidade de retardamen- do perímetro conquistado, apesar
tempo, a fim de permitir a chegada tos, a serem realizados em seus do plano original ter previsto uma
dos russos e do Arquiduque JOÃO, flancos, garantia-lhe o isolamento do atitude defensiva para ele e de ne-
MACK informou aos franceses que local destinado à vitória pela ofen- nhum plano ter sido formulado para
deveria se render até o dia 25 de ou- siva geral. Não obteria este desíg- o prosseguimento das operações. O
tubro, caso não recebesse os refor- nio se não tivesse, convenientemen- argumento era a maior segurança do
ços esperados. NAPOLEÃO, em te, induzido à dispersão dos seus país, proporcionada por uma defe-
face de sua articulação EO, demons- adversários, colocando-os, de acor- sa aprofundada. Os partidários con-
trou aos austríacos essa impossibili- do com LIDDLE HART, nas alter- trários alegavam que uma nova ex-
dade, razão pela qual o general aus- nativas de um dilema, ou seja a pansão agravaria os problemas en-
tríaco rendeu-se em 20 de outubro, possibilidade de ir para qualquer lu- tão existentes (16), implicando no des-
sem luta, motivando um de seus sol- gar, ou pelo menos dois. Dessa for- vio e até na suspensão do esforço
dados a dizer que “O Imperador ga- ma obteve a necessária concentra- de prontificação das defesas.
nhou com as nossas pernas e não com ção para apertar MACK em sua O Quartel-General Imperial
as nossas armas”. tenaz. (QGI) era responsável pelo pla-
A campanha prosseguiria na bus- nejamento e a direção das operações.
A Raposa ca do objetivo político da guerra. O Estado-Maior Geral da Marinha
e o Cordeiro Diversos engajamentos foram re- (EMGM), seção do QGI, tinha a
gistrados e NAPOLEÃO, ainda, in- função, em teoria, de formular a es-
ÜLM é uma obra acabada da boa vadiu VIENA. Pouco mais de um tratégia naval. A Esquadra Combi-
EO. Precedido de informações so- mês depois, a Terceira Coalizão era nada, entretanto, muitas vezes, de-
bre os exércitos adversários, NA- derrotada fragorosamente em sempenhava um papel preponderante
POLEÃO começou a sua campanha AUSTERLITZ, privada que foi da na formulação da estratégia
visando à derrota, por partes, des- importante parcela de combatentes operacional naval, como ocorreu no
ses exércitos. Escolheu a vanguarda derrotada em ÜLM. Com ela seguiu planejamento do ataque a PEARL
deles e, em manobra magistral, iso- para o túmulo o milenar SACRO IM- HARBOR e como ocorreria com a
lou-os de suas outras partes. A mar- PÉRIO ROMANO-GERMÂNI- segunda fase da expansão japonesa,
cha dos seus CE, para as suas zonas
de reunião, não indicava os seus re-
ais propósitos, mantendo os adver-
sários convenientemente dispersos e (15) MIDWAY baseia-se nos livro A Segunda Guerra Mundial, de Raymond CARTIER, Ed.
seguros, em face da possibilidade de Primer, Rio de Janeiro; Fleet Tactics : theory and practice, de Wayne P. HUGHES JUNIOR.
MACK de retardar NAPOLEÃO 2.ed. Annapolis : Naval Institute Press, 1987; e no GT, sobre o mesmo tema, realizado na EGN-
98 tendo como componentes os CF(FN) Emanoel, CF(FN) Ivson, CC Wall, CC Kroeber, CC
até a chegada do grosso dos outros Cezar, CC(IM) Janito e este autor.
exércitos aliados. O despistamento de (16) O JAPÃO, fruto da falta de compreensão quanto às implicações logísticas de sua empreita-
MURAT permitiu, ao mesmo tempo, da, havia formulado estimativas errôneas da necessidade de navios mercantes e já tinha enorme
dificuldade para abastecer o perímetro em que se encontrava, o que era agravado pela necessida-
a fixação de seu exército e o seu de de que as matérias-primas e o petróleo tinham de ser levados primeiro para o JAPÃO – onde
envolvimento. As manobras nos eram manufaturados e refinados - para depois serem distribuídos.

2002 - O Anfíbio - 132


em ambas contrariando as intenções sembarque. O QGI, provavelmente MAR DE CORAL, dois NAe japo-
do EMGM. para não desagradar o EMGM, neses, o SHOKAKU e o ZUIKA-
O EMGM propôs, inicialmente, acolheu, também, o seu plano para KO, ficaram avariados. Os japone-
que as operações deveriam se dire- a realização das operações nas Ilhas ses acreditando que dois NAe ame-
cionar para as Ilhas SALOMÃO e a SALOMÃO e na NOVA GUINÉ. ricanos haviam sido afundados na-
NOVA GUINÉ, de posse das quais Originalmente planejadas em janei- quele embate admitiam que a pro-
poderia controlar o acesso à AUS- ro, essas operações deveriam ser le- porção de NAe, disponíveis para
TRÁLIA, bloquear suas comunica- vadas a efeito no início de março, MIDWAY, ainda lhes era muito fa-
ções marítimas e retirar a possibili- entretanto, por diversas razões so- vorável.
dade de uma base de contra-ofensi- freram atraso e, por ocasião da exe- No dia 26 de maio de 1942, a
va, a partir das mesmas. cução das mesmas, em 7 de maio, mais formidável armada da história
O plano do Almirante YAMA- ocorreu a Batalha do MAR DE naval japonesa deixou seus portos.
MOTO, ComemCh da Esquadra CORAL (17). O primeiro objetivo eram as Ilhas
Combinada, ao contrário, pretendia O comando norte-americano, ALEUTAS (ATTU, KISKA e
engajar com a esquadra norte-ame- por sua vez, havia percebido as in- ADAK) e o segundo objetivo era
ricana onde pudesse utilizar não so- tenções expansionistas dos japone- MIDWAY. Para as ALEUTAS, sob
mente seus NAe, mas, também, os ses. No PACÍFICO, um comando o comando do Almirante HOSO-
aviões baseados em terra. Para ele, combinado, chefiado pelo Coman- GAYA, foram alocados dois NAeL,
os objetivos visualizados pelo dante-em-Chefe da Esquadra do o RYUJO e o JUNYO, cinco cruza-
EMGM somente seriam alcançados Pacífico (CincPac), harmonizava as dores (C) e dois comboios de assal-
com a destruição daquela esquadra. decisões da política com a EO da- to com a ForDbq.
Para isso, visualizava conquistar a ilha quele TO. A esquadra, embora Para MIDWAY, a GIBRALTAR
de MIDWAY de onde poderia ope- inferiorizada, não havia ficado inerte, do PACÍFICO, foi designada a es-
rar suas bases aérea e naval. A cap- como demonstrara a Batalha do magadora maioria dos meios. A For-
tura de MIDWAY permitiria alcan- MAR DE CORAL. O problema ime- ça de Ataque era comandada pelo
çar os objetivos visualizados pelo diato era prever, com a máxima Almirante NAGUMO e possuía qua-
EMGM, principalmente porque pos- exatidão possível, qual o próximo tro NAe – o AKAGI, o KAGA, o
sibilitaria a realização de uma bata- movimento do adversário, após a HIRYU e o SORYU – dois Encou-
lha decisiva, em condições favoráveis Batalha do MAR DE CORAL. Com raçados (E) e 12 contratorpedeiros
ao JAPÃO. Subsidiariamente, visua- a descoberta do sistema de código (CT). Era capaz de lançar 250 avi-
lizava, ainda, invadir as Ilhas ALEU- japonês, os norte-americanos soube- ões. Possuía missão com tarefas que
TAS, que, além de ser “uma espada, ram que o próximo objetivo seria exigiam escolha: neutralizar MID-
apontada diretamente para o cora- MIDWAY (assim como haviam sa- WAY e destruir a esquadra norte-
ção do JAPÃO”, atrairia forças nor- bido da operação que levou à Bata- americana (esta última com priorida-
te-americanas para a sua defesa. lha do MAR DE CORAL) e prepa- de sobre a primeira se a esquadra
O referido plano foi acolhido ime- raram-se para deter os japoneses, estivesse por perto) para permitir o
diatamente pelo QGI, notadamente reforçando as defesas da ilha com desembarque e a conquista da ilha.
pelo Estado-Maior Geral do Exér- navios, tropas e aviões e não permi- É verdade que, por ocasião da reali-
cito (EMGE), uma vez que as ope- tindo que os japoneses se aprovei- zação de jogos de guerra, foi verifi-
rações em MIDWAY-ALEUTAS tassem do princípio da surpresa. cado que o Plano não reagia bem à
seriam predominantemente navais e De acordo com o planejamento possibilidade da esquadra norte-
o Exército teria que fornecer ape- japonês, todos os navios deveriam americana interferir com o desembar-
nas uma pequena parcela de tropas participar da operação em MID- que em MIDWAY. Confiantes na sur-
para reforçar as forças navais de de- WAY, porém, após a Batalha do presa, os japoneses concluíram ser

(17)
Primeira batalha naval da história sem enfrentamento direto de navios, apenas de aviões. De resultado tático favorável ao JAPÃO, recebeu da
história, posteriormente, a consagração como vitória estratégica norte-americana, uma vez que marcou o primeiro limite à expansão japonesa, logo
seguida das vitórias norte-americanas em MIDWAY e em GUADALCANAL que inflexionaram a balança a favor dos norte-americanos.

2002 - O Anfíbio - 133


possível atender ao cumprimento da JOISHI informou: “Necessário se- para um segundo ataque a MID-
primeira tarefa. gundo ataque...”. WAY. Na dúvida determinou a subs-
O Corpo Principal da esquadra Às 0710h os bombardeiros nor- tituição dos torpedos por bombas.
era composto por 7 E, o NAeL HO- te-americanos baseados em terra e No HIRYU e no SORYU, onde a
SHO, 2 Porta-Aviões (como Ten- previamente afastados da área de ordem demorou a ser cumprida, ain-
ders), 3 CL, 2 divisões de CT e na- combate, guiados pelos hidroaviões da estavam 42 Bombardeiros, arma-
vios transporte de hidroaviões. A PBY, realizam seu ataque à esqua- dos de torpedos, a espera de um si-
Forca-Tarefa Anfíbia foi subdividi- dra japonesa, sucessivamente e não nal para decolar. O respeitado Con-
da em um grupo de cobertura, um simultaneamente como o planejado. tra-Almirante (CA) YAMAGUCHI,
grupo de apoio direto, um grupo de NAGUMO com seus ZEROS, suces- do HIRYU, sugeriu atacar a esqua-
desembarque, um grupo de transpor- sivamente, neutralizou o ataque. dra norte-americana, com os aviões
te de hidroaviões e um grupo de Às 0715h, sem alerta sobre pre- disponíveis. Os caças de regresso de
caça-minas. Possuía 2 E, 1 NAeL, 9 sença inimiga dos NAe, NAGUMO MIDWAY apontavam no horizonte
C, 20 CT e navios de Tr e Ap. determinou que os 93 bombardeiros, e os caças de proteção, também,
Os quadros abaixo apresentam os em reserva, descessem para os seus solicitavam pousar pois estavam sem
principais elementos combatentes. hangares a fim de receber os aviões combustível. GENDA, o CEM de
No dia 4 de junho, às 0430h, NA- de regresso de MIDWAY. Às NAGUMO, sugeriu reabastecer pri-
GUMO deu a ordem de ataque so- 0728h, o hidroavião que partiu atra- meiro, para atacar com todas as for-
bre MIDWAY para os seus aviões. sado para o seu reconhecimento aé- ças depois. Às 0820h, pela primeira
Permaneceram, em reserva, torpedei- reo, reportou a presença da esqua- vez, o piloto do hidroavião informou
ros e bombardeiros de mergulho. Nu- dra norte-americana, sem informar a ter avistado um NAe.
merosos caças faziam a proteção da presença dos NAe. NAGUMO ti- À frente dos japoneses, sem que
esquadra. Os hidroaviões de esclare- nha, então, três Linhas de Ação. A NAGUMO soubesse, estavam três
cimento partiram para os seus reco- primeira imposta: receber os aviões NAe em rota para OESTE: o HOR-
nhecimentos, exceto um com o mo- de regresso; as outras duas para de- NET e o ENTERPRISE, atrasados
tor avariado, aquele que estava de- cidir: mandar subir os aviões arma- para a Batalha do MAR DO CO-
signado para o setor de onde vinha a dos de torpedos para a eventualida- RAL, e o YORKTOWN, sobrevi-
esquadra norte-americana. de de atacar a esquadra inimiga ou vente dela, com sérios danos, e re-
Pouco depois das 0525h, travou- substituir seus torpedos por bombas parado no tempo recorde de dois
se um combate desigual, onde a su-
perioridade dos aviões e, prin-
cipalmente, dos pilotos japone-
NAVIOS JAPONESES NORTE-AMERICANOS
ses fez a diferença, praticamen-
NAE..........................................................04 ........................................ 03
te destruindo a defesa aérea ENCOURAÇADOS ...............................11 ........................................ 02
norte-americana. Apesar disso, CRUZADORES PESADOS ..................12 ........................................ 09
os bombardeiros não obtiveram CRUZADORES LEVES ........................10 ..........................................-
sucesso no seu ataque, perma- CONTRATORPEDEIROS ...................63 ........................................ 30
necendo as defesas e as pistas SUBMARINOS ......................................15 ........................................ 15
NAEL .......................................................02 ..........................................-
intactas. O Capitão-Tenente PORTA-AVIÕES ....................................03 ..........................................-
TOTAL .................................................. 110 ...................................... 5 9

AVIÕES JAPONESES NORTE-AMERICANOS


EMBARCADOS EM TERRA
CAÇAS -------------------------96 - ZEROS ...... 58 –WILDCATS ...................27 -WILDCATS E BUFFALOS
BOMBARDEIROS -----------– ........................ 55 ...........................................23 -MARAUDERS (B-26) E FLYING FORTRESSES (B-17)
BOMB.DE MERGULHO ----84 - VALS ......... 87 –DAUNTLESS ................27 -DAUNTLESS e VINDICATORS
BOMB.TORPEDEIROS ----95 - KATES ...... 47 -AVENGERS ....................06 –AVENGERS
HIDROAVIÕES(RECON) --26 ...................... 30 -PBY/CATALINA ...........37 -PBY/CATALINA
TOTAL --------------------------307.................... 277 ........................................120

2002 - O Anfíbio - 134


dias (27 a 29 de maio), por 2 mil foram lançados do ENTERPRISE e rantemente terrestre e, sucessivamen-
funcionários, quando a previsão era do HORNET contra a esquadra ja- te, em esforço EO preponderante-
de ficar pronto em três meses. Às ponesa. O HIRYU, último dos NAe, mente naval e independente, atacar,
0702h, os aviões norte-americanos sucumbiu a esse ataque. Os norte- simultaneamente, as ALEUTAS e
haviam decolado dos NAe HOR- americanos assenhoraram-se do ar e MIDWAY. Na realização desses es-
NET e do ENTERPRISE. NAGU- a esquadra nipônica restava, somen- forços, a EO japonesa deixou de
MO que navegava SSE, desde que te, o caminho de casa. O resultado es- obter a sua máxima possibilidade de
tomou conhecimento da presença tava de acordo com a previsão dos geração de dispersão, ao realizar su-
inimiga, guinou para o NORTE. analistas norte-americanos: lançado cessivamente o movimento para as
Com isso, um quarto da força aero- o primeiro ataque contra os japone- Ilhas SALOMÃO e depois para as
naval atacante não o encontraria. Os ses, com três alas aéreas, três NAe ALEUTAS e MIDWAY, permitindo
três grupos de torpedeiros norte- seriam destruídos; o segundo ataque, ao adversário, também sucessiva-
americanos que se dirigiam para da ala aérea japonesa, destruiria um mente, aparar seus golpes. Tal for-
noroeste tiveram mais sorte e encon- dos seus NAe; e no terceiro ataque mulação EO designou dois NAe para
traram a esquadra japonesa. Dos 41 o último dos NAe japonês sucumbi- o primeiro movimento (no sul) e re-
torpedeiros que participaram desse ria. Duzentos e cinqüenta e três aviões teve nas ALEUTAS, área absoluta-
primeiro ataque, apenas 5 escaparam japoneses foram derrubados ou per- mente secundária do teatro, mais
aos caças japoneses e nenhum acer- didos, contra 150 norte-americanos. dois NAeL, que provaram ser neces-
tou seu alvo. Às 1020h, a decisão sários em MIDWAY.
estava tomada: atacar a esquadra ini- O Dia Se os japoneses tivessem articu-
miga. Os aviões bombardeiros e tor- era da Caça lado a EO(N) em harmonia com a
pedeiros do HIRYU e do SORYU, EM, em simultaneidade completa, os
aguardavam, apenas, a prontificação O propósito político dos japone- norte-americanos seriam apanhados
dos aviões do AKAGI e do KAGA, ses, no contexto de uma guerra que por EO superior e teriam de ceder
para realizar o ataque com toda a pretendia ser limitada, era o de ex- algum dos anéis para salvar seus de-
força, conforme as ordens de pandir o seu perímetro defensivo, in- dos, mesmo sabendo dos planos ja-
NAGUMO. terferindo com as comunicações para poneses, como ocorria. Melhor, ain-
Às 1024h ao soar a ordem de ata- a AUSTRÁLIA, criando a possibili- da, os japoneses poderiam alterar a
que, assomaram no horizonte os bom- dade de destruição da esquadra nor- simultaneidade de MIDWAY com as
bardeiros de mergulho DAUNTLESS, te-americana e constituindo uma ALEUTAS para MIDWAY com as
os quais, após voarem boa parte do ameaça ao território norte-america- Ilhas SALOMÃO e o resultado po-
tempo sem encontrar a esquadra ja- no. Os locais dos confrontos esta- deria ser totalmente diferente, uma
ponesa, ao guinarem para regressar, vam definidos: as ALEUTAS, vez que colocaria os norte-america-
avistaram a esteira de um navio japo- MIDWAY, as Ilhas SALOMÃO e o nos nas alternativas de um dilema,
nês. Os ZEROS não puderam re- Sul da NOVA GUINÉ (PORT bem ao gosto de LIDDELL HART.
cuperar altitude em tempo, após a de- MORESBY). A própria configura- Poderiam, ainda, ter enfrentado o
vastação praticada contra os aviões ção geográfica dos mesmos implica- desafio sucessivamente, como foi fei-
inimigos. Foram atingidos mortalmen- va em enorme dispersão. Naquele to, apenas que deveriam ter inverti-
te, o AKAGI, o SORYU e o KAGA. momento, o poder combatente nor- do a ordem dos meios para ter o
O CA YAMAGUCHI não esperou or- te-americano era extremamente frá- máximo poder de combate nas
dens para lançar os aviões do HIRYU gil e a superioridade japonesa em SALOMÃO e depois em MID-
contra os norte-americanos: 18 bom- meios era esmagadora. WAY, ou ainda melhor, MIDWAY e
bardeiros, 18 torpedeiros e 12 caças A articulação japonesa, em estra- depois SALOMÃO. Entretanto, os
voaram em direção ao YORKTOWN tégia militar desintegrada e, em gran- interesses particulares das forças sin-
e o atingiram mortalmente. Seria afun- de parte, para acomodar os interes- gulares dificilmente permitiriam tal
dado, posteriormente, assim como o ses dos membros das forças singula- articulação com grandes chances de
AKAGI, por torpedo amigo. res no QGI, optou por realizar o ata- ser vencedora. No final, mesmo com
Às 0500h, o que restou dos aviões que as Ilhas SALOMÃO e a NOVA a EO mal formulada dos japoneses,
norte-americanos, 24 bombardeiros, GUINÉ, em esforço EO preponde- os norte-americanos ainda tiveram

2002 - O Anfíbio - 135


que ceder o objetivo menos impor- o Almirante YAMAMOTO, no Cor- dições de enfrentá-los em decorrên-
tante, as ALEUTAS, por absoluta po Principal, ficou numa posição na cia da realização sucessiva das ope-
impossibilidade de seus meios em qual não pôde contribuir nem para rações no MAR DE CORAL e em
enfrentar tal simultaneidade. a conquista de MIDWAY e nem MIDWAY, desde que não houves-
Ressalta-se que a dualidade de para empregar sua força superior se envolvimento direto dos navios e
objetivos e a dispersão de forças, para reforçar a proteção dos NAe pudessem contar com o apoio de
tanto na perspectiva tática quanto de NAGUMO. Essa dispersão afi- aviação de terra.
na EO, caracterizaram as operações gurava-se sem sentido, uma vez que Nesse sentido surge o importan-
japonesas nas batalhas da primeira desprovida da intenção de obter te conceito de assimetria e da sua
ofensiva, travadas na Campanha do concentração, embora fosse coeren- utilização na EO. No caso, os nor-
PACÍFICO, cujos resultados alcan- te com a estrutura tática articulada te-americanos, além da imposição
çaram pleno sucesso. Tais condições para cumprir duas tarefas alternati- das alternativas de um dilema para
foram obtidas, em face da judiciosa vamente, de acordo com o dilema os japoneses e da sucessividade
distribuição dos meios, da surpresa imposto. vantajosa para eles nos enfrenta-
e, principalmente, por uma divisão O fato ocorrido de a Esquadra mentos, usaram na sua EO a vanta-
de forças que funcionou como do PACÍFICO se apresentar após gem exclusiva em meios aéreos (a
indutora de dispersão, em estraté- o início das Operações Preparató- superioridade em aeronaves), evi-
gia bem articulada, para gerar a con- rias para a conquista de MIDWAY, tando o combate mortal (para eles)
centração necessária, no local pre- apenas pôs a nu a contradição exis- entre os navios de suas esquadras,
tendido. A batalha de MIDWAY é tente. Mesmo sem poder alcançar no que foram auxiliados pelos japo-
o exemplo clássico deste padrão de as condições planejadas para a con- neses em sua desastrada EO, pela
dispersão de objetivos e de forças. quista de MIDWAY primeiro e, de- ausência dos NAe japoneses - do
Entretanto, o padrão dessa vez não pois, para o engajamento da esqua- MAR DO CORAL e das ALEU-
funcionou bem, porque a EO foi mal dra norte-americana (contando com TAS – e por terem recuperado em
formulada, em sua sucessividade e a aviação baseada em terra), a Es- tempo recorde o navio-aeródromo
simultaneidade, principalmente na quadra Combinada poderia ter sido YORKTOWN, aumentando o seu
alocação dos meios. bem sucedida se estivesse concen- poder de combate. Antes da exis-
Se na perspectiva EO, confor- trada para reforçar a proteção anti- tência da noção de vulnerabilidade
me já explicitado acima, houve má aérea aos NAe de NAGUMO e crítica aplicaram esse conceito, ao
concatenação das táticas, dentro da realizar, em qualquer seqüência a atacar a parcela da Esquadra Com-
perspectiva tática isso também conquista da ilha. binada que, caso neutralizada,
ocorreu. Especificamente para Do ponto de vista norte-ameri- inviabilizava o prosseguimento de
MIDWAY, em face das alternati- cano, nessa segunda ofensiva, o qua- toda a gigantesca operação (o CG
vas do dilema, a Esquadra Combi- dro tinha mudado. Os EUA, em face tático) para o cumprimento da mis-
nada estava dividida em três partes, de sua opção estratégica militar pelo são como um todo.
com tarefas de conquistar a ilha e/ ATLÂNTICO e, portanto, devido à Após MIDWAY, o encouraçado
ou engajar a esquadra norte-ameri- exigüidade de meios disponíveis, ti- rendeu-se à nova força de combate
cana numa batalha decisiva, em nham adotado, até então, uma pos- das esquadras: os NAe. Nunca mais
sucessividade cambiante, uma vez tura estratégica militar defensiva para se abandonou um NAe ou uma for-
que ora poderia ser a própria Ilha o PACÍFICO. Os EUA, todavia, ça de NAe a sua própria mercê.
de MIDWAY o principal objetivo, não podiam negociar a interrupção
ora a esquadra norte-americana, das comunicações com a AUS- CONCLUSÃO
caso fosse detectada. TRÁLIA nem uma eventual amea-
Essa contradição intrínseca do ça direta a PEARL HARBOR. As- Ao encerrar essa aproximação
planejamento japonês para MID- sim, embora inferiorizados em seu com a EO, efetivada em dois arti-
WAY, imposta pelas alternativas poder naval, em face da articulação gos, pretende-se que o leitor tenha
do dilema, implicou na estruturação EO dos japoneses e do conheci- obtido uma visão panorâmica sobre
dispersa da esquadra, de forma que mento dela, passaram a possuir con- o assunto. No primeiro artigo, fo-

2002 - O Anfíbio - 136


ram apresentados aspectos evo- entre as diversas perspecti- ou superior ao número de
lutivos históricos que permitiram tra- vas, notadamente entre as perdas aceitáveis, humanas
çar os desdobramentos das diver- perspectivas EM e a EO, e e materiais, do eventual
sas perspectivas estratégicas, in- dessa última com a(s) táti- oponente, contribuindo pa-
clusive desta EO de inspiração ca(s), mesmo quando há ra a dissuassão. Como refe-
clausewitzeana, além da perspecti- preponderância de uma es- rência, os cientistas políti-
va tática. Foram, ainda, abordadas tratégia singular; cos estimam que para os
as noções similares à EO: a arte e o q Embora óbvio, uma EO an- EUA a perda(18) aceitável,
nível operacional, tendo sido ex- tecipadamente perdedora em termos humanos, seria
plicitadas as razões para a sua não não vale a pena ser im - de até 20 mil pessoas;
adoção como conceitos. plementada; e q Existe consenso, desde a dé-
Em face do conteúdo marca- q Assim como a EO depende cada de cinqüenta, de que
damente teórico do artigo anterior, das vitórias, essas têm de- um poder naval de primei-
fez-se necessário uma abordagem pendência umbelical da ar- ra linha baseia-se em três
mais prática, alicerçada sobre alguns ticulação EO, onde a supe- paradigmas: deve possuir
casos históricos considerados rioridade (bem avaliada, navio(s)-aeródro mo(s), o
didáticos, a qual pretendeu-se rea- como nas esquadras britâ- navio capital das esquadras,
lizar neste trabalho. nicas, e incluindo as forças que permite o controle de
Apesar de encontrar inspiração morais), planejada para ser áreas marítimas; deve pos-
em outras formulações teóricas, pro- aplicada em local e momen- suir submarino(s), notada-
curou-se estabelecer um entendi- to decisivos, permanece mente nuclear(es), para a
mento próprio sobre os conceitos como paradigma para a ob- negação do uso do mar; e
apresentados, a fim de se permane- tenção das mesmas. deve ter forças anfíbias,
cer fiel à afirmativa constante na in- para a projeção de poder so-
trodução do artigo anterior de que Em relação à possibilidade de bre terra; para a proteção
se pode (e até se deve) buscar idéi- extrair subsídios para uma EO bra- de bases e de interesses (in-
as próprias para a nossa realidade, sileira, voltada para qualquer um dos clusive envolvendo bens, re-
em vez de encontrá-las prontas em possíveis teatros, também podem ser presentações e cidadãos na-
soluções alienígenas, adaptadas que obtidas algumas conclusões dessa cionais) e para ameaçar áre-
são as necessidades de onde se ori- pequena amostra histórica: as vitais;
ginam. q Em face do decréscimo evi- q O uso da terra é um fator
dente de ameaças (externas) fundamental a somar na ar-
Além deste artigo ter, prio- oriundas do continente sul- ticulação das táticas e, de
ritariamente, tentado demonstrar americano (exceção à ame- tanta importância, merece-
as assertivas constantes no resu- aça guerrilheira, perfeita- ria trabalho à parte. A qua-
mo dos conceitos, apresentados no mente controlável do nosso se totalidade das batalhas
início, das análises dos eventos his- lado) e, até, das possibilida- navais na história ocorreu
tóricos narrados, pode-se extrair al- des crescentes de maior co- próximo da terra. Os últi-
gumas conclusões: operação militar, qualquer mos dez grandes conflitos
q A EO faz parte de um con- EO brasileira, mesmo volta- da humanidade confirma-
texto maior, hoje incluindo da para o cenário ama- ram tal fato. Não era sem
diversas perspectivas, civis zônico, deverá enfatizar a propósito que os japoneses
e militares, todas a serem in- existência de um poder na- e norte-americanos, sempre,
tegradas na perspectiva es- val capaz de controlar áre- apoiavam-se ou buscavam
tratégica nacional e deven- as marítimas, negar o uso se apoiar em bases terres-
do atuar umas em proveito do mar ao inimigo e proje-
das outras; tar poder sobre terra, cuja (18)
V. artigo “O problema da Defesa” de Hélio
q Deve existir plena harmonia resultante deverá ser igual Jaguaribe, no Jornal do Brasil de 10/01/99.

2002 - O Anfíbio - 137


tres para desfechar as suas continuados, a ser con- táticas e rápido emprego),
ofensivas. Como exemplo substanciado nas campa- pela capacidade de trans-
sugere-se realizar um jogo nhas; porte, a qual deve ser objeto
de guerra mental na foz do q Uma estrutura militar de de interesse da estratégia
Rio AMAZONAS (19), apenas guerra, com comandos militar, em face das limita-
com uma esquadra, com operacionais bem definidos, ções econômicas evidentes
uma esquadra e bases aére- nos moldes dos grandes co- que as forças singulares pos-
as terrestres e com uma es- mandos operacionais com- suem para priorizar tais áre-
quadra bases aéreas e de binados norte-americanos, as estratégicas;
foguetes e/ou mísseis em ter- a serem ativados permanen- q O desenvolvimento da capa-
ra. Não precisa rodar o jogo temente ou temporariamen- cidade de criptoanálise, de
para saber a diferença. Vale te para fins de exercício, análise em inteligência, de
ressaltar que a necessária permite um melhor pla- avaliações operacionais,
ponte física entre o mar e a nejamento das forças, das pesquisa operacional e jo-
terra é feita, quase que ex- suas possíveis tarefas e, con- gos não deve ser negligen-
clusivamente, pelas forças seqüentemente, dos obje- ciado. Apesar dos modelos
anfíbias; tivos envolvidos; facilita o teóricos nem sempre se ade-
q A definição de um períme- estabelecimento de uma EO quarem à realidade, em vir-
tro defensivo a partir das apropriada a cada ambien- tude da infinita capacidade
ilhas oceânicas brasileiras, te; e possibilita a tomada de humana de alterá-la, cons-
capaz de ser apoiado do ter- decisões integradas pelo co- tituem-se em importantes
ritório, proporciona maior mando unificado. referências para as formu-
profundidade para a defesa q A indefinição quanto a um lações e aplicações, em
e maior proteção para as ri- inimigo potencial impõe o exercícios, das táticas e es-
quezas minerais oceânicas. estabelecimento de forças tratégias.; e
A possibilidade de utilização com capacidades múltiplas, q Não pode haver dúvidas
de aeródromo nessas ilhas apoiadas por um adequado quanto à importância da
capacita à realização de es- planejamento de mobi li- logística integrada às tá-
clarecimento, reconheci- zação. O poder naval é um ticas e à EO.
mento, interceptação e ata- fator determinante no su-
que. Tais acidentes geográ- porte dessas capacidades, Todo o arcabouço de idéias, apre-
ficos constituem-se em NAe em face das suas caracte- sentadas nos dois artigos publicados
naturais e impõem, a even- rísticas de flexibilidade e sobre o presente tema, para a solu-
tual oponente, as alternati- versatilidade, notadamente, ção dos problemas militares, deve
vas de um dilema, como pela adoção do conceito de estar inserido no Processo de Pla-
ocorreu em MIDWAY, no- força-pronta, por ser pos- nejamento Militar, o qual permane-
tadamente se considerarmos suidor de capacidade anfí- ce como a ferramenta básica a ser
as dificuldades para a bia e aeroespacial, que mul- utilizada na solução dos mesmos.
detecção da ameaça subma- tiplicam as possibilidades de
rina; articulação das táticas, e
q Há necessidade de uma es- por se organizar por tarefas.
cola militar que privilegie o Fora da Marinha, assoma (19)
Uma interessante comparação, mantidas as
estudo de operações combi- com tais possibilidades a Bri- devidas proporções, pode ser feita entre o Rio
gada de Paraquedistas, em- AMAZONAS e o Estreito de DARDA-
nadas e de um processo de NELOS, notadamente considerando as opera-
planejamento militar co- bora, assim como a Briga- ções navais, anfíbias e de defesa ali realizadas
mum entre as forças arma- da Anfíbia, esteja limitada pelos ingleses, turcos e alemães na Primeira
em seu potencial EO (de Guerra Mundial, as quais podem trazer im-
das brasileiras, capaz de ser portantes subsídios para eventual EO a ser
utilizado em planejamentos multiplicação de opções adotada na AMAZÔNIA.

2002 - O Anfíbio - 138


BIOGRAFIA DO
ALMIRANTE-DE-ESQUADRA (FN)
Luiz Carlos da Silva Cantídio
CF(T)P AULO ROBERTOMARCOS QUINTÃO

O ALMIRANTE-DE -E SQUADRA de 1986 e ao de Almirante-de-


(FN) L UIZ CARLOS DA SILVA CAN- Esquadra em 25 de novembro
TÍDIO nasceu em 23 de fevereiro de 1990.
de 1935, na cidade de Mossoró
no Estado do Rio Grande do Exerceu as seguintes comis-
Norte, filho de João Cantídio sões: Instrutor de Estágio de
de Oliveira e Ildérica da Silva Adaptação dos Segundos-Te-
Cantídio, casou-se com Mag- nentes da Reserva remunerada
dalena Antonietta Tavares da no Centro de Instrução do
Rocha Cantídio, com quem teve Corpo de Fuzileiros Navais
três filhos: Luiz Carlos da Sil- (CICFN); Comandante da
va Cantídio Júnior, Luiz Ri- Companhia de Comando e regado do Recebimento de Ar-
cardo Rocha da Silva Cantídio Serviços e Ajudante de Pessoal mamento Portátil na Bélgica –
e Lúcia Beatriz Rocha da Silva do CICFN; Encarregado da Comissão Naval Brasileira em
Cantídio. Secretária do Comando do Paris e Haia; Adjunto da
CICFN; Encarregado e Ins- Subseção de Material Bélico da
trutor da Escola de Educação 4ª Seção do Estado-Maior do
Formou-se na Escola Naval Física do CICFN; Ajudante de Corpo de Fuzileiros Navais;
no ano de 1955, partindo em Ordens do Comandante da Oficial de Relações Públicas do
viagem de instrução no Navio- Guarnição do Quartel-Central CFN, responsável pelo “O
Escola “Almirante Saldanha”. do Corpo de Fuzileiros Navais ANFÍBIO”; Adjunto da Divisão
Foi promovido ao posto de Se- e Encarregado do Serviço de de Assuntos Militares da Escola
gundo-Tenente em 10 de ja- Comunicações do Quartel- Superior de Guerra; Chefe da
neiro de 1956, ao de Primeiro- Central do CFN; Ajudante de Subseção Padrão GE4/SNI no
Tenente em 26 de julho de 1957, Ordens do Ministro da Ma- Estado Maior do Comando
ao de Capitão-Tenente em 24 rinha; Adjunto de Adminis- Naval de Brasília; Comandante
de setembro de 1959, ao de Ca- tração do Material do Serviço do Grupamento de Fuzileiros
pitão-de-Corveta em 13 de Especial do Material Bélico; Navais de Brasília; Adjunto e
agosto de 1963, ao de Capitão- Comandante do Posto Ocea- Encarregado da Subseção de
de-Fragata em 2 de outubro de nográfico da Ilha da Trindade; Assuntos Internacionais da
1968, ao de Capitão-de-Mar-e- Imediato do Grupamento de Seção de Operações do Estado-
Guerra em 30 de abril de 1975, Fuzileiros Navais de Uru- Maior das Forças Armadas;
ao de Contra-Almirante em 31 guaiana; Instrutor de Curso Delegado do Brasil na Junta
de março de 1983, ao de Vice- Complementar de Operações Interamericana de Defesa;
Almirante em 25 de novembro Anfíbias, no CICFN; Encar- Encarregado da Seção de

2002 - O Anfíbio - 139


Organização do Estado-Maior Guerra; Curso Superior de
Recebeu as seguintes
do CFN; Chefe do Departa- Guerra (ESG); Curso Superior
condecorações:
mento de Recursos Humanos de Guerra Naval (EGN); Curso
do Comando-Geral do CFN; do Colégio Interamericano de > Ordem do Mérito Na-
Chefe de Planejamento e Defesa; e o Curso Básico de val, no grau de Comen-
Coordenação do Comando- Pára-quedistas. dador;
Geral do CFN; Chefe de Ga- > Ordem do Mérito Mi-
Durante seu Comando, o
litar, no grau de Oficial;
binete do Comandante-Geral Almirante Cantídio publicou > Ordem do Mérito
do CFN; Comandante da Tropa “O Combatente Anfíbio”, im- Aeronáutico, no grau de Co-
de Reforço; Comandante do plementou a reestruturação do mendador;
Centro de Instrução e Ades- Corpo de Fuzileiros Navais > Ordem do Rio Branco,
tramento do CFN; Comandante com a criação do Comando do no grau de Oficial;
da Força de Fuzileiros da Pessoal de Fuzileiros Navais > Ordem do Mérito
Esquadra; Comandante de (CPesFN) e do Comando do Judiciário Militar, na cate-
Apoio do CFN; e Comandante- Material de Fuzileiros Navais goria de distinção;
Geral do Corpo de Fuzileiros > Ordem do Mérito de
(CMatFN), além do Sistema
Navais. Brasília, no grau Grande
de Bases, recebeu viaturas Oficial;
Realizou os seguintes cur- operativas, equipamentos veí- > Medalha do Mérito
sos: Curso de Técnica de En- culares lançadores de esteira Tamandaré;
sino para Oficiais, no Centro de e outros materiais de en- > Medalha do Pacifica-
Instrução Almirante Wanden- dor;
genharia, tais como pá me-
kolk; Curso Básico de Material > Medalha Militar de
cânica 3 ton e motoperfu-
Bélico, no Exército Brasileiro; Ouro;
ratrizes, Lanchas- Patrulhas e
O Curso “Officer Basic Exten- > Medalha do Mérito
capacetes balísticos. Alterou
sion”; “Comunication Officers Santos Dumont;
Extension”; Curso de Aper- o Uniforme do grupo 4.0 e o > Medalha do Mérito
feiçoamento de Infantaria da 5.3, através da portaria Mi- Anhanguera, do Estado de
Escola de Aperfeiçoamento de nisterial n° 0391, de 17 de Goiás;
Oficiais (EsAO), no Exército junho de 1993, e implantou a > Mérito Naval, no grau
Gestão da Qualidade Total de Grande Oficial;
Brasileiro; Curso Básico de
(GQT) no setor do Comando- > Ordem do Mérito
Comando para Fuzileiros Na-
Geral do Corpo de Fuzileiros Militar, no grau de Comen-
vais da Escola de Guerra Na- dador;
val; Curso de Comando e Esta- Navais. > Ordem do Mérito Na-
do-Maior, na Escola de Guerra Estas determinações muito val, no grau de Grã-Cruz;
Naval; Curso Elementar de contribuíram, para a moder- > Ordem do Mérito das
Inglês, da Diretoria de Pessoal nização do Material, bem como Forças Armadas, no grau de
Militar da Marinha; Curso o Aprimoramento Profissional Grande-Oficial,
Avançado de Inglês (USAF), na do Pessoal do Corpo de Fuzi- > Medalha Militar de
Diretoria de Ensino da Ma- leiros Navais. Platina;
rinha; Curso de Comando e Teve sua vida militar assina- > Ordem do Mérito Ae-
Estado-Maior das Forças Ar- lada com muitos elogios e ronáutico no grau de Gran-
de-Oficial.
madas na Escola Superior de louvores.

2002 - O Anfíbio - 140


Acima, Cerimônia de
Passagem de Comando,
Fortaleza de São José, Ilha
das Cobras (RJ), em 1945.
O Contra-Almirante (FN)
Sylvio de Camargo, assume
o Comando-Geral do Corpo
de Fuzileiros Navais.

Ao lado, a atual Fortaleza


de São José. Cerimônia em
homenagem a Batalha
Naval do Riachuelo, 11 de
junho de 2002.