Vous êtes sur la page 1sur 41

ÍNDICE

Introdução ................................................... 7
As regiões .................................................
As causas da guerra .................................... 39
A guerra civil ............................................ 65
O impacto da guerra .................................. 79
A reconstrução .......................................... ...
Conclusão ..... .......................................... 109
Indicações para leitura ............................ 114
Queremos agradecer a Rudolph Bell, Eríc Foner e Michael M. Hall pelas suas sugestões
bibliográficas, e a Eni Orlandi pelas correções e melhoramentos no Português.
Reconhecemos também a nossa divida para com os alunos das matérias de História da América
II e Estados Unidos Contemporâneos que, através de suas perguntas e criticas nas salas de aula
da Universidade Estadual de Campinas, muito nos ensinaram.
“Sentimos que a nossa causa é justa e sagrada; solenemente proclamamos, para todo o gênero
humano, que desejamos a paz ao preço de qualquer sacrifício, menos o da honra e da
independência. Não procuramos conquista alguma, nem enaltecimento, nem concessão alguma
de qualquer espécie dos Estados dos quais faz pouco tempo éramos confederados. Tudo que
pedimos é sermos deixados em paz; que aqueles que nunca mandaram em nós agora nâo tentem
subjugar-nos pela força das armas.**
Jefferson Davis, primeira fala ao Congresso dos Estados Confederados da América, 1861.
“Um oitavo de toda a população era formado de escravos de cor, não distribuídos de um modo
geral pela União, porém localizados na sua parte meridional. Tais escravos constituíam um
interesse peculiar e poderoso. Todos sabiam que esse interesse, de certo modo, foi a causa da
guerra. Fortalecê-lo, perpetuá-lo e ampliá-lo era o objetivo pelo qual os insurretos pretendiam
dividir a União, nem que tivessem de recorrer à guerra, ao passo que o governo não reclamava
outro direito que o de restringir sua difusão territorial.*’
Abraham Lincoln, segundo discurso de posse da presidência dos Estados Unidos da América,
1865.

A meus filhos, José e Zena, para quem a História Comparativa já é familiar.

INTRODUÇÃO
A Guerra Civil Norte-americana (1861-65) merece a atenção do estudante brasileiro por
diversos motivos. Primeiro, foi uma guerra que marcou profundamente a evolução histórica
dos Estados Unidos da América (EUA). Até esta guerra, todos os conflitos políticos mais
importantes entre as grandes regiões norte-americanas, do Norte e do Sul, tinham sido
resolvidos, adiados ou escamoteados dentre as linhas da Constituição de 1787, e através de
processos pacíficos de barganha, conchavo, negociação e voto. A guerra representou uma
confissão de que o sistema político falhou, esgotou os seus recursos sem encontrar uma
solução. Foi unia prova de que, mesmo numa das democracias mais antigas, houve uma época
em que somente a guerra podia superar os antagonismos políticos.
O total dos mortos ajuda a apreciar a magnitude deste evento traumático para os EUA.
Calcula-se que um total de 618000 americanos combatentes morreram nos dois lados, um
total que excede o de todos os mortos americanos na Primeira Guerra Mundial (1914-18,
com 125000 mortos americanos); na Segunda Guerra Mundial (1939-45, com 322000
mortos americanos), na Guerra da Coreia (1950-53, com 55000 mortos americanos), e na
Guerra do Vietnã (1961-75, com 57 000 mortos americanos).
Em segundo lugar, esta guerra lembra vários aspectos da história do Brasil, quando
questões semelhantes surgiram. Para começar, a guerra foi uma reação a um movimento
separatista. O Sul declarou a sua independência do Norte, e estabeleceu uma nova nação, os
Estados Confederados da América (ECA). O Norte teve que invadir o Sul e lutar por quatro
anos até destruir este separatismo. Da mesma forma, o Governo Imperial Brasileiro teve que
reprimir com armas a Confederação do Equador no Nordeste, em 1824; e a República de
Piratini e a República Catarinense, criadas pela Revolução dos Farroupilhas no Rio Grande do
Sul, em 1835-45.
A abolição da escravidão foi outra questão que convulsionou a vida política dos EUA e do
Brasil, no século XIX. No Sul dos EUA, a escravidão foi tão importante quanto nas regiões
brasileiras de grande lavoura. Em ambos os países os setores escravistas passaram a maior
parte do século à procura de maneiras de preservar esta relação de trabalho contra as restrições
gradativamente colocadas por grupos fora destes setores. Mas nos EUA a abolição final foi
imposta a ferro e fogo pela vitória do Norte no fim da Guerra Civil, enquanto no Brasil a
abolição resultou de uma combinação de longas campanhas de mobilização popular, das
revoltas dos próprios escravos, e do oportunismo dos escravocratas, que, antes da abolição, já
acharam substitutos para os seus escravos, ou entre os trabalhadores nacionais, ou entre os
imigrantes estrangeiros.
Finalmente, muitos historiadores norte-americanos entendem a Guerra Civil como um
conflito entre duas sociedades diferentes: a do Norte, baseada nas manufaturas e caminhando
rapidamente para a industrialização, e a do Sul, baseada na economia agrária de exportação e
procurando expandir a área destas lavouras. Embora em escala bem menor, e em data bem
posterior, o Brasil também experimentou momentos de atrito entre o setor nascente das
manufaturas e o setor agrário, como por exemplo nos debates sobre o nível de tarifas
aduaneiras na Primeira República. É notável, entretanto, que a historiografia brasileira
moderna em geral reconheça uma certa complementaridade dos interesses dos industriais e dos
grandes agricultores, ao contrário da situação nos EUA no século passado.
Os paralelos entre a história dos EUA e a do Brasil, nestas questões de separatismo,
abolição e competição entre a indústria e a agricultura, convidam a uma reflexão bem maior
sobre a razão pela qual, no Brasil, tais questões encontraram um encaminhamento e uma
solução às vezes bastante diferente dos encontrados pelos EUA, e o que isso teria a ver com as
diferenças atuais entre as políticas, as economias e as sociedades dos dois paises. Ao longo
desta história, que aliás não pretende fornecer mais do que uma introdução ao estudo da guerra,
procuraremos levantar diversos pontos de comparação específica entre os EUA e o Brasil no
século XIX. Caberia ao leitor, entretanto, partir destas informações para desenvolver as suas
próprias explicações das diferenças.

AS REGIÕES
O Norte
Vamos agora examinar as raízes das contradições profundas entre o Norte e o Sul, através
de um estudo da evolução de cada região. Como foi que cada região desenvolveu as suas
atividades econômicas mais dinâmicas? Como se formaram as classes sociais principais, de
modo que cada região chegasse a defender posições políticas tão diferentes, particularmente
com respeito a uma terceira região, o Oeste, que somente uma guerra conseguiu resolvê-las?
A economia
O Norte dos EUA incluía a região da costa atlântica, desde o atual Estado de Maine até
Maryland.1 Os povoadores ingleses, e os seus descendentes na época colonial (1607-1776),
tinham estendido o Norte na direção ocidental até a cordilheira das Montanhas
Apalaches, e, no começo do século XIX, o movimento de povoamento atravessou as
montanhas e chegou até a margem oriental do Rio Mississippi.
A vida econômica do Norte tinha começado nas colônias de Nova Inglaterra e nas do Meio,
com núcleos de pequenos agricultores produzindo apenas o necessário para a sua própria
subsistência. A abundância de peixes, perto do litoral, e as grandes matas induziram o
crescimento da pesca e da construção de barcos a vela. Da mesma forma, as jazidas de minério
de ferro e a facilidade de fabricar carvão vegetal permitiram a criação de muitas pequenas
fundições. Como consequência, já no século XVIII as pequenas comunidades rurais do Norte
viram surgir um vigoroso comércio de carne seca e de bacalhau, de produtos derivados da
baleia como sebo e velas, de provisões para barcos e de farinha de trigo e cereais. Comerciantes
radicados nos portos de Boston, Nova Iorque e Filadélfia mandaram estes produtos ao Caribe

1
(*) Por motivos técnicos, não foi possível incluir mais do que um mapa detalhado. O leitor está convidado a
consultar Manoel M. de Albuquerque, Arthur C. Ferreira Reis e Carlos Delgado de Carvalho, Atlas Histórico
Escolar, 7? ed., Rio de Janeiro, MEC/FENAME, 1977, pp. 52-57 e 62-t>3.
para suprir as necessidades das colônias mais preciosas da metrópole inglesa na época, as ilhas
açucareiras de Barbados, Jamaica e as Ilhas de Barravento e Sotovento. Em troca, estas ilhas
mandaram melaço e açúcar para as refinarias continentais do Norte, que por sua vez
exportavam rum para a África. Lá o rum era trocado por escravos, que eram trazidos para as
ilhas para continuar a produção de produtos de cana-de-açúcar. Este comércio triangular foi
complementado por um comércio recíproco de peixe salgado e frutas do Norte para
manufaturas da Inglaterra.
Antes de começar a sua revolução industrial, por volta de 1760, a metrópole inglesa não se
incomodava muito quando as colônias do Norte aplicaram o capital acumulado no comércio
triangular para construir novas manufaturas de móveis, carroças, panos, sapatos, ferramentas e
sabão, desde que estas mercadorias fossem consumidas internamente nas colônias continentais.
Tampouco a metrópole reclamava se estas manufaturas eram exportadas para as colônias
inglesas no Caribe, já que a própria metrópole não conseguia abastecê-las por preços mais
baratos, devido ao maior custo de transporte. Este abastecimento reduzia os custos de produção
dos artigos coloniais como açúcar, cacau e café, os quais eram muito cobiçados pela metrópole.
Quando a revolução industrial começou na Inglaterra, o governo metropolitano tentou
reduzir a concorrência colonial em manufaturas, para que os americanos comprassem mais dos
ingleses, e fazer com que os colonos pagassem uma porção maior das despesas de
administração das colônias. Mas os americanos não aceitaram este enrijecimento do sistema
colonial, e declararam a sua independência. Na Guerra de Independência (1776-81), como
numa outra guerra contra a Inglaterra (1812-14) durante a época napoleônica, ficou claro para
os americanos que eles não podiam contar com a importação de manufaturas inglesas, e que
eles tinham que montar a sua própria manufatura. Assim, expandiram-se no Norte as pequenas
fábricas de linhas e pano de lã e de algodão, de sapatos e de relógios, e apareceram mais
oficinas produzindo ferramentas e armas. Os comerciantes forneceram o capital para muitas
destas manufaturas cujo valor, em 1860, pela primeira vez igualou o valor dos produtos
agropecuários.
O crescimento das manufaturas no Norte também devia muito à introdução de invenções
mecânicas para aumentar a produtividade, e aos novos métodos de organizar a produção. A
relativa falta de mão-de-obra, em comparação com a Inglaterra, e os salários consequentemente
mais altos, levaram os empresários a se interessarem mais pela adoção de máquinas que fariam
o trabalho de pessoas. Mesmo quando a população crescia rapidamente, este crescimento não
se transformava em força de trabalho para os outros, porque muitas das pessoas, que
incrementaram a população, preferiram trabalhar como lavradores autônomos.
Assim, na agricultura, o arado de ferro e depois de aço, o rasteio e a sementeira foram
desenvolvidos e divulgados entre 1820 e 1850. Na década antes da Guerra Civil, os arados de
aço de John Deere, os debulhadores de Jerome Case e as colhedeiras mecânicas de Cyrus
McCormick permitiam ao trabalhador agrícola fazer numa hora o que antes levava até um dia
inteiro. No setor industrial, a produção de peças intercambiáveis, desenvolvida por Eli
Whitney, foi a grande novidade, porque significava que não era mais necessário que cada peça
fosse feita sob medida para cada produto. Agora podia-se organizar uma linha de montagem,
com cada operário fazendo repetitivamente algumas simples operações e uma produção em
massa. A linha de montagem foi adaptada especialmente na fabricação de armas brancas,
parafusos, porcas, relógios, máquinas agrícolas, fechaduras, cadeados, teares, máquinas de
escrever e de costurar e ferramentas.
A agricultura do Norte expandiu-se para o Noroeste durante a primeira parte do século
XIX. Empurrados pela multiplicação das propriedades agrícolas e o crescimento das cidades
no Nordeste, os posseiros, pequenos proprietários e nativos e imigrantes sem terra procuraram
as áreas ao redor dos Grandes Lagos. Lá, eles estabeleceram pequenas fazendas, de um
tamanho médio de 50 hectares, nas terras sem dono, ou nas terras de índios das tribos de
Algonquins. Iroquois e Sioux, cujos protestos foram ignorados ou reprimidos. Estes lavradores
trabalharam com a sua própria família, cultivaram trigo, milho, uvas, gado bovino, carneiros e
suínos, e venderam esta produção para o Nordeste em troca de manufaturas.
A economia do Norte expandiu-se ainda mais porque o mercado foi muito ampliado pelos
melhoramentos nos transportes. Durante a primeira metade do século XIX, o Norte
experimentou um surto de investimentos públicos e particulares nos transportes. Primeiro, o
dinheiro fluía para as estradas e pontes, sobre as quais viajavam os vagões puxados por
animais, e onde os postos de pedágio produziam rendas para os seus construtores. Depois, a
presença dos diversos rios navegáveis no interior de Massachusetts, Nova Iorque e Pensilvânia
levou capitalistas e governadores a investir na construção de canais, rios artificiais, para ligar o
litoral com os Grandes Lagos e com os rios que desaguavam no Rio Mississippi. Embora a
construção de um quilômetro de canal custasse cinco a oito vezes o que custava um quilômetro
de estrada, o transporte de fretes e passageiros em grandes chatas puxadas por animais ao longo
dos canais eliminou até 90% do custo para os usuários.
O aperfeiçoamento do veleiro rápido clipper na década de 1840 e a introdução de barcos
movidos com máquinas a vapor apresentaram outros avanços na área de transporte sobre a
água, que reduziriam significativamente o tempo de viagem e os custos de frete e passageiros.
O barco a vapor em 1860 fazia a viagem de Liverpool até Nova Iorque em duas semanas,
quando o barco a vela, quarenta anos antes, levava entre seis a sete semanas para o mesmo
percurso. Os barcos menores a vapor agilizavam o transporte fluvial, porque eles — um
exemplo são as “gaiolas” que ainda transitam no Rio São Francisco no Brasil — podiam subir
facilmente contra as fortes correntezas dos rios.
Ainda durante a fase áurea da construção dos canais (1830-50), a extensão das estradas de
ferro proporcionou benefícios mais importantes, não somente para os usuários, mas também
para o parque industrial do Norte, em geral. A estrada de ferro gozava de grandes vantagens
sobre os canais, como as de não congelar no inverno, de não depender de níveis variáveis de
água, de não oferecer perigo algum para a navegação noturna, de poder subir ou penetrar
através de túneis as montanhas mais altas, de ter uma velocidade alta constante e a força de
puxar cargas enormes e de possibilitar a construção de ramais até as portas das fábricas e das
fazendas. Num período de febril investimento privado e público, americanos e europeus
correram para comprar ações em companhias ferroviárias, que pagavam bons dividendos e
ainda recebiam subsídios do governo na forma de parcelas de terras a cada lado dos trilhos. As
companhias vendiam as terras, lucrando a curto prazo na revenda e a médio prazo, quando as
terras começaram a produzir e os fazendeiros transportavam a sua produção pela estrada de
ferro. Em 1850, quando os canais tinham uma extensão de 5120 quilômetros, as estradas de
ferro já alcançavam 14400 quilômetros, e, na véspera da Guerra Civil, os EUA tinham 48 000
quilômetros de trilhos, dos quais 62% estavam localizados no Norte. O Brasil hoje tem 32000
quilômetros de trilhos.
Além de baratear o transporte e possibilitar que vilas e fazendas mais distantes do litoral
atlântico pudessem mandar os seus produtos para os centros de população, as estradas de ferro
exerceram uma forte demanda sobre as oficinas que fabricavam insumos para a sua construção,
como pregos, trilhos, locomotivas, vagões e máquinas a vapor. Assim, a extensão da rede
ferroviária nos EUA, no século passado, estimulou a implantação de uma grande variedade de
fábricas de peças, e estabeleceu numa base duradoura a indústria de bens de produção, num
papel muito semelhante àquele desempenhado pela indústria automobilística no Brasil no
século XX.
As classes sociais
O crescimento rápido da população do Norte contribuiu muito para o aumento da demanda
de mercadorias na sua economia. Entre 1800 e 1850, a população dos EUA mais do que
quadruplicou, numa velocidade bem acima daquela conseguida pela população brasileira, na
mesma época (Tabela 1). Calcula-se que três quintos desta população americana moravam no
Norte ou no Oeste do país.
TABELA 1 — POPULAÇÃO (milhões de habitantes)
Ano EU/t Brasil
1800 5.3 3,8
1850 23,1 7,5
1870 39,8 (1872) 10,1
As grandes massas de imigrantes europeus contribuíram de uma maneira essencial para
este crescimento demográfico. Elas começaram a chegar aos EUA a partir de 1828, quando
pela primeira vez o número de imigrantes anuais ultrapassou 30000, uma cifra só atingida pelo
Brasil na década de 1880. Durante os anos de 1830-40, a imigração para os EUA chegou a uma
média anual de 59000; de 1840-50, a 171000; e de 1850-60, a 260000. Estes imigrantes vieram
empurrados pelas más condições econômicas e pela perseguição política e religiosa na Irlanda
(50% dos imigrantes), Alemanha (26%) e Inglaterra (16%), além de serem atraídos pelos
salários relativamente melhores e pelas facilidades em adquirir terras próprias no Norte e no
Oeste. Em 1850, os imigrantes constituíam 10% da população total.
Qual era a composição desta sociedade no Norte? Em primeiro lugar, não houve escravos.
No fim do século XVIII e no começo do século XIX, a maior parte dos estados do Norte aboliu
a escravidão ou a estava abolindo, através de leis do ventre livre. A classe dos trabalhadores
livres, que incluiu a maioria dos imigrantes recém-chegados, empregou-se nas oficinas como
aprendizes e oficiais, e como trabalhadores braçais na construção civil e na construção dos
canais e das estradas de ferro. As mulheres serviram como empregadas, ou encontraram
serviço como operárias nas tecelagens. No campo, o pobre empregava-se como jornaleiro e
aspirava a chegar a ser parceiro ou inquilino, nas fazendas dos outros.
A grande classe média, a classe mais numerosa do Norte, encontrava-se
predominantemente no campo, onde a agricultura e a pecuária com trabalho familiar foi a base
da vida econômica. Tanto nos pequenos sítios de legumes e frutas criados nos solos inférteis e
pedregosos da Nova Inglaterra, quanto nas fazendas maiores de centeio, cevada, aveia e trigo,
ou de laticínios e suínos, nas campinas de Nova Iorque, Pensilvânia, Ohio, Indiana, Illinois,
Michigan e Wisconsin, os próprios donos das fazendas e granjas e as suas famílias fizeram
quase todas as tarefas. Apenas durante a safra ou outra época de trabalho mais intenso
recorria-se à ajuda de algum assalariado, inquilino, ou mesmo ao mutirão dos vizinhos. Foi esta
classe que, junto com os fazendeiros do Sul, procurou os solos novos e terras sem donos para
ela e os seus filhos, e assim empurrou mais as fronteiras dos EUA para o Oeste.
A outra classe média nascia nas poucas grandes cidades como Nova Iorque que, em 1860,
foi a primeira a ultrapassar um milhão de habitantes. Esta classe média urbana inclui a pequena
burguesia dos artesãos e mecânicos com oficinas próprias, as profissões liberais como
advogados, médicos, professores, jornalistas e os funcionários públicos. Embora menor, em
número, do que a classe média rural, a classe média urbana teve uma expressão política
desproporcionalmente maior do que os seus números.
No cume da pirâmide social do Norte — as classes mais ricas — apareceram as pessoas que
acumularam as suas fortunas no comércio de importação e exportação, nas finanças e nas
atividades bancárias. Eles residiam nos grandes centros portuários de Boston, Nova Iorque,
Filadélfia e Baltimore. À frente desta elite, apenas 1% dos homens adultos livres detinha 27%
da riqueza da região. Os manufatureiros também pertenciam à classe rica, mas devido à
prevalência ainda do sistema doméstico e da pequena manufatura, apenas alguns poucos
ganhavam o bastante para entrar naquela fração de 1%.
O Sul
A economia
No começo da colonização inglesa, o Sul compreendia quatro colônias fundadas no século
XVII: Maryland, Virgínia, Carolina e Geórgia. Graças à fertilidade das grandes várzeas
recortadas por rios perenes desaguando no Atlântico, estas colônias prosperaram na base de
uma agricultura de exportação de fumo, índigo e arroz. As grandes fazendas produzindo estas
lavouras formaram-se com doações do governo inglês — muito semelhante à maneira pela qual
Portugal tinha instalado os sesmeiros no Brasil — e por prêmios concedidos aos colonizadores
para estimular a imigração e o povoamento. Na última década da colônia, a de 1760, o fumo
dominava a exportação do Sul, e junto com o arroz conseguia uma renda média anual igual à
metade do valor médio do açúcar exportado pelo Brasil durante a época colonial.
As colônias do Sul vendiam a maior parte de sua produção para a Inglaterra, e, nos fins do
século XVII, a renda da exportação do Sul era cinco vezes maior do que a renda das
exportações do Norte. Mas a diferença no valor das exportações das duas regiões foi
diminuindo, de modo que, na última década da colônia, o Sul ganhava praticamente o mesmo
dinheiro que o Norte através de seu comércio exterior. Isso se dava em parte porque as outras
colônias do Caribe, tanto as inglesas quanto as espanholas, faziam uma forte concorrência com
o fumo e o índigo do Sul.
O começo da revolução industrial inglesa no último quartel do século XVIII deu um novo
estímulo para a economia do Sul. Para o setor de ponta da revolução industrial, isto é, os
têxteis, a matériaprima de algodão era essencial. Os fazendeiros do Sul substituíram suas
lavouras em declínio pelas de algodão, e engrenaram na rápida expansão da economia inglesa.
Inicialmente, cultivavam a variedade de algodão de fibra comprida, que florescia apenas em
certas áreas litorâneas da Geórgia e Carolina do Sul. Logo depois, os fazendeiros introduziram
a variedade de fibra curta, que se adaptava melhor às condições de solo e clima variadas. Para
acelerar o processo custoso de separar a semente desta fibra curta, o inventor Eli Whitney já em
1794 aperfeiçoou uma máquina descaroçadora que multiplicou por um fator de 50 a quantidade
que um homem podia limpar em um dia.
Assim, o algodão ficou “rei”, dominando a economia e a sociedade do Sul, contribuindo
com sete oitavos da produção mundial desta matéria-prima, e gerando quase dois terços da
renda das exportações americanas nos anos 1836-40. A Inglaterra comprava dois terços deste
algodão americano; as fábricas americanas de linha e pano também cresceram nesta época, de
modo que três quartos do algodão não exportado foram alimentar os teares do Norte, e um
quarto ficou para as fábricas do próprio Sul.
Para realizar a produção de algodão, que foi dobrando em cada década até atingir o auge de
quase 4,5 milhões de fardos (cada fardo tinha 227 quilogramas) na véspera da Guerra Civil, era
necessário terra, dinheiro e mão-de-obra. Na medida que o mercado expandia-se e prevalecia o
desinteresse em adubos, rotatividade de lavouras e outras técnicas preservativas de fertilidade
nas terras mais velhas, os fazendeiros procuravam as terras mais férteis e mais fáceis de
trabalhar com máquinas. Em terras boas, o algodão rendia até três safras por ano. Essas terras
encontravam-se no Sudoeste, nos estados limítrofes com o Golfo do México, chegando os
fazendeiros, na véspera da guerra, às partes orientais do Texas, além do Rio Mississippi. As
grandes fazendas abrangiam mais do que 800 hectares, o que fez com que o tamanho médio da
propriedade rural no Sul fosse o dobro do tamanho médio da mesma no Norte. Em
propriedades menores também se produzia algodão.
Casas comerciais e bancos localizados no Sul em cidades portuárias como Nova õrleans,
Mobile, Savannah e Charleston, e no Norte, especialmente em Nova Iorque, emprestaram o
dinheiro para o custeio dos fazendeiros de algodão. Aquelas casas também se encarregavam da
comercialização e exportação, e de comprar ou importar as necessidades da fazenda, numa
maneira muito semelhante àquela pela qual os comissários e casas de correspondentes
financiavam e comercializavam a produção de açúcar e café no Brasil. Os comerciantes de
Nova Iorque também providenciavam os barcos para as viagens oceânicas e asseguravam as
cargas contra acidentes e perdas.
Para a mão-de-obra das fazendas, os plantadores importavam escravos africanos ou
compravam escravos a outras regiões do Sul. O Governo Federal declarou o tráfico
internacional de escravos ilegal em 1808. No Sul, a escravidão continuou sendo uma relação de
trabalho muito importante, e um contrabando de africanos escravizados florescia até a guerra
(1808-61). O volume médio anual deste contrabando, entretanto, era de 5 000 escravos, cifra
que não representou nem um quinto dos escravos contrabandeados anualmente da Ãfrica para o
Brasil no período de ilegalidade deste tráfico (1831-50).
Como a lavoura de algodão, ao contrário do beneficiamento, não podia ser mecanizada na
época, estes escravos eram essenciais para plantar, cultivar, desbastar, colher e secar o produto.
Em 1860, aproximadamente a metade dos escravocratas nas áreas de algodão tinham entre 16
e 50 escravos, e um terço dos escravocratas nestas áreas tinha mais do que 50 escravos. No Sul
em geral, nesta época, uma em cada quatro famílias tinha pelo menos um escravo.
Outras lavouras desempenharam papeis importantes no Sul. O milho cobria uma área três
vezes maior do que o próprio algodão e era um alimento básico das pessoas, dos suínos e das
galinhas, embora não produzisse rendas monetárias iguais às do algodão. Nos estados do Alto
Sul, Virgínia, Carolina do Norte e Kentucky, o fumo mantinha a sua posição, mas contribuiu
apenas com 6% das exportações nacionais do quinquênio 1845-49. Em alguns estados havia
plantações de cânhamo, arroz e trigo e em Louisiana e Texas concentravam-se os engenhos de
açúcar.
A indústria no Sul engatinhava em comparação com o Norte, e se concentrava
principalmente no beneficiamento de produtos agrícolas. Engenhos de açúcar, moinhos de
arroz, milho e trigo e serralherias para a confecção de tábuas, telhas, barris e aguarrás, ao lado
de algumas poucas fábricas de linha e pano de algodão, praticamente esgotam a lista.
Empresários sulistas exploraram minas de carvão, ferro, cobre e chumbo, mas a transformação
destes minerais em produtos finais foi realizada no Norte. Em 1860, o Sul detinha apenas 15%
da capacidade industrial nacional e apenas 5% dos escravos foram empregados fora das
lavouras.
O sistema de transportes no Sul aproveitava os grandes rios perenes, como o Mississippi e
os seus muitos afluentes, para a condução de cargas entre as fazendas e os mercados.
Companhias ferroviárias construíram apenas 10 500 quilômetros de trilhos no Sul antes da
guerra, menos de uma terça parte da rede nacional. Embora o transporte fluvial escoasse bem a
produção, ele pouco estimulava o surgimento de indústrias fornecedoras, como vimos
acontecer no Norte.
As classes sociais
A sociedade do Sul, assim como a sua economia, parecia-se muito com a sociedade e a
economia brasileiras da época. Na base da pirâmide social ficaram os escravos, a classe mais
numerosa. Em 1860 o Sul tinha 3950000 escravos, um pouco mais do que o dobro do número
de escravos no Brasil nesta década. Mas estes escravos americanos representaram um terço da
população do Sul, o dobro da proporção de escravos na população brasileira. Quáse a metade
dos escravos no Sul trabalhava nas fazendas de algodão e a outra metade foi distribuída entre as
outras lavouras, as pequenas manufaturas e o artesanato, e os serviços nas vilas e cidades.
O fato de que a população escrava americana dobrou entre 1820 e 1860, apesar da
ilegalidade do tráfico internacional e do papel relativamente pequeno do contrabando, sugere
que as condições de trabalho e da vida do escravo, embora ruins, pelo menos permitiam um
crescimento natural da população, com o número de crianças escravas nascidas e sobreviventes
excedendo o número de escravos morrendo, o que nunca foi o caso no Brasil em geral.
Também se pode constatar que houve menos revoltas de escravos e menos quilombos no Sul
dos EUA do que no Brasil. Em todo o século XIX, por exemplo, realizaram-se apenas duas
revoltas, uma em Nova Õrleans em 1811 e outra em Virgínia em 1831, embora várias outras
tivessem sido planejadas mas descobertas e reprimidas antes de começar.
Mas seria um erro sucumbir à tentação de afirmar que a escravidão era mais branda entre os
americanos do que entre os brasileiros. Os escravos no Sul sofriam os mesmos castigos como o
tronco, marcação de ferro quente, e açoites no pelourinho. Os escravos no Sul defendiam-se
através de sabotagem, roubo, fingimento de doenças e ataques físicos contra os feitores e os
senhores. Quando o escravo tinha a coragem e encontrava a oportunidade, ele fugia e
procurava chegar até os estados do Norte, ou mesmo até o Canadá. Esta fuga foi ajudada por
uma rede de coiteiros e informantes chamada “a estrada de ferro subterrânea”. Fugindo de
noite, orientando-se pela estrela do Norte, mais de 50OCX) escravos, inclusive os
abolicionistas militantes Harriet Tubman, uma exempregada, e Frederick Douglass, um
ex-calafate de navios, assim conseguiram a sua liberdade.
Os brancos mais pobres, que tinham pelo menos a sua liberdade e o orgulho de sua cor,
faziam parte da classe dos pequenos lavradores. Trabalhando sem escravos nas piores terras
das montanhas e dos pântanos, estes agricultores tinham normalmente roças próprias onde eles
plantavam as culturas de subsistência. Eles eram auto-suficientes, sem ligações importantes
com as grandes fazendas. Os negros livres também pertenciam a esta classe, mas eles eram
muito poucos. Calcula-se que em 1860 no Sul havia 16 escravos para cada negro livre,
enquanto no Brasil em 1.872 a razão era mais do que dois negros livres para cada escravo.
Outros agricultores brancos, radicados nas regiões periféricas como o Vale do Rio
Shenandoah em Virgínia e a área de capim-do-campo (bluegrass) em Kentucky, criaram frutas,
legumes, cereais, batatasdoces e diversos tipos de gado. Eles tinham ajguns poucos escravos,
ou empregavam assalariados, e as suas terras eram maiores do que as roças simples dos brancos
pobres.
Ao contrário do Norte, no Sul faltava uma classe média urbana importante, em parte porque
faltavam cidades grandes. A maior cidade sulista em 1860 era Nova Õrleans, com 168000
habitantes, bem inferior a Nova Iorque (1,2 milhões, incluindo o Brooklyn), Filadélfia
(565000), e Baltimore (212000), e apenas parecida com Boston e as cidades do velho Noroeste
como Cincinnati e Saint Louis. A expansão da rede ferroviária do Nordeste até o Rio
Mississippi, na década de 1850, permitiu que Nova Iorque tirasse de Nova Õrleans o privilégio
de receber a maior parte das exportações do Oeste e frustrou o crescimento do porto sulista.
No cume da pirâmide social do Sul, dominavam os grandes fazendeiros, que tinham os
melhores solos, e os maiores planteis de escravos. De todos os fazendeiros produzindo algodão
com escravos, os dez por cento mais ricos detinham 61% dos escravos e 68% da produção de
algodão. Esta oligarquia considerava-se uma aristocracia, com tudo menos os títulos. Como a
elite urbana no Norte, a elite rural no Sul patrocinava as artes, as boas maneiras e a vida
suntuosa. Diferente do que a sua contrapartida no Norte, a oligarquia sulista gostava da carreira
militar, recorria ao duelo como uma maneira honrada de resolver diferenças entre gente livre, e
tinha poderes de vida e morte sobre os escravos, com os quais o Estado quase nunca interferia.
Esta oligarquia de fazendeiros ricos dividia o poder político do Sul com donos das grandes
casas de exportação e importação. Através de suas ligações comerciais com as firmas do Norte,
que financiavam e compravam a sua produção, a oligarquia manteve uma rede de interesses
comuns com a classe dominante nortista até a Guerra Civil.
O Oeste
O Oeste significava uma área de fronteira dinâmica, não uma região específica. Nos
meados do século XVIII, o Oeste denotava a área entre as Montanhas Apalaches e a margem
leste do Rio Mississippi, além do qual as terras eram reivindicadas pela França, a Espanha e a
Inglaterra. Cem anos depois,
o Oeste veio a indicar a área além do Rio Mississippi até o Oceano Pacífico. Aos poucos esta
área foi incorporada aos EUA, através da compra e da conquista.
Quando no começo do século XIX, Napoleão precisava de dinheiro para guerrear contra os
ingleses, o presidente americano Thomas Jefferson aproveitou e comprou por 15 milhões de
dólares em 1803 o território de Louisiana. Esta área estendia-se desde o Golfo do México até o
Canadá no Norte, e até as Montanhas Rochosas no Oeste, e deu para os EUA controle total
sobre o Rio Mississippi. os seus afluentes ocidentais dos Rios Missouri, Arkansas e Vermelho,
e o porto de Nova Ôrleans.
A incorporação das terras mais ao Oeste do Rio Mississippi acelerou-se depois de 1821.
Para proteger o seu sistema colonial, a Espanha tinha proibido às nações estrangeiras de fazer
comércio com o México. Mas quando o México conseguiu a sua independência da metrópole
espanhola em 1821, a nova nação imediatamente abriu-se para o comércio e a colonização
estrangeira e os americanos não tardaram em aproveitar. Sulistas levando os seus escravos
entraram no distrito do Texas, do estado mexicano de Coahuila, e se radicaram perto dó Golfo
do México, onde começaram a plantar algodão e milho. A pequena colônia floresceu, e em
1835 a sua população americana já excedeu a mexicana no Texas por uma taxa de mais de 8
para 1.
Os americanos anglo-saxônicos e protestantes desprezaram os mexicanos latinos e
católicos, e se ressentiram das pressões mexicanas de abolir a escra-

vidão, ilegal no México desde 1829. Pressões exercidas também para limitar o influxo de mais
imigrantes americanos, para suspender a distribuição de terra, e para negar autonomia política
ao Texas. Rebelando-se e derrotando os exércitos mexicanos, os americanos estabeleceram a
República do Texas, também conhecida como a República da Estrela Solitária (a bandeira tinha
uma só estrela), em 1836. Esta República durou 10 anos. Em 1845, quando a Inglaterra e a
França mostraram-se interessadas numa aliança com o Texas — um produtor considerável de
algodão, açúcar e gado a essa altura — o governo americano do Presidente James Knox Polk,
com pleno apoio dos texanos, rapidamente anexou a pequena nação.
Outros americanos entraram no México independente, na área do estado de Alta Califórnia.
Chegando por via de uma viagem de barco a vela ao redor do Cabo de Hornos, estes
americanos venderam todo tipo de manufatura aos fazendeiros e missionários da Califórnia, e
compraram couros e sebo, para a fabricação de sapatos e velas. Este comércio levou ao
estabelecimento de feitorias e, na década de 1840, às primeiras migrações por terra até a
Califórnia, e à criação de pequenas colônias agropecuárias no Vale do Rio Sacramento.
Os EUA anexaram a Califórnia através de uma guerra com o México. Quando este país
recusou-se a negociar a venda da área a oeste do Texas, o governo de Polk, receoso de que o
México vendesse a área para a Inglaterra ou a França, declarou guerra, justificando-se com a
doutrina popular de “destino manifesto”, segundo a qual o próprio Deus queria que os EUA
chegassem até o Pacifico. Depois de 21 meses de vitórias seguidas contra os mexicanos,
incluindo acaptura do porto principal de Vera Cruz e da capital. Cidade do México, os EUA
compraram pelo preço de 15 milhões de dólares quase a metade do território nacional
mexicano, uma área hoje em dia compreendendo os estados da Califórnia, Nevada, Utah e
partes do Arizona, Novo México, Colorado e Wyoming. Para maior desgosto dos mexicanos,
logo depois de concluir a venda forçada em 1848, descobriu-se ouro na Califórnia. Em 1853, os
EUA pagaram mais 10 milhões ao México para uma faixa de território no sul do Arizona e
Novo México, onde se pensava construir uma estrada de ferro até a Califórnia, e onde, de fato,
descobriu-se logo depois minas de ouro e de prata.
Os EUA não precisaram fazer guerra para anexar o território do Oregon no extremo
Noroeste, na área hoje composta pelos estados de Oregon, Washington, Idaho e partes de
Montana e Wyoming. Por um acordo de 1818, os ingleses e os americanos deram-se direitos
mútuos de explorar esta área. Os ingleses entraram primeiro em 1821, quando a Companhia da
Bahia de Hudson começou a caça ao castor e outros animais apreciados por suas peles. Nos
meados da década de 1830, missionários metodistas e presbiterianos dos EUA lideraram
caravanas de migrantes para o Oregon, mais à procura de terras novas do que de almas
indígenas para converter. Uma centena de pessoas em dez a vinte carroções cobertos de lona, as
famosas “escunas das pradarias”, acompanhados de seus rebanhos de gado e cavalos, seguiram
cada ano, a partir de 1842, com destino ao Vale do Rio Willamette. Estimulada por propaganda
nos EUÁ, a migração para o Oregon cresceu, e a população americana lá ultrapassou a inglesa
por uma razão de 6 americanos para cada inglês, em 1845. No ano seguinte, o Presidente Polk
pediu aos ingleses a abdicação de suas pretensões no Oregon. Com a caça rareando, e a pouca
esperança de igualar a colonização americana, os ingleses concordaram em se retirar, em troca
de uma linha divisória fixa na latitude de 49°, e uma tarifa aduaneira que favorecia as
exportações inglesas para os EUA.
Nos anos de 1803 a 1853, os EUA tinham estendido a sua fronteira do Rio Mississippi até o
Pacífico, e triplicado o território nacional. Quais as atividades econômicas que motivaram esta
expansão?
Nas décadas de 1820 a 1840, uma das atividades mais importantes foi a caça de animais como
castor, veado e bisão, na Região das Montanhas Rochosas. Inicialmente as companhias
comerciais conseguiram as peles através de escambo com os índios das tribos Blackfoot, Crow,
Grosventre e Blood, mas a partir de 1822 as companhias incentivaram os brancos, os “homens
das montanhas”, a passar o ano caçando isolados para depois se reunirem todos para vender
aos representantes das companhias. Esta caça prosseguiu por vinte anos, até que não havia mais
animais suficientes para pagar as despesas.
Nas mesmas décadas florescia o comércio com o México através do entreposto de Santa Fé.
Aberta ao comércio estrangeiro pela independência mexicana. Santa Fé tornou-se um pólo de
atração para americanos aventureiros que levaram pelo “Caminho de Santa Fé” os têxteis,
ferragens e bugigangas para trocar por ouro, prata, peles e mulas. Este comércio durou até a
década de 1840, quando as tensões políticas na fronteira provocaram restrições por parte dos
mexicanos.
Em algumas áreas como os vales férteis da Califórnia e do Oregon, e na região a leste e ao
sul do Grande Lago Salgado, onde os dissidentes religiosos chamados Mórmons souberam
irrigar e cultivar conforme um plano cooperativista a partir de 1847, a agricultura e a pecuária
em pequena escala fincaram raízes. Mas as pequenas populações e as grandes distâncias dos
centros maiores impediram que muitas fazendas do Oeste chegassem a se integrar
economicamente com o resto da nação, até depois da Guerra Civil, quando os trilhos das
estradas de ferro ligaram o Oeste ao Norte e ao Sul.
Sem dúvida, a atividade econômica mais rentável no Oeste, antes da guerra, era a
mineração. A descoberta de ouro na Califórnia em 1848, de ouro no Colorado em 1858, e de
ouro e de prata em Nevada em 1859, provocaram corridas frenéticas de dezenas de milhares de
americanos e europeus sonhando em fazer suas fortunas. De fato, os primeiros a chegar muitas
vezes conseguiram enriquecer: no primeiro ano de exploração, as minas da Califórnia
produziram 10 milhões de dólares, e no auge da extração, em 1852, a produção subiu para 81
milhões, aproximadamente seis a sete vezes o valor anual do açúcar exportado por Louisiana e
de um terço a um quarto do valor do algodão produzido pelo Sul nos melhores anos antes da
guerra. Só o filão de Comstock em Nevada rendeu 300 milhões em vinte anos de exploração.
Desde que a produção mineira ocorreu em regiões isoladas cujas populações somadas mal
ultrapassavam 400000 pessoas, possibilitando uma renda per capita altíssima, é fácil apreciar a
atração exercida por ela sobre os migrantes.

As classes sociais
Até a época da mineração, o maior grupo no Oeste era o dos índios das tribos como Sioux,
Nez Percé, Arapaho, Comanche, Osage, Pawnee, Cheyenne, Yuma, Blackfoot, Crow e
Apache. Estes índios, nômades de uma cultura neolítica, tinham incorporado como meio de
transporte o cavalo, introduzido pelos espanhois no México colonial. Os índios viviam
principalmente da caça e da pesca. Fora da Califórnia e do Oregon, onde foram reduzidos a
trabalhadores nas fazendas, poucos índios integravamse na sociedade dos brancos e muitos
resistiam a estes com uma guerra de guerrilhas baseada nas táticas de cavalaria.
Os brancos trabalhavam nas suas próprias fazendas, ajudados pelas famílias, ou alguns
vaqueiros assalariados, com a exceção das áreas como Califórnia e Oregon, perto do Oceano
Pacífico, onde a possibilidade de escoar a produção por mar incentivou a criação de maiores
fazendas com turmas grandes de trabalhadores indígenas.
As minas trouxeram inicialmente uma população de garimpeiros que viviam catando ouro e
prata na superfície da terra e nos riachos. Quando estes depósitos esgotaram-se, entraram as
grandes companhias mineiras, que cavavam longos túneis subterrâneos, e instalaram moinhos
para quebrar a pedra e o quartzo retirados. Como a procura de ouro e prata exigia tempo
integral dos mineiros, ao redor das minas surgiram pequenas vilas vendendo alimentos, roupas,
ferramentas e outras mercadorias essenciais, e oferecendo serviços para o lazer dos mineiros
como o jogo e a prostituição.
Assim, o Oeste parecia a terra da oportunidade para todos, onde nem grandes capitais nem
grandes extensões de terras eram os privilégios de poucos, mas cada homem com os seus
próprios esforços podia construir uma vida digna. Talvez por este motivo, o Oeste tornou-se
muito cobiçado pelo Norte que esperava que lá a pequena e média propriedade desenvolveriam
uma agricultura e uma pecuária voltadas para o abastecimento das grandes populações do
Norte, e para a compra das suas manufaturas. Era cobiçado também pelo Sul, que esperava
poder aproveitar as terras além do Texas, para a expansão da lavoura de algodão e outras
plantas, trabalhando com a mão-de-obra escrava. Como veremos, era o conflito entre estas duas
visões do Oeste que aguçava as tensões que levaram à Guerra Civil.

AS CAUSAS DA GUERRA
Quando a Guerra Civil começou, ninguém devia ter ficado muito surpreso, porque os
conflitos de interesse entre Norte e Sul, e a incapacidade crescente dos meios tradicionais de
resolvê-los, tinham uma longa história que remonta às próprias origens da república americana.
Os políticos tinham encontrado diversas maneiras de contornar, adiar ou ignorar estes conflitos
antes de 1861. O início da guerra significou que tais meios pacíficos não funcionavam mais.
Quais eram os pontos principais de conflito entre Norte e Sul? Um deles foi a questão da
tarifa sobre importações. Desde 1816, o Norte queria que este imposto fosse elevado o bastante
para oferecer alguma proteção contra a concorrência de matériasprimas e manufaturas
importadas; o Sul, e por um certo tempo o Oeste, queriam que o imposto fosse sempre baixo,
para assim permitir que estas regiões, que não tinham manufaturas tão importantes quanto o
Norte, pudessem importar as suas necessidades pelos preços mais baratos possíveis.
Os debates sobre a tarifa repercutiram durante as décadas antes da Guerra Civil. Quando o
Congresso aprovou uma nova lei de tarifa alta em 1832, os representantes da Carolina do Sul
protestaram, convocando uma assembleia no seu estado. Nesta assembleia os participantes
declararam que tal tarifa era “nula, vazia e nenhuma lei, sem obrigação para este estado, os seus
funcionários, ou os seus cidadãos”. A assembleia proibiu aos funcionários da alfândega que
cobrassem o novo imposto, e ameaçou que qualquer tentativa de forçar o estado a obedecer às
leis seria “incompatível com a permanência da Carolina do Sul na União”. O Vice-presidente
John C. Calhoun, da Carolina do Sul, defendia a legalidade de um estado invocar “a doutrinha
de nulificação” para tornar leis federais sem' efeito, e ele se demitiu no meio da crise, que só foi
resolvida em 1833, quando o Presidente Andrew Jackson e os protecionistas do Norte
concordaram em diminuir o nível da tarifa. O imposto sobre manufaturas importadas ficou
gradativamente reduzido até chegar aos 20% do valor em 1842, para depois flutuar entre 20% e
30% até a Guerra Civil.
Um segundo ponto de atrito entre Norte e Sul, que também envolvia o Oeste, era a questão do
acesso às terras novas conquistadas ou compradas aos índios, ao México e à França.
Inicialmente a política territorial visava a venda destas terras públicas, como uma medida de
arrecadar dinheiro para o Governo Federal. Nas primeiras leis de terras (1785, 1796), o
Congresso impôs preços elevados a serem pagos à vista, ou com 50% de entrada, e grandes
parcelas mínimas de 259 hectares. Os capitalistas do Norte apoiavam estas leis, porque
receavam que, se as terras do Oeste fossem de fácil aquisição, os operários deixariam as
fábricas ou forçariam um aumento dos salários. Eles também se opuseram aos esquemas de
vender as terras pobres mais barato, e de permitir que os posseiros tivessem a preferência para
comprar as terras onde residiam.
Contra os defensores de terras caras, formou-se uma aliança forte. Os pequenos
proprietários do Norte queriam terras mais baratas, porque previram que eles ou os seus filhos
poderiam formar novas fazendas mais para o Oeste. Os operários, mesmo quando não
dispostos a trocar a fábrica pela fazenda, perceberam que, se os imigrantes tivessem acesso
fácil à terra, haveria menos concorrência no mercado de trabalho fabril. Na década de 1840,
surgiu em Nova Iorque o Partido de Solo Gratuito, liderando um movimento popular
reivindicando a distribuição gratuita das terras públicas. Estes nortistas argumentavam que o
Oeste funcionaria como uma válvula de escape para as tensões sociais nas cidades do Leste. No
seu auge, eles conseguiram 10% da votação popular nas eleições presidenciais de 1848, e na
década de 1850 continuavam a agitar.
Os sulistas apoiavam as reivindicações de terra barata, porque imaginavam que as terras do
Oeste prestavam para as suas lavouras, e porque eles receavam que sem o dinheiro das vendas
de terras o Governo Federal teria que aumentar o imposto sobre a importação. Os fazendeiros
do Oeste perto do rio Mississippi sentiam-se à vontade em aliança com o Sul, porque eles
escoavam a sua produção através de Nova Órleans e vendiam muito para o consumo do Sul.
Como consequência desta aliança entre elementos do Norte, do Sul e do Oeste, as novas leis de
terras do século XIX (1800, 1804 e 1820) tendiam a facilitar a aquisição a mais longo prazo, e
por preços inferiores, e em parcelas mínimas menores.
Quando o avanço do algodão para o Oeste chegou aos seus limites naturais no Texas, na
década de 1850, as regiões trocaram de posição a respeito da disposição das terras públicas.
Agora, os políticos do Sul, acreditando que o território entre Texas e Canadá constituía “o
Grande Deserto Americano”, tanto que o exército federal importou camelos para transportes
em 1856 e 1857, desistiram de apoiar o fácil acesso a essas terras. No Norte, por outro lado, os
empresários perceberam que o crescimento, no Oeste, de propriedades agrícolas e pecuárias
aumentaria a oferta de gêneros alimentícios às cidades, baixaria o custo de vida, e assim
contribuiría para que os salários não aumentassem tanto. Os políticos nortistas também
perceberam que, se eles apoiassem o Oeste para abrir as terras ao povoamento, podiam receber
em troca o apoio do Oeste para tarifas aduaneiras mais elevadas.
Um terceiro ponto de atrito entre Norte e Sul visava à natureza de bancos e dinheiro. Os
centros de finanças no nordeste emprestavam ao país inteiro o capital acumulado por décadas
nos negócios do comércio, e portanto eram centros de credores. Eles queriam um banco
nacional com direitos exclusivos de emitir dinheiro, e queriam o fim das múltiplas variedades
de dinheiro emitido por bancos particulares licenciados pelos governos estaduais, variedades
que circulavam conforme a fama de cada banco e o seu estado. Eles queriam também um
dinheiro “forte”, que, quando usado para pagar uma dívida, tivesse o valor real correspondente
ao valor impresso na cédula.
Os fazendeiros do Sul e do Oeste, ao contrário, grupos devedores na sua maior parte,
favoreciam maior flexibilidade das emissões de dinheiro, e um dinheiro mais inflacionado, que
facilitaria o pagamento de suas dívidas. Estes grupos apoiavam medidas inflacionárias também
porque, ganhando em libras e francos por causa de seu grande envolvimento no comércio
exterior, na hora de cambiar esta moeda estrangeira eles receberiam mais dinheiro nacional se
este estivesse desvalorizando-se. Por estes motivos, as classes dominantes e populares do Sul e
do Oeste se juntaram contra os centros credores do Norte para derrotar projetos de manter um
banco nacional depois de 1836.
O quarto ponto de atrito entre o Norte e o Sul visava o que era chamado de “melhoramentos
internos”. Inicialmente esta frase queria dizer estradas, canais e melhoramentos de portos,
todos custeados pelo Governo Federal. Quando começou a época das estradas de ferro, os
melhoramentos internos significaram subsídios federais para ajudar nà sua construção. O Norte
e o Oeste, em geral, favoreciam os programas federais de melhoramentos internos, porque eles
iam ganhar novos mercados e lucrar com a extensão das redes de transportes.
Mas os fazendeiros do Sul desconfiavam de que eles teriam que pagar uma grande parte do
custo destes melhoramentos através de elevados impostos na alfândega, sem receber os
benefícios, uma vez que o sistema fluvial tornou tais melhoramentos no transporte terrestre
menos importantes no Sul. Na década de 1850. com a descoberta das minas no Oeste, muita
gente pensava em promover a construção de uma estrada de ferro transcontinental, com ajuda
do Governo Federal, que traria vantagens para todas as regiões. Mas cada cidade maior, ao
longo do Vale do Rio Mississippi, queria ter o terminal oriental dos trilhos, e. nesta
concorrência regional sobre o traçado. frustraram-se os projetos de subsidiar a construção.

A escravidão
As questões da tarifa das terras públicas, do banco nacional e dinheiro forte e dos
melhoramentos internos, dividiam as regiões. Mas nem todo atrito político explode em guerra
civil, e através dos dois
partidos políticos principais, os Whigs e os Democratas, estas diferenças foram negociadas. Os
Whigs representaram os grandes comerciantes e manufatureiros do Norte, os fazendeiros mais
ricos e das famílias com maiores pretensões aristocráticas no Sul, e os fazendeiros mais
interessados em melhoramentos internos no Oeste. Os Whigs defendiam um papel maior para o
Governo Federal na promoção da economia e a regulação da sociedade, e ganharam as eleições
presidenciais em 1840 e 1848. Mas estas vitórias aconteceram menos como resultado da
popularidade dos ideais dos Whigs, do que da circunstância de que os candidatos dos Whigs
também eram herois militares das guerras contra os ingleses, os índios e os mexicanos.
Os Democratas tinham o apoio dos pequenos comerciantes e fazendeiros do Norte e do
Oeste, dos trabalhadores urbanos e imigrantes no Norte e dos fazendeiros menores no Sul. Eles
defendiam uma filosofia politica do laissez-faire, acreditando que o Governo Federal devia-se
abster de se intrometer na economia e na sociedade. Por sua base popular maior, os Democratas
ganharam as eleições presidenciais de 1828, 1836, 1844, 1852 e 1856.
Durante o período de 1828 a 1854, estes dois partidos políticos conseguiram apoio em todas as
três regiões dos EUA, sem que qualquer um deles se identificasse demais com qualquer uma
das regiões. Isso foi feito de tal maneira que foi possível que o Congresso Federal debatesse,
repetidamente, todos os pontos de atrito entre as regiões, e encontrasse resoluções parciais
negociadas entre os representantes do Norte, Sul e Oeste.
Nenhum destes pontos de atrito, portanto, deve ser considerado o grande responsável pela
Guerra Civil. A escravidão, porém, provocou conflitos muito mais profundos do que estes. Esta
relação de trabalho escravo, generalizada apenas no Sul, claramente diferenciava esta
sociedade da do Norte. Os sofrimentos dos escravos nas fazendas e as crueldades com as quais
os capitães-do-mato perseguiram e trouxeram de volta os fugitivos, excitaram as paixões
morais no Norte. Os debates sobre a escravidão eventualmente polarizaram os partidos
políticos e desembocaram na Guerra Civil.
Ao longo dos 85 anos entre a declaração da independência e o começo da Guerra Civil, as
brigas políticas mais sérias estouravam nos momentos de debater a escravidão. Na Ordenança
do Noroeste de 1787, os representantes dos novos estados da então chamada Confederação dos
Estados Unidos da América concordaram que o território ao noroeste do Rio Ohio, bem ao
norte dos então limites da agricultura sulista, seria livre da escravidão. Mas pressões sulistas
fizeram com que eles também garantissem que qualquer escravo fugido para tal território teria
de ser devolvido ao seu dono.
No mesmo ano, as deficiências diversas da Confederação induziram a convocação de uma
constituinte para reformular as bases do governo central. Nesta constituinte, realizada em
Filadélfia, os delegados do Norte e do Sul entraram em conflito sobre a escravidão, e foi feita
uma série de acordos. Uma questão foi a da representação da Câmara dos Representantes do
Congresso Federal. Os comerciantes do Nordeste temiam que. se a representação fosse
calculada como uma proporção da população total, os fazendeiros do Sul ganhariam um poder
político exagerado, porque incluiriam o número de seus escravos, embora os escravos não
tivessem direito político algum. Os nortistas chegaram a perguntar: se os sulistas podiam
contar com os seus escravos para aumentar a sua representação, por que os nortistas não
podiam contar com o seu gado? Por outro lado. os sulistas não queriam que os impostos
federais fossem cobrados na base da população, incluindo os escravos. Se incluíssem, a carga
tributária seria muito mais pesada para os contribuintes do Sul, isto é, os livres, do que para os
contribuintes do Norte. Para sair do impasse, os constituintes concordaram em considerar um
escravo como o equivalente a três quintos de um livre, tanto para o cálculo da representação,
quanto para o dos impostos.
Os constituintes também consideraram o tráfico internacional de escravos e os escravos
fugidos, e encontraram soluções favoráveis ao Sul. Eles resolveram não debater o fechamento
do tráfico internacional antes de 1808, mas permitir que se cobrassem impostos sobre este
tráfico. Também os sulistas garantiram o direito de reaver os escravos fugidos, mesmo quando
estes fugiam para estados sem escravidão.
Quando em 1808 o Congresso aprovou a lei proibindo o tráfico internacional de escravos, o
Sul aceitou a decisão sem problema. Como no Brasil, onde uma medida semelhante foi
aprovada em 1850, as áreas do Alto Sul plantadas com arroz e fumo já tinham muitos escravos
e a lei serviu para valorizálos. As áreas de crescimento mais rápido no Baixo Sul sustentaram
um contrabando pequeno, mas a fonte principal de novos escravos para o algodão era o ventre
da mãe escrava e o tráfico interno, que drenava escravos dos estados do Alto Sul para as
fazendas do Baixo Sul.
Na sociedade civil, uma das primeiras reações à escravidão ocorreu, em 1816, quando um
grupo de brancos ricos em Virgínia criou a Sociedade Americana de Colonização. Esta
Sociedade partia do princípio de que a melhor solução para a escravidão era a emigração dos
negros. Eles ganharam apoio no Alto Sul, atraindo escravocratas querendo se livrar dos negros
subversivos e atraindo abolicionistas céticos da possibilidade da coexistência entre negros e
brancos. O governo do Presidente James Monroe, em 1819, comprou terras na África ocidental
para os negros emigrados. Até a Guerra Civil, esta Sociedade convenceu apenas 12 000 negros
a emigrar, mas era o( bastante para criar a República de Libéria, em 1846, com a capital de
Monróvia. O próprio presidente Abraham Lincoln, posteriormente autor da abolição, apoiava
esta colonização de negros americanos na África, América Central e no Caribe.
O atrito entre Norte e Sul agravou-se muito nas discussões sobre a organização política do
Oeste, e sempre a questão da escravidão transparecia nestes debates. A referida Ordenança de
1787 estabeleceu algumas regras para o Oeste. Na medida que os americanos fossem povoando
estes territórios, eles passariam a ser governados por pessoas nomeadas pelo Congresso.
Quando tivesse pelo menos 5000 homens livres, o território podia eleger uma assembleia
legislativa própria. Ao chegar aos 60000 habitantes, o território podia escrever a sua própria
constituição e pedir sua admissão como estado à União.
Assim, até 1820, entraram na União mais nove estados. No Norte, e proibindo
especificamente a escravidão nas suas constituições, entraram Vermont (1791) , Ohio
(1803), Indiana (1816) e Illinois (1818). No Sul, permitindo a escravidão, entraram Kentucky
(1792) , Tennessee (1796), Louisiana (1812), Mississippi (1817) e Alabama (1819). Incluindo
os treze estados originais, manteve-se um equilíbrio entre onze estados livres e onze estados
escravistas.
Tal equilíbrio foi ameaçado em 1819, quando o território de Missouri, na margem leste do Rio
Mississippi, pediu admissão como um estado escravista, e um representante de Nova Iorque
apresentou uma emenda estipulando a abolição gradual da escravidão no Missouri. Os sulistas
reagiram fortemente e os nortistas tiveram que suprimir a emenda e deixar o Missouri entrar
como estado escravista. Em troca, o Norte ganhou a entrada do estado livre do Maine, e uma
proibição da escravidão no Oeste ao norte da latitude 36’ 30”, com a exceção do Missouri, que
se comprometeu a nunca barrar a entrada de negros livres. Estes “Acordos do Missouri”, como
a barganha ficou conhecida, efetivamente diminuíram a área do Oeste que tinha sido deixada
aberta para a escravidão pela lei de 1787, e reafirmaram o poder do Congresso Federal de
interferir com um direito de propriedade e legislar sobre a escravidão, no Oeste. Mas também
garantiram que, no Congresso Federal, o equilíbrio entre os senadores e representantes das
áreas livres e escravistas seria mantido.
Este equilíbrio não se alterou durante a década de 1830, quando o Arkansas entrou na
União como estado escravista em 1836, e o Michigan entrou como estado livre em 1837. Da
mesma forma, na década de 1840, a Flórida e o Texas entraram como estados escravistas em
1845, e Iowa e Wisconsin entraram como estados livres em 1846 e 1848, respectivamente.
Na mesma época em que os políticos no Congresso realizaram os acordos mantendo o
equilíbrio entre os estados escravistas e os estados livres, a primeira campanha de
abolicionismo radical surgia em Boston, Massachusetts, em 1829. Iniciado por um negro livre,
David Walker, que pregava aos escravos “matem, ou sejam mortos”, o movimento tinha como
seu líder principal o redator William Lloyd Garrison. Garrison publicava o jornal O Libertador,
de 1831 a 1865, no qual se reivindicava a abolição imediata e sem indenização. Ele ajudou a
fundar a Sociedade Americana contra a Escravidão em Filadélfia, em 1833, e durante a década
de 1830 estes abolicionistas circularam propaganda pelo correio, promoveram conferências e
inundaram o Congresso com abaixoassinados. O movimento enfatizava a imoralidade da
escravidão, e Garrison condenava tanto o governo quanto as igrejas como cúmplices dos
escravocratas. Garrison defendia um anarquismo cristão que repudiava a força, as leis e os
governos.
Outros grupos fora do governo também lutavam contra a escravidão. Abolicionistas negros
como Fre derick Douglass, Harriet Tubman e Sojourner Truth pregaram a favor da causa, e 17
jornais negros circulavam no Norte antes da Guerra Civil. O Partido da Liberdade, fundado em
1840 por abolicionistas não anarquistas, apresentou o primeiro candidato, em eleições
presidenciais de 1840 e 1844, que defendia a exclusão da escravidão dos territórios, o fim do
trá-i fico interestadual, e a abolição na capital federal de Washington, D.C. Entretanto, este
partido ganhou poucos votos, e praticamente se fundiu com o Partido de Solo Gratuito em
1848.
Os movimentos abolicionistas no Norte antes de 1850 não atraíram mais apoio devido a
duas circunstâncias. Primeiro, as elites do Norte mantinham estreitas relações comerciais com
.os fazendeiros do Sul, e não tinham interesse em provocá-los. Segundo, os operários do Norte
receavam que os negros livres concorressem no mercado de trabalho, e rebaixassem o nível dos
salários. Ambas as classes guardavam fortes preconceitos raciais contra os negros. Muitas
vezes os abolicionistas foram corridos de seus pódios, e pelo menos um redator, Elijah
Lovejoy, foi linchado em Illinois, em 1837.
Seria necessário que os meios políticos se mostrassem incapazes de resolver o conflito sobre a
escravidão, e que as paixões morais se exacerbassem tanto no ataque quanto na defesa da
escravidão, para que um movimento político emergisse com a força precisa para precipitar uma
crise definitiva da questão. Este movimento apareceria na década de 1850, e teria como o seu
elemento principal o Partido Republicano.

O fim dos acordos


Na década de 1850, a capacidade de realizar acordos políticos ao nível nacional esgotou-se.
Isto aconteceu por dois motivos principais. Primeiro, o próprio crescimento demográfico mais
rápido no Norte fez com que o número de representantes nortistas na Câmara superasse
definitivamente o número de representantes sulistas. Como a Tabela 2 demonstra, em 1820,
quando houve os Acordos de Missouri, a diferença entre as populações do Norte e do Sul era
pequena; mas em 1850 esta diferença pesava bastante em favor do Norte. Indicativo desta
mudança foi o fato de que a Câmara dos Representantes, onde a representação era diretamente
proporcional à população, aprovasse um projeto de David Wilmot, da Pensilvânia, em 1848,
segundo o qual a escravidão ficaria proibida nos territórios conquistados através da guerra com
o México. Mas no Senado, onde cada estado tinha a mesma representação, os senadores do Sul
conseguiram derrotar o projeto repetidamente.
TABELA 2 — POPULAÇÃO AMERICANA POR REGIÕES (mllhdei de posou)
Ano Norte Sul
1790 1,96 1,96
1820 5,22 4,42
1850 14,21 8,98
1860 20,70 9,15
Em segundo lugar, nos novos territórios do Oeste, as condições de solos, de climas mais
áridos e mais frios e a maior distância dos mercados não favoreciam a expansão da escravidão.
Assim, em 1849 e 1850 os territórios da Califórnia e do Novo México — que incluíam todas as
terras entre o Texas e a Califórnia — e de Deseret — que incluía toda a área ao norte do Novo
México e ao sul do Oregon — pediram entrada na União como estados livres. Os sulistas não
encontraram uma contrapartida de territórios escravistas. Então, eles abandonaram o velho
jogo de equilibrar as entradas de estados novos, e descobriram novas maneiras de preservar o
equilíbrio político.
Pelo Acordo de 1850, a Califórnia entrou sem escravidão e o tráfico de escravos foi proibido na
capital federal, o Distrito de Colúmbia. Mas o preço para o Norte foi caro. O Deseret ou Utah,
como vinha a ser chamado, e o Novo México não entraram na União e ficaram como
territórios, até 1896 e 1912 respectivamente, e sem definição alguma sobre a legalidade da
escravidão. O estado escravista do Texas recebeu 10-milhões de dólares para desistir de suas
reivindicações de partes do Novo México.
Certamente, a concessão mais importante para o Sul neste Acordo de 1850 foi uma nova e
muito severa lei sobre escravos fugitivos. Esta lei estipulava que qualquer pessoa acusada de
ser um escravo fugitivo perdia os direitos ao processo por júri e de dar testemunho. Com apenas
a declaração por escrito do alegado senhor, ela tinha que ser devolvida àquele. Quem ajudasse
a fuga teria que pagar multas e danos de um total de até S2.000; o juiz que desse ganho ao
senhor receberia $10, mas se desse ganho ao escravo receberia apenas $5. Além de todas estas
cláusulas contra o fugitivo, a lei foi promulgada retroativamente, em violação aberta à
Constituição.
O Acordo de 1850 encontrou aceitação no Norte e no Sul, embora quatro estados sulistas
convocassem reuniões para discutir a secessão da União, porque, como nos acordos anteriores,
este deu vantagens para as duas regiões. O Acordo também funcionou porque a conjuntura
econômica da época permitia uma certa prosperidade, que inibia o acirramento das paixões. No
Norte, os homens de negócios estavam enriquecendo com o movimento provocado pela
descoberta de ouro na Califórnia, e pela rápida extensão das estradas de ferro. Depois que a
Inglaterra aboliu em 1846 as Leis do Trigo, que por décadas tinham barrado importações de
alimentos básicos para defender os negócios dos grandes proprietários rurais ingleses, os
fazendeiros nortistas entraram de cheio no novo mercado inglês. Os comerciantes do Norte
também estavam lucrando com as vantagens da aceleração do comércio internacional, que
resultaram destes novos mercados e dos velozes barcos Clipper e barcos a vapor.
No Sul, os fazendeiros de algodão tiveram anos prósperos no começo da década de 1850,
porque os preços do algodão, depois de uma queda na década anterior, estavam em ascensão
novamente, devido aos melhoramentos introduzidos na indústria têxtil no Norte, na Inglaterra e
na Europa. E os fazendeiros de fumo, com variedades e técnicas novas, gozaram também de
uma recuperação.
Mas, se o Acordo de 1850 satisfez aos líderes políticos das duas regiões, ele elevou a questão
da escravidão a um novo patamar de consciência popular. A nova lei sobre escravos fugitivos
incentivou muitos escravocratas e capitães-do-mato a viajar para o Norte, onde eles prenderam
impunemente a negros, acusando-os de ser fugitivos, e levando-os de volta para o Sul. Os
operadores da “estrada de ferro subterrânea”, que antes tinham o seu terminal nos estados do
Norte, agora estenderam o seu sistema de coiteiros e informantes até o Canadá, especialmente a
província central de Ontário, para onde se dirigiram vários milhares de pessoas de cor. Alguns
estados do Norte aprovavam "leis de liberdade pessoal”, que garantiram aos fugitivos os
mesmos direitos negados pela lei federal, e impuseram multas para quem cumprisse tal lei. Em
Massachusetts, houve motins populares tentando, em vão, impedir que supostos fugitivos
fossem retirados do estado. O romance lacrimoso de Harriet Beecher Stowe, A Cabana do Pai
Tomás, dramatizou os males da escravidão e especialmente os sofrimentos dos fugitivos. Este
livro apareceu em 1852, vendeu um milhão de exemplares em dois anos, conseguiu ser
proibido no Sul e inspirou várias peças de teatro popular.
Na época do Acordo de 1850, alguns senadores tinham cogitado em tirar a questão da
escravidão do Congresso Federal e deixar para a.população de cada território resolver como
bem entendesse. Esta sugestão, conhecida como “a doutrina de soberania popular”, ganhou
força quando os territórios do Kansas e de Nebraska pediram admissão na União, em 1853. Os
congressistas do Norte queriam admitir estes estados como livres, e o Senador Stephan
Douglas de Illinois, estado do velho Noroeste, interessouse especialmente pelo projeto.
Douglas queria ganhar o apoio das populações destes territórios para a construção de uma
estrada de ferro transcontinental com terminal em seu estado de Illinois. Mas a resistência dos
Sulistas fez com que Douglas procurasse evitar a questão da escravidão através de um apelo
para a doutrina da soberania popular. A Lei de KansasNebraska foi aprovada nestes termos,
com cada território entrando na União como determinariam os seus habitantes. Efetivamente, o
Congresso derrubou os Acordos do Missouri, de 1820, que delimitaram áreas proibidas para a
escravidão no Oeste.
Ao contrário do que esperavam os seus proponentes, a Lei de Kansas-Nebraska não
diminuiu as tensões sobre a questão da escravidão, mas provocou diversas reações fortes. No
Norte, muitos militantes dos partidos Whig, Democrata e Solo Gratuito, todos hostis à extensão
da escravidão aos territórios, cindiram com os seus correligionários e criaram o Partido
Republicano, em 1854. Este partido cresceu tão rapidamente que no mesmo ano, em aliança
com o Partido Americano, os “sabe-nadas”, que se opuseram à imigração maciça e
especialmente à imigração católica, ganharam a maioria na Câmara dos Representantes, e os
governos em vários estados do Norte.
A Lei de Kansas-Nebraska também fez explodir a violência. Conforme a lei e a doutrina da
soberania popular, os próprios habitantes do Kansas e de Nebraska resolveriam a legalidade da
escravidão nos seus respectivos estados. Imediatamente, sulistas do Missouri e, depois,
números equivalentes de nortistas vindos de tão longe como da Nova Inglaterra migraram para
o Kansas, para influenciar na decisão. Cada lado andava armado, os tiroteios tornaram-se
constantes, e mais de 200 pessoas morreram nos conflitos. Num dado momento, o Kansas tinha
um governador, uma assembleia legislativa e uma constituição pró-escravidão e outro
governador, assembleia e constituição antiescravidão. Depois de quatro meses da guerra de
guerrilhas que “fez Kansas sangrar”, o Governo Federal enviou tropas e acalmou os ânimos.
Alguns sulistas ambicionaram encontrar novos territórios para a escravidão além das
fronteiras nacionais. Eles apoiaram expedições militares particulares para anexar a Baixa
Califórnia (1855), Nicarágua (1855) e Honduras (1860), lideradas pelo aventureiro William
Walker, do Tennessee. Essas expedições todas fracassaram e Walker finalmente foi fuzilado
por hondurenhos indignados. Outros sulistas, com o apoio dos Presidentes Polk e Franklin
Pierce, também pensavam em ajudar a Cuba escravista a se libertar da Espanha, para depois
anexá-la aos EUA, mas este plano tampouco deu certo. De qualquer forma, entretanto, estes
esforços no Kansas e no exterior para decidir pelas armas a questão da escravidão constituíram
ensaios para a Guerra Civil, que não tardaria muito para começar.
No segundo quinquênio da década de 1850, o Governo Federal tornou-se ainda mais
favorável ao Sul. Nas eleições presidenciais de 1856, 14 dos estados escravistas votaram no
candidato vencedor James Buchanan, cujo Partido Democrata capturou o controle tanto do
Senado como da Câmara. Buchanan, embora um nortista da Pensilvânia, acreditava com
Stephen Douglas na soberania popular e também apoiava a conquista do México e a compra de
Cuba. Logo no começo do seu mandato, a Corte Suprema, enquanto o tribunal de último
recurso e o intérprete oficial da Constituição, decidiu que os Acordos, do Missouri, de 1820,
eram anticonstitucionais. A Corte chegou a esta conclusão quando considerou o processo de
um escravo, Dred Scott, cujo senhor o tinha levado para as áreas livres de Illinois e Minnesota.
Scott argumentou que, por ter residido onde a escravidão era ilegal, ele teria ganho a sua
própria liberdade, mas a Corte resolveu que não. Segundo ela, não somente o Congresso não
tinha o poder de privar um cidadão de seus direitos de propriedade em escravo, mas tinha a
obrigação de incentivar e proteger a escravidão como qualquer outro tipo de propriedade
particular. A Corte ainda acrescentou que nenhum negro, escravo ou livre, podia ser cidadão e
gozar de direitos iguais aos dos brancos.
Um outro golpe contrá o Norte foi o Pânico financeiro de 1857, Este Pânico, o começo de
uma depressão, resultou de vários fatores. Primeiro, o preço dos cereais americanos caiu de
repente, quando, depois do fim da guerra europeia na Crimeia (1854-56), os europeus voltaram
a produzir as suas safras normais. Segundo, os europeus liquidaram muitos investimentos e
depósitos bancários nos EUA, para poder custear esta guerra e outras na Ãfrica, no Oriente
Médio, na índia e na China, e isso deprimiu a Bolsa de Valores de Nova Iorque, drenou ouro
das reservas e levou vários bancos à falência. Finalmente, a especulação desenfreada nas
companhias ferroviárias, muitas das quais estenderam os trilhos além das áreas onde a renda
dos fretes e dos passageiros pagava os juros sobre o capital emprestado, provocou a falência
destas companhias, e dos bancos e companhias de seguro a elas ligadas. Este Pânico iniciou
uma depressão de vários anos no Norte e no Oeste, enquanto o Sul, em geral, gozava de preços
altos e exportações de algodão cada ano maiores.
Mas, se o Governo Federal e o momento econômico favoreciam o Sul, outras forças
prometiam para o Norte. Os territórios de Minnesota e Oregon entraram na União como
estados livres em 1858 e 1859, respectivamente, sem contrapartida de novos estados
escravistas. Nas eleições para o Congresso em 1858, os Republicanos recapturaram na Câmara
a maioria, que tinham perdido em 1856. Um dos veteranos da guerra de guerrilhas em Kansas,
John Brown, com apoio financeiro de abolicionistas do Norte, liderou um movimento que
tentou tomar um arsenal de guerra em Virgínia. Brown planejava usar as armas para levantar
uma rebelião de escravos. Quando preso e enforcado, Brown tornou-se um mártir para os
abolicionistas. Segundo uma canção que se popularizou muito na época e que virou uma
marcha para as tropas nortistas durante a guerra, “o corpo de John Brown está apodrecendo na
terra, mas a sua alma vai marchando para frente”.

As eleições de 1860
Nas eleições presidenciais de 1860, a tensão política entre Norte e Sul chegou ao ponto
máximo. Os Democratas dividiram-se fatalmente e escolheram dois candidatos para
presidente. Os do Norte e do Oeste nomearam Stephen Douglas, o campeão da soberania
popular, mas os do Sul nomearam John Breckinridge, o então Vice-presidente, um escravista
do Kentucky que queria que o Governo Federal protegesse a escravidão nos territórios. Os
antigos Whigs e os mais conservadores do Norte e do Sul escolheram o Senador John Bell do
Tennessee, para tentar continuar com a política de acordos e não enfrentar diretamente a
questão da escravidão; estes formaram o efêmero Partido da União Constitucional.
Os Republicanos indicaram Abraham Lincoln de Illinois. Lincoln tinha pouca experiência
política e tinha perdido uma eleição disputadíssima para senador de Illinois em 1858. Mas
durante esta campanha para senador Lincoln tinha realizado uma série de debates muito
comentados com o vencedor, Stephen Douglas, e tinha defendido a legalidade da escravidão no
Sul e a ilegalidade da mesma nos territórios. Lincoln, entretanto, previa que “uma casa dividida
contra si mesma não subsistirá. Acredito que esse governo, meio escravocrata e meio livre, não
poderá durar para sempre... e ele se transformará só numa coisa, ou só noutra”. Lincoln, nestes
debates, tinha obrigado Douglas a reconhecer a contradição entre a soberania popular, que
sujeitava a escravidão ao voto do povo, e a decisão judicial no caso de Dred Scott, que colocou
o escravo na categoria sagrada da propriedade particular intocável pelas leis. Embora Douglas
ganhasse a eleição para senador em 1858, desprestigiou a Corte Suprema e se . desmoralizou
seriamente com os Democratas do Sul, o que contribuiu para a cisão neste Partido, em 1860.
Com os Democratas divididos, Lincoln ganhou as eleições presidenciais em 1860. Ele recebeu
40% do voto popular, o apoio de todos os dezesseis estados do Norte, e de dois dos três estados
do Oeste, enquanto o Sul distribuía os seus votos entre Breckinridge (onze estados), Bell (três
estados) e Douglas (um estado). Embora os Republicanos não tivessem ficado com maiorias
nem no Senado nem na Câmara, eles conseguiram, pela primeira vez, a presidência, e pela
primeira vez um partido declaradamente oposto à extensão da escravidão assumiu a liderança
da União.
O Sul, mesmo retendo o controle da Corte Suprema e boas chances para alianças no
Congresso, interpretou a eleição de Lincoln como a sentença de morte para a escravidão. Após
a contagem de votos e antes mesmo da posse de Lincoln, a Assembleia Estadual da Carolina do
Sul, seguida pelas assembleias dos outros estados do Baixo Sul, votou para cortar todas as
relações com o Governo Federal, num ato que levou a termo as ameaças das crises de
nulificação em 1832 e da secessão em 1850. Estes estados justificaram-se dizendo que, na
Constituição, eles tinham apenas delegado certos poderes para o Governo Federal, e que eles
podiam reaver estes poderes quando quisessem. Ao mesmo tempo, as assembleias estaduais do
Sul mandaram representantes para uma constituinte em Montgomery, Alabama, onde criaram a
nova nação, os Estados Confederados da América (ECA). Esta constituinte elaborou uma
constituição modelada na dos EUA, mas com plenas garantias para a escravidão e proibições
de subsídios para melhoramentos internos e de impostos de importação. A constituinte
escolheu para presidente o Democrata Jefferson Davis, um fazendeiro de algodão, militar,
ex-ministro da Guerra e duas vezes senador federal do Mississippi.
Nas suas últimas semanas no cargo, o Presidente Buchanan ainda procurou com os
moderados realizar acordos semelhantes aos de 1820 e 1850, restabelecendo a latitude de 36’
30” como a divisão entre áreas livres e escravas no Oeste. Para evitar provocações, Buchanan
desistiu de abastecer por mar as fortalezas federais no litoral da Carolina do Sul. Mas os
Republicanos permaneceram intransigentes contra a extensão da escravidão ao Oeste e
Lincoln, ao assumir a presidência em março de 1861, teimou em mandar 2400 homens e 285
peças de artilharia, além de mantimentos, para o Forte Sumter. Antes que estes reforços
chegassem, os Carolinianos bombardearam e destruíram completamente este forte, em abril de
1861.
A guerra começou com este bombardeio. Para o Norte, a guerra inicialmente não visava a
acabar com a escravidão, senão manter a união da nação e evitar a secessão do Sul. Para o Sul,
a guerra visava a defender a secessão, a sua independência do Norte, e foi o único meio que
restou para preservar a escravidão das esperadas pressões dos Republicanos. Quando o Norte
tentou impedir a secessão, estourou a guerra.

A GUERRA CIVIL
Qual era a correlação de forças nesta guerra? Tudo indicava no começo que o Norte era
mais forte. Vinte e dois estados se mantiveram na União, incluindo os estados escravistas do
Alto Sul do Missouri, Kentucky, Maryland e Delaware e os territórios de Kansas, Virgínia
Ocidental e Nevada, que entraram na União, durante a guerra, como estados. A população do
Norte era mais do que o dobro da do . Sul (veja Tabela 2); ela era mais do que o quádruplo, se
se excluíssem os escravos, em quem os sulistas não confiavam para carregar armas, embora o
seu trabalho liberasse homens livres para lutar. O Norte tinha dois terços das estradas de ferro;
85% das indústrias, incluindo 85% da produção de cobertores, roupas, sapatos e 97% do valor
da produção das armas, além da maior parte dos trabalhadores qualificados, dos bancos e do
dinheiro em circulação. O Norte também tinha um vigoroso setor agropecuário,
complementado pelo do Oeste, em que apenas o Texas separou-se da União.
Mas as vantagens do Norte não queriam dizer que o Sul não tinha condição alguma de
resistir. Em primeiro lugar, o Sul gozava da vantagem psicológica de estar defendendo a sua
própria terra. Como dizia o Presidente Jefferson Davis, “tudo que pedimos é sermos deixados
em paz”; isto forçou os nortistas a invadirem o Sul para sufocar a rebelião e caracterizou a
guerra, para os sulistas, como a defesa de seus próprios lares. O Sul também dispunha, no
começo da guerra, de exércitos melhores. A sua população civil, por ser muito mais rural e
mais treinada na caça e no cavalgar do que a do Norte, atirava melhor e cavalgava melhor.
Devido à tradição sulista de os fazendeiros mandarem alguns filhos para a carreira militar, os
oficiais que deixaram o exército da União para formar o corpo de oficiais do exército da
Confederação tinham mais experiência e perícia de guerra do que os oficiais do Norte. O
General Robert E. Lee foi tão estimado que o Presidente Lincoln queria nomeá-lo
Comandante-Chefe das tropas nortistas. Mas Lee permaneceu fiel ao seu estado natal, a
Virgínia secessionista, e serviu o Sul como conselheiro militar do Presidente Davis. Foi
responsável por muitas vitórias, e eventualmente foi nomeado Comandante-Chefe das tropas
sulistas.
Os sulistas acreditavam ter outras vantagens. Eles acreditavam que a Inglaterra e a França iam
apoiar a sua rebelião, porque estes países eram dominados por classes aristocráticas que
simpatizavam com a classe dominante do Sul, e porque estes países compravam grandes
quantidades de algodão ao Sul. Os sulistas também esperavam que o seu controle sobre a foz do
Rio Mississippi neutralizasse os estados do Noroeste dos EUA, que dependiam deste rio para
escoar a sua produção.
A guerra não terminou logo nos primeiros meses, como alguns políticos otimistas do Norte
esperavam. A estratégia do Sul era simples: adotar uma atitude defensiva, e deixar que o Norte
tomasse as iniciativas. Mas a estratégia do Norte foi inicialmente confusa e hesitante, e em
parte por este motivo passaram-se quatro anos até que o Norte conseguisse a vitória.
A guerra no mar
Um objetivo óbvio para o Norte era de manter o controle dos mares. O Sul dependia das
trocas constantes de produtos agrícolas por manufaturas importadas. Evidentemente, para não
ajudar ao inimigo, o Norte não ia vender nem comprar mais do Sul, de modo que o Sul tinha
que manter aberto os fluxos comerciais com a Europa. Para interromper este tráfico, o
Presidente Lincoln logo se apropriou de quase toda a Marinha de Guerra e declarou um
bloqueio dos portos sulistas, advertindo aos europeus que não permitiria mais o comércio com
o Sul. Mas a esquadra do Norte era pouco para patrulhar os 5 600 quilometros do litoral sulista;
o Brasil tem 7 400 quilômetros. Lincoln tinha que mobilizar toda uma frota de balsas,
baleeiros, escunas de pesca e rebocadores para tomar posições em frente aos portos sulistas.
Os sulistas, por sua vez, empregaram uma frota de “furadores de bloqueio”, barcos a vapor
muito velozes e de pouco calado, que transitavam entre o Sul e os portos estrangeiros nas
Bahamas e noutras ilhas do Caribe, onde os barcos europeus esperavamnos. Os sulistas
também usaram, pela primeira vez na história da guerra naval, vários barcos blindados com
chapas de ferro de cinco centímetros, impérvios a balas e bombas de artilharia. O Sul capturou
do Norte o primeiro destes, o “Merrimac”, e construiu mais uns quatro. O Norte também usou
barcos blindados. Contra barcos de madeira estes blindados eram terríveis, mas como eles eram
lentos e difíceis de manobrar, a batalha entre blindados costumava terminar num empate.
Os sulistas encomendaram mais de uma dúzia de “destroiers de comércio” em estaleiros
ingleses e franceses. Estes barcos destruíram mais de 250 barcos da marinha mercante do Norte
e forçaram uma alta tão grande nas taxas de seguros que muitos nortistas venderam os seus
barcos a estrangeiros. O Sul também encomendou na Inglaterra uma série de “barcos de
esporão”, que serviriam para furar literalmente os bloqueadores, mas o Norte fez tanta pressão
diplomática que impediu a entrega destes.
A mais longo prazo, entretanto, o Norte tinha melhores condições de vencer a guerra naval,
porque gozava de um potencial maior para construir blindados. O Norte tinha muito minério de
ferro e grandes fundições na Pensilvânia e Ohio, enquanto que o Sul tinha pouco minério e
apenas uma grande fundição, na capital da Confederação, em Richmond, Virgínia.
O bloqueio estrangulou a importação de chá, café, sabão, velas, medicamentos, papel
jornal, roupas feitas e outras necessidades para que o Sul pudesse guerrear. Se nações
estrangeiras tivessem dado mais apoio, provavelmente teriam rompido o bloqueio. A Inglaterra
logo declarou a sua neutralidade entre os beligerantes, o que lhe dava o direito de fazer
negócios com ambos. Assim, a Inglaterra considerava a guerra como mais do que uma simples
rebelião interna, e eventualmente os ingleses poderiam reconhecer a independência do Sul. Os
ingleses, além das simpatias já referidas, ressentiam-se da elevação da tarifa aduaneira do
Norte até 47% durante a guerra. Os súditos da Rainha Victória também entenderam que se os
EUA ficassem divididos em dois países, tal enfraquecimento só podia ser um benefício para
aqueles.
Mas três fatores derrotaram as esperanças sulistas para uma aliança estrangeira. Primeiro, a
produção do Sul não foi tão necessária às indústrias têxteis inglesa e francesa como se
esperava. Antecipando uma guerra, os manufatureiros estrangeiros tinham estocado bastante
algodão no fim da década de 1850, e aumentavam as suas importações do Egito e da índia.
Quando os comerciantes do Sul tentaram criar uma escassez artificial de algodão, para agravar
a suposta dependência estrangeira, eles abalaram a indústria inglesa, mas conseguiram também
abalar o crédito do Sul no exterior, o que tornava as importações ainda mais difíceis.
Por outro lado, o Norte também fazia comércio com a Europa, e no período de 1861-63,
devido às quebras nas safras de trigo na Europa, na América do Sul e no Egito, a Inglaterra
importou do Norte mais de 40% de seu trigo e farinha. Quando Napoleão III da França tentava
se aliar com a Inglaterra para romper o bloqueio do Sul, o Norte ameaçou suspender a venda de
trigo, o que ia criar problemas sociais tão sérios na França que Napoleão desistiu da ideia.
Assim, dependência por dependência, as nações estrangeiras não viam tanta vantagem em
apoiar o Sul, e de fato nem a Inglaterra nem a França chegaram a reconhecer os Estados
Confederados da América oficialmente.
Em segundo lugar, as classes dominantes e a opinião pública inglesas, que tinham abolido a
escravidão nas suas colônias no Caribe em 1838, não aceitavam uma aliança com quem ainda
defendia a escravidão, como ficou claro depois que Lincoln fez a Proclamação da Emancipação
dos Escravos nos fins de 1862, e quando 500000 trabalhadores da indústria têxtil inglesa,
desempregados pela falta de algodão, continuaram a manifestar apoio para o Norte.
Em terceiro lugar, as ambições europeis não necessariamente se afinaram com as dos sulistas.
A França de Napoleão III pensava em apoiar o Sul, antecipando no desmembramento dos EUA
uma oportunidade de restaurar o império francês no continente americano, de onde os ingleses
a tinham expulsado um século antes. Napoleão chegou a invadir o México em 1862, onde
instalou o Imperador Maximiliano para um reino instável de cinco anos. Mas Lincoln não se
distraiu com os franceses no México, e o episódio não ajudou o Sul. Logo que a Guerra Civil
terminou, os mexicanos, com a ajuda dos americanos, expulsaram os franceses e fuzilaram
Maximiliano.
Se o Sul conseguiu pouca ajuda dos estrangeiros, o Norte, ao contrário, gozava de uma
amizade forte com a Rússia Imperial. O Czar Alexandre II liberou os servos russos em 1861,
num ato admirado pelo Norte, e em 1863 Alexandre mandou uma esquadra de guerra para
Nova Iorque, e outra para São Francisco. Estas esquadras estavam posicionando-se para lutar
contra os ingleses, caso houvesse guerra entre a Rússia e a Inglaterra. Mas os americanos
preferiam acreditar que os barcos russos vinham ajudar a manter o bloqueio, o que levantou o
moral do Norte e deprimiu o do Sul.

A guerra no continente
A luta no interior do continente foi muito mais difícil para o Norte do qpe o bloqueio
marítimo. A estratégia terrestre do Norte visava à manutenção de duas frentes, porque as
Montanhas Apalaches dividiam o Sul desde a Virgínia até o norte da Geórgia, e impediam a
passagem dos exércitos (veja mapa). Os generais nortistas abriram primeiro a frente a leste
destas montanhas, centrando-a na Virgínia e nas ãreas orientais da Virgínia Ocidental,
Kentucky e Tenessee. Esta frente tornou-se crítica porque nela se localizavam a capital federal
de Washington e a capital confederada de Richmond. As duas capitais ficavam apenas 160
quilômetros uma da outra, a mesma distância que há entre São Paulo e Piracicaba, ou entre Rio
de Janeiro e Cabo Frio. Nesta frente, cada lado concentrava grandes exércitos e procurava
defender a sua capital ao mesmo tempo que ameaçava a do inimigo.
O Norte abriu uma segunda frente a oeste das Montanhas Apalaches, nas partes ocidentais
de Kentucky e Tennessee, no sul do Missouri e ao longo do Rio Mississippi, desde Illinois até o
Golfo do México. Aqui os exércitos combatendo eram menores, porque tinham que se
distribuir numa região muito maior.
Nos primeiros anos, as tropas do Norte, os Federais, perdiam muitas batalhas na frente oriental.
A inexperiência, a desorganização, a cautela excessiva e a simples incompetência
atormentavam estes exércitos nesta frente. Lincoln nomeou seis comandantes diferentes entre
julho de 1861 e julho de 1863, cinco deles num prazo de apenas dez meses. As tropas do Sul, os
Confederados, ao contrário, sob o comando eficaz do General Joseph E. Johnston e do General
Robert E. Lee, conquistaram uma série de vitórias.
A batalha de Antietam, em Maryland, em setembro de 1862, foi uma das mais sangrentas,
com mais de 12000 mortos para cada lado num só dia, mas lá o general nortista George B.
McClellan finalmente conseguiu frustrar o contra-ataque dos Confederados. Esta meia-vitória
obrigou os sulistas a recuar para a Virgínia e levou Lincoln a fazer a Proclamação da
Emancipação. Nesta Proclamação, o presidente declarou livres os escravos nos estados
rebeldes, o que de fato não liberou ninguém porque, obviamente, os estados rebeldes a
ignoraram. Mas a Proclamação oficializou a guerra como sendo uma campanha contra a
escravidão, e não apenas uma repressão de um movimento separatista, e ajudou a convencer à
Inglaterra a não intervir.
A Proclamação da Emancipação também autorizou os ex-escravos a entrarem nas forças
armadas do Norte a partir de 1863. Até o fim da guerra, calcula-se que 208 486 negros entraram
nos exércitos e marinha do Norte, ou seja, aproximadamente 14% das tropas. Mas até 1864 os
negros tinham que servir mais tempo, quase nunca eram promovidos a oficiais e recebiam
armas, salários e tratamento médico inferiores aos dos brancos, de modo que a sua taxa de
mortalidade (37%) era três vezes superior à taxa geral dos combatentes nortistas.
Nestes anos de 1861 e 1862, os exércitos do Norte avançaram muito mais na frente
ocidental. Em 1861, eles engajaram tropas sulistas em pequenas batalhas no Missouri e nas
montanhas da Virgínia Ocidental, e conseguiram manter estas duas áreas na União. Em 1862,
enquanto os Confederados em Nova Õrleans estavam esperando um ataque vindo do Rio
Mississippi acima, o nortista Almirante David Farragut fez a sua Marinha de Guerra subir do
Golfo do México para capturar este porto importante, e assim fechar este rio ao comércio
sulista. Na terra, os exércitos federais ocuparam Kentucky e o oeste do Tennessee, tomando o
centro ferroviário de Corinth e o porto fluvial de Memphis, e obrigando os sulistas a se
retirarem do trecho alto do Rio Mississippi.
O mês decisório para a guerra foi julho de 1863. No Leste, os nortistas massacraram um
exército de Lee em Gettysburg, Pensilvânia, o ponto mais seten-
1. Alabama 23. Golfo do México 45. Nova Jersey
2. América do Norte 24. Illinois 46. Nova Orleans
Britânica (Canadá) 25. Indiana 47. Oceano Atlântico
3. Andersonville 26. Iowa 48. Ohio
4. Antietam 27. Kansas 49. Omaha
5. Arkansas 28. Kentucky 50. Pensilvânia
6. Atlanta 29. Lago Erie 51. Petersburg
7. Augusta 30. Lago Michigan 52. Rhode Island
8. Baltimore 31. Louisiana 53. Richmond
9. Carolina do Norte 32. Maryland 54. Rio Mississippi
10. Carolina do Sul 33. Massachusetts 55. Rio Missouri
11. Charleston 34. Memphis 56. Rio Ohio
12. Chattanooga 35. México 57. Rio Shenandoah
13. Cincinnati 36. Michigan 58. Saint Louis
14. Columbia 37. Mississippi 59. Savannah
15. Connecticut 38. Missourí 60. Tennessee
16. Corinth 39. Mobile 61. Território dos
índios
17. Delaware 40. Montgomery 62. Texas
18. Filadélfia 41. Montanhas Apala 63. Vicksburg
19. Flórida ches 64. Virginia
20. Forte Sumter 42. Nebraska 65. Virginia
Ocidental
66. Washington,
21. Geórgia 43. Nova Iorque Distri
22. Gettysburg 44. Nova Iorque (cida to de Colúmbia
de) 67. Wisconsin
trional alçando pelos Confederados. No Oeste, os nortistas depois de um sítio de seis semanas
tomaram Vicksburg, a cidade melhor fortificada no Rio Mississippi, cuja queda deu ao Norte o
controle de toda a extensão deste rio, eliminou os estados confederados do Texas, Louisiana e
Arkansas da guerra e abriu a parte ocidental do Baixo Sul para o avanço federal. Em novembro
de 1863, os Federais tomaram Chattanooga, Tennessee, outro importante entroncamento de
estradas de ferro e um dos pontos de ligação entre os dois lados das Montanhas Apalaches.
Com a queda de Chattanooga, o Norte preparou-se para invadir a Geórgia, no leste do Baixo
Sul.
O general federal que tomou Kentucky, Corinth e Vicksburg, na frente ocidental, foi
Ulysses S. Grant. Nele Lincoln finalmente descobriu o militar que podia traduzir as vantagens
do Norte numa vitória final. Nomeado Comandante-Chefe de todos os exércitos federais, em
março de 1864, Grant implementou uma estratégia mortal de dois objetivos. Primeiro, ele
destruiria a base material do Sul e com isso o moral da população civil. Segundo, ele atacaria
continuamente os exércitos do Sul sem se preocupar com as perdas nortistas, que podiam ser
substituídas mais facilmente do que as perdas sulistas, o que logo lhe mereceu o apelido de “o
açougueiro”. Grant também se preocupou muito menos em defender Washington ou outros
locais importantes desde que os Confederados não tinham mais condições de ameaçar
seriamente.
Assim, Grant mandou queimar todo o Vale do Rio Shenandoah, uma ârea fértil que abastecia
as tropas sulistas defendendo Richmond. Ao mesmo tempo, e da mesma forma, Grant ordenou
a seu General William Tecumseh Sherman que saísse de Chattanooga contra o sulista General
Johnston, numa série de ataques que culminaram na captura e incêndio de Atlanta, em
setembro de 1864, ao mesmo tempo que o Almirante Farragut capturou Mobile, o porto
principal do Alabama. Logo depois Sherman desprendeu-se das suas linhas vulneráveis de
abastecimento e marchou até o Atlântico. Ajudado por libertos para abastecer o seu exército às
custas da população civil, Sherman cumpriu a sua promessa de “fazer a Geórgia uivar”,
deixando uma faixa queimada de 100 quilômetros de largura sem lavouras, máquinas, gado,
fábricas, celeiros, pontes ou estradas de ferro. Chegando no porto de Savannah, Sherman
passou o inverno lá, e na primavera de 1865 ele rumou para o Norte, atravessando a Carolina do
Sul, o berço da secessão, deixando ruína e devastação no seu rastro, e queimando o porto de
Charleston, a segunda cidade do Sul, e a capital estadual, Colúmbia.'
Grant pressionava Richmond, batalhando com Lee quase que diariamente, por cinco meses,
e sofrendo, mas também inflingindo dezenas de milhares de baixas. Sherman cruzava
implacavelmente as Caroljnas. Os dois generais nortistas completavam um movimento de aperto
do qual Lee e Johnston não encontraram saídas. Em abril de 1865, após meses nas trincheiras,
Grant finalmente tomou Petersburg, o centro ferroviário para a capital confederada, e logo
depois queimou a própria Richmond, alvo das campanhas federais no Leste desde o começo da
guerra. Lee teve que se render no dia 9 de abril de 1865. Cinco dias depois um ator sulista
amargurado assassinou o Presidente Lincoln. Quatro dias depois do assassinato, Sherman
recebeu a rendição de Johnston. A guerra terminou.

O IMPACTO DA GUERRA
Para manter o Sul na União, os EUA pagaram um preço muito caro. Entre os combates e os
hospitais e prisões, onde epidemias de difteria, febre tifoide, febre amarela, disenteria e varíola
ceifaram vidas, morreram 360000 pessoas do Norte (12% dos combatentes) e 258000 do Sul
(20% dos combatentes). Morreu o presidente na hora da vitória.
Por outro lado, morreu também a escravidão. Através da 13?'emenda à Constituição, o
Congresso em janeiro de 1865 aboliu a escravidão de vez, liberando 4 milhões de pessoas de
cor. A rendição do Sul prometeu que esta abolição, ao contrário da Emancipação em 1862,
seria respeitada.

No Norte
A União sobreviveu, mas os quatro anos e seis dias de luta operaram muitas
mudanças, tanto no Norte como no Sul, de modo que nenhuma das regiões em 1865 se assemelhou
àquelas que tinham sido na década de 1850. Como vimos, para o Norte a guerra tinha começado numa
conjuntura econômica muito desfavorável. Até 1862, o Norte continuou a sofrer a depressão provocada
pelo Pânico de 1857. O volume de transportes marítimos caiu 60% entre 1860 e 1864, em parte devido
também ao bloqueio que restringiu o movimento da nação inteira. A construção de estradas de ferro
praticamente parou, e a indústria de têxteis entrou em depressão por falta de algodão. Até 1863, o Norte
teve que importar fardas e munições. O setor financeiro viu-se impossibilitado de receber 300 milhões de
dólares em dívidas dos fazendeiros e comerciantes do Sul.
Como se a depressão não fosse o bastante, o Norte também teve que substituir as centenas
de milhares de braços que saíram da força de trabalho para entrar nas forças armadas.. O
Congresso tentou estimular ainda mais a imigração com a Lei do Trabalho Contratado em
1864, que permitiu aos patrões fazerem contratos com imigrantes no exterior, e adiantarem a
passagem transatlântica contra o compromisso do imigrante ressarcir a dívida com o salário do
primeiro ano de trabalho. A Lei dispensou os imigrantes contratados do serviço militar. Assim
como se deu com os esforços de estimular a imigração para o Brasil nos meados do século XIX,
este sistema também tolheu a liberdade do imigrante por pelo menos um ano.
Mas a recuperação econômica do Norte baseouse principalmente na demanda da própria
guerra. Os exércitos federais precisavam de quantidades enormes de mercadorias como
alimentos, roupas, calçados, chapéus, cobertores, barracas, carroças, vagões, armas e
munições. Esta demanda era sempre renovada pela rápida destruição causada pela guerra, e
também se manteve alta pela qualidade defeituosa do material.fornecido. Muita gente lucrou
vendendo ao Governo Federal barcos que vazavam água, fuzis que estouravam com poucos
tiros, uniformes e cobertores que desintegravam na chuva e cavalos e mulas de costas
quebradas.
Para enfrentar a demanda, e para compensar a falta de braços, tanto a agricultura quanto a
manufatura tiveram que se mecanizar. Na agricultura, os fazendeiros aceleraram a adoção de
máquinas inventadas nas décadas anteriores à guerra. Na manufatura, as grandes inovações
foram a generalização da máquina de costura aperfeiçoada por Issac Singer, a sua adaptação à
fabricação de calçados e a sua entrada no lar como a primeira máquina de uso doméstico,
habilmente promovida numa maneira inovadora através de campanhas de publicidade, cursos,
planos de compra a prazo e contratos de manutenção.
A guerra promoveu a concentração de capital. Certas máquinas eram tão caras que somente
os grandes fazendeiros e manufatureiros podiam comprá-las. Somente os grandes
manufatureiros podiam integrar a sua produção, para realizar todas as tarefas desde o primeiro
beneficiamento da matériaprima até o acabamento do artigo final, o que evitava os impostos
cobrados sobre a venda de artigos semiacabados. Somente os grandes tiveram influência
política em Washington, pela amizade ou pelo suborno, para conseguir os lucrativos contratos
de fornecimento aos exércitos.
Nos transportes e também nas comunicações, a guerra promoveu a concentração. Antes da
guerra as companhias de ferrovias, de canais e de telégrafos concorreram furiosamente, e os
usuários gozaram de preços baixos. Durante o conflito, a pressa de mandar mercadorias e
informações às frentes distantes, onde uma demora podia custar vidas, induziu fusões. As
companhias de estradas de ferro entre a costa atlântica e o Lago Michigan fundiram-se, como
fizeram também outras, trafegando entre Massachusetts e Nova Iorque, Ohio e Illinois e
Illinois e Michigan. A companhia de telégrafos Western Union comprou muitas firmas
pequenas neste ramo no velho Noroeste, consolidou-se com as duas companhias maiores e
emergiu como um monopólio em 1866.
Vários grandes capitalistas do último quarto do século XIX iniciaram as suas carreiras durante
a guerra. John D. Rockefeller, que vendia alimentos para os exércitos do Norte, investiu seus
lucros na refinação de petróleo em 1862. Então, o petróleo foi usado para a iluminação;
Rockefeller fundaria a Standard Oil (ESSO) em 1870. Philip Armour e Gustavus Swift
forneciam carne de boi e de porco às tropas federais, e depois da guerra ficariam como os “reis”
dos frigoríficos. Andrew Carnegie investia em fábricas de pontes, eixos, trilhos e locomotivas
na Pensilvânia durante a guerra; na década seguinte ele implantaria e dominaria a indústria do
aço.
Homens espertos na área de finanças também lucraram durante a guerra. Jay Cooke ganhou
o monopólio na venda de apólices do Governo Federal, apólices destinadas a levantar mais de 2
bilhões de dólares para pagar as despesas da guerra, com comissões de 0,5% para o ágil Cooke.
Os banqueiros George Peabody e Pierpont Morgan negociaram ouro e ajudaram os
investidores americanos apreensivos a colocarem o seu capital nas praças europeias mais
seguras. Jay Gould fez vários golpes especulando em ações de companhias ferroviárias; ele
aproveitava informações secretas compradas a funcionários do governo. O “Comodoro”
Cornelius Vanderbilt, que já na década de 1850 detinha a maior fortuna americana, baseada nos
transportes marítimos, conseguiu o controle de todas as linhas de trem que entravam na cidade
de Nova Iorque pelo norte em 1864.
A secessão do Sul determinou a retirada de quase todos os seus representantes do
Congresso. Os representantes do Norte e do Oeste, agora sem oposição, fizeram aprovar
durante a guerra uma série de medidas que revigoraram as economias de suas regiões.
Primeiro, três companhias de estradas de ferro transcontinentais ganharam subsídios generosos
de dinheiro e terras, e duas completaram a primeira linha ligando Omaha, em Nebraska, com
Sacramento, na Califórnia, em 1869.
Em segundo lugar, para promover a ocupação do Oeste, o Congresso em 1862 aprovou a lei
de Homesteads, através da qual as terras públicas seriam doadas gratuitamente em parcelas de
64,8 hectares para qualquer adulto que residisse e fizesse certos melhoramentos na parcela
durante cinco anos. As únicas pessoas inelegíveis eram os menores de idade, os soldados e os
simpatizantes da Confederação e os estrangeiros sem intenções de se naturalizar. Esta lei
também contribuiu para a concentração da riqueza, porque permitiu a venda das parcelas, e
especuladores e companhias imobiliárias ficaram com as melhores terras.
Em terceiro lugar, para melhorar o nível técnico, o Congresso, em 1862, aprovou uma outra
lei que deu terras públicas para os estados criarem institutos de ensino superior de agronomia e
de mecânica. Estas doações, de pelo menos 36422 hectares por estado, incentivaram o
desenvolvimento de sessenta e nove universidades, incluindo particulares como Cornell e o
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e estaduais como as de Pensilvânia, Illinois,
Minnesota, Wisconsin e Califórnia.
Em quarto lugar, para custear a guerra o Governo Federal vendia apólices pagando juros, e
cobrou mais impostos. O Congresso reformou o imposto de renda no sentido de atingir mais às
classes ricas, aumentou os impostos de consumo, e elevou os impostos sobre importações de
artigos de lã e de ferro para níveis realmente protecionistas.
O Congresso também promoveu uma certa inflação. Aprovando uma emissão total de 450
milhões de dólares em papel-moeda, sem que pudesse trocálos por ouro, o Governo inflacionou
o nível de preços e efetivamente conseguiu um empréstimo obrigatório das classes credoras,
que tinham que receber as notas desvalorizadas em pagamento de dívidas oficiais. Mas, as
emissões também constituíam um empréstimo forçado à classe operária, que viu o valor real de
seus salários cair um terço entre 1860 e 1865.
Uma outra medida importante foi a reorganização do sistema bancário em 1863 e 1864.
Primeiro, o Congresso colocou um imposto de 10% sobre as emissões de dinheiro por bancos
particulares, o que acabou com a circulação deste dinheiro. Segundo, o Congresso autorizou
um sistema de bancos particulares licenciados pelo Governo Federal, os chamados bancos
nacionais. Os bancos estaduais foram obrigados a depositar um terço do seu capital para o
governo, para receber, em troca, 90% do valor em dinheiro emitido pelo Governo Federal. Pela
primeira vez, desde a década de 1830, conseguiu-se padronizar o papel-moeda e sujeitar os
bancos particulares à fiscalização federal.

No Sul
O Sul também passou por mudanças notáveis atrás das linhas de combate, mas a maioria
destas mudanças foi para pior. Como o Governo Federal, o Governo Confederado tentou pagar
as suas despesas com dinheiro emprestado, arrecadado através da venda de apólices.
Inicialmente, estas vendas trouxeram 15 milhões de dólares, mas este dinheiro quase que
imediatamente saiu do Sul para pagar as importações. Pouco dinheiro novo entrou na região,
por causa do bloqueio e da política de restringir as exportações, de modo que as vendas
subsequentes de apólices foram pagas em produtos como algodão, açúcar, arroz e fumo.
Assim, o Sul conseguiu pouco mais do que a metade de dinheiro por habitante que o Norte
emprestou (veja Tabela 3).
TABELA 3 — MANEIRAS DE CUSTEAR O GOVERNO (S capita)*
Maneira Norte Sul
Empréstimos S 137,68 77,80
Impostos 31,88 22,73
Emissões 30,48 163,93
Total S 200,04 $ 264,46
(*) Dinheiro no período 1861-65 dividido pela população de cada região em 1860.
O Governo sulista, muito a contragosto, recorreu aos impostos sobre a importação, o
consumo, os negócios, os lucros no comércio de atacado e a renda. Mas os impostos
produziram 29% a menos do valor per capita alcançado pelos impostos no Norte.
A solução encontrada pelo Sul para custear a guerra foi a emissão de grandes quantidades
de dinheiro em papel, mais de cinco vezes o valor per

capita que o Norte emitiu. Tamanha era a inflação no Sul que se dizia que no começo da guerra
o sulista ia ao mercado com a carteira de dinheiro e a sacola de compras, e no fim da guerra ele
ia com uma sacola de dinheiro para trazer uma carteira de compras.
Para suprir os seus exércitos com material de guerra, o Sul tinha que criar quase do nada um
parque industrial; no Norte, como vimos, o problema era muito mais o de reorientar a produção
das manufaturas. O Governo da Confederação subsidiou a metade dos custos de montagem e
um terço do valor da produção, para que as empresas particulares montassem fábricas de
material bélico, e controlou os níveis de preços e de lucros. Todos os fornos e fundições foram
obrigados a produzir armas, munições, trilhos, blindados e máquinas. Mas logo se esgotaram
os estoques de minério de ferro, de modo que o governo tinha que arrancar trilhos de estradas
de ferro pouco estratégicas para fundi-los para outras necessidades.
O próprio governo sulista pôs-se a produzir armas e munições em arsenais públicos, e criar
uma grande fábrica de pólvora em Augusta, Geórgia, na época a maior fábrica estatal do
mundo. A marinha do Sul construiu vinte estaleiros, cinco fábricas de armas, duas de máquinas
e uma de pólvora, o que possibilitou a produção de vinte e dois barcos blindados. A maior parte
desta indústria estatal foi localizada na capital de Richmond, Virgínia, e no Baixo Sul, na
Geórgia e Alabama.
Desesperado com o avanço das tropas federais, em fevereiro de 1864, o governo sulista
nacionalizou o comércio exterior e um ano depois assumiu o controle direto dos canais,
telégrafos e barcos a vapor. Mas estas medidas estatizantes, como o projeto de recrutar e armar
os escravos aprovado poucas semanas antes do fim, foram insuficientes para evitar a
bancarrota, a crise e a derrota final.
A RECONSTRUÇÃO
A Guerra Civil resolveu muitos dos problemas que a provocaram. As questões da tarifa, do
acesso às terras do Oeste, do banco nacional, do dinheiro forte e dos melhoramentos internos
encontraram, durante a guerra, as soluções defendidas pelo Norte desde a década de 1850. A
13? emenda à Constituição aboliu a escravidão. A derrota militar frustrou o desejo dos grupos
dominantes no Sul de criar uma nação independente.
Mas permaneceram grandes questões políticas. Como o Sul seria reintegrado na União? Qual
seria a distribuição de poder político entre as raças? Quais esforços seriam feitos para dar
condições materiais aos libertos para participar de uma economia concorrencial?

Os projetos
Naturalmente os grupos interessados nestas questões tiveram respostas diferentes. O
Presidente Andrew Johnson, que assumiu depois do assassinato de Lincoln, liderou um grupo
de Republicanos mais conservadores. Johnson tinha sido um senador do Tennessee, e tinha
defendido os pequenos proprietários contra a aristocracia dos fazendeiros, que ele odiava. Ele
ficou leal à União quando o seu estado separou-se dela e, como recompensa, foi nomeado
Vice-presidente para o curtíssimo segundo mandato de Lincoln (1865). Quando Presidente
(1865-68), ele tentou evitar o revanchismo e restringir o papel do Governo Federal no Sul. Ele
deixou o ex-presidente da Confederação, Jefferson Davis, ficar apenas dois anos na prisão e
depois devolveu à família de Davis as suas fazendas, que tinham sido entregues aos
ex-escravos e estavam sendo muito bem administradas por estes libertos.
Sob Johnson, apenas um militar do Sul, o diretor de um notório campo de prisioneiros em
Andersonville, Geórgia, foi enforcado como criminoso de guerra. Johnson também tentou
vetar as leis fortalecendo o Departamento de Libertos, uma agência federal que defendia os
ex-escravos, e as leis de direitos civis para os negros, sempre com a alegação de que estas
medidas cabiam aos estados e não ao Governo Federal.
Os Republicanos Radicais formaram um segundo grupo, abertamente hostil ao Presidente
Johnson e dominante no Congresso durante o segundo quinquênio da década de 1860. Este
grupo entendia que o Sul não podia voltar à situação política de antes da guerra. Uma das
consequências da abolição foi a elevação dos ex-escravos à condição de plenos cidadãos para
os efeitos do cálculo da representação do Sul no Congresso. Então, se os representantes sulistas
voltassem para o Congresso imediatamente, o seu número seria bem maior do que antes da
guerra.
Para que os Republicanos Radicais pudessem controlar a política do Sul, e evitar a
restauração da aliança entre Democratas, no Sul e no Norte, que dominava a política de 1830 a
1860, eles tinham que efetuar uma reforma burguesa. Esta reforma significava aumentar o peso
político dos negros no Sul. Os negros veneravam Lincoln, como no Brasil os libertos
veneravam a Princesa Isabel, e por isso seriam uma massa eleitoral certa para os Republicanos.
A reforma burguesa garantiria o sufrágio e outros direitos democráticos aos negros no Sul, e
destituiria do poder todas as pessoas ligadas à antiga Confederação.
Os Republicanos Radicais concretizaram o seu projeto em várias medidas práticas. Eles
fortaleceram o Departamento dos Libertos, que a partir de 1865 ajudou ao ex-escravo na
procura de emprego, terra, casa, comida, roupa e serviços de educação, saúde e advocacia. Para
garantir os direitos políticos, eles fizeram o Congresso aprovar em 1866 a 14ªemenda à
Constituição, que anulou a razão do processo de Dred Scott, declarou que o negro era um
cidadão da nação tanto quanto do seu estado de residência, garantiu os seus direitos à vida,
liberdade e propriedade e proibiu aos governos estaduais infringir estes direitos. A emenda
baseou a representação, na Câmara Federal, na população total, e advertiu que, se um estado
negasse o sufrágio a um adulto, aquele estado perderia uma proporção de sua representação
igual à do grupo prejudicado na população do estado. Nenhum funcionário público que depois
se juntasse à rebelião poderia voltar ao cargo. O Governo Federal não reconheceria nem as
dívidas dos estados rebeldes, nem os pedidos de indenização dos ex-senhores de escravos, cuja
perda pela abolição atingia um valor estimado até 4 bilhões de dólares, aproximadamente 46%
da riqueza total nos estados do algodão.
Mas o projeto dos Republicanos Radicais de dominar o Sul através de uma aliança com os
negros encontrou oposição quando dez estados sulistas, seguindo conselhos do Presidente
Johnson, recusaramse a ratificar a 14ªemenda. Os sulistas brancos, mormente Democratas,
tinham o seu próprio projeto para a sua região. Eles queriam restabelecer a subordinação dos
negros aos brancos, se não mais como escravos, então como um estamento de gente
inferiorizada, que continuaria fazendo os trabalhos manuais. Eles queriam também excluir os
negros da política.
Inicialmente, os fazendeiros sulistas experimentaram o assalariamento como uma forma de
manter os negros trabalhando, e até o Departamento dos Libertos incentivava-os a serem
contratados por salários. Para obrigar os libertos a venderem a sua força de trabalho, os
fazendeiros, logo após a guerra, fizeram aprovar uma série de regulamentos conhecidos como
“os códigos negros”. Estas leis estabeleceram pesadas multas e penas por desemprego,
vagabundagem, pregações públicas e porte de arma sem licença. Se o negro não pudesse pagar
a multa, ele ficaria obrigado a trabalhar para quem a pagasse. Outras leis nestes códigos
tornavam quase impossível ao negro comprar terra, e proibiram-no de servir em júris ou de
casar-se com pessoas brancas.
Mas o assalariamento, incluindo moradia nas senzalas e uma ração semanal de comida, não
funcionou, por dois motivos básicos: a insuficiência dos salários e a dureza das condições. Os
libertos rejeitaram os salários baixos; e a queda dos preços do algodão, logo após a guerra,
impediu que os fazendeiros oferecessem salários maiores. Os libertos também se recusavam a
voltar a trabalhar para os mesmos ex-senhores, ou a trabalhar nas mesmas condições de turmas
sujeitas a feitores e castigos físicos. Os negros rejeitavam tanto o trabalho árduo que tinha sido
comum durante a escravidão, que se calcula que depois da abolição eles trabalhavam entre 28%
a 37% menos horas por pessoa do que antes.
Sendo inviável o assalariamento, os fazendeiros rapidamente encontraram sistemas de
trabalho mais permanentes na parceria e no arrendamento. A parceria significava que o negro
parceiro e a sua família trabalhavam na terra alheia e recebiam no fim da safra em pagamento
uma fração de sua produção, o que depois de 1868 era quase sempre a metade. O dono da terra
fornecia, além da própria terra, uma moradia, o combustível, os animais de trabalho e a sua
ração, as carroças e ferramentas, as sementes e também supervisionava de perto todo o
trabalho. O dono da terra recebia a metade da safra, seja quanto fosse, sem pagar salários e sem
correr os riscos de seca, cheia, geada e praga.
Embora a fração 50% tenha-se tornado uma constante, a quantidade de terra alocada ao
parceiro ficava sujeita a negociação. O dono procurava dar apenas a terra que o negro e a sua
família podiam trabalhar intensivamente, assim maximizando o rendimento por hectare. O
negro procurava trabalhar a maior parcela de terra possível, para trabalhá-la extensivamente,
assim maximizando o rendimento por trabalhador. A parceria generalizou-se rapidamente, até
que em 1880 estima-se que 72% das propriedades das áreas de algodão empregaram parceiros
em parcelas de tamanho entre 12 e 20 hectares. As áreas de arroz e açúcar usavam menos
parceiros.
O arrendamento caracterizava os outros 28% das propriedades nas áreas de algodão, em
1880. No arrendamento, o negro pagava uma quantidade fixa de dinheiro pelo direito de
trabalhar a terra alheia. Ele recebia do dono da terra apenas este direito, a moradia e o
combustível. Todo o resto, o negro mesmo tinha que providenciar, mas também ele ficava com
toda a sua produção. O tamanho da parcela média do arrendatário, em 1880, era um pouco
maior do que o do parceiro, mas mesmo assim 69% daqueles trabalhavam com menos de 21
hectares.
Os sistemas de parceria e arrendamento funcionaram diferentemente da escravidão, de
modo que no arrendamento o dono da terra nem se preocupava com a produção e a sua
comercialização; ele vivia exclusivamente de seus direitos de propriedade. Mas é importante
frisar que os novos sistemas nãoatingiram a estrutura fundiária. Como antes, um número
reduzido de pessoas continuou sendo o dono da maior parte da terra. Uma comparação da
distribuição de bens imóveis, em municípios representativos do Sul em 1860 e 1870, revela que
os 10% mais ricos detinham entre 57% e 60% de todos estes bens, tanto antes quanto depois da
guerra.
Para manter a subordinação dos negros, os fazendeiros colaboraram estreitamente com os
donos das vendas. Antes da abolição, os fazendeiros tinham recebido os empréstimos
necessários, para custear o ano agrícola, das casas de comissários, com a garantia do penhor de
seus escravos. Se a safra não desse para pagar a dívida, o fazendeiro entregava alguns escravos.
Depois da abolição, como vimos, o fazendeiro passava uma grande parte de seus custos para os
parceiros e arrendatários e a garantia de escravos deixou de existir. Desde que nem o parceiro
nem o arrendatário pudessem oferecer a terra alheia como garantia de empréstimo, a única
coisa que lhes restava era a safra.
Mas nem as casas de comissários, nos portos ou centros ferroviários, nem os bancos, tinham
condições de avaliar as lavouras de dezenas de milhares de pequenos parceiros e arrendatários
no interior. Então, estes tinham que recorrer, para o crédito, ao dono da venda local. A este
indivíduo, o negro comprava gêneros alimentícios básicos, sapatos e pano para roupa. O negro
comprava com dinheiro até a metade do ano agrícola; depois, esgotado o seu dinheiro, ele tinha
que comprar fiado, pagando outros preços incluindo altos juros de 50% a 60% anuais. No fim
da safra ele liquidava a dívida, para começar o mesmo processo noutro ano.
Cada venda negociava com uma média de setenta fregueses. Para garantir a dívida, o
vendeiro exigia que o negro plantasse mais algodão do que gêneros alimentícios, porque o
algodão envolvia menos riscos: ele era um produto não perecível, facilmente armazenável, com
rendimento por hectare e preço futuro mais previsíveis. Como resultado, a produção de gêneros
alimentícios, no Sul, sofreu um declínio drástico de 50% depois da guerra. O déficit foi
importado de outras áreas e vendido ao negro pelo vendeiro.
Deste modo, o vendeiro obrigava o negro a comprar por preços extorsivos. Insistindo que o
negro plantasse algodão, o vendeiro mantinha o negro sempre endividado. O vendeiro esperto
realizava uma rápida acumulação de dinheiro que, em cinco anos, permitia a ele comprar terras
e se tornar fazendeiro. Assim, os donos das vendas ajudaram os fazendeiros a manter a
dependência econômica do negro.
Finalmente, os próprios negros libertos tinham um projeto. Eles queriam uma reforma
agrária, para que eles pudessem trabalhar a sua própria parcela de terra. Esta terra seria
confiscada ou expropriada dos brancos, para quem os negros trabalhavam como escravos desde
a colônia. A ideia teve o apoio de alguns Republicanos Radicais como o Representante
Thaddeus Stevens da Pensilvânia e o General O. O. Howard, chefe do Departamento dos
Libertos. O projeto de Stevens de dar 40 acres e 50 dólares (16 hectares e o valor de uma mula)
para cada liberto chefe de família, encontrou grande receptividade entre os negros, senão entre
os colegas na Câmara dos Representantes, e passou para a consciência popular como a palavra
de ordem “40 acres e uma mula”. Os negros queriam também garantias eficazes de seus
direitos democráticos, para que eles pudessem ter voz ativa na política, onde se defenderiam
em termos de igualdade com os brancos.
A Reconstrução Radical
Destes quatro projetos, algumas reivindicações dos Republicanos Radicais e dos negros
receberam apoio inicial do Governo Federal, devido a dominação do Congresso pelos Radicais.
Em resposta aos vetos do Presidente Johnson e à resistência à 14ª emenda pelos estados
sulistas, os Republicanos Radicais fizeram passar no Congresso uma série de leis conhecidas
como as Leis da Reconstrução. Estas leis submeteram a antiga Confederação ao governo
militar: a região foi dividida em cinco distritos cada um governado por um general-de-brigada.
A principal obrigação destes governos militares era de preparar um novo balanço de poder no
Sul. Tal tarefa significou registrar os votantes negros, excluir os votantes brancos que tinham
participado na rebelião, demitir sumariamente quaisquer funcionários estaduais que
obstruíssem a Reconstrução e convocar constituintes estaduais que redigiriam novas
constituições incorporando a 14ª emenda. Depois de cumprir todas estas exigências e o
Congresso Federal aprovar as novas constituições, o governo militar seria retirado e o estado
reentraria na União.
De fato, a Reconstrução no Sul virou o poder político de cabeça para baixo nos anos
imediatamente depois da guerra. Os principais cargos foram preenchidos por nortistas,
mormente militares. Muitos nortistas civis também foram para o Sul; uns eram
ex-abolicionistas e idealistas que queriam colaborar com os negros; outros, cognominados
“aventureiros” (carpet-baggers), queriam apenas lucrar com a situação. Os sulistas menos
entusiastas da Confederação, uma minoria durante a guerra, também ajudaram com a
Reconstrução. Quando esta colaboração mostrou-se mais interesseira, estes sulistas ganharam
o apelido de “mandriões” (scalawags).
No Sul devastado pela guerra, as tarefas da Reconstrução eram muitas. Os problemas
passaram da simples substituição nos cargos para a reconstração de rodovias, estradas de ferro,
açudes, diques, pontes, fábricas, prédios, orfanatos e asilos. Toda uma rede de escolas públicas
para os negros foi criada. Na Carolina do Sul, por exemplo, onde antes da guerra apenas 20000
crianças, quase todas brancas, frequentavam escolas públicas, em 1873 o número de crianças
era de 120000 e mais da metade era negra. No Sul todo, foram estabelecidas no pós-guerra seis
universidades e dois institutos técnicos, especialmente para os negros.
Os negros ganharam outros benefícios da Reconstrução. Pela primeira vez, eles votaram e
serviram nos júris, e estes direitos foram-lhes garantidos contra a interferência oficial pela 15?
emenda à Constituição, aprovada em 1869. Muitos negros ocupavam cargos políticos. Foram
eleitos quatorze negros como representantes federais e dois como senadores. Um foi nomeado
governador e seis, vice-governadores. Vários serviram como secretários estaduais e muitos
preencheram cargos locais. O pelourinho, a marcação com ferro quente e o tronco
desapareceram como castigos legais, e se reduziu de vinte para dois o número de crimes
puníveis com a sentença de morte.
Muitos brancos também se beneficiaram com a Reconstrução. As companhias formadas para
restaurar e estender as estradas de ferro recebiam áreas enormes de terra. Outros capitalistas
tentaram trazer a indústria para o Sul, sem muito êxito, mas com lucros para os promotores.
Uma grande parte da velha oligarquia terratenente sumiu, arruinada pela destruição de suas
lavouras e pelo desaparecimento de seus escravos. Mas surgiu uma nova oligarquia
terratenente, de pessoas que ganharam o seu dinheiro no comércio e nos bancos, e que
compraram as fazendas falidas por preços baratos. Estes novos donos da terra muitas vezes
moravam longe das suas propriedades, e como absenteístas não tinham as pretensões
aristocráticas da oligarquia velha. Mas, como vimos, se os nomes das pessoas mudaram, a
concentração da riqueza continuou nas mãos de poucos brancos.
Com tanta gente inexperiente em posições de poder, e tanta obra a ser realizada, o
funcionalismo público já crescido e inchado pelo aumento do poder do Estado durante a guerra
e a Reconstrução tornou-se mais suscetível à corrupção. Uma tradição conservadora na
historiografia norte-americana caracteriza como corruptos uma grande parte das pessoas que
subiram na política do Sul no pós-guerra. Mas, por um lado, nada indica que o grau de
corrupção nas áreas reconstruídas excedesse àquela atingida no Norte. Lá, os Republicanos do
próprio Governo Federal, na pessoa do Vice-presidente, o secretário particular do Presidente
Ulysses S. Grant (1869-1877), os Ministros da Guerra e da Fazenda, o presidente da Câmara, o
embaixador na Inglaterra, funcionários importantes na Delegacia da Receita Federal e muitos
membros dos dois partidos na Câmara e no Senado, além de toda a máquina política do Partido
Democrata na cidade de Nova Iorque, todos ficaram repetidamente envolvidos em escândalos e
abusos. Por outro lado, não se pode esquecer que muitos nortistas missionários, professores,
assistentes sociais e simples idealistas dedicaram-se à Reconstrução, por anos, de uma maneira
desinteressada. Da mesma forma, muitos negros no Sul tentaram honestamente administrar a
Reconstrução, apesar das tentações de se corromper.

O fim da Reconstrução
Na década de 1870, depois de uma vida média de sete anos para os governos militares, a
Reconstrução Radical terminou e o projeto político sulista de excluir os negros venceu. Em
parte, esta derrota ocorreu por rachas dentro do próprio Partido Republicano, e do
fortalecimento de grupos hostis à Reconstrução Radical, e em parte ela resultou de uma
conjuntura econômica difícil. A questão da corrupção, tanto no Norte como no Sul, atraiu as
atenções dos reformadores, que antes tinham apoiado a abolição e a Reconstrução Radical.
Agora, estes bemintencionados perceberam o funcionalismo público corrupto como sendo um
problema mais importante do que a Reconstrução do Sul em favor dos negros. Chamando-se de
“Liberais” para se distinguir dos outros Republicanos apelidados “Leais”, os reformistas
concorreram às eleições presidenciais de 1872 com um candidato próprio, embora sem êxito.
Uma ala importante do Partido Democrático, chamada“Novo Começo”, desassociou-se da ala
mais tradicional. e também apoiou os Liberais em 1872.
As novas tendências políticas terminaram ameaçando seriamente a hegemonia dos
Republicanos Radicais e Leais. Quando estes conseguiram, em 1872, reeleger o Republicano
Leal Presidente Grant, um hçroi de guerra muito popular, a maior parte dos Republicanos
Liberais ingressaram nas fileiras do Partido Democrata, onde promoveram as ideias de tarifas
altas, dinheiro forte e industrialização. Os Democratas, para apagar a sua velha imagem de
partido dos escravocratas, aceitaram gradualmente estas novas ideias e adquiriram tamanha
força eleitoral que em 1874. pela primeira vez desde 1856, o Partido Democrata ganhou uma
maioria na Câmara dos Representantes.
Um grupo de Republicanos no Sul formou o Partido Conservador, para atrair as pessoas da
nova elite econômica que se opunha às reformas sociais em curso, mas que rejeitava, por
enquanto, uma volta ao Partido Democrata. Assim, Liberais, Democratas e Conservadores
assumiram muitas velhas posições republicanas e fizeram oposição eficaz aos Republicanos
Radicais; estes ficaram isolados em sua defesa dos negros.
Além desta oposição política, os Radicais tiveram que enfrentar a oposição violenta do
terrorismo branco no Sul. O Ku Klux Klan, por exemplo, um clube de veteranos dos exércitos
da Confederação, virou uma organização de terroristas disfarçados em lençois e capuzes
brancos, cavalgando à noite e perseguindo os negros e os seus aliados com incêndios, surras e
linchamentos. Outras organizações clandestinas como os Cavalheiros da Camélia Branca, os
Cavalheiros do Sol Nascente, as Guardas Constitucionais e os Caras-Pálidas também
praticaram o terrorismo contra os negros e os seus aliados. Calcula-se que, apenas no período
de 1867 a 1871, mais de 20000 pessoas foram mortas por terroristas brancos.
Quando em 1871 e 1872 o Governo Federal tardiamente passou leis e tomou providências
para controlar estas organizações, elas desapareceram. Mas outras semelhantes, a Linha
Branca, a Liga Branca, o Clube do Povo e as Camisas Vermelhas, surgiram no Sul, e nesta
altura contavam com a complacência e até o apoio de certos governos locais.
A Depressão de 1873, cujos efeitos estenderamse nos EUA até 1879, foi a outra força que
derrotou a Reconstrução Radical. Esta Depressão, a pior experimentada pela nação até então,
em parte resultou de uma crise econômica na Europa. Tal crise levou os europeus a venderem
grandes quantidades das suas ações americanas, o que tanto deprimiu o nível de preços na
Bolsa de Valores de Nova Iorque que, pela primeira vez, este importante mercado de capitais
fechou. A Depressão de 1873, como o Pânico de 1857, também foi agravada pela falência de
bancos, como os de Jay Cooke, que tinham emprestado muito dinheiro às companhias
ferroviárias, sem ligar para o fato de que algumas destas estavam sobrecapitalizadas, e não
estavam lucrando o necessário para amortizar os empréstimos. Quando estes bancos não
conseguiram novos depósitos ou empréstimos na Europa para compensar o crédito excessivo
estendido às companhias ferroviárias, eles ficaram sem poder enfrentar as suas obrigações
bancárias, e faliram.
O colapso da Bolsa de Valores e dos grandes bancos e das muitas empresas destes
dependentes dobrou a frequência de falências, e paralisou mais do que a metade da indústria
siderúrgica. Muitas empresas tentaram salvar-se demitindo operários e reduzindo os salários
em até 50%. No inverno de 187778, um total de 3 milhões de pessoas ficou sem emprego, ou
seja, um trabalhador na rua para cada quatro ou cinco ganhando. Quando os operários
resistiram aos cortes com greves, foram reprimidos com bastante violência, como nas minas de
carvão em 1875, onde dez grevistas foram executados, e nas estradas de ferro, em 1877, onde
batalhas entre grevistas e tropas deixaram centenas de mortos.
Esta desesperada situação econômica apressou o declínio dos Republicanos Radicais. Os
bancos de Jay Cooke tinham sido uma fonte importante de apoio financeiro para estes
Republicanos, que sentiram a sua falta. Para o público, a corrupção tolerada pelos
Republicanos Radicais agora parecia um desperdício inaceitável. No velho Noroeste,
apareciam novos partidos políticos, como o Independente Reformista, que lutava contra a
corrupção e a distribuição desenfreada de terras às grandes companhias ferroviárias, e o
Papel-Moeda (Greenback), que reivindicava a expansão monetária e facilidades de crédito para
os fazendeiros. Ambos os partidos opuseram-se ao Partido Republicano, e atraíram
Republicanos dissidentes para as suas fileiras.
Em tais condições difíceis, tanto políticas quanto econômicas, o negro no Sul perdeu os
seus aliados brancos. Os governos reconstrucionistas apoiaram os políticos Liberais e
Conservadores e até adotaram as palavras de ordem racistas dos Democratas de “supremacia
branca” e “controle local”. Em áreas onde os negros eram majoritários, como o Mississippi e a
Carolina do Sul, as novas organizações de terrorismo branco aproveitaram-se da passividade
oficial para aumentar as suas campanhas de terrorismo. Eles afastaram os negros da política,
esvaziaram as milícias estaduais onde os negros ainda predominavam, e desarmaram a
população negra. O Governo Federal permitiu que as autoridades locais resolvessem os casos
de violência contra os negros, invocando os velhos argumentos de direitos estaduais sempre
empregados pelos sulistas e por Andrew Johnson, deixando nas mãos dos tribunais estaduais os
casos de violações, por indivíduos, da 14ªe 15? emendas.
As legislaturas estaduais cortaram os programas de ajuda aos negros e impuseram impostos
regressivos que atingiram mais aos pobres. Estas legislaturas negaram o direito de voto aos
negros através de diversas manobras, como a toleração do suborno e da falsificação de votos; o
redesenho (gerrymander) dos distritos eleitorais para dispersar o voto dos negros; o uso de
urnas múltiplas e a mudança das urnas na última hora para confundir ao votante negro; a
complicação dos testes de alfabetização e cidadania; e a aprovação das “cláusulas de avô”, que
determinaram que somente as pessoas cujos pais e avós tinham o sufrágio no começo de 1867,
portanto antes da 14ªemenda, podiam votar.
A Reconstrução terminou em 1877. Na eleição presidencial de 1876, o candidato Samuel
Tilden do Partido Democrata tinha ganho a maioria dos votos, mas em vários estados,
principalmente no Sul, houve reclamações que levaram a uma nova contagem. Para conseguir,
no Sul, o apoio dos Democratas e dos Conservadores para o candidato Republicano Rutherford
B. Hayes, os Republicanos fizeram um acordo notório. Em troca de uma contagem que
favorecesse Hayes, os Republicanos prometeram uma estrada de ferro do Texas até o Oceano
Pacífico e outros melhoramentos internos, dois ministérios, e empregos federais para os
Democratas no Sul. Fechada a barganha, Hayes assumiu a presidência, retirou as últimas 6 000
tropas federais da Louisiana, Flórida e Carolina do Sul, e deixou que os Democratas no Sul
monopolizassem a política, como os fazendeiros brancos com os seus aliados já dominavam os
negros na economia rural.
Doze anos depois do fim da Guerra Civil, o Governo Federal terminou de reintegrar o Sul
na União. Neste Sul reintegrado predominavam grupos políticos e econômicos que, no que
dizia respeito ao negro, pouco se distinguiam daqueles que dirigiam os destinos da região antes
da guerra. Pelo abandono dos ideais da Reconstrução, o Governo Federal lavou as suas mãos da
responsabilidade para com os exescravos, entregando-lhes aos cuidados pouco compassivos
dos brancos sulistas. A Guerra Civil liberou os escravos. Mas, ironicamente, o último dos
grandes acordos entre o Norte e o Sul garantiu a nova subjugação dos negros.
A Reconstrução Radical constituiu uma experiência com a qual não existe paralelo na história
do Brasil, seja na época da abolição ou seja depois, onde quase nada foi feito para integrar os
libertos na sociedade capitalista. Mas no fim desta experiência os negros americanos no Sul
enfrentavam problemas de pobreza e da negação de direitos civis que ainda hoje os afligem.

CONCLUSÃO
Pela importância que a Guerra Civil teve na história dos EUÀ, é fácil entender que todas as
gerações de historiadores americanos têm procurado compreendê-la. A titulo de conclusão
pretendemos rapidamente descrever as interpretações diferentes que têm aparecido sobre a
guerra e procurar situar a perspectiva que orientou as nossas páginas anteriores.
Logo depois da guerra, como era de se esperar, as interpretações publicadas eram
abertamente partidárias. Escritores do Norte chamavam-na de “Guerra de Rebelião’’, acusando
o Sul de ter plena responsabilidade e de ter merecido os castigos e a derrota que sofreu.
Escritores do Sul a chamavam de “Guerra entre os Estados”, e a atribuíam à agressão do Norte
contra uma sociedade que só queria preservar e continuar com o seu estilo de vida.
Trinta anos depois da guerra, na última década do século XIX, quando os EUA já tinham
emergido como uma nação industrializada e com ambições imperialistas no Caribe, na
América Central e no Pacífico, os historiadores (Rhodes, Dunning — vejase a bibliografia)
tendiam a ver a Guerra Civil como “um Conflito Irreprimível” que girou em torno da questão
da escravidão, mas para a qual as duas regiões deviam ser responsabilizadas. Trágica e custosa
como foi a guerra, pelo menos permitiu a continuidade da União, sem a qual o crescimento e
expansão dos EUA não se teriam realizado.
Na década de 1920, quando o imperialismo ianque já estava provocando sérias críticas
internas e os esforços dos progressivistas de controlar os excessos do capitalismo monopolista
tinham em grande parte fracassado, interpretações novas (os Beards) caracterizaram a guerra
como um conflito entre o capitalismo industrial do Norte e o capitalismo agrário do Sul, com
cada região querendo dominar o Governo Federal. A vitória do Norte nesta “Segunda
Revolução Americana” significava o triunfo de uma civilização que, se aboliu a escravidão,
introduziu muitas outras injustiças na sociedade americana.
Na década de 1930, apareceu um grupo de historiadores (Craven, Randall) chamados
“revisionistas”. Estes sentiram as desilusões dos americanos que apoiavam a Primeira Guerra
Mundial como “a Guerra para Fazer o Mundo Seguro para a Democracia” e “a Guerra para
Terminar com todas as Guerras”. Eles viram, na década de 1920 e na Grande Depressão, a
partir de 1929, o reaparecimento de todos os males que a Primeira Guerra Mundial devia ter
extirpado. Então, estes revisionistas atribuíram a Guerra Civil à “geração desajeitada” de
políticos das décadas de 1850 e 1860. Eram os sulistas exaltados e os abolicionistas fanáticos
do Norte, que precipitaram a Guerra Civil com a sua própria incapacidade política. Da mesma
forma, eram os políticos revanchistas e corruptos que exploraram o Sul prostrado durante a
Reconstrução, até que os sulistas moderados reassumiram o controle de sua região.
Logo depois da Segunda Guerra Mundial, surgiram interpretações (Schlesinger, Nevins)
que exaltaram a Guerra Civil. A escravidão, segundo estes autores, era um obstáculo para o
progresso social nos EUA, e particularmente dos negros. Infelizmente. era o tipo de problema
moral, como a expansão nazista, que somente uma guerra podia resolver.
Nos últimos vinte anos, a contribuição americana para a Guerra Fria e a renovada luta dos
negros pelos seus direitos civis têm levado diversos historiadores americanos (Genovese,
Moore. Camejo, Mallin, Williams) e estrangeiros (Luraghi) a retomar as interpretações da
década de 1920 e elaborá-las. Novamente se lê que a Guerra Civil contrapunha duas
civilizações completamente diferentes, com contradições tão básicas, sobretudo com respeito à
relação de trabalho predominante, que os arranjos costumeiros entre as classes dominantes não
conseguiram mais contornar os problemas. Alguns destes historiadores da “Nova Esquerda”
caracterizam a Guerra Civil como “A Última Revolução Capitalista”, quando a expansão do
capitalismo do Norte exigia reformulações do poder político que somente seriam possíveis
depois da destruição do Sul pré-capitalista. Estes historiadores também percebem na
Reconstrução um esforço honesto e digno de prover os negros com as condições econômicas e
políticas essenciais para a sua sobrevivência numa sociedade capitalista. Se houve erro na
Reconstrução, não era de exagero ou de venalidade, mas de timidez.
Reconhecemos que este nosso estudo introdutório deve muito àquela última interpretação.
Mas ninguém pode ficar indiferente às explicações mais críticas e compreensivas de sua época.
Parece claro que nem o Norte nem o Sul era mocinho ou vilão. Também é evidente que as
forças econômicas e sociais que determinavam a direção da história americana durante o século
XIX não podiam ter estado ausentes na hora de sua crise maior. Se a escravidão não era a única
questão dividindo o Norte do Sul, ela teve implicações e consequências tão profundas que é
bem possível entender que um impasse político sobre esta questão tivesse levado as classes
dominantes à guerra. Nem sempre duas sociedades com formações econômicas e sociais
diferentes entram em combate mortal. Mas, quando há grandes proximidades entre as duas no
mesmo corpo político, e quando as duas têm as mesmas ambições para com uma outra região
ainda em formação, como foi o caso do Oeste, fica mais provável que nem todas as diferenças
políticas encontrem resoluções amigáveis.
Os historiadores americanos, por mais de cem anos, têm-se sentido fascinados pela Guerra
Civil pela sua singularidade e excepcionalidade na história nacional. Talvez, se a
considerarmos não como um acontecimento grotesco, mas como a crise maior de um processo
único, o da implantação do capitalismo industrial, e por isso mesmo sem semelhantes,
conseguiremos compreendê-la melhor.

INDICAÇÕES PARA LEITURA


A bibliografia em português sobre a história norte-americana está muito pobre. Poucos
brasileiros ou portugueses pesquisam e publicam sobre esta história, e poucos livros escritos
por historiadores estrangeiros conseguem traduções. Em vista do papel que os EUA
desempenham na economia e na política do Brasil, sem falar do mundo, tal escassez de estudos
e de divulgação torna-se lamentável. No inglês, por outro lado, há uma verdadeira indústria de
livros sobre a Guerra Civil, e todo ano aparecem novos títulos. Nesta bibliografia, incluímos
apenas os livros utilizados na preparação deste volume e aqueles de enfoque mais abrangente
ou mais atualizado.
Trabalhos gerais: felizmente existe uma valiosa tradução de uma coleção de documentos:
Harold C. Syrett (org.), Documentos Históricos dos Estados Unidos, traduzido por Octavio
Mendes Cajado (São Paulo, Cultrix, 1980). Um manual útil é de Richard N. Current, T. Harry
Williams e Frank Friedel, American History. A Survey, 3? edição (Nova Iorque, Alfred A.
Knopf, 1971) e outro que, embora velho e preconceituoso, ainda merece respeito pelos seus
detalhes é o de John D. Hicks, The Federal Union e The American Nation, 2? edição
(Cambridge, Massachusetts, Houghton Mifflin/Riverside Press, 1952). Uma coletânea de
artigos críticos foi organizada por Allen F. Davis e Harold D. Woodman, Conflict and
Consensus in Early American History, 5? edição (Lexington, Massachusetts, D. C. Heath,
1980). Para resumos de pesquisas e perspectivas recentes, veja-se Benjamin Larabee,
America's Nation-Time, 1607-1789; Raymond H. Robinson, The Growing of America,
1789-1848; e Donald M. Jacobs e Raymond H. Robinson, America's Testing Time, 1848-1877,
todos os volumes de uma série organizada por J. Joseph Huthmacher (Boston, Allyn e Brown,
1972-73). Há também, em português, C. Vann Woodward (org.), Ensaios Comparativos sobre
a História Americana, traduzido por Octavio Mendes Cajado (São Paulo, Cultrix, 1972) e
Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil, 15? edição (São Paulo, Nacional, 1977),
especialmente Capítulos V, VI e XVIII.
História Econômica da América do Norte: tem uma análise detalhada em português: Ross M.
Robertson, História da Economia Americana, 2 volumes, traduzido por J. L. Mello (Rio de
Janeiro, Record, 1967). Para estudos mais gerais de todas as regiões, veja-se Stuart Bruchey,
The Roots of American Economic Growth, 1607-1861. An Essay in Social Causation (Nova
Iorque, Harper e Row, 1968) e Douglas North, Una Nueva História Económica. Crescimiento
y Bienestar en el Passado de los Estados Unidos (Madri. Tecnos. 1969).
O Norte', as monografias clássicas são de Thomas C. Cochran e William Miller, The Age of
Enterprise. A Social History of Industrial America, edição revisada (Nova Iorque, Harper e
Row, 1961); Georges Rogers Taylor, The Transportation Revolution, 1815-1860 (Nova
Iorque, Harper e Row, 1968) e Marcus Lee Hanson, The Atlantic Migration, 16071860. A
History of the Continuing Settlement of the United States (Nova Iorque, Harper e Brothers,
1961). Vejam-se também os sumários mais recentes de Robert L. Heilbroner e Aaron Singer,
The Economic Transformation of America (Nova Iorque, Harcourt, Brace, Jovanovich, 1977) e
Zane L. Miller, The Urbanization of Modern America. A Brief History (Nova Iorque, Harcourt,
Brace, Jovanovich, 1973).
O Sul: as obras básica são de Lewis Cecil Gray, History of Agriculture in the Southern
United States to I860, 2 volumes (Gloucester, Massachusetts, Peter Smith, 1958); U. B.
Phillips, American Negro Slavery (Baton Rouge, Louisiana State University Press, 1966) e
Clement Eaton, The Growth of Southern Civilization, 1790-1860 (Nova Iorque, Harper e Row,
1961). Para aspectos da história do Sul em português, veja-se Eugene D. Genovese, A
Economia Política da Escravidão (Rio de Janeiro, Pallas, 1976) e O Mundo dos Senhores de
Escravos (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979) e Cari Degler, Nem Preto nem Branco.
Escravidão e Relações Raciais no Brasil e nos Estados Unidos (Rio de Janeiro, Labor do
Brasil, 1976). De Eugene D. Genovese, veja-se também Roll, Jordan, Roll. The World the
Slaves Made (Nova Iorque, Random House, 1972) e From Rebellion to Revolution.
Afro-American Slave Revolts in the Making of the Modern World (Baton Rouge, Louisiana
State University Press, 1979). O primeiro trabalho sobre a resistência dos escravos foi o de
Herbert Aptheker, American Negro Slave Revolts (Nova Iorque, International Publishers,
1974).
Representativos dos novos enfoques da história social e econômica são Gavin Wright, The
Political Economy of the Cotton South. Households, Masters and Wealth in the Nineteenth
Century (Nova Iorque, W. W. Norton, 1978); Robert William Fogel e Stanley L. Engerman,
Time on the Cross. The Economics of American Negro Slavery, 2 volumes (Boston, Little,
Brown, 1974) e Allan Weinstein e Frank Otto Gattell, American Negro Slavery, 2? edição
(Nova Iorque, Oxford University Press, 1973).
O Oeste: Ray Allen Billington, The Far Western Frontier 1830-1860 (Nova Iorque, Harper
e Row, 1962) e Paul W. Gates, The Farmer's Age: Agriculture, 1815-1860 (Nova Iorque,
Harper e Row, 1960), são sumários exemplares. Em português, vejase Dee Brown, Enterrem o
meu Coração na Curva do Rio (São Paulo, Melhoramentos, 1973), sobre os índios, e Emilia
Viotti da Costa, Da Monarquia à República. Momentos Decisivos (São Paulo, Grijalbo, 1973),
capítulo IV, onde a autora compara a lei de terras no Brasil (1850) com a dos EUA (1862).
As causas da guerra: um tema que tem atraído muitos historiadores, entre os quais os melhores
são Louis Filler, The Crusade against Slavery, 1830-1860 (Nova Iorque, Harper e Row, 1960);
Martin Duberman (org.). The Antislavery Vanguard (Princeton, Princeton University Press,
1965); David M. Potter, The Impending Crisis, 1848-1861 (Nova Iorque, Harper e Row,
1976), e Eric Foner, Free Soil, Free Labor, Free Men: The Ideology of the Republican Party
before the Civil War (Nova Iorque, Oxford University Press, 1971). Para interpretações,
veja-se James Ford Rhodes, The History of the United States from the Compromise of 1850 to
the Final Restoration of Home Rule in the South in 1877, 7 volumes (1893-1906); Charles e
Mary Beard, The Rise of American Civilization, 2 volumes (Nova Iorque, Macmillan, 1930);
William A. Dunning, Essays on the Civil War and Reconstruction (1904); Avery O. Craven,
The Coming of the Civil War, 2? edição (Chicago, University of Chicago Press, 1957); Edwin
C. Rozwenc (org.), The Causes of the American Civil War (Boston, D. C. Heath, 1961);
Thomas J. Pressly, Americans Interpret their Civil War (Nova Iorque, Free Press, 1965);
Charles Crowe (org.), The Age of Civil War and Reconstruction, 1830-1900: A Book of
Interpretative Essays (1966); Irwin Unger (org.), Essays on the Civil War and Reconstruction
(1970). Barrington Morre Junior, Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, traduzido por
M. L. F. Couto (Lisboa, Cosmos, Santos, Martins Fontes, 1975), especialmente o capítulo III;
Raimundo Luraghi, The Rise and Fall of the Plantation South (Nova Iorque, New Viewpoints,
1978) e William Appleman Williams, The Contours of American History (Chicago,
Quadrangle Books, 1966), especialmente “The Age of Laissez Nous Faire: 1819-1896”,
capítulo IV.
A guerra civil: os estudos mais detalhados são de Allan Nevins, Ordeal of the Union, 8
volumes (Nova Iorque, Charles Scribner’s Sons, 1947-71); J. G. Randall e David Donald, The
Civil War and Reconstruction, 2 volumes (Boston, D. C. Heath, 1961) e Bruce Catton,
Centennial History of the Civil War, 3 volumes (Garden City, Doubleday, 1961-65). Resumos
mais acessíveis incluem Thomas H. O’Connor, The Disunited States. The Era of Civil War and
Reconstruction (Nova Iorque, Dodd, Mead, 1973) e Emory Thomas, The Confederacy as a
Revolutionary Experience (Englewood Cliffs, Nova Jersey, Prentice-Hall, 1971). Uma
apreciação jornalística, mais interessante pela importância de seus autores, é de Karl Marx e
Friedrich Engels, La Guerra Civil en los Estados Unidos, traduzido por Nestor R. O. Oderigo
(Buenos Aires, Rosa Blindada, 1973).
A reconstrução: os trabalhos pioneiros neste período são de W. E. B. DuBois, Black
Reconstruction in America, 1860-1880 (Nova Iorque, Atheneum, 1979); Kenneth M. Stampp,
The Era of Reconstruction, 1865-1877 (Nova Iorque, Alfred A. Knopf, 1965); John Hope
Franklin, Reconstruction after the Civil War (Chicago, University of Chicago Press, 1961) e C.
Vann Woodward, Reunion and Reaction: The Compromise of 1877 and the End of
Reconstruction (Nova Iorque, Doubleday, 1956) e The Burden of Southern History, edição
revisada (Nova Iorque, New American Library, 1968). Autores mais recentes, que analisam
com mais detalhes a situação do negro, são Roger C. Ransom e Richard Sutch, One Kind of
Freedom. The Economic Consequences of Emancipation (Nova Iorque, Cambridge University
Press, 1977). Jay R. Mallin, The Roots of Black Poverty: The Southern Plantation Economy
after the Civil War (Durham, Duke University Press, 1978). Peter Camejo, Racism, Revolution,
Reaction,
186 T1877. The Rise and Fall of Radical Reconstruction (Nova Iorque, Monad, 1976); James
C. Roark, Masters Without Slaves. Southern Planters in the Civil War and Reconstruction
(Nova Iorque, W. W. Norton, 1977) e Leon F. Litwack, Been in the Storm so Long. The
Aftermath of Slavery (Nova Iorque, Random House, 1980). Veja-se também Robert B. Toplin,
Freedom and Prejudice: the Legacy of Slavery in the United States and Brazil (Westport,
Greenwood, 1980).

Sobre o Autor
Peter Louis Eisenberg nasceu na cidade de Nova Iorque em 1940. Bacharelou-se em Filosofia na
Universidade de Yale, em 1961; fez o mestrado em Estudos Hispano-Americanos e Luso-Brasileiros na
Universidade de Stanford, em 1962; e completou o doutorado em História na Universidade de Colúmbia, em
1969.
Iniciou a carreira docente em Rutgers, a Universidade Estadual de Nova Jersey, em 1965. Trabalhou também
na Universidade das índias Ocidentais em Trinidad e Tobago. Desde março de 1975 leciona na Universidade
Estadual de Campinas (SP) — UNICAMP.
As suas obras principais incluem o livro Modernização sem Mudança: a Indústria Açucareira em
Pernambuco. 1840-1910 (Rio de Janeiro, 1977, tradução) e diversos artigos e capítulos publicados nos EUA, na
Inglaterra, na França e no Brasil.

Caro leitor:
Se você tiver alguma sugestão de novos títulos para as nossas coleções, por favor nos envie.
Novas ideias, novos títulos ou mesmo uma “segunda visão" de um jã publicado serão sempre
bem recebidos.