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Um Homem Marcante

(The Legend Of De Marco)

Abby Green

Rocco de Marco. Lendário executivo com muitos bilhões de dólares


investidos. O homem mais importante no salão. E ele acabou de pegá-la em
flagrante roubando canapés do bufê...

Se o primeiro encontro da garçonete Gracie O’brien com Rocco foi memorável, o


segundo tornou-se inesquecível! Pois ainda que ela o tenha surpreendido ao invadir sua
sala, não seria capaz de enganá-lo com falsa inocência. Por isso, Rocco a manteria por
perto até descobrir toda a verdade. Contudo, ele não consegue ficar bravo com aquela
ruiva sapeca. Gracie provoca nele emoções que estavam enterradas havia muito tempo. E
a tensão sexual entre os dois beira cada vez mais a explosão!

Digitalização: Vicky
Revisão: Bruna Cardoso
Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green

Querida leitora,
Quando um homem resolve implicar com uma mulher, muitas surpresas surgem! E
não há como negar que a implicância é uma forma de seduzir... Tariq e Rocco sabem
fazer isso como ninguém. Mas ambos também precisarão aprender que os alvos de suas
atenções, Beatrice e Gracie, têm um jeitinho bastante especial de corresponder aos
desejos de seus amados.
Boa leitura!
Equipe Editorial Harlequin Books

Kim Lawrence — Abby Green


ÊXTASE DO DESEJO

Tradução Maria Vianna — Dinah Kleve


HARLEQUIN 2012
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas
vivas ou mortas é mera coincidência.

Título original: THE SHEIKH AND THE VIRGIN


Copyright © 2008 by Kim Lawrence
Originalmente publicado em 2008 por Mills & Boon Short Romances

Título original: THE LEGEND OF DE MARCO


Copyright © 2012 by Abby Green
Originalmente publicado em 2012 por Mills & Boon Modern Romance

Projeto gráfico de capa: Núcleo i designers associados


Arte-fínal de capa: Núcleo i designers associados
Editoração Eletrônica: ABREU'S SYSTEM
Impressão: RR DONNELLEY
www.rrdonnelley.com.br
Distribuição para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil: FC Comercial
Distribuidora S.A.
Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171, 4° andar
São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380
Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green

Capítulo Um

Rocco DE Marco foi tomado de felicidade ao admirar o entorno. Estava em um belo


recinto de um museu mundialmente conhecido, bem no centro da cosmopolita cidade de
Londres. O local havia sido projetado por um famoso arquiteto francês, no estilo Art Deco,
da década de 20, e atraía aficionados do mundo todo para ver seus espetaculares vitrais.
A multidão presente era composta apenas de pessoas importantes: políticos
influentes, grandes eruditos, celebridades de alta classe e bilionários filantropos que
controlavam a bolsa mundial com um simples estalar de dedos. Ele pertencia àquele
último grupo. Tinha apenas 32 anos e já havia conquistado uma fortuna e status
invejáveis.
Foi então que Rocco captou o olhar de uma loura alta e elegante, do outro lado do
recinto. Seu cabelo brilhante estava preso em um coque clássico e seus olhos azuis
arrogantes o aqueceram, embora não houvesse um sinal sequer de cor verdadeira
naquela face cuidadosamente maquiada. Ela estava vestida de preto brilhante, da cabeça
aos pés e era tão dura quanto os diamantes que estava usando. A mulher sorriu e ergueu
a sua taça na direção dele com um gesto pequeno, porém muito significativo.
Uma sensação de triunfo tomou conta de Rocco ao erguer a sua taça em resposta. A
perspectiva de se casar com a tão empertigada senhorita Honora Winthrop fluiu como um
delicioso néctar pelas suas veias. Ele estava finalmente conquistando tudo pelo que tanto
havia lutado.
Jamais ousara imaginar que chegaria tão longe — receber uma multidão como
aquela, contemplando a possibilidade de se tornar parte dela.
Tinha finalmente alcançado o topo, longe de toda a degradação de sua juventude
nas favelas de uma cidade pobre, na Itália, onde ele havia se transformado praticamente
numa fera. Seu próprio pai havia cuspido nele no meio da rua e visto suas meias-irmãs
passarem por ele sem sequer lançar um olhar na sua direção. Mas ele havia conseguido
sair daquela situação, com garra e determinação e muita inteligência, e até aquele dia,
ninguém sabia de seu passado.
Ele pousou a sua taça vazia sobre a bandeja de um garçom que passava e declinou
de outra dose. Seu autocontrole estava gravado dentro dele como uma tatuagem.
Rocco chegou a pensar por um minuto na tatuagem que ele havia feito no passado e
removido assim que chegara a Londres, há quase 15 anos. Sua pele formigou diante
daquela desconfortável lembrança.
Ele afastou aquela lembrança de sua mente e foi até a senhorita Honora Winthrop.
Uma leve claustrofobia ameaçou tomá-lo de assalto, mas ele conteve a sensação e se
recompôs um tanto irritado, quando flagrou uma figura feminina, nem de longe tão polida,
nem atraente como as outras mulheres do recinto. Seu vestido não lhe caía nada bem e
seu cabelo era um longo e selvagem emaranhado vermelho e vibrante. Havia algo de
indomado em relação a ela que parecia tocá-lo num nível muito profundo.
Rocco se esqueceu de sua intenção original. Não conseguia afastar o olhar da
estranha enigmática.
Sem perceber, ele desviou do seu curso e seguiu na direção dela...
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GRACIE O’BRIEN estava tentando parecer tranqüila, como se estivesse acostumada a


ser convidada para recepções como aquela, nos locais mais prestigiados de Londres,
quando, na verdade, costumava trabalhar como garçonete em ambientes bem menos
saudáveis. Lugares em que os homens costumavam beliscar o seu traseiro e dizer coisas
rudes a respeito de sua falta de atributos.
Tinha um sonho, mas, infelizmente, precisava trabalhar para sobreviver, e os únicos
empregos disponíveis para ela, naquele momento, não eram os mais bem remunerados.
Onde estava Steven? Pensou Gracie, apertando a bolsa contra a sua barriga. Ela só
havia ido até lá, aquela noite, para lhe fazer um favor.
Aquele evento beneficente anual patrocinado pela companhia para a qual seu irmão
estava trabalhando no momento significava uma enorme virada na vida dele, o que
deveria explicar o seu atual estado de nervos. Ambos já estavam com 24 anos, agora, e
ela não podia continuar se sentindo responsável por ele só porque havia assumido aquele
papel desde sempre, para defendê-lo dos rapazes que o provocavam.
Ela ainda carregava as cicatrizes das brigas em que havia se envolvido para proteger
o seu irmão, 20 terríveis minutos mais novo que ela.
Sua mãe jamais permitira que Gracie se esquecesse de que seu amado filho quase
havia morrido, enquanto Gracie tivera a audácia de nascer saudável. Suas últimas palavras
para Gracie antes de abandonar os dois, haviam sido: "Eu o levaria comigo e a deixaria
para trás, se pudesse. Foi a ele que eu sempre quis, mas ele é excessivamente ligado a
você e eu não vou conseguir lidar com um bebê chorão."
Gracie conteve a emoção que sentia toda vez que pensava naquele dia sombrio e
suspirou quando finalmente avistou o irmão, à distância. Seu coração pareceu inchar
dentro do peito de tanto amor por ele. Sempre haviam cuidado um do outro, mas nem
mesmo aquilo fora capaz de poupar Steven de alguns anos negros. Agora, porém, ele
havia reencontrado o seu rumo.
Steven havia implorado para que ela viesse àquele evento.
— Por favor, Gracie... Todos vão estar com suas respectivas esposas. Você tem idéia
do que é conseguir um emprego na De Marco International...?
Ele havia voltado a tecer elogios ao semideus, Rocco de Marco. Gracie acabou
aceitando o convite para fazer com que ele parasse de falar a respeito daquela pessoa que
não podia ser humana de tão perfeita e porque percebera o quanto ele estava ansioso
com aquela situação e sabia o quanto ele havia lutado para conquistar aquela chance.
Haviam sido longas horas na prisão, estudando para ingressar na faculdade assim
que saísse de lá e o medo constante de que fosse reincidir em seus antigos vícios. Mas ele
não o fizera.
Ele estava conversando com outro homem. Olhando para Steven do outro lado do
salão, ninguém diria que ele tinha alguma relação com Gracie. Ele era alto e muito magro
e Gracie media apenas 1,65 m. Seu irmão era louro, tinha a pele clara e olhos azuis,
enquanto ela era ruiva, sardenta e tinha olhos castanhos, como o pai, de origem
irlandesa, outra razão para a sua mãe odiá-la.
Ela fez uma careta quando o seu vestido deslizou de seu peito, expondo ainda mais
um pouco de seu colo nada exuberante. Ela o havia comprado em um bazar de caridade,
sem experimentá-lo. Fora um enorme erro, resmungou Gracie para si mesma. O vestido
era pelo menos dois tamanhos maior que o dela e se arrastava aos seus pés como os
vestidos de sua babá com que ela brincava, quando criança.
Gracie já havia desistido de que Steven viesse procurá-la, chegando à conclusão de
que ele estava excessivamente ocupado. Ela deu as costas para a multidão, puxou o
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vestido para cima e encarou o bufê repleto de deliciosos canapés.
Ela tivera uma idéia e estava firmemente empenhada em executá-la, alguns minutos
mais tarde, quando congelou ao ouvir uma voz profunda, com um sotaque muito sexy,
dizer junto a ela:
— A comida não vai desaparecer, sabia? A maioria das pessoas neste recinto não
come há anos.
Aquela observação cínica foi demais para Gracie. Ela enrubesceu, sentindo-se
culpada e apertando os dedos em torno do canapé que havia acabado de enrolar em um
guardanapo para colocá-lo em sua bolsa, junto com os outros três que já havia guardado
cuidadosamente. Ela olhou para a esquerda, de onde havia vindo à voz e teve de erguer o
olhar do peito branco como a neve, passando por uma gravata preta até alcançar a mais
atraente e deslumbrante visão de masculinidade que ela já havia visto.
O canapé caiu na sua bolsa aberta sem que ela o percebesse, de tão fascinada que
estava.
Um par de olhos escuros brilhava em um rosto tão belo que Gracie sentiu uma
vontade ridícula de fazer uma reverência ou algo igualmente subserviente, e ela,
decididamente, não era uma pessoa servil. O carisma sexual transbordava de cada
molécula desavergonhadamente masculina dele.
— Eu... — Ela não conseguia nem falar. O silêncio se estendeu entre eles.
Ele arqueou uma sobrancelha de ébano.
— Você...?
A boca dele se contorceu, o que só fez piorar as coisas porque atraiu a atenção dela
na direção dos lábios sexies dele. Havia algo de muito provocantemente sensual na boca
dele, como se o seu verdadeiro propósito na vida fosse apenas beijar, beijar e beijar.
Com o rosto em chamas, pois não estava acostumada a pensar em beijar homens
que acabara de conhecer, Gracie arrastou o seu olhar de volta para aqueles olhos negros.
Ele era alto e quase intimidadoramente grande. Seu cabelo era espesso e negro, com
um cacho que se enrolava sobre a testa, o que lhe conferia um ar diabólico que só
enfatizava ainda mais os seus traços fortes e levemente arrogantes.
— A comida não é para mim... E para...
Gracie procurou desesperadamente por alguma desculpa para as suas atitudes e
pensou, tarde demais, no que Steven diria se ela fosse expulsa de lá.
— Você faz parte da equipe de segurança?
Depois de um segundo de incredulidade, ele jogou a cabeça para trás e começou a
rir loucamente, e ela concluiu que não deveria ter dito coisa alguma.
Embaraçada e completamente deslocada naquele ambiente, Gracie respondeu
rispidamente:
— Não precisa ter um ataque histérico por causa disso. Como é que eu podia saber
quem você é?
O homem parou de rir, mas seus olhos continuaram brilhando com maliciosa
diversão, aumentando ainda mais a ira de Gracie. Ela sabia que estava reagindo ao efeito
extremamente peculiar daquele homem sobre o seu corpo. Ela nunca havia se sentido
daquele modo antes. Sua pele estava sensível, toda arrepiada, apesar do calor que fazia
no recinto. Todos os seus sentidos estavam em estado de alerta. Ela podia ouvir o seu
coração batendo mais forte e teve a sensação de suas entranhas estavam em brasa.
— Você não sabe quem eu sou? — perguntou o homem com uma evidente
descrença estampada em seus traços perfeitos.
Gracie corrigiu aquele pensamento. Eles não eram realmente perfeitos. O nariz dele
era levemente desalinhado, como se tivesse sido quebrado, um dia, e havia minúsculas
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cicatrizes em uma de suas bochechas. Outra cicatriz, mais leve, do outro lado do rosto, ia
desde o seu maxilar até a sua têmpora.
Ela estremeceu levemente, como se tivesse reconhecido algo mais profundo e
primitivo a respeito daquele homem. Era como se eles compartilhassem alguma coisa, o
que era ridículo. A única coisa que ela podia ter em comum com um homem como aquele
era o ar que eles estavam respirando naquele momento.
Gracie ergueu o queixo.
— Eu não sou médium e você também não está com nenhuma etiqueta na testa,
então como diabos eu deveria saber quem você é?
Aquela linda boca se fechou e firmou, como se ele estivesse tentando conter o riso,
fazendo com que Gracie sentisse vontade de bater nele.
— Quem é você, afinal, já que se acha tão importante a ponto de todos terem de
conhecê-lo?
Ele balançou a cabeça, e de repente, qualquer traço de humor desapareceu de seu
rosto.
Gracie estremeceu novamente, mas dessa vez por ter visto outra faceta daquele
fascinante espécime masculino.
Era estranho como no espaço de meros segundos, ela havia tido a sensação de
enxergar camadas escondidas e profundas daquele completo estranho. Ele agora trazia
um brilho especulativo em seus olhos. Gracie teve a forte impressão de que por trás
daquele charme tranqüilo se escondia algo bem menos benevolente, obscuro e calculado.
— Por que não me diz logo quem você é?
Naquele exato momento, um homem se materializou entre eles e se dirigiu até
aquele semideus, ignorando Gracie completamente, como se ela fosse qualquer, fato de
que ela não precisava ser lembrada.
— Senhor de Marco, o público está pronto para ouvir o seu discurso.
Ela teve um choque. Senhor de Marco? O homem que ela havia acabado de cobiçar
era Rocco de Marco? Pelo modo como Steven tinha descrito a ele e às suas conquistas ela
havia imaginado alguém bem mais velho, além de mais baixo e gordo, que fumasse
charutos, e não aquele homem dinâmico e viril, de prováveis trinta e poucos anos.
O homem obsequioso que os havia interrompido tinha desaparecido e Rocco de
Marco se aproximou de Gracie.
O perfume dele a tomou de assalto imediatamente, um odor perturbadoramente
almiscarado e masculino. Ele lhe estendeu a mão, e ainda em estado de choque, Gracie
lhe estendeu a sua. Sem desviar o seu olhar do dela, ele se curvou e pressionou um beijo
nas costas de sua pequena mão pálida e sardenta.
— Não saia daqui, está bem? Você ainda não me disse quem é — disse ele, todo
sedutor, para então se encaminhar ao palco.
Foi só então que Gracie voltou a respirar.
Incapaz de se conter, ela se pôs a admirar toda a majestosa masculinidade dele
abrindo caminho por entre a multidão como se estivesse abrindo o Mar Vermelho.
Costas largas, quadris estreitos e pernas longas. Uma perfeição.
Ele era Rocco de Marco. O lendário financista bilionário. Algumas pessoas o
chamavam de gênio.
Gracie olhou aflita de um lado para o outro e avistou Steven, olhando para onde
Rocco se encontrava agora.
Sem nem mesmo saber por que, Gracie foi tomada por uma enorme ansiedade de ir
embora de lá. A idéia de enfrentar aquele homem outra vez era demais para ela.
A pele formigava. Todos naquele recinto sabiam quem ele era exceto ela. A classe
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das pessoas ali presentes a abalou profundamente. As jóias daquelas mulheres eram
verdadeiras, ao contrário de suas bijuterias baratas. Ela não pertencia àquele lugar.
Gracie pensou em como o homem mais importante do salão a havia flagrado
roubando canapés. Ela se imaginou sendo apresentada a ele por Steven e empalideceu.
Seu irmão ficaria arrasado se Rocco de Marco mencionasse o fato a ele. Steven poderia
até ser prejudicado.
Tomada de assalto pelo seu profundo senso de responsabilidade, Gracie fez a única
coisa possível naquela situação — fugiu.
Rocco DE Marco avaliou o seu perfil publicado no suplemento de finanças do jornal,
contorcendo os lábios. A caricatura tornava seus traços mais masculinos e sombrios. Uma
pontada de satisfação, contudo, o atravessou, ao ver a sua fotografia ao lado da
glacialmente bela Honora Winthrop. Ele sabia que eles ficavam bem juntos. Um contraste
de claro e escuro. A foto havia sido tirada no De Marco Benefit, no London Museum, na
semana anterior, na noite em que ele havia iniciado a sua campanha para conquistar um
lugar na alta sociedade.
Seu sorriso endureceu ao lembrar-se de como a senhorita Winthrop parecera ávida
para ir para a cama dele. Até agora, porém, ele tinha resistido às suas investidas. Tinha
decidido, naquela noite, que faria dela a sua esposa, e não permitiria que o sexo nublasse
a sua visão. O sorriso acabou por desaparecer por completo quando ele admitiu que não
havia sido preciso muito esforço de sua parte para resistir a ela.
Como que para atordoá-lo, a imagem de uma pequena ruiva espevitada se infiltrou
maliciosamente em sua mente. A imagem era tão vívida que fez com que Rocco se
sentasse e levantasse novamente da cadeira. Ele estava de pé, junto à ampla janela de
seu escritório que dava para a vista de Londres.
A visão, porém, passou tão despercebida quanto o jornal que havia caído devido ao
seu gesto abrupto. Rocco cerrou os dentes, tentando afastar aquela lembrança de sua
mente e o fato de que assim que terminou o discurso, ele não procurou por Honora
Winthrop, mas, sim, pela estranha sem nome, e descobrira que ela havia desaparecido.
Ele ainda se lembrava de seu choque e surpresa. Ninguém, especialmente mulher
alguma, jamais o havia deixado daquele jeito.
Ela nem era tão bonita, mas tinha alguma coisa muito especial. Exercera algum tipo
de atração visceral sobre ele assim que ele a viu, do outro lado do salão.
Ele não tinha sido capaz de conter o seu impulso de procurar por ela durante toda a
noite. Incomodava-o o fato de ainda estar pensando naqueles poucos segundos do que
deveria ter sido um encontro sem importância, especialmente naquele momento em que
estava prestes a ingressar em uma esfera que o afastaria de vez de tudo o que se
relacionava com o seu passado.
Num gesto pouco característico de fadiga, Rocco esfregou a sua nuca, voltando a
pensar na recente falha ocorrida no sistema se segurança de sua empresa.
O fato havia sido rapidamente descoberto e abafado, mas fizera com que Rocco se
desse conta do quão perigosamente complacente havia se tornado.
Tinha contratado Steven Murray, um mês atrás, movido por alguma espécie de
instinto, coisa nada habitual de sua parte. Havia ficado estranhamente impressionado com
a avidez daquele jovem e seu indiscutível intelecto. Algo a respeito daquele homem havia
se conectado com alguma coisa mais profunda em Rocco, de modo que apesar de seu
currículo preocupantemente vago, ele havia lhe dado uma chance.
Sua recompensa viera na semana passada. O tal homem havia transferido um milhão
de euros para uma conta impossível de rastrear e desaparecera. Logo em seguida. Aquilo
foi como um tapa no rosto de Rocco. Um lembrete de que ele jamais poderia baixar a sua
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guarda, nem mesmo por um segundo.
As mesmas pessoas de quem ele tão avidamente desejava ser par, certamente lhe
dariam as costas assim que ele revelasse algum tipo de vulnerabilidade.
Ele já estava havia muito tempo no controle absoluto da situação, e subitamente se
flagrava conversando com uma mulher usando um vestido que não lhe caía nada bem e
contratando pessoas por instinto, colocando tudo pelo que tanto havia lutado em risco.
Aquela rachadura em sua, de resto, sólida armadura o deixou preocupado. As
pessoas já estavam curiosas a respeito de seu passado e ele não queria dar nenhum pre-
texto aos ávidos jornais ingleses para escavarem ainda mais fundo.
O fato de sua equipe de segurança ainda não ter localizado Steven Murray estava
deixando-o muito irritado. Não descansaria enquanto aquele homem não fosse
encontrado, interrogado e punido.
Rocco pegou o seu paletó para deixar o escritório de paredes de vidro. A noite já
começara a cair sobre a cidade, lá fora, e os arredores estavam vazios. Aquela costumava
ser a sua hora favorita para trabalhar. Ele gostava daquele silêncio. Aquilo o confortava
por ser muito distante da constante cacofonia reinante em sua juventude,
Rocco já estava quase indo embora quando o telefone tocou. Todo o seu corpo
enrijeceu ao ouvir o que a pessoa do outro lado da linha tinha a dizer.
— Tragam-na aqui.
A tensão tomou conta do corpo de Rocco, enquanto ele esperava junto ao elevador.
Havia alguém no prédio à procura de Steven Murray.
A porta do elevador se abriu, revelando a pequena forma de uma mulher que vestia
uma camiseta cinza, jeans gastos, e o que parecia um casaco amarrado à sua cintura. Ela
era de uma estatura pequena e compacta, com pequenos seios que despontavam contra o
tecido de sua blusa. Seu cabelo pendia em pesados cachos sobre um de seus ombros,
alcançando até a altura dos seios. Seu rosto em forma de coração, onde as sardas se
destacavam, estava pálido, e seus olhos eram enormes e castanhos, com manchas
douradas e verdes.
Um misto de choque e algo muito mais quente se abateu sobre Rocco ao fechar as
mãos em torno dos braços magros dela quase como se tivesse de tocá-la antes de fazer
qualquer outra coisa.
— Você! — bufou ele, incrédulo.

Capítulo Dois

— VOCÊ... — REPETIU Gracie debilmente. — O que está fazendo aqui?


As mãos de Rocco de Marco a puxaram para fora do elevador, obrigando as pernas
dela a se moverem. Ela ouviu o som da porta se fechando atrás de si. Seu coração estava
batendo muito forte e o choque de ser confrontada novamente com aquele homem a
deixou engasgada.
— Eu sou o proprietário deste prédio — afirmou ele, injetando os seus olhos escuros
nos dela. — Acho que a pergunta mais pertinente é: por que você está aqui, à procura de
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Steven Murray?
Gracie se deu conta de que ele a havia reconhecido da noite em que eles haviam se
cruzado, uma semana atrás, mas aquilo não lhe propiciou conforto algum. Bastara olhar
para a cara dele para saber que Steven estava longe daquele lugar e muito encrencado.
Ele a apertou com mais força.
— Por que está aqui?
Gracie balançou a cabeça, como se aquilo pudesse forçar o oxigênio a entrar em seu
cérebro prejudicado.
— Eu só... Achei que ele poderia estar aqui. Queria encontrá-lo.
A boca de Rocco se contraiu.
— Suponho que Steven Murray esteja bem longe daqui, se é que tem um neurônio
que seja. Ele fez o que a maioria dos criminosos faz: fugiu.
O coração de Gracie estremeceu ao ouvir os seus piores temores confirmados, mas
seu instinto inato de proteção falou mais alto.
— Ele não é um criminoso. Rocco arqueou uma sobrancelha.
— Como você chamaria, então, o roubo de um milhão de euros?
Se Rocco de Marco não a estivesse segurando pelos braços, Gracie teria caído no
chão. Um milhão de euros?
— Ele é seu amante? — perguntou Rocco, quase cuspindo as palavras.
Gracie balançou a cabeça e tentou recuar, tentativa que se provou inútil já que ele
ainda a estava segurando.
— Eu só estou preocupada com ele. Achei que ele poderia estar aqui.
De Marco só faltou rosnar.
— Ele dificilmente retornará à cena do crime. Seria muita estupidez tentar roubar
mais um milhão da mesma fonte.
— Ele não é estúpido!
Movida por um desespero de ir embora dali, mais devido ao intenso efeito físico que
aquele homem exercia sobre ela do que qualquer outra coisa, Gracie finalmente se
libertou das mãos dele, avistou as portas de emergência, à distância e saiu em disparada.
Suas mãos estavam prestes a tocar a barra quando foi agarrada pelos ombros, virada e
pressionada contra as portas. Rocco de Marco a estava encarando com uma expressão
zangada e uma mão pousada de cada lado de sua cabeça.
Ela sabia que não deveria ter fugido, mas o choque de ouvir o que o seu irmão havia
feito tinha sido demais para ela. Gracie se deu conta de que aquilo a tinha feito parecer
tão culpada quanto Steven.
Como se tivesse lido a sua mente, Rocco de Marco bufou e disse numa voz gelada:
— Você, obviamente está envolvida nisso também, até o pescoço. A pergunta é: por
que você voltou aqui? Deve ter vindo pegar algo muito importante.
Ela balançou a cabeça, sentindo sua raiva esvanecer com a mesma rapidez com que
havia se instalado.
— Senhor de Marco, eu juro que não estou envolvida nisso, apenas preocupada. Vim
porque achei que Steven poderia estar aqui. Eu não sei de nada.
A expressão dele ficou ainda mais dura, fazendo Gracie estremecer.
— Você sabia quem eu era, quando nos conhecemos, na semana passada.
Não era uma pergunta. Ela balançou a cabeça novamente, sentindo um frio na
barriga ao pensar naquele encontro.
— Não é verdade... Eu não tinha idéia de quem você era até aquele homem chamá-
lo pelo nome.
Como se não tivesse ouvido uma palavra, Rocco de Marco disse:
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— Você armou tudo com Murray.
Ele a agarrou pelo braço, ignorando a reação dela e a obrigou a caminhar de costas
na direção do elevador.
Gracie entrou em pânico, imaginando a polícia à sua espera, no térreo e começou a
se debater.
— Por favor, senhor de Marco, eu posso explicar... Ele lhe lançou um olhar enquanto
apertava o botão do elevador.
— Isso é exatamente o que você vai fazer.
Um silêncio tenso se abateu sobre eles e Gracie se maldisse por ter ido até lá.
Ao lado dele, no elevador, ela teve total consciência da disparidade entre os
tamanhos de ambos. Sua cabeça mal alcançava o topo do braço dele. A força muscular de
Rocco se irradiava para todos os lados, envolvendo-a em seu calor. Qualquer traço do
homem que derramava calor e sedução na noite em que eles haviam se conhecido, tinha
desaparecido.
Gracie sentiu seu estômago revirar. Já havia enfrentado muitos adversários ao longo
dos anos com decidida resistência, mas pela primeira vez, reconhecia alguém como
irremovível e mais poderoso do que qualquer outra pessoa com quem ela já tivesse
cruzado.
Oh, Steven, gemeu ela, por dentro. Por que você fez isso?
Ele havia lhe ligado, mais cedo, e dissera:
— Gracie, não faça muitas perguntas, apenas ouça. Aconteceu uma coisa. Uma coisa
realmente ruim. Eu estou muito encrencado e vou ter de fugir...
Ela havia ouvido alguns sons não identificáveis, ao fundo, e Steven soara distraído.
— Eu estou indo embora e não sei quando conseguirei entrar em contato com você
novamente, portanto, não tente me ligar, está bem? Eu lhe mandarei um e-mail ou algo
parecido, quando puder...
Gracie agarrara o fone com as mãos suadas.
— Espere Steven... O que aconteceu? Talvez eu possa ajudá-lo...?
Seu coração quase se partira ao ouvi-lo dizer:
— Eu não vou continuar fazendo isso. Você já fez o suficiente. O problema não é
seu, mas meu...
— São as drogas... Novamente? — dissera ela, apavorada. Steven havia rido,
parecendo um pouco histérico.
— Isso não tem nada a ver com drogas, Gracie. Antes tivesse. Tem a ver com o meu
trabalho...
Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, porém, ele se despediu e
desligou. Gracie ainda ligou para ele várias vezes, mas tudo o que conseguiu foi acessar
uma mensagem automática dizendo que aquele número estava fora de serviço.
Foi então que ela se lembrou de ele ter mencionado o seu trabalho, por isso decidira
ir até a De Marco International, a fim de ver se, por algum milagre, ele ainda estava em
seu escritório.
Mas ela não havia chegado sequer a tanto. Assim que vira o rosto de Rocco de
Marco, ela soubera que o irmão estava envolvido em sérios problemas.
Gracie estava tão preocupada que mal se deu conta de que o elevador havia subido
e ela estava sendo conduzida para fora dele, em direção ao que parecia ser uma
cobertura. A vista deslumbrante da noite caindo sobre Londres acrescentava um toque
surreal aos acontecimentos.
Uma lua cheia enorme se alçava no céu arroxeado, que, no entanto, passou
despercebida enquanto Rocco a conduzia, acendendo as luzes que emanavam um calor
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convidativo. Gracie estremeceu e esfregou os braços.
O efeito da adrenalina havia se dissipado, deixando-a esgotada.
Ela olhou ao redor e ficou surpresa em notar que a cobertura era aconchegante,
apesar de toda a sua modernidade.
Se não estivesse em uma situação tão complicada, a artista dentro dela teria
adorado explorar os gostos de Rocco de Marco. A quem ela estava querendo enganar?
Seu interesse naquele homem brotava de algum lugar bem mais carnal do que um
interesse estético.
Rocco DEU a volta em torno da pequena mulher e maldisse a sua reação física àquela
pele clara sardenta e o cabelo vermelho e selvagem que repousava sobre a curva de um
de seus pequenos seios.
A expressão selvagem dos olhos dela pouco antes de ter sido pega havia tocado algo
profundo dentro dele.
Ela não se parecia em nada com as beldades que ele costumava cortejar, mulheres
reconhecidas pela sua descendência, aparência, intelecto e discrição. Mulheres que não
teriam permitido que ele tocasse um dedo, sequer, nelas, se soubessem em que tipo de
mundo ele havia nascido.
— Você vai me contar tudo, aqui e agora.
Ao vê-la se contorcer como se tivesse sido esbofeteada, Rocco teve de conter uma
sensação de remorso. Ela lhe pareceu subitamente muito pálida e vulnerável, mas havia
uma força inerente a ela que o fazia lembrar-se da dureza das ruas que ele conhecia tão
bem e da qual não queria ser lembrado.
— Ele puxou uma cadeira e quase a jogou em cima dela. Seu pequeno rosto estava
voltado para ele, fazendo suas entranhas se contraírem. Dio, ela era a tentação em forma
de gente, com aqueles imensos olhos castanhos e aqueles lábios rosados, exibindo, ainda,
uma adorável espécie de inocência. Seu instintivo uso do idioma italiano, ainda que
apenas por um brevíssimo momento, em sua cabeça, o surpreendeu. Ele havia passado
longos anos fazendo o máximo que pudera para apagar qualquer traço de sua herança.
Seu sotaque era a única coisa que ainda se provava tão teimosa como uma pedra,
lembrando-o de seu passado, toda vez que ele abria a boca.
Um longo e tenso silêncio se abateu entre eles e Rocco tentou descobrir o que
estava se passando por trás daqueles olhos arregalados dela.
— Do que você estava falando quando disse que Steven havia roubado um milhão de
euros?
— Vai ter a ousadia de continuar fingindo que não sabe de nada?
Rocco viu as pequenas mãos dela se cerrarem sobre o seu colo e se lembrou do
quanto havia ficado intrigado ao vê-la na noite do evento. Lembrou-se de ter beijado a
mão dela, da sensação das palmas levemente ásperas, tão diferentes da pele suave das
mulheres com que ele estava acostumado, o que fez todo seu corpo se arrepiar. Ela devia
saber exatamente quem ele era, e rido dele, com Steven, durante toda a semana.
Rocco não se sentia tão humilhado assim há anos.
Ela o havia visto em um momento de fraqueza e ele não gostara nada daquilo.
Não se sentia fraco desde que havia deixado a Itália para trás, com todas as suas
favelas e as humilhações que sofrera.
— Quem é você e de onde conhece Steven?
GRACIE OLHOU estupefata para Rocco de Marco. Ele tinha a impressionante habilidade
de fazer com que ela se sentisse na obrigação de atender as demandas dele.
— E então?
Ele estava à frente dela, com as mãos pousadas sobre os quadris. Seus ombros
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
despontavam largos sob a camisa branca, seguindo em direção aos quadris estreitos. Sob
aquela luz tênue, ele parecia um belo lorde sombrio. Pesadas sobrancelhas negras sobre
profundos lagos negros, maçãs do rosto altas e um nariz forte, com aquele leve
desalinhamento.
E aqueles lábios... Fartos e sensuais. O cacho de cabelo de que ela se lembrava,
ainda enrolado sobre a sua testa, mas nem mesmo aquilo suavizava toda aquela energia
tensa voltada na direção dela.
Meio sem pensar, Gracie disse:
— Eu sou Gracie. Gracie O’brien. A boca dele se curvou com desdém.
— E qual é a sua relação com Steven Murray? Gracie engoliu em seco. Temia que se
soubesse de sua relação com Steven, Rocco de Marco esperaria que ela soubesse onde
ele estava. Podia sentir o rubor em suas faces, mesmo antes de pronunciar as palavras.
Nunca soubera mentir, mesmo que para salvar a sua pele.
— Ele é... Um velho amigo.
Os olhos de Rocco seguiram em direção à boca de Grade e ele disse
zombeteiramente, numa espécie de ameaça:
— Mentirosa.
Gracie balançou a cabeça. Proteger seu irmão gêmeo era algo tão entranhado dentro
dela que ela não conseguia, nem queria fazer diferente. Ele a havia protegido por anos,
tanto quanto ela a ele, apenas de modos diferentes.
— Isso é tudo. Um velho amigo. Nós nos conhecemos... Há muito tempo.
A boca de Rocco se contorceu. — Vocês devem compartilhar uma cama dupla em al-
guma espelunca.
Gracie empalideceu diante daquela idéia e a bile lhe subiu pela garganta.
— Não. Não. — Ela se deteve pouco antes de dizer "Isso é nojento" e calou a boca.
— Realmente... Não é nada disso.
Ela havia se erguido parcialmente da cadeira e sua mão estava estendida, como se
aquilo pudesse reforçar as suas palavras.
Rocco cruzou os braços, mas aquilo só fez atrair a atenção dela para a incrível força
daqueles braços. Ela se sentiu curiosamente tonta de repente, mas atribuiu aquilo ao fato
de não ter comido nada o dia inteiro.
— Eu vou lhe dizer como é, então. Você é a cúmplice de Steven Murray e ambos
foram suficientemente estúpidos para achar que podiam voltar à cena do crime a fim de
recuperar algo importante. O que era? — continuou ele. — Um pen drive? Essa é a única
coisa suficientemente pequena para ter escapado às nossas buscas.
Antes que ela pudesse se da conta do que estava acontecendo, Rocco se pôs bem à
sua frente, puxando-a da cadeira, e em meio à sua confusão e choque, Gracie teve
consciência do fato de que o toque dele em seus braços estava leve, quase gentil, daquela
vez. O contraste daquilo com a energia feroz que crepitava em torno dele a deixou ainda
mais confusa.
Rocco a pôs de pé e começou a revistá-la, passando a mão pela parte interna de
suas pernas, mas Gracie reagiu violentamente. Rocco soltou um palavrão e a agarrou no-
vamente pelos braços, dessa vez, sem gentileza alguma.
— Fique quieta, sua gata selvagem.
Mantendo-a presa com uma de suas mãos, ele rapidamente enfiou a outra nos
bolsos dela e os revirou.
A rapidez com que ele se movia deixou Gracie tonta.
Em pouco tempo, ela se viu com os bolsos virados para fora e a desconcertante
sensação das mãos invasoras dele perto de sua pele.
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
Rocco a soltou quando ela voltou a se debater e Gracie quase tropeçou. Ela se sentiu
violada, mas achou aquilo proibidamente excitante.
— Você... Eu prefiro ser arrastada até a delegacia a permitir que você toque em
mim. — Foi então que ela caiu em si e perguntou debilmente: — Você ligou para a polícia?
Rocco se afastou. Seu rosto estava afogueado. De raiva, supôs Gracie, não gostando
nada da sensação de que todo o seu sangue estava se concentrando pesadamente entre
as suas pernas.
Ele permaneceu imóvel por algum tempo para depois balançar a cabeça e admitir
com evidente relutância:
— Eu não chamei a polícia porque não quero tornar público que contratei um traidor.
Isso poderia arruinar a minha reputação. Se meus clientes souberem que eu coloquei os
seus preciosos investimentos em risco, eu estarei perdido.
Por um segundo, Gracie não sentiu nada além de um alívio fluindo pelas suas veias,
mas o sorriso cruel de Rocco voltou a gelar o seu sangue.
— Não se iluda achando que isso signifique alguma condescendência para com o seu
amante. Tenho várias pessoas no encalço de Steven, neste exato momento, com recursos
infinitamente mais sofisticados que os da polícia. É só uma questão de tempo.
— O que vai acontecer com ele?
— Você quer dizer, depois de ele ter devolvido cada centavo? Eu o inserirei em todas
as listas negras de todas as instituições financeiras do mundo e o entregarei à polícia,
protegendo o meu anonimato. Ele provavelmente passará uns dez anos na prisão. Eu usei
o meu próprio dinheiro para cobrir o rombo causado pelo seu roubo, de modo que Steven,
agora, deve pessoalmente a mim.
Sentindo-se fraca, Gracie tateou até encontrar a cadeira, atrás de si, e voltou a se
sentar. Seu irmão jamais sobreviveria a mais um dia na prisão. Havia lhe dito
fervorosamente, quando saíra de lá, que preferiria morrer a ter de voltar para a cadeia.

Rocco FRANZIU a testa. Pela primeira vez, durante aquela noite, ele seria capaz de
jurar que a mulher à sua frente não estava representando. Ela mais parecia uma vítima de
um acidente de carro. Ele teve mesmo de resistir ao impulso de perguntar se ela queria
beber alguma coisa.
Gracie estava olhando para o chão, e não para ele. Rocco quis erguer o queixo dela.
Não estava gostando nada do quanto era desconcertante para ele não poder encará-la.
Foi então que ela ergueu os olhos que mais pareciam dois enormes lagos escuros,
intensificando ainda mais a palidez da sua pele, balançou a cabeça e finalmente disse:
— Eu não posso mentir para você. Isto é sério demais. Eu não lhe contei a verdade a
respeito de Steven.
Rocco tentou afastar a fraqueza que o havia invadido por um momento.
— Você tem um minuto para falar, ou eu vou levar você para a policia como
cúmplice dele.

GRACIE HAVIA se apavorado excessivamente para sequer tentar fazer com que Rocco
de Marco acreditasse que ela não tinha nenhuma relação com Steven. Aquela menção
casual à prisão havia dizimado todas as defesas dela. Qualquer tênue esperança à qual ela
tivesse se agarrado de que tudo aquilo poderia ser um enorme engano também havia
desaparecido. Gracie sabia que Steven não teria fugido se aquilo não fosse verdade. Ele
devia estar tentando dar um passo maior do que as próprias pernas.
— Gracie!
Seus pensamentos febris se detiveram e ela olhou para Rocco. Ouvir seu nome
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sendo pronunciado por aqueles lábios provocou coisas estranhas dentro dela. Por um
momento, ela se esquecera de que estava exposta a um intenso escrutínio. Um calor
proibido se infiltrou pelo seu abdômen, causando-lhe estranheza diante do modo como
aquele homem mexia com ela, apesar de tudo.
Ela respirou fundo e se levantou, sentindo as pernas bambas.
— Steven não é meu amante e eu não sou sua cúmplice... Ele é meu irmão.
— Prossiga.
A voz de Rocco poderia ter cortado o aço. Ele cruzou os braços novamente e o olhar
dela vagou por aqueles músculos contraídos.
— É isso. Ele é meu irmão e eu estou preocupada com ele.
Ela não sabia ao certo por que, mas não queria que Rocco soubesse que Steven era
o seu irmão gêmeo. Rocco cerrou os dentes:
— Espera que eu acredite nisso depois de tudo o que acabei de testemunhar e de tê-
la visto no evento de caridade?
Gracie balançou a cabeça.
— Eu só acompanhei Steven por que...
Ela se deteve. Não podia expor a insegurança de seu irmão e o quanto ele desejava
agradar.
— Porque você e ele tinham um plano para roubar um milhão de euros sem que
ninguém percebesse. — Ele riu brevemente. — Deus, você estava roubando até a comida
do bufê!
Ela enrubesceu intensamente.
— Eu levei aquela comida para a minha vizinha, uma polonesa idosa que sempre fala
dos bailes que freqüentava em sua terra natal. Achei que poderia lhe fazer um agrado
com os canapés.
Rocco riu alto, jogando a cabeça para trás, expondo seu pescoço forte. A pele de
Gracie formigou com as lembranças de sua infância desprivilegiada.
Ele finalmente parou de rir e voltou a avaliá-la com aqueles olhos escuros. Gracie
estava apavorada, pois desde que sua mãe os havia abandonado e sua babá tinha lhes
dado as costas, deixando-os à mercê da Assistência Social, havia permitido que
pouquíssimas pessoas se aproximassem dela o suficiente a ponto de afetá-la.
Desesperada, ela lançou as mãos para os céus.
— Eu mal consegui passar em Matemática. Não seria capaz de elaborar um plano
desses. Steven sempre foi o mais inteligente entre nós.
— Mas você veio se oferecer para mim, no baile da semana passada, sabendo muito
bem quem eu era.
Gracie conteve um suspiro profundo, mais relacionado à lembrança do quanto havia
ficado encantada com ele, aquela noite.
— Eu não estava me oferecendo. Foi você quem me abordou.
Rocco de Marco enrubesceu intensamente e pela primeira vez Gracie teve a
sensação de que havia ganhado terreno. Ele, porém, recompôs rapidamente a sua
máscara.
Antes que ele pudesse atacá-la novamente, Gracie admitiu relutantemente:
— Eu fui à festa porque Steven estava inseguro. Os lábios de Rocco se curvaram.
— Eu ainda nem estou convencido de que você é mesmo irmã de Steven Murray. Por
que o sobrenome dele é diferente?
Gracie se remexeu desconfortavelmente e soube que devia estar parecendo
pateticamente culpada.
— Por que... — disse ela, baixando os olhos. — Porque ele rompeu com o nosso pai
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e assumiu o sobrenome de solteira de minha mãe. Aquilo não era completamente mentira.
— Sem falar que você não se parece em nada com ele. Ela acompanhou o olhar
sombrio de Rocco passeando pelo seu corpo, passando pelos seus seios até alcançar o seu
rosto e sentiu um calor invadi-la.
— Sei que não me pareço com ele, mas nem todos... — Ela se deteve abruptamente
ao perceber que estava prestes a dizer gêmeos. — Nem todos os membros de uma família
se parecem, uns com os outros. Ele se parece mais com a minha mãe e eu, com o meu
pai.
Gracie cruzou os braços, ridiculamente na defensiva, e soube que só estava se
sentindo assim porque durante toda a sua vida imaginara que sua mãe a teria amado
como a Steven caso elas se parecessem.
Ainda se lembrava das longas noites em que abraçava o seu irmão até ele
adormecer, perguntando-se para onde a sua mãe teria ido.
Por muito tempo, ela achou que sua mãe os havia abandonado por culpa sua. Foi só
com o tempo e a maturidade que ela se deu conta de que a sua mãe jamais tivera a
intenção de levar Steven consigo, sempre excessivamente enrolada com seus próprios
problemas.
Ela encarou Rocco por um longo momento, até sentir sua visão ficar turva.
Estava maldizendo a própria fraqueza quando ouviu Rocco dizer algo ininteligível e
foi até ela, pousando uma mão em seu braço. Gracie enrijeceu, odiando o efeito
incendiário que ele tinha sobre ela, ciente, ao mesmo tempo, do quanto estava perto de
desmaiar. Era patético.
— Quando foi à última vez que você comeu sua louca? Gracie conseguiu se
desvencilhar e olhou feio para ele. — Eu não sou uma louca. Só estava... Preocupada.
Não me lembrei de comer.
Aquele olhar intenso a avaliou novamente de cima a; baixo e seus lábios se
curvaram.
— Você não parece pensar muito em comer. Eu tenho algumas refeições
instantâneas na geladeira. Siga-me.
Gracie ficou tonta. Rocco de Marco estava lhe oferecendo comida?
Ela afastou o seu olhar dos 1,90 m de macho alfa, todo músculos, e avaliou a
distância entre a porta do apartamento e o elevador.
Como se tivesse lido a sua mente, Rocco se materializou novamente diante dela,
dizendo suavemente:
— Nem pense nisso. Você não conseguiria chegar sequer ao próximo andar.
O coração dela começou a bater mais rápido.
— Mas... Eu não vi ninguém.
Rocco piscou para ela, sem, no entanto, um traço sequer de humor em sua
expressão.
— Nunca assistiu nenhum filme italiano? Meus homens estão por toda parte.
Gracie sabia quando devia levar uma ameaça a sério, e Rocco de Marco a tinha em
suas mãos.
Foi só quando pressionou o botão do micro-ondas que Rocco se deu conta do que
estava fazendo. Decidira mesmo alimentar o inimigo só porque ela havia parecido prestes
a desmaiar?
Ele não deveria confiar inteiramente naquela avaliação. Tinha aprendido desde muito
cedo, com sua própria mãe, o quanto as mulheres podiam ser manipuladoras.
Seus punhos se cerraram ao ouvir Gracie entrar na cozinha, atrás dele. Por que
estava sequer pensando naquilo, agora?
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Rocco se recompôs e se voltou na direção dela. Algo muito suspeito como um alívio
o atravessou ao ver que as bochechas dela estavam um pouco mais rosadas. Seus
grandes olhos olhavam ao redor.
Ela já devia estar calculando o valor de tudo o que havia lá dentro. Seria o que ele
teria feito, anos atrás.
Antes de concluir o que poderia levar.
O aviso do micro-ondas soou e ele se virou para pegar a refeição. Pegou ainda um
prato e talheres e quase jogando a refeição na frente dela, apontou para um banco e
rosnou:
— Você é a minha única conexão a Steven Murray. Não posso deixar que fique
desmaiando a torto e a direita.
Os olhos de Gracie brilharam e sua boca se comprimiu como se ela estivesse prestes
a recusar a comida.
— Coma — disse Rocco, lutando contra o seu desejo e a raiva por ela ousar
contrariá-lo.

Capítulo Três

GRACIE ERGUEU O queixo e tentou ignorar o atraente aroma da comida.


— Vai deixar isso aqui na minha frente até eu comer tudo, como um pai autoritário?
Rocco se debruçou sobre o balcão e Gracie teve de se esforçar para não recuar.
— Eu não sou o seu pai, nem autoritário. Simplesmente coma.
Gracie baixou os olhos para escapar do olhar dele e viu um cremoso purê de batatas
e legumes acompanhando um suculento filé. Seu estômago roncou e ela ficou com água
na boca.
Desafiadora até o fim, ela ainda disse:
— Eu poderia muito bem ser vegetariana.
Ela ouviu o que pareceu ser um resmungo, mas não olhou para Rocco, temendo o
que poderia enxergar em sua expressão. Começou, então, a se servir, odiando estar sob o
olhar dele, mas excessivamente faminta para conseguir se conter.
Depois de um momento, ele disse, com excessiva educação:
— Perdoe-me por não ter checado isso antes.
Ela lhe lançou um rápido olhar e ficou arrasada. Ele estava se divertindo à sua custa.
Ainda tentou se controlar, mas assim que o primeiro pedaço de carne chegou à sua boca,
ela perdeu a linha e devorou tudo como se não comesse há semanas.
Um guardanapo e um copo d'água surgiram do nada.
Gracie limpou a boca e tomou um grande gole de água, para só então ousar voltar a
encará-lo.
— O que foi? Ainda tem comida em algum lugar? Ele balançou a cabeça.
— Quando foi que você comeu pela última vez?
Por um momento, Gracie não foi capaz de se lembrar com exatidão, mas depois
murmurou:
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— Ontem... No almoço.
A verdade, porém, era que ela não comia direito há dias.
— Onde você mora?
Gracie encarou o olhar duro de Rocco. Ele tinha voltado ao modelo inquisidor e ela
enrubesceu, sentindo-se uma patética fracassada.
— Gracie... — disse ele, num tom de advertência, fazendo as entranhas dela se
contraírem devido ao modo de ele pronunciar o seu nome. Aquilo parecia inacredita-
velmente íntimo.
Ela olhou para ele e endireitou os ombros. Rocco já tinha a pior das opiniões a
respeito dela. Se descobrisse, porém, o quanto ela era inofensiva, talvez a deixasse ir
embora.
— Eu morava na Bethnal Green até esta manhã, mas perdi o emprego há dois dias e
não recebi os meus direitos, por isso não consegui pagar todo o aluguel. O proprietário
me sugeriu que eu lhe pagasse de outra maneira. Gracie estremeceu ao lembrar do rosto
suado dele, suas mãos nojentas e o hálito azedo. Rocco pegou a mão direita dela e
avaliou os dedos dela machucados e avermelhados.
— Você bateu nele?
Ela deu de ombros levemente, mais envergonhada do que nunca.
Odiava o seu instinto de luta. Ela o nutria desde que alguém havia batido em Steven,
quando eles eram pequenos.
— Ele estava me encurralando e eu fiquei sem saída.
— Suponho que deva me considerar um homem de sorte por você não ter me
atacado também — disse Rocco, ainda segurando a mão dela.
Gracie olhou para o queixo forte dele e chegou à conclusão que teria quebrado a sua
mão se o tivesse feito. Ela sentiu um calor se esgueirar por entre os seus seios até
alcançar o espaço entre as suas pernas, provocando um intenso latejamento.
Ela puxou a sua mão e começou a tagarelar.
— Eu deixei as minhas malas no bagageiro da estação de trem de Victoria. Tenho de
pegá-las e encontrar um lugar para passar a noite.
Já havia se levantado e estava se afastando, como se tivesse se esquecido, por um
momento, do motivo de estar ali, subitamente aterrorizada com o desejo que havia des-
pontado dentro dela quando Rocco segurara a sua mão.
Ele simplesmente a observou com os braços cruzados.
— Eu já lhe disse que você não chegaria muito longe se tentasse fugir.
— Você não pode me manter aqui — disse ela, tomada de pânico. — Isso seria um
seqüestro. Eu não tive nenhum motivo secreto para vir até aqui. Não peguei nada seu e
não sabia a respeito do roubo.
Rocco a avaliou por um momento. Era estranho como o mundo inteiro havia se
resumido a ela desde que ele a havia visto no elevador. Fora tomado de uma raiva quase
irracional ao ver as feridas na mão dela e pensar em um homem sem rosto ameaçando-a.
Tentando afastar aqueles pensamentos de sua mente, ele perguntou:
— Por que você perdeu o emprego?
Ele a viu cerrar os punhos. Gracie mais parecia uma felina, tentando se defender e
uma curiosa fraqueza invadiu o peito dele. Ficara enfeitiçado ao vê-la comer avidamente,
primeiro porque não estava acostumado a ver mulheres comerem daquele jeito e depois
porque aquilo o havia feito se lembrar de si mesmo, no passado. Ele jamais se esqueceria
do que era passar fome.
— Tive problemas com alguns fregueses.
Rocco arqueou uma sobrancelha e ficou grato por poder voltar a focar a sua atenção
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no momento presente.
— Fregueses? Ela enrubesceu.
— Eu trabalhava em um bar, numa parte insalubre da cidade — disse ela. — Apenas
temporariamente.
Mais uma vez Rocco sentiu uma espécie de raiva crescer dentro de si — não dela,
mas por ela. Gracie estava provando ser um enigma bem maior do que havia lhe parecido
ser, uma semana atrás.
Do nada, de maneira incendiária, Rocco sentiu o desejo de vê-la domesticada e
obediente, e quis ser o homem a domá-la. A intensidade daquele desejo o deixou
chocado. Mulheres como ela não deveriam atraí-lo. Aquilo era quase uma espécie de
traição a si mesmo.
Perguntando-se se havia perdido completamente a cabeça, ele se colocou à frente
dela e a deteve, como que para provar a si mesmo que podia fazê-lo sem ceder à
tentação de jogá-la por sobre o seu ombro, como um homem das cavernas.
Tão implacável quanto um muro de pedra, ele lhe disse:
— Você não vai deixar este apartamento até o seu ir- mão... Se é que ele é mesmo o
seu irmão, ser encontrado e responder pelos seus atos. Dê-me a chave do seu bagageiro
para que eu mande alguém pegar as suas malas.

ALGUNS MINUTOS depois, Gracie se viu sendo apresentada a um quarto de hóspedes


suntuosamente decorado. Ainda não sabia exatamente como havia permitido que ele a
submetesse àquilo, mas a verdade era que estava esgotada.
Pela primeira vez em sua vida, estava sendo subserviente a alguém, sem conseguir
reunir a energia necessária para lutar contra aquilo. Não tinha, literalmente, onde cair
morta.
Uma estranha sensação de solidão se abateu sobre ela.
— Há um banheiro ali, com um roupão e artigos de toalete. Eu lhe enviarei as suas
malas, assim que elas chegarem.
Gracie olhou em torno com os olhos arregalados. Viu Rocco caminhando em direção
à porta e invejou a sua força aparentemente inesgotável. Se soubesse que poderia
esbarrar nele outra vez, jamais teria procurado pelo seu irmão em seu escritório.
Ela suspirou. Era tarde demais para se arrepender agora.
Rocco se voltou, ainda junto à porta, preenchendo o vão com sua ampla figura.
— Vamos decidir o que fazer pela manhã. Uma centelha de revolta a fez dizer:
— Você vai me deixar sair deste apartamento, se não eu... Ele a interrompeu.
— Senão o quê? Você vai chamar a polícia? — Ele balançou a cabeça e sorriu com
frieza. — Eu não creio. Tenho certeza de que você não quer que a polícia se ponha a
investigar o seu irmão, tanto quanto eu não quero que as notícias de que eu empreguei
um traidor vazem para a imprensa.
O que ela poderia contrapor àquilo? Rocco estava totalmente certo, e por motivos
bem mais profundos do que ele imaginava.
Ele inclinou a cabeça, num falso gesto de civilidade.
— Até amanhã, senhorita O’brien.
A porta se fechou suavemente e Gracie quase esperou ouvir a chave girar, o que,
porém, não aconteceu. Ela foi até lá e abriu a porta suavemente, quase saltando de susto
ao ver Rocco apoiado na parede, do lado de fora. Não me obrigue a trancar a porta.
Decidida a evitar qualquer outra discussão ou o escrutínio, Gracie fechou a porta
apressadamente e seguiu como um autômato até a jánela, a fim de apreciar a vista
espetacular, sem, no entanto, conseguir enxergar nada além de seu tumulto interior.
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Ela sempre contara apenas com Steven, mesmo quando sua mãe ainda estava com
eles, e quando a babá os havia deixado junto à Assistência Social.
Certa noite, quando Gracie havia sido mandada para a cama sem jantar por algo
sem importância, Steven lhe levara um tanto de comida que havia escondido para ela.
Eles tinham apenas quatro anos de idade, na época.
Steven sempre fora alvo de provocações por sua aparência franzina e seus óculos de
lentes grossas, de modo que Gracie se acostumara a interceder por ele, com os punhos
em riste. Ele era extremamente brilhante e ela sabia que se tivessem crescido em
circunstâncias diferentes, Steven poderia ter sido tratado como um aluno genial. Estava
sempre à frente de seus colegas de classe, e mesmo assim ajudava Gracie pacientemente
com as torturantes lições de matemática e ciências.
Fora graças a ele que ela havia conseguido notas suficientes para ser aprovada na
faculdade de artes. Mesmo em meio aos seus problemas com drogas, tendo desistido de
seus próprios estudos, ele ainda estava suficientemente avançado para ajudá-la.
A barriga dela se contraiu ao pensar em como Steven a havia protegido de coisas
bem piores do que os inexplicáveis mistérios da matemática.
Gracie apoiou a testa contra no vidro frio, sem conseguir tirar outro rosto de sua
mente, apesar de toda a sua preocupação quanto ao irmão. Ela não pode conter uma
onda de calor irradiada a partir de seu âmago, ameaçando a fria distância com a qual ela
se protegia dos homens há tanto tempo.

Rocco OLHOU para as duas bolsas surradas que haviam sido entregues em sua casa,
há pouco. Uma sacola de papelão e uma mala antiga, do tipo que seria possível ver em
um filme da década de 1940, a respeito de imigrantes deixando a Europa, rumo à
América. Ela havia deixado o seu apartamento levando apenas aquilo? Rocco estava
acostumado a mulheres que viajavam com todo um conjunto de malas combinando, com
seus monogramas gravados nelas.
Mas ele não precisava que ninguém o lembrasse de que aquela mulher estava à
milhas de distância das outras que ele conhecia. Rocco balançou a cabeça e pegou as
bolsas. Já havia desistido, a muito, de dormir aquela noite.
Ele abriu a porta do quarto de hóspedes silenciosamente, esperando encontrar
Gracie de pé, do outro lado, tão obstinada e desafiadora como antes, mas em vez disso,
divisou uma forma na cama e viu que ela estava dormindo profundamente.
Pousou, então, as bolsas no chão e se cedeu à tentação de se aproximar.
Gracie estava deitada na posição fetal, sobre as cobertas, usando um roupão branco.
Seu cabelo estava espalhado em torno de sua cabeça como uma imagem saída de um
quadro do período pré-Raphael, com seus cachos longos e selvagens.
Ele se deteve ao vê-la mover a cabeça e dizer de maneira entrecortada:
— Não, Steven... Você não pode... Por favor...
Aquilo trouxe Rocco de volta a terra. Ela parecia ter, mais uma vez, lançado alguma
espécie de feitiço sobre ele, fazendo com que ele se esquecesse, por um momento, de
quem ela era e por que estava lá.
Rocco recuou, jurando a si mesmo que não permitiria que ela fosse embora até ter
feito justiça com ela e com Steven Murray.

GRACIE DESPERTOU pela manhã com a terrível sensação de não saber onde estava,
nem que dia era. Aquele ambiente lhe pareceu totalmente estranho e assustadoramente
luxuoso. Lentamente, porém, tudo retornou à sua mente. A partida de seu horrível
apartamento úmido depois de quase ter sido violentada pelo seu proprietário, o terrível
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telefonema de Steven, e então a ida ao seu escritório para tentar encontrá-lo.
Foi então que ela se lembrou de seu encontro com Rocco de Marco. Gracie gemeu e
colocou um travesseiro sobre o rosto. Rocco de Marco. Seu estômago se contraiu diante
da vívida lembrança das mãos dele em torno dos seus braços e a sensação que aquilo
havia lhe provocado.
Ela se sentou na cama e viu as suas malas, junto à porta. Seu rosto ficou em brasa
só de pensar que Rocco havia entrado lá enquanto ela estava dormindo.
Gracie puxou as bolsas para junto de si e pegou um jeans e uma camiseta, além de
um par de sapatos. Depois de lavar o rosto, ela prendeu o cabelo em um coque, na altura
da nuca e deixou o quarto.
O apartamento ainda estava em silêncio. Gracie checou o relógio. Ainda era cedo.
Talvez Rocco nem tivesse acordado.
Ao chegar junto à porta da enorme cozinha, porém, ela o viu sentado a uma enorme
mesa e sentiu o seu coração parar de bater. Ele estava lendo o Financial Times. Seu
cabelo estava úmido e penteado para trás, evidenciando seu perfil forte. Sua pele morena
brilhava sob a luz da manhã. Estava vestido impecavelmente, com uma camisa azul e uma
gravata Royal.
Rocco ergueu o seu olhar e tomou um gole de café, num gesto lânguido.
— Bom dia.
— Bom dia — repetiu ela Gracie, como se ela fosse alguma hóspede que tivesse
passado a noite por lá e não praticamente uma prisioneira.
Rocco apontou para a cozinha. — Acho que vai ter de se servir sozinha. Estou sem
empregada.
Gracie desviou os olhos dele e se serviu de café e torradas, ambos já sobre a mesa,
odiando perceber que suas mãos estavam tremendo. Muito pouca coisa a intimidava, e
aquela era uma delas.
— Sente-se. Eu não mordo.
Gracie cerrou os dentes e o fez, relutantemente, acomodando-se na outra ponta da
mesa.
Ela não deixou de perceber o olhar irônico dele. Estava se sentindo muito pálida e
sem graça perto da masculinidade vibrante dele.
Gracie engoliu a torrada com dificuldade e limpou algumas migalhas, evitando
propositadamente o olhar de Rocco e teve um sobressalto ao ouvi-lo dizer:
— Eu investiguei a vida do seu irmão, na noite passada, e descobri algumas coisas
muito interessantes.
Gracie sentiu um frio na barriga e pousou a sua xícara. Repassou, então,
freneticamente, todos os acontecimentos do dia anterior em sua mente e gelou. Havia
revelado o verdadeiro sobrenome de Steven a Rocco ao lhe informar o seu.
— A ficha dele é impressionante. Três anos numa cadeia por traficar drogas classe A,
sem mencionar o fato de que ele fraudou documentos para conseguir um emprego na
minha firma, a fim de evitar que nós não descobríssemos nada a respeito de seu passado.
— Ele estava tentando recomeçar e usar a sua inteligência para transformar a sua
vida. Ele se formou. Deve haver uma boa razão para o que ele fez... Ele não se arriscaria
a ser preso outra vez.
— Acho que muitas pessoas concordariam que um milhão de euros são uma ótima
razão.
Gracie se recostou na cadeira e olhou para as suas mãos trêmulas, decidindo
entrelaçá-las. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Quase havia se esquecido daquilo depois de tudo o que havia acontecido. Steven
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passaria toda a sua vida pagando pelo que fez, e isso se tivesse a sorte de ter a chance de
fazê-lo.
Ela ouviu o suspiro de Rocco, mas não foi capaz de olhar para ele, temendo permitir
que ele enxergasse a emoção que se apoderara dela.
— Suponho que não esteja disposta a ligar para ele a fim de aconselhá-lo a se
entregar.
Gracie o encarou e admitiu com a voz rouca: — Eu falei com Steven ontem, mas ele
não me quis dizer onde estava, nem para onde iria e quando tentei retornar a ligação,
celular dele estava desligado. Acho que ele o jogou fora.
Ela omitiu a sua menção de que entraria em contato com ela assim que pudesse.
Gracie jurou para si mesma que caso aquilo acontecesse, ela diria a Steven para
permanecer distante e nunca mais voltar...
Rocco se levantou e estendeu a mão.
— Dê-me o seu celular.
— Por quê? — perguntou ela, boquiaberta. A boca de Rocco se comprimiu.
— Porque eu não acredito em você e acho que vai tentar de tudo para entrar em
contato com o seu irmão e adverti-lo para permanecer longe daqui. E porque se ele tentar
entrar em contato com você, nós o pegaremos.
Gracie cruzou os braços e o encarou por longos segundos até Rocco adverti-la:
— Não me obrigue a revistá-la novamente.
Ela se levantou, tentando disfarçar a reação causada por aquela lembrança, e lhe
entregou o aparelho, sabendo que ele acabaria conseguindo pegá-lo de um jeito ou de
outro.
— Ele não vai voltar a me ligar. Sabe muito bem que está encrencado.
Rocco guardou o celular em seu bolso e disse casualmente:
— Eu tenho uma proposta a lhe fazer.
Gracie piscou, nervosamente. Estava convencida de que qualquer proposta vinda da
parte dele seria mais um decreto.
Inconscientemente, ela deu um passo para trás a fim de respirar com mais
facilidade.
— Eu estou precisando de uma empregada.
Ele olhou para Gracie de cima a baixo, avaliando as suas roupas.
— Você não teria como fazer nada errado em um trabalho tão básico como esse.
Não precisaria nem mesmo cozinhar. Eu tenho um chef que cuida disso. Você só teria de
limpar e organizar o apartamento.
— Está... Oferecendo-me um emprego? Rocco fez uma careta.
— Digamos que é mais uma maneira de mantê-la ocupada enquanto está aqui, já
que não vai sair das minhas vistas até eu pegar o seu irmão.
O coração de Gracie começou a palpitar dentro do peito ao pensar em passar mais
tempo com aquele homem. Ela cruzou os braços.
— Você não pode me manter aqui como sua prisioneira. Rocco arqueou uma
sobrancelha, zombeteiramente.
— Você não tem emprego, nem um lugar onde morar e está quase sem dinheiro.
Não creio que esteja em condições de reivindicar sua independência ou liberdade. Acho
que eu, na verdade, estou lhe fazendo um favor, coisa que você, certamente, não merece.
Gracie arfou.
— Você mexeu nas minhas coisas. Rocco deu de ombros
— E óbvio.
Gracie ficou envergonhada ao ver a lamentável quantia de dinheiro de que dispunha
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
exposta daquela maneira. Ela ainda tinha um pouco mais em sua conta bancária, mas não
era muita coisa. Vinha lutando para sobreviver desde que se formara, sem jamais abrir
mão de seus sonhos ou ambições.
Rocco de Marco certamente jamais soubera o que era ter de lutar para sobreviver.
— Quer dizer que está me oferecendo este emprego por pura compaixão?
Ele sorriu, sem um traço de humor, sequer.
— Encare as coisas desse modo: você vale um milhão de euros até o seu irmão
reaparecer.
Ela tentou encontrar uma saída, mas não conseguiu enxergar nenhuma, naquele
momento.
Assim como ela era a conexão dele com Steven, ele também era a sua última chance
concreta de encontrar Steven, e ela não ia deixar o seu irmão enfrentar a ira daquele
homem sozinho, quando ele o encontrasse.
Gracie se empertigou determinada a recuperar algum controle sobre a situação,
apesar das adversidades.
— Se vou ser a sua empregada, terei de receber a mesma quantia que recebia no
bar para continuar pagando o meu crédito universitário.
Rocco conteve a sua surpresa diante da decisão dela de ficar, sem discussão, e
tentou ignorar certo peso em sua consciência. Se fosse culpada, ela estaria fazendo de
tudo para persuadi-lo a deixá-la ir embora a fim de se encontrar com o irmão... Não, ela
devia estar tramando alguma coisa, apenas representando para que ele duvidasse da sua
culpa.
Curioso, porém, ele perguntou quanto ela recebia no bar, esperando que ela
triplicasse o valor, quantia que ele não tinha a menor intenção de pagar depois de ter sido
lesado em um milhão de euros.
Gracie mencionou uma quantia e Rocco teve de conter o seu choque. A expressão
dela era tão inocentemente desafiadora que ele se flagrou concordando inexplicavelmente
em lhe pagar aquela soma patética, perguntando-se se aquilo chegava, sequer, a um
salário mínimo.

ELA O observou anotar alguns nomes e números e lhe estender o papel em seguida.
— Esse é o telefone de minha assistente executiva, caso precise falar comigo. Vou
passar o dia envolvido com reuniões, do outro lado da cidade. Você pode usar os telefones
do apartamento. — Seus olhos brilharam. — Nem preciso lhe dizer que quaisquer ligações
para o seu irmão serão rastreadas. Também anotei o número da antiga empregada, caso
você queira se informar quanto às minhas preferências. O chefe de minha equipe de
segurança está do lado de fora do apartamento. Ele tem acesso a todos os movimentos
dentro e fora do prédio, de modo que se tentar fugir, ele simplesmente a trará de volta.
Ela olhou para ele, segurando o papel e resmungou causticamente:
— Quer dizer que eu não terei acesso direto a Deus? Rocco sorriu maliciosamente,
acelerando o ritmo cardíaco de Gracie e elevando a sua temperatura corporal.
— Eu reservo o meu número particular para as pessoas com quem desejo falar e não
para ladrões e trapaceiros.
As palavras dele tiveram um efeito instantâneo sobre Gracie, fazendo com que um
intenso rubor de raiva tingisse a sua face ao pensar na longa luta que ela e o irmão
haviam travado para sair das circunstâncias adversas em que viviam.
— Você não sabe nada a meu respeito. Nada. Os olhos dele ficaram frios.
— Sei tudo o que preciso saber. Não me crie problemas até eu voltar a vê-la.
Gracie o observou enquanto ele se afastava, e, envergonhada, notou que sua raiva
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
desapareceu ao se perguntar para que tipo de pessoa alguém como Rocco desejaria dar o
seu número particular a fim de conversar num tom baixo e íntimo.
A raiva diante de sua imaginação fértil fez com que ela o chamasse
desafiadoramente.
— Não pense que poderá levar isso muito longe. Você não passa de um... Autoritário
megalomaníaco.
Rocco se virou e o coração de Gracie quase parou ao ver a raiva estampada no rosto
dele. O medo tomou conta dela, mas apenas porque se sentiu indefesa diante de sua
reação física a ele.
— Se está tão preocupada, pode chamar a polícia. Aproveite para atualizá-los a
respeito da conduta do seu irmão. Tenho certeza de que eles adorariam saber dos
progressos dele no mundo real, depois de ter saído da prisão. — Gracie engoliu em seco.
— Acho melhor você se familiarizar com o apartamento, já que este será o seu lar no
futuro mais próximo.
Gracie tentou conter a sua raiva depois que ele saiu, mas para sua imensa decepção,
tudo em que conseguiu pensar foi no modo como ele havia insistido em alimentá-la na
noite anterior.

Capítulo Quatro

Rocco SE acomodou no assento de trás do carro. O tráfego de Londres estava


completamente engarrafado.
— Não se preocupe Emilio — disse ele ao motorista. — Eu não estou com pressa.
Os ombros do motorista cederam um pouco e Rocco ergueu o painel de vidro entre
eles.
Não costumava orientar as suas atitudes para deixar as pessoas mais à vontade.
Valia-se do fato de as pessoas jamais saberem o que esperar dele. Nunca era rude com
seus empregados, mas sabia que as pessoas nunca ficavam inteiramente à vontade com
ele.
Com exceção de Gracie O’brien. Ela também ficava incomodada com ele, mas o
enfrentava como ninguém jamais havia feito antes.
Muito relutantemente, Rocco teve de admitir que existia uma forte possibilidade de
ela não estar mentindo ao dizer que não havia tido nada a ver com os planos de seu
irmão.
Tinha parecido excessivamente chocada, na noite anterior, quando ele fizera menção
à prisão, e se soubesse o que ele havia feito, certamente teria consciência de que aquela
era uma possibilidade.
Isso sem falar no fato de ela ter ido até o escritório.
Mas ele havia aprendido a confiar mais nos seus instintos no que dizia respeito ao
irmão dela e seria muito tolo de confiar nela, apesar de tudo o mais que ele havia
descoberto a respeito do seu irmão.
Seus seguranças haviam conseguido acessar informações confidenciais.
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
Ela estava listada como irmã do Steven, sem nenhum antecedente criminal. Não
havia menção a nenhum outro irmão, nem aos seus pais. Ao que parecia, uma avó os
havia criado por algum tempo até que a Assistência Social assumisse os seus cuidados.
Eles vinham de uma das áreas mais pobres de Londres, e mesmo sem conhecer os
detalhes, Rocco podia imaginar as condições em que haviam vivido. A miséria era igual no
mundo todo.
Ao remexer em seus pertences, ele havia se deparado com um arquivo cheio de
textos e rascunhos que parecia ser a boneca de um livro de crianças, surpreendentemente
bom, por sinal.
Encontrara também uma foto do que deveriam ser ela e seu irmão, ainda crianças.
Ela, toda sardenta, com um enorme sorriso banguela e o braço firme em torno de seu
irmão, um pouco menor, que parecia magro, nervoso e tímido por trás das grossas lentes
de seus óculos.
Rocco sentiu o seu peito se contrair e cerrou os punhos. Não permitiria que aqueles
enormes olhos castanhos o cativassem, nem sua aparente vulnerabilidade. Ela era tão
dura quanto suas unhas, claramente decidida a proteger o irmão a todo custo, qualquer
que fosse o seu envolvimento com ele.
Ele nunca havia compartilhado uma lealdade como aquela e não gostou nada da
inveja que tomou conta dele. Aquela era apenas mais uma evidência do laço que os unia e
ele precisaria vigiá-la como um gavião até que seu irmão reaparecesse.
Rocco jamais admitiria que aquele desejo de mantê-la por perto tinha alguma coisa a
ver com a sua enigmática personalidade, ou com a atração física que ela exercia sobre
ele.
Foi somente ao olhar para a paisagem que ele se deu conta de que não havia
pensado uma única vez sequer em Honora Winthrop. Determinado a não permitir que a
chegada de Gracie O’brien descarrilasse ainda mais a sua vida, Rocco fez uma ligação e
ignorou a sensação claustrofóbica que se apossou dele quando Honora Winthrop atendeu.

GRACIE DESPERTOU às 5h da manhã seguinte.


Ainda desorientada, ela sentiu um nó familiar na barriga ao se dar conta de onde
estava. Ela repassou o dia e a noite anteriores em sua mente. Felizmente, já estava
deitada na hora em que Rocco voltara para casa, tendo apenas ouvido os suaves sons que
ele fizera ao transitar pelo apartamento.
Ele havia lhe telefonado, tarde da noite, para avisá-la de que iria jantar fora, e ela
fizera uma careta ao telefone, odiando-se por imaginar na companhia de quem ele o faria.
Gracie havia olhado sonhadoramente para a porta do apartamento, depois da partida de
Rocco, e até a tinha aberto, tendo encontrado um homem enorme sentado junto a uma
mesa que parecia ter uma dúzia de monitores.
— Precisa ir a algum lugar, senhorita O’brien? — perguntou ele, erguendo-se.
Gracie balançara a cabeça.
— Só estava dando uma olhada nos arredores. Perfeitamente amigável, o gigante
dissera:
— Eu sou George e estou aqui para levá-la aonde quer que deseje, de modo que se
precisar de alguma coisa, é só gritar.
Gracie resmungara qualquer coisa incoerente em resposta. Era evidente que George
estava lá para garantir que ela não fosse a lugar algum sozinha. Ela havia voltado para o
apartamento e telefonado para a antiga empregada de Rocco, uma senhora
aparentemente de mais idade e muito gentil que lhe listara as exigências habituais de
Marco.
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
Gracie entrara no quarto de Rocco e se pusera a olhar os lençóis revirados. O cheiro
inconfundível dele ainda pairava sedutoramente no ar, almiscarado masculino, deixando
Gracie toda excitada ao se flagrar imaginando ele havia dormido nu.
Novamente abalada ao se lembrar daquela cama e lençóis, ela decidiu tomar um
copo d'água e saiu tropeçando do quarto, ainda sonolenta.
Foi só ao entrar na cozinha que ela se deu conta de que a luz já estava acesa, tendo
de apertar os olhos para se adaptar à luminosidade. Ao ver uma forma grande e escura se
mover, ela deu um grito, subitamente desperta.
Com os olhos arregalados, Gracie avaliou a visão que a cumprimentou. Rocco de
Marco estava na cozinha, de peito desnudo, usando apenas uma toalha muito precária
presa em torno dos seus quadris e que mal alcançava as suas coxas.
Gracie foi tomada de assalto por um milhão de coisas de uma só vez, acrescido ainda
de uma boa dose de pura adrenalina. Ele devia ter acabado de tomar banho, pois seu
cabelo ainda estava úmido. Sua pele morena brilhava sob aquela luz e seu peito amplo e
musculoso recoberto por uma leve penugem crespa que seguia até aquela toalha, numa
linha tentadora.
Ele era mais bonito do que um homem tinha o direito de ser.
Quando se deu conta de que estava olhando para Rocco como se nunca tivesse visto
um homem antes, ela desviou o seu olhar e esbravejou:
— Você deveria estar dormindo.
— Pois não estou — comentou-o, secamente. — Sempre acordo por volta desta
hora.
Gracie se recusou a olhar para ele, parada, na entrada. Seu coração ainda estava
acelerado.
— Não acha que deveria... Vestir alguma coisa? Mais uma vez, naquele mesmo tom
de voz seco, ele pontuou:
— Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa, mas não estou certo de querer fazê-lo.
Gracie sentiu um calor subir pelo seu peito até alcançar o seu rosto. O olhar de
Rocco era intenso e lânguido, admirando as pernas desnudas dela, voltando, depois, para
o seu rosto.
Ela sabia que deveria estar horrorosa, com o cabelo todo armado e despenteado,
mas teve a impressão, por um momento, de ter visto um brilho predatório nos olhos dele.
Sua garganta estava muito seca, mas ela conteve a vontade de engolir em seco, o
que deixou a sua voz rouca.
— Eu só queria tomar um pouco d'água.
— Fique à vontade. Não quero que digam que eu não supro as necessidades básicas
de meus prisioneiros.
A resposta irônica restituiu parte da compostura de Gracie que seguiu em direção às
prateleiras. Muito ciente de seus pés descalços e do olhar lânguido de Rocco, ela o
ignorou e estendeu a mão a fim de pegar um copo, mas não conseguiu alcançá-lo, nem
mesmo ficando na ponta dos pés. Ela estava muito ciente da sua camiseta subindo pelas
suas nádegas e se maldisse mentalmente, ao pensar na sua calcinha branca, grande e
muito gasta.
Subitamente, Gracie sentiu uma onda de calor emanada por detrás dela, acrescida
de um determinado perfume, enquanto um braço moreno e muito musculoso se estendia,
passando por ela, para pegar o copo. Ela sabia que se desse um passo para trás,
esbarraria nele, e se sentiu fraca diante da força do desejo que a atravessou de saber
como seria sentir os braços dele em torno de si.
Rocco, porém, pousou o copo no balcão, ao lado dela, e se afastou, levando aquele
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
calor consigo.
Gracie agarrou o copo e se virou lentamente. Para um homem grande daquele jeito,
ele se movia com inacreditável graça e discrição. Já estava do outro lado da cozinha,
bebericando de sua xícara e olhando para ela com a maior frieza do mundo.
O ambiente havia ficado carregado de um tipo de tensão completamente estranho a
ela, deixando-a tonta e trêmula.
— Tem água mineral na geladeira.
Já na pia, Gracie encheu o copo ali mesmo, maldizendo-se por não ter escolhido
aquela opção desde o início, e virando-se, logo em seguida, segurando o copo como uma
espécie de escudo.
Ele pousou a xícara sobre a mesa.
— Com licença, tenho um dia muito ocupado pela frente — disse Rocco, seguindo
em direção à porta com toda a graça letal de um felino selvagem, porém tão suavemente
como se estivesse completamente vestido. Os olhos de Gracie arderam de tanto olhar
para a sua pele desnuda e musculatura rígida.
Ele se virou ao chegar junto à porta e disse com um brilho definitivo em seus olhos:
— Lembre-me de lhe mostrar como prefiro que faça a minha cama, no futuro.
Gracie ainda ficou olhando para a porta vazia por algum tempo, depois de ele
desaparecer por ela, levando ainda alguns segundos para registrar o que ele havia lhe
dito. Assim que a ficha caiu ela teve vontade de atirar o copo no espaço vazio que ele
havia deixado atrás de si.

Rocco SE enfiou debaixo do jato d'água de sua ducha fria, logo em seguida. Maldita
mulher. Quando a vira junto à porta, usando apenas aquela camiseta, com as pernas de
fora, ele piscara repetidas vezes pensando que se tratava de uma aparição. Havia acabado
de tomar um banho frio depois de acordar de uma série de sonhos eróticos em que
arrancava a roupa de Gracie O’brien e a deitava nua, em sua cama, alva e gloriosa.
Seu sangue correra imediatamente para a parte inferior de seu corpo, enrijecendo-o,
num efeito imediato e muito embaraçoso. Felizmente, ela havia ficado tão chocada ao vê-
lo que nem percebera a intensidade de sua reação.
Ele não conseguira se recompor, como se estivesse sendo confrontado pela primeira
vez na vida com a visão de uma mulher nua.
O que Gracie tinha, afinal, que o excitava daquele jeito, sem que ela fizesse o menor
esforço?
Ela era selvagem e indomada, nem um pouco sofisticada. Tinha sardas, meu Deus, e
pelo corpo todo. Nos seios, provavelmente também, imaginou ele, que deviam ser muito
alvos, contrastando com a sua própria pele...
Rocco soltou um palavrão ao pensar nela se esticando para pegar aquele copo. Os
olhos dele haviam sido fisgados por aquelas coxas macias e alvas, a curva de suas
nádegas e o tentador vislumbre do algodão branco. Nunca um tecido tão pouco sexy lhe
pareceu tão sensual. Como um tolo, ele se aproximara dela, fingindo querer ajudá-la,
quando, na verdade, só queria chegar perto o bastante para sentir o cheiro
surpreendentemente doce e limpo do seu xampu. Nada de perfume, apenas algo suave,
como flores do campo, mais sutil e atraente do que ele jamais imaginara ser possível.
O cabelo dela havia roçado o seu peito desnudo, despertando nele um desejo quase
incontrolável de deslizar as suas mãos por baixo daquela camiseta até alcançar os seios
dela, sentir o seu peso e firmeza, que o obrigara a Praticamente saltar para o outro lado
da cozinha.
Rocco fechou o jato d'água e saiu do box, pela segunda vez em menos de meia
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hora. Jurou para si mesmo que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para encontrar
Steven Murray de modo a dar fim àquela história e tirar aquela mulher de sua cabeça.

GRACIE HAVIA conseguido evitar Rocco por dois dias, levantando depois de sua saída,
pelas manhãs, e indo dormir antes de ele voltar para casa, à noite. Estava se vangloriando
de ter escapado dele pela terceira manhã seguida, quando ele surgiu subitamente do
estúdio, soltando um monte de impropérios, despenteado e lindo, usando um jeans gasto
e camiseta.
Ela não conseguiu evitar o encontrão e deu um pulo para trás, como se tivesse se
queimado, sentindo um calor intenso atravessar todo o seu corpo. Seu cheiro almiscarado
e masculino pairava no ar e Gracie teve de se controlar para não lhe pedir desculpas.
Em vez disso, para quebrar o silêncio e disfarçar seu embaraço, ela disse:
— O que você está fazendo aqui?
— Eu às vezes trabalho no meu escritório de casa. Alguma objeção?
— Aconteceu alguma coisa?
O olhar intenso de Rocco percorreu todo o corpo de Gracie, fazendo-a arder ainda
mais.
— O meu chef acabou de ligar dizendo que está doente e seu substituto, ocupado.
Eu havia convidado uma pessoa para o jantar e não queria sair, mas ao que parece, terei
de fazê-lo — disse Rocco, evitando investigar os motivos pelos quais não queria ser visto
em público com Honora Winthrop, quando há poucos dias teria aceitado a idéia de bom
grado. A mulher que estava à sua frente e que o vinha evitando com tanto zelo, nos
últimos dois dias, tinha muito a ver com aquela sua nova postura.
Gracie sentiu suas entranhas se contraírem ao se perguntar se aquele seria um
jantar romântico.
Mais uma vez, quase sem pensar, ela se flagrou dizendo:
— Eu posso cozinhar, se você quiser. Rocco sorriu zombeteiramente. — Você?
Cozinhar?
A evidente incredulidade dele, combinada com o recente e perturbador vislumbre de
algo assustadoramente semelhante ao ciúme, fez com que ela lhe dissesse asperamente:
— Sei fazer mais do que arroz e feijão, se é isso o que quer saber.
Os olhos dele escureceram e passearam novamente por ela, numa lânguida
avaliação. Gracie se contorceu, lembrando a si mesma que ele só estava querendo
provocá-la.
Ela recuou, maldizendo a sua boca enorme.
— Esqueça o que eu disse. Foi uma idéia idiota.
Já havia quase passado por ele, quando Rocco a segurou pelo braço.
A respiração de Gracie ficou presa na garganta e ela engoliu em seco.
Lentamente, ela se virou e ergueu o olhar. A expressão de Rocco estava
contemplativa e ele não a soltou.
— Você realmente sabe cozinhar?
Gracie assentiu, lutando contra a vontade de se desvencilhar dele para não
demonstrar o quanto ele a afetava.
— Se me der uma lista do que quer comer, eu farei o melhor que puder. Quantas
pessoas virão?
Rocco soltou o braço dela abruptamente, como se tivesse acabado de se dar conta
de que ainda o estava segurando.
— Duas.
Aquela estranha dor atravessou Gracie outra vez.
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— Eu dou conta de cozinhar para dois.
Ele ainda a olhou em silêncio por algum tempo, até Gracie sentir vontade de gritar
de tanta tensão, e então assentiu lentamente.
— Está bem. Eu lhe darei a lista e nós comeremos às 20h, depois de tomarmos
champanhe e degustarmos alguns canapés.

GRACIE E George estavam voltando para casa, mais tarde, naquela mesma manhã,
depois das compras. Rocco havia lhe dado o seu cartão de crédito e uma lista repleta de
exigências pouco convencionais.
— Não sei se vou conseguir essas coisas em tão pouco tempo. Não há nada a que
você não seja alérgico?
Rocco fizera uma pequena careta.
— O problema não é comigo.
— Oh. — Gracie não lhe perguntara de quem se tratava. Apenas pousara o papel e
sorrira docemente. — Vou fazer o melhor que puder para trabalhar dentro de parâmetros
tão estreitos.
Para seu grande choque, Rocco lhe dera a impressão de estar contendo uma
gargalhada e ela se sentiu enfraquecer. A expressão, porém, desapareceu logo em
seguida.
— Está bem. Veja o que consegue fazer.
Fora somente quando ela e George estavam prestes a enveredar pela entrada
particular que conduzia ao apartamento de Rocco que Gracie notou a manchete do jornal,
na banca, próxima a eles: De Marco vai se casar com a bela socialite Honora Winthrop...
George notara o seu interesse:
— E a mais recente namorada do chefe.
— Você quer dizer a noiva dele — corrigira Gracie, debilmente.
George ainda havia murmurado qualquer coisa que Gracie não conseguiu ouvir, e
então a apressou para dentro do prédio, quando as primeiras gotas de uma chuva de
verão começaram a cair.

NAQUELE MESMO momento, em um andar acima deles, em seu escritório de paredes


de vidro, Rocco lia a mesma manchete. Aquele era mais um momento fundamental em
seu caminho rumo à conquista de um lugar na sociedade, mas ele, curiosamente, se
sentia vazio. Asfixiado, ele afrouxou a gravata e abriu o primeiro botão de sua camisa,
sem nem mesmo se dar conta do que estava fazendo.
Só conseguia pensar na expressão de Gracie, naquela manhã, ao comentar as
exigências absurdas para o cardápio do jantar. Ele teve vontade de cair na gargalhada,
compartilhando de sua incredulidade.
Ninguém o fazia rir.
Havia tido de lançar mão de todo o seu autocontrole para não tomá-la em seus
braços, tomar aquela boca rosa da de assalto e fazê-la fechar aqueles olhos castanhos
excessivamente desconfiados. Esquecer tudo, exceto dele.
Ela o havia pegado de surpresa ao se oferecer para preparar o jantar.
A verdade era que ele praticamente não registrara, inicialmente, o que ela havia dito,
tão ocupado que estava em absorver todos os detalhes de sua figura. O fato de não tê-la
visto nos últimos dois dias havia começado a irritá-lo seriamente, e foi só então que se
dera conta de que sua decisão de trabalhar no estúdio de casa havia se originado, em
parte, do fato de Gracie não ter como evitá-lo no apartamento.
Ele ainda podia sentir a eletrizante sensação da forma pequenina dela, esbarrando
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nele. A excitação havia sido imediata. Sua pele formigara de desejo ao vê-la diante de si
com o queixo erguido e determinado, desafiando-o a permitir que ela preparasse o jantar,
apesar de sua desconfiança.
Alguma coisa do lado de fora atraiu a sua atenção. Seu elevador particular estava
subindo. Podia ser Gracie. Num impulso, ele largou o jornal, saltou de sua cadeira e foi até
lá.

GRACIE ESTAVA ao lado de George, dentro do elevador, ainda tentando compreender


por que a notícia de que Rocco estava noivo a havia afetado tanto. Ela mal conhecia
aquele homem, como, então, poderia estar se sentindo... traída?
O elevador parou antes do previsto. Ela olhou para George que apenas deu de
ombros. Eles ainda não haviam chegado à cobertura.
A porta se abriu, revelando Rocco, com as mãos postas nos quadris. A garganta de
Gracie secou imediatamente ao vê-lo e seu coração acelerou.
— Nós só estávamos fazendo compras para o jantar — disse ela.
Por que estava se sentindo tão culpada se ele devia saber exatamente onde eles
haviam estado?
Rocco olhou para George e tirou as sacolas das mãos de Gracie, entregando-as ao
enorme homem cujas mãos já estavam cheias.
— Gracie subirá daqui a pouco. Eu tenho de tratar de um assunto com ela, antes.
Rocco a conduziu por um labirinto de escritórios de paredes de vidro e Gracie o
seguiu relutantemente. Não podia acreditar que alguma vez havia chegado a pensar que
poderia simplesmente adentrar no prédio dele para ver se Steven ainda estava por lá.
Rocco manteve a porta de seu escritório aberta, esperando que ela entrasse na sua
frente. O gesto cavalheiresco fez com que ela se sentisse ainda mais vulnerável. Assim
que entrou, ela assumiu uma postura de ataque, a fim de disfarçar as suas emoções,
encarando-o logo que ele fechou a porta.
— Se vai me repreender só porque nós fomos às compras...
Rocco ergueu a mão.
— Eu disse alguma coisa?
Gracie se calou e balançou a cabeça. Estava se sentindo muito desleixada perto de
Rocco. Ele havia trocado a roupa que estava usando pela manhã por um terno e estava
majestoso.
Momentaneamente distraída, ela seguiu em direção à janela.
— Você sempre se instala onde estão as melhores vistas?
— É claro — disse Rocco, num tom cínico. — Não sabe que as pessoas são julgadas
por sua altura e até onde a sua vista alcança?
Por algum motivo, as palavras dele a entristeceram. Ela passou a mão pelas costas
de uma poltrona e voltou a encará-lo.
— Fico imaginando o que acontece quando fica impossível subir ainda mais ou
enxergar ainda mais longe.
O peso do silêncio que se abateu sobre eles tornou-se quase insuportável e Gracie
desviou o olhar, embaraçada. De onde havia surgido aquela observaçãozinha filosófica?
A fim de evitar o olhar sombrio de Rocco, ela se pôs a admirar os belos móveis e os
modernos objetos de arte do lugar. Era possível ver todo o restante da equipe de lá,
através das paredes de vidro. Mesmo assim, seu irmão havia conseguido roubá-lo.
— Você não se incomoda com o fato de não ter nenhuma privacidade?
— Esse escritório é à prova de som, de modo que ninguém pode ouvir as minhas
conversas particulares, mas eu posso ver a todos.
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A expressão dele era indecifrável.
— Você quer dizer que dessa maneira pode controlar tudo.
Rocco deu de ombros.
— Eu não pude controlar o seu irmão.
Gracie baixou o olhar e entrelaçou as mãos. Ele havia acabado de dar voz aos seus
próprios pensamentos.
Quando ergueu novamente o olhar, Gracie viu que Rocco tinha ido até a janela e
estava de costas para ela, com as mãos enfiadas nos bolsos. Ele se virou tão abrup-
tamente que a flagrou olhando para ele, fazendo-a corar.
— Espero que não esteja mentindo a respeito de sua habilidade na cozinha. Não
admitirei nenhum tipo de insolência, Gracie. Esta noite é muito importante para mim.
— Porque vai receber a sua noiva? Rocco franziu a testa.
— Como sabe disso?
Se pudesse ter engolido a sua língua, ela o teria feito.
Eu li uma manchete na banca de jornal. Rocco olhou para ela longamente e então
disse:
— Ela ainda não é minha noiva. Não que isso seja da sua conta.
— Isso é tudo?
Ele assentiu brevemente, e antes que Gracie dissesse ou fizesse alguma coisa de que
realmente se arrependesse, ela se virou e foi embora.
Rocco viu as costas delgadas de Gracie serpenteando pelos seus escritórios e não
pode deixar de notar que ela havia atraído os olhares de mais de um funcionário, e nem
que aquilo o incomodara profundamente.
Ninguém jamais havia feito aquela observação a respeito das paredes de vidro dos
escritórios. Rocco se sentira estranhamente exposto porque só ele sabia que a sua
preocupação com ver a tudo e a todos vinha de seu passado e de sua constante
necessidade não baixar a guarda. Aquele também era o motivo de ele ter de se cercar de
gente à sua volta, quando a maioria das pessoas em sua posição teria preferido a solidão.
A maioria das pessoas achava que se tratava de uma questão estética, mas era
como se ela soubesse que havia algo mais. Depois viera o comentário a respeito de estar
no ponto mais alto. Literalmente.
Rocco se sentou e girou a cadeira em direção à vista para que ninguém pudesse vê-
lo, ressentindo-se, pela primeira vez, da falta de privacidade. Ele pousou os cotovelos nos
braços da sua cadeira e o seu queixo nos dedos entrelaçados. Um sentimento proibido e
há muito enterrado, de revolta, aqueceu o seu sangue.

O FINAL da tarde daquele dia encontrou Gracie completamente atarefada com a


preparação do cardápio daquela noite. Estava com muito calor e suando quando George
surgiu na cozinha, estendendo-lhe uma grande caixa branca. — Para você, do chefe.
Gracie enxugou as mãos no avental e a pegou. Seu coração tolo começou a bater
acelerado, imaginando um belo vestido de chiffon, em delicados tons de rosa.
Por um momento, ela não pode deixar de fantasiar que o jantar daquela noite fosse
para ela e Rocco.
Ela abriu a caixa com as mãos trêmulas e só precisou de alguns poucos segundos
para ver todos os seus sonhos virarem pó. Rocco havia lhe enviado um uniforme preto e
um avental branco, com um par de sapatos pretos, simples e um bilhete que dizia: "Por
favor, vista isso mais tarde."
Gracie teve vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Nunca havia se permitido
fantasiar daquele modo antes.
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
Sua vida havia sido uma dura realidade, desde o início. Havia tido um único
namorado que nunca lhe dera coisa alguma, e de repente, estava sonhando como uma
Cinderela?
Irritada consigo mesma, Gracie enfiou o vestido de volta na caixa, torcendo para que
ele amarrotasse e voltou a cuidar da comida, respirando fundo para conter o desejo de ir
até o escritório de Rocco e virar o molho que estava preparando em sua cabeça.

Capítulo Cinco

Ao ENTRAR na sua sala de estar, naquela noite, Rocco não conseguiu se lembrar da
última vez em que havia ficado tão tenso. Havia voltado para casa há cerca de trinta
minutos e seguira diretamente para a cozinha. A porta estava trancada.
— Vá embora — exclamara Gracie. — Estou ocupada.
Rocco contivera o seu desejo de exigir que ela abrisse a porta imediatamente. Nunca
havia permanecido em um estado tão desconfortável de excitação, e aquilo não tinha
nada a ver com a mulher que estava prestes a entrar porta adentro, a qualquer momento,
e sim com aquela que estava há poucos centímetros de distância dele, por trás da porta
fechada da cozinha. A mulher que era irmã do homem que o havia roubado e a quem ele
havia proporcionado uma ótima oportunidade de humilhá-lo aquela noite.
Uma discreta batida na porta chamou a sua atenção para o segurança que trazia
Honora Winthrop para a sala de estar. A porta se abriu, revelando toda a sua gelada
beleza, previsivelmente estonteante, em um vestido de seda preta, plissado, que era ao
mesmo tempo modesto e ousadamente transparente.
O efeito negativo na libido de Rocco foi quase cômico. Com um sorriso estampado no
rosto, porém, Rocco foi até ela, afastando todas as imagens de uma tentação ruiva de sua
mente.

GRACIE OUVIU as vozes do lado de fora e respirou fundo. Para sua decepção, o
vestido que Rocco lhe enviara não tinha amassado. Era também um número menor que o
seu muito apertado na altura dos seios, nádegas e coxas. No início ela o xingou, achando
que Rocco havia feito aquilo de propósito, mas depois acabou chegando à conclusão de
que era bem mais provável que ele não tivesse prestado atenção alguma em seu corpo.
Ela alisou o pequeno avental branco e tentou puxar o vestido, mais uma vez, até a
altura dos joelhos. Prendeu o cabelo num coque alto, e pegou a bandeja com duas taças
de champanhe e dois pratinhos com volau-vents e canapés.
As vozes silenciaram assim que ela adentrou o recinto.
Gracie teve extrema consciência dos dois pares de olhos injetados. Um era sombrio e
se demorou longamente nela, enquanto o outro desviou, quase imediatamente. Essa deve
ser a mulher do jornal, pensou Gracie, ao ver a loura escultural ao lado de Rocco, junto à
janela.
Ele a surpreendeu, aproximando-se dela e tirando a bandeja de suas mãos.
— Obrigado, Gracie. Nós comeremos daqui a 20 minutos.
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Ela soltou a bandeja e tentou decifrar a expressão ambígua nos olhos dele, mas não
conseguiu por isso se obrigou a voltar para a cozinha, quando tudo o que queria era fugir
dali.
Lá dentro, ela pousou o rosto na porta, por um momento. Estava tremendo.
Felizmente, Rocco não havia esperado que ela lhe estendesse as bebidas e canapés. Ela
havia suposto que ele aproveitaria ao máximo a oportunidade para humilhá-la, mas estava
desconcertada por ele não tê-lo feito.
Ela foi finalizar a entrada e se forçou a afastar as imagens de Rocco e daquela
mulher brindando de sua mente.

Rocco NÃO conseguia tirar a imagem de Gracie, entrando na sala de estar, de sua
cabeça. Sua sensação era a de que ela ia ficar gravada ali para sempre. Era evidente que
o uniforme que ele havia encomendado estava pequeno para ela. O tecido estava grudado
em seu corpo pequeno e delgado, acentuando as curvas normalmente escondidas.
Um botão ameaçava saltar de seu peito. A bainha do vestido não chegara a cobris os
seus joelhos, revelando pernas alvas e delgadas. Aquilo mais parecia uma fantasia de sex
shop do que o uniforme sofisticado que ele havia esperado e a culpa era toda dele.
— Rocco?
Ele saiu de seu transe e olhou para a mulher ao seu lado que arqueara uma
sobrancelha finamente desenhada acima de seus olhos azuis, perfeitamente maquiados.
— Perdão...

GRACIE HAVIA acabado de servir a entrada e colou o ouvido à porta para ouvir a
conversa deles, ou qualquer observação a respeito da comida. Ela ouviu Rocco falar em
voz baixa, e então uma irritante risada, seguida de um
"Oh, Rocco, você é terrível!".
O rosto de Gracie estava em brasa. Ela ficou paranóica, como se Rocco pudesse
entrar por aquela porta, com a bandeja na mão e exclamar: "Achou mesmo que isso aqui
era adequado para a ocasião?"
Mas ele não apareceu por isso Gracie prosseguiu com a refeição principal.
Após um intervalo razoável, ela voltou para servir mais vinho e viu que Rocco havia
terminado a sua entrada, mas a senhorita Winthrop deixara metade no prato. A mulher
mal olhou para Gracie, apenas empurrando o prato na direção da ponta da mesa,
indicando que já havia terminado.
Gracie dobrou a língua ao receber um olhar de advertência de Rocco, serviu o vinho
e tirou os pratos.
Ao trazer a refeição principal, Gracie não pode deixar de sentir uma grande
satisfação ao ver Rocco arregalar os olhos.
O peixe estava impressionantemente aromático. Ela serviu a ambos e saiu sem dizer
uma palavra. Estava começando a ficar seriamente aborrecida com a total falta de
reconhecimento da noiva de Rocco. Pelo menos no bar em que trabalhava as pessoas a
olhavam nos olhos, e não através dela.
Ela começou a lavar a louça, tentando ignorar o murmúrio que vinha da sala. Sobre
o que poderiam estar falando? Planos de casamento?
Gracie ouviu um som e viu George entrando pela outra porta da cozinha que dava
para o corredor da entrada. Ela havia lhe servido o jantar, mais cedo, assim que ele
terminara o seu turno.
— Essa foi à melhor refeição que eu já comi dissera ele, com um enorme sorriso,
dando um tapinha em sua barriga.
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— Oh, George, obrigada!
Num impulso, ela o beijou, mais por afeição e amizade do que qualquer coisa. Foi
bem nessa hora que a porta se abriu e Gracie deu um salto para trás, sentindo o seu rosto
em chamas.
Era Rocco, com seu guardanapo na mão.
— Nós já acabamos aqui.
George se levantou o mais rápido que pode e Gracie ficou em estado de alerta,
sentindo-se absurdamente culpada sem ter a menor razão para tanto. Rocco permaneceu
junto à porta, forçando-a a passar por ele e Gracie teve de se controlar quando o seu
quadril roçou o corpo dele. Um pequeno contato com o corpo alto e musculoso dele era
um verdadeiro abalo sísmico para ela. Gracie tirou os pratos, feliz, pela primeira vez
naquela noite, pelo fato de a loura fria não estar olhando para ela.
Assim que se recompôs, ela voltou com a torta de limão e o café.
A senhorita Winthrop estava dizendo:
— Querido, como foi que conseguiu tirar o Louis do Four Seasons? Roberto deve
estar em cólicas! A comida estava divina.
Uma pontada de satisfação se apoderou de Gracie ao pousar a bandeja. Durante o
silêncio que se seguiu àquele comentário, ela se flagrou contendo a respiração, à espera
do que Rocco iria dizer.
Ela estava retirando os pratinhos de sobremesa, quando ele pigarreou:
— Na verdade, Louis não estava disponível esta noite. Foi Gracie, minha empregada
temporária, quem preparou tudo.
Gracie ficou atônita. Não podia acreditar que Rocco estava lhe dando os créditos pelo
jantar. Pela primeira vez, durante toda a noite, a loura lançou um olhar na sua direção.
— Oh... que exótico — disse ela, condescendente. — Eu não ia dizer nada, mas achei
que Louis talvez estivesse de folga e enviado um de seus auxiliares. O peixe estava um
pouco estranho. Espero que ela saiba o que estava fazendo, pois eu tenho uma
importante reunião familiar amanhã e não posso ficar doente.
Gracie ficou congelada onde estava por um longo momento. Não conseguia acreditar
que aquela mulher estava desfazendo de seus esforços como se ela nem mesmo estivesse
presente. Ainda registrou um rápido olhar da parte de Rocco, mas estava atônita demais
para olhar para ele.
Ela se apressou em voltar à cozinha, ouvindo-o falar num tom baixo, sem, no
entanto, conseguir discernir suas palavras.
Gracie estava tremendo, primeiro, por Rocco tê-la defendido, e depois devido ao
choque diante da rudeza daquela mulher.
Ela ouviu uma gargalhada vinda da sala de estar e para seu grande horror, seus
olhos se encheram de lágrimas ao olhar para o caos instaurado na cozinha em decorrência
do seu trabalho.
Não sabia exatamente o que havia acontecido somente que, a certa altura, havia
começado a cozinhar pensando em Rocco. George havia lhe dito que ele era italiano, o
que acabara por determinar as suas escolhas.
Apesar de se odiar por sua fraqueza, ela havia querido impressioná-lo. Talvez tivesse
querido que ele concluísse que ela poderia significar mais do que apenas uma tênue
ligação com o seu irmão.
Gracie ouviu a porta bater e se contorceu. Rocco e sua noiva, certamente, haviam
ido a uma casa noturna da moda. Ela enxugou as lágrimas e se pôs a arrumar as coisas,
com a vista turvada.
Não ouviu quando a porta se abriu, por isso deixou uma panela cair, assustada ao
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ouvir um suave "Gracie", atrás de si.
Ela se virou, atordoada demais para lembrar de se recompor. Seus olhos já estavam
mais claros, mas suas bochechas continuavam vermelhas.
Rocco estava lá, sem o paletó e a gravata afrouxada, como se a tivesse arrancado,
impacientemente. O botão de cima de sua camisa estava aberto e seu cabelo, des-
penteado.
— Eu ouvi a porta bater — disse ela. — Achei que vocês tinham saído.
Rocco balançou a cabeça. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos e Gracie teve de
lutar contra o impulso de baixar o olhar.
— A senhorita Winthrop foi embora e não vai voltar mais. Eu gostaria de me
desculpar pelo comportamento rude dela. Ela se recusou a vir aqui fazê-lo, por isso, eu
vim no seu lugar.
Ela ficou boquiaberta.
— Você lhe pediu que viesse aqui para se desculpar?
Rocco assentiu brevemente.
— Eu não deveria ter sequer precisado pedir que ela o fizesse. Ela não tinha o direito
de falar com você daquele jeito, e ainda por cima, estava errada. Você nos serviu uma
refeição maravilhosa. Eu não tinha idéia de que você sabia cozinhar tão bem.
Meio zonza Gracie disse:
— Uma de minhas mães adotivas temporárias treinou para ser chef de cozinha, em
Paris, na década de 1960, e acabou lecionando em uma escola de culinária, ao voltar para
a Inglaterra, porque ninguém queria contratar uma chef mulher. Eu aprendi o básico e
gosto de cozinhar.
Rocco adentrou ainda mais na cozinha e Gracie engoliu em seco. Ele parecia tão
intenso. Ela deu um passo para trás e seu pé atingiu a panela que havia caído no chão.
Gracie olhou para baixo, viu que o molho havia escorrido e se curvou, automaticamente,
para pegá-la. Rocco, porém, a segurou pelo braço e ajudando-a a se levantar, tirou a
panela de sua mão. — Outra pessoa cuidará disso.
Gracie o fitou. De repente, ele lhe pareceu estar perto demais. A presença dele era
inebriante e ela se odiou por seus olhos avermelhados.
— Você não precisa se desculpar. A rude foi ela.
Mas eu a coloquei nesta situação e deixei que ela falasse com você daquela maneira.
Gracie não conseguiu conter a mágoa em sua voz.
— É verdade. Cheguei a achar que você tinha feito aquilo de propósito.
Rocco balançou a cabeça, e o seu olhar a incendiou por dentro, deixando-a em
pânico. Ela não soube se seria capaz de conter a sua reação quando Rocco se aproximou
e a tocou. Lá vinha aquela terrível emoção novamente; aquela sensação de extrema
vulnerabilidade. Ela já não sentia necessidade de impressionar quem quer que fosse há
muito tempo, se é que alguma vez o sentira.
— Ela olhou o tempo todo através de mim e depois falou comigo como se eu fosse
lixo e ela estivesse enojada por eu ter manipulado a sua comida.
— Eu sinto muito — disse ele.
Gracie não sabia o que Rocco estava tentando fazer. Ele estava olhando muito
intensamente para ela.
— Pare de dizer isso. Você não sente coisa alguma. As lágrimas voltaram a turvar a
visão dela e Gracie lutou para não deixar que elas caíssem. Ele a havia reduzido a pó...
Por que não ia embora? Irada com a sua reação, ela tentou se desvencilhar dele.
— Você tem idéia do que é ser olhado como se você não existisse? Eu sou alguém,
Rocco, com sonhos e sentimentos, e não sou uma pessoa má, apesar do que você possa
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pensar. Quando alguém olha através de você, é como se você se tornasse invisível...
— Gracie... — disse Rocco, segurando por ambos os braços, agora, bem à sua
frente. — Eu sei... Eu sei como é isso.
— Como você pode saber? — disse ela, com leve escárnio. — Você não tem idéia do
que eu estou falando.
Ele a segurou com mais força. Havia uma linha branca de tensão em torno de sua
boca e seus olhos estavam em chamas.
— Eu sei.
Ele então afrouxou a pegada e Gracie ergueu o olhar, estupefata.
Rocco levou a mão até o queixo dela e inclinou o seu rosto para que ela não pudesse
escapar ao seu olhar. — Eu a enxergo.
Gracie sentiu um calor tomar conta de todo o seu corpo e a confusão lutar contra a
raiva que ela estava sentindo.
— Você não pode... eu não sou nada para você. Ele balançou a cabeça
energicamente.
— Não. Você não é um nada.
Gracie percebeu que em seus movimentos de vai e vem eles haviam ido parar em
um canto menos iluminado da cozinha, junto à janela. Ela sentiu o seu cabelo se soltar. O
mundo poderia ter parado de girar naquele momento que ela não teria percebido. Tudo o
que conseguia enxergar diante de si era a negra profundidade dos olhos de Rocco nos
quais ela estava se afogando.
— Rocco... — disse ela, com a voz trêmula. — Por que está aqui?
Ela manteve os braços entre eles, como se ainda quisesse fazer o esforço derradeiro
de se libertar das mãos de Rocco, mas as mãos dele haviam se tornado mais gentis e
Gracie, mesmo assim, não conseguiu se desvencilhar dele. Alguma letargia fatal havia se
infiltrado em seus ossos e sangue.
Ele a puxou mais para perto de si. Não disse nada por um bom tempo, e então,
como se as palavras estivessem sendo puxadas do fundo de seu ser, declarou:
— Estou aqui porque quero você. Passei toda esta noite, toda esta semana,
querendo isso, desde que a conheci. Ela percebeu o que estava acontecendo, por isso foi
tão cruel.
Gracie balançou a cabeça, apesar do calor que parecia aumentar cada vez mais entre
as suas pernas. Ela nunca havia ficado tão excitada, nem tão fora de si. Achara que sua
pequena e secreta obsessão por Rocco jamais seria notada, muito menos, correspondida.
Ela voltou a balançar a cabeça, mais enfaticamente daquela vez.
— Não, você só estava entediado, querendo provocar o ciúme dela ou coisa parecida
e eu fui um instrumento conveniente.
Rocco fez uma careta.
— Você não é nada conveniente e eu não estou entediado. Não me importo se ela
está ou não com ciúmes porque nunca mais voltarei a vê-la.
Gracie ficou estupefata. A magnitude do que ele estava dizendo se abateu sobre ela.
Rocco havia rompido com a sua noiva por causa dela?
— Mas... vocês tinham um relacionamento. Você ia se casar com ela.
Ele se deteve por um momento, absorvendo a enormidade das palavras dela. Ele
havia dado um fim ao seu relacionamento com Honora Winthrop, e ao fazê-lo, também
aos seus grandiosos planos de se casar com ela, e o fizera porque quisera dormir com
Gracie O'Brien com mais intensidade do que jamais desejara qualquer outra coisa em sua
vida. Mais do que a aceitação social pela qual vinha ansiando há tanto tempo? Ele não
queria sequer tentar responder àquela pergunta.
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A parte racional de seu cérebro sabia muito bem que se corresse atrás de Honora
Winthrop e a alcançasse quando ela chegasse em casa, ele ainda poderia salvar alguma
coisa.
Numa lenta, porém cataclismática percepção, no entanto, ele teve certeza de que
não queria fazê-lo. A sensação claustrofóbica que o vinha perseguindo há semanas, tinha
desaparecido.
— Nós não tínhamos um relacionamento de verdade. O que havia entre nós era um
acordo de que uma relação mais duradoura seria mutuamente benéfica em vários níveis.
— Mas isso é tão... tão frio. Rocco deu de ombros e disse cinicamente:
— A vida é assim. Eu ainda não a havia pedido em casamento, nem estava dormindo
com ela.
Gracie estava tentando absorver todas aquelas informações. Rocco não devia,
realmente, gostar daquela mulher. Ele era poderoso demais para ter de mentir àquele
respeito.
A cabeça dela começou a latejar. Já não queria ouvir mais nada. Rocco a puxou mais
para perto de si e ela se sentiu como que embarcando em um trem com um único destino,
sem que houvesse qualquer possibilidade de desembarcar.
Inconscientemente, ela ficou na ponta dos pés. Seu corpo soube o que queria
mesmo antes de ela o saber.
A cabeça de Rocco baixou em direção à dela, aproximando aquela bela boca cada
vez mais da sua e as pálpebras de Gracie se fecharam bem na hora em que ele colou os
seus lábios aos dela.
Gracie se agarrou instintivamente à camisa de Rocco Porque já não conseguia mais
sentir as suas pernas. A urgência, então, se apoderou de ambos. As mãos de Rocco
seguiram na direção do rosto de Gracie, enquanto ele a conduzia até uma parede, ou
algum tipo de superfície sólida, apoiando o seu peso nela.
A boca de Rocco era firme, mas seus lábios, macios, pressionando, saboreando,
provocando. Ela sentiu o deslizar da língua dele contra o contorno de seus lábios fechados
e suas mãos o agarraram com mais força ao abrir a boca para receber Rocco. O beijo se
aprofundou.
Ele pressionou o seu peito contra ela, apertando as mãos dela entre eles, mas Gracie
não se importou, deleitando-se com as grandes mãos de Rocco segurando o seu rosto a
fim de poder tomar a sua boca de assalto.
Gracie parecia estar deslizando em direção a outra dimensão.
O cheiro de Rocco deixou-a inebriada. Sua língua acariciou a dela numa carícia
maliciosa. Seus dentes mordicaram o lábio inferior dela. Aquilo era uma doce tortura, era
como saltar diretamente no meio de uma fogueira.
Ele afastou a sua boca da dela e em meio àquela excitação incendiária, beijou
ternamente o canto de sua boca. Gracie abriu as suas pálpebras pesadas. Sua boca estava
inchada e ela teve a sensação de que havia se passado uma eternidade desde que eles
haviam começado a se beijar.
Ela olhou diretamente nos escuros lagos ardentes dos olhos de Rocco. Perto como
estava dele, ela pode ver algumas manchas douradas neles. As faces dele estavam rubras.
Enlouquecida de desejo, ela perguntou, com a voz trêmula:
— O que é isso?
Rocco afastou as mãos do rosto dela e tomou uma mecha de seu cabelo de fogo
entre os dedos.
—Isso... se chama química... só que eu nunca senti nada parecido antes.
Gracie balançou a cabeça.
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— Eu... Também não.
Rocco deslizou a mão lentamente pelo quadril de Gracie até atingir a sua cintura, e
depois a passou por baixo do braço dela, detendo-se na curva de seu seio. Com um
sorriso lânguido, Rocco o tomou em sua mão, acariciando o bico intumescido com o
polegar que enrijeceu ainda mais sob o tecido esticado do vestido dela.
Gracie arfou.
— Isso — prosseguiu Rocco — é o que teve início entre nós, na noite em que nos
conhecemos.
Os olhos de Gracie procuraram os de Rocco a fim de ver se ele estava sendo sincero.
Então ele havia sentido a mesma extraordinária conexão. Aquilo não tinha nada a ver com
o seu irmão; existira mesmo antes de um saber quem era o outro.
Subitamente, um desejo desesperado que Gracie nunca havia sentido antes correu
pelo seu corpo. Ela precisava se conectar àquele homem o mais primitiva e imediatamente
que pudesse. Tomou, então, a cabeça dele entre as mãos, sentindo o seu cabelo macio e
sedoso entre os dedos. Depois a cabeça na sua direção e pressionou a sua boca contra a
dele. Rocco aproveitou a deixa e a agarrou Pela cintura, com força, enquanto a tomava de
assalto.
Suas línguas se encontravam e mesclavam furiosamente. Gracie arqueou o seu
corpo, moldando-o ao peito firme dele e esmagando os seus seios, buscando
desesperadamente aplacar a ânsia que crescia em todo o seu corpo, especialmente entre
as suas pernas. Os quadris de ambos estavam grudados. Gracie sentir toda a extensão de
sua firme excitação e instintivamente, abriu as pernas para aumentar o contato com ele e
a fricção.
Ela mal teve consciência de quando Rocco puxou o minúsculo avental e levou as
suas mãos até os botões de seu vestido, arrebentando-os. O ar frio tocou a sua pele
aquecida e ela ansiou por ser libertada de suas roupas, quase soluçando em voz alta
quando sentiu as grandes mãos de Rocco rasgarem a parte de cima de seu vestido para
expor os seus seios ao olhar dele.
Ele se afastou e a admirou, respirando com dificuldade. Gracie estava tonta, com o
coração acelerado. Não estava conseguindo levar oxigênio suficiente para o seu cérebro.
Os olhos de Rocco estavam febris. Ele baixou o vestido dela pelos seus ombros, o
máximo que pode, expondo-a ainda mais para seu deleite. A pele alva de seus seios
estava emoldurada por um sutiã preto. Gracie não via a hora de sentir o toque daquele
homem, sua boca...
Como se tivesse lido o seu pensamento, Rocco baixou uma das taças, libertando um
de seus seios. Parecendo hipnotizado, ele o acariciou, roçando o bico com seu polegar.
Gracie mordiscou o lábio para não implorar por mais.
A excitação correu pelas veias dela quando ele baixou a cabeça e a boca molhada
dele, finalmente se fechou em torno do seu bico rígido. Rocco girou a sua língua em torno
do bico e o sugou, fazendo com que ele enrijecesse ainda mais. Gracie jogou a cabeça
para trás, sentindo um prazer intenso invadir o seu corpo. Seus quadris ondulavam contra
os de Rocco e suas pernas haviam se afastado ainda mais, a fim de ampliar o contato
entre o seu membro longo e rígido e a carne sensível dela.
Gracie quis vê-lo nu e começou a ir em busca da camisa dele, abrindo nervosamente
os seus botões. Rocco afastou a boca do seio dela e se ergueu.
Ele parecia consumido por um fogo excessivamente intenso para ser negado. Gracie
estava entregue às carícias dele, em total abandono, apoiada na parede, atrás de si. Os
quadris dele, pressionados aos dela, eram, provavelmente, a única coisa que ainda a
estava mantendo de pé. Sua boca estava inchada e tingida de um rosa intenso. Suas
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pupilas estavam tão dilatadas que faziam com que seus olhos parecessem negros, e sua
respiração arfante fazia com que seus seios alvos subissem e descessem aceleradamente,
enfeitiçando-o.
Seus bicos eram pequenos, firmes e rosados, cercados por aureolas levemente mais
escuras e sardas. Rocco sentiu que aquela mulher era sua.
Sabia que não poderia racionalizar aquela afirmativa agora, mas apenas seguir o
impulso mais forte que já sentira em toda a sua vida: tê-la e torná-la sua.
Com uma impaciência que estava deixando os movimentos habitualmente graciosos
dele desajeitados, Rocco abriu a própria camisa, fazendo os botões saltarem para fora.
Olhou, então, para o vestido semi-aberto de Gracie. Pensou em fazê-lo passar por cima da
cabeça dela, mas acabou rasgando-o de cima a baixo. Seu sangue estava bombeando
com força em suas veias. O vestido se abriu até a altura da coxas dela, deixando entrever
a sua calcinha preta.
Rocco nunca havia sentido nada tão selvagem com mulher alguma.
— Nós vamos fazer isso aqui e agora, a menos que me diga que não. Você tem dez
segundos para se decidir.

Capítulo Seis

GRACIE OLHOU para Rocco, sentindo-se muito pequena e delicada, mas


extremamente excitada com o seu comportamento animalesco.
Ela balançou a cabeça e levou a mão ao cinto dele.
— Não pare.
Rocco pareceu esperar por um brevíssimo momento, como que testando a resolução
dela e então, com um som gutural, arrancou a sua camisa e começou a baixar o vestido
de Gracie pelos seus braços, até ele cair ao chão. O sutiã dela também foi descartado, de
modo que agora, ela estava praticamente nua, com exceção de sua calcinha. Ela se sentiu
vulnerável por um momento, até Rocco começar a abrir o seu cinto e calça e um calor
voltar a tomá-la de assalto.
Ela admirou o corpo impressionante dele avidamente. Seus músculos eram firmes,
sua pele brilhante. A calça dele deslizou pelas suas coxas fortes, exibindo uma cueca
justa, estendida sobre a sua ereção.
Os olhos de Gracie se arregalaram.
Rocco estendeu a mão na sua direção e ela cruzou o seu olhar com o dele. Era como
se eles estivessem no olho de um furacão. As mãos dele se enterraram no cabelo dela,
terminando de soltar o seu coque. A boca dei encontrou novamente a dela, redescobrindo
o seu sabor com a língua, para então descer pelo ombro dela, rum aos seus seios, fartos e
sensíveis. Ele os tomou em suas mãos e sugou seus bico rígidos, um de cada vez,
mordiscando-os, fazendo Gracie gritar.
A urgência não demorou a crescer novamente. Gracie arqueou todo o seu corpo
contra o dele, movendo os quadris impacientemente. Uma das mãos dele desce pelas
costas dela até se enfiar por dentro da calcinha agarrar as suas nádegas, apertando-as
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com força, deixando todos os terminais nervosos de Gracie em estado de alerta.
A boca dele voltou a procurar a dela e ele a puxou par junto de si, fazendo os pelos
de seu peito arranharem os bicos sensíveis e molhados dela. Gracie estava agarrada aos
ombros dele, incapaz de fazer outra coisa a não se sucumbir ao ataque dele aos seus
sentidos. Ele puxou calcinha dela levemente para baixo até alcançar o vértice de suas
coxas, entre os corpos de ambos.
Gracie conteve a respiração ao sentir os dedos dele explorarem os cachos úmidos em
torno do sexo dela e se agarrou a ele com mais força quando ele mergulhou um dedo
fundo em seu lugar mais secreto, onde ela ansiava' avidamente por senti-lo. Rocco
encontrou, então, o seu ponto mais sensível e íntimo e o acariciou ritmadamente, fazendo
Gracie começar a tremer.
O dedo de Rocco mergulhou fundo dentro dela e Gracie gozou profunda e
intensamente, sentindo todo o seu corpo se convulsionar em torno da mão de Rocco. A
súbita onda de prazer foi tão intensa que as lágrimas começaram a verter de seus olhos,
enquanto todo o seu corpo enrijecia por um longo momento.
Quando tudo passou, Rocco afastou a sua mão, lentamente.
Gracie ainda permaneceu em estado de choque, sentindo o calor correr pela sua
pele. Jamais havia experimentado nada sequer parecido. Tudo de que conseguia se
lembrar de suas poucas experiências sexuais anteriores era nunca ter alcançado nenhum
tipo de satisfação.
Chegara a suspeitar que as pessoas supervalorizavam o sexo. Mal podia acreditar
que ela havia acabado de...
Subitamente, ela foi erguida e ouviu Rocco dizer com a voz rouca:
— Enrosque as pernas em minha cintura.
Ainda atônita, ela o fez, trançando os pés sobre as nádegas dele, passando os braços
em torno do pescoço dele.
Rocco os conduziu até a enorme mesa onde eles costumavam tomar café.
Segurando-a com força com um braço forte, ele usou o outro para jogar os detritos da
mesa no chão. Livros de culinária caíram junto com uma xícara que se espatifou. Rocco a
pousou de costas, ainda com o sexo dela junto à sua cintura. Ela sentiu a ereção dele
cutucando as nádegas dela e seu corpo começou a despertar outra vez.
Ele soltou as pernas dela gentilmente, olhando o tempo todo para ela, como que
enfeitiçado. Depois enganchou os dedos em sua calcinha a puxou para baixo, num rápido
movimento. Gracie olhou para baixo a fim de ver toda a extensão da ereção dele e
estremeceu de medo diante do tamanho dele e de excitação.
Ela ergueu os quadris silenciosamente. Seus olhares se cruzaram e ela viu o olhar de
Rocco se dirigir para os cachos ruivos entre as suas pernas.
O peito dele se expandiu e seus olhos escureceram ainda mais. Logo em seguida, ele
afastou as pernas dela com aquelas mãos enormes e baixou a sua cabeça...
O coração dela parou de bater. Ele não ia... ninguém nunca havia... Foi então que
ela sentiu a respiração dele contra a sua pele quente e suas mãos se cerraram ao sentir o
primeiro golpe da língua dele em seu sexo. Um tremor de puro êxtase a percorreu
enquanto a língua dele mergulhava, girava e a provocava. Ela sentiu todo o seu corpo
ficar tenso novamente, mas subitamente, ela não pode suportar que ele visse o quão
facilmente podia fazê-la gozar e perder o controle como já havia acontecido há pouco.
Ela tentou unir novamente as coxas, puxando-o pelo cabelo antes que fosse tarde
demais. Já estava sentindo todos os seus músculos se contraírem e distenderem em
preparação.
— Não... Pare... É demais.
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Rocco finalmente pareceu ouvi-la e se posicionou em cima dela como uma espécie
de anjo negro. Seu corpo alto e magro tirou o fôlego de Gracie, fazendo com que ela se
esquecesse de tudo o mais à sua volta.
Ela percebeu vagamente que ele colocou um preservativo e então, olhando
intensamente para o seu rosto, posicionou o seu membro junto à entrada quente e úmida
do sexo de Gracie.
Ela respirou fundo enquanto ele mergulhava lenta e inexoravelmente nela,
empurrando e alargando-a a fim de acomodá-lo por inteiro. Gracie estendeu a mão, como
que para detê-lo, mas ao fazê-lo, tocou nos músculos firmes do abdômen dele, molhados
de suor e um novo calor tomou conta dela, facilitando a passagem dele, até a penetrar
completamente.
Gracie sentiu o corpo dele apertado dentro do seu enquanto pequenos tremores de
prazer a atravessaram. Muito lentamente, Rocco começou a entrar e sair de dentro dela
novamente, e os tremores se intensificaram, fazendo todo o corpo de Gracie se arquear
contra o dele.
Ele baixou a cabeça e tomou um dos bicos rosados dela em sua boca, sugando-o
com força, dando início a uma inexorável cavalgada no corpo dela. Os músculos de Gracie
se contraíram em torno dele, como que relutando em soltá-lo.
Qualquer sombra de contenção era agora apenas uma verniz, escondendo a
crescente urgência de ambos. Gracie trançou as pernas em torno dos quadris de Rocco,
puxando-o para mais perto dela. As investidas dele se tornaram mais urgentes, fortes e
profundas. Gracie sentiu o fluxo de prazer se aproximar. Ao se perder no calor de seu
segundo orgasmo no espaço de alguns minutos, ela viu a intensidade da expressão de
Rocco. Ele estava se contendo, esperando ela gozar. Uma extraordinária ternura se abateu
sobre ela quando o mais Poderoso e intenso orgasmo tomou conta dela. O que ela sentira
antes fora apenas um mero precursor daquele êxtase.
Rocco investiu no corpo dela. Os músculos de Gracie se contraíram em torno do seu
membro grosso e rígido, enquanto ele também finalmente cedia aos seus instintos e
permitia que seu corpo sucumbisse ao seu próprio clímax.
Finalmente, uma breve calma pareceu tomar conta de ambos, enquanto o único som
que se ouvia era a respiração acelerada dos dois.
Gracie recobrou a consciência de suas pernas em torno da cintura de Rocco e do
peito úmido dele empurrando-a contra a fria e dura superfície da mesa.
Registrar aquilo foi como uma ducha de água fria.
Ela ficou tensa. Estava nua, deitada de costas, com as pernas enroscadas em torno
dos quadris de Rocco, sob o brilho das luzes da cozinha e Rocco de Marco estava entre as
suas pernas, enquanto o seu corpo ainda o envolvia no mais íntimo dos abraços.
Antes que aquela realidade pudesse invadi-los excessivamente, Rocco se ergueu e
olhou para baixo, com o cabelo caindo sensualmente sobre sua testa. Gracie sentiu o
membro dele se mover dentro dela, inacreditavelmente ainda levemente ereto.
Como se acompanhando a direção dos pensamentos dela, ele lhe sorriu.
— Se não nos mexermos logo, vamos repetir o desempenho muito em breve.
Ele se afastou e desencaixou do corpo dela. Gracie sentiu-se exposta e muito
consciente de sua nudez até Rocco pegá-la no colo e tirá-la da cozinha, evitando
cuidadosa-mente toda a bagunça que eles haviam deixado sobre o chão, carregando-a até
o seu quarto. Ele a pousou sobre a sua cama como se ela fosse feita de porcelana, seguiu
para o banheiro e abriu o chuveiro.
Rocco voltou e a pegou no colo novamente, como se ela não pesasse mais que um
pacote de açúcar, e a posicionou sob o jato potente e quente. Rocco ensaboou todo seu o
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corpo e Gracie desistiu de tentar racionalizar, permitindo que ele cuidasse dela.
Quando a mão dele deslizou por entre as suas pernas, ela arregalou os olhos e
começou a arfar. Rocco estava muito lindo e viril com o cabelo molhado, grudado na
cabeça e a água correndo pelo seu rosto e músculos firmes do seu peito, enquanto
aqueles dedos longos e habilidosos acariciavam o seu sexo, fazendo-a gemer suavemente.
Com um sorriso malicioso, Rocco afastou a sua mão e balançou a cabeça.
— Acho que você precisa de uma pausa antes de recomeçarmos.
Recomeçarmos. Gracie ficou toda excitada só de pensar em passar por toda aquela
apaixonada intensidade novamente. Não sabia se seria capaz de agüentar.
Rocco estava colocando xampu na sua mão e virando-a a fim de lavar o seu cabelo e
Gracie ficou feliz por não ser o foco de aquele olhar negro por um momento.
Depois de alguns minutos, ela o ouviu dizer atrás de si:
— Você não era virgem, era?
Gracie ficou tensa. Ela balançou a cabeça e disse com a voz rouca:
— Não, eu já havia feito sexo antes...
Uma dor já conhecida tomou conta dela ao pensar no rapaz em que ela havia
confiado a ponto de dormir com ele Grace tinha apenas 18 anos, na época, muito jovem e
vulnerável, ainda.
Steven estava na prisão e ela estava se sentindo desesperadamente só.
Assim que dormira com ela, porém, o rapaz a abandonara, dizendo-lhe que ninguém
queria sair com uma vagabunda.
Ele havia espalhado para todo mundo que Gracie tinha sido uma conquista fácil,
coisa que não poderia estar mais distante da verdade, fazendo com que ela não
conseguisse confiar em homem algum, desde então. Ela havia ingressado, logo depois, na
faculdade, e se mantido reservada durante todo o curso.
Poucos dias depois, porém, de conhecer Rocco de Marco, ela já estava permitindo
que ele a seduzisse na mesa da cozinha, como se tivesse feito aquilo durante toda a sua
vida.
— Mas já faz muito tempo?
A voz dele a arrancou de seus pensamentos. Gracie estava mortificada. Era tão
evidente assim? Ela assentiu brevemente. Rocco se aproximou por trás dela e ela
fraquejou ao sentir aquele corpo poderosamente musculoso colado ao dela, com seu
membro, mais uma vez, ereto. Ela lutou para não mover os quadris contra os dele como
queria terrivelmente consciente de sua vulnerabilidade.
Ele passou os braços por baixo dos dela e suas mãos cobriram os seus seios
ensaboados, capturando os seus bicos, para depois baixar a cabeça e dizer suavemente:
— Você estava tão apertadinha... Foi uma delícia.
A sensação de vulnerabilidade de Gracie se dissolveu completamente quando ela se
lembrou de como fora senti-lo penetrá-la naquele primeiro momento. Ela se virou nos
braços de Rocco e olhou para ele timidamente.
— Eu também gostei...
Rocco apenas a olhou por um longo momento, enquanto a água caía ao lado deles e
então a posicionou sob o jato, a fim de enxaguar todo o xampu e sabonete do seu cabelo
e corpo. Seu toque não era mais sedutor, mas vibrante.
Em seguida, ele fechou o jato d'água e pegou duas toalhas, envolvendo-a em uma
delas. Rocco a tirou primeiro do box e depois saiu. Foi como se um vento frio tivesse
soprado entre eles. Gracie ficou aflita. Teria dito alguma coisa errada? Será que havia sido
muito fácil? Como ela poderia lhe explicar que tinha a sensação de que já o conhecia
desde sempre, como se o seu corpo soubesse exatamente o que fazer com ele? Que não
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costumava agir daquela maneira com outros homens?
Gracie não tinha idéia de que o desejo poderia consumi-la como um incêndio em
uma floresta de árvores secas. Ela o viu lhe dar as costas para se enxugar bruscamente.
Não conseguia deixar de devorá-lo com os olhos, mesmo agora, demorando-se no modo
como os seus músculos se contraíam e distendiam.
Hesitante, ela se forçou a perguntar:
— Está tudo bem?
Rocco se deteve e disse, sem olhar para ela:
— E por que não estaria?
Ele pareceu tão distante que Gracie deu um passo para trás, apertando a toalha
contra o seu corpo.
— Se você se arrependeu do que acabou de acontecer... Ele enrolou a toalha em
torno dos seus quadris e olhou
Para ela com uma expressão séria.
— Por que eu me arrependeria? Foi o melhor sexo que eu já tive.
Gracie empalideceu. Aquelas palavras a cortaram feito faca.
— Bem, isso não precisa voltar a acontecer.
Aquilo só o deixou ainda mais feroz. Rocco se aproximou dela, cerrando os dentes.
— Isso não foi um acontecimento esporádico. Vai acontecer novamente, repetidas
vezes, até nós esgotarmos toda essa insanidade.
Um fogo já conhecido se acendeu dentro de Gracie, diante do autoritarismo dele. Ela
endireitou os ombros.
— Pois para o seu governo, eu acho que isso já foi o bastante. Não preciso esgotar
coisa alguma.
Gracie se enrolou na toalha e deu a volta em Rocco, a fim de sair do banheiro, mas
ele a deteve pousando as mãos em seus ombros. Ela o olhou com uma expressão tão
feroz quanto à dele. O ar crepitava em torno deles.
— Aonde você pensa que vai?
— Oh, quer dizer que agora eu sou prisioneira do seu quarto e não mais do seu
apartamento?
— Mas que mulher teimosa — resmungou Rocco, puxando-a para junto de si.
Antes que ela se desse conta do que estava acontecendo, ele a estava beijando,
forçando a cabeça para trás, esmagando a boca de Gracie com a sua. Desafiadora até o
fim, ela manteve a boca fechada e permaneceu rígida até se sentir tonta e ter de respirar
fundo.
Rocco aproveitou o momento e enfiou a sua língua na boca de Gracie com uma
intimidade chocantemente sensual. Ele puxou os quadris dela na direção dos seus e ela
sentiu o ressurgimento do desejo dele. Subitamente, ela estava novamente naquele louco
turbilhão, sentindo-se tomada por um desejo ainda mais intenso que antes, porque ela
agora já havia experimentado o sabor de Rocco, sentido toda a sua força e... É claro, não
podia mais dar as costas a tudo aquilo, assim como ele. Seus ossos se liquefizeram e sua
língua duelou com a dele, como se eles estivessem correndo o risco de ser arrancados um
do outro a qualquer momento.
Ele afastou a sua boca da dela depois de longos e estonteantes segundos e disse
num tom gutural:
— Eu não vou possuí-la como um animal novamente.
Ele se curvou e a tomou em seus braços, conduzindo-a de volta ao quarto. Ele a
pousou sobre a cama e arrancou a toalha que estava enrolada em torno de sua cintura.
Os olhos de Gracie estavam grudados nele enquanto ele descia sobre ela, afastando a
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toalha dela a fim de banquetear os seus olhos no corpo dela, estendido ali, para o seu
deleite, fazendo com que Gracie se lembrasse de algum deus pagão. Ela havia percebido
uma coisa selvagem e crua nele, na noite em que o havia conhecido, mas a realidade
daquilo era inebriante.
Ele passou as costas de sua mão pelo vale entre os seios dela até alcançar a junção
entre as suas coxas. Gracie se contorceu e mordiscou o lábio como se quisesse ter a força
de afastar a mão dele e lhe dizer que não iria sucumbir a ele outra vez.
Rocco afastou as coxas dela com uma mão e pressionou a sua palma contra ela,
olhando fundo nos seus olhos.
— Você é minha, Gracie O'Brien, e eu vou torná-la minha outra e outra vez, até você
não saber mais quem é.

"Eu vou torná-la minha outra e outra vez, até você não saber mais quem é."
Rocco estava de pé, junto à janela de seu quarto, de costas para a vista de um
crepúsculo rosado sobre o céu de Londres. Seus braços estavam cruzados e ele estava
olhando desconfiado para a mulher que dormia na cama, ao seu lado, como se ela
pudesse saltar a qualquer momento e agarrá-lo. Sua sensação era a de haver acabado de
ser catapultado para a realidade depois de uma experiência psicodélica.
Aquelas palavras continuavam reverberando em sua cabeça. Quando as dissera a
ela, ele quisera afirmar que queria fazer com que ela se esquecesse de seu próprio nome
porque ela o havia feito esquecer... De tudo — quem ele era, o que era e por que o era.
Fora somente durante o banho, quando Gracie olhara para ele com aqueles olhos
intensos e sérios que ele começara a recuperar a sanidade... E com ela, a terrível
consciência de que ele havia se exposto demais.
Sentira uma aguda vulnerabilidade, como já não experimentava há anos, a ponto de
quase não mais reconhecê-la, mas Gracie não recuara, exatamente como fizera desde o
primeiro dia, e ele logo foi incendiado novamente por um louco desejo.
A noite anterior havia lhe provado que apesar de todo o seu autocontrole,
conquistado a duras penas, e sua preciosa racionalidade, ele não conseguia deixar de agir
de acordo com aquele desejo. Não havia mais volta para ele depois de ter tocado em
Gracie. Ele fez uma careta. Já não havia existido mais volta desde o momento em que ele
a vira naquele elevador, tão pálida e ansiosa.
Ao vê-la entrar na sala de estar, usando aquele uniforme provocante, Rocco se
arrependera amargamente da presença de Honora Winthrop por lá. Não havia duas
mulheres mais opostas que aquelas duas.
Ele havia lutado contra uma crescente necessidade de vê-la, driblando os
comentários cortantes de Honora Winthrop e voltando à vida cada vez que Gracie
retornava ao recinto, devorando-a com os olhos, dolorosamente consciente de seu estado
de excitação... Por ela.
Rocco ficara tão impaciente, a certa altura, que havia ido procurá-la pessoalmente e
a encontrara se esticando toda para beijar o seu segurança docemente, no rosto. Sua
vontade fora demitir George no ato e chacoalhar Gracie.
Ele tivera de se conter quando Honora fizera aqueles comentários maliciosos a
respeito da comida para não enfiar a sua cara irônica no prato de sobremesa. Assim que
Gracie saiu do recinto, ele se levantou e disse a Honora, calmamente:
— A noite está encerrada. Agradeço por ter vindo, mas acho que nós dois sabemos
que isso não poderá ir adiante.
Ela se levantara também, tremendo de raiva.
— Só porque você quer transar com a empregada? Foi Por isso que se recusou a
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dormir comigo? — Antes que Rocco pudesse responder, porém, ela lhe dissera ainda: —
Será que não entende que pode ter a mim e a ela? Tudo o que eu lhe peço é discrição.
Você pode dormir com quem quiser, contanto que mantenhamos uma fachada de
casamento feliz.

Aquelas palavras haviam retratado exatamente o que ele tinha se determinado a


conquistar ao se casar com ela, e subitamente, Rocco as repeliu, como se elas estivessem
envenenadas.
— Saia daqui. Eu mudei de idéia.
Honora apenas balançara a cabeça, com um olhar gelado e repleto de maliciosa
pena.
— Você não vai ter outra chance como essa.
— Eu vou conquistar as minhas próprias chances... Como sempre fiz. Gostaria que
você se desculpasse com Gracie pelo modo rude com que falou com ela, e então, fosse
embora.
Ela havia jogado a cabeça para trás e rido, para então sair, batendo a porta.
Agora, à luz do início da manhã, Rocco mal podia acreditar que havia arruinado tão
espetacularmente a sua reputação de um só golpe. Sabia que alguém como Honora
Winthrop não perderia tempo em espalhar a novidade, acrescida de diversas inverdades,
para preservar a sua própria reputação.
Ele nunca mais conseguiria voltar a se aproximar de uma socialite, mas não estava
nem um pouco aflito para reparar aquela situação. Não ao olhar para a mulher deitada em
sua cama, espalhada em voluptuoso abandono, ainda com as marcas da noite apaixonada
que eles haviam passado juntos, em sua pele delicadamente alva.
Seus cachos ruivos e selvagens se espalhavam em torno da cabeça dela, por sobre o
travesseiro branco. Um longo cacho se enrolava encantadoramente sobre o peito dela,
beijando a tentadora curva de seu seio. O corpo de Rocco já estava rijo. Bastara apenas
um olhar na direção dela, ou a lembrança de como fora ser envolvido em seu abraço
quente e apertado.
Rocco não se lembrava de alguma vez ter tido uma amante tão responsiva e
generosa. Orgulhava-se de ser um homem viril e sensual, e gostava muito de sexo, mas
nunca tivera dificuldade de manter o autocontrole.
Mas tudo havia sido diferente com Gracie. Ele se contorceu ao lembrar de como
havia afastado as coisas que estavam sobre a mesa da cozinha para poder possuí-la ali
mesmo, como se fosse um animal descontrolado. E mesmo assim... Ela adorara a sua
atitude e se desmanchara em torno dele como nas suas fantasias eróticas mais secretas.
Era como se ele tivesse apenas existido por um longo tempo, e algo, ou alguém o
tivesse despertado de um longo transe.
As cores estavam mais vívidas, os sons mais claros. Algo fundamental em suas
crenças a respeito daquela mulher havia mudado na noite anterior, ao ver o quanto ela
havia se esmerado para preparar aquela bela refeição e quando vira a mágoa genuína em
seus olhos devido ao modo como havia sido tratada.
Ela havia gastado muito pouco no seu cartão de crédito para comprar os
ingredientes. George o havia devolvido a ele com um olhar explícito, na volta, como se lhe
dissesse: Está vendo? Ela não é como as outras. Rocco voltara a achar que ela não tinha
nada a ver com as maquinações de seu irmão. Mesmo assim, dissera a voz da razão, ela
era leal a ele, e aquilo, por si só, significava que ele não podia confiar completamente
nela.
Como ele podia colocar tanta coisa em risco, apenas por uma mulher? A vida que ele
levava agora era a ab-soluta antítese de paixão, caos e violência, e ele estava
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considerando a possibilidade de mergulhar novamente em tudo aquilo com Gracie?
Não que tudo estivesse perdido. Ele poderia ter Gracie O'Brien, e quando o seu
desejo por ela se consumisse como sempre acontecia, ele restauraria a sua vida dei modo
a assegurar o seu precioso status, outra vez.
Ele sorriu cinicamente. Apesar da advertência de Honora Winthrop, sabia que o
dinheiro podia comprar qualquer coisa, e nenhuma daquelas mulheres resistiria se ele
quisesse inseri-las em sua protegida sociedade através do casamento.
Desde aquele dia, na Itália, quando havia sido cuspido e ignorado por pessoas cujo
sangue era o mesmo que corria em suas veias, e abandonado por elas, imunes e
protegidas por seu status, ele ansiava por aquela proteção, aquela segurança, e não podia
perder aquele objetivo de vista agora, quando o tinha praticamente na palma de sua mão.
Ele podia ter tudo aquilo e Gracie também, e pretendia fazê-lo.
Rocco voltou para a cama e se sentou ao lado de Gracie, sorrindo ao vê-la franzir
levemente a testa. Sua boca ainda estava deliciosamente inchada. Ele se inclinou e a
beijou, fazendo com que ela abrisse os olhos.
Depois se afastou por um momento, a fim de vê-la olhando para ele com aqueles
olhos grandes, sérios e desconfiados.
— Oi — disse ela, com a voz rouca.
Aquilo foi tão simples e sem artifício que mexeu com Rocco. Todas as suas recentes
conclusões lhe pareceram subitamente fúteis. Sem querer se questionar àquele respeito,
ele baixou a cabeça e a beijou até Gracie ficar sem fôlego e arquear o seu corpo na
direção dele, até ambos voltarem a se perder, um no outro.

Ao DESPERTAR novamente, Gracie piscou e apertou os olhos, tentando se acostumar


à luz do sol que entrava no quarto. O quarto de Rocco pensou ela, com um gemido, para
então perceber que estava nua e apenas parcialmente descoberta. Ela puxou o lençol e
olhou em torno, tentando ignorar a dor entre as suas pernas e em cada músculo do seu
corpo.
O quarto estava vazio. Tudo estava em silêncio. Ela olhou para o relógio sobre a
mesinha de cabeceira e ao ver que já eram 13h, se sentou com um gritinho para depois
voltar a deitar, um pouco tonta. As imagens começaram a fluir pela sua mente. A noite
interminável enroscada com Rocco. Seu corpo poderoso investindo no dela repetidas
vezes até ela chorar de tanto prazer.
E depois, quando ela despertara com o dia nascendo, lá fora, e o encontrara
sentado, olhando para ela com uma opressão intensa. Rocco a beijara e tudo recomeçara
do início. Seu corpo estava sensível, mas Gracie havia adorado a sensação de Rocco
possuindo-a com tanta urgência.
Agora, porém, ao mover a perna, ela fez uma careta. Gracie saiu cuidadosamente da
cama, enrolada no lençol, E foi até o banheiro. As toalhas usadas por Rocco estavam na
pia e chão. Seu cheiro inconfundível fez com que ela se deleitasse com um novo ataque
das lembranças.
Gracie evitou tentar compreender como havia podido se entregar tão livremente a
alguém como ele. Ele não apenas não confiava nela, como pertencia a um mundo
totalmente diferente do dela. Ela vinha de um lugar feio, repleto de apartamentos
sombrios e poucas oportunidades e ele, de um lugar repleto de belezas e de uma
linhagem que remontava até César, O Grande.
Ela não podia tomar banho ali, com o cheiro dele ainda pairando no ar. Foi até a
porta do quarto, ainda enrolada no lençol, e a abriu devagar, com medo de que alguém a
visse do outro lado, mas não havia ninguém. Gracie correu, então, para o seu quarto e
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trancou a porta.
Logo depois, tomou uma ducha, esfregando bem sua pele e músculos doloridos até
finalmente relaxar e recuperar alguma espécie de normalidade. Saiu de lá o mais coberta
que podia, usando uma calça larga e uma camisa, e o cabelo preso em um rabo de
cavalo.
Ao abrir a porta de seu quarto, ela ouviu um barulho, vindo da cozinha, e sentiu um
calor invadir o seu rosto ao pensar na bagunça que eles haviam deixado por lá. Seu
vestido rasgado de cima a baixo! Sua calcinha!
Gracie imaginou o enorme George no meio daquilo tudo, olhando ao redor com uma
expressão escandalizada e o rosto em chamas, e correu até a cozinha. A visão que a
esperava por ela, ali, porém, foi tão inesperada que ela chegou a tropeçar quando se
deteve.
A pequena mulher estava esfregando o chão e a cozinha não refletia nada do que
havia acontecido no dia, ou noite anteriores. Tudo estava arrumadinho e guardado, e
ainda havia flores frescas na mesa em que ela e Rocco haviam...
— Você dever ser Gracie.
Gracie olhou estupidamente para a mulher de meia-idade que lhe sorriu e apertou a
mão que esta lhe estendeu.
— Sim, mas... Desculpe, mas quem é você?
— Sou a senhora Jones. Fui contratada pelo senhor de Marco por um mês de
experiência, como sua empregada. Acabo de voltar a trabalhar em período integral, agora
que meus filhos estão na universidade, mas não sei se vou me adaptar...
Gracie ficou olhando para a mulher que continuava a tagarelar como se não
houvesse nada de errado. Se aquela mulher era a nova empregada, o que diabos era ela,
então?
— Você está bem, minha querida?
Gracie voltou a sua atenção novamente para a empregada e assentiu vagamente.
— George está lá fora?
A mulher arregalou os olhos.
— O grandão?
Gracie assentiu novamente e foi à procura de George que estava lendo calmamente
o seu jornal e não parecia traumatizado com nada que pudesse ter visto.
— Sabe onde está o senhor de Marco? George franziu a testa.
— Deve estar no escritório. Ele foi para lá há algumas horas, pouco depois da
chegada da nova empregada.
Gracie assentiu e seguiu até o elevador, detendo-se apenas quando George chamou
a sua atenção para os seus pés. Descalços. Sem jeito, ela voltou para dentro e calçou um
par de sapatos.

Rocco ESTAVA junto à janela, levando a mão até a nuca. Não podia ignorar a
sensação de saciedade em seu corpo, como se tivesse acabado de se refestelar em um
banquete
Ele se deteve, reconhecendo imediatamente a mudança da energia em torno do
escritório. Virou-se lentamente e viu uma Gracie pálida, coberta da cabeça aos pés com
roupas largas, vindo na sua direção. Seu cabelo estava preso, fazendo com que ela
parecesse mais nova. Ele lamentou a falta de privacidade de seu escritório, ao ser tomado
de assalto pelas imagens do que gostaria de fazer com ela, ali mesmo.
Gracie já havia quase chegado à porta. Seus olhos escuros estavam injetados nos
dele com uma intensidade inabalável, em um rosto que não sorria.
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Capítulo Sete

— O QUE está acontecendo?


Gracie cruzou os braços, como se aquilo pudesse protegê-la da atração animal que o
homem a poucos centímetros de distância exercia sobre ela. Seu corpo, porém, a traiu. Os
bicos de seus seios enrijeceram, seu estômago se contraiu e o calor entre as suas
pernas...
— Do que é que você está falando?
— Eu conheci a nova empregada. O que eu serei então? Rocco enfiou as mãos nos
bolsos. Estava sem paletó e deslumbrante, com os raios de sol por trás de si, ressaltando
a amplitude de sua estrutura física. Sua camisa era tão justa que ela pode vislumbrar o
tom escuro de sua pele e os seus músculos bem delineados.
Ele deu a volta na mesa, ainda com as mãos nos bolsos. Por um momento, Gracie
imaginou que ele havia feito aquilo para não ceder à tentação de tocá-la, mas depois
maldisse a sua imaginação fértil.
— Eu contratei a senhorita Jones porque não quero mais que você cuide dos
afazeres domésticos.
Gracie injetou uma falsa vivacidade em sua voz.
— Quer dizer que eu estou livre para ir embora?
Ele balançou a cabeça, com um brilho em seu olhar.
— De jeito nenhum. Você nunca esteve menos livre.
— O que houve, então? Fui promovida à sua cama? — disse ela, tentando soar
aborrecida, porém arfante.
Um pequeno sorriso curvou o canto da boca de Rocco.
— Sim, você foi promovida à minha cama. Eu gosto do som disso.
— Pois eu não! Não sou o seu brinquedinho, sabia?
— Eu tenho plena consciência disso. Você é uma substância muito volátil com o
charme de uma gatinha e as garras de uma felina adulta.
Gracie piscou repetidas vezes e disse com toda a sinceridade:
— Não sei se isso foi um elogio ou um insulto.
— Oh, foi um elogio, pode acreditar.
Ele se aproximou dela, acelerando a respiração de Gracie, lançando um breve e
expressivo olhar para cada um dos lados do escritório.
— Você tem razão... quanto ao vidro. Fiz esta escolha porque fico nervoso quando
não sei quem está vindo, ou o que está acontecendo, mas pela primeira vez, desejei ter
persianas...
A garganta de Gracie secou.
— Assim, eu poderia trancar a porta e conduzi-la até o sofá. Eu a pousaria nele e
tiraria a sua blusa para poder tocar e saborear os seus seios. Depois levaria a minha mão
mais para baixo, deslizando pelo elástico frouxo da sua calça até alcançar a sua calcinha e
prosseguiria até encontrar os seus cachos macios. Fico me perguntando se eles já estão
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úmidos...
— Pare com isso! — exclamou Gracie, com os braços enroscados em torno de seu
peito com tanta força que ela já estava ficando com dificuldade de respirar.
Ela estava suando e com o coração acelerado. Deus, ela queria que Rocco a pegasse
e a estendesse sobre a sua mesa, como havia feito na cozinha, na noite anterior.
Envergonhada, Gracie lançou um breve olhar para ambos os lados direita e
esquerda, mas viu apenas um mar de cabeças baixas, todas concentradas em seus
trabalhos.
Ela voltou a olhar para Rocco e ficou tonta, quando, num impulso, baixou o olhar e
viu o ponto onde a calça de Rocco mal conseguia confinar a sua excitação.
Num esforço patético de mudar o rumo daquela conversa, ela evitou o olhar de
Rocco e perguntou:
— A cozinha... Esta manhã... A senhorita Jones...?
Gracie não conseguiu completar a frase, excessivamente envergonhada. Rocco se
aproximou e inclinou o rosto dela na direção do seu. Ela sentiu o seu cheiro, seu calor, sua
energia sexual e o desejo que ele emanava.
— Eu arrumei tudo.
Ela foi tomada de alívio, apesar da surpresa.
— Não consigo imaginar uma coisa dessas... Rocco soltou o queixo dela e sorriu
secamente.
— Eu posso catar meia dúzia de coisas do chão, sabia? Não sou nenhum inválido.
Gracie estremeceu ao imaginá-lo pegando a sua calcinha e o vestido que havia
rasgado com as próprias mãos e se virou para ir embora com um gemido abafado.
— Espere.
Relutante, ela se deteve e virou outra vez. Rocco estava atrás de sua mesa, o que
permitiu que ela respirasse um pouco mais facilmente.
— Está com o seu passaporte em dia?
Ela assentiu, perguntando-se onde aquilo tudo ia dar.
— Ótimo. Nós vamos partir esta tarde para passar dois dias na Tailândia, e de lá,
iremos para Nova York.
Gracie mal pode acreditar no que havia acabado de ouvir.
— Tailândia?
— Eu tenho de tratar de negócios por lá e quero que você venha comigo.
O coração dela pareceu descarrilar.
— Como... O que, exatamente?
Ele espalmou as mãos sobre a mesa, com um olhar feroz e sorriu como o grande
sedutor que era.
— Como minha amante, é claro.

GRACIE AINDA continuava em estado de choque, algumas horas depois, sentada no


banco de trás do carro de Rocco, com as longas pernas dele estendidas ao seu lado. Ela
estava agarrando o seu passaporte e olhando pela janela, a caminho do aeroporto
particular de Rocco, onde se encontrava o seu avião igualmente particular...
Subitamente, o passaporte foi arrancado de suas mãos.
— Hei!
Vinha evitando olhar para Rocco desde que ele havia chegado ao apartamento para
pegá-la. Rocco a olhara de cima a baixo e resmungado qualquer coisa a respeito de
roupas adequadas antes de fazer uma ligação.
Depois a arrastara do apartamento, deixando George para trás, e a conduzira até o
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seu carro, e agora estava confiscando o seu passaporte.
— Você não viajou muito? — perguntou ele, arqueando a sobrancelha.
Gracie tentou pegar o passaporte de volta, mas Rocco o ergueu, fazendo com que
ela caísse sobre o torso dele, numa curva mais fechada. Com o rosto em brasa, Gracie
tentou se recompor, mas Rocco estendeu um braço e a manteve junto de si. Os seios dela
estavam esmagados contra ele e seus bicos já despontavam em minúsculos pontos
latejantes.
Os rostos deles estavam tão próximos um do outro que Gracie podia sentir a
respiração quente de Rocco. O olhar dela deslizou até a sua boca. Ela ansiava por tocá-la,
traçar o seu contorno com o dedo, sentir sua firmeza.
Ele passou a mão pelo cabelo dela, agarrando a sua nuca.
— Gracie... — disse ele, num tom gutural.
Ela desejou avidamente que ele a beijasse. Tinha permanecido em um estado muito
próximo da excitação desde que ele havia lhe dirigido aquelas palavras provocantes, em
seu escritório.
Houve uma batida discreta na janela, ao lado de Rocco. Gracie se afastou
bruscamente dele, arrasada ao perceber o quão disposta estivera de fazer amor com ele,
no banco de trás do carro.
Gracie saiu do carro cambaleante e Rocco apenas olhou para ela com uma expressão
divertida. Eles seguiram em direção ao avião que brilhava sob a luz do sol que se punha.
Rocco lhe estendeu a mão, surpreendendo-a. Gracie havia esperado que ele caminhasse
autoritariamente à sua frente, sem nem sequer checar se ela o estava seguindo. Ela olhou
para a mão dele por um bom tempo e então pousou a sua sobre a dele.
Odiava ter de admitir aquilo, mas por algum motivo, aquele momento lhe pareceu
muito significativo.

Rocco OLHOU para Gracie, sentada do outro lado do corredor. Estava olhando pela
janela, fascinada, como se nunca tivesse visto um aeroporto antes. Estar com uma mulher
que não supunha ter de voltar toda a sua atenção a ele e que também não se importava
nem um pouco com o fato de não estar usando maquiagem era algo completamente novo
para ele.
O avião começou a taxiar pela pista e Rocco notou que o cinto de segurança dela
estava desafivelado. Ele fez um gesto na direção do colo dela, mas Gracie continuou
olhando para baixo, sem reação alguma.
— Seu cinto de segurança.
— Oh — disse ela, tentando, desajeitadamente, fechá-lo. Foi então que Rocco se
lembrou do passaporte dela, novinho em folha e se apressou em afivelar o cinto para ela.
— Eu poderia ter feito isso sozinha. Rocco se recostou.
— Você nunca esteve em um avião antes, não é?
Gracie enrubesceu. Ele percebeu que ela estava lutando contra o desejo de dizer
simplesmente É claro que já! Depois de um breve momento, porém, ela apenas balançou
a cabeça e comprimiu os lábios, embaraçada, provocando uma emoção inominável em
Rocco.
— Por que, então, o passaporte? Estava planejando ir a algum lugar?
Assim que proferiu a pergunta, ele sentiu um arrepio percorrer a sua espinha. Como
podia ter sido tão estúpido? Antes mesmo que Gracie pudesse responder, ele riu alto:
— Dio. É claro! Você deve ter planejado uma bela viagem com o seu irmão e o
milhão de euros que ele roubou dos meus clientes.
Todos os sentimentos doces que Gracie havia nutrido por Rocco desde que ele havia
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pegado em sua mão se dissolveram. E pensar que ela estivera prestes a lhe contar o
verdadeiro motivo pelo qual havia adquirido um novo passaporte! Ela se contorceu ao
pensar em como ele teria rido se ela o tivesse feito.
Em vez disso, ela apenas sorriu, mergulhando fundo novamente dentro de si mesma
e odiando-o por estar lhe proporcionando uma experiência tão incrível, com uma mão, e
tirando-a com outra.
— Exatamente. Estávamos pensando em ir para a Austrália, em busca de um
recomeço. É isso o que você quer ouvir, Rocco? Pois eu posso repetir o que bem entender
até ficar roxa, mas isso não mudaria em nada o fato de que não é verdade.
Dito isso, ela se virou para a janela, respirando fundo e tremulamente. Era como se,
mais uma vez, ela tivesse esquecido a inerente desconfiança e inimizade que os separava.
O jogo de espera até que Steven reaparecesse.
Steven pensou ela, tomada por um sentimento de culpa. Como podia ter se
esquecido por completo do irmão? Ela não tinha como saber onde, nem como ele estava,
e pela primeira vez, quis, efetivamente, que os homens de Rocco o encontrassem. Ao
menos, assim, ela saberia que ele estava a salvo e poderia lutar para protegê-lo da ira de
Rocco.
Quando aquilo acontecesse, Rocco não teria mais razão para mantê-la junto de si.
Enquanto olhava pela janela, agarrando os braços do assento com um medo que ela
se recusava a demonstrar, em sua primeira decolagem, Gracie jurou que não se deixaria
envolver por Rocco de Marco, pois ele poderia lhe causar uma grave decepção, como
todas as outras pessoas importantes de sua vida que a haviam magoado.
Todas elas haviam deixado marcas indeléveis. Seu pai, de quem ela mal se
lembrava, sua mãe, sua avó e o primeiro namorado. Ela havia sido abandonada ou re-
jeitada por todos. Steven era a única constante que ela tivera na vida, e ele precisava que
ela fosse forte para que pudesse voltar a defendê-lo.
Gracie não podia confiar em ninguém a não ser em si mesma, e quanto mais cedo se
lembrasse disso e parasse de sentir aquelas coisas por Rocco de Marco que nunca
deveriam ter vindo à vida, melhor.

UMA HORA depois, Rocco suspirou frustrado, passando as mãos pelo cabelo. A tensão
entre ele e Gracie podia ser cortada com faca. Ele não conseguia deixar de sentir que a
havia magoado gravemente. Ela estava virada tão resolutamente em direção à janela que
ia acabar com torcicolo! — Gracie...
Não houve reação alguma.
Como ele podia querer lhe pedir desculpas e acreditar na inocência dela quando
tinha todas as razões do mundo para achar que ela se manteria firmemente ao lado do
irmão?
Ele a olhou mais de perto e notou que Gracie estava respirando estavelmente,
embora parecesse extremamente desconfortável.
Eu posso lhe dizer o que você quiser até ficar roxa, que isso não vai mudar em nada
o fato de que não é verdade.
Maldizendo-se, ele afastou os papéis em que não estava mesmo conseguindo se
concentrar e se levantou de seu assento.
Debruçou-se, então, sobre Gracie, e viu o seu rosto pálido. Ela havia adormecido.
Rocco se deteve ao ver a inconfundível trilha salgada de uma lágrima em sua face. Ela
havia chorado.
Maldizendo-se mais uma vez, agora com veemência, Rocco soltou o cinto de Gracie e
a tomou em seu colo. Ela despertou um pouco atordoada, enquanto Rocco seguia até o
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centro do avião, sentindo o seu sangue se aquecer quando os seios macios dela se
aninharam junto ao seu peito.
— Shhh... Você adormeceu. Eu só vou deixá-la mais confortável.
Gracie estava sonolenta demais para fazer o que quer que fosse. Sabia que deveria
estar lutando contra alguma coisa, mas não conseguiu reunir energia suficiente para
descobrir de que se tratava, exatamente.
Percebeu apenas que estava sendo pousada sobre uma superfície macia e que algo
deliciosamente sedoso estava sendo estendido sobre ela.
Seus sapatos foram retirados e então a cama afundou e ela sentiu um leve toque em
sua testa. Tão leve, que ela não teve sequer certeza de que aquilo havia sido um beijo.

BEM MAIS tarde, Gracie despertou completamente desorientada, até se lembrar que
estava em um avião. Ela olhou ao redor e abriu a boca, pasma. Estava em um quarto,
num avião.
Afastou, então, a coberta e seguiu pé ante pé, até a janelas, e olhou para fora. Viu a
luz brilhante do sol, a curvatura da Terra e bem mais abaixo, majestosas montanhas de
picos brancos. Nunca havia visto nada tão espetacular.
Ela se levantou e se espreguiçou, tentando se lembrar de como havia ido parar
naquela cama. Lembrava-se de ter estado nos braços de Rocco. E de um beijo, talvez.
Sua mágoa devido à desconfiança dele parecia ter desaparecido. Decidida a parar de
desejar que as coisas pudessem ser diferentes, ela se pôs a explorar o quarto e logo
descobriu um banheiro repleto de toalhas felpudas e itens de toalete, uma banheira e uma
ducha! Ela aproveitou a oportunidade e tirou a roupa, a fim de tomar um banho bem
quentinho.
Quando voltou para o quarto, enrolada na toalha, ela divisou numerosas sacolas e
caixas de compras. Incapaz de se conter foi investigá-las e descobriu que se tratavam de
roupas femininas. Seriam para ela?
Ela voltou a vestir o seu jeans e tirou uma camisa limpa de sua própria mala, para
depois sair em busca de Rocco. Ao abrir a porta, porém, encontrou o avião mergulhado no
silêncio e na penumbra. Havia apenas um comissário quando eles embarcaram e Gracie
imaginou que ele deveria estar dormindo também, em algum lugar.
Gracie se deteve ao ver o assento de Rocco completamente reclinado, com ele
adormecido e se sentiu culpada por ele não estar desfrutando do mesmo conforto que ela
tivera.
Um de seus braços estava caído, enquanto o outro repousava sobre o seu peito.
Ele parecia tão mais jovem que ela se sentou sobre o braço do assento em frente a
ele e deixou os seus olhos passearem pelo seu rosto.
Subitamente, ele se remexeu e Gracie teve um sobressalto, horrorizada diante da
idéia de ser flagrada admirando-o como uma garotinha apaixonada. Ela olhou para os
lados antes de baixar novamente o olhar e o viu despertar, lindo, mesmo naquelas
condições.
— Sinto muito. Não queria acordá-lo.
Para a surpresa de Gracie, Rocco pareceu estranhamente desorientado.
Estava tão acostumada a vê-lo no controle de tudo, o tempo todo, que aquilo foi
como enxergar uma fenda na sua armadura, o que fez o coração dela se revirar dentro do
peito. Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, porém, ele recuperou a compostura na
velocidade da luz e a segurou pela cintura, desequilibrando-a, fazendo com que ela caísse
em cima dele. Gracie soltou um gritinho e pousou, sem fôlego, sobre o peito amplo dele.
Ele deslizou as mãos sob a camisa dela, a fim de entrar em contato com a sua pele. Seus
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olhos estavam escurecidos e suas pálpebras pesadas.
Gracie se contorceu e sentiu um calor correr para todas as suas extremidades.
— Rocco... Pare.
As palavras saíram arfantes e sem nenhuma convicção. Sua mágoa devido às
suspeitas dele se haviam se esvaído. Ela era mesmo uma fraca.
As mãos dele se detiveram e ele a olhou por um longo momento, antes de
perguntar, com a voz rouca:
— Por que, então, você tem um passaporte novinho em folha?
Gracie conteve a respiração, procurando algum sinal na expressão de Rocco de que
ele não a estava levando a sério.
— Você ia rir de mim.
— Experimente.
Gracie tentou recuar, mas Rocco apenas a segurou com mais força, de modo que ela
ficasse praticamente aninhada em seu colo. Como é que ela podia se concentrar sentindo
o membro dele enrijecer contra o seu corpo?
Ela olhou para baixo, evitando o olhar dele, como se aquilo pudesse ajudá-la a se
concentrar e brincou com o botão da camisa dele.
— Eu sempre quis viajar, desde criancinha. Tirei o meu passaporte assim que foi
possível, apesar de não ter intenção de ir a lugar algum, e ele foi renovado recentemente.
A idéia de estar pronta para partir a qualquer momento me pareceu extremamente
romântica, como se houvesse um mundo de oportunidades à minha espera que eu
pudesse vir a explorar um dia.
Gracie arriscou uma rápida olhadela para Rocco, mas não conseguiu decifrar a sua
expressão. Ela nunca havia se sentido tão exposta.
— É uma bobagem, eu sei...
Rocco lutou com todas as suas forças contra a tempestade de sentimentos
masculinos que se ergueram dentro dele.
Ou Gracie era a melhor atriz do mundo... Ou estava lhe dizendo a verdade. Ela não
estava conseguindo nem mesmo encará-lo o que fez com que o coração de Rocco se
contorcesse dentro do peito. Ele sabia do que ela estava falando porque tivera a mesma
sensação assim que pusera as mãos em seu primeiro passaporte. Deixara a Itália e nunca
mais olhara para trás.
Rocco inclinou o rosto dela na direção do seu, tentando abafar a emoção que tomava
conta dele com a única arma de que dispunha. Desejo.
— Está bem.
Gracie olhou para ele.
— Está bem?
— Eu acredito em você.
O coração de Gracie pareceu se expandir dentro do peito. Toda a sua mágoa e raiva
se dissolveram e ela maldisse Rocco silenciosamente, pois sabia que seria muito mais fácil
lidar com seus sentimentos se ele continuasse não acreditando nela.
Ele se levantou, carregando-a nos braços, e ela soltou mais um gritinho.
— Para onde estamos indo?
— Nos juntar ao clube das milhas de altitude. As entranhas de Gracie se
liquefizeram.
— Rocco... Nós não podemos...
Sua súplica, porém, foi abafada pelo som da porta se fechando, e quando Rocco a
pousou na cama e tomou o rosto dela em suas mãos, beijando-a profundamente, ela não
conseguiu mais pensar em motivo algum que os impedisse.
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UMA HORA depois, Gracie estava enroscada no grande corpo de Rocco, com uma
perna de cada lado dos seus quadris. A respiração de ambos ainda estava arfante e seus
corações, batendo com força. Ela havia esperado que fazer amor com ele não fosse mais
tão intenso daquela vez, como da primeira, mas a verdade é que foi tudo ainda melhor,
pois agora, seu corpo conhecia o prazer que ele poderia lhe proporcionar.
Ela era uma mera novata no assunto, mas sabia, instintivamente, que nenhum outro
homem poderia afetá-la com a mesma intensidade que Rocco.
Seu coração se contorceu dolorosamente ao pensar que aquela experiência devia ser
bem mais banal para ele.
A mão dela estava pousada sobre o ombro dele, e ao deslizá-la, Gracie notou uma
região de pele mais áspera.
— O que é isso? — perguntou ela.
— Eu caí da bicicleta quando era criança.
Gracie olhou para ele, desconfiada. Os olhos dele ainda estavam fechados e ela foi
capaz de jurar que aquilo não era verdade. Mas por que ele mentiria?
Sabendo que ele não se abriria com ela, Gracie decidiu mudar de assunto:
— Quando acordei, há pouco, notei que estávamos sobrevoando montanhas com
picos brancos. O que era aquilo?
— Provavelmente o Himalaia.
— Uau! Não acredito que eu talvez estivesse olhando para o Everest.
Rocco deu de ombros e disse:
— Pode ter sido. Ele abriu os seus olhos sonolentos e o seu tom vagamente
entediado incomodou Gracie.
— Você não tem idéia de como é privilegiado, não é? Acha realmente que tudo é
assim tão evidente?
Ela se levantou da cama, envergonhada por conta de sua nudez e se pôs a procurar
as suas roupas, mas Rocco a agarrou pelo pulso. Seus olhos estavam escuros e
indecifráveis.
— Eu não considero nada evidente. Nem um segundo sequer.
Seu tom de voz fez com que Gracie se calasse. Ela percebeu que havia atingido
algum ponto fraco dele e se lembrou da noite cataclismática, na cozinha, em que ele lhe
dissera que sabia o que era não ser notado.
— É que... Não parece. Você tem o melhor de tudo.
— Porque eu posso. Porque conquistei isso. Mas que diferença isso faz para você,
afinal?
Aquela pergunta a assustou. Por que ela se importava tanto? Gracie olhou para ele,
e tentou, em vão, decifrar a sua expressão. Ela se importava porque sabia que havia algo
relativo àquele homem que ia além daquele desejo superficial de ser bem-sucedido. Algo
mais grave.
Um longo e enigmático silêncio se abateu sobre eles. Gracie conteve a respiração,
certa de que Rocco ia dizer alguma coisa, mas, então, ele a puxou para si e colou os seus
lábios aos dela, obrigando-a a se abrir para ele.
Bastaram alguns segundos inebriantes para que Gracie se sentisse novamente
seguindo rumo ao êxtase. Estava aterrorizada com a possibilidade de Rocco perceber
quanto controle exercia sobre ela.
Gracie se retraiu e ele sorriu languidamente, desenhando círculos nas costas dela.
Estava acionando novamente o seu charme, e o pior era que estava funcionando.
Era evidente que ele estava evitando perguntas difíceis, por isso, Gracie achou
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melhor recuar.
— Vou tomar uma ducha.
Ela se levantou e foi até o banheiro com o máximo de naturalidade de que foi capaz
terrivelmente constrangida com o olhar de Rocco injetado em suas costas.

ASSIM QUE Gracie desapareceu, o sorriso de Rocco também se foi. Ele se deitou na
cama, com o corpo todo tenso e os punhos cerrados sobre o lençol que mal o cobria.
Gracie tinha uma capacidade ímpar. Quase arrancara a sua mão quando ela tocara na
cicatriz de sua antiga tatuagem. Dormir novamente com ela o havia virado do avesso. Era
como se ela pudesse enxergar por dentro dele e alcançar o seu ponto fraco, colocando
tudo a perder.
Ele não havia esperado sentir o mesmo desejo animal por ela, outra vez. Assim que
tomou o rosto de Gracie nas mãos, porém, e a boca dela sob a sua, ele não conseguiu
mais pensar em outra coisa que não o seu desejo urgente de se fundir a ela. O avião
poderia ter caído no Everest que ele não teria percebido, nem se importado.
Rocco soltou um palavrão.
As mulheres não mexiam com ele daquele jeito. Sua mãe havia lhe ensinado, a duras
penas, a jamais colocá-las em primeiro lugar.
Ainda adolescente Rocco descobrira que as moças que o faziam de tolo preferiam os
rapazes com armas maiores, e ele, felizmente, nunca havia se envolvido com aquele tipo
de coisa só para ficar com uma moça que logo o teria deixado pelo próximo.
Aquela fora a sua segunda grande lição.
A terceira se dera quando as suas meias-irmãs, duas lindas princesas louras, de
olhos azuis, o haviam ignorado na rua sem lançar um olhar sequer para o jovem que havia
acabado de abordar o pai delas, chamando-o de Pai, e não demonstraram reação alguma
quando este cuspiu nele e o jogou no chão.
Quando finalmente conseguiu deixar a Itália e dar início à sua escalada social, Rocco
teve muito prazer em seduzir as mulheres daquele novo mundo. Tinha certa satisfação em
saber que elas jamais tocariam um dedo nele sequer se conhecessem a sua procedência.
Quanto mais frio ele era, maior se tornava a sua reputação.
Gracie, porém, com seus olhos sérios, seu feroz instinto de proteção para com o
irmão e seu deslumbramento com a possibilidade de voar até o Himalaia estava
rapidamente colocando todas as suas defesas abaixo.
Ele não havia tido como se preservar quando ela lhe falara a respeito de seu
passaporte. Não conseguiu se esconder, nem atacar, como fazia normalmente quando se
sentia vulnerável.
Ela estava se conectando a uma parte sua a muito enterrada e negada, e Rocco não
tinha gostado nada do desequilíbrio que vinha em decorrência disso. Sabia que havia sido
um tolo em acreditar nas lágrimas de uma mulher, e mesmo naquela bela história a
respeito de um sonho infantil, mas, possivelmente pela primeira vez, em toda a sua vida,
descobriu que uma parte dele queria acreditar nela, ainda que apenas por um momento.

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Capítulo Oito

— PARA QUEM são essas roupas? — perguntou Gracie, ao sair do banheiro pela
segunda vez, enrolada em uma toalha.
— São para você — disse Rocco, acabando de abotoar a sua camisa, com o cabelo
ainda úmido. — Você precisa de roupas adequadas para o clima. Não tem idéia de como
está quente lá fora. Eu tenho de comparecer a alguns eventos em Bangkok e Nova York,
de modo que você precisará de um vestido de noite apropriado.
— Está com medo que eu o embarace em público? Talvez não devesse ter chutado a
sua noiva tão depressa, na outra noite.
Gracie sabia que havia sido petulante, mas parecia não conseguir se conter. O
contraste entre ela e as mulheres com que Rocco costumava se envolver era muito
evidente, e naquele momento, a comparação, certamente não lhe estava sendo nada
favorável. — Por acaso, preciso lembrá-lo de que o figurino que você me fez usar na outra
noite era um tamanho menor que o meu?
— Já chega! — exclamou ele, aproximando-se dela.
Gracie calou a boca. Rocco parecia perigoso.
— Pela enésima vez, ela não era minha noiva e a companhia que enviou o uniforme
cometeu um erro. Você verá que estas peças cairão em você perfeitamente, e se não
vesti-las, eu mesmo as colocarei em você.
Gracie ergueu o queixo.
— Você não me assusta e sabe disso.
Pela segunda vez, ele não reagiu, mas jogou a cabeça para trás e riu. Depois voltou
a encará-la, com olhos brilhantes, deixando-a sem fôlego.
— Eu sei — disse ele, num tom peculiar. — Acredite em mim, você é a única.
Gracie respirou profunda e tremulamente assim que Rocco saiu do quarto para
deixar que ela se vestisse. A intensidade com que haviam feito amor ainda estava fazendo
com que ela se sentisse extremamente vulnerável.
Ela se maldisse por suas atitudes. A última coisa de que precisava era provocá-lo
daquele jeito e fazer com que ele se interessasse em descobrir por que era capaz de
provocá-la também. Ao remexer no conteúdo das sacolas, ela constatou que as roupas
eram, realmente, do tamanho certo. Rocco havia pensado em tudo, até mesmo na
maquiagem.
Relutante, ela guardou a sua roupa e sentindo-se uma farsante, vestiu uma camisa
de seda, uma calça de alfaiate de linho e sapatos, tentando não gostar do delicioso
contato daqueles tecidos caros contra a sua pele.

Pouco DEPOIS, Gracie estava recostada em seu assento, com o cinto afivelado e
quase sem conseguir conter a sua excitação quando o avião atravessou as nuvens
carregadas em direção a Bangkok.
O avião subitamente mergulhou e Gracie se agarrou ao seu assento, olhando em
pânico para Rocco.
— O que foi isso?
— Turbulência. Estamos em época de chuvas, em Bangkok. Provavelmente teremos
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uma tempestade, mas a chuva é quente.
— Quente?
— Venha cá — disse ele, com a voz rouca, estendendo-lhe a mão.
Gracie deixou o seu assento, mais nervosa do que queria admitir, e ele mudou de
lugar para deixar o da janela para ela.
— Mas assim você não vai conseguir ver nada.
— Eu já vi antes. Essa é a sua primeira vez.
Gracie finalmente desviou os olhos dele e os voltou para baixo.
—Eu nunca imaginei que fosse tudo tão verde! — exclamou ela.
Rocco estava com os braços em torno dela e a cabeça próxima à sua.
— É um misto de floresta e campos de arroz.
— É tudo tão lindo!
— Você ainda não viu nada. Ela virou a cabeça.
— Vamos ter algum tempo... Para passear?
Rocco sentiu um aperto no peito ao olhar para aqueles olhos castanhos com
manchas douradas e assentiu.
— É claro. Nós podemos ir ao Grand Palace e outros lugares bonitos também.
Num impulso, Gracie beijou a boca de Rocco e então se virou rapidamente antes que
ele pudesse ver a emoção estampada em seu rosto.

GRACIE AINDA estava se refazendo do terror de sua primeira aterrissagem e da


intensidade do calor úmido quando eles desembarcaram, há cerca de 30 minutos. Ela se
sentiu tão excessivamente vestida como alguém com roupa de esqui.
Rocco olhara para ela, assim que eles se acomodaram no banco de trás de um
maravilhoso carro com ar condicionado, arqueando uma sobrancelha e dissera la-
conicamente:
— Eu avisei.
A camisa de Gracie já havia começado a grudar no corpo dela e seu cabelo estava
todo frisado. Rocco parecia tão imaculado como sempre e Gracie lhe estendeu a língua:
— Será que nada afeta você?
A expressão de Rocco ficou séria e seus olhos escureceram.
— Você me afeta bastante.
Gracie desviou o seu olhar do de Rocco com certo esforço. Ainda estava abalada pelo
modo como havia perdido o controle com ele. Felizmente, eles foram lançados
rapidamente em plena Bangkok, o que atraiu completamente a atenção dela.
As estradas eram amplas e os enormes arranha-céus alcançavam o céu cinzento.
Tudo era ao mesmo tempo agitado, moderno e antigo.
Enormes outdoors exibiam imagens de lindas famílias, com uma escrita fascinante.
Uma verdadeira sinfonia de buzinas ecoava pelas ruas, junto com um milhão de bicicletas
motorizadas, algumas carregando o que pareciam ser famílias inteiras. Mulheres que
pareciam belas sereias acomodadas no assento de trás, com os filhos em seus colos,
usando capacetes sobre os seus véus. Gracie arregalou os olhos, tentando absorver tudo.
— O que é aquilo?
— São Tuk-Tuks; riquixá motorizados usados como táxis.
Gracie acompanhou os pequenos veículos, deleitada, antes de sua atenção ser
atraída por outra coisa. Rocco olhou para o rosto dela, fascinado com a sua expressão, até
se dar conta do que estava fazendo e desviar o olhar. Havia trazido algumas mulheres,
por vezes, em suas viagens de negócios, mas sabia que jamais teria se deixado distrair
por nenhuma delas daquela maneira.
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Ele podia imaginar a reação blasé de alguém como Honora Winthrop aquela cidade.
Algumas pessoas odiavam aquele lugar, mas aquela era uma das cidades preferidas de
Rocco e ele não pode deixar de sentir algo quente em seu peito ao ver Gracie olhar para
tudo como se também a estivesse adorando.
Assim que eles chegaram ao hotel, Gracie saltou do carro, antes mesmo que o
motorista pudesse abrir a porta.
Ela se virou para encarar Rocco, com um enorme sorriso estampado em seu rosto.
— Estou amando este calor. É como ficar debaixo de uma ducha quente depois de o
jato já ter sido fechado. E os cheiros são tão exóticos...
Rocco tentou não prestar atenção na seda já molhada da camisa dela devido ao calor
de seu corpo, aderindo aos seus seios, realçando a sua forma firme, os bicos despontando
sob o tecido.
Ele cerrou os dentes e a tomou pelo braço, a fim de conduzi-la ao hotel mais luxuoso
de Bangkok, cujo proprietário ele conhecia pessoalmente.
Gracie se pôs a admirar o quarto, boquiaberta. Tocou os assentos das poltronas e
correu a mão pelo topo da mesa. Descobriu, depois, as portas de correr e as abriu,
adentrando em um enorme terraço que dava para o rio Chão Praya.
— Nós temos uma piscina particular!
Rocco sorriu e enfiou as mãos nos bolsos, para conter a vontade de tocá-la.
— Eu sei.
— Oh, é claro que sim. Já deve ter vindo aqui milhares de vezes.
Ele passou um braço em torno da cintura dela e a puxou para junto de si, erguendo
o seu queixo.
— Milhares, não, mas muitas. Você gostou daqui? Gracie sorriu, embaraçada.
— Esse lugar é o paraíso. A cidade é de tirar o fôlego e esse hotel parece... Uma
coisa do outro mundo.
Rocco a puxou para ainda mais perto.
— Você é de tirar o fôlego.
Ela enrubesceu e enterrou a cabeça no peito dele, murmurando:
— Eu sou apenas normal, mas acho que isso é uma novidade para você.
Rocco sentiu o coração se contrair dentro do peito. Se ao menos ela soubesse... Ele
ergueu a mão dela e a beijou, notando que as suas palmas já estavam mais macias.
— Tenho de me encontrar com alguns clientes, lá embaixo. Por que não descansa
um pouco e se instala? Acho que não vai sentir muito a mudança de fuso horário, já que
dormimos no avião. Nós vamos sair hoje à noite e eu passarei a maior parte do dia em
reuniões, amanhã.
Gracie apenas assentiu e mordeu o lábio.
— O evento de hoje... é de grande porte? Rocco assentiu, com uma expressão séria.
— Haverá um bufê enorme. Você vai precisar de uma mala para garantir alimento
para todos os seus amigos necessitados.
Ela levou alguns segundos para perceber que ele estava zombando dela.
— E se alguém falar comigo?
— Responda — disse ele, com um sorriso seco. — Você não pareceu ter nenhuma
dificuldade de falar comigo naquela noite — disse Rocco, soltando-a e se afastando dela.
— E só não tratar a todos como se fossem da segurança.
Gracie ficou ridiculamente insegura, mas se conteve.
— Nos vemos daqui a algumas horas.

GRACIE CHECOU a sua imagem uma última vez, no espelho. Rocco estava esperando
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por ela, do lado de fora.
Ela respirou fundo. O vestido que estava usando brilhava com um milhão de
variações em vermelho e laranja. Era um modelo longo, sem mangas, feito de uma
espécie de lamê delicado, com decote em V. Havia ficado insegura quanto ao que usar,
mas não podia pedir conselhos a Rocco, a esse respeito. Ele era um homem. Era ela quem
deveria saber aquelas coisas.
Estava usando sandálias de salto alto e uma discreta maquiagem, e após duelar com
o seu cabelo por horas, ela, finalmente conseguira moldá-los em um coque.
Respirando fundo mais uma vez, ela pegou uma bolsinha dourada e foi até o
encontro de Rocco que a esperava junto às portas de correr, agora fechadas, com as
mãos enfiadas nos bolsos. Suas costas pareciam incrivelmente largas naquele terno preto.
Por um momento de tensão, Gracie teve vontade de sair correndo, mas Rocco
pareceu tê-la ouvido se aproximar, pois se virou e olhou ao redor.
Ele a avaliou de cima a baixo, com olhos imperceptivelmente arregalados.
Preocupada, ela perguntou com a voz rouca:
— Ficou bom? Eu não sabia ao certo o que seria mais apropriado...
— Está perfeito.
Rocco foi até ela e lhe estendeu uma caixa branca que ela não havia notado antes.
Ele a abriu, exibindo. Gracie viu um colar com um pingente de diamante e um par de
brincos da mesma pedra, em forma de gotas.
— O que é isso? Ele franziu a testa.
— Jóias para você usar.
Gracie balançou a cabeça, recuando um pouco.
— Eu não posso usar uma coisa dessas. Isso deve ter custado uma fortuna.
Uma sombra escura se abateu sobre o rosto dele e depois desapareceu.
— Elas são da loja do hotel. Poderão ser devolvidas amanhã.
Gracie olhou para as jóias novamente, e assentiu, depois de um longo segundo.
— Está bem. Eu vou usá-las.
Rocco tirou o colar da caixa e o colocou em torno do pescoço dela, para depois lhe
estender os brincos. Gracie os colocou com as mãos trêmulas. O colar era frio e pesado
em torno do pescoço dela e os brincos balançavam quando ela mexia a cabeça.
Rocco lhe estendeu o braço e disse:
— Vamos?
Gracie assentiu e enganchou o seu braço no dele, com a ridícula sensação de que
eles estavam se encaminhando para a forca.
Rocco notou que ela estava muito pálida e trêmula.
Quase não a havia reconhecido quando ela saíra do quarto. Seu cabelo preso no alto
da cabeça exibia seu longo e gracioso pescoço. A maquiagem havia deixado as suas faces
brilhantes, como que orvalhadas, seus olhos ainda maiores e os cílios ainda mais longos.
As cores de seu vestido brilhavam em torno dela como centenas de pássaros
exóticos, e o modo como o tecido aderia às suas curvas, exibia as suas formas delgadas
com perfeição. Bastara um mínimo de trato para que ela se transformasse em uma beleza
refinada de ofuscar qualquer mulher com mais dinheiro do círculo social dele.
Os diamantes capturavam as cores do vestido dela e cintilavam como fogo em torno
de seu pescoço e orelhas. Ele estava tão acostumado à rotina de comprar jóias para as
mulheres quando as levava a eventos como aquele que fora pego de surpresa pela reação
de Gracie, e não gostou nada do modo como aquilo o fez tender ainda mais a acreditar na
inocência dela.
A sensação de claustrofobia tinha voltado, só que daquela vez, por motivos
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
totalmente diferentes.

ELES CRUZARAM a curta distância até o evento na mesma limusine que os havia
pegado no aeroporto.
A casa era toda cercada por jardins deslumbrantes, com árvores iluminadas com
guirlandas de luzes pisca-pisca que conferiam uma atmosfera mágica ao ambiente. A
chuva havia parado e as estrelas iluminavam o céu. Lindas mulheres Thai circulavam pela
multidão, vestindo longas saias tradicionais e servindo bebidas e comidas típicas.
Gracie recusou uma taça de champanhe e Rocco a substituiu por um copo de água.
— Você nunca bebe nada?
Gracie fez uma careta e evitou o olhar dele.
— Minha mãe era alcoólatra... E minha avó também. Eu nunca botei uma gota de
álcool na boca.
Ele a fitou por um longo momento, mas Gracie desviou novamente o olhar, sem
conseguir acreditar que havia lhe contado aquilo com tanta facilidade.
— As mulheres daqui são tão pequenas — disse ela, tentando distraí-lo. — Eu me
sinto um elefante ao lado delas.
Rocco levou a mão dela até a sua boca e a respiração de Gracie ficou presa na
garganta quando ele beijou a parte interna de sua palma.
— Você não parece um elefante. Está deslumbrante.
— O-obrigada — disse Gracie.
Ela não conseguia acreditar que estava lá. Com aquele vestido. Com Rocco de
Marco. Era como se a fantasia que ela havia criado depois de tê-lo conhecido tivesse
saltado de sua mente e se transformado em realidade.
Embora soubesse que ele só estava sendo encantador porque queria que ela
cumprisse uma função em sua cama, Gracie não conseguiu impedir que seu coração tolo
começasse a bater mais forte. Sua mente gritava Perigo, perigo. O episódio recente, no
avião, quando ele demonstrara a sua profunda desconfiança ainda estava muito vivo em
sua mente. Ele, porém, dissipara toda a raiva que ela estava sentindo ao lhe pedir para
explicar melhor a questão do passaporte. Ela o amaldiçoou novamente por derrubar as
suas defesas como se elas fossem meros blocos de armar infantis.
Rocco a conduziu pela multidão, através do salão principal até chegar aos jardins
repletos de mesas onde tremeluziam encantadoras luzes de velas.
Um homem se aproximou de Rocco com um amistoso tapinha nas costas, dando
início a uma longa noite em que diversas pessoas o abordaram para tratar de assuntos
dos quais Gracie jamais ouvira falar, nem conseguia compreender, como bolsa de valores
e tendências do mercado. Mas ela não se importou, fascinada por aquela língua tão
diferente.
— Está entediada? — perguntou ele, assim que se viu a sós com Gracie, por um
momento.
Ela o olhou genuinamente chocada.
— Não! Por quê? Achou que eu estivesse?
— Não — disse ele, secamente. — Mas você está muito quieta e isso me deixa
nervoso.
Gracie deu de ombros.
— Eu não tenho idéia do que você está falando durante a maior parte do tempo. —
Ela sorriu. — Achei que você ficaria aliviado.
— Por mais estranho que pareça, não tanto quanto eu esperava. — Ele a encarou e
perguntou: — Aquela pasta na sua mala, com o texto e rascunhos... O que é?
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Gracie enrubesceu e seu coração se contraiu dentro do peito. A realidade se infiltrara
em seu sonho, lembrando-a do verdadeiro motivo pelo qual estava lá.
— Eu deveria saber que você mexeria nisso também. Estava esperando encontrar
planos para assaltar um banco?
Gracie desviou o olhar e Rocco ergueu o seu queixo.
— Eu poderia ter suspeitado de algo assim antes... Mas agora já não sei mais o que
pensar.
Ela respirou fundo, profundamente tocada com a prova de confiança que Rocco
acabara de lhe dar.
— Eu me formei em Artes Plásticas. Quero escrever livros para crianças, um dia. São
apenas alguns rascunhos e ideais. Nada especial.
— Eu os achei muito bons.
— Verdade?
Ele assentiu e o coração de Gracie saltou dentro do peito.
— O que fez você desejar escrever para crianças? Gracie remexeu em sua bolsa,
tentando ganhar tempo.
Nunca havia contado aquilo a ninguém e estava se sentindo ridiculamente exposta.
— Eu nunca fui muito boa na escola... não como... — Ela se deteve para não dizer
Steven, pois não queria colocar em risco a frágil trégua que havia se estabelecido entre
eles. — Não como a maioria das outras crianças... Sempre adorei ler e o modo como os
livros nos transportam para outro mundo. — Ela deu de ombros, sentindo-se tonta, e
evitou o olhar penetrante de Rocco. — Eles fizeram isso comigo e eu quero proporcionar
essa experiência a outras crianças.
Rocco olhou para a cabeça baixa de Gracie. Seu cabelo brilhava como fogo dourado.
Ele podia imaginar muito bem como deveria ter sido encantador para uma criança que
crescera nas condições em que ela vivera, poder se perder em uma história de encanto e
magia.
Rocco não disse nada e Gracie voltou a erguer o olhar, quase dando um passo para
trás ao ver a intensidade de sua expressão.
— Não me olhe assim — disse ele, em meio a um gemido.
— Ou o quê? — perguntou Gracie, subitamente confiante por Rocco não ter rido de
sua ambição e desejá-la.
— Ou eu a arrastarei daqui agora mesmo para fazer algo a respeito.
— Eu não o estou detendo — disse ela, com ousadia. Rocco a tomou imediatamente
pela mão a fim de conduzi-la até o carro. Gracie estava encantada com o efeito que era
capaz de provocar em Rocco e o modo como ambos estavam ficando cada vez mais à
vontade, um com o outro.
Em poucos minutos, eles estavam no assento, com a janela que garantia a sua

Ao ENTRAR no elevador do hotel, pouco depois, Rocco viu o rosto rosado de Gracie,
refletido na superfície de aço. Ela o havia detido, pouco antes, ao saltar do carro,
sussurrando:
— Eles vão perceber.
Seu cabelo estava solto e despenteado, sua boca inchada e sua mão entrelaçada à
dele. Ele quase a havia possuído na limusine...
Rocco não queria ficar tão encantado por uma mulher a ponto de deixar um evento
daquela maneira. Ele não fazia amor no assento de trás dos carros. Era como se qualquer
espaço fechado se transformasse automaticamente em uma provocação, uma chance para
seduzi-la.
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
Um último resquício de sanidade mental o impediu de parar o elevador a fim de
erguer o vestido dela, ali mesmo, e começar a explorar o seu corpo.
Assim que chegou à cobertura, Gracie soltou a mão dele e a levou até o colar.
— O que está fazendo?
— Quero tirar isso.
Gracie estava arfante, rouca e vulnerável e o peito de Rocco se contraiu. Talvez ele
não fosse o único ali, assustado com a intensidade de seu desejo.
Rocco deu um passo para frente e cerrou os dentes quando o perfume dela atingiu
as suas narinas. Dizendo a si mesmo que podia se controlar, ele tirou o colar dela e pegou
os brincos que ela lhe estendeu.
— Precisamos colocar isso em algum lugar seguro — disse ela.
Rocco suspirou com impaciência, diante do pragmatismo dela, mas pegou a caixa e
guardou a jóia no cofre.
Ao seguir para a sala de estar, ele arrancou a gravata borboleta e tirou o paletó.
Gracie havia desaparecido, mas as portas de correr estavam abertas. Ele saiu e a
encontrou junto à piscina, descalça.

GRACIE OUVIU OS passos de Rocco atrás de si. Havia finalmente conseguido recuperar
um pouco de seu autocontrole. Sua sensação, ao atravessar o lobby do hotel, fora a de
que todos podiam perceber o seu constrangimento. Como é que ela havia se transformado
naquela mulher suficientemente confiante para arrastar Rocco para fora de uma festa e
então pular em seu colo, no banco de trás de um carro como uma ninfomaníaca?
Sentira-se tão ávida por ele que chegara a ansiar que ele parasse o elevador e a
possuísse bem ali, erguendo o seu vestido até a cintura e rasgando sua calcinha.
A força de seu desejo fora tamanha, ao chegar ao apartamento, que ela tivera a
impressão de que poderia gozar com um simples toque de Rocco, por isso voltara a sua
atenção para as jóias, embaraçada demais até mesmo para olhar para ele.
Rocco estava ao seu lado, agora, e Gracie olhou para ele, sentindo-se
repentinamente tímida.
— O ar está parecendo mais denso... mais úmido — disse ela, tentando quebrar o
silêncio.
Rocco olhou para o céu.
— A chuva vai começar a cair a qualquer minuto. Gracie ergueu a cabeça e se
assustou com o som de um trovão.
— A água é mesmo quente?
— Sim.
Gracie teve a sensação de que todos os seus terminais nervosos estavam expostos.
Respirou fundo, e então se voltou para Rocco.
— O que aconteceu lá... Na festa... E no carro. Isso tudo me assusta um pouco.
— O que você quer dizer? — perguntou Rocco, cuidadosamente, sem olhar para ela.
Gracie deu de ombros e se virou de costas para ele.
— Eu não sei muito bem. Só queria que você soubesse que eu não... Eu nunca me
senti assim antes.
Ela notou que Rocco havia se virado na sua direção e ergueu o olhar. Ele parecia
zangado.
— Acha que isso é normal para mim? Esse... desejo insano?
— Não acho que seja insano — respondeu Gracie, magoada. — Ele só parece... Fugir
um pouco do nosso controle...
— Você tem razão — disse Rocco, desviando novamente o olhar.
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Gracie teve a sensação de ter acabado de tocar em algo fundamental relativo à
psique de Rocco. Podia sentir o quanto ele tentava conter aquele lado animalesco e o
quanto odiava não estar no controle da situação; as mesmas coisas que a assustavam.
Bastou ela se lembrar da beleza gelada de Honora Winthrop, porém, para saber qual seria
a sua escolha final.
Gracie voltou a olhar para a água e sentiu a tensão quase material de Rocco ao seu
lado. A plácida superfície parecia rir dela. Uma centelha de rebeldia se apoderou dela.
— Gracie...? — disse Rocco, hesitante, ao vê-la se afastar da borda.
Ela, então, correu e mergulhou, e as diversas cores intensas de seu vestido
começaram a deslizar magicamente sob a superfície, em direção à outra ponta.

Capítulo Nove

Rocco FICOU olhando para Gracie, chocado. A irritação e raiva que havia sentido
crepitar dentro de si quando ela tentara articular o que havia entre eles estava
desaparecendo, dando lugar a algo diferente que florescia dentro dele, aliado a um
arrependimento por ter estragado aquele momento.
Era uma sensação de euforia, como ele só havia sentido uma única vez antes, ao ver
o horror e a descrença nos olhos de seu pai por saber que seu filho bastardo e sem valor
havia superado até mesmo a fortuna fenomenal dele.
A cabeça de Gracie emergiu na superfície, do outro lado da piscina. Seu vestido,
ampliado pela retração da água, dançava em uma cascata de diferentes cores em torno
do seu corpo. Ela parecia impossivelmente selvagem e livre, como uma sereia, com seu
cabelo de um vermelho intenso todo para trás.
Rocco sentiu as primeiras gotas de chuva caírem ao se curvar e tirar os seus sapatos
e meias.
Ele mergulhou com precisão, cruzando a distância da piscina na metade do tempo
que Gracie necessitara para fazê-lo. Ele viu aquelas belas pernas alvas, o vestido
dançando em torno delas e estendeu a mão na sua direção, puxando-a para baixo d'água.
Os olhos dela estavam arregalados quando Rocco pressionou a sua boca contra a dela.
Ambos emergiram juntos, poucos e longos segundos depois. Gracie afastou a sua
boca da dele e respirando fundo, arfante. A chuva que caía agora era torrencial. Ela
inclinou a cabeça para trás e riu em alto e bom som. Seus braços estavam enroscados no
pescoço de Rocco e as mãos dele, em sua cintura.
— A chuva é quente mesmo!
— Por que você nunca acredita no que eu digo? — resmungou ele, beijando-a
novamente.
Gracie afastou a pontada de dor que a atingiu ao pensar que caberia mais a ela dizer
aquilo e se entregou ao beijo. Não queria pensar no que significava perder o controle
daquela maneira com Rocco, apenas se entregar às sensações que aquilo lhe provocava.
Quando ele a pressionou contra a parede da piscina e começou a baixar o tecido
elástico do vestido dela, Gracie estremeceu de expectativa, e ficou toda arrepiada, apesar
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da chuva quente e da água aquecida da piscina.
Rocco baixou o vestido até a altura da cintura de Gracie, expondo os seus seios, de
bicos rígidos.
Ela respirou fundo quando ele baixou a cabeça para render sua homenagem àqueles
lindos mamilos. Sua camisa, agora completamente transparente estava grudada em suas
costas fortes, deixando entrever a sua pele.
Ele parecia insaciável. Gracie apoiou os braços na borda da piscina, arqueou todo o
seu corpo na direção de Rocco e jogou a cabeça para trás, sentindo a chuva cair em seu
rosto. Ele baixou ainda mais o vestido até conseguir tirá-lo por inteiro. Gracie o viu
afundar lentamente até alcançar o chão da piscina, formando uma poça de cores
brilhantes.
A mão dele deslizou sob a calcinha, a palma pressionando o seu clitóris enquanto um
longo dedo mergulhava em seu recôndito secreto, procurando o ponto onde o corpo dela
já estava se contraindo, em expectativa. Gracie pressionou o seu ventre contra ele,
incitando-o silenciosamente a prosseguir quando ergueu as mãos para alcançar a camisa
dele, rasgando-a em sua pressa. Ele afastou os braços dela para deixar que Gracie a
arrancasse, e então baixou a calcinha dela pelas suas pernas.
Gracie já estava completamente nua, enquanto Rocco continuava de calça. Suas
mãos estavam entre as pernas dela, outra vez e a boca em seu seio.
— Rocco — disse ela, arfando, quando ele deslizou dois dedos dentro dela,
movendo-os para frente e para trás. — Eu preciso de mais. Preciso de você.
Com seus dedos enterrados fundo dentro dela, Rocco pode sentir o corpo quente e
umedecido dela se contrair em torno dele, o que aumentou ainda mais o seu próprio
desejo. Em um movimento ágil, ele a tirou da piscina, sentando-a na borda e depois saiu
também ele da água, com um mínimo de esforço.
Depois tomou-a gentilmente em seus braços e a pousou sobre uma espreguiçadeira.
Beijando rapidamente os lábios dela, ele resmungou qualquer coisa a respeito de proteção
e desapareceu por um segundo, retornando logo depois. Gracie admirou os traços fortes
do rosto dele e o brilho em seus olhos, enquanto rasgava o pacote e cobria a sua ereção.
Ela estava se sentindo como mais um dos elementos da natureza.
Rocco se esgueirou entre as pernas dela e disse, num som gutural:
— Eu queria muito sentir o seu sabor, mas preciso mais disso...
— O que você...? Ohhhh...
Gracie gemeu ao senti-lo penetrá-la. Ela desistiu de dizer ou pensar o que quer que
fosse e enroscou as suas pernas em torno da cintura dele, trançando os seus pés atrás
dele e incitando-o a ir cada vez mais fundo, até ambos se desmancharem sob as nuvens
negras.
Eles ainda permaneceram algum tempo deitados ali, com Rocco ainda enterrado,
fundo, dentro dela. Pequenos tremores secundários ainda agitavam o corpo dela. Por fim,
Rocco desencaixou o seu corpo do dela e Gracie se contorceu ainda muito sensível.
— Eu a machuquei... — disse Rocco, beijando-a. Gracie balançou a cabeça.
— Não. Você não me machucou.
Ao menos não fisicamente, pensou ela, por um instante.
Rocco se ausentou por um momento e voltou com uma toalha amarrada em torno da
cintura e um roupão felpudo para Gracie.
— Vou tomar um banho. Você vem comigo?
Gracie balançou a cabeça, apesar de sua mente traiçoeira gritar que sim! Ela
precisava de um pouco de espaço para si.
— Acho que vou ficar aqui, um pouco.
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Ele deu de ombros.
— Como quiser — disse ele, afastando-se enquanto Gracie o devorava com os olhos.
Ela suspirou e fechou o roupão com força em torno de si, puxando os joelhos para
junto de seu peito e enroscando os braços em torno de si. A chuva já havia parado, as
nuvens se dissipado e algumas estrelas brilhavam no céu. Era como se a tempestade
tivesse se materializado apenas para acompanhar aquela louca paixão e agora que ela
havia passado também a natureza sossegara.
Ela olhou para o rastro que eles haviam deixado atrás de si e baixou a cabeça na
direção dos joelhos. Primeiro, ela dizia a Rocco que não costumava fazer aquele tipo de
coisa, para poucos segundos depois, rasgar a camisa dele como que possuída.
Ele tinha razão. Aquilo era insano. Ela não tinha dúvida de que com suas outras
mulheres, ele era bem mais civilizado e contido.
Não era de admirar que ele estivesse arrependido. Ela havia visto o olhar dele pouco
antes de ele saltar na piscina, como se estivesse lutando contra algo dentro de si mesmo.
Ela não queria que Rocco se arrependesse daquilo, ou dela. Queria uma chance de
fazer com que ele mudasse completamente de idéia a respeito dela e não apenas que
nutrisse aquele tênue fio de confiança que poderia se romper a qualquer momento. Queria
convencê-lo de que nem ela, nem seu irmão eram oportunistas.
Rocco reapareceu com uma nova toalha em torno do corpo e outra com que estava
secando o cabelo fazendo com que Gracie se sentisse completamente exposta, como se
ele pudesse ler aquele terrível desejo em seu rosto.
Ele se sentou na espreguiçadeira, ao lado dela, e seu cheiro fresco invadiu as narinas
dela, fazendo com que seu ventre se contraísse de desejo.
— Você não pode passar a noite toda aqui — disse ele, com certa ironia.
Ela deu de ombros.
— Para falar a verdade, tudo isso me intimida um pouco. Fico com a sensação de
estar maculando o lugar com a minha presença.
— Do que é que você está falando?
— É como se eu não devesse estar aqui. Quando eu tinha cerca de nove anos, um
dos meus pais adotivos levou a mim e a Steven para um abrigo. Era uma casa antiga, com
cômodos enormes, lindos e repletos de antiguidades e pinturas. Eu me perdi a certa altura
e acabei entrando em um quarto cheio de bonecas de porcelana. Eu fiquei fascinada e
peguei uma delas para admirar. De repente, senti uma mão pousar em meu ombro. Fiquei
tão assustada que deixei a boneca cair e ela se espatifou no chão. Aquela mulher ficou
diante de mim, berrando que eu era uma ladra e me expulsou de lá. Eu fiquei tão
horrorizada que sai correndo até, finalmente, reencontrar o grupo. Até hoje ainda tenho a
sensação de que aquela mão vai pousar novamente em meu ombro, a qualquer momento.
— Você tem tanto direito de estar nesses lugares quanto qualquer outra pessoa.
Gracie deu um meio sorriso.
— Isso não é exatamente verdade, mas é muito gentil da sua parte dizê-lo.
Rocco se levantou e lhe estendeu a mão, como se estivesse prestes a ir embora e
levá-la consigo. Gracie também se ergueu a fim de pegar a mão dele, mas se deteve. A
expressão fechada de Rocco fez com que ela sentisse uma necessidade desesperada de
que ele a entendesse, que a enxergasse.
— Espere. Eu quero lhe dizer mais uma coisa. Rocco cerrou os dentes.
— Gracie, você não precisa me contar essas histórias.
— Não são histórias, e eu preciso, sim, contá-las a você. Steven... Meu irmão... Nós
somos gêmeos. Não idênticos, obviamente. Eu sou 20 minutos mais velha. Ele quase
morreu no parto. Ele sempre foi o mais fraco quando nós éramos pequenos, e usava uns
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óculos enormes. Eu me acostumei a protegê-lo. Ele nunca superou o fato de nossa mãe
ter nos abandonado... — A voz de Gracie vacilou. — Talvez seja difícil para você acreditar
nisso, mas ele nunca quis aquela vida... Participar de uma gangue, se envolver com
drogas.
— Então, por que o fez? — perguntou Rocco, quase desdenhoso.
Gracie se contorceu, mas manteve a compostura.
— Eles o surravam, literalmente — disse ela, com a voz embargada. — Certo dia, ele
foi até parar no hospital. Era mais fácil ceder do que lutar contra eles. Nós tínhamos
apenas 14 anos. Eles o viciaram em álcool em questão de meses. As drogas vieram logo
depois. Ele acabou desistindo da escola.
— E você ainda o defende mesmo assim?
Mais uma vez aquele tom. Como é que ela podia sequer começar a explicar os
vínculos que a ligavam ao seu irmão?
Ela assentiu lentamente.
— Sim, eu o defendo e o defenderei para sempre. Assim como ele me defendeu.
Rocco franziu a testa, com uma impaciência palpável.
— Defendeu você de quê?
Gracie sabia que aquelas palavras não iam levá-la a lugar algum, mas não podia
mais se deter.
— Nós estávamos em um abrigo. Foi um milagre, na verdade, nós termos
conseguido ficar juntos por tanto tempo.
Ela respirou fundo. — Havia um homem naquela casa. Ele me olhava e me tocava
quando não havia ninguém por perto. Nada sério, no início, só um tapinha nas nádegas,
ou um beliscão no braço. Mas, então, certa noite, ele foi até o meu quarto, quando sua
esposa saiu. — Gracie sentiu a bile subir, mas a conteve. — Ele se sentou na minha cama
e começou a me dizer o que queria fazer comigo. Steven estava no quarto ao lado, com
outro menino. Eu estava sozinha. Tive tanto medo que não consegui me mexer, nem dizer
coisa alguma. Foi só quando o homem estava prestes a se enfiar na cama, ao meu lado,
que Steven entrou. Ele não disse coisa alguma. Apenas esperou que o homem se
levantasse e fosse embora e daquela noite em diante, até o dia em que fomos embora,
ele dormiu na minha cama, mesmo quando a sua própria vida estava desandando. Ele
nunca me deixou sozinha. Nem uma única vez.
Rocco olhou para o rosto pálido de Gracie. Suas palavras haviam caído como bombas
atômicas em sua cabeça e corpo. Ele teve vontade de abraçá-la e não soltá-la nunca mais.
Ele estremeceu e sentiu um nó na garganta. Pensar naquele homem tocando-a. E pensar
no seu irmão e em tudo o que ele havia passado.
Rocco, porém, havia passado pelos mesmos percalços... Piores até, e não havia
desistido nunca. Ele se agarrou àquela afirmação como um náufrago que tivesse
encontrado um pedaço de madeira flutuando no meio do oceano. Não podia tocar Gracie
agora. Sabia que se o fizesse, suas emoções febris o tomaram de assalto e o lançariam de
volta ao lugar de onde tinha vindo o lugar que ele havia deixado para trás há tantos anos.
Fazendo um esforço enorme, Rocco conteve a sua emoção e se afastou um pouco de
Gracie e daqueles olhos enormes.
— Isso não muda nada. Todas as evidências apontam para o fato de que ele não
mudou nem um pouco. Não provoque a minha paciência contando-me essas coisas —
disse ele, seguindo, logo depois, para a suíte, sentindo-se desfazer em mil pedaços.
Gracie viu Rocco se afastar e se sentiu entorpecida de tanta dor e rejeição. Jamais
havia contado nada daquilo a ninguém. Nem mesmo Steven havia mencionado o que
quase havia acontecido naquela noite em voz alta. Aquilo havia sido excessivamente
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terrível para ele.
Gracie, porém, havia contado tudo para Rocco como se aquilo não tivesse lhe
custado nada. A verdade, porém, era que estava lhe custando, e muito, porque ela havia
querido se expor para Rocco, quaisquer que fossem as conseqüências.
O fato é que ela estava se apaixonando por ele.

Rocco NÃO estava surpreso por ainda estar se revirando na cama, uma hora depois.
Só não estava preparado para a dor em suas entranhas e o modo como o vazio em sua
cama o estava afetando.
Tudo o que ele conseguia ver diante de si, naquele momento, era a fotografia de
Gracie e Steven quando pequenos. O rosto assustado de seu irmão com aqueles óculos
enormes e Gracie parecendo tão forte ao lado dele, como uma pequena guerreira.
Ele se flagrou sentindo ciúmes do irmão dela.
Havia sido mais fácil vomitar aquelas palavras e ir embora do que lidar com aquela
emoção, mas ele não podia mais continuar daquele jeito. Parecia que tinha perdido um
membro.
Rocco foi até o pátio e divisou a forma dela enroscada em uma espreguiçadeira, sob
a luz tênue da lua e sentiu uma dor dentro do peito. Ele foi até lá e viu que as roupas de
ambos estavam dobradas e empilhadas.
O rosto dela estava relaxado e seu cabelo, muito vermelho, espalhado em torno
dela, num contraste com a cor clara da espreguiçadeira. Estava naquela posição fetal de
que tanto gostava. Suas entranhas se contraíram ao pensar em como o irmão dela a havia
protegido, e ele se deu conta de que sentia ciúme até mesmo daquilo.
Apesar de se sentir tentado a ir embora novamente, Rocco se curvou e a tomou em
seus braços.
— Já chega. Você deu a sua opinião eu dei a minha. Eu não quis ser tão grosseiro —
disse ele tentando conter a ternura que o invadia. — Você não tem de me contar nada,
Gracie. Isso não muda em nada a situação do seu irmão.
— Você não está interessado, é isso? Ele tentou se manter impassível.
— Os motivos de seu irmão são irrelevantes para mim. Eu lido com coisas concretas
e ele me roubou. Você é muito mais relevante para mim, agora, portanto não quero mais
falar sobre o seu irmão, nem sobre o seu passado. Combinado?
Gracie percebeu que Rocco queria desesperadamente ceder aos seus apelos. Chegou
até a pensar, em meio a toda a sua dor e sentimento de rejeição, que havia visto algo no
fundo dos olhos dele. Algo muito vulnerável Ela queria aquele homem com uma fome que
chegava a envergonhá-la. Queria ser capaz de rejeitá-lo, infligir-lhe a mesma dor que ele
a havia feito sentir, mas não era capaz.
Odiando a si mesma por sua fraqueza, ela disse debilmente:
— Combinado.
Para seu alívio, Rocco não sorriu triunfantemente, nem pareceu feliz com sua
capitulação. Apenas olhou intensa e seriamente para ela ao tomá-la em seus braços e a
levou de volta para o quarto.

ATERRISSAR EM Nova York, dois dias depois, foi uma experiência muito diferente da
de fazê-lo em Bangkok. A vista, lá embaixo, era um vasto mar de prédios acinzentados,
muito diferente dos campos verdes de onde eles haviam vindo.
Rocco estava sentado do outro lado do corredor, com a testa franzida, avaliando
alguns documentos.
Gracie admirou a vista. Era como se eles tivessem estabelecido uma trégua desde a
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noite anterior. Estavam tomando o cuidado de só tocar em assuntos neutros. Rocco havia
até tirado algum tempo de folga para levar Gracie ao Grand Palace.
O estilo do palácio era eclético: arcos ascendentes e colunas misturadas com
telhados tradicionalmente ornados. Havia todo um templo dedicado a um minúsculo
Emerald Buddha localizado no alto de um altar, acima da multidão.
Ela passou muito tempo passeando por lá para depois encontrar Rocco apoiado
contra uma parede próxima, só olhando para ela.
Ele havia acordado muito cedo, na manhã anterior e a conduzira, ainda sonolenta,
para fora do hotel. Foi só então que ela notou que estava vestida casualmente, de short e
camiseta. Para sua deleitada surpresa, houvera um Tuk-Tuk à espera deles, a fim de levá-
los a um dos mercados flutuantes, repletos de monges budistas com suas inconfundíveis
vestes cor de laranja, aceitando esmolas dos locais.
Gracie havia ficado profundamente tocada com o fato de Rocco tê-la surpreendido
daquele modo, visitando os mercados logo no início da manhã, antes de as hordas de
turistas chegarem. O trajeto de volta pela cidade com o motorista kamikaze do Tuk-Tuk
também havia sido estimulante.
— No que é que você está pensando? Gracie teve um sobressalto:
— Estava pensando que a última mulher que você levou para Bangkok,
provavelmente não se divertiu nem a metade do que eu com a viagem de Tuk-Tuk.
Rocco não disse nada por um momento, e soou quase surpreso ao admitir:
— Eu nunca trouxe ninguém comigo a Bangkok antes.
Gracie sentiu o coração inchar perigosamente dentro do peito. Tentando lutar contra
aquela sensação, porém, ela disse:
— Tenho certeza, porém, que já levou outras mulheres à Nova York.
Rocco olhou diretamente para ela, como se estivesse lhe enviando um aviso.
Ela estava se metendo em um território perigoso.
— É claro que eu já trouxe mulheres para Nova York. Viajo para cá com muito mais
freqüência do que a Bangkok.
Rocco desviou o olhar de Gracie e voltou a tratar de seus documentos.
Ele já estava fingindo estar concentrado no trabalho há cerca de uma hora, quando,
na verdade, tudo em que havia conseguido se concentrar fora cada mínimo movimento de
Gracie. Rocco quase riu alto ao pensar em qualquer outra namorada anterior sua entrando
em um riquixá motorizado.
Ele não se lembrava da última vez em que havia tirado um tempo livre para
simplesmente ver a paisagem, desfrutar do lugar. Nunca, foi sua resposta sucinta.
Rocco ficou feliz ao ver a linha do horizonte de Nova York se aproximar cada vez
mais. Sabia que se sentiria mais seguro na cidade em relação à Gracie, e manteria
distância dela nem que aquilo o matasse.
Bangkok fora um erro.
A simples lembrança o fez pensar em Gracie pulando na piscina com aquele vestido.
Xingando baixinho, Rocco se obrigou a se concentrar na página para a qual estava
olhando.

GRACIE TEVE extrema consciência da distância que Rocco estava mantendo dela, a
caminho da cidade. Ele havia voltado a ser o grande executivo, mas ela se recusou
terminantemente a permitir que o humor dele a aborrecesse e se pôs a admirar a famosa
linha do horizonte de Nova York ao cruzar uma das várias pontes de Manhattan.
A Quinta Avenida e as verdes árvores do Central Park se materializaram diante dela.
O carro parou à esquerda do parque, ao lado de uma construção Art Deco com uma
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enorme cobertura sobre todo o andar.
Gracie saiu do carro, auxiliada por um porteiro sorridente e sentiu o calor do verão
atingi-la em cheio.
Eles caminharam pelo lobby refrigerado até onde um funcionário os aguardava
segurando a porta do elevador.
Gracie pensou que já havia visto de tudo, mas a beleza daquele quarto todo
decorado em creme e dourado era inacreditável.
Os tapetes eram tão grossos que se afundava literalmente neles. Pinturas abstratas a
óleo sobre as paredes provavam o gosto de Rocco por misturar o antigo com o novo.
Rocco estava abrindo as portas duplas do outro lado do quarto e Gracie o seguiu,
muda, quase com medo de respirar. Ela viu um enorme terraço que acompanhava toda a
extensão do prédio, com árvores plantadas em potes artisticamente enfeitados.
Rocco estava com as mãos pousadas em seus quadris, observando-a.
— Onde fica a piscina? — brincou Gracie
— Lá embaixo, na academia no andar inferior. — Oh.
— É bonita — disse ele. — Tem uma vista para o parque. Gracie olhou para fora a
fim de ver um dos parques mais famosos do mundo se estendendo para todos os lados.
As pessoas que caminhavam nas ruas pareciam formiguinhas. Ela podia ver um
enorme espaço verde no meio do parque e um lago.
— Estou surpresa por você não estar no mais alto arranha-céu para poder ver ainda
mais longe.
— Ah, mas o Upper East Side é o melhor endereço daqui — respondeu Rocco,
cerrando os dentes. Depois, olhando para o relógio, disse: — Preciso sair agora. Vou
passar o dia em reuniões.
Gracie ficou feliz com a perspectiva de ter um pouco de espaço para si mesma.
— Está bem. Eu vou... Me instalar...
— Tome — disse ele, estendendo-lhe o cartão de crédito que acabara de tirar da
carteira. — Por que não vai fazer compras?
Gracie pegou o cartão automaticamente, olhou para ele e viu Rocco tirar algo mais
da carteira e pousá-lo na mesa.
— Você vai precisar de algum dinheiro vivo também, para os táxis. Ruben poderá lhe
fornecer um mapa e algumas orientações. Nós temos um evento esta noite. Nos veremos
de novo às 18h, está bem?
Gracie olhou para Rocco, percebendo sua impaciência, por isso apenas assentiu
novamente, apesar de um pouco tonta.
— Ótimo. Vejo você mais tarde.
Ele ainda pareceu querer dizer alguma coisa, mas se virou e saiu do apartamento.
Poucos segundos depois, uma mulher apareceu, limpando as mãos num avental,
apresentando-se como Consuela, a empregada do senhor de Marco, que insistiu em lhe
apresentar todas as suítes, salas de jantar e de estar, academia, piscina, sauna, uma
imensa cozinha e ainda dois banheiros.
Já estava ficando tonta quando deixou Consuela e se pôs a desfazer as malas e
decidir o que iria fazer durante o dia. Estava determinada a tentar não pensar em Rocco
pelo menos durante 5 minutos.
Resolveu, por fim, encontrar uma lan house e verificar se havia recebido algum e-
mail de Steven.

Rocco VOLTOU para o apartamento na hora do almoço. Estava se maldizendo por sua
fraqueza quando foi informado por Consuela que Gracie havia saído algumas horas antes.
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
Ele foi para o quarto, mas não encontrou nenhum bilhete, apenas as malas que
ainda não haviam sido desfeitas. Por que, afinal, ela teria lhe deixado um bilhete?
Estava saindo, totalmente decepcionado, quando notou algo junto às gavetas. Era o
seu cartão de crédito e algumas das notas que ele havia deixado para ela. Faltavam
menos de 20 dólares. Ao que parecia, ela havia pegado apenas o suficiente para chegar
ao centro da cidade.
Rocco riu para si mesmo com dureza. Havia realmente pensado que ela iria visitar as
butiques chiques da Quinta Avenida? Justamente a mulher que havia devolvido
pessoalmente o colar e os brincos de diamante para a loja do hotel em Bangkok?
Rocco pegou o cartão e deixou as notas sobre o móvel, xingando a si mesmo por
sequer ter vindo vê-la e tentando ignorar o aperto dentro do peito ao imaginá-la visitando
a cidade sozinha.
Foi só quando entrou em seu carro a fim de retornar ao centro que ele sentiu um frio
na barriga ao se dar conta de que havia deixado Gracie passear sozinha, tanto agora,
quanto em Bangkok, e que a qualquer momento, como, por exemplo, agora, ela poderia
desaparecer.
A percepção de que havia confiado nela daquela maneira o deixou extremamente
nervoso, a ponto de ele não conseguir mais se concentrar em coisa alguma, pelo restante
da tarde, até obter a confirmação do zelador de que ela já havia voltado.

Capítulo Dez

GRACIE VOLTOU no final da tarde, exausta, mas feliz. Ela fez uma careta ao ver o seu
reflexo suado no espelho. Feliz mesmo ela teria ficado se Rocco tivesse compartilhado
com ela as delícias de subir até o alto do Empire State Building, e se não tivesse se
sentado sozinha no Central Park para comer um sanduíche.
Ela mordeu o lábio inferior. Estaria mais feliz também se tivesse recebido um e-mail
de Steven. Ela, contudo, tinha enviado um e-mail para o endereço dele, numa esperança
fútil de obter uma resposta.
Suspirando, ela se pôs a admirar a vista majestosa do Central Park novamente.
— Você não pegou o cartão de crédito.
Gracie se voltou com o coração batendo acelerado ao ver Rocco apoiado
despreocupadamente contra a porta do terraço.
— Não ouvi você entrar.
Rocco foi até ela. Alguma coisa em seus olhos parecia perigosa, fazendo-a recuar.
Ela engoliu em seco.
— Por que o pegaria? Você me comprou roupas suficientes para uma dúzia de
viagens ao exterior.
O rosto de Rocco estava duro. Ele apoiou uma mão de cada lado de Gracie, na
parede atrás dela, que lutou para não permitir que o cheiro e a presença dele a
enfraquecessem.
— Você não compreende, não é? — disse ele, parecendo irritado. — Era isso o que
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Jessica 191.2 – Um Homem Marcante – Abby Green
você deveria ter feito. Diga-me o que fez, então.
Gracie respondeu no mesmo tom:
— Para sua informação, eu peguei 20 dólares emprestados e fui para o centro, onde
peguei algum dinheiro em um caixa eletrônico. Depois fiquei numa fila por duas horas e
subi até o alto do Empire State Building. Caminhei, então, de volta ao parque, comprei um
sanduíche e o comi lá. Tudo bem para você?
Gracie se sentiu culpada por não ter mencionado a ida à lan house, mas Rocco
parecia excessivamente irascível para que ela trouxesse aquele assunto à tona.
— Não, está tudo certo.
Ele baixou a cabeça e suas mãos se fecharam em torno dos braços dela. Seu beijo
foi duro e exigente. Gracie tentou impedir que ele descontasse a sua raiva por ela não ser
como as suas outras mulheres em cima dela, mas não conseguiu resistir, por isso usou as
mesmas armas dele.
Ela enterrou os dedos fundo no cabelo de Rocco e arqueou todo o seu corpo contra
o dele, pressionando os seus quadris contra os dele. Aquilo transcendia toda e qualquer
racionalidade e os reduzia a desejos primitivos que precisavam ser saciados, caso
contrário, eles morreriam.
A frágil trégua havia acabado de ser esmagada.
Ele a pegou em seus braços e Gracie beijou o seu maxilar e pescoço. Já estava
abrindo a camisa dele e afrouxando a sua gravata. Quando chegaram ao quarto, Rocco a
pousou na cama tirou o paletó e a gravata, arrancando a sua camisa.
Gracie tirou a sua blusa por cima da cabeça e a arrancou o seu short, jogando as
sandálias longe.
Assim que ficou nu, Rocco se deitou ao lado dela, e Gracie apenas olhou para ele,
incapaz de impedir o seu coração de inchar dentro do peito, nem de tocar a barba cerrada
dele.
— Senti sua falta hoje — sussurrou ela.
Algo cintilou nos olhos de Rocco, antes de eles escurecerem.
— Não diga isso. Eu não quero ouvir.
— É uma pena — disse Gracie, obstinada — porque eu senti a sua falta e acabei de
dizê-lo novamente.
Com um gemido, Rocco foi para cima dela e a silenciou com sua boca, passando as
mãos por todo o seu corpo, tirando o sutiã e a calcinha de Gracie, possuindo-a repetidas
vezes até ela não poder nem mesmo articular mais o nome dele.

— E QUEM é a sua companheira? Gracie sorriu tensa diante da mulher de aspecto


anêmico, com um cabelo preso em forma de bola em torno da cabeça. Era impossível
definir a sua idade, de tanto que o seu rosto era esticado.
— Gracie O'Brien — murmurou Rocco, ao lado dela.
A mulher a olhou de cima a baixo, avaliando depreciativamente o longo preto e
brilhante de Gracie.
— Ah, achei mesmo que fosse irlandesa, com esse cabelo vermelho e a pele clara.
Gracie sorriu docemente.
— Minha mãe, na verdade, era inglesa e eu nasci e cresci na Inglaterra, mas meu
pai, sim, era irlandês.
A mulher arqueou as sobrancelhas.
— Entendo. — E então, como se extremamente entediada com Gracie, e nem um
pouco feliz por ela ter sequer lhe dirigido a palavra, ela se voltou para Rocco e lhe deu o
braço. — Agora, Rocco querido, conte-me tudo sobre Bangkok. Estou louca para saber a
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respeito do seu acordo com a Larrimar Corporation.
A mulher estava afastando Rocco habilmente de Gracie, mas ele se deteve, forçando
a mulher a fazer o mesmo. Ele sorriu para ela, mas Gracie estremeceu. Já havia visto
aquele sorriso muitas vezes e ficou feliz por ele não estar sendo dirigido a ela naquela
situação.
Ele desvencilhou o braço do toque possessivo da mulher e pegou a mão de Gracie,
puxando-a com firmeza para o seu lado, sem dizer coisa alguma, mas deixando muito
claro que ela não seria ignorada. Gracie tentou não atentar para o salto que seu coração
deu dentro do peito e viu, divertida, a mulher continuar tentando descartá-la, enquanto
Rocco a puxava com firmeza para junto de si.
Gracie acabou por se desligar da conversa. Observar aquelas pessoas era algo
fascinante. Eles estavam em um salão de convenções de um hotel luxuoso, do lado do
Central Park oposto ao apartamento de Rocco. Eles haviam acabado de saborear um
suntuoso jantar em um banquete para mais de 200 convidados e estavam agora em outro
recinto luxuoso que conduzia a um enorme terraço com centenas de velas.
Rocco a estava segurando com mão de ferro, de modo que ela teve de cutucá-lo nas
costelas para que ele olhasse para ela e a soltasse.
Gracie sorriu docemente para a mulher esnobe e disse a Rocco:
— Vou tomar um pouco de ar.
Rocco relutou muito, mas acabou deixando-a ir.
Ele a viu caminhar pela multidão. Seu cabelo ruivo parecia um farol brilhante,
fazendo as pessoas se deterem e se virarem para olhá-la. Ela era muito viva e brilhante
comparada à maioria das pessoas de lá. Como é que ele só havia reparado naquilo agora?
Não havia sido exatamente aquela a característica que o havia atraído da primeira vez em
que ele a vira?
Ao transpor a pequena distância do apartamento deles até o hotel, pouco antes,
Gracie dissera a ele, um tanto melancolicamente:
— Nós podíamos ter atravessado o parque a pé. Rocco olhara para ela e balançara a
cabeça.
— Não, Gracie, não poderíamos. Ela lhe mostrara a língua e dissera:
— Estraga-prazeres!
— Ela é diferente.
Rocco se virou, com medo de ter pensado em voz alta.
— Como?
Helena Thackerey era uma esnobe inveterada, mas também muito astuta.
— Eu disse que ela é diferente.
Rocco conteve a sua surpresa, tentando se recompor.
— Sim, mas não há nada de diferente na nossa relação. A senhora bufou e pareceu
bem mais humana por um momento.
— Diga isso a quem possa acreditar em você, de Marco. — Ela se aproximou e
prosseguiu num tom mais baixo. — Eu gosto dela. Ela tem tutano. Não é como aquelas
aristocratas idiotas e chatas com quem você costuma namorar.

GRACIE ABRIU caminho por entre a multidão, esquecendo-se de que estava em meio
a algumas das pessoas mais ricas de Manhattan, até conseguir chegar ao terraço.
Conseguiu pegar uma água com um garçom e se deteve para apreciar a vista mágica de
Nova York, à noite. A voz veio por trás dela, fazendo-a estremecer.
— Aquele à sua esquerda é o Harlem.
Rocco se aproximou ainda mais dela, de modo que as costas e nádegas de Gracie
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tocaram a parte da frente do corpo dele. Ela sentiu o membro dele enrijecer e recostou a
cabeça no peito dele, dizendo arfante:
— Você é insaciável.
Rocco passou um braço em torno da cintura dela, pressionou-a com mais força ainda
contra si, dizendo com a voz rouca:
— Vamos embora daqui. Eu já estou farto da nata da sociedade de Nova York por
esta noite.
Gracie se virou nos braços dele e o encarou, revirando os olhos:
— Eu também já vi o Central Park de bastante ângulos diferentes.
Rocco conteve uma risada e baixou a cabeça. Grade odiou o modo como adorava a
sua capacidade de fazê-lo rir.
— É uma pena — disse ele, junto ao ouvido dela — porque quando voltarmos, eu
vou querer recriar esta exata posição, só que o seu vestido já estará longe e suas pernas
estarão enroscadas em torno de minha cintura.
Gracie engoliu em seco e pousou o seu copo em uma mesa, enquanto Rocco a
arrastava sem cerimônia alguma pelo recinto.
De volta ao apartamento, ele avançou na direção dela, que o esperava
obedientemente junto à parede que dava para o Central Park, agora do outro lado. Ela
estava tremendo de expectativa só de vê-lo tirar o seu paletó e a gravata borboleta e
desabotoar a camisa. Ele se aproximou e a pegou de surpresa, beijando-a tão docemente
na boca que ela levou as mãos até o peito dele.
Assim que ele se afastou e olhou para ela, Gracie subitamente quis mais do que
apenas um envolvimento físico.
— Como agüenta lidar com pessoas daquele tipo o tempo todo?
Rocco permaneceu imóvel.
— O que você quer dizer?
— Aquela mulher, por exemplo. Ela foi tão rude. — Gracie enrubesceu. — Assim
como Honora Winthrop.
Rocco tomou as mãos de Gracie e se colocou ao lado dela, pousando as mãos na
parede. Uma tensão sutil irradiava de seu corpo.
— Grande parte daquilo não passa de bravata. Ela foi uma das poucas pessoas que
me ajudaram quando eu cheguei à Nova York. Ela gostou de você. Disse que tinha tutano.
Gracie sorriu timidamente.
— Talvez eu tenha me equivocado em relação a ela, mas não em relação à Honora.
Rocco ficou sério.
— Não, ela é mesmo uma cadela.
— Por que, então, chegou sequer a pensar em se casar com ela?
Rocco não disse coisa alguma por um longo momento, pensando em como poderia
explicar a Gracie que jamais havia pretendido se casar com ela por motivos românticos.
— Por isso — disse ele, apontando para o parque. — O casamento é o único modo
de alguém como eu conquistar um lugar na sociedade.
— Como assim, alguém como você? Você não vem desse mundo também?
Ela se virou a fim de encará-lo.
Depois de um longo momento, Rocco balançou a cabeça e disse com uma voz tensa:
— É dali que eu venho — disse ele, apontando para a rua — exatamente como você.
Gracie teve a impressão de finalmente ter encontrado a peça do quebra-cabeça que
faltava.
Sempre suspeitara que havia algum mistério envolvendo Rocco.
— O que quer dizer, exatamente como eu? Não está querendo me dizer que
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cresceu...?
Ele a olhou com uma expressão feroz:
— Nas ruas? Lutando para sobreviver em um mundo hostil? É exatamente isso o que
eu quero dizer.
Rocco desviou o olhar e soltou um palavrão em italiano e Gracie se deu conta de que
ele nunca falava em sua língua nativa.
— Eu não tenho de falar disso.
— Por que não? — ousou ela.
Quis acrescentar ainda Eu não vou continuar por perto por muito mais tempo, mas
aquilo lhe pareceu doloroso demais.
Rocco olhou para a escuridão do parque como se ele detivesse todas as respostas
para as suas questões e começou a falar em um tom de voz baixo e sem emoção. Contou
a Gracie que havia nascido na pior favela da Itália, em uma de suas cidades mais pobres,
que sua mãe havia sido uma prostituta de alta classe e que seu pai era um dos homens
mais ricos de sua cidade.
— Minha mãe gastava todo o seu dinheiro para saciar o seu vício. Ela engravidou de
propósito de meu pai, almejando um futuro seguro para si. Chegou ao cúmulo de
conseguir uma amostra do DNA dele a fim de poder fazer um teste de paternidade assim
que eu nasci. Meu pai, porém, não quis saber de mim. Já tinha duas filhas e era um
megalomaníaco. Não queria um filho bastardo que acabasse com a sua reputação
perfeitamente ilibada.
Gracie viu as mãos de Rocco ficarem tensas.
— Você não pode nem imaginar como era aquele mundo. O barulho constante, as
gangues rivais, os assassinos, os drogados... O dia e a noite inteiros. Eles costumavam me
usar como olheiro. — Ele torceu a boca. — Os policiais eram igualmente corruptos. Não
havia serviços sociais. Eu odiava a brutalidade daquela vida, a falta de inteligência para
governar o caos e impedir a destruição. Minha mãe saltava de uma crise passional para
outra. Eu ansiava por um mundo mais ordenado, sem aquele drama e incerteza
constantes, sem aquele perigo eternamente presente.
Gracie estremeceu.
— O que aconteceu com a sua mãe? Rocco ficou muito quieto.
— Eu a encontrei morta com uma agulha espetada na perna quando tinha 17 anos.
Gracie pousou a mão no braço dele, chocada.
— Oh, Rocco...
Ele afastou a mão dela e lhe lançou aquele olhar negro.
— Não estou lhe contando isso em busca de sua compaixão. Não preciso disso,
nunca precisei. Ela não me amava. Estava fissurada demais pela dose seguinte ou pelo
próximo freguês rico.
Gracie engoliu em seco.
— Eu sinto muito.
Rocco desviou o olhar novamente, e Gracie apertou a mão contra a sua barriga.
— Eu abordei o meu pai, certo dia, do lado de fora de seu palazzo. Sabia onde ele
morava. Minha mãe me havia apontado a sua casa várias vezes. Foi logo depois que ela
morreu. Ele cuspiu em mim, me jogou no chão e pisou em mim. Minhas duas meias-irmãs
estavam com ele e nem sequer olharam para mim, apesar de me terem ouvido chamá-lo
de pai. Eu os vi entrarem em um carro guiado por um chofer, deixando para trás aquela
verdade indesejada. Invejei-os por aquela facilidade e proteção. Invejei a riqueza que lhes
proporcionava tudo aquilo. — Ele sorriu fazendo um arrepio de medo subir pela espinha
de Gracie. — Meu pai, obviamente, falara com um de seus homens. Assim que o carro se
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afastou, eu fui arrastado para um lugar mais deserto e surrado a ponto de ir parar num
hospital. Foi um aviso. Nunca mais tentei vê-lo. Deixei a Itália e jurei que um dia o olharia
nos olhos e saberia que havia conquistado o meu lugar no mundo, apesar da sua rejeição.
Gracie olhou para o maxilar e ombros tensos dele e viu a leve cicatriz que ia de sua
têmpora até o maxilar e as outras, menores. Ela desejou tocá-lo e confortá-lo, mas Rocco
parecia um animal selvagem.
Ele estava em carne viva.
— Aquela cicatriz em seu ombro. Era uma tatuagem, não era?
Rocco assentiu.
— Significava que eu pertencia a certa facção da favela. Eu a removi assim que vim
para a Inglaterra.
— É por isso que você nunca fala em italiano. Você odeia as lembranças de lá.
Ele baixou a cabeça e disse, numa voz enganosamente suave:
— Vá embora, Gracie... Deixe-me sozinho.
Gracie deu um passo para trás, sentindo a dor florescer em seu coração e se
espalhar por todo o seu corpo, aterrorizada com a possibilidade de começar a chorar.
Ela ansiava por confortá-lo. Começou a se afastar, mas olhou para ele quando
chegou até a porta. Rocco estava de cabeça baixa e ela se deu conta de que ele sempre
fora um solitário, lutando contra o mundo do qual ansiava por fazer parte.
Decidida, ela arrancou os sapatos e voltou até ele e se enfiou por baixo de um dos
braços dele, de forma a se ver envolvida por ele.
Gracie olhou direto em seus olhos escuros.
— Eu não vou embora porque não acredito que queira realmente ficar sozinho. — Ela
pousou a sua pequena palma no maxilar rígido dele. Seus olhos acariciaram a boca dele.
— Eu o quero, Rocco. Muito.
A tensão podia ser cortada com faca. Rocco soltou um gutural "Maldita!" e puxou
Gracie para junto de si com tanta força que ela teve medo de ele quebrar a sua coluna,
mas mordeu o lábio inferior e não disse uma única palavra. Ela podia sentir a índole
selvagem dele precisando de alívio e queria desesperadamente lhe servir de apoio da
única maneira que ele lhe permitiria fazê-lo.
Os beijos dele foram brutais e eletrizantes. Suas roupas foram rasgadas e arrancadas
de seus corpos enquanto eles se moviam pelo apartamento, com uma pressa
desesperada.
Gracie sequer conseguiu se lembrar de como eles haviam chegado até o quarto,
apenas de que aquilo que havia ocorrido ali havia lhe mostrado o quanto Rocco tinha se
contido durante todos aquele anos. Seu corpo todo doía, porém agradavelmente. Ela sabia
que a sua pele alva ficaria cheia de hematomas devido às mordidas de Rocco e
estremeceu ao pensar em como havia desejado que ele o fizesse com mais força. Ele a
havia possuído por trás, com suas mãos enroscadas na cabeceira e aquela fora a coisa
mais erótica que ela já havia vivido.
Ela ergueu a cabeça e olhou para Rocco. A tensão inata de seu corpo fez com que
ela soubesse que ele não estava adormecido.
— Rocco...?
Para sua surpresa, ele pousou um braço sobre o rosto e não quis olhar para ela.
Gracie tentou afastá-lo, mas ele disse asperamente:
— Não posso olhar para você. Eu... Eu a possuí como um animal.
Suavemente, porém com firmeza, Gracie afastou o braço dele e montou sobre o seu
corpo, tomando o rosto dele em suas mãos.
— Rocco de Marco. Olhe para mim.
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Ele abriu os olhos, e Gracie achou que ia chorar ao ver a vergonha estampada no
rosto dele, mas conteve a sua emoção.
— Eu estou bem. Eu gostei.
Ela beijou o maxilar e a boca dele e desceu pelo seu pescoço, mas Rocco a deitou de
costas novamente.
— Eu não posso fazer isso.
A expressão dele era indecifrável. O coração de Gracie titubeou ao vê-lo sair da
cama, em toda a sua majestosa nudez, sob a luz tênue.
— Durma um pouco, Gracie — disse ele. — Nós partiremos amanhã, na hora do
almoço.

AFASTAR-SE DE Gracie fora a coisa mais difícil que Rocco já havia feito. Ele seguiu
direto para a piscina e mergulhou nela.
Eu estou bem. Eu gostei.
As palavras ardentes dela haviam cortado as suas entranhas como uma faca serrada.
Ela havia visto coisas demais. Chegara perto demais. Ele nunca havia falado a
ninguém a respeito de seu passado. Bastara, porém, o menor encorajamento da parte de
Gracie para que ele lhe revelasse tudo e ela o aceitara incondicionalmente.
Ele a havia possuído brutalmente e ela não só o acolhera como também encorajara.
Ele tinha aliviado a sua dor, fazendo com que a sua ira intensa desaparecesse e fosse
substituída por uma estranha espécie de paz.
Até mesmo a vergonha que sentira inicialmente estava desaparecendo.
Enquanto nadava vigorosamente de uma ponta à outra da piscina, Rocco esperava
que o cansaço físico pudesse também amortecer outras sensações dentro dele. Sensações
novas, diferentes das antigas, obscuras e retorcidas, mas nem por isso menos
assustadoras.

GRACIE AINDA estava um pouco abalada na hora do almoço do dia seguinte. Era
como se houvesse ocorrido um terremoto na noite anterior, e ela não estivesse mais certa
de coisa alguma.
Tinha acordado tarde, depois de se revirar a noite inteira e descoberto através de
Consuela, que Rocco havia ido ao escritório.
Ela ouviu um barulho e desviou o olhar da TV. Não havia conseguido se concentrar
nas notícias.
Rocco estava junto à porta, parecendo incrivelmente austero. Gracie sentiu um frio
na barriga, dizendo a si mesma que não deveria estar surpresa. Ela o havia provocado
excessivamente e ele jamais a perdoaria por ter feito com que ele lhe revelasse a verdade.
Era orgulhoso demais para aquilo.
Gracie se levantou lentamente e tentou agir com a mesma fria reserva que ele,
apesar de profundamente abalada.
— Estou pronta para ir embora. Rocco lhe estendeu um papel.
— Quer me explicar isso? Gracie franziu a testa.
— Do que é que você está falando? Rocco leu em alto e bom som:
— "Steven, onde você está? Você está bem? Por favor, entre em contato comigo,
tenho tanta coisa para lhe contar. Preciso saber que você está bem. Por favor, informe-me
onde você está. Envie-me um número para que eu possa ligar para você. Precisamos
conversar — eu posso ajudar você."
Gracie empalideceu.
— Como foi que conseguiu isso? Os olhos de Rocco estavam negros:
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— É o endereço de e-mail de trabalho dele. Eu tenho uma pessoa checando a caixa
de entrada de Steven 24 horas por dia.
Gracie sentiu o seu estômago se contrair. Sentiu-se culpada, apesar de não ter razão
para tanto.
— Eu não lhe disse isso ontem porque você estava muito irado, mas pretendia lhe
contar que havia tentado entrar em contato com ele.
Rocco arqueou uma sobrancelha como Gracie não o via fazer há dias.
— Você teve a noite inteira para me contar. Estava tentando avisá-lo para manter
distância, e se encontrar com você em algum lugar afastado daqui.
Gracie engoliu em seco.
— Isso foi o que você compreendeu não o que eu quis dizer. Estou preocupada com
ele e quero saber onde ele está. Quando disse que poderia ajudá-lo, quis dizer sim-
plesmente que se ele se entregasse eu o ajudaria, quaisquer que fossem as repercussões
dos seus atos.
Rocco baixou o papel e sorriu duramente.
— Tão nobre e tão mentiroso. Pensei que ia lhe contar que você havia se infiltrado
na cama do chefe dele e lhe contado uma série de histórias com o intuito de conquistar a
sua compaixão. Talvez queira bater as versões com ele, antes de ele aparecer como
alguma espécie de penitente?
Infiltrado na cama do seu chefe. Histórias. Aquelas palavras caíram na cabeça de
Gracie como flechas envenenadas.
Ela pensou nas coisas pessoais que havia compartilhado com ele. O fato de ele
encarar aquilo como meras histórias a fim de obter a sua compaixão quase fez com que
ela se dobrasse de dor.
Ela balançou a cabeça, tonta.
— Isso é ridículo.
— Não — disse Rocco, asperamente. — O que é ridículo é que eu a tenha
subestimado por tanto tempo. Você é uma ladra calculista, exatamente como o seu irmão,
e faria qualquer coisa para protegê-lo.
Gracie estava tremendo intensamente.
— Será que preciso lembrá-lo de que foi você quem me seduziu?
O rosto de Rocco parecia feito de granito. Era como se ele não pudesse ouvi-la.
— Você vem jogando comigo desde que nos conhecemos, naquele evento, em
Londres. Você e seu irmão. Ele fez a sujeira e você veio limpá-la.
Gracie sentiu um torpor se espalhar por todo o seu corpo. Rocco estava imóvel, a
milhas e milhas de distância do homem em carne viva e emotivo da noite anterior. Ela
quis acusá-lo de a ter atacado porque ela havia ido fundo e longe demais em sua alma,
mas já havia se exposto o suficiente. Se demonstrasse o que estava sentindo, ele
concluiria que ela estava apaixonada por ele, e naquele exato momento, ela preferiria
morrer do que permitir que ele soubesse daquilo, por isso, ela mergulhou fundo dentro de
si, no lugar para onde havia se retirado por anos, toda vez que as coisas ficavam muito
difíceis. Um lugar onde as palavras de Rocco não poderiam atingi-la.
— Você parece já ter concluído tudo sozinho. O que mais quer que eu diga?
Gracie olhou para ele, mas não o viu. Enxergou apenas a dor e a raiva pela sua
própria tolice em ter acreditado, por um segundo sequer, que a noite anterior havia
significado alguma coisa para Rocco.
A voz dele estava embargada e áspera.
— Não há mais nada a dizer. É hora de ir embora.

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O TRAJETO de volta para Londres transcorreu num verdadeiro borrão. Gracie dormira
sozinha no quarto do avião, torturada por sonhos vívidos em que procurava por Steven e
só encontrava Rocco esperando pelos cantos com uma expressão selvagem.
Assim que o carro de Rocco parou do lado de fora do seu prédio, Gracie percebeu
que o seu esforço por manter o autocontrole estava indo por água abaixo, dando lugar a
uma dor e uma enorme sensação de vazio-.
Ela olhou a rua vazia com uma centelha de esperança e então sentiu o seu braço
sendo agarrado com força.
— Nem pense nisso.
Gracie se desvencilhou de Rocco e olhou seriamente para ele, sentindo um fogo
voltar a arder dentro dela.
— Não toque em mim. Eu não vou deixar o meu irmão à sua mercê.
Eles subiram em silêncio no elevador, mas para a decepção de Gracie, ela teve de
fazer muito esforço para não pensar na dor praticamente tangível de Rocco que
testemunhara na noite anterior. Ele não merecia a sua compaixão nem mesmo por um
segundo sequer.
George estava à espera deles, no apartamento, e estendeu alguns jornais a Rocco
assim que o viu.
— Há uma fotografia sua e de Gracie nos jornais. Rocco abriu o jornal e viu a
enorme fotografia de ambos, durante uma festa, em Nova York, com a legenda: "Quem é
a mais recente amante de cabelos de fogo de Rocco?”.
Gracie ficou enjoada. Rocco fechou o jornal depois de um longo momento e disse:
— Agora veremos o quanto seu irmão está realmente disposto a protegê-la.
Gracie ficou boquiaberta.
— Você me acusou de seduzi-lo, mas, na verdade, armou toda esta farsa para que
fôssemos fotografados e meu irmão saísse de seu esconderijo para vir me salvar das suas
garras.
A expressão de Rocco era indecifrável.
— Vai ser interessante ver se o vínculo de vocês é tão forte quanto você diz.
Gracie olhou para Rocco sem conseguir enxergar um milímetro do homem por quem
pensara ter se apaixonado.
— Você é um filho da puta.
Ele sorriu, com uma expressão cruel.
— Você tem toda razão.

Capítulo Onze

GRACIE ENTROU em seu quarto e trancou a porta e Rocco jogou o jornal no chão e foi
se servir de uma dose de uísque. Suas mãos estavam tremendo.
Tudo em que conseguia pensar era em como havia sido tolo por confiar cegamente
em Gracie a ponto de se convencer de que ela era inocente.
Ao pensar na paz que havia tomado conta dele depois das vigorosas braçadas e de
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ter despertado pela manhã sem ter se arrependido por ter aberto o seu coração a ela, ele
teve vontade de socar a parede.
Quando a vira olhando sonhadoramente, porém, do lado de fora do seu prédio, ele
havia agido movido por uma dor enorme que só poderia tê-lo atingido por estar ligada a
alguma outra emoção igualmente profunda.

Rocco PASSOU à tarde seguinte andando de um lado para o outro, em seu escritório.
Gracie não havia saído do quarto, nem respondido quando ele batera à sua porta.
Ele sentiu um curioso formigamento em seu pescoço, virou e viu uma pessoa
conhecida caminhar em direção ao seu escritório. Seu coração afundou como uma pedra
em seu peito. Seus funcionários se detiveram para olhar também, porque sabiam o que
aquilo significava.
Para Rocco, porém, aquilo significava algo infinitamente mais importante do que um
milhão de euros. Seu coração se contraiu dentro do peito ao ver Steven Murray entrar em
seu escritório com um olhar furioso.

A ÚNICA coisa que tirara Gracie de seu estado catatônico fora aquela voz conhecida.
— Abra a porta, Gracie. Sou eu.
Ela se sentou. Devia estar sonhando.
Abriu então a porta e viu o seu irmão, do outro lado dela.
Por um longo momento ela apenas olhou para ele sem conseguir acreditar nos seus
olhos. Depois a emoção eclodiu em soluços e ela se jogou nos braços magros dele. Steven
a abraçou com força e acariciou as suas costas, acalmando-a.
Gracie se viu acomodada em um sofá, com Steven lhe estendendo uma bebida.
Ela respirou fundo, com a cara inchada.
— Eu não bebo. Seu irmão insistiu.
— Está precisando de uma.
Gracie tomou um gole e fez uma careta, sentindo suas entranhas arderem. À medida
que a bebida a despertou, ela se lembrou de que aquele sentado à sua frente era mesmo
o seu irmão e foi tomada de pânico.
— Você não pode ficar aqui... Rocco está lá embaixo. Se ele descobrir que você...
Ela parou de falar e sentiu sua pele formigar ao ver Steven olhar para um ponto
acima da sua cabeça. Ela se virou e viu Rocco pálido, com as mãos enfiadas nos bolsos.
— Eu sei que ele está aqui. Veio falar comigo assim que chegou.
Gracie estava tensa. Não havia compreendido a ausência e raiva da parte de Rocco,
nem a ausência de urgência da parte de seu irmão.
— Steven... O que...?
Ele sorriu e pareceu cansado.
— É uma longa história. Eu já expliquei tudo ao senhor de Marco. Eu fui
chantageado por algumas pessoas que conheci na prisão. Eles sabiam onde eu estava tra-
balhando e ameaçaram contar o meu passado ao senhor de Marco. Eu fiquei aterrorizado
com a possibilidade de perder a melhor chance que já havia tido na vida... A coisa chegou
a um ponto em que eles quiseram dinheiro demais, e eu entrei em pânico e fugi...
Steven olhou para Rocco, e Gracie viu o respeito em seu rosto.
— O senhor de Marco prometeu que não me processaria caso eu o ajudasse a
rastrear esses homens. — Ele voltou a olhar para Gracie. — Mesmo que consigamos re-
cuperar parte do dinheiro, eu ainda continuarei em dívida com o senhor de Marco, mas ele
me ofereceu um emprego para que eu possa me reerguer e pagá-lo. Gracie, eu sei que
não mereço essa nova chance, mas juro que não vou estragar tudo de novo.
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Gracie estava em estado de choque. Ouviu, então, Rocco dizer a Steven:
— Pode nos deixar a sós por um momento? O senhor Jones o conduzirá a um
quarto.
Steven assentiu e apertou as mãos de Gracie.
— Você está bem?
Gracie teve vontade de rir histericamente. Nunca estivera pior, mas assentiu, mesmo
assim. Rocco entrou no seu campo de visão e Gracie só conseguiu olhar para ele,
tentando conter os sentimentos e sensações que ameaçavam vir à tona.
— Por que resolveu lhe dar uma chance? Depois de tudo...
— De tudo o que eu disse? — concluiu ele, numa voz tão áspera que ela se
contorceu. Rocco soltou um palavrão em italiano. — Eu sinto muito. — Ele se virou de
costas, como se não pudesse suportar o olhar dela. — Eu sinto tanto, Gracie. — Ele se
voltou, novamente, para encará-la, depois de longos segundos. — Eu fui um idiota, um
estúpido, um cego. Quando li o seu e-mail, torci tudo e acabei acreditando no pior. Na
noite passada, em Nova York, você chegou perto demais, fundo demais... Eu nunca havia
contado nada sobre o meu passado a ninguém, mas com você... Tudo veio à tona. E você
não me deu as costas, horrorizada ou chocada. Você me acolheu. — Ele puxou uma
cadeira para se sentar em frente a ela. Seus olhos ardiam. — Eu não armei coisa alguma
para o jornal. Você tem de acreditar em mim. Só pensei que aquela fotografia poderia
atrair Steven quando a vi publicada. Não havia sequer considerado essa possibilidade
antes disso, mas deixei que você acreditasse no contrário porque estava querendo afastá-
la de mim. — Rocco fez uma careta e Gracie pode ver a uma ferocidade diferente em seus
olhos. — Lá no fundo, eu sabia que você não era nada daquilo que eu a acusei de ser. Eu
a seduzi porque não pude deixar de fazê-lo. — Ele balançou a cabeça, evidentemente
aborrecido consigo mesmo. — Nunca havia confiado em ninguém durante toda a minha
vida até conhecer você. Quando Steven apareceu hoje, querendo saber o que estava
acontecendo entre nós, numa prova de até onde ele era capaz de ir para garantir a sua
segurança, eu não tive mais aonde me esconder.
Uma minúscula centelha de esperança brotou no coração de Gracie.
Rocco disse fervorosamente:
— Eu jamais deveria ter mantido você aqui, mas a verdade é que isso sempre teve
mais a ver com o que você provocava em mim do que com os atos do seu irmão.
A chama dentro dela tremeluziu.
— O que está dizendo?
Rocco tomou a mão dela na sua e Gracie conteve a sua imediata reação.
— Eu não posso impedi-la de ir embora se for essa a sua vontade, mas não quero
que o faça. Quero que você fique... pelo tempo que quiser.
— Pelo tempo que eu quiser?
A chama frágil vacilou perigosamente. Rocco assentiu.
— Nós temos algo muito forte, Gracie.
Gracie soltou a sua mão da de Rocco. O que ele queria dizer era que a desejava.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele fez uma careta e olhou para o relógio.
— Eu tenho de ir a uma reunião que não tenho como remarcar. Por favor, pense no
que eu disse. Conversaremos quando eu voltar... está bem?
Gracie estava perplexa. Ele havia dito "Por favor?”. Quando se deu conta de que ele
não ia se mexer até que ela dissesse alguma coisa, Gracie assentiu e viu o alívio relaxar a
expressão dele.
Rocco não disse mais coisa alguma. Apenas se levantou e foi embora.
Gracie, porém, não precisava mais de conversa alguma. Sabia muito bem que a
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única coisa a fazer agora era partir.
Rocco queria um relacionamento breve. Não mencionara nenhuma vez a palavra
amor e ela não podia mais negar que o amava. Ele jamais teria conseguido magoá-la tão
gravemente no dia anterior se ela não estivesse apaixonada por ele.
Ela não passava de uma diversão temporária para Rocco. Ele terminaria por escolher
uma princesa gelada para sua esposa, um dia, e Gracie queria odiá-lo por aquilo, mas
como poderia se sabia o quão desesperadamente ele ansiava por ser aceito na sociedade?
Quando sabia o quanto ele havia lutado para se livrar de seu passado? Será que ele não
merecia aquela conquista depois de tudo pelo que havia passado? Ela, mais do que
ninguém, não podia negar aquilo a ele.
Ligada no piloto automático, Gracie guardou os seus poucos pertences e escreveu
dois pequenos bilhetes — um para Rocco e outro para o seu irmão.
Duas semanas depois.
Gracie estava abrindo caminho por entre a multidão, tendo de praticamente segurar
a bandeja repleta de copos vazios acima de sua cabeça. Apesar de sentir o suor es-
correndo pelas suas costas e por entre os seios, ela tentou se conter. Aquele emprego lhe
permitiria sair do hotel em que estava daqui a algumas semanas e encontrar algum lugar
barato para alugar. Assim que tivesse um lugar só seu, ela separaria algumas horas a
cada dia para trabalhar no seu livro para as crianças.
Gracie suspirou de alívio ao ver as portas da cozinha à sua frente. Ela pousou a
bandeja, mas recebeu imediatamente outra, de seu chefe, repleta de taças de
champanhe.
Ela conteve um suspiro e retomou o seu trabalho, pedindo licença para avançar
entre os fregueses, sem, no entanto, conseguir fazer grandes progressos. Um frisson
percorreu subitamente a multidão, como se alguém especial tivesse chegado. Todos
viravam a cabeça e cochichavam. Ela revirou os olhos e agarrou a bandeja com mais
força. Certamente se tratava de uma celebridade.
Foi então que ela ouviu alguém dizer:
— Oh, meu Deus, ele está pegando uma mesa. É ele mesmo?
E, então, em meio ao burburinho que havia se espalhado pelo lugar, ela ouviu uma
voz conhecida dizer:
— Gracie O'Brien, eu sei que você está aqui, em algum lugar, mas onde?
O coração dela parou de bater. Não podia ser. Ela devia estar alucinando.
A voz se elevou novamente, com uma impaciência já familiar.
— Droga, Gracie, onde você está? Aquilo não podia ser apenas imaginação.
Ela ergueu o olhar, tentando enxergar acima das cabeças mais altas e sentiu a sua
respiração presa na garganta ao ver Rocco em cima de uma das suntuosas mesas do
bufê, com as mãos nos quadris, olhando para um lado e para o outro.
Ele se virou na direção dela e Gracie não conseguiu se esquivar a tempo. Ouviu o
seu rosnado de triunfo e o som dos pés chegando ao chão. Ela ainda tentou se virar, mas
àquela altura, as pessoas já haviam se amontoado atrás dela, de modo que ela se viu
presa em uma armadilha.
Como que em câmera lenta, a multidão em frente à Gracie se abriu como um Mar
Vermelho, revelando Rocco. Alto, moreno e deslumbrante. Estava usando uma camisa
azul-clara e uma calça escura. Aqueles olhos escuros percorrendo todo o seu corpo como
raio laser.
Sua barba estava cerrada e ele tinha um aspecto selvagem. As mãos de Gracie
tremiam tanto que as taças balançaram precariamente sobre a bandeja. Rocco avançou
em direção a ela e tirou a bandeja das suas mãos, passando-a para um barrigudo atônito
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que passava por perto e se voltou novamente para Gracie, logo em seguida.
— Por que está aqui, Rocco? Eu deixei muito claro naquele bilhete...
A boca dele se contorceu e seus olhos faiscaram.
— Sim, o seu bilhete sucinto de uma única linha que dizia: "Querido Rocco, sinto
muito, mas não estou interessada em ter um caso com você. Adeus. Gracie." Dio. Eu tive
vontade de estrangular você quando li aquilo.
A multidão em torno deles mergulhou no mais profundo silêncio.
O corpo de Gracie já estava reagindo a ele, mas ela cerrou os punhos e manteve os
olhos nele.
— Eu estava falando sério.
Rocco deu mais um passo à frente e Gracie deu outro para trás.
— Eu também não quero ter um caso com você. Gracie balançou a cabeça.
— Mas... Você disse apenas que existia alguma coisa entre nós.
— E é verdade.
Gracie sentiu uma raiva inútil se erguer dentro dela, em meio a uma grande
confusão.
— Rocco... Por que está aqui? Eu não quero... Ele voltou a se aproximar.
— Diga-me o que você quer, então. Horrorizada, Gracie mentiu, de puro desespero.
— Eu não quero nada com você. Rocco sorriu.
— Mentirosa.
Ela explodiu instantaneamente.
— Eu não sou mentirosa. Nunca menti...
— Eu sei cara... Mas acho que está mentindo agora a esse respeito.
Para seu horror, Gracie sentiu os seus olhos se encherem d'água e viu o horror
estampado no rosto de Rocco. Ele estendeu a mão na direção dela e a puxou para junto
de si.
Aquilo foi o céu e o inferno ao mesmo tempo. Ela mal conseguia se mover dentro do
abraço apertado dele.
— Seu desgraçado — disse ela, junto ao peito dele.
— Rocco levou as mãos até o maxilar dela, acariciando o seu rosto e secando as
suas lágrimas.
— Não chore piccolina... Por favor — disse ele, com uma voz torturada. — Por favor.
Eu não quero fazer você chorar. Apenas me diga... O que é que você quer?
Gracie quis despejar sobre ele toda a dor que ele havia lhe causado, mas não foi
capaz de fazê-lo.
— Eu quero você, Rocco de Marco. Só estou interessada em você. O que o mobiliza,
o que você quer, o que o faz feliz. Eu quero fazer você feliz. Estou apaixonada por você e
quero passar o restante de minha vida com você, e não ter apenas uma breve aventura.
— Uma espécie de desafiadora confiança tomou conta dela ao ver que Rocco não havia
saído correndo dela, horrorizado. — E então? Era isso o que você queria ouvir?
Rocco sorriu para ela como Gracie nunca o havia visto fazer antes e ela pode ter uma
idéia do jovem que ele fora outrora.
— Oh, sim, cara. Era exatamente isso o que eu queria ouvir porque também estou
apaixonado por você... Só não tive coragem de lhe dizer isso aquele dia porque tive medo
de afugentá-la. Sabia que você devia me odiar por tê-la magoado e quis cozinhar você
lenta e metodicamente, até você se apaixonar tão profundamente por mim a ponto de
nunca mais querer me deixar. Quando cheguei em casa, porém, só encontrei o seu
bilhete.
Ele proferiu uma longa seqüência de palavras em italiano e então Gracie tocou o
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maxilar dele finalmente reconhecendo os sinais de angústia no rosto dele. E por causa
dela...
— Você está falando em italiano.
Rocco fez uma careta.
— Desde que você foi embora, eu não tenho conseguido mais comer, dormir, nem
dizer outra coisa. Instalei cortinas em meu escritório e mandei todo mundo para o outro
andar a fim de que não pudessem testemunhar a minha dor. — O rosto dele ficou sério.
— Você me trouxe de volta à vida, Gracie, e a idéia de uma vida sem você me aterroriza
mais do que qualquer outra coisa que eu possa imaginar.
Gracie ficou olhando para Rocco. Toda a sua vida passou como um filme diante dos
seus olhos. Ela também se sentira sempre sozinha... até conhecer Rocco. Já havia
entregado o controle de sua vida a ele desde o início, pois de algum modo, ela já confiava
nele.
Para sua decepção, seus olhos se encheram de lágrimas, novamente.
— Eu não chorava nunca antes de conhecer você.
— Isso é porque você finalmente se deu conta de que não precisa ser sempre a forte
e a protetora.
Gracie assentiu e as lágrimas começaram a rolar pelas suas faces.
— É verdade, seu desgraçado.
No segundo seguinte, ela passou os braços em torno do pescoço de Rocco, enroscou
as pernas em sua cintura e começou a soluçar. Rocco a acalmou falando em italiano,
acariciando as costas dela.
Gracie se afastou e olhou para ele.
— Meu Deus, eu amo você, Rocco. Os olhos dele escureceram.
— Eu também amo você, Gracie.
Rocco estava prestes a beijá-la quando ela se afastou subitamente e disse:
—Tem certeza de que não está dizendo isso apenas porque ainda está encantado
com a novidade? E se eu voltar um dia para casa e descobrir que você se cansou de mim
e quer se casar com uma princesa da sociedade?
Rocco olhou para a multidão boquiaberta. Estava triunfante por estar abraçado à
mulher que ele amava e que o amava também. Aquele era o ápice de tudo o que ele já
havia desejado, e que ele jamais teria sabido, caso não a tivesse conhecido.
Ele olhou para Gracie e disse:
— O que você acha?
Rocco a viu olhar para a multidão também e se dar conta do que ele havia acabado
de fazer. Em público. Por ela. Entre os seus pares a quem ele dava tanta importância, há
tanto tempo.
Gracie enrubesceu e olhou para ele.
— Está bem, eu acredito em você.
— Acho que já está na hora de irmos para casa.
— Sim, por favor.

BEM MAIS tarde, quando seus corpos já estavam finalmente saciados, Gracie já não
sabia mais onde Rocco terminava, nem onde ela começava. Ela suspirou profundamente.
Rocco se apoiou em um braço e olhou para ela, seriamente e afastou uma mecha de
cabelo de seu rosto.
— A única razão de eu não ter lhe dito que a amava no dia em que você foi embora
foi o fato de ter ficado apavorado com a intensidade do meu sentimento por você. — Ele
pegou algo atrás do armário e o estendeu a ela, dizendo: — Bem, como passamos
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aceleradamente pela etapa do namoro, acho que podemos passar para a próxima.
Gracie se apoiou em seu cotovelo também.
Rocco estava abrindo uma caixinha de veludo e Gracie viu um deslumbrante anel de
esmeralda, cercado de diamantes.
Ela desviou o olhar para Rocco.
— Não vai poder devolver essa jóia para a loja. Esse é um presente para a vida toda.
Gracie se sentou, cobrindo-se com o lençol. Rocco pegou a mão dela, colocou a
aliança em seu dedo e olhou no fundo de seus olhos.
Gracie sentiu os seus olhos se encherem de lágrimas e lutou para não permitir que
elas caíssem.
— Gracie O'Brien, eu amo você mais do que a minha própria vida. Aceitaria vir
comigo ao Rio de Janeiro, na semana que vem e se tornar a minha esposa, tendo George
e Steven como testemunhas?
Gracie assentiu vigorosamente, enquanto as lágrimas corriam livremente pelas suas
faces. Com a voz embargada, ela respondeu:
— Sim, eu adoraria ir ao Rio de Janeiro com você e me tornar sua esposa.
Rocco a puxou para junto de si e a beijou. Depois de um longo momento, Rocco se
afastou e disse com a voz rouca:
— Ótimo, agora podemos passar para a próxima etapa.
— E que etapa é essa? — perguntou Gracie, sem fôlego.
— Viver o restante de nossas vidas juntos, formar uma família com todo o nosso
amor e dar aos nossos filhos tudo o que nos foi negado.
Incrivelmente emocionada porque sabia que ele estava esperando para saber se ela
queria a mesma coisa, já que, tendo em vista o passado de ambos, aquilo não era
evidente, Gracie tocou o rosto dele e disse com a voz rouca:
— Eu gostaria muito disso.

QUATRO ANOS depois, Gracie olhou para a cabeça de seu recém-nascido, irmão de
Tessa, a primogênita, atualmente com dois anos e meio de idade. Ela sorriu para o seu
marido e lhe disse em tom de brincadeira:
— Algum arrependimento, senhor de Marco?
Tessa se remexeu sonolenta no ombro dele quando ele se curvou sobre Gracie para
beijá-la. O amor pairava no ar em torno deles.
Ele se afastou depois de um longo momento e disse suavemente:
— Nem por um segundo.

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