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Literatura e Ensino UNIDADE 01 AULA 08

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Literatura Popular
na sala de aula

1 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

„„ Descobrir a literatura de cordel como


manifestação da cultura popular;
„„ Desmistificar a ideia de que a cultura
popular precisa ser resgatada;
„„ Estudar o cordel como uma forma de poesia que deve ser levada
para a sala de aula como qualquer outro gênero literário;
„„ Pesquisar e levar para a sala de aula as experiências dos
alunos e da sua família com a literatura popular.
Literatura Popular na sala de aula

2 Começando a história

Figura 1
Em um Instituto situado no Nordeste, não poderíamos, ao falar
de poesia, esquecer-nos da Literatura Popular, especificamente,
do cordel. Se a poesia não encontra muito espaço nas nossas
escolas, imagine a poesia popular... Apesar de o cordel já ter
sido reconhecido como poesia e ter se tornado objeto de
estudo em muitas universidades, ainda é marginalizado por
ser uma literatura de pobre e de analfabeto.

Antes de qualquer discussão, vamos ler um poema de Patativa do Assaré, um


dos maiores poetas populares do Brasil?

CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ Te armoço de fejão


Poeta, cantô da rua, E a janta de mucunzá,
Que na cidade nasceu, Vive pobre, sem dinhêro,
Cante a cidade que é sua, Trabaiando o dia intero,
Que eu canto o sertão que é meu. Socado dentro do mato,
Se aí você teve estudo, De apragata currelepe,
Aqui, Deus me ensinou tudo, Pisando inriba do estrepe,
Sem de livro precisa Brocando a unha-de-gato.
Por favô, não mêxa aqui, Você é munto ditoso,
Que eu também não mexo aí, Sabe lê, sabe escreve,
Cante lá, que eu canto cá. Pois vá cantando o seu gozo,
Você teve inducação, Que eu canto meu padece.
Aprendeu munta ciença, Inquanto a felicidade
Mas das coisa do sertão Você canta na cidade,
Não tem boa esperiença. Cá no sertão eu infrento
Nunca fez uma boa paioça, A fome, a dô e a misera.
Nunca trabaiou na roça, Pra sê poeta divera,
Não pode conhece bem, Precisa tê sofrimento.
Pois nesta penosa vida, Sua rima, inda que seja
Só quem provou da comida Bordada de prata e de oro,
Sabe o gosto que ela tem. Para a gente sertaneja
Pra gente cantá o sertão, É perdido este tesôro.
Precisa nele mora, Com o seu verso bem feito,
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Não canta o sertão dereito Não tenho estudo nem arte,


Porque você não conhece A minha rima faz parte
Nossa vida aperreada. Das obra da criação.
E a dô só é bem cantada, Mas porém, eu não invejo
Cantada por quem padece. O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Só canta o sertão dereito, Onde você aprendeu.
Com tudo quanto ele tem, Pra gente aqui sê poeta
Quem sempre correu estreito, E fazê rima compreta,
Sem proteção de ninguém, Não precisa professô;
Coberto de precisão Basta vê no mês de maio,
Suportando a privação Um poema em cada gaio
Com paciença de Jó, E um verso em cada fulô
Puxando o cabo da inxada, Seu verso é uma mistura
Na quebrada e na chapada, É um ta sarapaté,
Moiadinho de suó. Que quem tem pôca leitura,
Amigo, não tenha quêxa, Lê, mais não sabe o que é.
Veja que eu tenho razão Tem tanta coisa incantada,
Em lhe dize que não mexa Tanta deusa, tanta fada,
Nas coisa do meu sertão. Tanto mistéro e condão
Pois, se não sabe o colega E ôtros negoço impossive.
De quá manêra se pega Eu canto as coisa visive
Num ferro pra trabaiá, Do meu querido sertão.
Por favô, não mexa aqui, Canto as fulô e os abróio
Que eu também não mexo aí, Com toda coisas daqui:
Cante lá que eu canto cá. Pra toda parte que eu óio
Repare que a minha vida Vejo um verso se buli.
É deferente da sua. Se as vez andando no vale
A sua rima pulida Atrás de cura meus males
Nasceu no salão da rua. Quero repará pra serra,
Já eu sou bem deferente, Assim que eu óio pra cima,
Meu verso é como a simente Vejo um diluve de rima
Que nasce inriba do chão; Caindo inriba da terra.
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Mas tudo é rima rastêra Só numa parte de vida


De fruita de jatobá, Nóis dois samo bem iguá
De fôia de gamelêra É no dereito sagrado,
E fulô de trapiá, Por Jesus abençoado
De canto de passarinho Pra consolá nosso pranto,
E da poêra do caminho, Conheço e não me confundo
Quando a ventania vem, Da coisa mio do mundo
Pois você já tá ciente: Nóis goza do mesmo tanto.
Nossa vida é deferente Eu não posso lhe inveja
E nosso verso também. Nem você invejá eu
Repare que deferença O que Deus lhe deu por lá,
Iziste na vida nossa: Aqui Deus também me deu.
Inquanto eu tô na sentença, Pois minha boa muié,
Trabaiando em minha roça Me estima com munta fé,
Você lá no seu descanso, Me abraça, beja e qué bem
Fuma o seu cigarro manso, E ninguém pode negá
Bem perfumado e sadio; Que das coisa naturá
Já eu, aqui tive a sorte Tem ela o que a sua tem.
De fumá cigarro forte Aqui findo esta verdade.
Feito de paia de mio. Toda cheia de razão:
Você, vaidoso e facêro, Fique na sua cidade
Toda vez que qué fumá, Que eu fico no meu sertão.
Tira do bôrso um isquêro Já lhe mostrei um ispeio,
Do mais bonito meta. Já lhe dei grande conseio
Eu que não posso com isso, Que você deve toma.
Puxo por meu artifiço Por favô, não mêxa aqui,
Arranjado por aqui, Que eu também não mexo aí,
Feito de chifre de gado, Cante lá que eu canto cá.
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzí. (Cante lá que eu canto Cá - Filosofia
Sua vida é divertida de um trovador nordestino. Petróp-
olis: Ed. Vozes, 1982)
E a minha é grande pena.

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3 Tecendo conhecimento

3.1 Cultura popular: “Riqueza de pobre”

Patativa do Assaré mostra, no poema Figura 2


Cante lá que eu canto cá, que a cultura e
a literatura popular nascem da experiência
dos seus fazedores, por isso aqueles que
não a vivenciaram a cantarão de forma
superficial e/ou artificial. Esses versos nos
fazem pensar sobre os cordéis que são
escritos por intelectuais ou sobre a postura de alguns folcloristas, estudiosos
e professores que “limpam” os textos populares, reescrevendo-os de acordo
com a norma culta.

Ignez Ayala (2003, p. 98) critica a postura de muitas pessoas da universidade


que acreditam que aquilo que iletrados e semiletrados fazem não é arte, não
é cultura, nem literatura. Por isso, quando estudam a cultura popular, após
encontrarem algum vínculo com o passado da cultura europeia, insistem em
nivelá-la e compará-la pelas técnicas empregadas ou por seus elementos formais
mais evidentes. Por exemplo, muitos professores até levam o cordel para a sala de
aula, mas acreditam que precisam dizer que ele nasceu na Europa e pendurá-los
em um varal para mostrar que, em Portugal, ele era vendido assim. Mas, aqui, no
Nordeste, se perguntarmos aos mais velhos, eles nos dirão que os cordéis eram
colocados no chão ou em uma banquinha, com uma pedrinha em cima, para
serem vendidos nas feiras. Assim, alguns estudiosos descartam “os contextos
sócio-culturais, o sentido que as atividades culturais, as práticas, os processos têm
para as pessoas que as fazem, as escolhem, as elegem por gosto, por costume,
por preceito ou por qualquer outro motivo” (AYALA, 2003, p. 98). Desse modo,
percebemos que a autora toca numa questão fundamental na relação entre a
cultura popular e a erudita, na qual a primeira, geralmente, descarta o contexto
sócio-cultural do fazer do povo, como se fosse possível isolar um do outro,
expondo as manifestações da cultura popular como peças de museu.

Nesse sentido, Alfredo Bosi (2002) afirma que a cultura erudita


ou ignora pura e simplesmente as manifestações simbólicas
do povo, de que está, em geral, distante, ou debruça-se,
simpática, interrogativa, e até mesmo encantada pelo que
lhe parece forte, espontâneo, inteiriço, enérgico, vital, em
suma, diverso e oposto à frieza, secura e inibição peculiares ao
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Literatura Popular na sala de aula

intelectualismo ou à rotina universitária. A cultura erudita quer


sentir um arrepio diante do selvagem (BOSI, A. 2002, p. 330).

Essa reflexão nos mostra que os fazedores dessa cultura, embora consigam
reconhecer a cultura popular, não a respeitam, tendo uma visão distorcida e
preconceituosa em relação às manifestações culturais das camadas populares
da sociedade. E nós como enxergávamos a cultura popular até agora?

Dentro dessa realidade, como estudar a relação entre cultura popular e cultura
erudita? Na visão de Bosi, apenas a relação amorosa é válida e fecunda entre o
artista culto e a vida popular. Pois, sem
um enraizamento profundo, sem uma empatia sincera e
prolongada, o escritor, homem de cultura universitária, e
pertencente à linguagem redutora dominante, se enredará
nas malhas do preconceito, ou mitizará irracionalmente tudo
o que lhe pareça popular, ou ainda projetará pesadamente
as suas próprias angústias e inibições na cultura do outro,
ou, enfim, interpretará de modo fatalmente etnocêntrico e
colonizador os modos de viver do primitivo, do rústico, do
suburbano (BOSI, A., 2002, p. 331).

Assim, há a visão de quem enxerga a cultura popular como uma “peça de museu”,
ou seja, um elemento estático de modo que permanece passivo, por isso, muitas
vezes, é considerado primitivo no sentido pejorativo, isto é, ultrapassado. Por
sua vez, também existe a percepção que idealiza o povo, ao desejar inverter os
papéis na relação de poder por meio da cultura, acreditando que, “substituindo”
a cultura popular pela erudita (a da elite privilegiada), será uma forma de inclusão
dos marginalizados na sociedade capitalista. Logo, essas duas concepções não
respeitam as manifestações da cultura popular, que é viva e movente, incorrendo
no erro de querer cristalizá-la ou substituí-la.

Nesse contexto, Ayala mostra que as tentativas de definição das manifestações


populares oscilam sempre entre uma ou outra perspectiva, pois a forma de
se conceber o popular é frequentemente determinada pelos ideais da classe
dominante. Por esse motivo, de um lado, o popular é visto como pitoresco e
exótico; ou, por outro lado, como um modo antigo e ultrapassado de ver o mundo
e a vida, de forma que deve acontecer uma mudança completa na concepção
popular perante a vida. Essas posturas revelam a atitude de pessoas que se
colocam numa posição superior ao povo e o avaliam do alto do seu pedestal. De
outra forma, Ayala afirma que a cultura popular deve ser estudada como uma
concepção heterogênea do mundo e da vida, que muda com o tempo e varia
de acordo com os seus agentes.

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Exercitando

1) Pesquise, entre os seus conhecidos e familiares, especialmente pais e


avós, quais manifestações populares eles conhecem, por exemplo, cordel,
embolada, desafio, coco, entre outras. Depois, registre esses depoimentos
de forma escrita ou gravada em áudio e/ou vídeo e compartilhe com os
seus colegas de curso na plataforma.

2) Leia, no mínimo, um cordel dos autores a seguir: Leandro Gomes de Barros,


Zé Limeira, Manoel Camilo dos Santos, Toinho da Mulatinha, Zé da Luz,
José Pacheco e Manoel Monteiro. Depois, conte aos seus colegas as suas
impressões acerca dos textos lidos.

3.2 Sobre a poesia popular

A partir de 1960, segundo Ignez Ayala (1988), os poemas narrativos populares mais
curtos foram divididos em três grupos: poemas declamados, poemas cantados
e canções. Eles são impressos em folhas avulsas e reunidos em publicações
semelhantes aos folhetos de feiras, constando em livros e em discos de repentistas.
A distinção entre poemas declamados, cantados e canções é complicada e poucos
impressos a fazem. Nesse contexto, o público costuma usar o termo POEMA para as
composições declamadas, designando CANÇÃO a qualquer composição cantada.
Assim, os poemas são compostos por estrofes que obedecem às características
dos gêneros da cantoria (sextilhas, septilhas, décimas, etc.), cantados nas toadas
próprias do gênero, cujos temas mais recorrentes são o amor e os problemas
sociais. Estes diferem dos folhetos por serem composições curtas, equivalentes
a duas ou até quatro páginas, tratando-se de um gênero que não é criado de
improviso.

Um dos gêneros da poesia declamada é o POEMA MATUTO, cujo foco narrativo é


o matuto, caracterizado por certas peculiaridades do falar sertanejo, enfatizadas
pelo exagero e pela comicidade. Alguns estudiosos e muitos cantadores depreciam
esse gênero pelo fato de usar intencionalmente a grafia não padrão das palavras
para evidenciar os supostos “erros” do linguajar sertanejo.

Outro elemento recorrente na poesia popular é o processo de hibridização,


como na própria cultura popular e em outras culturas, pois não há manifestações

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Literatura Popular na sala de aula

culturais que possam ser consideradas “puras”, homogêneas, uma vez que
convivem e se influenciam mutuamente. Como afirma Ayala, a
literatura popular, como outras práticas culturais populares,
se nutre da mescla, e esse processo de hibridização talvez seja
um dos componentes mais duradouros e mais característicos.
O sério se mesclando com o cômico; o sagrado, com o profano;
o oral, com o escrito; elementos de uma manifestação cultural,
transpostos para outra (AYALA, 1997, p. 168).

Percebemos a hibridização na poesia popular ou não quando mescla a linguagem


oral com a escrita, o sério com o cômico ou retoma vários elementos de outras
culturas, enriquecendo o seu repertório. Tal fenômeno também é encontrado
no poema A muié qui mais amei (você pode conferir o texto integral na nossa
biblioteca virtual), de Patativa do Assaré, quando o poeta escreve nos moldes
da língua oral, utilizando o vocabulário do sertanejo, como podemos perceber
no trecho a seguir:

E por sorte ou por capricho,


Eu tinha prata, oro e cobre.
Dinhêro in mim era lixo
In casa de gente pobre.
Nóis nunca perdia os ato
De cinema e de triato
De drama e mais diversão,
Não fartava coisa arguma,
As nota eu tinha de ruma
Pra nóis andá de avião.

Além da linguagem híbrida, há a mistura entre o cômico e o sério, isto é, quando


narra uma história triste, tratando de temas sérios, lançando mão de efeitos
cômicos, que imprimem um tom leve e agradável ao poema. Observamos
também que o poeta não apenas traz elementos da sua cultura, mas também
de outras, por exemplo:

E quando nóis se trajava


E saía a passiá
O povo todo arredava
Mode vê nóis dois passá
Cada quá mais prazentêro
Deste nosso mundo intêro
Nóis dois era os mais feliz,
Vivia nas artas roda
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E só trajava nas moda


Dos modelo de Paris.

O eu-lírico não fica circunscrito apenas a um cenário, ele tem conhecimento de


outras realidades, gozando dos prazeres de outras culturas, o que é considerado
status principalmente num país subdesenvolvido e mais ainda na região menos
desenvolvida desse lugar. Afinal, quem, em um país como o nosso, pode vestir
uma roupa comprada em Paris? Ou mais, frequentar as altas rodas, os lugares
mais elegantes e caros do mundo? Certamente, essa é uma realidade quase
impensável para um sertanejo nordestino (e para a grande maioria do povo
brasileiro), que apenas a vislumbra nas novelas televisivas. Essa transposição
de culturas enriquece ainda mais o poema, confirmando que realmente não há
manifestações populares ou não que possam ser consideradas “puras”. Isto é, a
poesia ultrapassa as barreiras de cultura, raça e/ou crença, criando um mundo
onde tudo é possível.

Geralmente, na poesia popular, a maioria dos poetas prima pelas normas


gramaticais e pela pronúncia adotada como padrão no país. Eles consideram
“rimas ricas” as que abundam na Língua Portuguesa e “rimas pobres” as menos
recorrentes, ao contrário dos conceitos apresentados nos manuais de versificação.
Nesse contexto, rima, métrica e oração são também os critérios básicos para
a composição e valorização do poema. O termo oração significa que cada
estrofe deve encerrar o desenvolvimento de uma ideia sem fugir do assunto.
Por sua vez, a estrofe (conhecida também por verso) deve desenvolver uma
ideia central do começo ao fim, de modo que o sentido geral dos versos seja
facilmente entendido pelo público. Assim, eles não admitem nonsense, o qual
é denominado de disparate.

O poema A muié qui mais amei se enquadra no gênero matuto, porque


retrata a realidade e a fala do sertanejo, apresentando um dos seus traços mais
marcantes – a comicidade, bem como os seus temas mais recorrentes – o amor
e os problemas sociais (a miséria e o abandono na velhice). Dessa forma, como
a mulher e a felicidade são descritas no cerne do poema, a sua forma é um
modelo perfeito, composto de doze décimas em redondilha maior, seguindo
impecavelmente, desde a primeira estrofe até a última, o esquema de rima com
o primeiro e terceiro, segundo e quarto, quinto e sexto, sétimo e décimo, oitavo
e nono versos, sem nenhum deslize. Esse exemplo revela a maestria do poeta
no domínio da forma da poesia popular, mas não é apenas mestre neste gênero,
Patativa também escreveu poemas em outros moldes, como sonetos camonianos.

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Literatura Popular na sala de aula

3.3 A poesia popular no Ensino Fundamental

Como vimos anteriormente, é preciso mudarmos o nosso olhar sobre a cultura e


a literatura popular, enxergando-as não como folclore que precisa ser resgatado,
mas como uma manifestação viva e latente no meio dos seus fazedores, como
iremos discutir mais detidamente na disciplina Literatura Popular, que será
ministrada posteriormente.

Escolhemos o poema Um mundo desconhecido (você poderá encontrá-lo na nossa


biblioteca virtual), de Patativa do Assaré, por ser um poema popular infantil e
porque direcionaremos a nossa proposta para alunos do Ensino Fundamental.
Uma possibilidade de iniciar o trabalho com esse ou outro poema popular é o
professor sondar, por meio de uma conversa descontraída em sala de aula, se os
alunos sabem o que é um cordel. Como se tratam de crianças, este deve fazer
perguntas do tipo: vocês sabem o que é um cordel? Alguém já leu um cordel
para vocês? Em caso afirmativo, perguntar quem foi que leu, se eles lembram o
título ou o conteúdo do cordel e, por fim, se gostaram ou não da leitura.

Depois, o professor pode começar lendo o poema e relacionando-o às experiências


dos alunos com o cordel na vida e na sala de aula. Como este poema não tem
o formato comum de cordel, isto é, não tem forma de folheto, pois o seu suporte
é um livro, chamar a atenção dos alunos para esse detalhe, mostrando a diferença
entre os dois suportes. Em seguida, iniciar a leitura. Durante a leitura, não podemos
nos esquecer de mostrar o livro, o título, o nome do autor aos alunos, passando-o
de mão em mão, para que eles olhem a ilustração, folheiem-no, enfim, tenham
um contato mais próximo com ele, pois isso estimula a vontade de ler.
Posteriormente, comente com eles o que acharam do poema (se gostaram ou
não, que personagem chamou mais a atenção deles), se eles já conheciam alguma
das personagens, em caso afirmativo, é interessante perguntar se elas são as
mesmas no poema, se há alguma diferença, entre outros questionamentos que
os conduzam a compreender melhor o texto.

Figura 3 Uma vez trabalhamos com cordel na


5ª série e pedimos para que os alunos
pesquisassem em casa se os seus pais
e/ou avós conheciam algum cordel e,
em seguida, lessem ou declamassem
para eles. Ao final, eles iriam levar uma
cópia escrita ou gravada do cordel
para mostrar à turma. Foi uma festa!
Eles se envolveram tanto que um deles
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trouxe o avô para declamar vários cordéis na sala de aula. Com este trabalho,
percebemos que tanto os alunos quanto os pais e avós se sentiram valorizados,
porque viram a sua cultura encontrar espaço e ser prestigiada na escola. Você
também pode fazer essa atividade com seus (futuros) alunos, pedindo para que
eles levem cordéis de casa, comprem-nos na feira ou em bancas de jornais. Hoje,
podemos encontrar exemplares de cordéis muito facilmente e por um preço
quase irrisório (geralmente, um cordel custa de 1(um) a 2 (dois) reais).

No caso das crianças de 2ª e 3ª séries, sugerimos que o professor estimule-os a


recontar o poema por meio de desenhos e façam um mural, no qual os trabalhos
ficarão expostos. Nós fizemos este trabalho com crianças da alfabetização,
adaptando a história de Chapeuzinho Vermelho, e o resultado foi o de que os
alunos se envolveram muito na atividade de construção do mural, com os seus
desenhos que recontavam a história, de forma que resolveram encenar a história
para as outras turmas da escola, o que causou grande entusiasmo em todos.
O interessante é que aconteceram alguns imprevistos na hora da encenação,
como alguém esquecer a fala, e eles improvisaram bem, apesar de serem ainda
tão pequenos.

Agora, tentaremos sistematizar, de forma diferente, as nossas sugestões,


apresentando-as por meio de uma sequência didática.

SEQUÊNCIA DIDÁTICA

Público-alvo: Alunos do Ensino Fundamental (3ª a 5ª séries)

Carga horária: uma semana de aula (cada dia com 2 aulas de no mínimo 50
minutos cada)

Conteúdo: Poema Um mundo desconhecido, de Patativa do Assaré

Primeiro dia: leitura do poema, comentário e caracterização das personagens

Sugerimos que o professor trabalhe o teatro de bonecos com alunos do 1º e


2o ciclos do Ensino Fundamental (do 1° ao 5° anos), mas isso não significa que
não possa ser trabalhado nas demais séries. No primeiro momento, podem-se
seguir os mesmos passos sugeridos anteriormente para a leitura e comentário
do poema. Após a leitura, colocam-se os nomes das personagens (Patativa do
Assaré, Gênio, Fada e Pássaro depenado Gigante) no quadro e se pede para os
alunos dizerem como eles imaginam cada um fisicamente, emocionalmente,
incluindo o vestuário. Depois, podemos fazer um roteiro de apresentação simples,
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Literatura Popular na sala de aula

contendo apenas as falas das personagens. Todavia, devemos lembrar que esse
tipo de teatro trabalha mais com a improvisação, logo o roteiro teria apenas o
papel de nortear a manipulação e as falas dos bonecos.

Segundo dia: confecção dos bonecos

Figura 4 Os bonecos podem ser fabricados com material de


sucata, como papelão, tubos de papel higiênico,
jornal, tecido, meias velhas, tampas de garrafas,
palito de picolé, entre outros. Pedir aos alunos que
tragam esse material é muito importante, pois
eles se sentirão mais envolvidos na atividade e,
consequentemente, mais motivados. Os bonecos
podem ser de meia ou feitos com espuma e TNT,
que podem ser adaptados às mãos ou aos dedos (a depender do número de
pessoas, os bonecos manipulados pelos dedos podem não ser visíveis ao público);
ou ainda terem a forma de figuras impressas ou desenhadas pelos alunos em
cartolina guache, recortadas e coladas em palito de picolé. Este último tipo de
boneco é mais simples, não permite que se façam determinados movimentos,
como nos outros dois, contudo é mais uma possibilidade metodológica.

A confecção se torna mais interessante se for coletiva. Podemos dividir a turma


em grupos e cada grupo confecciona um ou mais bonecos. Isso dependerá
da realidade da sala, logo só o professor saberá a melhor forma de fazer esse
trabalho. As características elencadas anteriormente serão muito importantes,
nesse momento, para que os alunos deem forma aos bonecos. Temos de deixar
claro que eles devem se sentir livres para criar.

Terceiro dia: aprendendo a manipular os bonecos

Os bonecos podem ser manipulados em cima de um pano estendido em um


varal ou pode ser feito um teatrinho com uma caixa de papelão grande aberta
nos fundos e coberta com papel de presente. Em uma ou outra situação, os
manipuladores devem ficar escondidos atrás do pano ou do teatrinho.

Após a confecção dos bonecos, podem-se separar as falas de cada personagem,


adaptando-as à linguagem dos alunos, caso haja palavras que não pertençam
ao vocabulário dos alunos; se, na hora de manipular os bonecos, o professor
perceber que o aluno se atrapalha ao pronunciá-las, estas podem ser substituídas
por sinônimos. No caso desse poema, não é interessante fazer isso, porque pode
prejudicar o seu ritmo. Nesse momento, eles já devem ter lido várias vezes as suas
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falas, aprendendo a interpretá-las antes de encenar com os bonecos. Desse modo,


o professor deve orientá-los para que recriem as falas, improvisem, principalmente,
se esquecerem a sua fala na hora da apresentação. Certamente, por se tratar de
um poema em décimas (você já estudou a teoria sobre versificação em Teoria I,
logo, se não lembra o que são décimas, volte às aulas anteriores desta disciplina
e faça uma revisão), os alunos terão mais facilidade em decorá-lo.

É de suma importância que toda a turma, ou melhor, que todos os interessados


tenham a oportunidade de participar dessa atividade, podendo haver um
revezamento na manipulação dos bonecos. Na verdade, o mais importante
nessa atividade é o processo e não a apresentação, de modo que, se os alunos
não quiserem apresentá-la para outras pessoas, não há nenhum problema.

Quarto e quinto dia: ensaio e encenação com os bonecos

Por fim, ensaia-se quantas vezes for preciso, para que os alunos se sintam
seguros e mais à vontade para manipular os bonecos, entretanto o professor
deve delimitar o tempo a partir da observação do desenvolvimento dos alunos.
A turma deve decidir o momento (data, hora e local) de fazer a apresentação.

Exercitando

Agora é a sua vez! Pesquise e leia alguns cordéis, depois, escolha o seu cordel
predileto e elabore uma sequência didática para trabalhá-lo em uma sala de
aula do Ensino Médio.

4 Aprofundando seu conhecimento

Vamos aprofundar o conhecimento que adquirimos nesta aula? Segue a dica de


um livro que discute o assunto.

Figura 5

Na obra Cordel na sala de aula, do prof. Hélder Pinheiro,


encontramos reflexões que serão bastante proveitosas
para que possamos trabalhar com a poesia popular
na escola.

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Literatura Popular na sala de aula

5 Trocando em miúdos

Nesta aula, discutimos sobre formas diferentes de enxergar a cultura popular. Em


seguida, aprendemos um pouco sobre literatura popular e as formas de poesia
popular. Depois, apresentamos algumas sugestões metodológicas para que a
literatura popular, em especial o cordel, seja trabalhada em sala de aula sem
relegá-la à margem, considerando-a inferior como se não fosse arte.

6 Autoavaliando

„„ Eu já enxerguei e/ou ainda enxergo a cultura popular como sinônimo de


folclore? O que distingue um termo do outro?
„„ Talvez você já tenha escutado o discurso de que a cultura e a literatura
popular precisam ser resgatadas. Quais implicações ideológicas e práticas
decorrem dessa visão?
„„ Como eu posso promover a cultura e a literatura popular em sala de aula
sem repetir a visão preconceituosa que permeia, geralmente, as famosas
Semanas do Folclore?

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Referências

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um cantador nordestino.
3. ed. Rio de janeiro: Vozes, 1980.

AYALA, Maria Ignez Novais. Riqueza de pobre. In: Literatura e Sociedade. Revista
de teoria literária e literatura comparada, n. 2. São Paulo, 1997.

______. No arranco do grito: aspectos da cantoria nordestina. São Paulo:


Ática, 1988.

BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré: Pássaro Liberto. Fortaleza: Museu


do Ceará, Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2002.

MACHADO, Maria Clara. A aventura do teatro. Rio de Janeiro: José Olympio


Editora, 1985.