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Fichamento Occupy

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No ano de 2011 ocorreu um fenômeno que há muito não se


via; uma eclosão simultânea e contagiosa de movimentos sócias de
protestos com reinvindicações peculiares em cada região, mas com
formas de luta muito assemelhadas e consciência de solidariedade
mútua. Uma onda de mobilizações e protesto sociais tomou a
dimensão de um movimento global. Começou no norte da África,
derrubando ditaduras na Tunísia, no Egito, Na Líbia e no Iêmen;
estendeu-se a Europa, com ocupações e greves na Espanha e
Grécia e revoltas nos subúrbios de Londres; eclodiu no Chile e
ocupou Wall Street, nos EUA, alcançando no final do ano até
mesmo a Rússia.

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Houve uma sincronia cosmopolita febril e viral de uma


sequencia de rebeliões quase espontâneas surgidas a margem sul
do Mediterrâneo e que logo se manifestou na Espanha com os
indignados do Puerto Del Sol, em Portugal, com a Geração à
Rasca, e na Grécia, com ocupação da pra Sintagma. Em todos os
países houve uma mesma forma de ação: ocupação de praças uso
dos meios de comunicação alternativos e articulação politicas que
recusava o espaço institucional tradicional. Países como China
sentiram o risco e censurou a simples menção na internet a Praça
Tahrir, palco dos protestos Egípcios.

Comparações logo foram feitas com o ano de 1968 ou


mesmo com convulsões mais antigas, com a primavera dos povos
de 1848. A rebelião voltou à ordem do dia! O pano de fundo
objetivo e a crise social, econômica e financeira que se arrasta
desde 2008 e tem como consequência a carestia dos gêneros
alimentares o aumento do desemprego, mas o grande impasse que
está presente é a ausência de politicas organizadas. Os
movimentos se organizaram e rebeliões praticamente espontâneas
contras as estruturas politicas partidárias e sindicais vigentes, mas
sem forjar ainda uma nova articulação orgânica e representativa
dos anseios de transformação e ruptura.

Na África do Norte o movimento assumiu o caráter


revolucionário democrático, colocando fim as longas ditaduras. Na
América Latina se expressou principalmente nas reinvindicações
estudantis por educação pública e gratuita no Chile de teve apoio
de amplos setores, com greves sindicais que geraram uma crise
nacional, debilitando estruturalmente o governo de Sebastian
Piñera. Assumindo ainda um feitio de marcada denuncia dos
bancos e das corporações, sacudindo ate mesmo os Estados
Unidos, onde a ocupação de Wall Street se espalhou para centenas
de cidades e chegou a realizar um dia de greve geral em Oakland,
parando um dos maiores portos do país.

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Um outro ponto de concordância e que o capitalismo vive


não apenas uma crise cíclica de “destruição criadora”, mas um
momento de declínio geral, que ameaça até mesmo, como ressalta
Noam Chomsky”, a sobrevivência da espécie. Neste momento a
plutonomia como ele designa a economia conspícua de produtos de
luxo em nichos globais, há um proletariado cada vez mais
precarizado.
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No caso brasileiro abordado no texto de Edson Tele, ainda


não teve movimento da mesma magnitude que os de outros países,
mas possui a peculiaridade de mobilizar setores da juventude e dos
excluídos sociais, alvos, em 2011 de uma sistemática repressão
social, desde as marchas da maconha em São Paulo e da entrada
de tropas de choque na USP até a expulsão dos morados de
Pinheiros e dos projetos higienistas no centro das capitais.

A construção de um movimento anticapitalista não pode


simplesmente abdicar de partidos, eleições e sindicatos, sob pena
de esses espaços continuar a ser ocupado pelos partidos de direita,
como ocorreu na Espanha, onde o Movimento dos Indignados foi
forte a abstenção eleitoral foi enorme.

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A tradição Marxista teorizou a tomada de uma consciência


política das classes exploradas como autorreflexividade crítica e
prática na sua ação histórica que assim poderia romper politica e
ideologicamente com a ordem dominante. A consciência crítica de
uma época sobre si própria se cristalizaria institucionalmente nas
organizações sociais da classe trabalhadora, como sindicatos e
partidos. Estes, Entretanto, após as crises das internacionais
operarias, tornaram-se na história do século XX a principal camisa
da força burocrática dedicada bloquear a luta social. A consciência
politica rebelde, órfã dos aparatos e desconfiada da politica
institucional, emerge atualmente em manifestações de rebelião,
muitas vezes espontâneas, em que ate torcidas organizadas, como
no Egito, cumprem um papel de vanguarda revolucionaria.
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O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo capitalismo é


um sinal agourento de que o casamento do capitalismo e a
democracia estão próximo ao divorcio. O único sentido que os
manifestantes são comunistas é o de se preocupar com os bens
comuns – da natureza, do conhecimento - ameaçados pelo sistema.
Os manifestantes são descartados como sonhadores, mas os
verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas possam
continuar indefinidamente como estão, com apenas algumas
mudanças cosméticas. Eles não são sonhadores são o despertar de
um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estão
destruindo nada estão reagindo ao modo como o sistema
gradualmente destrói a si próprio. Todos nós conhecemos a cena
clássica dos desenhos animados: o gato chega a um precipício e
continua caminhando ignorando o fato de não haver chão sob as
suas patas e ele só começa a cair quando olha para baixo e
percebe o abismo. O que os manifestantes estão fazendo é apenas
lembrar os que no poder de olhar pra baixo

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A chave para a verdadeira liberdade, em vez disso, reside na


rede “apolítica” de produção, não votamos em que deveria ser o
dono do que, nas relações de uma fabrica e etc... Tudo isso é
deixado para os processos de fora da esfera política, e é ilusório
esperar que se possa mudar as coisas “estendendo“ a democracias
para esfera, digamos, organizando bancos “democráticos” sob
controle popular. Mudanças radicais nesse quesito deveriam ser
realizadas fora da esfera dos direitos “legais” etc. em tais
procedimentos “democráticos” ( que é claro, podem ter um papel
positivo), não importa quão radical seja o nosso anticapitalismo,
busca-se a solução na aplicação dos mecanismos democráticos os
quais, não podemos esquecer, são parte do aparato “burguês” que
garante o tranquilo funcionamento da reprodução capitalista.
Precisamente nesse sentido, Badiou está certo ao afirmar que hoje
o nome do pior inimigo não é capitalismo: é a “ilusão democrática”,
a aceitação dos mecanismos democráticos como a moldura
fundamental de toda mudança, que evita a transformação radical
das relações capitalista.

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A desigualdade econômica mina sistematicamente o


funcionamento democrático. Isso ocorre devido a pelo menos dois
mecanismos. Primeiro, os rico têm acesso mais fácil aos tomadores
de decisão e capacidade de influenciá-los, de modo legal ou ilegal.
Segundo, há um viés nas arenas políticas para atender os
interesses da parcela da população que controla os fluxos de
investimento. Isso, porque, se não há investimento, o mercado de
trabalho se fragiliza, prejudicando os trabalhadores (menos
empregos) e onerando o Estado (menos arrecadações de impostos
e mais repasses a políticas sociais). Mesmo em sistemas
democráticos, propostas politicas que não atendem aos interesses
dos ricos são muitas vezes deixadas de lado, por mais que gerem
benefícios reais a sociedade.

Os “ocupas” põem na pauta política justamente a discussão


de alternativas aos regimes econômicos desiguais e a
experimentação do igualitarismo democrático radical. E, com
exceção dos ricos, que de fato saem perdendo, participar dessa
discussão é do interesse de toda a população.
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Em contra partida, defende-se o direito dos trabalhadores e


dos prisioneiros em greve de fome, a cobrança de mais impostos
para os milionários e a restauração do sistema financeiro. No
movimento dos indignados, por exemplo, a “democracia real”
também é defendida. Enfim, trata-se do denso vasto continente do
novo (e precário) mundo do trabalhador de o proletariado extrema
que emerge no bojo dos “trinta anos perversos” de capitalismo
neoliberal.

Segundo, são movimentos sociais pacíficos que recusam a


adoção de táticas violentas e ilegais, evitando, desse modo, a
criminalização. Os manifestantes têm profunda consciência moral e
senso de justiça social, o que explica o uso do termo “indignado” (a
crítica do capitalismo implica, no plano da consciência contingente,
um vetor intelectual-moral radical capaz de mobilizar conjunto de
“multidão” de proletariado que se veem ultrajados em sua dignidade
humana).

Terceiro, usam as redes sociais, como o facebook e twitter,


ampliando a área de intervenção territorial e mobilização social,
produzem sinergia sociais em rede, tecendo estratégias de luta
territorial num cenário de crise social ampliada. Há tempos o MST
(Movimento dos Trabalhadores do sem Terra) , no Brasil, e o
Zapatismo, no Mexico, valem de estratégia de ocupação como
tática de luta e visibilidade social. Eles nos ensinaram que, hoje,
aluta contra o capital global que desterritorializa é a luta da
territorialização, difusa e descentrada (os novos movimentos sociais
não tem um líder)
Quinto expõem, com notável capacidade de comunicação e
visibilidade, as misérias da ordem burguesa no polo mais
desenvolvido do sistema apodrecido pela financeirização da riqueza
capitalista. A luta social anticapitalista hoje é a luta para revelar as
contradições candentes do sistema. No capitalismo manipulatório, a
regra é ocultação das misérias da ordem burguesa. Os indignados
europeus e norte-americanos, no entanto, expõem e criticam a
concentração de riqueza (eles dizem representar 99% contra 1%) e
a precariedade do trabalho e da vida – e, principalmente
desmistificando a democracia ocidental.

Sexto, os novos movimentos dos indignados, incluindo o


Ocuppy Wall Street, reivindicam a democratização radical contra a
farsa democrática dos países capitalistas centrais. Tem a intenção
de “agrietar” o capitalismo, isto é, fazer rachaduras no capitalismo
global (expressão utilizada por John Holloway em seu último livro)
Rachaduras que podem dar visibilidade ao inferno real. De certo
modo e sem saber, os indignados buscam negar o capitalismo no
interior dele próprio. Na medida em que ocorre a democratização
radical na sociedade, desenfeitava-se o Estado politico do Capital.
Entretanto esse novo movimento da proletariedade extrema, são
como a esfinge da mitologia grega, uma incógnita social. Enfim
dizem eles: “decifre-me ou devoro-te”

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Na verdade a crise do núcleo orgânico do sistema mundial


do capital diz respeito não apenas à crise financeira decorrente do
estouro da bolha imobiliária em 2008 e a crise da dívida soberana
europeia em 2010 em virtude da incontinência fiscal de alguns
países europeus, ou mesmo a crise social ocasionada pela
ampliação do desemprego e da precariedade laboral no bojo da
corrosão do Estado social europeu que, diga-se de passagem,
percebe a crise financeira: a crise do nosso tempo histórico é
também, e principalmente, a crise politica dos partidos da ordem
burguesa, paridos conservadores-liberais e socialdemocratas ordem
burguesa ou socialista que, na ultima década, constituíram uma
rede de interesses promíscua com a grande finança especulativo-
parasitário iludido, o tempo todos seus eleitores incautos.

Num primeiro momento, a presença da massa de jovens e


velhos rebeldes nas ruas e praças nos fascina, Há o fervor em
conquistar de maneira coletiva e pacífica territórios urbanos, praças
e lagos, verdadeiro espaços públicos marginalizados, verdadeiros
espaços públicos marginalizados pela logica neoliberal privatista
que privilegiou não espaços de manifestações sociais, mas espaços
de consumo e fruição intimista. O que assistimos hoje nos EUA e na
Europa é quase uma catarse coletiva. Trata-se de individualidade
pulsantes de indignação e rebeldia criativa, cada um com suas
preocupações e dramas humanos e singulares de homens e
mulheres proletários; com seus sonhos e pequenas utopias
pessoais capazes de dar um sentido à vida pro meio da
ressignificação do cotidiano como pesco de reinvindicação coletivas
de direitos.

Os movimentos sociais agem no plano do cotidiano


insubmisso, rompendo com a pseudoconcreticidade paralisante da
rotina sistêmica, mas permanecendo no esteio da vida cotidiana.
Talvez falte-lhes clareza do próximo passo ou do elo mais próximo
da corrente de indignação coletiva que clama, por exemplo, pela
democracia real. Por isso nos interrogamos: Ocupar Wall Street... e
depois?

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Ora, como cientistas sociais (e não só apenas ativistas),


temos de analisar os novos movimentos com objetividade e na
perspectiva da lógica dialética capaz de apreender a riqueza do
movimento contraditório do real. Aviso aos navegantes pós-
modernos hoje, mais do que nunca, o método dialético tornou-se
indispensável na critica social. Passa a ser imprescindível
apreender no movimento real: a dialética candente entre
subjetividade e objetividade, alcances e limites, contingencia e
necessidade, barbárie e civilização. Não podemos ser apenas
seduzidos pelo fascínio da contingencia indignada nas ruas. Os
novos movimentos sociais do indignados compõe o quadro de
barbárie que impregna a ordem burguesa do mundo, abrindo um
mundo de sinistras contradições sociais que dilaceram por dentro a
ordem do capital – mas são incapazes, em si e por si, de ir além.

O que quero dizer supõe, é que me sinto extremamente


impactado por aqueles que se juntaram para defender as
ocupações apesar das diferenças significativas de idade, classe
social e raça. E, da mesma maneira adoro as crianças inquietas que
estão prontas para encarar o próximo inverno e passar frio nas
ruas, assim como seus irmãos e irmãs desabrigadas.

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O que quero dizer; suponho é que me sinto extremamente
impactado por aqueles que se juntaram para defender as
ocupações apesar das diferenças significativas de idade, classe
social e raça. E, da mesma maneira, adoro as crianças inquietas
que estão prontas para encarar o próximo inverno e passar frio nas
ruas, assim como seus irmão e irmãs desabrigadas.

Mas voltemos à estratégia: qual é o próximo ela na corrente


(no sentido de Lennin) que precisa ser aprendido? Até que ponto é
imperativo para as plantas selvagens formarem uma convenção,
assumir demandas programáticas e, de forma, colocar a si próprio
em leilão das eleições de 2012?...

Mas é impossível que os ocupas coloquem à si mesmo a


venda ou ao seu extraordinário processo de auto-organização.
Pessoalmente tendo a posição anarquista e seus imperativos
óbvios.

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Lembro- me de um exemplo que expõe claramente a


maneira como uma ideia pode ignorar seu espaço original. No inicio
do século XIX, Napoleão enviou tropas à colônia do Haiti. O objetivo
era retomar o poder da mão dos escravos rebeldes comandados
por Toussaint L’Ouverture e, com isso, reinstaurar a escravidão.
Num estudo clássico, Cyril James conta o momento em que os
soldados franceses imbuído das idea da revolução francesa ouve a
“marselhesa” cantada por seus oponentes, os negros.
Desnorteados, os franceses se perguntaram como era possível
ouvir sua própria voz vinda do outro lado da batalha. Afinal, contra
quem eles estavam lutando, a não ser contra seus próprios ideais:
Aquela experiência foi decisiva para quebrar-lhes o espirito
de combate. A derrota foi uma consequência natural. Esse pequeno
fato histórico nos ensina o que acontece quando uma ideia encontra
seu próprio tempo e constrói um novo espaço. Ela demonstra que
estava presente em vários à espera de um melhor momento para
dizer claramente o seu nome. Quando os franceses ouvem a sua
própria musica vindo do campo inimigo, eles, no fundo, descobrem
que não são verdadeiros. Quem a compôs foi uma ideia que usa os
povos para se expressar. Quando isso fica evidente, um momento
histórico se abre, impulsionando pela afetividade de exigência de
universalidade.

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Em momentos assim, devemos lembrar que a democracia


parlamentar não é o ultimo capitulo da democracia efetiva. A
Islândia tem algo a nos ensinar sobre isso. Um dos primeiros países
atingidos pela crise econômica de 2008, a Islândia o uso do dinheiro
público para indenizar os bancos seria objeto de plebiscito. Maneira
de recuperar um conceito decisivo, mas em decisivo, da
democracia: a soberania popular. O resultado foi apoio massivo do
calote.

Mesmo sabendo dos riscos de tal decisão, o povo islandês


preferiu realizar um principio básico de soberania popular, quem
paga a orquestra escolhe a musica. Se a conta é paga pela
população, é ela quem deve decidir o que fazer, e não um conjunto
de tecnocratas que terão seu emprego garantido de bancos ou de
parlamentares cujas campanhas são financiadas por estes. Como
disse o presidente islandês Ólafur Ragnar Grímisson “A Islândia é
uma democracia, não um sistema financeiro”. O interessante é que,
com isso, saiu-se dos impasses de democracia parlamentar para
dar um passo decisivo em direção a uma democracia plebiscitária
capaz de institucionalizar a manifestação necessária da soberania
popular.

E, tal processo que nos situa nas vias de uma democracia


real. Ele é a condição primeira para sair da crise, pois a verdadeira
questão que esta nos coloca é política “que regime político é esse
que permitiu tamanho descalabro na calada da noite”.

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No entanto, ao colocar questões dessa natureza é


necessário de fato estar disposto a discutir. Esse é um ponto
extremamente interessante, porque quando você afirma ”nós
queremos discutir”, outros logo respondem “eis a prova de que eles
não sabem o que querem”. Por exemplo, observem que
interessante quem passa por aqui não vê nenhuma palavra de
ordem, nenhuma proposta no sentido forte do termo, “nós queremos
isso, isso e isso!” Em principio, pode parecer um problema, mas eu
diria que se trata de uma grande virtude.

Atualmente, boa parte da imprensa mundial gosta de


transformá-los em caricaturas, em sonhadores vazios sem
dimensão concreta dos problemas. Como se os arautos da ordem
tivessem alguma ideia realmente sensata de como sair da crise
atual. Na verdade, eles nem sequer sabem quais são os
verdadeiros problemas, já que preferem, por exemplo, nos levar a
crer que a crise grega não é resultado da desregulamentação do
sistema financeiro e dos ataques especulativos, mas da corrupção e
da “gastança” pública. Nesse sentido, nada mais inteligente que
uma pauta que afirme “Queremos discutir”.

Trata-se de dizer que, após de décadas de repetições


compulsivas de esquemas liberais de análise socioeconômica, não
sabemos mais pensar e usar a racionalidade do pensamento para
questionar pressupostos, reconstruir problemas, recolocar hipóteses
na mesa. Mas, com o objetivo de encontrar a verdadeira saída,
devemos primeiro destruir as pseudocertezas que limitam a
produtividade de pensamento. Quem não pensa contra si nunca
ultrapassará os problemas nos quais se enredou.

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Quando realmente pensarmos, conseguimos ir além dessa


liberdade reduzida à simples livre-arbítrio, cujas escolhas são feitas
no interior de um quadro imposto, e não produzidas por cada um.
Por isso, o pensamento quando aparece, exige que toda ação não
efetiva pare, com o intuito que o verdadeiro agir se manifeste.
Nessas horas entendemos, como muitas vezes, agimos para não
pensar. Pensar de verdade significa pensar em sua racionalidade,
usar a força critica e radical do pensamento. Quando a força crítica
do pensamento começa a agir, todas as respostas se tornam
possíveis e alternativas novas aparecem na mesa. Nesses
momentos, é como se o espectro das possibilidades aumentasse,
pois para que novas propostas apareçam é necessário que
saibamos, afinal de contas, quais são os verdadeiros problemas.

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Se for para o Estado de bem-estar social sobreviver, o


Estado deve encontrar, por sua conta, uma fonte de arrecadação ,
uma fonte sobre a qual tem mais direitos do que os receptores de
benefícios. A única fonte que posso visualizar é a propriedade
produtiva, O Estado deve passar a possuir, de uma maneira ou de
outra, grande parte da terra e do capital do país. Essa pode não ser
uma política popular, mas se não for seguida, a política de melhoria
dos serviços sociais, que é popular, se tornará impossível. Não se
pode socializar por muito tempo os meios de consumo se os meios
de produção não forem socializados primeiro.

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Em várias ocasiões na história da humanidade, podemos ver


cenas de pessoas amontoadas, crianças, idosas, doentes sem seus
pertences, normalmente fruto de algum tsunami, de catástrofe
natural ou mesmo de uma guerra. Em Pinheirinhos, a mesma cena
foi vista. Contudo dessa vez provocada pelo Judiciário e pelo
governo do Estado, com o apoio do aparato repressivo da Polícia
Militar. È chocante.

De fato, o poder público, aliado ao poder privado da


especulação, posiciona-se de maneira favorável à ideia da
expansão imobiliária como sinal de desenvolvimento. É histórico
que em qualquer área urbana, tais “reformas” levem a uma
valorização financeira do metro quadrado e lancem a população
pobres para além dos limites das atuais condições já precárias de
moradia. Para que o projeto especulativo se concretize é necessário
limpar as áreas da presença dos pobres. Leiam parta da notícia
postada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado
de São Paulo.
Após a limpeza, já era possível circular tanto a pé como de
carro pelas alamedas Cleveland, Dino Bueno e Clete e a Rua
Helvétia, que ficam no entorno da Praça Julio Prestes. Locais que
eram usados como esconderijos e moradia dos usuários de drogas
foram desocupados e estabelecimentos comerciais funcionavam
normalmente.

Sob o disfarce de um discurso com vistas a garantir a


segurança pública, o qual permite autorizar a higienização das
ameaças à ordem e à moral, busca-se um remédio eficaz contra os
“desajustados”. Estes podem, a qualquer momento, passar da
condição de vítimas da desigualdade social para a categoria de
inimigos. Em uma sociedade regulada pelos interesses do mercado
e do trabalho é preciso criar um lugar para os sem lugar (sem teto,
sem terra, sem trabalho, sem direitos). Nesse sentido, o Brasil
realiza, ao mesmo desde os anos 1990, a construção de um Estado
social sob a ideia de que a democracia se consolida com base no
discurso dos direitos humanos combinado com a lógica de
mercado, o que limita a própria ideia de humano. O novo modo de
agir, corroborado pelo discurso em questão, vem substituído há
algumas décadas os movimentos sociais organizado independente
do ordenamento do Estado de direito. No lugar da ação política, os
novos atores sociais são instados a fomentar, no teatro de
fabricação dos resultados, a governança do sofrimento por meio de
mudanças contabilizadas nos índices de desenvolvimento da
humanidade.

Desse modo, aparentemente se pretende a efetivação de


ações de redução da desigualdade, política de salário e promoção
de oportunidades de crescimento. Contudo, o indivíduo beneficiado
deve possuir qualidade que sejam valorizadas no mundo da
produção. Sem a posse de determinada competência, a política
social de inclusão é colocada de lado e aquele mesmo Estado
tentará dissimular ou apagar a presença do “deslocado”. Anônimo,
ele é levado gradativamente para a periferia do sistema, mais
distante, mais empobrecido, mais sem direitos. É preciso questionar
em que medida se pode construir uma política de inclusão social
submissa à lógica do mercado ou de uma economia determinada
pelas elites do sistema financeiro, industrial e da terra.

Não se trata de uma ditadura em meio ao Estado de direitos.


É uma democracia que participa de consenso da política
contemporânea, no qual o discurso social e de direitos humanos
legitima, paradoxalmente, tanto a resistência do individuo e dos
movimentos diante das violências sofridas quanto a ação do
Estado, o maior violador de direitos. Dessa forma, o militante e o
ministro, o sem teto e a Polícia militar e o destruído e a grande
mídia fazem uso da ideia de defesa de direitos sem, como vimos,
necessariamente agir em favor do interesse público.

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O movimento estudantil chileno conseguiu transformar suas


reinvindicações específicas – luta contra a privatização da
educação – num tema nacional que, juntando-se às reinvindicações
de outros setores, promoveu uma crise política geral e um desgaste
aparentemente irreversível do governo Piñera.

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O ano de 2011 acentuou a natureza prolongada de atual


crise capitalista, porém os modelos alternativos ao neoliberalismo
ainda têm existências regionais – como é o caso da América Latina
e, de maneira distinta, da China. Da mesma forma, as debilidades
da hegemonia imperial norte-americana – que não consegue
manter e ganhar duas guerras simultaneamente, por exemplo – não
encontram ainda formas multipolares com capacidade suficiente
para superar o mundo unipolar existente. Assim, o período de
instabilidade e turbulências introduzidas pela crise do
neoliberealismo e do imperialismo se prolongará até que forças
capacidade de superação possam se firmar. Têm sido dados alguns
passos, e a própria capacidade de resistência do Sul do mundo –
em especial da América Latina e da China – à recessão no centro
do capitalismo demonstra isso. Mas a disputa hegemônica ainda
tende a se prolongar por um tempo longo. O certo é que o mundo
sairá distinto desta segunda década do século XXI – melhor ou pior
-, mas distinto, porque os sintomas de esgotamento dos seus
esquemas econômicos e políticos dominantes são evidentes.