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Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de

segundo, mas com tamanha intensidade, que se


petrifica, e nenhuma força o resgata.
Carlos Drummond de Andrade

Em uma tarde de domingo, raios do sol outonal iluminavam a paisagem de folhas


carmesins e flores despetaladas pousadas sobre telhas vizinhas.
Clara observava o cenário pelas frestas da janela de madeira enquanto tentava
assimilar o que acontecia ainda com Martin entre suas pernas. Evitava o olhar de seu
inquisidor, seu mundo se despedaçava diante da condenação:
- Como pôde? Durante o meu sono!
Questionava sua sanidade ao crer que imaginara seu par corresponder seus afagos.
Encarou-o em busca de resquícios da alma fundida à sua, segundos atrás... Em vão.
Nunca se sentira tão nua e exposta.
Trocaram palavras, informações talvez, uma tentativa de compreender o que se
consumara, porém sua mente transtornada se debatia entre o fato envolto em insanidade
e sua habitual sensatez. Distopia. O revés de sua utopia, tocada, no entanto inalcançável.
A última fagulha da eternidade se dissipava.
Caminhou. O ar lhe faltava ante seus questionamentos:
- Como fui violar nossa amizade? O que foi que eu fiz?
Talvez lhe dissessem ser compreensível diante da intensidade de seus sentimentos
e desejos represados por tantos anos apenas à espreita de uma chance, um sinal positivo
para seu avanço, mas nada justifica tamanha infração: não se despreza a vontade do
parceiro.
O coração em frangalhos lhe impedia o discernimento. Doía-lhe a ideia da
separação. Feria-lhe ainda mais sua traição contra seus ideais e, principalmente, contra
seu grande afeto.
Clara jamais se aproveitaria da enfermidade de alguém para satisfazer um
capricho, ao menos era o que achava até aquele momento, visto que se direcionara à
casa dele com o intuito de ampará-lo.
As lágrimas não rolavam, magoavam-na até os ossos. Estilhaçavam seus sonhos e
esperanças a ele relacionados.
Desejava que fosse apenas um pesadelo.
Não era.
Anoitecia.

Em tormenta, perdia-se de si. Não sabia mais no que se transformara. O que se


tornara capaz de fazer para alcançar seus objetivos? Quais os seus reais valores?
Prometera a si mesma o autoextermínio caso transpusesse os limites do humano.
Seu farol se apagara. Pela primeira vez, quando mais lhe era imprescindível, a
complacência de seu comparsa lhe faltava. E por sua causa. Estava igualmente
atordoado, buscava detalhes que os conduziram àquele ato. Angustiado, expusera sua
indignação e decepção com violência, culpando-a.
E o que ela poderia fazer senão abraçar com fervor sua culpa, último elo que
imaginava ainda ter com ele?
Conforme seu martírio tornou-se insuportável, seu mecanismo de defesa entrou
em ação. A culpa convertia-se em responsabilidade, quicando de um para o outro.
Intentou inutilmente refletir sobre o assunto. Resolveu, então, consultar alguns
confidentes a fim de avaliar melhor a situação.
Descrevera-lhes passo a passo a chegada ao apogeu antes do despertar que lhe
lançara no inferno glacial. Defendera-o através da inconsciência, dos medicamentos, do
zelo que ele lhe tinha, da amizade, de sua personalidade complexa.
Contestaram com argumentos guiados por suas mágoas sem perdão, arrogância
competitiva ou raciocínios cujos pressupostos tinham origem no senso comum. Um
critério medíocre com o qual Martin também se identificava ao deixar-se levar pelos
instintos sexuais, e através do qual ele a condenara:
- Pura ilusão.
E o que pode se esquivar dessa sina da linguagem onde as palavras são a presença
do ausente, confundidas com os objetos aos quais representam? O que escapa às crenças
se mesmo os valores são tão subjetivos que um único termo significa atitudes opostas?
Também o futuro é planejado sobre o embuste de uma suposta continuidade.
Mero palpite.

O tempo correu a seu favor. Pouco a pouco foi capaz de esquadrinhar o trajeto da
fantasia realizada naquela tarde.
Ainda que Clara o admirasse desde o evento em que o conhecera e o aceitasse em
poucos meses como mestre de artes marciais na academia improvisada, considerando-o
conselheiro e mentor, fora somente um beijo inesperado dele em sua face que a flechara.
Semente plantada.
Clara confessara suas suspeitas ainda na mesma semana e ele retribuíra,
lisonjeado, regando seu ego ao exaltar seu talhe singular.
Dois episódios isolados que antecederam seis meses de viagem dele, a trabalho.
Mas, assim como um conto engavetado, o apreço se intensificou e tomou forma,
indomável.
Conforme ele retornou, ela tentou retomar e acentuar a conexão, e constatou que
suas lembranças não eram compartilhadas. Ele se mantivera embriagado durante toda a
semana e não respondia por seus atos ou declarações. E quando uma vez mais, com
receio, declarara-se, Martin a analisou, cético:
- Por que eu?
Para ela, não havia porquês relacionados ao que sentia, entretanto esta não seria
uma resposta cabível. Mapeou, então, suas motivações através de memórias de relações
anteriores com ênfase em qualidades que lhe tocaram.
- Então não sou eu, mas o que te lembro.
Recriminara-a ele. Mal atinara, ou não quisera enxergar, que o passado fora
apenas uma ferramenta para esboçar a imagem de sua admiração, bem-querer, desejos e
anseios, que fora esculpida em seu coração e guardada a sete chaves.
E ela ignorara a falta de reciprocidade e projetara o fato como um desafio no jogo
da conquista.
A despeito do inconveniente, aprofundaram o convívio...
Agora, suas recordações se amontoavam.
O beijo no ombro em resposta à sua provocação quando se sentara no colo dele,
no assento passageiro.
As visitas ao café em que ele servia que alimentavam seu torpor com cortesias e
boas vindas.
Ora o acompanhava em eventos culturais, ele como erudito e ela, sua pupila. Ora
ele a convencia a assistir filmes detestáveis, divertidos a seu lado.
Fundaram os “piromaníacos anônimos”, um gracejo movido por imagens
incendiárias instigadas por uma exposição ao ar livre no Parque da Luz.
Noutras noites perambulavam no breu do centro da cidade antes de sua
revitalização.
Assistiram a shows de bandas desconhecidas cuja plateia se resumia aos dois.
Infinitas eram as peregrinações sob a luz do luar e a escolta a dele.
As vigílias impregnadas de lamúria e sarcasmo, maldizendo relações recém-
rompidas ou desastrosas, suscitavam consolo e prazer.
Novas paixões chegaram e se foram, ora suas, ora dele. E eles permaneciam.
Até mesmo os prantos noturnos ele apaziguara ao trazer-lhe uma coberta sem que
desconfiasse de seu estado emocional.
Ele fazia-lhe jantares e coquetéis, ela, presentes artesanais.
Maior deleite obtinha com a troca olhares cúmplices.
Seu sorriso instintivo se abria com a simples expectativa de contato, mesmo que
virtual.
E quão doces foram as despedidas nas quais ele a abraçara repentino, pedindo que
ficasse um pouco mais, retardando sua partida!
Diálogos na madrugada embebidos a licores os entrelaçavam, fazendo-os
percorrer cegamente as tramas do acaso.
Ela saboreava gole a gole os mimos mútuos, as carências simultâneas, ternura
involuntária...
Insano encanto da empatia.
Migalhas.

Como pó jogado ao vento, a essência acre de Martin se alastrava por todos os


cômodos do apartamento, penetrante, nutria o vício.
A fixação de Clara se expandia, passara a mimetizar seu estilo, sua fala, seus
trejeitos, seus gostos, suas reflexões...
“Pura ilusão” ressoava em sua mente.
Tateou, então, a realidade visceral do senso comum em busca da verdade
universal ou ao menos um conceito cujos paradigmas não ultrapassassem sua simples
definição. Foi quando se deu conta de que a relatividade das coisas as tornava fluidas e
intangíveis: qualquer existência era questionável, qualquer história poderia ser moldada
de acordo com os próprios valores. Com isso, libertou-se das quimeras alheias,
metanoia essencial à sua busca por autoafirmação e defesa de suas ideias.
- Se tudo é construção, eu prefiro a minha.
A princípio, ela resistira sem muito esforço às suas manias e conselhos. Seduzia-
lhe seu tato para lhe adivinhar os gostos e lhe incorporar os dele. Divertia-se um tanto
vexada com suas danças excêntricas em público convidativas a espiadas de juízes
fugazes. Entretanto, logo fora cativada por seus relatos, sua intensidade e seu carisma.
Comparava-o à caricatura dos bons e velhos heróis incompreendidos ou um verdadeiro
homem de letras e boêmio inveterado fora de época. Estava fadada a sucumbir à carícia
de sua voz, ao seu estilo envolvente, às suas travessuras, aos seus toques quase
involuntários e, em especial, à sua sincronicidade.
Abandonara-se em suas mãos e lhe confiara as mais belas aspirações. Tomara-lhe
as amizades como fontes, perseguira-lhe prevendo seu curso a fim de não levantar
suspeitas.
Aceitava suas críticas, amava a poesia de seu caos, e recusava seu cinismo e sua
manipulação. Negava a complexidade de suas diferenças, ignorando as advertências.
Excedia-se em deleite.
Espreitava-lhe o delírio.
Inebria.
Enfim, recobrara:
- Martin não costuma adoecer, preciso saber como ele está. Além disso, seria uma
maneira de lhe retribuir todo o apoio. – ponderou.
Ele atendeu a porta, desculpando-se por estar atordoado. Sofria da insônia que
deixa seu posto ao embalo de qualquer companhia.
- Posso ser seu travesseiro, hoje.
- Ok, estou precisando, mesmo.
Deitam-se abraçados.
Ela zela seu sono.
Aprecia-lhe a paz estampada no rosto, o ar silencioso passando por suas narinas, a
pele suave, o aroma... odor incansável de suas cobertas, livros amarelados, tabaco,
cedro, calor.
Colo exposto, convidativo à overdose.
Inspira, suspira, ardor, utopia.
Utopia?
Um beijo.
Seria sua imaginação?
Não, não é. É Martin!
Lágrimas e mãos trêmulas, emocionadas.
Conquista etérea.
Psique desgovernada.

Clímax.

Sem hesitar, entrelaçam-se.


Ele a domina, direcionando seus movimentos.
Ígneo desfecho, fusão de almas.
Volúpia.

Toca o telefone.
Desconexão, distância.
Despertar:
- Como pôde? Durante o meu sono!

Ainda que haja quem tente julgar o sucedido em busca de culpados, a vida
extrapola conceitos, palavras, julgamentos, lógica. Há fatos para os quais inventarão
fundamentos a fim de manter a sanidade.
Martin lamenta a sina da moça, porém abraça o caos e a falta de sentido do
universo para ser feliz. Seu filósofo é Camus:

Pode-se, às vezes, ver mais claro em quem mente do que quem fala a
verdade. A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um
belo crepúsculo, que valoriza cada objeto!

Já Clara se reconhece no mito de Ícaro que alçou voo em direção ao sol, sem dar
ouvidos às advertências, perdeu as asas e foi engolido pelas águas do mar.
E é nesse vazio existencial, tão natural, misterioso e assustador quanto um tufão
ou ausência de egos e símbolos, que reside a relação desse casal incoerente,
indescritível, imperceptível. Irrelevante para o mundo que segue sempre adiante.
Já dizia Drummond:

[...]
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer “oi” ou “como vai”?


Difícil é dizer “adeus”. Principalmente quando somos culpados pela
partida de alguém de nossas vidas...
[...]