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DAVIS, Natalie Zemon. O Retorno de Martin Guerre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Resenhado por: Alonso Alves da Silva Neto

Sobre a autora

Natalie Zemon Davis é, atualmente, uma das mais destacadas historiadoras sociais. Tendo
nascido em novembro de 1928, foi educada no Smith College, Massachusets, onde graduou-se
summa cum laude em 1949. No ano seguinte, graduou-se também pelo Radcliffe College.
Recebeu seu Ph.D., em 1959, na Universidade Michigan e, desde então, tem lecionado nas
Universidades Brown (19 59-1963), de Toronto (1963-1971), da California, Berkeley (1971-
1977) e Princeton, onde foi professora de História de 1978 a 1981; atualmente é professora de
História na Henry Zharles Lea.
Paralelamente às atividades mais diretamente ligadas ao ensino, dirigiu por um ano, o
Associated Studies da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Foi fundadora e coeditora
(1964-1968) do "Renaissance and Reformation", tendo participado também do conselho
editorial de diversas publicações especializadas. Foi membro e presidente de inúmeras
associações profissionais. Natalie Davis tem recebido íncontáveis honrarias ao longo de sua
carreira. É autora de vários ensaios e artigos, particularmente sobre aspectos da vida na
França do século XVI. Seu primeiro livro, Society and Culture in Early Modern France, foi
publicado nos EUA em 1975. O RETORNO DE MARTIN GUERRE, seu segundo trabalho, é
uma extensão da pesquisa por ela desenvolvida quando das filmagens da aclamada versão
cinematográfica desta estória, dirigida na França por Daniel Vigne. Seu último estudo
histórico-antropológico, The Gift in Sixteenth-Century France, acaba de ser concluído. Natalie
Zerrion Davis é casada com o matemático Chandler Davis e tem três filhos.

Resenha
O Retorno de Martin Guerre conta a história de impostor que tomou o lugar de Martin por
quatro anos. Em 1548 um jovem do vilarejo de Artigart fugiu de sua vila (e de seu casamento
arranjado) para se alistar no exército deixando sua esposa de aproximadamente 20 anos, seu
filho e um patrimônio razoável. Anos depois, em 1556, um homem que lembra Martin em sua
aparência, de nome Arnald conhecido como Pansette, se passou por Guerre e toda a vila o
aceitou como Martin, inclusive sua esposa Bertrande. Arnald quase se deu bem com seu
fingimento, não fosse uma briga por dinheiro e propriedade que levou o tio de Martin, Pierre
Guerre, a desconfiar de sua identidade, iniciando assim uma série de disputas na justiça para
provar que Arnald era na verdade um impostor. Essa história foi primeiramente relatada por um
dos magistrados da corte que conduziu os julgamentos, Jean de Coras e várias vezes depois em
forma de peças, musicais e dessa vez, como uma pesquisa histórica pelo olhar de Natalie.

A autora transformou este conto peculiar (que também virou meio que uma lenda) em uma
pesquisa crítica sobre cultura popular, embora não tenha tirado a peculiaridade do original.
Através da narrativa original de Coras, publicado em 1561, Davis tentou, inspirada em trabalhos
de Ginzburg, reconstruir aspectos da vida aldeã do século XVI trazida à tona por essa crise
doméstica que se tornou um escândalo público por conta das brigas judiciais. Davis nos relata
sobre os detalhes jurídicos envolvendo a disputa pela propriedade, mas ela está especialmente
focada no aspecto psicológico e nos motivos de Bertrande a qual se vê presa em um dilema
moral, sexual e também econômico e também na atuação extraordinária de Arnald assim como
sua motivação para tal. Ao recontar essa história, Davis nos traz uma reflexão sobre a forma de
pensar e os costumes sociais do século XVI geralmente não presente em outros trabalhos
históricos. A fuga e “impotência” de Martin, a teatralidade de Arnald, a virtude e fragilidade de
Bertrand, todos estes fatores, revelados e estudados por Davis, dão uma abordagem mais
humana, mais rela, fator este que muitas vezes não está presente em estudos de história social.
Para Davis, os aldeões, especialmente as mulheres, são pessoas com motivações sexuais e
econômicas, com tradições culturais e costumes que passaram batidos aos olhos de muitos
historiadores tradicionais. Davis nos dá uma reconstrução social onde sua abordagem dá um
toque de humanidade ao atentar às motivações de Martin ao ter fugido, possivelmente uma não
aceitação de seu casamento arranjado, o próprio questionamento sobre o casamento como
instituição, o drama de Bertrande ao ser abandonada, a pressão social em cima das mulheres
para se casarem, gerarem cria, a questão da virtude, pureza, religiosidade, tudo isso se torna
objeto de análise e também serve como uma forma de preencher certas lacunas históricas não
percebidas anteriormente nas outras vezes que o conto foi recontado. Davis conclui que o conto
“é recontado e contado porque nos lembra que coisas surpreendentes são possíveis”.

Talvez essa afirmação esteja mais clara no filme, o qual Davis foi consultora. Nele, a
imaginação artística “trai” um pouco a história para mostrar motivações mais claras e os
confrontos. Martin e Arnald já se conheciam antes, por exemplo, e Bertrande é mais tida como
vítima do que na narrativa de Coras, mas o enredo principal é devidamente mantido, os
personagens têm um apelo sensível muito maior, a vida dos aldeões no século XVI e também
o processo litigioso foram apresentados com um nível de profundidade bastante satisfatório e
às vezes exagerado.

Como dito antes, Davis nos faz perceber o homem do século XVI, suas motivações, sua cultura
e costumes através de um estudo com um viés antropológico e o filme, magistralmente
adaptado, claro, com um certo tom cômico, mas sem perder a essência da narrativa original nos
proporciona momentos de leitura satisfatória e um complemento visual e artístico que também
serve como objeto de estudo de narrativas, além de nos mostrar uma nova ótica sobre a mesma
história.