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GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 30, pp.

14 - 28, 2011

“CRISE E SUPERAÇÃO NO ÂMBITO DA GEOGRAFIA CRITICA:


CONSTRUINDO A METAGEOGRAFIA”.

Ana Fani Alessandri Carlos*

Resumo: O ponto de partida do raciocínio, desenvolvido aqui, visando a construção do que denomino de
metageografia é, por um lado, o reconhecimento de um estado de crise da geografia, e por outro lado
seu papel como possibilidade, ainda em que seus limites como ciência parcelar, de compreender o mundo
moderno, já que o conhecimento pode se constituir como um movimento em direção à uma totalidade
aberta. Em um sentido mais amplo, se trata de pensar o lugar da geografia na explicação da realidade em
constante transformação. Se é possível pensar que, apesar de seus avanços, a Geografia vive um estado
de crise? Deparamos-nos com a exigência de revelar seus sintomas e como consequência, a necessidade
de construção de um caminho frente a necessidade de compreensão da realidade a partir da ou através
da Geografia. A metageografia é a proposta de um caminho teórico-metodológico de superação do estado
de crise en que se encontra a disciplina a partir da prática sócio-espacial como momento explicativo.

Palavras Chave: geografia crítica, metageografia, espaço, prática sócio-espacial

Crisis and overcoming in Critical Geography: constructing the metageography?

Abstract: The starting point of reasoning, developed here, for the construction of which I call
metageography is, firstly, the recognition of a state of crisis in Geography, and secondly its role as a
possibility, even though it is a science fragmentary, of understanding the modern world, since knowledge
can be constituted as a movement toward an open totality. In a broader sense, it is about thinking the
place of Geography in explaining the reality in constant change. If it is possible to think that, despite their
advances, Geography is in a state of crisis? We face with the requirement to disclose their symptoms
and consequently, the need to build a path forward the need to understand reality from or by geography.
The metageography is to propose a theoretical-methodological way of overcoming the state of crisis in
which the discipline is, from the social-spatial practice as an explanatory moment.

Key Words: critical geography, metageography, space, social-spatial practice.

Introdução necessidade de compreensão deste movimento em


direção à constituição de uma sociedade urbana
Não resta dúvidas de que, no bojo das num espaço mundializado. Hoje o pensamento que
aceleradas transformações do mundo moderno, apreende o mundo se depara com o fato de que
a geografia ela própria se transforma, como o capitalismo se reproduz em direção ao mundial.
*Professora Titular do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
email: anafanic@usp.br
“Crise e superação no âmbito da geografia critica: construindo a metageografia”. pp. 14 - 28 15

Momento em que a natureza se torna secundária se define como condição meio e produto da
diante da realidade como construção social. reprodução do sociedade1. Significa afirmar que a
O ponto de partida do raciocínio, prática sócio espacial revela a condição objetiva da
aqui desenvolvido, em direção à construção do existência humana – em suas alienações. Também
que denomino de uma metageografia é, de um revela, além desta objetividade, a subjetividade
lado o reconhecimento de um estado de crise da contida na consciência que vem desta prática;
geografia e de outro seu papel como possibilidade, uma prática que revela dramaticamente, hoje,
mesmo em seus limites de ciência parcelar, as crises decorrentes das cisões profundas que
de compreender o mundo moderno, posto que pontuam a vida cotidiana.
o conhecimento pode se constituir como um Esta concepção de espaço obriga o
movimento em direção à totalidade. Num sentido deslocamento do debate do campo da epistemologia
mais amplo trata-se de pensar o lugar da Geografia para aquele que contempla a relação teoria-
na explicação da realidade. prática o que significa a construção da dialética
A compreensão segundo à qual a constante entre o plano da vida (realizando-
Geografia é uma ciência em essência social - que, se enquanto prática sócio-espacial) aquele das
infelizmente, não encontra unanimidade entre os condições objetivas da existência do indivíduo
geógrafos - aponta a preocupação com a análise da em direção a sua realização (superando cisões e
sociedade, cuja finalidade é o desvendamento das alienações) e aquele do conhecimento. Portanto
relações entre a sociedade e o espaço. Trata-se, da indissociabilidade entre conhecimento e a
aqui de pensar esta relação como essencialmente realidade: espaço enquanto conceito e enquanto
produtora, objetivando a realização da reprodução prática social-espacial.
da vida. Em sua condição de sujeito da ação, essa Portanto se trata de desvendar a
sociedade mantêm, portanto, uma relação ativa produção/reprodução do espaço como momento
com a natureza; é assim que ela vai se constituindo da compreensão do mundo moderno – uma tarefa
através de um conjunto de produções voltadas nem sempre fácil. O desenvolvimento dessa tese
a reprodução da espécie - como momentos torna obrigatório o mergulho nos conteúdos do
civilizatórios - uma delas é a produção do espaço. termo “produção”, conseqüentemente aquele de
E aqui a Geografia assume uma tarefa mais ampla “reprodução”.
voltando-se para a compreensão da realização da
vida, concretamente, através do espaço. 1. O estado crítico
Nessa perspectiva é possível pensar Se é possível pensar que, apesar
que a sociedade, através de uma atividade de seus avanços, a Geografia vive um “estado
produtiva, transforma a natureza em algo que de crise“ nos deparamos com a exigência de
lhe é própria. O que também confere ao espaço revelarmos seus sintomas e como consequência a
uma dimensão histórica pois a sociedade, ao necessidade de construção de um caminho frente a
longo do processo histórico, vai se constituindo, necessidade de compreensão da realidade a partir
estendendo sua atividade pela face da terra, ou através da Geografia.
produzindo espaços. Deste modo o espaço pode Se há um estado de crise este não
ser compreendido como momento da construção se refere especificamente à Geografia, nem ao
da humanidade do homem, concretamente, plano teórico, há uma crise real, pratica produto
enquanto prática sócio-espacial, apontando a das metamorfoses do mundo moderno que
indissociabilidade entre produção do homem e a produziu o aumento da concentração da riqueza,
produção do espaço. a deterioração da natureza, o esgarçamento
Nosso pressuposto é que o ato que da sociabilidade, a deterioração do trabalho e
produz a vida é ao mesmo tempo o ato que produz a diminuição das possibilidades de emprego,
o espaço, enquanto objetividade e subjetividade. esvaziamento da democracia num mundo voltado
Nessa direção desenvolvemos a tese segundo a ao crescimento como necessidade ampliada da
qual o espaço, compreendido em seu movimento, acumulação.
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O mundo urbano, principalmente no mapa. A geografia crítica tal qual se realizou no


aquele das grandes metrópoles dos paises Brasil, nesse período, traz perspectivas profícuas
periféricos, revela cenários de devastação, ruína, para se pensar o sentido da geografia na análise
caos e, com isso, a exigência de soluções que do mundo moderno, e a responsabilidade social
vem impondo a urgência em detrimento de do geógrafo. Nesse caminho deslocou o foco das
um projeto de sociedade capaz de superar as atividades no espaço para a produção do espaço,
condições da reprodução atual, colocando em e com isso, iluminou-se os conteúdos sociais do
cheque os conteúdos da vida, bem como nossa espaço.
possibilidade de compreensão deste movimento. Esse movimento, no Brasil desenvolve-
Esses planos nem sempre escapam da armadilha se sobre as bases a geografia francesa 2 ,
da racionalidade do capitalismo em direção à sua particularmente, a partir das obras de Lacoste,
reprodução continuada, exigindo uma crítica ao principalmente seu livro “ A geografia serve antes
Estado e sua ação. de mais para fazer a guerra” que inspirou toda uma
Na Geografia, em meio a um cenário geração de geógrafos brasileiros – seguida pelos
de crise é possível pensar num caminho em que conteúdos apresentados na revista Herodote. Esta
o pensamento crítico – que tende a esterilizar-se “geografia crítica” era quase sinônimo de “geografia
- possa gerar uma outra possibilidade, aquele de marxista” desenvolvendo um conjunto significativo
construção de uma “metageografia”. de pesquisas apoiados no materialismo histórico. À
Inicialmente, convém deixar claro: época, voltava para o Brasil, vindo do exílio o prof
a) a provisoriedade do conhecimento decorrente Milton Santos que com seu livro “Por uma geografia
da própria dinâmica da realidade que determina nova” deu o impulso que faltava ao “movimento
o trabalho de pesquisa, b) a existência de várias de renovação da geografia brasileira, que neste
possibilidades teórico-metodologicas abertas à momento elegia a “geografia quantitativa” como
elaboração do pensamento geográfico, como seu inimigo de primeira ordem. Colocava-se em
ademais estão postas para os campos das cheque a geografia física, como conseqüência do
ciências humanas; mesmo o que se convencionou enfoque da Geografia como ciência social, através
chamar (erroneamente) de “geografia crítica” do estatuto teórico do espaço.
não é homogêneo; c) que a crítica se impõe Outro debate importante do
como necessidade intrínseca da produção do momento fundador desta geografia crítica foi
conhecimento. o questionamento da idéia da neutralidade da
geografia.
1.2 A crise da “geografia crítica”: Todavia esta “vertente”geográfica
avanços e recuos esgotou-se ao focar sua preocupação na
Os anos 70/80 colocaram em cheque compreensão da base material da sociedade, presa
o procedimento que aplaina o conhecimento à objetividade do espaço. Não sem consciência,
geográfico sintetizando-o como pura objetividade e, prendeu-se em muitos pontos à leitura economicista
com isso, abre a reflexão em busca do fundamento de Marx (possibilidade contida neste autor) como
da explicação do mundo, possível através da momentos da produção do capital. “O espaço
Geografia. Aspecto essencial da Geografia, o do capital” direcionava a análise sem que os
tratamento da localização das atividades do momentos da acumulação fossem completamente
homem, de um grupo humano, se abre para pensar desvendados em sua articulação dialética. Se a
que a atividade do homem que além de localizar- industrialização, sob a égide do capital, produziu
se é capaz de organizar um espaço. tirar, depois um espaço, este ganhava a dimensão de um
permitiu a passagem do enfoque da analise para a processo de urbanização como induzido pela
produção do espaço. Supera-se, neste movimento, prática e lógica industrial, como produção do
a redução da Geografia à localização dos fenômenos mundo da mercadoria. Essa lógica não esgota a
que não sem razão, fez do “geográfico” sinônimo compreensão da realidade.
de localização dos fenômenos na face da terra, ou A exigência teórica permeou o debate
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e produziu avanços importantes, cujos fundamentos ausência de uma crítica a seu pensamento, aos
permitiram a Geografia se consolidar como ciência limites e a necessidade de superação de suas
social alicerçando-se no materialismo histórico idéias – escritas nos século XIX- por dentro de
permitindo pensar/ construir a passagem do espaço seu pensamento, permitiu que muitos geógrafos
em sua dimensão de localização dos fenômenos sem abandonassem o legado de Marx com “certa
em direção à consideração da relação dialética facilidade” e o método “pós-moderno”, facilitou
sociedade-espaço, pela mediação do trabalho – esse comportamento aliviando as consciências
dado central do processo de constituição desta na medida em que permite a “mistura de vários
“nova geografia” como um modo de entender a métodos” de forma a-crítica.
realidade brasileira. O movimento crítico não foi suficiente
Também permitiu a superação de para barrar o aprofundamento da especialização.
um “geografia da população” – fundada numa A Geografia se divide e se subdivide ao infinito. A
massa indiferenciada de indivíduos, em direção “geografia do turismo” que longe de desvendar a
a elucidação do sujeito produtor do espaço produção do espaço como momento da reprodução
imerso numa sociedade fundada em relações de do capital, desloca o raciocínio da produção
classe, essencialmente desigual e contraditória. do espaço enquanto mercadoria – isto é da
Esse movimento de superação da Geografia de constituição da transformação das particularidades
incontestável importância, produziu uma base do lugar em mercadoria de consumo turístico em
explicativa da realidade e conceitos que até hoje função da possibilidade de transformar o tempo
frutificam e desdobram-se através de novas de não-trabalho em tempo de consumo produtivo
categorias de analise como aquela de cotidiano. - para a produção de um saber que permite, com
Também permitiu a construção de uma análise maior competência, “vender o espaço”. Revelando
crítica da obra de Marx e suas limitações a partir um dos momentos em que a geografia se torna um
do reconhecimento das mudanças ocorridas um saber produtivo.
século depois destes escritos, ao mesmo tempo Outro caminho é a preocupação
em que reforça a atualidade de seu pensamento com a crise ecológica gerando uma “geografia
como componente explicativo do mundo moderno. ambiental”, aonde a noção de espaço tornada “meio
Todavia se há aprofundamento e ambiente” caminha na direção do esvaziamento
desdobramento, há em número ainda maior dos conteúdos espaciais na reprodução social
dissidentes. Isto porque, sinteticamente, essa para mergulhar na crise ecológica como crise da
corrente de pensamento como um todo, mergulhou natureza e não da acumulação capitalista que
na crise do marxismo sem produzir sua crítica. num primeiro momento transformou a natureza
Deste modo, muitos geógrafos abandonam-na, em recurso natural, e que como consequência fez
sem reflexões mais profundas. Mas o que nos com que a natureza entrasse na lógica mercantil,
parece central é que com o abandono do se aonde a busca incessante do lucro a curto prazo
convencionou chamar erroneamente de “geografia (principalmente nos paises periféricos), criou sua
crítica” ocorreu o abandono do próprio sentido do deterioração, transformando-a em raridade. Nesta
pensamento crítico com o mergulho necessário condição – e raridade- alavancou a acumulação
no desvendamento da lógica da reprodução da do capital e socializou a devastação. Na esteira
sociedade capitalista reduzido à críticas periféricas. da continuação do processo de acumulação esta
Perdeu-se muito tempo e gastou-se crise tornou-se, ela própria, possibilidade de
muita tinta com o debate em torno do fato de que reprodução na medida em que a natureza tornada
Marx teria privilegiado em sua análise o tempo e rara, pelo processo de produção capitalista,
não o espaço, o que parece trata-se, a meu ver, de em seu movimento contraditório de realização,
um falso debate; posto que a questão não é aquela encontra nesta raridade novas formas de lucro.
de buscar uma Geografia em Marx, mas de analisar Nesse contexto novos produtos anunciados no
a potência de seu método de análise na explicação mercado, na esteira da raridade, aparecem como
do mundo moderno. Consequência desta fato, a possibilidade de ampliação da base social na qual
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é possível ampliar a acumulação: vende-se o realidade. Esse processo de subjetivação não se


“verde” como particularidade dos condomínios refere, portanto, ao o plano fechado do indivíduo,
fechados, produz-se o turismo ecológico, cria-se deslocada de sua prática sócio-espacial produtora
a necessidade de uma nova qualidade de vida de uma consciência coletiva, com isto permitindo
que sustenta um amplo mercado como aquele da enfocar o vivido e o percebido inter-relacionados
alimentação, das práticas esportivas, do vestuário, e não separados. Por outro a análise crítica revela
etc. E um discurso, aquele da necessidade, dentre lugar da cultura no pensamento e na prática social
eles o da “educação ambiental” como possibilidade em suas contradições. Há no mundo moderno
de superação da crise. No plano do conhecimento e um movimento que liquida o passado e a cultura
fundada na inteligibilidade do ecossistema, produz- em seus conteúdos e referenciais imergindo-
se uma geografia ideológica em seu fundamento. as no plano do mercantilização como elemento
Assim o movimento do pensamento definidor de um consumo produtivo do espaço
geográfico em direção ao esvaziamento do – os espaços turísticos. O modo como a cultura
conteúdo social do espaço – num caminho tornada mercadoria permite é um a potência
inverso às conquistas da geografia crítica-, nesse processo de reprodução do capital, não sem
revelando-se, prioritariamente, de dois modos. O antes transformar a própria historia em cultura.
primeiro refere-se ao movimento do pensamento A noção de produção do espaço ilumina o papel
geográfico que transforma o “espaço” em “meio e o lugar da cultura na totalidade constitutiva da
ambiente” sem maiores debates ou reflexões, realidade social.
promovendo a naturalização dos conteúdos sociais O momento atual de produção do
do conceito e realidade espacial. O segundo modo espaço revela que a cultura, esvaziada de sua
é a transformação do espaço em “meio técnico capacidade criativa, dissolvida em culturas
científico informacional” com a priorização da particulares, oficializada, liberta-se de todo
técnica como elemento de mediação da relação conteúdo revelando o momento em que a história
sociedade-natureza em substituição àquela de se torna cultura e nessa condição entre na lógica
“trabalho”. do mercado.Tornada fenômeno cultural podemos
Uma outra vertente que sai, em parte no limite afirmar que esse movimento da realidade
deste movimento, é a “refundação” de uma nova atualiza a alienação no mundo moderno.
Geografia cultural que, se a princípio, pode ser lida Podemos apontar como uma hipótese
como uma tentativa de dialetizar o determinismo para o debate a idéia de que o arrazamento no
econômico que permeou a geografia crítica, espaço dos referenciais que produzem a identidade
antes de produzir uma crítica do econômico fez o que sustenta a memória pode ser o indicativo
que critica, autonomizou a cultura, como muitos do raciocínio que mergulha na “cultura” como
fizeram com o econômico, como único nível elemento de apoio para a analise geográfica do
possível de compreensão da realidade. mundo, num momento em que a cultura ela própria
A aparente transparência do espaço, se esvazia de sentido.
como objeto da Geografia, produziu várias A Geografia, hoje, caminha à passos
simplificações como uma geografia restrita largos à especialização e nessa direção fragmenta-
ao mundo fenomênico, colocando-nos diante se, a autonomização dos planos da realidade,
de um espaço imediatamente objetivo, em perde seu caráter explicativo do mundo moderno
sua materialidade absoluta. Ou em sua pura em sua totalidade para prender-se a “localismos
subjetividade prendendo-se nas particularidades e subjetivismos”.
do espaço. Esse momento também permitiu
Se a realidade é uma construção que a preocupação com a construção de uma
objetiva, material, ao mesmo tempo, a sociedade teoria geográfica conduziu a busca da natureza
para além de um processo de objetivação, inaugura do espaço. Em alguns casos esse comportamento
um processo de subjetivação na medida em foi em direção à construção de uma ontologia
que adquire consciência prática desta mesma do espaço – como negação quase que total da
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dimensão empírica real tratada pela geografia até construir um pensamento capaz de revelar o
então. Trata-se, no entanto,a meu ver, de elucidar movimento que vai da localização dos homens e
sua natureza no plano da prática dialetizando sua de suas atividades na superfície da terra à produção
dimensão expressamente objetiva. O problema se do espaço como momento da produção da vida em
encontra em superar não negar essa materialidade todas as suas dimensões – como movimento da
do espaço tratado pela Geografia. Sinaliza na reprodução da sociedade (ao longo da história).
direção de a partir desta materialidade caminhar Nessa direção a análise do espaço apresenta-se
na direção da compreensão do modo como a como revelador das relações sociais; sua produção
sociedade produz sua vida, perspectiva esta, aberta e o caminho de sua reprodução. Nesse sentido o ato
pelo materialismo histórico que fundou e orientou de produzir a vida é um ato de produção do espaço.
a constituição da geografia crítica no Brasil. Assim se compreende o espaço
Por sua vez como conseqüência da como condição/meio e produto da reprodução
invasão do tempo rápido do processo produtivo social, processo que revela, hoje, a profunda
no ato de pensar, o neocapitalismo impõe à todos contradição entre a produção social do espaço e sua
a necessidade de produção de um conhecimento apropriação privada, isto é, o espaço-tempo aonde
que vise a sua reprodução continuada, nessa se confrontam as necessidades da acumulação do
perspectiva.a Geografia, preocupada em voltar- capital com aquelas necessárias à reprodução da
se às necessidades reais do mercado, realiza-se vida em seus significados mais profundos o que
enquanto saber técnico reduzindo-se a ideologia. justifica a centralidade da noção de produção aqui
Finalmente completando desenvolvida.
sinteticamente o cenário da crise da Geografia, nos Esta noção (de produção/ reprodução
deparamos com a intolerância frente as diferenças do espaço) permite, também considerar o
em direção a construção de um “pensamento movimento que vai da “diferenciação espacial”
único” que vem esterilizando o debate acadêmico como análise das particularidades dos lugares, ao
colocando o julgamento antes do comportamento estudo da prática sócio-espacial como conteúdo do
crítico que é um dos pilares da produção do lugar– revelando a condição objetiva da existência
conhecimento. humana em suas alienações.
A partir da crítica da Geografia A noção de produção, como aparece
e do conhecimento geográfico trata-se de na obra de Marx e Lefebvre, tem uma dimensão
construir um caminho que busque, a partir da filosófica – o pensamento não concebe apenas a
materialidade incontestável do espaço, os seus produção material, mas também o conjunto dos
conteúdos mais profundos – redescobrindo os processo e relações sociais. Isto é, produção/
sujeitos e suas obras. reprodução das relações sociais em todas as suas
Tal abordagem obriga-nos a enfrentar dimensões (incluindo suas possibilidades) como
o desafio de compreender como se atualiza a constitutivas do humano. Deste modo a noção
alienação no mundo moderno e como se formula de produção nos coloca diante da “produção do
metodologicamente a problemática do mundo próprio homem”.
moderno. Repõe, como ponto de partida, o A formulação de Marx sobre a auto
conhecimento referenciado na prática. Nesta - produção do humano (que tem como ponto de
direção a imediaticidade do mundo revela –nos partida a obra de Hegel) permite pensar que “há
a cidade como forma dominante reprodução das historicidade fundamental no ser humano, ele cria,
relações sociais. se forma, se produz pelo próprio trabalho e sua
atividade é criadora de obras. Produzindo objetos,
2. A pratica sócio-espacial como bens, coisas, ele constitui seu mundo humano”3.
momento explicativo Deste modo a formulação sobre a possibilidade
Como afirmamos, há uma profunda do homem se auto-criar no processo histórico
indissociabildade entre produção do homem e produzindo seu mundo com determinações
a produção do espaço. Na geografia, é possível próprias de cada época, abre a possibilidade de
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compreensão da produção do espaço como produto de poder delimitação e superação de fronteiras e,


histórico, condição necessária da realização da cada vez mais distante de uma natureza primeira.
vida material, como conteúdo da práxis. O sujeito Processo conflituoso o homem se depara com
se realiza produzindo-se praticamente, numa luta as forças naturais, luta contra ela no sentido de
freqüente contra a natureza e entre as forças superá-la.
políticas e sociais. Deste modo a natureza produz Assim se de um lado o homem produz,
o homem; no homem, pelo trabalho. A produção em vários momentos históricos, as condições
continuaria, assim, o processo da natureza – necessárias à produção/reprodução da vida ele
processo no qual o humano produz-se a si mesmo4. o faz produzindo a si mesmo como sujeito ativo.
A relação homem – natureza em Marx Por sua vez essa atividade produz um mundo e
reúne, portanto, naturalidade e historicidade, um conhecimento sobre esse mundo. Permite-se
historização da sociedade e naturalização do assim, deslocar (sem, todavia, ignorar) o sentido
homem. Uma natureza que só se transforma em da produção para além de sua dimensão econômica
mundo histórico quando sua negatividade se realiza e da produção de mercadorias e produtos strito
pelo trabalho e pela guerra. Pelo trabalhador que sensu. Nesse sentido o espaço como produção
muda a natureza. “O homem nasce no mundo é expressão prática daquilo que a civilização, ao
como interação do vácuo que abole o ser inicial longo do processo histórico, foi capaz de criar.
(natural) no e pelo tempo histórico (...) deste Portanto a natureza é hoje social, a crise ecológica
modo a produção envolve a criação e caracteriza com a qual nos confrontamos, entre outras crises
o ser humano que se produz e se reproduz. Uma reveladoras do mundo moderno é um processo
produção portanto que não é apenas de objetos social por excelência.
mas de um espaço e de um tempo. Bem como A natureza social do espaço esclarece
produção de relações – tempo elaborado pela o mundo moderno a partir de duas dimensões:
prática social. Há reprodução do eu ( consciência)
e do mundo ( o outro). “No homem, pelo trabalho a) objetiva –a paisagem e morfologia
e luta a produção é a história no curso da qual o revelariam os modos de apropriação dos espaços-
ser humano se produz a si próprio”.5 O que implica tempos da vida limitadas pelas fronteiras internas da
na indissociabildade homem / natureza. Produção propriedade privada e da existência/normatização
entendida em seu sentido amplo e produto não dos espaços públicos.
reduzido à uma coisa, ilumina sua realização como A produção da vida se realiza como
relação histórica e social. A noção de produção produção de um espaço, aquele da prática sócio-
revela portanto, a reprodução como conseqüência e espacial. Com isso quero dizer que as relações
essência do processo histórico – criação e recriação sociais que o homem mantêm como condição de
tanto individual quanto da sociedade. sua realização- requer ou melhor realiza-se num
Nesta perspectiva, o processo de espaço - tempo definido: a casa a rua, o bairro
produção do espaço tem como pressuposto a e a cidade sinalizam os lugares desta realização.
natureza, envolve um conjunto de elementos, A objetividade do processo de constituição do
fundados na atividade humana produtora, humano por ele mesmo, como auto-criação é o
transformadora, bem como na vontade e disposição, sentido apontado pelo materialismo histórico. O
acasos e determinações, conhecimento todos sentido da objetividade em Marx aponta a natureza
estes voltados à reprodução da sociedade. Nesse se transformando em mundo histórico – como
processo, transforma-se a natureza em mundo, prática em suas determinações, decisões, acasos.
uma realidade, essencialmente, social. Essa luta A vida e as condições da vida se realizam enquanto
de morte na construção do mundo é a condição objetivação prática revelando um espaço-tempo da
constitutiva do espaço - uma objetividade que ação desvela o uso como forma de apropriação,
pode ser traduzida na prática sócio-espacial em não sem deixar de revelar a dimensão do o corpo
seu processo conflituoso. O mundo aparece hoje como espacialidade humana.
como produção em movimento de relações sociais A produção social do espaço como
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analise da realidade, e seu fundamento, ilumina o desenvolvimento do turismo e do lazer como


processo e as contradições que reunidas produzem lugar da reprodução. O lazer na cidade permite
a exterioridade atual da produção do espaço bem a criação de uma rede de lugares destinados ao
como os caminhos possíveis de superação das consumo produtivo das horas de não-trabalho. O
mesmas em direção a construção de outro tipo de turismo coloca à venda particularidades dos lugares
sociedade, colocando em questão a propriedade, construindo o movimento que vai do consumo no
a fragmentação do espaço, a segregação, espaço ao consumo do espaço levando as últimas
definidoras desse processo. Aqui se constitui a consequências a mercantilização do espaço.
Geografia como ciência social. c) o narcotráfico ele também um
Do ponto de vista do capital, os atividade produtiva nova exige, para realizar-se a
termos da reprodução se elucidam, hoje, na produção do espaço como “território de proteção”
produção de um espaço mundializado como à atividade – condição e meio de sua realização,
realização do capitalismo - no sentido em que reestruturando a vida, as formas de acesso e o uso
capitalismo necessita superar os momentos dos lugares a ele submetidos, criando uma rede de
de crise da acumulação em direção a novas atividades, normatizando, vigiando, impondo-se na
produções revelando um novo papel para o espaço. prática sócio espacial, criando a sua, sem os quais
Este processo indica o movimento que vai do esta atividade seria impossível.
espaço enquanto condição e meio do processo d) por sua vez a produção ilumina o
de reprodução econômica ao momento em que cotidiano que permite ou faz emergir com toda a
(aliado a esse processo) o espaço, ele próprio, é sua força as situações de conflito que permeiam e
o elemento da reprodução graças à mudança do fundam a prática sócio-espacial (que contém um
papel do solo urbano na economia. Isto porque tempo vivido), e com isso atualiza as alienações
estamos no âmbito do capitalismo imersos nas - aponta o devir capaz de orientar o pensamento
necessidades sempre presentes de sua acumulação e um projeto de sociedade através das lutas
continuada que repousa sobre a necessidade pelo e em torno do espaço como lugar/produção
constante de realização do valor, num processo da vida humana. Trata-se aqui de novas formas
que se desenvolve e se transforma ao longo do de realização da reprodução social passível de
tempo. As contradições que surgem do processo ser entendida a partir do plano da metrópole que
são constantemente superadas através da invenção aparece como o lugar aonde se pode compreender
de novas possibilidades capazes de ampliar a base de forma mais clara seus conteúdos os ritmos
social o que significa que crises e superações das mudanças, o modo como a globalização se
marcam esse processo. realiza, bem como as lutas que se estabelecem
questionando a lógica da reprodução social.
Nesse sentido o espaço ganha uma Na obra de Lefebvre o cotidiano
nova amplitude para o processo de reprodução em como categoria de análise – traz o vivido para o
seu sentido amplo: pensamento teórico - permite deslocar o foco e
a) como reprodução do capital a partir o sentido da produção da esfera do econômico
da realização do capital financeiro que toma o para aquela do social sem evidentemente
espaço como fonte de valorização - refiro-me ao desconsiderar aquela. Sua noção aparece como
movimento de passagem da hegemonia do capital exigência de explicação do momento histórico em
industrial ao capital financeiro, com a construção que o capitalismo para continuar se reproduzindo
de um “novo espaço” e da transformação dos precisa ampliar a base social no qual realiza a
conteúdos das relações de dependência; acumulação, portanto a requer a multiplicidade
b) através do turismo, como novo setor de objetos de consumo de todos os tipos. Isto
produtivo, na medida em que os lugares passam a porque o capitalismo tende a reduzir a diferença à
ser consumidos através de suas particularidades homogeneidade, toda sociedade reduzida, segundo
existentes ou criadas com este objetivo, O as estratégias da reprodução das relações de
tempo da vida invadida pela troca permitiu o produção que programam o cotidiano como cenário
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necessário a reprodução no momento histórico. A lugares que fundam a prática sócio-espacial entre
vida invadida pelo tempo produtivo realizada em o efêmero e o que persiste.
espaços produzidos para este fim. O espaço deste cotidiano, ele próprio
A instauração do cotidiano como apresenta-se como fragmentado. A fragmentação
exigência da acumulação aprofunda a desigualdade fundada na extensão do valor de troca como
aonde a relação entre os indivíduos se faz pela condição da acumulação criam os cenários da
mediação de mercadorias e imagens. Aqui a modernidade – ruas amplas, pontes e viadutos
produção de objetos apaga a conexão produto/ tecnologicamente avançados, edifícios de vidro
produtor e se impõe como deslocando forma e cada vez mais altos, espaços públicos cada vez
conteúdo, o produto é consumido como imagem mais esvaziados. Isto porque a produção do
que se impõe – do indivíduo se realiza nas imagens espaço se realiza como processo de valorização do
que veicula através de seus hábitos, lugares valor colocando-nos diante do consumo produtivo
freqüentados, objetos consumidos. Assim a do espaço – ele é fonte de investimento, o que
mercadoria é consumida duplamente como imagem exige a intervenção que renova a exploração. Dá
que se impõe e como uso e o objeto perde sua a produção do espaço um sentido estratégico. A
origem e se reduz à sua forma. expansão e extensão do capitalismo como processo
O cotidiano, nesta direção aparece de realização do capital através da valorização
como exigência da reprodução do capital como constante pela produção e mercantilização da
produto da história. O cotidiano como mais simples mercadoria, mudou o sentido da produção dos
e o mais ordinário exige segundo Lefebvre, uma bens necessários à produção da vida.
explicação, envolve por sua vez a superação de A reprodução do espaço repõe
seu entendimento como o cenário dos gestos constantemente a dialética entre apropriação /
repetitivos, como rotina massacrante. Nessa propriedade privada justificada pelos poderes
direção o cotidiano é o espaço-tempo dominado jurídicos como fundamento da segregação e
pela troca e pelo mundo da mercadoria- e no papel disciplinador do Estado em relação à
nesta direção o cotidiano se estabelece como construção de instrumentos de controle do espaço,
exigência organizando–se na repetição, produzindo de direcionamento dos investimentos; com isso os
espaços-tempos repetitivos. Revela ou permite a movimentos sociais questionadores desse processo
compreensão do vivido e do percebido como lugar que aprofunda a desigualdade encontrando seu
de construção de uma concepção do mundo em limite na exacerbada concentração da riqueza.
suas contradições. Revela também de forma clara Desta forma o cotidiano revela um
a subjetividade, como consciência coletiva que espaço e um tempo, trata-se do uso do espaço
se auto–cria no processo de produção do espaço. enquanto emprego do tempo invadidos por uma
Portanto, não se trata, aqui, apenas do enfoque lógica e racionalidade inerentes à reprodução do
no indivíduo em si, aspirações e desejos no plano capital, sob a égide do Estado, aonde as formas de
individual (percepção que permite depreender segregação revelam a propriedade em seu sentido
o modo como a alienação é vivida), mas como pleno, isto é em sua condição de propriedade
reprodução de um a história consciente coletiva. “privada”. Nesta condição, paira abstratamente,
Nessa direção o cotidiano pode ser compreendido sobre a sociedade invadindo os modos de uso
como o lugar do conflito entre o racional e o do espaço delimitando e direcionando a prática
irracional, lugar do desejo que permite a existência espacial, explicitamente os limites impostos à
dos homens por isso Lefebbvre chama atenção apropriação do tempo e do espaço.
para o fato de que o cotidiano não coincidir com Por sua vez a ação do capital
a realidade, na medida em que contempla a em direção da acumulação como processo de
subjetividade fluída, as emoções, afetos, hábitos valorização constante sobre a base reprodutiva
que dizem respeito ao conjunto da civilização, à da sociedade produz novas representações,
vida do homem nas transformações no uso porque a universalização dos valores de consumo, a
há modificações no modo de apropriação dos desterritorialização da cultura, aonde a mídia e
“Crise e superação no âmbito da geografia critica: construindo a metageografia”. pp. 14 - 28 23

o cinema assumem uma eficácia assombrosa. “cenários pós-modernos” integrando os espaços ao


Com isso celebra-se o presente como consumo do redor do mundo sob uma mesma lógica, e sob esta
espetáculo constante, enquanto a vida realiza-se orientação permitiu que junto com a integração
como reino da passividade absoluta. se realiza-se a desintegração de vastas áreas
Na prática social, o espaço vivido periféricas, de outro penetrou nas relações sociais
como fragmento, percebido como estranhamento, metamorfoseou-as, mudou valores, transformou
encolhe as possibilidades do entrelaçamento das a cultura desterritirializou-a junto com as idéias
ações que pontuam a vida capazes de permitir / e comportamentos.Desenvolveu o mundo da
renovar os eventos cotidianos que sustentam a abstração como lugar da reprodução.
vida como imposição de um tempo se esboroam No plano da cultura a tendência
revelando a “produção amnésica do espaço”6. O em direção ao mundial, permitiu a constituição
esvaziamento das ruas dos bairros, o escaceamento de uma cultura mundial como processo de
das festas a espetacularização do que resta, desenvolvimento do mundo da mercadoria. Nesta
produzem novo quadro de representação aonde a orientação o momento atual transformou a cultura
ação do estado que controla, normatiza os usos, em industria cultural e nessa condição produziu
define tempo-espaço das ações, orientando com marcas apoiadas nela – uma das mais marcante
sua ação o crescimento econômico através de seja a criação da “marca Louvre”7 revelando o
uma ordem planificadora do espaço e do tempo. A processo de desculturação que permitiu pensar na
vida doméstica invadida pelo tempo da sociedade desterrritorialização da cultura.
produtivista, pela sua transforma os indivíduos em Portanto se a mundialização
espectadores. aponta uma virtualidade aonde a reprodução se
A acumulação diz respeito ao realiza como extensão física do processo, cria a
processo de produção da mercadoria – seja ela “mundialidade do espaço”, há a reprodução de
material ou imaterial - o processo de reprodução um tipo de sociedade fundada em valores de
engloba este plano para superá-lo em direção à consumo universais, valores morais fundados no
compreensão da reprodução social dentro e fora mundo do dinheiro e da produção de imagens a
da fábrica, estendendo-se à cidade, ao político, ele associada que aponta a constituição de uma
às suas relações com o econômico, ao plano das sociedade urbana, como tendência. Com ela a
relações sociais contemplando o universo da desterritorialização da cultura, a explosão dos
vida cotidiana como prática sócio espacial. Aqui lugares da vida, a massificação dos valores, hábitos.
trata-se do processo de abstração do espaço e do Um conjunto de valores que embasa a sociedade e
tempo que transformados pelas novas estratégias um modo de vida se estabelece sustentando uma
da reprodução do capitalismo, caracterizam a nova ordem que penetra concretamente na prática
modernidade contemporânea. Esse processo de sócio-espacial, gerando novas formas de conflito.
abstração invade a vida submetendo-a aos modelos Decorrência deste processo
éticos e culturais de uma nova ordem. Aqui a a constituição de uma “identidade
tendência a constituição de um mundo globalizado abstrata”8amalgamando a sociedade moderna.
depara-se com a automização dos momentos da Convém não esquecer que a ideologia impôs um
vida presa a um individualismo exacerbado sob a novo conceito”qualidade de vida”e como conteúdo
égide dos movimentos constitutivos do valor de o mundo da imagem apoiando o desenvolvimento
troca. da sociedade de consumo dirigido.
A mundialidade do espaço se A modernidade poderia ser
manifesta claramente na medida em que, ou a caracterizada pela imposição do tempo efêmero em
partir do momento histórico no qual o capitalismo justaposição a produção de um espaço amnésico
ao se desenvolver realiza suas potencialidades, como elementos definidores da prática sócio-
expandiu-se e tomando o mundo. Mas essa espacial como consequência do movimento da
expansão de se um lado é material, concretiza- reprodução capitalista, vivida como prática sócio
se num espaço real construindo os chamados espacial. A produção do espaço como exterioridade
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atualiza o modo como se realiza a alienação no como a produção alienada do espaço.


mundo contemporâneo. Nessa direção inclui uma investigação
Mas o cotidiano guarda também, como sobre o possível – legado de Marx que significaria a
escreve Lefebvre, o que escapa e se contrapõe a este unidade do real e do conhecimento, da natureza e
mundo de mercadorias e imagens; normatizado e do homem que explora a totalidade em devir. Um
burocrático. Ele é, também, resíduo e neste sentido devir que surge no interior do pensamento e se
ele é o lugar da superação das alienações que o abre para o mundial. Portanto o desvendamento da
envolvem. É campo da espontaneidade. espacialidade da sociedade, envolve a possibilidade
Se o cotidiano se realiza assim como do pensamento utópico.
separação e cisões aonde a passividade imposta A metageografia propõe uma nova
pelas lógica capitalista que parece reinar, revelando inteligibilidade – fornece um ponto de partida: onde
o seu “outro”, a cidade é o lugar, por excelência a atitude crítica e a reflexão radical colocam-se
da improvisação, conserva a festa e permite como atributos indispensáveis para a compreensão
o encontro, a vida se realizando como evento do mundo moderno em sua totalidade. A crítica
criativo. radical realizando o movimento de sua superação
Nesta perspectiva, poderíamos como possibilidade de uma crítica da geográfica
afirmar que não existiria um “espaço geográfico”, através da análise dos conteúdos, alcance e
mas uma compreensão do espaço pela Geografia limites dos conceitos, pode revelar o espaço
como possibilidade de compreensão do mundo – como condição, meio e produto da reprodução
condição, meio e produto desta reprodução. da sociedade capitalista com a extensão da
reprodução à vida cotidiana pela imposição de
3. a metageografia como proposta uma nova relação espaço-tempo; estado/espaço;
capital/espaço, revelando controle político que
Quando refiro-me a “metageografia” mantêm essa reprodução, criando conflitos.
não pretendo, com isso, fundar outra Geografia, Os termos de uma meta-geografia
nem tão pouco criar uma nova subdivisão da como caminho de superação a) da redução da
geografia, é antes a proposta de um caminho problemática espacial àquela da gestão do espaço
teórico-metodológico de superação do estado de com o objetivo de restituir a coerência do processo
crise em que se encontra a disciplina, nos termos de crescimento; b) a atomização da pesquisa
aqui desenvolvidos. cada vez mais invadida pelo tempo rápido c) da
Pode ser pensada como o caminho subjugação ao saber técnico que instrumentaliza
em busca dos fundamentos da Geografia enquanto o planejamento estratégico realizado sob a batuta
ciência social aonde se localizariam as bases de do Estado, justificando sua política; d) do discurso
constituição no humano, num retorno á filosofia. O ambiental que esvazia a relação sociedade-
ponto de partida, já anunciado, é o entendimento da natureza, identificando a dimensão social e
produção do espaço como momento da construção histórica da produção do espaço à sua dimensão
da humanidade do homem, revelando-se como natural. Com isso é capaz de questionar a estrutura
espaço-tempo da atividade que produz o homem contratual em que repousa nossa sociedade em
e o mundo - as condições objetiva da existência direção a constituição de um direito capaz de
humana tanto quanto a subjetividade contida superara a contradição fundante da produção
na consciência que vem da e na prática – com a espacial – produção social / apropriação privada,
prática. Uma prática que revela dramaticamente realizando o social em torno da realização das
crises. possibilidades plenas da apropriação do espaço.
Esta concepção de espaço nos obriga O homem “tem necessidade de agir, de
a deslocar a análise do campo da epistemologia produzir, de criar para existir humanamente, mas
para aquele da realidade humana; as condições as condições de vida se opõem a isso” – o processo
objetivas da existência do cidadão em direção a de reprodução do espaço revela esse movimento
sua realização superando cisões e alienações, bem de reprodução da sociedade capitalista no modo
“Crise e superação no âmbito da geografia critica: construindo a metageografia”. pp. 14 - 28 25

como a cidade se constrói como exterioridade, em transformação como realização da atividade


no modo como é vivida como estranhamento, humana. Trata-se, portanto de encarar os limites
posto que os produtos da produção humanas se e possibilidades de uma “ciência parcelar”, de
autonomizam, dotadas de potência regem a vida superar suas próprias fragmentações e atingir
na cidade. “As formas regem o ser. E o conteúdo a compreensão do mundo como totalidade
de onde saem. Elas possuem uma capacidade orientada pelas possibilidades constitutivas de
estupenda de reduzir o ser e o conteúdo eliminando um pensamento que se pretende crítico e nesta
o que as atrapalha (...) fixando-as numa ordem condição capaz, ao mesmo tempo de integrar “o
que vem de fora ( a tal ponto que atribui-se a racional (conhecimento, conceitos ) e o irracional
elas uma origem sobrenatural) mas que se impõe aparente (o vivido) numa totalidade que tem um
porque ordena. Os fetiches, cuja análise destrói movimento interno voltado para o social”, portanto,
o prestígio e deve destruir a influência, reinam capaz de realizar um caminho que articule, sem
sobre os seres humanos (sociais) incarnam- distinguir, o prático-teórico, o conhecimento e a
se nos dominadores”.9 A alienação é portanto realidade como apontado por Lefebvre. Refiro-
concreta e múltipla “inicialmente religiosa, depois me, especificamente á possibilidade de uma nova
metafísica, econômica, política, ideológica à qual inteligibilidade, produto de uma crítica radical,
é necessário acrescentar a mais valia e a negação capaz de desvendar os conteúdos da realidade
do trabalho assalariado, negação inaugurada pelo social através da análise do espaço.11
conceito que desvenda a situação e coloca fim ao Marx revelou, segundo
desconhecimento”.10 Lefebvre 12o essencial do pensamento crítico,
A prática sócio-espacial revelaria a sua potência em desvendar pelo saber, pela
a dimensão da produção do espaço como negação analise crítica, a realidade escondida dissimulada
da apropriação, posto que dominada pelo valor de pelas formas. A máscara e a dissimulação,
troca - como condição da existência e extensão da desvendando as aparências, particularmente em
propriedade privada que esvazia o uso e define relação à natureza do político e do econômico. O
as estratégias das políticas urbanas na direção modo como a liberdade a igualdade e justiça na
da realização da reprodução social. Em conflito a sociedade capitalista é apenas aparência. Deste
reprodução da vida entra em choque com as políticas modo o pensamento descobre uma essência, uma
que produzem a cidade na direção da realização da substância escondida como confrontação da ciência
reprodução política e econômica (não sem conflitos com a prática, voltada para a totalidade.
entre esses dois planos) produzindo a cidade A crítica, como atitude envolve captar
enquanto fragmentação de lugares e momentos as possibilidades existentes num mundo em
da vida urbana. A prática sócio espacial na cidade transformação, em sua complexidade como
vai realizar/revelar as fragmentações da vida (do totalidade realizando-se, hoje, como mundialidade,
indivíduo) e da cidade. O cotidiano é a instância ultrapassando a mera constatação das coisas o que
que liga espaço-tempo e que revela o esvaziamento exige a crítica da Geografia abrindo o caminho
e enfraquecimento das relações sociais na cidade teórico necessário para elucidar a dialética do
– perda de referencias, o isolamento, as cisões às mundo. O radical, como comportamento que vai a
quais a vida esta submetida em espaços-tempos raiz exige o desvendamento da sociedade em que
separados, funcionalizados. vivemos – imersa em contradições que eclodem em
A análise envolve, portanto, a conflitos e que vão revelando a necessidade de uma
exigência de um momento crítico – como aquele crítica ao capital e às sempre renovadas “formas de
da interrogação, da busca da totalidade como lucro”, bem como as novas formas de submissão
necessidade de superação das fragmentações do indivíduo ao econômico, o empobrecimento do
às quais o pensamento esta submetido. Aqui a humano preso ao universo das coisas orientadoras
geografia se encontra defronte de seus limites, ao das necessidades que se encontram travestidas
mesmo tempo em que encontra possibilidades, de em desejo, saciados no plano do consumo. A
compreensão do mundo moderno na totalidade radicalidade exige a construção de um projeto
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de “sociedade nova” fundada numa “ciência propriedade privada da riqueza como possibilidade
renovada” capaz de colocar no centro do debate de superação da contradição posta no processo de
as necessidades da realização da humanidade produção espacial entre sua produção social e sua
do homem livre das ideologias e representações apropriação privada. Isto porque a propriedade
vindas do mundo das coisas, manipulado pela privada revela a alienação do mundo moderno
comunicação midiática e pelo Estado. realizando-se de forma concreta, na prática sócio-
A exigência é a construção de um espacial cindida, numa urbanização que se realiza
conhecimento que desnude as relações sociais como negócio, isto é como possibilidade renovada
e que nesta condição permita fundar o projeto da reprodução do capital.
de uma outra sociedade. Como diria Heller 13a Na reflexão aqui desenvolvida a idéia
diferença entre o radicalismo de esquerda e o de de superação da Geografia por uma metageografia
direita é que o primeiro considera a humanidade aparece como hipótese. Pensar nesta direção
como valor social supremo, colocando-a no centro significa pensar no futuro da geografia – em
e objetivo do projeto. direção a um horizonte respondendo questões
Nesta direção a crítica radical do que emergem do real para compreende-lo em
existente em sua totalidade pode apreender a via seus conteúdos mais profundos. Assim, “o saber
e o caminho para a construção de um projeto de adquirido coloca-se em questão e o momento
sociedade, como crítica ao estado, á existência da da dúvida pertence ao saber como aquela da
afirmação”.14
Notas
1. Tese desenvolvida no livro A (re)produção do 8. Ana Fani Carlos, Espaço e tempo na
espaço urbano: o caso de Cotia, Editora da USP, metrópole, São Paulo, Contexto, 2001
São Paulo, 1994
9. Henri Lefebvre Une pensée devenue monde.
2. De forte tradição francesa a geografia brasileira Paris: Fayard, 1980. página 116
sempre esteve muito mais voltada para a França
do que para os USA. 10. Henri Lefebvre Une pensée devenue monde.
Paris: Fayard, 1980. página 118
3. Henri Lefebvre,Marx, página 55
11. Henri Lefebvre Une pensée devenue monde.
4. Henri Lefebvre, La fin de l’histoire página 45 Paris: Fayard, 1980, página 118

5. idem,ibidem, página 4 12. Henri Lefebvre Une pensée devenue monde.


Paris: Fayard, 1980. página 90
6. in Ana Fani Carlos 'Espaço e tempo na
metrópole, São Paulo, Contexto, 2001 13. Agnes Heller, A filosofia radical. São Paulo:
Brasiliense, 1983
7. Reanud Camus, La grande déculturation,
Paris, Fayard, 2008 14. Henri Lefebvre Une pensée devenue monde.
Paris: Fayard, 1980. página 75

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