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Biblioteca barroca da Abadia Beneditina de Melk (Áustria).

Como e por que ler

O amigo leitor talvez tenha conhecimento do que chamamos sabedoria da vida. Ou seja, a experiência
título em epígrafe do livro de Harold Bloom. Se não tem, da vida, ao lado da ciência, da filosofia, da arte e do mito,
deve lê-lo, é extremamente instrutivo, apesar das idios- constitui, segundo Ortega Y Gasset, uma das formas de
sincrasias do autor. Se não quiser se dar a esse trabalho, o homem saber a que se ater no mundo.
vou resumi-lo em poucas linhas. Ora, nosso mundinho pessoal, vivencial, é exíguo,
Devemos ler primeiro para ter memória. São nossas daí a necessidade de açambarcarmos outros mundos, o
leituras que criam as melhores e mais duradouras me- mundo de muitos outros, que nos deixaram uma herança
mórias. Devemos ler para aprender a pensar. Nisso não valiosa que não podemos desprezar. Esse mundo só nos
há salvação. Só com a leitura e posterior reflexão apren- vem por meio da leitura crítica e da discussão produtiva.
demos a articular melhor nossas memórias, a lhes dar De outra forma, a experiência da vida não é a experiên-
organização e consistência, e a poder, com isso, dialogar cia da minha vida, e sim a produzida pela “decantação
criativamente com os outros e consigo mesmo. Final- da presença de outras vidas na minha”, assim nos diz
mente devemos ler para adquirir sabedoria. Com isso, Julián Marias. Só dessa maneira posso legitimar o en-
fecho o livro e volto à sabedoria. Não que não a tenha no tendimento em mim e para mim, e ser convincente num
inculto, mas a chamada experiência de vida é necessa- diálogo, ter a capacidade de bem julgar e, portanto, dis-
riamente limitada, o que vivemos e com quem vivemos tinguir o falso do verdadeiro, o valioso do perfunctório. E
é um círculo restrito e que só pode ser expandido com o para isso não necessito do eruditismo. Um homem pode
tema

possuir muito saber e nenhuma sabedoria; ao contrário, somos longevos intelectualmente com o aprendizado.
pode revelar insuspeita sabedoria com escasso saber. E que aprendemos com leitura, e principalmente relei-
Mas, por que a leitura pode alargar tanto nossos ho- tura. A releitura é sempre mais rica e preciosa, e crítica.
rizontes? A biologia nos diz que é muito simples. O ser Forja o leitor a separar o joio do trigo, sendo a maioria
humano é visual e verbal, ao invés de um cão, essen- dos livros meras nulidades.
cialmente auditivo e olfativo. Característico de espécie. Se é tão importante a leitura, o que ler? A minha
Tanto que um cão cego nos reconhece pelo cheiro e pela experiência pessoal começou na chamada cultura pa-
voz depois de muitos anos. Tivesse eu esse olfato, certa- ralela, os quadrinhos, à parte a necessidade dos livros
mente seria um bom sommelier, como alguns da nossa didáticos. Depois veio Tarzan. Ah, o Tarzan, esse arqué-
espécie que o têm. Ou como ouvi de um produtor de vi- tipo perfeito que todos conhecemos. Criança de pais
nhos para um colega de profissão: um belo escanção. O aristocráticos ingleses é perdida numa floresta africana
exemplo dado foi apenas para reforçar que não podemos e criada por macacos. Quem não se interessa pelo que
abrir mão do nosso melhor, o visual e o verbal, e, portan- possa vir a ser, da sobrevivência à adultícia? Daí ter vira-
to, da propriedade da palavra escrita. Se alguém nos diz do esse herói multifário de quadrinhos a filmes. Pois foi
"nosce teipsum”, ou seja, “conhece-te a ti mesmo”, frase num episódio de Tarzan que o tradutor lascou a palavra
inscrita na entrada do templo de Delfos, na Grécia, tendo acepipes. Pelo texto, primário que era em leitura, não
como conotação a base da perfeição, é provável que essa consegui conotá-la. Dicionário não havia em casa, aliás
memória auditiva pouco perdu- não havia livros, à exceção dos didáticos. Também no
"NOSSO MUNDINHO PESSOAL,
re. Se, no entanto, estivésse- colégio não havia. Pobres tempos. Hoje há tudo, bastan-
VIVENCIAL, É EXÍGUO, DAÍ A
mos em Delfos, e a lêssemos, a do teclar o Google... Meus pais, parcos em letras, nem
NECESSIDADE DE AÇAMBAR-
possibilidade de perdurar seria tentei. Mas a professora talvez soubesse. Ao argui-la,
CARMOS OUTROS MUNDOS."
grande, graças à nossa capaci- apesar do meu primarismo em duplo sentido, senti que
dade visual e à associação que fazemos com as outras me enrolou. E acepipes deslizaram na minha mente por
memórias agregadas ao momento da exposição. bom tempo. Se apenas tivesse ouvido a palavra, prova-
A diferença da palavra oral para a escrita pode ser velmente não teria causado o menor efeito. Mas, escrita
comparada com clareza utilizando a matemática oral, e não sabida, virou obsessão. Até chegar a um dicioná-
paupérrima dizem os neurocientistas, e, na escrita, rio. Significado: iguaria. Fiquei na mesma. Mas palavra
provavelmente infinita. É esse fundamento de sermos puxa palavra. Fui à iguaria: comida apetitosa, gostosa.
visuais e verbais que gerou o culto à palavra escrita. De Ah, que valor têm os dicionários. Já passei horas deli-
uma aula pouco lembramos depois de um único dia, ciosas, como os acepipes, folheando esses livros. Estão
desde que não tenhamos conhecimento prévio algum entre os livros que mais amo. Tanto que sou fissurado, e
do conteúdo. De um bom e interessante texto muito tenho vários. O melhor atual? O Houaiss.
retemos, principalmente se for refletido pós-leitura. Mas dei esse exemplo ao leitor, de como comecei,
Além do que um texto pode ser revisitado ene vezes, só para deixar claro que o importante no início é adquirir
decorado, discutido, interpretado, compreendido, ge- o gosto pela leitura. Tornar a leitura gostosa, apetitosa
rando memórias, às vezes, perenes. Tanto que tende- feito uma iguaria. Essa inclinação tem muito de genéti-
mos a guardar conceitos, fatos, e não datas. Os fatos ca, mas tem também o polimento educacional. Para essa
são complexos, associativos, podem ser emanações ourivesaria fina do intelecto não podemos ficar na lagoa
ricas. As datas são nuas, parcas em nudez imutável. O rasa da leitura comum. Jornais, revistas e a quase totali-
que é definitivo é que vivemos para aprender, e que só dade dos livros são leitura comum. Pouco acrescentam
tema

a quem se quer um intelecto forte. Se quisermos avan- Quixote delira é o simples Sancho que o põe na ter-
çar, evoluir, temos que singrar mar alto. Temos que ir ra. No entanto, o simplório Sancho consegue admirar
aos clássicos, os imortais. Somente a leitura meditada as sacadas do “cavaleiro de triste figura”. Há veemên-
e discutida dos clássicos nos dá uma base educacional cia, mas há também respeito mútuo. A consequência
ampla e liberta, nos dá a possibilidade de sair da camisa- é que ambos se modificam. Esse é o efeito terapêu-
de força do cotidiano baseado em clichês e num reper- tico de um diálogo profícuo e produtivo. O segundo
tório exíguo. É essa formação reflexiva que permite um é Ham­let. Os solilóquios em Hamlet são uma ode à
autoexame isento e crítico a cada circunstância e nos autoescuta. Shakespeare inventou um monólogo inte-
liberta das ideologias e das pseudociências. Em suma, rior, por isso se diz que “inventou” o ser humano, e
nos convence e nos torna convincentes e, portanto, nos Hamlet mostra esse duplo eu. Interessante notar que
torna seres autônomos. os dois, Dom Quixote e Hamlet, foram criados mais ou
Convido, agora, o leitor amigo que ainda não par- menos à mesma época.
ticipou desse banquete a ler dois livros. O primeiro, Diálogo e monólogo, essências do humano. Uma
Dom Quixote, de Cervantes. A relação de Quixote com boa maneira de navegar em busca de novas descober-
Sancho Pança é um diálogo psicanalítico. Quando tas. Para isso, ler é preciso.

"SOMENTE A LEITURA MEDITADA E DISCUTIDA DOS CLÁSSICOS NOS


DÁ UMA BASE EDUCACIONAL AMPLA E LIBERTA, NOS DÁ
A POSSIBILIDADE DE SAIR DA CAMISA DE FORÇA DO COTIDIANO
BASEADO EM CLICHÊS E NUM REPERTÓRIO EXÍGUO."

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Biblioteca Ursino de livros raros - Catania - Sicília (Itália)