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1

OLAVO DE CARVALHO

O Caráter
como Forma Pura
da Personalidade

BREVE TRATADO DE ASTROCARACTEROLOGIA

1997

1
Introdução........................................................................................6

PARTE I.....................................................................7
O debate que entrou em órbita......................................................8

A natureza da astrologia................................................................9

..........................................................................................................9

Uma palavrinha sobre critérios e premissas..............................11

Astrologia e ciência.......................................................................12

Que é a Astrocaracterologia?......................................................14

As Camadas da Personalidade....................................................17
1. Preliminares............................................................................17
2. Enumeração das camadas.......................................................17
3. Observação..............................................................................17
4. Comentários............................................................................17
Parte I - Preliminares..............................................................18
Parte II - Enumeração das camadas.......................................19

O enfoque biográfico....................................................................20
Biografia e Destinologia ............................................................20
Orientação para o Estudo de Biografias.....................................22

As Camadas da Personalidade (II): As formas típicas do


sofrimento......................................................................................23
Introdução...................................................................................23
CAMADA 1 Caráter...................................................................23
CAMADA 2 Hereditariedade, constituição, temperamento,
estrutura pulsional.......................................................................23
CAMADA 3 Cognição, percepção.............................................24
CAMADA 4 História pulsional e afetiva...................................24
CAMADA 5 Ego, autoconsciência e individuação...................24
CAMADA 6 Aptidão e vocação.................................................25
CAMADA 7 Situações e papéis sociais.....................................25
3

CAMADA 8 Síntese Individual.................................................26


CAMADA 9 Personalidade Intelectual......................................27
CAMADA 10 Eu transcendental................................................27
CAMADA 11 Personagem.........................................................28
CAMADA 12 Destino final........................................................28
CRITÉRIOS DE RECONHECIMENTO...................................29

APÊNDICES............................................................30
1. Plano do Curso de Astrocaracterologia.................................31

2. Astrologia: Ciência e Ilusão — Plano da Exposição.............33

3. Orientação quanto às Órbitas.................................................34

PARTE II..................................................................35
Nota Prévia....................................................................................36

A DESCRIÇÃO DO CARÁTER: TÉCNICA DA


ASTROCARACTEROLOGIA — PARTE
ANALÍTICA..............................................................37
Casa I..............................................................................................38
Sol ..............................................................................................38
Inteligência Intuitiva Autônoma................................................38
Clínica.....................................................................................38
Síntese.....................................................................................38
Exemplos.................................................................................39
Saturno........................................................................................39
Aporia......................................................................................39
Síntese.....................................................................................39
Exemplos.................................................................................39
Júpiter..........................................................................................39
Síntese.....................................................................................39
Exemplos.................................................................................39
Marte...........................................................................................39
Síntese.....................................................................................39
Exemplos.................................................................................39
Vênus...........................................................................................40
Síntese.....................................................................................40

3
4

Exemplos.................................................................................40
Lua..............................................................................................40
Síntese.....................................................................................40
Exemplos.................................................................................40

Casa II............................................................................................41
Sol — Inteligência Intuitiva Realista.........................................41
Síntese.....................................................................................41
Exemplos.................................................................................41
Saturno........................................................................................41
Aporia......................................................................................41
Síntese.....................................................................................41
Exemplos.................................................................................41
Comentários aos exemplos.....................................................41
Júpiter..........................................................................................42
Síntese.....................................................................................42
Exemplos.................................................................................42
Marte...........................................................................................42
Síntese.....................................................................................42
Exemplos.................................................................................42
Vênus...........................................................................................42
Síntese.....................................................................................42
Exemplos.................................................................................42
Lua..............................................................................................42
Síntese.....................................................................................42
Exemplos.................................................................................43

Casa III...........................................................................................44
Sol — Inteligência Intuitiva Interpretativa................................44
Síntese.....................................................................................44
Exemplos.................................................................................44
Saturno........................................................................................44
Aporia......................................................................................44
Síntese.....................................................................................44
Exemplos.................................................................................44
Júpiter..........................................................................................44
Síntese.....................................................................................45
Exemplos.................................................................................45
Marte...........................................................................................45
Síntese.....................................................................................45
Exemplos.................................................................................45
Vênus...........................................................................................45
Síntese.....................................................................................45
Exemplos.................................................................................45

4
5

Lua..............................................................................................45
Síntese.....................................................................................45

5
INTRODUÇÃO

Reúno entre as duas capas deste livro alguns dos textos que distribuí aos alunos do Curso de Astrocaracterologia, em São Paulo e no Rio de
Janeiro, entre 1989 e 1992. O curso foi inteiramente gravado em fita e, transcrito, sobe a quase três mil páginas datilografadas.

Os textos escolhidos para a presente seleção representan os pontos de junção que articulam num todo as várias partes desse enorme conjunto.
Podem, portanto, ser lidos com proveito separadamente do resto do curso. Constituem, aliás, uma introdução preparatória ao Tratado de Astrocaracterologia,
que será a trascrição integral e corrigida do curso, acompanhada dos estudo de caso, realizados pelos alunos e por mim a título menos de prova que de
ilustração do método astrocaracterológico. O Tratado deverá constatar de seis volumes, assim distribuídos:

I — Astrologia Pura e Aplicada


II — Astrologia e Caractelogia
III — As Camadas da Personalidade
IV — Conhecimento de Si e do Outro
V — A Técnica da Astrocaracterologia
VI — Estudos de Casos

O Primeiro volume dará uma descrição crítica do estado presente do debate astrológico, explicando por que esbarra em enigmas sem solução, e
propondo uma nova estratégia para o ataque ao problema das relações entre fenômenos celestes e terrestres; delimita as possibilidades da astrologia como
ciência, separando cuidadosamente o território astrológico do que lhe é estranho ou circunvizinho e estabelecendo as relações da astrologia com outros
campos do saber. Por incrível que pareça, isto é aqui realizado pela primeira vez na história do debate astrológico, embora constitua, como é claro, um
preliminar indispensável a toda abordagem séria do problema.
O Segundo volume delimita o território da astrologia psicológica e, dentro dela, o da caractelogia astrológia, ou, como prefiro denominá-la,
astrocaractelogia. Esta delimitação se faz separando, caso a caso, aquilo que, no estudo do caráter humano, pode ser captado por meios astrológicos, e
aquilo que não pode. Para esse fim, comparo o diagnóstico de personalidade obtido pelo estudo do horóscopo natal com aquele que é dado pelas várias
caracterologia e tipologias surgidas no século XX, como as de Klages, Szondi, Le Senne, Reich, Jung, Pfahler e outros, demonstrando, caso a caso, os
pontos de interseção e de exclusão entre essas duas linhas de abordagem. A finalidade desta parte é estabelecer qual o setor, ou aspecto, da personalidade
humana, que pode vantajosamente ser descrito por meios astrológicos, e quais os que escapam do território astrológico, embora os astrológos praticantes
insistam em neles exercer um domínio ilegítimo.
O terceiro volume dá expressão teórica aos resultados do estudo realizado no volume anterior, estruturando-os sob a forma de uma teoria da
personalidade na qual, graças à delimitação de um território estrito, os conceitos e intrumentos psicológicos correspondem, simetricamente, aos
astrológicos, criando, pela primeira vez, as bases de uma comparação sistemática entre os dois campos, comparação que até hoje vinha sendo tentada
somente de maneira aleatória e casuística, com resultados sempre decepcionantes.
O quarto volume estatui o método e a técnica para a articulação do estudo astrológico da persomalidade com o seu estudo biográfico e sociológico,
ou seja: trata de juntar, no domínio do diagnóstico prático, aquilo que fora cuidadosamente separado no terreno da teoria.
O quinto estabelece as correspondências entre as posições dos astros no horóscopo natal e os traços de caráter (tal como previamente
delimitados em sentido astrocaracterológico estrito), criando assim o sistema das chaves interpretativas necessárias à aplicação prética do método e à sua
verificação científica.
O sexto volume divide-se em suas partes. A primeira consta de estudos de casos realizados por alunos, isto é, de interpretações
astrocaracterológicas acompanhadas dos dados biográficos e caracterológicos comprabatórios. A segunda resume um estudo realizado por mim, segundo
um método diverso, para o estabelecimento das relações entre os traços de caráter (no sentido especial da astrocaracterologia) e as escolha de temas
ficcionais, nos horóscopos de romancista célebres. Ilustram-se, deste modo, as duas vias principais de compravação e eventual retificação das teses
astrocaracterológicas: o estudo fenomenológico do caso individual considerado em sua totalidade e a comparação estatística de vários casos tomados num
determinado e exclusivo aspecto. Este volume constitui, por confrontação, uma crítica veemente a todas as supostas “verificações científicas” realizadas
nas últimas décadas sobre a astrologia, todas elas marcadas pelo vício redibitório da superficialidade e do desejo de conclusões rápidas que confirmem
prejulgamentos favoráveis ou desfavoráveis.
Tento em vista o plano do Tratado, o leitor poderá localizar adequadamente os textos do presente volume no conjunto da ciência
astrocaracterológica, na qual eles constituem, como foi dito, pontos de junção e lugares privilegiados.
Este volume não vale por si, é claro, mas é por ele que deve começar o estudo da astrocaracterologia, pois fornece a visão sintética daquilo que o
Tratado desenvolverá em modo analítico. Se, aqui ou ali, os textos parecerem obscuros, isto se deve á razão de que síntese é brevidade e a brevidade,
como já notava Horácio, é inimiga da clareza.

Agradeço de todo o coração a Márcia Fonseca, a Meri Angélica Harakava, a Henriette Aparecida da Fonseca e a todos os menbros da Sociedade
Brasileira de Astrocaracterologia (SBA), de São Paulo e do do Rio de Janeiro, sem cuja colaboração este livro não teria sido escrito nem publicado.
Mas aida é preciso acrescentar algo. Na aula inaugural, proferida em São Paulo em abril de 1990, comuniquei aos alunos que o Curso de
Astrocaracterologia seria dedicado como homenagem ao Dr. Juan Alfredo Cesár Müller, o qual não se encontrava ali presente por razões de saúde. A
primeira apostila , com a transcriçãop dessa aula, foi publicada algumas semanas depois. Enviei um exemplar ao Dr. Müller, que o leu com grande
dificuldade — mal enxergando as letras miúdas — na cama do hospital onde se encontrava internado. Sues filhos contaram-me, depois, da grande alegria e
satisfação com que o mestre leu até onde lhe permitiam suas forças as páginas em que se cristalizavam os frutos do seu ensinamento na gratidão e no
trabalho de um discípulo. Foi sua última alegria. Juan Alfredo César Müller faleceu naquela mesma noite.
PARTE I
O DEBATE QUE ENTROU EM ÓRBITA

Ao longo das últimas décadas, a astrologia tornou-se um sucedâneo de religião para as massas de classe média e um hobby “espiritual” para os
letrados. Montada na onda do novo paradigma que alguns teóricos reclamam para a ciência no século XXI, ela ganhou mesmo ares de respeitabilidade em
muitos círculos acadêmicos. Nada parece deter sua ascensão. Até as reações hostis de alguns religiosos e homens de ciência apenas aumentam sua
popularidade. No mínimo, o que é objeto de debate é objeto de atenção.
No entanto, os debates, na sua quase totalidade, têm se limitado aos aspectos mais vistosos e periféricos da questão astrológica, sem fazerem
avançar um passo sequer o esforço para responder às perguntas que constituem, ou deveriam constituir, o miolo do problema: existe, objetivamente, uma
relação entre os movimentos dos astros no céu e o desenrolar da vida humana na Terra? Se existe, qual a sua natureza e o seu alcance? Quais as causas
que a determinam? Quais as possibilidade e os meios de conhecê-la cientificamente?
Em vez de enfrentar essas perguntas, os adeptos e adversários da astrologia preferem discutir o seguinte tópico: “Astrologia funciona?” O debate
toma por foco a astrologia como prática divinatória ou diagnóstica, e deixa de lado a questão das influências astrais propriamente ditas. Aparentemente,
nenhum dos partidos em disputa se deu conta de que a existência ou inexistência de influências planetárias sobre a vida humana, de um lado, e de outro a
eficácia ou ineficácia da ciência ou pseudociência que se gaba de conhecê-las, são questões perfeitamente distintas, e de que não se pode decidir segunda
sem haver antes dado à primeira uma resposta satisfatória. Pois o que define e singulariza a astrologia não é a afirmação genérica de que “existem
influência astrais” (a qual pode ser admitida até mesmo por quem odeie astrologia, como Sto. Agostinho, por exemplo), mas sim a pretensão de já possuir
um conhecimento cabal de suas manifestações e variedades, ao ponto de poder descrever meticulosamente as diversificações da influência de cada planeta
conforme o lugar que ocupe no céu no instante do nascimento de cada indivíduo em particular — sem exceções ou dificuldades notáveis. Bem pode ser, é
claro, que esta pretensão seja descabida, maluca mesmo, sem que por isto o fenômeno das influências astrais, em si mesmo e independentemente das
interpretações que os astrólogos lhe dêem, deva ser considerado inexistente.
Por óbvia que seja essa advertência, os protagonistas do debate astrológico têm preferido omiti-la, confundindo a si mesmos e ao público.
Invariavelmente, no calor da polêmica, cada pequeno indício da existência de influências astrais é tomado como argumento legitimador da prática astrológica
existente; de outro lado, cada sinal de ineficácia ou erro dos astrólogos é exibido como prova da irrealidade das influências astrais. Isto em lógica chama-se
um non sequitur: tirar à força, de uma premissa, conclusões que dela não se seguem logicamente. Por exemplo, a pesquisa realizada por Michel Gauquelin,
na França, que numa revisão de 500.000 horóscopos de nascimento encontrou uma correlação estatística altamente significativa entre grupos profissionais e
tipos astrólogicos (conforme a posição dos planetas na hora do nascimento), é brandida orgulhosamente pelos astrólogos como prova de que “astrologia
funciona” (e não somente de que “existem influências astrais”). Inversa e complementarmente, o físico Shawn Carlson, da Universidade da Califórnia, após
ter verificado, em testes estatísticos, a incapacidade de vinte astrólogos para identificarem traços de personalidade com base em horóscopos de
nascimento, divulgou esse resultado (na revista Nature) como prova de que “não existem influências astrais” (e não somente de que a astrologia não
funciona, pelo menos tal como praticada atualmente).
Confusões dessa ordem são a regras geral nos debates sobre astrologia, mesmo quando os debatedores são homens cultos e preparados. Numa
recente mesa-redonda na UFRJ, confrontado com um sujeito que, para cúmulo, era professor de metodologia científica, não consegui, por nada deste
mundo, fazê-lo compreender a inépcia de uma discurssão colocada nesses termos. Com os astrólogos, excetuando uns happy few, não tenho logrado
resultados melhores. Coisas desse tipo contribuem para fazer do debate astrológico um sinal particularmente enfático da demência contemporânea.
No entanto, a questão das influências astrais, em si, e independentemente da polêmica, é da máxima importância para a nossa civilização em seu
estágio presente. Se nos lembrarmos de que a geografia se constituiu e se expadiu rapidamente como ciência a partir do momento em que uma Europa
culturalmente unificada partiu para as navegações e a descoberta da Terra, é fácil perceber, por analogia, que a humanidade culturalmente unificada de hoje,
ao partir para a exploração do ambiente cósmico em torno, se defronta com a necessidade urgente de um nova colocação do problema das ralações entre o
cosmos e a vida humana, não somente biólogica, mas histórica e psicológica; e este é, precisamente, o tema da astrologia. Este tema sugere, inclusive, a
oportunidade de uma recolocação global das relações, ainda hoje obscuras, entre ciências “naturais” e ciências “humana”. A nulidade dos resultados que a
astrologia tenha até agora alcançado na sua investigação, com os métodos peculiares e um tanto extravagantes que emprega, não justifica que seu objeto
mesmo seja negligenciado. Aliás, não foi a propósito da astrologia que Kepler enunciou seu célebre aviso sobre a criança e a água do banho? Se a astrologia
tal como se praticou e se prática hoje é falsa, o que temos de fazer é uma verdadeira, ao invés de proclamar, com uma autoconfiança de avestruz, a
inexistência do fenômeno astral sob a alegação de falsidade do que dele se diz. Se os historiadores erram em suas interpretação da Revolução Francesa, ou
se os zoólogos eventualmente se equivocam quanto à fisiologia das vacas, isto não constitui motivo suficiente para concluir que a Revolução Francesa não
aconteceu e que as vacas não existem. Mesmo na hipótese de que nada se salve da astrologia, mesmo na hipótese de que tudo o que os astrólogos
disseram a respeito do fenômeno astral seja rematada besteira, isto não desculpa o desinteresse pela perguntas mesmas às quais a astrologia pretendeu
oferecer resposta.
Por tudo isso, é espantoso o contraste entre o baixo nível do debate astrológico hoje em dia e as discussões que seis ou sete séculos atrás os
acadêmicos faziam a respeito do mesmo tema. Quanto examinamos as páginas que Sto. Tomás de Aquino, Hugo de S. Vitor, John de Salisbury e outros
intelectuais medievais consagraram ao problema astrológico, surpreendemo-nos com o rigor e a senidade de suas colocações, que constituem um exemplo
para nós.
Particularmente Sto. Tomás chegou a desenvolver uma teoria completa das influências astrais, que constitui até hoje uma das mais límpidas
colocações do problema e pode servir de marco inicial para as nossas investigações.
Tendo tocado no assunto, de passagem, na Suma Teológica e nos comentários à Física de Aristóteles, ele lhe dá um tratamento sistemático em
cinqüenta densas páginas da Suma contra os Gentios (1258). Ele não discute a existência das influências astrais, que no seu tempo era geralmente admitida
(mesmo pelos que, em nome da religião, condenavam a prática da astrologia divinatória); esforça-se apenas por definir a sua natureza e precisar o seu
alcance. É verdade que sua análise se detém no nível meramente conceptual e lógico, sem entrar no campo da investigação empírica. Mas quem não sabe
que sem conceito claros e uma hipótese condutora a investigação empírica é perda de tempo?
O que Sto. Tomás sugere, em essência, é que um corpo não pode exercer nenhuma influência causal sobre o que não seja também corpo; e que,
portanto, está excluída a hipótese de que os astros exerçam qualquer influência sobre a psique e o comportamento humano a não ser por intermédio de
alterações fisiológicas (ou fisiopatológicas). Ele chega a sugerir que os astros afetem a formação do embrião e que, produzindo assim conformações
corporais diversas, acabem por agir como causas remotas do comportamento humano. Os movimentos planetários, diz ele, não influenciam a inteligência e
a vontade humanas, mas, atuando sobre os corpos, predispõem a distúrbios passionais que podem obstar a livre operação da inteligência e da vontade.
A tremenda importância dessas observações reside em que elas colocam a questão astrológica na linha de uma investigação científica possível,
tirando-a da esfera dos argumentos metafísicos e teólógicos sobre determinismo e livre-arbítrio. Mas, passados sete séculos, a lição do grande escolático
ainda não foi assimilada, pois tais argumentos continuam comparecendo invariavelmente em toda discussão sobre o preblema astrológico, malgrado sua já
demonstrada impertinência e esterilidade.
O tratamento que Tomás deu à questão mostra, ademais, que ela pode e deve ser abordada independentemente de quaisquer reivindicações
polêmicas sobre a legitimidade ou ilegitimidade da astrologia enquanto prática. Esta lição também não foi assimilada.
Em resumo, no século XII estávamos mais perto de uma colocação racional do problema do que estamos hoje em dia, justamente quando ele se
revela mais importante e urgente.
De outro lado, é claro que, se em vez de investigar diretamente o fenômeno astral continuarmos polemizando sobre “a” astrologia, não chegaram a
nada. “A” astrologia é um amálgama enorme e confuso de códigos simbólicos, mitos e preceitos empíricos, procedentes de épocas e civilizações diversas,
numa variedade que se rebela contra toda tentativa de reduzi-la a um corpo unitário de doutrina. Como pronuciar-nos, de um só golpe, sobre a veracidade ou
falsidade de uma massa tão heteróclita? Só a ignorância fanática ou o desejo de aparecer explicam que alguém se disponha a tomar partido num debate que
se coloque nesse ternos. Mas, se os interessados no debate astrológico estão atrasados de sete séculos em assimilar a lição de Tomás, é que estão
atrasados de vinte em assimilar a de Aristóteles, o qual ensinava que, de um sujeito equívoco, nada se pode predicar univocamente. “A” astrologia é muitas
coisas. Talves algumas delas sejam verdadeiras, outras falsas, umas valiosas, outras desprezíveis. Quando essa mixórdia milenar se houver transformado
num corpo teórico explícito, à custa de depurações dialéticas e metodológicas como as que Sto. Tomás realizou para um aspecto em particular, então e
somente então poderemos debater com proveito sobre sua veracidade ou falsidade. Até lá, tudo o que podemos fazer é declarar, humildemente, se gostamos
dela ou não. Quanto a mim, é claro que gosto.
A NATUREZA DA ASTROLOGIA 1

1. Denominamos Astrologia todo e qualquer estudo das relações entre fenômenos astronômicos e eventos terrestres, de ordem natural ou humana.
2. Como ciência comparativa, a Astrologia não estuda um ente, uma coisa, mas uma relação: ente lógico que tem de ser construído
aprioristicamente, antes de que seu equivalente fático possa ser pesquisado na realidade empírica. A pesquisa astrológica requer, como condição primeira,
uma discussão gnoseológica e criteriológica que ainda não foi empeendida.
3. A comparação que a astrologia estabelece tem, como um de seus termos, a figura astronômica do céu — elemento unívoco, redutível a um
conjunto de fórmulas. O outro termo da comparação é a fenomenalidade terrestre em toda a sua inesgotável extensão e variedade. A disparidade dos termos
coloca problemas metodológicos peculiares, aos quais ainda não se deu a devida atenção.
4. Um desses problemas refere-se ao fato de que o conjunto de fenomenalidade terrestre e humana só pode ser abarcado pela totalidade do
sistema das ciências, e não por esta ou aquela ciência em particular. A divisão e catalogação da fenomenalidade terrestre e humana coincide
necessariamente com a das categorias, modos e formas e objetos do conhecimento científico.
Daí resulta: (a) que a Astrologia é, por natureza, astrologia comparada: astronomia comparada à Biologia, quando estuda fenômenos biológicos;
comparada à História, quanto estuda eventos e etapas da História; e assim por diante.
O astrólogo não enfoca jamais a fenomenalidade terrestre em seu estado bruto, mas sempre já melaborada, definida e catalogado por alguma
ciência existente.
Resulta ademais: (b) que a exigência metodológica em qualquer estudo astrológico é tripla. Ao estudar astrologicamente qualquer setor da
fenomenalidade terrertre o astrólogo deve prestar satisfação: primeiro, às exisgências da astronomia, para o correto desenho do céu; segundo, às da ciência
que define e pesquisa esse campo específico (História, Biologia, etc.): finalmente, às do método astrológico propriamente dito, que não pode ser um só,
totalitário e unívoco, para todos os campos estudados, mas requer uma amoldagem minuciosa e altamente problemática às peculiaridades de cada campo2 .
A Astrologia, portanto, não é uma ciência só, mas uma multidão de ciências, com uma pluralidade de métodos. Deve haver, é claro, uma Astrologia
Geral, puramente teórica, mas só pode haver “pesquisa científica” no campo das astrologias especiais.
5 — Cabe à Astrologia Geral, ou Pura, ou Teórica, definir, como mera hipótese teórica, e localizar coerentemente no corpo da epistemologia
vigente, as relações entre fenômenos terrestres e celestes.
Cabe à Astrologias Especiais: (a) amoldar essa hipótese ao seu campo específico: (b) definir os métodos e critérios cabíveis no caso; (c)
empreender as pesquisas necessárias; (d) corrigir e aperfeiçoar a hipótese especial; (e) verificar em que medida essas correções e aperfeiçoamentos
afetam a teoria geral.
6 — Denominamos Astrocaracterologia o setor da Astrologia que estuda, especificamente e com métodos específicos, as relações entre a figura
celeste no instante do nascimento de um indivíduo humano e o caráter desse indivíduo.
7 — Denominamos caráter a parte fixa e estrutural da personalidade; o esquema de base por trás de todas as mutações determinadas por fatores
exógenos; o esqueleto da personalidade, e não o seu corpo total e vivente.
8 — São tarefas primordiais da Astrocaracterologia:
a) Fazer uma revisão crítica de todas as principais teorias caracterológicas, como as de Klages, Le Snne, Berger, Bühler, e assim por diante.
b) Estabelecer o quadro mínimo dos fatores e elementos estruturais do caráter — abstraindo-se de toda especulação sobre as causas que os
determinam.
c) Estabelecer, por simples analogia estrutural, as correspondências entre esses fatores e elementos e os componentes do mapa astrológico —
planetas, casas, aspectos, etc. — tomados isoladamente. Isto constituirá o primeiro esboço da hipótese astrocaracterológica.
d) Estabelecer a possibilidade de uma particularização dessa hipótese; isto é, verificar se a analogia entre a estrutura do caráter em geral e o
sistema planetário pode ser transposta ao plano de uma correspondência entre a figura do céu num instante determinado e o caráter de um indivíduo
determinado. Esta transposição, ao contrário de que parece imaginar a maioria dos astrólogos, é altamente problemática.
e) Desenvolver, por método dedutivo, a diferenciação dos fatores planetários segundo casas e signos. Isto constituiria o corpo total da hipótese
astrocaracterológica: o esboço da “técnica da interpretação” possível.
f) Destacar, do conjunto dessa hipótese, os aspectos mais passíveis de comprovação ou refutação clínica (por observação de casos).
g) Proceder às pesquisas, após o estabelecimento de métodos apropriados.
h) Desenvolver métodos de observação experimental.
9 — O objetivo fundamental da Sociedade Brasileira de Astrocaracterologia é (a) transmitir a profissionais e estudantes a parte já realizada desse
programa; (b) formar pesquisadores para realizarem a parte restante 3 .
10 — A Astrocaracterologia pretende ser uma contribuição para a elevação geral do debate astrológico, que de tem deixar de ser um confronto
de preconceitos e equívocos, uma impossível peleja entre ocultismos.
Nesta entrada do século XXI, quando o estreitamento do horizonte terrestre e a abertura do espaço cósmico às explorações científicas colocam,
com máxima urgência, a questão das relações entre o ambiente cósmico e a fenomenalidade terrestre e humana, é absolutamente necessário um esforço
para colocar essa questão de maneira responsável, ao nível de um saber crítico e não dogmático.

1
Manifesto de Fundação da Sociedade Brasileira de
Astrocaracterologia.
2
É absurdo pretender que o método possa ser um só e
o mesmo para o estudo astrológico dos terremotos e o
da personalidade humana, por exemplo.
3
A formulação metodológica prévia dos requisitos da
Astrologia Geral ou Teórica já foi apresentada em
nosso curso Astrologia: Ciência e Ilusão; as linhas
mestras da metodologia astrocaracterológica, em
nosso curso Astrologia e Caracterologia. Ambos estes
cursos foram repetidos em São Paulo, no Rio de Janeiro
e em Salvador. Suas transcrições foram colocadas à
disposição dos membros da Sociedade, preparando-os
para o Curso de Astrocaracterologia Fundamental.
10

Se não o fizermos, outros o farão. Assim como se disse que a guerra é assunto demasiado sério para ficar nas mão dos generais, poderá dizer-se
um dia que as relações entre astros e homens são coisa demasiado grave e grande para ficar entregue à responsabilidade de astrólogos.

10
11

UMA PALAVRINHA SOBRE CRITÉRIOS E PREMISSAS

A Astrocaracterologia colhe, à vontade, elementos dos antigo simbolismo astrológico e da moderna metodologia científica, sem outra fidelidade e
senão à evidência.
Não tenho preconceitos nem contra as formas intuitivas e afetivas de conhecimento, nem contra as exigências da racionalidade e do método
cientifico. Nem a “ciência” nem o “esoterismo” deveriam jamais constituir ídolos oi fetiches ante os quais nos prosternássemos em adoração.
Hoje em dia, no entanto, alguns falam de “intuição” e de “sabedoria interior” como se fossem detentores de algum sublime segredo, inacessível a
nós outros, meros animais racionais. Quando os contestamos, recusam-se a argumentar conosco. Refugiam-se na autoridade do silêncio e apelam ao juízo
supremo do seu “guru interior” — o qual, se é que realmente lhes cochicha algumas coisa por dentro, a nós não nos diz nada em voz alta. Escorregam,
assim, por fora da discussão franca, que os desmascararia. Mas o guru interior de um trapaceiro não poderia de fato lhes ensinar senão trapaças. Outros
enchem a boca ao falar de “ciência”, como se a ciência não fosse contínuo esforço de crítica e revisão, e sim a garantia terminal e sacrossanta das coisas
— às vezes bastante vulgares e supersticiosas — em que eles mesmo acreditam. Traem, assim, a causa da racionalidade, a que professam servir. Nutrem-
se do prestígio social da ciência sem pagar a quota de incerteza e de doloroso esforço que ela por sua natureza mesma exige.
Contra essas posturas, afetadas e pedantes, é preciso uma vez mais e sempre lembrar: ciência e esoterismo, razão e intuição, sentir e pensar,
não são senão meios em vista de um fim: a busca e o encontro da verdade.
O que importa não é se um conhecimento é intuitivo ou racional, esotérico ou científico: o que importa é se é verdadeiro ou falso. O que importa
não são os meios com que se obtém um conhecimento: é a veracidade desse conhecimento.
No entanto, quantos, hoje, não estão prontos a rejeitar as mais nítidas e insofismáveis demonstrações da lógica, sob a alegação de que são
abstratas, como se abstrato fosse sinônimo de falso! E quantos, de outro lado, não se apressam em negar a realidade de suas mais intensas vivências
interiores, só pelo fato de serem intuitivas e não poderem ser “provadas”!
São duas formas, igualmente graves, de alienação da consciência humana.
Porque realmente não há outro juiz da verdade senão a inteligência do indivíduo humano adulto e autoconsciente.
Ela .pode servir-se da razão e da intuição, da lógica e do sentimento; pode pedir a ajuda da ciência e da revelação, do esoterismo e das tradições
iniciáticas, da comunidade acadêmicas e do clero, dos anjos e dos santos; as não pode saber, em lugar dela e em seu nome, discernir o verdadeiro do falso.
Hic homo singularis intelligit: o sujeito do ato intelectivo é indivíduo singular.
Premido entre as exigências múltiplas e contraditórias das autoridades que ele mesmo estatui — a autoridade da ciência, a autoridade da tradição,
a autoridade da opinião pública e das sociedades secretas, a autoridade das forças históricas, a autoridade do corpo que geme, deseja e comanda —, o
homem moderno está sempre pronto a ceder a alguma delas o privilégio e o dever, a dor e a suprema glória de saber a verdade, coisa que só a ele compete
e a ninguém mais.
O homem real, o homem individual de carne e osso, histórico e contingente, pecador, mentiroso, frágil e nascido em prantos, é, não obstante todas
essas deficiências, o único que sabe e que pode saber, porque tem inteligência e autoconsciência. Ele não tem a quem perguntar, exceto a esta inteligência
autoconsciente deste último.
Como tribunal da verdade, não há instância superior à consciência humana, porque é nela e para ela somente que a verdade existe.
Se alguma premissa filosófica é indispensável aceitar para poder compreender proveitosamente a Astrocaracterologia, é este firme reconhecimento
do poder único e intransferível da inteligência autoconsciente de conhecer a verdade por esforço próprio e em meio a todas as limitações e precariedades da
condição humana. Sem este reconhecimento, a inteligência se aliena, transfere a outrem a autoridade de conhecer por ela e em vez dela, e termina
envilecida como serva de algum deus improvisado.
A Astrocaracterologia versa sobre o mais difícil e escorregadio dos conhecimento: o conhecimento do homem pelo homem. Só uma inteligência
firmemente centrada na consciência do seu poder e do seu dever pode com proveito dedicar-se e tal estudo.

11
ASTROLOGIA E CIÊNCIA 4

A pergunta “A astrologia é uma ciência?” tem obtido as seguintes respostas:


1ª É uma ciência. Assim respondem os adeptos da chamada “astrologia científica”, como Paul Couderc e Adolfo Weiss. Esta escola caracteriza-se
por julgar que, para a astrologia ter direito ao estatuto de ciência, tudo o que é preciso é tomar as afirmações correntes dos manuais de astrologia e
submetê-las a uma verificação estatística, que as confirmará em toda a linha.
2ª É uma pseudociência. É o que dizem alguns dos mais encarniçados adversários da astrologia, recrutados sobretudo entre os astrônomos de
profissão. Dentre eles destacam-se, como típicos, o falecido diretor do Observatório de Paris, Paul Couderc, e, no Brasil, o diretor do Observatório do
Valongo, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. As razões que fundamentam esta resposta são muitas — algumas perfeitamente impertinentes, como por
exemplo a de que é impossível calcular horóscopos de pessoas nascidas no Polo Norte ou a de que os signos não coincidem com as constelações; mas
algumas pertinentes e razoáveis, como aquelas que se alegam o princípio de falseabilidade de Popper ou os resultados negativos obtidos em testes
estatísticos. É importante notar que esta corrente entende como critério de cientificidade da astrologia o mesmo, no fundo, que adotavam Choisnard e Weiss,
apenas com a ressalva de que sua aplicação dará resultados negativos.
3ª É um saber revelado, superior à ciência — e como tal, furta-se a todo exame científico na medida em que não pode ser apreendida pelas
categorias racionais. Esta resposta é defendida ou presumida, em geral, pelos que abordam a astrologia pelo lado da psicologia junguiana, da mitologia e dos
estudos de simbolismo e que ao mesmo tempo têm uma atitude crítica face à ciência contemporânea. O famoso astrólogo Charles E. O. Carter é um deles.
É um teosofista. Mas igual atitude encontra-se em René Guénon, temível adversário do teosofismo.
4ª É uma linguagem simbólica e, como todas as linguagens, escapa das categorias do verdadeiro e do falso, podendo ser julgada apenas por sua
adequação e expressividade. É a atitude daqueles que abordam a astrologia também pelo lado do simbolismo, da mitologia, da psicologia — mas também da
antropologia, da sociologia —, tomam no entanto como universalmente válidos os critérios da ciência moderna. É o caso de um Gaston Bachelard, de um
Claude Lévi-Strauss e, em geral, da comunidade acadêmica. Alguns encaram a astrologia como um “corpo de crenças” que não cabe à ciência julgar, mas
descrever e compreender em suas estruturas, relacionando-as com as da sociedade humana.
Malgrado suas enormes diferenças e malgrado o fato de que parecem abranger totalmente a gama das alternativas possíveis, todas essas
respostas são falsas ou, pelo menos, inadequadas.
A primeira delas — a tese da “astrologia científica” — é falsa pelas seguintes razões:
1. Uma técnica não se torna científica pelo simples fato de empregar, mesmo com sucesso, métodos cientificamente válidos para testar os
resultados de sua aplicação. É preciso que ela mesma, no seu conteúdo, nas teorias em que se embasa, tenha caráter científico. Não é o caso da astrologia,
que se fundamenta em pressupostos simbólicos que escapam a todo critério de verificabilidade.
2. Uma ciência não se limita a registrar correlações estatisticamente, mas busca uma explicação teórica para os fatos. A idéia de que montanhas
de fatos estatisticamente comprovados fazem uma ciência é de um primarismo grosseiro.
3. Mesmo assim, os testes estatísticos relativos à eficácia dos diagnósticos astrológicos têm chegado uniformemente a resultados negativos.
Todas as tentativas de correlacionar estatisticamente posições planetárias e traços de personalidade falharam.
4. Não há ciência sem contínua revisão dos pressupostos à luz dos resultados experimentais, e a astrologia tem pressupostos imutáveis e
dogmáticos.
Mas aqueles que negam todo estatuto científico à astrologia também estão errados, porque:
1. É impossível saber se um conjunto de teorias é científico ou não sem primeiro reduzir esse conjunto a um sistema, a uma teoria unificada.
Nunca se fez isto.
2. Os critérios pelos quais se condena a astrologia dariam resultados negativos também se aplicados a uma multidão de ciências atualmente
admitidas como tais, como por exemplo a sociologia, a psicologia, etc.
3. Embora seja um fato que a astrologia não atende ao princípio de falseabilidade de Karl Popper, considerado universalmente um critério válido,
também é um fato que, com base no mesmíssimo princípio de Popper, não é tem cabimento rejeitar como falso aquilo que escapa ao critério de
falseabilidade; e os críticos da astrologia aqui referidos não pretendem apenas que ela seja uma não-ciência, e sim que ela seja falsa. Confundem assim
ciência e verdade. Um conhecimento essencialmente verdadeiro e não-científico pode transformar-se em científico mediante simples adaptações lógicas e
metodológicas.
A hipótese que subtrai a astrologia ao julgamento científico alegando que ela é um saber revelado também é falsa, porque:
1. Saber revelado e saber científico se distinguem somente por sua origem diversa, mas o critério de validade é o mesmo para ambos, e este
critério é científico. Alegar origem revelada é eludir a questão.
2. O saber é revelado divinamente só ao primeiro que o recebe. Este o transmite aos demais por meios humanos, que subentendem o uso da
linguagem, da razão, etc.
3. Deus nunca enviou uma revelação sem milagres que a acompanhassem ao longo do tempo, para legitimá-la aos olhos dos crentes. Se os
astrólogos são profetas, não devem limitar-se a prever o futuro como vulgares vaticinadores, mas deter o movimento do Sol, separar as águas do Mar
Vermelho e curar os leprosos.
4. Um saber revelado não se furta ao teste da verdade por meios científicos. Ao contrário: Todas as grandes religiões sempre submeteram as
partes testáveis de sua fé à verificação.
Finalmente, não tem cabimento eludir a questão da veracidade mediante a alegação de que a astrologia é uma linguagem simbólica:
1. Uma linguagem é apenas um sistema de signos e símbolos com os quais se podem expressar muitas idéias. A linguagem em si não pode ser
verdadeira ou falsa. O que é verdadeiro ou falso é o conteúdo das idéias que o homem expressa com a ajuda delas, as quais, por sua vez, não constituem
um sistema de signos, mas afirmações sobre a realidade, com referência extra-linguística. Se a astrologia é uma linguagem, está fora do domínio do
verdadeiro e do falso e nada pode predicar sobre o real. Ora, a prática astrológica universal consiste precisamente em fazer afirmativas sobre a realidade —
sobre o caráter e o destino das pessoas, por exemplo.
2. Das regras de uma linguagem é impossível deduzir o conteúdo do que nela se vai dizer. Se a astrologia é uma linguagem, não é um
conhecimento, exceto de si mesma. No entanto, a pretensão de constituir um conhecimento é inerente à prática astrológica, antiga ou moderna, Ocidental ou
Oriental.
Essas quatro categorias de respostas resumem o essencial do que foi, no século XX, o debate da questão astrológica. Por elas, fica patente que
esse debate não levou a nenhum resultado apreciável, e que, portanto, é necessário recolocar a questão desde suas bases, para tentar chegar a um quinto
grupo de respostas, na esperança de que sejam mais consistentes.
Começo por rever o sentido dos termos. Que é propriamente uma ciência? Todo estudioso do assunto sabe que as ciências reais (historicamente
existentes) não servem, por si, como fundamento para uma resposta. Por indução, os traços que obteríamos seriam demasiado amplos e frouxos para poder
abranger a História, a Antropologia, a Matemática, a Biologia, a Física Teórica, etc.
Resta a alternativa husserliana de conceber a ciência como um modelo ideal de conhecimento, do qual se podem deduzir, como diferentes
possibilidades de realização, mais perfeitas ou imperfeitas, as ciências que se manifestaram historicamente e ainda outras ciências possíveis.
Esse modelo impõe certas exigências para que um conhecimento possa aproximar-se do ideal científico:
1. Todas as ciências historicamente existentes procuram realizar, por variados meios, um ideal de saber fundamentado, firme, oposto à mera
opinião. A definição ideal de ciência implica como condições essenciais:
1. Evidência. O termo “evidência” aqui não significa “o dado” ou “o imediatamente apreendido pelos sentidos”. Significa apenas aquilo que é certo e
inegável por si mesmo, não requerendo prova. Mesmo as correntes de pensamento que não aceitam nenhum tipo de intuição do dado fundam-se em alguns
princípios tomados como evidentes ou ao menos convencionalmente colocados fora de toda discussão. Esses pontos de partida são indispensáveis em toda
ciência, e é inconcebível uma ciência que presuma poder prosseguir indefinidamente suas investigações sem referi-las a um ponto de partida.
2. Prova.
3. Nexo evidência-prova.
4. Caráter evidente (e não provado) do nexo mesmo.
2. Como condições existenciais, a ciência requer:
1. Repetibilidade do ato intuitivo referido à “mesma” essência.

4
Conferência proferida no auditório do Palácio
Tiradentes (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de
Janeiro) por ocasião dos festejos do 10º aniversário da
Escola Astroscientia, em 22 de outubro de 1994.
13

2. Repetibilidade do fenômeno cuja essência é intuída.


3. Registro.
4. Transmissibilidade.
3. Esse ideal foi realizado, historicamente, segundo modalidades variadas, calcadas nas ciências que casualmente obtivessem maior
sucesso no momento.
1. Geometria (séc. IV a. C.)
2. Biologia [ classificação ] (séc. VI em diante: influência aristotélica tardia).
3. Dialética e Lógica (séc. XII em diante).
4. Matemáticas (séc. XV em diante).
5. Física mecanicista (séc. XVII em diante).
6. Biologia e medicina experimental (séc. XIX).
- ao mesmo tempo: História.
7. Física matemática, lógica matemática, linguística, informática e neurobiologia (séc. XX).
4. A astrologia pode tentar em vão copiar o modelo de alguma delas ou, ao contrário, procurar constituir-se como ciência desde o ideal
mesmo que define a idéia de ciência.
5. Só este último caminho é válido, porque o objeto da ciência astrológica é radicalmente diverso do de todas as demais ciências. Que
objeto é esse?
1. O estudo das influências astrais? Não.
2. O estudo da personalidade à luz dos astros? Não.
3. É o estudo das relações entre fenômenos celestes e terrestres de qualquer natureza.

5. Pode a astrologia ser uma ciência?

1. Logo, a astrologia, se houver uma, é uma ciência:


1. Comparativa.
2. De objeto lógico e não fático.
3. Múltipla. A variedade de objetos requer variedade de métodos.
4. Interdisciplinar.
2. Eis a razão pela qual a astrologia perdeu, no Renascimento, seu estatuto de ciência. A astrologia até então existente bastava para dar
conta da fenomenalidade terrestre tal como descrita pela física de Aristóteles, mas o súbito avanço das demais ciências as fragmentou
de tal modo que uma ciência comparativa, sintética e interdisciplinar como a astrologia se tornou impossível.
3. Hoje, graças ao sistema internacional de intercâmbio de informações científicas, a ciência astrológica se torna novamente possível.

6. Como realizá-la?

1. Enfrentando logo as questões preliminares de delimitação, de métodos investigativos e de critérios de validação.


2. Enfrentando logo o problema da unificação da teoria astrológica, o que implica a reinterpretação de todo o legado da astrologia
antiga — trabalho para muitas gerações.
3. Distinguindo para sempre as duas questões que o debate atual confunde:
1. O fenômeno astral em si.
2. A validade das técnicas astrológicas.
4. A resposta sobre a validade ou não da astrologia não pode preceder a resposta sobre a existência ou inexistência do
fenômeno astral (chamemos assim as relações entre fenômenos celestes e terrestres).
1. A resposta sobre o fenômeno astral já nos foi dada por Gauquelin.
2. A comprovação da existência do fenômeno não basta para validar a astrologia, mas basta para justificar a
necessidade de uma ciência astrológica: resta fazê-la, em vez de proclamar que está feita e cultuar uma imagem de
sonho.

13
QUE É A ASTROCARACTEROLOGIA?

1 — Astrocaracterologia é a ciência que investiga as relações entre os fenômenos celestes e o caráter humano
2 — Seu objetivo é averiguar se tais relações existem e, caso existam, precisar sua natureza, seu alcance e suas modalidades.
3 — A Astrocaracterologia parte de uma hipótese alegada pelos astrólogos — a de que existem tais relações — e procura precisá-la, reduzindo a
uma formulação única e essencial a variedade de versões e interpretações que lhe dão os astrólogos, para em seguida poder averiguá-la cientificamente.
4. Dessa maneira, a astrocaracterologia pode ser compreendida quer como uma parte especial da astrologia — de vez que estuda somente um
campo delimitado dentro da variedade de termas de que se ocupam os astrólogos —, quer como uma anti-astrologia — na medida em que trata como mera
hipótese o que para os astrólogos é uma certeza prévia e na medida em que dá ao tema um tratamento diverso daquele que recebe da astrologia-, quer como
uma astrologia reformada. Ela é de fato essas três coisa, conforme o ângulo por onde se veja.
5. a parte mais importante do trabalho desta ciência consiste, durante esta fase inicial, na formulação apriorística da hipótese astrocaracterológica.
Esta se constitui de três grupos de proposições:
a) proposições concernentes à existência, natureza e limites das mencionadas relações;
b) proposições concernentes à diversificação dessas relações em modalidades e níveis distintos;
c) proposições concernentes à sua diversificação segundo os caracteres individuais humanos.
Estes três grupos de proposições deverão ser obtidos mediante redução fenomenológica da variedade de formulações e versões que o tema recebe
da astrologia clássica e contemporânea; e, em seguida hierarquizada sistematicamente segundo seus nexos lógicos.
Desta feita, estará formado, pela primeiro vez na história, um corpo integral e coerente da teoria astrológica (na parte concernente em especial ao
caráter humana).
6 — A astrocarcterologia parte da constatação de que a astrologia clássica e moderna não é nem clara nem coerente na formulação de suas
alegação, as quais no entanto são em grande número. E, desta constatação, conclui serem prematuras e estéreis todas as discussões sobre a validade (ou
não) de tais alegação, de vez que, como já ensinava Aristóteles, nada se pode predicar univocamente de um objeto equivoco.
Para o astrocaracterólogo, a admiti, como hipótese também, que por trás da variedade por vezes alucinante do que alegam os astrólogos, pode
haver uma unidade de intenção que haja escapado aos próprios astrólogos. Caso não existia de facto (o que somente o exame fenomenológico das
semelhanças e diferenças pode revelar), ainda assim essa unidade poderá ser construída artificialmente pelo astrocaracterólogo, a título de unidade ideal.
Dito de outro modo, pode ser que os astrólogos de várias épocas, com seu discurso arrevesado, frouxo, confuso e por vezes contraditório, estejam
tentando expressar algum tipo de intuição vaga e fantasmática de um corpo de fenômeno que seja, não obstante, perfeitamente real em si mesmo.
Assim, como o policial que utiliza o melhor de suas faculdades interpretativas para reduzir a termo sensatos o depoimento de uma testemunha
atordoada, perplexa e gaguejante ante os fatos que observou, o astrocaracterólogo, nesta primeira fase de sua investigação, se pões a ouvir
compreensivamente o discurso astrológico, sem prejudicá-lo, e procurando reduzi-lo a um corpo racional de hipóteses. Uma verdade confusa não tem como
ser desmascarada. Esclarecer as pretensões dos astrólogos é a primeira tarefa da astrocaracterologia. Se tais pretensões, colhidas dos textos astrológicos,
não se revelarem por si capazes de se articulas num corpo coerente, o astrocaracterólogo preencher por dedução as partes faltantes, constituindo destarte a
unidade ideal da teoria astrológica. Aí e somente aí se poderá, com razoável probabilidade de sucesso, conceber um método científico para a averiguação
dessas pretensões e, colocando em marcha um batalhão de pesquisas concebidas segundo esse método, finalmente julgar a astrologia.
É claro que, mesmo com todos esses cuidados preliminares, as conclusões da astrocaracterologia só serão válidas no tocante à parte das
alegações astrológicas que se refere às relações entre fenômenos celestes e o caráter humano, estando excluído deste julgamento tudo quanto à relação
dos fenômenos celestes com outros aspectos da vida terrestre.
8 — Se a um primeiro exame, reconhecemos como “astrologia” tudo quanto se apresenta com esse nome, o campo de investigação preliminar não
terá mais fim. Denominamos portanto “astrológico” somente aquilo que os profissionais do ramo, por intermédio de suas entidades de classe, reconhecem
como tal.
Isto, por um lado, excluir do nosso campo toda a infinidade de conhecimento ou pseudoconhecimentos aparentados ou afins à astrologia, como a
numerologia, a geomancia, etc., muitas vezes freqüentados pelos astrólogos mesmos.
Por outro lado, inclui não só os livros e artigos escritos por astrólogos sobre astrologia, mas também obras que, escritas por outros e sobre outros
assuntos, contém elementos importantes de teoria astrológica, reconhecidos como tais pela comunidade astrológica. Assim, por exemplo, são astrológicos
no nosso sentido os texto de Jung concernentes à sincronicidade, os capítulos que Sto. Tomás de Aquino dedica ao tema na Suma contra os Gentios e na
Suma Teológica, os pareceres de René Guénon, de Raymond Abellio, de Gaston Bachelard, de Lévi-Strauss, de Michel Foucault e de uma infinidade de
outros autores, habitualmente aceitos pela comunidade astrológica como contribuições importantes para a formulação do problema astrológico ou da teoria
astrológica.
O campo inicial já é, assim, vastíssimo. Mesmo no que diz respeito somente aos astrólogos profissionais, a variedade de enfoques, de conceitos,
de níveis de abordagem, etc., já é tal, que a tentativa de reduzi-la a uma unidade parece utópica. Astrólogo é, por exemplo, Morin de Villefranche, que crê
numa determinação implacável dos atos e caracteres humanos pelos astros, ao ponto de eles fazerem de um homem um asceta ou um homicida. Mas
também é astrólogo Dane Rudhyar, segundo o qual os astros, sem nada determinarem positivamente, são apenas sinais colocados no céu, por uma
inteligência cósmica ou divina, para neles o homem ir lendo os sinais sugestivos que lhe indicam a via do aperfeiçoamento. É astrólogo ainda Tomás de
Aquino, que não crê numa coisa nem outra, mas nunca influência puramente física e pré-humana dos astros sobre a nossa fisiologia, sem alcance
determinante nem qualquer significação espiritual direta. Também é astrólogo Jacques Halbronn, que não acredita em nada disso, mas na ação da
humanidade histórica, que, projetando significações num céu neutro e praticamente inerte, e submetendo-se em seguida aos ritmos e ciclos do céu assim
carregado de intenções, acaba por sofrer a retroação da máquina simbólica por ela mesma criada, a qual, ao longo do tempo, vem a adquirir força eficiente
pela condensação dos ritmos e ritos no código genético.
A unidade parece impossível, já mesmo ao nível da simples formulação inicial da natureza do fenômeno astral.
No entanto, essa dificuldade é apenas aparente, pois a diversidade mesma acaba por limitar, pelo contraste e negação recíproca, o campo das
teorias que poderiam ser subscritas, como um só corpo unitário de hipóteses, por todos os astrólogos. Pois aqui não se trata de abarcar tudo o que os
astrólogos dizem, mas de excluir tudo aquilo que, negado por um ou por muitos astrólogos significativos, arrisque desfazer a unanimidade.
Assim, por exemplo, a sentença “A astrologia o estudo das influências astrais sobre o homem “já estaria excluída da teoria unitária, porque alguns
astrólogos importantes dizem que os astros não exercem influência nenhuma (sendo apenas sinais) e porque outros astrólogos se interessam pela influência
que os astro possam exercer sobre criaturas não humanas, como os metais e as plantas.
9 — Procedendo assim por distinções, comparações e exclusões, a astrocaracterologia, na primeira fase de suas investigações, chegou a formula
as bases da teoria astrológica unitária (em parte real ou histórica, em parte puramente lógica ou ideal). Esta teoria abrange os seguintes capítulos, ou grupos
de proposições:
1 — Teoria astrológica pura: definição da astrologia e delimitação do seu objeto.
2 — Teoria do método astrológico: exigências metodológicas mínimas para que uma astrologia possa vir a ser possível.
3 — Teoria astropsicológica: delimitação dos setores da vida psicológica humana onde um estudo astrológico pode tornar-se possível, e exclusão
dos impossíveis. Dentre os campos possíveis, destaca-se o estudo do caráter, definição que receber nas várias caracterologias criadas pela psicologia do
século XX ( Le Senne, Szondi, Jung, etc.).
4 — Teoria astrocaracterológia especial : delimitação dos aspecto do caráter humano que podem ser submetidos a uma comparação com os
fenômenos celestes (e que compõem o que denominamos astrocaráter) e exclusão dos que não podem.
5 — Teoria astrocaracterológica especial : Diversificação do astrocaráter, a) segundo as partes ou aspectos que compõem sua estrutura, b)
segundo as individualidades humanas, diferenciadas pelas combinações dessas partes ou aspectos.

10 — A segunda fase da astrocaracterologia começa quando, formulado e hierarquizado logicamente esse corpo de hipóteses, se propõem
métodos, técnicas e estratégicas para sua averiguação científica. Mas ainda preciso esclarecer alguma coisa quanto à primeira fase.

11 — A teoria astrológica pura propõe as seguintes teses essenciais:


1 — A astrologia é o estudo das relações entre fenômenos astronômicos e fenômenos terrestres de qualquer natureza.
A astrocaracterologia demonstra que essa definição é a única suficientemente ampla para abranger todo o campo estudado pelos astrólogos e nada
deixar fora dele que seja do interesse dos astrólogos e nada deixar fora dele que seja do interesse dos astrólogos; e revoga todas as outras definições
diferentes, demonstrando caso sua inviabilidade. Delimita, assim, o objeto material da astrologia.
2 — Excluindo a astronomia e as ciências puramente filosóficas (metafísica, lógica), todas as outras ciências dizem respeito aos fenômenos
terrestres (quando a física, por exemplo, estuda fenômenos celestes, o faz como auxiliar da astronomia). De outro lado, a astrologia, ao estudar a relação
entre fenômenos celeste e terrestres, não os apanha em estado bruto, mas sim desde o ponto em que se encontram então elaborados, de um lado pela
astronomia, de outro pela ciência referente ai fenômeno terrestre em questão (por exemplo, um ciclo histórico, a vida de uma planta ou molusco, o
comportamento de um homem, objetos, respectivamente, da História, da Biologia e da Psicologia). Assim, todo estudo astrológico compara algum
conhecimento astronômico a algum outro conhecimento ciêntífico. E então chegamos à definição mais profunda e essencial da astrologia, que consiste na
seguinte tese:
Astrologia é astronomia comparada.
15

A astrocaracterologia demonstra que é assim em todos os casos e em todas as variedades de astrologia.


3 — O objeto da astrologia não é um lado, mas um constructor lógico.
4 — Para cada zona de fenômenos terrestres considerada, é preciso especificar esse ojeto num novo constructo, que, partindo da conscistência
ontotológica zona considerada, delimite, nela, o que é passível de comparação com fenômenos celestes, e o não é. Constituem-se assim, os campos das
várias astrologias, ou, dito de outro modo, os vários objetos formais da astrologia em suas diferentes especialidades.

12 — A teoria do método astrológico especifica, apra cada um desses campos, as respectivas exigências metodológicas, sempre difentes.
Mas uma exigência metodológica geral pode desde o início ser estabecimento, e que é a seguinte: como todos os fenômenos astronômicos pelos
quais se interessa a astrologia ou são cíclicos ou são instantâneos (a figura estática do céu num determinado instante), qualquer fenômeno terrestre só pode
ser estudado astrologicamente se for uma destas coisas: ou um ciclo repetível, ou ums estrurada fixa, ou uma relação entre ciclo e estrutura fixa. Tudo o
mais está, rigorosamente, excluído do campo da astrologia.
Quando, portanto, um astrólogo propõe que a astrologia se diferencia das ciências de inclução e generalização, por abordar primordialmente o
individuo e o irrepetível, o que acontece é que essa proposta cai fora de teoria unitária e não deve ser considerada essencial ou significativa da astrologia,
porque contraria os principios subentendidos sem todo empreendimento astrológico, inclusive o desse mesmo astrólogo em sua prática real, de vez que ciclo
é repetição e de vez que toda estrutura fixa se define por claves diferenciais que são comuns a todas as demais estruturas do mesmo gênero; sendo, pois, a
astrologia essencialmente uma ciência generalizante e classificatória, mesmo na prática real daqueles que expressamente o negam.
É bom esclarecer neste ponto que a unanimidade essencial da teoria unitária não tem de ser uma umanidade histórica e positiva. Ela não tem de
ser subscrita por todos os astrólogos, nem pela maioria deles. Ela expressa apenas aquilo com que todos os astrológos deveriam concordar, caso
tomassem como astrológos tudo aquilo que assim considerarmos no item 8 desta exposição e em tirar as conclusões lógicas dos princípios subjacentes a
toda prática astrológicas dos princípios subjacentes a toda prática astrológicas,inclusive a sua própria. Se algumas de suas idéias — por sua vez as mais
queridas — acabam por desmetir esses princípios, esse não é senão um caso particular de uma inconsistência lógica que parece tão frequente entre os
profissionais da área. E, é claro, a teoria unitária, além de captar a unanimidade essecila das idéias astrológicas, também tem de ser lógica — excluindo
como inessencial ou como mera idiossincrasia pessoal de um astrológico astrlógo concepções que no caibam na sua unidade lógica ideal.
13 — Ateoria astropsicológica delimita e enumera, no imenso rol dos temas da psicologia contemporânea, aqueles que correspondem à noção de
estrutura fixa ou naçõa de ciclo. Tudo o mais não é de interesse da astrologia, por mais que teimem os astrólogos em realizar comparações inviáveis e
descabidas.
Só para dar um exemplo, nesta parte demonstranmos que a noção de “tendência” — tão utilizada pelos astrólogos para dar à sua prática um ar de
legitimidade oribabilística e sbtrai-la retoricamente da acusação de determinismo (aliás igualmente retórica ) — é totalmente descabida em qualquer estudo
astrológico. Isto porque nem estruturas fixas nem ciclos podem compor-se de tend6encias. Claro que uma estrutura pode ser origem ou causa de
tendências, mas o que interessa à astrologia é unicamente o traço fixo por trás da tendência, e não esta em si mesma. Por exemplo, se, por seu caráter, um
homem tem “tendência” a tornar-se romancista ou repórter, é porque, por trás dessa tendência, existe como característica fixa a inteligência narrativa. A dita
tendência é apenas a manisfestação externa e meramente probabilística desse traço fixo, e é este o que interessa unicamente à astrologia. Do mesmo
modo, se numa determinada fase de um ciclo um homem “tem tendência”a fazer isto ou aquilo, a abandonar seu emprego, por exemplo, é porque essa fase
do ciclo produziu nele efetivamente certas mudanças internas, que se expressariam nessa tendência ou noutra qualquer. O que interessa é ver, num ciclo,
as mudanças efetivas, em cada fase, e não as “tendência”que delas decorram como mero floreio decorativo. Os traços fixos da estrutura caracterológica e
as mudanças efetivas assinaladas nos ciclos constituem o único objeto da astropsicologia, de pleno direito; tudo o mais, sendo contingente, único, singular
ou irrepetível, está fora do interesse dessa ciência, por menos que o percebem certos astrólogos, ou mesmo a maioria deles. A unidade da teoria unitária é,
repito, uma unidade lógica, não uma opinião majoritária positiva.

14 — A teoria astrocaracterológia investiga o que pode haver de fixo e imutável na personalidade humana, desde o nascimento. Identifica, na
personalidade humana, desde o nascimento. Identifica, na personalidade humana, doze camadas diferentes (doze por constatação empírica, a partir de uma
fenomenologia da personalidade, e não por qualquer intuito de simetria numerológica com o Zodíaco), das quais uma e somente uma, que denominamos
astrocaráter, pode ser dita fixa e imutável e pode, portanto, ser objeto de comparação com o céu de nascimento, ou horóscopo. As outras onze camadas
são: as disposições hereditárias (tendência); os hábitos linguísticos e padrões de referência adguirido do meio social; o caráter no sentido de Le Senne (isto
é, o conjunto de tendências consolidado e estabilizado no indivíduo adulto); a persolidade intelectual transcendental ou autoconsci6encia global; o ego
histórico, ou consciência do próprio lugar no conjunto da existência humana; o ego espirutual, ou consciência do próprio lugar no quadro do cosmo ou de uma
escatologia (absolvição ou condenação no Juízo Final, por exemplo). Todas esta onze caem fora do campo astrocaracterológico. Traços presentes nessas
onze camadas só podem se estudados astrologicamente após e mediante a investigação de suas remotas raizes no astrocaráter. Este estudo se faz por
redução das causas prováveis que determinaram o surgimento desse traço em particu;ar; e só quanto este surgimento não pode ser explicado por causas
imanentes à camada em questão é que recorremos à hipótese de estarmos em presença de um traço astrocaracterológico. A investigação biográfica, para a
consecução de tal fim, tem de ser extremamente minuciosa, o que causa sérias dificuldades de ordem prática para a pesquisa, limitando o número de seus
objetos, e requerendo o concurso de muitos pesquisadores; com o fim de forma tais pesquisadores foi instituído um primeiro Curso de Astrocaracterologia,
cujos alunos são portanto colocados, desde o início, na posição de coloboradores na investigação, com todas as responsabilidades inerentes a esta
condição. Todos são alertados, desde a primeiro aula, para o fato de que irão participar ativamente do parto de uma nova ciência, de se que o sucesso das
investigações depende da sua colobaração. O fundador da astrocaracterologia, que subscreve esta exposição, realizou até o momento algumas dezenas
desses estudos biográficos, seja de personagens históricos, seja de sujeitos voluntários vivos; e espera que, com a ajuda dos alunos, esse número possa
subir para algumas centeans.
Até o momento, os resultados preliminares permitem suspeitar que a maior parte dos erros dos astrólogos na descrição de personalidades consiste
em que procuram encontrar, no horóscopo, traços pertencentes às onze camadas emncionadas, diretamente e sem a intermediação do conservqdor po
progressista porque tem Satruno ou Urano na Casa IX; o que, sendo um traço da personalidade intelectual (9 camada) não pode ser indicado diretamente por
nenhum dado horoscópico. De outro lado, notamos que muitas afirmações escandalosamente errôneas dos astrólogos, na interpretação de horóscopos
individuais, se revelam surpreendentemente verdadeiras quando as tomamos como meramente simbólicas (na camada em que se apresentam) e
procuramos, como seu “significado” ou sua “ intenção profunda” ( e mesmo inconsciente, de parte do astrólogo0, o traço astrocaracterológico que lhe
correspondia, fazendo as devidas transposições de camada a camada. Este é caso de uma verdade obscuramente dita que passa por mentira (ás vezes aos
olhos do próprio astrólogo, que nutre uma inconfessada suspeita de estar enganado em tudo quanto diz, o que torna a profissão particularmente
neurotizante).
15 — O conceito de astrocaráter visa, em última análise, a fixar, na constelação total da personalidade humana, qual o nível próprio da comparação
com o horóscopopo (ou, se quiserem, desde um ponto de vista objetivante: qual o nível em que pode intervir uma causalidade astral).
O astrocaráter compõe-se apenas e exclusivamente de um padrão atencional e cognitivo, que permanece fixo por toda a vida, que atravessa imune
todas as mudanças evolutivas ou involutivas do indivíduo, sendo compatível com todas.
De outro lado, ele é um tipo e uma individualidade; e não tem, por isto, nada a ver com uma suposta essência pessoal misteriosa, cuja cristalização
simbólica muitos astrólogos procuram enxergar num horóscopo. A astrocaracterologia estabece uma distinção muito rígida entre astrocaráter e
personalidade, frisando que, desde um mesmo astrocaráter, podem-se desenvolver muitas personalidades diferentes, conforme a interferência de outros
fatores, endógenos (como as tendências hereditárias) ou exógenos (valores morais aprendidos, por exemplos). Para o estudo de cada caso é necessário
isolar cuidadosamente os fatores pessoais dos fatores astrocaracterológicos.

16 — O astrocaráter é descrito segundo uma diferenciação da potência cognitiva em seis faculdades (no sentido escolástico do termo) em doze
direção da atenção ou doze categorias sob as quais a experiência vivida pode ser enfocada. Tal como ocorre nas categorias lógicas, onde um mesmo objeto
existe efetivemente sob várias categorias, na medida em que é algo (substância), mede, pesa ou conta-se (quantidade), está dentro, fora, acima de outro
(relação), etc. etc., do mesmo modo as doze direções cada uma pode, ou olhar a cena desde sua própria posição, ou imaginá-la tal como vista por outra
pessoa, ou concebê-la como vista desde cima por um olhar abrangente, ou articular num jogo complexo de perspectivas as visões subjetivas das várias
pessoas envolvidas, etc.
As doze direções da atenção relacionam-se entre si por uma dialética de implicação e complementaridade, tal como aquela que Benedetto Croce,
em sua Logica come Scieneza del Concetto Puro, propõe existir entre os conceitos universais.
As seis faculdades cognitivas correspondem a seis planetas do setenário tradicional (Mercúrio excluído, por jamais se afasta muito do Sol, e
colocar dificuldades, portanto, para a diferenciação individual), e as doze direções ás doze casas da astrologia tradicional. Apenas, para a colocação efetiva
dos planetas nas casas, levamos em conta o descocamento constatado por Michel Gauquelin, no sentido de que um planeta angular nascente (decisivo para
a interpretação do tema) pode estar colocado não na na casa I astronômica, e sim quase no meio da Casa XII, ou mais adiante ainda. Esse deslocamento
levado em conta, um planeta colocado na “zona Gauquelin”da Casa XII estará, astrocaracterologicamente, no horizonte e, portanto, na Casa I. Há um critério
matemático para essa correção, que é dado no Curso e fundado num raciocínio probalilístico. A astrocaracterologia admiti ainda que há posição indecisas, e
este casos são afastados.
17 — As faculdades cognitivas e suas correspondências planetárias são as seguintes:
1. Sol = Intuição ou apreensão imediata da forma dos dados sensíveis internos e externos.
2. Lua = Sentimento ou variação do tônus interno por variação da energia externa ou interna.
3. Vênus = Fantasia ou capacidade plástica geradora de imagens independentemente da presença atual dos objetos respectivos. Como diziam os
escolásticos, pode ser memorativa ou imaginativa.
4. Marte = Antecipação, conjetura ou ainda Vontade Reativa: cognição instintiva do potencial de ação e transformação iminentes de uma dada
situação (corresponde ao que os escolásticos chamavam estimativa).
5. Júpiter = Vontade Pura ou Sinergia: conhecimento de si como fator causal e criativo; sinergia de todos os níveis da persolidade na consecução;
de um ato ou na tomada de decisão livremente assumida; conhecimento da própria de decisão livremente assumida; conhecimento da própria liberdade de
agir, ou de si mesmo como causa.
6. Saturno = Razão: síntese representativa da totalidade essencial da experiência num quadro coerente (ou tomado como tal) ; resíduo final das
generalizações obtidas por experiência.
Essas seis funções aproximam-se umas das outras por um parentesco espontâneo, agrupando-se em pares:
Inteligência : intuitiva e racional: Sol e Saturna.
Vontade : Pura e Reativa: Júpiter e Marte.
Afetividade: Sentimento e Fantasia: Vênus e Lua.
Há outras relações entre duplas, mas não interessam no momento.

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18 — As doze direções da atenção são as seguintes:


I — Auto-imagem corporal direta.
II — Mundo sensível.
III — Linguagem, significação, analogia.
IV — Deseja e frustração.
V — Capacidade e farças atuais.
VI — Esquema de distribuição habitual de energias.
VII — Auto-imagem reflexa (o que só posso saber de mim pela reação alheia).
VIII — Ação e reação iminentes.
IX — Crenças formalmente admitidas.
X — Lugar na hierarquia social.
XI — Lugar no tempo histórico; plano de vida.
XII — Tudo o que escapa ao meu horizonte, e que não obstante sei que existe fora do meu ëspaço vital”(no sentidode Kurt Levin).
19 — Cada faculdade tem seu correlato objetivo, ou objeto próprio. Por exemplo:
a) A intuição capta presença real e singularidade. Tudo o que estiver na direção assinalada pelo Sol é apreendido pelo indivíduo como dado
imediato, real, inquestionável. A intuição é, pois, o princípio de seleção dos dados. Por exemplo, para o indivíduo com Sol na Casa III as analogias e
significações que de um objeto remetem a outro são tão “reais”e imediatas como, para o que tem Sol na II, o São as formas, cores, pesos sabores dos
objetos materiais em torno, ou, para indivíduo com Sol na VIII, é “real”, como um dado, a iminência do que está para acontecer. Todos os indivíduos, é claro,
acabam por tornar conhecimento do que se passa nas doze direções, porém, não intuitivamente, e sim por dedução, indução, analogia, etc. A intuição, como
captação de um dado enquanto realidade imediata, só opera numa direção. Nas outras, tem de ser complementada pela interveção das demais faculdades.
b) A razão capta a importância hierárquica dos dados num quadro de referência preexistente. É, portanto, o princípio da generalização (seleção e
generalização no sentido de Piaget). Portanto, é na direção indicada por Saturno que o indivíduo captar os dados que, a longo prozo, lhe parecerão mais
importantes de mais longas consequências. Um evento captado na direção do Sol é apenas um dado, intensamente real no momento, mas que pode passa
sem consequências; na direção de Saturno, é fixado como matriz de generalizações. Eventos ocorridos nessa direção são encarados sempre do mesmo
modo e como confirmações de crenças anteriormente estabelecidas. Nesta casa ocorrem os “eventos primas’, na terminologia de A. Janov (ou antes: não é
bem ali que ocorrem objetivamente, mas é ali que o indivíduo sedimenta sua conclusões e, no caso de um evento traumático, é ali que se consolida a reação
ao trauma).
20 — Como se faz a transposição desde o nível (errôneo em geral) das interpretações correntes em astrologia, ao nível astrocaracterológico que
as repõe na devida perspectiva?
Suponhamos um horóscopo co Saturno na Casa X, Um astrólogo dirá: trata-se de um indivíduo com sede de poder. Outro: Ele teme as
responsabilidades. Outro: Ele tem conflitos com a autoridade. Outro: Ele se preocupa com a História e a Política.
Astrocaracterologicamnete, a sede de poder está ligada à Camada 5 (capacidades e forças atualmente conhecidas pelo indivíduo); o temor à
responsabilidade, á Camada 4 (desejo e, por reverso, temor); os conflitos com a autoridade, à Camada 7 (valores do meio); a preocupação com a Histórica,
à Camada 9 (personalidade intelectual). Nada disto pode ser objeto de estudo astrológico direto. Assim, toddas essas interpretações podem ser
indiferentemente verdadeiras ou falsas, pois o horóscopo, em si, nada tem a ver com camada da personalidade na qual um traço de caráter há de ressoar; a
camada é decidida por fatores extra-astrológicos, pessoais ou mesmo acidentais.
Hitler, Marcel Proust, Albert Camus e Woodrow Wilson tinham, todos, Saturno na X. O primeiro teve sede de poder; o segundo, temor das
responsabilidades; o terceiro, conflitos com a autoridade; o quarto, um interesse profundo nos estudos históricos. Porém Proust não tínha sede de poder,
nem Hitler temia as responsabilidades, nem Wilson teve conflitos com a autoridade, nem Camus foi um grande historiador.
Haverá entre todas interpretações um fundo comum, que restitua algo de veracidade a todas essas meias-verdades que são meias mentiras?
A interpretações astrocaracterológica de Saturno na Casa X, que se refere exclusivamente ao traço cognitivo que lhe corresponde (e não ás
consequências emocionais, biográficas, etc. em que tanto se comprazem os astrólogos) é a seguinte:
Saturno na X — Inteligência racional de tipo sociológico. As experiências pessoais que fundaram, para este indivíduo, a base das generalizações
mais importantes e duradouras, deram-se na direção da casa X, isto é, refiriram-se (para ele, e na sua valição subjetiva do momento) à hierarquia do poder
social e às sua relações pessoais com esse poder. Sua imagem do mundo e do seu próprio destino deriva diretamente de experiências ante o poderio social,
das quais ele tira conclusões que se estendem depois a tpdp o orbe da sua experiência pessoal.
Isto é válido para Hitler, Proust, Camus e Wilson igualmente. Em cada um deles a visão geral do mundo deriva diretamente de experiências que
lhes revelaram, desde cedo, a polis com sua complexidade de classe e hierarquias, normas, leis, regulamentos e comflitos.
Do mesmo modo, com Sturno na II, as experiências de base se referiam ao mundo físico, na II à gradificação e à frustracção dos desejos, e assim
por diante. Como cada uma das casas representa uma categoria magna da experiênciahumana, facilmente experiências vividas numa delas podem servir de
base a generalizações que se estendem a todo um mundo, e que determinam a visão que o indivíduo terá, em seguida, das outras direções ou casas. Por
essa mesma razão, nenhuma posição planetária representa, em si mesma, uma limitação cognitiva, a longo prazo, embora o represen te temoporariamente.
Partindo de uma experiência estreita, e de generalizações mal embasadas, um indivíduo poderá de pois, quer pela constante autocorreção do pensamento
racional, quer pelo apoia das demais faculdades, corrigir essas generalizações e, artificialmente, ir ampliando sua visão do mundo. Mas os dados iniciais que
fundaram as primeiras generalizações estarão sempre presentes, como origem — superada mas não revogada — de uma imagem do mundo.
21 — A astrocaracterogia desenvolveu um série de estratégias de verificação, mas sobretudo utiliza um método comparativo e biográfico
(acompanhado de análise estilística quanto o sujeito estudado tem obras escritas). Esta segunda fase será descrita numa exposição posterio.
Ao encerrar o presente resumo, é preciso deixar claro que o intuito da astrocaracterologia é preparar uma verificação e um julgamento conclusivos
das pretensões da astrologia clássica e comteporânea; que essa preparação é de índole sobretudo fenomenológica, redutiva e descritiva, e não explicativa.
A explicação causal do fenômeno astraln é de interesse da astrologia pura ou teoria astrológica pura, e não da astrocaracterologia em especial. Os
procedimentos da astrocaracterologia são independentes de qual seja a causa do fenômeno astral e, portanto, a astrocaracterologia não entra nesse terreno,
no qual se debatem hoje as grandes teorias explicativas de Percy Seymour, Daniel Verney, Jacques Halbronn e tantos outros notáveis investigadores. a
astrocaracterologia adota como sua a divisa de Ortega y Gasset: Que otros hagan su más, que yo hago mi menos.

16
AS CAMADAS DA PERSONALIDADE
(texto e comentários orais)

1. Preliminares

1 — “O conceito de personalidade abarca duas idéias diferentes: a da integração mais ou menos perfeira — ela é o conjunto ou o sintema de tudo o
que há em mim — e a de individualidade : a forma que em mim assumem os elementos que em mim figuram me pertence propriamente e me distingue dos
outros” (Gaston Berger, Caractére et Personnalité,Paris, Puf, 1954, p.2).
2 — Definições de personalidade:
H. Piéron: “A personalidade representa essencialmente ... a unidade integrativa de um homem, com todo o conjunto de suas características
diferencias permanentes (inteligência, caráter, temperamento, constituição) e suas modalidades próprias de comportamneto “(Vocabulaire de la Psychologie,
p. 210).
W. Sheldon: “A organização dinâmica dos aspectos cognitivos, efetivos, cognitivos, fisilógicos e morflógicos do indivíduo”(cit. por Piéron, id.,ibid.)

3 — Em vista de tais definições, Berger observa que ä psicologia geral isola por abstração um certo número de funções: memória, percepção,
imaginação, etc. O estudo da personalidade, ao contrário, uma investigação concreta que se empenha em compreender como todas as funções operam
juntas e reagem umas sobre as ouras, num homem deternado, ouem tal ou qual categoria de homens”(op.cit.,p.3).
4 — Sendo assim, o estudo da personalidade deve partir das diferentes funções isoladas psicologia geral e reunilas gradativamente em diferentes
níveis e camadas — correspondentes aos vários graus de menor a maior integração da personalidade (pois é evidente que o grau de individualidade cresce
junto com o de integração, com o que caminhamos dos elementos ao todo, do impessoal ao pessoal), destacando, em cada um, os diversos esquemas e
modalidades da interação dessas finções, cuja totalidade hierarquizada e funcional se chama, precisamente, personalidade.
A título provisório, fornecerei aqui uma divisão possível dessas camadas, que deveriam se abarcadas em seu conjunto num estudo descritivo
completo de uma personalidade individual qualquer.
5 — O aluno reparará facilmente na disposição zodical daste arranjo, mas advirto que isto resulta de uma aplicação casual das categorias
zodiacais à descrição de personalidade humana; mas a estrutura do Zodíaco seve aqui como recurso heurístico e mmemônico, e o esquema duodenário
resultante não deve, portanto, ser interpretado precipitamente como uma proposta teórica formal para a descrição dos fatos, empiricamente constatados; seu
valor é sugestivo, nada mais.
6 — Destaco, ainda, que cada uma das camadas que assinalo receber particular atenção de determinadas escolas e correntes da psicologia
contemporânea, das camadas que assinalo recebeu particular atenção de determinadas escolas e correntes da psicologia comtemporânea, das quais cito
algumas entre parênteses, a título de mero exemplo e malgrado as enormes diferenças que as separam umas das outras. Mas esta simples enumeração já
evidenciárá de imediato ao aluno que a descrição já evidenciará de imediato individual requereria o concurso e a colaboração de muitos métodos, às vezes
erroneamente tidos por antagônicos. A conceituação mais extensa de cada uma dassas camadas será dada oralmente, em classe.

2. Enumeração das camadas

1. Caráter (no sentido astrocaracterológico do tempo).


2. Hereditariedade, constituição, temperamento, estrutura pulsional (wilson; Sheldon, Kretschmer, tipologia em geral; Szondi).
3. Cognição e percepção, sua estrutura e desenvolvimento (behaviorismo; Piéron e Piaget; Kohler e a Gestalt em geral; Festinger;psicologia da
linguagem).
4. História pulsional e afetiva (Freud, Klein, psicanálise em geral).
5. Ego, autoconsciência e individuação (Jung)
6. Aptidão e vocação (Ungricht; Ciril Burt: Eysenck).
7. Situações e papéis sociais (Adler; Horney e a escola culturalista em geral; psicologia da comunicação).
8. Síntese individual provisória, em cada etapa de desenvolvimento, isto é, “perfil caracterológico”no sentido da escola de La Senne e Berger.
9. Personalidade intelectual superior; gênio, criação artística, estilo, etc.; “personalidade poética”no sentido de Croce, em oposição à
“personalidade empírica”(Pradines; Bergoson; Koestler; heurística).
10. Eu transcendental, pessoa, responsabilidade moral, livre-asbítrio, etc. (Kant, Husserl, Berdiaeff, Gusdorf, Caruso).
11. Personagem — no sentido estrito em que este termo é usado em astrocaracterologia: o indivíduo perante a História, a civilização, a
humanidade (Dilthey, Weber, Wallon)
12. Destino final: o indivíduo perante Deus, o sentido e o valor da vida, etc. (psicologias místicas tradicionais; Paul Diel, Viktor Frankl).

3. Observação

7 — Além dessas camadas, pode-se admitir a existênci de faixas sub-humanas, constuídas de puras reações químicas (feromonas, por exemplo),
ou de automatismos maquínicos variados. Normalmente, a operação destas faixas está absorvida pelas faixas superiores, de modo que sua impotância no
conjunto fica reduzida. Porém, em determinadas situções, o sub-humano pode assumir um papel revelante e até decosivo como causa do comportamento,
absorvendo a personalidade verdadeira. A importância e frequência crescente tais fenômenos na sociedade de hoje levou alguns psicólogos a colocarem
esta faixa no topo e no centro de suas concepções psicológicas, o que é, evidentemente, uma confusões entre psicologia e psicopatologia. A bibliografia
sobre este inbigesto assunto é vasta, e vai de Gurdjieff e Guénon até os estudos recentes de deluze e Guattari sobre o “inconsciente maquímico”, de conway
a Siegalman sobre o fenômeno do snapping, de Sargant sobre a “possessão da mesnte”, até a programação neurolinguística. Estas faixas, porém, nas quais
o que o ligam ao animal, à planta, ao mineral e até ao infra-natural estão, por isto mesmo, rigidamente fora do âmbito da caracterologia.
8 — O aluno deve ter notado que as camadas que descrevi podem ser enfocadas quer como uma sucessão de âmbitos que a personalidade, em
seu desenvolvimento, vai progressivamente abarcando, quer como coecistentes num dado momento dessa evolução.
9 — Deve também procurar notar que algumas delas representam momentos e aspectos integrativos, que cristalizam a personalidade num
equilíbrio total ao menos provisório, ao passo que outras representam divisões a rupturas que abrem a personalidade a novos desenvolvimentos, às vezes
por meio de agudas crises; vamos chamá-las, respectivamente, e provisoriamente, de camadas intergrativas (que “fecham”a personalidade num quadro
definido) a divisivas que a abrem para o ingresso de influências externas, rompendo o equilibrio anterior e desencadeando a luta por uma nova e superior
integração.
São integrativas as camadas: 1,2,5,6,8,11. São divisivas: 3,4,7,9,10,12. Veremos por que, durante as explicações orais. O estudo dos dois tipos de
camadas requer métodos opostos.
10 — finalemnte, o aluno deve estar atento para o fato de que até a camada 8, todas estão presentes em todo indivíduo adulto normal, ao passo
que as seguintes — de 9 a 12 — representam desenvolvimentos que, se numas personalidades se manisfestam plenamente, noutras permanecem em
estado germinal ou latente ou são totalmente sufocadas. A “personalidade”, como se Vê, é um fenômeno que transcende os limites do estritamnete
“psicológico”- no sentido acadêmico e especializado do termo — e se ramifica na História, an Antropologia, na Religião, etc., cujas contribuições uma
psicologia da personalidade deve absorver, sob pena de mutilar seu objeto.

4. Comentários
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Por que estamos estudando todas estas caracterologias? Porque o caráter, tal como o entendemos em astrocaracterologia, é uma região que não é
abarcada por nenhuma delas, e, porque o estudo comparado das várias caracterologias deixa, enfim, uma zona em branco, um espaço virgem, que vem a
ser justamnete aquilo que se chama caráter me astrocaracterologia. O conceito astrocaracterológico do caráter está, portanto, sendo aqui exposto
gradativamente por suas distinções e contrastes em fase de outros tantos aspectos do caráter estudados pelas várias caracterologias.
Com o presente comentário,avançaremos muito na conceituação astrocaracterológica do caráter, e por isto considero esta lição a parte culminante
deste primeiro trimestre, e peço aos alunos um estudo cuidadoso deste assunto.

Parte I - Preliminares

Na definição inicialmente por Berger, destacam-se duas coisas: a integração (a personalidade é um sistema, um organismo, uma ordem uma
fórmula) e a individualidade 9é por essa personalidade que o indivíduo se distingue dos outros) Berger diz ainda que a forma que em mim assumem os
elementos que me compõem me pertence propriamente. Aí, por um lado, subentende-se que os elementos, considerados em si mesmos, podem não me
pertencer, podem ser impressoais, podem vir de fora, da família, da sociedade, etc.; porém, por outro lado, também está implícito que a personalidade não
se constitui somente da forma, mas da forma com os elementos, ou, melhor ainda, dos elementos na forma. No uso que geralmente se faz do terno em
psicologia, a personalidade é um todo indecomnível de elementos e de forma (tal como na definicão aristotélica o homem é um composto inseparável da
forma, ou alma, e matéria, ou corpo; e a separação é a morte).

Quais são esses elementos a que se refere Berger? São o caráter, as tendências constitucionais, o porte hereditário, etc. Todos esses elementos,
montados numa certa ordem e forma, constituem a personalidade. Se, de um lado, a psicologia geral isola esses elementos e os estuda um a um, a
psicologia da personalidade, diz Berger, se definirá como o estudo integrado de todos elementos numa forma em particular, que é a personalidade. Portanto,
temos aqui duas abordagens complementares: de um lado, os elementos separadas; de outro, os elementos juntados e coeridos pela forma. Mas e a forma
enquanto tal? E a forma considerada independentemente dos elementos? Esta não é assundo nem da psicologia geral, nem da psicologia da personalidade.
Se quisermos ter uma idéias precisa do que é que vamos chamar de caráter em astrocaracterologia, diremos que lee é a forma pura da
personalisdade. Ou seja: a forma sem os elementos, a forma como mero esquema de possibilidades, a ser preenchido, na existência real, por tais ou quais
elementos. Este aspecto, que foi abandonado tanto pela psicologia geral quanto pela psicologia da personalidade, é o nosso assunto: o tema da
astrocaracterologia, ou dito modo, o elento humano e terrestre a ser comparado com a configuração celeste ou horóscopo.
No sentido em normalmente se usa a palavra caráter em psicologia, ele é um dos elementos da personalidade, a soma do caráter, tido como elento
constante, com os outros elementos, tidos por mutáveis, adquiridos, substituíveis é o que dará enfim numa forma integrada individual. Porém, em
astrocaracterologia, a palavra caráter será utilizada de uma maneira mais pura: partindo de sua etimologia que designa uma marca ou forma individual de
uma letra —, o caráter será, para nós, a forma pura da personalidade, isto é, a forma que tal ou gual personalidade tem independentemente da natureza,
quantidade e preveniência dos elementos que a compõem.
Notem que a psicologia geral opera uma abstração, separando os vários elemntos, que depois a psicologia da personalidade concreciona
novamente, numa forma individual. A astrocaracterologia operar então uma segunda abstração, para separar, desta vez, a forma pura; e esta forma é o que
denominamos caráter. A astrocaracterologia baseiase no pressuposto de que a forma total da personalidade possível-é importante salientar isso, pois ela
abarca personalidades que não nasceram, que talvez no nasçam nunca — guarda uma correlação com figura do céu no momento e lugar do eventual
nascimento. A figura do céu expressa, por uma analogia estrural bastante nítida que estudaremos mais tarde, a estrutura possível de uma personalidade; só
nào está predeterminado se esta personalidade vai existir ou não, pis é possível que no momento e lugar em que se forma essa figura, não nasça ninguém.
É mais do que evidente que a figura do céu nào pode ter uma relação direta com o personalidade real e concreta, existenxiada, porque então seria preciso
que houvesse, para cada figura do céu, um ser humano efetivamente existente; por isto é que a figura do céu corresponde somente à forma pura, à estrutura
da personalidade possível, pois os vários elementos que preencherào essa estrutura, dando-lhe a carne e o sangue da existência concreta, só podem ser
concebidos na e pela existência concreta. Este ponto, tão delicado e importante, tem escapado, quase que universalmente à percepção dos astrólogos, e por
isso caem no equívoco de buscar uma equivalência entre a figura do céu e a personalidade concreta; a astrocaracterologia corrigirá isso, estabelecendo que
a correspondência só pode ser buscada entre a figura do céu e o caráter, a forma pura, fazendo abstração dos elementos componentes, isto é, da matéria da
personalidade, a qual matéria, por ser tal, não pode ser concebida em abstrato, mas é objeto de estudo a posteriori, isto é, histórico, pela narrativa do que
efetivemente aconteceu; e, obviamente, ao nível do puro caráter, entendido como esquema de uma personalidade possível, obviamente ainda não
“aconteceu” nada.
Pode-se calcular o mapa de qualquer momento e lugar, independentemente de nesse momento e lugar nascer alguém ou não; e qualquer astrólogo
reconhecerá que, pela mera figura do céu, é impossível dizer se nesse momento e lugar nasceu alguém ou não, isto é, se o mapa é de alguma pessoa de
carne e osso ou de uma mera possibilidade de pessoa de carne e osso ou de uma mera possibilidade de pessoa. O único ponto que a astrocaracterologia
concede á hipótese astrocaracterologia concede à hipótese astrológica tradicional, portanto, é que a figura do céu em certo momento e lugar, não
predeterminando o nascimento nem o impedindo, limita o quadro dos nascimentos possíveis, no sentido de que, em dado momento e lugar, só poderão
nascer pessoas cuja caráter, cuja forma pura de personalidade, seja compatível com a figura com a forma pura da personalidade de quem quer que nasça
nesse momento e lugar, quaisquer que sejam os elementos que, concreta e empiricamnete, venham a preencher essa estrutura. Por um paralelismo que os
alunos versados em simbólica tradicional não terão dificuldade de entender, o caráter, esquema pura da personalidade possível, guarda uma
correspond^ncia nítida com a forma total de uma vida realizada e terminada, isto é, com a biografia completa do indivíduo, ainda que ás vezes não se pareça
muito com a personalidade real vivente desse indivíduo em cada instante ou fase da sua vida, tomado isoladamente. Dito de outro modo: o indivíduo,
enquanto vive, às vezes não se parece muito com seu horóscopo; mas certamnete se paracerá depois de morto, quando`, num retrospecto, enfocarmos a
sua biografia como um todo acabado e fechado. O caráter é, de certo modo, anterior e posterior à vida do sujeito real concreto: de um lado é a forma da
personalidade possível, portanto do destino possível; de outro lado é a forma do destino realizado e terminado. É só e exclusivamente neste sentido que
podemos admitir a validade do velho adágio astrológico de que “caráter é destino”; e nunca no sentido corrente de que o caráter seja a causa eficiente dos
eventos que sucedem ao indivíduo; pois os eventos não são senão matéria às vezes casual e adventícia de que se vai compondo o destino; e o que o
caráter predetermina é somente a forma total e final desse destino, e não a sucessão de entrada em cena dos elentos materiais, a qual é a rigor,
perfeitamente indiferente: com estes ou aqueles elementos, o caráter se realizará.
Neste ponto, a astrocaracterologia concorda com Klages quando (nas palavras de seu brilhante intérprete Gustave Thibon) proclama que “a relação
meta-empírica da alma ao corpo precede o fato temporal da individuação efetiva; ela está relacionada á essencia e ao fim da pessoa humana... O fundo
potencia do caráter resulta da relação transcendental da matéria e da forma”. Porém, a astrocaracterologia inverte a fórmula de Klages, para o qual as
constantes do caráter, que “especificam, anteriormente a toda influência e a toda volição consciente, nosso comportamento individual, ... representam como
que a matéria, mais ou menos plástica ou refratária, sobre a qual se exerce o mundo exterior, de certo modo, à existência temporal concreta, é, para Klages,
matéria á qual a influência externa e a vontade livre darão forma; para a astrocaracterologia, o caráter é forma e nada mais que forma, pois seria
inconcebível uma “matéria” anterior à existência concreta, já que matéria é precisamente o elemento cuja entrada em cena dá existência á forma pura de
uma possibilidade, isto é, a uma essência. Tanto a influência externa quando a vontade livre poderão moldar apenas a forma empírica da personalidade, isto
é, contribuir para a somatória, acrecentando ou subtraindo elementos; mas esta forma empírica não será jamais outra coisa senão uma dentre as várias
formas possíveis de um mesmo caráter, uma forma selecionada dentro do repertório de possibilidades que é o caráter.
E por essas razões que, neste curso, daremos preferência ao estudo de vidas realizadas e terminadas. Isto é, não só vidas terminadas no sentido
temporal, mas vidas completadas, no sentido de que o indvíduo se propôs uma meta, um objetivo, e o realizou, ou ao menos levou sua realização até um
ponto identificável. Nocaso de vidas truncadas, frustradas, incompletas, a correspondência entre caráter e horóscopo só se manisfesta através da existência
e, quanto mais obscura a existência, mais obscura essa relacão. Muitas pessoas que se debruçaram sobre o mistério da realização humana, notaram que
cada indivíduo, sem conhecer de antemão, é claro, a forma do seu destino, entrevê, no entanto, algo como o nebuloso perfil de um destino possível que lhes
parece adeguado e próprio à sua individualidade; apega-se a esta imagem, busca realizá-la; e, entre as vicissitudes da vida às vezes a perde de vista, ou,
levado pela franqueza ante as circunstâncias, a esquece quase por completo. Cada ser humano tem a vivência desse “perfil ideal”; e somente aqueles nos
quais essa figura se projetou com nitidez nos atos e obras é que se pode dizer terem tido uma vida completa; deles é que se diz terem “realizado o seu
arquétipo”(retirando deste terno suas conotac’~oes particularmente junguianas). É claro que todas as pessoas têm algum caráter, e que de modo ora mais,
ora menos obscuro, ele se manisfetará em algum momento; mas a única marca patente que o caráter pode deixar só se manisfesta em duas coisas: na
obra(produtos que subsistem materialmente após o témino da existência) e no personagem (isto é, num modo de ser que, pela intensidade e profundidade da
sua ação sobre outras pessoas, deixa lembraças definitivas e indeléveis na história humana). A maior parte das pessoas não realiza obra nenhuma nem
deixa marcas de seu personagem, ao menos duráveis e nítidas; a maior parte dos seres falecidos nào deixa senão sinais vagos e evanescentes de sua
passagem sobre a terra; e por estes sinais, vagos e fragmentários, não chegamos a saber quem de fato eles foram, embora pelo seu horóscopo possamos
saber quem poderiam ter sido.

Para a psicologia, dissemos, a personalidade é: elementos mais forma, sendo o caráter um dos elementos. Para a astrocaracterologia, caráter, em
sentido estrito, é: personalidade menos lementos. Podemos indendificar e isolar os elementos mediante o estudo das várias caracterologias; Szondi ensina-
nos a isolar o elemento pulsional heriditários; kretachmer e Sheldon, os elementos constitucionais do temperamento; e assim por diante; esta é a razão de
devermos estudar estas várias caracterologias para chegarmos a visualizar realmente o que se entende por forma pura. Deste modo podemos chegar a
mapear a quase totalidade dos elementos que entram na composicão de uma dada personalidade e , comparando duas personalidades compostas com
elementos proximativamente iguais, só poderemos compreender a sua diferença, precisamente, pelo caráter, indentificado no horóscopo; isto é,
compreendemos que elementos semelhantes podem defirir quanto organizados segundo um princípios formal diferente; do mesmo modo, comparando dois
horóscopos semelhantes, poderemos compreender como é que, preenchidos por elementos materiais diferentes elementos hereditários, ou, no caso de igual
hereditariedade, elementos empiricamente acrecentados pela influência externa ou pela vontade no decurso de vida — resultaram em personalidades
concretas diferentes. Assim, daremos, por exemplo, solução concreta e científica à grosseríssima questão dos “gêmeos astrais”, que se costuma eludir por
evasivas teóricas ou explorar mediante sofismas.

Do que foi dito, conclui-se que a figura do horóscopo só se manifesta claramente em determinadas vidas; que, em outras, o caráter só transparece
de maneira hesitante e fugidia; que, na maior parte das vidas, o jogo das correspondencias entre posições astrais, traços de personalidade e evendos da

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vida, está sujeito a uma elesticidades de significados, que toma impossível a descrição límpida, e que levou i íntegro e honesto André Barbault a comparar o
horóscopo a uma planta baixa que refletisse as proporções internas de uma casa, mas da qual se houvesse perdido a escala, de modo que, sabendo mais
ou menos a sua figura, nãotivéssimo como distinguir se é uma casinha de bonecas ou um imenso edifísio. A experiência cômica de astrólogos que prevêem
grandes acontecimentos para depois constatar que o advento de miúdas o corrências que só guardam uma relação nalógica muito distante com o previsto,
se explica assim. Na vidas completas e realizadas, ao contrário, o astrólogo desfruta, precisamente, da vantagem de dispor de uma escala, a qual lhe é
fornecida, justamente, pela envergadura dos atos e realizações registrados nesta vida. Esta vantagem é proeminente quanto se considera que atos e obras
de certos homens notáveis vieram mesmo a se tornar a medida e padrão — a escala — pelas quais julgamos atos e obras similares, realizados por homens
menores; comparamos a autoridade de um tiranete sulamericano à de Napoleão; as virtudes morais de nosso vizinho ás de São Francisco; o talento dos
poetas é medido po Homero e Shakespeare; e assim por diante. A grandeza é a escala com que se mede o pequeno. Em nosso esquema das camadas da
personalidade, a homologia de horóscopo-caráter-destino só começa a aparecer om suficiente claridade da camada 9 para cima; abaixo disto, as notas
vibradas no céu só ressoam na Terra numa pluralidade indefinida de níveis, devido ao fato de que a maior parte das vidas de homens comuns não chega a
ter uma forma que reflita o seu caráter. Poderíamos mesmo definir “vida realizada” como aquela cuja forma final copia ou se assemelha à forma do caráter,
enquanto as outras vidas, moldadas ao sabor de influências externas e eventos fortuitos, permanece um tanto ao nível do informe, para não dizer disforme.

O horóscopo de nascimento pode ser comparado, nesse sentido, a uma partitura de música: somente as execuções felizes e bem realizadas
correspondem à partitura original, ponto por ponto; as demais só lhe correspondem de maneira imperfeita e irregular, e em algumas a partitura original se
torna totalmente irreconhecível. É como se certo indivíduos tivessem uma seletividade mais ordenada e firme das influências externas, às quais vão dando a
forma do seu caráter, enquanto em outros a forma do carátr é obscurecida ou mesmo dissolvida pe;as influências externas.
Como já disse, a psicologia geral isola as partes, os aspectos, os vários processos e espécies; a psicologia da personalidade volta a reunir esses
vários lementos, mas agora não segundo uma forma lógica abstrata, e sim na forma concreta de uma individualidade humana; a astrocaracterologia, em
seguinda, opera uma nova abstração, obtendo a forma pura da individualidade — e é esta forma pura que ela compara ao horóscopo de nascimento. É
evidentemente que esta operação não se pode realizar serem isolados, — e são justamente estes elementos que são justamente estes elementos que são
justamente estes elementos que são estudados nas várias caracterologias.
A psicologia da personalidade pode-se dividir em dois aspectos: de um lado, o estudo dos vários processos e níveis pelos quais opera a integração
dos elementos; isto seria psicologia geral da personalidade; de outro lado, ele visa essencilamente a tingir uma compreensão da personalidade
propriamenteo dita. A diferença entre ela e aastrocaracterologia está na insistência desta última na forma pura, abstraindo os elementos. Mais tarde isto será
esclarecido em detalhes. Mas, só para dar um exemplo. Estudando as obras de grandes romancistas (somente os de vergadura universal, pelas razões já
apontadas), verifimos que é significativo o número de autores com saturno na Casa III em cujos livros encontramos, como tema central e essencial, histórias
de adolecentes ou jovens que fogem de casa em busca de conhecimento ou de aventuras. Ocorrem-me agora o exemplos de Dickens, Hermann Hesse e
André Gide. São autores enormemente diferentes uns dos outros; suas vidas e suas mentalidades, seus caracteres no sentido de Le Senne (Dickens é um
colérico, Gide uma sentimental, Hesse nervoso), as influ6encias literárias e filosóficas recebidas, etc. Enfim: isolando todos os elementos que foram
compondo suas personalidades, encontramos que não há neles nenhuma razão suficiente para que, em suas obras, um mesmo tema reapareça com
constância obsessiva; então, levantamos a hipótese de essa constância reflete uma peculiar inclinação esta que proviria da forma pura do seu caráter,
anteriormenteao desenrolar da vida temporal e ao ingresso dos vários elementos em cena; em seguida, verificamos que essa inclinação corresponde,
estatisticamente, à presença de Saturno na Casa III do horóscopo natal. Entre escritores de menor porte — e o escritor de menor é justamente aquele cuja
obra reflete menos a sua individualidade criadora a mais as influências externas e o gosto da época — não encontreremos a mesma constância. Do mesmo
modo, ninguém se estende mais na descrição de sensações corporais imediatas do que os escritores que têm Saturno na Casa VI, por exemplo Flaubert,
Thomas Mann, Henry Miller). Poderíamos atribuir isto a alguma hipersensibilidade proveniente de doença ou nervosismo (isto é, a lementos materiais da
personalidade) no caso de Flaubert, homem de pouca saúde; mas como explicá-la num homem de vitalidade exuberante como Henry Miller? No que diz
respeito a elementos de proveniência social, como explicar a presença da mesma inclinação no grande-burguês milionário Thomas Mannn e num filho de
modesto alfaiate como Herry Miller? Não, isso não se deve a elementos, mas forma do caráter.

É claro que o estudo dos horóscopos de escritores deve obedecer a certos cuidados metodológicos, que só exporei mais tarde e, por isto previno-
os de que é inútil vocês procurarem desde já novos exemplos e correspodências desse tipo, movidos por uma natural curiosidade.
Vocês notarão, sem dificuldade, que cada camada seguinte absorve e supera a anterior. Não se deve confundir seguinte absorve e supera a
anterior. Não se deve confundir a divisão em camadas com a divisão abstrativa em aspectos e funções divrsas; as camadas correspondem a uma divisão
cronológica ou pelo menos a uma escala de evolução ideal, e cada camada abarca toda a personalidade, concretamente. Digo isto para evitar, desde logo, a
pergunta imbecil: “E como se integram depois as camadas que você separou?”. Toda divisão cronológica não separa partes do ser, mas etapas do tempo —
e subentende-se que o ser existe concretamente em cada uma dessas etapas; e que, aliás, ele só se concreciona no tempo e no espaço. Mostrar as várias
casas em que um sujeito morou ao longo do tempo não é a mesma coisa que dividi-lo em memória, razão, sentimento, etc., pois, em cada uma dessas
casas, ele morou inteiro.

A divisão em camadas da personalidade equivale, também, a um divisão metodológica em níveis e planos de abordagem; e esta divisão nos
permite integrar harmoniosamente as contribuições das várias escolas e correntes da psicologia, ao invés de opô-los umas às outras num espírito de
partidarismo pueril, infelizmente muito comum nos nossos estundantes de psicologia das universidades. Muitas vezes me perguntei como seria possível um
sujeito de vinte e poucos anos, sem conhecimento extenso do panorama da psicologia, já ter optado, fanaticamente, por ser freudiano, reichiano,junguiano,
etc. Essa opção, nessa idade, jamais poderia ser fundada em motivos intelectualmente relevantes. Só pode advir de uma falsa identificação, momentânea e
superficial, da alma com certo motivos e temas da escola eleita.

Aqui, evidentemente, não admitiremos esse tipo de atitude. Também não admitiremos um dogmatismo tradicionalista que
rejeita in limine as contribuições da moderna psicologia, e só aceita o que tenha sido obtido pelos métodos analógicos e simbólicos da ciência dita
tradicional. O termo “tradição” tem sofrido, nas mãos de porta-vozes de escolas e correntes esotéricas, as mais horripilantes deformações (propositais) de
sentido. A rigor, tradição significa universalidade, e aquele que se proclama “tradicional”deve estar disposto a pagar o que deve à exigência de
universalidade: isto é, está moralmente obrigado a colocar-se num ponto de observação tão elevado que, dele, todos os pontos de vista particulares se
integrem num todo harmonioso. Um partidarismo tradicionalista é uma contradição de termos.

Parte II - Enumeração das camadas

Primeira Camada
Sendo a forma pura da personalidade, o caráter é uma precondição para que existia a personalidade; ele é “anterior” à
personalidade, pois, enquanto forma pura da possibilidade desta, já está dado, pronto, no instante do nascimento, ao passo que a personalidade será a
resultante do esforço da existenciação mediante a absorção progrssiva dos elementos.
Mas, por uma completamentaridade dialética que aluno versado em simbólia tradicional não terá dificuldade de entender, o
caráter também é “posterior” à personalidade, no sentido de que, finda - e, é claro, realizada - a existência, ele expressará, em sua anologia com o
horóscopo, a forma total do destino.

Segunda Camada
Esta aporte biológico é a primeira condição para que o caráter, a forma pura, adquirida existência real e concreta. Para que o
caráter se realize, é necessário que a hereditariedade, a constituição, etc., lhe sejam compatíveis ou favoráveis.
Nesta camada há muitos elementos que, vindo “de fora”, ingressam na constituição do caráter, favorecendo ou obstando sua
realização. Os que têm prática em astrologia reconhecerão facilmente que certas posições planetárias, no mapa de nascimento, podem ser “leves” para um
indivíduo de boa constituição física, “pesadas”para um indivíduo frágil ou doentio; por exemplo, Saturno na VI no horóscopode Henry Miller e no de
Flaubert.
É preciso, no estudo desta camada, conhecer a fundo esses elementos e verificar meticulosamente sua relação com o
caráter puro, a qual não é unívoca como em geral pensam os astrólogos. Por exemplo, não se pode saber do estado de saúde de um indivíduo só pelo seu
horóscopo, sem outros indícios. A configuração astral não resulta me saúde nem em doença senão pela intermediação de outros elementos.
Para esclarecer essa complicada dialética entre caráter e hereditariedade, sugerirei mais tarde algumas perquisas, que
poderão ser realizadas pelos alunos.

Terceira Camada
Todas essas escolas se didicaram a descrever o processo cognitivo, sua evolução e suas várias etapas. É evidente que o
preocesso cognitivo é esquematicamenteo mesmo em todos os seres humanos, mas, sendo bastante complexo, ele introduz um elemento de variação no
quadro delimitado pela hereditariedade. O que o indivíduo virá a aprender, e como, é algo que depende, em parte, da hereditariedade, em parte, do meio-
ambiente, em parte, da lógica inerente ao processo cognitivo mesmo, a qual uma coisa totalmente independente da hereditariedade individual. As escolas
psicológicas interesadas na descrição do processo cognitivo fazem geralmente abstração do caráter, da hereditariedade, etc., só se interessando pela
cognição enquanto tal. Mas é evidente que uma teoria da cognição não pode substituir uma psicologia geral ou uma pscologia da personalidade; ela dever ser
integrada nesta últimas, caso queira servir a qualquer objetivo prático.
Entendemos, ademais, que, quando o indivíduo penetra nesta camada, está se introduzindo um elemento de liberdade e de
indeterminação no quatro anteriormente é delimitado pela hereditariedade: nem todas as pessoas com as mesma características hereditárias recebem as
mesmas informações. A história do desenvolvimento cognitivo do indivíduo deve ser contada independentemente da heretariedade, pois esta não
determina as opotunidades de aprendizado nem é onipotente ao determinar a capacidade de obsorção.

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Quarta Camada
O padrão afetivo do indivíduo tem uma história; ele provém das experiências vividas, que cristalizam aos poucos
determinadas reações, originando o “caráter” tal como o entende Freud, que é como uma resultante da história vivida, que canaliza os impulsos nesta ou
naquela direção até consolidar um circuito, são ou neurótico, que tende a repetir-se.
Esta história pulsional e afetiva também pode ser estudada independentemente do caráter, da hereditariedade eda história
cognitiva - mas é evidente que, para conhecermos a personalidade real e integral deveremos ir aos poucos inserindo cada camada na seguinte, conforme a
ordem cronológica de sua entrada em cena.
Para entender a contribuição e o valor das escolas que estudaram este tema da história pulsional, é preciso inseri-las no
quadro de uma ampla psicologia da personalidade, ao invés de querer fazer delas o substituto da psicologia toda.
Não podemos nos esquecer de que psicanálise é uma escola especializada, que enfoca um tema determinado, e que ela não
é uma psicologia geral. Tenttivas de fazer dela uma psicologia geral só resultam em ampliar desmedidamente a exibição das suas limitações e fraquezas, e
expô-la a críticas que, no âmbito do que ela especifica e limitadamente se propõe, seriam injustas. O aspecto particular enfocado pela psicanálise tem um
grande valor na determinação do destino; o que devemos fazer é averiguar o peso específico desse fator dentro da concepção geral do homem e da
personalidade
Quinta Camada
Toda a psicologia de Jung nada mais é do que uma psicologia do ego e da autoconciência; apenas uma resposta à pergunta:
“Como me apreendo como indivíduo auto-consciente e como esta autoconsciência se desenvolve desde as trevas da ignorância até a apreensão dos
arquétipos que determinam sua forma individual e seu destino? “Meu mestre e amigo, Dr. Juan Alfredo César Müller, que estudou com Dra. Maria-Louise von
Franz, dizia mais: que toda a obra de Jung era uma longa autobiografia, não um sistema científico-abstrato de psicologia.

Sexta Camada
Pode-se distinguir entre aptidões, que seriam mais ou menos inatas, e capacidades, que seriam mais ou menos adquiridas.
No entanto, não faz sentido estudarmos esta questão antes de termos uma visão suficiente da psicologia do ego, pois aptidão é o domínio consciente de
alguma coisa; a aptidão latente ou se transforma em capacidade pela filtragem do ego, ou dela você nunca toma conhecimento. A aptidão é o conjunto dos
meios intelectuais, técnicos, etc. de que o indivíduo dispões para realizar seu caráter, e esse meios em parte dependem dele mesmo, em parte são dados
pelo meio, pelo ambiente. Uma coisa é estudar a relação entre caráter e hereditariedade, caráter e desenvolvimento cognitivo e caráter e aptidão; alguém
com uma hereditariedade propícia pode não chegar a ter a capacidade porque faltou em seu meio a oportunidade de adquiri-la.

Sétima Camada
O mesmo indivíduo tem vários sub-egos ou subconstelações de personalidade conforme os seus vários papéis sociais
exercidos. Temos de distinguir as várias situações, para confuntir meros papéis sociais com traços de personalidade ou de caráter
Oitavo Camada
Se entendemos caráter - na acepção de Le Senne - não apenas no sentido das três primeiras colunas, mas das nove colunas
do teste de Berger, podemos dizr que ele é uma somatória, uma síntese individual que num dado momento fornece um retrato do indivíduo tal como ele está.
Neste ponto chegamos à noção de uma personalidade global pela primeira vez. Mas a personalidade não termina aqui; termina aqui apenas para a média dos
seres humanos, mas há pessoas que têm faixas da personalidade que não podem ser abarcados pelos estudos descritos até o momento. Esta pessoas têm
um algo mais que as destaca.

Nona Camada
Tudo isso que nós é a personalidade empírica, a prsonalidade que o sujeito tem de fato, no decorrer de sua experiência.
Começamos a poder falar em obra e em personalidade a partir do momento em que esta personalidade empírica recebe uma valoração consciente em
algum dos seus aspectos, ou seja, onde o indivíduo percebe que alguns elementos de sua personalidade podem conter a afirmação de certos valores
universais e passa a se dedicar a realizar esses aspectos determinados. A isto nós chamamos personalidade intelectual superior, e nem todo mundo a
tem. Você tem a partir do momento em que quer e que procura desenvolvê-la. A natureza e a sociedade levam o homen até certo ponto, criam nele
dererminados órgãos; mas há outros que é o homem mesmo que “inventa”.
Existe um “orgão”num Balzac ou Beethoven que não existe nas outras pessoas a que é o que Croce chama de
personalidade poética; o aspecto criativo da personalidade, o qual, provindo da personalidade empírica, por vezes a engole totalmente, tanto que os traços
desta acabam por ser neutralidade. Na verdade, são estas quatro últimas camadas - 9, 10, 11, 12 - que aparecerão mais claramente no mapa astrológico,
pois são estas que terminam de expressar a personalidade. Só se a personalidade se expressar em todos os doze níveis é que pode ser estudada
facilmente em suas relações com o caráter, senão é apenas um estudo de possibilidades.

Décima Camada
O problema da personalidade moral só se coloca a partir do momento em que o sujeito tem uma personalidade intelectual,
pois é a personalidade intelectual que vai destacar no indivíduo a idéia do valor universal como algo que existi para nós; sem isto, como poderíamos julgar
moralmente nossos atos? Abaixo de um certo nível de integração da personalidade que permita a eclosão desta personalidade intelectual superior, a rigor
podemos dizer que os atos do sujeito são moralmente irrelevantes (isto no sentido da moral pura, Kantiana, não da moral social, pois seus atos têm
influência sobre os outros). O problema moral de que falamos surge quando, concebendo que existem valores universais dentro de si, que lhe cabe realizar,
o indivíduo se recusa a fazê-lo. Mas como exigir isto daquela que não tem uma síntese individual formada, de um indivíduo que ainda está dissolvido dentro
da mentalidade coletiva, e que, quando erra, junto com os outros?

Décima Primeira Camada


Na medida em que tenha uma personalidade intelectual superior e um transcendental, capaz de se sobrepor a toda sua
existências e julgá-lo, no momento em que alcança este ponto, de poder julgar sua existência e seus atos como se estivesse acima de si, é que o sujeito
presta satisfação de si perante o tribunal da humanidade, da História.

Décima Segunda Camada


Esta psicologias tratam fundamentalmente do sentido da vida do indivíduo, do indivíduo perante sua responsabilidade moral
última, algo que está acima do personagem, algo que a humanidade mesma não sabe. É fundamentalmente, o indivíduo como Homem Universal, como
Cristo, como pastor e resposável pela hunmanidade inteira.

O ENFOQUE BIOGRÁFICO

Biografia e Destinologia

É evidentemente impossível pronunciar qualquer julgamento, que se pretenda científico ou ao menos intelectualmente
relevante, sobre um ato, episódio, um traço de caráter, ou uma qualidade de um hoemm, sem tomar como pano-de-fundos e pressuposto, implícito ou
explícito, consciente ou inconsciente, patente ou inconfessado, um quadro de valores e critérios, uma visão geral da vida e do destino humanos, uma
antropologia filosófica qualquer, ou, para resumir, uma antropovisão. Por trás de qualquer jilgamento particular, por trás mesmo da simples constatação de
“fatos, existem sempre princípios gerais que delimitam, enquadram, esquematizam e mesmo determinam nossa visão e nossa avalição das coisas, seres e
situações.
Nem sempre estamos conscientes desses princípios, que muitas vezes absorvemos passivamente das crenças e hábitos do
meio-ambiente, e que passamos a aplicar sem nenhum exame crítico.
Nas épocas de forte consenso coletivo quanto aos valores e metas da vida humana, esse automatismo no julgamento dos
casos individuais não chega a ser danoso, porque o hábito de julgar sempre com base nos mesmos princípios - por errôneos ou estreitos que sejam em si -
faz com que as pessoas, com tempo, desenvolvam uma habilidade, uma espécie de sabedoria prática, que as ajuda a avaliar corretamente as situações
concretas, compensando a estreiteza dos princípios.
Porém, nas épocas de mundança acelerada de valores e critérios, não pode mais o homem apoiar-se no automatismo, sem
risco de erro. Pois os consensos em que crê apoiar-se são limitados no tempo, isto é, destinados a perecer cedo ou tarde sob o impacto da crítica, ou
limitados no espaço, isto é, restritos a determinados grupos sociais, cuja voz não teria por que desfrutar de autoridade sobre a sociedade como um conjunto.
Aí não resta ao homem honesto outra alternativa senão entrega-se ao laborioso esforço de examinar critimente is pressupostos de seus julgamentos, até
poder chegar a um critério maduro e, tanto quanto possível, independente. É numa situação assim que nos encontramos.

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A necessidade desse exame é tanto maior para as pessoas as que estejam profissionalmente, ou por hábito intelectual,
envolvidas na compreensão e avalição de atos humanos; refiro-me particuamente aos psicólogos, juristas, médicos, sociólogos, assistentes sociais,
pedagogos, etc., Os astrológos não teriam como deixar de incluir-se nesse grupo, dada, sobretudo, a crescente impotância social do seu ofício.

No entanto, tenho constatado que os maioria quadros criteriológicos em que a maioria dos astrólogos de hoje apóia suas análises e
interpretações se constitui frequentemente de um amálagama improvisado e grosseiro de crenças absorvidas, sem exame, do meio-ambiente oculista em
que os astrólogos vivem, e depois irresponsavelmente impingido aos clientes, como norma e padrão absoluto para o julgamento de seu horóscopo, dos
trânsitos palnetários e, enfim, do seu destino individual.

Não me refiro à técnica interpretativa, nem à linguagem simbólica da astrologia, que os profissionais do ramo em geral dominam com
suficiência. Refiro-me, isto sim, à sua antropovisão, que é o critério e fundamento pelo qual se avaliam os dados astrológicos, e que serve de guia para a
orientação psicológica e psicopedagógica do cliente.

Absorvendo, sem crítica, noções éticas, morais, metafísicas e psicológicas que simplesmente “estão no ar”no ambiente ocultismo,
muitas vezes os astrólogos deixaram filtrar-se, nas suas imterpretações, as maiores absurdidades, de que nem sempre se dão conta.

Ocorre, por mal dos pecados, que juízos particulares aparentemente sensatos podem originar-se em princípios gerais perfeitamente
obsurdos; e só são aceitos na medida em que estes princípios permanecem inconcientes ou inconfessados. Uma análise lógica das interpretações concretas
particulares acabaria por trazer à plena luz do dia esses princípios latentes, o que bastaria para evidenciar a sua absurdidade.
Por exemplo, quando um astrólogo interpreta os ângulos desfavoráveis de Saturno, de Marte ou Plutão como “lições” para o
“aperfeiçozmento moral ou espiritual” do indivíduo, ou propõe que “utilizando as energias” desses aspectos planetários o cliente poderá ascender a níveis
mais elevados de consciência e de existência, que é está querendo dizer, no fundo? Ou antes: que é que está afirmando implicitamente? Em que
pressupostos se apóia? Vejamos apenas dois:

1º - Tal interpretação se baseia na convicção de que a sutilização energética, a passagem de um nível mais denso a outro mais fino de
energia, tem por si um nível mais denso a outra mais fino de energia, tem por si um significado moral e espiritual positivo; mais ainda, que sutilização e
espiritualização sejam coisas idências. A diferença entre matária e espírito fica assim reduzida a uma gradação quantitativa, diversa natureza ou essência.
É o que Dalai-Lama chama “materialismo espirutal”.

É preciso se muito ingênuo ou mal-intencionado para professar uma doutrina tão boba, mas acontece que no campo astrológico muitos a
aplicam sem professá-la, quer dizer: seguem-na inconscientemente.

Creio que doutrinas como essa são postas em circulação por inimigos da humanidade, que com elas pretendem sujeitar a escárnio a
inteligência humana. Tais indivíduos são o que as religiões chamam de diabos. Um diabo é uma criatura empenhada em aviltar a inteligência humana, dando
ao homem todas as oportunidades de erro para em seguida “provar”que ele é incapaz de ater-se à verdade. Os alunos aqui presentes já são bem grandinhos
para poderem compreender que o que as religiões falam sobre is pecados-gula, luxúria, etc. - não passa, às vezes, de um conjunto de metáforas destinadas
a significar os erros e desvarios da inteligência, que conduz a vontade. Que a gravidade de tais advertências tenha, ao longo dos séculos, se rebaixado ao
zelo idiota de padrecos que fiscalizam meninos para que não se masturbem, e, a meu ver, somente mais um sinal de quanto o diabo tem sido bem sucedido
na sua empresa de reduzir ao ridículo a inteligência humana.

Para que se perceba o quanto é grotesca e aberrante a doutrina do meterialismo espiritual, basta notar que ela implica serem as pedras,
por mais densas, espitualmente inferiores à energia elétrica, e esta, por sua vez, muito menos santa do que a sutilíssima energia atômica. Por essa teoria, a
bomba que “sutilizou”os muros de Hiroxima e Nagasaki foi um esplêndido benefício espiritual para a humanidade.

É claro que essa é uma doutrina que só serve para indivíduos intelectualmente lesados, incapazes de apreender o que quer que seja do
reino do espírito, que é o reino da verdade, da universalidade e da liberdade, e que nada tem a ver com energias, sutis ou grossas, nem com falta delas,
assim como a forma pura do círculo não tem nada ver com o papelão, a madeira, o metal ou qualquer matéria, grosseira ou fina, em que o recortemos. Não
se pode atingir o espírito por sutilização da matéria, tal como não se pode alcançar o infinito pela soma de quantidades indefinidas, por maiores que sejam.

2º - A referida interpretação pressupõe ainda que o cosmo físico tenha sido propositaldamente construído de modo a fovoreza estaria,
assim, repleta de lições quanto ao certo e ao errado nos comportamentos humanos, faltando apenas, para cada evento natural, extrair a respectiva moral da
história. É o que eu chamo moralismo cósmico.

Essa ideologia enfatiza a continuidade - para não dizer a indentidade - entre o mundo da necessidade física ou natural e a esfera da
liberdade moral humana. Não enxergar a menor diferença entre o fenômeno da influência astral em si mesmo, fisicamente ou energeticamente considerado, e
o significado que possa ter para este ou aquele indivíduo em particular ou para este ou aquele grupo social. Lê nos eventos cósmicos uma intecionalidade
psicopedagógica literal e direta; e, quando, ao fazê-lo, professa estar usando de “interpretações simbólicas” ou analógicas, demonstra apenas não saber o
que é a linguagem dos símbolos, pois esta, sempre variávele dúplice por natureza, é incapaz de fazer por si mesma qualquer advertência ou recomentação,
sem o auxílio de um quadro axiológico previamente dado, que possa aferir o valor moral e prático das significações apontadas.

Ao misturar numa pasta confusa o mundo da natureza e o mundo moral humano - sem ter em conta as múltiplas transições dialéticas que
intermedeiam o seu relacionamento -, essa doutrina, se assim cabe chamá-la, omite a distinção entre causalidade e significação, que se tornou clássica
nas ciências humanas desde Weber. O resultado prático desta omissão é que o indivíduo, o cliente, é implicitamente convidado a abdicar da liberdade de
sua conciência moral, isto é, da capacidade de escolha racional dos fins, para deixar a condução de seus atos à mercê do arbítrio do cosmos físico,
doravante incumbido de nos ditar os comportamentos a adotat ou a evitar em cada situação. Acreditando elevar-se a uma “consciência cósmica” superior,
tudo o que o indivíduo consegue é amortecer a única conciência de que efetivemente dispõe, para tornar-se daí por diante um mero sensor de sinais e
presságios. Retorna assim à mais grosseira e arcaica superstição dos augúrios naturais, que acaba por substituir a consciência moral racional em
dissolução.

A doutrina do moralismo cósmico surgiu como uma reação, até certo ponto cabível e justa, contra o pendor da astrologia clássica de
rotular como benéficos ou maléficos os planetas e aspectos planetários, sem qualquer contrapeso dialético. Ocorre apenas que a astrologia clássica fazia
tais julgamentos apenas desde um ponto de vista dos fins práticos mais óbvios da ação humana individual, vendo um bem naquilo que a ajudava e um mal no
que lhe oferecia obstáculo, no mesmíssimo sentido em que na vida diária acreditamos topar com oportunidades e impedimentos, sem que isso implicasse
louvor ou censura moral aos astros, aos aspectos celestes ou muito menos ao cosmos, como um todo. Ao contrário: basta notar o quanto a cosmovisão dos
astrólogos e pensaodres astrológicos de antigamente era dependente das concepções religiosas - grego - romanas, cristãs, judaicas ou islâmicas - para
perceber que eles simplesmente não poderiam sequer chegar a conceber que uma força natural qualquer fosse por si algo de intrinsecamente maléfico ou
benéfico, pois, segundo todas essas concepções religiosas, o mal e o bem só podem existir como tais na esfera da liberdade moral, estando, por definição,
excluídos do reino da necessidade natural. Quando, portanto, Ptolomeu ou Bonatti ou Ibn `Arabi ou Morin de Villefranche ou Fludd falavam do malefício ou
benefício dos planetas, se referiam exclusivamente aos afeitos coadjuvantes ou impeditivos que exerciam sobre os fins e atos humanos, que, estes sim,
podiam ser bons ou maus, morais ou imorais, nobres ou vis.

Em suma: não havia nenhuma conotação moralizante nos rótulos de benéfico ou maléfico, os quais se referiam tão-só áquilo que era
conviniente ou incoviniente aos fins práticos da ação humana. Não existina maior intenção moral nessa qualificações do que existe na màxima de Chico
Buarque de Hollanda: “Antes rico e com saúde do que podre e doente”. E os que enxergam nelas tais intenções estão somente se deixando enganar pelo
sentido aparente das palavras “bom” e “mau”, subentendendo que, se tais palavras são usadas em matéria moral, então devem ter um sentido moral onde
quer que se encontrem.

A reação equivocada e pedante contra tais denominações se inspira numa extensão equivocada e pedante da rebelião contemporânea
contra os códigos morais. Explica-se pelo fato de que, em certo indivíduos, essa rebelião moralidade, de modo que tais pessoas não podem sequer ouvir
falar as palavras “bom”e “mau”, sem reagirem com furiosa indignação contra uma inexistente madre - superio-ra, que sua imaginação enxerga por toda parte
como um símbolo universal e onipresente da odiosa repressão.

Ora, uma rebelião contra a moral é, evidentemente, uma atitude


moral. E, se a doutrina antiga sobre os planetas maléficos e benéficos era prática e não moral, a reação atual contra ela, inspirando-se
em motivos morais, não poderia deixar de ser moral e não prática. Uma postura sistemática erígida contra um moralismo não pode ser outra coisa senão um
moralismo ás avessas, só que procurar enxergar o mal onde seu abversário via o bem, e vice-versa. Assim, Saturno e Marte, se eram maus para o corpo,
adquiriram, por uma prodigiosa confusão de planos, a fama de serem bons para a alma; de causadores de febres e anemias, tornaram-se professores de
ética; de inimigos naturais, tornaram-se amigos e mestres espirituais. O sentido moralista e bobo de toda essa inversão e demasiado evidente para que seja
preciso insistir neste ponto.

A doutrina do maralismo cósmico pretente, como foi dito, extrair consequências morais diretamente de fenômenos naturais. Com isto,
confunde o plano da teodicéia que é o da justificação moral da criação cósmica, com o plano imediato e prático das convenências e inconveniências da vida,
esquecendo que nem tudo o que é bom para o cosmos como um todo é bom para o indivíduo enquanto tal, e vice-versa, e de que, mesmo no plano mais
geral da teodicéia, o reino universal do bem não excluir a existência de uma infinidade de males específicos e particulares que, nem por constribuírem, em
última instância, para o bem universal, deixam de ser males no seu próprio nível e esfera.

Em segundo lugar, essa doutrina, como a anterior do msterialismo espiritual, confunde o plano da necessidade natural com o da liberdade
moral, pretendendo enxergar nos fatos da natureza intenções moralizantes, alias duma vulgaridade sem par, e esquecendo, novamente, que a interpretação

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de símbolos não pode, por si, lever à afirmação positiva de um “faça” ou de um “não faca” sem a intermediação de um código moral que, por sua vez e pelas
mesmas razões, tem de ser dado antes e independentemente dos fatos naturais e simbólicos considerados, o que não poderia jamais ser deles deduzido.

Em terceiro e mais grave lugar, ao introduzir no estudo do fenômeno astral considerações morais absolutamente extemporâneas, a
astrologia abandona o seu campo legítimo e específico para arrogar-se a posição de uma superciência que seria ao mesmo tempo metafísica, ética,
pedagogia, psicologia, medicina e jurisprudência. É tão habitual entre os astrólogos, hoje, encararem sua cuência como uma espécie de sabedoria universal,
e não como uma ciência especilizada e limitada, que não percebem que não há mais razões para deduzirmos consequências éticas do fenômeno astral do
que as há para deduzi-las dos fatos biológicos ou químicos. Afinal, se tudo é símbolo, se a natureza fala, não há por que privilegiar os astros em vez das
amebas, infusórios, sulfetos e nitratos. A diferença é que os biólogos e químicos têm um pouco mais de compostura. A inflação do campo da astrologia, no
entanto, tem explicação: é um caso clássico de compensação, no sentido adleriano. Qaunto menos seguro o astrólogo se sente do seu saber, no campo
rigoroso dos fatos e das leis científicas, mais tende a enfatuar-se em generalizações pseudofilosóficas destinadas s spsziguar a dolorosa consciência da
vacuidade do seu saber.

Todo e qualquer estudo da natureza pode levar a conclusões filosóficas ou éticas de grande valor, mas que diríamos de um biólogo que,
pouco ou nada sabendo de certo acerca da biologia, estendesse seu campo de investigação tão-somente essas conclusões, abandonando ou desleixando o
campo específico do estudo biológico? Teria deixando de ser biólogo, sem conseguir tornar-se mais que um pseudofilósofo.

A astrologia, nesse sentido, não é nem pode ser uma sabedoria mais do que o são ou podem ser a física ou a mineralogia. Uma ciência
deve, antes de tudo, buscar as leis que governam os fatos, ao invés de, partindo de fatos mal observados e pior explicados, pretender ver neles
“intenções”ou “significados” misteriosos e sutis. Uma astrologia sapiencial só é legítima na medida em que não pretenda sorrateiramente ocupa o lugar da
ciências astrológica faltante. Foi isto que, já num curso dado em 1986, proclamei ao dizer que, se a astrologia pretende chegar ao significado espiritual de
fenômenos naturais, então a astrologia natural deve preceder necessariamente astrologia espiritual, a qual, sem ela, é oco figimento.

Muito bem. Estamos aqui reunidos, nesta sexta rodada de aulas do Curso de Astrocaractelogia, para entrar agora no estudo da
biografia, o desenho da vida humana. O caráter, como foi dito, é o fundo fixo de uma vida que é incessante mudança. Para encontrá-la, devemos coar a
biografia, a narrativa das mudança, até que se deposite no fundo da peneira o resíduo fixo.

Não é só por isto que o estudo da biografia nos importa. Em toda atividade psicológica, ou em qualquer dos campos com que a astrologia
faz parede-meia, o que o profissional tem diante de si é uma vida humana; uma vida, não em sentido biológico, mas em sentido biográfico, existencial. Uma
vida feita de esperanças, de atos, de derrotas e vitórias, uma vida., enfim, que só se compreende ao contá-la. Devemos, pois, preparar-nos no estudo desta
forma especial de conhecimento que é a narrativa. Conheço um indivíduo, no sentido existencial, quando ele me conta a sua vida, quando assisto ao seu
desenrolar, quanto, em suma, sei narrá-la.

A narrativa de uma vida pressupõe uma seleção e ordenação das partes e episódios, de modo que a massa confusa confusa adquira um
perfil, uma forma narrável. Esta seleção e ordenação, precisamente, requer o concurso de um critário, de um esquema de avaliação, ou seja, daquilo que
denominei antropovisão, ou, se quiserem, antropologia filosófica.

Vimos, nos parágrafos anteriores, como a antropovisão corrente entre os astrólogos é defeituosa e insuficiente; vimos como, por ela,
pouco podemos compreender realmente da vida individual humana - seja da vida de grandes personagens, seja da vida do mais humilde de nossos clientes.

Redigi estas páginas pensando que o estudo da antropovisão, como critério do estudo biográfico, requeresse tais paravras de
advertência.

O que vamos fazer em seguida é um empreendimento da mais alta significação não só para a formação intelectual e profissional dos
alunos, mas para a avaliação da vida e dos valores de cada qual, pois é só compreendendo-nos a nós mesmo que chegamos a poder compreender os
demais seres humanos, é contando a nossa vida que aprenderemos a contar a alheia. Este ponto do nosso curso requerer ádos alunos um extremo esforço
de veracidade, de objetividade, de fidelidade à própria consciência. Ele será um mata-burros onde sem dúvida tropeçarão todos os arrogantes e
pretensiosos, que, construindo sua vida sobre ilusões, inversas e complementares, sobre os demais seres humanos.

Até o momento, esta turma de alunos tem revelado capacidade e sinceridade. Não falhem agora.

Orientação para o Estudo de Biografias

1 - Sou essencialmente idêntico ao indivíduo estudado.


2 - Sou existencialmente diverso.
3 - O homem é sujeito (autoconsciente) das suas ações.
4 - O homem é objeto (conciente ou não) das ações alheias.
5 - Princípio historigráfico de Karl Marx: os homens fazem sua própria história, mas não a fazem num cenário livremente escolhido.
6 - Princípio historiográfico de Ortega y Gasser: a reabsorção da circunstância é a destino concreto do homem.
7 - Todo ato tem significação.
8 - Todo ato tem causa.
9 - A vida individual começaa completar-se na morte.
10 - Prossegue completando-se depois, pelos resultados.
11 - A vida individual pode e dever ser julgada: cada um julga sua vida, e age conforme este julgamento.
12 - A primeira coisa a conhecer é a meta ou aspiração.
13 - A meta tem sua história. Não surge pronta.
14 - A meta possui um aspecto endógeno e outro exógenos.
15 - A significação depende da meta.
16 - Onde não há meta, a vida explica-se pelas causas.
17 - Um ato inteiramente redutível às causas não tem significação subjetiva, mas pode ter significação objetiva.
18 - Não se deve recorrer à explicação pelas causas objetivas enquanto não se esgota a explicação pelo significado subjetivo.
19 - Estabelecer, em cada caso, a proporção entre significado e causa.
20 - A descrição do cenário deve ser feita em três perspectivas: (a) segundo a ordenação de valores ditada pela meta; (b) segundo a
ordenação de valores vigente no cenário mesmo; (c) segundo a nossa atual ordenação de valores.
21 - Pode haver momentos e eventos sem significação, mas não sem causa.
22 - Equilibrar a identificação simpatética e o distanciamento crítico segundo as três perspectivas indicadas no nº 20
23 - Biografia é drama.
24 - O protagonista é a consciência e a liberdade.
25 - O antagonista é a lei de inércia.
26 - Há inércia positiva, reabsorvível.
27 - E há a fatalidade.
28 - Há vidas interrompidad no meio.
29 - Há vidas que cessam antes do fim, o que não é a mesma coisa.
30 - A meta implica papéis, acidentais ou essenciais.
31 - Certas vidas expressam a autoconsciência do cenário mesmo.
32 - Noutras, a autoconsciência é reabsorvida no cenário.
33 - Contar uma vida é julgar a nossa própria vida.

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AS CAMADAS DA PERSONALIDADE (II): AS FORMAS TÍPICAS DO SOFRIMENTO

Introdução

A Teoria das Camadas é, entre outras coisas, a tentativa de responder às seguintes perguntas: Por que indivíduos com horóscopos semelhantes
agem de maneira diferente? e Por que o mesmo indivíduo, conservando seu horóscopo, age de maneira diferente, em épocas diferentes?
Cada camada é a síntese da personalidade num determinado estágio de sua evolução temporal, portanto cada passagem de camada a camada é
uma mudança da personalidade inteira, em que o conjunto adquire uma nova forma sem alterar necessariamente suas partes. Mas o todo só pode mudar em
relação a alguma coisa e esta coisa não pode ser as suas próprias partes, portanto tem que ser algo externo à personalidade, e em relação ao qual esta vai
assumir diferentes posições no percurso da vida. Portanto, o valor respectivo das partes umas em relação às outras é que começa a mudar, de modo que se
altere a dinâmica do todo sem mudar a estrutura de base ( o caráter propriamente dito ), que fica intacta, como se fosse um edifício que, permanecendo o
mesmo, é usado com várias finalidades: conforme usamos um prédio para residências, para escritórios ou para depósito, suas partes mudam de função e de
valor sem mudar de lugar — sem alteração, portanto, da estrutura do conjunto.
Esse algo externo em relação ao qual ocorre a mudança no esquema de valores e na dinâmica da personalidade inteira é um novo objetivo da vida,
um novo ponto de concentração focal de todas as energias, durante uma fase em que o indivíduo estará se esforçando para alcançá-lo.
Nessas progressivas passagens de camada a camada, o que muda é o fim, o propósito a que se dirige o todo da personalidade. É um propósito
diferente a cada época, e esse propósito em si mesmo nada tem a ver com a estrutura da personalidade, porque ele faz parte de um desenvolvimento ideal
do ser humano ao longo da vida; é como se fosse um esquema da vida, ou seja, um esquema do desenvolvimento temporal humano.
Então, temos, por assim dizer, um duplo referencial: o referencial do horóscopo, que é fixo, e o referencial das camadas, que são sucessivas. E é
aqui que se explica o porquê de dois indivíduos com o mesmo traço astrológico agirem diferentemente.
É a camada, portanto, que vai dar a finalidade do ato, e este só pode ser explicado através de sua finalidade.
Esta Teoria das Camadas só pode ser entendida em termos de autoconsciência, pois cada nova camada é um novo padrão de autoconsciência.
Consciência: Só entendemos a consciência quando a enfocamos não apenas como um fenômeno, um dado empírico, mas sim também como um
valor, que é uma possibilidade humana que não se realiza automaticamente; quando aceitamos a consciência como um valor e a perseguimos, buscamos e
desejamos — então ela se desenvolve; e, ao desenvolver-se, torna-se mais real e visível, evoluindo desde uma mera possibilidade a um fator causante das
condutas, até chegar ao ponto de absorver todas as demais causas e se tornar dominante.
As camadas da personalidade correspondem a uma divisão cronológica ou pelo menos a uma escala de evolução ideal, e cada camada abarca toda
a personalidade, concretamente.
++++++++++++++++++++++++++++++
Toda divisão cronológica não separa partes do ser, mas etapas do tempo e subentende-se que o ser existe concretamente em cada uma dessas
etapas; e que, aliás, ele só se concreciona no tempo e no espaço.
As camadas podem ser:
Camadas Integrativas - fecham a personalidade num quadro definido.
São elas: 1 - 2 - 5 - 6 - 8 - 11

Camadas Divisivas - abrem a personalidade para o ingresso de influências externas, rompendo o equilíbrio anterior e desencadeando a luta por
uma nova e superior integração.
São elas: 3 - 4 - 7 - 9 - 10 - 12

Até a Camada 8, todas estão presentes em todo indivíduo adulto normal.

Segundo Berger:
Integração: A personalidade é um sistema, um organismo, uma ordem, uma fórmula.
Individualidade: É por esta personalidade que o indivíduo se distingue dos outros.
A única marca patente que o caráter pode deixar só se manifesta em duas coisas: na obra (produtos que subsistem materialmente após o término
da existência) e no personagem (isto é, num modo de ser que, pela intensidade e profundidade da sua ação sobre outras pessoas, deixa lembranças
definitivas e indeléveis na história humana).
Cada camada seguinte absorve e supera a anterior. As camadas correspondem a uma divisão cronológica ou pelo menos a uma escala de
evolução ideal, e cada camada abarca toda a personalidade concretamente.

CAMADA 1 Caráter

Camada Integrativa. Astrocaracterologia.


Sendo a forma pura da personalidade, o caráter é uma precondição para que exista a personalidade; ele é “anterior” à personalidade, pois enquanto
forma pura da possibilidade desta, já está dado, pronto, no instante do nascimento, ao passo que a personalidade será a resultante do esforço de
existenciação mediante a absorção progressiva dos elementos. O caráter também é “posterior” à personalidade, no sentido de que, finda (e, é claro,
realizada) a existência, ele expressará, em sua analogia com o horóscopo, a forma total do destino.
A camada 1 é o caráter no sentido astrocaracterológico, ou seja, a forma primeira, imutável e, de certo modo, abrange todas as possibilidades
subjetivas.

CAMADA 2 Hereditariedade, constituição, temperamento, estrutura pulsional

Camada Integrativa. Szondi (tipologias em geral)


Este aporte biológico é primeira condição para que o caráter, a forma pura, adquira existência real e concreta. Para que o caráter se realize, é
necessário que a hereditariedade, a constituição, etc., sejam compatíveis ou favoráveis.
É preciso, no estudo desta camada, conhecer a fundo esses elementos e verificar meticulosamente sua relação com o caráter puro, a qual não é
unívoca como em geral pensam os astrólogos.
Nesta camada há muitos elementos que, vindos “de fora”, ingressam na constituição do caráter, favorecendo ou obstando sua realização.
A camada 2 engloba toda a hereditariedade, tal como revelada pelo teste de Szondi.
Um recém-nascido só pode sofrer ou do impacto de condições físicas externas adversas ou de tendências mórbidas de sua própria
hereditariedade.
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CAMADA 3 Cognição, percepção

Camada Divisiva. Piaget, Kholer, Gestalt em geral, behaviorismo, Festinger; psicologia da linguagem.
Todas essas escolas (Piaget, etc.) se dedicaram a descrever o processo cognitivo, sua evolução e suas várias etapas. É evidente que o processo
cognitivo é esquematicamente o mesmo em todos os seres humanos, mas, sendo bastante complexo, ele introduz um elemento de variação no quadro
delimitado pela hereditariedade. O que o indivíduo virá a aprender, e como, é algo que depende em parte da hereditariedade, em parte do meio ambiente, em
parte da livre vontade do indivíduo e em parte da lógica inerente ao processo cognitivo mesmo, a qual é uma coisa totalmente independente da
hereditariedade individual.
Quando o indivíduo penetra nesta camada, está se introduzindo um elemento de liberdade e de indeterminação no quadro anteriormente delimitado
pela hereditariedade: nem todas as pessoas com as mesmas características hereditárias recebem as mesmas informações. A história do desenvolvimento
cognitivo do indivíduo deve ser contada independentemente da hereditariedade, pois esta não determina as oportunidades de aprendizado nem é onipotente
ao determinar a capacidade de absorção.
O momento em que se inicia o processo de aprendizado pode ser ocasião de erros, fracassos, mal-entendidos e humilhações. Entre dois e sete
anos de idade, a criança faz um esforço de aprendizado gigantesco, querendo continuamente aprender, não necessariamente o que os adultos querem
ensinar, mas algo que a interessa. Isto significa que conseguir - ou não - compreender e dominar um assunto é, nessa época, muito importante para a
criança.
As dificuldades inerentes ao aprendizado aparecem desde cedo, quando a criança aprende a andar, a falar, e sofre quando fracassa.
A camada 3 representa os acontecimentos do cotidiano e possui um ritmo rápido. Os sofrimentos da camada 3 são relativos ao processo de
aprendizado, tal como um exercício que pode cansar ou irritar. Esta camada indica a aquisição de um domínio sobre a linguagem, sobre as significações do
meio no qual se vive. O motivo de sofrimento referente à camada 3 é da ordem do fracasso ou sucesso; é um desajuste entre a criança e ela mesma, entre o
que ela pretende e o que de fato consegue fazer. Esse tipo de fracasso não deixa traumas, porque dura pouco tempo e a própria evolução do indivíduo
supera isso.

CAMADA 4 História pulsional e afetiva

Camada Divisiva. Freud, Klein, psicanálise em geral.


O padrão afetivo do indivíduo tem uma história, ele provém das experiências vividas, que cristalizam aos poucos determinadas reações, originando
o “caráter” tal como o entende Freud, que é como uma resultante da história vivida, que canaliza os impulsos nesta ou naquela direção até consolidar um
circuito são ou neurótico que tende a repetir-se.
Essa história pulsional e afetiva também pode ser estudada independentemente do caráter, da hereditariedade e da história cognitiva - mas é
evidente que, para conhecermos a personalidade real e integral deveremos ir aos poucos inserindo cada camada na seguinte, conforme a ordem cronológica
de sua entrada em cena.
À medida que o tempo passa, surge a questão da felicidade e infelicidade, que não surge mais cedo porque, de certo modo, é normal que o homem
seja feliz. Para que uma criança manifeste uma infelicidade profunda, e comece a lutar pela felicidade, é preciso que algo tenha lhe causado tristeza.
A quarta camada entra em cena muito depois da terceira. A idéia de que gostam dela ou não demora para ser formada, pois requer experiências
repetidas ou alguma experiência fundamental que se torne marcante.
Esta última se identifica com a biografia do indivíduo e possui um ritmo mais lento que o da camada 3.
Mesmo que uma criança disponha de todas as possibilidade para ter uma camada 4 bem resolvida, ainda assim ela pode sofrer por assuntos da
camada 3. Uma inaptidão física para alguma finalidade, por exemplo, pode gerar enorme sofrimento, mesmo que o ambiente afetivo da criança seja ótimo.
O sofrimento da camada 4 surge quando a criança descobre se é feliz ou não. Isso só é possível se houver experiências e frustrações repetidas
que a levem a se sentir amada ou rejeitada. Os acontecimentos aqui representam ciclos extensos de vida, que demoram para se formar. Ultrapassada a
infância, tais acontecimentos moldam um padrão afetivo que irá marcar o restante de uma vida.
O desenvolvimento até a camada 4 é quase inevitável, exceto no caso do indivíduo retardado mental, que não dispõe de compreensão suficiente
para ter uma relação afetiva. Ele possui uma afetividade, porém, latente, o que significa que o retardado mental desconhece o senso de rejeição de uma
criança normal. Se ele for tratado como um cachorro, talvez nem perceba que há algo errado nisso. Se não houve uma camada 3 bem desenvolvida, a
camada 4 não se realiza. Todos os indivíduos que não são retardados alcançam a camada 4. São pessoas que nunca se colocam em teste, pois fogem aos
desafios. São os tímidos, os dependentes, que não querem vencer, que só querem ser amados. Na verdade, esses indivíduos não precisam de amor, como
imaginam, e sim de dificuldades para que possam começar a ter respeito por si mesmos.
Na história afetiva dos indivíduos, ocorre sistematicamente um descompasso entre a necessidade real e a necessidade alegada, o que é
conseqüência de uma discrepância entre as camadas dois e três, ou seja, entre os impulsos e a disponibilidade de meios de comunicação. Se acontece de
um sujeito ter presente uma necessidade não expressa e não atendida, isto pode resultar, ao longo do tempo, que tal necessidade venha a ser substituída
por outra, esta, sim, conhecida. Isto gera um equívoco que é regra geral na vida de todos os seres humanos, que chegam na maturidade com inúmeras
necessidades esquecidas. Estas podem ser satisfeitas de forma simbólica, o que evidentemente não funciona, pois seria o mesmo que saciar a fome de
alguém, mas deixá-lo com sede.
A solicitação afetiva é tanto maior quanto menos o sujeito tenha ingressado na camada seguinte. Ele acredita que necessita de muito amor, de
muito afeto, e não age em seu próprio benefício a não ser com o apoio alheio.
Nesta camada, o indivíduo se coloca como alguém muito especial, que tem direito a praticamente tudo.
Se a demanda de afeto continua pela vida afora isto significa que a camada não foi resolvida. Se o problema se localiza na esfera da carência
afetiva infantil, há necessidade de psicoterapia. Sofrimento de camada 4 não se resolve sem ajuda especializada, pois é preciso fazer o indivíduo voltar a
sentir emoções infantis que não são encaixáveis no quadro da existência adulta. Dentro de uma psicoterapia se pode revelar necessidades infantis que serão
trabalhadas de alguma maneira. As exigências de camada 4 não podem ser atendidas no curso normal da vida adulta, requerendo portanto a criação de uma
situação artificial que isola o indivíduo da realidade e, de certo modo, o devolve ao estágio infantil. Se o sujeito não passa para a camada seguinte (5) antes
da idade madura vai necessitar de psicoterapia.
Carência afetiva só é considerada normal em um meio doente. Segundo o INPS, 10% da população brasileira são doentes mentais. Porém, o
normal não pode ser determinado por estatística, mas tem que estar de acordo com as exigências do contato real individual. É a resposta a uma
necessidade que marca a normalidade e é esta necessidade que impõe um padrão de julgamento. Por exemplo, é normal que um animal possa fazer tudo
aquilo que seja necessário à sua sobrevivência, pois ele é dotado pela natureza de meios para isto.
Normalidade é um conceito intuitivo, que se refere a algo que está funcionando e não reparamos. Nas relações humanas é quase impossível
alcançar esse nível de normalidade. O normal seria satisfazer as várias necessidades com o mínimo de atrito ou dificuldade. Os profissionais da Psicologia,
Pedagogia, Astrologia, têm uma enorme responsabilidade nessa questão, pois não podem aceitar um padrão de sanidade tão baixo como o do brasileiro.
O indivíduo que não passou da camada 4 requer uma psicoterapia, porque as necessidades desta camada não podem ser atendidas num adulto na
situação normal da vida. A demanda de atenção de um sujeito de camada 4 é imensa, sendo preciso montar um ambiente terapêutico específico para isto.

CAMADA 5 Ego, autoconsciência e individuação

Camada Integrativa. Jung.


Toda a psicologia de Jung nada mais é do que uma psicologia do ego e da autoconsciência; é apenas uma resposta à pergunta: “Como me
apreendo como indivíduo autoconsciente e como esta autoconsciência se desenvolve desde as trevas da ignorância até a apreensão dos arquétipos que
determinam sua forma individual e seu destino?”
Quando na adolescência, o sujeito começa a delimitar o seu espaço vital, ele não pode fazer isso se não tiver consciência de si como entidade
autônoma. Uma criança imagina ter poderes que na realidade não tem, atribuindo também a si os poderes do pai e da mãe. Ela não delimita o espaço vital
próprio e, portanto, aglomera as pessoas em torno dentro de um espaço vital comum.
Ao atingir a adolescência, o indivíduo compreende que é autônomo, que deve resolver seus problemas sozinho. Ele percebe que não basta ser
amado, que precisa desenvolver seu poder pessoal.
O sentimento de desejar algo e não ter o poder pessoal de conquistá-lo é muito diferente do sentimento de ser amado ou rejeitado. Mesmo que o
sujeito fosse amado, isto não resolveria absolutamente nada. Sofrer por rejeição é diferente de sofrer por não ter poder.
A transição da camada 4 para a camada 5 ocorre quando o mais importante para o indivíduo já não é se sentir amado, mas sim conseguir algo com
suas próprias forças. No momento em que muda esta clave, muda também a camada. Na camada 5 o sujeito se satisfaz tão logo demonstre seu poder,
ainda que isto se realize numa esfera de atividade completamente inútil. Uma pessoa de camada 5 julga tudo em função de si mesma, não reparando em
nada que esteja fora ou além dela.

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Na camada 5 a fonte de sofrimento é um autojulgamento depreciativo, não no sentido moral, mas da capacidade pessoal; é uma autodecepção. O
único modo de se ajudar um indivíduo centrado na camada 5 é psicológico, porque qualquer ajuda material que se ofereça pode contribuir ainda mais para o
julgamento negativo que faz dele mesmo.
Passar para a camada 5 é problemático, porque esta camada expressa uma vontade de ser alguém, de testar a própria força, e um grande número
de pessoas não chega a fazer isto, preferindo restringir voluntariamente o seu espaço vital e buscar satisfações apenas na camada 4.
Na camada 5 o indivíduo já adquiriu autoconfiança e, embora não saiba fazer nada, sabe que tem um potencial a desenvolver. Ele pode enfrentar a
vida, mas o que ele enfrenta no momento ainda não é a vida real, é apenas a sua auto-imagem.
Não é normal um adolescente exigir muito afeto. Ao contrário, é normal até ele rejeitar afeto, desejar ser solitário, aventureiro. Um adolescente não
quer “amor”, quer vencer, sentir que vale alguma coisa para si mesmo. Constatamos que um indivíduo passou para a camada 5 quando sua auto-satisfação
é suficiente para fazer com que, mesmo sozinho, ele fique mais ou menos feliz (não o tempo todo evidentemente).
Na camada 5 não se trata de um problema afetivo, e sim de experimentar o próprio poder. É bastante comum as pessoas não saberem que têm
poder; portanto, ignoram as conseqüências de seus atos, pensando que são as únicas que sofrem. Se uma taxa significativa da população conseguisse
entrar na camada 5 já seria ótimo, pois é melhor ter uma população de jovens arrogantes que não sabem fazer nada do que uma população de coitadinhos. O
jovem arrogante pode, pelo menos, vir a aprender alguma coisa algum dia, mas o coitadinho não.
No caso da demanda da camada 5 podemos considerar o que queríamos fazer para nos testar na adolescência. Tudo de importante que não foi
feito por timidez ou medo, prende o sujeito na camada 5, pois é um sinal de que ele não possui aquele poder.
No entanto, é fundamental detectar quando o problema é entre o sujeito e o mundo, ou entre ele e ele mesmo. Derrotado pelo mundo qualquer um
pode ser, mas isto é muito diferente de restringir o próprio espaço vital.
Provar para si o seu valor é essencial numa certa época da vida de qualquer indivíduo. Se isso não for feito na adolescência, vai ter que ser feito
mais tarde. Por outro lado, a insistência na demonstração de poder pessoal revela que a camada 5 ainda não foi superada.
A auto-afirmação deve ser vivida na adolescência, porque a maturidade começa no ponto onde o que conta é o resultado efetivo.

CAMADA 6 Aptidão e vocação

Camada Integrativa. Ungricht, Cyrill Burt, Eysenck.


Pode-se distinguir entre aptidões, que seriam mais ou menos inatas, e capacidades, que seriam mais ou menos adquiridas. No entanto, não faz
sentido estudarmos esta questão antes de termos uma visão suficiente da psicologia do ego, pois aptidão é o domínio consciente de alguma coisa. A aptidão
latente ou se transforma em capacidade pela filtragem do ego, ou dela você nunca toma conhecimento. A aptidão é o conjunto dos meios intelectuais,
técnicos, etc., de que o indivíduo dispõe para realizar seu caráter, e esses meios em parte dependem dele mesmo, em parte são dados pelo meio ambiente.
Uma coisa é estudar a relação entre caráter e hereditariedade, caráter e desenvolvimento cognitivo, e caráter e aptidão. Alguém com uma hereditariedade
propícia pode não chegar a ter a capacidade porque faltou em seu meio a oportunidade de adquiri-la.
Na passagem para a camada 6 a afirmação do poder pessoal é abandonada em favor da obtenção de um resultado efetivo. Na camada 6 o que
interessa não é a demonstração de poder pessoal, mas a consecução de algo objetivo, como trabalhar e receber um salário. Isto é conseqüência de um
desvio de eixo de valor, que se transfere do sujeito para o objeto.
Um sujeito que trabalha e recebe um salário não provoca uma alteração nele próprio, mas fora dele, a qual retorna não apenas sob a forma de uma
satisfação subjetiva, como na camada 5, e sim sob a forma de um resultado objetivo.
Saber algo concreto, não somente saber fazer, mas estar fazendo costumeiramente, ter um domínio efetivo de alguma coisa, mesmo que seja
pequena, é a base de qualquer visão objetiva. Enquanto o sujeito não vive isso, ele continua “em teste”, porque está permanentemente se olhando como
medida de aferição do mundo, ao passo que na camada 6 o mundo real se torna a medida do indivíduo.
Se não acontece a aquisição de uma habilidade específica que permita ao indivíduo agir objetivamente, ele se verá sempre como centro de tudo. É
fácil perceber a diferença que existe entre a pessoa que tem domínio sobre algo e a que não tem. Na execução de uma tarefa, a primeira se entrega de corpo
e alma, enquanto a outra fica se observando, numa espécie de espelho retrovisor, avaliando narcisisticamente o próprio desempenho.
É evidente que a plena capacidade individual é obtida somente quando o problema da auto-avaliação narcisista não está mais em jogo. O que agora
interessa ao sujeito é realizar algo objetivo, e não apenas sentir-se capaz.
Nesta camada o indivíduo se esforça para manter ou alterar a organização de sua vida, visando prioritariamente interesses e necessidades
pessoais. Tal atitude pode criar um conflito com o papel social que o indivíduo ocupa, revelando sua incapacidade de corresponder a esse papel.
Na camada 6, a fonte de sofrimento é um prejuízo objetivo, pois havia a pretensão de um resultado que se frustou; é um dano, não de ordem
psicológica mas real, muito embora o indivíduo da camada 5 considere seu dano tão real quanto o do indivíduo que não tem dinheiro para pagar o aluguel.
Mas se alguém ajuda a resolver o seu problema, ele fica satisfeito, pois não se considera mais em teste.

CAMADA 7 Situações e papéis sociais

Camada Divisiva. Adler, Honey e a escola culturalista em geral; psicologia da comunicação.


O mesmo indivíduo tem vários sub-egos ou subconstelações da personalidade conforme os seus vários papéis sociais exercidos. Temos que
distinguir as várias situações que o indivíduo vivencia, quais são os vários papéis, as diferentes subpersonalidades que cria para se adaptar a essas
situações, para não confundir meros papéis sociais com traços de personalidade ou de caráter.
A conquista do poder de fazer algo em particular e de defender nunca abrange a totalidade da existência. Somos capazes de fazer algumas coisas,
mas não a maioria delas. Precisamos dos outros e assim desenvolvemos, ao longo do tempo, um papel social que representa o conjunto de expectativas que
temos das realizações dos outros às nossas ações, e vice-versa. Trata-se portanto de um conjunto de reciprocidades.
O papel social abrevia a comunicação com as pessoas em torno, por exemplo, numa situação profissional, e também facilita a comunicação dentro
de uma linha predeterminada, para isso excluindo uma série de outras. Muitos comportamentos que seriam humanamente possíveis ficam ausentes de um
papel social específico. Como o papel social estabelece expectativas constantes sobre o comportamento, ele coloca a ação individual em um quadro de
reciprocidades. Isto se refere não somente aos papéis profissionais, mas igualmente aos papéis familiares.
O papel social legitima pretensões e permite respostas automatizadas, de acordo com a sua natureza. Porém, isto exige uma limitação. Se um
indivíduo que ocupa um papel passa a agir repetidamente fora dele, os outros ficam confusos, o que vai comprometer o sistema de respostas automáticas.
Reconhecemos que alguém incorporou um papel social somente quando as exigências desse papel são aceitas e assimiladas plenamente como
fonte de motivação. A partir daí, a organização da vida pessoal é feita considerando-se as expectativas dos outros. O objetivo não é mais atender apenas as
conveniências do indivíduo, mas sim aprimorar o seu papel social.
Muitas vezes a definição de um papel se torna difícil, como por exemplo, os papéis de pai e de mãe perante os filhos. As pessoas em geral não têm
claro o que é a estrutura familiar e portanto não entendem que os papéis de pai e mãe são primordialmente biológicos, isto é, o filho é um ser indefeso e os
pais seus defensores. Nesse sentido, os pais dispõem de autoridade absoluta nos pontos essenciais para a defesa da criança. Se os papéis se misturam, e
a mãe interfere em assuntos que não são de mãe e o pai interfere em assuntos que não são de pai, a criança termina desorientada.
Atualmente, todos os papéis estão confusos, de pai, mãe, filho, marido, mulher, etc. Quando uma sociedade não distingue os papéis dos indivíduos,
as relações entre eles vão se mostrar problemáticas, porque sempre será preciso explicações, sempre surgirão expectativas falsas, decepções, conflitos.
A convivência humana é marcada por uma distribuição de papéis, por expectativas mútuas e por um sistema de legitimidades, de direitos e deveres
recíprocos, cujo sentido correto indica que a cada direito equivale um dever alheio. Proclamar um direito, para um indivíduo ou para um grupo, é atribuir um
dever recíproco a um outro indivíduo ou a um outro grupo. A promulgação de um direito traz, assim, implicitamente um dever. Em todas as relações
humanas existe um sistema de expectativas mútuas, no qual a cada dever de um cabe um direito ao outro, e a cada direito de um incumbe um dever de
outro. A confusão dos papéis sociais ocorre quando a expectativa de direito de um não corresponde a deveres do outro, e vice-versa.
Após a conquista da habilidade, ou seja, do poder de se defender, que resulta da hierarquização seletiva, o exercício de um papel social representa
a sétima camada na construção da personalidade. A conquista de um poder efetivo, que se experimenta na camada 6, pode ou não se converter num papel
social. Os papéis sociais são delineados de maneira implícita, pois eles se baseiam e se consolidam no costume. Aquilo que sou capaz de fazer, se eu fizer
costumeiramente, as pessoas vão notar que eu faço e acabarão criando um sistema de expectativas em torno daquilo.
O casamento é um protótipo do papel social, e é o mais problemático de todos. O Dr. J.A. Müller afirmava que em geral o casamento atende a uma
constelação de necessidades muito diferentes entre si, que poderíamos relacionar com as camadas da personalidade. Em primeiro lugar, a atração física
mútua, que não ocorre entre quaisquer pessoas, pois tem um fundo hereditário marcante, e o teste de Szondi é revelador neste sentido. Entretanto, esse
dado não basta, pois duas pessoas podem sentir uma atração mútua, mas terem linguagens diferentes, culturas desiguais. Além disso, devem suprir as
necessidades afetivas nascidas das respectivas histórias pessoais. Por exemplo, o padrão de relacionamento entre um homem e sua mãe, e entre uma
mulher e seu pai, pode determinar, positiva ou negativamente, a necessidade afetiva a ser atendida. Do mesmo modo, os respectivos espaços vitais e as
possibilidades reais de ação devem ser coeridos de alguma maneira.

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Como o papel social de marido e mulher tem que responder a uma constelação de motivos que se originam em várias camadas da personalidade, é
desnecessário dizer que o casamento representa o setor de maior defasagem dos papéis sociais. É muito difícil preencher tantas exigências, mais ainda
quando a própria sociedade é obscura na distribuição dos papéis sociais. Por outro lado, a correta definição do papel social no casamento, que abrange a
totalidade da vida de uma pessoa, requer o conhecimento de necessidades e solicitações sublimadas, pertinentes à camada 4.
A definição do papel social se completa no casamento, que é um sistema de compromissos que abarca a totalidade do indivíduo, enquanto que os
demais papéis sociais solicitam dele apenas uma parcela. Em geral, os papéis sociais são limitados a uma linha de ação e participação, exceto o
casamento. Até mesmo a relação entre pais e filhos requer somente alguns aspectos do indivíduo, mas o casamento engloba tudo. Constatamos também
que determinadas empresas exigem quase que um casamento das pessoas que nelas trabalham.
Quando um sujeito assume um papel social, isto significa que ele nasceu, teve tendências hereditárias, passou por um aprendizado, vivenciou uma
história e conquistou seu espaço vital, onde selecionou certas áreas sobre as quais adquiriu um poder específico que lhe permite desempenhar um papel
social e ser reconhecido através dele. Assim podemos delinear uma vida. No entanto, o indivíduo pode ter atuado de maneira equivocada, não atendendo às
responsabilidades normais de sua posição. Quando alguém não assume o papel social que lhe cabe, comporta-se tal como um ator que entrou no palco
errado. Isso ocorre com enorme freqüência e transforma o sistema de direitos e deveres em fonte de inúmeras frustrações.
No processo de construção da personalidade, a conquista de um papel social definido, mesmo que insignificante, torna o sujeito consciente do que
está fazendo, permitindo-lhe inclusive saber qual a sua insatisfação com aquilo.
Os sofrimentos da camada 7 são relativos ao não cumprimento de expectativas mútuas. Qualquer pessoa, ao adquirir um papel social, espera ser
aceita e rejeitada, e que os outros ajam de acordo com a legalidade de sua posição. Se isso não ocorre, ou se o sujeito não corresponde ao papel que lhe
cabe, criam-se então duas fontes de sofrimento. A primeira pelo fato de se estar socialmente desorientado, e neste caso não houve entrada na camada 7; e
a segunda porque apesar de ter segurança sobre o lugar que ocupa, o indivíduo não encontra reciprocidade nos outros.
A inibição é intolerável no adulto, sob qualquer aspecto. Se a rejeição em colaborar é proveniente disto, o sujeito está impedido de atingir a camada
7, e portanto não poderá participar das atividades humanas. A inibição é um severo limite imposto à utilidade social da pessoa. Temos que estar prontos para
tudo que uma situação exige, temos que ser socialmente úteis para realizar a camada 7. Quando mostramos interesse em ajudar é que podemos nos tornar
alguém socialmente, sermos reconhecidos como membros da sociedade. Este é o prêmio da camada 7: ser aceito socialmente e considerado como igual
pelos demais indivíduos.
A defesa do papel social, da respeitabilidade social, é um elemento importante da camada 7, ou seja, cumprirmos o que é esperado de nós. O
sujeito que já está na camada 7 quer permanecer no lugar conquistado e ser reconhecido como membro do meio social. Desse modo, ele deve proceder a
todos os atos necessários para o desempenho do seu papel. Se falhar, isto significa que ele recusa aquele papel e, querendo outro, não pode ocupar espaço
indevidamente.
A camada 7 implica um desejo de aceitação; deseja-se ser respeitado, aceito e até amado, mas apenas como todo mundo. Aqui se trata de
reivindicar a cota pessoal dentro de uma divisão medianamente igualitária, sabendo que ninguém obterá mais do que isto.
Falhar no desempenho do papel social é um motivo de sofrimento para o indivíduo que realmente está na camada 7, porque neste caso ele tem
consciência de que não esteve à altura do seu dever.
O conceito de dever é fundamental na camada 7. É normal para quem alcançou esta camada entender que o cumprimento de um dever é uma
manifestação de amor. Por exemplo, um pai que trabalha para sustentar o filho, faz isto por amor ou por dever? É exatamente o mesmo, ou seja, é um dever
determinado por amor, e mais nada.
O cumprimento do dever é uma manifestação de amor pelos semelhantes. Em geral, as pessoas não pensam nesse aspecto afetivo do dever: se
deixarmos de fazer algo, vamos prejudicar um outro, que ficará infeliz.
A ênfase no conceito do amor de camada 4, que é um conceito muito primitivo, não ajuda as pessoas a se tornarem adultas e responsáveis. O
amor não é um sentimento. Quando amamos alguém, surgem todos os sentimentos possíveis na convivência. Basta isto para percebermos que o amor não
é um sentimento. Amor é uma atitude de fomento da existência do outro. É propiciar o fortalecimento do outro.
Entretanto, freqüentemente as pessoas não querem exercer o amor, mas apenas senti-lo, o que é um sinal de imaturidade, de perspectiva infantil,
doentia. Devemos compreender que uma atitude de amor exige satisfação na renúncia, em abdicar de algo em benefício do outro. Em suma, é limitar o
próprio espaço em favor do outro e gostar de fazer isso.

CAMADA 8 Síntese Individual

Camada Integrativa. Le Senne, Berger.

Síntese individual provisória em cada etapa de desenvolvimento, isto é, “perfil caracterológico” no sentido de Le Senne e Berger.
Se entendemos caráter não apenas no sentido das três primeiras colunas, mas como uma das nove colunas do teste de Berger, podemos dizer que
ele é uma somatória, uma síntese individual, que num dado momento fornece um retrato do indivíduo tal como ele está.
Nesse ponto, chegamos à noção de uma personalidade global pela primeira vez. Mas a personalidade não termina aqui - termina aqui apenas para
a média dos seres humanos, mas há pessoas que têm outras faixas da personalidade que não podem ser abarcadas pelos estudos descritos até o momento.
Essas pessoas têm um algo mais que as destaca.
A partir da sétima camada, nos deparamos com uma personalidade completa, quando então o indivíduo, após ter conquistado um papel social
definido, pode retroativamente olhar a trajetória de sua vida e fazer uma avaliação.
É no momento dessa somatória que o sujeito alcança um grau de estabilidade nas suas tendências, o que propicia um resultado mais ou menos
permanente no teste de Le Senne. Esse conjunto estabilizado das tendências individuais é o que Le Senne denomina caráter.
Para a astrocaracterologia, o caráter no sentido da camada I tem outra conceituação. A mesma palavra adquire um sentido diferente quando
referida à camada 8. Segundo Le Senne, o caráter consiste na estabilização das tendências que marcam a individualidade, não apenas fisicamente mas
abarcando também o papel social, as capacidades, o espaço vital, a história pessoal, etc. A totalidade dessas tendências se torna estável na maturidade,
sobretudo no tocante às tendências de base. O teste de Le Senne aplicado prematuramente pode apresentar um resultado variável em função de
acontecimentos, modificando o quadro das tendências.
No instante em que o indivíduo define seu papel social é que surge propriamente o caráter, no sentido que lhe atribui Le Senne. A personalidade
adulta, bem ou mal formada, é a expressão da oitava camada.
Uma vez assumido o papel social, a experiência repetida, o hábito, vai ajudando na consolidação das tendências de base. De todas as tendências
herdadas, algumas se manifestaram, enquanto outras foram neutralizadas. Mesmo que essas tendências tenham sido enfatizadas, dissolvidas, ou ainda
simplesmente esquecidas, isso persiste numa espécie de ebulição até a conquista de um papel social.
Nesse momento ocorre uma estabilização das tendências, de tal modo que se o indivíduo for retirado do seu papel social, essas tendências
subsistirão. É a isso que Le Senne chama caráter: o conjunto das tendências estabilizadas na idade adulta, portanto após uma assimilação dos papéis
sociais permanentes.
Quando se atinge a camada 7, isto é, quando a pessoa adquire um papel social, ela também define suas tendências, suas inclinações. Várias
pessoas podem ter um papel social similar, mas para cumprir as exigências dele decorrentes cada uma responde de uma determinada forma, que se torna
estável ao longo do tempo.
Le Senne afirma que os traços de base dificilmente mudam. Porém, ele acrescentou outros traços, como por exemplo, uma inteligência que pode
ser dispersa ou concentrada, no sentido de abranger uma multiplicidade de dados simultaneamente ou de captar uma linha especializada de raciocínio. Isso
consiste numa reação do indivíduo a alguma solicitação do mundo externo.
Os termos “concentrada” e “dispersa” não são usados no sentido patológico, quando o sujeito é incapaz de prestar atenção, mas no sentido do
conteúdo daquilo em que ele presta atenção: se é todo um horizonte de dados heterogêneos ou, ao contrário, é em algo específico. Disperso não significa
distraído, mas sim que o espectro de informação é amplo. O sujeito concentrado, no sentido de Le Senne, pode ser distraído no sentido patológico e vice-
versa.
A estabilização das tendências individuais coincide com a incorporação de um papel social, que atua como catalisador. O papel social concentra
um conjunto de exigências dentro de um sistema de regras de convivência com pessoas, com as quais se tem uma expectativa recíproca e pressuposta,
pois implica ações e reações costumeiras que criam um comportamento padronizado. Uma eventual falha no atendimento da expectativa indicaria uma
anormalidade, ao passo que a realização habitual dessa mesma expectativa não é sequer notada.
Os papéis sociais representam um sistema de expectativas costumeiras, que compõem o quadro de uma convivência legal, de modo que não se
pode admitir o descumprimento de uma expectativa.
Enquanto não se tem essa expectativa, quase que inconsciente, não é possível estabilizar tendências, porque o sujeito é obrigado a tomar muito
mais decisões do que aquele que já possui um papel social definido. A própria mudança de papel social requer adaptações sucessivas, que impedem a
consolidação das tendências.
Não há como, senão pelo hábito, fixar tendências. É por isso que o teste de Le Senne apresenta resultados diferentes conforme a idade e que
somente se mostram estáveis na maturidade. O caráter para Le Senne não é inato e sim produto de uma evolução que se estabiliza, semelhante ao
crescimento orgânico.

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Desde que o sujeito nasce até se tornar adulto, seu organismo sofre alterações, que depois se estabilizam. Se na evolução física há mudanças e
depois de uma certa idade não se muda mais, ou muda-se numa velocidade menor, igualmente na construção da personalidade há mudanças até um certo
momento. Daí em diante, em condições normais, essas mudanças cessam.
Quando o indivíduo atinge esse ponto, mesmo que troque de papel social, o caráter não se modifica mais, porque já adquiriu autonomia. Podemos,
então, constatar um modo próprio de agir que se consolidou. É aí que se percebe que o indivíduo tem uma personalidade formada, que não basta ele mudar
de emprego ou de cidade para mudar também de caráter. Após os trinta anos ninguém pode continuar sendo tão influenciável, e quando isto acontece é
porque evidentemente foi mal realizada uma camada anterior.
O papel social favorece a consolidação das várias tendências subjetivas. No entanto, a partir de uma determinada etapa da vida, tais tendências
não dependem mais do papel social, de maneira que, mesmo retirado do papel social, o sujeito permanece intacto. Caso isso não ocorra é porque não existe
ainda uma personalidade completa.
O sofrimento pertinente à camada 8 é o sofrimento do sujeito com ele mesmo. É típico do indivíduo maduro que, tendo percorrido todas as
camadas até conquistar um papel social e tudo o que este pode proporciona, termina por se perguntar: “o que eu fiz da minha vida?”
Supondo-se que uma pessoa tenha realmente obtido o que desejava, ainda assim ela pode revelar uma insatisfação consigo mesma. Para isto é
necessário olhar a própria vida como um conjunto. O que está sendo questionado não é somente o papel social, o espaço vital, a história afetiva, mas o
curso inteiro de uma existência. Em geral, as pessoas desconhecem este tipo de sofrimento até chegar aos 40 anos.
A capacidade de julgar a vida como uma totalidade, sem culpar ninguém, é assunto da camada 8. Aí se dá o confronto com o destino. O sujeito já
está individualizado, definido, sabe que sua personalidade e sua vida compõem um todo distinto, sabe que é autor de seus atos e que foram suas as
escolhas que fez, tenham sido certas ou erradas.
Uma pessoa que acabou de conquistar o seu papel , sendo aceito e respeitado no exercício dele, de repente vê um colega largando tudo porque
entrou numa crise de consciência. Como se poderia avaliar isso? Como distinguir o sujeito que está numa autêntica crise evolutiva e o que ficou maluco?
Em condições normais, o homem que está numa crise evolutiva não perde o papel social, mas apenas se posiciona em outro plano. Quando o
sujeito renuncia a um papel social para buscar algo que faça mais sentido para ele, os outros que têm um papel igual em geral o estranham. Uma mudança
no auge de uma carreira pode significar que o indivíduo tenha chegado ao limite das possibilidades oferecidas pela sua profissão. Porém, essa mudança não
é necessariamente profissional, é uma mudança de orientação. É mudar para mais e não para menos.

CAMADA 9 Personalidade Intelectual

Camada Divisiva. Pradines, Bergson, Koestler, heurística.


Personalidade Intelectual, superior; gênio; criação artística, estilo, etc.; “personalidade poética” no sentido de Croce, em oposição à “personalidade
empírica”.
Todo o mencionado até aqui é a personalidade empírica, a personalidade que o sujeito tem de fato, no decorrer de sua experiência. Começamos a
poder falar em obra e em personalidade a partir do momento em que esta personalidade empírica recebe uma valoração consciente em algum dos seus
aspectos, ou seja, onde o indivíduo percebe que alguns elementos de sua personalidade podem conter a afirmação de certos valores universais e passa a se
dedicar a realizar esses aspectos em particular.
A isso chamamos personalidade intelectual superior, e nem todo mundo a tem. Você tem a partir do momento em que quer e que procura
desenvolvê-la. A natureza leva o homem até certo ponto, cria nele determinados órgãos, mas há outros que é o homem mesmo que “inventa”.
Existe um “órgão” num Balzac ou Beethoven que não existe nas outras pessoas e que é o que Croce chama de personalidade poética - é o aspecto
criativo da personalidade, o qual, provindo da personalidade empírica, por vezes a engloba totalmente, tanto que os traços desta acabam sendo
neutralizados. Na verdade, são essas quatro últimas camadas - 9, 10, 11 e 12 - que aparecerão mais claramente no mapa astrológico, pois são essas que
terminam de expressar a personalidade. Só se a personalidade se expressar em todos os doze níveis é que pode ser estudada facilmente em suas relações
com o caráter, senão é apenas um estudo de possibilidades.
A partir do nível de conscientização representado pela camada 8, pode surgir uma nona camada, que na quase totalidade dos seres humanos não
surge. O normal é atingir a oitava camada e as demais ficarem apenas como potências.
Em princípio, qualquer ser humano tem potencial para prosseguir até a última camada, mas dependendo da vontade, do meio social e de outros
fatores, nem todos efetivam a camada 8, muitos nem a 7, e outros sequer a 6 ou a 5.
Na evolução normal do ser humano, é possível atingir até a camada 8. É nela que o indivíduo experimenta uma personalidade completa, podendo
ver sua vida como um todo, contar sua própria história e, de certo modo, julgá-la. A partir daí pode se desenvolver a camada 9, a qual denominamos
personalidade intelectual.
A personalidade intelectual começa no instante em que a chave do comportamento do sujeito é a realização de determinados fins da sociedade e da
cultura humana. Isso se situa para além da personalidade, no sentido corriqueiro do termo. A personalidade intelectual é, portanto, um aspecto que
ultrapassa a própria personalidade, embora não se expresse necessariamente numa atividade dita cultural.
O indivíduo conquista uma personalidade intelectual quando a solução de um problema, teórico ou prático, que se coloque à sua inteligência, seja
para ele mais importante do que a sua própria personalidade. É algo a mais a que o sujeito se dedica por lhe parecer relevante e que não está vinculado a um
papel social específico. Se este algo a mais se torna o centro da vida do sujeito, então ele tem uma personalidade intelectual, que procura servir
prioritariamente aos interesses da sociedade e da cultura.
No entanto, é perfeitamente possível o indivíduo estar envolvido com questões que transcendem a sua esfera pessoal e não ter personalidade
intelectual nenhuma, mas estar simplesmente atendendo necessidades de camadas inferiores. Por exemplo, qualquer ministro de estado, que não tenha
resolvido de modo original um problema enfrentado, não possui uma personalidade intelectual, no máximo alcançou a camada 7. Se ele apenas cumpre
burocraticamente o que se espera do seu papel social, está na camada 7.
O fundamental para a camada 7 seria corresponder às atribuições de um cargo, enquanto que para a camada 8 bastaria a satisfação de ter
realizado algo no qual veja sentido. Porém, se o indivíduo desenvolveu uma personalidade intelectual, isso jamais bastará. O que importa é se dentro do
papel social que exerceu, o sujeito se limitou às exigências dele decorrentes ou fez algo a mais do que estava obrigado a fazer. A diferença aqui reside na
ação.
A personalidade intelectual surge a partir do momento em que existe esse algo a mais, isto é, quando o indivíduo busca solucionar uma questão
que a sua própria inteligência coloca, e que se ele não o fizer ninguém à sua volta notará. É uma espécie de consciência a mais que ele tem, de um dever
para com os fins da cultura, da sociedade, da existência humana, tal como este indivíduo os interpreta. É algo que ultrapassa o interesse pessoal ou o papel
social.
O sujeito que cumpre o seu dever, como outro cumpriria no lugar dele, está meramente atendendo a um papel social. Ele não precisa sequer julgar
esse papel, porque se assim proceder já entra na camada 8. A partir daí, existe um ponto onde o indivíduo pode dar uma contribuição pessoal a algo que o
transcende.
Quando o indivíduo desenvolve uma personalidade intelectual e passa a agir em função dela, todos os que estão abaixo dele não conseguem
compreender que a motivação, neste caso, é decorrente de uma necessidade interna, que extrapola o papel social, o interesse financeiro e o desejo de auto-
afirmação.
Podemos explicar as ações de um sujeito em função das camadas 4, 5 ou 6, mas existem pessoas cuja comportamento escapa ao comum. De
modo contrário, podemos também atribuir ao sujeito motivações complexas quando ele está simplesmente procurando atender necessidades infantis.
A tendência dominante é optar por interpretações depreciativas, porque à medida que a informação se difunde, é de se supor que um número cada
vez maior de pessoas pouco educadas utilizem os meios de expressão que antes ficavam restritos a pessoas de nível mais elevado. Atualmente não é
preciso ascender até o nível de intelectualidade suficiente para se exercer uma profissão, o que provocou o surgimento do que podemos chamar de
proletariado intelectual.
A difusão da cultura é bastante dúbia: por um lado possibilita que indivíduos adequadamente dotados, mas que não dispõem de recursos materiais,
dela se beneficiem, embora, por outro lado, permita que os indivíduos sem nenhum talento se dediquem a atividades intelectuais.
O ideal seria uma escolha rigorosa, tal como se fazia no antigo sistema do letrado chinês. O acesso ao ofício de letrado na China era independente
da classe social, baseando-se apenas na capacidade individual. Hoje em dia, para eliminar o princípio injusto da seleção econômica, criou-se a falsa
expectativa de que todos, sem distinção, podem se tornar intelectuais ou cientistas.

CAMADA 10 Eu transcendental

Camada Divisiva. Kant, Husserl, Berdiaeff, Gusdorf, Caruso.


Eu transcendental, responsabilidade moral, livre-arbítrio, etc.
O problema da personalidade moral só se coloca a partir do momento e que o sujeito tem uma personalidade intelectual, pois é a personalidade
intelectual que vai destacar no indivíduo a idéia do valor universal como algo que existe para nós. Sem isso, como poderíamos julgar moralmente nossos
atos? Abaixo de um certo nível de integração da personalidade que permita a eclosão dessa personalidade intelectual superior, a rigor podemos dizer que os
atos do sujeito são moralmente irrelevantes - isto no sentido da moral kantiana, não da moral social, pois seus atos têm influência sobre os outros.

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O problema moral de que falamos surge quando, concebendo que existem valores universais em si, que lhe cabe realizar, o indivíduo se recusa a
fazê-lo. Mas como exigir isso daquele que não tem uma síntese individual formada, de um indivíduo que ainda está se desenvolvendo dentro da mentalidade
coletiva e que, quando erra, erra junto com os outros?
A décima camada significa o indivíduo que concebe a si mesmo como representante da espécie humana, como ser dotado de autoconsciência e
responsável por todos os seus atos. É, em suma, o “eu transcendental”.
Na camada 10 o indivíduo observa-se de um ponto de vista tal que qualquer outro ser humano, no seu lugar, teria a obrigação de se encarar
daquela forma. Aí está o homem perante a razão, perante suas faculdades superiores, detentor da capacidade de avaliar a racionalidade dos seus atos em
termos absolutos.
Sócrates, ao discutir, sabia que as condições de veracidade que existiam para ele eram iguais as que existiriam para qualquer outra pessoa,
porque o pensamento dele expressava a autoconsciência da sua própria universalidade.
A camada 10 representa a conquista de um papel definido dentro da hierarquia da humanidade. Estar nesta camada é estar permanentemente tendo
consciência intelectual da universalidade de todos os atos. Consciência de que o animal racional, em geral, deve agir assim nesta ou naquela circunstância.
Os atos adquirem, então, uma significação universal, embora não um alcance universal.

CAMADA 11 Personagem

Camada Integrativa. Dilthey, Weber, Waelon.


No sentido estrito em que o termo “personagem” é usado em astrocaracterologia: o indivíduo perante a História, a civilização, a humanidade.
Na medida em que tenha uma personalidade intelectual superior e um eu transcendente capaz de se sobrepor a toda a sua existência e julgá-la, no
momento em que alcança este ponto, de poder julgar sua existência e seus atos como se estivesse acima de si, é que o sujeito presta satisfação de si
perante o tribunal da humanidade, da História.
O plano da universalidade, o pensar apodíctico são elementos de camada 10. Encontramos aí uma teoria universalmente válida, mas agir de
maneira universal já é algo diferente. A próxima etapa seria julgar a totalidade da vida face às ações realizadas e às conseqüências delas para a
humanidade.
Atingir uma certeza, com objetividade, ainda não atribui sentido histórico aos atos do indivíduo. É como se ter uma universalidade, porém, teórica.
A camada 11 representa a ação individual no conjunto da história. Não importa se as ações são grandes ou pequenas, pois o fundamental aqui é
saber exatamente onde o indivíduo está situado, não apenas enquanto animal racional, mas dentro da História como um todo, dentro do processo de
evolução da espécie humana.
Quando o indivíduo conquista um papel histórico, sua ação é julgada pela humanidade, alcançando então uma dimensão global.
O protótipo da camada 11 é a figura de Napoleão Bonaparte. Ele pretendia descobrir até onde seria possível chegar o poder de um indivíduo a ponto
de mudar o curso da História. Se formos estudar sua biografia não o compreenderemos procurando explicá-lo segundo motivos de camadas anteriores.
Quando se age em função de fins históricos, age-se em função de algo que não existe ainda, o que implica que essa ação não pode ser avaliada
nem pelo seu conteúdo social nem pelo seu proveito prático, porque está acima disto. Somente encontraremos a chave do comportamento se subirmos mais
alto. Aí sim, os atos se unificam e adquirem uma forma completa.
Napoleão não tinha nenhum plano determinado para executar e este é o seu traço característico: a absoluta inexistência de um espírito de missão.
O que ele possuía era um espírito de tentativa que o levou a experimentar a liberdade humana e a força do indivíduo até onde lhe foi permitido. Napoleão
buscou direcionar isso no sentido do bem, tal como ele o entendia.
Não cabe definir Napoleão nos termos de um simples desejo de poder, o que em inúmeros casos é um dado irrelevante face à História. No entanto,
alguns personagens deixam uma marca e os que sabem qual é essa marca, e qual o julgamento que a História fará deles, atingem a camada 11.
Napoleão tinha consciência de haver alterado a História de modo indelével, o que raros homens conseguiram. Isso não é decorrência da quantidade
de poder acumulado, que posteriormente pode ser apagado ou revertido. Pode inclusive ocorrer um engano trágico, quando os efeitos das ações se tornam
exatamente o contrário do imaginado.
Na camada 11 o sujeito se posiciona como uma peça da História, que num momento específico, com certeza plena, realiza determinadas ações
que vão modificar o rumo da coletividade humana.
Não há espaço para todos na camada 11. A própria natureza é hierárquica do início ao fim. Não há democracia natural, porque é evidente que as
pessoas têm graus diferenciados de saúde ou de inteligência. O que realmente se constata é um processo seletivo, embora seja difícil admitir que existam
indivíduos melhor dotados do que outros.

CAMADA 12 Destino final

Camada Divisiva. Psicologias místicas tradicionais; Paul Diel, Victor Frankl.


Destino final: o indivíduo perante Deus; o sentido e o valor da vida, etc.
As psicologias místicas tratam fundamentalmente do sentido da vida do indivíduo, do indivíduo perante sua responsabilidade moral última, algo que
está acima do personagem, algo que a humanidade mesma não sabe. É fundamentalmente o indivíduo como Homem Universal, como Cristo, como pastor e
responsável pela humanidade inteira.
A camada 12 consiste na ação do indivíduo em função do propósito último de todas as coisas. Para Gandhi - que é um protótipo da camada 12 -
somente interessa a relação dele com uma finalidade que transcende a vida biológica e a vida da espécie humana. Quando ambas acabassem, sobraria
Deus, e é esperando por esse momento que se norteia a sua ação.
No caso de Gandhi, nem mesmo o objetivo político explica o seu comportamento, pois ele não aceitava a independência da Índia em quaisquer
termos, colocando exigências morais muito acima do que os seres humanos costumam imaginar. Gandhi agia exatamente ao contrário do raciocínio político,
apelando para o centro da questão e oferecendo como garantia não apenas sua própria vida, mas seu destino “post-mortem”.
Na camada 12 todas as ações são pautadas pela seguinte regra: “o que Deus vai achar disto?” Tal é o sujeito que, de acordo com a Bíblia, caminha
diante de Deus e sabe o que Ele está pensando. Normalmente, mesmo uma pessoa excepcional não submete todos os atos a esse critério. O confronto com
Deus pressupõe que o homem seja capaz de conceber cada ato seu sob um prisma eterno.
Se temos uma decisão a tomar, podemos fazer isso ou aquilo por razões de camada 5 - isto me fortalece, eu me sinto mais autoconfiante; de
camada 6 - vai dar resultado; de camada 7 - é um dever que me compete; de camada 8 - isto tem lógica dentro da minha biografia; de camada 9 - é isso o
que o dever da inteligência impõe. Até a camada 9 está presumida a existência do mundo, pois que sentido faria agir segundo um proveito prático se tudo
fosse acabar amanhã?
O atendimento do dever referente a um papel social pressupõe a existência de pessoas que tenham uma expectativa em relação ao ocupante
desse papel. Agir em função da coerência da própria biografia, pressupõe que esta deva continuar. Agir visando objetivos ditados pela cultura, pela
inteligência, pressupõe que hajam fins realizáveis dentro do prazo de uma existência histórica. Porém, se o indivíduo age exclusivamente em função de um
final, ele está agindo precisamente em função da inexistência de um mundo em torno. Com ou sem mundo, ele agiria da mesma maneira. Os atos adquirem
então um significado supratemporal, supra-histórico, ou seja, eternamente o homem deveria agir assim, antes de existir o mundo ou quando este deixar de
existir. Aqui a ação é tida como a expressão direta de uma qualidade divina que prescinde da existência do mundo.
Qualquer pessoa que crê em Deus eventualmente procede inspirada no eterno, muito embora seja difícil compreender alguém que age assim
permanentemente, tal como Gandhi, para quem devemos usar uma outra chave de comportamento. É como se ele soubesse o que Deus quer, como se
conversasse com Deus o tempo todo. Um homem santo realizado age em função do sentido eterno da existência, não tem outro motivo, sequer a História.
Na camada 12 as ações do indivíduo parecem por demais complexas e enigmáticas. Para se entender as ações de um santo só acreditando nele.
Aí então tudo se encaixa, começamos a perceber uma coerência, um princípio explicativo das ações. Isso ocorre independentemente de motivações
vocacionais que tenham surgido no curso da biografia, relativas às camadas anteriores, que podem ter contribuído para colocar o sujeito numa determinada
via, mas não bastam para esclarecer o desenrolar da sua história.
Podemos falar de santidade apenas quando a relação do indivíduo com um Deus eterno é que motiva cada um dos seus atos. Não somente atos
acidentais, mas todos, um por um, não existindo um único ato que se possa explicar fora desse diálogo. Com quem o sujeito conversa, a quem ele
responde? Se apagarmos essa conexão, a vida dele se torna uma coleção de atos sem sentido. Existem indivíduos que já nascem na camada 12, tanto que
ao passarem pelas que a antecedem elas vão sendo absorvidas rapidamente.

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CRITÉRIOS DE RECONHECIMENTO

As camadas fluem sucessivamente na medida em que o sujeito evolui, absorvendo os elementos contidos na camada anterior e os direcionando
segundo um outro princípio unificador, que lhe indica uma nova fonte de motivações, ou seja, uma nova chave de explicação dos atos. Por exemplo, a
defesa, preservação, aquisição ou abandono de um papel social implica motivações diferentes daquelas que saem das camadas que antecedem a sétima.
Não se saltam camadas nunca, mas pode ocorrer a pseudo-passagem de uma camada à outra, quando o indivíduo já está ocupado de assuntos da
camada seguinte, mas o motivo de sofrimento dele ainda se reporta à camada anterior. Não houve portanto uma conquista efetiva, mas apenas uma falsa
extensão, porque a chave do comportamento não mudou. Todo indivíduo só sai de uma camada quando esta deixa de ser problema, ou seja, quando ele
enfrenta um problema pior e o seu sofrimento passa a ter outro motivo. Isso não pode ser avaliado externamente, apenas o próprio sujeito é quem sabe, ou
então quem o observa por um longo tempo.
O desajuste de motivação fica claro quando, numa camada, continuamos agindo conforme motivos pertinentes às camadas anteriores. Seria o
mencionado caso de um sujeito exercer um papel social, que representa a sétima camada, de acordo com sua economia orgânica exclusivamente, que é um
motivo da sexta camada. Dessa maneira, ele não tem papel social nenhum ou está no papel errado.
Não existe regressão de camada, a não ser em casos patológicos, como demência senil, lesão cerebral, etc. Se o sujeito regride é porque, na
verdade, nunca esteve naquela camada. Trata-se de uma pseudo-ocupação de camada, o envolvimento com assuntos da camada seguinte, quando a chave
do comportamento encontra-se na camada anterior. É uma performática, uma inflação: o indivíduo inchou, mas não ocupou realmente o espaço. Ele é como
um balão vazio.
É importante perceber que para um indivíduo situado numa determinada camada, as motivações das camadas seguintes parecem abstratas e
inverossímeis. Como é que uma criança, que se esforça para atrair a atenção, o carinho do pai e da mãe, poderia imaginar que alguém desejasse o
contrário, ou seja, ficar sozinho, abandonar pai e mãe? Uma criança sabe que o adolescente tem algo que ela não tem, mas não sabe direito o que é. Do
mesmo modo, o indivíduo que está se colocando em teste e que precisa aferir o próprio valor, a extensão do seu poder, não pode conceber que alguém se
dedique a algo sem nenhum interesse por uma recompensa subjetiva.
Só nos é possível compreender quem está na mesma camada que nós ou nas inferiores. Os outros, seria melhor não tentar explicá-los. Nas
camadas superiores as motivações do sujeito são muito complexas, pois ele está vivendo num plano onde aquilo que para nós é decisivo, para ele
simplesmente não existe. O indivíduo cuja personalidade ainda está se definindo segundo o molde do papel social, dificilmente poderá entender as
preocupações de ordem puramente pessoal de quem revê a própria vida, questionando inclusive o trabalho, o papel social, etc.
Para sabermos em que camada um indivíduo está, devemos detectar o motivo real do sofrimento dele, o que de fato representa problema para ele.
Em qualquer etapa, podemos nos deparar com um bloqueio ou mesmo com a impossibilidade de transpor uma camada para alcançar a seguinte. Cada
camada expressa um princípio de organização da vida por inteiro, absorvendo os elementos contidos na camada anterior e dando-lhe uma nova forma e uma
nova direção.
A pergunta decisiva é: onde dói? Dói na camada onde se está. Aqui nos referimos ao sofrimento psicológico. No entanto, pode ocorrer um
sofrimento objetivo, como no caso do indivíduo sofrer um estreitamento do seu espaço vital desde fora. Numa sociedade que não admita a liberdade de
expressão, esse estreitamento é externo e fará o indivíduo sofrer em função de uma exigência legítima de sua camada 5, mesmo que esteja na décima
camada.
Podemos sofrer em qualquer camada, até nas mais inferiores, sem que estejamos vinculados a elas. Tudo depende de verificar se existe um
impedimento externo real. Para um homem de quarenta anos sofrer na camada 5, embora esteja na 7 ou na 8, só é possível se for um sofrimento muito
grave, porque normalmente se não podemos ampliar o espaço vital para um lado, ampliamos para o outro.
Aquilo que se quer fazer, mas não é objetivamente viável, representa um conflito com o mundo, e isto não é psicológico. Quando o indivíduo não é
reconhecido no papel social que desempenha, isto é um motivo de sofrimento, mas não de causa psicológica.
Pode também acontecer uma privação externa de necessidades elementares. Uma pessoa excepcionalmente odiada sofrerá na camada 4, mesmo
sem nela estar. O sujeito que trabalha e não ganha o suficiente sofre uma privação de meios, e isto é assunto de camada 6. Em ambos os casos, a
modificação da situação externa resolveria o problema. Quando o sujeito revela alguma inibição (camada 5), como vergonha ou medo, isto provém dele
próprio, o que é diferente do impedimento externo. Em contrapartida, existem pessoas que nunca encontram chance de mostrar o que podem, ainda que
saibam fazer o suficiente na profissão que escolheram. Isso não é uma incapacidade interna, e sim mera falta de oportunidade.
Apesar de existirem casos de limitações externas concretas, na quase totalidade das situações o que se constata são impedimentos internos que o
indivíduo não consegue superar. A carência afetiva, por exemplo, geralmente é uma carência internalizada que vem de uma outra época. O sujeito,
entretanto, continua agindo com referência ao passado, embora não haja mais, de fato, aquela necessidade e portanto não adianta tentar satisfazê-la
retroativamente. É justamente para isso que servem as psicoterapias, as quais simulam uma situação em que pseudo-necessidades serão pseudo-
atendidas.
A necessidade de expressar uma agressividade de vinte anos atrás, para uma pessoa que não está mais presente, não pode ser aceita como uma
necessidade efetiva; ela é meramente simbólica. É preciso, então, montar um psicodrama, um teatro que atenda a imaginação. Isto não pode ser feito no
cotidiano, se bem que freqüentemente possamos observar pessoas se comportando em geral como se estivessem numa situação de psicoterapia.
Como a psicologia foi criada para suprir necessidades simbólicas, ela é a única solução para quem fica retido na camada 4. Já na camada 5, é
possível tirar dúvidas relativas ao poder pessoal reconstituindo uma circunstância, mesmo que tenha transcorrido muito tempo.
A diferença entre camada da personalidade e casa astrológica é esta: o sujeito vivencia os assuntos de várias casas, mas está localizado numa só
camada determinada. Por exemplo, um sujeito pode estar na camada 4, mas preocupado em ganhar dinheiro, em definir uma profissão, etc.

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APÊNDICES
1. PLANO DO CURSO DE ASTROCARACTEROLOGIA

Programa da parte prática, a qual corresponde ao primeiro ano.

Síntese inicial

1. Generalidades sobre astrocaracterologia


2. Estudo descritivo de um horóscopo
3. A eficiência e as razões da astrocaracterologia

Estudo analítico:

Seção I — Conceito e distinções preliminares


1. Tipologia, caracterologia, astrocaracterologia
2. O caráter enquanto forma da individualidade
3. Distinção entre a forma e os conteúdo:
a) Caráter e destino
4. Distinção entre a forma e os conteúdos:
b) Caráter e tendências
5. Distinção entre a forma e os conteúdo:
c) Caráter e hábitos
6. O caráter como uma das causas do comportamento, e como distingui-lo
das demais causas
7. Noções preliminares de caracterologia prática

Seção II — Estrutura do Caráter

1. Componentes do caráter
a) As Faculdades
2. Componentes do Caráter
b) As direções da atenção
3. Lei da reciprocidade das faculdades e direções
4. Irredutibilidade do caráter
5. Multiplicidade de expressões do caráter, segundo os
fatores extra-caracterologia
6. Correspondências astrológicas das faculdades e direções

Seção III — Estudo das faculdades:


A — A INTELIGÊNCIA EM GERAL
1. Natureza da inteligência humana
2. Distinções entre a inteligência e outros faculdades
cognitivas
3. Gênese da inteligência, no indivíduo e na espécie

Seção IV — Estudo das faculdades


B — INTUIÇÃO E RAZÃO

1. Posição do problema
2. Intuição e razão segundo Aristóteles e a Escolástica
3. Intuição e razão segundo Descartes e Espinosa
4. Intuição e razão segundo Kant
5. Intuição e razão segundo Bergson
6. Intuição e razão segundo Croce
7. O domínio próprio da razão
9. Razão e raciocínio
10. Distinções sobre a intuição
11. O Problema da “intuição intelectual”

Seção V — Estudo das faculdades:


C — A INTUIÇÃO

1. Correspondência Astrológica Da Faculdade Intuitiva


2. Teoria da tripla intuição originária
3. Diferenciação individual das formas de intuição
4. Estudo detalhado do sol nas doze casas astrológicas
5. A intuição como origem das demais faculdades
6. Estímulos e Obstáculos ao pleno uso da faculdade intuitiva

Seção VI — Estudo das faculdades:


D — A RAZÃO

1. Gênese da razão no indivíduo. Correspondência astrológica


2. Desenvolvimento da razão
3. Experiência e generalização
4. Origem dos traumas cognitivos
5. Correção dos traumas cognitivos
6. Diferenciação da razão em tipos individuais
7. Estudo detalhado de Saturno nas doze casas

Seção VII — Síntese do tipo intelectual


E — A VONTADE EM GERAL

1. Natureza da vontade
2 Distinções e esclarecimentos
3. Vontade e liberdade
4. Vontade e inteligência
5. Vontade e impulsividade

Seção IX — Estudo das faculdades:


F — A VONTADE PURA

1. Sua natureza e sua correspondência astrológica


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2. Diferenciação individual das formas da vontade


3. Estudo detalhado de júpiter nas doze casas

Seção X — Estudo das faculdades:


G — A REATIVIDADE

1. Sua natureza e sua Correspondência astrológica


2. Paralelo com a faculdade de estimativa
3. Relação com a vontade o pura
4. Diferenciação individual das forças da reatividade
5. Estudo detalhado de Marte nas doze casas

Seção XI — Síntese do tipo volitivo

1. Dinâmica de Marte e Júpiter no horóscopo


2. Estudo de alguns dos 144 tipos volitivos

Seção XII — Estudo das faculdades:


H — A AFETIVIDADE EM GERAL

1. Do afeto à percepção
2. O liminar da cognição
3. Afetividade e valor — aspecto cultural da efetividade
4. Diferenciação entre a forma e conteúdo da efetividade
5. Como o conteúdo da efetividade pode ser influenciado por
fatores exógenos, mas não a forma

Seção XIII — Estudo das faculdades:


I — O SENTIMENTO PURO

1. Sentimento e sensação
2. Caráter passivo do sentimento, e sua dependência da memória
3. Sua correspondência astrológica
4. Diferenciação das formas individuais do sentimento
5. Estudo detalhado da Lua nas doze casas
6. Forma e conteúdo do sentimento

Seção XIV — Estudo das faculdades:


J — A FANTASIA

1. Fantasia memorativa e imaginativa


2. Aspecto afetivo e aspecto cognitivo da fantasia
3. Fantasia como passagem do sentimento a intuição
4. Correspondência astrológica da fantasia ou imaginação
5. Estudo detalhado de Vênus nas doze casas

Seção XV — Síntese do tipo afetivo


1. Relações entre sentimento e fantasia
2. Estudo de alguns dos 144 tipos afetivos

SÍNTESE FINAL

1. Estudo completo de alguns horóscopos de exemplo


2. Técnica da exposição oral e escrita do diagnóstico
3. Esclarecimento e advertências
4. Valor e limites da astrocaracterologia
5. Exercícios e provas

O segundo ano será ocupado pela exposição dos seguintes tópicos:


1. Questões teóricas: fundamentos cognitivos do simbolismo astrológico; estatuto epistemológico da astrologia; exame crítico de algumas
tentativas recentes de dar fundamentos científico à astrologia; o uso do método científico em astrologia; relações entre astrologia e esoterismo, etc.
2. Elenco de pontos obscuros e duvidosos que necessitam de pesquisa mais aprofundada para seu esclarecimento. Isto é: possibilidades de
desenvolvimento da Astrocaracterologia, que eventualmente poderão ser realizadas pelos alunos.
3. Astrocaracterologias especiais, isto é, modificações da técnica astrocaracterológica para sua aplicação a diferentes domínios, por exemplo:
psicopatologia; pedagogia; estudos literários; história e biografia, etc.

No encerramento do primeiro ano, o aluno dever apresentar dos Estudo de Casos, demonstrando domínio da técnica astrocaracterológica; no
encerramento do segundo ano, uma monografia sobre um dos tópicos lecionados, demonstrando domínio das questões teóricas pertinentes.

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2. ASTROLOGIA : CIÊNCIA E ILUSÃO — PLANO DA EXPOSIÇÃO

1 — O objetivo do curso: formular os requisitos para que a astrologia se torne uma ciência no sentido rigoroso do termo.

2 — Conceito de ciência — Saber sistemático e fundamentado. sistemático: estruturado de modo que as partes se exijam e se apóiem.
Fundamentado: que satisfaça às exigências da crítica racional; se possível, plenamente demonstrativo e evidente; no mínimo, apoado numa demonstração
suficiente.
a) demonstração lógico-analítica;
b) demonstração geométrica;
c) indução
d) prova dialética.

3 — Primeiro requisito: demonstração da necessidade (legitimidade) da nova ciência; portanto, sua definição, que exige:
a) designação do seu objeto material;
b) designação do seu objeto formal;
1. Formal-motivo
2. Formal-terminativo.

4 — Definição de astrologia: é a ciência que estuda as correlações entre as configurações celeste e os eventos terrestres (naturais e humanos).

5 — Definição de fato astrológico: a exitência comprovada de um correlação QUALQUER entre uma configuração celeste determinada e um evento
terrestre-ou conjunto de evento — determinados.

a) Exemplos de fatos astrológicos:


1. a correlação entre configurações astrais no nascimento dos indivíduos e a sua escolha de profissão; esta correlação foi estabelecida
estatisticamente por M. GAUQUELIN.
2. A correlação entre configurações celeste (particular-mente conjunções planetárias) e o comportamento químico de metais em estado coloidal;
estabecida por KOLISKO.
b) Importância do fato astrológico:
1. a correlação estre eventos celestes e terrestres, enquanto tal, não atualmente objeto de nenhuma ciência; a comprovação de sua existência
estabelece portanto um objeto material que, por si só, justifica suficientemente a reivindicação de uma ciência particular e distinta para estudá-lo; esta
ciência é a astrologia.
2. Muitos astrólogos parecem crer que a simples comprovação laboratorial ou estatística, do fato astrológico, basta para dar um caráter
científico á astrologia. Ingenuidade (ou talves esperteza demais). a simples comprovação da dos da biologia e legitimar todos os seus resultados? Essa
pretensão descomedida desqualifica os astrólogos perante o juízo científico maduro.
3. O objeto material comprovado justifica a legitimidade de uma nova ciência, mas não — ainda — os seus métodos nem os seus resultados.

6 — Esclarecimento sobre a profissão de astrólogo — A quetão da legitimidade da astrologia enquanto ciência não se confunde com da sua
legitimidade enquanto profissão. A legitimidade de uma profissão independe de seu caráter científico ou não-científico, e os astrólogos agem contra seu
própria interesse ao alegarem a cientifidade da astrologia como argumento em favor da profissão. O direito à profissão não tem de satisfazer a uma prova
tão dura; ou acaso todas as profissões legítimas são científicas? a exigência é desnecessária.
7 — Primeira consequência da definição de astrologia — A astrologia parte de dados astronômicos (configuração celeste) e os compara com
eventos terrestres. Portanto é sempre uma ciência comparativa. Nessa comparação, um dos elementos — a astronomia — permanece constante, enquanto
o outro — os eventos terrestres — são em multidão indefinida, o que exige uma seleção em cada caso. Astrologia é sempre astronomia comparada com
alguma coisa.
8 — Segunda consequência — Como os eventos terrestres são em multidão indefinida, sua divisão em compartimentos coincide com a divisão das
seções do saber, isto é, com o sistema das ciências. A astrologia não compara a configuração celeste com os fatos terrestres indefinidos e brutos, mascom
os fatos terrestres já distintos, formalizados e organizaçdos por alguma ciência. Por exemplo, o estudo da relação entre os astros e o caráter humano é
astronomia comparada à psicologia ( o próprio conceito de caráter já é uma elaboração da psicologia); o estudo da relação entre os astros e os eventos
políticos é uma comparação entre astronomia e história, ou ciência política, ou sociologia, dependendo de esquemas e conceitos jà prontos nesta ciências.
Este ponto, de fundamental importância, parece ter escapado a todos os teóricos da astrologia: a astrologia não estuda fatos brutos, mas compara esquemas
conceituais prontos. É necessariamente — não no seu objeto material, mas no seu objeto formal-motivo — uma ciência de segunda potência, uma ciência da
ciência, donde ressalta a necessidade de delimitar artificialmente (logicamente) o seu objeto e campo.
9 — Terceiro consequência — Tantas quantas forem as divisões de ser do saber que a astrologia compara com os dados astronômicos, tal será a
extensão da necessária e inevitável variedade de métodos dessa ciência. Para cada tipo de evento comparado, há um método. A astrologia é um ponto de
vista astronômico lançado sobre cada ci6encia em particular, diversificando-se segundo os objetos e métodos das várias ciências.
10 — Quarta Consequência. — A questão do sistema das ciências, da organização do saber, interessa diretamente á constituição científica da
astrologia, que dela depende para poder delimitar suas próprias subdivisões internas. Astrologia e epistemologia são, inevitavelmente, irmãs siamesas.
Obs. — Não foi à toa que, em diversas épocas e lugares, o modelo astrológico das esferas nplanetárias e dos signos serviu de padrão para a
estruturação segundo as afinidades planetárias (“signaturas”) dos vários tipos e graus do saber. Cf., por exemplo, o sistema planetário das Artes Liberais
(uma exposiçãosumária se encontra no Convívio de Dante Alighieri), ou o das ciências religiosas no sufismo de Mohieddin IbnArabi (na Alquimia da
Felicidade Perfeita). Estas correspondências parecem ultrapassar a esfera da simples analogia de atribuição extrínsica (metáfora) e penetrar no campo das
homologias estrururais rigorosas entre a esquemática cognitiva humana e a “forma do céu”. Plantão chegava dizer que os movimentos dos astros no céu são
o padrão por excelência da organização da inteligência, que por eles deve regrar-se. Este é um dos aspectos mais elevdos e difícieis da questão
astrológica; já o tendo estudado em outras ocasiões (p. ex. em Astros e Símbolos, Cap. II), no presente curso não há tempo de falar mais a respeito.
11 — Ciência não é apenas coloção de fatos, nem mesmo organização de fatos, mas hierarquização explicativa (em certos casos, somente
interpretativa, mas visando sempre a uma explicação futura). Delimitando o objeto e o âmbito, a astrologia propriamente dita começa com a formulação da
teoria astrológica, isto é, do sistema de hipóteses explicativas do fato astrológoco. A teoria tem de ser ao mesmo tempo:
a) geral — teoria geral das correspondências entre configugurações celestes e eventos terrestres tomados na sua totalidade.
b) especial — discernindo as várias correspondências, conforme se diversifiquem nos vários campos do evento terrestre (daí a interferência da
epsistemologia).
c) particular — discernindo as condições dessa correspondência para cada ente singular a ser estudado.
12 — Teorias gerais da correlação astrológica. — Ao longo da histáoria, surgiram muitas teorias para explicar a correlação entre eventos celestes
e terrestres. Vou agurpá-las, provisoriamente, segundo três linhas básicas:
a) Teoria causal. — Defendida prioriamente por Sto. Tomás de Aquino (v.meu curso A Astrologia segundo Sto. Tomás de Aquino).
b) Teoria da interdependência universal. — Encontra-se, por exemplo, nos escritos de Plotino, de Jacib Boehme e outros esoteristas. Partindo da
idéia do universo como um todo vivendo, único, autoconsciente, estabelece elos e correspondências entre todos os níveis e fenômenos da manisfestação
universal através de uma rede mantida pelas leis de analogia, simpatia, contraste, etc. Explicação sultilíssima, e que depende de pressupostos metafísicos.
NB — Estas duas teorias não se excluem, mas se complementam. apenas a teoria da interdependência se detém ao nível das correspondências
universais, ao passo que Sto. Tomás pretende avançar um passo na linha explicativa.
c) Teoria do sincronismo. — Defendida, sob diversas cores e formas, por M. Gauquelin, por C.G. Jung, pelos cosmobiologistas soviéticos, etc.
13 — Nota sobre a teoria causal. — Admite os movimentos celestes como causa dos eventos terrestres.A versão clássica de Sto. Tomás,
distingue-se por:
a) estabelecer o caráter físico da influência astral;
b) deter-se ao nível de causa formal dos eventos terrestres, sem determinar a causa eficiente.
Há outras versões da mesma teoria, procurando determinar a causa eficiente, sobretudo na ordem física. Destas teorias, podemos destacar:
a) teoria energética ou das radiações astrais: foi defentida, por exemplo, pelo físico argentino Lívio Vinardi (que depois a colocou a perder ao
misturá-la a considerações ocultistas absolutamente despropositadas, o que em nada empana o brilho de suas investigações iniciais).
b) teoria gravitacional, contra a qual pesam graves objeções da ci6encia física.
c) teoria simpatética, que afirma a influência — ainda energética — dos astros sobre os minerais, e particuparmente os metais. Defentida por
Steiner com base em Kolisko, mas misturada a razões extraídas da teoria da interdependência.
d) teoria da ressonância magnética de P. Seymour.

14 — Nota sobre a teoria da interdependência — Subdivide-se numa multidão de espécies, das quais destacarei:
a) teoria clássica de Plotino, fundade nos princípios da cosmologia gnóstica, a ser portanto reestudada. Afirma a interdependência como lei
cósmica objetiva.
b) teoria da interação cosmo-civilização. Afirma a insuficiência dos movimentos astrais como causas, e requer a sua completamentação rigorosa
dos atos sociais, que acompanham harmonicamente os movimentos celestes, sublinhando-so e orientando-os de modo que adquiram uma força causal
dirigida. Esta teoria foi aceita por toda a cultura chinesa antiga. Atualmente é defendida por Jacques Halbronn.
c) teoria da homologia estrutural. Sem fazer de interdepend6encia uma lei cósmica total e objetiva, afirma a homologia entre a visão total humana
do céu e a estrutura total da cultura (e portanto da psique individual); e, em função desta homologia, a possibilidade de uma ação causal segunda e derivada,

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e tabém de uma explicação astrológica de alguns atos e situações humanas. foi defendida por Gastron Bachelard e Lévi-Strauss. Coincide com algumas
partes da teoria de Halbronn.
NB — Estas três teorias também não se excluem necessariamente; seus níveis de abordegens são muito diferentes entre si, e não é impossível
um fundo de complementaridade.
15 — Nota sobre a teoria do sincronismo. — Tem duas versões principais, que são:
a) a teoria dos relógios cósmicos (Gauquelin), que afirma simplesmente a existência de ciclos e ritmos em toda a natureza, e a possibilidade de
sua comparação, e portanto de previsões. Esta teoria é hoje correntemente aceita em biologia e tem aplicações médicas já difundidas.
b) a sincronicidade junguiana, que afirma a existência de coincidências temporais não-causais, mas psiquicamente significativas, isto é,
indicativas, para o indivíduo, de seu estado psíquico, e interpretáveis segundo as leis gerais do simbolismo.
16 — Avalição crítica. — A meu ver, todas essas teorias são insuficiencintes:
a) A teoria causal clássica de Sto. Tomás de Aquino demonstra, pelos princípios da física aristotélica, que os movimentos astrais são causa formal
(ou modelo) dos movimentos dos entes terrestres, mas, como já disse, não aponta a causa eficiente. Ora, a causa formal é de ordem metafísica, e
cientificamente não basta.
b) A teoria causal física energética carece de maiores observaçòes e medições que a comprovem; o método empregado por Vinardi — Kirliangrafia
comparativa conforme várias situações celestes — não basta.
c) A teoria causal física gravitacional parace improvável segundo os atuais conhecimentos físicos.
d) Ateoria causal física simpatética apóia-se na constatação de um fato (Kolisko), mas um fato não é uma explicação na parte explicativa. esta
teoria acaba recorrendo à idéia da interdependência.
e) A teoria da interdepend6encia é, na verdade, o edifício total de uma cosmologia filosófica. Podemos aceitá-la, mas ela também nos deixa na mão
qaunto ao problema de causa eficiente. ademais, seu princípios explicastico básico — a lei de analogia — tem mais força heurística do que explicativa.
Ajuda a compreender talvez a natureza da correspondência astrológica — compreendida como um elo na “Grande Cadeia do Ser”- mas não propriamente a
causa dos fenômeno concretos. a versão “chinesa”desta teoria, entanto, oferece um imenso campo á investigação, particularmente da astrologia histórica, e
até mesmo á experimentação, já que o “diálogo”céu-terra admite uma margem grande para a iniciativa humana e para a observação dos resultados.
f) A teoria do sincronismo, em suas duas versões, não é uma teoria de maneira alguma, nem muito menos explicativa: é a simples denominação de
um fato, e mesmo de um fato particular (a existência de ritmos e de coincidências temporais) que é apenas um aspecto ou parte do fenômeno total da
correspondência astrológia, que não poderia portanto ser explicativo sobre o conjunto do fenômeno astrológico.
g) Até o momento, a teoria mais consistwnte parece ser a de Seymour sobre a ressonância magnética.
17 — Nota sobre a comprovação do fato astrológico. — talves eu devesse ter dito lá atrás que a simples comprovação da existência do fato
astrológico também requer uma teoria astrológica, que no caso se reduz formulação de um método científico de averiguação conforme o âmbito do fato
estudado.
18 — Teoria astrológica global. — Envolver portanto os seguintes aspectos:
1. Definição da astrologia.
2. Definição de seus vários campos e métodos.
3. Teoria cpmprobatória da existência do fato astrológico.
4. Teoria explicativa geral:
4.1. Natureza do fato astrológico.
4.2 Explicação causal geral. Por exemplo:
4.2.1. causal pura (clássica)
a. geral
b. física
4.2.2. Interdependência.
4.2.3. Outras teorias possíveis.
5. Métodos de comprocação das várias teorias.
6. Toria explicativa especial e particular.
7. Métodos de comprovação desta últimas.

19 — Situação atual da astrologia. — Assim, após alguns milênios de existência, a astrologia está hoje na seguinte situação:
a) Possui igualmente um patrimônio de conecimentos e observações empíricas, cujo valor, na ausência de uma teoria, é impossível aquilatar.
b) Possui igualmente um patrimônio considerável de sugestões de ordem simbólica, que constituem possibilidades de conhecimento, até agora
impossíveis de efetivar.
c) Possui um objeto material definido, portanto uma razão suficiente para existir como ciência.
d) Não possui um mapeamento claro e suficiente do próprio campo.
e) Não possui nenhuma teoria explicativa geral suficiente, mas várias hipóteses a discutir.

20 — Condições para uma ciência astrológica. — As condições para que a astrologia possa a justo títulos aspirar à dignidade de ciência
consistem, simplesmente, no mapeamento ordenado dessas dificuldades e na projeção dos meios de resolvê-las sistematicamente. Uma ciência não se
torna ciência pela qualidade ou quantidade dos seus resultados que possam se considerados de valor duradouro, mas pela cientificidade dos seus métodos e
precedimentos. A astrologia, ao contrário, tem muitos resultados que, empiricamente, se confirmam valorosos, mas que, não oferecem nenhuma garatia
científica quanto à continuidade dos mesmos procedimentos.

21 — Necessidade de fazer progredir esse estudo. — Comparemos com a evolução da geografia como ciência. Entre os séculos XI e XV, a Europa
que até então era uma punhado caótico de povos separados, unificou-se definitivamente sob a égide da Igreja e sob a pressão da ameaça árabe. Os
conhecimentos geográficos dessa época eram amplamente conjeturais e míticos. Uma vez unificada a Europa como um todo autoconsciente, tiveram início
as grandes navegações que, com a ampliação do espaço geográfico, trouxeram aos europeus uma nova consciência de sua posição na Terra e na história,
disto resultando, após alguns séculos, a consolidação da geografia como ciência. No mundo atual, assistimos a uma unificação planetária da civilização,
com o confronto e amálgama de inúmeras culturas. Daí surge uma nova consciência da humanidade enquanto espécie única e submetida a um destino
comum. Nesse instante têm início as viagens espaciais e uma nova sondagem do cosmo: é previsível que, doravante, o conhecimento científico progrida no
sentido de uma consciência mais precisa do lugar do homem no cosmos total e das suas interações com o meio celeste. Ora, este tema é essencialmente
interações com o meio celeste. Ora, este tema é essencialmente astrológico, e é o tema necessário dos desenvolvimentos científicos num futuro já visível.
Se os astrólogos mesmos não empreenderem seriamente a constituição da astrologia como ciência, outros o farão, tomando das mãos deles um patrimônio
que só souberam explorar em busca de vantagem pessoal — dinheiro, fama ou auto-satisfação psicológica — mas que não souberam fazer progredir, e do
qual se tornaram indifnos. Se a astrologia ainda não desfrutar do estatuto de ciência, seu tema é, no entanto, dos mais elevados e dignos, e o momento
histórico exige dos astrólogos esta tomada de consciência. Pessoalmente, encontro-me bastante irritado com a superficialidade dos debates astrológicos,
com sua falta de exigência intelectual e científica e com a concentrac’~ao dos esforços numa espécie de autocomprovação lisonjeira e irresponsável,
quando não em especulações ocultistas sem fundamento, a serviço de organizacões que vivem da exploração da ignorância humana. Parece duvidoso que
nessa atmosfera uma esforço científico real possa prevalecer, mas é obrigatório tentar.
22 — Observações quanto à astrologia psicológica. — O domínio psicológico individual parece ser ainda o de maior interesse entre os astrólogos.
Ele requer uma teoria especial, além da teoria geral. Esbocei algo dessa teoria geral no meu curso Astrologia e Caracterologia, ao qual remeto o interessado.
Resumindo, essa teoria especial deveria resolver pelo menos os seguintes problemas:
a) Fundamento teórico da correlação entre planetas e faculdades cognitivas.
b) Dificuldade e necessidade de isolar as “influências” de cada palneta e considerá-las separadamente.
c) Caráter indireto da leitura dos horóscopos individuais ( através dos valores e significados vigentes na cultura social).

3. ORIENTAÇÃO QUANTO ÀS ÓRBITAS

A pesquisa Gauquelin, entre outras novidades que trouxe, colocou em questão as chamadas “órbitas” das casas astrológicas.

Ao constatar que, num horóscopo, os “pontos relevantes” podem não estar colocados precisamente nas casas ditas angulares - isto é,
I,IV,VII e X - e nem mesmo no grau preciso da conjunção com o Ascendente, o Fundo do Céu, o Descendente e o Meio-do-Céu, e sim muito atrás, dez ou
quinze graus antes desses lugares, Gauquelin nos colocou diante da seguinte alternativa: ou
(a) se conservamos a noção do predomínio das casas e pontos angulares, então temos de admitir, para estes, uma órbita de recuo bem
maior do que aquele aceita geralmente pelos astrólogos, e consagradas pelos manuais antigos e modernos.Assim, um planeta colocado dez ou quinze graus
antes do Ascendente - isto é, do meio para fim na Casa XII - ou dez ou quinze graus antes do Meio-do-Céu - isto é, do meio para o fim da Casa IX - já
estaria, ou deviríamos considerar que estivesse, em conjunção com esses pontos angulares.

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PARTE II
NOTA PRÉVIA

D e abril de 1989 a setembro de 1992, em São Paulo, e de agosto de 1991 a setembro de 1993, no Rio de Janeiro, proferi um Curso de

Astrocaracterologia, no qual apresentei os resultados de um estudo realizado ao longo de quinze anos para responder às perguntas:
1. Existe alguma relação entre a personalidade de um homem e as posições dos planetas no céu no instante do seu nascimento?
2. Qual o método mais apropriado para resolver essa questão?
3. Supondo-se que essa relação exista, ela é tal como os astrólogos a descrevem?
4. Quais, em suma, as possibilidades de fazer da questão astrológica o objeto de uma ciência em sentido estrito, fora e acima de todas as polêmicas vulgares a
que tem dado ocasião?
Não é preciso dizer que, se empreendi esse estudo, foi porque todas as pesquisas com que adeptos e adversários da astrologia procuraram responder a essas
dúvidas me pareceram viciadas por escolhas pré-estabelecidas e porque não deram ao assunto o tratamento rigoroso que era exigido pela magnitude do problema.
Para começar, todas partiam do pressuposto de que, para resolvê-lo, bastava aplicar às afirmações correntes dos astrólogos os métodos de verificação estatística
consagrados em outros campos da ciência. Este pressuposto é absolutamente falso, porque a investigação de um problema novo deve levar em conta as suas exigências
próprias, que não coincidem com as dos campos científicos anteriormente explorados. Se a astrologia como saber empírico — ou, se quiserem, como crença mágica — era
um dos mais antigos conhecimentos humanos, sua transformação em problema científico segundo os cânones de validade admitidos no século XX requeria certas
providências de ordem conceptual e metodológica que os investigadores, até então, tinham negligenciado vergonhosamente. A delimitação de um novo campo de problemas,
a fixação dos conceitos básicos, a discussão e o estabelecimento dos métodos apropriados e dos respectivos critérios de verificação, o planejamento das investigações
factuais, constituem nada menos que a fundação de uma nova ciência.
Não tendo tomado essas providências, só restavam aos investigadores da questão astrológica duas opções igualmente infrutíferas:
1ª Tentar investigações estatísticas de ordem puramente polêmica, fundadas numa precária e confusa formulação dos problemas, que não podia levar senão a
conclusões prematuras e sem base.
2ª Desviar o foco da questão, passando a estudar temas e problemas astrológicos sob a ótica de algum outro campo científico, perfeitamente respeitável, é claro,
mas sempre alheio à pergunta básica: se existem ou não existem as relações entre as posições dos planetas e vida humana é algo que não pode ser respondido nem desde
o ponto de vista da História, nem da Sociologia, nem da Antropologia, nem da Psicologia, nem da Mitologia ou da Simbólica. Infelizmente, muitos estudiosos destes campos
têm-se julgado qualificados para opinar, com base nas respectivas ciências, sobre a questão astrológica em si, como se coubesse, por exemplo, a uma História da
Matemática resolver equações do segundo grau, ou a uma Sociologia da Medicina fazer diagnósticos e prescrever terapêuticas — singular confusão de camadas
ontológicas e metodológicas, que, no festival opinativo em que se tornou a vida intelectual contemporânea, passa por uma alta expressão da inteligência científica. O pior é
que, iludido pelos pressupostos vigentes no seu campo particular de interesses, e tomando-os como universalmente válidos para todos os campos, cada um desses
investigadores acredita ter resolvido de uma vez o problema da astrologia quando consegue redefini-la nos termos da ciência que pratica: assim, para o psicólogo junguiano,
as influências astrais são projeções do inconsciente coletivo; para o historiador, são uma expressão da mentalidade de determinadas épocas; para o antropólogo, são o
sistema de crenças vigentes numa dada cultura; para o estudioso de simbolismo, são uma linguagem, etc. etc. É evidente que o fenômeno astral é tudo isso, mas também é
evidente que cada um desses estudos versa sobre aquilo que os homens pensaram do fenômeno, e não sobre o fenômeno como tal — sobre o qual, portanto, nada têm a
nos dizer. Eles versam sobre a astrologia como sistema de símbolos e crenças ou como prática social, não sobre a relação entre as posições planetárias reais e os eventos
reais da vida terrestre. Na medida em que pretendam opinar sobre isto, tornam-se apenas uma maneira erudita de mudar de assunto. Esse mal atinge a quase totalidade da
bibliografia universitária a respeito da astrologia.
Diante desse quadro, não me restava alternativa senão redefinir o problema desde suas bases, partindo de uma raspagem crítica de todo o sedimento acumulado
por décadas — séculos, na verdade — de falsas discussões.
Este Tratado, que transcreve corrigidas as aulas do Curso, é o resultado desse esforço crítico e ordenador. Sua pretensão é, em essência:
1º colocar a questão astrológica na linha de uma investigação científica viável;
2º delimitar o campo da investigação, criar os conceitos e os critérios;
3º planejar as investigações iniciais;
4º realizar pelo menos uma delas, isto é, aquela que se refere às relações entre as posições planetárias e o fenômeno que, num sentido muito determinado, aqui se
denomina caráter humano.
A série planejada tem seis tomos, assim distribuídos:
1º Astrologia Pura e Aplicada. Trata dos pressupostos teóricos ( ontológicos e metodológicos ) e fixa os critérios e exigências para todo estudo astrológico que se
pretenda científico.
2º Astrologia e Caracterologia. Fixa os critérios para um estudo das relações entre o caráter individual e as posições planetárias no instante do nascimento de um
ser humano.
3º As Camadas da Personalidade. Esboça uma nova teoria da personalidade e do caráter, em termos compatíveis com os propósitos da comparação sugerida no
volume anterior.
4º Conhecimento de Si e do Outro. Estabelece os pressupostos técnicos e o método diagnóstico para o estudo do caráter, tendo em vista a comparação referida.
5º A Técnica da Astrocaracterologia. Estabelece o vocabulário e os conceitos descritivos do horóscopo de nascimento, possibilitando sua comparação com o
diagnóstico caracterológico descrito nos tomos 3º e 4º.
6º Estudos de Casos. Exemplos concretos que confirmam a viabilidade dos métodos empregados e sugerem fortemente a existência de nexos entre horóscopo e
caráter, num sentido próximo — mas não idêntico — aos afirmados pela astrologia corrente.
Para maior facilidade de edição, cada um desses tomos poderá subdividir-se em dois ou mais volumes, como é o caso deste Tomo V, que se apresenta em dois
volumes, um para a parte analítica, que descreve nos termos da astrocaracterologia os traços de caráter correspondentes a cada posição planetária tomada isoladamente;
outro para a parte sintética, que sintetiza algumas combinações tipológicas possíveis.
É importantíssimo que o leitor se conscientize de que este Tomo V não é um manual de interpretação astrológica e não deve ser usado como tal, ainda que, por
mera conveniência didática, siga a ordenação das matérias que é usual nesse gênero de livros. A aplicação diagnóstica das descrições aqui apresentadas só pode ser feita
dentro dos quadros criteriológicos apresentados no restante do Tratado, isto é, segundo um método e uma técnica que diferem radicalmente dos procedimentos correntes do
astrólogo praticante, de qualquer escola ou estilo que seja.
Por ser este Tratado um trabalho de equipe, que implica ademais a manipulação de centenas de fitas gravadas e milhares de páginas de texto, não será possível
seguir, na publicação do conjunto, a ordem da numeração dos volumes, de modo que, se a publicação começa por este Vol. I do Tomo V, poderá prosseguir por qualquer
outro, independentemente da sequência lógica da exposição e numérica dos volumes. O público interessado, compreendendo as dificuldades que se encontram para a
edição de um trabalho científico deste porte, há de nos perdoar pela desordem temporária, que só se dissipará por completo quando da publicação do derradeiro volume da
obra.
Aproveito a ocasião desta Nota para agradecer a todos os que, como alunos ou assistentes, ou ainda como colaboradores eventuais nos serviços de manutenção e
administração do Curso, ajudaram na elaboração desta obra. Muitos deles constam aqui como co-autores. Mas na verdade foram todos co-autores, mesmo aqueles cujos
nomes aqui se omitem pela simples razão de não terem colaborado diretamente na redação do texto, e sim de outras maneiras, menos ostensivas porém não menos
necessárias. Cinco nomes que não podem no entanto ser omitidos de maneira alguma são os de Roxane Andrade de Souza, Ana Célia Rodrigues Warschauer, Cely Teixeira
Vital Brasil, Henriette Fonseca e Stella Teresa Aponte Caymmi. Sem sua ajuda, não haveria nem Curso nem Tratado. A todos e por tudo, muito obrigado.

Rio de Janeiro, maio de 1995


OLAVO DE CARVALHO
A DESCRIÇÃO DO CARÁTER: TÉCNICA DA ASTROCARACTEROLOGIA — Parte Analítica
CASA I

Refere-se à auto-imagem, à aparência física do indivíduo, imediata e visível (seus gestos, expressão facial, etc.). É o conjunto esquemático do que o indivíduo vê
e compreende sobre si mesmo sem intermediários, é a auto-imagem arquitetônica.

Sol

Inteligência Intuitiva Autônoma

O primeiro dado seguro obtido pelo sujeito é sobre ele mesmo. Sua própria imagem contemplada no espelho, ou simplesmente pensada, é óbvia e inquestionável.
Seu conhecimento sobre si próprio lhe parece tão natural que tem a impressão de se conhecer há longo tempo. Sendo transparente aos seus próprios olhos, acha-
se transparente aos demais e considera inverossímil alguém ser muito diferente dele.
Faz parte de sua natureza não se preocupar de imediato com saber se agrada ou não ao outro. Ele se auto-refere o tempo todo, nunca estranhando seu próprio
comportamento, utilizando-o como modelo pelo qual capta o comportamento dos outros. Sua biografia e os papéis que desempenhou funcionam como a chave da sua
compreensão do mundo, como se não existissem outros papéis concebíveis, como se sua própria vida fosse o modelo pelo qual posteriormente, por diferenças e
semelhanças, se foram moldando as outras.
O traço fundamental de sua auto-imagem é a liberdade. Criador de seu próprio mundo, se vê como um centro que irradia livremente e a cada momento tem como
informação básica as suas próprias possibilidades, o repertório do que pode fazer e ser a cada instante.
Quando não se vê como o centro dos acontecimentos, necessita de um esforço para compreender o que o outro espera dele, porque então não intui com clareza a
situação. Para intuir, necessita encarar-se como centro agente mesmo quando não o é. A percepção da perspectiva alheia nunca é, para ele, imediata e espontânea, mas
requer esforço e aprendizado.

Clínica

Dos vários elementos de que a realidade se compõe, este tipo percebe de modo imediato e intuitivo justamente como é que o mundo circundante
reage diante da sua simples presença pessoal, ou seja, você é um indivíduo que percebe instantaneamente o que está mantendo uma relação com sua
pessoa, o que está se referindo direta ou indiretamente a você. Isto é o mesmo que dizer que você percebe imediatamente todo e qualquer dado de uma
situação que esteja ligado à sua identidade pesoal, e mediatamente o que não esteja. Você tem uma familiaridade consigo mesmo, nutrindo a impressão
de ser óbvio e transparente aos outros como é para si mesmo. Pode chegar a surpreender-se de como uma outra pessoa não consegue conhecê-lo tão
bem como você mesmo se conhece.
A respeito dessa questão, comenta Emmanuel Mounier: "A pessoa é a única realidade que conhecemos e que, simultaneamente, construímos de
dentro. Sempre presente, nunca se nos oferece. Não nos precipitemos, contudo, arrumando-a no reino do indizível, muito embora, sendo os recursos da
pessoa indefinidos, nada do que a exprime a esgota, nada do que a condiciona a escraviza. Não sendo um objeto visível, também não é resíduo interno,
uma qualquer substância escondida por detrás dos nossos comportamentos. A pessoa expõe-se, exprime-se, faz face, é rosto. a palavra grega mais
próxima danoção de pessoa é prósopon: aquele que olha de frente, que afronta. Mas se encontra por vezes um mundo hostil: a atitude de oposição e
proteção pertence, pois à sua própria condição. Quando falamos duma personalidade vincada, dizemos: um original. Na verdade, é certo que a pessoa é o
que nunca se repete, mesmo quando as faces e gestos dos homens, caindo sem cessar na generalidade, copiam desesperadamete a superfície. Mas a
procura da originalidade surge sempre como produto secundário, para não dizer subproduto da vida pessoal: o herói em plena batalha, o amante quando
se entrega, o criador obcecado pela sua obra, o santo transportado no amor de Deus, não procuram, nesses momentos em que atingem aldo da mais alta
vida pessoal, diferenciar-se ou singularizar-se; o seu olhar não está virado para a forma das suas ações mas está com eles, inteiro, lançado para fora
deles próprios, demasiado entregue ao que são para pensar como são. Mais ainda, todos eles nos dizem que atingem nesses cumes da existência uma
como que banalidade superior,os mais simples temas da humanidade comum. É a dificuldade em agarrar essa intensa banalidade sem a diluir nas cores
cinzentas da vulgaridade que constitui-se o ato de fazer-se, de tornar-se pessoa. Pois a pessoa é chamada a atingir o extraordinário no próprio centro da
vida cotidiana. Esse extreordinário não a separa, porque toda a pessoa é chamada para coisas extraordinárias. Como escreveu Kierkegaard, ele que, no
entanto, por vezes foi atraído pela tentação do extremo: ‘O homem verdadeiramente fora do comum é o homem verdadeiramente comum’. Entretanto, por
ter destruido o ser transcendental e a existência quotidiana, o homem foi indefinidamente recusando tudo, o omundo, todas as forças que enraízam o
indivíduo, reservadas então a manter uma relação solitária e paradoxal com o Absoluto. Quem se recusa a escutar esse apelo feito pela pessoa e a
comprometer-se na experiência duma vida pesoal, perde o seu sentido como se perde a sensibildade dum orgão que já não funciona".
Por isso, você se vê como o modelo ideal da imagem do mundo e crê ser merecedor de toda a atenção. Para você, o mundo é um imenso palco
onde a cada momento a sua personagem é solicitada a se expor. A sua referência mais espontânea é a sua própria pessoa: sua biografia e todos os
papéis que você desempenhou são a "chave do mundo". Por isso, pode haver uma completa ausência de questionamento da sua parte sobre a própria
imagem, sobre tudo aquilo que você considera ser, e você pode acabar nunca estranhando o seu próprio comportamento. Aliás, você se vê com potencial
para um infinitude de possibilidades e de ações, pois você se vê como uma espécie de centro ativo-criativo: move e (crê que) não é movido; influencia e
(crê que) não é influenciado. Você procura ser o centro, o umbigo dos acontecimentos porque só consegue compreender a tudo e a todos quando estes
se tornam satélites do seu ser. Por isso é que precisa haver em tudo alguma identidade com sua presença, ou melhor: a sua pessoa impõe-se
naturalmente sobre todas as coisas, de modo que elas lhe fiquem cada vez mais características, familiares. A sua inteligência age desse modo, buscando
algo que lhe é identico ou que possa receber a sua marca justamente porque qualquer imposição extremamente pessoal sua lhe é vitamínica. Sem
imposições, sem as colocações habituais da sua pessoa - de modo que ela deixe uma marca que lhe é característica - a sua inteligência se apaga. Por
isso qe você só se concebe como sujeito e autor das ações alheias ("fui eu quem provoquei") e jamais como objeto delas: se a atitude de um outro é
indêntica a sua, você compreende e concorda; se não há identidade de espeçie alguma, você estranha - e discorda. Em posição passiva, completamente
sujeito às ações alheias, voc6e demora a compreender seja o que for e, inclusive, o que está sendo esperado da sua pessoa. Por tudo isso é que você
trata uma experiência pessoal como se ela fosse universal pois, sem consciência crítica, acaba tirando conclusões gerais de experiências pessoais de
casos que lhe ocorreram.
Todo esse processo pode ser descrito do seguinte modo: a sua inteligência está naturalmente inclinada dobre o mar obscuro da vida de modo a
recortar justamente o espaço que a sua presença ocupa e que te pertence e a tornar a seus olhos, então, a própria identidade evidente. Entretanto, ela se
torna tão evidente e instantânea que boa parte das vezes nem você mesmo tem como dar prova da legitimidade do que viu porque, tão logo a sua
identidade seja percebida, se não for retirada pela memória ou digerida pelo raciocínio, você mesmo não encontrará meios para testemunhar essa sua
ünidade indiscritível", que já é por si só de natureza tão inefável. você simplesmente fará o registro daquilo que você considera ser a sua pessoa com
uma evidência extraordinária - mas com um evidência extraordinária somente para você. tudo aquilo que se refira à sua própria identidade bem como o
próprio conheciemnto de si mesmo não são assim tão evidentes como são para você: é justamente o dado que você capta da realidade com naturalidade,
sem esfroço algum. É o que você vê. Por isso é que a única resposta possível que você encontra para tudo está em si mesmo, ou seja, no modo como
tudo e todos reagiram ao modo como você se impôs e fez valer a sua pessoa, pois este é o tipo de experiência que preenche a sua consciência com um
real. Entretanto, estamos nisto que percebemos como um peixe está na água. É o sinônimo da realidade mesma para nós. Estamos tão dentro, tão
participantes, que não temos distância suficiente para perceber aonde estamos, ou para conceber que o processo pode se dar de outro modo. Por isso,
se você ainda não soube se identificar com o traço até então descrito, pergunte-se se não é estranho o fato de ser você quem tenha uma necessidade
inexplicável de se impor e se não é estranho também o fato das pessoa não te reconhecerem tão bem, tanto quanto você mesmo se reconhece.
Perguntando-se desse modo muito provalvelmente você se descubra como uma pessoa de inteligência autotélica, que tem uma auto-confiança
expressiva, que gosta de aplausos, e que procura deixar a marca da sua presença poronde quer que passe.

Síntese

Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade sua auto-imagem.
39

Exemplos

Sta. Teresa de Ávila, Abraham Lincoln, Richard Wagner, Pierre A. Renoir, Arthur Rimbaud, Claude Debussy, H. Toulouse-Lautrec, J. Guimarães
Rosa.

Saturno

O indivíduo estranha sua própria aparência física, tem uma vivência de seu próprio eu aparente como uma coisa evanescente, insubstancial. Atribui aos outros
rostos uma familiaridade, uma naturalidade que não percebe no seu próprio.
Tem uma consciência aguda de que sua expressão se modifica conforme o papel que desempenha, e sente-se, por isto, um ator. O jogo das máscaras se torna de
vital importância quando tem de se apresentar socialmente. Substitui a sinceridade individual pelo “fingimento” ( que, aprimorado, se torna uma espécie de sinceridade
artística, elaborada e problemática ) e aos outros parece ou “cara de pau” ou excessivamente retraído, porque na construção dos esquemas adaptativos há perda da
naturalidade, seu comportamento parecendo premeditado, o que cria desconfiança.
O indivíduo duvida constantemente da sua auto-imagem nos primeiros anos de vida, questionando-a e rejeitando-a, multiplicando os pontos de vista desde os quais
se encara e, com isto, alimentando contradições que tornam esta imagem mais insustentável ainda e criando a necessidade de fixar uma auto-imagem racionalmente
fundamentada e justificada. Ele precisa construir uma imagem para si mesmo, a partir da reflexão e da experiência sobre as imagens e personagens possíveis. Sente-se
inferiorizado diante de quem ele perceba como espontâneo, natural, desenvolto e auto-confiante, ou, inversamente, de quem lhe transmita a imagem de uma máscara
perfeita, de um total domínio da simulação, a que ele também aspira como a uma espécie de sucedêneo da desenvoltura que lhe parece inacessível. Ele é vulnerável a
quem vê o seu defeito, a imperfeição ou a incongruência de sua imagem.

Aporia

A questão humana que lhe causa perplexidade e espanto é a percepção de um hiato entre o eu (sua identidade interna) e sua aparência física (percepção de si
externamente), ou seja, a expressão visível, externa do ser.
Na medida que o indivíduo quer ser sincero, mas ao mesmo tempo deseja parecer natural na sua sinceridade ( porque uma sinceridade canhestra não seria
persuasiva para os outros, e ele teme ser mal interpretado ), ele premedita uma expressão de sinceridade; e na hora em que premedita já sente que não é sincero . Quanto
mais natural a aparência conseguida, mais farsante ele se sente.

Síntese

É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que afete sua auto-imagem.

Exemplos

Johann W. von Goethe, Karl Marx, Emile Zola, Carl-G. Jung, Hermann Keyserling, Maurice Chevalier.

Júpiter

Percebe a cada momento o que pode ser e o que quer ser. Gera uma figura para si e torna-se o que deseja. Contorna a exigência de autocrítica, e, portanto, nunca
tem problemas com a auto-imagem, que é plástica; ela não é vivida como uma identidade definitiva, limitante, um personagem que o indivíduo tenha de carregar, mas sim
como uma espécie de massa plástica com a qual ele pode fazer o que quiser, que lhe pareça uma expressão e um resultado do exercício de sua liberdade. Não finge, mas
cria.
Age espontaneamente e impensadamente como se fosse o criador livre de suas ações, e o faz para não ter de examinar criticamente suas motivações e ações. É
autoconfiante sem necessidade de autoconsciência ( o que o diferencia do indivíduo com o Sol na I, cuja autoconsciência é a matriz do impulso de criatividade ), mas com
uma espécie de auto-esquecimento flexível e primaveril. Na primeira impressão, não parece existir hiato entre o que expressa e o que quer ser, parece ter uma coerência
em bloco, apresentando uma certeza pessoal muito grande de que se conhece, embora isto possa não ser verdade. Acredita no papel que está representando como se
nunca houvesse sido outra coisa. Saturno na I sente-se um ator, e alcança a sinceridade mediante a consciência crítica de seu coeficiente de fingimento; Júpiter na I é um
ator no pleno domínio do seu papel, e alcança a sinceridade na medida em que ama esse papel, acredita nele e aceita as consequências reais de seu desempenho.

Síntese

Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos sua imagem, ou personalidade exterior.

Exemplos

Napoleão Bonaparte, Ralph W. Emerson, Benjamin Disraeli, Hans C. Andersen, Abraham Lincoln, Guy de Maupassant, H. Toulouse-Lautrec,
Marie Curie, Winston Churchill, Maurice Ravel, Herman Hesse, Hermann Keyserling, Graciliano Ramos.

Marte

Está sempre se mexendo para permanecer exatamente do mesmo jeito que está — este movimento externo é para evitar o movimento interno; gostaria de estar
tranquilo com a sua auto-imagem, e fica então sensível a qualquer ameaça nesta área. Esta atividade se exterioriza imediatamente e é visível aos outros, transparece na
sua imagem. Reage exterior e fisicamente às informações que trazem novidades sobre a auto-imagem, rejeitando qualquer alusão, provocação ou ofensa a ela.
Desenvolve esquemas defensivos com relação à sua auto-imagem: incomodando os outros, o meio-ambiente, para não ser afetado interiormente; reagindo no
sentido de manter superficial o contato com as pessoas ou mudando constantemente sua imagem externa, para não mudar a interna.
Marte e Júpiter na I revelam uma certa resistência instintiva a qualquer auto-exame; Júpiter, porque alimenta uma identificação dogmática com a imagem que
deseja projetar a cada instante; Marte, porque provoca um forte sentido de incomodidade ante qualquer reflexão que possa alterar seu estado interno, e porque tende a
preservar a homeostase.

Síntese

Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete sua auto-imagem.

Exemplos

39
40

Guy de Maupassant, Mohandas K. Gandhi, Winston Churchill, Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre.

Vênus

Guarda na memória mais imagens de si mesmo que qualquer outra pessoa. Recorda-se de sua postura e pode imaginá-la numa infinidade de papéis possíveis para
serem utilizados de modo proveitoso em situações futuras. Controla sua auto-imagem procurando sempre otimizá-la e interpretando as críticas favoravelmente. Adapta-se
ao que o momento impõe, captando o melhor papel para atender ao que queira mostrar ao outro. Tem uma naturalidade plástica. Imagina que sua presença é sempre melhor
do que realmente pode ser, o que na maior parte dos casos realmente resulta numa melhora da imagem. Imaginação harmônica de si mesmo.
Por isso mesmo, toda quebra da auto-imagem, ainda que rara, é de uma gravidade ímpar, quando acontece, porque o indivíduo não sabe lidar com o que lhe pareça
definitivamente negativo, isto é, não assimilável a uma imagem positiva. Toda fantasia é uma defesa contra a desilusão, de modo que, quando a desilusão se instala, é que a
fantasia já nada mais pode fazer. Portanto, quanto mais rica e plástica a fantasia, mais elevada a auto-estima. Não se deve esquecer que todo processo depressivo começa
com uma “desimaginação”, com um esvaziamento do conteúdo das imagens e uma perda de seu magnetismo. No indivíduo com Vênus na I, os reflexos desse processo na
auto-imagem — e portanto no comportamento exterior visível — são imediatos e devastadores.

Síntese
Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante sua auto-imagem.

Exemplos
Richard Wagner, Anatole France, Guy de Maupassant, Mohandas K. Gandhi, Gregory Peck, Judy Garland.

Lua

O comportamento exterior é continuamente alterado por mudanças na auto-imagem, as quais, por sua vez, derivam de estímulos fortuitos, como por exemplo os
altos e baixos do tônus corporal, as mudanças da atmosfera, o decréscimo acidental do calor humano nesta ou naquela relação, etc. O componente emocional da conduta
do indivíduo salta aos olhos: é evidente e atua sobre os outros como um ímã, mobilizando-os. Sua sensibilidade e abertura a estímulos externos é visível na sua aparência
física. A alteração de sua auto-imagem muda o seu sentimento e sua motivação. Avalia e julga valorativamente sua imagem a todo instante, mas não sob a forma de juízos
explícitos (como Saturno na I) e sim sob a forma de um bem-estar ou mal-estar frequentemente vagos e indefiníveis. A mudança da auto-imagem transforma o valor
sentimental de toda a vida. Auto-imagem instável, porém irradiante. O desejo de sentir-se bem consigo mesmo alimenta, por contraste, um mal estar intermitente, que se
reflete numa conduta ciclóide.

Síntese

Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação tudo que afete sua auto-imagem.

Exemplos

Immanuel Kant, Friedrich Nietzche, Paul Gauguin, Marie Curie, Marcel Proust, Leon Trotsky, Charles Chaplin, Walt Disney, J. Guimarães Rosa.

40
CASA II

Refere-se ao conhecimento do real, do mundo físico, dos dados sensíveis presentes (formas, cores, cheiros, sons, pesos, tamanhos, texturas, sabores, etc.).
Confronto do indivíduo com o que o cerca. O mundo dos objetos inclui o próprio corpo, não enquanto imagem (Casa I) e sim enquanto densidade, peso, força e tensão.

Sol — Inteligência Intuitiva Realista

O Sol nesta posição representa a relação do eu com o mundo das coisas, onde o outro — como pessoa — está excluído. O centro intuitivo é a circunstância, o
indivíduo vive no mundo das coisas (formas, sons, pesos, gostos, odores, densidade, clareza, definição da forma, etc.), tendo habilidade para melhor avaliar a matéria. Ele
se auto-refere pelo ambiente físico. É o homem entre as coisas. Ele confia no testemunho dos seus sentidos. Intuição sensível. A percepção sensível em geral, entretanto, é
por sua natureza limitada e curta, acaba logo, por isso este indivíduo encara a realidade como limitação. Inteligência que contempla e descreve.
É natural que este indivíduo perante todas as situações humanas procure olhá-las com uma espécie de disposição contemplativo-arquitetônica, captando-as como
quadros estáticos onde “tudo está do jeito que está”. Compreende o fato consumado, e tende a ter uma visão estática da realidade no momento em que a percebe. É realista
porque se adapta ao estado das coisas, mas tem a impressão de que nunca age, propriamente, mas só responde ao estado de coisas, por isto não se sente como o agente
criador por mais ativo que seja. Ele se vê como observador, ainda que seja o agente. Aptidão para a solidão.
O senso de que um objeto tem consistência própria e independente da subjetividade humana é comum nesta posição, e este indivíduo tem, portanto, uma noção
corporal mais clara de suas possibilidades diante do objeto do que em geral têm as outras pessoas. Vê o mundo ( objeto ) como mais real do que ele mesmo ( sujeito ).
Precisa viver a experiência concreta da forma mais sensorial possível para intuir, por isso sua memória é carregada de dados sensoriais.

Síntese

Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade o quadro total da situação corporal estabelecida no momento.

Exemplos

Immanuel Kant, Benjamin Disraeli, Karl Marx, Gustave Flaubert, Mark Twain, Oscar Wilde, André Gide, Charles de Gaule, Simone de Beauvoir.

Saturno

O mundo é sentido como irreal, fugaz. As sensações são evanescentes. A razão do indivíduo, mal recebe uma informação sensível, tende a criticá-la, compará-la
com outra, avaliá-la e para isso precisa afastar-se do dado intuído e recorrer à memória de outros dados. Problematiza e paralisa sua experiência sensível, o dado sensível
gera espanto, perplexidade e medo. Surge então, a dúvida — consciente ou inconsciente — sobre a existência do mundo exterior. É como se a pessoa tivesse um “buraco”
nos sentidos, como se o mundo se esfarelasse nas suas mãos. As coisas físicas são sentidas como eminentemente destrutíveis, então a propriedade sobre as coisas do
mundo físico é vivenciada como relativa, questionável. O indivíduo sente-se sem poder sobre o mundo real que o cerca, nunca sabe com exatidão o quê e o quanto possui,
o que e o quanto pode. Sente-se “pobre” por mais “rico” que seja de fato. Consciência da perecibilidade das coisas. Frustração na posse de algo que o distancia da
experiência prazerosa. Aos outros parece pão-duro ou exageradamente desapegado ( egoismo invertido ), ou alternadamente uma coisa e outra. A quantidade é a forma
mais rudimentar de racionalidade, pois pode-se dar número ao que não tem sequer nome; por isto, dá um certo alívio a este indivíduo saber o valor numérico ( preços,
tamanhos, etc. ) das coisas do mundo real, substituindo o sendo direto das coisas ( denegado pela crítica ) por um senso de domínio racional-esquemático das relações
entre elas.
Com esta posição o indivíduo pode desenvolver: avareza ( quanto mais possui, mais quer, pois no íntimo não sente aquilo que tem como verdadeiramente seu );
renúncia ao mundo material; repulsa e destruição de patrimônios; recusa em receber dos outros ( sente-se inferiorizado, pois quem dá é que tem o poder ) e repetição
compulsiva de experiências sensoriais ( para certificar-se dos dados sensíveis neutralizados pela crítica ). Também pode se fragilizar diante de pessoas que questionem o
seu direito à propriedade, ao que seria realmente seu, ou de quem lhe pareça realmente apropriar-se de suas experiências e coisas materiais. Pode desenvolver uma
relação puramente quantitativa com os objetos sensíveis ( por exemplo, comer muito e mal, ou comer sistematicamente coisas insossas e em pequena quantidade ). Tem,
em geral, uma avaliação estética inadequada, compensada às vezes por uma sensibilidade muito precisa em áreas específicas ( por exemplo, bom gosto musical e mau
gosto em tudo o mais ); mais precisamente, bom-gosto nas áreas desenvolvidas por estudo e esforço; mau gosto nas áreas de vivência espontânea.

Aporia

A questão é a insubstancialidade do real, do mundo das sensações: se tenho e não uso, não tenho, mas se uso, acaba. É a extinção do mundo material. É a
constatação da natureza paradoxal da matéria: ela é o real externo, “objetivo” por excelência, mas só pode ser conhecida pelas sensações, que são subjetivas e fugazes por
definição. Uma sensação que se prolonga se anula a si mesma; o que dá a realidade às sensações é o contraste, logo, a extinção das sensações.

Síntese

É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que denote uma mudança no seu equilíbrio
sensorial.

Exemplos

Alexandre Dumas, Júlio Verne, Edouard Manet, Paul Cézanne, Friedrich Nietzsche, Kaiser Guilherme II, Claude Debussy, Mohandas K. Gandhi,
Arthur Koestler, Gregory Peck.

Comentários aos exemplos

Dumas era célebre por sua avidez de dinheiro 5 . O cosmos físico de Verne é feito de esquemas imaginados, não de percepções: o irreal-possível
é visto como realidade presente, substituindo-se a esta. Em Manet e Cézanne a desrealização intelectualizante do mundo percebido é notória; o real-
objetivo é substituído pelas reações perceptivas subjetivas, no primeiro; no segundo, por esquematizações geométricas. Observações semelhantes

5
Somada a uma confiança na sua capacidade ilimitada de
consegui-lo; confiança associada ao fato de Júpiter estar
42

valem para Debussy. Gandhi: este traço de caráter é ao mesmo tempo manifestado e ocultado pela absorção de hábitos culturais: vegetarianismo e
jejuns; crença no caráter mais ou menos ilusório da realidade material. Koestler, em suas Memórias ( Arrow in the Blue ) descreve literalmente a
sensação de fugacidade da matéria, vivida desde a infância.

Júpiter

Tranquilidade e confiança em relação ao mundo físico que o cerca, visto como um repertório inesgotável de bens e possibilidades. Logo, confiança nos próprios
recursos e estabilidade material. Otimismo no sentido de confiar que a situação presente sempre oferecerá base à sua ação. Não se deixa abater completamente por uma
situação material desconfortável ou desfavorável, acreditando sempre poder impor-se a tais situações de maneira a buscar espontaneamente um contexto mais confortável
e agradável aos sentidos. Confia na vida, o mundo é infinitamente rico.
A constatação do fato consumado lhe parece tranquilizadora, e nunca limitante. Todo fato consumado é uma prova da realidade e consistência do mundo, logo um
motivo de confiança.

Síntese

Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos tudo o que afete seu equilíbrio sensorial.

Exemplos

Wolfgang A. Mozart, Alexandre Dumas, Thomas Mann.

Marte

Reage prontamente às situações concretas, já estabelecidas, captadas pelos sentidos, a qualquer coisa que ameace o seu bem-estar sensorial, que o incomode
fisicamente ou que pareça, pelo cerco do fato consumado, limitar suas possibilidades de ação. Tem o senso do não-estético, do feio, do incômodo, inadequado,
desagradável aos sentidos. Em geral, reage reclamando de qualquer desconforto, é difícil de contentar-se sensorialmente. Ao longo do tempo, pode tomar providências para
evitar todos os desagrados (com o auxílio da razão), cercando-se de prazeres sensoriais. Outra forma de reação seria a negação das sensações, o qual pode tomar seja a
forma da renúncia, seja a do desperdício sacrificial.

Síntese

Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que denote uma mudança no seu equilíbrio sensorial.

Exemplos

Leonardo da Vinci, Sta. Teresa de Ávila, Johan W. von Goethe, William Blake, Mark Twain, Arthur Rimbaud, Maurice Ravel.

Vênus

Guarda na memória os dados sensíveis agradáveis, abstraindo-se dos desagradáveis, captados do mundo físico, e os utiliza para otimizar as sensações diárias.
Vê as possibilidades que existem no ambiente físico, as que estejam de acordo com sua expectativa, para que satisfaçam seu equilíbrio sensorial. Imaginação harmônica
das sensações.
Em contrapartida, um estado emocional invencivelmente depressivo, caso se instale, se expressará muito facilmente numa imagem alterada do mundo físico. A
sensação generalizada de feiúra expressará fisicamente com muita nitidez o estado interior.

Síntese

Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante tudo o que afete o (qualquer mudança no) seu equilíbrio sensorial.

Exemplos

Alexandre Dumas, Abraham Lincoln, Mark Twain, Pierre A. Renoir, H. Toulouse-Lautrec, Albert Camus.

Lua

É hipersensível aos objetos físicos encarando-os como extensões de si mesmo: tem apego ou rejeição sentimental aos objetos . Extremamente sensível à vida
física, que lhe parece feita de contrastes e alternancias. A imagem de felicidade e infelicidade que tem é material: conforto, bem estar físico, ou vice-versa. Suas
necessidades e carências também estão colocadas neste ponto. Seu bem estar depende que estas necessidades sejam atendidas pelas circunstâncias; tem a expectativa
de gratificação passiva (por exemplo, ganhar presentes). É muito afetado emocionalmente pelo que comeu, como dormiu, etc. O bem estar físico é uma condição para o
bem estar psicológico. A realidade, as necessidades básicas criam uma segurança emocional. Relação instável com o mundo real percebido. É feliz quando o mundo lhe
supre as necessidades do momento. A relação com o mundo material é subjetiva. Não sabe o que o satisfaz, embora sempre saiba, a cada momento, se está satisfeito ou
insatisfeito.

Síntese

Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação qualquer mudança no seu equilíbrio sensorial.

conjunto a Saturno. V. § seguinte.

42
43

Exemplos

Victor Hugo, Frédéric Chopin, Charles Dickens, Karl Marx, Pierre A. Renoir, Theodore Roosevelt.

43
CASA III

Refere-se ao pensamento, ao estabelecimento de relações entre as coisas, de maneira a poder representar uma coisa por outra. É todo processo onde haja um
signo e um significado, transformando a realidade em linguagem. É através da linguagem que se constitui uma realidade independente do sujeito. Intercâmbio entre as
coisas, entre o subjetivo e o objetivo. É o mundo da linguagem que vai distinguir o real (Casa II) do sujeito (Casa I).

Sol — Inteligência Intuitiva Interpretativa

Intui enquanto pode pensar, isto é, representar uma coisa por outra, comparar, ter alternativas, não aceita o dado tal e qual, tem de pensar em outras
possibilidades. Nada tem sentido em si, mas pela relação de signo-significado.
Pensa sem concluir, o que se impõe como verdade inquestionável sai do foco de sua atenção. Se conclui algo, tem de pensar noutra questão, pois só intui onde há
possibilidade de erro. O fundamental para o indivíduo é a crítica, e não a afirmação. A dúvida o ajuda, lhe é vitamínica, por isso, funciona melhor com atitude dialética: tem
de afirmar e negar.
Tende a discutir as idéias alheias, é aberto a por em risco suas próprias crenças e opiniões. Se possui crenças, tem de fingir para si próprio que não as tem, para
continuar entendendo.
Conserva uma infinidade de cenas e histórias que são importantes não pelo seu conteúdo, mas por reconhecer nelas exemplos típicos (signos). Poder evocativo e
de inspiração nas experiências de aprendizado juvenil. Aprende com a experiência.
A inteligência do indivíduo crescerá na proporção que domine a linguagem. O Sol na III busca um nome (conceito) em contraste com o Sol na IX que busca a
sentença (juízo). Sente-se seguro na hora que pode denominar, referir, encontrar uma suplência (no sentido lingüístico). Procura situações em que a inteligência possa se
manter ativa, deslizando de uma coisa para outra, de um signo para outro. Requer o movimento da linguagem.

Síntese

Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade o curso completo do seu raciocínio.

Exemplos

Franz Liszt, Louis Pasteur, Paul Cézanne, Winston Churchill, Maurice Chevalier, Walt Disney, Albert Camus.

Saturno

Em criança, aprende a falar muito cedo ou demasiadamente tarde, sabe muitas palavras e de repente percebe que não sabe as coisas correspondentes. Rompe
então com o hábito da linguagem e a passagem do significante para o significado é obstruida pela pergunta “por que?”. O processo interpretativo fica detido, porque é
questionado. Ele deixa de ser uma janela transparente para o mundo das coisas e torna-se um vidro opaco; a atenção volta-se para o vidro em si mesmo e não chega mais
às coisas. A linguagem é coisificada.
O signo não tem uma relação intrínseca com a coisa significada, no máximo pode ter uma analogia. Pode, portanto, ser olhado como signo ou como coisa. Para o
indivíduo com Saturno na III a palavra enquanto realidade sonora tem mais atração magnética do que a palavra enquanto canal neutro para as coisas significadas.
A consciência da palavra enquanto coisa se interpõe entre o indivíduo e o seu interlocutor. Tudo o que ele fala não tem garantia de que o outro vai entender. A
experiência que ele consolida é que é “impossível dizer a verdade”. Vai ter uma consciência crítica prematura e excessiva da relação problemática entre a linguagem e a
experiência. Contesta a validade do conhecimento do mundo, na linguagem que o exprime. Na realidade, todo o processo de interpretação se baseia em códigos, palavras
que se apoiam num elo voluntário com o real. Este elo é decorrente de um acordo entre vontades, portanto, tal elo é arbitrário. A consciência dessa arbitrariedade é
particularmente aguda no indivíduo com Saturno na III e ela funciona, nele, como um bloqueio à comunicação, só pode ser superado mediante um desenvolvimento
lingüístico superior ao do seu ambiente. A aporia vem da arbitrariedade do signo.
Num desenvolvimento ideal, o indivíduo colocaria a questão do fundamento do significado das palavras num plano genérico, como dúvida filosófica, podendo
respondê-la até certo ponto através do estudo etimológico das palavras e da lingüística, compreendendo que as palavras não são coisas, mas são diferenças entre coisas.
Seu esquema lógico pode ser: não pensar em nada, apegando-se ao mundo das coisas sensíveis (concretismo, poesia concreta — as palavras tratadas como
coisas) ou desconectar as coisas que fala daquilo que percebe na realidade (pode entender que aí tem liberdade para mentir, já que as palavras não precisam ligar-se a
coisas reais — abstracionismo).

Aporia

A palavra é signo de coisa e ela mesma é coisa. Não havendo a relação intrínseca de signo-significado, a linguagem funda-se numa convenção.
Mas então como pode haver uma fala “verdadeira”?

Síntese

É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que afete o curso momentâneo do seu
raciocínio.

Exemplos

Auguste Comte, Charles Dickens, Theodore Roosevelt, André Gide, Bertrand Russell, Herman Hesse, Mia Farrow.

Júpiter

Autoconfiança ilimitada na sua própria capacidade de aprendizagem, de fazer associações entre idéias e conceitos. O sujeito confia também na sua capacidade de
comunicar aos outros o que pensa e aprende, e de persuadir o interlocutor de qualquer coisa que queira. Não se deixa abater por argumentações contrárias às suas, ele
mesmo é que tem de sentir-se o autor de suas mudanças de idéias. Quer estar livre para poder pensar o que quiser. Confia na capacidade de convencer, persuadir, na
eficácia de sua palavra. Esta confiança é espontânea, dogmática e totalmente independente de ser fundamentada ou não. A capacidade intelectual real decidirá se essa
autoconfiança resultará em eficácia no aprender e no falar, ou numa inépcia verbosa.
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Síntese

Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos o curso do raciocínio — seu ou alheio.

Exemplos

Leonardo da Vinci, Sta. Teresa de Ávila, Arthur Rimbaud, Claude Debussy, Charles Chaplin, Adolf Hitler, Ernest Hemingway, Mário Ferreira dos
Santos.

Marte

Reage às situações que apelam ao seu raciocínio e à sua habilidade para estabelecer relações, situações que ameacem a estabilidade do seu curso atual de
pensamento, de suas referências mentais do momento. Maneja rapidamente as palavras, seja como ouvinte e intérprete, seja com falante.
Tenta pensar o mais rápido possível para evitar gasto de energia, é impaciente para pensar, mas por isto mesmo acaba gastando mais energia do que desejaria.
Na conversação, se antecipa à pergunta do outro, concebendo respostas, quer as emita em voz alta ou não, mas em todo caso mantendo-as prontas e na ponta da língua,
ou então fugindo do assunto com uma espécie de desinteresse ativo. Quando quer aprender algo, quer que seja da forma mais rápida e simples possível, seu ritmo de
estudo tende a ser espasmódico. Se for um tipo extrovertido, gostará de polemizar, e poderá ter mesmo um amor ao paradoxo, dizendo o contrário do que pensa, para que
alguém o conteste; se for introvertido, viverá toda essa polêmica de modo interiorizado.

Síntese

Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete o curso momentâneo do seu raciocínio.

Exemplos

Victor Hugo, Edgar Degas, André Gide, Herman Hesse.

Vênus

Aquilo que o indivíduo lê ou escuta, facilmente se transforma em imagens. É um indivíduo que fala ou pensa de maneira persuasiva, gerando imagens que ficam
retidas na memória. Tem grande habilidade pictórica ou retórica ou então as duas, podendo fazer as pessoas verem mediante a verossimilhança do exemplo empregado. O
exemplo é a arte retórica por excelência. Raciocina mediante exemplos. A extensão da compreensão será dada pela maior visibilidade do objeto pensado ou da experiência
em questão. O que fala não tem compromisso crítico com o real, mas sim com a verossimilhança nascida da harmonia e da estética da relação signo-significado. É um
indivíduo que afina a palavra com a sensação requerida, enriquecendo-a, e desta forma se auto-satisfazendo. Imaginação harmônica da palavra e da imagem. A capacidade
persuasiva e plástica nem sempre se expressará exteriormente em palavras; mas, interiormente, ela está sempre operante.

Síntese

Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante o curso momentâneo do raciocínio — seu ou alheio.

Exemplos

Immanuel Kant, Hans C. Andersen, Franz Liszt, Karl Marx, Gustave Flaubert, Louis Pasteur, Emile Zola, Oscar Wilde, Winston Churchill,
Maurice Ravel, Leon Trotsky, Pablo Picasso, Maurice Chevalier, Charles de Gaule, Simone de Beauvoir.

Lua

Fala e ouve refletindo apenas o que sente no momento. É profundamente afetado pelo que ouve ou pelo que lê (“Este livro mudou minha vida”). O indivíduo já se
sente alterado pelo que o outro vai dizer. É sensível ao falar, expressa os seus sentimentos e sabe chamar atenção para o que está falando. A expressão verbal é uma
maneira de lidar com seus sentimentos, entretanto, os assuntos, os temas o atraem conforme o desejo do momento. No que o indivíduo fala, coloca toda a sua energia e se
desgasta emocionalmente. É a expressão sensível da linguagem centrada no falante. Quer ser gostado em função do que comunica. Só ouve o que lhe interessa, que varia
de acordo com o seu estado emocional. A felicidade está no processo do conhecimento e da aprendizagem e portanto o indivíduo tem o senso da vida como viagem,
percurso e aventura, o senso do valor da experiência.

Síntese

Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação tudo que afete o curso momentâneo do seu raciocínio.

• EXEMPLOS

Leonardo da Vinci, Napoleão Bonaparte, Edouard Manet, Henry Ford, Carl G. Jung, Herman Hesse, Adolf Hitler, F. Scott Fitzgerald.

45
Casa IV

Refere-se à intimidade do sujeito: a imagem do ritmo interior, a passagem do tempo dentro de si e a vivência das emoções. A cada momento sabe o que está
sentindo e com que intensidade e participação. Antevisão e vivência dos temores, anseios, desejos, aspirações, atmosfera psicológica e estados passageiros. É onde há a
menor distância entre os desejos e seus objetos. É a auto-imagem musical. É o rio do tempo e a própria dissolução nele. É a impermanência.
Por se relacionar ao desejo, esta casa fala de uma falta e do anseio pelo seu preenchimento. O estado emocional do indivíduo é dosado pela relação desejo x
possibilidade de gratificação.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA PSICOLÓGICA

O mundo que o indivíduo intui mais facilmente é o de seus próprios sentimentos. Sempre sabe se está feliz ou infeliz e naturalmente atua de modo a atender seus
anseios de felicidade. Encara as outras pessoas como depósitos de desejos, anseios, como se elas também prestassem atenção ao seu bem-estar emocional o tempo todo.
O tônus é marcado pela consciência de infelicidade ou felicidade.
Antevisão e vivência da impermanência das coisas, das motivações, dos desejos, das aspirações, da atmosfera psicológica, dos humores e dos estados
passageiros. É a instabilidade. Conseguir o objeto desejado é temer pela perda do mesmo, porque o desejo é uma relação mediada pelo tempo. Para estas pessoas
raramente haverá momentos neutros, todos tendem a ser valorados. O sentido do tempo é muito profundo. O mundo, a vida é vista como uma coisa viva. Envolvimento
pessoal profundo.
Tem instantaneamente a visão de qual a atração exercida ou padecida a cada momento nas relações. Sabe o quanto atrai os outros para que realizem o seu desejo
ou o quanto é atraído para que realize os desejos dos outros. Sabe instantaneamente se as pessoas estão alegres ou tristes e o sabe mais ou menos por quê. Sabe como
atuar sobre o humor das pessoas, a cada momento. Intui mais facilmente o indivíduo isolado do que a relação entre os papéis num contexto social, desta forma personaliza
todos os comportamentos. O mundo é um cenário passivo onde se desenrola a história de sua alma. Percepção narrativa.
Tenta ver as coisas pelo seu valor afetivo, sentimental. Se a situação não lhe diz nada neste sentido, inventa alguma coisa para acrescentar a ela valores afetivos
que a tornem interessante. Se não consegue fazer isto, se desinteressa completamente pela situação. Espera receber algo do mundo.

• SÍNTESE

Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade o conjunto de seus motivos de gratificação e frustração dos desejos.

• EXEMPLOS

Victor Hugo, Hans C. Andersen, Charles Dickens, Emile Zola, Woodrow Wilson, Marcel Proust, Leon Trotsky, Pablo Picasso.

SATURNO

O que aparece para o sujeito como insubstancial, irreal, é ele mesmo enquanto sujeito desejante, é a sua própria alma (conjunto de aspirações, desejos,
sentimentos, etc.) O objeto do desejo escraviza o indivíduo e, ao mesmo tempo, é o fato do indivíduo desejá-lo que dá a esse objeto tanto poder. Se o indivíduo obtém o
objeto, é o objeto quem tem o poder de completá-lo; se não o obtém, permanece em privação.
Há uma dialética de desejo e frustração, que lhe torna dolorosa a convivência com os outros porque estes não sabem como satisfazê-lo. É um infeliz crônico, quer
compreender racionalmente o estado de desejo, o que é impossível. Só o que se pode compreender racionalmente é o conceito genérico (essência permanente) deste ou
daquele desejo, não o estado de desejo no momento real, de vez que o próprio esforço de com-preensão racional exige distanciamento, portanto renúncia ao desejo.
O indivíduo se questiona profundamente e o tempo todo. É a posição de maior auto-questionamento e também a que mais debilita a auto-confiança. Não permite a
entrada de novas experiências emocionais enquanto não tiver resolvido aquela a que se apegou. Estranha o próprio sentimento, não tem conforto íntimo. Tenta não sentir o
sentimento e procura compreendê-lo logicamente, e assim o perde.
Os estados emocionais tendem a se estabilizar como problemas, procura repetir os felizes e repelir os infelizes, e vai falhar. O indivíduo necessita ser
compreendido e explicado pelo outro. Só se sente capaz de amar na medida em que exista uma condição intelectual que o compreenda, o explique e o abarque. Sente-se
frágil, vulnerável ao desejar, e entediado ao satisfazer o desejo, surgindo daí o desejo do desejo. Este indivíduo pode tentar não desejar nada, cercando-se de tudo que
necessita, fechando um círculo para bastar-se, ou motivando-se e movendo-se pela imitação do desejo dos outros.
Vocação psicológica pelo interesse na problemática. A mãe, o lar, o sentimento serão sempre motivos de reflexão. O problema colocado é o problema das suas
origens: como ele foi um nada e hoje ele é algo. Uma das maneiras simbólicas da questão: permanecer apegado ao seu passado porque a pergunta está lá.
Num desenvolvimento ideal, o indivíduo iria compreendendo que o desejo é que dá movimento à vida, através da transformação de um desejo em outro, do
deslocamento do desejo de um objeto a outro. A única forma de razão compatível com o desejo é a narrativa, através da qual o indivíduo pode organizar o fluir de seus
estados de alma no tempo (não existe desejo sem tempo), podendo com isso até mesmo desenvolver uma aptidão histórica. É importante para este indivíduo compreender
que a conexão entre estados emocionais é temporal, não lógica.

APORIA

O indivíduo percebe uma barreira entre o desejo, a falta de algo, e a sua satisfação. Insubstancialidade da alma, do sujeito desejante. Impossibilidade de
racionalizar o desejo, cujo objeto é acidental.
Todo objeto de desejo exerce domínio sobre o sujeito desejante; logo, representa também uma ameaça (de frustração). O medo, porém, opõe-se ao desejo; logo, o
objeto do desejo é ambíguo: prazer e dor.
Na tentativa de escapar desta aporia, o indivíduo constrói esquemas racionais para dominar intelectualmente o desejo; mas o distanciamento necessário a isto
reprime e sufoca o desejo, resultando em falta de motivação, portanto num sentimento de pobreza e melancolia, no qual os objetos de desejo desaparecem numa distância
inatingível.

• SÍNTESE

É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que se refira à gratificação e frustração dos
desejos.

• EXEMPLOS

Frédéric Chopin, Maurice Ravel, Ernest Hemingway, Walt Disney, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Judy Garland, Marilyn Monroe.

JÚPITER

Tende a confiar imensamente na sua capacidade de atingir a felicidade, de obter o que deseja, de criar em si mesmo seu próprio objeto de satisfação. Acredita que
a Providência o ajudará a realizar seus mais íntimos desejos, que ele conseguirá se impor às circunstâncias externas que poderiam causar-lhe infelicidade. Por isso, não se
deixa abater por frustrações emocionais, por desejos não realizados. Sente-se livre em relação aos próprios desejos, em decidir realizá-los ou não, mantê-los ou fazê-los
cessar, num esforço de vontade. Confia na felicidade final.

• SÍNTESE

Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos seu estado íntimo de equilíbrio. Gratificação-frustração.

• EXEMPLOS

Johan W. von Goethe, Richard Wagner, Giuseppe Verdi, Edgar Degas, Thomas Hardy, Friedrich Nietzche, Marcel Proust, Maurice Chevalier,
Charles de Gaule, Walt Disney, Richard Nixon, Albert Camus, Tyrone Power, Judy Garland.

MARTE

Reage a qualquer situação que ameace seu equilíbrio emocional, sua felicidade atual, a qualquer coisa que possa preencher ou frustrar um desejo seu. Deseja e
rejeita o objeto externo, simultaneamente.
Necessita mudar o estado psicológico das pessoas íntimas, ser comovente e atuar na própria intimidade.
Quer satisfazer imediatamente todos os seus desejos; quer a felicidade já. Se o estado de desejo se prolonga, fica muito incomodado. É um estado agudo,
passando rapidamente da profunda felicidade para a profunda infelicidade. Acha que as pessoas não o entendem e é extremamente difícil satisfazê-lo. Tenta fugir de
situações que lhe possam ser desagradáveis emocionalmente, ou procura resolvê-las logo para não se sentir invadido por elas. A tensão entre o desejo e a frustração é tão
grande que o próprio desejo, ao apresentar-se, já contém o elemento irritante. A irritação tende a confundir-se com a excitação.
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• SÍNTESE

Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que diga respeito à gratificação e frustração dos desejos.

• EXEMPLOS

Louis Pasteur, Emile Zola, Oscar Wilde, Thomas Mann, Maurice Chevalier, Charles de Gaule, Walt Disney, Simone de Beauvoir, Richard Nixon,
Gregory Peck.

VÊNUS

Guarda na memória os estados emocionais agradáveis para poder otimizar suas alterações emocionais do dia-a-dia, e projetar uma felicidade futura. Não sente
muita necessidade de agir em resposta aos estados emocionais, porque tem a facilidade de trabalhá-los imaginativamente, criando uma versão mais otimista. Completa na
imaginação o que lhe falta para ser feliz. Dá um fundo de felicidade passiva que serve de apoio para o indivíduo em todas as situações. Imaginação harmônica dos estados
emocionais.
Em casos de profunda depressão as imagens de felicidade desapareceriam e a tristeza tomaria a forma de uma espécie de conformidade fechada em si mesma,
por ausência de objeto de desejo.

• SÍNTESE

Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante o seu estado íntimo, seja de satisfação ou frustração.

• EXEMPLOS

Victor Hugo, Edouard Manet, Paul Cézanne, André Gide.

LUA

O objeto de valoração são os estados emocionais. Sentimento puro, deseja intensamente a felicidade. É sensível e procura um ambiente que lhe proporcione um
equilíbrio entre segurança emocional e satisfação, sendo que a passagem de um estado ao outro é extremamente dolorosa. Busca uma harmonia íntima, mas sente
profundamente a impermanência de seus estados, ao mesmo tempo que, não abdicando de pequenas satisfações, se torna mais instável ainda. Desejo de uma ligação
emocional profunda. A questão é a impermanência da felicidade, ora o objeto desejado pode ser gratificante, ora pode ser frustrante. Ao contrário de Marte na IV, em que
gratificação e frustração tendem a se fundir num só complexo, tornando dolorosa a própria satisfação, Lua na IV é alternância, sem fusão dos dois momentos.

• SÍNTESE

Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação a gratificação e frustração dos desejos.

• EXEMPLOS

Johann W. von Goethe, Wolfgang A. Mozart, Honoré de Balzac, Franz Liszt, Emile Zola, Woodrow Wilson, Jean-Paul Sartre, Simone de
Beauvoir.

47
Casa V

Representa em todos os casos o conhecimento que o indivíduo tem de todas as suas possibilidades de ação pessoal num determinado momento. Este domínio é
estreito ou amplo em cada situação. É o que se sabe ou não se sabe, de fato, do que se pode ou não se pode fazer a cada momento. É o domínio das situações que se pode
conquistar ou perder. É a consciência do poder pessoal inerente ao indivíduo.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA TÁTICA

O indivíduo presta mais atenção ou capta mais facilmente as situações onde haja oportunidade de demonstrar suas capacidades; em outras situações, ele pode
criar artificialmente um enfoque desafiador, e assim retomar a atenção. Pode se envolver em situações que não o interessam de forma alguma, só para treinar, praticar suas
capacidades.
O Sol na Casa V permite uma capacidade de se desenvolver sozinho, de aprender sozinho, portanto este indivíduo pode achar que os outros têm a mesma
capacidade ou, ao perceber que não é assim, pode se considerar um indivíduo excepcional, predestinado.
Ele conhece os talentos que tem e os que não tem. Sua ação é auto-centrada na consciência de suas capacidades. “Eu posso e vou fazer”. Não sabe assistir
apenas, tem de ser o centro agente, expressando uma capacidade auto-consciente. Isto não significa que ele tenha amor à competição; goste ou não dela, este indivíduo irá
encarar tudo como competição. O mundo para ele é um campo de jogos onde, a cada momento, sua capacidade é solicitada a se mostrar. Sem desafios, sua inteligência se
apaga. As palavras decisivas são vitória e derrota.
Prende-se à realidade da experiência momentânea e não em padrões pré-existentes, responde aos desafios na hora em que estes acontecem. Aproveita cada
momento e se adequa a cada situação.

• SÍNTESE

Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade os desafios à sua capacidade.

• EXEMPLOS

Leonardo da Vinci, Wolfgang A. Mozart, William Blake, Giuseppe Verdi, Theodore Roosevelt, Henri Matisse, Maurice Ravel, Richard Nixon.

SATURNO
O que é visto como insubstancial para o sujeito é ele mesmo enquanto autor dos seus atos. Pergunta se é ele quem domina as situações, ou se é dominado por
elas; quer saber qual é o segredo para ser vitorioso sobre as situações da vida em todas as áreas onde se sinta desafiado e tenha que competir. A necessidade de auto-
afirmação, de tirar uma dúvida sobre si enquanto criador de seus atos, é o que motiva seu desejo de se impor sobre as circunstâncias. Com isso, tão logo realiza uma
coisa, imediatamente a desvaloriza, por perceber que a fez por auto-afirmação, não sendo então criador mas uma vítima insegura e cheia de dúvidas sobre si mesma. Sua
dúvida não é sobre o “eu”, mas sobre o “eu que se expressa em atos”.
Com esta posição a pessoa gosta de “jogos de mentira”, que são resolvidos num plano puramente lógico e sem riscos verdadeiros. O enfoque das situações de
oportunidade, de derrota e vitória, é intelectual, portanto indireto e através de esquemas. Quanto menos real e viva for a situação do jogo, melhor. Compara suas
capacidades atuais com um padrão ideal pré-estabelecido por ele mesmo. Tem um esquema ideal abstrato (separado do esquema habitual da experiência), que marca um
padrão que é inatingível por definição. Questiona e estranha a exposição da sua própria capacidade. Quer saber logo as regras do jogo e o esquema de ações. Teme a
impotência, a derrota. A questão é: qual o segredo que torna o sujeito hábil e dominador numa determinada situação, por que uns vencem e outros perdem?
Num desenvolvimento ideal, o indivíduo adquiriria um conhecimento técnico refletido em todas as áreas que lhe interessam, construindo para si uma performance
razoável nessas habilidades, e fundando nisto a sua auto-estima. O conhecimento técnico inclui todas as situações possíveis, dentro de certa área, e o ideal seria o
indivíduo adquirir um conhecimento suplementar até para ensinar. O importante é que nunca seja desafiado para algo que não conheça, pois não sabe improvisar,
necessitando de muito preparo. É característico do desenvolvimento não ideal desta posição, o sentimento de incapacidade e inveja (oposição entre a sua própria
capacidade e a de outro).
Seu esquema adaptativo pode ser: especializar-se numa determinada habilidade, protegendo-se de qualquer possibilidade de fracasso; adotar uma imagem de
incapaz, delegando aos outros qualquer coisa que o desafie a expressar alguma habilidade ou competir compulsivamente (nunca se certificando se a vitória depende dele
próprio ou do fracasso casual dos adversários).

APORIA

Impossibilidade de constatar a própria competência independentemente dos seus atos, e ao mesmo tempo, não se reconhece totalmente como autor deles.Não
posso vencer sem conhecimento. Mas o conhecimento é recebido de fora. Logo, se venci graças ao conhecimento, não fui eu que venci. Logo, quem ganha, perde.

• SÍNTESE

É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que denote um desafio às suas
capacidades.

• EXEMPLOS

Wolfgang A. Mozart, Franz Liszt, Thomas Hardy, Henri Matisse, Winston Churchill, Georges Bernanos.

JÚPITER

Confia na própria capacidade. É o criador de oportunidades. Onde não existe oportunidade, o indivíduo cria alguma. Suas derrotas não o deixam abatido, pelo
contrário, sente-se desafiado e aposta mais alto ainda, pois não tem medo de perder, de fracassar. O senso da autoconfiança é aumentado pelas situações que o desafiem a
mostrar sua capacidade para si ou para os outros, o que traz uma auto-satisfação ativa (em contraste com a auto-satisfação passiva, que se refere à Casa IV).

• SÍNTESE

Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos qualquer desafio à sua capacidade.

• EXEMPLOS

William Blake, Arthur Koestler.

MARTE

Reatividade em relação aos desafios. Ser jogador, provar que é capaz. O indivíduo reage às provocações ou desafios à demonstração de suas habilidades, sua
performance numa situação presente. Isso pode incluir situações de jogo ou qualquer mostra de destreza. Qualquer situação que apele à sua auto-afirmação através de
capacidades que possua.

O modo como reage pode ser aceitando rapidamente qualquer desafio e livrando-se logo de tal situação, para que a sua autoconfiança não seja abalada;
provocando os outros para afastar de si próprio tais provocações; fugindo das situações onde tenha que demonstrar alguma habilidade específica; criando ele mesmo
situações desafiadoras porque a ausência de oportunidade para mostrar-se capaz o torna inseguro.

• SÍNTESE

Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que denote um desafio às suas capacidades.

• EXEMPLOS

Franz Liszt, Charles Dickens, Edouard Manet, Woodrow Wilson, F. Scott Fitzgerald.

VÊNUS

Guarda na memória as situações gratificantes do seu desempenho, seus momentos de vitória. Enxerga cor-de-rosa as situações de desafio e considera que irá
vencê-las sempre, idealizando seu próprio desempenho. Capacidade de improviso imaginativo. Se auto-satisfaz criando imagens de vitória, sem que necessariamente atue
nas situações. Imaginação harmônica das situações de desafio à sua capacidade.

Se muito deprimido torna-se incapaz de enxergar qualquer atrativo numa perspectiva de luta e vitória; torna-se indiferente às suas próprias capacidades.

• SÍNTESE
49

Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante os desafios à sua capacidade.

• EXEMPLOS

Charles Dickens, Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt, Walt Disney.

LUA

Valoriza as situações de desafio porque acha que é nelas que vai encontrar felicidade. Deseja a vitória e sente prazer no ato de conquistar as coisas. O estado
emocional determina sua capacidade de enfrentar os desafios e vice-versa. Está feliz ou infeliz conforme o próprio desempenho, e ao mesmo tempo o desempenho depende
de o indivíduo estar feliz ou infeliz. Alternadamente pode se sentir muito capaz ou muito incapaz, independentemente dos motivos objetivos, de modo que a demonstração
efetiva da capacidade depende de haver uma coincidência entre a oportunidade externa, a capacidade real e a motivação subjetiva.

• SÍNTESE

Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação qualquer fato ou situação que interprete como um desafio à sua capacidade.

• EXEMPLOS

Hans C. Andersen, Paul Cézanne, Auguste Rodin, Kaiser Guilherme II, Henri Matisse, Maurice Ravel, Pablo Picasso, Maurice Chevalier, Ernest
Hemingway, André Malraux, Mário Ferreira dos Santos.

49
Casa VI

Refere-se à integração do indivíduo no meio circundante, tomado como um todo. É a relação entre os recursos totais e organizados do indivíduo e o conjunto das
exigências que lhe pesam desde fora. Pode ser descrita como “rendimento” no sentido que o termo tem em Física. Também pode ser imaginada como um paralelogramo de
forças, ou como equilíbrio ecológico, ou como balanço contábil. Reflete a elaboração de um sistema que torne a vida funcional para o indivíduo, organizando cada parte do
sistema de maneira a facilitar o funcionamento do todo, inserido, por sua vez, numa totalidade ambiente. É a relação entre corpo e mundo, parte e todo, órgão e organismo,
micro e macro.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA ORGÂNICA

Enxerga-se facilmente como um todo, um sistema, um microcosmo, e avalia também facilmente a produtividade deste sistema (relação entre energia e resultado)
Sua inteligência funciona enquanto tem a visão completa das suas relações com o meio externo e interno, conhecendo sua estrutura e organização. Para poder ter
controle de tudo o que se passa com ele tenta cortar os vínculos do microcosmo, que focaliza, com todos os fatores acidentais, pois os dados que não se encaixam
facilmente num sentido de totalidade orgânica apagam sua inteligência. Tende a compreender tudo de forma orgânica, como parte de um sistema que funciona
harmonicamente.
Cria uma regra dentro do conjunto, dentro da organicidade. Não vê seus atos isolados. Senso de adaptação instintiva. Sentido de eficácia e funcionalidade.

• SÍNTESE

Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da rea-lidade o seu encaixe no sistema das exigências circundantes imediatas.

• EXEMPLOS

Frédéric Chopin, Edouard Manet, Edgar Degas, Hermann Keyserling, Franklin D. Roosevelt, Charles Chaplin.

SATURNO

Diante de qualquer dado da realidade, ou das suas próprias ações, o indivíduo se pergunta: Qual é a ordem imanente a isto? Qual é o sistema no qual isto se
encaixa? Se não tem um código, não consegue compreender nem agir.
Da mesma forma, se falta uma parte já não entende o todo. É difícil lidar com a acidentalidade, pois o acidente lhe parece um fragmento que ele não consegue
reinserir no conjunto. Só consegue compreender o todo em função das partes, e as partes em função do todo, formando um sistema fechado. Não suporta “non sense”, o
que é disforme, o inorgânico.
Isto pode gerar problemas em todas as áreas, na maneira como mapeia o sistema de sua vida com o qual ele se encaixa e se dirige em qualquer direção. Por
exemplo, pode gerar uma dificuldade um tanto artificial e histeriforme de coordenação motora, querendo compreender como as partes do corpo se movem, colocando sua
atenção no movimento ao mesmo tempo que o desdobra mentalmente em partes, impossibilitando a síntese que é a própria execução do movimento (aporia de Zenão).
Da mesma forma, a aprendizagem de certas disciplinas pode ser quase impossível se a pessoa não souber onde aquilo vai chegar, com que todo aquilo se
relaciona.
A pessoa tem uma exigência de sistematização que nem sempre a prática pode atender. Tem um senso de economia de tempo e energia que pode, no entanto,
levá-la a desistir de qualquer organização, pois elabora sistemas que na prática se revelam inviáveis, pois são de índole analítica e caem na subdivisão interminável,
impedindo o salto qualitativo para a ação.
Tendência ao esforço físico para dar conta do problema, porque não percebe que o problema é mais sutil e intelectual. Busca a perfeição do sistema. Dá
impressão ao mesmo tempo de grande eficiência e total inaptidão. Teme o caos, a desordem (quanto mais tenta ordenar, maior é a impressão de caos).

Num desenvolvimento ideal o indivíduo colocará as questões da relação entre parte e todo a nível filosófico, e não puramente pessoal, compreenderá que há uma
fluidez no universo entre o caos e o cosmos, e que é impossível construir sistemas fechados, impermeáveis à acidentalidade.
Seu esquema adaptativo pode ser: organizar para si um sistema fechado de vida, com critério e ordem inquestionáveis (para não pensar mais sobre isso),
apegando-se aos seus hábitos e excluindo qualquer acidentalidade; abandonar-se ao caos, desistindo de organizar sua vida , suas coisas e atos num sistema inteligível ou
delegar a outra pessoa de seu convívio a função de organizar a sua própria vida, excluindo-se disso.

APORIA

É o todo que determina as partes, ou são as partes que determinam o todo? Se as partes só adquirem realidade no todo, o todo nada pode ser, já que se compõe
de partes que em si mesmas não são nada.
Se a ação só pode ser eficiente quando baseada numa visão do todo e, por outro lado, toda a ação é desinteressar-se da visão do todo para mergulhar num fluxo
particular de causa e efeito, é impossível controlar a eficiência da ação em curso. Logo, toda ação é ineficiente. Entre teoria e prática existe um abismo intransponível, pois
não existe intermediário entre o geral e o particular. O coeficiente de irracionalidade e aposta que existe em toda ação introduz hiatos no sistema do mundo; mas como agir
sem a expectativa de uma resposta sistêmica?

• SÍNTESE

É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que afete seu encaixe no sistema das
exigências circundantes imediatas.

• EXEMPLOS

Gustave Flaubert, Thomas Mann, Henry Miller.

JÚPITER

Acredita piamente na própria capacidade de resolver qualquer problema prático que se apresente, com eficiência e rapidez. Resolve rapidamente qualquer situação
de organização de vida, não chegando nem a sentir o problema. É como se o indivíduo fosse mais rápido que o problema. O problema não consegue prendê-lo, pois ele já
acha logo uma saída, impondo-se sobre a situação. Como não chega a tensionar com o problema, buscando espontaneamente a solução, as pessoas a quem ele pede
auxílio encontram prazer em ajudá-lo, mas, por outro lado, como parece muito auto-suficiente, as pessoas não chegam a acreditar realmente que ele necessita desta ajuda.
Cria sua própria ordem.

• SÍNTESE

Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos seu encaixe no sistema das exigências circundantes imediatas.

• EXEMPLOS

George Washington, Gustave Flaubert, Júlio Verne, Vincent Van Gogh, Mia Farrow.

MARTE

Reage a tudo que possa desestabilizar a ordem estabelecida para si mesmo, o esquema de funcionamento de sua vida e rotina. Algo que saia para fora do lugar
estabelecido, ou algo que falte, para o sistema concebido por ele ficar completo. Luta contra uma desorganização, mas com isso pode desorganizar outras situações. A
própria velocidade com que interfere para vencer a desorganização gera mais desorganização, principalmente porque o indivíduo ataca com todas as suas forças o detalhe
que o incomoda no momento, sem ter em vista o desarranjo muito mais vasto que sua interferência pode causar.
Age rapidamente para restabelecer a ordem concebida, na ilusão de não se preocupar mais com isso. Quer tudo funcionando, mas não quer questionar, pensar
sobre esse funcionamento, motivo pelo qual seu senso de funcionalidade é imediatista e, no fundo, desorganizador. Pode também se encher de regras, para si e para os
outros, no sentido de tornar tudo extremamente funcional, para não ser incomodado por nenhum dado fora desse sistema, que, no entanto, está pronto a abandonar à mais
leve provocação.

• SÍNTESE

Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete seu encaixe no sistema das exigências circundantes imediatas.
51

• EXEMPLOS

Immanuel Kant, Karl Marx, Júlio Verne, Henri Matisse, Marcel Proust, Hermann Keyserling, Judy Garland.

VÊNUS

Imagina-se totalmente adaptado ao ambiente imediato (a maneira como dispende a energia de tempo, como percebe seu próprio ritmo, seu encaixe no sistema do
mundo, e portanto sua funcionalidade), vendo-se como parte de uma organização perfeita e funcional e se auto-satisfazendo com isto. Guarda na memória as vivências
positivas do seu encaixe no mundo. Completa harmoniosamente todas as formas, embelezando a vida, o cotidiano. Imaginação harmônica da sua organicidade.
Se muito deprimido, ou imaginará um total desencontro entre suas aspirações e o meio-ambiente físico imediato, ou procurará um ambiente que seja deprimente,
encontrando em algum tipo de humilhação ou incomodidade a “prova” de que sua tristeza tem razão de ser. A imaginação é uma faculdade produtiva, cuja ação nunca é sem
consequências na esfera da vida real: daí a facilidade de produzir, por ela, profecias auto-realizáveis; o indivíduo que está deprimido por qualquer razão, imaginará, caso
tenha Vênus na VI, que seus padecimentos provém da Casa VI (encaixe funcional no ambiente imediato); e, para provar a si mesmo que tem razão, destruirá esse encaixe,
com o que criará motivos reais para estar deprimido; e assim por diante num círculo vicioso.

• SÍNTESE

Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante seu encaixe no sistema das exigências circundantes imediatas.

• EXEMPLOS

Leonardo da Vinci, Wolfgang A. Mozart, William Blake, Frédéric Chopin, Giuseppe Verdi, Theodore Roosevelt, Kaiser Guilherme II, Marcel
Proust, Carl G. Jung, Hermann Keyserling, Graciliano Ramos, Richard Nixon.

LUA

Valoriza a organicidade dos sistemas que o cercam no dia a dia, buscando um tipo de organização de vida que lhe traga felicidade. É sensível às mudanças que
alteram a rotina diária, porque necessita sentir-se integrado aos esquemas já existentes, sem despender nenhum esforço. O sentimento de desencaixe o deixa angustiado.
A saúde varia com o humor. Existe aqui uma identificação entre a funcionalidade orgânica e econômica e a felicidade em sentido pleno; identificação que ora é real, ora é
falsa: ora o indivíduo se encontra feliz porque tudo funciona bem, ora produz sua própria infelicidade ao agir como se o mero bom funcionamento bastasse para criar
felicidade; ou, pior ainda, como se qualquer necessidade superior e mais complexa devesse ser desprezada em nome da funcionalidade. A idealização da funcionalidade
tanto pode criar uma felicidade da vida simples como simplificar mecanicamente a imagem da felicidade, criando uma expectativa falsa, que se manifesta na proliferação de
pequenas necessidades jamais satisfeitas.

• SÍNTESE

Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação qualquer situação que afete seu encaixe no sistema das exigências circundantes
imediatas.

• EXEMPLOS

Sta. Teresa de Ávila, Júlio Verne, Mark Twain, Vincent Van Gogh, Albert Einstein, Hermann Keyserling, Charles de Gaule, Richard Nixon, Albert
Camus, Judy Garland.

51
Casa VII

Refere-se a apreensão do eu através da relação com o outro, tudo que o indivíduo sabe de si a pretexto de um outro indivíduo. Esta Casa é toda projetiva e o outro é a
referência. É por onde se conhece o especificamente idêntico e numericamente diferente. É o conjunto das relações e sobretudo das expectativas bilaterais: como espero
determinada resposta, ajo de determinada maneira, mas ao mesmo tempo minha maneira de agir fundamenta a expectativa de resposta. É o conhecimento por espelhismo, a
definição mútua dos papéis, com toda a constelação de expectativas, direitos e deveres supostos.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA ELETIVA
A primeira coisa que o indivíduo intui é o outro e intui a si próprio enquanto um dado colocado por outra pessoa. Se não tem a referência a um outro não sabe como agir por
ficar sem informação, se não há confronto não enxerga a situação. A operação de comparação entre o sujeito e os outros é instantânea, natural e não problematizada;
captando intuitivamente o sistema de proporções entre o seu comportamento e o do outro e agindo em função de tal captação, adaptando-se , seguindo as regras de
convivência que percebe intuitivamente (compreensão da bilateralidade no relacionamento humano). Porém, é uma captação momentânea, não tira conclusões e não
influencia outros momentos. A informação comparativa entre o eu e o outro resulta no dado bilateral que tem como única finalidade sua adequação à situação particular.

Para este indivíduo, perceber algo é perceber que as coisas têm ambigüidade. Para se definir diante de uma situação é necessário uma proposta de ação à qual ele possa
dizer sim ou não. Sua inteligência exige uma escolha, uma preferência. Se deixada a si mesma, não tem partido algum a tomar. O que é real para ele é a opção que tem a
tomar. Entretanto toma partido superficialmente porque sua atitude é momentânea e plástica. Percebe os contrastes ou os fabrica para poder intuir.

Geralmente apresenta uma desenvoltura harmônica com o ambiente onde está, pois faz parte da sua natureza perceber se está agradando ou não e tomar atitudes
adaptativas conforme um desejo autoconsciente de agradar ou desagradar.

Percebe as pessoas representando vários papéis, e trata de se adaptar a tais papéis momentaneamente, seguindo as regras do jogo ou violando-as conscientemente.
Sempre sabe se é um adepto ou um adversário.

SÍNTESE
Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade as relações de expectativa bilateral.

EXEMPLOS
Carl G. Jung, Herman Hesse, Adolf Hitler, André Malraux, Tyrone Power.

SATURNO
O indivíduo focaliza sua atenção no outro, e constata perplexo que cada pessoa o vê de forma diferente. Os outros funcionam para este indivíduo como um espelho e com
tantas imagens fica difícil obter uma imagem coerente de si mesmo. Ao contrário do indivíduo com Sol na VII, que se adapta instantaneamente pró ou contra a imagem que
os outros fazem dele, a pessoa de Saturno na VII compara incessantemente as muitas imagens obtidas ao longo da vida, tentando uma síntese, a qual é inevitavelmente
problemática, o que dificulta as tomadas de posição momentâneas.

Os outros são vistos como reais e o indivíduo mesmo se sente insubstancial, escorregadio. Em tudo o que faz se sente observado por espectadores (reais ou imaginários) e
procura corresponder às diferentes expectativas deles. Tenta desesperadamente julgar a conduta alheia para referenciar a sua própria. Cada vez que compara seu
comportamento ao do outro (ou o de um indivíduo ao de outro), quer extrair uma regra para explicar seus comportamentos passados, e preparar os futuros, na tentativa de
criar um código moral e jurídico para si mesmo. Desta forma, o indivíduo, tentando controlar os papéis que vivência, se sente tão insubstancial na tentativa de agradar a
todos, que se torna vulnerável a que os outros o transformem no que queiram, “grudando” nele a máscara que desejarem.

Só consegue entender o outro por um esforço imaginativo, que tem de ser aprendido. Pode imaginar o outro completamente diferente do que é, portanto pode inventar uma
constelação de seres ideais, criando um esquema de comportamentos que espera das outras pessoas, e que usa como padrão de julgamento. Este indivíduo quer uma
regra, um esquema para saber se a resposta do outro é coerente e de acordo com a expectativa dele.

Tem sempre a impressão de não saber perfeitamente quem é o outro com quem está convivendo. Pode tratá-lo sempre do mesmo jeito mas com intenções diferentes ou de
diferentes maneiras mas com a mesma intenção. Cada situação de bilateralidade é vivida como amostra de regra geral para que possa avaliar o comportamento anterior e
projetar o futuro comportamento. Na relação, confiar e desconfiar é sempre um processo desconfortável porque há rigidez na avaliação do comportamento anterior. Qualquer
falha do outro é motivo de desconfiança, admitida conscientemente ou não. Tudo o que eu sei do outro é o que o outro não sabe e o que o outro sabe de mim é o que eu não
vejo... Há uma rigidez tanto no exigir e cobrar quanto, alternadamente, numa benevolência sem critério no julgamento do outro. Não seleciona as pessoas com quem
convive. Acha que é possível encontrar nos outros um espelho fixo de si mesmo, para coerir sua própria imagem.

Colocando a questão do auto-conhecimento através do outro num nível não existencial, mas cognitivo, o indivíduo verá que é impossível ter uma visão coerente de si
mesmo a partir apenas da forma como é visto e tratado pelas outras pessoas, pois não há uniformidade na conduta alheia; não há portanto um espelho estável de si mesmo
no outro. Não estando seguro de nenhum padrão de lealdade, não consegue saber se ele próprio é leal ou não, nem se os outros são ou não traidores. Agindo por tentativa e
erro, certamente erra, pelo menos até que a experiência lhe permita consolidar certas conclusões gerais válidas.

Seu esquema adaptativo pode ser: inventar uma lei abstrata ou adotar uma conduta padrão, em termos de como deve agir e do que esperar dos outros, fixando-se a ela; não
esperar nada dos outros, abstendo-se de julgá-los e aceitando o que vier; criar um esquema seletivo de imagens dos outros.

APORIA
Se cada “outro” me vê como uma forma diferente, eu então não sou nada? Serei apenas um conjunto de imagens?

SÍNTESE
É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que afete uma expectativa bilateral.

EXEMPLOS
Louis Pasteur, Benito Mussolini, Graciliano Ramos.

JÚPITER
A vontade e o livre-arbítrio do indivíduo exercem-se no relacionamento com o outro. Sente-se tranquilo e confiante em relação à sua capacidade de moldar os
relacionamentos à vontade, estabelecendo padrões de julgamento bilateral aceitáveis por ambas as partes e no entanto favoráveis, no fim, aos seus intuitos pessoais. Dito
de outro modo, sente poder harmonizar interesse e direito. Por isto, pode transmitir como imagem de pessoa confiável e bom conselheiro, do mesmo modo que acredita, e
não sem fundamento, poder ter confiança nos outros e encontrar entre eles bons conselheiros. Tem uma arte peculiar de ser fiel aos compromissos e manter-se livre deles
ao mesmo tempo.

Possui uma extrema plasticidade nas situações ambíguas, sentindo-se a vontade para se posicionar de um lado ou de outro, conforme a sua decisão, sem se dobrar a
pressões externas, ou para mudar livremente o quadro das alternativas propostas. Quer sempre colocar-se acima das circunstâncias interpessoais e simplesmente confiar
no seu julgamento a respeito das relações e na lealdade dos amigos. Provavelmente terá poder de persuasão, impondo sua vontade sobre a do outro de uma forma que
parecerá atender exatamente às solicitações do outro.

SÍNTESE
Age como se tivesse o poder de criar expectativas bilaterais favoráveis a seus propósitos.

EXEMPLOS
Edouard Manet, Woodrow Wilson, Mohandas K. Gandhi, F. Scott Fitzgerald, Jean-Paul Sartre, Marilyn Monroe.

MARTE
Reage imediatamente a qualquer interferência real ou suposta dos outros em relação a ele. Ao perceber um mínimo sinal de hostilidade ou oposição, quer definir logo quem
está com quem. Já se declara partidário ou inimigo. Esta reação, evidentemente, pode ser mais ou menos visível conforme o temperamento; o que é característico é a
quase total incapacidade para permanecer sinceramente neutro ou indiferente (exceto, é claro, nos casos que não perceba lhe dizerem respeito). Diante de qualquer ameaça
de interferência, reage antes do fato consumado para não prolongar o sofrimento da espera e da indefinição. Nem por isso guarda rancor, e no dia seguinte pode tratar como
amigo aquele a quem se declarou inimigo. A relação com o outro é sempre intensa e cheia de contrastes.

SÍNTESE
Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete uma expectativa bilateral.

EXEMPLOS
George Washington, Auguste Comte, H. Toulouse-Lautrec, Benito Mussolini, Charles Chaplin, Adolf Hitler, Henry Miller, Mário F. dos Santos.

VÊNUS
53

Guarda na memória as situações favoráveis de relacionamentos bilaterais. Imagina as pessoas melhores do que são, idealizando-as, e se torna mais simpático por isso.
Equipara o outro a si mesmo. Projeta uma imagem de beleza em seus relacionamentos, se auto-satisfazendo com isto, e só levando em consideração a situação real
quando esta não desmente suas expectativas.

A imagem ideal de beleza e harmonia projeta-se sob a forma de rostos humanos e presenças humanas. Daí a necessidade de imaginar as pessoas sob uma ótica favorável.
Quando muito deprimido, porém, este indivíduo encontra uma quase impossibilidade de lançar sobre os outros essa luz favorável; sua escuridão interior se projeta sobre os
rostos dos demais, e a visão de um ambiente humano triste e deprimente surge como a confirmação dos motivos de sua tristeza; só que, como sempre acontece com as
posições de Vênus, essa mera confirmação projetiva é tomada como causa e explicação. Em vez de reconhecer que já não consegue admirar os outros porque está
deprimido, o indivíduo dirá que está deprimido porque as pessoas em torno são feias e sem graça.

SÍNTESE
Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante todas as situações que envolvam expectativa bilateral.

EXEMPLOS
Franz Schubert, Edgar Degas, Henri Matisse, Bertrand Russell, Charles Chaplin, Adolf Hitler, Jean-Paul Sartre, Arthur Koestler.

LUA
Valoriza o outro, esperando que este lhe satisfaça os desejos. Por ser profundamente alterado pelo que os outros fazem, seu estado emocional flutua de acordo com o
humor do parceiro. Deseja ser adivinhado, compreendido, aceito e gostado. Como o outro é, para ele, a fonte imediata de sua alegria ou tristeza, ele se vê funcionalmente
impedido de constituir em torno de si a carapaça de impessoalidade e frieza que muitas situações exigem; pois a mera necessidade de ocultar-se por trás de uma carapaça
o torna muito infeliz, na medida em que bloqueia o intercâmbio de sentimentos. Por isto, a decepção ou a inimizade aberta podem lhe parecer até mesmo preferíveis à
segurança de um relacionamento mais distante e impessoal. Sendo hipersensível à gratificação ou frustração provenientes dos outros, tende a imaginar que estes também o
são, e que dele esperam tanto quanto ele espera deles; motivo pelo qual pode desgastar-se em solicitudes descabidas e meramente projetivas, sentindo-se, ao mesmo
tempo, frustrado pela falta de retribuição. Absorve os espaços afetivos dos outros e por isso perde o senso do limite nas relações.

SÍNTESE
Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação qualquer expectativa bilateral.

EXEMPLOS
Benito Mussolini, Henry Miller, Marilyn Monroe.

53
Casa VIII

Refere-se ao potencial de ação do indivíduo num momento presente, numa situação que requeira a ação do sujeito através de uma decisão imediata, de emergência. É um
potencial de estimativa e conjectura. Ao contrário da Casa II, que se refere à percepção do dado, do fato consumado, como numa tela exposta, a Casa VIII é antecipação, é
conhecimento estimativo e quase premonitório do potencial imediato contido na situação. Não confundir com Casa XI, que é antecipação de meras possibilidades, e portanto
escolha e plano de futuro. A Casa VIII não implica nenhuma escolha livre, mas apenas uma decisão imediata, praticamente forçada pela percepção súbita de uma mudança
iminente.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA INQUISITIVA
Percebe facilmente as tensões latentes numa situação presente, isto é, sua atenção dirige-se naturalmente para a tensão oculta das coisas. Intui possibilidades de ação
imediatas. A inteligência é centrada numa espécie de pressentimento do momento, do que pode acontecer, dos fatores que podem alterar o quadro repentinamente. A
situação de emergência ou de urgência faz com que enxergue melhor, o medo é um estimulante. Por outro lado, pode desligar-se ou agir com pouco sentido em situações
que não lhe solicitem nada de imediato. Situações estáveis e rotineiras, negando estímulo à sua inteligência, tenderiam ou a embotá-la ou a convidá-la a enxergar o que não
existe; pode ser que ainda o indivíduo, não enxergando um potencial imediato de mudança, tenha de criá-lo ele mesmo, só para poder enxergar melhor. Visualiza a situação
e sente-se mais confortável quando confirma seu pressentimento. É uma inteligência que funciona espasmodicamente, oscilando entre um repouso quase anestésico e a
irrupção súbita e um fluxo vertiginoso de intuições muito precisas.

SÍNTESE
Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade as causas de mudança iminente do estado de coisas.

EXEMPLOS
P. Charles Baudelaire, Kaiser Guilherme II, Bertrand Russell, Graciliano Ramos, F. Scott Fitzgerald, Jean-Paul Sartre, Arthur Koestler, John F. Kennedy.

SATURNO
A perspectiva de mudanças iminentes suscita neste indivíduo toda a sorte de interrogações que visam a enquadrar esta situação particular numa regra geral que seria válida
para todos os casos similares. Dito de outro modo, o impulso generalizante da razão é acionado pelas situações de emergência, que são vistas como incongruentes e
problemáticas sempre que não possam ser reduzidas a meros exemplos de uma regra geral já conhecida. Como é muito improvável que alguém já conheça de antemão
todos os tipos de situações de emergência em que poderá envolver-se — exceto dentro de algum âmbito particular a que esteja habituado, como por exemplo, no âmbito da
sua profissão —, é quase certo que na maior parte dessas situações o indivíduo se verá assoberbado por uma multidão de perguntas sem resposta e, logo, por uma
indecisão paralisante. Rejeita criticamente estas situações e sente necessidade de ter regras, padrões de reação para todas as situações de emergência, buscando uma
garantia permanente contra todos os imprevistos. Como essa garantia não existe, surge um sentimento de impotência, de que não é possível desencadear efeitos
significativos sobre as situações. Mesmo que faça algo não consegue reconhecer o efeito. Nada do que faça lhe parece ter a mínima consequência. Tem medo do
imprevisto. Quer chegar a um domínio racional das coisas, controlar o conjunto das causas eficientes; como não consegue, lhe parece que todas as coisas acontecem pela
sua falta de interferência ou por sua ação falha, o que pode criar nele, em reação, uma verdadeira compulsão de interferir, e ao mesmo tempo, uma dificuldade maior ainda
de fazê-lo com eficiência e adequação.

Tudo o que capta sensorialmente só é compreendido pela antecipação da experiência, os sentidos dão um pedaço da história e a antecipação dá o resto. O mundo deixa de
ser visto como uma coleção de coisas e passa a ser visto como uma coleção de latências e possibilidades que se renovam a cada ação de momento, mas, ao contrário do
indivíduo com Sol na VIII, Saturno na VIII deseja limitar e enquadrar essas latências num quadro finito. Busca a ação perfeita e segura, definitiva, e por isso está sempre
indeciso. É comum a experiência de pânico, de medo que paralisa, nos momentos decisivos. Tende a ficar sempre se preparando para alguma situação de emergência
possível.

Num desenvolvimento ideal, este indivíduo colocaria a questão num ponto de vista filosófico até corrigir a ilusão de segurança absoluta para agir. Poderia transcender tal
problemática desenvolvendo sua capacidade de investigação, procurando descobrir as causas eficientes dos acontecimentos a longo prazo.

Seu esquema adaptativo pode ser: demarcar um setor no qual crie um sistema de previdência, preparando-se para um certo tipo de emergência, sendo desta forma muito
mais eficiente nas situações para as quais se preparou ou então fugir ou se omitir de situações emergenciais.

APORIA
Qual seria o padrão racional para resolver imprevistos, se imprevistos, por definição, são situações que escapam ao que se pode prever?

SÍNTESE
É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que se afete suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
Sta. Teresa de Ávila, William Blake, Giuseppe Verdi, P. Charles Baudelaire, Edgar Degas, Paul Gauguin, Guy de Maupassant, Tyrone Power.

JÚPITER
Autoconfiança nas horas de perigo, nas grandes dificuldades, motivada pelo pressentimento de que, paradoxalmente, as exigências prementes da situação aumentam, em
vez de diminuir, suas possibilidades de escolha. Não tem medo de situações de perigo, de crise, de precipitação de acontecimentos súbitos, pois confia ilimitadamente na
sua liberdade de ação, da qual toma consciência mais aguda justamente nestas situações (permanecendo, relativamente, esquecido dela nas situações corriqueiras e
“normais”). Por isso, não chega a se abalar com mudanças no rumo dos acontecimentos, na configuração da situação presente, e consegue manter um firme senso do seu
poder. É mais eficiente nas situações de extrema gravidade do que nos acontecimentos da vida cotidiana.

O pressentimento da morte próxima surge como uma libertação de todos os entraves da vida cotidiana e, por isto, como um acréscimo da potência pessoal. A disposição de
aceitar a morte acaba funcionando como um instrumento de salvação nas piores horas.

SÍNTESE
Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos as mudanças iminentes do estado de coisas.

EXEMPLOS
Frédéric Chopin, Charles Dickens, P. Charles Baudelaire, Louis Pasteur, Oscar Wilde, André Gide, Carl G. Jung, Leon Trotsky, Benito Mussolini, John F. Kennedy.

MARTE
Reatividade pura: percepção fácil e respostas prontas às situações de emergência, de perigo, de dificuldade, e ao mesmo tempo uma extrema suscetibilidade a estas
questões. Precipita a situação antes que ela aconteça.

Reage imediatamente fugindo ou enfrentado a situação. O importante é não ficar como está, não prolongar a tensão, o perigo. Pode tornar-se previdente para perigos
iminentes. Por não querer correr risco algum fica sempre alerta; fareja crises, pressente mudanças. Em geral é irrequieto.

SÍNTESE
Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que anuncie uma mudança iminente do estado de coisas.

EXEMPLOS
Hans C. Andersen, Abraham Lincoln, Frédéric Chopin, P. Charles Baudelaire, Auguste Rodin, Pierre A. Renoir, Theodore Roosevelt, Bertrand Russell, Albert Einstein, André
Malraux, John F. Kennedy, Marilyn Monroe.

VÊNUS
Completa imaginativamente as transições e mudanças, suavizando-as e se auto-satisfazendo com isto. Projeta uma imagem idealizada das situações que estão por
acontecer, prevendo-as desta forma.

A função principal da imaginação é completar num quadro harmonioso os dados fragmentários da experiência. É pela imaginação que estes adquirem um lugar e um sentido
no conjunto. Vênus na VIII indica que as mudanças iminentes, por mais imprevistas e “irracionais” que se anunciem, já aparecem como felizes complementações; em vez
de romperem a unidade de um quadro estabelecido, fornecerão, ao contrário, os elementos faltantes para completá-la: o que está para acontecer aparece sempre como “o
que faltava para tudo ficar bem”. É claro que esta expectativa é puramente subjetiva e independe do conteúdo real dos acontecimentos; é claro também que, nessas
condições, a espera de um desenlace próximo, que pode ser angustiosa para muitas pessoas, aqui adquire uma aura de encanto e excitação. A associação da Casa VIII
com o sexo vem através da noção de um acúmulo tensional que termina numa descarga. Trata-se de apenas um dos aspectos do sexo reconhecidos por Otto Weininger: o
aspecto paroxismal, não o sexo como comunicação.

Em caso de depressão profunda, a expectativa da completude perverte-se numa atração pela descarga enquanto tal, numa busca do paroxismo e, logo, numa alternância de
indiferença abúlica e excitação exacerbada.

SÍNTESE
55

Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante qualquer mudança iminente do estado de coisas.

EXEMPLOS
Ralph W. Emerson, P. Charles Baudelaire, Herman Hesse, Benito Mussolini, F. Scott Fitzgerald, Mário F. dos Santos, Tyrone Power.

LUA
Enfatiza a possibilidade de mudança iminente do estado de coisas, quer como valor positivo, quer como negativo. É vulnerável à captação da latência das coisas, que
modifica seu estado interior. É movido por esta expectativa. Sente atração e temor pelo perigo. Tem avidez de mudar as coisas pela extrema necessidade de fazer algo para
aliviar a tensão interna — não por sentimento do dever — e, em geral, a mudança obtida não responde à expectativa, porque, no fundo o que importava não era o conteúdo
da mudança esperada, mas a manutenção do movimento. O pressentimento do que está para acontecer afeta continuamente o estado de ânimo do indivíduo. Estado de
alerta, de atenção para o que vai acontecer. Há o desejo e o temor de que as coisas aconteçam, que se expressa, ora no esforço para precipitar um desenlace, ora para
evitá-lo. Tende a amplificar qualquer sinal de perigo. É indefeso diante dos perigos imaginários, uma vez que, precisando deles como estímulo, no fundo não deseja se livrar
deles. Vive numa espécie de equilíbrio instável entre o temor e a esperança, como se a continuidade do seu movimento vital dependesse de não se definir nem por um nem
pelo outro e também de não repousar estaticamente num ponto intermediário.

SÍNTESE
Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação qualquer informação que anuncie mudança iminente do estado de coisas.

EXEMPLOS
Louis Pasteur.

55
Casa IX

Refere-se ao sistema de crenças do indivíduo, à captação de verdades gerais, de princípios, de certezas com as quais possa formar juízos sobre o mundo que o
rodeia. É o objetivo e termo final do pensamento, aquilo que não precisa ser pensado ou questionado porque já é sabido. Cada pensamento nosso se assenta em juízos
anteriormente pensados, e que não são recolocados em questão. A Casa IX é o arquivo do já sabido. Isto não quer dizer que estas crenças tenham de ser objetivamente
verdadeiras, mas apenas que são tomadas pelo indivíduo como certas e inquestionáveis, pelo menos até segunda ordem.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA AFIRMATIVA
O indivíduo enxerga naturalmente nas coisas uma verdade, extrai delas uma crença, e isto de uma maneira mais ou menos direta, reduzindo ao mínimo indispensável a
intermediação do questionamento dialético. Apreender intuitivamete, crer e generalizar são compactados numa só operação instantânea. Toda a mediação dubitativa é
rejeitada como mera perda de tempo ou como um adiamento covarde. Há uma grande propensão de saltar diretamente para as conclusões, evitando a investigação de
aspectos problemáticos ou ambíguos. Daí uma espécie de contraste direto e bruto entre a verdade e o erro: ou capta diretamente a verdade num ato intuitivo, ou adere
instantaneamente a uma falsidade. Daí também a dificuldade inicial de rever criticamente suas opiniões, sendo a operação de revisão substituída por mudanças em bloco: a
crença querida é rejeitada no todo e sem mediações, em favor de uma outra. Tem, por isso, dificuldade em aprender a perspectiva de um outro indivíduo. Suas crenças são
auto-referidas. As verdades intuídas vão sendo empilhadas num sistema de crenças e confirmam umas às outras. Busca a firmeza, a convicção. A certeza lhe é vitamínica.
E, por isto, prefere à dúvida a negação pura e simples.

Tende, portanto, a perseverar no seu próprio discurso, pois mudanças contínuas e parciais na direção do pensamento — como as que são normais e habituais com o
indivíduo com Sol na III — criam uma incerteza na qual sua intuição apaga. A parte fundamental do seu pensamento é a parte afirmativa; quer a conclusão, a verdade, a
consolidação de um juízo. Se fizer polêmica é para impor a posição que já tem. Para poder intuir, precisa dar a si mesmo e aos outros uma impressão de certeza, embora
isto não queira dizer que tenha realmente certeza. A certeza real só pode ser verificada através da segurança dos seus atos. Enquanto para o Sol na III o movimento do
pensar, falar, narrar é tudo, para o Sol na IX este movimento é incômodo, pois é só um meio.

SÍNTESE
Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade tudo quanto constitua motivo de certeza, de confirmação de suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
Franz Schubert, Ralph W. Emerson, Henry Ford, Marie Curie, Benito Mussolini, Henry Miller, Mário F. dos Santos.

SATURNO
O indivíduo tenta encontrar verdades definitivas mas esbarra sempre na distância que há entre a verdade lógica, atemporal, e a busca da verdade pelo indivíduo, através do
pensamento. Por isso, qualquer coisa que lhe proporcione um sentimento de certeza é imediatamente questionada, o que cria uma ambiguidade intolerável: quanto mais crê,
mais duvida. Sente-se inseguro quando crê e duvida das próprias crenças, porque tudo submete a uma crítica racional, ao mesmo tempo que a própria exigência de crítica
racional lhe aparece como uma incomodidade dolorosa, que desejaria evitar mas não pode. Necessita de uma crença racional que possa resistir a qualquer crítica, mas não
há outro meio de fortalecer a crença senão submetê-la continuamente ao teste da crítica, o que resulta, com desagradável frequência, em constatar sua irracionalidade.
Sente-se impelido a ter certezas, a sentenciar sobre qualquer coisa, pois só quer acreditar em coisas definitivas. Entretanto, se crê em algo como definitivo, não pode
pensar sobre isso, questionar. Se questiona, fica repleto de contradições que não lhe permitem mais acreditar. Fica com medo de perder suas convicções, de submetê-las a
uma prova dialética, discutindo-as com alguém ou pensando sobre elas, mas ao mesmo tempo a incerteza íntima o faz questioná-las o tempo todo.. As contradições o
paralisam cognitivamente, mas também são irresistíveis. Toda a crença fica relativizada pela razão, pois qualquer conclusão ou generalização lhe aparece como limitada em
relação ao real. Ao mesmo tempo, quer a solução, a conclusão final para todas as questões.

Num desenvolvimento ideal este indivíduo colocaria a questão como um problema filosófico humano e não como um problema existencial seu, compreendendo que existem
verdades absolutas imutáveis, atemporais, que podem ser intuídas e talvez até provadas, mas que, para poderem ser alcançadas pelo indivíduo têm de ser buscadas
através de um processo de pensamento que é cheio de dúvidas e contradições, do processo psicológico que é frágil e contraditório e não é a verdade em si mesma. Só
existe verdade na esfera do conteúdo eidético, não na da sua representação ocasional por este ou aquele indivíduo neste ou naquele momento em particular, a qual, sendo
um fato psicológico, é instável e passageira.

Seu esquema adaptativo pode ser: agarrar-se a uma verdade provisória ou a um sistema de crenças que lhe permita repetir as mesmas verdades, sem pensar nelas (mas a
dúvida aí é chutada para a esfera do inconsciente e vai se exteriorizar através de atos ambiguos que desmentem a univocidade aparente do discurso); permanecer
inconclusivo, concordando com tudo o que aparece; ceticismo — não crer em nada (e neste caso é a necessidade de uma crença que é repelida para o inconsciente);
pobreza filosófica, depressão intelectual: decréscimo patológico da tensão intelectual, para evitar conflitos intoleráveis.

APORIA
Uma verdade que, na esfera do conteúdo eidético, é eterna e imutável, tem de ser encontrada através de um pensamento que é fugaz e cambiante. Como encontrar a
verdade da idéia através da mentira do pensamento. A verdade verdadeira é impensável, e tudo o que é pensável não é verdadeiro.

Outra formulação: A verdade está no ser; ora, não pensamos o ser, mas apenas signos. A verdade escapa, portanto, da esfera do pensamento: é a inatingível “coisa em si”
kantiana.

SÍNTESE
É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que se afete suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
Napoleão Bonaparte, Richard Wagner, Arthur Rimbaud, Marie Curie, Leon Trotsky, Franklin D. Roosevelt, F. Scott Fitzgerald, Richard Nixon.

JÚPITER
Confia plenamente na sua capacidade de formar seu próprio juízo da realidade, de tirar conclusões a respeito das experiências que tem, de ver a verdade nas coisas. Tende
a colocar-se como um juiz, como quem olha do alto para as situações e sentencia sobre elas. Faz questão de manter sua liberdade de julgamento em qualquer
circunstância. Confia nos próprios valores.

O problema do hiato entre pensamento e verdade (Saturno na IX) é aqui contornado pela percepção instintiva de que a vontade é conhecida imediatamente, por intuição
direta e sem signos; de que, portanto, o conhecimento da própria vontade é a raiz e garantia da veracidade das nossas crenças. Júpiter na IX acompanha a solução dada
por Schopenhauer à impossibilidade do conhecimento da coisa em si (Saturno na IX): posso conhecer objetivamente minha própria vontade porque conhecê-la e criá-la é um
só ato, independente de representação (signo). A autenticidade de minha vontade é o que sustenta minhas crenças, sem que eu necessite nem de uma percepção intuitiva
da veracidade dos objetos de crença (Sol na IX), nem de uma prova lógica que resista a toda crítica (Saturno na IX).

SÍNTESE
Age como se tivesse o poder de amoldar às suas crenças todas as informações.

EXEMPLOS
Mark Twain, Bertrand Russell, Albert Einstein, Franklin D. Roosevelt, Simone de Beauvoir.

MARTE
O indivíduo com esta posição sente-se ameaçado por qualquer coisa que possa abalar seus valores e crenças; por qualquer expressão de dúvida alheia em relação às
coisas em que acredita. Enxerga em tudo um desafio às suas crenças e valores, e reage quer pela fuga à discussão, quer pela argumentação inflamada, quer por uma
súbita mudança de opinião. Como, no entanto, suas crenças só se definem mais claramente diante da oposição, é normal que este indivíduo busque essa oposição que no
entanto o aborrece. A oposição ajuda-o a afiar seus argumentos (expressos ou ocultos), mas arrisca-se também a derrubá-los: daí a possível alternância entre a
persistência teimosa e as mudanças súbitas de opinião.

SÍNTESE
Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
Benjamin Disraeli, Claude Debussy, Henry Ford, Marie Curie.

VÊNUS
Guarda na memória imagens e exemplos que confirmam a verossimilhança de seus juízos, apagando sistematicamente as recordações que assinalem perplexidades e
contradições, ou então integrando harmoniosamente estas últimas numa síntese imaginativa que, novamente, confirma suas crenças. Completa imaginativamente de forma
plástica e agradável suas convicções, crenças e ideais morais, idealizando-as. Imagina-se no certo, se auto-satisfazendo com isso. Considera irrelevante tudo o que não
confirma sua crença. Imaginação harmônica da credibilidade de suas crenças.

Em caso de depressão profunda, produz, com a mesma facilidade, imagens que dão verossimilhança às crenças adversas. A capacidade de persuadir-se a si mesmo é
grande em ambos os casos, apenas operando no sentido do desejo ou contra ele.
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SÍNTESE
Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante os motivos de credibilidade que sustentam suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
Napoleão Bonaparte, Friedrich Nietzche, Marie Curie, Thomas Mann, André Malraux, John F. Kennedy.

LUA
Deseja estar no certo, conseguir um sentido ético, moral e religioso, ser “aprovado por Deus”, mas ao mesmo necessita manter um estado de dúvida, que lhe dá um
sentimento de estar vivo; de modo que a necessidade da certeza só vale no sentido privativo, isto é, enquanto a certeza não é encontrada. A certeza precisa ter uma
confirmação afetiva, o que é o mesmo que dizer que os juízos gerais abstratos buscam coincidir com a experiência concreta da realidade sentida a cada momento. Como,
porém, não existe passagem direta do geral e necessário ao particular e contingente, há sempre uma tensão entre estes dois polos, e o indivíduo com Lua na IX se sente
vivo enquanto vivencia plenamente esta tensão; de outro lado, esta vivência seria um sofrimento intolerável se não se fundasse na esperança de uma resolução, a qual, no
entanto, deve permanecer puramente potencial, sem realizar-se nunca, para não deter o movimento. O indivíduo padece da própria flutuação em relação ao que acredita,
isto é, as mudanças do seu estado emocional confirmam ou desconfirmam (valoriza ou desvaloriza) sua certeza naquilo que acredita.

SÍNTESE
Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação tudo que afete suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
George Washington, Benjamin Disraeli, Oscar Wilde, André Gide, Mia Farrow.

57
Casa X

Refere-se ao conjunto de funções e lugares sociais que o indivíduo efetivamente ocupa, e que são definidos pelo poder que outros exercem sobre ele ou ele sobre os outros.
Não se trata de obrigações de direitos bilaterais, e portanto relativos, como os da Casa VII, e sim de obrigações absolutas que o indivíduo tem para com a sociedade toda (e
não para com este ou aquele indivíduo ou grupo em particular), em decorrência do lugar ou função que ocupa. Por exemplo, as obrigações inerentes a uma determinada
profissão independem de que outras profissões cumpram suas obrigações respectivas: um engenheiro tem o dever absoluto de ser correto nos cálculos, independentemente
de que seu cliente lhe pague ou não. É a auto-referência social a partir da posição do indivíduo no sistema de hierarquia: o poder e a influência que emanam da sua função
social (real ou nominal), os aspectos coercitivos presentes na relação do indivíduo com os outros (pelos papéis que assumiu). Trata-se do exercício e padecimento do poder
que é delegado pela situação histórica, social ou política (e não de um poder inerente às capacidades do indivíduo, como na Casa V). A função social efetiva não tem de
corresponder necessariamente ao cargo ou profissão nominal: um deputado, por exemplo, pode ao mesmo tempo ser informalmente o líder do seu partido, e suas
obrigações emanarão ao mesmo tempo de uma função e da outra. De outro lado, as obrigações de Casa X não se limitam de maneira alguma à esfera profissional: a função
de pai, por exemplo, implica alguns deveres absolutos, além dos bilaterais.

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA TOPOLÓGICA
Mapeia de imediato a situação social. Enxerga os indivíduos em termos de sua localização na topografia das relações, isto é, percebe rapidamente quem manda e quem
obedece — a hierarquia — e o que convém para que ele próprio possa se situar com clareza nessa hierarquia, e buscar nela o lugar que julga conveniente. Olha as coisas
de cima, como se já estivesse no topo do sistema de poder. Vendo a sociedade de maneira topográfica, como se já a conhecesse desde cima, o indivíduo tende a se impor
sobre a sociedade, querendo moldá-la por si. Entretanto, se ficar isolado do meio social, o indivíduo não compreende mais nada, sua inteligência se apaga, pois perde a sua
referência natural. Percebe a dosagem e o equilíbrio dos poderes coercitivos em jogo e se adapta provisoriamente à situações de poder. Não olha os indivíduos isolados, e
nem mesmo nas relações bilaterais, mas procura quase que instintivamente encaixá-los no sistema total das relações, para poder enxergá-los melhor.

SÍNTESE
Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade a hierarquia de poder, tal como pode percebê-la como um todo desde o lugar que nela ocupa.

EXEMPLOS
Johan W. von Goethe, Napoleão Bonaparte, Auguste Comte, Honoré de Balzac, Júlio Verne, Auguste Rodin, Paul Gauguin, Vincent Van Gogh, Thomas Mann, Albert
Einstein.

SATURNO
A estrutura hierárquica gera estranheza no indivíduo, as relações de poder aparecem-lhe como inverossímeis, contraditórios ou problemáticas. Pergunta-se se é o indivíduo
quem exerce poder sobre a sociedade ou se é a sociedade que faz dele um mero fantoche a seu serviço. De cada experiência que vive, tenta abstrair uma regra ou lei
sociológica sobre as relações de poder. Estranha o poder, a autoridade e sua própria posição social, o lugar que ocupa em relação aos outros. O poder que tem parece-lhe
emprestado e não real. Toma para si o peso da responsabilidade sobre as questões sociais, e, se dispõe de algum poder, este não lhe parece totalmente adequado (na
quantidade ou na forma) às responsabilidades que lhe incumbem. Pode ter uma certa facilidade de captar a estrutura social como um todo, contanto que a olhe
abstrativamente e sem tentar enxergar, ao mesmo tempo, seu lugar dentro dela; inversamente, a consciência que tem de suas obrigações imediatas, definidas por sua
função pessoal, não lhe parece encaixar-se harmonicamente na estrutura global. A busca de uma definição precisa de sua função pessoal — busca que visa a aliviar a
angústia da incerteza quanto às suas obrigações — pode colocá-lo numa camisa-de-força, que ele sentirá, depois, como imposta desde fora; a tentativa de escapar dessa
camisa-de-força o levará a confundir a luta contra si mesmo com a luta contra a imposição externa, e a desorientação daí resultante o fará buscar uma definição ainda mais
estrita de sua função e deveres; e assim por diante indefinidamente.

Num desenvolvimento ideal este indivíduo colocaria a questão da realidade do seu poder pessoal num âmbito não pessoal, filosófico ou científico, utilizando sua
preocupação como instrumento para o conhecimento da sociedade humana ou incorporando os valores de seu grupo, tornando-se um servidor do grupo ou da nação.

Seu esquema adaptativo seria: agarrar-se com firmeza a alguns valores da sua comunidade, baseando seu poder na imitação de tais valores (anulação da própria
personalidade); tentar “subir na vida” para enxergar a sociedade desde cima, procurando assim compreendê-la; colocar-se fora da sociedade, em posição marginal; ocupar
uma posição manifestamente abaixo de sua capacidade.

APORIA
Se todo o poder é delegado pela sociedade, quanto mais poder tenho mais dependente da sociedade me torno, e portanto tenho menos poder. Para realizar meus desejos
pessoais, devo subir na escala social; para subir na escala social devo amoldar-me às exigências do lugar que pretendo ocupar; e para isto, devo abdicar de meus desejos
pessoais.

SÍNTESE
É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que se refira ao seu lugar na hierarquia de poder.

EXEMPLOS
Leonardo da Vinci, Victor Hugo, Hans C. Andersen, Abraham Lincoln, Anatole France, Woodrow Wilson, Henry Ford, Marcel Proust, Albert Einstein, Pablo Picasso, Charles
Chaplin, Adolf Hitler, André Malraux, J. Guimarães Rosa, Albert Camus, John F. Kennedy.

JÚPITER
Deseja determinar livremente seu lugar na sociedade, independentemente de como funciona o sistema de hierarquias e pressões que o compõem. Não tem medo da
sociedade e confia na sua capacidade de chegar ao topo dela, de dominá-la ou pelo menos de a obrigar a aceitá-lo tal como ele é. Quer ser livre das determinações sociais,
que ele entende não como um molde ao qual devesse adaptar-se, mas, ao contrário, como mera matéria-prima sobre a qual exercer sua criatividade pessoal. O natural para
este indivíduo é colocar-se sempre um grau acima dos outros, quer no sentido de ter mais autoridade quanto no de não temer qualquer responsabilidade, por maior que seja
(mesmo que, numa avaliação realística, elas lhe sejam objetivamente superiores). Evitando qualquer exame deprimente de suas próprias limitações para este ou aquele
posto, tanto pode evoluir continuamente e tornar-se cada vez mais capaz, quanto tornar-se um satisfeito incompetente. Provavelmente será visto pelos outros como capaz
de assumir qualquer responsabilidade. Confia na sua própria autoridade, o que às vezes a torna real. Quando ocupa uma posição subordinada, acredita geralmente poder
manipular os superiores em causa própria e, quando não o consegue, prefere abandonar o cargo. No entanto, reconhece facilmente a legitimidade de uma autoridade,
quando esta lhe parece expressar seus próprios ideais, pois neste caso a obediência não implica constrangimento.

SÍNTESE
Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos o seu lugar na hierarquia de poder.

EXEMPLOS
Franz Schubert, Honoré de Balzac, Victor Hugo, Auguste Rodin, Pierre A. Renoir, Henri Matisse, Pablo Picasso, André Malraux.

MARTE

O indivíduo com esta posição é sensível a situações onde sinta sua posição, dentro de determinada hierarquia social, ameaçada, seja de cima (por uma autoridade
coatora), ou de baixo (por um subordinado rebelde).
Reage querendo derrubar aquele que exerce poder sobre ele, porque é extremamente incômodo obedecer, e mais incômodo ainda refletir para definir com precisão
os deveres que sua posição determina. Sendo hipersensível em questões de mando e obediência, enerva-se facilmente quando essas questões se tornam complexas, e
procurará resolvê-las de maneira sumária, o que pode significar tanto o exercício de um comando autoritário, quanto uma explosão de rebeldia, ou ainda a retirada brusca e
sem explicações: em todos os casos há uma recusa espontânea da reflexão e uma necessidade de simplificar, mesmo que em prejuízo próprio. A rapidez da reação parece
mais importante do que o conteúdo da intenção.

SÍNTESE
Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete o seu lugar na hierarquia de poder.

EXEMPLOS

Wolfgang A. Mozart, Alexandre Dumas, Richard Wagner, Giuseppe Verdi, Gustave Flaubert, Friefrich Nietzche, Vincent Van Gogh, Kaiser Guilherme II, Leon
Trotsky, Franklin D. Roosevelt, Tyrone Power, Mia Farrow.

VÊNUS
Guarda na memória o conjunto dos papéis, funções e relações sociais que observou nas diferentes pessoas e situações durante a vida e que, a cada momento, constelam
para este indivíduo um sistema mais ou menos completo e coerente, no qual ele se orienta segundo códigos facilmente operáveis. Concebe harmoniosamente o conjunto
social e nele se integra, idealizando sua posição social e utilizando esta idealização como uma forma de progressivamente dar realidade ao papel que deseja desempenhar.
A sociedade em que vive aparece para este indivíduo como um leque de cartas de baralho no qual se pode sempre escolher o mais conveniente. Como em todas as
posições de Vênus, aqui o wishfulthinking se torna uma arma na luta pela vida, conservando o indivíduo mais ou menos defendido dos aspectos de sua posição social que
ele não deseja conscientizar, por sentí-los como deprimentes ou desmotivantes. Se auto-satisfaz imaginando que sua posição na hierarquia de poder é melhor do que
realmente é: mas o que é falso com relação à atualidade pode ser verdadeiro na potencialidade. Imaginação harmônica do seu lugar no conjunto social.
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Em caso de depressão profunda, o indivíduo passará a se identificar compulsivamente com as piores cartas do baralho: basta que uma determinada posição no tecido das
relações humanas lhe pareça inconveniente ou humilhante, para que ela imediatamente adquira uma verossimilhança “plástica” contra a qual nada poderão os mais
engenhosos argumentos.

SÍNTESE
Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante os motivos de credibilidade que sustentam suas crenças estabelecidas.

EXEMPLOS
Johan W. von Goethe, Paul Gauguin, Vincent Van Gogh, Henry Ford, Henry Miller, Marilyn Monroe.

LUA
É extremamente sensível a sua própria posição na socie-dade humana e seu estado de ânimo é profundamente alterado por esta. A felicidade dependerá do lugar que ocupa
na hierarquia de poder, mas, como sempre nas posições da Lua, aqui o que interessa não é o conteúdo do bem em questão, mas o seu valor subjetivo; isto é, o que o
indivíduo deseja não é um determinado lugar na sociedade, mas a satisfação íntima que ele simboliza. Como, por outro lado a relação entre o bem e o símbolo não é direta e
lógica, mas indireta e subjetiva, o indivíduo se move entre o desejo desse bem, o temor de que sua conquista não traga a felicidade desejada, a angústia de perdê-lo e o
desejo de conservar a felicidade em caso de perda do bem que a simboliza — movimento quádruplo que é simbolizado nas fases da Lua. Onde estiver a Lua, lá existirá a
ambígua relação entre a definição geral e abstrata de um valor e os bens particulares e concretos que o materializam imperfeitamente a cada instante. Aqui, por exemplo, o
“sucesso”, enquanto valor abstrato, pode ser intensamente desejado, mas cada sucesso real alcançado é ao mesmo tempo uma corporificação e um desmentido desse
valor, no sentido de que nenhum sucesso é o sucesso. Realização e decepção caminham de mãos dadas, do mesmo modo que decepção é nascimento de novos desejos —
e assim por diante interminavelmente. É isto o que explica que, na casa onde está a Lua, a intensidade do desejo possa coexistir com estranha passividade ou omissão no
sentido de esforços reais para atendê-lo: o esforço traz o desejo para a esfera do confronto com a realidade e, por isto mesmo, o esfria: daí que o desejo só mantenha sua
plena intensidade enquanto paira nas nuvens da mera suposição. Por isto, é certo dizer que aqui o indivíduo menos deseja conquistar uma certa posição do que ser nela
colocado sem um esforço próprio demasiado evidente para ele mesmo; se ele luta para conquistar esta posição, deve fazê-lo de maneira mais ou menos imperceptível (para
ele mesmo); se não luta, espera ao menos que a intensidade do seu desejo mobilize os outros para que o satisfaçam.

SÍNTESE
Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação seu lugar na hierarquia de poder.

EXEMPLOS
Franz Schubert, Alexandre Dumas, Richard Wagner, Gustave Flaubert, Guy de Maupassant, Mohandas K. Gandhi, Franklin D. Roosevelt, Graciliano Ramos.

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Casa XI

Refere-se aos projetos futuros do indivíduo, aos planos de vida, a como ele concebe o próprio futuro e o que deseja obter da vida em termos de uma imagem integral do
personagem que quer ser. Trata em termos mais amplos da inserção do indivíduo na corrente histórica de sua época, nos ideais de sua geração. Por isso, está ligado ao
desejo de fama, de fazer algo extraordinário, que projete o sujeito para além de si, como personalidade histórica ou “tipo notável”.

Esta Casa está, por isso mesmo, associada aos modelos e tipos ideais de conduta que orientam e medem as ações do indivíduo; aos ídolos que ele venera e aos mitos a
que procura adaptar-se. Está associada tanto à idéia de “previsão” quanto a de “planejamento”: à capacidade de enxergar o futuro tanto quanto à de forjá-lo, sendo às vezes
difícil distinguir quando se trata de uma ou outra destas coisas.

Refere-se também a idéia de geração como pertinência a um “grupo de juventude” com o qual o indivíduo compartilha, explícita ou implicitamente, ideais e ambições porque
é com estes que o indivíduo se identifica em relação a um objetivo de vida parecido. É a estratégia, como domínio do curso das coisas a longo prazo, em oposição ao
domínio tático da situação imediata (Casa V).

SOL
INTELIGÊNCIA INTUITIVA ESTRATÉGICA
O indivíduo vê sua vida como um trajeto que culminará numa apoteose, quando ele alcançar o que quer ser. Preocupa-se com o seu personagem e com o qual a figura que
terá ao longo do tempo. Enxergando-se como uma pessoa especial e importante, tem facilidade de saber como as pessoas especiais e importantes enxergam o mundo. Vê
na situação presente o germe do futuro, tudo é em função de um antes e um depois. Quanto mais distância puder tomar do momento presente, melhor planejará.

Tudo é visto por ele num plano muito grande, com uma perspectiva temporal, por isto só enxerga claramente as coisas contra esse pano de fundo, que é o que ele pretende
realizar, e não no quadro limitado à situação mais imediata. Sem perspectivas amplas, nada enxerga. Desde muito cedo já intui o que quer ser, tem uma noção muito clara
de seus ídolos e modelos. Sua consciência de vocação é aguda e tende a aparecer mais prematuramente que nos demais.

SÍNTESE
Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade as forças que , no presente, moldam um futuro de acordo com sua visão.

EXEMPLOS
George Washington, Thomas Hardy, Friedrich Nietzche, Guy de Maupassant, Ernest Hemingway, Gregory Peck, Marilyn Monroe, Mia Farrow.

SATURNO
Para realizar qualquer coisa no futuro, temos de acreditar que ele é possível e que possuímos os meios, as condições e a força para realizá-la. Para acreditar no seu plano,
o indivíduo tem, de certa forma, de começar a agir agora como se já fosse aquele que quer ser. Isto, porém, é um fingimento, que toma por real algo que ainda não é real,
que é apenas potencial. O futuro não pode ser provado racionalmente, a priori, pois quem dará essa prova é a ação do indivíduo. Somos conduzidos para o futuro por uma
crença mais ou menos cega.

O indivíduo com esta posição examina criticamente esta questão de futuro e percebe logo a distância entre o que pretende e o que é agora. Na infância ou na adolescência
essa distância é enorme e o indivíduo não consegue se abstrair dela, para agir com confiança. Para ele, não basta crer numa fantasia, ele quer provar matematicamente que
irá conseguir o que deseja e este esforço racional acaba inibindo a crença necessária para realizar o que quer. Instala-se uma contradição entre o desejo da planificação
racional e a necessidade da crença irracional que fundamenta a motivação.

O indivíduo percebe qualquer indício de contradição, de incoerência, nos seus planos de vida. Ele próprio argumenta contra esses planos, argumentando que estão muito
acima de suas capacidades ou que, uma vez realizados, não lhe trarão qualquer satisfação real.

Busca modelos muito claros e definidos, mas, quando os encontra, mede-se com eles e se vê muito abaixo. A admiração mistura-se então com o sentimento de
inferioridade, eventualmente com inveja ou ressentimento.

O constante questinamento de seus próprios planos e perspectivas de vida pode levá-lo a uma espécie de esgotamento imaginativo, que o induzirá a fixar-se, por mera
comodidade, num plano demasiado vago ou demasiado restrito. Neste caso, dará uma nítida impressão de desleixo em relação a seu próprio futuro. Pode acontecer também
de amoldar-se de maneira um tanto comodista a planos e esquemas de vida coletivos, para escapar à angústia do questionamento pessoal que, uma vez acionado, tende a
ir fundo demais e a tornar-se paralisante.

Num desenvolvimento ideal este indivíduo desenvolveria uma consciência crítica em relação ao tempo, à história, ao desenvolvimento de sua geração. Iria adquirir
conhecimentos sobre as matrizes da fama, como levar uma vida cuja importância transcenda a existência individual, integrando-se ao curso da História. A partir desse
conhecimento, poderia “fabricar” fama, própria ou alheia, ou tornar-se um planejador com grande capacidade projetiva e crítica.

Seu esquema adaptativo pode ser: não pensar no futuro, vivendo como se não houvesse amanhã; rigidez artificial, perseverando cegamente nos planos estabelecidos;
conceber um futuro diminuído para si mesmo; aproximar-se de pessoas famosas, vivendo um pouco da fama alheia; errar na avaliação de sua própria importância
(superestimando ou subestimando), e procurar não questionar isso.

APORIA
Só posso realizar um plano se enxergo nitidamente sua realização; mas, se enxergo como real algo que ainda é apenas plano, que não tem realidade senão na minha
imaginação e vontade, escapo da realidade para crer no sonho; logo, ou me apego ao real e, não crendo no futuro, perco a motivação de realizá-lo, ou, crendo no futuro, saio
fora do real e, como sonhador, não realizo nada.

SÍNTESE
É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que afete sua visão de futuro.

EXEMPLOS
Immanuel Kant, Benjamin Disraeli, Auguste Rodin, Pierre A. Renoir, Vincent Van Gogh, Oscar Wilde, Charles de Gaule, Mário Ferreira dos Santos.

JÚPITER
O indivíduo deseja ter seu futuro totalmente em aberto para fazer os planos que quiser e mudá-los quantas vezes julgar conveniente, no que não vê nenhuma infidelidade ou
incoerência, mas o simples exercício da liberdade de ser seu próprio guia. Tem facilidade para fazer planos de vida, de ver qual será o seu personagem depois de um certo
tempo e se transformar nele, sem que haja necessidade de constantes medições e comparações, que arriscariam ser paralisantes (como acontece com Saturno na XI). Tem
facilidade de agir hoje em função das projeções que coloca no futuro. Mesmo que não saiba quem ou o que vai ser no futuro já sente que está indo na direção certa com
todas as suas forças. Ele procede com uma espécie de identificação projetiva realizante, agindo como se fosse tal ou qual coisa e acabando por se transformar nela. Tem
facilidade não só para encontrar seus modelos, mas para imitá-los espontaneamente, transformando a admiração em assimilação.

SÍNTESE
Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos tudo o que determine seu futuro e sua fama.

EXEMPLOS
Franz Liszt, Karl Marx, Anatole France, Paul Gauguin, Henry Ford, Gregory Peck.

MARTE
O indivíduo com esta posição sente-se ameaçado por qualquer oposição ou questionamento a algo que se está propondo, algo que quer ser ou fazer, a qualquer coisa que
se interponha entre ele e seus planos.

Reage tentando remover prontamente o obstáculo ao que pretende: tem pressa, urgência em chegar ao objetivo proposto. Não quer perder tempo com pensar, negociar,
transigir. Quer agir logo, desencadeando efeitos que o levem até onde deseja chegar. Isto tanto poderá fazê-lo abandonar, num repente, projetos longamente acalentados,
mas também dar-lhe a capacidade de adaptar, de improviso, uma situação fortuita, amoldando-a a seus planos.

Se não for ambicioso poderá agir no sentido de destruir suas possibilidades futuras, antes que outras pessoas o façam.

SÍNTESE
Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que afete sua visão de futuro.

EXEMPLOS
Napoleão Bonaparte, Franz Schubert, Honoré de Balzac, Ralph W. Emerson, Paul Cézanne, Thomas Hardy, Carl G. Jung, Graciliano Ramos, Arthur Koestler, Albert Camus.

VÊNUS
Guarda na memória as imagens esquemáticas de muitas pessoas vistas (realmente ou em fantasia) na infância, e estas imagens estão carregadas de uma aura de prestígio
mágico, que faz delas emblemas e modelos das possibilidades superiores do próprio indivíduo. Estes modelos são para ele “pessoas notáveis”, envoltas de FAMA (a fama é
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uma espécie de repercussão extraordinária, que amplifica o alcance e significado dos atos humanos, resgatando-os da mera acidentalidade empírica), e elas lhe servem,
portanto, como padrões para a aferição do próprio estado de sua vida: ele está a cada momento “mais perto” ou “mais longe” dos modelos idealizados. A imagem da
felicidade perfeita assume o aspecto de uma “vida plenamente significativa”, isto é, coroada de importância, tal como a dos modelos. Como os ideais de vida são pelo
menos esquematicamente compartilhados com os companheiros de juventude, a imagem de sua geração — grupo de jovens que, provindo do isolamento da vida familiar,
entram no fluxo histórico de um “mundo maior” — é, neste indivíduo, aureolada de um prestígio quase mítico. O apelo a uma “grande vida” assume aqui o sentido que lhe
deu Alfred de Vigny: um sonho de juventude realizado na idade madura. Imagina o sentido de geração, os grandes planos do homem para o futuro. Capacidade de projetar-se
no futuro porque concebe o efeito de sua passagem historicamente, se auto-satisfazendo com isto. Imaginação harmônica dos ideais humanos, da perspectiva futura.

Em caso de depressão profunda, observa-se a perda total do sentido do mito da geração: há um sentimento de ter perdido o bonde da história, de estar solto como átomo no
espaço vazio.

SÍNTESE
Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante o mundo futuro.

EXEMPLOS
Auguste Comte, Honoré de Balzac, Júlio Verne, Thomas Hardy, Auguste Rodin, Albert Einstein, Ernest Hemingway.

LUA
As imagens-modelo referidas em Vênus na XI são as mesmas, porém aqui adquirem uma ambiguidade e instabilidade que as carrega de expectativa e dramatismo, de modo
que o indivíduo não se entrega ingenuamente confiante ao culto dessas imagens, mas oscila entre o culto e a negação. Busca confirmar o mito da geração, ao mesmo tempo
que o renega como ilusório, de modo que entre o “entusiasmo passivo” de quem participa de um mito coletivo e a reação individualizante que o destaca de sua geração é
que se decide o ritmo motivacional deste indivíduo. Grandes sonhos, grandes planos, que num instante são motivos de felicidade e no outro de infelicidade. Deseja penetrar
no fluxo da história, deseja a fama, mas ao mesmo tempo vivencia este desejo passivamente: como que desejaria que alguém o arrastasse para dentro da participação
nesse fluxo; pois o esforço pessoal nesse sentido arrisca, por contraste, estourar o balão do sonho. Deste modo a relação com os modelos é ambígua e cíclica, e não um
culto permanente de imagens estaticamente atrativas, como em Vênus na XI.

SÍNTESE
Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação tudo o que, a seus olhos, anuncie ou desminta uma perspectiva futura.

EXEMPLOS
Auguste Comte, Ralph W. Emerson, P. Charles Baudelaire, H. Toulouse-Lautrec, Bertrand Russell, Winston Churchill, Thomas Mann, Arthur Koestler, Tyrone Power, John F.
Kennedy.

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Casa XII

Refere-se a relação do indivíduo com o espaço indefinidamente grande que rodeia a sua esfera de vida conhecida, ou mesmo que se prolonga para muito
além e em torno da esfera reconhecida no seu meio social. É tudo quanto, para ele ou para seu grupo de referência, está fora do mundo conhecido (embora,
para outros indivíduos ou grupos, possa ser bastante conhecido e até banal). É um âmbito que o indivíduo mais pressente e adivinha do que enxerga. É,
portanto, tudo o que, para ele, surge como transcendente, inusitado, misterioso e incontrolável. É um sistema aberto de influências múltiplas e
desconhecidas às quais está submetido, que o determinam, e que ele terá de ir conhecendo aos poucos. Não se deve esquecer que o conteúdo desta Casa é
relativo e não absoluto: o que para um indivíduo é transcendente e misterioso constitui, para outro (ou para ele mesmo numa época posterior) a trama
mesma da banalidade cotidiana. Nada, portanto, de atribuir a esta Casa, mistificatoriamente, conteúdos sempre “espirituais”. O que meus vizinhos falam de
mim sem que eu ouça, criando em torno de mim uma atmosfera vagamente malévola que pressinto mas não logro captar, é, sem dúvida, Casa XII; e nada
mais banal que uma fofoca de vizinhos. A astrologia clássica viu isto perfeitamente bem ao falar de “inimigos ocultos”: o inimigo oculto não é
necessariamente Satanás em pessoa, mas pode ser a quitandeira da esquina. A Casa XII define-se negativamente e não positivamente; e aquilo que não
enxergo, e que escapa mesmo a percepção do meu meio social pode ir desde as leis cósmicas que determinam invisivelmente o curso das coisas, até
alguma informação banal, fortuitamente ocultada por um menino amedrontado.

SOL
Inteligência Intuitiva Expectante

A inteligência do indivíduo funciona quando ele está à mercê de correntes causais que o ultrapassam infinitamente. Ele pressente essas correntes
e sabe para onde elas o levam. Enxerga as coisas quando está como uma folha arrastada pela tempestade. O que está dentro da sua esfera de atuação
cotidiana lhe parece, paradoxalmente, menos claro e compreensível do que aquilo que, vindo de fora dessa esfera, e desde regiões desconhecidas, afeta o
curso cotidiano das coisas. Por isto, este indivíduo se sente mais a vontade — intelectualmente — quando está solto num espaço ilimitado e inabarcável do
que quando lida com as coordenadas habituais de uma esfera de ação mais definida. Ele confia no seu faro para encontrar uma direção no meio da confusão.
Tem mais facilidade para pressentir as correntes profundas que desde longe vem se aproximando do seu barco do que para enxergar a onda próxima que já
o sacode. É justamente na confusão que enxerga melhor. Não necessita da ordem, pois a desordem, o caos, lhe dão uma sensação de inteligibilidade.

Intui o indefinível por pressentir as forças que embora não conheça sabe que o carregam. Entende melhor o que ainda não viu. Toda vez que busca ver o
objeto com muita clareza, isolando-o dos objetos circunvizinhos, não o entende mais; e necessita diluí-lo de novo na multidão inumerável das coisas. Sua
inteligência é centrada em tudo o que não pode definir por ser grande demais. Pressente os grandes acontecimentos, embora não possa definí-los
precisamente. Vive nas informações das grandes atmosferas. Pode manter-se indefinido como estratégia para não lesar sua intuição, ou ainda, pode buscar
a solidão pois, solitário, não estará determinado por uma situação exterior e assim poderá manter a sua atenção difusa.

SÍNTESE
Intui primordialmente e toma como modelo de toda percepção da realidade tudo o que pareça provir de fora de seu espaço vital.

EXEMPLOS
Alexandre Dumas, Anatole France, Mohandas K. Gandhi, Judy Garland.

SATURNO
Para orientar-se, o indivíduo busca em tudo o que lhe acontece um nexo com o todo maior. Esse nexo pode ser analógico (buscando semelhanças) ou de
finalidade (se tudo tem uma finalidade, então, isto aqui também tem). Necessita de coisas que tenham um sentido, uma finalidade explícita, mas que ao
mesmo tempo o deixem livre para escolher outras finalidades. Entretanto, tão logo compreende a ordem presente em algo, ou seja, o sistema de nexos
presente em cada situação, sente-se preso e restrito nessa ordem. Não suporta a pré-determinação, embora, intelectualmente, necessite dela para sentir-se
seguro. Torna-se inimigo de tudo o que entende racionalmente, de tudo o que dá a impressão de fechar-se num sistema. Tão logo entende algo
racionalmente procura escapar do que entendeu. Para orientar-se num mundo que lhe parece vasto e indefinido demais, procura captar as cadeias de causas
que levarão necessariamente a tais ou quais consequências, dando um sentido ao movimento do conjunto; porém, uma vez captado esse movimento, ele lhe
parece fechado num determinismo fatalístico que o oprime ainda mais do que o anterior sentimento de estar perdido numa vastidão indefinida. Esta
contradição é facilmente projetada na sociedade humana, que ora lhe surge como um oceano caótico, ora como uma prisão com regulamentos tiranicamente
rigorosos. O sentimento de absurdo pode ser causado, alternadamente, pela ausência de parâmetros ou por parâmetros demasiado estritos.

Suporta uma quantidade imensa de non sense porque necessita de desordem mental para escapar do sentimento de opressão; mas a própria desordem pode
tornar-se opressiva.

Em razão dessa alternância, o indivíduo adquire uma propensão de colocar-se ora dentro, ora fora das situações, nunca se identificando bem com os papéis
que exerce, nem os abandonado por completo. Torna-se assim uma espécie de intermediário entre os “de dentro” e os “de fora”. É por isto uma espécie de
depositário de informações que são secretas para um desses dois lados, motivo pelo qual não pode nunca se abrir completamente e aliás nem saberia como
fazê-lo. É natural, portanto, que sua rede de compromissos implique deveres contraditórios e uma sobrecarga moral; por este motivo, ele tende a fugir
periodicamente de todos os compromissos, para, no isolamento, recompor sua coerência interna; mas esse isolamento pode-lhe custar a ruptura de muitos
outros compromissos. Os indivíduos com Saturno na XII dão frequentemente aos outros a impressão de serem esquivos, de não estarem comprometidos
com nenhum papel social determinado, ou de estarem sempre desaparecendo nos momentos mais imprevistos.

Idealmente, o seu questionamento das finalidades levaria a preocupações de ordem metafísica, colocadas numa esfera de universalidade teorética, fora e
acima de sua existência imediata.
O esquema adaptativo deste indivíduo pode ser: fazer as coisas sem procurar entendê-las em referência a um nexo de finalidade (por exemplo: fazer
favores, não contestar, não fazer perguntas); adaptar-se socialmente, mas mantendo sempre um “ponto de fuga” (álcool, drogas, uma religião ou seita) em
que se sinta livre da interferência da sociedade, do sistema; ficar marginalizado, entregue ao caos; alternar entre a adaptação a um emprego e uma repentina
saída, ficando um período em situação marginal.

APORIA
Se existe uma ordem para as coisas, então o indivíduo está preso dentro dela, portanto não há livre arbítrio. Só existe livre arbítrio se não houver ordem, se
tudo for um caos, mas para que serviria a liberdade dentro do caos? O sentido e a liberdade parecem ser contraditórios.

SÍNTESE
É impelido a integrar nos seus esquemas consolidados — ou a amoldá-los a — qualquer informação que pareça provir de fora do seu espaço vital.

EXEMPLOS
George Washington, Franz Schubert, Honoré de Balzac, Ralph W. Emerson, Mark Twain, H. Toulouse-Lautrec.

JÚPITER
O indivíduo com esta posição quer permanecer livre de tudo, sem se comprometer com o mundo. É o desejo de liberdade num sistema aberto, sem limites,
sem direções definidas.

Não teme o desconhecido, pelo contrário, sente-se à vontade, livre, quando se encontra perdido, solto no mundo, e se abandona cheio de confiança às mãos
da Providência, da sorte. Sente que algo lhe dirá qual é a melhor direção. Confia no invisível. Identifica a liberdade com ausência de determinações, e, como
toda decisão sempre implica o reconhecimento de uma situação determinada, isto é, ao menos parcialmente fechada, este indivíduo poderá se esforçar para
não ter de decidir, pois a necessidade de decisão já representa para ele, um constrangimento e uma decepção. Tem a impressão de que o ato de decidir
rompe a harmonia do todo e não constitui um exercício da liberdade: o homem livre não é só livre para decidir, mas é livre da necessidade de decidir. Há
aqui, portanto, uma certa recusa de reconhecer a realidade dos constrangimentos, isto é, uma negação da fatalidade e uma consequente afirmação da
Providência. Isto tanto pode evoluir no sentido de um absenteísmo perfeitamente irresponsável, quanto no de um progressivo afinamento com a ordem
invisível das coisas. Às demais pessoas, poderá parecer sutil e escorregadio, ao ponto de jamais ninguém saber por onde cobrá-lo, e nem sequer se alguma
cobrança tem cabimento.

SÍNTESE
Age como se tivesse o poder de amoldar a seus propósitos o que pareça provir de fora de seu espaço vital.

EXEMPLOS
Immanuel Kant, Auguste Comte, Paul Cézanne, Emile Zola, Theodore Roosevelt, Kaiser Guilherme II, Henry Miller.

MARTE
O indivíduo com esta posição sente-se ameaçado por qualquer pressão, do ambiente ou das outras pessoas, que pretenda enquadrá-lo em algum sistema
conhecido, defini-lo objetivamente ou comprometê-lo com alguma coisa. O meio-ambiente lhe surge como uma trama progressivamente apertada, da qual
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tem de esforçar-se para escapar. O constrangimento é uma ameaça constante, que vem um pouco de toda parte; o indivíduo tem facilidade de sentí-lo, e até
de pressentí-lo, junto com o total desinteresse — ou incapacidade — de identificar sua verdadeira origem: o que lhe importa não é saber de onde vem o
constrangimento; é escapar. A própria necessidade de investigar objetivamente a origem do constrangimento lhe parece constrangedora. Daí que, com
frequência, fuja para a direção errada, ainda que no momento certo. Um exemplo típico é o do indivíduo que, sendo objeto de maledicência por parte de
subordinados insignificantes, sente que o ambiente como um todo lhe é adverso, e se demite do cargo. A desproproção entre estímulo e resposta surpreende
os observadores. Pela mesma razão, a necessidade de escapar a constrangimentos, sem distinguir constrangimentos reais e potenciais nem avaliar a
gravidade relativa do caso, pode levá-lo a romper compromissos, a abandonar lealdades ou a lutar com fantasmas, ferindo, de passagem, pessoas reais e
inocentes.

Reage muitas vezes esquivando-se, escorregando para fora da situação ou agindo de forma disfarçada, encoberta, indireta, que não apareça para os outros.
Sua ação aparece aos outros como ambígua, dando margem à várias interpretações.

SÍNTESE
Reage de maneira pronta, exteriorizada e fugaz a qualquer informação que pareça provir de fora do seu espaço vital.

EXEMPLOS
Anatole France, Paul Gauguin, Pablo Picasso.

VÊNUS
Todo homem sabe que, para além do seu espaço vital ou círculo de experiência, se estende a região indefinidamente vasta daquilo que, para ele, é “o
desconhecido”. Ele sabe que, neste desconhecido, se geram causas obscuras cujos efeitos poderão, amanhã ou depois, entrar no circuito dos “fatos”
conhecidos. Logo, todo homem tem uma expectativa, mais vaga ou menos vaga, da interferência do ilimitado desconhecido na esfera limitada do conhecido.
Essa expectativa assume um tom e uma modalidade diferente em cada pessoa. Com Vênus na XII, ela produz imagens onde a forma do ignorado assume
um perfil plástico, sensível. É o mesmo que dizer que esta imaginação trabalha mais facilmente em cima de indícios pequenos e fragmentários, das brechas
que, no círculo do cotidiano, anuncia a imensidão da possibilidade desconhecida, do que em cima das imagens mais completas de coisas e situações
familiares. Quanto menos informação o indivíduo possui sobre uma sequência causal qualquer, mais facilmente o leque das possibilidades esperadas ou
temidas assume nele a plasticidade das imagens. Ele “vê” aquilo que desconhece, quer o aguarde ou o tema. Concebe imaginativamente tudo o que para ele
é mundo invisível, tudo o que transcende o seu espaço vital. Idealiza o que está fora da própria esfera pessoal. É natural, portanto, que a imagem de
felicidade assuma para ele a forma de algo que está completamente longe e é radicalmente diferente da sua experiência corrente: ilhas paradisíacas, oásis
míticos, por exemplo, ou ainda a imagem de um abrigo oculto, subtraído ao fluxo causal conhecido. Como esse paraíso está para além de toda a experiência
real, ele assume o papel de um símbolo que resume o sentido último de toda a existência — e que está “fora” da existência não por ser em si mesmo falso,
mas porque, necessariamente, o sentido de uma coisa está para além dessa coisa.

O sinal da depressão profunda é a desaparição da imagem do paraíso escondido, acompanhada de um sentimento de perda total do sentido da existência,
isto é, de qualquer aspiração mais longínqua que pudesse justificar a miséria do real.

SÍNTESE
Imagina poder moldar sempre em sentido proveitoso ou gratificante tudo que pareça estar fora do seu espaço vital.

EXEMPLOS
Sta. Teresa de Ávila, George Washington, Benjamin Disraekli, Arthur Rimbaud, Claude Debussy, Mia Farrow.

LUA
A expectativa — esperançosa ou temerosa — do desconhecido toma aqui o aspecto de uma oscilação, sem projetar-se na imagem estática de um “outro
mundo” como em Vênus na XII. Há o desejo e o temor de que causas desconhecidas alterem, para o bem ou para o mal, o círculo do mundo conhecido; e a
aproximação dessas causas é vivida numa espécie de tateio vacilante. Pela mesma razão, o desejo de fugir da estreiteza do mundo conhecido é
compensado, pendularmente, pelo desejo de abrigar-se da imensidão do desconhecido, retornando ao círculo da banalidade diária. Refugiar-se do pequeno
no grande ou do grande no pequeno, conforme um e outro assumam temporariamente o aspecto do desejável ou do temível, e conforme a estreiteza seja
uma prisão ou um abrigo, e a imensidão uma libertação ou o extravio no vácuo, eis o ritmo quaternário que compassa as motivações deste indivíduo.
Valoriza o desconhecido, o indefinível, o inacessível, mas, alternadamente, refugia-se no banal, no pequeno, no cotidiano.

SÍNTESE
Sente como fonte principal de motivação ou desmotivação tudo que pareça provir de fora do seu espaço vital.

EXEMPLOS
William Blake, Abraham Lincoln, Giuseppe Verdi, Edgar Degas, Thomas Hardy, Anatole France, Arthur Rimbaud, Claude Debussy, Gregory Peck.

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