Vous êtes sur la page 1sur 24

DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 13

Afinidades eletivas:
cibernética, ciências cognitivas
e a biologia do conhecer

CRISTINA MAGRO

Resumo Palavras-chave: epistemologia; lingua-


gem; cognição; ciências cognitivas; biolo-
Numa reflexão histórica sobre o desen- gia do conhecer.
volvimento das teorias científicas contem-
porâneas sobre o conhecimento, este arti-
go indica peculiaridades do modo como Abstract
são tratadas questões atinentes a esse cam-
po de reflexões pela biologia do conhecer, In a historical reflection about the
de Humberto Maturana, produzindo nele development of the contemporary scientific
soluções diferenciadas em todos os níveis, theories about knowledge, this article
antecipando problemas e soluções hoje em indicates peculiarities in the way as
pauta nesses domínios. A argumentação concerning subjects are treated to this field
gira em torno de dois grandes eixos, que of reflections by the Biology of Knowing, of
são reflexos da maneira de se conceber o Humberto Maturana, that produces
conhecimento em cada um dos movimen- differentiated solutions in all of the levels,
tos teóricos examinados: os diferentes mo- advancing problems and solutions today
dos de reunir as tradicionais áreas do co- on the agenda in those domains. The
nhecimento e abordar os fenômenos que argument rotates around two great axis,
lhes são atinentes, e o ponto de partida que which is reflected in the way of conceiving
cada um assume como modelo para o co- the knowledge in each of the examined
nhecimento. theoretical movements: the different ways

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


14 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

to gather the traditional areas of knowledge apenas à celebração da longa hege-


and to approach the concerning monia do modelo cognitivista, que, de
phenomena, and the starting point that tão impositiva e duradoura, levou as
each one assumes as the knowledge model. próprias ciências cognitivas a serem
Key-words: epistemology; language;
freqüentemente confundidas com essa
cognition; cognitive sciences; Biology of
Knowing. tendência teórica. Compreendê-la as-
sim seria tomar tais reflexões de ma-
neira superficial, impedindo-as de con-
tribuir significativamente para a reava-
Construindo uma história comum liação do período e para a ampliação
dos horizontes de um projeto que se
Estando próximos de cinqüenta caracterizou por um vigoroso progra-
anos da realização do Simpósio sobre ma de trabalho (inter)disciplinar para
a Teoria da Informação,1 a “data con- todas as áreas envolvidas. Os descon-
sensual do nascimento das ciências fortos e questionamentos provenientes
cognitivas”, como Gardner gosta de do próprio envidamento de esforços
dizer, histórias diversas vêm sendo num projeto unificado para as ciências
produzidas rastreando os movimentos cognitivas — que ainda hoje angaria
intelectuais que deram origem a essa polpudos recursos e congrega interes-
ciência da mente, que marcou indele- ses legítimos — ou os desconfortos e
velmente o pensamento científico e fi- questionamentos resultantes do desen-
losófico da segunda metade do século volvimento independente das diversas
XX.2 Essa produção histórica não serve áreas de conhecimento pertinentes à
discussão despertam hipóteses de que
a origem mesma das perguntas que o
1. O Symposium on Information Theory foi reali-
movimento se dispôs a responder me-
zado no Massachussets Institute of Technology
(MIT), de 10 a 12 de setembro de 1956. rece ser revisitada, incluindo o contex-
2. Alguns autores, como H. Gardner, insistem na to em que elas surgiram e os eventos
demarcação do início das ciências cognitivas que, que selecionaram seus caminhos pre-
no entanto, como veremos, é uma conseqüência ferenciais de resposta.
de conversações anteriores — cf. GARDNER, H.
Dentre as diversas histórias re-
(1985), The mind’s new science — a history of the
cognitive revolucion. Nova York, Basic Publishers, centemente publicadas, de particular
p. 28. Em português, além das traduções de significação é o livro de Jean-Pierre
Dupuy e Gardner, temos ainda a introdução de J. Dupuy, Nas origens das ciências cog-
F. Teixeira, que nos oferece um panorama bastan-
nitivas.3 Nele o autor narra e interpre-
te geral das diversas tendências das ciências
cognitivas — cf. DUPUY, J. -P. (1996), Nas origens ta as influências e conseqüências, so-
das ciências cognitivas. São Paulo, Unesp; bre diversos setores do pensamento
GARDNER, H., op.cit.; TEIXEIRA, J. F. (1997), intelectual e principalmente sobre o
Mentes e máquinas – uma introdução à ciência cognitiva. projeto das ciências cognitivas, do
Porto Alegre, Artes médicas. De interesse tam-
bém para a história do período é HEIMS, S. (1991),
The cybernetic group. Cambridge, MIT Press. 3. DUPUY, J. -P., op. cit.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 15

fervilhante movimento transdiscipli- zões da sua extensiva influência no pen-


nar, cujo principal cenário foram as samento científico e filosófico das últi-
Conferências Macy, num total de dez, mas décadas. Ele oferece também in-
realizadas entre 1946 e 1953, sob os dicações do quanto o espírito de pionei-
auspícios da fundação filantrópica ame- rismo e a ambição da construção de
ricana Josiah Macy Jr. Essas conferên- uma ciência geral do funcionamento da
cias foram concebidas e coordenadas, mente, não refreada por quaisquer
principalmente, pelo neurocientista fronteiras ou limites disciplinares tra-
Warren McCulloch, e freqüentadas por dicionais, constituíram, paradoxalmen-
pesquisadores do porte de Gregory te, entraves para o diálogo com idéias
Bateson, Margareth Mead, Roman disponíveis na época e com pesquisa-
Jackobson, Norbert Wiener, só para dores que poderiam ter contribuído
citar uma pequena porção deles.4 Além para o projeto.5
dessas, pelo menos três outras confe- Um dos interesses desse livro está
rências permitiram que se levasse adi- no fato de que, nele, Dupuy se propõe
ante o projeto intelectual ambicioso da a discutir em que medida se pode di-
cibernética, já que esse movimento não zer que a cibernética é a matriz da qual
dispunha de um centro acadêmico ou se originaram as ciências cognitivas6 e,
de pesquisas no qual seus protagonis- ainda, procura entender por que essa
tas se reunissem e no qual suas idéias relação é freqüentemente obnubilada.
fossem primariamente desenvolvidas. O projeto de tratar na ciência questões
Dupuy analisa conceitos e teorias de interesse tradicionalmente confina-
emergentes daqueles calorosos deba- do à filosofia, como o estudo da mente
tes que consolidaram o movimento e do conhecimento, e, ainda, que isso
ciberneticista, permitindo-nos compre- fosse feito numa abordagem que con-
ender os motivos da euforia ante a imi- gregasse inúmeras disciplinas, que se
nente conquista da unidade entre as pretendesse universal, que dependes-
ciências — que é como a cibernética ima- se da postulação de sistemas funcionais
ginava seu empreendimento — e as ra- especializados, tomando as ciências da
natureza como paradigmáticas do
conhecimento científico verdadeiro —
4. Em Dupuy encontramos a lista completa dos portanto o modelo a ser seguido —, são
participantes dessas conferências. Roman alguns dos elementos que nos permi-
Jackobson participou da 5ª reunião, realizada em tem falar das ciências cognitivas como
1948, inteiramente dedicada à estrutura da lin-
guagem. Num total de vinte unidades temáticas
aparentadas com a cibernética. No en-
das conferências, a comunicação, o tema predile- tanto, como afirma Dupuy, com fre-
to da cibernética, é discutida, envolvendo refle- qüência os rebentos da cibernética não
xões sobre a linguagem, as comunicações anor- se reconhecem como tendo qualquer
mais, a teoria dos jogos. Para a lista dos partici-
pantes, ver DUPUY, J. -P, op. cit., pp. 92-93, nota
32. Para comentário a respeito do interesse pela 5. DUPUY, J. -P., op. cit., p. 16.
comunicação, ver ibid., p. 97. 6. Ibid., pp. 15-16.

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


16 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

grau de parentesco entre si nem com precisão conceitual, por uma surpreen-
ela, ciosos da relevância da definição dente recursividade, por sua recusa de
precisa de seus conceitos e da ne- associações intelectuais pontuais, de
cessidade do estabelecimento claro de pressupostos tradicionais, do vocabu-
metas em empreendimentos de cará- lário desgastado, das proposições li-
ter tão geral. Assim, quaisquer diver- nearmente encadeadas e sintéticas, da
gências acabaram, nesse contexto, por submissão à morfologia e à sintaxe cor-
constituir razões suficientes para a rentes quando essas não parecem ser-
emergência de novas linhagens teóri- vir para expressar adequada e concisa-
cas apartadas das demais, recusando mente seu pensamento.7 Sua hetero-
associações que eventualmente des- doxia, sua recusa dos pilares centrais
viassem das rotas de cada projeto. do pensamento ocidental, seu compro-
Das férteis discussões que marca- misso de pôr permanentemente em fun-
ram o período ciberneticista, segun- cionamento o mecanismo explicativo
do Dupuy, conhecemos então inúme- da teoria gerando as explicações neces-
ros produtos, muitos dos quais rejei- sárias de forma consistente são marcas
tam esses laços de família. Na sua pri- de seu pensamento.
meira fase, decisivamente desenca- Os efeitos colaterais dessa atitude
deada pelos trabalhos de Alan Turing admirável, no entanto, fazem-se sen-
e Gödel, a cibernética produziu a in- tir: mesmo quando os leitores de
teligência artificial e as ciências cog- Maturana se identificam com suas
nitivas em sua versão primeira, o idéias, especialmente pela possibilida-
cognitivismo; e, na segunda fase, prin- de que elas nos oferecem de tematizar
cipalmente graças à influência de a experiência e pela argumentação con-
Heinz von Foerster, produziu a ciber- sistente e diversa daquela a que
nética de segunda ordem ou segunda estamos habituados, costumeiramente
cibernética, e, com ela, as teorias do têm dificuldade de inserir suas discus-
caos, da complexidade, da auto-orga- sões em contextos mais amplos. Isso,
nização, da autopoiese — esse último, por vezes, resulta tanto em compor-
o nome da hipótese explicativa da or- tamentos dogmáticos, indesejáveis e
ganização dos seres vivos com o qual mesmo incompatíveis com a própria
a biologia do conhecer e suas diver- teoria — que o autor explicitamente
sas utilizações, em campos variados, afirma ser um domínio explicativo ao
ficaram conhecidas. lado de outros, cuja validade depen-
A obra de Humberto Maturana, de de de as respostas que ele engendra
certo modo, não escapa da crítica for- satisfazerem ou não às perguntas que
mulada por Dupuy ao insulamento pro-
posital dos descendentes da cibernéti-
7. Ver, a esse respeito, MAGRO, C. (1997), “Apre-
ca. De uma elegância minimalista, o tra- sentação”. In: MAGRO, C.; GRACIANO, M. e
balho de Maturana é assinalado por VAZ, N. (eds.). A ontologia da realidade. Belo Ho-
uma irremovível preocupação com a rizonte, Ed. UFMG, pp. 9-13.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 17

venhamos a formular8 —, quanto em Humberto Maturana no final da déca-


interpretações superficiais ou sim- da de 1960, e ganhando impulso e di-
plistas, que deslizam exatamente na fusão através da colaboração de Fran-
direção dos cânones que o autor recu- cisco Varela nas décadas de 1970 e
sa. Além disso, é comum a sensação de 1980. A segunda cibernética tinha in-
impotência dos leitores ante tão amplo troduzido nas discussões em curso a
e consistente discurso, resultando em figura do observador como partícipe
que, hoje, seu desenvolvimento tem se indelével de nossas observações, de
dado basicamente pelo trabalho do pró- nossas explicações, científicas ou não.
prio autor. Isso não quer dizer que a Com a biologia do conhecer, o obser-
biologia do conhecer não tenha produ- vador ganhou especificação biológica,
zido interessantes reflexões e aplica- ganhou vida, ganhou uma caracteriza-
ções, sobretudo nos estudos da cogni- ção que permite tanto aparentá-lo aos
ção, da linguagem, na imunologia, na demais seres vivos que conhecemos
neurobiologia, nas ciências sociais, na quanto distingui-lo daqueles. Nossas
psicologia das organizações, na tera- explicações puderam ser entendidas
pia familiar, por exemplo. Estou expres- como reformulações de nossa expe-
sando aqui algumas das dificuldades riência em termos aceitos pela comuni-
que tenho percebido, tanto ensinando dade dos observadores que propõem
a biologia do conhecer, quanto lendo e perguntas e requerem para elas deter-
discutindo essas leituras com outras minados tipos de resposta. Pudemos
pessoas. ainda compreender que a história de
Se aceitamos a argumentação de interações recorrentes e recursivas que
Dupuy podemos dizer, então, que as o observador mantém no meio em que
ciências cognitivas, que tão significati- desenvolve sua ontogenia é uma his-
vamente marcaram o cenário intelec- tória de mudanças estruturais no do-
tual nas últimas décadas, e a biologia mínio de sua fisiologia, congruente com
do conhecer originaram-se do mesmo as mudanças estruturais do meio, e,
contexto de discussões, embora em fa- portanto, com tais interações. Assim,
ses distintas. Mais jovem que as ciên- esse nascimento tardio, essa descendên-
cias cognitivas, a biologia do conhecer, cia da segunda geração da cibernética
“essa outra jóia da segunda cibernéti- — e não da primeira — fez toda a dife-
ca”, no dizer de Dupuy,9 estava sendo rença, em relação à tradição desses es-
criada pelo neurobiólogo chileno tudos, para o modo como Maturana for-
mulou e propôs soluções para as ques-
8. Essa discussão encontra-se, por exemplo, em tões relativas ao conhecimento e à lin-
MATURANA, H. (1997), “Realidade: a busca da guagem.
objetividade, ou a procura de um argumento coer-
O corte feito na nascente do movi-
civo”. In: MAGRO, C.; GRACIANO, M. e VAZ,
N. (eds.). A ontologia da realidade — Humberto mento ciberneticista, apontando esse
Maturana, op. cit. contexto comum de discussões entre a
9. Ibid. p. 138. biologia do conhecer e as ciências cog-

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


18 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

nitivas, parece-me bastante satisfatório tífica da cibernética, além de ser devi-


para orientar a presente discussão, in- do às circunstâncias sociais e políticas,
clusive porque me agrada a ousadia e pode ser compreendido também como
o entusiasmo daquele projeto coletivo, fruto da genialidade daqueles que sou-
da produção desenfreada de idéias, da beram reformular problemas tradicio-
mistura das fórmulas matemáticas e nais de maneira inovadora, colaboran-
lógicas com o puro lirismo de poesias do para seu crescimento. O reconheci-
e histórias pessoais, da admiração pe- mento dessa história comum quer, no
los colegas de empreendimento, que entanto, apontar que essas pesquisas
caracterizaram esse período ímpar do mantiveram-se fiéis a diversos pressu-
pensamento intelectual do século XX.10 postos tradicionais que têm se mostra-
É evidente que essa história poderia do indesejáveis no próprio curso do
ser rastreada por outra trilha, indo lon- desenvolvimento das áreas associadas
ge até as raízes do pensamento racio- a esse domínio de discussões.11
nalista grego, mostrando sua influên- Pela narrativa de Dupuy, vemos
cia em cada uma das diversas áreas que também que a cibernética nunca foi,
se reuniram no projeto da cibernética nem no seu início, um bloco de idéias
e, posteriormente, no das ciências cog- homogêneo e distensionado, e que re-
nitivas, fosse a neurobiologia, a lingüís- formulações conceituais foram sendo
tica, a filosofia, a economia, a psicolo- permanentemente promovidas ao lon-
gia, e evidenciando a ruptura propor- go de sua história. Alguns de seus
cionada pela biologia do conhecer... membros eram mais teóricos que ou-
Textos de Norbert Wiener, de Warren tros, alguns privilegiavam a modeli-
McCulloch, bem como de líderes inte- zação matemática mais que outros. Al-
lectuais das ciências cognitivas, como guns não se conformavam com a mo-
Noam Chomsky, mostram-nos , em sua delização identificadora de seres vi-
enorme erudição, que a direção privi- vos em termos de máquinas ou com a
legiada por suas idéias tem uma histó- utilização de categorias da física para
ria que data de muitos séculos atrás. a compreensão de fenômenos bioló-
Isso não quer dizer, de modo algum, gicos. Além disso, havia um contin-
que esses pesquisadores não tenham gente enorme de psicólogos partici-
contribuído significativa e produtiva- pando das reuniões, um ativo contra-
mente para o desenvolvimento dessa ponto para o antipsicologismo domi-
história, pois eles ocuparam flancros nante. Essa diversidade de posições
não preenchidos pela tradição. Uma tal permite-nos postular que naquele pe-
incursão certamente nos deixaria en- ríodo estão as sementes das principais
trever que o sucesso da aventura cien- alternativas que as ciências cognitivas
conhecem hoje.
10. Ver, em especial, os textos de MCCULLOCH,
W. (1998), reunidos no livro Embodiements of mind. 11. Ver, a esse respeito, também DUPUY, J.-P.,
2ª ed. Cambridge, MIT Press. op. cit., p. 15.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 19

Vou então tomar a divertida nar- Vou procurar desenvolver as refle-


rativa de Jean-Pierre Dupuy dessa “his- xões que julgo necessárias em torno de
tória de um fracasso — ainda que um dois grandes eixos, que são reflexos do
fracasso grandioso”12 —, da trajetória modo de conceber o conhecimento em
dessa ciência geral a que ele se refere cada um dos movimentos teóricos em
como “a parente mal amada” de inú- questão: os diferentes modos de reu-
meros descendentes, alguns mais e ou- nir as tradicionais áreas do conhecimen-
tros menos famosos, como um ponto to e abordar os fenômenos que lhe são
de partida providencial para indicar atinentes, e o ponto de partida que cada
algumas peculiaridades do modo pelo um assume como modelo para o conhe-
qual são tratadas, na biologia do co- cimento. Com isso espero oferecer con-
nhecer, as questões de que se ocupa- dições de avaliarmos a precisão e a
vam aqueles pesquisadores e poste- novidade da biologia do conhecer num
riormente os cientistas da cognição, contexto que nos é bastante familiar e
produzindo para elas uma alternativa mais amplo de conversações. Hoje, a
radical. Não se trata de fazer aqui uma biologia do conhecer pode ser aponta-
mera genealogia e impor aos descen- da como uma teoria suficientemente
dentes heranças indigestas de ances- forte, consoante com inúmeras vozes
trais comuns, nem de repetir o inimi- que já se fazem ouvir e que são contrá-
tável feito de Dupuy, inclusive porque rias às estratégias representacionais e
sua história pára no momento mesmo computacionais das ciências cognitivas
em que a minha está pronta para co- ortodoxas e dos estudos tradicionais
meçar. A aceitação das relações apon- do conhecimento e da linguagem. Ela
tadas por Dupuy irá me permitir espe- é, desta forma, reconhecida como ca-
cificar, por contraste, que a biologia do paz de contribuir de maneira relevan-
conhecer também dirigiu sua atenção te para o desenvolvimento da área.
para a questão do conhecimento, da lin- O problema — e esse não é um pro-
guagem e suas relações propondo para blema menor — é que pressupostos,
elas um tratamento científico, do mes- estratégias e soluções que colaboraram
mo modo que as ciências cognitivas, para que o cognitivismo das ciências
mas que, compreendendo de uma ma- cognitivas fosse tomado entusiastica-
neira completamente distinta dessas os mente como o apogeu do conhecimen-
seres vivos, sua fenomenologia, o co- to científico e filosófico no Ocidente são
nhecimento e a linguagem, a biologia frontalmente recusados pela biologia
do conhecer traz para o problema so- do conhecer, o que é em parte respon-
luções diferenciadas em todos os ní- sável pela dificuldade de sua compre-
veis, antecipando muitas das questões ensão, avaliação e absorção. Como ve-
e soluções que hoje estão em pauta nes- remos, o contraste entre a biologia do
ses domínios. conhecer e as soluções canônicas no
âmbito dessas conversações, tantos
12. Ibid. p. 17. anos após o início do domínio do cog-

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


20 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

nitivismo e da própria elaboração da abrisse mão de sua formação original


teoria por Maturana, só tende a evi- para participar das conversações. Ou
denciar as particularidades que fazem seja, sugeria-se que os biólogos não
dela um conjunto arrojado e atual de ouvissem com ouvidos de biólogos,
idéias. que os psicólogos não ouvissem com
ouvidos de psicólogos, e assim por
As diferentes estratégias diante. Expressão disso é a recomen-
da multidisciplinaridade dação de cautela que aparece no
Cybernetics of Cybernetics com relação a
A construção de uma ciência geral termos como biocibernética, neuro-
do funcionamento da mente, não de- cibernética ou cibernética das organizações,
limitada pelas fronteiras disciplinares que poderiam, dependendo do uso,
tradicionais e, ainda, inserida num ser mais uma manifestação das forças
projeto ético e político de promoção acadêmicas reducionistas que insistem
generalizada de saúde mental e paz em classificar tudo em termos das dis-
mundial,13 era o que reunia ao mesmo ciplinas tradicionais, minando assim a
tempo, no movimento ciberneticista, unidade transdisciplinar da ciência
matemáticos, engenheiros, neuro- que a cibernética procurava promo-
biólogos, economistas, antropólogos, ver. 14
sociólogos, lingüistas, ecologistas, psi- Não foram poucos os fatores que
cólogos e psicanalistas, alguns com contribuíram decisivamente para
assento permanente nas reuniões, ou- acender as esperanças no sucesso do
tros com participação eventual. A de- projeto das ciências cognitivas e para
terminação de romper com os limites garantir que vultuosos aportes de re-
das disciplinas era tal que se pedia, à cursos fossem destinados à área. Mas,
época, que cada um dos participantes certamente, dentre esses está também
a defesa de uma ciência unificada como
a sonhada pela cibernética, significan-
13. É preciso ressaltar que nem todos os partici- do que o progresso das ciências como
pantes daquele projeto estavam envolvidos com um todo estaria culminando nesse
a elaboração de artefatos pacifistas, como Norbert
Wiener, empenhado em conceber, por exemplo, projeto coletivo, no qual, portanto, es-
aparelhos para deficientes auditivos e para ou- forços irrestritos deveriam ser inves-
tros distúrbios funcionais. Outros, como John tidos. Para alguns, esse era um em-
von Neumann, também um dos pioneiros do mo- preendimento em nome da verdade
vimento, trabalhava no desenvolvimento da bom-
ba de hidrogênio. Um livro sobre esses dois per-
única, como a propaganda institucional
sonagens, tão cruciais na cibernética, é John von de muitas áreas preconizava — e ain-
Neuman and Norbert Wiener. From mathematics to
technologies of life and death, de Steve Heims, pu-
blicado em 1980 pela MIT Press, enfatizando o 14. FOERSTER, H. V. (1995), Cibernetics of
contexto socioeconômico, político e ideológico da cybernetics: the control of control and the
América do pós-guerra (DUPUY, J. -P., op. cit., communication of communication. 2ª ed. Mirneapolis,
p. 13 e 15). Future Systems, Inc., p. 3.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 21

da preconiza.15 Para outros, e talvez época.16 Ao mesmo tempo que os lin-


principalmente para as agências fi- güistas se sabiam (ou suspeitavam que
nanciadoras, mas também para os estivessem) envolvidos em um proje-
amantes de uma boa tecnologia, a to amplo para o qual sua contribuição
aposta no desenvolvimento da tec- era crucial — na medida em que a aná-
nologia de comunicação e controle — lise da linguagem deveria ser parte in-
como os ancestrais das ciências cog- tegrante da busca da compreensão de
nitivas já haviam anunciado ser possí- funções mentais diversas —, os pro-
vel e promissor — justificava o em- blemas, as soluções, as reflexões teó-
preendimento. ricas desse projeto global raramente
Nas ciências cognitivas, no entan- serviram, de maneira explícita, como
to, o modo de desenvolver o projeto pano de fundo para o conjunto dos lin-
de uma ciência unificada é distinto da- güistas, exceto, e de modo significati-
quele proposto pela cibernética. Como vo, para o mentor daquela tendência.
o episódio a que vou me referir é re- Assim, as evoluções do modelo que
cente, deve estar bem fresca na me- acompanharam as modificações intro-
mória de cada um de nós a definição duzidas com a idéia de processamento
estrita que, por exemplo, a lingüística paralelo, por exemplo, os ajustes teóri-
ganhou, dos anos 1960 para cá, no que cos em função da plausibilidade da de-
diz respeito ao objeto de estudo rele- terminação genética nos termos pro-
vante para a área, ao marco teórico a postos pelo modelo inicial e da com-
ser seguido, aos pressupostos a serem preensão da relevância dos processos
adotados, ao que passou a ser consi- de desenvolvimento, as adequações às
derado tema pertinente de pesquisa, invenções e os desdobramentos da pes-
à formação adequada do lingüista pro- quisa em neurofisiologia não se consti-
fissional. Esse foi um panorama cu- tuíram, em geral, como passíveis de
rioso, ao menos retrospectivamente, formulação enquanto tais pela grande
quando já parecem dissipadas as ma- maioria dos lingüistas, dedicados que
nifestações ressentidas de repúdio ao estavam em construir análises formais
regime disciplinar imposto naquela para pontos gramaticais específicos.
Não é à toa que coube basicamente a
Chomsky produzir a unidade teórica
15. Essa atitude está expressa em CHOMSKY, com as demais ciências envolvidas no
N. (1995), “Language and nature”. Mind, vol. projeto do qual ele foi um dos arautos
104, nº 413, pp. 1-61; DILLINGER, M. e PALÁ-
CIO, A. (1997), “Lingüística gerativa: desenvol-
ou abençoar diferentes versões de mo-
vimento e perspectivas. Uma entrevista com delos que a ela se ajustassem, sufocan-
Noam Chomsky”. D.E.L.T.A., v. 13, nº especial,
pp. 195-229; para uma crítica da política
institucional ver, por exemplo, TAYLOR, T. 16. Sobre a tensão vivida no interior da disciplina
(1990), Review of “The politics of linguistics”, no período, ver HARRIS, Randy Allen (1993), The
by Frederic Newmeyer. Language, v. 66, nº 1, pp. linguistics wars. Nova York, Oxford University
159-162. Press.

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


22 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

do sumariamente alternativas que, em- menos descritíveis em termos cogni-


bora muitas vezes perspicazes, eram tivos e lingüísticos. Isso inclui tanto a
contrárias aos dogmas que ele havia tese dos sistemas funcionais especiali-
abraçado ou que abraçava a cada mu- zados, teleonômicos, quanto a postu-
dança na rota do projeto maior.17 lação das unidades de controle nas
Nesse contexto é notável o traba- quais a computação formal e abstrata
lho de Steven Pinker, como o Language responsável pelo cerne dos fenômenos
Instinct,18 reunindo desenvolvimentos a serem explicados deveria se dar.
teóricos e experimentais de diversas Um dos efeitos colaterais da ten-
áreas, da genética à neurofisiologia, do dência aberta por essa interdiscipli-
desenvolvimento à patologia de fala, naridade disciplinar é o empréstimo
que procura restabelecer a atualidade vocabular e conceitual de uma área
do programa e reconstruir a ponte, para outra, nem sempre colaborando
ruída, entre os fenômenos modeliza- para o refinamento conceitual dessas
dos e o modelo. Embora Pinker afir- áreas. Nas ciências cognitivas, a noção
me, em seu trabalho, uma discordância de cognição foi formulada em termos
com Chomsky, a evidente concordân- de “resolução de problema”, da cons-
cia entre eles é muito maior que as di- tituição e manipulação de modelos de
vergências, se compararmos, por exem- representação de uma realidade exte-
plo, com a tendência conexionista ou rior a partir de um aparato formal abs-
as atuais versões não representacionais trato de acordo com regras lógicas bem
e não computacionais das ciências cog- definidas. O modelo de cognição foi,
nitivas, ainda que a estratégia de sal- então, construído em termos represen-
vamento do projeto global pretenda o tacionais e computacionais, em termos
contrário. Isso não nega — mas confir- teleonômicos, sendo que esses mesmos
ma — minha afirmação anterior, de que termos deveriam ser preservados
o criador da sinfonia permanece sen- quando da atribuição de habilidade
do o seu principal maestro. cognitiva a domínios outros que não o
Além disso, todas as disciplinas conhecimento “macro” do mundo —
envolvidas no projeto das ciências cog- como a atividade do sistema imuno-
nitivas deviam ser fiéis a alguns câ- lógico, do sistema nervoso, do sistema
nones básicos, como a aceitação das visual, etc. Ainda, atendendo a uma
ciências da natureza como parâmetro conceituação bastante tradicional da
para a definição da cientificidade do linguagem, o que se definiu como seu
campo e a incorporação da metáfora cerne foi explorado em termos de um
computacional no tratamento de fenô- código abstrato, formal e autônomo,
que haveria de responder pela essên-
cia dessa faculdade humana. A idéia
17. HARRIS, R. A., op. cit.
18. PINKER, S. (1994), The language instinct —
de uma gramática formulada nesses
how the mind creats language. 1ª ed. Nova York, termos foi também estendida ao fun-
William Morrow. cionamento do sistema imunológico, do

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 23

sistema nervoso, do código genético, mulação de questões tradicionais à luz


por exemplo.19 Um outro exemplo do do aparato produzido por Turing e
mesmo tipo é a aplicação do conceito Gödel no interior da lógica, pelos no-
de informação em áreas diversas, da vos conhecimentos da física e da neu-
engenharia à lingüística e à biologia, rofisiologia, do que com sua resolução
permitindo transformar fenômenos mesma.21 Aquele foi, portanto, um pe-
biológicos, fenômenos sociais e histó- ríodo em que problemas eram formu-
ricos em unidades da física — quanti- lados de tal modo que pudessem ter
ficáveis, mensuráveis. Com freqüência soluções plausíveis dentro do quadro
essa atitude não me pareceu saudável científico e tecnológico nascente. Ao
para uma visão complexa e apropriada contrário, tanto a inteligência artificial
dos fenômenos de interesse: no mais quanto as ciências cognitivas, rebentos
das vezes, teve como resultados um re- temporões desse movimento, pauta-
ducionismo conceitual e modelizações ram-se por focalizar a implementação
nem sempre adequadas para a compre- dos aparatos concebidos para a conse-
ensão desses fenômenos in vivo, em- cução de determinadas funções, pelo
bora com palpáveis aplicações tecno- desejo de realizar, de solucionar os pro-
lógicas.20 blemas formulados na instauração mes-
Um dos motivos para essa inter- ma dessas áreas e perseguir seus des-
disciplinaridade restrita talvez possa dobramentos, ciosos de que seu proje-
ser encontrado no comentário de to coroava o desenvolvimento do pen-
Dupuy, de que os ciberneticistas mais samento ocidental e que, portanto, ha-
se envolveram com a colocação ade- veria de contar com amplo respaldo.
quada dos problemas, com a refor- No entanto, e isto é o que importa
aqui ressaltar, não era apenas o desejo
de unificação disciplinar que guiava
19. Aqui é clássico o artigo em JERNE, N. (1985),
“The generative grammar of the immune system”.
essa prática. Era sobretudo uma deter-
EMBO Journal, v. 4, pp. 847-852. minada concepção de conhecimento, in-
20. Ver, a esse respeito, STEWART, J. E. e AN- cluindo o conhecimento científico, que
DREEWSKY, E. (1992), “From information to estava aí em jogo. Em consonância com
autonomy: analogies between biology and the a tradição ocidental, as ciências cog-
language sciences.” Kybernetes – The International
Journal of Systems & Cybernetics, v. 21, nº 5, pp. 15- nitivas concebiam o mundo como sen-
32; STEWART, J, E.; ANDREEWSKY, E. e do externo à, independente de e pré-
ROSENTHAL, V. (1988), “Du culte de l’in- vio ao conhecimento, mente, e compos-
formation en biologie et en sciences du language”. to por building blocks — entidades atô-
Révue Internationale de Systemique, v. 2, nº 1, pp.
15-28. Ver também REDDY, M. (1979), “The
micas, absolutas, objetivas. Por sua vez,
condiut metaphor: a case of frema conflict in our a mente também foi concebida como
language about language”. In: ORTONY, A. (ed.). sendo construída de componentes me-
Metaphor and thought. 4ª ed. Cambridge, nores, com símbolos atômicos, ele-
Cambridge University Press, pp. 164-201. Para
repercussão do termo na compreensão do fenô-
meno da comunicação e da linguagem. 21. DUPUY, J.-P., op. cit., p. 110.

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


24 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

mentares, que deveriam compor estru- e sobre fenômenos da biologia mo-


turas representacionais maiores, refle- lecular. Nessas reflexões Humberto
tindo a postura ontológica anterior de Maturana permanentemente exibiu um
que o mundo é composto de elemen- pensamento processual e sistêmico, ar-
tos atômicos que se combinam em es- ticulando complexas relações de domí-
truturas cada vez maiores.22 Essas en- nios distintos mas mutuamente mo-
tidades, portanto, precediam quais- duláveis. Dessa maneira, em seus expe-
quer tipos de combinações, de rela- rimentos em neurofisiologia, por exem-
ções e de processos. plo, Maturana pôs em correlação os
Assim, a esperança alimentada por processos neurofisiológicos e os pro-
essa tendência era a de que, resolvi- cessos perceptuais/experienciais, que
dos os problemas específicos de cada ocorrem no domínio do comportamen-
um dos blocos disciplinares, atomís- to, sem reduzi-los um ao outro. A par-
ticos, o conjunto total haveria de cons- tir daí, ele postulou como característi-
tituir um modelo, verdadeiro em si, da cas fundamentais dos seres vivos, que
mente humana. A relação entre cada uma teoria do viver e do conhecer de-
uma dessas partes não deveria ser com- veria explicitar sua autonomia e sua iden-
plicada de se estabelecer, pois cada uma tidade, compreendendo que o mundo
delas havia sido explorada segundo os conhecido e experienciado emerge no
mesmos cânones. Com isso podemos próprio processo do viver, que, por sua
compreender que o envolvimento de vez, é determinado pela estrutura bio-
diferentes profissionais participantes lógica particular, dinâmica, histórica e
desses projetos em trabalhos técnicos contingencial do ser que conhece. Aqui
e altamente especializados em seus ele recusa o procedimento das ciências
domínios particulares era um passo cognitivas, afinado com a tradição do
estratégico para o desenvolvimento das pensamento racionalista ocidental, de
ciências cognitivas como um modelo plantar dentro dos indivíduos depen-
científico unificado da mente humana dências de um suposto mundo externo
e do conhecimento assim compreendidos. para explicar seu comportamento ade-
Na biologia do conhecer, essa ques- quado nele, pois esse comportamento
tão aparece com características bastan- adequado — a cognição — é fruto de
te distintas e inusitadas. Essa é uma uma história ontogênica de congruência
teoria produzida por um biólogo, em (acoplamento estrutural) com o meio,
cuja nascente encontramos uma refle- do qual participam também outros se-
xão prolongada sobre seu trabalho ex- res vivos, e da qual participa efetiva-
perimental em neurofisiologia da visão mente, no caso dos seres humanos, a
linguagem.
Na biologia do conhecer, então, a
22. Ver, por exemplo, DUPUY, J. -P., op. cit., e
SHANON, B. (1993), The representational and the
postulação de entidades, a possibilida-
presentational — an essay on cognition and the study de de fazermos referência a entidades
of mind. Nova York, Harvester Wheatsheaf, p. 244. substantivas é, ela própria, uma conse-

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 25

qüência dos processos cognitivos, ex- é reducionista: Maturana não colapsa


perienciais, e do dar-lhes nomes na lin- o domínio explicativo da fisiologia e o
guagem, não sua condição prévia. Para do comportamento — das interações,
estabelecermos um contraste explícito dos fenômenos lingüísticos, sociais, psí-
com o que foi anteriormente dito a res- quicos —, mas argumenta como, pos-
peito das ciências cognitivas, aqui, tulando a organização circular opera-
epistemologia e ontologia são indis- cionalmente fechada e a estrutura di-
sociáveis: viver é conhecer e conhecer nâmica e congruente dos seres vivos, é
é viver. Ainda, e o que é relevante para possível o aparecimento dos fenôme-
a discussão do conhecimento e da lin- nos que caracteristicamente observa-
guagem, bem como de sua articulação, mos no seu encontro no meio. Ainda,
com a biologia do conhecer compreen- argumenta como esses domínios se
demos que os mundos vividos não são modulam mutuamente e como a iden-
externos nem independentes do ser que tidade do ser que conhece é determi-
conhece: eles existem enquanto tais nante, a cada instante, daquilo que ele
como resultado do próprio fluir da his- pode conhecer: se muda o domínio da
tória de mudanças estruturais do ser fisiologia, muda o domínio das intera-
vivo em congruência com as interações ções, do comportamento, muda o en-
que mantém no ambiente. São, portan- contro do ser vivo no meio.
to, a congruência estrutural dinâmica, Não seria exagero então destacar a
a recursividade dos processos cogni- biologia do conhecer como tendo pro-
tivos e lingüísticos, sua imbricada e duzido uma transdisciplinaridade ra-
mutuamente constitutiva atividade nas dical, dando-se ampla liberdade na re-
quais estamos imersos, que trazem à conceitualização dos campos, de seus
mão mundos experienciados e nos per- pressupostos básicos, de seus objetos,
mitem postulá-los em termos de obje- de suas inter-relações, redefinindo até
tos independentes de nosso ato de dis- mesmo a expressão fenômeno biológico,
tingui-los e nomeá-los no fluir do lin- que aqui quer dizer “que ocorre no âm-
guajar. Desnecessário dizer que isso é bito da ontogenia dos seres vivos”, e
o que conhecemos nos estudos conven- não “que é redutível a processos fisio-
cionais. lógicos”. É esse o sentido de falarmos,
Na biologia do conhecer, toda a fe- aqui, do conhecer e do linguajar como
nomenologia observada no âmbito da fenômenos biológicos.
ontogenia dos seres vivos é explicada Uma das marcas típicas da biolo-
a partir do mecanismo gerativo, do qual gia do conhecer, então, é a reconcei-
a organização autopoiética é a hipóte- tualização e o rompimento com dico-
se explicativa, e a conservação desse tomias tradicionais várias que presidi-
modo de organização e do acoplamen- ram o desenvolvimento intelectual do
to estrutural, as duas condições de ma- Ocidente, tais como: biológico/cultu-
nutenção da autopoiese. O mecanismo ral, individual/coletivo, subjetivo/ob-
explicativo é simples, e a explicação não jetivo, percepção/ilusão, emoção/ra-

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


26 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

zão, mente/corpo, interno/externo, organização molecular fechada que se


trazendo, em seu bojo, o apagamento produz — para a sociedade e o siste-
das fronteiras disciplinares que sobre ma jurídico, tendo constituído uma
elas se fundam. No seio do movimen- ampla escola nessa linha. Dentre seus
to ciberneticista, o chamado movimento seguidores, um dos mais ativos é G.
“personalidade e cultura”, protago- Teubner.24 Aplicação análoga do con-
nizado por Franz Boas, Edward Sapir, ceito é feita por Schooneveld na lingua-
John Dewey, Margareth Mead, dentre gem, bastante diferente do que Alton
outros, havia preconizado uma cau- Becker, Barbara Smith, Julie Andresen
sação circular entre a personalidade do e eu mesma fazemos.25 Uma revisão
indivíduo e o meio social em que vi- razoavelmente abrangente de estudos
vem, subsidiando as discussões da ci-
bernética em que alguns de seus parti-
cipantes se mostravam confiantes no 24. LUHMANN, N. (1986), “The autoiesis of so-
caráter libertador e pacificador das cial systems”. In: GEYER, F. e ZOUWEN, J. V. D.
ciências do homem.23 Mas a falência des- (eds.). Sociocybernetic paradoxes. Londres, Sage
Publications; idem (1987), “Closure and openness:
sas dicotomias, sonhada por Lévi- on reality in the world of law”. In: TEUBER, G.
Strauss, refletida por Jacques Derrida (ed.). Autopiesis and the law. Berlim, Gruyter, pp.
em toda sua obra, e sistematicamente 335-348; e TEUBENER, G. (1987), “Introduction
apontada por Richard Rorty como ne- to autopoietic law”. In: _____. (ed.) Autopiesis and
the law. Berlim, Gruyter, pp. 1-11.
cessária para eliminarmos também uma
25. Ver SCHOONEVELD, C. H. V. (1983),
dicotomia mais básica e perniciosa den- “Contribution to the systematic comparision of
tre essas, que é a de essência/aparên- morphological and lexical semantic structures in
cia, só vem a ser de fato produzida, na the slavic language”. In: American Contributions to
ciência, no interior da biologia do co- the Ninth International Congress of Slavists. Kiev,
September, pp. 321-347; idem. (1983b), “Pro-
nhecer, por um mecanismo explicativo gramatic sketch of a theory of lexical meaning”.
consistente e heurístico. Quaderni di Semantica, v. IV, nº 1, pp. 159-170, que
Algumas das primeiras aplicações contrasta com as abordagens de ANDRESEN, J.
da teoria se fizeram ao sabor da inter- T. (1997), “Language and patterning”. In: MA-
GRO, C. (ed.). Biology, cognition, language and
disciplinaridade dos primeiros anos society — International Simposium of Autopoiesis.
das ciências cognitivas, ou seja, toman- Belo Horizonte, UFMG. Workbook, november 18-
do emprestado modelos, conceitos e 21; BECKER, A. (1997), “On The Razor’s Edge”.
vocabulário de uma área para outra. É In: MAGRO, C. (ed.). Biology, cognition, language
and society…, op. cit.; ide. (1991), “Language and
assim que vejo a utilização que Niklas languaging”. Language and Communication, v. 11,
Luhmann faz da noção de autopoiese, nº 1/2, pp. 33-35; MAGRO, C. (1996), “Languaging
transferindo-a de seu contexto de apa- language”. Communication Anti-Communication.
recimento — caracterização da organi- Washington D. C., American Society for
Cybernetics; SMITH, B. H. (1993), “Doing Without
zação típica dos seres vivos como uma
meaning”. In: Belief and resistence: dynamics of
contemporany theoretical controversy. Cambridge,
Harvard; idem (1997), “Getting language into the
23. DUPUY, J. –P., op. cit., pp. 102-103. loop: contemporary reconceptions of cognition and

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 27

que aplicaram ou usaram as implicações nada às áreas pretendidas que uma boa
do conceito de autopoiese em diferen- formulação sistêmica e complexa não
tes áreas é o livro de Mingers, que no pudesse explicitar. Além disso, acho
entanto não traz as aplicações no domí- que tais extensões podem obscurecer a
nio dos estudos lingüísticos, uma au- complexidade que resulta quando a
sência sintomática de que tanto o peso aplicação recursiva do mecanismo ex-
da tradição sobre a própria conceitua- plicativo da biologia do conhecer gera
lização da linguagem quanto a defini- fenômenos em outros domínios, entre-
ção estrita da disciplina dificultam a laçados entre si e com o organismo. Tal-
absorção de abordagens alternativas.26 vez estejamos com falta de boas for-
Esse é, sem dúvida, um assunto mulações sistêmicas, radicalmente sis-
controverso. Na revisão que Maturana têmicas… e os conceitos mais funda-
e Varela fazem do período desde a con- mentais da biologia do conhecer e sua
cepção da teoria, sob a forma de pre- implementação sob a forma de um me-
fácios à segunda edição do De maqui- canismo explicativo recursivo certa-
nas y seres vivos, Maturana recomenda mente preenchem, com refinamento
cautela ao se recusar a extensão do con- incomparável, esse espaço.
ceito, enquanto Varela é categórico ao Aliado ainda a essa transdiscipli-
preferir mantê-lo dentro da sua con- naridade transversal, o procedimento
cepção original, que se refere a proces- obstinadamente sistêmico e recursivo
sos moleculares. No meu próprio tra- das explicações de Maturana têm lhe
balho adoto a noção de autopoiese como valido os rótulos de holístico, ecoló-
caracterizadora da organização pecu- gico ou ainda a interpretação de sua
liar aos seres vivos, assumindo portan- teoria como uma cosmologia. Esta úl-
to uma postura mais semelhante à re- tima é, do meu ponto de vista, uma má
comendada por Varela, embora esteja associação. Do mecanismo explicativo
aberta à argumentação em favor de que da biologia do conhecer emergem múl-
aplicações do termo podem oferecer tiplos domínios de realidade, emergem
interessantes insights, guardadas as multiversa (em oposição ao universo con-
devidas peculiaridades dos domínios vencional). Pensá-la em termos de uma
aos quais é aplicado. No entanto, o que cosmologia totalizante — associação
tenho visto até então é que as simples imediata que o termo me inspira — pa-
extensões do termo não acrescentam rece-me um retrocesso nas conquistas
conceituais que o artigo “Realidade...”
tão bem sintetiza.27
communication”. In: Biologia, Cognição, Lingua- Podia-se objetar que, sendo essa
gem e Sociedade — Simpósio Internacional de uma teoria biológica, uma ciência do
Autopoiese. Belo Horizonte, Minas Gerais.
Worbook, 18-21 de novembro.
26. MINGERS, J. (1995), Self-producing systems.
Implications and applications of autopoiesis. Nova 27. MATURANA, H. (1997), “Realidade: a busca
York e Londres, Plenum Press. da objetividade…”, op. cit., pp. 243-326.

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


28 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

viver, fosse flagrante a imposição da Entre as ciências da natureza


biologia como uma disciplina funda- e do vivente
cional, ancorando e reafirmando em
definitivo os dualismos da tradição oci- Originalmente, o termo cibernética
dental e, portanto, ao mesmo tempo, significava “a ciência do controle e da
mantendo os limites disciplinares. Ou, comunicação no animal e na máquina”.
ainda, como uma tentativa de unifica- Nessa definição estava embutida a
ção das ciências, nos moldes preten- idéia de que o estado do controle in-
didos nas ciências cognitivas. Isso não terno de um sistema (seu funcionamen-
me parece uma boa compreensão des- to) dependia do fluxo de informação
sas idéias como um todo. A proposta que ele recebe (suas relações), e que as
da biologia do conhecer é explicar os leis que governam esse funcionamento
fenômenos que observamos no am- são universais, ou seja, que elas são in-
biente dos seres vivos em geral e dos dependentes da dicotomia clássica en-
seres humanos em particular — in- tre sistemas orgânicos e inorgânicos,
cluindo a cognição, a linguagem, a au- dos sistemas considerados como orga-
toconsciência, os fenômenos sociais, nismos ou máquinas.
estéticos, espirituais, éticos —, levan- No clássico artigo “Cybernetics”,
do sistematicamente em conta aquele Norbert Wiener traçou as diretrizes
que observa, pergunta, explica e acei- desse campo da ciência, afirmando que
ta uma explicação como tal, e que é, ela deveria reunir sob uma única ca-
ele mesmo, um ser vivo, somos cada beça aquilo que no contexto humano
um de nós. A transdisciplinaridade costuma ser “frouxamente” descrito
promovida pela biologia do conhecer como “pensamento”, e que em enge-
permite um tratamento extensivo dos nharia é conhecido como “controle e
fenômenos associados aos seres vi- comunicação”. Wiener manifestou sua
vos a partir de seu mecanismo ex- crença de que haveria, entre as com-
plicativo, mas não recusa a legitimi- plexas atividades humanas e as opera-
dade de outros tipos de explicações ções de uma simples calculadora, uma
dadas a partir de outros domínios ampla área em que cérebro humano e
explicativos. Ou seja, a idéia de uma máquina se sobrepõem. Ele afirmou
verdade única, de um modelo único ainda que as máquinas modernas têm,
de racionalidade, defendido e perse- assim como o cérebro, as “capacida-
guido por detrás da idéia de uma ci- des de memória, associação, escolha”,
ência unificada, aqui não encontra lu- e que a construção de mecanismos ca-
gar. No entanto, ao mesmo tempo da vez mais complexos deveria nos
que admite e engendra a multi- mostrar que o cérebro humano se com-
plicidade de explicações possíveis, a porta como uma máquina, o que ha-
biologia do conhecer nos leva a nos veria de nos levar bem perto de com-
dar conta da responsabilidade de preender adequadamente seu funcio-
nossas escolhas, teóricas ou não. namento28.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 29

Wiener estava interessado em dé- tivas estabeleceram com a inteligência


ficits funcionais, como o ocasionado por artificial, há a idéia de que conhecer é
uma patologia cerebelar que resulta no produzir um modelo de um fenômeno
comprometimento de movimentos in- e efetuar sobre ele manipulações or-
tencionais, impedindo um indivíduo de denadas. Dito de outra maneira, em-
realizar movimentos simples como os bora concebida pelos ciberneticistas
envolvidos em pegar um lápis sobre apenas de modo abstrato, foi a própria
uma mesa, por exemplo. Ao mesmo possibilidade de formular a antiga pro-
tempo, ele estava comprometido com blemática do conhecimento através do
a construção de artefatos como um apa- uso de cálculos matemáticos e lógicos,
rato de controle de incêndio de arti- e implementá-los sob a forma de apa-
lharia antiaérea, no qual, imaginava, o ratos tecnológicos funcionais, confor-
cálculo da trajetória do projétil deve- me Alan Turing, Gödel e Church ha-
ria ser igual ao cálculo envolvido na viam anunciado nos anos 1930, o que
apreensão de um objeto por um movi- definitivamente fez deslancharem os
mento humano. movimentos que deram origem às ciên-
O que vemos desde os primeiros cias cognitivas e que, posteriormente,
tempos da cibernética, então, é uma contribuiu para consolidar o prestígio
atenção para as diferentes habilidades de que essas gozaram. Para dizer o mí-
executadas pelos humanos, compondo nimo, essa opção atendeu à enorme res-
um quadro diversificado do conheci- peitabilidade das ciências exatas e da
mento em termos de um conjunto de natureza em nosso tempo, tidas na tra-
sistemas especializados na realização de dição cultural que cultua o mito da ob-
determinadas funções, de sistemas so- jetividade como modelo mesmo da “re-
lucionadores de problemas, teleonô- presentação mais acurada da realida-
micos, nos quais a construção, mani- de objetiva”, portanto, o caso paradig-
pulação e conservação de representa- mático do “conhecimento perfeito”, a
ções ocupariam papel central. As diver- essência mesma da racionalidade hu-
sas faculdades da mente eram assim mana. Tradicionalmente, o único modo
tratadas em termos de suas proprie- de conhecimento que faz com que todo
dades enquanto sistemas especialistas sistema cognitivo se relacione com o
de processamento de informações.29 mundo como o cientista com seu obje-
Ainda, e talvez mais importante pa- to é o modelo do conhecimento por mo-
ra compreendermos a parceria estreita delos e representações: a representa-
que posteriormente as ciências cogni- ção elementar e a representação da ca-
pacidade de representação, dois níveis
logicamente encaixados nos quais o
28. WIENER, N. (1995), “Cybernetics”. In:
funcionalismo da ciência da cognição
FOERSTES, H. V. (ed.). Cybernetics of Cybernetics:
the control and the communication of communication. se situa. Postulando esse segundo ní-
2ª ed. Minneapolis, Future Systems, pp. 7-17. vel, as ciências da cognição puderam
29. Ver DUPUY, J. –P., op. cit., pp. 26-27. ao mesmo tempo declarar-se materia-

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


30 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

listas ou fisicalistas e reivindicar auto- em relação aos princípios da biologia e


nomia com relação às ciências da vida. da psicologia. Embora naquelas discus-
Assim, tanto a perspectiva de sis- sões um físico profissional nunca tenha
temas especializados, teleonômicos, tido assento permanente, o conheci-
quanto a da universalidade desses pro- mento de ponta da física constituía um
cessos se impuseram nas ciências cog- marco a ser seguido em todas as ins-
nitivas, refletiram e reforçaram o mo- tâncias. Mais do que isso, uma verda-
do científico de conhecimento como o deira batalha era travada em seu nome,
único válido e merecedor de investiga- ultrapassando a problemática do viven-
ção, e a modelização como espelho do te para analisar características da men-
que é conhecer ou do que a mente faz. te humana, definida abstrata e formal-
Uma das vantagens preconizadas da mente, numa tensão observável em inú-
utilização de modelos era a de que eles meras discussões ocorridas nas Confe-
permitem controle explicativo e predi- rências Macy, bem como na própria
tivo, além de possibilitarem a abstra- obra de Warren McCullock.
ção do sistema de relações funcionais Desde a década de 1940, essa ten-
— as únicas consideradas pertinentes — são se fazia sentir no meio científico:
da realidade fenomenal, pondo entre físicos como Niels Bohr estavam preo-
parênteses o que acreditava-se que não cupados em distinguir fenômenos da
dependia do sistema em questão. As- natureza de fenômenos biológicos. Con-
sim, é possível dizer que o próprio fun- ta Dupuy que um dos orientandos de
cionalismo característico desses perío- Bohr, Max Delbrück, participou da 5ª
dos tem origem na prática da modeli- Conferência Macy, uma vez que Von
zação. De qualquer modo, destaca Neumann estava interessado em suas
Dupuy, a metáfora computacional, que pesquisas sobre bacteriófagos e desa-
posteriormente configurou todo o cam- fiava Norbert Wiener a lhe provar que
po das ciências cognitivas, não era ne- modelizar o cérebro era matematica-
cessária, uma vez que a prática mo- mente mais importante do que mode-
delizadora começou bem antes do com- lizar um bacteriófago, organismo pri-
putador existir: embora esse existisse mitivíssimo capaz de se reproduzir.
como objeto material técnico, ainda não Consta que Delbrück se indispôs com
havia uma teoria funcionalista do mes- a cibernética logo no primeiro encon-
mo. Uma das conseqüências dessa pos- tro de que participou, nunca mais retor-
tura foi o colapso entre objeto de estu- nando, por ter achado completamente
do e teoria, como bem apontou Dupuy insanas as discussões que aí se davam,
no livro que estou aqui considerando. presididas pela física. Dupuy justifica
No movimento ciberneticista, era essa indisposição dizendo que, travan-
então clara a tendência de se aplicar do um ferrenho debate com as ciências
modelos lógico-matemáticos em todos da mente — e não da vida — em nome
os domínios, de absorver os princípios da física, os ciberneticistas passaram
da física tornando-os superordenados por cima do vivente para chegar dire-

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 31

tamente à lógica e à mente, coisa que nhecimento como a capacidade de rea-


um físico estrito como Max Delbrück lização de determinadas tarefas que
não admitiu.30 podem ser independentes da base ma-
O relativo insucesso da compreen- terial que as leve a cabo, simplesmente
são das funções mentais humanas ob- não existe na biologia do conhecer. Essa
tida através da mecanização de proces- é uma teoria daquilo que é vivo. Seres
sos peculiares dos seres vivos seguin- vivos têm nela uma definição precisa —
do modelos lógico-matemáticos abstra- que dispensa a infinita lista de proprie-
tos e da produção de máquinas à ima- dades com que em geral são descritos
gem e semelhança do homem assim —, que, ao mesmo tempo, define o tipo
concebido, que se mostraram restritas de interações que eles têm e podem ter
no que poderiam realizar, já vem há com o ambiente — o qual passa imedi-
algum tempo sugerindo pontos de par- atamente a ser especificado de acordo
tida distintos para a investigação do com essas interações. Com isso ela é,
conhecimento, no interior mesmo das ao mesmo tempo, uma teoria do co-
ciências cognitivas. Penso ser esse o ca- nhecer, conforme Maturana explicita no
so do conexionismo, que aponta para a aforismo: viver é conhecer, conhecer é
necessidade de se ter uma maior aten- viver.31
ção para a biologia dos seres vivos, e o Isso não significa que Maturana
faz através da modelização do fortale- despreze as leis da física em suas for-
cimento de conexões nas chamadas re- mulações. Ao contrário, referências à
des neurais como fruto do aprendizado entropia, à inércia são comuns em seus
e da experiência, resultando no surgi- textos, uma vez que, existindo no meio
mento dos fenômenos que são produ- físico, os sistemas biológicos também
to dessas interações históricas. Além estão sujeitos a elas.32 Significa, no en-
disso, nesse período foi também enor- tanto, que ele está empenhado em des-
me o desenvolvimento das neurociên- tacar e compreender a especificidade
cias, do pensamento evolutivo, desen- da fenomenologia dos viventes, em
volvimentista e da genética, o que su- distingui-la da fenomenologia do
geriu rapidamente a reavaliação das mundo natural, físico. Significa tam-
questões que guiaram o projeto inicial
das ciências cognitivas, até mesmo em
nome da unidade da ciência. 31. Ver, por exemplo, MATURANA, H. e
VARELA, F. (1984), El arbol del conocimiento. Las
A permanente tensão entre o men-
bases biológicas del entendimiento humano. Santiago
tal e o vivo, que disse estar presente do Chile, Editorial Universitaria; idem (1980),
tanto na cibernética quanto nas ciên- Autopoiesis and cognition. Dordrecht, D. Reidel.
cias cognitivas, as preocupações com o 32. A título de exemplificação, ver MATURANA,
mental em termos abstratos sendo H. (1970), “Neurophysiology os cognition”. In:
GARVIN, P. (ed.). Cognition: a multiple view. New
proeminentes, dada a concepção de co- York, Spartan Books, pp. 3-23; MATURANA, H.
e VARELA, F. (1980), Autopoiesis and cognition,
30. Ibid., pp. 94-96. op. cit.

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


32 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

bém que a biologia do conhecer tam- computacionais.33


pouco está subordinada às formali- Pouco tempo depois, escreveu com
zações da lógica, que Maturana consi- Francisco Varela De maquinas y seres vi-
dera um recurso para se formular de vos, onde estabeleceram uma diferen-
maneira alternativa aquilo que já se ciação sistemática entre o que chama-
sabe, não lhe dando a importância ca- ram de máquinas alopoiéticas, feitas pelo
racterizadora de cientificidade que homem com objetivos específicos para
tem em nossa tradição. Ainda, signi- a execução de tarefas, e máquinas auto-
fica também que, para ele, se dispo- poiéticas, como designaram então os se-
mos de uma explicação adequada dos res vivos, cujo mecanismo de funcio-
processos constitutivos dos seres vi- namento é caracteristicamente distin-
vos, devemos derivar dela uma expli- to das primeiras: uma rede de relações
cação dos diversos fenômenos a eles moleculares que, ao se produzir, pro-
associados, inclusive uma explicação duz os componentes e as próprias re-
para o que chamamos de funções men- lações que o constituem.34 A ousadia
tais. Assim, o que é pré-requisito nas dessas idéias no início da década de
teorias tradicionais do conhecimento, 1970 é enorme: os autores questiona-
filosóficas ou científicas, na biologia ram aí as relações causais típicas do
do conhecer é produto dos processos raciocínio tradicional ocidental, a
cognitivos e comunicacionais nos quais teleonomia, a dependência plantada no
estamos imersos ao longo de nossa interior dos indivíduos por meio de
ontogenia. mecanismos animísticos diversos (as
Em “Neurophisiology of Cogni- representações inatas, os mecanismos
tion”, Maturana especificou pela pri- computacionais, os controles centrais)
meira vez o observador como um ser e ressaltaram a autonomia e a indivi-
vivo, introduziu a idéia de fechamen- dualidade como características para as
to operacional do organismo e do sis- quais seria necessário atentarmos na
tema nervoso em particular, e formu- explicação do fenômeno da vida. Res-
lou seu conhecido “Tudo é dito por saltaram ainda a estrutura dinâmica e
um observador, a outro observador, contingente desses seres, determinante,
que pode ser ele mesmo”. Nesse arti- a cada instante, daquilo que eles po-
go, Maturana já aludiu à impertinên-
cia da noção de informação ao se tratar 33. Esse texto pioneiro foi expandido, transfor-
mando-se no “Biology of cognition”, publicado
da fenomenologia biológica, e descre- em MATURANA, H. e VARELA, F. (1980),
veu a morfologia, a arquitetura e o fun- Autopoiesis and cognition, op. cit. A versão original
cionamento do sistema nervoso asso- está em MATURANA, H. (1970), “Neurophy-
ciado à evolução e ao desenvolvimen- siology of cognition”, op. cit.
to dos seres vivos acoplados estrutu- 34. Esse texto foi publicado em inglês como
“Autopoiesis: the organization of the living”, na
ralmente ao ambiente em que vivem, segunda parte da obra de MATURANA, H. e
e não em termos representacionais e VARELA, F. (1980), Autopoiesis and cognition,
op. cit.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 33

dem fazer, dizer, conhecer, descreven- ção científica, então, é um mecanismo


do a fenomenologia do vivente em ter- gerador de fenômenos num domínio
mos recursivos e processuais. distinto daquele em que eles se dão,
Na biologia do conhecer, então, o que deve ter suas etapas seguidas, ob-
conhecimento não é entendido como tendo concordância da comunidade a
uma propriedade “mental” no sentido cada uma delas. A predição é apenas
tradicional de habilidades promovidas uma dessas etapas e não constitui a
por um conjunto de faculdades inter- própria explicação científica como um
nas, individuais, substantivas. É ex- todo.
pressão do próprio viver. A cognição É esse processo que Maturana ob-
não é um conjunto de instrumentos que serva para gerar cada fenômeno ao qual
têm a finalidade de construir e mani- deseja se dirigir, pondo em funciona-
pular modelos da realidade externa mento o mecanismo explicativo que
independente do ser vivo, mas é a ex- tem a autopoiese como sua hipótese. É
pressão da congruência de um ser vivo assim que, com uma consistência incom-
em diferentes domínios de sua existên- parável, ele propõe explicações cientí-
cia, fruto do processo histórico de mu- ficas para a cognição, a linguagem, os
danças estruturais em interações recor- fenômenos sociais, os fenômenos psí-
rentes com o meio — sua ontogenia. quicos, estéticos, espirituais, a autocons-
Os termos finalistas com que são des- ciência, respondendo às críticas iniciais,
critos os sistemas funcionais das ciên- de que sua equação “viver é conhecer
cias cognitivas ortodoxas são tomados e conhecer é viver”, não serviria para
aqui como amplamente insuficientes e explicar funções mentais chamadas tra-
inadequados para explicar a complexi- dicionalmente de “superiores”.
dade, a estabilidade e a variabilidade Já disse anteriormente que esses
da fenomenologia do vivente. fenômenos são reconceitualizados na
Ao propôr uma visão do conheci- biologia do conhecer de uma forma tal
mento e da linguagem dependentes da que não encontram paralelo com as
organização e da estrutura dos seres definições encontradas nas análises
vivos, Maturana estava também imerso tradicionais, em quaisquer domínios.
na pergunta pelo próprio conhecimen- Uma das chaves para compreender-
to científico. Ele então propôs uma mos o que está sendo proposto é en-
explicação do que seja uma explicação tender que Maturana está empenha-
científica. Afirmou que, quando reco- do na compreensão de processos, de
nhecemos como legítima a pergunta relações. Essa postura está claramen-
pelo observador, entendemos que te expressa em sua recusa dos subs-
qualquer explicação depende de que a tantivos linguagem, cognição, conheci-
comunidade daqueles que especificam mento, vida, substituindo-os por
o fenômeno a ser explicado, que for- linguajar, conhecer, viver, etc. Os fenô-
mulam a pergunta e que ouvem a ex- menos tradicionalmente compreendi-
plicação a aceite enquanto tal. A explica- dos como mentais, ou próprios da men-

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


34 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

te, em termos de entidades substanti- tal tem tido inúmeras dificuldades de


vas, ele explica em termos de processos lidar com as emoções e seu papel efeti-
psíquicos, que se dão no espaço de rela- vo no nosso viver cotidiano. Para Matu-
ções dos indivíduos no meio. Esses rana, a interpretação de que as emo-
processos são, portanto, relacionais e ções têm papel negativo sobre a racio-
interacionais, determinados pelo ins- nalidade é um contra-senso. Qualquer
tante estrutural da dinâmica fisiológi- escolha racional é, ela mesma, funda-
ca dos indivíduos envolvidos numa da numa emoção. As emoções especi-
interação no meio. Entendemos aqui ficam o domínio relacional em que nos
que o domínio da fisiologia e das inte- colocamos a cada instante, sendo por-
rações (comportamento), embora não tanto seu reconhecimento crucial para
intersectantes, modulam-se mutuamen- compreendermos o fluir de nossos pro-
te, de maneira ininterrupta. cessos cognitivos e comunicacionais.36
Assim, a problemática mente-corpo, Essa preocupação ocupa hoje espaços
que permanece subjacente às principais inusitados, como, por exemplo, a pró-
controvérsias intelectuais da atuali- pria inteligência artificial, no qual se
dade, tem em Maturana uma solução começa a postular que, sem compreen-
que não é de fato comparável às alter- dermos o papel das emoções, jamais
nativas comumente oferecidas nesse estaremos prontos para compreender
domínio: ele não é reducionista, a cognição humana.37
eliminacionista nem dualista — nem Com a biologia do conhecer temos
no sentido cartesiano nem no sentido condições adequadas, no meu enten-
adotado por Chomsky e Fodor. Nem der, de responder às preocupações
me parece ser exatamente o mesmo atualmente crescentes com os proces-
que o monismo anômalo de Davidson, sos interpretativos e cognitivos, que
interpretado no sentido de Quine
como dualismo conceitual ou lin- 35. QUINE, W. V. (1987), “Mind versus Body”.
güístico. Em seu “Non-reductive In: Quiddities: and intermittenthy philosophical
physicalism”, Rorty propõe uma inter- dictionary. Cambridge, Belknap Press of Harvard
pretação do monismo anômalo de University Press; RORTY, R. (1987), “Non-
reductive physicalism”. In: Objetivity, relativism,
Davidson que me parece paralelo ao
and truth. Philosophical Papers — volume 1.
de Maturana: os fenômenos psíquicos Cambridge, Cambridge University Press, pp. 113-
são fenômenos relacionais, interacio- 125.
nais, e não podem, sob pena de prejuí- 36. Ver especialmente MATURANA, H. (1997),
zo conceitual, ser reduzidos a quais- “Ontologia do conversar”. In: MAGRO. C.;
GRACIANO, M. e VAZ, N. (eds.). A ontología da
quer processos fisiológicos, embora realidade – Humberto Maturana, op. cit., pp. 167-
dependam fundamentalmente da fisio- 181; idem. (1997), “Realidade: a busca da objeti-
logia dos indivíduos para exibirem vidade...”, op. cit., pp. 243-326.
as características que exibem a cada 37. BODEN, M. A. (ed.) (1994), Filosofía de la
instante.35 inteligencia artificial. Sección de obras de Ciencia y
Tecnología. 1ª ed. México, Fondo de Cultura
O pensamento racionalista ociden- Económica.

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002


DOSSIÊ: ENTRE NATUREZA E CULTURA — AFINIDADES ELETIVAS 35

não são homogêneos para todos os se- interagir com pessoas em ambientes
res vivos nem para os indivíduos de não laboratoriais. Brooks produziu tam-
uma mesma espécie a todo instante. So- bém, e principalmente, pequenos robôs
bretudo, ela nos permite entender que que, dispensando um módulo central
essa diversidade não é decorrente de de controle e computação, interagem
déficits do emprego de mecanismos no meio “em seus próprios termos”,
cognitivos ou lingüísticos gerais, mas reflete Brooks. O que me parece rele-
é constitutiva dos processos do viver. vante nesse contexto é que ele está
Suas conseqüências para o ensino, nor- preocupado em observar diferentes
mal ou especial, para as relações inter- seres vivos interagindo em seu meio, e
pessoais, e mesmo para a modelagem está procurando entender a cognição a
de robôs são flagrantes. partir de uma reflexão biológica — ou
Afirmei no início que Maturana an- etológica, se quisermos especificar me-
tecipava perguntas e soluções hoje per- lhor o tipo de fenômeno que Brooks
seguidas no âmbito das ciências da está preocupado em compreender em
cognição, da inteligência artificial, nos primeiro lugar.
estudos da linguagem, entre outros, e Em “Biologia da autoconsciên-
acredito que tenha oferecido uma di- cia”,39 Maturana sugere como devem
versidade de indicações de que isso é ser projetados sistemas artificiais que
assim. No entanto, como a inteligência participem da linguagem e possam ser
artificial parecia ser dependente dos ditos como exibindo conhecimento. O
pressupostos tradicionais que alimen- que se requer, nesse caso, é a constru-
tavam também as ciências cognitivas, ção de sistemas que, sendo plásticos,
tais como o representacionalismo e o flexíveis, possam participar de inte-
computacionalismo que Maturana re- rações e que tenham, como conse-
jeita, estimo precioso o trabalho desen- qüência delas, modificações recursivas
volvido no Laboratório de Inteligên- em seu mecanismo interno. Não cabe
cia Artificial do MIT, especialmente por especificar aqui em detalhes suas su-
Rodney Brooks, que é congruente com gestões, mas cumpre ressaltar que o que
o pensamento de Maturana, e livre dos ele propõe já vem hoje sendo experi-
preceitos subscritos pela inteligência mentado num centro de tecnologia que
artificial, seja ela cognitivista ou cone- abrigou, por tanto tempo, exatamente
xionista.38 Esse pesquisador é um dos as pesquisas para as quais a biologia
cientistas envolvidos no projeto do ce- do conhecer vem, há cerca de trinta
lebrado robô COG, que, com um míni-
mo de computação interna, é posto a
“Intelligence witnout representation”. Artificial
Intelligence, vol. 47, pp. 139-159.
38. Ver, especialmente, BROOKS, R. (1997), The 39. MATURANA, H. (1997), “Biologia da
deep question — a talk with Rodney Brooks. autoconsciência”. In: MAGRO, C.; GRACIANO,
http://www.edge.org/3rd_culture/brooks/ M. e VAZ, N. (eds.). A ontología da relidade —
brooks_.html. Culture, T.T.; idem. (1991), Humberto Maturana, op. cit., pp. 211-242.

MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 13-36, JUN. 2002


36 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002

anos, se construindo como uma poten- conhecer no bojo das controvérsias in-
te alternativa. telectuais com as quais os pesquisado-
res de nosso tempo estão familiariza-
Conclusão dos e de dinamizar a leitura dos textos
de Maturana, carentes de referências
Uma das articulações que, embora que guiem o leitor na complexa pro-
exiba incomparável fertilidade, nem blemática a que sua obra se dirige.
sempre é evidente ou igualmente visí- Fiz isto distinguindo essas idéias onde
vel para todos os pesquisadores, e que é preciso distinguir, e aproximando-as
decorre de uma amistosa familiarida- de outros trabalhos onde me pareceu
de com as ciências cognitivas, é o estí- possível e desejável aproximar. Espe-
mulo à reflexão sobre a própria prática ro ter deixado clara a sugestão de que
científica na qual esses mesmos pesqui- uma colaboração frutífera com a biolo-
sadores estão imersos. Ora, no caso das gia do conhecer é possível e surpreen-
diferentes teorias que aqui pus em con- dente, desde que se esteja disposto a
tato, sendo o próprio objeto de conhe- uma higienização do olhar, a abrir mão
cimento o conhecimento, indagar sobre de alguns dos princípios tradicionais
como está se dando o processo de de- mais arraigados em nosso pensamento
senvolvimento da investigação (ou co- científico e filosófico.
nhecimento científico) é, para dizer o
mínimo, uma tarefa instigante e neces-
sária. Assim é que desenvolvi meu ar-
gumento ao longo deste texto em tor-
no de dois eixos que dizem respeito à Recebido em 15/4/2002
prática científica das correntes teóricas Aprovado em 30/6/2002
para as quais estive tratando de narrar
uma história comum. Esses temas, quais
sejam, a questão da (inter)disciplina-
ridade e a medida de cientificidade, seja
ela oriunda das ciências exatas ou bio-
lógicas, foram aqui tomadas como re-
flexos da compreensão que cada um dos
movimentos teóricos tratados tem do
conhecimento na própria prática cientí-
fica, nesse modo particular de prática
social que é a ciência.
Assim, ao mesmo tempo que pro-
curei exibir esse exercício que cabe a
nós primordial e permanentemente Cristina Magro, professora do Departamento de
realizar, tratei de produzir um contex- Lingüística da Faculdade de Letras-UFMG.
to para a compreensão da biologia do E-mail: cmagro@metalink.com.br

MARGEM, SÃO PAULO, N o 15, P. 13-36, JUN. 2002