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A PONTE

Zuca Zenker

Personagens:
Maria
Homem
Mendigo

(A cena acontece numa ponte)

Mendigo- Sangue de Jesus tem poder! Eu sou a luz do mundo, quem me segue não
andará em trevas, mas terá a luz da vida! Cristo!Cristo! Cristo! Tenha piedade de mim.
Santo! Santo! Santo! (Abre a bíblia) Jesus disse: “Ainda que eu testifico de mim
mesmo, aos peitos imundos da cadela, a vaca, a faca da minha mão, o meu
testemunho é verdadeiro, porque sei de onde vim e para onde vou; mas vós não
sabeis de onde venho, nem para onde vou”.Deus que me perdoe. Ai! Filho da puta!
(Começa a procurar algo entre os pêlos do braço, encontra uma pulga e a esmaga
entre os dedos) Deus! Deus! Deus! Deus! Deus!Deus! Adeus! Adeus! Adeus! Que a
graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja comigo! Amém! (Sobe no parapeito)
Porque Jesus é a Salvação!Porque um homem não pode ser tratado como um animal,
como um verme, e se ainda fosse um verme teria o que comer, mesmo que fosse a
matéria podre de que é feito o homem. Ser verme é ser irracional, ser irracional é ser
verme! Eu penso, portanto não sou um verme e, aliás, não deveria sentir fome. Mas se
é fome que sinto e se penso que é para ter certeza do que sinto, então que eu me
torne irracional! Que eu seja um verme ou uma barata. Eu quero ser uma barata. Está
me ouvindo? Hein? Quero ser uma barata, ouviu?Eu posso ser uma barata, porque eu
sou o Messias, eu sou Deus? Eu sou o Messias? Ou eu sou uma barata? Eu sou o
verme... O verme não, eu sou a barata do Messias! (Abre novamente a Bíblia) Jesus é
meu pastor e nada me faltará! Que caia sobre a terra um mal terrível! Que caia sobre
os homens um mal terrível! Que Cristo caia sobre a terra! Que eu caia sobre os braços
de Deus! Amém, amém...

Entra uma mulher exageradamente produzida

Maria- Onde você pensa que vai seu vagabundo?! (puxa-o com força para traz) Aqui
Não é lugar de ficar proferindo contra o pai. Seu porco imundo! Some da minha frente
seu verme! Você não vai estragar o meu dia! Não mesmo.

Mendigo- Queima! Queima Jesus, queima! (Continua murmurando)

Maria- Você cala a sua boca porque eu chamo a polícia! Eu estou te avisando. O que
é isso na sua mão? Onde você roubou? (Aponta para a bíblia)

Mendigo- É meu, é meu, é meu, é meu...

Maria- Eu devia ter ido a outro lugar. Não, eu escolhi aqui, eu vou ficar aqui. (Ignora o
Mendigo, retoca o batom, o pó e coloca os óculos escuros, sobe no parapeito para se
jogar da ponte. Entra um Homem, aparentemente bem vestido).

Homem- Maria?

Ela olha tentando reconhecê-lo


Homem- Maria é você?

Maria- É, sou.

Homem- Não se lembra de mim?

Maria- Não.

Homem- Olha bem. (Ela tira os óculos e o observa atentamente)

Maria- Não. Não me lembro...Um momento, você é o...Nós estudamos juntos...

Homem- Não, não.

Maria- Você é primo daquela... Como é o nome dela?...

Homem- Não.

Maria- Claro como eu poderia me esquecer, a gente se conheceu naquele curso...


Como era mesmo o nome do curso?...

Homem- Não, não foi no curso. (longa pausa) Maria, nós fomos casados há uns três,
cinco, seis anos atrás.

Maria- Henrique?

Homem- Não.

Maria- Cláudio!

Homem- Não.

Maria- Eu não acredito! Luiz Alberto é você?

Homem- Não, não.

Maria- Eu não me lembro do seu nome.

Homem- Não tem importância. Eu também não me lembro do meu nome. Pensei que
você soubesse...

Maria- Não, não sei.

Homem- É...

Maria- Mas você mudou hein?!

Homem- Você também.

Maria- É... você acha?

Homem- Acho.

Maria- Muito ou pouco?


Homem- Bastante.

Maria- Pra melhor ou pior?

Homem- Não sei.

Maria- Um pouco de cada?

Homem- É pode ser.

(Silêncio. Os dois ficam se olhando e o Mendigo olhando para os dois).

Homem- Então você ia... (Ele faz a mímica de um mergulho)

Maria- É, eu ia... (Faz mímica de quem vai mergulhar)

Homem- Mas por quê? Uma mulher tão jovem como você!

Maria- Jovem? (Ri) Mulher até posso ser, mas jovem? Olha bem para minha cara.
Quantos anos você acha que eu tenho? Não interessa! Não quero a sua opinião, eu
decidi e pronto. Hoje eu acordei, lavei o meu rosto, passei o meu creme contra acne, o
creme para sardas, o de rugas, o adstringente, o hidratante, o tonificante e o protetor
solar. Tomei algumas vitaminas; me deitei sobre a banheira de água morna com sais,
óleos e outros condimentos. Quando entrei no closet, abri todos os armários e
gavetas, tudo o que eu podia abrir eu abri, foi aí que tudo aconteceu. (emocionada) Eu
não tinha mais o que vestir, nada! Elas estavam lá e estavam rindo de mim, as velhas,
as novas, as importadas, riam com aquele sorriso de traça! (quase chorando) Eu pirei,
fechei tudo e vim pra cá.

Homem- Eu só queria dizer...

Maria- Não tente me impedir, não se aproxime de mim! Eu vou me jogar! Eu vou me
jogar!

Homem- Eu também vou me jogar!

Maria- É mesmo?

Homem- Hoje eu vou acabar com todos os meus problemas. (Pausa) Estou cansado
de não estar cansado; não aguento mais ouvir minha voz calma e lenta, mas ela é
minha voz e eu não posso deixar de ouvi-la. Eu não suporto ter dinheiro todos os dias
e poder gastá-lo onde eu quiser; não suporto chegar em casa e encontrar a minha
família perfeita, dois filhos lindos e perfeitos, uma mulher linda e perfeita, uma casa
linda e perfeita e um cachorro lindo e perfeito. É tudo tão lindo e tão perfeito...

Maria- Será que você ama mesmo a sua mulher?

Homem- Amo, mas ela também me ama. Aí eu amo, ela ama e nós nos amamos...

Maria- (insinuando-se) Uma amante iria apimentar sua vida...

Homem- É pode até ser que no começo seja bom, mas com o tempo iria se tornar
normal... o estranho pode até espantar no início, mais um dia ou dois e ele passa a ser
normal. Estou cansado de ver essa novidade empoeirada. Você já reparou como os
dias estão quentes nesse inverno? Você não deve ter reparado, você já está
acostumada com esse tempo...

(O Mendigo começa a cantar baixinho)

Homem- O que é isso?

Maria- É essa coisa! A vontade que eu tenho é de tacar fogo em tudo! É um bando de
vagabundo, só sabe pedir dinheiro, depois sentar o rabo num boteco qualquer e
encher o bucho de cachaça! Olha só o jeito como ele me olha! Eu poderia acusá-lo de
ter estuprado a minha moral! E esse cheiro de mijo seco?! Agora aguentar ele falar de
Jesus como se falasse da puta que o pariu! Ele acha o quê? Acha que ficar vomitando
Deus e arrotando esses discursos religiosos ele será salvo? ”Caiam mil ao teu lado e
dez mil à tua direita; tu não serás atingido, pois disseste: O Senhor é o meu refúgio”.
Eu acredito nisso. Agora fica aí! Fala tanto de Deus que queria se jogar da ponte. Eu
vi! Eu que não deixei, mas podia ter deixado, assim ele ia logo para o inferno e
acertava as contas com Satanás! (Percebendo a palavra que pronunciou, dá tapinhas
na boca) Deus me livre! (Olha para o Mendigo) Ateu! (O Mendigo pára de cantar.
Silêncio total) Quer dizer que fomos casados?

Homem- É, a uns dez, quinze anos atrás.

Maria- Tanto tempo assim? O tempo realmente me surpreende!

Homem- A mim também. É, tanta coisa que eu já sabia. Parece que não há mais nada
que eu possa descobrir ou aprender.

Maria- Existem sim, coisas incríveis que nós nem imaginamos.

Homem- O que seria?

Maria- (Pensando) Não sei.

(Silêncio)

Homem- Pois é...

Maria- É...

(Ela tira uma revista da bolsa e começa a folhear. O Mendigo e o Homem ficam por
algum tempo olhando a revista.).

Homem- Que horas são?

Maria- Estou sem relógio.

Mendigo- Duas horas.

Homem- Como disse?

Mendigo- Duas, eu disse.

Homem- Obrigado. Estranho aquele rapaz.

Maria- Estranho é você!


Homem- Você também é estranha. No dia da sua morte e você se enfeita toda!

Maria- E o que tem?

Homem- Nada. É exatamente isso. De nada vai adiantar você se produzir tanto. Você
vai morrer! E quem te encontrar, se te encontrarem... não, eles não vão te encontrar,
não será você, mas uma outra pessoa.

Maria- O que é isso que você está dizendo? Agora eu sei porque nos separamos...

Homem- Não nos separamos, não chegamos nem a nos casar.

Maria- Mas você disse...

Homem- Eu não disse nada minha Senhora, está enganada a meu respeito. Acho que
ainda não nos conhecemos. Maria, é Maria mesmo o seu nome? Maria do quê?

Maria- O que o quê?

Homem- Do que você é feita?

Maria- Quer parar com isso! Eu não te devo satisfações e além do mais, como você
mesmo disse, eu nem te conheço. (Joga a revista ao chão)

Homem- Eu preciso dizer o que penso. As palavras vêm a minha boca, não sei de
onde, não sei como. E que boca é essa que fala o que eu não quero? Que ouvidos
são estes que não ouvem o que quero? Que olhos são esses? O que foi que eu vi? O
que foi que eu achei que vi, e o que eu pensei ter visto e o que eu nunca imaginei ver?
Não sei, às vezes, acho que eu nunca enxerguei nada. Tudo perdeu o sentido e virou
pó. Você me entende?

(Maria Faz que não com a cabeça)

Mendigo- Eu entendo. Eu conheço isso que ele disse. Esse sou eu, sou eu. É
verdade, é de mim que ele está falando.

Maria- Que de você o quê! Cala essa boca!

Mendigo- Queima, Jesus! Queima!

Maria- Eu vou queimar o seu rabo, seu filho da puta!

Mendigo- Tá amarrado! Tá amarrado

Maria- (se recompondo) Você acha mesmo que eles não vão me reconhecer? Mas se
não me conhecerem como irão publicar na manchete sobre a minha morte, eles tem
que saber que eu sou eu, que eu sou Maria. Maria... (pausa) Você acha que eu ainda
sou a Maria?

Homem- Eu acho que não sei.

Maria- O que será que eles irão fazer com as minhas roupas? Meus cremes?
(emocionada) A Lolita minha cachorra...
Homem- O que importa o que vão pensar? Se você vai sair na manchete ou não?
Você não estará aqui para ver. Jogue fora todas essas porcarias! Vamos ficar mais
leves! Quanto mais leves estivermos mais tempo irá demorar a queda. Mais tempo o
ar nos sustentará sobre as nuvens. Vamos voar, voar! Você não precisa de nada
disso!

Maria- Preciso, eu sei que preciso.

Homem- Não vai precisar mais. Isso tudo é o quê? Essa lataria e essa massa? É pra
te deixar bonita ou mais feia?

Maria- Feia?

Homem- Mais do que feia, horrível! Um monstro!

Maria- Um monstro feio?

Homem- Não é só um monstro, é mais do que isso...

Maria- Mais ainda?

Homem- Como eu posso dizer é algo parecido com... como eu posso dizer?

Mendigo- Nada.

Homem- Como?

Mendigo- Algo parecido com nada.

Homem- É exatamente isso: Nada!

Maria- Nada?

Homem- Nada!

Mendigo- Nada, nada, nada...

Maria- Nada? Nada.

Homem- Nada.

Mendigo- Nada, nada, nada...

Maria- Eu não preciso de nada. Eu sou mais eu! Não preciso desses ferros velhos,
nem dessa porcaria industrializada! (Abre a bolsa, joga os produtos de beleza,
remédios, pente, espelho, cigarros, isqueiro, chaves, celular, absorventes, camisinhas,
vibrador, algema, chave de fenda, garfo e outros objetos) Não preciso de nada! De
nada! Fora de mim! (observando-se) Olha, eu tenho mais coisas. (Começa a despir-
se, tira os colares, brincos, pulseiras, cílios, sapatos, meia, enchimentos, vestido e a
peruca. Pega a carteira e a joga fora, fica só com o dinheiro)

Maria- (para o Mendigo) Você quer?

Mendigo- Não! Pode jogar fora. Eu não quero essa porcaria. Pra quem não tem, ficar
sem dá na mesma. Deus há de me compensar. Amém!
Homem- Deixe para alguém que for precisar.

Maria- Não vou deixar pra ninguém, é meu! (come o dinheiro) Pára de ficar me
olhando! Espera um pouco, olhe um pouco pra mim. (Pausa) Quando nós
fomos casados mesmo?

Homem- Foi no ano passado.

Mendigo- Foi um lindo casamento, eu estava lá! Foi lindo, lindo! Realmente muito
bonito aquele bolo.

Maria- Você se casaria comigo, se soubesse que eu era assim?

Homem- Bom...

Maria- Por favor, não responda a verdade.

Homem- Sim.

Maria- Obrigada.

Homem- Disponha.

(Silêncio. Observam o rio por algum tempo. Sobem no parapeito)

Maria- Chegou a hora.

Homem- Não vejo mais sentido, nenhum sentido em me matar.

(Refletem)

Homem- Que horas são?

Maria- Estou sem relógio.

Mendigo- Duas horas.

Homem- Como disse?

Mendigo- Duas, eu disse.

(O Homem, um pouco atordoado, começa a abotoar a camisa e sai de cena


como se estivesse esquecido alguma coisa. Maria desce do parapeito, fica
pensativa, pega a bíblia que está no chão, tira um pente que estava dentro da
bíblia, e a joga no rio, se penteando. O mendigo que estava observando a ação
tenta impedir que a bíblia caia e acaba caindo junto; ficando pendurado na
ponte).

Mendigo – Irmã! Moça! Hei! Dê-me a sua mão! Pelo amor de Deus! Ajuda-me!

Maria – Vá com Deus! Amém! (Sai se penteando)


Mendigo – Que caia um raio sobre a tua cabeça! Que caia o mundo sobre a
cabeça dos homens! Que eu caia sobre os braços de Deus! Amém!

Fim
Zuca Zenker
19 de Novembro de 1999