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I li l 'll,nll

III~tl< lI·tlA 11. I 11:.1( )I{IOU~NIA

François Hartog

Evidência da história

o que os historiadores veem

Tradução

Guilherme João de Freitas Teixeira com a colaboração de Jaime A. Clasen

1 9 ed içã o

1 9 reimpressão

autênt i ca

BIBLIOTECA NGK· pueisP

1111~~l!~l~~~:

b\Ol\oteca

Nad\r Gouvêa Ktou n

PUC.••$P

Cop y r i g h t

© 2005

Édition s de I'EHE SS

Cop y r i g h t

© 20 11

A ut ê n tica E dit ora

TITULO ORIGINAL

Évid e nce de /'histoire - ce qu e voi e nt le s historiens

COORDENADORA

DA COLEÇÃO HISTeRIA E HISTORIOGRAFIA

E l iana de Fr e i tas Ou tra

PROJETO GRÁFICO DE CAPA

T ec o de Souza

EDITORAÇÃO

ELETR6NICA

C o nr a do Esteves

C h ri s t i ane Morai s d e Oliv e ir a

REVISÃO TÉCNICA

V e r a C ha c ham

REVISÃO

Ve r a Lú c ia De Sim o ni Cas tr o

L i r a Có r dov a

EDITORA RESPONSÁVEL

Re j a n e D i a s

R ev i s ado co n fo r me o Aco r do Or t ográ fi co

da L í ngua P o r t u g u esa de 1 990,

e

m v i gor no

Bras il desde ja n e i ro d e 2009.

T

o d os os d i r ei t os r e se r v a d os p e l a A ut ê n t i ca Ed i t o r a.

Nenhum a parte d e s t a publ ica ç ão

p

o d erá se r r ep r odu z i da, se ja p o r m eios mecâ n i cos, ele t rô ni cos, se ja v i a có p ia xeroqráfica.

se m a a uto ri zação p r év ia da E dit o r a.

AUTÊNTICA

EDITORA LTOA .

B e lo Hor i zont e

Ru a A im o r é s ,

981, 8°

a nd a r .

Fu nc i o n á ri os

3014

0 - 0 7 1

. B elo H o ri zonte.

M G

Te l . : (55 3 1 ) 32 1 4

5700

elev e ndas: 0800283

wwvv. a ut e nt i caed i tora .

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1 322 c om . b r

S ã o Paulo

A

H o r sa I . 23° a n dar. Con j . 230 1 . Ce r que i ra Césa r

0

Te l . : (55 11 ) 30344468

v . P a uli s t a,

1 3 1 1 - 9 4 0

2 0 7 3

. Co njun to

S P

N ac ion a l

. S ã o Pa u l o .

Dados Int e rnac i onais de Catalogação na Publi ca ção (CIP) ( Câ m a r a Bras ile ir a d o livr o, SP, Br as i l )

H ar t o g, Fran ç oi s

o q u e o s h i sto r ia d o re s

tradução G uil herme J oão d e Fre itas T eixe ir a com a colab o r ação d e Jaime

A . Clasen. - 1 . e d ., 1 . r e i mp . - Be lo H orizo n te:

( Coleç ã o H i st ó ria & H is tor io gra fi a / co orden ação E l iana de F rei t as Du t r a, 5)

E

v i d ê nc i a da hist ó ri a:

ve em / Fra nço i s H a r tog;

Au t êntica E di t ora, 2013. -

Títu l o original:

I S BN 978 - 85-7526-584-0

É v idence d e I'h is to i re

: ce que v oient les h istor ie n s.

1 . H i s t or io gra f ia.

11. Tit u l o .

111. S é ri e .

2. Hi stór i a - F il o sof i a . I . Dutr a, E liana d e Fr ei tas .

11·101101,

(,1l1) 11111

""11i 11~ 1"111\ 1111,11"11" ',1'.1"'111\11111 1 111',1111111111111111'111/'

~~i~~J

Para M. I . F .

in memoriam

1'111111)

V

A testemunha e o historiador

A t e s temunha e o histori a dor? Segundo parece, o problem a está re so l v ido h á muito t e mpo : do pon t o d e vis t o pr á tico e epi s t e-

m o l ó g i co . A t e ste m unh a não é um histo r i a d o r , e o histo r i a do r - s e

.lc po d e se r, em c a s o d e nec ess id a d e , uma t e st e munh a - n ão d eve n ss umir t a l fu nçã o; e sob re tud o el e só é c a paz de come ça r a t o m a r- se h is t oria do r a o ma nt er- s e à di s t â n c i a d a t es t e munh a (qu a lqu er t e s t e munh a , i n c l u in do e l e mes m o ). A ssi m, se r t es t e munha nun ~ ca

- "'--

-~

- - -

.

fo i um a c o ndi çã o s u f i c i e nte, ne m se qu er um a condiç ã o nec essá ri a,

p a ra s er h i st ~riac!9 ~ . M as t a l co n s t a t açã o j á n os tinh a si do en s inad a

por T u cí did es . A pr ópri a a ut ó psi a (o fa to d e

deve ri a p a ss a r , pr ev i a m e nte , p e l o fi ltr o d a cr ític a. S ~ t a go r : a, ~ des loc amo s d o hi s t o riad or p ara su a narr a tiv a, a qu es t ão tor na - s e a

(par a f a z er

s ~ in t e : - de q ue modo n a rr ar c om o s e e u ti ves s e v isto

v er a o l e ito r ) o qu e n ão v i, ne m po di a t er v i s to? Ve l h a s ques t õ e s q u e n ã o d e i xa r a m d e a co mp an ha r a hi s t 6 ri a e s ua ev id ê nc i a .

v er por si m e sm o )

~ m seg uid a , qu a nd o a hi s t ó ri a f inal m ent e, no sé cul o X I X, ve i o

a ser de f i n id a c om o ci ênc ia , a c iên ci a d o p assa do , e l a l i mit ava -s e a con he cer "d oc um e nto s ". A s " vo zes " h av ia m sid o c on ver tid as e m

" f o nte s " ; e, no t ermo d es s a m ut açã o , as " t es t e mu n h as"

c h ega ra m

mes mo a a cr e ditar que d eve ri am asse m e lh a r- se a hi s tori a d o re s j fi i s o que é deplorado por Pégu y , que observa v a : " Voc ê e n t ra e m con t ato c om u m ho me m; à su a fren t e, n ada al ém d e um a t e st em unh a [ ]

Você v ai a o en contro d e u m idos o; in s t a nt a n e am e nt e, e le na d a é

al é m d e hist or iado r " ( P É G U Y,1992 , t . 3, p.

c om o u m l i vro .

11 8 7-11 88 ) . E l e f a l a

2 0 3

EVID~NCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM

~ tão re a b .

ssiê? Porque o fato de c i rc u n s

crever uma vez mais - t a lvez, um pou c o mais profundamen t e _ essa diferença primord i al [principie~ e sua histó r ia poderia l ançar a l g u nu luz sobre a his t oriograf i a: o p ortunidade de vo l tar a pe rco rrê -I a, ; I passos l a rgos, des d e os grego s a t é nossos dias , e reencon t rar a lgU ll1 : 1 ~ das con fig \ lraç ões epis t emo ló gi c as que hav i am sido como que s e u s núc l eos org a ni z adores ; fina l m e nte, uma forma de ques ti onar o papd desse personagem banal, f a m ili ar , sem dei x a r de ser estran h o, qu e 7. o his t oriador nas noss a s socie d a d es.

-"-- .-.

-

-

Evocar essas primeiras par tilh as é reabrir a q u estão d as re l açõ e s

_ ~ ~ tr ~ @ e - s a ~ã i s < :

vimos, pe l o grego; em seguida" enf r entar a relação en t re f a z er v e r , l TIost r a r e persuad i r ,- O u ~ ~ ja, e m r a r ~ o d~ iê, n u n c ã ê " n ce rra ê l o d eSdI '

o ~ <e: .las ha~ ! ãi ll s i~ õ e . stab _ é le ~~ das,como j ; ~

à r is t ót ~ l ; s, d;- na rr a t i v a his t óri c a e da m i m esi i , da nai T àf iv a como im it aç ã o do que s e passou, como exposiçã õ - o u poiesis:J5õrtãríto, imergir plen a men t e na e vid ê nciada história. Mas, em p r im eiro lu gar , é a con ju ntura r e cen t e, precisamente marca d a , des d e a dêcad.i de 1980 , pe l a progressiva asce nd ência da t es t em u nha, a "e r a" d . l t estemu n ha, como e l a foi des i g n ada por um li vr o d ed i cado à a n á li se

desse fenômeno (W I E V I ORKA,1 9 98 ) , q u e va i ori e nt ar

eu gos t aria de es bo çar . Co m e ç a nd o p or a v a nç a r d o pre se nt e a t é ()

a r efl exão que

mais l ong í nq u o e r e t ornar, t e ntando esc l a rec e r, em a l g un s pont os , um pe l o outro : e m su ma, faz er hi s t ória .

A testemunha, de que modo e p o r quê?

Arras t ada p e l a agi t ação s ubli r nin ar da me m ória , a t es t e munh n e nten d id a, por sua vez, como p o r t adora de me m ória ~ - imp ô s - se ,

~

-

g radualmen t e, em no sso espaç o públ ico;

Cli rã C fa ,a l é ~ d ;~ ese nt e

e l a é reconh ec id a e pro

e , a t é mesmo, à prim e . k < ~ i s t a, o ni

prese n ~e ' . A tes t em unh a, qua l quer test em unh a, m as, a c im a d e t u do ,

a t e stemunha como sobreviven t e : a p e ssoa qu e o l a ti m dcsignnv.,

precisa m ente por superstes, ou seja, a l g u é m qu e

a pró pr ia c o i sa, o u alguém

está f irlJ 1 : l d o sob, t '

1 %'1 ,

qu e a ind a s u b s i s t e ( 1 3 J ! Nv J ! N ' S ' I ' I l ,

p. 276) . A s test e munh as d o H o l o c a u s r o /S/w,d,/

a tr avessar a n l essa p r o v a çã o. M e s m o ' 1 \ 1 ( ' () / l ' ; II I ( ' ; , n 1('1 o l t l l t ' l i l l l l ' ll( o

d a tcxrcmunhn,

S:I() .IS /WSS(),I~

,,v, \ t ~ , Ifit.,Ic/1I

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1111

nn ( ' t ' m P l lh / i ( . , 111(,"".11

IIIII.rI,

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'(\ t I

A TESTEMUNHA E O HISTORIADOR

de correr do jul gamento de Eich m ann, em Jerusalém, em 1961, sua

f unção a cabo u por se impor, e à primeira vista paradoxalmente, nos E UA . ( 'S e a tr a gédia foi inventad a pe l os grego s , o interc â mbio de

m ensagens pelos romanos e o sone t o pe l a Ren a scença, nossa gera -

ç ã o inventou um novo gênero li t erár i o, o testemunho." I ndepen -

d e ntem e nte da consis t ência dessa fórmu l a forjada por É l i e Wiese l , t o dos compreendem sua significação; ele próprio definiu-se c omo

a testemunha e s e tornou o b a rdo do Ho l ocausto (para atrib u ir -

lhe o termo util i z ado em ing l ês). H á tam b ém, nes s e mesmo pape l d a testem u n h a - embora de maneir a mais sóbri a, lai c a e trági c a - , P rimo Levi, q ue , à sem e lh anç a do Velho marinheiro d e Co l eridge, d e ve contar s u a história sempre que, "em u ma hora i n cer t a, re t or n a e ssa agonia" ( LE VI, 1989, p. 1 0; R A ST I ER, 2005 ).

Exis t e m o s t es t em unhos: tr ansc rit os e reescr itos , grava d os e f i lmados , até o empreen di men t o recen t e q ue emprego u cen t enas de pessoas, p romovido pe l a F u ndação Spie l berg. Mas h á t ambém r e flexões so b re o próprio a to de tes t em u nhar , s u as fu nções, se u s e f e i t os so b re a t es t emun h a, so b re os o u v int es o u os espec t a dores, a c o mpa n hado pelo problema - ine v itavelmente, l a ncinant e ou recor- r e nte - d a t ra nsmi ssão, o u se ja , tu do o q u e gira em t om o , p ara ut i li za r

a ex pr essão ingl esa , do vicarious witness (test em u nha d e s ub sti t uição ).

Quem pr e t e nd e re fletir so b re o fen ô m eno

do t e st emunh o

;:~

li:

1;1"

JI

:Ih

t e m de partir, com efeito, da central id a d e presente de Auschwitz

e, portan t o, tam b ém o u em pr i mei ro

Ho locaus t o no es p aço no rt e - amer i ca n o, e m q u e o fe n ômeno po d e s e r a preen d i do , se o u so di zer, em s u a fo rça e ni tidez .

O que se p assa, entã o , n a França? A questão é , o b viam e nte, i n se p a r á ve l de Vi ch y. l '" d o p ro c esso co nt ra o Es t a d o francês. De

tal m odo

. ]U Ca l h u r e s , em t e r m o s es trit a mente, ou mais diretamente, judi -

q u e o a t o de te s te m u n h a r a p r e sento u - s e , aqui mais d o

lu gar, da c e n tra l idade do

.iais. E i s o qu e é verdadeiro

p a r a as t e st em u n h as c omu ns, ass i m

, ' 0 1 1 1 0 pa r a a s l C S ! C lIllllll t , I S

p a r t i c ul a r es

e m que se t or n aram a l guns

h i s t or i a d o r e s, p O I (li ."1,111 d o s r ece n tes proc es sos por crim es contra

a humanidade.

M.'s I.d !11tH

l · d i " I t ' I III I

í ( I I I . 1

t e munh a s qu e, b e m cedo,

nazista d a Fra n ça ] , an s i o sos p o r es c r e v e r o q u e t i nli . u: vrv 1111'1

h . I V I . I' " ~idí) I I S l ~l 'S l ~ t l ' Ilt l ' ~ 1,1111 "1

(Douzou , 2005).

Três livros , publicados no f in a l d a d éca d a d e I <)<)(). I I ,11111.'11 111 na França, a tomada de consciência da amplitud e d esse (\.'11111111 11

e propuseram uma reflexão sobre o testemunh o : o li vr o d o ~ I11 I I

logo, Renaud Dulong, Le témoin oculaire; o d e um a hi s L o II . I I I II I'

Annette Wieviorka, L'êre du témoin e, por últim o , o t i l ' lI " l I I

lósofo, Giorgio Agamben, Ce qui reste d'Auschwitz.

eruditos que mantêm abordado . O primeiro

do testemunho" (com esta definição : "ser testemunh a n ã o (, 1.111

to ter sido espectador de um acontecimento , mas d e c l a rar qll l

o pr e senciou"

nos mesmos termosi.l '" Por sua vez, a historiadora prop õ e lI"I . 1 "refle x ão sobre a produção do testemunho" (WIEVIOR K A,19<JH) Enfim, o terceiro livro reflete sobre a " defasagem inscrita n a própu.t

e strutura do testemunho" (AGAMBEN,1999).

certo distanciamento

T r ê s II \ TU

em r e l aç ão no l r li h !

é uma "pesquisa sobre as condi çõe s S Ol 1 . l i

e as s umi r o compromisso

de v olta r a e x p r i nu

I "

De que modo a testemunha e o dever de testemunho

se im

puser a m

recentes e maciças desse fenômeno .

E mbl e m á ti c o, n es sa áre a , é o United St a t es Holocaust Mem o - ri a l Museum , construído no M a ll, em Washington, e inaugurad e m 1993. Cada palavra é importante: comemorado nesse perímetro sagr a do, o Holocausto se torna um acontecimento da história norte - a mericana, inscrito na memória coletiva. Em su a arquitetura, o edifi - cio éjá testemunho e máquina destinada a transformar o visitante em uma testemunha. As formas, a utilização do tijolo , as vigas metálicas l e mb ra m the bard industrial forms do Hol oca u s t o ( L I NE N TH A L,1997 , p. 88). Logo após a entrada, o visitante começ a por a travessar um espaço just a mente chamado Hall of Witness, espaço frio que, de

nos EUA? Limitar - me-ei a algumas das manifestações m a i s

' 0 4 DULO N G1 99, 8 ; e m últim o lugar, DORNI E RDULON;

206

G,2005.

111, 111 dl l 111111 "11I11'1i11' III

. l I : ~Slp' O l lto ,

t: ", 1111111 1111' " ( ~ I . •I I•l i l de I.:slt':Hb

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S I : d os e l e v a d o r e s p ara c h ega r

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\l) ~ , I,, ~ b r e s r csc : v " I I I l N . \ l ·l( l lI ) S I ~ · . I O p t : r m an e n t e , a n t es de e ntrar no

I ~ P I \ ~ ' O h cxag o n n l v : \ l , i o (11:1 o r i g e m ) d o H a ll o f Rem e mbr a nce .

A ex p os i ç ã o r e ú n e f o togra fi a s, fi lmes e objetos, como outras

r.uuas es tr a t é gias d e a pree n sã o do real. De fato, os organizadores t i o Mu s e u p e ns a r a m que era importante mostrar objetos autênticos, p res e nt es e m su a materialidade, permitindo quase o contat o físico; d e t a l mo do que eles se tornaram colecionadores e, até mesmo,

. i rq u e ó logos do Holocausto. Quanto às fotografias, elas atestam

lu e , t e ndo existido realmente, essas crianças, essas mulheres e esses

h o me ns dei x aram de existir , maneira de tornar presente a ausência d e to dos esses rostos, cuja única demanda era a de viver . No seu ' o njunto , a pedagogia do Museu visa levar os visitantes, durante s u a v isita, a se identificarem com as vítimas; aliás , nos primeiros t e m pos, era distribuído, inclusive, a cada visitante, o fac - s írnile de

um a carteira de identidade de um deportado, cujo percurso podia

s e r seguido p e lo visit a nte.l' " P a ra além dessa imersão na história

e no Museu do Holocaust o, a visita pretend e ria transformar cada v isitante - cujo número se eleva a milhões - em uma testemunha delegada, uma testemunha de substituição, um vicaríous wítness. Além disso, de acordo com as palavras de seu diretor, uma visita a o Museu visa contribuir "para o aprofundamento da vida cívica

e política norte - americana, assim como para o enriquecimento da

f ibr a mor a l deste país ". Para além d e si mesmo, o M e mori a l s e rviu

de referência e inspiração para outros museus que vieram a ser

construídos no mundo inteiro. Em 1994, implanta - se a Survivors of the Shoah Visual History

Foundation, desejada e concebida por Steven Spielberg. História

visual? "Pretendo apresentar a história

everybody's stories), afirmava Spielberg. À semelhança de Schindler, ele go s t a ria d e sa l va r todo s : c o let ar todo s o s t e st e munh o s d os so b rev i- ventes, até mesmo daqueles que já havi a m d a do seu testemunho.

de cada um" (I want to get

105 l d e ntifi c a t i m l Ca r d qu e, a c im a d a á g ui a n o r t e -a m e r i c a n a , we I l 1H S t bear witness u .

207

oste nt a a d i v i s a " F o r t h e d ea d a n d t h e l ivi n g

Memória

e ace s so à int c rn c t .

críticas su scit a d as p o r

para os problemas d e seg ur a n ç a ( se111esq u e c e r :1 pl , ( , Olll p o l ~ 111 ,

evitar qualquer tipo de inter v en ção p o r p a r te dos lI eg .1! 1 0l l ll , U

c pcd,\!J,oW'\'

li\ . " p . II " . 1li ' ; im ' I ' I I \ dl , II 11 1 1 Il li ll ( "' l i I

O Il o l m . \lI 1> 1 1I 11 1I1 ' I . I I I VllI ' 1 ' 111d ll llll l 1 1 101

e

sse pro g r a m a , a ssi m C 0 111 0 ; \

h ll S I . 1 t i l ~ Idl i

atrasaram no mínimo a realização dess e s p ro j et o s. Trata S I ' , j 111I sumo, de tornar presente a realidade de um p assa d o p e l a IlI l 't l h l i do virtual, com fins pedagógicos. Spi e lbergjul ga v a , 1 1 ! 1 (' p OI 0 1 ,i . pl essa forma de história vídeo ia fazer escola. El a v ai muda r , . \11111I 1

e le, "a m a neira como as pessoas vão conserv ar a pr óp ri a

sej

lésbicas " . Em seu entender , " a etapa seguinte se r á a G U C II . l l i , Vietnã : n e xt in line fo r the on line" (SHATZ; QUA RT, 1 9 9 6 , p . 'Ir,

O aspecto importante é que se passa, assim, da test e munh a p . 1I0 1" espectador sem intermediário.

Já existiam outras iniciativas nesse campo, mas, con s i de r a nd o os recursos à sua disposição, Spielberg foi levado a ocupá-lo int ci 1 0 1 mente . Bem anterior era o Fortunoff Video Archive for Hol o c n u - Testimonies, com objetivos muito diferentes: em vez de n a n . u uma história, oferecia-se a quem manifestasse tal desejo a po ssil» lidade de narrar a própria história. Dori Laub - cofundador d esse arquivos, autor com Soshana Felman de um livro frequentem e nt e

c itado, T e stimony - é, ao mesmo tempo, uma testemunha

das crianças sobreviventes), alguém que se dedica a coletar os t es-

t e munhos

nhar (FELMA N;LAUB, 1992). Dessa longa experiência de trabalh com as testemunhas e s obr e os t estemun h os, e le e x tr ã i u a noção d e

111 \ 1 11 11

a do movimento

feminista, dos direitos c ívi c o s , do s gays (lll d l l

(foi uma

dos outros e um observador

do próprio a to de testemu -

? r

acon t eCImento sem te s temunha":

_~----

não , obviamente ,

por falta d e

t e ste : rm n h ã S ; - m a s ROE~_e o colaps ~ do próprio ato do testem ~

dissolve a possibilidade de um testemunho comunit á rio. ~

-

-----'

'-

,- - "'- -

-

-

-.

Qual é o contexto dessas manifestações? O livro de Peter No-

v ick, L 'H olocauste dans Ia vi e amérícaíne , ex põe as e t a p a s que levaram

o Holocausto a passar das margens para o centro (atualmente, isso

significa vários milhares de profissionais que trabalham em tempo integral) e elucida o conte x to desse deslocamento em um país famoso

por cultivar o gosto das novidades e, ao mesmo tempo, ~ amnésia

208

de

lurnr ( \l 1111 . 111 o l lll i ' ~ l l i ljl i ~ llIll 1I ' II. I S lI' lIl l ', d e r e f u t a r o p u n h a d o d e

ll l ~ I

r ' lII V II _: I - : ,I(U) l o 1 { l l II1 1 I ' I , '111) 1 ) I \ ld : lIl l / tlI I S t ' 0 1 ncccsxidadc

Ii(o n i s tas, Il\ . l ~ ~ l IhII O llld ( ) ,e m U I1 1 3é po ca e m qu e a identidade

(" reivindica

c o rn o

di l c r e n ça, o Ho l oca u s to

tornava - se o único

.h-nominador c omu m d a id e n t i d a de dos judeus norte - americanos.

A r rl'sc e n t e - se a ind a, na c orrida

j' s p 6c i e d e co mpetiç ã o vitimária, designada pelo historiador Charles

ao r econhecimento

público, essa

Mnicr c omo "competitionfor enshrining grievances": obter um lugar,

Ill C S l110q u e não seja o primeiro, nessa competição dos sofrimen -

tos s u por t a dos

da t e s t e munha no p a p e l , não de doador, mas, acima de tudo , de

p o r t a dor de lição. Neste ponto, e sem querer prolongar

s o br e o Holocausto nos EUA, é possível elaborar três observações

ainda mais ess a a nálise

(MAIE R , 1993, p. 147). Daí , o tema das lições e

de a lcance e ordem diferentes.

t t : !. ão será que vivemos

em uma economia

midiática que

f unc iona à base da testemunha?

m unha (pensemos nos numerosos programas de televisão, cujas

te stemunhas são personagens importantes

pe

a spectos envolvidos pela aura da compaixão ~~ fe !5 n _ ternen l r ;;

fi~ura evoc: : d 3 P _ or Péguy, a teS$ emunha de hoje em dia deixou de

d-ª

ambos os

Impõe - se apresentar uma

ou comuns;

de proximidade,

te ste -

há o im-

rativo

do "ao vivo",

a e x ig ê ncia

T

alar como um livro. Ela já não se transforma

em "historiador",

voz e um rosto , uma presença; e ela é uma

' V ítima. Des d e' as fotografias dos campos de e x termínio n a época

tem au -

mas é e deve ser ~ a

de sua lib ~ r ;çi o ~ a · participaçã a"

- ~ ~- -~ - --- '

do visual no testemunho

--

-

-- ---

m entado

ao pónto de se tornar consti tlitl va de sua autenticidade

e de sua ver d a C l ê : - , " , As fotografias não mentem",

pro c lamava o

' diário Stars â n ~ rS t ripes no editorial

de 26 de - abril de 1945. Desde

e n tao, essas fotografias publicadas, de novo, na imprensa por oca - sião das comemorações, reproduzidas em exposições e museus,

torn a ram-se a referência para m edir o horrorva bitol a me di a nte

a qual se avali a os crimes contra a humanidade perpetrados desde

essa época (ZELIZER, 1998 , p. 144). Como se tivéssemos de passar

por esses testemunhos

realidade e da gravidade de outros crimes.

de referência para nos convencermos

da

209

11,

.,

I,

'

\111

I11

lctar, g r : l V ~ II .C, O II S I 'V.1 II , 1 i"~ II 'Il ~ I t 'N I I ' l l I lll t I\l I M,t . \ 1 1 . 111 1

'.

a tu a lm e nt e, se possívcl+, todos, () velho Íll I p l' I , I II V I l 1 1 1 ' 111 1 : 1 11 11 1

que ex i ge n o mínim o du a s t e s t e munh a s ,

que o problem a

em sua sin g ula ri dad e : p ermi ti r qu e

su a história, f i n a lmente ou d e novo.

ll ~ O S<.' : Ip h t . ' 11

n ã o est á a í . T r at a - s e so b r e t ud o

de <.'S( 111 . 11I ' n d . ! I

ca d a t est e m LI 11hn p m ~. 1 I j l il

A coloca ç ã o no p r imeiro

pl a no d a t es t e m unh a

leva 1 . 111""'li

um a a mpli açã o da no ç ão de te s t e mu n h a.

p ági n as sob re Pa ul Ce l a n. Su a poesia é lid a com o um lc . : S l l ' lIl t l nh

sob re o e x t erm ínio ,

t a mb é m qu e o f a to d e

nh a pode s e r r e dutor p a r a su a obra. O mesmo se passa c o m a s 1 1 ' 1 ,

tur as re cent es de Alb e rt Camus. Certam e nte , La peste aprcscut.i

c o mo u m t es t em u n h o,

testem u n h ar

o nar rado r , o Dr . Rie u x; e m seg uid a, ac r es c e nt a q u e el e " manu v . certa reserva", co m o co n vém a um a t es t em unh a de b oa vontadr .

mesmo qu e ele se p osici on e

tr e ch o : " O n arra dor faz o bra

O l i v r o Testituonv

IIl l i

o que el a é com tod a a cert e z a; m a s p c r r r l «

instalar Cel a n no p a p e l de ( s impl es) I t 'N I C lll íI

um a "c r ôn ica " .

"T en do

sid o co n v o c . ul u

I I

por ocasião de u m tipo d e crime", começa po r der 1.". 1 1

d o l a do d a s víti m as. Ou, aind a, t '~ 1 1

de hi s to r i a do r"

(C AMU S, 19 6 5 , p . 1 " ) I

14 68 ). M as i den ti ficar necessariam e n t e a te s t e munh a Rieu x CO I II

a

"tes t em u n h a "

Ca mu s ser i a o b v i a m en t e si mpli s t a (e f a l so ) . CO I II I I

se

- d e p o i s d e ter foc a li za do exc l us i vame nt e, dur a nte um mom e nt o ,

o t e x t o, ao p roc lam ar a e lis ã o d o suj e it o - e l e pr e t e ndesse d ar tudi I ao s uj e ito e na d a m a i s ao te x to. C amu s, a final d e contas, conh e c i. i

também seu Tuc í d id es

e a descrição da pes t e de A t enas.

Da r e l a t iva indif erença d o perí od o p ós - g u erra à re to ma d a n a

cad a de 1 9 7 0, a c ur va do t es t em u n ho (p e l o m e n os, e m s u a r e cep ç ã o) reg i s t ra, cer t ame nt e, a urg ê n c i a re l a ti va à ger ação, mas t a mb é m, em um a pro por ç ão difícil d e a v a li a r , a vont ade - m a is que l egí tima - d

opor- se a es se p unh a d o de "a ssassin os d a me móri a" q ue ti n h am vind o

ins t a l ar se u s l ame nt áveis es tr a d os exa t ame nt e

doloro s o do t e stemunho . Uma ve z q u e o plano de e x termínio p r ev i a

t am b ém a s upr essão d e to d a s as t es t e mu n h as, assi m com o d os ve stígio s

do cri m e , o t es temunh o

ent an to, ao lon g o dos a nos , o número d as t e s t em unhas e o volume

do s t es temu n h os r eencontrad os e de s cob er tos t êm v ind o a c resc e r .

n esse pont o ce ntr a l e

a ssu miu , de sa íd a , um a p os iç ã o cr u ci al . No .

210

1 " , 1 11 11 1 . 1 111 1 1 11111I11I1111, 1 . I I I IIII , lll t · 1 I 11A IIl ' ~ (I'):,H) ( ,. ' Illseu l i vro L t t

/ ' " 1 (1 1 ' ' '". A ( , 11 l:'l~ l' S ( ' lIlpl' l ' pmsnber l lld o " . O r a , m o vid os p e l o d e s e j o

I, I O I H " ti l ' O l r : ,b ~ \ l h o , o s r e v i s l o ni s tas o u n ega c i o nist a s r e t omaram

a

I " I 1 . 1( 'x . l l . I l 1 Il ! n L cn. :o p o nt o e m q u e e l a h a v i a sido abandonada p e l os

1\' 1~t.IS, " M o s t r e m - no s,

n e m qu e se j a uma única t es t emun ha."

E a

1 11 1 1 1,:! c o m q u e o pa i do rev isionismo, Pa u l Rassinier - f r i amen te

1 I11 11 p s i n d on a b i og r a f i a e s c rita por Nad in e Fresc o - tenha c ome ç a do

1

1" 1 1 uti l i z a r s u a q u a lid a d e de t es t emu n h a ,

I " 1 1l a d o p a r a B u c h e nw a ld , em 1944 . Mas se u t es t e mu n ho v i sa v a, de .udn, n ã o t a n t o dize r nem esta b e l ecer, o qu e t in h a v i sto e s up or t ado,

já que el e h av i a sido de-

III

,

c

I Sse rvir - se do procedimento revisi o ni s t a: "A f i m d e r es t a b e l ece r

o mo e l e e screve - a verda d e p ara os hi s t oria dor es e o s s o c ió logo s

dn f uturo" ( R A SSIN I E R,19 50 , par a a t- ed ição ) .106

Pa r a co -

e o qu e p ode ria

ser dito a ess e r espe ito . Fosso, ob serva do d e saíd a p or R ob e rt Ant e l- m e : " A d espr oporçã o en t re a exper i ê n c i a que tính amos vi venc i a do

m cça r , há o fo sso e ntre o qu e tinh a s ido s u po rtad o

E m te rc e i ro lu ga r , a im po ss ib i l i d a d e d o t es t emu n ho.

~ a narra ti v a q u e e ra p oss í ve l e l a b o rar a se u resp e ito "

19 5 7 , p. 9 ). M as ta mb ém po rqu e, d e acord o com a ex pr es s ão, de -

l

s

possib i lid a d e d e a tes t ação c o mp a rtilh a d a, c om o s e f osse i m p oss í ve l

p lic a r justam e nt e a r e g ra d a s du as t e ste mu n has . Por s ua v ez , Pr imo

(A NTE LM E ,

i c a d a a ma n ipu l ar,

e m t est e munh a"

a

d e Dori La u b, t ra t a - se d e um "ac ont ec i ment o

ou , na re formul açã o

d e Re n a u d

D ul ong, se m

L evi avançava ain d a m ais l o n ge :

I

N ós, os so b r e vive nt es, n ã o somos as ve rd ade i ras t estem unh as

[

t em unh as in t egr a i s, a qu e l es c uj o d e poim en t o t er i a u ma s i gn i-

f i ca ç ã o g e ra l . A d es tru ição co n d u z id a a se u t e rm o, n i ng u ém t eria subsistid o p a r a n ar r á -I a , com o ningu ém . n unc a v olt o u p ara

] mas e l es , os m u çu lm a no s, os n á ufr agos , é qu e s ã o as tes-

narra r s u a pr ó p r i a mo r t e (LEVI, 1 9 8 9, p. 82 ) .

Toda a ref l exã o de Lev i. E ouço como

p a l avras d e Pa ul Ce l an :

de Agamb en se a p oia p rec i same nt e n essa frase

que um eco direto dess a frase nesta s c inco

1 0 6 E s sa f ra se é a úl t i m a da d edicat ó r i a d a e di çã o d e 1 998. V e r FRESCO.

211

1999 .

Nu-ru.uul

z c u g t / l h ' d e l l

Z e u ge n . !' "

A test e munha está so z inh a : nin g u é m p o d e L es t ~ ' lil l l l r l lll

seu lugar . Ela não tem ninguém a qu e m r ec or r e r . E IIU ' l ' . I ( III!I I . I , que ela foi te s temunha e os outros, só ex i s t e e l a . O u , e l a l' ~ 1 . 1 l!ill mais sozinha que a "verdadeira" t estemunh a é in c apa z d e ( 'N I . II l i

para testemunhar . Ela é j á,

de substituição, sobre quem pesa - nesse caso , a ind a m a i s p cs , u 11,

encargo de ter a obrigação de testemunhar . Não um di a , 11(,'111 Il lIhi vez, mas até o fim .

de saída, uma test e munh a dckg.1( 1.1 111

Da testemunha que escuta à testemunha que v ê

Ao avançar do presente para um p a ssado bem longínqu o , ( ' li ' cetamos uma digressão historiográfica que é tão válida qu a nt o 11111 ex er c ício de olhar distanciado . E , em primeiro lugar, algo p ar cc idi à pr é -hi s tóri a das relações entre o historiador e a testemunh a .

O grego antigo criou um vínculo entre ver e saber, est a b c k - cendo como uma evidênc i a q ue, para saber, é ne c essário v e r, ck preferência a ouvir . Os ouvidos - diz um personagem de H er é doto - são menos confiáveis que os olhos (H E RÓDOTO,I . Clio,8).

Idein, ver, e oida, eu sei, remetem,

de fato , a uma raiz comum: wid.

Já evocamos esse assunto. Ora, a epopeia homérica co n hece un

person a gem de s ign a do como histor, em que se encontra , portant o ,

a mesm a raiz . Assim, de acordo com Émile Benveniste, este último

seria "uma testemunha p e lo fato de saber , mas, acima de t u do,

pelo fa t o de ter visto" ( B E NVEN I STE,1969, p. 1 7 3 ) . No entan t o,

o histor - que intervém em duas situações de disputa - nada tin h a

efetivamente visto , nem escutado . Aja x e Idomeneu , por ocasião das cerimônias fúnebres de Pátroclo, discordam em r e laç ã o a quem, após ter contornado a baliza, havia tom a do a diant e i r a n a corrida de carros pu xa dos por c ava los . Ajax desafia Idomen e u e

propõe Agamenon como histor (HOMERO, Iliade, 23, 482-487;

107 P a ul C e l a n, Aschenglorie [ Glóri a d e cin zas] .

21 2

1! , " l n oc :, W() · I , p . ijll l I ) r ) , ) . (Jl I , d qU ( ' 1

qu e sr j . , o p a p e l exato d e

.'\1',;11111'11011,

(, r c i t o qu e e l e n a da ti nh a vi s to d a ce n a e m q u es t ã o .

es c u d o fo r j a do por Hefes t o p a ra Aquiles, está

I ( ' I H ' ( , 'se nt : ld a L I m a ce n a e m q u e do i s hom e ns , às voltas com um

I\ l . l vr d ese n t e ndim e nto ( em re l açã o ao a utor de um assassinato), d n ' id e m r e c orr e r a u m histor (HOMERO , id., 18 , 497-508); este ult im o n ã o é , o b v i a m e nte, uma testemunha desse ato.

r ~( 1 cxt rnordinário

Ao i n t e r v ir nos dois casos, em uma situação de litígio , o histor (

11 , 1 0é , dessa form a , aquele que , unicamente por sua intervenção, vai

no I

p ô r fim à disput a , dando sua arbitragem entre versões confiitantes. j . ;

: ', d e preferência, creio eu, o fiador ( no presen t e e, mais ainda,

lut uro) do que tiver sido acordado pelas duas partes. Antes de ter

o l hos , o histor deve ter , portanto , ouvidos (ver, supra p. 60 - 61).

E qual é, então, o papel da testemunha - chamada, em grego, martus? A etimologia nos leva a o radical de um verbo que significa

l e m brar - se: em sânscr i to, smaratí; em grego, merímna; e, em latim, memor(ía) (KrTTEL,1995 , v . 4) . Quando, no momento de prestar j ur a mento, sempre na epopeia , os deuses são invocados como teste - m unhas, theoi marturoi, eles são convidados, não a ver, mas a o u vir os te rmos do pacto. Trata - se t ambém de ouvir e guardar na memória.

O martus tem, igualmente,

no caso de um juramento, se pode dizer também "Isto Zeus" (Que

Zeus venha confirmá-Io, se j a tes t emunha

encontra - se a mesma raiz wid, presente em histor. Al i ás, o latim con -

voc a r á Júpiter, dizendo "Audi juppiter" (Ou ve , escuta Júpiter) .

Mas , então, qual é a diferença entre histor e martus, se ambos têm, a c im a d ; - t ~ do - ( está fo r a de q u ~ st ~d izer "somente " ) ouvidos] _

acima de tudo , ou v idos . Observemos que,

) ; ora, nessa expressão,

A mudan ç a entr ; ~~

respectiv as relações com o tempo. O histor, que intervém em u~ - ; situa ç ão de conflito , é exig i do pelas duas partes, - ele ouve uma e a ' outra, enqu ã ' il to õ martus tem de se preocupar unicamenú com um ' · l a d ' (; ~ ai s e x at ame nt e, exist e a penas um l a do. O ~artus ~ í nt ~ rvé ~ na presente e p â r ã o ' f ú turo, enquanto o histor deve acrescentar a dime ~ ã - ; - do - pa ~ sado , J i que su ~ int e rvenção n ~ presente , reper -

cute no futuro em relação a uma disputa surgi da no passado (até

~ ' , -- , ! E - esmo, recente ) .

e ' out r; -' [

o c ã r ; : ' te ~ to de interven ç ão ~ - ; uas

'-"

"--

-

-' "

2 1 3

:111

~l,:~

Desse tnartus, { ( ) 1I1 0 t l 's l l ' I I """'; '

( 111 1 1I I r ll l l l l ), 11t 1,tj;"

( ' , ld ' ) I

passou- se fac il m e n t e

q

p

a r a a t cs t c m u uh . t \ 1 1 1 11 11. lI l t l l lld . l \ k .

I ~ ~ I ~~ i l ll

u e Her ó doto,

p a r a e vo c a r - C 0 ll 1 0 a p o i o t i o q u e e l e . l r , Ih , 1 d,

decla rar

- a a ut oridade

do o rác u l o d e A r n o rn n o I 2 g iL O ,: 1(1 1 1111,\11 1 1

ele " d á

te s t em un ho",

"marturei";

d o m e smo

m o d o ,

J 1 0 11\ ( ' 1 < 1

c o n vocado sob a f orma de uma citação, "d á t est e mun h o " VI'III

com p r ova r um a

res ( HERÓDO T O , lI . Euterpe, 18; IV . Melpomêne, 2 9 ). S ão e SS l 'S\1111 Ar i s t ó t e les va i designar, em s u a Rhétoríque, como " a s velhas 1 1 11

as an t iga s t es t em u nhas"

Dessa t es t emun h a não o cul ar, T ucídid es h á de forn ec e r - n o s

ú l t i mo exemp l o q u a n do e l e opõ e essas t estem u nhas

rativas so b re acontecimentos

ouvin t es do discurso que está em via de lhes ser dir i gido : " De

serve fal ar a vocês de aconte c ime nt os

são confirmados, de preferência, p o r narrativas (martures logon) <111 chegaram a nossos ouvidos, e não pe l o que viram nossos ou v int (opsís ton akousomenon)" (Tu C ÍDIDEs, 1 , 73) . As " tes t emunhas " CS 1 . 1 I 1 ,

assim, do l ado das fa l as e do passa d o : do l ado do q u e não s e viu O" não s e p ô d e ver .

1 1 111 11 , 11

o b servação, um raci ocínio

do n a r r a d o r d e II/\rll,

(palaíoí martures; ARrsTó TE L E S , 1 , 1 5 , I \ )

qu e s ã o

a n tig o s ao q u e tin h a sido vis t o r H ' l <1

muito antigos qu a nd o

q" I l' l , '

Por t a nto ,

eu co l ocaria esse a nti go hístor - t a l como e l e no s l' l , I

ap r ese ntad o, d e mane i ra superf ici a l, p e l a epopeia - na pr o ximid a d i

d o mnemon, o h omem - memór i a

a expressão for j ad a por L ouis Gerne t , e no qua l ele reco nh eci a

a d ven t o n o di rei t o de uma f un ção s ocia l da memór i a" 1969, p . 286; e supra, p . 55 - 56 ) . Na i mpossib i l idade

agora, o caminho que l eva do hístor ao primeiro his t or i a do r

hístoreín e hístoríe), sub li nhare i

o u passo u para o segundo . Heró d o t o u t il iza o ver b o historein p a r . i designar o t ipo de traba lh o que e le realizo u , na maior p a rt e d.t

sub si s t i ,

o u "reg i s t ro v i vo", de ac o r d o C O II I " "

( GERN I !' I, d e r e t om a r ,

(all

ape n as o que do prime i ro

vezes , e m u m cont e x t o d e in ves tiga çã o or a l. Ao e mp e nhar - se

reso l ver a controversa q u e st ã o da nascente do N il o, e l e ind ica CO I 1I

precisão: "Fui e vi com meus

fantina; e m r e l ação ao q u e est á pa r a a l ém dessa c id ade, em pre end i '

uma inv e s t igação or a l (akoeí hístoreon)" ( HERÓDOTO, 11. Euterpe, 29).

C

III

o lh os (autoptes) a t é a cidad e de E l e

2

1 4

I ~ ss; , 11 1 \ ' 1 '~ I ÍI'A ~ 1I , 1 0 c O I 1( j ' o lll ar o qu e e l e sa b e o u o q u e se di z,

os g r eg o s , c o m o q u e

r

1 ' : 1 ç5 0dos d o i s l a do s qu e , aliá s, era a ra zão de ser do an t ig o histor. De

forma m a i s i medi a t a mente impressionante, tem sido s ub linh a d o, há mu i to te mpo, a preocupação anunciada - desde a frase d e a b er tura

p . u t u ul . n uu-utc, e n tre

d i ze m se u s inte r locu- a lgo como a conside -

o r e s ( ce r t a m e n t e ,

fa l a n d o g r e go ) - m a nt ém

d

e Histoires - em re l atar o q ue havia s i do realizado t an to pe l o s gre -

g

o s q uanto pelos bár b aros, est abele c endo

u ma s i met r i a q ue,

a l iás,

~ d e s mentida pela própria for m ação, por definição ass i métri c a, do

b inô mio gregos - bárbaros.

Retornemos ,

ainda

um ins t ante, à epopeia. N a cena em que

U lisses encon t ra

o b ardo dos f eác i os , es t á desen h a d a

uma no t áv e l

c o nfiguração de s a ber: a do his t or i ador e d a testemunha, ao pé d a

l e tra Ia lettre], mas por antecipação [avant Ia lettre]. De fa t o , Ul i sses ,

para

apresen- diz o te x to - , Ul isses n ã o

dec lamar

t

p ode deixar de de c l arar-lhe:

q ue ainda não havia recu perad o s u a i dentidade , soli cit o u - lh e

a tom a da

a çã o - " de forma

de Tro i a.

Peran t e

d e m a s i ado perfeit a" ,

uma exce l en t e

Tu d e c l amas, r es p e i tando d e m a i s a me t rificação , a inf e li c id ad e dos aq u e us tu do o q u e e l es re a l i za r am e sofreram, a s sim co mo tud o o qu e lh es foi in f li g id o com o se , rea lm e nte, tivess es es t a d o presen t e ou e s c ut a do essa narra t iv a de outra p ess o a ( H O M E R O , Odyssée, 8 , 4 89- 4 91 ) .

Como se o aedo fosse um hi s t or i ador por an t ecipação qu ando,

a fina l , Uli sses sa b e j us t ame nt e qu e ele nada t inha v i sto, n e m o u v i do :

e le é o b ar d o cego que extr a i tod o o seu conhecimen t o d a i n spiração da Mu sa, q u e , por sua vez, se d ef i ne como aq u ela q u e est á sempr e

a í , sem p re presente e onisciente. T u do isso é conhecido po r Ul i sses tanto mais que el e próprio se encontra na posição da t es t emunh a

(superstes) ou , a té me smo , da única te stemu n h a. E mble mática muitos aspectos, essa cen a conta, portanto, com a prese n ça d e um

em

para quem ver, o u vir e dizer

não p assam de u ma únic a e mes m a coisa; de um " hi s t o ria d or" que ocupa a pos i ção de ú ni co suj e ito d e enunciação; e de u m a t es temu nha

bar d o, espécie de su per-historia d or ,

215

~J

{

(

I : v lI,ill "\ I ~" ' I I I " : , , , , ~ I . ! U II I

silenciosa

S, ( ' 111S l l t I p l l

te n são d e ser r eso l ut a m e nt e

disposit i vo da fala é pi c a , m a s t am b é m C l 1 1 ru pt u ra r c b t i v . I I I H ~ 111

historia de seu predecessor

de enunciação

um a crít i ca das t es t emunhas

corolári o

A autóps i a - poder íamos afi r má - lo

silenci a r a s t e st e munh a s :

o u vi do das testemunh as .

( q u e chora;

11 " l l ' I ' () ( :,

!OU I , 1\

1111 11 I)

'1'11I Idi d n

I

VI I I

a s s u mir e s s a posição d e enunciado:

O

I lI ,~ 11 1 ' 111 (

m o d e r n o , b e m disuurriado

i

mediat o ,

e l e d e v e l e g i ti m a r

1 1 : 1 0NU d 'l

L1111 I I I I' , M

1 1 11 1

respa l dada na autópsi a ,

o q ue s e acompanha

e da mem ó ri a ,

a l ém d e te r ( ' 0 1 11 11

que a úni c a hi st ória viável é aque la d o t e mp o preso 1 11 1

- é uma m an e i r a d e rC C L l S : II11' 11

o o l ho do histo riado r , p ort a nt o,

c o n u . i 1\

o la ti m d is p õ e de várias pa la v ras , j á e st u d a das p o r B C I 1 VI '

nis te , p ara de s i g n ar

e e n r i qu e c em a n o ç ã o . A lém de superstes, t e rmo já m en c i ona d o ,

arbiter ( n o s en ti do ma i s a n t igo, a quele qu e a ssi st e a a l g o ) , tcstl,

a t e st emun ha .

E la s d e f i nem bem su a fUl l Ç i l l 1

( p or terstis, ou s e j a, aq u ele que as s i ste como te r c eiro

e

l em ent o)

I '

auctor ( o f i ado r, c omo o palaios martus d e Ari st ó teles; BE N v E N I S ' I ' I ',

p . 11 9 - 12 1,2 77). E m compensa ç ão , R oma nã o tem muit o a J I O ,

en sinar sob re a t e s temunh a ocul a r na h i s t o r iografia,

binôm i o test emunha/h i st or i a d or .

em res umo demasi a d o r á pi do , uma hi s t ór i a sem historia ( n o s e nt i d o

g rego de inv e stig aç ã o ) , sem t es t em u nha s, n em a utó ps i a , ta mp o u c o

dois l ad os ( Ro m a e s tá i n t eira m e n t e

c om o opus oratorium,

na r r a ti va li te rár i a co m posta d e a u t ore s (scriptores), pe r so n alid a d e s

imp o r t an t es

a u t o r id ad es (auctores).

nem sobr e 1\

A his t ó ria r omana é , c om ef e i t o ,

em Ro ma ) . com C í ce r o,

E l a é conc e b i da ou co m o narraüo,

a f i ado r es O l l

d e aco rd o

que, ao j u l garem n e c e ss á ri o, r e co rrem

A a uto ri dad e da t e stemun h a oc ular

o histo ria d or grego p r ete ndia ad i ar o e s q u ~ cim ~ nto _ d . Q ~ ~ es

~ ."

.

_-----

-

-

mom ent o s ( H er ó dot o ), o u f o r necer um a fer r amen t a que pe rmi t i s se

"

.~ ~ ,

n

c

t;

ão prever, m a s co mp reender ,

íd i d es ) ; no ~. t : l E _ llt o ,s u a t ar ef a ou

n o

fu t uro, o qu e v ai ac o ntec e r

mi s sã o n ã o e r a, d e m o d , 9 alg 1l l ll "

a

~ ! u - .

a nsmiti r , - da form a

ma is fid e dign a poss ív e l , um a

e xp e riên c i a

~ ••.

1··

!~

'-'/~~

G

/ ~ 1 6

\

"-.

~.

)

11, " M I I I I II ~ I "" I ~ I ,,~ I A I " - ,H

Pl ' ( 'S l ' 1v . u CI 1 111 1t1.rl, 1.'111 s u a s in g ul a rid a d e ,

E so m e nt e c o m . os prime i -

I

' OScrist.ios, 11 : 1vi ra d a do 1U s éc u l o d e n o ss a

e ra , q u e a t e s temunh a

s

e t o rn a a ( ' i g ur a indis p e n s á ve l ,

cr ucia l pa ra

o e stabelecim e n t o e a

validação de um a c a deia da t r ad içã o . E v i d e n temente,

11 ha h a via

s e p e n e tr a no es pa ço das religiões revel a d as e do liv ro, a p r ópria

c o n ce pçã o da t estemun h a n ão p o de p e r man ecer

a ca ba r ma r ca n do p rofund ame n te a figu r a m o derna da testemun h a .

na B íbli a:

e s s a testemu -

sido j ud a ica a ntes de ser greg a. D e sde o insta nte em que

inde n e e , a liás, vai

A test em un h a é , co m e feit o , uma figu r a impo rta nte

t

e s t e m unha que vê ou escuta , testemunha

q ue ce r t ifica e é fi a do r ,

t

e s t em unha qu e depõe perante o t ribunal. O livro do D euteronômio

f

i x a , assi m, a famosa r e g r a (à q ualj á fi z al u são ) das duas tes t emunhas

n

o m ínimo necessárias para acusar e condenar

um a pes s o a . Mas a

c

e n a do tribunal a que a tes t emunha

é conv o c a da

pode ser trans -

p

os ta - po r e x emp lo ,

no l i vro de I saía s (4 1 :21 ss. ) - e m que o caso

s e pass a en t re l ahvé, as naç õ es e Israe l : a s nações são conv i d a da s

a

apr esentar su a s t estemunh as ( e v ident emen te, a lgo impossí ve l

p

or qu e e l a s nã o t êm n e nhum t e stemunho

válido

e m favor de

seu povo

s

e us falsos deuses ) , enqua n to

l ahvé transforma

em

s

uas "testemunhas"

(martures) e em seu servo. Além disso, lah v é

a

presenta - se como t estemunha, dando teste mun ho

a respeito ou

e

m favor

de ou t ra s pessoas , a d vog a do

e j u i z , mas t ambém - e e l e

é

o úni c o

que pode oc u par essa posição - t estem u nha de l e mesmo .

Em u m a ce n a meno s gr a ndios a e mai s i m e di a t a mente conec-

com nossos que s t ionamentos,

tada

uma boa " t este m u n h a" : t ra t ando - se, com efeito, do episódio do

s u icídio co leti v o na g r uta d e Y otap a ta ou do suicídio de Masada,

sua narr a t i va -

duas t estemun h a s : n o

pa nh e i ros, enqua n to

caso , podem pr e s tar t es t emunho do que se passo u (FLÁV I OJOS E F O,

F l á v i o Josefo é, se ouso d i zer,

conforme já foi o b servado - n ão i nfri nge a regra d a s

prime i ro caso, ele próprio e um de seus c o m -

as duas mulhe res so b rev i ventes, no segundo

Guerre des Juijs, 3 , 8; 7, 8- 9 ) .

N a que l as c ircu nstâ n c i as e m qu e Tucí dides trab alha v a , como j á

e a v isão, de J er u sa - martus": o

evo c a m os,

F

lém , T it o é de clara d o,

a p a rtir d e u m a di s jun ç ã o en t re a t e s t emu n h a

Ao a ss i s t ir ao c erco

lávio Jose f o op era um a c on j un ç ã o .

d e fa t o, p or Jose fo "autoptes kai

2 1 7

ge n e r a l r o m a n o viu ( ; 0 1 11 o s p l O pl i ll N I I II I I, ~

( r i r 1 "11 1 1 1 1 , 1 \ 1 ' 1 ' 1 1

I l i ~ l' i

l i l i l i di ~d l ' l t l lI

qll l ' j l'S II S

. uu . i v. r , aco m pa nh o u - o e q u a n do e ntro u n

riador) e é t e s t e m u nh a ( e l e l ( ; 1I1 u m 1 ' 0 ( \ \ ' 1

d l ' , ll l t l' lI tl \ , 1 ~ . I II )

( : 1 ) 111

r

ú mu l « v . i v i o ' \ : 1 < . : v iu e ac r e dito u ". E l e

é u ma t e s t e munh a ver ídica

efei t o, martus n ã o é s im p l e s m e n te r e du n d a n te ,

dime n são de autoridad e . F l áv i o J o se f o s u b linh a irncdiatauu-nu- 1 1" Tit o é "o adminis t ra d or sober a no d a s pu n i ções e da s r cc o uip c u s. : .•

(Ibid., 6 , 3 4) . Exce l ente exemplo de ex pr ess ã o c o m rcssouâru 1 . 1 tanto gregas quanto j udaicas.

Ill a s : t C l ' ~'S( \ ' 111 . 1 II / ll I i

F l ávio J osefo conseguiu avançar ainda mais

lon g e n es se S( ; IIt i\ I1I

Para defender sua obra, Guerre desJuift, contra os c a luni a d o r c s, r l l se apresenta como um historiador que põe em pr á ti ca a a Ul 6 p ~ I . I ,

portanto, à maneira de Tu c ídides. Sua h i stória é v e rd a d e i r a. M . I '

v a i a l ém: ele serviu - se, de acordo com seu texto , " do t es t e m unh o "

dos que haviam sido comandantes da guerra, Vespasi a no e T i t o . " ( ) imperador Tito - acrescenta ele, em sua Autobiographie - es t a v a 1 . 1 1 1 interessado em que o conhecimento dos acontecimentos foss e trai I mitido aos homens unicamente a partir de meus livros que est es I t' ll I su a própria a s sinatura e for a m public a dos por sua ordem" ( FL Á V I II J OSE FO ,Autobiographie, 363) . No entanto, tal oper a ção é total m e nt e oposta a Tucídides e à prátic a grega na área da história, já que s e assisu:

à primeira implementação do procedimento - que há de torn ar - se 01 regra na Idade Média - da autenticação . A testemunha é o f i ador (11 auctor l a ti no assumindo a l go do histor homérico ) , e a melho r t est e m t í

nha será, obviamen t e , aquele que vier a dispor da maior a utor id a d e

Ao se basearem nesse qu a dro geral, os cristãos, além de ad o un

a testemunha ocu l ar como a pedra angular da Igreja nascen t e, t ran s

formam a testemun h a, o testemunho e su a dramaturgia j u di cia l e m

uma expres s ão da Revel a ção , uma maneira de dizê - Ia, reto m and o

e des l ocando o Antigo Test a mento. O te x to mais impress i onant e

a es s e respeito é o Evangelho de João, o evang e l ho do testem u nh o

por exc e l ên c ia e sobre o testemu n ho . Ele começa com o tes t ernu nho de João Batis t a - questionado pe l os fariseus, e cuja f un ção t , i nteirament e a d a testemunh a ( e le é, e m primeiro lu ga r, uma vo z :

"Este ve i o para prestar testemunho") - e encerra - se com es te ver - sículo q u e não é do p róprio evange li sta: "Este é o discípulo q u e testemunho con t in u amente dessas coisas e as escreveu; e sa b e m o s que seu testemunho é verdadeiro" (Jo, 21 : 24) . E l e estava present e,

2

1 8

( d e i xo d e l a d o a q u es t ã o d e sa b er se Jo ã o, o fi l ho de Z e bed e u , é, ou n ã o, o a ut o r do Evang e lh o ). E nt re o iní c io e o fim , vário s epi s ódio s s50 r e l a t a dos e , pr in cip al ment e, o debate - n o fundo, o proc e sso r ec o rr e n t e e ntre os judeus , em p ar ticular, os fariseus, e Jesus - que g i ra e m tom o da qu e stão do testemunho. Quem é e le? Se ele a firma q u e pres t a t e stemunho de s i mesmo , s e u testemunho não p o de ser ve r d adei r o ( a t é em v irtude da lei d a s duas test e munhas). Som e nte l a h vé pod e prest a r t es t em unho d e l e m e smo .

O pr o blema do eva ngelist a L uc as é difer e nt e, e s u a int e r ve n- çã o s itu a - s e em outro pl a no . Tr a t a - se n ã o t a nto de uma mí s tic a ou de um a t e ologi a do test e munho, m as d a suc es s ão d as teste m unh a s. Não tend o tido cont a to direto c om os acontecimen t os, j á que p ertenc e à segund a ou à terceira ger a ção, chegou o tempo - julga e l e - d e pr o ceder a um a prim e ir a colocação em o rdem e fi xaçã o d a t ra di ção , es t a b e l ece nd o u ma li n h age m t es t e munh a nt e .

I:~iI'

C on s id e r a ndo qu e m uit os , esc re v e e l e e m s e u prólo g o , já t e n- t ar am r e pr o d u z ir um a n a rr a tiv a do s ac ont ec im e nto s o cor ridos e n t re n ó s , a p ar tir d o q u e no s fo i t r a n smi t ido po r a qu e l es q u e , de s de o iní c io, se tom a r a m te s temunh a s o c ulare s e se r v id o r es da pa l a vr a (autoptai kai huperetai genomenoõ, pareceu-me co nve - niente , t amb é m a mim, d e pois de me t e r informado m e ti c ulo- samente d e tudo , desd e a s o ri ge ns, es c r e v er co m esm e ro p a r a ti s egundo a ord e m , e xce l e ntí s s i m o Te óf i l o, a fi m de qu e poss a s reconhecer a s olide z d as p a l av ra s que ou v i s t e (L c, 1 :1_4).108

Tod as as palavr a s g rega s são importante s ; e l as t ê m s ido , n a tu- ra lm e nt e , c omentad as , e o prólogo, co m o um t o do , foi e quip a r a do a os pr e fá c ios dos hi s tor ia dores ou do s tr a balho s c ientífico s (n a á r e a d a medicina) gregos. L u cas indic a a o destinat á rio de seu E v a nge -

lho qu e s u a narra t iv a p a rt e d a s or i g en s , baseand o -s e n aqu e l es q ue

tinham

t e munh a s", mas a pal a v r a c om ress onâ ncias tucididianas: autoptai .

v i s to com o s pr ó p r i os o lh o s . Ele não uti l iz a o g re g o " t e s-

1 0 8 No or i g i n a l , c i ta-se a tr a d u ção

fra n ce s a : 1 30V O N , 1 99 1 .

2

1 9

1I11

Os

a p ó s t o l o s vira m ( ; 0 1 1 1O ~ p' ú l ' l in ~ II II I I I ~

1\ \ 1 '. i 111 1 1 ' 11 1 11" lIl1 tl / " , I I ,

e le

cola im e di a t amente a p a l a vr a IIII/II'/I'(rll,

S I I v t t ! tl l t 'S, , 1 , ~S II(l0I 111 11 , 1

forma participialgenomenoi: n e s t e c aso , C O II V I' IIIll . t d ll z ir , c r e io ~ ' II ,

por "aqueles que, desde o iní c io , s e t o rn a r a m I II/( V / I ( l Ii e s c rvid c r c : " Aqueles que viram com os próprios olhos to rnar a m - se s e r v i dor e s 0 1/ , para dizer de outro modo, eles viram e acreditar a m; e a qu e l es q u e , desde o início, se tornaram servidores são aqueles qu e vir a m . V t ' l

e

servir são indissociáveis . De tal modo que aqueles que vi r a m s c nt

se

tornarem servidores , no fundo, não chegaram a ver re a lm e n t e . 11

aqueles que se torn a ram servidores viram - poderíamos a cr e s c e n u u

- com os olhos da fé. É exatamente nesse ponto que Kierk egaan l baseará seu paradoxo da contemporaneidade . l '"

Finalmente, compreende - se como é possível , em t a l cont ex to de valorização da testemunha , passar da testemunha, martus, p ar i l

o mártir - aquele que dá testemunho

mesmo, mas do Cristo - e que se torna, cadeia das testemunh a s.

com seu sangue , não

d

e ) "

por sua vez, um elo da

Quanto

à história , e la se torna, um

pouco mais tarde , C OJ1l

( Eusébio, Histoire ecclésiastique, precisamente a história da suce ssâ r

~

i

I

.:

da s testemunh a s , d e sd e o S a lvador até o temp o presente . Seu obj c

tivo consiste em e stabelecer, preservar e transmitir a sequência d o s apóstolos e dos bispos, seus sucessores, além de determinar o qu e entra, ou não, no cânon dos textos. Nesse sentido, Eusébio cit a "testemunhas" e, e m s e guid a , testemunh a s d e t e stemunhas - d e

modo que as primeiras são precisamente aquelas a que se atribui

maior

autoridade - e e le reúne "testemunhos" (te x tos, cartas "

diversos documentos). Em resumo, essa história é uma históri a c om testemunh a s, mas nenhuma autópsia: a escrita do historiador está sempre em posição secundária, mesmo quando ele se refere ao presente (HARTO G , 1999 , p . 270) . Enquanto Tucídides silenciav a

'09 K IERKEGAARD, 1 973, p . 97, 10 2 e m que e l e co men t a a m en s age m : " B e m-a ve nturado s o s qu e n ão viram e ac r e dit a r a m " . O c on t e mp o r â neo d e um aco nt ec im e nt o pr ofa n o ( p o r e x empl o , a ss i s tir à s núp c i as d e um pr í n c ip e) é ben e fi c i á rio d e um pri v il ég io e m r e l ação à po s t e ridade. M a s;

qu a ndo s e t ra t a d e um ac ont ec i m e nt o,

t a l c omo a e n ca m ação, o co nt e mpo r â n eo

im e di a to não v iu ,

no fundo , al g o a m a i s r e l a ti va m e nt e a a lgu é m da gera çã o p os t e ri or; a mb os s ão c ont e mpor â n eo s na autópsia da f e. E i s o qu e j á d e i x a va e ntender a formulaç ã o do E v a n g e lho d e São João.

220

A

" " I MIIIII I ~

I ti "IMIIM I AII"!

a s I l ~~ l1111It 1 1h aes,l e l h e s dá in t ei r amen t e a p a l av r a e desaparece por tr ás d e l as . O historiador como compil a dor - que vamos encontrar ex p ressa ment e no século XIII - já se manifesta nesse momento.

D a testemunha dispensada ao retorno da testemunha

Tendo chegado a este ponto de nossa digressão historiográfi- c a, todos os componentes da testemunha , tais como os ha v íamos recebido e e sque c ido , estão bem identificados; assim, o resto do caminho pod e ser percorrido mais rapidamente. ~ test ;: .munha { ~

mana e divina) constitui o núcleo dos escritos cristãos e se encontra

~ ; - r m ; go

t e st é m u nha par ec e ab r ir, parado x alment e , uma era em q ~ a te ~ t ~ - munha (como presença viva) será dispen s ad a , tanto mai ~ q ~ ~ , ~ s éculos seguinte s, a quela que será revestid a de autoridade é , a nt e s de mais nada, a testemunha como auctor, como aut . 2 . ! i < ! 4f k .

d a I g rej a - co ii :t o i~stitu ; ç i o. Entretanto , 7 s ~ ; - ; riunfo d ~

~~

-

.

--

-

>-

_

••••.

,

fI'Ir

••

••.•

-

,

'''!"'

-

No s éculo VIII , a o encetar su a Histoire ecclésiastique du peuple

anglais, Beda com eça por nomear sua s principais testemunhas, auctores, seus fi a dores , suas autoridades , a quem ele atribui também uma p á gina mais a baixo, o qualific a tivo de testis, o termo usual

testemunha (B E DA, 1969, 1999). Trata-se de pessoas que,

por sua vez, havi a m adquirido seus conhecimentos de diferentes maneiras (tanto por via oral, quanto por escrito ). À semelhança de Eusébio, Beda limita - se a coletar e reunir esses testemunhos ad instructionem posteritatis. Ao traduzir por "sources" ["fontes"], como fazem os comentaristas modernos, queima-se uma etapa . Com efeito, tal economia do testemunho produziu, de forma bastante lógica, um sistema de avaliação , organizado de acordo com a polaridade do autêntico e do apócrifo, que é de fato um a ponderação da autoridade respectiva das testemunhas, a começar por aquela que a possui em maior grau até aquela que dispõe de menor gr a u de autoridade. Tal sistem a d e produção e de controle dos enunciados não coincide, como se compreende facilmente, com a partilha entre verdadeiro e falso. Eis o motivo pelo qual o triunfo d a testemunha pode ser considerado também, em outro sentido, como seu canto do cisne.

para

221

~ \l 1 I 1 1tI I . I ~ i I~ 1 1 I 0 0 , ~ ·~ 1

Logicamcutc, O l li s t o ll t ld o l

IH I H 1 ' l I d ll f1, ll ~ d , l ~I I I I I . I ~ "1~1t1l1l.1

d o fin a l do s éc u l o X II at é o séc u l o X I V

, IP I t · St · I}! . I I

· S l' " 111 1 1l I )

compilad or (colligere, cornpilare), chegando JlICSlllO :\ r c i vi ud] : . u ('~~,I

qualidade de cornpilator. E l e n ã o é au c ior , m as ((lll/pilrl/or

l u g ar , qu « r I ,

não é uma "testemunha":

ele faz? Reúne os textos dos outros; o pr ó p rio t ex t o é c o mp o s t o d ,

extratos precisamente de auctores. Assim, log i camen t e , e l e p c r nuuu

ce, muitas vezes, anônimo.

si, na primei r a pessoa e com seu nome, a fun ção d e

(:,

I I ~ ~ " I •

1985, p. 124). Compilado r si g n ifica,

e

m p r im e i r o

não tem a u tori d a d e p róp ri a . O q u e ( , '1"'

Mas, em br e ve , e l e vai rei v indi c ar

P , I 1 . 1

compilador.

"Ego

compilavi"; não sou auctor, mas o auto r de m i n h a co m pi l a ç . m

A tal ponto que os próprios prólogos hão de torn a r - s e compilaçõ

de p rólogos a nterior e s . " Vejam só - eis o que ele po deria dizci sou u m compilator que conhece seu ofício!" . Finalme n t e, por lI1 1I . '

n ova

10 a u tili zar, d e vez e m qu a ndo , ao la do dos textos aut ê nti co s,

t ex to a pócrifo,

inte r médio , pode ser lido e aceito como a utê n tico. O que s e p ro du z

ou s a di a , e ss a au t o ridad e inc i p ient e do compilator p od erá l c v . i

ou sej a , se m au t o ri da de

1 I 1I I

p r ópria, mas qu e, p o r S V II

~

.

autor : tant~ ' ~ enos ~ auctor

! r a nsf o rm ; çã ~ · J;;auêtor de t e s t e m 11

afirma ç : ; I o do h i ; Í : ~ ri a dor como compila(,o/

~:

c

(-

e fetiv a mente a partir do século XIII: qu a nto mais o,fqlJJpilator V , II

se~á u - ; : ; ~ autorid a d e 0' 1 ,

r tornar - se um

i , I y ~d ;ê - k de; ~o ~ r ; ~ f QL ~ ~ : = ~

n ha em fon ~ a

------ _~

---

.•

.,

,

-,~

,p'''''

-"'---

 

Qu a ndo, no sécul o X I X, a h i stóri a tor na :: ;; ~ 'ciênc i a, ciência d o pns

i

sado, res ta -l h e tã o som e nte

d e cl ara r qu e el a se fa z com "docume n t o s",

sublinh a ndo - n a e ste ira d e La ng l o i s e S e i g no bos - q ue a "autent icida

 

d

e" , noç ã o "pe d id a de e mpréstimo à lingu a gem judicial, diz r esp e it o

u

n ic a me n te à proveni ê ncia e n ã o a o conteúdo do documento" , alóm

\

de d e fi nir que u m a ci ênc i a constituíd a só pode aceit a r " a transmi ssã o

e sc r it a " ( L A NG L O IS;SEIG NOB OS,1898, p . 133, 1 53). A história é a ci ên c i a dos v e stígio s escritos. A par tir da orla do presente, o histo r iador au s e n

te limit a -se a ser o olho que lê arquivos. Exit a test e munha. O audi» desapareceu . Ma s o compilator é t ambém recusado: os fatos exprime m algo, e o histor i ador , à semelh a nça de Bouvard e P écuchet , '!? dev e ri a ser (ideal m ente) apenas um scriptor, ou seja, um copista .

110 Trata - s e dos dois p e rsonagens, crédulos, do romance homônimo de Gustav e Flaubert. (N.T . ) .

222

.

1

111 h l l M IIIII I ~

I II 111 4 11~1 I A I i ' . I~

H, I d, u l c m c n t c ,

ess a c i ê n c i a p u r a, p o si t i v a e cr ít i ca , q l1 e h a vi a

s id o Ohjl'l o tI:1 m a is a r d o ro sa cr e n ça d e l ! m Pus t e l de C ~ l ! l a ~ g ~ § ., J : ~ 1 p - sid o semp re c o n t es t a d a ; rec us a d a , ma s t ambé m substituída por uma

c i ê ncia qu e , em estruturas invisíveis a olho nu, procu r ava em profun -

d id a d e apreender, da for m a mais verdadeira possível, o mov i mento

r ea l da s sociedades, na linhagem da visibilidade invisível perseguida

por Michelet (ver, supra, p. 149-154). História que conta e avalia,

~ ônim ~ as

m

t

c u rvas a constru ir. As fontes torn a m - se dados que, processados devi-

_ i o.r ç ~ _ s . 2 rodut! y ' ~~ , ~ h~ ~ória_ ~ E9 l ! ~g i _ ó g ic. a ~ ·"~ t . §

esmo, arquitetônica dos períodos de . longa duração . As ver ~ ad. ~~ S~º r ~

e st em üll líáS ' sa ü ' i i J ' d ices a calcular, ao passo que o~ test e ~~ " c llO~

---k.,

-, -- -

~ -,

damente e introduzidos em máquinas, dizem o que eram incapazes de exprimir em estado bruto. Colocados em série, os testemunhos

r espondem a questões que eles não haviam formulado diretamente.

As teste m unhas de primeiro nível não sabem o que ela s dizem ou ,

mais exatamente, eram incapazes de saber : somente o historiador (aliás , algo que é válido para qualquer especialista das ciências sociais)

e st á em condições de decifrar, ou seja, de reconstruir as mensagens

de que as testemunhas era m portadoras. Se ele põe em prática e

reivindica uma forma de autópsia diferente d a quela que havia sido adotada por T u c ídides, o historiador dos vestígios cada vez menos visíveis ( invisíveis a olho nu) tem a mesma ambição ou pretensão de ver o re a l e, como ele, de qualquer modo, é efetivamente o único sujeito de enunciação. Dessa história anônima, vai operar - se

a passagem para uma história dos anônimos que, e m p ar te, s e rá o c a - derno de encargos de uma história das mentalidades . Até a enfrentar

o desafio, identificado por Alain Corbin, de escrever a história de um anônimo em seu anonimato individual (CORBIN, 1998).

dos séculos X I X e X X, não cessaram de

se manifestar vozes dissonantes que, de uma forma ou de outra, procu r aram reintroduzir a testemunha e o testemunho. Não, evi -

den t emen t e , como s i ste ma de a ut o rid ade s, re gu l a men t a nd o o q u e

é adm i ssível, nem como e l emen to constitutivo de um indício, mas

como presença: como v oz e mem ória viva. Na primeira fila, seria possível encontrar Mich e l e t , evocado precisamente como o ante - cessor da história das me n t a l id a d e s . "N a s galerias solitárias do prédio

Mas, no decorrer

223

dos Arqui vos (v e r supra, p . J 5 1 ) pe l a s tJl I , II N1 1 . ' . , 111 1 111 1 1 1 1 dlll . ll l tl '

anos, a lgu n s m urmúrios ,

me u s o uvidos . O s sofr i mento s longínqu os de t a n tas a llll a s S U f O C:H J : t S

de s sas a ntiga s era s se q u ei xavam

de 1869, 19 74 , p . 2 4 , e supra, p. 1 5 2- 15 4). Os documentos sã o v o z es

exigen t es e p o r t a d oras de uma d ív i da a pa ga r . Mas , para ouvir

te

mergulhar nas profundezas de uma épo c a . El e d ev e "at r avess a r e

ap esar d o p ro fun d o

s i l t i l li 1 0 , ( ' h l ' l : ~ a V , \ ll 1ao s

V I II( ( '

em voz b ai x a " (M I C I - I E L E T,Préfacc

ess es

ou s e j a ,

s tem unho s ,

o histo r iador

deve diri gir -s e aos a r quivos,

vo lt ar a at r ave s sar o r i o dos mortos", t r ansgred ir de li b e radamente a

fronteira ent r e o passado e o presente . Res t a - lhe, na sequên ci a, faze r

ouv i r essas vozes, o que não si gnifica , de modo a l gum, desapa r ecer

à frente delas. É , pelo c on t rário,

Mic h e l e t, reve l a o verdadeiro historiador .

essa operação q ue, de acordo com

Seria possível menc i onar, em segu i da, Péguy , que, mar ca do

~j

~~

(

li:

i'"

" i

~

indelevelmente

memória

Ele teria desejado tanto que o próprio Dreyfus não participasse na

t ransformação do "Atraire"em his t ória: essa é "longi t udinal" , dizia

ele, enquanto a memór i a é "ve r tical" e " rememoração"

3, p. 11 90 - 1191 ) .

( PÉG UY,t .

pelo "Affaire

Dreyfus", 1 1 1 não cessou de opor

a Langlois, Seignobos ou Lav i s s e.

e história, Miche l et

O " Affaire" t eve t am b ém importan t e consequên c ia , n ã o pre v is-

t a, a c a b an d o por ser como que um caso pa r tic ul ar na l o n ga h i st ó ri a das relações entre o hi s t oriador e a testemunha . A l g u ns h i stor i ado res

processo Zo l a e

por ocasião do processo de Rennes. Do ponto de v i s t a do có d i go,

e l es são t e s t em un h as ( e devem comportar - se como tais, pres t ar ju r a -

mento , res pei t ar a natu re z a ora l dos deba t es) , mas tecnicamen t e , s ua perícia na qual i dade de cientis t as ( e seus t í tulos foram mencionados no t rib u n a l ) é que l hes p ermite refutar, com a ut oridade , os Bertillo n

foram chamados a in t ervir como testemunhas no

e os o u t r os q u e são os p eri t os of i cia i s (L'ciffaire Dreyfus, 1998 ) . N est e caso, encontramos a t es t emunha c omo auctor, como au t orida de

1 1 1 Pe lo fato d e s u a ascen d ê nci a jud a i ca, o ofici a l fra n cês, Alfr e d Dr e yf u s, foi inju s tam ente c ond e-

n a do p o r es pio nag e m em favor d os a l emães ( 1894), t e nd o s id o r ea bili tado (190 6) ap ós v ioie n ta

ca mp a nh a d e r ev is ã o d e se u pro cesso q ue t in h a di vi dido a F r an ç a e m d ois camp o s . Cf. a di a nt e ,

n o t a 1 26, p . 24 1 . ( N . T. ) .

22

4

A II ~ I I MI II I II I~l llll ~ l t l"~U l l"

l iV l l ~S( , I , 111111 , I d i l t' 1 " c ll< ;: I de

que e l a vem rejeitando d es d e o passad

:lc6 () P I \'St' I Ite, p e j a prim e ira v e z o u dur a nt e um ins t a n t e, o cort e que, 1 1 0 r es t o do tempo, s u a prá t ica afi r ma t er a obrig a ção de exigir .

D e ssa ex p er iênci a , v a i permanecer até hoje uma matriz dreyfusarde

q ue d iz respeito ao papel do historiador . Se ele não é justiceiro,

nem e stá "incumbido da vingança dos povos", de qualquer modo

e m uma cena efetiva ou supostamente jud icial, o historiador ( seria

ma is e xato utilizar esta expressão: alguns historiadores) envolver - se - á

n

os casos de seu presente: seja como t es t emunha ( misturando auctor

e

au t ópsia ) , seja como j uiz de instrução ( retomando uma ins t rução

m

al feita, desmascarando as tes t emunhas falsas, subs t i t uindo os tes -

temunhos q ue fa l tam ). Após L'a.ffaire Audin de Pierre Vidal - Na q uet

( 1 958 ) , t ravou - se, no decor r er das décadas de 1 980 e de 1990 , a luta cont r a o rev i s i onismo , as sim c omo os processos por crimes contra a human i dade , em que o h i stor i ador exerceu o papel de testemunha

( THO M AS , 1998; D UM OUL I N,2003 ) .

Nesse mesmo corte j o de vozes dissonantes,

e marcada pela

Guerra de 1914, seri a possíve l colocar t a nt o a reflexão de Wa l ter Benjamin, organizada em torno da noção de "rememo r ação " , quan t o uma grande par t e das crí t icas d i rigi das con t ra o historicismo.

Mais pe r to de n ós , a pa r t i r d e meados da déca d a de 1 9 7 0, o brusco i nteresse pe l a história oral , à qua l Phi lippe J outard dedicou

um livro - so b o tít ul o Ces voix qui naus viennent du passé, fazen d o - se

eco da obra de P. Thompson ,

indicação c l ara . H istóri a oral? Não - responderam, na época , alguns

h i sto ri adores,

"Cada um de nós quer seu

cava l o do orgu lh o , seu an t epa s sado vat i cin a n te ou sua Mêre Denis ' F

e nossos peda g ogos adoram esse t ipo de literatura: é o que se designa

por his t ória oral ( eventuais bisbilho t ice s)" GOUTARD, 1983 , p . 7 ).

Outros

The Vaiee if the Past -, seria uma

tais c omo Pierre Gouber t .

- a maio r ia dos historia d ore s

do con t emporâneo

- após

112 A imagem s ólid a e sim p á ti ca d es t a l ava d e i r a e r a co n h e cid a , e m 1 982, po r ma i s d e 80% dos f ranc e ses; d e

fato , e l a h a vi a sid o esc o lhid a, n a d éca d a d e 1 97 0 , po r u ma g ra nd e marca d e e l e t r o d o mést ic o s q u e p ro-

c ur ava um a a ut ê n t i ca l a v ad e i ra par a s imb o li zar a qua l ida d e do tr a balh o exec ut ad o p or se u s a p a r e l h os . Por s u a vez , o cava l o do org ul ho fa z a l u são ao L ivro, L e Cheva l d ' o r g u eil, d e P ierre - j akez H é l ias,

p ubl ica do em 1 975 : e m um r eca nt o da B r e t a nh a, um home m e m id a d e a v a n ça d a l e mbr a-se d e su a i nfa n c i a . (N . T . ) .

2

25

III

~;

I Vllln 1'1" 1'" II I ~ I II" I

11 M

r ef l e xã o, r es p o nd e r a m : história or.il? S i lll , ( 11 11 1 ;'Il1 lldi ~ 'n () d e 1:.1:\1 de "fontes orais" (V OLD M A N,1 99 2 ) . J 5 vi lll u s (0 11 1 0 o autor se tinh a transformado em uma fonte; atu alm e nt e, a teste mu n h a v o lt o u a surgir como voz, a história profissional est e nd e- lh e d e bom g r a d seus microfones, com a condição de poder inscrevê-Ia em s e u s registros como "fonte". Daí, talvez, a ambiguidade dessa defini ç ã o da história contemporânea ou do tempo presente como "históri a com testemunhas": nesse binômio proposto pelo historiador, a tes - temunha não correria o risco de esquecer que, para o historiador, ela não passa finalmente de uma fonte? Não seria tentada a escapar

a seus mentores e a falar em seu nome? Não te r ia encontrado ouvi-

dos, microfones, rnídia para escutá-Ia, até mesmo, para solicitar-lhe a palavra? Sem intermediário. E o historiador fala, então, menos de memória e de história da memória, mas sobretudo de história, ou seja, de arquivos de textos escritos, de críticas das fontes e do oficio de historiador . Seu pesadelo seria, talvez, o de uma memória, ao mesmo tempo, mercadoria e sacralizada, fragmentada e formatada, estilhaçada e exaustiva, escapando aos historiadores e circulando na internet, como a verdadeira história da época.

Última voz dissonante, pelo menos, na aparência : a de Claude Lanzmann. Ela não está assim tão distanciada, em princípio, no mínimo das vozes de Péguy ou de Benjamin. Com efeito, Lanz - mann se opôs com constância aos historiadores e ao que ele designa como seu "ponto de vista saliente". Com sua película, Shoah, ele pretendeu just a mente "reabilitar o testemunho or a l". Trata-se de um filme de testemunhas e sobre o testemunho, mas não sobre os sobreviventes e seu destino, de preferência, sobre a "radicalidade da morte". Shoah, afirmou ele e repetiu, não é da ordem da lembran- ç a , m a s do "imemorial" porque sua verdade está na "abolição da distância entre passado e presente" (LANZMANN,1998). Com efeito, sua força está em levar o espectador a ver "homens que entram em s ua ex i s t ên ci a d e t es t emunha " ( D EGU Y, 1 990, p . 40).

Com o filme de Lanzmann, volto a meu ponto de partida.

De fato, essa última voz dissonante está em plena ressonância com

a centralidade recentemente adquirida de Auschwitz (ainda mais

nitidamente perceptível nos EUA que na França, país em que ela

226

1 1~ II M IIII I I ~ i l Jj I I I ~ í ' - ' ~ I ' I I\J~

d v v( ' p . l ~~; 1 1I H ' l o I ' I I S tl l : ! a c in zc n tad o d e Vicliy).

rclaçâo .1 I II l ' l I1 Ó ri aq u e in v a diu o mundo ociden t a l ( e oc id e nt a l i -

z a do ) é , c o m e fe ito, in se p arável d a - e s e r ia incompree nsí v el sem

a - o nda p ropag ad a por Au sch witz . A testemunha é levada por ela,

se m d eix ar também d e t r a n spo r tá-Ia p elo fato de se r , se posso falar

1\ m a r é viva e m

ss im, s eu rosto e sua vo z , a ssim como s eu r umor . N a expectativa

a

de ou t ra s o n d a s e d e o u tr a s m aré s viv a s.

A esta altur a , v am os c o nc l uir com três observações .

A historiogr afia d o século XX pode i n screver-se, em ge r al,

e m um p ara d ig ma d o v e stí g io. C o m o mo v imento ascende n te d a

te stem un ha, é a v oz , o fe n ômeno d a voz que dev e ri a s er leva d o em

co nsidera ç ão . Nã o e sto u em condições de g a r an tir qu e a expressão

" fo n tes orais" , pr o p o s ta pelos histor ia do re s, s e j a suf i ciente p a r a r e solv e r

o

proble ma . Pau l R ic ce u r , obse r vado r s e mp re persp i caz e ágil do que

e

st á e m vi a de se pas sa r, r e tomou o u co m plet o u sua refl e x ã o sobr e a

narr a t iva hist ór ica p or um a an á lise d a s tr o cas entre memória e histó r i a .

Consid e ran d o o t es t emunho c om o uma " e st r ut ura d e t ran siçã o " e nt re

a m e m ó ria e a histó ria , e l e p r op õe "substituir o e nigm a d a r e l a ç ã o de

s e m e lh a nça (se e como um a narrati va s e a ssemelha a um aconteci - men t o ) pe l o enig m a, talv ez m e n os ina ce s sív e l, d a rela ç ão fiduci ár i a ,

co n stitutiva d a credibilidade do testemunho" (RI C C E UR,1998, p. 14;

v e r depois R I C C E U R ,2000). D o ponto de vista epistemológic o , esse

deslocamento ou esse comp l emento a juda a compr e ende r e a r e fl e ti r .

N a t ur a lme nt e, ai nd a s o b ram que s tõe s sem r e spost a.

A testemunha de h o je em dia é u ma vítim a ou o d e sc e nd e nte de uma vítim a . Esse estatuto de vítim a serve de supo r te à sua a utoridade

,,,,I

j'

e

alime n ta a espécie de temor reverente que, às vez e s, a acomp a nh a .

D

aí, o risco de uma confusão e n tre a ut e nticid a de e verd a de ou, pio r

a i n d a , de uma identific a ção da segu n da com a primeira, no m o m ento em que deveria ser mantid a a separação entre a ve r acid a de e a con-

f i abilid a d e , por um l a d o, e, por ou t ro , a verda d e e a pr ova .

Em vári a s ocasiões, G eorge Steiner est a be l eceu a rel a ç ã o en t re

a noite do Gólgota e as fum a ças de Auschwitz, indic a ndo que ainda deveriam ser pensadas as "cone x ões" entre esses dois a contecimentos (STEINER,1995, p. 395). N ão t e n ho nenhuma qualificação para me

2 2 7

p ro n u n c i a r

uma teol ogi a d e p aco ti l h a .

conduz, pelo m e nos , a c o l o car fac e a f ace esses d o i s 1 )1 0 1l1 l ' III O S dI

crise do testemunho,

década de 1980. Se os conteúdos, as men sage ns , a s t e r np o ra l idnd i - induzidas, etc., são t otalmente diferentes, en c ont r a mo s, n o mi n i m o em ambos os lados, a mesma ques t ão da urg ê n c i a a d ar t est e m u n h o (

so b r e e ss e p o n t o t ' d l ' I I 'I' . 1 , 11 1 , 1 I fI " I ' !

I I I I ~ I t I d i ' 11111 1 1nV I ~; 1I

t

i l -

1 . 1 1 ' 1 ' 1

M a s o p e r C l I I S O qu e , 1 t ' : ! l ), II I I O S

respectiv a m e nt e,

p or v o l t a do séc u l o I n v 11 . 1

a

da transm i ssão ( o vícarious witnessy."? O que desi g n e i como o t r i LI Jl n)

d

a testemunha (o primeiro momento) culminou

e m u m a f orm a t i "

~:

c

(:

1'"

1"

( '

,;1

história - justam e nte,

m a rcou de form a dur a doura a historiografia o c ident a l. O seg u n d o

momento, atu a l , com a considerável literatura d e te s temunh o ( e m

s entido amplo) qu e, d a qui em di a nte , va i a comp a nh á - I a

c r e scendo , n ã o corr e ri a o risco de re a ti v ar , em tot a l igno r â n c ia ,

a lgo de s se m o d e l o?

- , a história e c l esi á s ti c a q U I '

de testemunhos

e contin u . i

A históri a

é esc rit a p e lo s vencedores,

m a s a penas du r a nt e

a l g um tem p o , como l em brou

no

dos v encidos" (KO SELLE C K,1 997 , p. 239). Eis o que reformul a rc i ,

convoc a ndo

Re inh a rt

K o s eUeck , porqu e

" o s

v o s conh e c i m e nt os

n a á r e a da históri a p rovê m,

no longo p ra z o ,

a h i s

pel a últim a v ez meu histor do iní c io. Enquanto

~

óri a dos ve ncedores lim i ta-se a olhar p a ra um só lado , o própri o, :I

h

i stória dos v encidos d e v e levar em considera ç ão,

par a compreend e r

o

que se passou, os dois lados. Uma história d a s testemunha s o u

das vítim a s estar á em condições de reconh e cer e ssa exigência, ali ás,
l

e mbutida n a a ntiquís s im a palavra historia?

113 S obr e a qu e s t ã o d a t e s t e m u n h a e d o hi s toriador e m r e l a ç ão à hi s t ó r i a da " R ê s i s t anc e ", in c luind o , e ntr e o utro s fator es , a e n tr a d a e m c e n a do s de s c e nd e nt es, ve r DO U Z O U , 2005 .

228

A P r l UL O

V I

Conjuntura do final de século:

a evidência em questão?

T r ata - se a pen as de notas, ex tra íd as d o c a derno de um histo r i a -

dor . N a da ma is do que esboços r á pidos de vár i a s c a racterística s d a conjuntur a r e c e nt e . F az e r história , atu a lment e ? Em primeiro lug a r , como fo r mul a r a qu es t ã o , t r inta a n o s d e p o is do s volume s d i r i g ido s porJa c qu es L e Goff e P ierre Nora (1 9 74), public a dos sob e sse t í tulo e qu e , r a pid ame nt e, se torna r a m f a mo sos c o m s u a trip a rti çã o: n ov o s objeto s, no vas a bord a gens , novos proble m a si' ! '"

As p á g i n as s eg uinte s prolongam o s capítulos p r ec ~2 t ~ ~ , fo ca li- zados s obr e as di sp utas da narrati v a , a s sim c omo sobr e a te s temu n h a e õ historiador: ma neiras modernas de retomar a qu e stão da evid ê n c i a . , O primeiro capítulo sugeria abordar a qu e stão d a narrativa e d e s e u

"retorno" , a ssim como, de forma mais a br a ngente, o fenômeno

d a

virad a l inguística sob um prisma de dur ação m a is longa. O m e s mo

ocorri a com o segundo capítulo, que apr e s e ntav a as relaçõe s e sta -

belecida s entr e a testemunha e o historiador.

da testemunh a

das mud a n ça s d a conjuntura e , em particul a r, da posição ocupada , daí em di a nte , pela categoria do pre s ente (H AR TO G; REV E L , 2001) . Por sua v ez , o capítulo sobre o olhar di s t a nciado de Lévi-Str a u ss ajudou - no s a colocar a his tória em persp e ctiv a .

no espaço públ i co é, c o m e f e ito , um nítido indí c io

A recente ascend ê ncia

N est e p rim e iro es b oço, a c r esce nt emos a i n d a t rês c a r a cte rís ticas

suplementar es : os problemas suscitado s pelo s a rquivos , a que s t ã o

114 P a ra a co njuntur a pr es e nt e , ve r , e ntr e o utro s t . e x t o s, L e D é bat , 2000 . E , em r e l a çã o à hi s t ó ri a , DUMOU L I N , 2003 .

229

IIIIII