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Revista Brasileira de Agroecologia

Rev. Bras. de Agroecologia. 7(2): 3-18 (2012)


ISSN: 1980-9735

Na encruzilhada dos saberes e práticas: inserções antropológicas sobre


estranhamento e alteridade no interior da Agroecologia

In the knowledge and practice crossroad: anthropological reviews about estrangement


and alterity within Agroecology

SILVA JUNIOR, Roberto Donato da1; DE BIASE, Laura2

1Doutorando em Ambiente e Sociedade - Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM), Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas (IFCH), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas/SP - BRasil,
robertodnt@yahoo.com.br; 2Doutoranda em Geografia Humana - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas
(FFLCH), Universidade de São Paulo (USP), São Paulo/SP - Brasil, laudebiase@yahoo.com.br

RESUMO: O objetivo do artigo é apresentar elementos antropológicos que podem contribuir com o processo, já em
curso, de edificação da agroecologia como campo de intersecção entre diferentes conhecimentos e práticas. O foco
de atenção é a relação entre os agentes de saberes e práticas acadêmicas e os agentes de saberes e práticas locais
e etnicamente determinadas. Para tanto, (1) buscamos discutir a incursão teórica da agroecologia sobre a
diversidade cultural e suas decorrências práticas; (2) empreendemos uma destilação sobre as principais situações de
estranhamento entre técnicos/cientistas e famílias agricultoras; e (3) apresentamos elementos conceituais da
antropologia – “cultura”, “alteridade” e “simetria” – que podem contribuir tanto para superação dessas situações de
estranhamento, quanto para relações de mútuo aprendizado entre os diferentes sujeitos imersos em contextos
agroecológicos.

PALAVRAS-CHAVE: agroecologia, antropologia, diversidade cultural, alteridade, simetria.

ABSTRACT: This paper aims at presenting anthropological elements that can contribute to the ongoing process of
agroecology construction as an intersection field for different knowledge and practices. The focus of attention is the
relationship between academic knowledge and practice agents, and ethnically-represented local knowledge and
practice agents. Therefore, we intend to (1) discuss the theoretical incursion of agroecology in its cultural diversity, as
well as its practical consequences; (2) analyze main situations of estrangement between technicians/scientists and
farming families; and (3) present anthropological conceptual elements, such as "culture", "alterity", and "symmetry",
that may contribute both to the overcoming of these estrangement situations, and for relationships of mutual learning
among the subjects that are immersed in agroecological contexts.

KEY WORDS: agroecology, anthropology, cultural diversity, alterity, simmetry.

Correspondências para: robertodnt@yahoo.com.br


Aceito para publicação em 13/04/2012
Silva Júnior & De Biase

...Quem olha só por olhar diferentes agentes, assim como os possíveis


Pode ver, mas não conhece problemas decorrentes dessa situação de
O que é e o que parece... encontro; e, também, ressaltar as contribuições da
(Roque Ferreira) antropologia para a construção dos princípios
agroecológicos de inclusão das especificidades
Introdução socioculturais de famílias e comunidades rurais.
“A mentalidade extrativista do ribeirinho, que Para atingir tais objetivos, o artigo percorre os
espera os frutos cair das árvores, não serve para o seguintes caminhos: num primeiro momento,
desenvolvimento sustentável que queremos”. Essa discutimos como autores paradigmáticos da teoria
frase, proferida por um importante técnico agroecológica concebem a relação entre
envolvido na difusão de atividades de manejo agricultura sustentável e diversidade sociocultural,
florestal sustentável na Amazônia, expressa com expressa no campesinato e outros grupos
rara clareza uma das dificuldades que permeiam etnicamente diferenciados; num segundo
os projetos orientados pelos princípios da momento, discutimos as implicações dessas
sustentabilidade. Caracterizando-se como um dos concepções para o desenvolvimento de políticas
fundamentos da agroecologia, o diálogo entre o de extensão rural agroecológica; num terceiro
saber-fazer acadêmico e o saber-fazer de momento, analisamos, a partir de uma destilação
populações etnicamente diferenciadas teórica, as formas mais comuns de estranhamento
frequentemente materializa o encontro entre dois entre extensionistas e agricultores, a partir da
universos socioculturais, no qual a consequência nossa experiência profissional e acadêmica no
inevitável é o estranhamento. Extensionistas, tema abordado; e, por fim, elaboramos uma breve
técnicos e cientistas, de um lado, camponeses e caracterização sobre abordagem da antropologia e
demais grupos etnicamente diferenciados, de suas possíveis contribuições para o fortalecimento
outro, são os protagonistas desse encontro que da dimensão sociocultural implícita no saber-fazer
guarda dentro de si uma dupla potencialidade. Do agroecológico.
estranhamento1 podem emergir tanto uma relação
de mútuo aprendizado quanto situações que Agroecologia e a diversidade cultural
impedem o diálogo e podem colocar em xeque a A integração entre aspectos ecológico-
viabilidade de projetos e estratégias de ação. agronômicos e socioculturais é um dos princípios
Nossa proposta, portanto, é buscar na antropologia fundantes da agroecologia. Dentre os autores
as condições teórico-metodológicas para a paradigmáticos, essa questão já se apresenta
produção de práticas de alteridade – a capacidade formulada e colocada como condição primordial
existencial de colocar-se no lugar do ‘outro’ – como para a promoção de estilos de agricultura
fundamentação de projetos que seguem os sustentável. Stephen Gliessman, por exemplo,
princípios agroecológicos. identifica os agroecossistemas “tradicionais” como
O ponto de partida é o reconhecimento, por ponto de referência para a conversão ou transição
parte de alguns autores, de que boa parte das sustentável:
experiências agroecológicas demanda maior
aprofundamento entre suas dimensões ecológico- “Baseado no conhecimento obtido a partir
agronômicas e socioculturais. Assim, este artigo desses sistemas, a pesquisa agroecológica
tem por objetivos: evidenciar os fatores que levam pode desenvolver princípios, práticas e
à inevitável relação de estranhamento entre esses

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desenhos que podem ser aplicados na


conversão de agroecossistemas não Mais do que uma fonte de modelos de
sustentáveis. (...)” (GLIESSMAN, 2002, p. 303). produção sustentável e formas de conhecimento
sobre agroecossistemas, os grupos e
Miguel Altieri refere-se a essa questão de forma comunidades agrícolas etnicamente diferenciadas
muito semelhante, reconhecendo aí uma fonte tornam-se aqui a base da ação social coletiva de
profícua para a agroecologia: produção da própria agroecologia. A construção
da agroecologia pelo endógeno se fundamenta
“(...) é possível obter, através do estudo da numa concepção de saber-fazer etnicamente
agricultura tradicional, informações importantes localizado diferente da perspectiva altieriana:
que podem ser utilizadas no desenvolvimento
de estratégias agrícolas apropriadas” (ALTIERI, “(...) a evidência até agora acumulada nos
2001, p. 21). permite desenhar sistemas de manejo dos
recursos naturais de natureza agroecológica,
Desse modo, o autor considera que uma com base no conhecimento local, inclusive
abordagem etnocientífica é importante como naquelas zonas de manejo fortemente
estratégia frente ao eminente desaparecimento industrializado” (SEVILLA GUZMAN, 2001, p.
dessas práticas e conhecimentos, desencadeado 39-40).
pelos processos de modernização da agricultura:
“(...) tal transferência de conhecimentos deve Como é possível perceber, existe uma pequena
ocorrer rapidamente, ou essa riqueza de práticas diferença de concepção, principalmente entre
se perderá para sempre” (idem). Altieri e Sevilla Guzmán, que acabam por atribuir
Eduardo Sevilla Guzmán e colaboradores diferentes dimensões de potencialidade de ação
corroboram com o princípio de integração às práticas e saberes localmente enraizados.
socioecológica na agroecologia, mas a partir de Assim, enquanto Altieri preconiza o
uma inversão no vetor de sua construção. O autor desaparecimento das formas de campesinidade
afirma a necessidade de a agroecologia partir “de como portadoras de vivacidade sociocultural frente
dentro” de cada realidade social específica, ou aos processos de modernização, Sevilla Guzmán
seja, partir da própria lógica de organização. reconhece a persistência delas mesmo em
Nesse sentido, evidencia a necessidade do contextos socioeconômicos intensamente
fortalecimento da identidade dos grupos sociais desfavoráveis aos seus processos de reprodução.
rurais frente ao processo de expansão do modelo Essa diferença de concepção não se apresenta
desenvolvimentista da agricultura moderna. Para o como mero refinamento discursivo entre os dois
autor autores. São diferentes concepções sobre a
dinâmica cultural, que têm implicações
“não se trata de levar soluções à localidade, importantes nas práticas de extensão
senão de detectar aquelas que ali existem e agroecológica decorrentes desses diferentes
‘acompanhar’ os processos de transformação aportes teóricos.
existentes através de uma dinâmica A perspectiva apresentada por Sevilla Guzmán
participativa: este é o núcleo central de nossa parte da premissa de que as diferentes
escolha teórica e metodológica” (GUZMAN configurações socioecológicas, ainda que
CASADO et al. 2000, p. 139). assoladas por forças econômicas agroindustriais,

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se mantém e se recriam. Nesse sentido, práticas e das irreversíveis perdas culturais, caberia à
técnicas “tradicionais” não fazem parte de um extensão agroecológica a responsabilidade de
acervo estanque, que remonta a um passado de promover o fortalecimento político-econômico,
pré-modernização. Sob condições disseminando técnicas e práticas ecologicamente
socioeconômicas favoráveis, essas práticas sustentáveis, economicamente viáveis e validadas
culturalmente localizadas emergem, num processo pelo conhecimento de base científica. Nessa
de atualização dos elementos histórico-culturais concepção, bem entendido, o que é “agronômico”,
tradicionalmente cultivados. Nesse sentido, o “econômico”, “cultural” e “político” podem ser
saber-fazer local não é visto como um livro de encarados como entidades autônomas.
receitas passível de ser perdido ou extraviado. Sem desvalorizar o mérito do esforço altieriano
Mas, antes, como uma lógica de operação e de em reconhecer essas práticas como tão
interação com os elementos sociais e ecológicos importantes quanto às científicas, alguns aspectos
disponíveis em cada contexto, submetidos a problemáticos, talvez imprevistos, podem decorrer
processos constantes de atualização. A extensão dessa abordagem. Em primeiro lugar, ela
agroecológica, informada por essa concepção, desconsidera a relação interdependente entre
deve mais gerar as condições para o essas práticas e significados socioculturais
fortalecimento do potencial endógeno – específicos que as construíram. Uma técnica
principalmente no que se refere à relação com os agrícola localmente elaborada, muitas vezes, está
elementos exógenos ao agroecossistema – do que diretamente articulada a relações de parentesco,
assumir uma posição assimétrica de ensino e padrões específicos de religiosidade, dinâmicas
aprendizagem. Nessa perspectiva, prática política políticas e concepções de posse da terra
e vivacidade sociocultural não estão dissociadas: historicamente instituídas. A mesma técnica pode
são os centros difusores das práticas não produzir o mesmo efeito em situações que
agroecológicas. não apresentam, em dosagens específicas, a
Por outro lado, a inevitabilidade do mesma configuração sociocultural e ecológica.
“desaparecimento”, defendida por Altieri, implica Esse “entrelaçamento” entre práticas, relações e
em dissociar técnicas agronômicas locais de seu concepções se esvai, se nos preocuparmos
contexto social de produção, como possibilidade isoladamente com as técnicas sustentáveis. Em
de transferi-las para outros locais. Essa concepção segundo lugar, essa dissociação facilita a gestão
engendra um antagonismo interessante de ser das estratégias de ação por parte de técnicos e
observado: por um lado, práticas ecologicamente cientistas, formados num contexto acadêmico de
ajustadas teriam condições de proliferar em hiperespecialização, mas desfavorece a definição
contextos distintos à sua origem socioecológica e de processos de gestão e planejamento que parte
cultural; por outro, se essas origens desaparecem dos próprios grupos sociais.
diante dos processos de modernização, significa Longe de ser uma mera “elucubração” teórica,
que para seu livre desenvolvimento, as diferentes as questões levantadas acima explicam, em parte,
especificidades socioculturais dependeriam de alguns aspectos dominantes da atuação
certa “pureza”. Para esta visão, as especificidades agroecológica em solo brasileiro. A prevalência
culturais perdem seu conteúdo diante do processo dos aspectos ecológico-agronômicos na
de modernização, e se tornam homogêneas. agroecologia brasileira tem sido problematizada há
Assim, nasceria um duplo processo de algum tempo. Caporal e Costabeber (2004, p. 89),
pauperização: econômica e sociocultural. Diante por exemplo, têm afirmado que

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do caiçara e “preguiça” do caipira podem


“(...) atualmente, um importante segmento expressar a incompreensão de técnicos e
da pesquisa e da experimentação em cientistas em relação a uma concepção de
Agroecologia ainda se concentra em temas do trabalho muito diferente daquela construída em
campo agronômico, ou seja, se apresenta contextos sociais fortemente influenciados pela
bastante vinculado aos aspectos tecnológicos dinâmica capitalista. O famoso lema racionalista
da produção agropecuária”. “tempo é dinheiro”, diz muito pouco para culturas
onde frequentemente se ouve que “o futuro a deus
Almeida (2003, p. 503), por sua vez, questiona pertence”. Essas diferentes concepções de tempo
a capacidade dos agentes e técnicos em – uma manipulável e outra aberta ao imponderável
agroecologia de agir de forma sistêmica2. O autor – podem apresentar grandes dificuldades na
chama atenção para o fato, ainda, de que a implantação de projetos de sustentabilidade. De
dificuldade em lidar com essa complexidade tem um lado, um técnico insatisfeito com baixa adesão
levado à construção de “pacotes agroecológicos” aos projetos e pressionado pelas agências de
como forma de “facilitar a ação tecnológica, a financiamento; de outro, agricultores desiludidos
metodologia e a obtenção dos resultados” com grandes promessas realizadas pelos
(ALMEIDA, 2003, p. 503). extensionistas, que “somem” com o trabalho ainda
Nesse sentido, a tendência observada, que inconcluso.
privilegia os aspectos ecológico-agronômicos em Em segundo lugar, o encontro entre
detrimento dos socioculturais, deve se constituir técnicos/cientistas e famílias agricultoras tem sido
num problema a ser enfrentado pelos propositores estruturado por uma relação de superioridade e
da agroecologia. No que diz respeito ao escopo inferioridade. A expectativa pré-concebida sobre a
desse artigo, a questão a ser levantada reside no dinâmica desse encontro acaba por influenciar
encontro entre extensionistas e agricultores, decisivamente os termos no qual a relação é
compreendidos aqui como representantes de efetivamente estabelecida. Certa concepção
universos socioculturais distintos e expostos a uma salvacionista e missionária de ciência – repleta de
inevitável relação de estranhamento. Em nossa sinceras boas intenções – persiste na extensão
inserção profissional e acadêmica sobre o tema, agroecológica, que se traduz numa abordagem
temos recolhido uma série de relatos sobre educativa de “garantir acesso” ao conhecimento
situações de estranhamento que, no limite, têm científico e contribuir politicamente para a
levado a sérios empecilhos à conclusão satisfatória elevação da condição de pobreza dessas
de muitos projetos de sustentabilidade de maneira populações. Mesmo sem intenção, essa postura
geral e de agroecologia de forma particular. acaba por moldar uma posição de superioridade
Sintetizamos aqui três situações que consideramos que impede um diálogo simétrico entre os
relevantes para o tratamento do problema. diferentes sujeitos postos em relação.
Em primeiro lugar, as diferentes concepções de Finalmente, a estrutura científica de formação
“temporalidade” e “trabalho” entre de pesquisadores e técnicos, fundamentada na
técnicos/cientistas e famílias agricultoras, levam a hiperespecialização, dificulta severamente a
uma série de conflitos sobre a expectativa de compreensão de realidades muito complexas
resultados da implantação dos projetos de como as camponesas, indígenas ou etnicamente
agricultura sustentável. A suposta “malemolência” diferenciadas. Como vimos, nessas sociedades,

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uma técnica de plantio pode estar intimamente estranhamento entre técnicos e agricultores,
conectada a questões socioculturais, como colocando em xeque o fundamento agroecológico
relações familiares e de gênero, religiosidade ou do diálogo entre saberes.
ordenações morais. Treinados para compreender Como pode a antropologia contribuir para o
uma técnica de plantio simplesmente como uma tratamento dessa problemática?
estratégia de ajustamento ecológico e de eficiência
econômica, extensionistas frequentemente tem As contribuições da antropologia
dificuldades em conceber o conjunto de relações Campo científico jovem, se comparado com a
que compõem certas práticas culturalmente física, e maduro, se comparado com a
determinadas. Não raro, interpretamos esses agroecologia, a antropologia se estruturou como
costumes como destituídos de racionalidade. Do ciência reconhecida na segunda metade do século
ponto de vista da antropologia contemporânea, XIX, sob os auspícios da biologia, ocupando um
eles são apenas guiados por outra racionalidade. vácuo temático deixado pelas outras ciências
Podemos, nesse momento, realizar uma humanas e sociais. Mais coletiva que a psicologia,
pequena síntese das questões discutidas até aqui menos documental que a história e não atrelada
sobre as implicações socioculturais envolvidas na ao boom da modernização capitalista oitocentista
teoria e prática agroecológica. Em primeiro lugar, como a sociologia, a antropologia se
vimos que, entre os autores “clássicos” da responsabilizou por abordar cientificamente a
agroecologia, pairam duas abordagens sobre a enigmática e difusa figura do “outro”. Assim, a
diversidade cultural: de um lado saberes-fazeres ampla rubrica de “sociedades não ocidentais”
localmente enraizados – potencialmente passa a definir o objeto da antropologia. Maurice
ameaçados – reconhecidos como fonte de técnicas Godelier, antropólogo francês, prefere o escopo
e conhecimento aplicáveis ao cabedal metodológico para precisar a atuação da
agroecológico; de outro, como dinâmicas étnicas antropologia: o estudo de sociedades nas quais a
dotadas de capacidade de recriação e única alternativa ao antropólogo seja “recorrer à
reconfiguração em constante processo de observação direta e ao inquérito oral” (GODELIER,
atualização, sendo, assim, o ponto de emergência 1978, p. 50). Do século XIX até a atualidade, a
da própria agroecologia. Em segundo lugar, dessas antropologia foi sucessivamente ampliando seu
diferentes concepções decorrem respectivamente campo de estudos, a ponto do próprio “sujeito” da
dois tipos fundamentais de extensão investigação científica – o cientista – tornar-se um
agroecológica: uma extensão fortemente atrelada dos possíveis “objetos” de interesse antropológico.
aos aspectos ecológico-agronômicos e, outra, que Nesse sentido, o recorte analítico identificado por
pretende mediar a relação entre a mobilização Godelier parece mais atual do que nunca. O
endógena e os processos exógenos implícitos na “outro”, então, surge aos olhos do antropólogo
ação agroecológica. Em terceiro lugar, vimos que, mais como uma construção metodológica – um
em solo brasileiro, o modelo tecnicista é recurso heurístico – do que uma distância
predominante, levando, assim, a uma assimetria geográfica e culturalmente localizada, para
entre aspectos ecológico-agronômicos e expressar a miríade de modos de vida que
socioculturais no interior da agroecologia. E emergem mesmo em sociedades “modernas”.
finalmente, vimos que tal assimetria implica num O alicerce fundamental para a edificação
processo de potencialização das situações de antropológica é o conceito de cultura. Produto e,

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ao mesmo tempo, produtor da inserção empírica cultural deveria ser explicada em termos de
da antropologia, o conceito expressa de maneira “superioridade” e “inferioridade”, ou seja, entre
muito intensa o estado da arte desse campo de “civilizados”, “bárbaros” e “selvagens”. Esses
estudos. Para atender as necessidades específicas estágios não estariam desconectados entre si,
do problema discutido nesse artigo, nossa opção tomados aqui por uma historicidade que vê a
foi recorrer à vertente “social” da antropologia, para selvageria e a barbárie como pré-condição para a
a seleção de algumas “perspectivas-sínteses” de civilização. Os “inferiores” seriam, nesse sentido,
cultura que contribuam com os nossos objetivos. “museus vivos” ou “reminiscências” fadadas ao
Feita a ressalva, podemos simplificar a três o desaparecimento. O fascínio dos antropólogos
número de definições que marcam as evolucionistas pelos “costumes selvagens” levou
transformações do conceito ao longo da história da Lewis Henry Morgan, outro “pai” da antropologia,
antropologia. Um dos pais fundadores da afirmar que
antropologia, Edward Tylor formula sua definição
nos seguintes termos: “(...) a vida cultural das tribos índias
degenera sob a influência da civilização
“Cultura (...), é aquele todo complexo que americana; as técnicas e as línguas
inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, desaparecem, as instituições dissolvem-se. (...)
costume e quaisquer outras capacidades e Fazemos um apelo urgente para que abordem
hábitos adquiridos pelo homem na condição de este vasto domínio e colham os frutos de tão
membro da sociedade. A situação da cultura rica seara” (MORGAN, 1978, p. 8-10).
entre as várias sociedades (...) é um tema
adequado para o estudo de leis do pensamento Todas as gerações posteriores de antropólogos
e da ação humana. De um lado, a uniformidade fizeram por destruir essa perspectiva evolucionista
que tão amplamente permeia a civilização pode de explicação sobre a diversidade cultural. No
ser atribuída, em grande medida, à ação entanto, parece que, mesmo com este esforço, a
uniforme de causas uniformes; de outro, seus antropologia clássica contribuiu para a fixação de
vários graus podem ser vistos como estágios de uma matriz cognitiva muito persistente no
desenvolvimento ou evolução (...)” (TYLOR, arcabouço cultural das sociedades industrializadas
2005, p. 31). e científicas. Como é fácil perceber, essas
concepções, que envolvem o lugar da diversidade
Dessa concepção, dominante na virada dos cultural no mundo contemporâneo, pairam até
séculos XIX e XX, é possível destacar dois hoje...
aspectos importantes. O primeiro é a ideia do “todo A reflexão crítica sobre a visão do
complexo”. Desde muito cedo, firmou-se entre os evolucionismo antropológico levou a manutenção
antropólogos a noção de que cada realidade do “todo complexo” que envolve as configurações
sociocultural se constitui por um entrelaçamento de socioculturais e prescindiu da noção de
elementos constitutivos, mais ou menos comuns a “evolução”. Bronislaw Malinowski foi fundamental
todas as formas de humanidade. O segundo é a nesse esforço. Vejamos:
concepção de “estágios de desenvolvimento ou
evolução”. Nesse primeiro momento, a A) A cultura é essencialmente um aparato
antropologia formulou teoricamente a ideia instrumental; através dela o homem é colocado
bastante corrente na Europa de que a diversidade em posição de melhor tratar os problemas

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concretos e específicos que enfrenta em seu (MAUSS, 1992, p. 41).


ambiente, no decurso da satisfação de suas
necessidades; B) é um sistema de objetos, Claude Lévi-Strauss adverte que, para Mauss,
atividades e atitudes no qual cada uma das a ideia de fato social total não exprime a
partes existe como um meio para um fim; C) é homogeneidade dos elementos socioculturais,
uma totalidade, em que os diversos elementos mas, antes, uma totalidade
são interdependentes; D) tais atividades,
atitudes e objetos estão organizados em torno “(...) folheada (...) e formada de uma
de tarefas importantes e vitais, em instituições multidão de planos distintos e justapostos. (...)
como a família, o clã, a comunidade local, a Esta totalidade não suprime o caráter
tribo e as equipes organizadas em atividades específico dos fenômenos (...), de tal modo que
políticas, legais, educacionais e de atividade ela consiste, em suma, na rede de inter-
econômicas. (...) É uma totalidade que não relações funcionais entre todos esses planos”
podemos retalhar, isolando objetos da cultura (LÉVI-STRAUSS, 1973. p. 14).
material, sociologia pura ou linguagem com um
sistema contido em si mesmo (MALINOWSKI, A concepção de cultura como totalidades “não
1986, p. 171-172). retalháveis” contribuiu também, como veremos,
para a definição de uma orientação teórico-
Muito importante nessa passagem é a ênfase metodológica própria da antropologia. Mas foi
no processo de constituição interna das culturas, duramente criticada tanto por desprezar os
vistas como totalidades que se organizam três aspectos “invisíveis” de constituição das diferentes
níveis – materialidade, ações e propriedades culturas, quanto por não explicar de forma
simbólicas – que se entrelaçam em termos de adequada a relação entre as diferentes
“função” para a manutenção do “sistema”. Essa configurações socioculturais (LÉVI-STRAUSS,
perspectiva funcionalista de cultura teve grande 1970; GODELIER, 1978).
impacto no pensamento antropológico. Ela induziu A contribuição estruturalista de Claude Lévi-
o fortalecimento de uma interpretação relativista Strauss (1973) foi tentar compreender as “opções
das diferenças, tomando as realidades culturais secretas”3 que possibilitam a articulação dessas
como únicas, sem qualificá-las em graus relações em cada configuração sociocultural, a
hierárquicos de evolução. Além disso, levou outro partir de um jogo de interações entre os elementos
grande antropólogo da primeira metade do século cognitivos do inconsciente humano e as condições
XX, Marcel Mauss, a afirmar que a maior parte das ecológicas nas quais cada sociedade se realiza.
sociedades constitui-se por “fatos sociais totais”, Gregory Bateson, a partir de um longo e tortuoso
nos quais se exprimem percurso acadêmico que passa pela antropologia,
ecologia, psiquiatria e pela teoria da informação,
“ao mesmo tempo e de uma só vez, toda analisou as relações entre “organismos mais
espécie de instituições: religiosas, jurídicas, ambiente” através de uma perspectiva ecológica
morais (...) e econômicas – supondo formas sobre a percepção. Essa teorização busca dar
particulares de produção e consumo, (...) sem conta de uma epistemologia das relações entre os
contar os fenômenos estéticos nos quais seres e o ambiente. Parte do princípio de que as
desembocam tais fatos e os fenômenos relações metabólicas entre os indivíduos e seus
morfológicos que manifestam essas instituições” contextos nunca estabelecem por si mesmas, mas

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são mediadas através das percepções e outras configurações socioculturais. Isso não
concepções. Para a existência de uma ecologia significa que não existam situações no qual a
‘ecossistêmica’, é inevitável, para o autor, uma relação com o exógeno se traduza em
“ecologia da mente" (BATESON, 1972). desestruturação completa. Mas, evidencia a
As abordagens de Lévi-Strauss e Bateson – que possibilidade dos processos de desestruturação
produziram intensamente de 1930 a 1980 – sobre cultural serem mais um “decreto” de um olhar
a análise das interdependências exerceram grande externo pouco acurado do que uma situação
influência no debate contemporâneo da efetiva. O contato e incorporação de elementos
antropologia. Nos últimos trinta anos, há um exteriores se constituem, na maior parte das
significativo esforço de se refletir sobre essa vezes, como fundamentos da formação e
articulação entre propriedades simbólicas e atualização das particularidades culturais.
práticas sociais de uma perspectiva que não Essa noção “centrípeta” de cultura traz
privilegie os processos de constituição das consequências importantes. A noção de totalidade
identidades, mas para compreender como cada sistêmica, com fronteiras bem definidas, perde
configuração socioecológica se constitui e se sentido. Mais adequado seria pensarmos em
relaciona com elementos exteriores às suas “redes sociotécnicas” como pretende Latour
próprias fronteiras. Como é possível definir cultura (1994), “esquemas de práxis” como sugere
dentro dessa interpretação? Descola (2000), ou ainda “sociabilidades
relacionais” como propõe Ingold (2000). Outra
Uma cultura não é um sistema de crenças, decorrência importante é que, se as fronteiras
mas antes – já que deve ser algo – um conjunto entre o endógeno e o exógeno tornam-se difusas,
de estruturações potenciais da experiência, isso não é só válido para a relação entre
capaz de suportar conteúdos tradicionais sociedades, mas também entre o “social” e o
variados e de absorver novos: ela é um “natural”. Para esses autores, os intercruzamentos
dispositivo culturante ou constituinte de são tantos e dos mais diversos matizes, que já não
processamento de crenças. Mesmo no plano faz muito sentido distinguir estes campos de
constituído da cultura culturada, penso que é existência. Isso tem levado a reformulações
mais interessante indagarmos das condições surpreendentes: de um lado, estudos etnológicos
que facultam a certas culturas atribuir as têm sugerido que a mentalidade ameríndia trata
crenças alheias um estatuto de tanto os aspectos “sociais” quanto os “naturais”
suplementaridade ou de alternatividade em como uma grande comunidade de sujeitos nos
relação às próprias crenças. (VIVEIROS DE quais os seres humanos são apenas um dos seus
CASTRO, 2002a, p. 209). partícipes4 (VIVEIROS DE CASTRO, 2002a). Por
outro, estudos arqueológicos defendem a tese de
Essa perspectiva, denominada de economia que não é mais possível pensar na Amazônia
simbólica da alteridade, traz aspectos muito como um refúgio da natureza intocada, devido ao
importantes para superar uma tendência – dentro e fato da ação ameríndia ter sido decisiva no
fora da antropologia – de essencialização das processo de constituição de sua paisagem e
identidades e práticas culturais. Compreende-se, biodiversidade (BALEÉ, 1994; NEVES, 1999).
nessa visão, que os elementos “exteriores” são Desse modo, faria mais sentido pensar numa
utilizados a partir de uma lógica interna que se ecologia com aspectos culturalmente construídos
apropria deles de forma particular e diferente de (VIVEIROS DE CASTRO, 2002a). Corrobora com

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esta tendência a perspectiva latouriana, que afirma que a antropologia dispõe para ultrapassar a
que nas sociedades tecnocientíficas, quanto mais barreira do estranhamento? Como alcançar uma
tentamos objetivar e manipular a “natureza” mais forma de análise na qual aspectos objetivos e
nos misturamos a ela. Estaríamos, assim, imersos subjetivos de constituição das configurações
em artefatos híbridos de “natureza” e “cultura” socioculturais sejam atendidos?
(LATOUR, 1994). O que a antropologia propõe para a resolução
A partir desse caminho percorrido pela dessa problemática é a busca pela alteridade.
antropologia temos, então, condições de analisar a Atento a esse dilema, Malinowski fundamentou sua
sua primeira contribuição à Agroecologia. No experiência etnográfica num processo comumente
encontro entre dois universos socioculturais, denominado de observação participante, a
representados pela figura do extensionista e do pesquisa de campo no qual o antropólogo deve
agricultor, é necessário considerar que dois partilhar a convivência com o grupo estudado. Ela
diferentes modos de ser e estar no mundo entram se constitui a partir de um duplo movimento de
em contato. Objetos, técnicas, tecnologias, observação: um exterior ao grupo, que permite
relações e concepções sobre “sociedade” e uma interpretação global da cultura estudada; e
“natureza” se articulam de forma complexa e outro, interior, que visa “compreender o ponto de
diversa. O entendimento de como se dão esses vista do nativo, a sua relação com a vida, perceber
dois universos, assim como a forma pela qual a sua visão do mundo” (MALINOWSKI, 1976, p.
podem interagir, é fundamental para o êxito das 36). Esse duplo posicionamento analítico pode ser
atividades e dos projetos propostos. Isso é considerado como uma importante contribuição da
especialmente importante se considerarmos que as antropologia para a discursividade científica: a
impressões derivadas do estranhamento inicial – combinação de um princípio explicativo – típico de
muitas vezes, alimentadas por concepções uma relação sujeito/objeto – com um princípio
anteriores ao próprio encontro – podem persistir, compreensivo de apreensão da dinâmica
gerando consequências marcantes. Sem o esforço sociocultural, a partir de um deslocamento
de ultrapassar a superficialidade dessas primeiras subjetivo (LÉVI-STRAUSS, 1973). Esse processo
impressões, corre-se o risco de se cristalizar aquilo não se realiza sem uma entrega existencial do
que os psicólogos denominam de “viés de pesquisador que, não raro, passa por uma
confirmação” (MENDEL et al. 2011): a busca pelo experiência subjetiva marcante para a sua vida.
entendimento do outro fica restrita à necessidade Dentre tantos exemplos possíveis na literatura
de legitimar ideias pré-concebidas e socialmente antropológica, vale a pena ler a posição de Lévi-
estabelecidas como “verdade”. Aqui, a hipótese Strauss sobre o assunto:
sempre produz a tese. Esse processo, muitas
vezes, consiste na projeção de nossas certezas e Cada vez que está em seu campo de ação,
valores sobre o outro, impedindo-nos de “ver” sua o etnólogo vê-se abandonado a um mundo
condição existencial nos seus próprios termos, onde tudo lhe é estrangeiro, frequentemente
condições, conceitos e valores. Sem os hostil. Não tem senão este eu, do qual dispõe
instrumentos teórico-metodológicos adequados, a ainda, para permitir-lhe sobreviver e fazer sua
possibilidade de emergência das situações de pesquisa; mas um eu física e moralmente
estranhamento, como relatadas na primeira parte abatido pela fadiga, pela fome, o desconforto, o
desse artigo, é eminente. Quais são as estratégias choque com os hábitos adquiridos, o

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Na encruzilhada dos saberes

surgimento de preconceitos no qual nem intencionalidades que constituem determinada


suspeitava; e que se descobre a si mesmo especificidade cultural.
nessa conjuntura estranha (...). Na experiência Nesse sentido, o processo de produção da
etnográfica, (...), o observador coloca-se como alteridade possibilita colocar “aspas” nos modos
seu próprio instrumento de observação. ocidentais de articulação entre cosmologias e
Evidentemente precisa aprender a conhecer-se, práticas, na medida em que nos colocamos num
a obter um si-mesmo, (...), uma avaliação que ponto de vista exterior à nossa própria experiência
se tornará parte integrante da observação de tardiamente moderna. Podemos, assim, atribuir à
outras individualidades. (...) Porque para nossa configuração sociocultural o mesmo
conseguir aceitar-se nos outros, é necessário, tratamento lógico que é dispensado aos grupos
primeiro, recusar-se a si mesmo (LÉVI- não ocidentais. Ou seja, devemos conceber
STRAUSS, 1973, p.44). nossas concepções/práticas não como valores
universais ou fatos científicos incontestáveis, mas
Assim, a alteridade traz um “efeito colateral” como um campo de possibilidades (FOUCAULT,
interessantíssimo, de implicações até hoje não 2000) nos quais diferentes realidades podem
totalmente exploradas: o “colocar-se no lugar do emergir.
outro” exige do antropólogo certo “abandono” de si Isso nos leva à segunda contribuição
mesmo, uma “desnaturalização” de suas próprias antropológica para a Agroecologia: o princípio da
práticas e concepções, por meio de um processo simetria. O esforço de compreender o pensamento
de descentramento, no qual a objetividade é mítico e científico como diferentes, mas não
alcançada por uma espécie de transição entre desiguais, remonta aos trabalhos de Lévi-Strauss
subjetividades. A partir da relativização de suas (1989) e aos debates entre sociologia e
próprias verdades, o antropólogo tem condições de antropologia da ciência , sendo proposta por David
não somente explicar, mas também compreender a Bloor (2008) através do Programa Forte de
sociedade a que se propõe estudar. O olhar “por Sociologia da Ciência. Com o objetivo de
sobre os ombros” (GEERTZ, 1989, p. 321) evidenciar os fatores socioculturais como
daqueles que são analisados, permite captar a produtores não só da institucionalidade científica,
conexão entre os objetos materiais, as ações e as mas, também, do próprio conteúdo teórico das

Figura 1: Alteridade como deslocamento

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ciências, Bloor formula a simetria como um dos humanos e dos não humanos – é o princípio da
quatros postulados metodológicos de sua proposta: simetria generalizada”; [3] finalmente, ocupar “uma
causalidade, imparcialidade, simetria e posição intermediária entre os terrenos tradicionais
reflexividade. A simetria, para Bloor, garante a e os novos, porque suspende toda e qualquer
relativização da pretensão à verdade almejada afirmação a respeito daquilo que distinguiria os
pelo discurso científico, pois dá o mesmo valor aos ocidentais dos outros”. Ou seja, como uma
“erros” e “acertos”. Desse modo, a análise da decorrência do desdobramento do procedimento
ciência simétrico dos erros e das verdades para as
relações entre ‘natureza’ e ‘sociedade’, Latour
“(...) deverá ser simétrica em seu estilo de advoga uma posição intermediária ao antropólogo,
explicação. Os mesmos tipos de causa deverão que lhe permite transitar, por exemplo, entre
explicar, digamos, crenças falsas e verdadeiras” ameríndios e físicos, para descrever as respectivas
(BLOOR, 2008, p. 21). redes sociotécnicas que formularam as suas
diferentes relações entre natureza e de sociedade.
Ou seja, o importante é superar o julgamento de Finalmente, alteridade e simetria são recursos
valor sobre o que é “fato” e “ilusão”, que segundo o teórico-metodológicos que, acreditamos, podem
autor, obscurece o entendimento sobre o processo contribuir significativamente para a realização do
de formação das concepções sobre a realidade, diálogo entre saberes previsto pela agroecologia.
gerando, assim discursos “vencedores” e Em primeiro lugar, as práticas de alteridade podem
“vencidos”. Não se trata, contudo, de uma criar as vias de acesso à complexidade das
concessão ao relativismo e construtivismo radical, diferentes configurações socioecológicas a partir
onde tudo é possível, mas, antes, de encontrar um do entendimento de como se dão as articulações
caminho para compreender as diferentes formas de entre os aspectos tangíveis (elementos, objetos,
elaborar conceitualmente os elementos do mundo. instrumentos e práticas) e os intangíveis (relações,
A incorporação da simetria ao discurso normas, valores e conceitos). Em segundo lugar, o
antropológico foi empreendida por Callon (1986) e exercício da alteridade permite, também, a
sistematizada Latour (1994), a partir de uma construção de uma postura crítica em relação aos
reflexão crítica sobre o conceito. Para os dois valores do próprio pesquisador/extensionista, no
primeiros autores, a proposta de Bloor configura-se que se refere aos status – e condições sociais de
como uma simetria “restrita”, ou digamos, uma produção – do conhecimento científico. Em terceiro
simetria assimétrica, pois ela não rompe com as lugar, ao permitir um acesso privilegiado ao “outro”
barreiras ontológicas de separação entre e uma postura vigilante em relação ao “eu”, a
sociedade e natureza. Latour propõe, então, o alteridade engendra uma condição simétrica entre
princípio da simetria generalizada, que engloba a os diversos saberes e fazeres articulados na
posição de Bloor e a expande para a relação entre prática agroecológica. Nesse sentido, saberes
humanos e não humanos. Essa possibilidade se científicos e saberes localmente enraizados devem
efetiva para Latour (1994, p. 101-102) em três ser ambos compreendidos como produtos
passos metodológicos fundamentais: [1] explicar socioecológicos e culturais, diferentes em
“com os mesmos termos as verdades e os erros – aplicações e resultados, mas simétricos enquanto
é o primeiro princípio de simetria (restrita)”; [2] estratégias válidas de conhecimento e ação sobre
estudar “ao mesmo tempo a produção dos o mundo. Concebê-los como conhecimentos

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“inferiores” e “superiores” está fora de questão para intimamente relacionados, nosso ponto de partida
o pensamento antropológico contemporâneo. foi compreender o conceito de cultura
historicamente lapidado pela experiência
Conclusão: o agroecólogo como aprendiz antropológica. Genericamente, ele atende a duas
A problematização sobre a dimensão características: (1) compõem-se de articulação
sociocultural no interior da agroecologia nos levou complexa e, até certo ponto, específica entre uma
a quatro questões fundamentais que, por sua vez, miríade de elementos (ecológicos, econômicos,
estimularam a nossa proposta de aproximação sociais, políticos e conceituais) que formam uma
teórico-metodológica com a antropologia. São elas: configuração; (2) essa configuração, longe de ser
(1) dentre os autores paradigmáticos da uma peça estanque, passa por constantes
agroecologia, podem ser encontradas duas processos de atualização a partir da capacidade
abordagens sobre a diversidade cultural: de um de interagir elementos endógenos e exógenos.
lado saberes-fazeres localmente enraizados e Vimos também, que o “acesso” antropológico a
potencialmente ameaçados como fonte de técnicas essas configurações se dá através das (1) práticas
e conhecimentos aplicáveis ao universo de alteridade, que permite uma análise que integra
agroecológico e, ao mesmo tempo, alvo de suas princípios explicativos e compreensivos; e (2) do
ações agronômicas e político-econômicas; de procedimento valorativo simétrico, ou seja, que
outro, dinâmicas socioculturais dotadas de analisa diferentes concepções com os mesmos
capacidade de recriação e reconfiguração em instrumentos e condições, para além da dicotomia
constante processo de atualização, sendo, entre “erro” e “verdade”, “inferior” e “superior” ou
portanto, o ponto de emergência da própria “simples” e “complexo”.
agroecologia; (2) dessas diferentes concepções, Como esses elementos podem contribuir para a
decorrem respectivamente dois tipos de extensão extensão agroecológica? Mais do que um
agroecológica: uma atrelada aos aspectos catalogador e disseminador de técnicas e práticas,
ecológico-agronômicos e, outra, à mobilização seria interessante ao agroecólogo (1) compreender
endógena em relação aos processos exógenos como determinada prática ou técnica se articula
implícitos na ação agroecológica; (3) o modelo com outras dimensões e aspectos da configuração
tecnicista tem levado a uma assimetria entre os sociocultural – relações de parentesco,
aspectos ecológico-agronômicos e os concepções religiosas, relações de gênero e
socioculturais no interior da agroecologia; e, geração, dentre outros – buscando captar as
finalmente, (4) que isso implica num processo de formas de atribuição de sentido (VIVEIROS DE
potencialização das situações de estranhamento CASTRO, 2002b) do ponto de vista daqueles estão
entre técnicos e agricultores, colocando em xeque imersos nesses contextos; (2) compreender como
o fundamento agroecológico do diálogo entre determinada realidade sociocultural se apropria e
saberes. articula elementos internos e externos; para, então
Nossa proposta é que uma extensão (3) agir como um mediador entre essas
agroecológica que respeite o fundamento acima configurações e os conhecimentos, práticas e
mencionado pode encontrar buscar na técnicas oriundos de outras realidades (científicas
antropologia as bases de sua ação. Considerando- ou não). A posição de mediador, mais do que
se que os fundamentos teóricos não estão portador, não implica que não se devam promover
dissociados da ação, mas que, ao contrário, estão intercâmbios de práticas e técnicas, mas, que

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Silva Júnior & De Biase

essas trocas possam ser realizadas respeitando-se intercâmbio não só de práticas e técnicas, mas
a lógica de organização e articulação própria de também de processos de definição de estratégias,
cada realidade cultural. a partir da criação de condições para processos de
Não se trata, portanto, de uma extensão que construção coletiva da decisão. Essa perspectiva
tenta “bloquear” os processos de intercâmbio entre pode ultrapassar as convencionais táticas
as especificidades culturais e a sociedade “participativas”, tão presentes nas iniciativas de
“moderna”, para proteger uma pretensa pureza, tão sustentabilidade.
idílica quanto inexistente. Também não se trata de Finalmente, talvez seja nesse sentido
facilitar o “acesso ao mercado” a todo e qualquer antropológico que a diretriz “não há docência sem
custo, em nome da urgência econômica e do discência”, formulada por Paulo Freire (1996,
decreto sobre o desaparecimento da singeleza p.21), tenha seu significado mais amplo e efetivo.
cultural. Mas, antes, de captar e contribuir com as Essa perspectiva – tão anunciada quanto mal
dinâmicas endógenas de apropriação e interpretada nas hostes do socioambientalismo –
atualização dos modos de vida, de forma a garantir talvez tenha mais a dizer sobre o aprendizado de
a autonomia político-econômica e as práticas de modos de conhecer, agir e apropriar, do que sobre
sustentabilidade específicas de cada realidade. ações, técnicas e objetos desconectados dos seus
Isso implica numa nova relação do contextos de produção. Nada mais apropriado,
extensionista com as tradicionais técnicas de então, do que o agroecólogo na condição de
inserção a aproximação agroecológica, tais como aprendiz dos mundos por anda caminha.
os Diagnósticos Rurais Participativos (DRP’s). De
um lado, esses instrumentos podem servir como Notas
uma primeira aproximação, mas dificilmente são 1 Duas considerações acerca do conceito: (1)
capazes de abarcar toda a riqueza de relações que compreende-se por “estranhamento” a condição de
constitui um determinado grupo ou sociedade. Por perplexidade diante do “outro”, ou seja, aquele
outro, mesmo as informações obtidas por esses que, de alguma maneira, não gera a identificação
métodos podem ser lidas de forma mais sutil do imediata com a “nossa” forma de viver; (2) enfatiza-
que um dado factual. Ou seja, é mais importante o se que a situação de estranhamento não se reduz
significado e sentido que expressa a informação do ao encontro especificamente tratado neste artigo
que a informação em si. Um “sim” pode ser um (cientista e técnicos, de um lado, e agricultores, de
“não”, um “talvez”, ou mesmo um simples “sim”, outro), mas trata-se de um fenômeno amplo e
dependendo das condições nas quais foi formulada inerente a todo “encontro” vivenciado pela
a pergunta. Essa riqueza de relações entre experiência humana.
aspectos tangíveis e intangíveis só pode ser 2 Apesar da análise empreendida por Almeida
apreendida se adotamos uma posição de aprendiz (2003) ser circunscrita às atividades
em relação ao modo de vida do outro. Assim, agroecológicas realizadas no Rio Grande do Sul,
temos condições de compreender adequadamente nossa inserção sobre o tema permite-nos tomar
e agir coerentemente com a perspectiva daqueles suas conclusões como um importante indicativo
que são “alvo” e parte constitutiva dos projetos de sobre a situação em contextos mais amplos.
agroecologia. Isso permite a frutificação de um 3 A busca por uma lógica que orienta as
ambiente não estruturado por relações hierárquicas configurações socioculturais é a busca
de ensino-aprendizagem, que possibilita o fundamental do autor: “cada vez mais, a etnologia

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moderna dedica-se menos a erigir um inventário de (...), mas não devido à espécie de operações
traços separados, do que a descobrir as origens mentais que ambas supõe e que diferem menos
secretas dessas opções” (LÉVI-STRAUSS, 1973. p. na natureza que na função dos tipos de
349). Essas origens, para o autor, residem nas fenômenos aos quais são aplicadas” (LÉVI-
“estruturas” do inconsciente humano, que se STRAUSS, 2007, p. 28).
constituem de propriedades universais, mas, a
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