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IE prere & Hebe Maria Mattos Escraviddo e Cidadania no Brasil Monarquico Jorge Zahar Editor Sumario Escravidao ¢ cidac Um certo Conselheiro Rebougas 35 Sonsclhos mais radicais 54 Nas trilhas do esquecimento 58 Cronologia 62 Refertncias ¢ fontes 66 Sugesties de leisura } Sobre a autora 74 Llustvagoes (entre p.48-49) Créditos das ilustragses 1, Antoni Between, de Leo Spitzer 2, Luie Gama. Fotografia de Militio Augusto de Azevedo, do Museu 3. José do Patrocinio, Arqu #é Rebougas. Arquivo do Museu Imper 5. Soldados, Desenho de Debret 6, Barismo de escravas. Desenho de Debret. 7. Escravo, Fotografia de Christiano Jr. Exeraida de Ei ratleiros do séeulo XIX na fatograpia de Christiano RC. de Azevedo ¢ M. Lissovsky. 8. Casal de negtos livres ou libertos. Fotografia de Militzo usto de Azevedo. Extraida de O olhar europen — 0 negro na iconografia brasileira do séeula Xtk, de Boris Kossoy e M Tucci Carneiro. Introdugo 2 discutir as relagbes entre identi- iclal, escravidao e cidadania no Bras: vitocen- nar termos aparentemente to antag6nicos quanto ci- dadania e-escravidaoy mass de Fato, quando pcia pri- rieira ver se definiu uma “cidadania brasileira” 70s dircitos a ela vinculados, quando da emancipagio po= litica do pais em 1822, o Brasil comportava uma das maiores populagdes escravas das Américas, juntanente coitia maior popllagio livre afio-descendente do con= ente. Naquels ocasiao, quando Brasil surgia comonagio moderna no mundo ocidental, a op¢io por uma mo- narguia constitucional de base Liberal teoricamente considerava todos os homens cidadios Apesar disso, a instituigio da escraviddo permanecea inalrerada, garantida que era pelo dircito de proprieda- vies € iguais. dereconhecido na nova Constinuigio. Freqiientemente «sta tem sido apontada como uma distorgao tipica do a do Bras processo de emancipagao p . que ceria ne EEE ARI MMAITOS s€ feito sob a égide do Principe pormigués ¢ sob o controle de propricts - Antes da experiéncia brasileira, entretani » 20 pro- cesso de . quando pela primeira vez 2 nogio de cidadania foi definida em fermos préticos, na esteira das revolugdes liberais, tam- bém ali mas . ita freqiiéncia, a questio da escravi- dao na Revolucio Americana tende a ser apresentada como urna questio menor, de caréter regional, anteci- pando-se para 0 século XVII! a divisdo entre sul e norte = que 56 se consolidaria nas primeiras décadas do século XIX. Na verdade, na Virginia, onde se reuniam as principais liderancas do processo, concentrava-se também o principal niicleo dos interesses escravistas das treze colbnias, dedicado & producao de tabaco, ¢ que tinha em George Washington, proprictétio e resi- 8. ES¢RAVIORD E E1WADAMA planta is de 300 escravos, ncipais representantes. Para além disso, 20 norte, se no se configuravam em comm sociedades baseadas no ssctavo, podigm ser caracterizadas como so- ciedades “com escravos”, est80 que mio tio depen- hos destes, essim permaneceram pot \dependénicia, Apesar disso, 2 Declaragio de Independencia dos Estados Unidos da América, de forma pio farla que todos os homens nasciam livres € iguais ¢ tinham direivo & vida, & liberdade ea busca da felicida- de, Nesse contexto, mesmo sem realizar uma aboligéo imediara ira, decla- excravidio, nos anos que se seguiram a guetta de independéncia, alargaram-se como nunca as possibilidades de alforria nas ancigas treze colénias; surgiram até mesmo petigdes de escraves que, embasa- dos na Declaracio de Independencia, argumentavam dirctemente por suas liberdades. Processos muito se- melhantesaos que ocorretam no Brasil nas décadas que se seguirain 20 “grito do Ipiranga”, como veremos a segue E preciso, portanto, deixar claro que 0 conhecido dilema encre 2 assertiva de que os homens nasciam ais reconhecida pelo liberalismo ¢ a manu- eseravidio, sob 2 égide de Constituigoes desenrolou em toda a Afro-América, inclusive nas co- EGE manta MATTOS, as esc istas inglesas ¢ francesis. a0 concexto das adas Revolugdes Adin Apesar da mulriplicidade de pro: ca complexidade dos na tendéncia tase mento d geral de equ dile- ma nos novos paises que se formavam sob a égide da ideologia liberal, a partir de rés encaminhamentos bisicos 1) a manutengio da escravidio com base no direito de propriedade: 2) a proib cano; 3) a emancipagio progressiva através de leis que libertavam os nascituros (ventre-livre), ou de experién cias de cransigao regulada, sempre com indenizagio aos proprietirios. De um modo ou de outta, por tortuosos ¢ diferentes caminhos, apés 1848 a escravidio havi sido abolida em praricamente toda a América, Manti taha-se, ainda, apenas naquelas éreas que permancciam sob 0 jugo colonial espanhot (Cuba, Porto Rico), por- tanto fora da influéncia das teorias liberais, ¢ er dois paises independentes: Brasil ¢ Estados Unidos (apenas ‘os estados do Sul). Assim, sao 0 vigor e o dinamismo da economia escravista no Brasil e no sul dos Estados Unidos durante a primeira metade do século XIX que emprestam um cariter espe neste dois p: ico 20 dilema liberal cs, requerendo soliagSes mais espe: Ainda no século XVIlL, como governador da Virgf nia, Thomas Jefferson anteciparia asolugio norte-ame- ricana para o problema. Propondo a aboligio do cati- veiro na Virginia (0 que nfo se realizatia), ele defende- 10+ ‘SCRAMDAG € CIDADANIA ria, entretanto, que os libertos deixassem 0 seu territs- “diferenga de raga”, ou seja, as “distingdes reais que 2 tueza havia criado” ¢ que fariam os negros menos afeitos a0 pensamento criativo © 3 inovacio” Até entio, as diversas sociedades do chamado Antigo tante, de uma maneira geral, com excecio de alguns tesespecificos — como os gueackers— ‘igo tinham maiozes problemas te6ricos ou moraiscom a cscravidio afficana, que permititia aos barbaros otiundos deste continente conhecerem a verdadeira religiio. Acreditavam, entretanto, na igualdade de to- dos peranite o Criedor. As sociedades do Antigo Regime izavam, como construgées divinas, as desigual- nat dades sociais, ¢ assim a montagem de sociedades escra vistas nas Américas ndo chegavaadestoar deste quad ro, Nesse contexto, apesar de as diferencas de cor e carac- as reforsarem as marcas hierdrquicas nas sociedades escravocratas, elas no eram necessérias para justificar a existéncia da escravidio. A nogio de raga ¢ a da desigualdade ene clas sao construgdes do pensamento cientifice europeu € norte-america o surgidas ape: mesmo que jé aparecessem, de forma embriondria, em alguns escritos do século XVIII, como as consi- deragdes de Thomas Jefferson. Ea partir da primeira “We Hewe mania martos metade do século XIX, especialmente nos Estados Unidos, que até mesmo a origem co: espécie humana passa 2 ser questionada (poligenismo) dilema que s6 seria superado com a adocio perspectiva da se darwinista, capaz de conciliar a idéia de uma orig m comum com uma extrema ¢ sele natu renciagio 12, durante todo o século XIX, 2 partir de uma argumentacio biologizan rias raciais pe iam novamente asturalizar al: gumas das desigualdades sociais — aquelas que in cidiam sobre grupos considerados racialmente in- feriores —, justificando a restrigao dos direitos civis inerentes as novas concepgdes de cidadania reque- ridas pelo liberalismo, hem como a nova expansio ialista européia sobre a Africa ¢ a Asia. O ssucesso da nogio de raga ¢,das teotias raciais nos Estados Unidos do segundo quartel do século XIX € absoluto, permitindo a imposigao de progressivas limitagées aos direitos civis dos descendentes de afticanos livres, assim como restrigGes legais ao aces- $0 & alforria nos estados escravistas O queestou buscando demonstraré que nio apenas © conceito de raga éuma construgio do s mas também a “racializagio” da justficativa da escravidio americana, Ela se tornou a contrapastida possivel generalizagio de cepgio universalizante de reitos do cidadio em sociedades que nfo reuniam lo. +12. ndo, nento de restrigdes inados grupos considerados es, bem como a legitimagio da possibilidades de constrgao social do século x no continente americano, as contradigées entre cida pelos novos estados €0 longo processo de aboligio do cative Posso agora, portanto, complicar nossa questi ini cial. Como jé dissemos, quando pela primeira vez se na “cidadania brasileira” — na ocasizo da ica do pais, em 1822 —/@)Brasill de emancipagio pol comportava no apenas uma das maiores populagées escravas das Américas, mas também a maiar populagio de descendentes livres de afticanos do continence. Raga © Gdadania so duas noges construfdas de forma niterligada no continente ameticano, ac longo do sé culo XIX, ernest cntre arelacio como dilema re6rico jiberalismo ¢ escraviddo. Diante deste fato, como as nogécs de raga e de cidadania foram articu Império brasileiro para dar conta dai dades demogréficas essenciais da realidade do jovem pais? E 0 que vamos rentar acompanhar nas piginas que se segue, +13. ese atin MATTOS Escravidao ¢ cidadania Afirmar que 3 leg se fez em bases rac sed estign ngdes sem de estar presentes nas sociedades do Antigo Regi- em especial no Império Portugués. © estacuto da pureza de sangue em Portugal — I Gaigos puiblicos, eclesidsticos e a titulos honorificos 20s, chamados cr 5 velhos {familias que ja seriam eatd- icas ha pelo menos quatro geragdes) — remonta as Ordenasées Afonsinas (1446-47), que excluiam os descendentes de mouros ¢ judeus. As Ordenagées Ma- nuelinas (1514-21) estenderiam as restrigées também, aos descendentes de ciganos e indigenas, ¢ as Ordena- 46es Filipinas (1603) acrescencariam a lista de exclusio ‘0 negros ¢ mulatos. Em 1776, Pombal revogaria as resttigbes aos descendentes de judeus, mouros ¢ indi- genas, mas, no tocante aos descendentes de africanos, as restrigdes s6 setiam rompidas no Brasil pela Consti- tuigdo de 1824, que pela primeira vez definiu os ditei- erentes & cidadania brasileira © estatuto da pureza de sangue, apesar cle sua base igiosa, construia uma estigmatizagao baseada na as- cendéncia, de cariter proto-racial — que, entretanto, cra usada néo para justificar a escravidao, mas ances pata garantir os privilégios ¢ a honra da nobrcea, formada por cristios velbos, no mundo dos homens sO [mpério Portugués, como sociedade do An go Regime, entendia como designios divinos as hierar- quias sociais, do direito divino do rei a puteza de ezaformada por cristios velhos, Assim, ce nele, sangue dan tiditos do rei tinkam seu im pelo rei protegidos. Fazer parte do Impériosigni- ficava tornar-se catélico através do batismo; nesse sen: todos gar ,2 escravizagio dos barbaros era bem vincha se Fosse servir ao rei e & verdadeira Fé cana ou para @ Isto era indigena legelizada através da guerra jsta. Tentemos exemplificar melhor este ponto. Por do para a escravidie 2 0 cométcio de escravos na Aftica implicava exerny na elite de comerciantes africanos, negociagdes co que, muitas vezes, especialmente no caso de Angola, eram convertidosao catolicismo, ¢ stiditos do Império Portugués. Seguindo a mesma ldgica, apenas o indige- nar na que se negassea abracar a verdadeira Fé ease stidito de Sua Majestade podia ser escravizado através da guerra justa, eassim incorporado a Fée Portanto, o fato de ser indio ou afticano por sisé nao os facia passiveis de serem escravizados, mas sim o fato ne de sere bérbaros ¢ateus. Na logica do Antigo Re} portugués, uma ver incorporados ao Império ea Fé — através da escravidéo —, deviam obedecer a seus se- nhores; servinde-os bem, podiam também aspirar 2 1. Forros, ainda assim se manteriam ligados.a seus ex-senhores, que poderiam revogara alfortia con- 18: BE MARA EATTOS Sua Majescade ¢ também por cla prosegiciosem seusdi cles escaria vedado ias reservadas aos 8s velhos. forga da assecis almente se faz entre a que © a escray ispora aftic nonta que obscureceu quase importinci sa até o sécu- crescimento, no mesmo petiodo, de uma populagao livee de ascendéncia africana — sobre a qual se manteve icha de sangue, mesmo aps as chamadas reformas pombalinas. Segundo esti- mativas da época, no final do periodo colonial, o Brasil contava com cercade 3.500.000 habitantes, dos quais 40% eram esceavos. Dos restantes, 6% exam indios aldeados e os demais e jemente classificados me. tade como “brancos”, metade como “pardos”. Jé- na década de 1780, 05 homens pardos eram cst ados como mados ei cerca de 1/3 da populacio, grande parte deles sendo possuidores de escravos. Para se teruma medi s class lade co nparagio, por volta da mesma Epoca, os descendentes de afticanos lives nto soma vam mais de 5% da populagia, seja nos Estados Uni dos, seja no Caribe. A propria construcao da cat woria “pardo” € pica ral do periodo colonial ¢ tem uma si do cago “16. Fscaavo congas men rm, um rermo de época dir igado i nesugagem) ou mesti e muicas vezes he 5 : Na verdade, durante todo o pe do col xl em usados exclusiva mesmo até bem avangado 0 sé os fermos “negto” ¢ “pi designar escravos ¢ forros. Em “preto” foi dos eram chamados de “negros da terra”. ente para tas drcas ¢ periodos, ricano, ¢ as {ndios escraviza Pardo” foi para designar a cor mais clara de icialmente utilizad alguns esc especialmente sinalizando para a as cendéncia enropéia de alguns deles, nas amp significagio quando se reve que dar conta de uma crescente populagio para a qual néo mais era cabivel a cassificagio de “preto” ou de “crioulo”, na medida em ae estas tendiam a congelar socialmente 2 condigao de escravo ow ex-escravo, A emergéncia de ma popu- re de ascendéncia africana — nao necessaria- lagio ‘mente mestiga, mas necessatiaimente dissociada, jd por algumas geragdes, ia mais direta do cati- veiro — consolidou a categoria “pardo livre” como la experi condigao lingifstica necessitia para expressar a nova idade, tia dela ¢ das res expressio “pardo livr escrava africar icbes civis que implicava, Ou seja, a sinalizaré para a ascendéncia assim como a designagio “cristo antes sinalizara para a ascendéncia judaica, Era, novo” 17. EGE MARIA MATTOS assim. condi ga excrava e lacio a populacio branca: mancha de sai te dessa populagio livre grande Por outro lado, era ou precendia ser possuidora de escravos(NOREon. cavo Baiano, principal érea exportadora do final do periodo colonial, a maior parce dos escravos morava em propriedades de menus de 20 cativos ¢ cerca de 80% dos senhores possuiam menos de 10 escravos. Entee esses pequenos proprietérios, a presenga de des- cendentes de africanos cra comum, incluindo m ios ibertos, cles proprios vindos da Africa. Voltando, entio, 20 nosso problema central. S conforme desenvolvido na introdugdo, a nogio de raga foi uma construgio social do século XIX — estrcita- mente ligada, no continente americano, as contradi- gbes entre 0s direitos civis ¢ politicos inerentes a cida dania estabelecida pelos novos estados liberaiseo longo processo de abolicio do cativeiro —, esta consttugao, no Brasil, se faré especialmente problemitica. Apesar de todo 0 preconccito “proto-racial” das elites sociais e politicas do novo pals — heranga da colonizacio portuguesa —, do ponto de vista dos inceresses escra- vistas existentes no Bras em grande parte compartilhados por boa parte da fem scu sentido mais amplo), populacio de pardos livres, a nogio de raga nao se apresentava como solugao, mas antes como ESCRRMDAO € CIDA; lucidemos melhi este ponto, € preciso d plexo jogo classificarsriof identitério que se abriria nas tetras da antiga América guesa com a decisi Especialmente, Jesse processo surgiria © “br: conttasiado desde 0 icio com a produa rante de dois esteangeiros cotidianos: 0 portugues ¢ 0 africano. AConsti 4o de 1824 naturalizou todos os nasci- dos em Portug: pendéncia ¢ que tivesseim a jo a “causa do Brasil”, de modo que, durante pelo menos a primeira década apésa declaracio de independéncia, brasileiros e por wueses foram identidades intercambiveis profun- damente carregadas de contetidos politicos. Por outro Jado, desde a chamada Conjuracéo dos Alfaiates, em 1798, aigualdade entre pardos ¢ brancos, juntamente com 0 aumento do soldo das tropas, era apresentada como principal reivindicagio de cariter popular ‘no bojo das agitagoes pol do, Nesse contexto, a causa do Brasil apareceria nas ruas do Rio de Janeiro ou de Salvador fortemente marcada por uma linguage cas de cunho liberal do perfo- radial, na qual a origem na era esgrimida como marca de discriminacéo pelo “partido portugues ¢ absolutista” ¢ como signo da identidade brasileira pelo povo na russ, jogando “ca- bras” contra “caiados”, “brasileicos pardos” contra brangu ws do reino” EEE MARIA MATTOS \cr0s anos do periodo regencial, (que reve em 1831, indo até 1840}, proliferavam os pas- ns exaltados, todos lutando pela igualdade de direi- tos entre 0s cidadios brasileiros independentemente da con, garantida na Constituigio. Com titulos sugestivos — O Homem de Con, O Brasileiro Pardo, O Mulato, O Cabrito— alirmavam que, no Brasil, “no hd maisque esctavosou cidadaos”, ¢, portanto, “todo cidadio pode ser admitido aos cargos priblicos civis e militares, ser ourta diferenga que ndo seja a de seus talencos e virn- des’, Com certeza, o enorme avango da pesquisa histérica sobre padres de alforria, de posse de escravos ¢ de mobilidade social no Brasil do final do periodo colonial levou os pesquisadores a prestarem mais atengio a esses indicios (hi muito conhecidos mas pouco valorizados) como indicadores de um real conflito em torno dos dirciros recém-adquiridos pelos novos cidadaos bresi- iros de ascendéncia africana mente o dispositive colonial da “mancha de sangue", ifercnciando-os, apenas, paltras, se 0s descendenres dos escravos iam (se renda tivessem) exercer plenamente todos os direitos poli icos da jovem monarquia, 0s escravos nascidas no Brasil que fossem alfortiados fo entra riam em pleno gozo dos direitos reconhecides aos cidadios ¢ stiditos do Império do Bras ‘A manutengao da escravidio ea dos direito: amplas camadas das populagdes urbanas ¢ rurais do perfode. Apesar da igualdade de direitos civis entte os cidados brasileiros reconhecide pela Constituigio, os brasilei- ros nao-brancos continuavam a ter até mesmo © seu direito de ir e vir dramaticamente dependence do reconhecimento costumeiro de sua condiso de liber- dade. Se confundidos com cativos ou libertos, estariam automaticamente sob suspeita de serem escravos fugi- dos — sujeitos, entio, a todo tipo de arbitrariedade, se nao pudessem apresentar sua carta de alforria. Muios, entre estes, desenvolveram expecrativas de que a situagio se modificasse a partir das Iutas de indcpendéncia, baseados, principalmente, nas proprias ome RE MARIA WAILOS igdes soci Nesse ci cfetivamente conquistadas texto, a igualdade de direitos encte 0s cida dios br . para além das diferensas de n todas as asides Wea rangas das elites polities liberzis, em especial encee os exaltado: iter polémico 0 fato de a proposta de apagamento das diferencas entre os homens res ter estado em questdo durante 0s primei lo 0 periodo reg ‘© que aponta, também, pars as dificuldades priticas de eferiva-lo. No Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 1833, um pasquim libcral exaltado, denominado O Mulato ou O Homem de Cor, afirmou: “Nao sabemos 0 ros anos da monarquiia ¢ por civo por que os brancos moderados nos hao declarado guerra. Hé pouco k 1 erm que se declara que as, \ listas dos Cidadaos Brasileiros devern conter a diferen- \Ga de cor — c isto entre homens livres!” Esta igualdade entre os cidadios livres reivindicada pelas populagoes livres “de cor” implicava, portanto € ances de mais nada, 0: .ento sobrea propria cor, que permanecia como marca de discriminagao herdada do Império Portugués. Uma relvindicagio de silencia- mento que se fazia, entretanto, de forma politizada € muitas vezes ameagadora. Dessa mancita, do ponto de vista dos interesses escravistas, a construgéo de qual- =22- néncia da ins da e raw simplesmente ex- A simny fodugio da categoria “cor” nas eralizados. Um p reg stigiv do registro civil de nasci- mento e ébito gerou revoltas armadas em virios mu- lagio bu protestos neito ipios do Noréeste, em especial em Pernambuco baseadas na crenga de que o reg ape “Lei do Cativeiro”, ceria por objetivo “escravizar a gente de cor” Nao é portanto, por acaso, que as questdes dos direitos dos es ¢ da igualdade entre “todas ascores de cidadios” tenham estado no centro de todas ulamen as mobilizagdes populares do periodo. Jé nos anos niciais do Primeiro Reinado, a questio da dessegrega- gio das topas de linha do Exéecito estaria na ordem do dia. Apés as lucas de independéncia, nao mais se toleraria a tradicéo portuguesa dos regimentos separa- dos por “cores forros; 0 dos “p: © dos “Henriques”, formado por clos", formado cor"; €0 dos “brancos”. ives “de Contudo, s6 podemos entender todas as implica- ses desse processo de luta antidiscriminatéria se per- cebermos que a igualdade que se re indicava para os ‘cidadaos livres” ndo implicava — seja do ponto de vista das reivindicagées populares, seja como corolério légico de sta formulagio com base nemo +23. BE MARIA BIATTOS bcral — qualquer proposigio efetiva a favor da abo: liso imediata da escravidao, Na verdade, esses ditcitos indicados ¢ entendids nao de maneira gené- rica, mas referidos direramente a situagdes concretas, n a condigio da escravidao ideres balai nciae que cidadéos livies estavamn sendo tratados como eser 0s: eu (a quem nao sei) como é que em 2 pel um pais livre e constitucional se atreve um Jodo Paulo a dar boferadas © chibatadas em cidadios castigar os cornetas de um Batalhio extinto, por falas no servigo do seu quintal; a fazer mogo de cayalhariga peiro d’armas em menoscabo n compai das leis milicares; © finalmente a meter em tenco homens livres. Subjacente a dentincia estava a constatagao de que era permitido e legitimo dar “bofetadas, chibatadas meter em tronco” aqueles que, enquanto escravos € dade privada, fam em “cidadaos » se consti livres’. De todo modo, € preciso fembrar, para nto corter © risco do anactonismo, que, nio apenas no Brasil, o combate ao trifico negreiro e o respeito a0 direico de"ptaptiedade representatam as balizas dor nantes da lure antiescravista na primeira metade do século XIX. 124+ Para explora ponto, vale a pe pparshar mais negar com a ja citada ragio dos Alfaiaces, de 1798. Apesar d culos” (nascides no ngo estava te as reivindicagSes presentes nos cartazes ento afixados pelas cuas de Salvador. A alianga com al- guns membros da elite proprictiria da cidade © a defesa, em bases liberais, do diteito de propriedade tém sido apontadas como explicagio para a omissio. Encretanto, nao apenas as elites da cidade e do Recéncavo estavam associadas A propricdade escrav: —o que, obviamente, também é fund 1. Boa parte dos pardos e libertos de Salvador eram pro- prietarios de escravos. O fato de os cativos cnvol- vidos serem todos escravos crioulos também me parece significativo e vou centar demonstri-lo, Como no caso da Revolugao Americana, dur reas :tas da independéncia, ao calor das palavras de ordem a favor de “liberdade” e contra e “escravidio” do Brasil em relagao a Portugal, néo faltaram os cativos que. argumentando serem brasilciros, lutaram organizada e constitucionalmente por suas liberdades. Pelo menos este foi caso de alguns escravos de Cachoeira, na Bahia, segundo carta de D. Maria Barbara C Garcez Pinto, senhora de engenho baiana citada por Joao Reis ¢ Stuart Schwartz. Ela nosinforma, inclusive, 256 HeBe mARIA MATTOS da alianga desses escravos com ma influéncia, fazendo suas petigoes Cortes de Lisboa; mas também detxa interir escravos afticanos estavam fora do p como este permitem clucidara possibi iberdade de esc dicar a seus direitos de brasileisos natos, sem po: io definitiva Jodo Reis, “os crioulos a lar conjun- amente a abo escravidie. Segundo iavam por coroar seus p o fem relagio aos cativos nos privilégios na escravida afficanos} com a cong) da liberdade €, opor- tunamente, da cidadania no Brasil independente". Durante as hutas da independéncia, no Rio de Janci- vez a auroridade ista ro ow em Salvador, por mais de mondrquica peditia aos maiores senhores de escravos que alforriassem alguns cativos para somarem esforgos junto as rropas brasileiras, Face @ atirude ticubeante (quando nao francamente contritia & proposisio) dos propriecérios, muitos escravos se anteciparam ¢ fugi- ram para se alinhar com as tropas brasileiras. Apés as lutas, 0 governo Imperial determinaria que fosse asse- gurada a alforria a esses cativos (mesmo que mediante ndenizagéo aos proprictarios), em nome dos servigos prestados a “causa do Brasil”. Nao cram poucos aqueles que, entre as elites pro prietirias ou entee os observadores estrangeiros do proceso, apontavam para os tiscos de tantas lutas em nome da liberdade em um pais escravista. Um obser- 26+ vador 1 clarezao. recém-inventados: .<: todos os brasileitos, ¢ sobrerudo os bran- cos. nio percebem suficienvemente que é tempo de se fed porta dos debares politicos, a discusses constirucionais? Se se continuar a falar de direitos dos womens, de igi ar-se-d por pronuvciar a 1a futal: liberdade, palavea tervivel ¢ que vem nuico mais forga num pais de excravos do que em a bard no Brasil com o levante dos escravos, que, quebrando |quer oucra parte, Entao roda a revolugao suas algemas, incendiarao as cidades, os campos, as 10s ¢ farendo deste magnifico impétio do Brasil uma deploravel réplica da brilhante coldnia de S80 Domingos (Haiti) A formulagio aponta, mesmo que de forma ambi- gua, para as duas varidveis do problema, especialmente quando o autor se dirige aos brasileiros, sobretudo aos brances, mas no s6 a eles. Qu seja, hé o reconheci- mento implicito de quea extensio das discussoessobre liberdade as senzalas podia se mostrar inconveniente para a maloria dos brasileizos livres, ¢ nio ape 6 para 0 brancos, € que é a este consenso que é preciso re correr para intertomper o perigoso Por outto lado, OCeSsO 1 reflece o medo de que as discusses sabre; | ABE MARIA MATTOS. cores) fossem apropriadas pelas semzalas num contexte de possivel alianga entre as gentes de cer, propondo a abolicio daescravidio e massecrando os brancos, como. no Hait De faro, 20 longo de todo o Primeiro Reinado e do periodo rege nciat, as novas elites politicas ni conse- guiriam evitar “os debates politicos e as discusses constitucionais’. Nao conscgi iam evirar, também, que esses debates chegassem, de um jeito ou de outeo, a0 conjunto dos cidadios brasileiros das cidades ¢ do campo, quea chamada “boa sociedade” gostaria de ver fora do jogo politico. Especialmente, tomnar-se-iam explosivas as tentativas de manutengio das hierarquias proto-raciais herdadas do Império Pornagués. Apesar disso, esses debaces apenas limitadamente incendia- riam as senzalas Em relagio & questao eseravista, as balizas mais gerais do liberalismo radical do perfodo aparecem de modo especialmente claro em alguns dos movi mentos regenciais com maior participasio popular ¢ de escravos, como na Balaiada, que mereceu opor tuna ¢ importante releitura em cese de Mathias Assungéo. Em seu momento de maior radicalizagio, 08 balzios vao priorizar a reivindicagao de direitos iguais para .o “povo de cor”, (tanto “cabras” quanto caboclos”), + qual estar4 explicicamente colocada nas cartas ¢ proclamagies de Gomes, o lider “ba- laio”. Do mesmo modo, acontecerd nessa fase uma 28+ ‘SCRAMIDAO E CIDADANIA aproximagio crescente dos rebeldes do sul do Ma- ranhio com as tropas de Cosme, ex-escravo natural do Ceari, Cosme liderava um exército de aré 3.000 escravos rebelades, obrigando os serthores # assinar~ Ihes cartas de alfortia, quando nao as firmava por conta prépria, Porcante, mesmo no seu momento mais radical, nem a atuagéo do Balaio (pedindo a igualdade de direitos entre os cidadaos de todas as cores), nem a de Cosme (exigindo alforria para os eseravos que decidissem lutar 20 lado dos rebeldes) fugiram dos quadros mais gerais de panticipasiv popular tracados 20 Longo das lutas de indepen déncia ¢ do liberalismo radical do periodo, Era 0 nao cumprimento da Constituigio que se denun- ciava ao se lutar pela igualdade entre “os homens livres de todas as cores”; ¢, do mesmo modo, era a adesio & causa rebelde que trazia o diteito a alforria aos escravos das tropas de Cosme, ¢ nao uma ile- gitimidade genética da propriedade escrava. Na verdade, este € um enigma poucas vezes en frentado pela historiografia: por todo o conturbado periodo do Primeiro Reinado e das regéncias, em um pais pesadamente escravista, 2 metdfora da ¢s- cravidao como imagem de opressio ou como situa- 40 iniqua a ser superada foi constantemente “acio- nada — seja pelo discurso “patriota” da época da independéncia (0 Brasil escravo de Portugal), seja pelo liberal exaltado que clamava por igualdade de +29. Hee ma os os brasileicos livres — mas isso dircitos © implicou colocar em x sobre seres husanos escravira dircito de propriedade rigo de que essas palavias se espalhassem cor s0 no se d alhar: rastilho de pélvora entre camponeses ¢ livres pobres das, cidades, ci de pélvora pclas senzalas. Contudo. Elas continuaram a ser usadas, es jolgaram mesmo escravos tia tomaram a participagdo nas luras liberais como passa porte pata sua propria liberdade. Mas, apesar d lenta repressio que se desencadeou sobre as tebelices regenciais, especialmente as que se caracterizaram por ior participacio popula, os sign a liberdade e igualdade pelas quais se hurava tiveram, fe, mas como raponto no questio- nado, « legitimidade'da propriedade escrava. A igual dade de direitos entre a populagao livre estava contra- ditoriamente informa: pela distingio concreta e cot diana entre cidadios livres ¢ escravos. As imagens da escravidio podiam ser usadas con éxito nas lutas do liberalismo de elite ou popular, pois traziam em si uma efetividade cotidiana que ninguén parecia questionar. O combate politico do liber: bra mo ico das primeicas décadas da monarquia a insti- a escravidio se concentraria na hua contra 0 comércio negreiro ¢ na dentincia do trifico afticano, +30- EScRAMIDAD € CIOADRTUA tendo nas presses dos escravos crioulos pelo acesso a fortia — ¢, a par idadania bi contrapartida mais radical. © seu distanciamento do sileira — sua esctavo afticano, esse outeo estrangeiro cotidiano, ev rou que ambas as pontas se encontrassem, incendiandlo ial brasileiro mas décadas do periodo col foram marcadas por um nove boom da produgio agri- cola de exportagio, responsivel por um recrudesci~ mento sem precedenres do trafico africano. Nas areas avo Baiano, nas duas dltimas s do Rec agueare décadas do século Xvi ¢ nas primeiras décadas do sfculo XIX, a razio de afticanidade das populages dos engenhos era de 2 para 1, raramente somando menos de 60% do conjunto da escravaria. O mesmo¢verdade paraa zona acucareira que pela mesma épocase expan- dia ao norte da capitania do Rio de Janeiso. No caso do Recéncavo Baiano, entéo a principal area agroex- portadora do pais, essa nova populagao escrava de origem africana se superpunha 2 uma ourra, crioula ‘Além disso, o trilico baiano com a regiao do Golfo de Benin se intensificara no periodo, Especialmente em p tal da Africa se viu sacudida por revolugées pol osas. O jé antigo mas relativamente pouco intenso trifico de esctavos entre a Bahia e o Golfo de Benin se ipios do século XIX, aquela regio da costa ociden- icas ¢ rel viu sepentinamente multiplicado pelos interesses dos Estados e facgSes afticanos em guerra, que jogariam 81 de escravos afri- eles + em sua maioria s derrorados Se a esta conjuntura especifica © de insurreigées escravas que tomard o Recéncavo do final do séc até o Levante dos Malés, er » capaz de produ dade que os escravizava, na luta contra a socie~ a surpreendente alianga nos” inimigos em Aftica, com a participa- 40 inclusive de africanos forros, mas incapaz de incor porar as escravos crioulos as tentativas insurrecionais Essas insurzeigoes seguiram mesmo um certo padrio, buscando atacar de suspresa a sociedade colonial —em seus ientos de descanso e festa, em geral associados 20 calendério cristo, do qual os escravos crioulos arivamente participavam. Bsse africano que amea, va na Bahia ressurgitd no Rio de Jancito da expansio cafecira. Aqui, com o trdfico jd tornado ilegal ¢ as vésperas de sua extinsio definitiva (em 1850), falantes de linguas banto da regito Congo-Angole formarao até 90% da escravaria das fazendas de café, As ligdes da Bahia reforgariam o medo provocado pelo surgimento desta protonasio banto (como a chamou Robert Slenes), efor também os argumentos dos que advogavam pela re- pressio efetiva do trafico atlantico. Entre dois estrangeiros necessérios —o “portugues colonizador © © “afticano” escravo — a construcio a2. ESCRAVIBAG F COADANIA pritica do “brasileito”, sob a égide dos interesses esera vistas dominantes ¢ profunchamente impregnacos no conjunto da sociedade brasileira, nao poderia recorter A moderna nogio de “raga”, que entéo tomava forma iras décadas da mo-~ narquia estiveram ligadas, entre outros pontos, tam- bém a esse dilema politico. Diziam respeito 2 duas opyées opostas para a lepitimagao da questao da con- tinuidade da eseravido, ambas contidas na Constitui- fo ouorgada de 1824, que entretanto recaiam basean- te diferéntemente sobre as possibilidades de alforria dos cativos € sobre a_organizagao das hicrarquias sociais entre a populagio livre. Todavia, nenhuma das duas acionava 0 modemno conceito de “raga”. Una primeira opgio, conservadora, telacionava a permanéncia da escravidao a certos tragos do Antigo Regime remanescentes na nova ordem monirquica (0 poder moderador, 2 unio entre Igreja Estado, 0 regime de padroado). Apesar de nio haver qualquer referéncia as relagdes esceavistas no texio. constitucio nal, o discutso conservador tinha como premissa, para além do dircito de propriedade, as hierarqutias sociais tadidionais do antigo Império Portugués. Luis dos Santos Vilhena, por exemplo, nas suas “Noticias sote- cas", de 1798, formulava claramen- te como no ambito do Império Portugués, a socicdade a3 HERE Mania MartOs brasileira se onganizava “baseaca nos critérios de ditei- tos ¢ privilégios, orientando sta divisio social entre os que possuiam os dois (os nobres), 05 que s6 pos am (os livres em geral) e os que nao possufam nem um nem outro (os escravos)". As disposicGes censitarias da Constituigao de 1824 no que se refere aos direitos politicos, bem como a manutengio da escravidio, podiam ser lidas, portanto, como reconhecimento ¢ legitimagao de priv is © de hicrarquias sociais herdadas do Império Portugués. Por outro lado, num registro liberal, 0 voto censita Fio (comum a paises como Estados Unidos ou Ingla- terra) legitima as relagdes entre acesso a propriedade ¢ direitos politicos. Da mesma maneira, tendo em vista a auséncia do tema na Constituigio de 1824, a tengo da escravidio estava leg: ente ancorada neste mesmo principio, tipico do liberalismo: a absolutiza- sa0 do direito de propriedade, que sé poderia ser confiscada pelo Estado mediante indenizacio, Podem parecer puramente retéticas estas distingies, na medida em que 20 fim ¢ a0 cabo ambas se propu- nham a legitimar a continuidade da esceavidio. Na verdade, a historiografia, ao ressaltar apenas este ponto, deixa de dar o devido destaque 20 fato de que nenhuma das muitas lutas ¢ rebelibes sociais e politicas das pri- meizas conturbadas décadas da monarquia colocava cfetivamence em xeque esse prineipio— de modo que 2 énfase na questdo acaba por impedir que se percebam a4. | | i ESCRAMIDAD E CIDADANIA ivamente informavam os con. flitos, destacando-se entre elas as tens6es “raciais” entre a populagao livre. Para o encaminhamento dessas tenses, recorreu-se politicamente a alg; que, aproptiados por parte das elites politicas e também por algumas das liderangas populares envolvidas nos do, foram capazes de cana- lizar os ganhos politicos de determinados setores da rancha de sangue”. Tende- lagio com o fim da ram também a organizar de forma bastante generaliza- da toda uma agenda de reivindicagses contra esse tipo de discriminagio (ainda nio percebida como “racial”, na medida em que se recusava a categoria “raga”), com base num radical e original processo de “desracializa- a0” ¢ “des-senhorializagao” da legitimacao da conti- nuidade da instituigio eseravista. Processo oposto, de fato, 4 tendéncia de “racializagéo” do problema pre- ponderante nos Estados Unidos ¢ de predominio do ponto de vista senthorial sobre o tema — que tenderia, ase tornar hegeménico a partir do Segundo Reinado. Um certo Conselheiro Rebougas Para melhor demonstrar esse ponto, proponho que tomemos contato com um pouco da vida ¢ das idéias do Conselheiro Anténio Pereira Reboucas, que teve -38- | LBL MARIA RAATTOS sua histéria de vida orga de vista pessoal « politico, pelas posibilidades abertas por esse liberalismo, em sua vertente mais moderada, O essencial que marcou toda a trajetéria de vida do Conselheiro, torna a sua biografia especialmente ilus- uativa da campo de futa contra a diseriminagao racial pode se orgunizar no Bra centista, mesmo qu ley oito- jaseado num ipo especifico de magio da continuidade da instituigao escravista Filho de uma liberta ¢ de um alfaiare portugués, nascido na Bahia em 1798, autodidata no estudo das leis, Antonio Pereira Rebougas tornow-se rébula, sendo depois provisionado advogado, tornando-se um dos maiores especialistas em direito civil no Brasil mondrquico. Além disto, foi varias vezes de- putado pela provincia da Bahia, Conselheiro do Imperador ¢ advogado do Conselho de Estado. Nao ha muita coisa publicada sobre © Conselheiro Re- bougas. Apesar disso, sio abundantes as fontes sobre sua vida: escreveu mais de uma autobiografia; pro- feciu varios discursos como deputado na Assembléia Legislativa da Bahia e na Camara dos Deputados, bem como publicou intimeros artigos como jorna- ista e membro da diregao do Partido Constitucional da Bahia, além de pazeceres ¢ comentarios juridicos sobre direito civil. Boa parte de seus documentos pessoais — incluindo sua correspondéncia — est arquivada na Colegio Anténio Pereira Rebousas, +36. i SCRAVIDAD £ CIDADANA na segdo de manuscritos da Biblioteca Nacional tos outros. Para efeitos deste texto, v enere m me decer de sua trajetéria de vida, para depois me concentrar em dois dos discursos que proferiu na Camara dos Deputados, quando da discussao da exigtncia da cliusula de Singenuidade” (proibigio da nomeagzo de libertos) para os oficiais da guarda nacional, Nao apenas Anténio, mas (pelo menos) tres dos filhos homens do casal Gaspar Pereira Rebougas ¢ Rita Basilia dos Santos foram dircramente beneficiados pela supressio da “mancha de sangue” sobre os descenden- tes deafticanos, efetivada com a promulgagéo da Cons- fimigio de 1824, Anténio, provisionado para advogar na Bahia em 1821, cnvolveu-se diretamente nas lutas de independéncia, recebendo 0 tlculo de cavaleiro da Ordem do Cruzeiro, em 1823, ¢ sendo nomeado se- cretétio da provincia do Sergipe, no ano seguinte. Depeis disso, tornar-se-ia politico eadvogado de renno- me, recebendo outros titulos ¢ comendas, entre eles o de Oficial da Ordem do Cruzeiro, em 1842, ¢ 0 de Conselheiro do Imperador, em 1861. José Pereira, seu ha, tornando- nas nos dados mais gerais ¢ conhecides irmao, estudou musica em Parise Bol se maestro da Orquestra do Teatro em Salvador. Ainda um terceiro Rebougas, Manoel Mauricio, formau-se na Europa, neste caso como douror em medicina, ocupanda posteriormente a cadeira de botinica € 200- logia da Escola de Medicina de Salvador. 37 HERE WAKIA MATTOS, A vida polftica de Rebougas foi narrada por ele em dois livros de memérias: Recorelagdes da vida parlamen- tar do advogado Antinio Pereira Rebougas. Moral, juris prudéncia, politica ¢ liberdade nal e Recorda- gies da vide patristice do advogado Reboucas. Embora seja essencial, para 2 compreensio da ascensfo so: politica do Conselheiro Rebougas, considerar a sua atuagao na guerra da Independencia na diregio do Partido Constitucional contra o Partido Absolutista na Bahia (no contexto da crise do Primeiro Reinado, da abdicagio ¢ da inauguracio do periodo regencial), nao nos deteremos sobre sua “vida patriética” ou sobre a recuperagio que faz dela. [ importante notar também 0 destaque dado pelo Conselheiro a sua identidade profissional de advogado. Em artigo sobre 0 tema recentemente publicado, a pesquisadora Keila Grin- berg sustenta que a defésa do “dircito de propriedade” a pedra de toque da leitura do jurista Rebougas sobre as relagdes entre direito civil ¢ escravidao no Brasil monérquico. Quanto & sua vida parlamentar, 0 subti- tulo da primeira de suas Recordasdes define a linha de sua atuagio. Esta — que associava moral, politica e liberdade constitucional, ¢ que aparece exemplificada na discussao sobre os direitos de cidadania dos libertos que passo agora a analisar — ilustra magistralmente aquela vertente de pensamento de base liberal a que me referi acima ¢ que, no Império do Brasil, enquanco ti -38- | IscRaMDAo E cHDADANIA rear os ganhos ados sctores da populagio com o smn: sangue”, a0, po em que ddicalizagio diferenciados, por weira reforma da lei Em 1832 discutia-se uma p das guardas nacionais, milicias criadas em 1831 € constituidas exclusivamente pelos cidadios ativos do Impétio, Em especial, sobressaia a emenda do st, Cal- ando que somente © non, deputado pela Bahia, fi cs de ser eleitos poderia ser no- jundas cidadao com cot meado oficial das guardas. A emenda tinha p implicagoes do ponto de vista da polémica questio dos direitos de cidadania dos libertos, ou seja, daqueles individuos que, nascendo escravos no Brasil, era alfortiados ao longo de suas vidas. A melhor maneira de acompanhar estas implicacies € seguir 0 fio da argumentagao do veemente discurso de oposigao emenda que © deputado Anténio Percira Rebousas proferiu em 25 de agosto daquele ano. Rebougas comesava seu discurso lamentando que justamente um deputado pela provincia da Bahia apre- pois que um sentasse tal proposicio, ainda mais depurado por Minas Gerais — onde 2 seu ver os jo ¢ de “sentimentos de igualdade e justiga, de u liberdade” estavam bern menos atraigados retirado proposta de igual contetido, convencido da 239. argumentasio de que se tratava de medida cendidria”, “impo! icional”, Por que ida causava tanta indignacio a Re- bousas? Nao era por conta da renda de 2008000 (duze: I réis) anuais que se exigia para a condig de eleitor, pois, nesse sentido, Rebousas propunha que esta fosse a renda minima para o recrutamento dos soldados das guardas, eque se exigisse uma renda ainda mais alta para os oficiais. Nessa, como em inumetas ies, Rebougas mostrar-se-ia um entusiasta de restrigdes censitérias clevadas para o exercicio da cidadania politica, no melhor estilo do liberalismo Possessive © do que entio se praticava em cermos cleitorais nos Estados Unidos ena Inglaterra. Reboucas se indignava porque “uma das condicdes negativas da vorario para eleitoé o nao ter nascido ingénuo” optando por uma frase com uma dupla negativa para cvitar 0 uso da palavra “escravo” out “cativo”. Ou seja, como jé foi antes assinalado, quem nao tivesse, segun- do a Constituigao Imperial, “nascido ingénuo”, (ou seja, quern tivesse nascido escravo e depois obtide alforria), nao poderia se qualificarcomo eleitor, mesmo que tivesse renda suficiente paratanto. Rebougas, sem- pre cioso das liberdades individuais, considerava tal excegdo odiosa, contraditéria ¢ impraticavel” ¢ se opunha com veeméncia a que se tentasse estendé- para além dos termos constitucionai 40 {SCRRVIOAO E CIDADANIA amente, considerando tal. pro- Alegava que “a Constituigao ladaos bras ceram ingénuos de serem eleitor de paréquia, conse- Iheiro de provincia, deputado, senador, conselheiro de Estado ... logo, excetuando [os casos acimal, 0s cida- daos nao-ingénuos podem servir todos os empregos ros que no nas- para os quais se achem habilitados por seus talentes ¢ vircudes”. Este era o ponto basico do elitismo liberal de Rebougas. Para ele, renda ¢ propriedades podiam ser adquiridas com “talentos e virtud’s", consistindo, portanto, na tinica medida legirima dos mesmos, ne- io das responsabilidades mais eleva- cessdrios ao exert das da cidadania pol Seria entao puramente retérico 0 protesto de nosso deputado? Quais as chances de um liberto atingir 0 nivel de enda necessitio para 0 exercicio dos cargos constitucionais que Ihe eram vedados, ou os valores ainda mais elevados defendidos por Rebougas para os oficiais da guarda nacional? Segundo Rebougas, em seu discusso, maiores do que pareceria provivel & luz da atual historiografia sobre o tema. Pois é exatamente sobre esse ponto que constréi sett segundo argumento. Tentemos segui-lo. Seu segundo ponto de argumentacao alicerga-se sobre o seguinte postulado: “nao se cumprem asdispo- sigdes legislarivas contrérias aos costumes.” Afirmado ae LHEBE MARIA MATTOS © principio, desafiadoramente perg ava a seu opos tor baiano: “Cré o iluscre orador que a exclusio dos ndo-ingénuos para cleitores tenha si 22” Pelo menos para Rebougas, 2 sespo: sabidamente no, pois em geral an ele recaia “a animadversao geral”, pois“quando ¢, meus senhores, que ura liberto merece os suftdgios de seus concidadios 2 nao ser que pela melhor fadole ¢ com- portamento civico tenha jente desfeito as gradkiveis impressies de sua infeliz origem: Cibertos eteirores? A afirmagio do nosso persona- gem etéa mercer iiiaior atengao da pesquisa histdrica, mas pode-se pensar, pelo menos, nos muitos filhos ilegitimos de senhores importante nascidos escravos « depois alforriados em escritura piiblica ou testamen- t0, De todo modo, o essencial de seu raciocinio é que, constitucionalmente, no Império do Brasil, ou se era escravo ou se era cidadio e, com base nesse principio, quaisquce cxcegdes abertas, aberragies. Pode, pois, ser membro da regéncia um cidadio liber- to, seg io a Constituigao? E. nao poderd ser alferes de companhia nas guardas nacionais? Pode um cida- dio liberto ser mi ro ou secretario de Estado? Nao poderd set oficial da guarda nacional? Pode um cida dio liberto ser arcebispo e bispo, segundo a Co 40, nao poderd ser oficial das guardas nacionsis? Pode 42. scRAMIDAO € CIDADANIA tum cidadio liberto ser minisero do tribunal supremo 1 ser oficial das guardas nacionais? m cidadao liberto ser general, e no podera ser edai por diante nas guardas nacio is dadas por esce general? ia vez liber- No discuzso de Rebougas, portanto, fo, 0 ex-escravo nascido no Brasil automaticamente cornave-se cidadio brasileiro, com todas as suas pret rogativas civis ¢ politicas, E assim afirmava porque considerava que apenas o dircito de propriedade legi- timaya a escravidio. Deixando de ser propriedade, 0 escravo (através da alforria) tomava-se também plena- mente cidadao, No esforgo de “desracializar” a continuidade da nstituigio do cativeiro, Rebougas vai seguir desenvol- vendo um terceiro argumento, 0 dos muitos servigos i prestados por cidadios libertos & joven nagio eo dos muitos feitos de bravura de “eidadios libertos’ em outtas sociedades. Comeya por citar a Babia ¢ 0 papel dos “cidadios libertos” nas lutas da independéncia Quanto a este ponto conclui novamente teivindicando o reconhecimento da platéia paza um fato que seria do amplo conhecimento de todos Assim, estando nossa provincia, € & proporgio as de- ais, com tantos oficiais beneméritos, clérigos e con- decorados no gozo da mais ajustada estima de codos 2435 Heme mania warTOS 05 seus concidadios, quem tao mesquinho adotare fazer efetiva u adistingaoa ‘05 respeitos ceprovada? Rebougas insiste, portant, que nfo se trata de uma questio meramente teérica ou de principios; trata-se cic uma excegao capaz de atingit diretamente intimeros sé Reis, “O jogo duro do Cam Dois de Julho: 0 ‘Par dependéncia da Bahia” in }J. Reis ¢ E, Silva, Negociaeto e conflito. A resist P p20: Os jornaiscitados podem ser localizados de Periddicos da Biblioteca Nacional. Nos anos, esses pasquins tem sido alvo do olhar de diferen tes pesquises, com as quais comei contato para a clabo- ragao deste livto: Chri ler Souza, Menealicda- bolicionismo entre os letrados (1808-1850). Dissertacao de mestrado defen PGHIUFF. Nicerdi, 1994; Larissa Moreira Vi dimensées da cor; rem estudo do olhar norte- sobre as relagdes inter-érmicas. Rio de Janeiro, primeira metade do € Ivana Stolze Lima, A polissemia da mesticagem. ldensidade nacional e pop io urbana na formagio do Estado Imperial. Exame de 4 (Sio Paulo, Com- a negra no Brasil esera 1989), ia das Letras nos ne Lai culo XIX, op. 67+ HEBL MARIA MATTOS qualificagéo de d Niterdi, 1999. p31: Os levantes em Per civil estdo referidos no Relatsri de 1851 (Rio de Janein Peter Bisemberg, Modernizagaa sem mudanga. A ix Pernambuco, 1840-1910 (Rio de Janeiro, Paz ¢ Terra; Campinas, Unicamp, 1977, p-213} € em Ivana Stolze Soura, op. cit. p.132. p24 € 28-9: As referencias e citagbes sobre a Bataiads 3 Maranhio foram retiradas da tese de Ma rig Assungio, defendida na Ale de tradugio para publicagio em postugués. Para os aspectosaqui privilegiados, conferit,eminglés, oartigo nha @ em provesso “Elite polities and popular sebellion in the construc- ion of post colonial order. The case of Maranhio, Brazil (1820-1841)”, Journal of Latin Ameri can Studies, vyol.31, 1, few/1999. p.26:A citagie de Joao Reis sobre apetisio dos escravos da Cachoeira esti em “O joge duro do Dois de Julho”, op.cit., p93. 27: A citagao do observador francés anénimo sobre © processo de independéncia foi também retirada do artigo ja citado de Joao Reis, p.91. p.31-2: As referénelas sobre a presensa africana no neira metade do século XIX foram basea- croRnANIA nos seguintes traball : Stuart Schwarz, Segredo: op.c 1 (Sie Mah vem! Africa coberta ¢ desco n.12, p.48-67. Slencs, p.35-54: Sobre AntOnio Pereira Rebousas autobiografiase dos discursos parlamentares itados a0 texto, utilizel as referds fas sobre sua trajetdria pes ¢ intelectual disponiveis em Leo Spitzer, Lives in Be- lation and Marginality in Austria, Brazzil West Africa 1780-1945 (Cambridge, Cambridge UP. 1989) ¢ em Keila Grinberg, “Em defesa da proprieda- de: Antonio Pereira Rebougas € a escravidao”, Afr fsia, UFDa, 0.21/22, 1999, p53: A referéncia a0 “dilema da peteca” entre os direitos de propriedade c 3 liberdade esté desenvolvida em Sidney Chalhoub, Visder da liberdade. Una histéria das tirimas décadas dat escravidéo na Corte (Séo Paulo. Companhia das Letras, 1990) p57 encontra-se e1n ria, 2 de dezembro de 1825. Segio de Manuscritos. Biblioteca Nac d Keila Grinberg, Direito ciel esxravidio ¢ cidadania no tempo de Ant Reboucas, Material para exame de qualificagio apresen- ado a0 PRGH/UEF, Nitersi, 1999. A. citagio (“miserdvel neto da rie. Apontamentos para a sua histé- ay nio Pereira EBL MARIA MATTOS, réncias & trajetor ene Azevedo. Or 57: “Todas as foram retiradas de Gama na Sugestées de leitura », 1999) tha. A trajetéria de Li Paslo (Campinas, Unica * A abordagem proposta neste claboragio baseada r < tiga teflexao sobre fa pelo contato com intimeras disserta- GBes © ceses recentemente conclufdas ou ainda em desenvolvimento, preocupadas com periodos ¢ temd- ticas afins -~ contato favorecido por m io ofessoza do Programa de Pés-Graduagio ema His au ha col tri Recomendo, portant ¢ printe para aqueles cealmente inceressades no tema, uma leitura atenta da segio “Referéncias ¢ fortes”, onde esses trabalhos inéditos aparecem cita ‘Para tum contato mais abrangente com as discussdes historiograficas sobre o dilema entre liber cravidéo no Brasil monarquico, os seguintes livros sto ia Viowti da Cost narguia a repsblien (Sio Paulo, LECH, 1979), especial teferéncias essenciais: Em Da mo- mente caps.1 ¢3; Roberto Schwartz, “As idéias fora do lugar” in Aa venceder as batatas (Si Paulo, Duas Cidades, 1977}; Matia Sylvia de Carval idéias estdo no lugac” in Caderno Debates (Sio Paulo, n.1, 1976); Wenderley Guilherme dos Santos, Ordem beralimmo politico (Ss Paulo, Duas Cida- Santos, “As 70+ n- EGE MR des, 1978}; Paulo Mercadante. dora no Br ‘0, Nova Alfredo Bosi, widio entre do Dialética da Paul Letras, 1992), © Para uma visio gence da formagéo do Estado Imperi berais e conservadores, so refer IImar R. de Mattos, Ot Estado Imperial Sio Paulo, Hucitec, 1990); A c (Brasilia, Ed. da rvalho, Teatro de lo, Vértice, 1988) iio da order: a elite politica imp UNB, 1980); € José Murilo de C: »perial (Sao Pai sombras: a polit © Para uma discussao sobre liberalism, direitos civis ¢ s referida ao dia-a-dia de livres ¢ escravos escravidao m: 1no Brasil oitocentista, recomendo, entre outros, Sidney Chalhoub, Visées da liberdade, Uma historia das tiltimas décades da eseraviddo na Corte (Sao Paulo, Companhia das Letras, 1990); Hebe Maria Mattos, Dar cores do silencio. Significados da liberdade no sudeste escravista Brasil, séeulo xix (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998); Keila Grinberg, Liberata. A lei da ambigiiidade «as agdis de liberdade da Corte de Apelagio do Rio de Janeire no sécula XIX (Rio de Janeiro, Re 1994); ¢ Eleiene Azevedo, Orfew de carapinhs. A traje- téria de Luis Gama na imperial cidade de Sao Paulo (Campinas, Unicamp, 1999) me Dumara 172+ *# Sobre a construgio da nogo moderna de raga ¢ sua incorporagio pelo pensamento social brasileiro, 0 de Lilia Morita Schwarez, Q espetdeule das racas. Cien- tal ne Brasil, 1870-1930 ras, 1993) €a principal na legislagao portuguesa, 0 livro de Maria Luiza ‘Tucci Carneiro, Preconceito racial. Portugal e Brasil-Coldnia (Sao Pa tistas, institwigées e questo Sobre 0 preconceito o, Brasiliense, 1988) constitui consulta ob ista, ver também a da nesta ses. citoce: 13+ Sobre a autora Sou formada em hist6ria pe Ao sul dah exerava, baseado em Je, Meu primeivo livto, adissertagio de mestrado, publicado crm 1987 (Brasiliense}, recebendo, dois anos depois, uma versio resumida em lingua Desde entao, continuo meu trabalho de pesquisa como his- 9 Departamento de Histéria da UFF, no qual também leciono. Publiquet diversos roriadora 6 arci- os sobre histéria social do Brasil oitocentista, dencre (os quais destaco Resgare: wma janela para o vitocentos, ‘organizado com Eduardo Schnoor (TopBooks, 1985), e Das do silencio: significados da li iberdade no deste ‘xnaviea,primeiro lugar do Prtmio Arquivo Nacional de Pesquisa, em 1993 (Arquivo Nacional, 1995; Nova Fronteira, 1998). Nos tiltimos anos, pesquisa tem tide como balizas mais gers 0 estudo das relagbes entre us interesses de reméria, ide: escravidao & cidadania no Brasil trabal em duas principais frences de 108 arquivos orais com entrevistas de descen- dentes de escravos ¢ a trajetéria de vida de Antonio Percira Rebougas, que em grande medida inspirou este ivto. Colecao Descobrindo o Brasi diregao: Cela (3 i UMES PLIBLICADOS: A Proclamacio da Repiblica Celsa Castro A belle époque amazdnica Ana Maria Daou Sambaqui: arqueologia do litoral brasitciro Madu Gaspar Escravidao ¢ cidadania no Brasil mondrquico Hebe Maria Mattos A tndependéncia do Brasil lara Lis C. Souza Modernismo e masica brasileira Elizabeth Travessos Brasit de todos os santos PRAKIMOS VOLUIAES As esquerdas ¢ a ditadura Danie! Aario Reis 0 trafico negreiro Luis Felipe de Alencastro © Império portugues e 0 Br: Janaina Amado eluiz Carios Figutiredo 0 movimento aperirio na Primeira Repl CChaudia Batalha A educagio ¢ os intelgctuais Helena Bi 0 Estado Novo Maria Celina O'Araujo Vida € morte da mata attintiea José Au Os indlios antes do Bra Carlos Fausto A politics na Replica Vetha Marieta de Moraes Ferreira Os industrials © a politica Maria Antonieta teop 0 Brasil dos imigrantes Lucia Lippi Oliveira 0 Brasil da Nova Era José Builherme Magnani Do cruzado a0 real ‘95 pacotes econdmicos da Nova Republics José Carios Miranda Sistemas partidarios, 1945-2000 Rogério Schmit Simbolos ¢ rituais da ‘monarquia brasileira Lilla Scnwarce 0 pais do futebot Luis Henrique de Toledo ‘Além-mar: uma viagem pelo mundo que o portugués criou Hermano Vianna