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Daniel Marcelli • Alain Braconnier

www.artmed.com.

6ª edição
M314a Marcelli, Daniel
Adolescência e psicopatologia [recurso eletrônico] / Daniel Marcelli, Alain
Braconnier ; tradução Fátima Murad. – 6. ed. – Dados eletrônicos. – Porto
Alegre : Artmed, 2007.

Editado também com livro impresso em 2007.


ISBN 978-85-363-1262-0

1. Psicopatologia – Adolescente. 2. Adolescente – Psicologia. I. Braconnier,


Alain. II. Título.

CDU 159.97-053.6

Catalogação na publicação: Juliana Lagôas Coelho – CRB 10/1798


Daniel Marcelli
Professor de Psiquiatria da Infância e da Adolescência,
Chefe do Serviço de Psiquiatria Infantil,
Hospital La Milétrie à Poitiers

Alain Braconnier
Psiquiatra. Psicanalista do Centro Philippe-Paumelle, Paris

Apresentação
D. Widlöcher

6a edição

Tradução:
Fátima Murad

Supervisão, consultoria e revisão técnica desta edição:


Norma U. Escosteguy
Psiquiatra. Psiquiatra Infantil: Assistente estrangeiro em Bobigny (Paris XIII).
Docente em Psiquiatria na FAMED – PUCRS.
Professora e supervisora no Centro de Estudos, Atendimento e Pesquisa
da Infância e Adolescência (CEAPIA).

Versão impressa
desta obra: 2007

2007
Obra originalmente publicada sob o título Adolescence et psychopathologie, 6emme édition

© Elsevier, Paris, 1983, 2004. Todos os direitos reservados.

ISBN 2-294-01406-5

Capa: Tatiana Sperhacke

Preparação do original: Alexandre Muller Ribeiro

Leitura final: Rubia Minozzo

Supervisão editorial: Mônica Ballejo Canto

Editoração eletrônica: Laser House

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


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Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
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É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,


sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
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SÃO PAULO
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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Apresentação

A obra que nos propõem D. Marcelli e A.


Braconnier apresenta-se como um traba-
lho de síntese e de atualidade. Ela nos oferece
de referência. Sem dúvida, esse problema não é
próprio a essa etapa da existência. Contudo, ele
se reveste de uma acuidade especial em razão
um quadro de conjunto da psicopatologia do da incidência particular da maturação biológi-
adolescente levando em conta as contribuições ca e das interações sociais, em uma idade em
mais recentes. O que impressiona de imediato que já se constituem organizações patológicas
na leitura é que em um âmbito onde tantas coi- relativamente estáveis. Já não se pode dar tanta
sas foram ditas, e freqüentemente bem ditas, os prioridade aos problemas de desenvolvimento,
autores evitam os lugares-comuns e as banali- como na criança. Não se pode tampouco tomar
dades. Nós os lemos com tanto mais prazer e como base apenas os quadros nosográficos da
interesse na medida em que eles, atribuindo um idade adulta. Nesse sentido, a dificuldade é sa-
justo valor às idéias e aos conhecimentos ad- lutar, pois ela nos protege de comodidades de
quiridos de longa data, os apresentam sob uma pensamento que, às vezes, obliteram a reflexão
nova luz, integrando-os a reflexões e a indaga- sobre a psicopatologia tanto na criança quanto
ções contemporâneas. no adulto.
O interesse prático da obra é evidente. Ao Os autores têm razão em chamar a atenção
balanço dos conhecimentos, eles somam a ex- para a dificuldade particular de estabelecer os
periência e a reflexão concreta de homens de limites do normal e do patológico. Na adoles-
ação. Encontramos em cada página a observa- cência, mais do que em qualquer outra idade, a
ção prática ou o julgamento de bom senso que gravidade das conseqüências práticas de condu-
testemunham. Vale mencionar o interesse mui- tas não depende apenas da organização da per-
to particular do capítulo consagrado “ao adoles- sonalidade. Aliás, a noção de crise não é sufi-
cente e ao direito”, escrito por M. Chadeville- ciente para explicar essa defasagem. Temos de ir
Prigent, juíza da infância. mais longe na reflexão sobre a noção de condu-
Contudo, esse interesse prático é reforçado ta. A marginalidade social caracteriza em parte
por um interesse teórico. Trata-se de uma refle- o status da adolescência, pelo menos em nossas
xão de conjunto sobre a psicopatologia da ado- sociedades. Assim, o extremismo de certas con-
lescência. A dificuldade aqui é conciliar a coe- dutas é facilitado, sem conservar qualquer cor-
rência do conjunto e a diversidade de sistemas respondência com a importância da alteração
vi APRESENTAÇÃO

do funcionamento mental ou das relações fami- de de intenções explica que a mesma conduta
liares. A facilidade da atuação é um outro fator possa inserir-se em seqüências diferentes. Se
igualmente destacado por numerosos autores. estivesse ligada ao mero interesse pela obra, a
Mas a grande maioria costuma limitar-se a ex- redação desta apresentação se encerraria em si
plicar as causas sociais dessa marginalidade ou mesma. Estando ligada às relações com os auto-
as razões psicológicas dessa tendência à atuação res, ela prosseguirá em outras atividades. Estan-
sem procurar descrever as particularidades desse do ligada a certas idéias aqui desenvolvidas, ela
“agir” tão específico da adolescência. Uma das talvez se prolongue em outros escritos. É nesse
originalidades da presente obra é a de desenvol- sentido, em razão de seu caráter polissêmico,
ver uma reflexão aprofundada sobre essas par- que a mesma conduta pode ser interpretada em
ticularidades, mediante o estudo de condutas relação a diferentes sistemas de ação.
patológicas. Prova disso são, especialmente, os Os sintomas observáveis no adulto caracteri-
estudos sobre a pluralidade das abordagens teó- zam-se, naturalmente, por seu caráter polissêmi-
ricas, sobre o equilíbrio ou o desequilíbrio entre co, mas também pelo fato de que as seqüências
a ação e a mentalização, sobre a articulação de nas quais eles estão envolvidos mudam rapida-
estruturas patológicas. mente. A idéia obsessiva, por mais ricas que se-
O inconveniente do termo “conduta” é que jam suas significações, esgota-se por si mesma ou
ele é tomado com muita freqüência no sentido com as medidas defensivas que ela cria. D. Mar-
“behaviorista”. A conduta é concebida como celli e A. Braconnier insistem com muita per-
um objeto de conhecimento específico, ou seja, tinência no fato de que o adolescente exposto
o comportamento do sujeito em uma situação à depressão luta contra ela entregando-se a uma
determinada. Uma perspectiva demasiado posi- hiperatividade. Mas essa hiperatividade não é
tivista induz a classificar esses comportamentos produtiva. Não significa um envolvimento em
em função de seus traços observáveis, a buscar numerosos empreendimentos a longo prazo. Ela
sua origem e sua finalidade como se eles fossem é desordenada e não tem outro objetivo a não ser
objetos naturais que pudessem ser vistos pelo sua própria realização. É nesse sentido que po-
observador. Para escapar a essa perspectiva, o demos falar de um sistema fechado em oposição
clínico é tentado a refugiar-se em uma observa- aos sistemas abertos que caracterizam a atividade
ção global e empática da “vivência” do sujeito. “normal”.
Essa alternativa está ligada antes de tudo à visão Podemos nos perguntar se uma das particu-
“objetiva” demais que se tem da conduta. Todo laridades do “agir” no caso do adolescente, ao
ato, quer se trate de um ato observável, de uma contrário do adulto, não tem a ver justamente
palavra ou de uma atividade de pensamento, só com a pobreza da polissemia de seus atos e com
é interpretável em função da maneira como o o caráter quase sempre fechado dos sistemas de
observador o isola no interior de um continuum ação em que está envolvido. Na criança, o brin-
de atividade. Esta é objetivada na relação com car oferece uma oportunidade privilegiada de
duas cadeias integrativas. Uma corresponde à atividade fortemente polissêmica. O adolescente
pluralidade de suas significações (ou intenções), não aposta muito nessa polissemia da ação. Ao
enquanto a outra corresponde à seqüência de contrário, ele se envolve em uma diversidade de
atos em que ele se insere. É raro que um ato te- ações heterogêneas e diversificadas para realizar
nha apenas uma significação. A psicanálise per- os objetivos a que se propõe. Isso é muito visível
mitiu-nos descobrir a sobredeterminação. Esta no âmbito da sexualidade, onde as ações que ca-
não se aplica apenas aos sintomas neuróticos. racterizam o estabelecimento de uma relação se-
Ao contrário, os atos mais normais da existên- xual genital com outro se justapõem àquelas que
cia são os mais sobredeterminados, na medida caracterizam as relações parciais pré-edipianas.
em que cada um deles está envolvido em uma Uma das tarefas que lhe cabe é a de desenvolver
pluralidade de finalidades distintas. Ao escrever ações cada vez mais polissêmicas e melhor inte-
estas linhas, testemunho minha estima e minha gradas em sistemas amplamente abertos.
amizade para com os autores, atendo a seu con- São precisamente as dificuldades que ele
vite, marco meu interesse por certas idéias que encontra no cumprimento dessa tarefa que
eles expressam, tiro partido destas para desen- marcam sua patologia. Esta consiste, de fato,
volver as que me são caras, etc. Essa pluralida- na fragmentação das ações a que ele está ex-
APRESENTAÇÃO vii

posto. Envolvido em sistemas de ações pouco clínico sabe disto muito bem, mas tem dificul-
sobredeterminados, ele apresenta freqüente- dade de comprová-lo na prática. De fato, ele
mente o espetáculo da incoerência, do extre- raramente tem oportunidade de ser o observa-
mo investimento de sistemas de ações fecha- dor atento e não envolvido, capaz de estudar
dos, quando não de um estado pré-dissociativo. esses processos de mudança. Normalmente, ele
A vivacidade das atuações, as dificuldades de é consultado em situação de crise, solicitado a
mentalização, a importância dos mecanismos intervir sob o signo da urgência e chamado a
de clivagem são expressões disso que os autores tomar decisões a curto prazo. Contudo, é indis-
descrevem tão bem. pensável que, sem renunciar às suas obrigações
Eis algumas reflexões que inspiram a lei- práticas, ele avalie sua dimensão e defina seu
tura desta obra. Como veremos, elas fazem lugar em uma evolução que se dará em alguns
eco a numerosas análises psicopatológicas que anos. O grande objetivo deste livro parece ser
a balizam. De maneira mais geral, uma das o de relembrar e ilustrar a necessidade desse
particularidades da adolescência, e esse é um duplo procedimento, ou, pelo menos, é isso o
dos lugares-comuns mencionados no início, é que ele faz extremamente bem.
apresentar em poucos anos importantes mu-
danças no modo de funcionamento mental. O D. WIDLÖCHER
Prefácio à 6ª Edição

D esde a primeira edição desta obra em 1981,


cada nova edição apresenta modificações
conseqüentes. Esta sexta edição não foge à re-
Contudo, esse conhecimento epidemioló-
gico não deve fazer esquecer, em face do ado-
lescente e de seus pais, todas as aquisições da
gra, e assim, embora conserve a arquitetura do abordagem psicopatológica individual e fami-
conjunto da primeira edição, a presente obra é liar. Uma outra evolução importante diz res-
sensivelmente modificada graças ao novo con- peito justamente ao papel dos pais na consulta
teúdo dos diferentes capítulos. do adolescente. Isso também é tratado ao longo
Há mais de vinte anos, a psicopatologia do desta obra, particularmente na última parte, re-
adolescente passou a ocupar um lugar impor- ferente à abordagem terapêutica.
tante no campo da psicologia e da psiquiatria: Nesse processo, vários capítulos passaram
os clínicos e os terapeutas especializados nas por uma completa reestruturação e na maioria
questões apresentadas pelos adolescentes de dos casos foram ampliados, e outros foram in-
hoje se multiplicaram. Numerosas estruturas de cluídos. Assim, para esta 6ª edição, pareceu-nos
acolhimento e de cuidados reservados aos ado- indispensável tratar à parte, em um capítulo
lescentes foram criadas. claramente identificado, os suicídios e tentati-
Os modelos psicopatológicos evoluíram, as vas de suicídio, que se segue naturalmente ao
práticas clínicas se modificaram. Elas se apoia- capítulo sobre a depressão.
ram em um conhecimento cada vez mais fino Os autores esperam que, mantendo sua
da complexidade e das interações entre os múl- coerência de conjunto, as edições sucessivas e
tiplos fatores de risco, de vulnerabilidade, mas particularmente esta 6a edição proporcionem
também de defesa, de coping e de resiliência. ao leitor uma obra constantemente atuali-
Os estudos de epidemiologia clínica, não zada, levando em conta os dados científicos
apenas descritivos, mas também analíticos, mais recentes.
contribuíram para esse conhecimento. Um ca-
pítulo desta obra é dedicado a isso e numerosas
referências percorrem os outros capítulos. Daniel Marcelli e Alain Braconnier
Prefácio da 5ª Edição

E sta obra foi escrita no mesmo espírito que o


compêndio Psychopatologie de l’enfant, cujo
quadro geral é retomado aqui. Os autores con-
da adolescência, que o clínico ou o pesquisador
utilize, às vezes de forma explícita, mas em ge-
ral de forma implícita, um único modelo para
servaram intencionalmente a divisão em cinco explicar e compreender as condutas do ado-
grandes partes – generalidades, estudo de con- lescente. O objetivo desse primeiro capítulo é
dutas, agrupamentos nosográficos, influência explicitar os principais modelos adotados pelo
do ambiente, orientações terapêuticas –, não clínico, procurando avaliar sua antinomia ou
apenas para marcar a continuidade entre a psi- sua interferência, pois, como esclarece bem
copatologia da criança e a do adolescente, mas D. Widlöcher (1983), “a interdisciplinaridade
também porque a clareza dessa apresentação explicativa aplicada ao estudo psicológico das
teve uma acolhida muito favorável de leitores, ações, isto é, o confronto de diferentes sistemas
professores, estudantes e clínicos diversos. explicativos para um mesmo conjunto de ações,
Assim, a obra Adolescência e psicopatologia repousa sobre a interferência de modelos”. O
compreende cinco grandes partes. A primeira capítulo seguinte tenta descrever as particula-
parte inicia com um capítulo, essencial con- ridades da interação clínica com o adolescente
forme os autores, consagrado aos “modelos de e sua família por meio das primeiras entrevis-
compreensão” para a adolescência. A ambição tas e do balanço psicológico. Dedicou-se uma
de um tal capítulo não é proporcionar todos os atenção muito particular ao conceito de “crise
conhecimentos sobre a fisiologia pubertária, a de adolescência”, que é objeto de um capítulo à
compreensão sociológica e cultural da adoles- parte, onde são retomados as origens históricas
cência e a contribuição da psicanálise ou da do termo e os diversos quadros clínicos descritos
epistemologia genérica (várias obras não se- por certos autores; esse capítulo termina com
riam suficientes para isso!), mas mostrar como a uma crítica do conceito de crise em oposição
compreensão teórica e, sobretudo, a abordagem ao conceito de processo, e com uma discussão
clínica e terapêutica do adolescente se nutrem sobre o normal e o patológico na adolescência.
permanentemente desses diversos modelos, A segunda parte é consagrada ao estudo de
ainda que muitas vezes seja difícil conciliar seus condutas, que agrupamos em quatro grandes
respectivos campos de pertinência e de valida- capítulos: um capítulo consagrado ao vasto pro-
de. De fato, é bastante comum, em se tratando blema do agir e de diversas passagens ao ato do
xii PREFÁCIO DA 5ª EDIÇÃO

adolescente, capítulo que inclui o estudo de ten- adolescência e a sintomatologia dos estados-li-
tativas de suicídio nessa faixa etária; um capítu- mite do adulto. O estudo das condutas psicopá-
lo consagrado às condutas centradas no corpo, ticas e das toxicomanias precede um breve capí-
em particular as condutas alimentares, entre as tulo sobre o consumo de álcool na adolescência,
quais a anorexia mental, e as condutas de sono capítulo que nos pareceu mais adequado tratar
e de adormecimento; um capítulo consagrado à parte, em razão de seu crescimento atual, de
às condutas internas de mentalização, onde se suas particularidades clínicas nessa idade e de
analisam as questões como as angústias hipo- suas evidentes implicações sociológicas.
condríacas, as dismorfofobias, a timidez ou a ini- A quarta parte aborda o estudo do adoles-
bição em suas relações com o período específico cente e de seu ambiente depois de ter circuns-
da adolescência; finalmente, um capítulo consa- crito as noções de patologia situacional e de
grado à sexualidade e às condutas sexuais encer- fatores de risco. Temos um capítulo dedicado à
ra essa parte, pois, segundo os autores, a partir da análise das relações entre o adolescente e sua
sexualidade e das condutas sexuais fantasiadas família, centradas na noção de crise familiar ou
ou praticadas, pode-se observar a harmonização, de crise parental, mas abordando também as
ou não, das três condutas anteriores centradas interações patológicas onde dominam os meca-
no agir, no corpo e na mentalização. nismos de projeção e de identificação projetiva.
A terceira parte, mais tradicional, com- Algumas situações particulares são detalhadas:
preende o estudo dos grandes agrupamentos adolescente adotado, adolescente e divórcio
nosográficos. Entretanto, todos esses capítulos dos pais, adolescente filho único. O capítulo
têm como objetivo essencial mostrar como a seguinte trata das dificuldades escolares na ado-
crise ou o processo da adolescência colore a ex- lescência, dando uma atenção particular à pas-
pressão sintomática ou suscita particularidades sagem da escola ao trabalho e às conseqüências
estruturais. É por isso que esses capítulos não do freqüente desemprego sobre o adolescen-
são, como acontece com bastante freqüência, te. Alguns problemas de patologias somáticas
uma simples duplicação daquilo que se pode ler (atrasos pubertários, patologias crônicas como
sobre a psicopatologia da criança ou do adulto. diabetes, insuficiência renal crônica, hemofilia)
Assim, o problema da depressão está centrado e a evolução na adolescência de encefalopatias
no problema do processo de luto descrito por infantis são abordados na seqüência. Um bre-
muitos autores como o processo essencial des- ve capítulo sobre o adolescente e as estruturas
sa idade, e na sua articulação com a clínica da sociais tem como objetivo esclarecer as noções
depressão. O capítulo sobre a neurose indaga- de marginalidade e de espaço social, e dedica-se
se sobre o lugar de uma tal entidade à luz das também a analisar as interações entre a situação
noções de “a posteriori”* e de “ideal do eu” tão do adolescente migrante e o processo psíquico
presentes na adolescência. O capítulo sobre os próprio a essa idade. Essa parte é concluída com
diferentes estados psicóticos tenta articular as um capítulo original sobre o “direito na adoles-
manifestações clínicas observadas com os pro- cência”, escrito por um magistrado que nos pro-
blemas-chave da adolescência sobre o corpo, a porciona informações úteis, condensadas e, na
identidade, o equilíbrio entre investimento de nossa opinião, preciosas.
objeto e investimento narcisístico. Os três capí- Finalmente, a quinta parte é consagrada às
tulos seguintes abordam agrupamentos contes- diversas abordagens terapêuticas. Assim como
tados ou que, pelo menos, só se tornam com- na parte introdutória, não tínhamos a pretensão
preensíveis levando-se em conta os modelos de ser exaustivos: nossa meta foi mostrar como
teóricos utilizados. A noção de estado-limite** certas abordagens terapêuticas devem levar em
na adolescência é indissociável do modelo ana- conta o processo da adolescência ou, inversa-
lítico: a extensão atual desse quadro “nosográ- mente, como as particularidades desse processo
fico” é discutida aproximando-se o processo da tornam tal abordagem particularmente fecun-
da. São estudados sucessivamente o problema
* N. de R. “Aprés coup já é um termo normal; “a poste-
da psicanálise, suas modalidades, suas indica-
riori” é uma tradução em legenda-padrão. ções, as psicoterapias de tipo analítico, as psi-
** N. de R. Termo equivalente a “fronteiriço” ou “bor- coterapias breves, as terapias familiares, as te-
derline”. rapias de grupo e as terapias institucionais. Um
PREFÁCIO DA 5ª EDIÇÃO xiii

item sucinto procura delimitar a utilização de como a menina. Quando necessário, o sexo é
medicamentos psicotrópicos na adolescência, designado explicitamente.
mostrando, sobretudo, as inúmeras vicissitudes Os autores agradecem ao professor J.E.
de uma tal utilização nessa idade. Toublanc, a M. Chadeville-Prigent e a N.
Para não tornar o texto pesado e para evi- Duplant que aceitaram colaborar na redação
tar as repetições, fizemos várias remissões à de alguns capítulos.
própria obra assim como a Enfance et psycho- Os autores devem agradecer ainda ao pro-
pathologie. Contudo, a intenção dos autores é fessor J. de Ajuriaguerra, sob a tutela do qual um
que esta obra constitua um todo em si mesma: deles já havia redigido Enfance et psychopatholo-
ela não requer a leitura e/ou o conhecimento gie, e que, novamente, nos exortou e nos deu o
prévio da psicopatologia da criança, embora estímulo necessário para a redação da presente
isso seja altamente desejável quando se abor- obra. Agradecem também a Catherine Marcelli
da a psicopatologia do adolescente. Para con- que, mais uma vez, assegurou o essencial do tra-
cluir, esclarecemos que a palavra “adolescente” balho de secretariado com o devotamento e o
que aparece no texto designa tanto o menino bom humor de sempre.
Sumário

Apresentação .................................................... v Epidemiologia e cuidado individual ................ 74


Prefácio à 6ª Edição ........................................... ix As variáveis pertinentes e discriminantes .......... 75
Grupo sem problemas, grupo com problemas ... 76
Prefácio da 5ª Edição ......................................... xi
5. O Problema do Agir e da Passagem ao Ato .. 80
Introdução.................................................... 80
PRIMEIRA PARTE Fugas e errâncias.......................................... 86
OS MODELOS DE COMPREENSÃO O furto ........................................................ 89
DA ADOLESCÊNCIA A violência na adolescência ........................... 91

1. Os Modelos de Compreensão.................... 19 6. Psicopatologia das Condutas Centradas


Introdução.................................................... 19 no Corpo ............................................. 101
O modelo fisiológico: bases fisiológicas das O problema do corpo no adolescente ........... 101
transformações da adolescência ................... 20 Perturbações das condutas alimentares .......... 105
O modelo sociológico ................................... 23 O sono, seus transtornos, sua psicopatologia ... 126
O modelo psicanalítico .................................. 26
O modelo cognitivo e educativo ..................... 35 7. A Sexualidade e seus Transtornos ............ 133
Um modelo para o psiquismo ......................... 38 Dados quantitativos e epidemiológicos .......... 134
O desenvolvimento psicossexual na
2. A Adolescência: Agrupamentos Conceituais .. 41 adolescência ............................................ 136
Agrupamento de dominante estrutural ............. 41
Psicopatologia das principais condutas sexuais .. 142
Agrupamentos de dominante desenvolvimental ... 53
Atitudes dos pais......................................... 149
O normal e o patológico na adolescência........ 55
Gravidez na adolescência ........................... 150
3. A Entrevista com o Adolescente ................. 58
Princípios e objetivos das primeiras entrevistas ... 58
As primeiras entrevistas: conselhos práticos ...... 61
TERCEIRA PARTE
O exame psicológico na adolescência ............ 64 OS GRANDES AGRUPAMENTOS
NOSOGRÁFICOS
SEGUNDA PARTE 8. Estados Ansiosos e Neurose: Crítica
ESTUDO PSICOPATOLÓGICO DAS CONDUTAS de Conceitos ........................................ 157
A angústia ................................................. 157
4. Epidemiologia das Condutas ..................... 73 As condutas neuróticas ................................ 162
Epidemiologia e saúde pública ....................... 73 O conceito de neurose................................. 174
16 SUMÁRIO

9. O Problema da Depressão ...................... 181 16. O Adolescente e sua Família ................... 301
Revisão geral: luto e depressão .................... 182 O conflito entre pais e adolescentes .............. 301
A adolescência: luto ou depressão ................ 184 Situações particulares .................................. 309
Clínica....................................................... 187
17. A Escolaridade na Adolescência .............. 316
10. As Tentativas de Suicídio ......................... 195 Introdução.................................................. 316
Definição ................................................... 195 A escolaridade ........................................... 316
Os óbitos por suicídio.................................. 195 Estudo clínico ............................................. 319
As tentativas de suicídio: estudos Da escola ao trabalho ................................. 330
epidemiológicos ....................................... 196
Clínica da tentativa de suicídio ..................... 198 18. O Adolescente e o Mundo Médico ........... 337
Tentativa de suicídio e diagnóstico Adolescência e atraso pubertário .................. 337
associado (co-morbidade) .......................... 200 A adolescência da criança doente ................ 339
Abordagem psicopatológica ........................ 204 Adolescência e deficiência mental ................ 352
O prognóstico das tentativas de suicídio ........ 209
A abordagem terapêutica ............................ 212
19. O Adolescente e sua Inserção Social ........ 356
O desemprego ........................................... 356
11. Os Diferentes Estados Psicóticos ............... 220 O adolescente migrante ............................... 357
A esquizofrenia .......................................... 222 A marginalidade......................................... 360
Os acessos delirantes agudos ....................... 226 A delinqüência ........................................... 362
Estados psicóticos característicos da
adolescência ............................................ 228
20. O Adolescente e o Direito: Algumas
As formas particulares ................................. 231 Situações Médico-Legais ....................... 364
Abordagem genética e hipóteses de O adolescente e sua família ......................... 364
predominância orgânica ............................ 233 O adolescente e a sociedade ....................... 370
A abordagem sistêmica familiar.................... 235 Situações médico-legais ............................... 376
A abordagem psicanalítica .......................... 236
Os objetivos da intervenção precoce ............. 239
QUINTA PARTE
12. A Noção de Estados-Limite (Borderline) .... 242 A TERAPÊUTICA
Pontos comuns entre o processo da
adolescência e os estados-limite .................. 243 21. Prevenção e Acolhimento ........................ 387
Sintomatologia clínica ................................. 245 A prevenção na adolescência ...................... 387
O contexto familiar ..................................... 245 Por uma detecção dos riscos? ....................... 389
A abordagem psicopatológica ..................... 246 Escuta e acolhimento ................................... 392
As hipóteses ontogenéticas........................... 249
Proposições terapêuticas .............................. 250 22. A Consulta Terapêutica ........................... 396
Conclusão .................................................. 251 As entrevistas de avaliação-consultas
terapêuticas.............................................. 396
13. As Condutas Psicopáticas ........................ 253
A aliança terapêutica consultante-
Revisão histórica ......................................... 253 adolescente-genitor ................................... 401
Estudo clínico ............................................. 256 A observância terapêutica ........................... 405
Abordagem psicopatológica ........................ 260
As hipóteses etiológicas ............................... 262 23. As Escolhas Terapêuticas ......................... 409
Abordagem terapêutica ............................... 265 O adolescente e a psicanálise ...................... 409
As terapias familiares .................................. 415
14. Dependências ........................................ 267
As psicoterapias de grupo na adolescência ... 420
Clínica....................................................... 268 A utilização de psicotrópicos no adolescente ... 425
As abordagens explicativas.......................... 273 O cuidado hospitalar ou institucional............. 427
Epidemiologia ............................................ 274
A toxicomania ............................................ 277 Índice ............................................................ 437
O consumo de álcool .................................. 289

QUARTA PARTE
O ADOLESCENTE EM SEU AMBIENTE
15. Introdução ao Estudo do Adolescente
em seu Ambiente .................................. 297
Os fatores psicopatológicos particulares ........ 299
Os fatores de risco gerais ............................ 299
Os fatores facilitadores ou fatores de
incitação .................................................. 299
PRIMEIRA PARTE

OS MODELOS DE
COMPREENSÃO DA
ADOLESCÊNCIA
1
Os Modelos de Compreensão

INTRODUÇÃO de avaliação das condutas deste. Inversamen-


te, em uma tentativa de apreender o processo
em curso, o clínico pode adotar um modelo de
A adolescência é a idade da mudança, compreensão, dando um sentido a essas múlti-
como indica a etimologia da palavra: adolescere plas condutas, mas, nesse caso, corre o risco de
significa “crescer” em latim. Entre a infância e cair no formalismo, na teorização artificial, pro-
a idade adulta, a adolescência é uma passagem. curando incluir o conjunto de “sintomas” que
Como assinala Évelyne Kestemberg, costuma- todo adolescente pode apresentar em um qua-
se dizer erroneamente que o adolescente é ao dro que logo se revela arbitrário e artificial.
mesmo tempo uma criança e um adulto; na rea- Essa alternância entre, por um lado, limi-
lidade, ele não é mais uma criança e ainda não tar-se a um acompanhamento empático, renun-
é um adulto. Esse duplo movimento, negação ciando a qualquer compreensão ou avaliação, e,
de sua infância, de um lado, busca de um sta- por outro, formalizar ao extremo todas as con-
tus mais estável, de outro, constitui a própria dutas do adolescente para ajustá-lo a um quadro
essência da “crise”, do “processo psíquico” que conceitual único deve ser superada. Mais do que
todo adolescente atravessa. qualquer outra idade da vida, o adolescente con-
Compreender esse período transitório, des- fronta o clínico com os modelos que este utiliza,
crever as linhas de força em torno das quais obrigando-o a um reexame constante para ava-
essa transformação psíquica e corporal, pouco liar a pertinência de tal modelo em cada caso:
a pouco, se ordenará constitui uma tarefa árdua esse vai-e-vem entre a prática e a teoria, essa re-
e perigosa. Em face das incessantes mudanças, avaliação permanente e necessária constituem
das múltiplas rupturas, dos inúmeros parado- a riqueza da prática clínica da psicopatologia do
xos que movem todo o adolescente, o próprio adolescente. Por essa razão, consideramos parti-
clínico corre o risco de ser tentado a assumir cularmente apropriada à adolescência a seguin-
diversas atitudes: ele pode se deixar levar por te observação de B. Brusset:
uma espécie de fatalismo, limitar-se a “seguir”,
a “acompanhar” o adolescente, renunciando, Sem dúvida, é preciso ter em mente a
pelo menos por um tempo, a qualquer com- impossibilidade de ordenar todos os fatos psi-
preensão e, sobretudo, a qualquer possibilidade quiátricos em um mesmo sistema que lhe da-
20 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

ria ao mesmo tempo uma classificação lógica colha da resposta terapêutica mais adequada. O
e uma teoria unificadora; por maiores que se- objetivo deste primeiro capítulo é dar uma idéia
jam sua sedução intelectual e seu valor peda- geral, necessariamente concisa, desses diversos
gógico, as tentativas de compreender toda a modelos. Nossa preocupação foi articular o má-
psicopatologia em função de um mesmo pa- ximo possível a descrição desses modelos com os
râmetro podem justificadamente malograr.
estados psicopatológicos nos quais eles parecem
particularmente pertinentes: isso explica as vá-
A primeira parte desta obra é consagrada rias remissões aos capítulos posteriores.
precisamente a esses diversos modelos de com-
preensão e aos grandes quadros conceituais que
tentaram apreender ou teorizar as alterações ca-
racterísticas dessa idade da vida. Pode-se con- O MODELO FISIOLÓGICO:
siderar que essas teorizações articulam-se em BASES FISIOLÓGICAS DAS
torno de quatro modelos principais: 1) o modelo
fisiológico, com a crise pubertária, as alterações TRANSFORMAÇÕES DA
somáticas subseqüentes, a emergência da matu- ADOLESCÊNCIA1
ridade genital e as tensões que resultam disso;
2) o modelo sociológico e ambiental, que põe
em relevo o papel essencial desempenhado pelo A diferenciação sexual pubertária, que trans-
ambiente na evolução do adolescente: o lugar forma tão profundamente as crianças em adoles-
que cada cultura reserva à adolescência, os espa- centes, é o resultado de uma reação em cadeia
ços que cada subgrupo social concede ao adoles- cuja cronologia é a seguinte: primeiro, uma se-
cente e, finalmente, as relações entre o adoles- creção hipotalâmica que, por seu ritmo, causa
cente e seus pais são elementos determinantes; uma secreção hipofisária de gonadotrofinas, que,
3) o modelo psicanalítico, que dá conta dos também seguindo um ritmo particular, causa uma
secreção gonádica. Esta última, após um certo
remanejamentos identificatórios, das mudanças
tempo, modula as modificações morfológicas pe-
nas ligações com os objetos edipianos e da in-
riféricas dos receptores. Um tal mecanismo pode
tegração na personalidade da pulsão genital; 4)
sofrer avarias que explicam as numerosas situa-
os modelos cognitivo e educativo, que abordam
ções patológicas relacionadas com o desenvolvi-
as modificações profundas da função cognitiva, mento pubertário. Esse desenvolvimento ocorre,
o desenvolvimento notável da capacidade inte- em média, a uma data fixa: 10 anos e meio/11
lectual, quando não há entraves, com as apren- anos na menina, 12 anos e meio/13 anos no me-
dizagens sociais múltiplas que ela possibilita. nino, mas, nos casos-limite esses dados cronoló-
Essa ordem de apresentação não implica a gicos devem ser concebidos como idade fisioló-
primazia de um modelo sobre os demais, porém, gica e óssea, e não como idade real, a partir do
do nosso ponto de vista, ainda que estritamente momento em que existe uma defasagem entre a
individual e intrapsíquico, o modelo psicanalí- entrada na puberdade e a idade real.
tico é condicionado, em parte, pelos modelos
fisiológico e sociológico, ao mesmo tempo em
que revela com toda veemência que esses dois
modelos estão muito longe de ser suficientes A Puberdade da Menina
para dar conta do conjunto de fatos observados
na adolescência. O desenvolvimento pubertário da menina
Na prática clínica, a interação e o entrelaça- é misto: ele realiza a associação de sinais estro-
mento desses diversos modelos de compreensão gênicos e androgênicos.
constituem a regra, mas um pode ter mais peso
que outro no determinismo desta ou daquela
conduta, na aparição deste ou daquele tipo de Os sinais de impregnação estrogênica.
patologia. Essas indagações não são puramente – Sob a influência dos estrógenos, o primeiro
explicativas, pois, a nosso ver, poder determinar
o eixo que parece predominante influi em segui- 1
Item redigido por J.E. TOUBLANC, professor titular
da na própria avaliação psicopatológica e na es- de Pediatria, hospital Saint-Vicent-de-Paul, Paris.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 21

sinal é o aparecimento de um nódulo sensível, marca as menstruações seguintes. Durante me-


seguido do aumento de tamanho da aréola com ses, ou mesmo anos, existem ciclos sem altera-
modificação desta: aumento de volume do seio ção térmica, ciclos anovulatórios ou ovulatórios
por hipertrofia glandular e do tecido conjuntivo com insuficiência do corpo-amarelo, cuja tradu-
que o circunda. Em um período de dois a três ção clínica são regras abundantes, irregulares e
anos atinge-se um desenvolvimento completo. dolorosas. Apenas os primeiros ciclos regulares
Aparecem modificações vulvares: a direção e normais marcam realmente a entrada na vida
do orifício torna-se horizontal, a mucosa muda ginecológica adulta.
de cor: de violácea, torna-se rosa; e de aspecto:
de seca, torna-se úmida; às vezes ela é a sede de
Evolução biológica. – O início biológico da
uma leucorréia. Os pequenos lábios se desen-
puberdade é marcado pelo início da secreção go-
volvem e se colorem.
nadotrópica que, por sua vez, é induzida pela se-
creção pulsátil de LH-RH elaborada pelo núcleo
Os sinais androgênicos. – Eles estão sob arqueado do hipotálamo. O hormônio folículo-
a dependência de andrógenos supra-renais e estimulante (FSH) começa a funcionar por volta
principalmente ovarianos. A pilosidade pubia- dos 11 anos e atinge um patamar em dois anos.
na aparece em média seis meses após o início do O hormônio luteinizante (LH) é secretado sob
desenvolvimento mamário, mas isso não é ab- forma de “pulsos” que se tornam amplos e fre-
soluto. Ela atinge primeiramente o púbis, esten- qüentes, induzindo assim a secreção ovariana.
de-se lateralmente aos grandes lábios e às raízes Por ocasião do sono profundo, observa-se um
das coxas, depois à parte inferior do abdômen pico de LH, o que explica uma taxa de LH niti-
com um limite superior horizontal. A pilosida- damente mais elevada de noite do que de dia.
de adulta é atingida em dois anos. A pilosidade Uma longa maturação do hipotálamo faz
axilar aparece na metade da puberdade e se de- surgir o retrocontrole positivo, isto é, a possi-
senvolve entre dois e três anos. bilidade de taxas elevadas de estradiol causa-
Os grandes lábios hipertrofiam-se, pigmen- rem um pico secretório de LH que, por sua vez,
tam-se e se cobrem de pêlos. causará a ovulação. Este mecanismo só funcio-
A acne, complicação verdadeira da puber- na corretamente vários anos após as primeiras
dade, está sob a dependência desses mesmos menstruações.
andrógenos. As secreções ovarianas aparecem em segui-
da: o aumento progressivo de estrógenos pro-
duz-se no início da puberdade, e posteriormente
O impulso do crescimento. – Reflexo
torna-se mais importante na metade dessa fase.
da ação de hormônios sobre os ossos, ele é de
No fim da puberdade, existem grandes varia-
7,5cm no primeiro ano e de 5,5cm no segundo
ções individuais das taxas plasmáticas em rela-
ano. No ano em que o crescimento é máximo, o
ção ao início da atividade cíclica. A progestero-
ganho em estatura atinge de 6 a 11cm.
na, testemunho da secreção do corpo-amarelo,
portanto da ovulação, só aparece muito depois
As menstruações. – A puberdade, no pla- das primeiras menstruações. As taxas se tornam
no fisiológico, termina com as primeiras mens- comparáveis às da mulher adulta somente em
truações (menarca): estas marcam efetivamen- quatro ou cinco anos. Os andrógenos, ligeira-
te, para o senso comum, a data da puberdade. mente aumentados desde a clássica puberdade
Essa primeira menstruação ocorre, em média, supra-renal (7 anos), aumentam ainda; porém,
após os primeiros sinais pubertários, ou seja, de forma moderada em condições normais.
por volta dos 12 anos e meio/13 anos. A data
da ocorrência em uma menina costuma ser cor-
relata à das mulheres da família (irmãs, mãe,
tias). À parte considerações do ambiente, exis-
A Puberdade do Menino
te um caráter familiar indiscutível.
Após a primeira menstruação, a maior ir- As transformações corporais. – Datada or-
regularidade de abundância e de periodicidade dinariamente pelos primeiros pêlos pubianos,
22 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

12 anos e meio/13 anos, a puberdade começa testosterona, embora no início da puberdade o


de fato por volta de 11 anos com o aumento de testículo seja suscetível de responder a um esti-
volume dos testículos, depois por modificações mulo “LH like” pela gonadotrofina coriônica,
dos órgãos genitais externos: aumento do tama- como um testículo púbere.
nho do pênis, aparecimento da veia dorsal do
pênis, pregueamento e pigmentação do escroto.
Os esteróides. – A testosterona começa a
Em seguida, a pilosidade aumenta lateralmente
se elevar por volta dos 10 anos e meio de ida-
na raiz das coxas e no escroto. O desenvolvi-
de óssea, antes dos primeiros sinais pubertários
mento prossegue e atinge o estágio adulto por
que ela prepara. Esse aumento é progressivo, vai
volta dos 16-18 anos. A pilosidade axilar ocor-
acompanhar a secreção de LH, e na metade da
re na metade da puberdade e desenvolve-se em
puberdade aparecerá um ciclo nictemeral de
dois a três anos. As pilosidades facial e torácica
testosterona. A taxa adulta é atingida em mé-
ocorrem por volta de 16-18 anos.
dia por volta dos 15 anos, enquanto o aumento
– As modificações mamárias não são ex- de outros andrógenos é menos acentuado após
cepcionais, pois em um a cada dois casos en- seu primeiro crescimento quando da puber-
contra-se uma intumescência mamária mais ou dade supra-renal. A secreção de estrógenos é
menos importante que retrocede por si mesma, menos importante que na menina no estágio
a não ser que tenha atingido de três a quatro pubertário equivalente. Contudo, a secreção de
centímetros: o tecido então permanece hiper- estradiol sob a influência da gonadotrofina só
trofiado e é preciso recorrer à cirurgia. aparece no início da puberdade; ela constitui a
– A acne, também aqui, é a verdadeira resposta imediata do testículo a essa mesma es-
complicação da puberdade. Ela está ligada à timulação no fim da puberdade.
transformação dos folículos pilossebáceos sob a
influência da diidrotestosterona.
– O ganho em estatura é, em média, de 8,5 As Variações Cronológicas
cm no primeiro ano e de 6,5 cm no segundo ano
da puberdade. No ano de crescimento máximo,
o ganho em estatura é de 7 a 12 cm. A silhueta Elas representam um dos elementos essen-
se modifica pelo alargamento principalmente ciais no conceito de desenvolvimento pubertário.
dos ombros. São ao mesmo tempo individuais e coletivas.
– A primeira ejaculação consciente é o si-
nal análogo às primeiras menstruações, e com- As variações individuais. – Os limites ex-
pleta simbolicamente a puberdade. Ela ocorre tremos (8-14 anos na menina, 10-16 anos no
por volta dos 15 anos, embora se possa eviden- menino) são apenas dados estatísticos que per-
ciar os primeiros espermatozóides por volta de mitem falar de adiantamento ou de atraso, mas
13 anos e meio. não significam necessariamente um desenvolvi-
mento anormal quando este se produz fora des-
Evolução Biológica se intervalo. Existem no intervalo comumente
admitido dados genéticos de adiantamento ou
As gonadotrofinas. – O aumento do FSH de atraso e dados do ambiente, como saúde, ali-
se dá por volta dos 12 anos com um aumento do mentação, exercício físico, nível socioeconô-
LH, que também apresenta um caráter pulsátil. mico, que influem na data da puberdade para
Ele provocará uma resposta testicular. Encon- mais ou para menos.
tram-se as mesmas modificações dinâmicas que As variações coletivas de adiantamento pu-
na menina: pico de sono, aparecimento de um bertário secular não deixam de criar um problema
retrocontrole positivo que permite aumentar de civilização. De fato, o adiantamento secular da
as concentrações de esteróides periféricos, sem data da puberdade forma pessoas jovens em uma
que para isso se detenham as gonadotrofinas. idade em que a atividade sexual é socialmente
Finalmente, o aparecimento dos primeiros pi- reprimida, ao passo que há alguns séculos o de-
cos de LH engendra uma maturação na glan- senvolvimento pubertário era muito mais tardio
de testicular da célula de Leydig, que secreta a e praticamente coincidia com o ingresso na vida
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 23

profissional. Assim, a título de exemplo, a data outro em um pequeno adulto, vestido como
das primeiras regras passou de 17 para 13 anos os homens ou como as mulheres, misturado
em pouco mais de um século tanto na Noruega a eles, sem qualquer outra diferença a não
como na França. Nos países de mesma cultura, ser o tamanho. É provável que nas nossas
sociedades do Ancien Régime as crianças en-
as diferenças são menos características: assim, em
trassem mais cedo na vida dos adultos do que
1976, a idade média de aparecimento das primei- nas sociedades primitivas. (P. Aries, 1969).
ras menstruações era de 12,5 anos na Alemanha,
de 12,8 anos na França, de 13 anos na Grã-Bre- Certos aspectos atuais poderiam ser vistos
tanha e de 13,4 anos na Suíça. A idade das pri- como um novo movimento histórico no senti-
meiras menstruações não tende a adiantar mais. do da extinção da adolescência:
Atualmente (1986), na França, há uma estabili-
zação nos 13 anos. Portanto, a idade das primei- A defasagem que existe entre os jovens
ras menstruações hoje é mais precoce, enquanto e os menos jovens tende a se reduzir, e isso
que a idade média de ingresso na vida profissional graças aos movimentos dos anos 1960. De
tende a ser cada vez mais elevada: pode-se dizer fato, a cultura original reivindicada pelos jo-
que a evolução fisiológica vai no sentido oposto à vens ao longo da última década já faz parte
evolução social, o que leva a estender ao extremo do patrimônio de todas as gerações: a liber-
o período da adolescência. dade sexual, o direito à palavra, as formas de
expressão nas quais a vida privada e a vida
política se mesclam profundamente são va-
lores reconhecidos por todos hoje. (Confe-
O MODELO SOCIOLÓGICO rência Geral da Unesco, 21ª seção, 1981)

Os sociólogos estudam a adolescência de


um duplo ponto de vista: o de um período de
Abordagem Cultural
inserção na vida social adulta e o de um grupo
social com suas características socioculturais A abordagem cultural é, sem dúvida, a mais
particulares. Assim, segundo as épocas, segundo convincente para sustentar a tese de que a ado-
as culturas, segundo os meios sociais, a adoles- lescência não é um fenômeno universal. Os tra-
cência será diferente. No modelo de compreen- balhos de Margaret Mead, embora controversos,
são sociológico, a adolescência não é, portanto, marcaram toda a corrente culturalista: não ape-
um fenômeno universal e homogêneo. nas a adolescência não é universal (por exem-
plo, não existe adolescência entre os habitantes
de Samoa) como podemos estabelecer uma li-
gação entre a natureza da adolescência e o grau
Abordagem Histórica de complexidade da sociedade estudada: quanto
mais a sociedade é complexa, mais a adolescên-
Passaremos apenas brevemente pelo aspecto cia é longa e conflituosa (trabalhos de Malino-
histórico. Se alguns afirmam que a adolescência wski, de Benedict, de Kardiner ou de Linton).
sempre foi um período demarcável na vida do Nessa abordagem cultural, as características
indivíduo, com suas características próprias em da adolescência variam em diferentes níveis se-
cada época (por exemplo, entre os romanos, a gundo as sociedades:
adolescência termina oficialmente por volta dos
1) No nível da duração: nas culturas afri-
30 anos), muitos pensam que a adolescência, tal
canas arraigadas à tradição, ela será determina-
como a concebemos, é um fenômeno recente:
da pelos ritos de passagem, que variam de uma
A criança passava diretamente e sem etnia a outra.
intermediações da barra da saia das mulhe- 2) No nível dos métodos adotados para a
res, de sua mãe ou de sua amiga ou de sua socialização do indivíduo: certas culturas ado-
avó, ao mundo dos adultos. Ela queimava tarão preferencialmente um modo predomi-
as etapas da juventude ou da adolescência. nante de socialização dos adolescentes no seio
De criança, tornava-se de um momento para do lar familiar (cultura ocidental), outras no
24 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

seio de um outro lar (por exemplo, por volta crianças e o mundo dos adultos, pois “ela propõe
dos 8 anos de idade, os meninos da tribo de novos estilos de vida mais adequados ao que se
Gonja, povo do norte de Gana, vão viver com percebe como as novas e mutáveis condições, às
o irmão da mãe e sua esposa, e as meninas mudanças que, com ou sem razão, ela afirma per-
com a irmã do pai e seu esposo), outras no seio ceber melhor do que aqueles que se adaptaram
de instituições extrafamiliares (por exemplo, ao estado de coisas anterior”. Assiste-se assim,
entre os Samburu, um dos grupos masai nôma- segundo Bruner, a uma espécie de inversão de
des do norte do Quênia, os jovens vivem na perspectiva: na medida em que o mundo passa
periferia da tribo e têm como papel proteger por mudanças permanentes, a adolescência, por
essa tribo ou atacar as tribos rivais), outras, fi- sua própria característica de ser um período de
nalmente, no grupo de iguais (entre os Muria, mudança, torna-se de algum modo um modelo
no Estado de Bastar, na Índia, os adolescentes social e cultural, tanto para as crianças como
vivem em um dormitório coletivo e misto: o para os adultos. A questão essencial que se co-
Gothul). loca então é saber “se a geração intermediária
É interessante constatar que esses diferentes pode reduzir o grau de incerteza inerente ao fato
modos de socialização existem em nossas socie- de crescer em condições de mudanças imprevi-
dades ocidentais contemporâneas, pelo menos síveis e se ela pode fornecer ao mesmo tempo
potencialmente (morar na casa do tio ou da tia, guias intelectuais e provedores carismáticos de
internato, pensionato, comunidades). viés paradoxal: promover simultaneamente a
eficácia e a adesão” (J.S. Bruner, 1983).
3) No nível dos tipos de cultura: em seu
livro O fosso entre gerações, M. Mead distingue
três tipos de culturas:
Abordagem Social
– as culturas pós-figurativas, que consti-
tuem a maior parte das sociedades tradicionais
onde as crianças são instruídas antes de tudo A adolescência representa um grupo social
por seus pais e pelos anciãos; quantitativamente importante (cf. Quadro 1.1).
– as culturas co-figurativas, nas quais as Também para os sociólogos, em uma mesma cul-
crianças e os adultos fazem suas aprendizagens tura e, em particular, em nossas sociedades, a ado-
com seus iguais; em outras palavras: o modelo lescência apresentará variações segundo o meio
social predominante é o comportamento dos de origem ou segundo as atividades exercidas.
contemporâneos. Os modelos mais nítidos de Lembremos a pesquisa feita na França sobre a
culturas co-figurativas são encontrados nos paí- psicologia diferencial na adolescência: B. Zazzo
ses de imigração (Estados Unidos, Israel); estudou quatros grupos de adolescentes: alunos
– as culturas pré-figurativas, que se carac- do ensino médio, alunos do magistério, apren-
terizam pelo fato de que os adultos também ex- dizes e assalariados. De maneira geral, esses gru-
traem lições de seus filhos (Mead, 1972). pos se distinguiam pelas respostas diante de três
variáveis psicológicas: as atitudes de crítica e
Para Bruner, a característica de nossas socie- contestação, as relações com a família e com o
dades ocidentais atuais é que “provavelmente outro, as relações com o mundo (Zazzo, 1972).
pela primeira vez em nossa tradição cultural, Do mesmo modo, alguns conseguiram distinguir
atribui-se um lugar a uma geração intermediária dois tipos de marginalidade entre os jovens dos
que tem o poder de propor o modelo de novas anos 1970: uma marginalidade intelectual, com
formas de conduta”. De fato, a comunidade dos duas tendências: uma tendência “hippie” e uma
adultos, pela complexidade de tarefas e pela abs- tendência “esquerdista”; e uma marginalidade
tração cada vez maior das funções de cada um, “popular” (Mauger, 1975).
mostra-se incapaz de propor às crianças uma Por um lado, a organização social por faixa
série de modelos de identificação e um sistema etária (as crianças, os adolescentes, os idosos,
de valor pedagógico, profissional, moral, etc. etc.) talvez tenha substituído em parte a anti-
que levem em conta as permanentes mudanças. ga hierarquização social, que perdeu sua rigidez.
Nessas condições, a adolescência constitui um O bando de adolescentes é a caricatura disso: o
intermediador necessário entre o mundo das bando é para o adolescente o meio pelo qual ele
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 25

Quadro 1.1 Distribuição da população na faixa etária de 12 a 25 anos em 1° de janeiro de 1979


segundo o sexo e a idade
Idade em anos
Ano de nascimento completos Os dois sexos Sexo masculino Sexo feminino
1966 12 844.563 431.738 412.825
1965 13 854.296 437.411 416.885
1964 14 874.123 446.767 427.356
1963 15 867.164 442.212 424.952
1962 16 844.826 430.776 414.050
1961 17 855.235 436.197 419.038
1960 18 845.885 431.182 441.703
1959 19 854.271 435.392 418.879
1958 20 840.252 426.841 413.411
1957 21 844.566 428.494 416.072
1956 22 841.038 426.501 414.537
1955 23 840.068 425.238 414.830
1954 24 845.405 429.389 416.016
1953 25 835.138 424.843 410.295
1953-1966 12-25 11.886.830 6.052.981 5.833.849
Fonte: La situation démographique en 1979 (Les collections de l’INSEE, D 88).

tenta encontrar uma identificação (idealização uma das mais freqüentes: o bando é ameaçado
de um membro do grupo, de uma ideologia), uma (por outros bandos, pela sociedade...) e, em ra-
proteção (tanto em relação aos adultos quanto zão disso, deve se fechar mais fortemente em si
em relação a si mesmo, em particular à sua pró- mesmo, homogeneizando-se o máximo possível,
pria sexualidade: é a vertente homossexual de para poder se defender, ou mesmo para atacar.
qualquer grupo de adolescentes), uma exaltação Observa-se aqui a transferência para o grupo da
(potência e força do bando em oposição à fragi- problemática paranóica potencial do indivíduo
lidade do indivíduo), um papel social (dinâmica adolescente.
interna do bando com os diversos papéis que se Em última análise, esses diferentes elemen-
jogam ali: chefes, subordinados, excluídos, anfi- tos, do ponto de vista sociológico, fundamen-
triões, inimigos...). A dependência do adolescen- tam a idéia de que o adolescente é heterogêneo.
te em relação ao “bando” chega ao extremo na Dois aspectos se destacam atualmente:
maioria dos casos, mas, como assinala Winnicott
com muita propriedade, “os jovens adolescentes 1) A rapidez das mudanças de uma geração
se isolam juntos”: de fato, sob essa ligação às ve- de adolescentes à seguinte:
zes coercitiva ao conformismo do bando, o indi-
víduo não desenvolve ligações muito profundas Nem a atitude, nem o vocabulário en-
com os outros, como testemunham as freqüentes gendrado pelos anos 1960 parece adequar-se
rupturas, dispersões, reagrupamentos do bando às realidades que se anunciam e que a juven-
em novas bases, etc. (cf. item “O ambiente so- tude deverá enfrentar ao longo da próxima
cial: o bando”, no Capítulo 13). Contudo, essa década. As palavras-chave do relatório da
Unesco de 1968 eram: confronto-contesta-
disposição ao conformismo pode empurrar o ado-
ção; marginalização; contracultura; contra-
lescente para escolhas aberrantes, pois, na busca poder; cultura dos jovens... Os jovens eram
de uma identificação, ele pode aderir às condutas vistos então como um grupo histórico distin-
mais caricaturais. Citemos Winnicott: “em um to e identificável... Essa geração se manteve
grupo de adolescentes, as diversas tendências se- separada dos mais velhos por um enorme
rão representadas pelos membros mais doentios fosso... As palavras-chave dos jovens ao lon-
do grupo”. Entre essas posições patológicas, a vi- go da próxima década serão: penúria; desem-
vência persecutória do bando é provavelmente prego; sobrequalificação; inadequação entre
26 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

o emprego e a formação recebida; ansiedade; evoca a propósito do processo da adolescência


atitude defensiva; pragmatismo; e podería- uma segunda fase do processo de separação-in-
mos inclusive acrescentar a essa lista subsis- dividuação (cf. “o segundo processo de separa-
tência e sobrevivência... Se os anos de 1960 ção-individuação”, no Capítulo 1), constata-se
mobilizaram certas categorias de jovens em
certas partes do mundo em torno de uma cri-
que a “família”, tanto em suas funções externas
se de cultura, de idéias e de instituições, os socioculturais quanto em suas funções internas
anos de 1980 imporão à nova geração uma próprias ao psiquismo de cada um (imagem pa-
crise material e estrutural de incerteza eco- rental e tipo de relação objetal), estrutura e or-
nômica crônica, e mesmo de privação. (A ganiza a evolução do adolescente. Essas relações
juventude nos anos de 1980, Unesco). são tão importantes que foram estudadas em um
capítulo específico desta obra: “O adolescente e
Esse ponto de vista é confirmado por uma sua família” (cf. Capítulo 16).
pesquisa de 1983 com jovens entre 15 e 20 anos,
em que mais da metade previa enfrentar o de-
semprego em um momento ou outro por seus
próximos dez anos. “Mas é um simples acidente O MODELO PSICANALÍTICO
de percurso, como se o desemprego doravante fi-
zesse parte das coisas da vida.” (Burguière, 1983) A perspectiva psicanalítica repousa sobre
2) Hoje, a dimensão cultural tende a se colo- um postulado: a possibilidade de descrever e
car transversalmente em relação às variáveis pes- compreender a adolescência como um processo
soais e sociais: “Em um contexto social que evo- psicológico relativamente homogêneo segundo
luiu profundamente, e graças a uma maturação as sociedades. A partir de Sigmund Freud, to-
mental mais precoce, muitos jovens (estudantes) dos reconhecerão a importância da puberdade,
assumem posições culturais relativamente inde- o papel desempenhado pelo acesso à sexualida-
pendentes em relação aos condicionamentos de e, em razão disso, o agrupamento das pulsões
que em outras épocas eram decisivos para suas
parciais sob o primado da pulsão genital. Con-
diferenciações socioculturais” (Grassé, 1974). A
tudo, segundo os autores, a ênfase recairá sobre
identidade cultural não coincide mais necessa-
um aspecto mais específico: a excitação sexual
riamente com a identidade biológica ou social.
e as modificações pulsionais, o corpo, o luto e
As diferenças culturais no seio da juventude
a depressão, os meios de defesa, o narcisismo, o
estão cada vez menos ligadas às diferenças de
ideal do eu, ou ainda o problema da identidade
sexo, de idade, de origem regional e, sobretudo,
e das identificações. Todos concordarão, no en-
à diferença de classes sociais; a juventude torna-
tanto, em que a adolescência se caracteriza por
se culturalmente e mundialmente um grupo já
esses diferentes elementos, e a importância de
questionado nas sociedades mais avançadas do
ponto de vista tecnocrático; vale recordar aquilo cada um variará segundo os pontos de vista e,
que evocamos anteriormente a propósito da di- evidentemente, segundo os próprios adolescen-
minuição da distância entre as gerações de ado- tes. Às voltas com suas pulsões, o adolescente
lescentes e de adultos. Se o modelo sociológico deve rejeitar seus pais, cuja presença reativa os
assinala as diferenças entre adolescentes, ele se conflitos edipianos e a ameaça de um incesto
preocupa também, assim como o modelo psica- agora realizável, e, no mesmo movimento, ele
nalítico, com as relações (em nível geral) entre a chega até a rejeitar as bases identificatórias de
classe de adultos e a de adolescentes. sua infância, isto é, suas imagos parentais. En-
tretanto, a descoberta de uma identificação
Finalmente, não abordamos neste item a adulta só poderá advir na inserção desse adoles-
relação entre o adolescente e seu ambiente pró- cente no seio da descendência familiar, o que
ximo, em particular sua família. A aproximação explica sua busca desesperada de uma imagem
familiar poderia ser concebida como uma espé- de si nas raízes culturais, no grupo social ou nas
cie de ponte entre a evidente dimensão socioló- lembranças familiares (os avós geralmente são
gica e cultural em que cada família está imersa e os únicos a ser poupados pela contestação do
a problemática intrapsíquica do adolescente em adolescente). Na base de toda adolescência, há
face de suas imagens parentais. Aliás, quando se esse assassinato de imagos parentais, uma con-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 27

densação fantasmática da agressividade ligada ças na perspectiva dinâmica: o conflito interno


a todo crescimento: “crescer é por natureza um do adolescente não é uma simples réplica do
ato agressivo” (Winnicott). Confrontado com conflito edipiano, mas está associado a conflitos
esse paradoxo, o adolescente tem de vivenciar mais “arcaicos”, como, por exemplo, um confli-
esses conflitos antes de encontrar uma solução to entre o ego ideal atualizado e o ego desesta-
para eles: os meios de defesa de que ele dispõe, bilizado (Terrier e Terrier, 1980), ou conflitos
quer os reutilize (retorno aos processos defensi- ambivalentes que evocam os da fase depressi-
vos do período edipiano), quer descubra outros va. O confronto entre a vida fantasmática e as
(processos defensivos específicos da adolescên- transformações pubertárias altera a dinâmica
cia), têm como meta tornar suportável essa de- conflitiva. A relação entre a preeminência do
pressão e essa incerteza identificatória subjacen- desejo sexual e o surgimento de possibilidades
te. O tempo continua sendo o fator terapêutico constitui a fonte de uma angústia cuja qualida-
essencial (Winnicott), mesmo que, levados pela de está ligada à dimensão megalomaníaca do
urgência do instante, o adolescente e seus pais desejo (Rousseau e Israel, 1968).
não vejam nada além da situação atual. Essa explosão libidinal com seus aspec-
A essa homogeneidade de pensar a adoles- tos econômicos e dinâmicos fragilizam o Ego
cência como um processo intrapsíquico espe- em seu papel de pára-excitação. A puberdade
cífico, opõe-se uma certa heterogeneidade de é um período de crescimento libidinal; nele,
agrupamentos conceituais. Distinguiremos es- as exigências pulsionais são particularmente
quematicamente dois principais agrupamentos reforçadas. Mas, como assinala Anna Freud,
conceituais (ver sobre esse ponto o conjunto do “qualquer reforço das exigências pulsionais
Capítulo 2): aumenta a resistência do Ego às pulsões”. Para
essa autora, o prognóstico do fim da puberdade
– o que situa a adolescência em uma espe- não repousa tanta no poder das pulsões, mas na
cificidade de dominante desenvolvimentalista tolerância ou intolerância do Ego em relação a
e em uma (relativa) continuidade psicopatoló- essas pulsões. Do mesmo modo, não são tanto
gica. O modelo típico desse caso é o do processo as modificações do Id humano, mas sim as re-
de separação e das angústias dele decorrentes lações diferentes que o Ego estabelece com esse
ou o da subjetivação; Id que determinam as diferenças observadas nas
– o que faz da adolescência um momento representações de objeto. Assim, o estudo de
estrutural crítico, ao mesmo tempo emergência meios de defesa é fundamental na adolescência
de uma nova organização psíquica, mas também (cf. mais adiante). Diremos simplesmente aqui
risco de desorganização psicopatológica. Aqui, que a problemática atividade/passividade, que
o modelo típico é o da crise, do pubertário ou constitui um dos eixos de conflito essenciais
ainda da dependência com seus arranjos. nessa idade, explica-se particularmente pela
importância dessa excitação pulsional. Ela tra-
duz um modo de arranjo e de resposta em face
Os Principais Aspectos Dinâmicos da dessa excitação (cf. item “O agir como entrave
à conduta mentalizada”, no Capítulo 5).
Adolescência
Em patologia, veremos o interesse disto em
diversos agrupamentos clínicos, por exemplo, a
A excitação sexual. – A puberdade, ca- anorexia mental ou a toxicomania.
racterizada pelo aparecimento da capacidade
orgástica e pelo advento da capacidade repro-
A problemática do corpo. – A puberdade ma-
dutiva, provoca uma explosão libidinal, uma
nifesta-se por profundas modificações fisiológicas
erupção pulsional genital e um movimento de
que, evidentemente, têm importantes repercus-
regressão às pulsões pré-genitais. De um ponto
sões psicológicas tanto no nível da realidade con-
de vista econômico, o aparecimento súbito de
creta quanto no nível imaginário e simbólico.
energia livre (energia não ligada) conduz o in-
divíduo, de modo irreprimível, à busca de uma
descarga de tensão. A essas mudanças econômi- A puberdade e o acesso à sexualidade ge-
cas associam-se, como sempre ocorre, mudan- nital. – O desenvolvimento dos órgãos genitais,
28 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

da pilosidade, dos seios, o aparecimento das pri- – o teste do Superego em face do ingresso
meiras menstruações, ou ereções com ejacula- na categoria do possível edipiano;
ção, a possibilidade de ter relações sexuais e de – a busca pelo Superego de novas bases de
procriar têm um impacto fundamental no pro- sustentação, pois a aliança estabelecida entre o
cesso da adolescência. S. Freud, e muitos outros Ego e o Superego, em particular ao longo do pe-
depois dele, deram muita importância a essas ríodo de latência, se desfaz;
modificações fisiológicas. – conseqüência dos fatores precedentes, a
Freud já observa em Três ensaios sobre a teo- prova da realidade torna-se vacilante e cons-
ria da sexualidade: “Com o início da puberdade, titui a característica central dessa organização
surgem transformações que conduzirão a vida “pubertária”.
sexual infantil à sua forma definitiva e normal”.
Para Freud, a pulsão, a partir de agora, descobrirá Essa centralização no fenômeno psíquico da
o objeto sexual no outro, as diversas zonas eróge- puberdade dá conta, obviamente de um ponto
nas ditas parciais (oral, anal, uretral) se subordi- de vista geral, da dúvida que assalta todo ado-
narão ao primado da zona genital (órgão sexual). lescente: a da ligação entre o “eu” e seu corpo.
O gozo sexual ligado à emissão de produtos geni-
tais permite chegar ao “prazer terminal”, oposto A imagem do corpo. – O corpo transfor-
aos prazeres preliminares ligados às zonas eróge- ma-se, portanto, a um ritmo variável, mas de
nas parciais mencionadas acima. Mélanie Klein, maneira global: a “silhueta” muda tanto para o
Anna Freud, Winnicott, entre outros, também próprio adolescente quanto para aqueles que o
verão nessas modificações fisiológicas a fonte de observam. A imagem do corpo é alterada em
perturbações no equilíbrio psíquico do adoles- vários âmbitos:
cente. Édith Jacobson desenvolveu longamen-
te o papel dessas modificações na reativação da – O corpo como referência espacial. “O ado-
angústia de castração, tanto nos meninos, cujas lescente é mais ou menos como um cego se
primeiras ejaculações levam habitualmente a se movimentando em um meio cujas dimensões
masturbar, quanto nas meninas, cujas primeiras mudaram” (Haim). O adolescente é confronta-
menstruações reforçam sua crença infantil de do com a transformação desse instrumento de
castração. Essas transformações e esse acesso à medida e de referência em relação ao ambiente,
sexualidade genital podem estar na origem de re- que é a percepção de seu próprio corpo.
lações sexuais “experimentais” ou de retraimen- – O corpo como representante simbólico.
to defensivo para uma homossexualidade latente Pela maneira como é utilizado, valorizado ou
ou mesmo transitoriamente manifesta (cf. item desconhecido, amado ou detestado, fonte de ri-
“A homossexualidade”, no Capítulo 7). validade ou de um sentimento de inferioridade,
Mais recentemente, a insistência sobre as vestido ou às vezes dissimulado, o corpo repre-
transformações físicas da puberdade levou a des- senta para o adolescente um meio de expressão
crever um verdadeiro processo psíquico designa- simbólica de seus conflitos e de modos relacio-
do pelo substantivo “pubertário”, que seria para a nais. Por exemplo, no menino, os cabelos lon-
psique o que a puberdade é para o corpo (Gutton, gos ou os cabelos curtos podem ser o reflexo de
1991). O “pubertário” é teorizado como um pro- uma moda, mas podem ser também a expressão
cesso que dá conta da pressão sobre as três ins- simbólica da identidade sexual.
tâncias psíquicas (Ego, Superego, Id) do real bio- – O corpo e o narcisismo. Que adolescente
lógico da puberdade, pressão que se choca com a nunca passou longos momentos diante de seu
barreira do incesto legada pela elaboração do de- espelho? Que adolescente não manifestou um
senvolvimento edipiano. Os elementos presentes momento ou outro um interesse exagerado em
na organização pubertária são, portanto: relação à sua silhueta ou a uma parte de seu
corpo ou, paradoxalmente, um aparente desin-
– a pressão do “experimento originário teresse total? Na medida em que faz parte de
pubertário”, a pressão da pulsão que busca sua um conjunto mais geral de hiperinvestimento
meta pelo novo objeto genital; de si, o interesse que o adolescente dedica em
– o horror das interpretações sobre os in- alguns momentos ao seu próprio corpo ilustra
vestimentos incestuosos; a presença às vezes preponderante da dimensão
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 29

narcisista no funcionamento mental nessa ida- 2) Perda do “objeto edipiano”, carregado


de (Vincent, 1982). de amor, de ódio, de ambivalência: o adoles-
– O corpo e o sentimento de identidade. “O cente é impelido “a conquistar sua indepen-
sentimento de bizarria ou de estranheza alimen- dência”, a libertar-se do domínio parental e a
tado por muitos indivíduos nessa idade a pro- liquidar a situação edipiana” (Haim). Isso nos
pósito do seu corpo é do mesmo tipo, excluído remete ao fato de que a imago parental idea-
qualquer fator psicótico, que o sentimento de lizada e o sentimento de poder fazer tudo (“o
não se identificar de maneira segura.” (Mâle) ideal megalomaníaco infantil”) projetados nos
pais durante a infância, também são postos em
Todos esses pontos são abordados no Capí- questão pelo desejo de autonomia, pela desco-
tulo 6 –“O problema do corpo no adolescente”. berta de outros ideais e por uma melhor per-
Portanto, o adolescente é confrontado com cepção da realidade.
uma série de modificações corporais que tem di-
ficuldade de incorporar e que, de todo modo, Portanto, uma das tarefas psíquicas centrais
ocorrem em um ritmo rápido. da adolescência é conseguir se livrar da autori-
dade parental e dos “objetos infantis”. Gedan-
ce, Ladame e Snakkers observam: “Um adoles-
A adolescência como trabalho de luto. – cente que evolui normalmente vive momentos
Às modificações fisiológicas e pulsionais, acres- de depressão inerentes ao processo de desenvol-
centa-se um outro grande movimento intrap- vimento no qual está envolvido”. Esses autores
síquico, ligado à experiência de separação de inclusive distinguem duas fases sucessivas: uma
pessoas influentes na infância, a uma mudança primeira fase ou um primeiro momento de de-
nos modos relacionais, nos projetos e nos pra- pressão descrito da seguinte maneira: “É o que
zeres elaborados em comum, movimento que acompanha o luto do refúgio materno, luto
pode ser comparado a um trabalho de luto. não desejado, mas imposto, não vivido como
Haim escreve: “Do mesmo modo que o en- libertação, mas como abandono”; depois, na
lutado, o adolescente às vezes se entrega à lem- segunda fase, um outro luto intervirá: “o luto
brança de seus objetos perdidos e, assim como renovado do objeto edipiano” sob a pressão de
ele, seu espírito é tomado pela idéia da morte. pulsões genitais.
Mas, se a dinâmica do luto normal possibilita
realizar seu trabalho, a da adolescência faz com
que nada se fixe”. Os meios de defesa. – Em relação aos con-
Anna Freud estabelece um paralelo entre flitos evocados nos itens anteriores, o adoles-
as reações dos adolescentes e as respostas dos cente põe em prática certas defesas. Algumas
indivíduos a outros dois tipos de perdas reais: as não apresentam nenhuma particularidade digna
decepções sentimentais e os lutos. Ela descreve de nota (recalque, deslocamento, isolamento),
várias defesas postas em prática pelo Ego para mas outras parecem mais específicas ou particu-
lutar contra “a perda do objeto” desse período. larmente freqüentes nessa idade. Apenas essas
O trabalho da adolescência, assim como o últimas serão examinadas aqui.
do luto, consiste, portanto, em “uma perda de Anna Freud distingue as defesas contra o
objeto” no sentido psicanalítico do termo, per- vínculo com o objeto infantil (defesa por des-
da de “objetos infantis”, que podemos analisar locamento da libido, defesa por inversão do
esquematicamente em dois níveis. afeto, defesa pela concentração da libido no
eu, defesa pela regressão) e as defesas contra as
1) Perda do “objeto primitivo”, em pri- pulsões (ascetismo, intransigência). Podería-
meiro lugar, que às vezes leva a estabelecer uma mos descrever também as defesas centradas no
comparação entre a adolescência e a primeira conflito edipiano e as defesas elaboradas contra
infância (fase de separação do objeto mater- o conflito pré-edipiano. Na realidade, é raro na
nal). Vale mencionar, nesse sentido, Éveline prática clínica que as condutas do adolescen-
Kestemberg, Meltzer e, sobretudo, Masterson, te testemunhem um ou outro desses registros;
que se referem a esse tema, retomando a termi- geralmente elas participam nesses diversos ní-
nologia de Margaret. Mahler, como a segunda veis. Essa gama muito extensa de manifestações
fase do processo de “separação-individuação”. defensivas é compreendida também aqui como
30 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

uma aprendizagem das diversas possibilidades todas as suas formas infantis polimorfas e
do Ego. Mencionaremos sucessivamente os se- perversas, pouco modificadas ainda pelo self
guintes sistemas defensivos: adulto e pela identificação introjetiva.

– a intelectualização e o ascetismo (A. Clinicamente, a clivagem é ilustrada pelas


Freud); bruscas passagens de um extremo a outro, de
– a clivagem e os mecanismos associados; uma opinião a outra, de um ideal a outro. Nota-
– a atuação. se isto nos comportamentos evidentemente
contraditórios do adolescente, contradição que
1) A intelectualização, segundo A. Freud, é ele parece não perceber ou que não o preocupa:
um mecanismo defensivo do Ego para melhor é o caso do adolescente que reivindica a altos
controlar as pulsões no nível do pensamento. brados sua independência (para sair à noite,
Todos conhecem esses adolescentes que passam viajar em férias, etc.) e que deseja o acompa-
horas intermináveis discutindo, reconstruindo nhamento dos pais para outros atos aparente-
o mundo. A aderência maciça, imediata, sem mente banais. Essas mudanças bruscas e essas
nuança, a teorias filosóficas ou políticas é um contradições são tanto mais incompreensíveis à
exemplo ao mesmo tempo de intelectualização primeira vista quanto mais o adolescente defen-
e de idealização projetiva. A. Freud compara a de um discurso racionalista e intelectualista.
intelectualização com o ascetismo, que se poderia Observa-se com freqüência uma série de
definir como um mecanismo defensivo do Ego mecanismos defensivos de tipo arcaico asso-
para melhor controlar as pulsões no nível do cor- ciados à clivagem. Vamos nos limitar a citá-los
po. É o caso desses adolescentes que se impõem aqui: identificação projetiva, já mencionada, me-
tarefas ou restrições físicas mais ou menos draco- diante essas bruscas e completas adesões a siste-
nianas: percorrer diariamente um certo número mas de ideais sem nuanças; idealização primitiva,
de quilômetros de cross, proibir-se determinados marcada por escolhas de objetos totalmente ir-
alimentos, não se agasalhar suficientemente, realistas e inacessíveis ou por um Ego ideal me-
enfrentar as intempéries, recusar qualquer satis- galômano; projeção persecutória, traduzida pelo
fação ou prazer corporal. Vemos claramente, por sentimento de um mundo hostil e perigoso do
trás desse ascetismo, as tentativas de controle dos qual é preciso se defender para sobreviver.
desejos sexuais, em particular da masturbação. A ativação desses mecanismos defensivos
Porém, pode-se constatar em alguns anos uma primitivos é responsável em parte pelo aspecto
evolução cultural muito importante, evolução tão particular das relações de objeto que o ado-
que atingiu em grande parte a culpabilidade liga- lescente estabelece com seu meio. Sua presença
da às condutas masturbatórias. freqüente na adolescência levou certos autores
2) A clivagem e os mecanismos associados re- (Masterson) a compararem essa crise a um es-
presentam o reaparecimento na adolescência de tado-limite transitório, estado-limite em que se
mecanismos arcaicos geralmente abandonados observam quase sempre os mesmos mecanismos
no decurso do conflito edipiano e substituídos defensivos (cf. Capítulo. 12, p. 242).
por mecanismos defensivos mais adequados, tais
como a inibição e o recalque. A utilização da 3) A atuação, finalmente, é às vezes tão
clivagem tem como objetivo proteger o adoles- importante que parece ocupar todo o campo
cente de seu conflito de ambivalência, centrado comportamental. Ela atinge seu máximo no
na ligação com as imagos parentais. O adoles- quadro da psicopatia (cf. Capítulo. 13, p. 253).
cente também recorre à clivagem para disper- Protege o adolescente do conflito interiorizado
sar seus desejos genitais, e para não enfrentar a e do sofrimento psíquico, mas trava qualquer
ameaça do incesto. Assim, para Meltzer, possibilidade de maturação progressiva, de tal
sorte que a incessante repetição dessa atuação
o principal transtorno na adolescência geralmente aparece como a única saída.
é aquele que resulta da confusão de iden-
tidade decorrente da reemergência da vio-
lenta clivagem do self... Esse mecanismo O narcisismo. – Todos os psicanalistas in-
desenvolve-se na puberdade para fazer face sistem sobre as modificações do narcisismo, não
à maré ascendente dos desejos genitais em apenas em termos de aumento quantitativo,
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 31

mas também no sentido de uma distribuição di- eu grandioso com a projeção no objeto de um
nâmica diferente. eu primitivo grandioso patológico.
Lembremos que, do ponto de vista clíni-
co, o narcisismo “patológico” pode ser definido Esse narcisismo na adolescência é relacio-
como o agrupamento de duas condutas: nado igualmente ao narcisismo parental proje-
tado na criança, que se torna potencialmente a
1) um desinteresse em relação ao mundo pessoa que pode realizar as fantasias grandiosas
exterior (egoísmo); dos pais, mas que também pode se sentir mui-
2) uma imagem de si grandiosa (megalo- to desvalorizada por não conseguir realizá-las.
mania). Certas depressões da adolescência podem ser
compreendidas como decorrência direta deste
O egoísmo e a megalomania são duas “re- fenômeno (cf. item “A depressão de inferiorida-
preensões” lançadas com muita freqüência em de e de abandono”, no Capítulo 9).
um momento ou outro da adolescência de qual-
quer pessoa. De um ponto de vista psicanalí-
tico, muitos autores insistem sobre o aumento O lugar do Ideal do ego na adolescência.
das manifestações que testemunham enfraque- – A referência ao narcisismo e, por meio dele,
cimentos do narcisismo na adolescência e so- ao fundamento da identidade, o papel prepon-
bre a predominância de condutas originárias da derante que desempenham as diversas identi-
linha narcisística em detrimento daquelas da ficações, seu papel essencial na constituição,
linha objetal em relação ao período anterior. e depois na preservação da coerência do gru-
O desenvolvimento e o posterior estabele- po, todos esses eixos tornam evidente o lugar
cimento do narcisismo adulto são considerados particular que o Ideal do ego pode ocupar na
como necessários à adolescência: o adolescente adolescência. São numerosos os analistas, estu-
deve escolher novos objetos, mas deve também diosos do processo da adolescência, que consi-
escolher a si mesmo como objeto de interesse, deram essencial o papel do Ideal do ego nessa
de respeito e de estima. A maneira como certos idade. Assim, Éveline Kestemberg observa que
adolescentes maltratam seus corpos é um sinal, os adolescentes estão em busca de um Ideal do
entre outros, de suas dificuldades narcísicas. ego nesse período, de uma imagem satisfatória
Alguns chegaram a propor inclusive dis- de si mesmos, imagem suscetível de lhes pro-
tinguir diferentes modos de expressão do nar- porcionar um apoio narcísico. Para Lebovici, o
cisismo no adolescente, situando suas condutas conflito Superego-Ideal do ego é um dos confli-
ditas “narcisistas” em um continuum que iria da- tos-chave da adolescência, que explica em par-
quelas que demonstram uma quase normalida- ticular certas condutas compulsivas de derrota.
de àquelas que se apresentam nos estados mais Mas quem abordou com mais profundidade o
patológicos (Kernberg, 1975): lugar do Ideal do ego nesse período da vida fo-
ram P. Blos e Moses Laufer. Vamos resumir su-
– um primeiro modo se manifesta sob a cessivamente, e de forma comparada, seus pon-
forma de preocupação consigo, de amor próprio tos de vista. Daremos destaque à tese de Blos.
e mesmo de fantasias grandiosas: ele caracteriza Para esse autor, o Ideal do ego é o herdeiro do
um narcisismo normal no adolescente, marcado processo da adolescência, do mesmo modo que
pelo aumento do investimento libidinal do eu e o Superego é o herdeiro do complexo de Édipo.
sua coexistência com persistente investimento O Ideal do ego encontra algumas de suas raízes
libidinal dos objetos; no narcisismo primário, porém, Blos distingue
– um segundo tipo, mais patológico, é re- a idealização do eu própria à criança e o Ideal
presentado por uma identificação patológica do do eu. Essa idealização do eu é alimentada pelo
eu com objetos infantis e pela busca de obje- sentimento de onipotência infantil, favorecida
tos que representem o eu infantil. Não há mais especialmente pela posição bissexual, que na
mistura de investimentos narcísicos e investi- criança não é muito conflituosa, e permite todo
mentos objetais; tipo de compromisso: a transformação pubertá-
– um terceiro tipo, ainda mais patológico, ria rompe com essa bissexualidade potencial, o
manifesta-se pela preservação constante de um que representa um sério golpe a esse sentimen-
32 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

to de onipotência infantil. Na adolescência, casse para o bebê no período pré-edipiano, mas


“a componente feminina da vida pulsional do seria muito mais incerta no período edípico e
menino é restringida, atenuada ou rejeitada de na fase da latência.
forma muito mais vigorosa pelas injunções nar- Moses Laufer adota uma posição muito
císicas manifestadas por meio da vergonha e do menos desenvolvimentalista. Para esse autor,
desprezo do que pelas interdições do superego”. o Ideal do ego aparece no declínio do conflito
A identificação com o pai, mas, principalmen- edipiano, ao mesmo tempo em que o Superego.
te, a interiorização da imagem paterna dentro Isso significa que os sistemas de identificações e
do Ideal do eu substitui a submissão homosse- de interiorizações devem ter adquirido uma es-
xual passiva ao pai e a relação de ternura que o tabilidade suficiente: “Antes da internalização,
menino poderia ter mantido até a puberdade. os precursores do Ideal do ego ainda são relati-
Essa relação de ternura entre pai e filho, vale vamente instáveis e, em parte, dependentes de
recordar, provém diretamente do conflito edi- fontes externas”. Esse estado corresponde ao
piano invertido, resultante do deslocamento da período pré-edipiano. A estabilização dos siste-
agressividade dirigida contra o pai para outros mas de identificações permite que o conflito edi-
âmbitos (em particular, o campo do conheci- piano se desenvolva e que o Superego e o Ideal
mento) e da preservação atenuada da ligação do ego se constituam. Para definir as origens e o
libidinal. conteúdo deste último, Moses Laufer cita Ritvo
De algum modo, a relação intrapsíquica en- e Solnit (1960): “Pode-se considerar que o Ideal
tre o Ego e o Ideal do eu, sob o signo do proje- do ego provém de três fontes principais: a ideali-
to, do futuro, sucede a relação edipiana passiva zação dos pais, a idealização da criança pelos pais
entre pai e filho: a renúncia à ligação edipiana e a idealização do eu pela criança...”. Quanto à
passiva só pode ser feita por intermédio da in- função desse Ideal do ego, Laufer dá a seguinte
tegração do Ideal do eu. Blos declara explici- definição: “Gostaria de definir agora o Ideal do
tamente: “O Ideal do eu só chega à sua orga- ego como a parte do Superego que contém as
nização definitiva tardiamente, no declínio do imagens e os atributos que o Ego tenta conquis-
estágio homossexual da primeira adolescência... tar a fim de restabelecer o equilíbrio narcísico”.
É no abandono irreversível da posição edipia- Essa preservação do equilíbrio narcísico é a fun-
na negativa (homossexual) durante a primeira ção essencial do Ideal do ego. A característica
adolescência que se encontra a origem do Ideal da adolescência é justamente pôr em questão as
do eu”. A função do Ideal do eu é contribuir gratificações e os recursos narcísicos da infância,
para a formação da identidade sexual, e depois em particular as que provêm dos pais e/ou de
manter estável essa identidade. Não defende- imagens parentais. Para reencontrar o equilíbrio
mos aqui o ponto de vista essencialmente de- narcísico temporariamente perdido na adoles-
senvolvimentalista em que se situa Blos, ponto cência, o Ideal do ego terá de cumprir três tare-
de vista que transparece, como era de se esperar, fas: “ajudar a modificar as relações internas com
nessa concepção do papel do Ideal do eu. os objetos primários, ajudar a controlar a regres-
Entretanto, faremos uma crítica: para satis- são do Ego, e favorecer a adaptação social”. A
fazer a esse ponto de vista desenvolvimentalista contribuição mais original de Moses Laufer diz
e justificar sua tese, Blos é obrigado a reintro- respeito ao terceiro ponto, pois, segundo ele, a
duzir na criança uma nova instância ou, pelo característica do Ideal do ego na adolescência
menos, uma função particular que ele chama é servir-se do exterior, do grupo de iguais, como
de “Idealização do eu”. A distinção entre essa substituição de identificação e de gratificação
“Idealização do self” da criança e o “Ideal do narcísica. Em suma, Moses Laufer retoma uma
ego do adolescente e posteriormente do adul- das hipóteses de Freud referente à psicologia das
to” parece-nos pouco clara, a não ser que a pri- massas para fazer dela uma das características di-
meira se constituísse apenas sobre o narcisismo nâmicas e estruturais do adolescente:
infantil precoce e sobre a ilusão da onipotência
infantil, enquanto que o segundo incluiria os O adolescente se vê confrontado com
diversos sistemas de identificações. Seria de- novas esperanças colocadas nele pelo mundo
sejável aprofundar os fundamentos teóricos de exterior (principalmente por seus congêne-
uma tal distinção que, para nós, talvez se justifi- res) e se identifica com elas. Elas constituem
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 33

mecanismos de identificações do Ego, mas Desde os primeiros trabalhos sobre a adoles-


são percebidas como pertencentes à mesma cência, a preocupação com a linha identificató-
ordem que as primeiras exigências interio- ria representou um eixo de compreensão essen-
rizadas, e é nesse sentido que as considero cial, situando o problema em uma alternativa
como parte do Ideal do ego na adolescência. que se tornou o paradoxo central da psicopatolo-
gia desenvolvimentalista. De fato, alguns auto-
O grupo de iguais torna-se assim uma das res priorizam a continuidade que vai da criança
fontes de gratificação e de suporte narcísico. ao adulto segundo o modelo proposto por Erik
Entretanto, Moses Laufer vê nessa busca uma Erikson (Capítulo 2– “Identidade, juventude e
grande possibilidade de conflito intrapsíquico crise”), distinguindo confusão de identidade e
no adolescente. De fato, “o Ideal edipiano pode crise de identidade. Para esse autor, o adoles-
não corresponder à expectativa dos congêneres. cente reage em função de sua infância e dos di-
Nesse caso, o Ego é obrigado a escolher entre ferentes elementos de identidade que construiu
o pai ou a mãe edipiano e os congêneres”. É então. Em oposição a essa concepção de iden-
importante avaliar as tensões provocadas por tidade como construção progressiva da criança
esse conflito e os meios que o adolescente adota ao adulto, passando pelo adolescente (ponto de
para resolvê-lo, por exemplo, estudando a natu- vista desenvolvimentalista “construtivista”),
reza das condutas de identificação com o grupo outros autores põem em relevo a dimensão de
de iguais: será que elas traduzem uma tentativa conflito e de ruptura (ponto de vista econômi-
de rompimento das ligações com os objetos edi- co-dinâmico): a adolescência é marcada por
pianos infantis ou, ao contrário, uma luta exa- uma certa rejeição das identificações anteriores
cerbada contra as exigências do Superego em e por uma busca-conquista de novos objetos de
torno da preservação das ligações com os obje- identificação (Kestemberg, Capítulo 2 – “Os as-
tos edipianos? No segundo caso, o adolescente pectos patológicos”). Essa linha identificatória
corre o risco de resolver o conflito elaborando também é questionada e elaborada por meio de
aquilo que Moses Laufer chama de pseudo-Ideal modelos como a crise de originalidade (Debesse,
do ego, uma forma de conformismo adaptativo Capítulo 2 – “A crise de originalidade juvenil”)
aparente, seja ao grupo de iguais, seja às exigên- e, em menor grau, a crise juvenil (Mâle, Capítu-
cias parentais, mas que mantém intactas as liga- lo 2 – “A crise juvenil”).
ções com os objetos edipianos infantis. Atualmente, a tensão entre a identidade
(no singular) e as identificações (no plural)
Identidade-Identificação. – A busca pelo tende a ser compreendida como o reflexo do
adolescente de sua identidade é vista de duas antagonismo narcísico-objetal que constitui
maneiras distintas. Pode-se situá-la na continui- o cerne do trabalho psíquico da adolescência.
dade da procura de uma identidade desde os pri- Essa formulação retoma a oposição clássica pro-
meiros anos de vida (Erickson), mas também na posta por Freud entre a identificação primária,
busca identificatória que parte da adolescência correlata da relação de incorporação oral e da
para a idade adulta (Kestemberg). Identidade ligação com o objeto primário, de um lado, e,
e identificação não podem ser separadas. Essas de outro, as identificações secundárias que im-
diferentes acepções estão ligadas, sem dúvida, à plicam a escolha de objeto sexual (Capítulo 7
polissemia desses conceitos. Assim, para alguns, – “A escolha de objeto sexual”). A identidade
a identificação representa um processo, para ou- remete ao narcisismo do indivíduo e à qualida-
tros uma fantasia que se situa sempre no nível do de das primeiras relações, em particular as re-
inconsciente. Nos mecanismos que conduzem à lações de cuidados precoces constitutivas deste
identificação, convém distinguir os processos de narcisismo. Quanto mais essas relações precoces
interiorização (A. Freud), de introjeção (Klein tenham sido satisfatórias, tenham permitido um
e os autores kleinianos: identificação introjetiva investimento do eu continuado e equilibrado
oposta à projeção) e de incorporação (Torok), (o investimento libidinal do eu “neutralizando”
que remete a estágios diferentes de organização em parte os investimentos agressivos do eu),
de relações de objetos. Assim, é preciso diferen- mais estável e seguro será o sentimento de iden-
ciar a identificação da imitação, pois é freqüente tidade, e, inversamente, menos se fará sentir o
confundir-se uma com a outra. antagonismo entre a necessidade objetal e a in-
34 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

tegridade narcísica: o objeto não é uma ameaça tre a apetência objetal para procurar as novas
para o sujeito na medida em que a relação de identificações e a preservação narcísica para
objeto precoce sempre escorou o investimento manter a base identitária representa um risco
narcísico. Nesse caso, o advento da adolescên- essencial da adolescência.
cia, marcada por sua “necessidade de objeto”, Nesse momento de fragilidade, a relação
não ameaçará a base narcísica do indivíduo. identificatória com objetos edipianos não é ape-
Em contrapartida, o sentimento de identi- nas opositiva, mas também mimética.Blos insis-
dade é tanto mais frágil e/ou incerto, a neces- tiu sobre a importância da relação com o geni-
sidade objetal é tanto mais sentida como uma tor isogenérico, ou seja, no conflito edipiano,
ameaça potencial para a base narcísica na me- a relação edipiana invertida com o genitor do
dida em que a criança pequena conheceu e so- mesmo sexo: o adolescente se “submete” ao ge-
freu perdas excessivas na qualidade ou na con- nitor do mesmo sexo para se proteger da ameaça
tinuidade de seu investimento, viveu rupturas incestuosa representada pelo genitor edipiano
traumáticas e jamais pôde experimentar sepa- direto, e ao fazer isso ele encontra igualmente
rações curtas e positivas que lhe proporcionas- benefícios identificatórios. Ao falar do pai e
sem as formas prévias de sua autonomização: as do filho, Blos (1985) declara: “A resolução do
perdas do objeto precoce criaram brechas nar- complexo paterno diádico é, em geral, a tarefa
císicas. O despertar pulsional da adolescência mais importante da adolescência”. Para esse au-
e sua necessidade objetal serão sentidos como tor, a resolução do complexo de Édipo ocorre
um perigo para a base narcísica e identitária, em duas fases, sendo que a segunda, de declínio
empurrando o adolescente para uma atitude de do complexo de Édipo negativo, “completa” ou
oposição, de rejeição ou de negativismo devido “finaliza” a adolescência. O Ideal do ego adulto
ao aspecto antinarcísico que assume o investi- representará o herdeiro desse trabalho (cf. Ca-
mento de objeto. pítulo 1 – “O narcisismo”): “Ele é preservado
Quando a identidade narcísica é segura, o como um atributo pessoal, caro, cujas origens
adolescente pode se lançar sem nenhum risco arcaicas devem ser buscadas na ligação com o
em uma procura identificatória, seja mimética pai, na idealização do pai ou, simplesmente, no
ou opositiva. O adolescente tende a rejeitar os complexo negativo”. O adolescente se apóia
objetos parentais porque a emergência puber- nessa ligação edipiana indireta para realizar o
tária o obriga a “sexualizar” suas relações com investimento libidinal de seus novos atributos
eles. É a época em que o adolescente multiplica identificatórios, particularmente sexuais. É esse
as experiências, com as novas relações de obje- sentido que deve ser dado à expressão “relação
to servindo-lhe de suporte para as interioriza- homossexual” com o genitor do mesmo sexo:
ções e identificações futuras. Blos evoca assim a “homossexual” deve ser entendido aqui como
“fome de objeto” que habita todo adolescente. o investimento libidinal da imagem identitária
Se essa “apetência objetal” permite ao adoles- e sexuada, o que alguns preferem chamar de re-
cente enriquecer sua personalidade e afirmar lação isogenérica ou homomorfa. É muito claro
seus traços de caráter, ela também terá certas que o adolescente comumente desloca esse mo-
conseqüências. delo relacional para os seus iguais (relação com
Por um lado, o adolescente mostra-se par- adolescentes do mesmo sexo: o amigo) ou para
ticularmente sensível e vulnerável aos fatores outros adultos do mesmo sexo idealizados.
ambientais e aos imprevistos dos encontros ex- Contudo, o lugar dessa relação edipiana
ternos. Assim, as apropriações identificatórias indireta no trabalho de adolescência explica
dependem, em grande medida, dos “objetos a importância da questão da “homossexuali-
mediadores” encontrados seja em outros ado- dade”. Ainda que as “práticas homossexuais”
lescentes, seja em um adulto ou em um grupo. sejam relativamente raras na adolescência, os
Por outro lado, essa apetência objetal pode ser questionamentos sobre a homossexualidade
experimentada pelo adolescente como uma são freqüentes (item “A homossexualidade” no
vontade insaciável que o ameaça de um trans- Capítulo 7).
bordamento, de uma perda de autonomia, isto Assim compreendida, a construção das
é, como uma ameaça narcísica. Como muitos identificações na adolescência é um processo
outros, julgamos que essa tensão conflituosa en- complexo, progressivo que se escora na pessoa
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 35

e nas imagens interiorizadas dos dois genitores, seja no grupo que o adolescente encon-
ou ainda mais, talvez, na do genitor do mesmo tra para poder se identificar, seja nos agre-
sexo. Num outro extremo, as constatações epi- gados isolados que se transformam em grupo
demiológicas que mostram como a ausência do em ligação com a perseguição, os membros
extremos do grupo agem por todo grupo. A
pai para o menino constitui um fator de risco
dinâmica desse grupo, sentado em círcu-
importante para toda forma de desvio (cf. item lo para ouvir jazz ou participando de uma
“Epidemiologia e cuidado individual”, no Capí- bebedeira, deve englobar todas as formas
tulo 4) reforçam essas hipóteses psicogenéticas. de instrumentos de luta do adolescente: o
roubo, as facas, a explosão e a depressão.
O grupo. – A participação de um adoles- E se nada acontece, os membros começam
a se sentir pouco seguros individualmente
cente em um grupo de congêneres e sua inserção da realidade de seu protesto, mas ao mes-
em um bando constituem fatos de observação mo tempo eles próprios não estão suficien-
corrente. As relações estabelecidas entre o ado- temente perturbados para praticar o ato
lescente e seus iguais, para além das implicações anti-social que arranjaria as coisas. Mas se
sociológicas evidentes que testemunham, de- há nesse grupo um, dois ou três membros
sempenham igualmente um papel de primeiro anti-sociais que querem praticar o ato anti-
plano no processo psíquico em curso. De fato, se social, isso cria uma coesão de todos os ou-
a origem e a definição do “bando” encontram-se tros membros, faz com que se sintam reais,
em primeiro lugar e acima de tudo nos fatores e estrutura temporariamente o grupo. Cada
sociológicos que o determinam e o condicionam indivíduo será leal e dará seu apoio àquele
que quer agir pelo grupo, mesmo que ne-
(cf. item “Abordagem social”, no Capítulo 1), a
nhum indivíduo aprove o ato desse perso-
necessidade do adolescente de estar “em grupo” nagem muito anti-social (Winnicott).
responde a motivações intrapsíquicas ligadas a
esse processo. Mencionamos anteriormente o Pode-se opor esse processo do bando ao que
papel do grupo e de seus membros como subs- se observa na relação com o namorado(a). O
titutos do Ideal do ego, como intermediador ou bando suscita no adolescente uma regressão e
mediador de sistemas de identificação e de iden- favorece o uso de mecanismos arcaicos, cliva-
tidade. Ele pode servir também como lugar de gem, projeção, etc. Ao contrário, a relação com
exteriorização das diferentes partes do adoles- o namorado(a) suscita no adolescente uma rela-
cente: “Mediante a distribuição das partes do self ção especular narcísica menos dispersa, sobretu-
pelos membros do grupo, as necessidades mastur- do com a experiência da reciprocidade de afetos.
batórias podem atenuar-se, enquanto os proces- O exemplo extremo disso é esse “primeiro amor”
sos sociais que têm início, ao se realizarem no (Daymas) que se oferece à procura narcísica e à
mundo real, favorecem a diminuição gradual da conquista objetal. Assim, o que é vivido através
clivagem, o declínio da onipotência e a diminui- do “primeiro amor” agrupa e unifica os afetos,
ção da angústia da perseguição” (Meltzer, 1977). enquanto o que é vivido através do “bando” dis-
Para os autores que adotam um ponto de vista persa e fragmenta esses mesmos afetos.
desenvolvimentalista, o grupo desempenharia
um papel mais importante no início da adoles-
cência (13-15 anos) do que no final desta. Além
dessas diversas funções no processo da adoles- O MODELO COGNITIVO E
cência, o grupo também pode ter uma função EDUCATIVO
no campo psicopatológico. Assim, Winnicott
assinala que o grupo pode ser utilizado pelos ado-
lescentes para “tornar real sua própria sintoma- Freqüentemente, silencia-se sobre as mu-
tologia em potencial” (Winnicott). Isso explica danças cognitivas concomitantes do período
o fato de um grupo identificar-se facilmente com da adolescência. Contudo, há uma perturbação
o membro mais doentio: se existe no grupo um nas estruturas cognitivas, no mínimo tão im-
adolescente depressivo ou delinqüente, o grupo portante como as transformações pubertárias.
inteiro manifesta um estado de espírito depressi- De fato, Piaget e Inhelder descreveram o apa-
vo ou se põe ao lado desse delinqüente: recimento de uma nova forma de inteligência,
36 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

a inteligência operatória formal, cujas estruturas um prolongamento do real ou de ações execu-


se estabelecem por volta dos 12-13 anos. Po- tadas sobre a realidade, mas, ao contrário, é o
rém, muitos outros autores fizeram referência a real que se subordina ao possível”. Além dessa
uma aprendizagem no momento da adolescên- subordinação do real ao possível, é preciso ter
cia, aprendizagem centrada nas relações sociais; em mente três outras características do pensa-
essa referência à aprendizagem social contém mento formal (Dolle):
implicitamente uma reiteração da importância
do funcionamento intelectual. Ao contrário, as – O pensamento formal apóia-se em enun-
perturbações afetivas e comportamentais, geral- ciados verbais.
mente muito significativas, que a puberdade pro- – Essa substituição dos objetos por enuncia-
voca nas crianças encefalopatas (cf. item “Ado- dos verbais corresponde à intervenção de uma
lescência e deficiência mental”, no Capítulo 18) nova lógica ou lógica de proposições. Essa lógica
mostram claramente como “a inteligência” em de proposições permite chegar a um número infi-
seu sentido mais amplo é um dado necessário nitamente maior de operações e de combinações
para que o adolescente possa assumir e integrar dessas operações (grupo combinatório INCR).
as modificações corporais, afetivas e relacionais – “Ela constitui um sistema de operações
que se operam nele e em torno dele. na segunda potência”, pois as operações ante-
Na teoria cognitiva de Piaget, o estágio de riores apoiavam-se diretamente nos objetos,
operações formais corresponde ao desenvolvi- enquanto que as operações formais apóiam-se
mento da estrutura de “grupo combinatório”, em proposições ou em enunciados que já são
e começa a partir dos 12 anos. Após o estágio operações, mas de primeiro grau.
operatório concreto, o acesso ao estágio opera-
O desdobramento desse pensamento for-
tório formal caracteriza-se pela capacidade do
mal precede o da puberdade, ou acompanha
pré-adolescente (entre 12 e 16 anos) de racio-
seus primeiros estágios, abrindo-se assim a um
cinar por hipótese, de perceber o conjunto de
pensamento reflexivo, ao caráter “recursivo
casos possíveis e de considerar o real como um
do pensamento” (Bauriad, 1999). Essa prece-
simples caso particular. O método experimen-
dência de alguns meses permite esboçar novos
tal, a necessidade de demonstrar as posições
modelos de apreensão do eu e dos outros, antes
enunciadas, a noção de probabilidade, tor-
que sobrevenha a sexualização do pensamento
nam-se acessíveis. No plano prático, o estabe-
(Catheline, 2001).
lecimento de uma possibilidade de raciocínio
No plano clínico, a avaliação dessas ope-
hipotético-dedutivo traduz-se pelo acesso ao
rações formais tornou-se possível com a elabo-
grupo de operações formais de transformação: o
ração da Escala do Pensamento Lógico (EPL2),
idêntico, a negação, a recíproca e a negação da
padronizada para um grupo de meninos e de
recíproca, isto é, a correlativa (INRC). Assim,
meninas de 9 a 16 anos. Portanto, ela cobre
por exemplo, no estágio concreto, a criança
uma parte do estágio operatório concreto e o
compreende que 2/4 é maior que 1/4 porque ela
conjunto do estágio de operações formais (For-
só precisa comparar o 1 e o 2, mas apenas no
mal A e Formal B). A EPL compõe-se de uma
estágio formal ela compreende a igualdade 1/3
série de cinco provas:
e 2/6, porque consegue estabelecer uma relação
entre a comparação dos numeradores, por um – uma prova de operações combinatórias
lado, e a comparação dos denominadores, por de tipo permutação;
outro: ela consegue formular essas duas propor- – uma prova de quantificação de probabi-
ções e a relação entre duas relações. lidades;
É essencial compreender que, no estágio – uma prova construída em torno de fato-
das operações formais, a relação com o mundo res que modificam a freqüência das oscilações
muda completamente: a inteligência chega a de um pêndulo;
um nível tal que lhe permite situar-se no pla-
no das relações entre o possível e o real, mas
com uma inversão de sentido absolutamente 2
Para mais detalhes, ver Échelle de Développement de la
notável, pois, como diz Piaget, não é “o possível Pensée Logique de F. LONGEOT, Éditions Scientifiques
[que] se manifesta simplesmente sob a forma de et Psychologiques, 91130 Issy-les-Moulineaux.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 37

– uma prova de coordenação de dois siste- intelectual de alguns adolescentes pode ser ana-
mas de referência distintos na representação do lisado, em certos casos, como uma tentativa de
espaço (curvas mecânicas); preservar a onipotência infantil, agora aplicada
– uma prova de conservação e de dissocia- ao campo das idéias. Assim, A. Freud descrevia
ção de noções de peso e de volume. “a intelectualização” como meio de defesa psí-
quica específica dos adolescentes (cf. item “Os
Os resultados permitem situar o funciona- meios de defesa”, no Capítulo 1). Finalmente, o
mento mental de uma criança e de um adoles- adolescente experimenta, em certos casos, uma
cente em uma das quatro classes: estágio con- excitação intolerável no exercício dessa função
creto, intermediário, formal A e formal B. cognitiva, excitação que às vezes assume uma
No âmbito da psicopatologia, as dificulda- significação diretamente sexual, que leva a um
des de acesso ao pensamento formal chegaram sentimento de culpabilidade e a uma inibição
a ser considerados por alguns como um dos intelectual mais ou menos importante (cf. item
fatores que explicam as dificuldades de pensar “A inibição”, no Capítulo 8). Isso se explica,
dos jovens adolescentes: inibição, evitamento, em parte, pela conjunção temporal entre o des-
surgimento de uma dúvida mais ou menos inva- dobramento da inteligência operatória formal,
siva, etc. As dificuldades escolares entre 11-12 de um lado, e da pulsão genital, de outro lado.
e 14-15 anos são uma das principais manifesta- Outros autores, ainda que não proponham,
ções sintomáticas. O acesso ao pensamento for- como Piaget e Inhelder, um modelo específico
mal pode provocar uma certa “dor de pensar” de modificações cognitivas na adolescência,
(por exemplo, pensar na separação pode tornar- levam em conta as capacidades intelectuais do
se angustiante quando existe um antecedente adolescente. Assim, a adolescência é compreen-
de angústia de separação na primeira infância), dida como um período privilegiado das “apren-
sobretudo se esse adolescente não investiu um dizagens” sociais e culturais numa idade em que
prazer de pensar protetor durante sua infância. o indivíduo ainda não é coagido a se conformar
De fato, “a preservação do prazer de pensar cons- a um papel rigorosamente definido, onde as flu-
titui um aporte narcísico importante em face da tuações em seus sistemas de identificação per-
dúvida suscitada pela explosão de capacidades mitem diversas tentativas. Para Wallon, o valor
cognitivas” (Catheline, 2001). Reencontra-se funcional da adolescência é permitir ao indiví-
essa dor de pensar (“isso me cansa a cabeça”, duo descobrir e depois elaborar seu próprio sis-
diz o jovem adolescente) no caso de condutas tema de valores sociais (éticos, culturais, profis-
psicopáticas, em particular com as noções de sionais, etc.) mediante a tomada de consciência
disgnosia, discronia e dispraxia (cf. item “Abor- de si e a afirmação da identidade. Esse estágio
dagem psicopatológica”, no Capítulo 13). Do permite atingir ao mesmo tempo o sentimento
mesmo modo, no campo das relações sociais, a de individualismo e de integração social, graças
dificuldade de acesso às estruturas combinató- justamente à aprendizagem. Na clínica, a fre-
rias pode explicar dificuldades relacionais, em qüência de condutas desviantes e marginais no
particular pela impossibilidade do adolescente adolescente chegou a ser interpretada como o
de chegar à compreensão da reciprocidade e da resultado de uma espécie de “aprendizagem por
mutualidade nos intercâmbios sociais e/ou afe- tentativa e erro” (Selosse) em um período de
tivos. Uma grande parte das perturbações afeti- transição no qual a identificação hesitante do
vas dos adolescentes débeis profundos ou ence- adolescente o autoriza precisamente a efetuar
falopatas pode ser compreendida dessa maneira. essas diversas tentativas.
Em outros casos, o adolescente pode utilizar Através das respostas da sociedade, o ado-
defensivamente essas novas possibilidades que lescente “aprende” progressivamente os limites
o pensamento formal lhe proporciona: assim de suas ações e dos papéis que adota sucessi-
como a criança que acaba de chegar ao primeiro vamente. Embora utilize um modelo de com-
estágio do pensamento operatório costuma li- preensão totalmente diferente, visto que se
dar prazerosamente com suas novas faculdades, trata de um modelo analítico, Anna Freud não
o adolescente vê abrir-se o imenso campo do está longe de adotar um ponto de vista simi-
possível, onde o pensamento pode desdobrar-se lar, quando evoca os múltiplos mecanismos de
sem um suporte concreto. O sobreinvestimento defesa psíquica de que se serve o ego no início
38 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

da adolescência, por exemplo, para “aprender” pendentes, mas que o produzem juntos. Esses
pouco a pouco quais são os mais eficazes para fatores podem operar de maneira diferente,
conter a angústia. Esse ponto de vista é par- seja em uma relação causal em cadeia, seja em
tilhado igualmente por Kaplan, que evoca o uma relação causal de soma em que a ordem
interesse na adolescência de reviver desejos, de sucessão não importa, seja em uma relação
vontades, fantasias originárias do passado in- causal substitutiva no sentido de que os dife-
fantil: esse reviver permitiria uma tomada de rentes fatores são intercambiáveis. Segundo
consciência, uma transformação e uma seleção essa concepção, o processo de adolescência
desse passado. e sua especificidade conforme os sujeitos se
constituem, graças à interação dos efeitos da
puberdade, do desligamento de imagos paren-
tais, dos valores sociais que a cultura atribui
UM MODELO PARA O PSIQUISMO
à juventude, e das novas capacidades intelec-
tuais de desenvolvimento.
Uma primeira maneira de conceber a ado- – O modelo transacional, finalmente, afir-
lescência consiste em supor que um fator inde- ma que o processo é o efeito de dois ou mais
pendente é a condição necessária e suficiente fatores em interdependência com o estado do
para descrever suas características. Na criança sujeito no momento, e que essas causas devem
pequena, supõe-se, por exemplo, que na ori- ser concebidas não como traços constantes, mas
gem da depressão anaclítica esteja um episódio como processos que se modificam ao mesmo
traumático importante, a privação materna, tempo em que o estado do sujeito se transfor-
causa mais ou menos típica e irreversível. Essa ma. Sameroff e Chandler explicam do seguinte
concepção monocausal linear da psicologia e modo: “Desse ponto de vista, considera-se que
da psicopatologia foi sendo progressivamente a resposta do sujeito é mais do que uma sim-
abandonada em favor de concepções multicau- ples reação ao seu ambiente. Ao contrário,
sais, e isso tanto em medicina quanto em psi- considera-se que ele está ativamente engajado
cologia clínica. Assim, por exemplo, fazer da nas tentativas de organizar e de estruturar o seu
puberdade o episódio marcante na origem do mundo”. Essa concepção transacional permite
processo psíquico da adolescência significa in- levar em conta a significação pessoal de um epi-
serir-se implicitamente nessa concepção mono- sódio que é compreendido em função de uma
causal linear. Seria o mesmo que privilegiar, por situação histórica e elaborado pelo sujeito, o
exemplo, o trabalho identificatório, ou ainda, a que modifica a significação e a função de epi-
acessibilidade cognitiva às operações formais. sódios passados. Esse modelo transacional é o
No âmbito de uma concepção multicausal, que capta melhor a complexidade e o caráter
certos autores (Sameroff e Chandler, 1975) interdependente dos fenômenos psíquicos, em
distinguem três variantes – o modelo de efei- particular nos períodos da vida para os quais os
to principal, o modelo de interação e o modelo fatores de mudança são mais ativos. Esse mode-
transacional: lo reconhece no processo de adolescência sua
especificidade e sua estreita interdependência
– Segundo o modelo de efeito principal, com as etapas anteriores da infância. A teoria
a constituição e o meio são fatores que exer- freudiana do “a posteriori”, segundo a qual um
cem uma influência sobre o desenvolvimento, episódio da adolescência só pode ser compreen-
independentemente um do outro. Em relação dido e adquirir sentido em função da significa-
ao modelo de compreensão a que nos referimos ção de episódios passados, alcança aqui toda sua
anteriormente (fisiológico, sociológico, psica- plenitude.
nalítico, cognitivo, educativo), a adolescência
seria vista, por essa concepção, como uma eta- Esse modelo transacional permite obser-
pa do desenvolvimento de diferentes linhagens var e compreender as características especí-
que a influenciariam, mas que poderia ser con-
siderada isoladamente.
– O modelo de interação supõe que um * N. de R. T. No vocabulário de Laplanche e Pontalis o
processo resulta de dois ou mais fatores inde- “aprés-coup” é traduzido por “a posteriori”.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 39

ficas do processo de adolescência, do mesmo diz respeito às expressões manifestas de des-


modo que as emergências patológicas que o compensações psicóticas e, em particular, dos
alteram. Esse modelo transacional que, para clássicos modos de entrada na esquizofrenia
nós, é o que melhor explica a dinâmica do que surgem mais no final da adolescência, nos
vivo, permite compreender também que, no quais se encontram, no momento da entrada
próprio desenrolar da adolescência, aquilo na adolescência, “rompimentos” escolares
que se opera no final dessa fase só pode ser ou relacionais que até então não tinham as-
apreendido, concebido e elaborado em função sumido uma forma suficientemente explícita
do que se operou no início deste processo. Um e dramática para ser considerados como um
exemplo psicopatológico característico desse transtorno mais patente, mas que já eram um
último ponto é mais conhecido agora no que prenúncio demarcável.

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2
A Adolescência: Agrupamentos
Conceituais

N o capítulo anterior, descrevemos vários ei-


xos em torno dos quais a alteração psíqui-
ca, própria à adolescência, parece organizar-se:
ontogenética, a adolescência é teorizada seja
como “um segundo processo de separação-indi-
viduação”, seja como uma etapa fundamental
sobrecarga pulsional, modificação corporal, tra- no processo de subjetivação. Para aqueles que
balho de luto, rearranjo defensivo, reelaboração se inscrevem nessa corrente de pensamento,
narcísica, sistema de idealização, procura iden- a psicopatologia da adolescência é concebida
tificatória, adesão ao grupo, acesso a uma nova mais fortemente como o revelador de faltas, de
forma de pensamento. Numerosos autores, na problemáticas que permaneceram em suspenso
tentativa de apreender o conjunto dessas modi- na infância e na primeira infância.
ficações mediante um único processo, propuse-
ram uma conceituação mais globalizante da ado-
lescência. Para nós, essas conceituações podem
ser divididas, obviamente de forma um pouco AGRUPAMENTO DE DOMINANTE
esquemática, em duas grandes tendências: ESTRUTURAL
– De um lado, os que defendem uma quali-
dade emergente estrutural própria à adolescên- Encontramos aqui aqueles que atribuíram à
cia cujo modelo é o da “crise de adolescência”, adolescência uma especificidade maior em rela-
com as implicações práticas e teóricas que su- ção à infância. Os conceitos de “crise”, de “puber-
bentende a noção de “crise”. Para os autores e tário” e de “manejo da dependência” representam
teóricos que se inscrevem predominantemente os principais focos conceituais dessa corrente.
nesse modelo, o funcionamento psíquico e, mais
ainda, as expressões psicopatológicas observa-
das nessa idade estão em estreita dependência O Conceito de Crise
com as alterações psíquicas ligadas à emergên-
cia pubertária.
– De outro lado, os que defendem um pon- Por sua etimologia grega, a palavra “crise”
to de vista de dominante desenvolvimentalis- pertence primeiramente ao vocabulário jurídi-
ta onde, em uma perspectiva essencialmente co: ela designa o momento da sentença. Logo
42 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

a medicina se apropria do termo: a história do evolução é aberta, variável; ela depende tanto
pensamento médico poderia ser parcialmente de fatores internos como externos”.
retraçada a partir da diversidade do sentido dado Pode-se opor a noção de crise às noções de:
ao conceito de crise (Bolzinger e col., 1970).
Para a medicina dos humores, a crise é a – conflito: é definido unicamente como a
condição e, por assim dizer, a causa da resolução luta entre duas posições antagônicas, mas sem
mórbida (a febre e os fenômenos críticos reve- um limite temporal determinado;
lam a doença). Por definição, a crise é salutar. – estresse: evoca a ativação de mecanis-
Não estamos distantes da concepção atual que mos reguladores em resposta a um estímulo
sustenta que, em qualquer adolescência normal, patogênico;
devem se manifestar fenômenos críticos. – catástrofe: ela não pode deixar de induzir
Para a medicina das reações patológicas, à a idéia de um desfecho infeliz;
qual se agregará, com Broussais, a medicina dos – urgência: introduz a noção de uma res-
agentes patógenos, a crise perde sua função salva- posta imediata.
dora. Os fenômenos críticos designam o processo
patológico em seu crescimento e em seu acme, É evidente que, no termo da crise, essas no-
sem prenunciar a cura. O sintoma crítico nem ções estão presentes em graus diversos. A deli-
sempre é um bom sintoma que se deva respeitar. mitação do conceito de crise e a definição que
Passamos da “crise cura” à “crise doença”. demos sobre ela explicam facilmente sua utili-
Para os defensores de uma concepção zação para o período da adolescência.
sistêmica, a crise não é necessariamente evo-
lutiva. Ela é definida como uma perturbação
temporária dos mecanismos de regulação de Adolescentes em Crise ou Sociedade
um sistema, de um indivíduo ou mesmo de um
conjunto de indivíduos. Essa perturbação pro-
em Crise
vém de causas externas ou internas (Thom).
A relação entre a noção de crise e a de crisol Quem está em crise: os adolescentes ou a
patológico não se coloca mais em termos de sociedade? Eis a pergunta que resume as liga-
alternativa. Uma crise pode tornar-se ou não ções existentes entre crise de adolescência e
o crisol do patológico. Essa última definição crise da sociedade (Brusset, 1975).
aplica-se tanto ao campo sociológico quanto A crise que os adolescentes atravessam es-
ao campo psicológico. taria ligada a uma mudança histórica, a uma
A propósito da adolescência, não sairemos nova cultura, a novas práticas sociais, a uma
dessa dialética do conceito de crise. Para os de- modificação dos papéis parentais. Essa hipótese
fensores da concepção salvadora, essa crise de apóia-se em constatações gerais tais como: “os
adolescência ajudará no amadurecimento. Sua pais se resignam a ver seus filhos se tornarem
ausência será patológica: desconhecidos para um mundo desconhecido”,
ou ainda na noção de crise de valores, crise do
Não haverá crise de adolescência pro- mundo ocidental, etc.
priamente dita, uma reorganização especí- A crise da civilização, idéia sustentada por
fica vivida como tal pelo sujeito nesse mo- numerosos sociólogos contemporâneos, dá lu-
mento. Se essa ausência do aspecto crítico
vai além das aparências, ela só pode ser um
gar a elaborações que atribuem as dificuldades
mau presságio quanto à modificação poste- dos adolescentes e suas manifestações críticas
rior do aparelho psíquico, e um indicador ao fato de que a sociedade está doente. Mas o
bastante desfavorável da organização que a espírito excessivamente genérico dessa análise
precedeu. (Kestemberg, 1980) faz com que ela perca qualquer valor explicati-
vo. Como destaca J. de Ajuriaguerra, “se existe
No campo psicopatológico, proporemos a crise, ela não é necessariamente conforme às
seguinte definição de crise: “a crise é um mo- estruturas sociais, nem totalmente idêntica em
mento temporário de desequilíbrio e de subs- uma mesma estrutura” (Ajuriaguerra, 1970).
tituições rápidas que põem em questão o equi- Segundo Brusset, pode-se descrever uma
líbrio normal ou patológico do sujeito. Sua convergência notável entre o estado da civi-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 43

lização posterior à fase de industrialização e – o psicanalista americano Erik Erikson,


o estado da adolescência posterior à infância: insistindo sobre a procura da identidade da ju-
destronamento da razão, perda das ilusões, ventude contemporânea, abre caminho a uma
questionamento do recurso aos pais idealizados compreensão psicossocial da crise de adolescên-
(Sobrenatural, Valores Ideais, Deus, o Homem, cia destinada às equipes multidisciplinares;
a História, etc.). Em outros termos, nossa so- – finalmente, numerosos psicanalistas uti-
ciedade estaria no período da adolescência. Isso lizam o termo crise de adolescência em suas
explica as analogias estabelecidas entre o tema modalidades dinâmicas e evolutivas.
da adolescência e o da mudança social: a noção
de crise representa uma dessas analogias. Todos esses autores assimilam claramente
A idéia a reter dessa abordagem é a asso- essa crise a uma fase particular do desenvolvi-
ciação entre a noção de crise, de um lado, e os mento da personalidade.
fatores de crescimento da sociedade e do indi-
víduo, de outro. A Crise de Originalidade Juvenil
De fato, Brusset não se indaga sobre a vali-
dade dessa abordagem, mas lança a idéia de que Inspirado nos trabalhos anteriores de Stan-
ley Hall (Hall, 1935) e de Mendousse (Men-
a representação da adolescência e sua dousse, 1909), o pedagogo e psicólogo M. De-
valorização atual, ou pelo menos de alguns besse descreve a crise de originalidade juvenil
de seus aspectos, têm como função oferecer (Debesse, 1936). Suas funções de professor na
uma imagem tranqüilizadora das mudanças Escola Normal proporcionam-lhe observações
na sociedade fazendo delas uma mudança junto aos seus jovens alunos, futuros professo-
da sociedade (isto é, uma crise de adoles- res. Uma pesquisa realizada em outros estabe-
cência da civilização), para manter a espe- lecimentos de ensino equivalentes confirma,
rança utópica (?) de um progresso histórico segundo o autor, suas observações pessoais.
no sentido de mais perfeição, coerência,
serenidade e equilíbrio.
O desejo de originalidade. – O desejo de ori-
ginalidade da adolescência encontra-se em nu-
merosas obras literárias. É um dado das observa-
Crises na Adolescência e Crise de ções cotidianas por parte dos educadores, dos pais
Desenvolvimento e dos próprios adolescentes. Caracteriza-se pelo
horror à banalidade, pela propensão a fazer de si
Em psicopatologia, o perigo do conceito de alguém excepcional, único. Trata-se não apenas
crise de adolescência reside, sobretudo, na con- de um julgamento feito pelo adulto aos gestos ou
fusão existente entre os modelos de compreen- aos atos inesperados ou não habituais do adoles-
são geralmente diferentes, às vezes divergentes, a cente, mas também do sentimento que o próprio
que se refere cada descrição. A fim de tentar um sujeito tem da sua originalidade. Esse desejo de
originalidade, em sua forma característica, é con-
esclarecimento, agruparemos os diferentes auto-
temporâneo à puberdade. Ele começa por volta
res que abordaram o conceito de crise de adoles-
dos 14 anos para a menina e dos 15 anos para o
cência em quatro modelos de compreensão:
menino. É claro que a criança pode manifestar um
– um modelo de compreensão onde domi- tal desejo, mas sem ter consciência suficiente dele
na a contribuição da psicologia da criança, mas ou sem que ele seja bastante intenso para atrair
profundamente impregnada de um sistema éti- a atenção do adulto. Constitui um dos primeiros
co filosófico: Debesse (1936) descreve a “crise elementos da “puberdade mental” que acompa-
de originalidade juvenil”; nha as transformações de ordem fisiológica.
– Pierre Mâle fala da “crise juvenil” na
adolescência com a intenção de proporcionar A crise de originalidade. – A crise de ori-
uma descrição clínica coerente, apoiada em ginalidade designa a forma mais visível e mais
uma compreensão analítica destinada à ação completa do desejo de originalidade. Essa crise
psicoterápica; de originalidade não é permanente, mas apre-
44 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

senta flutuações. Seu início quase sempre está De um ponto de vista estrutural, “a aten-
ligado a uma ocorrência como o afastamento, ção ao corpo, a atenção ao meio e a atenção
a morte de um ser amado, uma mudança brusca ao pensamento” são três séries de causas que
na existência, uma desilusão amorosa, uma am- determinam um trabalho mental, que é o ele-
bição frustrada, etc. Quando de uma decepção mento estrutural da crise. Esse trabalho cul-
mais ou menos dolorosa, essa crise eclode su- mina na afirmação consciente do eu. Segundo
bitamente e com violência. Ela apresenta duas Debesse, essa crise de originalidade juvenil fa-
faces: uma face individual e uma face social: vorece a construção da personalidade juvenil.
Ela representa um potencial construtivo: deve
A face individual caracteriza-se pela auto- ser distinguida dos diferentes processos psico-
afirmação com exaltação, por uma contemplação patológicos próprios ao adolescente, ainda que
e uma descoberta do eu comparável, para Debes- às vezes se encontrem ali alguns dos elemen-
se, à descoberta do corpo no bebê. Ela pode tradu- tos precedentes. Segundo esse autor, a crise
zir-se por um gosto pela solidão, pelo segredo, pela de originalidade não varia conforme as épo-
excentricidade das roupas, dos comportamentos, cas ou as culturas, pois ela tem como origem a
da linguagem ou das cartas. O pensamento é ávi- tomada de consciência do eu, por intermédio
do de inédito e de singular. A paixão por refor- do desenvolvimento da vida interior, do sen-
mar, por moralizar ou por transformar o mundo timento do diferente e do único. Entretanto,
é intensa. Encontram-se vários graus, que vão do uma época ou uma cultura pode favorecer ou
simples desejo de originalidade à certeza de ser travar o desenvolvimento dessa originalidade.
original, passando pela crença de ser original. Do mesmo modo, a revolta, vertente social
dessa crise, não terá nem a mesma dimensão
nem a mesma repercussão caso se desenvolva
A face social manifesta-se pela revolta ju- em um meio informado de sua existência e de
venil: revolta em relação aos adultos, aos siste- suas particularidades ou em um meio que as
mas de valores e às idéias recebidas. Os adoles- ignore.
centes fazem duas queixas principais em relação O reconhecimento da crise de originalidade
aos adultos: sua falta de compreensão e o fato de juvenil permite assim compreender e respeitar
atentarem contra sua independência. Na ver- os modos e os ideais dos adolescentes, levá-los
dade, trata-se de uma revolta em face de tudo o a sério e propor aquilo que Debesse chama de
que pode atrapalhar essa auto-afirmação. pedagogia da crise: pedagogia de acompanha-
Debesse descreve três fases: mento adaptada a cada sujeito, pedagogia que
previne certos erros ligados ao desconhecimen-
1) Uma primeira fase, de 14 a 16 anos, que
to do desenrolar dessa crise.
se caracteriza pela necessidade de impressionar.
Evidentemente, a descrição dessa crise de
2) Uma segunda fase, de 16 a 17 anos, ao
originalidade proposta por Debesse suscita algu-
longo da qual a auto-afirmação é intensa.
mas críticas: problema de amostragem, proble-
3) Finalmente, uma fase de desenlace a
ma da origem social e intelectual dos sujeitos
partir dos 18 anos, durante a qual o sujeito se
examinados: M. Debesse reconhece esse viés
alivia. Ele consegue tomar distância, fazer um
declarando que essa crise sobrevém mais espe-
julgamento mais nuançado de si próprio. Já não
cificamente nos adolescentes que manifestam
tem dificuldade de falar de si com pessoas estra-
uma riqueza de vida interior ou de vida senti-
nhas, não recusa mais se comparar com os ou-
mental, uma certa excitabilidade espontânea
tros e, com isso, deixa de se ver como um todo
e um desenvolvimento intelectual geralmente
misterioso e sagrado. Ele se avalia com uma cer-
brusco (cf. acima).
ta tranqüilidade.
Essa crise de originalidade é comum aos A Crise Juvenil (Mâle)
dois sexos, mas, evidentemente, pode assumir
formas de expressão diferentes conforme o sexo. A partir de sua experiência de psicotera-
Do mesmo modo, ainda que seja freqüente, ela peuta, P. Mâle descreve um quadro específi-
não é absolutamente geral. co: a crise juvenil (Mâle, 1964). O objetivo,
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 45

para esse autor, é cercar melhor o campo da representam defesas, às vezes rígidas, contra
psicoterapia, suas indicações, suas modalida- o perigo que representa a intrusão genital na
des técnicas. Para isso, sem negar as dificulda- adolescência (cf. item “Os meios de defesa”, no
des inerentes a um tal procedimento, o foco Capítulo 1).
é dirigido ao reconhecimento das forças, aos
movimentos de interesses, aos conflitos e às
As desarmonias da evolução pubertária. – É
manifestações que os adolescentes apresen-
preciso distinguir a crise pubertária simples, tal
tam. Em um segundo momento, o autor os
como acaba de ser descrita, das desarmonias da
agrupa em quadros diferenciados: assim, a cri-
evolução pubertária: uma primeira desarmonia é
se juvenil grave será distinguida dos aspectos
marcada por uma defasagem entre um corpo ain-
neuróticos e psicóticos às vezes ameaçadores
da infantil e os meios de expressão genital quase
para o futuro.
maduros. Em segundo lugar, a desarmonia parece
P. Mâle considera a crise juvenil como uma
provir do contraste entre uma atividade pulsio-
fase extremamente fecunda, caracterizada por
nal comandada pela genitalidade e os mecanis-
uma alteração espontânea do indivíduo, por
mos psíquicos de defesa ainda presos às estruturas
uma verdadeira mutação. Essa fase adaptativa
infantis. Há nisso uma verdadeira assincronia.
terá muitas vezes uma evolução difícil, longa
Trata-se de adolescentes para os quais o desenvol-
e perturbada, mas possibilitará que o sujeito
vimento somato-endócrino ou é muito precoce,
emerja do mundo protegido da infância. O au-
ou é atrasado. Para estes, os aspectos psicobioló-
tor distingue a crise pubertária e a crise juvenil
gicos que caracterizam o processo da adolescência
propriamente dita.
aparecem de forma defasada em relação ao desen-
volvimento fisiológico, que é então atrasado ou
A crise pubertária. – A fase pubertária adiantado. A violência do instinto se manifestará
marca o início da crise juvenil. Com tramas de- por aquilo que P. Mâle chama de “pulsões late-
siguais, ela aparece nos dois sexos, começando rais”, isto é, atividades agressivas, compensatórias
por volta dos 10-11 anos e terminando por vol- da sexualidade bloqueada: uma simples atitude
ta dos 15-16 anos. Na menina, o surgimento das caracterial, mas que às vezes se manifesta como
regras aparentemente assinala um início preci- fuga ou delinqüência. A própria esfera cognitiva
so; no menino, é mais difícil determinar esse pode ser invadida por este movimento de dene-
início. Mas a desigualdade nas datas de aparição gação ou de recusa sexual, o que é fonte de trans-
da puberdade coloca também um problema de tornos escolares que aparecem, particularmente,
dimensões socioculturais. entre 12 e 14 anos.
Dois pontos essenciais caracterizam essa
crise:
A crise juvenil propriamente dita. – Ela
– A dúvida sobre a autenticidade do eu e acompanha o período de crise pubertária. Sua
de seu corpo. O adolescente hesita em assumir duração é muito variável, podendo ir até os 25
seu corpo, e é tomado constantemente pela anos e mais. Expressa-se por uma série de ati-
dúvida e pela necessidade de se reassegurar. O tudes e de comportamentos, mas também pelo
temor de ser observado e os longos momentos possível surgimento de transtornos variados. A
passados diante do espelho são as expressões problemática corporal geralmente é ocultada
mais evidentes desse aspecto. pelo adolescente, ao mesmo tempo em que vive
– A entrada em jogo da tensão genital em meio a uma exaltação ou a uma anulação
ou da masturbação. As primeiras “poluções”, paradoxal de sua vida amorosa ou passional. As
a evolução para a sexualidade adulta, são di- características seguintes parecem mais específi-
fíceis de assumir, fonte de culpabilidade. As cas e seu aparecimento geralmente é rápido: a
primeiras experiências auto-eróticas ou as pri- extensão dos interesses, a emancipação do pen-
meiras relações sexuais às vezes causam enor- samento, o gosto pela abstração e pela raciona-
mes inibições. lização, a originalidade ou a bizarrice, atitudes
de isolamento, uma oposição freqüentemente
Mâle recorre aos trabalhos de Anna Freud, ruidosa ao meio familiar. Reencontramos aqui
para quem o ascetismo e a intelectualização os principais traços da crise de originalidade ju-
46 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

venil. Mas, para P. Mâle, isso está associado a mundo, os objetos, os seres, mais do que uma
uma série de transtornos característicos: recusa verdadeira perturbação do humor. O importan-
escolar mesmo com uma inteligência normal, te é que “esse estado moroso parece ser a causa
reprovação sistemática nos exames, alternância preponderante e dominante da atuação sob três
de comportamentos agressivos e masoquistas, formas principais: fuga ou delinqüência, droga,
dificuldade de exprimir quaisquer aspectos con- suicídio”.
flituosos e “críticos”.
Essa nova individualização é vivida sob a Evidentemente, há um grande número de
dupla coerção de tendências infantis persisten- reações desse tipo que não decorrem dessa mo-
tes e de tendências adultas que iniciam. P. Mâle rosidade, mas da incapacidade de suportar o
distingue as crises juvenis simples das crises gra- recomeço da vida cotidiana. A necessidade in-
ves no limite das neuroses e da morosidade. saciável de mudança, de novidades, de distan-
ciamento em face do recinto familiar, caracte-
rística desse quadro, favorece aqui a atuação. A
As crises juvenis simples. – Nas crises expressão pulsional pelas realizações eróticas ou
juvenis simples, a aceitação da auto-imagem é pelas fantasias não pode ser vivida diretamen-
bastante fácil, as reações do adolescente estão te, nem sublimada. Se a vida se desenrola, ela
ligadas a motivações vivas e carregadas de an- é vivida sem discriminação, em experiências
gústia. Em consulta, o médico ou o psicólogo sucessivas, não atribuindo importância nem ao
parece real, sólido no espírito do adolescente. objeto, nem à função. Ao longo dessa crise mo-
Enfim, ainda que se observem atitudes de fra- rosa, o adolescente não concebe o tempo. Se-
casso, elas são reversíveis, e a inteligência con-
gundo P. Mâle, tudo isso é compatível com um
tinua disponível.
elevado nível intelectual e com uma boa verba-
lização, que constituem uma espécie de tela en-
As crises juvenis graves. – Ao contrário, ganosa para o clínico se ele não se aprofundar
nas crises juvenis graves, a aceitação da auto- nesses problemas.
imagem é difícil. As reações do adolescente Contudo, essas crises graves devem ser dis-
parecem ligadas a atitudes antigas, que assu- tinguidas:
mem a forma de um verdadeiro automatismo.
Em consulta, aquele que o atende parece flu- 1) do desequilíbrio psíquico, em que o
tuante, incerto, decepcionante aos olhos do adolescente perturbado dá a impressão de estar
adolescente. No limite ou imersos nessas cri- como que fechado em seu comportamento;
ses graves, três quadros característicos foram 2) dos aspectos dissociativos, em que a
descritos: auto-imagem não é mais aceita completamente,
e em que, além disso, observa-se uma divisão da
– A neurose de inibição, com inibições personalidade, com bizarrices que ultrapassam o
múltiplas, dificuldade de se expressar, medo da âmbito da simples originalidade.
pessoa do sexo oposto, inibição intelectual e so-
cial geralmente com traços fobo-obsessivos. Para a abordagem psicoterápica da crise
– A neurose de fracasso, com comporta- juvenil, o psicoterapeuta aceita uma série de
mentos e condutas que se voltam contra o in- atitudes feitas de segurança, de síntese, de an-
divíduo: fracasso escolar, fracasso sentimental, tecipação, de compreensão direta, em outras
acting, expressão brutal de proibições surgindo palavras, propõe uma “experiência emocional
do inconsciente, recusando o sucesso que o corretiva”. O psicoterapeuta deve sempre deixar
consciente parece desejar. O pensamento fica disponíveis várias possibilidades identificatórias
perturbado, lábil, instável, investido por pro- a fim de apoiar-se na força nova que representa
blemas neuróticos. a autonomia crescente trazida pela crise para
– A morosidade, que não é nem a depres- libertar o sujeito de suas posições regressivas
são nem a psicose, mas um estado próximo ao e infantis. Essas atitudes terapêuticas vão per-
tédio infantil: “não sei o que fazer, com o que mitir que as formas graves da crise tenham seu
me interessar, com o que me distrair, etc”. É um potencial destrutivo atenuado, evitando assim
estado que manifesta uma recusa de investir o que o adolescente resvale para os quadros psico-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 47

patológicos fixados, tais como uma depressão, um mundo coerente atenua consideravelmen-
um desequilíbrio ou um princípio de psicose. te essa tensão). A primeira característica é sua
Evidentemente, a atitude do meio familiar em incapacidade de se engajar de forma autêntica
relação a essas diferentes formas de crise e a com outros, de estabelecer uma intimidade pra-
seus componentes tem uma determinação não zerosa, quer se trate de amizade, de namoro e de
desprezível em seu desenrolar. amor, de investir a competição. O adolescente
busca então essa intimidade com os parceiros
Identidade, Juventude e Crise mais inverossímeis, ou se isola totalmente. Seu
sentimento de continuidade, de identidade in-
(Erikson) terior desintegra-se e é acompanhado de um
Embora seja psicanalista, Erik Erikson apre- sentimento de vergonha universal, de uma in-
ende a crise de adolescência sob seu aspecto capacidade de experimentar uma sensação de
psicossocial. A originalidade de sua abordagem realização por meio de uma atividade.
reside, sobretudo, no interesse que ele dirige ao Uma outra atitude é o desinteresse pelo
conceito de identidade. Os termos “identidade tempo como dimensão da vida. O sujeito pode
e crise de identidade”, tanto no uso corrente sentir-se ao mesmo tempo muito jovem e velho
como científico, passaram a abarcar tanto ele- demais para qualquer possibilidade de rejuve-
mentos muito gerais (exemplo: a crise de iden- nescimento. A esse desinteresse associa-se, às
tidade da África) como referências muito espe- vezes, um verdadeiro desejo de morrer ou uma
cíficas a uma disciplina (exemplo: Identidade aspiração do eu a se deixar morrer, que vai até
do Fonema). É preciso discernir o conceito de gestos de suicídio. Observa-se também uma in-
identidade e o de crise de identidade no nível capacidade de se concentrar nas diversas tare-
clínico. Como é habitual na história da psica- fas, assim como uma desorganização do sentido
nálise, Erikson só propôs uma descrição e uma do trabalho.
compreensão da crise normativa na adolescên- Finalmente, o quadro se completa com a
cia, e posteriormente no início da idade adulta, escolha de uma “identidade negativa”, isto é,
depois de ter circunscrito seu equivalente pato- “uma identidade perversamente estabelecida
lógico: a confusão de identidade ou a perda de sobre todas as identificações e os papéis que,
identidade do ego (Erikson, 1968). nos estágios críticos anteriores do desenvolvi-
mento, tinham sido apresentados como indese-
jáveis ou perigosos”. Essa identidade negativa
A confusão de identidade. – Erikson em- expressa-se normalmente por uma hostilidade
prega esse termo para descrever diversos trans- depreciativa e pretensiosa em relação aos papéis
tornos observados em jovens “incapazes de que a família e o meio recomendam. Ela repre-
abraçar as carreiras oferecidas por sua sociedade senta naturalmente uma tentativa desesperada
e de criar ou de manter para si mesmos uma mo- de dominar uma situação na qual os sentimen-
ratória específica e pessoal”. Os sinais de uma tos disponíveis de identidade positiva anulam-
confusão de identidade aguda aparecem no mo- se uns aos outros.
mento em que o adolescente se vê confrontado Um estado de desespero, episódios de delin-
com uma série de experiências que exigem uma qüência ou manifestações que beiram a psicose
escolha e um engajamento: escolha de uma podem constituir condutas sintomáticas dessa
pessoa para compartilhar uma intimidade físi- confusão de identidade. Diante dessas manifes-
ca e afetiva, escolha profissional decisiva, en-
tações sintomáticas, o interesse de reconhecer
gajamento em uma forte concorrência, escolha
um quadro de confusão de identidade está em
de uma definição psicossocial de si-mesmo. A
não atribuir a elas a mesma significação fatal
tensão assim criada pode ser ou não fonte de
que poderia ter em outras idades da vida ou em
transtornos, em razão do movimento regressi-
um outro contexto.
vo da crise, dependendo da infância do indi-
víduo, e dependendo da história da cultura em
que ele vive (por exemplo; uma civilização que A crise de identidade. – A confusão de
fornece aos jovens uma perspectiva temporal identidade representa, na verdade, apenas a
convincente e compatível com uma imagem de alienação, o agravamento patológico, o prolon-
48 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

gamento exagerado de uma crise que pertence a – Finalmente, a idade escolar (a partir dos
esse estágio particular do desenvolvimento in- 6 anos) leva a criança ao desejo de fazer alguma
dividual constituído pela adolescência e o iní- coisa funcionar e de fazê-la funcionar direito. Os
cio da idade adulta. E. H. Erikson chama esse adolescentes muito envolvidos por essa idade,
período de crise de identidade. procurarão suas satisfações e suas identidades em
Para Erikson, esta é inevitável em um pe- uma atividade ou em uma profissão onde todas
ríodo da vida em que as proporções corporais as questões materiais de status, de remuneração,
mudam radicalmente, em que a puberdade ge- passarão ao segundo plano com relação ao valor
nital sobrecarrega o corpo e a imaginação de dessa atividade ou dessa profissão.
todo tipo de impulsos, em que a intimidade com
o outro sexo se aproxima e, eventualmente, é Essa crise de identidade, sob suas diferentes
imposta ao jovem indivíduo, e em que o futuro formas, culminará na constituição de uma iden-
imediato confronta o adolescente com numero- tidade variável segundo os indivíduos, mas cuja
sas possibilidades e escolhas conflituosas. Essa característica geral será, segundo Erikson, a ca-
crise de identidade está ligada à procura de um pacidade de um distanciamento, isto é, a deli-
sentimento novo de continuidade e de unida- mitação de um território de intimidade próprio,
de vivida, que agora deve incluir a maturida- mas também de solidariedade com o outro. É
nessa crise que:
de sexual. Mas essa “identidade final” só pode
instalar-se depois de ser confrontada mais uma a identidade deve ser buscada. A iden-
vez com as múltiplas crises de desenvolvimento tidade não é dada ao indivíduo pela socieda-
dos primeiros anos. Esse contexto, no entanto, de, nem aparece como um fenômeno de ma-
é diferente daquele da infância. É a sociedade turação, como os pêlos pubianos. Ela deve
que estabelece seus limites e suas exigências, e ser adquirida mediante esforços individuais
não mais a família. Reencontramos aqui a preo- intensos. É uma tarefa tanto mais difícil na
cupação com a abordagem interdisciplinar do medida em que, durante a adolescência, o
fenômeno, tão cara a Erikson. passado está se apagando com a perda da an-
As manifestações dessa crise de identidade coragem na família e na tradição, o presente
se caracterizará pelas mudanças sociais, e o
na adolescência dependerão, portanto, do de- futuro tornou-se menos previsível.
senrolar das crises de identidade anteriores:
– Se o primeiro estágio do desenvolvi- Com a crise de identidade e a confusão de
mento legou à crise de identidade uma grande identidade, Erikson introduz conceitos e refe-
falta de confiança em si e nos outros, o adoles- rências às vezes difíceis de circunscrever. Para
cente temerá um envolvimento superficial ou compreender seu objetivo, é necessário recolo-
demonstrará uma desconfiança excessiva. Ele cá-lo: a reflexão de uma equipe interdisciplinar
buscará com fervor homens e idéias aos quais sobre a avaliação de um problema social por
possa dedicar sua fé. uma abordagem apoiada em uma metodologia
– Se o segundo estágio, caracterizado pelo clínica e psicanalítica.
combate em busca da autonomia, foi predomi-
nante, o adolescente se assustará com qualquer A Crise de Adolescência: Abordagem
imposição: isso o levará ao comportamento Freudiana
paradoxal de fazer qualquer coisa, com a única
condição de que seja por sua livre escolha. Alguns analistas propuseram uma reflexão
– A herança da idade lúdica dominada sobre o conceito de crise de adolescência uti-
pela imaginação ilimitada quanto àquilo que se lizando um modelo principalmente dinâmico
poderia ser no futuro, proporcionará um campo e econômico. Seja em Anna Freud, em Moses
de ação imaginário, senão ilusório, a um grande Laufer, em Évelyne Kestemberg ou em muitos
número de adolescentes. Eles suportarão com outros, a idéia central é que a crise de adoles-
muita dificuldade qualquer limitação ao leque cência remete àquilo que H. Nagera chama de
imaginário de suas auto-imagens, e revelarão “conflito de desenvolvimento” (cf. Enfance et
ambições desmesuradas, às vezes com uma forte psychopathologie). Esse conflito de desenvolvi-
carga de culpa. mento é experimentado em maior ou menor
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 49

grau por todos adolescentes. A adolescência da, “a puberdade é sempre uma surpresa” para o
assim compreendida é um momento de reorga- adolescente. Ele sente fugazmente um momento
nização psíquica, começando pela puberdade, de glória que é sucedido pela angústia. O futuro
dominada pelo efeito desta sobre o psiquismo, dependerá das possibilidades de manejo dessa
pelo reforço da depressão subjacente que flui no angústia. Mas o futuro dependerá igualmente da
aparelho psíquico ao longo de toda existência, satisfação ou da não-satisfação proporcionada
por indagações sobre a identidade, sobre a bis- pela puberdade como “coroamento” dessa vida
sexualidade, por um “alvoroço” de identifica- nova que o adolescente esperou durante o pe-
ções anteriores, e pela idealização dessa “nova ríodo de latência. O desenrolar normal da crise
vida” que o adolescente imaginariamente e se dará em duas etapas. A primeira é geralmen-
inconscientemente esperava. Trata-se de uma te a da decepção, podendo inclusive chegar à
crise, pois o adolescente, em plena reorgani- desilusão em face do que o adolescente imagi-
zação, vive mudanças, contradições, conflitos, nariamente e inconscientemente esperava. Ao
cuja evolução é aberta: eles podem culminar contrário, ele pode experimentar nessa etapa
em uma decepção paralisante ou, ao contrário, um grande deslumbramento, o que o empur-
em uma conquista progressiva de si mesmo. De- ra para além de suas possibilidades. A segunda
senvolvemos esses pontos de vista no capítulo etapa é a da passagem da decepção à conquista:
consagrado ao modelo de compreensão da ado- conquista do eu, por meio de um objeto, base
lescência inspirado na psicanálise (cf. o item dos alicerces narcísicos dos adultos de amanhã.
“O modelo psicanalítico”, no Capítulo 1). Por Essa passagem se realiza quando o adolescente
isso, aqui, não nos estenderemos muito nessa não tem mais necessidade de tudo, logo, quando
questão. ele pode viver um projeto como uma potenciali-
dade futura, e não como uma realização imedia-
A crise. – A sintomatologia pode ser com- ta, quando ele reencontra o tempo de esperar e,
pletamente diversa, feita de situações de con- conseqüentemente, de fantasiar.
flito, de passagens ao ato, de condutas de opo-
sição. Em si mesmos, esses sintomas não são Os aspectos patológicos. – A crise patoló-
significativos de uma patologia: a intensidade gica é observada quando “a puberdade e a ado-
das manifestações da crise não tem uma relação lescência foram não apenas críticas como tam-
direta com eventuais perturbações. Por exem- bém traumáticas, ou porque fulminaram o Ego
plo, não há paralelismo entre a gravidade de ou porque, no mínimo, o perturbaram a ponto
um comportamento, quanto ao seu prognóstico de ele não conseguir reencontrar e utilizar seus
vital ou social, e a gravidade do processo psico- mecanismos anteriores de defesa nessa situação
patológico subjacente. nova, nem recorrer a fantasias e ancorar-se ne-
A. Freud insiste particularmente na matu- las” (Kestemberg, 1980):
ração do Ego na adolescência e nos mecanismos
de defesa dirigidos contra a ligação com o ob- – a primeira forma é representada pela au-
jeto infantil e contra as pulsões quando os me- sência aparente de crise propriamente dita, au-
canismos anteriores falham em suas funções de sência de reorganização específica.
domínio da angústia (cf. item “Os meios de de- – o outro aspecto é o da morosidade (cf.
fesa”, no Capítulo 1). Combater suas pulsões e item “A crise juvenil propriamente dita”, no
aceitá-las, evitá-las eficazmente e ser esmagado Capítulo 2), uma espécie de hiperlatência. Para
por elas, amar seus pais e odiá-los, revoltar-se Évelyne Kestemberg, esse aspecto está ligado ao
contra eles e ser dependente deles, são posições “apagamento” da idealização natural do ado-
extremas cujas flutuações de uma para a outra lescente. A um grau acima, há uma verdadeira
seriam completamente anormais em uma outra negação das mudanças provocadas pela puber-
idade da vida. Na adolescência, elas são apenas dade. Tudo se passa como se nada tivesse acon-
o sinal da emergência progressiva de uma “es- tecido. A anorexia mental ou as toxicomanias
trutura adulta de personalidade”. são expressões clínicas disso.
Kestemberg (1980) compreende da seguinte – em outros casos, a mudança pubertária
maneira a crise de adolescência: embora espera- é, ao contrário, fortemente proclamada. São os
50 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

adolescentes que se lançam em uma espécie de 1975); podem-se distinguir diferentes grupos de
ativismo sexual, às vezes acompanhado de uma adolescentes, à parte qualquer patologia:
inibição da atividade intelectual ou criadora.
– Finalmente, o adolescente pode “deslo- – Um “grupo em crescimento contínuo”
car-se” (Angelergues): pela alteração pubertá- cujos sujeitos estão satisfeitos consigo mesmos,
ria, ele descobre sua própria alteridade. Torna- não manifestam nem período de ansiedade,
se estranho a si mesmo e ao objeto. Trata-se nem período de depressão, nem conflitos in-
aqui da instauração da esquizofrenia do adulto trapsíquicos importantes.
no momento da adolescência. – Um “grupo em crescimento por onda”,
em que os sujeitos são mais inclinados à depres-
são e à perda de auto-estima. Seus mecanismos
de defesa se enrijecem em situação de crise e
O Conceito de Crise em Questão seus conflitos são mais importantes.
– Um “grupo em crescimento tumultuoso”,
A adolescência é, por natureza, uma in- no qual a depressão e a ansiedade são mais im-
terrupção na tranqüilidade do crescimento: portantes que nos grupos anteriores. A falta de
característica do período de latência, a manu- estima em relação a si mesmos e aos outros pre-
tenção prolongada de um equilíbrio estável valece entre os adolescentes desse grupo. Eles
torna-se em si mesma anormal. A adolescência são mais dependentes de seus iguais e manifes-
se caracterizaria então por posições conflituosas tam problemas comportamentais ou familiares
econômicas e dinâmicas extremas, mutáveis, conflituosos.
flutuantes, que dão a esse período da vida seu – Por último, um grupo não característico.
aspecto de tumulto, de perturbação e de crise,
Uma segunda crítica refere-se essencialmen-
mas isso não nos autoriza a falar de patologia: o
te ao importante risco que comporta uma con-
diagnóstico diferencial entre as perturbações da
fusão entre os aspectos normais e patológicos,
adolescência e a verdadeira patologia é uma ta-
confusão que às vezes pode aparecer nos traba-
refa difícil: “há uma ligação entre as manifesta-
lhos que assimilam inteiramente o processo de
ções do adolescente normal e os diversos tipos
adolescência a uma crise. De fato, confundir as
de pessoas doentes:
manifestações da adolescência normal e as en-
– a necessidade de evitar qualquer solução tidades psicopatológicas pode travar o futuro
falsa corresponde à inaptidão do psicótico ao de adolescentes profundamente perturbados,
compromisso; ao minimizar a existência de sua patologia e,
– a necessidade de se sentir real ou de não portanto, a profunda gravidade de certas mani-
sentir absolutamente nada está ligada à depres- festações. É preciso, então, buscar critérios de
são psicótica com despersonalização; avaliação mais finos: “Estamos descobrindo que
– a necessidade de provocar corresponde à muitos adolescentes que apresentam problemas
tendência anti-social que se manifesta na delin- aparentemente transitórios ou de natureza neu-
qüência” (Winnicott). rótica se revelam mais tarde bem mais pertur-
bados. Em compensação, alguns adolescentes
No extremo, esse ponto de vista leva a parecem seriamente perturbados, sendo que seu
considerar que os indivíduos doentes são aque- tratamento revela que não é esse o caso” (Laufer,
les que não chegaram ao estágio de desenvol- 1982). Assim, as manifestações da adolescência
vimento psicoafetivo que é a adolescência, ou que sinalizam uma etapa do desenvolvimento
que só chegaram a ele de maneira muito defor- ou, em outros termos, uma fase genética, devem
mada. ser distinguidas dos transtornos psíquicos que
A assimilação do processo da adolescência correspondem a uma interferência comprovada
a uma crise é alvo de diversas críticas. no desenvolvimento psicológico do indivíduo
Uma primeira crítica apóia-se em estudos lon- e/ou ao desmoronamento dos meios anteriores
gitudinais que utilizam testes psicológicos e ques- para fazer face às situações de estresse. É preciso
tionários sobre a imagem de si e as representa- avaliar o funcionamento global da personalida-
ções de relações de objeto internalizadas (Offer, de, dirigir uma atenção particular ao conjunto
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 51

de manifestações e de condutas intrapsíquicas tipos de crise são apenas a expressão manifesta


que o adolescente manifesta. Podemos citar de rupturas subjacentes. Assim, direcionamos
aqui Ladame: nossa atenção “à maneira como os componen-
tes da crise são vividos, elaborados e utilizados
Um transtorno psíquico corresponde subjetivamente, isto é, essencialmente como
a uma interferência comprovada no desen- uma ruptura da relação inter e intra-subjetiva,
volvimento psicológico do indivíduo e ao na trama das vinculações a grupos e à socieda-
desmoronamento dos meios anteriores para de” (Kaes e col., 1979)
fazer face às situações de estresse. Não se
trata mais da vasta panóplia de comporta-
A ruptura se expressa por estados de crise,
mentos que podem ser observados em qual- isto é, por um episódio mental ou por uma série
quer adolescente normal, que compreen- de episódios mentais, cuja associação, o reforço
dem as variações de humor, os sentimentos ou a substituição de um pelo outro constituem
temporários de desespero, as brigas e trans- sistemas que vão de uma fase instável e confli-
tornos com os pais, com a escola, com as tuosa a um novo estado de estabilidade. Essas
autoridades, a experiência com drogas, etc. experiências de rupturas podem dolorosamente
Esses comportamentos, que alguns ainda colocar em questão:
designam às vezes pelo termo ambíguo “cri-
se de adolescência”, não travam o avanço 1) O mundo interno: a continuidade psíqui-
em direção à vida adulta e a capacidade de ca, a continuidade do eu, o uso de mecanismos
tirar prazer de sua vida pessoal. de defesa, a organização de identificações e de
sistemas de ideais, o mundo fantasmático.
Uma terceira crítica traz à luz o risco de con- 2) O mundo externo: o paradoxo das rela-
fusão encontrado às vezes entre os episódios ções familiares, a confiabilidade das vinculações
intrapsíquicos, inconscientes ou pré-conscien- a grupos, a eficácia do código comum a todos
tes e as atitudes comportamentais aparentes (a
aqueles que compartilham com o sujeito a mes-
descrição da crise de originalidade por Debes-
ma sociabilidade e uma mesma cultura.
se apóia-se, de fato, essencialmente em traços
aparentes do comportamento: ao contrário, os De um ponto de vista psicopatológico, as
aspectos críticos revelados por Évelyne Kestem- experiências de ruptura podem ser analisadas
berg são reconhecidos a partir de uma análise segundo duas modalidades:
de fenômenos intrapsíquicos, a maioria deles
inconscientes ou pré-conscientes). Perceber a 1) Em primeiro lugar, o problema da rapidez
adolescência como “uma crise” pode levar a uma de substituições nos diferentes âmbitos intrapsí-
leitura centrada em uma dimensão sociológica: quicos. Essa rapidez de substituições provoca
por mais pertinente que seja, uma tal abordagem uma espécie de amnésia da fase anterior, leva a
tem uma utilidade limitada para o clínico e para crer que o adolescente vive sempre no presente,
o sujeito singular que se encontra diante dele. e produz esse aspecto de “crise” freqüentemen-
te descrito de forma diferente entre um e outro
Crise e Ruptura na Adolescência autor, em função dos pontos de vista teóricos
adotados. Essa espécie de amnésia tão particular
Ao associar os termos ruptura e crise, de- à adolescência, esse esquecimento tão rápido do
sejamos apresentar um ponto de vista pessoal. momento anterior e essa dificuldade de antecipar
Antes de tudo, a associação quase automática o momento seguinte explicam o valor subjetivo
entre adolescente e crise é muitíssimo difun- muito particular do tempo nesse período da vida.
dida, a nosso ver, e não leva em conta nem as É lógico considerar essas crises como episódios
dificuldades históricas nem as dificuldades me- normais, temporários e não como transtornos
todológicas e epistemológicas que encontramos psíquicos organizados duráveis. Os diversos tipos
para definir o conceito de crise. De resto, es- de crise que descrevemos situam-se nesse regis-
tamos mais interessados na função psicológica tro. A “memória psíquica” é comumente rompi-
e psicopatológica da crise do que em sua mera da, mas não a “continuidade psíquica”.
descrição clínica: isso nos conduz a introduzir 2) Em segundo lugar, o problema da “rup-
o conceito de ruptura. Para nós, os diferentes tura” que surge com as transformações corpo-
52 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

rais. Essa ruptura é acompanhada de um traba- (p. 194). Contra o primado do falo, caracterís-
lho psíquico cujo objetivo é ter acesso à posse tico da sexualidade infantil, o pubertário obriga
de seu próprio corpo sexuado. “Ao longo da o adolescente a enfrentar essa complementari-
adolescência, quando o corpo do indivíduo tor- dade de sexos e o desvendamento do sexo femi-
na-se psiquicamente sexuado, pode ocorrer que nino. Isso não se faz sem excitação, e doravante
ele não encontre outra maneira de preservar sua o pubertário impulsiona o adolescente a buscar
maneira de ser, seja homem, seja mulher, a não esse objeto complementar, voltando-se primei-
ser mediante uma ruptura do mundo exterior” ramente aos seus investimentos de infância: “O
(Moses Laufer, 1983). Essa ruptura pode pro- pubertário é exatamente o inverso de um movi-
vocar um verdadeiro “desmoronamento psíqui- mento de separação. Uma força anti-separadora
co”, durante o qual a personalidade fica total- anima o frenesi da criança em direção aos seus
mente submersa, incapaz de funcionar, e onde pais” (p. 196). Infelizmente, para o adolescen-
a adaptação à realidade fica comprometida. A te, “a sexualidade que encontrou sua meta não
continuidade psíquica é rompida. Uma tentati- encontrou (ainda) um objeto adequado” (p.
va de suicídio, uma conduta toxicômana, uma 196). Voltado aos objetos edipianos, o adoles-
confusão de identidade ou um dos estados psi- cente elabora “cenas pubertárias” suscetíveis de
cóticos característicos da adolescência podem entrar em ressonância com a realidade intera-
traduzir esse desmoronamento que é em si um tiva dos pais: o pubertário dos pais correspon-
verdadeiro transtorno psíquico, segundo Moses de às “profundas modificações que estes sofrem
Laufer. Entretanto, ele se distingue de doenças quando da puberdade de seu filho... quem seduz
mentais como a esquizofrenia, onde a diferença quem, quem agride quem?” (p. 197). Há o risco,
entre dentro e fora não existe mais, e onde os portanto, desse pubertário tornar-se traumático
transtornos de funcionamento psíquico, como a “na medida em que se produza uma coincidên-
paradoxalidade, já estão bem inseridos na vida cia entre o desejo inconsciente do adolescen-
interna e relacional do sujeito. te e as manifestações de desejo de um de seus
genitores” (p. 198). Assim, para encontrar o
objeto adequado, o adolescente deve de algum
O Conceito de Pubertário modo renunciar a essas “cenas pubertárias”, e o
Mesmo sem se referir explicitamente à “pivô da mudança da adolescência é [...] a ina-
noção de crise, alguns autores privilegiam um dequação fundamental entre realidade interna
modelo de compreensão que dá ao adolescen- e externa” (p. 198). Essa desilusão conduz a
te uma qualidade de emergência psicodinâmi- uma elaboração objetal, a uma perda do objeto
ca particular, para não dizer específica. Entre adequado, trabalho de elaboração secundária
esses autores, P. Gutton, na França, foi quem que Gutton chama de “adolescens”.
mais defendeu esse ponto de vista: “A crise de
adolescência, normal ou patológica, é a busca Os Manejos da Dependência
de solução que permita assegurar o sentimento
contínuo da existência, ao mesmo tempo inte- P. Jeammet e M. Corcos propuseram uma
grando a novidade pubertária” (Gutton, 1997, maneira original de valorizar as especificidades
p. 199). O que é essa “novidade pubertária”? do processo de adolescência e a compreensão
“A puberdade representa para o corpo o que de suas vicissitudes:
o pubertário representa para a psique”, diz-nos
Gutton (p. 193), que procura circunscrever a Sexualização das relações e desideali-
defasagem entre a sexualidade infantil e esse zação conjugam seus efeitos para fazer com
pubertário, verdadeira genitalidade adolescen- que os objetos percam seu papel de suporte
narcísico, enquanto que a necessidade em
te em processo. A característica do pubertário que se encontra o adolescente de assegurar
é “desligar falo e pênis” (p. 195), permitindo sua nova autonomia, e por isso mesmo de
assim que se revele “a complementaridade de levar a cabo suas identificações e de con-
sexos” (p. 194), sentida no início da adolescên- firmar a solidez de suas aquisições internas,
cia como “uma adequação de órgãos conforme reforça sua dependência objetal, exacerba e
o modelo do par zona erógena/objeto parcial” reatualiza o antagonismo entre necessidade
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 53

objetal e autonomia do sujeito. (Jeammet e “três níveis de seu fundamento. No nível do


Corcos, 2001, p. 40 e seguintes). significante-mestre [...] no nível do significante
fálico [...] no nível do Nome-do-Pai”.
Assim, para esses autores, que se posicio- A abordagem lacaniana destaca o fato de
nam segundo o ponto de vista do funcionamen- que o adolescente subjetiva seu status de sujeito
to psíquico: para o Outro, confrontando-se com o desejo do
Outro e com sua falta que se segue.
A dependência pode ser descrita como a
utilização, para fins defensivos, da realidade
percepto-motriz como contra-investimento
de uma realidade psíquica interna falha ou AGRUPAMENTOS DE DOMINANTE
ameaçadora. Nessa perspectiva, a dependên-
cia é uma virtualidade, se não uma constan- DESENVOLVIMENTAL
te, do funcionamento mental, pois há sem-
pre um jogo dialético de investimento e de
contra-investimento entre a realidade psí- Embora as abordagens de dominantes estru-
quica interna e a realidade externa do mun- turais que acabamos de tratar não neguem, de
do percepto-motor. Ela representa um pro- modo algum, que um adolescente tenha sido pri-
blema na medida em que se torna um modo meiramente uma criança, com as vicissitudes an-
prevalente e durável desse funcionamento teriores do desenvolvimento, as abordagens que
em detrimento de outras modalidades. vamos apresentar agora inscrevem-se de forma
nitidamente mais estreita nas linhas de desen-
Os adolescentes que se tornam patologica- volvimento como a do processo de separação-in-
mente dependentes são os que utilizam de forma dividuação e a da construção da subjetivação ou,
dominante e coercitiva a realidade externa, isto em outros termos, do processo de diferenciação.
é, o mundo percepto-motor, para se defender e
contra-investir uma realidade interna na qual
não podem se apoiar. Compreende-se assim a
importância das modalidades comportamentais O Segundo Processo de Separação-
que os adolescentes utilizam de forma privile- Individuação
giada em relação às modalidades reflexivas.
Os conceitos de Margaret Mahler desen-
Hipóteses Lacanianas Sobre a volvidos a partir de pesquisas com crianças pe-
Adolescência quenas e da observação de relações mãe-filho
levaram vários psicanalistas de adolescentes
Vamos mencionar aqui o trabalho de J. J. a comparar o processo de adolescência com o
Rassial (1990) que, certamente, não resume processo de separação da criança pequena des-
todos os trabalhos de orientação lacaniana, crito pela autora. Se a criança pequena desli-
mas que apresenta uma abordagem diferente gou-se de sua mãe por internalização, o adoles-
dos pontos de vista precedentes. Esse autor se cente se desliga de objetos internalizados para
apóia na questão do Real, do Imaginário e do amar os objetos exteriores e extrafamiliares.
Simbólico. O Real priorizado na adolescência é Um jogo identificatório complexo opera-se
evidentemente o da puberdade fisiológica, mas ativamente, jogo entre o desenvolvimento de
não apenas. Ele é também “o que afeta a encar- identificação melancólico ligado ao trabalho de
nação imaginária do Outro que são os pais e vai luto e de separação e a construção de identifica-
exigir um deslocamento” (Rassial, 1990, p. 198 ções histéricas na origem de uma nova “imagem
e seguintes). Imaginariamente, o adolescente compósita” e, portanto, de um processo de indi-
deve “integrar infinitos com os quais ele se con- viduação. Na adolescência, o segundo processo
fronta [...] infinito do espaço, infinito do tempo de separação-individuação e o processo identifi-
[...] que nenhum Outro poderá satisfazer ao lon- catório estão intimamente ligados, embora seus
go do tempo”. Enfim, na adolescência, o signi- cursos naturais aparentes sigam em sentidos
ficante, na sua função de representar o sujeito, opostos (Samuel Erlich, 1986). De fato, já em
muda de valor, e o Simbólico é questionado nos 1944, H. Deutsch escrevia:
54 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

A pré-puberdade é uma fase durante – Finalmente, a pós-adolescência, durante


a qual as pulsões sexuais são mais fracas, e a qual a tarefa da adolescência deve ser con-
onde o desenvolvimento do Ego é mais in- cluída, isto é, “quando a organização da perso-
tenso. Ela se caracteriza por um impulso à nalidade é tal que a paternidade ou a materni-
atividade e por uma trajetória para o cresci-
mento e a independência, e representa um
dade podem dar uma contribuição específica ao
processo intensivo de adaptação à realidade, crescimento da personalidade”.
de domínio do ambiente, resultante dessa
evolução do Ego. O adolescente encontra-
A partir dessa fragmentação em diferentes
se preso entre o passado e o futuro, entre fases, estabelece-se um processo de ordem mais
infância e idade adulta, do mesmo modo geral. Sua direção e sua meta continuam as mes-
que a criança pequena estava dividida entre mas ao longo de toda a adolescência, seguindo
relação simbiótica e autonomia. A luta pela sempre no sentido do desligamento do objeto
independência que ocorre nesse período da infantil e, ao mesmo tempo, da maturação do
vida lembra-nos intensamente os processos Ego. Inversamente, os transtornos do desenvol-
que se desenvolvem entre um e meio e três vimento de funções do Ego na adolescência são
anos de idade, durante o que qualificamos sintomáticos de fixações pulsionais e de depen-
de fase pré-edipiana da infância (a passa-
gem da fase simbiótica à autonomia).
dência dos objetos infantis. Nessa concepção, a
maior parte dos transtornos psíquicos da adoles-
Os conceitos de Margaret Mahler foram cência está ligada às vicissitudes desse processo
retomados essencialmente por P. Blos e J. F. de separação-individuação.
Masterson a propósito de adolescentes border- É inegável que um tal ponto de vista tem o
line (cf. cap. 12) e transpostos à adolescência. mérito de atrair claramente a atenção do clínico
O segundo processo de individuação é o fio fun- sobre os riscos de distorção do desenvolvimen-
cional que serpenteia ao longo de toda a adoles- to, de fixação patológica e, conseqüentemente,
cência; além disso, P. Blos descreveu diferentes tem o mérito de evitar a passividade e a acomo-
subfases: dação. Contudo, esse tipo de compreensão foi
alvo de críticas:
– A pré-adolescência, caracterizada pelo
aumento quantitativo da pressão pulsional e 1) Crítica de forma, em face do aspecto um
pelo ressurgimento da pré-genitalidade. pouco esquemático das diversas etapas e subfa-
– A primeira adolescência, marcada pela ses da adolescência. Numerosos autores, em ra-
primazia genital e pela rejeição dos “objetos zão das variações de idade, muito importantes
internos parentais”. “O verdadeiro processo de nesse período da vida, refutam essas diversas
ruptura das ligações com o primeiro objeto tem subfases, e restringem-se a falar de pré-adoles-
início”. cência, de adolescência propriamente dita e
– A adolescência propriamente dita, do- eventualmente de pós-adolescência.
minada pelo despertar do complexo edipiano 2) Crítica de conteúdo: alguns autores
e pelos desligamentos dos primeiros objetos consideram que essa perspectiva ontogenética
de amor. Ao longo dessa fase, o narcisismo se enfatiza muito o aspecto adaptativo do pro-
amplifica, o luto aparece, e veremos suas liga- cesso, desprezando um pouco o aspecto confli-
ções com a depressão (cf. Capítulo 9), “o estado tuoso da adolescência. Certamente, tal ponto
amoroso” reflete os problemas ligados à escolha de vista se justifica quando esse tipo de com-
de objeto sexual: falaremos disso mais detalha- preensão ultrapassa o campo individual para se
damente no capítulo dedicado à sexualidade e aplicar ao campo social coletivo; contudo, essa
às suas vicissitudes (cf. Capítulo 7). “A indivi- crítica nos parece pouco fundamentada no âm-
dualização atinge seu ápice com o despertar do bito da clínica centrada no indivíduo, pois os
conflito edipiano e o estabelecimento do prazer autores mencionados acima (Blos, Masterson,
preliminar, que passa a agir sobre a organização Laufer, entre outros) fazem uma análise minu-
do Ego”. ciosa dos “conflitos de desenvolvimento”, de
– A adolescência tardia é uma fase de con- seu entrave e de sua resolução (ver a discussão
solidação das funções e dos interesses do Ego e do capítulo “Crises e rupturas na adolescên-
de estruturação da representação do Eu. cia”, Capítulo 2.).
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 55

A Aventura da Subjetivação de tornar-se ele próprio genitor de crianças e de


adolescentes.
Nosso propósito aqui não é ir a fundo nes-
R. Cahn (1997, 1998) fala, por sua vez, sa discussão. Entretanto, parece-nos que aque-
de processo de subjetivação. O sujeito da psi- les que insistem hoje na dimensão crítica da
canálise representa de fato apenas o resultado adolescência apóiam-se antes de tudo em um
de um longo processo de subjetivação do qual ponto de vista dinâmico e conflituoso, mas há
“a adolescência, por mais que retome, elabore, um enorme risco de que este leve a uma atitude
modifique e crie novas modalidades do traba- de “wait and see”, da qual se poderia temer uma
lho psíquico, constitui um momento essen- conseqüência prática: uma atitude exagerada-
cial”. “O processo de subjetivação tem a ver mente abstencionista em face de certas situa-
fundamentalmente com o ego...” Trata-se não ções perigosas para o futuro psíquico ao sujeito.
tanto de um processo de separação-individua- Ao contrário, aqueles que preferem descrever a
ção quanto de um processo de diferenciação adolescência como um processo apóiam-se em
que, “a partir da exigência de um pensamen- um ponto de vista genético ou desenvolvimen-
to próprio, permite a apropriação do corpo talista, no sentido de um processo de mudança
sexuado e a utilização das qualidades criado- em diferentes linhas do desenvolvimento, em
ras do sujeito” (Cahn, 1997, p. 215). Assim diferentes eixos da vida intra e interindividual.
definida, essa subjetivação permite ao sujeito Essas mudanças na continuidade psíquica e nas
livrar-se do “poder do outro” ou da alienação ligações entre a realidade interna e a realida-
de sua fruição. Mas “é na adolescência que se de externa podem ser rupturas ou não, adquirir
exacerbam os obstáculos internos e externos à formas críticas ou não, mas necessitam de uma
apropriação pelo sujeito de seus pensamentos avaliação cuidadosa e aprofundada que levem
e desejos próprios, de sua identidade própria” a distinções entre processo e crise, entre o nor-
(p. 217), devido às incertezas ligadas às altera- mal e o patológico, e, portanto, a intervenções
ções pubertárias, ao novo lugar do objeto em precoces e às vezes intensivas, quando elas se
vista da maturidade sexual, às ligações com as mostram necessárias.
imagens parentais e com a realidade dos pais. Todos assinalam o perigo de uma “ciência
“Esse movimento de apropriação de seu cor- psicanalítica parental”, pois “ao pretender ex-
po, evidentemente, mas também de seu lugar plicar as questões da adolescência de uma ma-
como sujeito sexuado na sucessão das gerações, neira tão impaciente, o adulto evidencia que os
não se faz sem conflitos e contradições, nem problemas da adolescência nada mais são que os
sem passar por um período prévio [...] de in- seus próprios problemas” (Jeanneau, 1982). No
dagações angustiadas sobre esse familiar que fim das contas, apenas a relação entre o mundo
brutalmente se torna estranho, de desapego dos adolescentes e o mundo dos adultos, sua na-
do corpo e do mundo” (p. 226). Os riscos de tureza, o valor expressivo dos conflitos patentes
desligamentos aqui estão em primeiro plano, e ou latentes, sua evolução reterão a atenção do
permitem compreender, em particular, o risco clínico de orientação psicanalítica e sustenta-
psicótico nesse período da existência. rão o modelo psicanalítico.
Em resumo, alguns conceituam a adoles-
cência como um período estrutural específico, o
que geralmente torna difícil a distinção entre as
manifestações próprias a essa etapa e os trans- O NORMAL E O PATOLÓGICO NA
tornos psíquicos duráveis. Outros conceituam ADOLESCÊNCIA
a adolescência como uma etapa de desenvolvi-
mento que pode ser subdividida em diferentes
fases, e cuja função de conjunto assemelha-se à Mais do que em qualquer outra idade da
da primeira infância. Nessa última concepção, vida, a questão do normal e do patológico
o adolescente representa um processo composto coloca-se de forma aguda na adolescência: a
de diferentes tarefas que devem ser cumpridas multiplicidade de condutas desviantes, sua la-
para passar à idade adulta, para chegar à esta- bilidade, a dificuldade de apreender a organi-
bilidade das relações de objeto e à possibilidade zação estrutural subjacente, o obscurecimento
56 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

do quadro nosográfico habitual, o papel não essa abordagem tende a anular o sentido des-
desprezível da família e do ambiente social... sas condutas (sofrimento, apelo) ou a utilizar
Tantos eixos de referência, tantas incertezas. Os uma grade nosográfica empírica (tal adolescen-
critérios sobre os quais se fundamenta a noção te parece com tal outro, ele tem um ar de...).
do normal ou do patológico em outras idades Widlöcher colocou claramente os termos des-
são todos aqui postos em xeque: 1) a normalida- sa alternativa: “Será que se deve objetivar ao
de no sentido da norma estatística encorajaria máximo a conduta para reduzi-la a um sinto-
a considerar como normais condutas manifesta- ma associado a uma etiologia? ou, ao contrário,
mente desviantes em outros momentos, com o deve-se reduzir essa conduta ao sentido que ela
risco de retirar todas as suas significações de so- reveste na subjetividade do adolescente, dando
frimento (é o que ocorre com a idéia de suicídio atenção apenas ao ‘vivido’ deste último”? (Wi-
do adolescente); 2) a normalidade no sentido dlöcher, 1976).
da norma sociológica traria o risco de lançar a Em todos os autores que se dedicaram à
totalidade da adolescência no campo patológi- adolescência, contata-se a tendência a utilizar
co (em função da freqüência de condutas ditas uma terminologia originária da patologia para
precisamente anti-sociais); 3) a normalidade compreender o sentido da crise habitual do
em oposição à doença não levaria a falar de adolescente: a patologia serve assim de modelo
“adolescência-doença”? para os movimentos próprios desse período, o
Contudo, em face das condutas desviantes que também obscurece qualquer fronteira pos-
do adolescente, o psiquiatra é diretamente in- sível entre o normal e o patológico. Winnicott
terpelado pela família ou pela sociedade. Ele é compara certos elementos do processo da ado-
mais ou menos intimado a responder: esse ado- lescência àquilo que se observa no psicótico ou,
lescente se tornará um adulto normal ou sucum- sobretudo, no delinqüente. Para A. Freud, “a
birá à patologia? Quer as condutas desviantes puberdade pode se assemelhar a impulsos psi-
pareçam testemunhar um conflito internalizado cóticos pela adoção de certas atitudes de defesas
(depressão), ou um conflito familiar (oposição primitivas”. Para ela, nessa idade, apenas uma
aos pais, recusa escolar), ou um conflito no cam- diferença econômica de intensidade distingue
po social (conduta delinqüente, toxicomania), o que é normal do que é patológico. A. Haim
isso não muda nada a questão. O adolescente é fala do trabalho de luto realizado durante a ado-
um adulto potencial: é sobre essa potencialida- lescência com todos os movimentos depressivos
de que o psicanalista é interrogado. que acompanham esse trabalho. Assim, entre a
Em face dessa demanda prognóstica, o depressão clínica, a crise psicótica aguda ou as
consultante pode ser tentado a adotar dois condutas psicopáticas de um adolescente, de um
tipos de estratégias psicopatológicas opostas. lado, e, de outro lado, a problemática do luto,
Seguindo o modelo tradicional, ele pode ten- os remanejos de identidade-identificação ou o
tar equiparar as diversas condutas desviantes conflito de geração e de reivindicações sociais
do adolescente com sintomas de entidade próprios à “crise de adolescência”, há mais do
mórbida, definidas no campo psiquiátrico da que uma continuidade sintomática: há, para al-
criança ou do adulto. Esse modo de referência guns autores, uma efetiva similitude estrutural,
semiológica tende a fazer de toda conduta não similitude cujo resultado seria negar qualquer
habitual um sintoma mórbido. A experiência linha divisória entre a “crise do adolescente”
clínica mais elementar mostra que esse es- necessária, favorável ao amadurecimento e es-
quema é menos válido ainda na adolescência truturante, e uma eventual organização patoló-
que nas outras idades da vida. Inversamente, o gica fixada. Segundo Widlöcher, a solução desse
consultante pode adotar uma atitude precipi- paradoxo reside em uma melhor compreensão
tadamente qualificada de “empática”, em que das condutas do adolescente: esse autor recu-
apenas o “vivido” do adolescente é levado em sa a divisão bastante freqüente entre condutas
conta; com isso, todas as condutas podem ser que testemunhariam uma patologia (conduta-
relegadas a um componente banal e normal da sintoma) e condutas que seriam a expressão de
“crise de adolescência”. uma psicologia normal (conduta-vivido). Toda
Se, por um lado, evita-se o risco de aplicar conduta deve ser vista por ela mesma, depois si-
um quadro nosográfico arbitrário, por outro, tuada no conjunto das condutas do sujeito, ava-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 57

liando sua harmonia, a fluidez desses grupos de comportamento dado. Ao contrário, a ava-
condutas ou, ao contrário, sua dissonância, sua liação do funcionamento global da perso-
rigidez. Assim, “tal sintoma muito inquietante nalidade permite, de maneira geral, captar
inscreve-se em um sistema de condutas fluidas, as interferências e explicitar o risco de que
tal outro em um sistema rígido e perfeitamente elas possam travar a continuidade da evolu-
ção para a idade adulta.
tipificado do ponto de vista psicopatológico”.
Esses “sistemas rígidos” realizam conjuntos
Duas modalidades de análise emergem
de condutas que tendem a co-variar umas com
assim: 1) de um lado, a flexibilidade oposta à
as outras. Assim eles definem um funcionamen-
rigidez das condutas e a maneira como as con-
to psicopatológico mais facilmente identificá-
vel. Recordemos a frase de S. Freud (1932): “a dutas interferem no funcionamento global da
patologia isola e exagera certas relações”. personalidade, isto é, os episódios atuais e a or-
Ao lado dessa distinção entre sistema “flui- ganização mental historicamente construída; 2)
do” e sistema “rígido”, outros autores adotam o de outro lado, o obstáculo mais ou menos im-
ponto de vista desenvolvimentalista já mencio- portante que essas condutas representam para
nado (Blos, Laufer) para tentar avaliar o nor- a continuidade do desenvolvimento psíquico,
mal e o patológico. De fato, esses dois pontos de isto é, uma análise prospectiva sobre as inte-
vista se associam com extrema freqüência: rações entre esses episódios atuais e o processo
psíquico em vias de construção. Essas duas mo-
A distinção entre os estresses normais dalidades de análise associadas proporcionam
temporários e os transtornos psíquicos pode uma elucidação dinâmica à compreensão da
parecer difícil se levamos em conta apenas psicopatologia individual e à questão do normal
um fenômeno isolado, uma conduta ou um e do patológico na adolescência.

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3
A Entrevista com o Adolescente

E ntre o interminável e fastidioso catálogo


das diversas situações clínicas possíveis, de
um lado, e a exposição breve e árida de alguns
co de se chegar a um impasse terapêutico. As
primeiras entrevistas sempre oscilam entre esses
dois pólos: o desligamento possível e o estabele-
grandes princípios que ditam a conduta do te- cimento do quadro terapêutico necessário.
rapeuta, de outro lado, o caminho que permite Entretanto, a demarcação do funcionamen-
explicar a dinâmica das primeiras entrevistas é to psicopatológico do adolescente e a avaliação
bem estreito. Contudo, da qualidade desses pri- da qualidade das interações familiares consti-
meiros contatos podem depender a qualidade tuem as primeiras preocupações do terapeuta.
da relação terapêutica futura e da qualidade do Mas é muito difícil dissociar, pela clareza peda-
investimento feito pelo adolescente e por sua gógica, o que faz parte do procedimento diag-
família na terapia. Obviamente, é um exage- nóstico e o que já é da ordem de uma preocu-
ro afirmar que tudo depende dessas primeiras pação terapêutica. Neste capítulo, abordaremos
entrevistas; é verdade, porém, que a plastici- sucessivamente os princípios e objetivos que
dade da organização psíquica do adolescente, subentendem o procedimento do terapeuta, e
sua ávida necessidade de uma relação nova e em seguida a própria prática clínica. Antes que
diferente, fazem dessas entrevistas momentos se tome qualquer decisão relacionada a um ado-
decisivos. O terapeuta muitas vezes é animado lescente e/ou à sua família, é necessário esse pri-
pelo sentimento de que o potencial evolutivo é meiro momento, que chamamos de entrevistas
muito aberto e depende em parte da qualidade de avaliação.
da interação que se estabelece. Esse sentimen-
to reflete um dos dados essenciais do trabalho
com o adolescente: a densidade e o imediatismo
da relação transferencial, mas também contra- PRINCÍPIOS E OBJETIVOS DAS
transferencial. Se a intensidade dessa interação PRIMEIRAS ENTREVISTAS
proporciona a energia necessária ao estabeleci-
mento de um programa terapêutico para o ado-
lescente, ela representa também, por parte dele, Durante essas primeiras entrevistas, o tera-
o meio de incluir esse novo adulto, o terapeuta, peuta é confrontado antes de tudo com a ne-
em suas projeções mais patológicas, com o ris- cessidade de uma avaliação diagnóstica global,
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 59

avaliação que leva em conta dados produzidos de toxicomania, um furto ao de delinqüência,


pela qualidade da relação adolescente-terapeu- uma aventura homossexual ao de perversida-
ta e da dinâmica dessa relação por meio de al- de, etc;
gumas entrevistas iniciais, produzidos pelas hi- – risco de proteção e de ancoragem opera-
póteses psicopatológicas sobre o funcionamento da pelo diagnóstico apresentado e pelas contra-
intrapsíquico tal como ele pode ser apreendido atitudes que ele suscita, tanto no adolescente
pelas condutas manifestadas e a dinâmica rela- quanto no seu ambiente familiar ou social;
cional, e produzidos finalmente pela análise das – flutuações freqüentes dos níveis de fun-
interações familiares e sociais. A partir desses cionamento psíquico do adolescente, flutua-
dados, o clínico avalia logo após a entrevista ções que dependem em parte do momento e
aquilo que resta de suas preocupações essen- de circunstâncias pontuais, onde intervém a
ciais: diagnóstico, prognóstico e terapêutica. entrevista.
Contudo, a ausência de qualquer proce-
dimento diagnóstico também comporta peri-
A Qualidade da Relação com gos próprios. Por um lado, pode-se renunciar
o Adolescente e sua Família: O a qualquer tentativa de síntese dos dados e
Problema do Diagnóstico limitar-se a atitudes espontâneas mais ou me-
nos refletidas: isto culmina com o abandono de
qualquer elaboração teórica, mas, sobretudo, de
A preocupação diagnóstica é vista com qualquer projeto terapêutico. Assim, deixa-se
maus olhos, e seus perigos são denunciados in- levar pelos acontecimentos. O adolescente, que
cansavelmente. É verdade que a adolescência, está justamente em busca de sua identidade e
por sua instabilidade, por sua incerteza evolu- de seus limites, será impelido inevitavelmente
tiva, pelo caráter normalmente ruidoso e per- a condutas cada vez mais patológicas em face
turbador de certas manifestações banais, é um dessa ausência total de referência. Por outro
dos períodos da vida em que o estabelecimento lado, uma conseqüência freqüente dessa recusa
de um diagnóstico psiquiátrico preciso torna-se de qualquer procedimento diagnóstico é o re-
aleatório. Além disso, ao se formular um diag- curso a categorias que não são designadas como
nóstico que implica contra-atitudes em geral tais, não reconhecidas explicitamente porque
muito pesadas, como a que se observava no elas se mantêm sob a forma de notações impres-
caso do “princípio de esquizofrenia simples” ou, sionistas, de referências à experiência anterior
ainda hoje, da “psicopatia”, corre-se o risco de do terapeuta ou da instituição (tal adolescente
cristalizar o processo evolutivo do adolescente parece com aquele antigo, este tem o ar de...).
e, pior ainda, de induzir no adolescente contra- Trata-se então de uma classificação diagnóstica
identificações negativas correspondentes a esse empírica não reconhecida, e totalmente depen-
diagnóstico psiquiátrico e que, falaciosamente, dente da subjetividade individual.
virão a confirmá-lo a posteriori. Pode-se resumir Portanto, a análise da psicopatologia das
os perigos e os riscos de um diagnóstico psiquiá- condutas do adolescente nos parece necessária,
trico na adolescência da seguinte maneira: mas Widlöcher (1978) denuncia um segundo
perigo, que consiste em distinguir artificial-
– dificuldades de estabelecer uma corres- mente dois tipos de conduta: as que seriam do
pondência entre uma fase mutante e evolutiva registro do compreensível, do vivido, em uma
da vida e um quadro nosográfico fixado, delimi- palavra: do normal, e as que seriam do registro
tado muito mais em função da patologia mental do incompreensível, do sintoma, em uma pa-
do adulto ou, a rigor, da criança do que do pró- lavra: do patológico (ver a esse respeito a dis-
prio adolescente; cussão sobre o normal e o patológico). Não é
– risco de atribuir a uma conduta ruidosa, na demarcação e na rotulação de uma série de
inquietante ou incômoda para o círculo (fa- sintomas que o procedimento diagnóstico será
mília, sociedade) o poder de explicar o con- frutífero no adolescente. De fato, nessa idade,
junto do funcionamento mental: uma expe- não há nenhuma conduta que possa um dia, ou
riência com droga conduzindo ao diagnóstico ao menos uma vez, manifestar-se sem neces-
60 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

sariamente traduzir uma organização psicopa- familiares permitem prejulgar as possibilidades


tológica fixada. Mais do que demarcar condu- de que dispõe o adolescente para se constituir
tas-sintomas, o clínico deve tentar analisar o como pessoa, com seus limites próprios, sua
funcionamento psíquico do paciente, mas tam- história familiar e seu projeto existencial. Aqui
bém associar esse funcionamento às interações também há uma dupla demarcação, ao mesmo
familiares das quais esse adolescente participa. tempo sincrônica e diacrônica. A avaliação
sincrônica consiste em apreender o tipo atual
de interação entre o adolescente e seus pais: a
A análise da psicopatologia individual.
“crise” do adolescente está ligada a uma “cri-
– Consideradas as observações anteriores, a
se do meio de vida” junto aos pais ou ainda a
demarcação de condutas deve levar em conta
uma “crise parental”? (ver item “O adolescente
dados ao mesmo tempo diacrônicos e sincrôni-
e sua família”, no Capítulo 16). Observam-se
cos. No plano diacrônico, é importante avaliar
mecanismos patológicos que estariam travando
em que medida a conduta do adolescente se
o processo de autonomização do adolescente,
apresenta em ruptura com relação ao seu passa-
como atitudes projetivas repetidas...? A ava-
do, ou, ao contrário, parece traduzir uma conti-
liação diacrônica consiste em retomar a histó-
nuidade seja sintomática, seja estrutural com a
ria do adolescente e sua inserção naquilo que
infância: a existência de uma ligação evidente
é chamado de “mito familiar”. Uma atenção
com a sintomatologia da primeira infância ge-
particular será dirigida ao primeiro desenvol-
ralmente traduz uma organização mais fixada.
vimento da criança e às primeiras dificuldades
No plano sincrônico, é essencial a análise em
que possam ter aparecido. Além disso, a perso-
termos econômicos e dinâmicos dessa conduta:
nalidade e as imagens dos avós do adolescente
que obstáculo ao conjunto do funcionamento
e a natureza das relações estabelecidas com eles
psíquico, que desorganização no campo social
representam normalmente um bom índice da
ela provoca? Há investimentos não conflituo-
maneira como o adolescente procura inserir-se
sos preservados? Qual é a parte não patológica
na história real ou mítica de sua família.
da personalidade? Quais são os mecanismos de
O terapeuta poderá considerar assim a qua-
defesa predominantes? Estes últimos permitem
lidade do ambiente social próximo. De fato, na
ainda uma adaptação satisfatória ou, ao con-
adolescência, em razão dessa vulnerabilidade já
trário, acentuam a desadaptação à realidade
mencionada, há, do nosso ponto de vista, uma
externa?
inversão da perspectiva da psicopatologia indi-
Eventualmente, pode-se propor uma avalia-
vidual e da qualidade do contexto ambiental.
ção psicológica, avaliação cujo interesse consis-
Na infância, em face de uma sintomatologia
te não apenas em uma avaliação do funciona-
precisa, a constatação de graves carências no
mento psíquico, mas também em um encontro
ambiente representa um fator atenuante da
mediado por um material, o do teste, com uma
avaliação da patologia. Em compensação, na
pessoa cujo interesse se concentra no mundo in-
adolescência, em face de uma sintomatologia
terno do adolescente. Contudo, o momento e as
precisa, a constatação de uma desorganização
condições em que se propõe esse balanço devem
no ambiente constitui um fator agravante da
ser cuidadosamente pesados para que clínico e
avaliação do patológico. A ausência de con-
adolescente tirem o máximo proveito dele: os
texto, de limite coerente, só poderá favorecer
dados próprios ao balanço psicológico são agru-
e depois amplificar o aparecimento de conduta
pados em um item posterior (cf. item “O exame
de ruptura.
psicológico na adolescência”, neste capítulo).

A avaliação das interações familiares e so-


ciais. – Indivíduo vulnerável e sensível, o ado-
A Preocupação Prognóstica
lescente depende ao extremo de seu ambiente.
Isso deve ser levado em conta na avaliação. O segundo objetivo dessas entrevistas de
Estimamos que o encontro entre o terapeuta e avaliação é prognóstico. Duas séries de fatores
os pais representa um momento essencial dessa permitem sustentar algumas hipóteses, embora
avaliação. A qualidade e o tipo de interações o prognóstico seja sempre difícil e aleatório.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 61

No plano do indivíduo, é essencial a ava- proposto, o trabalho intrapsíquico realizado


liação da fluidez das condutas ou, ao contrário, pelo adolescente de uma consulta a outra, to-
de sua permanência através dos tempos e, so- dos esses elementos são indicadores valiosos ao
bretudo, de sua repetição. A repetição de uma mesmo tempo para o prognóstico e para a moti-
conduta, em particular de uma conduta de vação a iniciar e a prosseguir uma terapia; mas
ruptura (experiência com droga, fuga, atuação, encontramos aqui o terceiro eixo dessas entre-
etc.) assinala sempre um princípio de processo vistas de avaliação.
patológico, traduz a tendência do adolescente
a não reconhecer nele próprio os conflitos e a
projetá-los no ambiente e, conseqüentemente,
acentua sua incapacidade crescente de elaborar
As Bases da Abordagem Terapêutica
e superar seus conflitos.
Um outro fator importante do prognóstico A meta dessas duas ou três entrevistas de
é representado pela capacidade do adolescente avaliação é chegar a uma proposição terapêuti-
de se interessar por seu mundo psíquico inter- ca. Contudo, em um grande número de casos,
no, de tomar consciência, mas, principalmente, essas entrevistas, por si mesmas, podem ter tido
de aceitar tomar consciência da origem intrap- um valor terapêutico e permitido uma elabora-
síquica das dificuldades apresentadas, de de- ção intrapsíquica e/ou um rearranjo relacional
senvolver uma certa solicitude em face de seus intrafamiliar. Essas consultas terapêuticas, se-
conflitos internos. O confronto do adolescente gundo a definição de Winnicott, são possíveis,
com seus conflitos intrapsíquicos e a reação que como especificou esse autor, na medida em que:
isso produz permitem verificar em que medida é
possível um trabalho psicoterápico. – existe uma profunda motivação parental;
No plano familiar, a possibilidade de re- – o sintoma presente não é sobredetermi-
arranjo relacional constitui um elemento im- nado (vários problemas ou conflitos são repre-
portante do prognóstico. Em termos muito sentados por essa conduta).
concretos, a capacidade que têm os pais de se Contudo, na maioria dos casos, é necessário
mobilizar para ajudar seu adolescente (em par- o estabelecimento de um quadro terapêutico. A
ticular aceitando as entrevistas propostas) é abordagem terapêutica e as diversas estratégias
um bom indicador. Em um registro menos con- possíveis são tratadas na quinta parte desta obra
creto, deve-se levar em conta a possibilidade (cf. Capítulo 21).
que têm os pais de tomar alguma distância em
relação à atualidade do conflito com seu ado-
lescente, sua possibilidade de rever sua própria
adolescência, de manter um contato empático AS PRIMEIRAS ENTREVISTAS:
com seu filho para além da oposição atual. Em CONSELHOS PRÁTICOS
geral, as manifestações ruidosas representam
para o adolescente um meio mais ou menos
consciente de testar seus próprios limites, mas Após um exame rápido dos princípios e ob-
também de testar o interesse que seu ambiente, jetivos que subentendem a conduta dessas duas
sobretudo seus pais, possa ter em relação ao seu ou três entrevistas de avaliação, faremos aqui
mundo intrapsíquico. Sua aparente e freqüente algumas recomendações práticas. Em nenhum
oposição a uma consulta médico-psicológica e, caso estas devem ser entendidas como receitas
ao mesmo tempo, sua aceitação relativamente ou como regras intangíveis: trata-se de proposi-
fácil quando seus pais insistem, ilustram esse ções que consideramos útil adotar, mas que ao
duplo movimento de oposição e de procura de mesmo tempo deixam ao clínico a liberdade de
seu interesse. manobra, a possibilidade quase sempre provei-
Tanto em relação ao adolescente quanto em tosa de uma surpresa, a espontaneidade indis-
relação à sua família, a maneira como o tera- pensável. Abordaremos brevemente dois pon-
peuta é investido, as modificações secundárias, tos: 1) as relações entre o clínico, o adolescente
seja de seus conselhos, seja mais diretamente e sua família; 2) a seqüência dessas duas ou três
de esboços de interpretações que ele possa ter entrevistas.
62 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

As Relações Terapeuta-Adolescente- centes muito perturbados ou que mantêm com


Pais os pais uma ligação de dependência agressiva e
às vezes inclusive rancorosa, procuram fazer de
tudo para vir à consulta, sem estarem nela ver-
Para o terapeuta, a particularidade de seu dadeiramente, por exemplo, chegando bêbados
trabalho com o adolescente é que, por um lado, ou não se apresentando no horário previsto na
estabelece com ele uma relação bastante próxi- sala de espera, ou entupidos de medicamentos:
ma da que pode ter com um adulto, e, por outro, e então eles se esquivam usando frases como:
as relações necessárias com os pais aproximam “pergunte aos meus pais, eles podem explicar
muito mais a dinâmica das consultas da práti- melhor que eu...; estou cansado, eles vão lhe
ca de psiquiatria infantil. De fato, na imensa contar, etc.”. Tais manobras vão no sentido de
maioria dos casos, o encontro entre o terapeuta acentuar a passividade do adolescente, passi-
e os pais é necessário, mas o momento desse en- vidade que ele utilizará em face do terapeuta
contro deve ser cuidadosamente delimitado. evitando qualquer explicação pessoal, e se re-
Em um centro de consultas externas para metendo ao discurso dos pais.
adolescentes (Genebra), Ladame apresenta a Inversamente, há adolescentes, em particu-
seguinte percentagem de primeiros contatos: lar com mais de 16 anos, que recusam a even-
em 20% dos casos, o contato é feito pelo ado- tualidade de uma entrevista pais-terapeuta.
lescente sozinho; em 37% dos casos, pelos pais Isso não é muito comum, mas, na nossa prática,
e em 22% dos casos, por um médico ou um essa atitude testemunhava em geral interações
assistente social; em 6% dos casos, é feito pela mais patológicas e muito estereotipadas entre
escola ou pelo empregador (segundo o autor, pais e adolescentes, ou então se manifestava
a fraca percentagem de casos assinalados pela nos casos em que um dos genitores tinha um
escola provavelmente decorre do fato de que desvio evidente: doença mental, alcoolismo
a escola possui seu próprio serviço social e psi- grave, debilidade, etc. Mediante essa recusa,
cológico). o adolescente procura ou proteger a imagem
Qualquer que seja o modo de contato ini- de seus pais, ou mascarar o aspecto patológi-
cial, preconizamos o seguinte procedimento: a co da relação. Nos dois casos, a realidade, para
primeira entrevista é feita com o adolescente o adolescente, é uma fonte de perturbação, de
sozinho, sobretudo quando se trata de um ado- vergonha narcísica; ele busca na relação com
lescente maior (mais de 16 anos). Na prática, o terapeuta uma imagem parental substitutiva,
dois problemas se colocam em alguns casos: 1) idealizada, que ele teme que seja “contamina-
às vezes, os pais ocupam demais o primeiro pla- da” se esse terapeuta encontrar os pais reais, ou
no e têm a tendência a se antecipar à palavra de que ele próprio se sinta desprezado mediante
seu adolescente; 2) às vezes, o adolescente recu- o profundo desprezo que nutre por seus pais, e
sa que o terapeuta encontre seus pais ou recusa que ele também atribui de forma projetiva ao
estar presente na entrevista com seus pais. terapeuta.
Achamos preferível evitar um encontro Em todos os casos, ao longo dessas entre-
prévio com os pais. Em alguns casos, os pais, ou vistas de avaliação, parece-nos importante que
às vezes um deles, exigem encontrar o terapeuta o terapeuta afirme sua vontade de encontrar os
previamente. Isso sempre deu-nos a impressão pais, mesmo que o adolescente seja hostil a isso.
de que o adulto procurava de antemão incluir Contudo, ele pode contemporizar, mas depois
esse novo adulto em sua própria zona de contro- de ter esclarecido com o próprio adolescente os
le, que essa manobra tinha a tendência a jogar possíveis motivos dessa recusa.
o adolescente no campo do patológico criando Com mais freqüência, o adolescente cos-
uma coalizão pais-terapeuta. Se, de maneira tuma aceitar e mesmo se mostrar satisfeito
geral, com uma criança com menos de 12-13 quando o terapeuta propõe uma entrevista
anos, não vemos problema em ouvir primeiro com os pais. Também aqui, depois de ter asse-
os pais na presença de seus filhos, a partir dos gurado o sigilo das informações intercambia-
13-14 anos, parece-nos desejável ouvir primei- das entre adolescente e terapeuta, parece-nos
ro o adolescente. Vale notar que certos adoles- desejável que o terapeuta só se encontre com
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 63

eles na presença do adolescente. Se há evidên- da pelo conflito entre os pais e seu filho, por um
cias de problemas graves de um dos genitores certo clima de urgência.
ou de uma patologia do casal, o terapeuta terá A segunda entrevista tem um tom em geral
de escolher na sua estratégia de abordagem bem diferente, dominado às vezes pelo aspecto
terapêutica o eixo a ser priorizado, visto que defensivo, e mesmo o retraimento. Os mecanis-
não poderá fazer tudo: ser o terapeuta do ado- mos de defesa em face da angústia, das manifes-
lescente, de um dos genitores, do casal e das tações sintomáticas, das surpresas mobilizadas
interações familiares, etc. no primeiro encontro normalmente ocupam o
Quando se trata de um problema comple- primeiro plano: banalização, recalque, fuga na
xo, em que estão intricados uma psicopatologia “saúde”, negação das dificuldades, clivagem.
inquietante no adolescente, dificuldades psíqui- Ao contrário, em caso de investimento positivo
cas antigas em um dos genitores, um conflito la- persistente, a retomada dos temas levantados,
tente, larvado, mas antigo no casal, interações uma rememoração, uma mobilização de afetos
familiares perturbadas..., o terapeuta deve saber e de fantasias testemunham expectativas trans-
que há poucas possibilidades de se colocar como ferenciais, o interesse demonstrado nas entre-
terapeuta potencial de um ou outro membro da vistas de investigação, e às vezes também de
família. Na maioria das vezes, sobretudo em um uma distensão sintomática real, que não é nem
primeiro contato psiquiátrico, os riscos de rup- negação, nem banalização e nem recalque exa-
tura são grandes, tanto no adolescente quanto cerbado. Nos dois casos, essa segunda entrevis-
nos pais. A principal preocupação do terapeuta ta permite assim avaliar um parâmetro impor-
parece-nos residir então no cuidado de estabe- tante: a tolerância à frustração e a capacidade
lecer eixos terapêuticos posteriores com outros de mentalizar esse eventual recrudescimento
terapeutas: psicoterapia do adolescente, terapia tensional. De fato, a primeira entrevista não
familiar, psicoterapia de genitor, hospitalização, proporciona a solução mágica aos problemas
internação terapêutica. nem uma eliminação imediata das dificuldades.
Contudo, quando se é confrontado com a Certos adolescentes e suas famílias não toleram
situação habitual de conflito agudo em que ain- essa expectativa e essa frustração relativa. “Isso
da não há uma patologia específica cristalizada, não serve para nada”, “é sempre a mesma coi-
as entrevistas de avaliação com os pais e o ado- sa”, podem dizer alternadamente o adolescente
lescente fornecem ao mesmo tempo elementos e os pais. Outros se colocam em uma posição
de informações sincrônicas atuais e diacrônicas defensiva e passiva, alegando já ter “dado” tudo
históricas. na primeira entrevista (“a gente já disse tudo”,
“não tenho mais nada a dizer”). Eles esperam
em retorno o que o terapeuta vai “dar” agora,
A Seqüência das Entrevistas de numa tentativa de assumir o “controle” da si-
tuação clínica pelo estabelecimento de uma si-
Avaliação metria artificial.
As entrevistas seguintes testemunham no
Seremos bastante breves, pois, evidente- adolescente a qualidade de seus investimentos
mente, a diversidade de uma família a outra é tanto na pessoa do terapeuta quanto no fato de
extrema. Antes de apresentar proposições tera- ser levado dessa maneira a falar de si a alguém.
pêuticas, salvo em caso de urgência e de evi- É importante distinguir esses dois planos. O in-
dência diagnóstica (como, por exemplo, um vestimento de dimensão transferencial sobre a
episódio psicótico agudo), consideramos neces- pessoa do terapeuta é relativamente fácil de de-
sárias duas ou três entrevistas. marcar, e às vezes inclusive é de uma rapidez de
A dinâmica da primeira entrevista é domi- desenvolvimento e de uma intensidade muito
nada pela natureza do contato com o adolescen- característica da relação adolescente-terapeu-
te e, quando os pais estão presentes, pela avalia- ta. Mas quando esse investimento é pesado e
ção do tipo de interações familiares. Com muita invasivo, ele pressupõe em geral uma fantasia
freqüência, essa entrevista é feita na atualidade de sedução e uma crença mágica ou projetiva
das condutas do adolescente, na pressão exerci- na suposta onipotência do terapeuta que cons-
64 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

tituem obstáculos no investimento do trabalho bramento na idade adulta das condutas atuais
de introspecção, de auto-observação e de capa- e no seu potencial de entrave de um tal de-
cidade crescente de falar “de si a alguém”. O senvolvimento. Ele se opõe ao ponto de vista
terapeuta estará atento, portanto, não apenas às dinâmico, onde há o risco de banalizar as ma-
eventuais manifestações diretamente transferí- nifestações, tomando-as como mero testemu-
veis (expectativa das entrevistas), mas também nho da “crise de adolescência” e, conseqüen-
à capacidade do adolescente de relembrar um temente, limitando-se a “esperar para ver”.
tema já abordado, de levar em conta o que já foi Laufer, que adota o primeiro ponto de vista, é
dito, de oferecer um material novo, de enunciar muito enfático quando declara: “eu exijo deles
um problema voluntariamente ocultado nos (os pais e o adolescente) que percebam uma
primeiros encontros, de abordar o domínio dos parte da recusa da gravidade do problema que
sonhos, das fantasias e visões, etc. pode ter se arrastado por um longo tempo an-
No caso de ter sido feita uma prescrição tes do tratamento, e talvez antes que a patolo-
medicamentosa, essas entrevistas servem gia fosse reconhecida”. Segundo o autor, essa
também para avaliar seus efeitos, para consta- maneira de dramatização do problema permite
tar as modificações sintomáticas, a freqüente o estabelecimento de um quadro terapêutico,
emergência de um problema novo, a obser- favorece a mobilização e a motivação para o
vância das prescrições pelo adolescente ou o tratamento do adolescente e de sua família, e
contrário. possibilita a continuidade desse tratamento, o
A seqüência de entrevistas permite não que constitui in fine um dos objetivos essen-
apenas uma avaliação dinâmica do próprio ciais dessas entrevistas de avaliação.
adolescente, mas também de sua família e de
suas capacidades de mobilização. De fato, a
mobilização familiar evidencia-se no interesse
que os pais demonstram por essas entrevistas, O EXAME PSICOLÓGICO NA
em sua solicitação e/ou acordo para partici- ADOLESCÊNCIA3
par delas, nos eventuais rearranjos operados
ou, inversamente, nos reforços defensivos, na
acentuação dos conflitos interindividuais, em O exame psicológico, geralmente situado
um recrudescimento das diversas atuações, na mesma categoria que as técnicas de explo-
etc. Esses parâmetros são indicadores valio- ração de laboratório, é assimilado por certos
sos para tomar-se certas decisões terapêuticas, práticos a um exame complementar que per-
como uma terapia familiar ou uma separação mite circunscrever objetivamente o funciona-
em forma de hospitalização ou, mais ainda, da mento psíquico de um indivíduo, ao mesmo
ida para um internato, para uma instituição tempo em suas dimensões intelectuais, ins-
(ver também: item “A consulta terapêutica”, trumentais e afetivas; seria reduzir o exame
no Capítulo 22) psicológico à aplicação de um conjunto de
Ao final dessas entrevistas, se o adoles- técnicas (os testes); seria esquecer a importân-
cente aparenta condutas reveladoras de uma cia do âmbito relacional no qual esse exame
organização psicopatológica que tem todas as se realiza e do âmbito em que esse exame é
chances de travar o desenvolvimento normal prescrito ou, preferiríamos dizer, é proposto ao
do processo de adolescência, é importante que adolescente.
o terapeuta informe claramente ao próprio De fato, a proposição de um exame psicoló-
adolescente e aos seus pais sobre a gravidade gico deve passar pela aceitação do sujeito e por
de sua avaliação e sobre o tratamento que lhe certas condições de aplicação; o que em geral
parece necessário. Para nós, o mérito do ponto coloca alguns problemas práticos para o clínico
de vista genético na compreensão da adoles- que trata de adolescentes.
cência (a adolescência como processo de de-
senvolvimento e, em particular, como segunda 3
Item redigido por Nicole Duplant, psicóloga, unidade
fase de separação-individuação) está justa- para adolescentes, serviço de psiquiatria da criança e
mente em ter focalizado a atenção no desdo- do adolescente, hospital de Salpêtrière, Paris.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 65

As Dificuldades do Exame Psicológico clínico darão ao adolescente uma oportunidade


na Adolescência – Como Resolvê-los? importante de investir o balanço psicológico,
desde que não subestimem sua apresentação. O
psicólogo tem uma outra tarefa a cumprir.
Os especialistas costumam recear o encon-
tro com um adolescente, porque eles têm na
cabeça uma espécie de retrato-robô de um ado- Compreender a dinâmica relacional em
lescente, ora reticente, ora inibido, que geral- que surge a solicitação de exame psicológico.
mente tem dificuldade de traduzir verbalmente – Se é necessário que o psicólogo avalie bem
um mal-estar que expressa melhor nas múlti- as cargas afetivas inerentes à situação em que
plas atuações mais ou menos espetaculares ou se encontra o adolescente, é igualmente neces-
violentas. sário que ele tome consciência da aposta que
Por isso, são muitos os especialistas, sejam esse balanço representa para todos que aguar-
médicos ou psicólogos, que temem propor ao dam ansiosamente por seus resultados. O ado-
adolescente um exame psicológico, que poderia lescente é objeto de muitas inquietações nesse
ser visto por este como um ataque sistemático momento do balanço. O clínico às vezes pede
ameaçando a precária base de apoio que cons- a intervenção do psicólogo, porque se vê con-
tituem, por exemplo, as reações de imponência frontado com um problema diagnóstico. Os
ou de inibição. pais aderem facilmente à proposição de um
Contudo, parece possível conduzir a apre- exame psicológico, porque querem assegurar-se
sentação do exame psicológico de modo que o da normalidade de seu filho. Mas a precipitação
adolescente não o receba como um ataque in- dos adultos em aconselhar o adolescente a fazer
trusivo. o balanço psicológico tem sempre o risco de au-
mentar a perturbação do adolescente em face
de sua vida interior, perturbação contra a qual
Propor um exame psicológico. – Atual- ele luta seja pela recusa de seu sofrimento, seja
mente, a maioria dos psicólogos que trabalham por uma procura ansiosa daquilo que o assegure
com adolescentes prefere falar de balanço psi- de sua própria normalidade.
cológico, em vez de exame psicológico. A pala- O psicólogo encarna para o adolescente o
vra exame implica a avaliação de uma situação representante de todos os adultos inquietos a seu
atual, que põe em evidência um passivo, mas respeito; portanto, ele corre o risco de arcar com
também um ativo. Isso coloca os testes em uma todas as conseqüências dessas substituições, seja
dimensão bem diferente da inflexível prova de pela exacerbação das defesas, seja por um exa-
capacidades. E também abre caminho a uma gero, mais ou menos inconsciente, por parte do
possibilidade de mudança com relação à situa- adolescente, da morbidade dos temas expressa-
ção de crise que se produz normalmente com dos. A interpretação dos protocolos recolhidos
as primeiras consultas. Se o clínico apresenta nessas circunstâncias deve levar em conta essa
dessa maneira os objetivos do balanço psico- dinâmica complicada. O adolescente pode ser
lógico, o adolescente se sentirá convidado a levado a se mostrar ainda mais “louco” do que os
participar, e não obrigado a se submeter a um adultos ou do que ele próprio temem que seja.
exame com tudo o que isso subentende de per- A decisão do balanço psicológico deve obe-
formances que terá de cumprir e de intrusões
decer a uma reflexão comum por parte do clí-
em seu mundo interior que terá de suportar;
nico e do psicólogo, mais do que a um impulso
propondo ao adolescente participar ativamen-
diante de uma inquietação.
te de um balanço da situação atual, o psicólogo
também se livra de uma imagem de examinador
investido de qualidades tanto boas quanto más, Importância do momento em que o ba-
que manipula ferramentas cuja onipotência lanço psicológico é proposto ao adolescente.
mística lhe permitirá ter acesso imediato àquilo – A decisão quanto ao momento de propor o
que teria sido inacessível ao clínico que solicita balanço psicológico é crucial. O psicólogo deve
o balanço psicológico depois de uma ou várias deixar de lado qualquer noção de urgência,
entrevistas prévias. Portanto, o psicólogo e o que só serviria para acentuar as dificuldades do
66 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

exame e concorrer para a dramatização de um pelo psicólogo. Ela pode permitir ao clínico
clima geral já bastante tenso na maioria das trabalhar melhor com o adolescente a cons-
vezes. Sua intervenção só se mostrará frutífera trução do futuro a curto e médio prazo, pode
no momento em que o adolescente parece estar encorajá-lo a adotar um tipo de tratamento,
começando a se indagar sobre si mesmo, depois seja ele, por exemplo, institucional ou psico-
de ter se distanciado um pouco daqueles que o terápico.
pressionaram a fazer uma consulta ou a se in- Sendo a adolescência um período de mu-
ternar. A intervenção do psicólogo é um pouco danças incessantes, os psicólogos orientam-se
diferente na consulta a na hospitalização. cada vez mais para uma interpretação dinâmica
dos dados do balanço psicológico, de preferên-
1) Na consulta. – É raro que o próprio ado- cia para uma acumulação diagnóstica de sinais
lescente marque uma consulta; geralmente ele patognomônicos de estruturas precisas (psicóti-
é levado a se consultar por seus pais, ou estes ca, neurótica, pré-psicótica). O balanço psico-
são aconselhados por um terceiro (pedagogo, lógico revela-se cada vez mais como um meio
médico da escola, médico generalista, assistente de abordagem clínica com particularidades
social...). É raro, portanto, que um adolescente muito interessantes.
se mobilize de imediato para participar de um
balanço psicológico. Um “exame” psicológi-
co imposto sistematicamente desde a primeira
consulta nunca será tão frutífero quanto o ba- Interesse e Natureza do Exame
lanço proposto após algumas entrevistas. É pre- Psicológico na Adolescência
ciso deixar ao adolescente a possibilidade de se
individualizar sem hesitação nem inibição com Não existem testes exclusivos para os ado-
relação às consultas; assim, clínico e adoles- lescentes: utilizam-se testes aplicáveis desde a
cente encararão o balanço psicológico como o infância média para as provas projetivas e testes
meio de proporcionar-se mutuamente informa- psicométricos que comportam amostras de re-
ções novas. A perspectiva do balanço psicoló- ferência.
gico deve inscrever-se sempre na possibilidade
de abertura ou de mudança, e não apenas re-
sumir-se a uma contribuição diagnóstica cujos Sentido e natureza dos testes psicométri-
termos prognósticos freqüentemente associados cos. – A utilização desses testes muitas vezes
são excessivamente cristalizadores para esse pe- assume um caráter criticável quando o psicólo-
ríodo de instabilidade. go se contenta com uma medida do quocien-
2) Na hospitalização. – O balanço psico- te intelectual, sem uma abordagem clínica das
lógico praticado durante uma hospitalização possibilidades do adolescente de investir as ati-
que teria como único objetivo estabelecer um vidades intelectuais, que tanto podem ajudá-lo
diagnóstico esbarraria nos mesmos limites que a se libertar de uma vida fantasiosa excessiva-
o balanço psicológico em consulta. A hospita- mente intensa, quanto lhe proporcionar meios
lização e a doença que a tornam necessária re- de valorização social e narcísica. A inibição ou
presentam para o adolescente uma experiência o desinvestimento intelectual geralmente tem
dolorosa à qual seria inútil acrescentar a prova conseqüências catastróficas quanto ao futuro
de uma investigação psicológica com finalidade de um adolescente empurrado precocemente a
meramente diagnóstica. uma escolha profissional e a uma inserção so-
cial. Portanto, o psicólogo não pode desprezar
O balanço psicológico será proposto ao sua eventual interferência nas dificuldades do
adolescente mais ao final da hospitalização, adolescente em crise.
como a ocasião manifesta para demonstrar As provas mais adotadas são os testes de efi-
seu restabelecimento após as perturbações vi- ciência intelectual de tipo Weschler (um mesmo
vidas nessa crise aguda. A avaliação do resul- conjunto de subtestes propostos para todas as ida-
tado das alterações de equilíbrio psicológico des, mas pontuados diferentemente conforme a
da adolescência constitui, aliás, a parte mais idade). Trata-se do WAIS (Escala de Inteligência
interessante da análise dos dados recolhidos Weschler para Adultos), a partir dos 13 anos, ou
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 67

do WISCR (Escala de Inteligência Weschler para sicional entre o real e o imaginário. Para outros
Crianças – Forma revisada), até 16 anos e meio. psicólogos, a situação projetiva é uma situação
O estudo das variações de eficiência (Scat- não de paradoxo, mas de conflito, porque ela en-
ter) nos diversos subtestes proporciona dados coraja o sujeito à expressão do eu respeitando
clínicos interessantes, particularmente sobre ao mesmo tempo a realidade. Em todos os ca-
as defasagens que podem ocorrer entre certas sos, a situação projetiva é um encorajamento
notas em função de transtornos instrumentais ao sujeito para que construa um arranjo entre a
persistentes nessa idade, de dificuldades emo- realidade e a fantasmática. Esse arranjo situa-se
cionais ou de transtornos cognitivos propria- na zona da normalidade quando se estabelece
mente ditos. segundo uma flexibilidade de funcionamento
As provas inspiradas nas teorias piagetia- mental aliando a realização de potencialidades
nas, como a EPL (Escala de Pensamento Lógico intelectuais, a expressão fantasmática sem um
de Longeot), constituem um complemento fru- transbordamento que desorganize a adaptação
tífero ao exame cognitivo nos casos em que se ao real e a integração social, sem repressão ex-
observam essas defasagens nos diferentes seto- cessiva da vida afetiva e sem redução das capa-
res do funcionamento intelectual (desarmonia cidades criativas.
cognitiva) e permitem testar a homogeneidade Os psicólogos abordam agora as respostas
dos níveis de desenvolvimento do pensamen- propostas pelo sujeito como a resultante do
to lógico. Os trabalhos realizados por Gibello compromisso entre exigências da realidade ex-
e colaboradores sobre crianças e adolescentes terior e exigências interiores.
em situação de fracasso escolar mostraram que Nisto reside o interesse de aplicação dessas
muitos deles raciocinam em níveis diferentes provas em um período como a adolescência que
de pensamento (fase concreta, operatória, pré- justamente questiona as possibilidades do ado-
formal ou formal) conforme as provas que lhes lescente de estabelecer um equilíbrio entre sua
são propostas (cf. o item “O modelo cognitivo e vida interior renovada e as exigências sociais,
educativo”, no Capítulo 1). em um movimento dialético entre progressão e
regressão.
O teste de Rorschach é uma prova que en-
Sentido e natureza dos testes projetivos. coraja ao mesmo tempo a uma atividade per-
– Os testes projetivos são utilizados há cerca de ceptiva criativa e a uma expressão imaginária
quarenta anos. Trata-se de propor ao sujeito um pessoal. Esse teste é particularmente sensível
material suficientemente informal para que ele à projeção da imagem do corpo e às das ima-
projete sua personalidade segundo sua própria gos parentais que são suportes de identificação
maneira de perceber a realidade e de organizar (trabalhos de Rausch de Traubenberg). Isso
sua experiência emocional em face desse real. mostra o interesse dos dados recolhidos graças
Os psicólogos se indagaram muitas vezes sobre a à administração desse teste sobre a intensidade
própria natureza desse processo projetivo. Para das perturbações e as possibilidades de reorga-
D. Anzieu, trata-se de uma obra criadora que nização da imagem corporal nesse momento de
apela à percepção, à imaginação, à associação alteração pubertária. Os protocolos de Rors-
de idéias e à expressão verbal. É uma obra de chach de adolescentes permitem circunscre-
expressão que não é totalmente livre, visto que ver rapidamente os problemas de identificação
é solicitada por um material preexistente, mas sexual e seu tipo. Trata-se igualmente de uma
é também uma expressão dependente da liga- ferramenta capaz de ajudar a detectar um risco
ção estabelecida entre o psicólogo e o sujeito. de suicídio, assim como um risco de evolução
C. Chabert e N. Rausch de Traubenberg vêem para um processo dissociativo nos adolescentes
nisso o efeito de um encontro entre o psicólogo que tenham apresentado um episódio delirante
e o sujeito “mediado pela existência material de agudo ou que tenham mergulhado no apragma-
um objeto terceiro (o material do teste)” e esta- tismo, na desinserção escolar e/ou social.
belecem um parentesco entre o funcionamento O TAT (Thematic Aperception Test) é
solicitado para as provas projetivas e a aptidão uma prova temática que oferece a possibilidade
a brincar (no sentido do playing de Winnicott). de circunscrever as capacidades do adolescente
Esse encontro se desenvolve em um espaço tran- de conflitualizar as situações duais ou triangula-
68 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

res apresentadas nas imagens do teste, de desli- Benefícios do balanço psicológico na vi-
gar-se delas sem afetar demais suas necessidades vência dos adolescentes: a mediação e o apor-
pessoais fundamentais. Essa dinâmica relacio- te narcísico. – O material dos testes mediatiza
nal é perceptível na leitura das narrativas feitas a expressão na medida em que proporciona um
pelo adolescente para cada imagem, sem que os suporte às projeções que não são mais vividas
mecanismos defensivos prejudiquem a expres- pelo adolescente como o fruto de sua “loucu-
são de sua problemática pessoal. Os trabalhos ra”, e sim do próprio material. Assim, a palavra
de V. Shentoub visam a uma análise de meca- acaba perdendo esse caráter persecutório e an-
nismos de estruturação verbal das narrativas gustiante que costuma provocar nos adolescen-
que testemunham capacidades de elaboração tes que preferem o agir. O material autoriza o
mental; eles visam também a uma técnica de adolescente a pensar e, sobretudo, a expressar
avaliação da ressonância fantasmática, isto é, seu pensamento sem que ele seja perigoso para
da possibilidade do adolescente de “jogar” nos aqueles a quem se dirige, visto que esse pensa-
diversos níveis de sua vida afetiva (genitais e mento é justificado pela própria existência do
pré-genitais). material.
O teste da Aldeia, embora raramente uti- Finalmente, o balanço psicológico na
lizado, a não ser junto a jovens delinqüentes adolescência pode ser a ocasião de uma prova
(trabalhos de M. T. Mazerol), é uma prova narcísica que não leva necessariamente a uma
“desrealizante” bem aceita pelos adolescentes: constatação de fracasso e de anormalidade. Ao
propõe-se um material lúdico suscetível de inci- contrário, o adolescente pode encontrar ali um
tá-los à regressão, mas também a uma atividade meio de valorização narcísica e de constituição
criadora original (construir uma aldeia da sua do eu longe do olhar dos pais, dos educadores
cabeça). Os trabalhos de M. Monod permitiram ou dos congêneres, desde que ele se sinta apoia-
circunscrever, mediante a análise simbólica do do, em vez de questionado.
espaço de construção da aldeia, uma zona re- O balanço psicológico revela-se às vezes
presentativa do investimento do Ego e de sua como a alavanca de uma demanda de ajuda
coerência interna. psicoterápica em um adolescente intrigado por
Não obstante a ausência de trabalhos que suas interações, que se tornam para ele, no con-
proponham dados normativos estáveis para o fronto com o real, um objeto de trabalho in-
conjunto dos testes projetivos na adolescência, terno.
sua aplicação é de grande interesse clínico. As Cabe ao psicólogo, portanto, situar-se em
provas projetivas permitem apreender alguns uma relação de confiança com o adolescente,
instantes da mobilidade extrema dos adoles- tirar proveito do caráter único e momentâneo
centes, e podem proporcionar ao próprio ado- desse encontro para proporcionar a ele os meios
lescente os meios de se perceber fugazmente, de se reconstituir narcisicamente (como em um
seja em suas contradições, seja na permanência trabalho de criação artística ou literária) em
de certas preocupações. face do conjunto de provas projetivas e psico-
Em contrapartida, a aplicação de provas de métricas que lhe são apresentadas como meio
tipo questionário, como o MMPI (Inventário de expressão.
Multifásico Minnesota de Personalidade) esbar- Cabe ao clínico evitar pedir ao adolescen-
ra em certas dificuldades. Geralmente são vistas te que passe por um balanço psicológico como
pelo adolescente como provas muito maçantes. se prescrevesse um exame complementar para
Além disso, o MMPI não pode ser proposto an- ajudá-lo em seu diagnóstico. Essa atitude refor-
tes dos 16 anos, pois não foi validado para os çaria ainda mais o adolescente numa vivência
adolescentes mais jovens. Por outro lado, essa puramente persecutória dos testes.
prova exige um bom nível de compressão ver- Psicólogos e clínicos devem resistir juntos
bal, se não um bom nível cultural: as questões às pressões ansiosas daqueles que rodeiam o
normalmente são colocadas de uma forma ver- adolescente em sua vida cotidiana, mas de-
bal duplamente negativa, sua tradução do inglês vem resistir também ao seu próprio desejo
às vezes é muito literal e o adolescente logo se de investigação e à sua própria inquietude
desinteressa de questões que lhe parecem muito sobre o estado psíquico do adolescente a fim
distantes de seu mundo cotidiano atual. de protelar ao máximo a decisão do balanço,
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 69

até o momento em que o adolescente possa para ele, operando-se assim um deslocamento
ver nele uma oportunidade de abertura, de da curiosidade do clínico e do psicólogo para
mudança e de segurança narcísica no decurso a curiosidade do adolescente a respeito de si
de uma crise mais ou menos desestruturante mesmo.

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SEGUNDA PARTE

ESTUDO PSICOPATOLÓGICO
DAS CONDUTAS
4
Epidemiologia das Condutas

EPIDEMIOLOGIA E SAÚDE PÚBLICA


O s estudos epidemiológicos referentes às
condutas dos adolescentes multiplica-
ram-se nos últimos anos. Dados muito interes-
santes para o clínico começam a emergir des- Condutas Patológicas e Doenças
ses trabalhos, em particular quando podem ser
examinados em uma perspectiva longitudinal
As pesquisas epidemiológicas permitem
e evolutiva.
definir para uma conduta particular (tentativa
Evidentemente, a conduta clínica é sem-
de suicídio, conduta bulímica, consumo de um
pre singular. Podemos dizer que o terapeuta produto tóxico, etc.) ou uma “doença” (anore-
diante de seu paciente não tem de produzir da- xia mental, bulimia nervosa, depressão, etc.) as
dos epidemiológicos referentes a um conjun- taxas de:
to de indivíduos: o terapeuta ouve um sujeito
singular. – Prevalência: número de casos de doenças
Um tal ponto de vista justifica-se na posi- ou de doentes ou de qualquer outra ocorrência
ção do terapeuta, mas não mais na posição de em uma determinada população sem distinção
terapeuta, em particular no âmbito de um traba- entre os casos novos e os antigos. Expressada
lho institucional público. Parece evidente que em proporção sobre o número de indivíduos,
as proposições de atendimento devem levar em ela deve ser sempre situada no tempo.
conta a intensidade das perturbações e do risco – Incidência: número de casos novos de
evolutivo posterior. Parece evidente também doenças ou de suspeitas que apareceram duran-
que a possibilidade de atendimento depende da te um determinado período em uma população
capacidade dos indivíduos (família e/ou adoles- definida.
cente) de ter acesso ao sistema de atendimento. – Morbidade: soma de doenças ou dos tra-
Desse ponto de vista, um bom conhecimento ços referentes a um indivíduo ou a um grupo
dos dados epidemiológicos recentes constitui o de indivíduos em um determinado período de
“pano de fundo” que dá ao terapeuta a perspec- tempo.
tiva e a profundidade para avaliar a situação de – Mortalidade: taxa de mortalidade: re-
um indivíduo. lação existente entre o número de mortes e a
74 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

cifra da população onde elas ocorreram durante Idealmente, o reconhecimento do “grupo


um determinado período de tempo. de risco” deveria ter como objetivo definir me-
lhor uma política sanitária de prevenção (ver o
Essas informações são necessárias para co- item “Prevenção e acolhimento”, no Capítulo
nhecer as necessidades sanitárias de uma popu- 21) e utilizar de modo mais adequado os meios
lação particular, mas também para acompanhar disponíveis.
a evolução natural de uma patologia e afinar os Contudo, a definição de “grupo de risco”
conhecimentos catamnésticos. também apresenta um perigo: o de uma desig-
nação patológica potencial tendo como efeito
negativo um processo de “inscrição no índex”
Contexto de Vida e Traço Individual que em sociologia é chamado de “profecia auto-
criadora”. Por isso, esse reconhecimento de um
“grupo de risco” implica a definição de ações de
Ao lado das condutas patológicas, as pes- prevenção dirigida (ver Capítulo 21) e a consi-
quisas epidemiológicas procuram circunscrever deração de atitudes individuais em relação aos
também as características individuais (comporta-
sistemas de atendimento.
mento, pensamento, relações familiares e sociais,
escolaridade, etc.) da população adolescente.
Isso permite demarcar correlações ou “fatores de
risco” cuja presença aumenta a probabilidade de EPIDEMIOLOGIA E CUIDADO
ocorrência de uma conduta ou de um estado pa- INDIVIDUAL
tológico. Esses fatores de risco, que não são fato-
res causais e que, conseqüentemente, devem ser
distinguidos de mecanismos explicativos, permi- Um bom conhecimento dos dados epi-
tem, no entanto, demarcar “grupos de risco” no demiológicos recentes também representa
interior da população. Um “grupo de risco” cons- para o clínico um parâmetro novo que ele
titui um subconjunto da população que partilha deve levar em conta em sua avaliação. Desse
um certo número de características, traços ou ponto de vista, não é tanto o aspecto quan-
comportamentos similares. Com relação a uma titativo (prevalência, incidência, morbidade,
conduta patológica particular, a taxa de incidên- etc.) que importa, mas o aspecto qualitativo
cia, de prevalência e de morbidade nesse “gru- e, sobretudo, evolutivo. A avaliação psicopa-
po de risco” assim definido é significativamente tológica individual, em particular o ponto de
maior, do ponto de vista estatístico, do que a da vista psicodinâmico, deve ser ponderada à luz
população normal (podemos definir inversamen- desses conhecimentos epidemiológicos. Não
te “grupos resistentes” com “mecanismos prote- se trata de fazer uma “rotulagem patológica”
tores”). A título de exemplo, a existência entre suplementar, mas, ao contrário, na medida em
14 e 16 anos das condutas seguintes: que os fatores psicológicos individuais e a qua-
– tabagismo (mais de 10 cigarros por dia); lidade do contato com o próprio adolescente
– furto em local público; pareçam tranqüilizadores, trata-se de saber
– atraso escolar freqüente que outros fatores podem ter um peso tal que
esse adolescente não consiga se libertar das
define um “grupo de risco” para o qual é restrições impostas.
sensivelmente maior a probabilidade de aceita- A título de exemplo, quando um adoles-
ção posterior pelo adolescente de uma oferta de cente apresenta dificuldades, a qualidade das
consumo de droga (Choquet et al., 1992). relações familiares é um parâmetro de avaliação
Assim, as correlações entre condutas per- importante. Os estudos epidemiológicos mos-
tencentes a campos tão diferentes (no exemplo tram, sem dúvida, que é preferível ter boas rela-
citado: campo da escolaridade, problema de de- ções a ter relações hostis com os pais (em par-
linqüência e problema de consumo individual ticular com o pai), mas mostram ainda, o que é
de cigarro) podem adquirir uma significação po- mais interessante, que é preferível relações com
tencial que freqüentemente escapa à avaliação um pai visto como hostil do que uma ausência
individual. de relação com um pai indiferente.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 75

Outro exemplo: episódios de dimensão bulí- e uma incidência muito diferentes, segundo o
mica são bastante freqüentes entre 14 e 16 anos sexo, menino ou menina: queixa somática, pen-
(28,2% das meninas e 20,5% dos meninos têm samento depressivo, conduta alimentar, condu-
pelo menos um episódio bulímico no ano). Nos ta externalizada, acidentes e riscos, consumo de
meninos, a freqüência desses episódios tende a produto, tudo isso tem prevalências e incidências
diminuir com a idade. Nas meninas, a associa- diferentes segundo o sexo. Essa última variável
ção dessas crises com estratégias de controle de normalmente se sobrepõe a todas as outras na ex-
peso (vômitos, regime, medicamentos), que au- plicação das diferenças entre indivíduos.
mentam regularmente com a idade, podem fixar Além disso, a incidência evolui de modo
a patologia. Tanto quanto os acessos bulímicos diferente com a idade, de tal forma que a defa-
intermitentes do menino podem ser banaliza- sagem entre os sexos tende a aumentar com a
dos, os acessos bulímicos na menina justificam idade (cf. Figura 4.1).
um acompanhamento atento.

As Relações com os Pais


AS VARIÁVEIS PERTINENTES E
DISCRIMINANTES Quando os dois genitores estão regular-
mente presentes, a situação matrimonial do
casal nem sempre é um fator de diferenciação
Nas análises epidemiológicas sobre a saúde pertinente; em compensação, o clima familiar
dos adolescentes, quatro variáveis se revelam e sobre a qualidade do contato com os pais são
como particularmente pertinentes para discri- fatores significativos de diferenciação dos ado-
minar os adolescentes uns dos outros, geral- lescentes com ou sem problemas. Contudo, a
mente sobrepondo-se aos outros parâmetros. existência de uma relação hostil parece prefe-
rível a uma indiferença do pai (a mãe muitas
vezes é vista como hostil mais pelas meninas
O Parâmetro Sexo-Idade de 17-18 anos, porém, nunca indiferente). Essa
constatação epidemiológica (forte correlação
com certos transtornos de condutas, em parti-
Não há praticamente nenhum traço com- cular a patologia comportamental) confirma a
portamental ou estado afetivo, nenhuma patolo- descrição psicológica do trabalho de adolescên-
gia particular que não apresente uma prevalência cia: de fato, um pai visto como hostil represen-

70

60
PERCENTAGEM

Nenhum transtorno
50
Mais transtornos do comportamento
do que transtornos funcionais
40
Mais transtornos funcionais do
que transtornos do comportamento
30

20

10

0 IDADE
16 17 18 16 17 18
Meninos Meninas

Figura 4.1 Predominância de transtornos na idade da adolescência (Choquet, Ledoux, Menke, INSERM
U., 169, La Doc. Française, Paris, 1968).
(Transtorno funcional = queixa somática, estado afetivo, conduta alimentar; transtorno do comportamento
= conduta agida, acidente, consumo de produto).
76 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

ta um limite para o adolescente, enquanto que As Relações com os Iguais


um pai indiferente deixa o adolescente em face
de si mesmo e de uma falta de continente. A
ausência total de um dos genitores, sobretudo Se a ausência total de relações aparece
quando se trata do pai (situação de longe mais como o indicador de uma dificuldade impor-
freqüente) constitui sempre um fator de risco tante, no plano epidemiológico, ao contrário,
considerável (Gowers et al., 1993). o elemento mais pertinente é a intensidade de
relações com os iguais. O aparecimento e a ma-
nutenção de numerosas condutas patológicas
(em particular transtornos do comportamento)
O Papel da Escolaridade são fortemente correlatos com a existência e,
sobretudo, com a “qualidade” das relações com
Existe uma forte correlação entre a ma- os iguais. Desse ponto de vista, a busca excessi-
nutenção e a continuidade da escolaridade, va (saídas muito freqüentes, muito tardias, ter
por um lado, e a existência de dificuldades na muitos “companheiros”, estar sempre fora...) é
adolescência, por outro, sendo alguns desses um indicador e um revelador de múltiplas con-
problemas correlacionados à qualidade dos dutas patológicas.
estudos. Assim, a pesquisa de M. Choquet
(1988) mostra que os alunos dos ciclos curtos
(colégios profissionalizantes) apresentam mais GRUPO SEM PROBLEMAS, GRUPO
condutas de risco, de consumo de álcool, de
badernas; eles também têm mais problemas de COM PROBLEMAS
saúde, embora consultem com menos freqüên-
cia. Esses dados são encontrados também em
uma população em desemprego ou desescolari- As taxas de prevalência dos diversos estados
zada de adolescentes ou jovens adultos (levan- ou condutas patológicas serão apresentadas no
tamento L. Harris, maio de 1991 junto a 1.031 capítulo e no item correspondentes (ver tenta-
jovens com menos de 25 anos em processo de tiva de suicídio, anorexia, bulimia, transtornos
inserção: 42% com problemas de sono, 32% do sono, consumo de droga, etc.).
com problemas alimentares, 60% fumam mui- A título informativo, apresentaremos em
to, 30% bebem muito, 20% já consumiram forma de quadros alguns resultados da pesqui-
uma droga, 32% se dizem “deprimidos”, 38% sa realizada recentemente pelo INSERM (U.
pensaram em suicídio e 17% fizeram uma ou 169, M. Choquet et al., 1988, 1991, 1992,
várias tentativas, 10% das meninas submete- 1993) junto a adolescentes escolarizados de 11
ram-se a um aborto voluntário das quais 13% a 19 anos.
não se beneficiaram de nenhuma proteção so- Essa pesquisa estudou a vida dos jovens,
cial e 41% deixaram “algumas vezes” ou “fre- suas relações familiares, circunstâncias da vida,
qüentemente” de procurar um atendimento interesses, lazeres, queixas somáticas, estado
em razão do custo). afetivo, percepção do corpo, doença somática,
Esses fatos particularmente preocupantes acidente, transtornos de conduta (violência,
são apenas a amplificação na faixa etária se- baderna, roubo, fuga), consumo de produto,
guinte de dados já encontrados na faixa etária qualidade da escolarização.
de 11 a 18 anos: o atraso e o absenteísmo esco- O recorte e o reagrupamento do conjunto
lar freqüentes, a exclusão e a interrupção da es- de resultados permitiu aos autores definir três
colaridade representam sempre fatores de risco grupos de adolescentes em função do número
para a saúde física e psíquica dos adolescentes. de problemas que eles apresentavam. Assim, os
É evidente que essa exclusão ou essa ruptu- autores definem um grupo “sem problema apa-
ra é um sintoma da dificuldade e do mal-estar e rente” e um grupo com “problemas múltiplos”,
não a causa da patologia posterior (ver Capítu- o que define a contrario um terceiro grupo inter-
lo 17 – “A escolaridade na adolescência”). mediário.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 77

Grupo de Adolescentes “Sem A vida familiar é vista pelos adolescentes


Problemas Aparentes” desse grupo “com problemas” como penosa,
tensa; os pais, sobretudo o pai, são descritos seja
como invasivos, seja como indiferentes, mas
Entre 16 e 18 anos, 26% dos jovens (me- sempre como incapazes de compreensão. Esses
ninos: 32%, meninas: 19%) não apresentaram adolescentes reclamam mais de afetos de tris-
nenhum transtorno nas pesquisas sucessivas. teza, de mal-estar, mas estão quase sempre em
No conjunto, esses jovens sem problemas grupo, com um sobreinvestimento da vida re-
aparentes têm uma opinião mais positiva de seus lacional extrafamiliar, das saídas. Eles cometem
pais e estão satisfeitos com a vida familiar. Eles di- excessos com freqüência.
zem em geral que se sentem bem consigo mesmos, Nesse grupo, certos adolescentes apresenta-
ainda que admitam ser um pouco tímidos. Eles rão uma melhora ao longo das pesquisas sucessi-
gostam de sair (cinema, programas com colegas), vas. É mais o caso de adolescentes inseridos em
de ouvir música, mas fazem poucos excessos. um ciclo escolar longo, cuja família apresenta
Em compensação, não há diferença com os um nível sociocultural favorável, tendo consul-
outros grupos no que se refere à nacionalidade, tado seu médico em várias ocasiões. Os antece-
à escolaridade, à origem socioprofissional do dentes psicossomáticos na infância são mais ra-
pai, à atividade profissional da mãe, ao estatuto ros (entre os adolescentes cujas dificuldades se
matrimonial dos pais, ao tipo de habitação. atenuam, do que entre aqueles sem melhora).
Nesse grupo, o aparecimento de problemas Enfim, esses adolescentes saem às vezes com
parece correlato com um sentimento de fadiga seus pais, que nunca são vistos como indiferen-
no adolescente, uma degradação do clima fami- tes. Assim, podemos ver nos traços anteriores
liar, uma dificuldade de organizar sua vida. Mas fatores de resistência à patologia.
o elemento importante parece ser a ocorrência
de circunstâncias de vida mais freqüentes: desem-
prego, doença dos pais, hospitalização de al-
Grupo Intermediário
guém próximo, divórcio ou separação dos pais.
Isto demonstra claramente a vulnerabilidade do
adolescente ao ambiente familiar e social Embora os autores não o mencionem, a defi-
nição dos dois grupos anteriores isola um terceiro
grupo intermediário. Esse grupo, que poderia re-
presentar uma maioria de adolescentes entre 16
Grupo de Adolescentes “Com e 18 anos (63% aproximadamente: 65% de me-
Problemas Múltiplos” ninas, 60% de meninos) é constituído de indiví-
duos que apresentam de um a três “problemas”.
Entre 16 e 18 anos, 10% dos jovens (meni- Pode-se constatar na freqüência dessas manifes-
nos: 6%, meninas: 14%) apresentam pelo menos tações o traço clínico do trabalho psíquico da
quatro problemas4 nas pesquisas sucessivas (14, adolescência, o que, mesmo sem definir um es-
17 e 18 anos). Esses jovens tinham mais proble- tado patológico propriamente dito, testemunha
mas de sono e de cefaléias durante a infância do a “vulnerabilidade” individual dos adolescentes.
que os outros (os problemas de sono durante a Se a essa vulnerabilidade individual ligada ao
infância representam assim um bom indicador trabalho psíquico da adolescência acrescentam-
de possíveis dificuldades na adolescência...). se fatores de risco familiares e, além disso, fatores
de risco ambientais, não é difícil conceber, pelo
acúmulo de fatores, os perigos de uma franca
4
Comportamentos com problemas: álcool regular, be- descompensação patológica.5
bedeiras múltiplas, cigarro em quantidade significa-
tiva, experimentação de uma droga ilícita, badernas
5
freqüentes. Transtornos psicossomáticos e de humor, É difícil estabelecer comparações entre esses grupos
geralmente pesadelos, transtornos do sono, dores de definidos pelo acúmulo de “comportamentos com pro-
cabeça, ânsia de vômito, vontade de chorar, idéias de- blemas” e os grupos definidos segundo uma perspectiva
pressivas e suicidas, nervosismo. desenvolvimentalistas (Offer, ver p. 28).
78 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Acúmulo e Repetição Quadro 4.2 Manifestações psicológicas:


queixas ou observações de adolescentes
referentes a seu estado psicológico ou ao seu
Para além da singularidade das condutas de “nervosismo” (Fonte: idem)
sofrimento ou de desvio, dois parâmetros devem
Meninos Meninas
ser objeto de uma avaliação rigorosa, um sincrô-
nico (acúmulo) e outro diacrônico (repetição): Dizem-se “nervosos” 25% 40%
Dizem-se “deprimidos” 6% 25%
– O acúmulo de condutas com problemas: fa- Idéias de suicídio 5% 12%
tor de avaliação essencial, ele impõe ao clínico
Vontade de chorar 4% 36%
uma conduta avaliativa ampla que necessaria-
mente ultrapassa o campo estreito de sua espe- Tédio 14% 24%
cialidade.
– A repetição de condutas com problemas é o
segundo fator a ser avaliado. Essa repetição tem Quadro 4.3 Percepção do corpo (Fonte: idem)
o risco de inserir o adolescente em uma fixação
Meninos Meninas
desviante segundo o modelo descrito por Ph.
Jeammet (conduta de auto-sabotagem). Essa Acham-se muito gordos 12,4% 37,3%
repetição deve atrair tanto mais a atenção na Acham-se muito magros 10,1% 4,2%
medida em que se trata de uma conduta nova ou Desejam emagrecer 21,1% 57,2%
de uma conduta já existente na primeira infân- Desejam engordar 20% 5,8%
cia e que desapareceu em parte ou totalmente
Fazem um regime 4,2% 14%
durante a infância. Por seu potencial de fixação,
Tomam um medicamento para 1,4% 2,3%
uma tal conduta ameaça o desenvolvimento e o
emagrecer
trabalho psíquico em curso.
Tomam laxantes 1,5% 3,1%

Quadro 4.1 Manifestações somáticas: queixas


e observações de adolescentes referentes a Quadro 4.4 Acidente-incidente
seus corpos (Fonte: pesquisa de Choquet et al.,
INSERM U., 169, 1988.) Meninos Meninas
Sofreram um acidente entre 11 46% 25%
Meninos Meninas
e 18 anos
Impressão de estar fatigado 20% 47% Sofreram um acidente entre 17 24% 10%
Dificuldades de adormecer 21% 35% e 18 anos
Despertares noturnos 8% 19% Foram hospitalizados após um 6% 3%
Pesadelos 5% 9% acidente entre 17 e 18 anos

Dor de barriga 8% 27% Tiveram uma recidiva de 28% 28%


acidente
Dor nas costas 16% 28%
Dor de cabeça 13% 30%
Problemas de pele 11% 18%
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 79

REFERÊNCIAS
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risque, Syros éd., Paris, 1993, 1 vol.
5
O Problema do Agir
e da Passagem ao Ato*

INTRODUÇÃO1 “o ato” e a “passagem ao ato”, e, de outro, o im-


pulso e a compulsão.
O ato é uma conduta espontânea com uma
A oposição entre conduta agida e conduta elevada dimensão positiva; geralmente rápido
mentalizada assume toda sua importância na ado- como um relâmpago, praticado sem reflexão,
lescência. Nessa idade, o agir é considerado como mas nem por isso totalmente irrefletido. Encon-
um dos modos de expressão mais importante nos tramos freqüentemente esses gestos no adoles-
conflitos e nas angústias do indivíduo. Ele se ma- cente que alega uma espontaneidade e, às vezes,
nifesta na vida cotidiana do adolescente, cuja mesmo uma culpabilidade inconsciente. Muitas
força e atividade motriz se desenvolveram bru- atitudes generosas, em particular com relação
talmente; manifesta-se igualmente no nível psi- aos oprimidos, assumem essa forma.
copatológico em transtornos do comportamento A passagem ao ato é quase sempre violenta e
que representam um dos motivos de consulta agressiva, com um caráter freqüentemente im-
mais freqüente a psiquiatras da adolescência. pulsivo e delituoso (Porot, 1969). A expressão
O termo agir comporta vários tipos de con- francesa passage à l’acte tem o inconveniente de
duta que respondem a definições diferentes se- uma utilização em psiquiatria que limita seu uso
gundo os modelos utilizados. a situações violentas e proibidas por lei, como
o furto, por exemplo. A propósito da passagem
O modelo de compreensão clínica e feno- ao ato, coloca-se constantemente o problema da
menológica. – Aqui se distinguem, de um lado, difícil e fascinante tentativa de acomodamento,
raramente bem-sucedida, entre os gestos provo-
cadores ou insensatos do adolescente e a palavra
* N. de R. T. Mantida a tradução do conceito francês sensata do mundo, do qual faz parte o psiquiatra
de “passagem ao ato” por ser mais abrangente do que ou o terapeuta (Millaud et al., 1998).
“atuação”, comumente mais utilizado, mas que pode se
O impulso designa, por sua vez, a ocorrên-
sobrepor ao conceito de acting out.
1
Tendo em vista sua importância e sua freqüência, as cia súbita, vista como uma urgência, a cum-
tentativas de suicídio serão tratadas em um capítulo prir este ou aquele ato. Este se realiza fora de
específico, embora faça parte da questão das condutas qualquer controle e geralmente sob o domínio
violentas e da atuação (ver Capítulo 10). da emoção.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 81

A compulsão é um tipo de conduta que o ao agir; 2) o próprio conteúdo desse novo status so-
sujeito é impelido a cumprir por uma imposi- cial: a liberdade, a autonomia e a independência
ção interna. Essa conduta é complexa e implica recém-adquiridas favorecem o agir (cf. o item
sempre uma luta interior. Diferentemente do “Abordagem social”, no Capítulo 1); 3) os este-
impulso, a compulsão pode se manifestar em reótipos sociais: os adolescentes têm a tendência
uma ação, mas também em um pensamento, em a confirmar por seu modo de agir a idéia que os
uma operação defensiva e mesmo em uma se- adultos fazem das características desse período
qüência completa de comportamentos. chamado comumente de “crise de violência”; 4)
a interação social: todos sabemos que um ato atrai
O modelo de compreensão psicanalítica. outro ato, seja por imitação, seja por reação. Isso
– Já os psicanalistas distinguem o “acting out” e é bastante visível nos fenômenos de grupo, e ob-
os “atos-sintomas”. serva-se tanto mais quanto o grupo é importan-
O acting out distingue ações que na maioria te. Entre adolescente e ambiente, há o risco de
das vezes apresentam uma característica impulsiva se produzir um reforço recíproco da tendência
relativamente em ruptura com os sistemas de mo- a agir (cf. o item “Identidade-Identificação”, no
tivações habituais do sujeito, passíveis de serem Capítulo 1); 5) as restrições excessivas da realida-
isoladas no curso de suas atividades, e geralmente de: de fato, quando o ambiente impõe restrições
assumindo uma forma auto ou heteroagressiva. excessivamente rígidas ou totalmente opostas à
Representa uma das vicissitudes da transferência necessidade natural do adolescente, uma de suas
e opõe-se à verbalização e à rememoração. últimas saídas é a passagem ao ato.
Os atos-sintomas têm uma função total-
mente diferente e mesmo oposta: “verdadei- Os fatores internos. – Mas, na realidade,
ro compromisso que revela, ao mesmo tempo o adolescente encontra principalmente em si
em que oculta suas origens e seus elementos, a mesmo as condições favoráveis ao agir. Sem ne-
existência de um conflito”, eles são prévios ao gar as diferenças individuais e constitucionais
tratamento psicanalítico no qual tendem a ser que podemos observar no recém-nascido desde
substituídos pela verbalização e justamente pe- as primeiras semanas de vida, a motilidade e a
las vicissitudes da transferência. utilização dessa possibilidade na ação dependerá
Evidentemente, o estudo dos atos nos ado- de fatores psíquicos internos ao longo de toda a
lescentes pode levar em conta uma ou outra vida, em particular na adolescência. Citaremos
dessas definições, segundo o modo e o contexto aqueles que explicam a facilitação ao agir: 1)
em que são observados. a excitação pubertária: a irrupção da maturidade
genital, a nova necessidade sexual confronta o
adolescente com um estado de tensão primeira-
Fatores que Favorecem o Agir em mente física e depois psíquica que, para chegar
Todo Adolescente à sua distensão, precisa encontrar antes seu “ob-
jeto adequado” (Gutton, 2001). O pubertário
confronta necessariamente o adolescente com
O agir não é próprio apenas dos adoles- um estado de insatisfação, de frustração transi-
centes que apresentam transtornos psíquicos, tória da qual o sujeito não pode se poupar a não
é antes uma característica de todo adolescente. ser justamente mediante uma passagem ao ato
Duas séries de fatores favorecem o agir: (ver o item seguinte: “Fatores de resiliência”; 2)
a angústia: seu ressurgimento na adolescência
– fatores ambientais; não precisa mais ser demonstrado; ela necessita
– fatores internos. de ações de descarga, entre as quais o agir. Em
um nível psicopatológico, podemos inclusive
Os fatores ambientais. – Entre estes, cita- dizer que a angústia é um elemento essencial da
remos brevemente: 1) a mudança de status social: passagem ao ato, pois ela nunca falta; 3) o re-
a passagem da infância à idade adulta através da manejamento do equilíbrio pulsão-defesa é a fonte
adolescência constitui um período de mudança facilmente reconhecível da passagem ao ato do
que, como qualquer mudança, é uma incitação adolescente, passagem ao ato sexual sob o peso
82 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

da pulsão social quantitativamente reavivada trip”, etc. O instrumento linguagem é natural-


e qualitativamente modificada tornando-se mente perturbado. Mas sua função de comuni-
genital, passagem ao ato auto ou heteroagres- cação e de contato (Kasiri, 1975) também é,
siva induzida pelo ressurgimento das pulsões tanto mais na medida em que a necessidade de
pré-genitais; recordemos que para S. Freud a se comunicar e de contato nessa idade cresce
característica essencial da passagem ao ato é a consideravelmente. Isso é fonte de tensão e,
noção de deslocamento da descarga pulsional, portanto, de agir.
como é o caso na regressão formal; 4) a antíte- Isso explica, sem dúvida, o fato de nessa
se atividade/passividade: o medo da passividade, idade “o ato de palavra” oscilar com mais fre-
ao remeter à submissão infantil e às tendências qüência e mais fortemente para os seus extre-
homossexuais, também conduz os adolescentes mos do que na idade adulta: o aparecimento de
a recorrerem à ação (e à auto-afirmação) para um código lingüístico falado, às vezes objetiva-
negar essa passividade; 5) as modificações instru- do por uma verdadeira neolinguagem, represen-
mentais: o corpo e a linguagem. A ligação entre ta uma dessas extremidades, enquanto a outra
o corpo, a linguagem e o agir fica patente naqui- extremidade se exprime geralmente sob a forma
lo que se chama de “o ato de palavra”, situado de “gritos” do coração e do afeto.
em um lugar que oscila permanentemente entre
a linguagem (código lingüístico falado) e o gri-
to (descarga motriz do corpo) (Gori, 1977). Na Lugar da Passagem ao Ato nos
adolescência, o corpo e a linguagem desempe-
nham um papel incontestável nessa propensão
Principais Quadros Psicopatológicos
à passagem ao ato por dois fatores:
Em oposição aos transtornos de conduta
– sua mudança própria como instrumento; mentais interiorizados, a passagem ao ato assi-
– a mudança de sua função. nala uma patologia de condutas externas agidas.
É uma das respostas privilegiadas da adolescên-
Para o corpo, as transformações corporais da
cia às suas situações de conflito. Clinicamente,
adolescência caracterizam-se por um aumento da
é comum distinguir vários elementos:
energia e por uma força muscular brutalmente
ampliada que, por si mesmos, favorecem o agir. • Os diferentes modos de passagem ao ato.
Além disso, essas transformações, pelo transtor- Eles são muito diversos, e o conjunto de con-
no do esquema corporal que elas induzem e pela dutas comportamentais pode ser relacionado:
perturbação de sua função no nível da construção cólera clástica, furto, agressão, fuga, suicídio,
da identidade do sujeito, são fonte de angústia e, automutilação, conduta sexual, conduta “de
por isso mesmo, de passagem ao ato. adição” química, etc.
Para a linguagem, o equilíbrio entre lin- • Seu aspecto isolado ou repetido. Se o
guagem e ação é observado em psicopatologia aspecto isolado não assinala uma patologia, a
sob a forma de um aumento freqüente do agir repetição das passagens ao ato e, sobretudo, da
e das passagens ao ato nos sujeitos que utilizam mesma passagem ao ato, leva a descrever trans-
com dificuldade a linguagem. A relação inversa tornos enquistados, assimilando a patologia do
observada entre a passagem ao ato e a formula- sujeito ao seu gesto repetitivo. Assim, fala-se de
ção de conceito abstrato é bem conhecida nos suicida, de toxicômano, de delinqüente ou mes-
adolescentes psicopatas (cf. Capítulo 13). Mas mo de ladrão, de fugitivo.
também se observa essa relação inversa fora de • Sua ligação com outras manifestações
qualquer processo psicopatológico. Nessa idade, ou com uma estrutura psicopatológica deter-
a linguagem torna-se imprópria para traduzir o minada. Aqui encontramos as passagens ao ato
sentimento do adolescente, que deve forjar um como sintoma de uma entidade nosográfica tal
novo vocabulário para exprimir o que ele per- como é evocada no conjunto da psicopatologia
cebe e o que pensa de sua nova vivência. Isso sem diferenciação de idade: pode se tratar, por
pode ser ilustrado pelos neologismos próprios exemplo, de atos impulsivos de estados defici-
aos adolescente e por certas “palavras gritos” tários ou de estados psicopatológicos. Pode-se
como “genial”, “que pé”, “vou flipar”, “é uma pensar também nas passagens ao ato psicóticas,
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 83

cujo mecanismo de desencadeamento variará disto é fornecida pelos testes psicológicos de


conforme se trate de um estado delirante, de adolescentes deprimidos. Esses testes mostram
uma melancolia ou de um surto maníaco, sem uma propensão do agir: no WISC, a pontuação
esquecer as clássicas passagens ao ato dos epi- performance é mais elevada que a pontuação
léticos. verbal; “reunião de objetos mais arranjo de ima-
• Finalmente, certos autores estabelecem gens” tem uma pontuação melhor que “cubos
uma correlação entre o modo da atuação e o mais complemento de imagens”. Igualmente
tipo de personalidade; eles diferenciam o “ac- no teste de Rorschach, as passagens ao ato e as
ting out” dos delinqüentes, dos toxicômanos cóleras misturam-se aqui e ali com a expressão
ou dos psicóticos: passagens ao ato violentas, de um conteúdo depressivo. Sensações de va-
irracionais, impulsivas, mas também impre- zio, imagens sádicas agressivas como mordedura
visíveis e caóticas, e o “acting out” dos sujei- e dilaceração são freqüentes (Toolan, 1969).
tos neuróticos, nos quais a passagem ao ato é
igualmente violenta, irracional e impulsiva, Podemos afirmar que a passagem ao ato é
mas não é nem imprevisível nem caótica (M. um dos modos sintomáticos preferenciais da de-
H. Stein, 1972). pressão do adolescente.

Mais especificamente na adolescência, três


eventualidades diagnósticas são evocadas:
As Significações Psicológicas e
– as crises na adolescência, cujas manifes- Psicopatológicas do Agir
tações são variadas (cf. Capítulo 2), mas onde
a passagem ao ato ocupa um lugar de escolha,
Quer se considere o agir como um traço de
quer se trate de diferentes formas de crises ju-
caráter (adolescente com propensão psicopáti-
venis ou da crise de identidade descrita por E.
ca), como um sintoma (adolescente deprimido)
H. Erikson;
ou como ambos (adolescente delinqüente, por
– as condutas graves na adolescência, grupos
exemplo), a passagem ao ato assume um sentido
nos quais se situam as tentativas de suicídio, as
diferente conforme as situações e conforme as
toxicomanias, os atos de delinqüência (cf. Capí-
abordagens.
tulo 10 “As tentativas de suicídio”). Essas condu-
tas graves inserem-se seja no quadro de personali-
dades anti-sociais já organizadas como tais desde O agir como estratégia interativa. – O agir
a adolescência, seja no quadro de organizações é considerado aqui como um meio indireto de
“limite” da personalidade (ver Capítulo 12); adquirir, de dissimular ou de revelar uma infor-
– a depressão na adolescência merece uma mação por meio de um encontro interpessoal
atenção muito especial. Aqui o adolescente com um outro adolescente ou com um outro
introduz uma dimensão particular, no sentido adulto, incluído o ou os terapeutas: “os pacien-
que, diferentemente do que ocorre com o adul- tes violentos questionam o funcionamento pes-
to, a depressão se manifesta comumente sob a soal dos terapeutas, obrigam-nos à introspecção
forma de passagem ao ato (cf. o item “Clínica”, e também questionam e põem à prova as estru-
no Capítulo 9). A desaceleração psicomotora, turas institucionais” (Millaud et al., 1998).
sinal clássico da depressão do adulto, é subs- Com o adulto, o adolescente procurará essa
tituída pela busca constante de estimulação interação por intermédio do agir para deixá-lo
pela hiperatividade, alternada por períodos de embaraçado, para atrair sua atenção, para fazer
grande fadiga, e por passagens ao ato. A fuga o que o adulto faz mas que ainda é proibido ao
da doença depressiva pela hiperatividade sexual adolescente. Fumar cigarro ou maconha, “to-
é relativamente freqüente. Do mesmo modo, a mar um porre“, ter um namoro ou uma relação
expressão verbal e agida da cólera é muito mais sexual, furtar no mercado, ou “matar aula”, en-
importante. No adolescente, uma passagem ao tre outras coisas, revestem essa significação.
ato, qualquer que seja ela, e, sobretudo, a re- Com seus iguais, o adolescente procura
petição da mesma, deve levar a pensar siste- igualmente essa interação para pertencer ao
maticamente em uma depressão. Uma prova grupo, para aumentar, manter ou defender sua
84 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

auto-estima (Elkiend, 1980). As corridas de Anna Freud descreve vários mecanismos


moto ou de carro, as proezas esportivas, as rela- de defesa contra a ligação com o objeto infantil
ções sexuais ou os atos delituosos costumam ter na adolescência. Alguns se exprimem mais em
essa significação. modo de conduta mentalizada: defesa por rever-
Trata-se efetivamente de uma estratégia in- são do afeto, pelo retraimento da libido no eu;
terativa, pois a resposta a essa demanda agida outros mais sob forma de conduta agida: defesa
se dá geralmente sobre o modo de agir tanto pela regressão, defesa pelo deslocamento da li-
por parte dos adultos quanto dos adolescentes bido. Nessa última, o adolescente vai transferir
pertencentes ao grupo de iguais. Também se sua libido a substitutos parentais, a líderes, a um
observa essa estratégia interativa no quadro de amigo ou a um grupo (bando ou gangue). Essa
um processo terapêutico e psicoterápico. Ela é, transferência se manifesta na forma de passa-
então, uma fonte de dificuldades para manter gem ao ato. Tais adolescentes podem ser enca-
esse processo. minhados para tratamento quando suas atitudes
tenham entrado em conflito com a escola, com
O agir como mecanismo de defesa. – O agir o empregador ou com a lei.
pode acompanhar ou representar uma mentali- Essas atuações aqui expressam claramente
zação. É o caso, por exemplo, do ato de mastur- um mecanismo de defesa e, por isso mesmo, um
bação e da fantasia associada a ele. Além dis- processo mentalizado.
so, como assinalaram vários autores, o agir e a Em um grau a mais em adolescentes pré-
passagem ao ato podem ser considerados como psicóticos ou psicóticos, encontramos passagens
a expressão de um mecanismo de defesa. Nisso, ao ato como defesa em face da despersonaliza-
eles têm uma função de restituição com relação ção ou da confusão de identidade.
ao Ego. O acting out do adolescente pode ser
concebido como uma forma de ação experimen- O agir como entrave da conduta menta-
tal a serviço da função adaptativa do Ego. Desse lizada. – Essa significação do agir decorre em
ponto de vista, uma tal ação pode ser considera- grande parte da prática e de certas concepções
da como uma forma de solução de um problema psicanalíticas. De fato, no quadro da transferên-
(Levitt e Rubinstein, 1959). No mesmo sentido, cia, observa-se com freqüência que o paciente
Blos atribui a certos comportamentos agidos dos
age para evitar sentir. O acting out é avaliado
adolescentes uma função do reality testing.
então como uma conduta de fuga em face do
Jeammet (1980) explica a freqüência dos
afeto ou da representação desagradável à cons-
transtornos do comportamento agido no ado-
ciência do sujeito. Freud, primeiramente, opôs
lescente por essa atitude:
a rememoração verbalizada (objetivo do trata-
Passando ao ato, o adolescente exprime mento psicanalítico) ao conjunto “ato-transfe-
a necessidade de recuperar um papel ativo rência-resistência”, cujo caráter comum é a re-
que contrabalance o vivido profundo de petição. Os psicanalistas kleinianos atribuíram
passividade em face da perturbação sofrida, ao acting out a função de desviar certos senti-
evita a tomada de consciência que seria do- mentos ou certas atitudes experimentadas em
lorosa e constituiria um fator de depressão, relação ao analista para outras pessoas da vida
na medida em que faria emergir o caráter cotidiana. O paciente tentará então se desviar
conflituoso da sua situação, assim como sua do analista como tentou fazer em relação aos
solidão e a vivência de separação que supõe
todo movimento reflexivo. Com relação a
seus objetos primários (Rosenfeld, 1964). A re-
suas produções mentais, o adolescente geral- petição dos acting out em um tratamento trava
mente adota a mesma atitude fóbica de evi- consideravelmente o seu desenvolvimento e
tamento que tem com seu corpo sexuado. torna impossível o insight. O agir opõe-se à to-
mada de consciência.
Na mesma ordem de idéias, poderíamos Enfim, do nosso ponto de vista, não se in-
evocar uma conduta particular: “a recusa de sistiu suficientemente sobre a função de des-
agir”, atitude que comumente se insere nessa ligamento das pulsões como fonte do agir na
dinâmica atividade-passividade tão caracterís- adolescência. A passagem ao ato constitui em
tica da adolescência. geral uma das conseqüências da separação das
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 85

pulsões libidinais e das pulsões agressivas. Ao dizer que, para certos adolescentes, “é preferível
fazer isso, o adolescente evita certamente o so- não desejar nada a desejar sem realização ime-
frimento (o que representa a vertente “meca- diata”. Essas diversas condutas de retraimento
nismo de defesa”), mas, ao mesmo tempo, suas representam a imagem invertida de todos esses
possibilidades fantasmáticas e cognitivas são “agires” que geralmente ocupam o primeiro
parcialmente travadas. plano do quadro semiológico. Por meio desses
Encontramos aqui os fatores psicológicos agir-recusa de agir, coloca-se igualmente a con-
que favorecem o agir na adolescência. Resta sa- flituosidade decorrente do par atividade-passi-
ber por que alguns adolescentes passam ao ato vidade em uma dialética sutil e própria a cada
mais facilmente do que outros. Peter Blos dá- adolescente: alguns “passam ao ato” por temor
nos uma explicação. Para ele, os adolescentes da passividade, outros se fecham nessa inércia
que consideram suas fantasias mais reais que o ativa por temor de se deixar levar passivamente
mundo exterior têm uma predisposição que se a agir, etc. Subjacente a esse par atividade-pas-
tornará eventualmente acting out. Essa predis- sividade, está em jogo, evidentemente, a pro-
posição está ligada a um sentido fraco e vago da blemática identificatória masculino-feminino.
realidade que decorre do fato de ter-se desen-
volvido uma vida fantasiosa rica na infância,
isoladamente e por si mesma, sem compromisso Fatores de Resiliência em Face da
com a realidade (Blos, 1962).
Pode-se considerar que o agir como meca-
Passagem ao Ato
nismo de defesa e o agir como entrave ao pen-
samento representam duas vertentes de uma Quais são os fatores que podem proteger
mesma conduta. um adolescente de sua propensão à passagem ao
Essas duas últimas significações psicológicas ato? Levando-se em conta os múltiplos fatores
e psicopatológicas do agir, seja como entrave da favoráveis expostos anteriormente, parece legí-
conduta mentalizada, seja, ao contrário, como timo perguntar-se por que todos os adolescentes
mecanismo de defesa, remetem em parte à dis- não passam ao ato mais regularmente e mais
tinção feita pelos psicanalistas entre o acting seguidamente. Entre esses fatores de proteção,
out e os atos-sintomas. Essa distinção permite pode-se destacar:
igualmente lançar pontes entre a passagem ao
ato impulsiva, que se aproxima do acting out por – A tolerância à frustração: adquirida du-
seu caráter brusco, repetitivo e pela determina- rante a infância, a tolerância à frustração tra-
ção inconsciente, e passagem ao ato compulsi- duz a capacidade do sujeito de aceitar em si
va, verdadeira atividade-sintoma, acompanha- mesmo um estado de insatisfação interna fre-
da de um sentimento de coerção e cuja função qüentemente acompanhado de um aumento
defensiva às vezes se revela claramente. do nível de angústia (ligada a essa tensão). A
tolerância às flutuações do nível de ansiedade
no ego (Kernberg, 1979) faz parte dessa tole-
A recusa de agir. – Finalmente, ao lado dos rância à frustração. É comum encontrar uma
“múltiplos” atos praticados pelo adolescente, é intolerância às variações do limiar da angústia
preciso evocar sua freqüente “recusa de agir”: nos pacientes borderline ou portadores de traços
certos adolescentes desenvolvem condutas de psicopáticos (ver capítulos 12 e 13).
inércia ativa, de recusa estênica ou ainda de – A capacidade de adiar: a sobrecarga de ten-
passividade enérgica. Esses comportamentos são física e psíquica atualiza “cenas pubertárias” e
diferem sensivelmente da inibição de origem mobiliza as capacidades de representação do su-
neurótica. Para Ph. Jeammet, essa “inércia ati- jeito: é preciso também que a atividade de pen-
va” representa uma tentativa ativa de expulsar sar tenha sido investida de um mínimo de prazer
o objeto de desejo a fim de melhor controlar, (ver Capítulo 1: desenvolvimento cognitivo).
secundariamente, a realidade interna. De fato, A auto-estima é um bom indicador desse prazer
o adolescente passa a ter dificuldade de tolerar de pensar. Se for o caso, o paciente constrói ce-
essa realidade interna, pela excitação provocada nários imaginários protetores graças ao investi-
pelo desejo/necessidade do objeto. Poderíamos mento das duas direções da temporalidade: a do
86 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

passado, investindo sua própria história e mais mais no jogo. O evitamento fóbico, a raciona-
ainda sua história familiar transgeracional; e a lização, o conformismo levam o adolescente a
do futuro, marcado pela esperança de que ama- abandonar o espaço do jogo. Um ato sintomá-
nhã será melhor do que hoje. Nessas condições, tico pode então substituir a atividade lúdica,
a expectativa se torna possível e, mesmo que como se observa nos adolescentes jogadores de
essa expectativa se torne tediosa (ver Capítulo cartas ou de xadrez, ou que agora jogam com
9), o investimento dessas cenas fantasmáticas o computador, ou em certos esportistas de alta
permite ao adolescente adiar sua necessidade de competição, para os quais as atividades lúdicas
satisfação e de distensão imediatas. assumiram um caráter impositivo e obsessivo.
– A capacidade de deslocamento: o adoles- Ameaçada pela passagem ao ato impulsivo,
cente dispõe de uma outra estratégia protetora e pelo ato-sintoma compulsivo, a atividade lú-
da passagem ao ato. De fato, ele pode investir dica na adolescência esclarece o vasto proble-
sua excitação, sua tensão em um outro objeto, ma do agir nessa idade. Ela permite constatar a
em um campo de exploração adjacente. A subli- existência de uma continuidade entre as dife-
mação (Poiret, 1994) está a serviço desse traba- rentes formas de agir, e permite igualmente re-
lho de deslocamento. Sua base é construída no conhecer a substituição de uma forma por outra
período de latência: a abertura ao conhecimen- e, com isso, desvendar as funções que assumem
to, a curiosidade, o desejo de saber e de com- cada uma dessas formas.
preender são todos deslocamentos da sexualida-
de infantil, cujo traçado e cujas pegadas serão
muito úteis ao jovem adolescente que torna-se FUGAS E ERRÂNCIAS
curioso com tudo, investe-se em hobbies, em pai-
xões, como deslocamentos de uma genitalidade
nascente ainda pouco conhecida e assumida. Umas das representações mais concretas da
– O lugar do jogo na adolescência: ele ilustra ruptura do adolescente com seu contexto fami-
o problema do agir e da passagem ao ato e con- liar ou institucional é a partida do meio onde
densa as questões levantadas acima. vivia. Essa partida pode ter a aparência de fenô-
menos bem distintos em suas formas e em suas
Em relação à criança (cf. Enfance et psycho- significações.
pathologie), a relação do adolescente com o jogo Antes de abordar esses diferentes fenôme-
sofre uma mudança. Todos sabem que, a partir nos, é importante especificar suas caracterís-
da pré-adolescência, o jogo se torna muito mais ticas comuns: 1) trata-se de condutas agidas;
socializado. Mas, ao contrário do período de la- 2) nenhuma delas constitui um delito em si
tência, no qual, como mostrou Piaget, os jogos mesma; 3) elas representam uma conduta so-
simbólicos foram substituídos pelos jogos de cial importante do adolescente; 4) elas não se
regra, na adolescência o sujeito normalmente situam fatalmente em um contexto psicopato-
volta a utilizar, ainda que eles jamais tenham lógico; 5) finalmente, elas se caracterizam pela
sido totalmente abandonados, os três tipos de passagem do campo familiar e institucional ao
jogos: jogo de exercício, jogo simbólico e jogo campo social.
de regra. Por intermédio do jogo, da atividade
lúdica, podemos observar a maneira como o
adolescente maneja o agir. Essa observação leva Os Diferentes Modos de Partida dos
a constatar que o espaço do jogo na adolescên-
cia fica reduzido, pois é constantemente con- Adolescentes: Descrição Clínica
frontado com duas ameaças:
De um ponto de vista clínico e metodológi-
– A invasão pulsional, que se caracteriza co, é necessário distinguir atualmente três mo-
por um ato brutal, mais ou menos violento, que dos diferentes:
faz o adolescente abandonar o jogo: observamos
aqui a ocorrência da passagem ao ato impulsiva. – a viagem;
– A contrapartida defensiva dessa invasão: – a “estrada”;
o adolescente não entra no jogo ou não está – a fuga.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 87

A viagem. – A viagem é uma partida, mas “A estrada”. – Mais ainda que a viagem,
uma partida preparada com antecedência, por o fenômeno da “estrada” deve ser aproximado
um tempo determinado, solitária ou, preferen- do caráter sócio-histórico contemporâneo e, em
cialmente, em grupo, com uma meta precisa particular, do movimento hippy, em que a “estra-
e com previsão de retorno. Uma pesquisa do da” permanece indissociável em seu desenvolvi-
INSERM (1970-1971) sobre os estudantes do mento. A “estrada” é um verdadeiro parêntese
ensino médio assinalava que metade deles ti- que delimita uma etapa da vida entre a infân-
nha partido para o exterior nos três anos pre- cia e a idade adulta, que assinala uma vontade
cedentes. Ela mostrava também que o modo de deliberada de ruptura com a família e com o
viagem era dos mais variados, indo da viagem “sistema”. A finalidade e seu término são dife-
em charter à viagem de carona, este último re- rentes da viagem ou relegados ao segundo pla-
presentando um verdadeiro dado sociológico, no e, aliás, podem ser modificados ao acaso dos
visto que era praticado por 65% dos meninos e encontros. Trata-se mais, ou tanto quanto, de
por 35% das meninas. Os objetivos de uma tal partir e de romper com o meio anterior do que
viagem também são dos mais variados: pode-se se interessar por um aspecto particular ao longo
tratar de uma viagem escolar, universitária, de dessa deambulação. Contudo, encontra-se tam-
uma viagem com finalidade cultural, turística bém a busca de condições climáticas ou geográ-
ou política. Essa dimensão sociológica da via- ficas agradáveis, a presença de “comunidades”
gem dos adolescentes atuais é o reflexo das es- ou uma vontade ideológica claramente defini-
truturas socioeconômicas, em particular da me- da (movimento ecológico, por exemplo). Uma
lhoria dos meios de comunicação e de elevação das características do “mochileiro” é manifestar
do nível de vida dos jovens. um certo conformismo em seu anticonformis-
Essas viagens remetem ainda a dimensões mo, como mostram o aspecto físico, a maneira
individuais bem conhecidas: desejo de desco- de se vestir, os locais de encontro, a linguagem
berta, gosto pela aventura ou fuga da vida co- comum a todos os “mochileiros”. Não é a priori
tidiana rotineira. Os adultos reconhecem nisso desejável prejulgar a normalidade ou a patologia
suas próprias motivações, mas ficam mais ad- com base apenas nessa conduta, mas é preciso
mirados com a forma dessas viagens, que trinta considerá-la em associação com outras condutas
anos atrás pareceriam verdadeiras explorações agidas (uso de álcool ou de drogas, tentativas de
financeiras ou aventureiras. suicídio, atos delituosos) e/ou mentalizadas, té-
Portanto, essas viagens não deixam de ter dio, inibição relacional, angústia corporal, etc.,
uma ligação com um certo aumento da angústia, assim como a significação dessa partida para o
tanto para o ambiente como para o próprio ado- adolescente (Ferrari e Braconnier, 1976).
lescente. De fato, a viagem tem várias funções:
manifestação de independência do adolescente
em relação à sua família, rituais socializados de A fuga. – A fuga é uma partida impulsiva,
um distanciamento aceito pelos pais. Mas pode brutal, na maioria das vezes solitária, limitada
ser também a oportunidade de uma descompen- no tempo, geralmente sem uma meta precisa,
sação ansiosa: ocorrências de crises de angústia normalmente em uma atmosfera de conflito
agudas, de episódio depressivo momentâneo, de (com a família ou com a instituição onde o ado-
transtornos particulares de condutas (anorexia, lescente se encontra). Nas descrições clássicas, a
insônia), ou mesmo de episódios delirantes agu- fuga implica a partida do domicílio familiar por
dos, constituem os primeiros sinais de um es- cerca de uma noite. Ao contrário da estrada, a
tado psicopatológico. Suas condições de ocor- fuga é um fenômeno descrito há muito tempo.
rência durante uma viagem geralmente servem Desde os anos de 1960, seu aumento tem sido
de anteparo tanto para o adolescente quanto muito significativo. Nos Estados Unidos, cer-
para sua família, mas testemunham também ca de 7 a 11% dos jovens entre 12 e 21 anos
a importância da angústia durante aquilo que fugiram pelo menos uma vez (Windle, 1989,
geralmente constitui uma das primeiras separa- Greene et al., 1997; Ringwalt et al., 1998). Na
ções. Esta pode ser relacionada às vicissitudes pesquisa nacional francesa (Choquet, 1994),
do segundo processo de separação-individuação 3,7% dos jovens em uma população escolar de-
(cf. Capítulo 1). clararam ter fugido.
88 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Os dados quantitativos referentes aos fu- – do mais preparado ao mais inesperado;


gitivos variam conforme o lugar onde foram – do mais mentalizado ao mais agido;
estabelecidos. As cifras provenientes de orga- – do mais grupal ao mais individual;
nismos sociais ou fornecidas pela justiça dão – do mais aceito ao mais delituoso;
conta de uma população de fugitivos cujas ca- – do mais normal ao mais psicopatológico.
racterísticas são evidentemente bem próximas
das que se referem aos jovens delinqüentes. Por Porém, o mais interessante é observar em
exemplo, D. H. Russel estuda uma população que essas condutas podem se esclarecer recipro-
de cem fugitivos que foram encaminhados à camente: a fuga caricatura a dimensão de esca-
justiça. Entre essa população, 72% eram me- pe, a angústia, o papel do meio, que encontra-
ninos com uma média de idade de 15,2 anos mos também na estrada e na viagem – a estrada
e 28% eram meninas com uma média de ida- caricatura o desejo de ruptura e a busca de uma
de de 14,9 anos. A maioria desses jovens ado- nova identidade que encontramos na fuga e na
lescentes era oriunda de classes sociais pouco viagem – a viagem caricatura o desejo de desco-
favorecidas. Entre seus pais, encontravam-se berta, o gosto pela aventura que encontramos
49,7% de divorciados, 26,1% de doentes gra- na fuga e na estrada.
ves, 20,1% de alcoolismo importante e 16% de
morte de um dos genitores. Finalmente, 12%
desses adolescentes eram considerados como As Significações Psicológicas e
seriamente perturbados do ponto de vista clí- Psicopatológicas
nico (Russel, 1981).
Essas cifras, a nosso ver, não oferecem um
quadro exato do conjunto dos fugitivos, mas Sem minimizar a importância da interação
apenas daqueles que provêm de organismos so- de fatores individuais, políticos, sociológicos e
ciais ou judiciários. Em compensação todas as culturais, essas condutas de partida assumem
pesquisas revelam a freqüência e a importância uma significação intrapsíquica para o adoles-
de fatores associados: fracasso e dificuldades es- cente e para o seu meio.
colares, clima de conflitos familiares e mesmo
de violência, antecedentes de sevícias físicas O adolescente. – Todas essas condutas re-
e/ou de abusos sexuais, etc. No próprio jovem, presentam modalidades de escape de uma ten-
encontram-se regularmente sinais depressivos, são interna. Evidentemente, existem outros
queixas somáticas, tentativas de suicídio (a as- meios de escapar de uma situação de tensão
sociação fuga e tentativa de suicídio é freqüen- além dessas condutas. Trata-se aqui do que o
te; Askévis, 2001), condutas delinqüentes e/ou adolescente “escolhe”. Por quê?
violentas, consumo de produtos. Também nesse caso, sem minimizar as cir-
De um ponto de vista psiquiátrico, certos cunstâncias externas mais ou menos favoráveis,
autores tentaram estabelecer categorias diag- geralmente predominam duas representações
nósticas. R. Jenkins (1971) destaca três: intrapsíquicas, sozinhas ou associadas, no ado-
lescente em questão:
1) A fuga como reação que ocorre em su-
jeitos emocionalmente imaturos, solitários, um – A necessidade de assegurar na realidade o
tanto frios, vivendo em um ambiente familiar distanciamento de suas relações objetais confli-
pouco caloroso e de rejeição. tuosas estabelecidas durante a infância. Quanto
2) A reação agressiva não-socializada que maior for essa necessidade, mais brutal ela será
se manifesta em adolescentes com transtornos e mais assumirá uma forma patológica.
psicopatológicos claros, mas diversos. – A dúvida e a incerteza quanto à própria
3) O grupo de delinqüentes fugitivos. identidade, que leva o adolescente a viver, a se
sentir existindo ao partir, a procurar novas iden-
Como conclusão, costuma-se estabelecer tificações que não pode encontrar onde vive.
uma diferença entre essas três formas de parti-
da; da viagem à estrada e depois à fuga, passa- Graças à realização dessas condutas, a auto-
mos sem dúvida: afirmação em face dos outros atenua o transtor-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 89

no da identidade. Aqui também, quanto maior adolescente por uma separação concreta de seu
for essa dúvida, mais se revelará a dimensão pa- meio parental ou de seu equivalente.
tológica. Elas se encontram, finalmente, nos adoles-
centes cujos transtornos de identidade estão no
O ambiente. – A “estrada” e a fuga cons- primeiro plano, podendo inclusive revelar um
tituem geralmente o desfecho e o ponto cul- estado-limite ou mesmo psicótico. As descom-
minante do confronto entre o adolescente pensações psicóticas na Índia ou, de maneira
e o seu ambiente. Uma vez realizadas, essas mais geral, nos países que “submetem” os indi-
condutas são fontes de uma grande angústia víduos pela diferença existente entre as cultu-
no ambiente. Segundo a psicopatologia pa- ras, são mais freqüentes, sem dúvida, nesse tipo
rental essa angústia remeterá seja a uma falta, de adolescentes.
reavivando ali a angústia de castração, seja a Em geral, a “estrada” representa nesses dois
um abandono pondo em jogo novamente a últimos casos (depressão, transtornos de identi-
angústia da separação. Aqui, igualmente, das dade) um modo de defesa em face de um afeto
capacidades do ambiente de enfrentar essas ou de um mundo pulsional demasiadamente
angústias dependerão as reações normais ou invasivo.
patológicas. Duas tendências devem ser evita- Mencionaremos apenas como registro, vis-
das pelo ambiente: to que não são específicas da adolescência, as
clássicas fugas de etiologias orgânicas (epilep-
– o ativismo por temor do vazio ou da di- sia, confusão), deficits intelectuais (atraso, dete-
latação; rioração) e psicoses (agudas ou crônicas).
– a transformação do tempo de reflexão em Nenhuma classificação pode dar conta da
tempo de cumplicidade por medo do enfrenta- diversidade de formas de errância na adolescên-
mento. cia. Toda conduta desse tipo deve ser analisada
em função de vários componentes e, portanto,
considerada como uma realidade única.
Classificação Nosológica

Como acabamos de ver, a presunção do O FURTO


normal e do patológico não repousa nas con-
dutas em si mesmas, mas em suas significações.
Nenhuma dessas condutas pertence a uma es- O furto representa a conduta delinqüente
trutura psicológica particular. mais freqüente na adolescência: de fato, as in-
Entretanto, alguns pontos de vista evoca- frações contra os bens (crime ou delito) tota-
dos anteriormente permitem estabelecer al- lizam mais de 75% do conjunto das infrações,
guns marcos, sobretudo para a “estrada” e para e entre essas infrações contra os bens, o furto
a fuga. atinge a proporção de 95 a 96% (Henry, 1976).
Essas condutas são observadas comumente A conduta de furto, por si só, é responsá-
nos adolescentes que não dispõem de outros vel em grande parte pelo aumento das cifras da
meios a não ser o agir e a passagem ao ato (cf. delinqüência. Além disso, entre as múltiplas
Capítulo 5) para escapar a uma situação de condutas de furto, dois tipos predominam am-
tensão. Isso é particularmente verdadeiro para plamente: o furto de veículo, o furto nos hiper-
os que fogem repetidamente, nos quais encon- mercados. Pode-se classificar o furto segundo
tram-se quase sempre outros modos de atuação sua significação (pode-se distinguir assim: o fur-
(delituosos, tentativa de suicídio, uso de droga), to compulsivo, o furto impulsivo, o furto iniciá-
e que freqüentemente são diagnosticados como tico para obter o status de membro de um ban-
de tendência psicopática. do, o furto “esportivo”, o furto utilitário, etc.),
Elas são observadas também nos adolescen- segundo o contexto no qual ele se realiza (em
tes para os quais o luto das imagens parentais particular, furto solitário ou furto em grupo ou
torna-se patológico e, nesse sentido, uma fon- em bando ou menos organizado) ou segundo o
te de depressão. Esta só pode ser assumida pelo objeto furtado. Na realidade, essas classificações
90 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

coincidem em grande parte, sendo que a classi- meio socioeconômico geralmente desfavoreci-
ficação conforme o objeto roubado apresenta o do: carência familiar, fracasso escolar, inserção
interesse de sua simplicidade e, sobretudo, de pré-profissional ou profissional medíocre, am-
sua correspondência bastante nítida com um biente suburbano precário...
certo contexto psicológico.

O Furto nos Hipermercados


O Furto de Veículos Motorizados
Ele vem em segundo lugar entre os delitos
Ele representa um quarto de todos os deli- contra os bens (15%), mas, na realidade, sua
tos (25%). Em 35% dos casos, trata-se de um freqüência é fortemente subavaliada por inú-
furto de carro, e nos outros casos de um furto de meras razões. Antes de tudo, o reconhecimento
“duas rodas”. do furto implica que o adolescente seja pego no
Observa-se uma concordância desse furto em ato, depois que ele não tenha possibilidade de
função da idade: bem poucos furtos antes dos 13 reembolsar o preço do objeto e/ou quitar a mul-
anos, quase dois terços são cometidos entre 16 e ta “amigável”; finalmente, é preciso também
18 anos; a partir de então, o fenômeno vai dimi- que se abra um processo judiciário. Diversas
nuindo progressivamente, sobretudo após os 21 pesquisas junto a adolescentes, por questioná-
anos. De resto, posteriormente, a conduta muda rios “autoconfessados”, mostraram de forma
de significação (furto para facilitar uma outra in- concordante que 70 a 90% deles “confessavam”
fração). Trata-se quase sempre de meninos (3,5% ter cometido pelo menos um furto. A diferença
de meninas), e em 60% dos casos o furto é co- entre a população de adolescentes processada e
metido em grupo: de dois (31%), três (14%) ou a que não é processada aparentemente se esta-
mais. O furto tem como meta um uso breve. belece antes de tudo com base em critérios de
Geralmente é visto como “um empréstimo”. ordem social: os adolescentes que são o objeto
Tem como motivo dar um passeio. O veículo é de processo penal pertencem essencialmente a
abandonado um pouco mais adiante, e às vezes famílias desfavorecidas.
inclusive devolvido perto do local do “emprésti- A freqüência desses furtos aumenta em cor-
mo”. É cometido em férias ou, principalmente, relação com a difusão da venda em hipermer-
em fins de semana. Um acidente pontua com cados. Trata-se quase sempre de uma conduta
certa freqüência esse furto (10% dos casos), re- individual. Um fato notável é que as meninas
velando a ambivalência dessa conduta na qual são amplamente representadas, ao contrário
não está excluída a componente autopunitiva. dos outros furtos, em que os meninos dominam.
No plano psicológico, o furto do veículo Os jovens roubam discos, aparelhos de rádio,
a motor é cometido freqüentemente em um roupas, livros, guloseimas, aperitivos e outros
contexto impulsivo, em resposta a uma neces- gêneros alimentícios. Os objetos nunca são de-
sidade imediata e a uma oportunidade presente. volvidos. Em geral são consumidos em grupo, e
Segundo Henry, trata-se de um “delito bifurca- às vezes distribuídos (furtos generosos de Heu-
ção”, pois a evolução do adolescente dependerá yer e Dublineau).
muito da resposta dada a essa primeira conduta Em alguns casos, eles são conservados, as-
delinqüente: “a reação judiciária poderá dire- sumidos e/ou colecionados. A dimensão psico-
cionar o futuro do jovem para uma liquidação patológica aparece então em primeiro plano;
ou, ao contrário, para um engajamento confir- o furto tem uma característica compulsiva e é
mado na dissociabilidade”. cometido em um estado de tensão ansiosa. Na
De fato, o primeiro furto normalmente é realidade, esses furtos representam apenas uma
cometido em um contexto de temor e de angús- percentagem ínfima.
tia; depois, a necessidade de vencer o medo leva Embora a recidiva seja freqüente, é preciso
o adolescente a uma atitude de desafio (furto ao assinalar que em cerca de 65% dos casos a con-
sair da prisão ou para se apresentar ao juiz). duta do furto permanecerá isolada. Em outros
No plano sociológico, os adolescentes que casos, a reiteração do furto pode introduzir o
furtam veículos a motor são oriundos de um adolescente no mundo da delinqüência.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 91

Furtos de Locais Habitados utilizando a mesma violência. Alguns insistem


sobre a perda de mecanismos protetores gerados
habitualmente pelo campo social, em particular
Eles representam 14% do conjunto de os ritos e os rituais, que permitem cadenciar as
delitos. São cometidos ora em grupo, ora de diferentes etapas do desenvolvimento (Kam-
forma solitária, mas sempre por meninos. Na
merer, 2001). Neste item, vamos nos limitar à
maioria dos casos, o “lugar habitado” resume-se
expressão comportamental da violência: vio-
à visita à adega em um grande conjunto: o(s)
lência dirigida para o exterior ou violência vol-
jovem(ens) leva(m) algumas garrafas de bebida
tada contra si mesmo. Recordemos que o termo
e/ou caixas de conservas. Contudo, nessa cate-
“violência” remete essencialmente a um campo
goria figuram também as invasões graves: furtos
sociológico e jurídico, enquanto que o termo
à noite em grupo, com escalada, arrombamen-
“agressividade” remete essencialmente a um
to, às vezes porte de arma, e mesmo violência
campo médico e psicológico.
contra as pessoas. Trata-se então de uma condu-
ta profundamente anti-social característica dos
adolescentes mais velhos (16-17 anos) em geral
recidivistas. A Heteroagressividade

Violência contra os bens. – A violência


Os Outros Tipos de Furto contra os bens não é um dos delitos mais fre-
qüentes (2,5%), mas geralmente choca a opi-
Destacaremos entre os outros tipos de furto: nião pública por seu aspecto “gratuito”: em
os furtos nos carros (em particular de rádios, 7% geral não há nenhum motivo aparente para a
dos delitos). O furto é cometido em grupo. Em- conduta destrutiva. Trata-se antes de jovens
bora possa ser às vezes apenas uma questão de adolescentes, pois a maioria deles tem menos
oportunidade (portas não-fechadas), na maio- de 16 anos (e 30% menos de 14 anos). Pode-se
ria dos casos é resultado de uma conduta delibe- distinguir a violência em bando ou vandalismo,
rada: visita a uma série de estacionamentos, ou e a violência solitária.
inclusive a toda uma rua. O furto por agressão
de pedestres consiste, nas grandes cidades ou O vandalismo. – É sempre característico
nos subúrbios, em arrancar a bolsa da mão de de um grupo. Em fim de noite, depois de uma
uma mulher. Ele é cometido por meninos, ge- festa, sob o efeito do álcool, o bando ataca bens
ralmente em grupo (3% dos delitos). coletivos (iluminação, placas de indicação,
bancos de jardim, saque de um lugar público)
ou individuais (carros estacionados, saque de
A VIOLÊNCIA NA ADOLESCÊNCIA um apartamento desocupado, de um canteiro).
Às vezes, pode-se encontrar uma motivação
aparente, mas geralmente ela é desproporcio-
Independentemente de qualquer manifes- nal aos desgastes provocados, tal como o saque
tação exteriorizada de violência, muitas vezes da sala de aula, ou mesmo da escola, depois de
exagerada pela mídia, o adolescente experi- uma punição ou de uma simples advertência
menta uma grande violência nele e em torno feita a um aluno por um professor. A gravidade
dele, sentimento que quase sempre aparece dos atos cometidos, pelo menos de suas conse-
como uma resposta potencial à ameaça narcísi- qüências, nem sempre é corretamente avaliada
ca e à depressão (Tyrode e Bourcet, 2001). Seus pelo adolescente; contudo, esses adolescentes
afetos, suas pulsões, seus sistemas de ideais são que fazem parte desses bandos muitas vezes re-
vividos e/ou expressados com uma intensidade velam a existência de tendências sádicas bas-
extrema, quase violenta. Aos olhos do adoles- tante importantes.
cente, o mundo externo parece exercer sobre No plano sociológico, os adolescentes nor-
ele uma pressão que considera freqüentemente malmente são oriundos de famílias dissocia-
como violenta e da qual pode desejar se livrar das, em conflito. O ato pode ter a significação
92 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

de uma auto-afirmação em face do bando, mas cente e aos quais era particularmente afeiçoado
uma afirmação paradoxal, em negativo: é pre- antes (equipamento de som, violão, etc.) ou a
ciso lembrar aqui a observação de Winnicott, alguém próximo (objetos da mãe, ou do pai, ou
segundo a qual os adolescentes estão isolados da fratria).
em bando, e que eles têm uma tendência a se Fora da psicopatologia do próprio adoles-
identificar com o elemento mais patológico do cente, essas condutas destruidoras assinalam
grupo (cf. item “O grupo”, no Capítulo 1). sempre perturbações profundas na dinâmica
familiar: o desentendimento entre os pais é
permanente, as cenas de violência verbais ou
As condutas destrutivas solitárias. – Elas agidas entre os cônjuges podem ter marcado
são mais raras, mas também o indicador de um o passado; além disso, antes da adolescência,
maior desvio psicopatológico. O exemplo típi- a criança pode ter sido freqüentemente alvo
co disto é a conduta piromaníaca. Essa conduta desse conflito ou mesmo o motivo de disputa.
constitui tanto mais um índice de desvio psico- Em certos casos, o adolescente afigura-se como
patológico na medida em que o adolescente está o portador da agressividade de um de seus pais
sozinho quando passa ao ato. Em qualquer caso, em relação ao outro, parece tramar-se uma ver-
o fogo remete a uma intensa excitação que o dadeira conivência destrutiva entre um dos pais
adolescente não pode nem dominar nem afastar e o adolescente.
de outra maneira que não seja pela utilização do A ausência física de um dos pais, em parti-
fogo. Essa excitação traduz a incapacidade de cular do pai, é muito comum; em outros casos,
dissociar a pulsão agressiva e a pulsão libidinal. pode-se tratar de uma ausência total de autori-
Em geral, por trás dessa conduta está a fantasia dade parental. No que se refere à psicopatologia
de uma cena primitiva explosiva e destrutiva. do próprio adolescente, a conduta destrutiva
Às vezes, ela pontua um longo período de luta centrada na casa da família sempre indica, de
acompanhada da idéia obsessiva do fogo. A um lado, a intensidade da agressividade e, de
conduta de pirômano remete então a estruturas outro, a necessidade de passagem ao ato. A
de tipo neurótico tanto mais quanto o adoles- agressividade é fácil de compreender: o ataque
cente experimenta um sentimento de mal-es- ao mobiliário, às cortinas, as quebras de vidra-
tar, de culpabilidade ou de vergonha. ças assumem sempre uma dimensão simbólica
Mas, em geral, a impulsividade e a agres- de ataque do corpo interno de um dos prota-
sividade é que estão em primeiro plano. Essa gonistas, em particular da mãe. Esse ataque ao
conduta pode constituir então a ativação das corpo interno adquire uma significação que
pulsões e das fantasias agressivas, em que a decorre do nível de organização estrutural em
percepção da realidade dissolve-se na invasão que se situa o adolescente: reativação da pro-
fantasmática. É o que se observa nas estruturas blemática de castração ou angústia centrada na
psicóticas ou em caso de psicopatia grave. integridade corporal.
Uma outra conduta destruidora solitária é É preciso assinalar que essa conduta des-
representada pela crise de violência do adoles- trutiva pode ser isolada, correspondendo a uma
cente no apartamento da família: bruscamente, crise única. O risco é que ela se repita, fixando
às vezes sem nenhum sinal de anúncio, às ve- o adolescente na patologia; essa repetição está
zes quando de uma reprimenda ou de uma dis- ligada em geral a sistemas de interações fami-
cussão particularmente violenta, às vezes em liares altamente perturbadas. Em caso de repe-
continuidade a uma seqüência inter-relacional tição, observam-se outras condutas agidas, em
feita de provocações recíprocas (em forma de particular fuga e tentativa de suicídio.
chantagem), o adolescente começa a quebrar No plano das interações familiares, para
o mobiliário no apartamento. Em certos casos, além da diversidade de cada caso, esse tipo de
ele destrói todos os móveis e objetos de seu conduta remete à dificuldade que têm os pais
quarto, outras vezes se prende aos móveis da fa- e seu adolescente de se separar. Não é raro que
mília (a televisão, em particular), ou então ele o afastamento do adolescente constitua uma
se tranca em um cômodo e o devasta (banhei- ameaça à integridade ao casal; o casal pode
ro). Os objetos destruídos podem ser de uma só “ir pelos ares” com a partida deste. Assim, as
pessoa: objetos pertencentes ao próprio adoles- condutas destrutivas parecem constituir uma
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 93

espécie de “compromisso” em torno do qual a seus pais pelo menos uma vez por ano (Agnew
família conserva sua estabilidade capenga: tal- et al., 1989)! No Japão, 3,7% dos indivíduos
vez seja isso que explique a habitual e notável com menos de 18 anos cometeram violências
tolerância das famílias a esse tipo de compor- contra seus pais (Honjo et al., 1988) e na Fran-
tamento. A abordagem terapêutica familiar é ça, Laurent e colaboradores (1997) encontram
então indispensável (cf. Capítulos 22 e 23). uma taxa idêntica: 3,4%.

As condutas heteroagressivas em formas O agressor. – Em 75 a 80% dos casos tra-


excrementiciais. – Designamos por isto uma ta-se de meninos de 9 e 17 anos, com um pico
conduta bastante freqüente nos adolescentes, entre 13 e 14 anos. Esses adolescentes vio-
pelo menos em certos lugares, como institui- lentos apresentam com certa freqüência pro-
ção de acolhimento, centro de desintoxica- blemas somáticos (antecedentes de asma, de
ção, etc., que consiste em urinar ou defecar eczema, infecções de ouvido, nariz e garganta
em locais diversos. Em geral, trata-se de uma de repetição), porém, mais ainda, dificuldades
conduta isolada, não reivindicada pelo adoles- psicológicas antigas e atuais: quase todos tive-
cente: de manhã, encontram-se excrementos ram problemas como transtornos esfincterianos
depositados em um cômodo, atrás de um mó- (enurese, encroprese), motores (instabilidade,
vel, debaixo de uma poltrona, às vezes inclu- tiques), transtornos do sono, atrasos de desen-
sive embrulhados. Em outros casos, um mesmo volvimento e de aprendizagens. Portanto, não
lugar é regularmente regado de urina. A signi- se pode dizer que os comportamentos violentos
ficação agressiva dessas condutas é mais ou me- surgem sem antecedentes. Fora da família, esses
nos clara: agressividade que remete ao plano jovens também apresentam dificuldades: trans-
pulsional, seja em um nível anal, seja em um tornos de comportamento com violência verbal
nível fálico. Contudo, uma tal conduta indica (insultos, cólera em plena aula, etc.), agitação e
dificuldades encontradas por esses adolescentes provocação, passagem ao ato, bagunças, atos de-
na elaboração simbólica dessa agressividade e linqüentes, furtos, fugas, consumo de produtos,
a necessidade de passar por um comportamen- particularmente álcool, com bebedeiras repeti-
to agido, evocando o da criança pequena de das. As dificuldades escolares são comuns: atra-
3 ou 4 anos que freqüentemente se opõe des- sos escolares, maus resultados, faltas, exclusão,
sa maneira às exigências de limpeza da mãe. encaminhamentos para seções especializadas,
Por outro lado, sujar dessa maneira seu local ruptura escolar e desescolarização. Contudo,
de habitação, mesmo que se trate de um lugar se esses transtornos fora do meio familiar são
de permanência temporária, indica o peque- encontrados na grande maioria dos casos, há
no grau do investimento de seu ambiente e da também algumas situações em que a violência
imagem projetada de seu corpo. Essas falhas no fica limitada estritamente ao meio familiar, sem
processo de simbolização, a intensidade dessas qualquer outro transtorno ou conduta violenta
condutas agressivas, o desvalor da imagem de fora. Isso se observa mais em jovens adolescen-
seu corpo a que remete esse tipo de conduta tes, em torno de 12 ou 13 anos que, sem serem
são observadas nos transtornos como a psico- crianças violentas, foram crianças caprichosas
patia ou a toxicomania. e difíceis, cujas condutas violentas permane-
cem centradas em um dos pais. Em geral, esses
jovens, mais do que os outros, costumam se
Violência contra as pessoas manter isolados e mesmo tímidos no meio ex-
Os “tiranos familiares”. – Esse fenômeno trafamiliar, sendo objeto de gozações dos outros
está longe de ser excepcional, visto que sua fre- ou bode expiatório da classe. Em casa, eles pa-
recem vingar-se dessa situação de inferioridade
qüência é calculada entre 0,5 e 13,7% segundo
submetendo alguém próximo à violência de que
as séries, o que, evidentemente, tem a ver com
são vítimas fora da família.
a amostragem. Nos dossiês abertos por um juiz
da infância, 0,5% refere-se a menores envolvi-
dos em violências contra os próximos (Legru, A família, os pais. – No que diz respeito
2001). Nos Estados Unidos, 9,2% bateriam em à estrutura familiar, encontram-se tanto casais
94 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

quanto famílias dissociadas, pais isolados ou mente é liberal, não colocando nenhum limite
famílias recompostas em proporções que não nem padrão educativo, não tendo nenhuma
parecem muito diferentes do que na população exigência com relação às diversas tarefas coti-
em geral. Em compensação, todas as pesqui- dianas de arrumação, participação nas refeições
sas indicam o fato de que os pais vítimas ge- (pôr a mesa, tirar a mesa, etc.). O pai é indife-
ralmente são mais velhos: tinham mais de 35 rente, tolerante, sem nenhuma exigência, e às
anos quando do nascimento do filho agressor. vezes inclusive se acumplicia ao filho para des-
Na imensa maioria dos casos, o nível socioeco- qualificar o trabalho da mãe ou se opor aos seus
nômico é baixo, marcado pela falta de qualifi- pedidos de ajuda, preocupando-se unicamente
cação profissional, pelo desemprego, por uma com seu próprio bem-estar e seu lazer. De res-
invalidez. Os antecedentes médicos são muito to, ele é excessivamente severo, mostra uma
freqüentes: doença crônica de um dos pais, defi- rigidez inflexível, recusas categóricas, ameaças
ciência motora com invalidez. Mas, sobretudo, de surra à menor oposição, exigências de sub-
encontram-se nos pais com antecedentes de de- missão que têm uma dimensão sádica e humi-
pressão, de tentativa de suicídio, de transtornos lhante... A atitude superprotetora costuma ser
de ansiedade. O alcoolismo é, se não habitual, mais característica das mães, que parecem sem-
pelo menos muito freqüente e, quando existe, pre prontas a desculpar tudo de seu filho para
trata-se não apenas de um alcoolismo crônico, obter dele afagos e carinho. Sistematicamente,
mas, sobretudo, de episódios de alcoolização elas saem em defesa de seu filho, apóiam-no em
aguda, aos quais se associam comportamentos todos os seus comportamentos, mesmo aqueles
violentos. Essa violência pode ter sido pratica- claramente delinqüentes, dissimulam os furtos
da seja entre os cônjuges, mas na presença do domésticos, ocultam inicialmente as ameaças e
filho, seja contra os filhos, mas nem sempre o violências verbais quando se tornam alvo delas.
futuro tirano foi sua principal vítima. Não é Quanto à indiferença e ao desinteresse, eles são
raro que um dos pais tenha tido antecedentes efetivamente mais característicos do pai do que
judiciários. O clima familiar é quase sempre da mãe, mas há também menores totalmente
violento, as manifestações de gritos, de cólera, abandonados a si mesmos desde a infância, por
as grosserias, as injúrias entre adultos a respeito volta de 7-8 anos, sem nenhum padrão educati-
dos filhos são habituais. Dois grandes tipos de vo, que voltam para casa na hora que desejam,
famílias foram descritos (Legru, 2001): aquelas comem sozinhos no quarto qualquer coisa que
em que uma carência de autoridade é manifesta encontram no congelador, diante de seu próprio
com um pai desvalorizado, decadente, objeto de aparelho de TV, dormem quando querem, pas-
sarcasmos e de gozações da mãe. Esses pais ge- sam muito tempo na rua com um bando, etc.
ralmente ficaram desaparecidos durante longos
períodos, não mostram interesse por seu filho.
Nas outras situações, encontram-se pais violen- A vítima. – O menor costuma exercer sua
tos, impulsivos, autoritários, mas que ao mesmo violência sobre uma pessoa preferencial. Essa ví-
tempo rejeitam seu filho, tendo freqüentemen- tima na maioria das vezes é a mãe, mas pode ser
te problemas com a justiça devido a episódios também uma avó, ou os dois genitores, ou um
de alcoolização aguda, instáveis no plano pro- membro da fratria. Contudo, a violência não
fissional, quando não vivem cronicamente uma tem o mesmo sentido dependendo da vítima:
situação de desemprego... – para as mães sozinhas com seu filho, em
particular menino, parece que a origem da re-
O âmbito educativo. – O clima familiar lação de violência situa-se no estabelecimento
depende das relações pai-mãe, mas também da de uma relação dual excessivamente exclusiva
educação que eles decidem dar a seu(s) filho(s) e gratificante;
de forma coerente ou, ao contrário, oposta (por – em face do casal de genitores, situa-se em
exemplo, um pai tanto mais severo quanto geral no contexto de uma oposição ou de uma
mais a mãe é tolerante e superprotetora). En- contestação da autoridade, em particular em re-
contram-se assim quatro tipos de perfil: liberal, lação a um padrasto ou madrasta não reconhe-
estrito, superprotetor, de rejeição. A mãe geral- cido como portador dessa autoridade;
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 95

– a fratria é vítima, não tanto de violência liza um objeto: garfo, faca, estilete, etc. É preciso
física direta, mas principalmente de intimida- assinalar a grande tolerância da família a esse
ção e de violência moral, que pode chegar até a tipo de comportamento, pois no momento da
exploração. Às vezes, a família inteira é coagida primeira entrevista os transtornos remontam a
por aquele que se torna um verdadeiro “carras- mais de seis meses (80% dos casos), ou até a mais
co doméstico”. de 18 meses (40% dos casos) (Du Bois, 1968).

O tipo de violência. – Raramente as coisas O perfil psicológico e psicopatológico do


começam pela violência física. Na quase tota- menor. – Os jovens tiranos familiares raramente
lidade dos casos, ela foi precedida de uma vio- apresentam transtornos psiquiátricos bem-defi-
lência verbal: insultos, ameaças verbais, atitudes nidos. Por exemplo, é pouco comum observar-
de provocação, etc. Os pais, sobretudo a mãe, se se uma psicose constituída. Em compensação,
queixam de falta de respeito, de insolência, de as manifestações depressivas ou ansiosas são en-
arrogância. O adolescente, e às vezes mesmo a contradas com alguma freqüência, sem com isso
criança, não respeita as ordens, transgride os constituir-se em um verdadeiro estado depres-
limites, adota comportamentos abertamente sivo ou em transtornos ansiosos caracterizados.
provocativos. Ele pode se tornar o verdadeiro A avaliação psicológica permite demarcar três
tirano da casa, exercendo um domínio sobre os grandes tipos de quadros:
pais, ou até sobre a fratria. Toda a vida cotidia-
na é comandada por essa criança: os horários – Os jovens nos quais predomina uma vi-
das refeições, os pratos, o programa de televisão, vência de desamparo e antecedentes de carên-
despesas particulares, etc. Essa violência verbal e cia afetiva: rupturas relacionais, hospitalizações
moral geralmente é seguida de agressões contra freqüentes, mudanças de condições de vida,
os bens, e irrompe após numerosas ameaças de abandonos mais ou menos duradouros. Esses
quebra de material, ameaças que levam os pais jovens tiveram um atraso de desenvolvimento,
a ceder às exigências. As destruições visam ini- um fracasso escolar.
cialmente a pequenos objetos, bibelôs, louças – Outros se caracterizam pela imaturidade,
que em geral têm um valor afetivo importante por exigências absolutas e infantis. Em geral,
para este ou aquele membro da família. Em se- cresceram no interior de uma relação diádica,
guida vêm as destruições de móveis (televisão, excessivamente protegidos por uma mãe que
cadeiras, etc.), e depois ataques às própria casa, não tinha nenhuma exigência educativa a seu
arrebentando portas, arrancando papéis de pare- respeito. Apresentaram transtornos do compor-
de, estragando pinturas com grafites injuriosos, tamento desde a infância.
fazendo buracos nas paredes, nas portas, etc. Às – Finalmente, os últimos tiveram uma re-
vezes, verdadeiras crises de furor clástico culmi- lação de fusão com a mãe, sem que tenha ha-
nam em uma demolição completa de um ou de vido nenhuma separação, na ausência de figura
vários cômodos. Isso ocorre em geral no contex- paterna. Raramente foram confrontados com
to de uma frustração que nem sempre se deve aos frustrações e costumam sofrer de uma angústia
pais. Paralelamente, começa-se a impor violên- de separação às vezes intensa.
cias morais contra o membro mais vulnerável da
família: trancamento em um cômodo, extorsão Uma gênese do vínculo de violência. – O
de dinheiro sob ameaças diversas. Portanto, as vínculo agressivo que se constitui na criança
violências físicas ocorrem ao final de uma lon- mais velha ou no início da adolescência teria
ga escalada, e freqüentemente começam por um uma história, uma gênese que permitisse en-
gesto brutal e habitual, mas que desta vez foi contrar vestígios na primeira infância? Como
mais longe e atingiu seu alvo! A partir de então, vimos, se às vezes a violência parece surgir por
a atitude temerosa da vítima parece funcionar volta dos 12-13 anos, na grande maioria dos
como um detonador da agressão: o gesto violen- casos ela foi precedida de numerosas manifes-
to ocorre quando a vítima tenta se proteger. Na tações patológicas, tais como transtornos opo-
imensa maioria dos casos, as agressões consistem sitivos, transtornos do comportamento, atrasos
de socos, pontapés, mas às vezes também se uti- escolares, etc.
96 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Na primeira infância, no período de oposi- cia, a puberdade e as exigências pulsionais que a


ção, isto é, entre 2 anos e meio e 3 ou 4 anos, acompanham fazem com que a frustração que o
notam-se freqüentemente gestos agressivos ou jovem adolescente tem de enfrentar doravante
de ameaça: mão levantada em direção ao pai ou não provenha mais apenas do mundo externo,
mãe proibidor, objeto lançado, mordida, arra- mas também do mundo interno. A puberdade e
nhão, gesto de tapa ou de bofetada, etc. A ati- a sexualidade confrontam o adolescente com a
tude educativa dos pais é então essencial. Eles exigência de suas pulsões, e estas não podem ser
podem expressar uma clara reprovação, elevar satisfeitas no mesmo instante e com o primei-
a voz nitidamente ou impedir o gesto com fir- ro interlocutor que aparecer. O adolescente é
meza, conduta que conduz ao rápido desapa- obrigado a esperar. Essa imposição caracteriza a
recimento desses gestos agressivos, desde que psicopatologia do adolescente. É evidente que,
ela seja compartilhada pelos dois genitores e nessas condições, os continentes de autoridade
constitua a resposta regular, coerente e automá- adquirida no tempo de infância representam
tica ao comportamento de ameaça da criança para o jovem, como também para seus pais, a
pequena. Portanto, é necessário apoiar os pais melhor e a mais eficaz das proteções.
nessas posições educativas destituídas de qual- Quando um adolescente maltrata seus pais,
quer ambigüidade, mostrando-lhes que ensinar há uma incontestável situação de perigo poten-
ao seu filho que deve respeitá-los é a melhor cial, e deve-se fazer de tudo para frear essa vio-
maneira de protegê-lo no futuro: o respeito a lência. A verdadeira prevenção começa, aliás,
ele mesmo será calcado no respeito por seus já na primeira infância, em particular durante
pais. Da mesma maneira, os caprichos são fre- essa fase de oposição, por volta de 3 ou 4 anos.
qüentes nesse período de oposição e de auto- Na criança maior e no jovem adolescente, é
afirmação. Quando eles se tornam invasivos e preciso apoiar os pais, principalmente aque-
repetitivos, quando se complicam com ataques le que é objeto de agressões, encorajando-os a
de cólera (criança que rola no chão, berrando não aceitar esses maus-tratos como um fenôme-
até o espasmo do soluço, etc.), podem abrir no natural e inelutável. O ideal é propor uma
caminho no futuro a uma vontade de onipo- terapia familiar a fim de abordar as habituais
tência, ao não respeito a limites e proibições, distorções de comunicação intrafamiliares; po-
a uma intolerância a qualquer frustração. É por dem-se considerar também rearranjos de vida,
isso que é importante que, desde muito cedo, quando parece impossível pôr em prática as
se oponha a essas cóleras e caprichos uma ati- abordagens relacionais: separação e internato
tude coerente, firme, mas, ao mesmo tempo, terapêutico, hospital-dia, etc. Finalmente, às
benevolente e, sobretudo, idêntica entre os vezes é necessário saber recorrer aos tratamen-
dois genitores. Os caprichos são um meio muito tos medicamentosos, tanto mais eficazes quanto
usado pela criança para mobilizar em torno de o jovem e seus pais aceitarem essa prescrição e
si a atenção de seus pais ou para obter, graças à ela responder a transtornos claramente identi-
diferença de atitude entre o pai e a mãe, o que ficados: depressão, transtornos ansiosos, forte
um proíbe e o outro concede, ou o que se aca- impulsividade, etc. Também nesse caso, é prefe-
ba sempre concedendo: a cólera torna-se então rível associar a essa prescrição uma abordagem
o preâmbulo da recompensa. Ajudar os pais a relacional, como uma psicoterapia de apoio.
não ceder, sem com isso ter um comportamento
violento com criança, parece ser uma profila-
xia essencial. É preciso ainda sensibilizar os pais Violência extrafamiliar. – A violência
para atitudes ou palavras que possam parecer contra as pessoas (crimes e delitos) representa
provocadoras. Ensinar a criança pequena a con- apenas 9% do total de delitos. A conduta assas-
ter sua agressividade representa provavelmente sina é excepcional, porém, ainda que felizmen-
uma das melhores profilaxias daquilo que virá te os casos sejam raros, devemos considerar dois
na adolescência. elementos: um relativo aumento de seu número
De fato, se na criança pequena os gestos em uma idade cada vez mais precoce. A título
agressivos são benignos e facilmente controlá- de exemplo, uma pesquisa na Escócia (Fiddes)
veis, com a idade eles se tornarão cada vez mais mostra que o número de casos passa em 8 anos
perigosos e destruidores. No início da adolescên- de 2/3 para 7/8 ao ano em média, e que 50%
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 97

dos adolescentes têm entre 14 e 16 anos e 50% Violências escolares


entre 17 e 18 anos. Trata-se quase que exclusi-
vamente de meninos (33 meninos, 1 menina). As violências escolares mereceriam um
Os fatores ambientais e socioculturais parecem capítulo inteiro atualmente. De fato, muitos
ter um grande peso, pois dois terços dos casos constatam um verdadeiro “muro do silêncio”
provêm de áreas urbanas carentes, os adoles- sobre uma disfunção da instituição escolar que
centes fazem parte de bandos mais ou menos favorece os maus-tratos aos mais fracos, isolan-
delinqüentes. O assassinato é cometido mais do as vítimas e banalizando os atos (Vivet e De-
em grupo do que de forma solitária. A maioria france, 2001). A dificuldade aumenta pelo fato
desses adolescentes já apresenta antecedentes de que os adolescentes e os alunos próximos ra-
de delinqüência, de droga, de alcoolismo e, às ramente apontam as violências constatadas.
vezes, antecedentes psiquiátricos. Nas famílias,
existe uma sobre-representação de “perfil de
risco” (separação dos pais, falecimento, fratria A Auto-Agressividade
muito numerosa, doença física ou mental), mas
esse não é um ambiente constante.
A vítima geralmente é desconhecida do As manifestações auto-agressivas do adoles-
assassino: trata-se ou de um adulto mais velho, cente são dominadas pelo problema das tenta-
ou de um idoso, ou de um adolescente de um tivas de suicídio. Contudo, observam-se outras
outro bando. A conduta não é premeditada e condutas auto-agressivas: distinguiremos a au-
não parece ser motivada por um interesse finan- tomutilação impulsiva, a automutilação crôni-
ceiro ou sexual, mas, em compensação, ocorre ca, o equivalente suicida.
com freqüência sob efeito do álcool. Finalmen-
te, todo ano há dois ou três parricídios, em ge- As automutilações. – Na adolescência, as
ral motivados pela defesa da mãe ou da fratria automutilações aparecem em dois contextos
ameaçada pelo pai. bem diferentes: 1) em certos casos, trata-se de
Nos Estados Unidos, os adolescentes são, uma verdadeira descarga motriz em resposta
ao mesmo tempo, os atores e as vítimas de uma imediata a uma situação de tensão, de conflito
violência assassina inquietante: entre 1979 e ou de frustração; 2) em outros casos, trata-se de
1991, 49 mil jovens com menos de 19 anos (9 uma antiga criança automutiladora cujas mani-
mil com menos de 14 anos, 40 mil de 15 a 19 festações persistem, ou mesmo se agravam na
anos) foram mortos a bala, compreendidos aci- adolescência.
dentes e crimes. No mesmo período, as prisões
de jovens com menos de 19 anos por homicí-
dio aumentaram 93%. Depois dos acidentes de As automutilações impulsivas: brutalmen-
trânsito e do câncer, o homicídio é a terceira te, às vezes de forma totalmente imprevisível,
causa de mortalidade do adolescente nos Esta- às vezes após um aumento de angústia ou de
dos Unidos (Le Monde, 23 de janeiro de 1994, agitação facilmente perceptível, o adolescente
relatório do Children’s Defense Fund). ataca seu corpo com mais ou menos violência;
Na maioria dos casos, a violência contra ele pode se apoderar de uma faca ou correr para
as pessoas é exercida entre os próprios adoles- o banheiro para pegar uma lâmina de barbear,
centes: confusões entre bandos, em bailes ou ou quebrar a primeira janela ou vidro ao seu
festas, ou entre indivíduos. Às vezes, inclusive, alcance. E então corta os braços, o dorso das
a violência parece “gratuita”, como a necessi- mãos, os pulsos, ou mesmo o rosto, o peito. Em
dade “de se pegar”. Vale assinalar igualmente a outros casos, o adolescente se precipita contra
violência em relação a crianças ou adolescentes um objeto duro: bate a cabeça contra uma pa-
mais jovens: certos bandos extorquem, amea- rede, joga o corpo contra uma porta de vidro. E
çam, e até mesmo espancam ou ferem os mais em outros, mais raros, o adolescente se agride
jovens. O contexto sociocultural parece sempre com um objeto ou dá murros, bofetadas no ros-
prevalecer: zona suburbana, grande conjunto, to, nos olhos, no busto.
nível socioeconômico precário, absenteísmo O ato de se cortar (com uma lâmina de bar-
escolar, etc. bear, uma faca, um pedaço de garrafa, etc.) é
98 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

o mais freqüente. Em seguida vêm as queima- possibilidade de um “contágio” desses episódios


duras com cigarro. As automutilações se situam nas coletividades de adolescentes (internato,
em geral nos pulsos, nos antebraços, e às vezes hospital, instituição, etc.).
também no peito, na barriga, nas pernas. Em Alguns autores tentaram compreender a
compensação, o rosto raramente é atingido. Isso significação do corte, do entalhe cutâneo e da
acontece mais com as meninas do que com os visão do sangue associada a isso. Foram apre-
meninos. Segundo Rosenthal e colaboradores sentadas explicações culturais comparando es-
(1972), 60% das inscrições corporais ocorrem ses cortes com escarificações rituais e psicana-
no momento das menstruações. A maioria das líticas, ligando a visão do sangue que escoa ao
mulheres que se corta experimenta uma relação escoamento menstrual.
negativa com as menstruações. As condutas au- Le Breton (2003) isola três componentes
tomutiladoras podem persistir por longos anos, nessa conduta sobredeterminada: 1) o direcio-
freqüentemente como um ritual solitário e se- namento contra si da agressividade mais ou me-
creto. A dor é sentida de maneiras diferentes: nos associada à culpabilidade e à necessidade de
segundo Ross e McKay (1979), a metade dos se punir; 2) uma busca de afirmação identitária
sujeitos diz que não sente nada, 31% dizem ex- pelas marcas assim autocriadas, pela busca e a
perimentar uma dor leve e 18%, uma dor ex- exploração do seu próprio limite, de uma “cora-
trema. Segundo Le Breton (2003), “o momento gem de parar”; 3) uma dimensão de ritual e de
da alteração do corpo, em princípio, raramente ritualização, maneira de criar uma “pele nova”,
é doloroso. Sua meta é justamente cortar o so- de se inscrever em uma cultura de grupo e ao
frimento, ainda que o indivíduo não tenha uma mesmo tempo de se diferenciar. Seja como for,
consciência clara disso”. essa conduta parece paradigmática daquilo que
Outras condutas sintomáticas costumam está em jogo hoje na psicopatologia: ela ilus-
estar associadas: condutas anoréxicas ou bulí- tra como um indivíduo passa de um sofrimen-
micas, estado depressivo, dificuldade sexual, to sofrido passivamente a uma dor provocada
tendência toxicômana. Esses adolescentes fre- ativamente, de um afeto experimentado a uma
qüentemente apresentam transtornos da per- sensação administrada, de uma recusa a uma
sonalidade, e mais raramente patologias niti- dependência relacional causadora de frustração
damente identificadas (psicoses, psicopatias, e de tensão (estado que precede a passagem ao
etc.). Em geral, esses adolescentes apresentam ato) a um agir que autovulnerabiliza o sujeito
um nível intelectual limite, mas isso não é uma inscrevendo-o em uma nova dependência a uma
constante. sensação que, no entanto, ele julga dominar.
No plano psicopatológico, duas séries de As automutilações crônicas: elas ocor-
fatores convergem para culminar na descarga rem em um contexto bem diferente. Trata-se
auto-agressiva; por um lado, encontram-se gra- de adolescentes profundamente encefalopatas
ves carências na imagem de si e do objeto, onde que já apresentaram em seus antecedentes essas
geralmente predominam as más imagens de si e automutilações (ver a significação dessas con-
do objeto, sem que elas sejam moduladas pelas dutas em Enfance et psychopathologie, p. 232).
contribuições positivas que poderiam representar Um fato a se notar é que o adolescente pode
as boas imagens de si e do objeto. Por outro lado, apresentar um cap particular no aspecto clínico
a exteriorização dos afetos e o agir constituem o desses comportamentos automutiladores. Pode-
meio privilegiado de luta contra a angústia, na se observar uma sedação, um reforço ou uma
medida em que as perturbações na elaboração transformação das condutas automutiladoras. A
dos processos cognitivos não dão ao adolescente emergência da maturidade genital, em particu-
possibilidades de domínio adequadas. lar no menino, pode modificar essas condutas.
Os dois elementos, predominância de uma Elas passam a se centrar então na masturbação
má imagem de si e inclinação extrema à pas- intempestiva que, aliás, apresenta às vezes uma
sagem ao ato, explicam em parte a automuti- certa dimensão auto-agressiva.
lação impulsiva. O último fator geralmente é Essas automutilações crônicas podem ter
ambiental: objeto que cai à mão, incitação mais uma significação variável: 1) busca de um limite
ou menos consciente do entorno, inabilidade do eu corporal; 2) busca de uma auto-estimula-
dos iguais ou dos adultos... É preciso destacar a ção; 3) direcionamento para si da conduta hete-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 99

roagressiva quando ela é dificultada ou proibida; da esquizofrenia: “a progressão da doença tende


4) busca de uma comunicação mediante o apelo a levar a uma abolição da existência psíquica, a
ao outro. Finalmente, podem-se comparar cer- uma espécie de suicídio do ser no mundo”.
tas automutilações, sobretudo quando elas são Uma tal extensão das “noções de equi-
menos relevantes (arranhões, brincadeira com valentes suicidas” corre o risco de esvaziar de
alfinetes, fósforos ou facas) a escarificações pró- seu conteúdo as tentativas de compreensão e
prias de certos ritos de passagem. de discriminação do comportamento suicida
propriamente dito. Essa é a razão de termos ex-
Os equivalentes suicidas e as condutas de cluído, no item consagrado às tentativas de sui-
risco. – Designa-se pelo termo “equivalentes cídio, aquilo que se poderia chamar de “gestos
suicidas” ou “condutas suicidas” um conjunto suicidas inconscientes”. Do mesmo modo, in-
de condutas durante as quais a vida do sujeito cluir nesses gestos suicidas inconscientes a tota-
é posta em perigo do ponto de vista de um ob- lidade do campo psicopatológico tira qualquer
servador externo, mas durante a qual o sujeito interesse de um tal conceito. Em compensação,
nega o risco assumido. talvez seja útil reservar o termo “equivalente
Na realidade, existe um continuum nas di- suicida” e, mais ainda, conduta de risco, para
versas condutas que põem a vida em perigo, definir certos comportamentos durante os quais
desde as condutas perigosas, passando pelos o desejo consciente de atentar contra a própria
equivalentes suicidas, para chegar às tentativas vida não foi expressado, mas onde a estrutura
de suicídio. A discriminação entre essas diver- psicopatológica do adolescente, assim como seu
sas condutas introduz a noção de consciência ambiente familiar e social, apresentam grandes
do desejo de morte; embora as “tendências sui- semelhanças com o que se observa nos adoles-
cidas” (Stork) sejam extremamente freqüen- centes suicidas. É o caso particular de certos
tes na adolescência, elas nem sempre chegam, acidentes repetitivos, como os acidentes de
longe disso, à atuação suicida assumido como trânsito (motocicleta) ou acidentes de “overdo-
tal pelo adolescente (adolescente suicida). In- se” nos toxicômanos.
versamente, a problemática da morte e do luto O conceito de “conduta de risco” tem para
constitui o fundamento inconsciente da “crise o clínico o interesse de colocar sua atenção em
do adolescente”; isso significa que, tomados no alerta para a possibilidade de passagem a uma
sentido mais amplo do termo, os comportamen- tentativa real de suicídio, e para a necessidade
tos que fazem parte do campo suicida incons- de considerar um quadro terapêutico adequado.
ciente são extremamente numerosos: abuso de Esse conceito também deveria suscitar o inte-
drogas, de álcool, comportamento anti-sociais; resse e a atenção dos médicos somáticos (cirur-
sem esquecer que a maioria dos transtornos psí- gião ortopedista, em particular) sobre a signifi-
quicos graves pode ser comparada a um desejo cação inconsciente de certas condutas perigosas
de morte, como assinala Henri Ey a propósito repetitivas.

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6
Psicopatologia das Condutas
Centradas no Corpo

O PROBLEMA DO CORPO NO O corpo está no centro da maior parte dos


ADOLESCENTE conflitos da adolescência. Recordemos que na
faixa etária de 11-20 anos escolarizada, o estudo
do INSERM de 1991 mostrou que, de maneira
Na maioria dos casos, o corpo da criança é geral, 12,4% dos meninos e 37,3% das meni-
silencioso: a criança goza de boa saúde e, segun- nas se diziam excessivamente preocupados com
do as palavras atribuídas ao cirurgião Leriche, seu peso. Nos trabalhos ou artigos a respeito da
“a saúde é o silêncio dos órgãos”. adolescência em geral ou de um de seus cam-
Brutalmente, na adolescência, o corpo faz pos particulares, é raro não se encontrar alguma
“barulho”. São esses barulhos que o adoles- referência ao corpo. A transformação morfoló-
cente nos dá a entender sob forma de queixas gica pubertária e a irrupção da maturidade se-
somáticas diversas: dor de barriga, dor nas cos- xual põem em questão a imagem do corpo que a
tas, no joelho, ou de múltiplas inquietações de criança possa ter constituído progressivamente.
tipo hipocondríaco... Barulhos do crescimento Essas modificações dão conta, em parte, da fre-
para os quais se consultam os médicos somáti- qüência com que se menciona o corpo quando
cos; eles constituem também os primeiros pon- se estuda a adolescência. Recordemos a impor-
tos possíveis de cristalização de uma angústia tância do hipotálamo na regulação dos hormô-
sempre prestes a emergir. Não é surpreendente nios sexuais, mas também da alimentação. Mas
que o corpo represente um papel central na somam-se a isso outros fatores: alguns são ine-
adolescência, tanto no registro das interações rentes aos próprios processos psíquicos, como o
concretas com o entorno quanto no registro trabalho de luto ou a ruptura de equilíbrio entre
da atividade fantasmática. No processo da investimento do objeto – investimento narcí-
adolescência, associam-se uma necessidade de sico; outros consideram o quadro familiar e so-
experimentação intensa e um “sobredespertar cial no interior do qual o adolescente evolui.
corporal”, como mostra o lugar preponderan- Falando do corpo, encontramos aqui três eixos
te da dimensão “busca de sensação” por meio principais de compreensão, sempre estreita-
de numerosos comportamentos próprios a essa mente relacionados, mas que Schilder já havia
idade (Michel, 2001). distinguido claramente em 1935.
102 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

O Esquema Corporal tes, as dismorfofobias, os acessos hipocondría-


cos agudos ou os freqüentes sentimentos de
estranheza. A imagem mais específica de um
Esse é um termo de conotação neurofisioló- corpo sexuado é abordada no Capítulo 7.
gica e neuropsicológica que provém do registro
sensório-motor (sensorialidade exteroceptiva e
proprioceptiva). O esquema corporal correspon-
de às diversas projeções corticais dessa sensoriali- O Corpo Social
dade. É evidente que as modificações pubertárias
são acompanhadas de uma modificação sensível Este constitui, finalmente, o terceiro eixo
do esquema corporal (cf. o item “A adolescência de compreensão. Em uma perspectiva fenome-
como trabalho de luto”, no Capítulo 1). nológica, Schilder afirma que o corpo represen-
ta o veículo do “ser no mundo”, está no centro
das trocas relacionais afetivas entre indivíduos:
A Imagem do Corpo
Sempre que se manifesta um interesse
por esta ou aquela parte do corpo de outro,
Esta pertence, por sua vez, ao registro simbó- existe o mesmo interesse por esta ou aque-
lico imaginário. A base da “imagem do corpo” é la parte correspondente no próprio corpo.
afetiva. Sua organização depende da ontogênese Toda anomalia de uma parte do corpo con-
das pulsões libidinais e agressivas, da importân- centra o interesse na parte correspondente
no corpo dos outros (Schilder).
cia de pontos de fixação e das possibilidades de
regressão a esta ou àquela fase. Schilder escla- As pesquisas de Schonfeld (1963) mostra-
rece muito bem: “Tudo o que pode haver de ram claramente a importância da norma social.
particular nas estruturas libidinais reflete-se na Há um paradoxo na adolescência: no campo da
estrutura do modelo postural do corpo. Os indi- fisiologia (altura, idade de aparecimento de sinais
víduos nos quais predomina tal ou qual pulsão sexuais secundários, idade das primeiras regras
parcial sentirão tal parte do corpo como estan- e das primeiras ejaculações...), o desvio padrão
do no centro de sua imagem do corpo”. Assim, em relação à média, na adolescência, é particu-
a imagem do corpo depende de investimentos larmente grande, enquanto que a pressão social
dinâmicos, libidinais e agressivos: essa imagem normativa é particularmente forte para o indiví-
está em perpétuo remanejo. Além disso, a cons- duo; o adolescente se indaga o tempo todo para
tituição da imagem do corpo implica o reconhe- saber “se é normal”, “o que os outros acham”.
cimento de um limite. Segundo Angelergues Essa pressão do ambiente, em particular do gru-
(apud Anzieu, 1973), a imagem do corpo é po de iguais, leva o adolescente a utilizar seu
corpo como suporte de um discurso social cuja
um processo simbólico de representa- meta é, ao mesmo tempo, diferenciar-se de outro
ção de um limite que tem a função de “ima- (sobretudo na pirâmide de idades e de gerações)
gem estabilizadora” e de envelope protetor. e procurar uma semelhança asseguradora com os
Esse procedimento coloca o corpo como
outros (em particular, os iguais): o fenômeno da
objeto de investimento e sua imagem como
produto desse investimento, um investi- moda ou, em um outro grau, da tatuagem, ilustra
mento que conquista um objeto não inter- bem isso. Aliás, esses dois meios de expressão às
cambiável, salvo no delírio, um objeto que vezes estão ligados, nos casos extremos como no
se deve manter intacto a qualquer preço. da moda dita punk com ou sem piercing, onde a
A imagem do corpo situa-se na ordem da vestimenta se completa geralmente com uma sé-
fantasia e da elaboração secundária, repre- rie de inscrições na pele, sem esquecer o corte e a
sentação que age sobre o corpo. pintura particular dos cabelos.
Por todas as razões enumeradas no item
Na adolescência, o problema dos limites anterior, isolar um capítulo consagrado a ex-
é particularmente agudo, o que explica as fre- pressões somáticas parece um pouco arbitrário.
qüentes incertezas relacionadas à “imagem do Quase todos os tipos de condutas estudadas nes-
corpo”, como testemunham, em graus diferen- sa segunda parte da obra levam em conta o cor-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 103

po: a passagem ao ato, a tentativa de suicídio, a como sistemas de conduta em que as necessida-
conversão histérica, o temor dismorfofóbico... des fisiológicas do corpo (entendidas em sentido
O que dizer, por outro lado, das condutas liga- amplo: sono, alimentação, mas também higiene,
das à sexualidade, visto que o essencial para o vestimenta, adereços) são tomados como meio
adolescente é, não apenas reconhecer-se em um de interação com os objetos externos quer estes
corpo, mas, sobretudo, em um corpo sexuado? objetos sejam reais (pessoas do entorno) ou fan-
É difícil estabelecer uma fronteira muito tasmáticos (imagens parentais).
nítida que defina o conjunto de condutas cen- De maneira geral, as condutas centradas no
tradas no corpo. A passagem ao ato em seu pa- corpo, a nosso ver, apresentam como primeira
pel de descarga motriz deve ser excluída, mas é particularidade a de pôr em questão a definição
evidente que toda conduta centrada no corpo de um corpo sexuado: o adolescente utiliza seu
inclui em si mesma uma parte do agir e consti- corpo físico, suas necessidades fisiológicas, em
tui com a passagem ao ato um entrave ou uma particular alimentares ou de sono, para manter
defesa relativa em face da elaboração mental. a distância a sexualidade e as transformações
Além disso, a conversão histérica simboliza um que ela induz no corpo. O exemplo da anorexia
conflito deslocado para um segmento do corpo, mental é evidente, mas a obesidade e certas di-
do mesmo modo que certas condutas somáticas ficuldades do sono podem também se ajustar a
alimentares ou de adormecimento. Contudo, esse tipo de explicação. Uma hipótese levantada
nesses últimos casos, a simbolização parece me- por Canestari para explicar freqüentes temores
nos elaborada, mais próxima a um comporta- dismorfofóbicos pode ser estendida às diversas
mento próprio de uma criança pequena. condutas centradas no corpo (cf. item “A orga-
A referência à criança pequena revela o lu- nização fisiológica”, neste capítulo). Para esse
gar particular que o corpo ocupa na psicologia e autor, a ruptura de equilíbrio entre os investi-
na psicopatologia do adolescente. Assim, não é mentos objetais e os investimentos narcísicos,
demais dizer que, na interação social, o corpo do e a ausência transitória de objeto nas pulsões
adolescente ocupa quase o mesmo lugar que o do libidinais e agressivas levam o adolescente a
corpo do bebê ou da criança pequena na inte- tomar seu próprio corpo como objeto transitó-
ração dual com a mãe. A título de comparação, rio, transicional ou transacional a fim de dirigir
a referência ao corpo é muito menos freqüente, a ele suas pulsões. Escolher seu próprio corpo
tanto na psicopatologia do adulto quanto na da como objeto de amor é justamente uma das eta-
criança em período de latência, excluindo-se, é pas do narcisismo secundário, tal como Freud
claro, alguns campos de patologia específica (psi- o definiu. Sem dúvida, Freud interessou-se es-
cossomática, patologia psicomotora da criança). sencialmente pelo destino da pulsão libidinal;
De fato, uma das características do adolescente é é possível fazer as mesmas constatações para a
servir-se do corpo e das condutas ditas somáticas pulsão agressiva. Quando esta última já não tem
como modo de expressão de suas dificuldades, um objeto de investimento à sua disposição, o
mas também como meio de relação. Nesse sen- corpo o substitui transitoriamente. Assim, as
tido, as condutas de expressão somática diferem numerosas condutas observadas em clínica, tais
ao mesmo tempo da histeria e da patologia psi- como as automutilações discretas ou os esboços
cossomática: o papel das relações atuais e a busca de tentativa de suicídio, ou os vagos temores
de um meio de pressão imediata sobre o ambien- dismorfofóbicos, parecem revelar antes de tudo
te situam essas condutas aquém da histeria, se essa relação particular e privilegiada do adoles-
admitimos que o conflito histérico é em primeiro cente com seu corpo. O estudo dessas condutas
lugar e acima de tudo um conflito interno; mas o mereceria ser incluído neste capítulo, mais do
trabalho de simbolização psíquica e o sofrimento que nos diversos capítulos específicos.
psíquico expressado com freqüência situam-nas Assim, na adolescência, o corpo pode ser
além da patologia psicossomática, se admitimos considerado como uma espécie de objeto subs-
que esta última substitui inteiramente a elabo- tituto das diversas pulsões libidinais e agressi-
ração psíquica, e se caracteriza pela existência vas, a meio caminho entre o objeto externo
de um “pensamento operatório”. Para resumir, e os objetos fantasmáticos internos: lugar de
definiremos os transtornos de expressão somá- projeção dessas fantasias, o paradoxo do corpo
tica dos adolescentes estudados neste capítulo na adolescência é ser considerado ainda como
104 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

um objeto transicional, isto é, um objeto que te que é reservada à pulsão de comando”. Para
faz parte do eu e do não-eu. É também o lugar nós, a tradução clínica dessa pulsão de comando
de temores de alteridade, de estranheza, de alie- pode ser vista naquilo que A. Freud descreveu
nação no sentido quase etimológico do termo no comportamento ascético do adolescente;
(transferência de uma propriedade ou de um “o ascetismo da puberdade” caracteriza-se por
bem de uma pessoa a outra). Jeammet (1980) uma hostilidade inata, indiferenciada, primária
resume perfeitamente o papel do corpo na pro- e primitiva entre o ego e as pulsões, hostilidade
blemática da adolescência: que leva o ego a odiar os instintos que desper-
tam na puberdade: “esse temor da pulsão sentida
O recurso ao corpo, na adolescência, pelo adolescente tem um caráter perigosamen-
é um meio privilegiado de expressão. De te progressivo, e depois de se referir apenas aos
fato, o corpo é uma referência fixa para uma verdadeiros desejos pulsionais, pode chegar até
personalidade em busca de si mesma e que as necessidades físicas mais ordinárias. O adoles-
só tem uma auto-imagem ainda flutuante. cente se recusa a se prevenir contra o frio, reduz
É um ponto de encontro entre o dentro e
‘por princípio’ sua alimentação diária ao mínimo
o fora, marcando seus limites... O corpo é
uma presença ao mesmo tempo familiar e estrito, obriga-se a levantar muito cedo, evita rir
estranha: é simultaneamente uma coisa que ou sorrir...”. Todos conhecem esses adolescentes
lhe pertence e uma coisa que representa o que se impõem tarefas físicas rudes, que estabele-
outro, e em especial os pais... Finalmente, o cem uma “higiene” de vida espartana, que se re-
corpo é uma mensagem dirigida aos outros. cusam qualquer satisfação física. Em geral, é fácil
Geralmente indica os rituais de pertenci- constatar que esses preceitos nada mais são do
mento, principalmente em forma de moda. que uma tentativa rígida de controlar as pulsões
sexuais e/ou agressivas, em particular os desejos
Quando se aborda o campo mais específico masturbatórios. Na anorexia mental, esse asce-
da psicopatologia, no âmbito de condutas centra- tismo tornar-se caricatural.
das no corpo, dois tipos de defesas parecem pre-
valecer entre todos os outros modos defensivos:
1) a necessidade de domínio, defesa posta a ser-
viço da progressão que é ilustrada em clínica pelo O Lugar da Regressão
ascetismo, mas que pode assumir uma intensida-
de tal que qualquer emergência pulsional deve Sua qualidade, seu grau, sua reversibilidade
ser aniquilada (como na anorexia mental); 2) a constituem um dos fatores primordiais da ava-
capacidade de regressão em sua dimensão tem- liação do patológico nessa idade. Essa regressão
poral, marcada pelo retorno a fontes de satisfação se expressa de maneira privilegiada por meio
pulsional anteriores parcialmente abandonadas. de condutas centradas no corpo (perturbações
de condutas alimentares, de condutas de ador-
mecimento) ou por exigências corporais dire-
tas (exigências de cuidados corporais, temores
A Necessidade de Domínio
hipocondríacos, etc.). É clássico distinguir três
tipos de regressão: 1) a regressão temporal, ca-
Está diretamente ligada à necessidade do racterizada por um retorno a metas de satisfação
adolescente de manter controle ao mesmo tem- pulsional próprias a fases anteriores do desen-
po sobre as fantasias que podem surgir nele e so- volvimento; 2) a regressão formal, marcada pelo
bre as fontes de excitação pulsional interna. As abandono de processos secundários de pensa-
mudanças que se operam nele, “em seu corpo de- mento em proveito de processos primários; 3)
fensivo” correm o risco de designar o corpo como a regressão tópica, caracterizada pela passagem
objeto a controlar, passando de uma simples ne- de um nível de exigência do ego ou do superego
cessidade de domínio à imperiosa necessidade de a um nível de exigência do id.
manter o comando sobre o corpo. Como assinala O conceito de regressão deve ser articulado
Gantheret (1981), “o comando é antes de tudo estreitamente ao conceito de ponto de fixação
comando do corpo” e “comando no corpo [...] é (cf. Enfance et psychopathologie, p. 29). Na ado-
a tarefa de dominar o objeto para deter a fon- lescência, observam-se todos os tipos de regres-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 105

são. Mas, no que se refere mais diretamente ao resolver ou para dissimular problemas adapta-
corpo, pode-se dizer que a regressão temporal e, tivos internos ou externos”. Na clínica, essas
em menor grau, a regressão tópica constituem perturbações tomam o aspecto seja de modifi-
meios de compreensão úteis: é evidente que, cações ponderais estáveis (obesidade, anorexia
em face da emergência da sexualidade, o re- mental) ou flutuantes, seja de preocupações
torno protetor a metas pulsionais que testemu- dietéticas excessiva ligadas em geral à aparên-
nham pulsões parciais é freqüente. As pertur- cia corporal e que levam a hábitos alimentares
bações de condutas alimentares ocupam, nesse particulares (regime dietético).
campo, um lugar privilegiado: a freqüência des- Daqui em diante, designaremos como
sas perturbações na adolescência mostra a im- “transtornos do comportamento alimentar”
portância de pontos de fixação orais e de suas (TCA) ao mesmo tempo a anorexia mental e
reativações concomitantes ao recrudescimento a bulimia nervosa, mas também condutas ali-
pulsional global. Do mesmo modo, as queixas mentares não usuais (restrição alimentar, crise
relacionadas ao sono aparecem freqüentemen- bulímica isolada, manobras de controle de peso,
te como temores diretos da regressão induzida preocupação permanente quanto à imagem do
necessariamente pelo adormecimento ou, in- corpo, etc.) que, sem responder ao conjunto de
versamente, como uma necessidade defensiva critérios diagnósticos das classificações inter-
de regressão excessiva (clinofilia) a uma fase nacionais, aparecem freqüentemente ligadas a
de desenvolvimento primário (fase simbiótica, essas patologias, seja porque constituem seus
por exemplo). primeiros indícios, seja porque persistem por
Neste capítulo, seguindo a definição que muito tempo após a cura clínica. A prevalência
apresentamos anteriormente (cf. item “A ne- parece particularmente elevada, corresponden-
cessidade de domínio”), excluiremos diversos do aos anos da adolescência (e do jovem adul-
campos particulares: 1) a patologia inerente a to): entre 15 e 25 anos, no sexo feminino, essa
uma perturbação do esquema corporal (compro- prevalência cumulativa para o conjunto dos
metimento cerebral hemisférico, por exemplo); transtornos do comportamento alimentar seria
2) os comprometimentos do esquema corporal de aproximadamente 8,8%, com um pico de
secundários a uma patologia mental patente, prevalência pontual em 2,4% (Victorian Adoles-
tal como os delírios centrados no corpo que se cent Health Cohort Study: 853 sujeitos femininos
observam em psicoses agudas (cf. item “Estados de 15 a 20 anos, Patton et al., 2003), sendo que
psicóticos característicos da adolescência”, no a anorexia mental tem uma prevalência cumu-
Capítulo 11) ou na esquizofrenia (cf. item “A lativa de 1,8% (síndrome parcial) e a bulimia
esquizofrenia”, no Capítulo 11); 3) as dificulda- nervosa de 7,3%.
des psicológicas ligadas a perturbações objetivas
do corpo: deficiência motora, malformações di-
versas, doenças somáticas.
Limitaremos este capítulo às condutas de di-
Clínica de Condutas Alimentares na
mensão corporal essencialmente de duas ordens: Adolescência
– os transtornos da série alimentar;
Abordaremos primeiramente uma descri-
– os transtornos do sono e do adormeci-
ção das diversas condutas alimentares desvian-
mento.
tes observadas de maneira freqüente na adoles-
cência, em particular quando do despertar da
puberdade ou no decurso desta. Essas condutas
PERTURBAÇÕES DAS CONDUTAS podem permanecer isoladas por muito tempo,
ALIMENTARES com intensidade moderada, ou ser sucessivas,
mas sem chegar aos quadros clínicos tais como
a anorexia mental ou a bulimia nervosa. Con-
Na linha de H. Bruch, agruparemos neste tudo, elas geralmente constituem seus prenún-
capítulo as diversas situações em que “a cor- cios, mais nas meninas do que nos meninos, nos
pulência e/ou absorção alimentar servem para quais essas condutas têm menos tendência a se
106 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

perenizar. Veremos ao final deste capítulo as hi- pode acompanhar esse momento. A paciente
póteses psicopatológicas sugeridas para explicar bulímica come sozinha, às escondidas, come-
essa freqüência. ça seu acesso impulsivamente após o período
Em certos casos, as perturbações constata- tensional precedente. Algumas organizam qua-
das existiam há muito tempo: o contexto fa- se rituais, cozinhando e instalando alimentos
miliar desempenha um papel preponderante e ambiente, outras absorvem esses alimentos
nisso, como no caso de hiperfagias familiares. na maior desordem. Esse alimento às vezes é
Contudo, não é raro que essas condutas ali- roubado.
mentares desviantes apareçam na adolescência. A absorção é rápida, sem amassar nem
Distinguiremos quatro tipos de perturbações: mastigar; as quantidades ingeridas podem ser
1) comportamentos alimentares instáveis: enormes. O acesso termina quando não há mais
fome canina, crise de bulimia; 2) comporta- nada a comer ou quando a paciente é pertur-
mentos alimentares quantitativamente inade- bada em sua solidão por um terceiro ou, enfim,
quados: hiperfagia, lambisco, restrição global; quando as sensações de estufamento se tornam
3) comportamentos alimentares qualitativa- dolorosas.
mente perturbados: exclusão alimentar, regime Sucede-se uma fase de abatimento, com
particular; 4) manobras particulares ligadas à mal-estar físico (dor de estômago, fadiga, ce-
alimentação. faléias, náuseas, etc.) e psíquico (remorso, ver-
gonha, culpabilidade, desgosto, humilhação,
Os comportamentos alimentares instá- desvalorização, etc.), que dura até o adormeci-
veis. – Se o comportamento alimentar não é mento ou aos vômitos provocados.
perturbado durante as refeições, certos adoles- Às vezes, ocorrem acessos sucessivos ao
centes conhecem intermitentemente condutas acordar ou após os vômitos, sendo que o con-
particulares. É clássico distinguir a fome canina junto pode se prolongar por vários dias (os dois
e a crise de bulimia. ou três dias de um fim de semana). Quando o
acesso termina, é comum o esquecimento do
estado afetivo e físico penoso que se sucedeu à
A fome canina. – Ela responde a uma sen- absorção. Contudo, a paciente mantém o sen-
sação imperiosa de fome. Estaria mais presente timento de uma conduta patológica em disso-
na adolescente em período pré-menstrual. O nância com seu comportamento habitual.
comportamento alimentar continua adequado, A distância, o acesso se repete com uma
e o adolescente absorve os alimentos de que freqüência variável: diária, semanal (geralmen-
gosta (doce, bolo, etc.). te, o fim de semana), mensal ou plurimensal.
Essas crises bulímicas podem apresentar-se
A “crise bulímica”. – Chamada também de forma isolada, mas é mais comum aparecerem
de compulsão alimentar (Aimez) ou, entre os no contexto de uma anorexia mental (cf. item
anglo-saxões, de binge eating (Russel), ela é um “Perturbação das condutas alimentares”, neste
episódio brusco durante o qual uma grande capítulo), com a qual essas crises se alternam em
quantidade de alimento é ingerida rapidamen- certas fases da doença, ou no contexto de uma
te, às escondidas, sem possibilidade de controle. “bulimia nervosa” (cf. item “A anorexia men-
Às vezes, os alimentos são absorvidos após um tal”, neste capítulo). No plano psicopatológico,
preparo culinário, mas normalmente são con- essas crises de bulimia representam a tradução
sumidos como tais, não aquecidos, na lata de comportamental de um sentimento de vazio, de
conserva. Todos os alimentos podem ser objeto tédio, freqüentemente com um estado de ansie-
de uma conduta bulímica, sendo que cada pa- dade. A emergência desse desejo, dessa pulsão
ciente tem suas “preferências” (massas, carne, não controlada ou, ao contrário, extremamente
frios, doce, chocolate, etc.). controlada antes, em geral está ligada a um pro-
Freqüentemente, a crise é precedida de um fundo desatamento pulsional: a vivência agres-
estado tensional de mal-estar, sem fome verda- siva e desestruturante constitui o pano de fundo,
deira, com uma dimensão de excitação; uma vivência agressiva ligada à ativação súbita de
luta consciente contra a impulsão a ingerir uma relação imaginária agressiva e/ou mortífera
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 107

com uma das imagens parentais, em particular Apenas alguns casos evoluem secundaria-
a da mãe. A crise de bulimia representa então mente para uma restrição importante, levando o
uma tentativa inútil de incorporar o objeto ma- adolescente a uma verdadeira anorexia mental
terno associado à angústia de destruí-lo. (cf. item “A anorexia mental”, neste capítulo).

Comportamentos Alimentares Comportamentos alimentares qualitativa-


Quantitativamente Perturbados mente perturbados. – Nesses casos, como assi-
nala H. Bruch, o fato de comer em si mesmo é
Hiperfagia-lambisco. – A hiperfagia, como perturbado, e a absorção de alimento adquire
seu próprio nome indica, caracteriza-se por um significações simbólicas diversas, geralmente
aporte alimentar excessivo. Em geral, essa hi- feitas de perigo e de ameaça. Certos alimentos
perfagia é familiar. O número de refeições é de são excluídos, mas não com a intenção de redu-
3 a 4 por dia, com um lanche abundante, mas zir o aporte calórico: aqui a significação simbó-
um café da manhã reduzido. A hiperfagia res- lica do alimento e sua valorização familiar ou
ponde a fatores ambientais, em particular aos individual estão em primeiro plano.
hábitos alimentares da família. Assim, o adolescente de tipo ascético (cf.
O lambisco ocorre fora das refeições, pode item “A necessidade de domínio”, neste capítu-
mesmo se estender por todo o dia. Um único lo) pode se privar de um alimento do qual gosta
produto pode ser incriminado, normalmente particularmente. Em outros casos, trata-se de
um alimento que está à mão e não requer um uma refeição ou de um prato familiar eleito. Es-
preparo (biscoitinhos amanteigados, chocolate, sas condutas revelam freqüentemente a existên-
doce, etc.). O lambisco acompanha as ativida- cia de um conflito neurótico, em particular em
des do sujeito: atividades escolares, leitura, te- caso de aversão eletiva, que pode corresponder
levisão. A inatividade física é comum durante a uma conversão histérica típica. Há ainda si-
o lambisco, assim como o contexto solitário. A tuações em que o adolescente se submete a um
sensação de fome não é habitual durante o lam- regime alimentar particular em razão do valor
bisco. Segundo G. Gonthier, hiperfagia e lam- simbólico ligado a tal ou qual alimento ou das
bisco são condutas características da obesidade virtudes atribuídas a esse regime. Não é raro que
(cf. item “O problema do corpo no adolescen- essas condutas veiculem idéias subjacentes qua-
te”, neste capítulo). Ao contrário do que se ob- se delirantes ou, pelo menos, um temor extremo
serva na crise bulímica, o adolescente que come em face de uma agressividade oral não-elabora-
muito ou que lambisca não tem o sentimento da. O mesmo ocorre com bruscas modificações
de perda de controle sobre a alimentação. dos hábitos alimentares de certos adolescentes
que, de uma hora para outra, tornam-se vegeta-
A redução alimentar. – No período puber- rianos (regime que exclui a carne dos animais,
tário, sobretudo na adolescente, é freqüente, se mas não seus produtos, como leite, manteiga,
não habitual, um período transitório de restri- ovos, mel) ou mesmo vegetalianos (regime ali-
ção alimentar. Essa redução pode ser global ou mentar que exclui todos os alimentos que não
eletiva (pão, queijo, etc.), conforme os “con- provenham do reino vegetal). Tais práticas, que
selhos ou recomendações” lidos na imprensa podem testemunhar um investimento deliran-
ou ouvidos em programas de rádio. Os fatores te da alimentação, são observadas nos casos de
ambientais são predominantes, marcados pela psicose, sobretudo quando essas práticas estão
busca de uma silhueta delgada, na moda. Essa em discordância com o hábito alimentar da fa-
redução alimentar costuma suscitar discussões mília. A observação de um regime fortemente
familiares, seja na forma de uma comparação, desequilibrado no plano dietético pode levar a
de uma relativa conivência (mãe e filha fazem emagrecimentos, ou mesmo a estados de maras-
o mesmo regime), seja na forma de um confli- mo fisiológico. É importante não confundir os
to, quando um dos genitores deseja manter o emagrecimentos secundários a partir do inves-
controle que sempre exerceu sobre o regime ali- timento delirante da alimentação com a anore-
mentar de seu filho. xia mental verdadeira.
108 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Manobras particulares ligadas à alimen- os conflitos entre o adolescente e seus pais em


tação. – Alguns adolescentes adotam compor- torno da alimentação são comuns: estes últi-
tamentos particulares com o objetivo conscien- mos desejariam manter o equilíbrio alimentar
te de conseguir um melhor controle do peso, ou que consideram satisfatório, enquanto que o
mesmo emagrecer sem modificar as condutas adolescente reivindica alimentar-se segundo
alimentares. É o caso das manobras vomitivas critérios estritamente pessoais; 3) a focaliza-
que podem se suceder a acessos bulímicos (ver ção em torno da “refeição familiar” das inte-
acima), mas que também podem ocorrer isola- rações e do conflito entre pais e adolescente
damente. No início, o adolescente desencadeia (cf. Capítulo 16). De fato, os adolescentes ex-
os vômitos voluntariamente e ativamente pro- perimentam com freqüência afetos carregados
vocando um reflexo de náusea. Em seguida, o de cólera e/ou agressividade em relação a essas
vômito pode tornar-se um “reflexo”, pela mera refeições feitas em comum. Esses afetos podem
contração do diafragma, ou mesmo tornar-se constituir a transformação direta da curiosi-
“involuntário”, sucedendo às mínimas absor- dade em face da “cena primitiva”, curiosidade
ções alimentares. Outros adolescentes recorrem mesclada de aversão e de inveja: a refeição fa-
a medicamentos, ingeridos sem qualquer pres- miliar assume um valor altamente simbólico, e
crição médica: vomíficos, diuréticos, laxantes, as funções alimentares são “sexualizadas”. Exis-
etc. Assim, uma pesquisa sistemática nos Esta- te um deslocamento da “cena primitiva” para
dos Unidos revelou que 13% dos adolescentes, a “cena familiar”: prova disso são as freqüentes
duas vezes mais meninas do que meninos, utili- observações dos adolescentes sobre a maneira
zam tais procedimentos. de comer de seus pais, em particular as obser-
Em uma menina que apresenta episódios vações de adolescentes que acham que seu pai
bulímicos, o aparecimento de manobras para come “como um porco”, etc; 4) uma “fome de
controlar o peso constitui um fator de gravi- objeto” particularmente intensa. Tomamos de
dade para as crises bulímicas, com um risco Blos essa expressão, que traduz a necessidade
de aumento de freqüência e de persistência da do adolescente de incorporar o maior núme-
conduta. ro possível de objetos para satisfazer sua busca
Com toda evidência, essas manobras parti- identificatória. Se essa fome mantém um cará-
culares estão associadas na maioria das vezes às ter metafórico, ela também pode assumir o as-
perturbações descritas anteriormente: episódios pecto mais concreto de absorção de alimento.
de bulimia, lambisco, restrição alimentar, epi- Seria o caso aqui de se fazer uma reflexão sobre
sódio anoréxico. a continuidade ou a ausência de continuidade
entre os conceitos de introjeção, de incorpo-
ração e de identificação. Naturalmente, essa
Elementos de psicopatologia. – Várias hi- necessidade de absorção de alimento pode
póteses psicopatológicas ajudam a compreen- constituir um meio de preenchimento, isto é,
der a freqüência dessas desordens nas condutas um meio de luta contra o vazio e contra a de-
alimentares na adolescência. Destacaremos pressão subjacente. Seja como for, essa fome
quatro: 1) a reativação da pulsão oral ligada de objeto, quando o adolescente renuncia ao
a um ponto de fixação defensivo em relação trabalho psíquico de metaforização para se
ao recrudescimento pulsional, em particular satisfazer com uma absorção concreta de ali-
genital. Essa reativação insere-se na perspec- mento, pode avivar o temor de destruição do
tiva de regressão temporal já evocada: o ado- objeto: esse temor é tanto maior quanto mais
lescente retorna à modos de satisfação já ex- intensa é a necessidade de incorporação. Esse
perimentados em sua infância e vivenciados temor também leva o adolescente a controlar
como não ameaçadores, pelo menos para o seu fortemente sua forme e a desenvolver condutas
equilíbrio psíquico interno (a ameaça se deslo- anoréxicas mais ou menos sérias, intercaladas
ca então para a silhueta corporal); 2) o desejo às vezes de “crises bulímicas”, verdadeiras que-
de apropriação e de domínio das necessidades bras na tentativa de domínio da oralidade. Essa
corporais, desejo que se estabelece dentro de alternância entre necessidade de incorporação
uma perspectiva ontogenética no processo de e tentativa de controle explica a instabilidade
separação-individuação. A título de exemplo, particular das condutas alimentares em nume-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 109

rosos adolescentes, assim como a ausência bas- da obesidade e da aquisição de peso, e, de outro,
tante freqüente de uma repercussão ponderal a fase de estabilização ponderal.
flagrante, na medida em que não se adota de Quanto aos fatores psicossociais, eles de-
forma repetitiva uma conduta particular. sempenham papéis complexos. H. Bruch suge-
re, também nesse caso, que se faça uma dis-
tinção entre os fatores psicossociais: 1) aqueles
A Obesidade que desempenham um papel na criação da
obesidade; 2) aqueles que são criados pela obe-
sidade; 3) aqueles que são suscitados pelo dese-
Generalidades. – A obesidade é definida jo de emagrecer. Não abordaremos em detalhe
como um excesso de peso que ultrapassa em esses pontos que não apresentam nenhuma
dois desvios padrões ou em 20% o peso ideal especificidade na adolescência em relação às
para a altura. A obesidade assim definida é bas- outras idades (cf. Enfance et psychopathologie,
tante comum: nos Estados Unidos, 9% dos me- capítulo 7).
ninos e 12% das meninas; na França, 7% das
crianças e adolescentes na região de Paris são
obesos (Doyard). A freqüência da obesidade Condutas e personalidades do adolescen-
vem aumentando de forma constante e regular te obeso. – Duas condutas alimentares parecem
em todos os países ditos desenvolvidos, a pon- bem específicas do adolescente: o lambisco e
to de ser considerada em nossos dias como um a hiperfagia, geralmente de conotação familiar
problema importante de saúde pública. (cf. descrição p. 107). Ao contrário, as crises de
A obesidade não constitui propriamente bulimia são bastante raras. O adolescente obeso
um estado específico da adolescência. De fato, mantém uma relação particular com a sensação
segundo as pesquisas retrospectivas que pro- de fome, como veremos no próximo item. De
curam determinar o início da obesidade, 25% fato, nem sempre a sensação de fome está pre-
das obesidades da criança maior e do adoles- sente antes do ato de comer: os adolescentes
cente começaram antes de um ano, 50% antes dificilmente conseguem dizer se quando procu-
de 4 anos e 75% antes de 6 anos. Portanto, na ram algo para beliscar estão com fome. Pare-
maioria dos casos a obesidade não se constitui ce que isso ocorre mais como resposta a uma
na adolescência, mas sucede uma obesidade já sensação imprecisa, indefinível, muitas vezes
instalada na infância. Isso distingue a obesidade com uma conotação de mal-estar, ou ainda a
da anorexia mental. Contudo, a adolescência uma necessidade (ou a um prazer) de encher
representa uma etapa importante: até então, a boca, de mastigar e de deglutir, em suma, de
a criança era dependente de seus pais, consul- manter uma atividade oral incessante. Por ou-
tando-se apenas sob pressão, geralmente pou- tro lado, o ato de alimentar-se não produz uma
co motivada ela mesma a fazer um regime. Já o sensação de saciedade, mas, ao contrário, um
adolescente pode se sentir pessoalmente inte- sentimento de culpabilidade ou um estado de
ressado, e em alguns casos até mesmo tomar a tédio suplementar.
iniciativa de marcar uma consulta. A pressão do Classicamente, o adolescente obeso é des-
entorno, do grupo de iguais, da moda, somada crito como uma pessoa inativa. Segundo H.
às transformações pubertárias, pode contribuir Bruch, o transtorno fundamental na obesidade
para que esse adolescente participe ativamente não é, aliás, a hiperfagia, mas a inatividade; esse
das consultas e das medidas terapêuticas pro- autor estabelece uma oposição hoje bastante
postas (Schmit e Rouam). Quanto à obesidade conhecida entre “polifagia-obesidade-inativi-
que começa na adolescência, é preciso assinalar dade”, de um lado, e “anorexia-magreza-ativida-
antes de tudo a existência banal e normal de de”, de outro. Dentro dessa passividade, certos
uma discreta sobrecarga ponderal pré-pubertá- afetos parecem freqüentes. A noção de tédio,
ria: essa sobrecarga não tem a significação fisio- sem se tratar de um estado depressivo real, é
lógica de uma obesidade, mas pode assumi-la bastante comum. De resto, a solidão comple-
aos olhos do entorno, criando um contexto am- menta esse sentimento de tédio: o adolescente
biental desfavorável. Segundo H. Bruch, seria se queixa de um sentimento de vazio, de inuti-
preciso distinguir, de um lado, a fase de criação lidade. Em outros casos, descrevem-se estados
110 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

de tensão ansiosa com alguns traços neuróticos ponde a um sentimento de fome, mas a uma
habitualmente na série fóbica. condição bem diferente. A fome parece ser um
No plano do diagnóstico, excluiremos aqui estado fisiológico mal discernido, como tam-
os raros casos de obesidade como conseqüência bém a saciedade. Para H. Bruch, um adoles-
de uma patologia orgânica (síndrome de Willi- cente normal deve ter adquirido o sentimento
Prader, de Laurence Moon-Biedl). Quanto ao do seu corpo específico, a consciência de ser
diagnóstico psiquiátrico, a maioria das obesidades um organismo autônomo e independente, deve
na adolescência não se integra a quadros nosográ- saber reconhecer e definir as necessidades cor-
ficos precisos, embora possam ser observadas em porais e, levando em conta essas necessidades e
casos de neurose ou de psicose estruturada. Em o ambiente, ser capaz de chegar a uma satisfa-
caso de psicose acompanhada de uma obesida- ção adequada de suas necessidades. O adoles-
de, isso pode assumir um aspecto oscilante, com cente obeso não adquiriu essa autonomia. H.
freqüentes períodos de emagrecimento, depois Bruch levanta uma hipótese centrada no papel
de aquisição de peso, períodos que muitas vezes do ambiente. Para ela, a incapacidade do ado-
estão estreitamente ligados a descompensações lescente obeso de reconhecer suas necessidades
delirantes; propôs-se para isso o termo “obesida- corporais específicas e, conseqüentemente, de
de-borracha” (Marcelli et al., 1979). dar uma resposta adequada a elas, provém do
caos das primeiras experiências de satisfação,
Prognóstico. Evolução da obesidade. – To- em particular orais:
dos os autores assinalam a relativa estabilidade
Quando uma mãe oferece alimento em
através das idades. Contudo, a adolescência é resposta a sinais que indicam uma necessi-
um período privilegiado em que a motivação dade alimentar, a criança desenvolverá pro-
terapêutica pode tornar-se pessoal (e não mais gressivamente a noção de “fome” como uma
parental), em que as modificações psicodi- sensação distinta de outras necessidades ou
nâmicas podem favorecer a terapia e em que tensões físicas. Em compensação, se a reação
existe uma forte pressão do ambiente. Entre os da mãe é sempre inadequada, quer ela seja
raros fatores de prognóstico, H. Bruch assinala indiferente, hiperestimulante, proibitiva ou
o interesse do teste do homem: as crianças e totalmente permissiva, o resultado para a
adolescentes obesos que desenham um homem criança será um estado de perplexidade con-
corretamente superam sua obesidade ou pelo fusa. Na seqüência, a criança será incapaz de
discernir se está com fome, se está saciada
menos serão adultos adaptados. Ao contrário,
ou se está sentindo um outro mal-estar.
os obesos que tinham resultados ruins no de-
senho do homem eram mal adaptados, apre-
Para H. Bruch, essas crianças tornam-se
sentavam graves transtornos da personalidade,
adolescentes “que não desenvolveram nem in-
e mesmo uma psicose, segundo H. Bruch. Em
tegraram sua imagem do corpo, e que se verão
certos membros desse grupo, a obesidade conti-
sem recursos em face das necessidades corporais
nuou aumentando.
ou terão o sentimento de que essas necessidades
são controladas do exterior, como se eles não
Hipóteses psicopatológicas. – A hipótese fossem os proprietários de seu corpo e de suas
de um fator constitucional genético repousa sensações”. Esses adolescentes, em face de qual-
sobre a constatação muito comum da existên- quer estado de tensão indeterminado, quer se
cia de uma obesidade em um ou em ambos os trate de fome ou ainda de um sentimento de té-
genitores. Mas esse fator é difícil de distinguir dio, de um estado de solidão ou de um mal-estar
dos hábitos alimentares da família: de fato, a físico, tenderão a absorver alimentos, da mesma
hiperfagia quase sempre é familiar. H. Bruch maneira que suas mães lhes davam alimentos
propôs uma teoria da obesidade levando em indistintamente quando eram bebês, quaisquer
conta ao mesmo tempo interações familiares que fossem suas manifestações.
e a posterior interiorização de um tal modelo Haveria uma espécie de condicionamento
em um desenvolvimento psicofisiológico des- que impeliria a criança, e depois o adolescen-
viante. Essa autora constata, como outros, que te, a recorrer sistematicamente ao alimento em
a ingestão de alimentos muitas vezes não res- face de qualquer tensão.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 111

Essas hipóteses são corroboradas por certas po obeso, inflado, proporciona ao adolescente
constatações clínicas: a fome raramente preside um sentimento de segurança de si, a segurança
a absorção de alimento, como no caso do lam- interna que não teria sem isso.
bisco, por exemplo. Do mesmo modo, a sacie-
dade geralmente é desconhecida.
Obesidade e sexualidade. – Quando per-
Sensações difusas (tédio, um vago mal-es-
siste ou se agrava na adolescência, a obesidade
tar) conduzem igualmente a uma absorção ali-
freqüentemente serve de anteparo em face da
mentar.
sexualidade, ao mesmo tempo em que a conduta
Para além dessa hipótese de dominância
hiperfágica e/ou do lambisco proporciona grati-
ambiental, outros autores viram nessas con-
ficações orais regressivas e substitutivas. Em am-
dutas alimentares seguidas de obesidade o tes-
bos os sexos, mas talvez mais ainda na menina,
temunho de uma fixação defensiva na pulsão
a obesidade é utilizada às vezes como uma defesa
oral: “a satisfação da fome é o protótipo da
em face dos desejos sexuais e aos sentimentos de
satisfação instintual” (Kreisler), a oralidade,
culpabilidade que podem acompanhá-los.
sendo erotizada mediante a atividade de sucção
característica do lambisco. A importância da
oralidade e da incorporação na adolescência foi Obesidade e estrutura psicossomática.
bastante destacada por P. Blos, que fala de uma – Em alguns casos, a obesidade parece substituir
verdadeira “fome de objeto” a incorporar: “As em parte o funcionamento psíquico, e servir
sensações de fome e a tendência a se entupir de anteparo a uma descompensação psicótica,
de alimento são causadas apenas parcialmente em particular no caso de vivência paranóica do
pelo crescimento físico do adolescente. Pode- mundo externo: a obesidade parece representar
se observar que elas variam significativamente então uma espécie de proteção contra as intru-
no mesmo sentido que o aumento ou o declínio sões externas. Pode-se fazer essas constatações
da fome de objeto primitivo, isto é, da função às avessas nos casos de descompensações após
incorporativa”. uma cura de emagrecimento, como se observa
Quando se torna excessiva, essa fixação na às vezes. Nesse caso,
oralidade parece ter várias funções: fator de luta
contra a depressão, fator de resistência à sexua- é como se o emagrecimento tirasse a
lidade, fator de entrave à elaboração mental. espessura concreta das defesas de que o obe-
so precisa se guarnecer com o duplo objeti-
vo de amortecer a agressividade (projetada)
Obesidade e depressão. – A existência de no exterior e de manter um sentimento do
elementos depressivos é uma constatação fre- eu hipertrofiado à maneira de um balão de
qüente no obeso adulto. Não voltaremos aqui borracha. De fato, a obesidade nos parece
ao lugar particular que a depressão ocupa na ter sempre esse duplo papel: “protetor con-
adolescência. No adolescente obeso, a depres- tra o ambiente, garantia da integridade e do
valor da auto-imagem (Marcelli et al.).
são, ou pelo menos o tédio, situa-se às vezes no
primeiro plano. Em geral, essa temática recobre
Desse ponto de vista, a obesidade na adoles-
deficiências na elaboração do narcisismo, defi-
cência pode constituir um fator de entrave aos
ciências que são mascaradas pela obesidade. Por
processos psicodinâmicos próprios a esse período,
exemplo, não é casual que os temas marinhos,
o que, na evolução posterior do indivíduo, pode
com os “sentimentos oceânicos” que podem
cristalizar de maneira mais ou menos definitiva as
acompanhá-los, estejam tão presentes nos testes
capacidades adaptativas e relacionais e, para além
projetivos (Rorschach), como uma tentativa de
destas, a organização fantasmática e defensiva: a
retornar ao universo protetor da matriz uterina,
obesidade pode se tornar então uma espécie de
onde o corpo se dissolve em uma entidade mais
equivalente de um processo de defesa. A esse tí-
ampla. A temática depressiva também se apro-
tulo, pode-se falar de sintoma psicossomático.
xima da vertente narcísica, com seus sentimen-
tos de vazio, de inutilidade, de falta. A própria
imagem do corpo corresponde ao corpo obeso, Tratamento. – Seremos muito breves e ne-
freqüentemente hipertrofiado, volumoso: o cor- cessariamente esquemáticos. A obesidade, salvo
112 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

caso excepcional (sobrecarga ponderal superior dos transtornos psicopatológicos, sobretudo na


a +60%), não ameaça diretamente a vida do adolescência. Essa estereotipia clínica explica a
indivíduo. Assim, toda medida coercitiva, toda antiguidade da descrição da síndrome e a busca
medida que não tem a anuência e não suscita permanente de uma etiologia orgânica inscre-
a participação ativa do adolescente é nefasta e vendo-se em um esquema explicativo linear.
está condenada ao fracasso. Reivindicada por muito tempo exclusivamente
Para os tratamentos medicamentosos, vale pelos endocrinologistas, a anorexia mental não
lembrar que, na França, um decreto recente pode mais ser considerada como o puro resul-
proibiu os “coquetéis emagrecedores”, tornando tado de uma desordem “neurovegetativa”. Seu
ilícita a associação entre eles e um dos produ- determinismo psicogenético parece aceito pela
tos pertencentes às três classes tradicionais de maioria, embora essa posição seja periodica-
produtos ditos “emagrecedores”: 1) hormônios mente posta em questão. Mas, assim como no
tireóideos; 2) diuréticos; 3) psicotrópicos e ano- caso da bulimia, que abordaremos mais adian-
rexígenos. Na adolescência, a prescrição medi- te, esse determinismo é complexo e sempre mal
camentosa deveria ser nula ou, pelo menos, re- elucidado hoje. De traços de temperamento,
duzir-se a um ansiolítico suplementar. como o perfeccionismo (Bulik et al., 2003), aos
A hospitalização visando o descondiciona- movimentos inconscientes, como a busca de
mento, tanto em relação ao contexto familiar “neo-objetos” sob controle (Jeammet e Corcos,
quanto aos hábitos alimentares, poderia ser 2001), os fatores em jogo evocados hoje são
proposta, sobretudo nos casos graves e quando múltiplos, e situam-se em níveis epistemológi-
o adolescente solicita (Schmit e Rouam). cos muito diferentes.
Segundo H. Bruch, a psicoterapia, indivi-
dual ou em grupo, precisa ser organizada em
Histórico. – A anorexia mental é de co-
torno do objetivo essencial de proporcionar ao
nhecimento bastante antigo, pois seus indí-
adolescente “a consciência dos sentimentos e
cios foram notavelmente fixados já no século
das pulsões que se manifestam nele, assim como
XVII por um autor inglês, Richard Morton.
a possibilidade de aprender a conhecê-las, satis-
Com o nome de “tísica nervosa”, ele descre-
fazê-las ou utilizá-las de forma pertinente”. Para
ve em 1689, em uma mulher jovem, um defi-
H. Bruch, essa tomada de consciência do corpo
nhamento do corpo que ocorre sem febre, sem
pode aparecer inicialmente em um outro cam-
tosse, sem dispnéia, e que é acompanhado de
po que não o da alimentação e que constitui seu
uma perda do apetite e das funções digestivas.
objetivo prioritário, enquanto que o emagreci-
Morton insiste sobre a magreza assustadora que
mento seria um objetivo secundário:
essa afecção pode induzir. Segundo ele, a doen-
Os progressos em relação a uma obesida-
ça tem uma origem nervosa e provém de uma
de oscilante e antiga não podem ser medidos alteração do ímpeto vital.
em termos de peso, mas unicamente em ter- Mas classicamente, atribuem-se as primei-
mos de capacidade global. Apenas uma me- ras descrições da anorexia mental a Lasègue e
lhor adaptação pessoal pode favorecer uma a W. Gull, que publicaram em datas próximas
regulação do peso e vice-versa. Essa regulação suas experiências clínicas. W. Gull fala pri-
só poderá ser considerada como bem-sucedi- meiramente de “Histeria apepsia” (1868), e
da e positiva depois de ter dominado outros depois, na seqüência do trabalho de Lasègue,
elementos do comportamento pulsional. de “Anorexia Nervosa” (outubro de 1873). Já
C. Lasègue evoca a “anorexia histérica” (abril
de 1873).
A Anorexia Mental As descrições clínicas feitas por esses auto-
res mereceriam ser relidas integralmente, tama-
nha é a atualidade que ainda preservam:
A anorexia mental ocupa um lugar par-
ticular no campo da patologia mental: sua Pouco a pouco, a doente reduz sua ali-
estereotipia clínica, a prevalência do sexo fe- mentação, alegando ora uma dor de cabeça,
minino e uma idade de início bastante carac- ora uma aversão momentânea, ora o temor
terística rompem com o habitual polimorfismo de se repetirem as impressões dolorosas que
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 113

se seguem a uma refeição. Ao final de algu- Será preciso esperar até os anos 1940 para
mas semanas, já não são mais repugnâncias que sejam retomadas as hipóteses psicoge-
supostamente passageiras, é uma recusa da néticas. Nessa época, os trabalhos são muito
alimentação que se prolonga indefinida- numerosos: H. Bruch nos Estados Unidos, M.
mente. (Lasègue)
Selvini na Itália, E. e J. Kestemberg e Decobert
na França... em perspectivas comportamentais,
Observa-se também um comportamento hi- psicanalíticas, sistêmicas ou outras, mas onde a
perativo: “Os pacientes, ainda que extremamente dimensão psicológica é sempre dominante.
esgotados, não se queixavam nem de dor nem do
Nos últimos tempos, a atenção dos clínicos
menor mal-estar, e com freqüência se mostravam
voltou-se mais particularmente para duas séries
singularmente agitados e obstinados...” (Gull).
de fatores: de um lado, uma consideração do con-
“A doente, longe de se enfraquecer, de se entris-
junto de transtornos alimentares da adolescência
tecer, desenvolve uma maneira de exaltação que
de um ponto de vista epidemiológico, mas tam-
não lhe era comum: mais ativa, mais leve, ela
bém descritivo, mostrando a freqüente associa-
monta a cavalo, faz longas caminhadas a pé...”
ção anorexia-bulimia (cf. item “Evolução”, neste
(Lasègue). A desordem alimentar é atribuída a
capítulo). De outro lado, uma nova perspectiva
uma perturbação mental: “A falta de apetite se
deve a um estado mental mórbido... Penso, con- dinâmica se esboça em torno da problemática da
seqüentemente, que sua origem é central e não dependência e das patologias ligadas a ela: se a
periférica” (W. Gull). Finalmente, a importância bulimia às vezes é descrita como uma “toxicoma-
das relações familiares é, desde essa época, clara- nia alimentar”, a anorexia mental aparece como
mente ressaltada. Uma vez constituída a doença, uma tentativa de controlar uma dependência em
particular, uma avidez oral sentida de forma in-
A família só tem a seu serviço dois mé- suportável pela adolescente. Assim, a anorexia é
todos, que ela sempre esgota: implorar ou por vezes incluída entre as “novas dependências”
ameaçar, mas tanto um como outro serve ape- (Veneza, 1991) encontradas na adolescência.
nas de pedra de toque. Multiplicam-se as de-
licadezas da mesa na esperança de despertar o
apetite: quanto mais se aumenta a solicitude, Características epidemiológicas. – A pre-
mais o apetite diminui. A doente prova des- dominância feminina é esmagadora em todos os
denhosamente os pratos novos, e depois de estudos: 90 a 97% dos casos. A idade de surgi-
ter demonstrado dessa maneira sua boa von- mento conhece dois picos: por volta dos 15/16
tade, ela se considera liberada da obrigação anos e dos 18/19 anos, idade freqüente do pri-
de ir além. Tanto se suplica, se reclama como meiro diagnóstico.
um favor, como uma prova soberana de afe- A prevalência, difícil de avaliar, aparente-
to, que a doente se resigna a acrescentar uma mente oscila, segundo os estudos, entre 0,1 e
única garfada suplementar à refeição que de-
0,5% para a população feminina de 16 a 25 anos
clarou encerrada. O excesso de insistência
atrai um excesso de resistência” (Lasègue). (Hardy e Dantchev, 1989). Essa taxa parece re-
“O meio em que vive a doente exerce uma lativamente estável ao longo dos anos recentes.
influência que seria igualmente lamentável Os parentes de primeiro grau têm uma taxa
de omitir ou de ignorar. (Lasègue) mais elevada de anorexia do que a população
geral, o mesmo ocorrendo para os gêmeos, em
Após essas descrições pioneiras, que têm o particular homozigotos, mas não se consegue
mérito de valorizar a origem “moral e nervosa” explicar essa incidência elevada para uma pato-
da afecção, há um período de relativa confusão, logia essencialmente psicogênica.
dominado pelos trabalhos de Simmonds que, Finalmente, observa-se uma importante
em 1914, descreve uma síndrome nova: a ca- patologia co-mórbida: episódio depressivo sé-
quexia pan-hipofisária. Durante longos anos, a rio ou distimia (50 a 75%), com uma preva-
anorexia mental é confundida então com essa lência de 4 a 6% para os transtornos bipolares.
afecção orgânica, confusão que servirá por mui- Para os transtornos obsessivo-compulsivos, a
to tempo para fundamentar a convicção com- prevalência é de cerca de 25% (Halmi et al.,
partilhada por certos autores de uma origem 1991). Observa-se igualmente uma co-morbi-
orgânica endócrina da anorexia mental. dade importante com os transtornos ansiosos,
114 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

em particular fobia social. O uso abusivo de radoxo comum: enquanto o regime é cada vez
substâncias não é raro, mas na maioria das ve- mais draconiano, reduzido a algumas centenas
zes aparece associado às formas com crises de de calorias, e as ingestões cada vez mais limita-
bulimia e/ou uso de purgativos: 12 a 17% (Her- das e raras, o pensamento da anoréxica é cada
zog et al., 1992). vez mais invadido pela idéia de alimento e de
A família pertence, na maioria dos casos, às regime: contagem de calorias absorvidas, ava-
classes socioprofissionais médias ou abastadas. liação de atos necessários para eliminar o que
Ao contrário de várias outras patologias psiquiá- foi ingerido, etc.
tricas, os divórcios e separações dos pais não são O comportamento alimentar se modifica: a
mais freqüentes: as famílias com status matrimo- paciente seleciona cada vez mais os alimentos,
nial “normal” parecem sobre-representadas. En- disseca os pedaços em porções cada vez mais
contram-se com mais freqüência transtornos de reduzidas, separa interminavelmente o conte-
condutas alimentares nas famílias de anoréxicos údo de seu prato, mastiga incansavelmente, e
do que nas famílias controle: haveria assim três às vezes cospe de volta. As refeições familia-
vezes mais anoréxicos entre os parentes de pri- res constituem um momento de conflitos e de
meiro grau de um sujeito anoréxico e 2,7 vezes tensões, seja em razão da insistência dos pais,
mais de bulímicos (Strober, 1985). ou, ao contrário, de seus esforços para não dizer
Finalmente, certos meios socioprofissionais nada. O desfecho desses conflitos costuma ser a
ou culturais parecem “de risco”: modelos, baila- fuga de um dos membros para um outro cômo-
rinas (numerosas são as adolescentes anoréxicas do. É muito comum que a anoréxica acabe por
que praticam a dança clássica). se isolar na cozinha para preparar suas refeições,
comer ao abrigo dos olhares da família.
Se a redução alimentar normalmente é
A “síndrome anoréxica”: descrição clíni-
regular e progressivamente crescente, ela é en-
ca. – O quadro clínico é muito característico.
trecortada de crises bulímicas (ver p. 119), ver-
Ele se constitui em 3 a 6 meses, após um perío-
dadeira ruptura na tentativa de domínio. Essas
do marcado por um desejo de “fazer um regime”
crises são sempre vividas com um sentimento
para perder alguns quilos considerados supér-
de falha, de aversão e de vergonha, levando ao
fluos. Vale observar que em alguns casos existia
mesmo tempo a manobras para evacuar as calo-
uma real e discreta subobesidade infantil. Em
rias ingeridas (vômitos, laxantes, provas físicas
geral, esse desejo infantil é aceito pela família,
suplementares) e um recrudescimento posterior
tanto que às vezes outros membros (principal-
do comportamento restritivo.
mente a mãe) fazem um regime idêntico. Um
Quando o emagrecimento é importante,
acontecimento detonador pode ser incrimina-
no limite da caquexia, pode-se instalar uma
do: conflito ou separação familiar, luto, nasci-
verdadeira anorexia, com uma perda total da
mento, ruptura sentimental, etc., acontecimen-
sensação de fome (invoca-se a hipersecreção de
to que na maioria das vezes assume o aspecto de
certas endorfinas de ação anorexígena).
uma perda-separação.
O emagrecimento. – Inicialmente mode-
A restrição alimentar se agrava e a síndro-
rado, logo ele se torna espetacular. Ultrapassa
me anoréxica torna-se evidente. Ela associa:
20 a 30% do peso inicial, e pode chegar a 50%
nas formas de desnutrição profunda. Observa-se
A conduta anoréxica. – A restrição ali- uma fusão do panículo adiposo, uma amiotrofia
mentar, inicialmente moderada, torna-se metó- que dá aos membros um aspecto frágil, fino, que
dica, resoluta, perseguida com energia na inten- ressalta as articulações; os fâneros tornam-se se-
ção clara de emagrecer. Consagrado pelo uso, o cos, quebradiços, os cabelos foscos; uma hiper-
termo “anoréxico” não é, entretanto, adequa- tricose (hipercorticismo reacional), transtornos
do, pois normalmente a fome é sentida com in- circulatórios com extremidades frias aparecem
tensidade, pelo menos no início, e a paciente nos emagrecimentos severos.
procura controlar essa fome. Aliás, certos auto- A atitude da paciente em face do peso é ca-
res evocaram o “orgasmo da fome”, verdadeiro racterística: ela se pesa regularmente, sente-se
gozo obtido pela anoréxica de seu domínio so- satisfeita, triunfante e orgulhosa de si mesma
bre a necessidade fisiológica. Isso explica o pa- quando constata uma perda de peso; ela nega
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 115

o emagrecimento, e às vezes, inclusive, acha criatividade. Esse investimento no trabalho é o


que ainda está gorda, embora apresente um de- pretexto para um freqüente isolamento social,
ficit ponderal importante. Ela mantém com fre- para uma recusa às consultas e aos procedimen-
qüência um sentimento de dismorfofobia loca- tos terapêuticos que fazem “perder tempo”. Ele
lizada (coxas ou nádegas gordas, etc.), apesar da representa igualmente um setor em que a ado-
magreza evidente. Em contrapartida, a consta- lescente e os pais estão ligados por uma estima,
tação de uma retomada de peso é acompanhada uma admiração ou uma satisfação recíproca.
de um sentimento de opressão, de abatimento, Contudo, não é raro observar uma piora no de-
de desgosto e de cólera interior. sempenho escolar à medida que a escolaridade
Nas formas de caquexia e nas formas con- avança: enquanto no ensino fundamental os re-
temporâneas da puberdade, podem aparecer sultados eram brilhantes, no ensino médio eles
complicações somáticas (ver item “Evolução”, se tornam medíocres, culminando muitas vezes
neste capítulo). no fracasso relativo ou completo no início dos
estudos superiores. Fora a escolaridade propria-
mente dita, normalmente há pouco interesse
A amenorréia. – É um sinal constante,
por atividades culturais, de lazer ou de descon-
considerado por alguns como necessário ao
tração, salvo quando são acompanhadas de uma
diagnóstico. Ela pode ser primária, quando a
atividade física (dança).
anorexia mental surge no início da puberdade,
A hiperatividade física não muda nada
mas na maioria das vezes é secundária. A rela-
com o emagrecimento. É muito comum, in-
ção entre amenorréia e emagrecimento não é
clusive, que quanto mais magra é a anoréxica,
simples, pois a amenorréia pode aparecer desde
mais ela se sente “com energia” e se movimen-
o início do emagrecimento, seguir-se a ele após
ta: longas caminhadas, jogging; ela patina, dan-
alguns meses, ou até mesmo precedê-lo. Em ge-
ça, nada, preferindo os esportes solitários aos
ral, a amenorréia persiste mesmo com a retoma-
esportes coletivos. Essa atividade pode beirar
da do peso.
o ascetismo e chegar próximo aos maus-tratos
A adolescente costuma manifestar indi-
físicos: exposição ao frio, redução do sono, ba-
ferença em relação a essa amenorréia, e, em
nhos gelados, privações diversas, etc. Em cer-
alguns casos mais raros, até mesmo uma satis-
tos casos, pode aparecer um ativismo domésti-
fação. Porém, após a retomada do peso, a persis-
co (arrumação, cozinha, etc.), levando a uma
tência da amenorréia geralmente é sentida de
espécie de domínio sobre a vida familiar que
forma negativa pela paciente, como uma espé-
pode estar na origem dos conflitos com os pais,
cie de “resistência” do corpo a uma vontade de
com a fratria.
normalização ou de eliminação dos sintomas.
Às vezes, a exigência de um tratamento hormo-
nal substitutivo (pílula) pode ter essa significa- A percepção deformada da imagem do
ção: desaparecimento aparente dos sintomas e corpo. – Ela é habitual. Existe um temor obses-
normalização de superfície. sivo de ser gorda, que persiste mesmo quando
A esses três sintomas típicos, acrescenta- o emagrecimento é evidente. Esse temor pode
remos a hiperatividade, os transtornos de per- assumir o aspecto de dismorfofobias localiza-
cepção da imagem corporal, o desinteresse pela das (barriga, nádegas, coxas grossas demais). A
sexualidade e pelas atividades sociais. retomada de peso suscita um medo intenso de
engordar e de não ter mais limites.
A hiperatividade. – Ela é intelectual e/ou
física. Geralmente existe um hiperinvestimen- O desinteresse pela sexualidade. – Ele é
to no trabalho escolar: busca-se o desempenho freqüente. As transformações corporais da pu-
escolar por ele mesmo, sem sentir um verda- berdade são negadas, fonte de incômodo. As
deiro prazer no funcionamento intelectual. atividades sexuais são ignoradas, ainda que,
As pacientes passam longas horas estudando, no contexto social em evolução, seja menos
“decorando”, e obtêm melhores resultados nas raro encontrar anoréxicas que tenham rela-
matérias que recorrem ao saber e à memória ções sexuais. Nesse caso, trata-se de atividades
do que nas matérias que exigem imaginação ou conformistas, para “fazer como as outras”, sem
116 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

implicações afetivas a não ser uma eventual que é conseqüência da anorexia mental nas in-
gratificação narcísica. O desejo de encontrar terações familiares.
um corpo pré-pubertário às vezes é manifestado As alterações provocadas pelo sintoma são
diretamente, assim como a recusa de “crescer”. numerosas, focalizadas, evidentemente, em tor-
As relações sociais geralmente são escas- no da alimentação: ameaça e sedução, súplica e
sas, reduzindo-se aos contatos escolares, mera chantagem, solicitude e indiferença alternam-
camaradagem superficial. Eventualmente, um se no tempo e de um genitor a outro. A fratria
envolvimento social de caráter ideológico pode pode participar desses conflitos, quase sempre
mobilizar a energia da pessoa. acusatória. Brusset chama a atenção para a “exi-
gência paradoxal” que a anoréxica exerce sobre
a família e, sobretudo, sobre sua mãe: a magre-
A família da anoréxica. – Já nos primei-
za e o perecimento suscitam uma necessidade
ros trabalhos de Lasègue e de Gull, enfatizou-
culpabilizada de alimentá-la, o que a anoréxica
se a importância do contexto familiar. Fora as
recusa intelectualmente com extrema energia,
hipóteses etiopatogênicas, que levam em con-
e os pais podem se sentir culpados de deixar
ta a natureza das primeiras relações mãe-filho
esse corpo perecer, mas também culpados pelas
(Bruch, Doumic), que retomaremos no item
manobras de imposição ou sedução: a ligação
“Psicopatologia”, numerosos autores propuse-
de dependência culpabilizada entre os diversos
ram uma certa tipologia psicológica, centrada
membros da família só se reforça.
ora na própria mãe, ora no casal parental, ora
A dependência entre os membros da família
no conjunto da dinâmica familiar.
pode se tornar extrema, a ponto de um dos pais
As mães das anoréxicas são descritas como
acompanhar quase que permanentemente a pa-
ansiosas e hipocondríacas. Elas seriam ambicio-
ciente. Esta deseja controlar o conjunto da vida
sas e utilizariam comumente seus filhos como
familiar: refeições, lazer, passeios. As exigências
uma valorização narcísica de si mesmas (Sours).
não satisfeitas são seguidas de manifestações
A preocupação com a aparência física da crian-
de cólera. Em outros casos, fora a recusa de ali-
ça é excessiva. Elas seriam superprotetoras,
mentos, a anoréxica se mostra particularmente
tendo dificuldade de perceber as necessidades
dócil e submissa, e a família acomoda-se em um
próprias de sua filha e tendência a manter uma
clima de dimensão idílica e livre de conflitos, o
confusão entre ela e sua criança (Selvini). Em
que reforça a dependência e justifica a recusa de
outros casos, elas são descritas como “frias”,
cuidado ou de separação.
pouco interessadas na rêverie, no imaginário,
valorizando em sua filha o aspecto operatório.
Os pais são mais calorosos, normalmente Os sinais biológicos. – Apesar das inúmeras
permissivos e apagados, intervindo pouco nas explorações empreendidas, não se encontrou
decisões familiares. Existe muitas vezes uma li- até agora nenhum sinal específico. Os sinais
gação pai-filha de grande conivência, mesclada biológicos são a conseqüência da redução ali-
de elementos neuróticos (ligação edipiana pai- mentar e depois do emagrecimento. Contudo,
filha particularmente intensa). Falou-se também há também uma disfunção do eixo hipotálamo-
de pais “maternizados” (Kestemberg et al.). hipofisário que não se explica inteiramente pelo
O casal aparenta uma união satisfatória, emagrecimento, disfunção que desaparece com
mas freqüentemente superficial. O “bom enten- a melhora clínica.
dimento” de fachada geralmente mascara ten- Não vamos detalhar os múltiplos sinais bioló-
sões e conflitos intensos, mas não verbalizados. gicos (desordem hidroeletrolítica, hipoglicemia),
O desequilíbrio no casal é comum, e em geral elétricos (desordem eletrocardiográfica), sangüí-
um dos dois é muito perturbado: traços psicóti- neos (anemia, leucemia, hipoplasia medular).
cos, depressão (Jeammet). As interações fami- Podem aparecer também edemas de carências.
liares costumam ser muito rígidas e patológicas, Embora o déficit de cálcio não seja imedia-
necessitando uma abordagem terapêutica fami- tamente perceptível, são cada vez mais freqüen-
liar (Selvini). Contudo, é muito difícil avaliar, tes as descrições de um risco de osteoporose se-
em face de uma conduta tão alarmante e a um cundária decorrente da desnutrição associada à
estado físico tão degradado, o que é causa e o suspensão da função estrogênica.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 117

O temor de uma repercussão sobre o cresci- – A evolução intermediária é pontuada de


mento é tanto maior na medida em que a anore- episódios anoréxicos intercalados com reto-
xia é contemporânea à puberdade e ao impulso madas transitórias de peso, seja por causa das
do crescimento. Pode-se observar uma interrup- crises bulímicas da paciente, seja em razão de
ção brusca da curva de crescimento (as taxas de hospitalizações. Assim, a anoréxica atravessa
hormônio de crescimento costumam ser nor- sua adolescência e a entrada na idade adulta es-
mais, mas a somatomedina cai bastante). tabelecendo relações com o entorno familiar ou
médico nas quais a dimensão psicopatológica,
toxicômana ou perversa pode tornar-se predo-
Evolução. – Seria uma postura científica
minante.
um pouco superficial estudar separadamente a
evolução da anorexia e a estrutura psicopatoló- Na evolução a longo prazo, a percentagem
gica que essa conduta subentende, pois ambas de pacientes que se recuperam completamen-
estão intimamente ligadas. Entretanto, é im- te ainda é modesta (Herzog et al., 1996): de-
portante distinguir: pois de 4 anos, 44% têm uma boa recuperação
(peso sensivelmente normalizado, menstrua-
– As formas menores, bastante freqüentes. ções regulares), 24% mantêm sintomas (peso
Nelas se encontra a totalidade da sintomatolo- insuficiente, ausência de regras) e 28% ficam
gia. Elas aparecem com mais freqüência em uma no meio. Depois de 7,5 anos, há apenas 33%
jovem adolescente de 13-14 anos, filha única. O de pacientes com uma boa evolução (Herzog
episódio anoréxico estende-se por alguns meses, et al., 1999). Observa-se em todas as catamne-
depois desaparece, seja espontaneamente, seja ses cerca de 5% de mortes, metade por suicídio
após alguns rearranjos familiares recomendados e metade por complicações ligadas à desnu-
pelo pediatra ou pelo psiquiatra, na realidade trição. Além disso, essa mortalidade aumen-
pouco consultado nessa fase. ta com a duração do acompanhamento, atin-
– As formas graves caquetizantes. A instalação gindo 20% em uma pesquisa sobre mais de 20
na caquexia representa um risco evolutivo notá- anos (Theander, 1996).
vel. Em torno dessa caquexia, observa-se uma Mas, para além desses critérios descritivos,
redistribuição das relações familiares: o sintoma dois terços das pacientes continuam a ter preo-
permite uma abrasão da agressividade mãe-filha, cupações intensas com o peso e a alimentação,
e a magreza autoriza uma relação de conivência mais de 40% mantêm as crises bulímicas, e são
pai-filha da qual a sexualidade é excluída. freqüentes as patologias co-mórbidas de que são
Qualquer intromissão no equilíbrio familiar acometidas.
é visto como perigosa, mesmo na fase em que Wentz e colaboradores (2001), na pesquisa
a sobrevivência da adolescente parece aleató- de Göteborg, apresentam resultados similares so-
ria. Embora a morte seja menos freqüente que bre um acompanhamento de 10 anos (AM aos
outrora como resultado final e dramático, não é 15 anos de idade, revista aos 21 e depois aos 25
raro ter de recorrer aos serviços de reanimação anos): 27% de evolução ruim, 29% de evolução
intensiva.* Para a família, incluída a adolescen- intermediária e 43% de evolução favorável, se-
te, é um meio suplementar de negar a dimensão gundo critérios que levam em conta não apenas o
psicopatológica. Essas estadias em reanimação peso, a alimentação, o retorno das menstruações,
podem inclusive se repetir. A morte continua mas também as outras manifestações psíquicas,
sendo a evolução possível, sobretudo se uma o equilíbrio afetivo e social (critérios de Mor-
gan-Russel). Ao final do acompanhamento, um
doença intercorrente abala o frágil equilíbrio fi-
quarto das pacientes AM ainda tinha transtor-
siológico. A mortalidade é de 5 a 7% em média,
nos alimentares; durante os 10 anos desse acom-
segundo os diversos estudos, metade como con-
panhamento, cerca de metade dessas pacientes
seqüência direta da desnutrição, e metade ligada
AM apresentaram uma BN e três quartos apre-
ao suicídio, cuja dimensão tende a crescer con-
sentaram eventualmente sintomas bulímicos;
forme a duração da catamnese (Patton, 1988).
quase todas as pacientes apresentaram durante
esse acompanhamento um transtorno afetivo,
* N. de R. UTI. mas ao final do acompanhamento apenas 10%
118 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

delas ainda tinham um transtorno afetivo; mais Formas Clínicas


de um terço das pacientes AM apresentaram um
diagnóstico de transtorno obsessivo compulsivo A anorexia mental masculina. – Nos me-
(TOC), sintomas que quase sempre precediam ninos, a anorexia mental é muito mais rara do
os da AM. que nas meninas, e pode atingi-los em uma
Contudo, estudos catamnésticos de longo proporção que oscila entre 3 e 20% dos casos,
prazo mostram também a possibilidade de um segundo os autores.
desaparecimento progressivo dos sinais clíni- Pode-se tratar de formas típicas de anore-
cos: assim, para Jeammet e colaboradores, em xia, mas os meninos são menos ativos que as
70% dos casos as regras reaparecem 12-18 me- meninas. Apesar disso, não é raro que o com-
ses após o último episódio, em 80% dos casos portamento anoréxico do menino se instale seja
o peso e as condutas alimentares se estabilizam no interior de uma organização psicopatológica
em torno de uma relativa normalização, e 50% mais definida, tal como uma psicose, marcada
das anoréxicas podem ser consideradas como então por um investimento delirante do alimen-
curadas com uma distância média de 11 anos to ou da incorporação, seja no prolongamento
(Jeammet, 1993; Agman et al., 1994). de uma anorexia da primeira infância. O temor
Posteriormente, a paciente se casa (60% da obesidade parece estar em segundo plano,
dos casos) e “funda uma família” em um clima sendo superado pela importância da angústia e
de conformismo social. Com uma distância de das manifestações hipocondríacas, encontradas
10 anos, 69% têm pelo menos um filho. A pro- com mais freqüência do que na menina.
cura por uma procriação medicamente assistida A anorexia pré-púbere. – Representa de 5 a
é cada vez mais freqüente, quando persiste uma 10% dos casos. É considerada grave pela rigidez
esterilidade psicogênica, que não deixa de colo- dos mecanismos psíquicos individuais e familia-
car problemas delicados. res encontrados, pela gravidade dos transtornos
da personalidade associados (patologia narcí-
– Alguns elementos de prognóstico: fora a es- sica grave, psicótica). A repercussão somática
trutura psicopatológica, os fatores de mau prog- é grande, sendo dominada pela interrupção do
nóstico, a presença de vômito, uma má resposta crescimento. Isso costuma ser reversível, mas
ao tratamento inicial, distorções nas interações nem sempre totalmente: é comum uma perda
familiares antes do início da doença parecem do ganho estatural normal.
ter um peso inicial muito baixo (Hsu LKG,
1990). As pacientes anoréxicas com manobras
purgativas têm maior probabilidade de desen- Diagnóstico psiquiátrico. – O diagnóstico
volver complicações médicas graves. Em geral, positivo e diferencial normalmente não oferece
as adolescentes têm um prognóstico melhor que nenhuma dificuldade, mas é preciso estar sufi-
as adultas, e as jovens adultas um prognóstico cientemente atento para reconhecer os casos
melhor que as mais velhas (Nussbaum et al., de caquexias secundárias de origem orgânica
1985; Kreipe et al., 1989). Contudo, numero- (tumores centroencefálicos, por exemplo). É
sos pacientes têm uma evolução independente preciso distinguir também, segundo H. Bruch e
desses critérios. J. Sours, a anorexia mental verdadeira da restri-
ção alimentar decorrente de um investimento
Já os fatores externos, como a natureza, a delirante do alimento ou de certos alimentos,
qualidade, a coerência e a duração do trata- como se observa em certas psicoses paranóicas
mento, são essenciais ao prognóstico, segundo em particular.
Jeammet e colaboradores. Assim, as mudanças O diagnóstico segundo os termos da noso-
de hospitais e as condutas de “imposição ali- grafia psiquiátrica tradicional deu origem a vá-
mentar” parecem levar a recaídas cada vez mais rios trabalhos. Podemos distinguir duas grandes
graves e a enrijecer o funcionamento psíquico. posições teóricas: 1) os autores que fazem da
Porém, é difícil encontrar apenas nos fatores “Anorexia Mental” uma entidade autônoma,
externos indicadores confiáveis de prognósti- sem relação com a nosografia clássica; 2) os au-
co. É necessária a avaliação psicodinâmica da tores que consideram a conduta anoréxica como
adolescente. um sintoma e, para além da descrição semioló-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 119

gica, procuram relacionar a “Anorexia Mental” de outras condutas aditivas: álcool, toxicoma-
a uma categoria nosográfica conhecida. nias, automutilação ou tentativas de suicídios
Na segunda corrente, foram propostos nu- de repetição;
merosos diagnósticos. Lasègue já classificava a – a personalidade borderline é descrita
entidade que descrevia no grupo das histéricas como um “fator associado” em 2 a 60% dos ca-
(“Anorexia histérica”). Levantou-se a possi- sos (o que mostra, entre outras coisas, os limites
bilidade de uma neurose compulsiva (Palmer inerentes a esse modelo puramente descritivo e
e Jones). A hipótese de uma psicose esquizo- estatístico).
frênica ou de uma forma particular de psicose
maníaco-depressiva também foi sugerida. E se
Hipóteses etiológicas orgânicas. – Con-
considerou ainda a hipótese de uma forma par-
ticular de perversão. siderada, a partir dos trabalhos de Simmonds
Na realidade, os autores atuais tendem a sobre o pan-hipopituitarismo, como o resulta-
considerar a anorexia mental não em termos do de uma desordem neuroendócrina central,
de diagnóstico psiquiátrico tradicional, mas a anorexia mental não mais é reduzida atual-
segundo uma constelação de sintomas ou de mente à mera expressão somática. Contudo,
traços psicopatológicos que, em função dos diante da conduta anoréxica que a paciente
agrupamentos predominantes, situam esses pa- racionaliza, às vezes conscientemente, como
cientes em um continuum diagnóstico (Sours), resultado de uma ausência de sensação de fome,
geralmente próximo do grupo dos estados-li- mas também diante da existência de episódios
mite. Assim, para Kestemberg e colaboradores bulímicos, certos autores levantam a possibili-
(1972), as anorexias mentais evocam “organi- dade de um desregramento dos centros da fome
zações complexas e específicas”, de um lado, e da saciedade.
aproximando-se de certas neuroses de caráter, As modificações das taxas intracerebrais de
de outro, fazendo pensar em certas estrutura- certos neuropeptídeos, em particular endorfíni-
ções psicóticas da personalidade. Esses autores cos, observados em casos de anorexias graves,
falam de “psicose fria”, caracterizada por uma podem ir nesse sentido. Contudo, parece prová-
organização fantasmática sempre fixa, imutá- vel que essas modificações são a conseqüência,
vel, permitindo a ocultação de conflitos, uma e não a causa da perturbação alimentar.
relação fetichista com o objeto, que se encontra
fora do sujeito e ao mesmo tempo o representa, Elementos de reflexão psicopatológica.
ilustrando assim a relação de dependência. – Em 1965, o simpósio de Gottingen formulou
Essa perspectiva explica a freqüente co- conclusões que ainda são pertinentes:
morbidade, evocada a partir de um modelo
rigorosamente descritivo. Assim, descreve-se – a anorexia mental exprime uma incapa-
uma associação com: cidade de assumir o papel sexual genital e de
integrar as transformações da puberdade;
– transtornos de humor (episódio depres- – o conflito situa-se no nível do corpo que
sivo maior ou distimia segundo os critérios do é recusado e maltratado, e não no nível das fun-
DSM-IV)*: 50 a 75% dos casos; ções alimentares (sexualmente investidas);
– transtornos da sexualidade; – a estrutura da anorexia mental é diferen-
– condutas aditivas: quando a anorexia te da de uma neurose clássica.
mental permanece isolada, essas condutas são
pouco freqüentes. Em compensação, quando os Sobre essas bases, podem-se distinguir
comportamentos bulímicos alternam-se com a atualmente quatro grandes modelos em torno
anorexia, é comum observar-se o surgimento dos quais se articula a compreensão psicogené-
tica da anorexia mental. Evidentemente, esses
modelos não se excluem, mas, ao contrário,
* N. de T. Quarta edição do Diagnostic and statistical
manual of mental disorders, publicado pela American é comum vê-los associados: 1) um modelo de
Psychiatric Association em 1994. No Brasil, publicado compreensão centrado no estudo das intera-
pela Artmed sob o título Manual diagnóstico e estatístico ções alimentares precoces mãe-bebê, depois na
de transtornos mentais. interações família-criança: dos desvios iniciais
120 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

decorrem as modalidades atuais da dinâmica fa- dos bebês-meninas parecia mais conflituoso e
miliar e individual. Trata-se aqui, portanto, do controlado que a dos bebês-meninos. Evidente-
anoréxico em sua família e através de sua his- mente, essa constatação não seria suficiente por
tória; 2) um modelo de compreensão ligado à si só: não podemos esquecer os fatores culturais,
problemática da imagem do corpo e ao lugar da aqueles ligados aos imprevistos da sexualidade
sexualidade; 3) um modelo de compreensão psi- feminina, etc.
canalítica sincrônica, em que se descreve uma Contudo, são muitos os autores (Brusset,
organização fantasmática particular própria à Jeammet) que insistem nos erros nos processos
anorexia mental; 4) um modelo “aditivo” em de identificação primários mãe-filha, marcados
torno do conflito ligado à dependência, inte- por uma ligação de dependência em que domi-
grando a conduta anoréxica às “novas adições” na a ambivalência. A natureza dessas ligações
(cf. Capítulo 14). primárias explicaria as freqüentes falhas narcísi-
cas observadas nessas pacientes, falhas respon-
sáveis pelas percepções deformadas da imagem
As hipóteses ontogenéticas. – Não vol-
de si e do corpo.
taremos aqui à descrição já feita sobre as par-
ticularidades familiares. H. Bruch remonta a
origem dos transtornos a um desconhecimento A anoréxica e seu corpo. – A concordân-
das necessidades do corpo, e a um transtorno cia da anorexia mental e da adolescência levou
secundário à percepção da imagem do corpo. a considerar essa doença como uma espécie de
Esse desconhecimento estaria ligado às primei- neurose atual relacionada com a maturação pu-
ras experiências distorcidas do bebê: ele teria bertária, hipótese que vai no sentido de uma
recebido da mãe respostas inadequadas, caóti- origem psicossomática da anorexia mental. As
cas, negligentes ou excessivas às suas diversas condutas de ascetismo tão freqüentes em nume-
demandas. Essas aprendizagens precoces erradas rosos adolescentes (cf. item “A necessidade de
não permitiriam ao bebê, e depois à criança e domínio”, neste capítulo) tornam-se caricatu-
ao adolescente, reconhecer as necessidades de rais na anorexia mental (Mogul), ascetismo que
seu próprio corpo. A criança aprenderia a res- permite negar as necessidades corporais, depois
ponder exclusivamente às sensações e às ne- a feminilidade, e ignorar os desejos genitais.
cessidades corporais da mãe e não às suas; isso Segundo M. Selvini, o corpo é objeto di-
provocaria perturbações no estabelecimento reto de ódio: ele é possuído por um mau objeto
dos limites do ego, da identidade fundamental (“uma má mãe”), perseguidor interno confun-
e da imagem do corpo. Sabemos que na anore- dido com o corpo. Esse mau objeto está liga-
xia mental existe uma percepção deformada, às do geneticamente à relação precoce mãe-filho.
vezes quase delirante, da imagem do corpo, com Existe um estado de desespero do ego, fonte de
uma negação do emagrecimento e um temor depressão em face da ameaça de um corpo que
constante de ficar gordo. Essas perturbações no engorda.
reconhecimento e na discriminação cognitiva A anoréxica luta contra a sensação de fome,
dos estímulos corporais dizem respeito à fome e vivida como um estado de falta oral em razão da
à saciedade, mas também ao cansaço, à fraqueza dimensão persecutória que assume a incorpora-
e ao frio. A incapacidade de integrar e de com- ção do objeto. De fato, segundo esse autor, há
preender os diversos estados afetivos explicaria uma clivagem no ego entre o sujeito e o corpo,
também, segundo H. Bruch, a falta de interesse marcada por uma projeção extrapsíquica, mas
pela sexualidade. que se mantém intracorporal, das partes más do
De maneira menos específica, certos au- eu e dos objetos.
tores (Brusset) explicaram a prevalência da Contudo, B. Brusset destaca a existência,
anorexia mental no sexo feminino depois de subjacente a essa clivagem, de um investimento
constatar que a má adaptação entre a mãe e narcísico focalizado no corpo, verdadeira su-
seu bebê-menina é maior do que entre ela e jeição ao corpo que permite negar a imposição
seu bebê-menino no que diz respeito às moda- dos desejos e dos investimentos de objetos. Essa
lidades de alimentação. De fato, O. Bruner e I. sujeição ao corpo obriga a adolescente a buscar
Lézine (1965) observaram que a alimentação “sensações corporais que, por isso mesmo, são
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 121

concretizadas e desconectadas das representa- vida fantasiosa dominada pelo inchaço narcísi-
ções que lhes correspondem” (Brusset, 1993). co, em que a anoréxica busca a fusão de seu ide-
O corpo torna-se então o suporte de uma es- al de ego e de seu ego presente, tal como o corpo
pécie de idealização megalomaníaca defensiva. desencarnado o idealiza: esse corpo assexuado,
Corpo idealizado, desencarnado, indestrutível, sem desejo revela sua megalomania onipotente.
depurado, ele se torna uma abstração sobre a No mais secreto da anoréxica estaria situado o
qual se concentra a necessidade de domínio, de prazer mesclado de perversão obtido no orgasmo
ascendência, em uma identificação com a ima- da fome (Kestemberg et al.), em que a satisfação
gem da onipotência materna. A anoréxica chega é proporcionada pela não-satisfação:
a essa posição paradoxal: de um lado, um corpo
idealizado, objeto de desejo, de outro, um corpo Essa organização particular de fato as-
real, objeto de denegação (Kestemberg et al.). semelha-se a uma megalomania secreta,
Haveria, assim, uma espécie de círculo vicioso agindo constantemente à sombra do estado
que se pode resumir da seguinte maneira: maus lastimável do corpo mal-amado, cujo prazer
objetos internos ameaçadores, projeção extrapsí- se concentra na embriaguez muda da fome
quica mas intracorporal destes, clivagem proteto- buscada, perseguida e encontrada, mas se
ramifica também na vertigem da domina-
ra entre o corpo e o sujeito, ascetismo e domínio ção do animal pelo cavaleiro (o animal
desse corpo, idealização narcísica compensatória sendo o corpo e as necessidades dominadas
do corpo desencarnado, identificação por inter- pelo sujeito). (E. Kestemberg et al.)
médio desse corpo com a onipotência materna,
temor reforçado do mau objeto interno, etc. É o
que B. Brusset chama de “processo anoréxico”, A “adição anoréxica”. – Embriaguez e ver-
que culmina em uma espécie de nivelamento e tigem descritas na citação anterior fazem emer-
de abrasão de diferenças, processo que explicaria gir a importância das sensações. Esse recurso às
o monomorfismo dos diversos casos de anorexia sensações, espécie de erotismo primário narcísi-
mental que chegaram ao período de estado. co, está no centro da compreensão atual dessa
A anoréxica e suas fantasias. – Sob a apa- patologia, verdadeiro modelo do conflito típico
rente riqueza da vida fantasmática tal como ela do adolescente, isto é, o conflito narcísico-ob-
pode aparecer durante as primeiras entrevistas, jetal base do trabalho identificador (ver item
a dificuldade associativa logo se torna aparente “Identidade-identificação”, no Capítulo 1). A
em psicoterapia. Essa dificuldade associativa se necessidade objetal, avivada por uma oralidade
deve à importância da racionalização, que opera invejosa, é sentida como uma ameaça para um
um verdadeiro controle sobre o funcionamento narcisismo frágil. A anoréxica nega a dependên-
mental, e em pouco tempo deixa entrever a uti- cia a qualquer investimento de objeto, mas logo
lização predominante de mecanismos ditos ar- se instala em uma dependência a essa negação
caicos: clivagem, projeção, identificação proje- que é atualizada, não sob a forma de pensamen-
tiva, negação, idealização. Essas racionalizações to ou de emoção, mas sob a forma de sensações:
são sustentadas por um investimento defensivo essa sensação de fome (“orgasmo da fome”)
do erotismo anal de domínio e de controle, tan- cria um verdadeiro “neo-objeto de substituição
to da própria pessoa quanto do entorno. O con- representando um arranjo de tipo perverso da
trole e o domínio (do corpo, das necessidades relação” (Jeammet, 1993). Graças a essa sensa-
fisiológicas, da família, do “corpo” médico) ali- ção intracorporal, a adolescente anoréxica não
mentam o ideal do eu, e sua relativa fusão com o tem necessidade de nada e se sente onipoten-
ego atual leva a uma espécie de indistinção pro- te. O conflito ligado à dependência desloca-se
funda, inclusive entre as diversas zonas erógenas para o alimento e considera a fome como de-
(Kestemberg et al.): confusão freqüente entre safio. Trata-se de uma verdadeira conduta de
genitalidade e oralidade, impressão de ser ape- “auto-sabotagem”, não apenas das necessidades
nas um tubo com orifícios quase intercambiáveis fisiológicas, mas também das capacidades de
(ver as múltiplas práticas anais que visam, como elaboração psíquica, inscrevendo a anoréxica
o vômito, esvaziar o tubo: laxantes, lavagens). em uma dependência paradoxal sobre a qual ela
Finalmente, para Kestemberg e colaboradores, mantém o domínio: a dependência à sua recusa
todos esses mecanismos estão a serviço de uma e às sensações que decorrem disso.
122 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Tratamento. – Seremos muito esquemá- tamento físico ou um cansaço intenso expres-


ticos. Não voltaremos aqui à impressionante sado pela paciente; 3) a fortiori transtornos da
panóplia de métodos coercitivos utilizados para atenção e da consciência. Não se pode ignorar
“fazer as anoréxicas engordarem”. Salvo casos a existência de fatores de agravamento ou de des-
de caquexia avançada em que a sobrevivência compensação, alguns do âmbito relacional, ou-
está em jogo, sendo necessárias então medidas tros do âmbito somático. Trata-se, em particu-
de reanimação apropriadas em um meio espe- lar: 1) de rupturas ou de separações mesmo que
cializado, medidas às quais as anoréxicas geral- temporárias (férias do terapeuta, por exemplo);
mente se submetem de “bom grado”, os méto- 2) de calendário social ou escolar (exame, con-
dos impositivos e coercitivos são pouco a pouco curso); 3) de esforços físicos intensos, sobretu-
abandonados. do se eles ocorrem em altitude; 4) de episódios
Eles são contra-indicados se não for por somáticos intercorrentes (episódios infecciosos,
absoluta necessidade orgânica, pois o recurso diarréia). Nesses diversos eventos, deve-se pen-
a tais métodos constitui sempre uma terrível sar em uma hospitalização ou, pelo menos, um
complicação para o tratamento de longo prazo. reforço do acompanhamento ambulatorial.

O acompanhamento ambulatorial. – Ele A hospitalização e a separação. – Conside-


repousa sobre uma abordagem plurifocal e um rada por muito tempo como a pedra angular da
contrato de retomada do peso: exige-se da pa- ação terapêutica, seu rigor flutua, segundo os au-
ciente uma retomada progressiva e regular do tores, do isolamento quase carcerário à simples
peso, sem o que será necessária uma hospitali- estadia na clínica ou às seqüências de tratamen-
zação com afastamento do meio familiar. Pode- to integrador baseado na conjunção das abor-
se determinar também um peso “mínimo”. A dagens médicas, nutricionais, psicoterápicas e
retomada do peso é regularmente “controlada” familiares (Le Heuzey, 2002). O risco é centrar
(com uma freqüência que depende da impor- essa hospitalização no ganho de peso (sempre
tância do emagrecimento: semanal, bimensal, possível) e esquecer a necessidade concomitan-
mas raramente menos no início), de preferên- te de estabelecer uma relação terapêutica (sem-
cia por um médico somático (pediatra, genera- pre aleatória). Durante essa hospitalização, uma
lista) trabalhando em sintonia com os outros maternagem intensa e de boa qualidade pode
técnicos. ter um efeito reparador, e permitir à anoréxica
Uma consulta psiquiátrica com encontros desencadear um movimento autenticamente
apenas com a adolescente, depois com os pais depressivo no qual a psicoterapia encontra-
e a adolescente (bimensal ou mensal), faz parte rá suas primeiras bases. Dada a intensidade de
do “contrato de tratamento” imposto, associan- contra-atitudes que a anoréxica suscita, é indis-
do uma “orientação parental” e, junto à adoles- pensável a análise institucional destas.
cente, uma primeira abordagem dos conflitos e O isolamento e a hospitalização jamais
das zonas de sofrimento. É proposta uma psico- constituem um fim em si. Para Girard, a hospi-
terapia individual, que geralmente é recusada talização deve ter metas limitadas e precisas:
em um primeiro momento. Contudo, essa psi- – deter a queda de peso, interromper o
coterapia é apresentada como um momento in- agravamento dos comportamentos relacionais
dispensável da abordagem terapêutica. familiares;
Graças a esse quadro aceito pelos pais e im- – demonstrar a possibilidade de reversão da
posto à adolescente no início, mas depois admi- patologia somática pela abordagem psicológica;
tido por ela, as formas moderadas de anorexia – inserir a hospitalização no conjunto de
normalmente regridem. Porém, quando o peso um projeto terapêutico em que a psicoterapia
se mantém inalterável por muito tempo (3 a 4 continue sendo o elemento principal;
meses) ou quando o emagrecimento prossegue, – finalmente, tratar um estado depressivo
é necessário recorrer à separação. secundário, se for o caso.
A hospitalização torna-se indispensável, ou
mesmo urgente, quando se observa: 1) um ema- Em geral, há um contrato de hospitalização
grecimento importante e rápido; 2) um esgo- e de separação, que inclui um peso de saída. Às
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 123

vezes, os patamares de peso são definidos pela A prescrição medicamentosa. – Ela deve
retomada sucessiva de contatos familiares por ser reduzida ao estritamente necessário, tanto
carta ou por telefone, de visitas e saídas experi- do ponto de vista somático quanto psicoló-
mentais. Os autores contemporâneos insistem gico. Qualquer regime alimentar particular é
sobre o valor simbólico desse contrato e aler- desaconselhado: a paciente deve voltar a se
tam contra o risco de cair em uma vigilância alimentar progressivamente e espontanea-
de caráter policial da anoréxica, o que tende a mente a partir da refeição-padrão. Não se re-
induzir uma relação de caráter perverso. A base comenda nenhum aporte específico (vitami-
desse contrato é a retomada progressiva e mo- nas, cálcio, etc.), a não ser em caso de grave
derada do peso. Desse ponto de vista, é neces- desnutrição.
sária uma vigilância regular do peso (cerca de A prescrição de antidepressivos segundo as
uma vez por semana), realizada por um membro modalidades habituais (ver item “Tratamentos
referente da equipe de tratamento. É impossí- medicamentosos”, no Capítulo 9) pode ser ne-
vel fixar a duração provável da hospitalização, cessária. Contudo, essa prescrição não deve en-
apesar das demandas insistentes da anoréxica e travar o trabalho psicodinâmico de elaboração
de sua família, pois essa duração depende evi- depressiva, nem a fortiori substituí-lo. De fato,
dentemente do ritmo da retomada de peso. A essa elaboração depressiva representa muitas
hospitalização dura em média entre 3 e 6 meses. vezes uma fase necessária e dinâmica da pro-
Não é excepcional observar-se uma estagnação gressão psicoterápica.
do peso quando este se aproxima do peso esta-
belecido pela saída. Essa estagnação temporária
testemunha a ambivalência inconsciente da A Bulimia
anoréxica desejosa de sair (o que ela reclama),
mas que não quer perder o apoio da instituição
(como mostra a estagnação ponderal) e se an- Descrita inicialmente por M. Wulff (1932),
gustia com a idéia da separação. e depois retomada por G. Russel (1979) sob o
Esse momento inscreve-se no “tratamento nome de Bulimia nervosa, a bulimia surge com
institucional” posto em prática durante a hos- mais freqüência em adolescentes no momento
pitalização com o estabelecimento de uma rela- da puberdade (12-14 anos) ou perto da conclu-
são do ensino médio (18-19 anos). A predomi-
ção de apoio regressivo com certos atendentes
nância feminina que, na adolescência, é de 3
(referentes), a diversificação dos investimentos
a 4 meninas para um menino (Ledoux e Cho-
na pluralidade de lugares e de pessoas (oficinas
quet), aumenta com a idade.
diversas, grupo institucional, lugares de ex-
pressão, etc.), o recrudescimento de angústias
de abandono no momento da saída, etc. Esse A síndrome bulímica. – Ela é dominada
tratamento institucional serve para preparar e por acessos de fome canina (binge eating: ver
apoiar a psicoterapia individual. descrição neste capítulo), que respondem a três
critérios:
Os pais. – Parece indispensável proporcio- – a necessidade intensa e irresistível de
nar aos pais uma ajuda terapêutica durante todo absorver grandes quantidades de alimento com
o processo de hospitalização de sua filha. Essa um sentimento de perda de controle da capaci-
ajuda deve aproximar-se o máximo possível dade de se limitar;
daquilo que eles podem aceitar (apoio, orien- – as manobras para evitar um ganho de
tação, verdadeira psicoterapia do casal ou de peso ligado a essa absorção excessiva (vômitos,
um dos genitores), mas tem de ser apresenta- abuso de laxantes, regimes alimentares mais ou
da como um dos elementos indispensáveis do menos estritos e/ou fantasiosos no intervalo das
quadro terapêutico (o equivalente para os pais crises, atividade esportiva);
do contrato de peso para a adolescente). A par- – o temor dessas pessoas de engordar asso-
ticipação em um grupo de pais de anoréxicas ciado a uma dificuldade conscientemente senti-
é muito benéfica quando se dispõe de uma tal da na vivência da imagem do corpo. A relação
possibilidade. negativa com seu corpo e com a imagem de seu
124 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

corpo parece um elemento importante do prog- A evolução de longo prazo é bem menos
nóstico, em particular nos meninos. conhecida que a da AM. Com uma distância de
1 a 2 anos, 25 a 30% dos pacientes apresentam
O DSM-III-R e depois o IV acrescentam a uma melhora (Yager et al., 1987), sendo que
esses critérios uma exigência de freqüência: dois de 50 a 70% dos pacientes melhoraram após a
episódios por semana durante pelo menos três avaliação a curto prazo de diversas estratégias
meses. Outros autores levam em conta antes terapêuticas (psicoterapias breves, apoio psi-
de tudo a vivência penosa e imposta pela crise cossocial, tratamento medicamentoso), mas
bulímica com o sentimento de um comporta- as recaídas atingem de 30 a 50% dos pacientes
mento “patológico” na paciente (Jeammet), após seis meses (American Psychiatric Asso-
mesmo quando as crises bulímicas são menos ciation, 2000). Com um acompanhamento de
freqüentes. 6 anos, 60% dos pacientes tiveram uma evolu-
ção considerada boa, 29% média e 10% ruim, e
Os estudos epidemiológicos. – Eles relatam 1% faleceu (Fichter e Quadflieg, 1997), e com
uma prevalência bastante importante, quando 7,5 anos de evolução, Herzog e colaboradores
não se retém o critério de freqüência do DSM- (1999) constatam 74% de prognóstico bom.
III-R, particularmente na população-alvo: es- Segundo esses autores, 99% dos pacientes BN
tudantes de ensino médio e superior. Assim, teriam uma melhora sensível.
a prevalência é estimada por Timmerman em A diferença entre meninos e meninas diz
11,4% nas meninas e em 7% nos meninos en- respeito à freqüência, mas também à evolução
tre 14 e 20 anos, quando se retém apenas 4 dos com o tempo: no conjunto, as percentagens de
5 critérios do DSM-III-R. Essa prevalência cai freqüência de crises são mais estáveis nos meni-
para 2% nas meninas e para 0,1% nos meninos nos, enquanto nas meninas elas evoluem, che-
quando se inclui o critério de freqüência. Do gando a um máximo por volta de 16-17 anos,
mesmo modo, sobre uma população adolescen- ao mesmo tempo em que a freqüência de apare-
te de 11 a 20 anos, S. Ledoux e M. Choquet cimento de vômitos e/ou uso de laxantes cresce
destacam uma prevalência de acessos bulímicos regularmente com a idade nas meninas.
de 28,2% nas meninas e de 20,5% nos meninos
para episódios pouco freqüentes nos últimos 12 Antecedentes de Abuso Sexual na
meses, depois de 9,8% e de 7,2% para episódios Infância
mais freqüentes e de 3,6% e 2,8% para acessos
semanais. Contudo, Flament e colaboradores Nos anos de 1980-1990, várias publicações,
(1993) avaliam a prevalência da bulimia ner- essencialmente anglo-saxônicas, relataram ante-
vosa em uma população geral de adolescentes cedentes de abuso sexual na infância de pacien-
entre 11 e 20 anos em 1,1% para as meninas e tes com problemas de comportamento alimentar,
em 0,2% para os meninos. principalmente bulimia, mas também anorexia.
Os parentes de primeiro grau apresentam Contudo, os resultados são no mínimo divergen-
com mais freqüência problemas idênticos, as- tes, pois as cifras obtidas variavam de 7 a 65%,
sim como os gêmeos. As famílias de pacientes sendo que a maioria dos estudos estimava a fre-
com BN têm taxas mais elevadas de abuso de qüência de antecedentes de abuso em torno de
substâncias, em particular alcoolismo (Mi- 30%. E é importante distinguir os abusos sexuais
tchell et al., 1988; Lilinfeld et al., 1997), trans- intrafamiliares dos abusos sexuais extrafamilia-
tornos afetivos (Hudson et al., 1987) e obesi- res, sendo que os primeiros parecem constituir
dade (Pyle et al., 1981). Encontra-se a mesma um fator de risco mais importante. Finalmente, é
co-morbidade que na AM, porém, com taxas preciso diferenciar, sobretudo, abuso sexual pro-
ainda mais elevadas para abuso de substância, priamente dito e atmosfera incestuosa. Segundo
que atingem de 30 a 37% (Halmi et al., 1991; Corcos e Jeammet (2002), a percentagem de
Herzog et al., 1992). Nos antecedentes infan- meninas com transtorno da conduta alimentar,
tis, encontram-se com mais freqüência do que particularmente bulimia, que sofreram violên-
nos casos de AM casos de abusos sexuais: 20 a cias sexuais caracterizadas durante a infância ou
50% (Bulik et al., 1989). a adolescência é mais ou menos similar à que se
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 125

observa na população geral (em torno de 7%). idéias de suicídio com ou sem passagens ao ato.
Isso deve ser diferenciado de um clima inces- Já em 1979, Russel assinalava a freqüência de
tuoso, de manobras de sedução incestuosa que depressão entre os bulímicos (de 25 a 75% dos
parecem mais freqüentes (embora não se saiba casos). As manifestações de disforia, de instabi-
com muita exatidão qual é a freqüência dessas lidade afetiva, seriam ainda mais freqüentes.
situações na população geral!). A ligação entre depressão e bulimia está
aberta à discussão: elementos depressivos secun-
dários às condutas bulímicas ou, ao contrário,
Associações Patológicas estado depressivo mascarado pelos transtornos
Com as alterações de peso. – Verdadeira alimentares, a questão continua em debate.
síndrome de preenchimento aditivo (Brusset),
a bulimia nem sempre é acompanhada de uma O contexto familiar. – Ele parece ser dife-
alteração de peso. O que é muito comum é que rente daquele dos pacientes anoréxicos men-
um ganho de peso relativamente importan- tais. Inúmeros autores assinalam a freqüência
te acompanhe o início dos acessos bulímicos. de antecedentes psiquiátricos familiares (alcoo-
Contudo, apenas 15% dos bulímicos são obesos lismo, depressão materna, suicídio, etc.). As fa-
e cerca de 15% apresentam um déficit ponderal. mílias de bulímicos parecem ser mais caóticas,
A ligação com a anorexia mental é complexa, impulsivas e abertamente conflituosas do que
e certas formas parecem suceder uma anorexia as famílias de anoréxicos. L. Igoin distingue, de
mental típica; em outros casos, observa-se uma um lado, lares muito unidos, união que freqüen-
alternância de estado anoréxico e de período temente mascara grandes tensões (perfil similar
bulímico. às famílias de anoréxicos), de outro, lares des-
Ainda que numerosas bulímicas pareçam truídos, às vezes com manifestação violenta de
capazes de controlar o peso, mantendo-o rela- separação dos pais.
tivamente estável apesar do caos das ingestões Nestes últimos casos, é comum observar-se
calóricas, algumas apresentam flutuações pon- uma dimensão de abandono.
derais importantes e rápidas (mais ou menos
20kg em algumas semanas). Essas seriam as pio-
res formas de prognóstico. A organização psicopatológica. – A orga-
nização psicopatológica subjacente mostra-se
muito variável de uma paciente a outra, porém,
Com as outras dependências. – Outras com uma tendência à uniformização aparente,
condutas aditivas costumam estar presentes: que será tanto maior quanto mais antiga for a
automedicação por tranqüilizante ou sonífero evolução e quanto mais as crises se repetirem.
(50% da população segundo Aimez), alcoolis- As crises bulímicas tornam-se pouco a pouco
mo regular ou consumo de álcool em grande “o canal final comum de descarga de todas as
quantidade, farmacodependência (anorexíge- excitações” (Brusset), focalizando todos os in-
nos ou anfetaminas). Para alguns autores, a bu- vestimentos do sujeito.
limia encontra seu lugar nas múltiplas condutas Os autores chamam a atenção para a di-
aditivas descritas na adolescência, e inscreve-se
versidade de organizações psicopatológicas
em uma patologia da dependência, verdadeira
subjacentes no início das crises. Originalmente
“toxicomania alimentar”.
considerada como um sintoma histérico, a crise
de bulimia foi descrita também no quadro de
Com a depressão. – Certos sintomas de- organização neurótica de dominante ansiosa e
pressivos são descritos pela maioria dos pacien- às vezes obsessiva, no quadro de patologia do
tes bulímicos (desvalorização, culpabilidade, caráter e, sobretudo, de patologia narcísica e
desespero). A desvalorização da imagem do “limite”, em particular com a tendência às pas-
corpo é muito freqüente e há o desejo de mu- sagens ao ato, à impulsividade...
dar de peso (nas meninas é sempre o desejo de A relação estabelecida pelas pacientes bulí-
emagrecer, nos meninos é sempre o desejo de micas com o entorno é bem característica, “aná-
engordar). Outros sintomas depressivos são ob- loga à ligação que elas mantêm com o alimento,
servados com freqüência: transtornos do sono, e que alterna com a mesma intensidade avidez e
126 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

rejeição” (Jeammet): avidez de um contato que ausência de perturbação tímica. Porém, convém
pode parecer rico, diversificado, fluido, aprofun- prescrever produtos que tenham uma ampla mar-
dado, mas que rapidamente se transforma em gem de segurança para evitar os perigos decorren-
ruptura, afastamento, distância. A apetência tes de ingestões impulsivas e/ou suicidas. Além
objetal da paciente bulímica corresponde a uma disso, os pacientes costumam hesitar diante da
busca ávida incessante, mas sem “digestão”, isto idéia de fazer um tratamento, temendo uma de-
é, sem interiorização. pendência e os efeitos secundários.
No plano psicodinâmico, Ph. Jeammet su- Quanto aos tratamentos relacionais, muitos
blinha a tensão entre esta avidez objetal e as fa- foram recomendados: terapia comportamental
lhas da base narcísica, a intensidade da primeira breve, marcada por um trabalho de reeducação
estando à altura das faltas da segunda. no nível dietético; terapia de grupo; psicodra-
ma; terapia de inspiração analítica ou psicaná-
lise clássica.
Evolução e tratamento. – É preciso ainda
Neste último quadro, todos os autores re-
tomar uma grande distância para julgar a evo-
conhecem a dificuldade de manter uma relação
lução a longo prazo. A curto e a médio prazos
estável com as pacientes bulímicas, marcada
(cinco a dez anos), a evolução é marcada pela
por uma distância terapêutica satisfatória: a
repetição das crises, entrecortadas de tentativas
fuga e a ruptura terapêutica geralmente se su-
de interrupção, de estabilização. As solicitações
cedem a um investimento intenso e exclusivo.
terapêuticas formuladas pelas pacientes geral-
Apenas em um segundo momento, dominado
mente são numerosas diversificadas (dietéticos,
pelas flutuações transferenciais e pela crítica ao
psicoterápicos, medicamentosos, comportamen-
quadro terapêutico, será possível desenvolver
tais, etc.), mas raramente seguidas com assidui-
uma relação terapêutica satisfatória.
dade, pelo menos no início. Todos os autores
Em todos os casos, é sempre necessária uma
reconhecem a dificuldade de abordagem e de
assistência bi ou plurifocal para reduzir as passa-
tratamento em profundidade dessas pacientes.
gens ao ato e as tentativas de interrupção tera-
É preciso tomar distância também para ava-
pêuticas precoces das pacientes.
liar a pertinência dos diversos métodos terapêu-
ticos utilizados.
A hospitalização pode permitir interromper
a escalada de crises e empreender uma “reeduca- O SONO, SEUS TRANSTORNOS, SUA
ção” mediante um programa dietético adequa- PSICOPATOLOGIA
do. Mas é comum a recidiva após a hospitaliza-
ção. Só se recorre a isso nas formas extremas.
Propôs-se a prescrição de psicotrópicos, es- Se os problemas do sono não desapareceram
sencialmente antidepressivos. Sua eficácia coloca totalmente na infância e na pré-adolescência,
a questão teórica das relações entre bulimia e de- eles reaparecem ou se exacerbam na adolescên-
pressão, de um lado, bulimia e impulsividade, de cia, tanto que não é raro nos adolescentes com
outro. Ainda que exista a associação bulimia-de- problemas de sono que tenham tido dificulda-
pressão, ela não é constante, e esses dois estados des de sono na infância. O fato mais marcante
não podem ser confundidos. A ligação entre bu- é que, nesse período da existência, quando ele
limia e impulsividade, fundamentada no aspecto é avaliado por um questionário, a necessidade
clínico das crises bulímicas, sugere a hipótese da de sono aparece como um dado subjetivo que
origem serotoninérgica do transtorno, retomada nunca é inteiramente satisfeita. Várias pesqui-
por numerosos autores. Contudo, para Dantchev sas evidenciam uma insatisfação de sono e uma
e colaboradores (1993), é muito difícil categorizar síndrome de cansaço ao despertar que atin-
as pacientes bulímicas segundo esse traço compor- gem mais de 80% dos adolescentes, sobretudo
tamental, seja de um ponto de vista quantitativo as meninas. Portanto, é necessário conhecer
seja dimensional. Mesmo assim, essa hipótese é as características do sono na adolescência, em
interessante, no mínimo para explicar a ação de sua organização fisiológica, em seus transtornos
antidepressivos, em particular serotoninérgicos, específicos e naqueles ligados a um transtorno
que parecem eficazes em certos casos, mesmo na psicopatológico patente.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 127

A Organização Fisiológica Um elemento específico é a freqüência da ex-


pressão pelo adolescente dessas dificuldades de
sono, como vimos acima.
Como mostraram os trabalhos de Carska- Porém, esses transtornos são bastante co-
don e colaboradores, em uma pesquisa junto muns. Em 1973, Davidson e colaboradores as-
a adolescentes escolarizados, existe neles uma sinalavam que 10% dos adolescentes de 15 a 20
“tendência natural” ou mesmo “uma preferên- anos tomavam medicamentos para dormir me-
cia” a esticar seu horário de sono para mais lhor. Nos Estados Unidos, uma pesquisa epide-
tarde, sobretudo nas meninas, seja nos dias de miológica junto a 627 adolescentes de 15 a 18
aula ou nos dias sem aula. Esses mesmos autores anos apresentava os seguintes resultados:
estudaram longitudinalmente, por registro poli-
gráfico à noite, as modificações do sono desde a – 12,6% têm “dificuldades crônicas de
primeira fase pubertária de Tanner até o fim da sono”, isso é, têm insônias graves: insônias de
adolescência. Eles constatam: adormecimento e/ou insônias noturnas. Isso
atinge mais as meninas do que os meninos. A
– Uma persistência de necessidade de sono grande maioria desses adolescentes relaciona
noturno de aproximadamente 10 horas. seu transtorno a fatores psicológicos experimen-
– Uma estabilidade do sono paradoxal ao tados por eles: tensões, inquietudes, problemas
longo da adolescência que, no entanto, consta- familiares, socioprofissionais e escolares. Nesse
ta-se ser o tipo de sono mais afetado pelo “efeito mesmo grupo, encontram-se dificuldades de le-
primeira noite”. Mas, como mostraram outros au- vantar de manhã, sonos repetitivos, problemas
tores (Hoffman e Petre Quadrens, 1979), a per- familiares de sono.
centagem de sono paradoxal cai brutalmente no – 37,6% têm “dificuldades ocasionais de
início da adolescência e fica próxima à da idade sono”, isto é, apresentam insônias passageiras.
adulta: 22,4% aos 11 anos, 16,97% aos 14 anos. Também aqui, encontra-se uma predominância
– Uma diminuição progressiva do sono de meninas. A grande maioria desses adolescen-
lento profundo, nítida sobretudo a partir da ter- tes ignora as razões de seus transtornos, isto é,
ceira fase de Tanner. não julgam que tenham dificuldades físicas ou
– Um ressurgimento de uma capacidade psicológicas particulares (Price et al., 1978).
de dormir de dia e de um certo grau de sono-
lência diurna “fisiológica”, objetivada pelo en-
curtamento do tempo de sono de dia, quando As insônias. – Podemos distinguir clinica-
do “Teste de Latências Múltiplas de Adormeci- mente três tipos de insônia:
mento” (ou TLME). Essa sonolência seria o tes-
temunho de uma privação de sono crônica. De – As “insônias verdadeiras” do adolescente
fato, apesar de sua grande necessidade de sono, com dificuldade de dormir e despertares notur-
os adolescentes não dormem mais do que oito nos. A duração do sono diminui e o adolescente
horas e meia por noite na metade da adolescên- se queixa de não conseguir dormir como dese-
cia, e, os mais velhos, não mais de sete horas, jaria. Os fatores psicológicos aqui são predomi-
sobretudo nos dias de aula e durante a semana. nantes, e geralmente estão ligados a uma ansie-
dade excessiva, associada ou não a elementos
A explicação desses casos particulares de depressivos. Trata-se na maioria das vezes de
sono na adolescência não é unívoca, e poderia adolescentes que costumam apresentar condu-
incluir tanto as modificações hormonais ligadas tas fóbicas ou fobo-obsessivas.
à puberdade quanto os problemas psicoafetivos – As insônias secundárias à utilização abu-
e modo de vida próprio a essa faixa etária. siva de drogas psicotrópicas, de álcool ou de ci-
garro, ligadas à relativa freqüência desse tipo de
conduta nessa idade (Braconnier, 1981).
– Uma forma particular da insônia do ado-
Os Transtornos Específicos lescente é a Síndrome de Retardo de Fase do
Sono, descrita por Weitzman e colaboradores.
A clínica de transtornos do sono do adoles- Trata-se de uma desordem cronobiológica ins-
cente é tão rica e variada quanto a da criança. talada há mais de seis meses na origem de in-
128 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

sônias do desencadeamento do sono. O início A narcolepsia-cataplexia (doença de Gé-


dessa síndrome se dá geralmente na adolescên- lineau). – Sua prevalência oscila entre 0,05 e
cia em pessoas que sempre tiveram tendência a 0,067% (Billiard).
deitar tarde e que seriam “pessoas notívagas”. Essa síndrome associa:
Há um retardo sistemático da hora de deitar,
que ocorre duas ou três horas depois da meia- – uma sonolência diurna excessiva com
noite, para se levantar no meio do dia ou de- acesso de sono irresistível durante alguns minu-
pois do meio-dia. Uma vez iniciado, o sono tos a algumas horas;
tem uma duração e uma qualidade normais, – ataques cataplécticos (abolição brusca
sem despertares intercorrentes. Essas pessoas do tônus estático durante alguns segundos a um
têm muita dificuldade de dormir e de se levan- minuto, desencadeados geralmente por emo-
tar nas horas habituais, e sofrem de sonolência ções, em particular de natureza agradável);
diurna excessiva quando são obrigadas a se le- – paralisias do sono;
vantar para cumprir suas obrigações escolares, – alucinações hipnagógicas auditivas, vi-
familiares ou sociais. Uma vez instalada, essa suais ou labirínticas, quase sempre com um ca-
síndrome pode levar a uma desescolarização ráter assustador;
com o risco de desinserção social. Os registros – um sono entrecortado de numerosos des-
poligráficos de sonos são menos úteis que o ca- pertares.
lendário de sono e o porte de um actímetro,
que vão objetivar a defasagem de fase. Vimos Os registros poligráficos mostraram que
que os adolescentes normais tinham uma ten- o adormecimento se faz de imediato em sono
dência fisiológica ao retardo de fase. Os hip- profundo, sem passar pelo sono em ondas len-
nóticos são ineficazes para essa síndrome, cujo tas. Os ataques de cataplexia são considerados
tratamento é feito em bases cronobiológicas. como a intrusão no despertar da inibição tônica
própria do sono profundo.
O diagnóstico repousa sobre a análise clí-
Condutas patológicas durante o sono: as nica, mas também sobre o “teste iterativo de
parassonias. – Muito menos freqüentes do que latência de adormecimento”. Existe no agrupa-
durante a infância, as parassônias que apare- mento HLA um “perfil particular”, talvez com
cem, reaparecem ou persistem durante a adoles- a presença de um marcador genético específico
cência, geralmente traduzem uma dificuldade (pesquisa em curso).
psicopatológica mais séria do que antes. Embora essa síndrome se manifeste em sua
O sonambulismo (sonilóquio, bruxismo) totalidade entre 15 e 20 anos, com um caráter
costuma aparecer em adolescentes que apresen- nitidamente familiar, não é raro constatar a
tam problemas neuróticos; os terrores noturnos existência de um ou dois sintomas na infância:
são vistos em adolescentes com uma fragilidade a hipersonolência e os ataques de sono diurno
de mecanismos de defesa do Ego e que correm seriam os sinais mais precoces. Se essas manifes-
o risco de desmoronamento psicótico. Quanto tações podem se toleradas até 4-5 anos, depois
à enurese noturna, ela também pode persistir disso acabam tolhendo a vida social da criança.
na adolescência. Trata-se na maioria das ve- Entre os antecedentes, assinala-se a existência
zes de uma enurese primária. Constata-se com de sonambulismo e de um estado hiperativo
freqüência um caráter familiar, mas há uma (Navelet).
“imaturidade afetiva” ou uma psicopatia muito Pode-se propor um tratamento medicamen-
características desses adolescentes enuréticos. toso, eficaz em 60% dos casos. Uma certa higie-
É preciso assinalar que essa enurese desaparece ne de vida (sesta regular) melhora os sintomas.
facilmente por ocasião das primeiras relações
sexuais.
A hipersonia idiopática. – Ela também co-
meça normalmente entre 10 e 20 anos. A pre-
As hipersonias. – Uma hipersonia de ori- valência é 4 a 5 vezes menos elevada que para a
gem orgânica é rara. É preciso buscá-la em um narcolepsia. Manifesta-se pela associação:
adolescente cansado que se queixa de dormir
demais: – de um sono noturno prolongado;
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 129

– de grandes dificuldades de levantar de adolescente o temor de uma perda do domínio


manhã; sobre um mundo fantasmático e pulsional que
– de uma permanente sonolência diurna surge nos sonhos e nos pesadelos, e mesmo uma
que não melhora com a sesta (ao contrário da perda de sua integridade narcísica. No caso de
síndrome de Gélineau). insônias, encontramos então adolescentes que,
assim como as crianças pequenas, não conse-
O registro elétrico do sono revela um au- guem dormir sozinhos em um quarto ou em um
mento quantitativo global com um aumento apartamento ou que lutam por meios endógenos
ainda maior do sono profundo. Além desses da- ou exógenos (café, cigarro, música, droga) para
dos, o diagnóstico se apóia no teste de adorme- não entrar nesse abismo de incerteza e de amea-
cimento iterativo. ça representado pelo sono e pela vida onírica,
que podem se tornar verdadeiras fobias.
A síndrome de Kleine-Levin. – Caracteri- Nos casos de hipersônias, ao contrário, o
za-se pela associação de episódios de hipersônia sono terá uma função de refúgio em face de to-
com hiperfagia, transtornos do comportamen- das as dificuldades de sua vida de vigília. Esses
to, do humor e desordem de condutas sexuais. adolescentes passam longas horas do dia ou da
Essa síndrome, muita rara, manifesta-se no ado- noite, às vezes sonolentos, às vezes dormindo
lescente (início entre 15 e 20 anos). Poderia profundamente, em um estado de retraimento
constituir eventualmente um modo de entrada narcísico, e por isso o sinal depressivo nunca
na psicose. está totalmente ausente.
Porém, na maioria das vezes as hipersônias Como é comum no adolescente, esses dois
na adolescência são psicogênicas. Elas costu- movimentos podem se alternar em ritmos mais
mam revelar um estado depressivo latente, e é ou menos rápidos.
preciso buscar outras manifestações significati- Existe incontestavelmente uma ligação
vas deste. entre os transtornos do sono, qualquer que seja
seu tipo (insônias ou duração excessiva do sono
ou Síndrome de Retardo de Fase do Sono) e a
depressão do adolescente, conforme demonstra
Transtornos do Sono e Psicopatologias a clínica. A depressão é mais comumente en-
contrada durante a entrevista nos adolescentes
O adormecimento é um momento delicado que se queixam de dificuldades no sono. Nume-
e frágil na adolescência. Essa fragilidade pro- rosos mecanismos podem ser evocados para ex-
vém do ressurgimento de diferentes meios que plicar essa ligação. Alguns evocaram os trans-
a criança utilizou ao longo de seu desenvolvi- tornos de sincronização de ritmos circadianos
mento para lutar contra a angústia que se instala aos quais o adolescente seria particularmente
no momento de se deitar: objeto transicional sensível, sobretudo o adolescente deprimido.
ou equivalente, ritos, fobias e atitudes contra- Em uma perspectiva mais psicopatológica, o
fóbicas, atividades auto-eróticas. Por exem- transtorno do sono poderia ser compreendido
plo, a música tão freqüentemente ouvida pelo às vezes como a conseqüência do transtorno
adolescente antes de adormecer remete àquilo narcísico que acompanha de forma constante a
que Winnicott descreveu como fenômeno e depressão, e que arrastaria em um movimento
zona transicionais. Atividades orais (cigarros, de autodesvalorização o conjunto do corpo e
bebidas), masturbação e sonhos eróticos são das funções ligadas a ele. Outras vezes (especial-
igualmente freqüentes no período de pré-ador- mente quando o sono é de duração excessiva ou
mecimento. Sua repercussão é dupla: função nas síndromes de retardo de fase, que levam a
de distensão e função de restauração narcísica um despertar tardio após o meio-dia), os trans-
preparando o mergulho no sono, comparado tornos do sono aparecem mais como condutas
freqüentemente a um período regressivo e de re- de recolhimento, de retraimento, e mesmo de
colhimento narcísico. De fato, devemos insistir inibição: atitudes de valor defensivo em face do
particularmente no lugar da regressão, já men- envolvimento relacional com o outro e da apre-
cionada. O sono é, por excelência, um momen- ensão da realidade, atitudes que, de fato, como
to de regressão, mas essa regressão pode criar no todos sabemos, costumam acompanhar uma au-
130 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

têntica depressão, inclusive contribuindo even- ção. Lembremos que é importante nessa idade
tualmente para mascará-la. não “matar o sonho” com medicamentos que
Recordemos, finalmente, que a insônia amputam a fase de sono paradoxal.
é freqüente nos estados maníacos, e às vezes No que diz respeito à Síndrome de Retardo
constitui o “sinal sintoma” destes. A insônia de Fase de Sono, aconselha-se uma cronote-
também é muito comum nos estados psicóticos rapia sem quimioterapia. A cronoterapia con-
delirantes agudos. siste em deslocar regularmente os horários de
sono, antecipando a hora de deitar em duas a
três horas por dia até chegar a um horário com-
patível com a vida social, mantendo uma hora
Tratamento
fixa para acordar: é o método chamado de “giro
do mostrador”. Essa cronoterapia, que às vezes
Na criança, o tratamento é essencialmente pode exigir uma hospitalização de alguns dias,
preventivo: assegurar uma boa higiene do sono só pode ser realizada com a anuência e a parti-
desde a primeira infância, assegurar um equi- cipação ativa do adolescente, e depois de ser in-
líbrio psicoafetivo e relacional o menos movi- formado sobre todos os benefícios secundários
mentado possível. que este extrai de sua síndrome, evitando assim
Os tratamentos medicamentosos repre- o confronto com uma escolaridade vivida por
sentam sempre a confissão de um fracasso. Eles ele quase sempre de forma conflituosa.
devem ser usados com muito mais precauções Apenas os antidepressivos, em caso de de-
nessa idade devido ao risco de automedicação pressão, e os psicoestimulantes, na narcolepsia
e de engajamento em um ciclo farmacotímico, e em certas hipersonias, mantêm indicações de
cujo risco de cronicidade é bem conhecido. Até tratamento psicotrópico não-hipnótico.
o momento, os novos hipnóticos de meia-vida Evidentemente, em face de qualquer trans-
breve continuam sendo os produtos menos no- torno do sono, é preciso pensar em uma avalia-
civos, desde que prescritos por um prazo deter- ção psicopatológica: ela pode levar a uma abor-
minado, evitando o costume ou a autoprescri- dagem psicoterápica breve ou de longa duração.

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7
A Sexualidade e seus Transtornos

D esde Freud, sabemos que o desenvolvimen-


to psicossexual não começa na adolescên-
cia. Mediante atividades que interessam direta-
psicológico e sociológico, inclui agora os órgãos
genitais fisicamente maduros, representa uma
das tarefas fundamentais da adolescência. O es-
mente aos órgãos genitais, como por exemplo a tabelecimento dessa organização não se faz sem
masturbação, ou a partir de questões colocadas variações segundo o ambiente sociocultural e
pela criança sobre a diferença entre um menino segundo os indivíduos. Em qualquer situação, a
e uma menina, os adultos não podem ignorar tarefa do adolescente será fazer coincidir e, se
as preocupações sexuais infantis. Para os psica- possível, tornar satisfatório por meio da realiza-
nalistas, a sexualidade infantil não se limita às ção sexual, o imperativo da necessidade sexual
atividades e aos prazeres que dependem do fun- e o desenvolvimento de suas fantasias sexuais. É
cionamento do aparelho genital propriamente importante para o adolescente distinguir a rea-
dito, mas diz respeito, na realidade, ao conjunto lização sexual que se situa no nível comporta-
do corpo. A adolescência e o advento da pu- mental, da fantasia e dos devaneios sexuais que
berdade marcam uma virada na sexualidade se situam no nível da psique.
do indivíduo. O desenvolvimento do aparelho Nesse processo, surgem dificuldades inelutá-
genital, a atividade sexual e as modificações in- veis, que podem assumir uma significação psico-
trapsíquicas decorrentes caracterizam em gran- patológica. Porém, desse ponto de vista, há uma
de parte a adolescência. De fato, a sexualidade distinção fundamental que se deve ter sempre
é um ponto focal da vida do adolescente. Se em mente: a distinção entre, de um lado, um
o capítulo presente aparece no final desta se- comportamento sexual que às vezes adquire di-
gunda parte consagrada às diversas condutas da mensões inquietantes por sua repetição ou por
adolescência, é por julgarmos que, através da sua intensidade, mas que não provoca uma rup-
sexualidade, transparece a harmonização pos- tura no desenvolvimento psíquico, e, de outro
sível ou não dessas diversas condutas. De fato, lado, atividades sexuais que representam inva-
a sexualidade inclui em si uma parte do agir, riavelmente um deslocamento desse desenvol-
necessita uma elaboração mental e mobiliza o vimento psíquico. Em outros termos, é preciso
corpo e sua imagem. O estabelecimento de uma distinguir o comportamento em si e a maneira
organização sexual definitiva, isto é, de uma or- como ele repercute na personalidade e depois se
ganização que, de um ponto de vista somático, integra a ela.
134 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

A sexualidade do adolescente é objeto de aumento regular da atividade sexual, que come-


curiosidade, objeto de inquietação, objeto de ça bem antes da puberdade e que prossegue de-
nostalgia, objeto revelador da evolução social. pois desta. Na pesquisa de Kinsey, apenas 20%
É interessante observar a evolução da repre- das meninas de 15 anos tiveram pelo menos um
sentação social dos tabus sexuais e das ameaças orgasmo.
que os justificam e os alimentam nos últimos
cinqüenta anos. Assim, pode-se constatar que
se passou do tabu sexual associado ao temor da A Masturbação
sífilis para o tabu associado ao temor da aids,
passando pela gravidez precoce e pelas doenças
sexualmente transmissíveis (DST). Entretan- Embora a masturbação como atividade se-
to, os trabalhos sobre essa questão são muito xual quase nunca apareça no discurso espontâ-
heterogêneos. Há, de fato, uma grande dife- neo das adolescentes (discursos para os adultos,
rença de evolução da sexualidade do adoles- no âmbito de uma pesquisa mediante entrevis-
cente segundo a maneira como ela é captada tas não dirigidas realizadas por M. F. Castarede
pelos diversos métodos: pesquisas sobre práti- em 1976 a propósito da “vida psicossexual”),
cas sexuais dos adolescentes e sobre fantasias 90% dos meninos e 40% das meninas praticam-
conscientes, geralmente estatísticas anônimas na durante um período mais ou menos longo, e
e envolvendo muita gente; ou, ao contrário, com uma freqüência variável na adolescência
análise das fantasias, dos devaneios sexuais, e (pesquisa feita anonimamente). A masturbação
de sua repercussão dinâmica sobre o equilíbrio leva à primeira ejaculação em 68% dos casos no
psicoafetivo mediante a realização de uma psi- meninos e ao primeiro orgasmo em 84% dos ca-
coterapia individual. sos nas meninas (Kinsey).
Isso nos levou a fazer uma separação em
dois capítulos, um para os estudos quantitati-
vos e epidemiológicos, o outro para a dinâmi- As Fantasias Sexuais Conscientes
ca da pulsão sexual e da sexualidade com seus
avatares (a psicologia da puberdade foi tratada
brevemente na primeira parte desta obra, cf. Uma pesquisa americana junto a estudan-
Capítulo 1). tes de 5ª a 8ª série (pesquisa realizada com
1.177 estudantes) examinou quantitativamen-
te as fantasias sexuais conscientes dos adoles-
centes. A grande maioria dos pensamentos ou
DADOS QUANTITATIVOS E devaneios citados em primeiro lugar por esses
EPIDEMIOLÓGICOS adolescentes era acariciar um parceiro que se
ama e fazer amor com ele. Fantasias homosse-
xuais eram citadas por 3% dos adolescentes;
Várias pesquisas francesas e de outros países fantasias sádicas por 24% dos meninos e por
estudaram quantitativamente os diversos aspec- 6% das meninas; fantasias masoquistas por 21%
tos do comportamento sexual, e mesmo certas das meninas e por 11% dos meninos; fantasias
fantasias sexuais dos adolescentes. Citaremos voyeurísticas por 35% dos meninos e por 24%
apenas algumas delas. das meninas.

O Orgasmo A Primeira Relação Sexual

Segundo o relatório Kinsey, parece haver A data da ocorrência da primeira relação


um aumento brusco da atividade sexual, so- sexual é particularmente estudada nas diferen-
bretudo no ano que antecede a puberdade. A tes pesquisas ou estudos epidemiológicos. Nos
freqüência máxima de orgasmos é atingida no anos de 1960, o relatório Simon sobre a Fran-
segundo após a puberdade. Na menina, há um ça estima a média da idade da primeira relação
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 135

sexual em 19,2 anos para os homens e 20,5 A Homossexualidade


anos para as mulheres; 18% dos meninos e 4%
das meninas tiveram uma relação sexual antes
dos 16 anos; aos 18 anos, 46% dos meninos e A homossexualidade é estudada com fre-
apenas 20% das meninas. Na pesquisa de M. F. qüência nas pesquisas epidemiológicas. Pare-
Castarede, a idade média das relações sexuais ce que as relações sexuais propriamente ditas
dos meninos é de 17 anos, e a das meninas de com pessoas do mesmo sexo ainda são raras na
18 anos. Segundo os Dossiers de l’Étudiant, em adolescência. Segundo a pesquisa dos Dossiers
1980, aos 16 anos, cerca de 37% dos alunos do de l’Étudiant, citada anteriormente, isso envol-
ensino médio do sexo masculino já tinham fei- ve 4,6% de estudantes de nível médio do sexo
to amor, contra apenas 19% das meninas; aos masculino e 2,9% do sexo feminino. Na pesqui-
18 anos, mais da metade dos meninos e 35% sa de Lagrange e colaboradores (1997), 6% dos
das meninas. Mediante a pergunta que se faz jovens de 15 a 18 anos se dizem atraídos pelo
com freqüência sobre a data dessas primeiras mesmo sexo, seja de forma exclusiva ou não. A
relações sexuais indaga-se sobre a evolução dos proporção de relações homossexuais aumenta a
costumes ao longo dos anos. Nos Estados Uni- partir dos 18-19 anos. No estudo de M. F. Cas-
dos, realizou-se uma pesquisa com três anos de tarede, nenhum adolescente menciona espon-
intervalo junto a adolescentes de 15 anos no taneamente uma experiência homossexual em
mesmo contexto: em 1970, 25% dos meninos seu discurso.
e 13% das meninas tinham tido uma primeira
relação; em 1973, 38% dos meninos e 24% das
meninas declaravam ter tido uma primeira re- Condutas Ligadas à Sexualidade:
lação; um terço dos adolescentes de 17 anos ti- Contracepção, Aborto, Gravidez
nha tido uma relação sexual, cifra nitidamente
mais elevada que a do relatório de Kinsey, 20
anos antes. Na França, as três pesquisas citadas Citaremos aqui algumas cifras referentes à
acima mostram uma evolução comparável para contracepção, ao aborto e à gravidez. A contra-
um período mais longo, mas com populações cepção nas adolescentes, ao que parece, ainda
diferentes. é muito pouco utilizada, visto que apenas uma
Há outros três dados que parecem carac- entre quatro, aproximadamente, recorre a um
terizar a evolução do comportamento sexual meio contraceptivo eficaz. A necessidade da
dos adolescentes ao longo destes últimos 20 informação sexual para essas adolescentes tor-
anos: as meninas evoluem muito mais rapi- na-se ainda mais evidente quando se sabe que
damente que os meninos (as percentagens na França, em 1980, realizam-se cerca de 10
estatísticas mudaram muito menos para eles mil interrupções de gravidez, e há 3 mil partos
do que para elas); como conseqüência dessa de adolescentes entre 14 e 18 anos. Nos Esta-
mudança, cada vez mais as meninas fazem suas dos Unidos, um estudo datado de 1975 estima
primeiras experiências sexuais com colegas da o número de gravidezes em adolescentes em 1
mesma idade; finalmente, observa-se uma ho- milhão, culminando com 600 mil nascimen-
mogeneização progressiva dos comportamen- tos e 400 mil abortos. O número de gravide-
tos segundo os diferentes meios (Le Monde de zes “ilegítimas” teria multiplicado por 3 entre
l’Éducation). 1940 e 1975.
Em compensação, persiste uma distinção
entre os meninos e as meninas no que se refere:
1) à continuidade das relações sexuais: apenas
8% dos meninos contra 29% das meninas per-
As Condutas Sexuais Desviantes
manecem com o mesmo parceiro; 2) ao envol-
vimento afetivo dessa primeira relação: 46% Para completar, citaremos a prostituição
dos meninos dizem que isso não os levou a se e os atos de violação, que parecem aumentar
envolverem afetivamente contra 8% das meni- atualmente entre os adolescentes. Essas condu-
nas (estudo americano citado anteriormente e tas sexuais desviantes geralmente se inserem no
que foi realizado ao longo dos anos de 1970). vasto quadro da delinqüência juvenil.
136 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

O DESENVOLVIMENTO Ainda que essa capacidade cognitiva não seja


o fator determinante de uma sexualidade sa-
PSICOSSEXUAL NA ADOLESCÊNCIA
tisfatória, ela é um elemento do sentido da
reciprocidade e um meio de modulação em
O desenvolvimento psicossexual na adoles- face das exigências pulsionais. Inversamente,
cência depende de uma série de fatores orgâni- o exemplo de adolescentes com encefalopatia
cos, cognitivos, afetivos e socioculturais. e débeis profundos mostra o papel potencial-
mente agravante de uma sexualidade não in-
tegrável. É muito comum presenciar condutas
caóticas nesses adolescentes, quando emerge
Fatores Orgânicos a necessidade sexual: masturbação violenta,
heteroagressividade sexual, provocação, exi-
A existência de fatores orgânicos, mesmo bicionismo sem controle, etc. Na maioria das
que sua importância ainda seja desconhecida, vezes, essas condutas são imediatamente refre-
é aceita por todos no desenvolvimento psicos- adas pelo entorno, mas essa repressão acaba
sexual dos adolescentes: a libido depende em suscitando uma exacerbação dos transtornos
parte dos hormônios. Os esteróides sexuais têm sintomáticos anteriores (estereotipia, automu-
um efeito sobre o comportamento de agressivi- tilação, etc.). A integração da sexualidade nes-
dade. Inversamente, toda situação crônica de ses adolescentes continua sendo um problema
estresse tende a bloquear a atividade gonádica, sério, geralmente mal resolvido, tanto no que
retardando ou atenuando o aparecimento de se refere à família quanto às diversas institui-
características sexuais. Esse aparecimento de ções onde vivem os adolescentes.
características sexuais secundárias, a capacidade
fisiológica de ter relações sexuais, a capacidade
de procriar representam incontestavelmente Fatores Afetivos e Relacionais
uma perturbação fisiológica e psicológica.

A aquisição da puberdade é sempre Vamos insistir ainda mais sobre os fatores


uma surpresa. A criança espreita seus sinais, afetivos e relacionais. As transformações intrap-
constata-os, não acredita neles, começa a síquicas são amplamente estudadas pelos psica-
acreditar, a integrá-los, ao que parece, e [...] nalistas. Podemos distinguir duas correntes. De
ao se perceber totalmente estranha ao que um lado, estão aqueles que, seguindo a linha de
era antes (e isto para qualquer um dos se- Freud, vêem no desenvolvimento psicossexual
xos), o que fará dessa inquietante estranhe- da adolescência uma nova etapa, onde o indiví-
za? Creio que todos, e por mais que isso seja
duo chega com uma sexualidade já estabelecida
reprimido, terão provado, ainda que fugaz-
mente, um momento de glória, ao qual se e organizada desde a infância: a adolescência é
segue, ora como uma onda, ora como uma apenas uma terminação ou uma renovação das
maré sub-reptícia, a angústia. Do manejo experiências sexuais infantis já expressadas, que
dessa angústia dependerá o futuro. (Kes- se completarão e depois se realizarão graças à
temberg, 1980) transformação do aparelho genital; nesse qua-
dro, insiste-se na noção de “a posteriori”. Por
outro lado, há aqueles que, seguindo Erickson,
enfatizam a originalidade profunda da adoles-
Fatores Cognitivos cência, originalidade ligada justamente às no-
vas potencialidades e às novas capacidades.
A nova capacidade cognitiva de ter acesso Contudo, os psicanalistas são unânimes em
à fase de operações formais e de compreendê- reconhecer que uma parte importante do que
las interfere na simbolização do erotismo, na ocorre durante o desenvolvimento psicossexual
apreensão, na abstração e na racionalização do adolescente depende do que se passou na in-
necessária das transformações sexuais, dos fância, mas que a experiência da sexualidade na
roteiros imagináveis, das relações sexuais in- adolescência está ligada às experiências atuais
terpessoais e dos conflitos associados a isso. e novas.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 137

Dois pontos merecem ser abordados em dinâmicos, progressivos e regressivos, que ca-
particular: a imagem do corpo e a identidade racterizam o processo da adolescência, infiltra
sexual. a escolha de objeto sexual e suas dificuldades, e
nisso se reconhece:
A imagem do corpo. – Apoiando-se na – O desligamento progressivo de objetos
teoria da sexualidade de Freud, P. Schilder vê parentais e fonte de dificuldades, como teste-
uma correspondência entre a construção defi- munham escolhas de objeto sexual de aspecto
nitiva da imagem do corpo e a fase de acesso incestuoso ou uma rejeição do eu como ser se-
à genitalidade. O homem só percebe seu corpo xuado para marcar bem esse desligamento de
como um todo, como uma unidade, depois de imagens interiorizadas e sexuadas.
ter acesso à genitalidade, portanto, durante a – A passagem progressiva do auto-erotismo
adolescência. Mas a teoria de Schilder também à heterossexualidade: a conduta masturbatória,
leva em conta o registro relacional: o adoles- sua importância e a fantasia associada a ela são
cente descobre a imagem de seu corpo graças sinais reveladores disso.
às tendências libidinais de outros dirigidas a – Finalmente, a resolução da bissexualida-
ele. Existe uma corrente permanente de trocas de: os imprevistos dessa resolução ficam mar-
mútuas entre a imagem do corpo de cada um e cados na sucessão de escolhas de objeto sexual
a imagem do corpo de todos os outros. Isso se durante a adolescência.
aproxima do pensamento de Freud, a saber, que
a escolha do objeto na puberdade é um elemen- Esses movimentos dinâmicos se expressam
to integrador da personalidade. Para Schilder, a por meio da flutuação transitória na escolha de
imagem do corpo nunca é isolada, mas é sempre objeto sexual, flutuação que pode ser ilustrada,
acompanhada pela de outros, e se estrutura mais por sua vez, pela multiplicidade de condutas se-
precisamente na genitalidade, mas de maneira xuais. Esse é o sentido das oscilações entre a he-
definitiva. A construção da imagem do corpo terossexualidade e a homossexualidade, entre a
não é uma aquisição estática, mas pode ser in- ligação aos pais e o amor dedicado a um novo ob-
jeto, entre o grupo ou bando e o amigo único ide-
fluenciada pela vivência física, pelas emoções,
alizado, entre o primeiro amor e a relação sexual
pelas sensações, pelo olhar do outro (as noções
passageira, sem investimento afetivo duradouro.
de esquema corporal, de corpo social, de ima-
Assim, a escolha de objeto sexual pode
gem do corpo foram tratadas no item “As con- assumir uma forma particular na adolescência
dutas destrutivas solitárias”, no Capítulo 5). com essa paixão amorosa chamada de “primeiro
amor”:
A escolha de objeto1 sexual. – A escolha
de objeto sexual está sujeita ao conjunto de Trata-se de uma brutal invasão narcí-
alterações que a adolescência comporta (cf. sica, de uma violência feita ao Ego por um
item “O modelo psicanalítico”, no Capítulo 1). objeto externo tanto mais real quanto suas
qualidades são projetivamente aquelas que,
Contudo, dois elementos nos parecem prepon- no passado não memorável em que se cons-
derantes: 1) o reagrupamento das pulsões par- truiu o narcisismo primário, nesse tempo da
ciais no interior da pulsão genital subordinada megalomania infantil, eram da mãe: odor,
à organização da capacidade reprodutiva; 2) a sabor, traços acústicos... Esse traço feliz-
harmonização e o estabelecimento de um equi- mente traumático ordenará outros amores,
líbrio na adolescência entre a linha objetal e a amores de adultos... (Daymas, 1980)
linha narcísica.
Toda escolha de objeto sexual na adoles- A identidade sexual. – A identidade do
cência está sujeita a dois elementos. Além Ego, conceito desenvolvido por Erikson, dife-
disso, uma série de passagens, de movimentos re da imagem corporal, porque ela engloba as
identificações do indivíduo e enfatiza as inte-
1
Utilizamos o termo objeto no sentido de objeto inter- rações psicossociais. A busca e depois a cons-
no, intermediário entre o objeto externo e a instância tituição da identidade são uma das tarefas
do aparelho psíquico em discussão. importantes da adolescência. Uma organiza-
138 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

ção estável da identidade é considerada pelos etapa e uma ameaça para a finalização dessa
defensores da psicanálise dita genética como identidade de gênero.
o sinal do fim da adolescência. Essa organiza- Assim, o acesso à sexualidade genital im-
ção estável da identidade é adquirida quando o plica uma organização satisfatória da identida-
indivíduo consegue se identificar de modo per- de sexual e de suas identificações. A identidade
manente em seus objetivos, em suas ambições, sexual se “constrói” progressivamente ao longo
em sua sexualidade e em suas relações com o das etapas sucessivas da infância e da adoles-
outro sexo, ao mesmo tempo no plano coleti- cência. Essa construção entrecruza sutilmente
vo social e no plano individual, ético. Assim, uma linha que se pode chamar de “narcísica”
diante da pergunta “que tipo de pessoa eu sou?”, (N), na qual domina a questão da representa-
“os sentimentos relacionados à masculinidade ção para o sujeito do que é o sexo em seu corpo,
ou à feminilidade e as características associa- e uma linha “objetal” (O), na qual domina a
das a isso, como a atividade ou a passividade, a dimensão relacional. Poderíamos definir a pri-
dominação ou a submissão, desempenham um meira linha como o trabalho de representação
papel essencial na resposta”. Essa identidade pré-consciente e consciente da pulsão sexual:
sexual, parte integrante e às vezes até mesmo essa linha segue um longo caminho já prepara-
fundamental da identidade do Ego é chamada do pelo complexo de Édipo, e é reativada pela
identidade de gênero. A identidade de gênero emergência da puberdade. Podemos resumi-la
(Gender Identity) refere-se ao sexo psíquico, que da seguinte maneira (ver Quadro 7.1):
deve ser diferenciado do sexo biológico que se
manifesta na puberdade pelo aparecimento de
(N1) “O sexo que eu tenho”. É a fase
características sexuais secundárias. Esse alerta
de reconhecimento de seu próprio sexo e que
é necessário para compreender melhor a di-
corresponde à afirmação narcísico/fálica de sua
vergência entre a posição freudiana e a posição
identidade sexuada. É certo que esse reconheci-
dos pós-freudianos, como R. J. Stoller. Para
mento é afirmado desde a infância, no decurso
Freud, a oposição feminino-masculino só se es-
do período edipiano, porém, nessa idade, ele é
tabelece claramente na adolescência, quando
dominado precisamente pela afirmação fálica.
a sexualidade se caracteriza pela oposição fáli-
A emergência pubertária atualiza-o e lhe dá
co-castrado; o Édipo modifica a bissexualidade
uma realidade e uma acuidade inteiramente no-
psíquica, com uma identificação masculina pre-
vas. Classicamente, esse reconhecimento seria
ponderante sobre a identificação feminina no
primário no menino (N1 precede N2) e secun-
menino, e o oposto na menina. Para os autores
dário na menina (N2 precede N1).
que sucederam Freud, a identidade sexual é ad-
quirida bem antes da puberdade. R. J. Stoller
distingue o sentimento precoce de pertencer a (N2) “O sexo que eu não tenho”. É a fase
um sexo e a realidade anatômica de seu próprio de reconhecimento da diferença anatômica dos
sexo, “identidade nuclear de gênero” (que apa- sexos e que corresponde à aceitação da prova
rece na primeira infância), do sentimento que da realidade no campo da sexualidade: “o outro
é elaborado posteriormente com base no pri- não é como eu”. Também aqui, embora a cons-
meiro graças à evolução libidinal descrita por tatação da diferença geralmente seja adquirida
Freud: identidade sexual propriamente dita ou desde a infância (mas não sempre) e mobilize a
“identidade de gênero”. Para Stoller, esta últi- “curiosidade sexual”, por um lado, e a angústia
ma se estabelece antes da puberdade, pois ela é da castração, de outro, essa diferença ainda está
originária diretamente do conflito edipiano. A sujeita ao primado do falo. Ela dá à adolescência
masculinidade e a feminilidade correspondem uma dimensão bem diferente, justamente por-
às identificações secundárias constituídas pela que o corpo, ao se tornar púbere, já não é sim-
criança graças à fantasia do complexo de Édipo. plesmente uma questão de curiosidade psíquica,
O desenvolvimento dessa identidade de gênero mas uma prova corporal que pode ser fonte de
prossegue intensamente pelo menos até o final angústia, de perplexidade ou de sentimento de
da adolescência. Esse período, como assinala perseguição. (“O que é que o outro pode sentir
Erikson, representa ao mesmo tempo a última em um corpo tão diferente do meu?”).
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 139

Quadro 7.1 Os imprevistos da representação pré-consciente/consciente da identidade sexuada


Pensamento consciente
ou pré-consciente Significação simbólica Trabalho psíquico de elaboração
1 O sexo que eu tenho Reconhecimento de seu sexo Afirmação narcísico/fálica da iden-
tidade sexuada (infância-édipo)
2 O sexo que eu não tenho Reconhecimento da Aceitação da prova da realidade
diferença dos sexos (infância-latência)
3 Falta alguma coisa em mim Aceitação da castração simbólica Renúncia à onipotência infantil
(início da adolescência)
4 O outro tem o que me falta Reconhecimento da Elaboração da posição depressiva:
complementaridade dos sexos aceitação da dependência
(adolescência)
5a A vagina não é perigosa para o Neutralização Abandono do arcaico maternal
pênis da oralidade agressiva (o continente destrói o conteúdo)
5b O pênis não é perigoso para a Neutralização da analidade agres- Abandono da violência máscula
vagina siva destrutiva (o conteúdo destrói o
continente)

(N3) “Falta alguma coisa em mim”. É a seguição, ou mesmo de alienação. Aceitar essa
fase de aceitação da castração simbólica tanto necessária complementaridade dos sexos signi-
para um quanto para o outro sexo: para além fica aceitar a finitude humana e a necessidade
da constatação da diferença anatômica dos de relação, da qual ninguém pode escapar.
sexos, a puberdade confronta o sujeito com a
falta fundamental e estrutural que constitui
toda pessoa: a pulsão genital busca seu objeto (N5) A realização sexual. É a fase duran-
de satisfação. Até aqui, a imaturidade sexual te a qual o sujeito se vê confrontado com suas
tinha “protegido” a criança dessa obrigação de fantasias sexuais por meio da cena imaginária da
constatação, e era isso o que lhe dava essa sen- cópula, retomando os cenários da “cena primi-
sação de onipotência infantil à qual justamen- tiva” infantil, isto é, a maneira como a criança,
te o adolescente tem de renunciar. É nesse sen- no período da neurose infantil, podia fantasiar
tido que o acesso à genitalidade não é apenas a sexualidade dos pais. A possível realização se-
um ganho, mas pode ser sentido também como xual atualiza essas fantasias no adolescente sob
uma perda relativa (ver a seguir). Essa fase é a forma de “cenas pubertárias”, de forma tanto
específica da adolescência, e é provável que sua mais intensa quanto tiver vivenciado as fases
acuidade seja bem mais intensa nessa idade do anteriores com um sentimento de angústia ou
que será posteriormente. de perseguição. A necessária agressividade tem
de ser neutralizada pela libido, de modo que essa
“cena genital” (originária da cena primitiva via
(N4) “O outro tem o que me falta”. É a cenas pubertárias) não seja submetida inteira-
fase de reconhecimento da necessária comple- mente aos movimentos pulsionais de violência e
mentaridade dos sexos e, conseqüentemente, de ódio. Continente e conteúdo devem, se não
da aceitação da dependência, com a elaboração neutralizar um ao outro, pelo menos se equilibrar
consecutiva da posição depressiva. No momen- em uma relação de confiança recíproca mínima.
to em que o adolescente gostaria de afirmar sua Duas fantasias agressivas podem predominar e
total independência, a pulsionalidade sexual impedir esse relativo equilíbrio, a da oralidade
confronta-o primeiramente com a “necessida-
devoradora e da analidade explosiva:
de” do objeto complementar (análogo sexual
da fase do objeto parcial), e em seguida com
o outro portador desse objeto (objeto total), o (N5a) “A vagina não é perigosa para o
que pode ser visto como uma ameaça de per- pênis”. É a fase de neutralização da oralidade
140 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

agressiva e de abandono da submissão ao arcai- o genitor do mesmo sexo que ele, para se prote-
co maternal devorador que é simbolizado pela ger da ameaça incestuosa. Mas, ao mesmo tem-
fantasia da periculosidade do continente para po, esse movimento confronta-o com a ameaça
todo conteúdo. da confusão identitária: estou muito próximo,
pareço muito com ele, corro o risco de não sa-
(N5b) “O pênis não é perigoso para a va- ber mais quem eu sou. Enquanto na infância essa
gina”. Fase de neutralização da analidade agres- aproximação reforçava a construção da identida-
siva e de abandono da submissão à violência de, na adolescência, subitamente, torna-se uma
máscula destrutiva que é simbolizada pela fan- ameaça potencial para essa mesma identidade.
tasia da periculosidade do conteúdo para qual-
quer continente. (03) “A aliança com os iguais”. – Duran-
Contudo, ao lado dessa representação para te essa fase, o(a) adolescente se afasta de seu
o sujeito de sua pulsionalidade sexual, deve-se objeto edipiano indireto, o genitor do mesmo
operar uma segunda linha de reorganização, sexo, para não se submeter a ele e não se con-
aquela em que o indivíduo precisa reelaborar fundir com ele. A partir de agora, ele procura-
sua relação com o outro a partir da novidade de rá e tentará encontrar junto a seus iguais, so-
sua posição edipiana pós-pubertária. De fato, o bretudo do mesmo sexo, os apoios necessários
“pubertário”, que significa para o funcionamen- marcados pela barreira das gerações (há coisas
to psíquico o que a puberdade significa para o que se faz entre colegas que não se faz mais
corpo (Gutton, 1991), excita o adolescente e com os adultos e principalmente com os pais),
o obriga ao trabalho relacional seguinte (ver mas que desperta o risco da homossexualidade
Quadro 7.2): para além da homofilia, que se caracteriza por
esse prazer de estarem todos juntos e serem to-
(01) “A aproximação incestuosa”. – É a dos semelhantes.
fase que impulsiona o(a) adolescente em di-
reção ao seu “objeto incestuoso”, o genitor do (04) “A descoberta do objeto de amor”.
outro sexo. Mas, ao mesmo tempo, esse movi- – Essa fase insere o(a) adolescente na relação
mento confronta-o com a ameaça incestuosa. com um outro diferente de si, tanto no plano da
Assim como na infância essa aproximação era diferença dos sexos quando na radical “alterida-
inofensiva e mesmo fonte de um evidente pra- de” do outro. Assim, o(a) adolescente se livra
zer, na adolescência essa aproximação, por ser da ameaça homofílica e homossexual, mas se vê
excitante, torna-se ameaçadora. confrontado com a radical alteridade do outro,
isto é, o sentimento de solidão.
(02) “A submissão isogenérica”. – É a fase É o conjunto desse trabalho de elaboração
que impulsiona o(a) adolescente a avançar em que caracteriza a construção da identidade e das
direção ao seu “objeto edipiano indireto”, isto é, identificações sexuais na adolescência com um

Quadro 7.2 A reelaboração da relação com o outro sob o impacto da puberdade e de suas
vicissitudes
A vivência consciente ou pré-
consciente Significação simbólica Trabalho psíquico de elaboração
1 A excitação provocada pelo genitor Transbordamento traumático: O édipo direto ou positivo
do outro sexo a ameaça incestuosa
2 A submissão isogenérica: o refúgio Ameaça de confusão identitária: O édipo indireto ou negativo
junto ao genitor do mesmo sexo a necessidade parricida
3 A aliança com os iguais Atração homofílica: A inscrição da barreira geracional
a ameaça homossexual
4 O primeiro amor: o objeto de amor Ameaça de solidão: a radical alteri- A inscrição na diferença dos sexos
dade do outro
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 141

entrecruzamento dessas duas problemáticas, a o estudo da sexualidade entre os adolescentes


da representação da pulsionalidade sexual em de uma tribo indiana, os muria, no Estado de
uma dimensão essencialmente narcísica e a da Bastar. Nessa tribo, a vida sexual dos adoles-
relação com o outro em uma dimensão mais ob- centes é centrada em uma instituição chama-
jetal. Evidentemente, a necessária reelaboração da Ghotul, ou casa dos jovens. Essa casa é uma
das relações com os objetos edipianos constitui instituição altamente hierarquizada, em que o
o plano de fundo desse trabalho que, por outro chefe representa o pai e a chefe representa a
lado, solicita também os fundamentos da iden- mãe. Nessa casa, verdadeiro estabelecimento
tidade primária, base do narcisismo. noturno, os encontros geralmente ocorrem à
Enfim, no plano econômico, a puberdade noite, sendo que os meninos chegam um a um,
confronta o jovem com uma excitação que o trazendo suas esteiras de deitar, e em seguida
ameaça permanentemente de transbordamento, chegam as meninas, todas juntas. Após as ati-
solicitando de maneira ativa seu funcionamento vidades preliminares (penteado, massagem),
psíquico mediante a capacidade de desinvesti- todo mundo se prepara para ir para a cama. De
mento, deslocamentos, reinvestimentos, subli- manhã, as meninas devem sair do Ghotul antes
mação, etc. De fato, a puberdade e, mais ain- do alvorecer. De fato, uma menina não pode
da, seu correspondente psíquico, o pubertário, permitir que seus pais a vejam nem quando ela
solicitam intensamente a vida fantasmática, o sai de casa para ir para o Ghotul nem quando
que leva o sujeito a elaborar cenários imaginá- volta. O sistema do Ghotul obriga as jovens
rios que sejam fontes de gratificações possíveis a mudar de parceiro a cada dois ou três dias.
e toleráveis. Essa excitação pode ter valor trau- Em troca, se futuros esposos vivem na mesma
mático pela dimensão incontrolável que pode Ghotul, eles não devem se aproximar um do
assumir às vezes quando o jovem não suporta a outro. Há também todo um círculo de paren-
frustração que será imposta pela necessária es- tesco proibido. Sem dúvida, poderíamos citar
pera: as provações corporais e sensoriais podem outros exemplos, em outras culturas, descritos
se tornar então quase persecutórias. A busca da de forma notável por Mead ou Malinowski. As
descarga pela passagem ao ato pode tornar-se ligações existentes entre a organização social e
compulsiva para certos adolescentes, na tenta- a sexualidade dos adolescentes estão mais do
tiva de libertar o corpo dessa tensão invasiva. que provadas. Para ficar apenas na civilização
Durante muito tempo, essa via de descarga foi ocidental, as mudanças constatadas no nível
essencialmente auto-erótica e masturbatória, dos comportamentos sexuais dos adolescentes
apoiando a atividade de representação ou, na não podem ser isoladas das modificações sociais
falta disso, agida por meio de condutas auto- globais relacionadas a essa faixa etária ao longo
agressivas (tentativa de suicídio, acidentes, dos últimos 30 anos.
etc.). A relativa liberdade sexual atual permite Contudo, encontra-se uma constante quais-
a certos jovens confrontados com esse excesso quer que sejam as épocas ou as sociedades. O.
de excitação a encontrar a via direta de descar- F. Kernberg sugere, de fato, que a “moralidade
ga em um ato sexual, hétero ou homossexual. convencional” (isto é, as regras sociais) pode
proteger o casal e sua intimidade contra a agres-
são do grupo ampliado do qual ele faz parte, mas
ao preço de uma sexualidade “autorizada”. A
Fatores Socioculturais hipótese de Kernberg repousa de fato na idéia
de que a reação do grupo em face do casal é fun-
Se a sexualidade e as principais fantasias damentalmente ambivalente: a idealização e a
sexuais são comuns a todos os adolescentes, se- esperança que o casal evoca no grupo do qual
jam quais sejam as épocas ou as culturas, não é faz parte são contrabalançadas pela inveja, o res-
menos verdade que as relações sexuais, sua pre- sentimento e o desejo do grupo de destruir essa
paração, sua freqüência, sua maior ou menor fa- união. Isso explica porque os indivíduos ou os
cilidade, sua aceitação pelo grupo ou pelos pais casais reagem sempre por um distanciamento
variam segundo a cultura e segundo as épocas; em face da “ideologia oficial”. Essa observação
os relatos e os trabalhos de etnólogos ilustram é importante para o adolescente, que tem como
bem isso. Mencionemos, a título de exemplo, uma de suas tarefas a capacidade de estabelecer
142 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

pouco a pouco uma sexualidade pessoal satis- a homossexualidade, o fetichismo, o travestis-


fatória e realizá-la na intimidade de um casal. mo e as perversões pertencem a essa categoria.
Assim, convém examinar nos adolescentes sua Contudo, essas condutas só podem ser conside-
capacidade de se realizar em uma vida de casal radas como patológicas na medida em que são
com uma certa independência em face do grupo um indício de que o adolescente não integrou
social à sua volta. Este último pode ser o grupo uma imagem do corpo fisicamente madura ou
social dos adultos e dos pais, mas também o gru- não estabeleceu uma identidade sexual pessoal.
po social dos iguais, isto é, de outros adolescen- Uma tal avaliação deve aguardar o fim da ado-
tes. Não é raro, por exemplo, ver adolescentes lescência. Antes disso, essas condutas podem
cujos comportamentos fazem crer em uma gran- parecer às vezes como o indício de um esforço
de liberação sexual, mas que na verdade masca- do Ego para estabelecer essa identidade sexual.
ram uma séria inibição e que refletem um fra- M. Laufer insiste em que é desejável informar
casso na diferenciação do casal ou do indivíduo o adolescente antes de qualquer tratamento da
em face dos valores ideológicos convencionais própria concepção do terapeuta acerca da nor-
do grupo de iguais. malidade de tal conduta sexual.
Podemos distinguir três categorias de dificul-
dades no âmbito da sexualidade do adolescente:
PSICOPATOLOGIA DAS PRINCIPAIS – a realização sexual e suas dificuldades:
CONDUTAS SEXUAIS ausência de relações sexuais, frigidez, ejacula-
ção precoce, impotência;
– a escolha de objeto sexual e suas dificul-
O exame de condutas sexuais em psicopa- dades: masturbação, homossexualidade, condu-
tologia coloca um problema complexo, centra- ta incestuosa;
do na noção de normalidade. Mais uma vez, é – a identidade sexual e suas dificuldades:
preciso distinguir o ponto de vista sociológico transexualismo, ambigüidade social.
da anormalidade e o ponto de vista clínico e
psicopatológico sobre a anormalidade em re- Recordemos mais uma vez que essa distin-
lação ao desenvolvimento psíquico. M. Laufer ção em três categorias é esquemática. É incon-
expõe o problema da seguinte maneira: testável, por exemplo, que, se a homossexuali-
dade remete a uma dificuldade da escolha do
– de um ponto de vista semiológico, cer- objeto sexual, ela coloca ao mesmo tempo o
tas formas de atividades ou de comportamentos problema da constituição da identidade sexual
sexuais durante a adolescência representariam do indivíduo.
invariavelmente uma ruptura no desenvolvi-
mento psicológico;
– de um ponto de vista estrutural, certas
rupturas, quando ocorrem, manifestam-se por As Dificuldades da Realização Sexual
uma atividade ou um comportamento que apa-
rece como anormal na evolução ou no trata- As dificuldades da realização sexual podem
mento; assumir diferentes formas, mais ou menos intri-
– de um ponto de vista epistemológico, cadas:
finalmente, o psicanalista deve estabelecer um
julgamento sobre tal atividade ou tal comporta- 1) A ausência total de relações sexuais du-
mento na evolução de um tratamento? rante a adolescência representa hoje, sem dúvi-
da, uma anormalidade no sentido estatístico do
Para esse autor, é preciso deixar claro: “As termo. Qualitativamente, essa ausência pode
formas de atividades sexuais que necessitam ser ser sinal de uma inibição neurótica, massiva, ou
consideradas como anormais em termos de de- de uma angústia ainda mais arcaica.
senvolvimento psicológico [...] são aquelas que 2) Inversamente, relações sexuais múlti-
excluem a heterossexualidade como a atividade plas com mudanças de parceiros quase sistemá-
sexual primária entre dois indivíduos”. Assim, ticas, em uma sexualidade aparentemente livre
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 143

de qualquer culpabilidade ou conflito, podem as etapas sucessivas da adolescência, tal como


ser o sinal de uma depressão intensa, centrada foram descritos, por exemplo, por P. Blos. Três
não tanto no prazer ou no não-prazer do fun- condutas particulares ilustram bem o proble-
cionamento do corpo, mas em uma inibição ma da escolha de objeto: a masturbação, a ho-
intelectual: “Assiste-se a uma ressexualização mossexualidade e as condutas incestuosas. Em
do funcionamento mental, que se torna então troca, não trataremos as diferentes condutas
a única castração, e a uma dessexualização da sexuais perversas (fetichismo, zoofilia, exibicio-
sexualidade” (Kestemberg, 1978). nismo, sadismo sexual, etc), pois elas são raras
3) O primeiro orgasmo, a primeira ejacu- na adolescência.
lação, a primeira masturbação, as primeiras re-
gras, as primeiras relações sexuais podem estar
na origem de um traumatismo psíquico, trau- A masturbação. – Já está longe o tem-
matismo encobridor em face dos traumatismos po em que a masturbação era vista como um
sexuais infantis. Em um nível inconsciente, vício ou uma doença. Hoje, a masturbação é
essa primeira experiência marca a participação considerada como uma atividade natural, se
na cena primitiva e reaviva a angústia ineren- não necessária. A questão que se deve colocar
te ao conflito edipiano: angústia de castração, agora é a seguinte: como essa conduta banal,
e depois, mais profundamente, angústia de e que pertence ao registro da psicologia nor-
fragmentação. Clinicamente, podemos assistir mal, pode se inserir no campo da psicopato-
então a atitudes de recolhimento que revelam logia na adolescência? Joyce MacDougall fala
uma inibição neurótica subjacente, em particu- de “processo masturbatório” e descreve duas
lar no âmbito intelectual, ou a invasões psicóti- vertentes dele: um ato e uma fantasia. Essas
cas em adolescentes mais frágeis. duas vertentes podem ter destinos diferentes
4) A frigidez primária ou secundária, a eja- na vida psíquica.
culação precoce e a impotência. Depois de eli- Se o ato masturbatório, como todos sabem,
minada uma causa orgânica, esses transtornos aparece bem antes da adolescência, nessa idade
se reportam ao mesmo tipo de mecanismo psi- ele culmina na possibilidade de uma ejaculação
copatológico, e se relacionam à angústia ligada e, portanto, de um orgasmo.
ao conflito edipiano. Essas dificuldades na rea- A ligação entre o ato masturbatório e a fan-
lização sexual são freqüentes na adolescência, tasia interessa muito particularmente ao clíni-
mas geralmente transitórias. Contudo, elas po- co: para os psicanalistas, o adolescente que se
dem perdurar, tornando-se manifestações parti- masturba introjeta uma imagem da cena primi-
cularmente paralisantes, mas esses pacientes só tiva na qual, por seu ato, ele pode ser pai e mãe
se queixarão disso bem mais tarde, já adultos. ao mesmo tempo. O “processo masturbatório”
5) Finalmente, abordaremos os diferentes realiza então, por excelência, a ilusão bissexual
transtornos menstruais da adolescência: ame- da vida erótica, o ideal hermafrodita. Assim, ao
norréia primária ou secundária, dismenorréia, se masturbar, o adolescente controla magica-
metrorragia ou menorragia. Eles requerem um mente seus pais e nega o perigo da castração. O
balanço orgânico, mas em geral traduzem uma ato e a fantasia associada a ele são, portanto, o
aceitação difícil pela adolescente de sua femini- lugar de um desejo profundamente proibido, e
lidade e de sua sexualidade. Nesses problemas criam sentimentos de culpabilidade, de vergo-
cotidianos da medicina, costuma-se desprezar nha e de ansiedade.
um apoio psicológico. Se o ato masturbatório é facilmente admis-
sível e confessável, o mesmo não ocorre com
a fantasia que o acompanha. O conteúdo das
fantasias masturbatórias, para alguns, atraves-
As Dificuldades da Escolha Sexual sa duas etapas. No início da adolescência, as
fantasias masturbatórias são mais de natureza
A escolha de objeto sexual de que falamos regressiva; encontram-se aí as fases eróticas do
anteriormente passa por vicissitudes mais ou início da vida, orais, anais, sádicas, narcísicas,
menos significativos ao longo de toda a ado- homossexuais e heterossexuais; posteriormente,
lescência. Poderíamos diferenciá-los conforme elas se tornam mais heterossexuais e se centram
144 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

em um parceiro sexual preciso. A masturbação que as condutas masturbatórias muito freqüen-


é vivida pelo Ego, então, como uma preparação tes, um estado patológico. Contudo, as ligações
para assumir o papel de parceiro sexual, o que entre certos aspectos psicopatológicos e o re-
lhe dá um valor positivo. No momento da re- tardo ou a ausência de masturbação são com-
solução do complexo de Édipo e da interioriza- plexas. M. Laufer mostrou que, no tratamento
ção do Superego, M. Laufer descreve a “fantasia de adolescentes que apresentam um “desmoro-
masturbatória central”, fantasia cujo conteúdo namento psíquico” ou uma perturbação mental
é constituído pelas diferentes satisfações agres- grave, a masturbação é sentida como algo de
sivas e das principais identificações sexuais. Ela profundamente angustiante ou mesmo em dis-
não depende da existência ou não de uma con- cordância com eles. Toda sensação pelo corpo
duta masturbatória agida da infância. É univer- e no corpo é experimentada como uma verda-
sal. Durante o período de latência, o conteúdo deira efração e como uma ameaça para o seu
dessa fantasia permanece inconsciente. Na próprio Ego: a ejaculação noturna, as relações
adolescência, ele adquire um novo sentido em sexuais e a masturbação representam para esses
razão da maturação fisiológica dos órgãos geni- adolescentes uma perpétua demanda pelo corpo
tais e impõe novas exigências ao Ego. de sentir algo que eles justamente tentam ne-
Na adolescência, o processo masturbató- gar. No nível da fantasia masturbatória, surge
rio, que associa masturbação e fantasia, torna uma confusão a propósito do papel respectivo
possível a integração e depois a evolução de do homem e da mulher no ato sexual, não há
fantasias perversas da infância: ele ajuda o Ego mais ilusão bissexual, mas uma confusão de
a se organizar em torno da supremacia da geni- identidade (M. Laufer).
talidade e do prazer terminal. Para alguns, isso
é particularmente verdade para o menino. Na
adolescente, parece que o ato masturbatório é A homossexualidade. – Os dados epide-
menos freqüente, e que o processo masturba- miológicos mostraram-nos que a prática regu-
tório, tal como acabamos de descrever, afetaria lar da homossexualidade em geral só se instala
mais a totalidade de seu corpo. após os 21 anos. Porém, quando se consultam as
No caso em que o ato masturbatório é au- obras que tratam da homossexualidade na ado-
sente ou reprimido, a fantasia não tem mais lescência, a grande maioria dos autores está de
saída corporal, e, nessas condições, a libido e a acordo em afirmar que ela é freqüente. De fato,
energia que seriam descarregadas no ato podem tudo depende do que se entende por homosse-
se infiltrar em atividades do Ego e alterar seu xualidade.
desenvolvimento. Vale lembrar, a esse respeito, Portanto, quando se fala de “homossexua-
o artigo de M. Klein, de 1927, intitulado “Con- lidade”, é preciso distinguir entre a construção
tribuição à psicogênese dos tiques”: M. Klein de identificações (ver item “Identidade-identi-
mostra como uma supressão radical da mastur- ficação”, no Capítulo 1), as fantasias ou deva-
bação engendrou em um pré-adolescente, além neios homossexuais, os temores conscientes da
de uma grande inibição relacionada aos inte- homossexualidade, os jogos e as carícias entre
resses intelectuais e às relações sociais, o surgi- colegas do mesmo sexo, as relações homosse-
mento de um tique importante e preocupante. xuais intermitentes e a prática homossexual
Em consonância com Ferenczi, ela afirma que exclusiva. Para todas essas situações, o uso in-
“o tique é o equivalente da masturbação” e, diferenciado da palavra “homossexualidade”
mais do que isso, das fantasias masturbatórias produz mais confusões e erros do que clareza e
ligadas a ela. Assim, a análise dessas fantasias coerência semiológica.
masturbatórias foi a chave da compreensão do Devemos esclarecer, finalmente, que a ho-
tique, e, depois, de seu desaparecimento. Uma mossexualidade não é um diagnóstico em si,
tal análise permitiu a esse pré-adolescente supe- mas que se trata de avaliar por meio de uma
rar seu medo, tocar seus órgãos genitais e assim fantasia, de um desejo, de um temor ou de uma
vencer seu temor diante da masturbação. prática a relação que o adolescente estabelece
No momento da adolescência, pode-se con- com seu corpo e com o outro, aceitando (ou
siderar que a ausência total de masturbação ou não) levar em conta a realidade da diferença
seu aparecimento muito tardio traduz, mais do anatômica dos sexos.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 145

A questão da homossexualidade em clíni- identitária, de reconhecimento e de integra-


ca. – Lebovici e Kreisler distinguiram diferen- ção da imagem sexuada de seu próprio corpo,
tes situações clínicas durante as quais a questão mas também de reconhecimento e aceitação do
da homossexualidade poderia ser levantada outro sexo como complementar do seu. Essas
pelo adolescente e/ou seus pais. Contudo, os fantasias homossexuais costumam estar ligadas
autores consideram que se deveria reservar o ao necessário trabalho de luto da onipotência
termo “homossexual” para os adolescentes que infantil. Às vezes, essas fantasias são tão inten-
“se dedicam” a práticas homoeróticas com um sas que o adolescente desenvolve as condutas
gosto exclusivo e de maneira repetida. Segundo de luta que estão na origem da consulta ou do
esses autores, não se pode qualificar de homos- tratamento: tentativa de suicídio, anorexia
sexuais os adolescentes que tenham contatos mental, toxicomania, comportamento sexual
homossexuais isolados ou nos quais se alternam caótico, automutilação, etc. Desse ponto de
experiências homossexuais e heterossexuais, vista, a indagação sobre a “homossexualidade”
nem aqueles em que não há repetição dessas é um tema habitual, se não patente pelo menos
experiências. latente, em numerosas psicoterapias.
1) Temor e/ou pensamento homossexual: às 3) As relações homossexuais propriamente
vezes o clínico é interpelado pelo adolescen- ditas representam uma situação clínica muito
te que julga ser homossexual porque se sente menos freqüente. Na pesquisa INSERM 1993
“atraído” pelos de seu sexo. Essas fantasias tão (Le Monde, 26 de maio, 1994) junto a 12.391
freqüentes geralmente se integram a uma rela- jovens de 11 a 19 anos, 2% dos meninos e 1%
ção de amizade intensa, ou a uma atração no das meninas declararam ter tido relações ho-
grupo de colegas do mesmo sexo. Elas testemu- mossexuais. Para M. Laufer (1989), em face de
nham a intensidade da ligação edipiana inver- uma conduta homossexual na adolescência, é
tida (ver p. 25) e da necessidade de se desligar preciso esclarecer algumas coisas: a) se a ativi-
dela apoiando-se no amigo ou no grupo. dade homossexual existiu antes da adolescên-
Às vezes, esses temores ou pensamentos se cia, o que em geral testemunha que as distor-
integram em um quadro semiológico mais preci- ções na imagem do corpo preexistiam antes da
so, em particular uma neurose obsessiva marca- puberdade; b) se as passagens ao ato homosse-
da pelo repúdio desses pensamentos/desejos sen- xuais ocorreram pouco depois da transformação
tidos como homossexuais ou a inquietação que pubertária e se duraram toda a adolescência,
eles provocam. Em um grau suplementar, esses situação em que a elaboração psicodinâmica da
pensamentos são projetados no exterior em for- adolescência corre o sério risco de ter sido seria-
ma paranóide (medo de ser seguido ou persegui- mente entravada; c) se a atividade homossexual
do por um adulto do mesmo sexo) ou delirante implica uma penetração (anal, oral) ou apenas
(convicção delirante de ser homossexual). uma masturbação recíproca, o que em geral tes-
Às vezes, são os pais que levam seu ado- temunha um apego à fantasia de completude da
lescente à consulta, com o temor de que este primeira infância; d) se o parceiro homossexual
seja homossexual, por atitudes e interesses que é único e carregado de uma significação afetiva
consideram ambíguos. Essa situação costuma particular (o que ainda pode se integrar a uma
ser preocupante, pois, diante dessas recrimina- relação de apoio identitário ou de submissão a
ções dos pais, o adolescente corre o risco de en- uma ligação edipiana particularmente intensa)
trar em um processo de identificação negativa ou, ao contrário, se há vários parceiros sexuais
(identificar-se com os aspectos temidos pelos sem envolvimento afetivo, o que pode repre-
pais para tentar se livrar de uma ligação edipia- sentar necessidades compulsionais de ataque do
na invasiva), cortina de fumaça de uma patolo- próprio corpo ou do objeto.
gia subjacente em geral importante. Obviamente, não se trata de propor uma
tipologia artificial e de estabelecer uma correla-
2) As fantasias ou devaneios homossexuais ção entre um ato e um conflito psíquico particu-
com freqüência aparecem durante uma psico- lar, mas, ao contrário, de mostrar a diversidade
terapia do adolescente. Eles traduzem com toda de arranjos pulsionais e defensivos, de níveis de
evidência o trabalho psíquico de elaboração construção identitária por trás de uma conduta
146 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

que se costuma resumir com muita freqüência Para Freud, a homossexualidade é uma in-
em um único termo. versão quanto ao objeto sexual. A inversão na
As relações homossexuais na adolescência adolescência é freqüente e normal; três dados
geralmente são marcadas por uma grande cul- explicam por que a inversão não se prolonga na
pabilidade ou, às vezes, por uma verdadeira ver- idade adulta:
gonha. De fato, o reconhecimento social que os
adultos conseguem obter não é tão fácil para os 1) a atração que as características do sexo
adolescentes, que quase sempre escondem sua oposto exerce sobre um e outro;
homossexualidade. 2) a influência inibidora exercida pela so-
ciedade;
4) A homossexualidade venal: a homosse- 3) as lembranças da infância:
xualidade venal no adolescente representa o – no homem, são lembranças da ter-
último caso citado por Lebovici e Kreisler. Essa nura que recebeu de sua mãe e que o
situação polimorfa pode se integrar em numero- induzem a dirigir sua escolha de ob-
sos contextos clínicos. Ela pode marcar: jeto para a mulher, e as lembranças
de intimidação sexual por parte do
– a entrada na psicose; pai, que o induzem a se desviar dos
– a luta contra a ansiedade neurótica; objetos masculinos;
– na maioria das vezes, insere-se no quadro – na mulher, são lembranças da tutela
de condutas psicopáticas, sendo acompanhada da mãe, que favorecerá a atitude hos-
então de outras manifestações, como a prosti- til em face de seu próprio sexo e que
tuição ou a toxicomania. a induz para uma escolha de objeto
A homossexualidade na adolescência apre- heterossexual.
senta, portanto, uma grande diversidade de for- Anna Freud considera as manifestações
mas. Sem negar essa diversidade, que remete a homossexuais da adolescência como normais.
situações diferentes, Lebovici e Kreisler consi- Elas são “recorrências de ligações objetais pré-
deram que o termo homossexual deve ser reser- genitais, sexualmente indiferenciadas, que se
vado aos adolescentes que “se dedicam a práti- reativam durante a pré-adolescência, ao mesmo
cas homoeróticas com um gosto exclusivo e de tempo em que muitas outras atitudes pré-geni-
forma repetida”. Assim, não se pode qualificar tais e edipianas. A escolha de objeto sexual na
de homossexuais os adolescentes que tenham adolescência se deve também à regressão do in-
contatos homossexuais isolados ou nos quais se vestimento de objeto para o amor por sua pró-
alternam experiências homossexuais e heteros- pria pessoa e para a identificação com o objeto”.
sexuais, nem aqueles em que não há repetição Portanto, o objeto passa a representar o Eu real
dessas experiências. Isso explica, sem dúvida, a e o ideal do Eu. As manifestações homossexuais
taxa reduzida de homossexualidade manifesta são então fenômenos de ordem narcísica. “Elas
no adolescente apresentada pelos estudos epi- [as manifestações homossexuais] são mais sig-
demiológicos. nificativas da profundidade da regressão do que
do papel sexual posterior do indivíduo.” Assim,
Significações psicológicas e psicopato- para Anna Freud, a distinção entre a homosse-
lógicas. – Citaremos aqui apenas modelos de xualidade latente e a homossexualidade mani-
compreensão referentes à teoria psicanalítica; festa aplica-se à sexualidade adulta, e não pode
essa abordagem é que predomina nos trabalhos servir para explicar a masturbação mútua e ou-
consagrados à adolescência. De fato, a maioria tros jogos sexuais entre adolescentes.
dos estudos distingue a homossexualidade da Blos e, sobretudo, M. Laufer prosseguem
primeira parte da adolescência, que correspon- nessa direção, distinguindo claramente a ho-
de a uma fase normal de desenvolvimento, e a mossexualidade correspondente a uma fase
homossexualidade da segunda parte da adoles- normal do desenvolvimento durante a primeira
cência, que pode ter uma significação diferente, adolescência (ou “adolescência propriamen-
mais inquietante, abrindo caminho à homosse- te dita”, cf. Capítulo 2) e a homossexualidade
xualidade do adulto. fixada, por assim dizer (comparável à do adul-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 147

to), que pode se observar durante a adolescên- com os do seu sexo (necessidade de inserção nas
cia dita tardia. Durante o primeiro período, as identificações de grupo), esses garotos preferem
relações homossexuais podem constituir para a companhia de meninas. Em geral são rejeita-
o adolescente “um meio de experimentar sua dos pelos outros meninos e alvos de zombaria.
maturidade física e as sensações corporais re- Esses adolescentes eventualmente sofreram
lacionadas a isso”. Durante o último período, uma humilhação ligada à obrigação imposta
as relações homossexuais são sempre o sinal de pela mãe de usar roupas femininas. Embora em
uma perturbação, pois “ele deverá ter aceitado um grau menor do que no caso do transexua-
sua maturidade corporal e ser capaz de relações lismo (ver item “O transexualismo”, neste ca-
heterossexuais”. Entre esses dois tipos de ho- pítulo), essas crianças e adolescentes também
mossexualidade, P. Blos evoca a necessidade de podem ter vivido uma relação particularmente
uma resolução do complexo de Édipo invertido, próxima e intensa com sua mãe, enquanto que a
resolução que abre caminho para a escolha de relação com o pai é inexistente ou precária (pai
objeto sexual do adulto. M. Laufer insiste em fraco, derrotado, desvalorizado). Se o travestis-
dois critérios para avaliar as condutas homosse- mo pode se manter por muito tempo como uma
xuais na adolescência: o primeiro temporal, pois prática limitada, em certos casos o adolescente
elas podem ser consideradas como patológicas ou o jovem adulto entra em uma relação de tipo
em uma época e normais em outra; e o segun- homossexual (ver item “A homossexualidade”,
do qualitativo, visto que uma mesma conduta neste capítulo).
pode ter significações diferentes em uma mesma
época da adolescência: por exemplo, durante o
primeiro período, uma conduta homossexual As Dificuldades Específicas do
não tem sistematicamente uma significação fa-
vorável, pois relações homossexuais prematuras Estabelecimento da Identidade Sexual
podem ocultar nessa idade a recusa da mudança
corporal que obriga o adolescente a renunciar Tratamos aqui de dois problemas: o tran-
ao segredo de seu corpo. sexualismo e o intersexualismo ambíguo. O
Finalmente, ao se inscrever a significação transexualismo é um transtorno específico da
da conduta homossexual no processo integral identidade sexual. O transexual, assim como o
da adolescência, não se pode deixar de assina- sujeito normal que recalca a alteridade sexual,
lar a importância do grupo identificatório de a participação do outro sexo nele, tem o senti-
iguais, que tem como função a integração da mento de pertencer exclusivamente a um sexo.
libido homossexual e a resolução de problemas Mas, ao contrário do sujeito normal ou do ho-
colocados pela identificação com o genitor do mossexual, não há no transexual uma escolha
sexo oposto. sexual, todos os problemas se colocam no nível
da identidade sexual. A intersexualidade am-
Travestismo e fetichismo. – O travestismo bígua representa igualmente um transtorno da
é observado em um homem heterossexual que identidade, pois a escolha não se coloca mais
utiliza uma ou várias peças do vestiário femini- em relação ao objeto sexual suporte do objeto
no para provocar uma excitação sexual, seja ela interno, mas em relação às representações do eu
seguida de masturbação solitária, seja integrada enquanto objeto sexual e, portanto, enquanto
a uma troca com um parceiro sexual mais ou eu em sua identidade sexual.
menos cúmplice. O travestismo é mais encon-
trado na idade adulta. Contudo, certos autores O transexualismo. – O transexualismo
insistiram sobre os antecedentes na infância e geralmente começa na infância. Trata-se do
na adolescência observados nos travestis. As- “sentimento experimentado por um sujeito de
sim, segundo Stoller, esses sujeitos sempre gos- determinado sexo de pertencer ao sexo oposto
taram de se disfarçar de mulher ou de menina, e do desejo intenso, muitas vezes obsessivo, de
preferiam as brincadeiras de meninas (bonecas, mudar de conformação sexual, para viver sob
elásticos). No início da adolescência, na idade uma aparência condizente com a imagem que
em que habitualmente o indivíduo prefere estar construiu de si mesmo” (Alby, 1959).
148 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Na adolescência, o sujeito transexual faz perder a dimensão simbólica em proveito da


(mais o menino do que a menina) passa por imaginária (Safouan).
uma crise de identidade e ele próprio vive um Em certos casos, a demanda ou, pelo menos,
conflito: o tema transexual (declaração do sujeito que diz
ter um corpo do sexo atribuído no nascimento,
– interno: por causa do impacto do desen- mas uma “alma do outro sexo”) aparece relati-
volvimento de sua puberdade que ele não dese- vamente cedo na infância. Numerosos autores
ja e cujo processo ele não aceita; se indagaram sobre a infância dos transexuais.
– externo: por causa da pressão crescente Para Ovesey e Person (1973), a criança teria
de sua família e da sociedade em relação às suas sido vítima de uma intensa angústia de abando-
aspirações. no materno que tenta superar com uma fantasia
A puberdade, com o aparecimento de seios de fusão com ela.
e de regras nas meninas e das ereções nos meni- Para Stoller (1989), haveria no passado
nos, pode ser vista como catastrófica. São mui- desses pacientes uma infância feita de “excesso
to comuns nessa época as crises de depressão e de mãe e escassez de pai”; o menino teria vivi-
os gestos suicidas. Aspectos perversos, neuró- do com sua mãe uma simbiose “extremamente
ticos ou psicóticos podem prevalecer, segun- perfeita e extremamente feliz” que o pai, seja
do os sujeitos, mas, de todo modo, trata-se de por sua ausência ou por sua insignificância, não
um transtorno profundo da auto-imagem que procurou interromper em nenhum momento.
o adolescente vem reavivar. Entretanto, nem Essa simbiose estreita estaria na origem de uma
todos os adolescentes transexuais consideram “identidade de gênero” perturbada, marcada
a puberdade intolerável; alguns se resignam às por uma feminilidade precoce e acentuada
mudanças corporais, tentam por muito tempo no menino. Contudo, C. Chiland (1989) não
compatibilizar a personalidade com o corpo, e encontra sempre esse dados. Para essa autora,
se comportam de acordo com o que o entorno “a criança se conforma àquilo que ela imagina
espera deles, mas nunca conseguem suprimir que é preciso ser para que a amem”. É em torno
seus sentimentos (Kronberg et al., 1981). O dessa necessidade-desejo que se constitui sua
transexualismo pode ser compreendido como identidade primária. Porém, todos os autores
fazendo parte do grupo de perversões, última enfatizam uma qualidade particular da relação
defesa contra a psicose. mãe-filho, mas isso parece mais evidente para
As fronteiras com o travestismo e com a ho- os meninos.
mossexualidade nem sempre são muito nítidas, Embora a maioria das demandas cirúrgicas
mas a maior parte dos autores reconhece uma e/ou endocrinológicas dos transexuais ocorram
autonomia clínica ao transexualismo: “O tran- na idade adulta, a adolescência parece ser um
sexual que despreza dessa maneira a realidade período privilegiado para uma abordagem psi-
biológica não tem anomalias físicas. Ele tam- copatológica desse problema, antes que ele se
pouco delira em um delírio de transformação, cristalize em sua personalidade adulta.
tal como o presidente Schreber. Ele não pisca
perversamente para o público como o travesti. A intersexualidade ambígua. – A interse-
Ele tem a segurança tranqüila de possuir a ver- xualidade ambígua caracteriza-se antes de tudo
dade” (Daymas, 1980). pela anomalia dos órgãos genitais externos.
A compreensão psicanalítica do transe- Trata-se, evidentemente, de uma anomalia de
xualismo está mais estabelecida para o transe- origem orgânica, mas com grande repercussão
xualismo masculino do que para o transexua- no equilíbrio psicoafetivo. Vamos descrevê-
lismo feminino. Para o primeiro, a inibição ou la brevemente. Distinguem-se duas categorias
a aniquilação de toda angústia de castração principias:
até a castração real encontraria sua origem na
simbiose original e excessiva com a mãe e a ca- – O pseudo-hermafroditismo feminino, o
rência paterna. Em outros termos, a castração mais freqüente. Trata-se de meninas que pos-
simbólica se torna a castração real em razão da suem ovários, trompas, um útero e cujos órgãos
carência da função constituinte da palavra, que sexuais externos são de aparência viril. A ori-
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 149

gem dessa aparência virilizante é diversa. Dei- questões sempre suscitadas pelo aparecimento
xados à sua sorte, eles evoluem para uma mor- de novas potencialidades de seu adolescente.
fologia corporal claramente masculina.
– O pseudo-hermafroditismo masculino,
mais raro. Trata-se de meninos que possuem
testículos, geralmente em posição ectópica, um
Os Pais e a Sexualidade de Seus
epidídimo, canais deferentes, um broto genital Adolescentes: Mudanças Recentes de
reduzido, de aspecto clitoridiano, uma fenda Atitudes
vulviforme e eventualmente uma cavidade va-
ginal. Não existem transtornos endócrinos evo-
A mudança de atitude dos pais quanto aos
lutivos, de tal modo que na puberdade assiste-se
problemas da sexualidade em relação a seus fi-
à eclosão de características secundárias mascu-
lhos manifesta-se em diversos âmbitos:
linas: a voz, o sistema piloso, a morfologia.
– A informação sexual: a atitude dos pais
Na adolescência, dois tipos de problemas se
realmente mudou, o que parecia necessário, con-
apresentam:
siderando-se a evolução cultural. Hoje, de fato,
– Em certos casos, não foi feito nenhum os pais são muito favoráveis à educação sexual
diagnóstico e nenhum tratamento. A evolução de suas crianças e de seus adolescentes. Obvia-
psicossocial se deu segundo o sexo atribuído ao mente, fatores socioculturais ou ligados à idade
sujeito, e ele se confronta agora com questões dos pais ainda interferem na aceitação e na apli-
sobre seu corpo ou por arrebatamentos amoro- cação dessa informação, mas o movimento geral
sos pelo outro sexo. parece irreversível. Contudo, essa mudança de
– Às vezes, o diagnóstico foi feito precoce- atitude não é tão facilmente assumida pelos pais
mente e chegou o momento de uma intervenção como as cifras poderiam fazer crer. Por exemplo,
cirúrgica conforme “a identidade do gênero”. os pais são cada vez mais favoráveis a uma infor-
mação sexual desde que seja passada por outros
Os problemas psicopatológicos são então (56% dos pais em uma pesquisa recente consi-
variáveis: ora o sujeito aceita bem essa situação deravam que isso era papel dos educadores, dos
e o tratamento que é necessário, ora se instala professores, etc.); os pais também manifestam
um estado depressivo, surgem gestos suicidas, um mal-estar evidente com certos temas que
ora a condição de ambigüidade se estabelece dizem respeito à informação sexual. De fato, os
na própria personalidade: nesse caso o sujeito temas mais facilmente abordados são a gravidez,
se organiza segundo uma “identidade herma- o parto, a puberdade, a anatomia; no fim da lis-
frodita” com a capacidade de intercambiar o ta, bem atrás, são mencionados o ato sexual, o
parceiro sexual (Stoller, 1978). Ao contrário aspecto afetivo e moral e, bem por último, as do-
do que ocorre na homossexualidade, os trans- enças venéreas, as perversões e os desejos.
tornos não se referem ao objeto sexual, mas à – A contracepção: aparentemente, os pais
identidade sexual. aceitam com muito mais facilidade a contra-
cepção para sua filha, e às vezes inclusive se an-
tecipam à solicitação desta.
ATITUDES DOS PAIS – Os marcos institucionais e morais ligados
à sexualidade: os pais parecem manifestar uma
resistência bastante firme às mudanças que seus
A sexualidade dos adolescentes acaba re- filhos começam a reivindicar ou a viver. A ques-
percutindo inevitavelmente sobre os pais. tão do casamento, por exemplo, continua sen-
Podemos distinguir duas etapas: a das atitu- do um fator freqüente de conflitos encontrados
des concretas dos pais em face da mudança entre os pais e seus adolescentes a propósito do
recente da sexualidade dos adolescentes (rela- problema de uma prática sexual regular, e isso
ções sexuais mais precoces, vida de casal sem principalmente para as meninas. Nesse campo,
casamento, contracepção, etc.); e a das mo- os pais ainda se surpreendem com as mudanças
dificações intrapsíquicas dos pais em face das socioculturais.
150 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Os Pais e a Sexualidade de redutor, limitando ao mero aspecto comporta-


Seus Adolescentes: Alterações mental esse âmbito fundamental para o indi-
víduo nessa idade. Para fins didáticos, optamos
Intrapsíquicas por distinguir vários patamares sem ignorar suas
múltiplas imbricações:
Em face de adolescentes perturbados e
transformados em seus corpos e em sua sexua- – no nível das condutas: estudo de compor-
lidade, os pais também são levados a profundos tamentos sexuais, a realização da sexualidade e
remanejos, ligadas ao seu próprio corpo e sexua- das fantasias sexuais que a acompanham;
lidade. A sexualidade de seu adolescente pode – no nível do desenvolvimento psicosso-
ser vivida pelos pais como uma ameaça para cial e de suas dificuldades: para além da reali-
eles próprios, por várias razões: zação sexual, o problema da escolha de objeto
sexual e de identidade sexual;
– As ligações incestuosas que existiam entre – no nível do problema do normal e do
seu filho e eles são reavivadas e, sobretudo, sur- patológico: estudo das condutas sexuais moral-
gem brutalmente à consciência. Enquanto per- mente ou socialmente desviantes, sem reper-
dura a imaturidade fisiológica do filho, os desejos cussão sobre o desenvolvimento da personali-
incestuosos, inconscientes, podem ser facilmen- dade, opostas às condutas sexuais que colocam
te ocultados: jogos de carícias e afagos diversos um problema psicopatológico em razão de sua
são possíveis e não angustiantes, na medida em repercussão sobre o desenvolvimento da perso-
que um dos parceiros, por sua fisiologia, ainda é nalidade.
imaturo. Na adolescência é bem diferente.
– A sexualidade dos adolescentes faz revi-
ver em um ou nos dois genitores seus próprios GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
traumatismos. Uma mãe particularmente sub-
missa à própria mãe durante sua adolescência
pode, por exemplo, reviver cruelmente o con- A freqüência de gravidezes na adolescência
flito com sua filha e não suportar a sexualidade apresenta uma evolução variável segundo o país:
desta. De resto, isso pode resultar tanto em um nos países europeus, está em franca regressão.
liberalismo excessivo quanto em uma rigidez Na França, a taxa de fecundidade (núme-
abusiva por parte dos pais. ro de crianças nascidas vivas para 10.000 mu-
– A sexualidade nascente dos adolescentes lheres da mesma idade) passou, aos 15 anos, de
é inconscientemente percebida pelos pais como 43, em 1977, para 25, em 1986; aos 16 anos, de
o fim da sua. Se os adolescentes devem realizar 134, em 1977, para 66, em 1986; aos 17 anos,
um trabalho de luto (cf. Capítulo 8), os pais de- de 314, em 1977, para 147, em 1986 (fonte:
vem igualmente produzir em retorno esse traba- INSEE, 1988). Acredita-se que as informações
lho, particularmente a propósito de sua própria sobre contracepção e a legislação de 1975 sobre
vida sexual (Braconnier e Marcelli, 1980: ver a interrupção voluntária de gravidez tenham
Capítulo 16). possibilitado essa diminuição. Em compensa-
ção, a freqüência de gravidezes em menores e
Esses diversos movimentos pulsionais in- mesmo entre as muito jovens aumenta de forma
tegram-se naquilo que é chamado de “contra- inquietante em certos países, como os Estados
édipo parental”, isto é, conjunto de pulsões, Unidos, situação sempre ligada à pobreza so-
defesas, investimentos e contra-investimentos cioeconômica, à exclusão social e ao vínculo a
no inconsciente parental com o surgimento da grupos étnicos desfavorecidos.
sexualidade no corpo de seus filhos, o que nós
chamamos de “a crise parental”.
A sexualidade na adolescência é um tema
vasto, cuja abordagem apresenta dois riscos: um Aspectos Somáticos
risco extensivo considerando-se que a sexuali-
dade está presente em tudo o que diz respeito A idade é um critério de distinção essencial.
à adolescência e aos seus problemas; um risco Depois dos 16 anos, não parece haver risco mais
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 151

elevado para a gravidez e para o parto do que na dez permaneça por muito tempo imperceptível
idade adulta quando a adolescente recebe um (gravidez “recolhida”).2 O acompanhamento
acompanhamento adequado no plano somáti- médico é inexistente ou irregular (o que au-
co. Em compensação, antes dos 15 anos ou para menta os fatores de risco). Quando é descober-
uma idade ginecológica (idade cronológica me- ta, a gravidez pode provocar a exclusão familiar,
nos a idade das primeiras regras) inferior a 2, escolar, afetiva (perda de amigos), acentuando
os riscos somáticos são mais elevados: ameaça a solidão da adolescente.
de parto prematuro, freqüência de anemia, in-
fecções urinárias, partos difíceis (apresentação
pélvica, sentado). Também para o prognóstico
Aspectos Psicológicos e
fetal, quanto mais jovem é a mãe, mais elevada
é a mortalidade perinatal. Psicopatológicos

Como conseqüência do que foi descrito no


Aspectos Psicossociais item anterior, as adolescentes geralmente apre-
sentam traços de carência afetiva e de baixa
auto-estima. A adolescente costuma “usar” as
Os fatores de risco são numerosos. Não se relações sexuais para obter uma relação de ter-
pode ignorar a possibilidade de gravidezes, de nura e de maternagem; em situação de ruptura
partos e depois de interações mãe-bebê com um e de fracasso escolar, os investimentos subli-
desenrolar plenamente favorável em jovens de mativos e idealizados normalmente são falhos
18/19 anos, porém, na maioria dos casos, os ris- ou inexistentes (ver item “O lugar do ideal do
cos psicossociais são elevados. eu na adolescência”, no Capítulo 1); nessas
A gravidez ocorre com muita freqüência em condições, o desejo de gravidez vem substituir
um clima de ruptura: adolescente isolada, em a ausência de projeto sublimatório, inscreve
conflito com os pais, às vezes abertamente re- a adolescente em um projeto de identificação
jeitada pela família; em ruptura com uma esco- maternal e social e a faz esperar uma gratifi-
laridade quase sempre marcada pelo fracasso; as cação afetiva (“eu vou cuidar dessa criança,
condutas agressivas (impulsividade, confusões) porque assim pelo menos alguém vai gostar de
são muito comuns, assim como as fugas. Não é mim” – o abandono da criança é uma possi-
raro que uma tentativa de suicídio preceda uma bilidade raramente aceita pela adolescente).
gravidez ou se siga a uma interrupção voluntária A adolescente muitas vezes amargou relações
da gravidez (parece que a primeira eventualida- conflituosas agressivas com sua própria mãe;
de apresenta um prognóstico psicopatológico sua gravidez lhe permite rivalizar ou “triunfar”
mais favorável). Condutas toxicomaníacas (ál- sobre esta.
cool, tabagismo, haxixe) geralmente precedem No plano psicopatológico, os traços psico-
a gravidez. páticos são freqüentes, assim como as manifes-
Os antecedentes de separação traumáti- tações depressivas: cerca de 50% das adolescen-
ca, de alojamentos sociais são freqüentes. O tes grávidas apresentam sintomas depressivos
genitor em geral é ausente: ou ele abandona a patentes (Osofsky et al., 1993). De um ponto de
adolescente, ou esta mantém segredo sobre sua vista psicodinâmico, a ocorrência de uma gravi-
identidade. dez pode ser entendida como a manifestação de
O nível sociocultural da adolescente geral- uma conduta de ruptura, no sentido atribuído
mente é baixo: o modo de vida e de organização por Laufer a esse termo (ver Capítulo 1), e de
social é confuso ou caótico, os conflitos familia- ataque ao corpo. A emergência da sexualidade
res são habituais, e não é raro encontrar ante-
cedentes de violências sofridas (sevícias, abusos 2
sexuais). Esses fatos explicam por que nem sempre é possível
propor à adolescente uma interrupção voluntária da
A ocorrência da gravidez acentua a situa- gravidez, pois o prazo legal (12 semanas de amenor-
ção de ruptura. A gravidez muitas vezes é ocul- réia) muitas vezes é ultrapassado; a interrupção tera-
tada, e às vezes descoberta apenas no momento pêutica de gravidez coloca problemas médico-legais
do parto. Nesse aspecto, não é raro que a gravi- muito mais complexos.
152 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

no corpo púbere é “atacada” pela gravidez, sem adolescente e seu bebê. Durante a gravidez, es-
ser desejada e sem preocupação de se proteger. sas adolescentes manifestam poucas preocupa-
As freqüentes atitudes de dissimulação e, sobre- ções maternas ansiosas, ao contrário das outras
tudo, as condutas de risco durante a gravidez mulheres. Com o bebê, embora em uma abor-
testemunham um investimento medíocre do dagem superficial, essas jovens mães normal-
corpo em seu conjunto e da sexualidade. Essa mente se mostrem hábeis, uma análise mais fina
gravidez representa também um “ataque” à li- revela uma falta de investimento estável: elas
gação edipiana, quer se trate da ligação com a se mostram menos expressivas, menos positivas
mãe (meio de romper uma ligação de depen- em suas atitudes, têm menos vocalizações, me-
dência/submissão excessiva, de oferecer à mãe nos momentos de atenção compartilhados que
um presente liberatório, de afirmar agressiva- as mães com mais idade. Se em geral elas têm
mente uma identidade não reconhecida), ou da uma boa capacidade de brincar com o bebê,
ligação edipiana com o pai, em particular quan- mostram-se mais intrusivas, menos sensíveis
do ele é muito próximo, autoritário, e pretende às necessidades do bebê; expressam convicções
controlar a vida relacional e afetiva da filha. que impõem ao bebê (“ele está com fome”, “ele
Contudo, se em um primeiro momento a tem de dormir”). As crianças quase sempre
gravidez pode aparecer como um meio de con- apresentam comportamentos de apego ansioso
quista de identidade, essa maternidade acaba ou ambivalente (Culp et al., 1991; Osofski et
sempre produzindo efeitos de ruptura desen- al., 1993).
volvimental: enrijecimento dos processos iden- Para concluir, a ocorrência de uma gravidez
tificatórios, regressão notável, compulsão de em uma adolescente testemunha sempre uma
repetição por meio da rejeição, do fracasso, da situação psicossocial frágil, aumenta os riscos já
desvalorização, etc. presentes, tanto de marginalização social quan-
to de descompensação psíquica (depressão,
conduta de ruptura), e geralmente entrava o
Futuro da Criança, Interações Mãe- processo de elaboração psíquica da adolescente.
O ingresso em uma parentalidade precoce pode
Adolescente-Bebê representar para a adolescente um meio de se
lançar em um status “pseudo-adulto”: a gravidez
Para a criança, todas as pesquisas epidemio- em uma adolescente é um risco de adolescên-
lógicas e os estudos catamnésticos mostram que cia abortada. O tratamento é necessariamente
quanto mais jovem é a mãe, maior é o risco. multidisciplinar, com um acompanhamento
Além do risco de morbidade neonatal mais ele- médico reforçado, uma assistência social atenta
vado quando a mãe tem menos de 15-16 anos, o e prolongada (idealmente, durante vários anos
risco psicossocial é elevado: crianças “largadas”, após o nascimento da criança) e, se possível, um
vítimas de sevícias, com problemas de compor- acompanhamento psicológico ou psicoterápico.
tamento (instabilidade, agressividade, etc.). Contudo, a implementação de um acompanha-
Mais recentemente, a atenção foi dirigida mento de longo prazo se mostra particularmen-
para a qualidade das interações entre uma mãe te difícil.

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TERCEIRA PARTE

OS GRANDES
AGRUPAMENTOS
NOSOGRÁFICOS
8
Estados Ansiosos e Neurose:
Crítica de Conceitos

O quadro nosográfico das neuroses está atual-


mente em plena modificação. O fato não
é recente. A idéia de uma disfunção geral, res-
faculdades mentais, dificilmente se ajusta à ex-
periência clínica cotidiana.
Contudo, quisemos respeitar as duas gran-
ponsável por transtornos proteiformes, remon- des tendências da psiquiatria atual: a nosografia
ta ao século XVII, com os trabalhos de Willis comportamental das classificações contemporâ-
e depois de Sydenham. Mas, como assinalam J. neas e as grandes sínteses psicodinâmicas, que
Ades e F. Rouillon (1992), “essa emergência do geralmente confundem a história das neuroses
conceito geral de doença nervosa ou neurose com a da psicanálise.
marca igualmente o início de um longo perío-
do de confusão teórica e nosológica na história
das neuroses”. Se as classificações internacio-
A ANGÚSTIA
nais mais recentes, sustentadas pelo aperfeiçoa-
mento dos instrumentos clínicos de avaliação
e, sobretudo, das neurociências, põem abaixo É muito difícil que o indivíduo não se con-
o quadro nosográfico de neuroses estabelecido fronte com a emergência da angústia durante
essencialmente por P. Janet e S. Freud, a hipó- o processo da adolescência. Essa angústia, que
tese, cada vez mais fundamentada, de uma diá- surge ora de modo súbito, ora progressivo, in-
tese única, ansioso-depressiva, ou de uma fre- vade completamente o sujeito ou se limita a um
qüente co-morbidade, em um mesmo paciente, sentimento de mal-estar vago e difuso, dura por
das síndromes assim isoladas, mostra bem que, muitas semanas ou, ao contrário, passa em algu-
nesse âmbito, o eterno retorno do conceito de mas horas. Mas, independentemente de quando
“doenças nervosas” emancipa-se facilmente das apareceu pela primeira vez, de sua intensidade
teorias que tentam justificá-lo. ou de sua duração, a angústia é um afeto de base
Mais do que qualquer outra coisa, a clínica raramente ignorado do adolescente.
das neuroses da adolescência torna difícil ater- Em muitos casos, evidentemente, a angústia
se a uma concepção puramente funcionalista fica limitada, mas em geral essa crise constitui
do psiquismo e a criar o impasse de uma análise a porta de entrada para uma ou outra conduta
psicopatológica global. Justapor os conjuntos sintomática duradoura. Não se pode dizer que
complementares, as funções, como outrora as a angústia constitui uma conduta mentalizada
158 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

enquanto sistema particular de operação psíqui- para os do adulto. Os transtornos descritos na


ca (quer se trate de uma seqüência fantasmáti- criança, como “angústia de separação”, “hipe-
ca, de um mecanismo de defesa ou de ambos). ransiedade”, ou “evitamento”, “inquietação em
Contudo, visto que ela representa quase sempre todas as relações sociais”, têm uma prevalência
a situação prévia à entrada em uma verdadeira média de 8% no adolescente. Eles correspon-
patologia, e que a função essencial dos sistemas dem à ansiedade generalizada, ou aos diferentes
de condutas mentalizadas é precisamente a de transtornos fóbicos do adulto. Os transtornos
elaboração dessa angústia, achamos que é útil descritos no adulto, como “transtornos fóbicos
defini-la brevemente. e obsessivos”, “ansiedade generalizada”, “trans-
Yorke e Wiseberg distinguem três etapas no tornos de pânico”, têm igualmente uma preva-
desenvolvimento da angústia: 1) a excitação lência da ordem de 8% no adolescente. Essas
somática difusa que se caracteriza por um rico cifras são, portanto, relativamente elevadas e
cortejo de manifestações físicas; 2) a angústia constantes. É preciso assinalar, além disso, que
psíquica invasiva, marcada por um temor ex- a maior parte dos transtornos observados no
tremo que invade a psique, como no caso das adulto teve início durante a adolescência, com
fobias arcaicas, por exemplo; 3) a angústia, si- muita freqüência de forma infraclínica.
nal-sintoma em que o ego suscita a angústia em
face de um perigo potencial (segunda teoria da
Continuidade da infância na idade adul-
angústia de Freud). No adolescente, podem ser
ta. – A evolução da infância à idade adulta de
encontrados esses três patamares de angústia.
Antes de prosseguir, é necessário distin- transtornos categorizados pelas classificações
guir também, a propósito das transformações atuais é pouco conhecida. Os estudos retrospec-
da angústia na adolescência, dois planos de tivos referem-se essencialmente aos adultos. Em
observação: 1972, Abe estabeleceu uma correlação entre a
presença de sintomas ansiosos no adulto e uma
– o primeiro diz respeito aos diferentes forte ansiedade patológica em sua infância, en-
tipos de ansiedade que podem se suceder no trevistando 243 mulheres sobre seus sintomas
curso de um processo psicopatológico inicial: ansiosos e seus medos atuais, como também suas
ansiedade generalizada antecipatória, crise de mães sobre a prevalência desses mesmos trans-
angústia, fobia, hipocondria, etc.; tornos na infância desses pacientes. Outros au-
– o segundo refere-se às transformações da tores (Thieyr et al., 1985) chegam à conclusão
angústia infantil reconstruída na história de um de que apenas 20% dos adultos apresentam um
adolescente que manifesta pela primeira vez transtorno ansioso generalizado, assinalando um
clinicamente um ou vários dos estados ansiosos início desse transtorno na infância ou na adoles-
agudos mencionados acima. cência sob a forma de hiperansiedade. Os estudos
prospectivos apoiados em amostras homogêneas
acompanhadas por um prazo suficiente ainda são
muito poucos. O estudo de Last e colaboradores
Estudo Clínico (1992) refere-se a uma coorte de crianças com
idade de 5 a 17 anos, consultadas por transtor-
Muitos ainda acreditam que não se pode nos ansiosos, que foram acompanhadas por três
falar de transtornos ansiosos bem fixados e bem e cinco anos com uma avaliação todos os anos.
categorizados no adolescente. Eles preferem fa- Para esse tipo de acompanhamento, as análises
lar de ansiedade na adolescência em geral, ou atuais sugerem que os transtornos ansiosos, na
tendem a acreditar mais no fato de que nessa maioria dos casos, não se mantêm como tais ao
idade da vida, para se referir às classificações longo do desenvolvimento. Além disso, segundo
diagnósticas recentes, deve-se falar de “trans- esses autores, as crianças e os adolescentes que
tornos da adaptação com humor ansioso ou an- apresentam um transtorno ansioso não têm ris-
sioso-depressivo”. cos maiores para transtornos depressivos.
Hoje se dispõe de dados epidemiológicos que Porém, três manifestações que podem ser
reaplicam ao adolescente os critérios diagnósti- associadas à ansiedade parecem apresentar uma
cos utilizados para os transtornos da criança, ou certa continuidade da infância à idade adulta:
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 159

– as fobias simples particulares (fobia de se observa nos adultos. Eles consideram que
sangue, fobia de feridas corporais) que seriam muitas crianças e adolescentes consultando por
reencontradas imutáveis na adolescência e na sintomas físicos apresentam esse transtorno,
idade adulta (Marks, 1988); que não é identificado como tal. Outros estu-
– a inibição ansiosa que mostraria uma dos que também tratavam da idade de ocorrên-
continuidade relativamente grande da infância cia do primeiro acesso desse transtorno estão,
à adolescência (Kagan, 1994); agora, todos de acordo quanto ao fato de que a
– a ansiedade de separação, cujos sintomas adolescência representa a idade preferencial de
variam com a idade (Francis, 1987), mas que surgimento do “Transtorno de Pânico”.
para algumas crianças prosseguiria na adoles- Parece inclusive existir uma correlação com
cência, em particular sob a forma de fobia es- as fases pubertárias (fases de Tanner), cujo des-
colar, e depois na idade adulta, sob a forma de dobramento produziria igualmente a ocorrência
“transtornos de pânico”. de ataques de pânico nos jovens adolescentes.
A cada etapa da puberdade, C. Hayward e cola-
boradores (1992) encontram uma taxa progres-
Os transtornos de pânico. – Tendo em
sivamente crescente de ataques de pânico. Es-
vista o interesse voltado à pesquisa desse trans-
ses autores concluíram que poderia haver uma
torno no adulto, dispõe-se até de um número
ligação entre a puberdade e a ocorrência ou a
relativamente grande de estudos a esse respeito
etiologia de ataques de pânico.
na infância e na adolescência. Moureau e Weis-
sman (1992) recolheram 63 artigos sobre esse
tema. Esses artigos incluem estudos retrospecti- As fobias sociais. – Assim como para o
vos de adultos que apresentam esse transtorno, transtorno de pânico, o início desses transtornos
relatórios clínicos sobre crianças e adolescentes parece ligado à adolescência, mas em uma idade
que também manifestam essas dificuldades, es- ligeiramente mais tardia (entre 15 e 20 anos). A
tudos de crianças e de adolescentes que consul- prevalência média na vida seria de 7,1%, levan-
tam em psiquiatria, estudos epidemiológicos da do-se em conta os critérios do DSM-III-R. Esse
população geral, estudos familiares e, finalmen- transtorno coloca dois problemas específicos: a
te, estudos de tratamentos quimioterápicos. cronicidade de sua evolução, contrariamente
Como conclusão, esses autores consideram que aos transtornos de pânico e mesmo à depressão,
esse transtorno surge muito provavelmente na e, sobretudo, a importância das conseqüências
infância, mas principalmente na adolescência, sociais dos comportamentos de evitamento en-
e que sua apresentação clínica é similar à que gendrados por essa patologia. Do nosso ponto

25
PERCENTAGEM DE SUJEITOS

20

15

10

0
<9 10 a 14 15 a 19 10 a 14 15 a 19 1a5 6 a 10 11 a 15 16 a 20
Sheehan et al. Breier et al. Thyer et al.
(N = 100) (N = 60) (N = 62)

Figura 8.1 Idade do ataque.


Idade de ocorrência do transtorno de pânico.
160 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

de vista, certos fracassos escolares, rupturas de mento de tensão psíquica e física acompanhado
escolaridade ou mesmo fobias escolares seriam de forma variada de transtornos neurovegeta-
decorrentes desse transtorno, geralmente não tivos sentidos habitualmente nos estados an-
diagnosticado como tal na adolescência (ver siosos agudos: dispnéia, palpitações, dores ou
item “Fobias escolares”, no Capítulo 17). incômodos torácicos ou abdominais, sensação
de sufocação, impressão de desfalecimento, etc.
A esses sintomas, associam-se em geral outras
Particularidades gerais da expressão an-
manifestações características: irritabilidade, in-
siosa na adolescência. – Sem dúvida, é possível
sônias de adormecimento e pesadelos noturnos.
encontrar, como vimos, quadros análogos aos
Esse estado agudo ou subagudo não é nem pura-
do adulto ou da criança. Contudo, a expressão
mente ansioso, e muito menos já francamente
corporal de ansiedade parece muito específi-
depressivo. De um ponto de vista psicopatoló-
ca do adolescente. Este não virá consultar di-
gico, essa ameaça depressiva está sempre liga-
zendo: “estou ansioso”, e sim exprimindo uma
da a dois fatores associados: as representações
queixa somática banal, sem substrato físico. É
angustiantes, dolorosas e conflituosas de uma
um meio para o adolescente de pedir alguma
separação dos objetos parentais e as represen-
coisa, de fazer um sinal, de emitir um apelo,
tações que podem ser igualmente angustiantes,
muito mais tolerável que a expressão de uma
dolorosas e conflituosas de uma ligação sexual,
ansiedade mediante a qual ele admitiria sua de-
e hoje sobretudo erótica, com um novo objeto
pendência quando justamente a problemática
de amor. Essa síndrome caracteriza-se, portan-
de autonomia domina a organização psicodi-
to, pela conflituosidade de dois modos de rela-
nâmica. As queixas somáticas são todas aquelas
ção objetal, sendo que um se refere ao objeto a
que se percebem nos estados de ansiedade: pal-
perder e o outro ao objeto a investir. É preciso
pitações, cefaléias, vertigens, náuseas, etc., re-
assinalar aqui que essa ameaça depressiva pode
latadas aos médicos generalistas (ver abaixo), e
ser vivida por certos adolescentes como sendo
alguns chegaram inclusive a descrever os “aces-
tão insuportável que torna impossível qualquer
sos hipocondríacos agudos”, temores invasivos
outra transformação do objeto de amor e, com
ou paroxísticos (Eblinger e Sichel, 1971).
isso, pode permitir que se organize uma depres-
Uma outra particularidade da angústia da
são propriamente dita.
adolescência, em particular das fobias, é a de se
manifestar sob a forma de fobias escolares.
A experiência clínica, confirmada pelos es- Evolução da patologia ansiosa do adoles-
tudos feitos a esse respeito, mostra que os trans- cente. – A evolução dos “Transtornos ansiosos”
tornos ansiosos, tal como são categorizados da adolescência é cada vez mais conhecida.
atualmente, podem estar associados, em graus Um número crescente de pesquisas avança no
diversos, em um mesmo sujeito. sentido de que um “Transtorno ansioso” (ou
Finalmente, vamos citar aqui a síndrome depressivo) na adolescência constitui um sério
de ameaça depressiva (Braconnier, 1991). Essa risco de novas manifestações desse mesmo tipo
síndrome, encontrada freqüentemente na ado- na idade adulta (em particular para os Transtor-
lescência, manifesta-se por uma aparição mais nos de pânico) ou de outros transtornos, trans-
ou menos brutal de uma apreensão, ou mesmo torno da personalidade evitante, ou depressão
de um terror intenso de se sentir invadido pela (Pine et al., 1998). Outros ainda consideram
tristeza, pelo abatimento e por idéias suicidas. que a patologia ansiosa na adolescência está
A perturbação predominante desse transtor- estreitamente imbricada ao próprio processo da
no é uma ansiedade aguda ou subaguda, cuja adolescência, e que é difícil prever sua evolu-
característica essencial é o temor, não de um ção, sobretudo quando se realiza um tratamen-
objeto, de uma situação ou de atividades espe- to adequado. Seja a curto ou a longo prazo, é
cíficas, mas o temor de se sentir invadido por próprio da patologia ansiosa se transformar, e
um afeto depressivo, do qual certos elementos isto mesmo em suas formas semiológicas carac-
podem surgir momentaneamente, mas nunca terísticas. Essas transformações são múltiplas;
duram mais do que alguns minutos a algumas podem ir de uma franca melhoria a condutas
horas. Os sintomas mais sentidos são um senti- que se tornam autônomas em relação à angústia
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 161

inicial, como os comportamentos aditivos ou, sivas, sem objeto de investimento, pulsões que
mais classicamente, os diferentes tipos de con- ameaçam então a própria coerência de sua per-
duta neurótica. sonalidade. As crises de angústia, acompanha-
das de fenômenos transitórios de desrealização
ou de despersonalização, aparecem assim como
perdas temporárias dos limites internos e exter-
Abordagem Psicopatológica
nos devidas em parte à irrupção traumática de
pulsões sentidas pelo adolescente como estra-
Na compreensão psicopatológica da an- nhas. Nesse caso, um primeiro mecanismo de
gústia na adolescência, pode-se retomar as contensão da angústia ou de limitação da pul-
duas grandes teorias da angústia lançadas por são é constituído pelo mecanismo projetivo: a
Freud. Recordemos brevemente que, naquilo pulsão é projetada em uma parte do corpo, que
que é chamado de a primeira teoria da angústia então se torna estranha e ameaçadora: é um dos
(1905: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade), mecanismos da queixa hipocondríaca.
Freud dá a seguinte explicação para a angústia: Porém, para muitos adolescentes, a emer-
a libido se transforma em angústia no momento gência súbita da pulsão sexual reativa o temor
em que ela não pode atingir seu objeto de satis- da ameaça de castração e o sentimento de cul-
fação. Isso se observa em particular quando fal- pabilidade, ao mesmo tempo em que as novas
ta o objeto para o qual é dirigido o movimento práticas masturbatórias e a obtenção do orgas-
pulsional. A pulsão livre de objeto produz a an- mo passam a focalizar na zona genital as diver-
gústia que, secundariamente, ocasiona o recal- sas pulsões. A crise de angústia aparece então
que. Na segunda teoria (1926: Inibição, Sintoma como uma manobra do ego destinada a assina-
e Angústia), a angústia não provém mais de uma lar o perigo interno sem ser acompanhada dos
causa externa (a ausência do objeto da pulsão), sentimentos de desrealização ou de despersona-
mas de uma origem interna: a angústia é produ- lização citados acima. Contra este perigo, o ego
zida pelo ego do sujeito, e sua função essencial é utiliza então as defesas psíquicas mais diversas,
servir de sinal de perigo. Nessa segunda teoria, como mostra A. Freud (cf. item “a intelectuali-
“é a angústia que produz o recalque”. zação”, neste capítulo).
No caso da adolescência, essas duas teorias A hipocondria, finalmente, aparece como
podem encontrar eco em certas situações clíni- um sintoma da junção, em que “a angústia e os
cas. Antes de tudo, é preciso ressaltar que Freud mecanismos de defesa postos em prática para
aborda apenas de maneira indireta o problema represá-lo acabam se situando em uma luta
da gênese do ego e da gênese da angústia, por in- contra a despersonalização” (Ebtinger e Sichel,
termédio dos “traços mnésicos”, dos quais o pri- 1971). A hipocondria pode ser compreendida
meiro seria a angústia do nascimento. De fato, só como a projeção em uma parte do corpo, seja
se pode compreender a segunda teoria da angús- dos maus objetos e das más partes do eu, seja
tia se o ego do sujeito é suficientemente coerente das pulsões agressivas e destruidoras. A utiliza-
e organizado para perceber o risco de perigo (real ção prevalente de mecanismos projetivos pode
ou fantasioso), e quando se considera a hipótese ser percebida graças à associação freqüente com
de que o ego conserva traços ontogenéticos ou fi- posições persecutórias de tipo paranóide.
logenéticos das primeiras situações de angústia. Contudo, o sintoma hipocondríaco nem
Na adolescência, as modificações tanto so- sempre responde a mecanismos de tipo arcai-
máticas pubertárias quanto psíquicas pulsionais co. Em certos casos, os fatores ambientais, quer
estarão na origem de uma produção de angús- sejam familiares, socioeconômicos ou culturais,
tia, cuja qualidade depende em grande parte parecem prevalecer (cf. Capítulo 15): eles pro-
da capacidade de elaboração do Ego. Em certos vocam uma incitação e uma espécie de apren-
casos, parece que a perturbação da adolescên- dizagem para utilizar o corpo como meio de ex-
cia realiza um verdadeiro traumatismo externo. pressão das emoções e dos afetos.
Esse traumatismo põe em perigo os diversos ob- Em suma, poderíamos dizer que, na hipo-
jetos de investimento do adolescente, quer se condria, o corpo parece ser o simples vetor do
trate de objetos internos ou externos. O adoles- sofrimento psíquico, enquanto que na histeria
cente se vê diante de pulsões libidinais e agres- ele é o representante simbólico de um conflito.
162 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Atitude Terapêutica As Expressões Neuróticas


Características da Adolescência
É preciso evitar certos erros: o primeiro se-
ria não levar em conta a ansiedade “patológica” As condutas fóbicas. – Serão estudadas
dos adolescentes e minimizar sistematicamente aqui somente as dismorfofobias. As fobias esco-
o transtorno somático sob o pretexto de que ele lares serão tratadas no Capítulo 17.
não tem fundamento orgânico. Um outro erro As dismorfofobias, condutas particularmen-
seria considerar apenas o sintoma, atribuindo- te freqüentes, podem ser observadas nos dois
lhe um lugar primordial sem procurar estender a sexos e estão estreitamente ligadas às transfor-
exploração ao conjunto da personalidade e dos mações pubertárias. Kraeplin forjou esse termo
problemas psíquicos. O adolescente aceita mui- para designar “as preocupações anormais rela-
to mais do que se acredita uma tal extensão da tivas à estética do corpo”. Trata-se, para esse
exploração, oportunidade possível tanto para o autor, de um fenômeno obsessivo não delirante.
médico generalista quanto para o psicólogo ou Janet, por sua vez, define a dismorfofobia como
o psiquiatra. “a vergonha de seu próprio corpo”. Os autores
Nos transtornos ansiosos manifestos (ata- anglo-saxões (Schilder, Schönfeld) falam mais
ques de pânico, ansiedade generalizada, ago- em “perturbações da imagem corporal” para de-
rafobia, etc.), a escuta e a consulta terapêuti- signar condutas próximas das dismorfofobias:
ca (ver Capítulo 22) representam a principal são as inquietações relacionadas à morfologia
abordagem terapêutica. A prescrição de tran- do conjunto ou de um segmento particular do
qüilizantes e, sobretudo, de antidepressivos, corpo.
mostra-se necessária algumas vezes, mas é im- No sentido estrito, as dismorfofobias não
prescindível que essa prescrição seja estrita- parecem ser verdadeiras fobias (dominadas pelo
mente seguida, limitada em sua duração, e varie medo do objeto ou da situação fobogênica),
em função da evolução. Nessa idade, ela deve mas se aproximam mais das idéias obsessivas. Se
inclusive ser intermitente, mesmo que, em caso existe um medo, é da rejeição social. Essa dupla
de recaída, tenha de ser retomada. Se os trans- dimensão situa de imediato o lugar particular
tornos tendem a se fixar ou a se tornar muito das dismorfofobias, marcando, de um lado, a re-
sérios, deve-se propor a indicação de uma psi- lação do adolescente com seu próprio corpo, e,
coterapia de orientação psicanalítica. Cada vez de outro, o engajamento desse corpo no grupo
mais, essa indicação para o adolescente deve es- social, isto é, o “corpo social”.
tar associada a um acompanhamento de apoio,
As primeiras dismorfofobias aparecem por
de compreensão e de confrontação com os pais,
volta dos 12 anos. As preocupações corporais
se possível o pai e a mãe.
diminuem depois dos 18-20 anos. Em todos os
casos, é importante assinalar que o segmento
corporal ou o órgão incriminado pelo adoles-
AS CONDUTAS NEURÓTICAS cente apresenta uma morfologia normal ou,
pelo menos, um desvio mínimo, sem relação
com a intensidade das preocupações. Coloca-
A angústia não pode ser resumida aos mos um pouco à parte, por suas significações
“Transtornos ansiosos” propriamente ditos, mais complexas, as preocupações ligadas às par-
nem mesmo aos “Transtornos fóbicos” mais ticularidades raciais (cor da pele, aspecto crespo
característicos, nos quais ela se encontra, com dos cabelos): o contexto sociocultural constitui
toda evidência, nos primeiros planos semio- um fator importante no determinismo dessas
lógicos. Os diferentes tipos de conduta que preocupações. O mesmo ocorre quando os pais
vamos examinar representam modalidades dos adolescente são de etnias diferentes: nesse
semiológicas e psicopatológicas individualizá- caso, as preocupações morfológicas ilustram a
veis, mas nas quais a angústia constitui uma busca de identidade do adolescente com a pro-
componente explícita ou implícita funda- cura ou a rejeição das características atribuídas
mental. a uma ou a outra linha parental.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 163

Descrição clínica. – Todas as partes do mente, os meninos escolhem sapatos com uma
corpo podem ser invocadas. Em alguns casos, numeração bem maior que o necessário.
o adolescente parece preocupado com a silhue- O rosto e a cabeça são, evidentemente,
ta ou com uma parte da silhueta (peso, altura, lugar das preocupações mais freqüentes e mais
nádegas, barriga, etc.). Em outros casos, é um importantes. Todas as partes podem ser incri-
ponto específico do corpo (pé, mão) e muito minadas: as orelhas, o nariz, os lábios, a boca,
particularmente o rosto, sendo que qualquer os olhos, os cabelos, os dentes, etc. Grande de-
um de seus órgãos pode ser objeto de um temor mais, pequeno demais, mal formado, mal im-
dismorfofóbico. Evidentemente, todos os órgãos plantado são as queixas mais comuns.
ligados às características sexuais são superinves- A acne juvenil é objeto de numerosas preo-
tidos (pênis, seios, pilosidade). cupações, sobretudo nas meninas, e se associa a
Enumeraremos brevemente: um intenso sentimento de desvalorização.
O medo de enrubescer (eritrofobia), temor
— AS PREOCUPAÇÕES EXCESSIVAS COM A SI-
mais clássico, não faz parte das dismorfofobias
LHUETA:
propriamente ditas. Contudo, em razão de sua
– Obesidade: a discreta e relativa obesidade
freqüência na adolescência e de sua evidente
fisiológica pré-pubertária às vezes serve de an-
ligação com a imagem do corpo, vamos inclui-
coragem para esse temor. Com toda evidência,
lo aqui. A eritrofobia pode ser provocada tanto
a anorexia mental representa sua caricatura (cf.
pelo exterior, uma observação qualquer de um
item “A anorexia mental”, no Capítulo 6). Às
vezes, apenas uma parte do corpo é posta em terceiro por meio da qual o adolescente se julga
questão: barriga gorda, coxas gordas, nádegas observado, um olhar mal sustentado, quanto por
gordas, braços gordos. um movimento interno: temor de deixar que
– Magreza: esse temor parece mais especí- descubram uma impulsão ou um desejo sexual,
fico dos meninos, que não se julgam suficien- um pensamento, etc. Um sentimento de vergo-
temente “fortes”, consideram-se “magricelas, nha associa-se a isso, sentimento que pode susci-
cara de esfomeados”. Esse temor pode induzir tar no adolescente uma inibição mais ou menos
comportamentos bulímicos. grave (cf. item “A inibição”, neste capítulo).
– Altura: quer seja considerada muito gran- — AS PREOCUPAÇÕES EXCESSIVAS A PROPÓSI-
de ou muito pequena, a altura que se afasta um TO DE CARACTERÍSTICAS SEXUAIS:
pouco da média logo é mal tolerada. Isso é ver- – A pilosidade: pêlos pubianos, pêlos axila-
dade principalmente para a pouca altura que, res, pilosidade na face e no resto do corpo. O
associada a um sentimento de inferioridade,
aparecimento da pilosidade pubiana e, em me-
pode levar o adolescente a realizar atos com-
nor grau, da pilosidade axilar é examinado às
pensatórios ou a adotar atitudes de imponência
vezes com ansiedade tanto pelo menino quan-
reacional (em particular, conduta delinqüente:
to pela menina. No menino, o medo do rosto
Tomkiewick, 1967).
imberbe e, na menina, o medo do hirsutismo
– Nádegas gordas, barriga gorda, coxas gor-
levam a longas seções de observação e ao uso do
das: freqüentes e alimentados por gracejos mal-
dosos do grupo (bundão, bofe), esses temores barbeador, seja para estimular o aparecimento,
são reforçados pelo estereótipo social atual que seja para cortar pêlos imaginários.
privilegia o morfotipo longilíneo. As imposi- – O peito: preocupação fundamental na
ções da moda (blue jeans) os acentuam: alguns menina, o broto mamário sinaliza a entrada na
adolescentes chegam a adotar estilos de vestir puberdade e autentica a transformação corpo-
com o único objetivo de mascarar essa dismor- ral: os seios são pequenos demais, grandes de-
fofobia. mais, malformados, a auréola é larga demais ou
escura demais, o mamilo imperfeito... No meni-
— AS PREOCUPAÇÕES EXCESSIVAS COM UMA no, uma discreta ginecomastia pode focalizar o
PARTE DO CORPO. – Os pés, às vezes, são objeto temor “de ter seios” e mobilizar todas as incer-
de temor: grandes demais ou pequenos demais, tezas sobre a identidade sexual (cf. Capítulo 7).
largos demais, mal formados. As meninas costu- – Os próprios órgãos genitais são objeto fre-
mam achar seus pés grandes demais e, inversa- qüente de temor, em particular no menino: a
164 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

pele enrugada do escroto, a assimetria da des- a mãe desenvolve temores exagerados, sobretu-
cida dos testículos, o tamanho do pênis, a for- do sobre a virilidade do menino, oferecendo a
ma do prepúcio, a qualidade da ereção podem este apenas uma identidade negativa em rela-
focalizar temores sobre a possibilidade de ter ção a um pai desvalorizado (“ele está ficando
uma sexualidade dita “normal”. Na menina, com o seu pai”...). 3) Finalmente, uma fonte
os temores não se referem tanto à forma (não social, sem a qual a dismorfofobia não pode
se trata, portanto, de dismorfofobia em sentido ser compreendida: “trata-se não apenas de um
próprio), mas à significação da menstruação e, transtorno da relação consigo mesmo, mas tam-
sobretudo, à capacidade de ter filhos. bém de uma forma de perturbação das relações
– A mudança da voz, enfim, provoca, princi- com o outro” (Tomkiewicz e Findler). O gru-
palmente nos meninos, temores amplamente re- po de iguais, sua opinião, sua aceitação ou sua
forçados pelas reações do grupo de iguais quando rejeição (real ou imaginária) estão na base do
das mudanças involuntárias do registro da voz. sentimento de ansiedade, de inferioridade. A
extrema dependência do adolescente em rela-
ção ao grupo de seus iguais encontra, por meio
Significação psicopatológica. – As dis- das dismorfofobias, sua expressão caricatural.
morfofobias resultam da confluência de várias Em uma perspectiva em que o eixo de com-
fontes. Schönfeld distingue quatro fatores: 1) preensão ambiental e sociológico é secundário
a percepção subjetiva da transformação corpo- em relação ao eixo psicodinâmico, Canestrari
ral; 2) fatores psicológicos internalizados onde (1980) distingue duas grandes categorias de dis-
as “preocupações” acerca do desenvolvimen- morfofobias em função de sua evolução com a
to físico são apenas uma racionalização e uma idade do adolescente. Certas dismorfofobias cor-
projeção de uma frustração afetiva mais funda- respondem estreitamente às mudanças do corpo
mental; 3) os fatores sociológicos; 4) a atitude em uma ligação temporal (crescimento somáti-
decorrente da observação dos outros. co, muscular, mudança da voz, acne): essas preo-
Tomkiewicz e Findler (1967) descrevem, cupações remetem evidentemente ao problema
por sua vez, três fontes essenciais das dismorfo- da imagem do corpo. Segundo Canestrari, elas
fobias: 1) Uma fonte biológica dominada pela seriam mais freqüentes no menino. As outras
percepção subjetiva das modificações corporais. dismorfofobias são independentes das próprias
Segundo esses autores, “pode-se dizer que as transformações corporais (forma do nariz, cor
condições biológicas tornam a dismorfofobia dos olhos, medo de enrubescer, medo de perder
inevitável no período da adolescência”. 2) Uma os cabelos); elas são observadas no adolescen-
fonte afetiva que também tem várias origens. te um pouco mais velho (15-16 anos) e seriam
Antes de tudo, o estabelecimento progressivo mais freqüentes nas meninas, com exceção do
da identidade sexual leva o adolescente a se temor de perder os cabelos. Essas preocupações
preocupar com todas as modificações corporais sem substrato físico real “devem ser considera-
específicas de um sexo. Ora ele acha que suas das como uma simbolização por intermédio do
características sexuais secundárias são muito corpo do conflito-chave da adolescência”, em
acentuadas, ora ele as considera insuficiente- particular os conflitos ligados à separação-indi-
mente desenvolvidas, mas um período de dú- viduação e à perda de objetos infantis.
vida e de oscilação é quase constante. Além do Os temores ligados à morfologia corporal
eixo da identidade sexual, uma outra fonte afe- representariam uma tentativa terapêutica na-
tiva pode ser observada ao longo das freqüentes tural, que consiste em utilizar o próprio corpo
perturbações familiares: pai ocupando um lugar como objeto exterior de amor e de ódio na ex-
medíocre e desvalorizado com o qual o meni- pectativa de uma substituição adequada quando
no não pode se identificar de forma satisfatória, do investimento secundário de um objeto exter-
mas principalmente atitude particular da mãe. no. As dismorfofobias constituiriam, portanto,
De fato, o comportamento da mãe pode reforçar objetos substitutos, transicionais, nos quais se
os temores do(a) adolescente: ora a mãe rejeita focalizam as pulsões libidinais ou agressivas no
de maneira franca e explícita a transformação momento da ruptura, normal na adolescência,
pubertária, declarando abertamente que agora do equilíbrio entre os investimentos de objetos
o adolescente está feio, disforme, sem graça, ora e os investimentos narcísicos.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 165

A intelectualização. – Os processos men- descreve dois mecanismos de defesa mais espe-


tais têm como papel essencial fazer frente ao cíficos utilizados nesse período pelo ego do ado-
conflito adaptativo que opõe as exigências lescente: o ascetismo e a intelectualização. O
pulsionais e o ambiente. Em outras palavras, ascetismo é uma defesa dirigida contra as pulsões
os processos mentais representam uma grande e as exigências instintivas e uma tentativa de
parte da atividade do ego. O ego do adolescente dominá-las. Sua tradução clínica focaliza-se no
é confrontado com o aumento quantitativo das corpo e torna-se caricatural no caso da anorexia
pulsões libidinais e agressivas, ao mesmo tempo mental (cf. item “Anorexia mental”, no Capítu-
em que, segundo Anna Freud, esse ego é agora lo 6). A intelectualização acompanha o acesso ao
muito mais sólido, consolidado, e mesmo mais pensamento formal, no sentido piagetiano, ao
rígido, que o ego infantil. prazer que o adolescente tem de manejar abstra-
Uma das funções do ego é evitar a mudan- ções e de não mais pensar unicamente sobre as
ça, deter essa exacerbação pulsional para reen- categorias do real. A intelectualização permite
contrar a relativa tranqüilidade do período de a nova abertura psíquica para as categorias do
latência. Assim, todas as funções do ego vão se possível. O adolescente tende “a transformar em
intensificar: pensamento abstrato aquilo que ele sente”. Tra-
ta-se também aqui de uma tentativa de domínio
Na luta que ele mantém para evitar das pulsões, porém, de algum modo, por cami-
que sua existência mude, o ego se serve
indiferentemente de todos os procedimen-
nhos tortuosos, superinvestindo os processos
tos defensivos que já utilizou na infância e mentais. Se o lado positivo de uma tal operação
durante o período de latência. Ele recalca, defensiva é estimular a inteligência, seu lado
desloca, nega, inverte, dirige as pulsões negativo é constatado nas múltiplas produções
contra o próprio sujeito, cria fobias, sinto- sintomáticas de tipo neurótico.
mas histéricos, enfim, domestica a angústia
por pensamentos e atos compulsivos.
A inibição. – A inibição é o último tipo
As perturbações das condutas mentalizadas de conduta considerado neste item, e é muito
traduzem, segundo A. Freud, “o reforço das de- comum no adolescente. É sempre difícil des-
fesas, isto é, vitórias parciais do ego”. Nisso elas crever a inibição, visto que, por definição, não
se opõem ao aparecimento de condutas agidas permite falar dela. Poucos adolescentes e/ou fa-
ou corporais que refletem, ainda segundo A. mílias se consultam espontaneamente por essa
Freud, vitórias parciais do id. conduta, salvo quando ela invade o próprio
No primeiro caso, o ego do adolescente luta funcionamento psíquico e provoca um fracasso
contra as exigências pulsionais não apenas refor- escolar. Por uma preocupação de clareza, dis-
çando seus contra-investimentos, seus mecanis- tinguiremos três setores onde a inibição pode
mos de defesa, o que, conseqüentemente, tem se assentar: 1) a inibição intelectual, que se re-
sempre o risco de aumentar os sintomas, mas, fere essencialmente à atividade cognitiva, que
também, ao preço de uma rigidez ampliada de seu se poderia chamar de “burrice neurótica”; 2)
próprio funcionamento culminando naquilo que a inibição de fantasiar, onde o conformismo é
Freud chamou de “adolescente intransigente”. uma conduta clínica encontrada com freqüên-
É importante compreender que essa rigidez não cia; 3) finalmente, a inibição relacional ou ti-
corresponde àquilo que recebeu o nome de “força midez. Evidentemente, esses três setores podem
do ego”. Ao contrário, o ego do adolescente será se associar, mas às vezes é possível observá-los
tanto mais rígido, inflexível, quanto mais se sen- separadamente na clínica.
tir ameaçado de enfraquecimento. Nesse sentido, Na maioria dos casos, as condutas de ini-
a noção de “força do ego” não deve ser confun- bição na adolescência são apenas o prolonga-
dida com a rigidez das condutas, assim como não mento de condutas idênticas na infância. Às
deve ser identificada a uma plasticidade enganosa vezes, parecem surgir na pré-adolescência, por
(adaptação conformista de fachada, cf. item “A volta de 10-12 anos. Porém, em alguns casos,
escolha de objeto sexual”, no Capítulo 7). o surgimento da inibição parece acompanhar
Além das defesas habituais, que são o recal- o surgimento dos primeiros sinais pubertários,
que, o deslocamento, a negação, etc., A. Freud por volta de 13-14 anos. Quando a inibição é
166 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

antiga, geralmente se observa seu reforço no pe- ou de vazio na cabeça, sobretudo nos exames
ríodo da adolescência. (angústia da folha em branco).
Raramente a inibição repercute sobre as
Descrição clínica capacidades intelectuais, como se pode avaliar
pelos testes de níveis. Contudo, uma prova mal
A inibição intelectual. – Ela se traduz pela preparada e a intensa ansiedade ou mesmo a an-
dificuldade sentida diante do trabalho escolar gústia mobilizada por aquilo que o adolescente
ou universitário; pode levar a um fracasso rela- concebe como um exame ou, sobretudo, como
tivo na continuidade dos estudos, fracasso que uma “mensuração supostamente objetiva” de
é marcado essencialmente pela incapacidade suas capacidades intelectuais podem levar a
do adolescente de seguir a orientação que ele resultados catastróficos. Uma nova prova em
próprio escolheu ou investiu anteriormente. melhores condições permite corrigir esses resul-
Nota-se claramente nessa inibição a dificuldade tados enganosos.
experimentada pelo adolescente de viver uma Na maioria dos casos, essas inibições inte-
situação de rivalidade, de competição com um lectuais com fracasso relativo na escolaridade
dos genitores ou com ambos, ou de superar o são observadas em adolescentes com capacida-
nível escolar atingido por eles. des intelectuais elevadas, ou mesmo superiores.
É relativamente fácil distinguir a inibição O fracasso é ainda mais paradoxal.
intelectual do desinvestimento escolar. De fato,
a inibição em sua forma mais pura é acompa- A inibição de fantasiar – A inibição de
nhada de um desejo persistente de prosseguir fantasiar revela-se pela dificuldade encontrada
os estudos, de realizar o trabalho escolar, mas em certos adolescentes de desenvolver no in-
o adolescente se julga incapaz para tanto. Em terior de seu funcionamento psíquico uma área
certos casos, isso pode levar inclusive a um de sonho e de fantasia. Normalmente, graças a
trabalho obstinado e sem resultado. Contudo, essa área de sonho ou de devaneio, as fantasias,
a inibição persistente pode suscitar comporta- cuja importância é ainda maior em razão dos
mentos de rejeição ou de evitamento em face ímpetos pulsionais libidinais e agressivos pró-
dos investimentos intelectuais: o adolescente prios a essa idade, são pouco a pouco integradas
subitamente estabelece uma recusa, um desin- ao ego do adolescente, toleradas e moduladas
vestimento ou um desprezo aparente por seus por seu superego e, assim, reconhecidas como
estudos, conduta cuja função essencial é mas- parte constituinte da personalidade. Em cer-
carar a inibição subjacente. O clínico deve ter tos casos, seja porque a instância do superego é
o cuidado justamente de não cair na armadilha severa demais (organização neurótica) ou per-
das primeiras afirmações do adolescente, pois sonificada demais (posição regressiva em que
há sempre o risco de acentuar a inibição e de prevalece a imaturidade), seja porque o ego é
aprisionar o adolescente em condutas de fra- frágil demais (organização-limite, pré-neurótica
casso repetitivas, caso ele caminhe no sentido ou pré-psicótica), as fantasias portadoras de exi-
de uma interrupção prematura dos estudos ou gências pulsionais são sentidas como temíveis
de uma orientação pedagógica em que se sente e perigosas. Uma solução consiste em despejar
desvalorizado. diretamente essas pulsões e fantasias no exte-
Alguns traços neuróticos discretos costu- rior graças à passagem ao ato (cf. Capítulo 5).
mam acompanhar essa inibição intelectual: Uma outra solução é dada pelo forte recalque
conduta de tipo obsessivo marcada pela meti- dessas fantasias. Em clínica, esse forte recalque
culosidade em tudo o que diz respeito ao tra- se traduz em comportamentos conformistas do
balho escolar (tempo excessivo gasto copiando adolescente: esse último aparenta uma adapta-
lições, sublinhando, apresentando o trabalho, ção de fachada às exigências do ambiente, não
etc,), conduta fóbica com deslocamento de in- volta a apresentar uma conduta de conflito ou
vestimentos para um setor particular e focali- de oposição: em suma, parece se poupar de uma
zação da inibição em uma matéria ou com um crise (cf. Capítulo 2). Conforme o caso, o recal-
professor e, mais simplesmente ainda, recalque que parece referir-se à pulsão sexual ou à pulsão
marcado fortemente pela impressão de branco, agressiva. Mas, na maioria das vezes, o recalque
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 167

é particularmente importante quando a imbri- não aos próprios processos psíquicos, mas às
cação pulsional não pôde se estabelecer progres- modalidades relacionais do adolescente com
sivamente e quando o adolescente não tolera a seu ambiente. A timidez é uma conduta par-
invasão de sua psique por fantasias agressivas. A ticularmente freqüente nessa idade: o adoles-
título de exemplo, isso é muito nítido no caso cente não ousa se dirigir a um desconhecido,
da inibição acerca da masturbação. A ausência não ousa falar diante de um grupo, não ousa se
de qualquer conduta masturbatória e de fanta- inscrever em uma atividade esportiva ou cul-
sia masturbatória na adolescência testemunha tural ainda que deseje, não ousa telefonar... Às
profundas perturbações psíquicas dominadas vezes, essa timidez parece seletiva: por exem-
pela incapacidade de integrar as pulsões agressi- plo, timidez unicamente com os adolescentes
vas às pulsões libidinais quando o ato masturba- do outro sexo, ou timidez no meio escolar, ou
tório é acompanhado de fantasias (cf. item “A com os adultos.
masturbação”, no Capítulo 7). Subjacente a essa timidez, é comum cons-
Essa atitude conformista e superficialmen- tatar a existência de uma vida de fantasia mais
te adaptada deixa o adolescente desprevenido rica. O temor constante do adolescente é o de
em face dos ímpetos pulsionais. Clinicamente, que seus devaneios e/ou fantasias sejam desco-
podem-se observar desmoronamentos súbitos e bertos ou adivinhados pelo outro, sobretudo
espetaculares, após longos períodos de norma- quando essa outra pessoa é o objeto desses de-
lidade superficial, desmoronamentos marcados vaneios. Essa timidez normalmente está ligada
seja pela brusca passagem ao ato (sendo a mais seja à culpabilidade, seja à vergonha. A culpa-
típica a tentativa de suicídio: cf. item “Tenta- bilidade remete em geral a desejos sexuais ou
tiva de suicídio e diagnóstico psiquiátrico”, no agressivos dirigidos a uma pessoa do entorno, a
Capítulo 5), seja pelo fracasso do recalque e a vergonha a temores relacionados com a própria
forte invasão do ego pelos processos primários pessoa do adolescente. Nesse último caso, uma
de pensamento (cujo exemplo é o episódio psi- vivência dismorfofóbica (cf. item “As condutas
cótico agudo, cf. Capítulo 11). Em outros casos, fóbicas”, neste capítulo) acompanha a timidez;
observa-se simplesmente a manutenção dessa essas dismorfofobias podem servir aos olhos do
atitude conformista, inclusive na idade adulta, adolescente de justificativa para sua timidez: ele
em geral mantendo uma relação de tipo infan- não fala com o outro por causa de sua acne, não
til com as imagens parentais ou mesmo com os sai de casa devido ao temor da calvície, etc.
pais reais (modelos da adolescência “incomple- Na maioria dos casos, essa timidez persiste
ta” ou “abortada” de P. Blos). durante a adolescência, depois parece atenuar-
Mediante os resultados dos testes psicoló- se progressivamente com a entrada na vida ati-
gicos projetivos (em particular teste de Rors- va, em particular com a inserção profissional.
chach e TAT), chega-se a esses dois grandes Às vezes por si mesmo, mas geralmente incen-
quadros. Às vezes, os resultados são dominados tivado por seu entorno, o adolescente procura
pela banalidade das respostas, ou mesmo por um atendimento quando a timidez é tal que
sua pobreza: o adolescente descreve brevemen- constitui um entrave às possibilidades de inser-
te o conteúdo manifesto das pranchas, decla- ção social.
ra-se, e parece incapaz de ultrapassar esse nível
puramente descritivo. Adiante, após algumas Abordagem Psicopatológica
respostas banais, observam-se bruscos e inquie-
tantes desmoronamentos, quebras nos proces- Freud mostrou em seu trabalho sobre Inibi-
sos secundários e emergências fantasiosas cruas ção, sintoma e angústia que, no plano psicopa-
e arcaicas. As capacidades de recuperação for- tológico, a inibição se situava aquém dos sin-
tomas. Poderíamos dizer que a inibição é um
mal de uma prancha a outra, ou de uma seção
“pré-sintoma”. Conseqüentemente, essa con-
de investigação a outra, constituem então um
duta não é específica de uma organização psi-
indicador válido do prognóstico.
copatológica particular. Como vimos no item
anterior, a inibição intelectual é acompanhada
A inibição relacional: a timidez – Trata- frequentemente de uma conduta obsessiva ou
se neste último caso de uma inibição referente fóbica. A inibição de fantasiar pode traduzir a
168 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

força do recalque, mas também uma organiza- associado de forma muito estreita a represen-
ção psíquica na qual domina a desimbricação tações sentidas como proibidas, perigosas ou
pulsional; finalmente, a timidez remete ora a fonte de culpabilidade: o recalque produz assim
um sentimento de culpabilidade situado no no inconsciente não apenas as representações
eixo do conflito edipiano, ora a um sentimen- pulsionais não admitidas, mas também as repre-
to de vergonha, situado antes de tudo no eixo sentações deslocadas: trata-se tipicamente da
narcísico. inibição neurótica.
No próprio mecanismo ligado à inibição, Esse risco é particularmente grande na ado-
A. Freud distingue dois grandes tipos: 1) de um lescência: de fato, “o despertar dos ímpetos ins-
lado, ela descreve a retração do ego; 2) do ou- tintivos pode levar a uma queda no rendimen-
tro, a inibição propriamente dita. O mecanismo to escolar, como se a utilização de uma grande
de retração do ego, característico do ego infan- quantidade de energia para manter o recalque
til, segundo A. Freud, “se posiciona contra as não deixasse o suficiente para os processos men-
excitações vindas do exterior”. Ele tem como tais complexos de aquisição de conhecimen-
objetivo proteger o indivíduo dos estados de tos” (Lebovici e Soulé, 1972). Essa explicação
tensão, mas o impede de fazer experiências ma- econômica explica muito bem a inibição que
turativas. Para A. Freud, esse mecanismo é ba- chamamos de “intelectual”, mas pode-se acres-
nal na infância, constituindo uma fase normal centar a isso uma explicação dinâmica, como
do desenvolvimento. Na adolescência, pode-se assinala B. Cramer.
considerar que certos indivíduos se protegem Segundo esse autor, constata-se nos adoles-
assim graças à retração do ego contra as exci- centes, no nível do funcionamento intelectual,
tações externas, como se observa facilmente na “fenômenos de inibição tipicamente neuróti-
timidez. Segundo A. Freud, uma característica cos, em que a inibição, na forma de contra-in-
da retração do ego é sua reversibilidade. Esse vestimento, dedica-se à atividade mental como
ponto distingue a “retração do ego” da inibição sendo um equivalente masturbatório, o que de-
propriamente dita, pois esta traduz um conflito monstra bem a hiperlibidinização dos processos
psíquico internalizado: o ego “se defende con- mentais que não foram descentrados e suficien-
tra seus próprios processos internos”. A inibi- temente autonomizados de sua base corporal”.
ção corresponde à utilização de mecanismos de Esse segundo patamar de compreensão explica,
defesa neuróticos, particularmente o recalque, a nosso ver, certas inibições de fantasiar, quando
e conseqüentemente, não poderia ser esponta- o próprio funcionamento mental é investido de
neamente reversível. uma carga pulsional excessiva. O autor citado
Para S. Freud, o status da inibição está es- limita-se ao investimento libidinal, mas, para
treitamente ligado ao recalque que, por sua vez, nós, isso é igualmente verdadeiro para o inves-
está correlacionado ao status de angústia (ver o timento pulsional agressivo do pensamento.
item sobre a psicopatologia da angústia e as duas Contudo, existe um outro eixo de com-
teorias da angústia segundo Freud, p. 157). preensão da inibição na adolescência: esse eixo
Qualquer que seja o lugar respectivo da an- refere-se à compreensão genética desse período
gústia e do recalque, o processo de sublimação da vida como testemunho do segundo proces-
lança uma ponte entre os investimentos pul- so de separação-individuação, e como período
sionais e os investimentos cognitivos. De fato, de definição dos limites do eu. A inibição pode
a sublimação é o mecanismo que responde aos ser compreendida então como uma medida de
interesses intelectuais: na sublimação, existe proteção necessária em um período em que os
um deslocamento da energia libidinal de seus limites do eu se diluem momentaneamente em
objetivos sexuais primitivos para os objetivos razão dos remanejos que se seguem ao trabalho
intelectuais. Assim, estabelece-se o princípio da adolescência (cf. item “Os principais aspec-
de toda curiosidade intelectual. Porém, esse tos dinâmicos da adolescência”, no Capítulo
deslocamento jamais é completo, a curiosida- 1). Isso pode ser observado de forma particular-
de intelectual será sempre mais ou menos car- mente nítida quando a inibição é acompanhada
regada de uma significação ligada à expressão de sentimentos moderados de perda de limites
da pulsão libidinal. Há o risco, então, de que o do eu, ou de uma confusão relativa de identida-
exercício da curiosidade intelectual permaneça de com o outro. Assim, a timidez está ligada às
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 169

vezes ao sentimento que os outros podem adivi- entrada na adolescência correspondem clinica-
nhar o pensamento do adolescente, ou podem mente a um nítido aumento de freqüência dos
pressentir os afetos experimentados. Em menor sintomas histéricos. É muito comum também
grau, o adolescente tem às vezes o sentimento que manifestações histéricas de intensidade
de que, devido ao seu comportamento ou em mínima durante a infância adquiram subita-
razão de um detalhe particular de sua psique, ele mente um caráter ruidoso e invasivo durante
constitui o ponto de convergência dos olhares a adolescência. A título de ilustração, recorda-
e da atenção de outros: esse sentimento tam- remos o caso de Dora: Freud viu essa paciente
bém está ligado a um transtorno passageiro da levada por seu pai quando ela tinha 16 anos,
identidade (identidade difusa de Erikson). Essa e três anos mais tarde realizou um breve trata-
inibição é acompanhada de uma vivência de mento psicanalítico. É preciso lembrar que essa
vergonha, afeto que testemunha o retraimento paciente apresentava desde os 8 anos episódios
narcísico e o enfraquecimento dos limites do eu. de tosse nervosa, mas, aos 16 anos, os acessos
Todos os graus são observados entre a inibição de tosse tornaram-se permanentes, ao mesmo
que testemunha uma simples dúvida passageira tempo em que apareciam episódios de afonia e
e banal nessa idade sobre os limites do eu e a de desfalecimento. Se na época em que Freud
inibição grave, que confina a um retraimento relatou esse caso o período da adolescência não
quase autístico, último refúgio contra o fracasso era identificado como tal, hoje a patologia de
da elaboração dos limites do eu. Dora, então com 16 anos, seria estreitamente
ligada a essa fase.
Embora as condutas histéricas pareçam fre-
qüentes na adolescência, constituindo possivel-
As Outras Condutas Neuróticas mente uma das condutas patológicas específicas
desse período, é difícil uma avaliação estatís-
Abordaremos aqui dois outros âmbitos, tica rigorosa dessa freqüência. Por um lado, os
o da histeria e o da obsessão, que fazem par- múltiplos “mal-estares” ou “crises de nervos”
te historicamente do campo das neuroses, mas raramente são objeto de uma investigação psi-
cujas relações com as diferentes etapas da vida copatológica, salvo quando se repetem ou se
suscitam algumas questões. Do ponto de vista apresentam com forte intensidade, evocando
sintomático e/ou do ponto de vista psicopato- a “grande crise de histeria de Charcot”. Essas
lógico, haveria uma semelhança incontestável manifestações agudas costumam ser banalizadas
entre a histeria ou a obsessão da infância, da pelos pais e pelo médico somático, banalização
adolescência e do adulto, ou, ao contrário, as que, aliás, se justifica em parte.
diferenças de estruturação e de expressão se- Quanto às manifestações de conversão, elas
riam mais importantes que as semelhanças deveriam ser mais facilmente identificáveis,
quando leva-se em conta a idade do sujeito? porém, sua freqüência também é amplamente
Parece-nos, por exemplo, que os adultos são subestimada. As razões disso são variadas.
mais intolerantes diante de atitudes histéricas Em geral, essas conversões têm duração
ou obsessivas de outros adultos do que em re- transitória: alguns dias ou mesmo algumas se-
lação a atitudes idênticas na criança. A ado- manas, na maioria das vezes. Apenas em alguns
lescência constitui, também nesse nível, um casos elas se prolongam por vários meses. Habi-
período intermediário. Porém decidimos não tualmente, associam-se a outras condutas que
fazer da histeria e da obsessão uma conduta podem ocupar o primeiro plano. Elas são obser-
específica da adolescência e, apesar de sua par- vadas de forma privilegiada nos serviços de pe-
diatria ou de neuropediatria. Apenas as formas
ticularidade ligada a essa idade, nós as consi-
clínicas mais graves são abordadas sob um ân-
deramos tendo em mente um certo continuum
gulo realmente psicopatológico. Para os outros,
entre a infância e a idade adulta.
os pediatras evitam o termo histeria, seja em
razão de sua conotação pejorativa, seja porque
As condutas histéricas. – Enquanto as eles próprios negam a dimensão psicogenética
condutas histéricas são mais raras na infância, do transtorno, preferindo limitar-se aos termos
o advento da puberdade e, posteriormente, a simulação ou manipulação.
170 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Consideradas essas reservas, a freqüência motrizes das mãos, as alterações sensitivas, em


de conversões histéricas em uma população de particular as zonas de hipoestesia, de anestesia
adolescentes em serviço de psiquiatria infan- ou de hiperestesia, as sensações de micção impe-
to-juvenil oscila, segundo os autores, entre 2,5 riosa, certas manifestações psíquicas; 2) as con-
e 10% de casos (Rock, Scheer, Proctor) com dutas histéricas como entrave ao movimento de
um aumento nítido quando da fase pubertá- independência do adolescente: situaremos aqui
ria. Quanto ao sexo, existe uma diferença no- as alterações da motricidade bastante comuns
tável em relação ao adulto: a percentagem de nessa idade, alterações que podem chegar até
adolescentes meninos é relativamente elevada a invalidez: o adolescente torna-se totalmente
(Launay: 40% de meninos) e, portanto, a pre- dependente de sua família (paralisia na forma
ponderância do sexo feminino para os sintomas de paraplegia ou mais raramente de hemiplegia,
histéricos é nitidamente menos importante na transtorno da estática de tipo astasia-abasia). A
adolescente do que na adulta. invalidez pode levar até mesmo à necessidade
de uma cadeira de rodas empurrada permanen-
temente por um dos genitores, em geral o do
Descrição clínica. – Quanto mais idade
sexo oposto.
tem o adolescente, mais as manifestações histé-
Esses dois eixos dão conta das duas principais
ricas aproximam-se daquelas descritas no adul-
significações que podem adquirir as conversões
to. Assim, podem-se observar:
histéricas nos conflitos próprios ao adolescente:
– as manifestações agudas: crise neuropáti- conflito de autonomia ligado às relações familia-
ca sob forma de desmaio, de crises tetaniformes res e conflito de desejo ligado às pulsões sexuais.
ou epileptiformes;
– as manifestações duradouras, quer se O diagnóstico diferencial. – O diagnóstico
trate de conversões motrizes (paralisia, astasia, diferencial mais clássico desde Charcot é o dos
abasia, etc.), sensitivas (anestesia, hiperestesia), transtornos neurológicos de origem orgânica.
sensoriais (cegueira, surdez), fonadora (mutis- Na maioria das vezes, o exame neurológico, por
mo), ou ainda de manifestações psíquicas (esta- sua normalidade e principalmente pela discor-
do crepuscular, episódio amnésico). dância entre os indícios objetivos e as manifes-
tações subjetivas, dá uma orientação imediata.
Em todos os casos, os sintomas histéricos Esse tipo de procedimento está sujeito a dois
imitam de forma mais ou menos grosseira a pa- riscos: por um lado, a obstinação diagnóstica
tologia somática. Os transtornos neurológicos (isto é, a multiplicação de exames e de investi-
em particular não respeitam a repartição seg- gações complementares para obter uma certeza
mentar motriz ou sensitiva. Não é raro observar diagnóstica jamais alcançada), por outro lado,
uma sintomatologia similar em um membro da uma complacência e uma demanda sempre in-
família, ainda que o fato seja menos constante sistente por parte do adolescente e dos pais para
que na criança. realizar novos exames, um novo balanço... Essa
A “belle indifférence” descrita por Charcot demanda vai no sentido de um evitamento dos
pode ser notada: o adolescente não parece ex- problemas psicológicos reais do próprio pacien-
cessivamente preocupado ou perturbado com te e das interações familiares.
seus transtornos, que, em compensação afetam O diagnóstico de sintomas histéricos feito
seus pais ao extremo. A presença do observador por certos médicos somáticos implica um outro
pode aumentar a intensidade dos transtornos: risco: reconhecer a histeria significa quase sem-
certas observações atestam seu desaparecimento pre desconhecer o sofrimento do paciente. Esse
mais ou menos completo na ausência de espec- desconhecimento é justamente o motivo mais
tadores, pelo menos de espectadores familiares. ou menos consciente que justifica aos olhos
Em uma ótica finalista, as condutas histéri- desses últimos sua “obstinação diagnóstica”.
cas do adolescente podem ser ordenadas segun- Na prática, dois diagnósticos diferenciais
do dois eixos essenciais: 1) as condutas histéri- podem ser citados:
cas como defesa dirigida essencialmente contra
a sexualidade, em particular a masturbação e as – as queixas hipocondríacas;
fantasias sexuais: citaremos aqui as paralisias – os transtornos psicossomáticos.
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 171

Do lado das queixas hipocondríacas, a fron- do que em qualquer outra idade, o duplo me-
teira normalmente é muito fluida. A título de canismo de apropriação de seu próprio corpo
exemplo, no caso da “dor de barriga” (quer se pelo adolescente, mas ao mesmo tempo de um
trate de uma dor de tipo apendicular ou ovaria- corpo em mudança, explica os múltiplos meca-
na), em geral é muito difícil afirmar, com base nismos psíquicos de defesa utilizados eventual-
apenas na clínica, se estamos no campo das mente. Esses mecanismos podem ser agrupados
queixas hipocondríacas ou no das manifesta- esquematicamente segundo três grandes tipos:
ções histéricas. Apenas a investigação psicodi- 1) os mecanismos psíquicos clássicos: recalque
nâmica e a avaliação dos mecanismos psíquicos e conversão; 2) os mecanismos psíquicos liga-
de defesa podem dar um início de resposta. A dos aos processos de clivagem e de somatiza-
associação de manifestações de tipo histérico ção; 3) os mecanismos ligados à interação en-
e de uma patologia psicossomática foi descrita tre o adolescente e seu entorno, onde o corpo
(Marty et al.) em particular no caso da asma. se torna objeto transicional e/ou transacional
Aqui se coloca o problema daquilo que é cha- dessa relação.
mado de “estrutura psicossomática”, definida É óbvio que esses diversos mecanismos que
pela existência de um “pensamento operatório”. distinguimos aqui por interesse didático muitas
Julgamos que é preciso limitar com rigor a uti- vezes aparecem conjugados no mesmo pacien-
lização do termo psicossomático e não incluir te, o que explica, como já dissemos, a habitual
nele a totalidade das manifestações somáticas sobredeterminação do sintoma.
com uma participação psíquica. Da mesma for-
– Os mecanismos típicos das manifestações
ma, o sintoma histérico é acompanhado de um
histéricas: não vamos insistir aqui nessa signi-
conjunto de “defesas psíquicas mais ou menos
ficação clássica, apresentando-a apenas em li-
específicas”.
nhas gerais. Em face do conflito psíquico, em
Finalmente, deve se mencionar a simulação:
particular o conflito entre o desejo sexual e a
o que importa aqui é o desejo de manipulação proibição do superego, o primeiro movimento
do corpo assim como do entorno. O prazer de consiste em um recalque do movimento pulsio-
causar angústia, de derrotar tanto os pais quan- nal proibido. Realizado esse recalque, a energia
to os médicos, é amplamente predominante. A pulsional libidinal é transformada em “energia
diferença essencial com relação à histeria é que de enervação”. Esse mecanismo de conversão
esse prazer e esse desejo são conscientes na si- especifica o próprio sintoma e lhe dá seu nome.
mulação, enquanto que na histeria são incons- Essas hipóteses psicopatológicas foram lança-
cientes. das por Freud, em particular no estudo do caso
de Dora. A nova intensidade das emoções se-
Significação psicopatológica. – A signifi- xuais, os temores fantasiosos despertados pela
cação psicopatológica dos sintomas histéricos, masturbação suscitam uma exacerbação das
em particular das conversões, está longe de defesas e dos contra-investimentos: o sintoma
ser unívoca nessa idade particular. De fato, a de conversão constitui uma muralha contra a
conversão constitui muitas vezes um sintoma ameaça de retorno do recalcado. Mas esse con-
sobredeterminado cujo próprio mecanismo é flito de natureza genital edipiana geralmente
variável; ele se situa no cruzamento dos pro- constitui apenas um primeiro nível. O conflito
cessos mentais e dos processos de somatização. ligado à identidade sexual, as incertezas pro-
Além disso, suas relações com uma organização jetadas na imagem do corpo representam um
estrutural, quer se trate de uma neurose, de um segundo patamar.
estado-limite ou mesmo de uma psicose, estão – Os sintomas histéricos ligados a mecanismos
longe de ser unívocas. “É difícil sustentar a li- arcaicos de tipo clivagem e/ou somatização: para
gação entre um fenômeno de conversão e uma alguns autores, o recalque não pode explicar
estrutura subjacente tipicamente histérica” por si só os diversos sintomas, em particular as
(Cramer, 1977). conversões. Assim, para B. Cramer,

parece que a conversão se instala quan-


Mecanismos psicopatológicos ligados aos do os modos habituais de recalque já não
sintomas histéricos na adolescência. – Mais são suficientes para conter a emergência
172 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

pulsional. O que ocorre então é um fenô- sempre reforçam estreitamente as ligações de


meno de projeção maciça das pulsões no dependência entre o adolescente e seus pais.
corpo. Quando essa projeção ultrapassa um Certamente, todo sintoma pode ter a mesma
limiar crítico, o corpo é hiperlibidinizado, função nessa idade. Mas, no caso da conversão,
torna-se o receptáculo de toda a vida pul- o sintoma constitui, por ele mesmo, um convite,
sional, e a partir de então a defesa se instala
em forma de uma clivagem com o corpo.
um apelo a esse aumento de dependência. Não
é raro constatar que os pais demonstram uma
Esse mecanismo de clivagem explicaria a excessiva solicitude, facilitam e favorecem a re-
“belle indifférence”: o adolescente histérico com- gressão de seu adolescente. A delimitação entre
porta-se como se o corpo fosse estranho, como o corpo de um dos genitores, em particular a
mãe, e o do adolescente, nem sempre é clara: o
se os sintomas não fossem seus. Nesse último
corpo do adolescente parece ser o lugar privile-
caso, as conversões histéricas representam uma
giado de projeção das pulsões agressivas ou libi-
espécie de “atuação” ou pelo menos de “ence-
dinais de um dos genitores. Habitualmente, en-
nação” das pulsões no corpo: elas se aproximam
contra-se esse tipo de relação já instalada desde
em sua significação psicopatológica da passa-
a primeira infância: o corpo da criança, depois
gem ao ato observada em outros adolescentes,
do adolescente, sempre constituiu o lugar privi-
em particular no caso da psicopatia. É preciso
legiado da interação mãe-filho, sem que se pos-
lembrar que certos autores efetivamente estabe-
sa ter desenvolvido uma área transicional mais
leceram paralelos entre os dois quadros clínicos,
mentalizada. Essas projeções excessivas, quando
da histeria e da psicopatia.
são de natureza libidinal, podem favorecer um
Seja como for, a utilização da clivagem é
excesso de libidinização do corpo, e quando são
em si um elemento de gravidade, de um lado,
de natureza agressiva ansiosa, podem favorecer
porque traduz o transbordamento dos processos
um investimento agressivo do corpo (temor hi-
psíquicos mais elaborados e, de outro, porque pocondríaco, por exemplo). Graças à regressão
constitui em si mesma um entrave à progressão e ao aumento da dependência em relação aos
desses mesmos processos psíquicos. O corpo pais que eles causam, os sintomas histéricos po-
corre o risco então de ser vivido como um ob- dem constituir uma proteção em face das incer-
jeto externo com angústias de despersonaliza- tezas sobre os limites do corpo e das ameaças
ção muito próximas. Observam-se esses temo- que decorrem disso.
res com certa freqüência no caso de sintomas
histéricos graves. A existência de angústia de
despersonalização, de dúvida sobre a identidade Sintomas histéricos e estruturas psíqui-
é acompanhada então, freqüentemente, de te- cas. – Como se pode antever a partir do estudo
mores hipocondríacos que traduzem a projeção dos processos psíquicos subjacentes ao estabe-
direta de fantasias agressivas no corpo. Nem lecimento dos sintomas histéricos, a ligação
sempre é fácil traçar a fronteira entre o sintoma entre estes e uma estrutura psíquica particular
histérico, portador da significação simbólica do não é unívoca. Não detalharemos aqui as diver-
conflito psíquico, e o sintoma hipocondríaco, sas estruturas no seio das quais esses sintomas
lugar de projeção de angústias arcaicas. podem ser observados, quer se trate da neurose
ou ainda de certas formas de psicose na adoles-
– As manifestações histéricas como modo de cência ou de estados-limite. No caso de uma
transação com o entorno: não voltaremos aqui à organização neurótica, é clássico dizer que os
importância bastante conhecida do ambiente sintomas histéricos do adolescente são quase
no desenvolvimento da sintomatologia his- sempre passageiros, transitórios. Em geral, eles
térica. Contudo, é preciso assinalar a interfe- têm um caráter mais agudo do que crônico, e
rência entre a necessidade de apropriação e de não entravam sensivelmente a autonomia so-
autonomização de seu corpo pelo adolescente cial do adolescente, ainda que provoquem um
e o entrave que a conversão somática impõe a aumento da dependência afetiva: em outros
esse movimento. Como destacamos na descri- termos, o adolescente mantém uma freqüência
ção clínica, as conversões histéricas graves, em escolar normal, mas se vê coagido a limitar ou
particular os comprometimentos da marcha, a interromper suas atividades que são fontes de
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 173

prazer, como as atividades esportivas, culturais pulsivas, até mesmo de seus pais, quer essas
ou as saídas com os amigos. condutas estejam em sintonia com o ego, quer
Em compensação, no caso de uma estrutura sejam fonte de sofrimentos psíquicos.
mais arcaica (psicótica ou estrutura-limite), os Não desenvolveremos aqui a função psico-
entraves à vida social são mais significativos e patológica das idéias obsessivas, que o leitor en-
duradouros. contrará nos manuais de psicopatologia adulta.
Certamente, esses elementos puramente Assim como o adulto, o adolescente, por meio
descritivos não são suficientes para fazer um das idéias obsessivas e das compulsões, utiliza
diagnóstico estrutural, mas representam indica- os mecanismos psíquicos de isolamento e de
dores bastante válidos. anulação para lutar contra o erotismo anal.
Esse erotismo anal representa ele próprio uma
As condutas obsessivas. – O desmembra- fixação regressiva em uma pulsão parcial pré-
mento nas classificações atuais da neurose ob- genital e constitui uma defesa contra as pulsões
sessiva clássica (ou “neurose de coação”) em sexuais. No plano genético desenvolvimental,
transtorno obsessivo compulsivo e personalida- pode-se dizer que a aparente maturidade do ego
de obsessiva compulsiva decorre da constatação do adolescente lhe dá as armas necessárias para
de que essas duas categorias diagnósticas são lutar contra as exigências pulsionais sentidas
observadas e evoluem em parte independente- como perturbadoras, se não perigosas (hipótese
mente uma da outra, ao contrário das hipóteses de S. Freud no trabalho sobre a predisposição à
iniciais. neurose obsessiva).
Se é raro observar uma personalidade ob- Na realidade, esse patamar de defesas neu-
sessiva compulsiva antes da idade adulta – esti- róticas criadas contra a pulsão sexual corres-
ma-se em 0,3% dos sujeitos entre 12 e 21 anos ponde apenas a uma parte das condutas ditas
(Flament et al., 1990) –, os transtornos obses- obsessivas. Várias delas remetem a mecanismos
sivos compulsivos na adolescência são muito muito mais arcaicos, em particular no caso de
mais freqüentes. Eles se caracterizam, assim investimentos obsessivos em setores: nesses úl-
como na criança e no adulto, por idéias, pensa- timos casos, a conduta obsessiva parece reme-
mentos, impulsos ou representações recorrentes ter muito mais a uma tentativa de ritualização,
e persistentes que se imiscuem na consciência que também corresponde a uma necessidade de
do sujeito e são experimentados como absurdos, contenção da psique e de manutenção de um
no que diz respeito às obsessões, e se apresen- sentimento de individualidade. Esses investi-
tam sob a forma de comportamentos repetitivos mentos em setor equivalem na esfera psíquica
direcionados a um objetivo e intencionais, de- às estereotipias na esfera comportamental: eles
senvolvendo-se segundo certas regras de forma estão muito mais a serviço de uma tentativa de
estereotipada em resposta a uma obsessão, no enquistamento de uma posição psicótica mar-
que diz respeito às compulsões. cada pelas ameaças diversas de dissociação ou
Os temas sexuais, o medo da sujeira, a de explosão do que a serviço de defesas ligadas
contaminação pelos micróbios e, mais recen- às pulsões genitais.
temente, sobretudo pela aids, são as obsessões Essas constatações nos conduzem direta-
mais freqüentemente encontradas na adoles- mente à perspectiva diagnóstica. Em termos es-
cência. As obsessões de ordem e de simetria truturais, as condutas obsessivas estão longe de
são observadas em 17% das crianças e dos ser características de uma organização particu-
adolescentes. As compulsões mais freqüentes lar. Aliás, isso aproxima das observações feitas
são as compulsões de lavagem, que ocorrem tanto na criança como no adulto. Podem-se ob-
particularmente nos adolescentes obcecados servar condutas obsessivas seja nas organizações
pelo asseio e pela contaminação. Recordemos neuróticas, limites ou psicóticas. O diagnóstico
que esses comportamentos obsessivos e com- estrutural, na medida em que é possível no ado-
pulsivos são freqüentes em algumas anorexias lescente, não repousa sobre a descrição semio-
mentais. lógica dessas condutas, mas sobre uma tentativa
Porém, os adolescentes escondem por mui- de avaliar seu peso econômico e dinâmico na
to tempo essas condutas obsessivas e/ou com- estrutura em processo de remanejo.
174 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

Processos de Mentalização e Estrutura maiores. Assim, em certos casos, o investimen-


Psíquica to dos processos de mentalização parece enrije-
cer-se e entravar a autonomização progressiva
do indivíduo.
No plano estrutural, já foi possível perce- Há ainda alguns adolescentes nos quais esses
ber, desde o início deste capítulo, que os pro- processos de mentalização parecem suscetíveis
cessos de mentalização situam-se ao longo de de desmoronar a qualquer momento, incapazes
um continuum que vai das estruturas psíquicas de fazer face à menor tensão psíquica interna:
mais arcaicas às organizações de tipo neuró- esses bruscos enfraquecimentos no investimen-
tico. Mais ainda do que nas outras idades da to dos processos de mentalização traduzem-se na
vida, na adolescência deve-se evitar estabele- clínica pela irrupção da passagem ao ato súbita
cer uma equivalência muito direta entre sinto- ou por episódios de confusão ou de desrealização
ma de aparência neurótica (conversão histé- transitória (cf. Capítulo 11).
rica, conduta fóbica ou obsessiva) e estrutura
neurótica. Na medida em que se define a fun-
ção de “pensar” como o conjunto de processos
cognitivos e de processos mentais de tomada O CONCEITO DE NEUROSE
de consciência ou de resistência à tomada de
consciência dos afetos, das pulsões e das fan-
Dora, 18 anos, o homem dos lobos, 18 anos,
tasias, os processos de mentalização testemu-
Katharina, 18 anos: a adolescência contribui
nham em grande parte a implementação de
processos secundários de pensamento segundo amplamente por meio dos escritos de Freud
a definição de Freud. A excitação intelectual, para as primeiras descobertas da psicanálise. Es-
libidinal ou agressiva deve ser canalizada, liga- ses pacientes são apresentados por Freud como
da, para que possa fluir de forma mais estável: exemplos de neurose clínica, porém, hoje, a
o ímpeto pulsional do adolescente mostra a evolução constatada em alguns deles leva a crer
exacerbação das defesas psíquicas criadas con- que os pacientes eram muito menos “neuróti-
tra esse ímpeto instintivo. cos” do que Freud pensou inicialmente: é o caso
Pode-se dizer, muito sinteticamente, que particularmente do homem dos lobos.
em certos casos os processos de mentalização O status da neurose na adolescência precisa
são colocados a serviço do desenvolvimento: o ser repensado. Para certos autores, esse status
despertar da função cognitiva e o acesso a um tende a seguir a mesma evolução que o da neu-
pensamento formal com a infinita manipulação rose na criança: situando-se em um eixo de re-
de categorias do possível estimulam o pensa- flexão ontogenética, esses autores, seguindo a
mento criativo do adolescente, mesmo que isso linha de Freud, consideram que, de um lado, a
tenha de se operar ao custo de alguns arranjos neurose não deve entravar o movimento ma-
defensivos. As condutas sintomáticas que apa- turativo normal e, de outro, que as instâncias
recem não entravam o essencial do trabalho psíquicas devem ser suficientemente diferen-
psíquico do adolescente. ciadas umas das outras para se poder falar de
Em outros casos, os processos de mentali- estrutura neurótica. Por essas razões, o diagnós-
zação parecem incapazes de assegurar esse mo- tico de neurose na criança deve ser feito com
vimento progressivo. Se forem extremamen- circunspecção e com muito menos freqüência
te fracos, eles podem lançar o adolescente na do que se imagina à primeira vista. Isso conduz
invasão delirante que traduz a regressão aos os autores a distinguir a neurose infantil como
processos primários de pensamento. Se forem modelo de desenvolvimento e a neurose na
parcialmente fracos, eles se enrijecem em um criança como doença clínica (ver a esse respei-
investimento puramente formal que parece to a discussão em Enfance et psychopathologie,
então abandonado, com um funcionamento p. 367). Segundo o mesmo modelo na adoles-
quase vazio e automático: temos o exemplo ca- cência, a neurose deve portanto preservar os
ricatural dos investimentos obsessivos em setor remanejos psíquicos próprios à adolescência e
que acabam levando o adolescente a uma des- necessita que o ideal do eu seja suficientemen-
realização e a um isolamento autístico cada vez te distinto do superego (Blos, Laufer).
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 175

O outro ângulo de visão diz respeito ao lu- e todas as pulsões parciais cooperam para sua
gar da neurose na patologia do adulto. De fato, realização, enquanto que as zonas erógenas su-
hoje também se assiste ao seu questionamento no bordinam-se ao primado da zona genital”.
adulto, ao menos por alguns autores: a neurose Assim, as pulsões parciais, orais ou anais,
tende a aparecer como uma espécie de “doença em particular, devem ser integradas à sexuali-
ideal”, uma doença da normalidade da qual seria dade genital. Elas fazem parte agora daquilo que
preciso separar os quadros sintomáticos extre- Freud chama de “prazer preliminar”: trata-se
mamente graves, que remeteriam, na realidade, da fase que precede o prazer terminal, fase em
a uma patologia dita “limite”. O campo da neu- que se encontram ativadas as diversas pulsões
rose torna-se com isso um campo em retração, parciais (carícia, beijo, olhar, etc.) que têm
que vai sendo abocanhado por todos os quadros como papel essencial aumentar a tensão física
semiológicos intermediários descritos atualmente e psíquica. A excitação das diversas zonas eró-
(estado-limite, borderline, pré-psicose, etc.). Mais genas aumenta essa tensão e prepara o prazer
do que em qualquer outra idade da vida, a fra- terminal. Segundo Freud, no menino, o órgão
ca correlação entre uma conduta sintomática e pelo qual é obtido o prazer terminal é o pênis:
uma entidade nosográfica precisa, assim como a trata-se de uma zona erógena já investida du-
dificuldade de estabelecer um diagnóstico estru- rante a infância. Já na menina, a zona erógena
tural rigoroso, leva os autores a uma certa reserva da infância é o clitóris; nela, o acesso à matu-
no diagnóstico de neurose na adolescência. Essa ridade sexual é marcado por uma mudança de
prudência é reforçada pelos estudos catamnési- zona erógena principal, pois a zona clitoridiana
cos: eles revelam de fato que os sintomas ditos deve ser abandonada em proveito da zona eró-
neuróticos graves inserem-se posteriormente em gena vaginal. Voltaremos à importância dessa
organizações estruturais em geral mais próximas mudança de zona erógena na mulher.
da psicose, ou pelo menos da caracteropatia gra- Além dessa explicação que utiliza um mo-
ve, do que da franca neurose no adulto. delo fisiológico, e às vezes quase mecânico, a
adolescência caracteriza-se também por uma
nova escolha de objeto sexual: até então a li-
Hipóteses Teóricas bido de objeto estava fixada no genitor do sexo
oposto, o que alimentava um sentimento terno
por esse genitor. O adolescente tem de encon-
No estudo teórico da neurose na adolescên- trar um outro objeto para sua libido, na medida
cia, distinguiremos dois tipos de posição que, em em que sua maturidade sexual o proíbe de foca-
parte, se opõem. De fato, certos autores vêem na lizar na imagem parental fantasias e desejos in-
adolescência o momento privilegiado de cons- cestuosos. Normalmente, as primeiras escolhas
tituição da neurose do adulto, o que se traduz amorosas do adolescente serão feitas escorando-
na adolescência pelo surgimento de sintomas se nos primeiros objetos de amor infantil:
neuróticos. Outros autores, em uma perspectiva
essencialmente ontogenética, atribuem um lu- O que leva um jovem a escolher para
gar restrito à neurose, segundo uma abordagem os seus primeiros amores uma mulher ma-
teórica similar à que se observa na criança. dura e uma jovem a amar um homem bem
mais velho é, sem dúvida nenhuma, uma
repercussão da fase inicial. Essas pessoas
A adolescência como estabelecimento da reavivam neles a imagem da mãe ou do pai.
neurose. – Para Freud, a característica da ado- Pode-se admitir que, em geral, a escolha do
lescência é o acesso recém-adquirido ao prazer objeto se faz escorando-se mais livremente
terminal, chamado também de prazer de satis- nesses dois modelos.
fação. Esse prazer terminal é definido, sobretudo
no homem, como a redução e mesmo o desapa- Contudo, é preciso fazer uma mudança de
recimento da tensão tanto física quanto psíquica objeto, mesmo que, como assinala Freud, essa
que se segue à ejaculação. Essa nova maturidade mudança seja presidida por um paradoxo, pois
sexual leva a um rearranjo das pulsões parciais “encontrar o objeto sexual nada mais é, no fim
próprias à criança: “há um novo objetivo sexual, das contas, do que reencontrá-lo”. Esse movi-
176 DANIEL MARCELLI & ALAIN BRACONNIER

mento indica, de um lado, o escoramento do Para resumir, pode-se dizer que a adolescên-
objeto sexual no objeto libidinal infantil, mas, cia, mesmo que não seja explicitamente nomea-
de outro, a necessidade de uma perda: só se da como tal por Freud, representa um momento
pode “reencontrar” um objeto depois de tê-lo privilegiado de organização ou de estabeleci-
previamente perdido. Esse tempo da perda, que mento de transtorno neurótico. O surgimento
Freud situa no momento do período de latência, da dificuldade neurótica explica-se pelos rema-
talvez corresponda melhor àquilo que se descre- nejos físicos e psíquicos desse período: 1) emer-
ve agora como a pré-adolescência ou primeira gência da maturidade sexual e acesso ao prazer
adolescência (A. Freud, Haim, etc.). terminal; 2) necessidade para a libido de mudar
A partir dessa breve descrição da adoles- de objeto. Vale destacar que Freud se refere es-
cência, a origem da neurose pode situar-se em sencialmente ao complexo de Édipo positivo,
diversos pontos conflituosos. São dois no caso isto é, à relação afetiva entre o adolescente e o
do menino, aos quais se acrescenta um tercei- genitor do sexo oposto, e quase não faz menção
ro no caso da menina. Eles estão na origem de à posição edipiana invertida, posição que pare-
dificuldades neuróticas como inibições sexuais ce ocupar um lugar cada vez mais importante
ou neuroses histéricas. Freud descreve inicial- nas elaborações teóricas de autores contempo-
mente o papel patógeno que os pontos de fixa- râneos (Blos, Jeammet).
ção podem ter no nível das pulsões parciais: o Lebovici situa-se na mesma linha teórica,
prazer preliminar corre o risco de ser excessivo, e também considera que a adolescência é a
o que entrava a possibilidade de ter acesso ao idade privilegiada do estabelecimento de uma
prazer terminal. Assim, a fixação em uma zona organização neurótica. Contudo, esse autor se
erógena muito fortemente ligada a uma pulsão demarca em relação ao problema da neurose
parcial constitui a origem possível de dificulda- na criança, realidade clínica que ele não nega
des neuróticas. completamente, mas que lhe parece pouco fre-
A necessidade para a libido de mudar de ob- qüente. Essa neurose clínica na criança opõe-
jeto representa uma outra fonte de dificuldade: se ao modelo da neurose infantil que permite
“uma parte dos transtornos neuróticos se expli- compreender a organização da neurose de
ca pela incapacidade do adolescente de mudar transferência. A adolescência representa um
de objeto”. Isso se observa em particular quan- dos momentos privilegiados em que se pode es-
do a ligação com o primeiro objeto de amor é tabelecer uma organização neurótica em razão
extremamente intensa, ou quando o novo ob- da significação traumática “a posteriori” que a
jeto de amor apresenta traços que o aproximam nova sexualidade do adolescente dá ao modelo
demais do objeto de amor infantil. Essa última da neurose infantil. Esse “a posteriori” mostra a
eventualidade exacerba os temores de uma rela- possível estruturação de uma neurose na ado-
ção incestuosa. Produz-se então um forte recal- lescência: o “a posteriori” que une a neurose de
que, e mesmo uma negação da sexualidade: “no transferência à neurose infantil é o processo de
caso da psiconeurose, a atividade psicossexual sexualização, historicamente datado da adoles-
de busca do objeto permanece no inconsciente cência, organizado nas representações transfe-
depois de uma negação da sexualidade... Pode- renciais (Lebovici, 1979).
mos demonstrar com certeza que o mecanismo Laplanche e Pontalis definem da seguinte
da doença consiste em um retorno da libido às maneira o “a posteriori”: “termo freqüentemen-
pessoas amadas durante a infância”. te empregado por Freud com relação à sua con-
Na menina, a esses dois movimentos que cepção da temporalidade e da causalidade psí-
são fonte de conflito neurótico acrescenta-se quica: experiências, impressões, traços mnésicos
um terceiro, de acordo com Freud: a necessida- modificam-se posteriormente em função de no-
de de mudar de zona erógena, fonte de prazer vas experiências, do acesso a um outro grau de
terminal. Essa passagem da zona erógena clitori- desenvolvimento. Assim, elas podem adquirir,
diana, onde se localiza a sexualidade infantil na não apenas um novo sentido, mas também uma
menina pequena, à zona erógena vaginal, pró- eficácia psíquica”. O adolescente tem acesso,
pria da sexualidade feminina adulta, não se faz em razão mesmo de sua maturidade sexual, a
sem dificuldade; ela constitui, segundo Freud, um outro grau de desenvolvimento; esse novo
uma das causas da predisposição à histeria. grau dá uma significação nova, eventualmente
ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA 177

traumática, às experiências antigas, aos traços cil nessa idade fazer um diagnóstico estrutural
mnésicos infantis, que constituem a filigrana da preciso, em segundo lugar porque a neurose não
neurose infantil. deve bloquear totalmente o próprio processo da
Poderíamos, segundo esse ponto de vista, adolescência, em terceiro lugar porque a neurose
sugerir uma metáfora: o “a posteriori” na ado- torna-se uma espécie de doença modelo de uma
lescência representa o trabalho de “desenvol- personalidade que chegou à sua maturidade.
vimento” da película fotográfica na qual está A esse respeito, é caricatural a posição de
impressa a foto tirada na infância. Todos sabem Ladame, autor que adota um ponto de vista de-
que a qualidade da fotografia definitiva depende senvolvimental próximo a Mahler e Blos:
em grande parte da qualidade do trabalho do
laboratório. Assim, o “a posteriori” vem am- A instalação de uma fobia ou de um sin-
plificar, exacerbar e revelar, ou, ao contrário, toma obsessivo, ou mesmo de um sintoma
atenuar, embaciar, manter na sombra as experi- de conversão, pode ser também a tradução
de uma doença depressiva. Duvido bastante
ências da primeira infância. Outros autores não da natureza realmente neurótica (autentica-
utilizam explicitamente a noção de “a posterio- mente induzida por um conflito intrapsíqui-
ri”, mas referem-se implicitamente a ela: assim, co) de tais sintomas durante a adolescência.
para Bergeret, a adolescência assemelha-se a um A desconfiança se impõe antes de se assegu-
momento de perturbação estrutural transitória, rar a idéia de que se trata de uma “personali-
ao final do qual a organização neurótica estará dade neurótica”, pois não creio que uma tal
definitivamente estabilizada. Spiegel (citado organização seja possível antes do início da
por Blos) propõe uma equivalência entre o con- idade adulta. (Ladame, 1981)
ceito de neurose atual e a adolescência: “uma
parte da sintomatologia da adolescência pode De fato, para Ladame, numerosas manifes-
ser considerada como as seqüelas diretas dos tações sintomáticas no adolescente não tradu-
sintomas neuróticos atuais, do fluxo pulsional, zem um conflito interiorizado intrapsíquico, mas
que o aparelho psíquico ainda imperfeito não é constituem a expressão de manobras projetivas
capaz de conter no início da adolescência”. Não sobre a cena familiar: os mecanismos de defe-
se trata aqui, evidentemente, da neurose atual sa que subentendem as condutas sintomáticas
no sentido que Freud entendia inicialmente pertencem em geral ao registro arcaico (cliva-
(isto é, dificuldades neuróticas diretamente li- gem, identificação projetiva), mecanismos que
gadas à ausência ou à inadequação da satisfação confundem os limites do ego do adolescente e
sexual), ainda que essa definição primitiva não entravam o processo de autonomização.
deixe de ter pertinência no início da adoles- Sem ser tão incisiva, a opinião de um au-
cência, mas o maior interesse dessa terminolo- tor como Laufer não é muito diferente da de
gia está em centrar a atenção na atualidade do Ladame. De fato, Laufer considera que se pode
ímpeto pulsional e na incerteza evolutiva dos falar de transtornos neuróticos unicamente se
transtornos de tipo neurótico: ela insiste ainda esses transtornos “preservam a capacidade de
na necessidade para o adolescente de encontrar responder no todo ou em parte às exigências
uma resposta imediata, e mesmo urgente, graças determinadas interiormente e exteriormente: o
às condutas sintomáticas, resposta ao aumen- adolescente ainda se mostra capaz de um bom
to de tensão instintiva, à demanda pulsional. desempenho na escola ou no trabalho, mas suas
A utilização do termo “transtorno neurótico aptidões diminuem. Ele sabe estabelecer a dife-