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Movimento - Ano III - Nº 5 - 1996/2

Homossexualidade,
educação física e esporte:
primeiras aproximações

Carlos Fernando Ferreira da Cunha Júnior* e Victor Andrade de Melo**

mia e o Estado) e na cultural (abrangendo o


Este estudo objetiva indicar possíveis saber, a moral e arte), sendo loquazes no argu-
preconceitos e discriminações para com mento de renovação das formas de política
homossexuais masculinos no âmbito da realizadas na era pós-moderna.
Educação Ffsica/esporte. Para alcance
Enquanto a política moderna tinha como palco o
do objetivo foi realizada uma revisão da
Estado e visava à conquista ou à manutenção do
literatura e uma análise aua-litativa de poder estatal, a política pós-moderna tem como
dez entrevistas. As constatações palco a sociedade civil e visa à conquista de
básicas foram: a) existe preconceito e objetivos grupais ou segmentares. Os sujeitos da
discriminação para com homossexuais; nova política não são mais cidadãos, mas
b) Educação Física escolar e professor grupos, e seus fins não são mais universais,
foram apontados como responsáveis visando ao interesse geral, mas micrológicos.
pelo afastamento dos homossexuais (ibid., p.237)
das atividades físicas/esportivas fora da
escola; c) os professores contribuem A questão é extremamente polêmica e
com a perpetuação do preconceito e da o próprio Rouanet (id.) defende que tal fato
discriminação; d) os homossexuais têm não representa ruptura com a modernidade,
poucos espaços para a prática de ativi- pois a emergência dos novos movimentos so-
dades físicas/esportivas. Conclui indi- ciais significa muito mais um enriquecimento
cando que tais questões devem cons- do campo político do que a superação da polí-
tituir-se um desafio para os professores tica moderna por uma nova política pós-mo-
de Educação Física.
derna, segmentar e micrológica.

Nas últimas décadas, têm-se observado Críticas e defesas da pós-modernidade


significativas alterações na organização da à parte, fato é que alguns movimentos sociais,
sociedade. Alguns autores inclusive têm de- as chamadas 'minorias', representam hodier-
fendido, a partir da constatação de tais mu- namente um papel importante na organização
danças, que o modelo da sociedade moderna da sociedade. O presente estudo focaliza um
ruiu e que estamos em plena transição para destes grupos, os homossexuais, buscando
uma era pós-moderna (Derrida, 1967; Deleuze, identificar suas vivências na Educação Física
Guattari, 1972; Lyotard, 1979). e no esporte. Nos últimos anos, movimentos
surgiram no intuito de combater o preconcei-
Segundo Sérgio Paulo Rouanet (1987), to e a discriminação social e repensar as ques-
os pensadores advogados do paradigma pós- tões ligadas à homossexualidade. Tais discus-
moderno têm centrado suas críticas e análises sões tornaram o assunto significativamente
na modernidade social (abrangendo a econo- visível e têm contribuído na gradual redução
do estigma social. A despeito disso, a Educa-

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ção Física brasileira parece estar desconhecen- festações de preconceito e discriminação tam-
do a importância e profundidade dessa pro- bém o são.
blemática. Assim, objetivamente, procura-
mos identificar manifestações de preconcei- Embora conscientes dessa diversidade
tos e discriminações para com homossexuais cultural, que impede que consideremos de for-
masculinos (gays)1, identificados nos campos ma similar a homossexualidade numa tribo
de atuação do professor de Educação Física2. indígena, na Grécia Antiga e hodiemamente
no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, ao buscar-
Procuramos com a realização deste tra- mos entender como historicamente se tem
balho: apontar novos caminhos de pesquisa construído os discursos de preconceito e dis-
para o tema, já que a literatura brasileira é es- criminação, privilegiamos a compreensão ge-
cassa ou quase inexistente; alertar os profes- neralizada daqueles construídos na sociedade
sores da área a respeito da problemática le- brasileira. Dessa forma, estaríamos mais pró-
vantada; e, finalmente, contribuir para alertar ximos de entender e refletir sobre as contem-
acerca da necessidade de que as atividades fí- porâneas manifestações de preconceito e dis-
sicas/esportivas não estejam restritas a deter- criminação no contexto de nossos entrevista-
minados segmentos da população. Para alcan- dos, todos do Rio de Janeiro.
ce do objetivo foi realizada uma revisão da li-
teratura sobre o tema em questão e, fundamen-
Enfim, a compreensão básica que per-
talmente, uma análise qualitativa de conteúdo
meia o estudo é de que não existem verdades
de dez entrevistas semi-estruturadas com ho-
absolutas estabelecidas acerca da homossexu-
mossexuais masculinos3.
alidade, que não pode deixar de ser considera-
da, tanto suas idéias quanto as práticas ao ser
redor, como produções historicamente situa-
das, social e culturalmente estabelecidas. Essa
HOMOSSEXUALIDADE: DISCURSOS compreensão é muito importante para o intui-
to deste estudo, pois retira as discussões sobre
Cremos ser necessário inicialmente a homossexualidade do campo estrito da reli-
abordar alguns aspectos da homossexualida- gião, da psicologia e/ou da medicina, situan-
de, não com o intuito de discutir extenuada- do-as no campo mais amplo da cultura, onde
mente o assunto, mas buscando contextualizá- encontramos inclusive as atividades físicas/
lo historicamente e conceituá-lo minimamen- esportivas. Ao entendermos as grande linhas
te, objetivando compreender melhor como o de discurso de preconceito e discriminação no
preconceito e a discriminação4 para com os ho- decorrer do tempo, podemos traçar paralelos
mossexuais vêm-se estabelecendo. Assim, es- com a situação brasileira contemporânea, en-
peramos também apontar um possível papel contrando apontamentos diretamente ligados
do professor de Educação Física neste pro- às atividades físicas/esportivas.
cesso.
Várias são as categorias que surgiram
Percebemos que as conceituações em na tentativa de "explicar" a homossexualida-
torno da homossexualidade se apresentam bas- de, ligando-a a questões familiares, fatores
tante díspares. Consideramos, então, em nos- genéticos, desordens religiosas e morais, en-
so esforço de definição, exatamente essa ine- tre outras, todas plenamente possíveis de se-
xatidão e a heterogeneidade da homossexuali- rem consideradas como produções ideológi-
dade, assumindo-a como variações sobre um cas. Por trás dessas categorias é possível iden-
tema central: indivíduos do mesmo sexo que tificar uma lógica, marcantes linhas de discur-
estabelecem relações sexuais e afetivas. Des- so. Um primeiro grande discurso observável
sa forma, pretendíamos aproveitar a riqueza no Brasil foi estabelecido pela ótica religiosa,
de situações que se apresentariam. Além dis- a partir do papel central de "fiscalização" da
so, nosso entendimento básico é que a homos- Igreja Católica. As relações homossexuais
sexualidade só pode ser plenamente compre- eram consideradas "pecado de sodomia", cri-
endida a partir do contexto cultural em que se me passível de condenação à morte.
insere. Em culturas diferenciadas, a homosse-
xualidade assume valores e significados dife- O discurso religioso foi marcante e ain-
rentes. Obviamente, a partir disso, as mani- da hoje, mesmo entre os setores mais pro-

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gressistas da maioria das religiões, continuam ções mais intensas e negativas, possa eclodir (...)
a existir concepções de que a homossexuali- trazendo conseqüências às vezes desastrosas,
dade seria um grave pecado. Mas é a partir imperioso se torna propiciar à criança múltiplas
oportunidades que funcionam como verdadeira
aproximadamente da metade do século XIX válvula de segurança. (Marinho, 1953, p.43)
que um discurso ainda mais influente, até mes-
mo devido à sua "consistência científica", co- Esses discursos tiveram um papel cen-
meça a se tornar observável: o da preocupa- tral no estabelecimento dos preconceitos para
ção médica para com a homossexualidade. com os homossexuais, considerados por mui-
Essa preocupação está ligada ao contexto de tos, ainda hoje, pecadores, doentes, na melhor
idéias higienistas acerca da "saúde"5 da nação, das hipóteses infelizes. No entanto, movimen-
onde o controle da sexualidade tinha ligação tos de afirmação dos homossexuais foram or-
direta à "saúde" da família, considerada estra- ganizados pronunciadamente a partir da déca-
tégica. Com os médicos, a homossexualidade da de 70, em busca de seu reconhecimento e
passa gradualmente de "pecado" para "doen- de seus direitos, combatendo os preconceitos
ça" (Fry, MacRae, 1991). e as discriminações, lutando para abolir da so-
ciedade estas compreensões distorcidas. A
Várias foram as propostas e os tratamen- questão homossexual hoje ganha progressiva-
tos desenvolvidos para "curar" homossexuais, mente relevância e ocupa espaços importan-
encarados como nunca a partir da ótica bioló- tes. Muitas conquistas são observáveis, em-
gica. Nessa gradual ascensão do discurso mé- bora o preconceito e a discriminação estejam
dico, sem que se possa delinear exatamente, longe de ser exterminados.
os discursos da psicologia ganham relevância.
Primeiro porque se aceitava a possibilidade de Como será, então, que a Educação Físi-
um defeito psicopatológico, além dos possí- ca, que sempre privilegiou e se destinou a in-
veis problemas endógenos, mas fundamental- divíduos "saudáveis", tem visto atualmente
mente devido à ascensão e influência da psi- essa questão? Como se tem estabelecido den-
canálise freudiana. Para Freud, a heteros- tro de nossa área preocupações quanto às pos-
sexualidade era a única condição sexual sadia síveis barreiras que têm impedido o acesso de
e a procriação a finalidade máxima dessa rela- homossexuais a atividades físicas/esportivas?
ção. Obviamente, a homossexualidade estava
excluída, sendo considerada como uma con-
dição quase incurável. Talvez não exatamente
uma doença, mas com certeza um grave defei- EDUCAÇÃO FÍSICA, ESPORTES E HO-
to, fonte de infelicidade (ibid.) MOSSEXUALIDADE: TEORIAS E VI-
VÊNCIAS
É provável que a Educação Física tenha
participado diretamente dessas "preocupa-
ções" para evitar o "surgimento" de homosse- A revisão da literatura nacional não re-
xuais. Não podemos esquecer que a educação velou nenhum estudo recente envolvendo ho-
física esteve diretamente imersa em preocu- mossexuais, Educação Física e/ou esporte. Na
pações higienistas (Soares, 1991). E se estava literatura internacional, embora também ain-
diretamente vinculada ao impedimento do sur- da não seja um assunto fartamente discutido,
gimento de "doenças" e à manutenção da or- já é possível encontrar um número maior de
dem "moral", de alguma forma deve ter parti- reflexões e pesquisas, publicadas em periódi-
cipado desses esforços de "cura" e de "pre- cos especializados e/ou apresentados em even-
venção". Isto é claramente identificável, por tos científicos6. Estes estudos têm em comum
exemplo, na Teoria da transfiguração, uma te- o fato de se originarem nas discussões das re-
oria para o jogo, traçada a partir de uma visão lações de gênero e por utilizarem fundamen-
evolucionista, de Inezil Penna Marinho. O au- talmente a homofobia e o heterossexismo
tor afirma que: como conceitos centrais de análise. Homofobia
é entendida como: O medo de sentimentos de
amor por indivíduos do próprio sexo e por
O instinto da transfiguração poderá manifes- conseguinte o ódio desses sentimentos em ou-
tar-se algumas vezes de forma alarmante, cul-
minando com a transfiguração sexual,(...) tras pessoas (Lorde, 1984, p.45). Já heteros-
fundamentalmente psíquica. Para evitar que o sexismo é definido como
instinto da transfiguração nas suas manifesta-

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a visão que a heterossexualidade é a norma para "modelar" masculino8, mesmo se eles apresen-
todas as relações sociais/sexuais...a institucio- tassem boa habilidade em alguma atividade.
nalização da heterossexualidade em todos as-
pectos da sociedade - incluindo a discriminação ...eu era o máximo no pingue-pongue. Mas eu
legal e social contra homossexuais e a negação era o máximo entre aspas, eu era o máximo para
dos direitos homossexuais enquanto um inte- mim, para as pessoas não, por causa da sexua-
resse político. (Moraga apud Lenskyj, op.cit., lidade. Quer dizer, "Viado! Esse viado jogando
p.62) aqui?" ...o domínio da mesa era dos meninos, o
domínio é dos meninos. (Entrevista 1)
Na realidade social, esses conceitos são
perpetuados basicamente pelas instituições Enfim, o estereótipo acerca das brinca-
sociais, entre elas os sistemas educacionais, deiras não se justifica e o que se apresenta é
escolares e não-escolares, e, logo, também pelo um quadro muito mais complexo. Não é o ho-
profissional que ocupa o papel de professor, mossexual que não gosta de praticar as ativi-
técnico, recreador etc. De fato, estudos mos- dades, mas existem uma série de fatores que o
tram que não têm sido incomum manifesta- impede, o afasta das atividades.
ções de discriminação contra homossexuais na ... o estereótipo
escola, no clube, nas academias de ginástica e O professor de Educação Física con- acerca das
no que os autores internacionais denominam tribui muitas vezes no estabelecimento do brincadeiras não
recreação comunitária. Essa discriminação preconceito e da discriminação, reforçando se justifica e o
aparece de várias formas, desde agressões e os estereótipos existentes através de seu dis- que se apresenta
espancamentos até injúrias e ofensas verbais, curso9 ou até mesmo impedindo homosse-
é um quadro
observáveis na forma de apelidos desmerece- xuais de freqüentar suas atividades. Existem
dores e estereotipados, ligados ao modo de ser, muito mais
também aqueles professores que, embora
de se vestir e de agir dos homossexuais, con- não tenham explicitamente tais com- complexo. Não é
siderados inevitavelmente como indivíduos portamentos, não tomam nenhuma atitude o homossexual
fracos, "cheios de frescura", incapazes de pra- efetiva no sentido de impedir as discrimi- que não gosta de
ticar uma atividade física/esportiva, a não ser nações por parte dos outros alunos. Logo, praticar as
que. esta seja considerada uma atividade "fe- acabam sendo cúmplices do escárnio e da atividades, mas
minina", como a dança. Dois dos entrevista- violência para com homossexuais ou para existem uma
dos7 deixam isso bem claro ao declarar que com aqueles que têm um comportamento série de fatores
desde sua infância: não exatamente igual ao que a sociedade que o impede, o
estabeleceu como masculino. afasta das
...já tinha discriminação, já tinha preconceito, já
tinha o apelido, já tinha o estereótipo. "A atividades.
rosinha!", "O viadinho!", "Ele é efeminado!" (...) Entre os entrevistados, os posici-
comumente a gente se cala. A gente fica calado, onamentos a respeito da Educação Física e da
a gente tem medo que as outras pessoas até figura do professor no tratamento para com os
ouçam você falar, porque elas vão... te encarnar homossexuais nos demonstrou um quadro alar-
(...) Você vai ser encarnado, vai ser chacoteado.
mante. A Educação Física foi considerada uma
(Entrevista 1)
das disciplinas mais discriminadoras do espa-
ço escolar:
Tinha medo. Medo de ser agredido, eu sabia que
ia sofrer o preconceito. O maior medo era de ser era como se eu não existisse (...) como eu não
agredido pelas pessoas. (Entrevista 2) era o que jogava bem (...) o que corria bem, (...)
na Educação Física, era como se eu não
É interessante observar que alguns dos existisse, eu era mais uma peça que estava ali,
estereótipos acerca dos homossexuais foram que tinha se encaixado num time ou numa brin-
descaracterizados a partir das entrevistas. Elas, cadeira. (Entrevista 5).
por exemplo, mostraram claramente que, nas Na verdade, o professor de Educação
brincadeiras realizadas durante a infância e Física foi apontado entre os grandes respon-
adolescência nos grupos da rua e da escola, sáveis por esse processo discriminatório e
poucos eram os homossexuais que gostavam preconceituoso. Seja na escola...
de atividades "típicas das meninas", tais como
"brincar de boneca" e de "comidinha". Por trás
da não participação em atividades "típicas dos Eu fiquei isento, sabia? O professor me isentou
meninos" parece existir uma clara manifesta- (...) eu não fiz Educação Física. Eu era o
ção de preconceito e discriminação com aque- "rosinha", eu era o "mariquinha" (...)Ele me
les que não apresentam um comportamento

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prejudicou em outras aulas, em outras maté- Isso, no entanto, não é visto como uma
rias...porque ao levar para os meninos que eu era solução para o problema. Os entrevistados
a "rosinha", que eu não ia agüentar aquela bola apontaram que o ideal seria que eles pudes-
de dois quilos, de três quilos..., os meninos
levavam isso aí para a sala de aula (...) eu queria
sem praticar sua atividade em qualquer local,
ter ouvido o que os outros meninos ouviam, eu independentemente de opção sexual. Eventos
não queria a discriminação, eu queria ser eu, eu como as "Olimpíadas Gays" foram citados
queria praticar a aula, queria fazer todos os como importantes, já que abrem espaço para
exercícios, nunca me recusei a fazer qualquer os homossexuais e podem conscientizar as
coisa (...) eu fui tolhido disso. Me tiraram o pessoas no sentido de atenuar o preconceito e
direito de fazer isso. Quem dita as normas na
escola é o professor e a gente tem que cumpri-
a discriminação, mas também são eles própri-
las. (Entrevista 1). os preconceituosos e discriminadores.

ou seja fora da escola... ...é uma coisa interessante porque você mostra
para o mundo que o gay é uma pessoa normal, a
...cheguei a ir para academias. E não mudou única diferença é que gosta de fazer amor com
nada, a coisa era a mesma ... porque se ele me pessoas do mesmo sexo. (Entrevista 7)
Estas questões ver homossexual ele vai fazer comigo o que ele
devem constituir- faz com os outros, que ele próprio picha comigo
...eu acho que é uma discriminação também.
se em um grande não sabendo que eu sou... O que acontece? Você Porque não tinha que ter olimpíadas gays, tinha
sai da academia, porque você perde espaço...
desafio para os que ter olimpíadas e os gays poderiam participar
você não está sendo você, não está sendo das olimpíadas. Independente de opção, de
professores de autêntico ali dentro. Isso acontece na academia
determinação sexual. (Entrevista 5)
Educação Física. também. (Entrevista 6).
Não pode existir Esses comportamentos homofóbicos
Os entrevistados apontaram também
uma preocupa- acabam por relegar aos homossexuais um pla-
que a Educação Física escolar e o professor
ção social legíti- no diferenciado, que os fazem esconder seus
foram um dos principais responsáveis para o
ma sem que se sentimentos e sua forma de ser, já que temem
seu futuro afastamento das atividades físicas/
considere os os diversos tipos de agressão. Temem também
esportivas fora da escola: que sua carreira esportiva (para os atletas de
homossexuais
O professor tem uma grande parcela de culpa aí alto nível) ou sua participação nas brincadei-
enquanto indiví-
nessa história (...) Eu gosto dessa coisa do ras do grupo sejam prejudicadas. Muitos são
duos que mere- esporte, eu curto essa coisa do esporte. Mas com mesmo levados a apresentarem "credenciais
cem ter uma certeza frustrado (...), porque você não me vê heterossexuais", como uma relação forjada ou
prática de jogando um vôlei na beira da praia... (Entrevista
1).
não desejada com indivíduo do sexo oposto.
atividades físicas!
esportivas não Apesar do afastamento da maioria dos Zé Roberto (1986), famoso jogador do
discriminatória e homossexuais entrevistados das atividades fí- futebol carioca na década de 70, ao comentar
não isolada dos sicas/esportivas, alguns ainda tiveram experi- sua vida no futebol profissional, afirma:
heterossexuais. ências na área, invariavelmente sendo vítimas
de preconceitos e discriminações. Na verda- No futebol, posso garantir a vocês, homossexual
não sobrevive jogando. Pode até existir, mas
de, o espaço para sua prática ideologicamente, sem raspar a perna ou cruzá-
...é bem fechado...se eu quiser ir remar, ser um la, delicadamente, para apoiar o cotovelo
atleta do remo e assumidamente gay, não vai dar enquanto conversa (p.42).
certo(...) ou eu vou ter que me camuflar, me es-
conder, para ser um atleta do remo, que faz, que
O autor continua abordando a questão
treina com os outros heteros, para ser um referendando um exemplo que várias vezes é
desportista, ou eu não vou poder fazer remo. (En- utilizado para justificar o afastamento de ho-
trevista 2). mossexuais da prática esportiva:
Aos entrevistados que ainda hoje prati-
cam essas atividades, só acabam restando os Tampouco o ambiente carregado de indeli-
espaços exclusivamente freqüentados por ho- cadezas permitiria que alguém, sem fazer alarde
mossexuais e/ou simpatizantes. ou despertar suspeitas, desfilasse nu pelas
duchas de um vestiário sem deslizar por deli-
...Vôlei, eu tenho que ir lá para a "bolsa", a cadas atitudes, (ibid, p.43).
praia gay10. Ou tenho um grupo de amigos, que
a gente chama de simpatizante, que me abram a É interessante observar os estereótipos
guarda para eu poder jogar uma partida. Fora por trás das considerações do autor. O homos-
isso você não joga nunca. (Entrevista 1) sexual é sempre visto como um delicado, in-

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capaz de ter uma atitude normal e respeitável. menor existência de grupos organizados de
Além disso, subliminarmente, existe uma con- homossexuais. Possivelmente os impedi-
cepção de que estaria sempre pronto a bolinar mentos para a prática de atividades físicas/
os atletas nus, tal como se fosse um tarado in- esportivas ainda devem ser maiores no Bra-
saciável. Zé Roberto ainda ratifica mais as sil.
observações anteriores:
Há inclusive uma patrulha fisiológica...: o jo-
Deve-se ressaltar que, embora tenham
gador que passa dos 30 e ainda não casou, co- aumentado muito as preocupações com as
meça a ser alvo de gracinhas do grupo, que classes mistas, com a coeducação e com as
encara o matrimônio como uma irrefutável pro- relações de gênero no contexto da prática de
va de comprometida virilidade. (ibid, p.43) atividades físicas/esportivas, as preocu-
pações no que se refere aos preconceitos e
Dificuldades dessa natureza também discriminações para com homossexuais ain-
são sentidas por professores (e professoras) da não são fartamente observáveis, princi-
homossexuais, fadados a esconder sua ho- palmente no Brasil. Estas questões devem
mossexualidade, já que são um "péssimo constituir-se em um grande desafio para os
exemplo" para as crianças, não possuem professores de Educação Física. Não pode
"postura moral adequada" ou até mesmo existir uma preocupação social legítima sem
podem ser acusados de utilizar sua situação que se considere os homossexuais enquanto
para recrutar jovens e crianças para suas indivíduos que merecem ter uma prática de
práticas sexuais, um mito bastante presente atividades físicas/esportivas não
em torno da figura do homossexual. Tem discriminatória e não isolada dos heteros-
assim que se esconder, se desejarem manter sexuais. Os professores não podem mais
o emprego (Lenskyj, op.cit.). deixar de considerar esses indivíduos como
merecedores de sua atenção.
Na verdade, segundo Anne Flintoff
(1994), a discriminação na Educação Física e M. Talbot (1990) sugere que três está-
no esporte é construída em cima de uma ima- gios devem ser considerados na abordagem do
gem estereotipada que reforça a identidade assunto. Primeiro, o assunto deve tornar-se
masculina dessas práticas culturais. Logo, a visível. Segundo, deve ser legitimado e visto
homossexualidade e a feminilidade são utili- como um assunto importante e significativo.
zadas como referências negativas. Por fim, os apontamentos devem resultar em
uma ação objetiva. Não é nosso objetivo neste
Lenskyj (op.cit.) referenda essa posição texto encerrar as discussões em torno do as-
ao perceber que o grande desafio das mulhe- sunto. Mas, com os resultados de nossa pes-
res no esporte é ocupar um espaço legitimado quisa, esperamos colocá-lo nas pautas de dis-
enquanto um espaço masculino. Na verdade, cussões (torná-lo visível); esperamos estar
elas não são aceitas como mulheres, mas sim dando os primeiros passos no sentido de torná-
como "homens honorários". A autora perce- lo reconhecido como importante (legitimá-lo)
be, inclusive, como as próprias pesquisas no e, pretensiosamente, dar alguns indicadores
campo do esporte reforçam os preconceitos iniciais para os profissionais em seus campos
homofóbicos.
de atuação (contribuir objetivamente para a
atuação).
Enfim, o preconceito e a discrimina-
ção foram fartamente identificados nos de-
Gostaríamos de concluir com uma ci-
poimentos de nossos entrevistados, referen-
tação de um dos entrevistados, que bem pode
dando algumas posições e constatações de
estudos internacionais. Queremos, no entan- resumir todo o sentido deste estudo.
to, adendar uma reflexão que, a nosso ver,
torna o problema mais grave na realidade Porque eu não era nada daquilo que eles me cha-
nacional. Ao compararmos o Brasil com mavam. Eu não era "rosinha", eu não era
outros países, principalmente os Estados "mariquinha", eu apenas era eu. E era tudo que
Unidos, veremos que o preconceito e a dis- eu queria dentro da Educação Física, dentro da
criminação parecem ser maiores, fruto da prática do esporte, era ser eu. Não sei por que
constituição cultural de nossa sociedade, da eu não consigo estourar a bola em cima com um
cara cortando, não sei, enfim, não sei o que me
recência de discussões dessa natureza e da

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faz ser menos homem do que vocês. Eu sou tão Neste estudo, os campos de atuação dos professo
homem quanto vocês, para qualquer outra ativi- res da área são simplificadamente apresentados em
dade. Só tem um jeito diferente, gostar de outro escolar (ginástica, jogo, dança e esporte no âmbito
homem, só isso, mas sou tão homem quanto da escola) e não-escolar (as mesmas atividades no
qualquer outro. Não tenho deficiência nenhuma, âmbito dos clubes, academias e na prática comuni
nem dificuldade em ser pessoa. (Entrevista 1) tária, em geral).
3
Em futuros estudos estaremos abordando os pre
conceitos e discriminações para com lésbicas.
4
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Neste estudo, estamos definindo preconceito como
sentimento ou atitude desfavorável a uma pessoa
e/ou grupo. Já discriminação é definida como um
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. L'Anti - tratamento desfavorável a uma pessoa e/ou grupo
Oedipe. Paris: Editions de Minut, 1972. (Leonard, 1983).
5
DERRIDA, Jacques. L'ecriture et la difference. Pa- A saúde é entendida aqui em seu conceito reduzi
ris: Editions de Minut, 1967. do como ausência de doenças.
6
FLINTOFF, Anne. Sexism and homophobia in Helen Lenskyj (1991), por exemplo, afirma que
physical education: the challenge for teacher pelo menos quatro organizações no Canadá e nos
educators. Physical Education Review, vol. 17, Estados Unidos têm demonstrado grande interesse
n.2, 1994, p.97-105. pelo assunto: Women's Sports Foundation (desde
1983); Canadian Association for the Advancement
FRY, Peter; MacRAE, Edward. O que é homossexu- of Women and Sport (desde 1985); American
alidade. São Paulo: Brasiliense, 1991. Alliance for Health, Physical Education and
Recreation (desde 1987); e Canadian Association
LEONARD, W. Blacks in Sports. In: WIDMEYER, for Health, Physical Education and Recreation (des
W. Neil. Physical Activity and the Social Sciences. de 1988).
Woodstock: Mouvement Publications, 1983. 7
Não adotaremos qualquer forma de identificação
LENSKYJ, Helen. Combating homophobia in sport dos entrevistados em respeito a solicitação dos
and physical education. Sociology of Sport mesmos.
Journal, n.8, 1991, p.61-69. 8
Peter Fry e Edward MacRae (op.cii) afirmam que
LORDE, A. Sister outside. Nova Iorque: Crossing desde a mais tenra idade os homens são prepara-
Press, 1984. dos para serem "...fortes, trabalhadores capazes de
sustentar sua família, interessados em futebol e
LYOTARD, Jean François. La Condition Post- outras atividades definidas como masculinas e, so-
Moderne. Paris: Editions de Minut, 1979. bretudo, não deveriam chorar" (p.41).
9
MARINHO, Inezil Penna. Sistemas e métodos de Não são incomuns frases do tipo "tente jogar como
educação física. Rio de Janeiro: [s.n.], 1953. homem", "deixa de frescura, parece uma mulher-
zinha" ou "nem parece um homem jogando, assim
ROBERTO, Zé. Futebol: A dor de uma paixão. Rio você parece uma frutinha".
de Janeiro: Editora Núcleo-3, 1986. 10
A "bolsa" é uma parte da praia de Copacabana
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. freqüentada por grande número de homossexuais.
São Paulo: Companhia das letras, 1987. Devido a essa freqüência, os homossexuais têm
mais liberdade para se comportarem de acordo com
SOARES, Carmem Lúcia. Educação física: raízes seus hábitos e vontades.
européias e Brasil. Campinas: Autores Associ-
ados, 1994.
TALBOT, M. Equal opportunities and physical
education. In: ARMSTRONG, N. News dire- UNITERMOS
ctions in physical education. Leed: Human
Kinetics, 1990. Homossexualismo - Preconceito - Discri-
minação.
*Mestrado em Educação - Univ.do Estado do
NOTAS Rio de Janeiro/Colégio Pedro II
1 **Doutorado em Educação Física - Univ. Gama
Adotamos o conceito norte-americano 'GLS' que
designa e agrupa gays, lésbicas e heterossexuais Filho/Universidade Federal Fluminense
simpatizantes do movimento.

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