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EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA _____ VARA DOS

FEITOS DE FAMÍLIA, SUCESSÕES, ÓRFÃOS, INTERDITOS E AUSENTES, CÍVEL, RELAÇÕES DE


CONSUMO DA COMARCA DE ITAPETINGA/BA

“Pai é alguém que, por causa do filho, tem sua vida inteira mudada de
forma inexorável. Isso não é verdadeiro do pai biológico. É fácil demais
ser pai biológico. Pai biológico não precisa ter alma. Um pai biológico se
faz num momento. Mas há um pai que é um ser da eternidade: aquele
cujo coração caminha por caminhos fora do seu corpo. Pulsa,
secretamente, no corpo do seu filho (muito embora o filho não saiba
disso).” Rubem Alves. Um mundo num grão de areia: o ser
humano e seu universo

PRIORIDADE DE TRAMITAÇÃO: CRIANÇA E ADOLESCENTE

PRIORIDADE DE TRAMITAÇÃO
(Código de Processo Civil, artigo
1.048 C/C Lei n.º 8.069, de 13 de
julho de 1990)
DIREITO ADMINISTRATIVO. PENSÃO ESPECIAL DE EX-
COMBATENTE. ÓBITO DO TITULAR. REVERSÃO DO
BENEFÍCIO A NETOS MENORES QUE SE ACHAVAM SOB SUA
GUARDA. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE PREVISÃO NA LEI
Nº 8.059/90 QUE DEVE SER SUPRIDA PELA APLICAÇÃO DO
ECA (ART. 33, § 3º). CRITÉRIO DA ESPECIALIDADE.
PREVALÊNCIA DO PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ABSOLUTA
(ART. 227 DA CF/88) E DA DOUTRINA DA PROTEÇÃO
INTEGRAL (ART. 1º DO ECA). CONVENÇÃO SOBRE OS
DIREITOS DA CRIANÇA (ONU/1989). RECURSO
DESPROVIDO. 1. Nos termos do art. 33, § 3º do Estatuto da

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Criança e do Adolescente-ECA (Lei nº 8.069/90), "A guarda
confere à criança ou adolescente a condição de
dependente, para todos os fins e efeitos de direito,
inclusive prrevidenciário"; 2. O art. 5º da Lei nº 8.059/90,
por sua vez, não relaciona os menores sob guarda como
beneficiários de pensão especial de ex-combatente,
detentor da guarda, que vai a óbito; 3. Tal omissão
legislativa, contudo, não tem o condão de impedir que os
infantes percebam referida pensão, vez que, pelo critério
da especialidade, terá primazia a incidência do comando
previsto no referido art. 33, § 3º do ECA, cuja exegese
assegura que o vínculo da guarda conferirá à criança ou
adolescente a condição de dependente para todos os fins e
efeitos de direito (e não apenas previdenciário), sendo,
portanto, desinfluente que a pensão do ex-combatente
não se revista de natureza previdenciária; 4. O princípio da
prioridade absoluta no atendimento dos interesses e
direitos de crianças e adolescentes, positivado no art. 227
da Constituição Federal, conclama a soluções
interpretativas que, no plano concreto, assegurem, em
favor daqueles sujeitos vulneráveis, a efetiva proteção
integral prometida pelo art. 1º do ECA, compromisso, aliás,
solenemente adotado pelo Estado brasileiro ao ratificar a
Convenção Internacional Sobre os Direitos da Criança. 5.
Recurso especial da União desprovido.
(STJ - REsp: 1339645 MT 2012/0133611-0, Relator:
Ministro SÉRGIO KUKINA, Data de Julgamento:
03/03/2015, T1 - PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação:
DJe 04/05/2015)

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ISABELLE NASCIMENTO BARBOSA, brasileira,
solteira, estudante, menor impúbere, devidamente inscrita no CPF do MF sob nº
490.842.488-80, filha de ISABELA RAMOS NASCIMENTO COSTA e JUDIELSON BARBOSA
MACEDO, residente e domiciliada na Rua Amadeu Olímpio Gomes, nº 33 - B, bairro Ângela
Espinheira - Centro, neste Município de Itapetinga, Estado da Bahia, representada por sua
genitora, Sra. ISABELA RAMOS NASCIMENTO COSTA, brasileira, casada, agente de portaria,
filha de EDEILTON CARVALHO NASCIMENTO e CELENE PEREIRA RAMOS, portadora da
cédula de identidade de n° 15.079.462-28, e devidamente inscrita no CPF sob o nº
043.100.755-17, residente e domiciliada na Rua Amadeu Olímpio Gomes, nº 33 - B, bairro
Ângela Espinheira - Centro, neste Município de Itapetinga, Estado da Bahia, telefone para
contato números:(77)98163-4545, por intermédio da DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO,
presentada pelo Defensor Público subscritor, constituído na forma do artigo art. 128, XI, da
Lei Complementar 80/94, em cumprimento às suas atribuições institucionais previstas no
art. 134 da Constituição da República c/c Lei Complementar nº 80/94 1 e Lei Complementar
Estadual 26/2006, cumulada com os artigos 185 e 186, do Código de Processo Civil
Brasileiro, podendo ser intimado pessoalmente no Fórum desta Comarca, vem,
respeitosamente, perante Vossa Excelência, com esteio no sistema de garantias
estruturado pela Constituição Federal, em especial o artigo 1º, Inciso III, e 227, parágrafo
6º; artigos 1593 e 1605, II, ambos da Legislação Substantiva Civil, propor a presente:
AÇÃO DE RECONHECIMENTO
DE PATERNIDADE SOCIOAFETIVA

1
LEI COMPLEMENTAR N. 80/94 ESTATUTO DO DEFENSOR PÚBLICO GARANTIAS E PRERROGATIVAS Seção III Das
Garantias e das Prerrogativas Art. 128. São prerrogativas dos membros da Defensoria Pública do Estado, dentre
outras que a lei estabelecer: I - receber intimação pessoal em qualquer processo e grau de jurisdição,
contando-se-lhe em dobro todos os prazos (...) XI - representar a parte, em feito administrativo ou judicial,
independentemente de mandato, ressalvados os casos para os quais a lei exija poderes especiais;

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em face de EDCARLOS SILVA COSTA, brasileiro, casado,
soldador, filho de FIRME DE SOUSA COSTA FILHO e HELENITA SANTIAGO DA SILVA,
portador da cédula de identidade de n° 53181153, SSP/SP e devidamente inscrito no CPF
sob o nº 838.807.205-68, residente e domiciliado na Rua Amadeu Olímpio Gomes, nº 33 -
B, bairro Ângela Espinheira - Centro, neste Município de Itapetinga, Estado da Bahia,
telefone para contato números:(77)98152-6817, tendo como base os fatos e fundamentos
jurídicos a seguir expendidos.
DA PRIORIDADE NA TRAMITAÇÃO DO FEITO
Faz-se mister ressaltar, inicialmente, a prioridade
absoluta na tramitação dos feitos em que seja parte criança e adolescente, em observação
ao espírito protecionista da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente,
que aponta o dever do Poder Público, com prioridade absoluta, à efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, máxime em seu art. 4º, parágrafo único, b, o qual determina a precedência de
atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública, devendo tal informação
constar no rosto dos autos. Corroborando tais argumentos, o Novo Código de Processo Civil
dispõe no inciso II e no § 2º do artigo 1048 a respeito da tramitação prioritária dos
processos em que são partes crianças e/ou adolescentes.
DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA
Inicialmente, requer os benefícios da gratuidade da
justiça na sua integralidade, face sua insuficiência de recursos, não tendo a mínima
condição de arcar com o pagamento das custas, despesas processuais e os honorários
advocatícios, conforme rezam os artigos 98 e 99, do Código de Processo Civil, indicando a
Defensoria Pública do Estado da Bahia para o patrocínio da causa.

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DA INEXISTENCIA DE E-MAIL

A parte Autora informa não possuir endereço


eletrônico, destarte, não há infringência ao inciso II, na forma do § 3º do art. 319 do Código
de Processo Civil.

INTIMAÇÃO PESSOAL DO DEFENSOR SIGNATÁRIO


No que tange ao e-mail do Defensor Signatário,
requer que as intimações pessoais aos Defensores com atuação na unidade judiciária
permaneçam sendo encaminhadas ao Portal E-SAJ, conforme Resolução nº 20, de
21/08/2013, do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Desta forma, deixa de informar na
inicial o e-mail do Peticionário.

DA AUSÊNCIA DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS


À luz do que dispõe o art. 976 do Código de
Processo Civil, vale afirmar ao Douto Julgador que o caso em tela não se trata de uma
demanda repetitiva, nem configura um risco de ofensa à isonomia e nem à segurança
jurídica.

DA AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO/MEDIAÇÃO
A Requerente pleiteia, com fulcro no art. 319,
inciso VII, do Diploma Adjetivo, que seja realizada audiência de autocomposição,
comprometendo-se a parte Autora a comparecer na referida assentada. Requer, ainda, que
as intimações para comparecimento à Audiência sejam feitas na pessoa da Parte, dada as
peculiaridades das atribuições defensoriais, com fulcro no art. 186, §2º, do Código de
Processo Civil.

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DA SÚMULA FÁTICA

A Sra. ISABELA RAMOS NASCIMENTO COSTA


conviveu com o Sr. JUDIELSON BARBOSA MACEDO, em uma união estável, durante o
período de 03(três) anos. Desse enlace, adveio uma filha, a menor impúbere, ISABELLE
NASCIMENTO BARBOSA, ora Autora, cujo registro de nascimento aponta a filiação paterna
como sendo daquele. A infante possui sete (7) anos e seis meses de idade.
Aproximadamente após dois meses de gestação, o
pai biológico, acima mencionado, máxime em decorrência de animosidades, deixou o lar e
tomou rumo ignorado. Sabe-se apenas que foi morar no Estado de São Paulo. Desde então
não tivera mais qualquer espécie de contato com a sua ex-companheira e/ou sua filha
biológica, principalmente após o nascimento desta.
No mês de dezembro do ano de 2009, o Requerido
reencontrou a mãe da Autora. Esta, por sua vez, com cinco meses de idade. Naquela
ocasião, ou seja, há mais de sete anos atrás, iniciaram um namoro e, meses depois, os
mesmos casaram e passaram a residir juntos, no mesmo lar, além da companhia da Autora.
O Requerido e Autora tiveram, ao longo dos anos e
até o momento, sempre, comportamento de pai e filha. A propósito, esses eram e é os
designativos utilizados continuamente entre os mesmos, expressando um inconfundível
procedimento típico de poder familiar. Excelência, em toda e qualquer ocasião, a Autora
solicitava autorização para realizar algum procedimento que, no pensar da mesma, deveria
ser solicitado ao pai.
Em todas as festas de aniversários da menor, o
Requerido esteve presente, o que depreende das fotos carreadas aos autos. As fotografias,
por si só, não deixam qualquer margem de dúvida do afeto da Autora para com o pai
afetivo. Sempre abraçada com esse; grande parte, beijando-o.

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Nos dias dos pais, do mesmo como age uma filha
que tem uma paixão pelo pai, a Promovente ordinariamente presenteava o mesmo,
demostrando enorme afeto e amor, além de escrever pequenas cartas dirigidas àquele,
denotando, espontaneamente, nestes atos benevolência, ternura, afeto.
Na escola e por toda vizinhança, os mesmos eram
e são reconhecidos como pai e filha.
Dado isso, tornou-se imperioso o ajuizamento da
demanda de sorte a reconhecer-se a paternidade afetiva e, com isso, seus efeitos jurídicos,
previstos em lei, atinentes à figura paterna, como acrescentar o nome do Requerido na
certidão de nascimento e o sobrenome do mesmo ao nome da Autora.

DA FUNDAMENTAÇÃO JURÍDICA
NOÇÕES GERAIS
Presente na história, as primeiras civilizações,
Excelência, viviam em clãs, homens e mulheres se relacionavam entre si, dentro dos grupos,
sem formação de família. Com o passar dos tempos, o homem passou a exercer o domínio
da terra, fixando-se nelas em busca de trabalho para garantir sua subsistência, surgindo,
daí, as famílias monogâmicas - o homem é marido de uma só mulher - assumindo o papel
de grupo social, acolhendo-se todos os entes nascidos naqueles grupos. O modelo de
família brasileiro origina-se da família romana.
Com o Direito Romano, houve a sistematização de
normas severas que tornaram a família uma instituição patriarcal. O pai ocupava a posição
de chefe da família, detinha o pátrio poder sobre os demais integrantes de seu grupo
familiar. Na sociedade romana, machista e elitista, os poderes patriarcais eram transferidos
ao filho, primogênito, homem e na falta deste, a outro integrante do grupo, desde que
varão.

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No Direito Romano, existiam duas formas de
parentesco civil: a agnação, traduzida no conjunto de pessoas lideradas pelo mesmo pai,
independente da relação sanguínea, sejam eles biológicos ou não. Possui um caráter
artificial. E a cognação, que era o parentesco vinculado pelo sangue. No antigo direito
romano, era reconhecido juridicamente apenas a cognação, passando a terem direitos
sucessórios, alimentares e, ainda, a possibilidade de solução dos conflitos advindos do
abuso do pátrio poder, por um juiz.
O fator sociológico trouxe em sua evolução
histórica, de uma instituição tipicamente patriarcal, até a contemporânea, relação
intrínseca com as mutações ocorridas nos fenômenos sociais. Passando a família romana a
ser dissolvida, com o início do movimento feminista, instigado pela figura do adultério e
pela possibilidade do divórcio.
O modelo de família atual, não mais se coaduna
com a antiga família romana, a qual perdeu a força com o decorrer do tempo, tirando do
pater famílias o poder de decidir sobre a vida de seus familiares. O ideal de igualdade
entre os pais e os filhos aparece como novo conceito de família, baseado na dignidade
humana, na afetividade, com uma convivência voluntária garantindo a harmonia,
passando de um caráter natural para o cultural.
Ou seja, com a evolução, a estruturação da família
passou por inúmeras alterações. A forma de tratar os filhos foi inovada. Educar, cuidar,
amar, zelar pelo bem estar da criança, tudo passou a ter relevância para essa nova
concepção familiar. A influência da religião trazida com o Cristianismo foi também fator
determinante nessa transição, integrando a família: o marido, a mulher e o filho, laços
formados pelo casamento religioso, através do sacramento. Corroborando com as novas
instituições, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código Civil de 2002, trazem novas
formas de constituição de família e se efetivam através de seus dispositivos legais.

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Como leciona Paulo Lôbo, no Brasil, a filiação é
conceito único, não se admitindo adjetivações ou discriminações. Desde a constituição de
1988 não há mais filiação legítima, ilegítima, natural, adotiva, ou adulterina.
Corroborando com seu entendimento, o princípio
da igualdade entre os filhos, assegurado pela CF de 1988, em seu art. 227, § 6º, proíbe
qualquer discriminação entre os filhos havidos ou não do casamento. Porém, no século
passado, a filiação se dava pelo estado ficto de filho, decorrente do matrimônio. Ou seja,
uma vez edificados os laços do casamento e se consequentemente surgisse uma gravidez,
os filhos havidos no matrimônio tinham sua paternidade garantida por presunção, e
decorrente desse reconhecimento advinham os direitos patrimoniais.
Pode-se constatar que o vínculo biológico, na
prática, não tinha seu reconhecimento como regra, bastava que o filho nascesse durante a
vigência do casamento de seus pais e, assim, seria considerado legítimo. Porém, os filhos
havidos fora do matrimônio, eram bastardos, adulterinos, sem direitos juridicamente
reconhecidos e o pai não tinha obrigação no seu sustento, tratava-se, portanto de uma
verdade formal, verdade esta, abolida do ordenamento jurídico em virtude da possibilidade
de certeza da filiação, trazida pela evolução científica, através do exame de DNA (ácido
desoxirribonucléico), que revela a verdade biológica, através da relação sanguínea.
Convém mencionar o conceito mais comum,
encontrado na doutrina de filiação: relação de parentesco consanguíneo, em primeiro
grau e em linha reta, que liga uma pessoa àquelas que a geraram, ou a receberam como
se as tivessem gerado.
Nessa amplitude do conceito, verifica-se a
possibilidade da existência da filiação, embora não exista o laço sanguíneo.

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Consoante a Constituição Federal de 1988, há o
reconhecimento jurídico da paternidade biológica, como também da sociológica, deixando
para o campo fático o condão de solucionar os conflitos existentes entre as filiações
biológicas, sociológicas e, ainda, a meramente registral.
Embora haja diversos conceitos de paternidade,
torna-se concreto e indiscutível que é através da relação sanguínea que decorrem os
demais direitos inerentes à filiação, como o direito ao nome, sobrenome, identidade
genética ou meramente registral, bem como a econômico-patrimonial. Todavia, conforme a
Constituição prevê, em seu artigo 226, § 7º, o exercício da paternidade deve ser de forma
responsável, restando ao direito tutelar os fatos ocorridos geradores de conflitos
supervenientes das inúmeras formas de relação paterno-filial.
Com todo aparato normativo, as mudanças no
Direito de Família tornaram-se cada vez mais constantes, com a necessidade de preservar a
instituição familiar, com isso, muitos doutrinadores se engajaram na luta pelo
reconhecimento da paternidade socioafetiva, amoldando-as às necessidades da
sociedade, do ser humano, principalmente preservando o bem estar do menor, que
necessita do acompanhamento dos pais para seu desenvolvimento psicológico e
emocional.
A possibilidade de normatizar as novas relações
surge diante da nova concepção do conceito de família, que se perfaz no Princípio da
Dignidade Humana e no Princípio da Afetividade, gerando, assim novas formas de
constituição familiar, de filiação, como a monoparental, que possui sua definição na CF/88,
no artigo 226, § 4º, como sendo a comunidade formada por qualquer dos pais e seus
descendentes, a homoafetiva, composta por membros do mesmo sexo, e a socioafetiva, a
qual busca reconhecimento a Autora, constituída através da relação familiar,
independente da origem do filho.

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Cristiano Chaves de Farias, no seu livro Direito
Constitucional à família: Um bosquejo para uma aproximação conceitual à luz da legalidade
Constitucional. Revista Brasileira de Direito de Família. Porto Alegre: IBDFAM, p.15,
2004. v.23. expõe que:
“A entidade familiar deve ser entendida, hoje, como grupo
social fundado, essencialmente, em laços de afetividade, pois a
outra conclusão não se pode chegar à luz do Texto
Constitucional, especialmente do artigo 1º, III, que preconiza a
dignidade da pessoa humana como princípio vetor da República
Federativa do Brasil”.
Muito se discute na doutrina e nos Tribunais a
busca da verdade biológica, como proteção da dignidade humana, a garantia de saber sua
origem, suas características físicas e identidade pessoal com seu pai biológico,
prevalecendo a relevância e indiscutivelmente a imprescindibilidade do conhecimento
desse fator. Em oposto, encontra-se a preponderância entre o sangue e o afeto, como
especificar e distinguir o que deve sobrepor nessa busca pela identidade.
A matéria foi suscitada a priori pelo jurista
brasileiro João Baptista Villela, escrita na Revista da Faculdade de Direito. Universidade
Federal de Minas Gerais, v. 21, p. 401-419, 1979, lançando no mundo fático a relação entre
a concepção do filho e a responsabilidade por sua vinda ao mundo, por sua existência.
Dessa forma, antes de adentrar no mérito do direito
da Autora, faz-se necessário abordar os entendimentos acerca dessa relação, bem como a
aplicação prática desses princípios no mundo jurídico, que reflete diretamente no
desenvolvimento e nas relações sociais, patrimoniais e psicológicas entre a mesma e o
Requerido.

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ESPÉCIES DE FILIAÇÃO

A filiação teve sua regulação baseada no Direito


Romano, que previa como legítimo o filho advindo da união entre homem e mulher, e
ilegítimo os havidos fora do matrimônio. Adotando-se juridicamente a identificação do pai
por ocasião do nascimento. A filiação no casamento pressupunha a maternidade por parte
da esposa e a paternidade por parte do marido.
Os filhos gerados por pessoas não casadas entre
si, não tinham o reconhecimento jurídico, pois eram tidos como filiação ilegítima. Com o
advento da Carta Magna de 1988, e o Código Civil atual, houve a quebra do vínculo
existente entre o casamento e a legitimidade dos filhos. Surgem novas uniões
independentes do casamento, e, consequentemente, novas formas de perfilhação.
A renovação do instituto da filiação deu-se pela
evolução constitucional, que alavancou, como ponto chave, o princípio da afetividade,
justificando a relação baseada no afeto, como sendo elemento principal caracterizador da
paternidade.
Advindo dessas relações afetivas, passaram a
existir várias espécies de filiação. Embora não exista ligação biológica, a qual é sobrepujada
por essa nova vertente, chamada de socioafetividade, tornando-se imperioso conceituar as
espécies de filiação reconhecidas no mundo fático e de Direito, para suprir o entendimento
do direito à ação de reconhecimento entelada.
Conforme entendimento de Pedro Welter, ao
escrever sobre Inconstitucionalidade do Processo de Adoção Judicial, são duas as espécies
de filiação: a biológica, pautada na relação consanguínea e a socioafetiva, fortalecida pelos
laços afetivos nas relações entre pai e filho, tornando-se indiferente a ligação entre
sangue e afeto, visto estarem constitucionalmente em igualdade jurídica.

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Ainda encontra-se a subdivisão colacionada pela
jurista Maria Berenice Dias, no seu Manual de Direito de Família . São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p. 329, que acrescenta a paternidade registral à classificação de Pedro
Welter, decorrente do registro de nascimento, que goza de presunção de veracidade, ato
voluntário, tornando-se uma prova de filiação.
Há também previsão legal da filiação não-
biológica, em face do pai que autoriza a inseminação artificial heteróloga, a qual é utilizado
o sêmen de outro homem que não o marido, para fecundar o óvulo da mulher, e, ainda, a
inseminação artificial homóloga, onde o sêmen pertence ao casal, utilizada em situações
onde o casal possui fertilidade, mas não é capaz da fecundação por meio de ato sexual. O
que há de novo na inseminação homóloga, é a possibilidade de a fecundação ocorrer
quando já falecido o marido, porém deve este ter deixado o seu consentimento por escrito.
No caso da inseminação heteróloga, se o marido
autorizou o procedimento, não mais poderá negar a paternidade em razão da origem
genética. Contudo, a matéria ainda encontra muitas divergências doutrinárias, quanto à
possibilidade de investigação da paternidade, devido a utilização de sêmen de outro
homem, o qual possuirá o vínculo sanguíneo.

A FILIAÇÃO DECORRENTE DA ORIGEM BIOLÓGICA

Para a Biologia, pai é unicamente quem, em uma


relação sexual, fecunda uma mulher que, levando a gestação a termo, dá à luz um filho.
Enquanto que, para o Direito, pai é o marido da mãe. A paternidade biológica se relaciona
com a consanguinidade, que pode ser provada cientificamente pelo exame de DNA, que
revela a verdade técnica sobre a paternidade, buscada cada vez mais nos dias atuais.

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O marco principal para o reconhecimento da
filiação biológica foi a quebra da presunção da paternidade, advinda do casamento, através
da busca pela verdade real – leia-se verdade genética – na opinião de Almeida. A busca da
verdade real foi adotada como um princípio investigatório da informação, ou seja, a
realização do exame de DNA, decorrente da evolução da Biogenética. A lacuna
anteriormente preenchida pela incerteza da presunção, passou a ser ocupada pela certeza
da prova material, científica. O direito ao reconhecimento do estado de filiação surgiu com
o advento da Constituição Federal de 1988, considerado pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente, em seu artigo 27, como um direito de caráter personalíssimo, imprescritível e
indisponível. Dessa maneira, os filhos havidos ou não na constância do casamento, poderão
obter o reconhecimento de sua origem, tomando conhecimento de seus ascendentes, sua
identidade pessoal, características e semelhanças genéticas, garantindo também no âmbito
jurídico os fins sucessórios e de caráter alimentar.
A origem biológica presume o estado de filiação
ainda não constituído, independentemente de comprovação da convivência familiar,
formando-se apenas o vínculo sanguíneo. Ainda, no entender de Paulo Lobo, ao escrever
sobre a Socioafetividade no Direito de Família: a Persistente Trajetória de um Conceito
Fundamental. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessão. Porto Alegre: Magister;
Belo Horizonte: IBDFAM, 2007, pp. 05-22, não há uma só verdade real e sim três, sejam
elas: a biológica, com fins de parentesco para determinar a paternidade; a biológica sem
fins de parentesco quando já existe vínculo afetivo com outro pai, e a socioafetiva, quando
já está constituído o estado de filiação. Assim, o reconhecimento da filiação biológica, não
vincula ao exercício efetivo da paternidade, sendo esse o fator principal das divergências
doutrinárias existentes, o que fundamenta, conforme será demonstrado, o pleito da Autora
nesta peça inaugural.

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FILIAÇÃO JURÍDICA

Douto Magistrado, a presunção da paternidade, no


Código Civil de 1916, tinha por finalidade, a proteção à família, para que quando
ocorressem conflitos em relação entre a filiação biológica e a jurídica, a presunção da
paternidade definiria a realidade. O marido sempre seria o pai das crianças nascidas
durante o casamento. Assim, os filhos de pais e mães casados tinham a autodeterminação
da perfilhação, através da presunção pater is este quem nupitiae demonstrant, ou seja, era
pai quem demonstrasse justas núpcias.
Para Luiz Edson Facin. na sua obra Da paternidade:
relação biológica e afetiva. Belo Horizonte: Del Rey, 1996, p. 20:

“A verdade biológica era uma verdade proibida. Filho era


somente filho no sentido jurídico. A descendência genética
podia e deveria coincidir com a concepção do direito; ao
banimento do sistema se empurra, o filho que não se
submetiam aos estritos limites da lei [...].”

Portanto conclui-se que a consolidação da família


tinha maior relevância do que a verdade dos fatos. Contudo, na hipótese de existência de
filho gerado extramatrimonialmente, a presunção pater is est não existia. Dessa forma,
estabelecia-se a paternidade através do reconhecimento voluntário, ou por via judicial,
através da ação de reconhecimento de paternidade, no intuito determinar o vínculo
paterno.
Nesse caso, a decisão pelo exercício da
paternidade exige que haja a prática de um ato jurídico, realizado pelo pretenso pai, o qual
pode não ser o biológico, porém independentemente da verdade real, haverá a instituição
do direito sucessório, a partir do registro em cartório do nascimento da criança,
declarando-o como seu filho.

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Assim, o registro público faz prova da filiação
jurídica, possuindo a presunção de veracidade e publicidade, inerente aos documentos
públicos oficiais. E, ainda, é instrumento hábil a gerar direitos e deveres imediatos perante
o pai registral, não importando a consanguinidade.
No entender de Vanessa Corrêa, ao escrever sobre
“A Filiação entre a verdade biológica e afetiva”, na Revista da Faculdade de Direito de
Campos, os valores que sustentaram a era patrimonialista do Direito Civil, se
materializavam no direito de filiação, através de um estado ficto de filho, derivado da
presunção pater is est. Fica demonstrado, há época, a preocupação com o bem estar
familiar, prevalecendo sobre a verdade dos fatos.

LAÇOS AFETIVOS ENTRE PAIS E FILHOS:

A SOCIOAFETIVIDADE

Uma vez apresentadas as primeiras vertentes da


filiação, as quais não mais se sobrepõem sobre o novo paradigma, o qual fundamenta o
direito da Autora, constituído pela sociedade contemporânea, imperioso faz-se, assim,
nesta oportunidade, discorrer sobre a tendência preponderante no ramo do Direito de
Família, da socioafetividade.
De acordo com Maria Berenice Dias, no Manual de
Direito de Família. São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p. 334, a filiação socioafetiva
corresponde à verdade aparente e decorre do direito à filiação. O filho é titular do estado
de filiação, que se consolida na afetividade. Não obstante, o art. 1.593 evidencia a
possibilidade de diversos tipos de filiação, quando menciona que o parentesco pode derivar
do laço de sangue, da adoção ou de outra origem, cabendo assim à hermenêutica a
interpretação da amplitude normativa previsto pelo Código Civil Brasileiro.

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A paternidade socioafetiva, que busca
reconhecimento a Autora por meio desta ação, funda-se no Princípio da Proteção Integral
da Criança e do Adolescente, previsto pela Constituição Federal de 1988. Surgindo, assim,
a busca pela verdade sociológica, fundamentada no estado de filiação, onde uma pessoa
assume o papel de pai e outra o de filho, independentemente do vínculo biológico,
conforme ficou veementemente demonstrado nas linhas anteriores a relação fraternal
entre a Autora e o Requerido que, desde os cinco meses de idade daquela, cria, educa,
denotando uma relação afetiva, íntima e duradoura, caracterizando, de forma irrefutável,
uma reputação frente a terceiros como se filha sua fosse, consequentemente, o chamamento
de filha e a aceitação do chamamento de pai, configurando a posse do estado de filho, uma
das características para o reconhecimento da ação socioafetiva, ora buscada e provada.
Orlando Gomes, no seu livro Introdução ao Direito
Civil, Rio de Janeiro: Forense, 1997, p. 168, manifesta que a posse do estado de filho
constitui-se por um conjunto de circunstâncias capazes de exteriorizar a condição de filho
legítimo do casal que cria e educa. Porém, ainda entende, ser através da procriação ou
adoção que se estabelece o estado de filho quando menciona que o estado de filho resulta
da procriação, no casamento, ou fora do matrimônio, ou de ficção legal consistente na
adoção, ou na legitimação adotiva. Para esse doutrinador, o estado de filiação tem sua
origem através da genética ou da presunção jurídica, desprezando-se a afetividade,
infelizmente.
O estabelecimento da filiação se perfaz pelo
estado de filho quando da ocorrência de um fato natural, seja pelo laço biológico, seja por
um ato jurídico no caso, por exemplo, da adoção, como mostra a jurisprudência abaixo:

“EMENTA: APELAÇÃO. ADOÇÃO. Estando a criança no


convívio do casal adotante há mais de 4 anos, já tendo com eles
desenvolvido vínculos afetivos e sociais, é inconcebível retira-
la da guarda daqueles que reconhece como pais, mormente,

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quando a mãe biológica demonstrou interesse em dá-la em
adoção, depois se arrependendo. Evidenciado que o vínculo
afetivo da menor, a esta altura da vida encontra-se bem
definido na pessoa dos apelados, deve-se prestigiar, como
reiteradamente temos decidido neste colegiado, a
PATERNIDADE SOCIOAFETIVA, sobre a paternidade
biológica, sempre que, no conflito entre ambas, assim apontar o
superior interesse da criança. Negaram Provimento” JRS.
Apelação Cível nº 000190039. Sétima Câmara Cível. Relator:
Des. Luiz Felipe Brasil Santos. Julgado em 02/05/2001

Dessa forma, o afeto venceu a consanguinidade, e


o vínculo formado não pode ser abalado, nem ameaçado, por quem se encontra aquém
dessa relação. Não cabendo, portanto, a desconstituição dessa paternidade socioafetiva
surgida entre pai e filho como atesta Larissa Toledo, ao escrever sobre o tema.
Contudo, também há doutrinadores trazendo à
tona o princípio da afetividade. No pensar de José Boeira, no seu livro Investigação da
paternidade – posse de estado de filho – paternidade socioafetiva. Porto Alegre: Livraria do
Advogado, 1999, p. 60, a posse do estado de filho é uma relação afetiva, íntima e
duradoura, caracterizada pela reputação frente a terceiros como se filho seu fosse,
consequentemente, o chamamento de filho e a aceitação do chamamento de pai. Ocorre,
então, a chamada desbiologização da paternidade, ou seja, prepondera a relação
constituída entre pai e filho, baseado no afeto mútuo e contínuo, teoria a qual defendemos
e prepondera na doutrina e na jurisprudência.
Deve-se buscar, Excelência, o verdadeiro
sentimento que existe entre pai e filho para assim se efetivar a verdadeira paternidade,
disso decorre a frase popular “pai é quem cria” trazendo, para o mundo real, uma verdade
acreditada, solidificada e bastante para a satisfação pessoal entre os envolvidos, quais
sejam, Autora e Requerido.

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O afeto passou a ter valor jurídico, decorrente da
consagração de princípios constitucionais, passando a filiação a ser vista pelos seus valores
culturais, sociais, morais e no conflito existente entre o fato e a lei, o afeto deve se
sobrepor à mera presunção. A paternidade biológica passa a ter papel secundário, vindo a
paternidade a existir não pelo fator biológico ou pela presunção da filiação, mas em
decorrência da convivência afetiva, adaptando a norma positiva ao caso concreto, à
realidade social.
No entender de João Baptista Villella, Repensando
o Direito de Família. Cadernos jurídicos, São Paulo, v.3, n. 7, jan./fev. 2002, p. 95:“A
verdadeira paternidade não é um fato da Biologia, mas um fato da cultura. Está antes no
devotamento e no serviço do que na procedência do sêmen”.
Ao se formalizar uma filiação deve-se analisar o
caso concreto, respeitando-se as novas relações familiares advindos do dinamismo
conceitual, bem como dos elementos comportamentais e sociais que influenciam no
estabelecimento da filiação baseada no afeto.

PRESSUPOSTOS E EVOLUÇÃO
DA PATERNIDADE SOCIOAFETIVA

A Legislação Substantiva Civil consagra a igualdade


entre cônjuges e aboliu as discriminações entre filhos, todos sendo detentores de deveres e
direitos, não importando terem estes sido havidos ou não na constância do casamento.
Entretanto, o dinamismo e a complexidade,
atribuídos às novas relações familiares, contribuíram para a evolução do Direito de Família
e, consequentemente, no reconhecimento da paternidade socioafetiva, possibilitado por
não existir no Direito de Família regra absoluta, não engessando o progresso normativo.

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Essa nova vertente encaixa-se com a atual roupagem da instituição familiar, encontrando-
se, como objetivo, o bem estar individual e coletivo dos entes integrantes do núcleo, suas
realizações, bem como a satisfação de seus interesses, cada dia mais diversificados.
O processo de evolução do Direito de Família foi
introduzido pela sociedade romana, trazendo inovações quanto ao aspecto jurídico e no
modelo de família contemporânea. O novo paradigma trouxe também, a necessidade de
modificações legislativas, afim de que enquadrem-se na nova realidade social, cultural e
familiar apresentada. A filiação perdeu sua função patrimonial, fundamentada na
presunção e na Biologia, dando lugar ao afeto, como justificador principal das relações
entre pai e filho. Ocorrem, então, o surgimento das divergências doutrinárias, lacunas
legislativas, hermenêutica duvidosa, gerando inúmeras dúvidas e conflitos sobre qual
paternidade deve se sobrepor a outra. Os pressupostos imprescindíveis, caracterizadores
da paternidade socioafetiva, para o professor Fachin, revela-se no comportamento
cotidiano, de forma sólida e duradoura, capaz de estreitar os laços da paternidade, numa
relação entre suposto pai e filho, o qual lhe empresta o nome de família e assim o trata
perante a sociedade. Pai é aquele quem cuida, educa, alimenta, acompanha o
desenvolvimento e a formação do filho, seja ele biológico, adotivo ou filho do coração.
Os laços de afeto independem, Douto Magistrado,
do vínculo biológico, está imposto pela própria vontade de amar, de exercer efetivamente
sua condição paternal, como verificamos no caso em tela, onde a Autora cumpri a mesma
condição do estado de filha biológica, pois não se pode provar a filiação afetiva através de
um exame, contudo, é possível, como se evidencia no caso concreto, o tratamento
dispensado à Autora pelo Requerido no dia-a-dia, construído a base de carinho, amor, pela
forma com que trata-se uma ao outro, como também, pela publicidade dispensada a essa
condição diante da sociedade, no momento em que o Requerido a chama de filha e o aceita
chamar de pai, caracterizando-se o estado de posse de filho.

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Em verdade, o preenchimento dos requisitos
básicos como: nome, trato dispensado ao filho e a fama dessa condição, propiciam o
reconhecimento da perfilhação afetiva, efetivada com a convivência familiar juntamente
com a vontade livre de ser pai.
Doutrinariamente, são três elementos que
caracterizam o estado de filho: nome, trato e fama.
Com relação ao nome, segunda aponta Juliana
Brito de Mendes Barros, este requisito pode ser dispensado quando a pessoa que é criada
já tem um registro anterior. É o caso da presente pretensão, haja vista que a Requerente, conquanto não
tenha convivido com seu pai biológico, tem uma certidão de nascimento. Com relação ao
trato, deve ser observado, como ficou demonstrado no decorrer da súmula fática nesta
peça embrionária, se a pessoa que criou o filho de criação, o tratava como filho; em outras
palavras, se dispensava os mesmos cuidados com o filho de criação que dispensava aos
filhos biológicos, dando as mesmas condições, carinho, afeto, outra dúvida não há, pois o
Requerido, desde os cinco meses de idade até a data presente da Autora mantém um
vínculo de afeto e um ato de amor para com esta, estando presente no cotidiano,
instruindo-a, amparando-a, dando-a amor, protegendo-a, educando-a, preservando os
interesses e o bem estar social da filha, ora Autora, em igualdade de condições da filha
biológica que atualmente tem com a genitora daquela, ALICE GABRIELLY NASCIMENTO
COSTA, de apenas dois anos de idade.
Por fim, com relação à fama, deve ser atentado se
a pessoa que “adotou” outra, externava sua atitude de pai ou mãe, de modo que a sociedade e o
círculo de relacionamentos do “adotante” reconheça este tratamento, o que será
devidamente comprovado no momento adequado.

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Não obstante as provas as serem produzidas no
momento oportuno, a requerente junta aos autos fotografias, que retratam o
relacionamento ora alegado que comprovam suas assertivas, demonstrando que o
Requerido a tinha e tem como uma filha. Ademais, o requerido sempre foi e é o
responsável pela educação da Autora, e esta sempre esteve ao seu lado.
O Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio
Grande do Sul, Dr. José Carlos Teixeira Giorgis, no julgamento da Apelação Civil
70008795775 explanou que :
“a paternidade sociológica é um ato de opção, fundando-se na
liberdade de escolha de quem ama e tem afeto, o que não
acontece, às vezes, com quem apenas é a fonte geratriz.
Embora o ideal seja a concentração entre as paternidades
jurídica, biológica e socioafetiva, o reconhecimento da última
não significa o desapreço à biologização, mas atenção aos
novos paradigmas oriundos da instituição das entidades
familiares. Uma de suas formas é a „posse do estado de filho‟, que é
a exteriorização da condição filial, seja por levar o nome, seja por
ser aceito como tal pela sociedade, com visibilidade notória e
pública. Liga-se ao princípio da aparência, que corresponde a
uma situação que se associa a um direito ou estado, e que dá
segurança jurídica, imprimindo um caráter de seriedade à
relação aparente. Isso ainda ocorre com o „estado de filho afetivo‟,
que além do nome, que não é decisivo, ressalta o tratamento e a
reputação, eis que a pessoa é amparada, cuidada e atendida
pelo indigitado pai, como se filho fosse”.

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Conforme se comprovará ao longo da instrução, a
requerente desde sempre observou o que a Constituição determina quanto aos deveres
dos filhos em relação aos pais (art. 229, CF/88); sempre agiu e age como filha do requerido,
pois foi e é com este que aquela conviveu e convive diariamente.
“O novo posicionamento acerca da verdadeira paternidade não
despreza o liame biológico da relação paterno-filial, mas dá
notícia do incremento da paternidade socioafetiva, da qual
surge um novo personagem a desempenhar o importante papel
de pai: o pai social,que é o pai de afeto, aquele que constrói
uma relação com o filho, seja biológica ou não, moldada pelo
amor, dedicação e carinho constantes” (Almeida, Maria Cristina de.
Investigação de Paternidade e DNA: Aspectos Polêmicos.
2001, p.159-60, citada por Juliana Brito Mendes de Barros .
Acesso em 31 de outubro de
2013.http://intertemas.unitoledo.br/revista/index.php/ETIC/arti
cle/viewFile/1472/1405).

Citem-se os seguintes julgados que demonstram


que o vínculo socioafetivo não é tema novo, nem alheio aos tribunais pátrios:
PENSÃO – FILHA DE CRIAÇÃO DE MILITAR– DIVISÃO
DO BENEFÍCIO. Comprovado, mediante justificação judicial,
condição de filha de criação do instituidor militar, e sendo esta
equiparada a filha adotiva, a apelante faz jus ao recebimento da
pensão em igualdade de condições com sua mãe. (TRF-2ª
Região – Ap. Cív. 910210227-7-RJ - Acórdão COAD 61938 –
1ª Turma – Relª Juíza Lana Regueira – Publ. em 18-3-93)
PENSÃO
– MÃE DE CRIAÇÃO – DEFERIMENTO. O artigo 147,
III, da Lei Complementar 180/78, ao se referir a „pais ‟ não tem apenas
um sentido biológico. Restrito, portanto. A expressão contida
na Lei encerra um sentido finalístico, teleológico. Abarca a palavra
„pais‟, sem dúvida alguma, também aqueles que criaram, como
se filho fosse, o servidor falecido. Afinal, mãe não é quem deu
alguém à luz. Mas sim quem cria uma criança como se filho
seu fosse. É sabença popular. (TJ-SP – Ap. Cív. 133.401-5/4 –
Acórdão COAD 108382 – 5ª Câm. de Direito Público – Rel.
Des. Alberto Gentil – Julg. em 4-9-2003)

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FILHO DE CRIAÇÃO – ADOÇÃO – SOCIOAFETIVIDADE.
No que tange à filiação, para que uma situação de fato seja
considerada como realidade social (socioafetividade), é
necessário que esteja efetivamente consolidada. A posse do
estado de filho liga-se à finalidade de trazer para o mundo
jurídico uma verdade social. Diante do caso concreto, restará ao
juiz o mister de julgar a ocorrência ou não de posse de estado,
revelando quem efetivamente são os pais. (...). (TJ-RS – Ap.
Cív. 70007016710 – 8ª Câm. Cív. – Rel. Des. Rui Porta nova–
Julg. em 13-11-2003).

ADOÇÃO PÓSTUMA – (...)– FILIAÇÃO SÓCIO-AFETIVA.


Abrandamento do rigor formal, em razão da evolução dos
conceitos de filiação sócio-afetiva e da importância de tais
relações na sociedade moderna. Precedentes do STJ. Prova
inequívoca da posse do estado de filho em relação ao casal.
Reconhecimento de situação de fato preexistente, com prova
inequívoca de que houve adoção tácita, anterior ao processo,
cujo marco inicial se deu no momento em que o casal passou a
exercer a guarda de fato do menor. Princípio da preservação do
melhor interesse da criança, consagrado pelo ECA.
Reconhecimento da maternidade para fins de registro de
nascimento. Provimento do recurso. (TJ-RJ – Ap. Cív.
2007.001.16970 – 17ª Câm. Cív.– Rel. Des. Rogério de
Oliveira Souza – Julg. em 13-6-2007).

RECONHECIMENTO DE FILIAÇÃO–
AÇÃODECLARATÓRIA DE NULIDADE –
INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO SANGÜÍNEA ENTRE AS
PARTES – IRRELEVÂNCIA DIANTE DO VÍNCULO
SÓCIO-AFETIVO. (...) O reconhecimento de paternidade é
válido se reflete a existência duradoura do vínculo sócio-afetivo
entre pais e filhos. A ausência de vínculo biológico é fato que
por si só não revela a falsidade da declaração de vontade
consubstanciada no ato do reconhecimento. A relação sócio-
afetiva é fato que não pode ser, e não é, desconhecido pelo
Direito. Inexistência de nulidade do assento lançado em
registro civil. O STJ vem dando prioridade ao critério biológico
para o reconhecimento da filiação naquelas circunstâncias em
que há dissenso familiar, onde a relação sócio-afetiva

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desapareceu ou nunca existiu. Não se pode impor os deveres de
cuidado, de carinho e de sustento a alguém que, não sendo o pai
biológico, também não deseja ser pai sócio-afetivo. A contrario
sensu, se o afeto persiste de forma que pais e filhos constroem
uma relação de mútuo auxílio, respeito e amparo, é acertado
desconsiderar o vínculo meramente sanguíneo, para reconhecer
a existência de filiação jurídica. Recurso conhecido e provido.
(STJ – REsp. 878941-DF – 3ª Turma – Relª Minª Nancy
Andrighi – Publ. em 17-9-2007)

A atual jurisprudência manifesta-se no sentido que


os princípios constitucionais devem preencher as lacunas existentes no Direito de Família,
decorrente da família mutante, utilizando-se do fenômeno da posse de estado de filho,
valorado em detrimento das questões patrimoniais. Dessa forma, prevalece no
entendimento dos Tribunais, o afeto como um fator determinante e autônomo, da
paternidade. Ilustrando, há o presente julgado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

“EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. INVESTIGAÇÃO DE


PATERNIDADE. PPREVALÊNCIA DA PATERNIDADE
SOCIOAFETIVA SOBRE O VÍNCULO BIOLÓGICO.
Ddemonstrada a paternidade socioafetiva, pelo próprio
depoimento da investigante, possível o julgamento do feito no
estado em que se encontra, sendo desnecessária a realização de
exame de dna ou inquirição de outras testemunhas, que não
poderão conduzir à outra conclusão senão da improcedência da
ação. Preliminares rejeitadas e recurso desprovido, por
maioria” TJRS. Apelação Cível. 70015562689. Sétima Câmara
Cível. Rel. Ricardo Raupp Ruschel, Julgado em 28/02/2007.
Disponível em < http://www.tj.rs.gov.br > Acesso em 27 mai.
2009.

O Superior Tribunal de Justiça apresenta em seus


julgados, decisões favoráveis ao reconhecimento da paternidade socioafetiva, como o
Acórdão, proferido em 21 de agosto de 2007, pela relatora ministra Nancy Andrighi, onde o
STJ reconhece a validade da paternidade socioafetiva. A Turma, por unanimidade, entendeu

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que a ausência de vínculo biológico é fato que, por si só, não revela a falsidade da
declaração de vontade consubstanciada no ato do reconhecimento, já que a relação
socioafetiva não pode ser desconhecida pelo Direito.
Para a ministra, paternidade socioafetiva e
biológica são conceitos diversos e a ausência de uma não afasta a possibilidade de se
reconhecer a outra. É o Julgado:
“EMENTA: RECONHECIMENTO DE FILIAÇÃO. AÇÃO
DECLARATÓRIA DE NULIDADE. INEXISTÊNCIA DE
RELAÇÃO SANGÜÍNEA ENTRE AS PARTES.
IRRELEVÂNCIADIANTE DO VÍNCULO SÓCIO-
AFETIVO.- Merece reforma o acórdão que, ao julgar embargos
de declaração, impõe multa com amparo no art. 538, par. único,
CPC se o recurso não apresenta caráter modificativo e se foi
interposto com expressa finalidade de pré questionar.
Inteligência da Súmula 98, STJ.- O reconhecimento de
paternidade é válido se reflete a existência duradoura do
vínculo sócio-afetivo entre pais e filhos. A ausência de vínculo
biológico é fato que por si só não revela a falsidade da
declaração de vontade consubstanciada no ato do
reconhecimento. A relação sócio-afetiva é fato que não pode
ser, e não é, desconhecido pelo Direito. Inexistência de
nulidade do assento lançado em registro civil.- O STJ vem
dando prioridade ao critério biológico para o reconhecimento
da filiação naquelas circunstâncias em que há dissenso familiar,
onde a relação sócio-afetiva desapareceu ou nunca existiu. Não
se pode impor os deveres de cuidado, de carinho e de sustento a
alguém que, não sendo o pai biológico, também não deseja ser
pai sócio-afetivo. A contrario sensu, se o afeto persiste deforma
que pais e filhos constroem uma relação de mútuo auxílio,
respeito e amparo, é acertado desconsiderar o vínculo
meramente sanguíneo, para reconhecer a existência de filiação
jurídica.Recurso conhecido e provido. Acórdão: vistos,
relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da
TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, na
conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes
dos autos, Prosseguindo no julgamento, após o voto-vista do
Sr. Ministro Castro Filho, a Turma, por unanimidade, conheceu
do recurso especial e deu-lheprovimento, nos termos do voto da

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Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Castro Filho,
Humberto Gomes de Barros, Ari Pargendler e Carlos Alberto
Menezes Direito votaram com a Sra. Ministra Relatora.” TJ.
Recurso Especial. Terceira Turma. Rel. Min. Nancy Andrighi.
Julgado em 17/09/2007. Disponível em:
<http://www.stj.gov.br>. Acesso em: 27 mai. 2009

O Tribunal Superior decidiu no mesmo sentido,


senão vejamos:
Ementa: ADOÇÃO. RECURSO ESPECIAL. MENOR QUE
MORA, DESDE O CASAMENTO DE SUAGENITORA
COM SEU PADRASTO, EM DEZEMBRO DE 2000, COM
ESTE.PATERNIDADE SOCIOAFETIVA. MOLDURA
FÁTICA APURADA PELAS INSTÂNCIASORDINÁRIAS
DEMONSTRANDO QUE O MENOR FOI
ABANDONADO POR SEU PAIBIOLÓGICO, CUJO
PARADEIRO É DESCONHECIDO. APLICAÇÃO DO
PRINCÍPIO DOMELHOR INTERESSE DA CRIANÇA. 1.
As instâncias ordinárias apuraram que a genitora casou-se
com oadotante e anuiu com a adoção, sendo "patente a
situação deabandono do adotando, em relação ao seu
genitor", que foi citado poredital e cujo paradeiro é
desconhecido. 2. No caso, diante dessa moldura fática,
afigura-se desnecessária aprévia ação objetivando
destituição do poder familiar paterno, poisa adoção do
menor, que desde a tenra idade tem salutar relaçãopaternal
de afeto com o adotante - situação que perdura há mais
dedez anos -, privilegiará o seu interesse. Precedentes do
STJ. 3. Recurso especial não provido. STJ - RECURSO
ESPECIAL REsp 1207185 MG 2010/0149110-0 (STJ)

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Como demonstrado, prevalece na doutrina e nos
Tribunais Superiores a verdade socioafetiva sobre o vínculo genético, preservando sempre a
formação dos laços afetivos na relação paterno-filial.
O Tribunal do Rio Grande do Sul vem se
destacando nas decisões de reconhecimento e de prevalência da paternidade socioafetiva,
trazendo sempre em seus julgados, a análise da realidade fática, bem como avaliando o
convívio de pai e filho, tendo como essência da paternidade socioafetiva, além do afeto, a
vontade livre e consciente de querer e ser pai. E nesse embasamento a presente ementa:

“EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. RECONHECIMENTO DE


PATERNIDADE SOCIOAFETIVA. CRIANÇA QUE FOI
ACOLHIDA AOS TRÊS MESES DE IDADE, CRIADA
COMO SE FILHO FOSSE ANTE A IMPOSSIBILIDADE
BIOLÓGICA DO CASAL EM GERAR FILHOS. ADOÇÃO
NÃO FORMALIZADA. A verdade real se sobrepõe a formal,
cumprindo-nos conhecer o vínculo afetivo-familiar criado pelo
casal e a criança, hoje adulta, ainda que não tenha havido
adoção legal. Paternidade socioafetiva que resulta clara nos
autos pelos elementos de prova” TJRS. Sétima Câmara Cível.
A.C. 70023877798, Rel. Ricardo Raupp Ruschel, Julgado em
27/08/2008.Disponível em < http://www.tj.rs.gov.br > Acesso
em 28 mai. 2009.
“EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. INVESTIGAÇÃO DE
PATERNIDADE. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA. O
reconhecimento da paternidade genética e socioafetiva é um
direito da personalidade. Embora a perícia tenha excluído a
paternidade biológica, a prova dos autos comprova a
paternidade socioafetiva. Apelação desprovida. (Apelação
Cível Nº 70063871123, Sétima Câmara Cível, Tribunal de
Justiça do RS, Relator: Jorge Luís Dall'Agnol, Julgado em
27/05/2015).

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DOS PEDIDOS

Ante o exposto, requer:


A concessão dos benefícios da gratuidade da
Justiça em sua integralidade, nos termos da Declaração de Hipossuficiência
Econômica anexa, consoante preconizam os artigos 98 e 99 do Código de Processo
Civil;
Seja concedida a prioridade de tramitação do feito,
recebendo os autos identificação própria, na forma do art. 1048, II e § 2º do Codex,
c/c art. 4º, parágrafo único, alínea “b”, da Lei 8069/90 (Estatuto da Criança e do
Adolescente);
Determinar a citação do Requerido no endereço
declinado no preâmbulo desta exordial para comparecer à audiência de mediação,
sob pena de responder pela multa prevista no parágrafo 8º do Artigo 334, do
Código de Processo Civil;
A intimação do Requerido para todos os atos
processuais, objetivando a realização do seu direito de defesa e comprovação dos
fatos, para proteção do melhor interesse da criança, sob pena de nulidade,
consoante art. 186, §2º, do Código de Processo Civil.
Que, ao final, seja o pedido julgado totalmente
procedente, para declarar a paternidade socioafetiva de EDCARLOS SILVA COSTA
em relação à autora e, consequentemente seja reconhecida como filha para todos
os efeitos legais, sem distinção, com a devida inclusão do patronímico do
Requerido no registro de nascimento da autora.
A intimação pessoal do Douto Membro do
Ministério Público para intervir no feito.

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A condenação do Requerido nas custas processuais
e nos honorários advocatícios de sucumbência, artigo 85, parágrafo 2 o, do CPC,
sendo que estes deverão ser depositados no Fundo de Assistência Judiciária da
Defensoria Pública do Estado da Bahia – FAJDPE/BA, com fulcro no art. 265 da Lei
Complementar nº 26/2006 e inciso I do art. 3º da Lei 11.045/2009, mediante
pagamento em boleto bancário a ser emitido pelo Defensor Público através do site
da Defensoria Pública do Estado da Bahia.
Por fim, protesta pela produção de todos os meios
de prova em Direito admitidos, especialmente depoimento pessoal do Requerido,
juntada de documentos, oitiva de testemunhas, que comparecerá independente
de intimação pessoal, e demais provas que se fizerem necessárias.
Dá-se à causa o valor de R$ 880,00 (oitocentos e
oitenta reais).
Nestes termos,
Pede Deferimento.
Itapetinga-Ba., 20 de fevereiro de 2017.

GLAUCO TEIXEIRA DE SOUZA


DEFENSOR PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA

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