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legal como breve citação e críticas – sem prévia autorização do editor.

Título: Meditação, a Liberdade Silenciosa
Foto do autor: Adama
Autor: Paulo Borges
Capa: Ana Warrell
Design e paginação: Nuno Almeida
Impressão: Print On Demand Liberis
ISBN: 978-989-8865-17-5
1ª edição: outubro 2017

EDIÇÕES MAHATMA
Tlm: 967 319 952
edicoesmahatma@mail.com
www.edicoesmahatma.pt
http://facebook.com/MahatmaEditora

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 1. . . Meditação. . . . a insuficiência da New Age e da mindfulness e a urgência de redescobrir a experiência meditativa profunda . . . . . Reorientar a vida activa para a vida contemplativa. . . . . . . 19 2. . . . . . . . contemplação e mutação do paradigma de consciência e de civilização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Índice Introdução . . . . . . . . . A meditação no cristianismo. . . . . . . . . . 38 5. . A contemporânea redescoberta da meditação no Ocidente . . . . . . . . . . . . . 47 2. . . . . . . . . . A meditação na Antiguidade greco-latina . . . A contemporânea ânsia de espiritualidade. . . . . . . . . . . . . 23 3. . . Maravilhamento. . . . . . . . . . . . . . . . meditação e despertar da ficção de separação entre si e o mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 I – A meditação entre Oriente e Ocidente ou a actual e oportuna redescoberta de uma antiga prática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .indd 5 07-09-2017 07:59:36 . . filosofia e espiritualidade . . . . . . . . . Meditação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A meditação no budismo . . . . . . . 52 5 || miolo_Meditacao. . 47 1. . . . . . . . . . . . . . . . 43 II– No olho do furacão. . Do projecto moderno de dominar o mundo à sociedade da aceleração e do cansaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 4. . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . virtualidades e ambiguidades da mindfulness: meio hábil compassivo ou nova mercadoria ao serviço do egocentrismo dominante? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Reconhecer e apreciar o imenso potencial da vida humana (2º mês) . . . . . . 121 Nível I – Consciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A mindfulness no seu contexto original. . . . . . . . . . . . . . . O Cavalo de Tróia da mindfulness e a Revolução Silenciosa da meditação . . . . . . . . . . Estar atento às percepções. Oportunidade e exigências de um relançamento da meditação numa via espiritual secular e não confessional . . . . . . . . . 75 Figura 1 – Melencolia I. . . . . . 83 1. . . . . . 80 Figura 3 – Shiva-Pashupati . . . . . . . . . . 83 2. . . . . . . . . . . . . . . . . de Auguste Rodin . . . . 125 2. . . . . . . . . . . A superabundância do real e a pobreza do pensamento conceptual. 79 Figura 2 – O Pensador. . . . . . . . . . . . . . . . 121 Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . Origem. . . . . . . . . . Uma Via de Consciência. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Paulo Borges 3. . . . . . 81 Figura 4 – O Caldeirão de Gundestrup . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 III – A meditação numa encruzilhada. . . . . . . . . . . . . . sentar. . . . . . . . . . . . . . . . . 113 IV – O CORAÇÃO DA VIDA. . . As ambiguidades da mindfulness e o pleno despertar da consciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Bondade e Sabedoria (reflexões e práticas meditativas) . . . . . . intenções e acções e aspirar a agir pelo bem de todos (4º mês) . 126 3. . . . . . de Albrecht Dürer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 3. . . . . . . . . . . . . Reconhecer a mudança contínua e a inevitabilidade da morte (3º mês) . . . . . . .indd 6 07-09-2017 07:59:36 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Reconhecer e experimentar o fundo comum de tudo (1º mês) . . . . . . . . . . . . . . . Da melancolia intelectual à consciência aberta. . . . . . . . meditar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . a via do Buda ou do Despertar. . . . . . . Da atenção plena à consciência desperta . . . . . . . . . . . . Da mente que mente e do pensar que pesa à mente que medita e ao pensar que cuida. . . . . . . . . . . . . . . . 61 4. . . . . . . . . . . . . . . . . . 128 || 6 miolo_Meditacao. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Ser. 127 4. . . . . . . . . . . . .

. . Oferenda e multiplicação dos bens (10ª mês) . . . . . . . . . . . . 130 8. . 129 Nível II – Bondade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Aspirar à libertação da ilusão e à autodescoberta (5º mês) . Absorção no fundo comum de tudo (11º mês) . . 132 10. . . . . . Purificação da negatividade (9º mês) . . Espontaneidade do Despertar e acção ética no mundo (12º mês) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . a Liberdade Silenciosa 5. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . compaixão e alegria imparciais e universais (7º mês) . . . . . . . . . . . . . . 129 6. . . . . . . . . . . . . . . Gerar amor. . . . . . . . . . . . . . . 129 7. . . . . . .indd 7 07-09-2017 07:59:36 . . . . . . . . . . . Meditação. . 133 11. . . . . . . . 136 7 || miolo_Meditacao. . . . . . . . . . . 132 9. . . . . . . . 134 12. Aprofundar a descoberta da natureza profunda e repousar na bondade fundamental (6º mês) . . . . . . . . . . . 131 Nível III – Sabedoria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Aspirar ao despertar pelo bem de todos os seres (8º mês) .

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indd 9 07-09-2017 07:59:36 . pela sábia capa deste livro. à minha irmã Ana. pelo que as suas fotos revelam 9 || miolo_Meditacao. a Liberdade Silenciosa Da mindfulness ao despertar da consciência Ao Infinito e ao Cosmos que o manifesta A todos os Mestres que o descobrem em si e em tudo e vivem para o dar a conhecer aos outros Aos meus alunos de Filosofia e de Meditação Com agradecimentos profundos à Daniela. e à Adama. Meditação. pela inspiração e companhia na via do Despertar.

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de realizar o nosso trabalho. eles. Esses tempos benditos de silêncio irradiam. “A pergunta decisiva para o ser humano é esta: estás focado no infinito ou não?” ~ Carl Gustav Jung “Esses momentos de recolhimento silencioso são. essa irradiação. os momentos mais verdadeiros e mais eficazes da vida humana. e até de nos fazer progredir na humildade ou na prática de outras virtudes. sem dúvida. É para eles que tudo con- verge. porém. Seria completamente falso considerar as horas de meditação como exercícios destinados a tornar-nos capazes de cumprir mais serena ou dignamente os nossos deveres sociais. não estão ordenados para mais nada. A contemplação vale por si só. nunca deve ser procurada como um fim. Ela não precisa de justificação nenhuma vinda de fora.indd 11 07-09-2017 07:59:36 . os nossos estudos. Ela ocorre com toda a espontaneidade” ~ Henri le Saux 11 || miolo_Meditacao. sem dúvida. porém. sobre a existência inteira.

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Nunca fomos e jamais seremos senão o infi- nito. Mas livre de si. O passarinho recusa admitir que não há gaiola porque não há passarinho distinto do infinito e de todas as coisas. Introdução N unca fomos senão o espaço infinito onde continuamente surgem. Ou então insiste em ver-se distinto e que isso não é uma gaiola. se transformam e dissipam todo o tipo de fenómenos. terras. emoções e pensa- mentos. noutro sentido a mais ridícula. a sua imensa paz e liberdade silenciosa. seres vivos. astros. que os seus melhores sonhos cor-de-rosa e os seus mais temíveis pesadelos. que deposita uma crença cega na objectividade das suas alucinações e desconsidera. vemo-nos não como o espaço. incluindo o de haver tudo isso… Nunca fomos senão o infinito. que isso é ser livre e que nisso pode e deve ser feliz. livre da gaiola de se ver algo ou alguém no espaço infinito. Somos muitos a fazê-lo e achamos isso evidente e normal. Estamos a dormir. 13 || miolo_Meditacao. coisas. como uma onda que se acreditasse separada do oceano. mundos. acontecimentos. céus. mas como algo ou alguém no espaço. Num sentido a mais temível. tudo aquilo que lhe dá uma tão forte sensação de ser real. escarnece ou insulta quem lhe diga o contrário. sonhamos que estamos despertos e que o sonho é real. a mente demente. O passarinho recusa admitir que não há gaiola fora do seu imaginar-se distinto da vastidão. E isso é estarmos cativos na prisão que não há. Mas imaginamo-nos distintos e separados. fechado na forma do corpo ou do pensamento. Pois as suas únicas grades são as da mente que mente. não existem e nunca existiram. O passarinho não suporta que lhe digam que é livre e que sempre o foi.indd 13 07-09-2017 07:59:36 .

O passarinho. agradável ou rentável a nossa vida de prisioneiros inconscientes de sermos livres. A meditação é um aspecto essencial do caminho para despertar disto. livre e infinita como o espaço. vasta. onde nunca existiram poleiros nem gaiolas. Paulo Borges O passarinho não suporta que lhe digam que é. para que continue a mentir mais em paz. Não a meditação que visa apenas acalmar a mente que mente. O passarinho / a mente imagina-se uma entidade. O passarinho é a mente que mente ao separar a forma com que se identifica e a que chama “eu” das demais formas das coisas e fenómenos do mundo e a to- das do fundo sem fundo. meio ou fim. recusa ver e voar para além dela. que a todas engloba e inter- penetra. A meditação que nos abre os olhos para vermos que nunca fomos senão espaço livre e ilimitado. vazio. Pois reconhecer isso é o fim do poleiro da falsa segurança e bem-estar. a do infinito omniabrangente e superabundante de cons- ciência e amor. interior ou exterior. não tem localização.indd 14 07-09-2017 07:59:36 . A meditação que livra o passarinho de todas as ficções acerca de si mesmo e o devolve ao espaço ilimitado. A meditação que desperta a mente que mente e lhe revela a sua natureza primordial. na verdade não tem forma alguma. a segurança e bem-estar da gaiola. que tanto se agarra à forma disto e daquilo. recusando olhar para si e ver claramente que é vazia. Não a meditação a que recorre o passarinho para se manter agarrado à ficção do bem-estar do poleiro e da gaiola. A meditação que é um balde de água fria que nos desperta do aconchego dos nossos sonhos. e pode matá-lo do susto de subitamente ver que desde sempre é o espaço infinito que sonha apenas entrever através das grades que nunca existiram. Recusa ver que a mente. princípio. Não a meditação que nos mantém adormecidos na ficção de estarmos separados e que se limita a procurar tornar mais suportá- vel. informe e infinito. centro ou periferia. Este é um livro sobre a meditação. sempre foi e não pode deixar de ser liberdade. sobretudo neste momento histórico e civilizacional em que a || 14 miolo_Meditacao. por mais claustrofóbico que se sinta na gaiola da mente. E que enquanto não o reconhecer todos os seus desejos. projectos ou experiências de bem-estar na gaiola do ver-se distinto do infinito serão apenas bolas de sabão destinadas a desaparecer como se nunca houvessem existido. sobre todas as suas potencialidades e ambiguidades.

que atravessa todo este livro. Após O Coração da Vida. e com isso o da cultura e civilização antropocêntricas res- ponsáveis pela destruição acelerada da Vida sobre a Terra. mas também. sobretudo budista. Terminamos este capítulo iniciando uma reflexão crítica. tornando assim urgente a redescoberta da experiência medi- tativa profunda. No primeiro capítulo apontamos alguns aspectos essenciais da contempo- rânea redescoberta da meditação. vinda do Oriente. movido pela nova religião do crescimento económico infinito. do poleiro e da gaiola que não existem. de onde procede a sua laicização sob a forma da mindfulness. sobre o que nos parece ser a insuficiência das propostas da New Age e do movimento da mind- fulness para corresponderem à renovada ânsia de espiritualidade no mundo contemporâneo. meditação. quer na emergên- cia de uma sociedade cada vez mais injusta. que é o da ilusória separação entre o eu e o mundo. que é essencialmente um guia prático de meditação. desenvolvemos aqui a reflexão aí esboçada sobre a natureza e sentido profundos da experiência meditativa e contemplativa. que é a cultura do passarinho. a ser instrumentalizada e mercantilizada pela cultura dominante. a Liberdade Silenciosa cultura ocidental redescobre. quer na grave crise ecológica e na massiva extinção da biodiversidade que caracteriza o Antropoceno. uma prática que esteve nas suas raízes e depois esqueceu. bem como da sua natureza e presença na Antiguidade greco-latina.indd 15 07-09-2017 07:59:36 . e por isso mesmo. No segundo capítulo defendemos ser do reencontro em larga escala da ex- periência meditativa e contemplativa profunda que depende a também urgente mutação do paradigma de consciência dominante. alienada. só a reorientação da vida activa para a contemplativa pode ser uma alternativa ao desastre já presente no modo catastrófico de pensar e viver in- 15 || miolo_Meditacao. revela o seu fundamental fracasso. pela qual está maiorita- riamente a ser conhecida e divulgada no Ocidente. transformação integral (2015). Meditação. que vise o despertar pleno da consciência e não uma mera melhoria das condições de vida segundo critérios mundanos. na Cristandade e no ensinamento do Buda. esgotada e de- primida. Quando o aparente triunfo do projecto da modernidade. cansada. num momento em que começa a tornar-se um fenómeno mainstream. o de instaurar o Império da humanidade sobre a Terra. mas onde se leva demasiado a sério a ficção de serem reais. Visão.

contem- plar e amar cada vez menos. do ter. ecoando o debate sério que neste momento tem lugar na comunidade científica e na comunidade de praticantes de meditação sobre as suas vantagens e riscos – e a sua integração tradicional em vias espirituais com mestres qualificados onde a prática meditativa não surge desvinculada de uma vida ética e sábia e apenas visa o despertar da consciência e a plena realização de si. que é a do trabalho. a Revolução Silenciosa da experiência meditativa profunda. ao acalmar a turbulência mental. notando o contraste entre as intenções do seu fundador. Procuramos aqui recordar a origem do fenómeno da mindfulness. com profundas con- sequências na economia global.indd 16 07-09-2017 07:59:36 . o reconhecimento da não-separação entre observador e observado e o silenciamento da mente e do pensamento conceptuais. de ser uma estratégia compassiva para minorar o so- || 16 miolo_Meditacao. fazer e agir cada vez mais e do ser. O reencontro e aprofundamento de outras possi- bilidades da consciência e da experiência humanas. Jon Kabat-Zinn. ponderando se a mindfulness está a cumprir o desígnio do seu criador. a crescente prática da mindfulness e de outras formas de meditação pode ser um Cavalo de Tróia que a cultura egocêntrica dominante está a puxar para dentro dos muros da sua cidade e que pode dar lugar a algo imprevisto. pode até certo ponto e nalguns casos facilitar a irrupção de dimensões mais vastas e profundas da consciência. o que é incerto. Nesse sentido. ponderando que a sua prática – apesar das motivações munda- nas de comercialização que parecem presidir à sua oferta e de maior bem-estar e rentabilidade escolar e empresarial que parecem presidir à sua busca – . Paulo Borges duzido pela cultura social e institucionalmente dominante. da produção e do consumo. Retomamos aqui a reflexão sobre o fenómeno da mindfulness. É desta questão que nos ocupamos a fundo no terceiro capítulo. e os seus desen- volvimentos posteriores e actuais. à crescente tentativa da sua recuperação e integração para reforçar os muros da consciência egocentrada. permite reabrir as portas da percepção para a superabundância do Real e libertar a nossa experiência do mundo da estreiteza e consequente sentimento de escassez e avidez que em geral a domina. conside- rando que a meditação se encontra hoje numa encruzilhada crítica entre as muitas e crescentes ambiguidades da mindfulness – de que aqui procuramos assinalar as principais. como o maravilhamento contemplativo ante a beleza do mundo. caso sobreviva.

Sendo um programa inspirado nas grandes tradições espirituais da humanidade e particularmente no budismo tibetano. e do budismo tibetano. florescente e harmoniosa. baseada no treino meditativo da consciên- cia. O programa tem três níveis – Consciência. orientadas para uma prática baseada na experiência meditativa pessoal. ateus ou agnósticos. na relação consigo. Meditação. Para o efeito recordamos também o lugar que a atenção plena (mindfulness) tem na tradição do Buda. O programa.indd 17 07-09-2017 07:59:36 . como está indicado. Bondade e Sabedoria. e visa ajudar à realização do nosso melhor potencial humano. onde a meditação e a contemplação não surjam desvinculadas da ética. a ser facilitada mediante um programa de prática por nós concebido e formulado a partir da nossa prática da meditação. da sabedoria e de uma busca de realização plena de si. realizando ao mes- mo tempo a essência de todas elas. O programa acentua a importância desta experiência. em nome disso e da busca do bem-estar. de onde foi extraída e decontextualizada. a conver- ter-se numa nova mercadoria e num novo negócio movido pela avidez de lucro e pelo consumismo dominantes. onde é apenas o sétimo aspecto do Nobre Caminho Óctuplo e é inseparável da ética e da sabedoria. o cerne da sua proposta consiste todavia em apresentar estes contributos numa perspectiva e numa linguagem universais. a Liberdade Silenciosa frimento humano. que seguimos como uma via para ir além de todas as vias. que conciliam a reflexão com a experiência meditativa e contemplativa. desde 1983. no cultivo de um bom coração e no despertar da nossa sabedoria inata. que visam conduzir a uma vida com sentido. O programa intitula-se O Coração da Vida. aberta a todos. minimizadas ou ausentes na mindful- ness contemporânea. aberta. Uma Via de Consciência. com os outros e o mundo. Bondade e Sabedoria – e é composto de exercícios diários. O quarto e último capítulo é precisamente a proposta de uma via espiri- tual universal. como alternativa a especulações intelectuais abstractas ou à cren- ça em doutrinas que não sejam comprovadas experiencialmente. para quem aspire a uma prática espiritual profunda. colheu o contributo de vários amigos e companheiros de 17 || miolo_Meditacao. desde 1981. mas por algum motivo não se reconheça nalguma via espiritual tradicional nem nas propostas contemporâneas da New Age e da mindfulness. ou se está. faseados semanal e mensalmente ao longo de um ano. Terminamos reflectindo sobre a oportunidade de uma via espiritual secular. religiosos.

sábios e santos da humanidade. Visão. Todos os méritos e boas qualidades que possam manifestar devem-se apenas à sabedoria primordial que habita o íntimo de todos os seres e coisas. serve de apoio para as práticas meditativas do nível I e de parte do nível II deste programa. maior que tudo o que possamos conceber! || 18 miolo_Meditacao. workshops e cursos onde são fornecidas todas as indicações para a sua prática.org Esperamos que o programa O Coração da Vida e este livro possam contri- buir. meditação. Todos os defeitos e insuficiências que neles hajam são da nossa exclusiva responsabilidade. poleiro e gaiola e nos reconheçamos no Infinito que nunca deixámos de ser. transformação integral (guia prático de meditação). para que despertemos da ficção de haver passari- nho. O Coração da Vida. desvelada por todos os mestres. Paulo Borges prática e é promovido no âmbito do Círculo do Entre-Ser. minimamente que seja. O nosso anterior livro. Que os corações de todos os seres a ela se abram e todos repousemos na infinita liber- dade silenciosa.indd 18 07-09-2017 07:59:36 . associação filosófica e ética. Para toda a informação: circuloentreser. entidade responsável pela organização dos retiros.

2016. Wis- dom Publications. Neste sentido a meditação é  f. hedonistas e produtivistas da civilização contemporânea.. SHARF. Somerville. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). Handbook of Mindfulness. pp. edita- do por Ronald E. 19 || miolo_Meditacao. sem juízos nem elaborações con- ceptuais. editado por Robert Meikyo Rosenbaum e Barry Magid. Springer. in AAVV. Culture. 3-14. A contemporânea redescoberta da meditação no Ocidente A crescente (re)descoberta da meditação pelos Ocidentais. pp. A meditação entra cada vez mais na vida de pessoas e instituições.139-151. ansiedade. Purser. a diminuição do mal- -estar (sobretudo patente como stress.indd 19 07-09-2017 07:59:36 . mais visivelmente sob a forma recente do mo- vimento mindfulness. para uma esclarecedora genealogia do movimento mindfulness e das suas ineren- 1 C tes ambiguidades na perspectiva de um eminente representante da tradição Theravada do budismo original: Bikkhu BODHI. in AAVV. “Is mindfulness buddhist? (and why it matters)”. clara e contínua à experiência presente. Zen Perspectives. como meio para a recuperação da saúde. Veja- -se uma complementar genealogia em Robert H. Context. I A meditação entre Oriente e Ocidente ou a actual e oportuna redescoberta de uma antiga prática 1. and Social Engagement. depressão e cansaço). 2016. que surge da secularização da meditação budista tradicio- nal (com todos os problemas e ambiguidades que são hoje objecto de discussão 1 e que desenvolvemos no terceiro capítulo deste livro) e procura corresponder às dominantes preocupações terapêuticas. é um fenómeno histórico-cultural e civilizacional da maior relevância no final do século XX e no início do século XXI. David Forbes e Adam Burke. “The Transformations of Mindfulness”. maioritariamen- te como um treino regular da mente que desenvolve uma capacidade de atenção calma. o aumento do bem-estar e do rendimento escolar e empresarial.

6ª edição. que. pp. nº96 (Paris. J. livre dos medos. 2015. 1987. “Happiness Business”. Livre do desejo de felicidade. La philosophie ne fait pas le bonheur… et c’est tant mieux!. 2017. A meditação integra aqui uma via de pleno desenvol- vimento das potencialidades cognitivo-afectivas da consciência e de conhecimento experiencial da natureza profunda e última da realidade. Paris. entendida como corolário do desen- volvimento pessoal e da plena afirmação e expansão de si. 4 Cf. do qual se considera pro- vir a verdadeira e duradoura felicidade. Éthique a Nicomaque. a meditação não é um mero meio ou instru- mento. Tricot. a de despertar e libertar a consciência para o conhe- 2 S obre a situação. Flammarion. Roger POL-DROIT. pp. entendida como o despertar transformativo da consciência profunda. A um outro nível. Les Sagesses Orientales. É esta mesma perspectiva que inspira o programa de formação com o mesmo nome apresentado no final deste livro. meditação. que é a contemplação desinteressada das coisas tais como são. juillet-août 2017). inseparável do sentimento de se viver uma vida plena de sentido. Paulo BORGES. Lisboa. que a considerou sobretudo presente no sábio 3. introdução. Para uma leitura crítica do fe- nómeno. X. inevitavelmente associado a um novo e florescente negócio.97-98. Les Hors de Série de L’OBS. Vrin. seminários e técnicas de coaching 2. mais profundo e mais conforme com as suas origens tradicionais. 10. Paulo Borges procurada como via para a felicidade. a procura da meditação insere-se na busca do que podemos chamar de espiritualida- de. cf. que pode dar-se ou não num contexto religioso e assume hoje a novidade de expressões pu- ramente laicas e seculares (neste sentido pode haver e há efectivamente uma espiri- tualidade agnóstica ou ateia). 3 C f. Esta felicidade contemplativa aproxima-se da noção de eudaimonia em Aristóteles. Mahatma. cf. 7-9. notas e índex de J. 2 ª edição. em torno de livros. ARISTÓTELES. || 20 miolo_Meditacao. O Coração da Vida. a felicidade da pura experiência e consciência de ser e do que é tal como é. acessível a crentes e descrentes. Claire AUBÉ.indd 20 07-09-2017 07:59:37 . é esta virtude da meditação. esta experiência é a própria felicidade. no terceiro capítulo deste livro. Neste sentido. mas coincide com o próprio fim.508-522. é hoje objecto de uma verdadeira corrida e de um verdadeiro culto. que nesta perspectiva são a causa profunda do seu mal-estar e sofrimento. O nosso anterior livro O Coração da Vida 4 é precisamente um guia prático de meditação nesta perspectiva de uma espiritualidade laica. desejos e expectativas egocêntricos do sujeito. Visão. transformação integral (guia prático de meditação). Como teremos oportunidade de expor. Paris.

não deixa de ser ambivalente. empresas e hospitais (e até no treino de forças policiais e militares. e noutros lugares. Evan THOMPSON e Eleanor ROSCH. quer no fenómeno da New Age. VARELA. além de muito limitados em relação a todo o seu potencial alcance e benefício. bem como os encontros Mind and Life. MIT Press. 21 || miolo_Meditacao. The Embodied Mind: 5 C Cognitive Science and Human Experience. particularmente na área das neurociências. que consideramos urgente não perder de vista. 2007. quando não claramente estranhos à sua vocação original ou dela contraditórios – . Columbia University Press. Cambridge. gerado pelo cruzamento da experiência na terceira pessoa com a experiência na primeira pessoa. Dreaming. Meditation.. 2015. dependendo das intenções. o que está em risco de acontecer quer no fenómeno actual da sua glo- balização e popularização por via da mindfulness – em que tende a ser procu- rada como instrumento para fins e objectivos exteriores à própria experiência meditativa. em que as práticas medita- tivas perdem os seus tradicionais contextos. verifica-se um cada vez maior interesse da comunidade científica pela experiência meditativa enquanto prática tera- pêutica e fecunda fonte de conhecimento acerca da relação entre mente e cére- bro e da natureza e possibilidades da consciência. Id. promovidos desde 1987 pelo Mind and Life Institute e onde investigadores de vanguarda. 2015. nova edição au- mentada. Meditação. and Philosophy. Waking. and the Sciences of Mind. Evan THOMPSON. dado estar em risco a sua tradicional inserção numa ética de não-violência). Exemplo paradig- mático disto são as experiências laboratoriais com praticantes experientes de meditação que desde há anos têm sido realizadas no Massachusetts Institute of Technology. Harvard University Press. Seja como for.indd 21 07-09-2017 07:59:37 . Phenomenology. Francisco J. prefácio de Stephen Bat- chelor. nos EUA. Nova Iorque. 1991. contornos e comprovada eficácia num confuso cocktail de “espiritualidades” ao gosto do instrutor/vendedor e do consumidor. Mind in Life: Biology. dando origem a uma nova ciência como a neurofenomenologia 5. têm dialogado com o Dalai Lama e outros contemplativos budistas e não-budistas. a par da difusão da prática meditativa em sectores crescen- tes da população e das várias experiências de sucesso em escolas. A literatura cien- tífica sobre os efeitos da meditação tem aumentado exponencialmente nos últi-  f. Being: Self and Consciousness in Neuroscience. a Liberdade Silenciosa cimento da natureza última das coisas. o que. Cambridge.

2013. Mohammad KARKHANEH. AAVV. com mais bibliografia especializada nas notas. L’Art de la Méditation. Nova Iorque. DUNNE e R. Ballantine Books. Cambridge Handbook of Consciousness. St.298-309. 6R  eferimos alguns estudos e obras mais recentes que dão conta da investigação actual e das aplicações da meditação. J. Meditations of a Buddhist Skeptic. Una breve revisión de las perspectivas. cognition. SHAPIRO / Roger N. The experience of meditation: Experts introduce the major traditions. Moscovitch e E. Thompson. || 22 miolo_Meditacao. 2001. AAVV. pp. DAVIS / David R. Matthieu RICARD. editado por Jonathan Shear. VAGO. WALSH. Pourquoi méditer? Sur quoi? Comment?. Mark G. La espiritualidad a debate. Matthieu RICARD. and Christianity. MN. nº2 (Lisboa. 472 págs. AAVV.. A. Meditation. editado por J. in AAVV. 2011. M. Full Catastrophe Living: Using the Wisdom of Your Body and Mind to Face Stress. 2008.1-30. 2010). 1999. MIT Press. Mind in the Balance.82-86. Paul. tradução do inglês de David González Raga. Sharon BEGLEY. Harmony Books. 6. NiL éditions. Yuanyuan LIANG. Ben VANDERMEER. OSPINA.. BEN- NETT-GOLEMAN. prepared by the University of Alberta Evidence-based Practice Center under Contract No. and Illness. Oakland. 2011. 2007. Editorial Kairós. Nova Iorque. HAGEMAN. Routledge. P. LUTZ. AUSTIN. DRYDEN. J. “Medi- tation practices for health: state of the research”. mas também. mais recentemente. vol. Paragon House. A Manifesto for the Mind Sciences and Contemplative Practice. Train your Mind. 2012). prefácio de Daniel Goleman. Nova Iorque. Paulo Borges mos vinte anos. Kenneth BOND.indd 22 07-09-2017 07:59:37 . Origins and Applications. 1988. 2006. Pergaminho. Piatkus. Mindfulness. Londres/Nova Iorque. Zelazo. em particular Joan H. 2007). Mind & Life Institute / New Harbinger Publications. classic and contemporary perspectives. Maria B. DAVIDSON. T. Cambridge. Nova Iorque. The meditative mind: The varieties of medi- tative experience. 2013 (edição revista). SILBERSWEIG. editado por P. Cultura ENTRE Culturas. pp. A Arte da Meditação. “Meditation and the neuroscience of consciousness: an introduction”. B. pp. and self-transcendence (S-ART): a framework for understanding the neurobiological mechanisms of mindfulness”. Columbia University Press. Lisboa. 290-02-0023) (Junho. El estudio científico de lo trascendente. Id. Meditation in Science. Jon KABAT-ZINN. las técnicas y los resultados”. 2010. editado por Jon Kabat-Zinn e Richard J. Id. AAVV.. and (a qualified) Yes”. Zen and the Brain: Toward an Understanding of Meditation and Consciousness. Nova Iorque. David R. Davidson com Zara Houshmand. Barcelona. Alan WALLACE. VAGO e David A. James H. Nova Iorque. “Can enlighten- ment be traced to specific neural correlates. Nicola HOOTON. Evidence Report / Technology Assessment (Full Report). prólogo do Dalai Lama. Pain. Tarcher. “Self-awareness. Columbia University Press. or behavior? No. “Neurociências e meditação”. KLASSEN. dando conta de reservas e pontos de vista diferentes dentro da comunidade científica. Aldine. Nina BUSCEMI. A Scientific Dia- logue with the Dalai Lama on the Healing Power of Meditation. Liza BIALY. Donna M. Lisa TJOSVOLD. 2008. 2009. Emotional Alchemy: How the Mind Can Heal the Heart. Cambridge University Press. “No todas las meditaciones son iguales. 1984. Buddhism. Jake H. The Mind’s Own Physician. Diverse Perspectives on its Meaning. notando-se que os últimos mostram reservas e questionamentos: Deane H. Frontiers in Human Neuroscience (October. comprovando benefícios terapêuticos e escolares. Terry P. que contrastam com a propaganda gerada pelos pro- motores da mindfulness 6. Paris. 2012. Daniel GOLEMAN. Change Your Brain. Williams e Jon Kabat-Zinn. self-regu- lation.

Matthieu RICARD e Wolf SINGER. Comple- mentary Therapies in Clinical Practice (2017). Meditation. Catherine WIKHOLM. Springer. Debra S. Journal of Counseling & Development (January. L. VAGO. BERNARDINELLI. doi: 10. Irish Journal of Psychological Medicine (2016). Evan THOMPSON. KUMAR. Alan WALLACE. Meditação. HOGE.116. Britta K. doi: 10.2017. “Moving Beyond Mindfulness: Defining Equanimity as an Outcome Measure in Meditation and Contemplative Research”. AAVV. 329-332. AAVV. “Has the science of mindfulness lost its mind?”. DOI 10. Meditation – Neuroscientific Approaches and Philosophical Implications. Han- dbook of Mindfulness. LINDAHL.103-113. mas para o conhecimento e domínio do mundo exterior 8. Dreaming. Gaëlle DESBORDES. 2013). Purser. GNANAVEL. and Social Engagement. 23 || miolo_Meditacao. Alysia D. Context. Catherine KERR. Waking. pp. “Citation patterns and trends of systematic reviews about mindfulness”. 2015. Meditation in Science. and Philosophy. editado por Ronald E. Dordrecht. nº4. quer na Antiguidade greco-latina. 7 Para uma proposta contemporânea de recuperação dessa prática filosófica. Aux Origines de la Méditation. Buddhism.15-16. 2017. Les textes fondamentaux commentés. embora no primeiro caso restrita a algumas escolas filosóficas – quando a filosofia ainda era uma sabedoria prática. Filosofía como terapia.1016/j. Sara W. HÖLZEL. David CRESWELL. vol. pp.bp.1146/annurev-psych-042716-051139. G. vol. Neil ABELL. 33. S. A. P. MIT Press. SINGH. 247–249. J. Beyond the Self: Conversations Between Buddhism and Neuroscience. 2016. A meditação na Antiguidade greco-latina Se falamos da (re)descoberta da meditação pelos ocidentais é porque ela já fez parte da nossa cultura.1192/ pb. Andrew OLEN- DZKI. LAZAR. 4. “Mindfulness Interventions”. A partir daí a presença da meditação na cultura ociden- tal esbateu-se devido à progressiva e predominante orientação da mente humana. Nova Iorque. 4. Heidelberg. “Why Right Mindfulness Might Not Be Right for Mindfulness”. HANLEY. 2016). 94. MORANDI.1-4. Culture. OSBORN. “Meditation – a two edged sword for psychosis: a case report”. Le Point. Références (juillet-août 2014). Londres. Mónica CA- VALLÉ. editado por Stefan Schmidt e Harald Walach. Mind in the Balance. pp. David R. cf. David Forbes e Adam Burke. Elizabeth A. Kairós. vol. 40. Tim GARD. CANTO. doi: 10.053686.04. antes de declinar na escolarização e especulação intelectual 7 – e no segundo re- servada à vida monástica. FAZIA. Miguel FARIAS. que levou ao surgimento da ciência moderna e Frontiers in Psychology (November. Annual Review of Psychology (2017). Nova Iorque.1007/s12671-014-0380-5. 2013). Barcelona. 2014. Mindfulness (2015) 6:57–62 .006. B. Mindfulness (December.ctcp. BJPsych Bulletin (2016). a Liberdade Silenciosa 2. Colum- bia University Press. Being: Self and Consciousness in Neuroscience. S. N. Jared R. Alan Wallace designa como a “externalização científica da meditação” – cf. SHARMA. 3ª edição. prefácio de Stephen Batchelor.indd 23 07-09-2017 07:59:37 . uma terapia do ser e um modo de vida. Springer. não para a observação e o conhecimento de si própria. La Sabiduría Recobrada. CHIESA. “Mind the Gaps: Are Conclusions About Mindfulness Entirely Conclusi- ve?”. T. 2014. quer na Idade Média cristã. ROEHRIG e Angela I. 8 Mediante o que B. and Ch- ristianity. Adam W.

Gal- limard. “É importante visualizar a imensidão da Grande Promessa. Le romantisme à contre-courant de la modernité. Révolte et mélancolie. quer de teor socialista. Le Régne de l’Homme. natural ou divina 10 . 1969 [1934]. e de liberdade pessoal irrestrita – alimentou a esperança e a fé de inúmeras gerações desde o início da Revolução Industrial”.indd 24 07-09-2017 07:59:37 . Paulo Borges do projecto tecnológico a ela associado. p. Vega. de abundância material. Editorial Presença. Ter ou Ser?. da sexta destruição massiva da biodiversidade no Antropoceno (a primeira por causas humanas). Id. da crise econó- mico-financeira. movido pela promessa e expectativa de progresso e acesso geral da humanidade à felicidade. La Découverte. Rivolta contra il mondo moderno. 2017. entre muitos outros. quer de teor tradicionalista e reaccionário. Lisboa. Michael LÖWY / Robert SAYRE. a produção e consumo ilimitados e a transformação das condições so- ciais e materiais de existência por via política e económica 9. 1999. de maior felicidade para o maior número de indiví- duos. já em 1976. Payot. || 24 miolo_Meditacao. A crise do mun- do moderno. as maravilhosas conquistas materiais e inte- lectuais da Revolução Industrial para podermos compreender o trauma que a constata- ção do seu fracasso está a produzir nos dias de hoje. tradução. Rémi BRAGUE. que pretendeu submeter a natu- reza e retirar a humanidade da sua inserção na ordem cósmica. 11 Veja-se o diagnóstico que Erich Fromm fez. revolucionário e libertário. Este sonho cor-de-rosa. Roma. pela fome e pela pobreza. Cf. Gallimard. Paris. La Société Écologique et ses ennemis. 1992. a exploração desenfreada dos seus recursos. Paris. à abundância material e à liberdade mediante o domínio da natureza. até ao surgimento do actual movimento ecológico. René GUÉNON. do sofrimento dos animais na indústria ali- mentar e do risco de desastres ecológicos sem precedentes. associado à constatação de que a felicidade que se procura não reside propriamente no pro- 9 P  rocesso que gerou a crítica do mundo capitalista moderno. “A trindade da produção ilimitada.13-14.. converteu-se no pesadelo do sofrimento pela guerra. Ju- lius EVOLA. 2015. Edizioni Mediterranee. Hoje. 10 C f. acerca do “fracasso” e do “fim de uma ilusão”: “A Grande Promessa de Progresso Ilimitado – a promessa de domínio da Natureza. pp. Serge AUDIER. Lisboa. 1977 [1927]. potenciado pela Revolução Industrial 11 e ainda sobrevivente na superstição do crescimento económico ilimitado. na expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico e político-econó- mico. Genèse et échec du projet moderne. Tudo isto. prefácio e notas de António Carlos Carvalho.14. cerca de três séculos após o seu aparecimento. assistimos à crise e frustração geral do projecto moderno de instauração do “Reino do Homem”. 1970 [1945]. Pour une histoire alternative de l’émancipation. Porque a Revolução Industrial falhou efectivamente no cumprimento da sua Grande Promessa” – Erich FROMM. Le régne de la quantité et les signes des temps. Paris. liberdade absoluta e felicidade irrestrita formaram o núcleo de uma nova religião”.. Paris.

55 (tradução portuguesa do autor). a Liberdade Silenciosa gresso material. Passámos tanto tempo a procurá-las fora de nós mesmos que nunca tivemos a ocasião de as recolher na nossa própria mente” – Dzigar KONGTRÜL. a milenar e predominante orientação da humanidade e. o ser humano procura a paz e a felicidade caçando. grupos e so- ciedades que vivem nas mais difíceis dessas mesmas circunstâncias. determinando a qualidade satisfatória ou insatisfatória da própria vida.indd 25 07-09-2017 07:59:37 . desde o séc. A renovada atenção da mente a si mesma é o que pretende a meditação. 25 || miolo_Meditacao. XVII. que parece assim depender. num outro sentido. de um factor interno e não tanto das condições externas da existência. Paris. Com efeito. livre das tendências dogmáticas e autoritárias das insti- tuições religiosas tradicionais. de não pensar ou de obter estados alterados e extáti- cos de consciência. A palavra é assim frequentemente associada às culturas e religiões orientais e a técnicas de esvaziar a mente. quer o verdadeiro sentido das práticas 12 “ Desde a época das cavernas. o que manifesta quer o desconhecimento da sua procedência do vocabulário e da cultura grega e latina. desagradáveis ou neutros. 2007. da ciência para o conhecimento do mundo externo e para a sua aplicação tecnológica. p. tradução de Carisse Busquet. parece haver esquecido a necessidade de se conhecer primeiro que tudo aquilo que em nós conhece. alegria e apreço pela vida em pessoas. o esqueci- mento daquilo cujo estado condiciona toda a percepção dos acontecimentos do mundo como agradáveis. em última instância. Mas o que significa “meditação”? Parece importante esclarecer o seu sentido em termos históricos e etimológicos. e assim toda a reacção ou ausência de reacção a eles. Meditação. a própria mente 12. depressão e suicídio em pessoas. Este esquecimento da mente é também. NiL éditions. Petit guide du bouddhisme à l’usage de tous. prefácio de Matthieu Ricard. Le Bonheur est entre vos mains. cultivan- do a terra e acumulando bens materiais. pois o crescente interesse pela sua prática não deixa de estar associado a uma considerável confusão quanto à sua natureza e objectivos. ou seja. usando-se a mesma palavra para designar coisas muito diferentes. como o prova o facto de se encontrarem elevados índices de insatisfação. é sem dúvida um dos factores mais importantes do renovar da in- quietação espiritual da humanidade e da reorientação da mente de cada vez mais indivíduos para a busca do autoconhecimento profundo e para uma alternativa espiritual pós-moderna. grupos e sociedades dotados das circunstâncias de vida material mais favoráveis e elevados índices de satisfação.

Études de philosophie hellénistique. A relação é óbvia com medicare. 2.22-23.29. arte médica. pensar em. Veja-se o exemplo da estóica. praticar. Ibid. A “filosofia” como “medicina da alma” surge em CÍCERO. 1993. Jean-Yves LELOUP. O mesmo autor compara duas listas desses “exercí- 13 C f.indd 26 07-09-2017 07:59:37 . a um estado de vida au- têntico. Davidson. que significa. deriva do verbo meditari. medicar. Écrits sur l’Hésychasme. a ideia de um exercício prático e preparatório. Paris. que consistem. que significa: 1. que estão associadas ao sen- tido originário da filosofia como “maneira de viver”. p. no “esforço por assimilar. onde a filosofia pouco tem a ver com uma “teoria abstracta” e ainda menos com “exegese de textos”. ainda com fins terapêuticos. p. 2. no qual o homem atinge a consciência de si. Cf. Com efeito. Por sua vez. III. obscurecido pela inconsciência. Albin Michel. || 26 miolo_Meditacao. dar remédio a. por tornar vivos na alma uma ideia. remediar. nota 2. Academic Press/ Éditions du Cerf. médico. por exemplo. “preparação”. preparar. 6. maquinar. p. 2ª edição corrigida. cuidar de. Exercices spirituels et philosophie antique. Une tradition contemplative oubliée. tratando-se sobretudo de uma “arte de viver”. aplicar-se a.77. preparar. Ibid. 1999. prefácio de Pierre Hadot.. Destacamos. prefácio de Arnold I. Paulo Borges que nas próprias culturas e religiões orientais se designam como “meditação”. Friburgo/Paris. e medicina.19. A palavra vem do latino meditatio. ter em vista. a paz e a liberdade interiores” 16. 3. projectar. presente nas várias escolas filosóficas gregas e mais evidente nas helenísticas e romanas. a par do sentido mais comum de reflexão. tratar. Pierre HADOT. exercitar-se. uma noção. La philosophie comme thérapie de l’âme. que tem os seguintes signifi- cados: 1. entregar-se a. reflectir. de “um estado de vida inautêntico. que visa não só o conhecimento mas a melhoria do ser e deve conduzir. 2002. o “exercício” é o significado comum de palavras gregas como askesis e meleté 15. além de “meditação” e “reflexão”. 14 Cf. um princípio” 14. medicina. a visão exacta do mundo. roído pela preocupação. elabo- rar. Com efeito. socorrer. nova edição revista e aumentada. meditari relaciona-se com mederi. meditar. A meditatio latina corresponde ao grego meleté (que por sua vez traduz termos hebraicos provenientes da raiz hāgâ 13) e ambas designam “exercícios preparató- rios”. Paris. 16 C f. 15 Cf. por uma “te- rapêutica das paixões” ou “medicina da alma”. estudar. facilitar. 3. medicus. Tuscu- lanas.. como nota Pierre Hadot. André-Jean VOELKE. pp. Albin Michel. configurando um evidente sentido terapêutico e medicinal do exercício e prática meditativos..

25-26. Graças a esta vigilância do espírito. uma tensão constante do espírito. ela abre por fim a nossa consciência à consciência cós- mica tornando-nos atentos ao valor infinito de cada instante. para notar a centralidade da “atenção” neste treino da mente ou atletismo espiritual 17. pp. fazendo-nos acei- tar cada momento da existência na perspectiva da lei universal do cosmos” 19. pp. estes “exercícios espirituais”. Meditação. não se trata de um mero processo intelectual. Citamos dois trechos particularmente esclarecedores do que visa este exercício espiritual: “A atenção (prosoché) é a atitude espiritual fundamental do estóico.26. Madrid. não cor- respondem necessariamente ao sentido “ascético” que a palavra “ascese” adqui- 17 Cf. Graças a ela. corresponden- do “a uma transformação da visão do mundo e a uma metamorfose da persona- lidade”. sempre suportável. Ela liberta da paixão que é sempre provocada pelo passado ou pelo futuro que não dependem de nós. 20 Cf.indd 27 07-09-2017 07:59:37 . o filósofo sabe e quer plenamente o que faz a cada instante. isto é.27-28. 19 Cf. cuja designação se celebrizará com Santo Inácio de Loyola 21.. Pierre HADOT. a regra de vida fundamental. pp. Ibid. não somente do pensamento. na sua minúscula exiguidade. BAC. a Liberdade Silenciosa cios espirituais” inerentes a uma “terapêutica filosófica de inspiração estóico-pla- tónica”. 18 Cf.20-21. 1982. É uma vigilância e uma presença de espírito contínuas.. 21 San IGNACIO DE LOYOLA. Correspondendo ao sentido antigo de askesis ou de meleté. Ibid. mas de todo o psiquismo do indivíduo”. se recoloca na perspectiva do Todo” 20 . ela facilita a vigilância concentrando-a no minúsculo momento presente. está sempre “à mão” (procheiron)” 18. 27 || miolo_Meditacao. ou seja. in Obras Completas. p. sendo antes “a obra. 4ª edição. “Esta atenção ao momento presente é de algum modo o segredo dos exercí- cios espirituais. a distinção entre o que depende de nós e o que não depende de nós. Ibid. uma consciência de si sempre desperta. Exercices spirituels et philosophie antique. A designação de “exercícios espirituais” visa dar conta de que.. chegadas até nós por via de Fílon de Alexandria. Ejercicios espirituales. pela qual este “se eleva à vida do Espírito objectivo. sempre dominável.

filosofia e espiritua- lidade Os referidos exercícios espirituais passarão ainda para o cristianismo greco- -latino que não rejeitou considerar-se uma filosofia. escrita por Atanásio. Paulo Borges riu posteriormente. como uma filosofia que mantém no seu centro a prosoché. Na verdade. pp. Carl Hanser Verlag. realçamos que todas as referidas patologias procedem de uma ignorância radical que gera um desajuste ontológico. Prendre soin de l’être. Presentes na tradição filosófica greco-romana. torna-se assim a “atitude fundamental do monge”.80-82. II. editadas por Karl Schlechtra. as invejas. atento à sua presença e vendo tudo com um olhar divino 25. entendida como consciência constante e perfeita do que se faz e do que se é. a vigilância de cada instante”. RABBOW. Paris. Munique. enquanto abstenção ou mortificação da afirmação de si e das pulsões e necessidades (psico)fisiológicas. encontramo-los também nos Terapeutas de Alexandria. 25 C f. que apela uma terapia que vá para além dos sintomas. Friedrich NIETZSCHE. 1999. Exercices spirituels et philosophie antique.839-900. como “o apego ao prazer. III. Jean-Yves LELOUP.indd 28 07-09-2017 07:59:37 . descritos por Fílon como “filósofos” cuja “medicina” (iatriké) não cuida apenas o corpo. Zur Genealogie der Moral. P. 3. na es- teira de Nietzsche. Meditação. Albin Michel. pp. desconsiderasse o ascetismo como vontade de nada e negação niilista da vida 22. Philon et les Thérapeutes d’Alexandrie.29-30. a ignorância. pela qual se vive sem cessar na “memória de Deus”. A meditação no cristianismo. Pierre HADOT. pp. Seelenführung. || 28 miolo_Meditacao.21 e 77-78. que levou a que a modernidade. A prosoché. 24 Cf. Exercices spirituels et philosophie antique. pp. o desajustamento ao que é”. as fobias. 1966. 2 – uma “consciência cósmica”. 23 Cf. um não ver o que é tal como é. “a atenção a si mesmo. a tristeza. 1954. mas também as múltiplas “pato- logias (pathon) e sofrimentos” do “psiquismo”. a deso- rientação do desejo. a partir do século IV. Cf. É deste modo que o monaquismo cristão foi assumido. que assume dois aspectos: 1 – uma “consciência moral”. Daí que o nome “Terapeutas” lhes seja devido por “cuidarem do Ser (therapeuén to On)” 23. que purifica e rectifica a “intenção”. vigiando para que a única motivação do agir seja “a vontade de fazer o bem”. Munique. Methodik der Exerzitien in der Antike. no sentido de modo de vida e exercício prático herdado da Antiguidade 24. onde a conversão daquele à vi- 22 C f. a plena “atenção a si mesmo”. in Werke. Pierre HADOT. como acontece na Vida de António.

p. cf. formulados em “sentenças curtas” (apoftegmas. pp. 60. entendidas como as patologias que distraem. Pierre HADOT. medita-as constantemente” 29. ou seja. de Préville. a atenção a si mesmo. edição de L. a fim de se sentirem como se estivessem em público e assim evitar cometer faltas que não cometeriam perante um olhar alheio 31. o padre do deserto. Exercices spirituels et philosophie antique. aconselhava a que os monges. A prosoché. Isto já se verificava na filosofia greco-romana e António. citado in Ibid. 2003. É a prosoché que assegura o “domínio de si”.90. 924B.92.85 e 87. Pierre HADOT.84. Exercices spirituels et philosophie antique. “o triunfo da razão sobre as paixões”.88. senti- mentos e acções que permite o autoconhecimento e a verificação do nível em que se está no caminho para a perfeição. kephalaia) que condensam os preceitos evangé- licos e as palavras dos Antigos e favorecem a sua memorização e meditação 28. Lisboa. 31 C f. a meditação e aplicação contínua dessas palavras permitiria tirar proveito espiritual de todos os acontecimentos 30. Pierre HADOT. que deve ser vivido como se fosse simultaneamente o primeiro e o último” 27. traduz-se num contínuo “exame de consciência”. uma ininterrupta atenção a pensamentos. Exercices spirituels et philosophie antique. t.83-84. dispersam e dissipam a “alma” 32. Exercices spirituels et philosophie antique. citado em Pierre Hadot. Como escreve Doroteu de Gaza: “Se queres possuir estas palavras no momento oportuno. p. p. pp. seus discípulos. a Liberdade Silenciosa da monástica é descrita como passar a “prestar atenção a si mesmo”. Segundo o mesmo autor.indd 29 07-09-2017 07:59:37 . A prosoché consiste numa “concentração contínua no momento presente. Paris. Assírio & Alvim. tradução de Armando Silva Carvalho. 26 C f. como se devessem dá-las a conhecer aos outros. Exercices spirituels et philosophie antique. a nepsis. 27. Ditos e feitos dos Padres do deserto. 30 Cf.. Ibid. Sources Chrétiennes. p. citado em Pierre HADOT. pp. Meditação. Vida de António. 32 Cf. dirigidas aos discípulos: “Vivam como se devessem morrer cada dia. Vida de António. organização de Cristina Campo e Piero Draghi. ATANÁSIO. Cf. 29 || miolo_Meditacao..88. 28 Cf. a fim de garantir a sua aplicação na ocasião oportuna. 1963. PG 26 844B e 969B. Ibid. prestando atenção a vós mesmos e recordando-vos das minhas exortações” 26 . 27 Cf. ATANÁSIO. Para uma antologia dos Padres do deserto. e a meditação rememorativa dos princípios e regras de vida a aplicar em todas as circunstâncias particulares.90.89-90.. Implica a “vigilância do coração”. Regnault e J. 29 DOROTEU DE GAZA. p. Didaskaliai. anotassem por escrito “as acções e movimentos da sua alma”. que deve ser constante. sendo as suas últimas palavras.

a experiência pelas quais o sujeito opera sobre si mesmo as transformações necessárias para ter acesso à verdade”. não meramente no plano da formação ou atitude intelectual. Estas duas principais formas da espiritualidade. enquanto interrogação e determinação do que permite ao sujeito aceder à verdade. condição prévia do seu acesso à verdade. da beatitude e/ou da tranquilidade da alma 34.. arrancando-o do seu estatuto e condição actual. Michel FOUCAULT.indd 30 07-09-2017 07:59:37 . duplo dinamismo que Foucault designa como erôs. “a busca. “de exame de consciência” e de “verificação das representações à medida que se apresentam na mente” (a epimeleia é parente de meletê. helenística e romana. reduzida a mero exercício abstracto e intelectual. mas que se prendem com a realização e transfiguração do sujeito. pp. outro é o trabalho de si sobre si mesmo. Ibid. Destacamos aqui que essas práticas in- cluíam a conversão do olhar do exterior para “si-mesmo” e “vigiar o que se pensa e o que se passa no pensamento”. bem como a espiritualidade cristã. Ao contrário do senso comum e da ciên- cia. é necessário um treino metódico e cons- tante dessa atenção a si. 34 C Paris. que significa simultaneamente “exercício”  f. na dimensão prática sem a qual a filosofia permanece uma teoria sem eficácia operativa. sob a forma da iluminação da cons- ciência. Como bem mostrou Michel Foucault. traduzindo-se em “técnicas de meditação”. a filosofia. Paulo Borges Note-se que. ou o movimento pelo qual a verdade vem a si e o ilumina. é aqui inseparável de uma espiritualidade. e que se formulou na noção de “cuidado de si” (epimeleia heautou. do século V antes de Cristo até aos séculos IV-V depois de Cristo. 2001. || 30 miolo_Meditacao. cura sui). 1981-1982.90-91. abrangendo um vasto corpo de modos de ser. a espiritualidade considera que a verdade não é acessível ao sujeito sem uma profunda transformação deste. têm efeitos que não se reduzem ao conhecimento. o longo exercício de transformação progressiva a que o filósofo chama ascese (askêsis). Esta articulação entre filoso- fia e espiritualidade processa-se nos quadros de um fenómeno marcante que se de- senrolou ao longo de dez séculos. Cours au Collège de France.16-18. a prática. 33 C  f. L’Herméneutique du Sujet. pp. dessa “técnica de introspecção” que visa a autotransfor- mação do sujeito 33. amor. que pode assumir dois aspectos: um é o movimento de descentramento do sujeito em direcção à verdade. reflexões e exercícios práticos que integravam e subordinavam o “conhece-te a ti mesmo” (gnôthi seauton). para que isso seja eficaz. abrangendo a filosofia grega (com a relativa excepção de Aristóte- les). EHESS/Gallimard / Seuil.

92-95. in O que é a Crítica?.  f. pp. 1984. da “paz da alma”. Antes disso. Para o diálogo entre Pierre Hadot e Michel Foucault. também Michel FOUCAULT. da “ausência de preocupação”.indd 31 07-09-2017 07:59:37 .12-13. entre outros 37. 31 || miolo_Meditacao. cf. em particular a partir da sua requalificação filosófica por Descartes. pp. 35 Cf. Paris. edição estabelecida por Henri-Paul Fruchaud e Daniele Lorenzini. 2017. “Réflexions sur la «culture de soi»”. Pierre HADOT. onde se reconhece o original sentido ascético da filosofia: “[…] la philosophie. por outro. Edições Texto & Grafia. neste sentido.. O primeiro definirá mesmo o “reino dos céus” como “a apatheia acompanhada do conhecimento verdadeiro dos seres”. o resultado é um conhecimento meramente abstracto. in Exercices spirituels et philosophie antique.. inaugura a modernidade separando a filosofia e a ciência da espiritualidade. Meditar é. a Liberdade Silenciosa e “meditação”) 35. uma forma do cuidar de si. da redução de uma importante vertente da filosofia a uma metodologia de conhecimento lógico-conceptual. Id. da “amerimnia” ou da “tranquillitas”. todavia.. 36 C Gallimard. introdução e aparato crítico por Daniele Lorenzini e Arnold I. Exercices spirituels et philosophie antique. Pierre HADOT. o qual. Davidson. doravante expulsa do exercício da razão. Ibid. Lisboa. da imperturbabilidade ou ausência de paixões/patologias. seguido de A Cultura de Si. o cristianismo monástico acolhe ainda a herança da filo- sofia prática clássica. o “cuidado de si” será preterido pelo “conhece-te a ti mesmo”. Histoire de la sexualité. com todas as inerentes ambivalências e ambiguidades que referiremos neste livro. sem conexão com a aspiração fundamental do ser humano a uma vida plena. e. L’usage des plaisirs.305-311 e 323-332. c’est-à-dire une “ascèse” […]” – Ibid. Cf. em autores co- mo Evagro Pôntico e João Cassiano. nu- ma inversão da relação original. Meditação. 37 Cf. Ibid. A Cultura de Si. pp. substituindo a tradicional necessidade de transformação e conversão espi- ritual do sujeito pela simples aplicação do correcto método de pensar. do esquecimento geral da espiri- tualidade que motiva a sua ansiosa busca no nosso tempo.69-91. que não afecta a existência concreta do indivíduo. pp. por um lado. Ao considerar-se que basta o conhecimento intelectual para aceder à verdade e ao dispensar-se a transformação integral do sujeito. Todavia. “Un dialogue interrompu avec Michel Foucault. pp. enquanto o “reino de Deus” é o “conhecimento da santa Trindade. Esta é uma das principais causas. 3. traduzida na valorização da apatheia estóica e neoplatónica. p.15-16 e 19-20. não o enobrece e não o realiza 36.. si du moins celle-ci est encore maintenant ce qu’elle était autrefois. que são precisamente o âmago das práticas contemporâneas de meditação laica.15. Convergences et divergences”.

Como temos sustentado. Heil (salvação. Paulo Borges coextensivo à substância do intelecto” 38. p. pp. citado in Pierre HADOT. Actas do IV Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade (org. citado in Pierre HADOT. como a substituição da “atitude nevrótica do homem crispado sobre as representações que tem de si mesmo” pela “atitude aberta. Zéfiro/ IFLB. Petit lexique des mots essentiels. Entenda-se e sublinhe-se que esta supressão é a da vontade egocen- trada. 11-13. que por sua vez culmina. a raiz indo-europeia de “salvar” e “salvação”. Sal ou sol. “ser livre”.29. Exercices spirituels et philosophie antique. física. expressa “o facto de estar inteiro ou intacto” e as ideias de inteireza.93. Didaskaliai. healthy (de boa saúde). emocionais e pulsionais. Jean-Yves LELOUP. do pali sabba (tudo. integridade e perfeição. Matosinhos. 40 Cf. são e salvo). salvação). Da Saudade como Via de Libertação. António Braz Teixeira. Soteria. Paulo BORGES. AAVV. || 32 miolo_Meditacao. Está na origem do indo-europeu solwos (“sê inteiro”). 41 Ibid. “to- do”). são) e heilig (santo.. tudo” e está muito presente no vocabulário religioso. Une tradition contemplative oubliée. do sânscrito sarvah.33-34. Saudar e Salvar: para uma teoria das duas saudades”. o que pode ter também fundamento etimológico 43. 38 E VAGRO PÔNTICO. 65-74. dos termos ingleses all (tudo). “respirar amplamente”. p. com a ajuda divina. tudo). Arnaldo Pinho e Renato Epifânio). Lisboa. whole (inteiro). pp. p. “Saudade e Saúde. é desta saúde. Celeste Natário. Écrits sur l’Hésychasme. isso que Jean-Yves Leloup propõe compreender. do grego holos (“inteiro”. que o “tornará disponível para as aventuras inspiradas da Consciência e da Vida” 40. Praktikos.92. tem aliás sentidos tão amplos como “ter o coração ao largo”. 39 Cf. equivalente à recuperação da saúde perdida. 2012. Odon VALLET. p. fonte de todas as perturbações. 2008. utis (saúde. todo). e que a apatheia não tem o sentido ac- tual de apatia. 2-3. Quid Novi. numa linguagem actual. DOROTEU DE GAZA. Exercices spirituels et philosophie antique. na apatheia 39. psíquica e espiri- tual” 41. consistindo antes num estado livre de todas as patologias mentais. do latino salus. “salvação”. que significa “todo. 43 C f. totalidade e perfeição que há em nós a mais funda saudade. holy (santo) e dos alemães alles (todo.232-234. “estar em plena saúde. A supressão da vontade conduz ao “des- prendimento (aprospatheia)”. integridade. 42 Cf. sagrado) 42.71. 20. No con- texto cristão. inteiro. não ego-centrada”. esta saúde é a salvação (soteria). pp. mediante a passagem da “atitude «ego-centrada»” do homem doente à “atitude cristo-centrada ou teo-centrada” do homem são.indd 32 07-09-2017 07:59:37 . do avéstico haurva (ileso. intacto.

Quanto ao “pecado”.indd 33 07-09-2017 07:59:37 . Recorde-se que. Albin Michel. pp.72. 21-29. constitui assim uma terapia que visa libertar da divisão. Vilém FLUSSER. convergindo a apatheia com o estado de espontaneidade. dar um passo em falso. com os outros e com Deus 45. Sobre o “diabólico”. independentemente do carácter favorá- vel ou desfavorável das circunstâncias e dos seres. as suas ideias. p. enquanto treino constante de uma atenção a si. 2007. Une tradition contemplative oubliée. cf. Annablume. 33 || miolo_Meditacao. pp. pp. menos dramática. como acontece no “amor dos inimigos” proposto por Cristo (Lucas. São Paulo. Paris. História e Mito. do hebreu shatan. Écrits sur l’Hésychasme.. A apatheia é assim “um estado de clareza da inteligência que «vê» as coisas tais quais são. indicando o que se opõe à unidade do homem consigo.. por seu turno. Para se chegar a este estado de saúde. 89-106. poderá ser compreendida a uma outra luz. Jean-Yves LELOUP. de través 46. Meditação. 45 C f.52-54.61. Trata-se daquilo que a tra- dução grega da Bíblia designou como diabolé. as suas ideologias (ídolos)”. p. que ama incondicionalmente. se recordarmos que vem do peccatum latino. verte o hebreu 44 C f. essa palavra tão traumática para a consciência ocidental. que significa “falhar um alvo ou um objectivo”. “obstáculo”. finalmente. a Liberdade Silenciosa O exercício meditativo. Praktiké. revisão técnica de Gustavo Bernardo. ou seja. Odon VALLET. 6. “sem retorno sobre si”). como os sete pecados capitais ou mortais. Ibid. que se pode considerar um método terapêutico para identificar e li- bertar o homem dos “logismoi” (pensamentos) patológicos que a posterior tra- dição cristã designará como “demónios” ou “diabolos” e. 2ª edição. o “espírito que semeia a divisão”. 27-35) 44. A História do Diabo. 46 Cf. inocência e simplicidade evangélicas (Jean-Yves Leloup recorda que simplicitas quer dizer “sans pli”. Lisboa. 2004. sem dobra. sem as referir a si. que por sua vez traduz o grego amartia. etimologicamente. Mitologia. Por isso é também um estado de “pureza do coração”. o qual. sem aí se projectar com as suas memórias. ou seja. apresentação de Constança Marcondes César. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. “diabolos” é o que divide (dia) e dilacera o homem. do verbo peccare. limitação e parciali- dade inerentes ao egocentramento e restaurar a fruição da sanidade/plenitude fundamentais do ser. 2006. Eudoro de SOUSA. in Mitologia. de diaballein. lançar de lado. Evagro Pôntico redige um tratado. o que se surpreende ainda na etimolo- gia de “Satã”. Petit lexique des mots essentiels.

com o sentido primitivo de “murmurar a meia-voz” 49 – . Une tradition contemplative oubliée. O engano. que expressa “o facto de se revoltar” 47. que se desvia e transvia de um rumo certeiro. produzir e acumular teres. p. surge ainda a meditação hesicasta. 1999. mas antes a de “estar cada vez mais próximo de Aquele que é o próprio ser ao ponto de não fazer senão um com ele”. Na linha destas práticas dos primeiros séculos do cristianismo. saberes e poderes”.53. Paulo Borges pâcha. in Oeuvres. equivalente à quies latina e ao shalom hebraico 50. ainda a partir de Evagro Pôntico.697. p. das suas funções. na experiência 47 Cf. Jean-Yves LELOUP. compreende-se que Jean- -Yves Leloup interprete a amartia. a “paz interior”. além da sua classe. Écrits sur l’Hésychasme. Simone Weil esclarece que “O pecado não é uma distância.19. Une tradition contemplative oubliée. Paris. reencontra a sua identidade de filho de Deus” 51. entendidos como “sintomas de uma doença do espírito ou doença do ser” 48. convergem com o sentido de uma pro- jecção oblíqua e dia-bólica.178-179. Gallimard. propiciaríamos com isso a abertura a uma cons- || 34 miolo_Meditacao. se nos esquecêssemos de que somos cristãos – e até seres humanos – . 50 Cf. pedreiros. de diaballein.. Écrits sur l’Hésychasme. L’amour de Dieu et le malheur (1942). directo ao objectivo. executivos. Raimon: “Se por um momento nos es- quecêssemos de que somos professores. como o estado em que se está “ao lado de si mesmo”.. o repouso do sétimo dia. pp. 48 Cf.43-44. etc.. Ibid. Odon VALLET. das suas máscaras. que neste sentido não é senão o repouso em Deus. p. Se o objectivo é a saúde e a realização plena de si.indd 34 07-09-2017 07:59:37 . Jean-Yves Leloup recorda que a missão humana fundamental não é a de “fazer. “O mais ignorado e o mais importante” dos direitos humanos é assim o direito “à con- templação” e é no respeito por este Sábado interior que “o homem. Esta paz e esta quietude correspondem ao sentido espiritual do Shabbat. p. Jean-Yves LELOUP. Daí a importância da amerimnia. 49 Cf. a despreocupação. Petit lexique des mots essentiels. para culminar na experiência do silêncio (cuja etimologia remete para quietude e imobilidade) e da hesychia. por integração na plenitude divina ou ontológica. ou seja. edição estabelecida sob a direcção de Florence de Lussy. pp. Como escreve também Panikkar. cujo exercício espiritual se apoia na oração murmurada e invocativa de Deus. o desvio e o fracasso. na realidade plena e última. Ibid.43. ritmada com a respiração – a meleté grega e a medita- tio latina traduzem o hebraico haga. 51 Cf. presentes nas expressões grega e latina. É uma má orientação do olhar” – Simone WEIL. patente nos vários pecados capitais.

Os “pensamentos” são aqui todos os movimentos pulsionais. é semelhante a um homem que se houvesse entravado solidamente os pés e pretendesse acelerar o passo” 53. passionais e perturbadores da alma e do corpo que se traduzem em comportamentos doentios. P. Estes “pensamentos” (logismoi) são precisamente as “malformações ou de- formações patológicas” que devem ser purificadas pela já referida Praktiké de Evagro Pôntico. Já Evagro Pôntico havia escrito que “não se pode correr amarrado” e que uma inteligência “sacudida para aqui e para ali por via do pensamento apaixonado […] não pode manter-se inflexível” 54. Meditação. 88. Ediciones Península.43. 52 João CLÍMACO. o que divide ciência da realidade da qual podemos ser porta-vozes. p. razoáveis ou irrazoáveis” 52. pois na pacificação da mente desaparece o “pequeno eu” configurado pelas pré-ocupa- ções. pois a oração é eliminação de pensamentos” 55. É essa ausência de preocupações e inquietações que abre o caminho à contemplação e união com Deus. a Liberdade Silenciosa hesicasta. Barcelona. G. 56 Cf. dissolvido na abertura “à Outridade que o funda” 56. 2001. 1181d. 79. De Oratione.47. João Clímaco precisa que a ausência de preocupações implica a de “pensamentos”.G. contrários à sua natureza profunda e sã. 54 Evagro PÔNTICO. entendidos aqui como as “preocupações contínuas” que agitam a mente. La experiencia de Dios. Écrits sur l’Hésychasme. 1109b. 79. 71. Neste sentido compreende-se que na tradição cristã posterior sejam desig- nados (e mitificados) como “demónios” e “diabos” (de dia-bolos. P. p. 1112 a. o monge do deserto cujo tratado de terapia espiritual será di- vulgado no Ocidente por João Cassiano. des- prender-nos. 55 João CLÍMACO.indd 35 07-09-2017 07:59:37 . e se deixa perturbar pelas preocupações. Une tradition contemplative oubliée. de todo o conjunto de atributos que. ao identificarmo-nos exclusivamente com eles limitam-nos e. 70. se em muito conformam a nossa persona- lidade. frequentemente. asfi- xiam-nos” – Raimon PANIKKAR. De Oratione. pois “quem quer colocar em presença de Deus uma inteligên- cia pura. 1181. P. Jean-Yves LELOUP.. 53 Ibid. Para isso devemos despojar-nos. 3ª edição corrigida e aumentada.G. 35 || miolo_Meditacao. Scala Paradisi. ligadas ou não ao mun- do material: “Não poderás ter a oração pura se estás embaraçado com coisas materiais e agitado por preocupações contínuas. “Esta ausência de pensamentos é esquecimento de si”. Por esse motivo. Iconos del Misterio. Como diz João Clímaco: “A obra principal da hesíquia é uma ame- rimnia perfeita a respeito de todas as coisas.

Senhor. A tradição meditativa e contemplativa no cristianismo ocidental ocultou- -se e confinou-se nos mosteiros e em grupos restritos. Focando a atenção no mantra. João (22. ideias. Petrópolis. ou seja. Apro- 57 Cf. 6). orgulho. Meditation: a way of setting God free in the world. Na prática diária desta meditação cristã encontram-se notáveis afinidades com várias tradições de meditação oriental. acédia (desespero suicidário). integrando algumas das mais antigas liturgias cristãs (Didaqué. 59 J ohn MAIN. Um manual de meditação cristã. João CASSIANO. tradução do latim de Adriano Correia Barbosa. Londres. 2007. Todavia. pp. 2011. muitas vezes conducentes à acção caritativa social e até política. 22) como o Apocalipse de S. Pedra Angular. depressão. cólera. um contemplativo contemporâneo como John Main redescobriu a tradição da oração contemplativa por via de João Cassiano 58 e fundou a Comunidade Mundial para a Meditação Cristã. sendo classificados como os oito sintomas doentios que mantêm o homem no estado de amartia ou pecado. perante o desenvol- vimento do cristianismo como religião de Estado com uma teologia e uma filosofia predominantemente racionais e morais. The Heart of Creation. The Canterbury Press Norwich. palavras e imagens. Vozes. o Grande. falhando o alvo da plena realização de si: gula. tornando-se o praticante “pobre em espírito”. ava- reza. no sentido etimológico de “estar/ passar ao lado de si mesmo”. como os sete pecados capitais 57. Da Oração. abandonam-se todos os pen- samentos. B. num “acto totalmente desegoízado [selfless]” de “fazer algo sem qualquer preocupação pelo que vamos colher disso”. O. || 36 miolo_Meditacao. como o sentar-se imóvel. problemas. de Deus e de tudo. 58 Cf. mas privadas do alimento interior e da eficácia iluminativa e terapêutica da espiritualidade. fechar os olhos e repetir interiormente as sílabas da frase-oração aramaica maranatha. por vezes no coração e ao ritmo da respiração. 20). introdução de Lino Correia Marques de Miranda Moreira. todas as patologias que virão a ser codificadas por Gregório.. e com eles todos os planos. 2008.17 e 30. Lisboa. A palavra que leva ao silêncio. edição e introdução de Laurence Freeman. a respeito de si.indd 36 07-09-2017 07:59:37 . S. assumida como um “mantra” cristão que significa “Vem. obsessão sexual. Senhor Jesus” 59. 10. vã glória.1-2. entre outros. pp. Vem. pp. expectativas e exigências. Paulo Borges e dilacera).53-54. Ibid.. tradução de Artur Morão. John Main recorda que esta palavra encerra tanto a primeira carta de São Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 16.

Harmondsworth. nem conheço a minha ipseidade a não ser n’Ele” 64. sem essa comprovação prática. B. Expanding spiritual horizons through meditation. p. introdução de Laurence Freeman. onde se encontra “o espírito de Deus” 60. S. Door to Silence. Nova Iorque. 12. o que tu és. tu o és em Deus” 61. 2008. Meditation as pure prayer. O silêncio desta experiência 60 J ohn MAIN. Penguin. I. Prior Velho. Spearing. 37 || miolo_Meditacao. in The Cloud of Unknowing and Other Works. tradução de A. “O centro da alma é Deus” 63. também Laurence FREEMAN. seleccionados com uma introdução por Laurence Freeman. se designa como meditação) é a experiência directa das afirmações que se encontram nas obras de espiritualidade e mística cristã. Into the Silent Land. outras obras de John MAIN: Essential Writings. in Obras Completas. Light Within. entra-se numa crescente entrega à “realidade nos seus mais fundos íntimos”. Predigten. 64 Santa CATARINA DE GÉNOVA. cf. Norwich. 2009. Orbis Books. Norwich. 2002. “O meu Eu é Deus. 5b. editados e comentados por Niklaus Largier. editado por Laurence Freeman. 2003. fi- cam no domínio exterior da mera crença ou representação intelectual. Madrid. p. O caminho da meditação. Meditação.923. Canterbury Press. Franz JALICS. An anthology for Christian meditation. textos e versões de Josef Quint. The Way of Unknowing. cit.51. pp. Oxford University Press. p.104 (citado em Martin LAIRD. Fully Alive. Frankfurt am Main. 2013. UNDERHILL. Norwich. Meditation: a way of setting God free in the world.indd 37 07-09-2017 07:59:38 . 2002. Cf. Canterbury Press.71. The Practice of Contemplation. 2001. 5b... Canterbury Press. sempre susceptível de dúvida ou negação. C. Norwich. editado por Laurence Freeman. 62 “Hier ist Gottes Grund mein Grund und mein Grund Gottes Grund” – Mestre ECKHART. Paulinas Editora. C. The Mystics of the Church. Contemplative Retreat. 1975. 61 ANÓNIMO. Xulon Press.9. 2012. que são os do próprio si e do próprio espírito. a simplicidade e a humildade. mas que. a Liberdade Silenciosa fundando o silêncio. Cf. A. A peregrinação interior. The Heart of Creation. Deutscher Klassiker Verlag. por crentes ou descrentes: “Deus é o teu ser e. Werke. An introduction to the Contemplative Way of Life and to the Jesus Prayer. 2010. Pode-se dizer que a meditação ou contemplação (na tradição cristã medie- val a meditação tinha o sentido de reflexão e a contemplação correspondia à quietude que hoje. James Clarke. 63 “El centro de el alma es Dios […]” – São JOÃO DA CRUZ. com ligeira alteração da tradução). edição crítica preparada por Lucinio Ruano de la Iglesia. Nova Iorque. Llama de amor viva. sob a influência da espiritualidade oriental. p. in E. Para um guia de retiro contemplativo cristão.1- 3. The Book of Privy Counselling. 1. 2008. l. 2011. Canterbury Press. p. Maryknoll. “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo é o fundo de Deus” 62.

nos movemos e existimos” (Actos dos Apóstolos. que é hoje predominantemente desco- berta pelos ocidentais e da qual foi extraída a mindfulness 67. p. está oculta com Cristo em Deus e para além do alcance da compreensão. Ware. Esta “não coisa” [“no thing”]. Mark G. como uma ex- periência de nenhuma coisa particular. editado por J. esta vacuidade. se na verdade se regista. origins. Faber and Faber. um grande e fluente abismo. Mark G. The Practice of Contemplation. Comentando a mesma não-dualidade em pas- sagens famosas de São Paulo – “Já não sou eu que vivo.indd 38 07-09-2017 07:59:38 . 1979. “Pois nele vivemos. p. Diverse Perspectives on its Meaning. WILLIAMS e John KABAT-ZINN. 9. a budista. Sherrard e K. para aqueles cuja mente se dilatou numa mente-coração. tradução de G. com os riscos 65 S ão DIÁDOCO DE FOTICEIA. citado em The Philokalia. Martin Laird expõe-a de um mo- do notavelmente convergente com as formulações da experiência meditativa oriental e particularmente budista: “Precisamente porque a nossa mais profunda identidade. 255 (citado in Martin LAIRD. um fundo sem fundo. and multiple applications at the intersection of science and dharma”. I. “Mindfulness: diverse perspectives on its meaning. 17. pp. Mindfulness. Mas. isto pode parecer um terror que lida com a morte ou uma vertigem giratória. Para aqueles que só conhecem a mente discursiva.14. 19). 4. mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas. P. a experiência desta identidade-fundo que é uma com Deus será registada na nossa percepção. não é uma ausência. fundando a personalidade. On Spiritual Knowledge. 67 Cf. 66 Martin LAIRD. enquanto experiência de um “âmago fundacional” da identidade irredutível a toda a objectivação.9-10). é um encon- tro transbordante com o fluxo da vasta e aberta vacuidade que é o fundo de tudo. 2. 28) – . Into the Silent Land. J. The Practice of Contemplation. Into the Silent Land. Paulo Borges não-dual permite compreender a observação de São Diádoco de Foticeia acerca daqueles que são “conscientemente iluminados pelo conhecimento espiritual. Palmer. Williams e Jon Kabat-Zinn. Londres. embora não falem de Deus” 65. A meditação no budismo O anterior e notável trecho permite uma oportuna ponte para aquela tra- dição meditativa oriental. Routledge. Londres/Nova Iorque. in AAVV. mas uma superabundância” 66. || 38 miolo_Meditacao. Origins and Applications.

de nenhu- ma entidade. mediante uma atenção plena concentrada de modo está- vel. Wisdom Publications. ou substancial. 10. II 156-57. a respiração. 70 Cf. pp. não conceptual. No Sattipātthana Sutta 2013.indd 39 07-09-2017 07:59:38 .). os pensamentos/emoções. expõe-se que o treino da mente ou meditação se baseia numa ética pura – em que o praticante se abstém de prejudicar e procura beneficiar a si e a todos os seres mediante todos os actos mentais. texto-raiz de Kamalashila. Num dos mais sistemáticos tratados tradicionais. Âncora Editora. A visão penetrante (vipaśyāna). que indica a não existência intrínseca ou inerente. traduzido para o inglês por Venerável Geshe Lobsang Jordhen. prefácio do Dalai Lama. etc. posições filosóficas que respectivamente sustentam a existência de entidades substanciais e a não-existência ou a aniquilação absoluta. passa-se progressivamente para 2) a visão penetrante (vi- paśyāna) da natureza última desse objecto e da própria realidade. 68 C f. 2005. que usa como instrumento a concentração meditativa ineren- te a śamatha. editada e introduzida por Bhikkhu Bodhi. Anguttara Nikāya 2: III. em si e por si. An anthology of discourses from the pāli canon. um objecto mental visualizado. do tal qual de todos os fenómenos e da mente que os percepciona 68. numa visão equidistante do essencialismo ou eternalismo e do niilismo. Esta complementaridade de śamatha e vipaśyāna remonta ao registo das palavras do Buda nos primeiros sutras 70. Meditação. pp. pp. Na tradição budista esta natureza última é designada como “vacuidade” (śunyātā). os Estágios da Meditação. as sensações físicas externas e internas. os sete pontos da postura do corpo. de Kama- lashila. Mantendo a disciplina ética. 4:170.1-17. Estágios da Meditação. tradução portuguesa de Paulo Borges. verbais e físicos – e as- sume dois aspectos: 1) começando pelo cultivo da calma. 69 Cf. Lisboa. em In the Buddha’s Words. claro e sem tensões num determinado suporte (um objecto material.. no sentido da interdependência de todos os fenómenos/percep- ções. Losang Choephel Ganchenpa e Jeremy Russell. DALAI LAMA. a Liberdade Silenciosa inerentes à sua decontextualização de que adiante nos ocuparemos.268-270. a própria consciência. da verdadeira natureza dos mesmos.125-127.99-100 e 113-116. a absorção meditativa converte-se em sabedoria 69. serenidade ou paz mental (śamatha). pp. cit. 2001. Ibid. tem por sua vez duas instâncias: uma em que a mente analisa o modo de ser dos fenómenos e outra em que essa análise dá lugar a uma compreensão directa ou intuitiva. Boston. I 61. 39 || miolo_Meditacao.

na mesma medida em que liberta a mente da ignorância que a condiciona. que vê o real tal qual) – . 73 Ibid.62. Wisdom Publications/Barre Center for Buddhist Studies. eficácia causal e dissolução” de todos os “domínios da experiência” relativos ao corpo. 2006. se aplica em vipaśyāna mediante uma investigação e compreensão directa da “origem. o que confirma a sua prática tradicional como via para a compreensão directa da natureza última do real. 1995. uma nova tradução do Majjhima Nikāya. com os seus derivados conceptuais e emocionais. é suposto que a prática meditativa verifique directa e experimentalmente os próprios fundamentos da visão budista do mundo – que se assume como a visão da realidade tal qual é (Buda designa apenas a consciência desperta. pp. Wisdom Publications.145-155. 3 – o remédio consiste no nirvāna ou cessação do sofrimento por abolição das suas causas. no sentido do desconhecimento da natureza última da mente e das coisas. segundo uma perspectiva terapêutica: 1 – o diagnóstico é o reconhecimento de que todas as experiências condicionadas ao longo da vida são dukkha. p. ao longo do qual o praticante se vai libertando de níveis cada vez mais subtis dos dois principais obstáculos à meditação – a agitação e o torpor mentais – . prefácio de Daniel Goleman. Com efeito. permitindo compreender/ 71 S attipātthana Sutta. tradução original do Pali por Bhikkhu Ñānamoli. presença. que leva à percepção de uma separação e dualidade entre o suposto eu e o mundo e daí ao egocentrismo do desejo possessivo e da aversão. insatisfação. frustração e imperfeição. Se nesta perspectiva a meditação é contemporaneamente considerada co- mo “uma rigorosa ciência contemplativa da mente e da sua relação com o corpo e o meio ambiente” 73. Boston. editada e revista por Bhikkhu Bodhi. termo que implica as noções de sofrimento. 72 B . mal-estar. Boston.indd 40 07-09-2017 07:59:38 . isto é inseparável da sua eficácia terapêutica e purificadora enquanto promove a progressiva desconstrução das patologias mentais/emocionais (kleśās) que na tradição budista assumem uma função semelhante aos pecados cristãos. Unlocking the power of focused mind. The Attention Revolution. in The Middle Length Discourses of the Buddha. Paulo Borges 71 o Buda descreve como o cultivo da atenção plena em śamatha. 2 – a etiologia consiste em indicar como causas de dukkha a ignorância. 4 – a aplicação do remédio é a via que assume três aspectos: || 40 miolo_Meditacao. Alan WALLACE. A meditação culmina o processo terapêutico inerente às quatro nobres verdades 74. às sensações e aos estados/processos mentais 72. 74 “A base do ensinamento do Buda Śākyamuni consiste na exposição das Quatro Nobres Verdades. no sentido etimológico e profundo atrás recordado.

a avareza/avidez dos espíritos famintos e o ódio/cólera dos seres in- fernais 76 são transmutados em amor. “Nenhuma coisa existe em si e por si”. hesitações e apego dos homens. Estudos e ensaios sobre a via do despertar. DZONGSAR JAMYANG KHYENTSE.11. traduzido por Stéphane Bédard. o torpor mental dos animais. Descobrir Buda. “Todas as emoções são dor”. meditação (libertar a mente de todos os conceitos e emoções que a agitam. Unlocking the power of focused mind. 78 Cf. 75 Cf. 76 Sobre as seis emoções e os seis modos/mundos de existência.. O que não faz de ti um budista. 1995. Ao longo deste processo as seis emoções perturbadoras que. Éditions du Seuil. o orgulho dos deuses. são transcendidas e transformadas na sabedoria das quatro meditações ilimitadas: as dúvidas. 2010. vê e experimenta e o que é apreendido. The Attention Revolution. tratando-se antes de descobrir a quietude e luminosidade inerentes à própria mente/consciência 78. Meditação. John Wiley & Sons.7. tradução de Paulo Borges. prefácio de Judith L.13-14 (texto ligeiramente modificado). incluindo da mente que os percepciona. Bardo. “O nirvana transcende os conceitos” 75. Lief. Genuine Happiness. New Jersey. visto e ética (não prejudicar nenhum ser vivo e fazer tudo para o bem de todos). o ciúme/inveja dos semi-deuses. pondo a vida ao serviço do bem e da libertação de todos os seres)” – Paulo BORGES. Lua de Papel. B. Au-delà de la folie. Hoboken. Tornando a mente consciente do próprio estar consciente. estruturam a percepção dos seis mundos possíveis da existên- cia condicionada (samsāra). 2005. calma e pacífica) e sabedoria (o conhecimento directo da vacuidade e sacralidade de todos os fenómenos e o viver em conformidade com isso. pp. 41 || miolo_Meditacao. 2009. derivadas da ignorância e da dualidade conceptual. Alan WALLACE. cf.107-153. Lisboa. pp. A culminante experiência meditativa é a da meditação na natureza da própria mente ou consciência. desenvolvendo uma atenção concentrada. Meditation as a path to fulfillment. pp. o Dalai Lama. Alfragide. mediante o que se designa como śamatha sem objecto. Id. Âncora Editora. prefácio de S.indd 41 07-09-2017 07:59:38 .309-347. pois já não se trata de desenvolver a estabilidade e vivacidade da atenção focando-a num suporte externo. S. a Liberdade Silenciosa reconhecer vivencialmente os quatro selos: “Todas as coisas compostas são impermanentes”. alegria e equanimidade 77 acompanhados da visão da vacuidade de todos os fenómenos. Chögyam TRUNGPA. compaixão. p. autodesvela-se a clareza de um estado sem “elaborações conceptuais” nem dualidade entre sujeito e ob- jecto ou entre quem apreende. p. 77 Cf. Paris.

“Mestre Eckhart e Longchenpa: do fundo sem fundo primordial como nada e vacuidade”. sempre que. Alan WALLACE. também Düdjom LINGPA. Califórnia. A meditação consiste então em repousar apenas nesse estado. Maria Leonor L. Buddahood Without Meditation.567-579. a tantra on the self-originating nature of existence. org. Mind in the Balance. in GYATRUL RINPOCHE. Alan Wallace e Sangye Khandro. p.18-19. Zéfiro. 80 Düdjom LINGPA. subduer of demons. in AAVV. no dizer de Longchenpa.149. I. que foram contemporâneos. 82 Cf. p. emerge todavia como absolutamente tudo” 82. Alan Wallace. Junction City. and Dream Yoga. traduzido do tibetano sob a direcção de Ghag- dud Tulku Rinpoché por Richard Barron. A Visionary Account Known as “Refining Apparent Phenomena” (Nang-Jang). Paulo BORGES. Junction City. cremos que a expe- riência directa deste “fundo sem fundo” aponta uma notável convergência das mesmas.3. Embora diversamente interpretada e conceptualizada em função das dis- tintas matrizes culturais das tradições budista e cristã. Meditation in Science. cit.136. 2002. 2001. Alameda. Esse “fundo de ser como espaço fundamental (zhi- -ying)” 81 é. 1994.indd 42 07-09-2017 07:59:38 . A Questão de Deus na História da Filosofia. “vazio em essência”. Sobre esta questão. tradução de B. Sintra. in B. Meditation. 83 Cf. Ítaca. 2004. Buddhism. and Christianity. || 42 miolo_Meditacao. O. 81 Cf. Paulo Borges experimentado. Mirror of Wisdom. pois ele é a própria luminosidade do “espaço” primordial que é o “fundo” comum da mente e de todos os fenómenos animados e inanimados. editado por membros da Comissão de Tradução Padma: Susanne Fairclough. The Precious Treasury of the Basic Space of Phenomena. um budista e outro cristão. até ao nível da linguagem (como procurámos mostrar em dois grandes mestres. o qual. traduzido sob a direcção de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche por Richard Barron (Lama Chökyi Nyima). LONGCHEN RABJAM (LONGCHENPA). Transformation. segundo o excerto atrás citado 79 C f. DUDJOM RINPOCHE. tradução de B. 2008. jamais havendo “existido como o quer que seja. cit. pp. p. Nova Iorque.25. The Vajra Essence: from the matrix of pure appearances and primordial consciousness. pp. Snow Lion. Padma Publishing. sem mais 79. Ibid. o “fundo de tudo o que surge”. Longchenpa e Mestre Eckhart 83). Xavier. edição bilíngue tibetano-inglês. p. um “espaço vazio” que tudo impregna e que não é senão a “grande […] vacui- dade” que se manifesta na aparente dualidade entre a mente e os fenómenos devido ao ignorante e ilusório “poder do apego ao eu” 80 (como uma entidade substancial e separada). Mary Racine e Robert Racine. Jeff Miller. The Illumination of Primordial Wisdom: an instruction manual on the utterly pure stage of perfection of the powerful and ferocious Dorje Drolö. Padma Publishing. cf.

tradução de António Maia da Rocha. Meditação. a Liberdade Silenciosa de Martin Laird. Prior Velho. “Vacuidade e Deus (um estudo comparado entre Nāgārjuna e Pseudo- Dionísio Areopagita)”. pp. Pablo D’ORS. Jean-Marie GUEULLETTE.14. 5. Paulinas. o sofrimento e o sentimento do sem sentido da existência numa tradição religiosa e cultural onde desde há muito a teologia e a filoso- 84 Martin LAIRD.103-154. a “mente discursiva” se dilate nessa “mente-coração” onde se dá o “encontro transbordante com o fluxo da vasta e aberta vacuidade que é o fundo de tudo”. a insuficiência da New Age e da mindfulness e a urgência de redescobrir a expe- riência meditativa profunda No que respeita à meditação. esta vacuidade. desaprenderam ou recusaram na sua própria tradição e que hoje sentem a crescente necessidade de recuperar (há neste sentido um esforço da tradição cristã católica para renovar as práticas meditativas e contemplativas no seu seio 86 ). A Biografia do Silêncio. Pequeno Tratado da Oração Silenciosa. The Practice of Contemplation. não perde o seu inefável sabor único pelo facto de uns a designarem como “Deus” e outros como “vacuida- de”. é um facto serem hoje pre- dominantemente as culturas orientais. no superabundar disso que não é nem não é isto ou aquilo que se possa pensar-dizer-imaginar. 86 Entre muitos exemplos. p. enquanto expressões-limite que convidam ao limiar da sua superação no silêncio radical 85. 2014. A contemporânea ânsia de espiritualidade. não é uma ausência. Estamos convictos que es- ta experiência de plenitude. experiência transversal a Oriente e Ocidente e a muitas culturas fora do eixo oriental-ocidental. mostrando que “esta «não coisa» [«no thing»]. Paulinas. tradução de Maria do Rosário de Castro Pernas. Paulo BORGES. Há actualmente no Ocidente uma evidente nostalgia e ânsia de uma ética e espiritualidade prática em muitas consciências que se sentem órfãs e perdidas no meio do materialismo e niilismo contemporâneos e têm dificuldades em encontrar respostas e meios eficazes de lidar com as dificuldades externas. mas uma superabundância” 84. que contribuem para recordar e ensinar aos ocidentais aquilo que eles esquece- ram. Breve ensaio sobre meditação. já anteriores. in Descobrir Buda. 43 || miolo_Meditacao. Prior Velho.indd 43 07-09-2017 07:59:38 . Estudos e ensaios sobre a via do despertar. 2016. Into the Silent Land. 85 Cf. e em particular as tradições budistas. cf. os conflitos internos.

ambiental e político bem intencionado. da serenidade contemplativa e da sua expressão numa acção movida pela igual abrangência amorosa-compassiva de vítimas e agressores (enquanto vítimas da sua própria agressão). traduzida numa vida exem- || 44 miolo_Meditacao. mas quase sempre dualista. Paulo Borges fia se intelectualizaram. Esta situação só torna mais urgente redescobrir a profunda experiência me- ditativa. no sentido amplo e não necessa- riamente religioso atrás referido. pelas suas linha- gens de mestres e discípulos e por aqueles que as recriam e renovam a partir de uma verdadeira experiência e inspiração interior. apesar dos seus reconhecidos benefícios. desenvolvimento pessoal e culto da felicidade.indd 44 07-09-2017 07:59:38 . desprezando ou minorando a sua dimensão ética e sapiencial. bem como da missão de alargar a consciência para além da luta pela sobrevivência. pois desprovido de enraizamento numa cultura da transformação interior. a voga da mindfulness tende a preen- cher o espaço do mal-estar resultante do esvaziamento do sentido da vida com uma proposta que. que tende a instrumentalizar a meditação para os fins utilitários e pragmáticos da sociedade de produção e consumo. onde. é a contemporânea corrida à profusão de publicações sobre autocura. da qual nos ocuparemos sobretudo no terceiro ensaio deste livro. escolarizaram e divorciaram da vida. ou espiritual. veiculada pelas tradições autênticas da humanidade. Sinal dessa ânsia e nostalgia de uma espiritualidade não demitida da função terapêutica das tensões do existir e das patologias psíquicas. inibindo o desejo de libertação e de superação da experiên- cia dualista e autocentrada do mundo. a par de uma minoria de obras credíveis. se revela limitada e pode até tornar-se contraproducente. na medida em que tenda a diminuir o po- tencial libertador da insatisfação inerente à experiência da dor e do sofrimento e a reconciliar os praticantes com os condicionamentos da vida mundana e da cultura dominante. e os seus inequívocos benefícios relativos. muitas vezes misturados nos estéreis ou já perigosos cocktails “espirituais” New Age (sem prejuízo das boas intenções que sob este rótulo se conjugam). Pesem as muitas e muito honrosas excepções. O mesmo se pode dizer da ac- tual voga da mindfulness. a ética e a moral declinaram em moralismo judicativo e a acção sucumbiu ao activismo social. auto-ajuda. reactivo e imbuído de ressentimento e negatividade. o público se expõe a todos os riscos da sua exploração comercial pela nova indústria dos sucedâneos das tradições espirituais autênticas.

arrisca-se a precipitar- -nos num colapso ecológico e civilizacional sem precedentes 87. Defendemos assim que a medi- tação. a fama e a riqueza. na sociedade em geral. 45 || miolo_Meditacao. que conduz precisamente a uma experiência não-dual onde se desvanece a ficção da separação entre eu e outro. que é o mesmo que redescobrir que o âmago da consciência é o âmago do real. Stéphane FERRET. Love Letter to the Earth. e assim de uma nova organização social. Parallax Press. Berkeley. humanos e não-humanos. sujeito e objecto. No caso do Ocidente. Da redescoberta da essência da experiência meditativa e contemplativa pro- funda. deve estar no centro de um novo paradigma mental. 2007. a Liberdade Silenciosa plar. depende reconhecermos que somos o mundo e todos os seres e amá-los como a nós mesmos 88. os seres vivos e consigo mesma. Berkeley. em que claramen- te se reconheça e assuma que o mundo natural e os seres sencientes. Edições Mahatma. 88 Cf. critério seguro de autenticidade. Por outro lado. que reflecte a ausência da experiência meditativa e contemplativa profunda na cultura dominante. meditação e contemplação cristãs. o sucesso. ético. desprendida do engodo pelo poder.  f. possuem um valor intrínseco e não meramente instrumental e não nos são de modo algum exteriores como meros objectos e recursos a explorar para a (im- possível) satisfação da nossa avidez. o estado actual do planeta e da civilização. o agravamento dramático da relação destrutiva da hu- manidade com a natureza. 2011. Meditação. é legítimo esperar que o actual contacto com as tradições meditativas orientais possa redespertar o interesse pela tradição da meditação filosófica. Quem é o meu próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional.indd 45 07-09-2017 07:59:38 . World as Lover. de matriz greco-romana. A ausência desta visão não-dual e holística. Éthique de la Nature et Philosophie de la Crise 87 C Écologique. humanidade e mundo. Lisboa. prefácio do Maestro António Vitorino de Almeida. Parallax Press. Paris. política e económica. 2014. Paulo BORGES. nos decisores e nos centros de deci- são mais responsáveis pelo destino exterior do mundo. Joanna MACY. Seuil. Só por aqui se torna possível haver futuro sobre a Terra. são inseparáveis da nossa própria mente e da nossa própria vida. Thich Nhat HANH. 2013. cultural e civilizacional. World as Self. não amputada de toda a sua dimensão e exigência ético-sapiencial. tornam também ur- gente redescobrir a experiência meditativa profunda. Deepwater Horizon. e pela própria oração.

miolo_Meditacao.indd 46 07-09-2017 07:59:38 .

tradução de Gilda Lopes Encarnação. A agressão e os problemas não vêm tanto do outro.indd 47 07-09-2017 07:59:38 . “O  f. A Sociedade do Cansaço. Se- gundo o mesmo autor. A grande patologia e violência contemporânea é a do império do idêntico. La Transparence du Mal. Byung-Chul HAN. título de um desafiador livro do pensador coreano Byung-Chul Han. à nossa hiperactividade auto-afirmativa. Essai sur les phénomènes extrêmes.. “determinadas doenças neuronais. Segundo ele. II No olho do furacão. o trans- torno por défice de atenção e hiperatividade (TDAH) ou certas perturbações da personalidade – transtorno de personalidade borderline (TPB) ou síndroma de burnout (SB) – descrevem o panorama patológico do início do século XXI”.13-14. 1990. mas sim a uma repulsa e a uma recusa digestivas e neuronais” 90. Paris. onde se cita e critica Jean BAUDRILLARD. Ibid. por um excesso de positividade” 89. no estado de “sobreprodução. perdemos a imunidade a nós mesmos. p.9. Na ânsia de nos tornarmos imunes a tudo. Galilée. sobrerrendimento e sobre- comunicação” ou hiper-informação que já não conduzem a qualquer “resistência imunológica. tais como a depressão. 89 C Lisboa. sim. mas. Do projecto moderno de dominar o mundo à sociedade da ace- leração e do cansaço Vivemos na “sociedade do cansaço”. mas de si mesmo. 2014. se “cada época tem as suas doenças pa- radigmáticas”. Relógio D’Água. contemplação e mutação do paradigma de consciência e de civilização 1. 90 Cf. o processo devorador de alteridade(s) inerente à aceleração da padronização globalizadora e que se traduz na “obesidade de todos os sistemas atuais” (Jean Baudrillard). às “infeções” sucederam-se os “enfartes. Meditação. pp. originados não pela negatividade do outro imunológico. 47 || miolo_Meditacao.

as ordens e as leis são substituídas pelos projetos. “as proibições e as obrigações. A Sociedade do Cansaço. O deprimido é o novo inválido da “guerra interiorizada” em que o sujeito do trabalho. sendo sobretudo uma mais interiorizada. Ainda segundo Byung-Chul Han. Enquanto a ne- gatividade repressiva da “sociedade disciplinar” “produzia loucos e criminosos”. marcados pela negatividade do “não poder” ou do “dever”. a fadiga e a sensação de sufoco” perante este excesso são as marcas de uma violência que hoje se tornou sobretudo “neuronal”. Ibid. que segundo Byung-Chul Han corresponde ao “curto-circuito do Eu” fundido no “sobreaquecimento provocado por um excesso do idêntico” 91. mas sim uma “sociedade de produção”. O animal traba- lhador converte-se no “homem depressivo” quando se cansa e farta “de fazer e de poder”. em inglês). tende a dizer também muito “Ai! Ai! Ai!” (expressão de dor). ou seja. da produção e do consumo se entrega à “livre coação” da 91 Cf. Expressando o mesmo de uma forma mais simples. we can”. “o animal labo- rans que se explora a si mesmo. mas na verdade por ele segregada.19-20. em particular o esgo- tamento (burnout). || 48 miolo_Meditacao. Ela já não vem “de uma negatividade alheia ao sistema”.16-17. “a sociedade de produção gera. tornado “agente e vítima ao mesmo tempo”.. difícil de reconhecer e por isso mais danosa “violência sistémica. como o terro- rismo (apesar de todas as suas trágicas manifestações). A queixa do deprimido – “Nada é possível” – é a ressaca da embria- guez de uma sociedade que eleva o “Nada é impossível” a máxima e expectativa supremas. com “sujeitos de produção” que são “empresários de si próprios. imanente ao sistema”. 92 Cf. Byung-Chul HAN. deprimidos e frustrados” 92. que é fundamentalmente o sistema mental/cerebral de um Eu que vê a massificação da sua “positividade” ou auto-afirmação converter-se num colapso interno. pp. O novo tipo humano é o do homem que vive para o trabalho. a situação contemporânea já não é a da “sociedade disciplinar” descrita por Michel Foucault. de forma voluntária. enfeitiçados pela aparente infinidade positiva do tudo poder. em contrapartida. Sob o lema do “Yes. pp. sob a forma das patologias indicadas. o actual Dalai Lama costuma gracejar referindo que quem diz muito “eu” (“I”. habitada por “sujeitos de obediência”. pelas iniciativas e pelas motivações”. Paulo Borges esgotamento.indd 48 07-09-2017 07:59:38 . sem necessitar de pressão ou coação alheia”.

destruindo ou ignorando as constitutivas relações de integração e dependência da alteridade que na sua autoprojecção rejeita ou pretende dominar e manipular a seu bel-prazer. reordenando-a pela acção e pelo trabalho para servir os interesses e os desígnios humanos. uma vez que o humano não pode sobreviver sem contexto 96.285. II. 96 Cf. o projéctil. 95 C Gallimard. o projecto moderno é destinado ao fracasso ou fracassou já no seu próprio princípio.  f. percepcionada como objecto a conquistar”. pois a pretensão de se privar de todo o contexto gera uma dialéctica autodestrutiva.indd 49 07-09-2017 07:59:38 . 94 C  f.. pp. p. O esgotante frenesim auto-explorador em que vivemos é a mais recente con- sequência do pro-jecto da modernidade (ela mesma nascida da ideia de projecto. p. da felicidade e da rentabilidade. 93 Cf. que no Assim Falava Zaratustra rejeita a superação do Supra-Ho- mem para se distrair com o trabalho e uns momentos de prazer e de felicidade 94 . como a “idade dos projectos”). Byung-Chul Han traça afinidades com o “último homem” nietzschiano. 2 – a tentativa de submeter a natureza. Ibid. o projecto moderno tem dois aspectos: 1 – uma decontextualização do humano que visa emanci- pá-lo de tudo o que se lhe apresente como uma origem simultaneamente ina- cessível e integradora. Ibid. II. um lançamento. 2015. Ibid. Rémi BRAGUE.. Le Régne de l’Homme. motivo que se substitui às vias tradicionais de uma ascese ou trabalho do espírito sobre si mesmo para de- senvolver as virtudes éticas e cognitivas e realizar o potencial de aceder ao nível último de consciência que reconhece e frui a perfeição do real na sua totalidade. antecipando a presente sociedade pós-moderna em que se fundem a obses- são do bem-estar. Cf. deuses.7-8. “perde o contacto com o motor” e segue o seu movimento de indefinido afastamento 95 . O projecto da modernidade profetiza um neo-messiânico reino do humano em que este se autodetermina a si mesmo como senhor do ser mediante um domínio tecnológico da “natureza exterior.22. Como aponta Rémi Brague. A palavra pro-jecto é aliás esclarecedora.12-14.22-23. Como substantivo não existe na Antiguidade e a sua etimologia sugere uma re-jeição e um jacto.. Friedrich NIETZSCHE. da saúde. Genèse et échec du projet moderne. Deus ou natureza. Also Sprach Zarathustra. um arremesso impetuoso no qual o móbil. pp. pp. a Liberdade Silenciosa “autoexploração” 93. in Werke. Paris. Meditação. 49 || miolo_Meditacao. Segundo o mesmo filósofo.

2003. no mesmo lance em que realiza a utopia da “automobilização completa” e faz do automóvel o “objecto sacrossanto” da “religião universal cinética” 102. 104 Cf. pp. 100 Cf. É isso que. Estamos.40-41. segundo Peter Sloterdijk. 98 C traduzido do alemão por Hans Hildebrand. Ernst JÜNGER. aperfeiçoar e recriar segundo critérios humanos 97 que serão cada vez mais os da eficácia produtiva e rentabilizadora. Ibid. perante as imprevistas e indesejadas consequências ex- tremas do que já Ernst Jünger havia descrito como a “mobilização do mundo pela Figura do Trabalhador” 104.. faz com que o “projecto da moderni- dade” repouse numa “utopia cinética: a totalidade do movimento do mundo deve tornar-se a execução do projecto que temos para ele” 98. p.24-26 e 28.  f.17. Concebidos o “progresso” e a “liberdade” como aceleração da acção e emancipação de to- dos os entraves e limites ao movimento humano no sentido de cada vez mais movimento 101. Christian Bourgois. Vers une critique de la cinétique politique. 99 Cf. La mobilisation infinie. p. a modernidade.23. || 50 miolo_Meditacao. Ibid. pp. mais do que fazer história. se o sujeito moderno se pretende automobilizar racionalmente.35.. Paulo Borges A natureza surge doravante como algo de hostil. citado in Ibid. Se esse projec- to.44.39.. acaba por se ver arrastado por “uma heteromo- bilidade catastrófica” ao colocar em movimento energias externas e internas incontroláveis.. Paris. Ibid. Ibid. Ibid.. 102 Cf. vê a sua ilusão desfazer-se ao mergulhar no pesadelo pós-moderno dos engarrafamentos diários. Der Arbeiter. num processo que Sloterdijk diz marcado por uma “ironia “kármica”” 100: colhemos o contrário daquilo que julgamos semear porque na verdade não vemos a verdadeira natureza do que semeamos. a par do esgotamento neuronal diagnosticado por Byung-Chul Han.. da “imobilidade gene- ralizada” e da passividade imposta que paradoxalmente resulta da aposta na hiperactividade 103. p. 101 Cf. Peter SLOTERDIJK. é o de (re)“fazer natureza” 99. p. Ibid. rebelde e imperfeito perante um “olhar insatisfeito” que se mobiliza para a dominar. 103 Cf. p.indd 50 07-09-2017 07:59:38 . a verdade é que nele nada se passa conforme o previsto e. É este o paradigma que a modernidade euro- 97 Cf.

Lisboa.  f. o máximo de potência. 1968. 2013. citado in Peter SLOTERDIJK. 107 Francis BACON. fundado na ideia de pro- gresso como desenvolvimento ou crescimento económico ilimitado. Richard HEINBERG. Contudo. Discurso do Método. La pensée créative contre l’économie de l’absurde. Vers une critique de la cinétique politique. que defendeu a orientação da filosofia para “conhecimentos muito úteis à vida” que nos tornem “senhores e possuidores da natureza” 108. tradução. prefácio e notas de Newton de Macedo. Meditação. New Society Publishers. 2004. Paris. 108 René DESCARTES. o máximo de ren- dimento.68. O Desafio do Decrescimento. La mobilisation infinie.73. que advogou “(…) o conhecimento das causas e dos movimentos secretos das coisas e o alargamento das fronteiras do império humano. Éditions Mille et Une Nuits. Serge LATOUCHE. Recordemos que esta situação resulta do intuito assumido pelos fundadores da ciência moderna. o máximo de capital. 5ª edição. Temas e Debates – Círculo de Leitores. 2014. o máximo de modifica- ção da natureza exterior. Survivre au Développement. Flammarion. Lisboa. Sá da Costa. vê-se aparecer o máximo de necessidades. Porque precisamos de parar de crescer e começar a viver. Serge LATOUCHE. Lyon. depa- ra-se súbita e dramaticamente com a crise e os limites externos e internos do 105 C f. 106 Paul VALÉRY. Instituto Piaget. Dominique MÉDA. 2012. tão bem descrito por Paul Valéry como uma hybris do desejo e da vontade: “Por todo o lado onde o Espírito europeu domina. para realizar tudo quanto for possível” 107. o máximo de relações e de trocas” 106. o máximo de trabalho. Comment s’en libérer. la portée et les limites de l’uniformisation planétaire.60. 2005. Editorial Minerva.33-57. L’Occidentalisation du Monde. Paris. 2005.indd 51 07-09-2017 07:59:38 . in Discurso do Método / Tratado das Paixões da Alma. Parangon/Vs. Travar o Apocalipse. o homem europeu-ocidental. Décoloniser l’imaginaire. no preciso momento em que julga realizar triunfalmente o programa científico-tecnológico da modernidade. novo mito fundador da nova religião do trabalho. pela mesma “ironia “kármica”” do processo histórico de que fala Peter Sloterdijk. The End of Growth. 1976. Paris. p. Lisboa. p. Lisboa. da produção e do consumo 109. La Mystique de la Croissance. La Crise de l’esprit. Andrew SIMMS. a Liberdade Silenciosa peia-ocidental tornou global 105. 2011. o máximo de ambição. como Francis Bacon. e Descartes. p. Essai sur la signification. Nova Atlântida. 109 C pp. 51 || miolo_Meditacao. De la décolonisation de l’imaginaire économique à la construction d’une société alternative. La Découverte.

Paris.. Assim se compreende que surja a proposta do decrescimento sereno em transição para uma sociedade de abundância frugal 111 ou de prosperidade sem crescimento 112 e. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. L’Âge des Limites. tradução de Victor Silva.indd 52 07-09-2017 07:59:38 . de onde deriva a ficção da separação entre o ser humano. pois no fundo é um determinado estado da mente e da consciência que está na origem de todos estes aspectos da crise contemporânea. dos conflitos bélicos. 2013. em eco-aldeias e comunidades alter- nativas – tem de ser fundamentalmente espiritual (no sentido trans-religioso do termo). Lisboa. o imperativo de uma teoria crítica do movimento que prepare a “desmobilização” e responda ao que considera ser o “enigma clássico”: “como é possível a calma na tempestade para seres condena- dos de uma ponta a outra à acção?” 113. Vers une Société d’Abondance Frugale. segundo Sloterdijk. 112 C f. Mille et Une Nuits. 2. || 52 miolo_Meditacao. Edições 70. Éditions Mille et Une Nuits. é necessário passar da matriz do actual regime dominante da consciência – a ficção da separação entre a mente e o mundo. Para que seja possível superar positivamente esta crise (cujo pictograma em chinês sig- nifica simultaneamente risco e oportunidade suprema). Vers une critique de la cinétique politique. da poluição. Paris. 2011. sob a forma da destruição massiva da biodiversidade. Contresens et controverses sur la décroissance. Tim JACKSON. 113 Cf. das alterações climáticas. Lisboa. meditação e despertar da ficção de separação entre si e o mundo Cremos que a resposta à questão anterior – sem desprezar os aspectos be- néficos e positivos de todas as reformas que (por vezes) se têm vindo a imple- mentar no governo das nações e as muitas alternativas mais profundas que têm vindo a ser praticadas na sociedade civil. pp. das migrações étnicas. 2011.47-48. Serge LATOUCHE. da exploração e sofrimento da vida humana e ani- mal. tradução de Francisca Cortesão. 2012. Maravi- lhamento. 111 Cf. 110 Cf. Reorientar a vida activa para a vida contemplativa. do esgotamento dos recursos naturais. Id. Prosperidade sem Crescimento. Tinta da China. da desigualdade e da violência sociais. do esvaziamento do sentido da vida e do esgotamento físico e psico- lógico. Paulo Borges processo civilizacional que os pretendeu ignorar 110. La mobilisation infinie. Peter SLOTERDIJK. Economia para um planeta finito.

mas  gostinho da SILVA. nos domínios externos onde os seus sintomas se manifestam mais visível e sensivelmente.304. Âncora Editora. reside num factor interno. o que só pode ser do domínio da espiritualidade. de que a solução de uma questão interna à cons- ciência possa vir de meras reformas. infinita e incondicionada. económicos. Com efeito. é insensato continuar a alimentar a expectativa. esta a quimera do crescimento económico ilimitado e este a real destruição e diminuição da Vida sobre a Terra. a sua solução tem de ousar ir à raiz do problema. a experiência ou regi- me de consciência alternativo tem de ser de outra ordem. não meramente intelectual. Aquilo que Agostinho da Silva expressou ao escrever: “só haverá paz para a consciência humana quando não existir distinção alguma entre o “eu” e o “outro”” 114. tornando-se exterior àquilo que converte em seu objecto. Queremos com isto enfati- zar que. política e ambiental. se a origem da crise contemporânea. sempre parciais e superficiais. A Comédia Latina [1952]. in Estudos sobre Cultura Clássica. económica. Para ser verdadeiramente transformativa. a percepção errada da natureza das coisas. convertida numa matriz cultural e civilizacional disfuncional e letal. políticos e ambientais – . Meditação. 114 A introdução e organização de Paulo Borges. conduzindo ao decrescimento económico ou à prosperidade sem crescimen- to e ao consequente reflorescimento da Vida sobre a Terra. só a remoção daquela ficção pode reabsorver o ego na unidade do ser. Lisboa. O desafio passa pois por promover em larga escala uma redescoberta. que a tradição cristã medieval ocidental designa como contemplação (pois neste contexto a meditatio é ainda um exercício intelectual de reflexão a partir da lectio. ou o reconhecimento de que a nossa essência é a sua e nunca dela estivemos realmente separados. a Liberdade Silenciosa o mundo e as demais formas de vida – a uma outra experiência. p. 2002. reconhecen- do-a e extirpando-a. pois o intelec- to conceptual é por natureza dualista.indd 53 07-09-2017 07:59:38 . não-dual. 53 || miolo_Meditacao. que as tradições espirituais da humanidade sempre apontaram e apontam como o Bem supremo a alcançar em vida: a união ou reunião com a Realidade primor- dial. nos seus aspectos externos – sociais. Não basta todavia a compreensão intelectual e conceptual disto. preci- samente a esfera social. Se a ficção da separação entre sujeito e objecto gera a inflação do ego individual e colectivo. como desde há séculos com uma frustração crescente acontece. da leitura das Escritu- ras) e as tradições orientais em geral como meditação.

Friedrich NIETZSCHE. sendo pelo jovem Nietzsche recordada a relação etimológica entre saber e saborear as coisas 116 – converte-se deste modo no homo faber. traduzido por Geneviève Bianquis. edição estabelecida e apresentada por Philippe Raynaud. que degrada a pessoa em animal laborans”. e da “verdade divina”. Hannah Arendt descreve e analisa o longo e complexo processo da que con- sidera a “mais grave” das “consequências espirituais das descobertas da época moderna” – “a inversão das posições da vita contemplativa e da vita activa na ordem hierárquica” – . como antes havia sido considerado servidor da “contem- plação da verdade do Ser”. no Ocidente. Condition de L’Homme Moderne. enquanto meio de acção que permite fazer coisas e fabricar instrumentos. que forçou enfim o universo a “entregar os seus segredos”. A seu ver. 117 Cf. pp. na qual o sujeito se reintegra na plenitude do ser e deixa de sentir como reais as necessidades. pp. p. Hannah ARENDT.indd 54 07-09-2017 07:59:38 . na filosofia medieval. Ibid. da experiência contemplativa ou meditativa não-dual. El aroma del tiempo. prefácio. Herder. Byung-Chul Han. || 54 miolo_Meditacao. ao “ho- mem-actor” (agente) e ao “homem-animal laborans” . o convertem num predador incontido do mundo natural e da vida. Paris. 2012. mas na “engenhosidade das mãos”. não hesita em vincular a “crise actual” à “absolutização da vida activa”. Paris.10-11 e 122. que considera ter a sua origem na metamorfose pela qual o ser humano. desejos ou caprichos que. 2015. pp. 118 Byung-Chul HAN. Paulo Borges prática. tradução de Paula Kuffer. La Naissance de la Philosophie à Époque de la Tragédie Grecque. Un ensayo filosófico sobre el arte de demorarse. 1938. in 115 C L’Humaine Condition. a solução só surgirá “no momento em que a vida activa. como o telescópio. introdução e glossário de Philippe Raynaud. indo muito para além das suas necessidades fundamentais. O pensamento torna-se assim servo da acção.298-323. na filosofia antiga. 116 Cf. acolha de novo a vita contemplativa no seu seio” e “volte a pôr-se ao seu serviço” 118. que por sua vez cederá. Gallimard. Após uma leitura crítica do que considera ser ainda o “elogio da vita activa” por Hannah Arendt. Gallimard. tradução de Georges Fradier. o homem-animal traba- lhador 117.294-296.. passou a procurar saciar a “sede de conhecer” não na imediatez da contemplação. O homo sapiens – no sentido do homem sábio. com o “impera- tivo do trabalho. perdendo doravante a contemplação todo o sentido 115. Barcelona. em complexas e matizadas metamorfoses. autor do diagnóstico da “sociedade do cansaço”. o autor coreano conclui ser “precisamente a perda da capacidade contemplativa –  f. em plena crise.38.

enquanto 119 Cf. prefácio de António Marques. Meditação. entre as quais a experiência extrema e a satura- ção dos efeitos da vita activa desenraizada da vita contemplativa – . os activos. Sendo inegável que há hoje cada vez mais pessoas e instituições interessadas na redescoberta da meditação. que “quem não tiver para si dois terços do seu dia é um escravo”. que a “enorme aceleração da vida” acostuma “o espírito e o olhar (…) a ver e a julgar parcial ou erradamente”. os irrequietos. ou seja. concluindo: “Esta movimentação torna-se tão grande que a cultura superior já não pode madurar os seus frutos. e que aos homens activos falta a “actividade superior” 120. Um livro para espíritos livres. Reforçar em grande medida o elemento contemplativo faz parte. 55 || miolo_Meditacao. ao constatar que as “prioridades” dos tempos modernos “acarretam um retrocesso e uma eventual depreciação da vita contemplativa”. pp. a nossa civilização vai dar a uma nova barbárie. o pro- grama prático neste livro proposto – para o qual podem hoje porventura reu- nir-se as condições oportunas. Demasiado Humano... Por falta de sossego. por conseguinte. tradução de Paulo Osório e Castro.indd 55 07-09-2017 07:59:38 . um dia. 282. 2. Obras Escolhidas. E é o mesmo Nietzsche que já prescrevia. 120 Cf. A Sociedade do Cansaço.257-258. p. a Liberdade Silenciosa que está em igual correspondência com a absolutização da vita activa – que leva em grande medida à histeria e ao nervosismo da sociedade moderna da acção” 119 . das necessárias correcções que se tem de efectuar no carácter da humanidade” 121. vol. Id. 122 Cf.255-257. Lisboa. Friedrich NIETZSCHE. quando se der o regresso em força do génio da meditação” 122. ao escrever que a sua “lamentação (…) terá provavelmente a sua época e calar-se-á por si própria. 121 Cf. que fazemos nossos. Estes diagnóstico e prescrição de tratamento.. foram tão considerados. 285. p.256.37. Humano. 282-284. Em nenhuma época. é como se as estações do ano se seguissem umas às ou- tras demasiado depressa. faça o que fizer. pp. Relógio D’Água. 1997. há perto de século e meio. Ibid. Ibid. foram aliás já claramente antecipados por Nietzsche. cabe verificar quais as condições a assegurar para que se dê genuinamente este “regresso em força do génio da meditação”.

Paulo Borges redescoberta e reforço da vita contemplativa e não mera terapia dos excessos da vida activa. pelo menos na definição que é atribuída a Pitágoras. da sa- bedoria e do desinteresse inerentes à experiência contemplativa. Paris. Do mesmo modo. a fecundi- dade da vita contemplativa. que. ou se tenta polarizar. mas sobretudo no aumento do desempenho e rentabilidade escolar e profissional. A alternativa a este rumo é assegurar que a redescoberta da meditação não se reduza à mercantilização de técnicas de foco. II.indd 56 07-09-2017 07:59:39 .127. arris- ca ser negado. produtiva e laboral ou. Reduzindo a isso o potencial da experiência meditativa e contemplativa corre-se o risco de que a vita activa instrumentalize agora. assumido coadjuvante do aumento da sua intensidade e rentabilidade. desejos e aversões do sujeito. o bem-estar. avaliações ou interpretações – . na vida. Vie. concentração e descontracção. não só na esfera terapêutica ou na busca da felicidade entendida como mero bem-estar. Neste sentido. 123 C notícia e notas por Robert Genaille. se designou como “filósofo”. 1999. segundo uma tradição. ou do engodo do ganho”. onde acorrem três tipos de pessoas: uns para lutar. Ao ser interrogado sobre o sentido dessa designação. Isto  f. mas seja imbuída. É este desin- teresse do ver contemplativo. não só convertendo-a ao serviço dos seus objectivos. num lance perverso. a possibilidade de os obter…). traído e corrompido quando a intenção e expectativa que preside à prática desse método visa alguma coisa como resultado exterior à própria prática. e por isso sem juízos. Diógenes LAÉRCIO. em torno da mindfulness e das suas aplicações práticas. || 56 miolo_Meditacao. que acolhe o que é tal como é – descentrado das perspectivas. em vez de a ignorar. tradução. A questão é tanto mais pertinente e crucial quanto boa parte do actual interesse pela meditação se polariza. Pitágoras terá comparado a vida às Olimpíadas. ao fazê-lo. enquanto só os sábios visariam a “verdade” 123. embora seja proposto como método de meditação. é curioso notar que a redescoberta da meditação se prende com a reassunção da vocação originária da filosofia. contemporâneo do Buda Gautama e o primeiro que. seja a saúde. p. uns seriam “escravos da glória. a felicidade ou o melhor desempenho escolar ou laboral (diminuindo aliás. Doctrines et Sentences des Philosophes Illustres. Flammarion. outros para comerciar e outros que se conten- tam em ver. a par da ética de não-violência e não-competitividade. mas objectivando-a ainda como uma nova mercadoria num negócio florescente.

Assírio & Alvim. Roger Munier. dos moribundos e dos amantes – nunca se abra ao “puro espaço” e apenas a um “mundo” aparente- mente distinto de si. Le Poème. 1968. 3ª edição. anterior à clivagem entre pensar e ser 125.. edição bilíngue. pp. léthe. Questions I. o esquecimento ou velamento que a obs- curece 126. Hannah Arendt nota que “a contemplação é distinta do pensamento”. Pocket. As Elegias de Duíno.92 e 116-120. à meditação com objectivos “espirituais”. o que há antes da fixação do olhar na “Forma” (“Gestaltung”. 57 || miolo_Meditacao. Gérard Granel e André Preau.90-95. Rainer Maria RILKE. sempre que a meditação for vista como mero meio ou instrumento para chegar à Iluminação. é simultaneamente pensar e ser” – PARMÉNIDES. trocando a salvação perene no “seio” do “Todo” e do “Tudo” pela experiência do “futuro” e da “separação” 128. apre- sentado por Jean Beaufret.indd 57 07-09-2017 07:59:39 . 128 Cf. p. 125 Cf. e não como a própria experiência disso. com a da criança. Heidegger identifica alé- theia com o “aberto” 127. pp. 1986. mas antes o desvelamento da não-dualidade anterior à cisão. obviamente. a Liberdade Silenciosa aplica-se. p. “De l’essence de la vérité”. 124 C f. 2ª edição. PUF. Paris. ao Despertar. ele. 1995. “De l’essence de la vérité”. Marcel DETIENNE. Meditação. o qual é desde Sócrates e em Platão “o diálogo interior no qual se conversa consigo mesmo (eme emautô)”. Walter Biemel. Questions I.176. p. A experiência da verdade não seria assim a da adequação mental entre sujeito e objecto. que compreendemos como uma abertura mútua da consciência e do real na qual se desvela a sua in- distinção original. mas sempre acompa- nhada pela sombra do seu oposto. que faz com que a mente adulta – em contraste.79. etc. Alphonse de Waelhens.. constituindo em si “um estado extremamente activo”. Martin HEIDEGGER. o que evoca o “das Offene” (“o Aberto”) da “Oitava Elegia” de Rilke. tradução de Henry Corbin. Gallimard. 2002. 126 Cf. Retomando a noção pitagórica de verdade como visão pura. do animal. Lisboa. 127 Cf. segundo o poeta. entre sujeito e objecto. à Salvação. “A Oitava Elegia”. configuração”). fictícia e meramente conceptual. ainda na aurora da filosofia grega. prefácio de Pierre Vidal-Naquet. Paris. III. também com o significado de “formação. introdução e tradução de Maria Teresa Dias Furtado. Martin HEIDEGGER. cabe ter presente que a verdade foi experienciada em grego como a-létheia e pode ser interpretada como o não-esquecimento ou não-velamento do que é 124. a afirmação de Parménides: “O mesmo. Paris.176. Les Maîtres de Vérité dans la Grèce Archaïque.

Moreau. pp. pp. uma “iluminação” ou “arrebatamento” pré-reflexivo e pré-discursivo na origem da filosofia. PLATÃO.77-78. Carta VII. ARISTÓTELES. “maravilhamento” ou “espanto (thaumazein) perante o milagre do Ser” que Platão e depois Aristóteles. Hannah ARENDT. indizível ou inefável 129. como “o termo da filosofia”. na tentativa de compreen- der racionalmente esse desvelamento original 132. O Estranhamento do Mundo. o desvelamento que é a verdade. Ainda segundo Arendt. que depois se desenvolve. nova tradução enotas por Léon Robin com a colaboração de M. in 129 C L’Humaine Condition. II. Como conclui: “Na verdade a theôria não é senão um outro nome do thaumazein. 982 b e 983 a. processa-se por contraste na “passividade” ou “calma total” própria da experiência contemplativa. pp. Peter SLOTERDIJK. 155 d. 1981. PLATÃO. Teeteto.-J. como diz acontecer em Platão. Relógio D’Água. tradução de Georges Fradier.304-305. Paris. Embora em contextos diferentes. Condition de L’Homme Moderne. Condition de L’Homme Moderne. Gallimard. o tenham assumido igualmente no seu fim.1208. || 58 miolo_Meditacao. 2008. Platão e Aristóte- les consideraram o “processo dialéctico do pensamento” como mero “meio de preparar a alma e de conduzir a inteligência a uma contemplação da verdade” que supera “pensamento” e “linguagem”. sentido original do grego theôria – que é uma visão imediata e intuitiva e  f. Segundo a filósofa. vendo “um certo mutismo. in L’Humaine Condition. ou melhor. este “transe maravilhado deve ter sido essencialmente mudo”. é afim à “admiração”. Metafísica. 132 Cf. numa das suas vertentes. de modo diverso. o estado essencialmente mudo da contemplação”. Há assim. Lisboa. A revelação da verdade. dita por Platão arrhèton. p.295-296. purificado filosoficamente. 341 c. que o assumiram no início da fi- losofia. 130 Cf. assumiram como início de toda a filosofia 130. Paulo Borges mesmo que por vezes possa exigir “a cessação mais ou menos completa de toda actividade” externa. daí que os mesmos Platão e Aristóteles.indd 58 07-09-2017 07:59:39 . in Oeuvres Complètes. pelo qual começou” 131. 131 Cf. com um conteúdo “oralmente intraduzí- vel”. a con- templação do verdadeiro à qual o filósofo finalmente acede é o maravilhamento mudo. Hannah ARENDT. Cf. A vida e a visão contempla- tiva. tradução de Ana Nolasco. a contemplação. como também o reconhece Peter Sloterdijk.

São Paulo. lazer. 134 Cf. sem a qual não há. a negação da vida des-pré-ocupada e por isso livre para a contemplação do que é tal como é. vol. felicidade e sabedoria inerentes ao ver e deixar ser o que é tal como é e o conflito. Ser. A passividade desta integral aceitação desse inefável que é tal qual é – chamemos-lhe mun- do. 59 || miolo_Meditacao. realidade. no sentido de contemplação. os gregos chamaram scholé (ócio. que não se sabia “jamais mais ac- tivo do que quando não fazia nada. quando se instaurou a era burguesa do trabalho e do neg-ócio. É neste sentido que Hannah Arendt recorda as palavras de Catão. como diz Nietzsche. Neste sentido a contemplação é uma experiência de não-elaboração. A esta desocupação ou liberdade. p. livre do trabalho. pode ser interiormente vivida como acção suprema e pura. Humano. etc. implicam a admiração. a suspensão de toda a operatividade do intelecto e da vontade no puro acolhimento do que se des-vela (a-létheia) tal qual se desvela. Hannah ARENDT. Josef PIEPER. doutrina. pp. Obras Escolhidas. tradução de Georges Fradier. Um livro para espíritos livres. Vida. Um livro para espíritos livres. Cf. 1981. Obras Escolhidas. Buda ou o que quisermos. pp. Humano. de onde vem escola (que hoje é todo o contrário disso…). é neste contexto uma preciosa redescoberta da utilidade do (que se tem por) inútil. a Liberdade Silenciosa não a “teoria” no sentido actual de especulação. sofrimento e confusão que acompanham a obstinação em  f. cosmos. hipótese. tempo livre). conjectura intelectual. 133 C in L’Humaine Condition. o maravilhamento ou o espanto. e in-útil. 283. ainda a consideração nietzschiana de que “aos activos falta. por constituir um fim em si mesma. Friedrich NIETZSCHE. “cultura superior” 134.indd 59 07-09-2017 07:59:39 . de onde vem ócio. que é uma disponibilidade para o essencial. jamais menos só do que quando estava só” 133 . A meditação contemplativa mostra a paz. 2. que acompanha o reco- nhecimento da inutilidade do (que se tem por) útil. 2. Nada.9-10 e 26-29. livre de servir como mero instrumento para outra coisa. A meditação.323. habitualmente. e os lati- nos otium. p. a atividade superior” – Friedrich NIETZSCHE. Condition de L’Homme Moderne. Deus. Demasiado Humano. Cf. – . O que é filosofar? O que é acadêmico?. ou seja. apesar de ter sido tão desvirtuada e desconsiderada pelo activismo (ou agitacionismo?) moderno. Editora Pedagógica e Universitária. que só se tornou depreciativo quando se passou a apreciar acima de tudo o que tem preço e é comercializável. vol.255 e 257.256. Meditação. na tentativa sempre frustrada de dar nome ao que não o tem – . tradução de Helmuth Alfredo Simon. 281 e 284. Demasiado Humano.

362-363. Éthique a Nicomaque. o mundo e a vida se moldem aos desejos e inte- resses humanos. como o despertar da consciência e a vida plena. J.. 2104. tradução do italiano e do inglês de Jordi Bayod. como o aquecimento. pp. Barcelona. a pura consciência de alguma coisa.518-519. a mais aparentada com a divina. La Métaphysique. que é simultaneamente o “elemen- 135 C f. A filosofia. Éthique a Nicomaque.. mesmo a do sábio. tem como missão “revelar aos homens a utilidade do inútil” 135. a theôria – literal- mente. ARISTÓTELES. Seja como for. || 60 miolo_Meditacao. sem distinção entre inteligên- cia e inteligível. Vrin. o ser humano tudo deve fazer por viver segundo a sua dimensão mais nobre. que é “perfeita beatitude” e o motor imóvel de tudo 138 – . 136 Cf. pp. notas e índex de J. Manifiesto. X. embora não sejam necessárias “coisas numerosas e importantes” e “um excesso de abundância” para “a plena suficiência e a acção” virtuosa 139.indd 60 07-09-2017 07:59:39 . a criação ou construção de alguma coisa distinta do agente. nomeadamente a boa saúde do corpo. Paris. 138 Cf. 1. X.. Cf. Paris.. pp. o ver. pp. da “prosperidade exterior”.675-683 e 701-706. 7 e 9. e por isso uma práxis. o sistema de iluminação ou os transportes. e neste caso a filosofia da meditação. 139 Cf. “o alimento e todos os outros cuidados”. 9. A contemplação é a suprema forma de actividade enquanto actividade imanente. introdução. a este respeito. a técnica 137. o olhar para. Id. 4ª edição.31-32 e respectivas notas de rodapé. o belíssimo livro de Nuccio ORDINE. Pierre HADOT. a da inteligência contemplativa. J. Recorde-se que Aristóteles identificou a contemplação. para ser feliz. La Utilidad de lo Inútil. Pois na verdade há dois sentidos do útil: o que serve a um fim particular. 137 Cf. distinta da actividade transitiva e instrumental da poiésis. 8. já a humana. I. incluindo a pura consciência de haver consciência – . Exercices Spirituels et Philosophie Antique. 6ª edição. a da inteligência ou compreensão (nous) 136. necessita também. Se a actividade divina é puramente contemplativa – enquanto intelecção ou compreensão eterna de si mesma. 1974. pp. tomo II. Vrin. notas e índex por J. Paulo Borges querer e tentar que a realidade. cuja virtude é a tech- ne. Tricot.519-520. Tricot. introdução. Ibid. e o que conduz a um fim universal ou é já a realização desse fim. Λ. Id. cujo fim reside em si mesma. 1987. com a felicidade (eudaimonia) e com a suprema forma de actividade humana. Acantilado. com um ensaio de Abraham Flexner.

Meditação, a Liberdade Silenciosa

to divino” em si presente e “o próprio ser humano no mais alto grau” 140. Essa
é a “vida mais perfeita” que nos é dado viver, segundo Aristóteles, apenas “por
um breve momento”, quando “há identidade entre a inteligência e o inteligível”
e coincidimos assim com a vida divina, cuja natureza é essa mesma identidade,
sendo eterna “fruição”, “beatitude” e “alegria” 141.

A experiência contemplativa é pois a experiência não-dual que é o coração
da meditação na espiritualidade tradicional, onde não assume necessariamente
o carácter momentâneo e fugaz que lhe atribui o filósofo grego (porventura
por a sua experiência pessoal não ter ido além disso), sendo precisamente a
sua conversão numa experiência constante e irreversível que em muitas tra-
dições da humanidade se apresenta como o fim a alcançar e o sinal de uma
realização espiritual autêntica. A contemplação também não tem de assumir o
teor intelectualista que lhe confere Aristóteles e pode residir nesse maravilha-
mento original e extático ante a aparição sensível, gratuita e imediata do mun-
do, ainda livre da distinção entre exterior e interior, que María Zambrano vê
como o cerne da experiência poética, do qual considera que a própria filosofia
violentamente se desgarra em busca de uma verdade distinta dos fenómenos,
iniciando a renúncia ascética à “generosa imediatez da vida”, pela qual o pasmo
se converte em “interrogação” e a “inquisição do intelecto” inicia “o seu próprio
martírio” e o da “vida” 142.

3. A superabundância do real e a pobreza do pensamento con-
ceptual. Da mente que mente e do pensar que pesa à mente
que medita e ao pensar que cuida. Da melancolia intelectual à
consciência aberta. Ser, sentar, meditar

Talvez a experiência do maravilhamento contemplativo e pré-conceptual, fon-
te de toda a religião, arte, filosofia e ciência, seja, no seu desvelamento ou verdade
(alétheia) original, inefável e irrelativa aos limites da nossa percepção conven-

140 Cf. Ibid., X, 7, pp.512-514.
141 Cf. Id., La Métaphysique, Λ, 7 e 9, tomo II, pp.680-683 e 705-706.
142 Cf. María ZAMBRANO, Filosofía y Poesía, Madrid, Fondo de Cultura Economica, 1993,
pp.16-18.

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Paulo Borges

cional, aquilo a que num domínio já conceptual chamamos real e a respeito de
cuja determinação Platão constatou haver “um combate de Titãs (titanomaquia)”
143
. Chamamos real ao que no desinteresse do puro espanto, maravilhamento ou
abertura contemplativa surge e se oferece na sua inerente e original superabun-
dância, livre da objectivação pelo medo, insegurança, carência, desejo, agressão e
possessividade do sujeito observador e predador que, julgando-se disso distinto
e separado, o pretende possuir e conhecer, ou seja, captar e capturar para o do-
minar e domesticar (o que começa pelo concepção do próprio conceito-palavra
real ou realidade). É o que sugere a etimologia, pois realidade vem do latim res
(coisa) e este porventura do proto-itálico reis, por sua vez procedente do proto-
-indo-europeu reh, ís, com o significado de “riqueza, bens”, afim ao antigo persa
rāy- (paraíso, riqueza), ao avéstico rāy-, com o mesmo sentido (paraíso, riqueza),
e ao sânscrito rayí (propriedade, bens). Isto sugere que o que se concebe como
realidade é intrinsecamente abundante e gratificante, mas nunca o suficiente pa-
ra um sujeito que dela se ficciona distinto e separado e assim se sente inseguro,
carente e ávido de posse e domínio, como se traduz na etimologia das principais
operações mentais inerentes ao pensar conceptual (segundo José Enes, abaixo
citado), que delimita, avalia e procura apropriar os ob-jectos que constitui, frac-
cionando abstracta e utilitariamente a concreta e interconectada trama de fenó-
menos do real. Com efeito, o que da imensidão do real (que inclui a do possível)
nos surge hoje como realidade pode ter uma origem mítica esquecida, ao proceder
de uma narrativa (o contar de uma história, entre muitas possíveis) doadora de
significados, sentidos e valores ao devir universal que, correspondente à estrutura
lógica e à crença implícita na língua grega e nas línguas indo-europeias em geral,
a de haver sujeitos, objectos e acções distintos entre si, inconscientemente acabou
por predominar na cultura globalizada, formatando e padronizando o regime co-
mum de consciência segundo o paradigma e intencionalidade do logos ocidental.
Logos humano que se desvinculou do Logos cósmico de Heraclito (cuja escuta
conduz à sabedoria de reconhecer que “tudo é uno” 144) para se tornar fundamen-
talmente uma razão conceptual, disjuntiva e predicativa em Platão e Aristóteles,
na qual, saindo do espanto ou maravilhamento original, “falar” é sempre “dizer”,
143 PLATÃO, Sofista, 246 a.
144 Cf. HERACLITO, Fragments, 1 (50), texto estabelecido, traduzido e comentado por
Marcel Conche, Paris, PUF, 1987, p.23.

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dizer é sempre dizer algo ou alguma coisa – legein ti – e deste modo implicita-
mente definir, delimitar e determinar o mundo em sujeitos, objectos, entidades
e identidades, indivíduos, espécies e géneros distintos, supostamente existentes
em si e por si, substancialmente, e só externamente relacionados 145, em vez de se
reconduzirem a uma tessitura de relações, interdependências e interpenetrações
em contínua mutação.

Recordando o que acima escrevemos sobre o projecto moderno de separa-
ção e dominação humana do mundo, Nietzsche denuncia a génese das repre-
sentações consideradas verdadeiras como intimamente ligada à pretensão de
organização e domínio antropocêntricos do mundo, onde o conhecimento é
inseparável do perspectivismo da vontade de poder e do ilusionismo vital da ra-
zão conceptual, que necessita do erro como condição de sobrevivência da espé-
cie, pois os nossos órgãos, postos ao serviço da vida, não poderiam segundo o
filósofo alemão (que aqui não acompanhamos) incorporar a “verdade última”, a
do “fluxo eterno de todas as coisas” 146. É este mesmo fluxo que Platão rejeita no
mobilismo universal que vê professado por Protágoras, Heraclito, Empédocles,
Epicarmo, Orfeu, Hesíodo e Homero, os quais diz já ensinarem (na linha de
outros, mais “Antigos” ainda) que “todas as coisas” descendiam “do escoamento
e do movimento”, figurados em Oceano e Téthys, formas poéticas de dizer que
tudo são “correntes” e “nada está em repouso” 147.

145 C f. François JULLIEN, Si Parler Va Sans Dire. Du logos et d’autres ressources, Paris,
Seuil, 2006, pp.11-13. Destacamos: “(…) que “falar” seja “dizer” e que dizer, tornando-se
transitivo, seja “dizer alguma coisa”, legein ti. O que, com efeito, nos legaram primeiro
os Gregos, de modo tão convincente que nós o tomámos depois por uma evidência, na
qual por isso doravante habitamos, é que, quando eu falo, eu “diga” necessariamente –
logicamente – “alguma coisa”; sem o qual a minha palavra não diz “nada”, propriamente
falando, não tem objecto e anula-se” – p.11.
146 Cf. Friedrich NIETZSCHE, La Volonté de Puissance, II, texto estabelecido por Friedrich
Würzbach, traduzido por Geneviève Bianquis, Livro III, Paris, Gallimard, 1995, 582,
p.216, 584, pp.216-217, 588, p.218, 595, p.221 e 631, p.231.
147 Cf. PLATÃO, Teeteto, 152 d, 179 e, 180 c – d; Crátilo, 402 a – c, onde se acrescenta Hesíodo
e Orfeu a Homero, como aqueles que mitopoeticamente “tendem ao pensamento de
Heraclito”. Sobre estas questões, Paulo BORGES, “Imaginário mítico-metafísico do
Oceano e do extremo-ocidente atlântico”, in Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, 2001, pp.15-56.

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Dictionnaire Encyclopédique du Bouddhisme. José ENES.258-261. É esta apropriação que retém a consciência na insatisfação ávida do samsāra. nas obras de espiritualidade quinhentista. 2010. capturar”. Philippe CORNU. O mesmo se desvela no germânico Begriff e no verbo begreifen que ecoam o sentido de captar e capturar do verbo greifen: “segurar. Hermann Éditeurs. || 64 miolo_Meditacao.indd 64 07-09-2017 07:59:39 . donde o sentido de “agarrar. haver deriva etimologicamente do verbo latino habeo. é o que sugere a etimologia de conceito. do verbo capĕre. 148 C f. É o mesmo sentido do saisir francês e do pouco conhecido asir português e castelhano – mui- to presente. sendo seu “núcleo radical” o mesmo de capio. Habeo expressa “a função e a eficácia do manejo” na captura e domínio de uma presa. com o seu oposto. Daí que haver assuma o sentido de possuir e ter 148. o nono elo da “originação inter- dependente” (pratītya-samutpāda) na filosofia budista. que se mantém bem segura. Paris. do proto-germânico grīpaną e do proto-indo-europeu gʰreyb. com o significado de “apanhar. derivado do proto-indo-europeu kap-. José Enes mostrou que os termos que designam as prin- cipais operações mentais na cultura europeia de matriz greco-romana – pensar. sendo notável a afinidade com o upādāna sânscrito. procedente do concipere latino. que remete para a “preensão manual”. creditados como entidades intrinsecamente existentes. aversão e indiferença egocêntricos. ou seja. Noeticidade e Ontologia. apanhar. conquistar. p. 150 Cf. da raiz indo- -europeia –cp. desasir. o segurar ou agarrar. “agarrar”. Como indica José Enes. reduzindo a diferença à identidade e o outro ao mesmo. abranger. do alto-alemão antigo grīfan. 149 Roger Pol-Droit diz que a “ordem do conceito (…) implica sempre uma captura (prise)” – Roger POL-DROIT. “Interdépendence”. agarrar”) 149. e dos consequentes apego. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Confirmando isto. Este verbo vem do alto-ale- mão médio grifen. Lisboa. em si e por si (enquanto a cessação disso. Le Silence du Bouddha et autres questions indiennes. Paris. captar. com destaque para São João da Cruz – . decorrente da ignorância que gera a percepção dualista e ilusória da realidade 150. Paulo Borges Que a operatividade conceptual visa compreender no sentido de apropriar e incluir. a apropriação. incluir”.158. 1999.21. Seuil. na dualidade sujeito-objecto. agarrar. pp. apanhar” que o pensador açoriano sugestivamente nota ser uma família vocabular que forneceu “especializadas terminologias aos principais ramos do saber e com alguma preferência para a Filosofia”.(“apoderar-se. capĕre. 2001. p. é o nirvāna).

supondo sempre a relação entre o sujeito humano e um mundo de objectos que se consideram dados como reais e se avaliam visando sobre eles agir 151. num sentido pode-se dizer que a mente mente. Meditação. com o sentido de dependurar e pender. desde a pastorícia e a agricultura até à activida- de comercial. dependendo disso a apreciação que faz dos seus objectos.indd 65 07-09-2017 07:59:39 . 1983. intelecto. discernir. o termo mente provém do antigo inglês gemynd (memória. pp. avaliando-se assim “o valor da mercadoria” 152. Saint-Cannat.. modo. a Liberdade Silenciosa cogitar. tradução em francês do inglês e do tibetano por Tashi Tcheudreun. supondo exteriores a si os objectos que se configuram em si.136-139. Com efeito. bem como aos objectos do pensamento e ao próprio processo do pensar. tradução inglesa de Peter Roberts. Éditions Claire Lumière. afim a pendere. afim ao germânico arcaico Minne (amor. enquanto mede e avalia o mundo em função do autocentramento de um sujeito que ficticiamente concebe distinto do real.. p. médico” e “meditar”. intenção). avaliar e apreçar”. e conferindo utilitariamente medida. Linguagem e Ser. Na verdade. ou se- 151 C f.136. 154 Cf. Ibid. pela decorrente apreensão de um “eu”. Se “pensar é pesar” e as- sim “calcular. certeza e razão – têm origens práticas em vários estádios civilizacionais. inteligência. p. pensamento. da raiz med-. tendo designado na linguagem comercial a operação de pesar numa balança. José ENES. mānas-vijñāna. memória amorosa). ambos procedentes da raiz proto-indo-europeia men.92. de onde provêm “meio. recordação. Le Traité des 5 Sagesses et des 8 Consciences. propó- sito. p. logos. inseparáveis da sua percepção. Imprensa Nacional – Casa da Moeda.141. 2007. 153 Cf. numa significativa ambivalência entre “a pro- porção medidora ou o cuidado do tratamento” 153. Pensar vem do latino pensare. Nas correntes da psicologia budista que sustentam a existência de oito consciências. Ibid. “medir” é a intenção e a atitude fundamental com que se lança sobre as coisas. onde se suspendiam “as medidas de peso e os objectos a pesar”. 65 || miolo_Meditacao. caracterizada pela ignorância inerente à percepção dual do real. É isso que se expressa na palavra mente. THRANGOU RINPOCHE. 152 Cf.(pensar). tradução e comentário da obra do III Karmapa RANGJUNG DORJÉ. Lisboa. corresponde à sétima. Le Traité distinguant conscience individuelle et sagesse. pelo orgulho da crença na superioridade do “eu” sobre o “outro” e pelo apego a esse “eu” 154.

p. a demiurgia que faz aparecer com forma o que a não tem. como o germânico arcaico Minne. e com meditatio. estando presente no verbo mederi (“cuidar de. Paulo Borges ja. “medicar”. p. 174. o trabalho da mente pode ser visto como uma prestidigitação ou ilusionismo contínuo. Lisboa. como acontece na filosofia Vedanta. num fundo original indiferenciado e indeterminado. afir- mativas ou negativas. mente também implica etimologicamente outros sentidos. com o sentido de memória amorosa (afim ao que veremos ser o sentido do “pensar” galaico-português nos cancioneiros medievais). facilitar) que vimos relacionar-se com medicare. Linguagem e Realidade. remediar. se não for pelas operações mentais abstractamente desintegrado do corpo ou tessitura de relações e interdependên- cias da realidade global. socorrer. como vimos. Âncora Editora. sujeito e objecto. enquanto criação que se confunde com um dado porque a actividade criadora é inaparente para a mente desatenta ao jogo impulsivo e irreflectido dos intuitos. mens. “arte médica. ou reconduzir a mente que mente a um caminho do meio equidistante de crenças e visões do mundo irreais e extremas e que em última instância a visa libertar de todas as posições. uma operação mágica cujo primeiro sortilégio é o aparecimento. A meditação pode assim num sentido ser vista como uma terapia ou medicina da mente – uma autoterapia e um processo de autocura. e que só essa é real” 155. juízos e conceitos com que a cada momento constrói uma dada percepção do mundo. consciência e realidade. determinação e limite. in Textos e Ensaios Filosóficos II. || 66 miolo_Meditacao. Pensamento à Solta. Neste sentido. medicina.141. ao que a não tem. pois é a própria mente que medita – que visa restabelecer a justa medida numa atenção dilacerada entre os excessos da frouxidão e da tensão. No que respeita à proveniência latina de “mente”. medicus. 1999. introdução e 155 A organização de Paulo Borges. “médico”. o informe. Como diz Agostinho da Silva: “Talvez não tenha cada um sua mundividência. eu e outro. 156 Cf. “meditação” 156. a raiz med. dar remédio a. do torpor e da agitação. José ENES. Todavia. É neste prisma que toda a cosmovisão é afinal uma cosmoficção. Ainda nesta perspectiva as operações mentais são re- lacionadas.indd 66 07-09-2017 07:59:39 . de observador e observado. dissolvendo todas as elaborações  gostinho da SILVA. mais certo seria dizer-se que tem sua mundinvenção. sobre a natureza da realidade. tratar. cujo sentido habitual de ilusão procede de um mais original em que designa o jogo e poder criador dos deuses. medicina”. com a noção indiana de māyā.também evoca a noção de medida terapêutica.

33. pp. que Enes nota desligar-se assim do raciocínio abstracto e calculativo da ratio latina para designar o cuidar e alimentar concretos. sem forma nem con- teúdo. Mind. 1990. curar) eram um mesmo verbo 160. até ao século XVI.187. Mysticism and Philosophy. Recorde-se que em francês. como mostra a raiz comum do inglês “think” e “thank” e do alemão “denken” e “danken”. traduzido do alemão por André Preau. 160 Cf. Imprensa da Universidade.146-150. Martin HEIDEGGER. editado por Robert K. Note-se que também nas línguas anglo-germânicas o que se traduz como “pen- sar” tem um sentido muito diverso da etimologia latina. Meditação. AAVV. C. 2007. edição crítica de José Joaquim Nunes. The Problem of Pure Consciousness. p. 159 Cf.238. Paris. Coimbra. PUF. Pensar é agradecer. Mysticism. State University of New York Press. Daí vem “pensar uma ferida” e “fazer um penso” no sentido de um curativo (no mesmo espírito. presente nos cancioneiros medievais (“pensar” no “amigo” para que ele não morra 158) e ainda hoje na intemporal preocupação dos namorados (“Pensaste em mim?”). mas também reconhecer. José ENES. Uma ambivalência análoga à que encontrámos na etimologia de mente pode- -se reconhecer na suspensão inerente ao pensare latino. Odon VALLET. “L’Expérience de la pensée”. CCCCXIII. 67 || miolo_Meditacao. denken und danken. também José ENES. Robert K. É o caso do sentido antigo de “pensar” no galaico-português enquanto cuidar. in Questions III. a ração surge em português como a forma popular de razão. Paris. Forman. Nova Iorque/Oxford. pura e nua. como bem nota José Enes. 161 Cf. traduzido do alemão por Aloys Becker e Gerard Granel. Cf. curar. p. Oxford University Press. recordar e comemorar (“Gedanke” é afim a “gedenken”) 161 . como na vertente dita “mística” das espiritualidades planetárias 157. Qu’apelle-t-on penser?. Pero MEOGO. II. que assumiu pelo menos outro sentido radicalmente distinto do pesar calculativo e avaliativo e sintomati- camente deslocado do lidar utilitário com coisas e objectos para a relação amoro- sa com os seres e a vida. alimentar. amar. Linguagem e Ser. Paris. Cantigas de Amigo dos Trovadores Galego-Portugueses. são na nossa 157 C f. Julien Hervier e Roger Munier. deixá-los “bem pensados”. bem como no interior de Portugal: “pensar uma criança”. Como escreve Paul Celan: “Pensar e agradecer. 1983. Albin Michel. Linguagem e Ser.130-135. “pensar os animais”. Gallimard. ao serviço da vida dos viventes) 159. Consciousness.374. p. p. 1966. Albany. 158 C f. 1928. pp. 4ª edição. C. a Liberdade Silenciosa mentais numa consciência ou experiência silenciosa.indd 67 07-09-2017 07:59:39 . 1999. Petit lexique des mots essentiels. “penser” (pensar) e “panser” (cuidar. FORMAN.

perante esta única realidade. “recordar-se”. Philippe LACOUE-LABARTHE. cuida e nutre todas as suas manifestações na vida dos viventes. introduções. Paulo Borges língua palavras com uma única e mesma origem. “recolhimento” (gedenken. eingedenk sein. pp. Aqui se entreabrem duas outras possibilidades: ou este pensar padece e se deixa afectar e inquietar pelo que lhe surge como o incontornável “mis- tério” e “horror” do haver ser. Cremos assistir aqui à clivagem de duas possibilidades do pensar. biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa. pp. nesta abertura à excessividade do haver ser. Paul CELAN. Cf. Âncora Editora. 163 Cf. ou.indd 68 07-09-2017 07:59:39 . Lello & Irmão – Editores. mede e ajuíza com as medidas sempre estreitas da mente condicionada pela língua. pp. “Ah.73-82. avalia. Um pensar que. “memória”. Cf. ama. tradução de John E. amando-o e cuidando-o no sentido de (se) salvaguardar (n)a sua plenitude e não a procurar reduzir à utilitária pobreza e estreiteza das medidas do pensamento discursivo. ou seja. Andenken. Jackson. Do Vazio ao Cais Absoluto ou Fernando Pessoa entre Oriente e Ocidente. Andacht)” 162. mas dele derivado. deixando que a “inteligência” se converta num “cora- ção cheio de pavor”. 1986. “Discours de Brême”. La poésie comme expérience.35-37. pela qual se transfigura toda a experiência do mundo. e por contraste com o primeiro. os conceitos e categorias linguísticos que predominantemente es- tão ao serviço das carências e da vontade de poder do animal humano. Revue de Belles Lettres. Em primeiro lugar. nº2-3 (1972). Álvaro de CAMPOS. sobre o qual essa indómita superabundância pesa como um tremendo perigo. comemorando-o. Porto. como no elucidativo poema de Álvaro de Campos 163. in Fernando PESSOA. Lisboa. de orienta- ção conceptual e categorial. que é o mistério”. s. l. celebran- do-o. há um outro pensar. Obras. igualmente comemora. || 68 miolo_Meditacao. procura obsessiva e agressivamente defender os seus limites – que são os limites não-limiares do humano demasiado humano – no contra-ataque de um pensar que fundamentalmente pesa. organização. Christian Bourgois éditeur. pela cultura e pela sujeição ao instinto predador da razão vital e animal que intenta apresar e capturar a excessividade do real nos sentidos e significa- dos antropocêntricos que pretendem satisfazer (sem jamais o lograrem) as pulsões e 162 C f. 2015. pelo contrário.. convertidas em três se aceitarmos que a segunda se subdivide em duas. celebra. o nosso comentário deste poema em Paulo BORGES.1018-1020. I. Quem se abandona ao seu senti- do aventura-se no campo de significação de “lembrar-se”. há um pensar aberto a essa inefável superabundância do que original e espontaneamente surge no maravilhamento ou espanto da consciência. Em segundo lugar. pela história. 2017.

ainda patente na expressão familiar: “stare in pen- siero” (estar atormentado) 165. divi- no e/ou cósmico. La Fine del Pensiero / La Fin de la Pensée. como vimos. remorso. na versão de uma acédia inactiva. Rémi BRAGUE. apesar de ser alada e de o seu olhar se erguer para o espaço longínquo. 1982. Giorgio AGAMBEN. Giorgio Agamben recorda que na língua italiana “pensamento” significa original- mente angústia. o rlung tibetano) e evidencia o ensi- mesmamento do sujeito fechado ao mundo ou dele desligado por estar (pré-)ocu- pado ou perdido no labirinto ou ruminação dos pensamentos. arrependimento. os “pêsames”). Paris. Le Nouveau Commerce. onde se constitui 164. tristeza (cf. que originalmente se chamou O Poeta e visava representar Dante perante as Portas do Inferno? Em ambos encontramos a coluna vertebral e o corpo dobrados. com a cabeça baixa apoiada na mão e o cotovelo no joelho. na arte ocidental. do projecto de fazer recuar o mais possível os limites do império do humano (Francis Bacon) que se pretende dono e senhor do mundo (Descartes). o quadro…) que fazem com a que a figura feminina. Que figuras haverá mais paradigmáticas disso do que Melencolia I de Albrecht Dürer (figura 1) e O Pensador de Auguste Rodin (figura 2). o compasso. mas que desde o início está votado ao fracasso. que notamos surgir associada aos instrumentos de pesar. inseparável. essa dobra pensativa e pesarosa do espírito sobre si mesmo que se propaga ao corpo na curvatura da coluna que – dir-se-ia no Oriente – dificulta e desarmoniza o fluxo da energia vital (o prana indiano. pois o humano não pode senão soçobrar ao pretender decontextualizar-se do englobante trans-humano. edição bilíngue. 165 Cf. na postura típica da re-flexão. ímpeto ansioso. É esta atitude que a nosso ver contidamente predomina na deriva epistemológica da filosofia grega em Platão e Aristóteles e se liberta de todos os entraves na razão mo- derna. Cabe aqui recordar duas figuras icónicas.indd 69 07-09-2017 07:59:39 . Panofsky e Saxl bem mostraram como nela estão os motivos tradicionais do temperamento melancólico ou saturnino. Genèse et échec du projet moderne. pp. Klibansky. No caso da gravura de Dürer. desgosto.7 e 14. do pensar como pe- sar. a Liberdade Silenciosa interesses latentes na génese inconfessada das delimitações conceptuais e categoriais. que porventura nelas revela toda a ambivalência que faz com que do mesmo pensare / pendere latino venha o pesar no sentido verbal de afligir. na verdade tenha um rosto sombrio assente num punho fechado e pese sobre a 164 C f. Le Règne de l’Homme. ou nominal de mágoa. 69 || miolo_Meditacao. causar tristeza. Meditação. o ch’i chinês. medir e contar (a balança. a ampulheta.

na sua obra clássica sobre Saturno e a Melancolia.indd 70 07-09-2017 07:59:39 . Saturne et la Mélancolie. 1989. se confronta com os seus limites sem conseguir experienciá-los como limiares de autotranscendência 168. 167 Cf. morrer. pela sua própria natureza apropriativa. Saturne et la Mélancolie. ao mesmo tempo. Cremos não haver melhor ilustração do tormento típico de muitos intelectuais e característico do pensamen- to conceptual que. mais libertadoras. acentuado no “olhar pensativo. interpretação. Ibid. comparação ou juízo. É todavia possível que a obra de Dürer tivesse uma sequência noutras gradações da melancolia.. Worte der Erinnerung an Adolf Bartning. com louros na fronte. p.497. com uma chave com que nada abrirá. como na tradicional experiência meditativa ou contemplativa do pensar amoroso e cuidador da abissal infinidade do real. e sem os alimentar acrescentando-lhes outros pensamentos sob a forma de análise. de uma mu- lher laureada.. Hamburgo. Erwin PANOFSKY e Fritz SAXL. nem “levá-los à luz””. “mas sem nenhum sorriso de vitória”” 167. || 70 miolo_Meditacao.541. Paulo Borges terra numa marcada atmosfera crepuscular e ocidental. é verdadeiramente aqui. se processam e se dissolvem todos os pensa- mentos e fenómenos do mundo. 168 Falando da figura da Melancolia desenhada por Dürer: “(…) e se alguma vez recebemos a impressão de um ser que acha intoleravelmente restritos os domínios que lhe são atribuídos – de um ser cujos pensamentos “atingiram o limite” – . que o punho cerrado “simboliza agora a concentração fanática de um espírito que captou verdadeiramente um problema. segundo a filosofia renascentista de Marsilio Ficino e Agrippa de Nettesheim. Desprende-se assim da figura uma clara sensação de fracasso e insucesso. Ibid. Isto porventura por não se abrir. Dizem os autores. e daí o título de Melencolia I – Cf. o pensar meditativo ou já contem- plativo é o puro acto de uma consciência-testemunha que pensa sem pensamentos – nessa pura visão a que os gregos chamaram theôria e os latinos contemplatio – e 166 R aymond KLIBANSKY. Contemplando-os sem com eles se identificar e envolver. preso no longínquo”.547. p. diante dela” – Raymond KLIBANSKY. reificante e geradora de problemas fictícios e por isso sem solução. se sente incapaz de o resolver ou de dele se desembaraçar” 166.495. ao espaço-consciência onde surgem. mas sem nenhum sorriso de vitória” – Ludwig BARTNING. pois ao longe o sol decli- na e morre (Ocidente vem do occidere latino. p. 1929. mas “desviado do mundo”. mas que. Os autores citam: “Um génio mulher. Erwin PANOFSKY e Fritz SAXL. p. que significa desmoronar-se. Gallimard. com asas que não desdobrará. pungente. Paris. desaparecer). O “anoitecer” ou “twilight” em que mergulha toda a imagem “indica o anoitecer inquietante do espírito que não pode nem rejeitar os seus pensamentos na sombra.

que habitualmente se traduz como “meditação” 170. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. tem sempre suposta uma indicação do pensar como meditação ou até de ordem contemplativa. Visão. 45 sub nom » – Carlos H. que são os de objectivar para capturar e possuir. a sentir e a conhecer. in AAVV. nada é segundo a medida de alguém. 520. sai ao mundo a percepcionar. nem ninguém pode voltar a casa carregado com uma peça. pensar) 171. Hindu. p. 71 || miolo_Meditacao. inédito). a Liberdade Silenciosa assim se mantém numa clareza e paz silenciosas livres dos obscurecimentos e turbulências das emoções e intenções conceptuais e discursivas. tal o céu ou o oceano inalteráveis pela sucessão das nuvens ou das vagas à superfície ou o olho do furacão que é o centro imóvel do grande turbi- lhão 169. “brilhar”. a experiência meditativa.d. comparável ao gr. Clarendon Pr.41-56. 19 de Outubro de 2015. meditar. na sua vertente contemplativa. Barcelona. Dervy. Hermes Publishing. Cf. Jean HERBERT e Jean VARENNE. tudo é desconcertantemente livre e sem referência a ninguém.(ver. A Sanskrit- English Dictionary. Buddhist and Daoist Meditation. M. não um ego necessitado. Enquanto exercício da consciência não condicionado pelas necessidades ou desejos do sujeito autocentrado. Paulo BORGES.21- 22 e 111-116. “confiar”…. p. Oxford. do C. Paris. que estruturam o regime dominante da mente humana neste ciclo de civilização 172.indd 71 07-09-2017 07:59:39 . apropriativas e objectivantes. “ver em espanto”…. 172 “Quando alguém. s. não se sai a caçar porque já não existe a caça. sendo a plena alternativa à ati- tude e comportamento predadores e egocêntricos atrás referidos. “admirar-se” e também a theázomai. 283. Comparative etymological Dictionary of classical Indo-European languages. Hacia una espiritualidade laica. deixa ser o que é tal qual é e abre-se ao haver ser interpretado por José Enes. pp. fido. O Coração da Vida. sin religiones. transformação integral. da raiz *dhî-. Vocabulaire de l’hindouisme. thaumázo. 1985. Herder. SILVA. sendo daí que vem o chinês ch’an e o japonês zen. nem há peça. Oslo. p. num trabalho inédito que generosa e honrosamente nos disponibilizou e dedicou. 2014. sin dioses. meditação. Indo-European – Sanskrit – Greek – Latin. o proto-indo-europeu dheie. 2007. Quando se sai assim. « CISMANDO A VIDA CONTEMPLATIVA – Para uma abordagem sapiente e diferencial” (Texto-base para a comunicação no Colóquio Internacional: «Vita Contemplativa – Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea ».. pp. olhar) e a raiz verbal dhyai (contemplar. Sin creencias. pp. é a mesma de to think e denken. 170 Cf. Amazon Repr. edição de Halvor Eifring. MONIER-WILLIAMS. 171 Como escreve o Professor Carlos Silva. 1970. Franco RENDICH. nem há casa onde voltar” – Marià Corbí.. London. “Dhyana. porque nem há caçador. “irradiar”…. Sobre este pensar meditativo ou contemplativo recorde-se que a raiz do sânscrito dhyāna. Jens BRAARVIG. “Words for “Meditation” in Classical Yoga and Early Buddhism”. 169 C f. S. como no lat. Meditação.297-298. reed..

Chāndogya Upanishad. traduzidas e editadas por R. dhyāna parece expressar aqui um simples repouso em si mesmo. pp. quer das técnicas que o facilitam. pp. da coluna vertebral elo de ligação entre ambos por onde flui desimpedida a energia vital. p. PATAÑJALI. ombros descontraídos. Londres. 174 Cf. Paris. quer do estado meditativo da consciência. Everyman’s Library. “a atmosfera e o céu”. bem como “as águas e as montanhas parecem meditar” 174. tal como deuses e humanos. culmina na absorção que dilui a aparente distinção sujeito-objecto.146. III. se o mesmo que dissemos da gravura de Dürer se pode aplicar ao Pensador de Rodin. Se citta designa o pensamento enquanto dinamismo mental conceptual e intencional. que na sua inquietação visa sempre um determinado objecto supostamente real na sua exterioridade.96-97. um simples “estar presente”. Com efeito. Paulo Borges Recorde-se que. já o contraste não poderia ser mais flagrante com a pos- tura tradicional da experiência meditativa. o samādhi. Le Yoga.indd 72 07-09-2017 07:59:40 . VII. in Hindu Scriptures. dhyāna é a designação mais comum. Zaehner. 1992. Note-se que o estar sentado no chão é a postura dominante nas culturas tradicionais e ainda hoje em todo o espaço extra-europeu-ocidental. Mircea ELIADE. Immortalité et Liberté. mãos docemente abandonadas uma sobre a outra em frente do umbigo ou sobre os joelhos. Já no Chāndogya Upanishad se afirma que “a meditação (dhyāna) é maior do que o pensamento (citta)” e dá-se o exemplo significativo de que. Quiescência ontológica imitada ou assimilada pelo meditativo. o futuro ou o presente. elo- quente expressão física da conexão com o céu e a terra. a “terra”. 6. a do ser humano sentado com as pernas cruzadas e a coluna vertebral bem direita. como que num recuo sobre si mesmo ou arre-pendi- 173 C f. uma quiescência ontológica inerente a tudo quanto existe. || 72 miolo_Meditacao.86-94. mas da qual se desintegra o pensador na sua figuração cabisbaixa e meditabunda tipicamente ocidental. Payot. que começa por ser a fixação e concentração meditativa da consciência num objecto. rosto sereno e sorriso nos lábios. com uma dimensão cósmica. do abandono de toda a intenção de agarrar ou combater seja o que for e com isso de todas as preocupa- ções com o passado. contemplativo ou yogi.1. em equilíbrio e peito aberto. a prática de dhyāna. 1991. da abertura irrestrita ao mundo sem qualquer medo autoprotector. ou ênstase 173. The Yoga-Sūtra. C. na cultura indiana. 3. Nos Yoga-Sūtras de Patañjali e noutras tradições orientais.

pois a postura privilegiadamente erecta. a postura erguida é considerada como a característica que tornou possível o desenvolvimento das diferentes culturas do mun- do. as nossas mãos ficaram livres. revista por Artur Morão. edição de Raquel Bouzo García. Com a postura bípede. tradução de Ra- quel Bouzo García. pp. pro-jectos e afazeres 175. é a alternativa radical tanto ao afazer compulsivo do homem de acção perdido na exterioridade dos objectivos. sem nenhum querer ou fazer que se adicione ao estado natural de ser e estar consciente. 175 S obre esta questão. A Mão e o Espírito. com as mãos livres para transformar o mundo. Contudo. a própria humanidade situa-se no centro da existência e passa a impor. tradução de Mário Rui Almeida Matos. 176 Cf. 1990. arrasta- do pelos vórtices de pensamentos. não olham nada em particular. não (ego) centrada.34-42. Daí que na prática meditativa se vise que a experiência da meditação sentada se prolongue naturalmente no estado interior da mente ao longo do estar de pé e do caminhar próprio das actividades da vida quotidiana. Zen y Filosofía. esta estrutura antropocêntrica em todo o mundo. mas ainda o discernimento do que há a fazer ou não em termos do sentido ético e oportuno da própria acção exterior. é também uma cisão desse mesmo mundo que assim surge como um objecto-obstáculo ao sujeito que dele se separa por sobre ele pretender agir. Herder. obscurecendo a consciência e impedindo não só a visão clara do que é tal como é. a visão clara da não-dualidade entre a consciência e o real. estímulos e solicitações (na verdade mais agitado do que activo). 2004.indd 73 07-09-2017 07:59:40 . Barcelona. ao fazê-lo. próprio da postura meditativa. proporcionando-nos a “aber- tura” necessária para transcender o nosso meio ambiente biológico e transformá-lo num mundo humano. Shizuteru UEDA. juízos e emoções que se sucedem sem con- trole nem propósito. quanto ao ensimesmamento não menos agitado do pensador não menos compulsivo perdido na interioridade. Lisboa. Jean BRUN. cada vez mais aceleradamente. movido pelos seus desejos. Edições 70. a Liberdade Silenciosa mento do homo erectus. por um momento. o sentar-se com as mãos e as pernas imóveis anula todos os meios de superioridade biológica do homem e de- volve-o. ainda que per- maneçam abertos. Parece-me que um simples olhar rápido ao estado do meio ambiente basta para que comprovemos aonde nos conduziu tal atitude. simplesmente estão abertos a uma 73 || miolo_Meditacao. Pelo contrário. ao ponto de “não fazer” (…) Os olhos. Meditação. numa pura abertura da consciência. A esta luz. (…) A razão de a postura vertical ser considerada a base da superiori- dade humana é (…) que esta posição liberta as nossas mãos para fazer coisas e isso evita que fiquemos apanhados no nosso meio biológico graças à criação de uma cultura nova. Transcrevemos alguns trechos expressivos do que referimos: “Em antropologia. cf. como na inseparabilidade japonesa entre zazen e sanzen 176. o estar sentado plena e conscientemente enraizado na terra e no céu.

Mitologia. No limiar crítico de um crepúsculo civilizacional onde o esquecimento da intimidade com o mundo e do maravilhamento e do espanto perante a inefável imensidade do real gerou a obsessão com o trabalho. não se é o centro senão que. Sempre o Mesmo Acerca do Mesmo. pois anterior à separação entre a consciência mental-verbal e a espiritual-corporal – para a filosofia categorial que tudo encerra em classes e ordens lógicas distintas. É como se a postura meditativa fosse um ícone da experiência original da não separação humano- -divino-natureza ou natureza-cultura 177. Lisboa. simples- mente. porém. Gallimard. pp. ou na cultura céltica – sejam figuras antropomórficas. ao estar sentado com as mãos e as pernas imóveis. Pode ser que isto nos pareça um estado en- simesmado. portanto. porventura de divindades como um proto-Shiva (figura 3) ou Cernunos (figura 4). História e Mito. 178 Cf. Par-delà Nature et Culture. Im- prensa Nacional – Casa da Moeda. Essa experiência pode ser.185. é muito mais significativo que isso: é um estado de não confrontação.77-80 e 315-325. || 74 miolo_Meditacao. porém trata-se de uma abertura centrada inevitavelmente no eu e. Editorial Notícias. e assim de uma experiência da unidade superabundante do real alheia à deriva epistemológica e objectivante da razão antropocêntrica europeia-ocidental hoje globalizada. também estamos abertos ao mundo. Eudoro an- tecipa muito da intuição cosmoteândrica: Raimon PANIKKAR. com chifres e animais ao seu redor. se está aberto à abertura infinita. este é um modo de ser que se actualiza fisicamente na prática do zazen” – Ibid. uma abertura que não pertence à classe de abertura na qual o eu é o centro. Em vez disso. 177 Cf. o divino e o mundo / natureza se passaram a conceber como entidades distintas e separa- das 179. 179 Cf. sem olhar nada em particular. Lisboa. Eudoro de SOUSA. prefácio de Fernando Bastos. Intuição Cosmoteândrica. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. p. 2003. Sempre o Mesmo Acerca do Mesmo. limitada ao eu. Além disso. p. in Horizonte e Complemen- taridade. 2005. no vale do Indo. estan- do meramente em presença da luminosidade. Philippe DESCOLA..36-38. a produção e o consumo abertura luminosa. 2004. no qual nenhuma coisa é considerada como um objecto. na realidade. na progressiva deriva dessa experiência arcaica ou auroral – mais dançada ou ritualmente dramatizada nos povos indígenas do que reflectida e verbalizada. Lisboa. Eudoro de SOUSA. 2002. a da integração original no triângulo da comple- mentaridade simbólica 178 anterior à dolorosa cisão pela qual o humano. Quando estamos de pé.indd 74 07-09-2017 07:59:40 . Paris. A Religião do Terceiro Milénio. apresentação de Constança Marcondes César. Paulo Borges Neste sentido é muito sugestivo que algumas das mais antigas imagens da postura meditativa – como por exemplo as que surgem na cultura pré-indo-eu- ropeia de Mohenjo-Daro. como aponta Eudoro de Sousa.

da depressão. COROMINOS / J. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. O Cavalo de Tróia da mindfulness e a Revolução Silenciosa da meditação Por todos os motivos expostos. que visa apenas tratar sintomas. J. ter assento. exterior e interior. urge renovar um pensar livre de necessidades. e por via do desenvolvimento da experiência meditativa profunda (para além da abordagem do movimento mindfulness. afundar-se. da liberdade e da paz contemplativa. 75 || miolo_Meditacao. nas novas condições sociais. a partir do silêncio da experiência meditativa e contemplativa. de um problema mais radical). p. 1967. um pensar. É fundamental que. uma visão e uma consciência amorosos e festivos. deriva não só de essere. Madrid. IV. desperto no cuidado amoroso do mundo e dos viventes e não adormecido no pesadelo de pesá-los e apresá-los conceptualmente nos intermináveis labirintos discursivos de uma mente fechada em si mesma.213. etc. Id. A Sociedade do Cansaço. culturais e tecnológicas da pós-modernidade. Meditação. III. que evoca o sentar.2095. a actual redescoberta da meditação pela cultura europeia-ocidental. Un ensayo filosófico sobre el arte de demorarse. A.indd 75 07-09-2017 07:59:40 . José Pedro MACHADO. PAS- CUAL. residir. que predominan- temente acontece por via da mindfulness. morar. pousar. como o stress. estacionar. Gredos. a Liberdade Silenciosa (físicos e mentais). da postura e da atitude meditativa 182. Urgem (e já surgem). que cuidem e celebrem a emergência do Sem Nome na imensa co- munidade vital de todos os seres e coisas. Editorial Confluência / Livros Horizonte. Quem é o meu próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional. 1981.122. Lisboa. 181 Cf. 182 Cf. pesem todos os riscos e ambiguidades que temos notado e que desenvolveremos no próximo capítulo deste livro. a devastação da Terra e da Vida e a “sociedade do cansa- ço”. a vida activa se reoriente para a contemplativa 181. verbo que sugestivamente. El Aroma del Tiempo. ficar tranquilo. inseparável do silêncio. 183 Cf. p. Paulo BORGES. criando a possibilidade de cada vez mais seres humanos e durante mais tempo acederem à pura experiência de ser. mas também de sedere (estar sentado. na sua etimo- logia portuguesa e castelhana. pode vir a ser a grande revolução 180 Cf. 4. p.. fixar-se.). Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispânico. nossos próximos e nossos íntimos 183. do tédio e do esgotamento 180. Byung-Chul HAN.

como é compreensível e inevitá- vel. 2001).indd 76 07-09-2017 07:59:40 . por extensão. Peter SLOTERDIJK. La mobilisation infinie. 2 (Spring. 186 Cf. mas agora feliz e de sinal contrário 184. If Max Weber were alive today. e mesmo que comece por visar outros fins. que são decerto a maioria. hospitais. Vers une critique de la cinétique politique. Embora as moti- vações dominantes que fazem com que se introduza cada vez mais na vida das pessoas e das instituições – escolas. volume to his Protestant Ethic. empresas. apenas encoberto pelos hábitos de identificação com as turbulentas vagas dos fenómenos mentais que à superfície o agitam (na Índia designadas como as vrtti 186. as terapêuticas. da parte dos seus consumidores. a célebre definição do yoga: “Yoga é a restrição das flutuações (vrtti) da consciência” || 76 miolo_Meditacao. Embora reconheçamos relativa pertinência à crítica de Slavoj Zizek.24-26 e 28. e embora as motivações de muitos dos seus promotores possam ser (e cada vez mais) de natureza comercial. de civilização. supplementary. a ex- periência contemplativa mais profunda possa emergir onde menos se espe- ra e em quem menos conscientemente a procura ou em quem busca apenas os seus benefícios superficiais. por uma outra “ironia “kármica””. The “Western Buddhist” meditative stance is arguably the most efficient way for us to fully participate in capitalist dynamics while retaining the appearance of mental sanity. cremos que a prática regular de alguma forma tradicional de meditação. na medida em que é “o modo mais eficiente de participarmos plenamente na dinâmica capitalista ao mesmo tempo que mantemos a aparência de sanidade mental” 185. as vagas das propensões e tendências 184 C f. com um professor competente. próprias de uma civilização global tão doente e cansada quanto hedonista e hiperactiva. he would definitely write a second. pp. pode todavia acontecer que. entitled The Taoist Ethic and the Spirit of Global Capitalism” – Slavoj ZIZEK. do bem-estar e da busca de maior eficácia e rentabilidade. pode sempre disponibilizar a mente para a irrupção da original consciência não-dual que é o seu e universal fundo sem fundo sempre presente. 185 “One is almost tempted to resuscitate the old infamous Marxist cliché of religion as the “opium of the people. pois isto aplica-se aos praticantes superficiais e menos conscientes de meditação ou de uma via budista ou taoista. Cabinet. entre outras – sejam sobretudo. de que a voga da meditação e do budismo / taoismo ocidental é quase um novo “ópio do povo”. Paulo Borges silenciosa do século XXI e um poderoso contributo para a urgente mutação do paradigma de consciência e.” as the imaginary supplement to terrestrial misery. “From Western Marxism to Western Buddhism”.

nova tradução e comentário por Georg Feuerstein. animais. pp. o que realmente somos. Rochester. I. e o terceiro. Unlocking the secret and science of happiness. árvores. que em geral visa benefícios bem mais limitados…) corre o “risco” de deixar emergir o fundo sem fundo do ser e da consciência. Nova Iorque.101-107. 2009. etc. a Vida plena ou aquilo que o Ocidente chama Deus e o Oriente Tao. Inner Traditions International. rios. Meditação. O nosso mais essencial estado da mente. a tudo abrange e de nada está separado 188 . Cutting Through Spiritual Materialism. The Joy of Living. 1989. a sua natureza original. Bantam Books. Boston / Londres. Shambhala. de um contemplativo cristão: “Fundamentalmente há apenas espaço aberto. uma liberdade fundamental. relógios e mesmo a nossa percepção de tempo e de espaço – é uma expressão relativa da infinita possibilidade. 77 || miolo_Meditacao. planetas. emergindo quando livre de dualidade num amor e compaixão naturais e – PATAÑJALI. “(…) descobri que a melhor maneira de descrever este aspecto da vacuidade é regressar à analogia do espaço como compreendido no tempo do Buda – uma vasta abertura que não é uma coisa em si mesma. aparecem e se movem. a meditação (a começar pela própria mindfulness. p. Tudo o que surge da vacuidade – estrelas. seres humanos. nesta e noutras vidas). usado pelos praticantes de língua inglesa.. ou infinita possibilidade. galáxias. antes da criação do ego. p. é a matriz infinita de todo o possível e que em tudo se manifesta. Brahman ou Buda… Aquilo que desde sempre há em nós e em tudo ou aquilo que desde sempre somos e jamais podemos deixar de ser. o acrónimo RAIN. pessoas. investigação. (…) A vacuidade. mas igualmente funcional em português: reconhecimento.26. mas vendo a sua impermanência e cessando o apego a eles 187 – levam o praticante a suspender os hábitos de identificação com a turbulência de pensamentos e emoções. The Wise Heart. tal como o espaço. não tendo forma. mesas. aceitação. uma qualidade espaçosa. 2. 188 Note-se a notável convergência entre estes dois primeiros trechos. e temos agora e sempre tivemos esta abertura” – Chögyam TRUNGPA. estrelas. o campo fundamental. ilustrado por Glen Eddy.122. o que tem por efeito reduzi-la e eventualmente cessá-la. de mestres budistas. 187 Cf. não-identificação – Jack KORNFIELD. é a natureza absoluta da realidade. Na medida em que os mais elementares métodos de atenção plena – em que se reconhecem e aceitam os fenómenos mentais. é tal que há aí uma abertura fundamental.indd 77 07-09-2017 07:59:40 . a Liberdade Silenciosa kármicas procedentes do fundo subconsciente do psiquismo e geradas pelas experiências e acções passadas. mas antes um fundo infinito e não-caracterizado contra o qual e através do qual galáxias. uma aparência momentânea no contexto de tempo e espaço infinitos” – MINGYUR RINPOCHE (e Eric SWANSON). 2002. editado por John Baker e Marvin Kasper. A Guide to the Universal Teachings of Buddhist Psychology. lâmpadas. Um vazio-pleno desperto e luminoso que. prefácio de Sakyong Mipham. The Yoga-Sūtra.

Londres. não é uma ausência. a experiência desta identidade-fundo que é uma com Deus será registada na nossa percepção. Esta “não coisa” [“no thing”]. The Practice of Contemplation. mas uma superabundância” – Martin LAIRD. “Precisamente porque a nossa mais profunda identidade.indd 78 07-09-2017 07:59:40 . isto pode parecer um terror que lida com a morte ou uma vertigem giratória. como uma experiência de nenhuma coisa particular. Bantam Books. fundando a personalidade. está oculta com Cristo em Deus e para além do alcance da compreensão. é um encontro transbordante com o fluxo da vasta e aberta vacuidade que é o fundo de tudo. Darton. 2009. Londres. Into the Silent Land. para aqueles cuja mente se dilatou numa mente-coração. Mas. um grande e fluente abismo. Para aqueles que só conhecem a mente discursiva. um fundo sem fundo. p. A contemplação desprovida de ego pode residir oculta no Cavalo de Tróia da mindfulness que a civilização europeia-ocidental hoje globalizada egocentricamente puxa para dentro dos muros da sua cidade fortificada por séculos de dualidade. 2009. || 78 miolo_Meditacao. p. apego. se na verdade se regista. indiferença e aversão. Paulo Borges incondicionais por tudo quanto existe e vive. prefácio de Daniel Goleman. Logman and Todd.63.14. Por isso é tão felizmente perigosa como infelizmente perigosa é a sua recuperação e instrumentalização pelo egocentrismo bem-estarista. esta vacuidade. pro- dutivista e mercantilista da globalização dominante.

wikimedia.indd 79 07-09-2017 07:59:40 .org/wiki/File:Melencolia_I_(Durero).jpg 79 || miolo_Meditacao. Meditação. de Albrecht Dürer https://commons. a Liberdade Silenciosa Figura 1 – Melencolia I.

indd 80 07-09-2017 07:59:40 . de Auguste Rodin https://commons.wikimedia.org/wiki/File:%27Le_Penseur%27_(Auguste_Rodin)_3. Paulo Borges Figura 2 – O Pensador.jpg || 80 miolo_Meditacao.

wikimedia.org/wiki/File:Shiva_Pashupati. Meditação. a Liberdade Silenciosa Figura 3 – Shiva-Pashupati https://commons.indd 81 07-09-2017 07:59:40 .jpg 81 || miolo_Meditacao.

Paulo Borges Figura 4 – O Caldeirão de Gundestrup https://commons.jpg || 82 miolo_Meditacao.wikimedia.org/wiki/File:Gundestrupkedlen-_00054_(cropped).indd 82 07-09-2017 07:59:41 .

ano e meio de- pois. apego. em 2015: “A contemplação desprovida de ego pode residir oculta no Cavalo de Tróia da mindfulness que a civilização europeia-ocidental hoje globalizada egocentri- camente puxa para dentro dos muros da sua cidade fortificada por séculos de dualidade. mantemos esta visão. As ambiguidades da mindfulness e o pleno despertar da consciência 1. 83 || miolo_Meditacao. Por isso é tão felizmente perigosa como infelizmente perigosa é a sua recuperação e instrumentalização pelo egocen- trismo bem-estarista. III A meditação numa encruzilhada. virtualidades e ambiguidades da mindfulness: meio hábil compassivo ou nova mercadoria ao serviço do egocen- trismo dominante? Escrevemos. embora com o sentimento muito reforçado do risco de desvio e mesmo de perversão a que as tradições meditativas e contempla- tivas da humanidade estão hoje sujeitas na motivação que parece predominar em torno da oferta e procura da meditação e particularmente da mindfulness. produtivista e mercantilista da globalização dominante”.indd 83 07-09-2017 07:59:41 . O terceiro capítulo deste livro é o desenvolvimento de uma comunicação na edição do mesmo Colóquio em 2017 e começamos dizendo que. Origem. indiferença e aversão. que transcreve a nossa comunica- ção na primeira edição do Colóquio Vita Contemplativa. no final do capítulo anterior. Práticas Contemplati- vas e Cultura Contemporânea.

Paulo Borges

desenquadrada do seu contexto e sentido originais, num processo já designado
como de “desenraizamento”, “secularização” e “instrumentalização” 189.

Há uma longa e complexa história por detrás do fenómeno recente da min-
dfulness e que se pode tentar resumir ao facto de mestres das tradições budistas
Theravada e Zen terem começado, decerto com as melhores intenções, a abrir
o ensino da meditação, até então mais reservado aos mosteiros e a pessoas for-
temente empenhadas no estudo e prática do Dharma e da via do Buda, a leigos,
necessariamente menos conhecedores do, e menos interessados no, tradicional
e orgânico enquadramento filosófico, doutrinal e ético das práticas meditativas.
Com isto, surgiram também novas técnicas de meditação, distintas das tradi-
cionais, e em particular o que hoje passa equivocamente por ser a essência da
meditação, o deixar apenas a mente no aqui-e-agora. Quando estes aprendizes
laicos de meditação, entre os quais surgiram os primeiros discípulos ocidentais
de mestres asiáticos, no final dos anos 60 e início dos anos 70 do século XX,
começaram por sua vez a ensinar no Ocidente o que aprenderam, acentuou-se
a separação entre o que no budismo, desde o primeiro discurso do Buda Gau-
tama, é inseparável: a sabedoria, a ética e a meditação. A meditação começou a
ganhar uma progressiva autonomia da visão exposta na base de todo o Dhar-
ma, o primeiro discurso do Buda Gautama sobre as quatro nobres verdades e o
nobre caminho óctuplo, e a ser cada vez mais ensinada e praticada não para se
atingir a libertação de todas as ilusões e condicionamentos da mente e da vida,
não para se transcender a ignorância dualista, o apego e a aversão geradores do
samsāra e aceder ao nirvāna, à iluminação, ao Despertar ou ao estado de Buda,
para o bem de todos os seres, mas sim, numa completa inversão do ensinamen-
to original, para se melhorar, para um limitado bem pessoal e/ou colectivo, as
condições e experiência de vida no samsāra. O ensino e a prática da meditação,
oferecidos pelo Buda Gautama como parte integrante de um caminho de supe-
ração de todos os interesses mundanos, cederam cada vez mais a esses mesmos
interesses. A meditação, que no ensinamento ou Dharma do Buda surge inte-
grada numa proposta global de transformação profunda da vida pessoal e social
189 C
 f. Barry MAGID e Marc R. POIRIER, “The Three Shaky Pillars of Western Bud-
dhism: Deracination, Secularization and Instrumentalization”, in AAVV, What’s
Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). Zen Perspectives, pp.39-52.

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convencional, e de constituição de uma comunidade alternativa, a Sangha, que
visa a libertação e o despertar e não o sucesso mundano, reduziu-se em boa par-
te a um conjunto de técnicas de gestão e terapia do mal-estar e da insatisfação
inerentes à vida samsárica, assegurando-lhe maior bem-estar, eficiência e ren-
tabilidade, sem colocar em causa os seus fundamentos e motivos 190, que o Buda
claramente identificou como as oito preocupações mundanas: expectativa de
ganhar e medo de perder, expectativa do prazer e medo da dor, expectativa do
elogio e medo da censura, expectativa da fama e medo do descrédito 191. Em ter-
mos budistas, a meditação foi posta ao serviço da busca da felicidade, mas não
das suas causas profundas – o despertar da consciência da ilusão da existência
real de um “eu” distinto do “outro” – , e do evitar do sofrimento, mas não das
suas causas profundas: a ignorância dualista que ficciona a distinção entre “eu”
e “não-eu” e os consequentes apego a uns, aversão aos outros e indiferença aos
demais. O resultado natural disso é que, desvinculada de uma via conducente
ao pleno despertar da consciência, a meditação conduz apenas a um bem-estar
superficial e fugaz e não liberta das raízes do sofrimento.

Este é o pano de fundo histórico e mental que assistiu ao nascimento da
mindfulness, nomeadamente a Mindfulness Based Stress Reduction, que ini-
cialmente foi concebida por Jon Kabat-Zinn, com motivos inegavelmente po-
sitivos e compassivos, para ajudar os norte-americanos sofredores de stress,
doença e dor crónicas, e que a partir daí se estendeu a todas as pessoas, visan-
do levá-las a descobrir a alegria de ser mediante uma atenção sustentada no
presente. Para o efeito, como veremos, o sétimo aspecto do óctuplo caminho,
a atenção plena ou mindfulness, foi assumidamente destacada, se não desvin-
culada, do organismo do Dharma e laicizada, com o objectivo de levar os seus

190 C f. duas visões complementares deste processo, nas tradições Theravada e Zen: Bikkhu
BODHI, “The Transformations of Mindfulness”, in AAVV, Handbook of Mindfulness.
Culture, Context, and Social Engagement, editado por Ronald E. Purser, David Forbes
e Adam Burke, Springer, 2016, pp. 3-14; Robert H. SHARF, “Is mindfulness buddhist?
(and why it matters)”, in AAVV, What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). Zen
Perspectives, pp.139-151.
191 Cf. Anguttara Nikāya 8:6; IV 157-159, In the Buddha’s Words. An anthology of discourses
from the pāli canon, editada e introduzida por Bhikkhu Bodhi, prefácio do Dalai Lama,
Boston, Wisdom Publications, 2005, pp.32-33.

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benefícios a praticantes de todas as crenças e sem elas e permitir a sua ampla
aceitação social e institucional, convertendo-a no fenómeno mainstream que
hoje é 192, fortemente baseado numa considerável comprovação científica dos
seus benefícios, embora não isenta de controvérsia, como tende a verificar-se
recentemente 193.

A iniciativa e o livro principal de Jon Kabat-Zinn foram todavia saudados
pelos seus reconhecidos benefícios e um eminente mestre budista contempo-
râneo como Thich Nhat Hanh declarou mesmo, num curto prefácio à primei-
ra edição, em 1990, que “O livro pode ser descrito como uma porta abrindo
tanto para o dharma (do lado do mundo) como para o mundo (do lado do

192 C f. Jon KABAT-ZINN, Full Catastrophe Living: Using the Wisdom of Your Body and
Mind to Face Stress, Pain, and Illness; J. Mark G. WILLIAMS e John KABAT-ZINN,
“Mindfulness: diverse perspectives on its meaning, origins, and multiple applications at
the intersection of science and dharma”, in AAVV, Mindfulness. Diverse Perspectives on its
Meaning, Origins and Applications, pp.1-17; John KABAT-ZINN, “Some reflections on
the origins of MBSR, skillful means, and the trouble with maps”, in AAVV, Mindfulness.
Diverse Perspectives on its Meaning, Origins and Applications, pp.281-306.
193 Vejam-se alguns exemplos recentes: Jake H. DAVIS / David R. VAGO, “Can enlighten-
ment be traced to specific neural correlates, cognition, or behavior? No, and (a qua-
lified) Yes”, Frontiers in Psychology (November, 2013), vol. 4, pp.1-4; Gaëlle DESBOR-
DES, Tim GARD, Elizabeth A. HOGE, Britta K. HÖLZEL, Catherine KERR, Sara W.
LAZAR, Andrew OLENDZKI, David R. VAGO, “Moving Beyond Mindfulness: Defin-
ing Equanimity as an Outcome Measure in Meditation and Contemplative Research”,
Mindfulness (December, 2013), vol. 4, nº4; Jared R. LINDAHL, “Why Right Mindful-
ness Might Not Be Right for Mindfulness”, Mindfulness (2015) 6:57–62 , DOI 10.1007/
s12671-014-0380-5; AAVV, Handbook of Mindfulness. Culture, Context, and Social
Engagement, editado por Ronald E. Purser, David Forbes e Adam Burke, Springer,
2016; Miguel FARIAS, Catherine WIKHOLM, “Has the science of mindfulness lost its
mind?”, BJPsych Bulletin (2016), 40, 329-332, doi: 10.1192/pb.bp.116.053686; Adam W.
HANLEY, Neil ABELL, Debra S. OSBORN, Alysia D. ROEHRIG e Angela I. CANTO,
“Mind the Gaps: Are Conclusions About Mindfulness Entirely Conclusive?”, Journal
of Counseling & Development (January, 2016), vol. 94, pp.103-113; P. SHARMA, S.
SINGH, S. GNANAVEL, N. KUMAR, “Meditation – a two edged sword for psycho-
sis: a case report”, Irish Journal of Psychological Medicine (2016), 33, 247–249; J. David
CRESWELL, “Mindfulness Interventions”, Annual Review of Psychology (2017), doi:
10.1146/annurev-psych-042716-051139; A. CHIESA, T. FAZIA, L. BERNARDINELLI,
G. MORANDI, “Citation patterns and trends of systematic reviews about mindfulness”,
Complementary Therapies in Clinical Practice (2017), doi: 10.1016/j.ctcp.2017.04.006.

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281-306. sustenta que “A intenção e a abordagem por detrás da MBSR nunca pretenderam ren- tabilizar. Seja co- mo for. Diverse Perspectives on its Meaning.288.XXIII. 87 || miolo_Meditacao. Pain. medicina (incluindo psiquiatria e psicologia) e cuidados de saúde. pp. Ibid. 195 John KABAT-ZINN. o caminho óctuplo. a partir da “visão” que teve do que viria a ser a mindfulness. Full Catastrophe Living: Using the 194 Th Wisdom of Your Body and Mind to Face Stress. p. fossem médicos ou pacientes.287. e considerando que a raiz do Dharma do Buda é com- preender o sofrimento e suas causas e oferecer uma via prática para dele nos libertarmos.. as quatro medi-  ich Nhat HANH. “Preface”. administradores de hospi- tais ou companhias de seguros” 195. como esclarece. in AAVV. desenvolvimento e sentido do seu trabalho. and the trouble with maps”. Meditação. numa muito significativa “nota para instrutores baseados em mindfulness”. numa retrospectiva ainda recente (2013) sobre a génese. 288 e 293-294. Este apreço mantém-se no curto prefácio da edição de 2013 194. num retiro de vipassanā em 1979. p. a Liberdade Silenciosa dharma)”. procurou torná-lo acessível a pacientes que dele pudessem bene- ficiar sem mencionar a palavra “Dharma”. “Some reflections on the origins of MBSR. Todavia. pp. por sua vez. Conta assim que. para Jon Kabat-Zinn toda a prática da mindfulness se baseia experien- cial e implicitamente nos pilares fundamentais do ensinamento do Buda – as Três Jóias (Buda. fragmentar ou decontextualizar o dharma. os sete factores da iluminação. idealizando objectivos conceptuais a atingir em vez de deixar que o processo flua. and Illness. Origins and Applications. é verdadeiro dharma”. as quatro nobres verdades. mas antes recontextua- lizá-lo no contexto da ciência. de modo a que ele pudesse ser maximamente útil para pessoas que o não podiam escutar ou entrar nele através das mais tradicionais portas do dharma. durante uns 10 segundos. os cinco obstáculos. in Jon KABAT-ZINN. propondo num contexto hospitalar um “treino relativamente intensivo em meditação budista sem o budismo” 196 . todas as “intervenções baseadas em mindfulness” têm uma estrutura “não diferente em qualquer modo essencial do dharma do Buda” e daí os “vários mapas do território do dharma” serem tão benéfi- cos para os instrutores de mindfulness. 196 Cf.indd 87 07-09-2017 07:59:41 . desde que não ocultem o território da experiência directa na relação com os pacientes ou participantes. pois “quando o dharma cuida realmente dos problemas da vida. skillful means. Dharma e Sangha). Jon Kabat-Zinn. Mindfulness.

pois o que se dá e quem dá já são livres / gratuitos (“free”) 199 (mas. faz com que para os seus instrutores seja “imensamente útil ter uma forte fundamentação pessoal no dharma do Buda e nos seus ensinamentos”. a verdade é que. no que têm de mais amplo.. alegria. Ibid. são já os patriarcas. na “medula” da prática da mindfulness estão elementos das três grandes tradições budistas – Thera- vada. sendo a ética budista dos meios hábeis (upāya). Segundo ele. sublinhamos.299-300. estabelecendo-se aí uma “real linhagem sem forma” que é o próprio Dharma no seu sentido mais amplo e universal e pelo qual se reconhece que “literal- mente tudo e todos são já o Buda. expressão da sabedoria e da compaixão. “Sem custo”. “todos os mapas são postos de lado como um acto de amor e sabedoria” e que no desapego em relação a eles se “incorpora a essência do território de ser humano em todas as suas dimensionalidades”. não é certamente baseado em mindfulness no modo como entendemos a palavra” 198 . 198 Cf. a começar por si mesmo. o que. Ibid. nada há a fazer senão dar. são já o vosso mestre”.indd 88 07-09-2017 07:59:41 . universal e informal. compaixão. então seja o que for que se fizer ou se pense que se está a fazer. Mahāyāna e Vajrayāna – . sem que tenham de ser nomeados como tal. 197 MBSR: Minfulness-Based Stress Reduction. enquanto capacidade pedagógica de adequar a visão e a prática dos ensinamentos do Buda a todos os potenciais destinatários. Este esclarecedor texto mostra claramente que Jon Kabat-Zinn. equanimidade) – . Paulo Borges tações incomensuráveis (amor. pp. são já o dharma. baseada nos “meios hábeis”. “se a essência está ausente. sendo isso mesmo “na prática essencial e indispensável para professores de MBSR 197 e outras intervenções baseadas em mindfulness”. como se concilia com esta gratuidade o florescente negócio da indústria da mindfulness?). oferecendo-os do modo mais adequado a beneficiá-los tendo em conta as suas necessidades. o que preside à sua formulação. Reconhecido isto. Jon Kabat-Zinn conclui este precioso depoimento e confissão dizendo que na relação dos professores de mindfulness com os seus pacientes e clientes. 199 Cf. devemos questionar. Se todavia pouco ou nada disso pode ser trazido para a sala de aula “excepto na essência”. o histórico fundador da mindfulness. a concebe intimamente ligada à visão e prática budis- tas. || 88 miolo_Meditacao.

que ex- pressa a virtual infinidade de vias de acesso ao despertar da consciência e à libertação. linguística e simbolicamente estruturadas. usando todavia essas mediações para se transmitir às mentes humanas em geral. mas que aí deve ser abandonada sem apego 200.56. The Heart of the Buddha’s Teachings. 1978. e Mingyur Rinpoche. com o programa Alegria de Viver. Demiéville. bem como as situações e contex- tos concretos e sempre mutáveis em que a relação e a comunicação se inserem. palavra e ima- ginação e com isso todas as visões. ou seja. incluindo as budistas 201. sob risco de a mindfulness deixar de o ser. a consciência plenamente desperta. p. a Liberdade Silenciosa predisposições e capacidades de compreensão. transcende todo o regime de pensamento. também fortemente impregnadas pelas culturas asiáticas onde o budismo inicialmente floresceu – é a estratégia de reputados mestres budistas contemporâneos. prefácio de P. conceptual. L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. A pedagogia dos meios hábeis ma- nifesta-se ainda na metáfora de existirem 84 000 portas do Dharma. O budismo não é uma colecção de visões. com o programa Shambhala. Majjhima-nikāya (edição PTS). 201 “(…) se olharmos mais profundamente. com os Cinco e Catorze Treinos da Atenção Ple- na. mas como constitutiva de toda a prática e transmissão da mindfulness e por isso “essencial” para todos os seus professores. como Chögyam Trungpa.indd 89 07-09-2017 07:59:41 . Notamos que Jon Kabat-Zinn não vê esta relação medular entre mindfulness e Dharma do Buda como circunscrita ao seu caso pessoal. No fundo a peda- gogia dos meios hábeis aplica-se ao próprio ensinamento do Buda. Paris. Éditions du Seuil. apresentado como uma “jangada” para conduzir para a “outra margem” (metáfora do Despertar). laicizando e secularizando o Dharma do Buda para o tornar acessível e benéfico para mais sectores da população ocidental. (…). estudo seguido de uma escolha de textos. Rider. Meditação. a Visão Justa é a ausência de todas as visões” – Thich Nhat HANH. vemos que todas as visões são visões erradas.29-30. 1998. tantas quantas as necessidades e especificidades de cada ser singular 200 C f. não preparados para o compreender e praticar nas suas formas tradicionais. (…) Do ponto de vista da realidade última. in Walpola RAHULA. pelo menos tal como concebida por si. Thich Nhat Hanh. 89 || miolo_Meditacao. pp. É uma prática para nos ajudar a eliminar visões erradas. o que veio a ser conhecido como budismo. A estratégia de Kabat-Zinn – que é a estratégia dos meios hábeis. pois a verdadeira natureza de Buda. Nenhuma visão pode alguma vez ser a verdade. Londres.

dos seus  ich Nhat HANH. || 90 miolo_Meditacao. toda a questão reside em averiguar se as novas portas que se abrem continuam a ser portas do Dharma. pois o Dharma. Riverhead Books. mas um verdadeiro Dharmakaya. deveríamos ter medo de que não mais se abrirão. introdução de Elaine Pagels. considera mesmo que há que criar mais portas ainda. não no sentido de serem portas “budistas”. pela nossa prática e pela nossa bondade amorosa.39. que estende a prática da atenção plena e do Dharma a questões. temos de abrir ainda mais portas para as gerações futuras. sem perder o essencial. é capaz de abrir novas portas do Dharma. Cada um de nós. mas no de constituírem meios hábeis que levam a todo o tipo de seres humanos. p. Seria uma pena para os nossos filhos e os seus filhos se ficássemos satisfeitos apenas com as 84 000 já disponíveis. um verdadeiro “corpo de ensinamento”” 202. Dito isto. que sem os converter a uma religião ou filosofia não deixe contudo de lhes propor e de lhes possibilitar um caminho profundo de pacificação. O Buda conta connosco para que o Dharma continue a desenvolver-se como um organismo vivo – não um Dharma bafiento. político e ambiental – . Paulo Borges e concreto. No que respeita à questão específica da mindfulness. as pessoas estão a mudar. deve transformar-se ao ser vivido e aplicado num mundo em constante mutação: “Diz-se que há 84 000 portas do Dharma. não seria muito budista dizer que a tua é a única porta. há que ponderar se os posteriores e actuais rumos da mindfulness. no espírito da sua proposta e prática do “budismo comprometido”. Nova Iorque. Living Buddha. Se tens suficiente sorte para encontrar uma porta. portas de ensinamento. nas suas concretas e singulares condições mentais e circunstâncias de vida. Thich Nhat Hanh. 2007. problemas e manifestações de sofrimento não existentes no tempo do Buda – nomeadamente de carácter social. prefácio 202 Th do Irmão David Steindl-Rast. uma informação e uma prática benéficas e libertadoras. Na verdade. Living Christ. A sociedade está a mudar. e recordando as palavras de Jon Kabat-Zinn. despertar e libertação da consciência e não meras terapias ou formas de bem-estar superficiais e fugazes. Não devemos ter medo de mais portas do Dharma – a ter medo de alguma coisa. as condições políticas e económicas não são as mesmas que eram no tempo de Buda ou de Jesus.indd 90 07-09-2017 07:59:41 .

seja do próprio projecto original da mindfulness. Meditação. a par dos imensos e reconhecidos benefícios para que tem aberto. também abriu e parece cada vez mais abrir para sérios problemas e ambiguidades. in AAVV. “é também possível que no seu novo papel secular a mindfulness acabe por ser mais uma moda passageira a ser lançada e promovida no mercado global. a partir do momento em que se deixa recuperar e instrumentalizar pelos interesses do sistema mental dominante e dos poderes estabelecidos. and Social Engagement. Com efeito. o sucesso de uma alternativa espiritual. Culture. e das suas ambiguidades presentes. cultural ou terapêutica é. senão mesmo distorções e perversões. 3-14. embora o haja feito com as melhores intenções. que não são senão os interesses da mente humana que ainda não despertou para a sua natu- reza profunda nem está interessada nisso. e depois desvanecer-se no esquecimento. uma estratégia adequada movida pela sabedoria e pela compaixão. Handbook of Mindfulness. para florescer durante um momento. sendo ainda cedo para antever claramente tudo o que daqui pode resultar 203. paradoxalmente ou não. “The Transformations of Mindfulness”. seja do espírito do Dhar- ma. que nada visa senão ajudar e beneficiar seres necessitados e em sofrimento. mais decisivo. com uma motivação predominantemente  o final da sua retrospectiva sobre as transformações da mindfulness. Estamos num estágio na história da mindfulness em que é ainda demasiado cedo para fazer quaisquer predições seguras” – Bikkhu BODHI. Na verdade. a par dos seus benefícios presentes e porventura futuros. o início do seu de- clínio. pp.indd 91 07-09-2017 07:59:41 . o controle. a Liberdade Silenciosa professores e das formações de professores estão a seguir as linhas traçadas pelo seu fundador e se. tal como tantas outras. mas não de forma tão visível e eficaz) – uma porta de camuflagem e disfarce terapêutico do Dhar- ma – é uma porta que. Como fre- quentemente acontece na história da humanidade. Esses interesses são em geral e hoje os de diminuir e gerir melhor o mal-estar e aumentar o mais possível o bem-estar. a porta do Dharma aberta por Jon Kabat-Zinn (e antes dele por outros. há sempre um enorme risco e um preço virtualmente imenso a pagar quando se pretende que um fenómeno original e revolucionário se torne mainstream. ou seja. a eficiência e a rentabilidade. 91 || miolo_Meditacao. Context. o que resulta inevitavelmente no sacrifício da sua inicial autentici- dade na adaptação à cultura e à mentalidade socialmente dominantes. Bhikkhu 203 N Bodhi considera que. continuam a ser um meio hábil.

inc. como são. não parecem garantir que as motivações continuem a ser as de fazer dela um meio hábil para ajudar pessoas de modo desinteressado e altruís- 204 C  f. onde foi separada do nobre caminho óctuplo (no qual é indissociável da ética e da sabedoria). dos sete factores da iluminação e da tríade visão-medita- ção-acção. elogio e censura. a nova indústria a que dá lugar e a mercantilização associada (que a torna um negócio milionário à escala global 204). é o que aconteceu quan- do a filosofia se converteu de interrogação profunda e modo de vida numa profis- são e num currículo escolar intelectualizado e é o que aconteceu. num fenómeno ainda recente e já afim ao que acontece com a mindfulness. cremos que era previsível e inevitável que na sua evolução a mindfulness cedesse às preocupações mundanas a partir do momento em que – se não na intenção e prática do seu fundador e de muitos professores empenhados. adaptadas aos medos e expectativas da consciência colectiva e ao apetite de poder de alguns. Paulo Borges egocêntrica (o que é inevitável numa mente que ainda não se desfez do conceito de um eu separado dos outros e do mundo). mas nas de muitos outros que não seguem o seu exemplo e têm a via livre para isso – surgiu de ou evoluiu pa- ra uma efectiva decontextualização do lugar que ocupa no ensinamento budista tradicional. Não duvidando das intenções de Jon Kabat-Zinn. no caso budista.html (acedido em 10/08/2017). a actual voga da mindful- ness. independente e singular. fenómeno a um nível bem menor da evolução da consciência. Sem pretender compará-lo com a mindfulness.indd 92 07-09-2017 07:59:41 . as intenções da oferta e as expectati- vas da procura. a renúncia (à ideia de um eu permanente. ao desejo ávido e à aversão e às consequen- tes preocupações mundanas: ganhar e perder. a devoção/aspiração ao Despertar da consciência (a aspiração a ser Buda) e a compaixão/bodhicitta (fazer isso pelo bem de todos os seres). bem como dos fundamentos e enquadramento indispensáveis de uma via espiritual autêntica. uma notícia recente acerca do volume e das expectativas de crescimento do negócio nos EUA: https://www. fama e descrédito). é o que aconteceu em que as revoluções espirituais da humanidade se converteram em religiões socialmente institucionalizadas. prazer e dor.com/bartie-scott/best-industries-2017-meditation-and- mindfulness-training. || 92 miolo_Meditacao. com o yoga ao passar de via de libertação para técnica de bem-estar integrada no novo mercado da “es- piritualidade”.  Como se começa a reconhecer nos próprios círculos de professores e forma- dores de professores mais conscientes e responsáveis.

Meditação. in AAVV. “A Meta-Critique of Mindfulness Critiques:
 From McMindfulness to Critical Mindfulness”. após as quais as pessoas são em geral abandonadas à sua sorte 205). e uma “mindfulness crítica” (não só da mindfulness. POIRIER. num senti- do mais amplo. com um saber de experiência feito gerado ao longo de vidas inteira e desinteressadamente dedicadas à abertura e desenvolvimento da consciência e do coração. Context. tendo contactado o essencial em si e estando assim qualificados para o transmitir ou sugerir mini- mamente aos outros. 93 || miolo_Meditacao. acompanhando-os com sabedoria.153-166. Culture. Zen Perspectives. mas das próprias críticas a ela) 206.21. a Liberdade Silenciosa ta. Handbook of Mindfulness. “Mischief in the marketplace for mindfulness”. evolução e credibilidade. eis algumas das questões mais problemáticas que surgem da efectiva decontextualização da mindfulness da sua matriz budista e. da decontextualização da prática meditativa do seu tradicional enquadramento numa via espiritual integral. p. Marc R. and Social Engagement. no preciso momento do aparente triunfo do movi- mento da mindfulness surgem os sinais de uma reacção crítica que a contesta em pontos essenciais no que respeita à sua natureza. 206 Cf. A nosso ver. e que os formadores sejam necessariamente pessoas que hajam desenvolvido o melhor potencial da consciência e do ser. pp.indd 93 07-09-2017 07:59:41 . uma espécie de pronto-socorro ou técnica de auto-ajuda para todos os problemas. a legitimação e auto- rização dos professores e instrutores é única e exclusivamente baseada na evolução espiritual reconhecida por mestres qualificados e sancionada por comunidades de 205 C f. Neste contexto. in AAVV. budista ou outra: 1 – A raiz de todos os problemas originados pela remoção da mindfulness e das práticas meditativas do seu tradicional contexto espiritual é que a sua transmissão deixou de se fazer acompanhada de uma visão sapiencial e ética em linhagens de mestres e discípulos e num contexto comunitário. que a formação se faça segundo os melhores critérios e com o melhor tempo de maturação. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). Zack WALSH. amor e compaixão ao longo de um processo longo que pode ser recheado de irrupções psíquicas difí- ceis de gerir (não parece aliás haver essa intenção nas formações aceleradas de oito semanas. Como é habitual. Esta situação é neste momento alvo de debate aceso e de publicações de quali- dade onde se equaciona por exemplo o contraste entre a McMindfulness.

2 – Outra consequência gravosa desta situação é a busca e a oferta da mindfulness ou de outra forma de meditação em prol dos seus efeitos e resultados. como adiante referiremos. sobretudo de concentração. tendem maioritariamente a ser técnicos formados por outros técnicos e muito improvavelmente mestres ou professores despertos ou minima- mente inspirados pelo vislumbre da natureza profunda. como é próprio da experiência genuinamente contemplativa valorizada como tal pelas tradições espirituais da humanidade. Paulo Borges praticantes. como um instrumento ou um meio para outra coisa e não como um fim em si. os formadores. onde é um fim último para o qual tudo se orienta e não o contrário. ou seja. os momentos mais verdadeiros e mais eficazes da vida humana.indd 94 07-09-2017 07:59:41 . com base no domínio técnico de programas e protocolos ao longo de formações (muito bem) pagas onde oito semanas de treino e um ou alguns reti- ros não se podem comparar a vidas inteiras ou muitos anos totalmente dedicados ao estudo. não estão ordenados para mais nada. no presente contexto desaparece ou é mínima a validação e acompanhamento comunitários dos formadores e dos formandos . É para eles que tudo converge. incondicionada e bondosa do ser e da consciência. porém. de realizar o || 94 miolo_Meditacao. sendo considerados mestres aqueles que por sua vez foram reconheci- dos pelos seus próprios mestres e comunidades. Além disto. eles. profissionalizada e comercializada. que neste contexto ainda menos se pode garantir que venham a servir o pleno desenvolvimento humano ou a ser utilizados de forma minimamente ética. na actual secularização das práticas meditativas a certificação passou a fazer-se de forma escolarizada. tendendo assim a reproduzir-se com uma motivação incer- ta na transmissão de métodos. à meditação e à ética unicamente com vista ao despertar da consciência pelo bem de todos os seres (como acontece na tradição budista e tem o seu análogo noutras tradições). No novo contexto secular. Em vez disso. onde ime- diata ou progressivamente se acede à experiência do essencial e tudo o mais vem natu- ral e espontaneamente por acréscimo. sem dúvida. numa cadeia que remonta aos pró- prios fundadores de cada tradição. Seria completamente falso con- siderar as horas de meditação como exercícios destinados a tornar-nos capazes de cumprir mais serena ou dignamente os nossos deveres sociais. Cabe aqui citar um texto eloquente de um sacerdote cristão que viveu na Índia como renunciante hindu: “Esses momentos de recolhimento silencioso são. com todas as felizes e honrosas excepções.

os nossos estudos. Ela não precisa de justificação nenhuma vinda de fora. A contemplação vale por si só. incondicionais e imparciais. Esses tempos benditos de silêncio irradiam. essa irradiação. para obter calma e concentração. A instrumentalização da meditação é por outro lado um claro sinal de ma- nutenção ou até reforço do autocentramento. bem-estar. como a cobiça e a avidez (e a inseparável aversão). nunca deve ser pro- curada como um fim.indd 95 07-09-2017 07:59:41 . que surge tanto mais quanto menos se procura. acompanhada das consequências éticas indissociáveis. que permita o enfraquecimento progressivo e a final suspensão dos mecanismos egocêntricos de auto-acarinhamento na plena abertura ou despertar da consciência para a sua natureza profunda e incon- dicionada. 95 || miolo_Meditacao. a Liberdade Silenciosa nosso trabalho. maior eficiência e produtividade. 207 H Pequeno Tratado da Oração Silenciosa. Meditação. e até de nos fazer progredir na humildade ou na prática de outras virtudes. Éveil à soi. p. sem dúvida. que as converte cada vez mais num negócio milionário à escala mundial. como o amor e a compaixão universais. que tradicional e experimentalmente são reconhecidos como obstáculos contraditórios dos próprios fins visados. 2016. citado in Jean-Marie GUEULLETTE.104. próprios dos consumidores e da condição humana em geral.59. mas na ob- tenção de resultados. sobre a existência inteira. como a paz. Ela ocorre com toda a espontaneidade” 207. tradução de Maria do Rosário de Castro Pernas. p. Prior Velho. OP. 3 – Uma das consequências da instrumentalização egocêntrica da medita- ção é a referida mercantilização das formações em mindfulness e outras. saúde. pela expectativa e ansiedade criadas e pelo foco da atenção não na experiência em si. a tendência geral da mentalidade utilitária domi- nante é para procurar a meditação como um meio para diminuir a dor e o sofrimento físico. estimu- lando motivos para o seu ensino e aprendizagem. porém. Paulinas. um claro obstáculo ao encontro do que se pretende. o que é aliás. Em contraste com isto. livre da ideia de separação entre si e o mundo. a serenidade e a calma  enri LE SAUX. Éveil à Dieu. esquecendo-se e negando-se a sua integração tradicional num programa de questionamento e subversão radical desse mesmo autocentramento. emocional e mental.

in AAVV. disso não pode haver dúvida... p. Em ambos os casos assistimos a uma flagrante per- versão da ética tradicional de não-ganância e não-violência de que a meditação 208 M arc R.army. saúde. Como se escreve numa obra recente e lúcida sobre esta questão: “Nos dias que correm há um mercado amplamento aberto para o treino da mindfulness. E um mercado é feito de consumi- dores.2017). What’s Wrong With Mindfulness (and what isn’t). os consumidores são impelidos por desejo e aversão” 208 “O ethos do mercado depende na verdade da cobiça. por exemplo: https://www. inquestionavelmente. 4 – Consequência e prova disto são algumas das predominantes aplicações práticas da mindfulness. em vez de examinadas de uma forma que permita que naturalmente pousem e se dissipem. Os instrutores de meditação e mindfulness que respondem mercantilizando os seus produtos de um modo que pretende oferecer alguma satisfação final estão a estimular a cobiça e a aversão. talvez sem sequer estarem conscientes disso. se a sua própria prática é recente e superficial ou desconectada das suas raízes budistas.08. Paulo Borges mental. Zen Perspectives. No modo frenético. || 96 miolo_Meditacao. gavi- nhas de cobiça são irrigadas e nutridas. 209 Ibid. Hozan Alan SENAUKE. Sobre esta questão.indd 96 07-09-2017 07:59:41 . 210 Cf. “Mischief in the Market Place for Mindfulness”. p. como está a acontecer nos Estados Unidos da América com o treino de unidades militares no âmbito de uma investigação financiada pe- lo Estado norte-americano 210. Whole Life”. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). breve e de workshop da mindfulness e da meditação. “One Body. não de praticantes em nenhum sentido tradicional.26. Falando em geral. bem-estar e melhoria do desempenho pessoal e escolar para visarem acima de tudo desenvolver a capacidade de foco para aumentar a produtividade e os lucros das empresas e mesmo a maior resi- liência e eficácia bélicas. para já não falar do pleno florescimento do ser e da consciência. nem sequer estar conscientes do modo alternativo aqui descrito” 209. pp. cf. E eles podem eles mesmos. POIRIER. que extravasam da limitada mas compreensível e inevi- tável busca de alívio do sofrimento.13. Zen Perspectives. in AAVV.75-76.mil/article/149615/Improving_Military_Resilience_ through_Mindfulness_Training (acedido em 10.

resulta claramente da absolutização do princípio de que a atenção plena consiste unicamente em focar a mente na experiência presente sem qualquer juízo (o que tornaria a prática eticamente neutra). Whole Life”. citado em Hozan Alan SENAUKE. pp. Tem sido notada a negligência de aspectos éticos e educativos em muitas intervenções baseadas em mindfulness 213 e isso. Whole Life”. p. “One Body. Ao propor-se isto omite-se que a ética tradicional budista e a de todas as tradições espirituais da humanidade insere as práticas meditativas e contemplativas no contexto de uma lista objectiva de preceitos ou normas éticas a respeitar. onde certas acções mentais.75. Handbook of Mindfulness. 97 || miolo_Meditacao. Culture. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). “One Body. Meditação. “carne”. e que as mesmas práticas meditativas e contemplativas são em geral precedidas (no contexto budista de forma clara) do cultivo de uma aspiração a que sejam levadas a cabo para o bem de todos os seres (e não só dos membros de uma mesma espécie. as práticas budistas podem fa- cilmente ser usadas para justificar e estabilizar o status quo. Context. a perspectiva de um incontornável especialista do budismo original: “Estando ausente uma aguda crítica social.383-396. 213 Cf. alguns supostamente praticantes do budismo zen. “intoxicantes” e “veneno” 211 – e que teve aliás. o “esforço 211 C f. a Liberdade Silenciosa é inseparável – o Buda interditou aos “seguidores laicos” o “negócio” com armas. além da já referida crítica de Slavoj Zizek.75. no último caso. Terry HYLAND. verbais e físicas são claramente desaconselhadas ou interditas e outras são fortemente encorajadas. and Social Engagement. Zen Perspectives. No que respeita ao boom da mindfulness nas empresas. de acordo com o entendimento do sexto aspecto do nobre caminho óctuplo. “Through a Glass Darkly: The Neglect of Ethical
 and Educational Elements in Mindfulness-Based Interventions”. infelizes precursores nos samurais e kamikazes japoneses. religião ou empresa). in AAVV. bem como com “seres humanos”. in AAVV. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). cabe ter em conta. p. citado em Hozan Alan SENAUKE. a nosso ver. 212 Bikkhu BODHI. pois há métodos que consistem precisamente em dissi- par estados mentais negativos e promover estados mentais positivos. nação. Se num contexto budista a mente deve por vezes repousar livre de juízos no decurso da prática meditativa (o que nem sempre acontece. in AAVV. Zen Perspectives. Vanijja Sutta.indd 97 07-09-2017 07:59:41 . tornando-se um reforço do capitalismo consumista” 212.

ao ponto de 214 C f. pois pode ser usada por um franco-atirador 215. 2012. Ética. || 98 miolo_Meditacao. in AAVV. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Não se questionando a evidência científica disso. ética e natureza no budismo. pelos quais se esquece que uma descoberta central das tradições meditativas e contemplativas é a não redução da consciência ao seu suporte físico e neuronal. que não se medita com o cérebro. residindo antes na transforma- ção profunda da percepção que o praticante tem de si e da realidade. e que o mais indubitável e milenarmente comprovado benefício da prática meditativa e contemplativa não se reduz à saúde e ao bem-estar. que o cérebro não é o ser profundo 216. 2010. Como já tem sido notado.matthieuricard. Teoria e Prática. Âncora Editora. como fins em si.08.59-81. “Mischief in the Market Place for Mindfulness”. dedicando no final os benefícios para o bem relativo e absoluto de todos os seres. a mindfulness. parece haver nesta insistência um níti- do aproveitamento do estatuto da ciência moderna como nova autoridade legiti- madora sucedânea da religião. coordenação de Cristina Beckert. pp. nomeadamente por Matthieu Ricard. Zen Perspectives. 216 “The brain is not the self ” – Marc R. in Descobrir Buda. Zen Perspectives. in AAVV. pp. A constituição kármica da experiência do mundo”. Manuel João Pires.org/en/blog/posts/a-sniper-s-mindfulness (acedido em 10. sobretudo no que respeita à comprovação científica dos benefícios psicossomáticos da sua prática.33-50. pp.55-59. What’s Wrong With Mindfulness (and what isn’t). “Mindfulness Myths. POIRIER. Fantasies and facts”. in AAVV. colocam no desen- volvimento de “mitos” idealizadores em seu torno. 5 – Outra consequência é a ênfase retórica e mediática que o marketing da mindfulness. sem juízo ético e valorativo. “Mente. 215 http://www.2017). Estudos e ensaios sobre a via do Despertar. ela deve começar e terminar a prática impregnada da motivação do amor e da compaixão universais. “A ética na via do Buda”. Paulo BORGES. Robert Meikyo ROSENBAUM. enquanto mera técnica de concentração da atenção. mas sim com todo o ser 217. que ganha contornos de um verdadeiro lobby.indd 98 07-09-2017 07:59:42 . p.23. mas cedendo aos seus ainda dominantes pressu- postos reducionistas e materialistas. por um terrorista ou por qual- quer outra pessoa com motivações destrutivas e anti-sociais (ou simplesmente egoístas) para ser mais eficaz e logo mais prejudicial. Paulo Borges justo” 214). com des- taque para os efeitos na modificação funcional e estrutural do cérebro. What’s Wrong With Mindfulness (and what isn’t). Sara Fernandes e Teresa Antunes. Lisboa. 217 Cf. não é inerentemente salutar e benéfica.

2010. citemos ainda uma visão lúcida:  f. Fall 2014. Buddhadharma. pela qual se busca produzir e fazer o mais possível no mínimo de tempo e com o mínimo de gastos – de que um workshop. The Guardian. com todo o sentido de uma viagem ou peregrinação ao fundo de si e do real. completo. “Which River Will You Cross?”. tumografias axiais computorizadas ou imagens de ressonância magnética. o que no vocabulário espiritual tra- dicional se chama com toda a justeza realização. nesta voga da mindfulness extirpada de uma via espiritual integral e profunda (que não tem de ser religiosa ou confessional). esquece-se que o Buda Gautama fa- lou de sammā sati. sem colocar em causa essas mesmas motivações e dispensando uma vida de aprofundamento constante e exigente da prática na relação com um professor e uma comunidade de praticantes. em que se cria a expectativa – típica da sociedade de consumo e da obsessão do crescimento acelerado que a move. 218 C 219 Cf.7-8. a Liberdade Silenciosa deixar de se ver separado dela e assim de todos e de cada um dos seres vivos. ou a aprendizagem de um conjunto de técnicas. não podem ser benéficas e em última instância nem sequer podem existir sem a sabedoria e a ética. e não de uma atenção parcelar e limitada a esta ou aquela actividade ou fina- lidade e desinserida de um caminho de transformação e libertação onde é inseparável. pp. 2015. “Mindfulness has huge health potential—But McMindfulness is no panacea”. Meditação. 99 || miolo_Meditacao. atenção plena (sati tem na língua Pali o sentido de pleno. A esta luz. mas sim por uma vida impregnada de amor e compaixão universais.indd 99 07-09-2017 07:59:42 . “Frozen Yoga and McMindfulness: A Critical Perspective on the Mainstreaming of Contemplative Practice”. perfeito). October 20. um curso ou mesmo um retiro. Shambhala Sun Space. E a melhor prova disso não é dada por electroencefalogramas. de outros sete modos de progressão. possam trazer a solução para todos os problemas da existência ou a satisfação de todos os desejos mundanos de bem-estar e eficiência. conforme veremos. Jon KABAT- ZINN. como veremos. Pat Enkyo O’HARA. Miles NEALE. No fundo. 6 – Toda esta situação configura um fenómeno já designado como “mindful- ness à la carte” 218 ou “McMindfulness” 219 . Como conclusão desta apreciação crítica do estado contemporâneo do mo- vimento mindfulness. a atenção ou concentração meditativa não fazem sentido.

Paulo Borges “Ao mesmo tempo que uma técnica desmontada e secularizada – o que alguns críticos chamam agora “McMindfulness” – pode torná-la mais sabo- rosa ao mundo empresarial. ela está em geral a ser remodelada numa técnica de auto-ajuda banal e terapêutica que pode na verdade refor- çar estas raízes” 220. Ron PURSER e David LOY. a única emergência real da vida. resulta num negócio fáustico.96. Zen Perspectives. pois é isso que a palavra Buda desig- na. da faculdade de recordar ou reconhecer o que habitualmente se esquece. que seria 220 C f. in AAVV. a via do Buda ou do Despertar. in AAVV. tal como do seu fundamento na ética social. decontextualizar a mindfulness do seu original propósito libertador e transformativo. 221 Cf. Da atenção plena à consciência desperta Para compreender a raiz profunda de todos os efeitos atrás apontados e em que medida a mindfulness foi e está a ser desenquadrada do seu contexto e sen- tido originais. mas antes a práticas que fortalecem sati. “memória” 221 ou “reconhecimento”. Origins and Applications. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t).75. malevolência e ilusão. What’s Wrong With Mindfulness (And What Isn’t). A sua tradução como “mindfulness” ou “atenção plena” e a sua considera- ção como algo a praticar não é consensual. A mindfulness no seu contexto original. Mindfulness. citado em Hozan Alan SENAUKE. Em vez de se aplicar a mindfulness como um meio para despertar os indivíduos e as organizações das nocivas raízes de avidez. pp. que entendemos como a tradição do Despertar. Zen Perspectives. A palavra que se traduz em inglês como mindfulness e em português como “atenção plena” é o pali sammā sati (sânscrito smrti). “What does mindfulness really mean? A canonical perspective”. 222 Cf. “One Body. que significa literalmente “recordação”.indd 100 07-09-2017 07:59:42 . in AAVV. one path”. “Beyond McMindfulness”. a natureza e singu- laridade da experiência presente. 2. Trata-se todavia. Gil FRONSDAL e Max ERDSTEIN. Bhikkhu BODHI. Diverse Perspectives on its Meaning. havendo quem sustente que o Buda nunca exortou a praticar sati. p. “Two practices. p. || 100 miolo_Meditacao. vejamos qual a sua natureza e lugar na tradição do Buda. Whole Life”.22-25. no seu primeiro nível de entendimento. sendo um nome e não um verbo 222. pois a mente tende a extraviar-se dela na rememoração do passado e na antecipação do fu- turo.

enquanto “estado de atenção receptiva que não requer esforço autoconsciente” 223. 4 – o desenvolvimento do caminho que conduz a essa cessação (magga). p. 226 Anguttara Nikāya 3:65.. 2000. Seja como for. que significa pleno. Samyutta Nikāya 56:11: Dhammacakkappavattana Sutta. primeiro identificada com o desejo ávido (tanhā) e depois completada com a ilusão e o ódio 226.68. a Liberdade Silenciosa algo que não se pratica. in In the Buddha’s Words.89. Yale University Press. palavra.22. p.122. Rethinking the dharma for a secular age. Samyutta Nikāya 56:11: Dhammacakkappavattana Sutta. na leitura ética e não metafísica de Stephen Bat- chelor 225): 1 – a compreensão da insatisfação. que por sua vez constitui a quarta das quatro nobres verdades (ou “tarefas”. L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. atenção e concentração. 227 Cf. o que parece fundamental notar é que a primeira referência do Buda Gautama a sati surge no seu primeiro discurso. Stephen BATCHELOR. Walpola RAHULA. meio de existência. perfeito. 2015. tradução de Bhikkhu Bodhi.1844. in The Connected Discourses of the Buddha: A New Translation of the Samyutta Nikāya. 101 || miolo_Meditacao. V 420-424. p. acção. Ibid.1844. Meditação. mas que se tem: nesse sentido. p. “What does mindfulness really mean? A canonical perspective”. V 420-424. Mindfulness. esforço. mal-estar ou sofrimento (dukkha) inerente à experiência condicionada da vida. Designada como sammā sati 228. como o sétimo aspecto do “Nobre Caminho Óctuplo” 224. p. mas que não deve ser reduzido ao sentido moral. ou seja. in The Connected Discourses of the Buddha: A New Translation of the Samyutta Nikāya. Expusemos noutro estudo com algum detalhe o sentido de cada um destes oito 223 Cf. After Buddhism. é in- separável dos oito aspectos do caminho: visão. New Haven / London. An anthology of discourses from the pāli canon. II. co- mo muitas vezes se traduz. II. Origins and Applications. Somerville. completo. e daí justo ou recto. 229 “Eu descreveria a atenção plena (“mindfulness”) como uma consciência (“awareness”) lúcida do campo fenomenal” – Bhikkhu BODHI. 228 Cf. atenção ou consciência plena 229. I 188-193. 3 – a realização ou reconhecimento da cessação de dukkha. Diverse Perspectives on its Meaning. seria melhor traduzi-la como “awareness” ou “consciência”.97. p.indd 101 07-09-2017 07:59:42 . 225 Cf. todos qualificados como sammā. MA: Wisdom Publications. definido como equidistante dos extremos da bus- ca de felicidade nos prazeres sensoriais e da sua recusa auto-mortificadora 227. Sati integra o “caminho do meio”. 2 – o abandono da sua origem. 224 Cf. p. in AAVV. pensamento (intenção).

existente em si e por si). mas sim a sabedoria libertadora que é simultaneamente o seu fundamento e florescimento plenos. “A ética na via do Buda”. Paulo Borges aspectos do “caminho do meio” 230. A meditação é assim apresentada e ensinada pelo Buda Gautama como inseparável de uma visão da natureza das coisas onde avultam as três marcas da existência – impermanência. Ibid. in AAVV.342-343. no Satipatthāna Sutta. “satisfeita”. não faz aliás obviamente sentido falar de atenção plena ou mindfulness. || 102 miolo_Meditacao. 232 Cf. 233 Cf. liberta-se das paixões e do apego a seu respeito. L’enseignement du Bouddha d’après les textes les plus anciens. p. III 44-45. Os Quatro Estabelecimentos da Atenção Plena. bem como de uma conduta ética de não-violência em relação a todas as formas de vida. in In the Buddha’s Words. que as três marcas se identificam entre si e que estão presentes nos cinco agregados (khandha) que compõem todas as formas de vida – forma. Ética. p. notando aqui que posteriormente foram agrupados em três classes: os dois primeiros na sabedoria (paññā). sensação. para o superar do pesar e da lamentação. Samyutta Nikāya 22:45. “não agitada” e entrando assim no “Nibbāna” ou na realização espiritual profunda na qual já não há regresso a “qualquer estado de ser” (condicionado) 233. com “correcta sabedoria”.69. Ou seja. No mesmo segundo discurso se diz que.indd 102 07-09-2017 07:59:42 . percepção. 230 C f. volição e (fluxo de momentos de) consciência – . concentração e bem-estar tão procurados pelos adeptos da mindfulness não é a própria mindfulness ou atenção plena em si e por si. para o desaparecimento da dor e da depressão. tornando-se “estável”. Quando o Buda Gautama profere o ensinamento fundamental sobre a me- ditação. pp. 231 Cf.301. pp. quando a mente vê. Teoria e Prática. para o alcançar da via autêntica. Paulo BORGES. fundada na sua interdependência e no seu interesse comum na felicidade e no evitar do sofrimento. citado in Walpola RAHULA. o que conduz à calma. insatisfação e não-si (no sentido de ausência de algo substancial.59-81. Fora desta interdependência com a sabedoria e a ética. An anthology of discourses from the pāli canon. Majjhima-nikāya I (edição PTS). indica claramente e desde o início que estamos perante “o caminho de um só sentido para a purificação dos seres. como diz no segundo discurso 232 – . os três se- guintes na disciplina ética (sīla) e os três últimos na disciplina mental ou me- ditativa (samādhi) 231.

An Anthology of Discourses from the Pāli Canon. que curiosamente o Buda declarou poder ser alcançada num mínimo de sete dias. Ibid. não-fabricado. Ibid.. independentes e satisfatórios gera. do “ódio” e da “ilusão” 238. incondicionado” 239..366. mas isto só se consegue pela cessação (Nibbāna) da ignorância que consiste em não se reconhecer a impermanência. p. Ibid. 238 Cf. O objectivo da atenção plena é o superar de toda a forma de mal-estar. Por isso a prática da atenção plena ao corpo. que o Buda em geral designou apofaticamente. satta bojjhaṅgā. IV 251-252. in In the Buddha’s Words. como vimos. à mente e aos fenómenos deve sempre ser acompanhada de sabedoria ou compreensão clara da sua natureza profunda e do subjugar o “desejo ardente e o desânimo a respeito do mundo” 235. é a via para a rea- lização do Nibbāna. se a via for correctamente pra- ticada 237.281. concentração e equanimidade 236.364. mas também. É esta a “via directa” para a transcendência definitiva da “dor” e do “desânimo” que só pode advir da plena realização-libertação espiritual ou Nibbāna.290. como “o destino e a via conducente ao 234 C f. agitação e condicionamento da mente que a mantêm na experiência ilusória e sofredora designada como samsāra. entre outros sinónimos. não funciona. mindfulness ou atenção ple- na. Majjhima Nikāya 10: Satipatthāna Sutta. pela negativa. neste mesmo sutra. p. seja como o “não-nascido. energia. tranquilidade. I 55-63. que devem ser todos simultaneamente desenvolvidos: atenção plena. Samyutta Nikāya 43: 1-44.. as paixões e apego a seu respeito que provocam a instabilidade. 239 Cf. discriminação dos fenómenos. in Ibid. p. a Liberdade Silenciosa para a realização do Nibbāna” 234. onde se integra a atenção plena. não-tornado.364-365 e Udāna 8:3. in In the Buddha’s Words. às sensações. 80-81. alegria. in Ibid. O caminho do meio. 236 Cf. não faz sentido e nem sequer existe separada de um exercício mais amplo da consciência surge na sua integração. insatisfação e não-existência substancial de todos os agregados e fenómenos. 103 || miolo_Meditacao. A comprovação de que sati. p. pois vê-los co- mo permanentes.indd 103 07-09-2017 07:59:42 . seja como a cessação da “cobiça”. pp. nos sete factores da iluminação. 235 Cf. pp.288-289. Meditação. Samyutta Nikāya 38:1. isto é.. 237 Cf. An Anthology of Discourses from the Pāli Canon.

.367.. p. no duplo sentido de ensinamento e via.. o Buda declara que ela é normal.. Ibid. o que torna “o Tathāgata (…) livre pelo não apego” 242. in Ibid. Samyutta Nikāya 43: 1-44. é algo de “subtil”. Perante a perplexidade de um interlocutor.368-369. in Ibid. de todo o fazer-eu. 243 Cf. I 486-488. o fim é o meio. que apenas expressam os estados de uma experiência por essas mesmas categorias construídos e condicionados 244. A experiência em causa. pp. Majjhima Nikāya 72: Aggivacchagotta Sutta.. Paulo Borges destino” 240. O que se designa como Buda é a experiência plena e irreversível de uma “base” sem qualquer base ou “suporte” (um fundo sem fundo. Udāna 8:1. Neste sentido. imensurável. p. Ibid. o infinito). in Ibid.p. 80. mas nu- ma “destruição. Ibid.. é a de uma libertação de todas as formas de a considerar.365-366. o caminho. 245 Cf. || 104 miolo_Meditacao. cessação. mas visa a irreversível erradicação das causas profundas da insatisfação e do sofrimento – a ignorância da natureza insubstancial. é já o próprio Nibbāna. C 241 Cf. enquanto cura profunda que não se limita a tratar ou atenuar os sintomas do mal-estar. difícil de sondar como o ocea- no” 246. abandono e desistência de toda a concepção. pp. ou a promover formas compensatórias de bem-estar fugaz. in Ibid. ou seja. O que se designa como Buda é algo “livre do cálculo em termos de consciência” (conceptual) e assim “profundo. um espaço sem dimensões. Esta afirmação é importante. pois mostra não haver dualidade entre meio e fim: o meio é o fim. que há que “ser experienciado pelos sábios” 243. Majjhima Nikāya 72: Aggivacchagotta Sutta.369.365. 242 Cf. fazer-meu e da ten- dência subjacente para a presunção”. p. em todos os seus oito aspectos e em cada um deles. que consiste não numa “visão especulativa” 241. 246 Cf. sendo isto a essência do caminho em que a atenção plena se insere. I 486-488.368. pois este “Dhamma”. im- permanente e insatisfatória dos fenómenos condicionados e as consequentes 240  f. ou incondicionado. de toda a ruminação. O sofrimento só tem um fim definitivo pela libertação da consciência de todo o apego a um qualquer objecto. conceito ou visão e pela experiência incondicionada que nisso se abre. “inalcançável pelo mero raciocínio”.indd 104 07-09-2017 07:59:42 . 244 Cf. a do estado de Buda. sendo de destacar que o Buda Gautama acrescente que “apenas isto é o fim do sofrimento” 245. medir e descrever segundo os cinco agregados e as categorias do pensamento-linguagem. desvanecimento.

ou a busca do sucesso e o evitar do insucesso. E eles podem eles mesmos. enraizadas na ficção dualista e na derivada crença na existência de um “eu” separado do mundo. gavinhas de cobiça são irrigadas e nutridas. desvelando a saúde profunda e ilesável da natureza original do real e de todo e cada ser e fenómeno: o incondicionado e o infinito. Sem reconhecer que estes estados são igualmente insubstanciais. identifica-se com os primeiros e rejeita os segundos e. em vez de examinadas de uma forma que permita que naturalmente pousem e se dissipem. elogio e censura. pp. Anguttara Nikāya 8:6. aquisitiva e competitiva que inevitavelmente cultiva. inquestionavelmen- te. são o motor da experiência condicionada designada co- mo samsāra: “ganho e perda. as oito preocupações mundanas que. fama e descrédito. 105 || miolo_Meditacao. in In the Buddha’s Words. breve e de workshop da mindfulness e da meditação. No modo frenético. sempre que na sua motivação avulte a busca do bem-estar e o evitar da dor. An anthology of discourses 247 C from the pāli canon. Os instrutores de meditação e mindfulness que respondem mercantilizando os seus produtos de um modo que pretende oferecer alguma satisfação final estão a estimular a cobiça e a aversão.32-33. Meditação. Cremos que não será aqui redundante citar de novo o trecho transcrito um pouco acima: “O ethos do mercado depende na verdade da cobiça. Cabe aqui questionar se será este o objectivo dos programas. IV 157-159. a mente envolve-se neles. talvez sem sequer serem conscientes disso. se a sua própria prática é recente e superficial ou desconectada  f. prazer e dor” 247. tragicomicamente.indd 105 07-09-2017 07:59:42 . enfeudando a experiência meditativa à ausência de equanimidade e ao auto- centramento da mente dualista. de modo grosseiro ou subtil. destrói a felicidade pelo modo como a procura e gera constantemente mais sofrimento pela própria tentativa de dele se libertar. im- permanentes e insatisfatórios. formadores e praticantes de mindfulness. a Liberdade Silenciosa cobiça e aversão a seu respeito – .

primordial e última da consciência e dos fenó- menos. in AAVV. a consciência mental dualista. Paulo Borges das suas raízes budistas. Aliando a concentração meditativa e a visão profunda. a visão e o pensamento/intenção justos. especial ou pene- trante da natureza profunda. completaram o ensinamento original do Buda Gautama.indd 106 07-09-2017 07:59:42 . e que a curto/médio prazo pode levar à frustração e desistên- cia. paz e bem que tão avidamente procura em todos os fenóme- nos condicionados que converte em objectos de um desejo sempre impossível de satisfazer. pois transcende a esfera da consciência linguís- tica-conceptual). sensoriais e mental. e de uma oitava. What’s 248 M Wrong With Mindfulness (and what isn’t). São na verdade eles que permitem o fundamen- tal e decisivo reconhecimento de que a natureza profunda da mente ou da consciência (não conceptual) é o próprio incondicionado. ou mesmo contraditória dos seus objectivos. a começar pelos que se agrupam na classe da sabedoria. é necessário não se divorciar dos demais aspectos do óctuplo caminho. ou seja. sânscrito prajñā) que liberta a consciência da identificação com os seus vários níveis condicionados permitindo que desperte reconhecendo a sua natureza primordial e inalie- nável. p. acerca das seis consciências. a visão superior. a absorção da atenção no samādhi floresce na sabedoria (pali paññā. É assim que samatha. Cabe aqui recordar que escolas budistas do Mahāyāna. || 106 miolo_Meditacao. devendo ser um suporte para a prática de vipassanā. na linguagem budista designada como natureza de Buda (e noutras tradições com outros nomes. Zen Perspectives. que na verdade apenas apontam para o que está para além de todos os nomes. a consciência  arc R. pois busca fora o que tem dentro e demanda no finito o infinito. em particular a escola Yogācāra ou Cittamātra. a mera calma. com a noção de uma sétima. Para que a atenção plena seja um factor de libertação e não de estagnação numa prática meramente paliativa e distractiva. “Mischief in the Market Place for Mindfulness”. residindo em si toda a liberdade. não basta.26. POIRIER. paz ou estabilidade mental. promovida pelo treino da atenção e da concentração meditativas. nem sequer estar conscientes do modo alternativo aqui descrito” 248.

Nyoshul Khenpo Jamyang DORJE. o verdadeiro objectivo da meditação que vise o conhecimento profundo e não meras vantagens mundanas. concebe a distinção entre sujeito e objecto. e LONGCHENPA. numa transcendência de todos os objectos e objectivos. THRANGOU RINPOCHE. o que se designa como estado de Buda 250. Na oitava consciência. pp. surgindo a consciência primordial ou natureza de Buda. nesta se transforma e cessa ao reconhecer(-se) (n)o fundo não-dual de tudo. Despertar ou Iluminação. 251 Cf. a responsável pela percepção-aparência ilusória e dual da realidade. Meditação. tradução inglesa de Peter Roberts.92. meu e não-meu. Éditions Claire Lumière. p. O condicionamento da sétima consciência é o véu da ignorância fundamental que. the Great Perfection. Saint-Cannat. em conjunto com as demais consciências ou níveis de consciência. 2015. como se enfatiza na tradição budista tibetana. Boston / Londres. com comentários sobre Jigme LINGPA.131-133. Resting at Ease in Illusion. Profound instructions on Dzogchen. em tibetano) 251. Snow Lion. como a nona (na verdade estamos perante diversos níveis de consciência). a Liberdade Silenciosa de fundo ou “armazém”. o espaço primordial 249 C f. 2007.indd 107 07-09-2017 07:59:42 . por vezes designada “consciência-base universal”. The Fearless Lion’s Roar. Le Traité des 5 Sagesses et des 8 Consciences. uma consciência subliminal (o Buda e o budismo conhecem o inconsciente 2500 anos antes de Freud). traduzido por David Christensen. constituindo uma modalidade ainda individualizada e condicio- nada da consciência pura ou sabedoria primordial que. tradução e comentário da obra do III Karmapa RANGJUNG DORJÉ Le Traité distinguant conscience individuelle et sagesse. por natureza limitadas e efémeras. ape- gando-se aos primeiros com um sentimento subtil de orgulho 249. 107 || miolo_Meditacao. eu e não-eu. acumulam-se os actos e experiências das sete outras consciências ou níveis de consciência sob a forma de impregnações (em sânscrito. É por isso que. samskāra) que por sua vez condicionam as mesmas consciências. tradução em francês do inglês e do tibetano por Tashi Tcheudreun. não reconhecendo a natureza não-dual do real. Ibid. em função delas. pp. Esta é o fundo sem fundo do ser. é o de unir a calma ou estabilidade mental e a visão penetrante para reconhecer e repousar na consciência primordial ou consciência desperta (rigpa.. Isto faz da oitava consciência.95-101. The Lion’s Roar. 250 Cf. vāsanā) que originam as tendên- cias habituais ou formações kármicas (em sânscrito.

Paulo Borges

imaculado por qualquer experiência dualista, cujo reconhecimento é o Despertar
ou estado de Buda e cujo não-reconhecimento gera a concepção do si e do não-
-si, do eu e do não-eu, que é a raiz do samsāra (e da concepção dualista de um
nirvāna dele distinto) 252, com toda a sua proliferação de ilusórias “aparências e
disposições / orientações mentais (mindsets)” 253. O fundo sem fundo de tudo é,
na visão do Dzogchen (Grande Perfeição) tibetano, exposta pelo XIV Dalai Lama,
a “consciência mais íntima”, mas também a “consciência comum”, o fundo de to-
das as consciências, intemporal e “naturalmente emergente”, que na sua infinita
completude ou perfeição contém todos os fenómenos do samsāra e do nirvāna
254
, sendo a “clara luz” (ö sel, em tibetano) que impregna os atrás referidos oito
níveis de consciência e na qual emergem, se processam e se dissolvem todos os
fenómenos mentais e cósmicos, mentais-cósmicos.

Na tradição do Vajrayāna budista é pelo poder da iniciação ou influxo
sapiencial e energético e das instruções cruciais de um mestre espiritual au-
têntico – alguém que está num estado irreversível de realização e que introduz
o discípulo ao reconhecimento da natureza primordial da consciência, acele-
rando o seu processo de evolução – , que se pode ter mais rapidamente uma
experiência directa e não-conceptual da natureza original de si e de tudo, a ser
continuamente cultivada numa atenção plena iluminada pela visão penetran-

252 C omo se diz em A Aspiração de Samantabhadra ou Kuntuzangpo, o Buda Primordial
na tradição Nyingma do budismo tibetano: “HO
 / All that appears and exists, / all of
samsāra and nirvāna, / Has one ground, two paths, and two results.
 / It is the display of
awareness and ignorance.
 / Through the aspiration of Samantabhadra
 / May all be fully
awakened
 / In the citadel of the dharmadhātu. // The ground of all is uncomposed,
 /
An inexpressible, self-arisen expanse
 / Without the names “samsāra” and “nirvāna”. / If
it is known, buddhahood is attained.
 Not knowing it, beings wander in samsāra. / May
all beings of the three realms
 / Know the inexpressible ground” – citado in Dzogchen
PONLOP RINPOCHE, Penetrating Wisdom. The Aspiration of Samantabhadra, Ithaca,
Snow Lion, 2006, p.1.
253 Cf. Düdjom LINGPA, Heart of the Great Perfection. Düdjom Lingpa’s Vision of the Great
Perfection, vol. I, prefácio de Sogyal Rinpoche, traduzido por B. Alan Wallace, editado
por Dion Blundell, Somerville, Wisdom Publications, 2016, pp. 65-66.
254 Cf. DALAI LAMA, The Heart of Meditation. Discovering Innermost Awareness, um
ensinamento sobre PATRUL RINPOCHE, Three Keys Penetrating the Core, traduzido e
editado por Jeffrey Hopkins a partir de ensinamentos orais, Boulder, Shambhala, 2016,
pp. 42-43.

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Meditação, a Liberdade Silenciosa

te e assim livre de confundir a consciência desperta com algum dos níveis,
por mais subtis que sejam, do seu obscurecimento e condicionamento dualis-
ta, ainda apegado à ficção de haver um sujeito desta experiência primordial
255
. Neste caminho, para que os enganos e extravios possam ser assinalados e
corrigidos, é fundamental seguirem-se as instruções e o acompanhamento de
um mestre espiritual qualificado, sendo também importante o apoio de uma
comunidade de praticantes.

Ainda na visão do Dzogchen tibetano, exposto agora pela tradição Bön pré-
-budista, há uma tríade na experiência do estado primordial: o fundo universal
(künshi) é designado como ma, “mãe”, a vacuidade primordial e matricial onde
tudo emerge; a clareza ou luminosidade do seu reconhecimento espontaneamen-
te emergente é bu, o “filho”, a consciência desperta (rigpa); a energia criativa e
compassiva, a própria inseparabilidade da “mãe” e do “filho”, é tsel, de onde emer-
gem as cinco energias luminosas que estruturam toda a manifestação 256. Esta
tríade, na escola Nyingma do budismo tibetano, corresponde a outra: essência
(ngowo) vazia, natureza (rang shyin) luminosa e energia compassiva (thukjé) 257.
O despertar da consciência é visto, nas primeiras metáforas, como o regresso do
filho ao regaço materno 258, o que não deixa de evocar, na tradição evangélica e
cristã, a alegoria do regresso do filho pródigo à casa paterna, ou no gnosticismo
o exílio e regresso da alma à sua natureza divina 259. As referidas tríades tibetanas
também não deixam de evocar, salvaguardada toda a diferença de contextos entre
uma tradição não-teísta e outra teísta, várias leituras teológico-filosóficas da dinâ-
mica da Trindade cristã (em que o Pai corresponde ao ser, o Filho à sabedoria e o
Espírito Santo ao amor que da união do Pai e do Filho procede).

255 C f. Ibid., pp.43-45.
256 Cf. Tenzin WANGYAL, Les Prodiges de l’Esprit Naturel. L’essence du Dzogchen dans la
tradition bön originelle du Tibet, prefácio do Dalai Lama, traduzido por Horacio e Margo
Sanchez, Paris, Éditions du Seuil, 2000, pp.145-191.
257 Cf. Ibid., p.145.
258 Cf. Herbert V. GUENTHER, Wholeness Lost and Wholeness Regained. Forgotten tales of
individuation from ancient Tibet, prefácio de David Michael Levin, State University of
New York Press, 1994.
259 Cf. The Hymn of the Pearl. The Syriac and Greek Texts with Introduction, Translation, and
Notes. Early Christian Studies, vol. 3, St. Pauls Publications Sydney, 2002.

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Paulo Borges

Voltemos à questão da necessidade de complementar a atenção plena com a
visão penetrante para que a prática meditativa seja acompanhada de sabedoria
e ética e assim libertadora e não meramente paliativa, distractiva e transviada
para finalidades mundanas. Se a atenção plena é a capacidade que a mente tem
de permanecer concentrada com precisão, clareza e descontracção (atenção
sem tensão) num determinado objecto, na tradição do Buda é nisso que consis-
te a prática de śamatha, a estabilidade mental, que se desenvolve e complementa
com vipaśyanā (usamos agora os termos em sânscrito), a visão profunda ou
penetrante, na qual a atenção, mantendo a estabilidade de śamatha , se abre
para além de observador e observado na compreensão da sua não-dualidade e
interdependência, o que dá lugar a uma consciência vasta e ilimitada como o
espaço. Esta consciência não é obstruída por conceitos de sujeito, objecto e sua
relação, sendo livre de qualquer apoio ou referência, bem como de elaborações
imaginativas, conceptuais e discursivas, ou ainda de alguma intencionalidade
ou orientação específicas. A mente experiencia-se aqui a si e a tudo como vazio
e insubstancial, livre das características que a mente conceptual projecta nos fe-
nómenos, a começar pelo conceito de haver entidades. Este vazio ou insubstan-
cialidade de um espaço sem contornos nem dimensões não é todavia um nada
ou um não-ser concebidos de modo niilista, pois a sua natureza é claramente
consciente e sensível, sendo dotado de um dinamismo de corrrespondência
amorosa e compassiva pelo qual espontaneamente opera o que é melhor para
todos os seres. Esta consciência aberta, sem forma nem localização, sem princí-
pio nem fim, sem centro nem periferia, sem exterior nem interior, sem eu nem
outro, mas inseparável de todas as formas fenomenais que nela continuamente
emergem, se transformam e dissipam, é a natureza original da própria mente.

Como expõe Chögyam Trungpa, na combinação de śamatha e vipaśyanā
(shiné e lhaktong em tibetano) há simultaneamente a precisão da atenção às
sensações físicas, à respiração, aos fenómenos mentais, ao caminhar, etc., e essa
consciência aberta à “totalidade do conjunto”. A consciência original, também
designada “consciência desperta” (rigpa, em tibetano), é uma consciência “glo-
bal”, não orientada, sem “inclinação particular”, livre da limitação e determina-
ção inerentes a toda a intencionalidade, numa infinita abertura sem ego e sem
objecto, sem perspectiva (em termos filosóficos, cabe notar que nesta experiên-

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paixão e velocidade” 266. a mais livre.. editado por Carolyn Rose Gimian. propósito. segundo Aristóteles. enquanto tal. p. “uma maneira incon- dicional de estar na vida” 264 e “um modo incondicional de ser” no qual se é apenas. “tempo não contaminado (…) pela agressão. p. alcançar ou transformar algo: ela é a experiência directa da “sanidade incondicional” 263 jamais perdida. “sem quaisquer questões sobre o que se está a ser” 265. Nes- te sentido é uma não-meditação na qual apenas se está sentado sem qualquer “objectivo. Ibid. Meditar é assim ter tempo para “perder o nosso tempo” e com isso “criar tempo puro”. 266 Cf. Meditação. p. mas sem qualquer foco ou afunilamento da atenção 260. A chamada meditação não é aqui uma “medicina” ou “terapia” que vise tratar uma patologia e recuperar a saúde. A precisão de śamatha mantém-se. “como um rochedo ou uma chávena de café vazia assente sobre a mesa” 262. sem absolutamente nada”.20 261 Cf. 262 Cf. a meditação não é meditação de ou em coisa alguma. tudo o que caracteriza. 264 Cf. vol. 2003. Aqui não há prática nem praticante 261.. 265 Cf. 263 Cf. The Path is the Goal.12. p.. Ibid. Ibid.indd 111 07-09-2017 07:59:42 . a “sociedade do cansaço” diagnosticada por Byung-Chul Han..13. Ibid.10-11. in The Collected Works of Chögyam 260 C Trungpa. ou seja. p.. Ibid. feliz e suprema actividade. a matriz imaterial e luminosa (porque consciente) de toda a experiência sensível e inteligível e que como tal não pode jamais ser um objecto perante um  f. A experiência meditativa – livre da intencionalidade e operosidade discur- siva. pp. 2. como vimos no segundo capítulo deste livro. É a theôria grega. não tendo “propósito” nem “ponto de referência”. objecto. no sentido etimológico de visão (que vê que não há nada a ver. que não há quem veja e o que seja visto). Boston / Londres. Ibid.. avaliativa e apropriativa que no segundo capítulo vimos ser inerente à mente e ao pensar conceptuais – é neste sentido uma experiência contemplativa.26. a consciência/experiência inata do que é tal co- mo é. Chögyam TRUNGPA. uma consciência pura que é um fim em si mesma e. 111 || miolo_Meditacao.28. a Liberdade Silenciosa cia se transcende o perspectivismo formulado por Nietzsche e por si conside- rado como a “ilusão vital” necessária à preservação dos organismos vivos). p. delimitadora. que procure rejeitar.21.

in AAVV. in Descobrir Buda. consciência do Invisível”. p. que designa “tudo o que brilha”. Sintra. Paris. 2008.8-10. É essa luz que. A Questão de Deus na História da Filosofia. “sem limites”. Angelus Silesius) com a experiência do vazio taoísta ou da vacuidade bu- dista 270. Albin Michel. do Carmo SILVA. da linguagem e da imaginação. Zéfiro. do ni-ente italiano e do N-ichts alemão: respectivamente um não-um. 269 Cf. I. coordenação de Maria Leonor L. Paris. Petit lexique des mots essentiels.103- 154. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar. Um estudo comparado sobre Nagarjuna e Pseudo- Dionísio Areopagita”. || 112 miolo_Meditacao. do no-thing inglês. a deusa védica Aditi. Paulo Borges sujeito ou um sujeito perante um objecto. Albin Michel. Jean-Yves Leloup segue contudo uma outra via. Daí a possibilidade da afinidade e convergência da experiên- cia do além-Deus da teologia apofática e mística cristã (Pseudo-Dionísio. O. 2015. não-ente. co- mo vimos. “visão” ou “contemplação”. Desafiando os seguidores das vias teístas e budista que tendem a enfatizar  f. pp. não-coisinha. um não-sei-quê jamais definível pelos limites do pensamento. procedente da raiz indo-europeia dei-. 1996). de todo o conhecimento e de toda a vida. Teologia Mística (ed. 10 (Porto. sendo antes a fonte incognoscível e inefável. A luz-consciência inerente à abertura incondi- cionada que em rigor transcende a sua conceptualização-determinação como Deus. Uma luz invisível. mal traduzida por “teoria” por significar. não niilista. do ni-hillum latino.indd 112 07-09-2017 07:59:42 . p. bilingue). mais que luminosa” 268. “Vacuidade e Deus.33. o in-finito (cf. que vê presente na theôria. mas experienciável. “Divina perfeição na sabedoria pré-socrática – da teogonia mítica a uma dramática ideal do theós”. mas no sentido do oúd-en grego. sendo por isso designada pelo Pseudo-Dionísio Areopagita como “treva de si- lêncio. 268 P seudo-DIONÍSIO AREOPAGITA. 267 C Veja-se uma exposição condensada das mais importantes referências e obras sobre esta questão em Carlos H. remete para a luminosidade do céu aberto e origina o português “dia” (do latino dies) 267. dizendo que o “Deus” latino não traduz adequadamente o Théos grego. Mestre Eckhart. está na etimologia da palavra Deus. 2007.63-64. Jean-Yves LELOUP. La sagesse qui guérit. Mediaevalia. numa profunda sugestão para o encontro e diálogo inter-re- ligiosos. 270 Cf. ou seja. mãe dos deuses e de tudo). que não pode ser vista por ser o que permite ver. Paulo BORGES. pois na verdade designa um Nada 269. pp. que segundo o filósofo francês é “con- templação da luz. Odon VALLET. estando antes de toda a relação sujeito-objecto. do né-ant francês. versão do grego e estudo complementar de Mário Santiago de Carvalho. não-coisa. nota 68.11. pp. não-eu. Xavier.

“todavia. a Liberdade Silenciosa as divergências entre elas em torno de noções axiais como Deus e vacuidade.37-38. que une o que o pensamento discursivo separa. 2008. queremos começar por esclarecer uma vez mais que a nosso ver as mais fiáveis formas de transmissão da experiência medita- tiva e contemplativa são as que ao longo de séculos e milénios se processam através de linhagens de mestres e discípulos. não só para a plena realização de si e para a mu- tação do paradigma de consciência e de civilização que permita preservar a integridade ecológica e a Vida na Terra. numa primeira abordagem. 3. Savoir Méditer. mas também para o encontro e diálogo inter-religiosos a partir de uma dimensão superior. pp. registamos aqui a resposta de Bokar Rinpoche a um discípulo que o ques- tionou sobre se no budismo “há um conceito de Deus”: após considerar que. nas vias espirituais tradicionais. Saint-Cannat. mas das vidas exemplares e inspiradoras de todos os mestres. O sentido profundo da experiência meditativa e contemplativa é levar-nos a esse silêncio da comunhão no âmago do Infinito. Meditação. A comprovação da sua eficácia não vem dos efeitos sobre o cérebro ou o corpo verificados nos laboratórios cientí- ficos. 113 || miolo_Meditacao. a abordagem última é a realização de que Deus e a nossa própria mente são indiferenciados” 271. a noção de um Deus exterior é uma manifestação da nossa própria mente. BOKAR RINPOCHE. traduzido por Cheukyi Séngué. Por este motivo. Nas vias espirituais tradicionais e nos ensinamentos dos mes-  f. Oportunidade e exigências de um relançamento da meditação numa via espiritual secular e não confessional Ao abordar este ponto. o mestre tibetano acrescenta que. a do silêncio trans-religioso.indd 113 07-09-2017 07:59:42 . o que acontece sempre que uma via não se aprofunda até ao silenciamento da mente con- ceptual. sábios e santos da humanidade que são as flores e os frutos livres de declínio e corrupção da imensa e frondosa árvore das múltiplas tradições espirituais planetárias. a meditação como via para o despertar da consciência é indispensável. simulta- neamente individual e comunitário. onde surgem num organismo vivo inseparáveis da ética e da sabedoria e de um caminho de transformação profunda da consciência e da vida. 271 C Éditions Claire Lumière.

como no fenómeno recente da mindfulness. pp. é um dom a todos os humanos e a todos os seres gratuita e espontaneamente oferecido. mesmo que exteriormente sempre se manifeste condicionada por tais coordenadas 272. memória.”. Herder. podemos ter a garantia de que os exercícios meditativos e contemplativos visam a nossa plena realização (ou seja. resultado de cocktails espirituais inventados por self-made gurus para agradar aos sempre instáveis gostos e apetites dos egos. é o fundo natural de tudo. recepção e actualização – Raimon PANIKKAR. Dito e sublinhado isto. sabedoria e amor.r. Isto torna-a em primeira e última instância irredutível a qualquer configuração que possa assumir nas coordenadas histórico-culturais. 2007. Experiencia plena de la Vida.m. levar-nos a reco- nhecer que somos inseparáveis do âmago do real) e não são meras terapias ou formas de viver melhor a vida mundana. o que Raimon Panikkar enuncia como “e. Assim sendo. um potencial universalmente presente em todos os seres humanos. sin dioses. ateus ou agnósticos.131-161. É assim que a contemplação também se desvela. pelo simples facto de o incondi- cionado ou infinito ser a natureza íntima de todos. muito pior. independen- temente de seguirem vias espirituais ou de serem religiosos. é um facto que a pura experiência contemplativa pode surgir ou ser emancipada das suas formas e transmissões tradicionais. A experiência contemplativa. sendo dela que procedem as experiên- cias de verdade ou revelações fundadoras das tradições espirituais e religiosas e não o contrário. enquanto experiência de absorção ou reconheci- mento de si no fundo sem fundo de tudo. tanto mais quanto mais autêntica e profunda for.a. sobretudo hoje. Paulo Borges tres autênticos. || 114 miolo_Meditacao. no âmbito de correntes e leituras religiosas ou doutrinais específicas – teológicas. a experiência contemplativa.indd 114 07-09-2017 07:59:42 . a experiência imediata mediada pela linguagem. linguísticas e interpretativas dos seus sujeitos e da sua expressão. como na vaga da New Age. Barcelona.l. interpretação. 273 Marià CORBÍ. sin religiones. dada a sua natureza de pura consciência ou experiência de ser. budológi- cas ou outras – . com toda a inerente liberdade. Sin creencias. no cerne de uma “espiritualidade laica” 273. Barcelona. 2005. a experiência de não-dualidade. Hacia una espiritualidad laica. a consciência desperta no estado pré-conceptual. que redescobre a plenitude.i. De la Mística. que são todavia sus- pensas e excedidas no âmago da experiência. ou. o incondicionado ou infinito. a paz e 272 C f. Herder.

do “Divino” isento de predicados. Ele é a experiência mística. ou como um horizonte ante uma perspectiva que o constitui em função do ângulo limitado da sua orientação e percepção. Esse estado de consciência é a meta do caminho espiritual. a de ser e estar consciente. sendo esses centro e perspectiva os do sujeito necessitado ou desejoso que. pp. olha para o que o rodeia ou está diante de si como um território de caça a explorar para satis- fazer as necessidades. movido por medo e expectativa.indd 115 07-09-2017 07:59:42 . O mundo não é um círculo com um centro. imediata e gratuita das experiências. não tem essa estrutura egocentrada. nada é dado segundo a medida de alguém. Ate- nua-se e desaparece assim a experiência atávica e gregária do predador. Aqui-Agora. Despertar ou Li- bertação 274 – no aprofundamento dessa experiência se relativize ou dissipe a suposta evidência de haver sujeito. em que o mundo e o real surgem como um círculo com um centro. Quando alguém. a Liberdade Silenciosa a alegria na mais simples. É o degrau que precede tudo o que pode surgir. tudo é desconcertantemente livre e sem referência a ninguém. além-aquém das interpretações religio- sas desta experiência.53-54. O mundo é um enigma sem fim que se diz a si mesmo sem que nenhum caçador lhe imponha o que há de dizer. 275 “Posto que ninguém é um centro de necessidade. livre. dela sai como um ser humano diferente” – Willigis JÄGER. captando o que lhe parece vantajoso e evitando o que percepciona como adverso. vasto. Suspensos o sujeito. não há nem campo de caça nem caçador. vivenciando-se uma abertura ilimitada na qual desaparece a imagem de si. tudo se oferece tal como é. porque apenas por ele construída. Vozes. a cada instante. Petrópolis. sai ao mundo a percepcionar. interesses e desejos do animal humano ou não-huma- no. regresso ao Tao. 274 “ No degrau da consciência cósmica é que ocorre a verdadeira experiência mística: uma experiência de vazio. a sentir e a conhecer. absor- ção no Brahman ou absoluto. Meditação. Quando se sai assim. 2009. nem ninguém pode voltar a casa carregado com uma peça de caça. Iluminação. e a quem aconteceu esta experiência. não um ego necessitado. sem características. porque 115 || miolo_Meditacao. não se sai para caçar porque já não existe a caça. medidas. objecto e sua relação. é a experiência da fusão da identidade própria com a Realidade Primária. (…) A experiência mística é a experiência de a forma e o vazio serem UNO. Aqui o ser humano experiencia o “puro Ser”. do mundo e do real relativa ao observador egocentrado. E o mais relevante é que – em profunda convergência com o que as tradi- ções espirituais planetárias interpretam como união mística com Deus. a matriz da qual tudo se origina. A Onda é o Mar. pontos de apoio ou referências 275. o objecto e sua relação. é um oceano sem fronteiras e sem pontos de referência.

sem quem nem quê 278. Reiner SCHÜRMANN. todo o ser ou fenómeno. que exerça sobre ela um poder hegemónico ou a ordene hierarquicamente em termos de alto e baixo. 276 Cf. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. meio e fim 276. nem há peça de caça. Desafios Éticos Contemporâneos. única e sempre nova da própria totalidade. Viriato Soromenho-Marques. não sendo jamais meio para um qualquer fim. Tudo se cumpre na pura fulguração de entre-ser. Na pura experiência contemplativa. organização de Filipa Afonso.298-299. tudo surge interconectado. 1996.indd 116 07-09-2017 07:59:43 . José Luis Pérez. enquanto tudo se manifesta interligado. Maria José Varandas. sem tudo o que é apenas relativo às operações mentais dualistas. nada tem existência substancial e intrínseca. Lisboa. Willigis JÄGER. já por outro tudo as- sume um infinito valor intrínseco. Cada partícula é o multiverso. 278 Cf. || 116 miolo_Meditacao. desconstruindo o pressuposto de um determinado centro ou princípio/origem (a arché dos primeiros filósofos gregos) da realidade cósmica – a ela extrínseco porque concebido à imagem do sujeito que dela se julga distinto – . que são a imediata e plena presentificação do infinito. 277 Cf. tudo é sagrado porque in-útil. enquanto manifestação singular. Tudo surge num ilimitado campo de consciência e dela inseparável. Todo o cosmos se cumpre em cada fenómeno e acontecimento. interdependen- te e interpenetrado num multiverso em auto-organização espontânea. “Aquém-além do reino do humano.169-180. é igualmente uma epifania da totalidade ou da sua matriz original e como tal investido de absoluto valor. Lavínia Pereira. Homenagem a Cristina Beckert. superior e inferior ou princípio. in AAVV. Se por um lado. pp. Pensar Para o Outro. Entre-ser e ética sem centro”. cessam todos os pro-jectos e nem há caçador. irrelativo ao que possa valer instrumentalmente para um aliás inexistente avaliador ou apreciador independente. objectos e suas relações. pp. Trans-Europe-Repress. com a relativização e cessação em ter- mos últimos de sujeitos. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. em si e por si. Paulo BORGES. Des hégémonies brisées. Cada onda é todo o oceano e todo o oceano ondula em cada onda 277. Ibid. Suspensa a elabora- ção conceptual que instaura antropocêntrica e utilitariamente um mundo de entidades distintas e separadas. 2017. Todo o multiverso está presente em cada partícula e esta em todo o multiverso. A Onda é o Mar. Paulo Borges ou seja. sem porquê nem para quê. Neste sentido.. Tudo. Sandra Escobar. nem há casa para onde voltar ” – Marià CORBÍ.

Albin Michel. para que a energia vital flua sem obstáculos. L’Assise et la Marche. sem distinção entre princípio. já a postura erguida sugere a experiência do observador que se vê distinto do mundo e se predispõe para nele agir. amorosa e compassiva. estar a favor de ou contra algo ou alguém. na ver- tiginosa fuga para a frente que gera a predação do mundo e das vidas humanas e animais e o cansaço e esgotamento (Byung-Chul Han) do predador numa Terra devastada (T. 279 Cf. que sugestivamente também significa tomar partido. Na pura experiência contemplativa nada se faz e por isso nada se desfaz. Jean-Yves LELOUP. 117 || miolo_Meditacao. que significa estar sentado. Norton & Co. The Waste Land. na qual se vivencia a não-separação entre si e o mundo.indd 117 07-09-2017 07:59:43 . 2011. editado por Michael North. S. ficar tranquilo.. levando a experiência da abertura contemplativa não-dual. 1994. Eliot) 279. antes. estar sentado é a postura dominante nas culturas não-ocidentais e a mais adequada. Com a cessação da percepção dualista cessa a operosidade mental e com ela o constante afazer de uma civilização automobilizada (Peter Sloterdijk) em que todos se auto-exploram pelo trabalho. levantar-se. W. Como também vimos. Se “ser” também vem de “sedere”. como vimos com Rémi Brague. durante e depois. para a vida quotidiana e para uma acção mais responsável. combater por ou contra algo ou alguém. T. sem qualquer dualidade e consequente estado/levantamento (stare) mental-emocional de apego ou aver- são. residir. W. Se a postura sentada sugere o repouso na sede ou fundo do ser. a Liberdade Silenciosa de modo mais evidente o da modernidade. pelo bem de tudo e de todos. entendido. ELIOT. Shizuteru UEDA. exterior e so- bretudo interiormente. já “estar” procede de “stare”. meio e fim. O erguer-se para estar de pé e agir pode todavia radicar na experiência não-dual favorecida pelo estar sentado. 280 Cf. com a coluna bem di- reita. como vimos. como o da emancipação da humanidade de uma natureza-objecto a dominar. sem preferências nem exclusões 280. É significativo que. etc. Zen y Filosofía. erguer-se. pousar.34-49. S. Paris. fugindo do que percepciona como adverso ou perseguindo o que antevê como vantajoso. ainda conceptualizado como vazio-forma e consciência-mundo. pp. tudo repousando na espontânea e contínua emergência do indizível. favorecendo a experiência me- ditativa e contemplativa. indicativo da conexão com a terra e com o repouso mental e físico. Meditação. em português e castelhano o verbo “ser” pro- ceda da fusão dos verbos latinos “esse” (ser) e “sedere”. estar de pé. a produção e o consumo.

muitas vezes fechada à espiritualidade. o incondicionado e o infinito. independentemente de seguir vias espi- rituais. com uma linguagem adaptada às mentes contemporâneas – que muitas vezes têm dificuldade de compreender ou se reconhecer no vocabulário. não religiosas nem confessionais. simbolismo || 118 miolo_Meditacao. que não implique a adesão a um específico caminho espiritual tradicional. quando conduzidas por mestres autênticos. por todos os motivos expostos ao longo deste livro. vai manter- -se e desenvolver-se paralelamente. pode estar a confi- gurar-se o tempo oportuno para um terceiro caminho. Paulo Borges *** Reconhecida. mas que não seja incompatível com ele. mas que. e sendo evidente que nem todos estão preparados ou predispostos para seguirem uma dada via espiritual tradicional. uma via espiritual secular. enquanto potencial naturalmente presente em todos os seres humanos. Entre uma possibilidade e outra. as tradições e vias espirituais e reli- giosas da humanidade. ou caminho do meio. por outro. por um lado. e felizmente. do essencial das vias espirituais tradicio- nais. que é o da prática de uma espiritualidade secular. é natural que surjam expressões seculares e lai- cas. a tendência para a laicização. assumindo toda a exigência de um processo de despertar da consciência e transformação da vida que não se demita de facilitar o acesso do buscador da verdade e do praticante ao âmago e fundo sem fundo do real. estão hoje a renascer com uma nova vitalidade. para quem não se reconheça de todo ou em parte em nenhuma delas. ateus e agnósticos. Uma via espiritual secular. Sem ter obviamente as seguranças e as garantias das vias espirituais tradi- cionais. Cremos que. a impor- tância e urgência de um relançamento da experiência meditativa e contemplati- va profunda. onde a meditação e a contemplação não percam vastidão e profundidade e não apareçam desinseridas da busca de uma realização integral do ser e da consciência. religiosos.indd 118 07-09-2017 07:59:43 . constatada a sua universalidade. como vimos estar cada vez mais a acontecer no movimento con- temporâneo da mindfulness. após o seu declínio ou extinção próxima terem sido pro- fetizados. das suas orientações religiosas / filosóficas ou da sua ausência. mas aberta a todos.

Neste sentido há que conceber e experimentar um programa de formação alternativa. frequentemente reféns das condições sócio-his- tórico-culturais em que surgiram e se fixaram – . fama-descrédito). tem a vantagem de ser poten- cialmente acessível e praticável por todos os homens e mulheres do nosso tem- po. ou do Despertar da consciên- cia. e tomando como referência o fenómeno da laicização da mindfulness a partir do seu original contexto budista. a aspiração ao despertar pleno da consciência para além da percepção convencional da realidade (onde se enfatize a experiência da interdependência e da não-separação entre si e o mundo) e uma ética do amor e da compaixão incondicionais por todos os seres vivos e de respeito integral pelos ecossistemas e pela Terra dos quais somos todos inseparáveis. uma nova forma de exercitar. mas adequada a quem por qualquer motivo não se reconheça nas vias tradicionais e sem fazer disso um novo ismo qualquer. que reúna a filosofia e a espiritualidade e relance a proposta de uma vida filosófica ou sa- 119 || miolo_Meditacao. Meditação. a libertação das referidas motivações mundanas (ganhar- -perder.indd 119 07-09-2017 07:59:43 . A meditação no contexto de uma via espiritual secular tem to- davia o grande desafio de não se confinar aos limites ou ceder às tentações da mindfulness. com as dimensões incontornáveis da sabedoria e da ética. Há que reinserir a meditação numa via exigente que vise o pleno Despertar da consciência. prazer-dor. No que respeita à meditação. Dando um exemplo concreto. elogio-censura. não cedendo às preocupações mundanas e não se desvinculando de um caminho integral de realização de si. e com particular ênfase e exigência na formação de formadores e instrutores. que a mindfulness desconsiderou e omitiu no seu centramento em técnicas meditativas decontextualizadas. preservando ao mesmo tempo o que pode haver de mais positivo na emancipação da experiência meditativa de quadros doutrinais e institucionais religiosos. a Liberdade Silenciosa e práticas das vias tradicionais. uma via es- piritual secular que vise relançar a meditação em todo o seu alcance e profun- didade tem de integrar no seu programa de estudo e prática. proposta com um no- vo vocabulário e novas razões. o equivalente laico dos alicerces fundamentais da tradição do Buda. uma via espiritual secular assume a vantagem de a poder levar a mais sectores da população. livre das ambiguidades da mindfulness e da New Age. muitas vezes também rígidos e cristalizados. Há assim que encontrar. em termos secula- res e trans-religiosos.

 f. Paulo BORGES. || 120 miolo_Meditacao. p. teoria abstracta e hermenêutica textual 281. pode além do mais contribuir para relançar a vocação original da filosofia como um modo sá- bio de viver. sociedades.77 e 81. Cremos que um programa como este. mas colhendo também a inspiração e os contributos das demais tradições planetárias.indd 120 07-09-2017 07:59:43 . a partir do nosso estudo e prática da meditação. pois vemos a todas como as distintas manifestações. redimindo-a da sua tendencial redução nas instituições de ensino a mero exercício da razão dialéctica ou lógico-analítica. La Sabiduría Recobrada. Mónica CAVALLÉ. Paulo Borges piencial fecundada pela experiência meditativa e contemplativa e pela inerente ética de não-cobiça e não-violência. da sabedoria intemporal e do amor incondicional que em todos os seres desde sempre habita e é a natureza fundamental de tudo quanto vive e existe. especulação intelectual. adequadas a diferentes povos. e da via budista tibetana. o próprio Coração da Vida.52. desde 1981. Pierre HADOT. Cremos que um programa como este é um contributo para a realização de todo o potencial evolutivo da vida humana e uma urgente alternativa ao sentimento de evanescência do sentido da vida na cultura produtivista. para quem por alguma razão não se sinta predisposto aos caminhos espirituais tradicionais e aspire a mais do que a mindfulness e a New Age têm para oferecer. 281 C O Coração da Vida. meditação. que também pode ser visto como uma proposta de filosofia prática. Filosofía como terapia. desde 1983 (que procuramos seguir como via para o Infinito além de todas as vias). Visão. da liberdade silenciosa. É um programa com estas características que propomos no próximo e últi- mo capítulo deste livro. separada das questões e aspirações fundamentais da consciência e da vida. culturas e momentos históricos. consumista e tecnológica contemporânea. Exercices spirituels et philosophie antique. transformação integral. pp.

o seu âmago e especificidade consistem em apresentar estes contributos numa perspectiva e numa lingua- gem universais. ateus ou agnósticos. na relação consigo. aberta. Para toda a informação: circuloentreser. associação filosófica e ética. religiosos. no cultivo de um bom coração e no despertar da nossa sabedoria inata. Bondade e Sabedoria (reflexões e práticas meditativas)282 Apresentação Esta é a proposta de uma via prática para a realização do nosso melhor po- tencial humano. com os outros e o mundo. IV O CORAÇÃO DA VIDA Uma Via de Consciência. meditação. Com excepção do último. ao qual se juntaram os de Teresa Alfama. composta de exercícios diários. Este programa inspira-se nas grandes tradições espirituais da humanidade e particularmente no budismo tibetano. orientadas para uma prática baseada na experiência meditativa 282 E  ste programa de formação foi por nós concebido. entidade responsável pela organização dos retiros. tendo na sua formulação final o contributo destacado de Daniela Velho. É uma via universal.indd 121 07-09-2017 07:59:43 . Visão. Todavia.org 121 || miolo_Meditacao. serve de apoio para as práticas meditativas do nível I e de parte do nível II deste programa. O nosso anterior livro. florescente e harmoniosa. aberta a todos. O Coração da Vida. workshops e cursos onde são fornecidas todas as indicações para a prática deste programa. somos todos membros do Círculo do Entre-Ser. Ângela Santos e Maurício Pereira. transformação integral (guia prático de meditação). Micael Inês. que visam conduzir a uma vida com sentido. faseados mensalmente ao longo de um programa de formação de um ano. baseada no treino meditativo da consciência.

esta formação conduz naturalmente a esses benefícios colaterais. onde se pacifica e acalma a mente. 3 – Sabedoria. Este programa tem três níveis. bem-estar e rentabilidade escolar e laboral. embora sem se confinar numa tradição específica. nos fenómenos mentais e emocionais e nos fenómenos externos. como alternativa a especulações intelectuais abstractas ou à crença em doutrinas que não sejam comprovadas experiencialmente. Esta via acentua a importância desta experiência. onde se medita cultivando uma crescente abertura amorosa e compassiva do coração.indd 122 07-09-2017 07:59:43 . Este programa de for- mação pode ser também uma ponte para quem queira continuar o caminho numa dada via tradicional. Paulo Borges pessoal. clareza e felicidade que não depende da oscilação das situações e experiências externas e internas. Este programa de formação reinsere a meditação no contexto tradicional de uma via espiritual integral. Os seguidores de uma dada tradição religiosa po- dem encontrar aqui um meio de aprofundar experiencialmente o seu caminho e aqueles que não se identificam com nenhuma via tradicional podem encon- trar aqui um caminho espiritual laico e não confessional. nesta abordagem. que vêm por acréscimo e surgem com os primeiros passos do caminho mais amplo e profundo aqui proposto. 2 – Bondade. pela meditação com suporte no corpo e na respiração. de modo a poder ser compreendida e praticada por todos os homens e mulheres do nosso tempo. onde é inse- parável da ética e da sabedoria. alia- da à alegria e à imparcialidade. a essência da meditação não é todavia o foco e a concentração nesses vários suportes. a ser percorridos sucessivamente: I – Cons- ciência. constituindo uma alternativa às formações aceleradas e dispendiosas que estão na moda e que instrumentalizam técnicas meditativas para fins que tendem a cingir-se a questões de saúde. que nos liberte dos nossos condicionamentos e desenvolva as nossas qualidades inatas. com os seus mestres qualificados. Colocando o seu foco na realização integral do ser humano. Este programa reintegra a meditação na sua matriz original. onde a meditação reside na compreensão experiencial da natureza profunda da realidade e da consciência || 122 miolo_Meditacao. mas a descoberta da consciência como um espaço aberto de paz.

Depois disso. sem pensar ou se focar em nada específico. meditativas e contemplativas. Consoante o tempo disponível. com as variantes semanais indicadas. Nos níveis 2 e 3 desenvolver-se-á sempre a experiência da consciência aberta. que geram um dinamismo de aper- feiçoamento progressivo do/da praticante. manter o tempo mínimo de prática diária em 30 minutos nos três níveis. Propõe-se ape- nas que se abra a elas como hipóteses de trabalho que poderá comprovar ou não pela sua reflexão e pela sua experiência. que consistem em tomadas de consciência reflexivas. Não é suposto que o/a praticante adira incondicionalmente às tomadas de consciência propostas. reflexão e meditação geral de cada um dos demais passos. Nos níveis II e III propõe-se que o tempo mínimo de prática diária passe respectivamente para 45 minutos e 1 hora. A prática dos três níveis será integrada com o percurso diário dos seguintes doze passos. Se não se conseguirem criar as condições para que isto seja possível. sendo consagrados 30 e 45 minutos para a meditação específica de cada passo mensal e os restantes 15 aos demais passos. dos quais 20 minutos serão consagrados à meditação específica de cada passo mensal. bem como em aspirações. O tempo mínimo proposto para a prática diária é de 30 minutos no nível I. após uns momentos ou minutos de re- flexão e contemplação em cada passo. o reconheci- 123 || miolo_Meditacao.indd 123 07-09-2017 07:59:43 . Meditação. propõe-se que o/a praticante foque a atenção na reflexão e tomada de consciência a que for sendo mais sensível. mas focar-se-á mais demoradamente na meditação associada ao passo que estiver a praticar mensalmente. Em cada sessão de meditação diária específica de cada passo haverá três momentos: 1 – no início a consciência aberta no aqui-agora. iniciada no nível 1 e subjacente a todo o programa de formação. O/A praticante percorrerá diariamente todos os doze passos. mas também sem se distrair. O restante tempo será dedicado à leitura. deve deixar a mente em consciência aberta. e antes de passar ao próximo passo. sem as meditações específicas associadas. a Liberdade Silenciosa que a percepciona.

que será disponibilizado on line. Apresentam-se aqui a estrutura e os conteúdos fundamentais do progra- ma de formação. o tempo mí- nimo de prática formal no nível I é de 75 horas. Esta formação tem a duração de um ano ou o necessário para que no final o/a praticante tenha um mínimo de 180 horas de prática formal. os workshops serão dedicados a cada nível e os cursos terão três sessões dedi- cadas a cada um dos níveis). Acima de tudo. Para este acompanhamento propõe-se um donativo. em pós-meditação e na vida quotidiana. apesar de ser desejável que a quantidade acompanhe a qualidade.org || 124 miolo_Meditacao. não contando com as de prática informal. II e III (os retiros contemplarão os níveis I/II e o nível III. Neste sentido. workshops ou cursos destinados a dar instruções para a prática dos níveis I. Neste sen- tido. para que o programa tenha o efeito desejado. 2 – depois disso. a limpeza dos canais energéticos e o ali- nhamento do corpo na postura em sete pontos.indd 124 07-09-2017 07:59:43 . workshops e cursos es- pecíficos a esse fim destinados. a prática propriamente dita. O custo desta formação limita-se ao valor da frequência dos retiros. Paulo Borges mento e alargamento da motivação. sendo de 45 horas no nível II e de 60 horas no nível III. pede-se que os/as praticantes não transitem do tema de um mês para o outro sem haverem completado no mínimo 15 horas de prática formal em cada tema. 3 – no final. a dedicatória dos benefícios para o bem de todos os seres. mas as práticas meditativas e pós-meditativas carecem de ser explicadas em detalhe pelos formadores nos retiros. Note-se todavia que os benefícios e resultados deste programa de formação dependem menos da quantidade do que da qualidade da motivação e da práti- ca. Consultar toda a informação em: circuloentreser. o melhor sinal de sucesso nesta formação é o/a praticante compreender que entrou numa Via que é inseparável da própria Vida. O/A praticante receberá aí toda a informação para continuar a sua prática diária e terá para já um acompanhamento presencial mensal em Lisboa.

a Liberdade Silenciosa Nível I – Consciência 1. sendo a cada instante a manifestação viva deste fundo universal. esquecimento ou distracção disto nos pode conduzir a viver como real a ilusão de sermos seres separados e limitados e que isso pode obscurecer a nossa consciência gerando o medo e egocentrismo que podem ser a raiz dos sofrimen- tos e problemas fundamentais que nós. e para confirmar ou não pela minha experiência esta hipótese de trabalho. R  econhecer e experimentar o fundo comum de tudo (1º mês) Reflicto sobre a mensagem e a hipótese de trabalho deixadas pelas tradições sapienciais da humanidade: a de haver um caminho a percorrer para dar pleno sentido à existência e viver uma vida tanto mais plena e florescente quanto mais conectada com o fundo comum do meu ser e de tudo quanto vive e existe. pode colocar essa imagem diante de si ou visualizá-la e sobretudo senti-la bem presente. todas as formas de vida e o intei- ro cosmos somos sagrados.indd 125 07-09-2017 07:59:43 . sem foco (na 1ª semana apoiar-se suavemen- te na postura física e na sensação geral do corpo. contribuindo para uma sociedade e um mundo mais despertos. Meditação: consciência aberta. éticos e felizes. mas reflicto sobre a possibilidade de poder vir a descobrir. Faço isto para o meu bem. os demais viventes e a Terra padecemos. Reconheço ou posso vir a reconhecer que eu. Reconheço ou posso vir a reconhecer também. Por este motivo. Pos- so não o vislumbrar ou sentir neste momento. na 2ª semana apoiar-se sua- 125 || miolo_Meditacao. Meditação. dedicar-me-ei às práticas desta via. para o bem da minha família e para o bem de todos os seres. que me podem conduzir da desaten- ção à consciência plena e à experiência da essência da Vida. (Se o/a praticante se reconhece desde já nesta mensagem e confere a este fundo uma forma religiosa ou outra que o inspira. todavia. vibrante e viva. que lhe suscita devoção e com a qual se sente particularmente conectado/a. que a incons- ciência. sem princípio nem fim. um espaço infinito de liberdade. experimentando ser dela inseparável). em mim e em tudo. livre de nascimento e morte. consciência e amor.

Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência anterior na vida quotidiana e repousar várias vezes ao longo do dia em curtos períodos de consciência aberta. 2. nas 3ª e 4ª semanas abdicar desses suportes. a fim de realizar plenamente o potencial de que agora usufruo. Esta e todas as seguintes meditações privilegiam a experiên- cia da consciência sobre a do foco nos suportes e começam e terminam com 3 minutos de consciência aberta. e a caminhar). cognitivo e afectivo. se a mente ficar muito instável ou confusa. reconhecendo que é pre- ciosa. || 126 miolo_Meditacao. Reconhecer e apreciar o imenso potencial da vida humana (2º mês) Reflicto sobre o imenso potencial de desenvolvimento interior. e depois repousar nele como um todo. externos e internos. incluindo meditação a caminhar (na 1ª semana fazer a consciência percorrer o corpo. Meditação: consciência plena do corpo e das sensações físicas. na 2ª repousar numa região específica do corpo. Experien- ciar a consciência como o espaço ilimitado e imutável onde surgem. Paulo Borges vemente na respiração. na 4ª alternar entre meditação sentada. Aprecio-a e regozijo-me profundamente por ela. inerente à minha vida humana. in- cluindo as experiências difíceis sem as quais não teria a oportunidade de apren- der e evoluir mais substancial e rapidamente. na 3ª meditar em anda- mento. do topo do crânio aos pés. mas. com foco numa região específi- ca. Estou consciente de que a imensa maioria dos seres não está a ter esta opor- tunidade e sinto a responsabilidade de cuidar da minha saúde e de orientar o melhor possível a minha vida. regressar durante momentos a um deles e depois largar o suporte tentando manter a estabilidade sem apoio).indd 126 07-09-2017 07:59:43 . se proces- sam e se dissolvem todos os fenómenos e experiências. sentindo gratidão por tudo o que de bom me tem proporcionado. externas e internas.

e que isso pode acontecer a qualquer momento. a andar e deitado. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência anterior na vida quotidiana e meditar várias vezes ao longo do dia durante curtos períodos na respiração. Meditação. Reconheço que. por curtos períodos e nas mais variadas situações do dia. estando sujeito/a ao envelhecimento.indd 127 07-09-2017 07:59:43 . os amigos e os bens até ao corpo e à actual percepção do mundo. bem como do espaço de consciência aberto no final da expiração). desde a família. Meditação: consciência plena da respiração (na 1ª semana repousar a consciência no inspirar e expirar. Aspiro a usar o melhor possível o tempo incerto de que disponho e a aproveitar tudo o que a vida a cada instante me oferece para o despertar e a evolução da consciência. abandonar todas as tensões. na 3ª despertar a consciência do fluxo da vida que circula por todos os seres. a Liberdade Silenciosa Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência ante- rior na vida quotidiana e meditar várias vezes no corpo e nas sensações físicas. à doença e à morte. viverei sem medo da morte e partirei sem remorsos e em paz. Reconhecer a mudança contínua e a inevitabilidade da morte (3º mês) Reflicto sobre a evidência de que nada é garantido. na 2ª acrescentar a experiência de. 3. que tudo está sempre a mudar e que não terei esta preciosa oportunidade para sempre. usando o método da 1ª semana. Tomo consciência de que inevitavelmente terei de abandonar tudo. 127 || miolo_Meditacao. ao ex- pirar. em pé. pois cada momento que passa me torna mais perto do final da minha vida física. fixações e preocupações. na 4ª introduzir a consciência da alternância entre o cheio e o vazio. viverei com mais atenção e apreço pela vida. se assim o fizer e desde já me preparar.

cobiça. roubar. Reconheço que o que experiencio no presente é fruto das percepções. na 2ª semana repousar mais a consciência no espaço entre eles ou na sua ausência. não-judicativa e não-conceptual e uma intenção positiva e altruísta em todos os meus pensa- mentos. perder tempo com conversas fúteis. na 3ª semana estar mais consciente do espaço onde surgem. que a percepção e os juízos e conceitos que a determinam são a mais subtil forma de acção e que estamos todos a cada instante a criar o mundo que experimentamos mediante o modo como pensamos. palavras e acções físicas. Meditação: consciência plena dos fenómenos mentais e emocionais (na 1ª se- mana contemplá-los sem envolvimento. Paulo Borges 4. intenções e acções e aspirar a agir pelo bem de todos (4º mês) Reflicto sobre o facto de ser inseparável de tudo quanto existe e que por isso as minhas acções e omissões – mentais. ver que são impermanentes e não se identificar com eles. verbais e físicas – afectam positiva ou negativamente a mim. caluniar. ilusões acerca da natureza das coisas). praticando o reconhe- cer. male- volência. apego ou rejeição. consoante a informação dada pelo/a formador/a (esta é a lista mais básica das negativas e as positivas consistem no seu oposto: matar. falamos e agimos. evitando as acções negativas e praticando as positivas. E  star atento às percepções.indd 128 07-09-2017 07:59:43 . mentir. aceitar. se desenvolvem e se dissipam. meditar várias vezes por curtos períodos ao longo do dia nos fenómenos mentais e emocionais. abstendo-me de toda a negatividade nesses três níveis. violar. usando os métodos de cada semana. cultivando uma percepção não-dualista. intenções e acções presentes. aos demais seres vivos e ao mundo. intenções e acções passa- das e que o que experienciarei no futuro será fruto das percepções. usar palavras ofensivas. || 128 miolo_Meditacao. na 4ª semana reconhecer que a consciência que os observa é esse mesmo espaço). Aspiro a estar plenamente consciente disto e a orientar o meu agir para o bem de todos. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência anterior na vida quotidiana. Reconheço que a realidade não é exterior à percepção que dela temos.

que posso encontrar toda a paz. sem temer e depender da mutação contínua das experiências e 129 || miolo_Meditacao. segurança e felicidade que tenho vindo a procurar no exterior. 4ª semana: odores e sabores). egocentrismo. comum a tudo quanto existe. reconhecendo e libertando-me de todas as ilusões que geram a imensa confusão. compreensão e sabe- doria. só aqui posso fruir o bem e a felici- dade autênticos. livre de dualidade.indd 129 07-09-2017 07:59:43 . Nível II – Bondade 6. 2ª semana: sons. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência anterior na vida quotidiana e meditar várias vezes por curtos períodos ao longo do dia nos fenómenos externos. Aspirar à libertação da ilusão e à autodescoberta (5º mês) Reflicto sobre a possibilidade de ser apenas na minha natureza profunda. a Liberdade Silenciosa 5. amor e compaixão. com um consequente e constante sentimento de insegurança. paz e plenitude. 3ª semana: sensações tác- teis. desatenção. medo. Meditação: abertura dos cinco sentidos e consciência plena dos fenómenos externos (1ª semana: formas visuais. conflito e sofrimento que há no mundo. confusão. A  profundar a descoberta da natureza profunda e repousar na bondade fundamental (6º mês) Reflicto sobre a possibilidade de haver em mim e em tudo quanto vive e existe um imenso espaço de liberdade. avidez. Sendo assim. Reconhe- ço que só procuro o que no fundo já desde sempre sou e que não posso sa- tisfazer este desejo ou saudade do infinito com coisas ou experiências finitas e transitórias. consoante a progressão semanal. Podem ser as qualidades inatas da nossa natureza profunda. Aspiro do fundo do coração a descobrir quem realmente sou. apenas transitoriamente enco- bertas pela minha desatenção. agressão e dos condicionamentos e sofrimentos resultantes. Meditação. dependência e insatisfação.

a mesma essência profunda e que estamos inti- mamente interligados na imensa comunidade dos viventes. familiar. Aspiro a tentar experimentar. sem separação entre interior e exterior. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência e expe- riência anteriores na vida quotidiana e meditar várias vezes por curtos períodos ao longo do dia repetindo de forma abreviada a visualização. a mesma bondade funda- || 130 miolo_Meditacao. Sinto que só a partir daqui posso desenvolver uma relação harmoniosa e positiva com as pes- soas. o/a praticante pode fazer uma visualização segundo as instruções do/a formador/a. as situações e as experiências sempre imprevisíveis e mutáveis da vida. vibrante e viva. Sinto que só assim darei pleno sentido à minha vida pessoal. evitar o sofrimento e ser felizes. Após a tomada de consciência e a aspiração. (Durante esta reflexão e eventual tomada de consciência. os bens. 7. Reconheço que porventura manifestamos todos. compaixão e alegria imparciais e universais (7º mês) Reflicto sobre o facto de que todos os seres vivos procuram constantemente. experienciando o espaço infinito onde tudo se mani- festa. nas mais diversas situações. que lhe suscita devoção e com a qual se sente particularmente conectado/a. profissional e social.indd 130 07-09-2017 07:59:43 . Em todos habita. aprofundar e tornar estável este reconhecimento da perfeição que há no fundo comum de mim e de tudo. Gerar amor. em diversas formas e modos. pode colocar essa imagem diante de si ou visualizá-la e sobretudo senti-la bem presente. infe- lizmente desconhecida ou não plenamente reconhecida. na bondade fundamental de simplesmente ser. em qualquer situação me sentirei em casa. tal como eu. seguir as instruções do/a formador/a) Meditação: consiste no exercício de visualização indicado pelo/a formador/a e em permanecer durante o tempo de prática formal com consciência aberta. Paulo Borges circunstâncias internas e externas. sem qualquer elaboração. Se confere à essência de todas as coisas uma forma religiosa ou outra que o ins- pira. Repousando aqui. experimentando ser dela inseparável. afectiva.

sendo nós todos inseparáveis e estando todos interligados na imensa rede da Vida. conforme as instruções do/a formador/a (na 1ª semana. Meditação: cultivar amor (1ª semana). Meditação: usar a respiração e a visualização indicada pelo/a formador/a para praticar a “troca”. sentimentos profundos e estáveis de amor. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência anterior na vida quotidiana e meditar várias vezes por curtos períodos ao longo do dia. alegria e imparcialidade.indd 131 07-09-2017 07:59:43 . sendo todos dotados da mes- ma natureza. a Liberdade Silenciosa mental que ao longo desta via em mim vou reconhecendo e manifestando. nas mais diversas situações. integrando como objecto da prática as pessoas e os seres com quem estivermos ou que estiverem perto de nós. 8. consoante as indicações do/da formador/a. desenvolvendo amor. compaixão. aspiro a fazer todo o possível por reduzir o seu sofrimento e contribuir para a sua felici- dade. transformar o seu sofrimento e o dos entes queridos em felicidade. a pessoas com quem temos dificuldades e a todos os seres. integrando progressivamente a si. compaixão (2ª semana). desejando que todos tenham felicidade e suas causas e que todos sejam livres do sofrimento e das suas causas. tendo cada um de nós em si a todos os outros e ao inteiro universo. na 3ª integrar pessoas que vemos 131 || miolo_Meditacao. cada um dos seres e o inteiro universo beneficiam com a minha evolução. compaixão. Aspirar ao despertar pelo bem de todos os seres (8º mês) Pelo bem de todos os seres dotados de consciência e sensibilidade. sabendo ser este o maior bem que posso oferecer a mim e a todos os seres. todos. Meditação. além de me regozijar e sentir alegria pelo bem de todos. vendo a realidade como ela é e realizando o meu ser profundo. sem qualquer excepção. na 2ª semana integrar pessoas e seres neutros. alegria (3ª semana) e imparcialidade (4ª semana). De acordo com as tradições espirituais e a ciência contemporânea. Aspiro assim a desenvolver por todos. Tomo consciência que só posso conseguir isto libertando-me de todos os actuais limites da minha mente e do meu coração. a pessoas neutras. É a isto que do fundo do coração aspiro. aos entes queridos. alegria e imparciali- dade cada vez mais abrangentes.

por desconhecimento da minha natureza pura e profun- da. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência anterior na vida quotidiana e treinar a mente. Contemplo que delas podem vir os limites da consciência e os obstáculos na vida (e não do que acontece ou do que os outros pensam. bem como aos demais seres e ao mundo. dando assim um sentido a tudo o que vivenciamos e integrando todo o tipo de experiências ao longo da vida na via da evolução e do despertar espiritual. Paulo Borges com aversão. Meditação: Dedicar um tempo igual à prática destes dois exercícios ao longo das 4 semanas: I – Após os 3 minutos em consciência aberta. verbais e físicas – que. consoante as indica- || 132 miolo_Meditacao. prejudicando-me. farei todo o possível por não me identificar com eles e não seguir os seus impulsos. ou o que tem por mais sagrado. reconheço que a minha essência nada tem a ver com essas acções e omis- sões. quando surgirem experiências difíceis e dolorosas. extinguir nelas as dores e dificuldades de todos. na 4ª integrar progressivamente todos os seres. o/a praticante visualiza a sua natureza pura e profunda. várias vezes por curtos períodos ao longo do dia. Purificação da negatividade (9º mês) Tento tomar consciência de todas as acções e omissões negativas – mentais. Reconheço que provavelmente não estou ainda ciente de muitas. Nível III – Sabedoria 9.indd 132 07-09-2017 07:59:43 . pois são elas que geram obscurecimentos e negatividade no modo como percepciono os aconte- cimentos e reajo a eles e o consequente sofrimento. dizem ou fazem). aspiro a renunciar a elas e a não mais as praticar. para oferecer a todos os seres todas as experiências gratificantes e para. Enquanto persistirem os hábitos mentais e emocionais que me arrastam a elas. Perante a minha natureza pura e profunda (ou o que tenho por mais sagra- do). sem qualquer ex- cepção). meu e dos outros. tenho praticado.

os meus bens e recursos materiais e espirituais (em particular a minha capacidade de evoluir e despertar ple- namente). Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência e as expe- riências anteriores na vida quotidiana e ao longo do dia parar por várias vezes e visualizar o processo de purificação de acordo com as instruções recebidas. tanto mais quanto mais ofereço o que sou e tenho. a beleza do Céu. II – Em consciência aberta. possua muito ou pouco. Oferenda e multiplicação dos bens (10ª mês) Tento reconhecer toda a imensa. com um sentimento de que. regozijo-me e sinto imensa gratidão por tudo isto e ofereço-o mental- mente para que ilimitadamente se expanda e multiplique em prol do pleno despertar da consciência e do bem de todos os seres. fome e sede físicas e espirituais que haja no mundo e cultivo desprendimento. a minha família e amigos. Concluir com os habituais 3 minutos de consciência aberta. contentamento e generosi- dade. sou sempre infinitamente rico e superabundante. ver se tem alguma realidade substancial. prodigiosa e preciosa riqueza exterior e interior de que disponho – a minha vida. Repousar na experiência e compreensão que surgir. Ao fazer isto. conforme as indicações do formador/a. distinta daquilo que percepcio- na. sinto ou posso vir a sentir que a energia desta oferenda contribui para saciar toda a carência. o/a praticante visualiza no coração todos os seus bens. 10. bem como o inteiro universo – . que se começa a descobrir ser ilimitada e sem forma como o espaço. Contemplar então a natureza da consciência. centro e periferia. da Terra e de todas as formas de vida. interior e exterior. Meditação. Meditação: Dedicar um tempo igual à prática destes dois exercícios ao longo das 4 semanas: I – Após os 3 minutos em consciência aberta. fazendo 133 || miolo_Meditacao.indd 133 07-09-2017 07:59:43 . cor ou localização. investigar brevemente qual a natureza da consciên- cia: ver se tem forma. prin- cípio e fim. a Liberdade Silenciosa ções do/a formador/a. sobretudo o que considerar mais precioso. seguindo as suas indicações quanto ao modo de praticar este exercício.

imaginando e sentindo que se multiplicam infinitamente e que fluem para cada ser. não existindo como entida- des independentes. em todos os lugares.indd 134 07-09-2017 07:59:43 . Investigar brevemente e repousar na experiência e compreensão que surgir. o tempo. partilhando a presença. Repetir isto várias vezes. pela mente e pelos sentidos. bem como em todos os acontecimentos sempre novos e imprevistos da vida. a energia. Embora tudo o que percepcionamos. exterior e interior. Paulo Borges um gesto de abrir o coração e de os oferecer em todas as direcções do espaço. ver se há neles alguma existência substancial e intrínseca. da constante presença e manifestação da natureza ou fundo comum de tudo. na 3ª investigar o corpo e as sensações físicas. Concluir com os 3 minutos em consciência aberta. consoante as indicações do formador/a. Pós-meditação: recordar o mais possível a tomada de consciência e as expe- riências anteriores na vida quotidiana. praticar concretamente a generosidade. 11. II – Focar a atenção nos vários fenómenos externos e internos e. ou abro-me à possibilidade de tomar consciência. na 4ª investigar os fenómenos mentais e emocionais e a própria cons- ciência que os percepciona. sentindo o crescimento do sentimento de abundância. transformando-se em tudo o que para cada um houver de melhor e mais necessário. em mim e em todos os seres e fenómenos. esse fun- do sem fundo é o espaço invisível e infinito da consciência aberta e primordial || 134 miolo_Meditacao. a palavra. contemplar a interdependência de tudo e parar por várias vezes para oferecer mentalmente a todos os seres toda a ri- queza e todo o bem que se estiver a desfrutar a cada momento. evitando procurar a felicidade no consumo. generosidade e vontade de partilha. a escuta. tenha formas aparentemente distintas umas das outras. os conhecimentos e os bens materiais com os necessitados. permanentes e singulares: na 1ª semana investigar objectos visuais externos. na 2ª investigar sons. em si e por si. cultivar o senti- mento interior de abundância e contentamento. tempos e circuns- tâncias. ou se são todos compostos e interdependentes uns dos outros e da consciência que os percepciona. Absorção no fundo comum de tudo (11º mês) Tomo consciência.

que antes de mim seguiram até ao fim uma via como esta e se tornaram despertos e omnipresentes. bondade e sabedoria que há no Coração do Cosmos e da Vida. em voz baixa ou silencio- samente. pela cultura e pela so- ciedade. com um sentimento de total entrega e abertura. um mantra ou palavra simples que para si faça sentido e que corres- ponda à essência do que invoca. o imo do próprio ser. Invoca-o então. no fundo sem mim de mim. Nesse sentido invoco a minha natureza profunda e aquilo que tenho por mais sagrado. do “não-eu” e do mundo. No fundo sem fundo de mim e de tudo. Após a invocação e a eventual recitação. sábios e santos da humanidade. fechado na pele do corpo ou dos pensamentos. não como algo exterior. Se sentir afinidade com esta prática. mas como aquilo que é desde sempre a essência mais íntima de si. a Liberdade Silenciosa onde tudo acontece e nada está separado. da linguagem e da imaginação. insepa- ráveis do coração do Real. ciente de que aí estão presentes e recebo as bênçãos de todos os mestres. Meditação: Dedicar um tempo igual à prática destes dois exercícios ao longo das 4 semanas: I – O/A praticante visualiza a sua natureza profunda ou o que tem por mais sagrado. pode recitar durante o tempo que desejar. que me levam a identificar-me ainda como um “eu” separado do “ou- tro”. de acordo com as instruções do/ formador/a. sentindo a profunda conexão com o que representa e manifesta. Meditação. Aquilo que visualiza condensa toda a consciência. pela educação. Aspiro a experienciar definitivamente quem sou e à plena libertação e despertar da consciência.indd 135 07-09-2017 07:59:43 . mas a minha natureza verdadeira é o infinito e a eternidade e esta é a verdade última de todos os seres e coisas. pareço um ser limitado no espaço e no tempo. Foca a atenção na visua- lização. eventualmente harmonizando a recitação com o ritmo da respiração. Nesta forma aparente. e em função de uma percepção ainda condicionada. Aspiro assim a libertar-me de todas as ficções do pensamento. Reconheço que avançar nesta Via é descobrir e sentir cada vez mais que sou inseparável deste espaço e que a minha essência é a sua. separado dos ou- tros e do mundo e sujeito a nascer e morrer. transmitidas pela língua. sou o próprio Coração do Cosmos e da Vida. experienciar 135 || miolo_Meditacao.

sem pensar em mais nada. contemplar todas as formas. Começo a compreender que não existo como um “eu” separado do universo e de todas as formas de vida. Ao emergir desta absorção. bem como de todos os demais fenómenos e acontecimentos externos e internos. o fundo sem fundo de tudo. como a manifestação constante e sempre nova do espaço- -consciência que se experienciou na prática anterior ou como a manifestação do que se tem por mais sagrado. autocentramento e sentimento de superiori- || 136 miolo_Meditacao. emoções ou percepções várias. Se surgi- rem pensamentos. cultivando assim continuamente cons- ciência. 12. mesmo e outro. sem qualquer excepção. E  spontaneidade do Despertar e acção ética no mundo (12º mês) Ao longo desta Via vou tendo vislumbres da minha natureza profunda e tomando consciência de que a minha essência é o próprio espaço primordial e universal onde tudo se manifesta e acontece. Pós-meditação: Ao longo do dia ver e reconhecer as formas aparentes de si e de todos os seres. bondade e sabedoria. identidade e dife- rença. II – Investigar a natureza deste espaço-consciência. contemplar a sua au- sência de forma inseparável da sua qualidade cognitiva e ver se há algo aí que corresponda aos conceitos de sujeito e objecto. sons e fenó- menos mentais como manifestação da consciência aberta que é o espaço pri- mordial e o fundo sem fundo de tudo. tudo e todos o são e que por isso todo o orgulho. segun- do as indicações do formador. e deixar surgir amor e compaixão por todas as formas de vida. Concluir com os 3 minutos de consciência aberta e a dedicatória para o bem de todos os seres. consoante as indicações do/a formador/a. Começo a perceber que. Paulo Borges a dissolução da visualização em si. bondade e sabedoria.indd 136 07-09-2017 07:59:43 . eu e não-eu. radiante de consciência. Reconhecer tudo como puro e sagrado. o que na verdade sou. vê-los e deixá-los fluir como manifestação do que foi visualizado. Repousar o mais possível nesta experiência. não os rejeitando nem se identificando com eles. Repousar a consciência na experiência e compreensão que surgir ou na sua ausência. sem forma nem limites.

pautada pela abstenção dos actos negativos e pela prática dos actos positivos que aprendi no passo 4 desta Via. por contribuir para o seu Despertar. aspiro a dedicar-me o mais possível a uma acção ética no mundo. juízos e conceitos. sabendo que tudo o mais vem por acréscimo. o que me motiva a continuar a aprofundar continuamente este caminho de prática.indd 137 07-09-2017 07:59:43 . Reconheço todavia as ilusões e há- bitos mentais e emocionais dualistas e egocêntricos que ainda persistem. dade ou inferioridade é sinal de ignorância. Aspiro assim a viver na espontaneidade do Despertar. cuja essência é a mesma que a minha. Meditação: Continuar e aprofundar os dois exercícios meditativos do passo anterior. Para aprofundar e estabilizar o reconhecimento e a experiência de quem verdadeiramente sou. com disponibilidade. livre de dualidade. mais poderosa e benéfica forma de agir e transformar o mundo é transformar a percepção da realidade. Reconheço que a descoberta da minha natureza profunda me convida à ale- gria de colocar a minha vida ao serviço do bem de todos os seres. primeiro que tudo através da irradiação da minha prática espiritual e do meu exemplo de vida. Reconheço todavia que a ética só pode vir da sabedoria e que a superior. mantendo uma consciência desperta. participando em iniciativas éticas em prol do bem dos humanos. para me tornar cada vez mais fiel a quem desde sempre sou. sem intenções. Só falarei desta Via a quem esteja para ela predispos- to/a e nela interessado/a e farei o possível por adaptar a minha comunicação e partilha de informação às capacidades de compreensão e às sensibilidades dos destinatários. acima de tudo. empenho e perseverança. finalidades ou objectivos e sem actividades específicas. fazendo todo o possível por minorar o seu sofrimento e contribuir para a sua felicidade e. Pós-meditação: Continuar e aprofundar os exercícios pós-meditativos do passo anterior e dedicar a partir deste mês e ao longo da vida algum tempo a acções de voluntariado altruísta. miolo_Meditacao. Libertar tempo para viver espontaneamente. na pura fruição e celebração de ser. dos animais e/ou da natureza.

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