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Ok, Olhar Cético, como VOCÊ explica os fenômenos que expõe¿

18/05/2015 - 10H05 - por Carlos Orsi

Uma das consequências de se manter um espaço como este aqui é que, volta e meia, surgem
nas redes sociais interpelações, algumas até bem educadas, outras em tom de cobrança ou
desafio, mas todas com um mesmo sentido: querendo saber “como você explica isso?”, sendo
que “isso” geralmente, mas nem sempre, se refere a uma experiência pessoal marcante de
alguém.

Algumas dessas perguntas são interessantes, estimulantes e até motivam artigos inteiros (como
o “Caso Westendorff”, por exemplo). Com a ressalva de que na maioria dos casos –
principalmente quando se tratam de experiências muito íntimas, de caráter profundamente
pessoal – qualquer tentativa de resposta será apenas isso, uma tentativa, e bem genérica.

Às vezes, essas perguntas me deixam preocupado: toda a luta do ceticismo, afinal, é no sentido
de nos prepararmos para lançar um olhar crítico e ponderado sobre as explicações que nos são
oferecidas pelos “oráculos” do mundo, sejam eles esotéricos, políticos, publicitários ou mesmo
(pseudo)científicos. Não é função do cético virar, ele mesmo, um oráculo em si.

E o problema não é só meu. Edição recente da revista Skeptical Inquirer, talvez a mais antiga
publicação sobre ceticismo em circulação no mundo, traz um artigo do professor de Filosofia
Stephen Carey com o seguinte título: “Yes, but how do you explain this?” (“Tá legal, mas como é
que você explica isso?”).

Depois de expor sua frustração pessoal com esse tipo de pergunta – quando a questão vem de
um aluno de sua classe de pensamento crítico, diz ele, fica a impressão de que o jovem não
entendeu patavina do curso – Carey relata como encontrou uma espécie de “resposta padrão”
em três partes. São elas: seu caso não é especial; o que você vê não é toda a verdade; tudo
funciona.

O que essas partes significam? “seu caso não é especial” é um apelo à Lei dos Grandes Números:
o princípio de que, dado um número grande o suficiente de oportunidades, mesmo o que parece
impossível acaba acontecendo, por pura sorte (ou azar). Ganhar na Mega-Sena, por exemplo, é
extremamente improvável – uma chance em 50 milhões – mas o fato de a loteria ter vencedores
não surpreende ninguém: você ganhar da loteria será um evento excepcional dentro da sua
biografia, mas um “alguém” genérico – que pode ser até mesmo você, por que não? – ganhar na
loteria é um evento quase corriqueiro dentro do esquema maior do jogo, que leva em
consideração a enorme população de apostadores.

O terceiro ponto, “tudo funciona”, se refere ao fato de que praticamente qualquer coisa feita
para tentar aliviar um problema de saúde vai parecer funcionar. Para além do efeito placebo –
casos em que a simples garantia psicológica de estar sendo tratado acaba estimulando uma cura
– Carey cita o dado de que a maioria das queixas de saúde é autolimitante: bactérias morrem,
parasitas vão embora, feridas cicatrizam. As doenças que realmente requerem alguma
intervenção para além de água, comida e cama são minoria.
O problema é que a mente humana tende a ligar qualquer coisa feita antes da cura acontecer à
cura em si: se você tem uma dor de cabeça, ela pode muito bem passar sem que se faça nada,
para além de tomar um copo de água e fechar os olhos por alguns instantes. Só que, se você, por
acaso, comer uma couve nesse meio tempo, há uma boa chance de que acabe acreditando que
couve cura dor de cabeça.

O segundo princípio de Carey – “o que você vê não é toda a verdade” – é talvez o mais sutil. Ele
se desdobra nas constatações de que nossas crenças têm a forma de narrativas (criamos
“historinhas” para explicar nossas experiências), e de que essas narrativas são quase sempre
construídas com base em informação insuficiente.

Truques de mágica funcionam assim: se víssemos tudo o que está por trás do efeito, ele seria
óbvio, e não mais maravilhoso. Fenômenos aparentemente paranormais muitas vezes devem
sua aura a essa parcela de ignorância: a narrativa só é “inexplicável” porque foi feita com base
em um conhecimento incompleto das circunstâncias.

http://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/noticia/2015/05/ok-olhar-cetico-como-voce-
explica-os-fenomenos-que-expoe.html

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