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CAMINHOS DO ROMANTISMO Almeida Garrett | Viagens na Minha Terra

SÍNTESE DE CONTEÚDOS

Deambulação geográfica e sentimento nacional


O narrador-viajante empreende uma viagem desde Lisboa (Terreiro do Paço) até Santarém. A viagem
demorará pouco menos de uma semana, sensivelmente de segunda a sábado.
Passa por Alhandra, Vila Nova da Rainha, Vila Franca de Xira, Azambuja e Cartaxo. Faz uma dupla
paragem no Vale de Santarém e regressa a Lisboa.
A viagem é mais do que um simples trajeto geográfico. Os lugares da viagem, as personagens, os
incidentes de percurso constituem motivos para as diversificadas digressões, daí o plural do título da
obra: Viagens na Minha Terra. A viagem real é, pois, um pretexto para outras viagens (digressões).
Assim, o narrador:
✓ redescobre o espaço nacional, a “minha terra”, desejo estimulado pelo nacionalismo cultural
romântico;
✓ engrandece a beleza da paisagem natural e dos aspetos pitorescos;
✓ valoriza o aristocrático e o popular, desprezando a burguesia;
✓ faz comentários de natureza histórica, cultural, literária e pronuncia-se sobre as correntes políticas
do seu tempo.

Representação da natureza
A natureza aparece como um espaço paradisíaco, espontâneo e harmonioso. É o espaço ideal da
existência humana.
Há em Viagens na Minha Terra dois espaços de eleição: a charneca ribatejana (cap. VIII) e o vale de
Santarém (cap. X). Estes espaços, pela sua pureza primordial, têm efeitos salutares: elevam a alma
humana, isolando-a de interesses mesquinhos e materiais. Neles, o ser humano é bom e feliz.
Por oposição à natureza retemperadora, a sociedade corrompe. As normas e as convenções afetam a a
liberdade humana, submetendo as pessoas a interesses materiais. Na senda de Rousseau, partilha a
ideia de que o ser humano é naturalmente bom, mas a sociedade corrompe-o.
Assim, a natureza é:
✓ espaço ideal de existência do ser humano puro e natural;
✓ espaço harmonioso, espontâneo, perfeito e simples;
✓ cenário que exclui os vícios sociais: a natureza pura/primitiva preserva a inocência e a
disponibilidade para Deus;
✓ espaço natural que propicia a contemplação, o êxtase, para além de constituir uma abertura para o
mundo.

Dimensão reflexiva e crítica


Ao estilo do Romantismo, a multiplicidade das digressões do narrador-viajante permite dar voz a
múltiplas reflexões e a um amplo leque de críticas.
Temas:
✓ literatura e criação literária: referência às modas literárias, às influências e aos excessos do
Romantismo e sua falta de originalidade;
✓ degradação do património arquitetónico e perda da identidade nacional: contraste entre um
presente em crise e um passado digno de memória;
✓ dialética Idealismo/Materialismo corporizada no conflito frade/barão: o Portugal presente do
narrador, saído da guerra civil, dos conflitos entre liberais e absolutistas;
✓ posicionamento anticlerical do liberalismo português;
✓ adulteração dos ideais de igualdade e justiça social defendidos pelo Liberalismo.

Personagens românticas (Narrador, Carlos e Joaninha)


Narrador-personagem (viajante). Em Viagens na Minha Terra, o narrador faz uma viagem a que
associa uma história amorosa à qual não fica indiferente.
Ao referir-se ao seu texto como “despropositado e inclassificável livro das minhas viagens”, o narrador, à
boa maneira romântica, remete para a sua originalidade, que se alia ao aspeto, também romântico, do
culto pelas narrativas de viagens propiciadoras da evasão.
Narrador comentador. Ao longo da obra, o narrador tece comentários e faz digressões sobre temas
que envolvem a vida do seu país e as questões sociais, aspetos caros ao Romantismo, mantendo sempre
uma ligação muito próxima com o leitor.
A aproximação/identificação do narrador com a personagem Carlos. Esta identificação é um traço
tipicamente romântico e permite entender o significado histórico-ideológico que atravessa a obra.

Carlos
Personagem destacada, Carlos é, primeiro, caracterizado fisicamente e só depois psicologicamente,
numa perspetiva que parte do geral para o particular.
Carlos é um jovem de estatura média, corpo delgado, mas com peito largo e forte. Tem olhos pardos e
expressivos, assim como uma boca que, embora pequena, é igualmente expressiva, permitindo, olhos e
boca, projetar o temperamento da personagem: a nobreza, a lealdade, a generosidade, mas também a
afetividade, a emotividade e o pendor para o arrebatamento (cf. cap. XX).
É uma personagem marcada pela excecionalidade típica do herói romântico:
✓ contradições de temperamento;
✓ uma certa marginalidade;
✓ sentimento de incompreensão;
✓ solidão.
Ao longo da obra, Carlos mostra ser instável e propenso à mudança. Vive em conflito consigo próprio e
com os outros, dividido entre o amor e a luta pelo Liberalismo. No entanto, o jovem, originalmente puro
e bom, acaba por ceder ao materialismo e às convenções sociais que o modificam e o fazem barão.

Joaninha
Joaninha é caracterizada pela estabilidade e pela fidelidade ao espaço onde cresceu, bem como aos
valores que dele emanam: a harmonia, a perfeição, a simplicidade e a pureza original são marcas que a
definem.
Esta personagem é descrita, primeiro, fisicamente e só depois psicologicamente, sobressaindo em
ambas as descrições a harmonia, encaminhando o leitor para a excecionalidade da personagem. O seu
retrato é completado com a referência aos olhos, que são verdes como a natureza pura com que ela,
harmoniosamente, se funde (cf. cap. XX). À descrição de Joaninha está associado o rouxinol, que
prenuncia, por associação com o rouxinol de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, o sofrimento, a
desilusão e a morte vividos por esta personagem.
Joaninha representa a mulher-anjo.

Estruturação da obra: viagem e novela


Cap. I – Cap. X
Viagem real de Lisboa a Santarém e regresso a Lisboa:
• partida do Terreiro do Paço, no dia 17 de julho de 1843, às 6 horas da manhã;
• passagem por Alhandra, Vila Nova da Rainha, Azambuja, Cartaxo, Vale de Santarém;
• regresso no dia 22 de julho de 1843.
Cap. XI – Cap. XLVIII
Novela Menina dos Rouxinóis (analepse):
• início numa tarde de verão de 1832;
• carta de Carlos a Joaninha, maio de 1834.
Cap. XLIV – cap. XLVIII
Cruzamento da viagem real e da novela:
• encontro, na casa do Vale, entre o narrador e Frei Dinis e avó Francisca
• leitura da carta de Carlos a Joaninha.
Viagens imaginárias (digressões):
• reflexões/comentários de natureza política, social, cultural, literária, histórica…

Coloquialidade e digressão
O estilo coloquial e digressivo, característico de Almeida Garrett em Viagens na Minha Terra, é
conseguido pelo/pela:
✓ tom de conversa entre o narrador e o leitor;
✓ uso expressivo da pontuação, conferindo ao texto marcas características da oralidade;
✓ alternância entre linguagem erudita e linguagem popular;
✓ presença de frases curtas;
✓ uso de anglicismos e galicismos e de neologismos;
✓ pronunciamentos sobre política, sociedade, literatura, arquitetura, filosofia …