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Análise do filme O Máskara (1994) sob uma perspectiva psicanalítica.

Davi Henriques Kawabe


Lais Regina Schmitz
Gabriela de Lima David

Departamento de Psicologia
Universidade Federal de Santa Catarina

Introdução
O trabalho aqui desenvolvido teve como objetivo articular o conhecimento adquirido pelos
estudantes na disciplina de Psicanálise com o uso de seus conceitos na prática. Dado o caráter
prático-analítico da linha psicanalítica, é importante que se desenvolva não somente sua linguagem
e entendimento de sua estrutura, como a capacidade de aplicar uma análise sob um conteúdo. Não
obstante, muitos dos conceitos estudados se mostram muito mais nítidos quando aplicados a casos
reais e desenvolver essa clareza é o que permite um bom exercício de psicanálise onde o analista se
mantém em uma postura flexível e atenta, permitindo a percepção de fatos que ficariam
marginalizados se vistos por um olhar rígido ou técnico.

Compartilhamos com autores como Lacam e Winnicott a profunda desconfiança que


desperta a palavra ‘técnica’, que implica sempre uma certa padronização e tende a coagular-
se em receitas e procedimentos pré-fabricados; todo analista deve desconfiar de sua
sagacidade, quanto a escapar daquela armadilha. (Rodulfo, 1990, p. 28)

Entretanto, como se trata de uma disciplina da terceira fase do curso de Psicologia não é
possível ainda nosso contato direto com casos clínicos, logo, como obejto de exercício analítico
optamos pelo filme O Máskara de 1994. O filme é baseado nos quadrinhos escritos por Mike
Richardson no final dos anos 80, conta com a atuação de Jim Carrey como Stanley Ipkiss,
protagonista e personagem que se transforma no Máskara. Ipkiss é um personagem com estrutura
neurótica, demonstra um alto nível de repressão, e sofre com a falta de capacidade de se afirmar ou
se articular em busca de seus desejos. O personagem em sua busca por satisfação, quando investe
energia em algum objeto de desejo é constantemente suprimido pelos outros e logo após assume
uma postura de derrota e complacência.
Percebemos então, uma repetição que sustenta a personalidade de Ipkiss: tentativa de
satisfação, pressão externa, submissão e complacência, não satisfação. Após alguns acontecimentos
seguindo esse padrão Ipkiss encontra uma máscara mágica, que o impregna com uma realidade
onde ele se torna completamente invulnerável, com capacidades de criação e ação onipotente,
desfaz todos os significantes que o deixam reprimido, sem inibições, permitindo realizar os seus
objetivos mais desejados sem ser afetado por sua estrutura neurótica, e ainda, seu superego é
deixado de lado, o tornando amoral e sem medo de qualquer consequência. Contudo, o efeito é
passageiro e Ipkiss acorda no dia seguinte como acorda de um sonho, apenas com uma nebulosa
lembrança do que seu alterego O Máskara fez na noite passada. Mas cercado pelas consequências
materiais de seus atos.

Descrição do Filme
O filme conta a história de Stanley Ipkiss (Jim Carrey), um homem comum, tímido e
desajeitado socialmente. Stanley mora só em um apartamento alugado com Milo, um cachorro da
raça Jack Russel extremamente leal, apegado ao dono e muito bem treinado. Ao lado vive sua
senhoria, Agnes Peenman (Nancy Fish), uma senhora ranzinza e mal-humorada que sempre está
reclamando e ameaçando Stanley. Ele trabalha como funcionário do banco na fictícia cidade de
Edge City junto ao seu melhor amigo, Charlie Schumaker (Richard Jeni), que personifica o
estereótipo do homem médio norte-americano, branco e heterossexual, sempre preocupado com seu
status social e conquistas sexuais.
A história começa com Stanley começa com um dia típico na vida de Stanley. No trabalho,
ele conhece a Tina Carlyle (Cameron Diaz), uma atraente cantora de boate que aparece no banco
procurando saber informações sobre abertura contas., por quem Stanley se sente imediatamente
atraído. À noite, Stanley vai até ao Coco Bongo – uma famosa boate da cidade – a convite de
Charlie, mas este entra sem o amigo e Stanley se vê jogado para fora pelos seguranças no mesmo
momento em que Tina está chegando para se apresentar.
Humilhado, Stanley está indo para casa – dirigindo um carro velho e cheio de problemas
que mecânicos desonestos emprestaram enquanto mantinham o seu carro na oficina para vender
suas peças – quando vê uma máscara boiando em um rio. Achando que poderia ser uma pessoa se
afogando, ele se lança dentro das águas e recupera uma máscara triangular, de madeira esverdeada e
sem muitas características específicas além dos furos para olhos e boca e acaba levando-a consigo.
Em casa, Stanley ainda precisa lidar com as reclamações da sra. Peenman sobre barulho
antes de ter alguma paz em seu apartamento. Enquanto ouve na TV uma entrevista com um escritor
que escreveu um livro chamado As Máscaras Que Usamos, Stanley se lembra da máscara e começa
a brincar com ela diante do espelho e esta acaba por se grudar ao seu rosto e surge então O Máskara,
uma versão de Stanley com a cabeça ligeiramente maior e completamente verde.
O Máskara é um personagem caricato, cujas ações muito se assemelham às dos desenhos da
Looney Tunes – desenhos dos quais Stanley é um grande fã. Apensar de compartilhar o corpo de
Stanley, ele se apresenta, a início, como uma pessoa completamente diferente. Enquanto Stanley é
omisso e não consegue enfrentar mesmo as situações cotidianas mais banais – o que abre
precedentes para que ele esteja constantemente sendo explorado por alguém – a primeira ação do
Máskara ao sair de casa é gerar uma quantidade absurda de barulho diante do apartamento da sra.
Peenman, embora a forma como ele faz isso mais se pareça com o enredo de um desenho animado
que com uma situação possível na vida real, com objetos sendo retirados de locais impossíveis e se
comportando de forma completamente impossível dentro de um universo racional.
Quando a sra. Peenman sai armada e começa a atirar no Máskara, vemos mais um dos seus
poderes se revelando, pois além de conseguir desviar, o Máskara se joga da janela do corredor do
prédio e cai de cara no asfalto. Aqui as leis que regem o universo real mais uma vez falham e ele
literalmente se desgruda do chão, completamente ileso. Sucessões de acontecimentos servem para
apresentar as habilidades do Máskara, como sua capacidade de trocar de roupas e criar peças de
cenário sem nenhuma explicação e seu poder de criar absolutamente qualquer objeto que deseje
com as características que quer. Ao se dar conta desses poderes, o Máskara percebe que pode ser
um super-herói. Porém, a sua ação subsequente é se vingar dos mecânicos que o trapacearam.
Stanley acorda no dia seguinte em sua cama sem se lembrar de nada após ter colocado a
máscara. Em sua porta está o Tenente Kellaway (Peter Riegert) perguntando sobre os
acontecimentos da noite anterior, denunciados pela sra. Peenman. No banco, a jornalista Peggy
Brandt (Amy Yasbek) procura por Stanley para saber se ele sabia de algo sobre o que aconteceu na
oficina onde o seu caro estava. Todas essas situações deixam Stanley acuado e com medo, pois
comprovam que na noite anterior ele estava agindo sob o efeito da máscara. Durante a conversa,
Stanley descobre que Peggy publicou uma carta que ele havia escrito sobre como os caras legais
saem perdendo.
Em paralelo, temos a história de Dorian Tyrell (Peter Greene), o mafioso que namora Tina e
trabalha para Niko (Orestes Matacena), chefe da máfia de Edge City e dono do Coco Bongo. Dorian
pretende eliminar Niko e assumir o controle dos negócios e para isso, elabora um plano de assalto
ao banco onde Stanley trabalha. Era por isso que Tina tinha ido até o banco, pois havia uma câmera
em sua bolsa para filmar o local.
À noite, Stanley volta a usar a máscara após acordar de um sonho com Tina, no qual ele
revivia a situação na qual a encontrou em frente ao Coco Bongo, só que dessa vez seu carro era um
conversível e ele se portava com toda a confiança que gostaria de ter. Sua primeira ação como
Máskara é ir até o banco de Edge City, coincidentemente no momento do assalto arquitetado por
Dorian. Com seus poderes acima da realidade, o Máscara frustra os planos da equipe de Dorian e
rouba o banco com extrema facilidade, deixando os ladrões para trás para lidar com a polícia.
Em seguida, vai para o Coco Bongo, dessa vez com a confiança do Máskara e entra sem
maiores problemas. Após a apresentação de Tina, o Máskara é quem aparece no palco, pegando-a
para dançar em uma apresentação inacreditável. A festa se encerra com o enfrentamento entre o
Máskara e Dorian Tyrell, mas o Máskara vai embora antes da chegada da polícia, que perseguia a
gangue de Dorian que havia assaltado o banco. Apesar disso, o Tenente Kellaway desconfia de
Stanley e continua tentando encontrar o seu link com o Máskara.
Ao chegar no banco no dia seguinte, Stanley é abordado por seu chefe, que até então sempre
o intimidava. Porém dessa vez, Stanley age diferente, enfrentando-o e dizendo várias coisas que
nunca havia tido coragem de dizer antes com uma confiança que nunca teve – exceto enquanto
Máskara. Quem aparece também para falar com Stanley é Tina, que narra apaixonadamente seu
encontro com o Máskara e essa é a primeira vez que Stanley admite uma ligação com o Máskara, ao
dizer para ela que o conhece e que eles são velhos amigos.
Stanley leva a máscara para o autor do livro que havia visto na TV. Em uma análise, ele diz
que a máscara parece escandinava, do século IV ou V e que muito provavelmente representa Loki,
que é descrito como um deus nórdico da noite, o que explicaria o aspecto caótico do Máskara, pois
Loki é caracterizado por suas travessuras, e o fato de ela não funcionar durante o dia. Em um
conflito moral, Stanley pergunta ao dr. Newman (Ben Stein) se deve ir encontrar Tina com ou sem
máscara e recebe como resposta “Vá como o senhor mesmo e como o Máskara, porque os dois são
um e a mesma bela pessoa”.
Stanley comparece ao encontro, inicialmente sem a Máskara. Mas fica inseguro perto de
Tina e acaba optando por utilizá-la, porém o comportamento do Máskara a assusta. No meio do
encontro, o Tenente Kellaway tenta prender o Máskara, agora sabendo que ele era Stanley ao
conferir as digitais do roubo ao banco. Porém o Máskara abandona o parque e ao se ver cercado por
um contingente enorme de policiais, consegue fazer com que eles todos façam uma coreografia.
Durante a fuga, Stanley tira a máscara e Peggy surge oferecendo carona, porém o que ela fez foi
uma armadilha na qual ele confessa o poder da máscara e em seguida, ela o entrega para Dorian,
que pega a máscara e o entrega para a polícia.
O efeito da máscara em Dorian é diferente. Embora ele tenha as características físicas em
comum – a cabeça maior e verde – e compartilhe os poderes, o comportamento é outro. O Máskara
de Dorian é agressivo, violento e seu senso de humor é muito mais reduzido e cruel.
Stanley é preso e recebe a visita de Tina, que vem confirmar que ele é o Máskara. Ao sair da
delegacia para fugir da cidade e de seu ex, Dorian, Tina acaba sendo capturada por ele, o que
Stanley assiste, impotente, da janela de sua cela. Milo, seu cachorro, também o seguiu até a
delegacia e se escondeu em um beco do lado de fora e é graças a ele que Stanley consegue fugir da
prisão para tentar regatar Tina. Em sua fuga, Stanley sequestra o Tenente Kellaway, algemando-se a
ele e pegando seu carro para chegar a tempo do baile de caridade do Coco Bongo, que é onde está
Dorian e também Tina.
Deixando o tenente e Milo no carro, Stanley invade a festa que Dorian está assaltando,
porém é pego por um de seus capangas. Porém, antes de explodir o local, Tina pede para Dorian um
último beijo sem a máscara e ele cede ao pedido. Tina chuta a máscara e Milo a recupera, usando-a.
O efeito sobre ele é mais parecido com o efeito em Stanley, cujas ações são mais caricatas e
pautadas no humor. Milo vai até Stanley, que tira a máscara do cachorro e coloca em si mesmo. O
Máskara entra em ação, impedindo Dorian e seus capangas, engolindo a bomba que explodiria o
Coco Bongo e salvando Tina. Com Dorian usando a máscara na frente de todos os convidados,
Stanley acaba inocentado mesmo contra a vontade do Tenente Kellaway.
Por fim, Stanley vai até uma ponte com Tina e Charlie para se livrar da máscara, pois
descobriu não precisar mais dela. Charlie tenta pegá-la, porém Milo é mais rápido.

Análise e Discussão
A análise do caso de Ipkiss parte de identificação de um sintoma: sua incapacidade de
efetuar seus desejos e um constante recalque desse conteúdo, deixando-o apenas em contato
consciente com seu estado emocional e afetivo (angústia e melancolia); sofre com os processos que
vive sem perspectiva de mudança. Aliás, essa constante repetição deste efeito evidencia a presença
de um significante, significante este que se destaca quando Ipkiss nos revela ter escrito uma carta
para uma coluna de jornal com a seguinte afirmativa: “nice guys finish last” sendo ele o “Mr. Nice
Guy”. Há algo marcado a fogo aqui como repetição, esse discurso carrega o peso do significante:
pessoas boas (no caso ele mesmo) sempre são passadas para trás e ficam em último. Ou seja, todas
as vezes que ele é maltratado ou alguém passa por cima da sua vontade, todas as vezes que não
consegue efetuar seus desejos ele significa de forma fatalista como se isso fosse decorrente dele ser
um “nice guy”, logo está recebendo o que foi prescrito “finishing in last”.
O caso do paciente vai se agravando até o momento que Ipkiss entra em delírio, e relata: ter
encontrado uma máscara mágica que apenas no período da noite o transforma no Máskara.
Observemos a figura da noite como algo que não está no campo da luz, da lucidez, algo obscuro do
campo o Ics. Ipkiss ainda conta que quando está usando a máscara tem poderes ilimitados e
consegue se impor na vida e buscar seus objetos de desejo. Seu relato sobre o que faz em quando é
O Máskara se assemelha muito com um relato de um sonho, ele acorda no dia seguinte com apenas
uma nebulosa ideia do que fez durante a noite, mas a partir dos fragmentos desse conteúdo que
emerge a sua consciência começa a questionar o antigo significante que o aprisionava. A cada noite
que entra em contato com esse conteúdo do Ics apresenta melhoras no seu sintoma, parece estar
conseguindo articular uma ressignificação do conceito a partir de sua fantasia com O Máskara.
Ipkiss começa a se dar conta como o Máskara não está separado de quem ele é e começa a se
identificar com certos traços que julgava não pertencentes ao seu universo de personalidade,
começa a incorporar a postura de se posicionar em busca de seus desejos e mesmo ainda
apresentando muito receio e angústia no processo de desenvolver essa nova aptidão, consegue
efetuar pontualmente essas mudanças em sua vida cotidiana o permitindo não mais ser “the last”.
O paciente agora traz como a máscara pode ser usada por outras pessoas, entretanto que o
efeito e a forma como cada um se transforma quando a usa é distinta segundo ele. Em seu caso, por
exemplo, quando se transforma no Máskara busca saciar seu desejo amoroso, seu desejo por poder,
diz assaltar bancos (dinheiro que lhe permite acesso ao que normalmente é privado), conta dançar
com a mulher mais linda do salão contagiando a todos de forma performática e expressa seu desejo
por invulnerabilidade ao mal que os outros possam o causar ao relatar poder vencer uma gang toda
de ladrões e até mesmo desviar de balas. Por mais que o paciente não tenha de forma consciente
essa correlação, sente o efeito de vivenciar de forma simbólica esse estado. Parece que a máscara
permite a ele justamente se desfazer de suas máscaras que sustentam seu caráter e personalidade e
agir apenas em busca de satisfazer seus impulsos, entretanto no decorrer de sua fala percebemos que
mesmo quando está “transformado em Máskara”, ou seja, desvalido de seu ego, sua fantasia ainda
apresenta singularidades de seu sujeito que remetem a fatores de quem Ipkiss é ou gostaria de ser,
como é o caso de todo o conjunto de figuras de cartoons que O Máskara se utiliza (Ipkiss tem um
grande interesse por cartoons) e em seu devaneio consegue ser e fazer o que na fantasia dos
cartoons é possível. Percebemos aqui como a máscara fica simbolizada como ferramenta de acesso
ao Ics, e como esse Ics tem estrutura como colocou Freud singular a cada sujeito e se distanciando
da ideia de inconsciente coletivo postulado por Jung.
Relembrando que, para Freud (1915) o Inconsciente caracteriza-se pela ausência de
contradição, processo primário (mobilidade dos investimentos), atemporalidade e substituição da
realidade externa pela psíquica.
O momento em que o processo - para Ipkiss, de ser O Máskara - torna-se consciente é
desencadeado por uma latência das repetições inconscientes de repressão, essa nova consciência
duela com a antiga, uma vez que Ipkiss se vê em constante contradição referente ao ideal do Ego.
Isso forma no Pré-Consciente possibilidades futuras de remediar a atual configuração consciente de
duelo. Ipkiss trabalha constantemente com seu próprio juízo de valor e a sua motricidade perante as
situações. Ele, o "Mr. Nice Guy", atuando conscientemente (sem a máscara), desenrola uma série de
situações antes impossibilitadas pelo recalcamento, começando com o enfrentamento do seu chefe
abusivo e desenrolando-se, em sua a fuga da prisão e o sequestro de um policial depois disso.
A repressão, portanto, vai se abrandando a partir do momento em que cruza a fronteira do
pré-consciente para o consciente e, com isso, gera novas pulsões latentes no inconsciente para
seguir novamente no mesmo fluxo de decodificação inconsciente, duelo do Ego consciente e
possibilidades tangíveis no pré-consciente. Conforme Freud (1915), a repressão é, no essencial, um
processo que se verifica em ideias na fronteira dos sistemas Ics e Pcs (Cs).
É importante ressaltar que, por mais que não tenha sido representado fielmente no filme, O
Máskara primeiro dos quadrinhos também incorporava um ser violento e destrutivo, assim como
Dorian o fez, na verdade, todos os que colocavam a máscara o faziam. Esta, por sua vez, se
enquadraria, então como um símbolo fálico, trazendo o domínio sobrenatural das coisas (como
quando O Máskara hipnotiza centenas de policiais a seu favor) e garantindo ao usuário dela uma
certa onipotência com dinâmica mortífera de vingança. O que se enquadra no destino destrutivo da
pulsão, cuja marca é a condenação, o exercício de poder e a subjugação.
Considerações Finais
Após a análise clínica deste caso, podemos concluir com alguma segurança a representação
simbólica dos elementos presentes no filme. Stanley Ipkiss é um sujeito neurótico que de diversas
formas ilustra as formas como as ideias substitutas – que conseguem passar pelo crivo da repressão
ao transitarem do sistema Ics para o sistema Cs – se manifestam em nosso consciente, “permitindo a
racionalização do desenvolvimento da angústia que não se podia inibir”. (Freud, 1915, p.90). Ao
conservar a ideia de que é um “nice guy” e que caras legais sempre saem perdendo, Stanley
acredita que o desenvolvimento de sua angústia parte de uma percepção externa e não de um
impulso instintual.
O Máskara, por sua vez, serve como uma representação do inconsciente. Como destacado
por Freud, os princípios do Ics não levam em conta a realidade, apenas o prazer e isso se manifesta
nos poderes que o personagem tem. Sua habilidade de moldar a realidade ao seu redor, por exemplo,
é característica dos sonhos. É possível observar que os seus impulsos de desejo simultâneos não
concorrem ou eliminam um ao outro e sim, trabalham juntos na formação de um objetivo
intermediário, o que permite que seu investimento libidinal tenha mobilidade maior. A forma como
a máscara se comporta conforme o seu usuário alude ao fato de que as percepções externas também
influenciam o sistema Ics.
À medida que Stanley vê o Máskara como uma parte de si e começa a se apropriar disso,
percebemos que a relação de cooperação entre o sistema Ics e o sistema Cs se fortalece. A situação
em que Stanley decide fugir da prisão e sequestrar o tenente ilustra uma atividade em que o impulso
inconsciente age no mesmo sentido de uma das tendências dominantes, suspendendo a repressão e
recebendo reforço da atividade pretendida pelo Eu.
Para encerrar, podemos inferir que a máscara simboliza a própria terapia psicanalítica,
servindo como uma ponte entre o consciente e o inconsciente. Como dito por Freud (1915) “o
tratamento psicanalítico é fundado na influência sobre o Ics a partir do Cs, mostrando, de toda
maneira, que isso, embora trabalhoso, não é algo impossível” (p. 100).

Referencias

Rodulfo, R., (1990). O brincar e o significante: um estudo psicanalítico sobre a constituição


precoce; trad. de Settineri, F. F. Porto Alegre.
Freud, S., (1915). O inconsciente. Revista Internacional de Psicanálise Médica, v. 3, n. 4, pp. 189-
203.