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A. Casse11di, que o repreendia por utilizar a muito contestável CAPÍTULO 1


noçilo de alma, Descartes respondia que ela rdeva, efectivamente, des-
,.··, ses nomes «impostos por pessoas ignorantes, o que faz com que nem
~ ~;:, ,;~.pre coílvenharn f!i Cpr,~ J. riit!nle às cois,;;s 0uc si~h0ricútrl i) , 7,~;a~ ~- IA-e ­
PESSOA
«quando são recebidos umá vez, deixamos de ter liberdade para os
mudar, quando vemos que não são bem compreendidos»11. No que diz
respeito à palavra bioética, coloquei-me ao nível desta sabedoria carte- é~,

siana, que se ajusta à utilização comum, para melhor fazer compreen- <<É somente pela sua relação com o homem Paulo, seu
der a radica/idade crítica da razão. semelhante, qu e o homem Pedro se refere a si próprio
!
enquanto homem. Mas, ao fazê-lo, o referid o Paulo, com
toda a sua corporeidade pauliniana de carne e osso, toma
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Setembro de 1992- Dezembro de 1993 igualmente para ele valor d e forma fenomenoló gica do
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género humano.» K

KARLMARXl

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Nada mais elementar, à primeira vista, do que a ideia de ,,


pessoa humana. Contudo, poucas noções são tão d ifíceis de ~i
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determinar claramente. li
Não é que, como por vezes se lê, a pessoa seja uma realida- ,~Í

de demasiadamente complexa para ser enunciada num concei- !f


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to. Pois um conceito não tem unicamente como função ser a
imagem do seu objecto. Como diz, aproximadamente, Spinoza, /..

o conceito de círculo não tem de ser redondo.2 O conceito de


cão não tem que ladrar. Assim, pode perfeitamente haver um i:,;l
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conceito não contraditório da contradição, um conceito simples I~
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d o complexo. Se o próprio Deus se define na Bíblia em três
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1 K Marx, Le Capital, Livro I, trad. Jean-Pierre Lefebvre, Éd. sociales, 1983, e ljjj
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PUF/Quadrige, 1993, p. 60, nota 18 [tradução porh1guesa: O Capital, b·adução !Jli
de António Dias Gomes, Lisboa, Delfos, 1973-74 (2 volumes)]. (Tradução ligei- ijj:
ramente modificada por mim.) Jl!i
2 De la réforme de l'entcndement, em Spinoza, Oeuvres, Gallimard, La Pléiade, tli:
1954, p. 168 [tradução portuguesa: Tratado sobre a Refonna do Entendimento, tra- :Ji:
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dução, prefácio e notas de António Borges Coelho, Lisboa, Livros Horizonte, llq
1971]. O texto diz o seguinte: <<A ideia do círculo não é algo que tenha uma Jl;:
periferia, um centro, como o círculo.» Em Comprendre la philosophie marxiste, !~~:

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Éd. sociales, 1982, p. 118, Marie-Hélene Lavallard acrescenta que <<O conceito
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11 Réponses aux cinquiemes objections, em Descartes , Oeuvres et lettres,
Gallimard, La Pléiade, 1952, p. 481. de cão não ladra >>.
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palavras: «Eu sou Aquele que é»3, por que razão não poderá a inversamente, completamente desperto, tem a infelicidade de
pessoa definir-se da mesma maneira? Entre tantas outras fórmulas, nascer num país onde lhe não são reconh ecidos os direitos da
o homem foi caracterizado como animal insaciável, um existente pP.ssoa, no sentido jurídico e moral, nem por isso u. é menos no
semcssência, um ser da distância: càda um destes enunciados sentiJu psicológiéo e pediátrico.
constitui uma definição cuja forma fechada não o impede de modo Eis-nos, pois, em presença de um termo estranhamente u1kt ,
nenhum de dar a entender a abertura essencial daquilo que define. e duplo, ao mesmo tempo. «Ser uma pessoa» constitui, por is~q,
É por isto que mesmo uma metafísica do mistério da pessoa seria mesmo, uma proposição das mais ambíguas. É possível enten~
mal fundada se recusasse as exigências de uma ética da clareza. dê-la no sentido em que, numa certa idade, se é púbere: aqui. 0
Se a empresa de esclarecer o que é a pessoa humana levanta verbo ser constata, e aquilo que é constatado é uma pessoa «de
dificulades, não é, pois, porque ela se recuse a uma definição. facto))' reconhecível, com as suas capacidades, qu e são prescru-
Seria antes, ao contrário, porque admite muitas definições que táveis, quer pela biomedicina quer pelas ciências humanas.
não se percebe bem como poderiam ser compatíveis. Ninguém Pode-se compreendê-la igualmente no sentido em que, por
precisa de análises eruditas para perceber aquilo que, a bem exemplo, numa certa idade, se é eleitor: aqui, o verbo ser
dizer, entra pelos sentidos em inúmeras ocasiões. Assim, uma decreta, e aquilo que é decretado é uma pessoa «de direito))' ~,,I
série de emissões televisivas que teve recentemente um forte eco definível pelas suas prerrogativas, precisadas pelos moralistas e i:
intitulava-se O bebê é uma pessoa.4 Toda a gente compreende ime-
diatamente o que o título significa, e aquilo que ele não significa.
pelos juristas. Realidade de um lado, valor do outro: estes dois
aspectos da noção são, não somente heterogêneos mas, ao que
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1.
Aquilo que ele não quer, de todo, dizer - pois isso sabemo-lo à parece, discordantes. E contudo, na sua plena acep ção comum,
partida, e nã o é plausível que se queira gastar muito tempo a a pessoa humana inclui manifestamente os dois; aí está o enig-
ensinar-no-lo - é que o bebé não é uma coisa que podemos usar ma. Usar um conceito tão paradoxal sem o elucidar de modo
como nos pa recer, mas um ser humano de pleno direito, d e preciso é votar-se a mu itos d esenganos ou sofismas. Assim,
maneira qu e maltratá-lo expor-nos-ia à indignação da consciên- quando se trata da pessoa no discurso bioético, surge, à partida,
cia pública, e mesmo à sanção dos tribunais. a necessidade da sua críti ca, no sentido indicado no princípio.
N ão, o projecto anunciado por este título é fazer-nos desco- Ora, uma tal crítica do conceito de p essoa com promete-nos
brir que o bebé é uma pessoa num outro sentido da palavra: com um percurso circular, em que cada aspecto da noção mani-
que, por muito pequeno que seja, tem uma competência para festa uma propensão para englobá-la totalmente, ambição cujo
perceber, para sentir, para comunicar muito maior do que habi- fracasso incontestável nos reenvia ao outro aspecto - e recipro-
tualmente se pensou até aos nossos dias. Ele já é uma pessoa, é camente. Comecemos por enfrentar este círculo vicioso.
o que nos querem dizer, não no sentido jurídico - isso é evidente
- mas no psicológico - e essa é que é a novidade. Ora, este
segundo sentido não está de acordo com o primeiro, bem longe A PESSOA, FICÇÃO CULTURAL?
disso. Pois se, por exemplo, sendo profundamente débil, um
bebé não for uma pessoa senão muito longinquamente, nesta O indivíduo faz parte dos conceitos da ciência biológica; a
segunda acepção, nem por isso o é menos na primeira. E se, pessoa não. Não nos dirá esta evidência, já, o essencial? Aquilo
que visamos no ser humano, ao nomeá-lo pessoa, é de ordem
incorporai.
3 Êxodo, lU, 14. Afirmação à primeira vista estranha. Na linguagem mais
4 Esta série de emissões ficou a dever-se ao muito saudoso Tony Lainé e a
comum- «as pessoas presentes))' «aquela pessoa ali)) - , não nos
Bertrand Martinot. referimos, justamente, com a palavra pessoa ao ser de carne e

18 19
osso? Sem dúvida, mas, neste sentido banalizado ao extremo, Se quisermos pensar com algum rigor, temos portanto de
trata-se simplesmente do algué~ indiferenciado, do qujdam . distinguir aquilo que normalmente se confunde sob a noção .)

Estamos aqui bem abaixo do concezto de pessoa, d~ ~u~ a ~mgua equivoca de ser humano .. O ser humano é humano pcrqu~ tem ( · ('i.

comum mantém, contudo, algum véstígio quando ms1ste: estar como ponto de partida a humanidade como espécie biológiCE}.
num sítio «em pessoa», assumir os riscos «pessoalmen~e». A pessoa é humana num sentido completamente diferente: peib
Aparece então uma entidade sob a indiferenciação- uma entida- facto de tomar como fim a humanidade como ideal regulado'f",
de, aliás, mais moral do que física em exp~ssões como «uma pes- No ser humano, a humanidade está presente a título de facto.
soa notável», «uma pessoa de confiança». E verdade que «pessoa Na pessoa, ela está representada como um valor. É esta repre-
de qualidade» foi uma expressão que fico~ somb~eada com o sentação que constitui a consciência moral. Esta «deve conce-
Antigo Regime, e a palavra pessoa ressentm-se d1sso. dur~nte . ber um outro para além dela própria (um outro que é o homem
muito tempo. Em seu lugar, a Revolução promoveu _o_c1dadao; a em geral) como juiz das suas acções» - um outro que «pode ser
sociedade burguesa, o indivíduo, o movimento operano, o cama- uma pessoa real ou uma pessoa puramente ideal, que a razão
rada. Contudo, o seu ressurgimento contemporâneo no uso cor- dá a si própria»6. É verdade que a actividade da pessoa ética
rente não parece ser imputável apenas às teologias do Deus pes- pressupõe as conquistas da personalidade psicológica, por
soal e às filosofia s personalistas: a afirmação crescente dos exemplo, a capacidade de dizer «eu », que eleva o homem «ao
Direitos do Homem e da sua dignidade não terá contado mais? Na infinito acima de todos os outros seres vivos sobre a terra»7. E é
linguagem policial, por exemplo, não é bom sinal ser~ indivíduo: nisto que o exercício da moralidade requer uma pedagogia.
a passagem a tabaco não está longe. Mais vale ser tido ~or um.a Mas atenção: essas são apenas as suas condições empíricas de
pessoa: pressente-se aí a intervenção do advogado, que ~a1~a res~ei­ possibilidade e não a sua natureza intrínseca, que reside intei-
tar os direitos do acusad o. Até mesmo o linguajar quohdrano hga, ramente na «inconcebível propriedade da lihcrdade»B. Se acei-
assim, intuitivamente, a pessoa às obrigações que ela implica. tarmos o ponto de vista de Kant, pessoa ética e indivíduo físico
Ninguém, como Kant, fez valer esta concepç~o . ~<A p~ssoa, pertencem claramente a duas ordens inteiramente distintas.
escreve ele, é esse sujeito cujas acções são suscept1ve1s de tmp~­ Não é espantoso encontrar análises de orientação muito 'I

tação.>> E o que é uma imp,utação? «A imputação no sentido semelhante entre juristas? A pessoa como sujeito de direito
moral é o juízo pelo qual se olha para alguém como o autor de «ign ora completamente o cor p o», diz -nos Do miniqu e
uma acção.» Um corpo determinado pode ser a causa a que se Thouvenin. «Não se trata de um esquecimento nem de uma
atribui um efeito. Mas só um agente livre pode ser o autor a indiferença», mas de uma fronteira que o sistema jurídico tem
que se imputa uma acção. Quem diz pessoa diz portanto, de traçar com firmeza, se quiser delimitar o seu «campo legíti-
simultaneamente, sujeito e liberdade. Enquanto ser natural, o mo de intervenção». Conceito abstracto e não realidade concre-
homem está, bem entendido, submetido a determinismos orgâ- ta, a pessoa define-se como «a aptidão a ser titular de direitos e
nicos. Mas, enquanto ser de razão, é capaz de determinações de obrigações», aptidão essa que repousa sobre a «vontade
éticas «independentes dos impulsos sensíveis». Já não são, livre e autónoma» do sujeito.9 Esta linguagem é directamente
então, as leis naturais que o constrangem, mas as da su~ vonta-
de autónoma que o obrigam - por exemplo, ao respeito pela
palavra dada. Apenas a este título ele é uma pessoa. «A pessoa 6 Ibid., p. 727.
7 Kant, Anthropologie du point de vue pragramatique, ibid., p. 945.
nada é senão a liberdade de um ser racional.» 5
8 Kant, Métaphysique des moeurs, obra citada, p. 702.
9 Dominique Thouvenin, «Le droit aussi a ses limites», em Le Magasin des
5 Kant, Métaphysiquc des moeurs, em Oeuvres philosophiques, Gallimard, La enfants, obra colectiva sob a direcção de Jacques Testart, François Bourin,
Pléiade, 1986, t. UI, pp. 457, 470 e 475. 1990, p. 223.

20 21
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que seja, arrisca-se a criar a confusão, fazendo recuar todo o


aparentada com a da ,análi~e ~antian~, e não é ~or acaso: não;
a sua matriz comum e a propna matrtz dos dueitos do homem . esforço da filosofia e do direito no sentido de marcarem a dife-
' Numd tal lógicd, a dissociação entre pessoa e indivfduo físico é
;.-ença essencial entre ser natural e sujeito racional, ordem de
facto e ordem de valor. ·
de tal maneira fundamental que, se se atender ao pensamento I
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jurídico contemporâneo, se deve recusar ,a concepção clássica


do direito natural, para o qual «era o caracter humano da pes-
soa que lhe conferia os seus direitos». Pois, racio~n~n~o _deste ONDE O ABSOLUTO SE DEMONSTRA
modo, perpetuar-se-ia «uma confusão entre ~ _noçao J~n~1ca d: INACEITAVELMENTE RELATIVO
pessoa e a de ser humano». «A figura do sujeito de d1re1to esta
inteir amen te ligada à autonomia da pessoa », e de mod o Em suma, se a vida produz humanos, apenas numa comu-
nenhum à natureza de ser vivo que nele ocorre. Eis por que nidade instauradora de regras morais e jurídicas se produzem
razão o corpo, enquanto tal, está «ausente do Código Civil»: o pessoas. Compreende-se então que, construção cultural estra-
que constitui a pessoa de direito não é o organismo humano, nha à ordem natural, a pessoa possa transcender as vicissitudes
mas a «vontade agente>>. 10 d esta ordem. Relacionando-se com conceitos normativos e não
Aquilo que põe ainda mais em relevo :sta heter~geneid~de com conceitos descritivos, esta elaboração da razão não é con-
é o facto de, como recorda outra junsta, M ane -Angele dicionada pelos estados inesgotavelmente varia dos e variáveis
Hermitte, «entre as pessoas, no sentido jurídico do termo, não do ser empírico, mas confessa-se, pelo contrário, invariável,
haver senão seres humanos>> . Ao lado daqueles a que o direito unívoca e, acima de tudo, incondicional. Há nela algo de abso-
chama «pessoas físicas» - físicas apenas no sentido em que ,o luto, que é expresso igualmente pelo valor categórico do impe-
seu suporte é um indivíduo -, estão as «pessoas moraiS» as rativo moral e pelo carácter inalienável dos Direitos do Homem.
auais falta totalmente este gênero de suporte11: entidades como
~ Estado, agrupamentos c~mo os sindicatos, e mesmo massas
Abstraindo de tudo aquilo que singulariza os seres concretos, a
pessoa, assim compreendida, pode também, à primeira vista,
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de bens como as fundações.._ A noção de pessoa humana revela ter pretensões à universalidade: todos os indivíduos diferem
aqui toda a sua ambiguidade. Contrariamente àquilo que po: entre si, todas as pessoas se equivalem. Em virtude desta mes-
vezes se pensa, não se trata de um pleonasmo, uma vez q~e ha ma abstracção, ela é uma qualidade indefectivelmente ligada a
pessoas jurídicas que não são pessoas humanas. Ma~ quall~Icar todos aqueles que são, serão, poderiam ser ou foram sujeitos
aquelas qu e o são como «pessoas humanas>>, por mmto habitual livres. Ponto capital: as prerrogativas éticas da pessoa esten-
dem-se muito para além das condições psicofísicas que ela
pressupõe na sua forma realizada. Mesmo quando o sujeito
10 Dominique Thouvenin, <<Consentement et assujettissement>>, em Vers un. desfalece e se torna incapaz, nem por isso elas deixam de per-
anti-destin, sob a direcção de François Gros e Gérard Huber- Actas do manecer como exigências plenas atribuíveis a terceiros - pai,
colóquio «Patrimoine génétique et droits de l'humanité>> (Outubro de tutor, homem de lei-, convidados a emprestarem-lhe a sua pró-
1989), Odile ]acob, 1992, p. 473 . Isto nã.o quer dizer que o corpo humano
seja estranho ao direito. Ele encontra o seu lugar, nomeadamente no
pria liberdade. Nada ilustra melhor a essência incorporai da
Código Penal, em razão dos atentados que pode sofrer. CJ. Dom1m~u,e pessoa.
Thouvenin, «Les projets de !oi sur le corps humain ~ des pnnCipes gene- Uma vez delimitado com exactidão o seu conceito, espanta-
raux pour une Iégislation spéciale», em Prévenir, «L'Ethique, l'Homme, la -nos ver que, com tanta frequência, se continua a pedir à biolo-
Santé>>, n-º 22, primeiro semestre de 1992, p. 81. · gia que nos esclareça sobre ela - sobre o seu começo, o seu fim,
11 Marie-Angele Hermitte, «L'embryon aléatoire>>, em Le Magasin des enfants,
e mesmo sobre o seu próprio ser. Alguém se lembraria de pedir
obra citada, p. 263.

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à química dos corantes que nos instruísse sobre aquilo que sentido, a arbitrariedade inerente e uma ficção, ou, se se prefe-
constitui a beleza de um quadro? Num pedido deste género, rir, o seu carácter puramente decisório.
trai-se a incompreensão profunda daquilo que é um facto de Mas então as coisas invertem-se invPncivç+n.cnte. Abscluta.
cultura. BióÍogos, não subam acin~.á da natureza! De resto, os relativamente às realidades antropológicas que se esforça por
mais sábios dentre eles sabem-no, pois declinam firmemente apagar, a pessoa aparece, por isso mesmo, inteiramente relativt. , ,
este género de convite dirigido à sua disciplina. Não é a ciência aos conceitos ético-jurídicos nos quais se decide apoiá-la. De
do ser vivo que funda o respeito pelos mortos. E a Declaração que incondicionalismo pode ela então tirar partido? Também
dos Direitos do Homem não se apoia na embriologia para pro- aqui, a reflexão de Kant é exemplar. Não há pessoa sem liberdade
clamar que os homens nascem iguais em direitos: insustentável - esse modo de determinação de um ser sensível onde é suposto
se pretendesse descrever um dado natural, tal princípio opõe ele escapar a toda a causalidade natural-, mas uma libe;dade
deliberadamente à natureza a ficção, que nos impõe que faça- que há que reconhecer, por isso mesmo, que é inconcebível, a
mos prevalecer. tal ponto que «qualquer esforço, qualquer trabalho para procu-
Eis pois, ao que parece, o estatuto da pessoa assegurado. rar uma explicação para ela, afirma o filósofo, é pura perda de
Mas, quanto mais se consolida a sua autonomia racional, mais tempo» 15. Pedra angular da pessoa, como a considerámos até
a fragiliza o seu distanciamento do real. Voltando resolutamen- aqui, a liberdade ergue-se, a seus olhos, dos postulados da
te as costas ao facto, não será uma tal concepção da pessoa, no razão prática, como a existência de Deus ou a imortalidade da
fim de contas, menos absoluta que arbitrária? Termo não polé- alma. É difícil dizer de modo mais claro que ela está suspensa
mico, reivindicado, pelo contrário, pelos defensores desta visão de um acto de fé metafísica. Como recusar, então, a arbitrarie-
totalmente simbólica. «Como se a definição da pessoa, escreve dade última desta representação da pessoa? E de que modo
a psicanalista Monette Vacquin, _pudesse não ser arbitrária.>> 12 A poderia ela estabelecer um acordo entre moralistas especulati-
ideia é, ccntudo, preocupante. E claro que a pessoa resulta das vos e cientistas positivos, entre almas crentes e espíritos incré-
ficções, sustenta, por seu lado, uma jurista como Catherine dulos?
Labrusse-Riou, mas dessas «ficções não arbitrárias>> às quais o Com o carácter incondicionado da pessoa, desvanece-se
direito é obrigado a recorrêt.13 Apreciações contraditórias? também a sua universalidade. Válida para todos, em pensa-
Certamente que não, pois a arbitrariedade pode entender-se a mento, pelo próprio facto da sua completa abstracção, ela não .,,

diversos níveis. No sentido habitual, é a ausência de motivos pode sê-lo na realidade, por causa da sua solidariedade patente
válidos que torna uma escolha arbitrária; num sentido mais ele- com uma cultura particular. Como mostrou Marcel Mauss
vado, é o próprio facto de se escolher. No primeiro sentido, o numa análise clássica da noção 16, a pessoa, no sentido moral e
jurista pode, evidentemente, defender o carácter bem motiva~o jurídico de que aqui se trata, é o termo provisório de uma longa
de qualquer construção, arguindo que apenas ela penmte história, marcada, nomeadamente, pela persona latina, o homem
«proteger>>a vida do sujeito, «sem por isso confundir a pessoa cristão, o indivíduo da sociedade burguesa, o cidadão das
com o seu destino biológico»14. Resta, contudo, no segundo Luzes. Tradição prestigiosa e altamente pregnante, sem qual-
quer dúvida, exposta contudo a muitas contradições íntimas e a
12 Monette Vacquin, <<Le face-à-face de la science et du sexu el>>, em Le
Magasin des enfa.nts, obra citada, p. 291.
13 Catherine Labrusse-Riou, «Servitude, servitudes», em Bernard Edelman e 15 Kant, Fondements de la métaphysique des moeurs, Delagrave, 1952, p. 206 (tra-
Marie-Angele Hermitte, L'Homme, la na.ture et le droit, Christian Bourgois, dução portuguesa: Fundamentação da Metafísica dos Costumes, tradução de
1988, p. 327. Paulo Quintela, Lisboa, Ed. Setenta, 1986).
14. Ibid., p. 327. 16 Mareei Mauss, Sociologie et anthropologie, PUF, 1991, pp. 333-361.

24 25
limitações externas. Não que ela possa ser encarada como estes seres reais não é, portanto, somente contestável, mas, pura
exclusivamente ocidental. Mas poderá ser interiorizada, por e simplesmente, impraticável. Assim, não há pessoa «de direi-
exemplo, por um Kanc.k, ~stranho à nossa Jr<':neira de sermos to» sem pessoa «de bcto». Toda a anál-i;,~ deve ser :rE:tomada. ,,.- · .j, '''"

indivíduos em sociedade17, ou por um Hindu, formado na evi-


dência da metempsicose? E, no nosso próprio ambiente cultu-
ral, de quantas contestações teóricas e recusas práticas é ela A PESSOA, REALIDADE NATURAL?
objecto? Paradoxo: face ao carácter tão relativo desta universali-
dade fictícia , não será, pelo contrário, a biologia que põe fora Tínhamos partido de uma convicção arriscada: a pessoa é
incorpora!. Partamos agora da evidência oposta: a pessoa é o
de dúvida, através da infinitude das diferenças individuais, a
ser carnal. É o respeito por ele, e não por uma ficção, que se tra-
identidade natural de todos os homens, inscrita nos traços
ta de assegurar. E portanto, sem surpresas, pela biome~icina
comuns dos seus genomas? que se deve começar, quando se quer pensar a bioética. E ver-
E ainda não é tudo. Nesta visão da pessoa, a única preocu- dade que se disse e se repetiu que a ciência do ser vivo nada
pação parece ser defini-la em compreensão: o que é a pessoa?, tinha a ensinar-nos sobre a consistência da pessoa. Mas este
para identificá-la com a ideia de sujeito racional livre. E parece desprezo pela informação científica adequada não resiste ao
considerar-se que seria fixada, no mesmo movimento, a sua estudo de um único dossier de ética biomédica. Bem entendido,
extensão: o que é uma pessoa er\.tre os seres concretos? Ora, esta o saber biológico não entra em concorrência com a moral nem
última questão, tal como foi posta, é insolúvel, uma vez que com o direito no esclarecimento sobre o bem e a justiça. E tam-
pensar a pessoa seria justamente abstrair-se destes entes con- bém não pretende substituir a filosofia para nos instruir sobre o
cretos. Ela é reduzida a uma característica atribuída - e é aí que sujeito e sobre a liberdade. Ele limita-se, aparentemente, a muito
está a sua arbitrariedad e. É preciso ainda dizer quais são os cri- menos do que isso: ao orgânico, ao neuronal, ao biomolecular.
térios de atribu ição dessa característica. E onde procurá-los, A surpresa para o profano consiste, então, em constatar que
senão do lado destes indivíduos físicos que se pretende igno- este saber altamente complexo do elementar nos faz, muitas
rar? Assim, a pessoa não pode ser uma entidade tão abstra cta vezes, avançar mais na consideração devida ao homem real do
que não comece e acabe no tempo: em que pontos da vida que toda a literatura apologética sobre a sua eminente dignidade.
empírica devemos situar este começo e este fim? Ela não pode Todas as pessoas têm o mesmo valor? Esta tese ético-·jurídi-
ser tão ideal que não se relacione com o mais e o menos: será o ca capital não deixou de ser alvo das denegações daqueles que
direito, será a moral que nos dirão que razão podemos supôr tomam por adquirida a noção de «raças» humanas. A biologia
haver no demente, que liberdade no autista, que sujeito no estabelece de modo indubitável a inanidade de uma tal crença.
doente em coma? Temos que submeter-nos à evidência: a pessoa Cada pessoa é um ser singular? A genética e a imunologia con-
só é valor quando valoriza seres reais. Excluir do seu campo ferem a esta evidência intuitiva um alcance totalmente inespe-
rado, reveland o a insondável variedade dos acasalamentos
17 Cf Maurice Leenhardt, Do Kamo- La Personne et le mythe dans le monde méla- genéticos e das combinações do sistema HLA 18. De modo mais
nésien, Gallimard, 1947. O dirigente independentista Kanak Jean-Marie
. Tjibaou explicava (Le Monde, 2-3 de Dezembro de 1984, p. 9): <<( .. .)Existe a
18 Da mesma maneira que há grupos sanguíneos determinados por um sistema
sequência dos antepassados e depois existimos nós. E a vida passa através
de antigenes ao nível dos glóbulos vermelhos, há também grupos orgânicos
desta genealogia, e esta genealogia é a dos meus pais, mas é também a do compatíveis ou incompatíveis entre si, cujo conhecimento é capital em maté-
clã que deu a minha mãe e que, dando a minha mãe, também me deu a ria de enxertias de órgãos, e que são determinados por um sistema de antige-
vida. (... ) Então, eu permaneço sempre dual. Nunca sou um indivíduo. Não nes ao nível dos glóbulos brancos (daí o seu nome de sistema HLA: Human
posso ser indivíduo. O corpo não é um princípio de individuação. O corpo Leucocyte Antigens) A sua descoberta valeu o Prémio Nobel da Medicina a
é sempre relação.>> Jean Dausset, em 1980.

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geral, é impossível dizer o que q~er _que seja ~e valioso sobre o garantido pelo que passa por ser uma constatação de facto, ele
nascimento e a morte, sobre a propna humamdade do homem, beneficia de apoios de respeito: o do jurista, para quem o ser
sem -começar por assimilaJ1 as experiências, frequentemente _ concebido é, à p 8.rtida, snjeit.o rle.di.reito, sob ;-cs.:.:r v '' J0 ·seu··" " -
deàpantes, das ciêncías dâ vida e da sa~de. O r~speito pelo ser nascimento viável; o do teólogo, que professa, acompanha9-o
humano cessa então de ser um o-rande 1mperat1vo formal para por uma tradição considerável, a tese da animação imed1ata'20;
se povoar de obrigações precisas~ A própria ~essoa sai da ficç~o e, acima de tudo, sem dúvida, o do bom senso: como duvida,{
abstracta: é o ser de carne e de sangue, do sofnmento e do deseJO, de que, quando o óvulo é fecundado, começou um novo ser?
do olhar e da palavra, e, nesta base, da razão e da liber~ade - na Ora, é altamente instrutivo ver de que modo os biomédicos I!
acepção da palavra que a experiência aut~riz~. ~-partir da qual colocam com precisão, sem ódio e sem temor, questões de facto
se concretizam as rubricas mestras da ex1genoa etica: preservar a muito desestabilizantes a esta posição de princípio.
vida, acalmar a dor, escutar o pedido, respeitar a vontade. 1. Que se quer dizer com «desde a concepção»? Isto parece
Alegar-se-á, com Hume, que o facto de modo nenh~m fun- ser óbvio. Mas, já que é necessário, explicitemo-lo: desde a
da o direito? Muito bem. Mas o direito, por sua vez, nao nega penetração do espermatozóide no ovócito, e da união que dela
impunemente o facto . A ciência é impiedosa com a arbitrarie- resulta entre os cromossomas destes dois gâmetas. Será suficien-
dade. É aí que se encontra todo o sentido da fórmula cara a temente claro? Não, escreve sem hesitar um biólogo católico
19
Tean Bernard : «Aquilo que não é científico não é ético.» como Charles Thibault: trata-se de uma resposta «superficial»,
~\forismo sem relação com a apologia de uma «moral científica»: e por uma razão forte21
trata -se, simplesmente, da constatação çle que, a partir do fal~o, Porque esta penetração e esta união sumariamente tidas
não se pode chegar ao justo. Neste sentido, através d~ uma ~Ia­ por qu ase instantàneas revelam-se, quando abordadas mais
léctica que escapava a Hume, o facto dita, em certas orcunstan- finamente, um processo complexo, ocorrido durante uma longa
1' ~
cias, o direito: negativamente. Determina-o, negando-lhe a lati- jornada e marcado por diferentes fases . Qual delas se deve I

tude de decretar seja o que for. Este ponto permanece, na escolher como instante inaugural? Gincana sem consequência?
minha opinião, consideravelmente subestimado na literatur~ Julgar que o é seria não ver que uma tal sequência temporal
bioética. Ora, ele diz respel'to, nada mais nada menos, que a oferece muita matéria para investigações biomédicas, cuja ava-
questão central, aquela onde reside todo o enigma da pessoa: liação ética varia totalmente segundo a resposta escolhida.
ao nó que formam, em conjunto, realidade e valor. Demoremo- Seria ainda não captar o alcance profundo da dificuldade. Na
-nos um pouco a ilustrá-lo com um exemplo importa~te . afirmação de que a pessoa começa «desde a concepção», o ponto
«A pessoa começa desde a concepção». Para mmtos daqu~­ decisivo é a ideia de instantaneidade. É ela que sustenta, ao
les que se ocupam de ética biomédica, seguidos - ou p~ecedi­ menos silenciosamente, a representação de uma cesura ontoló-
dos - por largos sectores da opinião pública, esta asserçao tem gica na qual a pessoa pode ser efeito de um momento, no seu
um valor fundamental e quase axiomático. Tal como é normal- carácter absoluto. Ora, aquilo que resulta do saber biomédico é
mente compreendida, ela significa que, desd e o inst~nt~ da
fecundação, surge um ser humano ao qual devemos atnbm~ as
prerrogativas essenciais da pessoa. Enunciado normativo 20 Tese segundo a qual Deus infunde directamente a alma no embrião. Cf.,
neste mesmo capítulo, um comentário mais pormenorizado sobre este pon-
to no subtíh!lo: <<Pessoa: um conceito inconcebível?»
19 De la biologie à l'étlúque, obra citada, P- 40. Cf. o comentário de Jean Be~nard 21 Charles Thibault, «Un biologiste, enseignant-chercheur, face à l'expéri-
a esta fórmula frequentemente incompreendida na rev1sta Pro;et, n.- 195, mentation sur les animaux et sur l'homme>>, em Aux débuts de la vie - Des
Setembro-Outubro de 1985, p. 105, nota 4.
catholiques prennent position, Éd. La Découverte, 1990, p. 62.

28 29
que não há um «instante t» onde se possa situar um tal surgi- poder-se-á dizer que «são humanos» - e há que dizê-lo, com certe-
mento: por muito longe que vamos nadissecação do tempo, za, neste sentido, do ser concebido da nossa espécie. Mas, no senti-
cor:tinll3mos <~. tP.r entre mãos um processo e, consequentemen- do forte, a expreseão substantivil «ser humL<no» (o st::r humano, um
te, a gradualidade de uma gênese. É o próprio conceito de pes- ser humano) significa incomparavelmente mais. Aqui, ser já não
soa como totalidade imediata, cuja entrada em efeito escaparia reenvia à pura existência de alguma coisa mas à subsistência rica-: ..
à constituição progressiva, que esta interrogação, modesta mas mente determinada de alguém - e toda a questão consiste em saber
muito perturbadora, põe em causa. se o ó~o fecundado ainda deve ser tido por alguma coisa, ou já
por alguem. Passar de um ao outro sem sentir a necessidade de se
justificar é um equivoco conceptual exorbitante, que, contudo, leva
UMA FICÇÃO À PROVA DE FACTOS uma existência tranquila em muitos textos bioéticos.22 O ser conce-
bido é humano, ou seja, é um ser humano, e portanto uma pessoa:
2. No enunciado «a pessoa começa desde a concepção», o CQFD. Uma tal consequência, onde se encontra pressuposto, atra-
que se entende exactamente por «pessoa»? Parece que já se vés de wn jogo de palavras, justamente aquilo que se tratava de
explicou suficientemente esta questão acima: trata-se do sujeito estabelecer, é arbih·ária no sentido mais proibitivo do termo.
de prerrogativas jurídicas e éticas. E, uma vez que, com a con- Isso tornará insustentável a ideia de um respeito que entra
cepção, aparece, sem sombra de dúvida, um ser humano, surge em efeito desde que a criança é concebida? Não forçosamente,
também a obrigação de lhe reconhecer estas prerrogativas: se se tomar, com toda a clareza, uma decisão ética a esse respei-
quem diz ser humano, diz pessoa. Ora, esta equivalência postu- to, respondem aqueles cujo pensamento seguimos aqui.23 O
lada constitui uma verdadeira violência lógica. Pois a expressão gue, segundo eles, não resiste ao exame científico é simples-
«ser humano» dissimula, sob a sua familiaridade, um extraor- mente isto: que haja, desde a concepção, uma pessoa a respeitar
dinário equívoco. Poderá negar-se o ser ao ser concebido? porque estaríamos imediatamente a falar de um ser humano. Do J,;
,,
Certamente que não. Será contestável que ele é humano? Muito óvulo acabado de fecunda r nada autoriza a estabelecer que ele ~i

menos. Trata-se, pois, de um ser humano -e, consequentemente, o seja, como uma irrecusável evidência. Faltam-lhe característi-
de uma pessoa: tal é o raciobnio que está por trás desta tese. cas propriamente decisivas do ser humano. Como a actividade
Mas, se basta ser e relacionar-se com o humano para ter direito nervosa superior, tão essencial àquilo gue constitui a vida de
ao nome de ser humano, como pode este raciocínio aplicar-se, um homem que o traçado electroencefalográfico plano é hoje
por exemplo, aos gâmetas tomados à parte, antes da concep- critério da morte. Ora, no desenvolvimento do embrião, há que
ção? Assim, o óvulo é? Certamente que sim. E é um óvulo esperar pelo décimo quarto dia para que, com o aparecimento
humano? Decidimos que sim. Ele é, portanto, também um «ser da linha primitiva, comece a ficar indicado aquilo que se torna-
humano»- um ser humano antes da concepção, a qual não seria, rá o sistema nervoso central, e pelo sétimo mês para que o cére-
pois, o verdadeiro «começo da pessoa»? bro seja funcional. Haverá ser humano sem cérebro?24
Já se percebeu que há aqui um sofisma. Ele consiste em
jogar inconscientemente- ou talvez, por vezes, conscientemente? 22
E m es m o numa _obra muito erudita e útil co mo Penser J'embryon de
-com os dois sentidos das palavras em causa. Num sentido Philippe Caspar, Ed. Universitaires, 1991, p. 112.
fraco, a expressão verbal <<ser humano» mais não faz do que 23
Por exemplo, M. Palacios, Relator da comissão <<Ciência e Tecnologia>>da
especificar uma rubrica do ser em geral e pode aplicar-se, por- Assembleia Parlamen tar do Conselho da Europa; cf Philippe Oliviero, «La
tanto, a tudo aquilo que é constitutivo do Homo sapiens sapiens: notion de preémbryon>>, em Vers un anti-destin, obra citada, pp. 92-115.
24
Em Le Magaszn des enfants,. obra c1tada, pp. 242 e 260, Marie-Angele
do neocórtex hiperdesenvolvido, como do polegar oponível, Henmtte apresenta como mmha a proposição de «que a pessoa humana

30 3.1
Podemos dizer, pelo menos, que desde a fecundação estamos Ora, os conhecimentos biológicos actuais põem igualmente
a lidar com um indivíduo? Nem isso, se se quiser convir em que em causa esta imagem da fecundação como ponto de partida
as propri~gaqes imunulógic~s s~o as mais típicas da individuali~ de um processo finalizado. Inicialmente, porque o óvulo acaba- .
Jade no plano biológico. Ora, até ao fim da segunda semana, estas dó de fecundar nãci é, como ima-gina o -prof~no, uma re:üidade
propriedades não se manifestam; aliás, pelo contrário, o embrião com um destino unívoco que desenvolve a pouco ~ pouco a sua-;
em fase pré-implantatória seria rejeitado pelo útero materno como actividade, mas uma célula totipotente apta para evoluções ,
um vulgar corpo estranho. Haverá indivíduo sem eu biológico? diversas e cuja realização resulta, não da emergência de uma
Há que render-se à evidência: o zigoto da nossa espécie é huma- única possível, mas da eliminação de todas as outras. É verda-
no, mas isso é claramente insuficiente para fazer dele um ser de que, a partir do zigoto humano, não aparecerá um rato ou
humano, nem que este fosse apenas _u ma carne capaz de sofrimen- ' uma mosca, mas também não aparecerá necessariamente um
to - portanto para provar que ele deve ser tido por uma pessoa. ser humano. Da divisão celular, pode resultar um embrião
3. Que se quer dizer quando se defende que a pessoa informe25, ou mesmo um tumor. A maior parte destas células
«começa» desde a concepção? Será isto uma constatação ou um produzirá, não o embrião, mas a sua placenta . Até à terceira
decreto? Se fosse um decreto jurídico-moral, certamente que a semana, o próprio embrião pode dividir-se, para formar gêmeos.
ciência nada teria a dizer. Mas o utilizador deste verbo no indi- E o ser humano chegado ao fim será o fruto de uma imprevisí-
cativo mistura de novo as pistas: veste um decreto de constata- vel epigénese, tanto quanto dos dados genéticos iniciais. Como
ção. Faz como se o direito pudesse tirar partido de um facto. E não concluir que o destino unívoco do zigoto é um mito, como
zanga-se quando se responde: o senhor nega que, com a união o é a representação finalizada de um começo?
dos dois gâmetas, entra na calha um novo ser, embrionário, sem Mas há mais. Nas condições naturais da reprodução huma-
dúvida, mas já provido do equipamento genético que vai fazer na, 50 a 80% dos en1briões abortam espontaneamente nos pri-
dele, não um rato ou uma mosca, mas um indivíduo da espécie meiros dias e são evacuados sem o conhecimento das mulheres
humana? Assim, n concepção é tida como um autêntico conzeço, que os traziam dentro de si. No estado actual de incerteza, os
isto é, o empenhamento numa história orientad a, onde um tenno autores parecem escolher entre estas duas avaliações extremas,
futuro estaria já fixado no presente,. de maneira que reconhecer segundo as suas orientações ideológicas.26 Seja como for, tal é o
nele uma pessoa relevaria, não da aposta, mas da certeza. destino da maioria dos embriões - em consequência, nomeada-
mente, de anomalias cromossômicas . Portanto, há muitas
seja definida por dois electroencefalogramas, o do início e o do fim», reme-
fecundações que não produzem um ser humano viável. Este
tendo, neste ponto, para uma entrevista que me foi feita por Josette Alta e importante facto, pouco divulgado, que alimenta sarcasmos
publicada pelo Nouvel Observateur, n.º de 10 a 16 de Maio de 1990. Ora, blasfematórios sobre o tema do «Deixai-os viver!», tem um
nem a frase que me é imputada, nem qualquer outra com o mesmo senti-
alcance importante na questão que agora nos ocupa. Ele torna
do, figuram, de modo algum, nessa entrevista, pela simples razão de que
eu defendo um ponto de vista exactamente oposto. Evocando as razoes manifesto que, entre a lotaria que preside à constituição de um
científicas pelas quais é tão difícil pretender que o embrião seria já um ser genoma e a hecatombe que atinge os embriões ainda não
humano, defendi nessa entrevista a ideia de que ele nem por ISSO deve dei- implantados, aquilo que domina os processos iniciais da repro-
xar de ser tratado como pessoa potencial, sublinhando que se trata de uma
«questão ética». E comentava: «Seria arruinar essa questão pretender cau- dução humana é o seu carácter maciçamente aleatório.
cioná-la, selvaticamente, por argumentos biológicos que não se lhe apli-
cam.>> Não me parece que Marie-Angele Hermitte esteja suficientemente
atenta à diferença profunda que existe entre o conceito biológico de ser 25 Crescimento anormal da placenta que conduz ao aborto precoce.
humano e o conceito axiológico de pessoa. Ela acred ita, assim, numa inter- 26 Cf Vers un anti-destin, obra citada, p. 108, nota 20.
pretação do meu pensamento que constitui um total contra-senso.

32 33
Isto não estabelecerá definitivamente que pensar a concepção moralmente a fecundação in vitro, por abalar os próprios fun-
como instante inaugural do ser pessoal constitui uma projecçã? damentos da filiação, sem ouvir o antropólogo que nos diz: «Ü
fantasmática do mito da origem, oper~da em total desconheci- modo .de filiação que uma sociedade es tabelece não é ditado
e
mento dos acasos limiares sucessivos da ontogénese, que se pela ordem natural das coisas, das propriedades estáveis da
poderia igualmente tomar c?mo <<ver?a~e.iro» começo?~ mes- natureza humana, mesmo que essa seja uma crença largamente
mo acontece com as vãs disputas lustoncas para designar o partilhada em todas as sociedades», e que acrescenta, a propó-
acontecimento onde começariam verdadeiramente os tempos sito da IAD e das «mães de empréstimo»: «Todas as fórmulas
modernos . O ser humano .n ão estaria, pois, nem mais nem que pensamos serem novas são socialmente possíveis e foram
menos pré-formado no óvulo fecundado que o século xxr e~ta­ experimentadas em determinadas sociedades particulares» ·-
va no século xx - a não ser que tomemos a evolução do ser vivo do mundo romano às socieda des da Oceânia? 28 Nem a ética
como um determinismo, ao mesmo tempo providencialista e nem o direito podem valer no real começando por desprezá-lo.
simplista, doravante tão obsoleto em biologia como em história. Mas aqui os extremos tocam-se: de uma relatividade recu-
sada, a dos conceitos que estão subjacentes à pessoa «de direi-
to», não cairemos noutra, aceite com grande ligeireza: a dos
NO CAiv1INHO PARA O CINIS:f\1[0 dados que condicionam a pessoa <<de facto»? Em prim.eiro
lugar, relatividade sociológica, à qual nenhuma construção
Demorei-me neste exemplo. Valeu bem a pena. Não se vê humana pode gabar-se de escapar, e que é tanto mais perturba-
nele, com toda a clareza, de que modo, seguindo esta linha de dora quanto é atestada, pelo menos em segundo grau, pela pró-
pensamento, a precisão teimosa dos fa ctos.po_de desqualificar a pria sociologia da bioética. Ainda que praticada com a sabedo-
o-eneralidade falsamente simples de uma hcçao? Estabelecer de ria de um François-André Isambert, esta disciplina desconcer- .;(
facto que <<a pessoa começa desde a concepção» não. diz nada tante não nos deixa qualquer dúvida sobre a irredutível plurali- .,"
que seja claramente_ pensável, e menos ainda que seJa fac~al­ dade geocultural das abordagens da pessoa. Sob um tal olhar,
mente sustentável. E verdade que se pode propor que se conve- será ainda lícito pensar que a este termo genérico corresponde
nha que, desde a fecundaçãO). haja uma pessoa real a respeitar, uma realidade objectiva? Novo paradoxo: ainda que se queira
mas como convencer muitos cientistas a concedê-lo? Este exem- situá~la no terreno sólido dos factos, não há, no limite, lugar
plo é genérico: em qualquer domínio de ética biomédica, ant~s para a pessoa senão no mundo incomprovável das representa-
de se pretender reger os valores, procuremos conhecer as reah- ções subjectivas.
dades27 - as da biologia, e também as das ciências humanas, Em segundo lugar, relatividade biológica - e esta, de conse-
pois o homem é também muito mais do .que u~ or~_ganismo. quências ainda mais preocupantes. Pois se a pessoa não é um
Assim, contestaremos eticamente a msemmaçao com dador valor universalmente atribuível a todos os seres humanos, mas
anónimo (IADA *) em nome do direito das crianças de conhece- um nome discri~inatório daqueles que são, de facto, capazes
rem o seu progenitor, sem nos preocuparmos em est~dar ~e de raciocinar e de querer por si mesmos, quantos poderão ser
aqueles, que são já aos milhares, que se encontram nesta sltuaçao tidos como pessoas? Assim compreendida como o mais eleva-
sofrem de facto com uma tal impossibilidade? Censuraremos do estádio neuropsíquico da ontogénese, a pessoa é tardia, frá-
gil, fugaz . Estará ela já no feto, sem autonomia e sem voz?

27 É este o sentido da fórmula: <<Aquilo que não é científico não é ético.» Cf.
nota 19 28 Françoise H éritier-Augé, <<De l'engendrement à la filiation », dans Topique,
,. Iniciais da fórmula francesa: «lnsémination Avec Donneur Anonyme». (N. T.) n Y44, Setembro de 1989, p. 176, 180.

34 35
Estará ela verdadeiramente no alienado, sem livre arbítrio? remos a chegar? Para um bioético americano muito influente
Estará ela sempre no ser vegetativo, sem olhar? Era ema abs-
H. T. Engelhardt, «mesmo uma criança recém-nascida não ·é
tracção. permanente, ei-la realidade a t~mpo parcial. .Daí um
tlffi.ª p~?soa» 32 . _.8. esta luz,, estare._rnos segmos de sermos, nós .c
estreitamento espectacular da populàÇão ·justicável nas suas
prerrogativas. Na concepção precedente, ela tendia a afirmar-se próprios, serrtrre pessoas? E verdade que todos somos livres de'·
sempre que havia humanidade em sentido amplo; nesta, pelo conceber a pessoa a partir daquilo que pensamos Ser a sua rea- :
contrário, tende a retirar-se sempre que não há individualidade lidade estrita. Mas será possível não ver de que modo um tal "
em sentido forte. A um relativismo ficcional mas extensivo «realismo» se arrisca a ser o primeiro passo no caminho para 0
substitui-se outro mais rude: realista mas restritivo. Tão restriti- cinismo? Poderemos esquecer que a bioética tomou corpo nos
vo que, em suma, ele se inclina a não se preocupar com a pes- Es tado s Unidos, nos anos 70, a partir dos escândalos de
soa senão onde ela não é ameaçada. E por que razão a defende- Brooklin, de Willowbrook, de Tuskegee, onde, em respeitáveis
ria onde ela não existe? Que ética agradável nos obrigaria a tal! instihlições hospitalares, médicos não menos respeitáveis não
Vem-nos à id eia a exclamação indignada desse ianque do sécu- tinham achado que a consideração pela pessoa fosse suficiente
lo passado a braços com um juiz de paz londrino por ter batido para os impedir, por exemplo, de inocularem sub-repticiamente,
no seu escravo: «Pode chamar-se livre um -país onde um no interesse superior da ciência, células cancerosas em doentes
homem não tem o direito de chicotear o seu negro? »29 idosos?33
Há, sem dúvida, hoje em dia, cientistas que diriam o mes-
mo: pode chamar-se estado de direito a um país onde uma pes-
soa não é livre de tratar um embrião como um puro amontoado PESSOA: UM CONCEITO INCONCEBÍVEL?
de células? E espantam-se por haver quem se perturbe! Dos
pacientes em estados vegetativos prolongados - estados com- Mas, no fundo, não será a própria legitimidade da noção de
plexos, cuja irreversibilidade se entrevê hoje estar longe de ser pessoa, no seu uso descritivo, que põe em questão o realismo ;·!
t _,.·t
sempre garantida::l0 -, e depois de ter sujeito um deles a uma científico? Quando partimos da biologia e quando a ela nos ate-
experiência sem quaisquer potenciais benefícios para o próprio, mos, encontraremos algo parecido? Mais se não faz do que
escrevia friamente o professor Âlain Milhaud que eles constituem embrulhar as coisas, quando se in troduz este termo. É o que
«modelos humanos quase perfeitos e intermediários entre o afirma sem rodeios, por exemplo: um filósofo ligado ao materia-
homem e o animal,,3J. Com tais impulsos, até onde nos arrisca- lismo racional como Dominique Lecourt num debate com Jean

29 Cf K Marx e F. Engels, L'[déologie allemande, Éd. sociales, 1976, p. 203 ftra- 32 Citado por A Fagot-Largeault e G. Delaisi de Parseval em «Qu'est-ce qu'un
dução portuguesa: A Ideologia Alemã, tradução de Conceição Jardim e embryon?», artigo citado, p. 103. A frase figura no livro de H. T. Engelhardt,
Eduardo Lúcio Nogueira, Lisboa, Editorial Presença, 1974-75) .
30 Pode citar-se, entre outros, o exemplo desse jovem de vinte e cinco anos,
The Foundations of the ethics, Oxford University Press, Nova Iorque, 1985,
Jean-François, mergulhado em coma profundo durante cinco anos no capítulo 4. Cf o estudo de Marie-Louise Lamau, <<Le concept de personne
seguimento de um grave acidente ocorrido em Outubro de 1985, e que, chez T. Engelhardt», em Laennec, n.º 3-4, <<Dignité, perte de dignité>>, Março
com o passar dos anos, graças a um trabalho sustentado de despertar e de de 1993, pp. 16-19.
reeducação, recuperou sensivelmente as funções afectivas, relacionais e 33 Cf François-André Isambert, «Aux sources de la bioéthique», em Le Débat,
linguísticas (Le Monde, 2 de Maio de 1991). n.º 25, Maio de 1983, p. 85. Soube-se depois, através de um Relatório da
31 A experiência em questão data de Abril de 1985. Cf o parecer da CCNE de câmara dos represeútantes de Washington que, até ao meio dos anos 70, cen-
24 de Fevereiro de 1986, na colectãnea editada pela CCNE, Les Avis de 1983 tenas de pessoas foram utilizadas nos Estados Unidos como cobaias - não
à 1993, pp. 103-112; cf, Jean-Yves Nau, <•Les comateux sont-ils des coba- existindo nos dossiers qualquer sinal de consentimento- para estudar os efei-
yes?>>, Le Monde, f8 de Janeiro de 1987. Alain Milhaud expôs a sua tese em tos sobre o homem de substâncias radioactivas (L 'Humanité, 27 de Outubro
Testa me n/ de vie, Ed. Bernard Barrault, 1988. de 1986).

36 11· ::; I

37 I
Bernard. «Ü senhor diz que a partir de um óvulo há potenciali- estatuto de Adão, de Cristo ou da Virgem Maria?36 E se o
dade de pessoa. Mas trata-~e de pessoa .ou de indivíduo? Se se Magistério Católico optou- tardiamente-, contra o próprio São
u tiJi:;:a 0 termo «pessoa», ha que assum1r todas as suas c.ono,t~­ Tomás, e sem pôr fim às controvérsias, a favor da animação
ções. Na minl-la ·opinião, estas conotaçõ.e~ são jurídtco-hloso!t- imediata, foi por motivos que devem infinitamente menos à
cas e pressupõem a liberda~e de um su]e1to. Ora, o senhor nao embriologia do que à teologia.37
encontra nada disso num ovulo. No ovulo encontra-se uma Será então faltar ao respeito aos crentes dizer: uma ética
preficruração [... ] d e um indivíduo, mas não de uma pessoa.» pública, portanto necessariamente laica, não pode entrar neste
Ao q~e Jean Bernard objecta: «Concordará comigo em como a.s género de considerações? Que interesse teria ela em baptizar o
aptidões de Mozart estavam já no seu óvulo.» «Certamente, admt- indivíduo pessoa - fora da estrita acepção jurídica do termo?
te, sem discuti!~ Dominique Lecourt, mas aí voltamos ao problem~ Poderemos recusar-nos a concluir, com Dominique Lecourt,
do indivíduo. Não foi Mozart enquanto pessoa que escreveu; fm que, apesar de tudo, «as coisas estão doutrinadas à partida»?
enquanto indivíduo dotado de faculdades criadoras .q~e são per- Assim, a pessoa «de facto» acaba por nos aparecer como uma
mitidas tanto pelo programa genético quanto pela eptgenese; pelo pura e simples contradição nos termos: a pessoa não é um fac-
34
contrário, foi enquanto pessoa que assinou os contra~o.s». to. O critério experimental deveria concretizar esta noção abs-
Conversa esclarecedora. O conceito que convma ao ser de tracta; na verdade, dissolve-a. E é o realismo científico que nos
facto com que nos preocupamos aqui não é o de «pessoa», mas convence a reenviá-la às ficções do direito.
0 de «indivíduo» - um termo que a biologia conhece e reconhe-
O círculo lógico fecha-se aqui. Situada na ordem simbólica
ce. A «pessoa», pelo contrário, é claramente uma categoria ~o dos valores, a pessoa parece desmoronar-se sob o peso das suas
direito romano e, de forma para nós mais directa, da teologta contradições: incondicional, ela tem estranhos conceitos como
cristã. Cita-se frequentemente a definição que dela deu Boécio, condição; absoluta, não nasce senão de uma arbitrariedade;
no século vt «substância individual de nahlreza racional>>. Não universal, não ilustra senão uma cultura circunscrita; atribuída,
convirá recordar que ela figura num tratado teológico onde o é incapaz de definir os critérios da sua atribuição sem se referir
autor toma posição numa viva querela sobre «a dupla nat~reza ao seu contrário -o ser físico na sua concretude. Mas tomemo-la
e a pessoa una de Cristo»?35 Não é verdade que, por den:as do então, inversamente, por este ser mesmo no cume das suas
debate contemporâneo, de carácter totalmen.te,bt~medtco, faculdades e envolver-nos-emos num caminho inexoravelmen-
sobre 0 estatuto do embrião se perfilam as form1dave1s contro- te destrutivo: começando, certamente, por refutar ilusões espe-
vérsias da Idade Média sobre a animação imediata ou mediata culativas, mas também reduzindo drasticamente o campo
- isto é sobre a infusão da alma directamente por Deus ou por daquelas que parecem merecer respeito, abrindo mesmo ino-
intermédio dos pais -, cujos contornos são, antes de mai~, :eli- centemente a via do cinismo e, no fim de contas, desqualifican-
giosos: implicação do Criador na transmissão do pecado ongmal, do o termo na sua utilização geral para o abandonar à teologia
e não o admitir senão na sua acepção contratual, isto é recon- 1

duzindo-o ao ponto de partida - à ficção jurídica. Conceito


34 De la biologie à l'éthiquc, debate entre Jean Bernard e Dominigue Lecourt (14
de Novembro de 1990), brochura do Círculo Condorcet, n.º 18, Dezembro
inconcebível, a pessoa confronta, aparentemente, quem qu er
de 1990, pp. 13-14. . .
35 Boécio, Contra Eutychen, em The Theological Tractates, Harvard Umver:Jty
Press, Cambridge e W. Heinemann, Londres, 1978, p. 84. Cf. PaulLa~nere, 36 Cf Philippe Caspar, Penscr l'cmbryon, obra citada. Cf também Marie-Hélene
<<La notion de personne, héritiere d'une longue tradition», em Bwmedw,nc Congourd eau, <<Entre science et philosophie: petite histoire de l'embryon >>,
ef dcvenir de la personnc, obra colectiva sob a direcção de S1mone Novaes, em Étlúque, n.º 3, Inverno de 1992.
37 Cf Paul Ricoeur, Soi-même comme un autrc, Éd. du Seuil, 1990, p. 315, nota 1.
Éd. du Seuil, 1991, pp. 47-50.

38 39

.
I.
'
pensá-la com aquilo a que os filósofos chamam uma aporia; isto rico-social da palavra, que não seja deste género? Tomemos ·
é, um impasse da razão. Não há dúvida de que as filosofias como exemplo, crucial para a bioética, o conceito de saúde,
personalist.1s pensaram poder acampar neste imp.:.sse, susten- como o analisou G..:orgt:b·Cangcilhem Yta t>Ua famosa tese sobre ·<" • •
tando ao mesmo tempo que a pessoa é um «ser natural» e que o normal e ci patológico: será este um conceito descritivo ow
ela «transcende a natureza,38. Prêoéupação comovente de con- normativo? Manifestamente, as duas coisas ao mesmo tempo::
ciliar os contrários, mas que, formulada deste modo, não chega «as mesmas pessoas do povo dirão do seu vizinho que ele tem -'
senão a subliúiar uma a poria lógica em mistério ontológico. uma má saúde ou que não tem a saúde, tendo por equivalentes
Para que possamos escapar-lhe, seria necessário nada a presença de um facto e a ausência de um valor». E tambélD
menos do que aquilo que passa por impensável: que a pessoa «valere, que deu valor, significa em latim, portar-se bem». É
«de direito» fosse de facto, que o indivíduo real fosse, em si que, segundo Canguilhem, o biológico «é polaridade e por isso
mesmo, valor. Mas se há um ponto tido como filosoficamente mesmo posição inconsciente de valores», «actividade normati-
estabelecido é o de que, do facto ao direito, há um abismo. va»39. Asserção muito discutida. Mesmo que se o admita, a
Espectacularmente avivada pela «revolução biomédica» é, aliás, vida poderá, contudo, definir por si mesma o estado de saúde
a dificuldade simétrica de passar do direito ao facto, dito de que deve valer para nós? Não é verdade que houve pessoas
outro modo, de julgar no sentido ético e judicial da palavra. que souberam metamorfosear uma doença, um sofrimento,
Disso dão testemunho as errâncias contraditórias da opinião e mesmo uma enfermidade ou uma perturbação mental, em
da jurisprudência nas questões bioéticas - do «arrendam ento acréscim o de sensibilidade, de criatividade, de altruísmo e,
do útero » à eutanásia, da experimentação sobre o homem à para dizer numa palavra, de sã humanidade? Ser e valor não se
'I
patenteação dos seus genes. Pois, se o facto não funda o direito, conjugam, pois, menos enigmaticamente na ideia de saúde do
o direito e a moral têm, por sua vez, grande dificuldade em que na de pessoa.
estatuir sobre o facto biológico e terapêutico, doravante tão Voltemo-nos agora para a forma por excelência da vida
desconcertan te. Apesar de tudo, é o mesmo ser humano que, social onde, num sentido muito preciso do termo, o valor faz lei
com um só movimento, clam~ a sua dor e reivindica a sua dig- no real: a economia mercantil. A lição que ela nos dá é a mes-
nidade. Eis a mistura íntima de facto e de valor, diariamente ma. Qualquer mercadoria é, ao mesmo tempo, uma coisa que
oferecida pela pessoa, que se nos apresenta como um mistério se recomenda pela sua utilidade e um valor que se exprime
único no seu género. num preço. E, contudo, estas duas faces da mercadoria, de tal
maneira ligadas pela utilização que parecem não ser senão
uma, são também totalmente heterogéneas e sem cessar discor-
REALIDADE E VALOR: O PARADIGMA dantes. Mercadorias muito diferentes podem ter o mesmo
DA MERCADORIA valor; uma mesma mercadoria pode ter valores muito diferen-
tes. Há mesmo bens de grande utilidade que não têm qualquer
E, contudo, olhemos simplesmente à nossa volta: não está o valor e, por conseguinte, são gratuitos. Pelo contrário, objectos
mundo humano, sob muitos outros aspectos familiares, para quase inúteis em si mesmos têm, contudo, um grande valor e,
além do da pessoa, povoado com este género de misturas? consequentemente, não têm preço- o que faz deles, antef' de
Haverá mesmo um único facto antropológico, no sentido histó- tudo, sinais de riqueza. Paradoxo significativamente análogo,

38 Ernmanuel Mounier, Le Personna/isme, PUF, 1953, p. 21. 39 Georges Canguilhem, Le Normal et le pathologique, PUF, 1966, pp. 77, 86, 134.

40 41

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l , ..,
ainda, ao das relações desconcertantes entre a pessoa como fac- são que aqui nos interessa não é modificada. Unidade contradi-
tória de naturalidade e de socialidade, a mercadoria permanece
to e a pessoa como valor.
Seguindo a análise que dele faz Marx, o mistéri~ dissipé!-se, incompreensíveLenquanto não se r-eali-z-a o des'l'io pelo estudo das
quando se percebe que o valor de uma mercadoria traduz a relações sociais através das quais ela adquire uma natureza
quantidade de trabalho social necessário à sua produção - segunda, que não emana da primeira, mas antes se sobrepõe a
valor que se realiza na troca e cujo preço é a sua ·expressão ela. Dada a omnipresença do mercado nas coisas da nossa vida,
monetária. Duas mercadorias diferentes têm o mesmo valor de e da própria biomedicina, podemos ver aí um exemplo tipo do
troca se a sua obtenção exigir o mesmo tempo de trabalho social; «facto de valor», um paradign:ta para essa característica univer-
uma mesma mercadoria muda de valor quando varia este tempo sal da humanidade desenvolvida. Se queremos esclarecer a
social. O ar não tem valor de troca porque nenhum trabalho questão da pessoa, é igualmente impossível economizar o des-
social é necessário para que dele disponhamos, enquanto um vio pelo estudo do seu pressuposto de conjunto: a constituição
dispositivo sofisticado pode exigir muito trabalho. Assim, o histórico-social, não da espécie, mas do género humano.
valor nã o emana d a substância da coisa. Como diz Marx,
<<nenhum químico encontrou, jamais, qualquer valor de troca
numa pérola ou num diamante». Conh1do, ele não é, de modo ANIMALIDADE E HOMINIZAÇÃO
nenhum, uma propriedade arbitrariamente atribuída: nele se
traduz a realidade objectiva de um trabalho social efec~uado A humanidade saiu da animalidade nos dois sentidos da
em condições tecnológicas e económicas determinadas. E esta palavra <<sair»: provém dela e mantém nela as suas raízes, mas
realidade, bem distinta da sua corporalidade natural, que, con- ao mesmo tempo tornou-se uma coisa completamente diferen- •"
~):

te. Não apenas por efeito de diferenças biológicas quantitativas .~ i


tudo, se incorpora na mercadoria a ponto de parecer inerente à ·( '1 .
sua matéria, e que deve, aliás, incorporar-se nela, sob pena de que, por muito consideráveis que sejam -como é o caso da , .r
I 'I ~
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não ser mais que um fantasma; pois um trabalho que não pro-· amplitude do cérebro fro ntal -, são incapazes de dar conta de t;· r

~\~r
duz qualquer resultado útil também não produz qualquer valor. uma alteração tão radical, mas por efeito de uma transformação '~I"

Assim, o ouro vale muito mais que o ferro porque, sendo mais qualitativa de outra ordem. No mundo animal, por exemplo !I' .
raro na natureza, exige um trabalho de prospecção e de extrac- entre os insectos, o passado evolutivo das espécies inscreveu-se ' J ~

ção muito mais considerável. Mas isso não está afixado sobre o~ no interior dos organismos sob a forma de um equipamento
lingotes, e é por si mesmo que ele parece ter um grande valor. E genético a partir do qual são predefinidos os esboços dos com-
aí que está aquilo a que Marx chama o <<carácter fétiche» da portamentos individuais. Assim, a abelha será infalivelmente,
mercadoria, essa <<coisa sensível supra-sensível» propriamente em função da sua maturação orgânica, alternadamente ama de
inconcebível para quem não sabe discernir nela uma <<coisa leite, obreira e recolectora. E, na própria medida em que pode
sociai»40. haver lugar para aprendizagens individuais -mais importantes
Pode, naturalmente, contestar-se esta análise clássica do nos vertebrados superiores -, estas devem, no essencial, ser
valor-trabalho, preferir-lhe uma explicação em termos de utili- retomadas do zero por cada geração. De onde a lentidão, a nos-
dade marginal. Mas esta reenvia-nos à lei da oferta e da procu- sos olhos extrema, e os limites estreitos de uma evolução ern
ra, e portanto a relações económicas não menos exteriores à que as abelhas nada mais sabem fazer hoje do que sabiam no
substância da mercadoria . De tal maneira que a única condu- tempo de Virgílio.
Foi isto que se bifurcou num sentido totalmente diferente -
iniciado nos Primatas- com a produção, pelo Homo sapiens, de
40 K. Marx, Le Capital, Livro I, obra citada, pp. 81, 83, 95.

42 43
mediadores nas f)uas relações com a natureza e uns com os François Jacob. Salientando que, na nossa espécie, mais do que
outros: a ferramenta e o signo, bases objectivadas e, em si Ines- em q~alquer outra, «abranda o rigor da hereditariedade», em .
mas, inorgânicas sJe, capacida~es de um tiEo completamente prc::veJ.:o de u111"«papel crescente do, adquirido »,·chamando ain--: , . ·.,.
inédito. A medida que se foi firmando esta inovação capital, o da mais a atenção para a intervenção de «novos sistemas de~
passado evolutivo da espécie começou a armazenar-se, não tan- c~munic~ção, de regulação, de memória, que funcionam a um ;
to dentro do organismo, sob a forma lenta e limitada de modifi- mvel mais. elevado que o organismo» e «segundo princípioé
cações genéticas, mas no exterior, sob a forma, cada vez mais desco~heodos aos níveis inferiores», este autor conclui: «Os
rapidamente cumulativa, de um mundo social - objectos, lin- conceitos de democracia, de propriedade, de salário são tão
guagens, práticas, instituições - emancipado, no seu crescimen- d~~providos de significação pa!a uma célula ou para um orga-
to, dos limites do organismo individual. Esta disposição sem msmo quanto os de reproduçao ou de selecção natural o são
precedentes, modificou, a pouco e pouco, todo o destino huma- para uma molécula isolada. Isto é, a biologia dilui-se no estudo
do homem, do mesmo modo que a física se dilui no da célu-
no. Para se integrar na vida dos seus congêneres, cada novo
la.»42 Eis .c~r~o se esclarece a primeira armadilha posta pela
homem tem de se apropriar, através de uma longa formação,
p~lav:a. biOeltca: ~la sugere que a avaliação moral das práticas
do domínio dos seus mediadores sociais, e, através deles, de
b_lümedi~as podena r~sultar validamente de um diálogo exclu-
uma parte, singular em cada um, do vasto mundo humano SIVO da ehca com a b10logia, inspirando desse modo uma com-
assim constituído. Tem de hominizar-se - metamorfose biográfica posição de comissões de ética lamentavelmente desatentas ao
sem equivalente no mundo animal. Assim, a humanidade, contributo diversificado das ciências humanas, bem como à
enquanto facto histórico, é, de maneira totalmente profana, trans- experiência múltipla das coisas da vida.
cendente relativamente ao biológico. Era isto que sublinhava . I~I2sista:nos p~r~ procurar não deixar ambiguidades nesta
André Leroi-Gourhan, ao escrever que «toda a evolução humana ~ues_,ao arüropol~gica, maltratada por simplismos ideológicos.
concorre no sentido de colocar fora do homem aquilo que, no res- E evidente que o mdivíduo não é, à partida, tábua rasa ou cera
to do mundo animal, corresponde à adaptação específica»4J . v:rgei~l , e qu~ I:~nhuma das suas actividades escapa às condi-
É esse o ponto decisivo para pensar, na sua profunda origi- ç~oes a~ possibllidade prescritas pelas realidades biológicas.
nalidade, os factos constitutiVos da humanidade. Nas activida- ~ont~wor q~as~ nada é dado à partida, no que diz respeito às
des do indivíduo, tudo continua, naturalmente, a repousar nos tunçoe~ p~Iqm_cas propriamente humanas: aí, tudo está por
constituintes orgânicos da espécie; mas, simultaneamente, tudo constnur. E mmto pouco falar de aprendizagem. A verdade é que
é media tizado, e portanto transfigurado, pelas aquisições se trata, neste caso, d~ m~ processo qualitativamente diferente do
daquilo em que o gênero humano se torna. A explicação pela que ~corr~ entre os amt~~I~: o ser hu_m~no não se limita a adap-
biologia toca aqui no seu limite, tão claramente indicado por tar capaodades heredttanas, extenonzando-as no seu meio
~as apropria-se, antes de tudo, das capacidades sociais, interio~
nzando-as na sua prática. Segundo a esclarecedora .fórmula de
41 André Leroi,Gourhan, Le Geste et la parole, Albin Michel, 1965, t. !I, «La Alexis Lé~ntiev, ~ cérebro humano não contém, em si mesmo, a
mémoire et les rythmes>>, p. 34. Cf aquilo que escreveu Stephen Jay Gould est~ r:spei;o, mais do que «a aptidão para a formação destas
em Le Sourire du flamant rase, Éd. du Seuil, 1988, p. 45: «Ü comportamento aphdoes» 4 . Do psiquismo humano no seu todo poder-se-ia
dos insectos está, em grande parte, inscrito nos seus genes: contrariamente
aos seres humanos, os insectos são «pré,programados>> (é principalmente
por esta razão que os modelos sociobiológicos das formigas convêm tão 42 F ·.· f b L l . ·
43 r~nç01s. a~o , . a ogzqu~ du vmant, Gallimard, 197~, pp. 337,338,341.
pouco à descrição do comportamento humano).>> Cf., numa perspectiva ~lexzs N. ~eontiev, Le Developpemcnf dup:ychzsme, Ed. sociales, 1976, P· 248.
fenomenológica, Franck Tinland, La Différencc anthropologique, Aubier, \ er tambem, do mesmo autor, Actmztc, consczence, personnalité, Ed. du
nomeadamente pp. 166-167. Progres, Moscovo, 1984.

44 45
dizer, neste sentido, que ele tem uma dupla articulação. Ele Não se tendo desenvolvido entre os homens, estas rapari-
pressupõe estruturas neurobi?lógicas, determina~as ,- e é por- guinhas estão inteiramente «lobizadas». Contra as crenças tena-
que elas cstJo ausentes no chlmpanze que este nJo e capaz de zes DLima natureza humana, o seu caso mostra de modo evi-
aprender a falar. Mas, a paxtir destas estruturas, as fun5ões dente a extensão e a profundidade daquilo que configura em ,
superiores não se edificarfi senão rtas relações do md1v1duo nós a integração na sociedade: não somente, como"é evidente, a :
com o mundo humano onde elas têm a sua verdadeira base - e boa educação, a linguagem, a sociabilidade, mas traços que
é por isto que a criança surda de nascença permanecerá inevita- passam mesmo por serem exclusivamente congênitos, como a
velmente muda. O homem é um misto de naturalidade e socia- posição erecta ou o carácter omnívoro, as possibilidades senso- .l'

lidade, mas um misto desigual, no qual, se a primeira condicio- riais ou as pulsões emocionais. Também de todos estes pontos
na a segunda, esta, por sua vez, transfigura aquela. de vista, o rebento humano é «totipotente» . Amala morreu
Seria preciso outro livro para pormenorizar as provas que menos de um ano depois. Tendo-lhe sobrevivido quase uma
apoiam esta visão das coisas, tão frequentemente incompreen- década, mas a contar de uma idade provável onde é já mais
dida, e mesmo ignorada. Apenas reterei, pela sua particular reduzida a fantástica plasticidade neuro-psíquica da pequena
eloquência, os casos mais conhecidos de crianças selvagens, infância humana, Kamala apenas lentamente aprendeu a man-
passados com Kaspar Hauser e Victor de 1' Aveyron: o de ter-se de pé, a suportar vestidos e regras sociais, a pronunciar
Kamala e Amala, as duas rapariguinhas de cerca de oito anos e mal algumas dezenas de palavras bengalis, a evidenciar alegria
um ano e meio capturadas em 1920 na Índia, num covil de e tristeza - vertendo uma lágrima pela primeira vez na morte
lobos, e postas a cargo do Reverendo Singh, no Orfanato de da sua «irmã.». Heroínas de uma extraordinária experiência antro-
Midnapore. Resumindo o quadro que o Reverendo traça no iní- pológica involuntária, elas ensinam a quem quiser ouvi-las que,
cio do seu diário44, Lucien Malson descreve-as deste modo: para pensar o humano, a biologia deve dar lugar à biografia.
«Elas deixam pender a língua através dos lábios vermelhos,
espessos e orlados, imitando o arquejo e abrindo, por vezes
desmesuradamente, as mandíbulas.» Temendo a luz, e vendo «O HOiv1EM É O MUNDO DO HOMEivf»
perfeitamente na obscuridade, insaciáveis, dormindo muito
pouco, elas passam «todo o dia agachadas na sombra ou imó- Sublinhar-se-á suficientemente, aliás, até que ponto recu-
veis diante de uma parede, saindo da sua prostração à noite, sar-se a isso faz cair quem o recusa na incoerência científica?
uivando várias vezes seguidas, gemendo sempre no desejo de Com efeito, como faz notar Jean-Pierre Changeux, e com ele I
se evadirem». Correm- muito depressa - apoiadas nos pés e .'
todos os especialistas, «os mecanismos genéticos que fizeram
nas mãos, com os braços e as pernas esticados, a quatro patas. nascer o cérebro do homem moderno parecem ter sido suspen-
«Os líquidos são lambidos e a alimentação é comida com o ros- sos há muitas dezenas de milhares de anos»46. Tanto quanto se
to inclinado, em posição agachada.» O gosto exclusivo pela car- sabe, os homens de hoje têm, pois, o mesmo cérebro que os
ne crua condu-las «às únicas actividades de que são capazes: seus antepassados do Paleolítico. Fica assim patente que as
caçar galinhas e desenterrar carcaças e entranhas», que farejam imensas conquistas da civilização e do psiquismo que nos sepa-
a longa distância.45
ram deles ficaram armazenadas, no essencial, algures no códi-
go genético- um algures social que se mete pelos olhos dentro,
44 J A. L. Singh, R. M. Zingg, L'Homme en friche - De l'enfant-loup à Kaspar
Hauser, Éd. Complexe, 1980.
45 Lucien Malson, Les enfanfs sauvages, UGE, 10/18, 1964, pp. 85-86. 46 Jean-Pierre Changeux, L'Homme neuronal, Fayard, 1983, p. 357.

.i~

46 47
pelo qual a Pré-História e depoi~ ahistória human~ assumiram maneira que à geografia física de um território se sobrcnõe
... j .L
a
relevo da evolução biológica. E portanto uma úmca e mesma geograha humana de um povo. E verdade que não se deve pas-
0
roisa constatar o carácter psíquico prematuro do homemà sua ~ar__ a fronteira para lá da qual nos arriscamos a c<'! ir Pmn c~ütu -· ~ · · .... •

11 asce~ça, cnde se exprime essa estagnação genética, e reconhe- ralismo sem limites que esquece os irrecusáveis determinismos
naturais, e mesmo num panpsiquismo obscurantista de que se.
cer a factura histórico-social das nossas. funções psíquicas supe- l ·' l.

riores, de onde resultou a sua progressão exponencial. . alimentam sem vergonha as medicinas dos charlatães. Resta
f-1
Não somente o desenvolvimento da humanidade no que o corpo humano é um corpo hominizado, coisa que, salvo
homem transcende, assim, a explicaçao estritamente biológica, excepção, não se percebe na ocular de um microscópio electró-
mas é ele que sobredetermina muitos processos neurofisiológ~­ nico, mas que é bem sabida pelo médico ou pelo enfermeiro
cos metamorfoseando o nosso corpo humano em corpo homi- que se encontra à cabeceira do doente. Com esta incorporação
niz~do. Nem sequer estou a falar aqui do rico arsenal das práti- íntima das relações sociais externas, muitas vezes tão pouco
cas pelas quais uma cultura mete as suas garras na natureza, aparente no corpo do homem como no lingote de ouro, vere-
em ritos de iniciação ou de passagem - das deformações corpo- mos começar a esclarecer-se a especificidade enigmática do
rais às mutilações sexuais -, como em condutas de prestígio misto humano?
físico - das curas de emagrecimento ao body-building. Trata-se, Aquilo que aparece simultaneamente é a armadilha pouco
mais ainda, para lá das modelações externas e intencionais, dos banal que nos estende a questão, aparentemente muito inocente:
inumeráveis processos de vida socializada nos quais, para além o que é o homem? Pois ela convida-nos a procurar sem malícia
de consciência e projecto, as actividades modulam as funções e a resposta no interior do ser assim designado - «o homem»,
as funções chegam mesmo a modular mesmo os seus órgãos. maquinalmente identificado com o indivíduo -, dito de outro
Assim, a edificação das estruturas cerebrais é muito sensivel- modo, a encontrar nele mesmo a sua «natureza», ou, como
mente afectada, e, para lá de uma certa idade, de modo irrever- àizem os filósofos, a sua «essência». Ora, na medida em gue o
sível, peln riqueza -· ou a pobreza - das condutas perceptivas, processo está fundado no seu início, relativamente ao ser
práticas ou linguísticas às quais é incitada a criança. Para dar humano enquanto exemplar da sua espécie biológica, nessa
um exemplo muito diferente;•como não ficarmos perturbados mesma medida ele mistifica-nos quando se trata de o pensar
quando vemos que casais considerados estéreis, quando espe- como membro do género humano historicamente desenvolvi-
ram uma fecundação in vitro, registam inopinadamente uma do, pois, a este título, ele não tem, justamente, a sua base em si,
gravidez natural? «A experiência psicanalítica, pensa poder mas fora de si. De onde a fórmula de Marx, que parece respon-
generalizar, a este respeito, Marie-Magdeleine Chatel, mostra der ao lado da questão, porque evita a sua armadilha: «Ü
que a procriação é psicossomática.» 47 De quantos outros fenô- homem é o mundo do homem» - e, de modo mais explícito:
menos orgânicos se deverá dizer o mesmo? «A essência humana não é uma abstracção inerente ao indivíduo
De base que era, na aurora da hominização, o biológico tomado à parte. Na sua realidade, é o conjunto das relações
regressou, numa medida importante, ao papel de suporte, retra- sociais.,,48 Há que compreender que «o homem» é inseparavel-
balhado em todos os sentidos por aquilo que se tornou a verda-
deira base de uma vida: a actividade socializada - da mesma
48 A prime~ra fórmula figura na Introdução à Critique du droit politirJiie
hégélicn, Ed. sociales, 1975, p. 197 (tradução portuguesa: Crílica da Filosofia
47 Marie-Magdeleine Chatel, <<Le désir escamoté>>, em Le Magasin des enfants,
do Direito de Hegel, tradução de Conceição Jardim e Eduardo Lúcio
Nogueira, Lisboa, Editorial Presença, s/d); a segunda pertence à «6ª Tese
obra citada, p. 81. Cf., do mesmo autor, Malaise dans la procréation, Albin
sobre Feuerbach>>, em L'ldéologie allemande, obra citada, p. 3.
Michel, 1993.

49 i.
mente socialidade prática e simbólica na qual se desenvolve o entre consciência e prática morais, autonomia e solidariedade,
género humano, e também individualidade biológica na qual, a liberdade e responsabilidade.
·pMtir daí, se hominiza um organismo. Querer definir o segun-
do termo desta complexa, mas indissociável, unidade pondo o
primeiro entre parêntesis é o que confere a todas as especulações ALGUNS MAL-ENTENDIDOS
sobre a «natureza humana» o seu carácter pré-crítico e a sua
inevitável trivialidade. Há todas as hipóteses de que, posta sob Mas não queimemos as estapas. Regressemos, pelo contrá-
esta forma armadilhada, a questão da pessoa não possa conhe- rio, antes de avançarmos, a alguns mal-entendidos possíveis
cer melhor sorte. naquelas que acabámos de atravessar. Já estou a perceber onâe
Esta primeira armadilha esconde, aliás, uma outra, já não querem levar-me, dirá talvez aquele ou aquela, que tem conhe-
ligada à palavra homem, mas ao verbo ser: o que é o homem? cimentos sobre a questão, que me terá lido um pouco depressa
Na sua forma, uma tal questão orienta-nos, à partida, para demais: querem levar-me para o ambientalismo, essa teoria
uma resposta de tipo ontológico, que procurasse enquadrar o segundo a qual, contrãriamcnte âv hereditarismo, para o qual
homem numa definição invariável do seu ser, e mesmo do seu tudo está nos genes, tudo nos viria do meio.
dever-ser: os próprios fins «do homem» fariam parte da sua Julgá-lo seria, falemos claro, nada ter compreendido. Em
«natureza». Ora, uma vez compreendido que o conjunto de primeiro lugar, porque é insustentável, embora ainda seja
socialidade e individualidade humanas são mais uma história defendida, a dicotomia entre hereditariedade e meio, concebi-
que uma natureza, a questão não pode, manifestamente, conti- dos como dois «factores», independentes e adicionáveis, numa
nuar a encontrar resposta em termos de ser fechado, mas de proporção que seria objecto de litígio. Fazendo fé em trabalhos .,
"·'
existência aberta, de agir inacabado, de futuro a decidir. Foi como os de Cyril Burt, relativos a gémeos verdadeiros - traba-
isto que Jean-Paul Sartre popula rizou ao afirmar que «O lhos cujo carácter fraudulento foi confirmado49 -, assim nos
homem não tem essência», que «estamos condenados a ser seringaram durante mais de uma década, e asseguram-nos ain-
livres» - asserções que nada perderam da sua mordacidade da, de tempos a tempos, que a inteligência humana seria
contra todos os dogma tismo ~, metafísicos ou não, portadores <<determinada a 80% pelo património genético e a 20% pelo
de ordem moral. Mas, contudo, asserções unilaterais, mais meio» . Ora, como mostrou Albert Jacquard, esta afirmação
preocupadas em recusar a ideia de natureza individual do que <<não tem sentido rigorosamente. nenhum». Ela significa dizer
em pensar a história colectiva. Ora, cada individualidade, que «uma criança que não tivesse recebido qualquer contribu-
cada geração, hominiza-se sem o ter escolhido, em condições to do meio teria um QI (quociente de inteligência) de 80, e uma
sociais e culturais dadas que não o explicam como objecto criança que não tivesse recebido qualquer gene teria um QI de
mas, o que é completamente diferente, o implicam sem esca- 20. Estas frases são d~ tal maneiras absurdas que ninguém
patória numa forma de ser sujeito. «O homem» não tem essên- ousaria proferi-las.»5o E contudo aquilo que se diz quando se
cia metafísica, mas uma pertença histórica, de que pode abs- repetem tais percentagens - como se o pão, por exemplo, <<se
trair tanto menos quanto ela o constitui no interior de si mes- explicasse» em 80% pela farinha e em 20% pelo padeiro. Na ver-
mo, para o melhor e para o pior. Quer o meça, quer não, e ain-
da que de modo muito modesto, cada indivíduo singular é
assim responsável pelo presente e pelo futuro da nossa huma- 49 Sobre esta questão, ver Stephen Jay Gould, La Malmesurc de /'homm e,
Ramsay, 1983; Richard C. Lewontin, Steven Rose, Léon J. Kamin, Naus ne
nidade comum. Ora, isto tem consequências para uma ética do
sommes pas programmés, Éd. La Découverte, 1985.
respeito, e para as relações que devem ser, aí, bem clarificadas 50 Albert Jacquard, Éloge de la difference, Éd. du Seuil, 1978, p. 176.

50 51
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dade, deveria ser evidente que tudo nas capacidades psíquicas sociedade.»5 1 O desenvolvimento psíquico do ser humano não
propriamente humanas pressupõe o genoma e o organismo, e é uma simples ontogénese universal, é ·também uma his tória .li
:~ !J
que; ao mesmo tempo, nada se compreende, no que a elas diz semp.re origi11al. ... . . '·· ..a<;,?:.''· •-t.~J:
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respeito, fora da apropriação subjectiva de capacidades histori- Indissociável de llula visão redutora da aculturação huma- tj
camente objectivadas. Da mesma maneira, o dilema tradicional, na, o conceito de ambiente, válido em psicologia animal, não( ,
1
In
responde em nada ao nosso problema. Para mim, que tenho a tl"Í'l
insolúvel por construção, entre ambiente e hereditariedade, ,( .1 ' -~
:' li:
t.íi Uo;
bem como a adição eclética de ambos, frequentemente apresen- crença nos «dons» como um equivalente moderno da fé medieval
tada como a sua solução, deveriam ser definitivamente abando- na «virtude dormitiva» do ópio52, a explicação ambientalista é
nados à sua indigência teórica.
Em segundo lugar - que é ainda mais importante, do ponto
51 K Marx, Contribution ii la critique de l'économie politique, Éd. sociales, 1977, p.
de vista que aqui nos ocupa - , pensar a hominização em termos 150 [tradução portuguesa: Para a Crítica da Economia Política. Prefácio, tradução
de ambiente tradu z uma desarmante subestimação do abismo d e Álvaro Pi n a, em Ma rx/ Engels. Obras escolh ida s em três tomos,
que separa o ser humano socializado de um animal. Para a criança, Lisboa/Moscovo, Editorial «Avante!>> - Edições Progresso, 1982, I volume,
o universo apetrechado da casa ou da escola, a linguagem que r pp. 529-533] .
J2 Em Le ]eu des possibles, Fayard, 1981, François Jacob critica «a ideologia mar-
aí se 'fala, as relações que aí se estabelecem são infinitamente
xista segundo a qual o indivíduo é inteiramente moldado pela sua classe social
diferentes do ambiente natural pelo qual são modulados os e pela sua educação>>. «Assim desaparece, comenta ele, tod a a diversidad e,
.•u;

comportamentos hereditários de uma abelha ou de um porqui- toda a diferença de ordem hereditária nas aptidões e nos talentos do indiví-
nho da Índia, constituem o próprio centro de onde emanam duo. Só contam as di fer~nças sociais e as diferenças de ed ucação. A biologia e
condutas de que ele tem de se apropriar. Voltemos a dizê-lo: a os seus constrangimentos detêm-se diante do cérebro humano! Sob esta for-
\
ma extrema, esta ati tude é simplesmente insustentável!>> (pp. 120-121) Não •1,!:
animalidade de cada espécie tem a sua sede no interior do conheço nenhum marxista b·ancês que se reconheça numa tal ideologia dita ~rL
organismo individual, a humanidade social edificou-se no exte- ':J\
«marxista>>. Pela minh a parte, num artigo que levantou muita discussão, i~ -1 !'
il
rior. De uma à outra, o centro mudou de lugar: excenf:rou-se, e <<Les 'dons' n'existent pas>>(L'École et la Nation, Ouh1bro de 1964), escrevi com I•<

toda a clareza: <<De wna maneira geral, não se podem ver as relações entre ~ ci,;l•
foi contra isto que nem o ambientalismo nem a hereditariedade
..
se acautelaram. Ao mesmo tempo, a hominização é uma coisa
hereditariedade biológica e meio social como relações mecãnicas entre factar
lj' :/f~
,:·(

res independentes, cuja <<parte>> respectiva se poderia discutir, mas devem - ' i

complexa, muito diferente de um condicionamento impessoal ver-se antes como relações dialécticas entre níveis de desenvolvimento. Num
de condutas já presentes num indivíduo. Ela exige dele activi- certo sentido, é toda a vida do indivíduo, em todos os seus aspectos, que está
dades apropriativas que sustentam um complexo de identifica- marcada pelos dados biológicos de partid a. Isto é evidente. Toda a sua vida
está marcada por eles, mas nem por.isso alguma coisa está decidida, pois aquilo
ções e de diferenciações precoces, de desejos e de sentidos, de que decide é sempre, no fim de contas, o desenvolvimento ulterior, isto é, a
motivos e de expectativas, configurado numa biografia inesgo- história social. >> (p. 56) N ão penso que esta tese tenha o que quer que seja d e
tavelmente singular. Não é verdade que uma observação míni- insustentável. Jean Rostand, que não é suspei to d e subestimar a hereditarie-
ma mostra, até que ponto, as atitudes e actividades electivas dade e os seus constrangimentos, e que tinha lido o meu artigo, d eu-lhe
publicamente a sua aprovação quanto ao essencial no seu discurso de
dos pais, longe de difundirem por si mesmas igualmente, são
Dezembro d e 1966, aquando do centenário da Liga d o Ensino (Cf Cahiers /ai~
reassumidas de maneiras susceptíveis de variar totalmente de ques, suplemento ao n P 96 de NovembrarDezembro d e 1966). ~<Quanto mais
uma criança para outra? A socialidade não é, pois, de modo progrido, escrevia ele alguns anos mais tarde, mais acredito na acção do
nenhum contraditória com a individualidade. Pelo contrário. meio, que tinha indubitavelmente subestimado um pouco na minha JUVentu-
Como diz Marx: «Ü homem é, no sentido mais literal, um zôon de, em favor dos factores genéticos>> ( <<Doués ou pas?>> em Pour l'énfant, vers
l'homme, n.º de Março-Abril d e 1972, p. 25.) Sobre a concepção histórico-cultu-
polítíkon, não somente um animal sociável, mas um animal ral do psiquismo, cf L. S. Vygotski, Pensée et langage, Éd. sociales, 1985, e os
que não pode constituir-se como indivíduo singular sehão na trabalhos d e Alexis Léontiev citados na nota 43.

52 53
tão frágil que aquilo que me parece admirável não é, por exem- «o imaterial>> nunca aparece sem matéria, e, para fabricar esta
plo, que haja, estatisticamente falando, uma clara relação entre matéria, o discurso não substitui o trabalho.
«nívelcultural» de pais adoptivos e QI das crianças adoptadas, Terá havido, inicialmente, sem dúvida, nesta assimilação
mas antes que, tratando-se uma tal questão numa óptica tão unilateral do humano ao simbólico, uma reacção justificada
grosseira, se possa, apesar de tudo, salientar correlações signifi- pela estreiteza inversa de um materialismo, incluído o marxis~ i
cativas. É verdade que a visão das coisas que resulta daquilo ta, que apenas relacionava a hominização com o instrumento e;
que precede não é o ambientalismo - nem, evidentemente, o a produção material. Descobrindo com entusiasmo aquilo com
hereditarismo. É aquela a que o grande psicólogo soviético dos que a linguística moderna pode contribuir para a compreensão
anos 20, L. S. Vygotski, chamava uma «concepção histórico- dos factos de cultura - do mito ao saber, do inconsciente ao
-cultural do psiquismo>>, a qual não ostenta qualquer desdém poder-, aqueles a que se chamou estruturalistas- Claude Lévi-
pelo biológico, mas lhe atribui aproximadamente o mesmo -Strauss, Jacques Lacan, Michel Foucault... - torceram, de
lugar explicativo - e os mesmos limites - , que aquela que se algum modo, noutra direcção: tudo no homem estaria estrutu-
apoia na geografia quando quer pensar a história de uma nação. rado como .uma linguagem. Ao mesmo tempo que eram assim
Regressemos também um pouco a esta questão que, ao con- adquiridos conhecimentos preciosos, unilateralizando-se para o
trário da precedente, parece ser tida por muitos como regula- outro lado a visão global tão bem expressa pelo título do gran-
mentada, enquanto continua a ser lugar de um litígio de gran- de livro de Leroi-Gourhan: Le Geste et la parole*. Hoje como
de importância na sequência da nossa reflexão. Pensa-se muitas ontem, a humanidade caminha sobre dois membros, e não a
vezes resumir tudo aquilo que acaba de ser indicado caracteri- quatro patas. Assim, a «revolução biomédica» é inseparavel-
zando os factos propriamente humanos pela sua dimensão sim- mente feita de coisas que voltam a ser postas en causa na
bólica. E é verdade que há, na evolução do mundo vivo, uma ordem simbólica - da imagem do próprio corpo à representa-
novidade capital. Trata-se da linguagem, actividade simbólica ção da parentalidade - e de perturbações de ordem tecnológica
por excelência: muitas espécies animais exprimem e comuni- que as sustentam - do enxerto de órgãos à intervenção sobre os
cam; nenhuma delas fala, pois não acede à arbitrariedade do gâmetas e sobre os genes. Toda a questão do estatuto da pessoa
signo, medidor omnipresente do progresso da consciência e do está aqui em jogo: puro símbolo ou, simultaneamente, realida-
sentido. Não estará aí todo o homem? Não; pelo menos se não de prática?
se quer perder de vista que a linguagem articulada é, em mui-
tos aspectos, inseparável do gesto articulado. Foi em conjunto
que estas duas renovações colocaram a humanidade numa DO INDIVÍDUO
órbita de desenvolvimento totalmente diferente da das espécies
de onde ela provém. Separar da dimensão prática a dimensão Mutação nas relações entre indivíduo e espécie, a homini-
simbólica tornaria inexplicável a gênese das actividades huma- zação fez surgir modalidades do ser desconhecidas do mundo
nas e inconcebível a sua eficácia. Isto é verdade, hoje como animal, que não são ainda a pessoa, mas que ela pressupõe.
ontem, por muito que desagrade àqueles que pensam que a Indivíduo na acepção sociopolítica da palavra, sujeito, persona-
informação, na muito ampla acepção contemporânea da pala- lidade num sentido original que teremos de justificar: eis, para
vra, está chamada a suplantar a produção. Se a produção inclui, generalizar uma expressão de Léontiev, algumas «neoformações
sem cessar, cada vez mais informação, esta, por sua vez, exige e
continuará a exigir a produção- a começar pela dos componen-
tes electrónicos. Aquilo a que se chama, no discurso da moda, * O Gesto e a Palavra. (N. T.)

54 55
psicológicas»53 inteiramente devidas à posição excêntrica das a ser si próprio não será um indicador suficiente da necessida-
conquistas históricas da humanidade, e portanto aos múltiplos de urgente de ir mais longe, na passagem da animalidade nati-
processos de apropriação pelos quais. elas se .interiorizatn. de vaài11dividualidadeplena? . ,, . . _, ..
forma inédita em' cada história da vida. Rico de sentido54 e mantendo a vocação de denominação
No seu sentido mais amplo, o conceito de indivíduo não mais geral da identidade pessoal, será o conceito de indivíduo,
refere estas especificações humanas. Ele refere, inicialmente, a assim compreendido, suficiente para englobar as neoforrnações
unidade de um ser que cessa qualitativamente de ser quando se psicológicas de que falamos? Manifestamente, não. Na primei-
o divide. Para o biólogo, ele acrescenta que este ser é um exem- ra destas acepções - o homem como «particular empírico», de
plar ao mesmo tempo genérico e singular da sua espécie: pos- que fala Louis Dumont, convidando-nos .a distingui-la com cui-
sui as suas características corno todos os outros e como nenhum dado da outra, o homem como «portador de valor»ss -, ele diz
outro, diferenciando-se dos outros ao infinito por um conjunto bem da singularidade de cada humano, mas não da especifici-
único de particularidades genéticas, epigenéticas, somáticas e, dade humana desta singularidade, uma vez que, neste sentido,
entre os animais superiores, temperamentais. Em tudo isto são concerne igualmente a qualquer ser vivo. Por outras palavras,
mencionadas muitas das coisas que importam a uma ética da reenvia ao carácter único de uma dotação genética, de uma
pessoa, como os limites de uma integridade ou as riquezas de complexidade somática, e mesmo de uma idiossincrasia tempe-
uma individualidade a respeitar ·- mas nada que seja próprio rarnental concebidas como uma natureza mais ou-menos irre-
do homem. A este sentido biológico vem, porém, sobrepor-se, formável. A tendência de um tal conceito é paa:â.'a naturalização
no que a este diz respeito, uma acepção completamente dife- da individualidade, muito mais do que para ler em conta aqui-
rente da palavra indivíduo. lo que releva nela da hominização e da remodelação biográfica
Com a divisão do trabalho, o mercado e a propriedade, de si. Assim, ele conserva sempre qualquer coisa do olhar pura-
com a organização política, o direito e a cidadania, com a afir- mente objectivo e distanciado que a biologia tem sobre os seus
mação polêmica de identidades étnicas, religiosas, culturais objectos. Trata-se de um termo desatento à subjectividade e vir-
diversas, e ainda tantas outras coisas, dissolveram-se as relações gem de simpatia. Será um acaso se indivíduo pode tomar, na
de fusão que constituíam o ser puramente gregário: formou-se linguagem corrente, conotações francamente pejorativas, em
um novo modo de individuação ao nível psico-histórico. que o outro é coisificado?
Falemos como Hegel: o animal não é um indivíduo senão em- Considerado agora na sua significação sociopolítica, este
si, o homem torna-se um indivíduo para-si .. Imenso processo conceito arrisca-se a fazer-nos passar de uma generalidade bio-
sempre inacabado. Esta longa marcha não deixou de ser assus- lógica demasiadamente ampla a uma particularidade histórica
tadoramente agravada pelo seu contrário: aquilo a que se cha-
ma o progresso humano foi pago, até agora, com um gigantes-
54 No seu debate com Jean Bernard (cf nota 34), Dominique Lecourt afirma
co holocausto físico e moral de indivíduos. Não será isso mes- que eu «não gosto muito do conceito de indivíduo, em consequência dos
mo que nos parece, desde agora, já não somente insuportável, pressupostos filosóficos que (eu) não escondo>> (p. 15). Asserção que me
mas impraticável? Um futuro civilizado não é pensável sem o deixa estupefacto. Pelo contrário, o meu livro Marxisme et théorie de la per-
livre desenvolvimento, em todos os sentidos, de todos os indi- sonnalité, Ed. sociales, 1969, é, do princípio ao fim, uma defesa e ilustração
do lugar central que o indivíduo ocupa no desenvolvimento civilizado, e
víduos. A universal escalada, neste fim de século, da aspiração
no pensamento de Marx- o que não me impede de considerar que o con-
ceito de indivíduo não pode, por si mesmo, substituir o conceito de perso-
nalidade, no sentido abaixo definido.
53 A. Léontiev, Acl:ivité, consciencc, personnalité, obra citada, p. 191. 55 Louis Dumont, Essais sur l'individualisme, Éd. du Seuil, 1983, pp. 29 e 304.

56 57
demasiadamente estreita. Pois, falando socialmente, os homens seu conceito próprio: o de sujeito. Ou, para dizer melhor, ela
nem sempre foram, nem são em toda a parte, indivíduos. Nas deu-se-lhe subvertendo-lhe a acepção inicial. Pois, para o pen-
sociedades pré-mercantis, em geral, o ser humano permanece ·. samento antigo e -medieval, o sujeito não é, Je todo, aquilo uue
largamente inscrito em laços de dependência natural e social pomos hoje sob este termo. É, etimologicamente, o ser subja(en- .
I
li
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-, ,
onde se define muito mais pelas suas .relações do que pela sua te aos seus atributos, a substância. Mas com Descartes inicia-se
individualidade. Os Kanarks, caros a Maurice Leenhardt, os e depois, com Kant, completa-se, uma reviravolta: da «substân-
«grandes homens», cuja «produção» Maurice Godelier estudo'! cia pensante» em forma de puro ego separa-se a actividade ideal
no coração da Nova Guiné, não se vivem como indivíduos. E . de um eu legislador do seu mundo, daquilo que podemos aí
verdade que não é ceder a um culpável eurocentrismo ah·ibuir - conhecer, daquilo que devemos aí querer. A partir desta promo-
um valor potencialmente universal ao processo de individua- ção capital desenvolveu-se, graças ao contributo das ciências
ção que conduziu a proclamar os Direitos do Homem e a digni- humanas, a concepção moderna da subjectividade. Em vez do
dade da pessQa. Mas seria dar prova de uma estranha cegueira biológico, a referência pertinente passa a ser, aí, o simbólico.
não ver, no indivíduo dos tempos modernos, as marcas profun- Pela sua insérição originária na ordem do significante, o sujeito ,,•
das da sociedade burguesa onde ele tomou outrora impulso e rompe as amarras com o ser natural para entrar no universo do
prossegue hoje a sua evolução. sentido, onde a consciência adquire a sua livre interioridade. Já
I
Etimologicamente centrado na indivisibilidade de um todo não é um ser com propriedades suspensas, redutível às suas
autónomo, culturalme~t~ ç9~do pela ideologia do individua- causas e movida por necessidades, mas um existente sempre ·à
lismo concorrencial, o conceito sociopolítico habitual de indiví- distância de si mesmo, animado pelo desejo e identificável com
duo leva a legitimar a ligação invejosa de cada particular aos os seus fins - modo de existência onde se esboça a autonomia
seus interesses próprios e à sua privacidade: eu e o meu corpo, necessária para ser reconhecido como sujeito de direito. Eis-nos,
eu e o meu bem, eu e o meu direito - isto é, também neste pla- ao que parece, no caminho que conduz à pessoa.
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no, a esquecer a essencial interdependência entre homem indi- Contudo, na medida em que a interioridade é também .. ,
vidual e humanidade social. Isto não nos aproxima da pessoa essencial ao sujeito, o escândalo filosófico é que possa haver,
ética. Seria então necessário abandonar o indivíduo ao indivi- para ele, outros sujeitos em posição de irremediável exteriori-
dualismo selvagem? Conviria sem dúvida, antes, ver aí- como d ade. Assim, o eu apareceria invencivelmente ameaçado de
no mercado e na democracia - uma conquista irreversível e encerramento solipsista no seu ,foro interior se, como bem fez
expansiva da civilização, mas conquista intrinsecamente plurí- ver a fenomenologia, a experiência do outro não devesse ser
voca, na qual embarcámos, para o melhor e para o pior. E será tida por constitutiva do sujeito na sua intimidade. Em registos
possível orientá-la para o melhor sem dar vigor a todos os pro- diferentes, Sartre e Lévinas, por exemplo, mostraram de que
cessos históricos susceptíveis de abrir o indivíduo à consciência modo o olhar que me é dirigido desdobra do ser-para-si no seio
daquilo que ele tem de comum com toda a humanidade, de tra- de mim-mesmo um ser-para-outro, ou seja, atribui-me uma
ÇéU as vias práticas de uma individuação solidária? Vasto indeclinável exigência ética para com o Outro. O outro é um eu,
empreendimento. eu é um outro, e ambos, diz Hegel, «reconhecem-se, reconhe-
cendo-se mutuamente»56. Ser reconhecido: tal é, como mostra
claramente a actualidade, a reivindicação cardeal do si. O sujeito
ACERCA DO SUJEITO
Esta dupla dimensão de abertura ao outro e de interiorida- 56 Hegel, Phénoménologie de /'Esprit, trad. Jean-Pierre Lefebvre, Aubier, 1991,
p. 152 (ou tradução de Jean Hyppolite, Aubier, 1939, T. I, p. 155).
de a si, demasiadamente ausente da noção de indivíduo, tem o

58 59
é, pois, com um mesmo movimento, clivado no interior e arga- própria fiabilidade da sua consciência estão, aí, directamente
massado no exterior, tão inter-subjectivo como subjectivo. em causa. Pois não é possível «levar em conta» o inconsciente
Trata-se de um ser, não substancial, mas_relacional: conquíst~ para pôr f9ra do_seu alcance ~!11 eu transparente a si mesmo,
importante da reflexão contemporânea, para aquém da qual já cujas finalidades e cuja liberdade escapariam às il~sÕes, ess~ s ­
não é concebível dar conta da pessoa. crenças governadas pelo desejo. Por que efectividade pode
Tal como o de indivíduo, o conceito de sujeito carregou-se exactamente tomar partido o sujeito exemplar que nos é descri-
de uma acepção sociopolítica - também aí, por uma torsão to, por que incondici~nalidade pode tomar partido o respeito
espectacular do seu sentido clássico. Sob o Antigo R€gíme, o que ele nos reclama? E este o momento de dizer que a bioética
sujeito é o homem submetido aos constrangimentos da ordem não pode ignorar o contributo da experiência analítica, inde-
feudal, sujeito ao monarca e à lei que é suposto ele encarnar. Na pendentemente do que se pense das diversas práticas e teorias
concepção pós-revolucionária, ele torna-se, pelo contrário, o nas quais ela se difractou: uma das mais claras lacunas na com-
cidadão teoricamente soberano, livre nos seus actos e forte nos posição das comissões de ética é o facto de ela não estar directa-
seus direitos. Por oposição à personalidade social compreendi- mente presente nelas.
d a como colecção d e papéis prescritos, suporte de funções De modo geral, não será a ideia de sujeito muito mais equí-
impessoais, ele é o actor, tal como o que exalta, por exemplo, voca que a de subjectividade? Se as experiências sem cessar
Alain Touraine - resistindo pür vocação aos atentados totalitá- renovadas do eu relevam, para cada um, da própria evidência,
rios, ou simplesmente burocráticos, afirmando, face a todas as o ser hipoteticamente subjacente, e mesmo o Sujeito com maiús-
lógicas de dominação, a da individualidade. Actor, aliás, tão cula ao qual se gostaria de as imputar em bloco será verdadei-
colectivo como individual: o eu que se apresenta opondo-se em ramente mais que uma ficação interpretativa? Para Touraine,
nome de uma consciência moral superior a qua lquer juízo por exemplo, «apelo à liberdade», que ressoa na história como
público casa-se com o nós dos movimentos sociais contestatários «força supra-social», o Sujeito seria, no fim de contas, um
e inventivas, sei.11 cuja iniciativa permaneceríamos puros apên- «princípio não social a que se deve chamar espiritual» e que
dices da sociedade. nos reconduziria muito legitimamente à ontologia humanista
Teremos, assim, identificado convenientemente a modali- do «direito naturab 57 . Se a subjectívidade é, por essência, rela-
dade mais específica do ser-homem? Contesto essa possibilida- ciona!, não esconderá uma tal ídeia do sujeito, invencivelmente,
de. Pois se o sujeito, tal como o estabelecemos brevemente, qualquer coisa da entidade metafísica? E não se arriscará então,
reenvia, sem dúvida, a uma dimensão crucial da gênese de si, a mesmo identificada com aespontaneidade do «actor», a perma-
interpretação que o autor dá dele pode suscitar dúvidas legíti- necer fechada à exigência moral do respeito pelo outro? Pois,
mas. A menos que nos comprazemos numa visão especulativa do mesmo modo que se pode compreender que um sujeito
das coisas, devemos, efectivamente, interrogar-nos sobre os
processos concretos pelos quais a criança se torna sujeito. Se se 57
Alain Touraine, Critique de la modemité, Fayard, 1992, pp. 254, 259, 341, 424, .
seguirem, por exemplo, as complexas análises freudianas do De notar as reticências do autor face ao conceito de pessoa, explicitado no
eu, vemo-lo esquartejar-se entre os requisitos do mundo exterior, p. 318. Alain Touraine aprova o facto de, no relatório da CCNE sobre
as pulsões do id e os imperativos do superego, de que ele se Recherche biomédica/e et respect de la personne humainc, obra citada, eu ter
afadiga, en\ grande medida inconscientemente, a ser o media- sublinhado, escreve ele, << que é o sujeito que é um valor, não a pessoa>>
(p. 328). Há aqui um manifesto mal-entendido: com efeito, se eu insisto, nes-
dor. As filosofias do sujeito opõem - a de Sartre é o exemplo
. se relatório, no momento psíquico do sujeito como <<momento de viragem
mais claro - uma resistência feroz ao franco reconhecimento do decisivo>> em direcção à pessoa, é claramente esta última que aí é compreen-
inconsciente, e compreende-se porquê: a unidade do sujeito, a dida como conceito do valor do ser humano (cj., nomeadamente, pp. 29-31).

60 61
auto-subsistente esteja apto a reivindicar direitos subjcctivos, A este termo, no entanto insubstituível, restituamos agora o
assim também, se se ignorar o seu laço constitutivo com a seu imenso objecto: aquilo que um homem faz da sua vida e
humanidade social - mesmo que ela não esteja presente m~le, aquilo q!le a sua vida faz dele. Corneç.:> .então a esboçar se urr•
como na moral kantiana, senão sob a forma de uma humar,ida- conceito fecundo: a personalidade como produtora de uma his-
de puramente ideal-, estará ausente dele a fonte legitimadora tória de vida que, ao mesmo tempo, a produz.SS É uma coisa
de uma obrigação ética incondicional face a todos os outros. Se a totalmente diferente de uma idiossincrasia nativa ou uma iden-
dificuldade do indivíduo é o individualismo, o sujeito também tidade cedo desenhada pela inscrição no simbólico, ainda que
tem uma dificuldade: o subjectivismo, tão funesto ao querer transporte, em toda ela, o seu traço: trata-se de uma dinâmica
como ao saber. biográfica que toma forma à medida que os actos começam a
Jazer qualquer coisa no mundo da vida. Mundo de práticas e de
relações, de significações e de regulações, cujas lógicas objecti-
ENTRE SUJEITO E PESSOA: vas são outras tantas formas indutoras de personalização- his-
tória familiar, atitude dos sexos, actos de trabalho, relações
A PERSONALIDADE financeiras, instâncias de poder, modos de consciência ... - nas
Para apreender a íntima conjunção de singularidade e socia- quais este «fazer qualquer coisa» deve «emalhar-se»59 e de
lidade, de interioridade e objectividade, que constituem este onde se tricota em cada um, segundo dialécticas inesgotavel-
humano integral de que indivíduo e sujeito exprimem aspectos mente originais, o que o constitui em societário activo dos seus
importantes, mas parciais, um terceiro conceito se nos oferece: semelhantes, próximos ou longínquos.
o de personalidade, outrora sinônimo da palavra pessoa. O mesmo se pode dizer da condição assalariada que o capi-
Conceito desdenhado, no entanto, pela antropologia filosófica talismo generaliza: ela é a força de trabalho e de saber pessoal
actual, o que não é dE' espantar. Pois a disciplina que se apre- que nele se troca directamente por dinheiro, forma universal da
senta como psicologia da personalidade propõe-nos uma sua riqueza social, pela qual cada um prova que é igual a todos os
versão pouco profunda. Apo~ada, por um lado, em tipologias outros, mas devendo renunciar mais ou menos ao domínio das
que combinam, segundo os casos, traços morfológicos, de modalidades e das finalidades da sua própria utilização, pela
carácter ou cognitivos, ela não vê neles senão uma panóplia de qual se aliena profundamente o ser humano, reagindo cada um
formas comportamentais vazias cuja origem permanece obscu- à sua maneira - e a passagem maéiça das mulheres ao trabalho
ra e a evolução improvável. Voltada, por outro, para a psicolo- assalariado não tem pouca importância nas profundas mudan-
gia social, ela redu-la simetricamente às variantes possíveis de ças do olhar que elas lançam sobre si próprias e sobre a vida.
uma suposta «personalidade de base» que nada faz, às diversas Assim, outro exemplo, o da adolescência, idade de vida que
disposições de uma colecção de papéis prontos a vestir, isto é, a
um personagem de confecção. Nesta dupla abstracção, a perso-
nalidade é apenas uma estrutura formal inerte que atravessa, 58 Foi este o conceito que procurei desenvolver em, Marxisme et théorie de la
personnalité, obra citada; cf também <<La personnalité en gestation», em Je -
sem o afectar, um fluxo contingente de acontecimentos vividos, -Sur /'individualité, obra colectiva, Éd. sociales, 1987.
susceptíveis de interessar, já não ao psicólogo, mas ao historia- 59 A palavra é do filósofo Yves Clot na sua tese de doutoramento, Le Travaii
dor, ao biógrafo, ao romancista. Compreende-se que um tal entre activité et subjectivité, Université de Provence, 1992, T. II, p. 786. Ver
conceito pareça subalterno . Com efeito, apenas lhe falta o também o seu estudo <<À l'école de I'adolescence>>, em Je- Sur l'individuali-
essencial: a própria vida do ser concreto na espessura do seu té, obra citada, à qual se deve a análise deste tempo de vida contida no
parágrafo que se segue.
mundo e na abertura do seu destino.

62 63
n'io tem razão suficiente, nem orgânica nem simbólica, inven- teando, o «carácter», mais do que um dado irreformável ancora-
ção social dos últimos séculos, com a escolaridade obrigatória, do nu~a identidade genética, aparece-me como 0 traço durável,
o trabalho retardado, a maioridade legal - uma idade que con- ~~s na? co~1gelado, de uma primeira idade, que a história da .
tinua, a.ild::t hoje, a alongar-se entre 'uma espécié de -infância Vida _:eu:terpreta e remodela profundamente nas SUaS longas
mais precoce e uma entrada mais tardia, e mesmo inacessível, constanc1as ou nos seus tempos fortes. Evidentemente irredutível
na vida profissional e nas autonomias adultas: é uma época ao indivíduo orgânico, a personalidade é também uma coisa dife·-
biográfica onde o futuro passa a ser, simultaneamente, ofereci- r~nte de um epifenómeno social do sujeito psíquico. Estas duas
do e recusado, atraente e repulsivo, à qual responde o vasto ~rmensões do eu não têm, nem a mesma gênese - o eu subjectivo
leque das reacções juvenis, da adaptação avisada à revolta mili- Ja tem as suas cores quando o eu pessoal toma forma - nem 0
tante ou à fuga para a droga. mesmo ritmo - a identidade psíquica é recorrente a dinâmica
De todas estas lógicas não resulta, para as pessoas, uma biográfica é, por essência, evolutiva. Elas mantêm a; suas distân-
simples justaposição de traços, mas a composição de uma figu- cias: complexidades identitativas muito diferentes, de modo
ra parecida com nenhuma outra, pelos sentidos pessoais de que n~nhum, se deixam unificar por lógicas biográficas semelhantes,
estão carregados os actos, pelas motivações e os motivos que os e mversamente. ~ontudo,_ elas interpenetram-se em cada pessoa.
animam através de uma afectividade, de um pensamento, de De que modo, afinal? Ate que ponto consegue a personalidade
valores, pela hierarquia inconstante destas motivações e destes reformar uma identidade originária ? Questão que continua a
motivos, onde se procura um alcance biográfico global. A per- ~star claramente em aberto. Em qualquer caso, dos dois lados
sonalidade não é apenas um passado, mas um futuro no pre- e~nos dada ~ma mesma opinião, e é essa que aqui nos interessa:
sente, projectado num emprego do tempo cuja estabilidade a1~da que seJa 5ransportado pelo indivíduo físico, o homem psí-
relativa durante uma época de vida nem por isso deixa de qurco releva, nao da natureza, mas da história e de uma história.
incluir, na base das contradições do mundo social, a possibili- Ser humanamente homem não é um estado, mas um acto.
dade do conflito, da crise, do bloqueamenlo, do retomar do
crescimento. A trajectória de uma vida pode ser sempre reaber-
ta, mas a chave das reaberturas está, para a maior parte das A PESSOA: SUBSTÂNCIA OU RELAÇÃO?
pessoas, na transformação colectivamente exigida de lógicas
históricas que se tornam um entrave à personalização. Assim, a . Procurar resolver o enigma da pessoa valia este longo des-
personalidade na qual vêm complicar-se, o indivídu o e o sujeito VIO pela hominização. Mas ele parece desembocar num resulta- I
I
é o microcosmo da humanidade social. E nela que se provam a do inesperado: haverá, afinal, um enigma? Para conceptualizar II
coerência ou a incoerência, a viabilidade ou a inviabilidade de o ~e.r humano singular, tivémos que falar de indivíduo, de ~i'
um mundo, é nela que nascem as críticas e as rebeliões, os SUJeito, de pe:sonalidade. Não deparámos com a exigência de
sonhos e as iniciativas que desabrocharão em tomadas de res- acresce1~tar a Isso a ~e~soa. Para lá da acepção banalizada que !'
ponsabilidade, em intervenção prática, em invenção espiritual ela partilha, no quotidiano, com a palavra indivíduo, será ela, ll'
à medida das vastas mutações biográficas em curso, esse formi- err: ~u~a, outra coisa que uma interpretação espiritualista do
dável motor possível para um futuro mais humaniza do. SUJeito, um duplo especulativo da personalidade? Quando
Indivíduo biológico, sujeito psíquico, personalidade bio- Théodule Ribot intitulava, em 1885, um dos seus livros Le:;
gráfica: três modalidades enredadas da singularização humana, Ma/adies de la personnalité*, fazia-o por recusa expressa de recor-
onde é fortemente subestimado, em geral, o alcance de uma
hominização nunca acabada. Assim, aquilo a que se chama, tac- * As doenças da personalidade. (N. T.)

64 65
rer à palavra pessoa considerada, na psi~o~ogia cient~fica nas- como uma substância - espiritual ou material. A ideia de subs-
cente, como inseparável da crença metahs1ca na realidade da tância é a de um dado subjacente que subsiste por si mesmo.
alma ou, pelo menos, na unidade ontológica do eu. E quando, Tudo contradiz uma tal caracterização naquilo que sabt:>nos do
vi nte anos mai s tarde, Renouvier, em França, Stern, na ser humanamente homem. Ele não é dado, mas constrói-se.
Alemanha, ou Browne, nos Estados Unidos, elaboram o perso- Nada de subjacente nele poderia ocupar o lugar de uma tal
nalismo, não será para tentar dar lugar, não somente ao materia- actividade. Ele é menos subsistente que existente. E não existe
lismo prático do individualismo burguês e do socialismo ope- por si só, mas pelo outro, pelos outros, pelo género humano.
rário, mas também ao materialismo teórico de uma ciência do Em qualquer variante moderna - sociobiologia, mitologia da
homem cujos-ensinamentos têm qualquer coisa de irrecusável? «psychê» - , nenhum substancialismo pode conseguir hoje o
Ponhamos então a questão com clareza: para além dos juristas, acordo. O que é uma sorte para a ética, pois substancializar a
quem precisa do conceito de pessoa? . . pessoa não seria, num certo sentido, e muito perigosamente,
Que o termo tenha o seu húmus cultural- em pnmeuo coisificá-la?60 Mas há que avaliar as consequências deste suces-
lugar religioso - e, por este facto, uma coloração ideológica, é so: renunciar a _ver na humanidade própria do homem uma
coisa que não será contestada. Também indivíduo, sujeito, per- substância é reconhecê-la como processo. Acabaram-se portan-
sonalidade têm os seus: não há conceitos ideologicamente neu- to, nela, os começos súbitos, as fronteiras delimitadas, as mar-
tros- nem mesmo o de neutralidade. Mas aquilo qu e conta cações imutáveis. O que dá à moral preocupações e trabalho.
aqui é saber se o conceito de pessoa visa um aspecto incontor- Optaremos então por uma concepção relaciona! da pessoa?
nável da realidade humana que se supõe que outras perspecti- A ideia convenceu, a palavra faz figura. Alimentado pelas aná-
vas visem igualmente e com base no qual possa, consequente- lises do sujeito, o racionalismo marca um duplo progresso de
mente, rea lizar-se o entend imento público. Parece-me que fundo sobre o substancialismo. Ele acorda incomparavelmente
temos boas razões para estarmos convencidos disso. Pois, para melhor a representação da pessoa com as conquistas das ciências
lá das teorizações particulares, aquilo que a palavra pessoa diz,
humanas, ao mesmo tempo que com as lições da experiência
propriamente e a todos, é que, diferentemente da coisa, o ser
vivida. E permite pensar no seu valor já não como uma proprie-
humano tem uma dignidade 'que motiva o respeito. Eis a única,
dade metafisicamente atribuída a um ser insular, mas como
mas decisiva, originalidade de sentido que no-Jo torna indis-
uma exigência concreta intersubjectivamente experimentada . A
pensável: da ordem do facto ele transporta-nos para a ordem
pessoa e a sua dignidade aparecem, assim, laicizáveis, de uma
do valor. Indivíduo, sujeito, personalidade são conceitos no
maneira que continua, contudo, aberta às interpretações religio-
indicativo. Em pessoa há o imperativo, e esta imperatividade é,
sas. O problema está, então, resolvido? Muitos pensam que
ela própria, um feito confessado de que ninguém, qualquer que
sim, mas nem por isso podem iludir graves dificuldades.
seja a sua cultura ou a sua ideologia, pode abstrair. A questão
Em primeiro lugar, de ordem técnica. Ao desubstancializar
passa a ser: quem tem medo do conceito de pessoa?
a pessoa para fazer dela um nó de relações, pensa-se tê-la insta-
Mas aquilo que revela o desvio pela hominização incita-nos
lado no coração do mundo dos homens. Mas não se socializou
e autoriza-nos a retrabalhá-lo para o definir em termos empiri-
o sujeito psíquico senão psicologizando a relação social. Pois as
camente mais validáveis, na óptica de um entendimento laico -
relações constitutivas de uma sociedade não são simples relações
o que não proíbe quem quer que ache que ela faz falta de lhe
acrescentar a fé. E, digamos, para já, apesar de uma longa tradi-
ção actualmente muito estafada, que já não podemos, de modo 60 Cf Paul Ladriere, «La notion de personne>>, em Biomédecine et devenir de la
nenhum, fazer repousar o valor da pessoa na sua representação personne, obra citada, p. 31.

66 67
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directas de sujeito a sujeito, mas antes, muito mais profundamente,
conexões mediatas entre os homens - não somente os próximos,
PESSOA E ORDEM DA PESSOA
mils os dic;t;:mtes, aqueles com quem mmca cruzarei um olhar - ,
através Jas construções objectivas como o mercado ou o sufrágio «Sem um ponto de apoio substancial»: é este o fulcro da -, ...
universal, o Código Penal ou as instituições internacionais. . questão. Pelas i:Up?rtan:es r~zões m:ncionadas, a vis,ão da pes~
Digamos, com o sociopsicanalista Gérard Mendel: a sociedade não soa corno substanc1a esta, hoJe em d1a, desqualificada, e, contu-
é uma família.61 Assim, a relação do trabalho assalariado com o do, comportava um aspecto de que muitos se confessam nostál-
capital é infinitamente diferente da eventual relação do empregado gicos: com ela, o valor da pessoa não estava à mercê dos humo-
com o PDG. Quando se centra a pessoa nas relações interpessoais, res de um sujeito ou dos caprichos de uma época. É por isso
faltam as lógicas sociais cuja transcendência é manifesta relativa- que vemos espíritos, avisados, sem dúvida, dos impasses onde
mente àquilo que pode revelar-nos uma fenomenologia do vivido. nos encerra o substancialismo, mas angustiados pelo laxismo
Este défice de objectividade tem ·grandes consequências no que o racionalismo não proíbe, refluir para o primeiro sob a for-
plano moral. Se a exigência ética do respeito pela pessoa não ma do «se fosse possível...». Ser-nos-ia necessário, escreve, por
tem outro fundamento que não seja a relação intersubjectiva na e_xemplo, Bernard Edelman, retomando uma linguagem filosó-
qual eu estou envolvido, onde está a garantia essencial de que fica de outrora, um ponto de vista firme sobre a «essência» da ./
~ lj

ela conservará, para mim, a sua força de obrigação, para além humanidade. 63 E há muitos outros que, como ele, não encon- . i'
dos limites temporais da sua anunciação? Pensa-se tê-la sub- t~~m salvação senão na surpresa divina de um regresso à meta-
traído à desafecção relativamente às crenças metafísicas para a flsica, de uma reabilitação da mítica natureza humana, de uma
enraizar numa indubitável experiência, mas não se a terá entre- ~o~un hão laica à volta do sagrado entregue à salvaguarda «do
gue a todas as incons tâncias da subjectividade? Há quem Junsta que vela, sozinho e sem apoio, pelo simbólico»64 - ima-
defenda, por exemplo, que o embrião congelado participa da gem pungente de voto piedoso. Pois quanto mais esta busca
pessoa em virtude do «projecto parental» que nele investiu um pelo absoluto se orienta contra a maré dos saberes e das atitu-
casal envolvido numa procriação assistida. Mas então, termina- des_às quais muitos outros de modo nenhum querem renunciar,
do o projecto, eis o embrião convertido, de repente, em pura ma1s afasta, por sua vez, as condições de um acordo geral anti-
amálgama de células. Seja qual for o ponto de vista filosófico -relativista.
em que nos coloquemos, não haverá aí uma consequência infi- É aqui que a conquista, demasiadamente desconhecida, de
nitamente perturbadora? De que modo pode o relacionalismo um desvio pela hominização aparece como decisiva. Quando
antropológico escapar ao relativismo ético? Não nos parece que não se a i~clui no enunciado do problema, procura-se a quadra-
ele tenha respondido adequadamente a esta questão crucial. É tura do circulo: uma base para o valor da pessoa que tenha, ao
para ele que apontam, justamente, Anne Fagot-Largeault e mesmo tempo, a subjectividade de uma relação e a objectividade
Genevieve Delaisi de Parseval: «A ontologia relaciona! está na de u~!' sub~tância. Ora, se se quer realmente alargar o campo
moda. Mas não é evidente que uma ontologia puramente rela- de v1sao, ca1-se neste misto impossível de encontrar: o mundo
ciona!, sem um ponto de apoio substancial, nos faz oscilar no do homem, sem a formação milenar do qual, estaríamos ainda
arbitrário? Um ser humano pode ser desejado hoje e rejeitado a talhar os nossos primeiros sílex. Ele tem a objectividade de
amanhã. Teremos de aceitar que os velhos que já ninguém quer
deixaram de ser pessoas?»62
~! L'Homme, la nature et le dro_it, obra citada, p. 285.
Ib zd., pp. 8 e 104. Cf tambem «Entretien avec Bernard Edelman>>, em Actes,
61 Gérard Mendel, La Société n'est pas une fmnille, Éd. La Découverte, 1992. n .os 67-68, Setembro de 1989, pp. 68-78, e Bernard Edelman, «Génétique et
62 «Qu'est-ce qu'un embryon?>>, artigo citado, p. 103, nota 7. liberté>>em Droits, n.º 13, Abril de 1991, pp. 31-42.

68 69
uma substância - material ou espiritual -, sendo uma coisa lícito e ao proibido, ao louvável e a:o censurável. Da mesma
completamente diferente: uma instância onde a materialidade e maneira que o lingote, a pessoa não tem valor por natureza,
a, espiritualidage não s.~o atributos iner.tes, mas actividades mas também não o tem por uma pura imputação subjectiva ou
vivas. E tem a subjectividade de uma relação, sendo, contudo; decisória. O valor vem à mercadoria de uma soma de trabalho ,
mais do que qualquer outra relação: sendo um conjunto de social; à pessoa, vem de u~ imenso labor de civilização, de :
relações, que a ultrapassam com toda a sua objectividade social, uma humanidade poderosamente constituída e constituinte
e que, contudo, não têm outro sentido que o de serem sem incluindo os antagonismos - de que ela se faz sócia. Repetimos,
cessar apropriadas, subjectiva e intersubjectivamente, pelos _ naturalmente, essa tese filosófica segundo a qual não há passa-
indivíduos que contribuem, em conjunto, para o seu devir. gem do facto ao direito, Mas, se me voltar para o mundo real,
Se a dimensão axiológica do ser humano não emana de constato aí que esta passagem é, ela própria, um facto constante.-
uma «natureza» que há nele - física ou metafísica - , também Ao mesmo tempo que produz instrumentos e signos, a humani-
não se explica suficientemente a partir de uma intersubjectivi- dade produz também normas e valores. A dignidade da pessoa
dade vivida ou de uma ficção jurídica. Uma troca de olhares, releva também destas produções históricas - ainda que elas
um símbolo de convenção, um vapor, a pessoa e o seu valor? sejam uma das suas formas «supra-sensíveis» mais complexas.
Mas isso é uma floresta de práticas, de representações e de ins- Afastemos imediatamente uma possível incompreensão.
tituições sociais! É o estado civil e o cemitério, a utilização civi- Constatar que a passagem do facto ao direito é um facto não
lizada e a sua elaboração diária, o conflito moral e a sua discus- equivale, de todo, a pretender que esse facto valha como direi-
são inesgotável, é o contrato e a assinatura respeitada, o código to: permanece a possibilidade de julgar se o humano não será
penal e a advocacia, o mandato electivo e as virtudes cívicas, é inumanl'l . A análise precedente nada deve à tola afectação de
a generosidade pública e as leis anti-racistas, o júri de honra e a optimismo ou à cínica profissão de realismo, qual das duas a
comissão de ética, o sentido do sagrado e o espírito de tolerân- mais escandalosa, relativamente às barbáries do século. Se tudo
cia, são os Direitos do Homem e as reivindicações da dignidade, aquilo que é tem a sua razão de ser, só o positivismo mais gros-
a figura de lenda de Antígona e o heroísmo anônimo de inume- seiro pode concluir daí que tudo o que é merece ser. Era este
ráveis vidas quotidianas. E"é também uma vegetação rasteira pseudo-hegelianismo que Marx fustigava no seu tempo, ao vê-lo
de formas psíquicas correspondentes nas individualidades: é o assumido por um campeão da escola histórica do direito, aos
superego freudiano e da boa vontade kantiana, a estima de si e olhos do qual «o Alemão que educa a sua filha para fazer dela a
a preocupação pelo outro, a tomada de responsabilidade e a jóia da família não é mais positivo que o Rajpoute que a mata a
objecção de consciência, é a oração e o diário íntimo, a indigna- fim de se livrar da preocupação de a alimentar»6s. E Marx
ção e o escrúpulo, o orgulho e o pudor, a disciplina e a revolta, comentava sarcasticamente: «Toda a existência tem para ele
é a solidariedade e a intransigência, é «do horizonte de um só valor de autoridade, toda a autoridade valor de argumento.»
ao horizonte de todos» e «se apenas restar um serei eu». Compreender etnologicamente a prática da excisão não é admi-
A pessoa é a ordem civilizada da pessoa, onde o valor do ti-la eticamente: a objectividade de uma prática social não me
humano é socialmente objectivado de cem maneiras- taL como exonera em nada da minha responsabilidade apreciativa pessoal.
são objectivadas as suas negações hipócritas ou brutais -, mas Mas esta apreciação é, por sua vez, socialmente mediada por
ordem interiorizada, incorporada mais ou menos em cada um todo um mundo de concepções jurídicas e de representações
sob diversas formas que, validadas, contraditas, emendadas em
consciência, regressam, pelos seus aetos, à objectividade social. 65 K. Marx, «Le manif~ste philosophique de l'école historique du droib>, em
É a própria dialéctica da hominização enquanto diz respeito ao Oeuvres philosophiques, Gallimard, La Pléiade, 1982, T. III, p. 223.

70 71
morais, de regras argumentativas e de procedimentos filosóficos, cesso tão específico que é a personalização ética. Pois se o sujei-
toda uma cultura ao nível da qual o afrontamento das práticas to e a personalidade constituem singularizações psíquicas do
_pode trrutsmutar-se em confronto dos valores, por vezes até à con- indivídücÇa .pessoa, por sua ve_z, envolve, pelo contrário, a &..IJ -
vicção partilhada. De que pode reclamar-se uma partilha deste um versalização moral. E de que modo pode o ser singular tor-·
gênero? É essa a questão que será explorada no próximo capítulo. nar-se para os outros, ao mesmo tempo que para si mesmo, um i
O valor da pessoa não permanece, portanto, bem entendi- valor universal? Trata-se do próprio problema que formuláva~
do, na embocadura majestosa de um longo rio tranquilo. Ele é mos no início deste capítulo, ao perguntarmos de que modo a
antes o envolvimento, perpetuamente em remoin11o, dos seus ficção abstracta da pessoa pode tranformar-se em realidade con-
meandros e dos seus rápidos. Ele é polaridade, const~~temente creta de uma pessoa- o que é totalmente diferente da interioriza-
em luta com o seu contrário. Um certo sentido dialéctico não é, ção de capacidades no indivíduo: o surgimento, nele, de prerroga-
neste caso, supérfluo: não recobrirá a própria ideia de \lalor tivas que obrigam todos os outros. Eis-nos encostados à parede.
uma flagrante antinomia? Todo o valor, no sentido axiológico Ora, o modo de inerência que se trata de elucidar foi, até
da palavra, é um exigível inacessível: se fosse acessível, não agora, tão pouco pensado teoricamente que faltam os conceitos
seria mais do que um futuro próximo; se fosse inexigível, tor- para o determinar com exactidão. Kant, como vimos, recorria
nar-se-ia uma extravagância. Ele afirma que um determinado ao de imputação. Mas esta velha palavra, para além da sua pro-
traço da humanidade deve existir e que, contudo, não pode ximidade inoportuna com a linguagem da culpa, apenas diz
existir. Frequentemente, consideramo-nos desobrigados com respeito à relação de um acto com um agente, quando o que é
uma tal contradição, situando-a com resignação num afasta- preciso é caracterizar a relação, bem diferente, de um valor com
mento eterno do ideal do real. Mas não será isso acomodar-nos um ser. É face a um problema deste tipo, encarado por ele de <

com demasiada facilidade com um real que é nada menos que ~i1
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um ângulo mais abstracto, que, em Soi-même comme un autre,
ideal? Se o ideal é verdadeiramente um dever-ser, não será Paul Ricoeur retoma o termo do filósofo Peter Strawson, to ~-t
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então assim tão estranho ao ser; se formula uma sua exigência, ascribe, para propor o conceito inédito de «ascripção*»66 - neo-
ele exprime, pelo menos, um possível. Mas, não sendo senão logismo franglês que, uma vez sem exemplo, me parece um 'li
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ideal, confessa também que é impossível neste mesmo real. A verdadeiro progresso na reflexão antropológica. ·I ~jl
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contradição manifesta entre ideal e real vela e revela, assim, Seguindo aqui livremente, naquilo que nela nos motiva, a
uma contradição latente do real consigo próprio. É o mesmo análise de Paul Ricoeur, o que é a ascripção? É uma espécie tão
mundo humano que afirma a dignidade da pessoa e que a particular de atribuição que volta a pôr em causa a lógica tradi-
nega. E nada pode, consequentemente, dispensar-nos de traba- cional, mais própria para tratar das questões físicas que das
lhar neste mundo para fazer prevalecer esta afirmação sobre morais. Poderíamos dizer, por exemplo, que o respeito pela
esta negação. O valor da pessoa não apela somente ao debate palavra dada é atribuível à pessoa? Esta formulação sofreria de
mas, em muitos casos, a um combate. um grave equívoco: seria o decreto - sempre justificado --
daquilo que a pessoa é de direito ou a constatação - frequente-
mente contestável- daquilo que ela é de facto? Ultrapassamos
NO CORAÇÃO DO PROBLEMA: este equívoco ao dizer que o respeito pela palavra dada é
ascriptível à pessoa, ou, dito de outro modo, que pertence ao
OS PROCESSOS DE ASCRIPÇÃO
Compreender a formação histórica de uma ordem da pes- * «Ascription>>, no original. Traduzimos directamente. (N. T.)
soa não é, contudo, ainda deixar completamente claro este pro- 66 Paul Ricoeur, Soi-même comme un autre, obra citada, pp. 109 e seguintes.

72 73
repertório das suas características obrigatórias, se ela merece o Falta compreender de que maneira se estabelece, concreta-
seu título. «Ascrever não é descrever»: não é designar um mente, a este último título, a sua definição compreensiva - que
modo de ser. de qualque~ coisa, mas atribuir a alguém um prerrogativas e obrigações para a pessoa?- e extensiva- quais
modo de se comportar. Entretanto, ascrever difere igualmente os candidatos a ser uma pessoa? O modo habitual dé encarar â
de prescrever, pois a pre~çrição não pressupõe o assentimento questão permanece, com demasiada frequência, ·na minha opiJ
daqueles a que diz respeito, mas a ascripção envolve também a nião, marcado pela desatenção ao papel insubstituível do mun· "'
inscrição que se faz neles: quando algo é ascripto a alguém, do social, que não é verdadeiramente compreendido como
esse alguém ascreve-se-o ele próprio, desde o momento em que aquilo que é: a própria humanidade na sua dimensão objectiva.
se designa como pessoa. A ascripção consiste precisamente nes- Ora, o facto de se a pôr entre parêntesis condena-nos a um dile-
ta «reapropriação» pelo sujeito. E não é tudo: visando, não o ma pouco exaltante: fazer nascer a definição procurada de urna
indivíduo na sua particularidade, mas o humano na sua gene- autodeterminação originariamente subjectiva - como se a pes-
ralidade, a ascripção a um é também ascripção a todos os soa pudesse instituir-se a si própria, fora da sua ascripção pela
outrosP Ela é, à partida, interpessoal e recíproca. Em suma, a ordem da pessoa - ou fazê-la nascer de uma citação puramente
ascripção é o modo de atribuição que apenas convém quando objectiva - como se a ordem da pessoa pudesse, por sua vez,
reportamos ao ser individual características universais da pessoa. acreditar-se fora da sua apropriação pelos sujeitos reais. Pessoa
Tirando resolutamente este precioso conceito do lado das «de facto» sem legitimidade, de um lado, pessoa «de direito»
ç, ;m as concretas da hominização, mais do que das lógicas abs- sem efectividade, do outro: será possível escapar a este círculo
.. rtas da atribuição, direi que a ascripção de uma dignidade é o vicioso sem perceber que, entre a moção de base de um eu e de
.resso pelo qual o ser individual vem a deter em-si e por-si a um tu tomados à parte e a deliberação ético-jurídica do topo, a
, Mlidade de associado do gênero humano. Naturalmente, isto determinação do campo da pessoa é centralmente um processo
1 .. . o se faz sem muitas discordâncias. Enquanto pessoa, posso civilizador, engendrado interactivamente no quotidiano, de
mostrar-me indigno; e posso ser tratado indignamente. E con- maneira pré-reflexiva, sem dúvida, mas de modo nenhum
tudo, a concordância de princípio persiste, pois o objecto desta irreflectida, por todas as práticas e por todas as consciências
ascripção é, por essência, um equivalente universal: possuir o humanas?
estatuto de pessoa identifica-me em dignidade com todos os
outros; ligado a esta dignidade, sou corresponsável com todos
os outros pelo seu estatuto. A pessoa é uma relação humana, ETHOS E ÉTICA
uma prerrogativa ética que, ao mesmo tempo, me pertence e
me ultrapassa: aquilo que, nela, me pertence ultrapassa-me, Num estudo sobre as modalidades de controlo das malfor-
aquilo que, nela, me ultrapassa pertence-me. Ela faz do homem mações congênitas, F. A. Isambert, notando a «dimensão ética
aquilo a que os filósofos chamam um ser genérico, responsável implícita» destas práticas, escreve que se «pode considerar que
pelo seu gênero como bem próprio e como bem comum. elas encobrem um conjunto de normas vividas, mas não codifi-
Neoformação histórica do ser humano, como o sujeito e a per- cadas, e de valores admitidos, mas não sistematizados, em
sonalidade, a pessoa é-o portanto, não apenas no sentido psí- suma, um ethos ». Nos Estados Unidos, sublinha este autor, a
quico, como aqueles, mas também no sentido axiológico: é existência de um «corpo de moralistas» teve uma importância
intrinsecamente um conceito de valor. decisiva para que o ethos fosse elaborado, constituindo uma ética.
«Mas não esqueçamos que a função cria o órgão, e o desenvol-
67 Ibid., pp. 52, 117, 121.
vimento deste corpo de moralistas está relacionado com uma

74 75
demanda ética», dos médicos e dos biólogos, confrontados com esboçado pela iniciativa social, e sem sequer evocar o princípio
escolhas difíceis, bem como dos meios sociais, interessados em do dom gratuito que é a sua alma.
tomar ·decisões esclarecidas. 68 Estamos, aqui, no coração do Percebemos por este exemplo até que pontoJazPr depender · ·
processo civilizador onde se opera, não sem conflitos, a ascrip- · o estatuto da pessoa exclusivamente dos decretos do direito ou ·
ção social da pessoa. Em França, um exemplo típico desta ela- dos apelos a uma pura subjectividade está longe dos ensina- '
boração colectiva foi a formação de um ethos doravante capital: méntos da experiência. Se a pessoa repousa sobre a ordem ins-
a doação de sangue, benévola e gratuita, cuja história apaixo- tituída da pessoa, não será esta ordem mesma, em primeiro
nante está ainda muito pouco escrita69, e que introduziu duas lugar, a que modela em permanência uma vontade humana
inovações profundas na definição extensiva e compreensiva da comum? E se, na França actual- apesar do contexto cívico cla-
pessoa: a sua dignidade deve ser estendida aos constituintes do ramente alterado e das terríveis falhas de um sistema transfusio-
corpo humano; ela implica que não se possa tratá-los como nal cuja inspiração humanista se deixou penetrar por lógicas
coisas venais. muito diferentes - , o princípio de gratuitidade continua a ter
Antes da guerra, vendia-se o próprio sangue, como se pode futuro, não será, antes de mais, porque 84% das francesas e dos
ver no filme Hôtel du Nord, e havia mesmo quem fizesse greve franceses se declaram ainda muito ligados a ele?70 Sendo a pes-
pela sua revalorização. A prática da gratuitidade da doação não soa, por essência, relação, não é de espantar que o seu lugar
substituiu esta prática da venda em virtude de uma súbita ilu- seja este vai-e-vem: entre as práticas de todos e de cada um, nas
minação filosófico-jurídica. Ela estabeleceu-se, não por acaso, quais ela toma corpo, e as jurisprudências que a precisam, as
na seq uência do conflito mundial, no fio das solidariedades instâncias que a teorizam, as instituições que a oficializam, mas
estab;~lecidas aquando d os combates da guerra e da sempre para regressar à experiência partilhada onde ela é posta
Resistência, onde a transfusão de sangue de um braço para à prova e evolui.
outro perdia todo o seu carácter mercantit no contexto do Assim, a nova medida da pessoa, inaugurada pela prática
generoso clima da Libertação, marcado pela renovação do espí- popular da doação do sangue, produziu nas nossas vidas mui-
rito público, pelas nacionalizações e pela construção da tos outros efeitos coerentes - codificados, como a doação dos
Segurança Social. Ela deve imenso a personalidades nas quais órgãos, ou não: o leite ma terno continua a ser oficialmente
encarnavam estes ideais humanistas, como a do Dr. Arnault venal em França, mas a maioria das mulheres que fornece 'os
Tzanck, mas a indispensável rede dos dadores benévolos não lactários deseja fazê-lo gratuitamente. Percebemos aí, com cla-
teria podido constituir-se sem as poderosas tradições de entre- reza, um dos mil caminhos civilízadores da pessoa no mundo
ajuda alimentadas pelo movimento sindical e o envolvimento social. Não chegaríamos ao mesmo resultado estudando a
íntimo de centenas de milhares de trabalhadores. A lei de 2 de gênese de consensos mais ou menos largamente maioritários -
Julho de 1952 mais não fez que organizar o sistema transfusional como o consenso acerca da IVG* - ou que se procuram em ten-
tativas contraditórias- por exemplo, o consenso sobre a escolha
68 François-André Isambert, «Éthique et génétique>>, em L'Amniocentese et les
das características da criança por nascer -, através dos quais
médecins, Caderno n.º 1 do Centro de sociologia da ética, EHESS /CNRS, continuam inevitavelmente a desenhar-se os contornos e os
1980, pp. 3 A e 35 A.
69 Cf., para uma visão de conjunto, o relatório da CCNE feito por Georges
David, Transfusion sanguine et non-commercialisation du. corps humain, 2 de 70 Cf. o inquérito de opinião BV A/Viva em Viva (La Vie mutualiste), n.º 60,
Dezembro de 1991. Cf. também Bernard Génetet, «Éthique française et don Setembro de 1992, pp. 8 a 13.
du sang», em Actes de 3e Congres international d'étlúque médica/e (9-10 de * Interrupção voluntária da gravidez (iniciais da fórmula francesa: interrup-
Março de 1991), Ordem nacional dos médicos, 1992, pp. 226 e seguintes. tion yolontaire de grossesse). (N. T.)

76 77
conteúdos da pessoa? E não foi isso que puseram já fortemente sofa de orienta ção muito diferente da minha, Claudie Lavaud.
em relevo os historiadores das mentalidades, a propósito da Avançando a ideia de que há, «para todos os homens de boa
formação das atitudes relativamente à loucura e ao internamen- vontade».. «um certo número de definições fundamentais se>bre
to psiquiátrico, à morte e aos ritos funerários - ou, noutro pla- àS quais se deve poder estabelecer um acordo, independente-
no, aquilo que releva do estudo de imensos processos civiliza- mente das grandes opções filosóficas», ela alega, em relação a
dores, como a abolição da escravatura, ontem, ou a marcha, isso, como prova «o facto de haver, no seio da Comissão Nacional
ainda tão laboriosa, no sentido da completa igualdade das de Ética, um filósofo, Lucien Seve, que, ainda que marxista, e
mulheres, hoje? portanto, em princípio, materialista, concede um lugar impor-
Também aí, previnamos os mal-entendidos. A tese que eu tante à noção de pessoa». Sendo então questionada sobre aquilo
defendo não é que os costumes fazem a ética - eles podem, que pode tornar esta noção «conciliável» com o materialismo, a
indubitavelmente, fazer a falta de ética -, mas que a ética se faz entrevistada sugere que se deve, indubitavelmente, procurar
principalmente neles - pelo menos na sua parte mais humana- essa conciliação «não somente na relação com um outro, ele
mente criativa. Não se trata, portanto, evidentemente, de erigir mesmo pessoal, mas na vida social e na constituição de um
o facto em direito, de minimizar a responsabilidade da consciên- mundo humano»71 . Seria difícil dizer melhor em tão poucas
cia, a exigência do conceito, a eficácia do direito, nem, muito palavras.
menos, de apagar o curso frequentemente antinómico e confli- É verdade que sou, como muitos outros neste país, materia-
tu al, por vezes d rama ticamente regressivo, da reprodução lista -não somente em princípio, mas por princípio. E não é
colectivamente alargada da pessoa. Trata-se de reparar a dema- apesar, mas em função, desse princípio que eles, como eu - ain-
siadamente frequente e tão lamentável omissão de que é víti- da que em termos diferentes - , levam muito a sério a pessoa e a
ma, numa grande parte da literatura bioética, o próprio centro sua dignidade. Que isto conduza a voltar a pôr em causa, tam-
do seu tema: não tanto aquilo a que se chama por vezes, com bém seriamente, alguns laços comuns desagradáveis sobre o
uma fórmula um pouco condescendente, o «papel da opinião materialismo filosófico parece-me conveniente. Não será um
pública» - essa forma mais passiva, manipulável e versátil do pouco espantoso, por exemplo, ler na pluma de um filósofo
julgamento de um povo - , mas a importância inestimável das considerado que «para as interpretações materialistas», «todas
práticas de vida carregadas de sentido onde se cumpre aquilo as operações que o sujeito se atribui são redutíveis ao funciona-
que merece ser tido por mais do que uma hominização : por mento que o sustenta»72 - como se defen der o materialismo sig-
uma humanização. Pois é por aí que a pessoa se torna verda- nificasse querer fazer sair o homem social do homem neuronal.
deiramente, enquanto valor, realidade humana ou, para retomar Em suma: como se pode ser materialista? Em mais de uma obra
um termo feliz de Albert Jacquard, humanitude. ou colóquio de ética biomédica, há quem afirme, de passagem,
em tom de evidência, que numa «visão materialista» o embrião

A PROPÓSITO E OPORTUNIDADE
DO MATERIALISMO 71 Em Bulletin, revista editada pelo CLCJ de Bordéus, n.º especial 23 bis sobre
«La bioéthique», 4.º trimestre de 1990, pp. 41-42.
72 Jean Ladriere, «Expérimentation humaine et droits de l'homme: perspecii-
Detenhamo-nos aqui um instante: não será estranho que ves philosophiques>>, em Expérimentation médica/e et droits de /'homme, obra
um materialista assuma assim a defesa da realidade da pessoa citada, p. 194. Cf, entre tantos outros exemplos, Frédéric Lenoir, Le Temps de
ética? A interrogação não é retórica. Encontramo-la, por exem- la responsabilité, Fayard,I991, p. 47, onde «uma visão puramente materialis-
plo, numa estimulante entrevista acerca da moral com uma filó- ta do homem>> é dada como podendo «abrir as portas a todas as tiranias>>.

78 79
não poderia ser outra coisa senão uma amálgama de células, ou século passado, para alimentar igualmente o racismo de uma
o parentesco um laço biológico: tanto pior para os materialistas direita elitista 74 ou a variante francesa de um eugenismo, cujos
que sustentam exactamente o contrário. Estaríamos ainda, por traços estão longe de estar apagados em diversas orientações
urn lado, nesses tempos em que Leibniz chamava caritativa- · actuàis da bíomedicina. · ·
mente ao materialismo paupertina philosophia, isto é, filosofia do Mas poderia - e deveria - saber-se que o materialismo dest
pobre - e isto no século de Hobbes e de Spinoza? E ainda deve- te século, sem nada deixar perder das conquistas da biologia, S@
mos dar-nos por muito felizes por não estarmos incluídos no desenvolveu abundantemente em muitas outras direcções: na 1
campo do «materialismo totalitário» por não considerarmos da exploração analítica do inconsciente e do sujeito, tal como a
que infligir penas de prisão às mulheres que recorrem à IVG franqueou o materialista Freud; na da exploração da abertura
constitui um grande progresso do humanismo.73 Um materia- antropológica operada pela teoria da hominização, que tanto
lista tem menos direito que qualquer outra pessoa a que o seu deve à obra desco nh ecida de materialistas com o H enri
pensamento seja respeitado? Piéron75; na da interrogação múltipla das relações soéiais, tor-
Na verdade, existiu efectivamente aquele materialismo nadas muito mais legíveis pela cultura saída de Marx - com a
para o qual o cérebro segrega o pensamento como o fígado qual a vulgata «marxista-leninista» dos países desde então socia-
segrega a bílis - e existiu na mesma época em que o espiritua- listas tinha mais ou menos a mesma relação que o Syllabus com
lismo defendia, por seu lado, a alma substancial. E pode acon- o Evangelho. Redutora, uma tal abordagem polimorfa do ser
tecer que hoje, entre espíritos mal informados, se prossiga o humano? Aquele que o julga com condescendência estará segu-
aflitivo duelo destes fantasmas. No esteio do homem-máquina ro de não ter, ele próprio, uma visão terrivelmente reduzida?
cartesiano, prosperou toda uma tradição francesa de materialis- Evidentemente, ele pensa em «biologismo» e traduz maquinal-
mo médico, de La Mettrie a Cabanis, de Broussais a Broca, e a mente por «materialismo» . Orai este último é uma atitude filo-
outros, mais próximos de nós. Só um profundo desconheci- sófica de conjunto, tão pouco identificável com um reducionis-
mento da história das ideias poderia fazer subestimar aquilo mo biológico- ou sociológico- quanto o espiritualismo o é, por
que esta tradição trouxe à inteligência moderna do homem físi- exemplo, com o idealismo absoluto.
co. Mas é bem verdade que, ao mesmo tempo, ela não cessou O materialismo; dizia Engels, não é senão o empreendi -
de ser agravada por terríveis estreitezas - nomeadamente, mento de dar conta do mundo «sem qualquer acrescento estra-
aquela que consiste em fazer da materialidade humana uma nho a ele»76, por outras palavras, sem qualquer invocação de
concepção onde é ferozmente ignorada a excentração da subjec-
tividade e da socialidade. De onde as tentativas, tão infatigáveis
74 Ana lisei a ev o lução d es ta corre nte do materialism o franc ês em La
como vãs, de reconduzir as funções psíquicas superiores às
Philosophiefrançaise contemporaine et sa genese .de 1789 à nos jours, Éd. socialies,
suas condições nervosas, os comportamentos sociais a pulsões 1962, nomeadamente p p. 146-148. Um exemplo típico é o d e Jules Soury,
biológicas e o destino pessoal a um programa genético: a biolo- autor de um Bréviaire du matérialisme, qu e ad eriu à Acção'fràncesa no início -
gia degenera aqui em biologismo. De tal maneira que foi possí- deste século.
vel que alguns recorressem a esta corrente de pensamento ori- 75 Cf. Henri Piéron, De l'actinic à. /'holii me, PUF, 1959, T. II, 4.ª parte, <<De
l'enfant à l'homme et d e son 'humanisation' >>. Posteriormente, o termo d e
ginalmente humanista, à vontade no republicanismo radical do
hominização prevaleceu enquanto conceito antropológico.
76 F. Engels, Dialectique de la nature, Éd . sociales, 1952, p . 198; I<. Marx e F.
73 Engels, Études philosophiques, Éd. so-ciales, 1974, p . 209. Sobre este p roble-
A fórmula é de João Paulo II, fustigando a lei polaca - anterior à mudança ma, cf. L. Seve, Une introduction à. la philosophic marxistc, obra citada, nomea-
de regime- que autorizava a IVG (Le Monde, 15 d e Novembro de 1990). dam ente p p . 335-338.

80 ,81
.l; I 1
( 'i

uma sobrenatureza. Esta é, com efeito, de Epicuro a Diderot, de diferente: para inverter o lapso, diria que ele tem por objecto
Feuerbach a Ernst Bloch, a iconoclasta tentativa materialista. A «O maior múltiplo comum», na ocorrência, o respeito de todos
Bonaparte, que se espantava por não v~r J?eus _no se~ sistema os bomens pela sua humanidade. Isto supõe que cada filosofia
do mundo, Laplace respondia: não preCisei dessa 11Ipotese. E o dê, não somente o contributo de todo o seu pensamen;to, mas
materialista procura fazer ideia do que é ·o próprio ~ornem ~e~ também o esforço de pensar todo o real 'de acordo cdm ·uma
supor que há uma alma ou um Criador. Contudo, e necessano regra de leal exaustividade, não se permitindo desfalcât; desse
que ele torne inteligíveis o homem e o mundo em to~a~ ~s suas pensamento, a seu bel-prazer, os aspectos que o embaraçam.
dimensões efectivas, sob pena de dever recorrer a artiflcws que Não acreditar na alma não autoriza a ignorar o assúnto. Não
são, afinal, não menos especulativos que aqueles que censura acreditar em Deus não autoriza a negar a pessoa. Acreditar em
às metafísicas que recusa. Por isso, acrescentaria, pela minha Deus não autoriza a desconhecer os dados biológicos ou as
parte, um elemento importante à definição de Engels: é materia- relações sociais. É quando cada um se impõe assim a tarefa de
lista o empreendimento de dar conta do mundo sem qualquer reflectir no seu sentido sobre todas as dimensões da realidade
acrescento estranho nem subtracção arbitrária. O que é um ponto comum que um acordo autêntico sobre a compreensão e a
capital para o nosso propósito. Uma visão plenamente m~t~ria­ extensão da pessoa se torna, certamente não fácil, mas pensá-
lista do homem - aliás, como uma visão plenamente espmtua- vel, porque todos se esforçam por encontrar o universal.
lista - nã o pode ignorar nenhuma destas ~~mens?es_ construti- É por isto que, colocando este trabalho crítico sob o signo
vas: nem o indivíduo biológico, nem o SUJelto psiqmco, nem a
de uma investigação do mais amplo acordo ético possível, eu
ersonalidade bioaráfica, nem a pessoa ética. Sem o que. o par-
P b litigo pela parte que nessa investigação pode ter um materialis-
tido que tomar se transforma em preconceito. Contranamente
mo, não reduzido, mas, pelo contrário, integral, isto é, ao qual
àquilo que muitas vezes se pensa, o biologismo, ~o~ as suas t
estreitezas fundamentais, não é o cúmulo do maten ahsmo, mas nada de humano permanece estranho - nem o subjectivo nem o
trai, antes, a sua falta. E é justamente por isso que não é fácil objectivo, nem o respeitável nem o palpável. Litigo pelo contri-
entender-se com ele. buto de um materialismo, não somente natural, mas histórico e,
daí, contra a exclusividade que marca, sem dúvida mais do que
qualquer outra orientação da cultura materialista, aquela a que
O ENTENDih!IENTO NÃO É O COI\1:PROMISSO se chama marxismo.78 Pois, para além das suas faltas de razão,

- Tocamos aqui no paradoxo do acordo verdadeiro. Segundo


um preconceito difundido, para se encontrar uma base de har- 78 Posso dar aqui um testemunho pessoal? Na altura da criação da CCNE, em
monização entre opções filosóficas diversas, e mesmo advers~s, 1983, a minha nomeação, incluída nas «cinco personalidades designadas
pelo Presidente da República, como pertencentes às principais famílias filo-
cada uma delas deveria sacrificar à outra uma parte essencial sóficas e espirituais>> deu lugar a uma pequena campanha de imprensa com
de si própria. Isto é compreender a harmo~iz_ação como um fins intimidatórios. No Le Figaro de 17 de Novembro de 1983, sob o titulo
compromisso eclético que nenhuma das cotwtcçoes em presença «Morale et communisme>>, Annie Kriegel pensava dever afirmar que os tra-
pode achar sinceramente vantajoso. A limite, _um acordo entre balhos da Comissão estavam «desacreditados à partida>> pelo facto de eu ter
todos seria um acordo sobre nada - sobre aqmlo a que, por um sido nomeado. Numa página inteira do L'Express (n.º de 2 a 8 de Dezembro
de 1983), sob o título «Question de morales>>, opondo a minha suposta moral
lapso espantoso, um prelado cha~ava «o m~i.s pe~ueno d~~o­
à «moral comum >>, Alain Besançon escrevia, em termos curiosamente seme-
minador comum»77. O verdadetro acordo etlco e de espmto lhantes: «Esta nomeação parece ser de natureza tal que arruinará totaL:nente
a autoridade desta comissão.>>A perfeita indiferença do presidente da CCNE
77 Monsenhor Jullien, <<Cohérence et incohérence», ú Mo nde, 13 de janeiro de 1988. e dos meus colegas a estas amabilidades foi-me muito grata.

82 83
e daquelas que se lhe atribuem mesmo quando ele não as tem, dos?, que dizer ao portador de uma doença genética incurável?,
ele representa um dos antídotos mais activos para todas as que pensar do diagnóstico obrigatório da SIDA? ... -,cada um
reduções do reaL Há nele, dizia Emmanuel Mounier, uma sã se s~nte só consigo mesmo, sem resposta d edutível. d e 'lm;·.
-provocação «para que se afastem as mistificações idealistas, se opção filosófica, de um dogma da Igreja, de um envol..,·irne~t~- -
assentem os pés na condição humana dos homens, se ligue a partidário. Mais ainda: sente-se dividido· em si mesmb:,Mas,
mais alta filosofia aos problemas da cidade moderna»79. Assim, segundo o pertmente reparo de France Querê, «podeclo.s che-
não foi «apesar d e marxista », mas justamente como tal, que m.e gar a acordo entre todos, porque há desacordo em cada um »so.
senti à vontade no seio da CCNE na posição do materialista Nesta nudez de respostas precon cebidas a que nos reduz 0
que se encontrava muitas vezes de acordo, sem se negar, com inteiramente inédito, sou constrangido a contar como um e a
os crentes, eles mesmos atentos a todo o real, para darmos, jun- querer por todos: no fundo, é a mesma coisa. Faço como nunca
tos, grande importância à dignidade da pessoa. a experiência daquilo que disse Montaigne: cada homem traz em
É verdade que o materialismo é «conciliável» com a afir- si a .forma da humana condição. Há aí uma hipótese forte de
mação da pessoa; tem mesmo necessidade disso para se tratar caminharmos em conjunto para urna humanidade sem fronteiras.
a
de um materialismo integral. Eu defendo a recíproca: pessoa é Mas, aqui, a dúvida parece dever mudar de campo. Se é
«conciliável» com o materialismo; ela tem mesmo necessidade possível um acordo público - e portanto uma legislação - neste
d ele para chegár a uma definição comum. Foi isto que não se domínio, não será, por hipótese, n a base de urna concepção
verificou suficientemente nos começos da bioética . Esse é ainda puramente laica da pessoa e das suas prerrogativas? E será esta
outro aspecto da armadilha que a palavra nos estende. Ela con cepção totalmente laica «conciliável» com as exigências da
sugere que poderia bastar um encontro entre o biólogo e o éti- 1 fé? Aqui, já não é o materialista que deve ser interrogado, mas
co, segundo a máxima implícita: ao biólogo, a materialidade, ao os seus parceiros religiosos, cuja resposta é decisiva. Assim, 0
ético, a espiritualidade- o que deixa entender qu e a competên- teólogo católico Xavier Thévenot defende, com toda a clareza, a
cia moral competiria, antes de tudo, ao teólogo e que o contri- ideia d e uma razão comum que permite à sua Igreja <<colaborar
buto materialista se reduziria ao saber científico. O desenvolvi- em ple1~0 com os ~ão cristãos para a elaboração de um campo
mento d a ética bioméd ica pública obriga a corrigir estes pre- normativo» do agu· humano, pois, sublinha, «aquilo que se
conceitos. O crente também tem os seus pontos de vista sobre p rescreve em nome de Deus d eve poder [... ] justificar-se em
os factos, o não crente também tem as suas ideias sobre os valo- nome do homem» ou, por outras palavras, «em nome da razão
res. Assim, impõe-se a todos uma exigência fundamental: a do considerada na sua saudável autonomia»Sl. Num espírito con-
pluralismo escrupuloso das éticas chamadas a confrontar-se, vergente, Pau l Ricoeur afirma que «mesmo no p lano ético e
moral, a fé bíblica nada acrescenta aos predicados 'bom' e 'obri-
cujas divergências sobre o sagrado não impedem muitas vezes
gatório' aplicados à acção», o que o leva a dizer «qu e não exis-
de concordarem acerca do profano.
te uma moral cristã, a não ser no plano das mentalidades, mas
De resto, seria ter uma visão bem limitada de uma discus-
antes uma moral comurn»82 . Bem entendido, o crente colocar-se-á
são ética digna desse nome pensar que ela está regulada, à par-
tida, por quaisquer «mandatos imperativos» que os supostos -
oponentes receberiam das suas respectivas doutrinas. Face às ~~ France Qu,éré, L'Éthique et la vie. Odile Ja:ob, I ~91, p. 278.
mais vivas questões éticas - que fazer dos embriões congela- Xav1er Thevenot, «LOJ ra t10nnelle et ecc!esJahte», em Le Supplémeni, n.º 147,
D~zembro de 1983, p. 531, e «Les chrétiens: des veilleu rs>> em L.a Croix -
l'E~enement, 30 de Abrjl a 2 de Maio de 1989, p. 13. Cf , d o mesmo autor, La
Bwet/uquc, Centurion-Ed. Paulines, 1989.
79 Emmanuel Mounier, Le Personnalisme, obra citada, p. 16. 82 P I R.
au JCoeur, 5oHneme
. ' com me un autre, obra citada, p. 37.

84 85
numa perspectiva de sentido totalmente diferente da do não condicional de um estado físico ou de urna conquista psíquica,
crente - de onde podem resultar muitas divergências de análise pois emana, pelo contrário, de uma ordem de valor historica-
c de aprPciação concreta. Mas o facto de o materialista, o agnós- mente produzido em que todos os humanos são, em princípio,
tico ou o humanista poderem encontrar-se com o católico e o eleitos. Será, então, um direito recebido? Que urna tal dimensão''
muçulmano, o protestante e o israelita, neste terreno da moral do ser me venha de outro lado, que não do meu ·campo fecha- '
comum, atesta que a procura de um entendimento verdadeira- do, parece ser uma evidência. Mas, para que esta alocação não ;
mente ético não releva de uma quimera. esteja votada à pura arbitrariedade e à sua fragilidade, é neces-
sário que possa ser acolhida por todos como reconhecimento,
neles, de uma realidade que apela, o que supõe que ela lhes seja
PARA UMA DEFINIÇÃO COMUM DA PESSOA apropriável, na prática e em consciência, a ponto de se tornar,
para eles, uma exigência. Assim, aquelas e aqueles que marcam
Resumamos, pois, numa proposição - no duplo sentido do cruelmente as faltas e as lacunas de uma ordem humana com
termo - aquilo a que chegárnos. Na sua acepção ética, a única demasiada frequência irmmana, reivindicam, a partir da sua
em que a palavra não é substituível por nenhuma outra, a pes- experiência, que se alarguem para todos, em pontos precisos, as
soa é a forma-valor igualmente ascrita a todos os indivíduos, na sua prerrogativas legais ou habituais da pessoa. Por este duplo pro-
qualidade de pertencentes ao género humano. cesso de apropriação individ ual e de elaboração colectiva, a
Entendamos adequadamente este conceito crucial de «for- pessoa «de facto >>pode deter um direito ascrito, a pessoa «de
ma-valor». Ele não diz que a pessoa é, inicialmente, um outro ser direito» pode tornar-se um facto vivido. Na sua unidad e apa-
diferente do indivíduo biopsíquico - da mesma maneira que o rentemente imediata de facto e de direito, ela apresenta-se-nos
valor mercantil não é uma coisa diferente do bem útil corres- então com o aspecto exterior de um enigma que apenas um
pondente -, mas q1.1e ela é ou tra forma , a de uma relação de longo desvio torna decifrável.
essência social que se objectiva nas práticas, institui ções e Relativamente ao seu conceito ético precisamente delimita·
representações específicas ..Entretanto, à medida que esta forma do, a noção comum de pessoa é portanto menos falsa gue tre-
adquire, na ética, uma c~nsistência conceptual e uma força mendamente confusa e, por isso mesmo, estreita. Na lingua-
motivadora próprias -da mesma maneira que o valor mercantil gem corrente, a palavra reenvia, não à pura forma-valor do ser
passa a existir, como tal, no dinheiro -, ela pode separar-se do humano, que apenas aparece no termo de uma análise abstrac-
seu estrito suporte inicial, o indivíduo na plena posse dos seus ta, mas, de modo bem concreto, ao próprio indivíduo capaz de
meios, para ser investida, pouco a pouco, onde quer que se a assumir conscientemente, isto é, reserva-a para as pessoas-
encontre em jogo uma parte significativa da humanidade - o -para-si. Ora, todos os progressos da humanidade civilizada
ser embrionário, o ser diminuído, os restos mortais, a parte do tenderam justamente a alargar de forma modulada as suas
corpo ... - e ascrever-lhes uma dignidade sinónima de obrigações prerrogativas às pessoas-em-si, mesmo para lá das realidades que
moduladas a seu respeito. É este incessante trabalho de autono- participam da pessoa, que não têm os meios físicos ou psíquicos
mização da forma-pessoa e do reinvestimento alargado que de os fazerem valer, eles mesmos: outros fazem-nos valer em
constitui o processo civilizado da personalização. seu lugar. Paradoxalmente, é este processo altamente cultural
Não nos fará uma tal definição sair do círculo vicioso de de ascripção de um valor a todos os humanos que pode fazer
que tínhamos partido: pessoa «de direito» ou pessoa «de facto»? crer que a dignidade lhes seria inerente, apenas pelo facto natural
A pessoa não é um dado de facto: a qualidade imprescritível em de serem tal. A ilusão está, pois, à vista. Se, por exemplo, tantos
que ela consiste é urna coisa totalmente diferente da resultante franceses defendem que os produtos derivados do sangue

86 87
numa perspectiva de sentido totalmente diferente da do não condicional de um estado físico ou de urna conquista psíquica,
crente - de onde podem resultar muitas divergências de análise pois emana, pelo contrário, de uma ordem de valor historica-
c ck aprPciação concreta. Mas o facto de o materialista, o agnós- mente produzido em que todos os humanos são, em princípio,
tico ou o humanista poderem encontrar-se com o católico e o eleitos. Será, então, um direito recebido? Que uma tal dimensão '
muçulmano, o protestante e o israelita, neste terreno da moral do ser me venha de outro lado, que não do meu ·campo fecha- i
comum, atesta que a procura de um entendimento verdadeira- do, parece ser uma evidência. Mas, para que esta alocação não ';
mente ético não releva de urna quimera. esteja votada à pura arbitrariedade e à sua fragilidade, é neces-
sário que possa ser acolhida por todos como reconhecimento,
neles, de uma realidade que apela, o que supõe que ela lhes seja
PARA UMA DEFINIÇÃO COMUM DA PESSOA apropriável, na prática e em consciência, a ponto de se tornar,
para eles, uma exigência. Assim, aquelas e aqueles que marcam
Resumamos, pois, numa proposição - no duplo sentido do cruelmente as faltas e as lacunas de uma ordem humana com
termo - aquilo a que chegárnos. Na sua acepção ética, a única d emasiada frequência il•umana, reivindicam, a partir da sua
em que a palavra não é substituível por nenhuma outra, a pes- experiência, que se alarguem para todos, em pontos precisos, as
soa é a fo rma-valor igualmente ascrita a todos os indivíduos, na sua prerrogativas legais ou habituais da pessoa. Por este duplo pro-
qualidade de pertencentes ao género humano. cesso de apropriação individual e de elaboração colectiva, a
Entendamos adequadamente este conceito crucial de «for- pessoa «de facto>>pode deter um direito ascrito, a pessoa «de
ma-valor». Ele não diz que a pessoa é, inicialmente, um outro ser direito>> pode tornar-se um facto vivido. Na sua unidade apa-
diferente do indivíduo biopsíquico - da mesma maneira que o rentemente imediata de facto e de direito, ela apresenta-se-nos
valor mercantil não é uma coisa diferente do bem útil corres- então con1 o aspecto exterior de um enigma que apenas um
pondente -, mas que ela é ou tra forma, a de uma relação de longo desvio torna decifrável.
essência social que se objectiva nas práticas, instituições e Relativamente ao seu conceito ético precisamente delimita·
representações específicas.,,Entretanto, à medida que esta forma do, a noção comum de pessoa é portanto menos falsa gue tre-
adquire, na ética, uma consistência conceptual e uma força mendamente confusa e, por isso mesmo, estreita. Na lingua-
motivadora próprias -da mesma maneira que o valor mercantil gem corrente, a palavra reenvia, não à pura forma -valor do ser
passa a existir, como tal, no dinheiro - , ela pode separar-se do humano, que apenas aparece no termo de uma análise abstrac-
seu estrito suporte inicial, o indivíduo na plena posse dos seus ta, mas, de modo bem concreto, ao próprio indivíduo capaz de
meios, para ser investida, pouco a pouco, onde quer que se a assumir conscientemente, isto é, reserva-a para as pessoas-
encontre em jogo uma parte significativa da humanidade - o -para-si. Ora, todos os progressos da humanidade civilizada
ser embrionário, o ser diminuído, os restos mortais, a parte do tenderam justamente a alargar de forma modulada as suas
corpo ... - e ascrever-lhes uma dignidade sinónima de obrigações prerrogativas às pessoas-em-si, mesmo para lá das realidad es que
moduladas a seu respeito. É este incessante trabalho de autono- participam da pessoa, que não têm os meios físicos ou psíquicos
mização da forma-pessoa e do reinvestimento alargado que de os fazerem valer, eles mesmos: outros fazem-nos valer em
constitui o processo civilizado da personalização. seu lugar. Paradoxalmente, é este processo altamente cultural
Não nos fará uma tal definição sair do círculo vicioso de de ascripção de um valor a todos os humanos que pode fazer
que tínhamos partido: pessoa «de direito» ou pessoa «de facto>>? crer que a dignidade lhes seria inerente, apenas pelo facto natural
A pessoa não é um dado de facto: a qualidade imprescritível em de serem tal. A ilusão está, pois, à vista. Se, por exemplo, tantos
que ela consiste é urna coisa totalmente diferente da resultante fra nceses defendem que os produtos derivados d o sangue

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humano não sejam tratados como mercadorias, é por verem dever-se a simpleE desconhecimento o poder actual do biologis-
neles o traço de dignidade que ali deixa o dom generoso de mo, não somente nas ídeias, mas nas práticas- por exemplo,
uma parte de si mesmo. Se, pelo contrário, o facto r vm, tão pre- aquilo a queGeorp;es David chama «a _obsessão modema pela
cioso para os hemofílicos, ou a albumina, vierem a ser produzi- determinação da paternid~:d2 através da biologia>>: o "'verda· . ,, .
dos sinteticamente, como está a ponto de acontecer, essas mes · deiro» pai seria, forçosamente, o genitor.83
mas pessoas já não se dizem chocadas se os tomar como medi- Deveremos então incriminar um «cientismo» ambiente?··,'•i.
càmentos . Não é, como se vê, à nahueza bioquímica dos produ- Mas são as tomadas de posição do próprio Vaticano que o mes- ·
tos sanguíneos que se prende a intuição de uma dignidade, mo autor, não sem razão, acusa de serem um «esquema de pen-
mas à sua forma social: na transfusão com dador transita, não samento demasiadamente biológico», onde a transmissão de
somente sangue, mas, se assim se pode dizer, a pessoa. material genético é dominante na apreciação de uma paternida-
Compreende-se bem de onde resulta a aporia que assedia de que é, contudo, «social e sobretudo psicológica e afectiva>>.
tantos debates éticos intermináveis sobre a natureza da pessoa. Será este «rnaterialismo» ditado pelos cientistas materialistas?
Deixando de lado os elos centrais da personalização- a ordem Como compreender, aliás, se se defende uma tal lógica inter-
instituída da pessoa, as relações sociais que a sustentam, as pretativa, que a tão difundida redução do humano operada
actividades psíquicas que a interiorizam, as práticas colectivas pelo biologismo vá a par desta outra redução, igualmente viva,
qu e a transformam -, não resta, num encontro estéril, senão a mas de sentido exactamente contrário: a do juridismo, onde a
inverosimilhança de uma pessoa de puro facto, produzida pela pessoa é simetricamente reduzida a uma ficção necessária ins-
natureza, numa ponta da cadeia, a arbitrariedade de uma pes- taurada pelo direito, à guarda de um jurista «só e sem apoio»?
soa de puro direito, instaurado por convenção, na outra.
Somos, assim, intimados a escolher entre duas visões igualmen-
te redutoras: bioiogismo ou juridismo, que confundem desas- A PERSONALIZAÇÃO Elvf CRISE
trosamente a ascripção, o primeiro com uma descrição, o
segundo com uma prescr,ição. É este género de situação sem Estas tendências ideológicas tão pregnantes, apesar dos
saída que uma crítica da razão bioética tem como finalidade impasses confessados onde nos encurralam, devem ter raízes
ultrapassar. mais profundas. E não será necessári o procurá-las precisamente
Mas então por que razão estão tão pouco presentes estes nos processos sociais d e personalização que elas esquecem?
elos centrais em muitas atitudes e escritos bioéticos? Por desco- Com efeito, vivemos, a este nívet um período de grande crise
nhecimento? É verdade que a informação contemporânea acen- para a pessoa. De crise específica, induzida pelo sismo das ino-
tua, em cada dia, um grave desequilíbrio, existente na nossa vações biomédicas. Quando morte pessoal e morte corporal se
cultura, entre o papel explicativo, sem cessar imputado ao bio- dissociam, quando uma avó traz em si o filho da sua filha,
genético - aliás, frequentemente mal compreendido -, e aquele quando se armazenam embriões humanos congelados, quando
que é tão mesquinhamente comparado com outras dimensões se abre a caixa de Pandora dos nossos genomas, como seria
essenciais do humano. Os jovens franceses aprendem biologia, possível que as nossas representações de nós mesmos não ficas-
durante anos, no liceu, e mesmo, valha o que valha, na televi- sem perturbadas, desestabilizadas as nossas relações com os
são, mas onde ouvem eles falar da hominização sociopsíquica,
senão, por vezes, e por uma grande sorte, num<:t aula de filoso-
fia? Há aí um verdadeiro problema de tratamento público das 83 Georges David, «À propos de Ia stérilité masculine et de l'insémination
artificielle: une réflexion sur la filiation paternelle», em Aux débuts de la vie,
representações da pessoa. Quem acreditará, contudo, que. possa obra citada, pp. 150-152.

88 89
outros, postos em questão os traços fundamentais da condição Não se fará, na realidade, uma ideia, também ela redutora,
humana? Nunca a apreensão e a extensão da pessoa tinham da crise actual da pessoa? De forma geral, se há crise, é sempre
sido desordenadas a este ponto. Mutações tanto mais perturba- porque o antigo é trabalhado pelo novo ao qual não quer ou
doras quanto ,encontram, aliás, ressonância numa crise vasta e não sabe dar lugar. Ora, sem antecipar sobre a análise do actU:al
mais profunda da sociedade, e mesmo da civilização: o tecido «mal-estar na civilização>>, deitemos um olhar, setn complacênJ'
social rasga-se, as identidades psíquicas ocultam-se, o casamen~ cias nem benevolências, a esta novidade: não se reconhecem;
to, o trabalho, a escolaridade, a política são abandonados pelos também aí, os germes de uma personalização ética mais rica?
seus sentidos tradicionais, as perspectivas de um mundo Com a derrocada dos valores inculcados e das obediências pas-
melhor desmoronam-se, o dinheiro impõe-se como senhor de sivas, com o descrédito das autoridades e das hierarquias - na
todos os valores, a inumanidade transborda do copo. Poderá a família ou na escola, na empresa ou no Estado, na Igreja ou no
pessoa permanecer sozinha, incólume nesta grande vacilação partido-, pode perder-se alguma coisa da verdade das tradições,
das referências? da riqueza das experiências colectivas, mas como não ver aqui-
Se os elos da personalização que aqui se têm como centrais lo que se ganha em autonomia pessoal, essa condição cardeal
são, muitas vezes, perdidos de vista, não acontecerá isso por- da au têntica moralidade? A repugnância pelos envolvimentos
que, em muitos casos, eles próprios perderam o norte? Antes cegos pode resultar num individualismo sem limites, mas tam-
de serem os defensores de uma duvidosa convicção, biologis- ,bém em solidariedades sem engodo. A baixeza, o egoísmo, a
mo e juridismo aparecem como recursos de uma confusão reaL intolerância proliferam, mas, contraditoriamente, afirmam-se
Num mundo em turbulência, em que tudo aquilo que diz res- em muitos a recusa das exclusões, a aptidão à generosidade, a
peito à pessoa parece ameaçar partir à deriva, quer-se acreditar sede de dignidade. Todas as crises são momentos de bifurcações
nas seguranças absolutas que seriam, para ela, a «verdade bio- possíveis. Nessas alturas, há que ousar pôr na balança todos os
lógica>> ou a «normatividade jurídica>>. Mas estes recursos não valores vivos da pessoa, para fazer pender os pratos na sua
lhe são de nenhum auxílio. Se a pessoa não fosse, na realidade, direcção, em vez de os pôr numa redoma, na esperança vã de
senão um mosaico de moléculas ou um sistema de convenções[
'1,
mantê-los intactos. Quando ser-se si próprio se torna uma aspi-
então por que razão estaríamos interditados de a modificar à ração universal, a individualidade e a universalidade aparecem
nossa vontade? O reducionismo não reduz o perigo, redobra-o. menos como competidoras que como concorrentes. Quanto
Num caso como noutro, imagina-se pôr em segurança o funda- mais reivindico a minha humanidade plena, mais sou levado a
mento da pessoa fazendo dela uma constante biológka ou uma sentir-me membro do género humano. A pessoa pode, assim ,
norma supra-histórica, subtraídas, uma e outra, às agitações da engrandecer-se, simultaneamente, dos dois lados.
época, quando qualquer manutenção de valores através dos Objectar-se-á talvez que esta visão das coisas, bem como a
tempos supõe, pelo contrário, que elas se mostrem popular- definição proposta de pessoa, relevam de um universalismo do
mente reapropriáveis, num sentido renovado em cada geração. «género humano>>demasiadamente pouco atento à radical dife-
Compromete-se esta manutenção ao excluir da pessoa aquilo rença das identidades que caracterizam os indivíduos e os
que é nela, hoje, mais importante, por ser o seu centro, em vez povos, ainda que não encubra a pretensão totalitária de subme-
de afrontar todo o campo dos problemas da civilização onde se ter todas as culturas a uma mesma representação daquilo que
opera esta questão. Pois não há, afinal de contas, outra garantia faz o valor do homem. Mas não estará uma tal objecção, ela
para uma personalização continuada senão a riqueza humana própria, cativa de uma concepção démasiadamente pouco ela-
do tecido social, como das práticas individuais, que fazem dela borada do universal? No budismo, ao qual estão profundamente
uma realidade viva. ligados muitos japoneses, pensa-se que a vida cessa com as

90 91 I ~'
batidas do coração e que, depois da morte, a alma permanece indivíduos, ser si próprio não exclui entender-se com os outros
um certo tempo no corpo. Crença que é incompatível com a sobre as obrigações da nossa humanidade comum. Podem ter-
defin,ição de morte adaptada em muitos países, ~· entre nós lar- -se muitas abordagens diferent~s dos Direitos do Homem , mas.
gamente interioiizada, sem ·ter, contudo, recebido a coi1sagração o iJ.n porfante.é respeitá~ios, .po; t;da á parte, da mesma ~aneira
da lei: a morte é a paragem definitiva da actividade cerebral, o escrupulosa. A universalidade da pessoa não exige mais do
que fundamenta a prática da recolha de órgãos do cadáver. que isso.
Ora, constata-se que, mesmo no Japão, a lógica solidária da
doação de órgãos tende a abalar a representação tradicional de
morte, que era um obstáculo a essa doação.84 Quer isto dizer que QUESTÕES EM ABERTO
os Japoneses deviam renunciar às suas crenças nacionais para se
incluírem na prática internacional da recolha de órgãos? Não é Quando se p ercebe tudo aquilo que a nossa época, intensa-
assim que normalmente se estabelecem as universalizações. mente crítica, põe em causa na ordem instituída e nas dimensões
Em Israel, num contexto religioso totalmente diferente, mas vividas da pessoa, parece-me que se tem que concordar com
onde se põe um problema análogo, as comunidades judaicas uma coisa: seja qual for a interpretação filosófica que se dê dela,
ortodoxas encontram, como explica Henri Atlan, «um meio d e a pessoa nem por isso é uma entidade metafisicamente su spen-
legitimar, de um ponto d e vista tradicional, a recolha de u m sa que se d eva actualizar, mas antes uma realidade historica-
coração conservado artificialmente num sujeito em estado de mente móvel de que esta m os encarregados. E por isto que
morte cerebrai»S5. Vem os aqui posta em prática uma dialéctica avançar no sentido d e uma definição daquilo que ela é presen-
muito esclarecedora do particular e do u niversal: uma cultura temente não esgota os problemas gue ela nos p õe. Importa ain-
pode integrar uma exigência comum que lhe era estranha, mas da elucidar as novas condições da sua ascripção a essas frontei-
à sua maneira, e sem deixar de ser ela própria. Como escreve ras do hom em onde se activa, cada vez m ais, a biom edicina,
Françoise Héritier-Augé, «as culturas não são mundos absolu- para pôr em coerêncin com a sua figura reconhecida os traços
tos em si>>, e «cada sociedade não é intraduzível na linguagem inéditos que nela desenha esta experiência dos limites. Limites
das outras». A universalização não é uniformização, <<que seria cronológicos - os do seu surgimento e do seu apagamento: nas-
um falso universalismo>>86. Pelo contrário, é a emergência de cimento e m orte. Limites topológicos - os das escalas, cad a vez
equivalências, numa pluralidade mantida de formas, onde o mais finas, onde se intervém sobre ele: tecido, célula, molécula.
universal está, aliás, longe de provir sempre do mesmo lado: Limites ecológicos - os das relações onde a experimentação e a
não será a própria consideração budista por todos os seres terapêutica o põem ao nível dos restantes seres vivos. Questões
vivos, por seu lado, portadora de uma universalidade que nos difíceis. Questões em aberto.
concerne? Assim, a universalização ética não é, de modo Uma vez que este capítulo não pretende, de modo nenhum,
nenhum, a uniformização das sabedorias concretas, mas antes a ser um tratado, mesmo que não exaustivo, sobre a pessoa, mas
partilha dos valores últimos. Tanto para os povos, como para os somente uma crítica indicativa das orientações do seu conceito,
apenas apontarei aqui, pela sua exemplaridade, três casos limi-
te, a bem dizer essenciais, que serão, ao mesmo tempo, três oca-
84 Cf. Philippe Pons, «La greffe prend au Japon>>, Le Monde, 30 de Novembro siões de pôr à prova a concepção proposta: os do embrião, do
de 1988, e «Les transplantations d'organes divisent !e Japon», Le Monde, 28
gene e do animal. Mas, primeiramente, temos de examinar uma
de Agosto de 1990.
85 Henri Atlan, Touf, non, peut-être, Éd. du Seuil, 1991, pp. 317-320. questão mais vasta, dada hoje, frequentemente, como decisiva:
86 «Un en tretien avec Françoise Héritier-Augé», Le Monde, 6 de Abril de 1993, p. 2. a das relações entre pessoa e corpo humano.

92 93
'I

Velha questão, que vem no prolongamento dos debates órgãos - «F.L., 23 anos, de boa saúde, vende o seu rim direito,
metafísicos sobre a alma e o corpo e das cánsiderações teológicas preço a discutir», foi um anúncio que apareceu na imprensa
sobre o espírito e a carne, ainda que se desloque, hoje em dia, na brasileira89 -, ou desse americano «com células de ouro», çuja
direcção da avaliação -ética das relações entre a pessoa e o orga- aventura, extravagcnté mas premonitória, Bernard Edelman
nismo - e não é seguro, como se verá, que esta deslocação torne relatou. 9ü Neste regresso em força, teórico e prático, de um dua; _
ascoisas mais claras. Em todo o caso, se o problema se põe com lismo radical tão fortemente instituído, não estará o corpig ·
tanta acuidade, é porque os actuais desenvolvimentos da biolo- humanQ em vias de se tornar já, nos Estados Unidos91, uma
gia modificam, a um ponto sem precedentes, a nossa imagem do mina de matérias-primas rentáveis, e mesmo um recurso últi-
corpo, que parece ter deixado de ter, actualmente, qualquer mo para fazer face à miséria, através do qual a livre disposição
semelhança com a pessoa, no sentido corrente da palavra. Onde de si se torna no seü contrário? Encontramos mesmo, entre nós,
encontrá-la, com efeito, na fábrica química, na rede neurológica, juristas dispostos a litigar neste sentido. «Que significa o ideal
no ordenador molecular em que a ciência contemporânea faz
consistir os fundamentos da nossa existência? Onde encontrar,
mesmo, o humano num genoma cujas bases temos em comum 89 Cf Jean Bernard, Cesl de l'!wmme qu'il s'ngit, Odile Jacob, 1988, p. 280.
com o rato e a mosca? Desfigurado pela nossa experiência quoti- 90 Bernard Edelman, <<L'Homme aux cellules d'or>>, em L/Fiôpital à Paris, n." 116,
1990, pp. 38-45 . Em L'Hommc, In nnture et le droit, obra citada, Bcrnard
diana de nós próprios, o corpo torna-se, simultaneamente, cada Edelman, fazendo a crítica, muito justificada, à concepção proprietária e utili-
vez mais substituível: na era da enxertia de órgãos, da assistência tária da natureza e do corpo humano, decide imputá-la, nomeadamente, a
mecânica, da proteína de síntese, ele tende a não aparecer mais Marx, <<para quem a natureza é, em altíssimo grau, como afirma, um meio de
produção>>, e a Hegel, segundo quem <<a apropriação das coisas (a proprieda-
do que como suporte indefinidamente substituível do ser pessoal.
de privada) constitui o modelo da tomada de posse de si mesmo>> e <<o corpo
A metodologia da clonagem dá consistência ao fantasma do cor- humano e as coisas têm a mesma na tureza>> Cpp. 109-11 0). Nos dois casos,
po de reserva, o armazenamento de embriões congelados ao esta imputação é insustentável e mesmo injuriosa. No que diz respeito a
fu turismo à Orwell de um «supermercado de crianças».87 Ma rx, não somen te a tese que este autor defende não é a da redução d a nahl-
reza (a que ele chama frequentemente «o corpo inorgânico>> do homem , cf
À medida que o corpo parece, assim, separar-se ~da pessoa, nota 102) ao nível de puro meio de produção, como essa é mesmo uma das
para já não ser mais que-uma coisa entre outras, a pessoa põe-se acusações fundamentais q ue dirige ao modo de produção capitalista. Como
à deriva em direcção a um direito subjectivo exacerbado. Um escreve na última frase - célebre - de 1m1 dos capítulos principais do Capital
(Livro I, obra citada, p. 567): «A produção capitalista não desenvolve a técni-
eu omnipotente apresenta-se como proprietário incorporai do ca e a combinação do processo de, produção social senão arruinando, ao mes-
seu organismo, como de um bem móvel, com o qual po~e fazer mo tempo, as fontes vivas de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.>> Quanto
aquilo que muito bem entender, incluindo vendê-lo. E o que a Hegel, este indica, no § 48 dos Principes de In philosophie du dmit (Gallimard,
1940): <<Basta que o eu como livre esteja vivo no meu corpo para que seja
acontece com as mães abusivamente chamadas de emprésti-
proibido degradar esta existência viva ao nível de besta de carga. Enquanto
mo88, com os desempregados que procuram vender os seus eu estiver vivo, a minha alma (que é conceito, e mesmo liberdade) e o meu
corpo não estão separados; este é a existência da liberdade e é nela que a
experimento. Portanto, só um entendimento sem ideia, sofístico, pode fazer
87 Clonar uma célula ou um indivíduo é reproduzi-los de modo idêntico a partir essa distinção segundo a qual a coisa em si, a alma ou a ideia, não é atingida
d o genoma dessa célula ou de uma célula desse indivíduo. . quando o corpo é maltratado e quando a existência da pessoa é submetida ao
88 Como a CCNE fez observar desde o ilúcio, mas com êxito diverso, junto dos poder de outro.>> (pp. 93-94). Em vez de procurar pôr em causa, contra a evi-
jornalistas, a mulher habitualmente chamada «mãe de substihüção» não faz dência, uma tradição de pensamento que é justamente a da recusa da instru-
mais que assegurar a gestação: ela dá os seus ovócitos para a fecundação zn mentalização do corpo e da natureza, valeria mais analisar aquela que mais a
vitro. Ela é, portanto, na verdade, uma mãe «dadora>> de uma criança que é legitimou, e que a sustenta até hoje, isto é, a do utilitarismo, que nem sequer
biologicamente sua, facto que é dissimulado pela expressão <<mãe de emprés- é nomeada nas páginas em questão de Bernard Edelman.
,, timo>> . Pode adequadamente chamar-se <<de empréstimo>>à mulher que ape- 91 Bernard Edelman, L'Homme, la nature et le droit, obra citada, p. 127 e, mais
I
nas assegura a gestação de um embrião resultante do ovócito de outra mulher. amplamen te, todo o capítulo, pp. 107-141.

94 95
de gratuitidade do sangue, por exemplo, escreve um deles, dáveis para a experimentação no homem, mercado em plena
quando a venda deste sangue permite a uma família pobre expansao dos produtos e «desperdícios» humanos, incluindo a
sobreviver?»92 Em suma, com que direito impediremos esse or?anizaçã~ mafiosa da «adopção» ou mesmo do puro rapto de
comércio do corpoT Questão difícil -· tão difícil como estas cnanças - amda ontem violentamente negada, inas já hoje cada
outras, suas primas: com que direito procuramos impedir um vez mais conhecida -, postas a .~ngordar, qU:~~1o não mesmo
adolescente de se drogar, um desempregado de se enforcar? mortas, para lhes serem extraídos os órgãos, ,yé'Ftdidos a preço
Não será isso atentar contra a «liberdade da pessoa»? de ouro aos afortunados deste mundo.96 Meid''s~culo depois do
Não é verdade que tudo mostra que a disponibilidade do processo de Nuremberga, e no auge do liberalismo avançado, o
corpo humano vai, no essencial, ao revés desta livre disposição horror continua a ser possíveL E é ele, ainda que inconsciente-
pela qual se pensa justificá-la? Ela é, antes, alienação do indiví- mente, que parece favorecer o feroz desligamento do corpo e da
duo a gestões sociais da coisa corporaL Gestões que podem ser pessoa em que se apoia a ética do «tudo é permitido».
anirr:adas, aliás, pelas motivações mais nobres de saúde públi-
ca. E o caso dos transplantes de órgãos, cuja lógica, instituída
pela Lei Ca.illavet, de 1976, com o seu princípio do «consenti- O CORPO É A PESSOA?
mento presumido» para a recolha, deu lugar ao esquartejamento
de cadáveres em condições que revoltam até mesmo os defen- Vemos também reafirmar, em muitos lados, como reacção
sores resolutos da doação de órgãos.93 Neste domínio, como em explícita a este dualismo, a indissociabilidade da pessoa e do
muitos outros, à falta das medidas públicas necessárias e, mais seu corpo. Outra velha concepção, que pode valer-se de
profundamente ainda, de um envolvimento colectivo à medida Aristóteles, mas que a fenomenologia reformulou, na nossa
1
d os problemas, não nos arriscaremos a caminhar na direcção época, em termos bem diferentes - como nas análises do corpo
dessa terrível «nacion alização d os corpos» qu e Fran çois desenvolvidas por Maurice Merleau-Ponty. Elas convid am-nos
Dagognet não teme preconizar?94 Não estaremos já nessa sihla- a distinguir claramente o corpo-objecto (em alemão: Korper),
ção, por exemplo, com a esterilização forçada dos doentes men- matéria para todas as dissecações, e o corpo-sujeito (em ale-
mão: Leib, a «carne»), «ser-aí» do sujeito vivo. Enquanto sujeito,
tais, largárnente praticada em democracias respeitadas?95
eu não tenho um corpo, «eu sou o meu corpo»97. Nestas análi-
Será esta gestão actual dos corpos pelos poderes públicos
ses, co~o na tese, mais tradicional, da indivisibilidade da pes-
ainda pouca coisa, comparada com a que os submete, com cres-
soa, «Simultaneamente corporal e espiritual», segundo a fórmu-
·'i ' cente impudor, às lógicas do lucro privado - a que voltaremos
la utilizada nos documentos católicos98, muitos pensam encon-
no próximo capítulo -: servidão assalariada de voluntários sau-
trar o antídoto absoluto para a ética do «tudo é permitido», a

92 Thierry Cornavin, «Théorie des droits de l'homme et progres de la biolo- 96 Ver, sobre este ponto, depois dos seus numerosos artigos, aparecidos no
gie», em Droits, 1985, n.º 2, p. 103.
93 Cf, a este propósito, o muito penoso <<caso de Amiens>>, Le Monde, 17-1 8 de L'Humanité, o balanço provisório que faz Malté Pinéro do seu corajoso tra-
balho de investigação no terreno em Le Monde diplomatique, n.Q461, Agosto
Maio de 1992.
94 François Dagognet, La Ma!trise du vivant, Hachette, 1988, p. 189. de 1992, «Enlevements d'enfants et trafic d' organes>>.
97 Maurice Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Gallimard, 1945,
95 Sobre o passado da questão, cf Claire Ambroselli, L'Éthique médica/e, PUF,
1988. A elaboração, em 1989, na RFA, de um projecto de lei que tornava p. 175. Cf Edmund Husserl, Méditations cartésiennes, Vrin, 1947, p. 93 [tra-
possível a esterilização dos deficientes mentais, sem o seu consentimento dução portuguesa: Meditações Cartesianas: Introdu ção à Fenomenologia,
(Le Monde, 4-de Fev~reiro de 1989) mostra bem que o perigo não é imaginário. Introdução de António M. Magalhães, Porto, Rés, [1986?] .
98 Por exemplo, na encíclica Donum vitae, I, 3.
Cf Bernard Doray, Ethique et psychiatrie, M1RE, 1989, p. 9.

96 97
. T·
I
I: I'
. I

ponto de esta indivisão estar a tornar-se um lugar comum na relação de causalidade entre o sujeito e o seu corpo>>JOI não será
ética biomédica francesa. E contudo, se eu sou o meu corpo, não jogar excessivamente com a palavra causalidade? Deve-se tomar
serei também o seu dono, tão autorizado a abusar dele como partido: o corpo-sujeito é o vivido de um corpo-objecto que,
estava na concepção precedente? Esta consequência não está transbordando-o por todos os lados, constitui G·.em-si do pró-
excluída. prio corpo. Esta verdade indubitável é, aliás, etidu:r~ente impor-
Eis por que razão,por exemplo, a doutrina católica fornece tante, como ilustra o princípio de anonimato ma doação de
';i
·101.
a tese de uma restrição capital que não está logicamente ligada órgãos: se o dador não se apagasse, a doação criada, nos dois
a ela: deste corpo que sou eu, eu não sou, no entanto, proprietá- sentidos, entre o receptor e ele, terríveis elos de dependência
rio, mas apenas «usufrutuário»99. É esta representação da vida pessoal. É necessário que o órgão dado seja «feito objecto», jus-
como depósito recebido - recebido da natureza, de acordo com tamente para que o sujeito seja respeitado. Mas a questão que se .
o direito natural; portanto, de Deus, para as teologias - que põe é bastante mais vasta. Se o corpo humano apenas fosse car-
alguns juristas gostariam de revigorar, adaptando o conceito ne subjectiva, querer conhecê-la objectivamente, na sua intimi-
romano de património, de bem que cada um herda com a obri- dade última, não equivaleria a um projecto invasor de violação
gação de o preservar, para, por sua vez, o transmitir.l OO Pensar da pessoa? Dever-se-ia então tomar a investigação médica como
o corpo como património do indivíduo, o genoma como patri- um empreendimento luciferiano e sonhar em opor-lh-e uma for-
mónio da humanidade, e tratá-los em consequência: tal seria a ma moderna da interdição que atingia outrora a dissecação de
via a seguir para proteger o ser humano das inaceitáveis inva- cadáveres? Parece, ao menos, permitido temer que haja algum
sões do direito subjectivo. Assim, coisa à primeira vista espan- obscurantismo nesta assimilação unilateral do corpo à «carne>>.
tosa, opor ao dualismo uma visão unitária do corpo-pessoa não Mas a tese tem outras implicações, não menos preocupan-
é ainda suficiente, contrariamente à opinião admitida, para tes, quanto ao próprio estatuto da pessoa. Dizer que o corpo é a
conjurar o risco ético de uma instrumentalização de si - e será pessoa é, com efeito, pagar a valorização do primeiro com a
necessário perceber em quê. Mas, se parece insuficiente do pon- naturalização da segunda, abatida sobre o ser humano, o que
to de vista moral, uma tal visão, para além dos aspectos sólidos desfaz todo o trabalho levado a cabo no sentido de diferenciar
de bom sensç: e dos seus méritos parciais na análise erudita, estes dois conceitos. De novo confundidos, eles deixam-nos
parece-me também ser portadora de assimilações bem contestá- com insolúveis dificuldades. Pretende-se continuar a sustentar,
veis, e mesmo perigosas. por exemplo, que o ovo fecundado é já um ser pessoal, na
Em primeiro lugar, a assimilação do corpo à «carne>>. ausência de qualquer corpo? Entra-se então em contradição
Efectivamente , do mesmo modo que é justo distinguir vida directa com a corporeidade essencial que se diz reconhecer à
orgânica de vida vivida do corpo, também não seria razoável pessoa. Não se pretende ver, pelo contrário, na pessoa senão o
relacionar com este último todo o meu ser carnal. A ecografia, a próprio acto do corpo? Recai-se na estreitez ruinosa do biolo-
biopsia ou o diagnóstico genético revelam, em mim, realidades gismo. Nos dois casos, desconhece-se o papel capital da hom i-
e processos gue escapam inteiramente à minha consciência e nização. Se a existência pessoal tem como suporte o organismo,
que podem, contudo, marcá-la em alto grau. Ter, como escreve a sua base específica deve antes ser procurada neste «corpo
Merleau-Ponty, como «evidente que não é concebível qualquer orgânico,J02 que é, para nós, o mundo social, com todos os seus

99 Cf. a entrevista com Monsenhor Eyt em Bulletin, revista citada, p. 27. 101 Phénoménologie de la perception, obra citada, p. 496.,
100 Cf., por exemplo, Marie-Angele Hermitte, L'Hommc, la nature et le droit, 102K. Marx, Manuscrits de 1857-1858 (Grundisse) , Ed. socia les, 1980, T. I,
obra citad a, pp. 258-262, e íbid., Catherine Labrusse-Riou, pp. 351-355. p. 425 e seguintes. Desloco aqui o sentido da expressão que, neste texto de
Marx, se aplica à natureza.

98 99
componentes materiais e simbólicos. Quem relacio!ta a realida-
O corpo é a pessoa? Tal como é posto, o problema apenas
de concreta da pessoa apenas com o seu corpo, e nao com o seu
te m uma solução equívoca: é e não é, ao mesmo tempo.
undo inscreve-se na ideologia característica de uma form~ de
~Jcied;de que despoja maciçâmente os indivíduos dos seus -· Quando duas respostas contrárias são igualmente plausíveis e _·
igualmente contestáveis, há que perguntar se os ter mos da '
meios e dos seus po_deres s?ciais, para faz~r dele_s o~tras tantas
questão foram suficientemente criticadÓs. Manifesta~t:Íftte, tal
potências impessoais dommadoras, face as qums e.a os toma,
não é o caso. Neste enunciado, o corpo é tomado conib.~sujeito
enquanto assalariados, como puras forças de trabalho musc~ll~r
ou como objecto, o verbo ser como indicação de uma constata-
e cerebral - alienação histórica que ousa dar-se como condrçao
humana obrigatória.l03 Dizer que o corpo é a pessoa é também ção ou de um decreto? E, sobretudo, a pessoa é compreendida
passar ao lado, do ponto de vista teórico, da própria fonte da como um simples duplicado do ser humano ou como conceito
plena humanidade do homem. . específico da sua dignidade? No primeiro caso, dizer que o cor-
E, do ponto de vista ético, é envolver-se em perigosos erros. po é a pessoa significa, singelamente, sublinhar que ela não é
Ao estabelecer a estrita coincidência do corpo com a pessoa, e, a puro espírito: banalidade supérflua; no segundo, pretender que
fortíori, ao inscrevê-lo no património comum _da humanidade, o corpo é, em si mesmo, respeitável: asserção indefensável. Mas
·não se o valoriza senão tornando-o tabu 104 - amda que ele este- estes sem sentidos têm um sentido. Eles traduzem o facto de
'~ doente ou em sofrimento. Como se a pessoa não tivesse mui- que, partindo de uma preocupação ética: evitar a desumaniza-
J" d' . ção da biomedicina, recusando a despersonalização do corpo,
tos motivos para se queixar do seu corpo, chamando a~~ rcr-
na a remediar nele, de alguma maneira, e mesmo a corngir, os se acha conveniente sustentá-la numa tese ontológica: o corpo é
erros da natureza para que ela própria seja respeitada. Que a própria pessoa - como se o ser pudesse garantir, por si mes-
toda a intervenção sobre o corpo afecta directamente a pessoa, mo, o dever ser. Mas, passando assim ao lado da sua finalida-
gue ela apela, consequenternente: à vigilâ~ci~ é~ica, ~ fi~ de de, esta petição de princípio atinge outra totalmente indesejá-
que a intervenção não degenere e1~ ma~11pula~ao, Isso e e\:rden- vel. Querendo humanizar a biologia, biologiza o humano, tra-
te. Neste sentido, humanizar a b1olog1a supoe personalizar o vestindo em homologia simplista uma relação de uma ordem
corpo: esta é a tarefa de uma ascripção meditada dos valores bem mais complexa: aquilo que constitui a pessoa como valor
hu~1anos. Mas a equivalência pura e simples do corpo e da pes- excede de longe o corpo, aquilo que compõe o corpo como fac-
soa institui um princípio atributivo claramente s~rnário~ 9ue se to ultrapassa de longe o campo da pessoa. Se não fosse assim,
arrisca a fazer-nos passar de urna ética do «tudo e penmhdo» a por que razão levantaria problemas tão delicados a tarefa de
uma outra do «nada é aceitável», onde se vê diabolizado em fazer respeitar a pessoa no seu corpo?
bloco o empreendimento derniúrgico de recriação do_ horn~~ Perante esta dificuldade, será fecunda a definição da pes-
que seria a biomedicina actual. Daí um non possu~1US srstem~b­ soa como forma-valor? Penso que sim. Ela indica, à partida, de
co, cujas consequências últimas ninguém pensana ;erdadeua- que modo a questão inicial atravessa, na confusão, o problema
rnente em defender, a não ser a testemunha de Jeova que prefe- antropológico e a interrogação moral. Ao convidar, pelo contrá-
re deixar morrer o seu filho a chamar o médico. rio, a distinguir claramente ser humano como facto e pessoa
como valor, ela autoriza todas as ascripções, motivadas por
uma dignidade, ao corpo e às suas partes, mas sem pressupor
103 lbid., pp. 424-425. Cf- também T. II, p. 34; Le Capital, Livro I, obra citada,
pp. 189 e 805. _,
qualquer fetichização do corporal, que não é fonte do seu pró-
104 A palavra é do Pastor André Dumas, ~etomada po,r Paul Ladnere, prio valor e pode, de direito, ser modificado, dado, substituído,
<<Perso nne humaine potentielle et procreatlon>>, em Ethzque et bzologze, estudado nas condições e limites muito precisos em que tratar o
Cahiers STS, Éd. do CNRS, n." 11, 1986, P- 102. corpo não é maltratar o homem. Percebe-se aqui aquilo que se

100
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ganha, na representação da pessoa, com a passagem das cate- cientistas como Francis Crick, que vai a ponto de sustentar que 111
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gorias de substância ou de relação, à de forma, que permite pen- nenhum ser nascente «deveria ser considerado humano antes ' ll
!,1,
sar tanto uma objectividade não reificada como nma subjectivi- ~ ~ ·l.
de ter passado um certo número de testes acerca da sua dota-
dade não evanescente. Era a ela que recorria, justamente, ção genética»: «se não passar nestes testes, rerde o seu cfir~üo à lj!jl
i.jj
Aristóteles, ao conceber a alma como «a forma do corpo». Mas, vida»l0 7, e eclesiásticos como Monsenhor Glemp que, co~\'fbtal l il ,J
nele, a forma permanece essencialmente ideal, imediata, imó- apoio de João Paulo li, não hesitava em assemelhar a Polóhia a " j '~ 1
vel. Ao retrabalhar esta categoria à luz das conquistas filosófi- um «campo de exterminação legal»108 pelo facto de a lei desse 'J . Ji
cas posteriores105, pode incluir-se nela aquilo que torna a for- país não proibir a IVG.
1'1
ma-pessoa materialmente produtiva, socialmente mediata, his- Assim se reaviva uma questão milenar: a do estatuto de
toricamente evolutiva. Ela orienta-nos então para as práticas humanidade que convém ao embrião. Questão doravante bem
vivas portadoras de sentido onde se opera a interminável per- definida, uma vez que diz respeito a factos, consideram os bió-
sonalização ética do corpo humano. logos, pelas razões avançadas no início deste capítulo. Aos seus
olhos, só aquele que ignora tudo acerca do real- ou decide não
o ter, de modo nenhum, em conta- pode ver um ser humano,
NAS FRONTEIRAS DO HUMANO no sentido consagrado do termo, no zigoto unicelula1~ na moru-
la dos dias seguintes, no blastocito em curso de eclosão, no dis-
Na da torna mais necessária uma concepção rigorosa de co embrionário com um quinto de milímetro, que se diferencia
pessoa do que a ética das fronteiras do humano onde se move no decurso da segunda semana. De onde o nome de pré-embrião
actualmente a biomedicina, e, mais que qualquer outra, a do que se dá a este conceito, nos seus diversos estádios, destinado,
começo da vida. Pois se a ciência introduz por toda a parte o no espírito dos seus padrinhos, a marcar claramente que, pelo
inédito - por exemplo, a propósito da vida que acaba, com a menos até ao décimo quarto dia, todas as perplexidades são
,, noção de morte cerebral ou a exploração dos estados vegetati- possíveis. 109 Mas mais do que uma pessoa se recusará igual-
vos prolongados -, e!Jllado algum ela suscita tão grandes per- mente a falar de ser humano a propósito de um embrião um
turbações como no caso do embrião. «Ü embrião de que agora pouco mais evoluído onde, contudo, não há ainda um coração
falamos, escreve Henri Atlan, é um ser totalmente novo, que a bater, um sexo a esboçar-se, um centro nervoso a funcionar.no
nunca existiu»106: trata-se da amálgama de células oferecida a Portanto, quando se vem propor que se escreva numa lei que se
todas as investigações e intervenções in vitro, do embrião con- trata de um ser humano «desde a primeira etapa da concep-
ção», como poderão estes cientistas, e muitos outros com eles,
gelado onde acabam por se confundir as nossas ideias sobre a
demarcação primordial entre a pessoa e a coisa. Ele é, ao mes-
mo tempo, o campo dos afrontamentos mais passionais entre 107
Propostas citadas em J. Rifkin e T. Howard, Les Apprentis sorciers, Ramsay,
1979, e retomadas por Laurence Gavariní em Le Magasin des enfants, obra
citada, p. 167.
105 Analisei o conteúdo da categoria de forma em Aristóteles, Kant, Hegel e 108 Le Monde, 6 de Junho de 1991.
109 Sobre o pré-embrião, ver o capítulo de Jacques Testart, «Définitions de
Marx (que é, sem dúvida, do meu ponto de vista, o grande pensador
moderno da forma), num artigo com o título «Forme, fonnation, transfor- l'embryon: les apologistes du quatorzieme jour», em Le Désir du gene,
mation>>, em Structuralisme et dialectique, Éd. sociales, 1984, pp. 193-236. . François Bourin, 1992, pp. 164-177.
l06 Henri Atlan, <<Distinctions nécéssaires: l'innovation thérapeutique, l'expé- l10 Aq m'I o que se tornara' o coraçao
- começa a bater ao ·f.1m d.a terceira
. semana
rimentation sur l'adulte, l'expérimentation sur l'embryon», em de gestação~ o sexo é indicado entre a sexta e a sétima semanas, o cérebro
E:>.:périmentation biomédica/e ct droits de /'homme, obra citada, p. 210. torna-se funcional muito mais tarde.

102 103
deixar de ver nessa proposta uma provocação? Visto deste com que eles se encontrassem. De modo que o embrião se ins-
i lj.
modo, o debate não tem saída e degenera em polémica. Mas creve imediatamente- e pouco importam aqui as suas meta-
i.'
então, responder-se-á, se o senhor acha realmente que um rnorfoses biológicas sucessivas --;-senão nuo projccto· pa:tet ial
embrião é um ser humano, porque não exige que se façam exé- que por vezes está ausente do encontro, emqll'ltlquer caso, num
f ' quias, qualquer que seja a sua idade, a todos os fetos mortos, romance familiar em que ele abré sempre um hbyo capítulo, e,
!\
hoje em dia tratados simplesmente como desperdícios hospita- mais essencialmente, numa representação sÕ~al irrecusável
lares?111 Este género de inconsequências faz pesar uma suspeita para todo o ser civilizado: a de um candidato frágil à humani-
quanto aos reais objectivos perseguidos por aqueles que defen- dade, q~e estabelece limites tanto mais firmes ao poder de
dem o ser humano até ao extremo. outrem. E por isto que a maior parte das legislações sobre a IVG
E, contudo, sem deixar o terreno dos factos, não haverá não institui, de modo algum, um direito sobre a vida do embrião
também outra coisa a dizer acerca da humanidade do embrião? ou do feto mas, o que é uma coisa totalmente diferente, despe-
Do zigoto, não se passa senão por degraus, e nem sempre, a um naliza o aborto baseada em razões que podem ser uma indica-
ser humano: esta é uma verdade biológica inegável. Entretanto, ção médica importante ou um perigo maternal patente, isto é,
consideremos o processo ao contrário: como escreve )acques ponto capital, em nome de um respeito) 14
Testart, «se nem todos os pré-embriões se tomam embriões, os Essa é, pois, a dificuldade. Considerando apenas os factos,
quais não se tornam todos crianças, a verdade é que cada o embrião parece ser, ao mesmo tempo, bem menos que um ser
homem e cada mulher não foram, ao prinCípio, mais do que um humano e, contudo, bem mais do que ele próprio. Dificuldade
ovo fecundado»l12. Também isto não é negável: uma vez mistu- redobrada quando se trata da questão ética: deve-se, ou não,
rados os cromossomas dos dois pais, está fixada para r:tempre torná-lo como urna pessoa? O conceito de pessoa humana
uma identidade genética absolutamente singular. Momento potencial, recebido em herança dos seus predecessores pela
chave mais do que qualquer outro, ao qual remonta aquilo que CCNE, aguando da sua criação115, poderá parecer capaz de
um gâmeta isolado nunca produzirá. E saibamos ver também, ultrapassar esta dificuldade. Pois, com a categoria de potencial,
para lá da génese de um corpo, «aquilo que há de incorporai na estamos perante essa modalidade ambivalente daquilo que ain-
realidade do homem>>113. Pois estes dois gâmetas não se encon- da não é, já sendo: não é esse justamente o estatuto de humani-
tram por sua própria iniciativa: mesmo quando se trata da dade do embrião? Contudo, este conceito está longe de ter sido
fecundação in vitro, foram determinadas pessoas que fizeram admitido por todos sem discussão. Nos seus primeiros traba-
lhos, a CCNE dizia do embrião que ele é uma pessoa
potencia1. 116 Um tal enunciado foi, corno facilmente se adivi-
111 Cf a <<Proposta de lei tendendo a assegurar o respeito pela integridade da
pessoa>> depositada na Assembleia nacional pela Senhora Christine Boutin,
deputada da UDF, a 19 de Dezembro de 1989 (n.º 1156), cujo artigo primeiro 114 Cf, sobre este ponto, a resposta d e Dominique Thouvenin à interpretação
começa assim: <<Desde a primeira etapa da concepção, o ser humano é da Lei Veil avançada por B. Edelman, em Le Magasin des enfants, obra cita-
uma pessoa.>> Frase subtilmente redigida que, ao chamar a atenção para a da, p. 231. No mesmo sentido, cf C. Labrusse-Riou, L'Homme, la nature et
qualidade de pessoa reconhecida ao embrião, a desvia do postulado le droit, obra citada, p. 330.
segundo o qual ele seria um ser humano. Cf. Didier David e Nicole 115 CJ. também a indica ção dada pelo antigo ministro da Investigação e
Mulliez, <<Les foetus d'outretombe», Le Monde, 3 de Dezembro de 1993. Tecnologia, Hubert Curien, sobre o <<longo encontro>> com o cardeal
Antes dos cento e oitenta dias de gestação, o feto morto não tem, no direi- Lustiger, nomeadamente a propósito do conceito de pessoa humana
. to francês, personalidade jurídica. · potencial, em Vers un anti-destin, obra citada, p. 42.
112 Le Désir du gene, obra citada, p. 173. 116 Cf, por exemplo, o relatório da CCNE de Abril de 1984, em Les Avis de
11 3 A. Leroi-Gourhan, Le Geste et la paro/e, obra citada, T. l, p. 207. 1983 à 1993, p. 11

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104 105
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nhará, fortemente discutido. No grupo de reflexão sobre a pes- estão índefectivelmente ligados. Pede que se admita a evi-
soa, cuja animação me calhou em 1985, biólogos tão ligados à dência de um ser humano em devir, e que se torne consciên-
'j
i 'I: ética como outra pe.ssoo qualquer contestaram-no radicalmente/ cia de que o nosso modo de o tratar envolve a moralidade
em nome da acepção científica do termo «potencial» - estado das nossas relações com a pessoa humana no seu tó'po, com a
específico de uma realidade não exprimida, mas claramente colectividade social no seu conjunto"e, por últirrló; ·corn o
existente. Ver no embrião uma pessoa potencial seria, em suma, próprio género humano. Não há nenhum dia ante'sroo qual
sustentar que está já presente nele, sob forma virtual, uma pes- tudo se ria permitido, em rela ção a ela. A moral nunca
soa susceptível de se manifestar seguidamente de forma actual: fecha_,,119
asserção inocentemente preformista - como se, por exemplo,
'l
i pudesse existir uma consciência em estado latente numa amál-
gama de células ainda desprovida da menor estrutura nervosa. O EMBRIÃO, PESSOA HUMANA POTENCIAL?
Fiz então valer a distinção - «subtil, mas justificada», no
entender de Henri Atlan 117 - entre pessoa potencial e potencialida- Todos os mal-entendidos a propósito dessa famosa «pes-
de de pessoa. No terreno dos factos, aquilo que se deve admitir é, soa humana potencial» resultam, pois, em suma, do facto de o
simplesmente, a potencialidade inerente ao embrião de se tor- conceito puramente ascriptivo, que significa um valor, perma-
nar um ser humano. E é em nome desta potencialidade existente necer mais ou menos confundido com um conceito descritivo,
que está eticamente fundada a atribuição das prerrogativas de que indica um facto, por fa lta de uma distinção suficiente-
uma pessoa, ainda não actual - e portanto já para -si -, mas mente clara entre pessoa e ser humano. Ora, nesta indistin-
potencial - isto é, somente em-si, suspensa do reconhecimentq ção, nenhum discurso sobre o estatuto d o embriã o pode
por outro. Não sendo o embrião, de modo nenhum, capaz de enunciar asserções realmente pensáveis: se esta questão passa
fazer valer, por si próprio, as suas prerrogativas, diremos, não por ser do próprio tipo daquelas sobre as quais não pode
que ele é - verbo que é aqui, por essa razão, muito equívoco - , haver entendimento, não será porque se insiste em pô-la em
mas que ele deve ser tratado como uma pessoa potencial118, o que termos tais que quem a põe não se entende a si mesmo? Uns,
implica decidir q'Ue limitaremos os nossos poderes e nos impo- pensand o que não se afirma suficientemente a dignidade do
remos deveres a seu respeito. Era isto que eu exprimia, com o embrião se não se vai a ponto de dizer que ele é uma pessoa,
acordo de todos, no relatório da Comissão sobre o respeito pela são constrangidos a defender que ele é, por maioria de razão,
pessoa: «Não nos propomos colocar a pessoa potencial ao nível um ser humano, e a solicitar neste sentido factos manifesta-
dos conceitos da ciência, ao lado da morula ou do blastocisto. mente recalcitrantes. Outros, partindo, pelo contrário, do fac-
Ao biólogo que declara ver, neste conjunto de células, potencia- to de que um embrião não pode ser chamado, sem abuso de
lidades de futuro, mas nenhuma pessoa no presente, podemos linguagem, um ser humano, não podem, ao mesmo tempo,
responder: na verdade, é justamente isso que significa a noção conceber que se fale, a este propósito, de pessoa, mesmo que
de pessoa humana potencial, devemos pois chegar a entender- potencial. Duas atitudes de direcção oposta, que, contudo,
-nos. Ela não obriga a acreditar que exista no embrião uma pessoa mais não fazem do que ilustrar uma mesma confusão nos
misteriosamente presente, coisa a que, contudo, alguns de nós conceitos.

117 Henri Atlan, Touf, 11011, peut-être, obra citada, p. 282. -


118 Esta evolução é fina mente notada por Philippe Lucas, Dire /'éthique, Actas 11 9 Recherchc biomédica/e et res pect de la perso11ne humaine, obra citada ,
Sud-INSERM 1990, pp. 108 e 123-124. pp. 55-56.

106 107
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Na medida em que este ponto capital permanece, ainda O embrião não seria mais que uma pessoa «possível»: eis o
hoje, incompreendido120, o conflito perdura no equívoco sobre conceito que lhes «parece filosoficamente mais adequado»123.
a interpr~tação dQ..adjectivo <~potencial», entendido erradament~ Mas se _«em potência» di.'f .demasiado, «possível>> dir4 o sufj.,
como reenviando a dados de facto, quando a verdade é que se ci;rte? A pal~vra reenvia para um futuro incerto aquilo que já .
trata, expressamente, da pessoa. Para alguns, o termo deve ser ha de humamdade num genoma. Aliás, definir-se pelo pC0ssí-
entendido como o dunamei" de Aristóteles: «em potência>> no vel vale para cada ser em cada estádio da vida: «Não somos
embrião, a pessoa não seria nele «actual» («em acto>>), mas não todos nós, escreve neste sentido Marie-Angele Hermitte:mai~ ,I
deixaria de ser real. Assim, os católicos aceitaram a fórmula do que pessoas humanas potenciais»124. Na medida em que
«porque a palavra 'potencial'subentende que se trata, já, de um esta discussão diz respeito, na realidade, através da confusão
ser humano, cujas virtualidades não estão desenvolvidas, mas de vocabulário, ao devir do ser humano, as duas teses em pre-
cuja 'carga de ser' está já totalmente dada»121. Ora, evidente- sença não têm, contudo, nada de incompatível. O ser humano
mente, como bem sublinha Paul Ladriere, para a CCNE, esta é, no embrião, uma simples «possibilidade formal» ou uma
fórmula «permanece aquém daquilo que in potentia significa na «possibilidade real» ?125 Não se deveria convir, sem qualquer
filosofia aristotélica e escolástica>>. Aliás, acrescenta este autor- ecletismo, que é os dois ao mesmo tempo - possibilidade real
adição essencial - «não é de todo certo que a teoria do «ser em se se considera o alcance identificador e determinante do
potência» se aplique correctarnente ao caso do embrião>>, pois genoma, possibilidade formal se se consideram as eventualida-
ele não contém em si mesmo os factores do «meio ambiente>' des e os contributos da epigénese?
necessários à formação de um ser, não somente humano, mas Mas a questão que nos interessa não é essa. É uma questão
humanizado.122 Neste sentido, pretender que a «carga de ser» de ordem ética: a partir de que momento e em que medida fará
estaria «já totalmente dada» no embrião não significará ignorar sentido sentirmo-nos obrigados a respeitar o embrião como
em bloco o papel da epigénese biológica e da hominização social uma pessoa potencial? Desde a concepção e sem reservas, res-
na nossa formação? pondem os adeptos da possibilidade real, ao que objectam,
Para outros, potencial quereria dizer justnmente o contrá- mais ou menos radicalmente, aqueles que defendem a possibili-
rio de uma realida"cle já dada: seria uma pura eventualidade. dade formal. Dilema que os defensores de urna «ontologia pro-
gresszva>> se propõem ultrapassar, a partir da intuição simples
que «o ser embrionário é um ser em desenvolvimento e que,
120 No seu livro Contrc la peur, Hachette, 1990, Dominique Lecourt fala da
perante. uma célula viva, depois um feto de cinco meses, depois
<<assombrosa noção de 'pessoa potencial'>> e comenta: «As discussões que
se seguiram sobre o desenvolvimento do embrião em feto para fixar a
urna cnança de cmco anos, as nossas obrigações morais não
data na qual a dita pessoa podia começar a ser dita 'potencial' permane-
cerão, sem dúvida, em todas as memórias! » (p. 63). É espantoso constatar
123 C'f G D I . ' d P · des enfants, obra citada, p. 270.
até que ponto estas discussões imaginadas pelo autor estão afastadas do . . e a1S1 e arseval em Le Magasm
debate real da CCNE (cf, por exemplo, o relatório ético anterior ao pare- Na ocorrência, é o termo retido por H. T. Engelhardt (cf. A. Fagot-
cer de 15 de Dezembro de 1986, Les Avis de 1983 à 1993, pp. 113-116). Ao Largeault e G. Delaisi de Parseval, <<Qu'est-ce qu' un embryon?», artigo
que parece, ele não percebeu o carácter puramente axiológico do conceito citado, p. 111).
124 M . A 'I H . L M ·
de pessoa potencial, cujos problemas de ascripção não são, em nada, mais ane~ nge_ e ermltte, e agasm dcs enfm:ts, o_bra citada, B: 250.
125
«assombrosos» do que, por exemplo, os que envolveram os limites de Esta d1stmçao no se10 da categona de poss1ve! e essenoal. b possível for-
validade do conceito de «direito de autor>>. malmenle o que não envolve contradição lógica (por exemplo, fazer bom
121 Monsenhor Eyt, em Bu.lletin, revista citada, p. 30. tempo em Paris no próximo dia 1 de Janeiro). É possível realmente aquilo
122 Paul Ladriere, «Personne humaine potentielle et procréation», em Éthique relativamente ao qual existe já um certo número de condições determi-
et biologie, revista citada, p. 99. nantes (por exemplo, estar frio em Paris no próximo dia I de Janeiro).

108 109
podem ser as mesmas»126 . A afirmação é, num certo sentido, a pe~s_oa incapaz, a pessoa defunta, ou mesm o a realidade que
incontestável: uma vez que as prerrogativas da pessoa se enrique- p~rh~1pa da pessoa .. . A distinção entre o actual e o potencial
cem à medida que ela se toma por-si, é_çlaro que as prescripções nao e, neste caso, equivalente à distinção entre o presente e 0
do seu respeito são chamadas a alargar-se proporcionalrt1ente. · · futuro, mas à (li::; tiHçào entr~ o efeçtivo e o hctk io. - "
Querer resolver um problema ético com base em considerações ~~n ~egu~do _lugar, falar de pessoa potencial a propósitg, do
ontológicas não torna menos grave a questão. At~ que ~onto, uma embnao 1mphca tirar as consequências éticas do facto de ele 'n ão
ontologia progressiva justifica uma ética degress1va? Drr-se-~ q~e ser, ainda, sen~o uma potencialidade de ser humano. AquiÍ~~ que
um ser embrionário apenas tem direito a um respeito embnona- temos, essenCialmente, que respeitar nele é precisamente essa
rio? Desde que exista uma potencialidade de ser humano, deve-se potencialidade, a fim de que ele tenha todas as hipóteses de se
ascrever-lhe uma dignidade que não é puramente proporcional ao tornar um ser humano cumprido: o nosso respeito dirige-se ao
seu nível evolutivo, a não ser que se implique uma clara involução ~eu presente na medida em que nele consideramos o seu futuro , e
das nossas conquistas civilizadas. Não será por isto que são raros e sobre este futuro que ele deve, antes de tudo, regular-se. E essa
aqueles que admite!ll, por exemplo, que se produzam emb:iões é a segunda diferença entre uma pessoa actual - que devemos,
para investigação? .E que, nesse caso, o ser humano_que_ esta ~m a:ltes de mais, respeitar como é - e uma pessoa potencial. Assim,
potência seria flagrantemente tratq,do como um me1o. E1s aqmlo sao !·aros a_queles que recusam a interrupção da gravidez por
que uma ontologia progressiva dificilmente poderá e~plic~r. maltormaçao ou doença graves e incuráveis do ser concebido.
Não convirá pensar a questão de outro modo, 1sto e, levan-
Opor-se a isso não revelaria uma obstinação ética míope sobre o
do até ao fim as consequências do carácter puramente ético do
: _mbrião presente, mais do que um verdadeiro respeito prospec-
conceito de pessoa? Nesta óptica, o adjectivo «potencial» aplica-
nvo pelo ser humano futuro? Neste duplo sentido, a noção de
do à pessoa não pode, de modo nenhum, reenviar em si mesmo
pessoa potencial não é, pois, de modo nenhum, portadora de
à ontologia, progressiva ou não. Ele reenvia-nos aos valores
civilizados que queremos ligar a estes aspectos do ser humano ambiguidades, e mesmo dos sem-sentidos que lhe são imputa-
com os quais a biomedicina nos relaciona de forma inédita. E as dos quando não se faz uma análise suficientemente rigorosa.m
realidades biológicas não nos importam aqui senão na medida
em que definem as condições factuais de uma ascripção suscep- 127Essa é, do meu ponto de vista, a solução para os problemas que H enri Atlan
tível de se revelar viável na diversidade das situações práticas. d1z;. encontrar 1~a 1~e1a de pessoa potenoal (cf Vers un anti-destin, obra citada,
p. ;:,7): «A noçao d.e p essoa p otencial parece-me muito obscura e por vezes
Qu e queremos então dizer, quando afirmamos que o embrião p engosa. Aquele ou aquela 9ue tem _dir~ito à dignidade de uma pessoa não
deve ser tratado como uma pessoa potencial? Duas coisas preci- pode ser uma pot~nCialidade. Por defuuçao, desde que lhe reconhecemos esse
sas. Em primeiro lugar, que não podemos considerá-lo como direito,_ ele ou ela e uma pessoa real. Além disso, aceitar esta noção de pessoa
po:enCial, que sena diferente de uma pessoa real, tem os seus perigos. Isso
uma pessoa actual, ou seja, por-si: nem o embrião nem o feto querena diZer que existem dois tipos de pessoas, as verdadeiras e as menos
são capazes de fazer valer a sua dignidade. Esta tarefa incumbe verdadeiras. O que impediria então de fazer entrar nesta categoria das sub-
a terceiros: aos pais, ou, na sua falta, a um tutor. Essa é a pri- pessoas - as potenciais, relativamente às reais - as crianças e os deficientes?
Em suma, a pessoa ou é real ou não é ... » Esta crítica não me parece conclusiva.
meira diferença de ordem ética - e jurídica - entre uma pessoa Com efeit?, uma vez clar~mente compreendido que, na expressão discutida,
actual e uma pessoa potencial, não sendo esta última, em suma, <<pessoa>>e um conceito, nao de realidade,, mas de valor, a distinção entre pes-
senão um caso particular, ao lado de outras pessoas não actuais: soa <<real>> ou <<Irreal>>perde toda a pertm~nCia. A 1de1a de pessoa <<potencial>>
nada tem a ver com a de pessoa <<Irreal>>, a e pessoa <<menos verdadeira>> ou de
<<subpessoa>>. Ela tem a ver com esse duplo facto patente de que o embrião,
diferentemente de uma pessoa actual, não está, presentemente, em condições de
126 A Fagot-Largeault e G. Delaisi de Parseval, «Qu 'est-ce qu'un embryon?>>, fazer valer por SI mesmo as suas prerrogativas e que o nosso respeito por ele
artigo citado, p. 110. N um sentido parcialmente análogo, cf X. Thévenot, VISa essenCialmente o seu futuro de ser humano. Não somente não há aí nada
La Bioéthique, obra citada, pp. 67-69. de .'<obscuro>>, ou de <<perigoso», como aquilo que seria perigoso e obscuro
sena antes, na rrunha op1mão, querer assimilá-lo a urna pessoa actual.

110 111

!
J
Ela está, por maioria de razão, apesar do que_ se po~~a l~r aqui Um último exemplo acabará por demonstrá-lo. A investiga-
. nos próprios antípodas de uma noçao «utültansta» - ção em embriões congelados, que são excedentes no termo de
ou al1, , l do a urna fecundação in vitro, será eticaX?ente aceitável, e até que
sendo bem mais útil que a ficção, tão contestave' segun
-qual o.embrião seria; em si mesmo' um «ser h lmano desde a sua êsládio de desenvolvimento do embrião? Ela é admi~sível até
f ao décimo quarto dia, respondia, na Grã-Bretanha, a te!>missão
í
origem» 128. Warnock.129 É inadmissível desde o primeiro dia I ·\a:firmam
Os resultados deste breve exame abarcam claramente, pare- '

ce-me a mim, as conclusões precedentes. Rigorosamente f_al~n­ aqueles para quem o embrião é, à partida, um ser humano.
I t
do o facto da pessoa não é senão o seu valor. Procurar defimr ? Para lá da oposição diametral das opiniões, aceita-se, 1pois, nos
car'npo de aplicação deste valor,_ con~o se ele e~tivesse traçado ~ dois casos, tratar em termos cronológicos um problema que é
partida a ponteado pela biologia, nao faz mal~ _do que org~m essencialmente axiológico. Mais avisada me parece ser a deci-
- Aparentemente reforça-se a etlca ao funda-la são da CCNE que, no seu parecer sobre a questão, fazia residir
zar a confusa 0 · ' · f
sobre o que é; na verdade, isso consiste com, de~aswda re- o critério de aceitabilidade eventual, não na fixação de uma
quência em invocar uma ontologia de circunstanCla, ~~r exem- data, mas na justificação de um projecto: talvez não seja de
lo a do pré-embrião, para caucionar uma escolha etlca - ou proibir tudo para lá de uma certa data, mas não se pode, certa-
~ã~ ética - prévia. É um puro álibi para a moral. Entreta~to, se mente, aceitar tudo para aquém dela.130 Sob a questão do quan-
se quer forte, a ascripção de uma dignidade deve ser p~rtmente do, há que pôr a do porquê. Toma-se então clara consciência de
face ao real - o que é uma coisa completamente diferente. que os limites da pessoa não podem resultar, simplesmente, de
Assim apesar da imprecisão do momento e dos aspectos co~­ uma alegada realidade, nem de uma ficção conveniente, mas
te~táv~is da escolha- como de qualquer escolha -,, a concepçao são, antes de tudo, fruto de um processo de personalização que
apresenta vários traços que, em geral, _levam a rete-la como ~ tem como responsabilidade traçá-los até tão longe que encon-
acontecimento mais convincente a partir do qual deve _começar tre, em cada caso, sentido e motivo para preservar a dignidade
respeito pela pessoa. Pelo co~t~ário~ des~enh~r mte1ramente do humano.
os facto s votaria as fronleiras etJcas a arbürane~ade de uma
0

convenção: quem poderia aceitar que nos tornassemos um~


pessoa como nos tornamos eleitores, numa data que~ le~ de::l- OS GENES DO HOM:EM SERÃO HUMANOS?
de fixar? Inapta para justificar a decisão moral, a e1ene1a nao
desempenha aí um papel de argumentação puramente subalterno. E quando consideramos os limites da pessoa, já não no
De onde um papel confuso, e mesmo mistificado~, onde os tempo, mas no espaço, isto é, quando passamos do corpo intei-
recortes plausíveis do real, sem preconcei:os de partida quanto ro às suas partes cada vez mais pequenas, será válido o mesmo
a fronteiras de valor, importam, contudo, a chegada._Mas, sob a procedimento? No espírito, sem dúvida; mas, na letra, manifes-
aparência assim adquirida de se tratar de uma questao de facto, tamente não, pois a natureza do problema altera-se. Todos
problema dos limites temporais da ~essoa - ta~to do lado da estão de acordo: já não há aqui ser humano, o corpo dividido já
morte como do do nascimento - tra1, pelos dms se~t~~os da
0
não é o indivíduo. Até que escala é razoável reconhecer nele,
palavra, uma ordem bem diferente: a dos valores ClVlhzados
aos quais estamos ligados. 129 Fécondation et embryologie humaines, Relatório da comissão de inquérito pre-
sidida por Dame Mary Warnock, La Documentation française, Abril de
1985, p. 104.
128 Cf- Marie-Angele Hermitte, em Le Magasin des enfants, obra citada, 130 Cf o parecer de 15 de Dezembro de 1986, Les Avis de 1983 à 1993, pp. 122-123.
pp. 250, 255 e 260.

112 113
pelo menos, algo de humano, e conceder-lhe uma dignidade? apaixonada dos investigadores e ao mercado dinâmico das bio-
No órgão ou no tecido, parece ser ainda clara a relação com o tecnologias, vindo a tomada de patentes industriais sobre as
indivíduo: biologicamente, a «forma humana» permanece, ~ aÍ, · parcelas d.este Eldorado/ em boa consciência, proteger os direi-
identificável; socialmente, a pessoa está presente no dom deles tos do inventor e os investimentos consentidos. "' ·
que pode ser feito. É por isto que é forte, ainda que.ameaçada, a ' lf.processo
Este o ponto de vista que sustert·tlà.va a defesatHi
recusa de os ver tratados como coisas. Mas desçamos de escala. intentado por John Moore, «o homem das células á~ouro», ao
Face aos «excedentes» do corpo humano - placentas, urinas, · Centro médico californiano, que realizava enormes lucros gra-
resíduos de intervenções cirúrgicas ... -, que argumentação opor ças a uma cultura de células com propriedades úíricas prove- 1

à sua crescente conversão em artigos rentáveis de comércio e nientes/ com a su a autorização, de si mesmo. Uma das suas
indústria? Ainda mais baixo na escala, estamos ao nível da teses era/ precisamente, que, ao nível dos genes, o indivíduo,
célula, do gene, da proteína. À medida que se apaga qualquer enquanto tat já não existe, e que não há, portanto, títulos pes-
traço específico de humanidade, que resta neles de humanitu- soais a fa zer valer sobre eles. Mas/ em 1988 o Tribunal de apelo
1

de? Eis-nos face ao grande paradoxo: nos seusconstituintes da Califórnia não foi da mesma opinião. Ele considerou/ efecti-
últimos, o homem não é feito de homem, o próprio ser vivo não vamente que, segundo os termos de um manual americano de
é feito de vida. Como manter aqui a distinção cardinal entre a genética/ «todos os traços humanos», físico s e p síqu icos/
pessoa e a coisa? «incluindo a inteligência e os aspectos da personalidade (por
O caso dos genes merece toda a atenção, por causa da sua exemplo, o carácter) são determinados/ no fim de contas pela 1

importância central na evolução actual da biomedicina. Os informação codificada no ADN». De mod o que «o genótipo
genes do homem serão humanos? Se se pensa, por pouco qu~ pessoal» encobriria «a essência única de um indivíduo» e rele-
seja, naquilo que eles são: cem mil sequências de quatro bases varia, por este motivo, da privacy isto é, do direito da persona-
1

químicas repetidas milhares ou milhões de vezes, sem ordem lidade.131 Em suma, poder-se-ia dizer, seguindo este ponto de
aparente em cada uma, e que, em conjunto, formam a molécula vista, que sem dúvida os genes não são humanos em si mes-
1 1

de ADN presente, de modo mais ou menos idêntico/ no núcleo mos/ mas são-no à partida, pelo seu poder de expressão num
1

de todas as nossàs células/ que há nisso que deva ser tido como ser humano singular. Não será o suficiente para que nos recuse-
hu mano, senão no sentido puramente taxinómico em que as mos a tratá -los como coisas?
mesmas bases se repetem de modo diferente no genoma de um Não/ não é suficiente/ uma vez que o Tribunal concluía
chimpanzé ou de um macaco? E ainda há que ver o seguinte: se igualmente pelo direito de propriedade de J. Moore sobre os
se pode dizer do embrião in vitro de hoje que ele nunca tinha seus genes - e, ao mesmo tempo, é demasiado. Pois esta forma
existido sob esta forma/ é também esse/ por maioria de razão, o de humanizar o gene consiste em reduzir todo o humano à
caso do gene. Pois o mundo dos genes que nos ocupa é essen- genética: procedimento cientificamente insustentável e etica-
cialmente o do gênio genético: genes danados, purificados/ mente inquietante. Já se apresentaram as razões psicossociais
ampliados/ fragmentados/ reproduzidos, em parte, por síntese para se contestar, no seu fundo/ esta redução à hereditariedade
química/ desempenhando o papel de fábricas de proteínas no daquilo que preside à constituição de uma personalidade. Mas
seio de bactérias-hospedeiras/ de sondas ultraprecisas para exa- a própria biologia volta a pôr em questão/ hoje, aquilo que
mes genéticos, de medicamentos para terapia genética. Este
conjunto de realidades onde dado natural e criação técnica se
dissociam com dificuldade apresenta-se-nos, assim/ como um 131 Citado por Bernard Edelman, «L'Homme aux cellules d'or», artigo citado,
novo mundo de coisas oferecidas sem reserva à investigação p. 42.

114 115
autorizou «a utilização literal e abusiva>>da metáfora do progra- radoras; a de proibir, pelo menos no estado actual dos conheci-
ma genético nos termos da qual, uma vez conhecido o ordena- mentos, qualquer terapia genética germinai, isto é, qualquer
mento das quatro bases químicas, rep~tidas mais de três rp.il modifiçação do ADN dos gâmetas, afectanrto, portanto, a des-
r , .. milhões de vezes, que constitui o nosso genoma, teríamos deci- cendência; a de impedir que, com o estabelecimento de pàten-
frado o «Livro do Homem>>. Na realidade, bem mais do que o tes industriais, se desenvolva a apropriação, corn.* nalidades
H·; «desenvolvimento linear e inelutável de um programa» na for- lucrativas, de informações acerca dos genes do ~I-wmem e da
mação do ser, precisa, por exemplo, Henri Atlan, teríamos nas monopolização dos saberes com fins biotecnológicos,l33 Foi
mãos «um processo interactivo entre o genoma e o seu ambien- precisamente com esta última preocupação que a.1 equipa fran-
te>>, onde o papel da epigénese é considerável, antes mesmo de cesa do Généthon pôs o conjunto dos seus trabalhos, em maté-
tomarem lugar os «factores socioculturais de personalização>>.132 ria de cartografia do genoma humano, à disposição da comuni- •
Visão deformadora, por consequência, e visão perigosa . dade científica internacional.134
. ''
Com efeito, ela cauciona, tanto uma sacralização do genoma - Ainda aqui, foram considerações, não de facto, mas de
responsável por cerca de três mil doenças genéticas monofacto- valor, que pareceram ser as melhores conselheiras, mesmo
riais recenseadas, às quais a ética de modo nenhum pode reco- quanto à pertinência factual de uma ascripção. E é por isto que
mendar que nos resignemos - , como compulsões eugenistas não me parece mais apropriado desenhar arbitrariamente os
inquietantes. Compulsões de que um exemplo, memorável pela limites topológicos do humano traçando uma linha simplista,
sua tolice, terá sido a criação, nos Estados Unidos, de um banco do que atribuir-lhe limites cronólogicos fixando uma data tipo
de esperma de Prémios Nobel, mas que também subentende- chave-mestra. Seria então uma boa solução para o problema
ram, e não somente na Alemanha nazi, à esterilização maciça.- instituir os genes do homem em «património da humanidade»?
forçada, e mesmo dissimulada - de doentes mentais, áe Sem falar das ressonâncias sexistas da palavra património -
«débeis>> e de «associais», e que poderiam amanhã, numa demo- não será o genoma, igualmente, um «matrimónio>>? -, não se
cracia aparente, estender muito mais os seus estragos. arriscaria ele a abrir a porta, tanto aos defensores de uma
Quanto mais reflectimos nestas práticas, mais entrevemos inquietante «nacionalização>> dos genes, quanto aos da sua des-
i ..
aquilo que constitui, sem dúvida, o procedimento justo para razoável dessacralização? Temos fortes razões, ao que parece,
ascrever, também a este nível, a exigência de um respeito pela para afastar o termo.135
pessoa. Se os genes do homem podem ser associados ao huma- Em qualquer .caso, a necessária dialectização da dicotomia
no, não será essencialmente em nome daquilo que se faz do tradicional entre pessoa e coisa não pode evitar os escolhos do
homem em seu nome? É menos a sua expressão biológica que a laxismo a não ser marcando bem o carácter «transitivo>> das par-
sua utilização social que deve entrar em linha de conta. Num tes do corpo, grandes ou pequenas, no sentido que Winnicott
relatório de 1991, a CCNE avançava, assim, três preocupações
éticas fundamentais, para reclamar que se estabelecessem limi-
tes ao tratamento utilitário dos nossos genomas: a de prevenir 133 Cf o parecer de 2 de Dezembro de 1991, Les Avis de 1983 à 1993, p. 316.
134 Sobre os procedimentos efectuados neste sentido por Charles Auffray na
uma categorização biológica das pessoas, que terá como efeito UNESCO, cf Le Monde, 29 de Outubro de 1992. Cf igualmente Daniel Cohen,
submetê-las, sem o seu consentimento, a exclusões ou discrimi- Les Genes de l'espoir, Robert Laffont, 1993, nomeadamente pp. 53 e 158.
nações, por exemplo, por parte dos empregadores ou das segu- 135 Foi o que fez o colóquio <<Analyse du génome humain: libertés et responsa-
bilités» (Association Descartes, 2-4 de Dezembro de 1992). Ver, nomeada-
mente, o contributo de Henri Atlan sobre <<A transmissão do saber biológi-
132 Henri Atlan, «Personne, espece, humanité», em Vers un anti-destin, obra co», que explica por que razão <<é particularmente mal vinda a expressão
citada, p. 55. 'património genético da humanidade' ».

116 117
deu ào adjectivo136: elas são objectos onde, mais do que nunca, vatórios de órgãos para enxertias aleatórias, modelos experi-
o sujeito se investe, e, por isso mesmo, se põe em jogo. E é a mentais para proezas genéticas, onde o velho mito das quime-
seguir com finura os processos d~ste . pôr-se em jogo, a interro- ras homem-animal parece adquirir alguma consistência. Não
gar-se com exigência sobre os seus efeitos em cada caso que progride a própria fecundação in vitro num vaivém inquietante
I'
I
deve empenhar-se uma ética dos limites. Não é eloquente ver entre procriações humanas assistidas e'·ltécnicas de melhora-
porem-se de acordo, acerca de um tal procedimento, espíritos mento do gado? Esta perturbadora diluição das fronre~as faz
muito diferentes? Reflectindo sobre o eugenismo, Anne Fagot- surgir questões angustiantes nos dois sentidos. Não nos con-
-Largeault acaba por concluir: «O genoma não é sagrado. Aquilo fundirá a biomedicina, por vezes, com animais? E o sánho defi-
que é sagrado, são os valores ligados à ideia que temos de nitivo de aperfeiçoar biologicamente a humanidade não tende-
humanidade».137 E Jacques Testart, alertando para os perigos rá a metamorfoseá-la, por sua vez, em espécie doméstica? Mas,
do diagnóstico pré-implantatório a partir de uma filosofia bas- reciprocamente, não estaremos a caminho de tratar os animais
tante diferente, não hesita em escrever, seguindo uma inspira- como os homens se trataram uns aos outros neste século, isto é,
ção, no fundo, pouco distanciada: «Aquilo que me preocupa, com uma bestialidade onde o nosso género parece não ter rival?
mais do que o sacrifício de alguns milhares de ovos, ao mesmo Em qualquer caso, é isto que dizem, com veemência, aque-
tempo em que a fome mata milhões de crianças, é o projecto les que se proclamam defensores dos animais. Convencidos de
ameaçador de triar as pessoas.» 138 Eis talvez, esboçada neste que travam o bom combate, eles permanecem surdos àquilo
ponto preciso, a ética sem fetichismo e, por isso mesmo, sem que se lhes responde: que não se pode confundir humanitaris-
desfalecimentos, de que precisamos. mo com antropomorfismo; que, em última análise, é menos
cruel para os animais fazer deles cobaias correctamente trata-
das do que carne de talho, coisa a que, contudo, muito poucos
O ANIMAL, UM PARCEIRO EI\1 DIGNIDADE? deles renunciam; que as investigações em que o modelo animal
permanece indispensável aproveitam igualmente à arte veteri-
Há ainda outra zona de fronteira de que a biomedicina faz, nária; que a Convenção europeia de protecção dos vertebrados
hoje, um lugar obrigatório de reflexão ética: aquela em que o utilizados para fins experimentais é cada vez mais respeitada;
homem se justapõe ao animal. Com efeito, os animais irracio- que, além disso, o número de animais de laboratório, ainda
nais nunca tinham sido até este ponto recrutados para o serviço considerável, não tem deixado de diminuir, em França, em pro-
da nossa saúde. Eles eram já pré-requisitos como terreno de veito dos métodos alternativos.139 Intratáveis, estes pequenos
ensaio dos nossos futuros medicamentos, vítimas sacrificiais grupos nem por isso deixam de exercer contra todo o recurso
dos nossos progressos científicos; são agora, além disso, reser- científico aos animais uma vindicta não menos fanática que a
dos comandos anti-IVG. Mas, para lá das recusas passionais e_
136 O objecto transicional - por exemplo, o urso de peluche - é, segundo
simplistas, põe-se uma verdadeira e grande questão: podere-
Winnicott aquele sobre o qual o bebé efectua a projecção de si mesmo (selfJ mos nós ser civilizados violentando os nossos parceiros da bios-
familiarizando-se com o ambiente que o rodeia. fera? Seria verdadeiramente humano o respeito pelo homem que
137 A. Fagot-Largeault, <<Respect du patrimoine génétique et respect de la assentasse sobre o desprezo pelas outras formas vivas?
personne», em Esprit, Maio de 1991, p. 51. Cf. também, do mesmo autor,
<<Normativité biologique et normativité sociale», em Fondements nature/s
de /'étlúque, obra colectiva sob a direcçã.o de Jean-Pierre Changeux, Odile
139 Cf. Catherine Vincent, <<Le nombre d'animaux utilisés à des fins expéri-
Jacob, 1993.
mentales a diminué de 25% en six ans>>, Le Monde, 5 d e Setembro de 1992.
138 Jacques Testart, Le Désir du gene, obra citada, p. 177.

118 119
Tal é a querela que sustenta uma filósofa como Élisabeth de Kant, como numa «figura conciliatória>>do racionalismo antro-
Fontenay.I40 A seus olhos, «a biurgia que se desencadeia nas pocentrista. Mas como passar em silêncio que, em nome da
manipulações genéticas» ou na vivissecação .s_ão, _claramente, próprja tese segundo a qual o homem apenas tem deveres rela·
«crimes» - os de um Estado social cujas raízes longínquas tivamente ao homem, o filósofo tenha escrito: «A •violência
,l Rousseau tinha claramente visto numa ferocidade canibal per- resultante da crueldade no modo de tratar os animais ,.§ ~"O pro-
'"i petuada na alimentação carnívora e no nosso «robespierrismo fundam~nte oposta ao dever do homem para consig01I?,róprio,
animalesco». Ora, o animal é «o elo sensível e decisivo que liga porque rsso embota no homem a simpatia relativamente aos
o homem à natureza». Nós, porém, rompemos esta ligação, seus sofrimentos, enfraquece e anula, pouco a pouco, uma dis-
estabelecendo a superioridade ontológica radical do homem posição natural, muito ú-tff.à moralidade na relação com os
racional sobre o animal irracional. De onde a oportunidade de outros homens - ainda q~e seja, entre outras coisas, permitido
reler Plutarco, que contestava a fundo a recusa aristotélica de ao homem matar os animais de modo expedito (sem tortura),
atribuir aos animais uma alma intelectiva: «Os animais não são ou impor-lhes um trabalho (uma vez que também os próprios
bestas». Quando o negamos, revestimo-nos de uma pretensão homens se submetem a isso), com a condição de que ele não
racionalista, d~ um «humanismo enfatuado», de um antropo- exceda as suas forças; pelo contrário, há que execrar as expe-
centrismo «cheio de arrogância», que apenas encobrem uma riências físicas no curso das quais se os martiriza, com o único
«razão do mais forte» . Para esta impostura, há só um remédio: proveito da especulação, quando se poderia passar sem isso
«desconstrução da eminente dignidade racional e portanto des- para se atingir o fim visado.>>I41 Texto eloquente. Onde estão
tituição da preeminência humana». Toda a ética da «ontoteolo- aqui a arrogância da espécie, a criminal enfatuação às quais
gia humanista >> é aqui visada, desde os estóicos a Kant e aos todo o racionalismo antropocentrado é acusado de conduzir?
1
seus epígonos «de face limitada>>. Será, contudo, seguro que os É, porém, verdade: a preocupação pelos animais é clara-
animais têm uma razão? Na verdade, este ponto é duvidoso: o mente apoiada por Kant no respeito que o homem deve a si
próprio Plutarco hesita. Aliás, deve-se respeitá-los <<porque mesmo. Trata-se de um dever, precisa o filósofo, «em considera-
., i:
eles são racionais>>ou, inversamente, «desprovidos de razão>>? ção pelos animais>>, mas não propriamente para com eles. Não
Em qualquer caso, têm uma sensibilidade. Por isso, «o homem haverá aí uma estreiteza criticável? Há autores contemporâneos
está submetido, relativamente a eles, a uma certa espécie de que pensam que sim, não renunciando, contudo, a uma ética
dever» - e portanto «mais cedo ou mais tarde, este dever terá «própria» do homem. Não se poderá admitir que, se é verdade
que enunciar-se>>- ou, pelo menos, ainda que «sem esperança que os animais não têm direitos sobre nós, há contudo neles,
de reciprocidade>>, à caridade dos modernos «Franciscos de proporcionalmente às suas capacidades neuropsíquicas, com
Assis pagãos». que justificar que nós reconheçamos que temos deveres para
Pode ser-se sensível às intenções deste palavriado sem ade- com eles? Não serão os mais -inteligentes daqueles que toma-
rir a fundo aos seus procedimentos: a inculpação de uma ética mos como companheiros, até certo ponto, parceiros numa rela-
ligada ao «próprio>> do homem. Será o humanismo necessaria- ção de reciprocidade convivencial? Mais amplamente, de acor-
mente canibal? Élisabeth de Fontenay pega, por exemplo, em do com o velho adágio utilitarista de Bentham, não obrigam
todos aqueles que são capazes de sofrer, por isso mesmo, os
sujeitos morais a poupá-los, tanto quanto possível, à dor? Não
140 Élisabeth de Fontenay, «La raison du plus fort>>, texto introdutório a se poderá mesmo sustentar, numa óptica ecológica, que eles são
Plutarco, Trais traités pour les anímaux, POL, 1992. Algumas citações deste
parágrafo são tiradas, ainda, de «Une communauté de destin>>, posfácio
da mesma autora a L'Homme, la nature et le droít, obra citada, pp. 375-385. 141 Kant, Métaphysíque des moeurs, obra citada, pp. 733-734.

120 121

I '
ú,:jt;.;:,i ,,,.j;,.,
associados autónomos de um mundo vivo que partilhamos Fontenay é a própria a concordar: há que ter em conta «as
com eles? Tudo isto não conduzirá a concluir que não temos extremas dificuldades inerentes a um direito dos anímais»146.
~. '
ape11as, ·num espírito kantiano, dever~s morais e obrigações Não será admitir, ao menos implicitamente que, se os mais &vo-
·''
jur{dicas relativas e eles, mas que é justo distingui-los fortemen- luídos entre eles, apelam a um estatuto ético e jurídico que. os
te das coisas para lhes ascrever, em graus variados segundo o diferencie das coisas, a forma-valor de todo o ser,: emana proptiijl,i
seu ser, uma forma de dignidade?142 mente apenas de nós? Não será afinal a tese «humanista»~,~e
Mas isto ainda parece insuficiente a alguns. Para os defenso- Kant, alargável em reconhecimento de uma dignidade das for-
res da Declaração universal dos direitos do animal143, o passo a mas animais mais complexas, a melhor e, sem dúvida, a única
dar seria reconhecer nos animais autênticos sujeitos de direito, de fundamentada?
modo que os seus representantes legais pudessam impôr-nos Nesta terceira fronteira, a crítica ao conceito de pessoa
obrigações estritas relativamente a eles. Sem entrar aqui numa ~r· parece-me assim encontrar uma confirmação do seu resultado
controvérsia especializada, que os próprios juristas parecem achar .:~ de conjunto. A ascripção de uma dignidade não procede se~ão
muito complexa, gostaríamos de levantar algumas questões de ·'·• da humanidade desenvolvida no homem. Mas nem por ISSo
bom senso. Quando, por exemplo, o artigo primeiro desta . , deixa de ter outros objectos plausíveis, para além do sujeito e
Declaração dispõe que «todos os animais têm direitos iguais à isto sem limites estabelecidos à partida. Desconhecendo a dife-
existência, no quadro dos equihbrios ecológicbs», não será eviden- rença essencial entre realidade do ser humano e forma-valor da
te a flagrante contradição que existe entre o fim e o princípio da pessoa, pensa-se poder atribuir a esta última uma origem, natu-
frase? Como dizia Spinoza, por natureza, os peixes estão determi- ral ou sobrenatural, totalmente definida, cujo momento da con-
nados a devorarem-se uns aos outros, e «os maiores comem os
cepção passa por ser o modelo por excelência. Mas que, a partir
mais pequenos em virtude de um direito natural soberano»144. A
do indivíduo, o problema se alargue à espécie, e a ilusão salta
noção de equidade natural é um puro sem sentido. Mas será mais
aos olhos: em que instante da antropogénese teria surgido,
sensato querer conferir o estatuto de pessoa jurídica a seres inca-
então, a primeira pessoa humana? No neolítico? No paleolítico?
pazes de assumirem a reciprocidade dos direitos e dos deveres?
Há um milhão de anos, com o Homo erectus? Há quatro milhões,
Quanto a identificar, -em dignidade, os animais e os huma-
com o Homo habilis? O mesmo é perguntar que cabelo, na sua
nos, temamos a passagem do a favor ao contra que salienta
queda, transforma subitamente em calvo um homem cabeludo.
Henri Atlan: «Se é igualmente grave fazer experiências sobre
Nenhum limite natural, nenhuma demarcação de convenção
um rato e matá-lo e matar um homem, isto quer dizer igual-
virá aqui, mais do que em qualquer outro sítio, tirar-nos de
mente que não é mais grave matar um homem q~e matar um
apuros. Não será necessário ver as coisas de um modo comple-
animal»145: quem estará pronto a defendê-lo? Elisabeth de
tamente diferente? A pessoa nasce, pouco a pouco, de um
movimento de civilização humana onde tomaram corpo, simul-
142 Cf, neste sentido, Jürgen Habermas, De l'éthique de la discussion, Éd. du Cerf, taneamente, no mundo social e na intimidade dos indivíduos,
1992, pp. 193-199. Cf. também, sobre toda esta questão, Jean-Yves Goffi, conquistas tão essenciais como a r~ciprocidade das obrigações e
«Les animaux ont-ils des droits?», em Vers un anti-destin, obra citada, pp. a consciência de uma dignidade. A medida que se desenvolve,
195-198.
a lógica da pessoa torna-se mais englobante e mais recorrente:
143 Publicado em Plutarco, Trais traités pour les animaux, obra citada, pp. 88-90.
144 Spinoza, Traité des autorités théologique et politique, em Oeuvres, obra citada, ela persuade-nos a confraternizar com tudo aquilo que há motivo
p. 880.
145 Henri Atlan, «Personne, espece, humanité», em Vers un anti-destin, obra
citada, p. 56. 146. Cf. Plutarco, Trais traités pour les animaux, obra citada, p. 76.

122 123
e sentido para respeitar. É este sentido partilhado que traça as CAPÍTUL02
fronteiras móveis da exigência ética.
Eis o pouco recusável princípio de .rnoralidade que se julga RESPEITO
desqualÍfiéat amalgamando-o córn a arrogância dominadora de
que ele é a antítese. E o que se propõe, em suma, corno seu :\.· .~ .:>
'l··~

substituto? O carácter sagrado de toda a vida? Essa é talvez a


ideia subjacente que preside ao espírito de quem o põe em causa.
Mas, ao defender-se urna ideia destas, familiar a outras culturas <<Se ainda não se sabe o que é o homem, sabe-se11 pelo
e sem dúvida parcialmente traduzível na nossa, medir-se-á menos, o que é inwnano. >>
adequadamente a formidável deslocação das referências éticas ERNFST BLOCHl
que se operaria naquilo que não é urna cultura entre outras,
mas o alcance universal dos Direitos do Homem e do valor da
pessoa? Este não é, evidentemente, um motivo para afastá-la
sem a examinar. Mas é um motivo para ter atenção às razões
para nela consentir. Pois, de urna moral da autonomia do sujei-
to, a sacralização de toda a vida faz-nos passar a urna mística
d o assentimento ao ser. Tudo muda então, não somente no Ao avançar a ideia de que a pessoa é, no seu princípio, a
objecto do respeito, ao qual foi consagrado este capítulo, mas forma-valor de cada indivíduo num mundo civilizado, tom a-se
naquilo que nos leva a respeitá-lo, na própria maneira de o indubitavelmente mais clara a natureza daquilo que a ética bio-
fazer. Ora, o que é exactamente o respeito? Depois do conceito médica procura fazer respeitar. Mas falta definir aquilo que este
de pessoa, eis o conceito cujo exame crítico se impõe. respeito exige de nós. Tarefa bem distinta da precedente: o pro-
.,-!
blema que agora se põe é de ordem prática e já não somente
teórica. Novas dificuldades nos esperam aqui, pois, na sua
ordem própria, a ideia de respeito não é menos antinómica que a
de pessoa. Uma análise, mesmo elementar, pode convencer-nos
de que assim é.
Respeitar, por exemplo, o bem de outro, quando se o utiliza,
um pedido, quando se o defere, urna partitura musical, quando
se a interpreta, é impedir que qualquer urna dessas coisas se
altere para a pôr mais ao nosso jeito. O respeito mantém pela
trela a minha inclinação, para devotá-la a urna regra que a
ultrapassa, emanando de urna outra liberdade, cujos decretos
devem ser aceites tal como são, a limite, sem mesmo entrar nas
I I
suas razões. Haveria verdadeiro respeito sem urna obediência
passiva a uma vontade que não é a minha? Fazer votos de urna

1 Ernst Bloch, Experimentummundi, Payot, 1981, p. 166.

124 125
tão escrupulosa heteronomia, pelo menos em tudo aquilo que maior dos contra-sensos. Alterar um tempo pode destruiruma
ela pode reclamar-me de honesto, eis, por um lado, o que signi- música. Se compreender supõe ultrapassar a letra, compreen-
fica respeitar. Mas, para não conduzir a uma submissão total,.a der melhor exige sempre regressar ao texto ·- mesmo que f>eja
atitude respeitosa exige, ao mesmo tempo, o contrário: não a para nele encontrar matéria para novas perplexidades. .,
conformidade ap~níJ.s exterior àquilo que me é ordenado, mas o Ora, a ética biomédica está por toda a' <parte sujeita a .~~sta
assentimento íntimo, não a pontualidade de um seguidismo dialéctica das interpretações rivais do respeito, uma cons]l·va-
limitado, mas a iniciativa de um a simpatia inteligente . dora, outra empreendedora. Assim, respeitar a pessoa será levi-
Respeitar autenticamente é, então, situar-se nos antípodas de tar mudar o que quer que seja na actual constituiç~o do
uma passividade: é assumir a liberdade do outro em seu lugar, homem, incluindo as doenças genéticas, ou esforçar-se por
ou seja, inventar aquilo que ele faria no meu. Portanto, quando livrar delas as gerações futuras, correndo o risco de tremendos
enganos? Toda a questão do eugenismo gira à volta destas duas
começo a perder de vista a sua alteridade é então que começa o
fórmulas. Será levar à letra o pedido pessoal de outrem, tantas
respeito. O respeito está assim sempre mais ou menos dividido
vezes obscuro na sua aparente clareza, tão incerto e tão mutá-
entre as suas duas indicações indissociáveis, ainda que frequen-
vel, ou ter no espírito a ordem colectiva das pessoas, pelo
temente impossíveis de pôr de acordo: as de uma fidelidade menos tal como a compreendemos, com o risco de recusarmos
invejosa e de uma criatividade arriscada. então o pedido do paciente, o projecto do investigador que tem,
A problemática milenar d(i~tra e do espírito gira inteira- em consciência, outra opinião? Eis o género de dilema que se
mente à volta desta oposição. Ao fetichismo do escrito, seja ele encontra, a cada passo, quando se querem definir, por exemplo,
o Tal mude, opõe-se a famosa palavra de São, Paulo: «A letra as indicações aceitáveis das procriações medicamente assisti-
mata, mas o Espírito vivifica.»2 E a de Santo Agostinho: «Ama das. Será, por outro lado, solidarizar o respeito com a firme
et fac quod vis.» 3 Quem tem fé encontra em si mesmo aquilo ligação a uma regra geral, cuja terrível estreiteza todos conhece-
que a fé ordena. Pois não há verdadeiro respeito que não seja o mos, ou com o exame sem preconceitos do caso particular, que
"i 1.,' do sentido- tanto em matéria profana como sagrada. A literali- nos ameaça de laxismo? Aqueles que são profissionalmente
dade servil é o caminho mais curto da tradução à traição. Ser confrontados com escolhas dramáticas, como a da eutanásia,
fiel ao espírito supõe a capacidade de se emancipar da letra, conhecem o peso desta permanente ambiguidade. Em diversas
por vezes, mesmo, de a corrigir. Corno dizem algumas erratas: circunstâncias, a mesma vontade de respeitar aconselha-nos coi-
«O próprio leitor terá rectificado.» Tem, pois, de haver um cor- sas contrárias: tal é o problema que nos propomos afrontar agora.
redor, e mesmo um autor, no bom leitor, audácia na verdadeira
fidelidade. Sem o que o respeito não é mais que letra morta. E,
entretanto, este espírito que ponho acima da letra, e até lhe AS ANTINOMIAS DO RESPEITO
oponho, de onde o recebi eu senão dessa mesma letra? Ele não
está somente nela, é ela. Mudar uma palavrinha pode fazer o Co mecemos por ilustrar a sua acuidade evocando um
debate importante. Deve-se reanimar um recém-nascido atingi-
do por uma doença genética particularmente grave e, actual-
2 Segunda Epístola aos Coríntios, III, 6. mente, incurável, recusar dar uma morte suave a um canceroso
3 Santo Agostinho, Traité sur la premiere épitre de saint Jean, Sources chrétiennes,
em fase terminal, que a reclama? Nos anos 70, nos Estados
Ed. du Cerf, 1961, pp. 328-329. Devo esta referência, pouco conhecida, à genti-
leza da Senhora France Quéré. O texto latino diz: <<Dilige, et quod vis fac.>>
. I Unidos, esta dupla questão dominou as controvérsias bioéticas
Saliente-se este comentário esclarecedor, três linhas abaixo: «Mantém no fun- nascentes. E toda a discussão posterior sobre a natureza da pes-
do do coração a raiz do amor: desta raiz nada pode sair senão o bem.>> soa - ser de facto ou sujeito de direito? - foi sustentada pelo lití-

126 127
gio primordial sobre a consistência do respeito: respeitar a pes- obrigar a nossa? <<Aquilo que estou a viver já não merece ser
soa, mas em que sentido? Respeitá-la como é, ou como devia, vivido», diz o agonizante extenuado de sofrimento, o entreva-
como quereria ser? Será necessário, para retomar u:q1 preceito do esmagado por uma intolerável 9-ependência, <<Por que m~
hipocrático, «salvar a natureza sem a modificar»4 ou modificá-la, deixaram viver?», perguntam os adolescentes atormentados
para a respeitar? Ao intitular o seu relatório de 1979, sobre a por uma- doença genética grave e sem esp~rança de curpi f'J_ão
reforma do direito canadiano, Sanctity of life or quality of life? - são eles mesmos que no-lo gritam? Nem tudo é pref'irivel à
sacralidade da vida ou qualidade de vidaS-, o juíz Edward morte . E não será o mesmo que matar abandonar ci~i não
Keyserlíngk formulava abreviadamente uma questão ética cen- empreender esforços que saem do razoável. Fazer sobreviver
tral que não cessou, desde então, de ocupar os espíritos. aqueles a que se chama «vegetais» pode mesmo ser tido como
Bem entendido, o respeito pela pessoa é, em primeira apro- uma afronta à pessoa. De onde a reivindicação do direito de
ximação, identificável ao respeito pela sua vida. Primum non morrer com dignidade, e mesmo o pedido de legalização da
nocere - em primeiro lugar, não prejudicar: eis o adágio de base eutanásia. De onde também a ideia de delimitar a reanimação
de toda a medicina. Mas é preciso que nos entendamos sobre neonatal - ponto de vista defendido, por exemplo, por François
aquilo a que aqui se chama a vida. Deveremos ligar-nos à exis- Dagognet. Se uma criança deve nascer vítima de uma aberração
tência biológica em si mesma, ou somente à existência persona- cromossómica muito grave, em nome de que princípio devere-
lizada? Distinção essencial, que foi tornada evidente, nos esta- mos «seguir a natureza» até ao ponto de <<tolerar a desnatura-
dos vegetativos, pela concomitância possível de uma vida orgâ- çã.o»? Não será necessário anular a vida quando ela «comete
nica perpetuada e de uma morte cerebral irreversível. Ora, não erros de transmissão» 7? E não valerá mais anulá -la mais cedo,
é verdade que toda a gente está de acordo em que, nesses casos, graças ao diagnóstico pré-~t;<,t},._e mesmo pré-implaf\.ta~ório, do .
desligar os circuitos de assistência é, não apenas possível, mas que mais tarde, com o preço de um aborto ou de uma não rea-
desejável? Isso é reconhecer que o respeito pela vida pessoal nimação que, de outro modo, seriam dramáticos?
não coincide, de modo algum, com a conservação, a qualquer Este modo de ver, frequentemente considerado com favor
preço, da vida orgânica. Essa era a tese que defendia o moralis- no seu princípio, poderá, contudo, evitar o inaceitável? Em pri-
ta americano Joseph. Fletcher, e outros, como H. T. Engelhardt. meiro lugar, o que é exactamente a «qualidade» da vida? Mesmo
Estabelecer como princípio o carácter sagrado da vida, inde- mantendo a questão do terreno puramente biomédico, e não
pendentemente daquilo que a eleva ao nível da existência pes- retendo senão alguns critérios de bom senso, como a ausência
soal, seria enganar-se à partida, ao confundir o respeito ético de dor física, a aptidão 'p ara a autonomia pessoal e para a rela-
com o encarniçamento terapêutico. É, pois, necessário, concluía ção com outrem, eles expõe-nos a inextricáveis dificuldades.
Fletcher, «que abandonemos o princípio clássico da inviolabilida- Quem pode estabelecer a lista das anomalias congénitas que
de da vida a favor de uma ética fundada na qualidade de vida6.» condenam a uma vida sem qualidade- e ousar-se-á incluir nes-
Não será, aliás, isso que reclamam muitos pacientes no fim sa lista aquelas que um grande número dos nossos contempo-
das suas forças, com um resto de liberdade que deve igualmente râneos enfrenta?S Quem pode dizer qual o grau de sofrimento a
que é preferível pôr um ponto final? O doente? A experiência
clínica dos cuidados paliativos atesta de que modo o seu julga-
4 Hipócrates, La Consultation, Hermann, 1986, p. 202.
5 Edward Keyserlingk, Le Caractere sacré de la vie ou la qualité de la vie du
point de vue de /' éthique, de la médecine et du droit, Ministério dos
Aprovisionamentos e Serviços do Canadá, 1979. 7 François Dagognet, La Maftrisc du vivant, obra citada, p. 162.
6 Ibid. p. 27 cf também pág. 213, nota 141 ond e o autor se confessa «devedor a 8 Cf a perturbadora história relatada por Axel Kahn em Vers un a.nti-destin,
H. T Engelhardt de uma grande parte da (sua) análise sobre a pessoa». obra citada,p. 492.

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menta, a este respeito, pode flutuar, segundo os dias, os contex- qualidade. Nos Estados Unidos, há bastante tempo que os ban-
tos e os motivos. Quem reclamava ontem a morte, renuncia cos de esperma privados propõem aos seus clientes a escolha -
hoje a esse desejo 9: isso deveria ser suficiente, senão para inva- aliás, em parte ilusória - de perfil da criança que vai nascer
lidar a noção de qualidade da vida, pelo menos para estàbele- com base num catálogo que descreve as características físicas e
cer a sua irremediável subjectividade. Poderemos tentar, ainda psíquicas dos dél,_dores. A ideologia da qua1idade da vida l,].eta-
assim, introduzir aí a objectividade_de medidas quantitativas, morfoseia, assim, o ser humano em produto. Será ex·!t]essivo
como a do «número de anos potenéiais de vida», em função do denunciar nela o princípio de uma coisificação rasteira dà1 pes-
qual alguns preconizam que se escolham os beneficiários privi- soas, que vai, por exemplo, a ponto de programar a gravidez
legiados de uma enxertia de órgãos ou de um tratamento dis- com a única finalidade de utilizar os tecidos, os órgãos do feto
pendioso? Exemplo inquietante, na verdade. Seja qual for o seu para tratar as doenças de uma criança anterior?
valor técnico, um tal conceito, no sistema americano QALYlO ou
nas suas variantes europeias, não será um daqueles graças aos
quais se subordina o respeito das pessoas ao dos invólucros QUALIDADE OU SACRALIDADE DA VIDA?
orçamentais, pondo uma aparência de ética na ausência de éti-
ca por excelência: o princípio de exclusão? E, contudo, é verdade: apesar destas graves objeccões, a éti-
Tendo partido da qualidade de vida, eis-nos solicitados a ca da qualidade de vida tem muitos adeptos. Pode , mos con-
admitir o desigual valor das pessoas, com consequências proi- dená-la sem fazer tábua rasa da escolha livre dos ind íduos? O
bitivas. Não estariam elas em germe no ponto de partida? Que argumento não pode ser tomado ligeiramente, com o risco de
o respeito pela pessoa deve implicar a solicitude pela qualidade se perder de vista o perigo de uma ordem moral. Há, contudo,
de vida é evidente. Mas a tese que sé nos propõe é, de algum outro ponto que também não pode ser tomado ligeiramente: a
modor a inversa: ela faz desta qualidade uma condição suspen- liberdade de outrem que obriga a nossa não é a espontaneidade
siva do respeito. Aí está, à primeira vista, o irrecusável, que não superficial de um livre arbítrio, mas a autonomia profunda de
pode passar indubitavelmente por admissível senão na medida uma consciência que se esforça por se instruir acerca dos pro-
em que se tinham, irlicialmente, em vista os excessos manifes- blemas e por se apresentar como responsável pelos valores,
tos do encarniçamento terapêutico. Ora, ao estender-se a todo o capaz, consequentemente, de renunciar a uma opinião imatura
campo das práticas biomédicas, a ética da qualidade de vida em proveito de uma apreciação meditada. Será esta liberdade
revela o seu vício escondido. Ela toma a direcção contrária do que sustenta as reivindicações em causa? Não será antes o livre
esforço civilizado para ascrever uma dignidade àquilo que já curso deixado ao desejo, o qual pode subentender votos muito
não é, ou ainda não é, um ser personalizado, que nos leva a legítimos - morrer dignamente, ter filhos bem formados - , mas
ultrapassar a barreira do cinismo. De modo simétrico, ela pre- também compulsões frequentemente consideradas muito per-
tende persuadir-nos de que é moral orientar a reprodução turbadoras - como as da inseminação post mortem ou da gravi-
humana para a produção de indivíduos conformes a normas de dez depois da menopausa -, e mesmo objectivos marcados de
desrazão científica ou social - purgar a humanidade dos seus
«maus» genes, enquanto a genética estabelece a inconsistência e
9
Cf France Quéré, L'Éthique et la vie, obra citada, pp. 32-34 e 127-132. portanto a maleficência de um tal projecto, ou legalizar a euta-
10
Sobre o sistema QALY, cf Actes du 3e Congri!s international d'éthique médica-
násia, quando essa legalização corre o forte risco de abrir a por-
le, obra citada, pp. 153 e 162_ Ver também o estudo de Marie-Louise
Lamau, «La notion de qualité de la vie dans !e champ de la santé», ta a trágicos abusos? Nascida do bom senso e, por isso mesmo,
Fevereiro de 1993. envolvente, mas demasiadamente subjectiva e, por isso, aberta

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a muitas derivas, poderá a noção de qualidade da vida viver respeito pela «vida enquanto vida». Como surpreender-nos,
em harmonia com uma ética do respeito? então, ao ver florir as objecções? «Um regresso disfarçado do
Também_vemos regre~sar em força a atitude oposta:~ o sgr vitalismo, C()m a sacraJiz,ação da vida na sua generalidade»,
humano merece um r~speito que não é quantificável nem limi- · nota Henri Atlan, é um «factor de despersonalização» que volt?
tável. Desde o início até ao fim, a sua vida é inteiramente a de o respeito contra si mesmo. Assim, é «em nome-.do valor supre.~ .,,.,
uma pessoa. Ressaltemos a palavra: ela tem um carácter sagra- mo da vida que é possível valorizar o eugenismo»14. «Uma t.'!.l. ·.
do. Significará isto invalidar uma ética laica? A consequência reabilitação metafísica do ser vivo, mostra, por seu lado, Anne (~
não é necessária, pelo menos se se quiser admitir que o sagrado Fagot-Largeault, implica uma ocultação dos conflitos que são
tem uma tradução profana: é o intransgressível. Quer se seja uma manifestação essencial da própria vida na mesma medid~
crente, quer não, defender um mundo civilizado significa con- em que o é a sua unidade.»15 Sacralizando em bloco todos estes
siderar intransgressível a recusa de situar a morte entre as tera- aspectos, como ressaltaríamos as múltiplas contradições que
pêuticas possíveis, de fazer comércio com o corpo humano, de eles estabelecem entre si? Se a qualidade da vida é uma noção
alterar a identidade da espécie, de experimentar no homem perigosa, porque demasiadamente fluida, que dizer então da
sem o seu consentimento expresso- e querer dar a tais interdi- que lhe é preferida?
tos a sanção de lei. Nesta óptica, a apreciação da vida de Mas há mais. Afirmar o carácter sagrado da vida não deixa
outrem como «não valendo a pena ser vivida» aparece como de ter pesadas consequências, que muitos consideram inadmis-
portadora de atentados directos ao respeito humano. Ter-se-á síveis. Pois, quer se queira, quer não, as palavras têm a sua car-
suficiente consciência de que esta noção foi formada no começo ga de significação: da sacralidade da vida ao «deixem-nos
do século, por psiquiatras e juristas alemães, para justificar a viver» dos adversários da IVG, a distância não é muito grande.
eutanásia dos doentes mentais e dos deficientes, antes de inspi- Como não evocar aqui esta questão ultra-sensível? Altamente
rar a política de exterminação racial do III Reich?ll A ela, opõe instrutiva parece-me ser a maneira como a aborda, por exem-
a ética esta tese sem equívocos: «A qualidade da vida é da plo; o jurista Bernard Edelman. Crítico esclarecido, mas decla-
ordem do indecidível.» 12 rado, de toda a «dessacralização do hurnano»16, este jurista
Contudo, convenhambs que é mais fácil concordar com o regressava, numa entrevista desprovida de artifícios, a essa
carácter transgressível do respeito pela pessoa do que com uma profissão de fé que, na altura do debate da Assembleia Nacional,
definição rigorosa desta vida que se pretende sagrada, mas cujo em Novembro de 1992, sobre os projectos de «leis bioéticas»,
conceito parece consagrar a confusão entre existência pessoal e era retomada em termos próprios por urna parlamentar como
I,
existência biológica. Procedimento perturbador, com efeito: no Christine Boutin, que acusava estes projectos de laxismo: «Sim,
próprio momento em que a biologia acaba de estabelecer que confiava ele nesta entrevista, parece-me que uma das causas
«a vida» é apenas o pseudónimo de níveis de organização da essenciais de todas as derivas de que falarr'.Os resulta precisa-
matéria e que, por conseguinte, «o vitalismo perdeu toda a sua mente do direito ao aborto.»I7
função» 13, conjuram-nos a suspender a ética precisamente no
14 Henri Atlan, <<Personne, espece, humanité>>, em Vers un anti-destin, obra
citada, pp. 56-57.
1l CfDaniele Lochak, «Diagnostic prénatal: le difficile passage de l' éthique 15 J.-P. Amman, S. Diaz-Husson, A. Fagot-Largeault, <<Recherches sur le
au droit>>, em Vers un anti-destin, obra citada, p. 461. vivant: soucis éthiques>>, em Vers un anti-destin, obra citada, p. 510.
12 M.-A. Hermitte, «Génome et devoirs de l'humanité», em Vers un anti- 16 Cf L'Homme, la nature et le droit, obra citada, p. 113. Cf também p. 104.
-destin, obra citada, p. 528. 17 «Entretien avec Bernard Edelman», em Actes, n.º 67-68, Setembro de 1989,
13 François Jacob, La Logique du vivant, obra citada, p. 327. p. 75. Todas as citações que se seguem são tiradas desta entrevista.

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Formulação corrente, é verdade, mas interpretação espan- valor das pessoas, e mesmo, para algumas, a vender barata a
,, ~tosa da Lei Veil, de 1975, na boca de um juristà tS.o irlor:mado: própria existência. Tomamo-s o~ partido contrário? Eis-nos
com efeito, a maioria dos seus colegas sustenta que esta lei não embarcados num encarniçamento ético que, em muitas circuns-
instituiu, de modo nenhum, um <<direito ao aborto», mas ape- tâncias, nâo parece, paradoxalmente, fazer mais caso da digJ:ti-
nas despenalizou esse acto em casos, devidamente estabeleci- dade dos seres humanos. Assim, condenar a IVÇ - e portanto, .
dos, de <<perigo» para a mulher grávida, de ameaça directa para quer se queira, quer não, preferir o drama maciço do aborto
a sua saúde, ou de incurável <<afecção de uma particular gravi- cla ndestino - nã o será recusar à pessoa actual que é umà
dade» para o embrião.1B E é apenas esta despenalização que é mulher em perigo o respeito concedido à potencialidade de ser
sentida, com força, por muitos, como um <<direito>>muito impor- humano que representa um embrião? E que dizer do dilema
tante a preservar. Admitindo que, em muitos casos, se pode com que nos confronta o aborto por afecção grave do ser conce-
invocar <<um estado de legítima defesa>> da mulher grávida, não bido? Pois aí trata-se de escolher entre dois respeitos por uma
deixando de dar por adquirido que a legislação em vigor pen- mesma pessoa: será necessário considerar, antes de tudo, o ser
sou o aborto <<como um direito da mulher sobre o seu corpo>>, humano, que o seu mal não o impedirá de ser, ou o mal que ele
que ele estigmatiza com violência, designando a noção de pes- experimentará, sem dúvida como um injustificável impedimen-
soa humana potencial como <<o horror absoluto>>, dando crédi- to de ser? Falar aqui de aporia do respeito não é, na verdade, ir
to, pelo contrário, à de <<perigo do embrião>>, ele vem julgar demasiadamente longe.
<<perfeitamente lógicas>> as reposições em causa da IVG que, um O problema será, então, insolúvel? Edward Keyserlingk
pouco por toda o mundo, vêm à luz do dia, correspondendo ao exprimiu, no seu relatório, uma opinião diferente. <<A moral
apelo do Vaticano. <<Não digo que esteja de acordo, mas são pode facilmente conciliar as duas perspectivas>>, escrevia ele
lógicas.>> Pois, com a sua <<Vontade de ultrapassar aquilo que a com um espantoso optimismo.19 Bastaria, para isso, que a
natureza fez de nós», o Ocidente irá, pouco a pouco, <<viver sobre sacralidade da vida fosse dissociada do vitalismo, e a qualidade
os nossos crimes>>. E conclui: <<Estamos na época dos bárbaros.>> da vida, do relativismo. No que diz respeito ao primeiro ponto,
essa posição supõe entender o carácter sagrado da vida, não
como um critério directamente operatório, mas somente como
DOS PROBLEMAS DO RESPEITO uma posição de princípio, que não exclua a escolha do mal
menor, e portanto a avaliação diferenciada dos possíveis. No
ÀS QUESTÕES DE PRINCÍPIO que concerne o segundo, ela conduz a apreciar comparativa-
mente as qualidades de vida, não entre as pessoas - que têm
Não podemos deixar de estar reconhecidos a quem se todas, sublinha ele, o mesmo valor-, mas entre os tipos de vida
explica com tal franqueza. Mas se o sentido último do <<carácter oferecidos ao mesmo indivíduo, que não se equivalem. Assim,
sagrado da vida» fica agora muito mais claro, a linha a seguir face ao doente em fase terminal, uma <<pessoa razoável» recusa~
para uma ética do respeito parece ainda mais obscura. rá a eutanásia, isto é, o partido de matar, admitindo a supressão
Quaisquer que sejam as escolhas, elas não entrarão gravemente de tratamentos tornados inúteis, isto é, deixando-o morrer.2D
em contradição consigo próprias? Ligar o respeito à qualidade Não é verdade que se considera igualmente, com frequência,
da vida arrisca-se a conduzir a que se ponha em causa o igual face ao problema do feto atingido pela malformação, que é

18 Foram as expressões utilizadas no texto da lei de 17 de Janeiro de 1975. 19 E. Keyserlingk, relatório citado, p. 5.·
Sobre a crítica à interpretação de B. Edelman, cf nota 114 do capítulo 1.1. 20 Ibid., p. 117.

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razoável recusar o aborto por lábio leporino e aceitá-lo por confusão, percebemos que ela não é, falando rigorosamente,
hidrocefalia acentuada?21 -rnada mais de que .a c!.e um eminente valor a respeitar. Fomos,
Através destes compromissos «de bom senso>>, afastam-se pois, reenviados às dificuldades, me.nos aparentes talve~, m~s
algumas das atitudes extremas que têm poucos adeptos, mas muito profundas, da ideia de respeito. Se ele entra assim tao.
deixando-nos com o embaraço face ao grande número de situa- facilmente em conflito consigo próprio será, entã0, por nature- .
ções intermédias: para lá dos casos limite opostos, como o lábio za, de sentido antinómico e de exigibilidade equívoca? E, aliás,.
leporino ou a hidrocefalia, que decidir face aos embriões porta- de onde retira ele, em última análise, essa exigibilidade e esse
dores do trissomia 21, de miopatia ou de mucoviscidose? sentido?
Nenhum ecletismo ultrapassou jamais as oposições reais. Para tentar ver claro, temos de remontar às fontes da obri-
Apesar do optimismo de Keyserlingk, o conflito entre qualida- gação ética, e, por consequência, às grandes correntes de ,refle-
de e sacralidade da vida não deixou de se alargar com as novas xão entre as auais foi partilhada, ao longo dos tempos, e e par-
terapias. E, dez anos mais tarde, formulando, no final de um tilhada aind~ hoje, a sua interpretação. A literatura bioétic.a
colóquio, recomendações relativas às PMA, Laurence Gaviríni e raramente tem tempo para ir, neste aspecto, ao fundo das cm-
Jacques Testart constatavam «a existência de dois modos diver- sas. E uma citação de Aristóteles ou de Kant, uma referência a
gentes de pensar o desenvolvimento biomédico», tornando Habermas ou a Jonas, não nos deixam, evidentemente, desobri-
<<ilusório imaginar uma terceira via»: <<Para uns, diziam eles, o crados da filosofia moral, quando todo o seu contributo consiste
projecto de aliviar graves misérias é mais importante do que os ~o rigor com que desenvolve as suas análise~ e encadeia as
estados de alma, as inquietações não demonstradas e algumas suas razões. Não se pod e economizar aqui. E, portanto, de
..,.,
derrapagens inevitáveis. Para outros, os valores culturais, espe- novo, a um vasto desvio crítico que estamos obrigados, desvio
cíficos ou comuns à humanidade, não podem ser sacrificados no qual teremos de examinar algumas questões fundamentais
no altar do desempenho sem dar lugar a alguma barbárie., 22 daquilo a que se chama, ora moral, ora ética.
Mais do que nunca, há que escolher o que significa o respeito ..
Eis onde repousa toda a questão de princípio à qual é con-
sagrado este livro. Como compreender que o projecto, aparen- ÉTICA E MORAL
temente claro, através do qual se resume o ponto de vista bio-
ético: dar pleno direito à dignidade da pessoa em matéria bio- Eis que a simples enunciação do problema constitui já um
médica, pareça de execução tão penosa? Parece ser habitual problema. Estamos a falar da mesma ~oisa, quando falamos _de
pensar que a razão dessa dificuldade deve ser procurada do moral e de ética? Se sim, por que ha duas palavras? Se nao,
lado da pessoa: passando o respeito por uma decisão simples, onde está a diferença? Interrogação que fornece uma passagem
seria a pessoa a consistir numa realidade das mais complexas. quase obrigatória a todos os livros sob:e o ~osso assun~o. E a
Ora, o exame crítico que se fez do problema não confirmou esta resposta é, também, sempre a mesma: nao ha qualquer diferen-
hipótese: a ideia de pessoa não nos apareceu filosoficamente ça de significação entre os dois termos assinalável ao nível das
misteriosa, mas comummente confusa. Uma vez reduzida esta etimologias. Mores significa, em latim, o mesmo que ethos e~
grego23: os costumes, os modos habituais de viver e de agir,
21 Derramamento de líquido cefaloraquidiano nos ventrículos cerebrais, sus-
ceptível de implicar malformações graves no feto.
22 Laurence Gavarini e Jacques Testart, «Procréation médicallement <ssistée>>, 23 Na realidade, existem duas palavras gregas ethos, quase homónimas e de sen-
tidos compatíveis. Cf Jean Bemard, De la biologie à l'éthique, obra citada, P· 30.
em liers un anti-destin, obra citada, p. 517.

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