O EVANGELHO DE JOÃO
Em vez de começar, como Lucas, pelo nascimento de João Batista, ou pela
natividade de Jesus, como Mateus, o Evangelho de João começa como Marcos, no
batismo no Jordão e silencia a respeito da vida de Jesus durante os seus primeiros anos.
Veremos por quê.
Esse Evangelho está ligado ao sistema dos gnósticos de Alexandria, que fazia do
Logos a primeira emanação do Deus supremo, tese que se presta a discussões.
Ele apresenta um Cristo com o qual a alma humana pode se comunicar pela via
interior, fora de qualquer prática exterior, sendo a salvação conseguida pela regeneração
espiritual, ou segundo nascimento, servindo o Logos de intermediário entre o homem e o
Deus supremo. O Evangelho de João estabelece a existência, em nós, da energia vital que
nos vem do demiurgo, que conhece todos os nossos pensamentos, pois ele vive em nós.
Essa vida nos vem do sol, coração vivo e vibrante do demiurgo. Como o escreveu
Gebhart: "A grande originalidade do Evangelho joanita, a pedra preciosa fornecida por
esse livro ao edifício do cristianismo, é o primeiro esboço de uma teologia
transcendente."
"No 4° Evangelho, diz Reuss, os personagens não têm importância; eles lá estão
para demonstrar que Cristo é o dispensador da salvação, da luz, da vida. Nele não há
parábolas, como nos evangelhos sinóticos, mas alegorias, endereçadas a inteligências
mais amadurecidas, a almas que já aprenderam a viver da vida interior."
Importa considerar que devemos atribuir tanta importância ao que esse
Evangelho não contém como ao que ele contém. Há nele silêncios eloqüentes. E a
primeira coisa que pode nos impressionar é que ele não se refere nem ao nascimento
nem à juventude de Jesus, como se isso não tivesse importância, pois começa a sua
narração no batismo do Jordão, quando Jesus tinha trinta anos.
Não encontramos aí nem a narrativa da tentação no deserto, nem o sermão da
montanha, nem a instituição da Eucaristia, nem a transfiguração, nem a ascensão.
Esse Evangelho mostra-nos Cristo repetindo por diversas vezes que ele é o
enviado de Deus, de quem faz a vontade e com o qual está em contínua relação. Ele vem
ao mundo para trazer aos homens um mandamento novo: "Amai-vos uns aos outros!". A
Lei de Moisés tem um valor apenas relativo, porque a verdade nos vem de Jesus Cristo.
"O Evangelho de João lançou deliberadamente o judaísmo fora de bordo, como
um lastro embaraçoso".
"O 4°. Evangelho" escreve por sua vez Albert Réville, "emancipou
definitivamente o pensamento cristão da teologia judaica e lhe forneceu sua carta de
naturalização na filosofia grega. O modo como o evangelista fala dos judeus e dos
fariseus, mostra claramente que e!e não se considera a si próprio como pertencente ao
povo judeu.
"Em geral, ele falou dos judeus como de uma classe de homens estrangeiros,
com os quais o autor do Evangelho não tinha nenhuma ligação", diz Reuss,
Segundo Henri Delafosse, o Cristo do Evangelho joanita rejeita o Antigo
Testamento, repelindo-o com desprezo. Ele dirá desdenhosamente aos judeus, falando da
Lei de Moisés: "A vossa lei." Ela não é, portanto, a sua lei? Em conseqüência, as
referências a Moisés, aos profetas, aos patriarcas, contidas no 4° Evangelho, seriam
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interpolações tendenciosas.
A idéia da importância do Antigo Testamento é descartada por esta afirmação de
que os judeus jamais haviam ouvido a voz de Deus ou visto a sua face e por esta
declaração que causou tanta insônia aos teólogos, diz Reuss: "Todos os que vieram antes
de mim são ladrões e salteadores".
Essa frase indica nitidamente que Cristo rompia com a lei judaica. Alguns Padres
da Igreja latina aplicaram essas palavras aos pensadores e filósofos gregos, os chamados
pagãos; mas o que prova que se trata mesmo da lei de Moisés é que o Cristo se levantava,
com violência, contra os escribas e fariseus, que ele acusava de terem ocultado a verdade
aos homens.
O evangelista mostra-nos Cristo dizendo aos judeus: "O pai do qual saístes é o
demônio, e quereis cumprir os desejos de vosso pai (condená-lo à morte). Ele foi
assassino desde o começo e não persistiu na verdade, porque a verdade não está nele.
Todas as vezes que ele diz mentiras, ele diz o que encontra em si próprio, porque é
mentiroso e pai da mentira".
Assim, para o redator do 4º Evangelho, Jehovah seria Satanás. É o que declaravam
os cátaros.
Segundo Déodat Roché: "Gnósticos, maniqueus e cátaros rejeitavam os
conceitos judaicos da Bíblia que fazem de Jehovah um Deus todo poderoso, mas também
um deus vingador e destruidor. As concepções judaicas não distinguiam mais o bem do
mal, e o judeo-cristianismo, que dele resultou, falsificou a doutrina crista". Os cátaros,
penetrados de sentimentos amplamente cristãos, repudiavam essas noções da divindade,
que constituíram a fonte de todas as perseguições e das violências inspiradas pelo
espírito religioso. O padre Douais, em sua introdução à Suma das Autoridades,
reconhecia que eles tinham o mérito de se afastar desse espírito judaico que inspirava as
seitas retrógradas da Idade Média, e de dirigir seus olhares para um cristianismo livre
das antigas leis de obrigação e de vingança."
"Desde os tempos de Paulo", escreve Toussaint, “o cristianismo se opõe
ferozmente ao judaísmo”. Para Marcião (século II) há uma antítese absoluta entre
cristianismo e judaísmo, o segundo alterando o primeiro. São Paulo declarou muitas
vezes que Jesus Cristo nos havia libertado da Lei de Moisés.
Encontra-se, contudo, em Mateus, a famosa frase na qual se apóiam os judeo-
cristãos: "Eu não vim para destruir a Lei, mas para cumpri-la."
Mas seria mesmo essa palavra "cumpri-la" a palavra conveniente? Não seria,
antes, a palavra "aperfeiçoá-la"? Com efeito, se lermos a continuação do capítulo,
veremos que está dito na Lei: fazei isto, mas que o Cristo declara: fazei aquilo. Os seis
casos aí considerados têm por finalidade modificar, completar ou anulai os ensinamentos
da Lei relacionados com o juramento, a vingança, o ódio aos inimigos, a mulher adúltera,
etc. Cristo contradiz, portanto, o ensinamento da Lei de Moisés. Aliás, foi porque toda a
doutrina do Cristo era contra essa Lei, e para colocar um fim à sua pregação, que os
judeus o condenaram à morte.
Todo o capítulo XXIII de Mateus é consagrado a maldizer os escribas e os
fariseus e a estigmatizar a sua filosofia. Dirigindo-se a eles, Cristo lhes diz: "Serpentes,
raça de víboras! Como evitareis o juízo da geena (inferno)? Porque eis que eu vos envio
profetas, sábios e escribas; vós matareis a uns, crucificareis a outros, açoitareis a outros
nas vossas sinagogas, e vós os perseguíreis de cidade em cidade, para que todo o
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sangue inocente que foi derramado sobre a terra recaía sobre vós." (Mateus XXIII, 33
a 35).
Além do mais, no Evangelho joanita, capítulo 1º está escrito: "A Lei foi dada por
Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo".
Não nos esqueçamos de que os cristãos gostavam de repetir esta fórmula: "Cristo
nos libertou, por sua morte, do jugo da Lei".
Os judeus foram os adversários encarniçados de Cristo e do cristianismo. Sob a
pena de João o termo judeu designa indistintamente os adversários do Cristo.
João afirma que os judeus não podem ouvir a palavra de Cristo. Vemos os
judeus "protestar contra uma doutrina que subverte as próprias bases da religião
nacional" (Reuss).
Essa hostilidade resulta de numerosas passagens do 4º Evangelho. Desde o início
toda a nação nos é representada como absolutamente hostil a Cristo, a quem procura
matar. O autor do Evangelho nos faz saber que esses instintos assassinos em relação a
Cristo são permanentes.
"Jesus não queria ficar na Judéia, porque os judeus procuravam meios de matá-
lo" (VII, 1).
Alguns habitantes de Jerusalém diziam: "Este não é aquele a quem eles tentam
matar?" (VII, 25).
"Então os judeus tornaram a pegar em pedras para apedrejá-lo," (X,31).
Os que gostariam de se aproximar do Cristo não ousavam fazê-lo, por medo dos
judeus. "Ninguém, todavia, falava livremente dele, por medo dos judeus!" (VII, 13).
O cego curado pelo Cristo é expulso da sinagoga por ter reconhecido a missão
divina de Cristo (IX, 22). O capítulo descreve a luta travada pelos fariseus contra a Igreja
nascente.
"Seu pai e sua mãe (do cego de nascença) diziam: 'Não sabemos quem lhe abriu
os olhos', porque tinham medo dos judeus; pois os judeus já haviam determinado que se
alguém reconhecesse Cristo como o Messias seria expulso da sinagoga". (IX, 21, 22).
"Contudo, muitos houve que acreditaram nele, mas não o confessavam de medo de
serem expulsos da sinagoga" (XII, 42).
Falando da condenação de Jesus Cristo e de sua morte, Reuss faz recair a
responsabilidade desse fato sobre o judaísmo, que tantas vezes nos foi representado no
Evangelho como antagônico à luz vinda ao mundo e que, ao exigir a morte do Cristo,
pronunciou a sua própria condenação: "que seu sangue recaia sobre nós e sobre nossos
filhos" (Mateus XXVII, 25).
Antes de se infiltrar no cristianismo e de se apoderar dele em seu proveito, a
ponto de dizer que Cristo é "o mais ilustre dos judeus", houve, portanto, no início, uma
luta encarniçada entre o cristianismo e o judaísmo. Não contentes por terem condenado
Cristo à morte, os judeus expulsavam da sinagoga e da comunidade judaica os discípulos
de Cristo. Foi o que aconteceu aos discípulos de Paulo. Não era possível, com efeito,
reconhecer a grandeza de Cristo e de seus ensinamentos sem ser excluído da sinagoga.
Aliás, de acordo com o versículo 14 do capítulo XVII do Gênesis, Gehouah diz: "o
macho não circuncidado será exterminado do meio de seu povo porque terá violado a
minha aliança."
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Contudo, a Igreja de Pedro, embora todo o Novo Testamento anule o Antigo,
considera que as Escrituras cristãs continuam o ensinamento de Moisés e que o
cristianismo deriva do judaísmo.
Entre os israelitas, julgou-se muito proveitoso alimentar essa crença, que dá ao
judaísmo tanta autoridade; vimos até um israelita, Duff Cooper, publicar em 1946 uma
obra sobre o rei Davi, dedicada "ao povo judeu, a quem o mundo deve o Antigo e o
Novo Testamento".
Na realidade, afirma Jacques d'Ares, tal pretensão falsificou totalmente a
mensagem cristã. Cristo veio num tempo determinado, em função da evolução cíclica da
humanidade, para dar de novo a todo o mundo a mensagem de amor e de vida espiritual
que os diversos povos haviam perdido depois da "queda", edulcorando-se as tradições no
ciclo evolutivo que marca a atual humanidade adâmica. E essa lei, dada de novo no plano
universal pelo próprio Deus, e não mais apenas no plano local pelos diversos grande
iniciados, é indispensável para permitir a passagem para o ciclo futuro, que se completará
com a entrada do sol em Aquário.
Em outras palavras, o verdadeiro cristianismo é uma reordenação, uma renovação
da Revelação primitiva, veiculada no transcorrer dos séculos anteriores pelo conjunto das
tradições, incluindo entre elas a tradição judaica, mas não exclusivamente por ela.
O "Prólogo" do 4o Evangelho são os dezoito primeiros versículos do Evangelho
de João. Ei-los, de acordo com a tradução do cónego Émile Osty:
No princípio era o Verbo (o Logos, a Palavra), e o Verbo estava junto de Deus (o
Theos) e o Verbo era Deus (Theos);
Ele estava no princípio junto de Deus;
Por meio dele tudo apareceu, e sem ele nada apareceu do que apareceu;
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;
E a luz brilha nas trevas, e as trevas não o detiveram;
Apareceu um homem enviado por Deus; seu nome era João;
Ele veio em testemunho, para testemunhar a respeito da luz, a fim de que todos
cressem por ele;
Ele não era a luz, mas devia testemunhar a respeito da luz;
A luz, a verdadeira, que ilumina todo homem, vinha ao mundo;
Ele estava no mundo, e por ele o mundo apareceu, e o mundo não o conheceu;
Ele veio para a sua casa, e os seus nao o acolheram;
Mas a todos aqueles que o receberam, ele deu o poder de se tornarem filhos de
Deus, àqueles que acreditavam em seu Nome;
Que não nasceram do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma
vontade do homem, mas de Deus;
E o Verbo se tornou carne, e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua
glória, glória como a que recebe de seu Pai um filho único, cheio de graça e de verdade;
João testemunha a seu respeito e exclama: "Ele era aquele de quem eu disse:
"Aquele que vem depois de mim passou diante de mim, porque antes de mim ele já
existia."
Porque nós todos recebemos de sua plenitude, e graça após graça;
Porque a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus
Cristo;
Deus, ninguém jamais o viu; um Deus, Filho único que está no seio do Pai, este
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o fez conhecer.
Esse prólogo contém os principais elementos da gnose joanita cristã.
Um primeiro ensinamento, de considerável importância, se deduz dele: o Logos,
o Cristo, criador de nosso sistema solar, não é o Deus universal, o Deus todo-poderoso, o
Deus dos filósofos, o Ser velado de Wells, mas o Deus das religiões solares, o demiurgo
intermediário entre o Homem e Deus. Isso resulta da distinção, feita no prólogo, entre o
Deus supremo, designado por o Theós (o Deus) e o Logos, que é apenas Theós (um
Deus). Entre os gregos, chamavam-se "deuses" os seres que haviam alcançado um alto
grau de espiritualidade. Deméter era a "Mãe dos deuses", dos iniciados, e, no final dos
Versos de Ouro, Pitágoras nos diz que podemos nos tornar deuses.
Por todo o 4º Evangelho, Cristo não cessa de proclamar que ele só faz cumprir a
vontade de Deus.
Foi o Concílio de Nicéia que, em 325, proclamou a divindade de Cristo por
maioria de votos. Houve, aliás, longas controvérsias a respeito dos termos “omoios”,
igual a, semelhante, e “omoio ousios”, de uma essência semelhante, de igual substância.
No primeiro caso, sendo semelhante a Deus, Cristo não é Deus; no segundo, ele se
identifica com Deus. O segundo caso foi o que prevaleceu e fez condenar Ário.
Deificando assim o Cristo, a Igreja fez dele a segunda pessoa da Trindade, o Filho único
de Deus, igual a Deus e partilhando sua onipotência, ao passo que as declarações do
Cristo estabelecem, entre ele e Deus, uma diferença essencial, sobretudo ao constatar que
as indecisões e imperfeições da criação e a existência do mal mostram bem que ele não
participa da onipotência divina.
Condenando o arianismo, o Concílio de Nicéia obrigou a doutrina esotérica de
João a se separar da Igreja de Pedro. Esta ficou ligada, cada vez mais, ao judaísmo,
enquanto que a de João permaneceu fiel ao helenismo. Isto mereceria um
desenvolvimento maior, comportando a história comparada das duas igrejas.
Dissemos que a doutrina do Logos era a idéia central do 4º Evangelho.
Encontramo-la desenvolvida em Fílon, o judeu helenizante. Fílon havia compreendido
que existe um segundo Deus intermediário entre o Homem e o Deus superior. É a esse
segundo Deus, que corresponde ao demiurgo de Platão, que ele dá o nome de Logos.
Entre os gauleses, muito tempo antes do cristianismo, houve um deus que
levava o nome de Lug; o antigo nome de Lyon (Lugdunum) vem daí. Não se poderia
deixar de ver uma relação entre o Deus Lug e o Logos (Log, seguido da terminação
"os"). Outro Deus gaulês, Ogmi, parece identificar-se igualmente com o Logos, pois era
representado seguido de personagens atrelados à sua língua por correntes de ouro; o
simbolismo é muito claro.
Por outro lado, parece que o antigo nome da França, a Gália, assim como o do
país de Gales, deriva do nome desse Deus Lug, Log ou Lag, pois a vogal não conta, e o
nome Liger (o Loire), assim como Ligúria, parece ter as mesmas ligações.
A doutrina do Logos nos leva aos gnósticos neoplatônicos, o que nos faz pensar
que o 4º Evangelho foi escrito em Alexandria por um discípulo de Fílon.
Em todo caso, esse conceito do Logos, do Verbo criador, encontra-se expresso,
com uma força surpreendente, no evangelho de João. Com efeito, o autor nos diz que o
Logos é a luz da vida. E aqui está expressa uma idéia que apenas começa a ser
compreendida: a da criação da vida, nascida no mar.
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Por outro lado, o Logos é também a luz da verdade, oposta às trevas do erro: "a
graça e a verdade vieram por Jesus Cristo".
Como a luz do sol, a verdade é sentida e não precisa ser demonstrada. Não é
preciso provar aos homens, diz Albert Réville, que o sol brilha e aquece. Se eles não o
vêem, é porque estão cegos; se não o sentem, é porque estão mortos.
Falando-nos do Verbo, o Prólogo também faz alusão a essa antiga ciência
sagrada, a hierologia, o estudo das diferentes religiões, que se transformou, entre os
judeus, na Kabbala. A Ciência do Verbo é um dos meios de acesso ao conhecimento das
manifestações do demiurgo.
Por outro lado, se o verbo cria, se a palavra constrói, ela também pode destruir.
A doutrina do Verbo criador existia entre os egípcios e é lá, sem dúvida, que
Moisés a foi encontrar, quando ele diz que a luz foi criada por esta simples palavra de
Deus: "Faça-se a luz!".
Vemos a que fontes longínquas remontam à concepção do Verbo criador.
Ele se tornou, para os ocultistas, a crença na ação eficaz dos mantras e dos
cantos mágicos, para se fazer obedecer pelas entidades do mundo invisível.
Em nossos dias, a força da palavra se multiplicou pela imprensa, o rádio e a
televisão e nunca, como agora, puderam propagar-se tanto os erros como a verdade;
mas se propagam mais erros do que verdades.
Não é singular o fato de que, na palavra Verbo, fazendo do V um U, o que é
freqüente, teremos Our e Bios, isto é, luz e vida!
Por outro lado, é muito importante constatar que as duas consoantes da palavra
Logos (em grego) se parecem com o compasso (o lambda A) e o esquadro (o gama F).
Ora, de acordo com os franco-maçons que procuram a palavra perdida, estão aí os dois
instrumentos do Grande Arquiteto do Universo, que eles representam em suas lojas. Não
nos esqueçamos, aliás, de que a maçonaria primitiva era crista e joanita.
Mas o esquadro e o compasso são muito anteriores à franco-maçonaria, pois são
os instrumentos operativos, tanto quanto especulativos, dos Companheiros construtores
da Idade Média, que eram, em sua maioria, iniciados.
No 4º Evangelho, Cristo é apresentado não como quem vem resgatar o gênero
humano, mas como quem vem trazer aos homens a luz e necessidade da regeneração.
Esse Evangelho situa-se num plano diferente dos outros três, que representam a
obra de Cristo tendo como objetivo reconciliar os homens com Deus.
Notar-se-á que, no versículo 17 do Prólogo, a palavra Charis foi traduzida por
graça. Na realidade, há palavras que não precisam de tradução, sob pena de se alterar o
seu significado. Esse é o caso da palavra Charis, que encontramos em Eucharistia, "a boa
charis". Píndaro, em suas Olímpicas, dá à palavra Charis numerosas acepções, de fato,
essa palavra está relacionada com os mistérios cristãos.
A linguagem comporta o uso de substantivos, de verbos e de adjetivos, para
formar frases. O substantivo, como o nome o indica, diz respeito à substância das coisas;
o adjetivo, às suas qualidades (positivas ou negativas); o verbo exprime a ação.
Existe aí uma manifestação trinitária da força que rege tudo no mundo. O Verbo
caracteriza a ação criadora, que utiliza a substância-princípio; o Pai, e as qualidades: o
Espírito.
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O conceito trinitário representa uma das riquezas do pensamento metafísico.
Encontramo-lo nas três vias de acesso ao conhecimento hermético: a Astrologia religiosa,
ciência da vida do sol; a Hierologia, ciência do Verbo; a Alquimia, ciência da substância-
princípio, que é luz e vida.
Por outro lado, existe um verbo-princípio: é o verbo ser, que caracteriza
essencialmente a existência; ele está contido em todos os outros verbos. Com efeito,
dizei "ando", equivale a dizer "estou andando"; dizer "ele trabalha" corresponde a "ele
está trabalhando".
Falando de Deus, pode-se dizer apenas: "Ele é." Atribuem-lhe, aliás, a
expressão: "Eu sou Aquele que sou" (Êxodo III, 14).
A frase de Descartes: “Penso, logo sou (existo)" deveria ser transformada em:
"Sou (existo), logo penso" (sou um pensante).
No Evangelho de João, por diversas vezes, vemos Cristo declarar, ou ser declarado,
o Filho de Deus; mas está especificado que ele é o seu filho único, pelo redator do
Evangelho ou por seu tradutor, porque essa expressão não é transcrita como tendo sido
proferida por Jesus Cristo. Se existe aí uma indicação de que Cristo não seria o Deus
supremo, como já vimos no exame do Prólogo, não pode deixar de causar admiração o
fato de vê-lo considerado o filho de Deus, tanto mais quando sabemos que existem
criaturas que possuem em si a fagulha divina do espírito e que todos os demiurgos,
criadores de sistemas solares e planetários, são "Filhos de Deus". É por isso que Étienne
Dolet achava que a expressão "Filho único de Deus", que aparece no Credo, devia ser
substituída peia expressão, mais lógica, de "Filho do Deus único".
Mas a Igreja, tendo considerado herética essa proposição, condenou Etienne Dolet
a morrer na fogueira.
Pode-se, contudo, pensar que Cristo não é o único governador e mantenedor da
vida sobre as miríades de mundos que povoam a imensidão do cosmos, e que sua
encarnação sobre a terra não é válida para cada um deles, contrariamente ao que
pretendem os teólogos.
No capítulo X, 34, vemos os judeus criticando Cristo por se fazer Deus. Ele lhes
responde: "Não está escrito em vossa lei: todos vós sois deuses?" Aliás, no versículo 12
do Prólogo, está dito que aqueles que acreditaram no Cristo têm o direito de ser feitos
filhos de Deus.
Deduz-se daí que a expressão "Filho de Deus" não tem caráter exclusivo.
Ao mesmo tempo em que encontramos no Evangelho de João a expressão "Filho
de Deus" aplicada a Cristo, nós o vemos igualmente designado pela expressão "Filho do
Homem". Que significa essa designação?
O que o Cristo foi, ele próprio, um homem. De fato, trata-se do problema de sua
dupla natureza.
De acordo com alguns, antes de se tornar um demiurgo, um criador, ele era
apenas uma criatura privilegiada, e isso confirmaria a afirmação de Pitágoras: "Reflete
sobre cada coisa, tomando por condutor a excelente Inteligência do alto. E se, depois de
teres abandonado o teu corpo, chegares ao éter livre, serás deus imortal, incorruptível,
e para sempre livre da morte".
Todo filho do homem pode, portanto, elevar-se na hierarquia dos deuses. Aquele
que São Paulo chama de Senhor, também ele passou pelo estado humano; mas, de
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acordo com a Igreja, ele foi os dois ao mesmo tempo.
Os dois santos de nome João, esotericamente, são um; esse é o motivo pelo qual
a basílica de São João de Latrão, verdadeira catedral da igreja cristã, é consagrada a
ambos.
João Batista precedeu o Cristo; quando ele desaparece, João, o evangelista,
aparece e se torna o discípulo preferido, aquele que, por ocasião da última Ceia, se
recostou ao peito do Senhor e recebeu os seus ensinamentos secretos.
É preciso, aliás, observar a narração de São Marcos, que faz Herodes falar a
respeito de Jesus: “... Diziam: É João, o Batista, que se levantou dentre os mortos, e
eis por que agiu nele o poder dos milagres”; outros diziam: “É Elias”; outros diziam:
“É um profeta como um dos profetas”. Mas, ao saber disso, Herodes dizia: “Aquele
que eu mandei decapitar, João, foi ele quem ressuscitou!”
Segundo Herodes, Jesus seria a reencarnação de João Batista. Mas como a
doutrina do Cristo será divulgada por João, o Evangelista, e como este era discípulo do
Batista, vemos que João Batista, Jesus Cristo e João, o Evangelista, formam uma tríade
muito significativa.
O motivo da predileção de Jesus Cristo pelos dois não nos é fornecido pelos
evangelhos. Ei-lo: na hierarquia dos Deuses, João é o governador, o senhor do planeta
terra e o chefe dos iniciados. Ele corresponde a Agni, na terminologia rosa-cruz. Ele é o
continuador de Gê, deusa da terra na Teogonia de Hesíodo.
Gê é a esposa de Poseidon, predecessor de João como senhor da terra. Gê é
também Deméter, "a mãe dos deuses". É por esse motivo que as iniciações eram feitas
em locais subterrâneos, porque as cavernas tinham um caráter sagrado, porque os
geomancianos interrogavam o espírito da terra, porque a Pítia recebia suas inspirações
através de exalações que saíam do solo, etc.
Dessa natureza de João devia nascer a lenda do Preste João, ao mesmo tempo
pontífice e rei, chefe de um mundo subterrâneo, já que a terra é a sua morada, como o
sol é a morada do demiurgo.
O governador da terra devia, logicamente, preparar a primeira vinda do Deus
solar, acompanhá-lo durante sua estada, como um prefeito ou um governador prepara a
recepção do chefe do Estado e o acompanha durante sua visita, e deve preparar a sua
volta.
Restaria ainda examinar a ação do Senhor da terra, durante os acontecimentos
que precedem a volta do Cristo; essa ação não poderia passar despercebida. Ela se
caracteriza por sua luta com as forças que se levantam contra a doutrina do Cristo e
contra a sua volta. Nessa luta, João ora obtém êxito, ora sofre derrotas, e será
necessária a intervenção do próprio demiurgo para vencer definitivamente as forças
maléficas que dominam o mundo e o arrastam à morte pela mentira, a injustiça e o
ódio, enquanto Cristo é ávida, a verdade, a justiça e o amor.
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LE COUR, Paul. O Evangelho Esotérico de São João. Tradução de Frederico
Ozanam Pessoa de Barros. 2ª edição. Editora Pensamento. São Paulo: 1990.
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