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8/3/2017 DEPOIMENTO: Contradições de Mauricio Segall fizeram dele homem de exceção - 02/08/2017 - Ilustrada - Folha de S.

Paulo

DEPOIMENTO

Contradições de Mauricio Segall fizeram
dele homem de exceção
Divulgação

De esq. a dir, Mauricio Segall, Beatriz Segall, Lasar Segall, Jenny Klabin, Raquel Arnaud
e Oscar Segall

ROBERTO SCHWARZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

02/08/2017 02h05

Vou ser breve. Para entender a pessoa de Mauricio Segall é preciso, na minha opinião,
considerá­lo como um pacote explosivo de tensões.

Por um lado, descendente de uma família rica e filho de Lasar Segall, um dos grandes
pintores de nosso tempo.

Por outro, comunista convicto e radical, numa acepção nobre, que vai além da filiação
partidária e que a evolução histórica do comunismo deixou sem base.

Essa bomba de contradições é tornada mais potente por um temperamento vulcânico, à
moda russa, e pelo desejo exasperado de integridade e de coerência. Tudo isso misturado,
mais a extraordinária energia física, fizeram dele um homem evidentemente de exceção.

O seu aspecto grão­burguês aparecia na naturalidade com que mandava e na sobriedade
"no nonsense" com que considerava as questões de interesse material.

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8/3/2017 DEPOIMENTO: Contradições de Mauricio Segall fizeram dele homem de exceção - 02/08/2017 - Ilustrada - Folha de S.Paulo

A verdade é que, entre o materialismo de proprietário e a clareza do administrador de
esquerda, responsável pelo governo de uma instituição, havia mais coisas em comum do
que costumamos admitir.

Por sua vez, a devoção ao acervo pictórico do pai, tratado como um patrimônio da
humanidade, da cidade ou da nação, e não da família, não tinha nada de burguesa.

A generosidade com que ele e o irmão financiaram o museu, ao qual doaram as suas
coleções Segall, de grande valor, além de imóveis e dinheiro, pertence a um mundo
surpreendente, sem mesquinharia, em que a arte conta mais do que a propriedade.

Quanto à vertente comunista, ela se manifestava na concepção mesma do museu. A
orientação pró­moderna mas antimercantil, empenhada na deselitização da cultura, bem
como a organização democrática, em que os funcionários têm voz e iniciativa, apontavam
para além do capitalismo.

Chegados aqui, não há como não mencionar que esses aspectos avançados da posição de
Mauricio e do museu foram historicamente derrotados pelo curso geral do mundo, que
tomou o rumo do aprofundamento da mercantilização, inclusive e notadamente da cultura.

Para dar uma ideia do teor de conflito nas posições de Mauricio, vou contar uma anedota.
Estávamos os dois passeando na praia, quando chegamos a um conjunto de pedras
enormes, que o acaso havia equilibrado de maneira esplêndida. Cometi a imprudência de
observar que o conjunto, embora sem assinatura de artista, competia com a escultura
moderna.

A resposta veio amarga e exaltada: o arranjo natural das pedras era superior a qualquer
obra de arte, pois era acessível a todo mundo, sem o ranço elitista de museus e
exposições e sem o esnobismo e a competitividade de todo trabalho artístico.

Por um momento breve mas lancinante, aí estavam as injustiças da sociedade de classes,
que não perdoam, anulando o trabalho de vida inteira do criador de um museu modelo de
democracia.

Frente à beleza das pedras e à inaceitável desigualdade social, que subitamente se
traduziam em raiva da arte, a dedicação meticulosa e amorosa à obra do grande pintor
Segall ficava mal parada. Tivemos que espichar o passeio para que Mauricio recuperasse a
calma.

Para concluir meu depoimento, quero falar na solidariedade de Mauricio com os amigos
perseguidos pela ditadura, solidariedade da qual eu mesmo me beneficiei para sair do
Brasil.

Enquanto não foi agarrado ele próprio pela repressão, Mauricio ajudou de muitas maneiras
a luta contra a ditadura, às vezes com risco de vida. Com sua perícia no volante e energia
de touro, ele perguntava pouco e estava sempre disponível para fazer a longa viagem de
automóvel de São Paulo à fronteira do Uruguai, para ajudar alguém a fugir. Dezesseis
horas de ida, três de descanso e mais dezesseis de volta –e a vida continuava.

ROBERTO SCHWARZ, 78, é crítico literário e escritor, professor aposentado de teoria
literária da USP e da Unicamp. Uma versão deste depoimento foi gravada na sexta­feira
(28) para as comemorações dos 50 anos do Museu Lasar Segall.

Endereço da página:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/08/1906317­rico­e­comunista­radical­mauricio­segall­foi­bomba­
de­contradicoes.shtml

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8/3/2017 DEPOIMENTO: Contradições de Mauricio Segall fizeram dele homem de exceção - 02/08/2017 - Ilustrada - Folha de S.Paulo

Links no texto:

doaram as suas coleções Segall
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/781367­museu­lasar­segall­aumenta­seu­acervo.shtml

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