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Disciplina: “Língua Portuguesa”

Turma: Extensivo Anglo Medicina | Período: 1° semestre


Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal
Tema redacional 09: Efeitos sociais advenientes do respei-
to aos direitos humanos na Prova de Redação do ENEM.

do -, servindo de inspiração para a estruturação do regime


de proteção das liberdades nos Estados Unidos da América
(em especial, na Declaração de Virgínia, de 1776). É preo-
cupante observar que hoje, mais de oito séculos depois da
Magna carta, as liberdades públicas e os Direitos Humanos
ainda não são plenamente reconhecidos no Brasil. Em ver-
dade, o que se verifica é a necessidade de grande empenho,
para que se contenha o poder do Estado. É certo que temos
instituições capazes de assegurar esse equilíbrio, mas tam-
bém não se pode deixar de reconhecer que, nos últimos a-
nos, não têm sido poucas as tentativas de sobreposição do
poder estatal às liberdades individuais. Que o exemplo bri-
tânico nos ilumine, para que toda a sociedade se empenhe,
cada vez mais, na afirmação dos Direitos Humanos e das li-
berdades individuais!

Os 800 anos da Magna carta, a (O Estado de S. Paulo, 16.06.2015)


“mãe” das liberdades individuais

Cláudio Daolio

Nesta semana, mais especificamente em 15 de junho,


o mundo celebrou 800 anos da Magna carta (Magna charta
libertatum), ponto de partida para a consolidação dos Direi-
tos Humanos e definição dos poderes do Estado. Para enten-
dermos a importância desse documento, é preciso olhar para
o contexto histórico da Inglaterra, na primeira metade do sé-
culo XIII. O rei John Lackland não gozava de grande popu-
laridade junto a seus súditos, pela forma como tomou o po-
der, depois da morte do rei Richard the Lionheart. Além dis-
so, fracassou na tentativa de recuperar territórios, que havi-
am sido perdidos para a França, e se envolveu em polêmica
com o Papa Inocêncio III, sobre a nomeação do Arcebispo
da Cantuária. Todo esse cenário desfavorável acabou agra-
vado pela derrota na Batalha de Runnymede, nos arredores
de Londres, às margens do rio Tâmisa. Por conta disso, a a-
tuação do rei foi duramente contestada pelos nobres, tendo- Os 800 anos da Magna Carta
-o forçado a aceitar a diminuição dos poderes dele. A baixa
popularidade, somada aos desmandos no exercício do po- Paulo Roberto de Almeida
der, fizeram que os barões da época se insurgissem, com o
propósito de limitar o poder real. Entre essas limitações, ve- Dentro de pouco menos de um ano (mais exatamente
rifica-se o cerne da regra da igualdade de todos perante a lei em 15 de junho de 2015), a Magna carta completará 800 a-
e a garantia do devido processo legal. Foi proibida a deten- nos. A Carta é uma espécie de obrigação formal assumida
ção arbitrária e imotivada, bastante comum à época, anteci- por um rei substituto com barões ingleses revoltados, mas
pando o surgimento do habeas corpus o qual surgiria no ano ela constitui, sem dúvida alguma, a base de todas as liberda-
1679. Além disso, a Magna carta assegurou o direito à he- des modernas, a do princípio democrático, a do governo pe-
rança, acatando pleito de interesse dos nobres. Concedeu, a- lo consentimento de governados, da taxação com represen-
inda, o direito de livre trânsito aos comerciantes, proibindo tação, a do respeito à propriedade pessoal e a do devido pro-
a criação de impostos, sem o consentimento dos membros cesso legal. “Nenhum homem livre”, lê-se num dos parágra-
do “Conselho Comum do Reino”, formado por nobres e clé- fos do documento, “será preso ou destituído de suas posses,
rigos. Apesar do caráter inovador, a Magna carta foi estabe- ou considerado fora da lei, ou exilado, ou de alguma forma
lecida para atender aos interesses da nobreza local, sem pre- prejudicado (...), salvo mediante um julgamento legal pelos
ocupação com o povo. Tanto é assim que se encontra redigi- seus pares ou pela lei do país. A ninguém será negado o di-
da em latim, quando boa parte da população era analfabeta, reito ou a justiça”. Antes de apor suas assinaturas, os barões
ou falava inglês. Foi o passar dos séculos que a transformou confirmavam: “Todos os costumes e liberdades acima cita-
em verdadeiro instrumento de luta contra a tirania, em defe- dos, que nós garantimos existir neste reino que nos pertence,
sa dos Direitos Humanos. Em verdade, a Magna carta pre- têm de ser observados por todos, religiosos ou laicos, e to-
parou terreno para surgimento da monarquia constitucional dos devem respeitá-los quanto a todos os demais”. Seria in-
britânica – um dos sistemas políticos mais estáveis do mun- teressante, acerca disso, focar o caso brasileiro para tentar

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determinar, exatamente, até que ponto ainda não chegamos Estado, o que representa duas derramas coloniais. Pela me-
no que tange à aplicação plena dos princípios da Carta. Os tade disso, Tiradentes e seus amigos revoltaram-se contra a
barões da Inglaterra medieval estavam se revoltando contra prepotência da Coroa. Libertas quae sera tamen?
um rei ladrão, John Lackland, que foi obrigado a assinar um
compromisso de consultar os seus súditos nos casos especi- (O Estado de S. Paulo, “Opinião”, 14.07.2014)
ficados na Magna carta. No nosso caso é um pouco diferen-
te, o que complica as coisas: aqui, talvez, haja uma conivên-
cia entre barões e ladrões. Quando nossos barões – que, por
enquanto, são só ladrões – se revoltarem contra a prepotên-
cia do Estado, contra as exações fiscais do príncipe, contra
a falta de representação real no corpo parlamentar, contra as
deformações da democracia, contra a corrupção (a qual eles
mesmos patrocinam, ao comprar parlamentares, ao susten-
tar lobistas, ao subsidiar partidos mafiosos), contra políticas
especiais de “puxadinhos” e improvisações (que eles própri-
os, ademais, requerem ao Estado todo-poderoso), quando,
enfim, barões capitalistas conseguirem conduzir uma fronda
empresarial contra o Estado e os corruptos que puseram no
poder, então, talvez, nós nos aproximaremos um pouco, ao
menos, dos valores e princípios da Carta de 1215. Estamos
um pouco atrasados, como todos podem constatar. Mas não
só nós. Os franceses também, pois só foram conduzir uma
fronda aristocrática depois que os ingleses já haviam deca-
pitado um rei, que abusava justamente de seus poderes. Mas
aqueles consentiram com o início de outro reinado, depois Declaração Universal dos Direitos Humanos
de uma breve experiência republicana – um pouco sangren-
ta, para qualquer padrão -, mas resolveram tirar esse mesmo Preâmbulo
rei, desta vez pacificamente, depois que ele resolveu ser tão
arbitrário quanto o decapitado, pretendendo retomar os anti- Considerando que o reconhecimento da dignidade i-
gos hábitos absolutistas da sua família. Os ingleses, então, nerente a todos os membros da família humana e de seus di-
“importaram” uma nova dinastia do continente, aprovaram reitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da
um Bill of rights que limitava sensivelmente – na verdade, justiça e da paz no mundo; considerando que o desprezo e o
tolhia totalmente – os poderes do neófito soberano e, desde desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bár-
então, vivem pacificamente com os seus “soberanos de tea- baros que ultrajaram a consciência da humanidade e que o
tro” (mais para commedia dell’arte do que tragédias shakes- advento de um mundo em que todos gozem de liberdade de
pearianas). Em todo caso, eles são a mais velha democracia palavra, crença e da liberdade de viverem a salvo do temor
do mundo, em funcionamento contínuo desde 1688. Foram e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração
seguidos mais tarde, ainda que no formato republicano, mas do homem comum; considerando essencial que os direitos
absorvendo todas as bondades da Magna carta e do Bill of humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o
rights, por seus expatriados da Nova Inglaterra e das demais ser humano não seja compelido, como último recurso, à re-
colônias, que se revoltaram justamente quando os ingleses, belião contra a tirania e à opressão; considerando essencial
ou melhor, o seu rei, empreendeu uma “tosquia” muito forte promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as
nos rendimentos dos colonos, decidindo aumentar as taxas nações; considerando que os povos das Nações Unidas rea-
sobre o chá e cobrar outros impostos. A fronda dos américa- firmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos
nos foi uma revolução, como eles a chamam, mas, com isso, fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na
criaram a primeira democracia moderna da História, que se igualdade de direitos entre homens e mulheres, e que decidi-
mantém até hoje, com a mesma Constituição original e al- ram promover o progresso social e melhores condições de
gumas poucas emendas. Enquanto isso, franceses estavam vida em uma liberdade mais ampla; considerando que os Es-
guilhotinando o seu rei, para construírem um poder ainda tados-membros se comprometeram a promover, em coope-
centralizado e opressor. Não se pode, obviamente, comparar ração com as Nações Unidas, o respeito universal aos direi-
a Constituição americana a nenhuma das nossas sete Cartas tos humanos e liberdades fundamentais e a observância des-
constitucionais – com dois ou três grandes remendos no cur- ses direitos e liberdades; considerando que uma compreen-
so de nossa História autoritária – e dezenas, quase uma cen- são comum desses direitos e liberdades é da mais alta im-
tena, de emendas à mais recente delas (talvez não a última), portância para o pleno cumprimento desse compromisso, a
tratando de assuntos mais prosaicos. Há uma que regula tra- Assembleia Geral proclama a presente Declaração Univer-
balhos de domésticas. Alguma outra Constituição possui al- sal dos Direitos Humanos como ideal comum a ser atingido
go tão bizarro? Nada contra trabalhadores domésticos, mas por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que
não creio que eles devam figurar numa Constituição. Enfim, cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em
os nossos barões, que também são extorquidos pelos prínci- mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da e-
pes que nos governam, não parecem ter muita disposição ducação, por promover o respeito a esses direitos e liberda-
para mudar o cenário, menos ainda para decapitar algum so- des, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter naci-
berano. Talvez o devessem: quando a carga fiscal passar de onal e internacional, por assegurar seu reconhecimento e su-
40%, por exemplo, quem sabe eles resolvam fazer sua fron- a observância universal e efetiva, tanto entre povos dos pró-
da empresarial? Afinal, estamos falando de dois quintos da prios Estados-membros, quanto entre povos dos territórios
riqueza produzida pela sociedade e que são apropriados pelo sob sua jurisdição.

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Artigo I Todos os seres humanos nascem livres e iguais em Artigo XIII 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de
dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Esta-
devem agir em relação uns aos outros com espírito de frater- do; 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer pa-
nidade. ís, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo II 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os Artigo XIV 1. Todo ser humano, vítima de perseguição,
direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países;
distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idio- 2. Este direito não pode ser invocado em caso de persegui-
ma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem ção legitimamente motivada por crimes de direito comum
nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações
condição; 2. Não será também feita nenhuma distinção fun- Unidas.
dada na condição política, jurídica ou internacional do país
ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um Artigo XV 1. Todo homem tem direito a uma nacionalida-
território independente, sob tutela, sem governo próprio, de; 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua naciona-
quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. lidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo III Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade Artigo XVI 1. Os homens e mulheres de maior idade, sem
e à segurança pessoal. qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o
direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam
Artigo IV Ninguém será mantido em escravidão ou servi- de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e
dão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em sua dissolução; 2. O casamento não será válido senão com
todas as suas formas. o livre e pleno consentimento dos nubentes; 3. A família é
o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à
Artigo V Ninguém será submetido à tortura nem a trata- proteção da sociedade e do Estado.
mento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo XVII 1. Todo ser humano tem direito à propriedade,
Artigo VI Todo ser humano tem o direito de ser, em todos só ou em sociedade com outros; 2. Ninguém será arbitraria-
os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei. mente privado de sua propriedade.

Artigo VII Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem Artigo XVIII Todo ser humano tem direito à liberdade de
qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direi- pensamento, consciência e religião; este direito inclui a li-
to a igual proteção contra qualquer discriminação que viole berdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de ma-
a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal nifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática,
discriminação. pelo culto e pela observância, em público ou em particular.

Artigo VIII Todo ser humano tem direito a receber dos tri- Artigo XIX Todo ser humano tem direito à liberdade de o-
bunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos pinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem in-
que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhe- terferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir
cidos pela constituição ou pela lei. informações e idéias por quaisquer meios e independente-
mente de fronteiras.
Artigo IX Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou e-
xilado. Artigo XX 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de
reunião e associação pacífica; 2. Ninguém pode ser obriga-
Artigo X Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, do a fazer parte de uma associação.
a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal in-
dependente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e Artigo XXI 1. Todo ser humano tem o direito de fazer parte
deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal no governo de seu país diretamente ou por intermédio de re-
contra ele. presentantes livremente escolhidos; 2. Todo ser humano
tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país;
Artigo XI 1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso 3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo;
tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpa- esta vontade será expressa em eleições periódicas e legíti-
bilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julga- mas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo e-
mento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as quivalente que assegure a liberdade de voto.
garantias necessárias à sua defesa; 2. Ninguém poderá ser
culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, Artigo XXII Todo ser humano, como membro da socieda-
não constituíam delito perante o direito nacional ou interna- de, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço
cional. Também não será imposta pena mais forte do que a- nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a
quela que, no momento da prática, era aplicável ao ato deli- organização e recursos de cada Estado, dos direitos econô-
tuoso. micos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e
ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo XII Ninguém será sujeito à interferência em sua vida
privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondên- Artigo XXIII 1. Todo ser humano tem direito ao trabalho,
cia, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano à livre escolha de emprego, a condições justase favoráveis
tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ata- de trabalho e à proteção contra o desemprego; 2. Todo ser
ques. humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remu-

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neração por igual trabalho; 3. Todo ser humano que trabalha quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.
tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe
assegure, assim como à sua família, uma existência compa- (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração
tível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se Universal dos Direitos Humanos, 10.12.1948)
necessário, outros meios de proteção social; 4. Todo ser hu-
mano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar
para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV Todo ser humano tem direito a repouso e la-


zer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a
férias remuneradas periódicas.

Artigo XXV 1. Todo ser humano tem direito a um padrão


de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-
-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados
médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à se-
gurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez,
velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência
em circunstâncias fora de seu controle; 2. A maternidade e
a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. To-
das as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio go-
zarão da mesma proteção social.
“Direitos humanos para humanos direitos”
Artigo XXVI 1. Todo ser humano tem direito à instrução.
A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares Matheus Pichonelli
e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A
instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem Almeidinha era o sujeito inventado pelos amigos de
como a instrução superior, esta baseada no mérito; 2. A ins- faculdade para personalizar tudo o que não queríamos nos
trução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento transformar ao longo dos anos. A projeção era a de um cida-
da personalidade humana e do fortalecimento do respeito dão médio: resmungão em casa, satisfeito com o emprego
pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A na “firma” e à espera da aposentadoria para poder tomar ba-
instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amiza- nho, colocar pijama às quatro da tarde, assistir ao Datena e
de entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e co- reclamar da janta preparada pela esposa. O Almeidinha é a-
adjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manu- quele sujeito capaz de rir de qualquer piada de português,
tenção da paz; 3. Os pais têm prioridade de direito na esco- negro, gay e loira. Que guarda revistas pornográficas no ar-
lha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos. mário, baba nas pernas da vizinha desquitada (é assim que
ele fala) mas implica quando a filha coloca um vestido mais
Artigo XXVII 1. Todo ser humano tem o direito de partici- curto. Que não perde a chance de dizer o quanto a esposa
par livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das (ele chama de “patroa”) engordou desde o casamento. O Al-
artes e de participar do progresso científico e de seus benefí- meidinha, para nosso espanto, está hoje em toda parte. Mul-
cios; 2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interes- tiplicou-se em proporção geométrica e, com os anos, se mo-
ses morais e materiais decorrentes de qualquer produção ci- dernizou. O sujeito que montava no carro no fim de semana
entífica literária ou artística da qual seja autor. e levava a família para ir ao jardim zoológico dar pipoca aos
macacos (apesar das placas de proibição) sucumbiu ao sinal
Artigo XXVIII Todo ser humano tem direito a uma ordem dos tempos e aderiu à internet. Virou um militante das cor-
social e internacional em que os direitos e liberdades estabe- rentes de e-mail com alertas sobre o perigo comunista, as
lecidos na presente Declaração possam ser plenamente rea- contas no exterior do ex-presidente, os planos do Congresso
lizados. para acabar com o 13º salário. Depois foi para o Orkut. De-
pois para o Facebook. Ali encontrou os amigos da firma que
Artigo XXIX 1. Todo ser humano tem deveres para com a todos os dias o lembram dos perigos de se viver num mundo
comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua sem valores familiares. O Almeidinha presta serviços huma-
personalidade é possível; 2. No exercício de seus direitos e nitários ao compartilhar alarmes sobre privacidade na rede,
liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limita- homenagens a pessoas doentes e fotos de crianças deforma-
ções determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de as- das. O Almeidinha também distribui bom dia a amigos com
segurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e li- piadas sobre o Verdão (“estude para o vestibular porque vai
berdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da cair...hihihii”) e mensagens motivacionais. A favorita é a-
moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade quela sobre amar as pessoas como se não houvesse amanhã,
democrática; 3. Esses direitos e liberdades não podem, em que ele jura ser do Cazuza mas chegou a ele como Caio
hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos Fernandes (sic) Abreu. O Almeidinha gosta também de se
e princípios das Nações Unidas. posicionar sobre os assuntos que causam comoção. Para ele,
a atual onda de violência em São Paulo só acontece porque
Artigo XXX Nenhuma disposição da presente Declaração os pobres, para ele potenciais criminosos (seja assassino ou
pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer ladrão de galinha) têm direitos demais. O Almeidinha tem
Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer ati- um lema: “Direitos humanos para humanos direitos”. Aliás,
vidade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de é ouvir essa expressão, que não sabe definir muito bem, e o

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Almeidinha boa praça e inofensivo da vizinhança se trans- do toda vez que alguém do CQC faz “lero-lero” na frente do
forma. “Lógica da criminalidade”, “superlotação de presídi- Congresso. Acha todos eles uns caras “fodásticos” (é assim
os”, “sindicato do crime”, “enfrentamento”, “uso excessivo que ele fala). Talvez até mais que o Arnaldo Jabor. Pensa
da força”, para ele, é conversa de intelectual. E se tem uma em votar com nariz de palhaço na próxima eleição (pensa
coisa que o Almeidinha detesta mais que o Lula ou o Mano em fazer isso até que o voto deixe de ser obrigatório e ele
Menezes (sempre nesta ordem) é intelectual. O Almeidinha possa aproveitar o domingo no videogame). Até lá, vai se-
tem pavor. Tivesse duas bombas eram dois endereços cer- guir destruindo placas e cavaletes que atrapalham suas an-
tos: a favela e a USP. A favela porque ele acredita no gover- danças pela cidade. Como o pai, o filho do Almeidinha tem
nador Sergio Cabral quando ele fala em “fábrica de margi- respostas e certezas para tudo. Não viveu na ditadura, mas
nais”. A USP porque está cansado de trabalhar para pagar a morre de saudade dos tempos em que as coisas funciona-
conta de gente que não tem nada a fazer a não ser promover vam. Espera ansioso um plebiscito para introduzir de vez a
greves, invasões, protestos e espalhar palavras difíceis. O pena de morte (a única solução para a malandragem) e redu-
Almeidinha vota no primeiro candidato que propuser esteri- zir a maioridade penal até o dia em que se poderá levar be-
lizar a fábrica de marginal e a construção de um estaciona- bês de oito meses para a cadeia. Quer um plebiscito também
mento no lugar da universidade pública. Uma metralhadora para acabar com a Marcha das Vadias. O que é bonito, para
na mão do Almeidinha e não sobraria vagabundo na Terra. ele, é para se ver. E se tocar. E ninguém ouve cantada se não
(O Almeidinha até fala baixo para não ser repreendido pela provoca (a favorita dele é: “Hoje não é seu aniversário, mas
“patroa”, mas se alguém fala ao ouvido dele que “Hitler não você está de parabéns, sua linda”. Fala isso com os amigos
estava assim tão errado”, ganha um amigo para o resto da e sai em disparada no carro do pai. O filho do Almeidinha
vida). A cólera que o fazia acordar condenando o mundo pe- era “O” zoão da turma na facul). Pai e filho estão cada vez
la manhã está agora controlada graças aos remédios. O Al- mais parecidos. O pai já joga Playstation, e o menino de 30
meidinha evoluiu muito desde então. Embora desconfiado, anos já fala sobre a decadência dos costumes. Para tudo têm
o Almeidinha anda numas, por exemplo, de que agora as uma sentença: “Ê, Brasil”. Almeidinha pai e Almeidinha fi-
coisas estão entrando nos eixos porque os políticos – para lho têm admiração similar ao estilo civilizado de vida euro-
ele a representação de tudo o que o impediu de ter uma casa peu. Não passam um dia sem dizer que a vida – deles e da
na praia – estão indo para a cadeia. Ele não entende uma pa- humanidade em geral – seria melhor se o país fosse dividido
lavra do que diz o tal do Joaquim Barbosa, mas já reservou entre o Brasil do Sul e o Brasil do Norte. Quando esse dia
espaço para um pôster do ministro do Supremo ao lado do chegar, garantem, o Brasil enfim será o país do presente e
cartaz do Luciano Huck (“cara bom, ajuda as pessoas”) e do não do futuro. Um país à imagem e semelhança de um Al-
Rafinha Bastos (“ele sim tem coragem de falar a verdade”). meidinha.
O Almeidinha não teve colegas negros na escola nem na fa-
culdade, mas ele acha que o exemplo de Barbosa e do presi- (Carta Capital, “Política”, 08.11.2012)
dente Barack Obama é prova inequívoca de que o sistema
de cotas é uma medida populista. É o que dizia o “meme”
que ele espalhou no Facebook com o argumento de que, na
escravidão, o tráfico de escravos tinha participação dos afri-
canos. Por isso, quando o assunto encrespa, ele costuma re-
correr ao “nada contra, até tenho amigos de cor (é assim que
ele fala), mas muitos deles têm preconceitos contra eles
mesmos”. O Almeidinha costuma repetir também que os
pobres é que não se ajudam. Vê o caso da empregada, que
achou pouco ganhar vinte reais por dia para lavar suas cue-
cas e preferiu voltar a estudar. Culpa do “Bolsa Família”, e-
le diz, esse instrumento eleitoral que leva todos os nordesti-
nos, descendentes de nordestinos e simpatizantes de nordes-
tinos a votar com medo de perder a boquinha. Em tempo: o
filho do Almeidinha tem quase 30 anos e nunca trabalhou.
Falta de oportunidade, diz o Almeidinha, só porque o filho
não tem pistolão. Vagabundo é outra coisa. Outra cor. Como
o pai, o filho do Almeidinha detesta qualquer tipo de bolsa
governamental. A bolsa-gasolina que recebe do pai, garante,
é outra coisa. Não mexe com recurso público. (O Almeidi-
nha não conta para ninguém, mas liga todo dia, duas vezes
por dia, para o primo de um conhecido instalado na prefei-
tura para saber se não tem uma boca de assessor para o filho
em algum gabinete). O filho do Almeidinha também é ati-
vista virtual. Curte Playstation, as sacadas do Willy Wonka,
frases sobre erros de gramática do ENEM, frases sobre o fri-
o, sobre o que comer no almoço e sobre as bebedeiras com
os moleques no fim de semana (segue a página de oito mar-
cas de cerveja). Compartilha vídeos de propagandas de car-
ro e fotos de mulheres barrigudas e sem dentes na praia. Riu
até doer a barriga com a página das barangas. Detesta políti-
ca – ele não passa um dia sem lembrar a eleição do Tiririca
para dizer que só tem palhaço em Brasília. E se sente vinga-