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Maria Rosário de Carvalho

O MONTE PASCOAL, OS ÍNDIOS PATAXÓ E A LUTA PELO

DOSSIÊ
RECONHECIMENTO ÉTNICO

Maria Rosário de Carvalho*

O artigo trata do embate travado entre os Índios Pataxó e o Estado brasileiro pela posse do
Parque Nacional do Monte Pascoal, para o que são utilizados a noção de eventos críticos e o
modelo de conflito que atribui o surgimento e o curso das lutas sociais às experiências morais
dos grupos sociais em face da denegação do reconhecimento. O objetivo é, mediante a apresen-
tação das várias etapas do embate, demonstrar que os eventos críticos relacionados à criação do
PNMP ao tempo em que ensejam graves contradições para os Pataxó, colaboram para a gênese
de uma nova comunidade político-moral. O foco incide, pois, na interface demografia e antro-
pologia, buscando relacionar as condições de vida, o deslocamento espacial e os direitos de um
povo indígena.
PALAVRAS-CHAVE: Pataxó, nação, reconhecimento, luta, monumento.

No período compreendido entre 1937 e1945, ao de institucionalizador da vida cultural, medi-


como é sabido, o Brasil viveu um regime de exce- ante projetos que visavam a inculcar,
ção, o Estado Novo, articulado e chefiado pelo pre- massivamente, conteúdos nacionalistas. O proje-
sidente Getúlio Vargas, com o apoio dos chefes to orfeônico villalobiano, entre outros de igual ou
militares. A Constituição de 1937, decretada pelo menor expressão, teve, nesse sentido, “uma im-
Presidente da República para assegurar unidade à portante função político-educacional para um país
nação – tendo em vista o que era caracterizado como que buscava afirmação enquanto nação” (Monti,
perturbação da paz política e social pela crescente 2007, p.14). Similarmente ao registrado em outros

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agravação dos dissídios partidários e o estado de contextos históricos, o nacionalismo que se bus-
apreensão criado, no país, pela infiltração comu- cava promover obliterou as culturas preexistentes,
nista1 –, atribuía ao Estado um papel equivalente como o fez com a cultura Pataxó (Hobsbawm, 1990).
texto de Mariátegui manifesta confiança no potencial
revolucionário do campesinato indígena (Ferreira, 2009).
* Doutora em Antropologia Social. Professora do Depar- Uma síntese da conclusão do debate, apresentada por
tamento de Antropologia e Etnologia da Universidade Humbert Droz, da Comissão Executiva da Internacional
Federal da Bahia (UFBA). Professora Permanente do Pro- Comunista para a América Latina, reduziu o “problema
grama de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) e do nacional” aos Índios, especialmente aos estabelecidos
Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africa- no Brasil, cujas diversas línguas, costumes e tradições
nos (POSAFRO) da UFBA. Bolsista PQ do CNPq. autorizavam tratá-los, simultaneamente, como uma raça
Estrada de São Lázaro, 197. Cep: 40210-030 Federação - e muitas nacionalidades, ao contrário dos negros, que já
Salvador, BA - Brasil. rosario@ufba.br haviam adquirido uma nova nacionalidade (Cf.
1
Para situar o leitor acerca da posição comunista, no perí- Buonicore, 2009). Alguns meses depois da I Conferên-
odo considerado, na América Latina e no Brasil, em rela- cia, a direção do PC do Brasil enviou uma contribuição
ção aos povos indígenas, vale lembrar que o tema só ao debate, assinada por Abaeté Silva, na qual, além de
compôs a sua agenda por ocasião da consolidação do criticar o processo de contato dos índios com a socieda-
Secretariado Latino-Americano da Internacional Comu- de capitalista, afirmava que o Partido Comunista do Bra-
nista. Na I Conferência dos Partidos Comunistas da sil deveria conferir atenção ao problema (La
América Latina, realizada na Argentina, em 1929, o as- Correspondencia Sudamericana In: Buonicore, 2009).
sunto foi tratado oficialmente, através de um documento A primeira Conferência Nacional do PC do Brasil, realiza-
inicial para debate, elaborado pelo peruano José Carlos da em 1934, se comprometeu a apoiar os Índios no Bra-
Mariátegui em atendimento a uma solicitação de Vitório sil, a se constituírem como nacionalidades, com territó-
Codovilla, dirigente do PC argentino e da IC (Cf. rio, governo e costumes próprios, posição defendida pe-
Buonicore, 2009). Intitulado “O problema das raças”, o los comunistas nas assembleias constituintes de 1934 e
1945 (Buonicore, 2009).

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Através do seu Art.134, a Carta Magna atri- Pataxó, que a esquadrilha do descobrimento, lide-
buía à Nação, Estados e Municípios a proteção e rada pelo almirante Gago Coutinho, havia registra-
os cuidados especiais com os monumentos histó- do e divulgado, em 1940, portanto em época mui-
ricos, artísticos e naturais, paisagens ou locais par-to recente à da criação do PNMP (Castro, 1940). A
ticularmente dotados pela natureza. inexistência de referência não decorreria, portan-
Em janeiro de 1938, Vargas deu início às to, de desconhecimento ou de qualquer dificulda-
consultas para a escolha do interventor federal na de de localização, mas de um deliberado não-reco-
Bahia, que deveria ser baiano e civil. Após exami- nhecimento, que eu suponho relacionado ao pro-
nar vários nomes, ele se fixou no do engenheiro jeto de constituição da identidade nacional do
agrônomo e zootécnico Landulfo Alves de Almeida, Estado Novo, cuja valorização incidia sobre o na-
que foi interventor durante quatro anos e sete me- cional, em detrimento das expressões étnicas, de
ses (Tavares, 2001). O extremo-sul baiano, região autóctones, ou de imigrantes.
de estabelecimento dos Pataxó, será alvo da aten- Os Pataxó, é importante observar, têm a sua
ção do seu governo através da construção de um presença registrada entre o Rio de Porto Seguro e a
porto, cuja fonte de recursos provinha, em grande margem norte do São Mateus, no atual estado do
parte, da cobrança de impostos sobre madeiras Espírito Santo, desde o século XVII (Vasconcelos,
(Manuscritos - Ms(1)) e da criação do Parque Naci- 1864), ao passo que o seu estabelecimento no en-
onal do Monte Pascoal, cujo decreto previa torno do Monte Pascoal é referido por Luis dos
Santos Vilhena, na segunda metade do século XVIII,
o completo levantamento topográfico do Monte ao assinalar a necessidade de conservação e au-
Pascoal, sua exata situação geográfica, bem como
traçados que mais diretamente o [ligassem] às mento da Vila do Prado
cidades de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália
(Bahia, 1941).
não só pela produção de seu fertilíssimo terreno,
como por poder servir de barreira, e obstáculo a
A primeira medida oficial com vistas à sua 12 aldeias de índios bravos, que na distancia de
implantação foi a constituição de uma comissão 12 léguas dela, se acham situadas em uma alta
serra conhecida por todos pelo Monte Pascoal,
de levantamento topográfico, através do mesmo que segundo as notícias, e informações, é o cen-
tro da habitação destes bárbaros, que infestam
decreto (Ms(2)). toda a grande comarca de Porto Seguro (Vilhena,
O Diário Oficial do Estado da Bahia de 19 1969, p.535).
de abril de 1943 publica o Decreto-Lei nº12.729
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que cria o Parque Nacional do Monte Pascoal Essa descoberta é atribuída ao capitão-mor
(PNMP), com prerrogativa de monumento nacio- João Domingos Monteiro.
nal, com os objetivos precípuos de rememorar o Vilhena será complementado pelo padre je-
fato histórico do descobrimento do Brasil, preser- suíta Cypriano Lobato Mendes, que atuou em uma
var a flora e fauna típicas da região, segundo nor- das Missões de Índios, não-identificada, da comarca
mas científicas, conservar as belezas naturais e de Porto Seguro, e enviou, em julho de 1788, uma
promover a organização de serviços e atrativos que representação a D. Pedro II, na qual reclama maior
possam desenvolver o turismo. De acordo com o atenção para a comarca, que, ao seu juízo, deveria
seu Art.3, ficava reservada, para a constituição do ser “a menina dos olhos dos monarcas portugue-
PNMP, uma área delimitada em relação ao Monte ses”, sendo a terra mais fértil e mais rica das que
Pascoal, enquanto o Art. 4º autorizava o governo ele conhece no Brasil, um tesouro onde se encon-
do Estado a desapropriar, quando necessário, as travam as madeiras mais preciosas do país, em
terras e benfeitorias pertencentes a terceiros, in- abundância (Ms(3)). O seu testemunho é tanto mais
cluídas na área demarcada (Bahia, 1943). relevante por afirmar serem Pataxó os Índios ante-
Não há, ao longo dos trâmites, qualquer re- riormente referidos por Vilhena, dos quais ele
ferência à presença, na área delimitada, de Índios ouviu referências à existência de ouro e, particu-

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larmente, a uma celebrada Lagoa Dourada, “nas ça. De todo modo, trata-se de evento que suscita o
visinhanças do monte Paschoal, [em cujas] fraldas confronto entre a racionalidade burocrática e os
he que dizem está situado nas suas aldêas o gentio valores e percepções das comunidades atingidas
Pathaxó, que saem muitas vezes à praia à pescaria de (Das, 1995).
tartarugas (...)” (Ms(3)). A lagoa mencionada continua Tais eventos são caracterizados como críti-
constituindo ponto de referência importante para os cos porque compelem os atores a desenvolverem
Pataxó, que costumam, orgulhosamente, apontá-la novas formas de ação, a ressemantizarem os senti-
aos visitantes. dos nativos da política e a transformarem as iden-
Mais importante, contudo, é o próprio Mon- tidades sociais, sob uma situação de violência que,
te Pascoal, ponto por excelência de referência e todavia, tem um sentido vivificador justamente
guia principal dos pescadores e viajantes, tanto porque, ao ser compelido ao relacionamento com
para orientação quanto para indicação do vento. A os aparatos burocrático e jurídico do Estado, o gru-
partir do Monte são emitidos sinais que eles inter- po afetado é deslocado do mundo privado e res-
pretam, com muita segurança, como me ensina- surge como comunidade política, moral, detentora
ram, há muitos anos: de direitos (1995).
Entre os Pataxó, o evento crítico referido, ao
Os sinais é porque a gente vê [...] no monte forma tempo em que buscou destituí-los dos seus direi-
uma nuvem. Então se vê aquela nuvem na cabeça
do monte puxando pela parte do sul, sabemo que o tos históricos de habitantes tradicionais do entor-
vento é norte, ou lenordeste, ou norte puro, vem do no do Monte Pascoal, despertou-os, quase literal-
norte. E se aquela nuvem tiver jogada pro lado do
norte, então sabemos que o vento vem do sul [...] mente, para a consciência de que constituíam uma
pequena parte de uma totalidade maior. Nesse sen-
Foi para mim bastante compreensível a exas- tido, esse evento equivale à sua própria gênese
perada reação de velhos pataxós, em uma reunião como comunidade política, fomentadora de uma
em que foi cogitada a sua retirada do local, ao pro- identidade exclusiva e detentora do direito resul-
porem a divisão do Monte Pascoal ao meio, de tante da sua préexistência no território, à criação
forma que “uma metade ficasse para o Brasil e ou- do PNMP.
tra para os Pataxó”. O que, para os estranhos pre- Complementarmente, as tensões e os confli-
sentes, pode ter sido entendido como mero jogo tos decorrentes do evento crítico serão examinados
retórico, para mim se apresentou como uma sínte- de acordo com o modelo de conflito que atribui o

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se da disputa étnico-nacional que se instaurava. surgimento e o curso das lutas sociais às experiên-
cias morais dos grupos sociais em face da denegação
do reconhecimento. Nessa perspectiva, o modelo
A MEDIÇÃO DO DOUTOR BARROS de conflito não é concebido apenas como um qua-
dro explicativo do surgimento de lutas sociais, mas
A delimitação da área para o PNMP – deno- também como quadro interpretativo de um proces-
minada, recorrentemente, “a medição do Doutor so de formação. Assim sendo,
Barros” – constitui um evento crítico entre os
Pataxó, no sentido empregado por Veena Das, ou os sentimentos de injustiça e as experiências de
desrespeito, pelos quais pode começar a expli-
seja, uma situação de “quebra” do cotidiano que cação das lutas sociais, já não entram mais no
enseja, ao grupo afetado, se confrontar com o Esta- campo de visão somente como motivos de ação,
mas também são estudados com vistas ao papel
do e se constituir como ator político. O Estado, ao moral que lhes deve competir, em cada caso, no
desdobramento das relações de reconhecimento
invés de agir em benefício dos interesses dos atin- (Honneth, 2003, p.265).
gidos, age, à semelhança do Estado brasileiro, no
caso sob exame, como desencadeador da ação de- A primeira referência que eu registrei sobre
letéria, ignorando, deliberadamente, a sua presen- a medição do Doutor Barros foi no final de 1976,

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quando realizava o meu primeiro trabalho de cam- tação da Terra Indígena Corumbauzinho (respecti-
po individual na Aldeia de Barra Velha. Ouvia-a vamente Portarias nº.685 de 18.08.99 e 1.262/
do então cacique Rufino Vicente Ferreira, mais PRES/2000), ouvi de diferentes informantes cons-
conhecido como Tururim, que afirmou: tantes menções à medição, persistindo um núcleo
narrativo básico, invariável, e pequenos detalhes e
O Dr. Barros (do Rio de Janeiro) disse que ia fazer datas que variavam conforme o narrador. Chico
essa medição pro índio, que a gente tinha direito
de ficar na terra. Eles fizeram a medição e depois Cunha, por exemplo, um octogenário, lembrava,
dela feita foram indenizar o pessoal. [...] e lá foi o com impressionante riqueza de detalhes para um
pessoal civilizado tirando, inté saiu no conheci-
mento nosso aí também. garoto de 13 ou 14 anos, à época, que um indiví-
duo chamado Zé Francisco acompanhava o Dr. Bar-
A declaração de Tururim ressalta dois pon- ros e transportava “o aparelho” (provavelmente um
tos que serão sistematicamente reiterados por to- instrumento equivalente a uma luneta estadimétrica),
dos os Pataxó que vivenciaram ou ouviram sobre descrito como uma espécie de espelho.
o fato, ou seja, que o Dr. Barros, provavelmente
para obter a sua cooperação nos trabalhos de me- Eu tava, nesse tempo, na praia, em Corumbau,
eu via Caraíva na ponta do Corumbau. É, pelo
dição, afirmou que a medição reverteria em benefí- espelho via tudo. Tanto os daqui via os de lá, quan-
cio dos índios, e que o evento os retirou do isola- to os de lá via os daqui. Fachiava assim! Dr.
Barros, Aurelino Costa Barros, dizia que ia fazer
mento em que viviam (“saiu no conhecimento”). a medição por ordem do governo. Abarraquemos
Além de Barra Velha, havia, à época, as al- lá mesmo, até que terminaram os trabalhos. Os
marcos foram feitos lá em cima. No final, dançou
deias de Águas Belas, Pé-da-Pedra (ou Pé-do-Mon- baile na Barra Velha, aquela dança que chamava
te), Imbiriba e Comuruxatiba. Mediante meticulo- swing.2

so recenseamento, registrei a presença de 599 ha-


A equipe se apresentou, inicialmente, como
bitantes no que eu denominei área do PNMP, 401
enviada por Getúlio Vargas para realizar uma me-
dos quais residiam em Barra Velha (206 homens e
dição para os índios. “Os índios acreditaram e tra-
195 mulheres), enquanto 198 (109 homens e 89
balharam. Depois que fizeram o quadro, disseram
mulheres) no entorno. Um segundo censo, reali-
que era para o governo. Os índios que moravam
zado seis meses depois desse inicial, registrou uma
acima saíram e aqueles outros ficaram na areia bran-
população de 666 indivíduos (Carvalho, 1977).
ca”, completa, num misto de ironia e amargura,
Sabia-se, ademais, que significativo contingente de
outro pataxó.
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índios estava disperso pela região.


A principal controvérsia incide na data des-
Oito anos depois, no decorrer de uma reu-
ses acontecimentos. Para Chico Cunha, eles trans-
nião promovida pelo Ministério do Interior e
correram em 1935, com o que discorda Manuel
FUNAI, com a participação de representantes dos
Santana, para quem a data correta é 1944, durante
Pataxó e do Instituto Brasileiro de Defesa Florestal
a 2ª. Guerra Mundial. Ele afirma que “o exército
(IBDF), Firmo Pataxó declarou, enfaticamente, que
estava em Caraíva” e que o governo estimulava a
a área demarcada, em 1980, como terra indígena
“tirar leite da mangaba para fazer borracha”. Patrício
não correspondia à área de ocupação tradicional, e
Ferreira não se lembra de datas, mas afirma, pe-
lembrou que, por volta de 1935, “o Dr. Barros e o
remptoriamente, que marcos foram fincados e que
Dr. Marcelo mediram área para o grupo, cujos
eles ainda estão nos locais onde foram fixados,
marcos encontram-se fincados, até hoje” (MINTER/
salvo, talvez, pelo marco do Salgado, que se co-
FUNAI, 1984).
menta haver sido deslocado por um não-índio
Ao longo do período em que atuei como
coordenadora do Grupo de Trabalho criado pela 2
O swing surgiu em meados dos anos vinte do século
FUNAI para proceder à revisão dos limites da Ter- XX. A sua fusão com o jazz de Big Band deu lugar a uma
música que teve grande repercussão, nos Estados Uni-
ra Indígena Barra Velha e à identificação e delimi- dos e alhures, até a década de cinquenta.

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chamado Bidu, e que o capitão dos Pataxó era, à pe. O GPS registra, do portão da sua propriedade,
época, Honório Borges. Para ele, quem relata me- S 16º 48.217’ W39º 08.994’ BRG 35º DIS 372 TRK
lhor esta história é Manuel de Suia, que se jactaria 160º GS 0.0/0.2. Retornamos, em busca, agora, do
de conhecer marco por marco. Marco ZeBedeu, na Aldeia de Barra Velha. No lo-
Na tarde do dia cinco de maio de 2001, em cal onde ele foi fixado e mais recentemente avista-
companhia de dois outros componentes da equi- do por Suia, quebrado, só há um dendezeiro (S
pe do Grupo de Trabalho acima referido, isto é, o 16º 51.340’ W39º 09.033’ BRG 29o DIS 7.28 TRK
engenheiro agrimensor Hélcio Batista, da FUNAI, 23º GS 01/05). O próximo marco é Cadinho, do
e o indigenista Eduardo Almeida, comprovei que outro lado do rio Caraíva. Devido ao avançado da
Manuel de Suia era suficientemente capaz não hora, interrompemos os trabalhos.
apenas de rememorar os eventos relacionados à Afinal, não restava dúvida de que a memó-
medição, mas de reatualizá-los, no terreno, com ria oral pataxó havia resistido à verificação empírica,
precisão e convicção. O teste empírico teve início como a situação descrita bem o demonstrou.3
em Caraíva, a partir das 13h 02min, sob forte sol.
Suia lançou mão de uma espécie de estratégia
mnemônica, isto é, rememorou oralmente os fa- Consequências da medição do Doutor Barros
tos, segundo a ordem da sua ocorrência:
A finalização dos trabalhos de medição deve
Começamos em Caraíva. Botamos o marco em ter causado crescente inquietação à medida que os
Caraíva e vimos botando outro marco, aqui em-
baixo, perto de Barra Velha. O marco de Barra vários índios recrutados relatavam o que haviam
Velha ele botou por fora, mediu por fora, pelo visto, ouvido e feito, com os inevitáveis acrésci-
mar. Depois seguiu pro Farol de Corumbau. Do
Farol pra Bunda da Nega, outro marco. Serra do mos, interpretações e conjecturas que terminavam
Gaturama. Corta o rumo pro Montinho. Do
Gaturama botou um marco num pé de quebra- por granjear ao narrador certa notoriedade,
pote. Em Caraíva, no Cadinho, na Fazenda, do notadamente em face dos não-participantes ou não-
outro lado, e outro marco na Corrida. A Corrida
fica na estrada que vai pra Monte Pascoal, acima testemunhas. Eu suponho que esse evento crítico
de um morador por nome Nenê Batista. Outro ocorreu em determinado período da década de
marco na boca do Guaxuma, do outro lado do rio
Guaxuma. O rio grande de Caraíva está aqui, e quarenta do século vinte, talvez 1944, como o afir-
aqui é o Guaxuma, nós entrou aqui, pegou o rio ma Manuel Santana.
do Cemitério. Aí nós subiu, foi fazer canto no
Montinho. A inquietação teria dado lugar à necessida-

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de de agir, a exemplo do que fizeram outros capi-
O primeiro marco foi localizado na estrada tães4 que antecederam Honório Borges. Ele deve
que liga Barra Velha a Caraíva, de onde se ouve o ter enfrentado uma árdua viagem, naquele longín-
movimento das ondas do mar. É o marco da Areia quo agosto de 1949, juntamente com dois assis-
Branca, cujas coordenadas GPS são S16º50.611’ tentes, Manuel Caetitu e Leôncio, e não sem te-
W39 08.737’ BRG 27º /DIS 6.41/ TRK 23º /GS 01,02. mor, pois, afinal, tratava-se da sua primeira via-
O segundo marco, Marco do Ferrinho, fica à mar- gem para a capital da República. Do Rio de Janeiro
gem da lagoa de Barra Velha (S 16º 49.539’ W39º
08.841’ BRG 30º DIS 5.19º TRK 13º GS 0.0-0.2). 3
A área calculada, mediante traçado de linhas retas entre
os marcos, totalizou 69.898 ha.
Construído de pedra e cimento, está bem conser- 4
Ferdinand Dennis observa, a esse propósito, que “as
vado, salvo pelas extremidades que se encontram tribos do Rio Doce e do Belmonte enviavam algumas
vezes em missão ao Rio de Janeiro aqueles chefes e guer-
quebradas. reiros que acreditavam serem os mais eloquentes: estes
estranhos embaixadores revestiam-se de uma pompa
Às 14h 13min, alcançamos Caraíva, em de- insólita. Segundo o costume invariável, iam pintados de
manda do marco fixado no local denominado urucu e jenipapo; uma comprida pele de tamanduá ser-
via de capa a um dentre eles. Foi sob tão singular aspecto
Mangalô, propriedade da suíça Merreille Immer que uma família inteira apareceu nas ruas do Rio de
Janeiro ao hábil artista do qual aproveitamos seu retra-
desde 1994, que não permitiu a entrada da equi- to” (1980, p.237).

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alguém deve tê-lo conduzido para Niterói e redigi- cesso da campanha O Petróleo é Nosso”, em curso
do, em português claudicante, um dramático pe- em todo o país, desde 1948 (Tavares, 2001, p.67).
dido de auxílio, com data de 1º de setembro: “Do Ao longo de todo esse ano, a polarização
capitão Onoro para [sic] os pobres Chefe da ardea causada pelo decreto de criação da Petrobras, que
de indio de Belo Jardim Monte pasqual. Manda Vargas enviara à Câmara Federal, assim como,
pedir roupa para minhas crianças e pesso feramenta notadamente, a campanha contra o envio de sol-
para o meu trabalho faso um pedido que não dei- dados brasileiros para a guerra na Coréia, suscita-
xe de atender. Peso o favor de não deixar o pessoal ram um clima favorável à identificação da ideolo-
da India tomar minhas terras5 eles tan tando para gia comunista em setores do seu governo, princi-
panhar, Ardea dos Indios de Belo Jardim Monte palmente no Ministério do Trabalho, cujo titular,
Pascual que fica acima de porto Seguro na Bahia” João Goulart, cobrava novos direitos para os traba-
(SPI, 1949, ênfases adicionadas). lhadores e reajuste do salário mínimo, contrarian-
A carta do capitão é objeto de uma tramitação do, assim, amplo espectro formado por políticos,
estranhamente errática e longa. Protocolada, ela é setores comercial e industrial, banqueiros e milita-
encaminhada, em 5 de setembro de 1949, por res, que, afinal, obtiveram a sua destituição e a
Modesto Donatini, Diretor do SPI, ao Inspetor Es- anuência de Vargas, que buscava se compor com
pecializado Alísio de Carvalho, sediado em Teófilo os militares, para a instalação de inquéritos polici-
Otoni, Minas Gerais, e igualmente dirigida à Ins- ais militares (IPMs) que identificassem infiltração
petoria Regional 4, cuja sede era Recife, onde é comunista nas Forças Armadas (Cf. Tavares, 2001).
também protocolada e encaminhada ao Inspetor No período 1950-1954, será a vez do SPI,
Sílvio dos Santos. Em 6 de julho de 1951, portan- após sérios reveses, buscar superar a imagem ne-
to um ano e dez meses depois, o processo SPI gativa que havia construído, malgrado o esforço
nº4073/49 é encaminhado ao agente Manoel Moreira de muitos, através da ação enérgica de José Maria
Araujo “para esclarecer tendo em vista a última da Gama Malcher. Ele substituiu os agentes recru-
informação”. No dia 6 do mesmo mês e ano, Ara- tados sem as necessárias qualificações por
ujo se dirige ao diretor Malcher, informando que etnólogos e indigenistas, aos quais atribuiu as prin-
“A aldeia dos índios de que faz parte o “capitão” cipais divisões do órgão, procurando, desse modo,
Onório Borges, situada em Belo Jardim, no Muni- imprimir-lhe uma feição moderna, o que, de fato,
cípio de Porto Seguro, Estado da Bahia, foi consegue até 1955, quando o órgão é utilizado, à
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destroçada pela polícia de Ilhéus, sob o comando semelhança do que ocorreu com outros, como bar-
do major Arsênio Alves, encontrando-se o dito ganha política para os partidos políticos vitorio-
“capitão” preso incomunicável, em Ilhéus, tendo sos nas eleições de 1955.
vindo escoltado de Salvador Em maio de 1951, a pequena aldeia de Bom
Desde outubro de 1950, Getúlio Vargas ha- Jardim, agora mais correntemente denominada
via sido eleito Presidente da República, tomando Barra Velha, se tornaria assunto jornalístico, devi-
posse em janeiro de 1951, sob fortes boatos de gol- do a um movimento de sublevação, ainda hoje
pe contra a posse, dissipados por declarações dos cercado de obscuridade, no qual foram envolvi-
comandantes do exército, marinha e aeronáutica, dos os Pataxó. O motim, desencadeado no vizi-
uma correlação de forças que historiadores, a exem- nho povoado de Corumbau, suscitou uma des-
plo de L. H. Dias Tavares, afirmam expressar o “su- proporcional reação policial, que, além de danos
5
físicos e emocionais, provocou a desorganização
A expressão “pessoal da Índia” constitui eloquente de-
monstrativo do isolamento sociocultural em que viviam da população aí estabelecida. A “revolta dos cabo-
os Pataxó até essa época, limitados, em grande parte, à
posição de receptores das informações oriundas de Caraíva. clos de Porto Seguro” (A Tarde, 30/05/1951) reve-
Ao tentar colher o significado de “pessoal da Índia”, li o lou a existência de pessoas em “lastimável estado
trecho para o pajé Albino Braz Pataxó, em 1999, que o
glosou como “pessoal de um país estrangeiro”. de miséria, todos passando fome e alguns doen-

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tes” (30/05/1951), que teriam sido insuflados por eles. Naquele tempo era mata, entrava nessa re-
gião aqui e ia sair em Maxakali.
dois indivíduos que o capitão da época conhecera
no Rio de Janeiro, e que lhe teriam prometido diri- Absolutamente improvável é a suposição de
gir-se à aldeia para realizar a medição de suas ter- que o capitão Honório houvesse “previamente or-
ras. Os dois, identificados como “engenheiro” e ganizado o traiçoeiro ataque, estando apenas à es-
“tenente” (A Tarde, 08/06/1951), pretextando ser pera de dois elementos do Rio de Janeiro confor-
isso necessário para a consecução de seus objeti- me depõem alguns caboclos que se acham prisio-
vos, indispuseram os índios contra a população neiros” (A Tarde, 01/06/1951). O próprio
não-índia dos arredores, notadamente a de municiamento do grupo para a revolta – “espin-
Corumbau, onde teve lugar um assalto a um co- gardas de carregar pela boca, facas e facões” – ou
merciante. Da dura repressão resultou a morte dos seja, seus instrumentos de trabalho, demonstra a
dois líderes não-índios, a prisão do “capitão” e de ausência de um plano sistemático de ação, pelo
mais dez índios, homens e mulheres, e a disper- menos da parte dos índios. A declaração do “capi-
são dos demais, sob completo desespero. Quase tão” de que consentira aos “índios e seus parentes
que simultaneamente, noticiava-se uma tentativa de seguirem a orientação dos dois atacantes estranhos
rebelião em Umburanas, Minas Gerais, para onde em virtude de acreditar que os mesmos procediam
teria tentado deslocar-se “um grupo de 4 indivídu- como agentes do governo” (A Tarde, 07/06/1951)
os” de Barra Velha (A Tarde, 28/05/1951), caracteri- atesta que os índios foram envolvidos possivel-
zando a imprensa os dois movimentos como idên- mente com promessas de demarcação de terras, e
ticos e sugerindo uma ligação entre eles. As evidên- que sua participação não se lhes afigurara ilegal.
cias autorizam supor que não havia nenhum movi- Quanto à motivação dos dois insufladores – indi-
mento em Umburanas, mas tão somente que para lá víduos que se apresentavam com falsa identidade
apelou o capitão Honório, tal como sugere a sua e seriam ligados ao Partido Comunista,7 um deles
declaração de que mandara “cinco índios pedir au- tendo sido identificado pelo comandante da ope-
xílio aos cabocos do aldeiamento de Emburanas”, ração policial, major Arsênio Alves, como Ari
ou seja, os amigos Maxakali6 (28/05/1951). Bhering – ainda hoje não está esclarecida. Há tam-
Essa suposição foi fortemente apoiada, mui- bém quem os identifique como funcionários do
tos anos depois do “fogo de 1951” – como é referi- SPI. Pouco provável, por outro lado, é que fossem
do pelos Pataxó o fato ocorrido em 1951 –, pelo simples aventureiros, arriscando-se à deflagração

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pajé Albino Braz, que relatou que o capitão de um plano com objetivos de exploração econô-
Honório, antes da repressão policial, havia envia- mica, e é mais plausível que se tratasse de um
do quatro índios a Umburanas para “pedir refor- movimento de caráter social agindo junto a popu-
ço”, e que eles foram interceptados pela polícia. lações rurais. Em apoio a essa última hipótese há
Até essa época, ocorriam contatos, mais ou menos o depoimento de Honório Borges, que afirma ter o
regulares, entre os Maxakali e os Pataxó de Barra “engenheiro” distribuído entre os índios peças de
Velha:
7
Vale lembrar que o pedido de auxílio de Honório Rodrigues,
o capitão ía lá na aldeia de Umburuna e de lá o em setembro de 1949, procede de Niteroi, onde, vinte e
capitão vinha na aldeia [de Barra Velha]. Lá já sete anos antes, portanto em 1922, havia sido fundado o
Partido Comunista Brasileiro, por nove delegados que re-
era viva, conhecida, e aqui não era. Então era o presentavam cerca de 73 militantes de diferentes regiões
caso deles virem pra conversar com a gente da do Brasil. Desarticulado durante o Estado Novo, ele se
Aldeia de Barra Velha. Vinha de lá pra cá, caçan- reorganiza, clandestinamente, em fins de 1941, através
do, e quando chegava aqui, trazia uma anta de grupos isolados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.
moqueada, uma queixada, trocava com o caci- Após um período de legalidade, o registro do Partido é
que, que dava rapadura, farinha, mandioca pra cancelado pelo TSE, em abril de 1947, sob o argumento
de ser “um instrumento da intervenção soviética no país”,
o que o deixou na clandestinidade (www.cpdoc.fgv.br).
6
As relações entre os Pataxó e Maxakali são históricas, De todo modo, a relação do “fogo de 1951" com o PCB é
como o comprovam certas afinidades linguísticas e cul- apenas, até o momento, uma hipótese que requer com-
turais. provação cuidadosa.

513
O MONTE PASCOAL, OS ÍNDIOS PATAXÓ E A LUTA ...

fazendas retiradas do estabelecimento comercial de sões, com o objetivo de impedir os invasores de


Teodomiro Rodrigues, em Corumbau. O fato, ade- dominarem as terras dos Xacriabá. Ele teria exerci-
mais, de terem sido cortados os fios da linha tele- do, anteriormente, os cargos de Delegado do SPI
gráfica, corrobora a suposição de que não se trata- no Estado do Pará (1930), de capataz da caça e da
ria de um simples assalto, seguido da fuga e morte pesca (1934), e Capitão da Missão Rondon em Mato
dos líderes, mas de uma ação que pretendia maior Grosso (década de quarenta, possivelmente) (Valle,
alcance. 1973 apud Santos 1997, p.59).
Da parte da alta hierarquia do SPI, a reação Um delegado especial, oriundo de Belo
diante da tramitação do processo 4073/49 foi, apa- Horizonte, foi enviado a São João das Missões em
rentemente, enérgica. José Maria da Gama Malcher, 1951, para efetuar a prisão de Lyrio do Valle e seu
diretor do órgão em julho de 1951, encaminha o filho, ação para a qual teriam também se deslocado
processo à I.R. 4, para que o seu Chefe indique membros dos destacamentos militares de Montes
um servidor capaz de Claros, Januária, Itacarambi, Manga, além do pró-
prio destacamento de Matias Cardoso (Santos,
apurar por meios sumários as tropelias (confu-
são provocada por gente em tropel; ação que se 1997, p.62). Os documentos pessoais de Valle fo-
vale de astúcia; ardil, artimanha, Cf. Dicionário ram apreendidos, entre os quais a escritura das
Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa) come-
tidas contra os índios. Raimundo Dantas Carnei- terras de São João das Missões e um mapa com a
ro, chefe da IR 4, refere-se também a tropelias e demarcação dos limites. Transferidos para Belo
“complicada trama” (SPI, 1949).
Horizonte, permaneceram na Penitenciária de Ri-
O que teria ensejado que o processo forma- beirão das Neves, incomunicáveis, após o que fo-
do a partir da singela carta do capitão Honório ram levados para a Secretaria do Interior – Depar-
Borges permanecesse extraviado, aparentemente no tamento de Identificação – e interrogados separa-
âmbito do SPI, ao longo de um ano e dez meses? damente. Retornaram para a Casa de Correção, de
Aparentemente, houve intervenção para que a onde seriam liberados pouco depois, por ordem
desprotegida Aldeia de Barra Velha não se tornas- de Getúlio Vargas, que soube dos acontecimentos
se objeto de atenção do órgão, o que, por outro pelo seu secretário Lourival Fontes, acionado pela
lado, teria facilitado a ação dos dois agentes e pro- esposa de Valle. Esse último viajou para o Rio de
duzido os consequentes fatos. As motivações per- Janeiro, de avião, onde teria recebido nova docu-
manecem, contudo, obscuras. mentação de José Maria Gama Malcher como “Ín-
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Curiosamente, no mesmo ano de 1951, na dio e como capitão do Serviço de Proteção aos Ín-
área dos Xacriabá, município de São João das Mis- dios e cacique dos Índios de várias tribos”, e foi,
sões, norte de Minas Gerais, ocorrem fatos, igual- em seguida, reconduzido, triunfalmente, a Manga
mente obscuros, que podem ter conexão com aque- (1997, p.63).
les sucedidos entre os Pataxó. Ademais, a história Ao tomarem conhecimento da sua prisão e
da relação dos dois povos com instâncias do Esta- do filho, os índios ficaram amedrontados e alguns
do brasileiro guarda certa similaridade, uma vez até fugiram (p.65). Santos observa ainda que os
que a primeira intervenção de um órgão federal na índios Xacriabá se referiram, em uma das cinco
área Xakriabá resultou de uma segunda viagem dos conversas em que o tema foi comentado, a reuni-
índios “em algum momento entre 1930 e 1950” ões que Valle organizou.
(Santos, 1997, p.60), tendo resultado na presença Uma conexão entre o “fogo de 1951” e os
de um suposto antigo funcionário do SPI, Lyrio acontecimentos de São João das Missões é
do Valle, que se autoconclamava “Cacique dos Ín- estabelecida pelo Jornal A Tarde, ao chamar a aten-
dios de São João das Missões”, título que lhe teria ção do leitor para “idêntica rebelião [que] acaba de
sido outorgado por Rondon. Valle declarava haver se verificar no interior de Minas Gerais)” (A Tarde,
sido enviado, em 1950, para São João das Mis- 29/05/1951).

514
Maria Rosário de Carvalho

A Luta pelo reconhecimento do índio com outra nação” –, era encarada muito
negativamente pelos mais velhos, para quem “mistu-
O destino de Honório após 1951 não é muito rando vai acabando a nação”. De acordo com a sua
preciso. As poucas evidências levam a supor que percepção, nenhuma mudança repercutia tão des-
ele foi submetido ao ostracismo. O atual pajé da favoravelmente sobre a nação Pataxó quanto a mis-
aldeia de Boca da Mata, o já referido Manuel tura, que ameaçava a sua persistência. “E não tendo
Santana, por exemplo, indagado sobre o seu para- mistura, a nação tem que conseguir”, era a sua con-
deiro, respondeu, evasivamente, que ele “sumiu, clusão axiomática.
foi embora, desapareceu”, referindo-se, na A dispersão resultante dos distúrbios igual-
sequência, ao novo capitão, Epifânio Ferreira, “que mente ensejou, em decorrência do abandono pro-
resolveu o problema pra gente”. Epifânio e dois visório da Aldeia de Barra Velha, a reocupação de
dos seus filhos viajaram para Brasília, “de onde porções do território tradicional e a ocupação de
trouxe o direito da gente viver aqui dentro da al- novas, a exemplo de Corumbauzinho; de Mata
deia”, direito que teria sido concedido pelo presi- Medonha, implantada em 1951 por uma família
dente João Goulart, o que permite deduzir que a de refugiados de Barra Velha, à qual se acrescenta-
viagem transcorreu entre o final de 1961 e o início riam outras, nos anos oitenta; de Águas Belas, con-
de 1964. Com o retorno de Epifânio, sinal positi- solidada, também na década de oitenta por
vo foi emitido para os pataxós que estavam ainda migrantes de Barra Velha não-retornados; do mes-
dispersos, e que foram encorajados pelo novo ca- mo modo que a velha Aldeia de Imbiriba, que teve
pitão a abrir novas roças na capoeira, “pra não ofen- a sua população incrementada após 1951. Coroa
der a mata virgem”, segundo o que recomendara o Vermelha foi igualmente produto da grande
presidente Goulart. diáspora Pataxó. Cada aldeia, vale notar, reporta-
A administração do PNMP resistia, medi- se a uma família extensa, considerada desbrava-
ante o exercício da violência, física e simbólica, ao dora do local.8 Costuma-se fazer referência aos
estabelecimento de roças, em face do que muitos Braz como estabelecidos nos arredores de Barra
conflitos ocorreram. As pequenas roças eram Velha – “Anjo”, “Onça” e “Boa Vista” – oriundos
complementadas com a pesca nos arrecifes, a cole- que seriam de Belmonte, do mesmo modo que o
ta no mangue e a extração de piaçava às escondi- “pessoal de Nazaro”. Já os Valério são referidos
das, nas primeiras horas do dia, para ser transpor- como vivendo, tradicionalmente, parte em Caraíva

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tada, na primeira parte da noite, para Caraíva, onde e parte em Juacema, de onde, majoritariamente, se
era comercializada. O cotidiano alternava-se entre teriam deslocado para a Coroa Vermelha. Barra
“redar [pescar com rede] uma semana, pegar o pei- Velha teria estreita relação com os chamados tron-
xe pra comprar farinha, e outra semana ia tirar cos de João Vicente, que de Imbiriba se teriam des-
piaçava e as mulher fundava no mangue pra tirar locado para essa aldeia, como atesta o fato de que
o caranguejo. Ficamo um bocado de ano assim desse os velhos de Imbiriba eram tios dos velhos de Bar-
jeito...” ra Velha, Vicente, Vicentinho e Epifânio Ferreira.
O fogo de 1951 é também mais ou menos Trancoso é reputada ser aldeia dos Alves.9 E
recorrentemente apontado como fator motivador 8
Os Pataxó estão hoje distribuídos em 18 aldeias, cujas
populações variam entre 4.331 habitantes (Coroa Ver-
da “mistura”, ou seja, da intensificação de alian- melha, a mais populosa), 1.650 habitantes (Barra Velha,
ças interétnicas com não-índios. Nesse sentido, a a denominada aldeia-mãe e segunda mais populosa) e 62
habitantes (Alegria Nova, formada após a retomada do
afirmação de que “até o fogo, a mistura era Parque). As 18 aldeias incidem nos municípios de Porto
Seguro, Itamaraju e Santa Cruz Cabrália e compreen-
pouquinha” é consensual. Na década de setenta, a dem 10.192 habitantes (FUNASA-SIASI, 2008) (V.
Mapa).
admitida mistura, decorrente da compulsória dis- 9
O reconhecimento de que os Alves são originários de
persão e consequente desorganização das relações Trancoso, aldeia indígena desbaratada no final da década
de setenta do século XIX, suscita a possibilidade de se-
sociais – “Iam conhecendo outros lá fora, ia casan- rem eles índios do tronco Tupi, que se teriam refugiado

515
O MONTE PASCOAL, OS ÍNDIOS PATAXÓ E A LUTA ...

Palmares, ao sul, dos Pires, que são constantemente sença de Sampaio atrairia grande número dos
referidos, e muito respeitados, por nunca terem se dispersos, que, reunidos, queixaram-se “de estar
retirado do local. privados de trabalhar e de sofrerem outros aborreci-
Em 1963, o SPI tenta sensibilizar a direção mentos por parte dos guardas florestais, que os im-
do PNMP para que os Pataxó permaneçam em suas pedem de viver agrupados como desejam.” (Ms(5)).
terras. Um telegrama, procedente do Ministério da Siquara estava ausente, o que impediu que
Agricultura, Serviço de Proteção aos Índios, cujo Sampaio lhe fizesse pessoalmente a entrega do car-
signatário é Francisco Sampaio, Chefe de Serviço tão encaminhado por Costa. Na viagem de volta, o
de Índios, é dirigido ao Diretor do Parque Nacio- inspetor adquire, em Porto Seguro, ferramentas,
nal em Porto Seguro-BA, com o seguinte teor: inseticidas, anzóis, cobertores, tecidos e medica-
mentos, encarregando o subdelegado de distribuí-
Informado pelo Sr. Prefeito dessa cidade esta- los entre os Pataxó. Previdente, detém-se, mais uma
rem os Índios Pataxó impossibilitados lavrarem
suas terras absorvidas pelo Parque Nacional sob vez, em Salvador, para participar a Costa as provi-
vossa direção, venho apelar para vosso espírito dências tomadas, reiterar-lhe o direito, por parte
de justiça, permitindo que os Índios continuem
cultivando a área que for necessária à sua subsis- dos Pataxó, ao trabalho e permanência “nas terras
tência. Este apelo tem por fim evitar que venham
sofrer privações por falta das terras que de seus ancestrais”, e apresentar-lhe já uma pro-
inapelavelmente lhes pertenciam e por coinci- posta mínima de terras a ser reservada para os ín-
dência no ponto exato em que se deu o nosso
descobrimento. Confiado no vosso patriotismo dios, ou seja, “um quadrilátero de 900 hectares”
espero ser atendido” (Ms(4)). 10
( Ms(5)).
A visita de Francisco Sampaio causou forte
Em 25 de março de 1964, Sampaio estabele- impressão aos Pataxó e, mais uma vez, constitui
ceu contato direto, em Salvador, com Aurélio Cos- demonstração da sua poderosa memória. Desde
ta, o Doutor Barros, Chefe da 4ª. Inspetoria do 1976 ouço referências a Sampaio, apontado como
Serviço Florestal da Bahia, à qual estava subordi- “o primeiro [provavelmente agente governamen-
nado o PNMP, apresentando-lhe a denúncia de tal] que andou aqui”. A sua visita é diretamente
que os Pataxó se encontravam “perseguidos e pri- relacionada à viagem de Epifânio Ferreira a Brasília,
vados de trabalhar nas terras em que nasceram, e não guarda conexão, entre os índios, com os fa-
pelos funcionários do Parque (Ms(5)), ênfases adi- tos relacionados à viagem de Honório Borges ao
cionadas). Costa elaborou um cartão, dirigido a Rio de Janeiro, em 1949. Resoluto, Sampaio pro-
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Miravaldo de Jesus Siquara, chefe-provisório do duziu, em sua curta estadia, uma imagem muito
Parque Nacional, autorizando-o a combinar com positiva de provedor e de assegurador do direito
Sampaio “uma fórmula que permitisse aos Índios dos Pataxó ao trabalho, cujo efeito foi o início do
o direito de trabalhar no cultivo das terras” (Ms(5)). retorno dos dispersos.
De Salvador, Sampaio seguiu para Porto Em junho de 2004, tomei a iniciativa, após
Seguro, onde fez contato com o prefeito local, após várias tentativas para localizar Miravaldo Siquara,
o que alcançou Caraíva, e, na sequência, a Aldeia de visitá-lo e entrevistá-lo em Alcobaça, extremo-
de Barra Velha, por essa época reduzida a duas sul baiano, onde reside. Muito loquaz e receptivo,
casas e uma igrejinha, pois “o resto da população recebeu-me muito calorosamente. Aposentado e
indígena vive esparsa” (Ms(5)). A notícia da pre- levando uma vida pacata, aparentemente muito
diferente daquela vivenciada como chefe do PNMP,
entre os Pataxó do extremo-sul, ao passo que outros, da
10
mesma aldeia, teriam se dirigido para o sul da Bahia, A área reservada em 1965 foi muito menor do que aque-
onde Curt Nimuendaju os encontrou em 1938 (Carva- la reivindicada por Sampaio, ou seja, apenas 210 ha em
lho, 2005). A composição étnica das aldeias dos Pataxó torno de Barra Velha (IBDF, 1979). Igualmente foi aco-
do extremo-sul (que os etnólogos convencionaram de- lhida a sua recomendação de criação de um Posto Indíge-
signar Pataxó meridionais), do mesmo modo que a dos na, implantado em 1968. Ao longo desse período, os
Pataxó do sul (Pataxó setentionais), constitui tema fas- Pataxó enfrentaram, com determinação e coragem, os
cinante, que já está sendo objeto da minha atenção. guardas do Parque.

516
Maria Rosário de Carvalho

ele deve ter ficado lisonjeado com o meu interesse temente acompanhado e corroborado, por parte dos
em entrevistá-lo. Ele se reportou a 1956, ano da Pataxó, apenas pelo cacique e vice-cacique à época,
criação da Polícia Florestal, quando participou de (respectivamente, Rufino Vicente Ferreira e Alfredo
um curso preparatório para inspetor, após o que Braz) – foi celebrado em 1980. O IBDF admitiu que o
foi designado inspetor da região do extremo-sul correspondente à metade norte da área, identificada
baiano. Em 1960, foi convocado por Aurélio Cos- como território de ocupação tradicional Pataxó, pre-
ta para acompanhar a comissão composta pelo pró- dominantemente composta por brejos arenosos jun-
prio Costa e mais dois membros, designada para to ao estuário do Caraíva, passasse ao seu usufruto,
proceder à recriação do PNMP, uma vez que o pri- permanecendo, porém, os manguezais junto ao es-
meiro decreto caducara sem que o governo federal tuário do rio Corumbau – fonte de proteína animal
tomasse as medidas efetivas para a sua especialmente relevante para a sua dieta – sob con-
implementação, em face do que as terras doadas trole do PNMP (Sampaio, 1996).
pelo Estado da Bahia reverteram ao seu controle. Em que pese o caráter lesivo e sem consulta
O seu relato autoriza concluir que ele foi, com exa- ampla aos Pataxó, aos antropólogos e indigenistas
gerado rigor, o verdadeiro artífice da desocupação que vinham se dedicando à questão (Carvalho,
da população indígena que habitava nos limites 1987), a área resultante da combinação FUNAI/IBDF
compreendidos pelo PNMP e da população não- – 8.627 hectares – foi submetida à apreciação do
indígena, genericamente referida como capixaba, Grupo de Trabalho Interministerial criado pelo
que, crescentemente, forçava a entrada. Recebia as Decreto 94.945/87 que, em sua Resolução 02, de
ordens de desocupação, provenientes de Barros, e 20 de julho de 1988, resolveu “reconhecer” a área
as executava com excessivo zelo. Os seus esforços como “de posse imemorial indígena”, recomendan-
resultaram no decreto nº 242 de 29 de novembro do sua regularização com a designação “Colônia
de 1961, que criou o Parque Nacional do Monte Indígena Barra Velha”. Por fim, ela foi homologada
Pascoal com a área de 22.500 hectares.11 pelo Decreto 396 (24/12/91) da Presidência da Re-
Ao ser finalizado, sob a liderança de pública (FUNAI, 1991; Sampaio, 1996).
Siquara, o levantamento realizado abruptamente, O descontentamento e a frustração causa-
para efeito das indenizações, todas as atividades dos pela demarcação de 1980 foram muito gran-
produtivas foram terminantemente proibidas des entre os Pataxó. Testemunhei muitas queixas
(“Ninguém caçava, ninguém fazia mais nada. e lamentos, expressos sob intenso sofrimento. Eu

CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 57, p. 507-521, Set./Dez. 2009


Proibe tudo!”). Consultado sobre o destino dos não hesitaria em afirmar que Paulo Braz, mais co-
Pataxó, Costa sugeriu limitar uma área de mais ou nhecido como Paulo Baraúna, deixou-se morrer
menos 100 hectares e “deixar os índios fazerem de desgosto por essa mal sucedida demarcação.
uma barraquinha e ficar ali até que se resolva o Normalmente tenso, o que lhe conferia um tempe-
problema. Agora, eles não podem plantar nada que ramento agitado, que disfarçava a sua delicadeza,
não seja cereal, não consinto! Agora o resto, deixe Paulo tinha problemas cardíacos e havia perdido,
eles lá trabalhando até que o SPI resolva o que é em um acidente, um dos antebraços. A sua ligação
que faz com eles”. com a terra era profunda e, em geral, objeto de
Um acordo entre a FUNAI e o IBDF – aparen- uma preocupação quase obsessiva. Em 9 de de-
zembro de 1980, ele e mais dois signatários, Bene-
11
O leitor, muito provavelmente, não seria capaz, por si só, dito Ferreira Braz e José Farias do Nascimento,
de identificar o autor da afirmação que segue: “Por seu
isolamento e pequena expressividade, essa aldeia sequer encaminharam ao Presidente da República, João
foi mencionada no decreto de criação do Parque Nacional
de Monte Pascoal. Os índios, que antes podiam desfrutar Figueiredo, uma carta, na qual rejeitam a demarca-
de toda a região compreendida entre os rios Corumbau e
Cemitério, do Monte Pascoal até o oceano Atlântico, num ção “porque essa área não dá pra nós sobreviver
raio de aproximadamente 50 km, ficaram confinados em dentro dela, a metade desta sendo de areia branca,
uma área de cerca de 210 hectares, com terras considera-
das de baixíssima fertilidade” (IBAMA, 1995, p.12). campo nativo, brejo e lagoa. Pedimos ao senhor

517
O MONTE PASCOAL, OS ÍNDIOS PATAXÓ E A LUTA ...

que nos dê um apoio sobre esse assunto da terra, vez pedimos o apoio de toda a sociedade brasi-
leira (Carta do Povo Pataxó, 1999).
nós somos uma comunidade de mais de 1.000 Visitei o Parque poucos dias depois da reto-
pessoas e essa terra, mal medida como foi, não dá mada e testemunhei o ânimo e a disposição favorá-
pra nós e nossos filhos. Dessa forma, dentro de veis por parte de vários caciques e seus liderados.
pouco tempo não haverá mais a nação Pataxó, nós Ao mesmo tempo, registrei várias referências ao fa-
índios morremos de desgosto e de fome (ANAI, lecido capitão Epifânio Ferreira, concernentes ao
1980). Paulo Baraúna faleceu em 1987. mesmo tema, isto é, o da sua intercessão pelo direi-
Transcorre um longo intervalo, no decorrer to ao território Pataxó: “ele sempre diz para o pesso-
do qual os Pataxó se mobilizaram, de diversos al dele que está no pé do governo, cobrando os di-
modos, sempre tendo em vista a reconquista da reitos da terra, os direitos dos parentes, os direitos
área do PNMP. Avanços significativos no âmbito de nós. Ele encosta12 nos parentes e fala, em sonho.
da sua organização social e política foram produ- Está na luta da terra ainda!”
zidos, para o que muito concorreram as assembléi- Comentar-se-ia, tempos depois, que, na pri-
as indígenas, internas e externas, a formação de meira festa ocorrida no chamado Pé-do-Monte, lo-
novos líderes, com maior domínio do aparelho cal do antigo posto, Epifânio “encostou” na filha
burocrático, um processo crescente de Josefa e declarou que “só descansaria quando ga-
escolarização e a criação da Articulação dos Povos nhasse a terra toda, da beira da praia à Serra da
e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Ge- Gaturama”. Em uma das inúmeras vezes em que o
rais e Espírito Santo (APOINME). Sob o estímulo fato foi comentado em minha presença, uma pataxó,
da APOINME, surge o Conselho de Caciques do completou, firmemente: “tá perto dele descansar”.
Sul e Extremo-Sul da Bahia, que passa a articular A recuperação do Parque havia recobrado a
e planejar o movimento regional, em progressiva autoestima e a confiança dos Pataxó, e os impeliria
conexão com o movimento indígena suprarregional. a realizar sucessivas retomadas de porções do ter-
No período compreendido entre 16 e 19 de ritório, de onde foram, em distintos períodos his-
agosto de 1999, representantes das aldeias Pataxó, tóricos, expelidos.
reunidos em uma assembléia do Conselho de Ca- O sentimento de injustiça por eles
ciques, confirmaram a necessidade de ampliação e vivenciado parece haver funcionado como um
recuperação do território tradicional, e, em Carta impulsionador de ações coletivas que produziram
às autoridades brasileiras, afirmaram que: expectativas de reconhecimento, crescentemente
CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 57, p. 507-521, Set./Dez. 2009

revertidas em seu benefício. Não é casual que a


... conscientes de que o Parque Nacional está den-
tro dos limites de nossa terra, conforme a histó- reconquista do núcleo do seu tradicional território
ria de nossos anciãos, decidimos imediatamente tenha ocorrido a poucos meses da rememoração
RETOMAR o nosso território, neste dia 19 de
agosto de 1999, protegidos pela memória dos do ato do qual se originaria o Estado e a nação
antepassados, protegidos pelo direito constituci- brasileiros, assim como não o foi a sua proclama-
onal [...] pretendemos transformar o que as auto-
ridades chamam de Parque Nacional do Monte ção – às autoridades brasileiras, à sociedade brasi-
Pascoal em Parque Indígena, terra dos Pataxó,
para preservá-lo e recuperá-lo da situação que leira – da decisão de retomar o território, protegi-
hoje o governo deixou a nossa terra, depois de dos pela memória dos antepassados e pelo direito
anos na mão do IBDF, atual IBAMA, que nada fez
a não ser reprimir os índios e desrespeitar nossos constitucional. De fato, em 1998, o Conselho de
direitos. Queremos deixar claro para a socieda- Caciques, no decorrer de uma reunião de plane-
de brasileira, para os ambientalistas, para as de-
mais autoridades que não somos destruidores da jamento, havia definido uma agenda de retoma-
floresta, como tem sido proclamado [...] Vamos das, entre as quais a do PNMP. Expressava-se, ali,
celebrar os 500 anos em nossa terra, recebere-
mos os nossos parentes de todo o Brasil aqui, no
Monte Pascoal, único local possível para cons- 12
“Encosto” é uma manifestação dos espíritos dos mor-
truirmos o futuro com dignidade. [...] Mais uma tos que se tornam encantados. Para os Pataxó, “toda
quanta é tribo tem encantado. Porque todos índio que
morre eles sempre vem visitar a aldeia deles“.

518
Maria Rosário de Carvalho

uma nova comunidade político-moral, forjada MINISTÉRIO DA AGRICULTURA/SPI. Telegrama de Fran-


cisco Sampaio, Chefe de Serviço de Índios, ao Diretor do
contemporaneamente, ao longo das vicissitudes Parque Nacional, em Porto Seguro-BA, 4.08.1963. (Ms(4))
decorrentes da viagem de Honório Borges ao Rio SPI. Francisco Sampaio, Inspetor do SPI, dirige-se a um
Diretor.do órgão, em 6. 05. 64, para relatar o cumprimen-
de Janeiro e fortalecida, mais recentemente, atra- to da ordem de serviço no. 32, de 25 de março do mesmo
ano. 6. 05. 64 (Ms(5)).
vés do apoio político de várias organizações indí-
genas e indigenistas. Uma nova etapa havia sido
vencida enquanto outras já se anunciavam, agora
orientadas para a demarcação contínua do território REFERÊNCIAS
tradicional, contra a qual têm se interposto, não sem
ANAI. Carta de Índios Pataxó ao Presidente da República,
violência física e simbólica, os interesses de novos João Figueiredo. Brasília,DF: 1980. (Digit.)
atores sociais, tais como fazendeiros, empresas do A TARDE. Salvador, 28; 29; 30 maio 1951.
setor de turismo e a VERACEL Celulose. ______. Salvador, 06; 07; 08 jun., 1951.
Eu suponho, finalmente, ter conseguido BAHIA. Decreto nº11.892 de 2 de maio de 1941. Consti-
tue uma Comissão Especial a fim de fazer o levantamento
desvelar, ao longo do texto, um nexo objetivo-in- topográfico do Monte Pascoal. Palácio do Governo do Es-
tencional entre os eventos relatados, que já não tado da Bahia, em 2 de maio de 1941. Landulpho Alves,
Interventor Federal – Lafayette Pondé – Isaías Alves –
figurariam como meros eventos, mas como etapas Delsue Moscoso.
em um processo de formação conflituoso, condu- ______. Decreto-Lei nº12.729 de 19 de abril de 1943. Cria
o Parque Nacional do Monte Pascoal com prerrogativas de
zindo a uma ampliação crescente das relações de monumento nacional e dá outras providências. Diário
Oficial, 19 abr., 1943
reconhecimento (Honneth 2003, p.268). Suponho
BUONICORE, Augusto. Os comunistas, os índios e a
ainda que, ao tratar da relação entre condições de nação. Vermelho. Disponível em: www.vermelho.org.br
vida, deslocamento espacial e direitos do povo Acesso em: 28 maio 2009.
CARVALHO, Maria Rosário de. Os Pataxó de Barra Velha
indígena Pataxó, tenha atendido aos objetivos da seu subsistem econômico. 1977. 436 f. Dissertação
proposta elaborada pela organizadora do Dossiê. (Mestrado em Ciências Humanas) – Programa de Pós-
Graduação em Ciências Humanas da Universidade Fede-
Mas ao leitor caberá decidir se, de fato, o percurso ral da Bahia. Salvador, 1977.
utilizado e as hipóteses e formulações desenvolvi- ______. Índios do Sul e Extremo-Sul Baianos: reprodu-
ção demográfica e relações interétnicas. Caderno CRH:
das estão suficientemente validadas pelas evidên- Centro de Recursos Humanos da UFBA, Salvador, n.43,
p.35-55, jan./abr. 2005.
cias apresentadas.
______. Os Pataxó meridionais (Porto Seguro/Bahia): con-
siderações sobre a demarcação realizada em 1980. In: SIL-
VA, José Luis Caetano da (Org). Tradições étnicas entre os
Pataxó no Monte Pascoal: subsídios para uma educação

CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 57, p. 507-521, Set./Dez. 2009


(Recebido para publicação em julho de 2009) diferenciada e práticas sustentáveis. Vitória da
(Aceito em setembro de 2009) Conquista,BA: Núcleo de Estudos em Comunicação, Cul-
turas e Sociedades. NECCSos, 2008. p.393-402. (Edições
UESB)
CASTRO, R. Berbert de (Org.). Sob os céus de Porto Segu-
FONTES PRIMÁRIAS – MANUSCRITOS ro. Salvador: Diretoria de Cultura e Divulgação do Estado
da Bahia; Imprensa Oficial do Estado, 1940.

Seção Republicana Cx. 2083 e 2084. Maço 2466. Bahia, CARTA do Povo Pataxó às autoridades brasileiras. Aldeia
23.10.1940. Lafaiete Ponde, secretario de Interior e Justi- de Monte Pascoal/Porto Seguro 19 de agosto de 1999.
ça, encaminha telegrama ao Prefeito de Porto Seguro re- COLEÇÃO La Correspondencia Sudamericana – Órgão
novando recomendações sobre cobrança impostos ma- Oficial do Secretariado Sul-Americano da Internacional
deiras. (Ms(1)) Comunista – 1929-1930.
Secção Republicana /Secretaria de Governo. Cx. 2090 – DAS, Veena. Critical events: an anthropological perspective
Maço 2481 Em 04.05.41, a Delegacia Regional (Bahia) de on contemporary India. New Delhi: Oxford University
Recenseamento, através do Delegado Regional Ruben Press, 1995.
Gueiros, envia congratulações pela assinatura decreto
11.892 constituindo comissão levantamento topográfico DENNIS, Ferdinand. Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; S.
Monte Pascoal, publicado Diário Oficial de hoje (Ms(2)) Paulo: EDUSP, [1838]1980.
CONSELHO ULTRAMARINO BRASIL – Bahia. Represen- FERREIRA, John Kennedy. I Conferência dos Partidos
tação do padre Cypriano Lobato Mendes dirigida a D. Pedro Comunistas da América Latina: a questão indígena for-
III, sobre a situação econômica da Capitania da Bahia, em mulada por José Carlos Mariátegui. Revista Espaço Aca-
que se contêm noticias muito interessantes. Bahia, 31 de dêmico, Maringá,PR, v.8, n.92, jan., 2009. Disponível em:
julho de 1788. (Ms(3)) REA 092 On-Line. Acesso em: 28 maio 2009.

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O MONTE PASCOAL, OS ÍNDIOS PATAXÓ E A LUTA ...

FUNAI. Decreto nº396/91 Homologa a demarcação admi- SANTOS, Ana Flávia Moreira. Do terreno dos caboclos do
nistrativa da Área Indígena Barra Velha, no Estado da Sr. São João à Terra Indígena Xakriabá: as circunstâncias
Bahia. (Fernando Collor /Jarbas Passarinho). 24 dez., 1991. da formação de um povo. Um estudo sobre a construção
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MONTI, Ednardo Monteiro Gonzaga do. Canto orfeônico: nesta parte do Novo Mundo e algumas noticias antece-
os ideais cantados do Estado Novo. Travessias, dentes curiosas e necessárias das cousas daquelle Estado
Cascavel,PR, n.2, p.1-16, 2007. pelo padre Simão de Vasconcelos. 2.ª edição, accrescentada
com uma introdução e notas históricas e geographicas
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Casa Civil/Subchefia para pelo conego Dr. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro. Rio
Assuntos Jurídicos. Constituição dos Estados Unidos do de Janeiro: Tipographia de João Ignácio da Silva.
Brasil, de 10 de novembro de 1937. [1663]1864.
SAMPAIO, J.A. Laranjeiras. Breve história da presença VILHENA, Luis dos Santos. A Bahia no século XVIII.
indígena no extremo-sul baiano e a questão do território Salvador: Ed. Itapuã. [1759] 1969. Livro 2.
Pataxó do Monte Pascoal. Penedo, 1996. (Digit.)
CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 57, p. 507-521, Set./Dez. 2009

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Maria Rosário de Carvalho

MONTE PASCOAL, THE PATAXÓ INDIANS MONTE PASCOAL, LES INDIENS PATAXÓ ET
AND THE FIGHT FOR ETHNIC LA LUTTE POUR UNE RECONNAISSANCE
RECOGNITION ETHNIQUE

Maria Rosário de Carvalho Maria Rosário de Carvalho


This paper treats of the struggle between the L’article traite de l’affrontement qui a eu lieu
Pataxó Indians and the Brazilian State by the entre les Indiens Pataxó et l’Etat brésilien pour la
ownership of Mount Pascoal’s National Park, for possession du Parc National de Monte Pascoal. On
which are used the notion of critical events and the y utilise la notion d’événements critiques et du
conflict model that attributes the appearance and modèle de conflit qui attribue le surgissement et
the course of the social struggle to the moral l’avènement des luttes sociales à des expériences
experiences of the social groups in face of the denial morales de groupes sociaux qui se trouvent face à
of the recognition. The aim of this paper is to un refus de reconnaissance. L’objectif est de
demonstrate, through the presentation of the several démontrer, à partir de la présentation des
stages of the struggle, to demonstrate that the critical différentes étapes de la lutte, que les événements
events related to the creation of PNMP (in English, critiques, liés à la création du PNMP, objet de gra-
Mount Pascoal National Park) while bringing serious ves contradictions pour les Pataxó, ont collaborés
contradictions for the Pataxó, collaborate to the à l’origine d’une nouvelle communauté politique
genesis of a new political-moral community. The et morale. En effet, l’accent est mis sur l’interface
focus incides, therefore, in the interface between démographique et anthropologique et cherche à faire
demography and anthropology, striving to relate le lien entre les conditions de vie, le déplacement
living conditions, the space displacement and the dans l’espace et les droits d’un peuple indigène.
rights of an indigenous people. MOTS-CLÉS Pataxó, nation, reconnaissance, lutte,
KEYWORDS: Pataxó, nation, recognition, struggle, monument.
monument.

CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 57, p. 507-521, Set./Dez. 2009

Maria Rosário de Carvalho - Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).
Professora Associada I do Departamento de Antropologia e Etnologia e Professora Permanente do Progra-
ma de Pós-Graduação em Antropologia e do Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos
da UFBA. Publicou Os Kanamari da Amazônia Ocidental História, Mitologia, Ritual e Xamanismo.
Salvador, BA: Fundação Casa de Jorge Amado, 2002, organizou Identidade Étnica, Mobilização política
e Cidadania. Salvador, BA: Empresa Gráfica da Bahia, 1990, e produziu um conjunto de artigos e
capítulos de livros. Coordena o Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro e é
Bolsista PQ do CNPq.

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