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Universidade de Lisboa Mestrados em Ensino Prova de Portugués 2008 [A prova tem a duragdo de 120 minutos, com tolerdncia de 30 minutos. | Deve dar as suas respostas na folha de prova. Em 2005, Mia Couto proferiu uma oragdo de sapiéncia numa instituigio de ensino superior mogambicana intitulada Os Sete Sapatos Sujos. O texto que se segue & um excerto ligeiramente adaptado desta oragiio de sapiéneia, ‘Sétimo sapato - A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros Lt Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa magica chamada televis . Criam uma relagdo de virtual familiaridade, Aos poucos passamos a ser nés quem acredita estar vivendo fora, dangando nos bragos de Janet Jackson. O que os videos ¢ toda a sub-indiistria televisiva 1.5 nos vém dizer nao é apenas “comprem”. Ha todo um outro convite que é este: “sejam como ns”, Este apelo a imitagio cai como ouro sobre azul: a vergonha de sermos quem somos ¢ um trampolim para vestirmos esta outra mascara. © resultado que a nossa produgio cultural se esté a converter na reprodugio macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa musica 1.10 poder ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinéria poder ser 0 MacDonald’s, Falamos da crostio dos solos, da desflorestagio, mas a erostio das nossas culturas ¢ ainda mais preocupante. A secundarizago das linguas mogambicanas (incluindo da lingua portuguesa) ¢ a ideia de que s6 temos 1.15 identidade naquilo que ¢ folel6rico so modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: s6 somos modemnos se formos americanos. C 1.20 1.25 1.30 1.35 1.40 1.45 1.50 Falei da carga de que nos devemos desembaragar para entrarmos a corpo inteiro na modemidade. Mas a modemidade nfo é uma porta apenas feita pelos outros. Nés somos também carpinteiros dessa construgio ¢ s6 nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores. A minha mensagem € simples: mais do que uma geragio tecnicamente capaz, nés necessitamos de uma gerago capaz de questionar a técnica, Uma juventude capaz de repensar 0 pais ¢ o mundo. Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas. Mogambique nao precisa apenas de caminhar. Necessita de descobrir 0 seu proprio caminho num tempo enevoado e num mundo sem rumo. A bussola dos outros no serve, o mapa dos outros no ajuda. Necessitamos de inventar os nossos préprios pontos cardeais. Interessa-nos um passado que no esteja carregado de preconceitos, interessa-nos um futuro que nio nos venha desenhado como uma receita financeira, A Universidade deve ser um centro de debate, uma fabrica de cidadania activa, uma forja de inquietagdes solidérias e de rebeldia construtiva, Nao podemos treinar jovens profissionais de sucesso num oceano de miséria. A Universidade nao pode aceitar ser reprodutora da injustiga e da desigualdade. Estamos a lidar com jovens e com aquilo que deve ser um pensamento jovem, fértil produtivo. Esse pensamento no se encomenda, no nasce sozinho. Nasce do debate, da pesquisa inovadora, da informacdo aberta e atenta ao que de melhor esta surgindo em Africa ¢ no mundo. A questiio € esta: fala-se muito dos jovens. Fala-se pouco com os jovens. Ou melhor, fala-se com eles quando se convertem num problema. A juventude vive essa condigao ambigua, dancando entre a visio romantizada (cla & a seiva da Nagio) ¢ uma condigZo maligna, um ninho de riscos ¢ preocupagdes (a SIDA, a droga, o desemprego). Nao foi apenas a Zambia a ver na educagio aquilo que o néufrago vé num barco salva- f) A escola é um meio para querermos o que no temos. A vida, depois, ensina- ‘idas, Nés também depositamos os nossos sonhos nessa conta, -nos a ter aquilo que no queremos. Entre a escola ¢ a vida resta-nos ser verdadeiros e confessar aos mais jovens que nds também nao sabemos e que, 1.55 1.60 1.65 1.70 1nés, professores e pais, também estamos & procura de respostas. Com 0 novo governo ressurgiu o combate pela auto-estima, Isso é correcto e € oportuno. Temos que gostar de nés mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-préprio néo pode ser fundado numa vaidade vazia, numa espécie de narcisismo futile sem fandamento, Alguns acreditam que vamos resgatar esse orgulho na visitagio do passado. E verdade que é preciso sentir que temos raizes e que essas raizes nos honram. Mas a auto-estima nao pode ser construida apenas de materiais do passado. Na realidade, s6 existe um modo de nos valorizar: ¢ pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. E preciso que saibamos aceitar esta condigao sem complexos © sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela Histéria. Mas nés fizemos parte dessa Historia, fomos também empobrecidos por nés préprios. A raziio dos nossos actuais ¢ futuros fracassos mora também dentro de nds. Mas a forca de superarmos a nossa condigao historica também reside dentro de nés. Saberemos, como jé soubemos antes, conquistar certezas de que somos produtores do nosso destino. Teremos mais ¢ mais orgulho em sermos quem somos: mogambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. E por isso que vale a pena aceitarmos descalgar no s6 0s sete mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva, Porque a verdade € uma: antes vale andar descalgo do que tropegar com os sapatos dos outros. NOME ‘Mestrado a que se candidata A - Depois de ler com atencio 0 texto, responda as seguintes perguntas: 1. Resuma os trés primeiros pardgrafos do texto, 2. No contexto do pardgrafo em que se integram, qual o sentido das frases “A ‘iissola dos outros no serve, 0 mapa dos outros ndo ajuda, Necessitamos de inventar os nossos proprios pontos cardeais.” (1, 27-1. 29)? 3. Que papel atribui o texto a universidade? 4. Explicite o que significa para si a oposi¢Zo contida nas frases “A escola é um meio para querermos 0 que niio temos. A vida, depois, ensina-nos a ter aquilo que ndo queremos.” (1. 48-1. 49). ‘NOME. eee Mestrado a que se candidata B. ~ Entre os “sapatos sujos” que Mia Couto refere na sua oragio de sapiéncia encontram-se os seguintes: A ideia de que o sucesso nao nasce do trabalho O preconceito de que quem critica é um inimigo A ideia de que mudar as palavras muda a realidade Escolha um destes trés temas ¢ desenvolva-o num texto argumentativo com cerca de palavras. NOME, Mestrado a que se can [NOME ] Mestrado a que se candidata C — Escotha um dos livros nio técnicos, que ndo constassem da bibliografia de nenhuma das unidades curriculares do seu curso, que tenha lido ultimamente, Nas linhas abaixo, identifique o autor € 0 titulo, descreva sinteticamente 0 assunto © dé a sua ‘opinido pessoal sobre o livro. Autor: Titulo: Assunto: Opinio sobre o livros Prova de Portus / Mestrados cm Ensino / Universidade de Lishoa / 2008.02.12