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V. 1 - N.

Coromandel - MG
2011
PRESIDENTE DA MANTENEDORA
Paulo César de Sousa

DIREÇÃO GERAL E ADMINISTRATIVA


Ana Alice de Sousa

DIREÇÃO JURÍDICA
Dárcio Pereira Junior

COORDENAÇÃO ACADÊMICA
Estanislau Gonçalves Jovtei

COORDENAÇÃO DE MÍDIAS, TECNOLOGIAS E COMUNICAÇÕES INSTITUCIONAIS


Euller de Assunção Matos

COORDENAÇÃO DE PROJETOS
Sandro Pereira de Carvalho

COORDENAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS


Edinéia Abadia Martins Silva

COORDENAÇÃO DE PESQUISA E EXTENSÃO


Luciana de Araújo Mendes Silva

SECRETARIA GERAL
Daiana Cristina Nunes

EDITORES RESPONSÁVEIS:
Prof.ª Ms. Luciana de Araújo Mendes Silva
Prof. Dr. Marcelo Marques Araujo
CONSELHO EDITORIAL
Prof. Ms. Estanislau Gonçalves Jovtei (FPM/FCC)
Prof. Dr. Hidelberto de Sousa Ribeiro (UFMT)
Prof. Dr. Hugo Christiano de Melo Soares (FPM)
Prof.ª Ms. Luciana de Araújo Mendes Silva (FPM/FCC)
Prof. Dr. Marcelo Marques Araújo (UFMT/MACKENZIE)
Prof. Dr. Robson Luiz de França (UFU)
Prof.ª Dr.ª Sandra Regina Afonso Cardoso (FPM)
Prof.ª Dr.ª Sílvia Regina Melo (UFGD)

COORDENADORES DOS CURSOS DE GRADUAÇÃO


Administração – Prof. Dr. Gustavo Gastardelli de Oliveira Fontes / Prof.ª Esp. Ivani
Aparecida da Silveira
Educação Física – Prof. Ms. Estanislau Gonçalves Jovtei
Enfermagem – Prof.ª Esp. Carla de Sousa Porto
Letras – Prof.ª Esp. Sônia Helena de Castro
Pedagogia – Prof.ª Esp. Angelita Valadares Hermann

COORDENADORA DO INSTITUTO DE POS GRADUAÇÃO


Prof. ª Esp. Sônia Helena de Castro

PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA


Gráfica e Editora Composer

CAPAS
Gráfica e Editora Composer

REVISÃO FINAL
Prof.ª Ms. Luciana de Araújo Mendes Silva
Prof. Dr. Marcelo Marques Araujo
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Elaborada por Maria Salete de Freitas Pinheiro – CRB -1262
Epistheme. - v. 1, n. 1 (2011) – Coromandel : Faculdade Cidade
de Coromandel, 2011-

Semestral.

ISSN 2237-6526

1. Educação - Periódicos. 2. Sociedades - Periódicos. 3. Saúde


- Periódicos. I. Faculdade Cidade de Coromandel.

CDU: 37
APRESENTAÇÃO
Sabe-se que as instituições de Ensino Superior devem primar pela integração
entre ensino, pesquisa e extensão, fato evidente na Constituição Federal de 1998.
Além disso, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/94) demonstra as
exigências relacionadas ao corpo docente, sua formação e também a institucio-
nalização da pesquisa. Vale mencionar aqui que tanto a pesquisa básica quanto
aplicada tem seu valor e são muito discutidas na atualidade, pois ambas estão
relacionadas ao desenvolvimento humano. Porém, nem sempre os investimentos
em pesquisa ocorrem na medida necessária. Ressalta-se que a pesquisa está di-
retamente relacionada à formação/titulação docente, à legislação, mas também
cabe dizer que deve estar atrelada ao estimulo e condições adequadas para sua
execução e efetividade.
A FACULDADE CIDADE DE COROMANDEL (FCC), conhecedora da importância da
pesquisa e também de sua publicação, apresenta o volume I da revista EPISTHEME
com o objetivo de levar aos leitores os resultados de pesquisas realizadas por seus
docentes e discentes. Apresenta, nesse volume, artigos de docentes com temas
de diferentes áreas: sociedade, educação e saúde. Apresenta, ainda, resumos de
trabalhos de conclusão dos diferentes cursos de graduação.
A FCC, consciente de que o conhecimento científico impacta diretamente no
desenvolvimento econômico de uma nação, como também fornece ferramentas
para a solução de diversos problemas relacionados à existência e sobrevivência
humana com um mínimo de qualidade de vida, incentiva a pesquisa no âmbito
universitário, visto que essa pode se tornar uma extensão da pesquisa institucio-
nalizada do país, de forma a contribuir para o desenvolvimento humano da nação
através das produções locais. Acredita-se assim, que com suas particularidades, a
FCC esteja contribuindo com este cenário, bem como espera-se que os governan-
tes viabilizem financiamentos amplos/efetivos para ciência e tecnologia a serviço
da sociedade.
O que se espera com a publicação do volume I da revista EPISTHEME é que
pesquisadores e/ou leitores valorizem e utilizem os conhecimentos produzidos no
meio acadêmico.

Ana Alice de Sousa


Diretora Geral e Administrativa
Carta dos Editores:

A Revista Epistheme, atendendo às diretrizes da CAPES/CNPQ, traz um es-


copo de artigos ancorados na área Multidisciplinar. Isso quer dizer que o leitor de
Epistheme poderá ter contato com relatos de pesquisas e abordagens teóricas
tratados de forma heterogênea por pesquisadores de diferentes áreas do conheci-
mento. Para uma melhor organização, decidimos dividir o volume em três grandes
dossiês de áreas diversas: Sociedade, Educação e Saúde.
No Dossiê Sociedade, que abre este volume, os artigos estão respaldados
em temáticas pontuais. É o caso do artigo dos pesquisadores, Costa; Borges; Mar-
ques Pereira, sobre a sociedade da informação. Em outro artigo, Silva aborda a
pobreza multidimensional nas relações humanas. Ribeiro, pesquisador convidado,
traz um artigo sobre os problemas urbanos causados pelos fronts agropecuários
na Amazônia Legal. Borges; Costa; Pereira, trazem um artigo sobre o Toyotismo e a
Formação do Trabalhador. Fernandes contribui com um artigo sobre as mudanças
que vêm ocorrendo na construção social do gênero masculino na contemporanei-
dade. Os pesquisadores Pereira; Borges; Costa; Silva, trazem um artigo sobre a
qualificação profissional e emprego nos dias de hoje. E por fim, nesse Dossiê, Mar-
ques apresenta um artigo sobre o capital intelectual nas organizações brasileiras.
O Dossiê Educação, que registra artigos de áreas diversas no aparato da
Educação, traz o artigo dos pesquisadores Castro; França, sobre a importância do
ensino baseado na pesquisa. Em outro artigo, os pesquisadores Mendes; Mendes
Silva; Rabelo, trazem uma contribuição na discussão do papel docente na inclusão
do aluno com deficiência no ensino superior. Em outro artigo, Valadares enfoca a
formação continuada dos professores. Araújo registra uma nova metodologia de
análise terminológica discursiva da comunicação na análise do termo marketing.
Ramos indica algumas causas da evasao de alunos do curso de licenciatura em
Educação Física da FCC. Lucas e Araújo trazem um artigo em inglês acerca dos
neologismos na publicidade brasileira. Lima propõe um artigo sobre os avaliadores
adjetivais em textos argumentativos. E por fim, nesse Dossiê, Arruda traz uma con-
tribuição, também em texto na língua inglesa, acerca dos diversos papéis da língua
inglesa no mundo contemporâneo.
No Dossiê Saúde, Mendes Silva; Morraye, trazem um artigo sobre a promo-
ção de saúde e os riscos e acidentes sofridos pelos coletores de resíduos sólidos
em Patos de Minas. Em outro artigo, Souza; Galvão, registram a visão dos enfer-
meiros, gestantes e puérperas no aleitamento materno em Coromandel. Fonseca;
Faria tratam dos acidentes de trânsito e atuação do enfermeiro no atendimento às
vítimas. Mendes Silva; Soares, trazem um artigo discutindo o estresse ocupacio-
nal na profissão de Enfermagem. E por fim, Costa Luciano, traz uma contribuição
acerca do gerenciamento de resíduos em saúde.
Além dos três Dossiês aqui citados, a Revista Epistheme também registra os
Resumos dos Trabalhos de Conclusão de Curso das graduações e licenciaturas
oferecidas pela Faculdade Cidade de Coromandel.
A Revista Epistheme também traz oportunidades para autores de resenhas
de livros das áreas de pesquisa e publicação contempladas. Para isso, há um es-
paço específico denominado Resenhas Epistheme.
Aos leitores (as) de Epistheme, desejamos momentos aprazíveis nas próxi-
mas páginas!
Aos autores, professores e pesquisadores, nossos sinceros agradecimentos
pelas contribuições inestimáveis à Revista Epistheme.

Os editores
SUMÁRIO

Dossiê Sociedade:
Trabalho, Educação e a Construção da Cidadania na “Sociedade da Informação”
Kely Alves Costa / Alex Rodrigo Borges / Karina Liotti Guimarães Marques Pereira . . . . . . . . . . . . . . . 15

Pobreza Multidimensional: abordagem das capacitações e das necessidades humanas


Ana Márcia Rodrigues da Silva. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

Abertura de Fronts Agropecuários e Problemas Urbanos na Amazônia Legal


Hidelberto de Sousa Ribeiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

O Toyotismo e a Formação do Trabalhador: trabalho e educação no modelo de organização


produtiva capitalista
Alex Rodrigo Borges / Kely Alves Costa / Karina Liotti Guimarães Marques Pereira . . . . . . . . . . . . . . . 87

Da Masculinidade
Luís Antonio Bitante Fernandes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101

A Qualificação Profissional no Contexto Empregatício


Karina Liotti Guimarães M. Pereira / Alex Rodrigo Borges / Kely Alves Costa / Ana Márcia
Rodrigues da Silva. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123

Capital intelectual: valorização dos talentos humanos ou modelo taylorista camuflado


dentro de algumas organizações brasileiras?
Thais Lara da Silva Marques. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
Dossiê Educação e Linguagem:
A Importância do Ensino, Baseado na Pesquisa como Instrumento Incentivador à Leitura
e Interpretação Textual no Ensino Superior
Sônia Helena de Castro / Robson Luiz de França. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175

O Papel do Docente na Inclusão do Aluno com Deficiência no Ensino Superior


Delza Ferreira Mendes / Luciana de Araújo Mendes Silva / Ana Claudia Campos Rabelo. . . . . . . . . . 189

Uma Reflexão Sobre a Formação Continuada dos Professores: um enfoque para a


formação reflexiva
Neusa Maria Borges Valadares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205

Análise Terminológica Discursiva da Comunicação: um estudo sobre o conceito de


marketing
Marcelo Marques Araújo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217

A Evasão de Alunos do Curso de Licenciatura em Educação Física da Faculdade cidade


de Coromandel
Guilherme Ramos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245

The Neologisms in the Brazilian Publicity Communication


Marcelo Marques Araújo / Rosana de Paula Lucas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 259

Axiologização: avaliadores adjetivais e sua função argumentativo/persuasiva em artigo


de opinião
Eloísa de Oliveira Lima . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267

English Language as lingua franca and its Implications to Language Education


Nalini Iara Leite Arruda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 277

Dossiê Saúde:
Os Riscos e Acidentes Sofridos Pelos Coletores de Resíduos Sólidos do Município de
Patos de Minas/MG Enquanto Desafios Para Promoção de Saúde
Luciana de Araujo Mendes Silva / Monica de Andrade Morraye. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 295

Aleitamento Materno em Coromandel/MG: uma visão dos enfermeiros, gestantes e


puérperas
Ismelinda Maria Diniz Mendes Souza / Sandra Aparecida Francisco Galvão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311
Acidentes de Trânsito: prevenção e atuação do enfermeiro no atendimento às vítimas
Laura Moreira de Sousa Fonseca / Cleide Chagas da Cunha Faria. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325

Fatores Associados à Ocorrência de Estresse Ocupacional na Profissão de Enfermagem


Luciana de Araújo Mendes Silva / Édia Duarte Soares. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 343

Segregação e Biossegurança: gerenciamento de resíduos de serviço de saúde


Cristiana da Costa Luciano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 365

Resumos:
Educação Física . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 376
Pedagogia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 385
Enfermagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 391
Administração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 396
Letras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 401

Resenhas Epistheme:
Procedimentos para a análise terminológica com base na Teoria Comunicativa da
Terminologia
Marcelo Marques Araújo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 407

Que Gramática Estudar na Escola? Tópicos Fundamentais


Zenalda Viana Neves / Marcelo Marques Araújo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 415
DOSSIÊ SOCIEDADE
Trabalho, Educação e a
Construção da Cidadania na
“Sociedade da Informação”

Kely Alves Costa*


Alex Rodrigo Borges**
Karina Liotti Guimarães Marques Pereira***

RESUMO
Ao longo da história, a humanidade passa por transformações que afetam os processos de
trabalho, bem como as relações sociais e educacionais. O objetivo deste artigo, realizado a
partir de uma revisão bibliográfica com abordagem qualitativa, consistiu em verificar como
o processo de “revolução informacional”, baseado principalmente no desenvolvimento das
tecnologias digitais, possui desdobramentos importantes quando se verifica a necessidade
de qualificação da mão-de-obra para o mercado de trabalho. Evidenciou-se, desta forma,
uma relação estreita entre educação, trabalho e empregabilidade. O diálogo entre
qualificação e trabalho pressupõe que se considere o problema da construção da cidadania,
pois também pode ser compreendido também através da inclusão social de indivíduos e
grupos tradicionalmente excluídos do desenvolvimento socioeconômico. Nesse sentido,
pode-se verificar que a construção da cidadania, cada vez mais, parece ligar-se ao grau de
participação na “sociedade da informação” que se constitui e, sobretudo, que as análises
das competências que são exigidas dos trabalhadores só podem ser problematizadas
quando articuladas às transformações do mundo do trabalho.
Palavras-chave: Educação. Trabalho. Sociedade da Informação.
DOSSIÊ SOCIEDADE
*
Especialista em Metodologia do Ensino e Tecnologia para Educação a Distância pela Faculdade
Cidade de João Pinheiro (FCJP). Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uber-
lândia (UFU). Professora da Faculdade Cidade de João Pinheiro (FCJP). kelynha_costa@yahoo.com.br
**
Mestre em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Especialista em Fisioterapia e
Traumato-ortopedia pelo Centro Universitário do Triângulo ( UNITRI) e em Metodologia do Ensino Supe-
rior pela Faculdade de Patos de Minas, Graduado em Fisioterapia pelo Centro Universitário do Cerrado
- Patrocínio (UNICERP). Professor da Faculdade Cidade de João Pinheiro (FCJP) e da Faculdade de Patos
de Minas (FPM). alexvze@msn.com
***
Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade Coromandel (FCC) e Banco
de Dados pelo Centro Universitário do Triângulo (UNITRI). Possui MBA em Gerenciamento de Projetos
pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Graduada em Tecnologia da Informação pela Faculdade Univer-
sidade de Cuiabá- Campus Tangará da Serra (UNIC-SUL).Professora da Faculdade de Patos de Minas
(FPM) e da Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). karinaliotti@yahoo.com.br.

15
1 INTRODUÇÃO
A notícia de que o mundo estaria passando por transformações decisivas
desde o final do século passado já não é nenhuma novidade. Assim como também
não é novidade o fato de que a maior parte destas transformações possui em seu
cerne o constante incremento tecnológico baseado, principalmente, na digitaliza-
ção das informações.
Em economia, fala-se em “economia da informação” (BOLAÑO, 2004), “rees-
truturação produtiva”, “acumulação flexível” (HARVEY, 2000); quanto às transfor-
mações culturais, fala-se no surgimento da chamada “cibercultura” (LEVY, 1999);
em educação, admitem-se cada vez mais as chamadas Tecnologias da Informa-
ção e Comunicação (TICs), enquanto instrumento ou tecnologia educativa (SOUSA;
FINO, 2001).
Há transformações em todas as esferas sociais, quanto ao Estado e às for-
mas de Política e Gestão da res publica, diz-se até que estaria surgindo uma nova
forma de “governo eletrônico” ou mesmo uma “cidadania digital” (ALVES; MOREI-
RA, 2004), na forma de adaptação das esferas públicas às novas realidades, ali-
cerçadas, no limite, na figura de um cidadão digital ou virtual.
São constantemente utilizados ainda termos como “sociedade da informa-
ção” ou “sociedade pós-moderna” como referencias heurísticas para o conjunto
de transformações que ocorrem no Estado, nas culturas, na forma de acumulação
do capital, na educação, no trabalho etc. que estariam de alguma forma intrinseca-
mente relacionadas com o alto padrão de desenvolvimento tecnológico alcançado
pela humanidade.
Sabe-se, todavia, que estas transformações têm provocado incertezas sobre
os destinos da sociedade desde o final do século passado. A crise do capitalismo
monopolista, ocorrida a partir do final da década de 1960, coloca questões fun-
damentais à reprodução do capitalismo e suas classes sociais. Assim, mudanças
estruturais foram realizadas, sendo que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o
EPISTHEME

Banco Mundial (BM) passaram a determinar diretrizes para a Economia e a Educa-


ção nos países subordinados em relação ao desenvolvimento capitalista, afetando
a formação dos trabalhadores (SAMPAIO; FRANÇA, 2007).
Admitindo a existência de uma identificação entre mundo do trabalho e
mundo do conhecimento e do conhecimento como fator de produção (MACHADO,

16
2002) e admitindo que, ao longo da história, a humanidade passa por transforma-
ções que afetam os processos de trabalho, bem como as relações sociais e educa-
cionais – o objetivo deste artigo consistiu em verificar como o processo de “revolu-
ção informacional”, baseado principalmente no desenvolvimento das tecnologias
digitais, possui desdobramentos importantes quando se verifica a necessidade de
qualificação da mão-de-obra para o mercado de trabalho.
Evidencia-se, desta forma, uma relação estreita entre educação, trabalho e
empregabilidade, sendo que, no contexto atual, o grau de domínio das técnicas
digitais torna-se imperativo para a determinação da cidadania, na medida em que
se torna condição para o mercado de trabalho e, sobretudo, para a própria sobre-
vivência material dos trabalhadores.
Assim, entende-se aqui que o aprofundamento de estudos relativos à influên-
cia da Educação na formação dos trabalhadores é de extrema importância, espe-
cialmente quando é recuperada a centralidade da categoria trabalho. Isso porque
as análises das competências que são exigidas dos trabalhadores e, principalmen-
te, as competências que são oferecidas pela escola só podem ser problematizadas
quando articuladas às transformações do mundo do trabalho. E quando se insere
nesse contexto o potencial das novas tecnologias digitais ou informacionais en-
quanto abertura para um novo nível de participação ou inclusão social e política
na sociedade (entendida ainda no sentido mais incipiente), essa verificação faz-se
ainda mais necessária.

2 METODOLOGIA
Esta investigação privilegiou a abordagem qualitativa em pesquisa educacio-
nal, na medida em que essa permite uma visão ampla do objeto estudado e seu
DOSSIÊ SOCIEDADE
envolvimento com a realidade social, política, econômica e cultural. A opção pela
abordagem qualitativa justificou-se, desta forma, pelas características que foram
consideradas no desenvolvimento desta verificação, isto é, buscando-se conside-
rar, sobretudo, a perspectiva dos processos de transformação impressos na exis-
tência material do homem, avaliando as suas repercussões em diferentes esferas,
principalmente na educação.
Quanto aos procedimentos metodológicos, pautou-se, essencialmente, pela
realização de uma pesquisa do tipo bibliográfica, com a finalidade de realizar o

17
aprofundamento do referencial teórico que embasou a problematização proposta.
Assim, essa fundamentação ocorreu obedecendo às orientações próprias da pes-
quisa bibliográfica, de modo a balizar maior compreensão sobre as relações entre
as transformações sociais relacionadas ao desenvolvimento científico-tecnológico
digital e a inclusão social dos trabalhadores, vista através da educação e da qua-
lificação para o trabalho que, no limite, figuram como pré-requisitos fundamentais
para a construção da cidadania.

3 O CAPITAL E O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO-


TECNOLÓGICO
A fim de compreender as mudanças ocorridas no mundo contemporâneo re-
lacionadas às revoluções científicas e tecnológicas, que embasam a constituição
da chamada “sociedade da informação”, algumas considerações são, no entanto,
necessárias. Em primeiro lugar, deve-se destacar o papel da ciência nesse ínterim,
bem como, em seguida, o da técnica enquanto promotora de transformações so-
ciais, tendo em vista, principalmente, o contexto e a lógica de reprodução do capital.
A ciência, para Weber (1999), deve contribuir para o desenvolvimento da
tecnologia que controla a vida e, também, para o desenvolvimento de “métodos
de pensamento” e “ganhos de clareza”, indicando os meios necessários para se
atingir determinadas metas, advindo daí sua principal contribuição: “o desenvolvi-
mento da racionalidade” (BERLINCK, 1999, p. 12). Todavia, nunca é desnecessário
acrescentar que uma das características da modernidade é essa “racionalidade”
ser instrumentalizada, predominando o cálculo da eficácia que, no limite, “[...] ex-
pulsa os espaços em que age a ação argumentativa, a racionalidade comunicativa
que permitira a negociação coletiva dos fins.” (FREITAG, 1995, p. 144).
A despeito de possíveis divergências teóricas, pode-se afirmar que Weber
(1999) e Habermas, como outros expoentes da Escola de Frankfurt, tinham em
comum o fato de questionarem a neutralidade da ciência. A esse respeito, segundo
EPISTHEME

Weber (1999, p. 19), os institutos de ciências alemães estariam se transformando,


como o sistema norte-americano, em “[...] empresas de capitalismo estatal [...]”,
sendo impossível geri-las sem dispor de recursos financeiros consideráveis; além,
é claro, da própria exploração dos resultados científicos com vista à obtenção de
lucros particulares ou, no limite, de garantia de reprodutibilidade do capital.

18
Para Mészáros (2004, p. 284), o “[...] controle da ciência pelo Estado cresceu
a tal ponto que não se compara com os estágios passados do desenvolvimento his-
tórico [...]”, de forma que “[...] a própria liberdade dos cientistas entrou em discus-
são.” Assim, hodiernamente, o desenvolvimento científico atrelado à reprodução
do capital está longe de significar a construção de uma sociedade mais avançada,
que beneficia toda a existência humana, tal como aparece nos desdobramentos da
razão iluminista. Significa, antes, a difusão ou hegemonia de uma ideologia que se
pauta na supremacia do “valor-de-troca”, de tal forma que os meios de pesquisa e
de produção alinham-se aos interesses do capital que, ao final, convertem-se em
benefício não exatamente sociais.
Como um dos principais leitmotiv1 para a realização científica atual, o desen-
volvimento tecnológico coloca, ainda, a discussão a respeito da técnica enquan-
to propulsora de transformações sociais. Assim, para Levy (1999, p. 24), não se
deve falar simplesmente em “impactos” das novas técnicas, pois “[...] por trás das
técnicas agem e reagem idéias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos,
estratégias de poder, toda uma gama dos jogos dos homens em sociedade.”, de
forma que não se deve atribuir sentido único a uma técnica.
No caso das tecnologias digitais, a ambiguidade e ambivalência de projetos
envolvidos em suas concepções e utilizações é particularmente evidente, como
ressalta Lévy (1999). Pode-se adotar aqui uma perspectiva de análise dialética,
que permite visualizar as transformações sociais e tecnológicas em partes e em
sua totalidade. Nesse sentido, em poucas palavras, pode-se considerar que o
âmago desse movimento dialético de transformação social vivenciado atualmente
encontra-se no constante desenvolvimento das chamadas tecnologias digitais.

4 A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
DOSSIÊ SOCIEDADE

Trata-se, aqui, do movimento de digitalização da informação que se iniciou


nos anos de 1970, no chamado Silicon Valley2, com o desenvolvimento dos pri-
meiros computadores pessoais. Segundo Lévy (1993, p. 44), o Personal Computer

1
Termo alemão (pl. Leitmotive) que em português pode-se traduzir por “motivo condutor” ou recorrente.
2
Ou “Vale do Silício”, nome em português, é uma região localizada na Califórnia, Estados Unidos,
onde está situado um conjunto de empresas que se desenvolveram após a Segunda Guerra Mundial
e, principalmente, durante a Guerra Fria, com o objetivo de gerar inovações científicas e tecnológi-
cas, destacando-se na produção de Chips, na eletrônica e informática

19
(PC) foi inventado por um grupo de jovens, num ambiente altamente propício a uma
bricolagem high tech, em que a paixão pela eletrônica se misturava a idéias sobre
o desvio da alta tecnologia em proveito da “contracultura”. Esse foi apenas o inicio
de uma longa cadeia de transformações quanto ao tratamento das informações
que, segundo as estimativas, desenvolvem-se hoje a uma velocidade exponencial,
de forma que:

Computadores controlam o tráfego aéreo, as redes ferroviá-


rias, os vôos espaciais, pilotam uma multidão de máquinas
variadas. Controlam a distribuição da eletricidade, do calor, da
água, comandam o funcionamento dos robôs, das máquinas-
-ferramentas e das linhas de produção. Programas organizam
o trânsito urbano e regem as comutações das redes telefôni-
cas. Desde a vigilância interna dos prédios até a condução
do funcionamento das centrais nucleares, por toda a parte
os computadores coordenam, harmonizam, guiam, regulam
e administram as redes, os processos e complexos técnicos
sobre os quais o tecnocosmo se apóia [...] (LÉVY, 1998, p. 17).

Observa-se a transformação de uma técnica “[...] baseada em insumos de


energia [...]”, para outra apoiada em “[...] informações decorrentes da tecnologia
de microeletrônica e telecomunicação.” (LUCAS, 2002, p. 160). Neste sentido, com
base na condição “pós-industrial”, para Castells (2000) poder-se-ia mesmo falar
no surgimento de um novo paradigma, através do qual se pudessem conjugar as
transformações tecnológicas atuais e suas relações com a economia e a cultura, o
paradigma da “tecnologia da informação”.
A digitalização da informação em geral, para Bolaño (2004), faz parte do
longo processo de retomada da hegemonia norte-americana, iniciada no governo
Reagan. Esse movimento, para o autor, não se limita aos campos monetário, políti-
co e militar, mas atinge a reestruturação produtiva, de forma que:
EPISTHEME

[...] a hegemonia industrial perdida nos anos [19]70 nos se-


tores fundamentais ligados ao paradigma da Segunda Revo-
lução Industrial (automobilístico, eletro-eletrônico) será espe-
tacularmente retomada naqueles setores ligados à Economia

20
do Conhecimento, como as telecomunicações, a informática,
indústrias de conteúdo, inclusive educação, ou as biotecnolo-
gias, centrais para o novo padrão de acumulação capitalista,
fruto da Terceira Revolução Industrial. (BOLAÑO, 2004, p. 2).

Em decorrência disso, nos últimos anos, as máquinas informatizadas passa-


ram a executar uma infinidade de tarefas que antes eram realizadas pelo trabalho
humano. Sendo ainda que:

O conhecimento se ampliou e os indivíduos são obrigados a


se adaptar às novas configurações do mundo técnico, onde a
informação digital de códigos e mensagens substitui muitas
atividades cognitivas no campo da linguagem escrita, leitura e
voz; capacidade de armazenamento, combinação de símbolos;
criação e produção sonora em todos os estilos musicais, sen-
sibilidade dos sensores, elaboração e captação de imagens,
visualização e controle do tempo. (TERUYA, 2000, p. 39).

Quanto à idéia de ampliação do conhecimento, relembrada inclusive pelo


nome de batismo adotado “sociedade do conhecimento” ou da “informação”, se-
gundo Bolaño (2004), tratar-se-ia de uma noção puramente ideológica que, numa
ótica neoliberal, promove a expansão das TIC’s, dos novos métodos gerenciais
como a “gestão do conhecimento”, não fazendo senão promover uma reestrutura-
ção dos processos de trabalho.
Assim, se lida com perda de direitos, precarização, flexibilização e, acima de
tudo, exclusão da ampla maioria da população mundial dos frutos dessa revolução
informacional, que se caracteriza, sobretudo, pela subsunção do trabalho intelec-
DOSSIÊ SOCIEDADE

tual e por uma extensa intelectualização dos processos de trabalho e de consumo.

4.1 Educação e Trabalho na era digital

Apesar das transformações identificadas ao trabalho na chamada “era digi-


tal”, para Bolaño (2004), informação e conhecimento não passaram a determinar
o valor das mercadorias tanto quanto o trabalho, pois não existe conhecimento ou
informação produtiva em abstrato, desvinculados do próprio trabalho. “Trabalho

21
informacional” e “trabalho intelectual” são, portanto, expressões “[...] adequadas
para definir a nova situação, em que o que se extrai do trabalhador, como fonte da
mais valia, não são mais prioritariamente suas energias físicas, mas mentais.” (p.
1). Isso revelaria, ao final, uma situação em que a rentabilidade do capital “[...] não
tem relação com eventuais ganhos de produtividade, mas com movimentos espe-
culativos, como os que explicam a explosão das bolsas promovida pelas empresas
de tecnologia [...]” (BOLAÑO, 2004, p. 1).

Sob a hegemonia do pensamento dito neoliberal, a contra-


ditoriedade inerente ao desenvolvimento da Economia do
Conhecimento resolve-se a favor do capital, deixando à mar-
gem parcelas imensas da população mundial. As estratégias
industriais do setor de informática (de inovação rotinizada e
obsolescência precoce), por exemplo, contrapõem-se paradig-
maticamente àquelas do velho ciclo de vida dos bens de con-
sumo durável dos trinta gloriosos, que garantiam uma univer-
salização bastante extensa do acesso. (BOLAÑO, 2004, p. 2).

Assim, diversos autores concordam que a chamada Sociedade da Informação


é uma sociedade da exclusão (BOLAÑO, 2004; LUCAS, 2002; SCHWARTZ, 2000).
A Terceira Revolução Industrial é uma revolução industrial capitalista pautada, na
sua constituição, pelas reformas neoliberais, de forma que projetos de inclusão
digital, por mais interessantes e adequados que possam ser em nível micro, não
são capazes de romper essa lógica.
Por “exclusão digital” entende-se o surgimento de “[...] mais uma barreira
socioeconômica entre indivíduos, famílias, empresas e regiões geográficas, a qual
decorre da desigualdade quanto ao acesso e uso das tecnologias da informação
e comunicação, hoje simbolizadas pela Internet.” (LUCAS, 2002, p. 161). Como se
pode notar, o problema da exclusão não se deve apenas ao “acesso” que, mes-
mo precariamente, tem sido difundido inclusive através de políticas públicas que
EPISTHEME

oferecem incentivos a treinamentos e aquisição de computadores pessoais, por


exemplo, em países da América Latina e África. Coloca-se aqui a questão principal,
isto é, o da própria dinâmica de produção e distribuição de riquezas, simbólica e
material.

22
Divide-se o conhecimento, então, em duas categorias: o “conhecimento fun-
cional”, reservado à elite tecnológica, que constrói, edifica e mantém em funciona-
mento os sistemas informacionais e, noutro extremo, o “conhecimento dos sinais”,
que compete às máquinas e também aos seus usuários, que reagiriam automati-
camente a determinadas informações ou estímulos, de forma que “não precisam
saber como essas coisas funcionam, mas precisam processar dados corretamen-
te.” (KURZ, 2002, apud LUCAS, 2002, p. 161).
Nesse ínterim, dois corolários devem ser compreendidos: por um lado, tem-
-se o aumento do desemprego em função da perda estrutural de muitos cargos e
funções que agora são desempenhados por máquinas e toda sorte de estruturas
eletrônicas e, por outro, os trabalhadores são impelidos a uma melhor qualifica-
ção, a fim de conseguirem dominar as novas tecnologias, introduzidas no ambiente
produtivo.
Constrói-se, assim, uma relação imperativa entre Educação e Trabalho, sen-
do que, no discurso dominante, a Educação, na forma de qualificação profissional,
aparece como solução para o problema do desemprego e, em decorrência, para a
questão da própria desigualdade e exclusão social. Sabe-se, todavia, que “[...] as
desigualdades sociais também aumentaram devido ao fator educação que separa
ainda mais as diferenças de classe e ascensão social, além de ressaltar a influ-
ência da economia capitalista no campo educativo, não atendendo e oferecendo
educação de qualidade para todos [...]”. (FRANÇA, 2009, p. 7). Assim, para o autor,
a retórica neoliberal atribuiria um papel estratégico à educação e determinaria a
vinculação da educação escolar à preparação para o trabalho.
Segundo Antunes (1999), a reestruturação produtiva faria aflorar o sentido fa-
lacioso da “qualificação do trabalho”, que muito frequentemente assume a forma de
uma manifestação mais ideológica do que de uma necessidade efetiva do processo
DOSSIÊ SOCIEDADE
de produção. “A qualificação e a competência exigidas pelo capital muitas vezes ob-
jetivam de fato a confiabilidade que as empresas pretendem obter dos trabalhado-
res, que devem entregar sua subjetividade à disposição do capital.” (p. 52).
Surgiria, assim, uma nova “vocacionalização”, isto é, “[...] profissionalização
situada no interior de uma formação geral, na qual a aquisição de técnica e lingua-
gens de informática e conhecimento de matemática e ciência adquirem relevância
[...]”, valorizando “[...] as técnicas de organização, o raciocínio de dimensão es-
tratégica e a capacidade de trabalho cooperativo.” (FRANÇA, 2009, p. 8). Voltada

23
para formação do trabalhador polivalente e multifuncional, há ainda a noção de
competência, que impõe novas exigências de conhecimentos ao trabalhador. Este
deve preparar-se inclusive para mudar de profissão, várias vezes ao longo da vida.
Desta forma, as competências juntamente com a denominada “empregabilidade”
formam a ideologia da acumulação flexível fundada nos princípios e nexos organi-
zacionais do toyotismo (BATISTA; ALVES, 2009).
Para França (2009), as reformas educacionais foram implementadas no Bra-
sil com um duplo princípio, sendo voltadas tanto para os princípios da emprega-
bilidade, qualificação/treinamento/formação profissional como, também, para o
combate ao analfabetismo e a exclusão. A educação passou, dessa maneira, nos
anos de 1960 e 70, de uma tentativa de adequar-se às exigências do padrão for-
dista para, após profunda reformulação em função das crises de reprodução do
capital, à tentativa de adequar-se ao referencial de flexibilização e globalização.

A apologia à modernização tomou a educação como pedra


de toque. O empresariado brasileiro, além de suas próprias
ações na política de qualificação de seus empregados e da
ampla mobilização pela educação básica, mais do que nunca,
assumiram posição nas relações com o Estado, destacando a
educação do trabalhador como condição fundamental para a
qualidade e para a produtividade industrial. (LUCENA; FRAN-
ÇA; PALAFOX, 2009, p. 158)

O resultado dessa “operação” na educação em função da “empregabilida-


de” leva ao questionamento sobre a dimensão ontológica do próprio trabalho que,
para Marx (1980), seria o meio através do qual o homem modificaria não apenas
a sua relação com a natureza, mas a sua própria natureza humana. Visto como
consequência de uma melhor qualificação, então, o trabalho reduz-se agora ao
“economicismo do emprego”, redefinido sob a forma de empregabilidade. Com a
introdução de novas tecnologias, passa-se a exigir do trabalhador uma qualifica-
EPISTHEME

ção que proporcione a construção de competências necessárias para atuação do


profissional multifuncional, mesmo que essa qualificação não busque proporcionar
a união entre a técnica e o conhecimento da leitura crítica de mundo (SAMPAIO;
FRANÇA, 2007).

24
Como se viu, há transformações na Educação e no Trabalho que dialetica-
mente relacionam-se ao problema da reprodutividade do capital. Volta-se, desta
forma, para a questão da exclusão que, intrinsecamente, pressupõe a concepção
de democracia visualizada nas relações sociais hoje estabelecidas. Assim, se o
trabalho é condição essencial para a conquista da cidadania, como se pode equa-
cionar o problema do desemprego através da qualificação do trabalhador, se a
educação torna-se mais um instrumento de dominação e reprodução da ideologia
que mantém e perpetua os altos níveis de desigualdade social?
Mesmo ao trabalhador “qualificado”, multifuncional, politécnico, preparado
para executar tarefas que exigem um domínio técnico específico num ambiente
altamente informatizado, resta muitas vezes a saída para a informalidade, o sub-
-emprego, isto é, a precarização do trabalho. Além da falácia ideológica que rela-
ciona desemprego a qualificação, pois, muitas vezes, não se habilita o trabalhador
a participar do processo criativo, tampouco são distribuídos os louros pela sua
consecução, pelo contrário, acaba mantendo-se a estrutura de desigualdade entre
classes de forma ainda mais cruel.

5 TRABALHO E CIDADANIA
Verifica-se que as polêmicas relativas ao que o mercado de trabalho exige
da Educação e, ao mesmo tempo, o que ela oferece ao mercado de trabalho se
acirram, de forma que um dos dilemas da sociedade atual é saber o que fazer com
as pessoas que não conseguem inserir-se no mundo do trabalho, sendo obrigadas
a sobreviver de forma precária. Essa questão nos leva a pensar em qual seria a
melhor forma de tratar a Educação, no sentido de possibilitar, de fato, a construção
da cidadania, pois:
DOSSIÊ SOCIEDADE

O trabalho e a educação são elementos deste processo de


construção da cidadania capitalista. O trabalho agora, dife-
rentemente da visão grega, passa a ser visto como meio ne-
cessário para conquista da cidadania. É por meio do trabalho
que o indivíduo recebe a parcela a que tem direito nas rela-
ções sociais, o seu salário, tornando real a sua condição de
cidadão. (FRANÇA; PREVITALLI; LUCENA, 2009, p. 205).

25
Noutro sentido, não é apenas no ambiente produtivo que as novas tecnolo-
gias são inseridas, de forma que a exclusão digital também pode ser compreendi-
da quando se visualiza diferentes esferas de ação social, sendo que nem mesmo
a participação política escapa ao reino da virtualização ou da digitalização – como
quando se verifica o crescente esforço do Governo Federal para o estabelecimento
do chamado “governo eletrônico”, com desenvolvimento e consolidação vincula-
dos, no discurso oficial, à universalização da inclusão digital. Mas, como observam
Silva et al. (2005, p. 29), “[...] sem ‘cidadãos digitais’, não há governo eletrônico.”
A esse respeito, convém mencionar Lévy (1999) e Castells (2003), segundo
os quais a grande diferença da técnica informacional atual, quando comparada às
antigas mídias eletrônicas, é justamente o fato de possibilitarem uma re-significa-
ção pelos seus usuários que se transformam também em criadores, isto é, mais
do que receptores passivos. Desta forma, na cibercultura, ocorreria a transição da
lógica da distribuição (transmissão) para a lógica da comunicação (interatividade).

Isso significa modificação radical no esquema clássico da in-


formação baseado na ligação unilateral emissor-mensagem-
-receptor: a) o emissor não emite mais no sentido que se
entende habitualmente, uma mensagem fechada, oferece
um leque de elementos e possibilidades à manipulação do
receptor; b) a mensagem não é mais “emitida”, não é mais
um mundo fechado, paralisado, imutável, intocável, sagrado,
é um mundo aberto, modificável na medida em que responde
às solicitações daquele que a consulta; c) o receptor não está
mais em posição de recepção clássica, é convidado à livre
criação, e a mensagem ganha sentido sob sua intervenção.
(SILVA, 2008, p. 4-5).

Relacionando-se a possibilidade de maior participação do receptor no tocan-


te às informações que são por ele recebidas, assim como pela própria lógica de “in-
EPISTHEME

teratividade” envolvida na difusão das mídias digitais, principalmente através da


internet, ao problema da Educação e do Trabalho, não é difícil verificar a situação
de exclusão social também através de uma espécie de “exclusão digital.”

26
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nas últimas décadas, são inúmeras as transformações ocorridas no mundo
do trabalho e, em decorrência, na formação do trabalhador, isto é, na educação,
principalmente quando se tem em mente o crescente desenvolvimento tecnológi-
co, em que a tecnologia e a ciência servem aos fins do capital, através do incre-
mento tecnológico constante inclusive.
Dada a importância do acesso às mídias na “sociedade da informação”, que
assim se constitui em função do desenvolvimento dos meios de comunicação digi-
tais, pode-se verificar, através da reflexão proposta, que a construção da cidadania,
cada vez mais, parece ligar-se ao grau de participação na “sociedade da informa-
ção” que se constitui, isto é, a inclusão digital em sentido amplo, e não apenas de
domínio mecânico da técnica.
O diálogo entre qualificação e trabalho pressupõe que se considere o proble-
ma da construção da cidadania, pois também pode ser compreendido através da
inclusão social de indivíduos e grupos tradicionalmente excluídos do desenvolvi-
mento socioeconômico. Considera-se, desta forma, que o problema da inclusão
social passa igualmente pela “inclusão digital”, em que as informações recebidas
possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida do cidadão e não sirvam
apenas como argumento para a perpetuação da exploração do trabalho.
Nesse sentido, poder-se-ia falar no surgimento (ou de sua necessidade) de
uma democracia digital, que pressupõe, mais do que o acesso às mídias digitais,
a possibilidade de compreensão efetiva dessa realidade, não relacionada simples-
mente ao consumo e, principalmente, a conversão dessas técnicas em instrumen-
tos de participação e atividade política, justamente por permitirem, mesmo que
ainda precariamente, essa posição também de “emissor” do usuário.
DOSSIÊ SOCIEDADE
Trata-se, sobretudo, de uma tomada de consciência a respeito do desenvolvi-
mento e utilização dos incrementos tecnológicos, nesse contexto, principalmente
das mídias digitais, em prol de um desenvolvimento humanitário e também demo-
crático - além de que, no limite, seu domínio tem se tornado condição sine qua non
de empregabilidade e de sobrevivência, portanto, no modelo de reprodução atual
do capital.

27
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EPISTHEME

30
Pobreza Multidimensional:
abordagem das capacitações e das
necessidades humanas

Ana Márcia Rodrigues da Silva*

RESUMO
A pobreza é muito complexa para ser restrita à insuficiência de renda. Este é um problema
multidimensional que se expressa em termos de deficiência de capacitações básicas e
insatisfação de necessidades humanas. Diante disso, por meio deste trabalho, objetivou-se
estudar a pobreza na região Nordeste do Brasil considerando aspectos multidimensionais
de privação. Para tanto, primeiramente criticou-se a ótica unidimensional. Em seguida,
abordou-se a pobreza como um fenômeno multidimensional. Para operacionalizá-lo no
contexto do Nordeste brasileiro, foi realizada uma análise fatorial de correspondências
múltiplas utilizando variáveis qualitativas selecionadas da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (PNAD) do ano de 2006. Com isso, foram extraídos escores fatoriais para
o cálculo de um indicador sintético de pobreza multidimensional. Obtidos indicadores
complexos de pobreza, foram comparados com indicadores unidimensionais. Por meio da
análise empírica foi possível concluir que ao tratar a pobreza em uma única dimensão pode-
se evidentemente negligenciar a real pobreza, uma vez que os indicadores multidimensionais
não foram condizentes com os unidimensionais para o ano utilizado na análise.
Palavras-Chave: Pobreza Multidimensional. Necessidades Humanas. Capacitações.

1 INTRODUÇÃO DOSSIÊ SOCIEDADE

Com base na abordagem das capacitações e das necessidades humanas, a


pobreza é caracterizada como um fenômeno multidimensional, relacionado não
apenas às variáveis econômicas, mas, sobretudo a variáveis culturais e políticas.
Desse modo, considerações vinculadas estritamente à insuficiência de renda tor-
nam-se ineficazes para se mensurar a pobreza.

*
Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Graduada em Economia pela
Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Professora da Faculdade Cidade de Coroman-
del (FCC). Professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG). anamarciarodrigues@hotmail.com

31
Esses aspectos têm de ser alvo de políticas públicas. Para isso, a aplicação
de métodos de estimativas de indicadores é de fundamental importância. São en-
contrados avanços na literatura nacional e internacional para se tratar a pobreza
em sua abrangência multidimensional. Contudo, tal literatura ainda é recente com
poucas contribuições no contexto mundial, bem como no cenário brasileiro.
A maioria dos estudos da pobreza está ligada à abordagem que se apóia no
utilitarismo, segundo o qual a renda é a melhor representante do bem-estar. As
ideias de desenvolvimento com equidade e justiça estão pouco presentes na teoria
econômica tradicional, que privilegia, acima de tudo, o crescimento econômico.
Neste ponto, as teorias das capacitações e das necessidades humanas são
importantes por acreditarem que o desenvolvimento não se restringe ao mero
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O bem-estar das pessoas não pode
estar ligado apenas à felicidade, preferências ou escolhas. Por conseguinte, é in-
trinsecamente multidimensional e relaciona-se às aptidões dos indivíduos em ter
determinado tipo de vida. Segundo essas óticas, a pobreza é uma deficiência de
capacitações básicas ou insatisfação das necessidades humanas básicas que in-
cluem a liberdade das pessoas.
Destarte, objetivando desenvolver, aplicar e interpretar resultados de meto-
dologias de análise de indicadores de desenvolvimento para o Nordeste do Brasil,
este trabalho procurou estabelecer uma análise da pobreza através da estimação
de indicadores multidimensionais, para o conjunto da população rural e urbana,
utilizando referenciais teóricos recentes. Para tanto, utilizou-se a Pesquisa Nacio-
nal por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís-
tica (IBGE) do ano de 2006.
Dessa forma, este trabalho foi dividido em seções, a saber. Na primeira ex-
põem-se brevemente argumentos contrários a visão estritamente monetária da
pobreza em direção à abordagem multidimensional. Na segunda seção, através da
teoria das necessidades humanas básicas agregando-se a abordagem das capaci-
tações, abandona-se a visão unidimensional da pobreza. Na terceira seção é rea-
EPISTHEME

lizado o tratamento empírico destas vertentes, no contexto do Nordeste brasileiro.


Finalmente, os resultados obtidos, associados à discussão teórica apresen-
tada são utilizados para estabelecer as considerações finais. Consequentemente
poderá ser verificado se, ao tratar a pobreza em uma única dimensão, pode-se ou
não negligenciar a real pobreza.

32
2 METODOLOGIA

A realização deste trabalho baseia-se em um estudo de natureza descritiva,


fundamentando-se no uso de pesquisa do tipo descritiva qualitativa e quantitativa,
cujo propósito é obter um instantâneo preciso de alguns aspectos do ambiente
pesquisado. Além da pesquisa bibliográfica, que visa o contato direto com a bi-
bliografia já publicada sobre o tema em questão, para o alcance dos objetivos
estabelecidos, são utilizados os softwares STATA e SPSS para manipular dados se-
cundários extraídos da PNAD do ano de 2006. O universo de estudo compreende a
região Nordeste do Brasil considerando todas as unidades da federação.
Quanto a PNAD, trata-se de uma pesquisa anual por amostragem probabilísti-
ca de domicílios, realizada em todo o território nacional pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).

A PNAD é uma pesquisa anual por amostragem probabilística


de domicílios, realizada em todo o território nacional exclusi-
ve a área rural da região Norte1. A população alvo é composta
pelos domicílios e pessoas residentes em domicílios na área
de abrangência da pesquisa. A PNAD adota um plano amostral
estratificado e conglomerado com um, dois ou três estágios de
seleção dependendo do estrato (SILVA et al., 2002, p. 661).

Vale ressaltar que é uma amostra complexa que vem sendo atualizada ano
a ano. Ademais, a metodologia de estudo poderá ser melhor compreendida na
terceira seção deste trabalho. DOSSIÊ SOCIEDADE

3 A VISÃO UTILITARISTA DA POBREZA


No final do século XIX e início do século XX foi o período em que se iniciaram
os estudos científicos sobre a pobreza. Esses primeiros estudos se caracterizaram
por uma definição de pobreza associada à idéia de subsistência. O conceito de
subsistência estava baseado nas necessidades nutricionais mínimas requeridas

1
Em 2004 foi incluída a área rural da região Norte do Brasil.

33
para a manutenção da eficiência física do indivíduo ou família, dependendo da
unidade de análise adotada.
Essa visão da pobreza encontra forte respaldo na Teoria Econômica Tradi-
cional (ou Neoclássica) e é fundamentada no pensamento microeconômico utili-
tarista. De acordo com esse pensamento, “[...] a ‘utilidade’ de uma pessoa é re-
presentada por alguma medida de seu prazer ou felicidade.” (SEN, 2000, p. 77),
implicando numa noção de valor baseada somente na utilidade individual, definida
em termos subjetivos (SEN, 1990a; 2001). O indivíduo é considerado como um
consumidor cujo comportamento visa à maximização dessa utilidade, sendo que
os seus gastos em consumo refletem a utilidade que as mercadorias consumidas
geram para ele. O seu bem-estar individual é definido com base na sua função
consumo (LADERCHI, 2003) e, por extensão, o bem-estar social é a maximização
da soma das utilidades, ou a função consumo total. É dessa forma que a renda (ou
consumo) aparece como indicador exclusivo de bem-estar.
Admitir a exclusividade da renda como a mais adequada proxy de bem-estar
é ignorar outras dimensões que o influenciam. Isto é válido para o indivíduo, famí-
lia, comunidade, região ou país. A extensão dessa exclusividade para o estudo da
pobreza produz uma simplificação do debate que já não pode mais ser aceita. As
mudanças sociais, políticas e econômicas testemunhadas no decorrer do século
XX e seus efeitos para as diversas populações ao redor do mundo induzem, no
mínimo, ao questionamento sobre a aplicabilidade dessa variável como medida
única de bem-estar.
Esse questionamento atinge frontalmente a Teoria Econômica Clássica do
Bem-estar e do Crescimento Econômico, segundo a qual países pobres, subde-
senvolvidos ou em desenvolvimento deveriam buscar o crescimento econômico
– entendido como condição suficiente – para que o aumento na renda doméstica
eliminasse a pobreza interna, tão característica desses países. A realidade é que
crescimento econômico e/ou PIB per capita elevado não podem ser vistos como
meios suficientes para melhorar a vida das pessoas (SEN, 1990a).
EPISTHEME

Sen (1999) reconhece limitações de se medir o bem-estar das pessoas ex-


clusivamente pela satisfação dos desejos ou felicidade. Sobre isso, Comin et al.
(2006, p. 33) ressaltam que:

34
[...] a visão baseada na utilidade deve ser rejeitada como
uma “abordagem geral” de bem-estar, tanto nas suas ver-
sões clássica, moderna ou contemporânea. Uma abordagem
normativa “geral” exige uma base informacional mais ampla
e heterogênea para análise de bem-estar, qualidade de vida
ou arranjos sociais, considerando as coisas que as pessoas
realmente valorizam ser e fazer e, ao mesmo tempo, levando
em conta as desigualdades entre as pessoas, os direitos, as
liberdades e as atitudes adaptativas.

A visão utilitarista do bem-estar é criticada por estar vulnerável às condições


mentais e às preferências adaptativas2. Conforme Sen (1990b), esta perspectiva
subjetivista que tem sido excessivamente empregada, pode ser muito enganosa,
por não refletir corretamente a real privação de uma pessoa.

[...] Uma pessoa que teve uma vida de infortúnios, com pouquís-
simas oportunidades e quase sem esperança, pode conformar-
-se mais facilmente com as privações do que outras que foram
criadas em circunstâncias mais afortunadas e abastadas. A mé-
trica da felicidade pode, portanto, distorcer o grau de privação,
de um modo específico e tendencioso. (SEN, 1999, p. 61).

Diante disso, percebe-se que existem duas maneiras de se estudar a pobreza. A


primeira consiste em simplificá-la a uma única dimensão. Esta abordagem monetária
é também chamada de unidimensional. Outra forma é incorporar as demais dimen-
sões da pobreza chegando-se, por conseguinte, a um conceito multidimensional.
DOSSIÊ SOCIEDADE

4 POBREZA MULTIDIMENSIONAL
O enfoque multidimensional se constitui em um avanço para o pensamento
científico da pobreza justamente por ampliar a visão e as discussões sobre o as-
sunto, com consequências importantes para o planejamento, execução e sucesso
das políticas públicas.

2
Ver Sen (1980).

35
Sob esta ótica, a discussão acerca da pobreza assim como das políticas so-
ciais de combate estaria baseada na idéia de conceitos objetivos e universais. Isto
é, estudar um conjunto de critérios que impedem o indivíduo de desenvolver-se
como cidadão. Nesse sentido, duas grandes abordagens não utilitaristas se desta-
cam: a Teoria das Necessidades Humanas e a Teoria das Capacitações.

4.1 Teoria das Necessidades Humanas

A Teoria das Necessidades Humanas tem sua origem nas contribuições de


diferentes campos do pensamento acadêmico, o que resulta na diversidade de
definições. Apesar de haver uma proposta consistente no sentido de se estudar
as necessidades humanas não apenas de modo estritamente material, em sua
maioria, os estudos as identificam de maneira subjetiva e relativa, como a “inges-
tão energética alimentar” ou o “custo das necessidades básicas”, associando-as
a preferências monetárias. Neste caso, prevalece a idéia segundo a qual o seu
atendimento está somente a cargo do mercado, o que nem sempre é referente às
necessidades sociais, mas à métrica utilitarista. Uma minoria concebe as neces-
sidades básicas como um fenômeno objetivo e universal. Sendo assim, convém
destacar o papel da Nova Teoria das Necessidades Humanas.
Em contraste à teoria utilitarista, Doyal e Gough (1991) discutem o caráter
universal das necessidades humanas. Para os autores os seres humanos em to-
dos os tempos, lugares e culturas possuem necessidades comuns. Ao defender
a universalidade e a objetividade dessas necessidades para além das diferenças
culturais e históricas, pressupõe-se que, embora sua satisfação possa variar, estas
necessidades são as mesmas para todas as pessoas em toda parte.
Pereira (2006, p. 35-36) acrescenta que:

A melhoria simultânea da eficiência e da equidade social


aqui defendida contradiz a visão dominante no âmbito da
EPISTHEME

Economia do Bem-Estar, segundo a qual medidas igualitárias


destroem o incentivo ao trabalho, distorcem os mecanismos
mercantis de transmissão do bem-estar e produzem indiví-
duos irresponsáveis [...] Com base em estudos recentes [...]
defende-se a hipótese de que, pelo contrário, a discrepância

36
entre eficiência e equidade, além de causar prejuízo social,
tem sido nociva para o próprio crescimento econômico [...] O
certo, pois, é privilegiar concertações estratégicas entre efi-
ciência e equidade, o que vai redundar em otimização das
metas de satisfação de necessidades.

A pobreza aqui pode ser traduzida como a não satisfação das necessidades
humanas básicas, ou seja, o comprometimento da saúde física e da autonomia
dos indivíduos. Portanto, a satisfação otimizada das necessidades é defendida por
aqueles que acreditam que a vida dos pobres deve ser melhorada.

4.2 Teoria das Capacitações

Outra grande abordagem não utilitarista da pobreza é a Teoria das Capa-


citações. De acordo com Kuklys (2005), a década de 1980 marca o inicio das
discussões em torno das “capabilities” (capacitações) das pessoas instigadas por
Amartya Sen. Este economista explora uma vertente particular do bem-estar cor-
roborando suas vantagens em termos de habilidades dos indivíduos em realizar
valiosas ações ou alcançar adequados estados de existência (SEN, 1993). É no-
tória nesta abordagem a preocupação com a liquidação da pobreza. Isso porque,
os aspectos da pobreza limitam e aniquilam um grande número de pessoas que
vivem no mundo atual (SEN, 1997).
Segundo o autor supracitado, pobreza significa que as oportunidades mais
básicas para o desenvolvimento dos indivíduos como cidadãos lhes são negadas.
Ou seja, significa a privação de uma boa saúde, de desfrutar de uma vida criativa e
ter um padrão de vida decente, de liberdade, de dignidade, de amor próprio, entre
outras privações.
DOSSIÊ SOCIEDADE
A capacitação de um indivíduo depende de uma variedade de fatores incluin-
do características pessoais e acordos sociais. Logo, o conjunto capacitário pode
ser traduzido como a liberdade mais abarcante de um indivíduo na realização de
seu bem-estar (SEN, 1993). Além disso, a liberdade que um indivíduo desfruta
constitui em um objeto muito importante da igualdade e justiça e o permite influen-
ciar o seu próprio modo de vida (SEN, 1990b).
Sen (1990a; 1990b; 1993; 2001) ressalta que a vida é um conjunto de “doin-
gs e beings” (estados e ações). Portanto, os elementos constitutivos da existência

37
humana são as várias combinações de diferentes tipos de estados e ações, isto é,
de “functionings” (funcionamentos). Os funcionamentos referem-se às atividades
e condições do indivíduo, tais como, gozar de uma boa saúde, estar bem abrigado,
ter acesso a boa educação, entre outras (DUCLOS, 2002).
Com base nesta abordagem o conceito de pobreza, assume uma forma rela-
tiva no que tange a quais bens são considerados indispensáveis para viver em de-
terminada sociedade, mas tem um componente absoluto central no que concerne
às capacitações (DUCLOS et al., 2002). Como assinala Sen (1984b), a abordagem
da privação relativa não pode ser sozinha a base para o conceito de pobreza, pois
há um irredutível núcleo de privação absoluto nesta idéia.
Após finalizar a abordagem das capacitações comprovando que concilia es-
tas duas noções e tendo em vista que o bem-estar, nesta vertente, não está restrito
a preferências ou desejos, e ainda, que a abordagem concentra-se em privações
importantes muito além da renda, a conclusão plausível é que representa uma
relevante contribuição para a análise multidimensional. De acordo com Laderchi
et al. (2003), esta conclusão proporciona um quadro coerente para a definição de
pobreza no contexto da vida das pessoas e das liberdades que gozam, chamando
a atenção para as suas variadas causas. Por conseguinte, isto fornece maiores
opções para a formulação de políticas que a abordagem monetária.

5 MENSURAÇÃO DA POBREZA MULTIDIMENSIONAL


É importante ressaltar que as vertentes das necessidades e capacitações
juntas possibilitaram a formulação do Relatório de Desenvolvimento Humano de
1990 e também uma série de relatórios e informes subsequentes. Em adição, Alki-
re (2007) afirma que a abordagem do desenvolvimento humano surgiu em conjun-
to com uma ferramenta metodológica denominada Índice de Desenvolvimento Hu-
mano (IDH). Isto representou um avanço em relação à abordagem unidimensional,
uma vez que se trata de uma forma diferente de abordar a pobreza observando-se
EPISTHEME

três dimensões: saúde, educação e renda.


Diante do que foi ressaltado, uma forma de associar a pobreza à violação de
direitos se dá pelo estudo deste problema com abrangência multidimensional, ou
seja, através da abordagem das necessidades e das capacitações em substituição
à vertente utilitarista. Sendo assim, na sua mensuração, além da insuficiência de

38
rendimentos, devem-se levar em conta outras carências, relacionadas a condições
habitacionais, abastecimento de água, saneamento básico, grau de instrução, in-
serção no mercado de trabalho, entre outras (NEDER, 2008a).
Dentro da visão unidimensional, estudos apontam para a diminuição da po-
breza no Brasil e consequentemente para a melhora das condições de vida da
população em termos de desenvolvimento econômico e social. Apesar das evidên-
cias empíricas de diminuição de pobreza unidimensional, está evidente que as
necessidades dos seres humanos não se restringem à maximização de sua utilida-
de. Existem bens e serviços contidos nas necessidades que não estão à venda no
mercado. É com base nisso que se faz necessário o estudo da pobreza em termos
multidimensionais para que haja o melhor direcionamento das políticas públicas
no sentido de universalizar os direitos humanos.
Estima-se que a pobreza seja muito maior do que possa parecer no âmbito da
renda. Nesse sentido, diante da melhora dos indicadores unidimensionais, faz-se
necessário a investigação empírica multidimensional visando identificar em que
medida esta melhora está evidenciada em termos multidimensionais, isto é, obser-
vando-se um conjunto de critérios que estão além da renda. Dessa forma, preten-
de-se identificar se a pobreza multidimensional constitui-se em um problema na
região Nordeste do Brasil, mesmo com a melhora na renda já ressaltada. Ademais
este estudo pretende identificar o ranking das unidades da federação em temos da
pobreza multidimensional. Por fim, os resultados serão direcionados para a formu-
lação de políticas sociais de combate ao tipo de pobreza aqui discutido.
Vale enfatizar que se trata de uma literatura ainda recente no contexto da
pobreza, mas que pode significar o ponto de partida para a ruptura do debate
liderado pelo Banco Mundial em torno desta questão. Ou seja, se a pobreza não
se restringe a renda, então, as políticas públicas devem levar em consideração um
DOSSIÊ SOCIEDADE
conjunto de critérios que limitam o bem-estar e o desenvolvimento dos seres hu-
manos. A utilidade medida pela renda, logo, passa a representar apenas uma das
muitas dimensões que devem ser incorporadas ao conceito de pobreza.

5.1 Escolha das dimensões e indicadores primários

Para mensurar a pobreza em termos da insatisfação de necessidades huma-


nas ou deficiência de capacitações básicas, é necessário formular um indicador

39
que seja capaz de mensurar um conjunto de critérios que impedem os indivíduos
de desenvolverem-se como cidadãos. Deste modo, será calculado um indicador
composto de pobreza.
De acordo com Asselin (2002) um indicador composto é definido por múl-
tiplos indicadores qualitativos de pobreza a partir de um conjunto de categorias
que representam para diferentes unidades da população. Para calculá-lo primei-
ramente devem ser escolhidos alguns indicadores primários (variáveis básicas)
e que se refiram à condição de pobreza. Estes indicadores precisam representar
dimensões como liberdade, segurança alimentar, saúde entre outras, considera-
das relevantes.
Como na prática há uma tendência em se medir funcionamentos, em vez
de capacitações, haja vista a impossibilidade da mensuração dessas últimas, as
variáveis estabelecidas representam funcionamentos e também, na interpretação
estabelecida neste trabalho, representam necessidades básicas ou requerimentos
específicos (na visão de Doyal e Gough, 1991).
Os indicadores primários efetivamente utilizados na análise foram: Material
das paredes do domicílio (matpar); Material do telhado do domicílio (mattel); Forma
de iluminação do domicílio (ilumina); Indicador de condição de domicílio (dcond);
Número médio de pessoas por cômodo no domicílio (pessporc); Forma de escoa-
douro do banheiro ou sanitário (escoad); Destino do lixo domiciliar (lixo); Condição
de abastecimento de água do domicílio (dagua); Condições sanitárias do domicílio
(dbanh); Número médio de anos de estudo no domicílio (anosestm); Proporção de
alfabetizados no domicílio (palfa); Proporção de crianças do domicílio na escola
(pcriesc); Taxa de pessoas ocupadas em trabalho precário no domicílio (tprecari);
Razão de dependência no domicílio (rdepen); Pobre unidimensional (pobreuni).
Esses indicadores estão baseados nas seis dimensões a seguir: característi-
cas domiciliares; condições sanitárias; educação; condições de trabalho; razão de
dependência; pobreza monetária.
EPISTHEME

5.2 Análise fatorial de correspondências múltiplas

Após a escolha das variáveis foi realizada a análise de fatorial de correspon-


dências múltiplas. Assim, foram estimados indicadores compostos de múltiplos

40
indicadores preliminares (dimensões) de pobreza. Segundo Asselin (2002), a aná-
lise de correspondências é parte da abordagem da inércia3 e significa um método
não-paramétrico para o cálculo de indicadores compostos.
Conforme Clausen (1988), a análise de correspondências pode ser entendida
como um caso particular de análise de correlação canônica. Esta última analisa a
relação entre dois conjuntos de variáveis contínuas, enquanto a primeira analisa a
relação entre as categorias de variáveis discretas. Da análise de correspondências
foram extraídos escores fatoriais.

5.3 Resultados da análise fatorial de correspondências múltiplas

Na análise fatorial de correspondências múltiplas para o ano de 2006, foram


utilizados 21.846.180 casos válidos, 29.866.892 casos com missing totalizando
51.713.072 casos na análise, o que corresponde à população nordestina expandi-
da a partir da amostra. A análise foi feita em dois eixos fatoriais com uma inércia
total de 0,411. O primeiro fator com uma inércia de 0,235 explicou 57,18% dos ca-
sos. Por sua vez, o segundo fator com uma inércia de 0,176 respondeu por 42,82%
da variabilidade dos casos.
Apesar dos indicadores primários originais serem orientados em ordem cres-
cente com o decréscimo da privação, o primeiro fator vai de valores que represen-
tam menor pobreza multidimensional para valores que indicam maior situação de
pobreza. No entanto, isso não implica em inconsistência do eixo, tendo em vista
que, todas as variáveis se comportaram da mesma forma. Os escores extraídos
da análise fatorial de correspondências múltiplas do primeiro fator, para o ano de
2006, podem ser interpretados de maneira que quanto mais elevados mais pobre
será a pessoa, no sentido multidimensional. É importante notar que o primeiro eixo
fatorial está orientado no mesmo sentido da pobreza monetária.
DOSSIÊ SOCIEDADE

As medidas de discriminação das variáveis em relação aos fatores possibi-


litaram a interpretação dos eixos. Na Tabela 1 são apresentadas essas medidas.
Observou-se que as variáveis mais discriminadas pelo Fator 1 foram: pobreuni,
rdepen, anosestm e palfa. Isto sugere que representa em maior extensão as di-
mensões: pobreza monetária, razão de dependência e educação. Além disso, o
primeiro fator discriminou, melhor que o segundo, as condições domiciliares. Por

3
Ver Asselin (2002).

41
outro lado, pode-se concluir que o Fator 2 representa as condições de trabalho,
visto que discriminou fortemente o indicador primário tprecari.

Tabela 1- Medidas de discriminação


Variável Peso da variável 2006

Fator

1 2

matpar 12 0,086 0,010

mattel 12 0,037 0,007

escoad 15 0,060 0,007

lixo 15 0,074 0,025

ilumina 12 0,057 0,033

pobreuni 60 0,552 0,005

dcond 12 0,012 0,002

dagua 15 0,156 0,043

dbanh 15 0,152 0,047

anosestm 20 0,353 0,047

palfa 20 0,187 0,003

pcriesc 20 0,081 0,003

tprecari 60 0,066 0,891

rdepen 60 0,415 0,099

pessporc 12 0,104 0,000

Total Ativo* 84,591 63,195

*Os pesos das variáveis são incorporados no total ativo.


Fonte: Elaboração própria através do programa SPSS com base nos dados das PNADs.
EPISTHEME

Os dados desta tabela, são representados pelo Gráfico 1. Neste gráfico as vari-
áveis são representadas por vetores que ligam a origem do sistema de eixos a pontos
no primeiro quadrante. A projeção dos vetores sobre os eixos ortogonais confirmam a
medida de discriminação da variável em relação ao fator (NEDER, 2008a).

42
Gráfico 1 - Medidas de discriminação
Fonte: Elaboração própria através do programa SPSS com base nos dados da PNAD.

Diante do que foi apresentado, o Fator 1, por discriminar um grande número


de variáveis, bem como, por ter elevada inércia, representará o indicador de pobre-
za multidimensional.

5.4 Cálculo do indicador composto

Para computar o indicador composto é relevante o perfil da unidade da po-


DOSSIÊ SOCIEDADE
pulação para os indicadores primários. Este perfil é traçado pela média dos pesos
das categorias. Os pesos das categorias são os escores normalizados desses in-
dicadores no eixo fatorial proveniente da análise de correspondências múltiplas
que foi eleito como representante da pobreza. Então, os pesos são simplesmente
a média dos escores normalizados por unidade da população pertencente a uma
categoria específica:

43
onde: Wα,k é a média dos escores não-normalizados de uma dada categoria
no eixo α;λα é o autovalor do eixo α.
Os pesos das categorias obtidos das coordenadas do centróide das catego-
rias, isto é, do escore para aquela categoria, dividido pelo autovalor do eixo fatorial
eleito, é multiplicado por 1000 para simplificação numérica.
Diante disso, o valor do indicador composto Cu para alguma unidade da popu-
lação u é obtido da seguinte forma:

, em que: K é o número de indicadores ca-


tegóricos; Jk é o número de categorias para
o indicador k ; Wkjk é o peso da categoria (normalizado do escore do primeiro eixo)
jk ; Ikjk é a variável binária 0/1, que possui valor 1 quanto a unidade u tem a cate-
goria jk.
O indicador composto C é uma variável numérica que mensura o nível de
bem-estar multidimensional e pode ser usada como ferramenta de análise assim
como ocorre com os indicadores monetários. Apesar do indicador composto pos-
suir valores negativos, ele pode ser facilmente transformado em positivo usando o
valor absoluto médio da categoria de menor peso:

, onde: Wkmin é o peso da categoria de peso mínimo.

Deste modo, para que os valores assumidos pelo indicador tornem-se positi-
vos, foi necessário adicionar o valor absoluto dessa média para o escore de cada
unidade da população. Assim, obteve-se um novo escore positivo denominado C*.
Com o indicador composto positivo foi possível computar índices de pobreza.

5.4.1 Cálculo da linha de pobreza

Semelhantemente às demais abordagens, é necessário estabelecer um nível


de corte para diferenciar pobres de não-pobres. Sendo assim, para ser condizente
EPISTHEME

com a vertente aqui defendida, será aplicada neste trabalho uma linha de pobreza
absoluta. Para tanto, será fixado em cada indicador categórico uma categoria espe-
cífica tomada como nível de pobreza para este indicador, sendo Wkpov o peso desta
categoria. Há tantos níveis de pobreza quanto há indicadores primários integrados
no indicador composto.

44
Como os indicadores primários foram definidos com valores crescentes no
sentido da maior para a menor privação, então, uma condição necessária e su-
ficiente para um indivíduo ser pobre é que a média do escore da unidade da po-
pulação sobre os indicadores primários seja menor que o valor máximo de Wkpov.
Sendo Wkpov os pesos das categorias de referência, a linha de pobreza estabelecida
constitui-se no valor máximo assumido por este peso acrescentado o valor de C*,
ou seja, somado o valor absoluto do escore extraído da análise fatorial de corres-
pondências múltiplas. Uma vez escolhido o valor máximo entre os pesos das cate-
gorias de referência, significa que se um indivíduo está privado neste nível, muito
provavelmente, estará privado quanto as categorias anteriores a essa.

5.4.2 Estimativa dos índices de pobreza

Conhecida a linha de pobreza multidimensional foram calculados indicadores


de pobreza para o Nordeste Brasil. Assim como em Neder (2008b), os índices de
pobreza multidimensional foram mensurados conforme o método adotado nos ín-
dices de Foster, Greer e Thorbecke (FGT)4 . Seguindo o raciocínio de Asselin (2002),
uma vez estabelecida a linha de pobreza, todos os indicadores de pobreza monetá-
rios tornam-se avaliáveis em termos do indicador multidimensional C*.
Objetivando-se estabelecer avaliações comparativas entre alguns aspectos
da pobreza unidimensional e multidimensional, foram estimados dois índices: um
índice baseado na insuficiência monetária através das linhas de pobreza basea-
das em cestas de consumo5; e um índice de pobreza multidimensional aplicado à
fórmula do índice FGT(0) baseado na linha de pobreza multidimensional absoluta
extraída da análise fatorial de correspondências múltiplas.
DOSSIÊ SOCIEDADE
5.5 Resultados dos cálculos de índices de pobreza multidimensional

Com foi visto, se certas necessidades fundamentais não forem atendidas,


não ocorrerá o desenvolvimento de uma vida humana digna. Isto impede ou coloca
em risco a possibilidade objetiva dos seres humanos viverem física e socialmente.
O indicador de pobreza multidimensional aqui proposto abrange outras dimensões

4
Ver Neder (2008b).
5
Ver Rocha (2003).

45
além da monetária e que devem ser alvo de políticas públicas. Afinal, não existe
um mecanismo automático que resulta na liquidação da pobreza. Além disso, a
abordagem das capacitações (e das necessidades humanas básicas) demonstra
que os índices de pobreza baseados apenas na insuficiência de renda, por si só,
são ineficazes para identificar as populações pobres.

Ao traduzir estas abordagens para um quadro empírico, foram encontrados


os seguintes resultados, apresentados na Tabela 2.

Tabela 2 - Índices de pobreza (FGT(0)) para o Nordeste do Brasil – 2006

2006
Unidade da
Pobreza multidimensional
Federação Ranking
(%)
MA 57,48 9
PI 51,55 7
CE 48,98 5
RN 38,87 1
PB 42,32 3
PE 51,03 6
AL 51,74 8
SE 40,43 2
BA 45,36 4
Fonte: Elaboração própria através do programa STATA com base nos dados da PNAD.

Para calcular os indicadores multidimensionais de pobreza, apesar de ter


ocorrido consistência ordenada do primeiro eixo, foi necessário inverter o ordena-
mento do eixo fatorial. Assim, todos os indicadores foram classificados em ordem
crescente com o decréscimo da privação.
O FGT(0) para o Nordeste como um todo indicou uma pobreza multidimen-
sional estimada em 48,28% enquanto a pobreza unidimensional foi estimada em
EPISTHEME

40,80%. Na operação de retorno aos dados, verificou-se que a proporção de pesso-


as privadas diminuiu, mas alguns indicadores primários diminuíram seus escores
médios na contribuição para a pobreza total, como pcriesc e tprecari. Isto significa
uma piora da situação de privação captada por eles. Os estados identificados com
maior situação de privação em relação às dimensões consideradas foram Mara-

46
nhão (57,48%), Alagoas (51,74%) e Piauí (51,55%). As menores privações foram
observadas no Rio Grande do Norte (38,87%).
Estes números sugerem que a pobreza unidimensional é menor que a pobre-
za multidimensional. Isto pode ser evidenciado no Gráfico 2

Gráfico 2 - Índices de pobreza para o Nordeste do Brasil – 2006


Fonte: Elaboração própria através do programa STATA com base nos dados da PNAD.

Um primeiro passo para a resolução deste problema poderia ser o desloca-


mento do foco utilitarista, e então entender o bem-estar no sentido proposto pela
abordagem das capacitações e das necessidades humanas básicas. Mas isto não
basta. É necessário haver o abandono da ideia de mínimos sociais imposta pelo
ideário neoliberal e o consentimento das políticas sociais como instrumentos de
construção da cidadania.
DOSSIÊ SOCIEDADE

Ao verificar se o ordenamento dos estados se diverge quanto aos dois indica-


dores, foi plotado um diagrama de dispersão. O diagrama de dispersão apresen-
tado pelo Gráfico 3 apresenta certo alinhamento. Neste caso verifica-se que as
medidas pobreza monetária e multidimensional não divergem muito para o ano de
2006, ou seja, podem conduzir a resultados semelhantes. Apesar de prosseguir
com o comportamento linear, os estados de Pernambuco, Maranhão e Piauí estão
mais dispersos dos demais (Gráfico 3), evidenciando maiores diferenças quanto ao
ranking entre os dois indicadores.

47
Gráfico 3 - Diagrama de dispersão para Índices de pobreza para o Nordeste do
Brasil – 2006
Fonte: Elaboração própria através do programa STATA com base nos dados da PNAD.

Ademais, cabe ressaltar que a pobreza multidimensional (proporção de po-


bres) chegou a 41,08% nas regiões metropolitanas. Nos municípios autorepresen-
tativos foi estimada em 33,97% e nos não autorepresentativos em 54,65 %. Nas
áreas rurais a proporção de pobres foi 58,98% e nas áreas urbanas 44,01%.
A proximidade do indicador para as áreas rurais e municípios não autorepre-
sentativos pode ser explicada pelo fato que nestes municípios, é muito elevada a
proporção de domicílios rurais – em algumas estratégias de desenvolvimento que
incluem a formação de territórios rurais deprimidos – como os elaborados pelo
Ministério do Desenvolvimento Agrário – estes municípios são considerados como
municípios rurais.
Especialmente no que diz respeito ao combate à pobreza e desigualdade uni-
EPISTHEME

dimensionais, observa-se que, até metade da década, o aumento do gasto social foi
um dos aspectos relevantes para a redução da pobreza. Porém, em um segundo mo-
mento, o gasto não foi o bastante para diminuir a pobreza e a desigualdade. Apesar
disso, este gasto foi um dos elementos que evitou o aumento da pobreza monetária.

48
O governo federal concentrou seus esforços na cobertura da ascendente de-
manda previdenciária da população, no atendimento das necessidades do merca-
do de trabalho, assim como, na oferta de serviços como assistência social e sanea-
mento, destinados aos indivíduos de baixa renda. Todavia, os gastos em educação
e saúde tiveram ínfimo crescimento.
Como as necessidades sociais vão além da renda, as políticas sociais devem
ser destinadas a expandir as liberdades individuais, e então, propiciar a melhora
das condições de vida das pessoas. Sendo assim, abrem-se possibilidades para
que haja a instauração de um sistema em que as necessidades do capital não
estejam sempre em primeiro lugar. Este seria um Capitalismo devidamente regu-
lamentado que possibilite aos cidadãos o desenvolvimento e a expansão de suas
capacitações básicas e o consequente abandono da condição de pobreza. Uma
vez que a provisão social proporciona ao indivíduo a capacidade de agência e a
criticidade, destaca-se a relevância das políticas sociais para que os indivíduos
tenham as suas necessidades satisfeitas.
Como alguns indivíduos precisam de mais funcionamentos que outros para
atingir os mesmos resultados, estes aspectos devem ser alvo de políticas. Deste
modo, é possível concluir que se para as políticas sociais combaterem a pobre-
za monetária necessitaria um maior volume de recursos, para atender a pobreza
multidimensional, demandaria um volume ainda maior, tendo em vista que, esta
última envolve aspectos muito mais complexos que a primeira.
Em uma visão mais ampla, os resultados encontrados apontam para diver-
gências entre os indicadores unidimensionais e multidimensionais, sendo que es-
tes últimos ultrapassam os primeiros. Isto corrobora o principal argumento das
abordagens das necessidades básicas e capacitações, isto é, a pobreza é muito
complexa para ser reduzida a uma única dimensão e, portanto, as políticas de
DOSSIÊ SOCIEDADE
combate devem ser articuladas e voltadas para esta complexidade.
A pobreza pode ser mais intensa e mais complexa do que pode parecer no
âmbito da renda. Apesar do indicador proposto não incluir outras dimensões rele-
vantes em virtude da dificuldade de mensuração e também por conta da disponi-
bilidade de variáveis na base de dados, pode ser considerado um avanço, porque
abrange dimensões essenciais para caracterizar a condição de pobreza, que vão
além da abordagem monetária.

49
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho, tratou-se o conceito de pobreza no sentido multidimensional.
Para tanto, baseou-se na abordagem teórica necessidades humanas básicas e das
capacitações pelas quais a pobreza não está restrita à insuficiência de renda, e
inclui diversos tipos de privações da vida humana. De acordo com essas abor-
dagens, essas privações devem ser alvo de políticas públicas, objetivando, entre
outros enfoques, livrar o indivíduo da condição de pobreza.
Essas abordagens deixam margem para o estabelecimento de dimensões
essenciais de acordo com a análise estabelecida. Além disso, observa-se que, em-
piricamente, as diferenças entre ambas tornam-se ínfimas, o que possibilita a reu-
nião das duas vertentes. Sendo assim, elas foram utilizadas neste trabalho para se
estabelecer um conceito multidimensional de pobreza relacionado insatisfação de
necessidades humanas básicas ou a carência de capacitações básicas.
Diante da impossibilidade de se mensurar outras dimensões de grande impor-
tância na representação das capacitações básicas e das necessidades humanas,
foram utilizadas as seguintes dimensões: características domiciliares; condições
sanitárias; educação; condições de trabalho; razão de dependência; e pobreza mo-
netária. Nesse sentido, foi feito um estudo da pobreza multidimensional na região
Nordeste do Brasil e, para tanto, utilizou-se PNAD para o ano de 2006, seguindo a
metodologia empregada por Asselin (2002).
Para construir um indicador de pobreza multidimensional em substituição à
renda, foi realizada uma análise fatorial de correspondências múltiplas de onde
obteve-se escores fatoriais que foram aproveitados para as estimativas dos índi-
ces. Foi eleito o primeiro fator extraído, como melhor representante da pobreza
multidimensional, por estar relacionado com a maioria das variáveis e por possuir
uma inércia mais elevada. Com isso, foram elaboradas linhas de pobreza multidi-
mensional absolutas, estabelecendo um valor de corte para a pobreza.
Por meio deste estudo empírico, foi possível concluir que, ao comparar o índice
EPISTHEME

baseado na pobreza monetária com o indicador multidimensional, esta última é mui-


to mais elevada que a primeira. Os estados em maior situação de privação em temos
multidimensionais foram nesta ordem: Maranhão, Alagoas e Piauí. A menor pobreza
multidimensional foi observada no Rio Grande do Norte. Em todas as unidades da
federação a pobreza multidimensional foi mais elevada que a unidimensional.

50
As maiores diferenças entre os indicadores unidimensional e multidimensio-
nal foram em Pernambuco que, segundo a medida monetária, era o estado com
maior proporção de pobres em 2006 (e de acordo com a pobreza multidimensio-
nal, posicionava-se em melhor situação), e no Piauí, que segundo essa mesma
medida, encontrava-se em melhor posição que a observada através do indicador
multidimensional.
Diante destes resultados, é possível corroborar que a pobreza é mais com-
plexa do que parece no âmbito da renda e, além disso, que a abordagem multidi-
mensional pode conduzir a resultados significativamente diferentes da abordagem
unidimensional em termos de ranking dos estados da região Nordeste do Brasil.
Sendo assim, ao contrário do que prega a visão econômica dominante no
âmbito das políticas sociais, deve haver o direcionamento do enfoque para a ex-
pansão das capacitações das pessoas, assim como para a satisfação das suas
necessidades, privilegiando a provisão de bens públicos.
Há evidências de que a renda é limitada e inapropriada como indicador de
bem-estar, pois não representa, em grau adequado, as dimensões chaves da vida
humana e que muitas vezes não estão disponíveis no mercado. Então, verifica-se
que, se para as políticas sociais combaterem a pobreza monetária necessitaria um
maior volume de recursos que o atual, para liquidar a pobreza multidimensional,
demandaria um volume ainda mais elevado tendo em vista que esta última é mais
complexa que a primeira, como foi observado na análise.

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DOSSIÊ SOCIEDADE

53
Abertura de Fronts Agropecuários
e Problemas Urbanos na Amazônia
Legal

Hidelberto de Sousa Ribeiro*

RESUMO
O objetivo deste artigo é mostrar que a expansão do agronegócio, com base na formação
de novos fronts agropecuários, na região do Araguaia, vem provocando transformações
estruturais e socioeconômicas na cidade de Barra do Garças-MT. O problema que se coloca
é o seguinte: Por que a criação de novos fronts agrícolas e pecuários na Amazônica Legal,
pelo capital, particularmente no Estado de Mato Grosso, ao mesmo tempo em que leva à
expulsão das populações rurais e indígenas, gera, por um lado, um pequeno número de
cidades com padrão de primeiro mundo e, de outro, cria um grande número de cidades
sem qualquer infraestrutura o que vem acompanhado de todos os tipos de problemas?
Para responder a esse problema analisou-se dados referentes aos dez últimos anos, ficando
evidente que a criação de fronts agropecuários na região do Araguaia impactam de forma
direta na estrutura da cidade Barra do Garças e cidades circunvizinhas, gerando um sem-
número de problemas. A metodologia utilizada foi a quali-quantitativa por meio da qual
se buscou dar ênfase à pesquisa de campo no sentido de entender a realidade in loco.
Para isso, fizemos uso de imagens de satélite, mapas, entre outros. Em relação ao aspecto
quantitativo a atenção se voltou para a análise de dados fornecidos por institutos de
pesquisa, como o IBGE, a Comissão Pastoral da Terra, os sindicatos rurais de trabalhadores
e patronais, o Clube de Diretores Lojistas, as Secretarias de Agricultura, de Saúde e de
Educação. DOSSIÊ SOCIEDADE
Palavras-chave: Fronteira. Agronegócio. Infraestrutura. Violência.

*
Pós-Doutor em Geopolítica pela UNICAMP. Doutor em Sociologia pela UNESP/Araraquara. Mestre em
Geografia/ USP. Prof. de Sociologia e Geografia, no Campus Universitário do Araguaia- UFMT. E-mail:
hidelber@ufmt.br

55
CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O objetivo deste artigo é mostrar que a abertura de novos fronts agropecuá-


rios e a expansão do agronegócio na região do Araguaia vem provocando transfor-
mações estruturais e socioeconômicas na cidade de Barra do Garças-MT, sendo
que a existente é insuficiente para solucionar todos os problemas decorrentes do
processo migratório e do inchaço urbano.
Inicialmente, discute-se o avanço do capital na Amazônia Legal, a fim de mos-
trar como vários espaços que fazem parte dessa região foram e estão sendo terri-
torializados por grupos estrangeiros, principalmente por aqueles que controlam a
cadeia produtiva de commodities agrícolas, em particular, a da soja, a do gado e,
recentemente, a da cana-de-açúcar.
A partir de dados referentes a última década, fica evidente que a criação de
fronts agropecuários na região do Araguaia impacta de forma direta na estrutura
da cidade Barra do Garças e cidades circunvizinhas, gerando um sem-número sem
número de problemas como: aumento do número de desempregados, crescimento
da população escolar e carcerária, falta de crescimento industrial, falta de leitos
hospitalares, falta de moradia, entre outros.
Por meio da metodologia quali-quantitativa buscamos reproduzir aquilo que
vimos quando em pesquisa de campo, momento em que, in loco, observamos mui-
tos problemas que fazem parte de cidades do Baixo e Médio Araguaia. Durante
dois anos percorremos cidades, como Torixoréu, Água Boa, Ribeirão Cascalheira,
Cana Brava do Norte, Porto Alegre do Norte e Confresa, além do vilarejo de Posto
da Mata.
A partir de informações colhidas durante as idas a campo, somadas às leitu-
ras de autores que trabalham com questões que envolvem a Amazônia, e da aná-
lise de imagens de satélite, mapas, entre outros recursos, procuramos sustentar
nossa hipótese, ou seja, que embora fossem criados vários municípios nas regiões
do Baixo e Médio Araguaia, a maioria deles foi gestado para atender interesses de
EPISTHEME

empresários ligados ao agronegócio, o que faz com que seus moradores fiquem
sem qualquer proteção social, por isso, sofrendo todos os tipos de problemas. Em
relação ao aspecto quantitativo, nossa atenção esteve voltada para a análise de
dados fornecidos por institutos de pesquisa, como IBGE, Comissão Pastoral da

56
Terra, sindicatos rurais de trabalhadores e patronais, Clube de Diretores Lojistas,
Secretarias de Agricultura, Saúde e Educação.
Nesse movimento de expansão da fronteira amazônica, o que mais chama
atenção é o descaso das autoridades para com a vida de milhares de brasileiros,
que, uma vez esquecidos pelo Estado, tornam-se frágeis diante do capital; por isso,
sujeitos à expulsão de suas posses, à mercê da violência por parte de grileiros,
especuladores de terras, madeireiros, fazendeiros e empresários do agronegócio.
Para Bertha Becker (2007) são vários os atores que buscam usufruir desse
processo. Na linha de frente está o capital globalizado, principalmente o das gran-
des corporações que negociam commodities agrícolas; seguido por madeireiros,
especuladores de terras, grileiros e ONGs.
A avidez por parte dessas corporações e desses outros atores por terras ama-
zônicas se explica pelo fato de que essa fronteira está se fechando, isto é, acaban-
do. Daí, o aumento da grilagem de terras, da violência e do desmatamento, em
áreas, como o sul do Pará, nordeste de Mato Grosso, norte do Tocantins, oeste do
Maranhão e sul do Piauí.
Por outro lado, esse movimento provoca a criação de novos municípios e toda
uma infra-estrutura em termos de logística de transporte, com o propósito de esco-
ar a produção de grãos, de forma mais barata, o que só pode ser conseguido pelo
“encurtamento” da distância entre os locais de produção e de consumo, no caso,
entre os portos brasileiros localizados nas regiões norte e nordeste e a Europa e
os EUA. Por isso, não é sem justificativa que tradings, como a Bungue Alimentos,
instalaram sua sede em Santana do Araguaia; a CARGILL, no oeste do Pará, com
sede em Santarém; o GRUPO MAGGI, mesmo atuando de forma mais intensa em
Mato Grosso, procura se instalar em Miritituba-PA, e, ainda, pavimentar a Rodovia
Santarém-Cuiabá, tudo isso para que a produção da soja produzida em Mato Gros-
DOSSIÊ SOCIEDADE
so, seja embarcada no Porto de Miritituba, daí seguindo para Macapá para depois
ir para a Europa. (RIBEIRO, 2008).
A estratégia da Bungue de se instalar no município de Santana do Araguaia
está relacionada à implantação do polo produtor de soja no sul do Pará. Situação
explicada pela localização estratégica dessa região, considerada como um novo
corredor de escoamento da soja produzida no Mato Grosso. A safra sai pelo Porto
Franco, no Maranhão, que conta com a infraestrutura da Companhia Vale do Rio
Doce. Importa dizer que alguns fatores contribuem para o processo de ocupação

57
das terras dessa região por produtores de soja. O primeiro diz respeito à facilidade
de escoamento; o segundo, porque essas terras são de cerrado, o que facilita seu
desmatamento e, finalmente, por serem ocupadas pela agricultura camponesa,
cujos “donos”, uma vez não possuindo títulos de propriedade, acabam sendo ex-
pulsos pelos grileiros.
Com isso a produção de soja de Mato Grosso, que tradicionalmente tem saído
pelos portos do sul do País, terá seus custos menores uma vez que o percurso será
reduzido em mais ou menos 1.200 quilômetros, se transportada via Porto Fran-
co, no Maranhão. Para que isso seja viabilizado, a Rodovia Estadual PA -150 foi
transformada em Rodovia BR – 158, no trecho Santana do Araguaia – Redenção,
o que possibilitou negociações entre a Cia. Vale do Rio Doce e o Governo Federal.
A recuperação de pontes e asfaltamento dessa rodovia federal, por meio de Parce-
ria Pública Privada, levou também à criação de um entreposto próximo à Ferrovia
Carajás, no município de Marabá.
Para Bertha Becker (2003) isso significa o “fechamento” da fronteira aos pe-
quenos produtores o qual vem acompanhado de uma intensa migração, ao mesmo
tempo em que torna as cidades das regiões de fronteira extremamente urbanas,
de forma que, em 1960, as áreas da região Norte que detinham 37,4% de sua po-
pulação, chegam em 1991 com 59%. O crescimento absoluto da população dessa
região, entre 1980 e 1991, foi de 3,4 milhões de pessoas, sendo que 2,6 milhões
ocorreram nas áreas urbanas.
É nessa perspectiva, que o Relatório do Governo Federal, denominado “Cená-
rios Macroeconômicos – Análise Retrospectiva e Diagnóstico” mostra que, no perí-
odo 1970 a 2005, a população da Amazônia triplicou. Para se ter uma ideia do que
aconteceu nessa região, no transcorrer da década de 70, de uma população salta
de 7,7 milhões saltou para 11,8 milhões de habitantes, mostrando que, nos 20
anos seguintes, praticamente dobrou, alcançando os 21 milhões, em 2000. Atual-
mente, já atinge o patamar dos 23 milhões de habitantes, representando 12,4%
da população brasileira, com a peculiaridade de que mais de 80% dela concentra-
EPISTHEME

-se em quatro estados: Pará, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso.


Cidades e municípios das regiões da Amazônia Legal surgem e são ordena-
dos para atenderem os interesses das classes hegemônicas locais e nacionais, de-
marcando um processo de territorialização do capital, cuja marca é a segregação
étnica, técnica e econômica, tendo, de um lado, aqueles que entendem pertencer

58
à “raça branca” 1 e, de outro, a classe dos pobres, constituída pelos “desqualifica-
dos”, técnica e financeiramente, isto é, constituída por índios e mestiços.
Nesse contexto, a criação de novos municípios significa uma base de logística
para poucos empresários do agronegócio que têm tem o Estado como parceiro
privilegiado, já que ele é o grande responsável pela implementação de toda uma
tecnosfera responsável pela circulação de riquezas. No entanto, essa tecnosfera
gera enormes contradições pelo fato de fazer aparecer uma psicosfera social que
se expressa na pobreza e na exclusão social.
De acordo com Santos (2002, 1994, 1993), a tecnosfera deve ser enten-
dida como a constituição de uma base técnico-científica destinada à circulação
de riquezas, como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, silos, depósitos, vias de
telecomunicações, além da contratação de pesquisadores e pessoal técnico. Em
se tratando de psicosfera, esta está associada a problemas psicossociais provo-
cados pela tecnosfera que, ao modernizar as terras de fronteira, força a migração
e a criação de cidades, cujas marcas são a exclusão socioeconômica, a falta de
infra-estrutura, em termos de saneamento básico, atendimento à saúde e a falta
de moradia, questões que são mais sentidas pelas classes mais pobres.
De acordo com isso o problema que se coloca é o seguinte: Por que a cria-
ção de novos fronts agrícolas e pecuários na Amazônica Legal, pelo capital, parti-
cularmente no Estado de Mato Grosso, ao mesmo tempo em que, leva à expulsão
das populações rurais e indígenas, gera, de um lado, um pequeno número de cida-
des com padrão de primeiro mundo, de outro, gesta um grande número de cidades
sem qualquer infraestrutura, fato que contribui para o aparecimento de todos os
tipos de problemas, socioeconômicos, políticos, de saúde, linguísticos e culturais?
Desta feita o objetivo que se colocou para nós foi o de mostrar que a abertura
de formação de novos fronts agropecuários e a expansão do agronegócio na re-
DOSSIÊ SOCIEDADE
gião do Araguaia vem provocando transformações estruturais e socioeconômicas
na cidade de Barra do Garças-MT e no seu entorno é dizer que a estrutura exis-
tente é insuficiente para dar conta de solucionar todos os problemas decorrentes
do processo migratório e do inchaço urbano; que criação de fronts agropecuários
na região do Araguaia impactam de forma direta na estrutura da cidade Barra
do Garças. O Município de Barra do Garças possui uma área de 9134,8 Km², e

1
Remediados, os brancos do Sul, que ficaram ricos ou acham que são ricos.

59
está situado nas coordenadas 15°89’00” Sul e 52°25’66” Oeste; emancipado em
15/09/1948, possui uma população de acordo com o Censo de 2007, do IBGE, de
52.797. (Localização conforme mapa a seguir).

Figura 1 – Mapa de Mato Grosso: organização cartográfica.


Por Marcel Esteves e Wagner Camargo

RESULTADOS E DISCUSSÃO
EPISTHEME

Por expansão de fronteira agrícola entende-se o processo de ocupação de es-


paços ainda não ocupados pelo capital, ou seja, aqueles espaços que aos poucos
vão sendo apropriados pelo capital. Em outros dizeres, a expansão dessa fronteira
está fundada na implantação de medidas voltadas à modernização da agricultura,
nas zonas de antiga ocupação em que, de um lado, se incentiva à produção agríco-

60
la em grande escala e à prática da monocultura para o mercado de exportação e,
de outro, visa-se à sujeição do trabalho ao capital.
Esse processo resulta em acirradas lutas pela permanência no lugar, redun-
dando numa intervenção estatal que, embora fosse para resolver questões rela-
cionadas à posse da terra e ao trabalho, acaba desencadeando e um legislação e
um processo repressivo, com vistas a facilitar e, ao mesmo tempo, agilizar a expro-
priação e expulsão dos antigos donos. No fundo, desencadeia-se uma dinâmica de
acumulação primitiva sob a “égide do Estado”, fato que para segundo Machado
(1982) trata-se:

[...] de uma verdadeira ação Geopolítica no sentido moder-


no que deve ser entendida como um conjunto de políticas e
ações do Estado que, ao serem concretizadas materialmen-
te num determinado momento, possibilita a manipulação do
espaço nacional no sentido de adequá-lo aos interesses dos
grupos hegemônicos, incluindo nesses grupos os tecnocratas
a serviço do Estado (MACHADO, 1982, p. 03).

Segundo Ianni (1986), o “poder estatal desenvolveu e desenvolve política


e economicamente uma participação agressiva e repressiva” contra indígenas e
posseiros. É no desenrolar desse quadro que vai se constituindo a classe dos “in-
vestidores” e/ou empresários do agronegócio na Amazônia. Uma classe que se
beneficia de recursos público para exercer atividades econômicas fundadas na
destruição da natureza.
Em termos históricos, o aparecimento de empresários do setor madeireiro e
da pecuária tem seu marco nas décadas de 1960 e 1970, como mostra o estudo
de Oliveira (2004)2. Para esse autor, no rastro de destruição provocado pelo fogo
DOSSIÊ SOCIEDADE

para a formação de pastagens a qual se faz acompanhada do crescimento demo-


gráfico que região Norte, em termos absolutos, na década de sessenta, foi de 1,0
(um) milhão de pessoas; já na década de setenta foi para 2,2 milhões, indo para
3,4 milhões na década de 80, no entanto, mesmo com esse crescimento, se chega
em 1991, com um “[...] contingente populacional em relação ao total do país” que
não ultrapassava os 6,8%”.
2
Ver trabalho de Luiz Antonio Pinto de Oliveira, “Dinâmica Populacional e Social na Região Amazônica”.
Disponível em http://www.fundaj.gov.br/docs/iemam/l_a_oliveira.htm. Acesso em 22/07/2004.

61
De acordo com Inácio (1995), posseiros e nativos das terras do norte do Bai-
xo e Médio Araguaia sofreram com esse processo grande desestruturação ambien-
tal, cultural e social com a chegada dos migrantes.
A esse respeito dados do INCRA sobre a estrutura fundiária brasileira, divul-
gados pela Revista Veja de 16/04/1997, indicam que a concentração fundiária no
Brasil é assombrosa. Segundo a Revista, das 35.080 propriedades cadastradas,
apenas 1% ocupa 153 milhões de hectares, quase a metade da área de todas as
propriedades rurais. “Supondo que cada uma dessas propriedades tenha um dono
diferente, o que está longe de ser verdade, é como se apenas 35.080 pessoas
ocupassem uma área igual à soma dos territórios da França, Alemanha, Espanha
e Áustria” (Revista Veja, 1997, p. 36-37). Isso mostra que a grande propriedade
monocultora voltada à exportação é o grande vetor que induz o fechamento da
fronteira aos pequenos proprietários.
Prossegue a reportagem dizendo que, em nenhum país continental, a es-
trutura fundiária é tão concentrada como no Brasil. Em números, isso significa
que apenas 14% dessa estrutura, produzem 48% daquilo que abastece o mercado
interno e que o Brasil exporta, o restante é terra ociosa. Além disso, 79% da es-
trutura fundiária da região Norte são ocupadas por imóveis improdutivos. No sul,
considerada a região mais avançada do país e onde a terra é considerada boa,
esse índice é de 42%.
Essa realidade pela qual passa a Amazônia legal, segundo dados do Instituto
de Terras do Mato Grosso-INTERMAT3, resultou num cenário em que a região Cen-
tro-Oeste já perdeu mais de 50% de sua cobertura vegetal, a qual foi substituída
por pastagens, plantação de soja e cana-de-açucar. Como se vê, o empresário do
agronegócio é um sujeito ganancioso e pouco sensível às questões ambientais e
socioculturais.
O processo de intervenção territorial ocorrido nas últimas décadas na Amazô-
nia Legal tem provocado mudanças não somente em sua paisagem, mas também
no uso de seu território, principalmente, em função da implantação de obras de
EPISTHEME

infraestrutura e das “redes de fluxos” que aparecem nas vias de comunicação em


que surgem as torres de transmissão de energia e telefonia, nas rodovias, nos

3
A esse respeito ver o trabalho de Ribeiro. Geopolítica e memória: uma discussão do processo de de-
senvolvimento. Relatório de Pós-Doutorado. Instituto de Geociências. Departamento de Geografia:
Capinas: UNICAMP, 2005.

62
aeroportos, nas pistas de pousos, em portos, nos quartéis, nas redes de abasteci-
mentos, entre outras, tudo isso ligado ao exercício do poder e controle no território,
bem como para facilitar a circulação de riquezas. (RIBEIRO, 2005).
Assim, o Estado brasileiro passa a agir de maneira pragmática, na medida
em que busca implanta políticas públicas como forma de incorporar novos espa-
ços geográficos num projeto desenvolvimentista, como afirma Castro para quem
a “[...] idéia de eixos de desenvolvimento (eixos de transporte intermodal) esteve
presente no planejamento brasileiro desde os anos 1950, em vários dos planos de
desenvolvimento econômico [...]” (CASTRO, 1999, p. 176).
Se durante o Regime Militar Pós-64, nas regiões de fronteira, como a Ama-
zônia e o Centro-Oeste, foram implementados os planos de integração nacional,
com o objetivo de atender ao modelo econômico em vigor e como forma de reduzir
as disparidades regionais, isso foi fundamental no sentido de que essas regiões
fossem escancaradas ao agribusiness (agronegócio).
Por meio dos planos de desenvolvimento4 foram criados os polos5 regionais,
a fim de impulsionar o progresso em regiões consideradas atrasadas. Para isso, foi
gestada toda uma infraestrutura em termos de redes de telefonia, de transporte,
de portos, de aeroportos, de abastecimento e a criação de instituições para ge-
renciar o desenvolvimento regional. Nessa dinâmica, Aragarças e Barra do Garças
acabaram exercendo funções de cidades polos, principalmente como prestadoras
de serviços.
O papel dessas cidades em tal dinâmica foi fundamental, pois, com a moder-
nização do campo, surge a necessidade do aparecimento de novas instituições, de

4
Os planos de desenvolvimento foram instituídos na década de setenta através do Programa de
Integração Nacional I e II, e tinham como principal objetivo a integração econômica da Amazônia
DOSSIÊ SOCIEDADE
Legal ao resto do Brasil. Esses planos de desenvolvimento instituem a criação dos pólos de desen-
volvimento, cujo propósito é a montagem de toda uma infra-estrutura, em vários espaços da Ama-
zônia, para “a exploração de seus recursos naturais”. Mais detalhes sobre esse assunto, consultar
RIBEIRO, Hidelberto de Sousa. Políticas Territoriais e Colonização Numa Área da Amazônia Oriental.
Dissertação de Mestrado, USP, 1993.
5
Essa noção de Pólos de Desenvolvimento se baseia numa decisão político-econômica, cuja finali-
dade é a escolha de ‘regiões-programas’, onde serão investidos maciços capitais para que daí se
irradie toda uma dinâmica de desenvolvimentos. Nessa condição, os ‘pólos’ de desenvolvimento são
uma espécie de centros econômico-industriais capazes de, a partir da concentração de investimen-
tos, irradiar dinamismo a toda região, de forma a alterar a sua estrutura econômica. Isso, muitas
vezes, tende a provocar reflexos até mesmo em nível nacional. Segundo COSTA (1988, p. 63), “a
interferência desses pólos é tão grande, que pode até atingir profundamente a paisagem que os cer-
ca, incluindo suas populações”. Sobre esse tema consultar também SILVA (2004), RIBIERO (1993)
e ANDRADE (1977).

63
um corpo técnico e de novas atividades urbanas, a fim de responder às exigências
impostas pela organização produtiva que envolve o agronegócio. Isso mostra que as
políticas territoriais e as ações geopolíticas que vinham sendo implantadas resulta-
ram numa catastrófica situação de devastação da paisagem e das culturas locais.
Nesse contexto, o Município de Barra do Garças que até os anos sessenta
tinha 192.000 Km², considerado o maior Município6 do mundo, sofre as conse-
quências das políticas territoriais na região. Assim, acaba sendo fragmentado a
tal ponto de atualmente possuir somente 8.171,837 Km² de área8. Essa prática
político-geográfica garante um processo de distribuição das terras do Centro-Oeste
a grandes empresários, em detrimento dos antigos donos, os posseiros e os índios,
resultando em verdadeiros genocídios e/ou na morte de algumas culturas9.
A implementação de políticas territoriais e ações geopolíticas resultaram, nas
regiões do Médio e Baixo Araguaia, um gradativo processo de formação de novos
municípios, como Água Boa10, Alto da Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Cana Bra-
va do Norte, Confresa, Luciara, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do Norte, Canara-
na11, Campinápolis, Querência, Gaúcha do Norte, Nova Brasilândia, Nova Nazaré,
Novo São Joaquim e outros. Alguns estão situados em área que antes pertencia ao
Município de Barra do Garças. (RIBEIRO, 2008, 2005).
Por outro lado, esse desmembramento territorial veio acompanhado de gra-
ves problemas socioeconômicos. Os dados relacionados à migração, ao cresci-
mento demográfico e à urbanização, referentes às regiões Norte e Centro-Oeste,
mostram que o acesso a terra é para poucos e que a região Centro-Oeste tem

6
Para se ter uma dimensão desse processo de fragmentação de seu território, a área do município de
Barra do Garças, dos 192.000 Km², que possuía nos anos sessenta, no início dos anos setenta, de
acordo com o IBGE, “apesar de sucessivamente desmembrada, para a formação de novas unidades
municipais, ainda atinge um total de 121.936 Km², mostrando já uma gradativa diminuição de seu
espaço”.
7
Fonte MIRANDA, Leodete e AMORIN, Lenice. Mato Grosso. Atlas Geográfico. Cuiabá: Entrelinhas,
2000.
8
Fonte IBGE 1970 e 1996, no entanto para FERREIRA (2001) a extensão territorial do Município é de
9.171, 83 Km².
9
O historiador americano Dee Brown (1973) mostra um quadro assustador pelo qual passaram os
EPISTHEME

índios americanos em função do processo de expansão da fronteira oeste dos Estados Unidos da
América. Comparando aquilo que aconteceu nos EUA com o processo a que as populações indíge-
nas das regiões Centro-Oeste e Amazônia foram e, ainda, são submetidos, chega-se à conclusão de
que o avanço da fronteira agrícola é uma verdadeira história de massacres.
10
A primeira leva de colonos sulistas chegou à Água Boa na data de 9/07/75.
11
A chegada dos primeiros colonos a Canarana foi no dia 14/07/72, liderados pelo Pastor Norberto
Schwantes. As cidades de Água Boa, Canarana, Querência e outras estão em áreas que antes per-
tenciam ao município de Barra do Garças.

64
um alto grau de concentração fundiária e de desenvolvimento capitalista, o que a
coloca entre uma das maiores produtoras de grãos e de gado. Com isso, o Médio
Araguaia que, há uns quatro anos atrás, se destacava quase que exclusivamente
pela produção de gado de corte, vem diversificando sua produção. Tal processo im-
plica numa péssima estrutura urbana: a maioria das cidades sequer possui plano
diretor, falta saneamento básico, água encanada e/ou tratada, com construção
de moradias em lugares inapropriados, alto índice de desemprego, prostituição,
trabalho infantil, pistolagem etc.
O quadro a seguir12 mostra que o crescimento do número de cidades, entre
1940 e 1960, foi na ordem de 400% e, entre 1960 e 1980, foi de cerca de 200%.
Esses números mostram que a cada duas décadas a quantidade de cidades se
duplica no Estado de Mato Grosso.

Tabela 1 – Crescimento do número de cidades em quatro décadas no Estado de


Mato Grosso

1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2004


MUNICÍPIOS 14 15 29 34 55 117 139 143
DISTRITOS 48 53 77 93 134
VILAS 30 37 45 51 72
CIDADES 14 15 29 34 55

A tabela mostra claramente como foi se dando o processo de ocupação terri-


torial e do desenvolvimento do Estado de Mato Grosso. Um processo marcado pelo
aparecimento de vários municípios e vilarejos (depois transformados em municí-
pios), de modo a fazer saltar dos 14 municípios, em 1940, para os 139, em 2000.
Fontes não oficiais afirmam que esse número chega a 143, no ano de 2004. Vale DOSSIÊ SOCIEDADE
frisar que a grande maioria desses municípios e vilarejos não possui a mínima in-
fraestrutura para atender as questões mais elementares de sua população, como
água tratada, escolas, transporte público e saúde (Ribeiro, 2005). A situação é tão
grave que no Estado de Mato Grosso, do total de 143 municípios, quatorze têm
população variando entre 20.000 e 40.000; cinco têm população variando entre
50.000 e 100.000 e apenas quatro possuem população variando entre 100.000 e

12
Fonte IBGE, Sinopse preliminar do Censo demográfico: Mato Grosso / Fundação Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística. Rio de Janeiro: IBGE, 1980 e 1981.

65
500.000. Por outro lado, o Estado tem o menor município do Brasil, em termos de
população, Araguainha13, com 1.115 habitantes.
Dessa forma mais de cem municípios têm menos de 20.000 habitantes fato
que corrobora com nossa hipótese de que a maioria deles serve apenas de logísti-
ca para uns poucos privilegiados que vivem do agronegócio.

Tabela 2 – Municípios como população entre 20.000 e 500.000 habitantes14


MUNICÍPIOS POPULAÇÃO MUNICÍPIOS POPULAÇÃO
Cuiabá 544.562 Juína 39.526
Várzea grande 240.038 Juara 36.168
Rondonópolis 181.902 Guarantã do Norte 33.791
Sinop 114.051 Barra do Bugres 32.744
Cáceres 87.261 Poconé 31.451
Tangará da Serra 79.870 Lucas do Rio Verde 28.646
Sorriso 57.799 Confresa 28.594
Barra do Garças 54.882 Jaciara 27.494
Alta Floresta 51.136 Colíder 26.738
Campo Novo do Parecis 26.562
Campo Verde 25.533
Mirassol d’Oeste 25.360
Diamantino 20.486
Vila Rica 20.108

O desafio que se coloca para as classes dirigentes desses municípios é ga-


rantir as mínimas condições estruturais para os moradores. A situação é tão grave
que a maioria deles sequer possui um Código de Postura ou um Plano Diretor. Sem
isso é impossível orientar linhas de cooperação e parcerias entre as esferas muni-
cipal, estadual e federal.
Esse problema sempre foi objeto de preocupação da Secretaria Nacional de
Programas Urbanos do Ministério das Cidades, que, uma vez criada, se viu diante
de um grande desafio: estruturar nacionalmente o planejamento territorial urbano
EPISTHEME

e a política de gestão do solo urbano, a fim de responder às exigências apontadas

13
Araguainha passou a ser um dos municípios com menor população do Brasil a partir de 2007. Nos
números do IBGE, até o ano 2000, estavam entres os menores do Brasil em população os municí-
pios de Nova Serra Dourada (MT), com 1.011 habitantes e Santa Cruz do Xingu (MT) com 1.039.
14
IBGE - Município de Mato Grosso está entre os quatro com menor população do Brasil. Disponível em
www.agenciadanoticia.com.br/index.php?mega=noticia

66
na Constituição Federal de 1988 e do Estatuto das Cidades.
Exemplo disso é mostrado no estudo de Cabral Junior (2008), a respeito do
Plano Diretor de Barra do Garças. Nessa cidade, para o autor,o desafio está em
implementar uma política visando ampliar o acesso à terra urbana para a popula-
ção de baixa renda em condições adequadas. Outro desafio diz respeito ao enfren-
tamento do passivo da destruição ambiental e exclusão social existentes o que é
grave não só em Barra do Garças, como também na grande maioria das cidades
do País.
Isso significa estabelecer uma nova agenda de planejamento e gestão do
solo urbano que possibilite incluir os mercados de baixa renda nos temas e estraté-
gias contidos nos planos e projetos. Uma agenda que supere o descrédito e a falta
de cultura de planejamento das cidades e enfrente o desafio de fazer as cidades
para todos, sobrepondo-se à dualidade entre cidade formal e informal; urbanizada
e precária; incluída e excluída dos plenos direitos de cidadania.
Tarefa nada fácil pelo fato de que, na maioria dos municípios brasileiros, e
Barra do Graças, não é exceção, convive-se com práticas às vezes veladas, às ve-
zes declaradas, de uma cultura fundada no coronelismo, no cartorialismo e no
patrimonialismo, cujo princípio estruturante está baseado no tráfico de influência
e no poder que a terra deu e dá às classes dirigentes e, nesse contexto, se esta-
belecem as relações de poder muito complicadas. Trata-se de um poder proporcio-
nado pela terra proporciona gerando um paternalismo por parte das elites locais
que as impede de mexer na estrutura urbana, como também de trazer a público a
questão do imposto progressivo, a situação dos devedores de IPTU, consequente-
mente, de se discutir normas no que diz respeito à construção das moradias. Sem
isso a cidade torna-se feia, com terrenos abandonados, cheios de lixos e entulhos.
Quando acontece de se punir os devedores, expropriando suas posses em favor do
DOSSIÊ SOCIEDADE
patrimônio público, a maioria é distribuída entre os correligionários políticos e/ou
amigos de prefeitos e não para quem realmente precisa.
Para Cabral Junior (2008), aquilo que deveria se tornar um princípio ético
acaba se tornando um mecanismo de burla e esperteza. Para se ter uma ideia, a
Lei 2.638, Lei Orgânica Municipal de Barra do Garças de 1999 e seu Plano Diretor
Participativo, aprovado em janeiro de 2007, foram diversas vezes desrespeitados,
de modo que, nesse período (1999 – 2007), os prefeitos, gestores públicos e ve-
readores, aprovaram inúmeras leis para favorecer uma minúscula parcela da po-

67
pulação e aumentar ainda mais os laços de dependência e o patrimônio de quem
não precisa.
Além disso, durante o ano de 2006, quando da reconstrução das pontes so-
bre os rios Araguaia e Garças, a empresa que, com suas balsas explorava a tra-
vessia de veículos, além de usufruir do monopólio, devastou as margens do Rio
Araguaia para, ao final, ir embora sem replantar sequer uma muda de espécies
nativas e nem restaurar as margens do Rio. O grave disso é que nem a Fundação
Estadual do Meio Ambiente – FEMA, nem o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
– IBAMA, nem o Departamento Nacional de Infra-Estrutura Terrestre – DENIT ou a
Prefeitura de Barra do Garças foram capazes de tomar qualquer medida no sentido
de punir a empresa. Dessa forma, o prejuízo ficou para a sociedade.
Ao lado disso, os mananciais que não estão ou não estavam em áreas den-
samente povoadas, conforme afirma o “Estatuto das Cidades”, não são protegidos,
portanto, não cumprem sua função social como reserva de água e áreas de prote-
ção ambiental, no entanto, em vez disso, estão sendo aterrados para a construção
de moradias, ou apropriados pela empresa de abastecimento de água15 e por cha-
careiros nas áreas ainda não densamente ocupadas.
Esses mananciais não estão cumprindo sua função social já que os muníci-
pes não estão e nem poderão usufruir desse recurso natural. Para piorar a situa-
ção, muitos proprietários de terras, onde, comprovadamente, existem mananciais,
estão aterrando-os, dessa forma comprometendo futuramente o abastecimento de
água da cidade. Vale notar que o Poder Público Municipal, que deveria tornar tais
mananciais patrimônio municipal, não o faz.
Por outro lado, desde a implantação do Plano Diretor Participativo, não se
discutem propostas para a criação de conjuntos habitacionais populares no senti-
do de impedir que as encostas dos morros continuem sendo objeto de construção
de moradias, sem isso surgem as construções sem qualquer fiscalização do poder
público, colocando em risco a população. Nesse caso, a falta de fiscalização im-
pede qualquer tipo de punição para aqueles que constroem suas casas de forma
EPISTHEME

irregular, ou que jogam lixos em calçadas, ou ateiam fogo em lixos. Além disso, os
bares e locais de diversão continuam sendo construídos sem qualquer rigor, como
o atendimento às normas de segurança, assim como fecham as calçadas com me-

15
Uma empresa que era pública e que foi privatizada, embora um dos maiores acionistas seja o Pre-
feito atual.

68
sas e cadeiras, impedindo o trânsito de pessoas. Como resultado, o que se vê é a
existência de uma arquitetura que enfeia a cidade.
Recentemente e, em atendimento às propostas feitas nas audiências pú-
blicas, foram notadas tentativas de instituir regras para bares, da criação de um
zoneamento para moto-taxista e de organização do fluxo de veículos. Mesmo as-
sim, a população de Barra do Garças convive com graves problemas nas áreas
de comércio como: ausência de normas para o uso dos passeios públicos o que
complica a vida dos deficientes visuais e cadeirantes, uma vez que os obriga a
transitarem pelas ruas, expondo-os à falta de educação de motoristas e pilotos de
motos, ou seja, a serem possíveis vítimas de acidentes.
Em outras palavras, a fragmentação dos grandes municípios da Amazônia
Legal, ao mesmo tempo em que objetivava enfraquecer o poder dos latifundiários,
proporcionou as condições para que empresas colonizadoras ganhassem muito
dinheiro com a grilagem e a especulação de terras. O Estado transferia a empresá-
rios que quisessem investir na Amazônia Legal grandes parcelas de terras, de in-
centivos fiscais e de empréstimos financeiros a juros subsidiados. Daí, uma grande
corrida por terras da Amazônia Legal e o desencadeamento de todo um processo
de violência, de grilagem, de expulsão e de mortes de índios e de posseiros.
Dessa forma, as terras de fronteira foram abertas ao agronegócio, ou melhor,
destinadas a uma produção agropecuária de “precisão” a qual envolve grandes
investimentos e muita pesquisa. Em torno dessa produção, surgem vários municí-
pios que se tornaram grandes produtores de commoditties agrícolas, como algo-
dão, sorgo e, sobretudo, soja, gado e cana-de-açucar.
Nesse sentido, para Becker (2003) o “fechamento” da fronteira aos peque-
nos produtores é decorrente de uma somatória de fatores, como a especulação
de terras, o intenso processo de grilagem e a utilização das terras amazônicas
DOSSIÊ SOCIEDADE
para produção de grãos para a exportação, isso provoca uma intensa migração, ao
mesmo tempo em que torna as cidades das regiões de fronteiras extremamente
urbanas.
Com isso vão surgindo cidades e municípios sem qualquer planejamento ur-
bano, de modo que a grande maioria das cidades situadas no Vale do Baixo e
Médio Araguaia tem uma estrutura precária, sem condições de suportar a pressão
demográfica causada por um crescimento desordenado provocado pela migração
intra e interregional. Nas novas cidades de fronteira, está acontecendo algo muito

69
peculiar que são os conflitos interétnicos e culturais, chegando, em algumas, ao
confinamento de mestiços e negros, onde quem manda e que tem vez e voz, são
os brancos, isto, os centro-sulistas. (RIBEIRO, 2009)
Os dados relacionados à migração, ao crescimento demográfico e à urbani-
zação relativos às regiões Norte e Centro-Oeste permitem uma radiografia dessa
realidade. Tratas-se de uma dinâmica que se agrava pelo fato de a modernização
e o desenvolvimento dessa nova fronteira agrícola estar fundado na grande pro-
priedade16, o que exclui os pequenos produtores, mostrando que o acesso a terra
dessas regiões é para poucos. No caso da região Centro-Oeste, de um lado, há um
alto grau de desenvolvimento agrícola em função da enorme concentração fundi-
ária. De outro, essa situação provoca a exclusão social da maioria da população.
O estudo de Frederico (2004) sobre a região Centro-Oeste mostra que nos
últimos anos houve uma substancial valorização das terras em função do agrone-
gócio. Um processo que ganha impulso cada vez maior, em função da especulação
e da grilagem de terras e a abertura de novos fronts agrícolas.
Por outro lado, para o repórter Edilson Almeida, da Agência de Notícias 1
Hora, de Rondonópolis, em reportagem publicada no dia 09/10/2003.

O modelo fundiário de Mato Grosso17, com concentração de


terras nas mãos de grandes produtores, aliado à distribuição
populacional, faz com que a produção de riquezas em Mato
Grosso fique restrita a apenas 7% dos municípios, que juntos,
respondem, por 53% do Produto Interno Bruto (PIB). È o que
mostra o Boletim Sócio-Econômico Demográfico dos Municí-
pios de Mato Grosso, elaborado pela Secretaria Estadual de
Planejamento. O documento mostra que Cuiabá é o município
com a maior concentração de riqueza: 23,83% do PIB. Depois
aparecem, pela ordem, Várzea Grande, Rondonópolis, Sinop,

16
Embora os dados sobre a distribuição percentual das terras do estado de Mato Grosso sejam de
EPISTHEME

1985 eles servem para mostrar o processo de concentração fundiária nas áreas de fronteira. As pro-
priedades de menos de 10 ha englobavam apenas 0,3% a estrutura fundiária do estado, as proprie-
dades entre 10-100 ha utilizam uma fatia de 2,9%, as que variavam entre 100-1000 englobavam
13,3%, as que variavam entre 1000-10.000 representavam 37,4 da estrutura fundiária e aquelas
propriedades acima de 10.0000 detinham 46,1% da estrutura fundiária. A esse respeito consulta o
estudo de FERREIRA, Eudson de Castro; FERNANDES, Antonio João Castrilon e PRAXEDES DA SILVA,
Evande. A reconstrução dos assentamentos em Mato Grosso (1999).
17
Disponível em http://www.primeirahora.com.br/canla4/view.htm?ma_id=41381.

70
Primavera do Leste, Barra do Garças, Sorriso, Tangará da Ser-
ra, Cáceres, e Campo Novo dos Parecis. São apenas 10 muni-
cípios. Os demais, 128 cidades do Mato Grosso, somam 47%.
Ou seja: muitas produzindo riquezas abaixo de 0,1%.

Nessa mesma reportagem fica claro a preocupação do Secretário Estadual


de Planejamento do Estado de Mato Grosso, Yenes Magalhães, em declaração
feita durante a elaboração do Plano Plurianual, sobre as desigualdades regionais.
Para ele, a concentração de riqueza e o movimento populacional, em direção aos
centros menores do interior, apontam para a possibilidade de reprodução dos
problemas dos grandes centros urbanos, sendo necessária uma forte atuação do
Poder Público, no sentido de ordenar essa expansão de ocupação do espaço e
de dotar os municípios de infraestrutura e serviços adequados ao bem-estar da
população. A esse respeito o Secretário de Planejamento Yenes Magalhães afirma:

O movimento do fluxo migratório para o interior do Estado é


onde são verificados os maiores índices de crescimento po-
pulacional, chegando a taxas superiores a 23% em Sapezal,
22% em Tabaporã, 18% em Campos de Júlio, 17% em Prima-
vera do Leste, 15% em Feliz Natal, e 12% em Campo Verde
e Nova Mutum [...] tratam-se de crescimentos significativos
ocorridos entre 1996 e 2000, sendo valores superiores à
taxa de crescimento de Mato Grosso par o período, que foi
de 2,81% (Edilson Almeida, da Agência de Notícias 1 Hora de
Rondonópolis, 09/10/2003, p.01)18.

Na reportagem também se faz uma crítica a esse modelo de desenvolvimen- DOSSIÊ SOCIEDADE
to uma vez de que

[...] a concentração de riqueza e o fluxo migratório intenso


para o interior, confirma a tese de que no processo de conso-
lidação do desenvolvimento de Mato Grosso, a desigualdade
regional é um problema de extrema importância para ser en-

18
Detalhes em ALMEIDA, Edílson. “Riqueza se resume a 7% e Governo teme aumento da crise social
em Mato Grosso. Agência de Notícias 1 Hora. Rondonópolis-MT. Disponível na Internet: http://www.
primeirahora.com.br/canla4/view.htm?ma_id=41381

71
frentado pelos governos. ‘O Estado não pode parar de crescer,
mas é preciso fazer ajustes nesse percurso’. A preocupação
é fazer com que as desigualdades e as injustiças sociais e
regionais sejam minimizadas (Idem).

Fica evidente que a modernização da Amazônia Legal, uma vez acompanha-


da pela migração de trabalhadores rurais das áreas de forte tensão social, como
era o caso das regiões Nordeste e Centro-Sul, se consubstanciou numa espécie
de válvula de escape para a não realização de uma reforma agrária, de fato, mas
que só privilegia os grandes proprietários rurais. Isso implicou, com o tempo, num
redimensionamento territorial, levando ao aparecimento de novos municípios cuja
função é atender aos interesses de grupos econômicos.
A implementação desse modelo de desenvolvimento agrário provoca todo um
processo de expulsão de posseiros, extermínio de populações indígenas, migração
e degradação socioambiental, cujos reflexos se fazem sentir em quase todos os
cantos da Amazônia Legal, forçando uma movimentação sistemática da fronteira.
Com o avanço da fronteira agrícola, em direção ao sul do Pará, norte do Estado
do Tocantins e oeste do Maranhão, essas regiões sofreram os maiores índices de
queimadas, durante o ano de 2004, conforme informações do INPA - Instituto de
Pesquisas da Amazônia.
Nesse movimento de expansão da fronteira agrícola na Amazônia Legal,
deve-se questionar a apropriação de seus espaços e como eles estão sendo ter-
ritorializados por grupos estrangeiros, principalmente, aqueles que controlam a
cadeia produtiva de commodities agrícolas, em particular, a da soja. A apropriação
de enormes espaços pelo capital demonstra que, cada vez mais, a soberania e a
segurança nacional estão sendo fragilizadas, deixando claro que quem realmente
gerencia essa região não é o Estado brasileiro e, sim, o capital.
Nesse processo, os assentamentos que ficam no entorno do Parque Nacional
do Xingu e no sul do Pará, num total de cento e vinte e dois, são alvo de violência
por parte de fazendeiros, grileiros e pistoleiros. Exemplo disso são os assentamen-
EPISTHEME

tos localizados na Região de Confresa, município visitado por este pesquisador.


Mapa dos assentamentos, abaixo:

72
Figura 2 – Atlas da questão agrária brasileira (2008).
Fonte: GIRARDI, Edurardo Paulon.

Em três idas a campo entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2010, percorremos


cerca de 750 quilômetros da BR- 158, Rodovia que percorre o sul do estado do DOSSIÊ SOCIEDADE
Pará e nordeste do estado de Mato Grosso. No seu entorno dessa estrada estão
localizados os municípios de Porto Alegre do Norte, Confresa, Vila Rica e São Félix
do Xingu, todas no estado de Mato Grosso. Nesse território é estão localizados os
cento e vinte e dois assentamento do INCRA, e o que se viu é corroborado pelo
Relatário 19 é que:

19
Estudo Socioeconômico e Ambiental dos Assentamentos localizados na Bacia do Rio Xingu em
Mato Grosso. Produto 03 – VOL. I. Cuiabá/MT, Dezembro de 2005. Estudo promovido pelo Instituto
Interamericano De Cooperação para a Agricultura em parceria com o Instituto Nacional de Coloniza-
ção e Reforma Agrária.

73
A maior parte da pecuária de corte funciona no sistema de
cria. Os bezerros são vendidos para fazendeiros da região. A
venda só é realizada por lote de animais, por valores entre R$
220,00 e 280,00 por cabeça. O gado para abate é vendido
para atravessadores ou frigoríficos de Canabrava, Água Boa,
Canarana e Barra do Garças. A venda é feita individualmente,
em torno de duas a três cabeças por produtor. A venda só é
feita quando há necessidade, para compras e pagamento de
contas. Afirmam que os casos de aftosa no Mato Grosso do
Sul causaram a diminuição da venda e do preço do gado.
A maior parte da renda dos assentados vem do trabalho com
gado. Mas, a maioria dos parceleiros faz serviços para fa-
zendas e vizinhos. Também fazem troca de dia de serviço no
assentamento (derrubada, roçada, serviços com gado e mo-
tosserra). Cerca de seis assentados recebem aposentadoria.
Fazem compras no comércio na vila Santo Antônio, distrito de
São José do Xingu, localizado no assentamento Santo Antônio
do Fontoura I, às margens da rodovia. (pp. 113-114)

No que diz respeito às condições ambientais – os assentados consideram


a terra muito ácida, boa apenas para plantio de mandioca, abacaxi e capim. As
terras brancas das baixadas são melhores, boas para plantio de milho e arroz.
As reclamações dos assentados apontam para o fato de que para produzir ou-
tras culturas a terra precisa ser corrigida com calcário e adubo, e que não fazem
a correção do solo pelo fato de encontrarem dificuldades na obtenção de finan-
ciamentos “uma vez que a maioria dos recursos do PRONAF é desviada para os
grandes empresários”.
Em outros dizeres, as péssimas condições dos assentados, o assédio de
grileiros, de madeireiros, de empresários, de ONGS, de especuladores de terras,
EPISTHEME

de tradings, além das dificuldades dos assentados em obter financiamentos via


PRONAF os força a abandonar os assentamentos localizados na região do Baixo e
Médio Araguaia e se dirigirem para cidades da região, como Barra do Garças-MT

74
Por outro lado, os assentamentos que cortados pelos rios Belo Horizonte e os
córregos Trairão, “Corgão”, Água Fria, Água Boa e nascentes deste último, não re-
cebem água desses córregos, por isso os existem lotes “secos”, sem água corren-
te. Desta forma, cerca de 50% das famílias possuem cisternas para abastecimento
de água e as outras bebem água dos córregos. Em outros lotes onde não há infra-
estrutura de distribuição de água para as casas a grande maioria dos assentados
tira água com balde.
No entanto, os assentados que estão em lotes localizados próximos aos cór-
regos e rios afirmam que água é boa para consumo e não falta durante o ano. O
problema é que o gado bebe água diretamente dos córregos o que contribui para a
poluição e futuramente comprometer o abastecimento de água, isso mostra que os
assentados deveriam construir represas destinadas exclusivamente ao gado. Por
outro lado, nos lotes onde não há córregos ou nascentes, os lotes são abastecidos
com água da cisterna ou por buracos (“represas secas”) para captação de água
de chuva. Dizem que não há ocorrência de assoreamento nos córregos porque não
haver erosão no assentamento.
Se tomarmos como referência o Índice de Desenvolvimento Humano, o Estado
de São Paulo possui um PIB bem maior do que a soma de tudo o que é produzido em
20 Estados que integram as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. De acordo com
o Professor Juacy Silva20 essa concentração econômica também ocorre em relação
às capitais que representam 34,4% do PIB brasileiro. Da mesma forma, com exceção
de Florianópolis, todas as capitais e regiões metropolitanas concentram entre 30%
até 81,5% (caso de Manaus) do PIB de seus respectivos estados.
O índice Firjan21 de Desenvolvimento Municipal, publicado em 2009, ao ana- DOSSIÊ SOCIEDADE
lisar dados de 2006, e considerando os indicadores: emprego e renda, educação e
saúde, mostra os níveis de desigualdade existentes no Brasil, mostra que dos cem
municípios com os maiores índices de desenvolvimento, 79 estão localizados no
Estado de São Paulo; 4, em Minas Gerais; 7, em Santa Catarina; 4 no Paraná; 2, no
Rio de Janeiro, 2, no Espírito Santo e 2, no Rio Grande do Sul. De outro lado, entre

20
Juacy Silva, Prof. aposentado da UFMT em artigo disponível em www.midianews.com.
br/?pg=opiniao&idopiniao=638
21
Índice da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

75
os 100 com menores índices, todos estão nas regiões Nordeste, Norte e Centro-
-Oeste, inclusive em Mato Grosso.
De acordo com o estudo de Machado e Cedro22, a cidade de Barra do Garças
é vista como polo turístico por apresentar grande número de atrações naturais,
como trilhas e cachoeiras, águas termais, parques, grutas e cavernas, além das
tribos indígenas Xavante e Bororo, no entanto esse estudo não mostra que todo
esse recurso natural é mal aproveitado e também muito degradado.
Segundo o Zoneamento Socioeconômico Ecológico do Estado de Mato Gros-
so, de 2008, proposto pela Secretaria de Planejamento (SEPLAN) do Governo do
Estado, a cidade de Barra do Garças é considerada uma unidade de planejamento
estratégica, por ter uma estrutura produtiva consolidada, com predominância da
pecuária moderna. Seu limite municipal, em grande parte, abarca áreas que ne-
cessitam da readequação dos sistemas de manejo para recuperação e/ou conser-
vação dos recursos hídricos, como é o caso dos formadores do Rio das Mortes, do
Rio das Garças, Rio Pindaíba e Rio Araguaia. Por outro lado, esse estudo indica que
existem também áreas que necessitam de manejo específico devido ao ambiente
com elevada fragilidade, onde predominam formações savânicas e áreas na borda
do Planalto dos Guimarães com fragilidade acentuada.
A produção agropecuária do Município impulsionou a implantação de in-
dústrias químicas, de máquinas e implementos agrícolas, acelerou-se a mo-
dernização das indústrias de processamento de alimentos e de transformação
de oleaginosas, o que representa uma mudança na base técnica de produção
(Abreu, 2001). Hoje, Barra do Garças possui um PIB de 519.927 mil reais, e PIB
per capita de 9.886 mil reais (IBGE, Censo 2006). O município apresenta 613
estabelecimentos agropecuários, sendo 41 estabelecimentos com lavouras per-
manentes, 119, com lavouras temporárias, 503, com bovinos, somando 419.710
cabeças, e 335 estabelecimentos com produção de leite de vaca. A produção de
EPISTHEME

soja chegou a 47.032 toneladas em 2007, numa área plantada de 14.516 hec-
tares, ou seja, 1451,6 Km² (IBGE, Censo 2007).

22
Evolução do uso agropecuário no período de 1975 a 2008, no município de Barra do Garças – MT,
Goiânia, s/d.

76
De acordo com informações constantes no Relatório Final - Município de Bar-
ra do Garças, do Ministério das Cidades 23, a população total do município, segun-
do a contagem realizada pelo IBGE, em 2007, era de 52.797 habitantes. Entre
2000 e 2007, Barra do Garças apresentou um crescimento populacional de 1,4%.
Conforme divulgado pelo IBGE, em 2007, 89,7% da população estava concentrada
na área urbana. No mesmo ano, havia 16.225 domicílios particulares permanen-
tes, aproximadamente 3,25 habitantes por domicílio.
Os setores impulsionadores da economia local são: a agricultura (soja, arroz
e milho), pecuária, comércio, agroindústria e ecoturismo. O PIB de 2005 foi de R$
519.927 mil e o PIB per capita foi de R$ 9.263, conforme dados do IBGE.
Com relação aos indicadores sociais, segundo o censo 2000, o município
apresentou uma taxa de analfabetismo de 16,4% e o índice de desenvolvimento
humano municipal era de 0,704. O rendimento médio mensal de um chefe de
família equivalia a 2,4 salários mínimos e, aproximadamente, 73% dos domicílios
eram abastecidos com água.
Conforme dados do DATASUS, em 2004, o coeficiente de mortalidade infan-
til era de 29,95 a cada 1.000 nascidos vivos, representando um decréscimo de
24,2%, comparado ao índice de 2000. A tabela a seguir mostra os casos de do-
enças diarréicas agudas e de hepatite As registradas no município, no período de
2003 a 2006, as quais podem de alguma forma estar relacionadas com a situação
do sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário24:

23
Municipalização dos Serviços de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário no Estado de
Mato Grosso: Diagnóstico, Lições e Perspectivas. Relatório Final - Município de Barra do Garças
– publicado em Brasília, no dia 30 de setembro de 2008, MINISTÉRIO DAS CIDADES - Secretaria
Nacional de Saneamento Ambiental, Programa de Modernização do Setor Saneamento – PMSS,
Unidade de Gerenciamento do Programa – UGP.
24
Aproximadamente metade da população brasileira não tem acesso ao serviço de saneamento bá-
DOSSIÊ SOCIEDADE
sico em seus domicílios. Apesar de a notícia ser negativa, o ponto positivo é que a deficiência vem
diminuindo, sendo que desde 2006 de maneira significativa, como aponta pesquisa divulgada hoje
pelo Instituto Trata Brasil, realizada em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O estudo
destaca o avanço de melhorias para a cobertura do saneamento básico ocorrido entre 2006, quan-
do 53,46% dos brasileiros não tinham acesso ao serviço, e 2008, com 49,08% da população não
atendida. A diferença de 4,38% é considerada significativa, visto que a queda anual para que se
alcance a meta estipulada pela ONU (dentro das metas de desenvolvimento do milênio, do qual o
Brasil é signatário) é de 2,77%. O país, porém, muito dificilmente atingirá este objetivo, que é pre-
visto para 2012. Isso porque antes de 2006 o avanço da cobertura do serviço foi insuficiente: de
1992 e 2008 a melhoria foi de apenas 1,6%, índice menor do que a meta anual. A base de dados
é do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), com informações das empresas
prestadoras de serviço. Artigo e Marina Franco. Disponível em www.sustentanet.com.br/sustenta/
blog.aspx?cat
Acesso em 29/04/2010.

77
Tabela 3 – Ocorrências de doenças diarréicas agudas e hepatite A no Município
de Barra do Garças
Tipos de doenças 2003 2004 2005 2006
Doenças diarréicas agudas 868 1095 1083 1.253
Hepatite A 2 - 1 -

Fonte: Secretaria de Estado de Saúde

O serviço de abastecimento de água em Barra do Garças atende, atualmen-


te, 98,5% da população total do município, correspondente a 51.998 habitantes.
O prestador dos serviços é a concessionária Empresa Mato-grossense de Água
e Saneamento (EMASA). Quanto ao sistema de esgotamento sanitário, 43,2% da
população do município são atendidas por esse serviço, portanto, ficando muito
aquém do índice estipulado pela ONU.
O trabalho de Afiune, Ribeiro e Costa (2009) com base em dados da Pesqui-
sa Nacional de Saneamento Básico, mostra que 48% dos municípios e 67% dos
domicílios brasileiros não dispunham de rede para coletar seus dejetos, sendo a
alternativa para isso a construção de fossas sépticas rudimentares, ou, pior, quan-
do não feitas as necessidades nos quintais das casas para depois serem lançadas
diretamente em rios, comprometendo a qualidade de suas águas (IBGE, 2000).
Mais precisamente, dos 11 bilhões de litros de esgoto que saem todos os dias das
casas brasileiras, três quartos vão parar diretamente nos cursos de água.
Esse problema se agrava ainda mais porque a maior parte do déficit de sane-
amento básico se concentra em áreas mais pobres e municípios de pequeno porte,
distantes dos grandes centros urbanos, e locais onde o investimento nem sempre
se apresenta economicamente viável.
Quanto ao trânsito seu estado é caótico. Para se ter uma ideia dos proble-
mas que afligem o Município de Barra do Garças25, o Ministério Público Estadual,
seccional Barra do Garças, reuniu recentemente diversos representantes de seg-
mentos da sociedade organizada e da segurança pública, para discutir sua preo-
cupação com o caos vivido pelo trânsito local, que vitima centenas de motoristas,
EPISTHEME

motociclistas e pedestres, deixando a cidade com um dos piores trânsitos do país.


Os dados oferecidos pela estatística do 2º BPM da Polícia Militar são desanimado-

25
Disponível em Rotaraguaia.blogspot.com/.../transito-da-barra-na-mira-do-mpe.html. Acesso em
16/01/2010.

78
res e conferem a necessidade premente da realização, em tempo hábil, de ações
concretas de sinalização viária e educação para o trânsito, com sua devida implan-
tação no currículo escolar das escolas de ensino fundamental do município, como
forma de treinar adequadamente o pedestre e o motorista de amanhã.
Em relação ao número de suicídios na cidade de Barra do Garças o trabalho
de Gonçalves (2009), com base na análise dos inquéritos registrados e disponibi-
lizados pela Secretaria de Segurança Pública, Polícia Judiciária Civil e Delegacia
Municipal de Barra do Garças – MT, referentes aos anos de 2002 a 2008, são
objeto de preocupação.
A análise dos inquéritos serviu de instrumento para avaliar as condições so-
cioeconômicas, profissionais e familiares das vítimas. Considerando que alguns fa-
tores de abrangência estão disponíveis na literatura, foi possível traçar parâmetros
que permitiram elaborar e traçar o perfil suicida dos indivíduos. As partes dos in-
quéritos subdividiam-se em boletim de ocorrência policial sobre o caso, requisição
e resultado pericial em local de morte violenta, termo de declaração de testemu-
nhas conviventes e não-conviventes com a vítima, declarações sobre as 24 horas
antecedentes ao suicídio, declaração de óbito, copia dos documentos pessoais
do suicida, conclusão do inquérito com observações das informações condizentes
entre as testemunhas.
Com isso, foi possível extrair dos inquéritos, dados tais como: condição em-
pregatícia, uso de bebida alcoólica por parte da vítima, tentativas anteriores, histo-
ria de suicídio entre familiares, naturalidade, idade, atendimento hospitalar, causa
morte, meio utilizado e data de ocorrência do suicídio. Através desses dados extra-
ídos, foi possível avaliar o perfil dos suicidas.
O estudo mostrou que o suicídio está intimamente relacionado à questão
da migração e emprego, uma vez que 67% dos suicidas não são naturais do Vale
DOSSIÊ SOCIEDADE
do Araguaia, contempla um contingente de 14 cidades circunvizinhas. Em grande
escala, os suicidas são migrantes das regiões Sul e Sudeste do país, de cidades
interioranas.
Atraídos pelo desenvolvimento de cidades relativamente “novas”, como Bar-
ra do Garças-MT, acabam por não receber o acolhimento que esperavam, conse-
quentemente não encontram condições dignas, suporte social e familiar que levam
muitos ao desespero causado pelas perdas e frustrações, por terem deixado o que
possuíam em sua cidade natal, para se arriscar numa região desconhecida.

79
De um modo geral, os pesquisadores que trabalham a questão do suicídio
associam o uso do álcool a essa prática, uma vez que o uso abusivo de bebida
alcoólica provoca desaprovação da sociedade, fazendo com que, desse modo, a
integração social diminua. É inegável que o usuário de bebida alcoólica tem o auto-
controle diminuído e isso é um estopim para uma conduta autolesiva.
Os resultados obtidos no estudo de Gonçalves apontam que um alto índice de
indivíduos fez uso de bebida alcoólica, 87%, já aqueles que não ingeriam bebida
alcoólica somam 13%.
O estudo mostra que o método mais utilizado dos suicidas é o enforcamento;
as vítimas morreram em domicílio, em 75,7% dos casos e apenas 12,9% recebe-
ram atendimento hospitalar, segundo os autores acima citados. Ao que se refere a
arma de fogo, como meio usado, 46,8% morreram em domicílio e 50% chegaram
a ser atendidos em hospital. Por envenenamento, tiveram morte, em domicílio,
25%, sendo que a morte predominou no ambiente hospitalar em 70% dos casos,
uma vez que, na maioria dos casos, intervir clinicamente e aguardar evolução da
melhoria do paciente seria a única solução.
É notória a diferença entre os meios utilizados e o local de óbito, ou seja,
se houve atendimento hospitalar ou não. Dos resultados obtidos, 87% dos óbi-
tos ocorreram no local do suicídio, em domicílios, no leito das águas do rio e em
estabelecimento público, onde um dos suicidas efetuou o ato. Os 13% restantes
chegaram a receber atendimento hospitalar, feridos por arma de fogo e ingestão
de venenos, porém, evoluíram para o óbito.
Embora a literatura afirme que as taxas de suicídio vêm predominando entre
as faixas de 20 a 29 anos, não é exatamente o que ocorre na região de Barra do
Garças –MT, onde as pessoas vítimas de suicídio têm média de idade de 30 anos,
o que representa 67% dos suicidas. No entanto, a média obtida das idades dos
suicidas é de 40 anos aproximadamente uma vez que o suicida mais novo e mais
velho, tinham 17 e 76 anos, respectivamente.
EPISTHEME

Um fato que chama a atenção é que por Barra do Garças-MT ser uma cidade
turística, em especial no terceiro trimestre do ano, os índices de suicídio são mais
altos nesse período, totalizando 40%.
Um plano de ação conjunto está sendo programado entre Estado e Prefeitura
de Barra do Garças para enfrentar o atual surto de dengue que atinge o município;

80
já são 3 mil os casos registrados da doença, sendo 2.700 registrados em 2009 e
300, somente neste início de janeiro de 201026.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Abertura de formação de novos fronts agropecuários e a expansão do agro-
negócio na Amazônia Legal tem provocado transformações estruturais e socioe-
conômicas região do Araguaia e, consequetemente, nas cidades dessa região e
Barra do Garças-MT, não foge a regra, isto é, que sua estrutura é insuficiente para
dar conta dos problemas decorrentes do processo migratório e do inchaço urbano.
Nesse movimento de expansão da fronteira agrícola e da abertura de no-
vos fronts agropecuários na Amazônia Legal, deve-se questionar a apropriação de
seus espaços e como eles estão sendo territorializados por grupos estrangeiros,
principalmente, aqueles que controlam a cadeia produtiva de commodities agrí-
colas, em particular, a da soja. A apropriação de enormes espaços demonstra
que, cada vez mais, a soberania e a segurança nacional vão sendo fragilizadas,
deixando claro que quem realmente gerencia essa região não é o Estado brasileiro
e, sim, do capital.
A fragmentação dos grandes municípios da Amazônia Legal, ao mesmo tempo
em que objetivava enfraquecer o poder dos latifundiários, proporcionava as condi-
ções para que empresas colonizadoras ganhassem muito dinheiro com a grilagem
e a especulação de terras. O Estado garantia a empresários que quisessem investir
na Amazônia Legal a concessão de grandes parcelas de terras, de incentivos fis-
cais e de empréstimos financeiros a juros subsidiados. Daí, uma grande corrida por
terras da Amazônia Legal e o desencadeamento de todo um processo de violência,
de grilagem, de expulsão e de mortes de índios e de posseiros.
DOSSIÊ SOCIEDADE

26
O caso de dengue na cidade de Barra do Garças é tão grave que o coordenador estadual da Vigilân-
cia Ambiental, Oberdan Lira, esteve em Barra do Garças desde segunda-feira (11/01/2010) para de-
finir as linhas de ação do plano conjunto entre Estado e Prefeitura. O coordenador decidiu convocar
a sociedade organizada do município, secretários municipais e Ministério Público para uma reunião
estratégica hoje. Entre as medidas anunciadas pelo coordenador da Vigilância Ambiental incluiu
uma ação emergencial no centro da cidade, área onde há mais focos de dengue; notificação de
alguns comerciantes negligentes; autuação de proprietários de imóveis sujos com focos de dengue.
Já o diretor do Pólo Regional de Saúde, Franco Danny, anunciou que o trabalho de bloqueio em áreas
com focos de dengue com a bomba costal vai continuar, entretanto o fumacê continua descartado.
“A Coordenação entendeu que ainda não é momento de entrar com o carro-fumacê”. Disponível em
www.expressomt.com.br/noticia.asp?cod=54435&codDep=3. Acesso em 16/01/2010.

81
A fragmentação desses municípios foi acompanhada da implementação de
um modelo de desenvolvimento agrário fundado na grande empresa, provocando
todo um processo grilagem de terras, violência de todos os tipos, expulsão de pos-
seiros, extermínio de populações indígenas, migração e degradação sócio-ambien-
tal, cujos reflexos se fazem sentir em quase todos os cantos da Amazônia Legal.
Os dados relacionados à migração, ao crescimento demográfico e à urbani-
zação relativos às regiões Norte e Centro-Oeste permitem uma radiografia dessa
realidade. Um processo que se agrava pelo fato de a modernização e o desenvolvi-
mento dessa nova fronteira agrícola estar fundado na grande propriedade27, o que
exclui os pequenos produtores, mostrando que o acesso a terra dessas regiões
é para poucos. No caso da região Centro-Oeste, de um lado, há um alto grau de
desenvolvimento agrícola em função da enorme concentração fundiária. De outro,
essa situação provoca a exclusão social da maioria da população.

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EPISTHEME

27
Embora os dados sobre a distribuição percentual das terras do estado de Mato Grosso sejam de
1985 eles servem para mostrar o processo de concentração fundiária nas áreas de fronteira. As pro-
priedades de menos de 10 ha englobavam apenas 0,3% a estrutura fundiária do estado, as proprie-
dades entre 10-100 ha utilizam uma fatia de 2,9%, as que variavam entre 100-1000 englobavam
13,3%, as que variavam entre 1000-10.000 representavam 37,4 da estrutura fundiária e aquelas
propriedades acima de 10.0000 detinham 46,1% da estrutura fundiária. A esse respeito consulta o
estudo de FERREIRA, Eudson de Castro; FERNANDES, Antonio João Castrilon e PRAXEDES DA SILVA,
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DOSSIÊ SOCIEDADE

85
O Toyotismo e a Formação do
Trabalhador: trabalho e educação
no modelo de organização produtiva
capitalista

Alex Rodrigo Borges∗


Kely Alves Costa∗*
Karina Liotti Guimarães Marques Pereira***

RESUMO
Esta pesquisa se insere no campo de estudo das relações entre educação, trabalho e
formação profissional, possuindo como cenário o atual modelo de organização produtiva
capitalista, no qual se destaca o Toyotismo, ou Modelo Japonês de Produção. Objetivou
analisar as configurações do processo de educação mediante a organização flexível da
produção, através da qual, em lugar do trabalho desqualificado e repetitivo, o operário é levado
à polivalência. Para tanto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica referenciada, sobretudo,
na produção teórica sobre a conjuntura atual, que pudesse permitir a compreensão da
dinâmica da reestruturação produtiva no âmbito econômico, a fim de problematizar seus
efeitos na formação do trabalhador. Ao final, verificou-se que, em consequência das medidas
propostas pelo toyotismo, tem-se, dentre outras, a intensificação do trabalho e o aumento
intenso da cobrança por qualidade e por produtividade que acabam por agravarem a
situação do trabalhador, que lida com a promessa da qualificação para a “empregabilidade”.
Palavras-chave: Toyotismo. Trabalho. Educação. Capitalismo.
DOSSIÊ SOCIEDADE
*
Mestre em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Especialista em Fisioterapia
e Traumato-ortopedia pelo Centro Universitário do Triângulo ( UNITRI) e em Metodologia do Ensino
Superior pela Faculdade de Patos de Minas, Graduado em Fisioterapia pelo Centro Universitário do
Cerrado - Patrocínio (UNICERP). Professor da Faculdade Cidade de João Pinheiro (FCJP) e da Facul-
dade de Patos de Minas (FPM). alexvze@msn.com
**
Especialista em Metodologia do Ensino e Tecnologia para Educação a Distância pela Faculdade Cida-
de de João Pinheiro (FCJP). Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia
(UFU). Professora da Faculdade Cidade de João Pinheiro (FCJP). kelynha_costa@yahoo.com.br
***
Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade Coromandel (FCC) e Banco de
Dados pelo Centro Universitário do Triângulo (UNITRI). Possui MBA em Gerenciamento de Projetos pela
Fundação Getúlio Vargas (FGV). Graduada em Tecnologia da Informação pela Faculdade Universidade
***de Cuiabá- Campus Tangará da Serra (UNIC-SUL).Professora da Faculdade de Patos de Minas
(FPM) e da Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). karinaliotti@yahoo.com.br

87
1 INTRODUÇÃO
O primeiro pressuposto de toda a história, segundo Marx e Engels (1989, p.
39-40) é que os homens devem estar em condições de viver para poder “fazer his-
tória”. O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam a
satisfação dessas necessidades, isto é, a produção da própria vida material. Ainda
como há milhares de anos, a produção de meios para a satisfação de necessida-
des materiais é um ato histórico, o primeiro, pois é uma condição fundamental de
toda a história, que deve ser cumprido todos os dias e todas as horas, simplesmen-
te para manter os seres humanos vivos. Todavia, profundas e rápidas transforma-
ções ocorrem na sociedade contemporânea e têm submetido o homem a um forte
impacto nas relações sociais devido principalmente ao intenso desenvolvimento
científico e tecnológico. Essas transformações afetaram significativamente o mun-
do do trabalho e por conseguinte as relações de trabalho nos aspectos da estrutu-
ra organizativa do “fazer” do trabalhador bem como na percepção social sobre o
significado do trabalho.
Marx, ao analisar a categoria trabalho, apresenta o seu aspecto humanizador
e criativo, que media as relações entre o homem e a natureza (MARX, 2002). Con-
sequentemente, essa interação entre homem e natureza por meio do processo de
trabalho, faria com que o homem transformasse tanto o meio quanto a si mesmo.
Por outro lado, o processo de trabalho sob a perspectiva do sistema capitalista de
produção é concebido como atividade exploratória por meio da qual são criados
valores de troca que se desdobrem na máxima valorização possível do capital.
Dessa maneira, o trabalho perde o seu sentido humanizador e emancipatório em
detrimento de novas características: o trabalho alienado, penoso e sacrificante,
no qual o homem não se realiza. Instaura-se uma contraditória relação entre o
trabalho humano criativo e emancipador e o trabalho estranhado submisso aos
ditames do capital.
Nesse sentido, é preciso considerar, sobretudo, que a satisfação das neces-
EPISTHEME

sidades básicas do individuo para a sua sobrevivência depende, no contexto da


sociedade capitalista, de que o ser humano tenha acesso ao trabalho e, desta
forma, tenha também acesso aos recursos financeiros necessários à aquisição
dos bens para sua sobrevivência. Entretanto, a crise do capitalismo tem afetado
diretamente os trabalhadores dos diversos setores produtivos, por um lado e, por

88
outro, se apresenta de forma inexorável a criação e reprodução dos mecanismos
de controle próprios do capital pelos sindicatos que, por sua vez, possuem a res-
ponsabilidade de organizar e reordenar as forças dos trabalhadores em prol do
desenvolvimento social.
O Estado ao seu modo tem subordinado as forças sindicais e cooptado seus
agentes no processo reducionista da formação profissional tendo em vista a apro-
priação do discurso de que o desemprego é por falta de qualificação do trabalha-
dor. Assim, o processo de qualificação por meio da educação consiste no principal
meio de formação profissional do trabalhador e no meio de manter seu emprego.
Nesse cenário, o Toyotismo, ou Modelo Japonês de Produção, caracteriza
uma série de mudanças que vêm se processando na organização do processo
de produção e do trabalho nas empresas. Com amplas implicações sociais, sua
origem remonta à experiência pioneira do Ohno, engenheiro da Toyota, empresa
japonesa, que nos anos 1950, introduziu conceitos interpretados ora como rom-
pimento, ora como renovação e re-significação do Taylorismo-fordismo (FIDALGO;
MACHADO, 2000).
Para Gounet (2002), o toyotismo é uma resposta à crise do fordismo nos anos
1970. Em lugar do trabalho desqualificado, o operário é levado à polivalência. Em
vez da linha individualizada, ele integra uma equipe. Em suma, o toyotismo elimina,
aparentemente, o trabalho repetitivo, ultra-simplificado, desmotivante, embrutece-
dor. “Afinal chegou teria chegado a hora do enriquecimento profissional, do cliente
satisfeito, do controle de qualidade [...]” (p. 33).
É esse o contexto, portanto, em que ocorre um processo de reestruturação
produtiva, fruto de uma crise estrutural do capital, no qual a educação, na forma
de qualificação do trabalhador, apesar de assumir-se enquanto via para manter-se
empregado, torna-se insuficiente para tanto, concorrendo para isso outros diversos
DOSSIÊ SOCIEDADE
fatores. E mediante essa relação, este artigo objetiva analisar as configurações do
processo de educação mediante a organização flexível da produção consolidada
pelos princípios toyotistas.

2 METODOLOGIA
A pesquisa aponta como proposta metodológica de trabalho a perspectiva da
abordagem qualitativa, sendo que a pesquisa qualitativa em educação caracteriza-

89
-se pela obtenção de dados descritivos no contato direto do pesquisador com a si-
tuação estudada, enfatizando mais o processo de como os fatos foram acontecen-
do, de modo a apreender as concepções, visões e percepções dos sujeitos. Esse
tipo de pesquisa apresenta cinco características básicas: têm o ambiente natural
como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento;
os dados coletados são predominantemente descritivos; a preocupação com o pro-
cesso é muito maior do que com o produto; o “significado” que as pessoas dão as
coisas e a vida são focos de atenção especial pelo pesquisador; e a análise dos
dados tende a seguir um processo indutivo (LUDKE; ANDRÉ, 1986).
Do ponto de vista metodológico, realiza-se uma pesquisa bibliográfica refe-
renciada, sobretudo, na produção teórica sobre a conjuntura atual, que pudesse
permitir a compreensão da dinâmica da reestruturação produtiva no âmbito eco-
nômico, a fim de problematizar seus efeitos na formação do trabalhador. Desta
forma, esse trabalho consiste numa pesquisa bibliográfica, que teve como objetivo
levantar os autores que tratam das questões abordadas do problema delimitado.

3 A CRISE DO CAPITALISMO E O TRABALHO


A crise atual do capitalismo bem como o seu processo de reorganização e a
construção de uma nova sociabilidade no Brasil, dentro de uma ótica subalterna
ao capital (ARRIGHI, 1997), apresenta-se como um período de amplas e profundas
transformações nos pólos científico-tecnológicos, alteração no interior dos proces-
sos de trabalho, reorganização dos Estados, etc. E uma das respostas à crise es-
trutual capitalista se refere ao processo de reestruturação produtiva que, por sua
vez, provoca significativas modificações no mundo do trabalho, cujos padrões de
acumulação baseavam-se quase exclusivamente no taylorismo-fordismo.
Marx (2002, p. 72) afirma que:

É preciso ter em mente que as novas forças de produção e


EPISTHEME

relações de produção não se desenvolvem a partir do nada,


não caem do céu, nem das entranhas da Idéia que se põe a
si própria; e sim no interior e em antítese ao desenvolvimento
existente da produção e das relações de propriedade
tradicionais herdadas. Se no sistema burguês acabado cada

90
relação econômica pressupõe outra sob a forma econômica-
burguesa, e assim cada elemento posto é ao mesmo
tempo pressuposto, tal é o caso em todo sistema orgânico.
Este próprio sistema orgânico, enquanto totalidade, tem
seus pressupostos, e seu desenvolvimento, até alcançar a
totalidade plena, consiste, precisamente, na subordinação de
todos os elementos da sociedade a si próprio, ou na criação,
a partir dele, dos órgãos que ainda lhe fazem falta; desta
maneira chega a ser historicamente uma totalidade.

É nesse sentido que a organização da produção material de mercadorias


fundamentada nos princípios tayloristas-fordistas – que visa a gerência,
planejamento, controle e execução dos processos de trabalho, bem como as
formas de se articular a circulação e distribuição de produtos – passa a perder
espaço para uma nova ótica: o toyotismo.
Consequentemente, as concepções rígidas de configuração da produção e
gerência passam a ser substituídas pelo padrão flexível, no qual não há estoques
maiores, pois se adota o sistema just-in-time (JIT). Trata-se de um sistema que
surgiu no Japão, nos meados da década de 1970, sendo sua idéia básica e seu
desenvolvimento creditados à Toyota Motor Company, a qual buscava um sistema
de administração que pudesse coordenar a produção com a demanda específica
de diferentes modelos e cores de veículos com o mínimo atraso, proporcionando a
fabricação das mercadorias sob encomenda (SABEL; PIORE, 1984).
Reduzindo custos, a função produção inclui atividades de engenharia, produ-
ção e controle de qualidade. No sistema JIT, a produção, a engenharia, o controle
de qualidade e os fornecedores interagem mais no projeto dos produtos visando
a fabricabilidade. Isso é verdadeiro tanto no nível de montagem, como no nível de
DOSSIÊ SOCIEDADE

componentes. Os produtos que são projetados tendo em vista facilidade de fabri-


cação têm uma chance melhor de trazer lucro durante o seu ciclo de vida. Trata-se,
portanto, de um instrumento de produção sem estoques, com grande responsabi-
lização pelos operários, com a finalidade de diminuir a margem de gerenciamento
e as paradas na produção, favorecendo o trabalho. Em contrapartida o operado
passou a ganhar além de um salário fixo mínimo, ganhos adicionais, medidos pelo
envolvimento em cotas de produção, através de seu esforço para atingir a expecta-
tiva da produção (HUTCHINS, 1993).

91
Destarte, as empresas adotavam a dependência invertida, bem como se ins-
talavam em locais onde não existiam sindicatos atuantes e havia fartura de força
de trabalho, de modo a impedir a organização da massa trabalhadora. A legislação
beneficiava as empresas que usavam os trabalhadores nas fábricas, flexibilizando
o trabalho com as novas tecnologias, despindo o trabalhador da proteção, seguran-
ça, perspectiva de futuro e solidariedade, em detrimento dos direitos trabalhistas
conquistados. Os trabalhadores deveriam estar habilitados para ocupar qualquer
cargo, a qualquer momento, bem como para desempenhar novas tarefas e se mo-
verem pela empresa, onde ela possa querê-los (ALVES, 2000).
Para adequar-se a esta nova estratégia de produção, tanto as plantas das
empresas quanto as habilidades de seus trabalhadores foram modificadas, a
fim de atender aos padrões de flexibilidade da produção. A polivalência, aqui en-
tendida como profissional multifunção, passa a ser valorizada em detrimento da
especialização, o trabalho em equipe e por tarefas substitui o trabalho de ritmo
contínuo e realizado individualmente. A relação hierárquica despótica, na qual se
exige obediência cega e tem o poder de punir qualquer insubordinação, passa a
ser substituída pela ideologia da participação em decisões e resultados da empre-
sa, criando uma incorporação ativa da subjetividade do trabalhador ao ideário do
capital (ANTUNES, 2002).
Logo, concebe-se um contexto de reestruturação produtiva, que consiste em
um processo complexo de mudanças na configuração dos sistemas produtivos –
com desdobramentos sobre o funcionamento dos mercados de trabalho – que
vem ocorrendo nas últimas décadas no contexto da crise atual do capitalismo de-
sencadeada a partir do final dos anos de 1970 e início da década de 80 (FIDALGO;
MACHADO, 2000).
Sabe-se que o trabalho na era fordista, que vigorou por quase todo o século XX,
caracterizou-se pela exploração intensa do trabalhador. Visto como simples apêndice
da máquina, o operário fordista sofria com o trabalho repetitivo, massificado, mal-
-pago, intenso e embrutecedor, trabalho esse existente enquanto peça fundamental
EPISTHEME

para o aumento do lucro capitalista (MESZÁROS, 2002). Verifica-se que quanto maior
a exploração e menor a remuneração, maior seria o lucro porque maior é a mais-
-valia, o ganho do capital sobre o trabalho, do trabalho sobre o não-trabalho.
Assim, da crise do modelo fordista, nasceu um novo modelo, fundamentado
em fórmulas inovadoras no objetivo de superar as falhas do taylorismo/fordismo.

92
O modelo chamado de toyotismo, elabora um discurso voltado para a valorização
do trabalho em equipe, da qualidade no e do trabalho, da multifuncionalidade, da
flexibilização e da qualificação do trabalhador. Oculta, porém, a exploração, a in-
tensificação e a precarização do trabalho, inerentes à busca desenfreada do lucro
pelo sistema de metabolismo social do capital, que, por não ter limites, configura-
-se como ontologicamente incontrolável (MESZÁROS, 2002).
Surge o que se chama de flexibilidade profissional, na qual se verifica a mes-
cla entre elaboração e execução de tarefas e estratégias organizacionais. O traba-
lhador tornado polivalente é o que conhece além das suas atribuições peculiares,
sendo capaz de compreender a essência do processo produtivo. Com a possibili-
dade de conhecer outras operações, pode-se reforçar a cooperação entre os fun-
cionários de uma organização, aumentando a eficiência e a produtividade em prol
do capitalismo (ANTUNES, 2002).
Verifica-se que ao capital cabia uma resposta à sua própria crise, à crise do
fordismo. E o seu sistema de metabolismo social apresenta a solução que melhor
corresponde aos seus interesses de lucratividade: incorpora as reivindicações por
melhores condições de trabalho investindo na qualificação profissional dos traba-
lhadores e passando a valorizá-la nas políticas de contratação de mão-de-obra e
ascensão hierárquica nas empresas. Nesse sentido, segundo Antunes (2002), o
capital “destrói”, então, o operárioexecutor e “constrói” o profissional polivalente,
flexível, participativo, organizativo e altamente especializado.

3.1 Toyotismo e acumulação flexível: a “qualidade total” como


estratégia do capital

Com o toyotismo uma nova forma de organização industrial e de relação entre DOSSIÊ SOCIEDADE
capital e trabalho emerge das cinzas do taylorismo/fordismo. De acordo com Sa-
bel e Piore (1984), estas novas relações eram mais favoráveis aos trabalhadores
quando comparadas às existentes no modelo anterior, principalmente por possibili-
tarem o advento de um trabalhador mais qualificado, participativo, multifuncional,
polivalente, dotado de maior realização no ambiente de trabalho.
Estratégias como o just in time, team work, kanban, a eliminação do desper-
dício e o Controle de Qualidade Total são parte do discurso do modelo toyotista de
produção e adotadas pelas empresas em todo o mundo (ANTUNES, 2002). Essas

93
estratégias tornaram-se modismo entre os consultores de Recursos Humanos, ou-
tplacements, hadhunters e demais especialistas em contratação e recolocação de
profissionais. Somente as empresas que encontram-se integradas a tais estraté-
gias são tidas como empresas-modelo, recebendo os certificados de qualidade ISO
9000, 9001, 9002 etc.a
Assim, observa-se como o poder transformador do capital atinge dimensões
globais. O que é conveniente para os fins capitalistas deve ser adotado por todos
os que integram o sistema e o metabolismo social do capital se encarrega disso.
Transforma-se não só as relações de produção, na esfera econômica, mas também
os conceitos de qualificação do trabalhador, na esfera sociocultural. O discurso
da “qualidade total” é um bom exemplo a ser citado e debatido. Recordando as
reivindicações por melhores condições de trabalho na década de 1960 e o descon-
tentamento público com a tendência decrescente do valor de uso das mercadorias,
fica fácil compreender a razão pela qual o capital insiste em qualificar processos de
produção, trabalhadores e produtos tendo como referência os padrões estabeleci-
dos pelo discurso da “qualidade total”.
No intuito de convencer a todos de que o ambiente e as relações de trabalho
são os melhores possíveis, estabelece-se os certificados de qualidade ISO. Isso
também se verifica com as mercadorias, que só são liberadas para o mercado
quando passam pelas inspeções de qualidade. O mesmo ocorrendo com os pro-
fissionais a serem contratados ou analisados, só prevalecendo os que forem qua-
lificados (ou seja, terem qualidade) o suficiente. Os lucros capitalistas dependem
do mercado e do consumidor. Se o mercado exige qualidade é porque o público
consumidor também exige. E o capital sabe muito bem disso e por isso instaura os
programas e certificados de “qualidade total” (ANTUNES, 2002).
Mas, atenção especial tem que ser dada à falácia destes programas. Toma-
ney (1996) destaca que mesmo onde exemplos de especialização flexível podem
ser identificados, isso não tem trazido necessariamente benefícios para o trabalho
ou o trabalhador. Observam-se, até mesmo, exemplos crescentes de intensificação
EPISTHEME

do trabalho onde o sistema just in time, por exemplo, é implantado.


Mészáros destaca como estratégia do capital a utilização decrescente do va-
lor de uso das mercadorias (MÉSZÁROS, 1995). O capital depende da dinâmica
do mercado de produtos, que é dada pela contínua substituição das mercadorias
velhas pelas novas. Portanto, quanto menor vida útil tiver um produto, maior será a

94
dinâmica do mercado de consumo e, consequentemente, maior será o lucro obtido
pelas empresas. A utilização decrescente do valor de uso é fundamental para o
processo de valorização do capital.
Conforme salienta Antunes (2002, p. 50): “[...] na empresa da era da reestru-
turação produtiva, torna-se evidente que quanto mais ‘qualidade total’ os produtos
devem ter, menor deve ser seu tempo de duração.” A “qualidade total” torna-se,
então, inteiramente compatível com a chamada lógica da produção destrutiva, na
qual os traços marcantes são o desperdício, a destrutividade e a rápida obsoles-
cência dos produtos. Visto sob esta ótica, não restam dúvidas de que o discurso da
“qualidade total” é mais uma das estratégias do capital para atingir seu objetivo
único e primordial: o lucro. O divulgado “respeito” pelo consumidor (que sofre com
a baixa qualidade dos produtos) ou pelo trabalhador (afetado pela intensificação
e exploração do processo de trabalho, ocultadas pelos certificados de qualidade),
ocorrido com os processos de reestruturação produtiva, não passa de alienação
diante da cruel realidade. Alienação esta que é uma arma poderosa, da qual se
utiliza o sistema de metabolismo social do capital.

4 O TOYOTISMO E AS NOVAS QUALIFICAÇÕES DO


TRABALHADOR
O toyotismo é uma adequação do fordismo à nova era das “novas máquinas”,
da automação flexível e da crise estrutural de superprodução (GOUNET, 2002). Con-
tudo, o toyotismo tornou-se, simplesmente, uma inovação na organização da produ-
ção capitalista, ainda sob a grande indústria, não chegando a ser considerada como
uma nova forma produtiva, mesmo tendo sido o momento predominante do novo
processo produtivo, impondo, articulando e constituindo as novas qualificações. Des-
DOSSIÊ SOCIEDADE

ta forma, o toyotismo, igualmente ocorria com o fordismo, operava a articulação de


forma habilidosa da união e da força do proletariado, destruindo os sindicatos de
base territorial, através da implantação de salários mais altos, direitos sociais, propa-
ganda ideológica e política habilíssima (ANTUNES, 2002; ALVES, 2000).
O toyotismo exigia para o desenvolvimento da produção capitalista novas qua-
lificações do trabalho que articulam habilidades cognitivas e habilidades comporta-
mentais, obtendo, desta forma, novos dispositivos organizacionais da automação

95
flexível. As qualificações exigidas do proletariado eram: capacidade de abstração,
decisão e comunicação; e qualidades relativas à responsabilidade, atenção e inte-
resse pelo trabalho. O toyotismo exige uma “reforma moral e intelectual” do mundo
do trabalho e é tido como uma nova ideologia orgânica da produção capitalista sob
a mundialização do capital. As novas habilidades cognitivas e comportamentais
terão um sentido paradoxal, sendo que: por um lado, elas expressam habilidades
humanas exigidas pela nova base técnica de produção do sistema orgânico do ca-
pital e, por outro lado, elas expressam a exigência orgânica da produção de merca-
dorias, com novas qualificações adequadas à lógica do toyotismo (ALVES, 2000).
Segundo Lombardi, Saviani e Sanfelice (2002). o discurso da empregabilida-
de tende, portanto, a aflorar a produção destrutiva e a exclusão social. A mundiali-
zação do capital, tendeu a destruir a capacidade integradora do sistema orgânico
do capital, uma integração relativa que permitiu a uma contingente significativo de
indivíduos o acesso a vida civil, política, cultural e econômica. Nessa época, predo-
minaram as políticas keynesianas de bem-estar social
Para Oliveira (2004), o toyotismo tentava potencializar ao máximo o rendimen-
to do trabalho vivo através da exploração máxima do trabalhador, técnica também
utilizada pelo capitalismo, aperfeiçoando os equipamentos e a fábrica, procedendo à
máxima flexibilidade da organização do trabalho e da linha automatizada, até a ten-
são máxima da linha de produção, elevando o desgaste da força de trabalho até ní-
veis desumanos. Destarte, configuram-se como características principais do toyotis-
mo: autonomação, gerenciamento JIT, trabalho em equipe, management by stress,
flexibilidade da força de trabalho, subcontratação e gerenciamento participativo.
Assim, a crise do capitalismo e o desenvolvimento da mundialização do capi-
tal, com sua política neoliberal e o complexo de reestruturação produtiva, ocorrem
uma alteração na dinâmica do desenvolvimento capitalista. A falência das políticas
keynesianas de bem-estar social e a hegemonia das políticas neoliberais expres-
savam mudanças orgânicas na produção e reprodução do capital. A instauração
de um regime de acumulação flexível, capaz de contribuir para uma retomada dos
EPISTHEME

processos de acumulação de riqueza abstrata, iria colocar em crise a promessa de


integração e explicitar que o desenvolvimento do capitalismo tende a exigir uma
“produção enxuta” de mercadorias e uma exacerbação do controle e manipulação
do elemento subjetivo do trabalho.

96
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao querer resumir o significado do sistema toyotista em uma frase, de acor-
do com Gounet (2002), poder-se-ia dizer que é um sistema de organização da
produção baseado em uma resposta imediata às variações da demanda e que
exige, portanto, uma organização flexível do trabalho (inclusive dos trabalhadores)
e integrada.
A questão do controle de qualidade, que no fordismo era feito ex post, ou seja,
determinado por um único setor que deveria se responsabilizar pelo controle após
a produção dos produtos, no toyotismo é feito diferentemente, isto é, durante o
processo de produção dos produtos, e com isso a evita-se defeitos ao final da pro-
dução reduz-se a margem de erros nos produtos, a necessidade de refazer o pro-
duto e ainda o aumento do custo da produção bem como o descartes de produtos.
Assim, o trabalhador nesse mecanismo de controle da qualidade do produ-
to na produção elimina o modelo rígido presente no Fordismo e passa para os
próprios trabalhadores o controle sobre o processo de qualidade no processo de
produção. Desta forma os trabalhadores são organizados CCQs e são preparados,
treinados para que permanentemente desempenhem o papel de supervisor da
qualidade do produto durante o processo de produção.
Nesse aspecto considera-se que no fordismo a preocupação da qualidade
do produto estava atrelado aos recursos financeiros e no toyotismo está voltado
para o mercado, de maneira que não se produz de acordo com a condição estru-
tural de produção da empresa em termos de capacidade física, de máquinas ou
de pessoal e sim na condição e capacidade da sociedade de adquirir os produtos
apresentados.
Em consequência dessas medidas, tem-se a precarização das relações de tra-
DOSSIÊ SOCIEDADE
balho, intensificação do trabalho, aumento intenso da cobrança por qualidade e por
produtividade de maneira que se revela profundamente perversa e agrava a situação
social do trabalhador. E, apesar do discurso oficial e empresarial evidenciarem que
a fórmula para a cidadania é a empregabilidade, com a promessa da qualificação,
o que se verifica é que os limites são estreitamente econômico e que a formação
humana está sendo posta a serviço da reprodução ampliada do capital.
Ao trabalhador, por outro lado, é importante adquirir condições que lhe garan-
tam o ingresso no mercado de trabalho, o aumento do seu poder de barganha por

97
um salário melhor ou a permanência no trabalho, diante da competitividade repre-
sentada pela máquina ou por outro trabalhador, de forma que o trabalho continua
a ser central na vida do homem. Todavia, o conceito de trabalho – tal como ocorre
com a educação – precisa transcender o mundo da necessidade, não podendo
ficar restrito à dimensão econômica.

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98
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DOSSIÊ SOCIEDADE

99
DA MASCULINIDADE

Luís Antonio Bitante Fernandes*

Resumo
O presente artigo trata, num primeiro momento, da Masculinidade vista como categoria de
análise que contribui para a percepção das mudanças que vem ocorrendo na construção
social do gênero masculino na contemporaneidade. Desta forma nele buscamos descrever,
por meio de um debate com autores renomados, elementos que contribuem para pensar
o universo social da masculinidade. Num segundo momento, trata-se de uma discussão
acerca do surgimento de uma tecnologia que contribuiu com a mudança de comportamento
no universo masculino, isto é, como os medicamentos de disfunção erétil se inserem na
concepção da masculinidade na contemporaneidade.

1 Introdução
O homem deve exibir uma aparência de audácia, de agressi-
vidade até; mostrar-se disposto a correr todos os riscos (...). O
supermacho que (...) encontra uma ilustração perfeita na ima-
gem do homem dos cigarros de Marlboro (...). O homem duro,
solitário porque não precisa de ninguém, impassível, viril a toda
prova. Todos os homens, em determinada época, sonharam ser
assim: uma besta sexual com as mulheres, mas que não se liga
a nenhuma delas; um ser que só encontra seus congêneres
masculinos na competição, na guerra ou no esporte. Em suma,
o mais duro dos duros, um “mutilado de afeto”, feito mais para
DOSSIÊ SOCIEDADE
morrer do que para se casar e ninar bebês.1

*
Formado em Ciências Sociais pela UNESP/FCL - Ar. Foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq,
trabalhando na área de Sociologia e Demografia. Mestrado em Sociologia pela PUC - SP, com defesa
da dissertação “Adolescência: um estudo das identidades de gêneros”. Doutorado pelo programa de
pós-graduação em Sociologia pela UNESP/FCL – Ar, com a tese: “Afinal o que querem os homens?:
um estudo da masculinidade”. Atualmente sou professor pela UFMT/CUA; coordenador do Projeto
de Extensão: “Corpo, Sexualidade e Gênero: uma reflexão no campo educacional”; Coordenador do
Projeto de Pesquisa: “Afinal o que querem os homens?: um estudo da masculinidade nas salas de
bate-papo e na revista Men’s Health”.
1
BADINTER, Elisabeth. 1992, p. 134.

101
A Masculinidade enquanto substrato de compreensão da definição do “ser
homem” vem sendo discutida, em pesquisas nas ciências humanas nos últimos
anos, devido a sua importância na busca de entender as mudanças que esta vem
sofrendo na contemporaneidade.
Este artigo, fragmento da tese de doutorado “Afinal o que querem os ho-
mens?: um estudo da masculinidade”, visa, num primeiro momento, estabelecer o
debate com alguns autores que decorreram sobre o tema e que propõem Mascu-
linidade como categoria de análise que instrumentaliza tanto a compreensão da
construção social que define as condições do “ser homem” no âmbito social como
também os elementos que ocorrem em torno dessas condições, colocando o “ser
homem” como algo em processo de transformação.
Num segundo momento, este artigo trás uma discussão sobre dados levan-
tados após inserções etnográficas em salas de bate papo da Uol, em que diálogos
foram estabelecidos acerca da masculinidade mediados pela possibilidade do con-
sumo de medicamentos de disfunção erétil.
Ao buscar a resposta para a pergunta “o que é ser homem?”, depara-se com
algumas questões. As diferenças no comportamento de mulheres e homens resul-
tam do sexo ou do gênero? Em outras palavras, em que medidas são resultantes
das diferenças biológicas ou das consciências sociais? Como a sexualidade nos
dias de hoje está interferindo na construção da masculinidade?
Desconstruir o olhar de naturalização das relações entre os sexos e das se-
xualidades e desconstruir as categorias de ação e de pensamento que articulam
a masculinidade, remete a compreensão das transformações sociais, políticas e
culturais, no que se refere às mulheres e ao próprio homem, interferem no compor-
tamento dos mesmos e em suas concepções de masculinidade.
Pressupondo que a masculinidade é socialmente construída, que varia de
cultura a cultura, que varia em qualquer cultura no transcorrer de certo período
de tempo, que varia em qualquer cultura através de um conjunto de outras vari-
áveis, outros lugares potenciais de identidade e que varia no decorrer da vida de
EPISTHEME

qualquer homem, entende-se que a masculinidade é construída simultaneamente


em dois campos inter-relacionados de relações de poder, que são: homens com
mulheres e homens com outros homens, tendo este campo dois elementos consti-
tutivos na construção social de masculinidades que são o sexismo e a homofobia.
A masculinidade como uma construção imersa em relações de poder é fre-

102
quentemente algo invisível aos homens cuja ordem de gênero é mais privilegiada
com relação àqueles que são menos privilegiados por elas e, aos quais, isto apa-
rece mais visível.
O papel atribuído ao homem na vida social vem, ultimamente, sendo alvo de
muitos debates. Por muito tempo considerado como sexo forte, suas atribuições
na sociedade começaram a ser postas em questionamento desde o surgimen-
to dos movimentos feministas que tomaram impulso com a segunda onda do
movimento feminista que eclode nos anos de 1960. Com as mulheres lutando
por direitos iguais e desprezando a figura do machão, os homens começaram
a sentir que suas identidades masculinas estavam sendo ameaçadas e, como
consequência, a necessidade de buscar uma nova forma de ser homem. No ras-
tro do movimento feminista, surge também o movimento gay, que busca abrir
caminhos para a aceitação social de outras formas de ser homem. Esses dois
acontecimentos são o ponto de partida que detona naquilo que denomina-se de
“crise do masculino”.
Ao propor a Masculinidade como objeto de estudo, deve-se considerá-la com
base em perspectivas de sua constituição tanto no campo teórico como no campo
das relações sociais. A primeira, sem determinação hierárquica entre elas, mas de
modo a vê-las imbricadas, é de que a categoria em si não pode ser vista dentro
de uma perspectiva isolada, mas sim com um olhar relacional, o que, portanto,
não se separa da categoria de feminilidade, pois ambas se complementam e se
contrapõem em sua construção. Outro elemento importante é que masculinidade
não tem uma representação singular, mas sim plural – masculinidades, no sentido
de transitarmos por uma variedade de possibilidades que se dão a partir de um
modelo dominante o qual estruturará as demais. Por fim, masculinidade, na con-
temporaneidade, deve se afastar da categoria patriarcal que se estabelece como
DOSSIÊ SOCIEDADE
ordenamento social, mas que já não mais corresponde aos anseios e ao modelo
de organização social diante das transformações que estão em andamento nas
relações de gênero.
Ainda em relação aos limites deste artigo, chamo a atenção acerca do “ho-
mem” ao qual nos referimos, pois este se encontra contextualizado no início da
década do século XXI. Tal delimitação se faz importante na medida em que enten-
demos o modelo masculino como não universal, mas, como já dito, variável atra-
vés do tempo e do espaço. Ao enfocar-se o padrão hegemônico do ser masculino

103
vigente na realidade contemporânea, não estamos desconsiderando que em tal
locus se circunscreveu, também, outras masculinidades e que encontraremos em
um mesmo contexto social a produção de diferentes masculinidades.
Deslocamentos aos quais as masculinidades se vêem confrontadas na con-
temporaneidade constituiu-se o que tem sido chamado de crise de identidade
masculina. Em vista disso, se só considerar-se inicialmente o termo identidade,
fica pressuposto que, se não havendo crise, haveria uma coincidência do sujeito
consigo mesmo, portanto, H seria igual a H. Isso implica que a identidade mascu-
lina seria construída pela afirmação do discurso cotidiano tais como “...homem
que é homem não chora...”, “homem é homem”, o que ao recaírem sobre o ser,
permitiriam ao sujeito afirmar que: “eu sou homem”.
Ao considerar a preocupação feminista com a subordinação das mulheres
na sociedade, não é surpreendente que a maioria das pesquisas mais recen-
tes sobre o gênero tenha se preocupado com as mulheres e os conceitos de
feminilidade. Durante o ressurgimento do feminismo nos anos de 1960 e do início
dos “estudos das mulheres” e mesmo antes da conceitualização da categoria
gênero, as estudiosas vetaram os estudos sobre as questões sobre homens, um
veto necessário para o contexto e para o momento, devido à dominação masculina
que era exercida2.
Os homens e a masculinidade eram considerados noções relativamente cla-
ras e não problemáticas, pois estes eram vistos dentro de uma ordem patriarcal
que consistia em uma lógica binária, na qual os homens assumiam um lugar de
racional, ativo no público, na produção da ciência e da cultura, provedor, sexual-
mente irresponsável, poderoso, universalizado na sua dominação, homem com ‘H’
maiúsculo3. Por outro lado, as mulheres assumiam o posto contrário desta relação
binária, e é esta posição que se manifesta em opressão, que será denunciada
pelas estudiosas feministas.
Porém, desde o final dos anos de 1980, pesquisadoras(es) como Connell4
e Almeida5 dedicaram-se a estudos críticos sobre os homens e a masculinidade.
EPISTHEME

Mudanças fundamentais que afetaram os papéis das mulheres e dos padrões da


família nas sociedades industrializadas levantaram questões sobre a masculinida-
2
GIFFIN, Karen. 2005.
3
GIFFIN, 2005.
4
CONNEL, Raewyn. 1995.
5
ALMEIDA, Miguel Vale de. 2000.

104
de e seu papel mutável na sociedade6.
Nos últimos tempos, os estudos Sociológicos, Antropológicos e Psicológicos,
dentre outras ciências, interessaram-se cada vez mais nas posições e na experi-
ência de homens dentro da ordem maior na qual são moldados, pois homens não
estão mais sabendo como agir e espera-se que ajam de uma forma completa-
mente diferente daquela como vêm agindo há séculos. Nesse sentido, os homens
buscam redescobrir suas identidades masculinas, tentando conseguir um ponto
de equilíbrio entre a masculinidade hegemônica, modelo no qual estão habituados
a se relacionarem, e os novos modelos de um “novo homem”, que cada vez mais
estão sendo exigidos pela sociedade.
A dificuldade em abandonar o modelo de masculinidade hegemônica tem sido
grande, principalmente a nossa que foi construída dentro de um modelo tradicional.
Essa dificuldade pode ser representada, como exemplo, por um monólogo teatral
com o título “O Homem da tarja preta”, escrito pelo psicanalista Contardo Calligaris,
que narra a história de um homem de meia idade que, em frente de seu computador
e utilizando-se da ferramenta da internet, manifesta sua crise existencial colocada
em questão a partir de sua sexualidade. Essa crise é motivada pelas mudanças so-
cais no campo das relações de trabalho, de sexo e de relacionamento.
O monólogo rendeu uma série de debates, coordenado pelo próprio autor,
com o título “O macho em crise”, no programa Café Filosófico7, onde pesquisado-
res convidados de áreas de conhecimento diversas contribuíram para a reflexão da
masculinidade na contemporaneidade8. Essa mudança nos estudos do gênero e
da sexualidade levou a uma nova ênfase na compreensão dos homens e da mas-
culinidade no interior do abrangente contexto das relações de gênero, das intera-
ções socialmente padronizadas entre homens e mulheres. Isto mostra que alguns
setores da sociedade estão atentos às mudanças em andamento.
DOSSIÊ SOCIEDADE
A resistência aos protótipos masculinos e femininos de outros tempos não foi
concomitante à necessidade de se pensar novos modelos do que é ser homem,
processo que contribui para a chamada crise do macho e que se dá a partir de
muito sofrimento, pois é muito difícil abandonar papéis históricos e socialmente
instituídos como superiores, pois o estranho gera perturbação nas pessoas e gru-
6
GIDDENS, Anthony. 2005.
7
Café Filosófico – programa exibido pela rede de televisão Cultura que tem como proposta a discus-
são de temas contemporâneos a partir de diversas áreas do conhecimento.
8
As vídeos-conferências podem ser encontradas no sítio: www.cpflcultura.com.br.

105
pos sociais por provocar medo da perda das referências habituais.
É interessante destacar que nas descrições teóricas dos gêneros9 a mascu-
linidade está integrada ao conceito de patriarcado, isto é, falar deste conceito faz
com que masculinidade seja parte crítica da ordem dos gêneros e não pode ser
compreendida fora dessa ordem, nem das feminilidades que a acompanham.
Essa ordem reflete como o poder social, detido pelos homens, cria e sustenta
a desigualdade de gênero denunciada pelas feministas e presente no contexto
social. Assim, as relações de gênero são produtos de interações sociais e práticas
cotidianas, ações e comportamentos das pessoas comuns, em suas vidas pesso-
ais, que estão ligados às ordenações sociais coletivas dentro da sociedade.
Para a Antropóloga e pesquisadora, Mirim Pillar Grossi10, o estudo do gênero
que remonta à tradição européia e norte-americana, assume nos dias atuais di-
versas correntes teóricas, que veem o gênero não somente como uma categoria
analítica do estudo de homens e mulheres, mas que ultrapassa essas possibilida-
des enquanto objeto de análises. De sua leitura do gênero, a autora destaca duas
teorias que considera as principais, a estruturalista e a pós-estruturalista.
Na vertente estruturalista, o gênero, segundo Grossi11, implica em alteridade,
o que significa dizer que o masculino só existe em oposição ao feminino e, portan-
to, a formação da identidade de gênero masculina se dará no reconhecimento de
que há pessoas idênticas e diferentes de nós mesmos. Nessa concepção, o gênero
se constrói com base numa concepção biológica e num corpo sexuado, o que ca-
racteriza na condição de macho e fêmea. Para a vertente pós-estruturalista, Grossi
afirma que o gênero se constitui pela linguagem, ou seja, pelo discurso. O “discur-
so não são somente palavras, mas linguagem, atos que têm significados”12, por-
tanto, ele irá permear todo um conjunto de relações sociais, onde a masculinidade
e a feminilidade se fazem presente. Judith Butler, em “Problemas de Gênero”13,
que agrega aspectos do pensamento de Foucault e Laqueur, afirma que o gênero é
sempre um ato performativo, que se constitui apenas e a partir dos símbolos cria-
dos para o feminino e o masculino, sendo o gênero performance, isto é, ele está
EPISTHEME

longe de se desenvolver de maneira livre, pois é regulamentada por uma matriz

9
CHODOROW, Nancy. 1990; OLIVEIRA, Pedro Paulo. 2004; WELZER-LANG, Daniel. 2009.
10
GROSSI, Mirian Pillar. 1995.
11
GROSSI, 1995.
12
GROSSI, 1995, p. 5.
13
BUTLER, Judith. 1993.

106
que pressupõe coerência entre sexo biológico, as atuações de gênero, o desejo e
a prática sexual.
Já para Raewyn Connell14, uma das pioneiras dos estudos da masculinida-
de, verifica-se que a autora apresenta três aspectos da sociedade que se intera-
gem para formar uma ordem de gênero da sociedade, na qual os paradigmas de
relações de poder entre masculinidades e feminilidades, largamente difundidas
na sociedade, se dão pela tríade trabalho, força e cathesis (relações pessoais/
sexuais)15. Para a autora, essas três categorias são partes distintas e inter-relacio-
nadas que trabalham conjuntamente e se modificam umas em relação às outras.
Esses domínios representam os lugares fundamentais em que as relações de gê-
nero são constituídas e consolidadas.
O primeiro aspecto, o trabalho, refere-se à divisão sexual do trabalho, tanto
dentro da casa, na qual se observam a divisão das responsabilidades domésticas
e o cuidado com os filhos, e que vem sofrendo mudanças consideráveis nos dias
atuais, como no mercado de trabalho, onde se observam a segregação ocupacio-
nal e o pagamento desigual. A força, como segundo aspecto, se dá em forma de
poder que opera com base nas relações sociais como a autoridade, a violência
e a ideologia nas instituições, no Estado, na vida militar e doméstica. A terceira,
a cathesis, refere-se a uma dinâmica dentro das relações íntimas, emocionais e
pessoais, que se incluem no casamento, na sexualidade e na educação infantil16.
Connell mostra que esses três aspectos referem-se a um regime de gênero
em que a masculinidade e a feminilidade são suas expressões. No nível da socie-
dade, essas versões de masculinidade e feminilidade são versões opostas e que
estão ordenadas numa hierarquia em que a premissa definidora é a dominação
dos homens sobre as mulheres. No topo dessa hierarquia está a masculinidade he-
gemônica que é dominante sobre todas as outras masculinidades e feminilidades
DOSSIÊ SOCIEDADE
e que será a base da heteronormatividade.
O adjetivo “hegemônica” refere-se ao conceito de hegemonia, que tem seu
significado e sua legitimidade baseado na dominação de um grupo social em rela-
ção a outro. Isso ocorre não pelo uso da força bruta, mas por uma dinâmica social
e cultural que se estende aos domínios da vida privada e social. Na sociedade, são

14
Mulher transexual que mudou o sexo e nome de Robert Willian Connell para atual, Raewyn Connell.
Ela continua amplamente sendo conhecida pela sigla R. W.
15
CONNELL, 1995.
16
CONNEL, 1995.

107
vários os canais pelos quais a hegemonia é estabelecida, como a mídia, a educa-
ção, a ideologia e mais recentemente a internet, como veremos e discutiremos em
nossas pesquisas empíricas.
Portanto, na concepção do autor, há um tipo de homem ideal, no sentido
weberiano, que está associado diretamente e principalmente com a heterossexu-
alidade e o casamento, mas também com outros indicadores de conduta social,
como autoridade, divisão sexual do trabalho, força, e resistência física.
Isso nos leva a pensar que a masculinidade hegemônica se apresenta como
uma forma ideal de masculinidade que somente poucos homens poderão alcan-
çar. São duas as possibilidades diretas em relação à masculinidade hegemônica e
sua relação com o gênero masculino: a primeira é que muitos homens continuam a
se beneficiar delas mesmo não alcançando o tipo ideal de masculinidade; e segun-
do, que os homens são vítimas da própria construção da masculinidade.
Karen Giffin17 também compartilha desta lógica. Para a autora, os estudos
sobre a masculinidade, sejam eles da vertente homossexual ou heterossexual, de-
monstram que a centralidade está na questão do “poder”, mas também enfatiza que
há mudanças constantes dos padrões de dominação, da internalização das estrutu-
ras sociais de opressão e poder, e que indo mais além, possibilita entender a inter-
-relação de opressão no nível individual e das grandes estruturas sociais, políticas,
econômicas e ideológicas. Sem negar a dominação dos homens, a autora propõe ver
a construção da masculinidade dentro do pressuposto de que homens são marca-
dos e brutalizados pelo mesmo sistema que fornecem seus privilégios e poder.
Para os homens, a construção de sua masculinidade, na maioria das cultu-
ras, se faz regularmente submetida ao desafio dos pares e deve ser ininterrup-
tamente manifestada através da rejeição a comportamentos ditos femininos ou
afeminados, bem como por meio de uma virilidade permanente no desempenho
sexual, para que não deixe espaço para a suspeita de homossexualidade, da ca-
pacidade de procriar, da vigilância ciumenta das mulheres da família e de relações
com outras parceiras18.
Kaufman19 considera a masculinidade hegemônica sob uma tríade de violência:
de um homem contra a mulher, contra outros homens e contra si mesmo, isso demons-
EPISTHEME

tra a violência cotidiana de uma sociedade de classes hierárquicas, autoritária, sexista,


militarista, racista, impessoal e louca canalizada através de um homem individual.

17
KAREN, 2005.
18
BOZON, Michel. 2004.
19
KAUFMAN, 1987.

108
O que Giffin20 chama atenção é que dentro desta lógica - na qual encontra-
mos em Kaufman21 - a forma de dominação masculina em nossa época não mais
assume os caracteres de uma sociedade patriarcal, mas sim sob uma ótica de
transformações de todas as relações em forma de instrumentais e impessoais. Isto
leva a pensar a construção da masculinidade com base na supressão de neces-
sidades, desejos, sentimentos e formas de expressão, fazendo da masculinidade
algo extremamente frágil.
O resultado desta construção da masculinidade a partir de novas perspecti-
vas é a tensão que se estabelece entre ser ‘macho’ e ser ‘masculino’, mantendo
uma constante insegurança entre os homens, capaz de impulsionar uma auto des-
valorização ou uma violência contra outros ou outras.
Em nossas pesquisas, a percepção de uma masculinidade dentro destes pa-
drões os quais estamos discutindo fica muito clara. A tensão apresentada está na
condição hipotética de poder assumir uma nova postura social de masculinidade,
mas que ao mesmo tempo não coloquem em questionamento os privilégios sociais
que os homens têm por “naturalização”, o que demonstra a “crise” presente na
masculinidade contemporânea.
Pascale Molinier e Daniel Welzer-Lang22 elaboraram a definição dos verbe-
tes “Feminilidade, masculinidade e virilidade” para o Dicionário Crítico do Femi-
nismo, em que para a Sociologia e a Antropologia dos sexos, a masculinidade e
a feminilidade assumem características e qualidades que são atribuídas social e
culturalmente, tanto para os homens como para as mulheres. Isso mostra a apro-
ximação das ideias desses autores com os autores trabalhados anteriormente,
porém para Molinier e Welzer-Lang23, são as relações de sexo que determinam e
dão as diretrizes do que se estabelece no que é considerado “normal” enquanto
relacionamento.
DOSSIÊ SOCIEDADE
Ao relacionar a definição de Masculinidade e Feminilidade com as relações
de sexo, os autores afirmam que o parâmetro de normalidade é dado pela condi-
ção de dominação masculina o que faz com que as relações sexuais com base
na heteronormatividade se tornem relações naturalizadas, tanto na construção da
masculinidade como na de feminilidade. Daí que a virilidade, enquanto caracterís-
20
GIFFIN, 2005.
21
KAUFMAN, 1987.
22
MOLINIER, Pascale; WELER-LANG, Daniel, 2009.
23
MOLINIER; WELER-LANG, 2009.

109
tica de definição da masculinidade na lógica da masculinidade hegemônica reves-
te-se de um duplo sentido: o primeiro são os atributos socialmente associados aos
homens e ao masculino, como a força, a coragem, a capacidade de combater, o
“direito” à violência e aos privilégios associados à dominação daqueles e daquelas
que não são - e não podem ser viris: mulheres e crianças.
Essas definições de virilidade estão muito próximas à definição de Connell24
sobre o tipo ideal de homem na masculinidade hegemônica. A virilidade é um con-
junto de disposições masculinas incutidas desde a infância e reiteradas durante
toda a vida, pois interacionalmente vivenciadas prendem-se às ideias mais difusas
e comuns acerca do comportamento masculino autêntico25, o que referenda a na-
turalização do processo. Desta maneira, a virilidade contribui para a delimitação
da região que constitui um lugar simbólico de sentido estruturante, instituição e
significação social que impelem o agente a adquirir disposições estáveis, sedimen-
tadas nas relações. A masculinidade é, portanto, este lugar vivenciado, dinamiza-
do pelas interações que a constituem.
O segundo sentido da virilidade é a forma erétil e penetrante da sexualidade
masculina, em que na cultura ocidental para o gênero o masculino é o ativo. Ser
ativo, no senso comum, significa ser ativo sexualmente. A perda da forma erétil
coloca a masculinidade como o lugar da perda do poder simbólico que ela possui.
Em nosso contexto social, ser homem é ser aquele que “come”, que penetra tanto
a mulher como outros homens que são descritos a partir das variantes de femini-
zação, isto é, são pejorativamente classificados como “bichas”26.
Portanto, a virilidade se constrói na junção dos termos em um processo e é
“apreendida e imposta aos meninos pelo grupo dos homens durante a socializa-
ção, para que eles se distingam hierarquicamente das mulheres”, sendo ela então
a “expressão coletiva e individualizada da dominação masculina”27.
A masculinidade passa a ser apreendida como algo que expressa um valor
positivo na qualidade de significação social e representação simbólica formulada
pela cultura, o que se caracteriza sob uma separação entre o universo masculino e
EPISTHEME

o feminino. Essa clivagem é expressa quando em relação às qualidades físicas, so-


ciais e culturais estão diretamente ligadas aos papéis que a sociedade atribui aos
24
CONNELL, 1995.
25
OLIVEIRA, 2004.
26
GROSSI, 1995.
27
MOLINIER; WELER-LANG, 2009, p. 102.

110
sexos e que são confundidos com as diferenças ligadas à fisiologia da reprodução.
Segundo Oliveira28, não há nenhuma essência a-histórica que possa definir
o que é masculino em si, o que se tem são representações sociais que giram em
torno de um conjunto de qualidades que são atribuídas ao masculino em contraste
com o feminino. Ao se falar do conjunto da humanidade, fala-se por meio do mas-
culino como universal, atribuindo-se a isso o lugar do “normal”. Ao feminino dá-se
um lugar específico que parte dessa condição de “normal” e de acordo como um
contexto sócio-histórico bem específico.
Pensando dessa forma, as pesquisas femininas retomaram as questões da
definição masculina da feminilidade o que resultou na percepção de que a mascu-
linidade não estava em uma zona de conforto como se imaginava. Parte daí que
a virilidade como condição para a formação e estruturação da masculinidade é
imposta pelo processo de educação masculina. A Masculinidade, numa perspec-
tiva de Gênero, define-se com base nas experiências vivenciadas por meninos e
meninas verificamos que, segundo Nancy Chodorow29, meninas se espelham nas
atitudes da mãe, enquanto que meninos, nas atitudes do pai. Porém, para as meni-
nas, o processo de construção de uma identidade de gênero feminino é muito mais
tranquilo que para os meninos. Enquanto a casa representa o espaço de desen-
volvimento dos processos de sociabilização das crianças, a presença da mãe se
dá de uma forma mais significativa, o que facilita de certa forma para as meninas.
Welzer-Lang30, nesta mesma perspectiva de construção das identidades de
gênero, decorre sobre um espaço o qual ele denomina de ‘casa dos homens’, es-
paço esse, em que segundo o autor, os meninos são educados por seus pares
para a violência. Estes espaços ultrapassam as fronteiras do lar, enquanto espaço
privado, e ganham os espaços públicos, como o pátio da escola, na violência entre
meninos; os clubes desportivos, entre meninos mais velhos; o Exército, em relação
DOSSIÊ SOCIEDADE
a seus superiores; nos bares no confronto com seus competidores; no trabalho,
entre outros espaços.
Essa ‘casa dos homens’ será o espaço em que se estruturam as relações
entre homens “de acordo com a imagem hierarquizada das relações homens-
-mulheres”31, e dentro das expressões diferentes de masculinidade e feminilidade,
28
OLIVEIRA, 2004.
29
CHODOROW, Nancy, 1990.
30
WELER-LANG, 2001.
31
MOLINIER; WELER-LANG, 2009, p. 102.

111
verificamos que no nível da sociedade, essas versões de masculinidade contrastan-
tes estão ordenadas a partir de uma premissa definidora da dominação masculina.
Assim, a masculinidade hegemônica irá reger as masculinidades e feminili-
dades que estão subordinadas a ela. Entre as masculinidades subordinadas a que
mais se opõe é a masculinidade homossexual, pois esta se posiciona de maneira
oposta ao homem real. A masculinidade homossexual não se equipara ao ideal de
masculinidade e frequentemente incorpora vários traços que são rejeitados pela
masculinidade. Outra característica é que homossexuais não conseguem adotar
atitude viril ou a quem os outros homens negam a virilidade. O efeito dessa percep-
ção de masculinidade é a homofobia.
Quanto à feminilidade, a masculinidade hegemônica também traçará um per-
fil no qual se impõem tipos de comportamento desejantes, fazendo com que ela
se subordine ao masculino. Por um lado, referimo-nos à feminilidade enfática, que
se caracteriza como o complemento da masculinidade hegemônica, pois esta está
orientada em satisfazer os desejos e os interesses dos homens, caracterizando-se
pela submissão, maternidade e afetividade. Por outro lado, há aquelas feminilida-
des subordinadas que não se veem pertencentes e incluídas nessas característi-
cas da feminilidade enfática. Porém, a forma pela qual os cuidados de manutenção
da feminilidade enfática são tão determinantes que acaba por não dar voz a outras
feminilidades que resistem a convenções.
As mulheres que desenvolveram outras feminilidades ou que desenvolveram
identidades e estilos de vida não subordinados incluem as feministas, lésbicas,
parteiras, prostitutas e trabalhadoras manuais, o que fazem com que as suas ex-
periências de vida sejam ocultadas na história32.
Mesmo que tenhamos uma hierarquia de gênero organizada com base em
atributos socialmente determinados, há uma tendência na contemporaneidade de
rejeição de uma visão em que as relações de gênero sejam fixas e estáticas. Ao
contrário, percebe-se que as masculinidades são o resultado de um processo em
andamento e estão, portanto, abertas a mudanças e desafios, o que faz com que a
EPISTHEME

masculinidade e a sexualidade passem por ajustamentos constantes.


Assim, chegamos ao nosso ponto de partida, sugerido por alguns sociólogos,
de que a sociedade ocidental esteja passando por uma crise de gênero, sendo

32
GIDDENS, 2005.

112
o masculino o mais afetado. A legitimidade da dominação dos homens sobre as
mulheres e sobre os próprios homens está sendo enfraquecida por diversos fato-
res que atuam diretamente na sociedade, como: a legislação que incide sobre o
divórcio, o casamento e a adoção por casais homoafetivos, a violência doméstica,
o estupro e sobre questões econômicas.
O que temos é que esta crise, ou melhor, essa tendência de crise no interior
da ordenação de gênero ameaça minar a estabilidade da masculinidade hegemô-
nica. O que nossas pesquisas mostram é que os homens, que fizeram parte de nos-
sos estudos, estão buscando novas formas de interação para a reelaboração da
masculinidade sem que esta perca a sua condição de masculinidade hegemônica.
Afirmação e negação das mudanças que estão ocorrendo podem levar à constru-
ção ou reconstrução das masculinidades.

2 Uso de medicamentos de Disfunção Erétil:


afirmação, negação ou construção das
novas masculinidades?
Diante das possibilidades dadas aos homens, na sociedade contemporânea,
de afirmar ou negar as novas masculinidades, discutiremos aqui o uso de medi-
camentos de disfunção erétil como uma nova tecnologia fármaco utilizada dentro
deste contexto para incitar nossos sujeitos/colaboradores a falar sobre a sua se-
xualidade. A ideia é mensurar até que ponto os sujeitos de nossa pesquisa estão
disposto a fazer uso desse tipo de medicamento e o quanto isso interfere na sua
percepção e reelaboração da masculinidade.
Do mesmo modo que as noções tradicionais de gênero estão passando por
mudanças, a ideia acerca da sexualidade também está em processo de transfor-
DOSSIÊ SOCIEDADE
mação. Nas últimas décadas, aspectos importantes da vida sexual das pessoas
foram sendo alteradas de maneira marcante.
Como seres humanos sexuados e marcados por uma identidade sexual, per-
cebemos que há valores, organizações culturais, simbolização religiosa e política
que organizam e abrangem a sexualidade. Assim, esta está definida por um con-
junto de ações, vivências, valores, regras, determinações pessoais e coletivas que
envolvem a questão da identidade sexual do homem e da mulher.
Tempos atrás, em sociedades ditas mais primitivas, a sexualidade estava re-

113
presentada por rituais de passagem que estavam diretamente associadas à repro-
dução e, portanto, passava por um enorme controle social. No contexto atual, a
sexualidade desvencilha-se dele, tornando-se dimensão da vida de cada indivíduo
e este pode explorá-la e moldá-la aos seus desejos e necessidades. Desta forma, a
sexualidade passa por mudanças profundas de comportamento quais ela torna-se
um discurso, uma representação e passa a compor o dia-a-dia de cada um de nós.
A sexualidade, que foi definida em termos de heterossexualidade e mono-
gamia no contexto das relações matrimoniais, pode hoje ser aceita com formas
de comportamento e orientações sexuais diversos numa variedade abrangente de
contextos. Podemos pensar em uma sexualidade autonomizada e, em alguns ca-
sos, totalmente desvinculada da reprodução, isto é, de uma sexualidade dirigida
exclusivamente ou primordialmente para o prazer, sob o controle cada vez maior e
invasivo da medicina33.
Sendo a sexualidade masculina desvinculada desse processo, o trabalho
ideológico de construção dessa autonomia, levado a cabo pelos médicos, se fez
principalmente em relação à sexualidade feminina34. Imaginava-se que o orgasmo
feminino fazia parte do processo de concepção, o que levou o prazer feminino a ser
apagado dos relatos médicos, ao mesmo tempo em que o corpo feminino passou
a ser visto não como algo inferior em relação ao masculino, mas o seu oposto. O
orgasmo que era algo comum, agora passa a ser diferenciado.
Essa concepção sofrerá alteração quando o modelo de sexo único for subs-
tituído pelo modelo de dois sexos. É a partir daí que a ideia da horizontalidade
entre os sexos, implicada por este modelo de dois sexos, torna possível a ideia de
democracia sexual, ou talvez o seu contrário. A necessidade de transpor o ideal
democrático ao terreno sexual recoloca o orgasmo no modelo de dois sexos, re-
construindo, em certa medida a ideia do sexo único, aquele de um prazer único.
O controle da sexualidade passará por um processo de mudança marcado
por acontecimentos históricos significativos. O primeiro deles com a revolução
sexual, na década de 1960, em que os movimentos sociais desafiaram a ordem
EPISTHEME

vigente e estavam associados à contracultura ou ao estilo de vida hippie. O que


provocou a quebra das normas sexuais existentes, como já descrito na introdução,
e marcou a tomada de impulso do movimento feminista e da liberalização do sexo,

33
LOYOLA, Maria André, 2003.
34
FOUCAULT, Michel, 1988; LAQUEUR, Thomaz, 2001.

114
principalmente com o surgimento da pílula anticoncepcional para as mulheres.
Isso permitiu que as mulheres fizessem suas escolhas separando prazer se-
xual da reprodução. Além disso, alguns grupos de mulheres passaram a pressionar
e exigir maior independência em relação aos valores sexuais masculinos e a neces-
sidade das mulheres obterem maior satisfação sexual.
O segundo momento com a descoberta do HIV que será utilizado como mote
para a retomada do controle, que era feito com base num modelo moral, agora
será feito através de um modelo estatístico. Pesquisas empíricas irão fazer aponta-
mentos sobre a sexualidade da população. É neste contexto que, segundo Giami35,
a sexualidade será vista como orgástica, contraceptiva, em tempos de AIDS, em
sexualidade de risco.
No final do século XX e início do século XXI, encontraremos o terceiro mo-
mento, pois surge no cenário social um novo medicamento que promoverá uma
transformação do comportamento masculino, os Medicamentos de Disfunção Eré-
til (MDE).
Com a intenção de promover o resgate da virilidade perdida, principalmente
por causa da idade e outros fatores que descreveremos posteriormente, os MDEs
serão utilizados dentro de uma perspectiva contrária ao processo de normatização
imposta pelo discurso médico e moralizador. Verifica-se que a utilização deste tipo
de medicalização irá cruzar as matrizes de gênero até então existentes. Podemos
então pensar em duas perspectivas de masculinidade após este momento: a mas-
culinidade como afirmação e a masculinidade como negação ou reconstrução.
A primeira, masculinidade como afirmação, retoma o modelo tradicional de
masculinidade hegemônica e faz do uso dos medicamentos de D.E. ferramenta
para a não perda da condição de domínio masculino existente na sociedade. A
sexualidade será vista dentro de padrões pelos quais ela era condicionada ante-
DOSSIÊ SOCIEDADE
riormente, isto é, uma sexualidade voltada para a representação de uma virilidade
em que o pênis ereto é o símbolo do poder que emana da condição de ser homem
e de que a condição de ereto permite a ele, homem, a ação de penetração. O pra-
zer será retomado a partir da ideia de prazer único, aquele que coloca o homem
dentro de sua hegemonia.
Masculinidade como negação ou reconstrução, será o modelo que opor-se-á

35
GIAMI, Alain, 1991.

115
a toda a masculinidade hegemônica. Porém, esse modelo é de rejeição às impo-
sições dadas pela masculinidade dominante se projetando, por um lado, como
forma de resistência. Esse modelo pode ser representado pela masculinidade ho-
mossexual que é a forma do não enquadramento à masculinidade hegemônica.
Por outro lado, esse modelo pode ser representado por outro tipo de masculi-
nidade, a masculinidade desse “novo homem” que está revendo seus princípios de
valores que sustentam a sua concepção de homem. Para ele, os medicamentos de
D.E. são vistos como uma forma de reinventar sua sexualidade. Nossas pesquisas
mostram que há um tipo de homem que está disposto a rever a forma pela qual
ele encara a realidade relacional e, portanto, demonstra que está aberto a novas
possibilidades de relacionamento e de construção da sua masculinidade.

REFERÊNCIAS
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EPISTHEME

122
A Qualificação Profissional no
Contexto Empregatício

Karina Liotti Guimarães M. Pereira *


Alex Rodrigo Borges**
Kely Alves Costa***
Ana Márcia Rodrigues da Silva****

RESUMO
As mudanças que iniciaram nos anos de 1980 atingiram o Brasil nos anos 1990 promovendo
modificações nas relações de trabalho. Com a precarização do trabalho e a exigência do
trabalhador se tornar polivalente a qualificação vem sendo relacionada como um requisito
necessário para a sua inclusão no mercado de trabalho.O processo de globalização contribuiu
para uma maior competitividade entre as empresas fazendo com que os trabalhadores
buscassem o aperfeiçoamento das habilidades e capacidades no âmbito profissional.
A qualificação profissional e a educação foram estudadas neste artigo com objetivo de
identificar quão ela é importante para a inserção do trabalhador no mercado. Para alcançar
este objetivo foram utilizados dados sobre as regiões metropolitanas de Porto Alegre e Belo
Horizonte, extraídos do Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese)
do ano de 2008. Após a analise bibliográfica e a exposição de tabelas foi possível concluir
que na Região Metropolitana de Porto Alegre RMPA a falta de recursos aparece como o
principal empecilho para a busca de qualificação ao passo que na Região Metropolitana
de Belo Horizonte (RMBH) é predominante à falta de tempo. Além disso, os indivíduos com
renda mais baixa se qualificam profissionalmente através de recursos públicos, enquanto DOSSIÊ SOCIEDADE
*
Professora da Faculdade de Patos de Minas – FPM e da Faculdade Cidade de Coromandel – FCC.
Graduada em Tecnologia da Informação pela Faculdade UNIC-SUL. Possui MBA em Gerenciamento
de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Especialista em Metodologia do Ensino Superior
pela Faculdade Cidade Coromandel (FCC) e Banco de Dados pelo Centro Universitário do Triângulo
(UNITRI). karinaliotti@yahoo.com.br.
**
Professor da Faculdade Cidade de João Pinheiro - FCJP e da Faculdade de Patos de Minas (FPM).
Graduado em Fisioterapia. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal de Uberlândia – UFU. alexvze@msn.com.
***
Professora da Faculdade Cidade de João Pinheiro – FCJP. Graduada em Ciências Sociais pela Uni-
versidade Federal de Uberlândia – UFU e Especialista em Metodologia do Ensino e Tecnologia para
Educação a Distância. kelynha_costa@yahoo.com.br.
****
Doutoranda em Economia pelo Programa de Pós-Graduação em Economia pela Universidade Fede-
ral de Uberlândia (UFU). Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

123
os indivíduos que possuem renda mais elevada tem acesso aos cursos oferecidos pelas
empresas.
Palavras-Chave: Qualificação profissional. Educação. Globalização. Trabalho

1 INTRODUÇÃO
Os modelos Taylorista/Fordista em sequência o modelo Toyotista têm sido
objetos de pesquisa para diversos estudiosos, pois estes implicaram mudanças
nas exigências quanto à qualificação profissional.
As empresas passaram a demandar novos requisitos de qualificação, tornan-
do-se necessário repensar a relação entre a educação e o trabalho. A precarização
nas relações de trabalho e a qualificação passam a ser uma condição necessária
para a inserção no mercado.
A competição pelos poucos empregos induz o investimento das pessoas no
aprimoramento de suas habilidades. A educação profissional, frequentemente tem
sido relacionada com a melhoria da qualificação dos indivíduos depois de inseridos
no mercado.
Além disso, o processo de globalização contribuiu para acirrar a competitivida-
de entre as empresas o que afeta diretamente o trabalhador principalmente no que
tange a diminuição dos postos de trabalho. Diante da possível inter-relação entre
trabalho e educação este estudo objetivou identificar em que medida a qualificação
tem sido uma ferramenta de inclusão no mercado de trabalho das regiões metropo-
litanas de Belo Horizonte e Porto Alegre. Para isto, utilizaram-se dados extraídos do
Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese) do ano de 2008.
O trabalho está estruturado em três seções. Na primeira são discutidas as al-
terações no mercado de trabalho impostas pela ação de globalização. Na segunda
seção é a apresentada a relação entre qualificação profissional e empregabilidade
diante do processo de reestruturação produtiva. Por fim, na ultima seção é analisa-
da esta relação nas regiões metropolitanas de Porto Alegre e Belo Horizonte.
EPISTHEME

2 METODOLOGIA
A metodologia de estudo utilizada neste trabalho baseia-se na pesquisa bi-
bliográfica e na análise de dados secundários oriundos da Pesquisa de Emprego e

124
Desemprego (PED) do Dieese do ano de 2008 para as regiões metropolitanas de
Porto Alegre e Belo Horizonte. Deste modo, realiza-se a análise descritiva a fim de
identificar a relação entre qualificação profissional e a empregabilidade diante das
mudanças estabelecidas pelo processo de reestruturação produtiva.
Apesar de haver uma significativa parcela de desempregados entre os esco-
larizados e da relevância dos fatores destacados nas seções anteriores que afe-
tam estes dois indicadores, sabe-se que a qualificação profissional está entre os
requisitos exigidos pelo mercado de trabalho globalizado. Assim, fazendo-se o uso
de frequências optou-se por estabelecer um comparativo entre as regiões pesqui-
sadas e verificar a influência da qualificação na renda familiar per capita, requisitos
exigidos para a empregabilidade, dentre outros fatores.

3 O PROCESSO DE GLOBALIZAÇÃO E SEUS


EFEITOS NO MERCADO DE TRABALHO
Um dos termos mais disseminados nas últimas décadas é globalização. Isso
é disseminado, por exemplo, na difusão da palavra globalização por quase todas
as línguas do mundo e pelas referências contínuas que, fazem menção ao global,
mercados globais, finanças globais, instituições globais, comunicações globais, mi-
grações globais, segurança global, ameaça global, etc.
As transformações ocorridas na década de 1980 implicaram no aumento da
tecnologia, com base na automação, robótica e microeletrônica que se inserem en-
tre as relações de trabalho e capital estabelecida nas indústrias. Inicia-se a busca
por novos padrões de produtividade para a melhor adequação a lógica do mercado
De acordo com Sampaio (2010, p. 152) diante da globalização o trabalhador
deve tornar-se flexível e polivalente para que de uma maneira competente pos-
DOSSIÊ SOCIEDADE

sa ser capaz de tomar decisões, distinguir situações, solucionar problemas que


ocorrem no seu cotidiano de trabalho fazendo necessário atingir a qualificação de
forma rápida e perspicaz para o capitalismo.
Segundo Teixeira (2000 apud, NORONHA, 2008, p. 25):

Assim como as empresas foram levadas a reconstituir, na prá-


tica, a unidade das diferentes formas de existência do capital,
a reestruturação produtiva, com seus novos métodos e técni-

125
cas de contratação e gerenciamento, recompõem a unidade
das diferentes fases do processo de trabalho, recriando um
novo tipo de ‘trabalhador coletivo combinado’. Este não mais
existe como unidade de diferentes trabalhos ligados entre si
pelas malhas invisíveis da divisão técnica das ocupações. O
novo trabalhador coletivo combinando existe agora na figura
de cada trabalhador particular que, ao lado dos demais, en-
carna e realiza a unidade das diferentes fases do processo
produtivo [...]

No cenário mundial estas modificações induziram o acirramento dos proces-


sos de internacionalização e globalização, com destaque para os setores produti-
vos e comerciais. O trabalho na era fordista que perdurou desde o final da crise de
1929 até então, foi caracterizado pela exploração do trabalhador sendo este um
instrumento de lucro capitalista.
Segundo Brito e França (2010, p. 46) Ford adaptou certas experiências suce-
didas no setor de algumas indústrias americanas e incorporou grande parte das
inovações tecnológicas e organizacionais do taylorismo. Inclusive, é possível afir-
mar que o taylorismo serviu como base para o fordismo, estabelecendo normas de
organização racional do trabalho com o objetivo de potencializar o domínio inques-
tionável dos administradores.

[...] entendemos o fordismo fundamentalmente como a forma


pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se
ao longo desse século, cujos elementos constitutivos básicos
eram dados pela produção em massa, através da linha de mon-
tagem e de produtos mais homogêneos; através do controle
dos tempos e movimentos pelo cronômetro fordista e produção
em serie taylorista; pela existência do trabalho parcelar e pela
fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e
EPISTHEME

execução no processo de trabalho; pela existência de unidades


fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição/conso-
lidação do operário-massa, do trabalhador coletivo fabril, entre
outras dimensões na citação direta colocamos ponto antes e
depois do parêntese. (ANTUNES, 2007, p. 17).

126
Os trabalhadores deveriam ser treinados para executar o trabalho em uma
sequência de tempo e de movimento, evitando o desperdício e buscando assegu-
rar a produtividade.
A nível global, o conceito fordista estaria designando o modo
de desenvolvimento, articulação entre um regime de acumu-
lação (intensivo) e um modo de regulação (monopolista), que
marca uma determinada fase do capitalismo situada didatica-
mente entre 1945/73. Sob o aspecto da organização produ-
tiva, o fordismo possui como características a racionalização
taylorista do trabalho que compreende o parcelamento de
tarefas, a separação entre concepção e execução e a espe-
cialização do trabalho; o desenvolvimento da mecanização;
a produção em massa de bens padronizados e salários re-
lativamente elevados e crescentes, incorporando ganhos de
produtividade. ( HARVEY, 1992, p.121).

O progresso desses fenômenos gera resultados que incluem mudanças no


papel do Estado e a desregulamentação das economias nacionais. O estado que
garantia a reprodução do capital, passou a ser simplesmente um regulador da
economia, a política de Estado Mínimo1, desestruturando a proteção social da era
fordista estabelecida no pós-guerra (SANTOS, 2009).
Segundo Soares (2001 apud, SANTOS, 2009, p. 6-7) “Em vez de evoluirmos
para sistemas verdadeiramente públicos e universais que garantam os direitos
essenciais de cidadania de parcelas majoritária da população que não tem condi-
ções de incorporar-se via ‘mercado’, reduz-se ainda mais a já debilitada capacida-
de do Estado no social”.
Além disso, essas mudanças implicam aglomeração de empresas e alianças DOSSIÊ SOCIEDADE
como estratégias de mercado. O avanço tecnológico em meio à crescente globa-
lização e novos modelos de gestão são fatores atuantes que tem sido levado em
consideração pelas grandes empresas.
Este novo modo de produção estava baseado na especialização flexível. Es-
sas experiências, conforme Antunes (2007) trouxeram como consequências o toyo-
tismo podendo ser classificado em quatro fases: a) aumento da produção sem o
correspondente aumento dos trabalhadores; b) necessidade do trabalhador operar

1
Estado com mínimo de atribuições de despesas para não comprometer a crise fiscal.

127
simultaneamente muitas máquinas; c) utilização do kanban2; d) expansão do mé-
todo kanban para as empresas contratadas e fornecedoras.
Com isso percebe-se que o toyotismo sustenta-se na idéia de estoque míni-
mo, aproveitando ao máximo o tempo de produção garantido pelo just in time. Isto
é, a produção estava fundamentada na eliminação de desperdícios e no controle
de qualidade do produto, sendo possível destacar a horizontalização da produção
(ANTUNES, 2007).
Dentro dessa discussão é possível concluir que este modelo apóia-se em um
número mínimo de trabalhadores, ampliando-os por meio de horas extras e atra-
vés da contração de trabalhadores temporários ou subcontratação dependendo
das condições de mercado. Para atender as exigências desse método de produção
era preciso um processo produtivo flexível que permitisse ao operário operar várias
máquinas ao mesmo tempo. Foi disseminada a idéia de que a reintegração de
atividades e o emprego de uma mão-de-obra melhor qualificada eram necessários.
Diante desse cenário, a qualificação desses profissionais é de suma impor-
tância, uma vez que são considerados um dos requisitos básicos no desenvolvi-
mento e na sustentabilidade de uma organização industrial.

4 A EDUCAÇÃO, QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL E A


EMPREGABILIDADE
Nas últimas décadas observa-se um intenso processo de reestruturação pro-
dutiva, por meio da menor presença do Estado como regulador das relações entre
o trabalho3 e o capital. Devido à introdução da tecnologia da informática e a nova
gestão de trabalho, houve a necessidade de melhorar a educação da população
incluindo um trabalhador mais qualificado. A polivalência exigida do trabalhador
que tem sido o recurso aos conhecimentos empíricos disponíveis no ambiente de
trabalho, permanecendo a construção de um saber que depende da educação bá-
sica. Na verdade, o trabalhador polivalente se faz no trabalho, embora se detecte,
EPISTHEME

na atualidade, a necessidade de elevação do nível de escolaridade.

2
O termo kanban designa uma técnica importada da gestão dos supermercados dos Estados Unidos
que implica na reposição dos produtos somente após a venda.
3
Trabalho, segundo Engels (apud CARVALHO e FRANÇA, 2010, p.232), entendido como condição
básica e fundamental de toda a vida humana.

128
Para que o trabalhador entre e/ou permaneça no mercado de trabalho com-
petitivo era necessário retomar as salas de aulas e procurar capacitação entre os
diversos cursos e programas oferecidos. Vale ressaltar o Plano Nacional de Quali-
ficação (PNQ), um mecanismo de política social na busca da qualificação do traba-
lhador. (SOUZA, 2010).
A formação para o trabalho é fornecida no Brasil por diversas instituições
entre as quais pode se destacar o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(SENAC) e as escolas técnicas federais. Por outro lado a possibilidade de um in-
divíduo se qualificar está mais relacionada com a sua história de vida e com as
suas relações materiais de acesso do que de uma aspiração individual (FRANÇA;
RAMOS, 2008).
Para Ramos (2001 apud SOUZA, 2010, p. 199):

Os programas de qualificação profissional estão alicerçados


no conceito de empregabilidade, que não diz respeito somen-
te à possibilidade de obter um emprego, abrange também a
capacidade de mantê-lo, posto que o mercado de trabalho
atual está em constante mutação. Essa afirmativa sinaliza
que o mercado de trabalho é dinâmico e, para manter-se em-
pregado, o trabalhador deverá atender à demanda de merca-
do, ou seja, além de apresentar qualificação para a função de-
verá também ter capacidades individuais de relacionamento
e adaptabilidades dentre outras características.

A união entre o emprego e a qualificação tornar-se-ia a solução para aqueles


trabalhadores que estariam desempregados em busca de um retorno ao mercado
de trabalho. Ou seja, quanto mais qualificado e mais escolarizado, maiores eram as
DOSSIÊ SOCIEDADE

chances do mesmo estar empregado sendo possível melhorar sua condição de vida.
De acordo com Kober (2004, p. 04):

Qualificar-se é, no entanto, tarefa complicada. Numa socie-


dade na qual cada um é, mais e mais, tido como senhor do
seu próprio destino, cabe ao trabalhador, perante as ofertas
apresentadas pela sociedade, decidir, sozinho, que caminho
tomar. É ele quem tem que balizar as informações e sinais

129
que recebe da empresa, na televisão, na conversa com os co-
legas, e tomar as decisões sobre como agir, para que o futuro
não lhe reserve a alternativa de exclusão. [...] Tudo se enca-
minha para a culpabilização ou responsabilização individual
pela condição de desemprego.

O trabalhador vem enfrentando muitas barreiras neste mercado de trabalho,


pois segundo (Kober, 2004) o desemprego está presente também para os mais
qualificados. Assim o trabalhador se depara com algumas contradições entre a
qualificação, como se qualificar e com o meio em que ele será inserido.
Para Koogan (1987 apud SAMPAIO, 2010, p. 168) “qualificação é o ato ou efei-
to de qualificar. Atribuição de uma qualidade, um título. Condições inerentes à for-
mação profissional e experiência, requerida para o exercício de cargo, função e etc”.
Dessa forma o trabalhador deve ser capaz de construir competências e atuar
como um profissional multifuncional, sendo necessário que a qualificação acompa-
nhe as novas imposições do mercado de trabalho diante da era da informatização.
A experiência do trabalhador adquirida pelo tempo de trabalho e o histórico de
qualificação não são mais considerados fatores essenciais para garantir a inserção
profissional em meio às novas formas de gestão e aos novos conceitos de uma or-
ganização de trabalho, produto da “acumulação flexível” como apresentou Harvey
(1992 apud KOBER, 2004, p. 05).
Segundo Sampaio (2010, p. 170
:
A construção dessas competências e o desenvolvimento de
algumas habilidades utilizam-se da subjetividade do trabalha-
dor para atender não as necessidades (proporcionando uma
visão holística dos processos de trabalho), mas aos interes-
ses do capital num processo de flexibilização. Nesse sentido,
o termo ‘qualificar’ está mais voltado para atingir os objetivos
do capital, pois, para tornar-se apto, não necessariamente se
EPISTHEME

deve ter uma formação, mas, sim, ser ‘treinado’ para isso,
quer dizer, o termo ‘qualificação’ ainda é bastante direciona-
do somente à atuação técnica e especifica da área de atua-
ção do profissional. [...]

130
De acordo com o PNQ (apud SOUZA, 2010, p. 194) a qualificação profissional
está associada à empregabilidade. Conforme Fidalgo ( apud SOUZA, 2010, p. 200)
“O termo empregabilidade se refere às condiçõs subjetivas de inserção e perma-
nencia dos sujeitos no mercado de trabalho, e, ainda, às estratégias de valorização
e negociação de sua capacidade de trabalho.[...] a empregabilidade tem sido refe-
rência nas atuais políticas educacionais e de formação pofissional”.
Por outro lado, para Gentili (2001 apud SOUZA, 2010, p. 195) “Um incremen-
to no capital humano individual que aumenta as condições de uma empregabili-
dade, o que não significa necessariamente, que, por aumentar suas condições de
empregabilidade, todo indivíduo terá seu lugar no mercado. Simplesmente, porque
no mercado não há lugar para todos”.
Na relação entre a educação e o trabalho, a educação é um direito acessível
a todos, fator importante para o ingresso no mercado. Contudo, fica evidente que
o aumento da escolaridade e a qualificação não expressam garantia de emprego.

O discurso da empregabilidade reconhece que, na competi-


ção acirrada pelos poucos empregos que o mercado oferece,
existe também a possibilidade de pessoas que investiram no
desenvolvimento de suas capacidades empregatícias, não te-
rem acesso ao emprego e permanecendo na situação de de-
sempregados, ou empregados em condições precárias. Além
disso, devemos considerar os fatores estruturais geradores
do desemprego, tais como insuficiência do crescimento eco-
nômico, o aumento da população em busca de emprego e o
desenvolvimento tecnológico, que substitui trabalho humano,
fatores estes que ocasionam uma redução efetiva do número
de vagas disponíveis no mercado de trabalho (FRANÇA e RA-
DOSSIÊ SOCIEDADE

MOS, 2008, p. 11).

Diante do que foi exposto, verifica-se que se tornou necessário repensar a


relação entre a educação e o trabalho. Apesar de existir uma relação entre esses
dois termos a educação para o trabalho deve ser revista como “forma de promover
maior equidade social e menores discrepâncias na acirrada luta por um espaço no
mercado de trabalho” (MOURÃO, 2009; p. 4).

131
5 A QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL NAS REGIÕES
METROPOLITANAS DE PORTO ALEGRE E DE
BELO HORIZONTE
Para identificar a relação entre qualificação profissional e a empregabilida-
de diante das mudanças estabelecidas pelo processo de reestruturação produtiva
neste trabalho foi estabelecida uma análise comparativa entre as regiões metropo-
litanas de Porto Alegre e Belo Horizonte.
Apesar de haver uma significativa parcela de desempregados entre os escola-
rizados e da relevância dos fatores destacados nas seções anteriores que afetam
estes dois indicadores, sabe-se que a qualificação profissional está entre os requi-
sitos exigidos pelo mercado de trabalho globalizado.
Através da PED do Diesse do ano de 2008, foi identificado que na Região Me-
tropolitana de Porto Alegre (RMPA), a renda familiar per capita é de suma importân-
cia para que os trabalhadores possam realizar cursos de qualificação profissional.
Foi possível observar que dos indivíduos que realizaram tais cursos, 58,5% utilizam
recursos próprios para seu financiamento total ou parcial.
As pessoas que possuem menor renda realizam cursos gratuitos normalmen-
te financiados com recursos públicos, enquanto as empresas promovem a capa-
citação à população que possuem maior de renda devido ao fato de promoverem
os cursos de qualificação para os cargos especializados com níveis salariais mais
altos. Isso pode ser observado na Tabela 1.
EPISTHEME

132
Tabela 1: Distribuição das pessoas de 14 anos e mais que realizaram cursos
de capacitação (1), por quartis de renda familiar per capita, segundo fonte de
financiamento dos cursos RMPA (Maio a Outubro de 2008)
Em%
Renda familiar per capita
Fontes de financiamento dos
Total
cursos de qualificação Quartil Segundo Terceiro Quartil
Inferior Quartil Quartil Superior
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Total ou parcialmente pago 53,5 57,0 60,9 57,5 58,5


com recursos
Com recursos da empresa 13,8 20,0 22.4 30,6 23,0
Totalmente gratuito 32,4 22,4 16,5 11,0 17,8
Outras -(1) -(1) -(1) -(1) -(1)
Fonte: Convênio Seade/Dieese, MTE/FAT e convênios regionais. Pesquisa de Emprego e
Desemprego − PED (1) Nos últimos três anos. (2) A amostra não comporta a desagregação
para esta categoria.

Através desta pesquisa foi possível identificar também os principais motivos


pelos quais os indivíduos de 14 anos ou mais alegaram a não realização dos cur-
sos profissionalizantes. Vale ressaltar que a metade dessas pessoas simplesmente
não teve interesse em realizá-lo.
Entre os demais se destacam dois empecilhos: a falta de recursos financeiros
(18,7%) e a falta de tempo (15,5%). Para as pessoas que possuem estratos de
maior renda (quartil superior) à falta de tempo foi um definidor para a não reali-
zação dos cursos profissionalizantes enquanto que para os que possuem estratos
de menor renda (quartil inferior) foi à falta de condições para financiamento. Estes
resultados podem ser observados na Tabela 2.
DOSSIÊ SOCIEDADE

133
Tabela 2: Distribuição das pessoas de 14 anos e mais que não realizaram cursos
de capacitação, (1) por quartis de renda familiar per capita, segundo razões para
a não qualificação RMPA (Maio a Outubro de 2008)
Em%
Principal motivo da não Renda familiar per capita
qualificação/ capacitação Quartil Segundo Terceiro Quartil Total
profissional Inferior Quartil Quartil Superior
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Falta de recursos financeiros 32,7 23,2 16,2 7,6 18,7


Falta de tempo 10,9 14,1 16,2 18,2 15,5
Não tem os requisitos exigidos 3,0 2,9 2,4 (3) 2,3
(2) 2,9 3,2 2,8 3,0 2,8
Demais motivos (3) 50,5 56,7 62,4 68,8 60,7
Não tem interesse/não
necessita

Fonte: Convênio Seade/Dieese, MTE/FAT e convênios regionais. Pesquisa de Emprego e


Desemprego − PED (1) Nos últimos três anos. (2) Inclui requisitos de escolaridade, idade,
etc. (3) Inclui falta de escolas ou cursos perto da residência ou trabalho; baixa qualidade
dos cursos disponíveis; duração muito extensa dos cursos ou outros motivos.

Para verificar a relação entre a empregabilidade e a qualificação profissional


na RMPA foram analisados os requisitos de contratação. Observa-se que tanto se-
tor público quanto no privado predominou as exigências de escolaridade (92,5%
e 65,8 respectivamente). No entanto, no caso específico do setor público para
30,8% dos trabalhadores é requerida a comprovação de conhecimentos específi-
cos. Conforme o Dieese este resultado está dentro do esperado haja vista a grande
quantidade de funções especializadas exercidas pelos empregados do setor, tais
como, médicos, advogados, professores, entre outras. Estes números podem ser
visualizados na tabela que se segue.
EPISTHEME

134
Tabela 3: Proporção de assalariados que atenderam a requisitos de contratação,
por Tipo de requisito, segundo posição na ocupação RMPA (Maio a Outubro de
2008).
Requisitos de contratação
Posição na ocupação Cursos ou outros Experiência
Total (3) Escolaridade
Conhecimentos (4) Profissional
Total de Assalariados (1) 80,0 65,9 23,7 40,0
Setor Privado (2) 81,6 65,8 24,4 47,2
Setor Público 93,5 92,5 30,8 12,6
Em Domicílios 36,5 (5) (5) 31,5
Fonte: Convênio Seade/Dieese, MTE/FAT e convênios regionais. Pesquisa de Emprego e
Desemprego − PED. (1) Inclui contratados com e sem carteira assinada do setor privado,
contratados do setor público e empregados domésticos. (2) Inclui contratados com e
sem carteira de trabalho assinada e exclui os empregados domésticos. (3) Totaliza os
empregados para os quais houve exigência de algum pré-requisito. (4) Inclui cursos de
capacitação profissional na área pretendida, conhecimento de idiomas estrangeiros,
conhecimento de informática e outros conhecimentos. (5) A amostra não comporta a
desagregação para esta categoria.

Com relação à Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) entre os indi-


víduos que se qualificaram realizando cursos de capacitação, 59,1% teve acesso e
se manteve nesses cursos (total ou parcialmente) com financiamento próprio. Vale
ressaltar que 17,7% fizeram cursos de qualificação com recursos da empresa e
23,1% com recursos públicos. (Tabela 4).

DOSSIÊ SOCIEDADE

135
Tabela 4: Distribuição dos indivíduos de 14 anos ou mais, com cursos de
capacitação, por quartis de renda familiar per capita, segundo fontes de
financiamento RMBH (Maio a Outubro de 2008).
Em %
Fontes de financiamento dos Renda familiar per capita
cursos de qualificação (nos Quartil Segundo Terceiro Quartil Total
últimos 3 anos) Inferior Quartil Quartil Superior
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Total ou parcialmente pago 54,9 57,1 59,4 57,0 59,1
com recursos
Com recursos da empresa (1) 14,7 19,1 28,7 17,7
Totalmente gratuito 35,3 28,0 21,4 14,3 23,1
Outras (1) (1) (1) (1) (1)
Fonte: DIEESE/SEADE, MTE/FAT e convênio, em Minas Gerais, com SEDESE-MG e
Fundação João Pinheiro (FJP). PED – Pesquisa de Emprego e Desemprego e pesquisa
suplementar para o Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda. (1) A amostra não
comporta a desagregação para esta categoria.

As pessoas com maior renda alegaram a não qualificação por falta de tempo
(quartil superior) enquanto para as pessoas com menor renda (quartil inferior) a
falta de dinheiro foi o considerado uma limitação. A maior parte (53,2%) das pesso-
as que não tinham se qualificado alegou falta de interesse ou por achar desneces-
sário se qualificar. Na RMBH a falta de recursos financeiros é menos significativa
que na RMPA a diferença chega a 1,8 pontos percentuais. Em contrapartida a falta
de tempo é um maior empecilho na RMBH. Isto pode ser apresentado na Tabela 5.
EPISTHEME

136
Tabela 5: Distribuição dos indivíduos de 14 anos ou mais, que não se
qualificaram, por grupos de renda familiar per capita, segundo principais motivos
RMBH (Maio a Outubro de 2008).
Principal motivo da não Renda familiar per capita
qualificação/ capacitação Quartil Segundo Terceiro Quartil Total
profissional Inferior Quartil Quartil Superior
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Falta de recursos financeiros 29,4 19,5 13,9 6,8 16,9


Falta de tempo 16,6 21,1 24,5 22,9 22,1
Não tem os requisitos exigidos 6,3 6,6 5,2 2,8 5,1
(1) 4,0 3,5 2,7 (3) 2,8
Demais motivos (2) 43,6 49,2 53,6 65,6 53,2
Não tem interesse/não
necessita

Fonte: DIEESE/SEADE, MTE/FAT e convênio, em Minas Gerais, com SEDESE-MG e


Fundação João Pinheiro (FJP). PED – Pesquisa de Emprego e Desemprego e pesquisa
suplementar para o Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda. (1) Inclui requisitos
de escolaridade, idade, etc.; (2) Inclui falta de escolas ou cursos perto da residência ou
trabalho; baixa qualidade dos cursos disponíveis; duração muito extensa dos cursos ou
outros motivos; (3) A amostra não comporta a desagregação para esta categoria.

Como estão relacionadas às expectativas de produtividade, cognição e habi-


lidade, as condições requeridas dos assalariados na RMBH eram principalmente
de níveis específicos de escolaridade (57,0%) e experiência profissional anterior
(34,8%). Observa-se que no setor público a exigência de escolaridade é de 86,9%
enquanto no setor privado está em torno de 57%.

DOSSIÊ SOCIEDADE

137
Tabela 6: Proporção de assalariados para os quais foram exigidos requisitos na
contratação por setor institucional, seguindo tipo de exigência RMBH (Maio a
Outubro de 2008).
Exigências Requeridas
Setor Institucional Cursos ou outros Experiência
Total (3) Escolaridade
Conhecimentos (4) Profissional
Total de Assalariados (1) 71,5 57,0 25,6 34,8
Setor Privado (2) 73,7 57,0 26,7 40,0
Setor Público 89,4 86,9 33,7 20,3
Em Domicílios 24,7 (5) (5) 22,2
Fonte: Convênio DIEESE/SEADE, MTE/FAT e, em Minas Gerais, com SEDESE-MG e
Fundação João Pinheiro (FJP). PED – Pesquisa de Emprego e Desemprego e pesquisa
suplementar para o Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda. (1) Inclui contratados
com e sem carteira assinada do setor privado, contratados do setor público e empregados
domésticos. (2) Inclui contratados com e sem carteira de trabalho assinada e exclui os
empregados domésticos. (3) Totaliza os empregados para os quais houve exigência de
algum pré-requisito. (4) Inclui cursos de capacitação profissional na área pretendida,
conhecimento de idiomas estrangeiros, conhecimento de informática e outros
conhecimentos. (5) A amostra não comporta a desagregação para esta categoria.

Com base no que foi apresentado, verifica-se que os requisitos a serem pre-
enchidos pelos trabalhadores no momento da contratação variam de acordo com
o setor institucional do profissional. Deste modo, como estratégias de ingresso no
emprego público destacam-se seleções com exigências de cognição e atestados
de escolaridade. Tanto na RMPA quanto na RMBH à proporção de assalariados que
se insere no setor público é exigido um nível de escolarização mais elevada que
nos demais segmentos.
No setor privado, embora as exigências de níveis específicos de escolarização
sejam relativamente menores, ainda são relevantes, pois para mais da metade dos
assalariados em ambas as regiões metropolitanas este foi um critério definidor
para obtenção do posto de trabalho.
Outro fator relevante é predominância de requisição de escolaridade em todos
os meios utilizados para a obtenção de trabalho, especialmente entre aqueles que
EPISTHEME

se inseriram através de concurso público e para os que conseguiram o trabalho atual


por meio de agências privadas de intermediação e/ou a agenciadoras de estágio.
Com base nisto verifica-se que na RMBH, os trabalhadores assalariados com
maior período de permanência são aqueles dentre aqueles aos quais foram exi-

138
gidos níveis determinados de escolaridade e cursos e/ou conhecimentos especí-
ficos. Já os salários, são mais elevados para os assalariados para os quais foram
exigidos cursos.
Os trabalhadores que comprovam exigências de escolaridade são os que
permanecem por mais tempo no posto de trabalho, mas têm salários médios in-
feriores aos contratados por conhecimentos específicos. Todavia, o requisito de
escolaridade possibilita rendimentos superiores aos recebidos pelos assalariados
contratados por experiência prévia de trabalho. Estes últimos são os que recebem
salários mais baixos e permanecem menos tempo empregados, o que, segundo o
Dieese pode ser indicativo de maior rotatividade nesses postos.
Apesar dos indivíduos procurarem se qualificar profissionalmente mesmo
com recursos próprios e da elevada requisição de qualificação por parte das em-
presas, há altos índices de desemprego4. Isso pode apontar que as exigências do
mercado após o processo de reestruturação produtiva estão acima da formação
alcançada pelos trabalhadores nas regiões metropolitanas analisadas.

6 CONCLUSÃO
A competitividade entre as empresas afeta diretamente o empregado prin-
cipalmente no que tange a diminuição dos postos de trabalho. Deste modo, a
competição pelos reduzidos postos de trabalho induz, pelo lado da oferta, o in-
vestimento das pessoas no aprimoramento de suas capacidades. O trabalhador
polivalente se faz necessário no trabalho havendo a necessidade da elevação do
nível de escolaridade
Com o processo de globalização, ocorre a precarização nas relações de tra-
balhistas e a qualificação passa a ser um item necessário para a inclusão do traba-
DOSSIÊ SOCIEDADE
lhador no mercado competitivo. .
Após a revisão bibliográfica e a análise dos dados, foi possível concluir que
a qualificação profissional pode ser um requerimento necessário, mas não é sufi-
ciente para a empregabilidade.
Na tentativa de identificar a inter-relação entre trabalho e educação, isto é,
estudando a qualificação profissional como ferramenta de inclusão no mercado de

4
Ver Souza (2010).

139
trabalho nas regiões metropolitanas de Porto Alegre e Belo Horizonte verificou-se
que a qualificação profissional é exigida principalmente no setor público.
Na RMPA a falta de recursos aparece como o principal empecilho para a bus-
ca de qualificação ao passo que na RMBH é predominante a falta de tempo. Além
disso, as pessoas com renda mais baixa se qualificam profissionalmente através
de recursos públicos, enquanto as pessoas de renda mais elevada tem acesso aos
cursos oferecidos pelas empresas. Este fato foi observado em ambas as regiões.

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SOUZA, V. F. Qualificação profissional na educação não formal de ensino no contexto da


reestruturação produtiva. IN: FRANÇA, R.L.org. Educação e Trabalho: Políticas Públicas e a
Formação para o Trabalho. Campinas: Editora Alínea, 2010.

DOSSIÊ SOCIEDADE

141
Capital intelectual: valorização
dos talentos humanos ou modelo
taylorista camuflado dentro de
algumas organizações brasileiras?

Thais Lara da Silva Marques*

RESUMO: Desde a revolução industrial que as relações de trabalho vêm evoluindo de maneira
considerável. E nos últimos anos essas questões vêm sendo fonte de vários debates, afinal
houve inúmeras mudanças e transformações ocorridas no ambiente econômico global e
também nas relações de trabalho, dentre elas as mudanças ocorridas no modo de produção,
surgimento da globalização e avanço tecnológicos. Essas transformações deram início a
uma nova abordagem com relação à resolução de problemas administrativos, centrada no
processo de motivação do indivíduo para alcançar as metas da organização. A humanização
dos conceitos administrativos mostrou-se mais viável às novas circunstâncias, inovações
tecnológicas e às mudanças na divisão social do trabalho. Portanto, cabe a cada empresa
elaborar projetos estratégicos a fim de diminuírem seus custos, maximizarem seus lucros,
agregando valores a seus produtos, a fim de se tornarem competitivas e se manterem no
mercado, uma vez que os clientes têm se mostrado cada vez mais exigente e a concorrência
cada vez mais acirrada e global. Para alcançar maior eficiência nas empresas, vários
elementos foram reconsiderados, levando-se em conta o fator humano como primazia de
muitas organizações. Porém, esse artigo discute a validade dos propósitos da valorização
do capital intelectual como ferramenta de intervenção organizacional, descrevendo alguns
paradoxos existentes entre a sua teoria e a prática em algumas organizações. Argumenta-se
DOSSIÊ SOCIEDADE

baseado na literatura que o que algumas empresas pregam não condiz com a realidade das
mesmas. Portanto, faz-se uma leitura da evolução das ciências administrativas, bem como
o impacto dessas mudanças no ambiente organizacional, o conceito de capital intelectual
sendo que para isso faz-se necessário uma rápida abordagem a outras conceituações
e definições que o rodeiam e embasam o seu sentido, como conceitos e definições de
organização, eficiência e eficácia e do conhecimento. Além de ter sido abordado sobre

*
Graduada em Administração de Empresas pela Uniessa - Faculdade de Marketing e Negócios. Cur-
sando Pós-graduação de Controladoria e Finanças, Unigap – Instituto de Gestão e Aperfeiçoamento
Pessoal.

143
a importância da adoção de políticas de organizações de aprendizagem, utilizando do
capital intelectual como ferramenta estratégica para que as empresas se tornem cada
vez mais competitivas. Propõe-se que se trata de uma retificação da máxima taylorista,
cujos propósitos originais estão se convertendo em mais um instrumento de manipulação
humana nas empresas. Ao final, em substituição ao modelo gerencial vigente, são propostas
algumas sugestões de gestão realmente baseado em valores éticos e morais.
Palavras-chave: Capital Intelectual; Organizações; Concorrência.

1 INTRODUÇÃO
Segundo Chiavenato (2002), após a revolução industrial houve a substituição
das ferramentas por máquinas, e os trabalhadores que até então possuíam os
meios de produção passaram a serem submetidos ao regime de funcionamento
das máquinas e a gerência direta dos empresários, ou seja, os operários que an-
tes tinham acesso do início ao fim na produção dos produtos agora se tornaram
trabalhadores assalariados, sendo obrigados a se submeterem a tratamentos de-
sumanos, onde o papel do trabalhador era servir ao sistema, sendo considerados
uma simples peça na engrenagem produtiva. Além disso, a mecanização os tornou
trabalhadores desqualificados, chegando até mesmo a causar alienação nos ope-
rários, como nos mostra de maneira bem precisa o filme Tempos Modernos de
Charles Chaplin.
Segundo Vergara (2006), com a diminuição das barreiras alfandegárias au-
mentou muito o fluxo das trocas comerciais, o que contribuiu para que o cliente
passasse a ter várias opções de um mesmo produto além de terem elevado o nível
de exigências em relação à qualidade dos mesmos, mas em contrapartida fez com
que as organizações enfrentassem concorrências de forma assustadora.
Para colaborar com as organizações os chamados “gurus” da administração
elaboram conceitos cada vez mais milagrosos com o intuito de manterem a com-
petitividade das mesmas, enfatizando que as mudanças estruturais trazidas pela
“era do conhecimento” estão obrigando as organizações a uma adequação aos
novos tempos, o que inclui a valorização crescente do ser humano e a estimulação
da participação de seus colaboradores.
Dada a importância atribuída à gestão do capital intelectual pelas organi-
zações modernas, este artigo possui como objetivo geral verificar se realmente
existe coerência entre a teoria e a prática no que tange a valorização do capi-
tal intelectual em algumas organizações que se dizem valorizar seus talentos. E
os objetivos específicos são analisar a evolução das teorias da organização bem
como os impactos dessas transformações no ambiente organizacional, para me-
lhor compreender a transição da “era industrial” para a “era da informação”, além
de verificar a importância das organizações adotarem políticas de aprendizagem e
por fim mostrar como a valorização do capital intelectual pode ser utilizada como
ferramenta estratégica para que a empresa se torne mais competitiva.
Contudo, a justificativa para esse artigo é discutir a validade dessa política de
gestão, no caso a valorização do capital intelectual como instrumento de interven-
ção organizacional, procurando ampliar a visão dos leitores de tal modo que eles
compreendam o que de fato ocorre em determinadas empresas brasileiras.
Para isso utilizaremos das literaturas que se referem a esse assunto, apre-
sentando algumas críticas e propostas em relação a esse instrumento gerencial.

2 EVOLUÇÃO DAS CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS –


DA ERA DA MÁQUINA À ERA DA INFORMAÇÃO
Segundo Chiavenato (2006), o período conhecido como era da industrializa-
ção clássica cobriu o período de 1900 a 1950, período esse que às pessoas eram
consideradas recursos de produção, e por essa concepção a administração das
pessoas era tradicionalmente denominada relações industriais.
A teoria das organizações mostra que o processo de adaptação das organi-
zações ao ambiente teve início com o desenvolvimento da administração científica
por Taylor, que pregava o alcance da máxima produtividade com menor custo e
eficiência constante equilibrada, através da racionalização do trabalho, visando
atender a demanda crescente de mercado. Através do qual “houve especialização
e divisão do trabalho, alcançando seu ápice com o advento da linha de produção
em massa, na qual os operários executavam tarefas repetitivas em escala gigan-
tescas.” (CRAINER, 2000, p.43)
No dizer de Crainer (2000) para Taylor, considerado o pai da administração
científica os trabalhadores não necessitavam ter conhecimentos e nem habilida-
des específicas, o que interessava era a produtividade dos mesmos, uma vez que
ele considerava todo trabalho igual, ou seja, Taylor desqualificava os trabalhado-
res, procurando desumanizar o trabalho.
Nessa fase da administração os trabalhadores não podiam manifestar suas
opiniões uma vez que eram tidos como incapazes, por isso eles se submetiam a
rígidas pressões por parte de seus gerentes que cobravam deles a execução das
tarefas prescritas sem que houvesse qualquer questionamento.
Ainda conforme o mesmo autor, o período de 1950 a 1990 ficou conhecido
como era da industrialização neoclássica, ocorreu após a segunda guerra mundial
e ficou caracterizado pela intensificação das mudanças, as empresas começaram
a competir de maneira bastante acentuada, com isso as organizações passaram a
criar estratégias para se manterem no mercado, uma vez que o velho modelo cen-
tralizador e piramidal foi tido como incapaz de acompanhar as mudanças ocorridas
no ambiente.
A tecnologia passou por um intenso desenvolvimento a ponto de influenciar
poderosamente a vida das organizações e das pessoas nelas inseridas. Nesse
sentido a concepção de relações industriais foi substituída por uma nova visão,
chamada de administração de recursos humanos.
As organizações, no lugar do conservadorismo, passaram a dar lugar para
a inovação. Nesse período as empresas passaram a considerar o fator humano,
obrigando as organizações a uma adequação aos novos tempos, o que inclui a
valorização crescente do ser humano e a estimulação da participação de seus
colaboradores.
De acordo com Chiavenato (2006) nesse período surgiu à estrutura matricial
como para tentar consertar e reavivar a velha e tradicional organização funcional.
Com a abordagem matricial, adicionou-se à organização funcional um esquema la-
teral de departamentalização por produtos/serviços para agilizar e funcionar como
um turbo capaz de proporcionar uma estrutura com características de inovação e
dinamismo e alcançar maior competitividade.
E por fim, a partir de 1990, período conhecido como a era da informação,
época em que estamos vivendo atualmente. Esse período “introduz movimentos
interessantes como a mudança do eixo do poder dos músculos para a mente e a
identificação do conhecimento como recurso primeiro, em detrimento da terra, ca-
pital e trabalho braçal, que assumem papel secundário.” (VERGARA, 2006, p.18).
Nesse período houve uma maior valorização sobre o quesito conhecimento,
portanto as pessoas passaram a valer o quanto sabem fazer, uma vez que a eco-
nomia sem fronteiras deu espaço à globalização e com isso as organizações pas-
saram a enfrentar a concorrência acirrada. A administração de recursos humanos
cedeu lugar a uma nova abordagem: a gestão de pessoas.
As estruturas das organizações passaram a ser flexíveis, descentralizadas e
com ênfase em equipes multifuncionais de trabalho com atividades voltadas para
missões e objetivos definidos. As pessoas passaram a serem vistas como seres hu-
manos proativos, dotados de inteligência e habilidades e que devem ser motivados
e impulsionados.
Conforme observado, esse período trata-se da reestruturação das organiza-
ções, da quebra de paradigmas até então ditos como importantes. Não se trata
mais de administrar pessoas, mas de se administrar junto com as pessoas.
“A moeda do futuro não vai ser a financeira, mas o capital intelectual. E es-
tará na cabeça das pessoas, o recurso mais importante das organizações. Porém,
um capital muito especial que não pode nem deve ser tratado como mero recurso
organizacional.” (CHIAVENATO, 2006, p. 26).

3 O IMPACTO DAS TRANSFORMAÇÕES NO AMBIENTE


ORGANIZACIONAL
Com o aumento da competitividade e devido ao avanço tecnológico as or-
ganizações se viram obrigadas a se reestruturarem de forma a se manterem no
mercado. O que implica em dizer que as empresas tiveram de fazer mudanças
significativas em sua estrutura, bem como mudanças na cultura corporativa e no
comportamento organizacional.
Tornou-se indispensável que as pessoas sejam capazes de aprender conti-
nuamente e incessantemente. Segundo Chiavenato (2002), para promover mu-
danças internas o desafio maior é mudar a cabeça das pessoas, torná-las mais
eficientes e eficazes, mais integradas, mais produtivas e mais inventivas.
Em uma organização baseada no conhecimento é a produtividade do traba-
lhador individual que provoca e alavanca o sucesso de todo o sistema. Por isso,
hoje é requerido das empresas um novo relacionamento com os clientes, um novo
relacionamento com uma rede de alianças e parceiros, um novo relacionamento
com o tempo e espaço, além de se pensar em um novo relacionamento com os
próprios empregados.
A chamada era da informação introduz movimentos interessantes na qual o
poder dos músculos passa para mente e a identificação do conhecimento, impac-
tando o ambiente das organizações.
Segundo Vergara (2006), dentre esses impactos podemos destacar:
1. Mudanças tecnológicas: A tecnologia impactou profundamente o ambiente
dos negócios, alterou e continua alterando nas formas de organização do
trabalho, nos fluxos de tarefas, exigindo cada vez mais novas habilidades
por parte dos empregados. Outra questão é o fato da tecnologia viabilizar
novos tipos de produtos e serviços, o que se tornou extremamente impor-
tante uma vez que o cliente se tornou mais exigente, com isso as pessoas
se tornaram mais consumistas, porém com uma crescente consciência
ecológica e a sociedade passou a exigir ações de cidadania por parte das
empresas, obrigando as mesmas a desenvolverem projetos voltados para
a preservação do meio ambiente. Além dessas questões a tecnologia foi
capaz de oferecer melhorias significativas e rapidez no fluxo de informa-
ções e também possibilitou o surgimento da chamada organização virtual,
onde as pessoas se conectam com as empresas por meio eletrônico, mu-
dando a relação entre controle e subordinação;
2. A dimensão humana das mudanças: Nesse quesito a relação entre empre-
gado versus empregador mudou consideravelmente, afinal, antes existiam
relações que giravam em torno de um pacto, no qual o empregador ofere-
cia salários bem como garantias de emprego em troca de lealdade, assi-
duidade e pontualidade. Hoje isso mudou o que existe é compartilhamento
de responsabilidades, com visão e ação estratégica de todos os membros,
com orientação para resultados. Outro fator que se tornou de suma im-
portância foi com relação à ética, onde se tornou necessário zelar pela
manutenção da mesma seja nas relações interpessoais, nos negócios, nas
relações com a sociedade e com o meio ambiente;
3. Mudanças organizacionais: Devido à competitividade às organizações es-
tão dando maior ênfase na criação de equipes, os colaboradores passa-
ram a exercitar sua capacitação através da delegação de poder, ou seja, as
organizações se tornaram mais flexíveis reduzindo a pirâmide hierárquica.
As organizações passaram a adotar modelos participativos, dando uma
maior abertura para que seus colaboradores passassem a opinar;
4 CAPITAL INTELECTUAL
Para falar do conceito chave que é capital intelectual, faz-se necessário uma
rápida abordagem a outras conceituações e definições que o rodeiam e embasam
o seu sentido. Portanto, neste tópico, serão trabalhados conceitos e definições de
organização, da eficiência e eficácia, do capital intelectual e do conhecimento.
Chiavenato (2006) diz que a organização é um conjunto de duas ou mais
pessoas que se unem para atingir um objetivo pré-estabelecido, já que devido às li-
mitações individuais os seres humanos não conseguem desenvolver objetivos que
um indivíduo isoladamente não conseguiria alcançar.
Ainda conforme Chiavenato (2006), “As organizações permitem satisfazer a
diferentes tipos de necessidade dos indivíduos: emocionais, espirituais, intelectu-
ais, econômicas, etc.” Assim, entende-se que para satisfação das necessidades
dos indivíduos existem uma variedade de organizações tais como bancos, indús-
trias, universidades, hospitais, etc. com objetivos diferentes voltados para produ-
ção, prestação de serviços, comércio dentre outros.
Nas palavras de Chiavenatto (2006), as organizações passam por mudan-
ças e transformações constantes através de novas tecnologias, modificações em
seus produtos e serviços, reestruturação de seus processos internos e externos,
alteração no conceito de valorização do ser humano enquanto colaborador. Tais
inovações são na verdade uma ferramenta que potencializa a eficiência e eficácia
em prol da competitividade num mercado cada vez mais globalizado e exigente.
Chiaventato (2006), diz que a eficiência e a eficácia da organização são pon-
tos chaves para o seu sucesso e define: “eficácia é uma medida normativa do
alcance de resultados, enquanto eficiência é uma medida normativa da utilização
dos recursos nesses processos.”
Organização é um assunto abrangente que se esmiuçado detalhadamente
teceria um grande número de páginas e bastante debate, mas como o foco do tra-
balho é capital intelectual, termo diretamente ligado a recurso humano como fonte
de eficiência e eficácia em um ambiente empresarial extremamente competitivo e
global passa-se aos conceitos de ativos intangíveis da organização.
Conforme Antunes (2007), ativo em termos de contabilidade tradicional são
os bens e os direitos da organização expressos em dinheiro e são classificados
como tangíveis e intangíveis.
Antunes (2007) acrescenta ainda que, enquanto os ativos tangíveis são com-
postos de matéria física (máquinas, equipamentos) e de fácil mensuração finan-
ceira, os ativos intangíveis (direitos autorais, marcas, patentes) não são corpóreos
nem tocáveis, representam valoração significativa para a organização, mas não se
sabe ao certo como medir este valor em unidades monetárias.
Para Schmidt e Santos (2009) o capital intelectual é uma fonte de geração
de ativo intangível, isso porque numa sociedade sustentada no conhecimento este
passa a ser o principal recurso da organização.
Ainda conforme Schmidt e Santos (2009) visto que a contabilização dos re-
cursos humanos como ativos intangíveis é de difícil mensuração, a contabilidade
tradicional depara com um grande desafio em busca de experiências práticas para
atribuir valor a tais ativos e considerando tais aspectos chega-se aos efeitos que
compõem o Capital Intelectual.
Sendo assim, nas palavras de Antunes (2007) “o capital intelectual é o con-
junto de valores (ou ativo, ou recursos, ou capital) ocultos que agregam valor às
empresas e permitem a sua continuidade.”.
Ainda segundo Antunes (2007) os autores Edvinson e Malone (1998:9) di-
videm os fatores ocultos que formam o capital intelectual em humano e capital
estrutural, a saber:

[...]Capital humano: composto pelo conhecimento, expertise,


poder de inovação e habilidade dos empregados mais os va-
lores, a cultura e a filosofia da empresa; capital estrutural:
formado pelos equipamentos de informática, softwares, ban-
co de dados, patentes, marcas registradas, relacionamento
com os clientes e tudo o mais da capacidade organizacional
que apóia a produtividade dos empregados (ANTUNES, 2007,
p. 79 ).

Antunes (2007) ressalta ainda que em seus estudos conclui-se que as


organizações necessitam apoiar-se no recurso humano do conhecimento e não
mais na força braçal. Tal conclusão resulta na união do capital estrutural como
ferramenta que materializa o conhecimento do capital humano resultando assim
no capital intelectual.
5 AS ORGANIZAÇÕES DE APRENDIZAGEM
É impossível falarmos de capital intelectual sem levar em consideração o co-
nhecimento afinal esse está nas pessoas e não se extrai delas.
Conforme Schmidt e Santos (2009) o conhecimento é uma ferramenta base
do capital intelectual e serve como alavanca nas atividades econômicas das or-
ganizações passando a ser o papel principal na geração de lucratividade e pro-
dutividade. Portanto, é impossível falarmos de capital intelectual sem levar em
consideração o conhecimento afinal esse está nas pessoas e não se extrai delas.
“A sociedade da informação gera e nutre a sociedade do conhecimento, aquela
que resulta das experiências, de valores, do estabelecimento de relações, da elabo-
ração da informação de forma contextualizada e refletida.” (VERGARA, 2006, p. 19).
Conforme Chiavenato (2002) existem duas teorias para gestão do conheci-
mento, sendo que uma considera a gestão do conhecimento como administração
da informação, enquanto a outra como gestão de pessoas. No primeiro conceito
os profissionais têm experiência nas ciências da computação ou na teoria de siste-
mas, é um campo que está crescendo muito e que tem ligações estreitas com as
novas soluções da tecnologia da informação, o problema é que os dados armaze-
nados não constituem todo o conhecimento da organização, por isso tem de levar
em conta o conhecimento das pessoas. O segundo conceito está voltado para a
administração, psicologia, sociologia, filosofia ou teoria organizacional. Resumem-
-se às capacidades humanas dinâmicas e complexas, competências individuais
e comportamentos que estão mudando constantemente, o que consiste em lidar
com pessoas nas organizações de modo que influencie a aprendizagem, porém
essa é uma visão que não está crescendo com tanta rapidez.
É possível perceber que as duas abordagens deverão ser intensamente utili-
zadas, afinal não basta apenas gerenciar conhecimento corporativo é necessário
ampliar a capacidade de aprendizagem, espalhando entre todas as pessoas en-
volvidas no trabalhado organizacional de modo que o conhecimento produza re-
sultados. Distinguindo conhecimento tácito (atitude do indivíduo em determinada
situação conforme informações disponíveis) e conhecimento explícito (adquirido
através de livros e empregado como sinônimo de informações).
Segundo Antunes (2007), as rápidas mudanças e transformações fazem as
organizações se apoiarem no recurso humano do conhecimento como diferencial
competitivo, não mais no recurso humano braçal demandando assim potencial
humano de inteligência.
Portanto, ao falarmos de capital intelectual é necessário falarmos de conhe-
cimento que por sua vez é preciso falar sobre a organização de aprendizagem, na
qual o foco principal é a transformação, esse, porém é um conceito recente na
teoria administrativa e diz respeito à necessidade das organizações aprenderem,
ou seja, “a organização que aprende é a que desenvolve uma capacidade contínua
de adaptação e mudanças.” (CHIAVENATO, 2002, p. 19).
De acordo com Chiavenato (2002) as organizações que adotam a aprendi-
zagem como modelo a ser seguido, o aprendizado passa a ser parte do trabalho
cotidiano, onde a participação é fundamental e como consequência dessa imple-
mentação temos um crescente aumento do capital intelectual.
Uma organização de aprendizagem melhora a capacidade de uma empresa
de reagir às mudanças em sua situação interna e externa, se adaptar a elas e
capitalizá-las. Segundo Chiavenato (2002) a palavra aprendizagem quer dizer o
foco sobre o conhecimento e a competência. Porém se a aprendizagem individual
seja importante como base para aprendizagem coletiva, ela tem um valor limitado
para a empresa no longo prazo, por isso, o que é aprendido deve também estar
acessível a outras pessoas da empresa e, preferencialmente ficar vinculado a ela
de maneira mais duradoura. Se a aprendizagem individual aumenta o capital hu-
mano, a sua acessibilidade organizacional aumenta o capital estrutural. Portanto,
os conceitos para capital intelectual e capital humano e estrutural precisam traba-
lhar juntos para que cada um deles proporcione valor agregado ao outro.
De acordo com Chiavenato (2002), existem dois conceitos de aprendizagem:
adaptativa e generativa. A aprendizagem adaptativa diz respeito à adaptação às
mudanças ambientais e a aprendizagem generativa envolve criatividade e ino-
vação, além da adaptação à mudança e à antecipação à mudança. Portanto, o
processo generativo conduz a uma total reformulação das experiências de uma
organização e aprendizagem decorrente do processo.
No dizer de Chiavenato (2002), as três principais características de aprendi-
zagem são:
—— A presença de tensão: A organização cria uma tensão criativa que serve
como um catalisador ou necessidade motivacional para aprender, sendo
que essa tensão ocorre entre a visão da organização (que é quase sem-
pre ajustada para cima) e a realidade, isso significa que a organização de
aprendizagem constantemente questionando e desafiando o status quo.
É uma espécie de inconformismo com a situação atual, aliado a um senti-
mento de querer mudar e melhorar as coisas;
—— O sistema de pensamento da organização: Deve haver uma visão com-
partilhada por todos os funcionários em toda a organização, bem como a
abertura para novas idéias e para o ambiente externo. È necessário uma
abertura para a comunicação a fim de permitir que haja harmonia entre
as pessoas;
—— A cultura organizacional facilitadora: A cultura da organização assume to-
tal importância no processo de aprendizagem, pois é preciso haver uma
mentalidade que apóie e facilite o aprendizado na organização, é neces-
sário facilitar e incentivar a mudança, tendo como reforço o sistema de
recompensas da organização.
—— Hoje, as organizações de aprendizagem podem ser consideradas tre-
mendamente importantes, uma vez que proporciona enormes vantagens
competitivas em relação às organizações tradicionais, mas para isso é
necessário contar com uma equipe gerencial rejuvenescida que enfatiza
o compartilhamento do conhecimento, comunicações abertas, espírito de
equipe e a ampla difusão de novas idéias em toda a organização.

6 O CAPITAL INTELECTUAL COMO DIFERENCIAL


COMPETITIVO
Constantemente ouvimos falar de empresas que implementaram estruturas
organizacionais mais inovadoras, buscando alavancar a criatividade, o conheci-
mento e a capacidade de aprendizado dos vários níveis hierárquicos das empresas
a fim de romperem com o paradigma taylorista vigente.
Segundo a revista Você S/A - Exame (2009), “as 150 melhores empresas para
se trabalhar, provam que investimento em pessoas gera reconhecimento, felicidade
e riqueza até nos piores momentos.” Essa frase faz referência a empresa Caterpillar,
fabricante de máquinas agrícolas e industriais e que ganhou o primeiro lugar entre
as 150 melhores empresas. Mesmo sofrendo fortes impactos com a crise financeira
de 2008 não deixou de lado o quesito humano e continuou a motivar seus colabo-
radores através de uma base sólida de confiança se destacando com um elevado
índice de qualidade no trabalho, aliás, nota essa dada pelos funcionários.
Ainda conforme a revista podemos verificar que as empresas possuem práticas
que valorizam seus profissionais, entre elas podemos citar: pagam melhor, retêm
seus funcionários, oferecem reais oportunidades de crescimento, aliás quando sur-
ge uma oportunidade de emprego primeiro procuram pessoas aptas para a função
dentro da própria empresa, sendo que algumas delas chegam até mesmo a remu-
nerar o funcionário que indicar um colega e o mesmo for efetivado, por isso procu-
ram selecionar pessoas que se adéquam a mais de uma função, visando um futuro
promissor para o mesmo, os benefícios extrapolam o padrão, em algumas dessas
empresas é permitido colocar, além dos filhos e do marido, os pais dos funcionários
como dependentes e são poucas as que não oferecem previdência privada, pos-
suem colaboradores escolarizados e mais diversificados, sendo que parte disso se
deve ao forte investimento em desenvolvimento. Tudo isso faz com que os colabora-
dores sintam-se motivados, mas o que realmente os faz feliz “tem a ver com a sua
identidade em relação ao negócio e à cultura da empresa.” Ou seja, os colaborado-
res se sentem parte da empresa, por isso se engajam com total dedicação.
E como consequência as referidas organizações possuem pessoas mais com-
prometidas, fazendo com que a rotatividade de tais empresas cai pela metade,
além é lógico de terem retornos financeiros, afinal, “pelo quarto ano consecutivo,
a rentabilidade sobre o patrimônio das 150 melhores empresas para trabalhar
supera as 500 companhias listadas no anuário Melhores & Maiores.”
A valorização de talentos é “uma prova constante de que investir em gente
faz bem não só para o clima, como também para o caixa.” (REVISTA VOCÊ S/A –
EXAME, 2009).

7 O QUE FAZER PARA AS ORGANIZAÇÕES SE


TORNAREM MAIS COMPETITIVAS?
De acordo com Chiavenato (2002), as dificuldades em se implementar uma
gestão participativa se encontra no ambiente interno das organizações, afinal, mui-
tas empresas são resistentes a mudanças, portanto existe uma forte vontade de
se manter a cultura antiga, onde os gerentes estão mais preocupados com a pro-
dutividade e com o controle, não se preocupando com a participação das pessoas,
por isso não fazem renovações, uma vez que acreditam que as pessoas precisam
mais das organizações do que elas das pessoas, o que é uma inverdade, pois,
de que adianta equipamentos com a mais alta tecnologia se não existir pessoas
qualificadas para operar os maquinários? Além disso, a implementação de uma
nova gestão não é fácil, pois implica em alterar toda a estrutura da empresa, afi-
nal, devem-se levar em consideração alguns fatores como cultura organizacional,
crenças, valores e as influências do contexto social, econômico e histórico, ou seja,
não é simplesmente implementar uma política diferente, isso requer estudos e pla-
nejamentos e nem sempre o que contribui para a alavancagem de uma empresa
é o que necessariamente será a solução para a outra.
Não podemos negar que realmente a tecnologia facilitou nossas vidas, mas
ela por si só, não é capaz de aumentar o índice de desenvolvimento humano. A
verdade é que os equipamentos estão disponíveis globalmente e o acesso à tec-
nologia passou a ser fácil e rápido e a tendência é que realmente as máquinas ve-
nham ocupar cada vez mais o lugar das pessoas dentro das organizações, porém
as mesmas possuem limitações e não são capazes de raciocinar, diferentemente
dos seres humanos, portanto o correto é que as pessoas passem realmente a se-
rem valorizadas por aquilo que elas sabem fazer. Portanto, o que começa a fazer
diferença são as pessoas através da qual a organização é composta. Os ativos
tangíveis vão se depreciando ao serem usados, porém o intangível é o único artigo
que se valoriza ao ser mais usado e hoje, o mundo está voltado para isso, mas infe-
lizmente muitas empresas só se dão conta disso depois que perdem seus talentos.
O problema é que hoje existe uma necessidade de soluções rápidas e ime-
diatas, por isso é preciso simplificar as coisas. Então como a implementação de
uma nova gestão é algo que requer tempo à solução seria conforme Chiavenato
(2006) começar pelo mais simples, ou seja, modificando o relacionamento gerente
versus subordinado. Acreditamos que aqui seria o início de tudo, uma vez que a
valorização do capital intelectual é algo que está relacionado com mudanças de
pensamentos por parte dos administradores e gestores.
A partir daí é possível ir aos poucos mudando toda a estrutura da empresa,
inclusive implementar uma estrutura voltada para a organização de aprendizagem,
através da qual, de acordo com Chiavenato (2002) as organizações que adotam
esse tipo de modelo, a aprendizagem passa a ser parte do trabalho cotidiano, onde
a participação é fundamental e como consequência dessa implementação temos
um crescente aumento do capital intelectual, ou seja, implementação de uma ges-
tão que realmente seja participativa. Nesse sentido, segundo Robbins (2000) a or-
ganização estaria adotando uma estratégia de inovação, através da qual não deve
basear-se em mudanças simples e sim em inovações significativas e exclusivas,
sendo que a melhor opção estrutural para esse tipo de estratégia é a descentrali-
zação, pouca formalização, formação de equipes, uma estrutura adaptativa e solta
com rede de informações abrangente.
O primordial para uma organização formar seu capital intelectual é conseguir
extrair de seus colaboradores e parceiros, suas experiências e informações, que
deixam de ser apenas um conhecimento armazenado no cérebro de cada um e
passam ser informação útil e disponível, que pode ser compartilhada e gerar novos
conhecimentos para outras pessoas, criando para a organização um diferencial,
comumente chamado de “inteligência competitiva”, que pode no final se transfor-
mar em rentabilidade.
Visto que a tendência é a concorrência se tornar cada vez mais acirrada, os
clientes cada vez mais exigentes e a tecnologia evoluir cada vez mais passando a
exigir habilidades diferenciadas por parte dos trabalhadores à solução é que as
organizações invistam fortemente em seus talentos, preparando-os, treinando-os,
desenvolvendo-os, respeitando-os, agindo com transparência, remunerando-os
de forma justa, oferecendo oportunidades de crescimento, se interesando pelo
que as pessoas têm a dizer, elogiando, premiando com algo significativo enfim,
investimento em quem, de fato vai fazer essa transformação. Afinal tais medidas
contribuem para funcionários motivados, com qualidade de vida e que se sintam
parte da empresa.
Conforme dados obtidos pela revista Você S/A – Exame (2009), colaborado-
res motivados é sinônimo de rentabilidade e agindo assim as organizações atingi-
rão seus objetivos que é a maximização dos lucros além de criar um ambiente tran-
quilo, propício à inovação, com profissionais qualificados e totalmente dedicados
uma vez que os mesmos passam a se sentirem como parte da empresa.
Sem dúvidas a solução está em investir nos funcionários, porém existem al-
gumas dificuldades para “transformar os executivos em criadores de talentos e
incentivadores da aprendizagem.” (CHIAVENATO, 2002, 12ª ed., p. 32).
8 METODOLOGIA
De acordo com Gil (1991) a metodologia utilizada para elaboração desse ar-
tigo consiste numa pesquisa bibliográfica e documental, são pesquisas obtidas
em internet, livros, revistas, jornais, documentos o que permite uma melhor com-
preensão do trabalho a ser desenvolvido. Portanto, foi utilizado desses meios para
aprofundar conhecimentos sobre os conceitos de capital intelectual bem como os
impactos dessa gestão dentro das organizações. Com base no que cita Triviños
(1999) trata-se de um trabalho exploratório, através do qual é possível maior in-
teração sobre um determinado problema, conseguindo encontrar elementos ne-
cessários para obtenção de determinados resultados. A pesquisa realizada nesse
artigo é qualitativa por tratar-se de um estudo teórico descritivo.
Para dar um maior embasamento nesse artigo também foi elaborado um
questionário e enviado para a área de RH de três empresas renomadas dentre elas
a primeira possui 53 anos de mercado e é considerada o maior grupo atacadista
no Brasil, possui 4834 funcionários distribuídos em 74 cidades do Brasil, isso sem
levantar em consideração outras empresas do grupo. Só em Uberlândia a empresa
conta com a contribuição de aproximadamente 2980 colaboradores e oferece uma
gama extensa de produtos, mais de 16 mil itens entre esses produtos podemos
citar materiais de construção, eletrodomésticos, papelaria, higiene e beleza, des-
cartáveis, ferramentas, etc. A segunda organização com mais de 19 anos de atu-
ação é uma empresa que atua no mercado de engenharia de Telecomunicações.
É uma empresa de destaque no país, oferecendo manutenção em todo território
nacional, sendo que para isso conta com a colaboração de 1500 funcionários. Só
em Uberlândia possuem aproximadamente 383 colaboradores. “Gente servindo
gente”. Essa é a visão que norteia o jeito de ser dessa empresa. E por fim a terceira
organização, com mais de 80 anos no mercado essa empresa está integrada no
desenvolvimento e crescimento da agricultura no Brasil, seus principais produtos
são: algodão, soja, milho, farelo, óleo de algodão, etc.. Essa empresa conta com a
colaboração de 1060 funcionários distribuídos nas cidades de Itumbiara, Catalão,
Mato grasso e Bahia. Só na cidade de Itumbiara eles possuem 200 colaboradores.
A filosofia da mesma é valorização do homem, qualidade e produtividade.
O que as três empresas possuem em comum é o discurso sobre serem em-
preendedoras, oferecendo soluções que garantam valor para todos os envolvidos
de maneira simples, sustentável, inovadora, valorizando relacionamentos e prin-
cipalmente o potencial humano. Afinal, dizem acreditar que uma empresa se faz
com os resultados gerados pelo seu maior patrimônio, os colaboradores.
Os conceitos utilizados também foram aprofundados nos limites necessários
para verificarmos se existe coerência entre a teoria e a prática dentro de algumas
organizações que se dizem valorizar seus talentos.
Em função da limitação de tempo e também do número de páginas do artigo,
foi elaborado um segundo questionário e enviado para 5% dos colaboradores das
empresas voltadas para o ramo de telecomunicação e de agricultura, sendo que
pra essas duas empresas foram considerados apenas a quantidade de colabora-
dores existentes na cidade de Uberlândia e Itumbiara respectivamente. E como a
empresa do ramo atacadista possui uma quantidade de colaboradores bem maior
foi entregue o questionário para apenas 3% dos funcionários devido nossas limi-
tações conforme já foi falado e distribuídos em diversas áreas da empresa, sendo
que esses 3% foi baseado apenas na quantidade de funcionários existente em
Uberlândia. Essas questões foram elaboradas e distribuídas para diversos cola-
boradores com o intuito de termos diferentes opiniões sobre cada organização,
sendo que, alguns questionários foram feitos pessoalmente e outros via e-mail por
se tratar de empresa em outra cidade.
Feito isso, é possível analisarmos se existe coerência entre o que as organiza-
ções pregam e o que praticam, a fim de verificarmos se o ambiente organizacional
a que muitos autores se referem está realmente baseado na valorização do capital
intelectual das pessoas ou se, na verdade, não passa de uma camuflagem do mo-
delo taylorista.

9 PESQUISA DE CAMPO - ERA DA INFORMAÇÃO OU


DO TAYLORISMO CAMUFLADO?
Segundo Tarantino (2002) “o trabalho sempre foi uma fonte de pressão na
vida do indivíduo”. Mas não podemos negar que de fato as relações de trabalho
evoluíram, algumas organizações passaram até mesmo a oferecer alguns bene-
fícios como cesta básica, ticket alimentação, convênio médico, entre outros para
seus colaboradores, como forma de atrair e até mesmo reter seus funcionários,
coisas que antes não existiam. Mas isso se deve ao fato das pressões geradas pelo
aumento da competição no mundo globalizado bem como pela crescente exigência
por parte dos clientes o que fez com que a prioridade das organizações passasse
a ser a busca frenética por aumentos em eficiência. Além disso, os trabalhadores
passaram a ter consciência sobre seus direitos e deveres graças ao surgimento de
sindicatos e a criação de leis específicas que asseguram os direitos bem como os
deveres dos trabalhadores.
Para dar maior embasamento nesse artigo, foi elaborado um questionário
e enviado para as citadas organizações, representadas por seu pessoal de RH
(VERIFICAR APÊNDICE A) e também foi elaborado um segundo questionário para al-
guns colaboradores de tais empresas, dessa forma, foi feito uma análise geral das
somas dos resultados das questões abordadas nas três empresas pesquisadas.
Ou seja, para esta pesquisa foi coletada uma amostra total de 120 pessoas, das
quais 10 são da empresa A, 20 da empresa B e 90 da empresa C (organizações
essas referenciadas no mercado por propagar a valorização do capital intelectu-
al). As respostas iguais de cada questão foram somadas chegando a um número
fechado e a partir daí foi encontrado um percentual em cima do número total de
pesquisados que leva a melhor visualização do resultado geral da pesquisa (ver
tabelas abaixo). Exemplo: Dos 120 pesquisados, na questão 1 onde a pergunta é:
A organização em que você trabalha valoriza as pessoas? 21 responderam SIM e
99 NÃO. Sendo assim: 17,5% afirmam que SIM e 82,5% afirmam que NÃO, e em
cima deste percentual foi possível chegar à conclusão da pesquisa.

TABELA 1
Resultados obtidos através das respostas dos colaboradores das empresas
RESPOSTAS
Depende da Super- Total de
Ás Razo-
Sim Não necessidade visor da respos-
vezes ável
da empresa área tas
1. A organização que você tra-
17,5% 82,5% - - - - 100%
balha valoriza as pessoas?
2. Existe relação de proximi-
dade entre subordinado e ge- 33,33% 47,50% - - - 19,17% 100%
rentes/supervisores gerais?
3. Participa da tomada de
6,67% 93,33% - - - - 100%
decisões?
4. A empresa procura saber
opiniões/sugestões dos co- 17,50% 35,83% 46,67% - - - 100%
laboradores?
5. As opiniões dos colabo-
radores são colocadas em 10,0% 47,50% 42,50% - - - 100%
prática?
6. A empresa oferece condi-
33,33% 66,67% - - - - 100%
ções de crescimento?
7. As metas estipuladas pela
70,0% 10,0% - - 20,0% - 100%
empresa são altas?
8. Quando as metas são
atingidas a recompensa é 25,83% 74,17% - - - - 100%
satisfatória?
9. Trabalhadores são pres-
sionados para maior produ- 93,33% 6,67% - - - - 100%
tividade?
10. Existe índice elevado
de trabalhadores doentes
com depressão, stress, pro-
74,17% 25,83% - - - - 100%
blemas musculares, entre
outros relacionados com a
pressão do trabalho?
11. A empresa que trabalha
é considerada um lugar bom 37,5% 62,5% - - - - 100%
para trabalhar?
12. Você se sente parte da
32,5% 67,5% - - - - 100%
empresa?
13. O salário da maioria dos
28,33% 71,67% - - - - 100%
trabalhadores é justo?
14. Existe muita rotatividade
18,33%
de funcionários na empre- 81,67% - - - - 100%
sa?
17. A empresa lhe oferece
100% - - - - - 100%
benefícios?
18. Os benefícios oferecidos
estão vinculados a alguma 67,5% 32,5% - - - - 100%
regra da empresa?
19. A empresa investe forte-
mente nos colaboradores?
15,0% 42,5% - 42,5% - - 100%
(treinamento, cursos, pales-
tras).
Fonte: tabela elaborada pelos autores
As questões 15 e 16 foram avaliadas pelo seu grau de importância, de forma
que, procurou-se verificar a opinião dos pesquisados com relação a três opções
propostas a cada uma das questões abordadas, das quais deveriam ser enumera-
das de 1 a 3, sendo que o peso de importância é estabelecido pela ordem crescen-
te de numeração, ou seja, o peso maior, neste caso, seria o de número 1.
Foram somadas as opiniões dos colaboradores a cada opção já com os pesos
devidamente vinculados, chegando ao seguinte resultado:

TABELA 2
Consequências para as empresas que não ouvem opiniões de seus colaboradores
Consequências para uma organização
que não procura saber a opinião de seus colaboradores:
Perda de funcionários Os funcionários ficam Tomam decisões
potenciais desmotivados precipitadas
Peso 1 57,50% 25,83% 16,67%
Peso 2 27,50% 52,50% 20,00%
Peso 3 15,00% 21,67% 63,33%
Fonte: tabela elaborada pelos autores

TABELA 3
Sugestões de medidas para as organizações se tornarem mais competitivas
O que as organizações poderiam fazer para que os seus colaboradores
se tornem mais comprometidos, contribuindo com o cumprimento das metas:
Valorizar os Oferecer
Investir em treinamentos.
trabalhadores salários mais dignos.
Peso 1 47,50% 27,50% 25,00%
Peso 2 37,50% 44,17% 19,17%
Peso 3 15,00% 28,33% 55,83%
Fonte: tabela elaborada pelos autores

Feito isso, é possível explicar o que realmente está acontecendo no ambiente


de algumas organizações e este artigo propõe mostrar esse lado da questão que
vem sendo negligenciado.
Afinal, através dessa pesquisa de campo foi possível observar que de um
lado as empresas, representadas por seu RH foram unânimes em afirmar que nos
últimos anos houve uma crescente valorização do capital humano de maneira an-
tes desconhecida, por isso tais empresas se reestruturam no sentido de criarem
estratégias que visam à motivação dos funcionários, através de vários benefícios,
oportunidade de crescimento e à adoção de uma gestão participativa através da
qual passou a existir um envolvimento dos trabalhadores nos processos e infor-
mações, quebra de barreiras com relação a níveis hierárquicos, estímulo à partici-
pação e à criatividade, talentos ao invés de trabalhadores, inclusive abaixo segue
um pequeno trecho tirado do livro criado por uma das empresas na qual se diz ter
implementado um modelo de gestão visando à valorização do capital intelectual.

[...] Não é possível que somente os diretores e coordenadores


tenham a responsabilidade de resolver tudo. Mais impossível
ainda é pensar que somente eles devam ter idéias e decidir,
à sua maneira, aquilo que muitas vezes atinge todos. Assim,
todos dentro da empresa devem ter liberdade, de colocar
suas idéias, suas sugestões, independentemente do cargo e
da função que ocupa. Do processo de participação sai o con-
senso que leva à solução de problemas (PENHA, 2009, p. 43).

Por outro lado, os dados obtidos não condizem com essa realidade (verifi-
car tabela 1 acima), podemos verificar tamanha insatisfação por parte dos traba-
lhadores, afinal, ainda existe distanciamento devido ao nível hierárquico, onde os
considerados mais capazes continuam a ser os mais bem pagos; ainda existe uma
divisão automática das funções, onde cada um é responsável somente por uma
pequena parte, sem se preocupar com o todo da empresa, ou seja, as empresas
dizem terem se tornado mais flexíveis, oferecendo uma maior participação dos tra-
balhadores, porém o que ocorre é que os colaboradores são limitados a executar
apenas um mesmo tipo de atividade sem se envolver nas atividades tidas como
mais importantes; as tomadas de decisão são tomadas no topo e a base simples-
mente as executa sem questioná-las, tais empresas se dizem flexíveis e preocu-
padas em saber às opiniões de seus colaboradores, porém raras são às vezes em
que as pões em prática; não existe estímulo à participação e à criatividade; essas
organizações dizem investir no crescimento dos colaboradores, mas o que verifica-
mos é que quando surge à oportunidade de mudarem de cargo a oportunidade é
passada para terceiros e treinamentos são realizados no momento da contratação
e depois às vezes, dependendo da necessidade da empresa; a maioria dos colabo-
radores considera as metas estipuladas altas afirmando que a recompensa rece-
bida em troca não vale o esforço dedicado; além de serem pressionados o tempo
todo para uma maior produtividade em menor tempo.
È evidente a desmotivação dos trabalhadores, onde os mesmos não conside-
ram tais organizações como um lugar bom de trabalhar, fazendo com que eles não
se sintam parte da empresa, contribuindo para que haja desgastes em ambas as
partes, afinal, colaboradores desmotivados produzem menos e as empresas que
não se preocupam com que os seus funcionários têm a dizer se tornam organiza-
ções sem perspectivas de melhoras, visto que são incapazes de corrigir seus erros
bem como apreender com eles.
O fato é que, devido à abertura de mercados, aumenta a concorrência entre
as empresas e parte dessa pressão acaba recaindo sobre os funcionários que são
obrigados a aumentar a produtividade para assim reduzir custos das organizações.
O problema é que a pressão exercida sobre o trabalhador por uma maior produtivi-
dade gera efeitos perversos tanto para a empresa quanto para o trabalhador, uma
vez que tais pressões podem provocar doenças como stress, depressão, doen-
ças cardíacas, entre outros, prejudicando a qualidade de vida dos trabalhadores e
consequentemente diminuindo a qualidade bem como a produtividade dentro das
organizações. Ou seja, esses benefícios são artifícios utilizados por tais empresas
como forma de aumentar a produtividade das mesmas, uma vez que os mesmos
apenas são concedidos caso os trabalhadores cumprirem as regras estabelecidas
pela empresa.
O resultado da análise dos questionários das empresas pesquisadas leva a
percepção de que realmente existe uma camuflagem do modelo taylorista vigente.
Observamos que a realidade é desmotivante e o taylorismo ainda é fortemente en-
raizado na maneira de administrar de tais organizações. As contradições entre dis-
curso e prática gerencial produzem nos colaboradores expectativas de desenvolvi-
mento que não são concretizadas na prática. E como consequência, as empresas
contribuem para o surgimento de inúmeros trabalhadores desmotivados, doentes,
frustrados, angustiados e totalmente sem comprometimento, sendo obrigados a
aceitar e seguir certos comportamentos. O fato é que alguns se adaptam a esse
novo mundo devido às necessidades e outros reagem, demonstrando ao mesmo
tempo indignação e impotência frente à realidade, até que chega o momento em
que não aguenta mais e vai atrás de novos horizontes, aumentando a rotatividade
de trabalhadores em tais empresas, ou seja, as organizações muitas vezes perdem
colaboradores potenciais por não lhes darem o devido valor, e infelizmente só se
dão conta disso depois que perdem.
Podemos constatar através dos questionários que as principais consequ-
ências para a desvalorização dos trabalhadores são em primeiro lugar a perda de
funcionários potenciais, em segundo lugar funcionários desmotivados e em ter-
ceiro lugar é que as organizações tomam medidas precipitadas e que os salários
não geram motivação nos colaboradores, muito pelo contrário o que realmente os
interessa é serem valorizados como merecem, fazendo com que realmente eles se
sintam parte importantes da organização (verificar tabelas 2 e 3 acima).
Conforme pesquisa realizada pode-se deduzir que as citadas organizações
ainda visam única e exclusivamente o aumento de seus lucros, não estão preo-
cupadas com o que seus colaboradores pensam ou sabem, suas visões são total-
mente direcionadas para o plano financeiro, portanto é fato que nesse tipo de em-
presas o que existe são princípios tayloristas adaptados a nossa realidade, onde
se vivem em uma espécie de taylorismo camuflado e que a busca incessante por
conhecimento é uma forma que essas empresas encontraram para disfarçar tais
princípios. Para as referidas empresas é imprudência e ilusão dizer que elas real-
mente se preocupam com o seu capital intelectual.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foi possível atingir os objetivos propostos nesse artigo, através do qual se
conclui que mesmo com inúmeras transformações ocorridas nos últimos anos,
muitas organizações não foram capazes de se adaptarem a nova realidade, afinal
o plano financeiro continua sendo primordial para muitas empresas, não que isso
seja errado, pois, é lógico que as organizações precisam maximizar seus lucros,
mas o problema está na maneira como algumas o fazem, pressionando pessoas
de forma desumana para um alcance de máxima produtividade com menor custo
e eficiência constante.
De acordo com Chiavenato (2002, p. 4) o que ocorre nas organizações “é o
desperdício contínuo e sistemático de talentos, de conhecimento de habilidades e
de competências das pessoas.” E como consequência muitas empresas perdem
profissionais altamente capacitados, ficando em desvantagem com relação à con-
corrência, visto que as organizações que conseguirem adquirir, reter e utilizar as
informações e o conhecimento de forma correta terá um importante diferencial
competitivo, sendo que esse diferencial representa o capital intelectual.
Porém utilizam a tão falada teoria sobre valorização do capital intelectual,
discursando sobre um “trabalhador no país das maravilhas” que na realidade não
existe, pois, conforme estudo realizado ficou comprovado de forma evidente o vá-
cuo existente entre teoria e prática em algumas empresas que se dizem valorizar
seus talentos.
Como foi visto na revista Você S/A - Exame (2009), as organizações que dão
importância ao capital intelectual se diferem das outras, se destacando pelo que
sabem fazer, pela maneira que valoriza seus talentos bem como pela forma com
que conseguem utilizar o conhecimento, gerando com isso satisfação e harmonia
ao ambiente de trabalho, tanto como fatores de realização e progresso pessoal,
quanto causadores de eficiência.
Percebe-se que a solução está voltada para as mudanças dos valores geren-
ciais onde a valorização das pessoas, é o detalhe que vai fazer a empresa ganhar
o jogo. E o que tudo indica é que as organizações que não se aterem pra essas
mudanças serão “engolidas” pela concorrência.
Uma organização não deve ser gerenciada levando em conta somente ques-
tões de produtividade, vale ressaltar que o sucesso dependerá da satisfação inte-
gral das pessoas. As dimensões humanas e sociais precisam ser valorizadas em
um nível antes desconhecido, afinal, não se inova um sistema produtivo desconsi-
derando-se injustiças sociais, esgotabilidade dos recursos naturais ou o desenvol-
vimento individual.

REFERÊNCIAS
ANTUNES, Maria Thereza Pompa. Capital intelectual. São Paulo: Atlas, 2007.

CHIAVENATO, Idalberto. Construção de talentos: coaching & mentoring. 12. ed. Rio de Ja-
neiro: Elsevier, 2002.

______. Recursos humanos: o capital humano das organizações. 8. ed. São Paulo:Atlas,
2006.

CRAINER, Stuart. Grandes pensadores da administração: as idéias que revolucionaram o


mundo dos negócios. 2. ed. São Paulo: Futura, 2000.
GIL, Antônio Carlos. Técnicas de pesquisa em economia. 2. Ed. São Paulo: Atlas, 1991.

PENHA, Cícero Domingos. Empresa rede: mo modelo de gestão de talentos humanos do


grupo Algar. 11. ed. Uberlândia: Composer, 2009.

REVISTA VOCÊ S/A – EXAME. 150 melhores empresas para você trabalhar. São Paulo: Abril,
2009.

ROBBINS, Stephen P. Administração: mudanças e perspectivas. São Paulo: Saraiva, 2000.

SCHMIDT, Paulo; SANTOS, José Luiz dos. Avaliação de ativos intangíveis. 2. ed. São Paulo:
Atlas, 2009.

TARANTINO, Mônica. Fábrica de stress. Revista Isto é. 1708 ed., jun. 2002. Disponível em
<HTTP://www.terra.com.br/istoe/1708/medicina/1708_fabrica_de_stress.htm>. Acesso
em: 08 nov. 2009.

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo da S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa


qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

VERGARA, Sylvia Constant. Gestão de pessoas. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2006.
APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO DAS EMPRESAS

1 – EMPRESA DO RAMO ATACADISTA

1. Houve mudanças significativas nas relações de trabalho nos últimos dez


anos? Se sim, quais são elas?
Sim, as empresas tornaram-se mais flexíveis e menos burocráticas, passando
a adotar uma gestão participativa, onde o funcionário se envolve na empresa
como um todo. Ele deve estar preparado para encarar novos desafios, por isso, é
necessário que ele conheça as rotinas básicas de todos os setores da empresa.

2. “Capital Intelectual é uma evolução do conceito de capital humano. Repre-


senta as habilidades físicas e o grau de acesso do indivíduo à informação e
se caracteriza pelas formas como esses fatores são utilizados e aplicados,
gerando assim conhecimento e saber.” Ou seja, existe uma valorização dos
talentos humanos. Vocês adotaram essa política de gestão? Quais os bene-
fícios que este tipo de gestão pode trazer?
Na Empresa existe a valorização dos talentos humanos. Temos vários bene-
fícios que valorizam os colaboradores, como: Oportunidades de crescimento,
Capacitação do colaborador (treinamentos presencias e À distância), Benefí-
cios (Assistência Médica, Odontológico e Plano de Previdência Privada)

3. Por que as organizações passaram a oferecer benefícios?


Com os benefícios que a empresa oferece conseguimos reter talentos, dis-
ponibilizando benefícios aos colaboradores garantimos a satisfação por um
período maior de tempo. Além disso, Os benefícios concedidos pela empresa
visam proporcionar maior tranquilidade e segurança social aos colaboradores,
buscando melhoria de produtividade e qualidade de vida;

4. Você acredita que a maioria das empresas possui política de capital intelec-
tual? Se não, por que já que a mesma pode ser considerada uma ferramenta
estratégica a fim das organizações se tornarem mais competitivas?
Sim. No momento as empresas (independe do tamanho da empresa: pequena,
média ou grande). Com a política de investimento no colaborador conseguimos
mantê-lo por mais tempo na empresa.
5. Quais as consequências para as organizações que não valoriza seus talen-
tos humanos?
Ter profissionais insatisfeitos, que permanece na empresa por pouco tempo.

6. Em sua opinião, qual seria a solução para as organizações que não valoriza
o capital intelectual?
Analisar como está o turnover da empresa;
Fazer uma Pesquisa de Clima Organizacional: verificar a percepção desses fun-
cionários;
De acordo com o resultado da pesquisa analisar a políticas de investimento no
profissional ou melhorar postura da chefia ou melhorar processo de Comuni-
cação, etc.

7. Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas que implan-


tam a Gestão do Capital Intelectual?
Temos um risco que é o seguinte: o funcionário é admitido, aproveita todos os
benefícios que a empresa oferece, pede demissão e vai trabalhar em outra
empresa.

8. De que forma esse obstáculo pode ser vencido?


Mantendo a satisfação do Colaborador

9. Em quanto tempo a empresa pode começar a sentir os benefícios desse


processo?
Depende dos objetivos da empresa.

10. Qual seria o custo benefício de se adotar uma política de capital intelectual
nas empresas?
O custo é alto, no entanto capacitar e preparar cada vez mais o funcionário
fará com que ele se mantenha satisfeito por um tempo maior, que facilita a
retenção de Talentos.

11. Quais as estratégias que o RH está utilizando para enfrentar a concorrência


cada vez mais acirrada?
Estão utilizando estratégias que visam à motivação do trabalhador, através
de contínuos treinamentos, oportunidade de crescimento e várias opções de
benefícios.
2 - EMPRESA DO RAMO DE TELECOMUNICAÇÕES

1. Houve mudanças significativas nas relações de trabalho nos últimos dez


anos? Se sim, quais são elas?
Sim, a perspectiva de trabalho mudou na forma de tratar e perceber o traba-
lhador, não mais como um “recurso”, mas como um “Talento”.

2. “Capital Intelectual é uma evolução do conceito de capital humano. Repre-


senta as habilidades físicas e o grau de acesso do indivíduo à informação e
se caracteriza pelas formas como esses fatores são utilizados e aplicados,
gerando assim conhecimento e saber.” Ou seja, existe uma valorização dos
talentos humanos. Vocês adotaram essa política de gestão? Quais os bene-
fícios que este tipo de gestão pode trazer?
Sim adotamos, a mesma traz inúmeros benefícios, entre eles: desenvolvimen-
to das pessoas, quebra de paradigmas, maior aporte de conhecimento, possi-
bilidade de crescimento individual, maior busca por informação por parte das
organizações.

3. Por que as organizações passaram a oferecer benefícios?


Porque chegaram à conclusão que seu SUCESSO depende, em grande parte,
das pessoas e que estas só permanecem em organizações que tem algo a
agregar em suas vidas e carreiras.

4. Você acredita que a maioria das empresas possui política de capital intelec-
tual? Se não, por que já que a mesma pode ser considerada uma ferramenta
estratégica a fim das organizações se tornarem mais competitivas?
Sim creio que na atual conjuntura econômica só subsistirão as empresas que
tiverem esta perspectiva.

5. Quais as consequências para as organizações que não valoriza seus talen-


tos humanos?
Perda de capital intelectual, perda de investimentos realizados em pessoas,
perda de talentos.
6. Em sua opinião, qual seria a solução para as organizações que não valoriza
o capital intelectual?
Fechar

7. Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas que implan-


tam a Gestão do Capital Intelectual?
Criar uma Cultura de desenvolvimento, não enxergar investimento em pessoas
como custo, gerar nos associados à perspectiva de auto-responsabilidade pela
sua carreira.

8. De que forma esse obstáculo pode ser vencido?


Criando Cultura e políticas de gestão de talentos humanos.

9. Em quanto tempo a empresa pode começar a sentir os benefícios desse


processo?
De imediato.

10. Qual seria o custo benefício de se adotar uma política de capital intelectual
nas empresas?
Não é possível precisar, depende de inúmeras variáveis.

11. Quais as estratégias que o RH está utilizando para enfrentar a concorrência


cada vez mais acirrada?
Boas políticas de incentivo, valorização dos talentos, envolvimento das pesso-
as nos processos e informações, etc.

3 - EMPRESA DO RAMO DE AGRICULTURA

1. Houve mudanças significativas nas relações de trabalho nos últimos dez


anos? Se sim, quais são elas?
Sem duvida, nos últimos 10 anos, ocorreu uma valorização do capital huma-
no pelas empresas, sendo evidenciado pelos investimentos feitos em desen-
volvimento.
2. “Capital Intelectual é uma evolução do conceito de capital humano. Repre-
senta as habilidades físicas e o grau de acesso do indivíduo à informação e
se caracteriza pelas formas como esses fatores são utilizados e aplicados,
gerando assim conhecimento e saber.” Ou seja, existe uma valorização dos
talentos humanos. Vocês adotaram essa política de gestão? Quais os bene-
fícios que este tipo de gestão pode trazer?
Sim a empresa tem a política de investimento no desenvolvimento dos cola-
boradores, mas busca conscientizar aos mesmos a importância de ele próprio
também investir em seu crescimento. Esta gestão beneficia tanto a empresa
quanto o colaborador e um dos maiores ganhos é o crescimento do capital
intelectual que consequentemente resulta em ganhos de produtividade e me-
lhores resultados finais.

3. Por que as organizações passaram a oferecer benefícios?


Visando melhorar o seu crescimento e produtividade inicialmente

4. Você acredita que a maioria das empresas possui política de capital intelec-
tual? Se não, por que já que a mesma pode ser considerada uma ferramenta
estratégica a fim das organizações se tornarem mais competitivas?
As empresa que ainda não adotaram esta política não perceberam que o maior
bem que ela pode ter são os colaboradores satisfeitos, pois são eles que irão
tornar a empresa mais competitiva e produtiva.

5. Quais as consequências para as organizações que não valoriza seus talen-


tos humanos?
São varias as consequências, mas a principal e perda dos seus colaboradores
potenciais.

6. Em sua opinião, qual seria a solução para as organizações que não valoriza
o capital intelectual?
Começar a se preocupar em investir em seus talentos urgente.

7. Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas que implan-


tam a Gestão do Capital Intelectual?
Alto investimento, Concorrência, expectativa de crescimento muito rápido por
parte dos talentos, etc..
8. De que forma esse obstáculo pode ser vencido?
Um dos pontos fundamentais acredito ser uma política transparente de um
plano de carreira aos colaboradores e oportunidades de crescimento interno
na empresa.

9. Em quanto tempo a empresa pode começar a sentir os benefícios desse


processo?
Os resultados são a médio e longo prazo.

10. Qual seria o custo benefício de se adotar uma política de capital intelectual
nas empresas?
Isso depende muito do tamanho da empresa e quais as expectativas e metas
da mesma.

11. Quais as estratégias que o RH está utilizando para enfrentar a concorrência


cada vez mais acirrada?
Investimento e valorização dos talentos, buscando o aproveitamento dos mes-
mos em vagas internas.
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
E LINGUAGEM
A Importância do Ensino, Baseado
na Pesquisa como Instrumento
Incentivador à Leitura e
Interpretação Textual no Ensino
Superior

Sônia Helena de Castro∗


Robson Luiz de França∗*

RESUMO
A pesquisa é a atividade de ensino que consiste em transmitir ao discente não apenas
o conhecimento pronto, mas levando-o à assimilação e adaptação constante de novos
aprendizados. Neste sentido, o presente estudo tem como temática central a formação e o
desenvolvimento profissional discente, embasando-se na inclusão da pesquisa científica na
educação. Seu objetivo é propor desafios de inovação que implica conhecimento reconstruído
e capacidade alternativa de intervenção onde o discente é sujeito do processo, fazendo
com que a pesquisa seja tomada como princípio científico e educativo, um meio de fazer e
refazer conhecimento, bem como de educar. Desenvolveu-se uma pesquisa bibliográfica e
documental para melhor compreensão dos Projetos Pedagógicos dos Cursos de graduação,
e pesquisa exploratória, quanti-qualitativa de campo, através de inquirição oral, com
graduandos da Faculdade Cidade de Coromandel/MG, egressos, e docentes orientadores
de projetos de pesquisa. Buscou-se estimular a pesquisa no aluno, dentro de seu estágio
social e intelectual de desenvolvimento, fazendo-o um parceiro de trabalho, empreendedor
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

*
Professora da Faculdade Cidade de Coromandel. Mestranda em Educação pela Universidade de
Uberaba (UNIUBE). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade de Co-
romandel (FCC). Especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e Graduada em Letras
pelas Faculdades Integradas de Patrocínio (FIP). Docente na FCC, Coordenadora do Curso de Letras
e do Instituto de Pós-Graduação da mesma instituição. soniahelena@fcc.edu.br
**
PHD em Educação pela Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Educação pela Universidade
Júlio Mesquita Filho – UNESP/Araraquara, Mestre em Educação e Especialista em Tecnologias para
Educação a Distância pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Graduado em Pedagogia pela
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Belo Horizonte. Docente nos cursos de graduação e pós-
-graduação da UFU. rfranca@ufu.edu.br

175
de oportunidades de conhecimento, tendo no docente a orientação motivadora; o qual,
visto como mola propulsora do processo ensino-aprendizagem, precisa saber propor seu
modo próprio e criativo de teorizar e praticar a pesquisa, capacitando-se constantemente e
mantendo-a como fonte principal de sua capacidade inventiva, analisando a fragilidades dos
discentes quanto à interpretação e redação de textos embasados na pesquisa, mostrando-
se que as dificuldades de compreensão da leitura afetam diretamente em seu desempenho,
não só ao que refere-se à linguagem, mas em todas as áreas do conhecimento pessoal e
profissional do indivíduo.
Palavras-chave: Ensino Superior. Pesquisa. Projeto. Leitura. Interpretação.

1 INTRODUÇÃO
Incitar acerca da escrita e da oralidade é falar de comunicação, pressupondo,
segundo Fazenda (2000), a intersubjetividade, considerando-se a comunicação
como uma modalidade privilegiada de relacionamento entre as pessoas, no con-
texto da convivência social dos homens.
Vê-se que a comunicação verbal se realiza através de textos; construção a
qual, segundo Demo (1998), é adquirida através da leitura, possibilitando ao indi-
víduo dominar, de acordo com o que a norma culta preconiza a acentuação gráfica,
a colocação de pronomes, o emprego dos verbos, das conjugações subordinadas,
além da regência e da concordância. Tudo isso sem a necessidade de obrigar o
aluno à árdua e infrutífera memorização de regras gramaticais onde a assimilação
funcional da linguagem terá repercussões não só na escrita, mas também na fala
e na própria leitura.
Koch (2000) expõe que, a fragilidade mais frequente, que acompanha o alu-
no desde a atenção à alfabetização até a conclusão do 9º ano da educação básica,
sem ter a real consciência deste fato, é a dificuldade para escrever. Haja vista que,
segundo o autor supracitado, a expressão escrita requer, antes de qualquer coisa,
uma apropriação do objeto da escrita, o que pressupõe uma exaustiva pesquisa
anterior sobre o tema, o qual deve ser compreendido em seus vários aspectos
EPISTHEME

Tal inaptidão para a leitura e escrita cultas, em indivíduos que alcançam a


educação superior é percebida pela falta de compreensão de textos; o que é consi-
derado, como um dos determinantes do baixo desempenho destes alunos. Já que,
segundo a pesquisa de Fazenda (2000), ao compreender apenas parcialmente
o que lêem, os discentes deixam de entender aspectos essenciais do material a

176
ser atento; constatando-se que os estudantes possuem um nível de compreensão
muito aquém do considerado satisfatório para obter os conhecimentos elencados
e trabalhados no nível superior de educação.
Lyons (1979) afirma que, quando o aluno ingressa no ensino superior, depa-
ra-se com uma série de textos de gênero técnico, indicados pelos docentes, exi-
gindo-lhes uma leitura minuciosa, considerada essencial à formação de um bom
profissional; pois, no exercício de qualquer profissão é necessário diligência e atua-
lização, tornando-se um diferencial no mercado profissional, permitindo-lhes atuar
de forma mais abrangente, precisa e eficaz.
A verdade incontestável, segundo Koch (2000), é que o ato de ler é
fundamental na formação acadêmica do discente, incluindo-o na cultura letrada;
propiciando assim, a evolução da simples habilidade de decodificação à habilidade
de compreensão, o que chega por meio de informações colhidas, analisadas de
forma reflexiva, gerando um posicionamento crítico frente às mesmas, inferindo-se
a partir do que fora lido. Demo (1998) expõe que o método mais eficaz de de-
senvolvimento e maturação da compreensão, oralidade e grafia culta do discente,
é a pesquisa científica; a qual além de trazer benefícios para a comunicação do
indivíduo, ainda propicia um maior conhecimento e estudo do meio no qual o pro-
fissional encontra-se inserido.
Diante do exposto, o presente estudo tem como temática central a formação
e o desenvolvimento profissional, embasando-se na inclusão da pesquisa científica
na educação. O interesse em desenvolver uma pesquisa científica que disserte
sobre a temática acima adveio da trajetória docente da pesquisadora, principal-
mente a partir de sua experiência no ensino superior ao ministrar as disciplinas de
Metodologia Científica e da Pesquisa e Trabalho de Conclusão de Curso na institui-
ção Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). Diante desta constatação, conforme
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
Freire (2001), Imbernon (2001), Moran (2000), Morim (2000), Perrenoud (2001 e
2002), Rios (2001), Severino (2002), Tardif (2002), Villas Boas (2002), entre ou-
tros, dá-se que a educação é considerada uma das diversas maneiras, através da
qual o ser humano pode desenvolver suas capacidades no intuito de transformar
sua realidade subjetiva e social.
Assim, ao ingressar na educação, fez-se repensar acerca do problema da defa-
sagem cultural, a formação docente, e a deficiência dos discentes em ler, entender,
interpretar e redigir quaisquer tipos de textos advindos de sua trajetória escolar.

177
Diante desta problemática e para nortear a presente investigação da´-se as se-
guintes arguições à questão central: A realização da pesquisa científica contribui de
forma significativa na atuação dos futuros profissionais? Discentes deveriam adquirir
o hábito da leitura, visto que é através desta que, acresce-se o vocabulário particu-
lar, aprende-se novos verbetes, exercita-se a habilidade de compreensão do que é
lido; possibilitando ao aluno, ler, absorver e entender o texto com maior facilidade,
desenvolvendo a paráfrase correta do que fora assimilado? No decorrer da vida aca-
dêmica, se todos os trabalhos, projetos, dentre outros exercícios de fixação, fossem
redigidos e formatados mediante as normas da ABNT, posteriormente, predispor-se-
-ia a formulação e redação do trabalho de conclusão de curso? Se as matérias de
ensino fossem ministradas de maneira interdisciplinar e contextualizada, permitiria
aos discentes a visão como um todo do curso em formação, definindo com maior cla-
reza e precisão o objeto de pesquisa para a conclusão da graduação? Se na própria
instituição de ensino houvesse um acervo disponível maior e mais diversificado de
literaturas, os discentes estariam satisfatoriamente amparados?
Para Moran (2000), o contexto atual traz a necessidade de promover uma
educação escolar voltada para princípios éticos, valores e aprendizagens signifi-
cativas à vida do educando, considerando suas especificidades, desenvolvendo
capacidades inerentes a cada cidadão. As transformações do mundo globalizado
exigem das pessoas, diversas aprendizagens o que tende a criar novas dinâmicas
sociais, econômicas e educacionais que pressupõem uma formação que deve ser
diariamente complementada. Sendo assim, toda proposta de ensino consiste em
um longo processo de crítica e reflexão que confronte entre diferentes concepções
sobre a sociedade, família, especialistas da educação e formação docente.
Acreditando-se no supracitado, o presente estudo torna-se justificável, tanto
no âmbito científico quanto social. Cientificamente, na medida em que poderá pre-
encher uma lacuna e servir como incentivo para novas investigações e, socialmen-
te, pela tentativa de convencer discentes e docentes que o saber/conhecimento/
aprendizado adquire-se através da pesquisa. Este estudo torna-se viável pelos
EPISTHEME

seguintes motivos: 1) No século XXI, é notória a fragilidade aparente encontrada


nas instituições de ensino, no que refere-se ao desenvolvimento de pesquisas, ora
por deficiências dos próprios discentes, os quais apresentam enorme escassez do
hábito da leitura, ora pela insatisfatória preparação e desenvoltura dos docentes,
enquanto educadores. 2) O formando, adquirindo o hábito da leitura durante sua

178
graduação por estímulo dos docentes, saberão conduzir com mais eficácia o exer-
cício das atividades acadêmicas, desempenhando e empregando com clareza os
saberes adquiridos na graduação, contribuindo efetivamente para o avanço cientí-
fico, tecnológico, cultural e social.
Imbernom (2001), explana que a Iniciação Científica precisa estar presen-
te na vida do aluno desde a educação básica, entretanto o que percebe-se é que
esta faz-se presente, apenas no ensino superior e com grande deficiência, pois se
atém a pesquisa científica sob a orientação de apenas um docente. Neste sentido,
o que deve-se diferenciar as etapas do ensino não é a pesquisa e sim a forma enfá-
tica da mesma. Sendo que, para que haja a Iniciação Científica, a pesquisa precisa
estar associada a todas as demais atividades aplicadas no ensino superior e deve
ser parte constante e integrante na vida acadêmica.
Para a implementação da pesquisa de fato, segundo Imbernon (2001) as
instituições devem adotar um processo investigativo para detectar, através da ex-
tensão problemas que afetam a comunidade próxima às instituições de ensino de
modo que o trabalho de pesquisa possa contribuir para formação e transformação
dos pesquisadores e o crescimento social.
Tais evoluções socioeconômicas, resultantes da força de transformação/ glo-
balização estão modificando os aspectos da comunicação profissional, tornando-
-se necessário que busque um aperfeiçoamento constante na área de atuação; já
que o próprio conhecimento está em constante maturação e inovação.
Desse modo, observa-se que quanto mais o indivíduo avança na escolarida-
de, menor a ligação que tem com a leitura, o que provoca reflexos extremamente
negativos, não só em sua habilidade de escrita culta, mas nos mais diversos as-
pectos da comunicação social, tomando a oralidade e a escrita como um binômio
indissociável de modo evidente, à premência de busca de soluções. Assim, é no-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
tória a importância da leitura no desenvolvimento de estruturas de pensamento e
do raciocínio lógico do discente, anseiando-se pela realização de pesquisas cientí-
ficas, a fim de minimizar as fragilidades apontadas na educação superior.

2 METODOLOGIA
Para atender aos objetivos elaborados para este estudo desenvolvera-se uma
revisão literária, e documental para melhor compreender os Projetos Pedagógicos

179
e Curriculares dos Cursos de graduação, utilizando-se de livros, artigos, monogra-
fias e dissertações, publicados no período de 1979 à 2004, e os quais melhor
subsidiariam a presente temática.
Realizou-se também uma pesquisa exploratória de campo, sob forma quanti-
-qualitativa, com graduandos, egressos e docentes orientadores de projetos de
pesquisa e trabalhos de conclusão de curso da Faculdade Cidade de Coromandel/
MG, mediante autorização por solicitação formal da direção e dos envolvidos na
pesquisa.
A população e amostragem contempladas nesta pesquisa de campo, a qual
realizara-se de maio a dezembro de 2006, corresponderam a uma quantidade li-
mitada e aleatória de 20 (vinte) sujeitos, sendo: 05 (cinco) discentes dos anos
iniciais da graduação, 05 (cinco) egressos, e 10 (dez) docentes orientadores. Utili-
zara-se dos métodos dedutivo e hipotético-dedutivo.
Os instrumentos de pesquisa incitados foram a aplicação de um texto cien-
tífico para análise e interpretação, a discentes dos anos iniciais da graduação e
egressos, os quais através de inquirição oral, foram questionados pela pesquisa-
dora com relação ao teor do texto; além da realização de 02 (duas) reuniões com
docentes orientadores, a fim de abordar, informalmente, os aspectos da aplicação
da pesquisa científica como meio propiciador da grafia e da oralidade culta. Tais
reuniões ocorreram em junho e dezembro de 2006.
A análise literária e documental ocorrera no período de maio de 2006 à janei-
ro de 2007, efetuando-se por conseguinte, a análise do material levantado, através
de discussão e comparação, a qual enriquecera-se através da visão da presente
redatora, que possui prática docente satisfatória para análise e apuração dos re-
sultados levantados, confrontando-os com a literatura revisada.
Por conseguinte, expondo-se com clareza e precisão os resultados encon-
trados através desta pesquisa, sob a forma de percentual, e as possibilidades de
melhoria neste processo da formação e desenvolvimento profissional, através da
aplicação da pesquisa na educação, utilizando-se desta fonte de dados para a re-
EPISTHEME

dação do texto do presente artigo e elaboração das considerações finais. Por fim,
consultara-se a base de dados da internet “Scielo”, a fim de efetuar a configuração
culta da pesquisa.

180
3 A PESQUISA COMO PROCESSO DE ENSINO-
APRENDIZAGEM
Para Demo (1998), é próprio do homem produzir o conhecimento que consti-
tui o patrimônio histórico-cultural da humanidade possibilitando-o não só conhecer
o mundo, mas compreender sua própria realidade. A educação e a aprendizagem
desenvolvidas pela mediação do ensino constituem-se como efetivas práticas de
leitura e de escrita do mundo por meio da abordagem dos diferentes discursos
que a cultura humana pronuncia sobre esse mundo e de sua reelaboração por um
discurso pessoal.
A pesquisa é, segundo Rios (2001), a produção de conhecimento que decorre
da capacidade de raciocínio do homem diante de problemas e desafios, visando
à busca de respostas e/ou explicações para a questão em estudo, propondo de-
sencadear, implementar e efetivar uma interação entre os sujeitos, o mundo e a
cultura. Este processo dá-se por meio do conhecimento, que é a apreensão dos
sentidos, dos significados, das significações, cujo maior e mais eficaz sistema é o
da linguagem, dando aos homens o acesso aos sentidos, tanto ao sujeito individu-
al, como ao coletivo.
Considerando a linguagem como forma de ação e como meio de interação
social, dotada de intencionalidade. Travaglia (1996, p. 23) afirma que:

O que o indivíduo faz ao usar a língua não é tão somente tra-


duzir e exteriorizar um pensamento ou transmitir informações
a outrem, mas sim realizar ações, agir atuar sobre o interlocu-
tor (ouvinte/leitor). A linguagem é, pois um lugar de interação
humana, de interação comunicativa pela produção de efeitos
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de
comunicação e em um contexto sócio-histórico e ideológico.
Os usuários da língua ou interlocutores interagem enquanto
sujeitos que ocupam lugares sociais e “falam” e “ouvem” des-
ses lugares de acordo com formações imaginárias (imagens)
que a sociedade estabeleceu para tais lugares sociais.

181
Dado o exposto, percebe-se a língua como um fenômeno inacabado, ao mes-
mo tempo em que é sistêmico, social, ideológico e histórico. A todo o momento
está sendo construída por seus usuários, através da linguagem.
Sapir (1971) apud Lyons (1979, p. 8) afirma que “A linguagem é um método
puramente humano e não instintivo de se comunicarem idéias, emoções e desejos
por meio de símbolos voluntariamente produzidos.” Uma vez que o desenvolvimen-
to da linguagem se traduz como elemento essencial ao crescimento intelectual do
indivíduo, e como o desenvolvimento da linguagem depende, intrinsecamente, do
domínio de habilidades de leitura, tal fator acaba por interferir de forma substan-
tiva no desenvolvimento de estruturas de pensamento, tornando-se, consequen-
temente, essencial ao desempenho intelectual do falante durante a vida inteira.
Vê-se que, as idéias comuns vêm da experiência da vida, mas o conhecimen-
to mais profundo, a sabedoria, nasce de reflexão. Para Moran (2000) refletir é
pensar maduramente, é meditar, é descobrir o valor de um fato, procurando extrair
dele relações que o expliquem.
As práticas de leitura e escrita constituem uma necessidade de grande im-
portância para o desenvolvimento de cidadania e para o exercício profissional de
todos numa sociedade que possua domínio de algum tipo de alfabeto escrito, afir-
ma Koch (2000). Mencionando ainda que, a leitura e a escrita são ferramentas
essenciais para o processo de ensino-aprendizagem, além de consistir num meio
importante para disseminar conteúdos e promover um aprendizado consistente,
onde o indivíduo internaliza o conhecimento.
No Ensino Superior, lugar priorizado para a construção do conhecimento, o
processo de ensino/aprendizagem se realiza pela produção, pela sistematização e
pela divulgação do conhecimento, atividades que pressupõem um relacionamento
íntimo e contínuo com o acervo cultural da humanidade, ficando disponível graças
à linguagem escrita, acessível por meio da leitura. Para Villas Boas (2002), a edu-
cação é estágio de experiência e construção do conhecimento novo a ser adquiri-
do, cuja experiência pressupõe uma lenta, densa e difícil aprendizagem.
EPISTHEME

Partindo deste pressuposto, a faculdade é um espaço dos mais privilegiados


de educação, tendo a ver de modo ostensivo com cidadania, ainda que a aparên-
cia repassada seja de um lugar onde as pessoas apenas estudam e, sobretudo
escutam aulas e fazem provas, aparece na extensão para mostrar à sociedade a
utilidade do ensino e por vezes da pesquisa.

182
Assim, ler e escrever tornam-se processos fundamentais e imprescindíveis no
ensino superior. Ler para extrair ferramentas para a produção de novos significa-
dos e conhecer a cultura humana e escrever para viabilizar o diálogo comunicativo
registrando no acervo cultural para a humanidade futura.

4 PESQUISA COMO NÚCLEO DE UM PROJETO


COLETIVO
Acredita-se que a pesquisa, através de projetos, é o caminho certo para a
aprendizagem efetiva onde os alunos devem empreender e adquirir competências
fundamentais relacionadas com a investigação, com a organização e usar os recur-
sos da língua a seu favor, melhorando a sua capacidade de argumentação sem se
perder em frases vazias, carregadas de jargões, trabalhando a adequação do uso
da linguagem às diferentes situações onde escrita, comunicação e expressão são
ferramentas essências de trabalho, segundo Fazenda (2000).
O projeto de pesquisa, conforme afirma Tardif (2002) torna-se uma área onde
os alunos exercitam competências essenciais para iniciarem a investigação, nome-
adamente pôr problemas e ensaiar a resolução destes, utilizando de várias áreas
do saber, responsabilizando-os pela sua aprendizagem.
Perrenoud (2002) afirma que, esta preocupação é decorrente da experiência
ao longo da carreira docente no Ensino Superior, onde se depara com alunos hiper-
trofiados tanto no que se refere à leitura, análise, interpretação e redação de textos
acadêmicos. Procuro amenizar tais deficiências propondo pesquisas bibliográficas
e de campo, através de projetos, promovendo a interdisciplina entre as áreas do
curso. Os alunos desenvolvem projetos de investigação, cuja apresentação final
contempla em apresentações pública, em formato de seminário e/ou conferência
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

e que têm que fazer uso de recursos didáticos, suportes informáticos para apre-
sentação das mesmas.tente colocar autoria em algum dos parágrafos anteriores.
Francis (2004) explana que o aluno no Ensino Superior, para realizar suas ta-
refas básicas de pesquisa, de ensino e de extensão, precisa da leitura crítica, vigi-
lante, cuidadosamente preparada e da escrita como instrumentos fundamentais de
atuação, onde o texto escrito é uma codificação da mensagem concebida pelo autor.
A articulação ensino-pesquisa é necessária para que se alcance um ensino

183
de alta qualidade, em nível de excelência. O autor supra, ainda menciona que, a
formação do aluno do ensino superior como formação para a cidadania considera
o entendimento e a interpretação como elementos fundamentais que definem a
condição humana, onde a relação do homem com o mundo é fundamental e es-
sencialmente linguística.
Freire (2001) diz que o texto está aberto a uma pluralidade de sentidos descor-
tinada pela sabedoria dos leitores, permitindo-os a constituir seu mundo e dar signi-
ficado a ele. Através da pesquisa, os discentes conseguem interagir melhor entre si,
aprendem uns com os outros e desenvolvem um grau maior de segurança, apren-
dendo a viver o desafio da interdisciplinaridade entre seus saberes e as diferenças
da pesquisa em suas áreas de saber e descobrem a graduação da pesquisa educa-
cional mediados pela problematização da realidade cultural, explana Demo (1998).
Perrenoud (2001) incita que o ensino superior deve ser um ponto privilegiado
de encontro entre saberes e a experiência que o indivíduo vive é insubstituível
para a sua vida. Cada vez mais, se sente à necessidade de se trabalhar com a
pedagogia de projeto, com o processo de ensino-aprendizagem numa perspectiva
na qual se valorize a autonomia dos discentes no seu processo de produção de
conhecimentos, onde a ação do aluno é fundamental para o desenvolvimento de
sua inteligência; cujo aprendizado será garantido pela vivência de experiências
que façam com que ele participe de situações significativas.
Deste modo, o essencial na idéia de projeto, talvez seja tratar-se de uma
atividade correspondendo a uma necessidade sentida e assumida por quem de-
senvolve concretizada através de uma ação concebida segundo uma orientação
estabelecida, onde flexibilidade e criatividade são idéias chave quando se pensa
em trabalho de projeto.

5 RESULTADOS/DISCUSSÃO
Através da exposição do texto científico intitulado “Um eterno principiante”, de
EPISTHEME

Fernando Sabino (1991), aos 05 (cinco) discentes dos anos iniciais da graduação,
pedindo-lhes que efetuassem a leitura, interpretação e compreensão do mesmo,
ateve-se através da inquirição oral da presente pesquisadora, acerca do teor do
texto que, 80% dos entrevistados não conseguiram ler, interpretar e compreender
satisfatoriamente a literatura apresentada, e demonstraram uma grande

184
dificuldade em defender oralmente suas ideias. Já, ao expor o mesmo texto, a 05
(cinco) egressos dos cursos de graduação da FCC, e mediante a mesma arguição,
deu-se que 100% dos entrevistados atenderam às expectativas, mostrando uma
melhora significativa ao que refere-se à oralidade, exposição de ideias e arguição.
Por conseguinte, através das reuniões presenciais e informais, realizadas com 10
(dez) docentes orientadores de projetos de pesquisa e trabalhos de conclusão
de curso, incitou-se sobre pesquisa científica, interdisciplinaridade e defesa de
trabalhos acadêmicos, atendo-se que: na primeira reunião, cujo intuito era elencar
acerca dos resultados apresentados pela entrevista à amostra dos discentes dos
anos iniciais da graduação, e efetuar uma sondagem acerca dos possíveis motivos
responsáveis pela carência de leitura, interpretação e compreensão textuais,
sendo que, segundo Koch (2000), o ato de ler é fundamental na formação aca-
dêmica do discente, incluindo-o na cultura letrada, viu-se que 100% dos docentes
acreditam que o aluno ingressa no ensino superior sem ater o devido hábito da lei-
tura e sem dotar satisfatoriamente a grafia culta, o que exige um trabalho rigoroso
por parte dos docentes, para moldar o perfil deste indivíduo a fim de que o mesmo
venha a atender e ater as habilidades essenciais à educação superior. Na segunda
reunião, ao fim da pesquisa de campo e bibliográfica, apresentando-se os resulta-
dos obtidos na entrevista aos egressos, viu-se que 100% dos docentes incitaram
que a melhora significativa no senso de interpretação e compreensão no discente
é fruto da realização de pesquisas científicas, o que exigi-lhes uma leitura e análise
textual constantes; além do mais a exposição oral do desenvolvimento e resultados
das pesquisas, propicia uma evolução significativa na oratória do discente. Por fim,
todos os docentes concordaram que deve-se trabalhar a interdisciplinaridade e o
desenvolvimento de pesquisas científicas desde o 1º período dos cursos de educa-
ção superior a fim de incentivar uma formação profissional voltada para a atenção
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
à oralidade e escrita cultas.

6 CONCLUSÃO
Através desta pesquisa pôde-se observar que cerca de 80% dos discentes
inclusos nos anos iniciais da Graduação, possuem uma elevada carência de inter-
pretação, ao que refere-se a textos científicos, e defesa oral de suas ideias; e que
100% dos egressos entrevistados conseguiram interpretar, compreender e expor

185
satisfatoriamente acerca do texto acadêmico, o que nitidamente demonstrou, o
quão é relevante a inserção da pesquisa científica para a atenção à oralidade e
escrita cultas. Por conseguinte, 100% dos docentes mencionaram que a pesquisa
científica, a interdisciplinaridade e a inquirição oral dos resultados obtidos através
de trabalhos acadêmicos realizados pelos alunos, acarreta uma melhora signifi-
cativa na leitura, interpretação, redação e confecção de textos, além de propiciar
uma eficácia na oratória do aluno, elevando sua auto- estima, e enfatizando po-
sitivamente sua relação com a sociedade. Os docentes também aferiram em sua
totalidade, que sentem- se responsáveis pelos resultados apresentados pelos dis-
centes, exigindo-lhes uma formação contínua.
Diante das diferentes contribuições acerca da leitura, ensino-pesquisa, so-
bre as quais apóie as reflexões apresentadas neste trabalho, entende-se que a
leitura é algo inseparável da compreensão, interpretação e criação, passando a
fazer parte do domínio acadêmico.
Portanto, comprovando-se as teorias da literatura revisada, viu-se que o en-
sino é a atividade voltada para a formação de um conhecimento que auxilia na
descoberta e resolução de problemas cotidianos, ganhando um novo significado
ao suprir as necessidades vitais do discente; o qual precisa apoiar-se na pesquisa,
sendo ela uma atividade da vida cotidiana, ampliando o conhecimento, tornando-
-se uma prática indissociável do ensino superior.

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EPISTHEME

incerteza. São Paulo: Cortez, 2001.

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(Repensando a língua Portuguesa).

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PERRENOUD, Philippe; THURLER, Mônica. As competências para ensinar no século XXI.


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TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A relação entre os recursos linguísticos de coesão e a variação


de coerência. In Scripta, v. 2, n. 4. Belo Horizonte, São Paulo: Cortez, 1996. (É UM LIVRO!!!)

VILLAS BOAS; BENIGMA, M. F.(org.). Avaliação: políticas e práticas. Campinas: Papirus,


2002.

DOSSIÊ EDUCAÇÃO

187
O Papel do Docente na Inclusão do
Aluno com Deficiência no Ensino
Superior

Delza Ferreira Mendes∗


Luciana de Araújo Mendes Silva∗*
Ana Claudia Campos Rabelo***

RESUMO
A inclusão do deficiente no Ensino Superior é uma temática que vem sendo debatida
atualmente visto que pessoas com deficiência buscam cada vez mais adentrar no mercado
de trabalho. Para tanto, faz-se necessário que o deficiente tenha uma boa formação para
atender as exigências do mercado, dentre elas cursar o Ensino Superior. O presente
documento trata-se de um estudo desenvolvido no primeiro semestre do ano de 2011
sobre a contribuição do docente no processo de inclusão do deficiente no Ensino Superior.
O estudo pretendeu identificar como deve ser feito o processo de inclusão da pessoa
com deficiência no Ensino Superior, qual o papel do docente neste processo e conhecer
métodos que auxiliem o docente a incluir o aluno com deficiência no Ensino Superior. A
fim de alcançar tais objetivos desenvolveu-se uma revisão de literatura sobre a respectiva
temática. Esta pesquisa demonstra a importância do docente conhecer e saber como deve
ser feito o processo de inclusão das pessoas com deficiência em todas as modalidades de
ensino e ainda a necessidade de as pessoas com deficiência e as demais minorias serem
incluídas na sociedade, utilizando para este processo a educação. Este documento também

*
Mestre em Educação pelo Centro Universitário do Triângulo (UNIT) Uberlândia/MG. Especialista
em Psicopedagogia pelas Faculdades Integradas de Patrocínio (FIP) Patrocínio/MG e Psicologia do
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
Trânsito pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Graduação em Psicologia pelas Faculdades
Integradas de Uberaba (FIUBE) Uberaba/MG. Professora dos cursos de graduação e Pós-graduação
da Faculdade Cidade de Coromandel (FCC) e Faculdade Patos de Minas (FPM). Professora do Semi-
nário Maior Dom José André Coimbra. delzafm@yahoo.com.br
**
Mestre em Promoção de Saúde pela Universidade de Franca (UNIFRAN). Especialista em Didática
e Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC) e em Histologia
Humana pelas Faculdades Integradas de Patrocínio (FIP) e Graduada em Biologia pela mesma ins-
tituição. Professora de Graduação e Pós-graduação da FCC e Faculdade Patos de Minas (FPM).
Professora do Seminário Maior Dom José André Coimbra. laraujo3@yahoo.com.br
***
Graduada em Pedagogia pelo Centro Universitário do Cerrado (UNICERP) Patrocínio/MG. Especia-
lista em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC).
anaclaudiac17@hotmail.com.

189
poderá servir como uma fonte de reflexão para o público leitor, oferecendo conceitos a
respeito da inclusão no Ensino Superior.
Palavras-chave: Inclusão. Docente. Aluno com deficiência. Ensino Superior.

1 INTRODUÇÃO
Com o presente trabalho propõem-se examinar a contribuição do docente
para a realização do processo de inclusão de alunos com deficiência em Institui-
ções de Ensino Superior (IES). Em vista disso enfoca-se a importância do docente
conhecer e saber como deve ser feito o processo de inclusão das pessoas com
deficiência em todas as modalidades de ensino, já que ele é peça fundamental
para que esse processo aconteça de forma eficiente e eficaz.
A inclusão das pessoas com deficiência no Ensino Superior busca propor-
cionar a esta parcela da população desenvolver suas potencialidades, através do
desenvolvimento cognitivo e das relações sociais realizadas nesta modalidade de
ensino. Cabe ressaltar que pessoa com deficiência não é apenas aquela que pos-
sui uma limitação física ou mental, mas sim, todo indivíduo que tem sua capacida-
de de realizar atividades cotidianas comprometidas.
As pessoas com deficiência cada vez mais buscam uma vaga no mercado
de trabalho. Para tanto, faz-se necessário que elas sejam capacitadas e uma das
atuais exigências para conquistar um emprego são as habilidades adquiridas pelo
indivíduo durante o Ensino Superior. Tal fato coloca as Instituições diante da pro-
blemática de capacitar os professores para trabalhar com estes alunos, refletir
como deve ser a estrutura adequada para recebê-los e ainda como incentivar os
mesmos a ingressarem nesta modalidade de ensino.
Para embasamento sobre a reflexão proposta, p presente estudo contou com
documentos como a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da
Educação Inclusiva elaborada pela Secretaria de Educação Especial no ano de
2008, que traz um histórico da trajetória do processo de integração do deficiente
EPISTHEME

nas escolas até chegar ao atual processo de inclusão que vem sendo implemen-
tado no Brasil.
O artigo escrito por Castanho e Freitas (2005), intitulado Inclusão e prática
docente no Ensino Superior, disserta a respeito sobre a universidade como espaço
de produção de conhecimento e dessa forma enfoca que ela deve ser um local

190
onde a prática da inclusão seja realizada com qualidade. As autoras ainda refletem
sobre a prática docente nesta modalidade de ensino, evidenciando a importância
de que haja uma ruptura com os preconceitos e uma preparação dos docentes
para receber os alunos com deficiência, para que a universidade cumpra seu papel
na busca por uma educação de qualidade para todos.
Capellini e Santos (2005), em artigo escrito para a Revista do VIII Congresso
Estadual Paulista sobre formação de educadores e intitulado “Inclusão na univer-
sidade: desafio para os novos educadores e para os atuais formadores”, reflete de
forma clara e objetiva a respeito de como deve ser a formação docente para aten-
der o desafio de realizar a inclusão do deficiente no Ensino Superior.
O manual “O direito de ser diferente. Inclusão: Como trabalhar com a pessoa
portadora de deficiências”, desenvolvido pela Associação de Pais e Amigos dos
Excepcionais (APAE) da Cidade de Patrocínio/MG traz de forma sucinta e objetiva
informações sobre os diferentes tipos de deficiência e algumas sugestões de como
o docente deve se portar diante de cada deficiente.
Outros autores também contribuíram para esta reflexão demonstrando como
deve ser a capacitação dos docentes para que aconteça de maneira eficiente e efi-
caz, destacando como é importante que as IES estimulem estes profissionais a pro-
curarem cursos voltados para a Educação Inclusiva, criando um ambiente propicio
ao debate e a troca de experiências, desenvolvendo atividades que forneçam infor-
mações a respeito dos vários tipos de deficiências e como lidar com cada uma delas.
Segundo Capellini e Santos (2005) a reflexão a respeito da educação in-
clusiva devem ser realizada de maneira profunda, sendo assumida como política
prioritária da educação a inclusão de todos os alunos e assim discutir de que forma
a Universidade pode se tornar mais inclusiva.
Uma IES que deseje realizar a inclusão de pessoas com deficiência em seus
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
cursos de graduação e pós-graduação também deve ter uma infra-estrutura ade-
quada, sendo também fundamental que todos os envolvidos no processo de inclu-
são vençam a barreira do preconceito, lembrando que o processo de inclusão não
é uma tarefa fácil, visto que exige que os envolvidos estejam aptos para aceitar e
conviver com as diferenças individuais, criando um ambiente onde através da troca
de experiências os indivíduos aprendam de acordo com o ritmo de cada um.
Cabe lembrar que de acordo com Capellini e Santos (2005) incluir um aluno
com deficiência não deve significar “nivelar por baixo”, mas sim oferecer oportuni-

191
dades para que se corrijam as metodologias, a filosofia curricular e a preparação
do profissional, mantendo sempre os padrões de qualidade da instituição.
Incluir alunos com deficiência no Ensino Superior traz benefícios para todos
os envolvidos. Para os alunos que não possuem deficiência, é uma grande oportu-
nidade para conhecer como é o cotidiano dos deficientes, compreendendo que to-
dos têm limitações, inclusive quem não possui deficiência. Os alunos com deficiên-
cia, ao serem inseridos em um ambiente universitário, desfrutam da socialização e
da integração social, podendo ampliar o círculo de amizades e consequentemente
as oportunidades de conquistar um trabalho e uma maior independência.
Os docentes e demais funcionários de uma IES que prima pela inclusão têm a
oportunidade de trabalhar com um público variado e que exigirá empenho de todos na
busca por uma capacitação e adequação dos métodos e da prática pedagógica à reali-
dade da turma a ser atendida. Ao se capacitar, o docente amplia seus conhecimentos
e enriquece suas aulas com a troca de experiências com alunos diversificados.
Muitas pessoas acreditam que por possuírem uma limitação, os deficientes
são incapazes de aprender. Nesse sentido, conscientizar a sociedade a respeito
da convivência com os deficientes para que se possa observar a sua eficiência é
de suma importância para que o processo de inclusão saia do ambiente escolar e
chegue a toda a sociedade.
Para reafirmar a pertinência do tema dada à preocupação com o papel do
docente na inclusão do aluno com deficiência no Ensino Superior, deve-se ressal-
tar que não basta incluir o deficiente no ambiente universitário, é necessário que
esta inclusão chegue a todos os níveis sociais, relembrando que o objetivo deste
trabalho é identificar como deve ser feito o processo de inclusão da pessoa com
deficiência no Ensino Superior, qual o papel do docente neste processo e ainda
conhecer métodos que auxiliem nesta tarefa, não fornecendo verdades absolutas
ou receitas prontas, mas sim, uma fonte de pesquisa e reflexão para docentes que
trabalham nesta modalidade de ensino e se encontram diante do desafio de rece-
ber de forma eficiente e eficaz alunos com os mais diversos tipos de deficiência.
EPISTHEME

2 METODOLOGIA
A abordagem do tema teve como base uma pesquisa bibliográfica, para fun-
damentar os aspectos conceituais por meio de uma revisão de literatura em arti-

192
gos científicos, reportagens, base de dados disponíveis em diversos sites de uni-
versidades, selecionando preferencialmente os materiais mais recentes. Sites de
pesquisa acadêmica como o Scielo, entre outros forneceram embasamento teórico
por meio de artigos, sites de universidades como o da Universidade Estadual de
São Paulo (UNESP) e a Universidade de Maringá, contribuíram com artigos feitos
por seus docentes a respeito da temática em questão. Contou-se ainda com revis-
tas eletrônicas de outras universidades, site do Ministério da Educação e Cultura e
um manual produzido pela APAE da cidade de Patrocínio/MG.

3 HISTÓRICO DA INCLUSÃO DA PESSOA COM


DEFICIÊNCIA NO ENSINO
O conceito de deficiência passou por várias definições no decorrer da história.
Amiralian et al. (2000, p. 98) apresentam o conceito de deficiência como:

[...] perda ou anormalidade de estrutura ou função psicoló-


gica, fisiológica ou anatômica, temporária ou permanente.
Incluem-se nessas a ocorrência de uma anomalia, defeito ou
perda de um membro, órgão, tecido ou qualquer outra estru-
tura do corpo, inclusive das funções mentais.

A partir deste conceito cabe observar que a deficiência não está restrita a
uma limitação física ou cognitiva. Ela abrange todos os indivíduos que tenham sua
capacidade de realizar atividades cotidianas comprometidas. A autora menciona-
da anteriormente estabelece ainda a diferença entre os conceitos de deficiência,
incapacidade e desvantagem. Considerando incapacidade:
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

[...] restrição, resultante de uma deficiência, da habilidade


para desempenhar uma atividade considerada normal para o
ser humano. Surge como consequência direta ou é resposta
do indivíduo a uma deficiência psicológica, física, sensorial ou
outra. Representa a objetivação da deficiência e reflete os dis-
túrbios da própria pessoa, nas atividades e comportamentos
essenciais à vida diária. (p. 98).

193
Nesse sentido é interessante perceber que incapacidade e deficiência não
possuem mesmo valor conceitual, visto que o indivíduo pode apresentar uma inca-
pacidade, porém não uma deficiência. Por sua vez, a desvantagem é um:

[...] prejuízo para o indivíduo, resultante de uma defi-


ciência ou uma incapacidade, que limita ou impede o
desempenho de papéis de acordo com a idade, sexo,
fatores sociais e culturais. Caracteriza-se por uma dis-
cordância entre a capacidade individual de realização e
as expectativas do indivíduo ou do seu grupo social. Re-
presenta a socialização da deficiência e relaciona-se às
dificuldades nas habilidades de sobrevivência. (p. 98).

Amaralian et al. (2000) analisam a integração entre os conceitos, com rela-


ção aos níveis de manifestação da seguinte forma:

Figura - Interação e intersecção entre os conceitos.


Fonte: AMIRALIAN, 2000, p. 101
EPISTHEME

O diagrama anteriormente apresentado demonstra que a doença pode acon-


tecer sem maiores consequências e que a incapacidade e a desvantagem podem
também ocorrer sem uma determinada doença. Amiralian et al. (2000), ressaltam
que “ [...] uma pessoa pode ter uma deficiência sem incapacidade, uma incapaci-

194
dade sem desvantagem ou uma desvantagem sem incapacidade ou deficiência.” (p.
101). Diante disso compreende-se ainda que uma doença pode acontecer associada
a desvantagem e a incapacidade comprometendo todos os níveis de manifestação ou
somente com certa incapacidade para realização de determinadas atividades. Pode,
ainda, acontecer associada à desvantagem sem incapacidade, embora com desvanta-
gem no relacionamento social.
Mediante esta conceituação sobre a deficiência e suas diversas nuances,
torna-se cada vez mais importante o estudo e aprofundamento sobre a deficiência,
para que se possa efetivar de forma objetiva o processo de inclusão do deficiente
no Ensino Superior.
Para atender a parcela da população que possui algum tipo de deficiência, foi
criada a educação inclusiva que segundo o artigo 58º da LDB é “[...] a modalidade
de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para
educandos portadores de necessidades especiais.” (BRASIL, 2006, p. 21).
Segundo a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educa-
ção Inclusiva esta modalidade de ensino

[...] se organizou tradicionalmente como atendimento educa-


cional especializado substitutivo ao ensino comum, eviden-
ciando diferentes compreensões, terminologias e modalida-
des que levaram a criação de instituições especializadas,
escolas especiais e classes especiais. (BRASIL, 2008, p. 6).

Estas instituições fundamentavam-se no conceito de normalidade e anorma-


lidade, determinando formas de atendimento educacional ao deficiente fundamen-
tado em testes que definiam sua capacidade mental.
Ainda de acordo com a Política Nacional de Educação Especial, o atendimen-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

to as pessoas com deficiência no Brasil iniciou-se no período do Império com a fun-


dação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, em 1854, atual Instituto Benjamin
Constant (IBC), e o Instituto dos Surdos Mudos, em 1857, atual Instituto Nacional
da Educação dos Surdos (INES), ambos no Rio de Janeiro.
No ano de 1926 foi fundado o Instituto Pestalozzi, especializado em atendi-
mento a deficientes mentais. No ano de 1954 foi fundada a primeira Associação
de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e em 1945 é realizado o primeiro aten-

195
dimento educacional especializado para pessoas com superdotação na Sociedade
Pestalozzi por Helena Antipoff. A partir daí a Educação Inclusiva passa a ser regu-
lamentada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 2008).
Já no ano de 1994, foi publicada a Política Nacional de Educação Especial,
orientando que os alunos com deficiência capazes de acompanhar os alunos con-
siderados “normais” deveriam ser integrados a classes comuns. No ano de 2003 o
MEC criou o Programa de Educação Inclusiva, que tinha como objetivo transformar
os sistemas de ensino em sistemas inclusivos, defendendo o acesso de todos os
alunos com deficiência a rede pública de ensino (BRASIL, 2008).
Apesar de todos os avanços conquistados, segundo Tessaro (2007) pesqui-
sas mostram que a inclusão está acontecendo de forma inadequada, revelando
pouco interesse e investimentos na melhoria deste processo. Com isso, pode-se
afirmar que incluir não significa simplesmente mudar o aluno da escola especial
para a classe comum. São muitos e complexos os fatores envolvidos na inclusão
escolar que vem sendo desconsiderados ao se realizar este processo.
A inclusão do deficiente nas instituições regulares de ensino retrata uma di-
versidade de problemas deste processo a nível social. São poucos os locais com
rampa de acesso para cadeirantes, várias calçadas apresentam desníveis ou ou-
tras irregularidades que dificultam o acesso do deficiente visual e também do de-
ficiente físico.
Também são poucas instituições escolares têm profissionais capacitados
para trabalhar em classes inclusivas e ainda existe pouco estímulo para que pro-
fessores e outros profissionais de diversas áreas capacitem-se no aprendizado da
Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e do Braille (APAE, s. d.). Por isso, segundo
Sassaki (2005) cabe a sociedade, e por isso às escolas comuns, mudar seu mode-
lo educacional e naturalmente suas estruturas físicas, seus programas e filosofias
para que possam tornar-se mais adequadas às necessidades de todos os alunos.
O autor menciona ainda que o acesso do deficiente a educação não deve ser restri-
to a Educação Básica, mas deve atingir todos os níveis educacionais.
EPISTHEME

Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação n. 9394/96 (BRASIL,


1996) o Ensino Superior complementa a Educação Básica no Brasil, sendo o gran-
de responsável pela formação de mão-de-obra qualificada. É formado por cursos
de graduação em diversas áreas do conhecimento e por cursos de pós-graduação
lato sensu e scrito sensu. Os cursos de pós-graduação lato sensu incluem os cur-

196
sos de especialização, enquanto os cursos de nível scrito sensu são representa-
dos pelos cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado em diversas áreas do
conhecimento.
O Ensino Superior em suas modalidades de graduação e pós-graduação está
sendo cada vez mais procurado por pessoas que desejam aprimorar seus conheci-
mentos e conquistar melhores oportunidades de emprego. Entre estas pessoas se
encontram deficientes que desejam aprender mais e principalmente, ingressar no
concorrido mercado de trabalho.

A educação superior, ao lado da fundamental e do ensino mé-


dio, constitui-se no pilar do Estado Democrático de Direito,
pois sem embargo de dúvidas tem vistas à formação do cida-
dão que será responsável pelo futuro e pelo desenvolvimento
desse ente. (ATIQUE; ZAHER, 2007, p. 1598).

Conforme afirma Castanho e Freitas (2005) a universidade possui como es-


sência a criação, transferência e aplicação de conhecimentos, contribuindo para
a formação e capacitação dos indivíduos e para o avanço da educação como um
todo. Por isso, o Ensino Superior é um importante produtor de conhecimento cien-
tífico e avanço tecnológico na sociedade e ainda um local que pode e deve auxiliar
a inclusão do deficiente, estando preparado para recebê-los e buscando realizar
pesquisas que auxiliem no oferecimento de melhores condições de acesso a edu-
cação de qualidade para todos.
Ainda de acordo com os autores supracitados as Instituições de Ensino Supe-
rior assim como as demais instituições da rede regular de ensino, têm dificuldades
em realizar o processo de inclusão, evidenciando a necessidade de uma profun-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

da transformação. Segundo os autores referidos, modificar o sistema educacional


universitário exige transformações por parte dos educadores, já que, a atuação
destes profissionais se realiza com diferentes grupos. Alguns destes grupos podem
parecer diferentes dos outros, por suas limitações, como a utilização de cadeiras
de rodas ou muletas para locomoção ou dificuldades de aprendizagem. Essas prá-
ticas não estão distantes de várias outras, mas demonstram uma realidade que o
ambiente universitário tem se esquivado (CASTANHO; FREITAS, 2005).

197
Para que esta remodelagem ocorra, faz-se necessário que todos os envolvi-
dos no processo ensino-aprendizagem vençam os preconceitos, observando que
todos em algum momento da vida têm uma limitação, que, no caso dos deficientes
é vencida quando são considerados como iguais pelos que os cercam.

A participação é, assim, a essência de toda proposta de inclu-


são. Por isso, é possível definir inclusão no ensino superior
como sendo todo o aparato que tenha vistas à limitação do
processo de exclusão bem como a maximização da partici-
pação do jovem universitário dentro do processo educativo e
científico, afastando-se, assim, toda espécie de barreira para
o desenvolvimento do conhecimento. (ATIQUE; ZAHER, 2007,
p. 1602).

Um Ensino Superior com qualidade que torne o deficiente apto a exercer di-
versas funções deve ser uma das metas das universidades e como se pode obser-
var de acordo com Castanho e Freitas (2005), frente às dificuldades enfrentadas
pelos alunos com deficiência que frequentam o referido nível de ensino é indispen-
sável que as IES ofereçam uma educação de qualidade, visto que, antes de ser
garantido um direito plenamente reconhecido, é um dever do estado realizar ações
que favoreçam não só o ingresso, mas também a permanência e a saída destes
alunos do Ensino Superior.

4 O PAPEL DO DOCENTE NO PROCESSO DE


INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA NO
ENSINO SUPERIOR
O docente é parte fundamental do processo de ensino-aprendizagem, visto
que, sem ele este processo não aconteceria. Como mediador entre o aluno e o
EPISTHEME

conhecimento, o professor proporciona a aprendizagem eficiente e eficaz por parte


do aluno sendo necessário que o docente esteja em constante formação e adequa-
ção de sua prática pedagógica.
Vários são os cursos oferecidos para que os professores possam estar em
constante aprimoramento, entretanto como mostram Ferenc e Mizukami (2005)

198
as tendências que dominam atualmente no campo de formação e capacitação
docente na América Latina, são na verdade, velhas tendências. Buscam copiar o
modelo convencional por baixo de uma nova roupagem, apoiada em novas tecno-
logias. Existe a visão dos problemas educativos como uma visão entre pares como,
por exemplo, escola x universidade, educação de crianças x educação de adultos,
administrativo x pedagógico, entre outros.
A formação de docentes para trabalhar no Ensino Superior, assim como em
todas as outras modalidades educacionais deve fugir destas tendências dominan-
tes. Como as universidades são espaços predominantemente dedicados a pesqui-
sas e difusão de conhecimento, os docentes que desejam trabalhar nas mesmas
devem estar em constante atualização, não tendo qualquer tipo de preconceito.
Sant’Ana (2005, p. 228) afirma que: “[...] a formação docente não pode res-
tringir-se à participação em cursos eventuais, mas sim, precisa abranger necessa-
riamente programas de capacitação, supervisão e avaliação que sejam realizados
de forma integrada e permanente.”
Conforme disserta Castanho e Freitas (2005) o papel do professor do Ensino
Superior está relacionado a uma postura ativa, dialética e ética, e a um compro-
misso permanente do docente com a formação e autonomia dos alunos, oferecen-
do um espaço onde a liberdade possa ser exercida de maneira criativa e espontâ-
nea. Vale ressaltar, que no contexto do Ensino Superior, a discussão a respeito da
inclusão ainda é recente e que tal problemática exige preparação dos docentes e
adoção de políticas públicas que auxiliem nesse processo.
Segundo os autores anteriormente citados a prática do professor frente a alu-
nos com deficiência necessita de políticas públicas, ações compartilhadas que se-
jam capazes de orientar este profissional na formação de indivíduos, tornando-os
capazes de valorizar a diversidade e fazer valer o verdadeiro sentido da inclusão
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
como processo que reconhece e respeita diferentes identidades aproveitando as
diferenças para beneficiar a todos.
O Ensino Superior, no que diz respeito à inclusão ainda precisa evoluir bas-
tante, visto que, nesta modalidade de ensino como referido anteriormente, a temá-
tica inclusão é recente e de acordo com Silva (2009, p. 05) “No caso específico da
inclusão de pessoas com necessidades especiais, há carência, ainda, de uma le-
gislação específica que regularize o sistema educacional de Ensino Superior como
um todo.”

199
De acordo com Capellini e Santos (2005) reverter este processo de má for-
mação que vem se arrastando durante os anos no Brasil, não será um processo
que acontecerá dentro de alguns dias ou meses, mas levará décadas, já que é
necessário oferecer cursos de capacitação para o trabalho com a inclusão dos
alunos com deficiência zelando pela qualidade dos mesmos, conhecendo quem
serão os profissionais responsáveis pela elaboração e execução destes cursos e
principalmente, quem serão os profissionais a serem capacitados e como essa
capacitação deverá ser feita.
Para iniciar este processo, faz-se necessário um investimento em acessibili-
dade que segundo os autores anteriormente citados significa criar ações que pos-
sibilitem ao estudante com deficiência frequentar a aulas e prosseguir os estudos
com a mesma qualidade que os demais alunos, pois, para que a inclusão do defi-
ciente aconteça não basta apenas capacitar o professor, é necessário oferecer um
ambiente de aprendizagem adequado.
Tratando a respeito de acessibilidade, o decreto nº. 5.296 no art. 8º afirma:

Para os fins de acessibilidade, considera-se: I - acessibilida-


de: condição para utilização, com segurança e autonomia,
total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos
urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos
dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação,
por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade redu-
zida; II - barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou
impeça o acesso, a liberdade de movimento, a circulação com
segurança e a possibilidade de as pessoas se comunicarem
ou terem acesso à informação, classificadas em: a) barreiras
urbanísticas [...] b) barreiras nas edificações [...] c) barreiras
nos transportes [...] e d) barreiras nas comunicações e infor-
mações [...] IX  -  desenho universal: concepção de espaços,
artefatos e produtos que visam atender simultaneamente
EPISTHEME

todas as pessoas, com diferentes características antropomé-


tricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável,
constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a
acessibilidade. (BRASIL, 2004, p. 4-5).

200
Para que o processo de ensino-aprendizagem seja satisfatório para o aluno
deficiente é necessário que o docente conheça os diferentes tipos de deficiências
e como lidar com cada uma delas, lembrando que, como dizem Capellini e Santos
(2005) conhecê-las é ter clareza de que a humanidade é diversa e que, portanto,
cabe ao professor saber atender a diversidade dos alunos.
Segundo o autor supracitado uma instituição que deseja atender um aluno
com deficiência física, por exemplo, necessita saber que atualmente este tipo de
deficiência é definido como uma desvantagem, gerada por um comprometimento
ou incapacidade que limita ou impede o desempenho motor de um indivíduo.
De acordo com a Federação Nacional das Associações de Pais e Amigos de
Excepcionais “A deficiência intelectual é caracterizada pela limitação siginificativa
tanto no funcionamento intelectual como no comportamento adaptativo que se
expressam nas habilidades conceituais, sociais e práticas.” (CARVALHO; RODRI-
GUES, 2010, p. 26).
O deficiente intelectual necessita que o professor acredite em seu potencial,
estimulando-o a cooperar. O tempo de realização das atividades deve ser maior
para estes alunos, observando que, estas atividades devem ser claras, objetivas,
funcionais e quando possível, concretas, com atendimento individualizado a estes
alunos. É importante que se estimule a independência deste tipo de deficiente e
que se passe segurança para melhoria da socialização (APAE, s. d.).
Ainda de acordo com o manual mencionado anteriormente, também é ne-
cessário que o docente estabeleça limites, tendo em mente que o processo de
aprendizagem do deficiente intelectual é mais lento do que o dos demais alunos,
portanto, devem-se evitar comparações entre o deficiente intelectual e os demais
alunos e sempre que possível utilizar material didático diversificado e de fácil ma-
nipulação.
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
Algumas medidas tomadas em sala de aula facilitam o trabalho docente e
também demonstram a importância desse profissional para melhoria da inclusão
no Ensino Superior, visto que, se o professor conhece medidas para incluir o defi-
ciente em suas aulas, transmitirá para este aluno segurança em ingressar em um
Curso Superior.
Conforme Capellini e Santos (2005), uma das contribuições do deficiente
para a universidade e consequentemente para os docentes e colegas não-deficien-
tes é convidar o meio acadêmico para reflexão sobre os diferentes perfis de profis-

201
sionais de licenciatura. Vale mencionar que a responsabilidade de incluir um aluno
com deficiência é de toda a comunidade escolar, representando uma oportunidade
da Universidade não caminhar para um grupo de pessoas sozinhas.

5 CONCLUSÃO
Diante de todo o exposto anteriormente, fica evidente a necessidade de am-
pliação de estudos sobre a inclusão envolvendo profissionais e entidades da área
escolar assim como acompanhar os debates atuais nesse campo de conhecimen-
to. É preciso entender o grupo de pessoas que apresentam certa deficiência além
das questões conceituais, dando ênfase às possibilidades apresentadas por tais
indivíduos, percebendo as desvantagens que dela resultaram de forma a facilitar
o desenvolvimento de ações que os beneficiem, efetivando assim o processo de
inclusão no Ensino Superior.
O aluno com deficiência no ambiente universitário estimula a reflexão sobre
conteúdo, metodologia e sucesso do processo ensino-aprendizagem nas univer-
sidades. Desta reflexão podem se beneficiar docentes que desejem diferenciar
sua prática pedagógica utilizando metodologias adequadas para atender alunos
com deficiência ou não, auxiliando-os na conquista da autonomia por meio de uma
aprendizagem individualizada e adequada ao seu ritmo e potencialidade.
Assim, pode-se verificar que o professor tem um papel muito importante no
processo de inclusão do deficiente no Ensino Superior, já que, ao auxiliar os alu-
nos com deficiência a superar suas limitações, contribui significativamente para a
construção de uma sociedade em que as Instituições de Ensino Superior cumprem
seu papel de oferecer educação de qualidade a todos, formando indivíduos autô-
nomos, éticos e agentes transformadores da realidade que os cerca.
Enfim, todos podem ser beneficiados pelo processo de inclusão de pessoas
com deficiências nas universidades, já que, convivendo com deficientes físicos,
auditivos, visuais, intelectuais, indivíduos com problemas de aprendizagem entre
EPISTHEME

outras diferenças é possível verificar o quanto estes indivíduos podem produzir e


enriquecer o processo de aquisição de conhecimento dos que os cercam por meio
da troca de experiências.

202
REFERÊNCIAS
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Acesso em: 08 fev. 2011.
EPISTHEME

204
Uma Reflexão Sobre a Formação
Continuada dos Professores: um
enfoque para a formação reflexiva

Neusa Maria Borges Valadares*

RESUMO
O presente trabalho de revisão bibliográfica teve como objetivo refletir sobre a concepção
que se tem de formação continuada dos profissionais das escolas de ensino fundamental.
Através de estudo de literaturas diversas e de experiências vividas e compartilhadas,
procurou elucidar respostas a interrogações que permeiam o trabalho pedagógico como
no que se refere a formação continuada e como essa pode contribuir pode contribuir para
a melhoria da qualidade do ensino A busca de um ensino de qualidade aponta para a
necessidade de um aperfeiçoamento contínuo. Assim é importante que o professor reflita
sobre os momentos de estudo, busque trocas de experiências como um caminho para a
continuidade de sua formação. Na formação continuada, é indispensável que o profissional
analise sua prática interligada a ação que conduzem a uma reflexão da ação educativa e
experiência profissional, bem como dos fundamentos que o levam a agir. O saber profissional
é um reflexo das experiências vividas e para ser eficiente, precisa conectar conhecimento e
ação na dinâmica da resolução de problemas em educação.
Palavras-chave: Formação continuada. Trabalho Pedagógico. Reflexão

1 INTRODUÇÃO
No momento atual em que imperam as transformações nas diversas esferas
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

sociais que influenciam a vida e a rapidez com que se espalham as informações,


torna-se necessário repensar a prática pedagógica utilizada nas escolas, bem como
a formação profissional do docente, a partir de uma visão renovada de educação

*
Especialista em Metodologia do Ensino Superior pelo IPG da Faculdade Cidade de Coromandel
(FCC) em Supervisão Escolar pelas Faculdades: José Olympio de batatais e pela ASSOEC do Rio de
Janeiro; Inspesão Escolar pela Faculdade Jose Olympio de Batatais. Graduada em Pedagogia pela
FFIPA de Patos de Minas com habilitação em Administração Escolar e Magistério. Professora do
Curso de Pedagogia da FC.l neusabvaladares@hotmail.com

205
com enfoque especial para a continuidade da formação docente uma vez que este
se propõe a atuar na educação do homem capaz de atuar como agente modifica-
dor de uma realidade histórica que se pode mudar o panorama educacional.
Com o aprofundamento dos estudos e da evidência que se aponta a escola
como solução para os problemas sociais, indicada como mola transformadora do ho-
mem, é necessário que se reflita sobre as práticas educativas que de acordo com as
tendências das propostas que hoje vigoram no meio escolar, já não se concebe como
um bom ensino aquele que se pauta na transmissão de conhecimentos acumulados
pelo professor, mas pela agregação de conhecimentos aos saberes trazidos pelos
alunos, ou seja, o professor passa de transmissor para mediador da ação educativa.
Desta forma a formação dos profissionais que lidam com a educação, preci-
sa ser continuada e revista em sua origem e na sua evolução, pois as mudanças
contínuas assim exigem.
Cunha (2005, p. 169) afirma que:

A formação do educador é um processo, acontecendo no in-


terior das condições históricas em ele mesmo vive. Faz parte
de uma realidade concreta, determinada, que não é estática
e definitiva. É uma realidade que se faz no cotidiano. Por isso,
é importante que este cotidiano seja desvendado. O retorno
permanente da reflexão sobre a caminhada como educando e
educador é que pode fazer avançar o fazer pedagógico.

Refletir sobre a formação dos profissionais e oferecer-lhes uma formação


continuada que o conduza à reflexão de sua prática e socialização da mesma na
atualidade pressupõe que se reflita também sobre as ações que interferem nesta
formação e das exigências da sociedade à qual se destina.
Muitos são os questionamentos que surgem, ao longo do trabalho pedagógi-
co, e uma das questões mais apontadas está relacionada com o preparo do profis-
sional da educação e à continuidade de sua formação.
EPISTHEME

Tais interrogações, associadas ao convívio diário com as práticas educacio-


nais conduziram à escolha de tal tema para reflexão, dada a importância de tais
aspectos para uma atuação profissional mais efetiva. Espera-se que sirva de sub-
sidio para os leitores e possa alertar aos educadores quanto à necessidade de
uma formação constante e reflexiva.

206
2 FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO
Dois aspectos importantes devem ser lembrados quando se fala em forma-
ção profissional: a formação acadêmica e a formação continuada. No que se refere
á formação profissional do professor, é necessário que se dê importância á forma-
ção acadêmica porque representa a porta de entrada para o campo profissional
embora, não se possa afirmar que esta é suficiente o bastante para atender ás
exigências da dinâmica que permeia os meios educacionais hoje e a construção
de conhecimentos que é a mola propulsora da educação de acordo com as novas
propostas adotadas nos dias atuais. A teoria e a prática juntas caminham melhor.
Assim, é correto afirmar que a formação do docente se completa com a experi-
ência. A interação entre os profissionais é uma forma de se trocar experiências
positivas tanto nas práticas pedagógicas quanto do manejo de classe, ou seja,
“[...] do relacionamento entre professor e aluno, a comunicação com as famílias
que constituem uma fonte de conhecimentos úteis na formação constante do pro-
fissional.” (YUS, 2001).
Assim, o profissional da educação, não está totalmente pronto quando ter-
mina um curso superior. Ao iniciar suas atividades na escola, percebe que é in-
dispensável continuar buscando conhecimentos e práticas que lhe possibilitem
desempenhar melhor seu papel de educador. Desta forma, pode-se perceber que a
formação é contínua porque a cada momento, a cada descoberta, agrega-se novos
conhecimentos que suscitam outros mais, assumindo o caráter de recomeço, de
busca por algo novo que se adapte á realidade, as novas tecnologias que condu-
zem a uma atuação mediadora da busca de conhecimento calcado nas experiên-
cias que o profissional acumula na formação de sua identidade profissional que
associa o individual ao coletivo.
Segundo Porto (2000, p. 14):
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

[...] altera-se a perspectiva da formação: o fazer, entendido


como uma atividade alheia à experiência e ao conhecimento
do professor, cede lugar ao saber fazer reflexivo, entendido
como autoformação, percurso que ocorre na indissociabilida-
de de teoria e prática, condição fundamental da construção
de novos conhecimentos e de novas práticas – reflexivas, ino-
vadoras, autônomas.

207
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n° 9394/ 96 em seu
artigo 67, inciso II coloca que:

Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profis-


sionais da educação,assegurando-lhes, inclusive nos termos
dos estatutos e dos planos de carreira do magistério públi-
co, aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com
licenciamento periódico remunerado para esse fim (BRASIL,
2000,s. p.).

No modo tradicional de ensino, o processo de formação profissional, ocorre


pela transmissão de conhecimentos daqueles que são considerados mais sá-
bios, que assumem o compromisso de transmitir seus conhecimentos aos alu-
nos, considerados iniciantes, que pouco ou nada sabem desconsiderando seu
conhecimento anterior. Sob outro prisma, a formação muito mais que repassar
conhecimentos é a troca de experiências que possibilita o enriquecimento das
praticas pessoais com o acréssimo daquelas vivenciadas por outros profissio-
nais, que muitas vezes se apresentam fora do contexto e sem orientação contex-
tualizada. Estas práticas na maioria das vezes requerem adaptações que possi-
bilitem a sua inserção na história da sala de aula e das escolas, para que não
fracassem. São duas visões de formação que não fornecem garantia de uma
aprendizagem na visão de Charlot (2005, p. 20) de “ [...] apropriar-se de uma
saber, de uma prática, de uma forma de relação com os outros e consigo mes-
mo.” o que significa um aprender que possibilite colocar em prática a própria
experiência como um aprendiz. Na verdade a experiência de formação não deve
emergir do exterior como uma formula mágica que tem a capacidade de sanar
todos os males e resolver todos os problemas, mas deve calcar-se nas pessoas e
nos seus questionamentos que geram experiências significativas colocando o ser
aprendente como construtor da história que aprende consigo mesmo e socializa
EPISTHEME

o que aprendeu, aproveitando as experiências dos outros.


Desta forma, segundo o autor supra citado, a formação não é simplesmente
uma reciclagem do que se aprendeu, mas uma forma de responder à crise que as-
sola a educação, atualmente cuja origem está na resistência de muitos discentes
em receber conteúdos repassados sob a ótica do professor, sem sua participação.

208
Daí a necessidade de se repensar os conceitos e as praticas utilizadas buscando
elaborar e adotar novos meios de socializar os conhecimentos associados com
aqueles trazidos pelos alunos.
Segundo Hernadez (2007, p. 10)“[...] isso supõe ir além dos limites do que
parece aceitável para que possamos repensar e transgredir, produzir novas narrati-
vas e experiências de aprendizagem com sentido.” A partir daí, pode-se iniciar uma
nova fase na educação, onde o sujeito constrói sua história, tendo como mediador,
um profissional que busca novas formas de conviver com o novo e enfrentar o
futuro incerto.

3 FORMAÇÃO CONTINUADA
O ser humano, incompleto e inacabado, com uma formação inicial limitada e
exercendo uma função docente complexa carece de uma continuidade em sua forma-
ção. É uma necessidade que ocorre para maior eficiência da prática pedagógica e pos-
sibilita uma proximidade maior da construção de conhecimento e da solução das difi-
culdades que afligem a escola e o ensino através de práticas pedagógicas renovadas.
A continuidade da formação dos profissionais da educação, no parecer de Her-
nandes (2007), deve ser vista como uma oportunidade de refletir a ação através
da descoberta, organização, revisão e fundamentação teórica e jamais como uma
aprendizagem de técnicas diferenciadas. É interessante notar que quando os profis-
sionais compartilham suas experiências, encontram juntos soluções para situações
do cotidiano. Existem tendências diferenciadas de formação continuada tais como:
a formação tradicional, focada no ensino tecnicista com programas previamente de-
finidos e estratégias que partem de uma ideologia técnica e científica, destinada a
grupos diversificados de profissionais e a formação interativo-construtivista que pro-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
põe uma formação através da reflexão crítica, da investigação e do diálogo pautando-
-se na realidade educacional e nas necessidades detectadas nos educandos.
De acordo com esta visão, Novoa (1992) faz uma ligação do conceito de forma-
ção de profissionais da educação ao ser humano, inacabado, que busca no decorrer
de sua vida tanto pessoal quanto profissional, opções para melhor saber desempe-
nhar suas funções construindo-se. Partindo desta premissa, pode-se estabelecer
uma ligação entre a formação docente e o desenvolvimento pessoal. Compreende-se
que a formação profissional não se separa das experiências vividas.

209
Assim, a prática se apóia em um tripé, conforme coloca Schon (1995, apud
Novoa, 1992, p. 25):

[...] conhecimento na ação (saber-fazer); reflexão na ação


(pensar sobre o fazer); reflexão sobre a ação e sobre a refle-
xão na ação (analisar criticamente o saber-fazer).Nesse caso,
uma prática crítico-reflexiva, criativo-inovadora, autônomo-
-transformadora passa a se impor como condição construtiva
da vida e da profissão do professor.

Desta forma, a reflexão possibilita uma revisão dos recursos pessoais e pro-
fissionais produzidos nos diferentes campos da vida.
Frequentemente se ouve dizer da responsabilidade que sempre recai sobre o
desempenho do professor, isentando as responsabilidades das políticas públicas
quanto às possíveis dificuldades e fracassos surgidos no campo educacional e não
lhe facultando méritos quando acontece êxito.
Conforme visão de Alarcão ( 2007) encontram-se, no meio educacional, pro-
fissionais abertos às mudanças, buscando as inovações, selecionando-as e ade-
quando-as as necessidades de seus alunos, mas que encontram resistência as
vezes da organização escolar que não pode ser alterada ou por colegas que dis-
cordam da adoção de novas estratégias por causa das exigências que lhes serão
feitas.
Não quer dizer, no entanto, que o profissional deve se acomodar, deixar de
ser aberto às propostas de formação, porém não se deve esquecer que o sistema,
como um todo, precisa encontrar meios para atender ás exigências da sociedade
na qual está inserido. Normalmente, os programas de formação são endereçados
de forma individual, aos profissionais, no entanto deveriam atingir também as or-
ganizações escolares. Assim, talvez seja mais importante garantir que os profissio-
nais com idéias inovadoras não sejam impedidos de realizar suas tarefas, o que
EPISTHEME

facilita a adesão dos demais ao longo do tempo.


Yus ( 2001) evidencia duas visões de formação continuada:
- a formação como crescimento profissional – que atende mais às necessi-
dades de sua atuação como docente, patrocinada por algum incentivo, do que as
necessidades pessoais;

210
- a formação como adequação – que corresponde ao anseio de se ajustar às
exigências buscando méritos, ou melhor, remuneração.
Alarcão ( 2007) complementa a idéia dizendo que:

O ser humano é um ser social, com um passado de saberes,


um presente de atuação e uma responsabilidade pelo futuro.
A humanidade tem uma história de vida coletiva. A ação dos
professores, embora culturalmente determinada pelo aqui e
agora, insere-se na história global da humanidade. Além dis-
so, e não obstante a tendência que os professores manifes-
tam para o individualismo, a organização do trabalho na es-
cola é uma atividade coletivamente articulada, a qual implica
destinos comuns, redes de comunicação e grupo de execução
de tarefas. Os professores, portanto, não podem agir isolada-
mente (...) Nesse processo de qualificação na ação, os docen-
tes não podem esquecer a interação com o saber construído
pelos outros, seus contemporâneos ou seus antepassados,
aqueles cujo pensamento apresenta referenciais teóricos que
os ajudam a perceber o que fazem, por que o fazem e para
que o fazem. (ALARCÃO, 2007, p. 19).

Sabe-se que no processo de formação, o profissional, quando se


sente envolvido e encontra respaldo para que suas estratégias se realizem e se
tornem fonte de ensinamento – ensinamento que promova a sua auto-realização
através da descoberta do outro, ação esta que o projete em um trabalho capaz
de conduzi-lo a um aprendizado com suas próprias práticas e mais que o torne
comprometido com a causa que abraçou. Vislumbra-se, na maioria das vezes com
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
um modelo de formação focado no professor que trabalha esta formação e que se
esquece da importância da auto-formação, da formação conjunta, através da troca
de experiências, do compartilhar idéias e materiais na resolução de problemas
comuns. Entretanto nem sempre a questão da formação continuada corresponde
aos programas e na maioria das vezes ficam aquém das necessidades surgidas
no cotidiano escolar, ou das inovações presentes no campo pedagógico limitando-
-se quase sempre a preencherem as lacunas da formação recebida inicialmente,
devido à natureza burocrática a que está ligada.

211
4 FORMAÇÃO CONTINUADA E A REFLEXÃO
A formação não visa somente à formação profissional, mas incide também no
contexto da cultura escolar, onde as práticas se realizam na gestão democrática e
são executadas e tornam-se realidade. Para que a reflexão seja possível e se cons-
titua instrumento de análise e compreensão das ações educativas é necessário
que haja abertura no ambiente escolar, para que o grupo se reúna e socialize suas
idéias, busque uma compreensão maior das suas condições de trabalho e valo-
rize as experiências dos outros, os projetos coletivos que conduzam a mudanças
no contexto escolar, através de criticas positivas, conscientes que permitam ver a
escola inserida no universo educacional, reconhecendo a importância das boas
práticas desenvolvidas por professores.

A formação terá como base uma reflexão dos sujeitos sobre


sua prática docente, de modo a permitir que examinem suas
teorias implícitas, seus esquemas de funcionamento, suas
atitudes etc., realizando um processo constante de auto-
-avaliação que oriente seu trabalho. A orientação para esse
processo de reflexão exige uma proposta crítica da interven-
ção educativa,uma análise da pratica do ponto de vista dos
pressupostos ideológicos e comportamentais subjacentes.
(IMBERNÓN, 2001 p.48-49).

A reflexão ocorrente no decorrer da ação pedagógica, conforme enfoca


Ibernón (2001) está focado no que acontece durante a execução e nos resultados
desta ação, sendo, portanto, fonte de aprendizagem para o professor uma vez
que estando inserido na situação prática, tem oportunidade de construir novas
estratégias e conceitos, tornando-se aberto às novas propostas. Todavia, a reflexão
efetuada sobre a ação e voltada para a ela, tem grande importância porque pode
ser utilizada para melhorar a ação futura. A reflexão realizada após a ação pedagó-
EPISTHEME

gica, possibilita o conhecimento da eficácia dos resultados de tal ação. E a reflexão


anterior à realização, potencializa o planejamento da ação que será realizada.
Assim, a atitude reflexiva requer do professor além de saber como executar,
ser consciente da sua prática e das decisões que irá tomar ciente de que serão
acertadas para a promoção da aprendizagem do aluno.

212
Percebe-se então, sob a ótica do mesmo autor, que a formação continuada
deve privilegiar a reflexão crítica do grupo de forma constante sobre as diferentes
práticas da instituição, momento este de se dividir as angustias, as dúvidas, as
incertezas, inquietações, esperanças, vibrações, descobertas de estabelecimento
de espírito cooperativo e divisão de responsabilidades a partir da avaliação do
trabalho realizado e das ações de replanejamento.
O professor que reflete se preocupa em mudar a situação para uma direção
mais produtiva, analisando o problema e não perdendo de vista os objetivos a
serem alcançados.
Paiva (2003) analisa a formação profissional da seguinte maneira:

[...] o conceito-chave na formação é a profissionalização es-


sencialmente centrada no comprometimento com uma prá-
tica reflexiva e com a aquisição de saberes e competências
retirados da análise da prática(...)é vista como um processo
cognitivo que poderá levar o professor a conquistar uma com-
preensão das razões, motivos, valores e pressões que influen-
ciam o trabalho pedagógico. (2003, p. 50-51).

O processo educacional sugere um ensino reflexivo, que tem por base um


professor que também seja reflexivo. É extremamente importante que na formação
continuada o professor reflita suas experiências, suas ações e suas estratégias,
pois, segundo Alarcão (1996) “[...] a reflexão sobre a prática emerge como uma
estratégia possível para a aquisição do saber profissional. Permite uma integração
entre teoria e prática e desafia a reconsideração dos saberes científicos”.
Desta forma, a reflexão combina as atitudes profissionais, o espírito aberto
a mudanças tornando os professores avaliadores contínuos e consequentemente
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

revisores das práticas que exercem indo além da procura de soluções através da
lógica e das leis racionais, instigando a intuição, a emoção e o amor profissional.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O professor deve entender a formação continuada como uma reflexão sobre
a ação realizada, uma descoberta de caminhos para revisão da prática pedagógi-

213
ca, um momento de reconstrução das teorias aprendidas e não como um momen-
to para se aprender novas técnicas de ensino. A troca de experiências que se tem
na formação continuada proporciona crescimento profissional e abertura para as
mudanças necessárias na atual conjuntura educacional. Ao mesmo tempo em que
se aprende se ensina e esta troca enriquece o todo escolar, além de evidenciar as
soluções de possíveis problemas.
Desta forma, a formação continuada não é simplesmente uma transmissão de
conhecimentos cientificamente organizados, mas um momento de se refletir sobre
o que se tem feito em educação na busca da melhoria da aprendizagem, com vistas
aos objetivos propostos e aos conteúdos a serem trabalhados. Procura mudar o foco
tradicional teoria-prática, propondo renovações nos fundamentos e práticas exerci-
das pelos professores. Busca ainda aliviar as preocupações e angustias, porém, não
resolve os problemas. Estes serão resolvidos entre pares, nas trocas de experiências
bem sucedidas, das reflexões em grupo, pois os problemas institucionais serão mais
facilmente resolvidos com o envolvimento de toda a equipe.

REFERÊNCIAS
ALARCÃO, Isabel (org.). Formação Reflexiva de Professores: estratégias de supervisão. Por-
tugal: Porto, 1996.

BRASIL. Lei de diretrizes e bases da educação: lei n. 9.394/96. Apresentação Esther Gros-
si. 3. ed. Brasília, DF: DP&A, 2000.

CHARLOT, Bernard. Relação com o saber, formação dos professores e globalização: ques-
tões para a educação hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CUNHA, Maria Isabel da (org.). Formatos Avaliativos e Concepção de Docência. Cam-


pinas: Autores Associados, 2005.

HERNANDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho.


Porto alegre: ArtMed, 2007

IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a


EPISTHEME

incerteza. São Paulo: Cortez, 2000.

MARIN, Alda Junqueira. Educação Continuada. São Paulo: Papirus, 2004.

NOVOA, Antonio (Org). Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1995.

PAIVA, Edil de (org.). Pesquisando a formação de professores. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

214
YUS, Rafael. Formação ou conformação dos professores? Pátio: Revista Pedagógica. Porto
Alegre: Artmed, ano IV, n. 17, p. 22-26, maio/jul. 2001.

DOSSIÊ EDUCAÇÃO

215
Análise Terminológica
Discursiva da Comunicação

Marcelo Marques Araújo*

RESUMO
Este artigo propõe uma análise terminológica de algumas definições contidas no Dicionário
de Comunicação (Barbosa & Rabaça, 2008), a fim de contrapor termos do dicionário com o
seu uso, em textos da especialidade. Além disso, as análises comparam o termo marketing
na língua especializada, ocorrente no Jornal Meio & Mensagem, com o tratamento dado a
ele pelo Dicionário de Comunicação, pelo Dicionário de Administração e Finanças (Sandroni,
2008), pelo Dicionário de usos da língua inglesa “English Language Dictionary” (de Collins
Cobuild, 2006), pelo Dicionário de usos do português (de Francisco Borba e colaboradores,
2002) e pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2009). Essa comparação foi
fundamental para se analisarem os discursos dos dicionários de especialidade, dos
dicionários de usos, do dicionário geral da língua e do Jornal Meio & Mensagem, no sentido
de, pela contraposição entre as relações de sentidos formalmente estabelecidas e o uso
efetivo, mostrar que há deslizamentos, apagamentos, silenciamentos e deslocamentos de
sentidos entre o discurso do dicionário especializado, o discurso dos dicionários gerais e o
discurso da Comunicação observado nos usos. Isso permite a afirmação que, no caso do
termo marketing, ainda não há na área de Comunicação um conceito preciso para tal termo.
Palavras-chave: terminologia, análise do discurso, funcionalismo, comunicação, marketing

1 INTRODUÇÃO
O léxico de uma língua natural é um sistema completamente aberto e em
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

constante mudança. É intrínseco ao homem modelar a língua, criando novas pa-


lavras para atender às suas necessidades comunicativas. Afinal, do homem con-

*
Professor Adjunto I da Universidade Federal do Mato Grosso (ICHS/CUA). Membro de diversas as-
sociações acadêmicas e profissionais, tais como ANPOLL, ABRALIN, ANJ, ANPJ, GELCO, SNJ, APP e
membro também dos seguintes grupos de pesquisa cadastrados no CNPq: Gramáticas de Usos do
Português-Unesp, Texto e Gramática, ADP-UFMT, GPAD-UFU, TERMISUL-UFRGS. Fundador do G-Term
Araguaia, Grupo de Estudos em Terminologia Discursiva Comunicacional, vinculado ao ICHS-CUA.
Email: mmajornalista@terra.com.br. Telefone: (34) 9167 0127 / (66) 8116 3116

217
temporâneo exige-se interatividade, comunicabilidade, expressão e domínio das
realidades que o cercam.
No aspecto lexical, é notória a contribuição que as línguas de especialidade
– como a da comunicação, da economia ou da política – têm dado para o enrique-
cimento do repertório vocabular das línguas naturais, por meio da disseminação
de termos que deslizam da especialidade para a língua geral. Com os avanços e
a evolução de determinadas áreas, constantemente são cunhados termos para
nomear novos referentes que surgem a cada dia nos mais diferentes lugares. Nes-
se sentido, as palavras assumem uma importância crucial porque representam
a principal forma para a divulgação científica de novas descobertas, assim como
para a nomeação de novas tecnologias e ideias.
Os estudos terminológicos atuais dão conta de que muitos dos novos ter-
mos não irão ficar restritos a determinados grupos de usuários da língua, mas irão
extrapolar os limites das especialidades e serão incorporados ao sistema lexical
geral das línguas. O que esses estudos confirmam é que existe um grande número
de unidades terminológicas das mais diversas áreas científicas que estão sendo
utilizadas por usuários não especialistas, mas que não constam nos dicionários
gerais da língua portuguesa editados no Brasil.
O artigo que agora se apresenta parte do anseio de um pesquisador com
duas frentes de atuação. Em primeiro plano, um profissional da comunicação so-
cial – jornalismo e publicidade, cuja busca pelo entendimento da língua de tal
especialidade levou a estudar dicionários e glossários especializados na área e
a concluir que, apesar da grande importância social, econômica e política que a
área tem, ainda falta muito a ser pesquisado, desenvolvido e descrito na termino-
logia especializada da Comunicação. Faltam dicionários, glossários, vocabulários,
enfim, produtos terminológicos que deem conta da organização comunicacional e
que possam nominalizar termos utilizados, assim como novos termos que apare-
cem todos os dias nas redações jornalísticas e agências de publicidade, a fim de
EPISTHEME

que a comunicação na área seja mais exata, objetiva e clara. Afinal, como dizia o
jargão usado pelo saudoso Chacrinha, o velho guerreiro, “quem não se comunica
se estrumbica”. É possível acrescentar ao provérbio apenas o adjunto adverbial de
modo “bem”: “quem não se comunica bem, se estrumbica”.

218
Essa necessidade de um estudo da terminologia da comunicação levou à
reflexão proposta neste artigo. Afinal, os termos utilizados, todos os dias, pelos
profissionais da área de comunicação, e também de outras áreas, podem, simples-
mente, por razões ideológicas, históricas, políticas, entre outras, ser deslocados,
silenciados, apagados, ressignificados, deslizados, dependendo das escolhas dos
dicionaristas e das condições específicas de produção das obras. O saber lexical
não pode ser tomado, independentemente das condições de produção, como um
saber ideal ou atemporal. É a partir do uso que os termos recebem novos sentidos,
passam a significar algo mais, deslizam de um campo para outro, são atravessa-
dos pela história, enfim, e os dicionários de especialidade, muitos deles, ignoram o
uso dos termos, obscurecendo, assim, o dinamismo da língua.
A fundamentação deste artigo está elaborada em uma proposta de aplicação
de uma análise terminológica discursiva, baseada nos procedimentos teórico-me-
todológicos da Terminologia, da Análise do Discurso e do Funcionalismo. Na Termi-
nologia, com base em Felber (1984), Cabré (1993), Barros (2004), Finatto (2001)
e Kleiber (1990), foram descritos os procedimentos de análise dos termos de um
dicionário terminológico de especialidade. O embasamento teórico na Análise do
Discurso está respaldado em Pêcheux (1995, 1990, 1988), Maingueneau (2006,
2002, 1998, 1997), Foucault (1995) e Authier-Revuz (1998, 1992, 1982), ao de-
senvolverem os conceitos de formação discursiva, interdiscurso, universo, campo
e espaço discursivo, sentidos e silenciamento. No Funcionalismo, a sustentação
teórica está ancorada em Neves (2010, 2006, 2002), Halliday (1994) quando di-
zem que o trabalho com a língua deve estar respaldado “nas funções dos meios
linguísticos de expressão” (NEVES, 2010b:17) na situação e na cultura.
Este artigo é um recorte de uma pesquisa realizada para a tese de douto-
ramento intitulada “Comunicação, língua e discurso: uma análise terminológica
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
discursiva de um dicionário de especialidade1”, e apresenta uma metodologia de
análise de termos da comunicação baseado na Análise Terminológica Discursiva
(ARAÚJO, 2011). A partir dessa metodologia torna-se possível verificar o funciona-
mento dos termos da Comunicação no uso em contextos naturais de ocorrência.

1
Tese de Doutoramento defendida em agosto de 2011 no Programa de Doutorado em Letras e Comu-
nicação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sob orientação da Profa. Dra. Maria Helena de
Moura Neves. A tese obteve aprovação com distinção e indicação de publicação.

219
2 METODOLOGIA DE ANÁLISE
As primeiras indicações que aqui se fazem referem-se ao modo de identifi-
cação e registro de termos. Com o intuito de uma melhor organização do texto,
os termos estrangeiros serão grafados em itálico; quando houver referência me-
talinguística a um termo haverá indicação em negrito, quando houver referência
metalinguística a um termo estrangeiro, a marcação será feita em negrito e itálico,
e quando se fizer referência a alguma área, por exemplo, à Publicidade, uma área
da Comunicação, o termo será grafado com Maiúscula. Quanto aos dicionários uti-
lizados, eles serão identificados pelas siglas DC, para o Dicionário de Comunicação
(2008), DAF, para o Dicionário de Administração e Finanças (2008), DULI para o
Dicionário de usos da língua inglesa “English Language Dictionary” (2006), DUP
para o Dicionário de usos do português (2002), e DHLP, para o Dicionário Houaiss
da Língua Portuguesa (2009). O jornal especializado Meio & Mensagem, que per-
tence ao Grupo Meio & Mensagem será marcado apenas pela sigla M&M, com a
seguinte referência: Jornal M&M.
Para a produção deste artigo foi realizada uma seleção de um termo a ser
analisado a título de amostragem da fundamentação metodológica, este termo
encontra-se catalogado no banco de dados do G-Term Araguaia2. A priori, para a
constituição do corpus de análise, foram selecionados 12 (doze) textos do Jornal
online Meio & Mensagem, órgão de comunicação especializado, sob responsa-
bilidade da editora Meio & Mensagem. Os textos estão publicados no site www.
meioemensagem.com.br entre o primeiro semestre de 2008 e o segundo semes-
tre de 2010. Também foram selecionados 8 (oito) textos do Jornal impresso Meio
& Mensagem, doravante Jornal M&M, enviado para a residência dos assinantes,
semanalmente. Foi obtido um corpus com um total de 20 (vinte) textos, destes 10
(dez) traziam o termo Marketing. Após a leitura, fichamento e catalogação, obteve-
-se a ficha terminológica3 do termo para a análise.
Após a construção das fichas terminológicas, passou-se à elaboração da
EPISTHEME

2
Grupo de Estudos em Terminologia Discursiva Comunicacional, localizado no ICHS/CUA, em Barra
do Garças – MT.
3
Após a seleção, foram elaboradas fichas terminológicas, que compreendem os seguintes campos:
termo, categorização gramatical, categorização dependente do contexto, recorte da ocorrência, de-
finição (com cinco subáreas, de acordo com os dicionários pesquisados), nota (quando necessário)
e data de registro (para mostrar as datas das ocorrências dos usos dos termos).

220
ficha geral de comparação das definições4, a fim de comparar as acepções re-
gistradas em cada dicionário, o que permitiu uma análise da relação semântica
(deslizamento de sentido, polissemia, ambiguidade, sinonímia, hiperonímia, res-
significação, etc.) das acepções. Em seguida passou-se à análise da relação entre
uso e definição (para mostrar o que ocorre no dicionário e o que existe no uso
da língua, e, também, para verificar a ausência da relação entre as entradas e o
contexto real de uso da língua). Além disso, nessa parte também foi desenvolvida
uma análise das definições com base nas teorias que sustentam a proposta. Em
seguida foi construída uma análise terminológica discursiva, produzida a partir da
materialidade discursiva da ocorrência e das definições dos dicionários, em espe-
cial do Dicionário de Comunicação (2008). Para a análise terminológica discursiva
foram construídas matrizes discursivas.

3 APARATO TEÓRICO
Para o desenvolvimento deste artigo, tomou-se um referencial teórico que
fosse capaz de conduzir as reflexões e explicações, e que oferecesse uma platafor-
ma teórico-metodológica que norteasse a pesquisa em uma perspectiva interdisci-
plinar. Para tal, buscou-se na Terminologia, na Análise do Discurso e no Funciona-
lismo, fundamentação que pudesse nortear as análises.
Na primeira parte do aparato teórico, são apresentados os procedimentos
de análise dos termos de um dicionário terminológico de especialidade, com base
em Felber (1984), Cabré (1993), Barros (2004), Finatto (2001) e Kleiber (1990).
A segunda parte se organiza com aportes das categorias discursivas fun-
damentadas na Análise do Discurso Francesa, por meio da referência a Pêcheux
(1995, 1990, 1988), Maingueneau (2006, 2002, 1998, 1997), Foucault (1995),
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
Nunes (2006), Authier-Revuz (1992), entre outros, discutiu-se o lugar discursivo na
Análise Terminológica Discursiva – ATD com base em conceitos como os de forma-
ção discursiva, interdiscurso, apagamento, denegação e silenciamento.
O fundo de sustentação da proposta geral deste artigo tem base na orienta-
ção funcionalista que prende ao uso efetivo todo e qualquer trabalho linguístico
(NEVES, 1997), sob a noção de que o aparato que dirige sustentadamente a aná-

4
A ficha geral de comparação das definições é de nossa própria elaboração.

221
lise de trabalhos com língua deriva da consideração das funções da linguagem
(HALLIDAY, 1994) e é função dos propósitos que movem os falantes no acionamen-
to discursivo (DIK, 1997). Neste caso particular, em que se examina o trabalho com
dicionários – e, mais particularmente ainda, com dicionários de especialidade – é
fundamental a noção de que os produtos que se obtêm são função do contexto de
situação e do contexto de cultura (HALLIDAY, 1994), que condicionam e dirigem a
produção de sentidos e os efeitos pragmáticos (NEVES, 2006; 2010).

3.1 APARATO TEÓRICO TERMINOLÓGICO

Barros (2004) afirma que os termos, do ponto de vista da estrutura morfos-


sintática, lexical e semântica, podem constituir-se, no plano de expressão, de um
único lexema ou de uma sequência lexemática. Podem, pois, em primeiro lugar,
ser simples, definidos pela Norma Internacional ISO 1087 como “constituídos de
um só radical, com ou sem afixos” (ISO 1087, 1990:7). Os exemplos extraídos
da especialidade Comunicação ilustram isso: peça, propaganda, marketing, spot,
briefing, case, mobile, outdoor, pauta, passagem, sonora, roteiro, lettering, extra-
mídia, etc são termos simples, constituídos de um só radical. Os termos também
podem ser complexos, isto é, “constituídos de dois ou mais radicais, aos quais
se podem acrescentar outros elementos” (ISO 1087, 1990:7), conforme outros
exemplos também extraídos da mesma especialidade: marketing direto, mobile
marketing, propaganda volante, plano americano, bus outdoor, newsletter, mi-
diabus, story-board, etc.
Barros (2004) indica que unidades terminológicas formadas por um único
lexema são também chamadas de termos lexemáticos ou termos-palavras, e as
constituídas por diversos lexemas (termos complexos) são ditas termos sintagmá-
ticos, termos-sintagmas ou sintagmas terminológicos.
Na língua de especialidade Comunicação, sobretudo no Jornalismo e na Pu-
blicidade, a produtividade discursiva expressa a criação de termos de tipo sintag-
EPISTHEME

mático. As unidades terminológicas que têm como lexema-base um hiperônimo


(termo mais genérico) constituem o processo mais comum de formação de termos,
como no conjunto de sintagmas terminológicos extraídos do Dicionário de Comu-
nicação5 (2008:464-471) que vem a seguir como amostra: marketing, marketing
5
No Dicionário de Comunicação constam cerca de 50 termos complexos dos quais foram extraídos alguns.

222
cenográfico, marketing cultural, marketing de conversão, marketing de estímulo,
marketing de guerra, marketing de incentivo, marketing de nicho, marketing de
produto, marketing direto, marketing esportivo, marketing político, marketing onli-
ne, marketing social, etc.
Nas séries sintagmáticas contempladas no Dicionário de Comunicação, os
sintagmas terminológicos chegam a compor-se de até quatro unidades lexemáti-
cas, conforme em “marketing orientado para cliente”.
Além de ser estudado pela expressão, o termo também pode ser estudado
pelo conteúdo. Segundo Boutin-Quesnel (1985:26 apud Barros, 2004:106), em
Terminologia, a análise conceptual é um procedimento científico que “determina
as características de um conceito, de sua compreensão, de sua extensão e das
relações que mantém com outros conceitos”.
O conceito6 é definido pelo Office de la Langue Française (2001) como uma
“unidade de pensamento constituída por um conjunto de características atribuídas
a um objeto ou a uma classe de objetos e que pode se exprimir por um termo ou
por um símbolo”. Esse conjunto de características que constituem um determina-
do conceito sobre um objeto é retomado por Biderman (2002) quando se refere
às “características individuais dos objetos”. O conjunto de características em um
conceito aparece nas diferenciações específicas7 de uma definição.
Conforme Barros (2004), a multidisciplinaridade da Terminologia exprime-se,
entre outros aspectos, em nível dos conceitos. A autora estabelece três tipos de
conceitos:
a) Conceito de um domínio: exclusivo de um domínio. Em relação a este pon-
to, segundo especialistas, o conceito próprio de apenas um domínio é algo já ultra-
passado nos estudos da Terminologia contemporânea.
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
6
Segundo Biderman (2002:164), o conceito é uma representação mental abstrata composta por um
conjunto de traços comuns e essenciais a um grupo de entidades (objetos ou idéias) que se obtém
pela subtração das características individuais dessas entidades. Pode-se afirmar também que um
conceito pode ser concebido como uma representação mental da realidade, ou como uma unidade
do conhecimento que faz parte de um sistema nocional estruturado.
7
Segundo Barros (2004) a fórmula proposta pelo filósofo grego Aristóteles gênero próximo + diferen-
ças específicas permite elaborar uma definição que descreve o termo entrada como uma espécie
única no gênero. As definições precisam deixar clara a condição de gênero próximo do termo em
relação a seus hipônimos (diferenciação específica). A definição terminológica distribui a carga con-
ceitual no enunciado definicional de modo que se identifique o termo como parte de um conjunto, ao
mesmo tempo que o distingue dos outros termos pertencentes a esse mesmo conjunto. A possibili-
dade de elaboração de definições terminológicas que sigam o modelo gênero próximo + diferenças
específicas é limitada. Esse modelo é funcional somente em sistemas extremamente coerentes.

223
b) Conceito emprestado: conceito que pertence mais especificamente a um
outro domínio, mas é igualmente utilizado pelo domínio em estudo. Por exemplo:
marketing, que tem sua origem no domínio da economia, foi trazido para a comu-
nicação; iceberg,8 que pertence ao domínio da biologia, também foi trazido para a
comunicação, especificamente para o jornalismo. O conceito emprestado mantém
uma zona de intersecção semântica com o conceito de origem.
c) Conceito que ultrapassa o domínio: conceito utilizado por vários domínios
sem pertencer particularmente a um único. Os exemplos são: roteirizar, ícone, etc.
As características do termo também devem ser descritas em uma análise ter-
minológica. Conforme Barros (2004), a identificação, a distinção e a descrição dos
diferentes conceitos são feitas por meio de traços de sentido, chamados em Termi-
nologia de características, ou seja, são representações mentais de propriedades
de um objeto. De acordo com a pesquisadora, conforme a importância das carac-
terísticas para a configuração de um conceito, elas são essenciais ou secundárias.
As primeiras dizem respeito à essência de um conceito; sem isso seria impossível
uma definição. As segundas funcionam como complemento das primeiras, sem
importância fundamental para a descrição do conceito.
As características de um conceito podem ainda ser classificadas em intrínse-
cas e extrínsecas (Felber, 1984:99 e Cabré, 1993:199). As intrínsecas remetem
àquelas que são inerentes ao objeto descrito e que o identificam como classe (for-
ma, cor, grandeza, material etc.). As extrínsecas, por sua vez, fazem referência aos
elementos externos aos objetos descritos (funcionamento, finalidade, performan-
ce, emprego, posição dentro de um conjunto, método de produção, país ou região
de origem, descobridor/inventor etc.).
A pesquisa terminológica é fundamentada por parâmetros terminológicos e
conceptuais. Entretanto, de acordo com Barros (2004), há outro elemento igual-
mente importante no estudo de uma terminologia: o contexto. Termos e conceitos
são identificados, delimitados e estudados em contextos.
Conforme Barros (2004), por contexto compreende-se o enunciado que ex-
prime uma ideia completa, no qual o termo estudado se encontra atualizado. Os
EPISTHEME

descritores são os elementos responsáveis por revelar as características de um


conceito contido em um contexto. Para exemplificar melhor isso, mostra-se aqui o
termo briefing, que está assim definido no Dicionário de Comunicação:

8
Iceberg: diz-se de texto, geralmente assinado, que começa na primeira página do jornal (ou de um
de seus cadernos) e prossegue em página interna. (DC)

224
1. Instruções e diretrizes transmitidas, de forma resumida,
pela chefia aos responsáveis pela execução de um determi-
nado trabalho. 2. Diretrizes ou informações de um cliente à
agência de propaganda, sobre a criação ou o desenvolvimen-
to de determinada campanha. 3. Resumo escrito dessas dire-
trizes, para orientação do trabalho. (DC, 2008:81)

No enunciado extraído do Dicionário de Comunicação, os nomes instruções,


diretrizes e resumo exprimem características de briefing. São, portanto, descrito-
res. Os tipos de contexto são determinados pelo número e pelo tipo dos descritores.
Barros (2004) diz que o contexto definitório oferece informações precisas so-
bre o conceito designado pelo termo estudado. Isso pode ser observado pelos descri-
tores sublinhados9 no exemplo: “breakdown, análise pormenorizada de um orçamen-
to relacionado a serviços ou a projetos de propaganda ou de marketing, com a relação
discriminada dos custos e dos diversos itens da programação.” (DC, 2008:80).
O contexto explicativo, por sua vez, apresenta dados a respeito da natureza
e de certos aspectos do termo, sem defini-lo claramente. Por exemplo:

Entropia (co): informação máxima; originalidade máxima;


absoluta imprevisibilidade. [...] Para melhor compreensão do
conceito de entropia aplicado à teoria da informação, tome-
mos o exemplo clássico de Guilbaud: se todos os caracteres
formáveis com o teclado de uma máquina de escrever tiverem
a mesma possibilidade de ocorrência, quantas mensagens di-
ferentes poderiam ser produzidas em uma folha de papel?
[...]” (DC, 2008:274).
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
No exemplo, não há uma definição precisa de entropia, mas o contexto ofere-
ce pistas importantes para a compreensão do conceito.
Ainda com base em Barros (2004), há o contexto associativo, que veicu-
la descritores suficientes apenas para determinar, por meio de associações, se o
termo pertence a um domínio ou a um grupo de termos que designem conceitos
próximos. Por exemplo:

9
Os termos sublinhados foram destacados para mostrar a importância dos descritores numa defini-
ção em contexto definitório.

225
Epilinguagem (lg): o mesmo que metalinguagem. (DC,
2008:275)

O contexto informa apenas sobre o domínio que mantém relação de sentido


com o termo, proveniente da área de Linguística, não informando nada sobre a sua
natureza, funções e características específicas.
Há ainda o contexto enciclopédico, que veicula dados de natureza extralin-
guística, referencial, histórica sobre o termo, sem, no entanto, defini-lo. Por exemplo:

Didot (ed): criado por François-Ambroise Didot (1730-1840),


que aperfeiçoou o sistema de Fournier e adotou o Cícero de
12 pontos tomando como base o “pé de rei”, medida tipográ-
fica então vigente na França. [...] (DC, 2008: 224).

Para a pesquisa terminológica, em especial na área de terminologia comuni-


cacional, os tipos de contextos mais interessantes são o definitório e o explicativo.
O contexto enciclopédico está voltado para a elaboração de dicionários enciclopé-
dicos ou enciclopédias.

3.2 APARATO TEÓRICO DISCURSIVO

Para uma análise mais rigorosa do termo marketing, fez-se necessário bus-
car, primordialmente, (i) uma teoria fundamentada na análise terminológica e (ii)
os elementos discursivos relacionados ao discurso do dicionário de especialida-
de e (iii) alguns princípios funcionalistas. A relação desses pontos fundamenta a
análise terminológica discursiva, que será utilizada para análise da ocorrência de
termos. O procedimento de análise terminológica discursiva que sustenta a Ter-
minologia Discursiva será demonstrado na Amostragem de Análise de Corpora.
Os conceitos e sentidos pertinentes aos textos de um dicionário dependem
da história e do recorte realizado pelo dicionarista na construção das acepções. A
EPISTHEME

heterogeneidade é constitutiva do discurso e também do discurso do dicionário. Os


dizeres são sempre respaldados em outros dizeres e dizeres de outros dicionários.
Segundo Nunes (2006), o dicionário também é um discurso, e, como todo discur-
so, ele tem uma história, constrói e atualiza uma memória, reproduz e desloca
sentidos, inscrevendo-se no horizonte dos dizeres historicamente constituídos.

226
O dicionário especializado contém o termo, que deve ser analisado na orien-
tação de um discurso; nessa linha, Normand (1990:177) afirma o seguinte:

“o termo tomado na comunicação, comporta-se como qual-


quer outro léxico: difusão, empréstimos, analogias intervêm
e são acompanhadas de mudanças de sentido, a sinonímia e
a polissemia persistem, ligadas à atividade científica ela mes-
ma: em todos os casos observa-se um trabalho constante de
reformulação.”

Esse trabalho de reformulação constante que sofre o termo na língua em
uso também é confirmado por Krieger (2002), quando afirma, entre outras coisas,
a compreensão de que um termo é elemento da linguagem em funcionamento,
dada a sua presença, sobretudo, em textos e em discursos especializados. Isso
significa que as unidades lexicais terminológicas são afetadas pelos componentes
que alicerçam as dimensões semiótica, pragmática e ideológica que presidem os
processos comunicacionais. Sendo a definição do termo um discurso, então, os
dicionários são constituídos por discursos, e estes são atravessados pela hetero-
geneidade constitutiva (AUTHIER-REVUZ, 1992). Essa heterogeneidade atravessa
também as comunicações especializadas, em especial a área de Comunicação,
que não está isenta das marcas sócio-históricas que afetam a construção do co-
nhecimento.
Uma obra especializada, como um dicionário terminológico, está respaldada
na objetividade da comunicação. O próprio Dicionário de Comunicação evidencia
o interesse em tornar a comunicação especializada da área objetiva e correta. Po-
rém, a evidência e a certitude dos conceitos dos dicionários são questionadas por
Nunes (2006:18), quando afirma:
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

A língua, ou antes, as “sistematicidades linguísticas” (os me-


canismos lexicais, sintáticos, enunciativos) são sempre reme-
tidas à exterioridade, às condições de produção do discurso,
que são fundamentalmente o contexto situacional, histórico
e ideológico, compreendidos os sujeitos aí inseridos. A con-
sequência disso é a de considerar a materialidade linguística
do dicionário, questionando-se a evidência dos sentidos, das

227
definições, das exemplificações, enfim, dos mecanismos uti-
lizados pelas técnicas lexicográficas, e remetendo-se a suas
condições históricas de aparecimento.

O excerto acima mostra que a análise dos dicionários, segundo uma visão
discursiva, não deve partir de um modelo prévio de dicionário, mas procurar jus-
tamente mostrar a particularidade de cada um. Segundo Nunes (2006), a leitura
crítica do dicionário não ocorre em vista do que ele deva ser de um modelo ideal,
mas, sim, em vista do que ele é, da sua singularidade histórica. A compreensão de
tal singularidade implica “escutar”, nos dizeres dos dicionários, os silêncios, en-
tendidos como possibilidades de significação. A neutralidade do discurso científico
é somente uma ilusão, a ilusão do dizer, conseguida por meio de estratégias e do
uso de certos recursos linguísticos que provocam efeitos de objetividade.
O texto dicionarístico tem uma história que foge ao controle objetivo do ter-
minógrafo e do lexicógrafo organizador, e, muitas vezes, não coincide com o que
o discurso dos prefácios estabelece. Por isso, a análise do texto dos verbetes per-
mite ao analista explicitar os traços da posição do lexicógrafo ou do terminógrafo,
questionar a evidência ou a neutralidade das definições, das exemplificações, das
marcações etc., relacionando-as com o lugar que o organizador ocupa em uma
formação social.
A Análise Terminológica Discursiva dos dicionários que aqui se apresenta
respalda-se em alguns elementos discursivos: a formação discursiva, para funda-
mentar a análise do entrelaçamento discursivo no uso e nos dicionários localizan-
do-os em campos e espaços discursivos, a fim de se verificar a relação dos concei-
tos com a história e a memória do dizer nos dicionários; interdiscurso, para verificar
o discurso no uso e no dicionário e a relação com outros discursos; os sentidos das
sequências discursivas do uso e dos verbetes, para fundamentar uma análise dos
deslocamentos, silenciamentos, apagamentos, ressignificações dos sentidos, nos
EPISTHEME

conceitos dos dicionários; as heterogeneidades e as não coincidências do dizer,


para fundamentar a análise da constituição dialógica dos conceitos e dos sentidos.
Para Foucault (1995a), a formação discursiva é um conjunto de enunciados
em que ocorre certa regularidade. Dentro desses discursos, existem regras históri-

228
cas, que são condições, para que dadas formações existam, ou desapareçam. Uma
acepção de um dicionário de especialidade, como o Dicionário de Comunicação,
é perpassada por formações discursivas que indicam posições sócio-históricas e
ideológicas dos autores.
Segundo Foucault (1995a:78):

No caso em que se puder descrever, entre certo número de enun-


ciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que en-
tre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas
temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, cor-
relações, posições e funcionamentos, transformações), diremos,
por convenção, que se trata de uma formação discursiva.

Maingueneau (2006) afirma que, quando se fala de discurso patronal, discur-


so racista, discurso do dicionário, entre outros, o termo formação discursiva é útil.
De fato, esses discursos transpassam os gêneros, ou os tipos de discurso. Dessa
forma, o autor não acredita que a noção de formação discursiva possa designar um
gênero de discurso, ou um posicionamento em um campo discursivo (movimento
literário, partido político,etc.). Por isso, quando se fala dentro de um campo discur-
sivo, como a política, por exemplo, não significa que se fecha essa formação em
nível de um determinado ideal partidário, somente, mas fazem parte da formação
todos os discursos que permeiam a política (intradiscurso), além de relacioná-los
com outros discursos, em outros campos discursivos (interdiscurso).
No discurso terminológico, a operacionalização do conceito de formação dis-
cursiva permite identificar diferenças significativas entre os discursos presentes e
suas conjunturas. Por exemplo, é possível identificar duas formações discursivas
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

concorrentes, na definição de um mesmo termo por dicionários diferentes. O termo


marketing, por exemplo, traz um deslocamento do discurso da Administração para
o da Comunicação. A descrição das formações discursivas mostra que o saber ter-
minológico não se expande em uma progressão linear. Ao analisar o dicionário de
especialidade, o analista depara-se com repetições que sinalizam continuidades,
o que se nota nas definições, que são copiadas, reiteradamente, de um dicionário
a outro, de modo a reproduzir sentidos de uma formação discursiva.

229
Postula Maingueneau (1997), aproximando a definição de formação discursi-
va da de interdiscurso, que, quando se busca especificar a noção de interdiscurso,
faz-se necessário recorrer a três conceitos complementares, a saber:
- universo do discurso: que compreende o conjunto de formações discursivas
de todos os tipos de discurso que interagem numa dada conjuntura; em sendo
esse conjunto bastante amplo, afirma o autor que ele jamais poderá ser concebido
na sua globalidade; por conseguinte, a utilização da noção de universo de discurso
só se presta para definir campos discursivos;
- campos discursivos: que compreende um conjunto de formações discursi-
vas que se encontram em relação de concorrência em uma dada região do univer-
so discursivo;
- espaço discursivo: que compreende a delimitação de subconjuntos(s) do
campo discursivo, estabelecendo relações cruciais entre, pelo menos, duas forma-
ções discursivas.
Para exemplificar isso, é possível uma análise no campo da Política: no uni-
verso, todos os discursos; no campo, o discurso político; no espaço, o discurso so-
bre a democracia, por exemplo, com formações discursivas que defendam o direito
ao voto e à liberdade de expressão política. O conjunto das formações discursivas
que vão confirmar o discurso da democracia forma o interdiscurso.
Para exemplificar melhor o que foi dito até aqui, é possível tomar o campo do
Discurso Comunicacional, objeto de análise deste trabalho. Ao fazer um recorte,
por exemplo, para o discurso publicitário, há no espaço discursos vários e, entre
eles, o discurso sobre marketing, que está constituído dialogicamente por forma-
ções discursivas que confirmam, por exemplo, o consumo, a imagem, o poder, a
necessidade de um produto, etc. O conjunto dessas formações discursivas que vão
validar o discurso do marketing forma o interdiscurso que perpassa os dicionários,
atestando o conceito. Este possui uma memória na economia que atravessa para
EPISTHEME

outras áreas, como a Administração e a Publicidade, trazendo formações discursi-


vas muito próximas.
O conceito de interdiscurso está imbricado ao de formação discursiva. O
interdiscurso é a memória do dizer, o já dito: citações, evocações, paráfrases etc. O
dicionário é um espaço de memória discursiva, afinal a elaboração de um dicioná-

230
rio é um trabalho sobre o já dito, um trabalho de seleção, reformulação, retomada,
ruptura etc. O interdiscurso é estratificado, é compartimentado em diferentes espa-
ços, é organizado em formações discursivas. Para Pêcheux (1988:162), o interdis-
curso é um “complexo de formações discursivas”, entre as quais se estabelecem
relações de contradição, de aliança, de delimitação. Para a análise dos dicioná-
rios, trabalha-se num campo de formações discursivas, concorrendo em diferentes
conjunturas históricas. Nesse conjunto, este artigo procura mostrar as formações
discursivas em contato, as passagens de uma a outra, as regiões de fronteira e de
delimitação. O termo marketing, por exemplo, atualmente, tem uma acepção mais
preponderante na área de Publicidade e Propaganda, porém a formação discursiva
que atravessa o termo é a do comércio, o que pode ser comprovado no discurso do
dicionário de especialidade, quando retoma o interdiscurso de Peter Drucker, que
foi um respeitado economista: “conhecer e compreender tão bem o cliente que o
produto ou serviço se torne adequado a ele e ele se venda por si mesmo”. O con-
junto de formações discursivas Publicidade, Economia e Comércio, principalmente,
forma o interdiscurso que é retomado pelo Dicionário de Comunicação.
Conforme Nunes (2006:26), a compreensão do funcionamento articulado
da constituição e da formulação nos dicionários é fundamental para a descrição
dos efeitos de sentido que se produzem. A lexicografia e a própria terminologia,
frequentemente, constituem uma prática de cópia e reformulação. “Localizar os
pontos de incidência da memória no discurso, os pontos de substituição e de des-
locamento de sentido é o procedimento utilizado para se explicar essa relação.”
O termo do dicionário é um signo; este, segundo a concepção bakhtiniana
(BAKHTIN, 1979), tem um caráter ideológico, dialético, dialógico, vivo e dinâmi-
co, diferentemente do que preconiza o estudo estruturalista de Saussure. Para
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

Bakhtin (1979:32) um “signo não existe apenas, como parte de uma realidade; ele
também reflete e refrata uma outra”. Para o autor o signo pode distorcer a reali-
dade, ser-lhe fiel ou apreendê-la de um ponto de vista específico. A arbitrariedade
do signo não abarca o caráter fundamental da língua, ou seja, a exterioridade do
objeto da linguística, que tem a presença de fatores sociais, políticos e ideológicos.
O signo é dinâmico e estabelece uma interação verbal, que é constitutiva da língua,
como um fenômeno social.

231
Quando um enunciado pertencente a uma dada formação discursiva é evo-
cado por outra, seja em forma de um já-dito ou de um espaço do dizível, ocorre o
que Maingueneau (1998:46) chama deslocamentos, que produzem a denegação,
o apagamento e o silenciamento.
A relevância de tais conceitos para este trabalho dá-se, por exemplo, na defi-
nição de marketing individual extraído do Dicionário de Administração e Finanças,
designado da seguinte forma:
Marketing individual: modalidade de marketing que procura vender o maior
número de produtos possível para cada consumidor, e que se contrapõe ao ma-
rketing de massa, que procura vender um só produto ao maior número possível de
consumidores. (DAF, 2008: 287)
Apesar de o termo marketing individual ser próprio do domínio da Comuni-
cação, ele não está contemplado no Dicionário de Comunicação, que lista mais
de vinte denominações para marketing e apaga o termo pela interferência do in-
terdiscurso ligado a enunciados relacionados a “comércio e vendas” e que são
atravessados pelas formações discursivas da Administração. Na Comunicação,
essas formações discursivas encontram certa resistência. Afinal, o publicitário, o
jornalista, o comunicador, não é um vendedor.
Os discursos são espaços de apagamento, silenciamento, esquecimento e de
denegação, não somente porque alguém desloca um sentido, ou porque apagou
o sentido primeiro, ou porque o esqueceu, ou porque quis denegá-lo, mas, porque
o discurso é constituído pelo dialogismo (BAKHTIN, 1979), e exatamente por isso
é lugar para apagar, silenciar, esquecer e denegar conforme o interesse de quem
o manipula.
No processo de apropriação e atribuição de sentidos, os enunciados, depen-
dendo do contexto da enunciação em que são apropriados, podem ser deslocados
de sua significação original, e uma multiplicidade de sentidos pode vir a eles se
EPISTHEME

agregar. No discurso da Comunicação, e em outros discursos, isso pode ser obser-


vado quando a um termo são atribuídos outros sentidos que extrapolam o original,
o que ocorre quando se observa o uso do termo.

232
3.3 APARATO TEÓRICO FUNCIONALISTA

Analisar um texto requer conhecimento da situação discursiva, dos partici-


pantes envolvidos e da estrutura em que o discurso é apresentado. Mais uma vez
se fazem presentes as propostas funcionalistas que põem em causa “as funções
dos meios linguísticos de expressão” (NEVES, 2010b:17) na situação e na cultura.
Mais uma vez se trata de procedimentos que obtêm “a explicitação do uso de uma
língua particular historicamente inserida, feita com base em reflexão sobre dados”
(NEVES, 2010b:15).
A história de um termo, seja da língua de especialidade ou não, vai revelar a
fluidez de sentidos que atravessa diacronicamente o uso. Neste artigo há necessi-
dade de não se abandonar essa visão, pois, afinal, toda a pesquisa que se pretenda
realizar sobre língua não poderá deixar de considerar as grandes transformações
sociais, o contexto sociocultural e o momento histórico. Mais uma vez entram em
conceitos básicos do Funcionalismo, assim resumidos em Neves (2006:17) como
pontos centrais numa gramática funcionalista: o uso (em relação ao sistema); o
significado (em relação à forma); o social (em relação ao individual).
As indicações deste artigo devem ser ressaltadas pelo que representam de
consonância com as propostas funcionalistas de maior relevo, aquelas que se re-
ferem à determinação interacional, à inserção sociocultural e à implicação prag-
mática da língua em função (NEVES, 1997; 2006; 2010a), com especial foco na
“competência comunicativa” (MARTINET, 1994, apud NEVES, 2006:16).

4 AMOSTRAGEM DE ANÁLISE DE CORPORA


Para exemplificar melhor a proposta da Análise Terminológica Discursiva Co-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
municacional registra-se aqui a análise do termo Marketing:

Ficha Terminológica
Termo: Marketing
Inglês: Marketing
Categorização Gramatical: S.M
Observações Linguísticas: Nm [abstrato]
Ocorrência:
Mídias tradicionais geram marketing boca-a-boca, diz estudo. (M&M, 16 de dezembro de 2008)

233
Dicionário ND Amostra das Definições
(1) 067 (1) Execução das atividades que conduzem o fluxo de mercadorias e
Dicionário de serviços do produtor aos consumidores finais, industriais e comerciais
(Associação Americana de Marketing). (2) Execução, por uma empresa, de
Comunicação todas as atividades necessárias para criar, promover e distribuir produtos
que estejam de acordo com a demanda atual ou potencial e com a sua
capacidade de produção (Bueno Azevedo et alii). (3) Estudo sistemático
das forças de formação da procura e da motivação do consumidor, das
considerações temporárias especiais que influenciam as transações
econômicas e dos esforços integrados e reações dos consumidores e
compradores em um mercado (Eugene Kelly). (4) Conjunto das atividades
que, a partir do estudo constante do consumidor, e das tendências do
mercado, chega à definição e fabricação do produto ou serviço, à sua
composição, distribuição e até utilização final, (...) (Associação Nacional
Lombarda). (5) Na atividade empresarial contemporânea, as ações de
marketing envolvem toda a vida do produto ou serviço, desde o momento
em que ele é simples ideia, invenção, projeto, ou simples demanda do
consumidor detectada em pesquisa, até o consumo, incluindo etapas
do pós-venda (...). (6) Através do marketing, procura-se satisfazer as
necessidades de consumo e mesmo criar novas necessidades. Com
essa estratégia, visa-se otimizar os lucros de uma empresa, de modo a
DIC DE ESPECIALIDADE

assegurar a sua sobrevivência e expansão. (...)


(2) 01 É uma função organizacional e um conjunto de processos que envolvem
Dicionário de a criação, a comunicação e a entrega de valor para os clientes, bem como
Administração a administração do relacionamento com eles, de modo que beneficie
e Finanças a organização e seu público interessado. (AMA - American Marketing
Association - Nova definição de 2005).
(3) Dicionário 01 N-UNCOUNT
de usos da Marketing is the organization of the sale of a product, for example,
língua inglesa deciding on its price, the areas it should be suplied to, and how it should
“English be advertised.
DIC DE USOS DA LÍNGUA

Language ...expert advice on production and marketing.


Dictionary” ...a marketing campaign.
(4) Dicionário 01 Nf (ingl) sinônimo de mercadologia.
de usos do A constante pressão do marketing da indústria farmacêutica. (ANT)
português Gerente do departamento de planejamento de marketing da Volkswagem.
(EX)
(5) Dicionário 03 (1) Estratégia empresarial de otimização de lucros por meio da
DIC GERAL DA LÍNGUA

Houaiss adequação da produção e oferta de mercadorias ou serviços às


da Língua necessidades e preferências dos consumidores, recorrendo a pesquisas
EPISTHEME

Portuguesa de mercado, design, campanhas publicitárias, atendimentos pós-venda


etc. (3) Conjunto de ações, estrategicamente formuladas, que visam
Datação influenciar o público quanto a determinada ideia, instituição, marca,
1960 pessoa, produto, serviço etc.
Na sequência, com base nas definições, apresenta-se a ficha geral de com-
paração das definições:

234
Ficha Geral de Comparação das Definições
Gênero Diferenciação Específica
Termo: Estratégia Conjunto Vender Otimizar Criar, Influenciar
Marketing Empresarial de produtos lucros promover o público
atividades e distribuir
produtos
DC X X - X X -
DAF - X - - X -
DICIONÁRIOS

DULI - - X X - -
DUP - - X - - -
DHLP X X X X - X

Análise da Ocorrência:
Na ocorrência, marketing expressa a ação responsável pela execução de ta-
refas ligadas à comunicação empresarial. O marketing “boca a boca” é uma estra-
tégia para a venda de produtos por meio da comunicação oral entre consumidores.
O termo marketing foi encontrado nos cinco dicionários pesquisados: DC,
DAF, DULI, DUP e DHLP.
No DC, a definição traz “execução das atividades que conduzem o fluxo de
mercadorias e serviços” até “otimização de lucros de uma empresa”. Também
no DC encontram-se três tipos de contextos: definitório, explicativo e associativo
(Barros, 2004). O contexto definitório pode ser observado: em (1) - Execução das
atividades que conduzem o fluxo de mercadorias (...); em (2) - Execução, por uma
empresa, de todas as atividades necessárias para criar, (...); em (3) - Estudo siste-
mático das forças de formação da procura e da motivação do consumidor, (...); em
(4) - Conjunto das atividades que, a partir do estudo constante do consumidor (....).
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

O contexto associativo (Barros, 2004) aparece em (5) - Na atividade empresarial


contemporânea, as ações de marketing envolvem toda a vida do produto ou servi-
ço (...), pois há uma relação entre a atividade de marketing e a atividade empresa-
rial. O contexto explicativo aparece na definição (6) - Através do marketing, procura-
-se satisfazer as necessidades de consumo e mesmo criar novas necessidades
(...). A categoria prototípica função foi observada em quase todas as definições.
No DAF, também de especialidade, a acepção “conjunto de processos que en-

235
volvem a criação, a comunicação e a entrega de valor para os clientes, bem como a
administração do relacionamento com eles, de modo que beneficie a organização
e seu público interessado” não é tão específica quanto a que o DC propõe.
No DULI, o termo aparece no uso, em um texto de Economia, o que mostra o
conceito ultrapassando o domínio (Barros, 2004) da área de Comunicação. Isso
indica um processo de empréstimo para a área da Comunicação, especialmente a
Publicidade, o que pode ser sugerido pelo sentido “área mercadológica de vendas”
recorrente em todos os dicionários.
No DUP, o termo também aparece com acepção de mercadologia. Se se ado-
tarem os princípios teóricos do modelo de definição baseado em Bugueño Miranda
e Farias (2011), a definição do DUP poderia ser considerada imprecisa e vaga, pois
não há padrão sintático, modelo semântico nem paráfrase definidora intensional
analítica por excelência. No enunciado “sinônimo de mercadologia” o que ocorre é
uma definição sinonímica, que segundo Bugueño Miranda e Farias (2011), expres-
sa o conteúdo semântico de uma dada unidade léxica por meio da substituição
dessa unidade por um ou mais sinônimos.
No DHLP, a definição do termo está congruente com a do DC, e para confirmar
isso basta uma volta à definição do DHLP, “conjunto de ações, estrategicamente
formuladas, que visam influenciar o público quanto à determinada ideia, institui-
ção, marca, pessoa, produto, serviço etc.”
Por outro lado, o fato de ser um estrangeirismo fez que o termo passas-
se por algumas etapas, até integrar-se à língua receptora (ALVES, 1990). O
elemento estrangeiro é sentido como externo à língua vernácula, não fazen-
do parte do seu acervo lexical. Em seguida, o estrangeirismo é empregado
juntamente com uma forma vernácula, sobretudo em textos escritos, com o
objetivo de facilitar a compreensão do leitor. Essa forma traduzida pode tor-
nar-se uma concorrente do estrangeirismo, alternando-se com ele. Ou seja,
EPISTHEME

num mesmo texto, para que não fique repetitivo, emprega-se ora o estran-
geirismo, ora o equivalente vernáculo. Até o que se sabe, isso não aconteceu
com o termo marketing que é usado em português como está no inglês, e
já não pertence apenas à língua de especialidade. O que ocorre, porém, é

236
a integração de novos termos, o que se manifesta por meio de adaptação
gráfica, morfológica ou semântica. Um exemplo de subespecificação é o ma-
rketing verde (composição).
No DC, há várias definições para o termo. Todas tomam emprestadas outras
definições de áreas diferentes e exemplificam algumas aplicações do termo, num
processo de heterogeneidade mostrada e constitutiva (AUTHIER-REVUZ, 1992).
Isso leva a crer que não há uma definição específica da área de Comunicação,
que toma emprestado o conceito da Economia. No DC, marketing tem atributos
de “ação”, o que é atestado pelos substantivos “execução”, “estudo”, “atividade”,
etc. O conceito hoje tem tornado mais amplo, abrangendo não somente o universo
empresarial, em relação a produtos e serviços, mas também a aceitação de ideias,
imagens, atributos, enfim.
Barros (2004:83) afirma: “a busca da eficácia comunicacional, sobretudo nos
domínios especializados, pode conduzir à normalização”. Essa normalização não se
aplica ao termo marketing, pois parece que ainda haverá uma grande distância a
percorrer até que se encontre uma definição que dê conta de todos os deslizamen-
tos. Isso pode ser observado até pelos vários tipos de marketing que existem hoje e
que também não possuem definição objetiva: marketing direto, político, esportivo,
estratégico, educacional, cultural, comunitário, de guerrilha, diferenciado, de nicho,
ecológico, institucional, interativo, on line, etc. O DHLP traz a acepção, com data de
1960, porém há registros do termo na década anterior, citados no DC, como afirma o
professor Theodore Levitt (1990:35), considerado o pai do marketing:

Os primeiros passos para a difusão do Marketing foram dados


DOSSIÊ EDUCAÇÃO
por Peter Drucker, ainda que implicitamente, em 1954, com o
lançamento do livro “A Prática da Administração”. Não se tra-
tava propriamente de um estudo detalhado sobre Marketing,
mas foi o primeiro registro escrito que cita esta ferramenta
como uma força poderosa a ser considerada por administra-
dores focados no mercado.

237
Análise Terminológica Discursiva
Na sequência, foi elaborada uma matriz para o desenvolvimento da análise:
Matriz Discursiva II
Termo: Marketing
Sequência Sequência discur- Efeitos de Heterogenei- Desloca- Forma- Não coinci-
discursiva siva Dicionários sentido dade Enuncia- mento de ções dência do
Jornal M&M (ocorrência) das sequ- tiva campo (atra- Discursi- dizer
(ocorrência) ências vessamento vas equi-
e desloca- valentes
mento) (I) e não
equiva-
lentes (II)
Mídias (1) Execução das Marketing Jornal M&M: Da Adminis- (I) Comu- Nos
tradicionais atividades que é um discurso do tração para nicação dicionários
geram conduzem o fluxo conjunto entrevistado; a Comunica- o termo é
marketing de mercadorias de ações discurso ção conjunto
boca-a- e serviços do que relatado, a de ações,
-boca, diz produtor aos con- visam a expressão é no jornal
estudo. sumidores finais, venda de bastante usu- o termo é
industriais e co- produtos. al até no meio estratégia.
merciais (Associa- popular.
ção Americana de
Marketing). (DC)
É uma função or-
ganizacional e um
conjunto de pro-
cessos (...) (AMA
- American Marke-
ting Association
- Nova definição de
2005). (DAF)

Marketing aplica-se a conjunto Dicionário de (II) Admi-


de ações e estratégias. Comunicação: nistração
retoma o dis-
EPISTHEME

curso do DAF,
que por sua
vez, retoma
o discurso da
AMA.

238
O enunciado “Mídias tradicionais geram marketing boca a boca, (...) (M&M,
16 de dezembro de 2008)”, extraído do uso do Jornal M&M, apresenta a heteroge-
neidade mostrada que perpassa o discurso contendo o termo marketing, cunhado
com base em discursos outros que tiveram origem na Economia, e, hoje, estão
estabelecidos nos discursos da Comunicação. O enunciado em si retoma outros
enunciados ditos em outros lugares. No dialogismo discursivo entre o DC e o DAF
confirma-se a voz da American Marketing Association, uma organização renoma-
da, para credibilizar a definição dada ao termo, o que transmite ao usuário do DC
e do DAF, a impressão de objetividade da área de especialidade.
Os discursos que trazem o termo marketing estão constituídos por forma-
ções discursivas que impõem ideologicamente a noção de consumo, venda e lucro.
O recorte do uso no Jornal M&M confirma essas formações discursivas, afinal as
“mídias tradicionais” ainda são importantes para gerar o “marketing boca a boca”.
O DAF, quando traz a acepção “é uma função organizacional e um conjunto de
processos que envolvem a criação, a comunicação e a entrega de valor para os
clientes, bem como a administração do relacionamento com eles, de modo que
beneficie a organização e seu público interessado”, estabelece a relação de ma-
rketing como um processo de constituição do produto para venda.
A acepção do DHLP, “conjunto de ações, estrategicamente formuladas, que
visam influenciar o público quanto a determinada ideia, instituição, marca, pessoa,
produto, serviço etc.”, traz o verbo “influenciar”, que carrega um sentido pejorativo
do termo, ou seja, quem faz marketing busca “influenciar” um determinado com-
portamento no público alvo que é compelido a adquirir um determinado produto.
Nota-se que o DC, assim como os outros dicionários, silencia essa acepção, em
nenhum momento, no texto das definições do DC há pistas para essa acepção do
termo. Afinal, influenciar consumidores pode não ser o mesmo que marketing,
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
porém, o marketing, para o DC, “procura satisfazer as necessidades de consumo
e mesmo criar novas necessidades”, ou seja, “criar necessidades” não é o mesmo
que “influenciar consumidores”.

5 CONCLUSÃO
A Terminologia e a Análise do Discurso caminham juntas. Ambas as discipli-
nas encontram-se inter-relacionadas, uma vez que a Comunicação é uma área de

239
especialidade que abastece a Terminologia com objetos linguísticos, com unida-
des terminológicas, num processo de alimentação/realimentação que atende às
necessidades constantes de se definir novos conceitos que correspondem a novos
recortes culturais.
Na Análise Terminológica Discursiva que se apresenta neste artigo, as cate-
gorias teóricas da Terminologia, da Análise do Discurso e do Funcionalismo foram
retomadas. Com isso, foi preparada uma ficha terminológica, um quadro geral de
comparação das definições e uma matriz discursiva, com o que foi possível realizar
análises nas quais se mostrou que a evidência, a certitude e a neutralidade dos
conceitos dos dicionários não existem.
O dialogismo é constitutivo do discurso, e também do discurso do dicionário.
Segundo Nunes (2006), os dizeres são sempre respaldados em outros dizeres e
dizeres de outros dicionários. O dicionário também é um discurso, e, como todo
discurso, o dicionário tem uma história, constrói e atualiza uma memória, reproduz
e desloca sentidos, inscrevendo-se no horizonte dos dizeres historicamente cons-
tituídos. Os termos que constituem um dicionário são perpassados por formações
discursivas e interdiscursos que remetem ao espaço e campo discursivo próprios
dos discursos terminológicos.
Assim como marketing, outros termos da Comunicação, tais como email ma-
rketing, propaganda, branding, briefing, broadcast, views, mídia social, clipping,
brainstorm, storyboard, relações públicas, já foram analisados no G-Term Ara-
guaia com uma base teórica fundamentada na Terminologia, na Análise do Dis-
curso e no Funcionalismo. A maioria deles tem definição em contextos explicativos
e definitórios (BARROS, 2004), alguns apresentam conceitos que ultrapassam o
domínio (BARROS, 2004), outros têm definição prototípica (FELBER, 1984; CA-
BRÉ, 1993), com padrão definicional (BUGUENO MIRANDA; FARIAS, 2011), muitos
trazem alto grau de polissemia (FELBER, 1984; CABRÉ, 1993; ALVES, 1999) e for-
mações discursivas que se deslocam em espaços e campos discursivos diferentes
(FOCAULT, 1995; MAINGUENEAU, 2006), revelando heterogeneidades e não coici-
EPISTHEME

dências do dizer (AUTHIER-REVUZ, 1992, 1998).

240
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243
A Evasão de Alunos do Curso de
Licenciatura em Educação Física da
Faculdade cidade de Coromandel

Guilherme Ramos∗

RESUMO
O tema evasão atualmente é muito discutido nas Instituições de Ensino Superior (IES),
porém pouco estudado. Este trabalho se constitui de um estudo de caso quantitativo e
qualitativo, e cujo objetivo foi verificar os índices de alunos evadidos e propor alternativas
para diminuir a evasão, resgatando os alunos evadidos. A metodologia utilizada inclui
levantamento bibliográfico e documental. Neste estudo foi feito um levantamento sobre as
taxas de evasão dos alunos do curso de graduação em Educação Física (EF) da Faculdade
Cidade de Coromandel (FCC) no período de 2001 a 2009. Evidenciou-se que a evasão
é uma realidade na instituição chegando a atingir mais de 46% dos alunos ingressantes
sendo 58% desses do sexo masculino. A maioria das evasões, cerca de 47% ocorrem ainda
no primeiro ano do curso. Foram propostas estratégias para conter a evasão e resgatar
alunos evadidos: dar atenção especial ao aluno ingressante na instituição, construção de
questionários justificando o motivo da saída do curso, enviar alunos aos programas de
nivelamento. A evasão no curso de (EF) da (FCC) é um fator que merece ser levado em
conta pela instituição. As informações levantadas no decorrer do estudo poderão contribuir
com outras pesquisas sobre a evasão, podendo auxiliar na redução e tomadas de decisões
a respeito desta problemática
Palavras-chave: Evasão Escolar. Educação Física. Ensino Superior.
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

1 INTRODUÇÃO
Atualmente a evasão escolar é uma realidade nas Instituições de Ensino Su-
perior (IES) brasileiras. Este estudo busca mensurar a evasão de alunos no curso

*
Especialista em Educação Física Escolar pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá (FIJ) e em Di-
dática e Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). Graduado em
Educação Física pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). Professor de Estágio Supervisionado
e Prática de Ensino no Curso de Educação Física da Faculdade Cidade de Coromandel. ramosedfisi-
ca@bol.com.br

245
de Educação Física (EF) na Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). O presente es-
tudo é novo na cidade de Coromandel-MG e tem como objetivo verificar os índices
de alunos evadidos e propor alternativas para diminuir a evasão e possivelmente
contribuir para uma reflexão e resgate de alunos evadidos do curso e instituição
acima citados.
O interesse em desenvolver uma investigação sobre. “A evasão de alunos do
curso de Licenciatura em Educação Física da Faculdade Cidade de Coromandel -
FCC” surgiu devido a inquietação enquanto aluno do curso, egresso, e hoje docen-
te deste curso na própria Instituição de Ensino Superior.
Para maior entendimento do tema optou-se por desenvolver uma pesquisa bi-
bliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica foi de fundamental importância
para melhor compreensão do tema, através da leitura, análise e interpretação de
artigos, sítios eletrônicos, monografias e teses. Foi feita uma abordagem dos prin-
cipais motivos que levam à evasão de alunos das instituições de ensino superior.
A pesquisa documental foi realizada por meio de um levantamento sobre as
taxas de evasão dos alunos do curso de Licenciatura em Educação Física (EF)
da Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). Efetuou-se uma análise nas listas de
alunos ingressantes por semestre letivo, matrículas e atas de conclusão de curso,
na secretaria da FCC. Os dados levantados correspondem ao período de 2001 a
2009, com todas as turmas e alunos do curso de EF. Estas informações foram ana-
lisadas e apresentadas por meio de figuras, discurso e tabelas.

2 A EVASÃO ESCOLAR
2.1 A expansão do ensino superior e a evasão escolar

Em um contexto histórico, percebe-se que as causas da evasão são contem-


porâneas ao surgimento das universidades no Brasil. Por volta do século XIX, fo-
ram criadas as primeiras instituições de ensino superior em nosso país, sendo em
1.920, criada a primeira Universidade no Brasil.
EPISTHEME

De acordo com Mendonça (2005):

Encontramos em estudos realizados fatores de relevância que


contribuíram para o lento avanço das universidades, desde o

246
período da Colônia até a Primeira República. Demonstrando
dentro das questões de ordem política-religiosa, a preocupa-
ção de estabelecer um ensino que atendesse aos interesses
da elite colonial portuguesa, filhos de portugueses nascidos
no Brasil. (p. 01).

Pode-se perceber, que desde o início, a universidade se mostrava para a


maioria da população como um sistema excludente e que privilegiava a elite do-
minante. Até alcançar a expansão que possui hoje, abrigou apenas aqueles que
tinham condição de arcar com os custos. Surge então um dos principais motivos da
evasão: a falta de recursos financeiros. Para Mendonça (2005) existe ainda outro
fator relevante no que diz respeito à implantação das universidades no Brasil:

A falta de um corpo de professores de carreira, formados sob


orientação uniforme, em escolas de alto nível, é que se po-
dem buscar as origens de muitas das dificuldades em que se
esbarravam, na sua execução, os esforços de reorganização
do ensino secundário. (p. 03).

Atualmente o mercado de trabalho está cada vez mais concorrido e exige


assim, uma aprendizagem contínua. Por estes e outros motivos há um crescente
aumento do número de faculdades e de estudantes universitários. Há, a cada dia,
mais pessoas ingressando no ensino superior. Porém há muitos universitários que
trancam matrícula, desistem e abandonam as Instituições de Ensino Superior an-
tes de concluírem o curso. A partir de tais observações, foi feito um estudo das
causas e prováveis soluções para o problema da evasão nos cursos superiores. DOSSIÊ EDUCAÇÃO

2.2 O campo de atuação do profissional de educação física

O Profissional de Educação Física tem um campo de atuação enorme e de


vasta diversidade. Segundo o Conselho Federal de Educação Física na sua Resolu-
ção nº 046/2002 são atribuições do Profissional de Educação Física:

247
O Profissional de Educação Física é especialista em atividades
físicas, nas suas diversas manifestações - ginásticas, exercí-
cios físicos, desportos, jogos, lutas, capoeira, artes marciais,
danças, atividades rítmicas, expressivas e acrobáticas, muscu-
lação, lazer, recreação, reabilitação, ergonomia, relaxamento
corporal, ioga, exercícios compensatórios à atividade laboral
e do cotidiano e outras práticas corporais -, tendo como pro-
pósito prestar serviços que favoreçam o desenvolvimento da
educação e da saúde, contribuindo para a capacitação e/ou
restabelecimento de níveis adequados de desempenho e con-
dicionamento fisiocorporal dos seus beneficiários, visando à
consecução do bem-estar e da qualidade de vida, da consci-
ência, da expressão e estética do movimento, da prevenção de
doenças, de acidentes, de problemas posturais, da compensa-
ção de distúrbios funcionais, contribuindo ainda, para conse-
cução da autonomia, da auto-estima, da cooperação, da soli-
dariedade, da integração, da cidadania, das relações sociais
e a preservação do meio ambiente, observados os preceitos
de responsabilidade, segurança, qualidade técnica e ética no
atendimento individual e coletivo. (CONFEF 2002, p. 01).

A partir das Diretrizes Curriculares Nacionais instituídas pelo CNE através da


Resolução 1, de 18 de fevereiro de 2002 e Resolução 7, de 31 de março de 2004,
o curso de Educação Física foi dividido em duas áreas afins com formação e inter-
venção profissional próprios: Licenciatura e Bacharelado. De modo geral, podem
ser assim definidos: o curso de Licenciatura é destinado a formar professores nas
diversas áreas da educação, para exercer a função de educador nos diversos ní-
veis educacionais - educação básica e educação superior. Geralmente este curso
tem duração de três anos letivos. O curso de Bacharelado é destinado a formar
profissionais para as demais áreas, exceto escolar. O Bacharel não pode atuar
EPISTHEME

como professor dentro da educação formal (educação infantil, ensino fundamental


e médio). Seu campo de atuação é voltado para academias, treinamentos esporti-
vos, clubes, empresas, hospitais, asilos, etc. Geralmente, este curso tem duração
de quatro anos letivos. Assim, um Licenciado não pode atuar nas áreas de bacha-
relado, e vice-versa, pois as áreas de formação são distintas.

248
2.3 A evasão escolar no ensino superior e nos cursos de
educação física

A evasão é entendida como abandono, desistência, transferência, mudan-


ça de curso. Alunos que ingressam nas instituições de ensino superior, mas não
concluem o curso, também exemplificam a evasão. Maia, Meirelles e Pela (2004,
p. 4) conceituam Evasão como:

A evasão dos cursos consiste em estudantes que não comple-


tam cursos ou programas de estudo, podendo ser considera-
do como evasão aqueles alunos que se matriculam e desis-
tem antes mesmo de iniciar o curso.

Já Fávero (2006, p. 2) conceitua Evasão como:

Evasão é a desistência do curso, incluindo os que, após terem


se matriculado, nunca se apresentaram ou se manifestaram
de alguma forma para os colegas e mediadores do curso, em
qualquer momento.

Ao pensar nestas definições, surgem questionamentos como: Quais foram os


motivos que levaram o aluno a evadir? Até onde vai a responsabilidade da institui-
ção perante este fato? Qual o papel da universidade no sentido de evitar a evasão?
Segundo pesquisa da FGV-EAESP - Escola de Administração de Empresas de
São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, a média de abandono nas Instituições de
Ensino Superior são: Na modalidade presencial é de cerca de 16%, sendo que os
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
cursos semipresenciais respondem por 8% das evasões e os totalmente à distân-
cia, por 30% (Maia 2003).
Tabela apresentada nos estudos de (Silva Filho et al. 2007), mostra os cursos
superiores com as maiores taxas de evasão no período de 2001 a 2005.

249
Tabela 1 - Cursos com as maiores taxas de evasão em 2005
Cursos 2001 2002 2003 2004 2005 Média
Matemática 24 27 31 25 44 30
Formação de Prof. Ed. Básica / Normal
-46 17 25 3 38 07
Superior
Marketing e Publicidade 34 39 33 33 36 35
Educação Física 31 28 29 30 34 31
Física 27 14 21 23 34 24
Administração 30 29 30 30 33 30
Processamento da informação 39 36 34 39 31 36
Ciências da Computação 31 31 31 34 30 32
Design e Estilismo 15 23 14 32 27 22
Jornalismo 28 23 25 27 26 26

Fonte: BRASIL, 20606 apud, Silva Filho, 2007


Cálculo baseado nos dados do INEP - Sinopse do Ensino Superior – 2001 – 2005

O estudo acima mostra a grande taxa de evasão do Curso de Educação Físi-


ca, sendo o quarto curso onde mais houve evasões no Brasil no ano de 2005, com
cerca de 34%, e com uma média no período de 2001 a 2005 de 31% de evasão
anual.

2.4 Principais causas de evasão

Para melhor compreensão do estudo, foi feito um levantamento no qual des-


tacaram-se alguns autores que discutem sobre as causas da evasão no Ensino Su-
perior Brasileiro, dentre eles Coelho (2002), AbraEAD (2007), Harnik, (2005). Para
facilitar a compreensão das causas mais comuns de evasão, elas foram divididas
em duas partes: uma referente aos alunos ingressantes no ensino superior, outra,
relacionada às próprias instituições de ensino superior. De acordo com os autores
supracitados essas causas são:
Por parte dos Alunos:
EPISTHEME

—— Problemas pessoais: financeiros, afetivos, familiares;


—— Reprovações, dependências e o não acompanhamento acadêmico peran-
te a turma;
—— Despreparo para o Ensino Superior;
—— Má escolha do curso;

250
—— Doença na família;
—— Baixa auto-estima;
—— Falta de autonomia para coordenar seus estudos;
—— Mercado de trabalho;
—— Transferência de instituição ou mudança de curso;
—— Impossibilidade de trabalhar e estudar ao mesmo tempo;
Por parte das Instituições de Ensino Superior:
—— Falta de um currículo relevante;
—— Estratégias instrucionais passivas;
—— Desrespeito aos estilos de aprendizagem dos estudantes;
—— Falta de estrutura material, física e de recursos didáticos;
—— Professores desqualificados;
—— Estrutura do curso e Modelo de ensino: curso semipresencial, presencial
ou à distância;
—— Mau relacionamento professor-aluno, coordenador- aluno.
Percebe-se que a evasão está associada uma multiplicidade de fatores que a
condicionam no âmbito do ensino superior.

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS


Na perspectiva de estudar a taxa de evasão do curso de Educação Física da
Faculdade Cidade de Coromandel, foi feito um levantamento documental, através
de listas de alunos, matrículas, fichas e atas de conclusão de curso na Secretaria
da FCC. Os dados levantados correspondem o período de 2001 a 2009, com todas
as turmas e alunos do curso de Educação Física.
A Faculdade Cidade de Coromandel está situada na Av. Adolfo Timóteo da Silva
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
nº 433 na cidade de Coromandel em Minas Gerais. O Curso de Licenciatura em
Educação Física foi autorizado pela portaria nº 2076 de 21 de Dezembro de 2000,
pelo Conselho Federal de Educação e Reconhecido Pela Portaria Ministerial nº 1.013
- MEC, de 30/03/2005 ( D.O.U. 01/04/2005). A FCC oferece o curso de Licenciatura
em EF no período noturno, com duração de três anos, ou seis períodos letivos.
Neste artigo, considera-se como evasão os alunos que realizaram matrícula
no Curso de Educação Física da Faculdade Cidade de Coromandel, e não o conclu-
íram até o ano de 2009 na instituição pesquisada.

251
Tabela 2 - Total de alunos matriculados, evadidos e concluintes do curso de
Educação Física na Faculdade Cidade de Coromandel de 2001 a 2009
Ano Turma Matriculados Evasão % Concluíram o curso %
2001-2004 A 65 23 35,38 42 64,61
2002-2005 B 17 17 100 00 00
2003-2006 C 15 15 100 00 00
2006-2008 D 41 15 36,58 26 63,41
2007-2009 E 21 04 19,04 17 80,95
Total 159 74 46,54 85 53,45
Fonte: Faculdade Cidade de Coromandel - FCC

Com relação à tabela 2, o número total de matriculados no curso de Educa-


ção Física é 159 alunos. Apenas 53,45% dos alunos que ingressaram no curso
conseguiram concluí-lo. O número de evadidos foi de 74 alunos, o que corresponde
a 46,54% do total de matriculados. Este número está acima da média nacional de
evasão de alunos presenciais, que é de 16%. Os maiores índices de evasão foram
das turmas B e C com 100% . O menor índice de evasão foi da turma E, em torno
de 19%.

Figura 1 - Taxa de evasão dos alunos por ano letivo no curso de Educação Física
EPISTHEME

na Faculdade Cidade de Coromandel de 2001 a 2009

Como visto na figura anterior, a maior taxa de evasão ocorreu ainda no 1º


ano letivo, chegando a mais de 47% . No 2º ano do curso, houve cerca de 31% das

252
evasões. No 3º ano do curso, cerca de 20% das evasões. No 4º ano do curso, houve
apenas 1,47 % de evasão, sendo que apenas a turma A, teve aula até este ano.
Pode-se concluir, com vista nesta tabela, que os primeiros anos do curso possuem
as maiores taxas de evasão.
Segundo Harnik, (2005, apud BORGES JUNIOR; SOUZA,2007) a professora
Yvette Piha Lehman Harnik, efetuou um estudo sobre as principais causas da eva-
são no 1º período letivo:

Quase metade dos estudantes que desistem da graduação


tiveram problemas no momento da escolha. Por pressões dos
pais, por falta de informação sobre a faculdade ou sobre o
mercado”. Outro motivo é “[...] a dificuldade de se adaptar às
exigências e aos professores e à mudança do ensino médio
para o superior”. Quando a desistência ocorre no decorrer do
curso, por volta do 4º ao 6º período, “é porque começaram a
se questionar sobre o sentido da profissão. (p. 02).

As turmas B e C não chegaram a concluir o curso. A turma B foi extinta no 3º


ano letivo e a turma C no 2º ano letivo, ambas devido ao baixo número de alunos
que optaram por transferir, trancar, ou desistiram de cursar o curso de Educação
Física na FCC.
De acordo com a legislação vigente, o curso a partir da turma D, sofreu adap-
tações, passando o período letivo do curso de oito para seis períodos, ou seja, de
quatro, para três anos letivos.

DOSSIÊ EDUCAÇÃO

Figura 2 - Número de alunos evadidos do Curso de Educação Física da Faculdade


Cidade de Coromandel por gênero nos anos de 2001 a 2009

253
A figura 2 demonstra que há um equilíbrio entre o número de alunos e alunas
que se matriculam no curso de Educação Física: sendo 49,7% gênero feminino
e 50,3% do masculino. A taxa de evasão é maior no gênero masculino cerca de
58,10% e no feminino 41,89%.

Figura 3 - Número de alunos que concluíram o curso de Educação Física da FCC


nos anos de 2004 a 2009

A figura anterior mostra claramente uma diminuição no número de alunos


concluintes no curso de educação física da Faculdade Cidade de Coromandel.
Assim sendo, a turma “A” apresenta um número de 42 alunos graduados ou
50%, já na turma “D” 26 alunos, ou seja, 30% e a turma “E” 17 discentes, ou seja,
cerca de 20% do total de formandos. As turmas “B” e “C” não chegaram a concluir
o curso, por este motivo não aparecem no gráfico.

4 ALTERNATIVAS E ESTRATÉGIAS PARA DIMINUIR


A EVASÃO E RESGATAR OS ALUNOS EVADIDOS
Nota-se que a evasão é um problema que ocorre na instituição, chegando a
mais de 46% dos ingressos no curso de Educação Física. Neste tópico, propõe-se
EPISTHEME

algumas sugestões para que a instituição reduza este índice.


Para Silva Filho, R.L et al. (2007, p. 02) :
[...] enquanto no setor privado de 2% a 6% das receitas das
instituições de ensino superior são despendidos com marke-
ting para atrair novos estudantes, nada parecido é investido

254
para manter os alunos já matriculados. [...] são raríssimas
as IES brasileiras que possuem um programa institucional
profissionalizado de combate à evasão, com planejamento de
ações, acompanhamento de resultados e coleta de experiên-
cias bem sucedidas.

Concorda-se com os autores supracitados quanto às instituições não possuí-


rem programas de combate à evasão. Há um gasto significativo com as campanhas
de vestibular procurando atrair novos alunos, mas depois, não há investimentos
para evitar a perda de grande parte deles.
As faculdades devem utilizar estratégias para se aproximarem dos alunos
ingressantes, pois, como visto, os primeiros anos do curso apresentam grande nu-
mero de evasão. Propõe-se a seguir algumas estratégias para conter a evasão e
resgatar alunos evadidos:
—— Atenção especial ao aluno ingressante na instituição, organizar conselhos
de classe para discutir o desempenho acadêmico notas e frequência dos
alunos. Sabe-se que a repetência e o não acompanhamento por parte do
discente na turma auxiliam na maior taxa de evasão. Enviar alunos aos
programas de nivelamento, que têm por objetivo recuperar conteúdos bá-
sicos para um bom desempenho acadêmico.
—— Sugerir a construção de questionários justificando a saída. Todo aluno in-
gresso no curso, que trancar, abandonar ou transferir, deve responder ao
questionário e encaminhá-lo à secretaria da instituição, deixando a mes-
ma informada das principais causas de evasão.
—— Contratação de professores qualificados para que esses possam atender
com qualidade aos alunos, levando os mesmos a aquisição de autonomia
na busca do conhecimento.
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

—— Dispor a ouvidoria da instituição para o atendimento às questões que en-


volvem sugestões, críticas, dúvidas e reclamações relacionadas ao funcio-
namento e aos serviços prestados pela Faculdade Cidade de Coromandel.
—— Organizar diversas atividades acadêmicas como: oficinas, mini-cursos, pa-
lestras, seminários, jogos universitários, intercâmbios, mesa redonda, etc.
—— Incentivar os alunos a montar grupos de estudo, fornecendo condições
aos alunos para interagirem com os colegas, aprenderem de uma forma

255
diferente e adquirirem um conhecimento maior sobre determinadas áreas
do curso.
—— Melhoria do ambiente acadêmico: infra-estrutura, recursos humanos, ma-
teriais e tecnológicos que atendam a clientela e a metodologia do curso;
—— Informar aos ingressos sobre o Fies (financiamento estudantil) e ProUni
(programa universidade para todos).
—— Criação de comissões compostas por alunos, professores e coordenação
do curso, para que procurem os alunos evadidos, para verificar qual o mo-
tivo da evasão e tentar solucionar o problema quando possível, com o re-
torno do aluno à instituição.
—— Promover encontros entre egressos, ingressos e evadidos para que os
mesmos discutam sobre áreas afins, o mercado de trabalho, pós gradu-
ação, etc...
—— Incentivar os professores à atualização pedagógica e a formação continuada.
Vale ressaltar que as sugestões e estratégias de combate à evasão devem
ser realizadas por todos: professores, coordenação e direção da instituição. Acre-
dita-se que estas medidas não acabarão com as evasões, porém podem contribuir
para diminuir e amenizar o problema.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O intuito deste estudo foi o de levantar as taxas de evasão dos alunos do
curso de Licenciatura em Educação Física na Faculdade Cidade de Coromandel, na
busca de propor ideias e estratégias para diminuir a evasão e resgatar os alunos
evadidos.
No período estudado (2001 a 2009), a taxa de evasão é altíssima, chegan-
do a mais de 46%. Em algumas turmas, esse número chegou a 100%, ou seja,
nenhum aluno que ingressou chegou a concluir o curso. A evasão é maior nos
primeiros anos letivos, sendo que 47% das evasões ocorreram no 1º ano letivo.
EPISTHEME

Os alunos do gênero masculino têm uma taxa de evasão de 58,10%, enquanto no


feminino, 41,89%.
Portanto pode-se concluir que a evasão é um fator relevante no curso de EF
da FCC, e necessita de uma atenção especial por parte da instituição. Espera-se
que o presente trabalho contribua de alguma forma para a solução do problema,

256
podendo auxiliar na redução da evasão e em possíveis tomadas de decisões a
respeito desta problemática.

REFERÊNCIAS
AbraEAD. Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância. São Paulo:
Instituto Monitor, 2007.

BORGES JUNIOR, A. G., SOUZA, R. R. Estudo da Evasão no Curso de Licenciatura em Física


do Cefet-Go. Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás. 2007.

BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.


Sinopses do ensino superior. Censos do ensino superior. Comunicações pessoais. Disponí-
vel em: <www.inep.gov.br>. Acesso em: dez. 2006.

COELHO, M. L. A Evasão nos Cursos de Formação Continuada de Professores Universitários


na Modalidade de Educação a Distância Via Internet - Universidade Federal de Minas Gerais,
2002.

CONFEF, Conselho Federal de Educação Física. Resolução Confef nº 046/2002. Rio de


Janeiro, 2002.. Disponível em: <http://www.confef.org.br/extra/resolucoes/conteudo.
asp?cd_resol=82>. Acesso em: 05 maio 2010.

FÁVERO, R.V.M., FRANCO, S.R.K. Um estudo sobre a permanência e a evasão na Educação


à distância. In: Novas tecnologias na Educação. v. 4, n. 2, dez. Porto Alegre: Cinted-Ufrgs,
2006.

HARNIK, S. Má escolha é a maior causa de evasão. Folha de São Paulo. Educação. São
Paulo, 18 out 2005. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ul-
t305u17930.shtml>. Acesso em: 05 maio 2010.

SILVA FILHO, R.L. et al., A Evasão no Ensino Superior Brasileiro. (Instituto Lobo para o
Desenvolvimento da Educação, da Ciência e Tecnologia) Cadernos de Pesquisa, São Paulo,
2007. DOSSIÊ EDUCAÇÃO
MAIA, M. C.: MEIRELLES, F. S.; PELA, S. K. Análise dos Índices de Evasão nos Cursos Supe-
riores a Distância do Brasil. Salvador, 2004.

MENDONÇA, T.R.B. Brasil: o ensino superior às primeiras universidades colônia – impé-


rio – primeira república. Unioeste: Cascavel 2005. Disponível em: http://cac-php.unioeste.
br/projetos/gpps/midia/seminario2/poster/educacao/pedu07.pdf>. Acesso em: 05 maio
2010.

257
The Neologisms in the Brazilian
Publicity Communication

Marcelo Marques Araújo*


Rosana de Paula Lucas**

ABSTRACT
This article intends to describe succinctly the neologisms influence on the Brazilian publicity.
Therefore, the article will explicit the neological typology based on Alves (1990, 1994)
besides taking some analyses developed by Araújo (2001), which has been named as
Análise Terminológica Discursiva, in order to show the neological construction in the publicity
communication terms.
KEYWORDS: Neologisms. Publicity. Communication. Terms.

1 INTRODUCTION
The lexis of a natural language is a wide open system and in constant changes.
It is intrinsic to the man to shape the language, creating new words to support his
communicative necessities. After all, interactivity, communication, expression and
domain of the reality around the contemporary man are required from him.
In the lexical aspect, it is highlighted the contribution that the specific
languages – as the media, the economy or the politics – have given to the DOSSIÊ EDUCAÇÃO

*
Adjunct Professor I at Universidade Federal do Mato Grosso (ICHS/CUA). Member of various acade-
mic and professional association, such as ANPOLL, ABRALIN, ANJ, ANPJ, GELCO, SNJ, APP and also
member of the following research groups registered on CNPq: Gramáticas de Usos do Português-
-Unesp, Texto e Gramática, ADP-UFMT, GPAD-UFU, TERMISUL-UFRGS. Founder of G-Term Araguaia, a
Group of Studies on Communicational Discourse Terminology, attached to ICHS-CUA. Email address:
mmajornalista@terra.com.br. Telephone numbers: (34) 9167 0127 / (66) 8116 3116
**
Graduated in Letras at Universidade Federal de Mato Grosso (ICHS/CUA) and Post-Graduated in
Língua Inglesa at Faculdade de Montes Belos. Has worked as an English teacher in schools and
private education. Has attented many courses in English teaching area and even acted as a speaker
in some of them. Achieved a Test of English for International Communication (TOEIC) certificate by
Luziana Lana Idiomas in 2010. Email address: rosana.rpl@hotmail.com. Telephone number: (66)
9999-1771.

259
vocabulary collection in the natural languages enrichment by disseminating terms
which glide from the specialism use to the general language. Within the evolution
and the progress of some special areas, new terms are coined constantly to name
new referents in different places. In doing so, the words take on a great importance
because they represent the main form of spreading new scientific discoveries, as
well as of naming new technologies and ideas. With the linguistic naming process,
the neologisms arise.
Alves (1990) classifies the neological formation in six processes: 1) the
phonological neologisms; 2) the syntactic ones; 3) the ones of conversion or zero
derivation; 4) the semantic ones; 5) other less productive processes, such as
truncation, the portmanteau, the reduplication and the back-formation; and last
but not least, 6) the neologisms formed by loan-words. These last ones have a
special approach in this article, because Araújo (2011) in Análise Terminológica do
Discurso1 brings up various examples that explicit the neologisms on publicity using
the loan-words.

2 THEORETICAL FRAMEWORK
According to Alves (1990), the phonological neologism is the creation of a
lexical item which meaning is completely unheard. The synctactic neologism
is the combination of existing linguistic elements, in this process are included:
the neologisms formed by prefix derivation2, suffix derivation, compounding,
syntagmatic compounding and syllabic abbreviations or acronyms. The conversion
or zero derivation is a type of lexical formation by which a lexical unit is changed
in its grammatical class distribution without changes on its form. The semantic
neologism is the creation of a new element due to a semantic transformation
showed in a lexical item.
In “other processes”, Alves (1990) includes less productive processes, but these
ones also contribute to the idiom enrichment; they are: truncation, portmanteau,
EPISTHEME

1
The Análise Terminológica Discursiva is a model of analyses on terms of specialism based on Termi-
nology, Discourse Analyses and Functionalism. This model is described in the thesis “Comunicação,
língua e discurso: uma análise terminológica discursiva de um dicionário de especialidade”, by Mar-
celo Marques Araújo.
2
In Communication area, a good example of this neological process is the term microblog, which is
formed by a prefix attached to the root blog.

260
reduplication and the back-formation. Truncation is a kind of abbreviation in
which a part of the lexical sequence, usually the last one, is eliminated (example:
depressão > deprê). The portmanteau is a type of reduction in which two roots are
apart from their other elements to form a new lexical item (example: português +
espanhol = portunhol). The reduplication3 is a morphological resource, in which a
unique root is repeated two or more times so that it forms a new lexical item. And
finally, the back-formation is a type of lexical creation in which an element of the
word, usually a suffix, is shortened (example: amassar > amasso).
The processes that involve the syntactic neologisms are very common on the
Communication area; for instance pré-briefing, superlettering, antifoca, etc.
About the neologisms formed by loan-words, Alves (1990) says:

O léxico de um idioma [...] não se amplia exclusivamente por


meio do acervo já existente: os contatos entre as comunidades
linguísticas refletem-se lexicalmente e constituem uma forma
de desenvolvimento do conjunto lexical de uma língua (ALVES,
1990:72).

The lexicon in a language […] is not specially enlarged by a


collection of existing ones: the contacts between linguistic
communities lexically reflect themselves and they constitute
a way of developing a lexical group in a language (ALVES,
1990:72)

The linguistic communities are closer and closer in a regular contact each day.
The Internet has contributed a lot to this process. For this reason, the languages have
adopted more and more loan-words, a method by which words coming from other
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

languages are included in the Portuguese. Among the loan-words, the Anglicism is
the most frequent in Communication. A loan-word can pass through some stages
until it joins to the receptive language. First of all, the foreign element is something
external to the vernacular. That does not make part of its lexical collection. Then,
it can be used with a vernacular form, especially in written texts, aiming to ease

3
An example of reduplication is the heading taken from the newspaper Folha de S. Paulo: O tranca-
tranca pelo bloco asiático está a mil no início da era. Folha de S. Paulo, 21/02/89 apud ALVES,
1990:71)

261
the reader’s comprehension. This translation can become a contestant form to the
loan-words, alternating itself in the same text in order to avoid repetition; that is,
in one moment the loan-word is used, the next the vernacular equivalent is used.
The procedure can be described like this: first, the English term appears; then,
we have the translation with a vernacular term; and finally, one of those forms is
prevailed. In the Communication, especially in the publicity, the loan-words are the
most frequent.
The proper neological stage of loan-words is the integration with the
receptive language. This integration can happen by graphical, morphological or
semantic adaptation. Some examples of graphical adaptations are shampoo/
xampu and tournée/turnê. The morphological adaptations happen when the
loan-words start forming derivation or compound words, for example, the words
estressar, estressante, estressado, are derivations from the root word stress,
to which are joined vernacular affixes. In Communication area, the syntagmatic
term marketing verde is adapted morphologically, forming a compound term. The
semantic adaptations are related to meaning changes that the loan-word can have.
Depending on the context, the loan-words can have different meanings.
In this case, there are other examples, like the lexical item skin-head, which
actually means “member of an association of young bald men” and in the following
context it simply means “samba dancer without hair”. It can be noticed in the
following occurrence.

Sem nunca desligar seu radar detector de pesos-pesados,


Pina - a skin head do samba - caiu na gandaia (Folha de S.
Paulo, 1989 apud Alves, 1990:78).

Alves (1990) also highlights the transfer as a way of loan-words integration,


that os “the literal version of a foreign lexical item to the receptive language” (ALVES,
1990:79). The examples for this are: weekend/fim de semana, supermarket/
EPISTHEME

supermercado.
To the neological unit identification, experts consider some criteria. The
neologism concept finds theoretical support in a language dictionary revealing the
intrinsic relation between neologisms and dictionary. In this article, the comparison
between language for specific purpose dictionaries, usage and general language

262
dictionaries happened so that the terms could also be analyzed by a neological
view. For many lexical experts (cf. ALVES 1994:121 e 1990:10; CABRÉ 1993, etc.),
the neological notion starts on the dictionary (with lexicographical identification
criterion) and ends on the dictionary, too (a lexical unit is not a neologism anymore
since it is registered in a lexicographical book).
The criterion of a systematical evidence of a lexical unit in a selection of
language dictionaries, discussed in this study, took into consideration the non-
dictionarized units as lexicographical neologisms. It is known that such criterion
is not very accurate since the dictionaries are not usually updated; furthermore,
they never contain all the words of a language. On the other hand, this might be
the most usual criterion among those ones that work on neologisms, since it is less
subjective.
The experts also mention other criteria, like the diachronic and the synchronic
ones (cf. BOULANGER, 1979), which are usually used for identification of neological
units. The diachronic criterion is based on a proof of a lexical unit birth date, in
a dictionary or in a textual corpus, for example. The synchronic criterion consists
on the evaluation of the “newness” feeling which a social group shows related
to a specific lexical unit. Both criteria are hardly applicable: about the diachronic
criterion, the Brazilian dictionaries rarely use time markers and they do not provide
broad textual corpus, a general representative usage of the language. About the
synchronic criterion, it would not be easy to make an inquiry considering a number
of speakers (with their various levels) to give their opinion about a neologism
candidate.

3 CONCLUSION DOSSIÊ EDUCAÇÃO


The development of the terminological units of Communication results not
only in creation of new terms or new meaning attribution to existing words, but also
in “importation” access of vocabulary from other systems, which is included to the
specialism language, creating a semantic process of word productivity.
About the term origin, the existence of interior or extern loan-words is
considered in this work (cf. GARCIA 2002:123 apud LERAT:1987b).
In the Communication specialism, it can be noticed loan-words from the inner
Portuguese language system – the interior loan.

263
Moreover, some terms from other specialisms are used, but they acquire
different meanings in the Communication; for instance, sazonalidade, which relates
to “geographical periods” and, in Marketing, it means “suitable or unsuitable
condition of new products releasing” Dicionário de Comunicação (2008:660);
relevo, which comes from “geological geography”, and in Edition area it means
“high relief printing” Dicionário de Comunicação (2008:635); psicografia exists in
many different areas, especially in Religion, and in Media it means “Classification
and measure technique of lifesytles” Dicionário de Comunicação (2008:603).
The Communication specialism is widely influenced by foreign words.
External Loan is the name given to a word coming from a foreign language that,
from a certain moment on, it starts being used in a certain linguistic community. Its
original form is usually kept, so it is easy identified.
With this in mind, some terms in Portuguese are arisen from literal translation
or from the foreign term transfer, noticing the word adaptation to the phonological
and morphological Portuguese patterns.
According to Garcia (2002:126) there are “International Words”, lexicon in
many languages which are internationally used, understood without translation
and spelled equal the original version. They are, in face of this, a tendency indicator
of technic-scientific language internationalization.
An example of an extern loan-word in Communication area is the term story-
board, “draw-sequencing that visually indicates and guides certain actions described
in movies, advertisements or TV shows scripts” Dicionário de Comunicação
(2008:694). This term can also be considered Internationalism, since it has a fixed
spelling in other countries, too.

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265
Axiologização: avaliadores adjetivais
e sua função argumentativo/
persuasiva em artigo de opinião

Eloísa de Oliveira Lima1

Em 31 de março de 2004, o Golpe Militar de 64 completou 40 anos e, como


não poderia deixar de ser, vários jornais e revistas publicaram uma série de textos
alusivos ao tema. Um desses textos, de autoria do General reformado Carlos de
Meira Mattos, é objeto de nosso estudo.
Sabemos que a escolha das categorias gramaticais é responsável pela in-
trodução das opiniões nos textos, seja mediante o emprego de um determinado
verbo, seja mediante a nominalização, construções adverbiais ou ainda determina-
dos sinais de pontuação, sem falar nos inúmeros recursos linguísticos que podem
ser utilizados para dar um direcionamento ao texto. Aqui, nossa preocupação é tão
somente com o emprego dos adjetivos axiológicos empregados no artigo, objeto de
nosso estudo. Antes, porém vale refletir rapidamente sobre que vem a ser axiologia.
Axiologia, segundo Aurélio (2000), é: “1º. O estudo ou teoria de alguma es-
pécie de valor particularmente dos valores morais. 2. Teoria crítica dos conceitos
de valor.”
A axiologia, que tem como extensão, a ética e a estética, trata de valores
positivos e negativos, procurando analisar os princípios que permitem considerar
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
que algo/alguém é ou não valioso.
E o que seria, então, valor? Costa (2000) define valor como as reações emo-
tivas, que provocam numa pessoa a sensação de bem-estar, de prazer ou de sat-
isfação. Nesse caso, pode-se falar em valor negativo ou positivo. O autor alerta,
porém, para o fato de que se pode designar também com a mesma palavra o valor
monetário, como o preço do quilo de feijão, por exemplo.

1
Professora Assistente da Universidade Federal do Mato Grosso.

267
Quando se fala em valor monetário, pensa-se num referencial que pode ser,
na sociedade moderna, o ouro ou o dólar.
Quando se fala em valor na primeira acepção, que é a que nos interessa
neste estudo, o valor corresponderá sempre a uma estimativa atribuída dentro do
grupo social a certas qualidades ou condutas, ou instituições.
Segundo Reale (2002), o valor é sempre bipolar, porque a um valor sempre
se contrapõe um desvalor. Dessa forma, valores positivos e negativos se conflitam
e se implicam em processo dialético.
A noção de valor é tão importante, que a forma como os valores se distribuem
ou se ordenam é capaz de construir a fisionomia de uma época ou de uma socie-
dade. Eles representam, assim, o mundo do dever ser, das normas ideais, segundo
as quais se realiza a existência humana.
No texto, a axiologização se dá quando o enunciador estabelece juízos de
valor, quando critica. Entenderemos aqui criticar como valorar. Valorar, segundo
Reale (2002), é ver as coisas sob prisma de valor.
Esse juízo de valor pode ser estabelecido no texto através da escolha de de-
terminadas categorias gramaticais como verbos, advérbios, substantivos, adjeti-
vos. Neste estudo, daremos ênfase aos adjetivos e expressões equivalentes, que
são os modificadores axiológicos ou avaliadores adjetivais.
A simples presença do adjetivo no texto não lhe dá o caráter de modificador
axiológico. É preciso que ele esteja lá com a intenção de estabelecer juízo de valor.
O adjetivo pode aparecer no texto com a função de simples caracterizador do
substantivo como, por exemplo, ao se falar das pessoas do Brasil, o enunciador
utiliza povo brasileiro. O adjetivo “brasileiro” aparece, então, como simples carac-
terizador do substantivo povo.
Dias (s.d.) nos lembra que o adjetivo pode funcionar ainda como elemento
invocador de memória, e exemplifica com o seguinte:

Há uma rua em Campina Grande (PB) que se chama Coronel


EPISTHEME

João Lourenço Porto. É uma rua comum, que não se destaca


por nenhum atrativo especial, a não ser o fato dela ser con-
hecida por outro nome: antiga Rua da Floresta. Especifica-
mente, o que nos chama o interesse nessa expressão é o fato
de que temos aqui um adjetivo (“antiga”) bastante comum,

268
num tipo de construção também comum, [...]. Com efeito, a
relação entre o adjetivo e o substantivo, nesse caso, envolve
algo mais complexo do que a simples caracterização da rua.
O adjetivo “antiga” só poderá ser compreendido enquanto
categoria gramatical a partir da ordem discursiva e histórica
que se configura todas as vezes que um habitante da cidade
Campina Grande se coloca na posição de sujeito desse enun-
ciado. Nesse momento, o que está atuando na configuração
do adjetivo é a resistência a uma situação jurídica, instaurada
quando a Câmara Municipal determina a mudança do nome
da rua. Dizer “antiga Rua da Floresta” é reconhecer a mu-
dança; por isso, não se diz simplesmente Rua da Floresta.
Dessa forma, dizer “antiga Rua da Floresta” é invocar uma
memória e marcar a resistência à mudança. Ora, conhecer o
adjetivo enquanto forma linguística não envolveria também
uma reflexão sobre a relação entre as instituições e o sujeito
na sociedade?”

Ainda segundo Dias (s.d.), “a palavra significa por já ter significado, pois nen-
huma palavra é inaugural. Sua existência é socialmente sustentada e seu sentido
não é o mesmo cada vez que a utilizamos”. Embora sua forma garanta sua unici-
dade, seus efeitos de sentido são indicadores a partir do espaço discursivo que se
instaura na enunciação.
Feitas essas reflexões acerca dos adjetivos e da palavra, procuraremos
mostrar como se apresentam no texto jornalístico, especificamente no artigo de
opinião que ora analisamos, os adjetivos com função de modificadores axiológicos
que, segundo Koch (2002), “expressam a valoração atribuída aos eventos, ações e
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
situação a que o enunciado faz menção”.
Antes, porém, faremos algumas considerações sobre o Golpe Militar de 1964,
conforme a historiografia oficial.
O Golpe Militar é caracterizado pela tomada do poder de um determinado
país pelos militares, instaurando um regime de ditadura militar, sob o pretexto de
livrar o país de interesses externos ou algum outro tipo de ameaça.
No Brasil, segundo Cotrim (1999):

269
A queda de João Goulart significou o fim do período democráti-
co e o início da mais longa ditadura de nossa história. Foram
21 anos sob a dominação dos militares, que colocaram no pod-
er cinco generais-presidentes: Castelo Branco, Costa e Silva,
Médici, Geisel e Figueiredo. Uma página negra na história políti-
ca brasileira, que revela uma sociedade calada pela força das
armas, cassada em seu direito de voto, censurada em todas as
suas manifestações. Um período em que o Brasil teve muitos
de seus filhos torturados e mortos pela violência dos órgãos de
repressão. Em termos econômicos, a ditadura militar adotou
um modelo de desenvolvimento dependente, que subordinava
o país ao interesse, ao capital e à tecnologia estrangeiros. [...].
Ao fim da ditadura, o Brasil estava mergulhado numa das maio-
res crises econômicas e sociais de sua história.

As opiniões sobre esse assunto, no entanto, são controversas, havendo


quem acredite que o Golpe Militar de 64 representou uma vitória para a sociedade
brasileira. O General Meira Mattos é uma dessas pessoas e seus argumentos es-
tão alicerçados exatamente na escolha dos adjetivos, que são utilizados ora para
caracterizar positivamente a ação dos militares, ora para caracterizar negativa-
mente o governo de João Goulart.
No artigo “O 31 de março de 1964”, de Maira Mattos, a axiologização se dá
já no primeiro parágrafo, quando diz “Essa data merece ser lembrada na sua ver-
dadeira significação e na sua real repercussão para a nossa sociedade.” Logo de
início, o articulista garante que a sua versão é que é a verdadeira, ao que podemos
inferir que as outras são falsas, assim como são irreais as consequências do Golpe
para a sociedade brasileira.
Na sequência, outros adjetivos axiológicos “[...] representou um grande alívio
para a enorme maioria do povo brasileiro”. O adjetivo grande modificando o sub-
stantivo alívio, nos dá a impressão de que a sociedade esperava ansiosamente
EPISTHEME

pelo Golpe e o adjetivo enorme informa que a maioria da população aprovou o


movimento de 64. Interessante notar que o artigo diz apenas “enorme maioria”,
não diz “enorme maioria conservadora”.
Sobre o assunto, Toledo (1983) diz o seguinte:

270
A crescente radicalização política do movimento popular e dos
trabalhadores, pressionando o Executivo a romper os limites do
“pacto populista”, levou o conjunto das classes dominantes e
setores das classes médias apoiadas e estimuladas por agên-
cias governamentais norte-americanas e empresas multinacio-
nais – a condenar o governo Goulart. A derrubada do governo
contou com a participação decisiva das Forças Armadas, as
quais, a partir de meados de abril ed 1964 – impuseram ao
país uma nova ordem política institucional com características
crescentemente militarizadas.

O artigo segue dizendo: “Essa maioria, consciente de sua opção por viver
numa sociedade democrática, vinha sendo ameaçada por uma minoria, instalada
no poder, que pregava abertamente a supressão do regime constitucional e a im-
plantação de governo fechado, opressivo, que diziam sindicalista”.
Como o valor é sempre bipolar, há a necessidade de contraposição com um
desvalor, ou seja, elevar algo que é valoroso na visão do enunciador e lembrar algo
que é negativo. A sociedade consciente desejou e apoiou o golpe, porque queria
e ansiava por uma sociedade democrática, contrária a que estava instalada no
governo Jango.
De acordo com Koch (2002) “a seleção dos modificadores avaliativos é feita
de acordo com a orientação argumentativa que se pretende dar ao texto”.
O articulista faz isso muito bem e traz, para o seu texto, outros discursos que
dão sustentação aos seus argumentos: “Toda a grande imprensa do Brasil saudou
a derrubada do governo João Goulart como uma necessidade inarredável para a
sociedade brasileira. Esse manifesto teve o apoio e quatro governadores de Estado:
São Paulo, Guanabara, Mato Grosso e Alagoas”. Aqui seu argumento ganha força,
afinal não foi qualquer imprensa, mas a grande imprensa brasileira que apoiou
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

o movimento. Além disso, quatro governadores de Estado também apoiaram. O


articulista não se contenta apenas em citar, mas reproduz parte do manifesto de
Magalhães Pinto, lançado em 30 de março: “As radicalizações ideológicas, quando
a ideologia inspiradora é incompatível com o que há de mais entranhado no povo
brasileiro, só podem embaraçar ou retardar as reformas democráticas”.
Não só aqui, mas em todo o texto, há um apagamento do significado da pa-
lavra militar, que no trecho acima passa a ser sinônimo de democrático; além do
mais o Golpe passa a ser visto como “necessidade inarredável”, pois na visão do

271
articulista não havia outra forma de o país se livrar da crise do governo Jango, a
não ser por meio do Golpe Militar.
O historiador Piletti (1991) tem uma opinião contrária a essa e afirma que:

[...] o presidente não teve tempo para realizar seu programa. A


conspiração para tira-lo do poder já estava organizada e dela
participaram aqueles que se viam prejudicados pelas refor-
mas: as multinacionais, os latifundiários, os chefes militares,
os grandes empresários, os grandes órgãos de imprensa, os
políticos udenistas como Carlos Lacerda – que era governa-
dor do estado da Guanabara, hoje incorporado ao Rio de Ja-
neiro – e Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais.

Diante disso, concordamos com Reale (2002), quando diz: “Há uma força ex-
pansiva e absorvente nos valores, visto como cada homem, que se dedica a dado
valor, é levado a querer impor aos outros os próprios esquemas de estimativa”.
Mais adiante é introduzida a apreciação do jornalista Fernando Pedreira que,
segundo Meira Mattos, é um

quadro-vivo da conjuntura do movimento político-militar”: O


governo [João Goulart], desmoralizado pela corrupção, desori-
entado pela política contraditória de seu chefe, sujeito à in-
fluência de aventureiros de toda ordem da cúpula comunista
e de grupos de esquerda imaturos e despreparados, acabou
justificando, e até exigindo, uma intervenção militar.

Esse pequeno trecho contribui enormemente com a orientação argumenta-


tiva que vem sendo dada ao texto de Meira Mattos, porque caracteriza negativa-
mente o governo Jango, trazendo à tona a pecha também negativa de comunista e,
colaborando, assim, com o articulista no seu objetivo de persuadir o leitor.
EPISTHEME

E não fica só nisso, a voz do jornalista Alberto Dines também é trazida ao


texto:

Enquanto muita gente festejava a vitória ruidosamente, nós


estávamos saboreando algumas coisas ruins. Estávamos

272
esperando por elas desde os dias terríveis de Goulart. Mas
não tínhamos prática em raciocinar em termos de fins que
justificam os meios. Mesmo que soubéssemos que, se Jango
vencesse, seríamos nós a sofrer algo mais grave do que o ex-
purgo ou a perda dos direitos.

Em sua fala, o jornalista Alberto Dines chega a admitir algumas coisas ruins,
sem citá-las evidentemente, mas justifica lembrando os dias terríveis de Goulart e
garante que com elas as coisas seriam bem piores.
E para reforçar ainda mais, introduz o close-up do jornalista Carlos Castelo
Branco: “[...] uma ação militar revolucionária baseada no levante de pelo menos
três governadores”. A valoração nesse trecho se dá não apenas pela presença
dos adjetivos, mas pela presença do substantivo “ação” em substituição à palavra
golpe. Trata-se de uma ação apoiada pelos governadores de Estado.
Carlos de Meira Mattos, no penúltimo parágrafo de seu texto, reforça a idéia
de que seu objetivo é tão somente “reconduzir a vitória do movimento de 31 de
março à sua verdadeira significação. A derrubada do governo João Goulart não foi
um golpe militar, como hoje insistem em tachar e propagar certos setores políticos
e da imprensa”.
Segundo Meira Mattos, “O 31 de março” foi “o marco que coroou a resposta
da grande maioria dos brasileiros, apoiada pelas Forças Armadas, ante as amea-
ças e as tentativas de implantação de um regime político incompatível com a nossa
vocação de viver numa sociedade livre e democrática”.
Como se pode notar, o texto segue, coerentemente, uma orientação argu-
mentativa no sentido de exaltar a chamada “Ação militar” e desqualificar o governo
de João Goulart, na tentativa de convencer o leitor de que o que se costuma ouvir
ou ler a respeito do Golpe e de sua repercussão e consequências na vida do país
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

não é verdadeiro e sim o que nos é relatado por meio do artigo em discussão.
O articulista trabalha positivamente aquilo que para ele é valoroso, con-
trapondo sempre com o que lhe é negativo, sem valor. Para isso, ele procura apoio
em outras opiniões, além de partilhar seus critérios de valor com a sociedade
brasileira, que foi, segundo ele, que desejou e exigiu o Golpe Militar.
De acordo com Perelman & Titeca (2002), “[...] nos campos jurídico, político,
filosófico os valores intervêm como base de argumentação ao longo de todo o de-

273
senvolvimento. Recorre-se a eles para motivar o ouvinte a fazer certas escolhas em
vez de outras e, sobretudo, para justificar estas, de modo que se tornem aceitáveis
e aprovadas por outrem”.
E é exatamente isso que o artigo busca: fazer com que o leitor escolha a
versão que ora lhe é apresentada e negue o que a história conta.
Embora bem argumentado, inclusive com a contribuição de outros textos, o
discurso de Carlos de Meira Mattos não consegue se inscrever no que Foucault
(1970) chama de “verdadeiro da época”, porque é consenso entre o povo brasileiro
que a Ditadura Militar representou um pesadelo na vida do país.
Na visão de Guimarães (sd), “avaliar implica entender que algo/alguém é
bom ou mau: para tanto, é necessário que haja uma crença, o que pressupõe
normas e valores, a fim de se obter, como resultado um juízo de valor a respeito
de algo/alguém”.
Nesse sentido, podemos afirmar que o articulista faz questão de marcar
posição, não se preocupando nem em manter uma pseudoneutralidade. Pelo con-
trário, logo no primeiro parágrafo faz questão de tomar para si a responsabilidade
de apresentar o que existe de verdadeiro sobre a história do Golpe de 64. A preo-
cupação do artigo é reunir o maior número de argumentos possíveis, com o intuito
de convencer o leitor de que a versão aqui veiculada é a real, a verdadeira. Mais
do que isso, levar o leitor a uma mudança de atitude, afinal o que houve foi uma
“Ação” que representou a vontade da “grande maioria da sociedade brasileira”.
Tudo isso no intuito de não apenas convencer, mas também persuadir o leitor
para uma mudança de opinião acerca do Golpe, porque de acordo com Abreu (
2002)

Convencer é construir no campo das idéias, quando convenc-


emos alguém, esse alguém passa a pensar como nós. Per-
suadir é construir no terreno das emoções, é sensibilizar o
outro a agir. Quando persuadimos alguém, esse alguém re-
EPISTHEME

aliza algo que desejamos que ele realize.

Aqui, o que se espera do leitor é que ele reveja seus valores e perceba que a
ação dos militares apenas se deu, porque era uma “necessidade” criada pela falên-
cia do governo de João Goulart. Observe que Meira Mattos garante que seu discurso

274
é que é o verdadeiro, o real e por isso mesmo nem se preocupa em convidar o leitor
para conhecer melhor o que a história traz sobre o acontecimento de 64.
Sua postura durante todo o seu discurso é marcada pela utilização dos adje-
tivos avaliativos. No entanto, queremos lembrar que os modificadores axiológicos
são recursos argumentativos que procuram conduzir o discurso na direção que o
enunciador quiser; isso não significa que o que ele quer seja a verdade, ou que os
ideais que persegue sejam verdadeiramente valorosos.

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DOSSIÊ EDUCAÇÃO

275
English Language as lingua franca
and its Implications to Language
Education

Nalini Iara Leite Arruda1

RESUMO: Este artigo objetiva discutir os diversos papeis da língua inglesa no mundo
contemporâneo, bem como seu status de lingua franca, e a importância de uma aprendizagem
crítica dessa língua, visto que uma grande parte dos discursos e transformações sociais,
culturais, ecológicas e tecnológicas são construídos em língua inglesa. Assim, a partir de um
panorama histórico das perspectivas psicológicas e linguísticas educacionais e abordagens
metodológicas utilizadas ao longo ha história no ensino de língua estrangeira e, em especial
da língua inglesa, proponho que a atividade de ensino-aprendizagem de língua inglesa
tenha como objeto uma apropriação crítica e responsiva da língua (Lessa, Liberali & Fidalgo
2005); e como instrumento diversos gêneros textuais em consonância com os três tipos
de conhecimento propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais: conhecimento de
mundo, conhecimento sistêmico e conhecimento da organização textual. Esses conceitos
implicam numa compreensão da linguagem como uma ferramenta de ensino-aprendizagem
para a construção de sentidos e significados sobre valores morais e éticos de diversos povos
e culturas. A visão de ensino-aprendizagem adotada neste estudo é consonante com a
perspectiva vygotskyana. Esta proposta delineia possibilidades de engajamento discursivo de
estudantes e de participação destes bem como de professores na construção dos discursos
em língua inglesa veiculados em nível internacional nas diversas mídias disponíveis, em
especial na Internet, já que esta possibilita um acesso intercultural mais rápido e eficaz,
através dos blogues, redes sociais e agências de notícias. Consequentemente, pretende-se
com esta discussão ilustrar e inspirar a formação de alunos numa perspectiva de cidadania
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
planetária (Gimenez, 2001).

1
Professora de língua inglesa da Universidade Federal de Viçosa – Campus de Rio Paranaíba. Mestre
em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP.

277
1 Educational concerns of English as lin-
gua franca
What is the role of the English Language (EL) in our current global context?
English is everywhere: on our t-shirts, computers, the songs we listen to, the movies
we watch, the name of the restaurant we eat everyday. In Brazil, instead of the com-
mon “promoção” usually written on shops windows, the English word “sale” on big
letters is becoming more and more used. Instead of “novo visual”, we hear people
saying “novo look“; “noite” is replaced by “night”, and there is a widespread use
of the term “forever” in social networks. Besides those, there are all the technolo-
gical terms and devices being added to our daily lives. The purpose of this paper,
though, is not to criticize the English terms that are entering Brazilian Portuguese,
given that English is not the only language that has influenced Brazilian Portuguese
and Brazilian Portuguese is not the only language that has been influenced by the
English language. This paper aims at promoting a discussion about the English
language role in our contemporary society and its implications to English language
learning and teaching.
It’s common sense that the English language has a crucial role in our planet.
Its status of lingua franca makes it reach different cultures and peoples. EL is the
medium through which several ideas, principles and beliefs are transmitted; global
political decisions are made in English, decisions that affect us locally.
Moita-Lopes (2003), states that languages have a fundamental importance
in our contemporary world, as through words and signs it is possible to signify it,
represent it, transform it and re-signify it. The cultural, economical, social, ecologi-
cal, technological transformations in current society are created through discourse
and, therefore, the linguistic education is essential for people to critically unders-
tand those transformation, participate on them and on the creation of new social
changes.
Discourses and beliefs, especially those produced in EL, are conveyed throu-
EPISTHEME

gh several media, which communicate globally and instantaneously. The universe


of the internet, for instance, or the cable television, magazines, newspapers and
other media - as suggests Moita-Lopes (2003) - try to transmit a global absolute voi-
ce, produced by the hegemonic economies in the world who attempt to standardize
the particular interests of one nation (or its corporations) to the world.

278
Although the Internet has a great plurality of voices, the main websites, news
agencies online and also other kind of media such as the television still convey
these “hegemonic discourses” (MOITA-LOPES, 2003), which dictate behaviors, ide-
ologies, thoughts, musical trends and others. These, in turn, address topics such as
sexual orientation, family organization, and violence, among other subjects.
That means that when the English teacher brings texts into their classroom,
he or she has to be aware of these global beliefs that their students are interacting
with. This teacher is in a crucial role regarding how new English readers, speakers
and participants in a global community can understand the world, their own coun-
try and lives. As Moita-Lopes (2003) stresses it, these students who have the ability
to critically understand the hegemonic discourses, can produce different voices
that should be committed to create a world that is more just and prosperous for all.
In addition to critically understand and participate in global discourses, lear-
ning other languages - and specially the English language – expands the possibility
of social ascension. The cultural and plurilinguistic expansion make the students
better professionals to enter the jobs market. And that person might be not only in
a better social condition, but also he or she can look at the global transformations,
understand them, be heard in social networks, talk about his or herself and partici-
pate in global changes. A linguistically articulated professional has better chances
of not only ascending socially, but also to play a part, understand and communicate
in different spheres of the local and global lives. The critical understanding and use
of language can achieve this, by knowing who uses which linguistic resources in EL,
for what purpose, why and how they are used.
This scenery demonstrates that the discourses produced in EL influence pri-
mary aspects of our current lives, generating social, economical, cultural and tech-
nological changes in the world, which also affect those who live in a local thought
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
and understanding, because these discourses can penetrate these local environ-
ments through the mass media and through the dominance of the upper class
people who have multiple semiotic abilities, such as the computer literacy.
Although the expansion of the EL worldwide brings different cultures closer
and produces a more plural world, this status of lingua franca given to EL – as
stated by Gimenez (2001) - may also depict it as a commodity. A cultural prestige is
related to being able to speak English; one can have a better salary after an English
course, so why not sell it?

279
The number of language schools in Brazil have grown significantly in the last
decades, illustrating both importance of the EL to people’s lives and its value as
a commodity. Regarding that market value of the EL, Lessa, Liberali and Fidalgo
(2005), highlight that this commodity role given to EL can accentuate social diffe-
rences, making English learning less accessible to underprivileged people. As EL is
a subject in all public schools in Brazil, the authors emphasize the citizen education
of teachers and students, aiming at a more equal society.
As the authors stress it, English teacher education should be guided by four
concepts: language as a social practice; local knowledge; world knowledge; the
questioning of EL teaching and learning beliefs regarding who benefits from this
practice.
But what does it mean to have a citizen education in the English class?
Language learning, in general, is commonly linked to the leaning of the cultu-
re of the target language. But from which country? If English is the lingua franca of
our planet, that is, the language used to communicate between nations, can it be
identified to only one or two countries? As Gimenez (2001) elucidates it, English is
getting a more “international” quality rather a “foreign” quality.
The author emphasizes that teaching North American culture or British cultu-
re makes no sense given that English does not belong to one specific country, but
to the planet. Culture teaching in the language classroom is more meaningful if the
British, or North American, Australian, South African, or others were discussed in
the classroom as a means of recognizing the diversity among peoples. In this way,
the citizenship to be emphasized in language education is a “planetary citizenship”
(Oliveira & Tandon, 1994 apud Gimenez, 2001).
“Planetary citizenship”, thus, implies a possibility of disclosing oneself to other
peoples and their values conveyed in movies, songs, newspaper articles, papers, e-
-mails and other texts. A disclosure that is unbiased and understanding of different
principles and beliefs, which allows us to re-signify our own culture and society.
Therefore, educating planetary citizens implies a language view within this
EPISTHEME

same discoursive context or, in other words, within this need to understand it as a
language which is alive and filled with different values. In the classroom then, the
teaching-leaning activity can be guided to a dialogue between teachers, students
and texts rather then limiting this activity to exclusively memorizing a list of words or
isolated grammar rules. This memorization of isolated structures has been a typical

280
practice for years in the English classroom of Brazilian regular schools and it illustra-
tes an unrealistic linearity applied to language and to the teaching-learning process
itself. If language is alive and dynamic, students need more than isolated words or
grammar rules to learn it. The learning itself, in accordance with a vygotskian view
of education, is only meaningful if the students can relate that scientific concepts
to their spontaneous concepts. The students then develop a conscious awareness
and voluntary nature in their own leaning and daily lives (VYGOTSKY, 1930/1987).
In consonance with Vygotsky, Newman & Holzman (2002) state that learning
should not be this strict linear process, in which the teacher provides the tools
(memorizing isolated vocabulary items) to achieve a goal (learn English). It should
rather be a tool-and-result activity in which the learning simultaneously occur with
the language production.
This concept converges with the dialogic nature of language put forth by
Bakhtin (1997). Within this framework, language is learnt through contextualized
social interaction. It happens within a specific context, is spoken/written from a
point of view to an addressee and is filled with ideological content.
Each word, sentence, text which is uttered embodies a responsive understan-
ding, and therefore, from each text used in the classroom, the students can articu-
late their particular view of the subject with the dialogic nature that the classroom
setting should have.
As an example of how this can happen in the classroom, Charlariello (2005)
illustrates how the theme violence can be introduced in the EL classroom through
the reading and writing of journalistic texts.
But why this perspective hasn’t been used in the schooling practices? As
stated before, the interest to leaning EL has grown exponentially and many me-
thodologies have been used and developed to learn English more efficiently. Have
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
schools and languages institutes used methodologies that have that dialogic view
of language? What approaches to EL teaching-leaning have been used throughout
history and which can still be seen in our classrooms?

281
2 An overview of educational approaches
and language teaching methodologies
The teaching-learning perspectives and methodologies that have emerged in
the languages teaching practices commonly derive from psychological and linguis-
tic theories. The major influences came from the behaviorist theories, cognitivists
and sociointeractionists. The latter fundaments the Brazilian National Curricullum
Parameters (PCNs)2
Although some of these approaches have not touched upon global and social
matters as discussed in this paper, these perspectives have contributed greatly to
the development of more efficient language learning methods. All these approa-
ches, thus, have, in some way, facilitated the language learning.
One of the main principles of the audiolingual method, for instance, widely
used in the United States in the 50s and 60s, is the conditioning and habit forma-
tion models of learning put forward by behaviouristic psychologists. The mimicry
and memorization of the phrases and teaching of structural patters by means of
repetitive drills emphasizes the teacher’s role as the one that enables the creation
of habits in their passive students.
Within this perspective, the second language teaching is usually organized in
an interaction structure known as IRA – Iniciation-Response-Assesment (Sinclair &
Coulthard, 1975). The teacher starts the structure to be repeated, the students give
the response and finally the teacher assesses the student’s production by giving a
positive reinforcement (very good!) or a negative reinforcement (Incorrect – in a low
and heavy tone). Therefore, the errors and mistakes should be highly avoided and
immediately corrected, so that unwanted habits are not developed.
This methodology has proven to be very effective for improving pronunciation
in the target language and is still quite popular in Brazilian schools.
Differently from this habit formation approach, the Piaget cognitive viewpoint
of education turns the focus to the students and the strategies they use in their
learning. The human mind, in this framework, is seen as cognitive apt to language
EPISTHEME

learning. This means that when the student is exposed to a new language, they au-
tomatically compare it to their mother tongue and formulate hypothesis about how
this new language works. The error and mistakes then are considered as part of the

2
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs).

282
leaning-teaching process, because it is seen as constituent of the middle language,
or the interlanguage.
The interlanguage is a term coined by Selinker (1972), which refers to the
language that fluctuates between the mother tongue and the target language. It is
in constant development and is based upon the best attempt of learners to provide
order and structure to what they are being exposed.
As a result, the learners elaborate strategies to learn the target language, ac-
cording to their own leaning style, which should be respected by the teachers. The
student’s role, thus, is not merely a passive one, but is more responsible to their
own learning process.
Another theoretical framework to the teaching-learning activity that also hi-
ghlights the students’ role in the classroom is the socio-interactionist perspective. It
goes, though, beyond the students’ individual position in their leaning process and
calls the attention to the teacher-student interaction and also the student-student
interaction in the classroom. Also called socio-cultural theory, it considers learning
and teaching as one integrated activity. That means that there is no leaning without
teaching and no teaching without learning. Therefore, they are not isolated activi-
ties, but learning and teaching occur simultaneously. That explains the use of the
term “teaching-learning”, as it is considered as one activity.
This viewpoint has its origins within the vygotskian theory that understands le-
aning as a way of interacting with people in the world. In fact, there is no word for
“leaning” or for “teaching” in the author’s language, but Vygotsky often uses the term
obuchenie in Russian (CLARK, 2001), that has both meanings in the same word.
Consequently, teachers and students both teach and learn within this pers-
pective of education. Students help their colleagues to learn and teachers also re-
-signify what they are teaching. This activity is then highly interactionist and social.
According to Vygotsky, higher mental functions originate from social activi-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
ties. As he states it, “the social dimension of consciousness is primary in time
and fact. The individual dimension of consciousness is derivative an secondary”3
(VYGOTSKY, 1979, p.30). That means that the child’s development emerges firstly
in the social level and secondly in the psychological level. Hence, the social rela-
tions within the teaching-learning process require a special attention, as they also
delineate the higher mental functions of the children.

3
In Portuguese: “a dimensão social da consciência é primária em tempo e fato. A dimensão individual
da consciência é derivativa e secundária”. My translation.

283
This interaction among teachers and students is more deeply discussed in
the Zone of Proximal Development (ZPD) concept. When Vygotsky (1930/2003)
discussed the relation between development and learning, he contrasted two levels
of development: the level of real development and the level of potential develop-
ment. The first level is defined by the mental functions that the child has already
developed, which can be distinguished by the problems that they can solve without
any assistance. The latter level can be identified by the problems that the child can
solve with assistance from the teacher or from a more experienced peer. The ZPD
can be defined by the real development and the potential development. This con-
cept has been widely studied, discussed, interpreted and widened in researches on
this area (LAVE & WENGER, 1991).
What is important to underline in this paper, though, is Daniels (2001/2003)
notice of possible narrow understanding of the term “social”. What is interacting
with the students? Who is this experienced peer? It can be a colleague, but it can
also be a book, a movie, a song; that is, the entire multiple cultural and historical
discourses that the learner approaches and contrasts with their personal unders-
tandings.
This touches what has already been discussed here: the role of English Lan-
guage in current global society and, consequently, the English teacher. As Gee elu-
cidated 25 years ago, “Like it or not, English teachers stand at the very heart of the
most crucial educational, cultural and political issues of our time” (GEE, 1986:743).
The following table sums up the educational approaches and methodologies
commonly implemented in language teaching discussed in this section:
EPISTHEME

284
Table 1.1 Educational approaches and methodologies in second language acquisition4
Time frame Educational approaches Typical themes and methodologies
Early 1900s & 1940s Structuralism and Description
&1950s Behaviorism Observable performance
Scientific method
Empiricism
Surface structure
Habit formation
Drilling
Conditioning, reinforcement
1960s & 1970s Rationalism & Cognitive Generative linguistics
Psychology Acquisition, innateness
Interlanguage systematicity
Universal grammar
Competence
Deep strucure
Students’active role
1980s , 1990 & 2000s Constructivism & Socio- Interactive discourse
Cultural Theories Sociocultural variables
Cooperative group learning
Interlanguage variability
Interacionist hypothesis
Planetary citizenship

3 Brazilian contexts: Policies and


possibilities
How this broad language education and specially the English language can be
put into practice in the Brazilian context? Do our policies foster its implementation?
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

The main documents that regulate our National Education are the Law of
Directives and Bases (LDB)5 and the National Curricular Parameters (PCNs). The
latter though does not share the same law status as the first, but it does give im-
portant guidelines to early schooling.
As a social right, the LDB (as well as the Universal Declaration of Linguistic

4
Based on Brown (2000:12).
5
Law number 9.394, December 20th 1996.

285
Rights) assures on the Article 24, item IV and Article 26 fifth paragraph that all citi-
zens should have the right to lean a foreign language.
Hence, within the legal scope the access to cultural assets - that the learning
of a foreign language offers - is guaranteed. On the other hand, it has an under-
privileged position in the curriculum, as it placed in the “diversity section”. As the
document doesn’t specify which are the subjects and objectives of this “diversity
section” of the curriculum, the role of foreign languages is extremely vague and
consequently doesn’t share the same importance as the other subjects have on
the learner’s education. Consequently, according to this law, the Brazilian students
are not seen as planetary citizens and it fails to address the importance of EL in
our current global context.
The National Curricular Parameters, though, bring in some light to this discus-
sion when it defines citizenship as a

social and political participation, as well as execution of the


citizens political, civil and social rights and duties; adopting,
daily, behaviors of solidarity, cooperation and rejection to in-
justices, respecting others and demanding to his or herself
the same respect” (PCN: LE, 1998:7).

Within these parameters, the schools should foster the development of criti-
cal thinking in children, men and women. In other words, students should have a
critical language awareness that relate to the sociopolitical role of the EL (PCN: LE,
1998:24). That means that learners should engage in developing their own senses
and meanings in English, they should learn about their own culture and language
when they start being exposed to EL and respond the demands of the current glo-
bal societies.
As a suggestion on how learners can develop this discoursive awareness, the
PCNs recommend three types of knowledge to be considered and applied in the
EPISTHEME

classroom: the world knowledge, the systemic knowledge and the text organization
knowledge.
The world knowledge refers to the knowledge that the learners bring into the
classroom. Therefore, the teachers should include the students’ own knowledge
about the target subject into their class dynamics. This knowledge can be about

286
a theme, a subject or an experience, or even the mother’s tongue structures, as a
means to facilitate the foreign language learning.
The systemic knowledge addresses the structural aspects of the languages;
such as the lexical, semantic, morphological, syntactic and phonological aspects.
This systemic knowledge gives tools for the students to make appropriate gramma-
tical choices (PCN:LE, 1998:29) in their language experiences.
The text organization knowledge refers to how the information is best organi-
zed within oral and written texts. An organization that the audience can clearly un-
derstand the meaning conveyed through the texts. This text organization is recogni-
zed socially and culturally by a specific practice community. This idea is linked with
the text genre concept emerged from the bakhtinian framework. Genres are types
of texts that have a specific socially recognized communicative function. They have
a typical grammatical and word mapping structure that is commonly produced and
accepted by a particular community. To recognize a genre of a certain text means to
know its layout, that is, to know its specific characteristics, which distinguish it from
other genres. For example, the sentence “Once upon a time…” instantaneously
relates to a Fairy Tale; a recipe has a list of ingredients and describes the proce-
dures; an abstract presents the objectives of a research, its methodology, results
and conclusions. The familiarity with text genres allows the learners to read more
efficiently, because one can locate information more rapidly.
As mentioned before, Charlariello (2005) describes the use of journalistic
texts to address the theme violence in the EL classroom. The author describes a
lesson where the three types of knowledge are addressed. This research brings
forward important discussion to this area of study, because it investigated how the
PCNs proposal can be implemented in the classroom, its difficulties and challenges
in the Brazilian educational context and its accomplishments.
DOSSIÊ EDUCAÇÃO
The PCNs, therefore, provide the teacher with some tools but their work en-
vironment is so complex that fills them with overwhelming challenges. As Wertsch
(1998:56) emphasizes, the new cultural tools presented to teachers are not instanta-
neously acquired by teachers, as they might even go through some rejection periods:

On the one hand, agents must appropriate words of others


whenever they wish to speak (…). On the other hand, agents
have in their power a range of possibilities for how these wor-

287
ds will be appropriated, a range extending from actively em-
bracing to strongly resisting them.

The resistance or acceptance of new cultural tools depend on the possibility


the agents (or teachers) have to face the risk of innovation. Celani (2004:48) citing
Bohn points out that “The innovation comes from the risk and takes to the risk, the-
refore it surprises and bothers, as it is instable and uncertain. In turn, it develops a
new knowledge, because it is moving and not concluded”6.
Therefore, according to Celani, facing this risk of innovation means engaging
oneself in a process of learning and development. Yet, the new, risky and uncertain
is not always welcome in Brazilian public schools, given the harsh work conditions
the teachers face.
As Wertsch (1998) points out, the sociocultural context of the teachers de-
mands the achievement of several objectives. The challenges this context imposes
to the teacher makes them have several simultaneous goals in one class. “ideal”
classes with an “ideal” objectives are constantly challenged by their context.
Lessa, Liberali & Fidalgo (2005:2) describe their participant’s workplace as
deprived from continuous education opportunities, no infrastructure and appro-
priate classroom materials, where “most teachers are required to work long hours,
in two or three schools, in order to make ends meet – which leaves the little if any
time to pursue professional development enterprises”.
Within this situation, the teachers who try to organize their work and personal
schedules to attend continuous education courses deprive themselves from free
time activities with their families. Consequently, they hardly manage to appropriate
the new theories into their practices, due to this harsh work routine.
Some studies, already investigate the teachers burnout. They describe how
some teachers get physically and psychologically ill in these inadequate work con-
ditions (ESTEVE, 1999; CARVALHO, 2003).
Due to these reasons, there is a huge gap between practice and theory. Ma-
galhães (2004:62) stresses that the relation between theory and practice can fall
EPISTHEME

into to extremities:
(…) can fall, on one hand, on a practicism in which theory oc-

6
In Portuguese: “A inovação vem do risco e leva ao risco, portanto, surpreende e incomoda, por
mover-se na instabilidade e na incerteza. Em contrapartida, constrói um saber novo, porque está
em movimento e não está concluído”.

288
cupies a secondary place, or no place at all, in the construc-
tion and analysis of practices or, on the other hand, falls on
the excessive focus on the transmission of theories isolated
from the practices.

This relation, however, can also happen without falling into those extremes,
but in a tension between these two radical spots. Coracini (1998:48) highlights that

The teacher might have theoretically assimilated the princi-


ples of a specific methodology and, in their practices, proce-
ed according to their own experiences or beliefs, even though
unconsciously; or even, and that seems to be the most nor-
mal, proceed according to a mixture of theoretical fragments,
rescued here and there (and not complete and coherent the-
ories) that reached them through readings or continuous edu-
cation courses and modify themselves when these fragments
inevitably cross about each other and the teachers beliefs and
daily experiences that depict their practices.7

The relation between theory and practice, therefore, happens in a non-linear,


disorganized and uncontrolled way. The teacher relies on ideal practices described
by theoretical discussions that, usually, have no connection to their students needs
and have little possibilities to practically implement them.

4 Conclusion
The emphasis on the understanding the English Language role in current glo-
DOSSIÊ EDUCAÇÃO

bal society and the highlight of the English teacher crucial position in education,
is an attempt to hopefully stimulate educators to overcome their challenges and
develop innovative strategies and practices in their classrooms.

7
In Portuguese: “O(a) professor(a) pode ter assimilado teoricamente os princípios de determinada
metodologia e, na prática, proceder segundo sua experiência ou suas crenças, ainda que incons-
cientemente; ou ainda, e é o que parece ser mais normal, proceder de acordo com uma mistura de
fragmentos teóricos resgatados aqui e lá (e não teorias completas e coerentes) que lhes chegam
através de leituras ou de cursos de formação continuada e se modificam ao se cruzarem, inevitavel-
mente, entre si e con as crenças e experiências cotidianas que caracterizam sua prática”.

289
Teaching practices are, as described in this paper, filled with surprises, risks,
uncertainties, possibilities, achievements, incoherencies, contradictions, hopes
and rewards that run through these practices everyday and make this profession
one of the most fascinating life purposes.
This paper, thus, gives an overview of the EL importance, possible methodolo-
gies and awareness of policies and, if possible, inspires and unites with converging
voices that address the same challenges and issues.

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DOSSIÊ EDUCAÇÃO

291
DOSSIÊ SAÚDE
Os Riscos e Acidentes Sofridos
Pelos Coletores de Resíduos Sólidos
do Município de Patos de Minas/MG
Enquanto Desafios Para Promoção
de Saúde

Luciana de Araujo Mendes Silva∗


Monica de Andrade Morraye∗*

RESUMO
A promoção da saúde propõe-se, como campo conceitual e de prática, a estabelecer relações
entre saúde e desenvolvimento humano sustentável, incluindo as condições de saúde no
trabalho. Entre as categorias trabalhistas, a de coletores de resíduos sólidos urbanos é
tida, de acordo com a legislação, como uma das de maior insalubridade. Neste estudo
descritivo, foi feita a caracterização das condições de trabalho e de saúde dos coletores
de resíduos sólidos urbanos, em Patos de Minas/MG. Foram aplicadas entrevistas semi-
estruturadas a todos os coletores e aos gestores do município, com objetivo de subsidiar
ações de promoção de saúde. Os resultados obtidos demonstram que a equipe responsável
pela coleta de resíduos é constituída por 27 trabalhadores e o gerenciamento municipal é
realizado por três profissionais. A coleta de resíduos é realizada por um consórcio de duas
empresas, SEMOP/LIMPEBRAS, que operam no município desde agosto de 2004. Os riscos
no trabalho citados incluem acidentes de trânsito, cortes e perfurações e os acidentes
ocorridos mais citados foram cortes e perfurações (60), acidentes com veículo coletor

*
Mestre em Promoção de Saúde pela Universidade de Franca (UNIFRAN). Especialista em Didática
DOSSIÊ SAÚDE

e Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC) e em Histologia


Humana pelas Faculdades Integradas de Patrocínio (FIP) e Graduada em Biologia pela mesma ins-
tituição. Professora de Graduação, Pós-graduação e membro do núcleo de incentivo a pesquisa da
FCC e Faculdade Patos de Minas (FPM). Professora do Seminário Maior Dom José André Coimbra.
laraujo3@yahoo.com.br
**
Doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em
Ecologia e Recursos Naturais pela mesma instituição. Especialização em Training Course - Paleolim-
nology - University Of Ghent. Graduação em Licenciatura e Bacharelado Em Ciências Biológicas pela
Universidade Federal de São Carlos. Docente e coordenadora do Programa de Pós-graduação em
Promoção de Saúde da UNIFRAN.

295
(14), atingindo especialmente os membros superiores. Os coletores não possuem Plano de
Saúde. Os gestores têm procurado realizar melhorias no depósito de resíduos, no entanto,
não há projetos de reciclagem ou de educação ambiental em andamento. Além do mais, nas
condições atuais, os coletores de resíduos estão sob sério risco de acidentes de trabalho.
Palavras-chave: Coletores de resíduos. Riscos. Acidentes. Promoção de saúde.

1 INTRODUÇÃO

As diferentes concepções de saúde e doença estão relacionadas às formas


pelas quais o homem apropria-se dos recursos naturais e transforma-os para o
atendimento de suas necessidades (CAVALCANTE et al., 2008). O conceito de saú-
de foi alterado ao longo da história da humanidade tentando acompanhar tanto o
desenvolvimento humano como também o surgimento de doenças.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1948, define saúde como “...
estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de
doença”. Entretanto, esse conceito que considera os fatores biopsicossociais vem
sendo discutido. Segundo Nogueira (2005) essa reavaliação surge em especial
pela existência de fatores ambientais que vão além dos princípios sociais do referi-
do conceito de saúde e que tem interferência no surgimento de doenças.
Melo (2005) afirma entender a saúde pela totalidade dos direitos sociais que
o indivíduo possui, abrangendo não apenas ações de promoção, prevenção, rea-
bilitação e recuperação da saúde como também condições gerais relacionadas à
vida e ao trabalho incluindo as referentes, por exemplo, ao ambiente e às emo-
ções, pois esses, dentre outros fatores, em sua percepção são indispensáveis para
o prosseguimento da vida com o mínimo de satisfação necessária.
No Relatório da 8ª Conferência Nacional e Saúde (CNS) que ocorreu em 1986,
enfatizou-se a saúde como resultado de várias condições, incluindo alimentação,
habitação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade,
EPISTHEME

acesso a posse de terra e serviços de saúde, considerando-se que as formas de


organização social da produção podem gerar desigualdades dos níveis de vida.
O relatório afirmou que o direito à saúde é exercido entre outros aspectos com a
garantia de trabalho em condições dignas onde os trabalhadores teriam conheci-
mento e controle sobre os processos de trabalho (BRASIL, 1986).

296
Diversas são as discussões e reflexões sobre o tema saúde e sobre sua pro-
moção. Desde o início do século XX, o termo promoção de saúde vem sendo muito
discutido considerando-se sua relação com a qualidade de vida dos indivíduos
discutindo-se e defendendo-se a idéia de que boas condições de vida e de traba-
lho, educação, formas de lazer e repouso contribuem decisivamente para a saúde
saindo do enfoque no indivíduo e associando-se medidas preventivas relacionadas
ao ambiente físico e estilos de vida (CAVALCANTE et al., 2008). Contini (2000) tam-
bém admite que os diversos fatores relacionados ao modo de vida atuam de forma
direta na saúde dos indivíduos, citando dentre outros moradia, lazer educação e
trabalho e afirma que o equilíbrio de tais fatores irá formar o grande mosaico da
saúde humana.
Em novembro de 1986 aconteceu a 1ª Conferência Internacional de Promo-
ção de Saúde, realizada no Canadá, onde foi elaborada a Carta de Otawa que
amplia os conceitos de Promoção de Saúde incluindo os aspectos sociais, econô-
micos, políticos e culturais como responsáveis pelas condições de vida e saúde
dos indivíduos e afirmando que a promoção da saúde não é responsabilidade
exclusiva do setor saúde (CARTA DE OTAWA, 1986).
Ainda de acordo com a Carta de Otawa, o lazer e o trabalho são componentes
indispensáveis para a manutenção da saúde das pessoas e, portanto, as formas de
organização desse trabalho podem ou não contribuir com a promoção da saúde dos
indivíduos. É imprescindível oferecer estímulo e segurança aos trabalhadores na re-
alização de suas funções, como também acompanhar adequadamente as inovações
tecnológicas, o trabalho, a produção e uso de bens e sua influência direta no meio
ambiente, pois através das alterações nas condições de trabalho podem surgir refle-
xos sobre a saúde dos trabalhadores e da população como um todo.
Robazzi et al. (1993) afirmam que as relações existentes entre saúde e traba-
DOSSIÊ SAÚDE

lho no Brasil são discutidas ainda de forma pouco produtiva, pois muitos trabalha-
dores são de baixa renda, desqualificados, muitas vezes não conhecem seus direi-
tos e submetem-se a uma série de situações ocupacionais que são inoportunas,
inadequadas, indignas e muitas vezes suas condições de trabalho são insalubres
o que lhes pode ocasionar acidentes de trabalho (AT).
Heloani e Lancman (2004) afirma que entender as organizações do trabalho

297
e seus reflexos na qualidade de vida, na saúde e no modo de adoecimento dos tra-
balhadores é de fundamental importância na compreensão e na intervenção em
situações de trabalho que estejam gerando sofrimento e agravos à saúde. Essas
organizações e os sistemas de produção que as influenciam, a combinação deles,
as brechas e fragilidades desses sistemas adaptam modelos organizacionais e
tecnológicos, muitas vezes de forma incompleta, provisória e cumulativa.
De acordo com Brant e Mello (2001), a utilização dos conceitos de Promo-
ção de saúde no trabalho, pode ser uma política capaz de dar respostas a várias
questões, a partir da conjunção a ser criada, entre Epidemiologia e Saúde Pública,
estabelecendo-se as relações mútuas entre o trabalhador e o meio em que se
encontra.
Ao se tratar da saúde do trabalhador e sua promoção deve-se considerar que
cada ocupação possui características que lhe são peculiares oferecendo riscos e
condições diferentes. O anexo 14 da NR 15 considera trabalho ou operações, em
contato permanente com lixo urbano (coleta e industrialização) como uma ativida-
de de insalubridade máxima (BRASIL, 1997).
Os trabalhadores envolvidos na coleta, transporte e destinação final dos resí-
duos sólidos são, sem dúvida, aqueles que podem ser afetados de maneira direta,
pois estão sujeitos tanto os acidentes de trabalho, como à contaminação devido à
manipulação constante dos resíduos de naturezas diversas.
A legislação do trabalho, ao considerar o serviço de coleta de lixo como de
insalubridade máxima prevê que as empresas ofereçam aos seus trabalhadores,
assistência médica integral e ao mesmo tempo orientações sobre os riscos presen-
tes no ambiente de trabalho (Manuais de Legislação, 1991).
Diante do exposto e por saber que o trabalho é uma necessidade imprescin-
dível e uma parte importante da vida é vivida nele pode-se afirmar que o local de
trabalho deve ser um ambiente saudável para manutenção da saúde do trabalha-
EPISTHEME

dor. É importante que se conheça as condições de vida e de trabalho, pois esse é


considerado um gerador de recursos para o bem-estar das pessoas assim como
um meio de inserção social. Cuidar da saúde dos coletores é também cuidar da
saúde do município como um todo, o que nos remete a proposta da criação de
municípios saudáveis. Righetti (2004) a esse respeito, enfatiza que de acordo com

298
a OMS um município so será considerado saudável se buscar melhorias continuas
em seu ambiente físico e social utilizando todos os recursos humanos e materiais
da comunidade.
Nesse sentido, esse estudo traz a reflexão sobre as consequências do geren-
ciamento dos resíduos sólidos da coleta urbana de Patos de Minas (MG) apresen-
tando os riscos e acidentes sofridos pelos coletores de resíduos enquanto desafios
para a manutenção saúde dessa categoria de profissionais fornecendo subsídios
para a melhoria das condições de trabalho com a finalidade de minimizar os im-
pactos causados.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Univer-


sidade de Franca (67/2007) foi realizado no município de Patos de Minas (MG) que
possui um aterro sanitário em fase de obras/implantação e a coleta de resíduos re-
alizada pela empresa consorciada SEMOP/LIMPEBRÁS desde 2004. Participaram
da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE), através de respostas a uma entrevista semi-estruturada os 27 coletores de
resíduos que realizavam a coleta de resíduos no município, o gerente da empresa
e um representante da administração municipal, sendo os dados coletados e ana-
lisados em 2007/2008.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Riscos e acidentes a que se encontram expostos os coletores
de resíduos no trabalho
DOSSIÊ SAÚDE

Sobre o risco no trabalho, 26 sujeitos afirmam que correm algum tipo de risco
e apenas um (E25) relatou que não acredita que corre risco dizendo: “Sou cuidado-
so...” Os riscos citados pelos coletores encontram-se na Figura 01.

299
Figura 01 - Distribuição de riscos a que estão expostos no exercício da ocupação,
referidos pelos coletores de resíduos de Patos de Minas/MG

Dentre os entrevistados, o risco mais citado, por coletores, foi o de acidente


de trânsito, incluindo atropelamentos e colisão; seguido por corte e perfuração
com materiais presentes entre os resíduos tais como agulhas e cacos de vidro;
risco de acidente com o próprio veículo coletor como ferimento ou queda; riscos
relacionados à possibilidade de contaminação e aquisição de doenças; mordedura
de animais, principalmente por cachorro; a torção de pé; possibilidade de quebrar
as pernas; risco de pisar em buracos e cair na rua machucar-se e risco de encostar
e derrubar alguém.
Ao serem questionados sobre acidentes de trabalho sofridos, durante o ma-
nuseio dos resíduos 26 afirmaram já ter tido algum tipo de acidente e apenas um
coletor (E15) respondeu não ter sofrido acidente. Com relação à modalidade de
EPISTHEME

acidentes sofridos pelos coletores temos a descrição no Figura 02.

300
Tipo de acidente sofrido pelos coletores durante o manuseio dos resíduos Número de respostas1
Cortes e perfurações2 60
Acidentes relacionados ao veículo coletor 14
Entrada de corpo estranho nos olhos 11
Mordida de animais e picaduras de insetos 8
Outros 5
Trânsito 2
3
Total de acidentes referidos 100

Figura 02 - Tipos de acidentes sofridos durante o manuseio dos resíduos


referidos pelos coletores de Patos de Minas/MG 123

Cortes e perfurações incluem vidro, espinho, espetos, agulhas de seringas,


pregos sendo o mais frequente dentre eles corte com vidro seguido da perfuração
com espinhos. Acidentes com o veículo coletor incluem queda, colisão com outro
veículo, e com relação à entrada de corpo estranho nos olhos, as respostas foram
poeira, cisco e cacos de vidro. Ao referirem a mordida de animais, quatro sujeitos
citaram cachorros como sendo os responsáveis pelas mordidas e ao se referir a
picadas de insetos, cinco coletores citaram formigas e maribondos.
Entre os cinco trabalhadores que escolheram a opção outros, foram citados
acidentes como colisão com muro (E14); torção de pé referida por um coletor (E17)
que afirmou que tal acidente tinha ocorrido por quatro vezes; outro referiu ter sido
atingido por uma fralda no rosto (E8) e, ainda, que o veículo coletor ‘raspou’ no
poste (E19). Um outro (20), comentou que ao recolher os resíduos pegou em uma
cobra viva. Com relação ao trânsito, um único coletor citou atropelamento (E16) e
afirmou ter sido atropelado por uma moto durante o trabalho, dois dias antes de
responder à entrevista.
Vale reafirmar que no presente estudo, 26 coletores referiram que correm ris-
cos e declararam já terem sofrido acidente durante a realização do trabalho, sendo
DOSSIÊ SAÚDE

1
Na figura 02 deve-se entender que o número de respostas apresentadas representa a ocorrência de
cada tipo de acidente sofrido sem considerar-se a quantidade de vezes que cada acidente ocorreu
segundo referido pelos coletores.
2
O número de respostas contidas no item cortes e perfurações excede a quantidade de coletores por
incluir acidentes com vidros, agulhas, espinhos, pregos e espetos sendo cada um deles contados
separadamente.
3
O total de acidentes é maior que a quantidade de coletores, pois eles se referiram a mais de um tipo
de acidente.

301
que os acidentes ocorridos com maior frequência foram cortes e perfurações e aci-
dentes envolvendo o veículo coletor. Um único coletor (E24) referiu não correr risco,
porque é cuidadoso; no entanto, ao responder outra questão da entrevista, disse
que a forma de trabalho é a correta e que os coletores não têm o que mudar, mas
sugere alterações relativas à segregação e acondicionamento de resíduos perfuro-
-cortantes o que demonstra que acredita que corre algum tipo de risco.
Os cortes e perfurações, segundo Ferreira e Anjos (2001), são sempre apon-
tados como as principais injúrias sofridas pelos coletores de resíduos sólidos.
No presente estudo, ao se confrontar os dados obtidos a partir de entrevistas
com os coletores e com o gerente da empresa, foi possível observar certa coincidên-
cia entre as respostas, pois ambos concordaram com o fato de cortes e perfurações
serem os principais tipos de acidentes em Patos de Minas (MG). Silveira, Robazzi e
Luís (1998) e Velloso, Anjos e Santos (1997), registraram quadros semelhantes.
Com relação à ocorrência de acidentes e doenças entre os coletores, o gestor
municipal afirmou não ter conhecimento de registro dos mesmos, mas comple-
mentou sua declaração dizendo que tais trabalhadores apresentam contato direto
com os resíduos e, portanto estão expostos aos fatores de risco. Não foram citados
outros tipos de acidentes pelo gestor o que pode estar relacionado a subnotificação
e não valorização de pequenos acidentes. Robazzi et al. (1994) e Silveira, Robazzi
e Luís (1998) em seu estudo na cidade de Ribeirão Preto realizado com trabalha-
dores que manuseiam resíduos, acreditam que o pequeno número de AT levantado
em seu estudo também está relacionado à subnotificação desses eventos.

3.2 Partes do corpo atingidas, causas dos acidentes,


afastamentos do trabalho e assistência médica

Em relação às partes do corpo afetadas pelos acidentes, as respostas referi-


das pelos coletores podem ser observadas na Tabela 01.
EPISTHEME

302
Tabela 01 - Partes do corpo atingidas nos acidentes de trabalho referidas pelos coletores
de Patos de Minas/MG4
Parte do corpo atingida
Tipo de acidente sofrido Membros Membros Tronco e Total
Superiores Inferiores cabeça
Cortes e perfurações 47 13 0 60
Acidentes relacionados com o 4 8 2 14
veículo coletor
Entrada de corpo estranho nos 0 0 11 11
olhos
Mordida de animais e picaduras de 4 3 1 8
insetos
Outros 1 3 1 5
Trânsito 1 1 0 2
Total4 57 28 15 100

A maior incidência de acidentes atingiu os membros superiores, seguido dos


membros inferiores, tronco e cabeça. Destaca-se a prevalência de cortes e perfu-
rações nos membros superiores e acidentes relacionados ao veículo condutor nos
membros inferiores. Esses resultados são discordantes com os apresentados por
Robazzi et al. (1993) e Silveira, Robazzi e Luís (1998) cujas partes mais atingidas
são os membros inferiores. Isto pode estar relacionado a dois fatores: em primeiro
lugar, o tipo de uniforme em Patos de Minas, que inclui camisa de manga curta e,
em segundo lugar, o fato dos coletores trabalharem durante boa parte do tempo, no
estribo do caminhão; enquanto que, os varredores de Ribeirão, trabalham o tempo
todo ao nível do chão, não utilizam sapatos adequados à realização da função e
ainda percorrem grandes distâncias durante o turno laboral. As extremidades do
corpo também foram as mais citadas no estudo de Velloso, Anjos e Santos (1997).
Ao serem questionados sobre as consequências dos acidentes, 25 coletores
afirmaram ter tido ferimentos leves, 14 referiram dor muscular, dois ferimentos
graves, um apresentou contusão lombar e um afirmou ter sentido câimbra. Um dos
DOSSIÊ SAÚDE

que afirmou ter ferimento grave (E20) citou que ao cair do veículo transportador
feriu seu ombro, tendo inclusive que se afastar do trabalho por 15 dias; o outro que
citou ferimento grave (E27), explicou que seu corte com vidro foi profundo atingin-
do vaso sanguíneo do pé.

4
O total de acidentes apresentados na Tabela 07 é maior que a quantidade de coletores pois eles se
referiram a mais de uma das respostas apresentadas no corpo da tabela.

303
As causas mais comuns de acidentes no trabalho da coleta referidas pelos
trabalhadores entrevistados no presente estudo apresentam-se distribuídas na fi-
gura 03.

Número de
Causas de acidentes respostas5
Falta de consciência da população ao separar os resíduos 26
Falta de atenção dos coletores 24
Embalagens inadequadas para os resíduos 23
Ingestão de bebida alcoólica antes do trabalho 23
Pressa excessiva dos coletores durante a realização das tarefas 22
Falta de experiência 22
Esforço excessivo durante a realização das tarefas 20
Falta de atenção dos motoristas no trânsito 19
Excesso de velocidade do veículo coletor durante o trabalho 17
Falta de melhorias no aterro 14
Uso de material inadequado 13
Falta de local adequado para que os coletores fiquem durante a coleta 10
Outras 9
Figura 03 - As causas mais comuns de acidentes no trabalho da coleta referidas
pelos coletores de resíduos de Patos de Minas/MG 5

Evidencia-se que as causas de acidentes mais referidas entre os entrevista-


dos foram a falta de consciência da população ao segregar os resíduos, seguida
da falta de atenção dos coletores, e das embalagens em que são dispostos os
resíduos. Dentre os entrevistados que referiram outras causas encontram-se im-
prudência dos motoristas, motociclistas no trânsito, forma dos coletores saltarem
do caminhão, peso excessivo e lixo descoberto no aterro, citada pelo Entrevistado
E2, e a falta de atenção dos motoqueiros citada pelo Entrevistado E16 que havia
sofrido um atropelamento há dois dias.
Em pesquisa realizada por Ferreira e Anjos (2001) entre causas variadas de
EPISTHEME

acidentes com coletores de residuos destacam-se os riscos mecânicos (cortes, fe-


rimentos, atropelamentos, quedas graves), ergonômicos (esforço excessivo), bioló-

5
O número de respostas excede o valor do n pois cada coletor referiu-se a mais de uma causa para
os acidentes de trabalho.

304
gico (contato com agentes biológicos patogênicos), químico (substâncias químicas
tóxicas) e sociais para o serviço (falta de treinamento).
Robazzi, et al. (1994) também referem como no presente estudo o acondi-
cionamento inadequado do lixo como a principal causa de acidentes, seguida de
animais soltos nas ruas, pisos derrapantes, embriaguez, ausência de equipamen-
tos protetores e brincadeiras realizadas no trabalho dentre outras. Refere que os
trabalhadores do período diurno, por percorrerem locais povoados e terem contato
direto com o trânsito podem ser atropelados e estão expostos a poluição sonora.
Ilário (apud ROBAZZI et al., 1994) refere-se também ao perigo da grande velocida-
de com que é realizado o trabalho dos coletores.
Velloso, Anjos e Santos (1997) citam diversas causas de acidentes relaciona-
das ao trabalho dos coletores com prevalência de presença de objetos cortantes,
esforço excessivo e objetos perfurantes. No presente estudo, foram referidos os
objetos ora citados com expressividade, mas com relação ao esforço excessivo
não foi dada grande ênfase pelos trabalhadores que provavelmente se acostumam
com essa realidade.
Ferreira e Anjos (2001) mencionam o estresse como causa invisível de mui-
tos acidentes pela redução da capacidade de auto-controle e pelo desgaste do
organismo dentre outras. Robazzi et al. (1993) relatam como causa dos acidentes
os relacionados ao acondicionamento dos resíduos e ao caminhão coletor. Pelo
exposto no presente estudo, é importante ressaltar que as causas de acidentes de
coletores de resíduos são muito variadas, mas é dada ênfase às formas de organi-
zação de resíduos pela população.
Quando perguntados sobre a necessidade de afastamento em caso de aci-
dente, 23 afirmaram que nunca se afastaram e quatro relataram que sim. Dentre
os trabalhadores que afirmaram ter se afastado do trabalho, dois deles (E9 e E24)
referiram cinco dias, um (E17) afirmou oito dias e outro (E20) 15 dias. Os quatro
trabalhadores que apresentaram afastamentos tiveram corte com vidro e nenhum
DOSSIÊ SAÚDE

deles teve desconto em seu salário, porém o Entrevistado E9 afirmou ter perdido
a cesta básica do mês.
O número de afastamentos por acidentes encontrado nos relatos de Robazzi
et al. (1994) é alto, mas segundo eles esse registro provavelmente é menor do que
a realidade, porque os trabalhadores muitas não atribuem importância e a empre-
sa não registra acidentes de pequeno porte vezes não valorizam.

305
Os afastamentos por acidentes do presente estudo não ultrapassaram 15
dias e ocorreram em consequência de cortes e perfurações, dado que em parte
se encontra em conformidade com os estudos de Velloso, Anjos e Santos (1997)
mas além do referidos em Patos de MinasMG encontra-se no estudo realizado no
Rio de Janeiro afastamentos por mais de 15 dias que estão relacionados não só a
cortes e perfurações mas também aos problemas relacionados ao veículo coletor
e isso pode estar associado ao fato de que o estudo a esse comparado aconteceu
numa cidade com volume de trabalho ainda maior em meio ao trânsito acelerado.
De acordo com o gerente da SEMOP/LIMPEBRÁS os coletores geralmente
não faltam ao trabalho a não ser por motivo justificado e nos casos de afastamento
por acidente em geral, os coletores (com exceção de um deles) não sofrem des-
contos em seus salários. Vael ressaltar por essa fala que em alguns casos o salá-
rios dos coletores é descontado. Isto diverge em parte do estudo feito por Silveira,
Robazzi e Luís (1998) onde o trabalhador que não comparece ao trabalho tem o
dia da falta e o domingo seguinte descontados no salário. Muitas vezes não comu-
nicam acidentes de trabalho para evitar tal desconto. No presente estudo pode-se
considerar que exista a mesma possibilidade, visto que os gestores não têm total
conhecimento dos acidentes de trabalho.
Robazzi et al. (1994) depararam em seu estudo com numerosas licenças e
afastamentos de trabalho, sendo a maior parte das ausências relacionada a aci-
dentes de trabalho e doenças (gripe, mal-estar, dores de cabeça dentre outras).
Em caso de acidente, os 27 coletores afirmaram que são encaminhados para
o atendimento público, um deles (Entrevistado U) comentou que primeiros socor-
ros, tais como um curativo, são realizados pelos próprios empregados.
Quando acidentados, os coletores de Patos de Minas são encaminhados para
o atendimento médico público, pois não possuem assistência médica privada. Estes
dados não são compatíveis com os achados de estudo realizado por Silveira, Robazzi
e Luís (1998), pois os trabalhadores de Ribeirão Preto, contavam com profissionais
especialistas em Saúde do Trabalho, apesar de nem sempre serem atendido por
EPISTHEME

eles, pois os acidentes podem acontecer longe do ambulatório. Tais trabalhadores


são encaminhados ainda, a uma empresa de convênio médico, caso necessitem
de atendimento mais especializado do que o oferecido no ambulatório da empresa.
A legislação de trabalho considerando as características das atividades re-
alizadas pelos coletores prevê que as empresas ofereçam assistência médica in-

306
tegral a eles (MANUAIS DE LEGISLAÇÃO, 1991). O gerente da empresa SEMOP/
LIMPEBRAS confirma que ainda não é oferecida pela empresa, mas reconhece a
necessidade de oferecer a assistência médica aos trabalhadores.
A NR 7 estabelece a obrigatoriedade de elaboração e implementação, por par-
te de todos os empregadores e instituições que admitam trabalhadores como em-
pregados, do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO, com o
objetivo de promoção e preservação da saúde do conjunto dos seus trabalhadores.
Ficou evidente no presente estudo que isso não ocorre com os sujeitos da pesquisa.

3.3 Mudanças gerais para a melhoria das condições de trabalho


para evitar acidentes

Quando questionados sobre mudanças gerais a serem realizadas para me-


lhorar as condições de trabalho e evitar acidentes, os coletores referiram as mu-
danças referidas a seguir (Figura 04).
Número de
Mudanças para melhorar condições de trabalho e evitar acidentes
respostas
Conscientização da população 15
Respeito no trânsito pelos motoristas 2
Conscientização da população e respeito no trânsito pelos motoristas 2
Diminuição do preconceito e respeito a essa modalidade de trabalho 2
Conscientização da população e aumento na atenção dos coletores na
1
continuação realização das atividades
Conscientização da população, respeito no trânsito e menor velocidade do
1
veículo coletor
Aumento do número de coletores por guarnição e utilização de máscara 1
Aumento na atenção dos coletores na realização das atividades 1
Nenhuma sugestão 2
Total 27
Figura 04 - Mudanças para melhorar condições de trabalho e evitar acidentes
referidas pelos coletores de resíduos de Patos de Minas/MG
DOSSIÊ SAÚDE

Diversas foram as sugestões dos sujeitos da pesquisa, porém vale ressaltar


que o primeiro grupo citou acondicionamento, segregação; sugerindo a identifica-
ção dos resíduos colocados para coleta, para evitar acidentes; a obediência aos
horários previstos para a coleta.

307
O segundo grupo falou da atenção, velocidade e respeito dos motoristas e o
E19 sugeriu que os garis tivessem a preferência no trânsito: “Gari ter a preferência
no trânsito, assim como ambulância, por exemplo, para evitar acidentes.”
No último grupo um dos coletores (E1), que é o coletor dos RSS afirma que
“Não há necessidade de melhoria, hoje melhorou quase 100%, o lixo é separado
e identificado.”
Os gestores têm adotado medidas de proteção ao trabalhador e ao ambiente,
mas essas medidas devem ser ampliadas para melhorar as condições de trabalho
dos coletores, minimizar os acidentes e também o acometimento por doenças.
Apesar de considerar todas as possibilidades de riscos e prejuízos à saúde,
os trabalhadores se manifestaram satisfeitos com o trabalho o que mostra uma
postura de conformismo. Sabe-se, porém que a organização social do trabalho
deveria ser um instrumento para a construção de uma sociedade mais saudável.
Nesse sentido, a partir da caracterização do trabalho realizado pelos cole-
tores de resíduos de Patos de Minas (MG) é preciso indicar aos gestores que, as
escolhas saudáveis devem ser sempre adotadas através da criação de políticas
públicas saudáveis, que promova a saúde dos indivíduos e da sociedade, a par-
tir do desenvolvimento sustentável dessa atividade considerando as dimensões
sócio-econômicas, ambientais, técnicas, para assim garantir a saúde de todos os
direta ou indiretamente envolvidos com os resíduos.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Evidenciou-se nesse estudo que os coletores de resíduos sólidos encontram-
-se expostos a diversos riscos como também apontaram a ocorrência de vários
acidentes de trabalho. Todos os apontamentos, o saber e as constatações dos
dados desse estudo, com certeza são de fundamental importância para o reco-
nhecimento das condições de trabalho e saúde dos coletores de resíduos de Patos
de Minas/MG. Porém tal conhecimento isolado pouco adianta para alterar as situ-
EPISTHEME

ações em que os coletores se encontram inseridos, pois para alcançar resultados


efetivos é imprescindível a mudança na lógica das políticas publicas municipais
relacionadas ao gerenciamento dos resíduos com vistas à Promoção de Saúde
desse grupo de indivíduos com reflexos na saúde coletiva do município.
Por isso são descritas a seguir algumas sugestões da pesquisadora e em

308
parte dos coletores a serem possivelmente implantadas pelos gestores como sub-
sídios para promover a saúde desse grupo de trabalhadores. Sugere-se disponibili-
zação de Assistência Médica e/ou Plano de Saúde para atendimento as necessida-
des básicas do trabalhador e de seus familiares com profissionais específicos para
seu atendimento. Tais serviços de saúde poderão ser oferecidos pela Prefeitura ou
pela empresa. Outra sugestão é suscitar nos coletores o interesse por alternativas
de auto-cuidado como, por exemplo, lanchar em horário adequado ao invés de ter
lanche em tempo corrido, lavar as mãos adequadamente, evitar a pressa excessiva
dentre outras e realizar as atividades com o máximo de atenção. Essa sugestão
pode se efetivar através de momentos para a capacitação temporária que refor-
cem a questão dos riscos e acidentes.
Além disso, conscientizar a população com relação ao respeito na forma de
tratamento aos coletores que desempenham função indispensável para a manu-
tenção da saúde da comunidade bem como alteração nas formas de acondicio-
namento dos resíduos. Cumprir todos os requisitos da legislação existente com
relação ao deposito de resíduos (cobertura diária dos resíduos, captação e trata-
mento de gases e chorume) também revendo as condições do acesso tais como
asfaltamento e condições internas como iluminação que melhoram as condições
de trabalho principalmente à noite e em períodos de chuva ou seca evitando aci-
dentes. Aumento do número de coletores em algumas guarnições para diminuição
da carga de trabalho. Realização de coleta no período noturno para evitar aciden-
tes relacionados ao trânsito.
Em todas essas sugestões e em muitas outras que poderão surgir a partir da
reflexão delas há que se considerar a importância da parceria de gestores, coleto-
res e população.

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DOSSIÊ SAÚDE

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309
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EPISTHEME

310
Aleitamento Materno em
Coromandel/MG: uma visão dos
enfermeiros, gestantes e puérperas

Ismelinda Maria Diniz Mendes Souza*


Sandra Aparecida Francisco Galvão**

RESUMO
O presente estudo objetivou conhecer a prática e a importância atribuída à promoção
do aleitamento materno, por enfermeiros, gestantes e puérperas das UBSF da cidade de
Coromandel/MG. Trata-se de um estudo exploratório, descritivo, transversal, junto as cinco
Unidades Básicas Saúde da Família deste município. Participaram do estudo 34 gestantes,
12 puérperas e 4 profissionais enfermeiros, que descrevem aspectos sócio-demográficos,
avaliando a importância do aleitamento materno, assim como dúvidas e dificuldades
decorrentes deste processo. Gestantes e puérperas apresentam risco para o desmame,
por possuírem dentre outros aspectos, dúvidas acerca dos benefícios da amamentação e
dificuldades no processo de amamentar, fato que as expõe a possível prejuízo na promoção
de saúde e prevenção de agravos à saúde da criança e da mulher. Os profissionais
enfermeiros, apesar da utilização de vários métodos educativos, de disporem de recursos
para as práticas educativas e de avaliarem-na, ainda enfrentam o desafio da adesão
populacional às ações educativas. Torna-se necessária a implementação de medidas de
incentivo para comparecimento de gestantes e puérperas aos grupos de gestantes e às
ações educativas individuais, assim como busca ativa destes faltosos, para que as ações
desenvolvidas tornem-se efetivas com minimização dos riscos de agravos à saúde da mulher
e da criança.
Palavras-chave: Aleitamento materno. Gestantes/ Puérperas. Enfermeiros.
DOSSIÊ SAÚDE

*
Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Uberlândia UFU. Especialista em ge-
rontologia social e enfermagem em cardiologia pela Universidade Federal de Uberlândia, e, em for-
mação pedagógica em educação profissional: enfermagem pela Escola Nacional de Saúde Pública
Graduada em Enfermagem e Obstetrícia pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - Universida-
de de São Paulo (USP). Docente na Faculdade Cidade de Coromandel e Coordenadora do Curso de
Enfermagem da UNIPAC Araguari/MG. ismelinda.mendes@bol.com.br
**
Graduada em enfermagem pela Faculdade Cidade de Coromandel. sandra_galvao@yahoo.com.br

311
1 INTRODUÇÃO
A prática do aleitamento materno vem sendo amplamente estimulada pelos
órgãos de saúde, porém, ainda nos dias atuais, é frequente encontrarmos puérpe-
ras e gestantes que não receberam orientações específicas ou desconhecem os
benefícios de tal prática.
O leite materno é o alimento natural e ideal para a criança e sua superiorida-
de como fonte alimentar e de proteção para saúde materno-infantil. É o motivo pelo
qual importantes órgãos de saúde como a Organização Mundial de Saúde (OMS),
Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Sociedade Brasileira de Pedia-
tria entre outras, incentivam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses
e manutenção até dois anos de idade ou mais, concomitante com a inserção de
outros alimentos (SILVA; SOUZA, 2005).
A prática do aleitamento materno resulta em benefícios para a saúde da mu-
lher e da criança envolvidas neste processo. Ao optar pela prática, a mãe, além de
prover o alimento ideal ao filho, favorece vínculo emocional e proporciona aumento
da afetividade, o que torna a criança mais tranquila e com boa interação social ao
longo de seu crescimento. Quanto maior a interação entre mãe e recém nascido,
maior será o vínculo e mais efetiva a prática da amamentação (FREIBERG; FERREI-
RA, 2008; TAKUSHI et al., 2008, ARAUJO; CASTRO, 2005).
Os benefícios da amamentação são estendidos à mãe a médio e longo prazo
e resulta na menor incidência do câncer de mama, de ovário, fraturas por oste-
oporose, artrite reumatóide, recuperação precoce do peso pré-gestacional, ame-
norréia lactacional, redução da incidência de depressão pós-parto, e diminuição
na carga de trabalho com a preparação da alimentação do recém nascido e da
criança (ABRÃO; PINELLI, 2002; REA, 2004).
A promoção do aleitamento materno merece atenção especial dos profissio-
nais de saúde no que se refere à saúde da criança e da mulher. Os centros de
saúde, principalmente as Unidades Básicas de Saúde Familiar (UBSF), que são uni-
EPISTHEME

dades diretamente ligadas ao cliente, consideradas à porta de entrada do usuário


do Sistema Único de Saúde (SUS) possuem como premícia a promoção da saúde e
prevenção de agravos. Portanto, são orientadas a acompanhar a gestante no pré-
-natal e a tríade, pai, mãe e filho, por meio de programas que incentivam práticas
de saúde da mulher e da criança. A princípio, devem prestar devidas orientações,

312
esclarecimentos de dúvida, cuidados e apoio para o incentivo e manutenção do
aleitamento materno (BRASIL, 2009)
A ação dos profissionais de saúde, em particular o enfermeiro poderá abordar
com as gestantes e puérperas, a promoção para a prática do aleitamento materno
de forma efetiva, além de treinamento para a equipe de enfermagem e agentes
comunitários de saúde, para uma assistência mais humanizada junto à comunida-
de, ações estas, que resultarão em adequadas medidas para a implementação do
aleitamento materno e consequente alcance dos principais objetivos das políticas
públicas de saúde e do Sistema Único de Saúde que são a promoção e prevenção
de agravos e doenças da população em geral (AMORIM; ANDRADE, 2009).
O profissional enfermeiro tem papel fundamental na conscientização e na
adoção de medidas de implementação do aleitamento materno. Um dos princi-
pais desafios encontrados por esses profissionais para obter sucesso nos projetos
e programas de incentivo ao aleitamento materno pode está na dificuldade em
compreender os verdadeiros motivos que levam a mulher a facilitar um desmame
precoce (SILVA; SOUZA, 2005).

2 METODOLOGIA
Estudo exploratório, descritivo, transversal, realizado no período de setembro
a outubro de 2009.
O presente estudo foi realizado com utilização de amostra do tipo acidental,
composta pelas participantes gestantes e puérperas do Programa de Humaniza-
ção no pré-Natal e nascimento, acompanhadas por meio do SISPRENATAL do Sis-
tema Único de Saúde das UBSF na cidade de Coromandel, que estavam presentes
na reunião mensal, realizada em cada unidade. Este estudo foi realizado ainda
com o profissional enfermeiro-coordenador de cada unidade.
Foram elaborados pelas pesquisadoras, questionários semi-estruturados, que
DOSSIÊ SAÚDE

abordam aspectos sócio-demográficos e específicos sobre o aleitamento materno.


A estatística descritiva foi utilizada para caracterizar a amostra quanto a as-
pectos sócio-demográficos e verificação da importância atribuída ao aleitamento
materno.
O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
Federal de Uberlândia (CEP-UFU) - pelo parecer Nº. 403/09

313
3 RESULTADOS
3.1 Gestantes participantes


Dentre as gestantes participantes deste estudo a maioria pretende amamen-
tar por dois anos ou mais, dizem desconhecer sobre os benefícios da amamen-
tação para a saúde da mulher e da criança, acreditam que amamentar provoca
flacidez das mamas e em uma unidade de saúde a maioria acredita que o leite
humano é fraco (Tabela 1).

Tabela 1 - Avaliação acerca da importância atribuída por gestantes à prática do


aleitamento materno, segundo a unidade de origem Coromandel/MG, 2009.

UBSF I UBSF II UBSF III UBSF IV UBSF V


Variável
n=5 n=7 n=6 n = 11 n=5
Idade que pretende
amamentar
Até 6 meses n (%) 0/5 (0%) 0/7 (0%) 1/6 (16%) 1/6 (16%) 2/5(40%)
1 ├ 2 anos n(%) 2/5 (40%) 2/7 (28%) 2/6 (33%) 2/6 (33%) 1/5(20%)
2 anos ou mais n (%) 3/5 (60%) 5/7 (71%) 3/6 (50%) 3/6 (50%) 2/5(40%)
Conhecimento dos
benefícios para a
saúde da mulher
Não n (%) 2/5 (40%) 5/7 (71%) 3/6(50%) 8/11 (72%) 2/5(40%)
Amamentar provoca
flacidez
Sim n (%) 4/5 (80%) 3/7 (43%) 4/7 (57%) 7/11(63%) 3/5 (60%)
Existe leite fraco
Sim n (%) 3/5 (60%) 2/7(28%) 1/7(14%) 5/11 (45%) 2/5(40%)

3.2 Puérperas participantes

A maioria das puérperas pretendem amamentar entre um e dois anos de


idade, desconhecem os benefícios da amamentação para a saúde da mulher e
EPISTHEME

a criança, grande parte acredita que amamentar provoca flacidez das mamas e
grande parte acredita que o leite humano é fraco (Tabela 2).

314
Tabela 2 - Avaliação acerca da importância atribuída por puérperas à prática do
aleitamento materno, segundo a unidade de origem, Coromandel/MG, 2009.
UBSF I UBSF II UBSF III UBSF IV
Variável
n=2 n=2 n=4 n=4
Idade que pretende
amamentar
Até 6 meses n (%) 0/0 (0%) 2/2 (100%) 1/4 (25%) 0/0 (0%)
1 ├ 2 anos n(%) 0/0 (0%) 0/0 (0%) 2/4 (50%) 3/4 (75%)
2 anos ou mais n (%) 0/0 (0%) 0/0 (0%) 0/0 (0%) 0/0 (0%)
Não sei 2/2 (100%) 0/0 (0%) 1/4 (25%) 1/4 (25%)
Conhecimento dos
benefícios para a saúde
da mulher
Não n (%) 2/2 (100%) 1/ 2 (50%) 1/4(25%) 2/4 (50%)
Amamentar provoca
flacidez
Sim n (%) 2/2 (100%) 2/2 (100%) 2/4 (50%) 2/4 (50%)
Existe leite fraco
Sim n (%) 1/2 (50%) 2/2(100%) 2/4(50%) 2/4 (50%)

3.3 Profissionais enfermeiros participantes

Todas as enfermeiras atribuíram valor máximo à importância do aleitamento


materno e quatro (100%) responderam que é muitíssimo importante o aleitamento
materno. Em relação aos métodos utilizados para promover o aleitamento materno
exclusivo, três enfermeiras (75%) responderam que utilizam cartazes, cartilhas ou
folhetos, consulta de enfermagem, informações através dos agentes comunitários
de saúde, reuniões e palestras, e uma enfermeira, utiliza somente reuniões e pa-
lestras mensalmente. Quanto aos recursos disponíveis, duas (50%), relataram que
as unidades oferecem materiais e condições para desenvolver seu trabalho de pro-
moção ao aleitamento materno e duas (50%) relataram que as unidades oferecem
os materiais em parte (dados não demosntrados).
DOSSIÊ SAÚDE

3.4 Causas de desmame precoce

A principal causa de desmame relatada pelas enfermeiras participantes do


estudo é a crença de pouco leite ou leite fraco (Tabela 3).

315
Tabela 3 - Principais causas de desmame precoce na área de abrangência
relatadas pelas enfermeiras das UBSF da cidade Coromandel/MG, em 2009.
Descrição Total %
Crença de pouco leite ou leite fraco 3 75,00
Dar de mamar provoca flacidez das mamas 0 0,0
Falta de preparo das mães e familiares para a amamentação 0 0,0
Fissuras/mastites 0 0,0
Outros motivos - cultura médica do desmame precoce. 1 25,00
Só é preciso amamentar até 6 meses 0 0,0
Total 4 100,00

4 DISCUSSÃO
4.1 Avaliação sobre a importância atribuída à amamentação por
gestantes participantes

Todas as gestantes participantes deste estudo atribuem importância à práti-


ca do aleitamento materno. Boa parte delas pretende amamentar seus filhos por
um período inferior a dois anos, uma parcela delas, tem dúvidas quanto ao tempo
que irão amamentar e ainda há relatos que a amamentação deve ser instituída até
seis meses de idade.
A maioria desconhece os benéficos do aleitamento materno tanto para mãe
quanto para a criança e, alto percentual acredita que amamentar provoca flacidez
das mamas.
Apesar do relato sobre a importância da amamentação, com base nos relatos
posteriores a esta questão, inferimos que as gestantes ainda não estão efetiva-
mente conscientizadas sobre a amamentação conforme preconiza a OMS, OPAS
(Organização Pan-Americana da Saúde), UNICEF, Sociedade Brasileira de Pedia-
tria, Ministério da Saúde e Secretaria de Estado da Saúde, que recomenda a ama-
mentação exclusiva até seis meses de idade, com manutenção até dois anos ou
mais, juntamente com os alimentos complementares (Martinez, 2004; SILVA;
EPISTHEME

SOUZA, 2005).
É recomendado pela Secretaria de Estado da Saúde do Estado de Minas Ge-
rais, por meio do Programa Viva a Vida, ações que efetivamente promovam o alei-
tamento materno, ações estas que devem ser iniciadas o mais precoce possível,

316
ainda, durante o pré-natal. Dentre estas ações, destacam-se: vantagens e manejo
da amamentação, com destaque à conscientização sobre a anatomia da mama,
fisiologia da lactação, posicionamento e pega correta, duração das mamadas,
composição e qualidade do leite materno, direitos da mãe que amamenta entre
outras. Tais ações devem ser realizadas por uma equipe multiprofissional que deve
garantir sua efetividade por meio de avaliações, rastreamento de riscos e vigilância
(MINAS GERAIS, 2007).
Outro achado deste estudo é a crença que amamentar provoca flacidez das
mamas, contudo, na literatura não há, até o momento, qualquer comprovação
científica de que este fato pode ocorrer. Ao contrário, sabe-se que estas alterações
sofrem influências de fatores constitucionais, raciais, familiares, hormonais, de
idade, de atividade física, etc. Também é sabido que o aumento das mamas ocorre
ao longo da gestação, quando surgem estrias em algumas mulheres, antes mesmo
de iniciada a lactação. Portanto, a flacidez está mais relacionada ao aumento da
glândula do que à amamentação. Isto explica também a queda das mamas em
algumas mulheres, que durante longo período estiveram com seu tamanho au-
mentado e que, ao retornar à situação anterior, têm seus tecidos de sustentação e
pele excedentes, não possibilitando um retorno à anatomia anterior (LOPES; REGO;
VENTURA, 2003).

4.2 Avaliação sobre a importância atribuída à amamentação por


puérperas participantes do estudo

As puérperas participantes deste estudo atribuíram importância á amamen-


tação. A maioria respondeu que a criança deve ser amamentada entre um a dois
anos e uma parcela relatou que a amamentação deve ser interrompida aos seis
meses de idade. Quanto aos benefícios do aleitamento materno para saúde da mu-
lher e da criança, a maioria desconhece tais benefícios, uma grande parte acredita
DOSSIÊ SAÚDE

que amamentar provoca flacidez das mamas e que algumas mulheres possuem
leite fraco. As participantes relataram que amamentaram seus outros filhos por
um período de tempo que variou de um mês a um ano e quatro meses de idade.
De acordo com o estudo em questão, as participantes desconhecem os bene-
fícios do aleitamento materno, fato este inquestionável, no entanto as implicações
da amamentação para a saúde da mulher ainda precisam ser mais divulgadas.

317
Tais informações se tornarão incentivo à prática do aleitamento materno uma vez
consciente dos benefícios oferecidos pela amamentação (REA; TOMA, 2008).
No presente estudo, foi relatado entre as participantes a crença de leite fraco
que é um dos grandes tabus da nossa cultura popular, e às vezes presente mesmo
entre os profissionais de saúde. Independentemente das condições maternas, a
qualidade do leite é mantida, e é de suma importância que as mães saibam que a
aparência do leite muda conforme a fase da amamentação. Não existe leite fraco
ou aguado. Mesmo mulheres malnutridas ou anêmicas têm condições de produzir
leite de boa qualidade e suficiente para garantir o desenvolvimento da criança
(LOPES; REGO; VENTURA, 2003).
Outro mito relatado pelas participantes foi que amamentar provoca flacidez
das mamas; no entanto, o que ocorre é aumento do volume das mamas durante a
gravidez, decorrentes da hipertrofias das glândulas que irão produzir o leite e este
fato ocorre independente da vontade da mulher de amamentar ou não. Com esse
aumento a pele tende a ceder para comportar esse aumento e com isso se tronar
flácida quando voltar ao normal. Dessa maneira, o tempo de amamentação não
está relacionado com a flacidez das mamas. A amamentação por um período de
dois anos ou mais não vai provocar flacidez das mamas em relação à mulher que
amamenta por apenas um mês (COTTA; MARQUES; PRIORE, 2008).
As participantes amamentaram seus outros filhos em idades variadas entre
um mês a um ano e quatro meses de idade do filho. De acordo com Brasil (2003)
o aleitamento materno deve ser exclusivo por um de período de seis meses, poste-
riormente, a criança deve receber outros alimentos complementares e a amamen-
tação deve ser estendida até dois anos ou mais. Daí a importância da conscienti-
zação e vigilância no processo de amamentação.

4.3 Avaliação sobre a importância atribuída à amamentação


por profissionais enfermeiros das UBSF da cidade de
Coromandel/MG
EPISTHEME

Dos profissionais enfermeiros participantes do estudo, todos atribuem valor


máximo à importância do aleitamento materno. Utilizam vários métodos educa-
tivos e a maioria dispõe de recursos para as práticas educativas e avaliam suas
ações educativas. Por boa parte dos profissionais, há o controle de crianças até

318
dois anos no que se refere à manutenção do aleitamento materno e, dentre as
causas de desmame identificadas por estes profissionais destaca-se a crença do
pouco leite ou leite fraco.
No presente estudo, foi identificado que todos os profissionais participan-
tes realizam atividades educativas que são consideradas um dos principais com-
ponentes das ações básicas de saúde e tarefa de toda a equipe da unidade de
saúde. No entanto, percebem-se poucas participantes nos grupos de gestantes e
puérperas, fato que dificulta a ação educativa por impossibilitar a acessibilidade
da informação pela ausência dos atores envolvidos no processo educativo. Corro-
boramos com Pereira (2003) que menciona que para uma efetiva ação educativa
que seja capaz de transformar uma realidade são necessários requisitos básicos
como: a presença dos sujeitos, o conhecimento acerca do que deve ser ensinado
pelo educador, o objetivo da ação, além de métodos, processos, técnicas de ensino
e materiais didáticos adequados.
Outro fato identificado no presente estudo foi a assincronia encontrada entre
os componentes da equipe de saúde no que diz respeito à padronização de con-
dutas e ações educativas. Corroboramos com Ciconi, Venâncio e Escuder (2004),
que afirmam as ações preconizadas para a assistência materno-infantil, devem
envolver a promoção e o manejo do aleitamento materno e ser desenvolvidas por
toda equipe da unidade e inclui em especial, os profissionais: médico, enfermeiro,
agentes comunitários de saúde, entre outros, cujas ações devem objetivar a pro-
moção do aleitamento e a melhoria da qualidade de vida materna infantil.
As ações educativas podem ser realizadas em grupo ou individualmente. Uma
das formas mais efetivas para se concretizar estas ações individualmente, é por
meio da consulta de enfermagem, que é ato privativo do enfermeiro, que fornece
subsídios para a determinação do diagnóstico de enfermagem e elaboração do pla-
no assistencial e serve como meio para documentar sua prática e sua atuação na
promoção da saúde e prevenção de agravos. A consulta de enfermagem a gestantes
DOSSIÊ SAÚDE

e puérperas deve ocorrer com a participação ativa da cliente por meio da interação
com o profissional enfermeiro, em que ambos trocam saberes e informações que
visem a promoção do auto cuidado que são fundamentais para manejo do aleita-
mento materno, o plano de cuidados deve priorizar as situações de risco e a solução
de problemas já existentes para o alcance de resultados positivos (RAVELLI, 2008).
O profissional enfermeiro tem entre outros desafios, a atribuição de educador, e

319
para tal deve estar preparado para atender as demandas do novo perfil do profissio-
nal que o mercado necessita. O profissional precisa ter vários conhecimentos sobre
diferentes áreas e, principalmente ter a capacidade de aprender (PEREIRA, 2003).
A transmissão de informações do profissional de saúde para a mulher puer-
peral e durante a gestação não acontece automaticamente, a mulher precisa
assimilar o significado das informações. Dessa maneira, as ações de promoção
à saúde tornam-se importantes ferramentas de trabalho para o enfermeiro. Na
atualidade, com as transformações ocorridas na assistência em saúde, estamos
caminhando para um modelo de trabalho vinculado à promoção da saúde, tendo
como base a educação em saúde, bem como a assistência contínua à comunidade
(ALCÂNTARA; LOPES, 2007).
Quanto ao controle das crianças até dois anos quanto à manutenção do alei-
tamento materno, este é viabilizado por meio do Sistema de Informação sobre o
Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (SISVAN). É preconizado
que o aleitamento materno seja garantido até dois anos de idade, assim como seu
incentivo e monitoramento (BRASIL, 2009).
O presente estudo identificou métodos utilizados pelas enfermeiras no con-
trole das crianças até dois anos de idade à respeito da amamentação, no qual há
o predomínio de ações de vigilância por meio agentes comunitários de saúde, e
consulta de enfermagem.
Os agentes comunitários de saúde (ACS) são treinados para incentivar e man-
ter a amamentação e concretizam estas ações por meio das visitas domiciliares
no último trimestre da gestação. Na primeira semana após a alta hospitalar e até
os cinco meses de vida da criança, realizam encaminhamento e solicitam inter-
venções frente a situações de risco ou problemas instalados (Martinez, 2004).
Estes agentes devem ser devidamente treinados, receber orientações
necessárias do enfermeiro responsável para melhor realização de
seu trabalho (FERRAZ et al., 2006).
O presente estudo identificou como a principal causa do desmame referida pe-
EPISTHEME

los enfermeiros das unidades, a crença de pouco leite ou leite fraco e corrobora com
alguns estudos que apontam essa causa como desencadeadora da introdução de ali-
mentação alternativa e desmame materno (Martinez, 2004; MARINHO; LEAL, 2004).
Não existe leite fraco. Independentemente das condições maternas, a qua-
lidade do leite é mantida. É importante que as mães saibam que a aparência do

320
leite muda conforme a fase da amamentação: nos primeiros dias, o leite sai em
pequena quantidade, grosso e transparente. Com o passar do tempo, muda confor-
me a duração da mamada: no início é branco e aguado; no fim, amarelo e grosso e
que mesmo mulheres mal nutridas ou anêmicas, têm plenas condições de produzir
leite de boa qualidade e suficiente para garantir o perfeito desenvolvimento da
criança (LOPES; REGO; VENTURA, 2003).
É possível, apesar das dificuldades, atuar efetivamente nas intercorrências
comuns do início da amamentação, e superar as crendices populares que levam
ao desmame (PARADA et al., 2005).
Ações sistematizadas de incentivo ao aleitamento materno devem fazer parte
da rotina das Unidades Básicas de Saúde. Além de conhecimentos técnicos e cien-
tíficos, os profissionais de saúde precisam ter habilidades clínicas e sensibilidade
para apoiar, promover e aconselhar gestantes e nutrizes. Reconhecer e valorizar os
aspectos culturais e emocionais pode ser o ponto de partida para uma abordagem
mais eficiente (ALVES et al., 2005). Reforça-se, segundo Minas Gerais, (2007) que
é competência da unidade de saúde, como ponto de atenção estratégica, garantir
a acessibilidade, e responsabilizar-se pelos problemas de saúde das gestantes e
puérperas do seu território, assim como o monitoramento das mesmas.

5 CONCLUSÃO
As gestantes e puérperas participantes deste estudo apresentam risco para
o desmame materno por possuírem dentre outros aspectos, dúvidas acerca dos
benefícios da amamentação e dificuldades no processo de amamentar, fatos que
as expõe a um possível prejuízo na promoção da saúde e prevenção de agravos à
saúde da criança e da mulher.
Os profissionais-enfermeiros, apesar da utilização de vários métodos educa-
tivos, de disporem de recursos para as práticas educativas e de avaliarem essa
DOSSIÊ SAÚDE

prática, ainda enfrentam o desafio da adesão populacional às ações educativas.


Torna-se necessária a implementação de medidas de incentivo para compa-
recimento de gestantes e puérperas aos grupos de gestantes e às ações educati-
vas individuais, assim como busca ativa destes faltosos, para que as ações desen-
volvidas tornem-se efetivas e consequentemente, sejam minimizados os riscos de
agravos à saúde da mulher e da criança

321
Diante destas considerações, é fundamental a atuação de profissionais envol-
vidos com a promoção do aleitamento materno no período gestacional, bem como
durante o puéperio, oferecendo orientações sobre os diversos benefícios da ama-
mentação e, sempre que necessário, criando estratégias para sua manutenção.

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EPISTHEME

324
Acidentes de Trânsito: prevenção
e atuação do enfermeiro no
atendimento às vítimas

Laura Moreira de Sousa Fonseca∗


Cleide Chagas da Cunha Faria**

RESUMO
O presente artigo trata de uma revisão bibliográfica sobre acidentes de trânsito, suas principais
causas e consequências na vida dos seres humanos. Objetivou-se através deste trabalho
buscar na literatura, informações e dados que constituam subsídios para formulação de
ações de prevenção e consequente minimização do problema. Ficou evidente nesse estudo
que os acidentes de trânsito envolvendo veículos a motor passaram a se constituir causa
importante de traumas e sequelas em toda a população, e principalmente na brasileira.
Os acidentes destacaram-se nos últimos anos como uma das principais causas de morte
no Brasil, especialmete entre a população jovem, resultado de um grande aumento do
número de veículos circulantes nas ruas e do mau comportamento dos motoristas, aliados
à vigilância insuficiente. Vale ressaltar que é o prejuízo causado pelo acidente é grande
tanto para a sociedade quanto para o indivíduo. A enfermagem atende diretamente o
paciente traumatizado e está sempre em busca de conhecimentos que validem condutas de
promoção, proteção e recuperação da saúde. Percebe-se a necessidade da sensibilização
da população sobre a importância de se respeitar os limites e regras do convívio social,
e a importância do investimento na prevenção dos acidentes. Nota-se a importância do
profissional de enfermagem atuante tanto na promoção de saúde e prevenção dos acidentes,
influenciando as mudanças de atitudes da população, bem como no atendimento ás vítimas
de acidentes de trânsito.
Palavras-chave: Acidente de trânsito. Comportamento. Enfermeiro. Prevenção.
DOSSIÊ SAÚDE

*
Graduada em enfermagem pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC) MG. Mestranda em Pro-
moção de Saúde pela UNIFRAN- SP.Docente no curso de graduação em enfermagem da Faculdade
Cidade de Coromandel. lauramoreirasf@hotmail.com
**
Graduada em enfermagem pela Faculdade Cidade de Coromandel/MG. Mestre em Promoção de
Saúde pela UNIFRAN- SP. Docente no curso de graduação em enfermagem do Centro Universitário
de Patos de Minas (UNIPAM). cleidecoro@hotmail.com

325
1 INTRODUÇÃO
Os acidentes de trânsito constituem uma das principais causas de traumatis-
mos e mortes no Brasil e no mundo, representando um grave problema de saúde
pública pela perda da vida e sequelas resultantes como também custos econômi-
cos e pessoais imputados às vítimas, familiares e sociedade. O presente trabalho
trata-se de uma revisão bibliográfica sobre acidentes de trânsito, suas possíveis
causas, comportamento dos motoristas, participação do enfermeiro no cuidado ao
acidentado e a necessidade de investimento na prevenção e educação em trânsito.
Foram consultados bancos de dados da Biblioteca Virtual da Saúde, especialmen-
te SCIELO, incluindo artigos científicos do ano de 1979 até 2008 que tratam de
acidentes de trânsito no Brasil e no mundo. Foram também consultados periódicos
disponíveis nos sites do governo federal, como Instituto Pesquisa Aplicada (IPEIA),
Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), Conselho Nacional de Trânsito
(CONTRAN), que contemplam o tema acima citado. O objetivo é buscar na litera-
tura, informações e levantar dados que constituam subsídios para formulação de
ações de prevenção e consequente minimização do problema. A partir do conhe-
cimento que se obtém desse trabalho sobre os problemas no trânsito e diante do
ponto de vista de vários autores, espera-se contribuir para a criação de programas
que busquem soluções para o alto índice de acidentes de trânsito no Brasil.
A escolha dessa temática justifica-se pelo o alto índice de acidente de trân-
sito e pela a atuação da pesquisadora como auxiliar de enfermagem em Pronto
Atendimento e vivenciar no seu dia a dia o atendimento de um grande número de
acidentados, e as consequências e traumas que estes causam ás vítimas.
Foi feita uma análise geral sobre os acidentes de trânsito que há algum tem-
po têm sido discutidos pelas autoridades em transporte, por especialistas em aci-
dentes de trânsito, pelos meios de comunicação e pelas comunidades (MARIN;
QUEIROZ, 2000). Além de representar um grande problema de saúde pública,
segundo a pesquisa realizada pelo IPEA, os acidentes dão prejuízos aos cofres pú-
EPISTHEME

blicos. A maior parte refere-se à perda de produção, associada à morte das pesso-
as ou interrupção de suas atividades, seguido dos custos de cuidados em saúde e
os associados aos veículos (IPEA, 2006). Foi abordado o comportamento do moto-
rista como grande contribuinte ao alto índice de acidentes de trânsito. Destacou-se
também a morbi-mortalidade, causadas por acidentes de trânsito. No Brasil, onde

326
o índice de acidente de trânsito é grande e vem crescendo, o número de vítimas
com morbidade e mortalidade chama a atenção dos órgãos governamentais que
fornecem dados no local do acidente, sobre o perfil das pessoas e dos veículos
envolvidos. E ainda fornece uma avaliação global do número de mortos e de feridos
graves, sendo esta última a mais próxima da realidade.
Por fim foi feita uma abordagem sobre a atuação do enfermeiro no atendi-
mento ao acidentado e sua importância na prevenção dos acidentes de trânsito e
a importância da prevenção dos acidentes de trânsito. Para a área da saúde, os
acidentes de transporte terrestre são englobados em agrupamentos de causas de
morte não naturais ou causas externas. O enfermeiro, enquanto profissional com
conhecimento científico e técnico e sendo o coordenador da equipe do APH, deve-
rá trabalhar e transmitir, a toda equipe, a importância de um atendimento ético e
humanizado. Ainda de acordo com Fischer et al. (2006), o cuidado com a vítima
no atendimento pré-hospitalar envolve uma abordagem com propósitos e valores
éticos, bem como os sentimentos de solidariedade, empatia.

2 ACIDENTES DE TRÂNSITO: custos e prejuízos


à propriedade pública e privada
O sistema de trânsito envolve a maioria dos cidadãos no exercício do seu
direito de ir e vir, locomover-se livremente por suas necessidades e em busca de
bem estar, sendo assim, ele tem papel de destaque sob o aspecto social e econô-
mico. Essa locomoção de praticamente todos os cidadãos caracteriza o trânsito em
seus desdobramentos urbanos, regionais e nacionais, o qual se organiza em um
sistema nacional que deve produzir resultados focados no cidadão. O trânsito gera
também problemas que desafiam governos e toda coletividade para a sua solução.
Tais problemas englobam acidentes de trânsito, congestionamento e degradação
do ambiente urbano, prejudicando a qualidade de vida da população (POLÍTICA
DOSSIÊ SAÚDE

NACIONAL DE TRÂNSITO, 2004).


Segundo o Departamento Nacional de trânsito (DENATRAN, 1997), em países
desenvolvidos faz-se um esforço considerável no sentido de controlar os acidentes
de trânsito e nos paises em desenvolvimento eles se transformam em um proble-
ma cada vez maior. No Brasil, onde o trânsito é considerado um dos piores e mais

327
perigosos do mundo, os índices são altíssimos, com um para cada lote de 410
veículos em circulação. Na Suécia por exemplo, a relação é de um acidente de
trânsito para 21.400 veículos em trânsito.
Segundo o Instituto de IPEA (2006), os acidentes de trânsito são uma das
principais causas de morte no Brasil, sendo a principal causa de morte da popu-
lação jovem. Segundo dados da pesquisa de mortalidade por acidentes de trans-
porte terrestre, na primeira Semana Mundial das Nações Unidas de Segurança no
Trânsito promovida pela Organização Mundial de Saúde, 35 mil pessoas morreram
em 2005 no país. Desse total, 81,5% são do sexo masculino e 18,5% do sexo
feminino. De acordo com o levantamento, metade das vítimas fatais eram jovens.
Além de causar tantas mortes, e principalmente entre os jovens, os acidentes
de trânsito são responsáveis por enormes prejuízos à sociedade. São prejuízos in-
calculáveis já que em se tratando de pessoas não afetam só a parte financeira do
indivíduo, mas também a psicológica, afetando sua qualidade de vida.
De acordo com DENATRAN; IPEIA (2006), os custos associados às pessoas
são os custos do atendimento pré-hospitalar sendo este o atendimento da vítima
por unidades dotadas de equipamentos especiais, com veículos e profissionais
especializados (ambulâncias, bombeiros, médicos, etc.). O custo do atendimen-
to hospitalar já é a soma dos custos com reabilitação, para os casos de sequela
temporária ou definitiva, com procedimentos, medicamentos, transporte, equipa-
mentos e outros. O custo da perda de produção são custos correspondentes às
perdas econômicas das vítimas de acidentes que, em decorrência da interrupção
das suas atividades produtivas, deixam de gerar renda e produção ao sistema eco-
nômico também há custo de remoção e translado sendo este o custo de remoção
da vítima fatal ao Instituto Médico Legal (IML), além dos gastos previdenciários. Os
gastos previdenciários são: à empresa, relativo ao valor da previdência, paga por
ela, em até quinze dias de afastamento do trabalho em decorrência de um aciden-
te de trânsito; sobre a previdência social, em virtude do afastamento, temporário
ou definitivo, do trabalhador em decorrência de um acidente de trânsito; sobre as
EPISTHEME