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História
d.as Mulheres
110 Ocidente
'~oh ,1 direcção de
e ;,,,11gt's Duby e Michellc Perrot

11 .,t111~,,o pnrlu~uesa com r0visão cie ntífi ca dl1


M,1 11,1 1klt>n,1 da Cruz Coelho, Irene Maria Vnq11i11h,1~,
1 i •u11l1 1, ,1 V l•1ü 11 1·,1 e Guil hermina Mota,
p 111h••,.,tH"<1:-: d;:i F~culdade de Letras
d o1 l 111i \'l'l',;idade de Coimbra

Edições )4 Afrontamento
PORTO
=·· EBRADIL
SÃO PAULO
Escrever
c1 História das Mulheres

C.1•orgcs Ouby e Michelle Perrot

Â, mu!Jreresfor(',(m, durante muiw tempo, dei.rada.1· na .1<1111/11<1


,Ir, l /1.,1ária. O '<lese11l'nfrin1<•11to da antmpologia~e a ênfi:11,• dada ú
/,11111/111. ri afiniiaçdo da~.!_1s1ári,1 das ,,melllalidadl·s~·1 mais 111e11w
,1r1 111111tidiü1to, ao privado e• uo individual. comrilmírrm1 para a,
/ 11 11 wir dessa so111b1·t1 . E mais ainda o inorime1110 llt1,1 p1·á11ri,"
11111/lil'l'c1 e os interroioçâes (fill' s11sci1011. <<Dondt 1·imo., ? Pma
,111,li 1,11nos 7 " · pensaram elas; e ,le,1/ro e> fora das 1111h·c·ni<lad1·s
l, 111111111 c1 cabo im·rstiga~nes para e11co111rare111 os 1•,•,1tf,l/i11s ,lc1s
1t1111 11111epassadas e sohrc•tudo para compreenderem ,,.~ r111::e.~ da
,/,1111111<11,'rio q11<· .wpor t<1rm11 e as relações cmre os sexm olrov/1 do
1•,1111~11 e elo tempo.
l'rirtflrl' é hem disso qr1c se Jrata. O 1/utlo «ffisrória d,11 M11/111'·
1, , • ,: , ámodo. r• rlío helo' Mas é preciso recusor o ilido ri,• ,,11,•
,t\ m11//1aes 1eriam em si r1!es111m· 11111 ohjecto de his1ó1 ia . li' o .11•11
!1111,11. ci sua «co11diçâo". os sem p(lpl.'Ís <' os seus poder('s , u., rnm
/11111111., de acçâo, o seu sr:hl('if, e a sua pa!aw·,, q111• 11r1•1r·11tl1•
11111.1 11c•rscr111ar. a 1/i1·f:'l'Sidade das :s11(1.t represe11raçrk,\ 01•1 1,111,
11111',11111. Feitic<'ira. .. - que queremos C(lptar 11f1.1· .111<1.1 prr111(1111~11 .
muda!lf;as. /-listâria deddidame11te l'(!/aci1111<1I 1/llt'
, 1111 , . 11a., .111as
1111,•11,,g,11oda a w1liedudc e que é. na mr.rnw medida. hi11ó1 ict 1/11.1
l11m1,·m .
//,\11íria de longa d11mção: ila A1J1i;,t,uidade aos 11osso.1 dia.~.
, 111n1 ,•ofomes retomam as dil'isôes cro,wlóp.icas que demarcam u
/11,111rir1 ocidemal. Porque é ape11"·' desm qrtc se rmw. () Medi-
r,·1n111,•o e <1 A1fâmiu1 siio as nossas nror~<·11s. So11hcmws com umo
/ l 111,;ri,1 das mulherc .s 1;0 r111111do orie11ta/ 011 110 conti11e11te ofricano.
l 1t•rt,•11t·('rá d.t ,'vlrtl/1eres ,, aos honwirs dessas regiões <'Scren1-la
11111 tlw.
h'llli11i.1f11,, 110 medida em qw: se si11w mona pcrspe('firn ig11a-
/1torio, esta lristâria pr elendc>-se aberta r, i111erprerações d{fere11 -
f, /11 1,111,1 , ,, 1•n1·1111orlr1 1•111 p roh/1•11wtizar, mas r ecusando qualquer
f, ,11,111/,1 ,l,i 1•,1•/1 •1·1•11ti11 ,tio ; ldst/)ri(I plural, tanto na multiplicidade
/,1 /11·111 ,11• 1•1•on1t!os 1·011/f1 11a variedade dos p o ntos de vista.
I 11, 1 o tmlio /110 d e 11111a eq11ipa. G eorges Duby e Mich elle
I , 1111/ 11.1·.1·1•H lll'r1111 fit e a 111affha d e conjunto. Cada volume é
,11111111ldr1 /1/11' 11111 0 11 do is r esponsá veis. Pauline Schmitt Pantel
( \IIIIHllltl<11fr), 'l,ristia11 e Klapisch -Zuber (I dade M édia), Natalie
,•1111111 I >111 1i,1· <' A r lette Farge (Tempos modernos) , G enevieve Fraisse
Introdução
( ,, , 11/11 I ) 1• Fra11ço ise Th ébaud ( século XX) constituíram a sua
1,•,/111 r,/11 ,> m edida das competênc ias, dos d esejos, das dispo- Christiane Klapisch-Zuber
11//i1/1d11d1 •.,·: r,8 p essoas no total. É certo que não a totalidade
tl,111111'/os ,, rlaq11el es que trabalham neste domínio na Europa e
1111,1• F ,l'/11,/11.1· U11 iclos, mas em todo o caso uma amostra que espe-
1111110,1· l'<'/11'1'.l'('lllativa e op er atór ia.
Jlal<,11(0 11mvisório, ·instrumento de tr abalho, prazer da H istó-
1/11, 111,1!.(lf' de 11,emória: tal será , assi m o esperamos, esta História No primeiro capítulo do seu livro A Cidade das l w11os, 'ris-
,l,1,1· M 11!/1e1·es no Ocidente, à qual, na Europa que se anuncia, tina de Pisano diz como tomou consciência da má fo r'lu nu d ' 1 r 11 us -
,/1•11r11·1·111os aqui o seu bel o título. cido mulher. «Na minha loucura- escreve ela - des •sp ·r11 v11 m '
/ 1'111 lw111e11agem aos n ossos editor es, cujo espírito de empreen- por Deus me ter feito nascer num corpo feminino». Q111111tlo 11
,111111•1110, rnltura e cortesia aqui saudamos. aversão por si própria se estende a todas as suas cong n ·r ·s, « ·01110
se a Natureza tivesse gerado monstros», ela acusa 1 •11s. 1~ · 111
seguida disseca as raízes da sua miséria e descobr ' nu < s , i · dus
autoridades» os artesãos do seu mal-estar 1.
Texto espantoso. Eis uma mulher que não e satisl'11z 11 ·111 •111
repisar nem em se deixar atingir pelos lugares comuns sohr · u
«imbecilidade» femin ina, essa fraqueza a que as suas s •11 wlht111t •s
se resignam depressa demais. Cristina compreencl qu ' ·lur.. 11 s11111
roupas velhas talhadas por outras: foram os hom ns qu ' us d ·sig-
naram como «,e ssencialmente más e atraída pe lo ví ·io». 1111 r piei 11,
vai contra-atacar, levar a espada para o terre no nd • os ho111(' 1lS Sl'
batem entre eles desde há séculos. A verdade ira «qLt , ,. •ln tlus 111u 111 ••
res» acaba de nascer: uma mulher envolve-se n la. lslo pussn-s · po r
volta de 1400, quando o Renascimento se anuncia no dccl ,1io (111
Idade Média . .
O bservemo-la bem, esta polemista, campeã das suas irm<s. Yiúvu .
traoalha para ganhar o pão da família, e o seu labor o de uma
mulher instruída, consciente do seu valor. Letrada, o q ue 6 enlt o
bem raro, ela escreve, estranheza ainda maior. Ne la se cruza a ma ior
parte dos_proble_!Uas l~vantado~a história das mul heres na Idade
Média. Demog rafia, economia, _autonomia j urídica, inserção das
mu lheres na vida produtiva o u inte lectual: os historiadores discu-
te m todos_estes ternas, não sab~ndo bem que lugar atribuir neles às
mul heres. Uma Cns tina,- pela sua própria novidade, não se a rruma
racil mentê numa ou noutra gaveta dos q uadros históricos clássi-
cos. Será esta mulher mais do q ue um cas? exemplar ou extraordi-
Introdução

nário: um farol, uma bandeira reunindo tropas inc rt'ts? Hav rá que obrigam a que sejam consideradas como charneiras no desenrolar ;
tomá-la como o arauto da emancipação das mulh r s, u v"-la histórico. Charneiras diferentes dos cortes tradicionais - mas não
apenas como o testemunho perdido de pote~cialidad s n li gen- serão elas igualmente artificiais e ilusórias? Qualquer história dasf
·iadas, uma faísca tímida numa época obscura? Deveremos procurar- mulheres tem de fazer face ao problema dos acontecimentos que são ~
-lhe êmulas, uma consciência «feminista», a vontade de reunir as significativos para ela e sobre os quais o historiador possa funda-
suas irmãs numa luta comum? Resumindo, como ajustar o olhar, mentar uma periodização específica. Mais amplamente, esta exigên-
atrás dela, sobre essa metade da humanidade que tantos historiadores ·ia implica - repitamo-lo - a concepção que temos da inserção 11
- para não falar senão deles -passam tão facilmente em silêncio? las mulheres na sociedade em que viveram, ou seja, no conjunto das
Sem dúvida que é tentador colocar sobre um pedestal uma mulher r ·lações sociais e no tempo histórico. ~'
como Cristina; e deixá-la aí. Muitos autores nisso se empenharam
entoando o panegírico nem sempre inocente das mulheres de excep- Os artífices do nosso empreendimento explicaram-se mais ampla-
ção para melhor marcarem, com o seu desdém, todas as outras, as 111 'nte na abertura do primeiro volume: esta «História das Mulh r »,
que não fizeram a História. Nisso - dir-se-á - não fazem mais do obra colectiva, nã9 ~_fo_ng~ uma tese_, não milita a favor de um pro-
que retomar um procedimento que inspirou a táctica de numerosos p l' 'SSO nem de Ún;J. IBCUO a condi{ao femfo1na DOSdi~ e~·sos p rí d S
defensores das mulheres: louvá-las, através da biografia de figuras l ll(re os quais se repartiram -osseus- volumes~ Â noss a ambi ção nfo
notáveis. Cristina de Pisano seguiu ela própria esse caminho na lambém reavaliar todos os grandes problemas debatido ll'l 'lr na
defesa do seu sexo. O modelo de muitos dos retratos femininos da l1i, ·1oriográfica, nem traçar o quadro exaustivo das investigaçõ s iue
sua Cidade das Damas tinha-o Cristina encontrado em Bocácio, que 1 multiplicaram de há vinte anós para cá, nem esboçar uma sínt se
por sua vez o tinha plagiado dos autores antigos e das lendas familiares cios trabalhos levados a cabo nas duas ou três últimas d cad·1s 4 .
1

de forma a erigir o corpus das suas Mulheres ilustres, espelhos das 1 I' t nder fazer o inventário dos conhecimentos, muita v -z s i r10-

virtudes desejáveis e dos excessos do carácter feminino. De facto, a 1dores, mas ainda dispersos e bastante fragmentários, s r 'L
história das mulheres foi construída sobre os destinos de heroínas 1111 ilhcres na Idade- Méqia, conduzir-nos-ia a i"m -m~tagal I fus ')
sem par. Como se, em cada nova ·geração, fosse preciso que as 111 11 algumas clareiras. Parece mais urgente desloc.ar o olhar, susc itar
mulheres constituíssem uma nova memória, que reatassem um fio 11111 o 1tro esforço de leitura dos «factos » históricos , uma l itura qu
perpetuamente partido. Desde o final do século XIX que os explora- 'lll'I' à ideia ainda nova de que a diferença dos sexos e as r h 'Õ s
dores dos territórios femininos da história se orientaram frequen- 111 •les mantêm intervêm no jogo social, de que eles são CJÚ , ão ,e
temente por referências espectaculares. Na sua obra abundam as l ito ao mesmo tempo que motor.
biografias, marca durável impressa na maneira de escrever a história Nascer homem ou mulher não é, em nenhuma sociedad , u1 1
do segundo sexo. Estas balizas têm o seu valor~provar as capacidades 1 , lo biológico ne1:1trn, uma simples qualificação «natural» qu r-
femininas é seguramente trabàlhar para restaurar uma parte da his- 111 111 ça como qu~ inerte.- P~lo contrário, esty dado.é trabalhado p la
~ória, dar lugar a uma história que Joan Kelly qualificou de «com- 1H dade: as mulheres constituem um grupo social distinto, uj j
pensadora»2. Não se trata portanto de recusar abruptamente uma tra- 11 wt ·r - lembra-nos Joan Kelly-, invisível aos olhos da históri ·1
dição tão forte e longa e que se revelou muitas vezes fecunda. Este 11 , 11 ·iorial, não depende da «nature:2:a» feminina 5. Aquilo que se con-
procedimento é necessário em certos estádios da investigação sobre 11 ·ionou chamar «género» é o produto de uma reelaboração cul-
o lugar das mulheres na história 3, uma investigação que se · quer 1 1hl. 1uc a sociedade opera sobre essa pretensa natureza: ela define,
empenhada, participante; é, no entanto, insuficiente se se pretender 1 ·u"ld ra - ou desconsider~ .:__, representa"'.'se, control~ os sexo
·tceder a uma análise e a um entendimento das situações históricas 11 ,lop i ·amente qualificados e atribui-lhes papéis determinados 6•
q u tomem em consideração toda a realidade das relações sociais. 1111, qualquer sociedade define culturalmente o género e suporta
1 orque as personalidades que ela destaca sobressaem, despertam o ·0111 rapartida um efeito sexual. _Repitamos o que· muito bem
int r sse. Mas monopolizam as atenções, e há que interroganno-nos uma antropóloga americana: «O géner<?__é uma divisão _ggs
sobre o fas cínio que exercem. 11 soc ialmente imposta[ ... ], um proTiuto das relações sociais de

Voltamos, portanto, à questão que o destino de Cristina nos ins- 1 11 tlichde» que «transforma machos e fêm@as -em"homens" e e.~.

pirnva: deverão estas figuras notáveis ser tomadas como a excepção,


1
1111111 r 's"» 7 •
011 'omo a medida do seu tempo, do seu grupo social? O seu esplên- r~ .' tu perspectiva, e face à construção simétrica dos papéis
lido iso lamento, a descontinuidade da narrativa que autorizam, ~ 1111 rn linos, os papéis atribuídos às mulheres são-lhes itp _QOS!O..§. .o u ~.-
Introdução
1·011c •didos não em função das suas qualidades inatas - materni- Para começar, há que referir os limites temporais que esta-
d11dc, menor força fisica, etc . ....::, m as por razões erigidasem sistema belecemos para esta «História das Mulheres». Não falando, neste
ideológico; menos pela sua «natureza» d~ ~ u~ el sua sup_osta volume, senão de mulheres e de homens que habitaram, entre o
i11cnpacidade de entrar na Cultura 8. Aqui, é a ristóteles que temos século VI e o século XV, o espaço geográfico e cultural da catolici-
,k• voltar, ele que exerceu uma tal influência re- pensamento dade, excluímos deliberadamente do nosso projecto a problemática
social e político e sobre a pedagogia do final da Idade Média, como da fusão ou da troca entre grupos de religiões e de costumes pro-
1 •mbram adiante Carla Casagrande e Silvana Vecchio: gr~ças a ele fundamente diferentes; renunciámos a surpreender os olhares cru-
operou-se entre os sexos uma partilha tenaz dos espaços e das ,-,udos dos contemporâneos, preciosos quando decifram as diferenças.
!'unções que neles se desenvolve~. A divisão entre a esfera doméstica No entanto, as surpresas de um Sarraceno da Palestina espiando a
l' a esfera públic~, incansavelmente repetida, acabará por parecer postura dos homens e das mulheres vindos de França, as de um
lnmbém e la fundada na natureza, e alguns confundem-na depressa ·avaleiro franco desembarcado de fresco na imensa Constantinopla
de mais com as categorias do feminino e do masculino. Adoptan~o dizem, por vezes, mais sobre as relações dos sexos na Normandia de
•sta dico tomia cio privado e do público, opondo aos poderes domés- origem que numerosos sínodos regionais, tratados de moral ou
ti cos da mulher a auto~dade e a autónomiayolíticas do homem, o manuais de confessores.
historiador de hoje arrisca-se a esquecer que toma como suas as Dito isto, dividir um milénio de Idade Média numa «História das
anál ises de pensadores dos séculos XIII-XV e, para além delas, Mulheres», pará-la no final do século XV segundo as mais sólidas
concepções d o género desenvolvidas na cidade antiga. ideias recebidas desde a escola elementar, arrisca-se a parecer absurdo
A reacção ao confinar da problemática a tais oposições tocou ti alguns. Quando projectamos, contra os silêncios ou as hipocris ias
·m primeiro lugar a antropologia; mas a prática e a reflexão dos do legado historiográfico, con siderar o «género» como um e le mento
medievistas foram rapidamente postas em causa. Alguns desvios decisivo das relações sociais e as mulheres como actores histó ri-
da investigação histórica revelam os efeitos destes requestiona- L'OS de pleno direito - em suma, no mesmo momento em que nos
mentos. A investigação forneceu desde 1975 vários panoramas propomos pôr em causa as abordagens habituais , não estaremos a
destes trabalhos, fragmentários mas abundantes 9, reagindo por vezes admitir o valor de cortes cronológicos e de categorias de análise q ue
com vigor à visão demasiado adocicada, e mesmo enternecedora, 11 investigação deve a divisões mais institucionais do que cientifica-
que se fez da mulher na época dos poetas corteses, das devoções mente fundadas?
~ Virgem Maria, da mulher «do tempo das catedrais ». Muitos dos Sendo assim, várias questões se põem . Comecemos por aq ue la
estudos mais recentes consagrados a mulheres de todas as condi- que o caso de Cristina de Pisano já evocou. Poderá a história elas
ções - religiosas e mulheres santas, jovens prometidas em casa- mulheres conceber-se sem uma periodização original? Será o esta-
mento ou esposas laboriosas - mostraram _a_importância c<mtral belecimento de uma cronologia que lhe seja própria uma ap , ta
do casamento na determinação da sua condição; muitos descodi- importante 11? O problema ultrapassa o quadro do período medieval,
l'icaram os sístemas e valores, de imagens e de representações mas tem aqui ângulos particularmente vivos, porque a renovação
que os comportamentos traduziam no quotidiano; o utros testemu- da historiografia da Idade Média fundamentou-se largamente na
nharam o lugar que algumas mulheres ocuparam na vida intelec- ideia de que ciclos longos tinham, várias vezes, invertido a evoluçã
tuai e religiosa do seu tempo, longe das figuras célebres ocasio- ela sociedade no decorrer do período. As periodizações correntes da
nalmente saídas da obscuridade pelo poder que detêm ; outros, por história económica e social medieval falam portanto em termos de
l'im, retomam a tradição da história do direito que, no final do desenvolvimento e de declínio, de crescimento ou de regressão, de
s ·ulo XIX, tinha sido pioneira ao especificar os aspectos jurídi- progresso e de recuo. É claro que os indicadores destes movimen-
·os da condi ção feminina . Enquanto o lugar das mulheres na vida los a médio ou a longo prazo consideram quase sempre os actores
so •i al tinha sido objecto dos primeiros trabalhos inovadores, e há mais visíveis da vida social, seja no campo económico, político ou
((lll' ·itar aqui os de Eileen Power antes da guerra 1°, foram talvez as cultural. Actores masculinos, porque os homens estão dotados de
1(•luc,;1 ·s de traba lho e de produção, no domínio da história económica uma autonomia jurídica e de uma capacidade de expressão pública
1· srn: iul, as menos tocadas por estas elucidações renovadas. Contudo, que são recusadas ou muito avaramente concedidas às mulheres na
11 p ,i nas que se seguem prová-lo-ão abundantemente: é a história, sociedade antiga. Actores ligados ao poder, participando do poder,
1011/ 1·0 111·1, que tem tudo a ganhar em levar em conta a sua parte e isto é característico da Idade Média, em que as fontes históri-
l1•11il11i11n. cas permitem mais dificilmente do que na época moderna aceder
íntrodução 1:

11 1111111,clns profu ndas, entrever os membros mais humildes da socie- 1 J)l'l'ia listas do final do período beneficiam, é certo, de uma mul-
cl ,il,• , 11plir:11,; , o das fontes de informação que os seus colegas interessados
F111 t10, 4ue valor têm para as mulheres as divisões cronológicas 11111 ,·pocas mais antigas parecem invejar. Elaborando novas formas 1

fl' I 111111 •111 c ad mitidas: o Renascimento político e cultural carolíngio,


d, lt lnclo, difundindo o escrito em muitos domínios de actividade, 1
o d1'Sl'11Volvimento demográfico e os seus corolários económicos 11 s1•1· 11los XIV e XV destacam-se dos pe1íoclos precedentes pela
cios s c ulos XI e XII, o apogeu do século XIII, a crise da Baixa p11•111 '11pação em enquadrar melhor súbditos ou cidadãos, em des-
ld11dL' M dia? Dever-se-á pensar' a priori que a história das mulhe- 111•w1 l'omunidades e espaços. No entanto, esta relativa riqueza das 1
H',~ s • lerá num voca bulário único cio progresso e da produção, l1111l n1 e ainda acompanhada por uma grande disparidade e por uma
~1·1• 1111do uma mesma sintaxe cio poder e das relações de classe? A cl, 1·0111inuidade desencorajadora das séries que permite constituir.
11ossa larcfa, aqu i, deveria ser a de nos perguntannos se a investiga- 1\1 l•:,kr e M. Kowaleski notaram as dificuldades em integrar numa
1,'IIO ilislórica se inq uietou verdadeiramente com a maneira como, ~ 1~ lo t'oc rente as conclusões sobre o «poder» das mulheres 14 que se
por L'Xcmplo, as mulheres viveram, num país e numa situação dados, 111 11111 de corpus tão diversos como a distribuição social dos selos
o desenvolvimento ou a recessão económica, o crescimento ou a 11 111111i 11os, a proporção de santas admitidas pela Igreja no decorrer
1•slugnação demográfica. Se considerarmos apenas as funções repro- al11 .,,•rn los, ou ai nda as variações do regime dos bens matrimoniais
d111oras e o papéis fa miliares que, sem esforço, se atribuem de tão 1 1 du re lação entre o número de homens e o das mulheres - e
ilom grado às mulheres, saberemos verdadeiramente se as modali- 1111111•1 se-ia aumentar a lista à medida dos interesses dos historiadores,
d11cl ·s e as consequênc ias de um desenvolvimento ou de um declínio il11 1•sn1lha dos pontos de vista e dos acasos documentários. Como
1m·urarn da mesma maneira os dois sexos? Conheceremos as hipóteses 1111 111>i11ar, na análise, observações que parecem contradizer-se sobre
li 11111or t:ortês ou o culto mariano, por um lado, e, por outro, sobre
qu ' as mulheres ti nham de escapar ou mesmo apenas de reagir ao
li d1•1'1ír1 io cio poder político que as mulheres tinham an teriormente
qu • se chama, ainda mais preguiçosamente, a «condição feminina»?
Num artigo tido a justo título como modelo do olhar .crítico 1 , 11·ido? Este desafio põe em questão a nossa capacidade de com-
il'm inista, a historiadora americana Joan Kelly pun ha em J977 a 1111•1•111k r os acontecimentos significativos da história das mul heres
sq~uinle questão: «Tiveram as mu lheres um Renascimento?» 12 • A sua , , p11111 vollarmos à nossa primeira questão, de fundar sobre eles
11•sposta, negativa, subvertia um esq uema bem estabelecido. Pôde 1111111 p1•1iodização específica.
di sculir-se o ponto de vi ta exclusivamente cultural a partir do qual 1 k l':lclo, a constrnção de séries homogéneas, e portanto ele urn a
1 11111olngia que se poderia construir ao pô-las em paralelo, torna-se
Joa n Ke lly considerou o problema que levantava '-1; mantém-se que
11 inJ'ormação e a inteligênci·a da s ua argumentação traziam a 1111111 1111,is arriscada, quando se tomam as mulheres por objectos
1k'monstração de que a questão e ra útil. Pondo em causa um dogma 111 111111rns, quanto intervêm os critérios dos juízos, forçosamente
llislórico, o de um prog resso ela condição fe minina paralelo aos d1 1111 ivcis, que fazemos sobre as evoluções . Que queremos nós
11vun<,:os cio direito, ela economi a ou cios costumes e n1rc o século XV d1 1•1 quando falamos de uma situação demograficamente «favorá-
l' o século XVII, e la mostrava a cegue irn e o carácter red utor das
1 1 110 «mercado do casamento», ou ele um «excesso» numé rico
di visões operadas pelos historiadores qm1ndo tinham de e nfrentar il11 1111rlliercs, das suas «hipóteses» de casamento ou de recasamento?
11 pr 'sença das mulheres na his' ória e aq uilo a que doravante se 1 111 11•l11i;ao a quê julgamos nós os «progressos» ou os recuos cio
l'1111111a as relações entre os sexos. E, é verclacle. pensar de outra 111 1· ~1111u10», de uma «melhoria» da sua «condição»? Que se que r
ro, ma relações sociais consagradas pe la in vcsligação de várias ili ,., q1111ndo se fala de «poder» feminino? Nenhum destes termos
d rndas não é possível sem criar problemas. 1h 1 11 d1• l'riar problemas. Nenhum é neutro. Pior ainda, a periodização
il I lii lmiu das mu lheres é necessariamente afectacla por estes j uízos
St:ríamos tentados a ver nas fo ntes ele que d ispõem os medie- ili 1rlor implícitos, porque eles orientam a selecção dos factores de
1

vislns a origem elas dificuldades que encontram qu ando procuram 111111Ji111,·11.


1• 111lw l 'C ' ruma história própria e uma cronologia esp cífica para as his16ria elas mulheres tem portanto como primeira tarefa não
1111ilil1•rt:s. A Idade Média mostra-se escassa não apenas em confi- 1,111111 l11 vt·r1cr urna problemática, como em espelho, mas introduzir
dt 11l'i11s · ·111 histórias de vida, mas também em in fo rmações horno- 111111 o ponlos ele vista e mudar as perspectivas. E talvez, mais do
1•1111•111,, aquelas que uma burocracia acumula e repete sem e cansar. q111 p11wu r:1r novas fon tes, reavaliar as fontes tradicionais. No estado
1 11111111111u1 o inquérito total sobre um «caso», a história quantitativa 111 111ul d11~ investigações, o seu objectivo não é tanto o de descrever
1 , 11l11,·n1·s un ívocas como o de analisar a coníplexidade das situações
11 " li 111 1d,1 1 tl'il ncsla Idade Média abundante, mas confusa. Os
,,

lntrodução lí

uus quais, pelas suas intervenções específicas, homens e mulheres ll'dagogos e autores de tratados de economia doméstica. A isso
imprimiram a marca das suas relações recíprocas. ·e ded icam Carla Casagrande e Silvana Vecchio. Sob o infatigável
. ' 1nurLelar das admoestações exortando a conformar-se às virtudes de
que constitui em primeiro lugar «a mulher» - modelo ou oh ·diência, de temperança e de castidade, a guardar um silêncio,
contraste das mulheres, que são o nosso objecto - é o olhar qu~ uma imobilidade, uma reserva quase monacais, as autoras revelam
sobre ela põemos homens. Muito antes de sermos capazes de nos 110 entanto os ecos tímidos de uma nova ética das relações conjugais .
npercebermos do que as mulheres pensam de si própria~ e jas suas Aspecto particular do controlo da esfera feminina ao qual aspira
r •lações com os.homens, devemos passar por este/filtro masculinõ7 unanimemente o sexo masculino - clérigos e leigos identificados
Um filtro pesado, visto que transmite às mulheres modelos ideais e , a legislação sumptuária ataca de forma crescente o vestuário e os
regras de comportamento que elas não estão em condições de con- adornos das mulheres a partir do século XIII. Diane Owen Hughes
1 ·star. É pela discussão destas regras e modelos que escolhemos mostra como a repressão dos excessos sumptuários, doravante assi-
começar, porque os seus constrangimentos marcaram, talvez mais nalados apenas nelas, trai, ainda aí, a presença das representações do
do que em qualquer outro período, o lugar dado às mulheres na rnrpo feminino como instrumento de perdição e sinal indelével do
sociedade e, inversamente, porque a sua análise permite decifrar as p 'cado original.
relações sociais de sexo que estão na sua origem. Se a repressão da sexualidade, a clausura do ameaçador corpo
Os homens têm ·a palavra. Nem todos, certamente: a grande f" •minino, o enquadramento do que ele emite ou profere, o controlo
maioria cala-se. São os clérigos, homens de religião e de Igreja, que daquilo que nele manifesta a enganadora beleza estão no centro das
governam o escrito, transmitem os conhecimentos, comunicam ao representações e das admoestações tratadas por esta primeira parte,
seu tempo, e para além dos séculos, o que se deve pensar das mulhe- 11 0s capítulos seguintes é o casamento que se torna vedeta. Numa

res, da Mulher. A nossa escuta do discurso medieval sobre as mulheres segunda etapa escolhemos com efeito decifrar, num quadro crono-
é durante muito tempo tributária dos seus fantasmas, das suas certezas, 16gico com malhas muito largas, as estratégias concretas inspiradas
das suas dúvidas. Ora, diferentemente de outras épocas, esta palavra p~los momentos _críticos da vida das mulheres, aqueles em que elas
masculina impõe de forma peremptória as concepções e as imagens tinham por vezes a oportunidade de fazer ouvir a sua vontade, talvez
que delas faz uma casta de homens que recusam a sua convivência, 11 sua vocação. Momentos em que se cruzavam, e muitas vezes se
homens a quem o seu estatuto impõe o celibato e castidade: por isso rnntradiziam, em torno do casamento, da entrada na vida religiosa,
mesmo tanto mais ásperos em estigmatizar os seus vícios e imper- da maternidade e da solidão, os constrangimentos do seu meio, as
feições quanto elas lhes continuam inacessíveis na vida quotidiana; funções que lhes destinavam na reprodução da sociedade, as ambi-
e forçando tanto mais o traço quanto as heranças do seu imaginário ,oes de promoção familiar e social.
são largamente livrescas. Acumulados como camadas arqueológicas, Para apreender estas estratégias concretas em que se inscrevem
argumentos terrivelmente antigos, cujas bases científicas ou éticas quer as aspirações das mulheres quer a sua participação no j ogo
puderam perder qualquer coerência ou validade, prosseguem a sua soc ial, nem as «autoridades» masculinas nem as vozes femininas,
vida própria, arrastados na roda de uma lógica um pouco louca: o quando se deixam aperceber, são suficientes. Aqui, são os materiais
corpus das crenças médicas sobre a natureza física da mulher, que d· que dispõe o historiador que primeiro impuseram o corte tempo-
laude Thomasset aqui apresenta, é um palimpsesto de saberes de rnl. Para as épocas mais altas (séculos VI-X) tratadas por Suzanne
fundamentos contraditórios. 1 Wemple, a combinação das fontes nairntivas e normativas, as pri -
Longe de endossar as simplificações ou os pares de oposição que 111 ·iras temperando as segundas, guarda a sua fecundidade e validade
'struturam tais concepções, temos que desmontar estes sistemas quando, à falta de outros documentos, o historiador tem que deseme-
s ' 111 negligenciar os elementos inovadores que, surdamente, mudam d11r a meada das prescrições e adivinhar a sua transcrição na realidade.
os sinais destas polaridades - Jac ues Dalarun mostra-o acerca da O período feudal, que Paulette L'Hermite-Leclercq esclarece,
.J . .
1r ode sagrada: Eva, Maria e Madalerra, que reonenta a mterpreta- 111ultiplica os documentos deste tipo, mas ela acrescenta-lhe já refe-
c;, o feita pelos clérigos da- singularidade teológica da feminilidade. 1t ncias mais numerosas à prática - arquivos de instituições reli-
O ll1 'S ITIO trabalho que põe em causa as relações entre os sexos que ~iiosas, de senhorias, correspondências de homens de Igreja, de
pn,du:1,iram tais representações impõe-se sobre o vasto corpus dos kigos e por vezes de mulheres, para não citar senão alguns destes
1111>d •los cl comportamento religioso ou doméstico que são propostos novos utensílios. Os inquéritos hoje florescentes de «micro-história»
111u lh ' r s, entre os séculos XIII e XV, por pregadores, moralistas, lmzcm aqui o seu contributo, sugerindo um caminho; sabe-se que
1111, 111 '
l'I ·s isolam ccrLos ca os, visLos ao mesmo tempo na sua marginalidade
ou na sua exeepcionalidacle - e pela representatividade que se
Ih ·s atribui: histórias ínfimas, reveladas pelos regisLos das instituições
repressivas, as correspondências epistolares, os diários íntimos saídos
dos sótãos. A sua interrogação convém às perguntas que nos colo-
camos sobre as tácticas de resistência, sobre as condutas de submissão
ou de oposição elas mulheres, sobre os «contra-pode res» que elas
erigem. A documentação medieval é ainda avara destes dossiers que
fazem as delícias dos modernistas_._O ~ítulo dedicado aos séculos
\ XI-XIII por Paulette L'Hermite-Leclercq mostianoeni:anto, na anál(se
das estratégias famil iares e das tácticas femininas decifradas através
de situações particulares , o partido que se pode tirar de explorações
minuciosas análogas às da micro-história. Em contraponto, as páginas
consagradas por Georges Duby às estratégias que inspiram e utilizam
o modelo civilizador cio amor cortês alargam o quadro de referência
destas estratégias - mas estratégias cujos actores e recursos são
antes de mais masculinos.
O período final abre por sua vez sobre novas mudanças de proce-
dimentos, já que as fontes de infonnação se multiplicam e o serial dá
entrada na cena historiográfica. À luz de projector detalhando um
pedaço de vida, explorando meticulosamente os jardins secretos ele
um indivíduo, torna-se possível por vezes preferir a generali zação
de observações consideradas como acumuláveis e o quadro do con-
junto, apoiando-nos, nos melhores dos casos, em rea is descrições
totalizantes. Certamente que os especialistas da Baix a Idade Média
se lamentam também da sua miséria documental. E há que confessar
que, quando eles se arriscam a raciocinar na base de núme ros e de
médias, os dados, por vezes, agradecem-lhes com caretas e anunciam
em grandes cifras as suas malandrices. Se a panóplia mais rica do
historiador deste período lhe traz outros meios de investigação e
j ustifica aproximações diferentes, acontece que o. números, por si
mesmos, não trnzem resposta sem ambiguidade aos problemas das
mudanças que dizem respeito à condição da mulher; eles não auto-
\ 1t1,1rn 111 d:t mulher é, antes de ma is. rizam de forma alguma o historiador a poupar-se à desmontagem
11 ,lo· 11111,1 pnsonagcm silenciada e crítica das narrativas tradicionais,_O capítulo que Claudia Opitz
~11/t1 1w1 id11 110 pmlcr cios homens. consagra a este período tardio denionstr a, de maiscle um ponto de
eI qt '" d1, 1i11g11 ir:í «o feminino» no
1111111tl11 l1•11d11I'/ Q11c mu lhe r se estudará vista, como os nossos conhe6meritõs fragmentários da demografia
1111111 '/ A q11,·, ,·01110 na ilustração, antiga, por exemplo, sugeriram a alguns generalizações apressadas
1111q1111l11 110., S\'US afazeres, sai à
1·1111111d11 ;1 ,•11id111 da, l'lorcs ou a 4ue ou vacilantes. De facto sabemos muito pouco em matéria de demo-
1n•11lllllll'<i' 1·111 rn,a vigiada pe lo grafia diferencial, e poder-se-ia dizer o mesmo da nossa impotência
11111111iu'/ l ,1v11· 1111 1·,1.· rava. exploradora cm calcular a parte precisa que cabe às mu lheres na produção
011 n pl111,ul11, .1 ov1•111 ou anciã, activa
11111·u1111•111pl11tiv11. toda, e urna . econ6mica, na criação dos bens materiais como na redistribuição
l 1u11m•11111 d1· / ' 1\111/010 oi Ca/1•ario de dos excedentes, numa época em que as fontes de riqueza se multipli-
t\11d 1,• d1• ll111H11111110, 111l'adw, cio
,1·1·1110 X IV . 1·101 ·11~·:1, Santa Maria a cam e se diversificam, e em que as trocas se aceleram. Numa época
Novtt, ( '11pl'lu do, 1i,panhüis. donde nos chega também , mais forte, a voz das mulheres .
Introdução
- - - --- ~

Introd ução

Como nos outros volumes, foi dedicado um capítulo às represen-


1n~·o 'S fi guradas de mulheres, objecto de um comentário confiado a
11111a só pessoa. Como historiadora, Chiara Frugoni explicita a icono-
grafia das imagens apresentadas e as circunstâncias da sua produção,
l ' mostra também que as mulheres, mais frequentemente do que se
illlagina, foram também produtoras de imagens. A sua actividade,
muito raramente assinada, permanece contudo a maior parte do
ll·mpo no domínio da conjectura. Por vezes são vestígios ínfimos -
d •sgaste de uma pedra perto de uma lareira, marcas de passos num
solo batido, de dedos num vaso de terra, agulhas, pentes ou tesouras,
five las de cintos ... - que permitem à arqueóloga que é Françoise
Pipon nier restituir os espaços e os objectos que definem a vida
quotidiana de uma mulher, as suas actividades no interior ou fora
d · sua casa.
Paradoxalmente_, estas mulheres da Idade Média, a quem senhore_§,
espo os e censores negam a palavra com tanta persistência, deixaran:i
ufin al mais textos e ecos do seu diz~ r _d o gue trª-ços_pro riamente
materiais. O milénio que este volume cobre deixa, no seu início e
no seu fi nal, passar, um pouco mais segura, a própria palavra das
mulheres, pelo menos a de algumas mulheres singulares. Até ao
século XII - Suzanne Wemple e Paulette Leclercq tê-las-ão evocado
grandes vozes femininas são escutadas com respeito. O poder
que detinham ainda esses espíritos nobres, abadessas de mosteiros
f'umosos, esposas ou viúvas pertencentes a dinastias reinantes, à alta
l' •uda lidade, explicará só por si a sua audiência? Do século XIII ao
. s c ulo XV mulheres de todos os meios ousam fazer-se ouvir: ainda
que seja preciso apurar o ouvido para a escutar, abafada no barulho
imenso do coro dos homens, a parte que estas vozes executam no
rn ncerto literário ou místico ganha uma autonomia cujas formas e
d ' ·itos são aqui analisados por Danielle Régnier-Bohler. Palavra
dlls mulheres que suscita, ao mesmo tempo que assombro ou admi-
l'II Çt o, uma desconfiança e um controlo acrescidos por parte dos
det ·ntores credenciados do saber e do dizer.

Os le itores julgarão talvez paradoxal que nesta «História» que se


qw:r «das mulheres» tenhamos começado por dar a palavra a homens ,
111 prl1S ' nt antcs do pensamento aparentemente mais fechado à sen- Acessoriamente, mas de maneira
decisiva. o amor cortês contribuiu par;
ilil lld11d ' ' à ex periência femininas - a saber , a representantes da a educação das damas. Ele implicou a
111 111•1111111·11 ·lcrical, ou aos de um saber científico q uase exclusiva- consagração de uma Iinguagem própri
com escassa intromissão clerical, de
1111111, 11 tt1Ncu lino, os médicos. N ão será dar o melhor lugar ao domí- uma cultura cavaleiresca autónoma fa(
11 11 , 1111toridude, masculinas por excelência, tanto pela série das à cullllra dos sacerdotes. Este bonito
marfim francês ilustra os esforços dos
1111, /1111/1 1/1 .I' dus s uas referênc ias - aquelas mesmo contra as quais
1
cavaleiros para se aproxi marem do
e 'd 11111 1 l11Nur ; ia - c omo pelos seus canais institucionais? Não objecto q ue desencadeia todas as suas
1 1 t 111lhl 111 d11 r a predominância aos sistemas de representações acções , as damas. Na cúspide, a
personagún coroada s imboliza a orde1
111,1, 11 , 1111 111111pi111cntos materiais e sociais? Florença, Museu do Bargello.
In trodução
De facto, o estado actual das investigações não pem1ite evitar ,(
NOill' • 11 historiografia das mulheres em Inglaterra, Itália, França, Estados Unidos e Ale-
uma tal apresentação. Longe dos esquemas pré-determinados _da 1111111ltu, int itulado Women i11 medieval h istory anel historiography , 1987; Juli us Kirshne r
t' S 11znnnc F. Wernple re uni ram uma qu inzena de a,tigos inéditos em Women ofrhe me-
evo lução histórica, esta esforça-se por dar aos leitores os meios de rli1•1•,,t world, 1985. Outras recolhas votadas a um tema mais particu lar serão citadas
ajuizar o que nos parece marcar tão fortemente as relações entre os 11cli11111<:, cm notas.
sex os na Idade Média, a saber a pregnância, a todos os níveis das 10. E. E. Power, M edie11al People, Methuen, 1924, em q ue dois capítu los são
rn11sag raclos a mulheres; Medie11al Eng lish Nunneries, Camb rid ge, 1922. O livro póstumo
relações sociais, de modelos de interpretação e, para as ·mulheres, de J~ilccn Power, Medieval Women, na edição de M . M . Postan (trnd. fr., Lesfemmes au
de comportamento, cuja elaboração se prosseguiu, no decorrer dos Moye11 Age, 1979), agrupou em 1975 e nsaios e conferências datados de an tes d a gue rra,
séculos, no meio religioso. prc.:para16 rios de uma obra de conj unto que a mo rte impediu a a utora de publicar.
11. Yvo nne Kn ibie hler, «Chronologie e t histoire des femmes», in Une histoire des
Termi nar com «a palavra das mulheres», pelo contrário, não /i•111111es est-elle possible?, so b a direcção de Michelle Pe1TOt, Paris-Ma rselha, Ri vages,
significa, aos nossos olhos, que as mulheres tenham conquistado o J984, pp. 50-57 .
direito à palavra desde o fim da Idade Média. Os seus discursos, ou 12. Joa n Kelly-Gad ol, «Did wo men have a re na issance?», in Becoming Visible:
Wo111e11 i11 European 1-fistory, Re nate Bridenthal e Claudia Koonz eds., Boston: Houghton
o seu grito, com os quais escolhemos fec har esta obra com a contri- Miffli n Co., 1977; nova ed. 1988, pp. 137-164; reimp. em Kelly, W omen, /-/isrory. and .
bu ição de Danielle Régnier-Bohler e os testemunhos das mulheres 'rt1eo1y, pp. 19-50. O problema é também levantado para a Alta Idade Média por Joann
de Montai llou que Georges Duby comenta, permitem-nos simp les- McNamara e Suzanne Wemple, em «The power o f women through the family in medie-
v;il Europe, 500-1 100», Fe111i1list Stuelies, 1973 (reimp . in Clio's Co11sc;io 11snes·s Raised :
mente perceber como amadureceram nelas os modelos que directo- New p erspectives on the history of women, Nova Iorque: 1974, pp. 103-1 18, e in Women
rcs de consciência ou mestres do saber lhes impunham, as imagens 1111d Power in 1he M iddle Ages, M. Erler e M. Kowaleski, eds., Atenas e Lond res, Un i-
ele si próprias que os homens lhes devolviam, por vezes a sua recusa vc.: rsity o f Georgia Press, 19 88, pp. 83-101); assim co mo, pelos mesmos a utores, em
«Sanctit y anel power: The dual pursui t of medieval women», in B ecomi11g \lisible (cf.
. radical desta visão deformada, e sempre a maneira como estas 11. 9 supra), pp. 90 - 118.
«imagens» se inscreveram na sua vida e na sua carne. 13 Cf. Judith C. Brown , «A wornan's place was in the home: Women's work in
Re naissance T uscany», in Rewriting the R enaissance. The discourses c~fsexual difterence
i11 early modem E11rope, Ma rgaret, W . Ferguson, Ma urecn Q uilligan, Nancy J . Vickers,
[Traduzido do francês por Francisco G. Barba e Teresa Joaquim] c.:ds., Chicago, The Unive rsity· of Ch icago Press, 1986, pp. 206-226.
14. Wome11 anel Power, op. cit. (cf. n. 12), pp. 1- 13.

Notas
1. Cristina de P isano , La cité des da111es, trad. e introd. de Eric Hicks e T hérese
Mo reau, Paris, Stock/Moyen Age, 1986, pp. 37-8.
0

2. A expressão é de Joan Ke lly, «T he social relation of the sexes. Methodological


i111plications of women 's histo ry» , Signs: .loumal e,( W ome11 in Cul/1./re and Society, 1,
' 11 ." 4, Verão 1976, 8 10; reimpre~so em Joan Kelly, Women, history , and theory. The
r•s.wys of J. K. , Chicago e Londres, T he University o f Chicago Press, 1984, p. 2.
3. Um bom exemplo disso, na produção francesa, é o livro recente de Régine
J'e rnoud , La f emme au remps eles cathéelrales, Pa ris, S tock, 1980, dando seguime nro a
d iversos trabalhos consagrados a mu lheres de cxcepção.
4. Essa visão de conjunto fo i tentada em 1976 n um colóquio realizado em Poitiers;
as actas, úteis pe la sua bibliografia e alg umas das suas hipóteses de investigação, foram
publ icadas sob o título Lafe1111ne dans les civilisa1ia11s des X' -Xltr siecles, .Po itie rs, 1977.
5 . Joan KelJy, «The soc ial relations of 1he sexes» , op. cit., p. 4.
6. Cf. S exual Mcani11gs: The Cultural Co11structio11 o/Geneler a nel Sexuality. S. 0 11ner
t' 11. White head eds., Cam bridge, Ha rvard Uni versity Press, 1981.
7. « .. . scx/gcnder system : a set of arrangcmcnts by which a society transforms
hiolog ical sexuality into products of hu ma n ac tivity, anel in which these transformed
sex ual neecls are mel»; Gayle Rubin , «The traffic in women», in Toward an A nthmpology
1lW0111e11, R. Reiter Rapp ed ., Nova Iorque, Monlhly Rcv iew Prcss, 1975 , p p. 159 e 179.
8. Na111re , culrure, anel gender. C. P. MacCormack e M . Strathe rn eds. , Cambridge,
( '11111hriclge Univers ity Press, 1980.
9. Em re as mais antigas recolhas de Além-Atlântico, citemos Women i11 medieval
,1111•i1•1y, editado por Susan Mosher Stuard em 1976; B ecoming visible. Women in Euro-
/11 '1111 l1istory, ed. por R. Bride nthal e C. Koonz e m 1977, que ultrapassa l argamen te o
1111>110 ela Idade Média, e de q ue uma nova ed ição, bastante rev ista e au mentada, foi
p11blic11da cm 1988; Medieval Women, ed. por D. Baker, mais centrado sob re as mu lhe-
ll'N cll' poder e de re ligião. Mais recente mente, S. M. Stua rd editou um novo conj unto
,
.................. ...
'
1

As norn1as
do controlo

.,·,

1 ,,

Perante um nu feminino convencional, os médicos d iscutem enquanto o aprendiz executa. A imagem centra-se naquilo que iden-
tifica o corpo fem in ino como «máquina para gerar»: o sexo, o ventre, a matriz. Miniatura de A morte de Agripina. Dissecação
de um cadáver, do manuscrito O espelho da morte, por Thomas de Gerson, ca. 1460. Carpentras. Biblioteca Inguiumberti ne.
As normas do controlo 2

«Ao bom e ao mau cavalo, a espora; à boa e à má mulher, um


senhor, e por vezes o bastão )>1• Quantos ecos, nos quatro cantos da
Cristandade, vai encontrar o florentino sentencioso que, no século
XIV, régista o provérbio! E, para começai~alguns dos mais eruditos
- é deles que se ocuparão estes capítulos.
As mulheres são governadas pelo seu sexo. A morte, o sofrimento,
o trabalho entraram no mundo atra vés de/ás. O mesmo é dizer
através dele. Tais são as verdades afirmadas à partida pela Escritura
e pela tradição patrística. Por isso, controlar ou castigar as mulhe-
res, e antes de mais o seu co1po e a sua sexualidade desconcertante
ou perigosa, é tarefa para os homens. A prudência e o saber mas-
culinos não ck_ü:_am de o iazer, e de f'õr;;a-;uficiente. f!.r_pvérb[ps,
ditados, mas sobretudo tratados -médicos, teológicos, didácticos e-
morais forneceram, desde a Antiguidade, todo um arsenal. Conhe-
·ciment;s científicos e preocupações éticas ou de contro / ~
baseiam-se na ideia de que o corpo da mulher, se não pode manter-
-se casto_, deve tender uniçamente para a.procriação. As suas fun ções
são orientadas para esta finalidade. De resto , os médicos, quando
se arriscarem a dissecá-lo, encontrarão nele sem e.\ forço as provas
que esperavam; mais adiante sublinhar-se-ão os limites da obser-
vação empírica, cujos resultados não podem senão confirmar uma
«visão)) da mulher dominada pela sua matriz, construída para dar
à luz e aleitar.; A estas mães em potência os representantes da
esco7a de-Galena e os teólogos que os seguem não concedem, no
quadro de uma relação honesta, o_direito ao prazer senão porque
ele está de acordo com as suas teorias, e!_-róneas mas favõi'É_veis ap
9,útro sexo, de um «espe•·mw) feminino necessário à concepção.
Contra eles se levanta nos últimos séculos da i dade Média o
grupo dos aristotélicos, denso, aguerrido pelo chefe que o conduz,
Tomás de Aquino. Esta época que se esforça por melhor limitar a

f
1 extensão das capacidades jurídicas das mulheres ou. o seu exerd-
1 cio do poder, parece apenas ter estado à espera de Aristóteles para

conferir às suas construções uma justificação teonca. O filósofo


B I B LIO TE C A
traz a estrutura necessária: talvez nunca, antes da sua reinterpreta-
ção pe./o Ocidente medieval, tivessem os pensadores sabido exprimir Biblioteca de Ciênci as
de forma tão coerente e sistemática a sua ideia da f i·aqueza cons- Humanas e Educação
titutiva da mulher e a sua necessária submissão ao homem. da UFPr.
Enquanto que o alto clero dos séculos XI-XII se tinha interrogado
sobre o valor mediador da mulher perdida e resgatada, da Madalena, Um possível cami nho de salvação
enquanto que os casuistas do final do noúo período consideram para a mu lher é a vida conventua l.
Santa C lara é aceite na comu nidade
com mais atenção a compleição e as necessidades das simples mulhe- depo is de apresentada por
res, as representações e os princípios neo-aristotélicos vão selar, S. Francisco. Apesar da sua atitude
em torno do corpo f eminino, o feixe das angústias e dos fantasmas orante e submissa não fa lta o olhar
receoso de alguns clérigos. Pormenor
masculinos para dar à doutrina todo o seu carácter categórico. Não de Santa Chiara storia, anónimo do
nos espantemos por encontrar; vanguarda da nova ética das rela- século XII. Assis, Santa Clara.
rr11•,1· entre os sexos, aristotélicos comQ.,Gil de Romai'', ou as ordens
1111 111</icantes, que incitam príncipes e governos a purificar as suas
l'irludes das modas e do luxo no vestuário já não dos homens, mas
"""' mulheres. Aristóteles chega portanto no momento exacto para
111st(/1car a hierarquia dos sexos, a «guarda» das mulheres no
1111,,rior da família ou do convento e a sua exclusão das actividades
111íhlicas, a superioridade da autoridade masculina sobre a vontade
1·011111m do casal, a estreita margem deixada às esposas que desejem Olhares de clérigos
l,• 11,1r uma vida espiritual mais intensa no quadro do casamento, o
/'Nl11zido papel da mãe na educação dos filhos 2 . Jacques Dalarun
/\ sobredeterminação fisiológica da mulher cauciona além disso
1111w psicologia redutora dos seus afectos. Por causa desta mistura
d,• excesso e de submissão que ela deve à sua «natureza», a mulher
ll(ÍO pode gerir sozinha os seus desejos e as suas relações com os
outros: é ainda ao homem que compete domá-las, refi·eá-las. Assim,
" <'.l'posa será reputada incapaz de dirigir o seu amor para os seus
j,1/ws, para o seu marido, com a sábia moderação que caracteriza Uma vez mais, há que partir dos homens, daqueles que, nesta
<'SI<' último. O double standard afecta a apreciação não só sobre os idade feudal, detêm o monopólio do saber e da escrita, os clérigos;
rlr'svios à moral sexual, mas também sobre a fidelidade que os c muito particularmente dos mai s letrados de entre eles, os mais
/)(><feria evitar. Necessária à legitimidade da descendência, a fide - influentes, os mais prolixos. Monges ou prelados seculares, têm a
lidade imposta às mulheres é menos carregada de virtude do que a obrigação de pensar a humanidade, a sociedade e a Igreja, ·de as
dos homens, esta livremente consentida: um livre arbítrio masculino orientar no plano da salvação, de atribuir também às mulheres o seu
1111e realça a sua escolha da fidelidade conjugal, visto que as suas lugar nesta divina economia. Os segundos devem ir ainda mais
1•111orses à moral não ameaçam a honra das famílias, mas que, em além, conceber uma pastoral que indique a todas as ovelhas a via de
c·n111rapartida, desvaloriza a obediência das mulheres à norma uma possível perfeição, ou pelo menos de um constante aperfeiçoa-
.,.,, 111al. Pelas suas referências incessantes à natureza da mulher, os mento.
f><'ll.\'Gdores medievais enraízam na cultura ocidental a ideia de que
n fe minino se opõe ao masculino como a natureza à cultura, uma
1·r111ação que orientou certas discussões recentes sobre a antropolo-
No entanto, e sobretudo antes do século XIII, tudo os distancia Longe das mulheres
gia e a história vistas do lado das mulheres 3. Haverá necessidade
das mulheres, entrincheirados como estão no universo masculino
de dizer que se tratará aqui não de defender um tal par, antinómico
,, rfgido, mas antes de permitir apreciar a profundidade das suas dos claustros e dos scriptoria, das escolas, depois das faculdades
rofzes e a sua influência durável? de teologia, no seio das comunidades de cónegos onde, desde o
C. K.-Z. século XI, os clérigos encarregados do século se preparam para a
vida imaculada dos monges. Eis, por exemplo, Guiberto de Nogent
Notas ('!' 1 124), oblato, ou seja, oferecido ainda criança a um mosteiro
~ O mesmo que Gil Romano, Egídio de Roma ou Egídio Romano (N.R.). hcneditino. O que ele conhece do outro sexo é apenas a recordação
1. «Buon cavallo e mal cavallo vuole sprone; buona donna e mala donna vuol lancinante de uma mãe casada aos doze anos que ele recompõe para
Niµ 11o rc, e tale bastone», Paulo de Certaldo, Libro di buoni costumi, n.2 209, in Mercanti
.11·1 l1111re, ·ed . V. Branca, Milão, Rusconi, 1986, p. 43.
n proteger de toda a «mácula»; o resto é votado em bloco ao aná-
2. Sobre os prolongamentos desta dicotomia privado/público, cf. Jean B. Elshtain, tl·ma. Separados das mulheres por um celibato solidamente estendido
/ 1111,//c 111w1, private woman: Women in social and po/itical thought, Princeton University 11 todos a paitir do século XI, os clérigos nada sabem delas. Figuram-
1'1 1·~s. 198 1. Gianna Pomata, «La storia delle donne: Una questione di confine», in G/i
111111111•11/i dei/a ricerca , vol. II, Florença , La Nuova Italia, 1983.
nus, ou melhor, figuram-n 'A; representam-se a Mulher, à distância,
1. :r. S. B. Ortner, «Is fema le to male as nature is to culture?», in Womcm. culture ,w ·stranheza e no medo, como uma essência específica ainda que
,1111/ .wwie1y, li. z. Rosaldo e L. Lamphere, eds., Stanford University Press, 1974; e as pml'undamente contraditória.
, 1llil'IIS uc E. B. Leacock e J. Nash, «ldeolog ies of sex: archetypes and stereotypes», in
11 li. l ,cncock, Myths ofmale dominance, Nova Iorque/Londres, Monthly Review Press, Que o traço dominante do pensamento clerical, neste tempo, seja
l 11H 1, pp. 242-263, Nature, rnilure and gender, C. MacCormack e M. Strathern, eds., 11 misoginia, nada tem de surpreendente. Sem muito custo se poderia
l '1 1111111 idgc University Press, 1980. 11 11>:-lra r o seu florilégio opressivo, dos mais sábios tratados aos mais
li) \ 11111llhl "" 111111111111

ligeiros poemas latinos, dos comentários da Sagrada Escritura aos


pequenos piovérbios em q ue a ironia fácil tenta iludir a angústia da
Desconhecida, dêsve ndar-lhe o abismo. Tal operação teria pouco
interesse. E não faríamos a mesma verificação através da literatura
das cortes laicas ou da poesia desbragada dos goliardos, amor cortês
ou licencioso que, com mais ou menos rodeios, não fazem também
mais do que tomar a mulher como objecto? E será pertinente designar
uma sociedade ou a sua cultura como mais ou menos misóginas
enquanto não despontarem os sinais seguros de uma cultura que o
não seja? Então, retomando os acentos da apologia, haverá que
evocar os grandes santuários-Le Puy, Rocamadour, Wa lsingham,
Lorette - onde as multidões medievais vinham em filas apressadas
prestar homenagem à Madona - Chartres, Laon, Paris, Coutances,
Amiens-, pilares, torres e flechas lançadas para o céu como o ardor
do lo uvor por aquela que foi e é «bendita entre todas as mulheres»?
Mas as outras, todas as outras, o que recolheram elas de facto dos
benefícios desta bênção excepcicmal? Mais vale renunciar imediata-
mente a qualquer abordagem unívoca ou anacrónica e escutar antes
esses detentores da alta cultura clerical, escutá-los de perto e naquilo
que dizem. A ide ia da mulher obceca-os, e é dessa obsessão que
q uereríamos dar conta.
A obsessão cria o \novimen to. A literatura clerical dá, pelo
contrário, a impressão de andar à volta. São os comentários dos
Padres dos primeiros séculos que ruminam inexoravelmente nos
seus próprios comentários os letrados medievais, alimentados pela
Escritura e pela Tradição. Marie-Thérese de Alverny fica desolada:
«Não se deve esperar encontrar neles considerações originais»' .
Estaria j á tudo em Ambrósio, Jerónimo, Agostinho, os prós e os
contras, os argumentos favor.:'iveis e os ataques misóginos? É verdade
que todas as tentativas para distinguir fases de evo lução, positivas
ou negativas, tanto da imagem como da condição das mulheres na
Idade Média, se contradizem fac ilmente. Deixando-se desencorajar
pela aparente imobilidade desta vaga de textos que engrossa sem
cessar para sempre permanecer como as águas estagnadas, não se
terá a tentação de evocar, para dar conta destas figuras antinómicas
da mulher, os arquétipos da feminilidade, imutáveis, hieráticos, que
1111111 ~pm:a em que a formação do alto da sua eternidade se recusariam à história?
cliµim,u insti tui forças económicas, Os nossos autores medievais detestam a própria ideia de novi-
tifl•11:11tcs !,!.l'ilUs ele poder e dive rsos
1ívtis 1k intC!,!.rnção social, a mulher
dade. Quando inovam, abrigam-se mais do que nunca atrás da tra-
i,t11 p\'lns olhos dos c lérigos acabará dição e pretendem simplesmente voltar às fontes. É sempre do velho
1or S<'I 11111a rins fo111es principais ela que eles fazem novo: e fazem muito e bem. Para quebrar o duplo
111(ilisL' l1i,t1\ii1·n. liste pormenor ele um
'rcst·o 11111r1il d1· /\ ndrc:1 Bonaiuto encanto dos juízos de valo r reversíveis - uma Idade Média ver-
1111rod11~ us 11111ll1cn:s seculares e gonhosamente misógina ou de liciosamente feminista - e do fas-
k ligio.,as 11u r o1 tcjo da Igreja
Mil/1111111•. M1•mlos do sécu lo XIV. cínio embotado pelas estátuas sem história e sem vida - Ísis ou a
Flon:11c,:11, S1111111 M.iria a Nova. Grande Mãe sob o véu de Maria - , não há como lembrarmo-nos
Olhares de clérigos 32

,k· que os mesmos homens, os mesmos clérigos, levaram simulta-


11tamcnte a mulher ao pináculo e votaram-na ao anátema, mas, no
1•111 anto, acreditaram sem reservas que a humanidade inteira se
inscrevia num plano de salvação. Cada um deles é atingido por esta
rnn tradição - que, como observa René Metz, se reflecte também
110 di re ito canónico2 - e cada um tenta resolvê-la, sem dúvida à sua
111uneira; mas fazem-no, colectivamente, mais para responder ao
s c ulo q ue os rodeia, para tentar inflecti-lo, do que para imprimir o
s ·u movimento no movimento dos tempos. A sua teologia toma-se
pastoral. Produto da história, produz história por sua vez.

1111111,/,1 Partamos portanto de um meio coerente, num tempo e num


espaço precisos: a viragem dos séculos XI-XII, a França do Oeste;
de um grupo de homens mais restrito ainda e, para recusar qualquer
fac ilidade, aqueles mesmo que Raoul Manselli vê inspirados ai piu
cmdo misoginismo3 : Marbode de Reunes (t 1123), Hildeberto de
Lavardin (t 1133), Godofredo de Vandoma (t 1132). Os dois primei-
ros são de origem modesta, produtos das escolas-catedrais que nesse
tempo fazem com que o saber saia dos mosteiros. No mesmo ano,
l!lll 1096, um é eleito bispo de Rennes e o outro bispo de Mans.
1 aqui, Hildeberto passa em 1125 à sede arquiepiscopal de Tours.
Godofredo é de mais alta extracção, proveniente de uma linhagem
de barões aliados dos condes de Anjou. Entra em criança no mosteiro
beneditino da Trindade de Vandoma, toma-se o seu abade aos vinte
anos, em 1093, e conserva este cargo até à morte. Os três prelados - dízimos, dos santuários paroquiais, da designação dos curas, que os Eva é o primeiro modelo feminino que
reúne todos os indivíduos do seu sexo.
dois seculares, um regular - não são hoje conhecidos senão pelos ~ ·nhores locais pretendiam gerir, até às eleições episcopais e ponti-
Súmula de elementos negativos e
especialistas. A sua memória resistiu bem menos ao tempo do que a f'i cu is, dominadas pela lei dos príncipes e do imperador; mas também indutora da desobediência de Adão,
dos seus contemporâneos Anselmo de Cantuária (t 1109) e Ivo de r ·l"rear os costumes do clero, estendendo aos padres seculares o celi- personifica a tentação, a sedução, a
deserção, a inimiga, a «porta do
hartres (t 1116), com quem estão aliás em relação frequente. Mas, huto copiado da vida monástica, oferecer-lhes o quadro da vida diabo». Expulsão do Paraíso,
para o que nos preocupa, eles constituem testemunhas de e leição. vu nónica para regular a sua existência quotidiana; enfim, propor aos pormenor da ábside de Santa
Margarida de Sescorts, sécu lo XII.
Estes homens situam-se no final de uma vaga de fundo da Cris- k igos, que tomam por vezes uma parte activa no movimento refor- Vich, Museu Episcopal.
tandade medieval : um movimento de reforma começado desde o 111ador, como na Pataria milanesa, novas estruturas de vida religiosa,
século X, sensível antes de mais -num florescimento monástico que 111 1como os conversos que surgem no começo do século XII na Car-
v • aparecer Cluny em 910, Camaldoli e Vallombreuse na aurora do 111xa, em Cister; indicar-lhes a via da salvação que conduz a Jerusalém,
s c ulo XI; na segunda metade deste século, o testemunho é assumido l11 11çá, los nos caminhos da Cruzada; modelar de novo os seus
p ' los papas, a ponto de a historiografia fixar este movimento inovador ro1111:io1tamentos, como a nova definição, monogâmica, indissolúvel,
sob a designação de «reforma gregoriana», em homenagem ao impulso 11cramental, do casamento que triunfa no dealbar-do século XII.
d 'Cisivo do papa Gregório VII (1073-1085). Reforma, porque se Os nossos três prelados, activos um quarto de século após o
1ruta segundo os seus promotores de um regresso à pureza evangélica, po111ificado de Gregório VII, promovidos logo a seguir à grande
1 vi la ideal dos apóstolos; movimento novo, na verdade, que pretende v111gcm de 1095 durante a qual Urbano II pregou a Cruzada em
111odul ar tanto a vida dos clérigos como a dos leigos e as próprias l•r1111ça, pertencem à geração que deve pôr a reforma à prova dos
,v l11ç< s e ntre a Igreja e o século. Qual é então a ambição dos «refor- l111·1os, aplicá-la no terreno, passo a passo, pé a. pé, confrontada com
11 111dores»? Antes de mais, libertar a instituição eclesial dos poderes 11 111u lti plicidade das situações concretas, das te nsões, das resistên-
1·t·ulurcs que tinham assumido o seu controlo - o que vai dos 1 111s. E deixam-nos nos seus textos um testemunho excepcional desta
11 111111111 d,1111111111111
1 11 11 l 111 11 li 111 111 1111 11111• 11 mulher surge directamente do flanco de Adão6 • Mas, soh1 l 11111, 1111
l l\111111 I li 111111111 111111111 illlth II l ' ( ihtesis, é a mulher que se deixa seduzir pela serp ' 111 \' 1· li 111 11 11
111111 11)11 11 1111" 1111 1111 li 11•1111,
111,, 11" d, 1,1 ,h 1•11111 111111 11lrn d11 vi<l11 seu companheiro à desobediência. Ela recebe a pari · 111111 111
111111111 d i',11 1li 111l11i1t 111 , 11 fllll' ÍII das maldições de Jeová: «Eu multiplicarei os sofri111 •111 0 il 1 111 1
l'h f 111\lh li li 1 \'I 111 l Wl\11 li
1111 1 111 ,1 1p.1111h11 p1lhlll'II. !'l'ilvidezes, no sofrimento darás à luz os teus filhos. () 11•11 d, , i,1
'"'""" 11111 ,li 111111 i1p111•I 111111 11k'o do i111pelir-te-á para o teu marido e ele dominará sobre ti ». Nn 111u1111 111, 1
1, 11111 li (11111111111111, l'IIIIIN(IO do dt· ser banida do Éden, ela recebe do homem o seu no11 1t• 111111 11
11111 1, 1111 d, ';1111111 M11d11 d1• Es1any) e
111111111111111 tl1 11111 IIIIIIIIINl'l'ÍIO 1d 11ul de dominação - e toma-se Eva, «a mãe de Lodos o v1, 11
I''"', ili 1111 tl1• c·1~11•1, sfr11lo XIII. O seu papel na Queda é tradicionalmente entendido crn111, 11 11111
I" 11 1111,1 ll(l' l ' II M1111it'ip11I.
pravc; veja-se Ambrósio ,de Milão (t 397): «A mu lher I q111 l,,i
1111tora da falta para o homem, não o homem para a mulh1·1 N 1 1

pt·11tc é identificada com o Diabo, Eva com a tentadoru , \' '1'1 111111 111,
( 1· t:. 223) exclama, dirigindo-se a todas as mulheres: «N 111 ,d11 111
acção reformadora na base. Tocaram em todos os géneros: tratados qu · és Eva, tu também? A sentença de Deus tem aind11 111111 1111li111
teológicos, comentários às Escritu ras, vidas de santos, poesia latina, vigor sobre este sexo, é preciso portanto que a sua ·1ilp 1 ,111, 1 11
sermões, cartas de direcção espiritual; um espectro completo que 111111h m. Tu és a po1ta cio Diabo, tu consentiste na suu n1vu11 111 1
conduz permanentemente da teoria à prática, regressa depoi s das 11 primeira a desertar da lei divina»9•
realidades à conceptualização e, claro, da mulher às mulheres, das A carta de Godofrédo dirigia-se aos seus monges. 1~111 111, 1 111 ,
grandes figuras legadas pela Escritura e pelos Padres aonde lhes q11t· •le convencesse esses companheiros do Cordeir i11111t 11!111111, p1,
parece revelar-se melhor a essência da feminilidade às suas desti- 11 sua escolha de recusarem a sua parte na carne, de s · 11 111 1111 , 111 il 1
natárias, às suas ovelhas ilustres ou anónimas. 111ulhcr, moralmente hedionda desde a origem e cuja lwl1
11 \'iu l constitui o pior dos logros, era a boa escolha. N11 1, 1!111
Od1odcCJu~(t 942),retomandoaadvertênciade J@o< '11 111t-i111
A inimiga ('I' '107) corilia Eva, inspirava aos seus monges os nws,1 111 li 11111
s11 lu1urcs: «A beleza do corpo não reside senão na p li..'. <'11111 i 1, 11 11
Na priiyeira abordagem, eles fazem tudo para dar razão a R. st· os homens vissem o que está debaixo da pele, a vistn d11 111111111 1
Manselli: «Este sexo envenenou o nosso primeiro pai, que era d111· lhes-ia náuseas ... Então, quando nem mesmo co111 1 11111111 d,
também 'o seu marido e pai, estrangulou João Baptista, entregou o 1il'dos suportamos tocar um escarro ou um éxcremcnLo, c111 1111 I""''
corajoso Sansão à morte. De uma certa maneira, também, matou o 1110s d scjar abraçar esse saco de excrementos?»'º· N, o t'IH 1111d, 111 1
Salvador, porque, se a sua falta o não tivesse exigido, o nosso Sal- pt· k dos homens, talvez menos fina, os mesmos hun1w·1• ' \ 1i1, 11
vador não teria tido necessidade de mo1Ter. Desgraçado sexo em 11 o afl ora ao abade de Cluny.
que não há nem temor, nem bondade, nem amizade e que é mais de liin 1105 , Godofredo reincide numa carta a l lild1•l111111 d
temer quando é amado do que quando é odiado»4 -Á primeira mulher l ,11vardin. Trata-se de o pôr de sobreaviso contra a ini111ll'11 1111 11il, d,
que surge sob a pena de Godofredo de Vandoma por volta de 1095, 11 hnde da Trindade, a condessa Eufrosina de Vandoma . Vi 11 v11 d, 11111
in~ugurando e resumind;'í?do .º seu sexo, é-Evv A narração ~ª.i ,,' 11111 rido morto na cruzada, ela é depositária dos interesses d1• 1t 111 , 1 1
Cnação e da Queda no Geneszs pesa permanentemente na v1sao 1· dispula a Godofredo direitos sobre a região; confli1 0 r ·11d11I l 111 11 ti
medieval da mulher; narração complexa, como se sabe, tanto na sua l'111 que o picante vem do facto de os azares da Cruzada li 1111 ,1,,
redacção como no seu conteúdo, mas cujos traços mais salientes, os 1t·111pos? - terem dado ao abade misógino um riva l cio rn11111 1 "
mais facilmente retidos - tanto mais quanto encontram eco nas .. T •ndcs de tomar cuidado, venerável prelado, para qut· 1 1111111,, ,
Epístolas de Paulo - , são altamente desfavoráveis ao «segundo 11uo abuse da vossa simplicidade e não vo force a 111•ii l 11111 1 1 1
sexo». O j eovista afoma em primeiro lugar a primazia do homem vossa mãe, a Igreja romana. O sexo feminino esLá. muil o m·o 111, 111d11
sobre a sua companheira, a qual só é criada em segundo lugar, de 11 abusar». Pérfido Godofredo, que teme que o bi spo d · M1111 1111111
urna costela do homem, para lhe dar uma «ajuda que o complete»5 • o parlido de Eufrosina: Ivo de Cha.rtres revela-nos q11t·, 111111 d,
Preci samente a partir do século XI, como mostrou Roberto Zapperi, a ·cdcr ao episcopado, Hildeberto teria tido uma mu li icl H1 d, 1tll 11,
a iconografia condensa o texto bíblico num resumo espantoso: a ·opulando sem vergonha com mulier cufae, mulh ' f" 'H <il' lt111 11, 1111
/
Olhares de clérigos 3

tl t ,.11, 11 , C,odofredo prossegue;,/Com efeito, esse sexo abusou, pela /


111 111·1s1iasão, do primeiro homem, e cercou, com a sua pergunta, o
I"' 11110 Pedro. Pressionou o primeiro à transgressão e o segundo à i
111 , ,11,. É por isso que este sexo, cumprindo o seu ofício à maneira j
,1, 1111111 Nt'rva porteira, todos aqueles que seduz, ou os exclui da v{da, J
1 11111111 rluiu Pedro de Cristo, ou os inclui na morte, como Adão no \

1 1111111» 1}.
1wrva porteira» vem da n arrativa da paixão segundo S. João 13 .
1 11 Jt 11 11ou-se na p atrística uma das imagens favoritas de Eva, já q ue
I'', li 11111 Pedro à negação como outrora pressionou Adão à queda.
1 ,1 e onduziu mal Adão, a serva introduziu m al Pedro», explica
1\1 l 111m de T urim entre os séculos IV e V 14. Na m aior parte das
, 1!1111111~ tradicionais, a mulher está mais próxima das forças mis-
1• 1111 1 da vida e da morte do que o homem. Porta da vida, ela vela
111111!1 111 pelos últimos instantes, no limiar da outra grande passagem.
l 1 1110 de T urim , Godofredo de Vandoma, a sete séculos de.dis-
1 1111 111 , quebram este balanceamento. A serva porteira já não abre
1 11 11 obre a Queda. Mas assim como na idade romana o reemprego

l 1 , 11l1111as antigas produz um santuário que já não é o templo ori-


111 ti tornado como modelo, os autores dos séculos XI-XII inflectem
, , 1111111 1 iitil dos seus antepassados. Godofredo retoma qu ase palavra
I" ,1 111tl11vra o serm ão de Máximo de Turim, com uma excepção:
1111111 11 oba sua pena aparece o nome de Eva. A figura está lá, mas
l11,11111 1111da, inominável.

1 q11 • o combate é de envergadura e há que lançar mão de todos Frágil flagelo


" ,, , ursos para promover uma das mais fantásticas reformas dos
, 11 111111t·s que nos foi permitido observar. Hildeberto viveu mari-

1 d1111 lll t', polígamo, teve filhos . Por seu lado, Roberto de Arbrissel
1 1 1 1 1()) é filho de padre. Retomando o curato do p ai na Bretanha,
, ,11h1•1·t· u por sua vez o pecado da carne. Depois andou errante, ere-
1111111 , d ·pois pregador, em breve seguido por uma turba mista em
1111 li11111cns e mulheres estão lado a lado, se deitam a trouxe-mouxe
1111 11 A lo dos bosques. Por volta de 1098; Marbode de Rennes fulmina
, 1p11 r comunicar ao destinatário da sua carta o nojo da carne, da
11111ll11•r: ·i-la, à vez, tentadora, feiticeira, serpente, peste, traça, comi-
1 li 111, wncno, chama, embriaguez. Que resultará destas experiências

1 1111d11losas, destes roçares insensatos, senão os ventres das mulheres

1, 11 11dos pela gravidez para rebentarem como «velhos odres»


1111 ll11dos de «vinho novo» 15 ? Terão elas, pela sua parte, que não é «E darás à luz os teus filhos com dor»
E, haveria que acrescentar, «com
1111 11111', sentido este medo do p arto, esta repulsa que dele têm os morte» . A popu lação medieval sofreu
111111 l111s'l Infelizmente, as fontes medievais não nos ir,iormam sobre um e levado número de mortes em
casos de pai1os difíceis. Miniatura do
1 11 l111rcce bem masculina, esta aversão pela entrada na vida. Agos- século XIII. Áustria, Biblioteca de
1111111, ( 1· 430) lamenta-se: «Nascemos no meio da urina e das fezes» 16• Viena.
_ _____._' -~·- ...... .. . ,.
38 A8 11<H' mn~ d o on lroln

Guy Devailly ass inalou que na longa carta dirigida por Marbode • 1111 dm Padres, principalmente com os autores dos s' ·ttlos 1 1
a Roberto de Arbrissel o nome de Eva, por todo o lado implícito, não 11 11 1.ih lidos; acordo profundo nascido do paralelo das ·011 j11111111 1
surgia nunca 17 • No poema Da mulher má, terceira parte do Livro dos ~ N11 11 11111 IV, num tempo em que a ascese toma o lugar cio 11111 1111111
dez capítulos, o bispo de Rennes confiou à sua musa o cuidado de 111111 p ll ll' dos homens, ciosos da sua virgindade, sepani sv d, 11rl,
juntar todas as imagens misóginas que lhe oferecia a sua vasta cul- 11111111111 p11ra enfrentar a tentação do deserto: os mong •s , N 11, t 111
tura clássica e patrística. Rosario Leotta esmiuçou todos os versos 18 . li,11111 dualistas, o mal identifica-se então cada vez mai,~ ,, , 111 1
É um dos fragmentos da literatura mais misógina que nos pode ser • ,11111·1111• com a carne . Desta vez, na viragem dos séculos ;,.. 1 11 ,
dado ler, ultrapassando de longe a Sexta Sátira de Juvenal ( t c. 140), q11,111d11 11 lentação dualista espreita de novo no campo dn, 111 111 ,
de que Marbode se serve no entanto largamente, igualando o Cân- 11111111111111. o apenas manter sem falhas os monges nos ' 11 p111p11 11 ,,
tico sobre o desprezo do mundo de Rogério de Caen (t c. 1095). A 11111 111·1111 te - «Pastores, afastai dos vossos rebanhos as 1111111 1,q, 1
femina, ataca Marbode - e, ainda aqui, o nome da «mãe de todos 11 , r li11 11a Rogério de Caen23 - , mas também clcsvi11 1· 1w l11 "
os vivos» é cuidadosamente ocultado - é «a pior das armadilhas 11111111~ cl ~rigos da mulher tentadora: bispos nicolaílas, l', 1111111 111
preparadé;is pelo Inimigo», «raiz do mal , fruto de todo · os vícios». d, 11111, indo curiosos, padres giróvagos em busca de l' p1•111 11, 11
Do termo f emina resvala-se para o uso de meretrix , a prostituída: 1111v11~. Na geração ante1ior, Pedro Damião (t 1072), o gr1111d, ,, 1111
«Uma cabeça de leão, uma cauda de dragão e no meio nada mais do 11111drn·, linha-se lançado com uma raiva inaudita con1 1·11 1 11111
que um fogo fervente» 19. Aviso a todos os clérigos-escolares que , 1d111111s dos clérigos», «chiqueiros dos porcos gordos ,, 11111111
empalidecerão com estes versos do retórico: eles que não se 111111·11s de tigre», «víboras furiosas»24 . Assinalemos, ç1H1l11d1, q11 ,
exponham a essa fornalha! 1111 1<'11111<..;a elo Oeste nenhum destes panfletos se dirig' 1s 111111!1, 1,
Chama e cinza. Hildeberto de Lavardin contribui também com a 1111 111vs1110 aos leigos: é puro assunto de disciplina e ·k'sl11 I h ,1
""~ - -,
sua estrofe. Os três maiores inimigos· do homem são a mulher, o O terna não é novo; o que o é, é a violência do assn ll111·, 111,, 1 11
dinheiro, as honras/ A mulher, coisa frágil, inconstante a não ser no tl rn, 11ossos autores, a não nomeação da inimiga. A mu llw1 p 11111 Ir
crime, não deixa nunca espontaneamente de ser nociva. A mulher, j11111o é Eva, é alnominável,no sentido mais forte cio ll' 11 1w 11111 ,11 11
chama voraz, loucura extrema, inimiga íntima, aprende e ensina 1 ~lll eslranha discrição? É que, segundo Isidoro de Sl Vll l111 , 1 11j 1
1
/\ pesar de transmiti r uma imagem de
maternidade humana, esta Virgem tudo o que pode prejudicar. A mulher, vil f orum , coisa pública, 11hias Etimologias constituem uma das chaves essen ·iu s d11 1 I N 111
gólica é antes de mais o trono de nascida para enganar, pensa ter triunfado quando pode ser culpada. 1111•dieval dos clérigos, Eva é vae, a desgraça, mas talllll1111 1/f,1 1 1

Deus. Virgem do Leite, frontal de altar


do santuário de Rigatell (Huesca), Consumindo tudo no vício, é consumida por todos; predadora dos vi dw'\ e que, segundo o hino famoso Ave maris ste/1(1 111• 111111 11
sécu lo XIII. Barcelona, Museu de Arte homens, toma-se ela própria a presa» 27 como sugeria já Marbode p1111 ir do século IX, em Eva lê-se o anagrama de A ve ou11t 1111 d111
da atalunha.
evocando os suplícios do parto, a mulher reencontra-se para acabar gido por Gabrie l à nova Eva. Numa palavra, evocar ~va j:1 l11 v111 111
vítima dos seus crimes: «chama voraz», mas «coisa frágil». Este Maria e significar com Jerónimo (t 4 19): «Morte p r Eva, v1tl11 111 ,1
último epíteto vem ela Primeira Epístola de Pedro: «De modo idên- Mu ria» 26 ; ou com Agostinho: «Pela mulher a morte, p •111 111111111 1 1
tico, vós, os maridos, levai a vida comum com compreensão, corno vida»27 . Anselmo de Cantuária conserva este balaneca111t 11111: 11,111
junto a um ser mais frágil, a mulher! Dai-lhe a sua parte de honra, impedir que as mulheres desesperem de alcançar a sorh: do 111 11 1
como co-herdeira da graça da vida! »21. Veremos adiante que Hil- -aventurados, já que uma mulher esteve na origem d' 11111 11111 1 1111
deberto de Lavardin sabe reencontrar noutros locais estes acentos grande, é preciso, para lhe restituir a esperança, que t1111 1 111 11ll ll ,
menos crispados para falar do casamento, mesmo que a superioridade esteja na origem de um bem igualmente grancle» 2H. l~11q1 1111111 1p11
do homem permaneça sempre afümada. Quanto à fragilidade da para os nossos autores, mais radicais, a ponte entre Ev:i l' M 11 1r1 1 11
mulher - a sua «moleza», diria Isidoro de Sevilha (t 636)22 , se não momentaneamente cortada. A.um~ E_ya inominada 111>11 1111 1
é dado de natureza, é no seio da sociedade feudal algo mais do que
uma percepção do espírito.

A Virgem-Mãe
As Lobas no redil Misóginos, os nossos prelados são-no sem rodeios. Para alimen-
tar e confortar os seus preconceitos recolhem materiais tanto da O século XII, repetiu-se à porfia, foi o 1 rand1· S ( l'liln tl 11 11 ,q,1 tl "
tradição cristã como da latinidade clássica: o poema Da mulher má mariano, a primavera das catedrais, o t ·mpo pk•1H1 d1 r111 ,
converteu-se na sua antologia. Eles estão de acordo com a mensa- Senhora»; impulso visível ma que se a li ,n ·11111, l'011 10 11 1,1 11111, 1 11 1
Olhares de clérigos 4·

1,, h 11q, d11s inova · 'S vindas do século XI, que é o da mais viva «Única, sem exemplo, virgem e mãe Maria». Orações, mas Maria sempre mais virgem
1, 11111 11111,· lo m11dnna. Un1endamo-nos: como as nossas fontes atestam, 111111bém meditação, especulação sobre a natureza, a identidade, as
li, 111, 1 1111111 · 11 s aqui Marbode, Godofredo - que rezaram fervo- vii 1udes específicas de Maria. Dos quatro· grandes dogmas pelos
111 111111•11I L' 11 Mari a, lhe confiaram as suas faltas mais inconfessáveis, q11ui s a Igreja a aborda (maternidade divi na, virgindade, Imaculada
1111 d1•dlc11rn m os s us poemas; ou ainda - Godofredo, Hildeberto <'onceição e Assunção), os dois últimos não foram promulgados
, q111• n1t·cli1uram sobre o mistério da sua excepção. «Única, sem senão bastante depois da Idade Média (1 854, 1950), ainda que
1 1111plo, virgem e mãe Maria», como afinnam diversas recolhas 1 •11ham desencadeado as paixões mais cedo, desde o século XI, o u
1111111f111 i11s1'1• Q uer d izer imediatamente que louvar a Virgem-Mãe mesmo do século VIII. A ideia de que Cristo, plenamente homem
111111 dL· 111un •ira a lguma prestar homenagem ao conjunto das suas l' plenamente Deu s, tenha sido gerado por Deus na carne de uma
11111 1110d ·stas co-irmãs, como muito justamente pressentiu Jules mulher e que esta mereça em consequência o título de «Mãe de
M1dll'kl. Deus» fixou-se em época remota, nos debates sobre a natureza do
Filho que, da gnose ao arianismo, envenenaram o cristianismo do
século II ao século V. Na época medieval, ninguém põe em dúvida
N11s h ' líss imas Orações antigas do Ocidente à Mãe do Salva- estas verdades de fé, proclamadas pelo concílio de Éfeso em 43 1,
,1,,, , qu · foram coligidas por Henri Barré, dificilmente se encon- retomadas pelo concílio de Calcedónia em 451.
11 11 11, dt•sd · as origens ao século XII, o apelo que uma mulher dirija A maternidade virginal já não é discutida. A sua aplicação exacta,
p111 i.i pró pria à que é «bendita entre todas», ou o simples pedido a sua form ulação precisa ainda agitam, contudo, os espíritos. A
eh 1111 111 i111 rcessão de Maria em benefício de uma das suas seme- virgindade de Maria, no Novo Testamento, não é afirmada senão na
111 11111•s. Q uando, no século X, a monja alemã Hrotsvita compõe uma concepção e apenas por dois evangelistas: Mateus, por ocasião das
111 ,~to I Virgem, põe-na na boca do vidama Teófilo, libertado por reticências de José: «E sem que ele a tenha conhecido, ela deu à luz
M11 11 11 d· um pacto com o Diabo. Pelos finais do século XI, um um filho»31; Lucas, no diálogo de Maria com o anjo Gabriel: «Como
/ 11•1 n r/1• ornçôes composto por uma religiosa apresenta um centão se fará isso, se eu não conheço homem»32? É o Prato-Evangelho de
d, p1•,·11s j á conhecidas, sem o menor acento feminino. Composto Tiago que avança claramente, sem dúvida no século li, a ideia de
1111 1111·sma época para uso de uma grande aristocrata, o Livro uma virgindade intacta após o nascimento. Jerónimo afirma-o com
,/,• <,'1•rtmdes contém orações marianas mais pessoais e redigidas força, no princípio do século V, no seu tratadoAnti-Helvídio. E o tema
1111 l1·111i11ino singular. Mas, na maior parte das vezes, é para o seu não sofre depois disso mais contestação. Autores há que vão mais
1 lho uni ' O e real, Pedro, que Gertrudes dirige os seus pedidos à longe ainda: desde o século III Clemente de Alexandria (t c. 215),
Vl 1pt•111. ; para uma literatura de menor prestígio, tal como os no século IV Zenão de Verona (t c. 372), Ambrósio, no século V
Altl//,t/l'l',1' de Nossa Senhora, que precisamos de nos virar para Agostinho, Pedro Crisólogo ("!" c. 450), Leão Magno (t 461), na
1 1110111 rnr ' 111 massa mulheres, em geral m ães, salvas pela Mãe do viragem dos séculos VI e VII Gregório Ma.gno33 ("- 604), no século
S11lv11d1u·. IX Pascásio Radberto (t 863) militam por uma virgindade no parto:
M11rl>od • de Rennes, Godofredo de Vandoma, herdeiros do grande «sem abertura do útero», precisa Gregório Magno depois de Santo
p11 1 111 sor mariano F ulberto de C hartres (t 1029), exercitam-se por- Efrém (t 373); «vulva e útero fechados», repete Hincmar de Reims
11111111 1111s oruc: < s fervorosas à Virgem. Sem alcançar as alturas do ('!" 882)34 antes de Pedro Damião.
, 11 111111 o Anselmo de Cantuária ou, meio século depois, da obra A Deus tudo é possível, mesmo o mais incrível. O nascimento
1111111111111 111 ribufdu a Be rnardo de Claraval, empolada com os escritos virginal é contudo o ponto mais difícil de admitir. Quando Godofredo
d11 1 11 ~ 11111los d numerosos apócrifos, eles inscrevem-se na de Vandoma redige o seu sermão Na Natividade do Senhor, uma
l111cll~ 1111 ,. plon1du por Henri Barré : exaltação poética da «virgem dúvida subsiste ainda, já que e le diz querer refutar o erro daqueles
1 111111 1 p tt•t osa», «stella maris» (<<estrela do mar», segundo o jogo q ue pretendem que Maria foi virgem antes e após o parto m as que a
1h pul 1v1, 111· •i1{), «porta do Céu»; piedade filial pela Mãe do Sal-. porta se abriu no parto. Ele comenta o versículo de Ezequiel sobre
111111 , 1•111li 111111;11 nn indefectível intercessão daquela que é «refúgio «a porta na casa do Senhor, fechada e que não se abrirá»35 . Já Gregório
ili 1 111111cl111 ,, " ~'H P' rai,ça dos homens» 30 , incluindo os mais culpa- de Nissa (t 392), Ambrósio ou Jerónimo tinham visto nela o sím-
ili I d11 q11 11I M11rbod 1 m a certeza de fazer parte. Maria é a Mãe bolo da virgindade mariana; como a sarça ardente que arde sem se
11111 , 11 1 111111 , 1w s ·io da qual o filho indigno pode vir esconder a consumir, a arca da aliança de madeira imputrescível, o tosão de
li 1 1 1p1111l111 cdeão coberto de orvalho, o jardim aferrolhado e a fonte selada do
•111l olo Olha res de clérigos 43

Cântico dos Cânticos. Roberto de Deutz (t 1129), retomando


Ezequiel no século XII, insiste mais ainda no sentido alegórico,
paralelo entre o Antigo e o Novo Testamento: «Ela estava fechada
quando concebeu e terá estado não menos fechada ao dar à luz»36 .
Godofredo de Vandoma lança então a fórmula de uma virgindade
«antes, durante e após o parto»37 ; e encontramos a mesma fórmula
sob a pena de Hildeberto de Lavardin no seu sermão Contra os
Judeus, a propósito do mesmo versículo de Ezequiel3R. Não será esta
fó1mula, que soa de modo tão familiar, relativamente nova nesse
momento? Haverá alguma certeza de que tenha sido de uso corrente
antes do século XI? No seu rigor, ela anu ncia o espírito da escolás-
tica, que nela se insinuará, aliás, prontamente. Retomando no fundo
uma verdade há muito tempo afirmada, ela põe contudo, pela sua
própria forma, o acento no momento preciso do nasc imento, de que
o antes e o depois não são mais do que a escolta. É-se por vezes
tornado de ve1tigern ao ler estes tratado de Godo fredo e de Hildeberto
em que os dois clérigos, o que conheceu as mulheres e o que as
ignora, manifestando uma curiosidade insensata, exploram as entra-
nhas da Virgem. A sua concepção ela virg indade mariana parece
fechar-se ainda em relação às épocas anteriores, o que tem por Há, graças a Deus, o último baluarte das que não falharam : Eva, A idade natural cede o passo à «idade
efeito, não fazer de Maria um mode lo próx imo das mulheres, mas social», verdadeiro regulador da vida
1t monja inglesa a quem Godofredo se dirige; Atalisa, a reclusa des- em cada época'. No mundo medieval ,
projectá-la no céu inacessível de uma materni dade virginal sem a l'Onhecida a quem Hi ldeberto escreve, ou ainda Muriel, Inês, Cons- infância e adolescência unem-se
menor fenda. tança, que o seu amigo Baudri de Bourgueil (t 1130) exorta a con- numa única etapa, a da virgindade.
Este período de «donzela em cabelo»
GodofredÕ ainda: «A boa Maria deu à luz Cri sto, e, em Cristo, ~t:rvarem a virgindade, na grande tradição das cartas de Jerónimo. é considerado transitório, incompleto,
deu à luz os C1istãos. É por isso que a mãe de ri sto é a mãe de Para elas, como para as destinatárias do Espelho das virgens redi- preparatório do seguinte, que se
todos os Ctistãos. Se a mãe de Cristo é a mãe elos Cristãos, mani- caracteriza pela reprodução.
p ido na mesma época na Alemanha, não haverá temores desde que Pormenor de uma miniatura do
festa-se claramente que Cristo e os Cristãos são irmãos . Não apenas p ·rseverem. Hildeberto felicita Atalisa por ter «escolhido uma pos- manuscrito do Specu/um VirJ?inum ,
Cristo é irmão de todos os Cristãos, como é o pai de todos os 1 ·ridade eterna em vez dos laços do casamento mortal». Se ele é que representa as virgens prudentes e
as virgens néscias, procedente da
homens e principalmente dos Cristãos». Donde a conclusão: «Pai e sL·nsível à recompensa que espera no Além estas companheiras do abadia de S. Vaast, século XIII.
esposo desta virgem, ele é o seu filho»J9 • Desde época remota, Efrém ( 'ordeiro, ainda mais exalta, segundo um tema já presente em Arras, Biblioteca Municipal.
e Pedro Crisólogo tinham desenvolvido a ide ia de uma Maria «irmã, Ambrósio e Jerónimo, a liberdade de que gozam desde agora as
esposa e serva do Senhor»40 , «mãe de todos os seres que vivem pela vi rgens. Elas estão libertas do poder do homem sobre o seu corpo,
graça», em oposição a Eva, «mãe d todos os seres que morrem pela dos temores em relação à progenitura: «Compra-se a mui alto preço
natureza»41 • Mas é surpreendente ver este homem, Godofredo de 111na posteridade cuja concepção é um atentado ao pudor e cujo nas-
Vandoma, descendente de uma linhagem fe udal , exprimir a sua pie~ 1·i11tcmto é um atentado à vicla»42 • Quando o mesmo Hildeberto, no
dade nos termos do que Marc Bloch teria chamado um parentesco ~1· 1mão Do consentimento mútuo, cuja importância nos foi demons-
fictício. À verticalidade de Cristo, pai, esposo e filho, opõe-se a 11 mia por Georges Duby, tenta estabelecer o casamento como sacra-
horizontalidade dos seus irmãos, como à verticalidade do torreão se 1111·11 to indissolúvel fundado sobre a «dilecção»43 , vê-se que esse pro-
opõe a horizontalidade da corte feudal. E tudo se joga no ventre de digioso optimismo não ignora no entanto as temíveis realidades do
uma mãe fechada para todos, salvo, misteriosamente, para um; a 111sumcnto feudal, aquelas que no século XI a lenda de santa Godeliva
mãe com que sonha, nessa época, Guiberto de Nogent. d1• Cl histelles (t c. 1070) nos revela 44.
(; esse o ponto mais espinhoso: que propor às mulheres casadas,
q11v já não têm acesso à serenidade virginal e que no entanto devem
r l.l' outrbs Os nossos três prelados não são apenas teóricos, são também t qu •rcm ser salvas? Em resposta ao poema Da mulher má, Mar-
pastores. Que propõem eles às mulheres terrenas? hlHI~ compõe a quaita patte do Livro dos dez capítulos, Da mulher
..
Olhares de clérigos 45
As interpretações de Aristóteles
boa; face à puta, a matrona. A defesa presta-se ao sorriso. «Nada de realizadas por Tomás de Aquino e por
melhor do que uma boa esposa», segundo o Livro dos Provérbios. Não outros pensadores proporcionam à
se deverá preferir a mulher a todos os bens materiais, uma vez que mentalidade clerical medieval as bases
teóricas para asseverar a debilidade da
ela é em tudo semelhante ao homem, «excepto no sexo»? Existiria mulher e a sua necessária submissão
a humanidade sem a mulher? «Se te falta o campo, de que te servem ao homem. A defesa da virgindade e
da fi delidade ao esposo (incluindo o
as sementes?». A mulher é prestável, hábil. Ela é excelente obretudo esposo não nobre) são lugares comuns
nas «mais pequenas coisas» da vida quotidiana 45 . Nenhuma é pior cm exemplos hagiográficos como este
Martírio de Santa Margarida.
do que Judas, assim como nenhum homem é igual a Maria. Mas ai!, Pormenor de frontal de altar em Santa
quando cita em apoio exemplos de santas, Marbode não encontra Margarida de Sescorts, século XII.
senão figuras de virgens . No conjunto, uma defesa bem tímida, que Vich, Museu Episcopal.
reabilita a mulher na sua função social sem no entanto falar da sua
salvação.
A hagiografia responde por natureza a esta segunda expectativa.
Hildeberto de Lavardin propõe uma reescrita da vida de santa Rade-
gunda (t 587), misturando as informações dos seus dois hagiógra-
fos do século VI, Venâncio Fortunato e Baudonivie 46 • A santa rainha,
conu-a sua vontade mulher de Clotário (t 562), filho de Clóvis, tinha-
-se retirado para o mosteiro que se passou a chamar Santa Cruz de
Poitiers. A mais de cinco séculos de distância, ela tem valor de
modelo para as mau-onas da alta aristocracia com quem Hildeberto
se corresponde. Como sublinha Jean-Yves Ti1Jiette47 , esta!, reescritas
não são nunca simples mudanças de forma. No texto inicial de For-
tunato, o casamento de Radegunda, o leito partilhado, não constitue~
problema. Hildeberto insiste pelo contrário na virgindade da heroína
antes do seu casamento, na repugnância com que satisfaz em seguida
o seu dever. Numerosos hagiógrafos medíocres tentaram tomar ·
credível a ideia de que Radegunda e Clotário não teriam consumado
a sua união. É Hildeberto quem abre esta via. As virtudes da santa
não são senão o último recurso de uma virtude perdida para sempre.
Pedro Damião interroga-se, depois de Jerónimo (e esta é uma das
raras reservas emitidas sobre a omnipotência divina): poderá Deus
reerguer uma virgem após a sua queda 48 ?
Mais do que nunca, .a velha classificação lançada por Jerónimo, pela da Virgem-Mãe, mais ainda pela de Maria Madalena50 . Nos
retomada por Pascásio Radberto e por Bruno o Pedagogo (t 1101), séculos X e XI, a dinastia otoniana, depositária da tradição carolíngia,
utilizada correntemente até Tomás de Aquino (t 1274) e cuja sobre- não hesitava, como Patrick Corbet desenvolve, em propor o espelho
vivência até ao século XV Genevieve Hasenohr observa 49 , dá as suas das suas rainhas: Edite ("I" 946), Matilde (t 968), Adelaide (t 999),
provas: as virgens recolherão cem vezes mais o fruto dos seus plenamente esposas e plenamente santas 5 1•
méritos; as viúvas, sessenta vezes; as esposas, trinta. No século IX, Mas já se afirmava - inclusivamente no Epitáfio de Adelaide
como mostrou Pierre Toubert, os moralistas carolíngios inspirados - , sob o impulso de Cluny depois da reforma gregoriana, a supre-
em Agostinho tinham conseguido, na literatura dos Espelhos dos côn- macia absoluta da virgindade; para os clérigos, com certeza, mas,
juges, propor um modelo valorizador do casamento para os casais por contágio, para os leigos também, para as mulheres sobretudo.
principescos em que a grande dama tinha toda a disponibilidade de Assim, o hagiógrafo de santa Alma, por meados do século XI,
conciliar os deveres do seu cargo, a maternidade e a sua santificação. •x plica às virgens consagradas que o seu estado lhes permitirá
Ressaltava daí «uma imagem positiva da mulher e mesmo da femi- v ·nccr a maldição de Eva52 . Em contrapartida, o hagiógrafo de Ida,
nilidade>>. A figura de Eva, em vez de ser apagada, era compensada ·ondcssa de Bolonha (t 111 3), sofre como os nossos prelados da
46 As normas do controlo

França do Oeste para explicar que uma vida santa pode acontecer a 1 l11111111cnte, da prostituta, é o único m odelo. Para as dt·s1·1 11il1 111 1 d 1
uma mulher, e até mesmo a uma mulher casada. Exaltada como prnt•: irn ela morte, que não souberam aceitar o impoN 1v1 I 111 !111 1
esposa casta e sobretudo como mãe dos seus prestigiosos filhos , 111i11inno - permanecer porta fechada mantendo-se ao 11 u• ,111111 1 1111" 1
Godofredo de Bulhão e Balduíno de Jerusalém, ela tem por fim o po1 tu da vida-, não há salvação senão pela poria 1wq1 11 1111
bom gosto, uma vez viúva, de entrar na dependência de Cluny 53.
N unca a comunhão dos santos acolheu tão poucas mulheres como
entre 1050 e 1100 54 • E las projectarão noutros lados, nas sendas do Madalena
desvio, da mística e, para Gottfried Koch, da heresia 55 , o seu nascente
mas poderoso desejo de aceder ao sagrado. Teófil o era intendente da igrej a de Adana, na il t'ln 1'111 111 11 11 ·
do bispo querem promovê-lo ao cargo episcopal. Rm·111-111 1 1 li 11 ,
um outro, que coloca Teófilo em desgraça. Então o r11 11cn1 1 11 111 1 11
Pela porta pequena Mais ainda do que a hagiografia, as cartas de direcção espiritual apoderam-se dele . Por intermédio de um Jude u, uss i1111 111 11 1111• 111
são a expressão da pastoral. Hildeberto de Lavardi n dirige sete a com o Diabo. Mas, medindo o seu erro, cham a a Viq 11111 1 111 11
Adélia de Blois (t 1137), filha de Guilherme o Conqui stador. Não socorro. Tal é a lenda composta em grego no sécu lo V I ' I 111.111 1,l 1
esperemos encontrar neste tempo uma palavra destinada aos humil- cm latim no período carolíngio, passa ao Ocidente . Esl,• p1111111 1I'" ,1 1
des. As três primeiras epístolas, escritas enqu anto A dé lia vive ainda Fausto faz fortuna nos séculos XI e XII, nos textos • 1111• 111111111111111
no século, são puras li sonj as de cortesão. As quatro últimas têm data da igreja abacial de Souillac, visto que ilustra o grand • prn h , 111 111 111 •
posterior a 1122, ano em que a condessa se retirou para o priorado · a Virgem mais forte que o Diabo. Fulberto de Chart,·t·s 11•1 1111, 11 l 1
cluniacense de Marcigny, um dos raros estabelecimentos monásticos Godofredo de Vandoma faz-lhe alusão num dos seus 1w1111lí1
femininos deste p eríodo. A última missiva é a m ais importante, já Vida de Teófilo em verso é composta nos m eios letrndo 11111" 1111 1
que Hildeberto celebra nela as núpcias da monja viúva e do seu talvez por Marbode de Rennes. lgnorando a reuti li :r,n, 111 ili N1 1 1 11111
novo esposo, Cristo . O prelado ch ama Adélia su a dama e exp lica-se: pela monja Hrotsvita, o autor m antém -se o m ais p ' ti o 1111 111 1 1 d 1
«A esposa do meu Senhor é a minha dama»56 ; or a Adé lia tornou-se tradução latina derivada do grego. Eis Teófilo p n111t,· M111 111 l 1 111
esposa de Cristo. A afirmação não é nova; j á Jerónim o se dirigia de defender o seu caso, longam ente, citando em s u 11p11 111 1 111111' 1
assim à virgem Eustóquia. Mas aqui entra em ressonância com os de arrependidos célebres: Rahab, David , Ped ro, 1/,uq111•11, l '1 11il11
poetas corteses que burilam os seus primeiros versos nas cortes do Cipriano. O poeta decalca fielmente o seu mode lo, ·0 111 111111 1 11 11
Sul de França. Hilde berto, muito mais subtil, na oc rrência , do que ção apenas : entre Pedro e Zaqueu inscreve-se um novo 11t11111 , 1\111111 1
Anselmo de Cantuária nas suas cartas a Gunilda, filha do rei Haroldo Madalena, «ela que, chorando, conseguiu abolir as rn tí · ul 11Htl11 1 11
de Inglaterra, tenta tranquilizar a sua correspondente, depois de ter crimes, doravante preciosa ao Senhor, dorava nte e ·ld>r'ildll p1 1, ,
tido, no entanto, o cuidado de lhe criar inquietude : me rece ela o séculos» 58 . Enriquecida pela Tradição, inserida n a Iista dos pt•t 11d111 1
repúdio por ter outrora preferido um homem a Deus, um cavaleiro arrependidos sem dúvida sob a influênciadeuma hom ilitt d • ( l11111,1 11,
ao R ei? Não, afirma Hildeberto. E cita como apo io uma série de Magno, eis que surge uma figura que interessa ess ' 111: i11l11111111 1
exemplos bíbli cos de mulheres resgatadas : a prostituta desposada mulheres. Desde quando os séculos a celebram?
por O seias, a Egípcia desposada por Moisés - com parações pouco Tal como o Ocidente a venera, a santa não ex iste , ' 11<11111 11111 111d1
lisonjeiras - e sobretudo a famosa pecadora do Evan gelho, irmã de víduo, nos Evangelhos. Distinguem -se aí três penmn:11 t•11 11 ,111111
Marta e Lázaro. nas, que darão nascimento à Madalen a: Maria d Mu d111i1, d11 q11 li
Pedro o Venerável , abade de Cluny (t 1156), conta como a sua Cristo expu lsa sete demónios, que o segue até ao ulv(l1in 1 11111
mãe, procurand o fu gir cios laços detestáveis do casamento, se atirava julga ser a primeira testemunha da sua ressurre iç1.o; Mal'ln d1· 111 111111 1
aos pés de todos os hom ens santo s que estavam ele passagem , nova irmã de Ma1ta e Lázaro; a pecadora anónima que, •111 ç11s 11h /, 1111111
Madalen a aos pés do Salvador, implorando perdão e protecção 57 . No o Fariseu, banha os pés de Cristo com as suas láAr'in1t1 , 1·11 111• 1 11
1
espírito dos autores eclesiásticos desse tempo, a possibilidade de com os seus cabelos, cobre-os de beijos, un ge-os cJ • pt·1l\ 11 rn " Ir 11
salvação para as mulheres casadas - e trata-se das mais importantes mas pontes permitiam ligar uma ou outra cl csl as n11illi1·11·~ ( >< 11 li 111 1
í damas - é antes de mais uma possibilidade de resgate . A pe rda do abstev e-se disso . No Ocidente, Gregório Ma 110 1'1111d l11 ,1 ili 1111111
selo virginal não tem apelo, tanto física com o moralmente. A peni- vamente numa única: Maria Madale na tinha nus<:ido . Vu 1111 '111 1 1
tência é a única via ; o arrependimento ela pecadora, da meretrix , dito delineou magistralmente as etapas da sua as 'l.'11s1 o : 11 1111 11 111111 '"
,..-. ---- .

111lrolo Olhares d e clérigos 49

no século VIII nos martirológios e na liturgia, as primeiras menções O desprezo medieval pela sexualidade
feminina é compensado com a figura
das suas relíquias na abadia de Nossa Senhora de Chelles na mesma de Mada lena, a prostituta arrependida
época. Mas o verdadeiro desenvolvimento do culto, vindo ao que que escolhe um caminho de
parece primitivamente do Leste, do Império, está ligado ao êxito purificação e pen itência. A sua
representação gráfica evolui. Para
do santuário de Vézelay. Em 1050, a abadia borgonhesa, original- Giotto de Bondone ( 1266-1 336{7) já
mente dedicada à Virgem Maria, é colocada sob a protecção de não é uma figura penitente. O seu
tamanho hierárquico define-a como
Madalena. E sobretudo, nesse tempo em que a piedade tem uma tal mulher santificada, consolo dos aflitos
necessidade de apoios sensíveis, os monges de Vézelay desco- e u·ansmissora, ela própria, do perdão.
Pri ncípios do século XIV. Assis, São
brem tardiamente que detinham a relíquia da santa desde a noite dos Fra ncisco.
tempos. É preciso inventar uma narrativa um tanto fo rçada para
explicar a vinda do santo corpo do Oriente para a Borgonha, con-
ciliando esta trasladação com o lendário desembarque de Marta,
Maria e Lázaro na Provença; tanto mais quanto outros santuários
aspiram à mesma honra. A operação dá os seus frutos. A peregrinação
de Vézelay irradia com esplendor incomparável nos séculos XI e
XII, antes de ser parcialmente eclipsada no século XIII por outros
lugares ciosos de anexarem a santa: Sainte-Baume, Saint-Maximin
da Provença.

1 111·11itência O Oeste da França não foi hermético à grande «f ermentazione


magdalenica dei sec. X/ »60 • Em 1084 e em 1093, as primeiras mulhe-
res que usam o nome Madalena são assinaladas perto de Tours e de
Mans. Em 1105, Godofredo de Vandoma compõe Em honra da bem
aventurada Maria Madalena um sermão que reúne a maior parte
dos elementos disponíveis sobre a santa, pondo em ev idência o que
Dominique Iogna-Prat chama a sua «bem-aventurada polissemia»61 •
Godofredo parte da figura da mulher que unge os pés de Cristo em
casa do Fariseu. Madalena é «pecadora na cidade»; e todos com-
preendem na Idade Média que o seu pecado é o da carne, que ela se
prostitui. Pedro de Celle (t 11 83) chamar- lhe-á meretrix e insistirá
na sua insaciável luxúria62 • Ela lança-se aos pés do Senhor, segundo
a narrativa de Lucas: evidentemente que esta mulher é Madalena, «a
famosa pecadora», precisa Godofredo. E, retomando Agostinho, a pecadora ultrapassa o Apóstolo no fervor do seu amor por Cristo.
opõe-na ao Fariseu cheio de soberba: «Este sexo frágil receava o Aliás; não é a ela que Cristo ressuscitado aparece primeiro, encar-
Fariseu, homem sem mi sericórdia e muito duro, que desprezava a regando-a de anunciar a boa nova da sua vitória sobre a morte?
mulher e se recusava absolutamente a ser tocado por ela». Cristo, Godofredo não abandona a sua personagem em pleno triunfo pascal.
pelo contrário, aceita de bom grado a sua homenagem. Dividida Aventura-se para alé m dos dados evangélicos e, inspirado por uma
entre esperança e temor, ela toma-se «acusadora dos seus peca- il'nda que circula no Ocidente desde o século IX, a Vida eremítica,
dos», e é esta confissão que a salva. Mais: toma-se por sua vez 11mstra Madalena longe do seu país, entregando-se a rudes penitências,
agente de redenção, ela «que curou não apenas as suas feridas, mas pL·rscguindo a sua carne, castigando-se pelos jejuns, esgotada pelas
as de numerosos pecadores, e não cessa de as curar em cada dia que 11rn~õcs e pelas vigílias.
passa»63. Madalena, a meretrix, promovida a co-redentora? Este é \Jma vez mais, o propósito de Godofredo de Vandoma está longe
( um título que a própria Virgem não obteve sem dificuldade. Godo- d1• não ter precedentes. Ele explora minuciosamente Ambrósio,
fredo faz mais do que opô-la ao Fariseu, ele opõe-na a Pedro: ~ostinho, Gregório Magno, o sennão atribuído a Odão de Cluny.
1111110 Olhares de clérigos 51

Este úl timo texto, redigido ao que parece por volta do ano mil,
revela assim o papel de Madalena na economia da salvação: «Isto
fez-se para que a mulher q ue trouxe a morte ao mundo não perma-
necesse no opróbrio; pela mão da mulher a morte, mas pela sua boca
o anúncio da Ressurreição. Tal como Maria sempre virgem nos abre
a porta do Paraíso, do qual nos excluiu a maldição de Eva, também
o sexo feminino se desembaraçou do seu opróbrio por Madale-
na»64. Godofredo de Vandoma inscreve-se neste movimento, mas
para dar ainda m ais força à santa: é a «sua língua piedosa» que se
torna «porteira do Céu»; é ela, e já não Maria, que abre as portas
do Paraíso a qualquer penitente, contanto que consinta no arrepen-
dimento65.

,,, 1'11</oras? Dever-se-á ver na figura madaleniana - a terceira clcsla complexa


tríade - a reabilitação, quer da m ulher, quer da r miniliclade? Há
q ue pensar nisso d uas vezes antes de celebrar este triun fo ambíguo.
Godofredo não se dirige aqui de forma alg uma a aud ito ras. Exorta
os seus monges e dá-lhes em exemplo «esta mulh r g lo riosa» para
que eles The recomendem «as suas almas e os seus corpos»M. Ta I como
M adalena, no sermão atribuído a Odão de Cluny, an tes de mais
metáfora da Igreja militante, ela é essencialment ', para o abade de
Vandoma, o símbolo não da mulher, mas da pari ' 1"'111inina presente
em todo o homem e que atrai para baixo, para o ·orpo, para o sen- Face à nudez entendida como símbolo
sível, a sua alma. Ao falar da fragilidade femin ina, ·I • quer falar de luxúria, o corpo feminino é
dignificado pelo martírio. O castigo da
sobretudo da fragilidade humana. carne, ainda que inocente, é
Orígenes (t c. 252) retoma uma distinção inau umd u por Fílon necessário; ele adverte dos perigos da
(t 50): «O nosso homem interior é constituído por um espírito e por incontinência. Santa Eulália, por
transmissão do «hino de Quírico»
uma alma. Diz-se que o espírito é macho e a a lmu pod ' s ·r chamada (prelado barcelonês do século VII), foi
fêm ea»67• Ambrósio acrescenta: «O espírito é po,·111111 0 ·orno Adão, submetida ao ecúleo, ao poLro de
to1t ura, açoitada, desmembrada,
a sensibilidade com o Eva»68 ; o que Agostinho d 'S ' nvolv '. Os auto- que imada e suspensa na cruz.
res medievais, do século IX ao século XII e ui P ·d ro Lombarda Pormenor do Mal'/írio de Santa
(t 1159), preferem uma formulação m ais c ru n: A Ir o o 'spfrito e Eulália de Bernardo Marlorell
( 1427- 1452). Vich, Museu Episcopal.
Eva a carne; metáfora ainda, que não que r cli'.t, ·,· que u mu lhe r seja
negada como ser humano. Apenas o emprego abusivo d ' uma alusão
de Gregório de Tours (t c. 594) no concílio d ' M ·0 11 d · 585 pôde 1)11mião, eterna repetição das Co,~fissões de Agostinho e de Jerónimo
deixar crer que os clérigos disc utiram seri am ' IIIL' p11ru sabe r se a littnhando os pés de Cristo com as lágrimas e enxugando-os com os
m ulher tinha alma. Godofredo de Vandoma inrn ,i ,111 um di álogo 1·11h ·los para dom ar a «sua carne rebelde jej uando semanas intei-
entre o pecador - é a si próprio que ata a - e 11 < sun alma peca- rns » 111, são feitas de retórica. Têm também a sua gramática, que os
dora», «esposa de Cristo» perdida pela sua fa l111 l' I011111clu «fi lha do t·onstrange em parte. Anima pertence ao género feminino; é m uito
Diabo», «concubina do mais vil dos forni cador •s». 11 u ·sla alma - tHtl ura lmente uma peccatrix fem inina que surge para guiar o pecador
a sua - que ele recomenda a confissão das suus 1'11 ll ns ' o modelo 111 1'\.~p •ndido.
de «Maria Madalena penitente»69 . Marbod ' cl • Rt• 111ws, Anselmo de No entanto, o espelho da hagiografia convence-nos de que este
Cantuária esperam também de Madalena a r ·dl'll1;110 da sua anima 111ovimenlo retórico se encontra por outro lado com a realidade, a
peccatrix. Estas confissões estrondosas, j , prnl' ·, idas po r Pedro d11s mulheres. M arbode de Rennes redige em verso a vida de Tais,
!i2 As 1111,mos do onlrolo

ou pe lo m enos atribui-se -lhe a paternidade; Hildeberto a de Maria sarnente misógina, ou m aravilharmo-nos com 0 11Jrn 11111 1, 1 d, 11 1
Egipcíaca. Este século, que por assim dizer não cria mulheres santas, um tão belo papel às mulheres. Tendo partido eh 11111
reescreve d e bom grado as lendas antigas e m anifesta um partic ular ínfimo, se o compararmos ao milénio me di va i l ' , , 111111 111 li
interesse pelas penite ntes do d eserto. Tais é um a céle bre cortesã Ocidente, seguindo os traços de um pequeno 1111 ·lc•n d1 l,11111, 11
salva pelo abade Pafnúcio. Maria Egipcíaca, depois de ter oferecido d e alguns dos seus contemporâneos, tod os b bl'11dn 1 111 , ,
os encantos do seu corpo a qu alquer um, vive numa solidão total imensa reserva da patrística, não se pode s n; o c1111 1111 111 1 , 11 11 1
p ara além do Jordão. Foi precisam ente a sua lenda que inspirou a p lexidade do sistema de representação d a mu llw1· 1111 111 11 1 1111 11 1 1
Vida eremítica de Maria Madalena. A escolha destes dois temas c lerical. Em vez de alinhar longas listas de íra 1 11 H111t11 1 , , ill1 1il11
é significativa. A mulher é pecadora e, por essência, da carne. A que podem ser seleccionados tanto ao serviço ck• 1111111 li , 11 ,11111 ti,
salvação para ela não vem senão pelo arrependimento e pela peni- o utra, pareceu -nos preferível penetrar nos dédalos d I l 1d1111 1 , ili
tê ncia, no castigo desta carne c ulpada. Mas enquanto Pafnúc io, nas funcionamento mental de uma amostra de indiv (d1111 , 11 li 111 11 111 1,
trad uções latinas da A<lta Idade M é dia, se mostrava d e uma temí- do seu tempo.
vel severidade, adoça-se na reescrita do século XI. Cham a a Tais Estes homens pensam através dos mod los 1111111 1 1il11 I" 1 ,
sua «amiga>> . Invectiva-a: «Oh amada de D eu s, imagem do Rei Escritura. Qualquer realidade lhes chega por cst • pd 111, 1111 111 11
celeste! »71. Nestas expressões bord adas de novo na velha talagarça e xac tamente, e les estão convencidos de que aqui lo 11 q111 11, ,i, , 111
há mais do que a contaminação da hag iografia pelo léxico do mamos realidade não é senão a projecção d u11n1 lch·1 1 d11 1111dl 11 ,
fin' amor. Teremos nós a certeza, aliás, de que não foi a ling uagem q ue não poderia revelar-se m elhor do que nas 1'1 1• 111 11 1p11 111111
m ística dos clérigos que forneceu aos paladinos d a cortesia os desses textos e m que jaz a Revelação de todas as ·oi s11 . 1 li 11111 il 1 11 "
primeiros materiais da sua poética? Se o Génesis punha o hom em e uma antino mia: Eva, Maria; uma simbolizando 111111 1 1111111 11 11
a mulher como criados << à imagem de D eus» 72 , a Primeira Epístola reais e a outra a mulher ideal. Por razões de st rnt q oi 1 11 1, 1 d , li
aos Coríntios reservava, pelo contrário, esta honra apen as ao homem, d isciplina clerical, de promoção de uma nova mornl , 11 , 1 , 111 11
afirmando que era do homem , e não do Criador, que a mulher, v iragem dos séculos XI e X II mais sobreca rrc g11<111 dn q111 1 11 il rl
criatura segunda, era « o reflexo» 73 . Agostinho atormenta-se com a tua]: ela é a mulher de que o clérigo se de ve al'aslu1, 1 1111tll11 1 1h
contradição, e muitos outros depois dele, Isidoro de Sevilha, Arnaldo po uca condição de que se devem purificar as uni ·s pri111·1p1 1 1
• de Bonneval (t e. 1156), Graciano (t e. 1159), Tomás de Aquino .
Ora eis a mais indig na das m ulheres; a cortesã, promovida sem
filha do Diabo. A Virgem-Mãe, em época de e n tnlt\'. n d 11 111 11 11
ge ns, é projectada pelos homen s para fora do al can ' l' dt1 111111111 11
rodeios a «imagem do R ei celeste». terrestres. Nesta a bertura agu dizada entre as dua s l'i 11111 11 1111111,
O m ovimento estende -se fi nalmente m uito para a lém do espelho pe rfila-se Madalena. O s séc ulos XI e XII marcam o 1• rn ,uh cl, 1 11
hag iográfico. O discurso e os actos coinc idem. Neste m esm o te m po, volvimento do seu culto. A figura complexa de o ri g •111 1• 111111 lio 1
nestas mesmas regiões, Roberto de Arbrissel e Vital de Savigny torna-se m ais intensa e mais necessária. Mais int •11s11 vi ln q111 11
(t 1122), bem -aventurados fundadores de ordens, preocupam-se homens, os clérigos, a investem do sentimento novo d11 11 111 1 li 11
com a sorte das reais meretrices, ta lvez prostitutas profissionais, mas e ia, que lhes vem como sentimen to de c ulpab ilidacll'. M111 1111,
também mulheres «à dinamarquesa», mulheres de segunda ordem sária para as mulheres, para quem as vias d a ·a lvaç, o N10 1 111 1111 111 111
rejeitadas pelos seus maridos segundo os preceitos dos clé rigos re- escarpadas, senão mesmo sem saída. En tre a porl u dt• 11 u11 li 1 111 111 11 ,
formadores, concubinas de padres votadas ao anátema, todas aque las , de vida, a pecadora bem-vinda é uma porta ntr ' ull •11 11 1111111 111111
sobre as quais Pedro Damião desencadeava a sua vindicta m eio redenção possível, m as ao preço d a confissão, do u11 1•p1•11d 11111 111 ,1
século antes. Vital dota-as e casa-as . Presente na diocese de Mans da penitência.
em 1116, o herético H enrique dito de Lausana, novo Oseias, obriga Esta terceira via que Madale na abre e ntão IH o l'Xls t1• 1•111 11 111 1° 1
os h omens da sua turba errante a desposá-las. Roberto de Arbrissel - Georges Duby sugere-o - com o te rc e iro lm:ul q1u 11111 p11 1 ,
acolhe-as na sua ordem e consagra-lhes um priorado : o de Madalena Goffvê constituir-se enquanto tal na ·cg unda 111 •tnd1· d11 l 1!111 li
de Fontevraud 74 • e q ue é também lug ar de arre pe ndime nto, cl • ('SIK' 1'1111,· 1 1 ti, 1111 11 11
o Purg atório 75 • Todo o pecador se d e ve resg t1 t11 rd 11 1 lll 11 q111 11 11111 , 1
'--~
lfr ,1·w 1tr11 · se d11as vezes hegados a este ponto, admitir-se-á que não serve de grande
d esde a s ua concepção. T e m-se o s ntim ' 1110 dt· q1 w 1 1111111 11 1,
. ob os a uspíc ios de Madalena , se clc v ·111n:s1111 111 d1111 v, 1 1111 ,
co isa indig narmo-nos com alg uns por a Idade M édia ter sido obtu- ele uma : de serem pecadoras e ele se r m 11111llw n'N,
,1,1110 Olhares de clérigos 55

Tempos novos
Este é o ponto de maior acordo. Basta contudo deslocarmo-nos
um pouco, no tempo, no espaço, para que o sistema de representa-
ção clerical da mulher também por sua vez se desloque, mesmo que
se alimente sempre nos mesmos lugares. Anselmo de Cantuá1ia, por
exemplo, que citámos já várias vezes, beneficia de uma maneira
geral as mulheres com o optimismo que marca toda a sua obra,
profundamente confiante na Encarnação. Um inovador como Abe-
lardo concilia «um antifeminismo especulativo e um feminismo
prático»76 • Autores como Hugo e Ricardo de Saint-Victor (t 114 1 e
1173) exploram direcções originais: uma ultrapassagem do masculino
e do feminino num casamento que dê a maior importância ao amor,
mas que se desprenda o mais possível da sexualidade.
No decurso dos séculos seguintes podem balizar-se as continui-
dades e as inflexões das três imagens dominantes da mulher na cul-
tura dos clérigos: a tentadora, a Rainha do Céu, cujo motivo iconográ-
sobretudo os franciscanos, tomam a dianteira. É virada para a Virgem Maria-Mãe é um dos modelos da
fico Suger, abade de Saint-Denis (t 1151), talvez inaugure, a pecadora iconografia feminina. A simbologia da
que a mística medieval levanta voo: piedade filial , piedade de filhos Natividade (esquerda) e da família
resgatada. Na obra de cada autor, estes três fios entrelaçados ligam-
mais do que nunca. Menos crispação sobre a virgindade, talvez: a (direita) mosu·am um clima plácido e
-se a todo o instante numa configuração singular. Mas, além disso, amável, em que se manifesta o afecto.
mulher triunfa como mãe. -
a conjuntura modifica-se a partir de meados do século XII. Por um Trata-se de realçar o triunfo da
As faculdades de teologia são por excelência o local de especula- maternidade e do vínculo conjugal.
lado, assiste-se a uma especialização das tarefas mais desenvolvida Esquerda : detalhe de um capi tel de
c;ão e da elaboração dogmátic<J.!Xari Elisabeth B~rresen mostrou
do que na época anterior: teólogos, canonistas, pregadores, pastores, San Juan de Ortega, século XII,
como cinco autores mendicantes, três franciscanos - Alexandre de Burgos. Direita: capitel do claustro da
hagiógrafos, enciclopedistas, místicos partilham entre si, segundo
1lales (t 1245), Boaventura (t 1274), João Duns Escoto (t 1308) - catedral de Tarragona, século XIII.
limites mais estritos, ? vasto campo que um único letrado percorria
l' dois dominicanos - Alberto Magno (t 1280), Tomás de Aquino
facilmente até então. E mais raro encontrar numa só obra este espec-
(t 1274) - , levados à reflexão pela sua devoção à Concepção da
tro que os autores angevinos ofereciam. Por outro lado, as devoções
Virgem, lançaram em meio século as bases teóricas que permitirão
locais, a piedade dos fiéis vêm mais sensivelmente provocar , e por
n prazo o aperfeiçoamento dos dois últimos grandes dogmas maria-
vezes perturbar, os clérigos encarregados de prestar contas da unidade
11 os : a santificação de Maria, que não era antes senão purificação,
da fé. Em particular - e não é o menos importante - , as próprias
reparação do pecado original em benefício excepcional da Mãe do
mulheres tentam fazer-se ouvir, falar das suas inquietações, dos seus
Salvador, mas que com Duns Escoto se toma numa preservação de
desejos, da sua esperança em matéria religiosa. Nas épocas anterio-
Ioda a mancha desde a origem, e que conduz directamente à Ima-
res, os clérigos ditavam ao mundo o seu ordenamento, do alto do seu
t't1 lada Conceição; a sua Assunção corporal ao Cé u, que não é a
magistério. Cada vez mais frequentemente, devem agora reagir às
11usê?cia de morte, mas o afas tamento de toda a putrefacção. Na
iniciativas que ameaçam coarctar-lhe a liberdade.
t·o11c:cpção como no passamento, Maria escapa ainda um pouco mais
1 t:o nclição humana/
, ,/11 Filho Maria. É este o tempo pleno da sua devoção, de Cha1tres a Ela aproxima-se no entanto da humanidade - percebe-se isso
Amiens , o seu Verão esplêndido. Os cânticos mais enamorados em 111t:lhor na iconografia do que noutros domínios-, pelas suas carí-
seu louvor vêm do meio monástico, e muito particularmente dos t·ias de camponesa humilde ao Filho adorado, mas mais ainda na
cistercienses, na esteira do doutor melífluo, Bernardo de Claraval. int ·nsiclade do seu luto. Os séculos XIII, XIV e XV ressoam com os
Jean Leclercq, sublinhando embora, uma vez despistados os apócrifos, l11111unLos dos autores mais mísLicos sobre a Virgem da dor, a que
as poucas inovações teóricas de Bernardo em questões de mariologia, t l' ·oi hc o seu fil ho aos pés da cruz e o deposita no túmulo: o fran-
diz com urrí'a única palavra o sucesso espantoso dos seus textos: a vi.~~·n no onrado de Saxe ( t 1279), os espirituais Jacopone de Todi
sua «beleza» 77 . A artir do começo do século XIII, os mendicantes, ( 1 1 :106) e Ubertino de Casale (i' c. 1328), o observante Bernardino
. ·---
,11,olo Olhares d e clérigos 57
de Siena (t 1444) ... A pintura e a escultura, renascentes, asseguram-
-lhes um teatro deslumbrante. Esses grupos da Pietà, surgidos na
Alemanha, passando à Itália no princípio do século XIV, espalhados
:-~~~
depois por todo o lado, simbolizam a religião dos novos tempos:
aliança tardia da mulher e do padre numa religião da Mãe e do Filho,
voltados sobre si_mesmos no aprofundamento de uma Paixão insu-
portável, isolados do resto do mundo e celebrando a ausência do Pai. ..;..

. '\

hscritura ~ / .ara quê pôr em série as afirmações de Pedro o Pintor, Ber-


ndrc!o de Morlaix (t c. 1140), Hugo de Fouilloy (t c. 1172), Gualter
Map (t c. 1210), Álvaro Pelayo (t 1352), Gil Bellemere (t 1407),
João Nider (t c. 1438), autor do Formicarius, ou dos temíveis Henri-
que Institoris e Tiago Sprenger, redactores do Martelo das feiticeiras,
impresso pela primeira vez em 1486? Eles não fazem senão repisar
os ternas cujo florilégio Marbode de Rennes tinha fixado antes. No
século XIII, contudo, a parte nefasta de Eva parece atenuar-se mais
na pura construção teórica. As visões médicas da mulher, que Claude
Thomasset vai examinar em detalhe, têm aqui toda a sua importância.
Tentando conciliar a narrati va do Génesis com a fisiologia de Aris-
tóteles que dá à semente masculina o papel essencial na procriação,
Tomás de Aquino é com efeito levado a pensar que é por Adão e
pela cadeia contínua dos pais que o pecado original se estende a toda
a descendência humana, reatando nesse ponto as ideias de Agostinho.
O que é também afirmar que toda a iniciativa é masculina e que a
mulher, «macho falhado» segundoj , expressão de Aristóteles, não
pode viver senão na subordinação11
Nos últimos séculos da Idade Média uma dupla novidade marcª-
contudo a figura da mulher aliada da serpente, bem como o seu uso.
'; Em primeiro lugar, enquanto que as épocas anteriores tinham reser-
1 vado as suas cautelas para monges e para clérigos que deviam for-
1 tificar a sua aversão pela carne, a partir de meados do século XII
estes temas encontram-se mais espalhados numa literatura clerical
visando um público mais vasto: canonistas, moralistas, e depois, a
partir do século XIV, até redactores dos manuais de inquisição. A
, segunda novidade é temática. Reaparece então em força um velho Outro mode lo: Eva, imagem da mulher
«tentadora, feiticeira, serpente, peste,
motivo que nem o Antigo Testamento, nem a Antiguidade clássica, caruncho, pru rido, veneno, chama,
nem os Padres dos primeiros séculos, como João Crisóstomo, tinham embriaguês, raiz do ma l, renovação de
omitido, mas cujo uso Linha enfraquecido na Alta Idade Média: a todos os vícios», epítetos a ela
dedicados por Marbode de Rennes,
tagaTelice, a insuportável tagarelice das mulheres. Graciano, Gilbe110 cerca de 1098 . A ilustração fala por si.
de Tournai (t 1284), Tomás de Aquino, Álvaro Pelayo, o Martelo Adão e Eva colhendo o fruto proibido,
miniatura de Des cas des nob/es
das feiticeiras multiplicam quer a denúncia do flagelo dos novos hommes et femmes de Giovanni
i tempos quer os interditos visando a sua repressão. Eis, indigna-se Boccaccio (1313- L371), atribuída ao
Gilberto de-Tournai, que as mulheres se atrevem a falar publicamente Mestre do Campeão das Damas,
século XV. Carpentras, Biblioteca
e, o que é mais grave, a dar a sua opinião sobre o dogma e as Escri- Ingiumbertine.
Olhares de clérigos 59
turas79 ! Tomás de Aquino lembra: só a palavra privada lhes é per-
mitida; sem dúvida que a profecia lhes está aberta, uma vez que ela
é a expressão de um dom carismático80. No essencial, ele mantém-
-se muito perto da lição de Graciano: «A mulher, mesmo que seja
douta e santa, não deve pretender ensinar os homens (viros) na
assembleia» 8 1• Se a velha lição do Apóstolo 82 é martelada com um
novo vigor, é porque o perigo desponta, bem real: mulheres -
monjas, beguinas, místicas e outras inspiradas - , na diocese de
Liege, no Brabante, no mosteiro de Helfta, na Úmbria ou na Toscana,
procuram tomar a palavra no domínio do sagrado, tendem a aceder
à Palavra viva. Os guardiães da Escritura não poderiam suportar esta
ameaça sobre o seu monopólio senão ao preço de um controlo abso-
luto - cujos mecanismos vão ser desmontados por Carla Casagrande
e Silvana Vecchio - , de uma contenção vigilante da torrente impe-
tuosa da língua das mulheres.

11 , 11 1•0:es Madalena~ Saída de figuras múltiplas, ela assume sem cessar Terceiro modelo iconográfico:
Madalena, sintoma de avanço para
múitiplas faces. É a própria Maria Madalena, da qual Victor Saxer uma nova mentalidade, é o símbolo
continua a seguir o culto, enfraquecendo em Vézelay, triunfando em da mulher redimida. Na imagem,
resultado fi nal de uma interessante
Saint-Maximin, irradiando certamente em França, mas também na evolução na sua iconografia, aparece
Inglaterra e na Alemanha, ganhando a Itália83. Como mostra Daniel num espaço íntimo - mas aberto
Russo, franciscanos e dominicanos tornam-se os zelosos propaga- ao exterior, à vida - , em atitude
tranquila e ocupada numa actividade
dores do seu culto e da sua imagem84. Na iconografia italiana, ela intelectual. Esta é uma visão que
tende por vezes a confundir-se com o próprio Francisco, numa dessas rompe já com o modelo medieval.
Pom1enor de Madalena lendo,
raras passagens em que as categorias do sexo tendem a abolir-se. No de Roger van der Weiden
século XV, a cabeleira da pecadora invade a pintura e a escultura. (1397/1400-1464). Londres, National
Gallery.
Os estabelecimentos destinados a acolher, sob a invocação da santa,
as prostitutas arrependidas multiplicam-se em todo o Ocidente.
Há também figuras rejuvenescidas saídas da actualidade hagio- Progresso? Poder-se-ia opor a este texto de excepção uma massa
gráfica. Eis que o povo de Deus se põe com efeito a produzir santos de textos contrários. Caitas dada de novo? Certamente. O período
em abundância. A percentagem de mulheres aumenta, até um quarto «gregoriano» estava centrado em primeiro lugar sobre o controlo
entre 1250 e 1300, para culminar perto dos 30% na primeira metade dos clérigos, em seguida dos príncipes, depois dos outros. Os últi-
do século XV ~5• Só para as santas de Itália, a quota de mulheres que mos séculos da Idade Média vêem o mundo dos clérigos muito preo-
conheceram a carne atinge o seu ponto mais alto nos séculos XIII e c upado em controlar o mundo das mulheres. Esta atenção acrescida
XIV: um terço de mulheres casadas ou viúvas para dois terços de vale ao Ocidente grandes figuras femininas, porquanto é preciso
virgens promovidas aos altares 86. A fracção parece ainda bem pe- r,romover modelos e saber contemporizar: Brígida da Suécia (t
quena. Mas nenhuma época se aproximará mais dela até aos nossos 1373), Catarina de Siena (t 1380), que falam alto e bom som aos
dias. O hagiógrafo de Margarida de Cortona (t 1297) relata como poderosos, e até mesmo ao Papa. Este zelo exprime-se também na
Cristo revela à sua filha bem amada a incrível redenção: Madalena, suspeita de que são alvo as beguinas, as terciárias, místicas de toda
figura emblemática da pecadora arrependida de Cortona, é acolhida u espécie. Desemboca por fim na caça às bruxas. Dir-se-á que Hen-
no coro celeste das virgens, logo atrás da Virgem e de Catarina de rique Institoris e Tiago Sprenger conferem às mulheres um papel
Alex~ndria8; .Aquilo que ~e:ón~mo n.ão podia ~ncarar, o q~e ~ed~o melhor do que Agostinho?
Damião dtf1c1lmente admitia, e aqm consegmdo: a ommpotencia Não há, no entanto, imobilismo. A partir do século XIII, o
divina devolve a virgindade àquela que a tinha perdido. ~·ss •ncial está noutro lado, fora do discurso estrito dos clérigos . O
,li! O lha res de clér igos 61

acontecimento foi que outras vozes se levantaram além da sua, não O corpo feminino é, nas sociedades
patriarcais, sede de produção simbólica
apenas essa cultura paralela e decididamente laica das cortes dos ao serviço da ideologia de género
príncipes, mas também as vozes lançadas ao assalto do divino. dominante. O seio feminino,
Dante (t 1321), formado pela teologia mais elaborada, guiado por insubstituível então na nu trição das
criatu ras, é imaginado amputado em
Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino e Boaventura, apesar de relatos marliriais de uma sociedade
leigo, poeta e místico, através da fig ura de Beatriz resolve e sublima q ue não cu ltiva uma cultura do
nascimento. Sepulcro do bispo Pedro
a contradição que caía até então sobre toda a imagem da feminilidade. Sánchez de Asiaín. Pamplona, claustro
Finalmente, vozes de mulher, na maior parte das vezes contrariadas, da catedra l.
procuram projectar-se sem mediação para o Esposo do Cântico dos
Cânticos; é delas que Danielle Régnier-Bohler nos deve falar.
Deixemos pois os clérigos. É mais proveitoso dar atenção a este
mmm úrio ruidoso, que por vezes se eleva até ao grito; mesmo que
esta palavra nova se insinue necessariamente nos quincôncios do
velho saber.

[Traduzido do francês por Francisco G. Barba e Teresa JoaquimJ

Notas
Por comodidade, as fontes patrísticas e medievais são na maior parte das vezes
c itadas em nota na Parrologia Latina (PL), Paris, Migne, 1844-1864, 22 1 vol. , mesmo
q uando existam ed ições de melhor qualidade.

l. Marie-Thérese d 'A lve rny, «Comment les théologiens et Jes philosophes voient. la
femrne», in Cahiers de civilisation médiévale, 20, 1977, p. 105.
2. René Metz, «Le statut de la femme en droit canonique médiéval», in La fe111rne,
Bruxelas, 1962 (R ecueils de la société Jean Bodin, 12), pp. 59-82.
3 . Raoul ManseJli, «La Chiesa e il francescanesimo femminile», in Movimenro re!i-
Jiioso femm.inile e j i'ancescanesimo nel seco/o Xll/.. ., Assis, 1980, p. 242 (ver Biblio-
grafi a).
4 . Godofredo de Vandoma, PL 157 , col. 168.
5. Gn, Il, 20.
6. Roberto Zapperi, l ' homme enceint. L' homme, !afemme et /e pouvoir, Paris, 1983 ,
pp. 19-25 .
7. Gn, III, 16, 20.
8. Ambrósio de Milão, PL 14, col. 303.
9. Tertuliano, PL 1, col. 1305.
10. Odão de Cluny, Pl 133, col. 556.
11. lvo de Cham es, PL 162, co l. 279.
12. Godofredo de Yandoma, PL 157, col. 126.
13. l n, XVIII, 17.
14. Máximo de Turim, PL 57, col. 350.
15. Marbode de R:ennes, PL 171, col. 1486.
16. Agostinho, citado por J. Delumcau, La peur e11 Occident (XIV' -XVII' siêcle), Paris,
J <)78, p. 306.
17. Guy Devailly, «Un évêque et un prédicatcur erram au XII' siccle: Marbode de
lk nn.:s et Robert d'Arbrissel», Mémoires de la société d' hisroire et d'archéo /01:ie de
llrcl111i11e, 57, 1980, pp. 163-170.
18. Rosario Leotta, ed., Marbodi /iber decem capitulorum, Roma, 1984.
19. Marbode de Rennes, PL 17 1, col. 1698- 1699.
20. Hildeberto de Lavardin, PL 171, col. 1428.
2 1. ! Pcdro, UI,7.
1, ,111 Olhares de clérigos 63

22. Isidoro de Sevi lha, PL 82, col : 417. 65. Godofreclo ele Vandoma, PL 157, col. 274.
23. Rogério de Caen, PL 158, col. 697. 66. !d., ibid.
24. Pedro Damião, PL 145, col. 410. 67. Orígenes, Patrologia graeca, 12, col. 158.
25. Isidoro de Sevilha, PL 82, col. 275. 68. Ambrósio de Milão, PL 14, col. 279.
26. Jeró nimo, PL 22, col. 408. 69. Godofredo de Vandoma, PL 157, col. 231-234.
27. Agostinho, PL 38, COI. 1108. 70. Jerónimo, PL 22, col. 398.
28. Anselmo de Cantuária, PL 158, cal. 406-407. 71. Marbode ele Rennes (?), PL 171, col. 1631 -1 632.
29. Ver Henri Ban-é, Prieres anciennes de l'O ccidem à la Mere du. Sauveur, des 72. Gen., ], 27.
origines à saint Anse/me, Paris, 1963, p. 75. 73. I Cor. , XI, 7.
30. Godofredo ele Vandoma, PL 157, col. 234-235. 74. Jacques Dalarun, Ro/Jerr d' Arbrissel.fondateur de Fontevraud, Pari s, 1986, pp.
31. Mt, I , 25. 80-9 l, l O1- 113.
32. Lc, 1, 34. 75. Jacq ues Le Goff, La naissance du Purgatoire, Paris, 198 1.
33. Gregório Magno, PL 76, cal. l 197. 76. Jean Leclercq, «Un témoin ele l ' antiféminisme au Moyen Âge», R evue /Jénédictine,
34. Hincmar de Reims, PL 125, col. 694. 80, 1970, pp. 304-305.
35. Ez, XLIV, 2 . 77. Jean Leclercq, «Saint Bernard et la clévotion médiévale envers Marie», Revue
36. Roberto de Deutz, PL 167, col. 1493. d'ascé!ique et de mystique, 30, 1954, p. 368.
37. Godofredo ele Vancloma, PL 157, col. 249-250. 78. Tomás de Aquino, Somme rhéolo1;ique , I, .Q 92.
38. J-Jildeberto de Lavardin, PL 171, col. 813. 79. Gilberto de Tournai, Co!lectio de scandalis Ecclesiae, ed. A utbert Stroick, in
39. Godofredo de Vandoma, PL 157, col. 265-267. Archivumfi'anciscanum historicwn, 24, 193 1, pp. 6 ] -62.
40. Sa11c1i Ephraem Syri Hymni e/ Sermones, ed . T homas Lamy, Malines, II, 1886, 80. Tomás de Aquino, Somme théologique, II-II, Q 177, a 2.
p. 264. 8 1. Graciano, Decreto I, D XXIII , c 29, e II, C XXXlII, Q 5, e 12-19.
4 1. Pedro Crisólogo, PL 52, col. 576. 82 . 1 Tim., II, 12.
42. Hildeberto de Lavardin, PL 17 1, cal. 193- 194. 83. ,Victor Saxer, Le cu/te de Marie Madeleine en Occident des origines à lajin du
43. !d. , i/Jid., col. 959. Moyen A1;e, Auxerre-Paris, 1959, vol. I, pp. 183-255.
44. Georges Duby, Le chevalier, la femme e/ /e prê!re. Le mariage dans la France 84. Daniel Russo, «Entre Je Christ et Marie: la Madeleine dans J'art italien des XIIJ<-
féodale, Paris, 1981, pp. 142- 147 e 192- 193. -XIV' s.», in E. Duperray, ed ., Marie Madeleine dans la mystique... , op. cit., pp. 33-47.
45. Marbode de R enncs, PL 171 , col. 1700. 85. J. Tibbets Schulenbu rg, «Sexism and the celestial gynecaeum», op. cit., pp. 127,
46. Hildeberro de Lavarclin, PL 171 , col. 967. l 3 1.
47. Jean-Yves Tilliette, «Les modeles de saintéte du 1xc au XI' s. d ' apres !e 86. R udolph Bell , Holy anorexia, Chicago-Londres, 1985, p. 146.
témoignage des réc.its hagiographiques en vers métriques» , in Sanri e demoni ne/1' alio 87. Giunta Bevagnati, Vila IJ. Margaritae de Cortona, Acta sanc10rum, Paris, Fev.
Medioevo, A1fi dei/a 36" Se11irna11a di S1udi sul/' alto Medioevo (Spo/e10, 1988), Spoleto, III, 1865, p. 317.
l 9~0. pp. 381-406.
48. Pedro Damião, PL 145, col. 599-601.
49. Genevieve Hasenohr, «La vie quotid ien ne de la fem me vue par J' Eg lise:
l'enseignement des "Journées chrétiennes" ele la fin du Moyen Âge», in Frau. une/ spii1-
mir1e/a/1erlicher A/ltag ... , Viena, 1986 (ver Bibliografia geral).
50. Pien-e Toubert, «La theorie du mariage chez les moralistes carolingiens», in li
matrimonio ne/la societá a!tomedievale ... , Spoleto, 1977, p p. 259-260 (ver Bibliografia
geral).
51. Patrick Corbet, L es saints olloniens. Sainteté dynas1ique, sainreté roya/e er
sai111eté féminin e autor de /' an mil, Sigmaringen, 1986.
52. François Dolbeau, « Yie !atine de sainte Ame, composée au XI' siecle par Etienne,
abbé de Saint-Urbain», Ana/ecta bollandiana, 105, 1987, pp. 42-43 e 52-57.
53. G. Duby, La f emme, !e chevalier et le prêtre .. ., pp. 147- 150.
54. Jane T ibbetts Schulenburg, «Sexism and the celestial gynecaeum, from 500 to
1200», Journal o/medieval history, 4, 1978, p. 122.
55. Gottfried Koch, Frauenfrage und Ketzenum im Mi11elalte1... , Berlim, J 962. . .,
56. Hi ldeberto de Lava1·din, PL 17 I , col. 149.
57. Pedro o Venerável, PL 189, col. 2 14.
58. Marbode de Rennes (?), PL 171 , col. 1599.
59. Lc, VII, 38.
60. Victor Saxer, s.v. «M aria Maddalena, santa», in Bibliotheca sanctorum, vol. 8,
Roma, 1967, cal. 1089.
61. Dominiq ue Iogna-Prat, «"Bienheureuse polysémie". La Madeleine du "Sermo in
veneratione sanctae Mariae Magdalenae", atribué à Odon de Cluny (X' siecle)», in Eve
Dupen-ay, ed., Marie Madeleine dans la mysrique, Les arts et les teures ... , Paris, 1989,
pp. 2 1, 29.
62. Pedro de Celle, PL 202, col. 837.
63. Godofredo de Vandoma, PL 157, col. 270-272.
64. Odão de Cluny (?), PL 133, col. 721.
Da natureza feminina
Claude Thomasset

Porque é preciso dar uma origem à representação da mulher no


pensamento medieval, a enciclopé dia de Isidoro de Sevilha impõe-
-se. No primeiro terço do século VII_, este bispo, que viveu na mais
romanizada das províncias de Espanha, recolhe ao longo dos vinte
livros das suas Etimologias os vestígios do saber antigo. Nesta obra
a c iência medieval alia-se a uma constante interrogação sobre a lin-
guagem, chave de um saber fechado nas palavras pelo Criador. Este
método de exposição, esta busca de uma garantia imediata para o
pensamento, esta preocupação com a prova é uma das características
da pesquisa intelectual na Idade Média. A anatomia e os outros
domínios do pensamento científico obedecem a estas regras. É no
livro XI que se descobre uma descrição decapite ad calcem * do_
homem: os membros e os órgãos principais aparecem somente numa
l"rase, duas ou três no máximo, o tempo de serem definidos na sua
runção. Isto porque desde Isidoro, e nos séculos que se seguem, a
d ·scrição anatómica deve respeitar imperiosamente o princípio de
f'i 11a lidade . As alavras reservadas filª definir a mulher servem
O mestre 1ransrnite os seus
1111icamente para evocar a sua função principal_: até a sua fraqueza ensinamentos a um grupo de ouvintes
1fsica, garantia de submissão ao homem, favorece a procriação. Esta em que há representação feminina.
Sobre o cadeirão, os tarros que contêm
11«kquação e esta redução a uma função permitem a todos os teólogos o saber. Um deles é mostrado à
d1•trnct,ores da mulher fazerem economia de uma reflexão sobre a audiência. Na Idade Média, as ideias
1111 psicologia, considerando-a como uma força inquietante, como
eclesiásticas sobre a anatomia e a
fis iologia humanas convivem com
11111 l'Ol'(')O que escapa ao domínio de um espírito, como um ser outras procedentes do mundo antigo e
1 11w1nado pelos seus órgãos, e em particular pelos seus órgãos transmitidas pelos árabes. A literatura
testemunha por sua vez condutas e
, 11111s. A mulher é inteiramente um ser natural, já que é o instru- ideias distantes da rigidez eclesiástica.
1111 11111 cln continuidade da raça humana, o elemento essencial da Sobre este conjunto tão díspar se
elaborou a teoria e a prát.ica da
J 111111•1n, essa força activa que estabeleceu e que mantém a ordem
sexualidade feminina. Miciarura dos
tl11 1111ivl·rso. Se na língua francesa da Idade Média os órgãos geni- Ensinamemos da anatomia do co,po
1 11 11 n· lwram por vezes o nome de «natureza», foi muitas vezes à dos homens e dos animais, do Livre
des propriétés des choses de Jean
Cordichon, século XIV. Reims,
1111 ,·11lw,11 aos pés» (N.T.). Biblioteca Municipal.
66 As normas d e controlo
mulher, e sobretudo à fêmea, que, nos dialectos, foi aplicada tal O exercício etimológico, já evocado, satisfaz a tendên •i n t·1111 1.11111
denominação. Deste modo a própria linguagem regista esta pertença da Idade Média para um saber fraccionário, apto a r ·l'lw1 1 111111 1
do ser femin ino à matéria, juízo que contém a reprovação implícita lização, oposto à constituição de um sistema. Repr Sl'11 t11 11 11111o
dos clérigos, dos homens cuja vocação é libertarem-se dos laço~ menos inovadora do saber e o receptáculo das ideias s i111pl 1 111 11
com esta matéria, ~om este mundó.:.. Isidoro de Sevilha a Rábano Mauro (século IX) não h{i i1111 v111 ,,., 1
não ser talvez uma atitude ainda mais antifeminisla. A 1t•111 1, 11 111
das ideias virá de outras fontes.
Este corpo estranho . Com excepção da Gynaecia de Sorano de Éfeso (s ·1tl11 1l 11 1
<luzida por Moschion (século VI) e assaz frequentemcnll' v I ti, 11 11 l 1
Qualquer representação da mulher e da sexualidade é legada pela poucos textos se encontram à disposição dos médicos. A 1t•111 , 1 111
ciência antiga, transmitida pelos sábios árabes. Estes conhecimen- inicia-se na segunda metade do século XI, com a I l'Htlt 11,1111 1111 1
tos foram portanto elaborados por homens que obedeciam a uma Alfano de Salemo, da obra De Natura hominis de Nem s io th 1 1111 •
Através de uma série de práticas lei moral diferente. Estes textos serão lidos e explorados enquanto (século IV d.C.), que lega ao pensamento medieval, n:111 < l,tl, 1111
mágicas pouco o rtodoxas se revela a a Igreja tenta instaurar regras que regulem cuidadosamente a sexuali-
efi cácia da oração. O caso re lata-se em mas um galenismo adaptado, que obedece a um certo ti 1 s1•111 d,
seis vinhetas, ele que reproduzimos dade e põe em prática a instituição do casamento. O Levítico asso- rematização. As produções mais numerosas e mais ricas dn 11 1lt 111
quatro, com textos em galego ant.igo. ciou a doença à impureza e a tsarâ'ath do texto sagrado, que agrupa científica da época devem-se à actividade dos mécli ·os d 1 1 , , ti ,
Uma mulher dava à lu:i. sempre filhos a lepra e um conjunto de derniatoscs, é para o homem medieval a
mortos. Fez uma fig ura ele cera para o de Salerno. Graças às traduções de Constantino o Af"ti ·111111 , 1,
remediar, mas nasceu-lhe outro filho lepra lepromatosa, presente no Ocidente sob a fo rma de uma p.andc- tuadas no decorrer da segunda ·metade do século X I, oH 111111 1,, 1
morto. Solicita a intercessão ela mia desde o século VI 1• A presença do leproso acresce considera-
Virgem Maria e esta ressuscita a mentos da medicina árabe encontram-se disponíveis: ! '11111, , 111 oi
criança. A mãe chama toda a gente velmente o medo da transgressão e dá crédito ao discurso teológico Ali ibn-al-Abbâs (século X), Viaticum de lbn-al-Jazz 1, /1 , , , •
para que contemple o milagre e por sobre a c ulpabi lidade da carne. Os sábios m edievais - e mesmo os talvez do mesmo autor, e uma obra que terá uma grancll• 1111111, 11, 11
último leva o menino a Salas, onde
todos louvam a Virgem. M in iatura do
mais livres de pensamento - transportam neles este medo, e esta sobre o pensamento medieval, o pseudo-galénico L l' ,1'111 ·1111, 11, 1 1
códice das Ca111igas de Nuestra p resença explica os esquecimentos, os erros de interpretação, as .lei- meio de Salerno regista nas suas célebres Anatomi(I.I', q 11, , 111 1
Se,iora , Cantiga CXYlll, ofic ina ele turas selectiva dos textos transmitidos . Na recepção do saber antigo,
Afonso o Sábio, século XIII. Biblioteca das como manuais práticos de dissecação, estes sue ' sslv, 1 , , 11 1111
cio Moste iro cio Escorial, Madrid. há encontro e por vezes confronto de duas ou mesmo de três culturas. butos. O reino do pensamento árabe em matéria méclirn 111111111111

l :'i
1, Da n atureza feminina 69

ainda mais quando, saído da intensa actividade intelectual de Toledo A literatura científica medieval
concede muito pouca importância
no século XII, Gerardo de Cremona oferece ao Ocidente as duas aos seios como zona erógena
grandes sumas da medicina árabe que farão autoridade: o Cânone de feminina . Considera-os apenas como
órgão do aleitamento. Afinna-se que
Avicena e o Liber ad Almansorem de Rhazes, que lhe é anterior o leite materno é sangue menstrual
mais de um século. O último grande momento da história da medi- que, pouco antes do parto e por
cina será a irrupção das obras de Aristóteles. Dominando a filoso- causa de uma modificação da
circulação sanguínea, se branq ueia e
fia, o pensamento aristotélico exerce uma grande influência, através ascende ao peito. Adão preparando a
da zoologia, sobre a anatomia e a fisiologia, graças à tradução de comida para Eva que amamenta,
baixo-relevo em pedra, século XIII.
Miguel Escoto, e depois de Guilherme de Moerbeke, na segun'da Paris, Sainte-Chapelle.
metade do século Xlll, do De Animalibus de Aristóteles. Pouco
depois, o comentário de Alberto Magno sobre este tratado é uma fonte
de primordial importância para o nosso conhecimento da maneira
como um religioso, e ,um grande espírito científico do século XIII,
representa a mulher. E da conjunção do naturalismo de Aristóteles
com o pensamento de Averróis que nascerá, na segunda metade do
século XIII, além de uma intensa actividade no campo da reflexão
teológica, uma arte de viver fundada no abandono à Natureza, que
desemboca numa liberdade sexual. As condenações formuladas por
Estêvão Tempier em 1270 e 1277 terão como propósito conter os
excessos de um pensamento filosófico , de um pensamento científico
que ameaça os próprios fundamentos do poder da religião. Como
pudemos ver, ao longo da Idade Média fala-se muito de Galeno, mas
há que esperar a primeira metade do século XIV para que os médicos
disponham do De usu partium do médico de Pérgamo.
É deste modo que se ordena a cronologia dos progressos dos
conhecimentos medievais erri matéria de anatomia e de fisiologia,
que se institui o sistema das autoridades que, quando entram em contacto com o sangue menstrual impuro, alimento do embrião do
conflito, provocam o debate, com grande recurso a citações. Se as comum dos mortais. Nunca talvez a fisiologia da mulher fo i causa
obras citadas estavam em princípio reservadas aos médicos, as de um debate tão vivo e de uma procura tão incessante!
enciclopédias medievais permitem, em contrapattida, a vulgarização
e a difusão junto de um público mais vasto de pessoas cultas. Não
estabelecem uma síntese, mas ora optam por uma teoria, ora se A história da representação da mulher é condicionada por ideias A analogia galénica
contentam em justapor as opiniões das autoridades. A primeira em si mples e, por isso, impossíveis de extirpar da consciência colectiva. e as suas consequências
data é o Dragmaticon de Guilherme de Conches (morto em 1150), A anatomia, por vias indirectas, veio confirmar _o desprezo dos ,
que acolhe os novos conhecimentos transmitidos por Constantino tt·ólogos que, argumentando corri o Génesis, estavam naturalmente
o Africano. A segunda metade do século XIII vê o florescimento ii 1 •I i nados a ver na mulher um produto secundário e por conseguinte
do género enciclopédico com o Speculum Natura/e de Vicente de i11J' •rior ao homem. Com efeito, por uma notável intuição da diferen-
Beauvais, o De proprietatibus rerum de Bartolomeu o Inglês, e o De ci11ç, o dos órgãos, Aristóteles, mas sobretudo Galeno, para o pensa-
naturis rerum de Alexandre Neckham. Todas estas obras estudam o 11wnto medieva( tinham tido a ideia de uma semelhança inversa dos
2
processo da procriação, da gravidez e tratam com particular cuidado 1li) , os masculinos e femi ninos. No Cânone de A vicena esta pro osta

da anatomia e da fisiologia femininas. Não devemos esquecer também 1•111111cia-se assim: «Eu digo que o instrumento a g_eraç_ãona..mulhe.r.
que os teólogos se interrogam sobre a concepção de Cristo e que, 1 1111 ut1·iz (marrix) éque ela foi c1iada semelhante ao instrumento da

para citar somente um exemplo, Tomás de Aquino se esforça, quer t 1•11 11,:00 no l1omem, quer dizer o pénis e o (}!!_e o acomp_anha». ~º-
no Comentário sobre as Sentenças quer na Suma Teológica, por 1 11t1111to, um destes instrumentos é acabad_ Õe voltado para o_exJ~rior,
( 11 m it ro diminuído e retido no interior, constituindo de_ certa maneira
\ afastar, por um artifício de fisiologia, o princípio divino de qualquer
Da natureza feminina 71

_o inverso do instrumento vüi l. A anª logia é d~fl.nida órgão or a uma sensualidade real; em contrapartida, nos retratos de mulheres
órgão, e desse modo se encontra estabelecida uma equivalênc_i_a__ idosas, a menção aos seios caídos vem reforçar com crueldade a
entre os testículos e os ovários. /
Infelizmente esta com paração é decrepitude. Quanto às representações do peito feminino nos manus-
acompanhada de juízos que se comprazem em sublinhar a pequena critos médicos, são muitas vezes realizadas com uma negligência
dimen ão dos elementos do aparelho feminino. As dificuldades que espanta.
encontradas pelos médicos medievais na sua leitura da anatomia
feminina procedem de uma tripla origem: o princípio rigoroso da
analogia que acaba de ser formulado e que submete o corpo da Limites foram pois fi xados ao olhar exterior dirigido sobre a A mulher e os sopros
mulher ao modelo masculino, o princípio absoluto de finalidade mulher, e a localização das zonas erógenas permanece bastante
presente no jogo etimológico e no pensamento teológico, e por fi m imprecisa. Pouco presente no discurso científico, mas verosimilmente
o princípio da submissão absoluta à autoridade. Estes três imperativos inspirado em representações mais primitivas, a deslocação vertical
conjugam-se para impedir qualquer observaçâo verdadeira. da matri z no corpo feminino parece ser ainda, na Idade Média, uma
Em matéria de anatomia feminina, o exemplo mais notável da verdade de que se extraem as consequências. Tratar-se-á de uma
recusa em descobrir as coisas é a incerteza relativa ao clítoris. reminiscência do Timeu de Platão, no qual se diz que «nas fêmeas,
Moschion tinha localizado e nomeado o clítoris sem contestação aqu ilo a que se chama matriz ou útero é como um ser vivo possuído
possível: afi rmação sem eco. Constantino, nas suas traduções, con- do desejo de fazer fil hos» (91c), ou da ideia hipocrática das deslo-
tenta-se em transliterar a palavra árabe, e não sendo compreendida cações uterinas nascida quer da observação dos prolapsos quer da
a palavra, já ninguém se interroga sobre o referente. A mesma incer- «bola histérica», fenómeno conhecido desde a Alta Idade Média?
teza reina entre os grandes nomes da medicina árabe: o órgão só Em todo o caso esta afecção contribui para criar a ideia de uma
é objecto de observação quando atingido de hipertrofia: Nenhuma possessão pelos órgãos, de uma interioridade que escapa a qualquer
civilização parece querer arriscar-se a destruir a correspondência controlo. Existe uma terapêutica simplista: para vencer a sufocação,
termo a termo da simetria inversa e oferecer à mul her a possibilidade há que fazer descer de novo a matriz para baixo e, para isso, recorre-
de uma capacidade de prazer inteiramente autónoma. O princípio de -se à acção conjunta de fumigações desagradáveis para a parte supe-
fi nalidade seria igualmente posto em questão . Se um cirurgião tão rior do corpo e aromáticas para a pa1te inferior. Um comentador de
notável como Henrique de Mondeville (início do século XIV) Avicena afirma, no século XV, que as mulheres de Navarra, antes de
interessa pelo órgão, faz dele curiosamente a extremidade da uretra. se unirem aos seus maridos, recorriam a práticas análogas a fim de
Uma analogia com a úvula, que altera o ar que penetra nos pulmões, facilitar a concepção. Pensava-se igualmente que o hálito da mulher
permite-lhe salvaguardar as aparências da finalidade. Os sábios restituía os cheiros vindos do seu sexo. Esta pem1eabilidade da mulher
mais avisados, como Alberto Magno, verificaram que existia uma aos cheiros parece reenviar ao poder que a c,:iatura feminina possui
região de uma sensibilidade particular; o médico Pedro de Ábano de captar as exalações tel úricas, como fazia, na Antiguidade, a Pítia.
falou da intensidade do prazer que resulta da sua excitação. Mas Lugar da circulação ascensional dos odores, a mulher inquieta o
todo um conjunto de ideias preconcebidas impede os médicos de homem pela sua grande aptidão em acolher os sopros. A espantosa
chegarem a uma conclusão clara, o que penn itirá a Gabriel Falópio onalogia, recolhida em Henrique de Mondeville, entre a úvula e o
declarar, com alguma presunção, que fo i ele o primeiro a descobrir dítoris testemunha uma obsessão da protecção. Alberto Magno
este órgão. \'voca 9 caso de uma mulher que, nas suas próprias palavras, obtinha
_Os seios das mulheres talvez padeçam também do princípio de pral'.cr pela acção do vento. No contexto, esta anedota serve para
fi nalidade. , É- através deles que o recém-nascido_ recebe_o leite, 1·sboçar a comparação muito frequente da m ulher com a égua, capaz
que não é mais do que o sangue menstrnal que sofr,eu uma dea( ck conceber graças à acção do vento sem intervenção do macho.
b~0í~ Esta função explica sem dú vida o pequeníssimo lugar que 11st' exemplo das éguas é referido duas vezes com pequeno inter-
ocupam nos comentários sobre o jogo erótico. Somente o Cânone de v11 lo num manuscrito contendo questões salemitanas em prosa, e
Avicena evoca as carícias dos seios nos preliminares do amor. Os 1•lt1horaclo cerca de 1200. M uitíssimas vezes explorada na literatura
comentadores não parecem manifes tar grande interesse por essa 1 il' ll lffi <.:a , esta estranha crença não é mais do que um testemunho,
passagem. Pelo menos até ao século XIV, os textos literários não 1 1111 ~· muitos outros, da obsessão do homem face à liberdade absoluta
parecem desmentir esta atitude. Os seios pequenos e firmes pare- il111111 illlcr, face à possibilidade de uma concepção sem a participação
/ cem pertencer mais a um esquema descritivo convencional do que li li .
71 /1 1111111111H d1• con trolo

Um sistema A simetria inversa dos órgãos da mulher e do homem, que per- A adaptação da doutrina dos temperamentos, de 01ip1•111 l1q11,
1i11r11 rmlr•11m· o mundo mitiu dirigir, do exterior, este olhar sobre o corpo feminino, não é crática, ao galenismo foi acolhida muito favoravelm ntc p1· I I ld,1il,
mais do que uma das afirm ações recolhidas do pensamento de um Média. Ela associa o psíquico ao somático. O s quatro d1i-. tit ,, d 1
médico, que construiu um sistem a explicativo todo-poderoso. Com Escola de Salerno, que conferem o aspecto físico, as carnçt1·11 f 11 1
efeito, na esteira de Aristóteles, Gale110 3 estabelece que todas as coisas dos quatro tipos humanos fundamentais, serão inccss:1 1111•11 11 111,
são compostas de quatro elementos : o fogo, o ar, a terra e a água. retomados e citados pelos autores medievais. E pod 'J)l 1,1•1 1111
Aos elementos constitutivos da matéria vêm juntar-se em grupos de acrescentados desenvolvimentos sobre as capacidades s 'x11111 d11
~ois as quatro qualidades do quente, do frio, do seco e do húmido. indivíduos. Quanto aos alimentos, obedecem à mesma lassi 111 11 11,
E assim que a fi siologia do corpo e a medicina vêm inserir-se num segundo as qualidades, e toda uma dietética visando ·01111 11 t d
esquema obrigatório da representação do mu ndo. Cada um dos excesso, tal desequilíb1io, pode pois ser implantada. Para os r ·11111111 1
elementos possui pois uma dupla qualidade (ver esquema), o que o galenismo opera uma diferenciação mais completa, classi li1 .1111 11 ,
permi te as combinações. Cada um d os elementos é posto cm cor- -os segundo vários graus de calor ou de secura, o que p r111it1·, 111 li
respondência com os quatro humores legados pela escola hipocrática. quadro do pensamento, uma abordagem muito fina. Na eh 11111 11 1
Como todas as coisas, o alimento e b e bida são compostos por estes do século XIII, Arnaldo de V illeneuve tenta uma abordag •111 1111111
elementos e transformados no organismo em sangue, fleuma, bílis mática da qualidade.
amarela e bílis negra. É assim que os quatro humores asseguram a A transmissão do saber galénico pelos Árabes é compl1•1111 1 11
alimentação, o equilíbrio do corpo, o temperamentum , a saúde. Para esforço de adaptação pela Idade Média bastante important ', /\ I' 11 i,
sermos breves, digamos que o sistem a as·sim estabelecido possui mais complexa da fisiologia de Galeno é o funciona mento do I pt
uma enom1e capacidade de ordenar o mundo. Sublinha a identidade ritos (pneuma) . As artérias transmitem a todos os órgãos cio rrn p11 11
dos constituintes do universo (o m acrocosmos) e do homem (o .' pneuma vital, agente activo na respiração e em todos os p1rn, , 1
microcosmos). Define os quatro temperamentos principais (para ' da combustão. O pneuma psíquico preenche o cérebro. É fo1·111111l11 1
Galeno existem nove) e associa-os a uma estação e a uma idade da partir do pneu~a vital transformado no plexo coróide sit u 11h1 11 1
vida. Tudo isto funciona no quadro da tétrade. base do cérebro, como resultado de uma purificação obt id 1 111 11
circulação numa rede de capilares, processo essencial na. tn111 1111
mações da matéria na fis iologia medieval, e circula em todo o 1111111,
Sul Por inte1médio do pensamento árabe, o galenism o adoptado co11q1111 l 1
um acrescento à doutrina est1ita de Galeno. Existe um 1(•111 1111
Fogo pneuma, o pneuma natural (spiritus natura/is), que está lo ·til 1111111,
SECO
Verão
Bílis amare l a QU NTE e
no fígado assegura as funções vegetativas. Devido a multtpl 1
razões, o cristianismo não manifesta qualquer hostilidade às 1(•01 11
Colérico
de Galeno, que constituirão de alguma maneira o dogma da m •dh 11111
oficial até ao século XVII.
Ten-a Elemento Ar Estes poucos elementos reunidos dão-nos um a resenha su 111 11 ir1 111
Outono Estação Primavera
Oeste Este uma temia que atinge muitas vezes um elevado grau de compl xid 11 lt
Bílis negra Humor anguc
Melancólico Temperamento Sanguíneo Tom a-se assim fa miliar uma ten11inologia que irrompe nos l •x f11
sem definição prévia. Derivados desta concepção pneumát icn 111,
Água corpo humano, os term os «espírito» ou «ventosidade», qu np1111
Inverno cem nos textos em língua vulgar, são os sinais de uma expliL'tH,'1111
FRIO HÚM lDO galénica dos fenómenos. Corno o repete à saciedade o clisr111 •,, 1
Fleuma
Fleumático medieval, para a concreti zação do acto sexual são nece sárias 111
condições: o calor, o espírito, o humor. Se o papel do espírito 1
Norte afirmado, a terminologia parece definir o limite que a expli<..·11,·1111
científica não pode ultrapassar. Um médico tão avisado como A v Í('1'1 ui
Esquema retirado de W. D . Sharpe, «Isidore of Sevi lle . The medical writings», não vai além do poder explicativo da palavra. No Cânone ele de ·l 11 11
( Tro11sac1io11s of lhe American Philosophical Society, n. s. , LIV-2 (1964), p. 24. que a erecção é devida a uma forte ventosidade que produz o s11it'lt111
1,, Da natureza feminina 75

desiderativus, operando assim a transformação da paite do corpo


atingida em máquina pneumática. Graças a uma analogia nos termos
reina alguma confusão nas coisas. Deste modo, uma ceita assimilação
não deixa de surpreender. A absorção de alimentos flatulentos pro-
voca o desejo e, como dizem alguns médicos, este tipo de alimentação
deve ser evitada nas comunidades religiosas.
Para os fisiologistas mais precisos, como Alberto Magno, a eja-
culação é provocada pela acção espasmódica de uma «ventosida-
de». Numa corrente de pensamento que lhe é favorável, a mulher
emite segundo o mesmo processo uma semente indispensável à
concepção. Numa evocação do mecanismo do coito, retirada de uma
enciclopédia em língua vulgar do século XIII, o Diálogo de Plácido
e Timeu4, os · movimentos físicos dos participantes destinam-se
a fazer intervir estes espíritos, que provocam, aquando do orgasmo,
a emissão simultânea das duas sementes e, por conseguinte, criam
as melhores condições para a fecundação. Neste texto cm língua
vulgar o pneuma é indiferentemente chamado «vento» ou «espírito»:
é ao mesmo tempo interior ao corpo e capturado pela respiração,
em perfeita conformidade com o sistema galénico. Os textos estão
longe de atingir a mesma precisão de análise, mas não consegui-
ríamos ler um texto medieval desconhecendo a força explicativa
de palavras que, por si sós, indicam a pertença a um sistema de
pensamento e fornecem ao conjunto das afirmações científicas uma
evidente coerência. É o cuidado em descobrir o sistema que deve
guiar o amador de ciências medievais, e não o juízo crítico sobre os
conhecimentos.
as duas sementes e esse movimento é o impulso primeiro, a analogia Os seios são considerados órgãos
·transmissores dos humores femininos .
fundamental que permite explicar a passagem do e lemento líquido Segundo a ideia medieval, Ó leite
,,1g11os É no quadro deste pensamento, simultaneamente filosófico e ao estado sólido, estádio primeiro do embrião. Do movimento à transmite o temperamento de quem o
, 11111//w r méd ico, que a civilização medieval propõe uma descrição anatómica coagulação, tal é a sucessão de metáforas explicativas que a Idade produz. r-ja ilustração, o sábio adquire,
àtravés de um aleitamento simbólico,
dos órgãos internos da mulher. Seria ingenuidade acreditar que a Média emprega. A acção do coalho sobre o leite retirada de A.ris- o conhecimento e o saber. O diálogo
anatomia é a constatação descritiva de uma realidade evidente. tóteles, retomada pelo texto sagrado no Livro de Job (X, 10), permite enrre Boécio e a Filosofia, miniatura
da Consolação da Filosofia, de Boécio
Como pudemos aperceber-nos a propósito do clítoris, a observação exprimir o mistério da formação do embrião, mistério tão fora do (470-524/5), 1radução de João de
e os conhecimentos admitidos são 01i entados, determinados, quer alcance de qualquer explicação racional que a Igreja só reconhece a Meung, século XV. Ruão, Biblioteca
pe la autoridade quer pelas preocupações de uma civilização, em qualidade humana ao embrião masculino ao fim de quarenta dias. Mu nicipal.
particular em torno do ventre da mulher, esse cadinho onde se pro- Sem originalidade e sem variações, as representações iconográ-
du zem as mais espantosas metamorfoses. ricas e as descrições anatómicas que precedem a renovação trazida
Isidoro de Sevilha tinha afirmado que a vulva (vulva) é assim p ·lo pensamento árabe propunham um útero bicórnio. Os textos
110m ' ada por analogia com valva (a porta), pois é a porta do ventre. tl'llbcs são desde o princípio mais precisos: a matriz é, na sua forma,
N11mn d ·scrição anatómica da segunda metade do século Xll, a s ·mc lhante à bexiga, mas difere desta porque possui dois prolonga-
11,110111io M11 p,istri Nicolai Physici 5 , encontra-se o seguinte acres- m ·nlos laterais semelhantes a cornos e que se estendem às virilhas;
n 11111 111,/1 1,1, q11 • se supõe do verbo volvere, que significa «rolar n 'sscs pro longamentos 'q ue entram as veias e as aitérias que con-
i! ,1111 111 , 111 11 , lo1'lllur enrolando». Encontra-se igualmente nesse duzem à matriz o sangue e o pneuma. A matriz é de natureza fibrosa
111 111111111111111 , in com o turbi lhão de Caribdis. Trata-se de um e nervosa, a fim de se pod~r dilatar quando o feto começa a desen-
( 1111il11 ,li , 111111111·11ç110 valorizante. O órgão da mulher mistura volver-se. No Pantegni, traduzido por Constantino, refere-se que a
76 A s normas d e contro lo

me mbrana interior é revestida com pêlos, destinados a reter o esperma


e o feto. Foi sem dúvida uma lradução por aproximação que levou
à transformação em pêlos do que na origem podia ter sido pregas.
Como quer que seja, esta imagem recebeu uma grande aprovação.
No Dragmaticon phi/osopliiae< •, G uilherme de Conches explica que
as prostitutas tê m a matriz e ntupida. As vilosidades são também
ineficazes para rete r a seme nte: ta l é a causa da sua esterilidade.
As dissecações salc rnit anas constit uem um novo e interessante
contributo. A primeira c m data (sem d úvida e ntre 1100 e 1150) é
chamada Anatomia de Coplw11 ou A11ato111ia do porco: é mesmo de
uma dissecação da porca que se trata, j:.í que - diz-se - o porco é
inteiramente semelhante ao se r humano. Como se pode prever, a
aplicação destas observações à mu lhe r não deixará de acarretar
algumas consequências em baraçosas. Umu elas originalidades desta
descrição é que o discurso teórico se e ncon1ra intimamente ligado
aos conselhos práticos, com um tom que não pode mos deixar de
evocar: «Tu deves então dividir a ma1ri z pelo meio (= colo do
útero): encontrarás por cima dela dois tes1ículos (= os ovários),
graças aos quais o esperma fe minino é enviado para a mau·iz a fim
de que, unido ao esperma masculino, l'o rme o feto». No decurso
deste exercício magistral é-nos dada a con f'i rmação ele que a matriz
comporta sete células: o útero da po rc.i, pa rticul armente viloso e
complicado, n ão opõe qualquer obstáculo a este géne ro de leitura. A
origem desta aplicação do núme ro sete é muito complexa. Quem a
dete1minará com precisão? Não pertence à tradição médica árabe.
Dever-se-á ao De spermate 7 , texto aJri buído ;i ,ale no, mas que parece
ter chegado b astante tarde ao Ocidc n1 e? /\ erud ição pura encontra-
-se em dificuldade. Tratar-se-á · dc um determinismo imposto por
uma especulação muito bem representada pe lo número sete? Quase
todos os textos importantes em matéria de anatomia retomam esta
afirmação. Em vez de acumul ar os textos se m resultado, mais vale
tentar formular uma hipótese sobre a ace it ação que merece uma
afirmação teórica que recebe a pseudo-ve rificação ex pe rimental de
uma dissecação. A teoria das se te células combina-se com a oposição
direito-esquerdo, com a oposição cio quen te e cio frio. O sexo do
embrião encontra-se, assim, determinado pe la locati zação na matriz
da reunião das duas sementes. Estas célul as estão dispostas sime-
tricamente de um lado e do ou tro de um eixo: à d ireita serão engen-
Octávia. esposa de Nero, é assass inada
drados os machos, à esquerda as fêmeas. A célula centrnl acolhe o
por meio de uma agressão aos seus futuro hermafrodita. E ste sistema, ao qual vo ltaremos, é na realidade
órgãos sexuais, situados verticalmente muito mais complexo. Contudo, é claro que estas combinações per-
segundo uma crença da época.
Detalhe de uma m iniatura com a mitem explicar a diversidade dos tipos humanos, tanto masculinos
história de Nero, pertencente a um como femininos. A fisiognomia, conhecimento do ser humano a
códice do século XIV com obras
de G ui lherme ele Lorris (?- 1260). partir do seu aspecto exterior, é uma das constantes da especulação
Va lência, B iblioteca ela Universidade. medieval. Reencontra-se nela a vontade de classificar aplicada aos
Da natureza fem inina 77

l11dlvfd1111 • 1• l'~NII p1 1.·ocupu<;t o ele conhecer os homens, que passa Na época medieval pensa-se que a
prn p1,1rn lo1 lu, l' ohj • ·10 de uma troca entre o clérigo e o príncipe. matri z é a forma inversa do pénis.
Os ovários são os testículos femininos.
/\ Sl'µ 1111d11 d ·sc riç,lo analómica salernitana é um dos raros textos Os textos árabes, mais precisos,
d •si • p •r mio que menciona somente duas cavidades na matriz. Ela descreveram uma matriz semeU1ante a
uma bexiga, com dois prolongamentos
pr •c isa a term inologia com cuidado; a matriz comporta dois orifícios, laterais que se estendem até às
um exteri or, col!urn matricis, no qual é realizado o coito; o outro virilhas. Na imagem, Dido e E neias
interi or, os rnatrici, encerrado desde a sétima hora após a concepção, no leito, miniatura da Historia
desrruc1ione Troyae, de Guido de
l,ío hermeticamente que mesmo a ponta de uma agulha não poderia Columnus, ano de 1287. Madrid,
nele penetrar, segundo Hipócrates. Os testículos femininos (os Biblioteca Nacional.
ovários) são mais pequenos e mais duros que os do homem. Estão
colocados sob as extremidades, em forma de com o, do útero, e uma
veia liga-os aos 1ins. A terceira anatomia, a Anatomia magistri Nicolai
physici, escapa enfim ao esquema da dissecação do porco. Circula
sob três fo1mas. Dela reteremos a existência de uma veia «fêmea»
(kiveris vena), cujo papel é conduzir uma parte do sangue menstrual
à matri z e a outra parte às glândulas mamárias, a fim de que aí sej a
transformado em leite para assegurar a alimentação da criancinha.
Os textos que seguem as descrições anatómicas de origem salemitana
são portadores dos conhecimentos do pensamento árabe transmitido
ao Ocidente graças aos tradutores de Toledo. A ideia da simetria
,1,, Da natureza fem inina 79
inversa dos órgãos do homem e da mulher sai deles reforçada. Os este líquido impuro seja mantido à distância.. Na membrana que
órgãos femininos são objecto de juízos depreciativos que fazem rodeia o feto elabora-se um sistema de canais. Quando o fígado do -
deles apenas cópias muito inferiores ao que existe no homem. embrião, órgão de onde procede o sangue no organismo humano, -
Foi em Bolonha, no final do século XIII, que foram praticadas as está formado, constitui-se igualmente uma veia que lhe assegura,
primeiras dissecações humanas. Das observações efectuadas nasce pela chegada do sangue menstrual, a sua nutrição até ao parto ...
a Anatomia de Mond~no de Luzzi, acabada em 1316. Os hábitos Depois do nascimento da criança, o leite, que não é mais do que
de pensamento são tão fortes, porém, que Mondino, à procura das sangue menstrual que sofreu uma forte cocção, substitui-o. Deste
sete células da matriz, observa-as mui to naturalmente ao praticar modo se acha realizada uma feliz transição na alimentação.
a dissecação de cadáveres femininos. Ele introduz apenas uma Durante toda a Idade Média se repetiu que a mulher possui
atenuação na formulação um pouco rápida dos predecessores: «Estas pouco calor natural: é fria, e mesmo a que tem nela mais calor não
células são apenas espécies de concavidades que existem na mat1iz consegue igualar nesse aspecto o mais frio dos homen( Fora dos
de modo a que o esperma se possa coagular com o sangue mens- períodos de gestação, os resíduos que a sua falta de calor não lhe
trual». O saldo da experimentação é po11anto bastante diminuto, e permite transformar pelà cqcção são expulsos sob a forma de sangue
este momento da história da medicina oferece uma bela lição tanto menstrual. Foi por isso que Aristóteles, seguido pelo pensamento
sobre a constituição do objecto científico como sobre os limites da medieval, tinha podido adiantar que as mulheres não sangram pelo
observação. Os anatomistas do Renascimento - nomeadamente nariz, não têm hemorróidas e têm uma pele doce e lisa. Em con-
Gabriel Falópio - modificarão as concepções medievais. O retorno trapartida, no homem a expurgação é realizada pela produção de
a um galeni smo mais próximo do texto não constitui um requestio- barba, de pêlos, e, nos animais, de cornos. É este tipo de observações
namento completo do sistema elaborado pela Idade Média. Se a que tende a ser separado do seu contexto para circu lar sob a forma
doutrina das sete células é muito rapidamente abandonada, se a de uma pergunta seguida da sua resposta. A difusão fraccionada dos
anatomia beneficia enfim com um real progresso da observação, as conhecimentos contribuiu bastante para dar ao saber medieval um
abordagens do sistema fisiológico permanecerão, pelo contrário, aspecto ingénuo e incoerente. Recolocada no seu contexto, esta afir-
durante séculos. mação não obedece ce11amente a uma qualquer verdade científica,
mas reencontra uma aparência lógica. Atenta à menstruação, a Idade
Média conhece as arnen01Teias da fome. Alberto Magno conta que
Na iconografia medieval, a nudez
, 111i11i11as _O sangue menstrual foi objecto de estudos e de reflexões que as mulheres pobres, que trabalham muito, não têm regras, pois o serve habitualmente para representar
demonstraram, nas crenças populares, a sobrevivência de um pen- pouco que comem mal chega para a sua preservação. No sistema uma forma de ruptura com a vida
colectiva. As cenas referentes ao Juízo
samento muito próximo da tradição medieval. Líquido que alimenta da expurgação, a explicação é evidente. Curiosan1ente, a periodici- Final agrupam os nus femi ninos e
o embrião, pode exercer uma acção particularmente nociva sobre dade do ciclo menstrnal não orientou os médicos e os sábios para masculinos rumo à perdição ou à
os que rodeiam a mulher menstruada. Desde Isidoro de Sevilha, os - uma periodicidade da fecundidade. salvação. Nus unidos, almas débeis, no
percurso e na busca da incógnita fi nal.
mênstruos estão ligados pela etimologia ao ciclo lunar (pois a lua Se o sangue menstrual e as suas funções são fáceis de precisar, Ponnenor de um fresco do século XIII
é chamada mene em grego). Trótula, a célebre parteira de Salcrno, cm contrapartida a existência cio espenna fem inino, que define o sito em Lo reto Aprutino, Santa Maria
in Piano.
dá- lhes o nome de «flores», porque, tal como as árvores não dão papel da mulher na geração, não pode ser nem infirmado nem con-
frutos sem flores, também as mulheres sem flores são frustradas firm ado pela observação imediata e torna-se por este facto um espaço
na sua função de concepção. Esta elegância de linguagem não é d' controvérsias científicas e teológicas. A crença na existência de
senão uma das múltiplas comparações que aproximam a fonnação um princípio feminino que intervém no momento da concepção
da Acr~ança da reprodução e da nutrição cios ve~tais. (_)s autores_ são possui uma prestigiosa tradição: da Índia à maior parte dos filósofos
unanimes em afmnar que o sangue menstrual serve para a nutnção do mundo grego. O encontro de um elemento macho e de um ele-
do embrião depois da concepção, à_custa de uma modificação ela cir- 111 ·1110 fêmea determina com efeito o sexo do embrião. Esta tradição
culação sanguínea, de que já falámos. Os mais precisos, como, por •11 l'r •nta um adversário resoluto na pessoa de Aristóteles. Para ele, o
exemplo, Ali ibn al-Abbâs, associam ao sangue menstrual o sangue rl uxo menstrual corresponde ao líquido seminal do macho e não
subtil e o pneuma animal. Foi sem dúvida a partir de distinções deste poderiam ex isti r duas secreções espermáticas no mesmo ser. A
tipo que São Tomás elaborou um sistema particular que explica a secreção que se produz na mulher no momento do coito não pode1ia
/ formação do embrião divino no seio de Maria. O sangue constitutivo ser compa rável ao líquido seminal masculino. Estas secreções variam
(
do embrião é elaborado a partir do sangue menstrual, a fim de que· consoante os tipos de mulheres e dependem igualmente da alimen-
111 Da natureza feminina 81
tação. É em meados do século XIII, com a tradução das obras do
Estagirita, que a doutrina da existência do esperma feminino será
posta em questão da forma mais viva. Hipócrates e Galeno, com
muitos cambiantes, fornecem à defesa a autoridade necessária. Desde
o século XI que se conhecia o pensamento de Nemésio de Emeso,
que tinha já claramente sublinhado a oposição entre Aristóteles e
Galeno. Há na literatura grande variedade de opiniões sobre a fina-
lidade exacta deste adjuvante da semente masculina. Segundo uma
est1ita tradição galénica, ele pode ser o alimento do espe1ma mas- O banho possui um forte conteúdo
culino, antes de o sangue menstrual vir assegurar esta função: pode simbólico. O asseio é representação do
privado, um acto solitário, reservado à
ser também uma espécie de diluente, que ajuda esta mesma semente intimidade, mas o banho no exterior é
masculina, demasiado espessa, a espalhar-se na matriz; enfim, pode lugar de encontro e os que nele tomam
assegurar a formação da segunda membrana que envolve o feto. parte e ntregam-se à liberti nagem e à
promiscuidade sexual. É interessante
Nem sempre os textos são claros sobre esta questão complexa. observar q ue, inclusive nesta cena
Hildegarda de Bingcn (t 1179) , que expôs as suas visões místicas abertamente transgressora, o homem
cobre o seu sexo, enquanto que a
mas deu também uma interpretação científica do universo e reflectiu nudez fem inina é total. Numa a legoria
com grande franqueza sobre os problemas da sexualidade, parece ter do abandono sexual, a mulher aceita a
iniciativa viril. Pormenor dos frescos
uma opinião muito incerta sobre a existência do esperma feminino 8 • do Salão Baronal do castelo dos
Ou nega a sua existência ou fala de uma pequena quantidade de duques de Saluao. Sécu los XIV-XV .
semente fraca. Ela explica a concepção pela mistura de duas espu- Mântua (Asti).
mas (spuma), produto da agitação do sangue; parece que a semente
masculina intervém então sem a presença de um produto feminino. nenhuma parcela de virtude formativa, nenhuma acção na constituição
O defensor mais ardente da semente feminina foi o enciclopedista do embrião. Nas entrelinhas lê-se a dicotomia aristotélica da matéria
Guilherme de Conches (t ca. 1150) que, como dissemos, incorpora e da forma: a matéria é constituída pelos mênstruos, a forma produzida
no Dragmaticon philosophiae o saber veiculado pelas traduções de pela semente viril. Se se supõe um momento em que possam encon-
Constantino. Como a obra de Gui lhe1me constitui uma autoridade na trar-se na mulher a matéria dos mênstruos e um esperma feminino
matéria, retomada pelos enciclopedistas posteriores, as suas afirma- que possua, por pouco que seja, a capacidade de intervir na qualidade
ções têm um grande peso. É a ele que se deve a célebre argumen- de agente, então a mulher poderia conceber sozinha, sem intervenção
tação que se apoiou na esterilidade das prostitutas: como não têm do macho. E vemos assim ressurgir por intermédio da discussão
prazer no decorrer da relação, não emitem semente e por conseguinte filosófica uma velha obsessão masculina. Uma das conclusões pos-
não concebem. Quanto às mulheres violadas, pode acontecer que síveis é que o esperma feminino, sem utilidade alguma, é análogo ao
tenham prazer no final do acto, tão grande é a fraqueza da carne; licor prostático. Averróis forneceu o célebre argumento da mulher
assim se explicam algumas gravidezes consecutivas a este género de engravidada pela água do banho na qual um homem tinha lançado a
incidente. A polémica deve ter atingido uma certa força, visto que sua semente. Não houve nem prazer nem emissão de semente por
um enciclopedista do século XIII, Tomás de Cantimpré, dirigindo- parte da,mulher, e no entanto a fecundação deu-se. Contudo, a nega-
-se aos que negam a existência da semente feminina, exclama: «Os ção da eX'istência do esperma feminino tornava inútil a presença dos
que afirmam isso só dizem mentiras»9• Para a pequena história, note- «testículos» femininos (os ovários) e o princípio da finalidade dos
mos que numa questão salernitana se afirma que;em caso de adulté- órgãos era posta em xeque: é por esta razão que os autores adaptam
rio, a influência do macho é determinante, porque no momento da quase sempre soluções bastardas. A época é de valorização da
reunião das sementes a sua vontade é mais fo1te. semente qiasculina. Vicente de Beauvais, o maior enciclopedista do
Com os defensores da doutrina aristotélica a discussão toma século XIII, declara que o calor do sol e o calor animal estão pre-
uma faceta muito mais filosófica, como prova Gil de Roma no sentes no esperma. Para São Tomás, a semente é um receptor do
seu tratado Da forma ção do corpo humano no útero 1°, escrito em poder dos astros, pelos quais Deus exerce a sua acção sobre o
1267. A existência do esperma feminino pode ser em rigor admi- mundo. Ela encerra um triplo calor: calor elementar da semente,
( tida, mas nega-se-lhe qualquer utilidade. Não se atribui a este humor calor da alma do pai e calor do sol. Ela é, segundo uma metáfora
\
82 As normas de controlo

-se sobre as emissões p roduzidas fora do acto s 'X111il \ 1111 11


sonho erótico é considerado não como causa m as como :,111 ti d, 11111 t
emissão e esta pode intervir sem que a mulher tenha tid11 q11 .d, p1,,
desejo erótico. Quanto às religiosas, elas conhecem ·1 pnl11 ,111 , 111
ter qualquer pensamento repreensível. Era legítimo qut· l'h 1 1111t 1
rogasse, porquanto nesse momento do pensamento médi ·o 11 111111 lt
esperma feminino devia preencher uma tripla funçã.o : p111 111 q1111 111
concepção transmitindo as características maternas, p ·11 111 111 111111
melhor recepção da semente masculina, manifestar o praz •r d 1111111111 1
Quer dizer que a ov ulação, as secreções cervicais, a 1111>1 li 11,11 111
vaginal se achavam resumidas num termo único. Nem li 11q 1 ,1 1,,
radical da sua existência por Aristóteles nem o galenis mo l'xplt, 11111
tais fenómenos. É evidentemente paradoxal constatar qut· 1111111111 1
ção m ais afastada da verdade científica moderna permit · ('111 11 1d, 1
uma verdadeira atenção ao organismo e à psicologia ela 111111111 1 11
representantes do pensamento galénico estão muito mais illl 1111,,,h,
a reconhecer o papel da m ulher na concepção . Debatida t'011 t1 1 ,il 1
na Idade M édia, a ideia da semente feminina ocupa um lug111 t 1 1111 d
no pensamento cios casuístas. Eles são os herdeiros do pen ·11 1111 11111
medieval e identificam emissão de semente feminina oq 1 11 11111
Assim, um a prática sexual que provoca uma «ejaculação» cl 11 11111111,,
Nos textos c ientíficos medievais os tradicional do pensamento aristotélico, o carpinte iro que exerce a pode ser algo a proscrever, porquanto, nesta óptica, hó 1w1d11 d,
ó rgãos sexuais das mulheres só são sua acção na madeira, ou seja, os m ênstruos. D iante deste elogio, o
descritos por analogia e comparação
semente. O valimento de que goza Galeno junto dos teó lo1•11 11
com os do homem. Como se vê na esperma fem inino faz evidentemente figura de parente pobre. O alguns casuístas a pensar nestes termos ainda no século \ 111
ilustração, a nudez feminina está contorno filosófico tomado pela discussão te m o inconveniente de Mesmo Descartes, ao evocar a formação do embrião, fltl 11 111111
explic itamente ligada à a fi rmação cio
poder viril. N ua, adormec ida, inac tiva,
tran sferi r o di scurso médico e as suas pac ientes observações para lirismo das «sementes dos dois sexos, misturando-se em t11111p11t111
serve para fazer nascer o desejo do segu ndo plano. A fi nalidade da Natureza é o ser perfe ito, o mach o. servindo de fermen to uma à outra» 12 •
homem. desperto e activo ante o A força do espenna masculino é contrariada, no seu desígnio de
acto sexual iminente. Pormenor de
O quarto de Memmo di Filippucio, atingir esta perfeição, pela matéria, a matéria feminina, e o ser femi-
cerca de l320. San Gimig nano,
Palácio Comunal, Camera dei Podestá.
nino não é mais do que o mas occas ionatus 11 , um macho em potên- Esse ser imprevisível
cia, cujo devir foi contrariado, um ser fa lhado, incomple to, muti-
lado. Este juízo emitido sobre a m ulhe r é t mívc l, m as os seus No âmbito desta teoria, a matriz é o lugar de um afr nt:1,111•1111 1
efeitos não se faze m sentir imediatamcnl c. om efeito, o último cujo resultado estabelece não somente o sexo do embrião mas 111111li1
quarto do século. XIII descobre com alegria no texto de Aristóteles o aspecto exterior da criança.
as forças da Natureza, m ais ou m enos acomodadas pe lo pensamento
de Averróis. Mas uma senten ça pesada acaba de ser proferida. Os
juízos depreciativos, constatação sistemática da inferioridade do ser Os factores detenn inantes (frio e quente, localização dit l' il 11
feminino, eram finalmente de pouco a i ance face a esta fórmula -esquerda) intervêm da seguinte maneira. Em viltude de umn t't111111
lapidar e eficaz. E alguns clérigos antifem in istas adoptá-la-ão com nicação directa com o fígado, naturalmente quente, a mal l'Íí'. di, t I t11
tanto mais entusiasmo qu anto ela goza ela caução de um dos maiores e o testículo direito são mais quentes do que os seu · ho111t'> lo1•11
espíritos científicos de todos os tempos . esquerdos e por conseguinte aptos a produzir e a alimentar o 111 1t 111 1
O dominicano Alb erto Magno parece ter tomado consciênc ia das A luta entre as sementes determina igualmente o sexo cio •1 11h111111
incertezas que a tenninologia recobre. Com toda a objectiv idade É neste sistema de localização espacial - como di semos q111· 1
desejável e a partir das informações recolhidas tanto junto de m ulhe- inscreve a doutrina das sete células: as células da direita flt'Olitt · , 111
res «peritas» como ele religiosas ouvidas cm confissão, ele interroga- a mistura dos espermas para formar machos, as da csqu('t'd11 pi1111
(
1,, Da natureza fenú nina 85

formar fêmeas. Quanto à célula central, ela explica a fonnação do tipos humanos retirados da ciência antiga, particularmente de Hipó-
hermafrodita. Anteriormente ao estabelecimento desta possibilidade crates. Multiplicar as combinações é um exercício que parece conhe-
de combinação de elementos puramente físicos, Hildegarda de Bingen cer uma certa adesão, a ponto de a obra de vulgarização em língua
expôs um sistema completamente original, no qual concede um lugar vernácula os acolher. O Diálogo de Plácido e Timeu joga com a
decisivo aos factores psíquicos. Se a força da semente masculina localização, a proporção das sementes, e acrescenta-lhes a disposi-
determina o sexo do embrião, em contrapartida o amor que os pais ção do calor. Quando a semente feminina é atirada para a direita, o
têm um pelo outro determina as qualidades morais da criança. Deste calor pode voltar-se para o interior. Atenção então a este tipo de
modo, uma grande quantidade de semente masculina e um amor mulheres, brancas, pálidas, agradáveis, mas altaneiras de aspecto e
virtuoso nos pais permitem a geração de um rapaz ornado com todas de porte. Elas têm no corpo calor masculino e não podem procriar,
as virtudes. Se a emissão masculina é fraca, mas se o homem e a qualquer que seja o calor do homem; além disso, o seu apetite sexual
mulher nut~em um pelo outro um grande afecto, então nascerá uma é desmedido. Mas se, pelo contrário, o calor é desviado para fora,
criança virtuosa do sexo feminino. O resultado mais desastroso é dá-se origem a mulheres negras e barbudas que, quando têm um
obtido quando a semente do pai é fraca e os pais têm falta de amor bom macho, concebem rapazes grandes, belos e fortes . Com meios
um pelo outro, caso em que nasce uma rapariga má. Acaso da refle- que às vezes se prestam a fazer sorrir, a Idade Média esforça-se em
xão teórica que parece ter em conta a necessidade do afecto para o decifrar e classificar os homens, mas sobretudo as mulheres, por-
desenvolvimento psicológico da criança? Hildegarda afirma, além quanto é preciso conhecer a mulher a qualquer preço: desconfiar do
disso, que a mulher bem constituída tem calor suficiente para qu~ o seu apetite sexual, mas assegurar-se da sua fecundidade. Poder-se-
filho se lhe assemelhe, enquanto que o homem vigoroso imporá os -á imaginar um médico, cheio desta ciência, dando a sua opinião
seus traços face a uma mulher delicada. Porque era mulher, Hilde- sobre a futura esposa?· É também quando se preocupa com ades-
garda reivindica a possibilidade de a criança ser parecida com a mãe. cendência, esquecendo que as crianças podem ser parecidas com a
Esta preocupação está curiosamente ausente dos fundamentos teóricos mãe, que a «Idade Média» merece bem esse epíteto. Quanto ao
do pensamento científico medieval. Nada pode então alterar a marca bastardo, saído de um homem bem nascido e prestigiado, é com toda
do homem na sua descendência. Para ela ainda, o ·espaço do corpo a legitimidade científica herdeiro das qualidades de seu pai e teste-
destinado à manifestação do prazer torna-o mais impetuoso e mais munho da sua virilidade.
violento no homem, enquanto que na mulher ele parece comparável
ao sol que, docemente, tranquilamente e de modo contínuo espalha
sobre a terra o seu calor, a fim de que ela dê os seus frutos. Para O prazer é antes de mais o prazer do homem, e Georges Duby O prazer
Hildegarda, finalmente, se é verdade que a mulher é mais fria e mais pôde evocar para os séculos XI e XII, que precedem a irrupção do
húmida do que o homem, estas características favorecem a sua mo- pensamento árabe, o comportamento da esposa legítima: «O homem
deração e a sua fertilidade. Um discurso com tantos cambiantes e tão nunca tem mais do que uma esposa. Deve tomá-Ia como ela é, fria
favorável à mulher não é frequente. Alberto Magno saberá, também no pagamento do debitum, e é-lhe proibido aquecê-la» 13 • A este-
ele, reconhecer que a superabundância de humor, os excessos de rilidade das prostitutas, justificada de maneira científica ou pseudo-
ardor das raparigas encontram o seu exutório no parto que as põe em -científica, permite que os rapazes vivam a sua sexualidade antes do
perigo de morte. casamento. Para que seja assegurada a continuidade da espécie,
Mas a compreensão da natureza feminina nem sempre tem esta afirmam os teólogos, foi necessário que o prazer fosse ligado a um
acuidade. Se Hildegarda encara a sexualidade e a geração sob a capa acto tão "infamante, realizado com o concurso de órgãos tão vergo-
da metáfora poética, a tradição mais vezes explorada na Idade Média nhosos . Galeno fornecia a ideia de uma finalidade aceitável: essas
propõe regras bastante simples que combinam um número reduzido partes foram dotadas pela natureza de uma sensibilidade muito
de factores determinantes. Um deslocamento da localização direita- superior à da pele, e não devemos espantar-nos com o vivo prazer
-esquerda permite a Guilherme de Conch~s fazer aparecer novos de que estas partes são a sede, nem com o desejo precursor de tal
tipos humanos: à direita, mas um pouco para a esquerda, será um prazer. Por muito paradoxal que possa parecer, a Igreja, na sua
homem efeminado; à esquerda, mas um pouco para a direita, será preocupação de regulamentar a vida sexual e de instaurar o casamento,
uma mulher viril. Este tipo de mulher possui mais calor do que as foi levada a aprofundar a sua reflexão sobre a sexualidade e o
suas consortes e, por conseguinte, um sistema piloso mais desen- prazer. Um aristotelismo estrito permitia negligenciar o prazer femi-
volvido. Os autores medievais jogam com uma classificação de nino, mas o galenismo dominante obrigou os teólogos não somente
(
111, !1 1\1111111\ 1l l 1111111 11111

a terem-no em conta, mas também a fixar-lhe os limites. Todavia,


qualquer discussão sobre este assunto respeita imperativamente à
procria~ão. _9.tayas-a~ sentido poéticó d~ Hildegarda de !3ingen, este
. praze · é-êomparado ao sol, calmo e eficaz na sua acçao. Com um
pouco menos d~ elegância, todos os autores estão de acordo em
reconhecer que o desejo fem inino é semelhante à madeira húmida,
lento em inflamar-se mas que arde durante muito tempo. Este ardor
secreto é um mistério que intriga o homem.

O !,nmem à margem Tirésias foi condenado à cegue ira por Hera porque tinha reve-
lado que o prazer da mulher ultrapassava o que o homem sente. O
desejo de adquirir este aber persegue os espíritos medievais. Com
precauções desajeitadas, os cléri gos, cm busca de público para as
suas compilações, quando abordam a sexualidade fa lam em termos
de saberes esotéricos, de «segredos ele mu lheres». Mais revelador
ainda: no Diálogo de Plácido e Timeu, sob o patrocínio ele Ovídio,
a personagem de Hermafrodi ta aparece como o símbolo mítico
desta vontade de saber. Para satisfazer o seu apetite sexual, este
herói singular manda depilar a barba, veste roupas femininas e, em
diversos países, vive no mundo das mu lhe res e das jovens. Graças
à sua discrição, é cumulado de mú ltiplos favores, mas sobretudo
solicita e recebe confidências que lhe permi tam possuir as chaves do
mistério feminino. Velho e cansado, retoma as roupas masculinas e
revela aos homens o que aprendeu. Como ini ciador dos mistérios
femininos, é digno de figurar ao lado de Trótula, médica de Salemo.
Toda esta1 história mostra que o clérigo, que continua a missão
destas duas personagens, ten(a apropriar-se ela exclusividade do dis-
curso sobre a sexualidade e que,_,:perdiclo no meio de alguns outros
fantasmas masculinos, o «voyeurismo» se afirma. Os escritos dos
médicos não estão isentos dele: a masturbação feminina e os seus
acessórios são apresentados com um tal lu xo de detalhes que trai o
prazer do autor. Numa sociedade que re tarda a idade do casamento,
o jovem é mantido à margem do mundo das mulheres. A alcoviteira
tem pois o seu lugar; na literatura, é encarregada cio discurso sobre
os segredos femininos. Na parte do Romance da Rosa escrita por João
de Meung, a Velha expõe com complacência as práticas do amor
venal e a arte de desflorar. Mais cínica ainda cio que esta persona-
gem é a mãe evocada por Raimundo Lullo na Árvore da Ciência. Ela
H na é poca antiga existia a noção de alegra-se, às vezes mesmo como es pectadora, com o deboche de
que o prazer da mulher superava o do sua filh a, e por fim «falava sem vergonha de luxúria com ela, a
homem. Esta dama toma a iniciativa
de abrir a porta da fortaleza ao seu quem contava os prazeres que tinha sentido com os homens, pra-
aman te. Miniatura de um códice do zeres que tinha vergonha de contar ao filho» 14 • Este caso extremo
século XIV com obras de Guilherme
de Lorris (?- 1260). Valência,
de cumplicidade de mulheres é igualmente revelador da ansiedade
Biblioteca da Universidade . masculina face a uma informação que lhe escapa e à qual não tem
Da na tu reza fem inina

O jardim é, na Primavera, o espaço


ideal para o encontro de amantes. para
a sedução e o segredo dos amores
corteses. A sensualidade da natureza
induz o prazer dos sentidos e os pares
de amantes deixam-se submergir
numa festa perpétua. Pormenor de
O mês de Maio, fresco anónimo,
século XV. Tren10, Caslelo do Bom
Conselho, Torre da Águia.

meio algum de aceder. A personagem da alcoviteira está bem repre-


sentada na literatura ocidental e a Celestina de Fcrnund o de Rojas,
editado pe la primeira vez em 1499, é como que o s ·u coroa111cn1 0.
Alcoviteira, espectadora do deboche, parteira introdu z.ida na vida do
casal, pela justiça, para os processos de impote ncia, só u mu lhcr se
pode constituir em testemunha do acto sexua l na Idade M dia. Eis
uma f'o rma ele poder de que o homem sente u ameaça e cujo reflexo
é nssumido pela literatura, ficção ou escrito científico. Mais do que
1111 seu I ratado, Trótula deve o seu renome e a sua imagem à sua
11 pl id1o cm assumir a pluralidade destas !'unções 14. Perita na arte
d11s po~o ·s, capaz de refazer uma virg indade, ela conhece a arte
d1• l11dih1inr os homens. Face a este saber, ele que é a futura vítima,
11 lu1111 l' II\ é possuído de um temor agressivo. A mulher idosa é a
1111111'11 l'l• i1 it'cira.
Da n atureza feminina 89

Como podemos ver, a literatura médica dá um vigoroso impulso


à comunicação entre os dois sexos, mas muitas afirmações vêm
ainda reforçar o medo da mulher. Ela é fria e húmida e a mauiz
experimenta um prazer semelhante ao das serpentes que, na sua
busca de calor, penetram no interior da boca dos que dormem. A
capacidáde sexual da mulher é sempre particularmente inquietante.
Aliás, o seu prazer é duplo: provém por um lado da recepção da
semente masculina, que a virtude atractiva da vulva suscita, mas
também da emissão da sua própria semente. Tal é a tradição que se
estabelece a partir do Pantegni. Sobre este assunto o aristotelismo
contribui igualmente com precisões inquietantes: o excesso de humi- O Levítico associa a enfermidade à
impureza, à culpabilidade da carne.
dade no corpo da mulher dá-lhe uma capacidade ilimitada no acto Os textos mais enraizados nos dogmas
sexual. Ela não pode ser saciada, e a fórmula de Juvenal, lassata sed eclesiásticos falarão de enfermidades
transmitidas pela união sexual ou pelo
non satiata*, é retomada à porfia. Não se diz aliás que a mulher é a leite materno. No entanto, na Jitcratura
única fêmea dos seres animados que deseja ter relações sexuais médica árabe, como o Cânone maior
de Avicena, transmitido ao Ocidente
depois da fecundação? A literatura licenciosa - os contos em par- pe la escola de tradutores de Toledo
ticular - não é mais do que a encenação deste poder inquietante. no século XII, afirma-se o direito
Este cómico da irrisão é a manifestação de um medo que se transforma ao prazer, legitimam-se as relações
sexuais, concede-se à mulher um certo
em desprezo da mulher. Com efeito, as condições para o estabele- conhecimento da sua sexualidade,
cimento de um autêntico diálogo, de uma arte erótica, não existem fala-se de técnicas sexuais. Pormenor
de A visiw do médico, ilustração de
no Ocidente cristão. um códice do século XIJI com o
Cânone maior ele Avicena (980-1037).
Bolonha, Biblioteca da Universidade.
li/ ll/1,\'( '(/ É certo que casamento e fecundidade, obrigações conjuntas no
, , ,itl/'o pensamento medieval, tiveram influência na abordagem do prazer conhecimento do seu corpo e convida a que se conceda mais liber-
sexual. Terá o amor cortês, omnipresente na literatura e no pensa- dade à mulher na busca do prazer. O Cânone de Avicena contém
mento, desempenhado um papel análogo? Os textos literários admi- uma afirmação do direito ao prazer e parece considerar-se como
tem a união física dos amantes, mas são particularmente elípticos. inevitável que as mulheres frustrada conheçam outros homens ou
Terão o amor cortês e algumas práticas que lhe estão ligadas explo- procurem a realização junto das suas companheiras. O Ocidente
rado a sensibilidade clitoridiana? Está praticamente averiguado que estava longe de poder acolher tais exigências, mas nem tudo estará
existiu uma concepção das relações eróticas que exige do amante perdido no quadro de uma honesta fruição dos prazeres conjugais.
um domínio perfeito do corpo e inteiramente diferente da sexualidade Alberto Magno admite as carícias preliminares ao acto sexual e a
no âmbito do casamento. Os textos dos teóricos sobre o assunto são Idade Média aceitou igualmente, com relativa indulgência, a mas-
difíceis de interpretar, porquanto as metáforas e os símbolos podem turbação feminina antes do casamento. Na charneira entre os séculos
igualmente convir a relações homossexuais. Os tratados intitulados XIII e1XIV produz-se um desenvolvimento considerável da arte
Do coito, em particular o de Constantino o Africano, não cumprem erótica. ' Médicos como Magnino e João de Gaddesden propõem
as promessas do título: neles, são raros os conselhos destinados a conselhos que os manuais de sexologia moderna não renegariam. As
facilitar a realização das relações sexuais. Repetem a fisiologia e a carícias que permitem levar a mulher ao estado desejado para a
patologia e limitam-se a precisar quais são, em função da digestão, realização do coito são descritas com precisão. A sincronização na
os momentos do dia aconselhados para o coito. Os múltiplos Segredos emissão das sementes, no orgasmo, é o objectivo procurado.
das mulheres não demonstram mais originalidade. É mais uma vez Intuitivamente, Pedro de Ábano recomendara, sem pronunciar o
da medicina árabe que nasce um novo tipo de reflexão. No quadro termo, a excitação do clítoris, que permite à mulher cair num estado
desta civilização, a poligamia constrange o homem a um melhor próximo da síncope. A todos estes detalhes técnicos juntam-se os
conselhos dados à mulher para que o seu hálito seja perfumado.
* «Cansada mas não saciada» (N .T.). Assim, a coberto do cuidado com a procriação, a união perfeita e
(
~~ ··"' '
',111 Da natureza feminina 91
sobretudo estreita para que o ar não possa penetrar e corromper as dos séculos XIII e XIV. Um reconhecimento e uma celebração das
sementes é descrita e programada. forças da natureza foram implantados. E esta visão optimista do
Não se saberá nunca qual foi a difusão destes textos no seio de corpo existe apesar da fraca capacidade de tratar eficazmente e
um público cultivado. Se a mulher não sofre de uma esterilidade de curar que os médicos possuem, e apesar ele um saber c ientífico
patológica, e visto que todo um comportamento foi traçado para que desigual que coloca, lado a lado, intuições brilhantes e est ranhas
o homem condu za a mulher ao estado em que ela deve conceber, a e sombrias reminiscências.
responsabilidade masculina encontra-se muito comprometida. Esta
atenção dada à realização do acto sexual tinha, sem dúvida, poucas
hipóteses de ser aceite, mesmo pelos homens m ais progressivos da Toda a sociedade tem os o lhos voltados para o cusu l csléril. /\s doenças das mulheres
Idade Média. Todavia, foi-se estabelecendo uma val01ização extraor- Quando o médico se tem ele ocupar ela mulh r, nto pod r 'corrcr
dinária da sexualidade. Ela garante o equilíbrio do organismo. Trótula nem ao exame directo ne m ao Lacto. Os tratam nl os, por 'X •mplo a
afirmou que a a bstinência provoca profundas perturbações na mulher, administração de um pessário, são reservados à par1c irn. Ao cirurgit o
nomeadamente a sufocação da matriz, o que se verifica nas viúvas. incumbe a tarefa ele desembaraça r a mulh ' I' lus 111 ·nibrnnns, ' X ·r •s-
Uma verdadeira conquista dos direitos do corpo está estabe lecida cências que impedem as r lações, ou 111 's1110 provorar· u ub ·rtur'H
no final do século XIII; e prossegue no século XIV. Deste modo, da vagina. Esta intervenção é acompu nhudu p •lu colo ·11ç, o d · uma
ninguém se espantará de então ver aparecer um verdadeiro tratado cânula que impede a fe rida de l'e ·har uo ·i ·u1rizur s' 'qu, p ·rmil ,
de arte do amor, ou mais exactamente das diversas posições. Ele à mulher urinar. À in te rve nção c irúrt i ·11 ri os ·usos d· mnlf'onna- Quatio damas. cujas roupas ind icam os
figura num manuscrito em língua catalã, juntamente com o tratado ções manifestas vêm j untar-se os ung u •n1os, mas 111mb 111 os rós, seus diferen tes estados, e um clérigo
d i:ilogam. Para se porem de acordo
de Trótula sob o título transparente de Speculum alfode ri 15 («tratado os medicamento , os a lim ntos, os ,. ·gim •s d •slinndos a corrig ir recorrem aos ditames do deus Amor.
do foder»), que o aparenta, com uma suspeita de ironia, à produção os excessos ele ca lo r o u de s ·curu qu · provo ·tun n ·s1 ·rili lade da É inte ressante a importância que se dá
árabe. São descritas vinte e quatro pos ições com uma secura técnica matriz. Todas as prátic as I i adas u ·r •nçus popu lur 's he rdadas elas à comunicação como meio de alcançar
o acordo, assi m como o simbolismo do
que nenhuma consideração filosófica vem atenuar. As técnicas da civilizações anteriores e a mul lipli ·nçr1o d ' sanlos com poderes muro que demarca um espaço
sexualidade não são no Ocidente uma via para aceder à harmonia do fec undantes testemunham a import, 11 ·iu do que está cm jogo. A protector. Miniatura de um códice do
século XV com obras de Guilhe1me de
mundo, como o são no pensamento oriental. Eis-nos longe da única exigência da fecu ncliclacle c u lpabi I iza II mu ihc r, l'az nascer a troca no Lorris (?-1260). Valência, Biblioteca
posição desejada pela Igreja e justificada pelos médicos ! Se a finali- seio do grupo das mulheres e ref'orça a SLlêl solida riedade e coesão. da Universidade.
dade confessada deste tratado é o acrésci mo de prazer, a via seguida
é uma curiosa investigação metódica: a mulher é exposta e mani-
pu lada. Nenhuma ousadia pode ser re levada, nem na exploração das
zonas erógenas (o clítoris é ignorado) nem na utilização de outras
vias que não a natural. Contudo, este texto permite mostrar que a
prática erótica se pode separar nitidamente do discurso médico, da
sua constante preocupação com a procriação. Em avanço sobre o
seu tempo, terá como continuador o tratado das figuras do Aretino.
Será este escrito espantoso a ponta extrema da liberdade de expressão
na Idade Média? Por causa da passividade da mulher, desta entrega
total à disposição do homem, somos tentados a responder pela nega-
tiva. Menos metódico, mas talvez muito mais próximo da realidade
humana, João de Gaddesden dava conselhos à mulher para que ela
tivesse iniciativas e soubesse provocar o desejo masculino.
Do mito do segredo, de uma suspeita cheia de agressividade,
passa-se a uma cumplicidade, a uma constatação da complementa-
ridade na realização do acto erótico. N ão é certamente o discurso
dominante que acaba de ser evocado, m as estes textos mostram que,
mau grado a rigidez dos interditos religiosos, o prazer do casal e, em
particular, o prazer da mulher esteve no centro das preocupações
/
\_
Da natureza feminina 93

O discurso científico e médico comporta intuições espantosas, no Diálogo de Plácido e Timeu. Um rei teme o poder nascente de
mas veicula também inquietantes zonas de sombra legadas pela tra- Alexandre e educa uma jovem que manda alimentar com veneno.
dição e não postas em causa. Os exempla, quer dizer, neste contexto, Ela sobrevive, e no momento em que está enfeitada com todas as
as pequenas narrativas destinadas a ilustrar uma verdade científica, seduções, este rei envia-a como presente a Alexandre. Este está
podem transmitir elementos que escapam a qualquer análise racional prestes a sucumbir aos encantos da jovem quando os clérigos da sua
e que constituíram verosimilmente um ponto de intercâmbio entre corte, Aristóteles e o seu mestre Sócrates, descobrem a presença do
a cultura -erudita e as crenças populares. Entre os enciclopedistas, veneno na jovem. Para convencer Alexandre, que se mantém reti-
raros são aqueles que não retomaram a lista dos malefícios do sangue cente, procedem a uma experiência: a jovem beija dois servos. Eles
menstrual, segundo a tradição de Plínio, transmüida à Idade Média morrem imediatamente, assim como os animais que ela toca. É pela
por Isidoro de Sevilha. Ele impede os cereais de germinar, azeda os fogueira que o mundo será desembaraçado deste flagelo. O modo de
mostos; pelo seu contacto as ervas morrem, as árvores perdem os contaminação pode variar de uma versão da história para outra: ou
frutos, o ferro é atacado pela ferrugem, os objectos de bronze escure- o beijo, ou o hálito, ou o coito, mas o esquema narrativo permanece
cem, os cães que o absorveram contraem a raiva. Possui igualmente o mesmo.
a propriedade de dissolver a cola do betume, o que nem o ferro Esta história, que floresce na segunda metade do século XIII,
consegue fazer. Afirmações deste tipo fizeram parte da cultura do marca duravelmente a literatura. Traduz não somente o medo que o
mundo rural. Mas, para a Idade Média, há algo de mais inquietante: homem sente em relação à mulher menstruada, mas igualmente o do
a criança gerada durante as regras será ruça, com todas as conotações contágio da lepra no âmbito de um pensamento médico que não
que isso então comporta. Do mesmo modo, qualquer criança pode possui sequer o princípio de uma explicação. A Idade Média pensou
contrair a rubéola ou a varíola, doenças provocadas pelo esforço que que a lepra podia ser contraída no decurso de uma relação com uma
o novo organismo faz para se purgar do sangue menstrual que pode mulher menstruada, e alguns autores afirmam que a criança concebida
estar contido ainda nos seus membros «porosos». nessas condições pode ser leprosa. Ainda que os historiadores sejam
Na esteira de Aristóteles, toda a Idade Média acredita que o induzidos a avaliar por baixo a taxa da endemicidade da lepra, a
olhar da mulher menstruada embacia os espelhos. Alberto Magno doença impressionou suficientemente as imaginações para que todas
fornece uma explicação científica do fenómeno: o olho, órgão passivo, as fábulas a seu respeito sejam admitidas e amplificadas. Os médi-
recebe durante as regras o fluxo menstrual, e em virtude das teorias cos conhecem bem a doença, mas a sua duração de incubação pôs
aristotélicas e galénicas da visão, altera o ar que transmite este vapor em causa o seu sistema de causalidade. A tradição muito antiga da
nocivo ao corpo em contacto com ele. O período após a menopausa transmissão pelas relações sexuais veio preencher, infelizmente para
toma a mulher extremamente perigosa, porque os excessos, que já a mulher, esta lacuna. Um dos enciclopedistas mais conhecidos e
não são eliminados pelas regras, são integralmente transmitidos mais citados, Guilherme de Conches, explica que se um leproso
pelo olhar. Os Admiráveis segredos de magia do grande Alberto e conhece uma mulher, ela não contrairá a doença, enquanto que o
do pequeno Alberto falam das velhas que, pelo seu olhar infectado, primeiro homem que a conhecer ficará leproso. É porque a mulher
comunicam às crianças de berço o seu veneno. As mulheres pobres, é fria que é capaz de resistir à corrupção masculina, mas a matéria
que têm uma. alimentação grosseira, difícil de digerir, são mais pútrida que provém do coito com o leproso infecta os órgãos geni-
venenosas do que as outras. Esta justificação pseudo-científica exclui tais do homem. Portanto afirma-se claramente que a lepra se transmite
e mantém assim prudentemente à distância uma boa parte da socie- como uma doença venérea. No estádio da contaminação, a analogia
dade. Contudo, este mecanismo fisiológico, esta lei, é verdadeiro dos sínais pôde jogar em favor de uma confusão com uma autên-
para todas as mulheres no momento em que perderam a sua função tica infecção venérea tal como a doença de Nicolas e Favre, devida
na sociedade, a saber, a capacidade de gerar, assim como os seus à Chlamydia trachomatis, responsável igualmente do tracoma. A
atractivos. A mulher possui uma tal habituação ao veneno que ela mulher parece, pois, gozar de uma imunidade que se pode em parte
própria está imunizada. Esta propriedade que se lhe atribui está em explicar: o homem, que se desloca mais do que a mulher, corre mais
estreita relação com o mitridatismo. Lembremos que Mitridates, rei riscos; por outro lado, esta, em repetido contacto com a doença do
do Ponto, possuía a faculdade de resistir ao veneno. Este poder, a maiido, devia adquirir alguma resistência. Era por isso que o número
Idade Média confere-o a uma jovem. A autoridade é fornecida por das leprosas era sem dúvida inferior ao dos leprosos. A mulher não
Avicena, que observou que os estorninhos se alimentam de cicuta faz mais do que transmitir a doença que destrói o homem, e esta
sem se molestarem. A narrativa mais completa desta história é dada concepção dolorosa do amor vem inscrever-se no mito.
(
Da natureza femi nina 95

Com efeito, no Tristão de Béroul, a afinidade entre Isolda e os


le prosos é manifesta. Para castigar a rainha culpada de adultério, o
rei Marcos, seu esposo, aceita abandoná-la a uma horda de doentes.
Ela será a mulher de todos, de cem leprosos, devorados pelo ardor
sexual. O homem imagina, deste modo, um castigo à medida do seu
medo de mulher e em conformidade com os seus fantasmas. Sabe-
-se que a rainha escapará a estes ultrajes. Num episódio particular-
mente importante, ela é levada a desculpar-se diante de toda a corte
de Artur. Atravessa então o pântano aos ombros de Tristão, disfarçado
de le proso, dando assim claramente - os detalhes do texto provam-
-no - o espectáculo de uma estranha união. O autor chamou a
Isolda a serpente, a víbora*, quer dizer que ele a considera simul-
taneamente como o animal venenoso e corno a criatura que muda de
pele, como fazem os leprosos. Em face do rei e dos barões reunidos,
Isolda proclama a sua ausência de medo da doença, a sua imunidade,
e exalta a sua beleza resplandecente acima da decomposição e da
lama. A mulher é já o ser de dupla face, beleza e podridão, e conhe-
cemos a fo1tuna desta representação na literatura. Os homens são
transformados em espectadores do triunfo da mulher. Aliás, por
uma razão ou por outra, o homem é ne::la a maior parte das vezes
reduzido a espiar a mulher; o mesmo desejo de ver aproxima a
figura mítica do Hermafrodita, que realiza até ao fim o seu destino,
o esposo de Melusina e todos os heróis, todos os valorosos cavalei-
ros, que descobrem, para sua felicidade ou para seu infortúnio, as
mulheres maravilhosas, as fadas, quando elas se purificam junto das
fontes , no momento em que se desvela o mistério da ·f eminilidade.
A figura do leproso no Tristão repre enta a sexualidade desen-
mulher pela acusação de impotência que ela tinha, sem dúvida, A e leição do amor pelo par conjugal.
freada, que de facto corresponde à verdadeira natureza da mulher. O matrimónio e a fecundidade
Uma outra abordagem da doença, mas de certa maneira comple- formulado em diversas ocasiões. relacionam-se estreitamente no
mentar, é proposta por uma canção de gesta, esc1ita ou por volta Este texto literário apresenta uma evocação muito realista dos pensamento medieval e isso influ i na
fonna como se encara o prazer sexual.
de 1200 ou nos primeiros anos do século XIII. Trata-se de Ami et efeitos da doença. CDntrariamente à opinião medieval vulgarmente Desde o século X IV , e a pretexto do
Amile 16. O título da obra indica a semelhança estabelecida entre os divulgada, a lepra clirni"nui e suprime a actividade sexual do homem, interesse pela procriação, encontram-se
e a mulher, de boa saúde, prostra-o com a sua vitalidade triunfante. descrições mais detalhadas da união
dois heróis da história. Por ter prometido casamento em vez e no sexual perfeita. É a defesa do gozo
lugar do seu amigo, com quem se parece como um irmão gémeo, e Deste modo, a lepra cristaliza e exprime todos os medos do homem . honesto dos prazeres conjugais
É a doença que degrada e esgota a força física. O homem toma-se presididos pelo amor. Miniatura da
quando já tinha tomado mulher, Amigo é castigado com a lepra. 1/isroria desrructio11e Troyae de
Não se joga impunemente - mesmo animado pelas melhores então a'vítima impotente da mulher. Mas esta é igualmente a cúmplice Guido de Columnus, ano de 1287.
intenções - com um sacramento. O seu aspecto físico é tão horrível dos leprosos, criaturas representadas segundo os fantasmas masculi - Madrid, Biblioteca Nacional.

e tão repugnante que a sua mulher consegue convencer os barões, nos, comunidade de sexualidade sempre ameaçadora, único ambiente,
o povo e o próprio bispo de que a separação se impõe. Com efeito, pensa o homem, em que, sempre insatisfeita, ela pode enfim sac iar
uma mulher tão vigorosa não poderia partilhar o leito de um homem o seu insaciável apetite sexual. Na abordagem da lepra há que dis-
tão decrépito, tal é a opinião comum. Tudo se deslinda graças a um tinguir entre urna realidade quotidiana que permitiu que os homens
sacrifício seguido de um milagre, mas o herói curado censura a sua da Idade Média ajudassem os doentes, com a preocupação de obe-
decerem à caridade cristã, e o funcionamento da imaginação, que
desempenha um grande papel no pensamento médico, visto que este
* No original «la givre (la g uivre, la vouivre)», palavras sinónimas que identificam
uma serpente fantástica, utilizada em heráldica (N.R.).
acolhe, sem espírito crítico, as narrativas legadas por uma longa
1
1, Da natureza feminina 97

tradição. Que a lepra fosse transmitida pelas relaç0es s~xu·, é · Notas


evidentemente uma ideia falsa. Mas isso não impede cjue ela · esse
1. Mirko D. G rmek, Les.maladies à l'aube de la civilisa1io11 occidentale, Paris, Payot,
reforçado o sentimento de medo e de culpabilidade que e liga à
1983, pp. 227 ss.
realização do acto sexual, como o fará mais tarde a sífilis. Deste; 2. Avicena, Cânone, trad. Gerardo de Cremona, Milão: P. de Lavagnia, 1473 , liv.
modo, e tendo em conta os conhecimentos científicos, a mulher na UI, fen. 20, rr. I, c. I. A tradução e m francês de todas as citações utilizad as é retirada de
Danielle Jacquart e Claude T homasset, Sexuali1é et savoir médica/ au Moyen Âge, Paris,
Idade Média é simultaneamente considerada como o instrumento PUF, 1985.
do pecado, que merece o castigo divino, e como o agente da trans- 3. Oswei T emk in, Galenism: Rise and Decline ofa Medical Philosophy, Ithaca, Nova
missão-de uma doei;iça, que designa este pecado aos olhos da colecf Iorque e Londres, Corne ll University Press, 1973 .
4. ?/acides el Timéo ou. Li Secrés as philosophes, ed. Claude T homasset, Paris-
tividade. 1
-Genebra, Droz, 1980 , p. 117, § 259.
5. Para as anatomias medievais, ver W . Comer, Analomical Texts of che Earlier
A natureza da mulher, na sua diversidade e nos seus aspectos Midd/e Ages, Carnegie Institution of Washington, Publication n.• 364, Washington,
Natio nal Publishing Company, 1927; sobre a Ana1omia magistri Nico/ai Physici,
contraditórios, tal como a Idade Média a tentou definr, é uma repre- pp. 67-68, Franz Redeker, Die «Anatomia Magiscri Nico/ai Physici» und ihr Verhiiltnis
sentação destinada a perdurar. Instalaram-se, por alguns séculos, zur «Anatomia Cophonis» und «Ricardi», Leipzig (tese), 1917.
uma linguagem e sistemas explicativos que impregnaraID os espíri- 6. Guilherme de Conches, Dialogus de Subs1a111iis, Estrasburgo, J. Ríhelius, 1567,
p. 253 (trata-se do Dragmatico11 Philosophia).
tos e modelaram as imaginações. A casuística pensará a isiologia 7. Ed. in Spurii Libri Galena ascripti, Veneza: Giunta 1597, foi. 59, r.0 60 v."; tca-
da mulher e o seu comportamento sexual nos mesmos termos que a dução italiana de V. Passalacqua, «Micro1egni seu. De spermate», Traduzione e commenlo,
Idade Média, e a ideia falsa, mas bela·, da semente feminina encontrará Roma, Ist. cli Stor. della merlíc. clell'Univ. <li Roma, 1958.
8. Sobre a sexualidade e a ginecologia em Hildegarcla de Bingcn , Joan Cadden,
ainda numerosos defensores. Durante estes séculos a Igreja proíbe e «It takes ali kind: sexuality and gencler differences in H ildegard of Bingen's Book of
condena com uma certa moderaçãÕ, e a ousadia de alguns médicos, compound medicine», in Tradi1ion, 1984, pp. 149-174.
e mesmo de alguns doutores, espanta. Exploraram, sem falso pudor, 9. Tomás de Cantimpré, Liber de natura rerum 1, ed. H . Boese, Berlim -Nova Iorq ue,
W. de Gruyter, 1973, p. 72.
os problemas da sexualidade e da geração e propuseram uma arte 10. M. A. Hewson, Giles of Rome and the Medieval Theory of Conception, Londres,
erótica que, na perspectiva da concepção, reconhece o direito da T he Athlone Press, 1975, pp. 2 1 ss.
mulher ao prazer. Infelizmente, o discursó medieval é igualmente 11 . Numerosas ocorrências da expressão em G il de Roma em De formatione cor-
paris humani e São Tomás, Summa Theologica I, XCII, I arg. I.
marcado pelo medo: medo da mulher inerente à psicologia masculina, 12. Renato Descartes, La descriplion du corps hwnain et de /Outes sesfonclions, éd.
medo que o conhecimento insuficiente das doenças suscita e medo C. Adam et P. Tannery, Oeuvres de Descanes, t. XI, Paris, J. Vrin ( 1974, reed.), p. 253.
herdado do passado e registado· nos textos. Todos os fantasmas l 3. Georges Duby, Mâle Moyen Âge - De /' amour et autres essais, Pa ris, Flam-
marion, 1988, p. 42.
masculinos fundidos nas narrativas são aceites sem espírito crítico 14. Tro1ulae de Mulierum Passionihus ante , in el posl Partum., Eslrasburgo, J. Schott,
e não pedem mais do que ancorar-se no mais fundo das consciên- 1564. T rótula de R uggiero, Sedie malattie delle donne, a cargo de Pina Cavallo Boggi,
cias. O saber médico contém as virtualidades de um desabrochar da trad. de Matilde Nabié e Adriana Tocco, Edizioni La Rosa, Turim , 1979.
15. Descrição do manuscrito em G. Beaujouan, <<Manuscrits médicaux du Moyen
mulher bem como as justificações da crueldade que se exer~erá Âge conservés en Espagne», Mélanges de la Casa de Velazquez, 8, 1972, p. 173.
sobre ela na pessoa da feiticeira. A medicina e a sua vocação para 16. Ami el Amile - Cha11son de geste, ed. por P . F. Dcmbovski, P aris, Champion,
fazer reconhecer as forças da natureza encontram o seu lugar na 1987.
renovação da Jegunda metade do século XIII. Elas estão pelo contrá.Jio
na defensiva quando devem defender as forças da vida contra certas
formas do pessimismo religioso, contra os pregadores fanáticos que
anunciam o fim do mundo nos dois últimos séculos da Idade Média.
O medo está sempre pronto a renascer, e é ele que condiciona uma
leitura da natureza da mulher, entre o leque das possibilidades ofe-
recidas pela investigação e pela reflexão medievais. Podemos avançar
com alguma verosimilhança que os séculos seguintes nem sempre
fizeram a boa escolha.

[Traduzido do francês por Francisco G. Barba e Teresa Joaquim]

(
\
- -- ----- '

;\ mulher sob custódia


( '.1rl,1 Casagrande

Nao sei em que m edida as mulheres do Ocidente medievàl se


11 111111ivc ram q uietas e sile nciosas entre as paredes das casas, das
Í)' rejas e dos conventos, ouvindo homens---ind ustrioso. e eloquentes
(Jlll' lhes propunham preceitos e conselhos de toda a espécie. Os
sn mões dos pregadores , os conselhos paternos, os avisos dos direc-
tores espirituais, as ordens dos maridos, as proibições dos confessores,
por mais eficazes e respeitáveis q ue tenham sido, nunca nos restitui-
n10 a realidade das mu lheres às quais se dirigiam, mas com toda a
t:ertcza faz iam parte dessa realidade: as mulher~ deveriam conviver
m m as palavras daq ueles homens ã qu~m uma determinada orga-
11 i1.ação social e urna ideologia m ui to definida tinh am entregue o,
governo dos corpos e das almas femininas._Uma pa1te_da l!__istória
das mul heres passa também pela história daquelas palavras que as
mu lheres ouviram ser-lhes dfrigidas, por vezes com an ogância expe-
di la, outras vezes com carinhosa afabilidade, em qu alquer caso com
preocupada insistência.

h :tlar às mulheres
A linguage m como veículo de normas
1e6ricas e práticas é criação masculina.
Do fina l do sécul o XII até ao fi nal do século XV estas palavras Pais, esposo , clérigos, letrados e
to rnam-se mais numerosas e insistentes: escritos por homens de mestres dirigem o seu discurso para
as mulheres, a quem admoestam,
lg n:jn ' por leigos, os tex tos sucedem-se uns atrás dos outros a tes- aconselham, ordenam. Desde o
l\.' lll 1111harem a necessidade e a urgência de se e}aborarem valores e século XII e até ao século XV os
textos pedagógicos com exemplos
\ 1110tl •los de comportamento para as mulheres. E difícil definir com e regras de conduta femi ni na
p tl' ·isão o q ue faria m as mulheres daquele período que pudesse ser multip licam-se, dando lugar a um
rnns idc rado tão estranho e tão diferente das suas companheiras de género d idáctico e pastora l, de base
eclesiástica , q ue transmilirá uma
o utro te mpo para provocar tanta atenção da parte daqueles que se ideologia masculina sobre a mulher.
·o nsid ' ravam os de positários dos valores morais de toda uma socie- Na imagem, ao fundo, a mu lher
dad ' . É certo que o se u compo1tamento religioso se tinha tornado «custodiada» . P ormenor cio fresco
do M ês de Janeiro, sécu lo Xlll.
mais relevante em q uantidade e qualidade: algumas delas patticiparam Pádua, Palácio da Razão.
(
rl,1 A m u lher sob custódia 101
em movimentos heréticos, outras entraram em grande número nas poslos •ntre o fim do século XII e o início do século XIV olham Os autores de obras literárias dirigidas
ordens reconhecidas, outras escolheram um tipo de vida religiosa ao l 1111hc111 para O passado e freq uentemente para um passado muito _ à mulher sã? varões que assinam
1 • - . os seus escntos, enquanto as
serviço de Deus e do próximo à margem da instituição eclesiástica, lo11pf11quo. Com a preocupação de apontar às mulheres o cammpo mulheres permanecem no anonimato.
muitas tomaram a palavra para escreverem o seu desejo de uma rela- d:1virtude e da salvação, frades, clérigos e leigos empreenderam um O conteúdo destes textos pretende
ção mais intensa e directa com a divindade. Nesse entretanto, conti- , . _ , chegar a todas as mulheres, rehg10sas
n 11dadoso apuramento das trad1çoes e falaram as mulheres com as e seculares, para estabelecer O seu
nuavam a estar presentes na sociedade, intervindo de várias manei- p11lnvras dos seus livros. As Escrituras Sagradas, as obras dos pagãos domínio no universo feminino, cuja
ras, a nível económico, político e familiar: muitas paiticipavam no · f ' l h · variedade é representada por esta
1111s quais ·osse poss1ve recoo ecer uma antiga sageza, os textos miniatura da Crónica de Ulrico de
trabalho dos campos, na produção e venda de mercadorias, algumas <10111 ri nários, morais, teológicos e hagiográficos dos Padres da Igreja, Richental, de 1420. Praga, Biblioteca
encontravam-se no centro dos jogos da política e do poder, todas dos monges e dos mestres mais próximos no tempo, nada foi esque- Nacional.
assumiam nas famílias os papéis de esposas, de mães ou de filhas , e rido para se construiI um modelo feminino que, imbuído da auto-
a definição desses papéis foi um dos principais objectivos da nova ridade que vinha do passado, fosse capaz de funcionar no presente
pastoral e da nova pedagogia que elas ouviram ser-lhes propostas. t' de se projectar no futuro.
A cena na qual estas mulheres se moviam era uma cena complexa;
no meio dos campos e das florestas eram agora numerosas as cida-
des; ao lado da hierarquia das relações feudais desenvolvia-se uma Falar a que mulheres?
rede de relações determinada por uma economia mercantil e mone-
tária; novas fo1mas de poder e de cultura se impunham ao lado das Os protagonistas da história que vamos contar são homens e
formas tradicionais dos senhores e do clero. Uma sociedade que do mulheres; dos homens sabemos sempre o nome, e quase sempre a
século XI ao século XIIÍ não tinha cessado de se alterar e de se com- rormação cultural, as amizades, as deslocações, a data e o lugar do
plicar, tinha ig ualmente alterado e complicado a vida das mulheres.
Não foi por acaso que os principais protagonistas desta renovada
pedagogia nos confrontos com as mulheres foram os frades men-
dicantes, isto é, os que pertenciam àquelas novas ordens religiosas
a quem a Igreja confiou a tarefa de responder às necessidades reli-
giosas e ideológicas de uma realidade social alterada e complexa:
presentes nas praças públicas das cidades, nas universidades, nas
cortes, no campo, interlocutores de heréticos, de reis, de camponeses,
de mercadores, de trabalhadores manuais, de intelectuais empenha-
dos em levar a palavra de Deus aos lugares onde tinha sido conte -
tada, discutida ou esquecida, franciscanos e dominicanos conside-
raram as mulheres um sustentáculo importante para a sua ambiciosa
política pastoral e às mulheres se dirigiram frequentemente e com
grande atenção.
Entre todos os textos que durante cerca de três séculos falaram às
mulheres e das mulheres, os que foram compostos do final do século
XII aos primeiros anos do século XIV ocupam um lugai· especial: de
facto, naqueles anos, na tentativa de construir um modelo ético
fem inino adaptado às mulheres de uma sociedade que se estava a
tornar mais complexa e a assentar em formas novas e diferenciadas,
foram lançadas as bases de uma pastoral e de uma pedagogia no
feminino destinadas a perdurarem. A análise será conduzida, numa
primeira fase, recorrendo em alguns casos também a textos pos-
teriores, quando se tratar de assinalar continuidades, diferenças,

( literatura didáctica e pastoral düigida ~ ---------


desenvolvimentos. Ponto de referência obrigatório de toda a sucessiva
---- às mulheres, os textos com--
A m ulher sob cus tó dia 103

nascimento e morte; se são homens da Igrej a, sabemos a que ordem salvação. Na passagem da «mulher» às «mulheres» produz-se um
pertenceram e que papel representaram; se são leigos , podemo desconcerto, um momento de indecisão e de perplexidade , em q ue
determinar-lhes a condição social e o nível c ultural. cada qual procura e experimenta soluções mais ou menos eficazes,
mais o u menos articuladas. Nesta fase experimental , de stinada a
durar por todo o século XIII, as mu lheres invadem, numerosas e
1/1/t ' ll.1 Temos que nos re lacio nar com profissionais do trabal ho inte- dive rsas, os textos pastorais e didácticos que se esforçam por encon-
,li,,,,,,,. --
lectual, como Alão de Lille (t 1202-3) ,e:-Gil de R om) (t l 3 16) , com
- _../
trar um critério unânime para individualizar e classificar o aud itóri o
pregadores que organizam e praticam na primeira pessoa as activi- feminino ao qua l se dirigem.
clades pastorais da Igreja, como Tiago de Vitry (t 1240), como os
dominicanos Vicente de Beauvais (t 1264), Guilherme Peraldo ( t
1261), Humberto de Romans (t 1277), Tiago de Varazze (t 1298), Alão de Lille tem diante de si, como possíveis ouvintes dos seus As class!fh·ações
os franciscanos Gilberto de Tournai (t 1284), João de Gales (t sermões, virgens, viúvas e mulheres casadas. As mesmas m ulhe re s, das 111u/!1eres
1285) e Durando de Champagnc (t 1340?), com le.igos cultos como com a adição ele freiras e serventes, constituem o público fem inino
Filipe de Novara (t 1261-4) e Francisco de Barberino (t 1348), e dos pregadores T iago de Vitry e Gilberto de Tournai 1• Vicente de
com um rei santo, Luí. IX de _franç-ª-(t 1270). As palavras que Beauvai s e Guilherme Peraldo, em dois tratados sobre a educação
dirigiram às mulheres gozam do privi légio de terem sido escritas, cios jovens príncipes, dirigem -se às meninas da corte para as prepa-
em latim pe los homens da Igreja, em língua vulgar pelos leigos, e rarem para os futuros papéis de mulheres, viúvas ou virgens con-
chegaram até nó · organizadas nas formas tradicionais do discurso_ sagradas2. O franciscano João de Gales, no se u compêndio moral,
normativo, o sermão, o tratado moral e pedagógico; à semelhança ocupa-se de mulheres casadas, viúvas e virgens; o dominicano Tiago
dos seus autores, estas o bras são identificáveis e reconhecívei s uma de Varazze, nos sermões e na crónica de Génova, volta a sua atenção
por uma, podemos reconstruir-lhes o índice, as fontes, o destino, g. sobretudo para as m ulheres e as mães 3• O le igo Filipe de Novara, no
conhecemos os seus títulos. seu tratado acerca das quatro idades do homem, propõe uma séri e
Das outras protagonistas da nossa história não sabemos o nome de nom1as para raparigas, mulheres jovens, mulheres de me ia idade,
nem a biografia; as mulheres entram nos textos da literatura pastoral velhas4 .~Às rainhas dirige-se um 1~ei, S. Luís, que escreve para a
e pedagógica através de uma série de categorias femininas q ue deve- filha/rainha uma breve- selecção de ensinamentos, e um franc iscano,
riam compreender e compendiar todas as suas inumeráveis condições Durando de Charnpagne, que compõe um speculum dirigido à mulher ,
individuais. São porém em número avultado, praticamente todas. O do rei de França5• Gil de Roma, que fala ..das mulheres com a lin-_ i
projecto educativo que lhes diz respeito é de facto particulaimente guagem da teoria política aristotélica, distingue-as com base nas .t.
ambicioso; não basta falar a algumas delas por serem importantes funções que elas desempenham naquela comunidade política natu-. 1
na escala social ou por se dedicarem a urna vida santa e virtuosa; ral que é a família, falando portanto ele esposas, de mães e de filha 6• · j
o desafio que a realidade impõe é o de elaborar valores e modelos Quando o dominicano Humberto ele Romans decide que é necessário 1

capazes de se dirigirem a todas as mulheres. É por isso necessário pregar de mane ira diferente aos diversos géneros de m ulheres, o seu
repensar com atenção o posto e a função das mulheres na vida social manual para pregadores enche-se de um número de mul heres como
e religiosa e individua lizar com exactidão a variedade das suas con- nunca se tinha visto: as religiosas, diferenciadas em bened itinas, cis-
d ições. Há no confronto com o público fem inino uma curiosidade terc ienses, dominicanas, franciscanas, humilhadas, agostinianas, rapa-
descritiva e um esforço de classificação até então in só litos ; _todos ri gas que vêm a ser educadas nos con ventos, beguinas , e as leigas,
aqueles q ue se dirigem às mul heres com um propósito moral e diferenciadas em nobres, burguesas ricas, raparigas, servas em casa
pedagóg ico- preôcupam-se em elaborar urna tipologia das suas lc famílias ricas, m ulheres pobres q ue habitam em pequenas aldeias
inter ocutoras. Mas descrever e classificar as mulheres não é uma cio campo, meretri zes7• Com o jurista florentino Francisco de Bar-
o peração simples para quem carrega nos ombros uma tradição que b •rino há uma verdadeira explosão de categorias femininas: com eça-
Submissão, obediênc ia e atenção
raramen te pen ou as mulheres no interior das representações da -se co m as menininhas e as raparigas cm idade casadoira, para passar constante ao marido elevem ser normas
sociedade, preferindo unificá-las na categoria «mulheres», na qual, d poi s às mulhe res q ue superaram a idade de ter marido, àquelas de cond uta da jovem esposa, presa
com base num critério unicamente moral, se colocam as opostas que se casam tarde e às mulheres casadas; cada uma destas categorias nos laços mairimoniais. M iniatura
do Oficium Beatae Mariae Virginis,
mas solidárias imagens da mulher luxuriosa, sujeito e objecto do é po r sua vez dividida em subcategorias, conforme a mulher seja século XV. Madrid, Biblioteca
(
pecado, e da mulher casta, símbolo de virtudes e instrumento de o riunda de uma família de re is ou imperadores, de nobres, de cava- Nacional.
A mulher sob custód ia 105
leiros, juízes e m édicos, mercadores e artesãos, camponeses e simples como podem ainda assumir um p apel de ensinamento e de coJTec-
trabalhadores; prossegue depois com as viúvas, as viúvas que se ção sobretudo no que se refere às mais jovens. Muitas delas vivem
voltam a casar, as mulheres que praticam em casa uma vida religiosa, porém uma vida p ecaminosa: gostam de tagarelar continuamente,
as freiras, as reclusas solitárias, as damas de companhia, as criadas, escondem com roupas e cosméticos um corpo agora murcho, buscam
as amas e as servas, concluindo com uma série de mulheres de con- com enganos aqueles prazeres da carne a que há muito deveriam ter
d ição humilde : barbeiras, padeiras, vendedoras de fruta, tecedeiras, renunciado. À figura da velha arrebicada e pintada, frequenteme nte
moleiras, vendedeiras de aves de criação, mendigas, tendeiras e ridicularizada nas prédicas e nos tratados, sobrepõe-se a fi gura, de
hospedeiras; as meretrizes, sublinha Francisco de Barberino, «não origem clássica, da velha alcoviteira que se insinua nas casas como
entendo incluí-I as no escrito, nem delas fazer menção, pois não são insidiosa mensageira, junto das mulheres, das lisonjas dos am antes ,
d ignas de ser nomeadas» 8• e a da vetula feiticeira que com adivinhações e sortilégios engana
Esta última precisão de Francisco de Barberino é muito impor- por dinheiro as mulheres simples e curiosas que a consultaram. As
tante: a sua classificação das mulheres, que é talvez a mais rica e a vetulae aparecem portanto, aos pregadores e aos moralistas, como
mais articulada, e talvez também a mais apegada à situação social, habilíssimas n a arte de induzir ao pecado as outras mulheres; Gui-
não pretende ser uma notícia neutra e uma descrição completa da lherme Peraldo escreve com grande preocupação que «lá, onde nem
condição feminina. Há mulheres , as meretrizes, que Francisco tem o homem nem o diabo atingem o seu objectivo, a velha pode
diante dos seus olhos mas que ficam propositadamente excluídas chegar» 9 . Frente a estas velhas viciosas e perigosas que Tiago de
da sua classificação. O facto é que no Regimento e costumes das Vitry não hesita em denominar «ministras do Diabo» e sobre as
11111/heres, e ainda mais nos outros textos que arrolámos, as mulheres quais, segundo Peraldo, o Diabo poderia fazer descer línguas de
tomadas em consideração são o resultado de uma difícil mediação fogo infernal numa espécie de blasfema paródia do Pentecostes 'º, i{(.i
entre aquilo que as mulheres são e aquilo que deveriam ser. O pre- prédicas e tratados não se cansam de propor de novo a imagem de ~ \
gador, o moralista, o pedagogo selecciona da realidade, ou preci- uma velha sóbria e modesta que alterna com os cuidados familiares ·...,·~:..-,,...ir
sa mente impõe à realidade, aquelas categorias de mulheres que já uma intensa actividade devocional feita de preces e j ejuns.
encarnam ou que pelo menos têm a possibilidade de encarnar os _'s> As meninas tornam-se obj ecto, pela primeira vez de um modo
va lores que propõem. Só as mulheres que pertencem às categorias quase sistemático, ele urna pedagogia específica: as jovens da nobreza
t·scolhiclas ão mais ou menos potencialmente mulheres virtuosas; de que falam Vicente de Beauvais e Peraldo põem-se lado a lado
as outras sofrem uma dupla condenação como marginalizadas e " com jovenzinhas para as quais Humberto de Romans prepara dois
çomo pecadoras. As mulheres, no fim contas, suportam uma socio- sermões, segundo vivam no mundo secular ou nos conventos, com
log ia que é em grande parte ideologia, uma descrição que existe mocinhas a quem Francisco de Barberino e Filipe de Nevara dedicam
quase sempre em função de uma moral, uma classificação que é já propositados capítulos das suas obras, ~ om raparigas par1!_ quem
um mode lo . escre ve Gil de Roma. A intervenção j unto destas interlocutoras é ao
mesmo tempo importante e delicada: p1imeiro banco de ensaio para
valores e modelos que serão depois propostos às outras mulheres,
, 1/1,11 Os c rit éri os que servem para a classificação das mulheres tornam- são um banco de ensaio paiticularmente difícil, porque marcadas
M' po1·t,rnt o um importantíssimo meio de observação para comprecn- por uma natural falta de disciplina e por um sentido moral bastante
dl•1· qua l o sistema de valores e quais os modelos de comportamento débil e quase irreconhecível. As mocinhas de Francisco de Barberino
q111· st· ri11 111 propostos às mulheres. No nosso corpus de textos, os cri- começaram há muito pouco a entrever, depois de u m primeiro e Os tratados pedagógicos preocupam-se
ll I ÍllN silo múltiplos e frequentemente cada autor utiliza mais do que ,, '\
em estabelecer tipos femin inos
inesperado rubor, a diferença entre o bem e o mal 11 ; _as raparigas de \ dis1in1os. Na sociedade laica. e
u111 <) nwis simples, e aparentemente o mais neutro, não por acaso .\ il de Roma têm necessidade de uma disciplina a~a mai:s rígida se gundo a sua função, d ividem-se e m
fi lhas, esposas e viúvas. Dirigidas às
11 111 11 1l11< lif't•r ·ntcmcntc para homens e mulheres, é o da idade. Através d o que ã reservada às mulheres porque, como ensina Aristóteles, a primeiras escrevem-se obras didácticas
ili \ li' n it(• rio i mrõcm-se à atenção dos pregadores e dos moralistas clé bi I nÍcionalidade da sua natureza feminina une-se à ainda incorn- específicas , ou, em obras mais gerais,
111111 t11do duns cat egorias de mulheres: as velhas e as jovens. p l ' l a racionalidade da condição infantil12 • Na realidade, todas estas dedicam-se certos capítulos à
preparação para o matrimónio destas
11 11<·l11s, frL·qu ' ntcmente incluídas também na categoria das rupari gas, que atravessam uma fase da vida identificável com a «donzelas em cabelo». Na imagem,
111 v11•. 10 1·1111 Ni<k'rndas interlocutoras decisivas ------=---=
da nova pastorale
-- - ) ndol •scência e a primeira juventude - sobre a infância feminina o figura femi nina da História do Novo
Testamento, segundo um manuscrito
I " d, 111•111 1 11d1 11•,·111 l11s Is mu lhe res; send ,pruãêntes e vi1Juosas.)/ 1 s ili; nc io mantém-se praticamente total - , não são apenas jovens; anglo-saxónico do século XJIL
111• 1 11 111 11111111 11111 11111d1•lo ('Xl'111plar para as- ou rasmnlheres, ! s, o tamh 111 pobres, ri cas, nobres, laicas ou rel igiosas . Até Filipe de Veneza. Bibl ioteca Marciana.
106 /\s normas d<.: controlo

Novara, que usa o critério da idade corno princípio distintivo primário,


introduz outros tipos de c lass ificação quando, em referência a ternas
como os do tra ba lho e da alfabetização, se pronuncia de modo
diverso segundo a j ovem é nobre ou de condição humilde, destinada
ao claustro ou ao matrim óni o.

Níveis sociais _ Ao lado do critério da jdade impõem-se, e m suma, de um 1ll.Q._d.u


e papéis.familiares prepotente, critérios sociajs que classificam as mulheres com base__
no iugar que ocupam, o u devem oc upar, na socjedade.
São sobretudo o dominica no Humbe rt o ele Romans e o leigo
Franci sco de lt1 rhe rino que tomam clecicl iclamente este caminho;
nos seus text11s .,, mu lhe res multipli cam -se segundo os critérios que
organizam toda a sociedade: a pe rte nça à instituição eclesiástica, o
poder, a riqueza, a linhagem, o traba lh o. A pare nte mente a sociedade
feminina delineada pelo domi nicano francês é diferente daquela que
encontramos nas páginas do jurista i'l o re ntino. Humbe rto disting ue
com extrema atenção as mulhe res re li g iosas segundo a o rdem a q ue
pertencem, qte nto em evide nciar o ca rácte r institucio nal , o u semi -
-institucional no caso das bcguina s, que a re lig iosidade feminina
deve ass umir; Francisco limita-se a cons ide rar com uma certa descon-
fiança a condição das relig iosas cm casa e a das reclusas solitárias,
para fa lar depois e m termos gerais das fre iras e da sua vida comu-
nitári a separada do mundo. Por o utro lado, as ra inhas, as princesas,
as nobres, as filhas e mulhe res de pro fissio na is li berais, de merca-
dores, de artesãos e camponeses, e as nu merosas tra balhadoras de
Francisco vivem na sociedade laica uma variedade de condições
sem dúvida mais ampla que as nobres, burguesas, domésticas, cam-
ponesas e meretrizes de Humbe rlo. Mas tanto para Humberto como
para Francisco a sociedade das mu lhe res, qualquer que seja o grau
À parte a idade, as classificações de aiticulação que apresenta, é indi vidualizada a partir dos critérios,
respeitam também a critérios dos vaJores e das hierai·qui as da socied ade dos ho me ns. Por um lado
económicos, relig iosos ou sociais.
Nesta miniatura, a ra inha castelhana as re ligiosas que são colocadas nas o rdens e nos papéis para elas
D. Vio lante junto a seu esposo definidos pela instituição ecles iéistica, por o utro lado as laicas que
Afonso X. Documento do Cartulári o
de Tojos Ou1os, século XIII.
passam a fazer parte da estrutura soc ia l apenas na qualidade de
Mad rid, Arquivo Histórico ac iona l. esposas, filhas e mães de home ns que exercem o poder ou o suportam ,
que combatem ou trabalham , qu e possue m bens e dinheiro ou vivem
pobremente. A relação das mulhe res laicas com a sociedade passa
portanto pe la família, e os critéri os sociais que lhes dizem res pe ito
estão em primeiro lugar ligados aos papéis fam iliares que assumem.
De facto, Francisco de Barbe rino j oga a carta das diferenças sociais
no inte rior de uma série de categorias fe mininas primárias que são
as categorias que individualizam as mulhe res com base nos seus
papéis fam iliares de filhas, futuras es posa. , mulheres e vi úvas; e
també m Humberto , qu and o fa la de mulheres nobres, burguesas e
A m u lher sob custódia 107

Quanto mais elevada for a dama,


mais deve cingir-se às normas morais.
A rainha aqui coroada deve ser um
exemplo de perfeição que todas as
mulheres da escala social devem
imitar. Esta ideia impl ica um
claro i nstrn mento de penetração
ideológica, favorecedor da aceitação
da hierarquia social e da superioridade
da monarquia, fórmula extensiva e
dominante de todo o Ocidente
medieval. Miniatura de um
manuscrito inglês do século XIV.
Parnplona, Arquivo de Navarra.

pobres, é às mulheres de nobres , de burgueses e de camponeses que


se dirige, propondo-lhes urna série de ensinamentos relativos à rela-
ção com o marido e com o resto da família .
Nem sequer as mulheres que trabalham colocam verdadeiramente
em crise esta identidade, quase total, entre níveis sociais e papéis
famili ares das mulheres. É certo que Humberto de Romans, e outros
pregadores com ele, identificam um auditório feminino de criadas e
de servas, mas o trabal ho que classifica estas mulheres é na realidade
um trabalho doméstico que se realiza somente no espaço privado da
famíl ia, de que elas fazem parte. Efectivamente, as únicas mulheres
que trabalham fora do âmbito familiar, e a que Humberto de Romans
reconhece existência e consistência, são as meretrizes, mas elas são
também as únicas mulheres que, segundo o recon fortante exemplo
de Madalena, devem sair da sua condição o mais rapidamente possí-
ve l, trocando o torpe comércio a que se dedicam por uma vida nova
inaugurada com o arrependimento e assinalada pela penitência 14 • As
mulheres que trabalham fora da família, que para o dominicano
Humberto ou não existem ou são pec.idoras, estão, pelo contrário,
presentes em grande número no texfo' do leigo Francisco de Barbe-
rino; mas isso não constitui o seu ingresso triunfal no elenco dos
status femininos. Relegadas para uma das últimas partes do Reg-
gimento para não aviltar as mulheres mais nobres e mais impo1t ~mtes 15,
às quais é dedicada grande pa1te da obra, são passadas em revista
«com brev. idade» e apenas para lhes assinalar os vícios mais recor-
rentes: «Da sua bondade não é necessário fa lar / mantêm-se boas
aque las que o são, / que dos seus bons costumes este livro/ não cura
de l"ular». Destas barbeiras, vendedeiras de aves de criação, tecedeiras,
clc., 1;rancisc;o teria pre ferido não falar, uma vez que tudo aquilo que
11111 11111 111, 1 d, 111111, ulu

seria necessário dizer-lhes foi já dito às várias mulheres e filhas de


homens mais ou menos importantes, mas finalrne.rte decidiu-se a
isso «para tornar este livro mais universal» 16 : uma espécie de reti -
cente e ambíg uo reconhecimento de que a condição feminina é
afinal muito mais complexa e articulada do que as classificações
de moralistas e pregadores deixavam entrever.
Quem, pelo contrário, não tem qualquer necessidade de descer a
pactuar com a realidade, porque se move no plano da teoria e por-
tanto da definição de princípios gerais, é Gil de Roma: a colocação
social das mulheres é no interior daquela primeira, natural e n~cessária
comunidade política que é a família; nenhuma referência · quer às
mulheres que entram em religião, quer àquelas que fazem estranhos
e humildes t.ral:Íalhos fora da família; as mulheres são apenas e~sas,
mães e filhas, o seu papel é apenas o de fazer e educar cria_!lç~s, o
seu trabalho é apenas o trabalho doméstico. Aquilo que.os moralistas
e pregadores andavam a di zer encontra na clara e inequí_voca lin-
1 guagem da política aristotélica uma confirmação e um fundamento:
para entrar na sociedade, as mulheres devem entrar para uma família ,
\ e manterem-se nela.

Rainhas, princesas Mas há famílias mais importantes do que outras , e portanto há


e damas esposas, mães e fil has que, mais do que outras, despertam atenção e
interesse. Rainhas, princesas, damas da corte e aristocráticas de
vária linhagem são frequentemente as principais interlocutoras dos
discursos pastorais e pedagógico~ que estamos a examinar, e algumas
delas saem também do anonimato em que todas as outras mulhe-
res se mantêm. Humbeào de Romans escreve um sennão para as
mulheres da nobreza; Francisco de Barberino dedica muitas p~inas
do seu tratado às filhas dos imperadores, reis, marqueses, duques,
condes e barões; Vicente de Beauvais e Guilherme Peraldo ocupam-
-se da educação das raparigas da nobreza; o rei Luís dirige à filha
As crónicas lalina do século XII Isabel, rainha de Navarra, uma série de ensinamentos.;__Durando de
falam dos home ns como pueri,
j 11 ve11es, viri, senes, realçando Champagne escreve o Speculum dominarum para a rainha Joana de-
quat ro idades biológico-sociais. Navarra, mulher de Filipe o Belo. Mas tudo isto não significa que as
Em contrapartida, a mulher só tem vicissitudes pessoais de Isabel e de Joana tenham qualquer relevo,
três idades, já que a sua classificação
respeita ao casamento e à procriação. ou que o modelo educativo que é proposto seja um modelo nobiliár-
A menina e a adolescente unem-se quico, válido apenas para as mulheres das classes aristocráticas.
num único tipo, virgo, embrião da
es posa, conjugara; quando já não Pelo contrário, as nobres estão tanto mais presentes quanto mai s os
procria é matrona. Na ilustração, as valores e modelos que se lhes propõem são universais, válidos e
va nt agens de cada idade associam-se
aos bene fíc ios do trabalho campesino
eficazes para todas as mulheres. Rainhas, princesas e damas têm,
di,í rio. Os ji'11tos da virgindade, da aos olhos dos pregadores e moralistas, a possibilidade de se tornarem
viuvez e do matrimónio, mi niatura do exemplo concreto e modelo vivo pare;! todas as mulheres, porque a
Spern/11111 Virginum de Conrado de
Hirscha u, século X II. Bona, posição de superioridade social que Deus lhes concedeu obriga-as,
Rhej nisches Landesmuseum. corno escreve H um berto de Romans, a um respeito mais 1igoroso
A mulher sob cu stódia 11 l
das normas rnorais 17.
Colocada no centro de uma cena para a qual
convergem os olhares de todos, a filha/rainha de S. Luís tem o dever
r,,,..... '
4
.._.t, .45 A s ordens mendicantes fo ram os
principai s difusores da pedagogia
med ieval. F ra nciscanos e dom inicanos
de ser <~ erfeita em tudo, para que quem ouvir falar de ti o u te veja consideraram o p úb lico fem inino como
possa de ti tomar bom exemplo» 18• Objecto da curiosidade de todo uma peça f undamental ela sua política
pas1ora l. U m franc iscano, Francisco
um povo que acorre de todas as regiões e províncias do re ino para X imcnes, escreveu em 1388 um
a ver, a rainha de Durando de Charnpagne j á não é apenas «uma volumoso traiaclo dedicado às
mu lher, m as exemplo de santidade, form a acabada dos bons costu- m ulheres, o Lihre de /es clones.
O rront ispício ele um a edição cio
mes, espelho de honestidade» 19• Para Francisco de Ba.rberino, rainhas séc ulo XV mostra a heterogenei dade
e princesas, obrigadas pe la sua al ta posição social «a elevados cos- ela audiência fe m inina a que é
deel icado. Ed ição ele Rosembach,
tumes»20, encarnam o modelo perfeito que nobres, burg uesas e cam- Barcelona. 1495. Barcelona.
ponesas devem tentar emular nos limites consentidos pelo estado Bibliolcca ela C a1alunha.
de inferioridade em que se encontram; à medida que se desce na
escala social destemperam-se os valores , diluem-se as normas,
afrouxa a disciplina, mas para todas as mulheres permanece uma
contínua tensão para olhar parn o alto, para aquela mulher de educação
perfeita que só a rainha sabe ser plenamente .

1 /11 1'(1.1' No me io do numeroso público feminino, vari adamente subdivi-


11,1,/11.1· dido em meninas, mães de fam ília, anciãs, rainhas, camponesas,
abadessas, no viças, criadas, damas, etc., sobressaem três categorias
de mulheres nas quais todas estas fig uras femininas se redistribuem
como que atraídas por uma força ordenadora-:- São três categorias
femininas antigas e respeitáveis, incessantemente evocadas nos
escritos de homens santos e sapientes, a começar pelos Padres. São
as virgens, as viúvas e as mulheres casadas .
Q uando Alão de Lille, Tiago de Vitry, Vicente de Beauvais,
G uilherme Peraldo, G ilberto de Tournai, João de Gales decidem
fa lar às_mulheres, tal como já acontecera a muitos antes de les, as
mulheres que se apresentam aos seus o lhos são mulheres que usam
de modo d iverso a sua sexualidade: algumas, as virgens, renunc iam
a ela completamente e para sempre com base numa decisão voluntária
e consciente; outras, as viúvas, pode m renunciar após um evento
fortuito que as privou da companhia do marido; outras ainda, as
mulheres casadas, limitam-se a um uso parcimonioso do seu sexo
no inte rior e em função da família.
São todas mulheres castas que a classificação das virtudes, tal castidade, quer nos textos teológ icos quer nos pastorais, traduz-se
como ela se define no século XIII nas obras teológicas e pastorais, q uase sempre na exemplificação das três formas possíve is de cas-
não hesita em definir como mulheres virtu osas : sabem de fa cto tidade praticadas por virgens, viúvas e mulheres casadas. É como
praticar aquela singular e providencial forma de temperança, dita se a vitória da castidade sobre a concupiscênc ia, uma vez conse-
castidade ou conti nência, que põe ordem e medida no desordenado guida no terreno mais difíci1, junto daquela parte da humanidade por
e perigoso mund o dos prazeres sexuais. Rem édio para a concup is- natureza mais inclinada à lux úria e mais débil perante os desejos
cênc ia à qual a humanidade inte ira foi condenada depois do pecado da carne que é a mulher, resultasse então m ais próxir1.1a e possível
original, a castidade é frequentemente recomendada a homens e para todos. As mulhe res , em suma, tornam-se uma espécie ele banco
mulheres, mas mais frequentemente a estas. A reflexão acerca da ele ensaio, um lugar teórico e uma expe riência concreta em que uma
112 As no rmas d e controlo

sociedade inteira penso u e ve rificou um conceito particular de


sexualidade.
Ora a castidade das virge ns, viú vas e mulhe res casadas coloca a
sexualidade num espaço compreendido e ntre a recusa e o controlo
com fins procriativos , e mostra como, quer na recusa quer no con-
trolo, a batalha se trava na predom inânc ia cio aspecto espiritual e
racional sobre o corpóreo e sensual.ÍComo todas as virtudes, a cas-
'\ tidade é exigente; não se contenta co\ n a repressão e disciplina exte-
, 1 riores, requer intencional idade, rac ionaliclacle, consentimento; é
(.

virtude do corpo, m as também e sobretudo virtude da alma. «A


castidade - escreve Tomás de Aqui no~ te m a s ua sede na alma,
em bora tenha no corpo a sua natureza» 21 /\ virgem é virgem não
tanto e não só pela integridade do seu C< rpo, mas sobretudo pela
pureza dos seus pe nsamentos, af'a s1ados de toda a concupiscência
graças à escolha meditada que soube fazer e mante r; se tivesse de
sofrer violência sem consenti r ne m ex pe rime ntar prazer, a sua vir-
gindade não ficaria diminu ída. /\ viúva vive virtuosamente a sua
condição não apenas graças a um e vento <.: asual que libertou o seu
corpo da o brigação das relações sexuai s, mas sobre tudo se, a partir
desse acontecimento, sabe libertar a s ua me nte de todo o desejo
carnal. A mulher casada vive virluosame nl e a s ua sexualidade no
interior do matrimónio porque as s uas inl ·nções se mantêm puras e
castas, voltadas como estão para o <.: urnprim ento cio dever conjugal
e para a propagação da espécie.
Se a insistência sobre a natureza espiri lual e in tencional da cas-
tidade consentiu que també m se defin issem <.: orno castas, e portanto
como virtu osas, mulhe res q ue num dado momento re nunciaram à
integridade do corpo, como as viúvas, o u q ue con linuam a renunciar,
como as mulhe res casadas, isLo não signifi ca que a pureza das suas
intenções seja igual à das vi rgens, que pode m ainda contar, salvo
casos excepcionais, com um co rpo intacto e incontam inado. A integri-
dade do corpo, que desempenha um pap I secundári o na definição
da castidade como virtude, to rn a-se clcl.e rm inant:e quando se trata ele
estabelecer uma hierarqu ia elas fo rmas poss íveis de castidade. A
castidade da alma das virgens, elas viúvas e elas mu lheres casadas é
diferente porque é diferen te a casl.id aclc dos seus corpos: um corpo
desde sempre puro permite às virgens um a adesão total à vida do
espírito, que se mantém objectivo ma is o u me nos longínquo para
A casridade, o decoro, a sobriedade ' as viúvas e as casadas , cujo corpo, e ntretanto marcado pelas exigên-
e o recato são as virtudes femininas cias da carne, trav a ou afrouxa a te nsão ela a lma para o alto. Virgens,
mais apreciadas e recomendadas. viúvas e casadas não represe nta m somente três modos possíveis de
É claro que a cena de jogo da
ilustração faz referência a uma castidade, mas também três graus possíveis de perfeição dessa vi..ttude.
actividade à margem dos bons O estado virginal é a cond ição mai s exce le nte e segura de castidade,
costumes. Miniatura do Oficium
/Jearae Mariae Virgi11is, século XV. o estado conjugal o mais ba ixo e mais perigoso; o estado de viuvez
Madrid, Biblioteca Nacional. situa-se a meio caminho, arrastado para baixo por uma contaminação
A mulher sob custódia 113

acontecida no passado e elevado para o .a lto por um a pureza con-


sentida no futuro. Como «alg umas [sementes] caíram em bom terreno
e deram frutos , umas cem, outras sessenta e outras trinta [por um] »
(Mate us, XIII, 8), do mesmo modo a castidade das virgens va le mais
do dobro da das viúvas e mais do triplo da das casadas.

As virgens, as viúvas e as mulheres casadas às qua is os pregado- Percurso espiritual


res e os moralistas falam, cbnstituem um público ao mesmo te mpo e sociologia
compacto e diverso : unidas por uma vida determinada pe la sexua li-
dade, o u melhor, pela recusa da sexua lidade, e las disting uem -se
pelos diversos grau s em que se realiza esta recu sa. Entre elas ins tau-
ram-se valores e ideais comuns que produzem uma série de compor-
tamen tos virtuosos largamente partilhados : virgens, viúvas e casadas
concordam frequentemente na prática assídua da o ração, na recu sa
de ornamentos do corpo, na compostura dos gestos, no uso parco da
palavra, na sobriedade da alimentação. Mas das virgens espera-se
um nível de perfeição e de excelência q ue constitui para as viúvas e
as casadas um inatingíve l mas necessário mode lo de re ferência . ..A__
virgem tem na hierarquia moral fundada na castidade o mesmo papel
que tem~1nha na hierarqJJ ía socúil: figuras portanto_inc!.tingíveis
pelo nível de ex-celffncia e de su perioridade em que são colocadas
- as viúvas e ãs casadas não podem restabelecer uma integ ridade
corporal já perdida, assim com o as burguesas e camponesas não
podem subve rter uma hierarq uia social querida pelos homens e
1·,11 i fi cada por Deus-, as virgens e as rainhas representam porém as
fi guras femin inas que e ncarnam de um modo ma.is co~pleto e mais
Pl'I l' •it o os valores morais que todas as mulheres devem tentar con-
~l'l' li ir, nos limites e nas formas que as suas condições consentem.
<'1 11n a tripartição do público feminino em virgens, viúvas e casadas,
li~ prL·gad ores e os moralistas conseguem falar às mulheres sem
11•111111da r ti mu/her;_a. virtude e a sal vação da mu lher é ·a castidade,
11~ 11111llle res não são mais do que a realização dos três diverso s
11ívl· 1~ dl' pe rfe ição da castidade. Ainda antes de ser um crité rio ele
111ll lvi du a li:t.ação do público femin ino , a divisão tripartida com base
11 0 r 1ltl•1·io da ca:; tidade é a indicação às mulheres de um percurso de
O pin1or florentino renascen1is1a
pc1ll·i,·110 l'Spirilual que prevê ou um acesso imed iato ao níve l ma is Oomcn ico Ghirlanclaio ( 1449-1494)
11110 , rn1 11111 recuo a nívei s intermédios . soube captar ncsla representação da
morl c de S:1n1a Fina o modo pelo qual
M11,; 11 vu ntagcm que esta class ificação apresenta não é a penas a o profano penetra no religioso.
dl' l111 lividu11l iza r três estádios de perfeição moral para as mulhe res, Objec1os e móveis estão representados
1111,s 11u11l w 111 o de fazer corresponder, o nde fosse necessário , estes com uma m inúcia extrema e as figuras
clegan 1es elas damas que assi stem a
li' s e:,, l11dios a três o u mais condições femininas reconhec íve is na sanla reproduzem o rosto e a
1·l~11 lld11dl' , C'0Jt1 o esque ma vi rgens, viúvas e casadas é poss íve l mis- ex pressão apagada da «morte em
vida». Pormenor ele Mane de Sa111a
1111·1 11· t'L 1111 ii111 11111enlc o plano cios valores com o ela rea lidade , confundir Fina . Florença, San Giminiano,
as fi g uras id1.:uis das mulheres com a variedade das suas cond ições, Colegiada.
1111 /\~ l\mm,1~ de r onlrolo
reçluzir o_peri oso afastamento que existe entre a uilo gue as mulheres
são e aquilo que evem se.r....Através dalig_ura ideal da mulheLcasada
é elaborado um modelo de comp-9rtamento para todaus_muJheres_
que no interior dos grupos familiares executam OS papéis de~eSPQ::,
sas e de mães; com a figura da viúva toma-se possível responder às
necessidades de um grupo social de mulheres sós, e frequentemente
idosas, privado de protecção e potencialmente desestabilizador; com
a figura da virgem fi ca-se ambiguamente suspenso entre um plano
ideal e um plano real: a virgem, identificável por vezes com a reli-
giosa e outras vezes com a adolescente, é frequentemente evocada
como uma figura tão excelsa e perfeita que pode manter-se puramente
Na ilw,1rnção, 11 margem da narração, ideal; não é portanto por acaso que muitas vezes ela nos aparece
jn~a ,e com o tempo interno do representada pela Virgem Maria. Os sermões às virgens de A lão de
c,paço rcminino, reservado, cm Lille, Tiago de Vitry, Gilberto de Tournai e as descrições do estado
conlraposição a uma temporalidade
externa, pública o u semi-pública. virginal de Vicente ele Beauvais e de Pcra lclo resumem-se na maior
Mi niatura do Oficium Beatae Mariae parte cios casos a um elogio da virgindade, certamente válido para
\lir!iinis, século XV. Madrid, Bilioteca
Nacional. ilustrnr a superioridade da condi ção re lig iosa, mas também como
algo que, genericamente, se pode propor, como mais perfeito exemplo
de virtudes, às raparigas e a todas as mulheres.
A pastoral e a pedagogia d irig idas ~1s mulheres têm, em suma, a
possibi Iidade de usar uma classificação cm inememente moral, capaz,
no entanto, de se aplicar a mui l" as das condições pessoais, sociais e
institucionais vividas pelas mulheres. É um a classificação rígida e
rigorosa pelos valores e modelos qu e propõe, mas suficientemente
ágil e flexível na sua capacidade de se adaptar às exigências de um
auditório mutável e compósito, pronta também quando necessário a
fazer-se acompanhar por outros tipos ele c lassificação; é o caso de
Tiago de Vitry e de Gilberto de Tournai , que ao lado de prédicas às
virgens, às viúvas e às casadas elaboram também prédicas destinadas
a religiosas e criadas; é o caso de Vicente de Beauvais e de Peraldo,
que propõem a divisão tripartida fundada sobre a castidade a um
público feminino, o das meninas nobres, definido pela idade e pelo
nível social.

Um esquema de sucesso Entre os finais do século XII e o iníc io do século XIV, virgens,
viúvas e mulheres casadas impõem-se portanto como as principais
interlocutoras de pregadores e moralistas: por vezes ao lado de outras
categorias femininas, outras vezes insinuando-se no seu interior, outras
vezes ainda tncluindo-as, frequentemente ocupando o espaço sozinhas.
O seu sucesso está destinado a perdurar no tempo e a tornar-se cla-
moroso: a maioria das prédicas e dos tratados morai destinados às
mulheres que se multiplicam nos séculos seguintes prefere classifi-
car a mulher com base no critério espiritual da castidade e deixa em
segundo plano, ou põe mesmo completamente de lado, classificações
A m ulher sob custódia 115

d1· 1ipo soc ial. O trabalho, o poder, a riqueza, a cultura, o lugar de O Ménagier de Paris faz no tar a
l1a hitação , a proveniência social ou geográfi ca mantêm-se critérios sua esposa: «E saberás que não me
desagrada, mas que muito me alegra,
1•, 11 1111hos, o u pelo menos não decisiv os, quando aparecem, p ara se que tenhas rosas q ue cultivar e
rn111pr ·cnde r o mundo das mulheres . Apena Cristina de Pisano, violetas que cuidar e que faças
g rinaldas e bailes e can1os, e desejaria
q111· l'X pc rimentou em pessoa as vantagens de uma condição abastada, que cont inuasses a fazê-lo entre os
11 i111·cr1ezas e as dificuldades da pobreza e as fadi gas do trabalho, nossos amigos e as pessoas da nossa
1• 11110 só o doméstico, recorda vivamente o peso q ue a organização
condição ... » . A vida de re lação
limi 1a-se a um g rupo social concreto
lt11•n rqu ica ela sociedade dos homens tem na vida das mulheres: se para evitar os perigos do encontro
I ,, <'ir,1rle.1· Domes (1404- 1405) encerra com um apelo à tradicional com o pecado. /\s llodas de Ca11á de
Giollo ( 1266- 1336). Pád ua, Capela
11 11dc de casadas, virgens e viúvas , o Livre des trais vertus (1405) dos Scrovegni.
d11 lgt· s · amulhe res de diversos níveis sociais, mulheres que vivem
1111 l11do d· re is, de no bres, de me rcadores, arte sãos e trabalhadores,
q1w t1 11 h11 lham de ntro e fora das parede s domé sticas, que podem ser
11il1 11s ou ilc lraclas, humildes ou poderosas , ricas ou pobres22 .
Nos s ·ul os X IV e XV a maior p arte da literatura didáctica e
1111s 111111 I 1·11d · rcçad a às mulheres , na qual o uso da língua vulgar é
Jlll'Vll l1·1·1•111 • mes mo por parte dos h omens da Igreja, continuará no
1·111 11 111 1111 d il'i p, ir-se ele preferência a casadas, viúvas , virgen s, adoles -
n•1111·s 1· 1·l'li1•imws: o autor doMénagier de Paris (1393) escreve como
11111 1·id o ~ s ua j ove m mulher; à mulher casada e à mãe de família se
A mulher sob custódia 117

dirige também a Regola del governo di cura familiare (1 403) do


dominicano João Dominici; o Cavaleiro de La Tour Landry escreve
para as suas jovens filhas (1371); o agostiniano Simão Fidati (t
1348) para uma virgem da qual é director espiritual23; o volumoso
l ibre de les dones (1388) do franciscano Francisco Ximenes passa
em revista as condições das meninas, das adolescentes, das mulheres
casad;;ts, das viúvas e das religiosas 24 ; de virgens, viúvas e casadas
ocupa-se o Soccorso dei poveri do agostiniano Jerónimo de Siena
(t 1420)25 ; na parenética de Bernardino de Siena (t 1444) aparecem
mais vezes sermões endereçados ora às casadas, ora às viúvas, ora
às virgens26 ; para uma mulher casada, Antonino de Florença (1459)
escreve a Opera a ben vivere, e para uma viúva a Regala di vita
cristiana21 ; para as raparigas e para as casadas João o Cartuxo (t
1483) escreve expressamente dois tratados, o Decor puellarum e a
Gloria mulierum2 8 ; para virgens, viúvas e casadas Dinis o Cartuxo
\ As interpretações de Aristóteles
(t 147 1) escreve três tratados difcrentes 29 . ratificam a necessidade de que a débil
Neste público, as mulheres são antes de mais nada corpos consig- 1 mulher se submeta ao homem , forte,
' estável e racional. Ambos os sexos
nados à Igreja ou à família: virgens não maculadas completamente podem colaborar, mas sempre sob
dedicadas à vida da alma, mulheres fecundas que garantem a conti- 1 direcção masculina, como se vê na
nuidade do núcleo familiar, viúvas capazes de esquecerem as exigên- \ ilustração, onde os homens varejam
as árvores e as mulheres recolhem
cias carnais para viverem a vida do espírito. A este público, aparen- os frutos. Oficium Beatae Mariae
temente ordenado e tranquilizante, e aparentemente imóvel e insen- Virginis. Século X V , Madrid,
Biblioteca Nacional.
sível às mutações da história, dirigem-se se1mões, conselhos, avisos
e ensinamentos de pregadores, clérigos, monges, maridos e pai . 11 wra lis1as, provocar nos homens, sobretudo se forem jovens, ines-
pl·rndos desejos de luxúria; daí resultam violências, enganos, adul-
11·l'i os que semeiam a desordem e a discórdia no núcleo familiar e na
Vícios e virtudes das mulheres rnllluniclade social. Perigosa para os outros, esta mulher vagabunda,
prnvocaclora e sobressaltada, seus pés não podem parar dentro de
,tl11111das Uma rapariga chamada Dina sai de casa para ver as mulheres de v11su. Umas vezes na rua, outras na praça, ou nas esquinas, sempre
um país estrangeiro ao qual acaba de chegar acompanhando a sua 111•sprc ita», como é descri ta num versículo bíblico (Provérbios, VII,
família. C uriosa, quer ver, saber, conhecer. Mas depressa é vista: o 1 1 1 ) rrequentemente citado, esta mulher prejudica-se em primeiro

1\ _
filho do rei daquele país apaixona-se e rapta-a. Desejaria casar com l1111 11 r a si mesma. Arrisca-se, de facto, a comprometer ou mesmo a
ela, mas a família de Dina não pode esquecer a ofensa; os irmãos pl' rdcr aquela castidade que todos , pais, maridos e clérigos, consi- }
pegam em armas, saqueiam o país, matam todos os homens incluindo d1•1·11 m o bem supremo das mulheres. S_~g_L!DQO~_Roma a_rapa-
o rei e o seu incauto filho. 11p11 hitbituada a andar fora de casa e -a ter relações sociais deixa de· ~
Dina, filha de Jacob e de Lia, é uma personagem bíblica; a sua podl•r ·ontar com aquele pudor natural que protege a sua castidade
história, contada no capítulo 34 do G énesis, refere tempos e países dt1~ 110111 ns; perdida a timidez e o carácteT bravio, ela é como um -
longínquos; no entanto Dina torna-se para as mulheres do Ocidente 1k 1,s1•s «animais selvagens que, habituados à companhia do ho_1_nem,
medieval uma personagem concreta e quase quotidiana, uma jovem 1• 1111·1111111 domésticos e se deixam tocar e acariciarn .
30

companheira um pouco descuidada e desafortunada, que era me lhor <) 111tlqucr saída é portanto perigosa, quer se trate de andar na rua
não frequentar e sobretudo não imitar. Presença praticamente obri- 11 p1l~S\'Uf' ou lc ir a uma festa para dançar, a um espectáculo para se
gatória nos sermões e nos tratados destinados às mulheres, Dina d1 v1•11ir. 11 uma igreja para a sistir à missa ou a um sermão na praça
estava ali para recordar a todas quão perigoso era sair das casas e p11 1111111 vi1· il Palavra de Deus. É certo que nestes dois últimos casos
dos mosteiros. Nas praças e nas ruas, no percurso que conduz de casa 1111 1lsros du 1•agatio podem ser mitigados e compensados pelas van-
à igreja, a mulher pode _ser vista e, no dizer dos pregadores e dos t11p1 11s l'S piriluais que estas práticas religiosas comportam; mas o
(
A mulher sob custódia 119

11,p11dos o lhares do qua l a mu lher pode ser sujeito e objecto durante ajst~té..fü: , fa la de raparigas que no silêncio da noite penduram nas
1 11•1imónia re lig iosa manl ém-se um perigo que não se pode elimi- janelas os seus cintos, e neles os amantes atam cartas e pequenos
11111 , tunto mais arriscad quanto j unta o descaramento da luxúria à presentes, ou então fazem descer até ao chão um fio que permite aos
lt 111cridadc da proíanaçã : de modo que, além de serem inquietas e amantes tomarem as medidas para construírem escadas de corda
l1111Hidicas vagabundas, as mulheres se tomam aqui, como escreve graças às quais irão ter com elas aos seus quartos 36.
l 11•rnklo, verdadeiras e próprias «incendiárias dos lugares sagrados»31 .
1'11•0 ·upações ainda maiores provocam as mulheres que saem para
p111tic ipar naqueles momentos colectivos, festas, danças, reuniões, Para além de todo este espreitar mais ou menos insistente à Irrequietas e curiosas
1 p1• ·táculos, em que um grupo familiar ou toda uma comunidade janela, na raiz deste contínuo e suplicante desejo de sair e de vaguear
ociu l se mostra e se reconhece.- Aqui as mulheres exibem-se e no mundo há uma forma de vagabundagem intelectual e moral que
1•xi hcm a riqueza, o prestígio e a honra da família a que peitencem ; preocupa sobremaneira pregadores e moralistas. É uma espécie de
11111s hasta pouco - um olhar mais aceso, um movimento mais contínua inquietude, uma curiosidade nunca satisfeita, uma instabi-
111-scomposto - para q ue essa riqueza, esse prestíg io e essa honra lidade de humores e de afectos que força a mulher a procurar sempre
1·111 l'lll11 sérios perigos: a festa favorece os encontros e desencadeia alguma coisa de novo, a conhecer coisas diferentes, a mudar fre-
o d ·scjos, o movimento circular das danças toma belas e febris quentemente de opinião, a desejar aquilo que não tem, a deixar-se
1111•s1110 as mul he res pálidas e feias32 , os cantos lascivos seduzem os arrastar por impulsos e paixões. Nas páginas de Durando de Cham-·
101·11ç\ cs e inflamam os sentidos. E ntre todas as mulheres que de um pagne vem traçada uma linha, de continuidade entre a audaciosa
111odo incauto e perigoso vagueiam pelo mundo, as que frequentam c uriosidade de Eva, que quer conhecer a ciência do bem e do m al, a
l1•s111s e cspectáculos são, sem qualquer dúvida, as m ais imprudentes incauta vontade de Dina de ver coisas maravilhosas e escondidas, e
1• us ma is levianas. Na tentativa de manter a função de representação a estúpida preocupaçao de algu mas mulheres , nunca satisfeitas, que
que u mu lher te m nessas ocasiões sociais e de, ao mesmó tempo, desejam roupas cada vez mais belas e preciosas37. O único e lemento
1•vi1:1r os perigos que esta função comporta, leigos como Filipe de de tranquilizante estabilidade desta vertiginosa e desordenada insta-
Novnra e Francisco de Barberino preocupam-se em apontar às m ulhe- bilidade feminina consiste na sua paradoxal permanência: nada parece
11•s um comportamento público composto e púdico: não se divertirem mais imóvel e mais constante que a contínua irrequietude e incons-
d1•111usiudo, mostrarem-se desdenhosas, comerem pouco, dançarem tânc ia das mulheres. Uma longa tradição, frequentemente transfor-
1·11111 ·ompostura, moverem-se com contenção 33 . Os pregadores mada em lugar comum, supera incólume as mudanças da história e
1111111 · 111 uma posição mais rígida e consideram festas, danças e consigna à literatura didáctica e pastoral a imagem obsessivamente
1. p1•ç1úculos como os sucessos mais extre mos e mais perigosos do uniforme de uma mulher sempre inquieta e caprichosa, inconstante
v lHllhundcar das mul heres no mundo. A imagem m ais inquietante é «corno a cera derretida que está sempre pronta a mudar de forma
11 q11 • ·voca Tiago de Vitry, que compara os cantos e as danças nos segundo o selo que a imp1ime»38, «instável e móvel como a folha de
q1111is as mu lhe res participam com ritos diabólicos em que a cerimónia uma árvore agitada pelo vento»39.
11•1l iosu mimada: «A mu lher que dá início ao canto é a capelã do Pregadores e moralistas recebem, a este respeito, o conforto'
d 11lo, aqu •I 'S que a acompanham os seus sacerclotes» 34 .
Pr •quc ntcmcnte, para ir ao encontro do pecado não é necessário
«c ie ntífico» dos filósofos que, pelos meados do século XIII, encon-
t rnm nos textos de Aristóteles um tratamento sistemático e uma con-
K
11111l11r 111uito cam inho nem participar em reuniões especialmente l'irma9ão autorizada das temáti cas sempre difundidas na c ultura do \.
)
11 p1•i111s, busla ir à porta ou à janela. Pôr-se à porta da casa ou C) ·id ·nte medieval. Definidas como homens incom letos e im er-
d111111\111· s' , janela é já «sair»: um modo limitado mas sempre peri- k itos, dotadas de uma forma ; dequada àdebilidade e à i;:;:;- erfei ão YJ,
111 11 d1· pro ·ura r uma re lação com o mundo exterior e de se abando- d11 Slltl tra nsbordante Ill_atéiia pri..\ fadas d~ Umé!_racionaliclade cagaz
; / /}1 t
11111 1111 i111 pu lso de vaguear na sociedade dos homens. Na literatura 111• gov ·rnar plenamente as paixões, as mulheres cios comentários
)
Jl 1 111111 l 1• d id clica endereçada às mulheres a janela é um elemento 111 tol~li ·os s10 frágeis, plasmáveis, i!_Tacionais e passionais. O seu
1, 1111 11·111 do " nário cm que agem as mulheres demasiado curiosas, 1111 110, 1·111·uc1 rizado em comparação com o masculino por um excesso
1111 1111111 1• 111uli ·iosas: Francisco de Barberino zomba das mulheres d1 l11111ildt1d ', to rna-as capazes de receber mas não de conservar;
q111 1 Jll ·111 11 ·os · r ujanela, porque «quem à janela cose, muitas 1111111 d11 , 1nol ·se inconstantes, vagueiam continuamente em busca
35
1 1 111 1• 1111110 p •11s11ndo coser o vestido» ; Conrado de Megenberg ) d11 1111vld11dt·, i11cc1pazes como são de tere m opiniões reso lutas e está-
1 1 1 1/ I l 1111111 d1· 11 ,11 1n1111do de economia doméstica de modelo / v1•1 1111., v111ius s ituações. A instabil idade e a irrequietude das m ulhe-
.. . -----· \ _;
- - - - - - ---------

\ tom a-se a palavra de ordem atrás da qual se alinha lod11 11 111, 1 11111 1
pastoral e didáctica dirigida à mulhei/4-ustodia s ' 1Vl' 11111 ,1 11 til 1 11
: tudo aquilo que pode e deve ser feito para educar as 111111!11 11 1111
1 bons costumes e salvar as suas almas: reprimir, vigiai', 1•rn 1 11 11 111,
1 também proteger, preservar, cuidar. As mulheres i111111 d11d 1 1 1
1
amadas e protegidas como um bem inestimável, escondíd11., 11111111 11111
tesouro frágil e precioso, vigiadas como um perigo scmpn· 1111111L 1111
encerradas como um mal de outro modo não evi1ávt'I . I• 111 , 11
complexa de intervenções, que vão da repressão mni s 111t1d,1 ,, ·
cuidado mais amoroso, deve ser praticada desde a inJ'ân ·ln 1• 11111 11111,,
acompanhar a mulher, seja ela leiga ou religiosa, em 1od11., 1 1 1 ,
da sua vida/
Muitos dos textos da literatura pastoral e did~kticu <kNl11 111111
directamente às mulheres intimando-as como primeiras · 111·1 1• 1111 1
guardas de si mesmas. A mulher foi criada por Deu s, pari icip1111, 11111
a Virgem Maria do mistério da Encarnação, contribu iu pOI' 1111 111 d,
inúmeras mulheres santas e piedosas para o desenvol vin1l'11 l11 1 ,pi
ritual da Cristandade, possui uma alma que está apta a •1111 11 1111
relação com a divindade, pode salvar e ser salva, prati ar 11 vi i 111d1
fugir ao vício, tornar-se exemplo de perfeição mora l; prnl 111 1l11

capaz de se autocustodiar. Além do mais, a mulher apar '<.: • d111 1d11
com uma disposição natural para o temor e para a vergon l111, 111111
espécie de timidez e de retraimento congénito chamado pudo, q111 n
toma propensa ao pavor e à rudeza, e que a leva a retrair-se.: 1· 111111111
do mal e da torpeza. Que este pudor lhe tenha sido dado pw I h 11
q111 11111 tl11p1111illl'll masculino depois do pecado original para melhor a defender das loq w. 1 d 1
,1, 1q111 1111 ~ 1· 111111bé,n proporciona
1 11• 1,1 1 1111111r1111,1rução teórica carne, ou que seja consequência lógica da sua natural imp1·il11 111
11 1,I I q111 111~1 1111·11 11 necessidade de o que conta é que o pudor é um providencial inst.rumenlo d1 i,i1,11 ,11
11 1.. 11,11 11 111111111·1. l(sla é a tendência
111 , 111 1111 1111 p111~rno ou no de si própria nas mãos da mulher. Pregadores e morali sl11, 11111 1
,11 1111 11 1111 Nl' II IPll' 11111a figura dam insistentemente as mulheres a reforçarem a reserv11 q111 111
11,11111p11111111111111l11r as manifestações ·quentemente as paralisa, a serem tímidas e inseguras nns 11· 111 111
11h 111v11lv11111·11to da feminilidade.
1 1 1111 11h,1•1v11cl11 pL·lo rei David sociais, a retraírem- e amedrontadas diante de qualquer 1•111 111 ,1,
1111 1,o1l,1111 11 111111,g1 ·,são masculina. homens, a ruborizarem-se, a comportarem-se como aninrni 1 1 1
1111111111,1 d11\ /fr11n•.1· de Séguier,
11111 \ < 'l111111dly. Museu Condé. gens. A vergonha custodia a mulher porque a afasta da co11111111il111I,
social, a remete para o espaço fechado e protegido da casal' d11 11111
res, censuradas pelos pregadores, é para um filósofo aristotélico teiro, preserva-lhe a castidade, relega-a para uma louv(iVl' I 111111111
como Gil de Roma a consequência cientificamente irrefutável de lidade. No momento de máxima sociabilidade consen1ido 1 1111!11!11
um rigoroso método silogístico: «A alma segue a constituição do durante aquele rito matrimonial público a que a connin idr1d1• 1 1 lo
corpo, as mulheres têm um corpo mole e instável, as mulheres são e em que dá o seu assentimento à passagem de uma mull1t•1 ,h 11111
instáveis e volúveis na vontade e no desejo»4 º. grupo familiar para outro, a mul her ideal tratada por l 1rn11t·1 111 d,
B arberino, que em adolescente sempre se tinha mostn1do ll1 111d,1,
reservada em todas as suas aparições em público, reafirmo 111 li 111111
A custódia Inquietas no corpo e irrequietas na alma, as mulheres devem pois vez a sua escassa e insegura sociabilidade: envergonhad11, 11, 11 111d 1
ser guardadas. Obsessivamente repetida nos títu_!Qs, nos parágrafos e imóvel durante a cerimónia, não estende a mão mas ap •1111.~ 111•1111111
e nas conclusões dos sermões e dos tratados( a palavra custod,a que a tomem quase à força, e uma vez chegada à n va ·aso 1111, 1111
'-./
\___- -
1, A mulher sob custódia 123

-se assustada com todos, respondendo, se interrogada, de um modo O afastamento das mulheres da vida
pública livra o homem de possíveis
«breve, baixo e medroso», e revelando-se ao marido «selvagem e concorrentes. O seu encerramento
ignorante... em assuntos de amor»4 1• no lar soluciona o cumprimento
das tarefas domésticas. A casa,
Potencialmente capaz de se autocustodiar, a mulher não consegue, simbo lizada na il ustração por torres
porém, realizar plenamente essa custódia. A dignidade espiritual da e arcadas, é também o marco do
sua alma, criada por Deus e salva por Cristo, que a toma capaz de ócio; o triquetraque ou o xadrez
consideram-se distracções adequadas
virtudes, traz de facto os sinais do pecado para o qual tantas mulheres, para as damas. Miniatura do Livro
a começar por Eva, contribuíram de modo decisivo; a possibilidade dos Jogos de Afonso X o Sábio,
códice de Sevilha, 1282. Biblioteca
que lhe é concedida de receber a Palavra de Deus é de facto apenas do Mosteiro do Escorial, Madrid.
realizável através da mediação daquela instituição masculina, a
Igreja, que da Palavra de Deus é depositária. Não menos problemático
que esta colocação ambígua na ordem da salvação é para a mulher
o recurso àquela naturalidade que parece protegê-la do mal; aquela
natureza que, de facto, a torna tímida e reservada é a mesma que a
torna excessiva, irrequieta e vagabunda. Num processo ambíguo que
se transforma continuamente no seu contrário, a mulher, salva de
uma animalidade que a faz deter-se perante o mal, encontra-se logo
em seguida condenada por essa mesma animalidade que a abandona
às forças irracionais dos impulsos. e a cabeça de cada mulher é o homem e a cabeça de Cristo é Deus»
( 1 Cor., 11 , 3) - reconhecem a submissão da mulher ao homem
como um dos momentos da divisão hierárquica que regula as relações
11/t1111.1·.1·a 1/ A mulheres não podem portanto guardar-se sozinhas; a infirmitas entre Deus, Cristo e a humanidade, encontrando ainda a origem e o
da sua condição, que as toma débeis e privadas de toda a firmeza, rundamento divino daquela submissão na cena primária da criação ,
exige que ao lado do pudor intervenham outras defesas. Tiago de de Adão e Eva e no seu destino antes e depois da queda.~Do relato
Varazze, como já tinha feito Santo Agostinho novecentos anos bíblico, os comentadores retiram a convicção de que a mulher foi
antes, elenca-as com ordem e segurança: a submissão ao homem, o criada numa posição de subordinação relativamente ao homem. O
terror das leis, o temor a Deus42 • Os homens - pais, maridos, irmãos, corpo do homem, criado em primeiro lugar, aparece de facto supe-
pregadores, directores espirituais - partilham com Deus e com os rior ao corpo da mulher, este criado num segundo momento e ·a
sistemas jurídicos o difícil mas necessário encargo de «guardar» as partir do corpo do homem; dádiva de Deus, oferecida ao homem
mulheres; as quais, porém, afortunadamente, graças a uma sábia como auxílio, a mulher é um instrumento providencial nas mãos do
disposição da natureza sustentada por uma oportuna intervenção da homem, capaz de o aj udar nos objectivos da geração.
providência divina, se unem para sempre submetidas à autoridade Face a esta leitura, que traduz a diferença em inferioridade e
dos seus companheiros e portanto prontas, se não mesmo dispostas, superioridade, subordinação e supremacia, se ergue, com toda a sua
a supo1tar-lhes a custódiac.2s com_enta_d_ores de Aristóteles encontrai:!_l rorça revolucionária, o princípio evangélico da igualdade.de to~os
nos textos daÉtica,_e sºhretu.do da pp lítica, mulheres ~ pornatureza os seres humanos perante Deus. A ideia de que a mulher tenha sido
obedecem e se_submeteJIL.a.homens que por na!_ureza comandam e dotada por Deus de uma alma, igual à do homem por natureza e
tomam decisões, fortes como são pela superioridade dos~seus cor os dignidade, atravessa de fotmas diversas todo o pensamento medie-
e pela sua razão; ambos potencialmente virtuosos, homens e mulh~ vu l: se na tradição agostiniana, fundada sobre um dualismo nítido
praticam as mesmas virtudes de modo diverso segundo as funções ·ntrc alma e corpo, se fala de uma igualdade total entre a alma .da
que desempenham no organismo político: uns exercitam-nas em_ mu lher e a do homem, para um autor como Tomás de Aquino, que
\ fu nção de um poder eficaz e eficiente, as outras enúu_nção de uma _ u · •iLa a definição aiist2_té1Íca da alma como forma do c_OJ:PQ, trata-
\correcta e rápida execução das ordens secebidas.,. · ·S• un1cs de uma igualdade 12arci--ª1 válida na essência mas não na
1
Os comentadores do texto sagrado, que por vezes são os mesmos ·x istGncia43 ; mas em todos os casos, o apelo à igualdade das almas,
que lêem e comentam os textos aristotélicos, perante uma passagem se ja •lc feito de modo mais ou menos directo ou mais ou meQ.os
de São Paulo - «Deveis saber que a cabeça de cada homem é Cristo p,:obl •mál ico, mantém-se confinado ao plano espiritual e não põe
1 1 11111111 ,lt 11111l [lll11

guardar as mulheres, as quais não devem fazer outni co" t ,, 11 111


favorecer essa custódia, praticando toda a gama das vir111d1•, d 1 111,
missão - humildade, mansidão, obediência - prcc:0111111<111 • 11111
obsessiva insistência nas prédicas e nos tratado pcdt11' t1p.1t 11
aventurosa alternativa da independência, vivida por · •111plt1 1•11t
Madalena, que, segundo Tiago de Varazze, se torn u 01·11 1111 d,
pecado para si e para as outras mulheres uma vez livre ' <1011 1d, 1
mesma (sui domina et libera) 44 , é olhada com suspeita rt• p, 1,v,11 .11,
Mas, indubitavelmente, a mulher mais exposta aos pcri os d 1 111 11 1
dade é a viúva - sobretudo se é jovem-, que já m o l'Sl11 111, 11 1
nem ao poder dos pais, de quem se afastara há tempos, 111·111 1111 il11
marido, já falecido. Além do mais, a hostilidade rc lativ 111 11 1111
segundas núpcias, um topos da literatura didáctica e jurídi ·n, 1111111 11 111
na superioridade espiritual da condição de viuvez sobr ' 11 1111111111111
nial e motivado pelo receio de que a nova famíl ia poss11 111 11 , 111
perigo os interesses patrimoniais dos filhos do primeiro h·1 1i, 11 , .,
faz senão sublinhar a liberdade das viúvas e, portanto, u s1111 11111, " ,
de perigo. Não é por acaso que a viúva, mais do que qu11lq1 11 , 111111 1
mulher, está vinculada ao respeito das práticas religiosas q111• 11 111111 1111
jejuns e orações com actos de caridade para com o pr xi ,1111 1111,I,
falta a custódia dos pais e dos maridos desenvolve-se con11 111 l.i 1 11,
força a custódia dos directores espirituais e do próprio ( 't I li, 1I' 1
reclama para si o corpo e a alma de uma mull1er agon1 1li 11 111 d 1
submissão ao homem.

Adentro do amplo inventário da custódia, compilado \' tr t 11 11q•11 I


e lugares diversos por homens diversos, é possível no ' t1l1111l t1 111il1
vidualizar algumas temáticas centrais e descobrir nelas ltttttt 1111• ,, 1
No M11S1·11de C'luny (Paris) . em discussão a superioridade natural do corpo masculino querida comum. Cada prescrição destinada à mulher - a solH'll•il111 li 11 ,
11111~1·1v11111 se seis tapetes com o tema
d11 vli1•1·111 e do unicórnio, tecidos por P,°r D~us no acto da criação. As mulheres podem ter uma vida espi- alimentação, a modéstia no gesto, o uso parco da palavra, o II l111 1, lo ,, 11,
\'111111 til' l'1XO. O principal apresenta ntual mtensa e feliz, igual e por vezes mesmo superior.à dos homens, da cosmética e dos adornos, a restrição nos movimentos, o 1111 1li 1il1,
1111111 , 1111l'iu com a legenda «A mon
1111 ,h..,11 ", os restantes são dedicados mas, de qualquer forma, mantêm-se diversas e inferiores no corpo e acesso ao mundo da cultura e do trabalho - provoca 11111 d1q ,l1,
1111, 1·1111·11 ~cnlidos. Segundo a lenda portanto inevitavelmente subordinadas aos homens. Além disso a processo de redução do externo e de valorização cio intc,·1111, p1,1 11 111
1111·dll'v11I, o unicórnio, animal forte e subordinação da mulher, que antes do pecado original ela aceit; e lado a mulher é afastada da vida pública e externa ela con1 1111 d11tl1 1
t, 111 , l1rnv11 rcncliclo perante uma
d,11111•111 q111• fosse realmente casta. vive como pacífica realização da sua natureza, destina-se, depois recolocada no espaço privado e interno das casas e cios 111t1 li 1111
1l ,1·11 n11 1111 c ra considerado uma arma da queda, a transfo1mar-se numa verdadeira submissão servil que a por outro é separada da exterioridade do seu corpo e li1 11i1 11111 1
1111111""" t• 11111 contraveneno eficaz. mulher suporta com angústia e sofrimento como expiação do seu interioridade da sua alma. Para a mulher que entra no 1110NI v 11 ,, 11
pecado. «Ficarás sob o poder do teu marido e ele te dominará» dois processos completam-se profundamente: a separaç· o cio 11111111'11
(Génesis, III, 16): a maldição divina, que acompanha Eva na sua é, pelo menos teoricamente, total e defi nitiva em resultado d11 11•111 1111 11
d~sci da do Paraíso terrestre para a terra, regressa pontualmente na aos bens e aos prazeres do corpo. Para a mulher que se n1t111t1 111, 111
vida de cada mulher, condenando-a a suportar irrevogavelmente a casa trata-se, em vez disso, de encontrar uma série de co111 pl'o11 11 , ,
dominação do homem. que possam conciliar uma vida apesar de tudo ligada às t· I> 111 111
Quer se trate de secundar uma lei da natureza ou de realizar uma externas e exteriores da sociedade e da carne com os id ·uis !1 11 11 1 111
imperiosa ordem divina, os homens são autorizados a governar e a são doméstica e da hegemonia do espírito sobre o corpo. A r 11 11 1 ,il,
A mulher sob cus tódia 127
I•
preside de cada vez a todas estas delicadas passagens entre o dentro
e o fora: no caso das religiosas procede-se de maneira que cada
relação entre o convento e o mundo seja eliminada e que as exigências
do corpo sej am negadas em favor das da alma; no caso das leigas
trata-se de reduzir e regulamentar qualquer contacto entre o espaço A mulher devia ser sóbria na comida e
e
doméstico e o espaço social de conter todos os impulsos desor- na bebida para oferecer uma imagem
honesta e evitar tentações luxuriosas.
denados da carne sob as regras ditadas pela castidade. O castif;o das damas de Roberto de
) _ A literatura didáctica e pastoral coloca-se ao serviço desta obra Blois (século XlII) assegura que tomar
1 um bom pequeno almoço opera
de custódia com todo o seu prestígio cultural e toda a sua força maravilhas na cútis femi nina.
retórica. Procura e encontra, sobretudo na Sagrada Escritura, muitos Na ilustração, uma jovem cuida
diligentemente de um terreno semeado
exemplos admiráveis de mulheres guardadas que se afastam do de alhos; esta planta era considerada
mundo e que impõem aos seus corpos uma disciplina rígida: é Judite um poderoso remédio contra as
que se refugia num canto secreto da casa para jejuar, é a velha pro- picada~ de víboras e escorpiões.
Miniatura de De natura rerum
fetisa Ana que nunca abandona o templo onde prega e jejua noite e de Tomás de Cantimpré, do códice
dia, é sobretudo a Virgem Maria que na sua casa espera imóvel e História Natural de Santo Alberto
Magno, primeira metade cio
silenciosa o anúncio divino. Ao lado de exemplos a imitar intervêm século XV. Granada, Biblioteca
depois preceitos e conselhos, frequentemente colhidos cm antigos e da Universidade.
autorizados textos dos Padres e dos monges; as mulheres que os
sabem escutar e pôr em prática aprendem pouco a pouco a afastar- Lúcifer, contesta e pretende melhorar a imagem que Deus lhe deu,
-se da atracção do mundo e dos desejos do corpo para viverem reti- chegando até a julgar-se capaz de intervir nas leis da temporalidade
radas e tranqui las entre as paredes de uma casa ou de um mosteiro. governadas por Ele.
O amor pelas roupas e pelos enfeites revela não só um idolatrado
amor pelo corpo mas também um desejo incontido de mostrar esse
1, 11/dos, Entre todos estes preceitos e estes conselhos, os que se referem corpo aos outros. Numa imagem emblemática utilizada por Tiago
• l//1 1 /il'OS aos vestidos, aos ornamentos e à cosmética são muitíssimo nume- de Vitry e retomada por Gilberto de Tournai, uma virgem olha-se
rosos. A polémica contra as mulheres que se vestem ricamente e que ao espelho, fixa o seu vulto, controla o vestuário, ensaia a maneira
se maquilham, uma antiga polémica que os Padres já tinham afrontado como há-de aparecer em público: «Ri para ver se o riso lhe fica
amplamente, aparece em todos os textos da literatura didáctica e bem ... , entreabre os olhos para ver e agradará mais assim ou com
pastoral desde os finais do século XII até ao final do século XV e os olhos completamente abertos, deixa o vestido aberto de um lado
está destinada no decurso deste período a crescer, em amplitude e para fazer com que a pele apareça, desaperta a cinta para mostrar o
intensidade. A insistência obstinada e a atenção minuciosa aos temas seio. O seu corpo ainda está em casa, mas perante Deus a sua alma
do vestuário e da maquilhagem é devida ao facto de que com a roupa cslá já num prostíbulo, ataviada como uma meretriz que se prepara
e com a maquilhagem a mulher envereda por um caminho de exte- para enganar a alma dos homens» 4·\
riorização no corpo e na sociedade que vai no sentido contrário do As mulheres vestem-se portanto sumptuosamente para saírem,
percurso proposto pela custódia. A mulher maquilhada e vestida en feitam-se para serem vistas, maquilham-se para aparecerem em
com sumptuosidade privilegia, contrariamente à ordem querida por público e serem assim apreciadas, desejadas, invejadas. As mulheres
Deus, a vil exteriorização do seu corpo em relação à preciosa inte- agem e fa lam na sociedade com a linguagem dos seus corpos adorna-
rioridade da sua alma; o excessivo agrado que mostrn por uma roupa dos e pintados , mas trata-se de uma linguagem que subverte frequen-
que lhe envolve o corpo, pela cor de um tecido que a vaJori.za ou por te m nte as regras sociais, levando à comunidade co1mpção e desor-
um penteado que lhe fica bem, trai um interesse todo voltado para o d L't11 . Há mulheres que usam roupas faustosas e ornamentos preciosos
cuidado exterior do corpo, que não deixa espaço nem tempo para o p:i rn parecerem mais nobres e mais ricas do que são na realidade, há
cuidado amoroso da virtude. A cosmética, em especial, revela uma nntlh ' res que para satisfazerem os seus vãos desejos anastam a
soberba sem limites: a mulher que pinta as suas faces de vermelho Iam lia para a ruína económica, há mulheres enfeitadas e pintadas
ou que altera a cor dos cabelos ou que esconde os sinais de enve- qu • u · ' ndcm a luxúria dos homens, perdem a castidade, destroem
lhecimento sob cosméticos e perncas é uma mulher que, a par de 11 puz f'am il iar e provocam lutas entre as famílias . Além disso, há
12H A11 11ur11111s d 1• controlo

() 1\1 10 t,. p1•11gu,u p11n1 u~ mulheres. mulheres, «que maquilham e enfeitam outras mulheres, ou então
11111 11 1•1t1s 11•,•11111l'lld111n se uctividades ensinam-nas a pintar-se, a encontrar ou a imitar todo o género de fri-
1•011 111 11111, 11•,•111. hurdur, coser.
An•11 11111 \l' ' " M lilS suídas de casa se o volidades, como acontece geralmente entre irmãs, parentes, amigas,
111ut1v11 1111 v1, it111 011 assistir pobres e vizinhas o u qualque r outro tipo de mulher»46 : o amor feminino pelos
1·1111•111111~. A, i11wgcns medievais sobre
t• fü• 11•11111 sílu 11u1nerosas. À direita, adornos introduz na sociedade uma imprevista e perversa solida-
A/11/11,•1 //m1rlo, miniatura de La vie riedade feminina que, superando os limites das casas e das famílias,
ri,•, /1•1111111'.I" dtN,res, de Antoine
1>11 lrn11 . l'II. 1505. Nantes, Museu
cria no interior da comunidade uma espécie de sociedade de mulheres,
IJ11h1fr, À esquerda, Assistência ao cimentada pela inveja, pelo desejo de emulação, pela cumplicidade
rlo,•1111•, porme nor do Retábulo de e pela reciprocidade.
S 11111 tolomeu e Santa Isabel, de
<,unrm1 Gener, pintor catalão Os danos provocados pelo excessivo cuidado exterior do corpo
(111. 1~ 16). Barcelona, Catedral. são pois lim itados por uma assídua obra de vigilância e de repressão.
A empresa_parece_di.fícil também porg1,1e, COll!O nota Gil de R_QDla,
a ,riiulher ar,osta natu@lmente na aparência porque se sa be deficitária
na substância; a sua trad icional falta de racionalidade e de firmeza,
- \/ leva-a a privilegiar os bens caducos e imperfeitos da ext,e rioridade,
incapaz como é de perseguir sozinha os bens perfeitos e duradouros
da virtudc47 • Só uma nítida inversão de percurso que anule, o u pelo
menos reduza, o c uidado e a exibição do corpo que o uso das roupas
e dos enfeites inevitavelmente compotta, pode travar um processo
ruinoso para a mulher e para a sociedade. Para a religiosa a solução
é simples e definitiva: a clausura atrás das paredes monásticas e a
imposi ção do hábito bloqueiam na origem q uaisquer cuidados e exi-
bições do aspecto exterior. Mas, em compensação, a monja pode
ungir-se com o ung uento da temperança, pintar-se com o cosmético
da boa fama, ornar-se com o colar da doutrina, os brincos da obe-
diência, o anel da fé, vestir-se com o linho da castidade e cingir-se
com o cinto da discipl ina. A lg uns sermões de Tiago de Vitry e de
Gilberto de Tournai48 colocam à disposição da mulher que renunci a
a vestir e a e nfeitar o seu corpo com as roupas e as jóias do século
um enorme repertó rio de adornos simbólicos que a tornam m ais be la
e mais enfeitada do q ue qualquer o utra mulher.
Para a mulher laica, o discurso é mais com plexo: ao lado das
tomadas de posição mais rígidas sobre a vaidade e sobre o perigo
dos enfeites femininos, há outras mais indirectas que lhe consentem
que não renuncie completamente ao cuidado e à exibição do corpo.
Francisco de Barberino recomenda às mu lheres, sobretudo se forem
de elevada condição, que compareçam em público com um vestuário
adequado à representação do poder e da riqueza da família a que
pertencem49 ' G il de Roma, e com ele outros autores que se inspiram
'\
nas doutrinas aristotélicas, não exclui, m antendo firme a condenação
nítida da maquilhagem que a mu e.Lse possa..yestir com rcqu~nte
para agradar ao maridQ e respajtar a sua condição soc_i,al 5º. Mas q ue
tudo seja feito com modera ão eJ e.m_e..scândalo. De o utro modo
aque le corpo tão amado e idolatrado pode corromper-se, não só
pcrclenclo a castidade que o torna precioso mas também compro-
Oito mulheres assistem Santa Ana
e Maria recém-nascida, numa
interessante composição em diagonal.
Ao mesmo tempo, forma-se um
semi-círculo entre a parteira, ao
centro, e a criada da direita, que abre
o baú. O artista, servindo-se de um
tema especificamente feminino, a
maternidade, oferece-nos todo um
mostruário de atitudes femininas e
de objectos. Pintura sobre madeira do
Mestre da Vida de Maria (1460-1490).
Munique, Pinacoteca Antiga.
A mulh er sob custódi

metendo a saúde que o torna eficiente. Gilberto de Tournai refere a


opinião de alguns médicos que atribuem as frequentes dores de
cabeça das mulheres ao uso imoderado de loções que humedecem
demasiado a cabeça51• Tal como a monja se separou do seu corpo
para o entregar à reclusão e à disciplina monásticas, assim a mulher
laica, que se veste e enfeita com requinte, não é mais a dona do seu
corpo. Este pertence à família que o exibe como símbolo do seu
status e pertence sobretudo ao marido para o qual se deve manter
íntegro, desejável e eficiente.

Uma outra série de n01mas dirigidas às mulheres diz respeito à Modestas e sóbrias
sua gestualidade. Também neste caso se trata de rep1imir um uso
imoderado e quase teatral da exteriorização do corpo, tarefa para a
qual é invocado um ti o especi I de tem eran ·a, a modéstia, expres-
samente proposta para pôr ordem e medida na gestualidade. Uma
série de normas, vindas sobretudo da tradição monástica, transferem
os gestos das mulheres de uma expressividade de acção e de movi-
mento para uma gestualidade da fixidez e da imobilidade: não rir
mas sorrir, sem mostrar os dentes, não arregalar os olhos mas
mantê-los baixos e semicerrados, chorar sem fazer ruído, não agitar
as mãos, não mover demasiado a cabeça, etc. As normas adensam-
-se e tornam-se mais rígidas quando a exteriorização do gesto se
A mulher sob custódia 131

rn loca na exteriorização do espaço social. Francisco de Barberino O tópico secular da loquacidade


olha com atenção vigilante os gestos do passeio: sempre acompanha- impertinente da mulher encontra o seu
lugar em sermões e tratados morais.
das por alg um dos seus familiares ou da criadagem, a suas meninas Neles as mulheres são acusadas de
rnmportam-se em público sem olhar para os lados, «dando passos se confabularem com falatórios, de
que resultam calúnias, insultos,
miúdos, contínuos e ritmados»52 ; também as mulheres às quais se conspirações, ardis. Como mal menor,
dirigem Jerónimo de Siena e Antonino de Florença percorrem o permite-se-lhes o uso da palavra no
breve trajecto de casa para a igreja de maneira reservada e quase âmbito familiar; falar em público é um
privilégio masculino. Na ilustração,
l'urtiva, «com os olhos tão baixos que não cuidarão ver nada mais um poeta é o centro de atenção de
que a terra onde põem os pés»53 ; uma vez entradas na igreja devem um auditório fem inino. Século XIV.
Florença, Biblioteca Nacional.
manter-se quietas e silenciosas, «não como .aquelas raparigas fúteis
que todos os mercadores, vizinhos, parentes e amigos encontram na
igreja de Deus»54 . Controladas em cada membro do seu corpo e
compostas em cada uma das suas acções, estas mulheres revelam
reverência e pudicícia. Na atmosfera de reserva que os seus gestos
impõem, os contactos com os homens tornam-se difíceis e as ten-
tações do mundo mantêm-se afastadas. A modéstia nos gestos é, em
suma, a par da moderação nos adornos, um outro baluaite válido
para a defesa do precioso bem da castidade que um corpo exibido em
público poderia colocar e m perigo.
/ Uma outra virtude, também ela, tal como a modés tia, filh a ela
te mperança, intervém para dar o seu contributo à defesa da casti-
dade: a sobriedade. Se a modéstia mantém sob controlo os gestos, a
sobriedade preside a um uso moderado dos alimentos e das bebidas.
Explicitamente definida como instrumento de custódia da castidade
feminina, a sobriedade impede que os alimentos e as bebidas, uma
vez admitidos no corpo da mulher, a possam excitar a ponto de lhe
comunicarem uma luxúria irrefreável. Daí uma série de prescrições
ai imentares, presentes quer na literatura religiosa quer na laica - ,. o L'orpo das virgens, das viúvas e das casadas deve ser temperado
ev itar o vinho, o excesso de comida, os pratos demasiado quentes e 1wl11 so briedade é porque este corpo deve ser mantido íntegro dentro
condimentados - , dirigidas genericamente a todas as mulheres, d11 h rnsas e dos conventos. Um corpo fatigado por alimentos exces-
mas especialmente insistentes e vinculativos para as re ligiosas e lVON, che io de vi nho, enervado pela excitação e desfalecido pela
para as viúvas . Se, de facto, a mulher casada deve encontrar um 111 11iin não agrada a Deus e não serve ao marido.
justo equilíbrio alimentar que a subtraia à luxúria sem pôr em pe1igo
a eficiência generativa do seu corpo, a religiosa e a viúva podem, pt•snr ele numerosas, nenhuma das fi lhas da temperança, que Laboriosas
pelo contrário, empenhar-se mais profundamente na mortificação da , ,n•dt• m cu idadosan1ente ao controlo dos trajes, gestos e alimentos, e misericordiosas
1 11
carne, impondo a si mesm as uma sobriedade alimentar mais rígida, p111h pot '-rn fazer seja o que for contra aquele o utro inimigo insidioso
que prevê tan1bém a prática do jejum. Com o passar do tempo, a d,t 111 tid11d · que é o ócio. Perigoso para toda a humanidade, dado
partir dos fina is do século XIV e durante todo o século seguinte, a 1 1 1111 •t'lll , fundamento de uma série de comportamentos viciosos,

insistência sobre os valores da sobriedade e do jejum torna-se mais 11 111 111 ,. rnns idcrado especialmente perigoso para as mulheres: a
aguda e mais radical, atingindo também, c m alguns casos, as mulheres 1111t1111il " inrnnstância e mobilidade do comportamento feminino,
casadas. As nonnas que estabelecem quando, quanto e como comer 1111 111 11111t111 pdos rit mos repetitivos de uma vida retirada e conduzida
e jej uar tornam-se cada vez mais pormenorizadas e, ligadas a uma 1111 11 ij'1!0 dn moderação, parece encontrar nos momentos de ócio
série de prescrições sobre os tempos e os modos da disciplina cor- , 111 1 i 111 prnpfcia para libe rtar um fluxo de pensamentos e de dese-
poral, assumem um valor ascético cada vez mais forte . Nos textos 1" 111 qllt' lllt' lll ·n tc turvos e ilícitos. Em face do especial deleite
precedentes o acento é, pelo contrário, posto na custódia da castidade: 1 11111 q111 ,, 11111111 'I' s parecem abandonar-se aos prazeres da inércia,
A mulher sob custód ia 133

1111111111<10 s' di sp níve is para qualquer coisa ou para qualquer um que cada mulher, viúva, esposa, virgem, serva, burguesa ou nobre
q111 pussu realiza r as estranhas fantasias em que gostam de se deixar d ·ve conhecer e de que deve dar prova. Através da caridade, a mulher
1 1111•111·, 11110 há outro remédio que não o trabalho: uma série de acções parece entrar finalmente em contacto com o mundo que se agita fora
111 1111 l' ltoncslas, fia r, tecer, coser, bordar, remendar, que mantenham dus casas e dos conventos; um mundo povoado por marginais, pobres,
111 11p11dus mo só as mãos da mulher mas também, coisa mais impor- doentes, aleijados, vagabundos, mendigos, mas mesmo assim um
t1111t l'. os seus pensamentos. A figur~ ideal de uma mul~L que, mu ndo que a retira, ainda que por pouco, da quietude doméstica e
l'IIIJll'l' UC I iva e laboriosa, Sabe superar as ÍnSÍdiasdÕ Ócio armando- que lhe impõe contactos sociais exteriores à família. Na realidade, a
! dl' ngu Iha, 1inha, fuso, lã e linho é _<::omum flonaaJiteratura.pas- caridade das mulheres, potencial ponto de fuga à vigilância atenta a
1111 rd l' d icláctica, dos sermões dos pregadores ao~ tratadoS-dg Moral que são submetidas, apresenta-se nas páginas dos pregadores e dos
cl1 111spiração aristotélica e às obras pedagógicas dos leigos. Neste moralistas como um posterior instrumento de custódia: a caridade
l1111vor ·onlínuo da laboriosidade das mulheres, e da sua habilidade cumpre, de facto, uma obra de controlo sobre a impetuosa passio-
111111 111111, mo fa ltam, sobretudo por parte dos leigos, apreciações nal idade feminina, que, em vez de se dispersar em afectos ilícitos e
ohn· o va lo r económico do trabalho feminino. Segundo Filipe de desejos vãos, é dirigida para uma finalidade justa. Por outro lado, a
N11v11 rn us mulheres pobres devem aprender desde pequenas a coser própria caridade é objecto de controlo, submetida como é a uma
1• 1 1'1111· para saber de um ofício55 , e segundo Francisco de Barberino série de regras e de cautelas que presidem à sua actuação: antes que
ll ll 11s filh as cios cavaleiros, dos juízes e dos médicos fariam bem em a mulher dê livre desafogo à sua paixão caritativa para com os
11 pn·1HI ·r a coser e a fiar para estarem preparadas para as mudanças pobres e os doentes deve ser cuidadosamente verificado se se trata
cln <kstino; mas entretanto, enquanto a condição desafogada em que de verdadeiros pobres e doentes e não de simuladores, e evitar q ue
1• 1•11contram não as obriga a trabalhar para viver, o lavor incessante um eventual excesso de esmola possa pôr em perigo o bem-estar da
cl11 111 ulha e do fuso ajudará essas mulheres a superar os momentos família; com frequência, estas avaliações sobre a licitude e a opor-
cl1• 111 ·lnnco l ia e a não se manterem ociosas 56 . Também para Fran- lunidade da esmola são confiadas ao tranquilizante bom senso dos
1 lsrn d' Barberino, como para a maioria dos pregadores e moralistas, maridos e dos directores espüituais. Em suma, com a caridade a
11 vn lor produtivo e económico do trabalho feminino mantém-se em
mulher tem certamente um contacto com a sociedade, mas é um
1• 1111do plano; o q ue conta é que as mulheres nunca sejam presas contacto apenas parcial, cauteloso, frequentemente indirecto, de
clns desejos e das fantasias que derivam do ócio e que podem cor- qua lquer modo vigiado. ·
1111t tJ)l'r n eslabilidade dos seus pensamentos e a integridade dos seus
1n1 pos. O trabalho das mulheres é, em suma e sobretudo, uma vez
11111i~, um modo de as dominar. Embora enquadradas , nos gestos, nas roupas, nos alimentos, nas Taciturnas
All 111 cio trabalho que as mantém ocupadas em casa, há uma actividades manuais e nas obras de misericórdia, as mulheres falam,
1111111111 ·1i viclaclc à q ua l as mulheres, segundo o parecer dos moralis- ' segundo os pregadores e moralistas falam demasiado e mal: mentem
111 1• dos pregadores, se podem dedicar com empenho e assiduidade: com habilidade, trocam maledicências, discutem continuamente,
11 1111ldud '. Não há texto da literatura pastoral e didáctica que não suo insistentes e lamurientas, nunca param de tagarelar. Todos os
111•111 1tl 11(1 ' ~s mulheres que sej am pias e misericordiosas. De resto, luga res comuns de uma secular literatura m isógina estão deposita-
1 111 11·w ln111 -sc es pec ialmente propensas a apiedarem-se dos sofre- dos nos se1mões e nos tratados morais dirigidos às mulheres, dando
d111 l 1• 11 auxiliar os necessitados: Gil de Roma sublinha como a d ·las a imagem fastidiosa de uma mulher faladora e petulante que
1111 1111 i11do l ·nc ia que as toma inconstantes e iITacionais as torna 11 s11 ele um modo perverso aquela extraordinária faculdade humana

1 11111>1 111 in ·upazes de suportar a vista dos sofrimentos alheios e as 1 q11 •é a pa lavra. Na defesa apaixonada da palavra femin ina, na Cité
1 r/1 •,1· nomes, Cristina de Pisano terá mesmo de contestar certos pre-
111111,1 d1· l•josas de os aliviar no mesmo instante57. A fomrn concreta
11111111 11 111ulh 'res podem realizar esta sua tendência natural para a ndor 'S, eslúpidos e blasfemos, para os quais Cristo teria aparecido,
1111 11il c11 d lt1 u esmo la, recomendada como dever específico de tkpo is tia ressurreição, a Madalena porque sabia muito bem que
11 1111111ti ht r, s ·j u po bre ou rica. A rainha ideal, tratada por Durando 1·Nt11, t·nq uanlo mulher, iria imediatamente propagar ao mundo a boa
d, e l111 111p111111t·, qu estende a todos os pobres e necessitados a sua 1111v11 111 • Os lexlos de inspiração aristoJélica..2.f5_ecem..twib~ n g!illll!Q___
1•li d ,1cl1 , q111• Nl' o ·upa dos leprosos, que visita os conventos, que faz r , 11 1·~11• ponl o, novas e desconf_pr.tantes confirmações: Gil de R oma
lt, 11 11 1111 l'Slllo la aos mais miseráveis e recônditos casebres do 11t'1 111 qu ' a reprovável, mas infeliz~nente nat~ l, te ~at
1 11111 N, 1 111H•1111s o 'xemplo mais perfeito daquela caridade feminina il tll lltt'l"S p:i ra fal arem de um modo indevido e incauto s e j ~da
1li 11111111 1 "" 11111110!11
·\~ 111111111 li 111111 1111111111 IIIIN l11h11nt1iS, proibições. O enfado e o desgr~ ignad c m qu · os 11• 111 d 1
11 li jlll Vl 11111111 11 11 l'IINI IIIII II , rlflO
p11 .,,1111 11p1 11111 111!1111• ,. 11 plc11i1udc literatura pastoral e didáctica falam das mulheres chi Ir •111111 1 11 • 1
1111, h, 111111 11111111 1·1 l1el11s 110 homem. relas, multiplicando invectivas e anedotas acerca dos p 't':idm 1, 1111
N,11111 1111\ 111 vr11111N11111 f111111acl:u1 ico ninos da língua, tomam-se viva e preocupada atenção qu1111d111
, 111111 ,1111111111N. <) hrn11t 111 é tJUe eslá
111111 11111111111 11 l11no1111do com a textos colocam o problema de estabelecer tempos, espai;rn, t· 11111d11
1I 111 111 d1'~1•11volv1d11: a~mulheres, da palavra feminina: a custódia da palavra das mulhe r s l. d, 1 11 111
11l11cl111111 ,•, 11111p111dorn, representam
11!111111! N l11l1•i11111•h e dcpcndenles da também inevitavelmente custódia dos poderes e dos pri vi ll p i. 1 .i 1
111 11vlclml1• 11111,nili11a. Miniatura do palavra dos homens.
141 11111 XV d1· 11111 manuscrilo de Acerca da palavra e dos silêncios femininos dom ina él 111111u 1il111h
Alh1w11sl., (hfr11lo X). Paris, Biblioteca
N11dwu1I. de S. Paulo, que proíbe à mulher, colocada numa condiçt n d, 1il 1
missão perante o homem, de ensinar (1 Timóteo, II, 12) e dt· t 11111 11 ,1
assembleias, consentindo-lhe, caso deseje saber qualqu ,,. r,11 11, q11,
inteJTogue o marido em casa(/ Coríntios, XIV, 34-35). l~s t I il 11 1
passagens das Escrituras, comentadas durante século por 11111 111 111 11
e prestigiosos exegetas, justificam o primeiro e constitut ivo 111 111 d 1
c ustódia da palavra femi nina proposto por pregadores • 111011111 11
a palavra das mulheres deve ser excluída de qualque r d11111 11 111
. piíOÍica e colocada no privado. A dimensão pública nega 111 11 p1il 1 1 1
feminina não é tanto um problema de espaços como um pn,1 111 11111,h
funções : cada vez que a palavra abandona o plano da crn111 11111 111 1 11

entre indivíduos singulares 12ara assunm um papel político d1• 11111111


ção e de governo da comunidade, as mulheres evem ca lar 1-11 111 ,1, 1111
naquele momento estão os homens a fãlar. As mu hercs 11 1111 11 11 1111
nos tribunais, não governam, não ensinam, não pregam. /\ p,d 1 1 ,
do juízo, do poder, da cultura e da salvação devem mant r st· 11 d,,
masculinas. Os ordenamentos j urídicos e políticos h(i 11111 1111 q11
gerem a exclusão da palavra feminina do exercício j ur dl, 11 , ,1,
poder, e fazem-no de modos diversos segundo os di verso~ , 11111,
tos históricos e sociais; por vezes as normas são menos , 11 11111 ,
consentido às mulheres comparecerem em tribunal no 11111 11 1 d
acusadoras e de testemun has ou de assumir papéis de gov,•1111 1 1 "
_ 12-cla débjl racionalidade _q~t~ ~ distingue; incapa~s de pôr algum__ caso das abadessas que presidem às comunidades mon(isl it 1 1 1l 1
freio ao fluxo da palavra, as mulheres Jalam ..facilrnente de c_oisas mulheres da aristocracia que, por vezes, podem assum ir 1'111 1\11 ~ il
_ estúpidas e í'nconve nientes, e quando começªm a litigar, então arra - comando em caso de morte ou de ausência do marido.
tadas por uma passionalidade incontrolável, não conseguem dete1;-, Muito mais rigorosas são as no1111as que negam à palavru 11•111111 11 11
-se mais60 • Esta i ~ d~~perversa tagarelic~, além d~erindüti,,-> a função docente, tanto no campo cu ltural como no r •li1 i11 11 < 1
dualizada como fonte de desordem no seio d~omunidade familia· direito canónico, as exegeses, a teologia concordam 111 ;1 l'l1111 11 q111
e social, representa tambéIILlll.11-Sério perigo para a castidade femi- as mulheres não podem ensinar nem pregar. f echadas 111 1 1 d 1
nina, nunca suficientemente controlada. Urna mulher demasiado paredes domésticas e conventuais, colocadas numa situnçtlll d1 111,
loquaz é, na realidade, urna mulher demasiado voltada para o exte- missão relativamente ao homem, assinaladas por uma 11 111111 111 d , 111
rior e demasiado desejosa de tecer, com as suas palavras, relações !idade intelectual, dotadas de um corpo frágil cuja vist11 pndt• I" 1111
sociais de vários tipos. Afável em demasia, demasiado disponível e motivos de luxúria, incapazes de dominarem as técni cas d11 p d tl\ 1H
portanto potencialmente corruptível. _Alimentados com esta concep- ,as mulheres ficam fora das universidades, onde homens •sp1•1•111II l.i
ção negativa da palavra feminina, pregadores e moralistas construfram nas artes da lição e da polémica elaboram e transmitem ·011hl'l' 1111 11111
\_ _ em tom o da palavra das mulheres uma espessa barreira de nonnas e aos outros homens. Com os mesmos argumento é negado i s 11111 ll11 1,
A mulher sob custódia 137
1 p11 11,ilitladc de pr 'ga rem a Palavra de Deus. A rigidez com que uma decisão imprevista e de pouco valor, os cons~s das mulher
11 11l11p11s i.' pr 'gadores regressam a este tema resulta do facto de que devem ser awe'Eiados com muita cautela uando se trate de dec.id.
1 1111illw1·1.·s pu seram continuam a pôr em discussão o privilégio coisas importantes e duradouras . Além disso, a incapacidade de as
d,, 1 h iigos de serem os únicos e legítimos depositários da palavra mulheres guardarem um segredo deve induzir os familiares a limitar
il11 il v1111:ílo. As mu lheres de alguns movimentos heréticos pregam, ao mínimo aquela troca confidencial de palavras que a intimidade da
rl1 1 tt·to, n I a lavra ele eus; outras mulheres, cada vez mais numerosas casa consente61 . Com frequência, a contradição que existe entre o
11 pm Iir do s c ulo XIII, exprimem, no interior ou à margem da insti- papel de instrução moral reconhecido às mulheres e a dificuldade de
1111, o 1.•cl 's iáslica, uma tensão mística que as leva continuamente a confiar esse papel à palavra femini na, considerada frágil e desorde-
1 tl11 1 mm Deus, de Deus e por conta de Deus. Em face de tudo isto, nada, resolve-se transferindo a função de bom conselho das mulheres,
11 ckrigos reforçam com violência verbal a impossibilidade ele as não a apoiando nas suas palavras mas sim nos seus comportamentos
111111'1nes exercerem o ofício da prédica, que requer uma condição que possam tornar-se exemplos de perfeita conduta m oral.
tl1• s1qwrioriclacle e ele plenitude intelectual negada ao sexo femin ino; Também a relação das mulheres com a palavra escrita é olhada ,
11111s , •conhecem a possibilidade, para as mulheres, de serem tocadas com suspeita. «A mulher não deve aprender a ler ou a escrever senão
jll'l11 Pulavra ele Deus, que as gratifica com o dom da profecia, reser- para se tomar freira, porque muitos males têm acontecido por elas
v1111clo -se no entanto a tarefa de estabelecerem se se trata de verda- ·1erem e escreverem»62. A drástica tomada de posição de Filipe de o
cl1•11·11s prof'ecias ou ele influências malignas. Novara, partilhada por exemplo pelo mercador florentino Paulo de '
Toda esta série de reflexões e de prescrições e_stá depositada.nos. 63
Ccrtaldo , é somente em parte atenuada pelas opini~e-Pemld ,
vu '\' 0pi J J,
11•x 1os da literatura didáctica e pastoral, onde porém a insistência de Vicente de Beauvais, de Francisco de Barberino e ~ Gil de Roma, .P otecçào, defesa, educação são
IH'l'l'l' ll do impossível papel público da palavra feminina, dado por _ que admitem o acesso à leitura e à escrita não só às reltg' osas mas palavras que ressaltam dos escritos
e sermões centrados na mu lher.
111discu1fvel, cede o lugar às análises das formas que esta _Qalavra também às mulheres de alta linhagem64. Só mais tarde a possibilidade Poderia acrescentar-se: vigilância,
prnk assumir e m privado. Aí, as atenções e as cautelas multipli- de aprender a ler, se não a escrever, será reconhecida a uma faixa enclausuramento, prisão, coacção do
1 1111 se: excluída de qualquer função pública e de qualquer espaço mais alargada de mulheres que vivem em casa65 . Mas as palavras desenvolvimento feminino numa
ordem social dirigida pelo homem.
11l'i11 I, as palavras das mulheres podem invadir, copiosas e amea- escritas que as mulheres podem ler, decorar e repetir na tranquilidade Na imagem, uma mulher aprisionada.
, 11tloras, o interior das casas e dos conventos em que se encontram da casa são apenas as palavras edificantes da literatura religiosa, e Ponnenor do fresco Os efeitos do mau
governo, de Ambrósio Lorenzetri
1•11t·1.·1Tadas, fu gindo a qualquer controlo e instaurando um reino não as palavra perigosas contidas nos livros licenciosos dos poetas ( 1285-c.a. 1348). Siena, Palácio
p11d ·roso e protegido do discurso feminino. É por isso importante e dos romancistas, bem como nas cartas furtivas dos amantes. Nas Público.
qm• 11s mulheres, também nos lugares onde possam e devam falar, páginas dos pregadores e m oralistas, a literatura revela-se para as
i..lpu m as regras ditadas pela taciturnitas, um comportamento vir- mulheres como um ulterior e extraordinário instrumento de custó-
11,oso que lhes impõe fa lar pouco, de um modo contido e apenas em dia, capaz de incrementar a religiosidade, conjurar o ócio, afastar as
r11so de necessidade. Tal como as religiosas, submetidas a uma tentações: «Convém instruir as mulheres nas letras - escreve Vicente
ll' l'H, interrompem o silê ncio monástico apenas em momentos e por de Beauvais - para que, assiduamente mergulhadas nesta ocupação
11111tivos precisos e pré-determinados, assim as mulheres que vivem honesta, saibam evitar os maus pensamentos e fugir das volúpias da
l ' lll cusa devem falar somente em caso de necessidade, esperando carne e das vaidades do mundo»66 •
11•v •r• ntes que sejam interrogadas e dirigindo-se humildemente ao A atmosfera de silêncio em que se moverá a mulher ideal dos
11111'ido ou aos genitores. Seguindo sempre estas regras, podem dar pregadores e moralistas só deve portanto ser interrompida por poucas
1 011 se lhos e avisos_. A força persuasiva e conselheira da palavra palavras, e bem medidas : um submisso intercalar de pedidos humildes
l1•1t1i11i na, reconhecida por vezes por alguns autores, é considera a e de respostas obsequiosas com os pais e maridos, alguns meditados
11111t1 louvável forma de conforto e de instrução que as mulhere~ conselhos e alguns pacatos avisos düigidos aos familiares e aos
podt•m exercitar relativamente aos maiidos e aos filhos, e sobretudo _ servos, uma repetitiva e edificante leitura dos textos sagrados; e por
1•111 ,. •lação às filhas. Muitas vezes, porém, a validade desta capacidad~ vezes, segundo os tempos e os modos estabelecidos pela Igreja, uma
li•111i11i11n é seriamente posta em discussão a partir de um passo da sincera e completa confissão dos pecados, dando grande atenção à
1
/ 0/ftirn de Aristóteles: Gil de Roma, e com ele todos os -comenta- escolha do confessor e evitando cuidadosamente qualquer compra-
i!, 111•s do texto aristot é lico, consideram os conselhos das mulhe~s _ zimento nesse contar dos próprios pensamentos ou actos pecaminosos
d, 11111siudo passionais mutáve is, privados de coerência e de racio- como se fossem fáb~las. Mas mais do que a confissão, acerca de
11 d11l11d ·; sempre prontos e eficazes no caso de ser necessário tom<l!~ c uja obrigação, lembrada episodicamente nos textos do século XIII,
1, A mulher
, sob custód ia 139

insiste especialment u literatura pastoral do século XV, é a oração .m control do era uma mulher ue era possível guiar para a sal-
que deve encher a boca e o coração da mulheres. Só nos textos mai s vação etema_§_que ao mesmo t~mQQ_garªntianeste mundo a honra e
tardios aparece uma prec isa e pormenorizada normativa acerca do a continuidade da família; uma mulher que os pregadores e directores
número e tipo de orações a di zer em tempos e espaços precisos, mas espirituais aprovavam e os maridos e os pais apreciavam. A clérigos _
a insistência na importância da oração é um tema igualmente recor- e leio-os arecia..., além_disso, qJ1e_!_Q9as as mulheres QQ_deriam pra.ti:-
rente na literatura dos séculos anteriores, onde se apontam às mulhe- carãs virtudes da__nrnlher sob custódia._Algum_a_Ldeviam ser mais
res de qualquer idade e condição as vantagens desta prática devocio- virtuosas que outras ou sê-lo de um modo di\!erso das outras: havia
nal. A mulher que reza é uma mulher que se afasta das tentações do quem devesse ren unciar completamente aos adornos exteriores e
mundo, que dá preferência ao sossego e ao recolhimento, que sabe quem pudesse deles fazer um uso moderado; havia as que deviam
custodiar-se a si mesma e à sua virtude numa relação privilegiada ficar para sempre reclusas entre as paredes de um convento e as que
com Deus. Recitadas cm voz alta ou repetidas com submissão, as podiam, ainda que com cautela, sair de casa algumas vezes; havia
palavras das orações invadem o espaço de silêncio libertado pela as que viviam a sua castidade longe de qualquer contacto carnal e
tacitumitas e seguem as mulheres para toda a parte, nas igrejas, nas as que a viviam no interior do matrimónio. O modelo, em suma,
casas e nos conventos, contribuindo a todo o momento, no decurso embora encontrando na figura da monja a sua inspiração e a sua rea-
de uma cerimónia relig iosa, durante os trabalhos domésticos, nos lização mais acabada, mostrava, no entanto, uma grande capacidade
momentos de pausa e de ócio, para guardar as suas virtudes. de adaptação junto de um público feminino compósito e multiforme.
A capacidade do modelo da mulher sob custódia de absorver no seu
interior uma série de variantes sem por isso mudar de natureza foi,
Castidade, humildade, modéstia, sobriedade, silêncio, trabalho, sem qualquer dúvida, um dos motivos principais da sua durabilidade.
misericórdia, c ustódia: as mulheres ouviram repetir estas palavras Mas, como se verá nas páginas seguintes, havia um tipo de mulher,
durante séculos. Ouviram-nas ditas pelos pregadore · nas igrejas, a esposa e a mãe de família, para a qual o modelo tinha tido de criar
ouviram-nas ditas pelos familiares nas suas casas, reencontraram- variantes mais decididas e j unto da qual corria os maiores perigos,
-nas nos livros para elas escritos. No decurso do tempo, as mulheres arriscando-se por vezes a ser ineficaz ou impraticável. Nem sempre
que ouviam estas palavras mudavam; eram mulheres diversas e fre- era fácil propor a esta mu lher, que devia ocupar-se da casa e da
quentemente di tantes entre si: rainhas, religiosas, burguesas ricas, família, agradar ao marido, gerar e educar filhos , a imagem pacificada
camponesas pobres, servas, mães de família, rapariguinhas. Mudavam de uma mulher afastada das perturbações da carne, distante das preo-
os homens que diziam essas palavras: pregadores, filósofos, teólogos, cupações mundanas, tranquilamente entregue à oração e às obras de
runcionários da corte, leigos cultos; uns atrás dos outros tomavam a caridade. Perante esta dificuldade, pregadores e moralistas foram
palavra e falavam das mulheres e às mulheres. Mudavam também os forçados a levar a cabo esforços teóricos e retóricos para incluir a
modos de falar às mulheres: por vezes recorria-se à palavra falada, mulher casada no número das mulheres sob custódia, experimen-
outras vezes à palavra escrita; por vezes escolhia-se um tom impe- tando os limites extremos de adaptabilidade do modelo que tinham
rai ivo e genericamente afi nnativo, outras vezes recorria-se a conse- e laborado, procurando de todos os modos, no interior desse modelo,
lhos persuasivos e mais pessoais. Mas as palav.l]ls contifl!l.<!YfilIL,;'LSer o modo de fazer da mulher uma «boa mulher».
s ubstancialmente as mesmas. A duração dessas palavr~s no léúco
da lite ratura pastoral e didáctica dirigida às mulheres dos finais-do- [Traduzido do italiano por Egito Gonçalves]
s ·culo XII ao final do século XV testemunha a duração subs!ancial
do modelo feminino que elas veiculavam e que através delas des-
ncvcmos nas páginas anterior~~.._Q_1n_oJl_§IQ, de resto, apres~ntava-s~
Notas
ço11sist nte desde o início. Coe.rente,_fundamentado na autoridade da 1. Alão de Lillc, Summa de arte praedicatoria, in PL 2 10, 111-95; T iago de Vitry,
1rutlição, justificado por exegeses das ~ituras, confirmado-~o . SN111011es Vulgares, Ms. Paris B. N. Lat. 17509; Gilbetto de Touniai, Sermones ad omnes
status, por Johannem de Vingle, Lugduni, 1511.
providencial aparecimento das teorias aristotélicas; capaz de CQ)Tes-_ 2. Vicente de Beauvais, De erudilionefilion1m nobilium, ed. A. Steiner, Cambridge
po11dl·r i\s exigências não só dos que as elaboraram inicialmente, os (Mass.), 1938; Guilherme Peraldo, De erudirione principum, in S. Thomae Aquinatis,
, h•1iµos , mas também dos leigos que bem depres a delas se apo1,sa- Of!Na Omnia, XVI, Parmae, 1865, pp. 390-476.
( 1 1111 11111a mulher sob custódia nas casas e nos conventos, cujos_
3. João de Gales, Communiloquium, por Georgium de Arrivabenis Mantuanum,
Venci iis, 1496, ff. lr.- l 66v.; Tiago de Varazze, Sermones de tempore, por Simonem de
1111,v l1m•,11os, gestos, palav ras, hábitos, fecundidade e religiosidad~ _ l .u ·rc, Vcne .. iis, 1497; Chronica civitatis lanuensis, ed. G. Monleone, Roma, 1941.
A boa esposa
Silvana Vecchio

Sara, a herança do século XIII


«Os pais, depois de terem abraçado e beijado a filha, deixaram-na
ir, exortando-a a honrar os sogros, a amar o marido, a amparar a
família, a governar a casa e a mostrar-se irrepreensível» (Tobias IO,
12-13). Entre as muitas figuras femininas das Escrituras, a ]it' ratura
pastoral do século XIII revelou uma predi lecção especial por ara,
personagem menor da histó1ia sagrada, até àquele momento quase
ignorada; casada com Tobias depois de insídias diabólicas lhe terem
por sete vezes morto os maridos na vigília de núpcias, Sara afronta
o matrimónio depois de três noites de oração e com as mais santas
intenções . Obediente, casta, devota, Sara encarna aos olhos dos cl6-
rigos ora uma ora outra das virtudes requeridas à boa mulher, mas
sobretudo oferece a possibilidade de compendiar, na rápida lista das
obrigações que os pais lhe recordam no momento das núpcias , os
múltiplos papéis da mulher no interior da família e de desenvolve r,
para cada um deles, regras específicas de comportamento. O me. tre
parisiense Roberto de Sorbon (í 1274) mostra no casal Tobias-Sara
o exemplo da santidade do vínculo conjugal1; Gi lberto de Tournai ,
Tiago de Varazze, Guilherme Peraldo, Vicente de Beauvais, Pau lino
Meno~ita constroem em to1:no da figura de Sara uma pedagogia arti-
Entre os tipos e categorias de mulheres
culada e completa para a mulher casada2; Durando de Champagne contempladas nas classificações
apresenta-a como modelo de esposa casta e de perfeita dona de medievais há um que se destaca ac ima
casa 3 . Modelo. para o que deve ser, mais do que para aquilo que de todos: o da esposa. Marido, filhos
e servidores ocupam a sua atenção.
efectivamente é - nora respeitosa, mulher fiel, mãe cuidadosa, avi - Na imagem, o homem cuida do fogo,
sada dona de casa, mu lher irrepreensível sob qualquer ângulo - , ~ímbolo de que a ordem interna do lar
lhe diz respeito em primeiro lugar,
Sara encarna e representa a rede de deveres no seio da qual os clé- enquanto o filho , objectivo central
rigos pensaram e com que descreveram a vida das mulheres casadas. do casamento, dá os seus primeiros
Na atenção renovada com que, or alturas do século XIII, os inte- passos com um «andador». Miniatura
de um Livro de horas, século XV.
le~tuais eclesiásticÕs olham a figura feminina, as e~osas ocupam · Madrid, Biblioteca Nacional.
144 As no rm a s d e controlo

_ce1tament~ um lu~ de primeiro plat1Q_: últimas na escala da erfeição,


as mulheres casadas têm no entanto umpã°pel essencial na cçmstrução
do modelo social que os clérigos têm vindo a elaborar, ~ co_nstituem,
se virmos bem, o elemento dinâmico de todo o sistema. Propor uma
pastoral para as mulheres quer dizer também repensar esquemas e
modelos herdados da tradição à luz das exigências de uma sociedade
na qual o controlo das estratégias familiares , através da elaboração
de urna nova ideologia matrimonial, representa a oportunidade de
uma batalha que clérigos e le igos travam já há dois séculos4 • A defi-
nição da natureza sacramental do matrimónio marca não só a conclu-
são de um longo de bate teológico mas também o triunfo do modelo
eclesiástico. À literatura pastoral compete a tarefa de difundir e
popularizar, eliminando-lhe as subtilezas teológicas, a nova doutrina
matrimonial, e, ao mesmo tempo, ge inventar uma pedag_ogia e uma.
moral da família que tenham em conta os valores da.escolha_GQDj_l.l_gtl__
Da polémica anti-matrimonial, que no século XII uti lizou lar-
gamente o Adversus Jovinianum de S. Jerónimo para descrever os
aborrecimentos e os problemas da vida conjugal5, não restam nos
textos do século XIII mais do que fragmentos isolados. Pressuposto
inevitável e com frequência ponto de partida explícito de toda a
tentativa de elaboração de urna moral conjugal é agora o elogio do
matrimónio: instituído directarne nte por Deus e no Paraíso Te1Testre,
divinamente preservado da destruição pelo Dilúvio, o matrimónio
vê confirmada a sua santidade pela presença de Cristo, da Virgem e
dos apóstolos nas bodas de Caná e pela ocorrência, em tal contexto,
do primeiro milagre; condição escolhida por Deus para a mãe de
Cristo, assume a tripla função de gerar a prole, evitar ª1omicação e
conferir a graça sacramental. --------
Na pesquisa de m~ ele comportamento para os casais, a
/ literatura teológico-pastoral percorre todo o repertório das Escrituras
/ · e da Patrística: relê vezes sem conta as páginas do Génesis que narram
a criação de Adão e Eva e a sua condenação após o pecado, fundando
sobre a palavra de De us o destino diferente da mulher e do marido;
recupera os avisos paulinos que fi xam numa relação de submissão
da mulher ao homem as linhas da moral conjugal; redescobr<r as
Entre os pensadores religiosos figuras de mulheres santas e fiéis do Velho Testamento (Rebeca,
do séc ulo XIII a figura da esposa
oc upa um primeiro plano, apesar Lia, Raquel) , às quais se juntam as santas esposas dos primeiros
da sua imperfe ição intrínseca se for séculos de cristianismo (Cecília, Inês) e sobretudo o incomparável
comparada com as que escolheram
pe rmanecer vi rgens. Eles consideram
modelo da Virgem Maria, mulher e mãe perfeita. Às referências das
essencial o papel da mulher casada Escrituras acrescentam-se, com fre uência cada vez mai
na co nstrução do modelo social q ue de meados dosécu o III, os textos aristotélicos ro ressiva
e laboram. O fresco da ilustração, de
Mc1111110 de Filippucio, mostra um tornados acessíveis por uma intensa actividade de tradução. A Ética

--- -
!)Ol'lnc no r de A apresenração da a Nicómaco fornece os pressupostos para uma definição da rela .!Q..
r•s110.w , cu. 1320. San Gimjg nano,
Palác ki omuna l, Câmara dei
CQllllJ.gaLque _super.e a p ra,rarrrra-J.idade-para se cõlõcãrn11 s ·era d
Poclcslá. _grna ética específica; a Política insere a f a ~ no · · · da comu-
1,1t1 A 11 110 1111llH dl' contro lo

O contrato matrimonial afecta outras _nidade do Estado e analisa as diversas relações que, no seu seio, se
pessoas para alé m dos esposos: _organi_z am ~fll_1or_no da fig.ura_[o c ere da familia,_en uanto os
servos e trabalhadores da «casa»
mat rimonia l, parentes, amigos e , _ pseu.ci.o=a.1:istQtéliGosDa Economia tradun dos no fim do século, põem
sobretudo, os sogros. Pomienor de mais distintamg.nte em foco o-espaço-domés tieo cerno espaço_fem.h
urna miniatura com o cortejo nupcia l
de Segismundo l. Crónica de Ulrico
nino e fixam as competências d-as- mulheres no-interio1~da- easa-:->
de Richental, 1429. Praga, Biblioteca _Comentacl.as rep.etidamgflte-no_de.c.urs.o dos séculos XIII e XIV, as
Nacional. obras aristotélicas constit~em o pres_§_!.)posto inevitável da aten ão
_ao espaço doméstico e de tQÇ!a a tentativa de para ele de linear urna
possível mqralidade:__O s Da Econom-;:;:em especial, lançam as bases
de um a doutrina da administração da casa que percorre frequente-
mente as etapas do modelo b íblico; por muitas décadas, marido,
filhos, servos, casa, constituíram os capítulos ideais de cada pedagogia
da mulher casada e os topai em tomo dos qu ais se prganizou toda a
tentativa de fa lar às mu lheres ou das mulheres. Nos,fi nais da Idade
Média a figura de Sara encarna ainda o ideal fem inino nas páginas
de Francisco Ximenes, de Dinis o Cartuxo, de Querubim de Espoleto6,
testemunhando a vitalidade e a persistê ncia de uma tradição à qual
nem sequer a literatura humanística saberá contrapor um outro modelo
igualmente forte.

/ f onrar os sogros O primeiro dos deveres recomend ados a Sara é o de honrar


os sogros. Honrar os sogros, como ex plica Gilberto de Tournai7,
A boa esposa 147

quer dizer manifestar-lhes uma reverência que se traduz em gestos


e palavras respeitosas, em actos obsequiosos e · em formas con-
cretas de auxílio em caso de necessidade; quer dizer que se deve
evitar qualquer agressividade, mesmo verbal, aten uando com doçura
e benevolência qualqu er conflitualidade eve ntu al. Reverê ncia,
doçura, amparo: trata-se das mesmas formas de respeito que o
quarto mandamento do decálogo («honrar pai e mãe») impõe na
relação com os genitores. Honrar os sogros quer ass im dizer que
se devem estender aos genitores do marido as atenções devidas
aos seus próprios, assimilar aos vínculos de sangue o · novos vín-
culos que o contrato matrimonial institui. Não é por acaso, lembra
Tiago de Varazze8, retomando a_etimologia de Is idoro de Sevi lha,
que o termo sogro deriva de as§.Q_c iar (socer a socia11do), indicand o
aq uela es pecial forma de filiação que inLroduz a esposa cio !"ilho no
âmbito de novas relações familiares. Igualmente presente nos Da
Economia, o tema do res peito pelos sogros sugere aos comenLH-
dores reflexões análogas acerca cios laços de parent esco qu e o casa-
mento institui: para Oresmo, o amor recíproco que liga os esposos
impõe o respeito mútuo e o amparo aos sog ros segundo l"ó rmulas
qu e são modeladas, pelo menos na apar~ncia ex terior, se não na
profundidade ela re lação af'ccl iva, pelas ob rigações de vidas aos
genilores9 •

Peraldo. ao justificar o amor conjugal,


assimila o casamento a «um enxerto
que funde numa única árvore fec unda
o ramo enxertado e a planta estéril
sobre a qua l se fez a enxertia».
A miniatura, ilustrativa do amor
cortês, situa os amantes em frente
de uma roseira. Miniatura de um
códice do séc ulo XIV com obras
de Guilherme de Lorris (ca. 1260).
Valência, Biblioteca da Uni versidade.
A boa esposa 149
1kvc r para ambos os esposos, mas mais frequentemente dever ·apaciclade de submissão do que a específicas qualidades positivas
1 1wdl'ico da mu lher, acolhida na família do marido, a atenção aos ou a particulares capacidades de mediação. Somente nas páginas de
JIIIH' lltt•s do cônjuge pe rmite considerar o vínculo matrimonial na ristina de Pisano a função pacificadora da mulher parece assumir
11 1dlr11cnsão externa, e m relação aos laços que ele institui no corpo uma conotação menos passiva e estender-se activamente também
w 1111 , uinda antes de se indagar a sua relação interna. De facto, o para fora das paredes domésticas: à mulher do príncipe, modelo
111111111116n io é um vínculo que não une apenas dois esposos, mas sim «alto» mas possível, em certa medida, para todas as mulheres,
d1111s 1'11111ílias; a criação de um novo núcleo familiar traduz-se na espera não só a tarefa de manter boas relações com os parentes do
1 rn1~1i1uição de toda uma rede de parentesco e de alianças que alte- marido, amando-os, honrando-os e defendendo-os aos olhos dele,
111111 o panorama social e político da comunidade. A nível ideológico, mas tam bém a função política de garantir e conservar a paz no
11 ,·rn1s ·iúnc ia desta fun ção política do matrimónio está sempre luci- fünbito da corte e do próprio Estado 12 .
d111m·1ll · presente: Peraldo, Vicente de Beauvais,_Gil de Roma não
11•ssu111 de recordar que o matrimónio conserva a paz, trava a
cli Nl'Üf'din , sanciona as alianças; _m_omento de encontro de grupos O marido é, por definição, a figura central do universo da mulher Amar o marido
1 1111iliurcs frequ e ntemente opostos, o matrimónio pode s~ r o onto casada. Não só é o destinatário e o fruidor específico de toda uma
111l cn1J d' uma estratégia que tende a dilatar a amizade, a estende!:_ séri e de atitudes e comportamentos da mulher como acaba por ser
Jlllll' l'Cssiva mcnte as malhas de uma rede de alianças internas na. o e ixo em torno do qual gira todo o sistema de valores que aos
1 tdud • que produzem o efeito benéfico da concórdia s~cial. Nesta cônjuges é proposto. Falar às esposas e das esposas quer di zer
cl11111·11sao, a própria cerimónia _nupcial adquire o seu signific~do, _ também, inevitavelmente, falar aos ma.ridos e dos maridos, foca r
q11,• ; 11H1is social que religioso: ,a estigmatização dos matrimónios uma série de obrigações recíprocas e de funções específicas através
1 l1111dt·s1inos, frequente na literatura canónica, destina-se também a das quais ambos os componentes do casal encontram a sua definição.
1l v11guardar, com a publicidade da cerimónia, o controlo social Da mulher é obrigação primeira, acima de tudo, amar o ma rido:
olu'l' us políticas matrimoniais, enquanto o próprio banquete de a exortação ao amor (dileclio) inaugura constantemente, e em alguns
1111pci11s ass ume, aos olhos de um pregador atento como Humberto casos resume, os deveres da mulher em relação ao esposo. Mas fala r
d1• lfo111ans, ,i função de momento de agregação das duas famílias e de amor conjugal implica precisões e distinções imediatas; Gilberto
l111clll(i, o v isível do novo arranjo das alianças'º- de Tournai, o pregador mais atento às implicações psicológicas da
<) 1·ma da concórdia reaparece com insi tência nos tratados e pasto ra l sobre o matrimónio, distingue dois tipos de amor 13: o pri-
1111 pus tornis sobre o matrimónio do século XIII ao sécu lo XV; mc iro, o amor carnal, alimentado pela luxúria e caracterizado pe lo
1 cu1cordin socia l que através do matrimónio se gera e se perpetua, t:xccsso, é assimilável ao adultério e produz os mesmos efeitos
11111 111111b m - simultaneamente causa e efeito da paz exterior - n •fastos: lascívia, ciúme, loucura. Gilberto opõe-lhe o verdadeiro amor
11111l 1írdia inlern a no lar familiar, requisito indispensável para que rn njuga l, que define como social, uma vez que estabelece entre os
1 1111v11 1"11111ília se possa constituir e manter. Alberto de Saxe, nos l'Sposos uma relação de paridade; este amor funda as suas raízes na
1111111•1116,'ios ao Da Economia , observa com particular lucidez como eena primeira da criação da mu lher , que, nascida de urna costela do
11 1 11111·ordia o u a di scórd ia dos esposos se reflectem imediatamente ho mem, é destinada a ser para ele n ão serva, mas companheira
1 111 ,·11111pol'tumcnto s análogos de todos os respectivos amigos, (socia). O esteriótipo da costela, utilizado freguentemente pela lit~ \\ '(\/) ~ ÃA/)vvC• /.,_,/ O r;· -,
1 11111111111 0 o ·uidaclo e a benevolência prestados aos amigos e parentes ratura pastoral para justificar a inferioridade feminina, representa aQ 'v ) '-' - 1

d11 1 111111 t' produ z também no interior do casal um acréscimo de 111csmo te mpo a mais vistosa presunção sobre a qual se pode fun.:.
1111111111111d11dl' ' de amor 11 • No cruzamento deste equilíbrio delicado, dum ' ntar cada apelo à paridade e reciprocidade do casal. Gilberto é
"\111'11111 d11111 11lhcr aparece como elemento essencial de uma obra de 11q 11 ' I ' que pinta sempre um quadro idílico da v.ida comum, no qual
d11pl11 11111 if i\-11<,1 o: responsável única de uma unanimidade conjugal 11 rl·ciprocidade do amor garante serenidade, honestidade e paz no
q111 11111111 v1•1'l'111os, passa sobretudo pela sua subordinação ao esposo, 1111 · s' tradu z em mútua fide lidade e amparo recíproco com a fin a-
, 111 11 111 1/ 11111111 ·nte a tarefa de manter as boas relações com os lid11dt• dn salvação. Peralclo contabiliza umas dezasseis razões que
11111,1 1 111111 os parentes do marido. Branda por definição, à mulher j11 s1if'it·11111 o amor conjugal 14, utilizando, ao lado da habitual argu-
ili td11 d11klf'il'll r os ânimos, suavizar os contrastes, apazig uar os 111,·111:1 c;: o bíbli ca, imagens fortemente evocativas, como aquela que
1111111111 , q111•1· 110 interi or quer no exterior do casal, desenvolvendo l'o111p11rn o matrimónio a um enxerto que, feito numa única árvore,
111111 11111 111 p11l'il"icadora que aparece mais ligada à sua docilidade e l'l-t·1111d11 o ramo enxertado e a planta estéril na qual fo i inserido, ou
11111 AH 11 mn1 l111 d!' \'1 1111 rolo

aq ue la do anel nupcial que, enfiado no dedo que a veia do coração como aquele que dá para aquele que recebe, como o b •11 ft<il111 p111 1
atravessa, simbo liza m elhor do que qualquer outro ritual o amor que o beneficiado; o m arido dá realmente à mulher a prole, ' e l11 11 11 111
deve ligar os esposos. -a de le» 18.
Presa nas m alhas de um d iscurso que é s imultaneame nte <ll·Nt , 111 1,,
e norm ativo, a figura feminina move-se no cruzam ento d ' 111111111 111
l glful<lade o u suhmissão? Tanta insistência sobre o amor c onjugal, à qual não ficam sequer tradição insolúvel : a obrigação de a mar o marido que Ih ' L' i11q 11 1 11
alheios os teólogos, não faz no entanto d esaparecer a impressão de com o essencia l à sua fun ção de esposa revela-se ao mcs1110 11 1111 11 r
um nítido d esequilíb1io que res ulta da le itura exaustiva da literatura tarefa inexaurível e m arca de inferioridade, A mulhe r, drn11 1111d 1
que trata esse tema. Tiago de Varazze é talvez aquele que m e lho r pelos sentidos e incapaz d e atingir o autocontrolo afecti vo do 1111111 111
do que qualquer outro con seguiu definir os tennos precisos deste é condenada a am ar de um modo total m as en-ado, num cs l'ot \'11 11111
desequ ilíbrio: não existe dúvida alg uma de que marido e mulher se tínuo de adequação àq ue le inatingível amor, limitado mas ,w,li 11 11
devem amar recíproca e i ntensamente, a uxiliando-se um ao outro que o marido lhe oferece. E não só: obj ecto te ndenc ialmc 11l t· p 1 11 11
para o bterem a salvação; no e ntanto, ao amor perfeito d a mulher o deste amor, a mulher é dele, no entanto, de alg um modo r ·sp<111 1\, 1
mar ido deve opor um amor moderado (discretus). A mulher ama deve fazer-se am ar para evitar q ue o m arido seja presa duq 1wl11 111
perfeitamente quando, deslumbrada por esse sentimento, perde a cívia para o do mínio da qual fo i instituído o matrimó n io, 11 111 111 11
dime nsão da verdade e fica ceita de que «nenhum é mais sapiente, de ve fazer- se amar em demasia para não provocar essa 111t•s11 111 l,1
nenhum é m ais forte, nenhum é mai s belo que o seu esposo» e sente cívia; deve, em suma, am ar sem medida, mas conseg uir i111p111 11 1
prazer em tudo o que o circunda, acha bom e justo tudo aquilo que amor do cônjuge aquela m oderação que ela m esm a não podl• 1 11 111
ele faz ou diz 15. O deslum brame nto e falta de me dida que é proposto deve exer citar sobre a própri a afectividade,
à mulher é exactamente o que está proibido ao marido: o seu amor Perguntar-se neste ponto em que coisa poss a consis lir ll 11111 111
nunca deve ser demas iado ardente, deve ser com e dido e te mperado. da m ulher que r di zer, antes de mais nada, tornar con lw t'1 1111 1111 1
Retomando uma passagem de São Je rónimo, que compara o amor da impossibilidade em que a mulher se encontra de ge rir 1·111 ·1111111 1
excessivo pela mulher ao adultério, Tiago insere-se num vasto coro m e nte a p rópria afectividade e da necessidade de enco nl r11 1 1 1llt
que inclui os personagens mais diferenciados, de Peraldo a G il de ri os externos que permi tam encher de conteúdo o a mo ,· 1111111 1111
~ ) . ! ? ~ e Filipe de Novara a Vicente de ~e~u~ais,_~ o n c o r ~ 1
confronto dos cônjuges. Critérios e conteúdos que se r so lw 111 1111
própria von tade do m arido, perante a qual não é ped ido 1 1111111 11,
. . . _ { ) afmnar_gue o homemÁe-ve amar com-parc1moma, não com-afecto,.
O prazer fem,n,no e a d1versao que - · ·d 1 d ' .· . · ·
" mais do que uma muda, reverente e total obediência. Amar o 111 11 1tl11
esta miniatura reflecte não têm lugar sem nunca pe1 er o contra o a propna 1ac10nahdade e- sem- se-
nos textos doutrinais, que insistem de ixar arrastar pelo sentirµe11lu,_i:iúme, passionalidade e, no limite, traduz-se, na exegese de Pe raJdo ou de Vicente de B e,H1 v1 11 , 1111
cm colocar a impon_ân.cia do afecto loucura, são as con sequências do amor excessivo pela mulher emble- obrigação de uma submissão voluntária; a p aridade p o Lc n ·i1il 11 1t1
c do serviço entre eon1uges acima da . ' vel na página bíblica é exorcizada com referência à cu lpu 01I 11 1111
rl!lação sexual. Miniatura do Oftcium ma t1cam ente representado pelo amor de Herodes, qu e acabou por
!Jeorae Mariae Virginis , século xv. matar a mulher Mariana por a amar d emas iado ou pe lo de Adão q ue transformou a igualdade em s uje ição quase se rv il. A l' 111 1.1
Madrid, Biblioteca Nacional. que, para n -ao en' tnstecer
· E
, '
va , desobe deceu ao Senhor mergulhando' ção à obediência cam~ ia ern.. tod a a no@ati.Yc' para as 111u ll 11•11
toda a humanidade no p ecado • 16 _- encontra-se nos c onti!xto_s_ mais diferen ci ados.: o..s...textos d e i11 p i, 1
_A te ntativa de racionalizar o deseguilít,1io afecti vo do casal_e.ncon- ção aristoté lica não deixam de precisar que a una ni midad ' l1 11111 11
tra um arg umento válido iia dqutrina aristotélica do matJimg_ni~oJru!> cônjuges se não deve ente nder CO_mo o resuJtado ele Utnfl Vtll ll ilil1
1
_-relação de amizade entre seres d~si_g!1aJ~ A am izade c~njugal, ns,tai~" t_,.. comu m, mas sim de um r egime bem ordenado, no qua l uo 1•o v1 11111
_ Albe1to Magno e Torpás de Aquin_o, funda-se naj ust_i_ç a, não godenqo,/. _ <t, do marido coJTesporide a obediência da mulher, e a pró prili ( '11 111111
i portanto deixar de se adequ ar aos vári2§ graus de virtude que existefu"'°' de Pisano cons idera compone nte não única, mas sem d1ívitl11 11111
. . nos cônjuges; se o marido é amado com mais intens idade é porque : - damentaJ, do amor ao maridQ-ª.J1u.milda de e_ a o bed ie nci u 111 M 11 11
dotado de maior racionalidade, pode s-er 1nais virtuoso, enquanto a maior insistência na temática da obediência encont ra-s ', l' 111111 1•111
- mulher, natur a lmen te inferi o r, recebe um a menor quantidade d ( acaso, no tratado escrito por um rnm·ido para s ua mulh •1·, 1, l'1 111111111l11
amizade, mas adequada à su a natureza 17• João B urid an chegará a M énagier de Paris20 : nestas páginas , a identificação amor o lwd11111 111
afirmar q ue de facto «o m arido am a mais do que a mulher, e ama conduz a uma submissão ab soluta da mulher ao qu ' I' •r do 11 1 11 til, ,
com um amor mais nobre, u m a vez que o maiido está para a mulhe r até uma total desresponsabilizaçã o, inclus ive mo ral ; 11 10 11 11 11111 11
como o superior para o inferior, como o perfeito para o impe1feito, mentação da obediênc ia conj ugal faz-se ava liza r ·rn11 11111 11111
A boa esposa 153

11111 1lcll io d ' exemplos que vão do texto das Escri turas ao mundo simo sobre a reciprocidade da ob1igação, mas n ão deix a de lembrar
1111111.111• rn lminam com a triste h istóri a de Griselda, retomada do q ue muitos maridos pensam injustamente estarem a ela menos vin-
11, ,, ,11111•1·1111 de Bocácio. c ulados que as esposas22 ; Tiago aponta a fide lidade como obriga-
ção recíproca dos esposos, mas reconhece que a mulher «g uard a a
fidelidade melhor que o marido», controlada como está por quatro
N1•s ll' con tex to de subordin ação a bsoluta da esposa ao m arido, o custódias, das quais ó a primeira vincula igual mente o home m : «O
111111110 balua rt e daquela p ari dade e reciprocidade que teólogos e mo- temor de D eus, o controlo do marido, a vergonha perante os outros,
1,tlt t ,~ t i11ha111 com tanta ênfase sublinhado continua a ser a actividade o medo das leis»23. A sensação de qu e a fidelidade, imposta a ambos _
1 1111 1, 11ct ividad e à qual, no entanto, nunca é reconhecido o carácter os cônjuges, é de facto ;nais vinculativa para a mulher torna-se _
d, l1111d11 111cnt o do vínc ulo matrimonial. Justificado pela necessidade evidente nos textos de inspiração aristotélica e na literatura teológico-
d, 1•vi 111r a l'ornicação, o matrimónio deve garantir a ambos os côn- -moral que debate o tema do adultério. Gil de R oma coloca o pro- _
111 1.11•N II poss ibilidade de exercitar legitimamente a sexualidade: o blema em termos mais gerais. Que a m ulher deve estar ligada a um
d, v1'I' co11j ugal permanece, portanto, quer para o marido quer para a só homem é dedutível não só de uma praxe universal e consolidada,
1 p11~11, o tínico objecto de troca recíproca e paritária, o único contexto mas também de urn a série de motivações de carácter racional: a _
1111 q1111I rnda um cios dois tem igual faculdade de pedir (para evitar re lação com m ais homen, subve1te a natural subordinação da m ul her
11 111•r11< lo) · ig ual dire ito de recusar (quando não estejam garantidas ao marido e impede a manutenção da paz familiar, m as sobretudo
11 1·011cli (,:o 'S de legitimidade). A enonne discussão sobre os deveres
11111111gui s que se desenvolve a nível teológico a partir do século XIII,
1 q1w Sl' r ·f'l cctc nos tex tos de carácter pastoral sobretudo do século
V, tl'lll a !'unção de definir a natureza e os limites da sex ualidade,
11 t11 ~(, •1n rc laçíío aos tradicionais interditos de lugar e de tempo que
111 110s p ·nitcncia is limitavam fortemente a actividade sex ual , mas
11h11•1t1do c m relação à doutrina do matrimónio, que consente o uso
d11 ~,·xunlidade apenas como instrnmento para gerar uma p role que
1 1111•1 h1 rnda re lig iosamente ou para evitar a forni cação. O controlo
il11 ~1·x 1111lidade diri ge-se a uma virtude específica: a castidade con-
lllJ'lil : p11ra quem, como os esposos, não pode renunciar totalm ente
1111'\l'l'l' l' io da actividade sexual , castidade significa manter aquela
11111v icludl' dentro dos limites fi xados pela doutrina matrimonial. Por
1111 ,11 do s11 ·ra mcnto, afirma Tiago, repete-se continuamente o milagre
d, < '1 11111 , qu · 1rans forma a vi l água do pecado no vinho precioso da
\ 111111 11·, 11 ponto de que «aquela mesma virtude, que antes do matri-
111111110 si· dwmava virg indade, não se p erde, antes se conserva e nos
1111q11prs to111u o no me ele castidade matrimoni al »21 . A reciprocidade
111 11 l1•vl·1· t'tH1juga l impli ca, pelo menos em princípio, a concórdia e1i.1 A fidelidade sexual femi nina é a
111111 " " dt'l' iso •s q ue di zem respeito à vida sexual; nada, nem sequer ún ica garantia da paternidade e, em
consequência, da legitimidade da
11 11ltj1•1•1i vo dl' 11111a m aior santidade, pode jus ti ficar a prevaricação
prole. No entanto, a li1eratura ele corte
Jl11 d11 1•110 do outro cônju ge ao uso da sexualidade. testemunha costumes mais livres; à
mulher, se o marido falta aos seus
\ M11 ~n lll't•tud o a rec íproca posse do corpo implica a exclusivi- deveres conjugais ou se se ausen ta
d 1il1 d.1 11•l11,·1h> ' po rt anto a mútua e absoluta fidelidade. R equisito durante muito 1e111po, é-lhe permitido
111d1 p1•11 11v1• l tio matrimónio, do qu al constitui com a graça sacra- relacionar-se com ou1ros homens.
A clama da ilustração recebe atenções
'"' 111 111 1 11 d11di va da pro le um dos principais ben s, a fidelidade é ele do is cavaleiros. Em primeiro
q 11, 1111 111111 1·111110 obri gação recíproca dos cônjuges pelo coro unâ- plano, logicamente, «o seu senhor» .
Miniatura ele um manuscrito de
1111111 dtt l111•rn111rn t •o l6g ica e pastoral. No entanto, os sermões j á Lance/ar du Lac, século XV .
, 111 il ,1,11 ,w..,t~· L'Ol'O alg umas dissonâncias: Gilberto insiste muitís- Turim, B iblioleca Nacional.
A boa esposa 155

1•11 p1dll II n prole; na realidade, por um lad~, a fre~ência e a diver-


1d,11h• d11s r •luçõ s «impede a geração de fil hos, co~no s~ verifi~
, 11111 '" p1 os litulas, que são mais estéreis do que as outras mul heres»,
p111 llll ilO , 11 promiscuidade sex ual, COIDO «tudo O que perturbaª--
1, 1li , 1 dt1 paternidade, impede que os pais providenciem dilige!:s

li 1111 llll' 110s filhos a herança e o sustento»14.


< > hclll d.i descendênc ia coloca-.se, assim,-Il.Q centro do di scurso
q111 ll' 111111 as relações entre marido e mulher, e a procriação: càm9
1 li 11u•1110 de lcgit imação da relação conjugal, tran sforma-se na pedra

1111~ 1!1111 qu • rege Lodo o istema da ética fami liar; colocado nestei
li 11111>', lodo o discurso moral acerca do casal é forçado a modelar-
, '!11l1c II natural diferença de papéis que marido e esposa desemp~-
111111111 1111 reprod ução. Pudicícia, castidade e fidelidade da esposa têm
p11111 <li l, u fun ção de oferecer ao marido aquela garantia de pater-_
111d11dc IL• 1 ítima que a natureza não lhe pode dar, enquanto todas as_
111111 11s vi rtudes femininas se relacionam, de algum modo, com esta
1 11•t•11t·i11 de o bter uma garantia: abstinência e sobriedade rnodcra.in:-
,1 111111ml lascív ia fem inina, silêncio e estabilidade tornam a mulhei:
111111 <kvolada ao marido e tranquilizam-no acerca do seu comport-ª:,..
11u 1110. ( ' 0111 Gi l, todos os comentadores de Aristóteles, de S. Tomás
11 ll ll'rlo d • Saxe, de Oresmo a B_uridan~ ·~ hecemna/fid elidade
li 11iJ11i1111 H Única ganrntia de legitimidade da prole, e no controlo que
11 111111 ido cxerce sobre o corpo da espo a o único instrumento caaz
d1 u ,\oss ·gur acerca da sua patemidad_e 21 A fidelidade acaba assim
p111 Nl'r 11111a virtude particularmente feminina, ou, pelo roeno_s,-11
l11k l1d11d • masculina ass ume um carácter substancialmente diversQ
,1, ll•111i11i11a, na medida em que não é mais do que urna contrapartida,.
l11111l11111l'lllada na justiça, do comportamento exual da esposa. À_
11cll'i id11dl' quase obrigatória e «fisiológica» da mulher, com a fi na-
11«11<11· d1· 1•gilimar a reprodução, corresponde uma fidelidade menos.,
111111 •11loriu mus mais virtuosa por parte do homem . .
Su 11111 tul pressuposto pode explicar a aparente contradição que
11111 1w 111 1111 uva liação do adu ltério: a maior responsabilidade moral são de que na realidade, a obrigação da fidelidade é apenas rese,:_-- O estado matrimonial pode ser
cl11 l11 1111l'III lruduz-se pela obrigação de uma conduta mais virtuosa
caminho de salvação. A esposa, por
vada às mulheres. Confinada ao âmbito puramente fís ico, a fideli- intermédio da oração, santifica-se a si
1 p1111111110 numa culpa mais grave; por outro lado, as consequên- dade 4caba, quase exclusivamente, por ter a ver apenas com aquele mesma e à sua família. De qualquer
1111 dn 11dul1 •rio l"eminino são certamente mais graves, compreen- corpo que desde sempre foi objecto de repressão, o corpo feminino, modo, a missão da mulher na
espiritualidade do casal foi objecto de
di 111 1111111g11111a de culpas que vão da luxúria à traição, do sacri légio tanto mais neces itado de custódia quanto uma nova ideologia discussão entre os teólogos. Retrato de
ll._l 111110, rl'Jl~'1" utindo-se em danos profundos para com os fil hos, matrimon ial coloca em primeiro plano o problemà da procriação D. Catalina Suárez de Figuciroa,
,pl, 1 11 il·1 (111110s, depa uperados na herança pela presença de bas- devota esposa do marquês de
de fi lhos legítimos. Castidade e fidelidade substituem em parte o Santillana. Pormenor do re1ábulo de
111 d11 , q11n os i lcgíti mos, expostos pela incerteza do nascimento grande ideal da virgindade, mas, tal como este, a partir do momento Buitrago, de Jorge Inglês, século XV.
111 11 111 do i1H.: ·slo. As discussões acerca do comportamento a ter Madrid, Colecção Duque do Infantado.
em que se tornam um apanágio feminino, definem-se em termos
111 1,11111 11 11111111 ·r adú ltera (perdão, pun ição, repúdio e, no limite, estritamente fisiológicos e traduzem-se em práticas repressivas. Não
111,,111 l, q111• dominam a literatura canonística e penitencial do século mais destinada a Deus, mas ao marido, a custódia do corpo femi-
11 1111 d1111tll', lli1o fa zem mais do que confirmar a di sparidade de nino mantém-se, também para a mulher casada, o valor por exce-
1111 11 11lill' o odultéri o masculino e feminino e reforçar a impres- lência.
156 A s no rma s de controlo

Aux flio para a salvação Na Summa Confessorum de Tomás de Chobham (12 15) está pre-
sente uma forma singular de penitência que o confessor pode impor
às mulheres casadas: elas devem «ser pregadoras junto dos mari-
dos»; cada esposa, de facto, «no quarto de cama e enquanto abraça
o marido, deve falar-lhe docemente; se ele é cruel, impiedoso e
opressor dos pobres deve convidá-lo à misericórdia; se é rapinante
deve deprecar as suas rapinas; se é avarento deve incitá-lo à gene-
rosidade e a dar esmolas, discretamente, dos bens comuns»26 . Esta
iniciativa, à qual se reconhece uma eficácia que nenhum sacerdote
poderá jamais atingir, e que parece especialmente aconselhável para
as mulheres dos usurários, assimila a palavra feminina à palavra
mais santa e eficaz, a dos pregadores, e parece indicar para as mu-
lheres a possibilidade de uma intervenção activa e de uma missão
específica de salvação no interior do casal. Excepcional sobretudo
pela acentuação posta na palavra feminina, nonnalmente conotada
negativamente como desregrada, excessiva, culpada, a proposta de
Tomás encontra, a cerca de um século de distância, uma singular
co1Tespondência no projecto de Pedro Dubois (t1321): utilizar as
mulheres cristãs como missionárias, favorecendo-lhes, depois de
uma oportuna doutrinação, o matrimónio com os infiéis, confiando
na força de persuasão das esposas para converter os maridos27 . As
propostas de Tomás de Chobham e de Pedro Dubois representam a
interpretação mais literal do versículo de S. Paulo, segundo o qual o
marido infiel pode ~ antificado 2ela mulher fiel (/ Coríntios, 7, 14 .
- corrr menor ênfãse, de resto, pregadores e moralistãs repetiram,
durante todo o século, que a mulher pode servir de auxílio para a sal-
vação do marido, e propuseram o modelo de Santa CecOia, a mulher
que, com a persuasão, com as preces e com o exemplo, conseguiu
converter o marido infiel e perverso. Em tal contexto, a «moleza»
típica da mulher, que constituía um aspecto da sua inferioridade,
podia tornar-se, pelo contrário, o elemento de apoio para abrandar
um marido demasiado duro.
No entanto, no interior de um sistema ideológico que pretende a
mulher em tudo subordinada às directivas e às iniciativas do marido,
a possibilidade de confiar às mulheres a responsabilidade moral pela
conduta do marido não foi desenvolvida a fundo. A fi gura de Cecília
é obrigatoriamente evocada na resenha das esposas santas, mas é
logo esquecida, e a obrigação de modificar o marido não aparece
A 1111 tl hl' I' deve cuidar cio seu esposo.
A tl11 il11s111u;ilo explica ao marido os
mais, pelo menos até aos finais do século XIV, no elenco dos
1•h'ilm lwm' lkos de uma planta deveres das mulheres. Que a mulher deva ser auxiliar do marido é,
1111•1111•111111 qm· cura o ma l-es1a r do de acordo com a narrativa bíblica da criação da mulher, afirmação
1·~11'\111111111. Mli 1i111urn de De 11a111ra
11•111111 , d1• 'J'11111~s de Cantimpré repetida com insistência e nos contextos mais diversos; mas rara-
( 1 1111 '1 1 1/h'/), do códice llis1ória mente esta função de auxílio é entendida como colaboração activa
N,11111,i/ rir• S,11110 /\/l>aro Ma!i110.
p1111u-l111 1111•111d1• d11 sfr ulo XV. para fins de salvação. À mais difusa e mais e vidente interpretação
( li1111111h1, lllhll111t·rn tln U11ivcrsidadc. que vê na mulher a colaborado ra do homem com vista à reprodução
A boa esposa 157
Sobre a escolha do cônjuge a literatura
oferece apenas uma imagem teórica e
idealizada. É conhecida a impo11ância
dos «casamentos polfticos» para a alta
nobreza medieval, bem como a «razão
de Estado» que preside às núpcias de
personagens da realeza. No entanto,
os estratos inferiores da sociedade
desconhecem esta questão. O tema
da ilustração é o resgate de um
homem para a vida religiosa:
«Como Santa Maria fez com que
o clérigo que lhe tinha prometido
ca tidade deixasse a mulher e fosse
servi-la». Miniatura do Códice Rico
das Camigas de Nossa Senhora.
Cantiga CXXXJI, século XIII.
Biblioteca do Mosteiro do Escorial.

j unta-se o reconhecimento de outras form as de auxílio: baluarte


contra o pecado, desde o momento em que a disponibilidade sexual
da mulher consente em evitar os perigos da luxúria, como afi rmam
Tiago de Vitry, Roberto de Sorbon, Guilhe1m e Peraldo28 ; compa-
nhia e alívio espiritual, como reconhecem Boaventura e Conrado de
Megenberg29 ; auxílio sobretudo na gestão familiar, como sustenta
Tiago de Varazze, de acordo com a corrente de todos os comenta-
dores aristotélicos30 •
Em vez disso, é na literatura laica que a reflexão sobre as fom1as
de auxílio que a mulher deve prestar ao marido se tom a mais arti-
culada e complexa e se alarga até compreender a possibilidade de a
mulher se transformar em guia e conselheira espiritual. Francisco de
Barberino atribui à rainha não só a tarefa de assistir o esposo nas
necessidades da vida quotidiana mas também a função de o aconse-
lhar na conduta moral e nas iniciativas políticas, incitando-o à cle-
mência e velando para o preservar das intrigas da corte31• O Ménagier
de Paris, que no entanto quer a mulher totalmente submetida às
directrizes e desejos do marido, confia-lhe também a possibilidade
de o repreender com doçura e com discrição quando o seu com-
portamento se toma «louco» e injusto para com ela32 • Mas é sobretudo
nas pág inas do Livre des trois vertus, de Cristina de Pisano, que a
mulher se apresenta como sendo a mais válida conselheira do marido
e a guia espiritual para a sua salvação. Para as mulheres de qualquer
158 As no rmas de controlo

condição social, o vínculo matrimonial config ura-se primariam ente pensável para a sua concórdia e estabilidade; T iago P"" Plll 11 11 11
como compromisso em au xiliar o esposo em todos os aspectos da mulher de aspecto medíocre, justame nte a meio caminho t•111 11 11 111 1
s ua ex is tência, na vida pública e em privado, nas necessidades mate- beleza demasiado difícil de guardar e uma fealdade clcmns i111 111 1.1 11
riais e nas exigências espirituais . Às princesas, Cristina aconselha diosa de suportar37; enqua nto Gil de R om a aconselha a 's~·" ll11 1 111111
que cuidem do esposo tanto na alma qu anto n o corpo, acon selhando- mulher decididamente bela e alt11, de modoatran smitir lllll, 1111111 ,,
-o e ventualmente com doç ura e recorrendo ao confessor p ara o cor- ~~ Se us clot~s -;-aturai ~, epara que ele; r_ecebam_da...mãe 1111 111 11111 1' III•
rigir; às mulhe res da burguesia recome nda que se mos trem sempre . dos seus caracteres físicos38•
alegres com o m arido e que o ajude m a esquecer as suas preocupa- T odos parecem concordaT num pont~ a mulhe r cl ·vt• se1 111 1 1
ções; às mulheres de artesãos o u de camponeses obriga-as a contro- ou pe lo meno~ egundo ü ma- fnêlic ação de Aristóte les, p11 11 11 , 1
lar a moralidade do trabalho do marido e a ajudá-lo concretamente que sej a virgem em vez ele viúvª"--Ingenuidade e incx1w 11t 111 11 l 1
a prendendo os rudime ntos do ofício ; às mulheres dos pobres, enfi m , esposa, bem longe de serem defeitos, são garantia dt- 11 11111 ,Il 11 l1
atribui uma fu nção que pode ser apenas de conforto e de exortação dade para o futuro m arido. Ao contrário d a v iúva, qu e 1rn111, l1 11 I' 11 1
à esperança 33 . Nas indicações de C ris tin a de Pisano p arece ter-se a nova família hábitos j á consolidados, quando não Ir v 1111111 11 11 1
realizado o conselho de T omás de Chobham : a palavra feminina filhos nascidos do ante rio r casamento, tudo pote ncia is ·lt·1111 1111 1 oi,
torno u-se instrumento de uma pastoral doméstica e as mulheres tensão que ameaçam a co ncórdia conjugal, a virgem e h '!'11 11111 I"' 11
podem desenvolver, com todo o direito, a sua função auxiliadora ape nas com os rudimentos de uma escassa pedagog ia 1'111 1111111 ' I"
para a salvação dos se us m aridos. tratou, mais do que qualquer outra coisa, de preserva r o , 11 111 11 11 •
e aparece totalmente di sponível para aprender do mari do 11 11 111,11p11I, ·
que diz respeito ao seu novo estatuto de mulher casacl u.
A escolha da m ulher Preliminares ao discurso sobre as o brigações familiares são
frequenteme nte as análises dos critérios em q ue se deve fundamentar
a escolha do cônjuge. Às indicações escassas e genéricas dadas às A di c ussão acerca dos deveres recíprocos dos es po 11 1111,.,
mulhe res (procurar no marido não a r iqueza mas os bons costumes sexualidade, fidelidade , con stitui o cerne d a pastora l d" 11 111111 11 d
e a sageza) corresponde uma análise m ais ampla do problem a visto nio, e pem1ite evidenciar as dinâmicas contraditórias d · u111dil 1d 1
pelo lado m asculino . Saber escolher uma .boa mulher aparece com o -subordinação intern as ao casa l. T ais dinâmicas res ultrn11 11111il 111111
o prime iro pressuposto para se iniciar correctamente a vida matri- evidentes quando se com pleta o quadro das o brigaç cs t• q111 111 , 1
m onia l. A tarefa não é fácil; qu ase impossíve l, segundo Peraldo, se mente masculinas com uma tríade quase omnipres ' Illt' , ,11 I• 111,
O relato b íblico da c riação de Eva a · d. · ·
partir da cos te la de Adão serviu para não se conseg ue uma rntervenção 1vrna d!fecta que deve ser solici- instrução, con ecção . E streitamente ligadas umas às o utras, 1 111 11
justificar a s uposta inferio ridade tada com orações e esmolas 34; ele qualquer m odo votada ao fracasso, prerrogativas fundamentam -se na «natural» inferiori dadt· d11 1111illi1 1
fe m inina . Na, imagem, Adão.e segundo o dominicano inglês João Bromyard ("/" 1352) que reto- em relação ao marido, ao mesmo tempo que a reforçu111 ,
E1•a e fratncrdro de Ca;m, p111tur\ , . . .· . . , . .. ' ' .
sobre made ira de Ramon de Mu r . ~· m,mdo as notas ant1matnmornais de S. Jeronimo, afuma que a mulhe1, O m arido tem , acima de tudo, a o brigação de m ante r u s11 11 I'' 1 1
( 1412- 1435). V ic h, Museu E piscopa1.r / fecunda o u estéril, bonita o u feia, é sempre, em qualquer caso, fonte a q ual, excluída de qualquer relação de produção, desern p1·111i11 1 11111 ,
.~ de proble mas 35• Menos pessimistas, Filipe de Novara, Gil ge R oma, se verá, um a função doméstica de pura conservação l' 11•11 111 il,1
, Tiago de Varazzeindicam alg_uns e e mentos apropriados p-;:ra 01ientar marido todos os meios de subsistência. Mas també m c1 rn11 1111 1, 1 1
a escolha. Quase comp ~amente irrelevante~ a riqueza do dote, g_u~ ó bvia de que a mulher rece be cio cônjuge tudo aquil o dt· q111 li 111
tamanho lugar ocupa nQ_entanto na prática quotidiana, mas que deve " necessidade ass ume , na literatura pastoral, uma to na licl11d1• 11111il l 1
ser menos considerado, mesm o numa óptica laica e mundana, do tame nte moral. Abastecer a mulher não é uma pura função l'l't 1111111111 1
que o utros e m ais importantes bens ex teriores, como sejam boa na medi da em que se espera do marido q ue resta be leça · 'lllll1 1il1 11
família, cópia de am igos, boa re putação. Essenciais são os costumes ped idos da esposa de modo a que co1Tespondam a nec ss id 11d1 11 11
ho nestos, para os quais a melhor garantia é constituída pelo com- e não se coloquem , em vez disso, na esfera do vão e cio s u111 1l l11t 1
portamento da m ãe, segundo T iago de Varazze, ou então da avó, o brigação do s uste nto evoca a ssim o espectro do rJr11(1 /t1,1· 1• llll 111 1
segundo Paulo de Certalclo36. Mas os requisitos físicos também não ê nfase moral que o acompanha. A exigência de q u H t'H J1<1 11 1 I •
são para descurar: as pecto exterior e idade da mulher devem ser, vestida e adornada, de mane ira adequada à própria ·ondi t,· 111, li 1
segundo Peraldo, substancialme nte semelhantes aos do marido, para duz-se na obr igação p ara o marido de prove r às nec ·ssid11d1• q111 11
garantir aquela h omogeneidade do casal que é um elemento indis- decoro impõe, necessidades obviam ente cli ve rsi ficadus s1· q 111tl11 11
IM) /\ ~ IH11 ll1i\H d1• 1·0 11lrolo

estatuto social do casal, mas sobretudo desloca da mulher para o


marido a responsabilidade moral das escolhas também num âmbito
tão especificamente feminino. O marido que não vigia e reprime um
enfeite excessivo, soberbo, supérfluo, é culpado de alimentar a levian-
dade típica da mulher, e tanto mais culpado quanto dessa leviandade
pode ser o directo, ainda que involuntário, responsável: com frequên-
cia, observam os pregadores, as mulheres afirmam maquilhar-se e
enfeitar-se para os maridos, mas, na realidade, negligentes e desle i-
xadas entre as paredes domésticas, embelezam-se apenas unicamente
para se mostrarem em público, alimentando assim a própria vaidade
e a luxúria de quantos as observam 39•
A função pedagógica implícita no controlo do vestuário, da ma-
quilhagem e das jóias traduz-se, pelo contrário , em prática educativa
concreta naquela que é uma das mais importantes prenogativas do
marido, a instrução. Do marido, a mulher deve aprender tudo; depo-
sitário, segundo o preceito de S. Paulo, da função de guia re ligioso
[
e de inte1mediário entre a assembleia dos fiéis e a mulher condenada
ao silêncio, investido nos Da Economia de incumbências conju-
gais especificamente pedagógicas com vista à geração e educação
/ de fi lhos melhores, o espos~-mestre domina a literatura pastoral do
/ século XIII ao século XV. A mulher ele eleve ensinar em primeiro
/ lugar a economia domésti ca, pô-la em condições de administrar a
1 casa e os bens multiplicando-os com diligência, conservando-os

com cautela, gastando-os com prudência. Mas deve, sobretudo,


/ tratar da sua instrução moral e religiosa e controlar-lhe os costumes .
Que à mulher se deva ensinar tudo é o pressuposto do Ménagier
1 Paris; o tratado não é mais cio que uma minuciosa e completa
de
instrução da j ovem esposa: inicia-se pe lo capítulo sobre as obrigações
religiosas (a oração, a missa, a confissão), a larga-se sobre a moral,
enfrentando todo o sistema cios vícios e das virtudes, o problema da
escolha de companhias, as normas de comportamento nas diversas
circunstâncias, detendo-se depois, com especial amplidão, nos deveres
· . conjugais e nas incumbências de urna perfeita dona ele casa, desde o
( •11111 o cccorrer
1
d
o tempo os
!
~ cuidado do. lar até à. cozinha _
ou à jardinagem.
, .
ll'111as reli g iosos secularizam-se. \ _ ..N1uealidad..e,_aJUStr.uçao ..da...mu.lher e mais frequ_ e1i.remente ol:Jra
o 1rn1a111e1110 distanciado, sirnb~lic .\""- de controlo do que de cultura: João de Gales, Tiago de Yarazze, Gil
1· pedagógico irá sendo subsutu1do \ ~ • . . A •• • • _

jllll' l'Cpl'c.:scnlações mais naturalistas.r _de Ror11a,__Albe1to de Saxe_111s1stem na ex1gencia de uma mstr.u_ç_ ao
I '.~I VS i'n.,"Scxs do Nc'.scin!enro d<j. mora] que OSCÍla continuamente entre a atitude pedagógica da doutrÍl.'.la
Alnl'lo L'slu num mvel mtermedw. e a prática repressiva da custódia. Custodiar a mulher quer dizer
/\s l lµ11l'11s con1111 uam a manter . . . .. - - ~ _- -
dl1n,111sí!,·s hierarquizadas, de acordo precisamente que se lhe v1g1em os costumes, rodea-la de ate n_çoes
1·111 11 11 s1111 dis1inra importância_, mas repressivas que superintendam sobre a sua debilidade física e ligeireza
11111v1•111 s1· 1111m um biente quoudiano, .. ._ . . .-
1111111 1 IIN 1111 t111crc.:s nesie pormenor, q.ue moral, afasta-la de todas as ocas10es de pecado , corn glf-lhe as a t_1 - _
1• 111 11•1111111 1• r1•r ·bem. respectivamente, tudes levianas e repreensíveis_Ob1oi-g a~ão_do__marido_a.par da inst:ru ão
d· ' di . - d .. · 1 d d d ·
e a custo, a, ª con ecçaQ__JLes osa e sma ~ ver a e1ro amor e,
1111111 1'1'"111 1•111 11 ovos. Fresco de
Ai 11,i1 11 e nddl (in. l '.l% ). Prato,
( '1111•d1 1il , como tal, deve ser acette de bom grado e sem indignação. Pela
milésima vez o discurso acerca da correcção percorre o 101,ol tl 11
leviandade feminina e assinala lugares e contextos dos «pecados I l 1
mulher»: praças e mercados, onde as mulheres se perdem em 1a11 111 1·
lices inúteis, danças e espectáculos, onde a curiosidade femini11 11 1·
alia com o desejo de se mostrar. Acima de tudo campeia a obs ·ss1111
pelos enfeites, o sector mais perigoso que, sem o travão do ma, idt 11
pode conduzir uma família inteira à ruína económica e a pl'lp1111
mulher ao limiar da prostituição. Em confronto com estas c ulpus, 11
comportamento do ma.rido não deve porém ser demasiado sev ·m; 1
austeridade excessiva é, segundo Tiago de Varazze, um dos 1111d
graves defeitos dos homens e a causa de fo1tes perturbações da p 11.
familiar. A correcção da mulher «de maus costumes» repetirfi cl1•
preferência as etapas do percurso já sugerido por João Cris6sto1110:
em primeiro lugar insistir no ensinamento da lei divina, pass111
depois à censura firmando-a no sentimento tipicamente feminino dr1
vergonha, e só em última instância recoITer ao bastão, «ca tig;u1cl11
como uma serva aquela que não sabe sentir vergonha como u111 1
mulher livre»40.
A possibilidade especifica.mente masculina da punição fís i ·11 d11
mulher representa a expressão última e mais palpável do desequ iI l,1 11
que se vinha delineando no interior do casal. Cada afirmaçi o d1
princípio acerca da paridade, da unanimidade e do auxílio recíp,·01•11
dos cônjuges infringe-se de facto na real subordinação que s' l'N f11
belece entre quem tem como primeira obrigação a obediênci11 1
quem está investido na função de governar, sustentar, instruir, ·w 1,
gir. O espaço bastante limitado reservado às admoestações, únk, 1
escassa contrapartida feminina da correcção masculina, e o fa ·lo d,
se concentrar a discussão da paridade no âmbito da pura scx 1111l1
dade, indicam as linhas de um processo que, no próprio monw11l 11
A ideia de que a moda é coisa
de mulheres é antiga. Na Roma em que exalta o casal, construindo-lhe a ideologia, crava e fin ·u 11
imperial os satiristas e os moralistas princípios da desigualdade.
ridicularizavam o apego feminino
aos vestidos luxuosos. Os escritores
cristãos continuaram a mesma ideia.
No século XII surge de novo a O terceiro dever de Sara é o de amparar a família, de lnil 11 1111111
associação entre mulher e vestuário.
As damas destes frescos góticos dos portanto dos filhos e dos servos. O espaço, potencialmente basl1111f1•
séculos XIV e XV vestem trajes de amplo, que estas indicações parecem abrir para a actividade fe111 inl11 1
gala extremamente luxuosos e
e legantes. Mântua (Asti), Castelo dos no contexto doméstico é drasticamente redimensionado à lu :r. d11
Duq_u_es de Saluzzo, Salão Baronal. concepções aristotélicas, que mesmo no interior da família co lm·11111
\ no centro de cada relação a figura masculina. Trata-se de d ' 1'11111
para a mulher tarefas e funções que, sem diminuir em nada o i11d1
cutido poder do chefe da família sobre os filhos e os servos, 1rnç11111
um espaço de intervenção especificamente feminino.
No que diz respeito aos servos, a operação é bastante simples: 11
pregadores, mas também frequentemente os leigos, tendem a ·0 11111111
as tarefas da dona da casa a uma genérica obrigação de amw·, d,•
162 A s nonYHll! de con trolo

1Iuvcrá li111 i1cs h nciuaç:lo da esposa


110 An1bi10 clo111és1ico'I Quem organiza
o 1rnbnlho cios servidores adscri1os à
c11so'/ As fon1cs colocmn situações
clil't•rcrlll'S NCAL111do u sua orientação
idcoll'l11k11. Nu iluslração, uma dama
~ ~l'I vid11 pclus suas criadas.
Rt•p111 e se 1111 uma adormecida.
l'or c11us11 da sua fal ia de diligência,
o drnho, na parle superior esquerda,
r11 pi II o 111en i no adormecido.
Nn,çri111(•11/0 de San/o Eslêvão de
(ir111wller.,, século XV, obra da família
de pin1orcs Vcrgos. Barcelona, Museu
de Arte ela Catalunha.
A boa esposa .v.,

i11stru ção e de controlo moral. O empenho quotidiano da mulher Esta miniatura do século XV apresenta
co11s iste, assim, não tanto em organizar o trabalho da criadagem uma visão idealizada de um mundo
rural em louvor a Deus. O centro da
qu anto em evitar a promiscuidade de servos e criadas, vigiar os composição situa-se nas duas mulheres
11H>mcntos de v ida em comum , reprimir duramente cada acto de que combinam o mundo natural
(ovelhas) com o mundo anesanal
l11sdvia ou desregramento, salvaguardando a moralidade da família (fiação), em agradecimento final ao
l' e liminando qualquer perigo potencial para a conduta dos próprios Criador. Oficium Beatae Mariae
Virginis, século XV. Madrid,
donos da casa. Biblioteca Nacional.
Mais complexo e artic ulado é o procedimento com os filhos.
l'10criação e ed ucação da prole constituem, como se viu, um dos
hc11s do casamento e um dos e lementos ng_cleares da dignid ade /
l', tuhilidade do vínculo conjugal. Mas gerar filho s representa, ao
111t·s1110 tempo, para a mãe, a condenação pelo pecado de Eva (Géne-
, i,,, J, 16), o instrumento para resgatar esse pecado e ating ir a sal-
VI IC,'l o (/ Timóteo, 2, 15) e a forma mais natural de auxílio que Deus
d1 spCis ' 111 benefício do hqmem (Génesis, 2, 18). Obrigação prime ira
dn 11111 · cm relação à prole é portanto a de a pôr no mundo; «gerar
lllllos continuadamente e até à morte» - segundo a expressão d o
d11111111kano Nicolau de Gorran (t 1295)41 - constitui a alternativa
11•111 n rnnq ui st.a da salvação p or meio da virgindade. Não é por
1u 11~0. o bserva S. Boaventura, que o termo matrimónio indica o
, 11111111110 das runções maternas relativas aos fi lhos, em contraposi -
111, 1·t1111 o le rmo património, que alude à relação especificame nte
11111 l 11li1111 com os ben s m ateriais .
Nl'~ lt' llori t'.On te mental em que o acto de gerar é empenho con-
111111n 111:tl s do que ep isódio esporádico, não e spanta que também o
A boa esposa 165
d1 1 111so moral seja dominado pelos aspectos mais fisiológicos da 11fudiga e sofre m uito mais do que o pai, e que com absolu~a certe~a
,, 1.111·111idade: procriação, gestação, parto, aleitamento, constituem r •conhece como sua 47• A mãe, confirma S. Tomás, ama o filho mais
11 1110111 •n1os essencia is de uma atenção ao problema dos filhos que
do que o pai e compraz-se mais em amar que em ser amada48• Mas
1 , l'ol'ça por sa ir dos limites da pura naturalidade. A preocupação l'ste amor tão intenso e visceral parece também culpado aos olhos
111111 11 ·si ·rilidade, vivida como condenação e como potencial ele- dos clérigos; na medida em que o afecto não consegue sair da natu-
11w1110 d· ruptura do casal , reúne clérigos como Gilberto de Tournai rnl idade e atingir a esfera da virtude, a sua intensidade é a sua fra-
1!1 1 llm,nya rd e le igos como Francisco de Barberino43 ; o receio de queza: é amor carnal, passional, que, privilegiando os corpos, ou
p1•111r l'i lhos doentes ou deformados sustenta e reforça os interditos seja, a saúde e o bem-estar dos filhos, an-isca a perder as almas.
1 ,wuis; n obsessão da legitimidade dos nascimentos estrutura, como
/\mor misericordioso e votado ao sacrifício, que leva a mãe a sofrer
1• vi u, lodo o s istema de relações e valores familiares. Gravidez e
111ais do que o pai com a adversidade dos filhos e a gozar menos com
p111 lo, 1idos na óptica da condenação bíblica, aparecem como os os seus sucessos. mo1:,_c_omo notam os_escolásticos, de Alberto a
11111llll'lllos mais trág icos de uma vida miserável para todos, m as de Tomás e a Buridan49 , mais forte, mais_manifesto e mais constante_do Cris1ina de Pisano inscreve-se na lista
11111 ,nodo es pecial para as mulheres: Durando de Champagne, reto- q ue o paterno, mas dece1to menos nobre, 2orque_ menos raciona~. A das escri1oras medievais. Nas suas
1111111<10 as temáticas do De contemptu mundi de Inocêncio III, descreve obras traia os mesmos lemas que os
discussão acerca do amor matemo não faz mais do que repetir a homens seus conlemporâneos, se bem
111111 cor •s roscas o percurso que vai da concepção, necessariamente rnntradição no seio da qual se move a afectividade feminina e que que com um crilério muilo mais aberto
11 •11d11 «ao prurido da carne e ao ardor da libido», à gestação, per- jrt aparecera com toda a evidência no âmbito do amo~ conjugal: a
no que respei1a à ac1ividaele femin ina.
Na iluslração, um grupo ele damas
1111 buda por incómodos físicos, ânsias e apreensões pela vida quer da mãe não pode, por definição, senão amar de amor pass10nal e _n atu- entrega-se à t:onvcrsa, numa atitude
141·~111 111 ' que r do nascituro, ao parto, dominado pela experiência da 1'111, mas esta naturalidade é-lhe atirada à cara como culpa. O pai ama de cumplicidade q ue a autora pretende
drn l' p ' lo espectro ela morte44• Menos trágica é a visão de Francisco deslacar. Miniatura de La Cité
l'L'rtan'tente menos, mas com um amor intrinsecamente virtuoso, que des Dames ele Cristi na de Pisano,
d1• Burb ' rino, q ue com olhos laicos vê o periodo da gravidez e do ll'nde mais para o aperfeiçoamento da alma do que para o bem-estar século XV. Chantilly, Museu Condé.
p111 10 c;o1110 um momento de cautela meramente humana e de atenções
11111is d ' tipo médico que moral: no início da gravidez, a mulher
d1•v1·1\ ev itar «correr, saltar e fazer qualquer movimento que seja
d1•11111sindo brusco»; quando sente o movimento do feto deverá «comer
,. IH'h •r wrn temperança, viver amiga de Deus e viver a legre, pois
q111• nssiin a alma ganha gentil hábito»; deverá abster-se de relações
1•x1111is depois da concepção e depois do parto, e amamentar pes-
1111littl'l11, o recém-nascido, se quer «agradar a Deus e ao filhinho»45•
, ' 11 l'Nlt) ·s aná logas se encontram no Económico de Conrado de
M1•} l'llh •rg, para que m as precauções e atenções que se devem ter
11111 1 os filhos ainda antes de nascerem se colocam j á numa óptica
6
p11 11111111111 sli ca~ . A obrigação materna de garantir aos filhos vida e
111111 1111d \ faz recai r quase exclusivamente na figura feminina a
11 po11.~11hi Iidude cios pecados ligados à limitação dos nascimentos
(1111111 11n• pç:io, aborto, infanticídio) que aparecem frequentemente
1111 pl·1illl'llçiais e nos confessionais, mas expõe por outro lado as
11111 111111 ot1lro risco de pecado na obstinada procura da procriação
1111 d 1 1111<k· dos filhos através de sortilégios e práticas mágicas.
\ r~,· 11 n·l1u;1 o puramente fís ica com a prole, qual é o espaço
,, , , v 1d11 ) 111'11 r l ividade materna e que papel desempenha a mãe na
d111 ,1 111 dn l'ill1os'J Na lite ratura pastoral, o amor maternal, mais
d11 q111 11111 dl'v1•r, 11111 f"acto; que as mães amem os filhos é um dado
, i.h 1111 1111 nllll>Hd · todos e j ust:ificado pela relação imediatamente
11 1, 1q111 1 lit t 111 r o ,11 •I ·s: a mãe, observa Tiago de Va.razze, reen-
111111 1 1111 111111, 1111111 1n11·1• de si mesma, uma criatura para a qual se
llih A 1111111111N d1• n,ntrolo
I• pn\11 11111·11111 d11 rn,11 p111u a mu lher; tanternente preocupada com a salvação dos filhos, a rn, • 'Xl'll 1' 111111
1 p11\u 1 ~11·11111 !"'"' u 1111h11lho do função que é m ais de controlo dos comportamentos 11101111 , 1 ti 1
11111111111 11111h 11111111111 ,,. 11 cxi, 1ência
1h 1111111 ~1·v.11•v.111;11111111, nctiv idadcs
práticas religiosas que de verdadeira instrução. É sobr ·1ud11 111
1111111)1111111 11111 puru ll'udal. específica missão vigiar a conduta das filhas, que devem s •r 111111111d 1
N11 1 1111111111, f 11111 " d1scu1ívcl uma longe da frequência de companhias inadequadas e da pari inp 11. 111
\111 l11d1•1111 cltv"i\o ,cx ual no 1rabalho.
1> li , 111, 1·,·l,•,1rt,11c11s fa lam dela, em festas ou danças. Relativamente às filhas, as mães, e las p1np1111
IIIIIN li 11·11!1dmk L'ClllllÍ lllÍCa dá um sob a custódia do marido, reproduzem a mesma atitude r flH", I\ 1
li 11·11111111111 dilnc111c. Adão cavando e
1 v11 111111d11. ll111xo relevo cm pedra,
voltada para a mesma finalidade : preservar o corpo f tn i1111111 d,
"111 !11 X 11 1. 1':111s, Sainte-Chapelle. qualquer contacto que ataque o valor fundamental, a castid 1111 11
controlo da sex ualidade das filhas surge de facto como âmbito p1 I\ 1
legiado da pedagogia materna, o único do qual a mãe, ·eja ·011111 I li!
é responsável, independentemente até da sua própria mon1 lid11d1 11
mulheres más, observa Filipe de Novara, podem ser, como 111.t,
até melhores que as boas, hábeis como são em reconhecer nu s 1111111
os sinais da «lo ucura» que já experimentaram directarne nl L',J, 1\lit
quando a iniciativa pedagógica vai para além ela sim ples t' ll',11111!11
para se dotar de conteúdos propriamente educativos, já não pod1 ., 1
apanágio feminino e transfere-se decisivamente para a figuro p111t 111 1
São dois pais, o cavaleiro de La Tour Landry e o rei de Fn11u.-11 , 1 1
Luís, que se preocupam com a educação das filhas rn ull wn·,, 1111
são sobretudo os pais os responsáveis pela educação dos filhos v111 111
uma vez estes saídos da infância: Gilberto afirma com cltlll'/11 q 11t ,
educação dos filhos adolescentes compete aos pais53 e Frn11vi 111 ti,
Barberino aconselha as viúvas a confiarem a educação dos 1111, 1 ,
a qualquer cavaleiro escolhido no círculo dos amigos o u dos p111, 111,
do corpo . Por outro lado, a resposta afecti va dos filhos confirm a do marido, q ue pos a adequadamente substituir a figura pull·1111 1
estas análises: Tiago de Varazze constata q ue os fil hos amam de A __!i_m itação das_prerrogativas pedagógic!!.Síemininas. p11 ,, 111i
facto mais o pai que a mãe, reconhecendo nele o princípio activo da na literatura pastoral do sjculo XIII, e nconll~_L!__ma aut rií'od11 11111
geração e a fo nte de bens e honras que estão destinados a herdar50; l'irmação nos textos aristotélicos. A leitura da Política, que t·111111 1"
enquanto Tom ás conc lui que, de um ponto de vista ético, embora a problema dos filhos unicamen te em relação_ao _2_a i, e ai ncln 111 11 1
mãe am e mais do que o pai , os filhos são levados a amar mais o pai, Da Economia, que estabelece uma nítida divisão de trabal ho p 11 1111
do qual, na geração, receberam mais; e Bu1idan observa que, uma dois genitores (ao pai a tarefa de educar, à mãe a de alimentar), ll , 1111
vez decorrido o período da primeira infância, durante o q ua l são a uma excl usão ainda mais radical da figura .ieminina d· 1wl11 11
mais fortes as exigências naturai s, o am o r dos filhos tende por si Jm bitoeducativo. S. Tomás j ulga poder fundamentar a própl'in 11l'11
mesmo a tornar-se menos carnal e m ais raciona l e a transferir-se sidade do matrimónio na exigência de confiar a educação du p1111>
progressivamente da mãe para o pai. a uma figura rnasculina55 , enquanto todos os come nt adores d11 11,,
N um a visão exclusivamente fis iológica da maternidade , não lfro nomia reiv indicam para o pai toda a missão educati va, :1 i11d11 q111
espanta que seja bastante escasso o papel pedagógico atribuído à moral, e confirmam para a m ãe aquela função merame nt • 1\1111 1111 1
\ que a natureza visi velmente lhe atribuiu.
mãe. Os acenos a uma genérica fu nção educativa que se podem
encontrar nas páginas de Peraldo, de Humberto de R om ans, de João Até Cristina de Pi.sano parece paitilhar esta concepc,:flo pl'l,1 q11 d
de Gales assumem contornos mais exactos n os sermões de Tiago de a mãe, naturalmente inclinada a tomar para si o cuidado do:.. 1111111
Varazze ou de G ilberto de Tournai51: o dever da instrução moral e deve re n:eter ao pai toda .ª ~unção educativa; no entant o, 11<1 t1111iill11
religiosa dos filhos pode ser assumido pela mãe com a condição de \ de tal atitude natural, Cnstma consegue restabele r u111:1 s1 111 d1
q ue esta consiga controlar e temperar o amor carnal q ue por eles !'unções que acabam por reconhecer à mulhe r urna csp -rilll 1d 11 11
sente, acompanhando-o com uma atitude de temor espiritual. Cons- p •dagógica própria 56. Assim, para a princesa, a ate nçw 11m 111 111,
\
A boa esposa 169

traduz-se no controlo da acção dos mestres e aios escolhidos pelo


marido, controlo que não se limita a vigiar o comportamento moral
de quantos são designados para a educação das crianças, mas que se
q tende aos próprios conteúdos da doutrina:,.-ª._D'lãe cuidará g!!e os
fi lhos aprendam em primeiro lugar a servir a Deus,._ que estudem as
letras, o latim, as ciências; desejará que, uma vez crescidos, aprendam
a moral e a arte de viver no mundo; empenhar-se-á para que também
as raparigas aprendam a ler e vigiará pessoalmente as suas leitu ras.
Mas esta função não é limitada às mulheres da nobreza; segundo o
lugar que ocupam na hierarquia social, as mães são investidas ele
funções educativas específicas: as burguesas educarão pessoalmente
os filhos, as mulheres dos artesãos ensinarão aos seus as letras e
cuidarão que aprendam um ofício logo que seja possível , as mulheres
dos trabalhadores ocupar-se-ão preferentemente da moral , contro-
lando com atenção os seus comportamentos.

Se há um ponto sobre o qual clérigos e leigos concordam una- Col'(! rl1Clr a casa
nimemente ao construir o modelo da boa esposa é o de que a casa
representa o espaço feminino por excelência. Boa esposa é aquela
que está em casa e que da casa toma conta Fundada.sobre a autoriclacl
das Escrituras e da Patrística, e difundida desde sempre na menla-
lidade comum, esta convicção encontra um suporte válido nos textos
11ristotélicos, nos quais a atenção à casa como cél ula política e co-
11<ímica conduz a uma definição precisa do papel que nela clesemp nha
11 fi gura femini na. A contraposição de um espaço interno, fechado,
vigiado, no qual se coloca a mulher, a um espaço externo e aberto,
110 qual o homem se move livremente, toma-se precisa na con tra-
pos ição de duas actividades económicas fundamentais: a produção,
turcfa do homem, e a conservação, tipicamente feminina. A unidad
marido e mulher é também complementaridade económica, na qual
cada um dos dois desenvolve a sua natural função com vista ao bem-
estar comum; conservar e administrar quanto o homem produz,
punha, acumula, toma-se para a mulher o contributo específico para
o bom ,andamento do lar e uma forma posterior e concreta de ajuda
1•111 re lação ao marido.
A casa apresenta-se portanto como o espaço da actividade femi -
111110; activiclade de administraçâoãos bens e e regulamenta ã do~
I111bulho doméstico confiado a servosecriadas, mastambém activj- es1 Do 111atri111ónio conto ins1rumcnto para
reitar alianças entre fa111ílias à sua
dudc num trabalho desenvolvido directamente: a dona de casa fia e u1i li,rnção corno meio ele preservação
ll' l'l', trat a e li mpa a casa, ocupa-se dos animais domésticos, assume ela linhage111. O gcs10 ele entrelaçar os
- braços, nesta cena de casa111ento,
li ~ 1k v ' f 'S de hospitalidade relativamente aos amigos do marido, recorda ainda a 1radição Laica do
111!•111 de, naturalmente, cuidar dos filhos e dos servos. Desenvolve casamen10 sem intervenção sacerdotal.
t 111 Nlllll 1I um volume de trabal110 absolutamente ig-ual sustenta Gil- Miniaiura do Liher Feudorum Maior,
- , -- _ _ ' século X ll. Barcelona, Arquivo ela
l1t·1ln 11, 1 qu lc que o mariáo desenvolve no e terior para ga.riliar_.? _, - c oroa de Aragão.
A boa esposa 171

, 11s1ento. A citação da mulher forte do Provérbio 31 e a imagem da ma1ri monial, se transforme em lugar de desregramentos sexuais, de
prndente Abigail intervêm frequentemente para recordar como o fo rnicação ou, pior ainda, ele incesto. No espaço custodiado da casa,
1, nhalho duro e escondido da dona de casa exige, para ser desenvol- a esposa pode encontrar até o modo de atender aos seus dev~res
vido adeq uadamente, virtudes específicas e imponantes: sapiê nc ia, religiosos: G ilbe1to de Tournai volta a propor o modelo de Judite e
diligência, previdência e uma força que, ao contrário da m asculina, as exortações de S. Jerónimo para lembrar que as tarefas domésti-
11:10 se manifesta em gloriosas empresas g uerreiras mas antes na cas não podem absorver totalmente a m ulher, mas que, no próprio
humildade das tarefas quotidianas58• fi mbito do seu trabalho, ela pode encontrar um lugar de recolhimento
Mas a gestão da casa não é, para a mulher, uma actividade ue e de oração, podendo assim o espaço do seu quotidiano transfonnar-
e la possa realizar êin plena autonom ia; osmesmos textos aristoté lico_§_ se em espaço religioso60 .
que l'undamentam a especifi cidade do trabalho feminino rcpcten1,
qu' lambém no interior das paredes domésticas o marido continua a .
M'r o senhor, responsável pelas pessoas e proprietário dos bens. Nas O último dos deveres de Sara é o de se mostrar irrepreensível. Mostrar-se iJ'J'epreensível
p.íg inas dos comentadores, a tarefa de admini stração confiada à . Depois da longa resenha de deveres para com os sogros, o m~rido,
lll11lher inscreve-se ass im no interior da função puramente alime ntar . os filhos, os servos e a casa, acrescentar uma obrigação especial de
que, como se viu, ela desenvolve em relação aos filhos, e encontra _. irrepreensibilidade pode parecer inúti l e repetitivo, nada mais do
11111 limite intransponível na impossibilidade de tomar decisões q ue que um expediente retórico para resumir numa só palavra a gama
di gam respeito ao património. Excluída a possibilidade de estabelecer.. - completa dos comportamentos femininos examinados até aqui em
rn111ratos e de movimentar o dinheiro do marido, a aclividacle femi- pormenor. É o q ue afirma Gilberto de Tournai: a mul her que assumiu
nina reduz-se mais uma vez à gestão elo necessário à subsistência . lodos os seus deveres de esposa, de mãe e de dona de casa, é segu-
. . D 61
11 sica: alimento e roupas, enquanto a virtude essencial da economia . ramente irrepreensível mesmo aos o1110s d o JUI Z supremo, eus .
doméstica se torna precisa naquela parcimónia que, tendência natural _ Afirmar que no cuidado da casa e da família a mulher casada realiza
da mulher, segundo Oresmo 59, se casa pe1feitamente com a sua tarefa _ lotalmente a sua missão, sem mais, equivale a dizer que as tarefas
l's pcc.:ífica de conservação. domésticas não só não entram em conflito com as obrigações reli-
A casa não consti tui para a mulher apenas o espaço no qual ela giosas, mas também q ue as esgotam completamente; a boa esposa
<k'senvolve o seu trabalho; mais ainda que espaço económico e la é é, por isso mesmo, boa cristã, irrepreensível aos olhos de Deus. A
l's paço moral. Com as suas paredes e as suas portas, a casa encarna - solução de Gilberto parece ao mesmo tempo a ma is radical e a mais
l' representa fisicamente a custódia, c irc unscreve e isola o inte rior, conciliadora, na medida em que apenas pede a Deus o juízo último
preservando-o dos contactos e dos riscos que possam vir do exterior, sobre o comportamento da mulher, mas elimina em princípio qualquer
l' lugar e símbolo de estabilidade q ue exorc isa o fantasma da vagatio possível conflito entre vida familiar e vida religiosa. Peraldo e V(c~nte
l' dos perigos que esta comporta. Espaço altamente simbó lico, a de Beauvais distinguem , no e ntanto, no comportamen to fe m111mo,
11<11110 de se tornar, nas páginas de Durando de Champagne, metáfora um aspecto re ligioso - a santidade - e um aspecto moral - a
da consc iênc ia, mas também da Igreja, do Paraíso ou do Inferno, a pudicícia-, mas acabam por falar exclusivam ente desta, deixando
rn~u evoca irnediatmnente o campo metafórico da segurança e da entender que modéstia no trajar e nos gestos, controlo das palavras,
v11lude l'cm inil. Estar em casa, para a mulher casada como para a simplicidade, humildade, vergonh a e sobriedade, as virtudes que
virgem, quer d izer estar ao a brigo dos perigos, mas também mani- tornam a esposa irrepreensível aos olhos dos homens, são em con-
62
ll•star aq ue las viI1udes mais aptas para tranquilizar o marido: fide- c lusão as mesmas atitudes que a tornam santa aos olhos de Deus •
lidade, continência, pudicícia, vergonha. Ao mesmo tempo, para a Tiago de Yarazze julga irrepreensível aquela esposa que «não
11111llwr casada a casa é também um espaço a custodiar; a esposa, tem mancha alguma, nem na vida, nem na fama, nem na consciên-
111, qrnz de se gerir e necessitada de custódia e de orientação moral c ia»63; o comportamento quotidiano da esposa encontra-se assit?
d11 11111rido, to rna-se, quase contraditoriamente, a responsável pelo submeti do ao critério de avaliação de um d uplo juízo: o juízo reli-
, 11111por1amento de toda a família. Protegida pelas paredes domésticas, gioso, confiado à consciência da mulher que, revendo-se nos ensina-
1•!11 d,•ve salvaguardar-lhe de todos os modos a moralidade, mode- mentos das Escri turas e nos exemplos das santas, pode emendar as
11111d11 a intemperança do cônjuge e controlando os costumes de próprias c ulpas, e o j uízo profano, remetido às vozes e ao fal~tó:io
1tlho-. ,. servos. Somente a atenta obra de v ig il ânc ia da mulher pode das pessoas, àquela fama que, com razão ou sem ela, constitui a
111qll'dir que a casa, lugar por excelênci a da legítima sexualidade ca ixa de ressonânc ia de vícios e virtudes femininas. Espelho da
A boa esposa 173

mulher, e da esposa em particular, a boa fama, como a literatura tante Summa Theologica dedica uma ampla secção, q ue circulará
laica sublinhou mais vezes, constitui o único verdadeiro ornamento igualmente em separado, aos problemas do casal e da família. Em
wm que ela se exibe na sociedade, o seu principal «dote», capaz até 1450, um franciscano, Querubim de Espoleto, compõe a Regala de/la
de modificar o destino social, o «perfume» que constantemente a vita matrimonia/e; pelos anos setenta, João o Cartuxo escreve para
acompanha. Mostrar-se irrepreensível quer di zer, para a mulher as mulheres casadas a Gloria mulierum, enquanto o seu irmão D inis
casada, não só comportar-se honestamente, mas também evitar enfrenta mais vezes os problemas do matrimónio no dec urso da sua
qualquer possível insinuação ou boato sobre si, algo que, verdadeiro vasta produção e dedica ao tema um tratado específico, o De laudabili
ou falso, mancharia a sua imagem e a de toda a famíl ia. Por outro vita coniugatorum. A esta literatura q ue usa, e não por acaso, a
lado não escapa a Tiago de Varazze que o juízo sobre o comporta- língua vulgar mais que o latim quando se dirige directamente à
mento da mulher é, em última análi se, confiado à sua própria cons- mulheres, junta-se a obra do mais importante pregador quatrocen-
c iência, lugar no qual se concentra uma religiosidade m ais íntima e tista, S. Bernardino de Siena, que ao matrimónio e à família dedi ca
sentida: a fama e a consciência encaixam -se, nas páginas de Tiaoo, longos e importantes sem1ões.
num hábHjogo de espelhos q ue faz devol ver continua mente o p;o- Mas o interesse pela famíl ia não nasce apenas na Literatura re li-
hlcma da Irrepreensibilidade da esposa do interior da alma para o giosa: a vasta produção de memórias ou livros de família, nos quais
exterior da imagem pública. Construído com base no pressuposto m uitos mercadores, sobretudo toscanos, anotavam com especial
de que o juízo de Deus e o juízo dos homens em última análise se minúcia todos os acontecimentos que se relacionavam com o núcleo
correspondem, o modelo proposto por Tiago re presenta, na forma doméstico (nascimentos, mortes, casamentos, mas também negó-
n~ais rc'.i~ada, a tentati va de encontrar aquele equilíbrio entre exigên- cios, débitos, créd itos, reveses económicos), pode testemunhar a
c ias ~·e bg1?sas e deveres familiares que é comum a toda a ideologia nova atenção com que também os leigos olhavam a célula familiar64.
matnmomal do sécul o XIII, equilíbrio destinado a romper-se no Atenção que a nível teórico encontra um vasto eco na produção
momento em que um novo e mais forte interesse pela família ou a humanísti ca: no âmbito de um debate renovado acerca da compati-
re ivindicação de um espaço mais amplo para a experiência reli- bilidade do casamento com a actividade intelectual, Francisco Bár- Juntamente com a Virgem Maria,
as mulheres bíblicas e as santas e
~iosa i_nvestem a fi g ura feminina de responsabilidades e expecta- baro escreve em 14 16 o De re uxoria; João Campano regressa ao mártires dos primeiros séculos do
1,vas divergentes e potencialme nte conflituosas. tem a com o De dignitate matrimon.ii (1460); entre 1431 e 1438, cristianismo serão utilizadas como
Mateus Palmieri escreve a Vita civile, nos mesmos anos em que espelho das esposas. Na ilustração,
Sara veslindo Jacob, fresco de
Leão Baptista Alberti compõe o mais importante e afortunado tratado Bembo Bonifácio, século XV.
/\. mulher e a família no século XV sobre o tema, l libri della.famiglia; em 1468, António Ivani dedica Cremona, Museu Cívico.
à mulher casada um breve opúsculo, Dei governo della .famiglia
Em 1403, o dominicano João Domini ci escreve para Bartolomeia civile65 • Nesta renovada atenção à família insere-se também um filão
d ·g li Alberti a Rego/a dei governo di cura.fami!iare. Bartolomeia , ma is especificamente pedagógico, representado pelas obras de Ver-
duas vezes casada mas forçada a viver separada do marid o, banido gerio, de Bruni e de Vegio.
de Florença, e p011anto investida directamente dos deveres familiares Produzida por homens e quase sempre dirig ida a outros homens,
tinha solicitado ao frade conselhos e amparo espiritual; mas a Reio!; a literatura humanística é directamente influenciada pelos motivos
supera a simples ocasionalidade para propor um modelo de vida da tradição aristotélica, da qual tira os elementos de uma concepção
1Hllli I iar potencialmente universal. O tratado de Dominici, que coloca laica df! família: o elogio do matrimónio, a definição das funções
11 l'nmília no centro da pastora l feminina, utili zando o term o na sua dos cônj uges, a atenção à casa e aos filhos movem-se quase sempre
nn· p<_;ão moderna, inaug ura uma moda destinada a grande êxito; em fora da óptica religiosa; referências e exemplos que saem da tradição
1t11~> _0 sécul,o XV; ~a Itá~ a e e_m especial na Toscana, as problemáti- clássica substituem a autoridade das Escrituras e da Patrística; as
, 11 s 11gaclas a fam1 li a serao o b.1ecto ele um grande interesse. Na linha esposas fiéis e púdicas do mundo greco-latino (Penélope, Alceste,
«11• Dominici muitos religiosos escreverão manuais de vida familiar Andróm aca, L ucrécia) tomam o lugar das santas mulheres da tradição
1ll'll'''.'nl emente dedicados às mulheres o u nos quais, de qual que; hebraico-cristã. Relativamente à figura feminina construída pelos
1111111\' lla, as mu lheres podem encontrar oportunas regras de compor- h umanistas, certamente q ue a literatura religiosa se mantém mais fiel
1111111•1110 doméstico e conselhos de vida espiritual. Santo Antonino, ao modelo elaborado no século XIII: a doutrin a matrimonial retoma
111, ,· hispo ele F lorença e discípulo de Dominici, escreve em 1450 a e desenvolve os motivos formulados naquele contexto ideológico;
'1,,, 1,111 he11 1·iFere para Dianora Tornabuoni, mas também na impor- os papéis da mulher relativamente ao marido, aos filhos e à casa
A boa esp osa 175

11 1111 \ l' am, topoi trad ic iona is; a imagem de Sara, mesmo q uando
11111 l l'vocada d irectamente,' constitui ainda assim um ponto de
1 11 H l ll IH fac ilmente identificável nas análises de Antonino, de
llc 111,11 di 110, de Dinis, de· Querubim . Falta saber se, para lá da diferente
l111,. 11 ,1gl'lll uti lizada e da fácil oposição entre o modelo laico e o
111111 11•10 re lig ioso , o inte resse extrao rdin ári o de Quatrocentos pelas
p111 hk 111:íti cas fa miliares terá realmente modificado a imagem femi-
111 1111. l11díc ios úteis para se verificar a m anutenção do modelo ducen-
11 111 pod ' 111 ser as análises de dois pontos partic ulares, mas de modo
1!1}•11111 marg inais : o papel do m arido na vida da mulher casada e a
111111,·110 pedagógica da m ãe re lativamente aos filhos.

/\ fi gura do marido mantém-se em toda esta tratadística com o


1,., 111a ce ntral ; a obrigação de a esposa manifestar ao marido reve-
1111l'i11. afccto e sobre tudo obediência não é contestada, nem sequer
,1t1·1111 :1da, qu er pe los escritores re lig iosos quer p elos escritores laicos .
111•!0 contrári o , os humanistas, voltando a propor de uma manei ra
111•1 o mode lo aristoté lico cio don o da casa com o cen tro de todas as
11•l11c,'1l ·s familiares, acentuam posteriormente o seu peso n o in teri or
cl11 lumília e insistem n a exigência de uma su bordinação abso luta As fig uras da ilustração formam pan e
cl11 1·s posa. Empe nhado na admin istração da casa e cios negócios, de uma represen tação da Nati1•idade
11 11 1111 ido deve encontrar na esposa uma válida colaboradora para da Virgem em que intervêm dez
mulheres para além de Maria
,dt 1111\·ar um bem-estar todo mundano; a ela pedirá so bretudo para menina. Uma serva, ao fundo,
111 q wluar a lin hagem , pondo no mu ndo um número con iderável ele atende a panurienle. As três
mulheres do primeiro plano,
11ll1os legítimos. fo1tes, saudáveis, belos e masculinos; a ela pedirá, monumentais, estabelecem a linha
111,1, sü de po is de uma instrução minuc iosa, a gestão domé stica quo- de atenção para com a recém-nascida.
t 1d11111 a; ao seu comportamento in-epreensível e à sua boa reputação A expressividade está cencrada nas
mãos e nos rostos estereotipados.
1111il iurá a tute la da honorabilidade da família ; reservará, pe lo con- U ma elegância estécica subcil
1111 iio, pnra s i a gestão dos assuntos mais importantes, devidamente complementa a ac mosfera de alcova
de m ulher pacrícia. A sensualidade
11-r 1stados cm esc ritos qu e deve m mante r-se secretos , e assumirá femini na amarra o autor.. . e o
1n111l111cntc o c uidado da educação dos filhos. Dono, guia e mestre da espectador. Pormenor ele um
e , posa, o ma rido «humanista» é um a figura obsessivame nte presente fresco atribuído a Paulo Uccllo
( 1396n-1477). Prato, atcdral,
1 domi nante, que encara o casam ento com a mesma prudência com Capela da Anunciação.
q111· Sl' conc lui um bom negócio, e a e sposa constituirá o e lemento 1

lll i l l\ prec ioso do patrimó ni o. presença, tem-se a impressão de que, pelo menos para a lguns destes
/\ presença do marid o na literatura religiosa é igualmente consi- escritores, alguma coisa mudou e que o marido se tornou ta lvez mais
1k111 w l; d issipada em parte a ênfase sobre a un animidade dos esposos, embaraçoso m as m enos im portante. A Rego/a de Domi nic i, div id ida
11 t ~nitorcs de Q uatrocentos insistem ainda mais do que no passado e m quatro partes (alma, corpo, bens, fil hos), não dedi ca ao ma rido
1111 ckw r de submissão da mulhe r ao marido: B ernardino , Querubim , um capítulo específico, atribu indo-lhe porém um pape l fundamental
l >1111 ,, l'alam d os deveres femininos cm te1mos de temor e ele serviço na segunda parte do tratado: o marido é dono do corpo da m ulher e ,
1 11hl111 ham a necessidade de uma obediência absoluta 66 , que se não apesar da reciprocidade do dever conj ugal, e le pode ostentar direi tos
eh h 11 h11 scqu cr pe rante a proibição das práticas religi osas 67 , encon- m aiores do que aq ue les que a m ulher pode ostentar sobre o c orpo do
11 11111n 11111 único li mi te, unanimemente reconhecido, na imposição marido . A Gloria mu!ierum de João o Cartuxo conclui com a mesma
d, 1, li1\'tlL's sexuais antinaturais. T odavia, apesar desta o bsessiva
.
nítida pai1ição: a al ma da m ulher pertence a D e us, o corpo ao m ai·ido .
A boa esposa .i 17

E portanto a alma feminina que parece, porventura pela primeira A inic iativa pedagógica materna
ganha força nos textos. Ainda que se
\ 1 1 , fu g ir ao domínio e ao controlo do marido. Tem-se a impressão mantenha o predomínio paterno na
d1• qu '. apesa r da insistência no tema do auxílio e do amor recíproco educação da prole atenuam-se as
limitações da Baixa Idade Média ao
dos l' njuges, se abriu uma fractura na utopia da concórdia conjugal labor educativo da mãe. A m ulher
qt1l' o século XIII tinha exaltado. Os estudos de Genevieve Hase- da ilustração parece plenamente
11ohr''" demonstraram como o evoluir de uma religiosidade feminina en1rcgue à «ditadura» de seus filhos.
Pormenor de uma pintura de
11111is intensa e o emergir da figura do director espiritual haviam, de Domcnico di Bartolo (1400-1455).
dp urn modo, subtraído ao marido aquela função de mediador até Sicna, l lospilal de Santa Maria della
Scala, Sala dos Peregrinos.
111l•s1110 relig ioso que durante tanto tempo exercera em relação à
11111llwr. É certo que alg uns destes escritores insistem ainda na obri-
t 11,·uo de o marido fornecer à esposa uma educação também religiosa,
111ns, de qualquer modo, abriu-se um problema que a ideologia
111111 rimonial do século XIII parecia ter resolvido definitivamente, o
do conc iliação entre vida conjugal e vida espiritual. A exigência de
Sl' ·riar um espaço mais amplo para a contemplação e para a oração
111111b m na vida mat1imonial, e de se encontrar para esta necessidade
d1· espiritualidade outros interlocutores que não o marido, coloca,
porlanlo, o problema de conciliar práticas religiosas e obrigações
l11111iliares : Bernardino, Antonino, João Dominici oscilam entre a
1•xigência de colocar no centro da vida feminina o cuidado da famí-
lia e a tentação de abrir novos espaços à religiosidade da mulher,
011 seja, de lhe confiar directamente aquela função de intermediário
1l'lig ioso q ue foi do homem em tempos. A admoe tação e a esmola
podem tornar-se os instrumentos essenciais desta função: graças à
p1 i111c ira, agora sistematicamente presente entre os deveres femini-
11os, a mu lher pode desenvolver uma prudente e discreta obra de
rn11trolo da moralidade do esposo, enquanto a segunda pode suprir
o escasso empenho religioso e caritativo deste, garantindo-lhe indirec-
111111cnte a salvação eterna. reabrir a questão da sexualidade. O problema, que a literatura
Pelo contrário, as tarefas domésticas são vividas como obstáculos humanística nunca enfrenta directamente, não passando nunca de
110 ·umin ho da santidade, obrigações às quais não é possível subtrair- um genérico preconceito negativo e de umas quantas e igualmente
Sl' mas nas quais a mulher não pode encontrar a sua verdadeira genéricas exortações à moderação, produz, em vez disso, em alguns
ll'll li,.ação e em que não é portanto estimulada a deter-se mais do escritores religiosos como Antonino, Querubim ou Bernardino inte r-
q lll' o necessário: Antonino exorta Dianora a despachar rapidamente mináveis análises, recheadas de inúmeras distinções. Só uma casuís-
os d ·veres domésticos e a dedicar ao trabalho manual apenas curtos tica minuciosa e obsessiva pode possibilitar à mulher a resolução do
1111nva los de uma vida de oração69 ; João o Cartuxo coloca a relação conflito quotidiano entre o dever de obediência absoluta ao marido,
rn111 o marido, com os filhos, com a casa sob a égide da pac iência, dono do corpo, e o caminho da purificação e do aperfeiçoamento
Jo l'S l'orço, da resignação70 ; Dorninici recorda que também o corpo que a Igreja propõe à sua alma. À mulher, c aracterizada generica-
l1•)11i11ino não é apenas pertença do marido, ou dos filhos, aos quais mente nesta literatura como elemento passivo, apenas com a possi-
1 11111111 •r deve dedicar cuidados e afecto, mas também de Deus e da bilidade de travar as iniciativas sexuais do marido, pode então ser
11 lr1111, o ~uja vontade deve dobrar-se e a cujas ex igências deve subor- proposto um novo tipo de castidade matrimonial, aquela que tende,
d11111· por vezes até os deveres familiares 7 1• com a persuasão ou mesmo com o subterfúgio, a reduzir e no limite
No i111crior deste conflito, que não coloca apenas o problema de a abolir toda a actividade sexual, e que encontra os seus modelos na
111111 rnnc iliação prática das competências fem ininas, mas repensa Virgem Maria ou em Santa Isabel da Hungria72• Com esta solução
11 p11wl 1· o sentido da escolha matrimonial, não pode de ixar de se radical o velho problema das relações virgindade-matrimónio regressa
A boa esp osa 179
1h ,llgum modo ao ponto de partida: a vida de santidade passa, para
1 111ulher, pela renúncia a toda a actividade sexual.

/ /1,,,, Subtra ir em parte a espiritualidade feminina ao controlo do marido


quer di zer também , pelo menos em princípio, abrir novos espaços à
1111l'ialiva pedagógica materna. É na relação m ãe-filh os que a trata-
d1slica q uatrocentista aparece mais vistosamente dividida a partir da
dist:rim inação religiosa. Sem nunca colocar decididame nte em crise
o pressu posto de que o .pai continua a ser, de qualquer maneira, o
p1int:ipal protagonista da obra edu cativa, alguns escritores religiosos
o lham as funções maternas em termos menos redutores. A esfera da
l'ducação moral e o controlo do comportamento sobretudo das rapa- Um longo processo decorrerá até
1igas, tradicional apanágio das mães, alarga-se progressivamente e que na sociedade ocidenial se
institucionalize o con1ra10 mairimonial.
udquire conteúdos m ais concretos. João o Cartuxo empenha as mães A ilustração encerra ironicamente o
1111111a obra quotidiana de correcção dos filhos 73 ; Bernardino quer que capítulo. A personagem que fa7 a
11s mães não só prestem uma atenção constante ao comportamento entrega da mulhe r segura a bolsa,
símbolo do dote, enq uanto q ue com
d11s ri lhas, ma ntendo-as sempre ocupadas e castigando-as se as v irem um gesto sig nificativo aproxima a
111 l'quielas e frívolas, mas se encarreguem também da primeira instru- mão da jovem à do noivo, que nesse
momento lhe põe o anel, dádiva q ue
,·110 re lig iosa da prole, ensinando as orações fundamentais e repri- sela o pacto. Pormenor de uma pintu ra
111indo os pecados domésticos, bl asfémias , mentiras, pragas74 . D0mi- de Domenico d i B artolo (1400-1455).
111t'i traça para Bartolomeia as linhas de um percurso pedagógico que, Siena, Hospital de Santa Maria della
Scala, Sala dos Peregrinos.
111odc lado nas exortações de S . Jerónimo, faz da mãe a responsável
1111 Íl'a da educação reli giosa dos filhos; sem sair do espaço d oméstico, são o único momento em que a mãe intervém na formação da criança,
111t1s «quase faze ndo da casa templo», a mãe deverá moldar a alma para a rodear com o seu afecto e os seus cuidados e sobretudo para
dos fi lhos, levand o-os, como num j ogo, às práticas religiosas, repri- desempenhar a sua missão específica, o aleitamento. A enorme dis-
111 111do com uma mescla de doçura e rigor as s uas faltas e transfor- c ussão sobre o problem a do leite materno - que arrasta também
111i111do-os grad ualmente em pequenos ministros do culto doméstico75 • alguns escritores religiosos - responsabiliza as mães naquela que é
Q ue o campo da relig ião e da moral se destina especialmente à a sua única função «educativa» relativamente à sua prole, a alimen-
111111h 'r é opinião também partilhada por a lg uns expoentes da peda- tação; a mãe que não amamenta, vista como uma espécie de monstro
po •ia humanística: Leonardo Bruni, que escreve precisamente para da natureza, é acusada de egoísmo, de insensibilidade e de crneldade;
1111111 mulher excepcionalmente culta, Baptista Malatesta, o seu enq uanto a necessidade de suprir as carências maternas com o leite
I >,· .1·/11(/iis et lilleris, traça um itinerári o pedagógico que, embora mercenário de uma ama transfere novamente para o pai a re pon-
IIH' lui ndo Lambém os escritores c lássicos, finaliza sempre com uma sabi lidade das decisões respeitantes à vida da prole. Com a escolha
1 dm·ui.:, o moral e re ligiosa. da ama, ,determinada não só por cri té,ios médicos e de higiene mas
M11111ém-se, todavia , que na formação humanística ideal, voltada também por exigências morais, o pai inaugura aquela obra de edu-
p 1111 11 vida c ivil e para os studia humanitatis, a mulher, mesmo no cação que levará a termo sem posteriores intervenções fe mi ninas.
11111110 da fa mília, pouco tem para ensinar; a centralidade do problema Só um humanista fortemente imbuído de e spírito religioso como
d11 1ilhos na lratadística fam iliar não faz senão enfatizar o papel do Maffeo Vegio pode reivindicar para as mães um espaço mais amplo
p 11 , n•k gundo de maneira drástica a mãe para as suas fun ções pura- na educação dos filhos: o espaço trad icionalmente reservado à edu-
1111 111< 1w1ura is. É o pai a tomar conta dos filhos, quer antes da con- cação das raparigas - geralmente por completo neg ligenciado nos
11 p~ to, l'St:olhendo uma mulher robusta, apta para os gerar e bem tratados humanísticos - mas também a possibilidade de interven-
1 d111 11tl11, q uer durante a gravidez, vigiando a boa saúde e o estado de ção pedagógica relativamente aos rapazes 76. Nas filhas , as mães
11111 111d11 gl'Slunte de modo a que nada a venha perturbar em momento apontarão sobretudo para o desenvolvimento do pudor, dote indis-
1 111 i111p111 111111c para a saúde do nascituro. Os primeiros anos de vida pensável em vista do destino matrimonial das meninas, mas também
A boa esposa 181

para outras qualidades apreciáveis pelo futuro marido: mansidão, A mulher injuriada ou ofendida deve
dar mostra da sua dor por meio ele
prudência, engenho, constância, sobriedade, modéstia, diligência; uma sé rie ele gestos ri tuais, como
dos rapazes vigiarão a conduta moral e religiosa valendo-se do arrojar a touca, arrancar os cabelos,
lacerar o roslo, numa palavra,
único instrumento à sua disposição, a admoestação, feita directa- mal1ra1ar os atributos que. lhe
mente ou por meio de pessoa de confiança. Modelo desta dupl a acarrc1aram a desonra. A ilustração
tarefa pedagógica é Mónica, a santa mãe de Santo Agostinho, encar- re presenta o suicídio da rainha Dido,
segundo uma miniatura do manuscrito
nação de todas as virtudes maternas e exemplo de comportamento C(Wigos y docume111os dei Rey Don
para ambos os genitores . O empenho de Mónica na conversão do Sanc!to (e. 1420- 1430). Madrid,
filho garante, pelo seu sucesso final, a possibilidade de esperança Biblio1c.:ca Nac ional.
mesmo nos casos mais desesperados, mas denuncia talvez através
dos instrumentos utilizados, orações e lágrimas, a debilidade estrutura 1
da intervenção feminina no interior da família.
No momento em que a família assume uma posição de primeiro
plano na cultura e na ideologia quatrocentista, a mulher, que nela
encontrou sempre a sua natural colocação, vê na realidade enfraquecer
a consideração pelo seu papel, enquanto a esfera religiosa se confirma
uma vez mais como âmbito único no qual, pelo menos a nível teó-
rico, se abrem novos espaços para a iniciativa feminina . A di scussão
sobre a existência de um Renascimento feminino, aberta pelo artigo
já clássico de Joan Kel ly 77 , trouxe para a luz o modo como no decurso
da Idade Média se assistiu a uma progressiva perda de estatuto, de
poder e de «visibilidade» por parte das mulheres; a hipótese de
David Herlihy78, segundo o qual só se pode falar de um Renascimento
feminino pelo facto de ter emergido um carisma espiritual repre-
sentado por figuras como Catarina de Siena, Margery Kempe, Juliana
de Norwich, Catarina de Génova, pode encontrar uma confirmação
no único elemento de novidade efectiva que emerge também ela tra-
tadística do século XV sobre a família: a descoberta da alma feminina.

[Traduzido do italiano por Egito Gonçalvesl

Notas
1. Roben o de Sorbon, De matrimo11io, in J.-B. Hauréau, Notices et extraitsde quelques
ma11uscrits latins de la Bibliotheque Narionale, Paris, Klincksieck, 1890, ! , p. 200.
2. Os tex1os utilizad os são em grande pane os mesmos que se c itam no capítulo ante-
rior; portanto faz-se referência às ed ições ali assinaladas. Para os Sermões de Gilberto de
Tournai Ad coniugatas, que empregam todos o modelo de Sara, a edição citada até agora
só contém o terceiro, ff. 140v.a.- 142r.b.; para os outros dois sermões faz-se referência ao
Ms. Milano Ambr. F. 57 sup., ff. 171 r.b.- 174r.a.; Tiago de Varazze, D om. /l post f est. Trin.
Sermo li, in Sermones de tempore cit. , ff. 78v.a.-79r.a. ; G. Peraldo, lJe erudirione cit. , pp.
463-64; Vicente ele Beauvais, De eruditione c it. , pp. 197-206; Paulino Mcnorita (t 1344),
Trattaro de regimine rectoris, ed. A. Mussafia , Viena-F lorença, 1868, pp. 73-74.
3. Durando de Champagne, Spec11l11111 dominarum cit., ff. l 32r. e 180v.
4. G. Duby, Le cheva/ier, lafemme et le prêtre: /e mariage dons la Prance f éodale,
Paris, Hache11e, 1982.
5. Ph. Delhaye, «Le dossier anti-malrimonial ele l' Ad versus Jovinianum e1 son
influence sur quelques écrits latins du XJI< siecle», in Medieval Studies, X III ( 1951), pp.
65 -86.
A boa esp osa 183

r, l 11111usco Ximenes , Lo libre de les do11es cit., I, pp. 11 7-44; Dinis o Cartuxo, De 45. Franc isco de Barbciino, Reggi111e1110, c it., pp. 225, 227, 230.
11 l,11• 1·11,1 1·rmi11x . c il., p. 70; Que rubim de Siena (de Espoleto), Rego/e dei/a vira 46. Conrado de Megenberg, Yco110111ica, cit., pp. 73-78.
,r11,,,,.,,111t,•, Bo lonha, 1888, pp. 28-32. 47. Tiago de Varaz ze, Chro11ica, cit., pp. 205-6.
1 l1lhl·110 ele Tournai, Ad co11i11garas. Sermo 1, in Sermo11es, cit., Ms., ff. 171 v.a.- 48. Tomás de Aquino, Se111. /ibri Erhicorum, cit., p. 469.
l/ '1 li
49. Alberto Magno, Super Erhica , c it., p. 665; Tomás de Aquino, Summa T/Jeologica,
H 1111)!11 d ' Vurazze, Dom. li posr fest . Trin. Sermo li, in Sermones, cit. , f. 78v.a. 11, li, q . 26, a.10; J. Buridan, Quaestiones in libras Ethicorum, cit., pp. 757-60.
•J Nln1l1111 Oresmo, Le livre de Yconomique d' Arisrore, ed. A. D. Menut, in Tra11- 50. Tiago de Varazze, Dom. XVI posrfest. Trin. Sermo Ili, in Sermones, cit. , f. l l 4 r. a.
'" 1111111 "' tlw /\111erica11 P/rilosophical Society. XLV ][ ( 1957), p. 844.
5 1. Tiago de Varazze, Dom . i1?{ra ocr. Epiph. Sermo I, in Sermones, c it., f. l2v. b.;
1(1 l l11111bc rto de Romans , ln so/emnibus conviviis nuptiarum, in De eruditione, cit., G ilberto de Tournai , Ad coniugaras. Sermo Ili , in Sermones, cit., f. l40 v.a.
52. Filipe de Nov<U·a, Les quarre âges, cit., p. 20.
l'I' ~ 111 10.
l l /\ lhl' l 10 ele Saxe, Expositio librorum Economicorum, ed. V. Beltrán de Heredia, 53. Gi lbe1to de Toumai, Ad ado/esce111es. Sermo I, in Sermones, cit. , f. l 79v.a.
111 l ,1 t 1,•11('/r1 to111i,1·ta , XL Vl ( 1932), pp. 327-28. 54. Franc isco de Barberino, Reggimento, c it., p . 133.
1' ( '11~1i11a ele Pis,1110, Le Trésor, cit., ff. 15r.-17r. 55. Tomás de Aquino, Exposirio in 011111es S. Pauli Epistolas, in Opera Omnia, XIII,
1 1 <111111:rlo de Tournai, Ad coniugaras. Sermo ll, in Sermones, e it., Ms., ff. 173v.a.- Parma, Fiaecadori, 1862, p. 201.
56. Cristina de Pisano, Le Trésor, cit., ff. 30r.-32r., lOOv., 120r.v., 128v.
l /lv h
11 ( i. l'crn ldo, S11111ma, ff. 70va.-7 lrb. 57. G ilberto de To urna i, Ad coniugaras. Sermo Ili, in Ser111011es, cit. f. 141 v.b.
1 l 1111.\0 d1: Varazze, Chro11ica, pp. 195-98. 58. Ptolomeu de Luca (t 1326-27), De regimi11e p ri11cipu111 ad regem Cypri, in
1r, C1i lhc 110 de Tournai, /\d co11iugatas. Sermo li, in Sermones, Ms., f. l 74rb. S. Tomás de Aquino Opera Om11ia, XVI, Panna, Ficcadori, 1864, p . 275.
11 /\Ih •110 Mag no, Super Erhica, ed. W. Kübel, in Opera Omnia, XIV, 2, Münster, 59. N. Orcsmo, Le livre de Yconomique, cit., p. 827.
l 1JH/, p. r, Ili: Tomás de Aquino, Se111e11ria libri Erhicorum, in Opera Omnia iussu Leo11is 60. G ilberto de Tourna i, Ad coniugaras. Ser1110 Ili, in Sermones, cit., f. 142r.a.
\Ili ,•tflft1, XI.V II , 2 , Roma, S. Sabina, 1969, p. 489. 6 1. Ibidem. f. 142r.a .-b.
1H. lo o fluridan, Quaesriones in decem libras Er/ricorum Arisrotelis ad Nicomachum, 62. G. P eraldo, De erudirione, cit., p. 464; Vicente de Beauvais, De erudirione, cit.,
11 lcucl , 11. ('ripps, 1637, p. 762.
pp. 203-6.
111 ( '1i~1i11a de Pisano, Le Trésor, cit. , ff. 26v.-27r. 63. Tiago de Varazze, Dom. II posr fesr. Trin. Sermo li, in Sermones, cit., f. 78v.b.
'O / 1• Mé11axicr c it., 1, pp. 96- 168. 64. Cfr. Ph . .J. Jones, « F lo re ntine Families anel Florentine Diaries in the Fou11eenth
11 '1'1111!<> de V itry, Ad coniugatos. Sermo li, in Sermones, c it., f. 137v.b. Century», in S1udies i11 Ira/ian Medieval Hisrory, o rg. E. M. Jamison, Roma, 1956, pp.
<lllhc rlo de Tuurnai , De decem praecepris Decalogi. Sermo li, in Sermo11es, cit., 183-205; F. Pezzarossa, «La memorialistica fiorentina tra Med ioevo e Rinascimento .
1 Rassegna di studi e testi », in Lellere ira/iane, 1979, pp. 96- 138.
' 11v 11 11.
1) l'i11110 dc Varazze, Dom. XX posrfesr. Trin. Sermo II, in Sermones, cit., f. 123v.b. 65. Francisco Bá rbaro, De re uxoria /iber, ed. A. Gnesotto, in Alli e mem. dei/a R.
1 1 <ili de Roma, De regimine, cit. , pp. 248-49. Accademia di Se. Lell. e Arti in Padova, n. s., XXXII, 1915-l 6, pp. 6- 105; João Campano,
·~ 1'0111tls de Aq ui no, Swnma contra Ge111iles, lll, 123; A lberto de Saxe, Exposirio De dignitate matri111011ii, in Opera Omnia, Ro ma, por Eucharium Si lber, 1495, rep. anast.
/1/•1 ,,, 11111 Fr·r1110111icm·11111 c it., p. 323; N. Oresmo, Le livre de Yconomique cit. , p. 837; J. Ha in, Me isenheim, 1969; Mateus Palmieri, Vira civi/e, ed. G . Belloni, F lorença, Sansoni ,
111111<11111, (}111tr•.1·1io11es i11 oc/o /ibros Polilicorum Arisrotelis, Oxford, 1640, p. 85. l 982; Leão Baptista Alberti, I libri dei/a famiglia, org. R. Romano e A. Tenenti, Turim,
•r, l'o mrt, ele C hobham , Sw11111a confessorum, ed. F. Broornfield, Lovaina-Paiis, Ei nandi, 1969; António lvani, Dei governo dei/a famiglia civile, Génova, 1872.
N11tll\'1· !111•1IN, 1968, p. 375. 66. Bernardino de Siena, Sermo XIII. De marrimonio regulara, inordinaro er separato,
'/ 1',·tho Duhois. De recuperarione rerre saneie, ed. Ch.-V. Langlois, Paris, A. Picarei, in Sermones impe,fecri cit., p. 59; Querubim de Espoleto, Rego/e. cit., pp. 18-22; D inis
o Cartuxo, De /audab. vira coniug. cit., p. 70.
1"'' 1, 1'1'·
1H
,o52.
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11 I' lll'l
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As modas femininas
e o seu controlo
Diane Owen Hughes

Ao tempo do Renascimento, a maior parte dos críticos sociais


concordaria que a moda se desenvolvia em tomo da mulher, con-
firmando uma associação entre o vestuário e o sexo feminino que se
prolongatia por séculos. «Dame mode et dame élégance/sont deux
soeurs»* - deusas mais do que deuses - explicava um analista
fascinado e genericamente adepto do seu progresso na França de
Luís XIII, «pour ce que la mode est une maladie des femmes, si c'est
une simple passion des hommes. Nous estimons les façons qui ont
de la vogue, mais elles en sont idolâtres»** 1• Tal associação tinha
decerto sido assinalada na Roma imperial, onde satiristas e moralistas
tinham desenvolvido um estilo de escárnio e zombaria sobre o apego
feminino pelos vestidos luxuosos que seria adaptado e desenvolvido
pelos primeiros críticos cristãos, como Clemente de Alexandria e
Tertuliano. Contudo, os seus argumentos perderam força e audiência
nos longos séculos de fi xação germânica que produziram uma Europa
nova e menos urbana. Se os povos germânicos tomaram pelos luxos
do Império um maior gosto do que o que Tácito gostaria de admitir,
os moralistas tendiam a retratá-los no seio do mundo germânico A oposição nu/vestido tem abundante
representação iconográfica. A nudez
como vício masculino. É verdade que Santo Adelmo criticou as é sinal de regressão re lativamente
freiras kglo-saxónicas por usarem roupa interior de cetim, túnicas ao colectivo. A nudez masculina é
escarlates, mangas estriadas de seda e sapatos enfeitados de pele, associada à animalidade, à loucura;
a feminina à luxúria. As proibições
mas era a vocação das freiras mais do que o seu género que tomava moralizantes impedem a visão do
tal vestuário inadequado. Quando o seu compatriota Alcuíno res- próprio corpo até ao ponto de se
temer perder a identidade no banho
ponsabilizava a mundanidade dos ingleses pelos ataques dinamar- ao despir-se as roupas. A roupa,
queses, ele dirigia as suas observações a homens - clérigos e cor- protecção e ornato, serve além disso
como meio de identificação social.
Todo um un iverso, de que veremos
* «A Senhora Moda e a Senhora Elegância/são duas irmãs» (N.T.). certos aspectos. Pormenor de
** «porque se a moda é urna simples paixão dos homens, ela é uma doença das um fresco anónimo, século X V .
mulheres. Nós apreciamos os estilos que estão em voga, mas elas idolatram-nos» Trento, Castelo do Bom Conselho,
(N.T.). Torre da Águia.
As m od as feminin as e o seu controlo 187

li 1\os. Do mesmo modo, do outro lado do Canal, os primeiros con- de vo pel» - para prender às guarnições dos vestidos, ou pelo
1wlos sumptuários medievais, fixados por Carlos Magno e pelo seu menos assim pretendia o autor de um rondó contemporâneo. A nova
pk•doso filho, não prestavam especial atenção ao vestuário ou à predominância das mulheres no mundo da moda exigia um ajus-
ust ·ntação das mulheres. tamento dos velhos argumentos. Dado que no passado os homens
Também a revolução da moda na Alta Idade Média não foi tinham sido intimados por adoptarem as modas femininas, agora as
l11kialmente entendida como uma conspiração feminina. mulheres seriam castigadas por usarem vestuário masculino: por se
pavonearem nas ruas de Milão, no século XIV, como Amazonas,
com cintos dourados e sapatos ponteagudos, símbolos dos seus
A medida que o renascimento económico tomava os bens de corações marciais e masculinos; ou, em Inglaterra, por andarem a
l11xo genericamente mais disponíveis e que melhores comunicações cavalo em torneios, vestidas com túnicas bicolores com adagas no
l'Slimulavam a propagação da moda, o novo brilho e forma do ves- cinto, parecendo mais participantes do que espectadoras. Gradual-
t11drio fe minino começaram certamente a chamar a atenção. O que mente, a responsabilidade pela interpretação e transmissão da moda
utrni u as críticas foi a sua adopção pelos homens. Os cronistas deslocou-se igualmente para as mulheres. Os cronistas ingleses assi-
111011ásticos do século XII encontraram sinais de declínio moral não nalariam que os estilos flamengo, francês e da Europa Central, que
1111s roupas alongadas e justas das mulheres, mas antes nos laços pareciam exercer uma influência corruptora na corte dos séculos
11p ·rtados e nas caudas exageradas dos homens, cujas cabeleiras XIV-XV, tinham aí sido introduzidos pelas consortes estrangeiras
l'IIÍdas e andar afectado completavam uma ameaça travestida aos dos seus reis. No século XVI, em todo o lado parecia fácil encontnu·
111odelos de um passado marcial. Mas eles apontavam igualmente a a origem de um estilo espanhol - que se tomara há pouco domi-
Invenção de certas modas particularmente odiosas, criadas directa- nante - no bando de princesas enviadas de Castela para casarem no
111 ·n te para a vaidade masculina. Orderico Vital, por exemplo, desan- estrangeiro. Quando Catarina de Aragão se dirigia a Londres para o /\ moda não f'oi apenas uma
qucslilo feminina. O homem esteve
l ' OLI a nova moda dos sapatos compridos e ponteagudos que atribuiu seu casamento, os ingleses imediatamente repararam que o seu traje larnbém sob os seus desígnios. O da
11 l<'oulque de Anjou, que os tinha desenhado para esconder a forma reflectia «a estranha diversidade do vestuário do país de Espanha»3. ilustração está calçado com uns
dos seus pés deformados e para dissimular as <<tubera, quae vulgo De forma mais crítica, os franceses censuravam Leonor de Castela sapatos extremamente ponteagudos.
Miniatura do Ojicium Beatae Mariae
vocttntur uniones»* 2 • não só por ela usar modas espanholas em França, mas também por Vir1;inis, século XV . Madrid ,
ontudo, um século mais tarde, o olhar dos moralistas tinha-se tentar fazer com que o próprio rei as adoptasse. Nessa altura as Biblioteca Naciona l.
virudo para as mulheres e para o 'seu apetite pela moda, cada vez mulheres já se tinham tornado a personificação visual de uma varieta.1·
111:1is insaciável. A caracterização de Margarida da Provença como vestium que simbolizava a fragmentação política e a confusão mora l,
11111a rainha ávida pela moda, que tentou persuadir um Luís IX relu- visto que o seu traje parecia ofuscar fronteiras específicas de nação,
tuntc a adaptar um vestuário ostentatório mais condizente com o de género e mesmo de espécie:
1wu estatuto real, é um exemplo disso. Se a história de Roberto de
Sor·bon serviu para exemplificar o célebre ascetismo do rei, ela pres- Veston vi.llani e cappe alla francesca
11pôs também um novo entendimento das mulheres como pavões Cinte nel messo ali 'uso mascolino,
till•çtados. Porque aparentemente Margarida só desistiu quando, em Le punte grande alla foggia tedesca,
Polite e bianche quanto un ermellino.
ltl>t·u, o marido lhe pediu que usasse vestidos mais humildes - um
ll'to de renúncia de que as mulheres se estavam a tomar cada vez Portan a lor cappucci le visere
11111is incapazes. Tirando partido da ânsia das mulheres pela moda e E .manteJline a la cavalleresca
E capuzoli, e strette all a ventriere
ll'llrtsl'ormando-a num tema misógino, o Roman de la rose tornou
Co petti vaghi all guisa inghilesca* 4 •
1k /' rico e promoveu um apetite que estava já em vias de ganhar
11Í~1 vasta audiência europeia, à medida que ameaçava devorar o No entanto, dificilmente se pode defender que as mulheres
11111, ulo dos homens. Não contentes com vestidos debruados a pele, tivessem monopolizado os produtos da importante indústria euro-
111l lt1s l'inas de lã, sapatos de biqueira ponteaguda, ricos mantos e
1•11111plicados penteados, as vorazes maníacas da moda do século
11111111,invam por um bocado de carne do seu amante-«un tronson * «Vestem à vilã com capas à frru1cesa/Justas na cintura à maneira masculina,/
Pontas grandes à guisa alemã/Delicadas e brancas como um arminho.
Trazem nos seus capuzes viseiras/E mantéis à cavaleiro/Com carapuços, e apertadas
"' """l'I ·scCnc ias a que vulgrumente se chama joanetes» (N.R.). na cinta/Com seios indefinidos à moda inglesa» (N.R.).
188 As nornrns do mntrolo A
lksfllc s11n1p111nso cln séc11lo X V .
l,11xo, osll'IIIII\' o e 11rofust o Vestuário, consumo e estatuto da mu Ih ·r
011111111,1111d, ('011111111H pulcla de
1•011•s I IIIH'H 1r11çu111-s • túnicas
1111111m·111111rtt irn,s ,. bicolores, grandes As transformações económicas e sociais dos séculos 1 1• 11
1·1111cl11ij, 11111111111s perdidas, capas de tinham estado intimamente ligadas aos tecidos, que eram 111111 "
111111l11hn, h,m·ndm d· metais preciosos
1•111111wc1clos t·on1gemas, bordados, uma mercadoria essencial do comércio nos mercados europ u 1111
11111111 IIN 1111110s ' 1011cados de todo o crescimento e um produto industrial básico das suas nóveis ·id111h ,
tipo soh1l' us cabeleiras entrançadas.
( lh 1·11v11los, csmcradamentc ajaezados, mas também um meio primordial de patentear as distinçõ s ck 1111111
s11pm111111 lllo rica carga. Estes nova sociedade. Os panos ricos, muitas vezes tecidos n 01 i1,111i
sí111lmlo~de: distinção social e política que tinham anteriormente servido como ícone estático de pod1•1 1111
t•xpol11w111 magnificamente o ambiente
nkµil' e descontraído do cortejo. de privilégio, estavam agora localmente disponíveis para l'l'Vt 111
Mi111111ura de As Muito Ricas Horas uma miríade de mudanças sociais provocadas pela reor l11tl:1111,111 1
tio n11q111• de Berry, de Paul de
l.1 111bourg (m. 1416). Chantilly, política e económica da Alta Idade Média. Os tecidos, be111 r 1>11111 "
M11scu Condé. vestuário a partir deles produzido, depressa se tornaram Unlll 11111 1t i
proeminente do estatuto social e um sinal de mobilidade ·inl, 111 111
como um meio de moldar distinções sociais e políticas. ado cp11 11
nova riqueza permitia o investimento em vestuário, este adq11i1111 1111 1
novo significado. Na corte, os tecidos fluíam das mãos til' 111 ,
p1incipes, não só para manifestar favor e hierarquia, mas 1111111 11 111
para esbater velhas fronteiras e para afirmar novas. Já se ar u111111111111
que a lei sumptuária publicada por Filipe o Belo em 129•1, q1 1>
proibia à burguesia a indumentária distintiva da aristocraciu, 1 111111
realidade uma concessão à nobreza ressentida com a prole ·i,;11111!1 1
a essa classe influente e versátil. Na corte quatrocentista d · 1~1 11 11 11
de Anjou, onde a oferta e o uso de tecidos constituía desd li 1111111 11
um sinal da protecção e da estima do rei, uma mudança, vis v, 111111
volta de 1470, distinguiu a linhagem real das outras, tornando 1 , lt 1
peia da moda de luxo. Em 1351, uma princesa francesa podia sivos dela certos tecidos e trajes. Nas cidades, os governos t11l·1111111 1
exigir para o seu casamento um vestido do veludo mais encar- querendo dar um testemunho visual da nova ordem política, prnil!11 1111 1
nado «brodee a pluss et divers ouvrages de pedes grosses et me- coroas, caudas, tecidos de samito e de metais preciosos, gun1111,111
nues»* 5 , mas o delfim seu irmão excedia-a, com uma capa listrada de arminho e outras exibições da moda aristocrática. A aus 111'111h
de pano tecido com fios de ouro e de prata e bordada pelo menos fronteiras sociais fixas associou-se aí, no entanto, à dispo11ihtl1tl 11h
com duzentas pérolas grandes. E também não é claro que apenas as de tecidos para provocar um tumulto estilístico. tão ameaçado, p 1111
mulheres participassem na corrida à moda. Se reagiam com prazer a estabilidade social que muitas cidades começaram' a regulwnl1111 111
às tentações do estrangeiro, não eram muito diferentes dos j ovens através de infindáveis leis sumptuárias, o vestuário dos seus ·id11d 11 1
cidadãos genoveses que apareciam na corte de Milão de chapéu e·' desde o nascimento até à cova.
botas alemãs , cinto catalão, gibão italiano e manto de estilo bor-
gonhês ,talhado em tecido inglês. Na realidade, os inventários de As mulheres mostraram-se pai.ticularmente vulneráveis t 11111d1 \ 11111
·-\ roupas sugerem que na Roma renascentista eram os homens que lação social que o vestuário permitia, visto que os s ' 11s f 111, 11
estavam mais firmemente à la mode. Então, por que razão acabou visíveis ajudavam a fixar e a solidificar uma identidad so ·i11 I 111•1·1
o fardo da moda por pesar tão duramente sobre os ombros das sariamente mais fluida do que a dos homens que lhe tin h11111 d111 lll
mulheres? forma. Uma mudança, que ocoffeu quase simultaneam nll' 1·1u11 11
aumento da produção de tecidos nos séculos XII e Xlll , n · 1111111111 11
* «bordado com muitos e diversos enfeites de pérolas grandes e pequenas» ambiguidade da sua posição social e contribuiu cons ' qu1·11l11111•111 1
(N.T.). para a sua dependência em relação às distinções e dcf'ini ç l' v1• 11
1110 A 111111111 d11,1111troln 1111

mentárias: o desenvolvimento de uma ideologia patrilinear de des- que se tomava ainda mais exaustiva pelas invenções de unrn it 11 l11•
cendência através da linha masculina. Concebida para preservar a triada moda em expansão. Não surpreende por isso que os ·as:111 w11
riqueza e a posição social das famílias, limitando direitos sobre os tos tenham sido dos primeiros acontecimentos sumptuári s 11 1•1, 111
seus recursos, a organização patrilinear tomou a esposa uma estranha, controlados pela lei urbana. Se em algumas cidades alemã us p, 1'111 li,
diferenciando-a em termos linhagísticos não só do seu marido mas oferecidas ao noivo eram suficientemente valiosas para qu 1111 11
também, num certo sentido, dos filhos que deu à luz para ele e para cessem igualmente atenção e regulamentação sumptuária, a Sul d11
a sua linhagem. A sua incorporação visual tomou-se assim mais Alpes tudo se focaliza na noiva. Poucas podiam esperar riv11 l1 1 11
necessária como forma de apagar tal distinção durante a vigência do com o extraordinário enxoval, repleto de túnicas de cintilant t spl1 11
casamento, para criar uma ilusão de completa união conjugal. Uma dor - uma das quais bordada com 8966 pérolas e 70 onças d • p1 11111
lista de trajes excepcional, registada em Florença em 1343 no sen- - que Hipólita Sforza levou para o seu casamento com Afo111..n d1
tido de poderem continuar a ser usados em contravenção a uma lei Aragão em 1465. No entanto, mesmo as mulheres burguesas ntt 11v11111
sumptuária recentemente promulgada, dá-nos um raro vislumbre nas casas de seus maridos com várias mudas de vestido , m t111i 1 1
de um tal processo, tal como os trajes apropriados das esposas da mantos, numerosos chapéus e véus, pares de chinelos s11p 11 11 ,
família Albizzi formam um padrão patrilinear bem definido numa ornatos de joalharia, bem como bolsas e uma infinidade d m·1• 11
miríade de cores urbanas. Mantos de um branco luminoso bordados rios menores. Dado que a importância do casamento fazia 0111 q111
com heras e uvas vennel has encobriam a sua identidade de origem aumentasse o significado social dos enxovais, estes cresc ' 1"11111 1 111
transformando esposas de várias paites da cidade em representantes tamanho e complexidade. O seu valor crescente começou a s11pl 111
visuais do clã Albizzi. De modo menos emblemático, os presentes taro dinheiro dado em dote, suscitando críticas e depois lin1lt 1, 11 -
J lá numerosas notícias literárias de de tecidos e jóias que os maridos dão às esposas por ocasião do legislativas. O enxoval incrustado de jóias de Hipólita Sforzu 11•1111
que a guerra contra a traça era uma
actividade quotidiana das famíl ias casamento devem ser vistos não como meras contrapartidas sump- sentara um terço do seu enorme dote de 200.000 florins, pmp111 ~ 1111
com possibilidades de adq uirir roupas tuárias do enxoval, mas como um meio pelo qual um marido pode que se tomou um padrão para muitos legisladores.
luxuosas. Estas conservam-se durante
muitos anos, e inclusivamente faziam
pretender vestir a nudez da sua Griselda colocando sobre ela um
pm1e do dote. Na imagem, uma dama símbolo evidente dos seus direitos. Deste ponto de vista, as rainhas
veste um vestido de gala. Pormenor de que insistiam em arvorar as modas da sua terra de origem pareciam
um fresco anónimo do século XV. Enquanto o d.i nheiro do dote garantia o casamento e sus1t•111 1 1
Pádua, Palácio da Razão, parte sul. rejeitar ao mesmo tempo um selo conjugal e um selo nacional. Do a descendência, os tecidos do enxoval podiam desfazer-s · 1·111 1111
mesmo modo, as mulheres burguesas que mudavam de vestuário - um contraste intensificado sob o reinado da moda. As 11 111111• 1
segundo os caprichos da moda ameaçavam desenvolver uma per- com aberturas longitudinais e os vestidos listrados ou bicoloi1 1h,
sonalidade que desafiava a autoridade dos maridos e enfraquecia a final do século XIV eram de natureza diferente das longas e 11111.1
identidade colectiva de uma linhagem . e mangas criticadas nas primeiras leis sumptuárias visto qlll' 11 1111
clai·amente consumiam o tecido de que eram feitos. Ess • tlp11 1h
vestuário, cheio de aberturas ou constituído por tiras de te ·ido, 1111 1
O enxoval e o dote Ao mesmo tempo; o casamento toma-se um rito social ainda podia ser facilmente descosido e refeito para as futuras ·n11; 1
mais importante, um instrumento fundamental de reconstrução Este desperdício foi acelerado pelo desenvolvimento da moda dtt1 111111
social e política. Em tal contexto, a insistência acrescida da Igreja o Renascimento. Um dos seus principais cronistas, o es ·iit111 1h
na monogamia reforçava incontestavelmente a posição da noivai e moda Césai· Vecellio, desesperou de alguma vez vir a escr 'w1 111 11
adicionava também um sentido religioso à união civil. O enxoval inventário completo dos trajes femininos, visto que «sono n 1111ti 1
trazido e exposto nesta cerimónia pública era um sinal da honra que soggeti alla mutation e variabili piu che le forme della lunu... /\ 1111
a noiva trazia da sua casa natal, as roupas que recebia do rnaiido um piu tosto si deve temere, che mentre io sto scrivendo una l'opp 111
penhor da honra que receberia na sua nova casa. Apenas o funeral esse non dieno dimano a un'altra, onde me sia impossibiJe ablm 1n 1111 1
podia rivalizar com o casamento como foco de atenção da comunidade il tutto»* 6• A extrema variabilidade da moda datava o cnxov111 1
e de exibição sumptuária; e os casamentos, como qualquer leitor de tornava o vestuário num bem menos durável, que não passuv11 111
Mauss compreenderá, estimulavam uma competição em tomo dos
presentes, pois ambos os lados lutavam para dominar e retirar bene-
fícios sociais mais amplos de tal desafio. A noiva, recompensa final * «eles são muito sujeitos à m udança e mais variáveis que as formas du 1 1111
mesmo de temer que enquanto eu descrevo um corte eles adaptem outro, de 11 111111•11111111•
neste torneio de valores, era igualmente a beneficiária de uma troca me será impossível abarcar o seu conjunto» (N.T .).
As modas femininas e o seu controlo 193
11 111 11 nente para as filhas mas era rapidamente abandonado às criadas, der, evidenciava. Se, como propuseram alguns antropólogos, uma
, 11jo ri co vestuário introduzia consequentemente confusões de hie- sexualidade socialmente perigosa - geralmente associada com a
,11,quia e suscitava por isso acerbas sátiras. Se a necessidade de se carne, a decomposição e as mulheres - pode ser oposta a uma
111111u.:1crem às exigências cada vez mais caprichosas da moda enco- fertilidade ancestral celebrada através da linha masculina, a força
1 1j11vn as mulheres a incluir nos seus enxovais, entre os vestidos da destrutiva da moda tomou as mulheres do Renascimento particu-
111odn, peças de tecido não cortado, ela conduzia igualmente os larmente susceptíveis de uma tal análise.
11111ritlos a uma legislação para banir as novas modas de rufas, cor- O carácter perecível da moda fortaleceu igualmente uma relação
p,•1•s e mangas que ameaçavam consumir a riqueza da linhagem entre as mulheres e a corruptibilidade da carne. Praticamente a partir
d11r11nle a vigência do casamento, se eles tivessem de submeter-se à dos seus começos, a moda serviu para acentuar um contraste religioso
pr ·ssão social e manter as esposas à la mode. entre o espírito puro e eterno e a carne corrupta e mortal. Numa das
Dado que a moda se tomou um factor tão importante na defi- primeiras vezes que ambos se confrontam no âmbito da literatura,
11i,1io social das mulheres, os seus atributos colaram-se à sua pele. vemos três viventes serem levados à compreensão do espiritual, ao
A descrição feita por Vecellio de uma moda tão mutável como a encontrarem um cadáver cujas marcas exteriores de dignidade se
l ,uu acompanha a sua observação da «instabilità et amore della esvaneciam ao mesmo tempo que a sua carne, e perguntarem: «Ubi
vnrictà, che regna nelle donne»* 7 • À medida que as tesouras da pulchra vestimenta/Cum auratis cingulis/Digitorum ornamenta/Cum
111oda transfo1mavam os tecidos de mercadoria de produção e troca gemmalis anulis?»* 9 • A esta enumeração do vestuário, os elogi s
i'lll bens sumptuários , elas pareciam afastar também as mulheres fúnebres das confrarias acrescentarão posteriormente mantos, chapéus
di.: um sistema de troca reprodutivo. Como o vestuário que usavam, e outros ornamentos à moda, que apodrecem - ao mesmo tempo
11s mulheres tomaram-se ícones sumptuários e estáticos, que se que os olhos, a carne e os cabelos - na desordem do túmulo. A
i'Sgotavam no seu valor social, e, portanto, destruidoras de um sis- moda alimentou uma imaginação macabra que via por debaixo cios O excesso ele e legância na
1,·ma de reprodução demográfica e social. O apelo de Florença a ouropéis consumptivos a carne corruptível e que negava o seu apa- indumentária fe minina chegou a
simbolizar a natureza transitória dos
novos controlos sumptuários feito em 1433, depois de quase um rente poder de restauração e de renovação ao entrever em cada nov be ns te rrenos. Não é de estranhar que
1•1·tilo de epidemias ter elevado a consciência demográfica, quase padrão uma semente de decadência. Pelo século XV - acompa- esta Sa lomé, mulhe r perversa por
111ili:1.a estes mesmos tennos para atacar as mulheres elegantes da anlo nomásia, e m lugar de exibir a
nhando a inflação da moda - as mulheres tinham já assumido um nudez das suas representações
l'idndc, que lugar central nas representações populares do macabro, como acon- lradicionais a pa reça sumptuosa e
tece num Triunfo da Morte em Palermo. Nele, as ricas jóias, os ves- profusame nte ataviada. Ponnenor do
.. 1111111cmores quod viros portant qui ab ipsis hominibus procreantur ipse Festim de !/erodes, século XV.
q111· tumq uam sacculum semen naturale petfectum ipsorum virorum retinent tidos e os notáveis penteados de um grupo de mulheres em pose Barcelona, Museu ele Arte da
111 lto rn ines fiant, et quod non est nature conforme ut tanti s sumptuosis ociosa formam o mais estático e acentuado dos contrastes com a 'a1ulu11ha.
0111u111cntis se homent cum ipsi homines propter hoc desstant a matrimonii fúria medonha e súbita da morte. Em encontros mais íntimos, o traje
1·opu la propter incornportabiles sumptus, et sic ipsorum hominum natura contribuía frequentemente para a erotização do macabro. A imagem
clt·l'i<:i t, c um femine facte sint ad replendam liberis civitatem et ad castitatem impressionante de Nicolau Manuel Deutsch, de 1517, retrata um
111 mu trimonio servandam et non ad sumptus argenti auri vestium atque
tema bastante comum: o abraço da morte, representada como um
~w111111arum »** 8.
cadáver em decomposição, a uma jovem mulher. Deutsch intensifica
Atribuindo a necessidade de tal legislação à «barbarem et indo- o seu elemento erótico, no entanto, representando-a com um vestido
111ilatam feminarum bestialitatem»* **, os Florentinos chamavam a elegante e convidativo, sob cujas saias soerguidas a morte insere os
11ll' 11ção para uma sexualidade carnal que o traje, em vez de escon- seus dedos ossudos. O seu traje sugere uma sexualidade que não só
convida ao beijo da morte mas também excita um desejo masculino
• «a instabilidade e amor da variedade que reinam entre as mulheres» (N.T.) . que não produzirá qualquer fruto. As mulheres vestidas à moda -
.... « ... esquecendo que elas transportam homens procriados por homens, elas mesmas «sepulcros caiados, cheios de ossos podres», como as descreve um
•1111' l 0 1110 peq ue nos sacos retêm a semente natural e perfe ita dos seus esposos, p ara que
0

crítico inglês 'º - tornaram-se assim o símbolo máximo de um


11111111q ho mens nasçam; esquecendo ainda que orna mentar-se com adornos tão sumptuosos
, 11111111d i:,, a natureza, visto que é essa a c ausa por que esses mesmos homens, para evitar mundo material demasiado transitório, corrompido, desde a sua
11~ l11rn111portáveis despesas, renunciam à união matrimonial, não cumprindo assim a sua origem, pelo pecado tle Eva.
1111 ptl1111111ureza, quando as mulheres são feitas p ara encher a cidade de crian ças e p ara
, 1111~1·1v11 r u castidade durante o casame nto , e não para despe rdiçar em prata e ouro, em
v, ~, l1h>H e c m jóias» (N .R .). * «Onde está o vosso belo traje/com c into dourado.los adomos dos dedos/com anéis
••• «bestialidade bárbara e indomada das mulheres» (N.R.). ele gema?» (N. R.).
1911 A~ 11orn11111 do nmlrolo 1111

As !11111111, d11 d11N t1 rn;íl11 l'X ihcm que por natureza estão apenas cobertos com um vestuário de pclt·s, M111
1011p111,11•11 111111111 clls1ii1111,, mas tarde, à medida que o seu orgulho cresceu, os homens passaram 11 11 111
i111111h111'111t• v11h111111s11s e elegantes, roupas feitas de lã. Num terceiro momento, à medida que alimcntar11n1 1'11d11
111111 p1111111•11011•s de µ11111dc vez mais o prazer carnal, usaram roupas feitas a partir das plantas tln 11,1111
11 lh111111r11111 os 1•s1ud11dos contrastes
d1• 1·111 , "" cl11\11·11~11•s extravagantes nomeadamente o linho, e em quarto lugar roupas de seda, que são foh1i(·111 ht
cl11N 11111111111N, 11 1·squis110 penteado a partir das entranhas de vermes - e todas estas espécies de vestu 1in 1111
1111 cl1111111 <111 l'Mlllt'nla e o toucado agora usadas mais por vanglória e pompa mundana do que por nc ·ssld111h
h1n11 l11 cl11 11111111. /\mhas entretêm
o 111'111 t'llid1111do dos seus falcões. da natureza ... e seguramente, acima de tudo, para excitar a luxúl'i11 1i.
l'1111111·11w· de 11111 rrcsco anónimo do
N1'1 ·11h1 XV. 'l'rcnlo, Castelo do Bom
( '1111,l'lho. Torre da Águia. Se o vestuário foi o resultado e o sinal do pecado para tod 1 1 , '1
humanidade, haveria de ser um símbolo ainda muito mais p dt·rn 11 li ,,,

para as que tinham sido feitas à imagem de Eva, cuja tenl:1ç o t


queda original tinha dado início ao processo vestimentário. A vo:, eh
Tertuliano ecoou ao longo dos séculos cristãos para record11 1· 1•
mulheres a sua ligação particular, através da sua primeira m· ', c1111 1
o vestuário, que ele condena no seu influente De Habitu M11/i1'111 t
«Si ab initio rerum et Milesii oues tonderent, et Seres arbores n 'l'tllll , 1I
Tyrii tinguerent, et Ph.rygies insuerent, et Babylonii intexerent, et m11rg1111 Ili
canderent et ceraunia coruscarent, si ipsum quoque aurum iam de 1c1Tl\ 1111 11
cupiditate prodisset, si iam et speculo tantum menti.ri liceret, el hut'l' 11 111
A moda das filhas de Eva concupiit, de paradiso expulsa, iam mortua, opinor. Ergo nec nunc npp,,111,
·debet aut nosse, si cupit reuiuiscere, quae nec habuerat nec mortuac nlllll111
impedimenta sunt, quasi ad pompam funeris constituta»* 13 .
Enquanto filhas de Eva, as mulheres da Europa medieval sofreram
além disso com a concepção cristã do vestuário encarado mais como O funeral não era apenas o delas próprias, pois os ornanw11111
evidência de uma evolução do pecado do que como reflexo do que simbolizavam o seu orgulho e luxúria podiam também ass11111i1
processo civilizacional. Invenção tomada necessária pelo pecado, o um papel activo na destruição da própria civilização. Os monili 1 1
vestuário faz retroceder o homem numa inversão do processo de sublinhavam a sua peculiar bestialidade, dando uma atenÇ' o p 11
criação. A s peles com as quais }\dão e Eva vestiram a sua nudez ticular a dois elementos da ornamentação: as caudas, cujo 111111 11
eram um sinal exterior de uma nova bestialidade que diminuía a sua latino (cauda) convidava à comparação com a cauda dos anim ni , 1
semelhança ao Deus que os tinha criado à sua imagem. «Deinde os penteados fantásticos, cujas penas e forma sugeriam uma caf)ol·l 111
processum est ad lanam; deinde ad stercora vermium, i.e., ad sericum; Uma sátira francesa descrevia as mulheres que usavam touc·1drn, c11
deinde ad pannum deauratum; demum ad lapides preciosos»* - eis duas pontas, ou cornettes, como diabos enfurecidos, pica ndo 1
como inúmeros sermões descrevem esta devolução 11 . A riqueza do batendo nos homens à sua passagem - como se para sugerir q111•
vestuário era assim um símbolo inverso do estatuto decrescente do através de modas tão frívolas as mulheres pudessem perpetua111t•1111
homem na cadeia da criação, registando a sua queda do nível dbs reencenar a tentação original e a derrota de Adão por Eva.
deuses para o dos animais que vivem sobre a terra, para o daqueles Se, na opinião autorizada de Tomás de Aquino, o amor d11
que rastejam debaixo dela, e, finalmente, para o do mundo im óvel e mulher pelas roupas podia ser tratado como um pecado venial q111111d1 1
estéril dos metais e da pedra. Como explicava um pregador inglês ao
seu rebanho, a sua evolução foi-se configurando como resposta a * «Se desde a origem do mundo os Milésios tosquiavam as suas ovelhas, s · UN, 111
um crescente complexo de pecado: fiavam as fibras vegetais, se os Tírios tingiam, se os Frígios bordavam, se os 01111111111111
teciam; se a brancura das pérolas cintilava, se os sílex provocavam o fogo, se a16o p1 1\111111
Primeiro talharam uma túnica de peles para tapar o corpo nu, em sinal ouro tinha saído da terra para servir a cupidez, se já ao espelho era 'lícito menti r 11111111, 1
de que através do seu pecado o homem se tinha tornado como os animais se Eva desejou tudo isso, foi depois de expulsa.do paraíso e já morta, imagino. 1'111111111,,
também agora ela não deve desejar ou conhecer, se quer voltar a viver, o que II o 11111111
* «Depois passou-se à lã, em seguida aos dejectos dos vermes, isto é, à seda, depois nem conhecia quando era viva. Portanto, tudo isso não é senão a bagagem cl11 111111111 1
aos 1ecidos de ouro e finalmente às pedras preciosas» (N.R.). morta, constituída, poder-se-á dizer, para a pompa dos funerais» (N.R.).
As m odas fem ininas e o seu con trolo 197

·ra induzido pela vaidade mais do que pela luxúria, os pregadores Que vós, as mulheres, vos vestireis», diz ele,
mendicantes posteriores consideravam-no como um pecado mortal. «E nada de tranças e de pedras preciosas,
Nas suas criativas mãos, a moda viria a tomar-se uma chave para a Como as pérolas, nem ouro, nem ricas roupas».
Por nada deste mundo me submeterei
compreensão da crise social e moral da época. Bernardino de Siena Ao teu texto ou às ruas normas 15 •
e os seus discípulos franciscanos, pregando num contexto de focos
de perturbação gerados pela peste e sob a ameaça global do avanço Parece ter sido esta a resposta das mulheres da Flandres e do
lurco no século XV, viu no vestuário das mulheres uma causa pri- Artois que tinham sido forçadas a renunciar aos seus penteados
mordial do declínio da Cristandade. Em primeiro lugar, argumen- exageradamente altos, na esteira de um périplo de pregação feito em
tavam, as mulheres apostavam a tal ponto na moda que os casamentos 1428 pelo monge Tomás Couette. Uma vez esfriado o fogo da sua
eram retardados até que as peças do enxoval, cada vez mais volumoso, retórica, elas abandonaram os simples gorros camponeses que ele
pudessem ser compradas e pagas, privando assim a sociedade dos recomendara e passaram a usar penteados ainda mais altos do que
nascimentos de que necessitava para superar o declínio demográ- antes. Privilegiar estas respostas individuais, no entanto, é ignorar
fi co. Pior ainda, a falta de opo1tunidades de casamento fomentava a peso cumulativo do desafio mendicante, lançado no decurso de
perversão da sexualidade, desviando-a para uma esterilidade sodo- várias gerações em missões que se estenderam da Sicília à Flandr s,
111 ila: «Chi puõ fare tante ispese?»*, perguntava Bernardino. «E per da,Espanha à Hungria e à Dalmácia - num quadro muitas vezes
questo i popoli mancano e la sottomia multiplica»** 14 • Retrocedendo iluminado por grandes fogueiras de vaidades em que se consumiam,
na própria linha evolutiva da criação, o vestuário decaiu no sentido em rituais de purificação pública, as futilidades da moda contrn as
do ouro, prata e pedras preciosas, que eram incorporados nos ves- quais os frades vituperavam.
tidos do século XV, assinalando e reproduzindo, assim, de forma
lilcral, a esterilidade desse passado geológico.
E à medida que a sociedade cristã se via diminuída pela moda, Os governos monárquicos foram provavelmente os m nos O desafio mendicante
argumentavam· os frades, os Judeus enriqueciam, porque os homens receptivos às mudanças que os frades reclamavam. Em Aragão n
recorriam a usurários judeus para alimentarem a ânsia de moda das própria rainha poderá ter sido tão tocada pelos seus sermões qu
suas esposas e filhas. Esta associação silenciosa entre as mulheres mandou encurtar as caudas dos seur, vestidos, como exemplo para
obcecadas pela moda e os prestamistas judeus representava a per- os seus súbditos, mas um tal exemplo na corte raramente levou à
versão final da ordem natural. Não só porque os Judeus se tornavam mudança da legislação para todo um reino. As considerações hie-
, icos à custa dos Cristãos, mas porque o curso da fertilidade natural rárquicas faziam do vestuário uma marca das fronteiras sociais
•ra desse modo invertido. Dado que as dispendiosas modas femininas demasiado valiosa para permitir a sua redefinição de acordo com
t• ram um obstáculo à reprodução humana, elas permitiam também
ao usurário reproduzir dinheiro de formas que qualquer aristotélico
considerava não naturais. Esse mundo de ouro e de pedra, que repre- Os cnbclos t m uma importante
scnlava simultaneamente o cume da moda e o abismo da humani- cnrgn cxprcssivu: os louros são
consid ·rudos o cfinonc ideal da beleza
dnde, acabava por concretizar assim a sua supremacia. e os ru ivos t rn conotações negativas.
Somos tentados a rejeitar uma interpretação social e moral tão O cabelo solto rc111c1c pura o erotismo
Hl ria da moda, do mesmo modo que a ÍlTepreensíve l «Mulher de e, cm gcrul, os textos doutrinais
recorncndum um penteado composto
Bath» de Chaucer rebatia as admoestações eclesiásticas: e sóbrio. Para as mulheres, se não
e ram muito jovens ou prost itutas, o
Tu dizes também que se nós nos enfeitamos que cstuvu mais ele acordo com as
Com roupas e com preciosos atavios, conveni(lncius era usar o cabelo
apanhado cm !ranças, e as casadas
É com perigo da nossa castidade, deviam além disso cobri-lo com uma
~. miserável, tens que reforçar a tua posição touca. Esquerda: pormenor de um
Dizendo estas palavras em nome do Apóstolo: capitel do século XV. Segóvia,
«É com um traje feito de castidade e de pudor Mosteiro de Santa Maria Real de
Nieva, Claustro. Direita: pormenor de
um capiiel do século XII. Barcelona,
• .. ()ucm pode fazer tantas despesas?» (N.T.). Moste iro de Santa Maria do Estany,
u ,,n por isso a população diminui e a sodomia aumenta» (N .T.). claustro.
l'IH /\ 1111111111 do ,·rn1lrnlo
/\ 111111!11 d11111 1111111111 1111,1 11"qucria categorias sexuais. Quando o seu confessor franciscano se queixou
1111111 11• Ili I' ll/ll'lllllill11t•111,• 11110. O
<111< 1 , 1111•,11111111 11111•11<111 11•11·occder do luxo e da licenciosidade da coite espanhola, Isabel sentiu-se
1 , 1111 11!.1 il11, 1,11.. 111 po1 111cio de obrigada a responder comparando a simplicidade do seu vestido e
eh 1'11 I\ .111 N11~ li lm h11 notícias
11l,1c 11 1,, 11lc 11~ 1111'd11•v11is de do das suas damas com o rico vestuário dos homens. Contudo,
, 111111111\íl11 do 111lwlo: q11c i111ava-se quando ela e Fernando começaram pouco depois a publicar uma
1111111111 VIVII , lllllllll'IIVll·SC com longa série de éditos sumptuários, as suas categorias continuaram a
l'ill\,1 1111 111111 "'ch•dos impregnados
111 111 , ,. li11 i11siv11111c 11tc atacavam-se ser determinadas pelo estatuto e não pelo género - como o eram
11 111111111 , 11pil1111·s i:0111 agulhas também nos reinos do Norte.
1111> llll 1'1111111·11111· de S. Jorge
, ,1 /'1 /11, ,·.111 1k /\111611io Pi sano, Foi nas cidades, muitas das quais garantiam a sua riqueza com
11 l'I 11111•110» ( l 19:'i- 1450). Verona, a indústria do vestuário, que as leis sumptuárias, publicadas com
,111111 /\1111,Hkia. renovada insistência por bispos e concelhos municipais, codifica-
ram a mensagem dos frades . Os códigos influenciados pelos seus
sennões deixam perceber uma preocupação exclusiva com a moda
das mulheres, que são tratadas como um grnpo homogéneo, não
diferenciado pela hierarquia social. Em alguns locais foi-se tão
longe que se aboliram isenções que anteriormente tinham sido con-
cedidas às esposas e filhas de nobres, médicos e homens de leis para
escaparem ao completo rigor do controlo vestimentário. O facto de
o seu traje confirmar a hierarquia social parecia agora menos impor-
tante do que a mensagem sexual que ele veiculava. As distinções
sumptuárias por todo o mundo urbano tomaram-se mais claramente
definidas pela atroadora pergunta dos mendicantes: «Quod etiam est
videre in muliere caligas soleatas et quandoque, saccomannorum
more, divisas et ad nates longas et tractas; sotulares rubeos, aureos,
perforatos, rosatos, decorticatos atque colorum varietate depictos?
Quid amplius facient meretrices?»* 16• Aquelas cujo rico traje des-
denhava da lei sumptuária arriscavam-se agora a passar não por
nobres mas por prostitutas. As caudas, por exemplo, cujo extravagante
consumo de tecido tinha outrora sido suficiente para a sua conde-
nação, tomam-se agora um esconderijo para diabos mais do que um
sinal de pretensão aristocrática. Alguns atribuíam a sua invenção
não à corte mas ao bordel, razão provável pela qual o bispo de
Ferrara apenas poupou as prostitutas à excomunhão a que se sujei-
tavam as mulheres que as usassem na sua cidade. Os conselhos
urbanos reagiram frequentemente mudando o traje das prostitutas,,
que podiam agora abandonar os sinais e roupas degradantes do pas:
sado para assumir as modas sumptuosas negadas às outras mulheres.
Se, melhorando a sua apresentação, algumas cidades esperavam
atrair os homens afastando-os do pecado mais grave da homosse-
xualidade, outras estavam simplesmente a antecipar a sugestão de

* «Não é que se vê mesmo mulheres calçadas com cáligas, e, por vezes, divididas,
à maneira dos salteadores, longas e puxadas até às nádegas? Ou com borzeguins vem,elhos,
dourados, petfurados, roídos, esfo lados e pintados de todas as cores? Que mais farão as
meretrizes?» (N.R.).
As modas femininas e o seu controlo 205

, 1 111 V ·ncza, a permissão do uso da cor apenas a mulheres não


1111l11 t•s n campo e a não cidadãs dentro da cidade sugere como a
cl1t1·H•11ciação sexual acabou não apenas por controlar os sinais
cl I homa feminina mas também por demarcar o decoro do espaço
111 h UH> da berrante cacofonia da licenciosidade rural e das classes
h111 x11s um contraste reforçado pela associação antiga do preto
111111 us vi rtudes nobres nas cortes da Borgonha e de Espanha. A
ulop<rt o do negro pode ter igualmente servido finalidades mercan-
t1l1 st11s ao afastar as mulheres mediterrânicas dos têxteis coloridos
d,• 1111111 nova manufactura atlântica. A ser assim, as ideias de extra-
VII /' n ·ia sexual e económica ter-se-iam mais uma vez fundido para
cl1•ti11 ir as categorias sumptuárias femininas .

A resposta das mulheres


/\quilo que as mulheres vestiam e despiam assumia, devido ao
111 up ·go forçado às modas da carne, um sentido simbólico particular.
qu ·Jus que procuravam submeter a carne como um meio de libertar
111•spírito tinham dificuldade em escapar às categorias e definições
cl11 v •stu ário. Enquanto santos masculinos como Francisco de Assis
podium, num gesto teatral, despojar-se das suas roupas como um
111111 •spiritual de desprendimento das coisas terrenas, era mais difí-
, 1I f)Hl'II us mulheres despirem-se em público. A nudez penitencial de ·
M111iu Madalena, coberta apenas pela sua ondulante cabeleira, podia
honras que não podia recusar. Um tal sermão podia ter servido de No século XIII a paleta do pintor
h I sido uma marca da sua santidade, mas permanecia também como melhorou notavelmente em brilho e
11111 sinal ela natureza sexual do seu pecado. Mesmo quando trocavam modelo a mulheres como a bela esposa de Jacopone da Todi, que variedade de cores. Para isso
11 s1·us !rajes ricos pelos andrajos de penitentes, as mulheres levan- conscienciosamente usou os adornos que serviam como marca da conn'ibuíram artesãos de outros
sectores, como os vidreiros e os
11 v11111 questõe sobre a identidade social e a honra sexual não só posição e do estatuto da sua família. Apenas depois da sua morte tintureiros. Na ilustração, um físico
d, lus pr prias mas também das suas famílias - questões a que súbita, sendo muito jovem, o maiido descobriu que o seu elegante mostra a um atento auditório um
vestuário tinha sempre ocultado uma camisa de crina, que protegia objecto do seu saber. As prateleiras
111111·11tc o hábito e o claustro podiam aparentemente pôr fim. guardam um ror de objectos que
o seu espírito. Tal como as calças do co1tesão, a camisa de crina da contribuem para a satisfação de um
mulher com preocupações espirituais oferecia uma secreta liberdade animado público. Pormenor de uma
miniatura da Cantiga LXXXVI!I,
'ltl As mulhe res seculares com convicções espirituais consideravam em relação às definições oficiais do vestuário. Se .Tacopone celebrou Códice Rico de las Cantigas de
q111 11 v ·stuário era perigosamente limitativo, e o seu valor social e a descoberta da pura roupa interior da sua mulher como um passo na N uestra Se,iora, século XIII .
B iblioteca do Mosteiro do Escorial.
11 111pll1 1·io uma ameaça para a integridade das suas almas indivi- sua própria conversão e como uma fonte do lirismo religioso que
tl1111 • l Jm sermão do século XIII, proferido sob a forma de instru- o iriam celebrizar, pai·a outras mulheres a camisa de crina cons-
111 cl1• 11ma mãe à sua jovem filha, descreve o perigo que represen- tituía um modo secreto de impedirnm que as marcas colectivas e
t 1v11 p11 111 Iodas as mulheres casadas o vestuário exigido pelo jogo públicas do vestuário queimassem a sua carne e corrompessem a
1111lil111rnii11l: «l laez, donques, bele fille, et foulez de cuer les robes sua alma.
, 1 li I oi 11t iscs du monde, tant couviegne il que vous aucune foiz Não é surpreendente, portanto, que a renúncia à moda seja um
t. p111t1 1, , ,.. 11 • O seu modelo deveria ser Ester, que desdenhou as tema mais frequente na hagiografia das santas do que na dos santos.
Quando Umiliana dei Cerchi tentou empreender uma vida espiri-
tual dentro dos limites de urn casamento que lhe impunha um traje
1 1, h 111 pt11 1111110, bela filha, e despreza, no teu íntimo, as roupas e as elegâncias do
11111111 111 1• 111 q111• IIN 1 ·ns por vezes que usar» (N.T.).
adequado à rica posição do seu ma1ido, por exemplo, cortou rente
As m odas femininas e o seu controlo 201
1111111lgnc de que a atribuição do luxo às prostitutas seria o meio sioneiras», condenava-as enquanto mulheres de cidadãos, visto que
11111 l ficaz para o aviltar. Tal programa reflecte, apesar de tudo, as transformava em marionetas manquejantes, impedindo-as de ser-
1111111 prngrcssiva sexualização e demonização da moda feminina . virem como receptáculos da reprodução social.

As formas particulares da transgressão As anquinhas, uma das modas renascentistas mais condenadas As anq · ha
. Utn . S
mas também mais sedutoras, pareceriam à primeira vista desmentir
A l'SI igmatização de duas modas renascentistas mostra algumas uma tal interpretação. Sendo inicialmente uma armação que mantinha
d11., vius pe las quais as abordagens eclesiástica e secular se uniram os vestidos afastados das ancas, tomaram-se depois num aro ou série
111111111 1· ilura sexual do vestuário feminino. As duas modas fizeram de aros cuja rigidez, semelhante à de um escudo, sugerirnm em Itália
llllllll'lllur enormemente - e foram provavelmente concebidas para e em Espanha o nome de guardinfante. Como extensões das ancas,
i NO li quantidade de tecido que uma mulher podia exibir nos seus ou verdugos, conquistaram a corte castelhana do século XV, e a
Vl'Nlidos. ontudo, os seus críticos lançaram contra elas um ataque ampla política de alianças matrimoniais desta corte divulgou-as no
111ois moral do que económico. estrangeiro. Os observadores ingleses imediatamente repararam que
Catarina de Aragão e as suas damas usavam «abaixo da cint1ira uns
arcos que mantinham os vestidos afastados dos seus corpos, à maneira
J 11 11111 O ·hapins, sapatos de solas altas em couro, madeira ou cortiça, do seu país» 18 • Mas no reinado da rainha Isabel, que gostava de las,
1l11hn111-s ' tornado populares no século XV em algumas cidades ita- as anquinhas tinham-se tomado uma moda verdadeiramente ingl sa,
1111111,s, b ' 111 corno em Espanha, onde o confessor da rainha Isabel se tal como as idênticas vertugalles eram uma moda francesa na corl ,
q11l·ix11va de que os sapatos vulgares nessa altura - tão altos que de Francisco I. Os arcos tomaram-se uma marca distin tiva e um
l'l1l'g11vam ao cotovelo - estavam a esgotar as reservas de cortiça suporte da moda da Renascença tardia, mantendo os vestidos afasia-
1111l'io11 uis. De um ponto de vista mais doméstico, e como assinalaram dos dos contornos naturais do corpo e exigindo, como os chapins,
os kpis lndores italianos, elevando as mulheres bem acima do solo jardas adicionais de tecido para o cobrir. No entanto, os crític s da
l'lts !roçavam das leis que regulavam a quantidade de tecido a moda preferiam os argumentos morais aos argumentos económ i-
11llli1.11r nos vestidos através da limitação das caudas que arrastavam cos, referindo os segredos que as anquinhas encobriam mais do qu'
p1•lo d1t o. Era, no entanto, mais a extravagância moral do que a . o tecido que exibiam. É verdade que alguns, como duas mulher s
1•x1r11v11gfi ncia económica manifestada pelos chapins o que realmente genovesas que desaprovam a moda num Ragionamento di sei nohi/i
ONrn11d •nava. Toda a gente notava a extraordinária imobilidade que fanciulle genovesi (1583), assinalaram que, para além da dificuldad
1•ll'S provocavam nas mulheres, que cambaleavam em cima deles, que provocavam na passagem pelas portas, «non e scommodissimo
1•01110 s 1 ·aminhassem com andas. Eis sapatos que impediam o a chi vuol sedere, poiche bisogna primieramente farli una g ran
rn111 i11luu· uma característica que suscitava uma comparação, na manufattura attorno in assettarlo, se tu non v uoi far la mostra gene-
V1•1w111 do sé ulo XV, com o costume chinês de ligar os pés. Nessa rale»* 19• Mas o que geralmente incomodava não era tanto a sua
l'id11d1 , os legis ladores foram mais longe, condenando tal moda revelação como a constrição que provocava na função natural da
pw·q111• <t11tdic res pregoantes, euntes per viam cum zocholis ita altis mulher e a ocultação dos prazeres meretrícios. Tal como os chapins,
1u111 VII lrnl 'S se sustenare, ceciderunt et in tali casu reciperunt tantum eram oriticadas porque vergavam o corpo feminino para servir a
111is11111n, quod clisperdidenmt seu fecerunt filios abortivos in perdi- moda, forçando uma perversão do seu uso natural, a concepção de
llcu,l'll, l' Cll poris c t anime sue»* 17 . A sua contribuição para a esterili- filhos, cujo desenvolvimento fetal os seus aros e armações rígidos
cl11<ll' 1 p 11·11 o dano espiritual fazia com que fossem mais apropriados ameaçavam afectar. Além disso, mantendo as gravidezes escondidas
Jllll'II I prnslilutas, às quais foram consignados por alguns governos. sob os volumosos vestidos que sustentavam, as anquinhas permitiam
<> q111 11111 n t ico inglês do século XVI chamava o seu «andar de pri- às mulheres uma licenciosidade sexual inaceitável.
O pastor puritano Stephen Gosson foi mais longe do que a
maioria atribuindo a invenção a prostitutas como meio de manterem
"' vidns, que andavam p~las ruas calçadas com chapins tão altos que
1111111111 1 N p.1
11 11 111 1111111 N1· q111•1rnnnlt:r o eq uilíbrio, tinham caído, o que lhes tinha causado tão
1•111111h il111111N q111 1lnh11m perdido os filhos ou abortado, levando à perdição do seu corpo * «são muito incómodas p ara quem se quiser sentar, porque exigem anles um grande
11!1 ~11 t 11 111111 (N,1< ,). trabalho para as afeiçoar se não se q uiser armar espectáculo» (N.T.).
202 As norm,111 do ronlmlo 111 1

O simboli, 1110 do Vl'Sl11rt rio permite a mente vestida. Levantando com ambas as mãos a grandl' i'ill 111 q11,
intc rpr •1111, o dl' li 1111111•11s 111cdicvais.
O nc11ro si111holi111v11 11 11h, 1i11Gnc ia
cobre as suas anquinhas, ela põe à vista não só os seus g i 1 111111 1 11
scx unl 1· po, is,o l'l'II , in11 I distinti vo chapins mas também as elegantes calças masculinas q u · p11 11 11 111
eh: vlt1vns l' 1Tll•si , lirns, ainda que ter feito parte do vasto guarda-roupa da maior par te das cm li 1
css1· s11111lli1"11do 11110 s~ja o único.
C'o,11 1· l1• i10, 11~ l'OIll' , ·sr anhola e italianas. Sugerindo ou não essas calças o comércio d · p1 111, 11
ho, ro11h1·s11 11s11v11111 o negro, que sodomitas, elas revelam certamente uma liberdade de s • t111v1 11 1
ilk llt li k 11v11111 1·0111 a sua virtude
11ohH No 1111111do campesino não
0

que lhe permite o controlo do seu corpo como se fosse um 1101111 111
l111vi11 c,rnl ha. Mi niatura com a À primeira vista, os seus chapins e as suas anquin has p11 11·11111
l 'w lida da rainha, alusiva a
Mnrp,111ida d • Angoulême, minha
conferir um contraste feminino ao seu estilo mascul ino, 1111 11 1
d1· Nav:11 ra, 1450. Chanrilly, Museu verdade fazem parte de um mesmo conjunto. Subverte ndo 11 I' q 11 1
( 'n11dé. conferido ao vestuário de instrumento de desígnio patrili111• 11
armações das saias, os corpetes e os sapatos de solas altas 01'1 111, 111
formas particulares de liberdade transgressiva.
Uma interpretação sexual do vestuário pode também p1rn l11 11
moda. Os eclesiásticos tentaram no século XIII criar uma l' ll lt p1 111,
visual de honra feminina insistindo no véu como um sinal dn 11 1111!11 1
convenientemente casada - uma moda expressamente r ' t'11 s1111 , 1111 1
muitos governos urbanos a prostitutas públicas, que tinha111 ti, ,11 11 l 11
na rua com o rosto descoberto. Essa iniciativa fracassnl'II , 11111 ,
invenção de véus de seda transparente que nada ocultavan, ,. , 11111 1
de outros véus mais complicados que escondiam de mais, dl 1111 11
lando perigosamente a identidade e o estatuto de uma mul h ·r. h11l 11 11 ,
as autoridades cívicas estivessem menos inclinadas a c ii 111 1 til , 1
especiais de vestuário, preferindo apenas reagir às modas 1 1111 , 111 l 1
que estas surgiam, o manto negro imposto a muitas mulh1•11 11 11
o tecido fino das suas saias afastado da sua roupa interior maculada séculos XVII e XVIII sugere uma necessidade premcn ll', 1111 11 11
pela sífilis. Muitos, no entanto, teriam concordado com o autor nessa altura, de marcar as mulheres pela categoria sexuél l 11111 ,l, 1
anónimo de Le Blason des Basquines et Vertugalles de que os aros que pelo seu nível social ou estatuto.
serviam para esconder as consequências da liberdade sexual: «Que
servent ces vertugalles/Sinon engendrer des scandalles?»* 20 • Uma
questão que nos faz recuar à mais antiga explicação espanhola da Um regu lamento ducal florentino de 1638 abandonou r 11tlq•11
sua origem, em 1468, na corte de Joana de Portugal, consorte famosa hierárquicos anteriores para encerrar progressivamente as 111111111 ,,
de Hemique IV «o Impotente». Segundo um cortesão-historiador, no preto da abstinência sexual, que caracterizava antes as vi 11 , 1 ,
que parece ter estado dentro do segredo, a rainha tinha considerado os eclesiásticos. Depois de seis anos de casamento - anos cl 111 11111 ,
as anquinhas uma forma de manter secretas as consequências de , os quais a moda podia legitimamente servir de engodo s ·xu11I p 11 ,,
uma indiscrição. O seu exemplo encorajou o seu uso entre as damas reforçar o vínculo matrimonial - as esposas dos cidaclé os 111111 11
da corte, que por isso assumiram o aspecto de matronas grávidas. Se tinos deviam arrumar as suas roupas coloridas e em vez cl0l11 11 11
o chamado guardinfante protegia as crianças por nascer, estas eram, vestidos pretos, que podiam no entanto exibir corpetes, 11111 11p11 ,
assim , crianças cuja legitimidade podia ser posta em causa. Longe colarinhos coloridos. Estas manchas de cor tinham por sua w, d,
de estabelecer uma marca de patrilinearidade, a moda pennitia que ser abandonadas de pois de doze anos de casamento, quando, p11 11
as esposas escapassem ao sinal mais notório das suas reivindicações. mivelmente, a sexualidade produtiva dos anos de gestação d 11·111v 1
A esterilidade ameaçadora de ambas as modas é sugerida por um ao fim. Em Siena, a interdição do uso de roupas de cor H tod 1 11
de ·enho da época que representa uma cortesã veneziana elegante- mulheres casadas depois do segundo ano do seu primei ro ·11s11111111l 11
era acompanhada - numa conivência implícita com as v •11111 1 111
* «Para que servem essas anquinhas/Senão para produzir escândalos?» (N .T .). gorias mendicantes - da sua atribuição às prostitutas. Em 1•'ln, 1111 11
As m od as femininas e o seu con trolo 205

1 1 111 Veneza, a permissão do uso da cor apenas a mulheres não


11111,rc.•s no campo e a não cidadãs dentro da cidade sugere como a
,hli ll'llCiação sexual acabou não apenas por controlar os sinais
d,1 honra feminina mas também por demarcar o decoro do espaço

'
1111111110 da berrante cacofonia da licenciosidade rural e das classes
'1111,i;ns - um contraste reforçado pela associação antiga do preto
111111 11s virtudes nobres nas cortes da Borgonha e de Espanha. A
ndopçilo do negro pode ter igualmente servido finalidades mercan-
1li 1s111s ao afastar as mulheres mediterrânicas dos têxteis coloridos
d,• 1111111 nova manufactura atlântica. A ser assim, as ideias de extra-
vu~Oncia sexual e económica ter-se-iam mais uma vez fundido para
1h•l111ir as categorias sumptuárias femininas.

/\ resposta das mulheres


Aq uilo que as mulheres vestiam e despiam assumia, devido ao
~1·11 11pcgo forçado às modas da carne, um sentido simbólico particular.
\q11t•l11s que procuravam submeter a carne como um meio de libertar
11 1•Npí1 ito tinham dificuldade em escapar às categorias e definições

d11 Vl'st uário. Enquanto santos masculinos como Francisco de Assis


111111111111, num gesto teatral, despojar-se das suas roupas como um
111111 l'Spiritual de desprendimento das coisas terrenas, era mais difí-
' 1I p11rn as mulheres despirem-se em público. A nudez penitencial de
M111111 Mudalena, coberta apenas pela sua ondulante cabeleira, podia
11 1 Ntdo uma marca da sua santidade, mas permanecia também como honras que não podia recusar. Um tal sermão podia ter servido de No século XIII a palela do pintor
melhorou notavelmente em brilho e
11111 ~111td da natureza sexual do seu pecado. Mesmo quando trocavam modelo a mulheres como a bela esposa de Jacopone da Todi , que variedade de cores. Para isso
11, ~l'IIS trajes ricos pelos andrajos de penitentes, as mulheres 1evan- conscienciosamente usou os adornos que serviam como marca da con1ribuíram artesãos de outros
111v11111 questões sobre a identidade social e a honra sexual não só posição e do estatuto da sua família. Apenas depois da sua morte sectores, como os vidreiros e os
tintureiros. Na ilustração, um fís ico
d, l11Mpróprias mas também das suas famílias - questões a que súbita, sendo muito jovem, o marido descobriu que o seu elegante mostra a um atento auditório um
111111•1t ll' o hábito e o claustro podiam aparentemente pôr fim. vestuário tinha sempre ocultado uma camisa de crina, que protegia objccto do seu saber. As prateleiras
guardam um ror de objectos que
o seu espírito. Tal como as calças do cortesão, a camisa de crina da contribuem para a satisfação de um
mulher com preocupações espirituais oferecia uma secreta liberdade animado público. Pormenor de uma
As 111 ulhcres seculares com convicções espirituais consideravam em relação às definições oficiais do vestuário. Se Jacopone celebrou miniatura da Cantiga LXXXVIII,
Códice Rico de las Cantigas de
q111 11 Vl'Slufl ri o era perigosamente limitativo, e o seu valor social e a descoberta da pura roupa interior da sua mulher como um passo na Nuestra Seiiora, século XIII.
11111p111 rt1io uma ameaça para a integridade das suas almas indivi- sua própria conversão e como uma fonte do lirismo religioso que Biblioteca do Mosteiro do Escorial.
1 lt111i~ l /111 sc1111ão do século XIII, proferido sob a forma de instru- o iriam celebrizar, para outras mulheres a camisa de crina cons-
111 dr 11111 11 mãe à sua jovem filha, descreve o perigo que represen- tituía um modo secreto de impedirem que as marcas colectivas e
11 1 p11111 lodus as mulheres casadas o vestuário exigido pelo jogo públicas do vestuário queimassem a sua carne e corrompessem a
111 111111111111111: «l lacz, donques, bele fille, et foulez de cuer les robes sua alma.
, 1 li 111111til,l'S du monde, tant couviegne il que vous aucune foiz Não é surpreendente, portanto, que a renúncia à moda seja um
1, 1111111•, + 11 • O seu modelo deveria ser Ester, que desdenhou as tema mais frequente na hagiografia das santas do que na dos santos.
Q uando Umiliana dei Cerchi tentou empreender uma vida espiri-
• 1 t,h 11111111111111<>,
bela filh a, e despreza, no teu íntimo, as roupas e as elegâncias do tual dentro dos limites de um casamento que lhe impunha um traje
1 11111d,1 1 111 q111• 11~ 1cns por vezes que usar» (N.T.). adequado à rica posição do seu marido, por exemplo, cortou rente
As modas femininas e o seu controlo 207
1 h11i11 lrns das s uas roupas e poupou as sobras, juntamente com

" , 111-1 toucados (exceptuando um em linho e um bocado de um


111111 o l1·ito ele seda), para os distribuir pelos pobres de Florença. Este
11 111 n·111ctc para S. Martinho, mas no caso de Umiliana vai para
11 11 111 d11 rnriclade para se tornar um sinal de resistência obstinada ao
1111111 1110 patriarcal. Mais surpreendente é a aparente relutância de
1111il h1•1'l'S ·orno Umiliana em ultrapassarem a renúncia privada e
1h 111111ci11rcm p ublicamente o apego dos membros do seu sexo à
11111d11 . Os ornamentos da vaidade feminina que ela tinha afastado
d11 11111111 ' res romanas foram apresentados como prova da sua
11 111 idnd • no processo de canonização de Santa Francisca Romana,
11111~ tll'lll ela nem outros como ela encontraram voz para criticar os
1111 j1·,~ 1it'os se estes fossem usados com sobriedade e legitimamente,
1 111 •, rnmo um m eio de confirmarem o estatuto familiar e a hierar-
q11 11 sm·iul.

Muis frequentemen te as mulheres cnt1cavam os constrangi-


11w111os impostos à sua liberdade de vestir, quando e stes as impediam
d1 1•guir os lilames da moda. Embora as leis sumptuárias regulas-
, 111 o v •stuário de ambos os sexos, as mulheres sentiam-se, e com
111 1111, purticulannente ameaçadas pelos seus controlos, e geralmente
1 111111 1•l:1s quem organizava petições para serem libertadas dos seus
11111 ll'llng imentos. Em Itália, onde a maior paite dos controlos ema-
111v11 d· 1·g islaturas locais ou dos palácios episcopais, a isenção
i111llvld1111 I podia ser solicitada a uma autoridade superior - como
1111 1·111-1 0 d ' um a nobre veneziana que obteve do papa o direito ao dos agentes da lei, correndo a refugiai·-se nas igrejas para evitarem Esta ilustração é um bom exemplo
,, 1111111 io e 1\s jóias que até aí tinha u sado, «in parentum suorum ser citadas, e, se apanhadas, defendendo os seus ornamentos proibidos de como se podem tirar conclusões
sobre as diferenças sociais a partir
111111111 1•111 ·1 ipsius vetustatem»*, antes de um regulamento sumpc com uma virtuosidade legal e linguística que as personagens do da indumentária. Os nobres, tão
111111 io locnl as ter decretado desonrosas; ou o de Battista Petrucci, novelista teriam admirado. ricamente ataviados como os seus
cavalos, vão à caça com os seus cães.
11111 1! 11 I' dotada para a retórica que, em recompensa do seu eloquente No século XV as mulheres tinham deixado de se contentai· com O mendigo, os camponeses e mesmo
dl 1·11r o p •rnntc o imperador Frederico III, solicitou ser isentada das a m era isenção ou evasão para atacarem o próprio princípio do con - as bestas de carga não só vestem
11 11 ,· l'N s umpt uárias vigentes em Siena. As mulheres usavam
pobremente como estão desprovidos
trolo sumptuário. A poetisa Cristina de Pisano abre o fogo, embora de cor. Pormenor de O Bom Governo
111111 1n•quc 111 cmente as suas capacidades, eloquên cia e aquilo que de maneira oblíqua, em Le trésor de la cité des dames, escrito em no campo, de Ambrósio Lorenzelli
11 li L l11clor ·s florentinos descreviam como as suas «germinantes 1405 como alegoria especificamente dirigida contra a misoginia do (1285-ca. 1348). Siena, Palácio
Público.
111 11 1 l11l1'H»'1"" para iludirem a lei. A história de Sacchetti acerca de Roman de la rase. Na sua cidade, que a Razão, a Justiça e a Rectidão
11111 111p1t•d11so o fic ial de execuções que tentou prender uma mulher tinham construído para proteger as mulheres das flechas dos homens,
11111 1 111 1111111· bote cs ilegais e a viu responder-lhe «non sono bottoni, os vestidos à moda tomam-se um desejo legítimo, usados não para
11111 ~111111 n1p1w ll »***, ilustra bem uma luta inventiva preserv ada seduzir os outros mas apen as p ara o prazer daquela que os usa. Nas
11,1 11 pi t11 Jt1l'íd icos e admin istrativos de muitas cidades italianas. cidades menos ideais da Itália, podem também ser detectados sinais
1 h 11111 1111111 qu , us mulheres se m antinham atentas às deambulações de uma campanha m ais ampla, baseada em argumentos éticos e
sociais mais do que em argumentos estéticos.
A bela e aristocrática bolonhesa Nicolosa Sanuti, de quem Saba-
, 111 111111111 doNNc 11s pais e da antigÚidade da sua linhagem» (N.R.).
,1l11111111111ll•H IINltk ins» (N .R.). dino degli Arienti se recordava ataviada com um vestido de seda
11111 • 11 1t111n •s, s o copc las» (N.T.). púrpura e com um manto cor-de-rosa debruado com o mais fino
As modas femininas e o seu controlo 209
11111111110, uprcsentou uma resposta elaborada a um código s umptuário minavam a força imperial. Desviada da virtude republicana pelo
1111p11 lo às mu lheres da sua cidade em 1453 pelo cardeal Bessarion. apetite feminino pelo luxo, Veneza, indolente, tinha-se dedicado a
l•111hon1 e le continuasse, por meio de um intricado sistem a que com- imitar e a saquear o Oriente, que - sob a forma do Turco - aca-
li11111v11 o tec ido, a cor e o estilo, a marcar as fronteiras da hierarquia baria por esmagá-la se as mulheres não fossem confinadas ao uso de
1111>111111 ulravés do vestuário feminino, negava no entanto a todas «ornamenta non lenocinia»*. Estes últimos são os trajes das mulheres
,1 11111lhercs - mesmo a aristocratas como Sanuti - os tecidos de cuja sexualidade não é controlada por homens. E , como seria de
11111o · de prata, q ue se tomavam assim prerrogativa dos homens. O esperar, Laura Cereta apelava ao sexo oposto para controlar as fra-
'llll' 11 •lu lhe custava a aceitar. Apoiando-se em e xemplos de mulhe- q uezas do seu próprio, avisando num tom de profecia hebraica que
11 nobres desde a Antiguidade até aos seus dias, ela questionava «ubi consilium majus, major ita culpa gravatur»** 23 •
o dl1l'i10 de tal lei tratar as mulheres como uma categoria homogé- Os conselhos venezianos exerciam certamente este controlo no
m II l menos v irtuosa da humanidade. Longe de aceitar a identifica- início do século XVII, época em que Lucrécia Marinelli escreveu
,· 111 dos mulheres com os bens efémeros de um m undo transitório e La Nobiltà e l' Eccellenza delle Donne. A legislação regulamentar
11111lt•ri11I, argumentava que apen as o seu sexo oferece um m eio de publicada de dois em dois anos (e já não uma vez por década como
1•1w11p11r aos inevitáveis estragos do tempo, cuja personificação no no século anterior) testemunhava os novos receios sumptuários de
v,1111:1. e masculino deus Saturno, que devorou os seus filhos, se uma cidade onde o consumo tinha substituído a produção como
1 111pl·11hava em explicitar. Apenas a fertilidade das mulheres pode ocupação principal das classes governantes. Diferentemente dos
111l1 lg11r o seu poder destruidor, porquanto «mulieres s unt quae reinos estrangeiros e dos regimes despó ticos da Itália, a republicana
l11111ilins, quae res publicas, quae totam denique humanam condi- Veneza não usava a lei para marcar as fronteiras sociais da hierarquia.
1lrn1t•m restaurant, et quod maius et immortalem reddunt»*. Já n ão O seu controlo sumptuário afectava toda a gente, mas, dentro dos
, 11'!11H da sexualidade estéril de Eva, que não conduz senão ao limites das suas restrições, os talhantes podiam vestir-se como nobres.
l1í11111lo, mas antes do poder socialme nte criativo das Sabinas, cuj o Pode ter sido esta situação social e legal q ue permitiu a Marinelli
llh·ro ·olectivo produziu um império. Segundo o criativo argumento ultrapassar a defesa social do vestuário e nquanto marca legítima de
d, S1111u1 i, o vestuário e os adornos femininos n ão são preparativos estatuto, feita por Sanuti, p ara reconhecer a legitimidade da-moda
purn 11111 funeral e para a decomposição subsequente, como tinham em si - desde que fosse envergada por uma mulher. A moda per-
ti l111 111do Tertuliano e os moralistas que o seguiram, antes para um mitia às mulheres uma espécie de auto-definição que servia como
1 11 11111 ·1110 e para a s ua promessa de re nascimento. Eles serviriam prova da superioridade do seu sexo. Porque os homens estavam bem
1111111> 111, sustentava ela, como um meio ímpar de recompensar definidos publicamente pelas marcas do ofício e da hierarquia para
11111111 ·r 'S de distinção, a quem na sua época tin ham sido negados os beneficiarem das transformaç ões da moda, cujas exigências, por
, 111 os u que podiam aspirar os homens no bres e virtuosos. Para tais isso, o s tom avam ridículos. Como o marido artesão, «tutto lordato
11111lhl·r 'S, o vestuário deve pe rmanecer como uma marca singular e di sangue di bue»***, q ue ela descrevia esperando em casa, enquanto
d, 111 rldoru cio seu estatuto e valor: «Ornamenta autem et cultus, guia a sua mulher elegante se passeava pelas ruas com as s uas sedas,
1111 11111u111 s int insignia virtutem a nobis e ripi quoad poterimus non jóias e chapins, os homens estavam indelevelmente marcados pela
22
p 11l1•111111·» ** . Se a moda é uma mulher é porque às mulheres se sua posição social. As mulheres, por outro lado, podiam beneficiar
d, 1. 11n1 111 apenas as roupas como meio de modelarem o seu ser das possibilidades camaleónicas da moda para se tomarem tão nobres
111 Ili 1, q uanto aparentavam. O que era verdade, pois o ves tuário permitia-
Nl•111 Iodas estavam de acordo. D e Veneza chegou-nos a voz -lhes exioir uma dignidade interior cuja ausência no homem privava
111 1 1•011v ' nc ional de Laura Cereta, que era, ela própria o admitia, a moda masculina do poder de tran sformação social.
111111} 11cl11 d • uspccto e de vestuário, amante das letras e não dos trajes Em bora a argumentação em favor da s uperioridade feminina tenha
1 111 o . Nos ricos trajes via ela a história do declínio de Veneza, de sido elaborada em nome de todas as mulheres, a defesa da moda
q111 1 111111'1 'rcs seriam as principais fautoras - como Dalila, elas aplicava-se mais precisamente às italianas. Em contraste com as
m ulheres francesas e espanholas, que p odiam exercer q poder

• h1 IIN 11nllllcre~ que reproduzem as famílias, e também a República e toda a


• 111111 111111111111111: l' 111t1is: que a tornam mesmo imortal» (N.R.). * «adornos não provocantes» (N.R.).
e '11111 lrnl11~ 11s forças nos óporemos a que nos sejam arrancados os nossos ** «qum1to maior é o conselho, tanto mais grave é a culpa» (N.R.).
"" 1111111111 • 11N 1111~ws 1rajcs, porque eles são as insígnias das nossas virtudes» (N.R.). *** «todo sujo de sangue de boi» (N.T.).
As modas fem ininas e o seu con trolo 211

li lld11I, ou com as alemãs e flamengas, que eram livres de se dedicar simbólicos do vestuário. Mesmo os brincos, com os quais, sob a
11 11111 ofício, as mulheres italianas - segundo Marinelli - . eram pressão dos mendicantes, muitas cidades italianas tinham marcado
p li lku larmente susceptíveis à auto-definição que a moda permitia. as mulheres judias no século XV, encontraram, por meados cio
N lo definidas , e portanto não afectadas, pelas marcas políticas e século X VI, lugar nas orelhas cristãs. O significado da moda tor-
1·1·11n6mi cas por todo o lado impostas aos homens e noutros países às nou-se tão mutável quanto a própria moda, exigindo permanente-
11111 1h ' rcs, elas eram mais livres para se exprimirem através do ves- mente não só reconhecimento mas também interpretação. Sendo a
111 rio. Marinelli pode ter exagerado o poder político e económico sua mais perfeita encarnação, as próprias mulheres exigiam atenção
d11s outras mulheres, mas não foi a única a atribuir aos italianos uma não como símbolos estáveis de valor social, mas como partici-
r111rn ·idade peculiar para explorar as qualidades criativas e trans- pantes num jogo interminável de negociação social. Se o individua-
gn•ss ivas da moda. lismo do Renascimento fez de tal auto-criação uma arte, a moda
Por meio das suas roupas, as mulheres participaram de forma ameaçava fazer das mulheres o paradigma por excelência desta
vlsfv ·I na auto-criação que Burckhardt considerava uma caracte- época.
1!si icu defi nidora da cultura renascentista. Tal como os. déspotas
llli lizaram as armas e a diplomacia para for:jar identidades políticas
111div iduais, livres dos constrangimentos dos antigos ideais feudais Uma avaliação moderna
1 hie rárquicos, t,.ambém as suas esposas e filhas utilizaram a tesoura
1• os lecidos para modelarem personalidades sociais individuais, Os críticos modernos não foram tão- rápidos em ver na moda um
111p11:,,es de suplantar uma identidade colectiva. A sua posição de instrumento de poder para as mulheres. Em vez disso, argumentaram
,·~posus vindas do exterior para se casarem fez destas mulheres de que, longe de permitir uma nova 'liberdade de auto-definição, o
1011· os veículos naturais da moda estrangeira; mas elas foram mais vestuário criado pela moda encobria os sinais de uma nova escra-
1111111 ', esbatendo as marcas do ·vestuário tanto da sua terra natal vização feminina. Onde os governos hierárquicos fracassaram nas
1111110 da sua terra pelo casamento, procurando no estrangeiro novas suas tentativas de utilizar o vestuário semioticamente como deli-
l11wnç< es. Bona de Sabóia escreveu de Milão a Ginevra Bentivo- mitador das fronteiras sociais; uma economia capitalista conseguiu
~d 10 pn ra arranjar fazzoletti de seda, populares em Bolonha. Beatriz fazer dele um sinal fundamental do notável consumo que se trans-
eh• Esl ', 11o varum vestium inventrix*, como a descreveu Muralto, formara numa medida do crescimento económico e da posição
1 llllSl'P,Uiu desenhos do traje da rainha de França para introduzir o social. Permitindo que os chefes masculinos dos agregados fami-
1 li l'SIilo de toucado na Lombardia. A sua irmã Isabel tomou-se tão liares consumissem ·por substituição através das modas das suas
e nnlwcida, pelos emissários que mandava de Mântua ao estrangeiro mulheres, os progenitores do capitalismo em ascensão foram capazes
p 1m nrrn njar os tecidos e as modas necessários para criar um estilo de evitar algumas das manifestações mais perturbadoras do mundo
l1111 11111c ional, que Francisco Ilhe .pedÍu que mandasse a Paris uma que estavam a criar. A invenção incessante e a obsolescência planeada
i llllll'l'II V Slida com a sua Última moda como modelo para as damas inerentes à economia de consumo tornaram-se mais claramente
d11 1111 corle. associadas ao ca;ácter feminino à medida que os homens vestiam as
Nu,~ 111, os criativas das italianas, a marca colectiva do vestuá- suas mulheres e tentavam retirar-se do jogo da moda. É claro que os
110 1111 11ou-sc menos impo1tante do que a afirmação individual que homens podiam também ser pavões. Mas, apesar disso, não parece
111 1111 l1in . Ass im , a co.r perderia o seu valor simbólico porque era haver qualquer lei sumptuária dirigida às mulheres equivalente à
11 11d I p11 ru lisonjear os olho o cabelo e a pele. O berettino, um direétiva· que Veneza dirigiu à sua classe dominante masculina para
111111 111 0 d · luLo, tornar-se-ia uma cor favorita de Isabel de Este, que se vestisse de forma mais colorida e sumptuosa. Se o seu traje
111111 1111• t• l11 p •nsava que lhe ficava bem. E se o governo veneziano demasiado sóbrio ameaçava o prestígio da sua cidade, ele significava
1 1 11 1 sutis mulheres de preto como sinal da sua humildade, os igualmente um carácter de conservadorismo e estabilidade adequado
1 111111 h1pm 1H..'os atribuíram a rápida adopção desta cor ao facto aos seus governantes legítimos. Eles podiam dar-se ao luxo de usar
d1 1 ht 1 1von·c ·r a sua pele c\ara e os seus cabelos platinados. O um tal traje porque as suas esposas e filhas afirmavam oestatuto da
q11 111 e I tko triunfaria igualmente sobre as proibições sociais família aceitando o desafio da moda e mudando de vestuário com a
1111 dtd I IJ lll' as mulheres de corte rejeitavam os significados estação. De acordo com este cenário, as 'mulheres vestiam-se ao ser-
viço dos homens, perdendo neste processo os atributos de constância,
1!1 , 11111111 ,1(, ,1ovus roupas (N .R.). prudência e estabilidade necessários ao bom governo e ao bem-estar
As modas femininas e o seu controlo 213
, 1111llunl. Elas tornavam-se as mais temporais das criaturas num 13. De Cu/tu Feminarum, ed. Marie Turcan, Paris, Eclitions clu erf, 197 1, pp.
44-46.
1111111do cada vez mais consciente do tempo. 14. Le prediche volgari, ecl. Ciro Canarozzi, 5 vols., Pistoia, 1934- 1958, l , 244.
No •ntanto, à medida que as qualidades da moda se colavam à 15. Pró logo a The Wife of Bath's, 11 , 337-347.
11111ll' das mulheres e definiam o carácter daquela que a usava, a 16. S. Bernardin o, Opera Omnia, II, Florença, 1950 , p. 56.
17. Veneza, Archivio di Stato, Maggior Consiglio, Ursa, f. 8Jv.
111ocln oferecia também às mulheres um meio de reordenarem as
18. Citado por Anderson, H ispanic Costume, p. 209.
ti 1 1i nç cs sociais e de reencenarem o processo social. A colaboração 19. Citado por L. T . Bel grano, De/la vita privara dei Genovesi, 2." ed ., Génova, 1875,
11111' • mu lheres ávidas de moda e fabricantes ávidos de lucros p. 270 .
20. Le Blason de Basquines et Vertugalles, Lião, 1563, sem paginação.
111111s l'orrnou a exigência eclesiástica do século XIII de que as
21. Citado por Michel Z ink, «L es Destinataires des recueils de sermons en tangue
11111lhcrcs casadas velassem o rosto, de instrumento de demarcação, vulgaire au XII' et au XIII' siecle», in La Piété populaire au Moyen Age, Paris, Bibliotheque
1•111 oportunidade de transgressão, visto que os véus de seda obscu- Nationale, 1977, p. 70. ·
22. Ed. Ludovico Frati, La vita privara in Bologna dai seco/o Xlll ai XV//, 2." ed.,
ll'Ci11111, e mantilhas mais elaboradas mascaravam, as identidades Bolonha, 1928, pp. 251-262.
p111rilincares. A moda masculinizou os vestidos femininos, não para 23. Laurae Ceretae Epistolae, ed. J. F. Tomasini, Pádua, 1640, pp. 70-71.
lllí'.l'r das mulheres homens mas para sugerir à que a usava (e aos
~1· us críticos) a aquisição de um novo poder viril. Que tais trans-
1111 mações eram mais imaginárias do que reais é um sinal das limi-
lllÇ() 'S da moda. Mas é igualmente um sinal do ·seu poder. Desde
os ·hapins e anquinhas omnipresentes às 800 plumas de pavão que
11111 111crcador de seda florentino comprou para fazer um chapéu para
11 sua jovem noiva, ou ao traje turco que Beatriz de Este mandou
luz ' r Iara as damas da sua corte, a moda é fantasia. Uma fantasia de
onhos, mas também de possibilidades utópicas. É talvez esta a
1lli'.t o por que as mulheres eram, de facto, as suas adoradoras.

[Traduzido do inglês por José S. Ribeiro]

Notas
1. M. ele Grenaille, La Mode ou Charactere de la Religion, de la Vie, de la Conver-
111111111, dl! la Solitude, des Compliments, des Habits et du Style du Temps, Paris, Nicolas
C l11HH•• 1642, citado por Louise Godard de Donville, Signification de la Mode sous Louis

"<Ili , Aix-e n- Provence, Edisud, 1978, p. 144.


2. O rclerico Vital, Historiae Ecclesiasticae, ed. Auguste Le Prevost, 5 vols., Paris,
IH•I0 ,55, I[[: 323.
\. i1ado por Ruth Matilda Anderson, Hispanic Costume, 1480-1530, Nova Iorque,
IIIH1>1111ic Society of America, 1979, p. 143.
~- João Florentino, li Pecorone, in G. Carducci, Cantilene e ballare, Pisa, 187 1, Lib.
VI I, Jl. 196.
~- Pnris, Archives Nationales, KK8, f. 26v, citado in Stella Mary Newton, Fashion
/ri Ili!' /\11e of the Black Prince, Woodbridge, Suffotk, Boydell Press, p. 31.
(1, O,• gli habiti antichi, et moderni di diverse parti dei mondo, Veneza, 1590, p. 140v.
/ , lhid., p. 100.
H. l1lorença, Archivio cli Stato, Deliberazioni dei Signori e Collegi, Ordinaria Autorità,
l 1, ll . ~v-6 r.
1l, (1, Buch heit, Der Totentan.z, seine En.twicklung und Entstehung, Leipzig, 1926,

p 1111.
10. Joseph Swetnam, The Arraignment of Lewd, /d/e, Forward anel Unconstant
li 11111,•11: Or rhe Vanitie of Them, Choose You Whether, Londres, 1615, p. 30.
11. John Rylands Library, Ms. Lat. 367, f. 256.
1 >, C'ituclo de British Library Ms. Harl. 4894, f. 176b by G . R. O wst, L iterature and
/'11111/r 111 Medieval England, 2.ª ed., Oxford, Basil Blackwell, 1961, p. 404.
As n1ulheres
nas estratégias
f an1iliares e sociai
---- -- - --- - ---------------~

Introdução
Christiane Klapisch-Zuber

Se se acredi tasse nos seus tutores, senhores das pos1çoes de


poder, se se escutassem apenas os seus directores de consciência
e os modelos que eles lhes apontam ao longo dos seus tratados· e
sermões, as mulheres estariam encerradas numa rede tão emaranhada
de regras que elas não poderiam nem mexer-se nem falar. Passivas,
então, face a uma tal conjunção de normas que lhes inculcam a
obediência à dominação masculina? Obje_ctos submissos das_j[_ocas
yntre homens, qpe decidiriam da sorte delas ao sabor das suas estra- Página 212 :
tégias de aliança, que as deslocariam no tabuleiro das suas ambições Uma das obsessões mais frequentes do
familiares e sociais? O propósito dos capítulos que se seguem é homem medieval deve ter sido o medo
das más colheitas, das enfermidades e
avaliar a influência das representações da divisão dos sexos, do das fomes. A mulher da ilustração
género, que essas normas transmitem e codificam , sobre os destinos mostra ao homem as propriedades
das maçãs acres para remédio do
individuais e sobre a vida quotidiana. Procurar decifrar as relações desfa lecimento. M in iatura de D e
entre QS sexos na prática social é também tocar, por vezes, a capaci- Natura Rerum, de Tomás de
dade das mulheres para tirarem partido das vantagens ou desvan- Cantimpré ( 120 1?- 1276?), pertencente
ao códice 1-listória Natural de Santo
tagens que aquelas lhes conferem. É por isso em torno do problema AI/Jeno Magno, pri me ira metade do
do «poder das mulheres» - autoridade real em certas relações' século XV . Granada, Biblioteca da
Universidade.
familiares e sociais, contrapoderes compensatórios ou complemen-
tares, poder oculto que o medo e o desconhecimento lhes atribuem
- que se articulam estes ensaios.1 Da literatura sobre as mu lheres
vamos passar ao poder exerc ido por
No cruzamento das representações e das práticas sociais, o direito e las. Sobre quem, em que espaço e
traduz, pelo conjunto das suas regras e das suas proibições, pela com que capacidades, serão os temas
do nosso estudo. Este baixo-relevo
protecção que concede às mulheres ou pelos limites que impõe à sua ilustra a in fl uência elas representações
acção, a capa de ideias e de representações que as encerra. A época da divisão cios sexos. A mulher, sem
nenhum interesse militar e pouco
dos reinos bárbaros assiste a uma explosão de direitos novos vei- interesse económico ou fiscal,
culados pelas diferentes nações genn ânicas instaladas no tenitório desenvo lve-se num espaço interior,
do antigo império romano. Contradizendo muitos dos princípios do ele activ iclaclc quotidiana. Na imagem,
duas mulheres, vig ilante e operária,
direito romano que o código de Justiniano, em paiticular, tinha entregam-se à actividacle têxtil num
reelaborado, mas depressa por ele fecundados, eles não estão neces- tear representado com um apreciável
pormenor. Baixo-relevo de André
sariamente de acordo entre si sobre os direitos das mulheres, ou a Pisano ( 1270-1348/9). Florença,
propósito dos direitos sobre as mulheres. Durante os longos séculos Museu da Catedral.
Introdução 219
q111 Ili du Antig uidade tardia à época carolíngia, Suzanne Wemple
histórica das últimas décadas. Entre outras, trabalho u para dar às
11111 1111 nos u div rs idade desconcertante dessas fontes jurídicas em mulheres um lugar na história das sociedades tradicionai s. Parec -
q111 11 historiador e ncontra o seu material mais rico e mais sugestivo, -me portanto útil evocar alguns aspectos do legado que os seus
q 11 111dos seus limites. No âmago dessa massa documental, comQ_no_ trabalhos, recentes ou já mais antigos, transmitiram à hi stória das
d11 dtsrnrsos e narrativas contemporâneos, um argumento centrªl :___a mulheres: a mais de um título, as investigações, de que dão conta os
11 i•11lt111tl' t1tação, o controlo do casamento- portanto, das ~ ~ ll_e_res. quatro capítulos que se seguem, apoian1 as suas conclusões sobr '
H11qu ndra nclo mudanças fundamentais entre as cêlulasda socie- essa h erança.
d11d1•, o casamento parece bem o lugar onde se tecem os destinos Como vamos ver, este legado é problemático, como problemática
l1•11il11i11os e a chave fundamental da nossa compreensão das rela- é a história demográfica de toda a Idade Média: ambiciosa, é certo,
'i,IWS L'lltrc os sexos, entre o indivíclug_! <:s seus grupos de perte_nça,
mas frustrada na sua preocupação de atingir o mesmo rigor ela sua
1 11111• os •sí"cras familiar e pública. Não apenas porque, grande ntual vizinha dos tempos modernos, confortavelmente instalada à sombra
1 111 l>lll'll da entrada na idade adulta, ele deixa transparecer através do registo civil. Por pouco seguros ou dificilmente generalizáveis
t111 ~ suas negociações e da sua celebração as aspirações dos actores que sejam os seus resultados, algumas das suas intetTogações e.:5pe-
,,l'i11is , mas também porque é objecto de uma reflexão teórica ama- cíficas tiveram, no entanto, mais do que pará qualquer outro penodo
d111vridu pelos teólogos e pelos canonistas e de pressões institucio- histórico, efeitos directos sobre a maneira ele discutir o lugar histó-
11111s L'Xcrciclas pelo Estado e pela Igreja, que se conjugam para o rico das mulheres na sociedade e nas mudanças que a afectavam.
IHl.l'I" l'VO luir. Os capítulos que se vão ler acabam por recair todos
Peguemos em primeiro lugar 12a noção de «mercado matrimonial»,
nht\' o contro lo do casamento conseguido pela Igreja a partir ela que designa brutalmente, em tetmos de ofe1ta e de pro~ura, o estado
, JHll' il carolíngia, sobre a sua sacramentalização nos séculos XJ:XII,_
que resulta da nupcialidade e das condições de acesso ~.9:-casamento;
11111\~ a aplicação dos novos princípios à prática dos padres e dos ela reenvia-nos, portanto, para o contexto demograf1co e, entre
11·1 •os; através de muitos exemplos, eles esclarecem as dificuldades outras coisas, para a relação numérica entre os sexos. Os termos do
,li, processo, a que não faltaram recuos nem passos em falso. Tal acordo matrimonial, e sobretudo a idade em que a ele chega cada um
1111no a história das relações entre os sexos, a história das mulheres dos sexos, constituem outros tantos observatórios a partir dos quais
11111 s\:gue decididamente um curso regular e uniforme: a evolução se adivinham os constrangimentos familiares e sociais que governam
dtt direito oferece o melhor ponto de vista sobre uma perspectiva as escolhas dos indivíduos - e em particu lar as das mulh:res. Qra~
11111stant emente quebrada.
a idade na qual homens e [lll1lheres ace_de.m.a.o casa_mento nao resultD
( 'onressemo-lo: se é relativamente fácil decifrar em pormenor 'apenas d-e factores demográfic.os. Os sist~mas _de sucessão, as trocas
1~ 1\•sislê ncias e as barreiras que levantam obstáculos à mudança, o
de bens, que acompanham a aliança matnmomal, a esperança de um
p111prio sentido da m udança não concita a unanimidade. Como Pau- «estabelecimento» ou a possibilidade de uma residência autónoma
lt•I ll' L' l lermite-Leclercq assinala logo no início do seu texto, os his-
intervêm igualmente para encorajar ou dissuadir os candidatos ao
1111 indorcs não estão de acordo sobre a interpretação geral que deve casamento.;Por isso, a nupcialidade, numa dad,a sociedade, env~lve
d,1r s ·nticlo às condutas particulares. As grelhas segundo as quais os próprios fundamentos desta. Quando demografas como Ha3nal
110 lidas a evolução da condição feminina na Idade Média e o.s
situam o casamento no centro da cena demográfica e fazem desta
l1wtor •s q ue a determinam - sejam eles jurídicos, económicos ou relação social e institucional o pivot elos seus inquéritos estatísticos
1l1•11H>gráficos - não coincidem. Estas poucas páginas que se seguem sobre {1ma população do passado é precisamente porque a conside-
l11strnriio algumas das dificuldades em aj ustar a histó1ia das relações ram um indicador essencial das suas escolhas de vida 1• Estaremos nós
111ln· os sexos com as grandes linhas de uma evolução definidas pela em condições ele assim julgar relativamente à Idade Média? Aqui,
l11 ~h iriografia anterior; fá-lo-ão insistindo nas contribuições da históri~ o confronto de informações escassas, dispersas, heterogéneas, fre-
d11 popu lações, a_primeira, juntamente com a história do direito,._g._ quentemente limitadas à franja social superior, faz-nos_correr o risc_o
l1 11t11rdu fo rmaçãQ do ~asal e do casamento,~ primeira tambépl a _v~· de cairmos no impressionismo e de construirmos um sistema a paitir
1•11·111- lhc pilhadas as suas conclusões para que sobre elas_fo.ssem_ de duas ou três menções de idades ao casamento isoladas no tempo
11q11it ·ctaclas interpretações globais da condição feminina na Idade e no espaço.
l\lc clit1 . De facto, poucos trabalhos de inspiração comparatista enfrentaram
S11he111os como a demografia histórica, essa disciplina austera, a tarefa de estabelecer o quadro das práticas matrimoniais medievais
111 p1rn11 mu itas abordagens e hipóteses inovadoras na investigação à escala de toda a Europa, poucos recensearam metodicamente as
111111.111·~ 1• sociais introdução 22 1

v111111111cs dos comportamentos e das estatísticas que os medem2 • Percebe-se o papel que neste quadro desempenha a disparidade
l 111111 tc nlativa recente, levada a cabo por David Herlihy, permite numérica entre os dois sexos. Ela foi invocada com mais insistência
o l>1 cvoar os processos pelos quais se constituíram, desde a Anti- em diversos debates sobre o lugar das mulheres na Idade Média: a
1111dade e até ao século XV, os «lares» da Europa ocidental3. O autor §Ua característica comum é assumir como adquirido que muitas de
d i~c ulc aí as condiçõe_§_do casamento a partir de um conjunto inédito ~ntre elas não podiam ter acesso aQ..casamento ou, quando viúvas,
ck dados que dizem respeito às idades em que se acedia ao casa- ao recasamento, e que esta e~clusão de um estado normal para as
llll'1110; esses dados,_díspares, são tirados de crónicas ou das narrativas mulheres resultava de um dese ui~ io entre os sexos:_/
lioµiog ráficas, dos censos carolíngios ou dos recenseamentos fisc;is A partir dos trabalhos de Karl Büch~r no final do século pas-
do l'inal da Idade Média. Este panorama sedutor interpretgi assim sado, aquilo que era designado como o Frauenj"i-age, o problema das
i11f'ormações que na sua maior parte dizem respeito a indivíd~ mulheres que não podiam casar, amplamente evocado mais adiante
l'~palhados no espaço europeu e ao longo dos tempos. Durante por Paulette L ' Hermite-Leclercq e Claudia Opitz, extraiu com efeito
11111i10 Lempo, a maior parte pertence às c lasses superiores, porquanto a sua argumentação das observações de ordem demográfica. No
duran le muito tempo os santos e as santas foram recrutados nos estado das investigações do início do século, os únicos dados preci-
1lll' Íos privilegiados, como demonstram vários dos capítulos que se sos eram tirados dos raros censos disponíveis, os de algumas cidades
' l'gucm: para atingir~ humilç!_es, p.ara._o_s estudar por gr__upos re re- do final da Idade Média. Na melhor das hipóteses, eles permitiam
~l'lllalivos, há que esperar pelo final da ldç_tde Méc!j~. A comparação observar as relações entre grupos de idades, po r vezes entre os sexos,
dl'st · período com as épocas anteriores repousa portanto numa base m as não descer ao nível dos comportamentos individuais que as
1•st l'l'Íta , e por isso frágil; as perspectivas que ela abre têm sobretudo técnicas de análise aperfeiçoadas na exploração do registo civil dos
vn lor de hipótese. tempos modernos permitem avaliar. Não será portanto surpreendente
Seja como for, D. Herlihy distingue vários modelos de casamen to para nós que, de todo o arsenal de medidas que a demografia histó-
qtll' se te riam sucedido desde a era·élássica._~n(l!J~tÜq ue a m11lher_~ rica elaborou, os medievistas pareçam por vezes não ter retido senão
11111 i).!.a era dada em primeiras nú_pcias, ainda de tenra idade, na sua um único índice, a relação de masculinidade - por outras palavras,
pli111 ·ira adolescência, a um esposo muito mais idoso do gue ~~. · o número de homens por cada cem mulheres - , que mede o equilíbrio
1•s1' modelo teria conhecido um eclipse desde a Alta Idade Média n uméiico entre os sexos e que vimos já escrutinado por D. Herlihy
llll' l' ·rca do século XII, p_eríodo em que as idades dos cônj uges se a propósito do casamento medieval. De facto, este índice serviu de
l1•1i11111 aproximado,.de acordo com os costumes germânicos já des~ referência fundamental em diferentes espécies de análises: graças a
l'I itos f)O r Tácito; o .!_I]odelo «antigo» voltaria depoiLà sup_erfiçie _e ele pretendeu-se já calcular as variações da situação j urídica das
11~ idades do homem e da mulher divergiriam de novo na Baixa mulheres ao longo dos séculos, e das condições do seu casamento
ld rt de Média, altura em que vemos reaparecerem.maciçamente esses em particul ar; a sua aceitação na família de nascimento e o grau de
l'll~nis desiguais em que uma grande diferença de idàdes separa ;-s misoginia específico da sociedade onde viviam; a sua· participação
l 11j11gcs. , - nas actividades económicas, a sua infegração na v ida espiritual do
1ix iste certamente uma coJTelação entre as diferenças de idade seu tempo.
dos l'Sposos nas suas primeiras núpcias e os diversos sistemas de No entanto, se observarmos de mais perto, a base documental
p11•111nc;o ' s materiais ligadas ao casamento; não podemos ignorar, sobre a qual assenta!n estas interpretações parece bem vacilante, e
1111 p11rti ·ular, a concomitância do desvio crescenle entre as idades os dados em que elas se apoiam não são também tão límpidos quanto
d11 l'S posos com os avatares do sistema dotai, que a renovação do parecem. A questão lancinante da cred ibilidade das contagens medie-
d111·ito roma no revigora a partir do século XII e onde o essencial d as vais obriga a que consideremos cum grano salis números por vezes
p11• 111,·1 ·s cslá a cargo da mulher ou da sua família. Estes movimen- admitidos com demasiado entusiasmo. E mais ainda, o alargamento
111 p111·nll' los testemunham mecanismos complexos; mas, em última da base problemática repõe em questão reconstruções que tiram, de
111 1 l11r l11, ,. pelo desequilíbrio numérico entre os grupos de esposos maneira demasiado exclusiva e mecânica, as suas justificações de
J111h 111•iuis - bom deus ex machina - que o historiador dá conta um único tipo de causalidade.
ti, 1111 l 'rqwl tanto mais notável quanto destes mecanismos depen- Assinalemos em primeiro lugar que ao longo de toda a Idade
di 111 , 11divi nlrnmo-lo, o tipo de estrutura doméstica e as hierarquias Média a relação numérica entre o s sexos é marcada por variações.
1111 1 11111 d11 t:asa, assim como as relações de autoridade e de afecto Esta d iversidade reflecte antes de mais a heterogeneidade das comu-
q111 li11111l'lls e mulheres nela mantêm . nidades onde ela pode ser calculada. Admitamos contudo que, pelo
l1 111,11ii,1r~'s e sociais l ntroduçno '• 1

menos nos limites restritos de uma cidade ou de uma aldeia, as questão importante para a história das mulheres, a da própria cons-
rdações sociais entre os sexos dependem em boa parte da sua rela- trução das fontes quantitativas clássicas: mais do que admitir a
c,ão de força numérica. Ora, é excepcional que se observe entre os cómoda ideia da s'iia neutralidade, o observador deve interrogar-se
•fcctivos de homens e de mulheres um equilíbrio local, mas estas sobre as distorções que o sexo dos actores nelas introduz. Mas uma
va riações jogam em sentido contrário de uma comunidade para tal conclusão é talvez sobretudo prematura, porque na melhor das
outra. E isto tanto na Al ta como na Baixa Idade Média. Nas ten:as da hipóteses suprime o problema da mortalidade diferencial, e na pior
abadia de Saint-Germain-des-Prés, no século IX, as mulheres são o da eliminação voluntária das raparigas e das mulheres. Foi nestes
muito menos numerosas do que os homens, sobretudo nos grupos tem1os que uma americana, Emily Coleman, o colocou não há muito
etários infantis. O mesmo acontece em tomo de Frufa, na Itália, tempo, a propósito das aldeias do Sul de Paris descritas pelo políptico
cerca do ano 800, ou em Reims4. No entanto, pela mesma época de Irminon, abade de Saint-Germain-des-Prés, que evoquei acima.
(8 13-814), elas são, na idade adulta, um pouco mais numerosas do Ela avançou a hipótese de que o desequilíbrio não poderia atribuir-
que os seus parceiros masculinos nos domínios de São Vítor de -se apenas aos defeitos do documento nem ao sub-registo das mulhe-
Marsel ha, enquanto que a população infantil experimenta aqui um res, mas reflectia antes uma situação real, fruto da discriminação
grande déficit de rapazes 5 • Estes dados, isolados e de interpretação activa entre os sexos desde o nascimento'º. Conclusão dela? O infan-
difícil, não apontam todos no mesmo sentido. E a situação não é ticídio das raparigas caracterizou essa sociedade carolíngia e apenas
obrigatoriamente mais clara em épocas menos recuadas. Se pratica- ele permite dar conta da desproporção entre os grupos de homens e
mente nada sabemos de preciso sobre a Idade Média central, a partir de mulheres. Concl usão sem dúvida forçada e controversa: ela foi
do fina l do século XIII os dados tornam-se mais densos. Em trinta e geneti camente rejeitada, ou pelo menos muito fortemente atenuada,
seis aldeias inglesas de cujos habitantes o Poll Tax de 1377 - os na base de uma discussão mais cerrada do documento e de confrontos
registos de capitação - indica o sexo a partir da idade de catorze 1
com os polípticos de outras regiões' 1•
anos, os homens são mais numerosos do que as mulheres6 : contam- 1
Deste debate podemos extrair uma conclusão. Ele faz-nos sentir
se aí 112 homens para 100 mulheres. O mesmo acontece na Toscana os escolhos nos quais tropeçam as investigações sobre as mulheres.
de 1427-1430, que o catas/o descreve de forma detalhàda7 : aqui, o Identificar os observatórios a partir dos quais eles podem ser ultra-
rnnjunto da população, assim como a maior parte das comunidades passados oferece já o seu quinhão de dificuldade. Além do mais,
rnns ideradas individualmente, sejam elas urbanas ou rurais, devem qualquer conclusão que assente em observações retiradas de um
rnntar com um déficit feminino, e os homens são mais numerosos documento específico é tanto mais vulnerável quanto tem laivos de
do que as mulheres em perto de um quinto. Noutras regiões da escândalo, tão forte quanto ela aspira à científicidade de métodos de
1iu ropa, no entanto, outros números contradizem estas observações. análise comprovados. Por isso, quando se trnta ele estabelecer factos
No final da Idade Média, em cidades do Norte da França como que implicam as relações entre os sexos, encerrarmo-nos num único
Reims, ou da Alemanha e dos Países Bàixos, como Friburgo, Basi- registo de factores explicativos pode custar-nos caro: de fac to, a
il'ia, Nuremberga ou Ypres, as mulheres excedem os homens em força dos argumentos que se opuseram à tese de um infan ticídio dos
1111mero 8 . Esta situação, que parece opor antes de 1500 a Europa do bebés do sexo feminino perpetrado nas terras do abade de Saint-
Noroeste às regiões mediterrânicas, tornar-se-á, parece, a regra nas -Ge1main-des-Prés radica em eles fazerem apelo a um leque de fac-
l'iducles do século XVI. tores explicativos bem maior. A este título podem ser invocadas as
Poder-se-á concluir de resultados tão contraditórios, como muitos reacções diferentes dos homens e das mulheres às causas da mor-
1iz •1-ain, que, nestas listas que raramente pecam pela sua preocupação talidade - para a Baixa Idade Média, será a peste em particul ar 12
de 1:xaustividade, o sub-registo das raparigas é o grande responsável - , se bem que, confessemo-lo, saibamos bem pouco sobre os efeitos
'
1wlo seu número demasiado bai xo, onde tal é observado9 ? Elas seriam físicos e mentais que os constrangimentos materiais, o sofrimento
111tencionalmente subtraídas aos agentes senh01iais, comunais ou do trabalho e da doença, a procriação tenham pelo seu lado exercido
1t•11is, com mais facilidade do que se fazia para os rapazes; de qualquer sobre a saúde e as capacidades de acção respectivas dos homen s e
111ndo, o olhru· menos escrupuloso que governantes e governados das mulheres desses tempos. Compreende-se que, nessas condições,
li ll'H d ·dicariam faria desaparecer as suas insignificantes pessoas, seja tentador identificar na disparidade numérica entre os sexos, ele
porq11ç não tinham nenhum interesse mi litar e pouco rendimento acesso mais fácil do que a maior parte das outras med idas demo-
1•1•111uímico ou fiscal traziam. Frequentemente, es'ta conclusão bloqueia gráficas, o parâmetro adequado para dar conta ele uma característica
d, 11111si:ido cedo a investigação, se bem que levante pelo menos uma da sociedade ou de uma evolução.
111111111• t' sociais Introdução 225

Atribuiu-se assim um papel sem dúvida excessivo ao excedente práticas sociais, permitir-nos-ão reconhecer, para a lém do que
11 1111 ivo das mulheres para explicar o seu empenhamento crescente determina de forma tão pesada a vida das mulheres - o casamento
1111 ·c.:onomia - no sector artesanal no final da Idade Média ou no e a proc1iação - , os momentos fugidios em que elas criaram as
l'C lor ind ustrial no Renascimento. Tal interpretação foi posta em condições das suas próprias escolhas.
q11t:stão de forma radical por historiadoras feministas. Trabalhos
tt1 n ·111cs·, de que Claudia Opitz dá largamente conta mais adiante, [Traduzido do francês por Francisco G. Barba e Teresa Joaquim j
di stinguem entre o acesso ao trabalho e a qualidade deste, o seu
prestígio social, as res po nsabilidades públicas às quais ele dá acesso.
1>o ponto ele vista da condição profissional e jurídica das mulheres, Notas
11 d<,;sq ualificação do trabalho feminino acompanha, pelo menos desde
1. John Hajnal, «European marriage patterns in perspective», in Popularion in His-
o século XV, o seu relegar para a produção de mercadorias de qua- tory, D.V. Glass e D.E.e. Eversley (eds.), Londres, E . Arnold, 1965, pp. 101-143.
licludc inferior, e este facto é' mais impottante do que a sua chegada 2. C itemos o q uad ro de conjunto das contribuições financeiras para o casamento
estabelecido para a área mediterrânica por Diane O. Hughes, «From brideprice to dowry
l' lll l'o rça ao mercado público do trabalho. Em suma, se o número ele
in Mediterranean Europe», .lournal of Family History, 3, 1978, pp. 263-296, e a compa-
11 \ til hc res a trabalhar é maior, a concentração da mão-de-obra feminina ração das características da nupcialidade entre a Europa do Norte e a do Sul feita por R.
t'l11 <,; mpregos pouco gratificantes contribui em m uito para esta des- Smith em «The People of Tuscany and the ir families in the fifteenth century: Medieval
q11alif'icação: um trabalho subordinado, para uma produção desqua- or Mediterranean?», Journal of Family History, 6, n. 1, Primavera 198 1, pp. 107- 128,
esp. pp. 115- 116.
1i f'i <.;ada. Estamos aqui longe da hipótese monocausal de um Karl 3. D. Herlihy, Medieval Househo/ds, Cambridge, Mass., Harvard University Press,
BUchcr: para além da relação numérica entre os sexos, outros factores 1985, p. 67.
i111c rvêm que põem em causa a organização fam iliar, a situ ação da 4. Polyptiqu.e de l' abbé lrminon, ed. por B. Guérard, Paris, 1844, «Collection de
documents inédits sur l' histoire de France», 3 vol.; Polyptique de l' abbaye de Saint-Ger-
l'u rnília e dos seus membros, ho mens e mulheres, relativamente à main-des-Prés, reed. por A. Long no n, Paris, 1886-95; D. Herlihy, Medieval i-louseholds,
produção de mercado, a fraquezâ ou a força dos ofícios na comu- op. cit., p. 67; J.-P. Devroey, «Les premiers polyptiques rémois, VlI' -lXº siecles», in Le
grand doma ine aux époques mérovingienne et carolingienne, A. Verhulst (ed.), Gand,
nidade considerada, a organização política e a ideologia do género
1985, «Belgisch Centrum voor landelijke Geschiedenis», Publ. 8 1, pp. 112-124.
q11c, no fim de contas, a sustenta. Em resumo, as relações entre os 5. Monique Zem er-Chardavoine, «Enfants et jeunes au IX' siecle. La démographie
Ht·xos e as destes com a esfera económica não podem reduzir-se du polyptique de Marseille, 813-814», Provence historique, 126, 1981, pp. 355-384, esp.
11nicamente à relação numérica entre os efectivos masculinos e p. 359.
6. Richard M. Smith, «Hypotheses sur la nuptialité en Angleterre aux XIIl'-XlV'
l1.•111ininos : não podemos confinar a análise apenas às de terminações siecles», Annales E.S.C., 38, n. 1, 1981, pp,- 107-136, e sp. p. 116, e «The People of
1k:inográficas, e ainda menos a uma só de entre elas. Tuscany ...», art. cit.
Em que consiste, então, o poder das mulheres, se não reside sim- 7. David Herlihy e Christiane Klapisch-Zuber, Les Toscans e/ leurs families. Une
étude du catastoflorentin de 1427, Paris, Presses de la Fondation Nationa!e des Sciences
pi •smente no seu número, com o que muitas análises pareceriam Politiques, 1978.
rnntcntar-se? Sobre quem se exerce ele, em que espaços? Georges 8. C f. a síntese destes dados, parcialmente tirados de Josiah C. Russell, «Late
1)uby desbrava adiante a imagem facilmente complacente de um medieval population patterns», Specu!um, 20, 1945, p. 16 3, que é apresentada por R. M.
Smith in «The People o f T uscany ... », op. cit., p. 116.
11111or cortês no qual poderíamos directamente identificar a promo- 9. Richard Ring, «Early medieval peasant households in central Italy» , Journal of
,·110 f'c minina na época fe udal. Ora, se a pedagogia do «fino amor» Family History, 2, n . 2, 1977 , pp. 2-25; J.-P. Devroey, «Les !l1éthocles d' analyse
démographique des polyptiques du haut Moyen Age», in Histoire e/ Méthode, M.-A.
pt•rmiti u, ao mais alto nível da hierarquia social, ajustar o olhar mas-
Arno uld et ai. (eds.), Acta Historica Bruxellensia, 4, 198 1, pp. 71-88.
rn lino sobre as mulheres, sobre o seu coração e sobre a sua fi gura 10. É. R. Coleman, « L'infanticide dans lc haut Moyen Age», Anna/es E.S.C., 29,
psiw lógica, ela foi integrada na política das famílias, reforçando 11. 2, 197( pp. 3 15-335.

11111i s do que alterando as relações que submetiam tradicionalmente 11. D . Herlihy, Medieval Househo!ds, op. cit., pp. 63-68; Monique Zerner, «La
population de Villeneuvc-Saint-Georges et de Nogent-s ur-Marne au IX' siecle d'apres 1e
IIH mu lhe res aos homens. O amor c01tês purificará com as suas rami- polyptique de Saint-Germain-des-Prés», Annales de la Faculté des let1res et sci_ences
lknç< es pe rturbadoras as estratégias matrimoniais, que permanece- humaines de Nice, 37, 1979, pp. \7~:14; Robert H. Bautier, «Haut Moyen Age», in
Hisroire de la popu/ation française, Jacques Dupâquier (ed.), Paris, P.U.F. , 1988, pp.
i 11111 sob o controlo concorrente e por vezes cúmplice das famílias e
186 e 202.
d11 Igreja. Por isso ele as consolidou, não as aboliu. Apesar disso, ele 12. Como fez, para épocas posteriores, Gérard Deii lle, « Vn P_robleme de démographie
11 l11rgou os espaços e os tempos em que as mulheres foram qualificadas historique: honimes et femmes devant la mort», Mélanges de l'Ecole française de Rome,
1·111110 pessoas. 86, 1974, pp. 4 19 -443.
S · a prime ira patte desta obra se abriu necessariamente aos dis-
111rnos masculinos, os próximos capítulos, entreabrindo a porta das
As mulheres
do século V ao século X
Suzanne Fonay Wemple

Ainda hoje, toda a tragédia, mas também toda a vida e romance


da Alta Idade Média, o período em que o Império Romano do
Ocidente se desintegrou e em que em seu lugar desabrocharam as
nações germânicas, suscita o nosso interesse. Nos nossos dias, os
impérios são mais extensos do que o Império Romano do Ocidente
e o declínio das instituições é mais rápido do que na segunda metade
do século V e no século VI, altura aproximada em que os povos
germânicos se estabeleceram na Europa Ocidental, mas a história é
idêntica. É claro que os detalhes da história não se repetem, mas a
decadência geral permanece válida.

Direito romano e cultura germânica


A senescência do Impétio Ro'!lano remonta ao século I_I, 1tltura
em que as instituições económicas e sociais começaram a ceder.
No século III, as guerras civis e os ataques do exterior aceleraram
este processo, e desastres económicos cada vez mais devastadores
afectafam
\
os càmpÓs e as cidades.vGradualmente, o império perdeu
uma das suas características constitucionais como comunidade de O movimento dos povos
germílnicos o, iginou a entrada e o
cidades-estados, e transformou-se numa pura ditadura. Este processo desenvolvimento d· novos sistemas
1
a
complicou-se ainda mais no final do século III com divisão do jurídicos no t ·rritório do antigo
Império Ro11u1110. Proliferaram as
Império em duas partes, a separação entre os seus comandos civil e leis que di,dam respeito às mulheres
militaij e o recrutamento do exército essencialmente entre gente de e iniciou-se um lento cam inho em
di rccção aos modelos unificadores
qrigem germânica. No século JV Constantino abraçou o Cristia- da crist ianização. No mundo
nismo como a religião venerada do Império e revogou as leis matri- anglo-saxónico o século IX assinala
moniais de Augusto, concedençlo às mulheres solte.iras com. viu.te e a superação da crise. A Virgem-Mãe,
rodeada de anjos, miniatura do Livro
cinco anos ou mais liberdade ilimitada para controlarem as suas de Kells, século IX. Dublin, Biblioteca
próprias pessoas e bens. do Trinity College.
As mulheres do século V ao sécu lo X 2' li

O casamento foi também tema


< 111111do, no século V, as tribos germânicas começaram a esta- central na ju risprudência dos povos
111 11 l l' I' s no Império do Ocidente - com excepção dos Vândalos germânicos. A época merovíngia
manteve-se bastante independcnlc
q111 t' L'stuhclecem no Norte de África - elas mostraram-se fasci- do cristianismo, ainda que es1e tenha
1111111 p •lo Império Romano. Queriam que o sistema romano pre- penetrado precocemente no direito
\ 11 l1•l'l'HS •, mas infelizmente ignoravam os princípios fundamentais doméstico da Itália e da Espanha.
A imagem põe em evidência a mistura
1 111 (llll' se baseava o Império do Ocidente. Não tinham as suas l~is, de influências. Mmfon carolíngio,
dl l'iplina, religião ou sistema económico, e governavam a terra séculos VIII-IX . Londres, Museu
Britânico.
11111111 propriedade absoluta do rei. Não impuseram um sistema
1111llrn me de administração _Em vez da territoralidade d lei seguiram
11 pt i11e: fp io ela personalidade da lei, que sig_nifica'uLque cada indi-
v cl110, homem ou mulher, tinha de vtver sob a lei do seu Rªi e no
1·11 o d • uma mulher casada, sob a lei do seu marido. Em-áre~s' em
q111• o mundo romano tinha p~netrado, e especialm~te em Itália, em
H p1111lrn e cm França a sul do Loire, o direito romano continuou a
1 r ohs •rvado de fonna simplificada. Nas demais os costumes
11111 nicos prevaleceram. À medida que Ós vários pov~s se cruzavam
111111 Vl s do casamento e as pessoas abandonavam os seus locais de
1111 l'lll, u mistura de costumes fez com que, gradualmente, surgissem
1111v11s disposições legais, qomeadamente relativas aos ajustes matri-
111111il11is C aos direitos de propri;dade.,Incorporadas nos costumes
li 11dnis, estas novas concepções definiram os direitos das mulheres
1111110 filhas, esposas e viúvas para os séculos vindouros.
No reino franco, apenas em meados do século VIII o Cristia-
111 11111 começou a exercer influência no direito familiar. Em outras
li j l'S, parlicularmente em Itália e em Espanha, o Cristianismo fez-
\ 1mnt ir mai s cedo no direito do lar. Outro importante tema era a
p11 h;t o • influência das mulheres na Igre]-ª. Prl.mitiv_
. a. As-mulheres
111111111 os mais ardorosos apoiantes da nova religião, convertendo
11 1•11s maridos, baptizando os seus filhos, cons.trnindo igrejas e
11 li11w11tundo a fé com fundações monásticas; no entanto, o seu papel
1111 11 1ost ·iros de Itália foi bastante limitado nos tempos que se
Mulheres seculares
1 11lr11in ao papado de Gregório Magnó, o mesmo acontecendo em·
h 1111~n nu poca carolíngia. \ Para as tribos germânicas primitivas, a melhor visão é a Germâ- Os primeiros séculos
A do ·umcntação para a história das mulheres na vida secular e nia de Tácito'. Os laços mais poderosos sãq os do parentesco, nos e
11 li l11H11 mai limitada para o período anterior, os séculos VI e finais do século- I eles incluíam tanto_ os agnados de ascendência
V 11 , do qu ' para a época carolíngia, quando a escrita passou a ter um masculina como os parentes matrilaterais de ascendência femi nina.
11 11 11 111 s A·ncralizado. Para esses séculos anteriores baseei-me con-
~s regras da herança favoreciam os homens. As mulheres eram
cl1 1 1vl•l111 ·ntc e m fontes legais, tanto seculares como eclesiásti- grandemente valorizadas porque forneciam uma rede de laços de
111 11 11·11 uvnliar em que medida as leis eram obedecidas, comple- parentesco como esposas e mães e constiluíam também inspiração
1111 111t II Nl' Om informação proveniente de fontes narrativas-cartas, como edu~adoras e auxiliares. Cuidavam dos homens no campo de
11111 11111 l li istórius. As fontes legais para o período carolíngio, mais
batalha levando-lhes comida ~encorajamento, bem como cuidados
11111111 111· 1 , l'Obrcm um espectro mais alargado, e as fontes literárias aos feridos. A_lgumas mulheres eram veneradas como sacerdotisas
11 p11 111111111 • mais ricas. Para além de me basear nestas, igualmente
ou profetisas. A principal tarefa das mulheres era o cultivo dos
111 ti 1 1 1 1111111 rios monásticos. Para o século X utilizei literatura, campos, o trabalho de casa e a criação dos filhos. Eram.J.ambém
, 11 1111 11 , 1111 iografias . responsáveis pela feitura dos têxteis. ~ pai.tir da análise do conteúdo.
1111111,11,·~ l' sociais As mulheres do século V ao século X li

cios túmulos primitivos podemos dizer que elas teciam uma grande 19, 9, que permitia o divórcio por falta de castidade. Contudo, os
v111icdade de padrões em teares _simples e cosiam-nos de modo a apóstolos não estiveram isentos de preconceitos no que respeitava
101 marem peças de vestuário ou artigos domésticos. As mulheres ao sexo feminino. As mulheres eram assim im.2_edidas de faj_ar, d~.
l'1mânicas que viviam pert<;> da nascente do Reno preparavam uma ensinar e de exercer qualquer autoridade nas congregações5 . Mas às
111 •special, muito fina. primeiras mulheres cristãs não foi negada a oportunidade de agirem
A castidade e~a-lhes exigida; as que eram aQ_anhadas em adul- como parceiras iguais nas arenas , perante os animais selvagens e os
lt rio eram severamente punidas, flageladas e enterradas vivas.· Os carrascos . Os pais tendiam a pensar as mulheres como criaturas de
111rnnjos matriroo_ni~s dos povos germânicos sefil!tlm três padrões extremos: a filha de Eva ou a virgem que imitava Maria. Apenas
dL1 Casamento, Segundo a maior parte düS historiadores. Eram~ leS O Ambrosiaster, no seu Comentário à Primeira Epístola aos Corín-
rnsamento por compra (Kaufehe ), o casamento por captura (Raubehe) rios, ousou colocar a questão de saber se as mulheres eram feitas à
e neste caso não interessava se a rapariga cooperavaou...não com imagem dos homens e deu aos maridos a oportunidade de se divor-
o seu raptor- e Q_casamento por mútuo consentimento (Friedelehe). ciarem das suas esposas adúlteras6 •
H -rerindo-se ao preço da noiva, Tácito não foi muito claro sobre se Houve duas excepções entre os Padres daJgre·a Cri tã: Cesário
Nl ' referia ao Morgengabe, dado à noiva após a consumação tanto no de Arles e Gregório Ma no. Cesário escreyeu na Gália do Sul na
rnsamento por compra como no casamento por consentimento mútuo, mesma época em que Clóvis estabelecia o seu reino no Norte, e
ou ao dos,~um preço da noiva negociado no momento dos espon- falou em defesa das mulhfres 7• Nos seus sermões desmascarou a
s11is e que era depois total ou parcialmente dado à noiva. Sabemos, hipocrisia dos homens que des~javain a pureza sexual dos membros
vo ntudo, que ele se referiu também à oferenda que o noivo rece- da sua família enquanto intent~vam proezas se.xuais_e..até..se..gahayam
lliu antes da boda. Se o noivo era um homem bem colocado, um rei delas aos seus amigos. Pelos finais do século, qepois das_invasões
1n1 um chefe, não tinha que apresentar qualquer preço. As esposas ostrogodas, bizantinãs e Jombardas, o~a Gregório Magno levantou.
t•rnm oferecidas a tal homem sem qualquer compensação. Podemos a sua voz em favor dos mosteiros femininos e escreveu_ ÇQPtra a
assim concluir que duas noções directamente opostas governavam a Qroibição impQsta às mulheres de_co.mungarem quando §SJava]Jl
ll' lução entre os sexos: a esposa era uma colaboradora, mas a filha menstruadas ou grávida~, c?m a cláusula de q_ue se o não fizessem
l'l'll um bem cujo destino dependia do seu parente masêulino mais
próx imo.
No Império Romano a posição das mulheres melhorou conside-
1nvclmente. O QjgesJ_o incluiu o costume cada vez mais vulgar dos
1·11st11nentos sine manu, rws ql!ais o poder sobre a mulhe.r não. era
trn nsferido para o seu marido2 • Isto representava um passo na direcção
1111 t'mancipação da mulher, que se observa já no Código Teodosiano3 •
< 1111nclo atingiam a maioridade, _elas podiam controlar os seus bens
1 e usar com quem quisessem, mas a sua liberdade de acção continuava
11 t·r restringida por padrões duplos que governavam o divórcio e o
1 <llll f)Ortamento sexual, bem como pela rígida estatifiêação social da
1111 sociedade. As mulheres das classes mais baixas tinham poucas
1u1ss ibilidades de escolha quando o seu senhor as achava atraentes. As qucs16cs d· ordc111 e ·onómica
foram urna pr ·ocupnçno básica da
'l'inltnm então de tomar-se suas concubinasJ vitla ccnobí1ic11. A riqueia é critério
Hmbora o Cristianismo não obviasse a discriminação sexual no decisivo rmru u admissão e as
prcrrog111 iv11s ·conómicas discutem-se
l111p<-rio Romano tardio, na verdade ofereceu às mulheres a opo1tu- com os podt.:rcs públicos. Assim o
11lcl11d' para se considerarem personalidades independentes mais do 1cs1c111unhu111 os numerosos preceitos
jurídicos que proíbem a alienação dos
11111 l'I lhas, esposas ou mães de alguém. Segundo os Actos dos Após- bens da Ig reja. Os livros de culto
1,,/,,,,, ' lc permitiu que as mulheres desenvolvessem uma auto-estima foram Iuxuosamente enriquecidos,
1 111110 s ·rcs espirituais que possuíam o mesmo potencial de perfeição como se vê nesta obra carolíngia.
Pormenor de uma miniatura do
111111 , il que os homens4.. Além disso, o Cristianismo defendeu a san- Sacrame111ário de Saint-Denis,
11il ,1d1• dos casamentos monogâmicos, com a excepção de Mateus século IX. Paris, Biblioteca Nacional.
As mulheres do século V ao século X 23,1

1 11 lw1wl'i ·iuria grande mente as suas almas 8 . Este último preceito A associação do poder com a
posse do ouro e do «dinhei ro» é
111 1111111,l 111 inc luído numa carta que o Venerável Beda citou na sua característica da época merovíngia.
ll11r,,1 lr1 riu Igreja e do Povo lnglês9. A ourivesaria merovíngia e carolíng ia
é uma das mais belas de todos os
tempos. Placa de cinturão do cemitério
burgúndio de Borgonha, 650-700.
11 H \'111rn que no século VI11s mulheres germânicas já não exibiam Museu de Berfort. Fivela de
bronze, século VI, e peças de vidro
11 1 p I i10 marc ia l que Tácito lhes tinha atribuído. ~las converti~ _- de fi nais do século V-séculoVI.
, 111 11 os seus maridos ao C1istianismo,. Por exemplo, Clotilde, a Saint-Germain-en-Laye, Museu das
111 11rt'H11 burgúndia que casou com Clóvis, persuadiu o marido a Antiguidades Nacionais.
11 1·1111IH't' •r o verdadeiro Deus e a abandonar a adoração dos ídolos.
()11111,do us tropas ele Clóvis quase foram aniquiladas pelos Alama-
1111 , t'k virou-se para Deus e acabou por sair vitorioso da batalha.
1>11 111t•s1110 modo, E telberga de Nortúmbria exerceu influência na
11111vt·1·s o cio marido. As rainhas muitas vezes fundavª--m mosJeirÇlli_
1 1 1 ·Jns nas suas próprias terras. Fa_ziam também com que alg1J.n..s
d11 Nl'11s ravo ritos fossem nomeados bispos, alargando _assim o_se1:!
p111p1 ln pode r. Dados arqueológicos atestam que era habitual que as_
1111ilhl'I' •s fosse m enterradas com as suas jóias 10, seu símbolo esta-
111111 lo, • o ódigo Alamano prescrevia uma dupla pena pelo roubo -
d11 111n1ulo de uma mulher 1'.. .• •

Os ·ód igos legais valorizavam altamente a vida das mulheres, _o


41111• l11di ·ari a que a sua capacidade para criar filhos, mais do que o pelas codificações visigóti~a _e burgúndia do direito romano . Nos
111 v11lor como colaboradoras ou profetizas, era premiada 12 • Um · séculos VI e VII as mulheres encontr,avaJ!l-se sujeitas as leis _q~
11111111•111 que maltratasse urna mulher podia receber uma dura punição. seus· pais se não fossem cãsadas, ou sujeitas às leis dos seus maridos
1'111 1•x •ni r,lo, de acordo com o Pacto ela Lei Sálica, se um homem se o fossem, isto é, se fossem viver com os seus maridos contra a sua
lm llSSl' na mão ele uma mulher pagaria 16 soldos; se pusesse a mão pJópria vontade 18 • Isto sig~ificava que um maiido tinha que repre-
1wli 1111 do cotovelo, 35 soldos. O Código dos Alamanos ia ao ponto sentar a sua mulher em tribunal e ·gerir os seus ben~, mesmo que não
1h pt 111 l1 · u I n home m que acusasse falsamente uma mulher ele feitiçaria os pudesse alienar sem o seu consentiment0 Contudo, o_ direito visi-
1111 dl' l'll vcncnamento; pagaria uma multa ele 80_soldos se ela fosse gótico prescrevia que uma mulher podia administrar os seus próprios
llv11 l' clt• 15 soldos se fosse de condição servil. Em 546, quando os !;Jens. O direito de protecção a uma mulher, direito legal e direito de
! 1 11·01 mlos tomaram Roma, o seu chefe Tótila tinha proibido a propriedade, ~xprimia-se pelo termo mundium, e, segundo outros
vl11I 1,·1 o das mulheres romanas, para grande smpresa dos habitantes códigos germânicos, era adquirido pelo marido. E_)1tre as mulher~s
d11, dndt•11 • Pela lei burgúnclia, a violação e captura encontravam-se germânicas eram as· visigóticas que, em suma, cletinharrunais..direitos.
1 11111 111-1 1ll l'racções mais sérias à lei que podiam ser c~etidas contij. Elas não só eram capazes de dispor cios seu s próprios bens e podiam
11
111111 1111ilhcr ' . Os clérigos, de modo geral, sustentavam a opinião de deixá-los a quem quisessem se não tivessem filhos, como podiam
q111 llN lio1n ns ram mais racionais do que as mulheres 15 . Embora as represen1ar-se a si mesmas em tribunal, apmecer como testemu-
11111 11 11 11•s / •rrnânicas fossem igualmente capazes de fundar igrejas nhas se tivessem pelo menos catorze anos ele idade e, acima de tudo,
11111 1·x1·inplo a História dos Lombardos diz-nos que Teoclorata ajustar os seus próprios casamentos se tivessem mais ele vinte. Mas
11111111111 11111111s como o marido 16 - , as boas mulheres eram caracte- sob qualquer outro códigg__g~rmâok.o o homem que detivesse o
17 mundium sobre ela estabelecia os seus séquitos e era responsáve l
1 I 1111, pi los seus biógrafos como obedientes aos esposos •
1) t 01,111111 ·s romanos e germânicos foram rapj clamente assimi- pela administração e venda dos seus bens 19•
111111 1111 d lrl•il o matrimonial. ~ m resultado disso, a autoridade do. Quer vivesse sQ_b a lei romana ou sob a lei germânica, e.oro.o
11111 dn nhr • 11 m ulher vivendo até então sob a lei romana ficou viúva ela tomava-se a cabeça ele casal, assumia o controlo dos seus
1,1111111, 11111. () ·usamento rom ano sine mànu, que permitia gue urna bens e erá a guardiã dos seus filhos enq~1anto estes fossem menores.
11111111, 1 p1 11111111 · ·esse sob o poder da sua família,,não foi reconhecido A mulher solteira, por outro lado, permane cia sob a tutela da sua
.t1 11 11 '1<H..'ia is As mulheres do século V ao século X 235

l.111111ia uté que atingisse a idade da maturidade, gtJe era de vinte e_ arriscava-se a perder a vida, a liberdade e a_JJ.!Ql?riedade, e os seus
, 1tl'O unos no direito romano, adoptado pelos Burgúndios20 , e de vinte filhos eram reduzidos à servidão e não podiam herdar. Mas nenhuma
1111 direito visigótico2 1• Mas as raparigas casavam-se muito mais lei impedia que um homem- tivesse uniõessexuais c om as uas
1, IVl'llS, geralmente ficavam comprnme.tidas aos d_oze ano~~ casavam- próprias escravas, e podia mesmo reconhecer 2.s filhos como seus
l' p •los quinze. A idade legítima do casamento para os homens era herdeiros3 1• Os casamentos entre parentes consanguíneos e por afi-
111111h m muito precoce, quinze anos sob a Lei Sálica e doze sob a nidade eram tambémdissolvidos. 1Isto im edia a criação de uma
J,l'i Ripuária22 . - --- - - - aristocraciã fechada e encorajava u; iões exo âmicas facilitand o a
0 casamento implicava três etapas: q__pedido (petitio), os esponsais ascensãÕ social através do casamento de mulheres de- nascimento
(r/1•s1N111satio) e as núpcias (nuptiae). O pretendente geralme nte selava· inferior32 . Por outras palavra~ se a mulher era bonita e esperta,
o Sl' ll acordo oferecendo um penhor (arrha) . Uma vez este aceite, o podia as;ender por meio do casamento na hierarquia merovíngia.
l'0111pr misso não podia ser unilateralmente quebrado. O s código~ Na família real merovíngia são conhecidos quatro reis por terem
l1•1•n is geralmente especificam quanto podia ser nesse caso exigido. incorrido em poligenia. Como nos di zem Gregório de Tours, Fre-
Por exemplo, pela lei burg úndia um noivo repudiado podia pedir degário e o autor anónimo do Liber historiae Francorum, foram eles
II P l' llHS 300 soldos, mas se uma rapariga comprometida casasse com Clotário I, Cariberto I, Chilperico I e Dagoberto !33 • Duas das mulheres
1111 lro, podia ser morta23 . Mas um noivo tinha que pagar apenas o de Clotário, Ingunda e Aragunda, casaram com e~e ao mesmo tempo.
,los, um presente à noiva, que concordava em oferecer no momento Cariberto dividiu a sua atenção por duas irmãs, Merofleda e Mar-
cios esponsais 24 . Ele podia também esperar vários anos antes de coveifa, e por uma mulher adicional, Teodegilda. Chilperico praticou
l11111rn r os esponsais, segundo nos diz Gregório de Tours na sua a poligamia, antes de casar com Galsvinta. Dagoberto casara ·com a
11 i,,·rríria dos Francos25• O direito lombardo especificava que podiam desejável Nantilde e outras duas mulheres. A m aior parte dos seus
1111•cl ·ar dois anos entre os esponsais e as núpcias26 . casamentos era, é claro, Friedelehe. A oligenia era ap..enas_pr:oib.ida
-N_() era esta a única forma de ~sarnento conhecida dos povo_§ no código visigótico, e a manutenção de uma concubina por um
11•1111u11icos. A mulher podia ainda se~ ap_!.urag_a, e Santa Rade- homem casado só era proibida pelo código romano adoptado pelos
11111111 ro i capturada no campo de batalha pela família do seu marido. Visigodos .
h11 f1111 u10, no seu D e vita sanctae Radegundis, dá-nos os terríveis As leis do divórcio observavam padrões sexuais duplos, Para
p111 111c11o res dessa captura27 • Radegunda era filha do rei vencido dos aJém da dissolução por consentimento mútuo, permitida tanto pelo
'1'111 íng ios e a sua mão foi reclamada numa batalha judicial pelos direito romano como pelo germânico34 , os códigos germânicos
1tl h11s de C lóvis. Este tipo de casamento entre reinos era contestado, facilitavam ao homem o divórcio da sua mÜlher. Segundo o direito
11111w se pode ver pela história de Chuppa, que tentou arrebatar .romano um homem apenas podia dissolver o seu casamento se a sua
1 111110 noiva a filha de Badegisel, o último bispo de Le Mans. A mãe mulher cometesse adultério, feitiçaiia ou fosse alcoviteira35 • Segundo
d11 jov ·m resistiu com os seus homens e Chuppa perdeu vários dos a-lei germânica, um homem podia repudiar a sua mulher por esta ser
1•11 !'1 purlidários28 . Havia ainda o Friedelehe, e podemos ver os re is estéril, bem como por qualquer crime grave. Se a mulher estivesse
111< mvíngios casados por esta forma com mulheres que lhes eram_ acima de qualquer suspeita, ele podia ainda divorciar-se dela se
1111!•1ior ·s. As mulheres não beneficiavam de grande protecção eco- quisesse renunciar ao controlo sobre os seus bens e pagar-lhe uma
11111 11irn neste tipo de laço conjugal. Por exemplo, Ingunda implorou compensação igual ao presente de noivado 36• Uma mulher tinha de
111 rn marido, Clotário, que não a abandonasse quando e le casou manter7 se fiel e obediente ao seu marido mesmo ue est~__fosse
111111 u sua irmã, Aragunda.29 . O casamento lombardo era o tipo de bêbado, 'jogador, a maltratasse ou fosse âdúlter? 37 • ~gundo a mais
11 111 li l' lll que o no ivo não pagava a meta da noiva e em que a mulher simples das leis germânicas, 9 Código Burgiindio, ela deveria ser
1 11 1i lhos permaneciam sob a protecção da sua própria família. sufocada na lama se tentasse divorciar-se deJe. Segundo a lei romana
p ll t'• ras sangrentas que os cronistas re latam atestam que no ser-lhe-ia permitido o divórcio_se pudesse provãr que o mai·ido era
1 1 1111 11•1110 a lgumas vezes os desejos da família da noiva eram culpado de homicídio, necromância, ou violação de túmulos , _por
1111 11 11 pH•:,,,udos. H ucbaldo, por exemplo, conta na sua Vita sanctae outras palavras, de crimes na realidade muito graves 38• 1). lei visigó-_
l't, 1111,//,1• q11 • os irmãos desta mataram o seu marido vários anos tica pennitia gue ela solicitasse o divórcio se o marido fosse consi-
11111111 11! 1rnsomento, apesar de a união já ter dado um certo número derado culpado de pederastia ou de a ter obrigado a fornicar com
ti, 1111111 111 C\ •riamente que as uniões entre mulheres livres e homens outro homem39 . Uma forma de uma mulher conseguir escapar a uma
11 "1 11 11 1•111111 condenadas como contubernia ilegítimas. ~mulher união infeliz era m andar matar o marido. Foi o que Fredegunda fez,
} \11 A 1111lihl·1·1•s 11,1s estratégias fa miliares e sociais

N11 " , 111m VI l' VI I o e11xova l da herdavam em termos iguais. No extremo oposto 1• 11\ 11111 11
n p11~11 1o, t1111111vu i11l'luir objcctos
!1111111 til m 1• 11\111\ ll·i1a, com metais saxónico e turíngio. A Lei Sálica, em r ' dHv~·t 1 111,11 111 ,111
Jlll, 111~11~. /11 f•ul11~ ti • ouro visigóticas, também os outros códigos permitiam que u1 1111 1111tlh, 1 li, 1d 1
~1111111 VI M11d1 ltl, Museu terra que fora comprada, más não a que ra do p 11,111111111" ,h,
1q111·11h\f' ll'll,
pais 46 • As mulheres herd~vam também os l111v1 11 111 11 li
mulheres da sua família e recebiam um enxovul q1111111l11
Este consistia em artigos domésticos e pcssonl • 11111111 1 11 ,ti
pela descrição dos vestidos elegantes e caros, 1>111 l> I I" 111 , 1 11 111 11
objectos preciosos que foram oferecidos a RI / 11111111 ,, lilli 1 ,l,1
Chilperico e de Fredegunda47 • Reconhecidat1lllt1l i', 1li 111111 1
apropriadas para a filha de um rei, mas as p •, 1111• d, 111 11
condição davam também tanto quanto p di11111 ,
As mulheres das classes mais baixas tinht1111 ptt1 1 11111 1 111, 111 "' 1
liberdade para casar com homens de sua 1•li;t 11 1" 1 '1111 111 11 11 • 1 ,,
das mulheres nobres, a castidade das mullt 1'l'N tl1 1111 11 11 11111!, 111
segundo o Liber historiae Francorum40 • Não há provas de que a estava protegida da violação por estranhos, ·111h111 111 h I d,, 1111 11 1 111
Igreja franca, exceptuando o concílio de Orleães cm 533, que proibiu dos seus senhores. O menor valor era atribuído vltl11, 1 , 111.t, ,l 1
o divórcio com a alegação de doença, tivesse legislado sobre o ancilla comum, seguida pela semi-livre /iw dqu11 p1 h, /1/•, '1,1
divórcio até à época carolíngia4 1. Mas isso não significa que os clé- livre; no topo de todos, segundo a lei burgúndin , s111v 1111 11 1 1111 11
rigos conscienciosos não excomungassem a parte culpada. ~s leiL, da Igreja e da coroa49 . Uma distinção po t rior l'ol 1• t,1111