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Informativo STF Anual 2017

Brasília, fevereiro a dezembro de 2017


Compilação dos Informativos Mensais nºs 66 a 75

O Informativo STF Anual 2017 apresenta todos os resumos de julgamentos


divulgados pelos Informativos Mensais STF durante o ano.

SUMÁRIO

Direito Administrativo
Agente Políticos
Afastamento de prefeito: supremacia da vontade popular e preservação da coisa pública
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Abono de permanência e posse no TST


(Informativo STF Mensal de abril)

Aposentadoria compulsória de magistrado: processo disciplinar e prova emprestada


(Informativo STF Mensal de agosto)

Agentes Públicos
Constituição Federal de 1988 e defensores admitidos sem concurso público
(Informativo STF Mensal de outubro)

Anistia Política
Mandado de segurança: instauração de processo de revisão de anistia e direito líquido e certo
(Informativo STF Mensal de maio)

Aposentadorias e Proventos
Anulação de registro de aposentadoria e comprovação de tempo trabalhado na condição de
aluno-aprendiz
Aposentadoria compulsória e titulares de serventias judiciais não estatizadas
TCU: correção da forma de pagamento de proventos de magistrado
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Cumulação de proventos, pensões e cargos públicos inacumuláveis em atividade


(Informativo STF Mensal de março)

Integralidade e Emenda Constitucional 70/2012


(Informativo STF Mensal de abril)

Cargo Público
Acumulação de cargo público e ‘teto’ remuneratório
(Informativo STF Mensal de abril)

1
Concurso Público
Promoção funcional retroativa nas nomeações por ato judicial
(Informativo STF Mensal de junho)

CNJ e anulação de concurso público


(Informativo STF Mensal de outubro)

Contratação Temporária
Contratação temporária e autorização legislativa genérica
(Informativo STF Mensal de março)

Professor substituto e contratação temporária


(Informativo STF Mensal de junho)

Contratos Administrativos
Responsabilidade subsidiária da Administração e encargos trabalhistas não adimplidos
(Informativo STF Mensal de março)

Responsabilidade subsidiária da Administração e encargos trabalhistas não adimplidos


(Informativo STF Mensal de abril)

Contrato de concessão: advento da Lei 12.783/2013 e prorrogação


(Informativo STF Mensal de novembro)

Domínio Público
Terras tradicionalmente ocupadas por indígenas: titularidade e indenização
(Informativo STF Mensal de agosto)

Amazônia Legal e regularização fundiária


(Informativo STF Mensal de outubro)

Processo Administrativo Disciplinar


TCU: multa e prescrição da pretensão punitiva
(Informativo STF Mensal de março)

Responsabilidade Civil do Estado


Responsabilidade civil do Estado: superpopulação carcerária e dever de indenizar
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

ED: responsabilidade civil do Estado por ato ilícito e contrato administrativo


(Informativo STF Mensal de agosto)

Serviços
Lei 12.485/2011 e TV por assinatura
(Informativo STF Mensal de novembro)

Servidor Público
Jornada de trabalho reduzida e legislação específica
(Informativo STF Mensal de junho)

Súmula Vinculante 37: reajuste de 13,23% e Lei 13.317/2016


Súmula Vinculante 37: reajuste de 13,23% e Lei 13.317/2016
(Informativo STF Mensal de novembro)

2
Direito Civil
Associações
Autonomia de entidades desportivas e observância de normas gerais
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Posse
Esbulho e terra indígena
(Informativo STF Mensal de março)

Sucessão
Sucessão e regime diferenciado para cônjuges e companheiros
Direito sucessório e distinção entre cônjuge e companheiro
(Informativo STF Mensal de maio)

Direito Constitucional
Assistência Social
Estrangeiros e beneficiários de assistência social
(Informativo STF Mensal de abril)

Bens da União
Terrenos de marinha localizados em ilhas costeiras sede de Municípios e bens federais
(Informativo STF Mensal de abril)

Competência
Crime ambiental de caráter transnacional e competência
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Execução individual de ação coletiva e competência


(Informativo STF Mensal de abril)

Justiça competente e servidor público celetista


(Informativo STF Mensal de maio)

Justiça competente e servidor público celetista


(Informativo STF Mensal de agosto)

Vantagens remuneratórias e superveniência de regime jurídico


(Informativo STF Mensal de novembro)

Competência Legislativa
Competência legislativa dos Municípios e Direito Ambiental
(Informativo STF Mensal de março)

Meio ambiente e poluição: competência municipal


(Informativo STF Mensal de junho)

Competência legislativa: proteção do consumidor e lealdade à Federação


Lei estadual e prestação de serviço de segurança
Lei estadual e serviço de empacotamento
(Informativo STF Mensal de agosto)

3
Competência Originária do STF
Licença-prêmio e interesse da magistratura
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Confisco
Tráfico de drogas e confisco de bens
(Informativo STF Mensal de maio)

Conflito Federativo
Fundef e fórmula de cálculo
(Informativo STF Mensal de setembro)

Conselho Nacional de Justiça


Conselho Nacional de Justiça: processo disciplinar e competência autônoma
Conselho Nacional de Justiça e controle de controvérsia submetida ao Judiciário
(Informativo STF Mensal de novembro)

Controle de Constitucionalidade
ADI estadual e subsídio
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Bolsas de estudo e dedução do ICMS


Guerra fiscal e modulação de efeitos
Medida provisória: emenda parlamentar e “contrabando legislativo”
(Informativo STF Mensal de março)

Autonomia federativa: crimes de responsabilidade e crimes comuns praticados por governador


Processamento de governador: autorização prévia da assembleia legislativa e suspensão de
funções
(Informativo STF Mensal de maio)

Alteração de limites de municípios e plebiscito


Amianto e competência legislativa concorrente
Competência legislativa concorrente e direito ambiental
Direito à saúde e amianto
Julgamento de governador por crimes comuns e de responsabilidade e competência legislativa
(Informativo STF Mensal de agosto)

Atividades privativas de nutricionista e livre exercício profissional


(Informativo STF Mensal de setembro)

Extinção de Tribunais de Contas dos Municípios


(Informativo STF Mensal de outubro)

ADI: amianto e efeito vinculante de declaração incidental de inconstitucionalidade


Amianto e competência legislativa concorrente
(Informativo STF Mensal de novembro)

Direito de Greve
Direito de greve e carreiras de segurança pública
(Informativo STF Mensal de abril)

Direitos e Garantias Fundamentais


Reclamação: direito à informação e sessões secretas do STM
(Informativo STF Mensal de março)

4
Ensino religioso em escolas públicas
(Informativo STF Mensal de setembro)

Extradição
Extradição e perda de nacionalidade brasileira
(Informativo STF Mensal de março)

Homologação de declaração de concordância do extraditando


(Informativo STF Mensal de maio)

Extradição e expulsão de estrangeiro pai de filho brasileiro


(Informativo STF Mensal de agosto)

Extradição e instrução deficiente


(Informativo STF Mensal de outubro)

Dupla extradição: requisitos e competência


(Informativo STF Mensal de novembro)

Lei de Anistia e prescrição de crimes de lesa-humanidade


(Informativo STF Mensal de dezembro)

Gratuidade de Ensino
Gratuidade de ensino e cobrança de mensalidade em curso de especialização
(Informativo STF Mensal de abril)

Imunidade Parlamentar
Crime de divulgação de informação falsa sobre instituição financeira e imunidade parlamentar
(Informativo STF Mensal de maio)

Imunidade parlamentar e medida cautelar


(Informativo STF Mensal de outubro)

Meio Ambiente
Paralisação de atividade econômica e meio ambiente
(Informativo STF Mensal de maio)

Orçamento
ADPF e expropriação de recursos administrados pelo poder público estadual
(Informativo STF Mensal de junho)

Precatórios
RFFSA e penhora anterior à sucessão pela União
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Precatórios e sociedade de economia mista


(Informativo STF Mensal de março)

RPV e juros moratórios


Conselhos profissionais e sistema de precatórios
(Informativo STF Mensal de abril)

5
Execução provisória de débitos da Fazenda Pública: obrigação de fazer e regime de precatórios
(Informativo STF Mensal de maio)

Empresas Públicas e execução de débitos via precatório


(Informativo STF Mensal de dezembro)

Presidente da República
Art. 86 da CF: apreciação das teses da defesa e necessidade de aguardar juízo de admissibilidade
da Câmara dos Deputados
(Informativo STF Mensal de setembro)

Imunidade formal do Presidente da República e aplicabilidade a codenunciados


(Informativo STF Mensal de dezembro)

Princípio da Igualdade
Cotas raciais: vagas em cargos e empregos públicos e mecanismo de controle de fraude
(Informativo STF Mensal de junho)

Processo Legislativo
Interpretação do art. 62, § 6º, da CF e limitação do sobrestamento
(Informativo STF Mensal de junho)

Reclamação
Responsabilidade administrativa por dívidas trabalhistas de empresas terceirizadas
(Informativo STF Mensal de outubro)

Reclamação e índice de atualização de débitos trabalhistas


Repercussão geral e reclamação: impossibilidade
(Informativo STF Mensal de dezembro)

Tribunal de Contas
TCU: redução de pensão e direito individual
(Informativo STF Mensal de agosto)

Direito Eleitoral
Eleições
Candidatura avulsa e repercussão geral
(Informativo STF Mensal de outubro)

Direito Internacional
Tratados e Convenções
Antinomia entre o CDC e a Convenção de Varsóvia: transporte aéreo internacional
(Informativo STF Mensal de maio)

Direito Penal
Colaboração Premiada
Homologação de acordo de colaboração premiada e limites de atuação do relator
(Informativo STF Mensal de junho)

Concurso de Crimes
Latrocínio: pluralidade de vítimas fatais e concurso formal
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

6
Contravenções Penais
Violência doméstica: contravenção penal e possibilidade de substituição da pena
(Informativo STF Mensal de novembro)

Crimes Contra a Honra


Divulgação de discurso editado e difamação
(Informativo STF Mensal de setembro)

Crimes Contra a Liberdade Sexual


Atentado violento ao pudor qualificado e relação de parentesco
(Informativo STF Mensal de maio)

Crimes Contra a Ordem Tributária


Crime societário, individualização da conduta e teoria do domínio do fato
(Informativo STF Mensal de maio)

Crimes de Lavagem ou Ocultação de Bens, Direitos e Valores


Lavagem de dinheiro, prescrição e crime permanente
(Informativo STF Mensal de maio)

Crimes Previstos na Legislação Extravagante


Princípio da congruência e “grandes devedores”
Transmissão clandestina de sinal de internet: atipicidade
(Informativo STF Mensal de outubro)

Lei de Segurança Nacional e competência do Supremo


(Informativo STF Mensal de novembro)

Cumprimento da Pena
Tráfico de drogas e fixação de regime inicial
(Informativo STF Mensal de março)

Dolo
Crime de dispensa irregular de licitação e dolo específico
(Informativo STF Mensal de abril)

Teoria do domínio do fato e autoria


(Informativo STF Mensal de outubro)

Dosimetria
Participação em organização criminosa e quantidade de drogas
(Informativo STF Mensal de maio)

Embargos de declaração em embargos de declaração e efeitos infringentes


(Informativo STF Mensal de dezembro)

Falsidade Ideológica
Falsidade ideológica e acumulação de cargos públicos
(Informativo STF Mensal de maio)

Parte Geral
Atentado violento ao pudor e regime inicial semiaberto
(Informativo STF Mensal de outubro)

7
Indulto e pena de multa
(Informativo STF Mensal de novembro)

Pena
Tráfico de drogas e imediações de estabelecimento prisional
(Informativo STF Mensal de março)

Remição da pena e jornada de trabalho inferior a seis horas


Cumprimento de pena em regime semiaberto ou aberto e estabelecimento prisional adequado
(Informativo STF Mensal de abril)

Perda do mandato parlamentar e declaração da mesa diretora da casa legislativa


(Informativo STF Mensal de maio)

Perdão Judicial
Colaboração premiada e requisitos para concessão de perdão judicial
(Informativo STF Mensal de abril)

Prescrição
Repercussão geral: suspensão processual e prescrição
(Informativo STF Mensal de junho)

Cômputo do tempo de prisão provisória e reconhecimento da prescrição da pretensão executória


(Informativo STF Mensal de novembro)

Princípios e Garantias Penais


Rádio comunitária e princípio da insignificância
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Tipicidade
Queixa-crime e individualização da conduta
Impossibilidade de trancamento de ação penal via habeas corpus
(Informativo STF Mensal de março)

Direito Penal Militar


Tipicidade
HC: Crime militar impróprio e competência
(Informativo STF Mensal de outubro)

Direito Processual Civil


Atos Processuais
Alegação de nulidade e aproveitamento de atos processuais
(Informativo STF Mensal de agosto)

Coisa Julgada
Preclusão e autonomia das entidades esportivas
(Informativo STF Mensal de abril)

Propositura da ação: associação e momento para a filiação


(Informativo STF Mensal de maio)

8
Formação, Suspensão e Extinção do Processo
Ministério Público comum e especial e legitimidade processual
(Informativo STF Mensal de outubro)

Honorários Advocatícios
Ausência de apresentação de contrarrazões e honorários recursais
(Informativo STF Mensal de maio)

Fracionamento de honorários advocatícios: impossibilidade


(Informativo STF Mensal de novembro)

Intervenção de terceiros
Amici curiae e tempo de sustentação oral
(Informativo STF Mensal de maio)

Liquidação/Cumprimento/Execução
Condenação contra a Fazenda Pública e índices de correção monetária
(Informativo STF Mensal de setembro)

Mandado de Segurança
Mandado de segurança e prazo decadencial
(Informativo STF Mensal de novembro)

Prisão Civil
Prisão civil por descumprimento de prestação alimentícia e dívida pretérita
(Informativo STF Mensal de março)

Recursos
ED e juízo de admissibilidade de RE
(Informativo STF Mensal de novembro)

Direito Processual Penal


Ação Penal
Pedido de desclassificação e emendatio libelli
(Informativo STF Mensal de setembro)

Princípio do promotor natural e substituição de órgão acusador ao longo do processo


(Informativo STF Mensal de outubro)

Competência
Arquivamento e remessa dos autos
Foro por prerrogativa de função e desmembramento de inquérito
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Início de investigação e conexão


(Informativo STF Mensal de junho)

Crime praticado por procurador da República e competência


(Informativo STF Mensal de agosto)

Denúncia
Crime de dispensa ou inexigibilidade indevida de licitação e viabilidade da denúncia
Recebimento da denúncia: corrupção passiva e lavagem de dinheiro

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Recebimento da denúncia: corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa
Recebimento da denúncia: fraude à licitação e peculato
(Informativo STF Mensal de março)

Execução da Pena
Custódia cautelar e marco inicial para progressão de regime
(Informativo STF Mensal de setembro)

Execução Provisória da Pena


Reclamação, preso advogado e execução provisória da pena
(Informativo STF Mensal de maio)

Execução antecipada da pena e ação cautelar


Execução provisória da pena
(Informativo STF Mensal de agosto)

Habeas Corpus
Condenação em segundo grau e execução da pena
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Habeas corpus e direito à visitação


Habeas corpus e estabelecimento prisional adequado
(Informativo STF Mensal de agosto)

Habeas corpus impetrado contra decisão de ministro do STF


Habeas corpus: pedido de extensão e circunstâncias fáticas incomunicáveis
(Informativo STF Mensal de maio)

Habeas corpus e medida cautelar de afastamento de cargo público


Habeas corpus e visita íntima
Repercussão geral e sobrestamento de processo-crime
(Informativo STF Mensal de dezembro)

Inquirição
Violação da ordem de inquirição de testemunhas no processo penal
(Informativo STF Mensal de novembro)

Intimação
Tramitação em tribunal superior e intimação de defensoria pública estadual
(Informativo STF Mensal de março)

Investigação Penal
Inquérito e compartilhamento de peças
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Delação premiada e sigilo


(Informativo STF Mensal de setembro)

Jurisdição e Competência
Encaminhamento de cópia de depoimento e definição de competência
(Informativo STF Mensal de agosto)

Fato único: investigados sem prerrogativa de foro e não desmembramento


(Informativo STF Mensal de novembro)

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Medidas Cautelares Diversas da Prisão
Senador e imposição de medidas cautelares diversas a prisão
(Informativo STF Mensal de setembro)

Nulidades
Instauração de investigação criminal e determinação de interceptações telefônicas com base em
denúncia anônima
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Defesa prévia e prerrogativa de foro


(Informativo STF Mensal de março)

Prevenção
Colaboração premiada: prevenção e conexão
(Informativo STF Mensal de junho)

Prisão Domiciliar
Substituição de prisão preventiva por domiciliar e cuidados maternos
(Informativo STF Mensal de dezembro)

Prisão Preventiva
Reclamação e prisão preventiva
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Habeas corpus, competência do STF e soberania dos veredictos do Tribunal do Júri


Prisão preventiva e acordo de colaboração premiada
(Informativo STF Mensal de abril)

Prisão preventiva, risco de reiteração delitiva e presunção de inocência


(Informativo STF Mensal de maio)

Súmula 691/STF e supressão de instância


Prisão preventiva e excesso de prazo
Prisão preventiva e destruição de provas
(Informativo STF Mensal de junho)

Excesso de prazo no julgamento de ação penal


(Informativo STF Mensal de setembro)

Provas
Desarquivamento de inquérito e excludente de ilicitude
(Informativo STF Mensal de março)

Crime achado e justa causa


(Informativo STF Mensal de junho)

Quebra de sigilo bancário de contas públicas e requisição pelo Ministério Público


(Informativo STF Mensal de setembro)

Requisito de Admissibilidade Recursal


Interposição de recursos via e-mail
(Informativo STF Mensal de março)

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Sentença Absolutória
Falsidade ideológica e ausência de dolo
(Informativo STF Mensal de junho)

Suspeição
Suspeição e inimizade capital
(Informativo STF Mensal de setembro)

Tramitação em Tribunais
Habeas corpus e julgamento monocrático em tribunais
(Informativo STF Mensal de março)

Direito do Trabalho

FGTS
FGTS e prescrição trintenária
(Informativo STF Mensal de março)

Direito Tributário

Contribuição Previdenciária
Contribuição previdenciária e exercentes de mandato eletivo
(Informativo STF Mensal de maio)

Contribuições Sociais
Incidência do ICMS na base de cálculo da contribuição para o PIS e da COFINS
Contribuição social do empregador rural sobre a receita da comercialização da produção
Contribuição social e ganhos habituais
(Informativo STF Mensal de março)

COFINS: ampliação da base de cálculo e majoração de alíquota


(Informativo STF Mensal de maio)

Imposto
ICMS e lei estadual
(Informativo STF Mensal de dezembro)

Imunidades Tributárias
Entidades beneficentes de assistência social e imunidade
Entidades beneficentes de assistência social e imunidade
Imunidade tributária e contribuinte de fato
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Componentes eletrônicos que acompanham livro e imunidade tributária


(Informativo STF Mensal de março)

IPTU: imunidade tributária recíproca e cessão de uso de bem público


IPTU e imóvel de ente público cedido a empresa privada
IPTU e imóvel de ente público cedido a empresa privada
Petrobras e imunidade
(Informativo STF Mensal de abril)

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Incentivo Fiscal
Alíquota de IPI para produção de açúcar e localização geográfica
(Informativo STF Mensal de abril)

Regime Tributário
Redução da base de cálculo do ICMS e estorno de créditos
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

Taxas
Município e taxa de combate a sinistros
(Informativo STF Mensal de maio)

Base de cálculo de taxa de fiscalização e funcionamento e número de empregados


(Informativo STF Mensal de junho)

Majoração de taxa por portaria e princípio da reserva legal


Município e taxa de combate a sinistros
(Informativo STF Mensal de agosto)

Tributos
Valor Adicionado Fiscal: forma de cálculo e questão infraconstitucional
(Informativo STF Mensal de fevereiro)

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Direito Administrativo
Agentes Políticos

Afastamento de prefeito: supremacia da vontade popular e preservação da coisa pública


Em conclusão, o Plenário julgou prejudicado, por perda de objeto, agravo regimental em que se discutia
o afastamento de prefeito do cargo, por força de decisão cautelar de tribunal de justiça em face da suposta
prática de crimes — v. Informativo 809.
Tratava-se de recurso interposto contra decisão do então Ministro Presidente do STF, que havia
deferido, em parte, medida liminar em pedido de suspensão liminar para possibilitar o retorno do requerente ao
cargo que exercia.
O Tribunal considerou o fato de o mandato do prefeito em questão ter expirado.
SL 853 MC-AgR/SP, rel. Min. Ricardo Lewandowski, 1º.2.2017.
(Informativo 852, Plenário)

Abono de permanência e posse no TST


A Primeira Turma, em julgamento conjunto, concedeu a ordem em mandados de segurança impetrados
contra decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), na qual foram definidas as balizas para o pagamento de
abono de permanência no âmbito do Judiciário federal.
No ato impugnado, determinou-se que os tribunais federais observassem o requisito do tempo mínimo
de cinco anos no cargo, de carreira ou isolado, para o implemento do benefício, nos termos do art. 40, § 19, da
Constituição Federal (CF).
No caso, a impetrante tomou posse como ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST) após o
exercício da função de juíza de Tribunal Regional do Trabalho (TRT) até 2014, onde recebia, além do subsídio
correspondente, o valor de 11% relativo ao abono de permanência. Sustentava que deveria continuar a
percebê-lo, na condição de ocupante de cargo no Judiciário.
A Turma asseverou que a decisão do TCU teve efeito concreto, não foi um pronunciamento genérico,
tampouco uma simples recomendação.
O Colegiado entendeu que o TCU conferiu interpretação restritiva ao § 19 do art. 40 da CF,
confundindo o direito à aposentadoria no novo cargo com o direito ao abono.
Por fim, ponderou que, se a impetrante viesse a se desligar do cargo de ministra, ainda assim
permaneceria com o direito a aposentar-se como juíza.
MS 33424/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 28.3.2017.
MS 33456/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 28.3.2017.
(Informativo 859, 1ª Turma)

Aposentadoria compulsória de magistrado: processo disciplinar e prova emprestada


A Primeira Turma, por maioria, negou provimento a agravo regimental em que questionada a
legalidade de ato do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) quanto à aplicação da pena de aposentadoria
compulsória a magistrado estadual por prática de infração disciplinar grave.
O agravante alegou ofensa ao princípio da subsidiariedade, dada ausência de análise prévia da suposta
falta pela Corregedoria local; invalidade das provas, as quais haviam sido obtidas durante a investigação de
outras pessoas; possibilidade de apontamento de nulidades por meio de petição após o prazo previsto no art. 23
da Lei 12.016/2009 (1); incompatibilidade entre o ato de instauração do processo administrativo disciplinar e o
acórdão impugnado; e descabimento da sanção imposta por insuficiência probatória.
Primeiramente, a Turma evidenciou entendimento consolidado pela Corte no sentido da competência
originária e concorrente do CNJ conferida pela Constituição, na aplicação de medidas disciplinares. Em
seguida, reafirmou a possibilidade de utilização de dados obtidos por descoberta fortuita em interceptações
telefônicas devidamente autorizadas como prova emprestada em processo administrativo disciplinar.
Ademais, não verificou a ocorrência de atraso indevido no envio das provas aos órgãos competentes no
que se refere a indivíduos detentores de foro por prerrogativa de função. Destacou, ainda, a incongruência entre
dilação probatória e mandado de segurança.
Afastou também a hipótese de incompatibilidade entre a portaria de instauração do processo e o ato
contrariado, visto que a defesa no processo administrativo disciplinar se dá em relação aos fatos descritos na
própria portaria de instauração.

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Outrossim, ausente conclusão do juízo criminal pela prova da inexistência do fato ou pela negativa de
autoria, não estão presentes circunstâncias suscetíveis de autorizar excepcional comunicabilidade das esferas
penal e administrativa.
Por fim, a Turma concluiu pela ausência de ilegalidade do ato e entendeu por justificada a pena de
aposentadoria compulsória, haja vista demonstração probatória de infração disciplinar grave.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que entendeu haver dúvidas em relação à culpabilidade do acusado
e destacou a impossibilidade de condenação a partir de simples indícios. Desse modo, sem julgar o aspecto
material do caso, votou pelo provimento do agravo regimental.

(1) Lei 12.016/2009: “Art. 23. O direito de requerer mandado de segurança extinguir-se-á decorridos 120 (cento e vinte) dias,
contados da ciência, pelo interessado, do ato impugnado”.
MS 30361 AgR/DF, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 29.8.2017.
(Informativo 875, 1ª Turma)

Agentes Públicos

Constituição Federal de 1988 e defensores admitidos sem concurso público


A Primeira Turma, por maioria, deu provimento a agravo regimental em recurso extraordiná rio
em que discutida a situação de advogados contratados sem concurso público para exercer cargo em
defensoria pública estadual depois de promulgada a Constituição Federal de 1988.
A Lei Complementar 55/1994, do Estado do Espírito Santo, que permitiu a incorporação de
advogados admitidos sem a realização de concurso público à defensoria, foi declarada inconstitucional
pela Suprema Corte no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 1199/ES (DJU de
19.4.2006), ressaltados os efeitos ex tunc da decisão.
Nesse sentido, a administração estadual solicitou o cumprimento da sentença da ADI e, por
conseguinte, o desligamento dos advogados, alegando que sua manutenção estaria causando prejuízos à
instituição.
Dessa forma, a Turma decidiu pela regularização da composição da defensoria, no sentido de
substituir os advogados contratados pelos indivíduos aprovados em concurso que aguardam na fila,
visando à organização mais eficiente e apropriada da administração.
Conforme tese fixada em repercussão geral (Tema 476), os princípios da segurança jurídica e da
proteção da confiança legítima não podem justificar a manutenção no cargo de candidato admitido sem
concurso público. O Colegiado ressaltou, ainda, a inaplicabilidade do disposto no art. 22 (1) do Ato de
Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) ao caso em questão, visto que a contratação dos
advogados se deu após a instalação da constituinte.
Vencida a ministra Rosa Weber (relatora), que negou provimento ao agravo, por entender a
necessidade de resguardo dos princípios da segurança jurídica, boa-fé e confiança, haja vista a
decorrência de mais de vinte anos de exercício do cargo pelos contratados.

(1) ADCT: “Art. 22. É assegurado aos defensores públicos investidos na função até a data de instalação da Assembléia
Nacional Constituinte o direito de opção pela carreira, com a observância das garantias e vedações previstas no art. 134, parágrafo
único, da Constituição”.
RE 856550/ES, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 10.10.2017.
(Informativo 881, Primeira Turma)

Anistia Política

Mandado de segurança: instauração de processo de revisão de anistia e direito líquido e


certo
A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, deu provimento a recurso ordinário em
mandado de segurança interposto pelo Ministério Público Federal (MPF) — na qualidade de substituto
processual —, em que se pretendia impedir o prosseguimento do processo específico de revisão de portaria que
conferiu anistia política a ex-integrante da Força Aérea Brasileira.
Ao julgar o mandado de segurança, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concluiu pela ausência de
interesse processual do impetrante. A Advocacia-Geral da União (AGU) alegou não existir direito líquido e

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certo a ser protegido quando a Administração está na fase de investigação sobre suposta ilegalidade — ver
Informativo 860.
O Colegiado determinou ao STJ que prossiga na apreciação do mandado de segurança, com exame da
pretensão veiculada pelo impetrante. Pontuou haver duas fases distintas no processo de revisão das anistias
deferidas a militares afastados por motivos políticos: a) determinação de amplo procedimento de revisão pelo
Ministério da Justiça e pela AGU; e b) abertura de processos individuais de reanálise dos atos de anistia.
No caso, ao contrário do afirmado pelo STJ, o processo individual do recorrente já teve início. Ademais,
para a Turma, a impetração de mandado de segurança é adequada à situação concreta. Em respeito à cláusula
constitucional de acesso ao Judiciário, ao cidadão é assegurada tutela contra lesão ou ameaça de lesão a direito.
Vencidos os ministros Alexandre de Moraes e Roberto Barroso, que deram provimento ao recurso. Para
eles, a segunda fase da revisão da anistia é uma decorrência concreta da primeira fase.
De acordo com os ministros vencidos, a inexistência de direito líquido e certo na hipótese de fato futuro
que potencialmente pudesse lesar o impetrante impede o uso do mandado de segurança. Caso contrário, haveria
duas situações ensejadoras de mandado de segurança: na instauração do procedimento e, depois, na decisão.
Ademais, a simples instauração de processo administrativo para verificar suposta existência de má-fé não viola
direito líquido e certo.
RMS 34054/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 4.4.2017.
(Informativo 860, 1ª Turma)

Aposentadoria e Proventos

Anulação de registro de aposentadoria e comprovação de tempo trabalhado na condição de


aluno-aprendiz
A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, denegou mandado de segurança
impetrado contra acórdão do Tribunal de Contas da União (TCU), que anulou ato de concessão de
aposentadoria e determinou que o impetrante retornasse à atividade, para completar os requisitos da
aposentadoria integral, ou que a ele fossem pagos proventos proporcionais ao seu tempo de contribuição.
Na espécie, a Corte de Contas glosou o cômputo de tempo prestado na condição de aluno-
aprendiz, por entender não ter sido comprovada a efetiva prestação do serviço – v. Informativo 814.
O Colegiado afirmou que o servidor, para ter o citado período contado como tempo de serviço,
deveria apresentar certidão do estabelecimento de ensino frequentado. Tal documento deveria atestar a
condição de aluno-aprendiz e o recebimento de retribuição pelos serviços executados, consubstanciada
em auxílios materiais diversos.
Ressaltou que, com a edição da Lei 3.353/1959, passou-se a exigir, para a contagem do tempo
mencionado, a demonstração de que a mão de obra foi remunerada com o pagamento de encomendas. O
elemento essencial à caracterização do tempo de serviço como aluno-aprendiz não é a percepção de
vantagem direta ou indireta, mas a efetiva execução do ofício para o qual recebia instrução, mediante
encomendas de terceiros.
Como consequência, a declaração emitida por instituição de ensino profissionalizante somente
comprovaria o período de trabalho caso registrasse expressamente a participação do educando nas
atividades laborativas desenvolvidas para atender aos pedidos feitos às escolas, o que não ocorreu no
caso. Da certidão juntada aos autos consta apenas que o impetrante frequentou curso técnico
profissionalizante por certo período, sem referência à sua participação na produção de quaisquer bens ou
serviços solicitados por terceiros. Não há sequer comprovação de retribuição pecuniária à conta do
orçamento.
A ministra Rosa Weber, em voto-vista, acrescentou que, durante o transcurso do lapso temporal
entre a concessão inicial da aposentadoria e o seu exame pelo TCU, o impetrante permaneceu inerte,
apesar de haver sido intimado para comprovar ter recebido alguma remuneração como contraprestação
pelo trabalho realizado na condição de aluno-aprendiz. Ademais, não instruiu o mandamus com a
imprescindível prova pré-constituída.

Vencidos os ministros Luiz Fux e Edson Fachin, que concediam a ordem.


MS 31518/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 7.2.2017.
(Informativo 853, 1ª Turma)

16
Aposentadoria compulsória e titulares de serventias judiciais não estatizadas
Não se aplica a aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II, da CF aos titulares de
serventias judiciais não estatizadas, desde que não sejam ocupantes de cargo público efetivo e não
recebam remuneração proveniente dos cofres públicos.
Com essa orientação, o Tribunal negou provimento a recurso extraordinário no qual se pretendia
fosse aplicada a aposentadoria compulsória a escrivã de serventia judicial não estatizada remunerada
exclusivamente por custas e emolumentos, cujo ingresso ocorreu em 19.11.1969.
Inicialmente, o Tribunal rejeitou a preliminar de perda superveniente do objeto, em virtude do
reconhecimento administrativo do direito pleiteado.
A Corte entendeu que, ainda que reconhecida a suposta prejudicialidade do recurso, deveria
proceder ao julgamento da tese de repercussão geral, em vista da relevância da questão constitucional
posta em discussão. Citou o disposto no parágrafo único do art. 998 do CPC e o que decidido no RE
693.456 QO/RJ (DJE de 22.9.2015), no qual assentada a impossibilidade de desistência de qualquer
recurso ou mesmo de ação após o reconhecimento de repercussão geral da questão constitucional.
Em seguida, fez uma breve digressão histórica sobre a constitucionalização da matéria referente às
serventias judiciais. Asseverou que a primeira previsão de oficialização dessas serventias se deu com a
EC 7/1977 à CF de 1967/1969 (art. 206) e que apenas com a EC 22/1982, que alterou, entre outros, o art.
206, a determinação de oficialização das serventias judiciais passou a ter força cogente. Observou que a
mesma orientação foi mantida pela CF/1988 (ADCT, art. 31). Diante disso, concluiu pela coexistência de
três espécies de titulares de serventias judiciais: a) os titulares de serventias oficializadas, que ocupam
cargo ou função pública e são remunerados exclusivamente pelos cofres públicos; b) os titulares de
serventias não estatizadas remunerados exclusivamente por custas e emolumentos; e c) os titulares de
serventias não estatizadas remunerados, em parte, pelos cofres públicos e, em outra, por custas e
emolumentos. Frisou que o mencionado comando constitucional resguardou os direitos adquiridos até
então, de modo que ainda hoje existem diversas serventias judiciais, cujos titulares ingressaram de forma
regular, que ainda não foram estatizadas.
Consignou que o art. 40, § 1º, II, da CF estabelece que a aposentadoria compulsória será aplicada
apenas aos servidores titulares de cargo efetivo, abrangidos pelo RPPS. Citou o entendimento firmado na
ADI 2.602/MG (DJU de 5.12.2005) no sentido da inaplicabilidade da aposentadoria compulsória pelo
implemento de idade a titulares de serventias extrajudiciais, pelo fato, entre outros motivos, de não serem
servidores públicos titulares de cargos efetivos.
Em razão da similitude das relações jurídicas (ambos se referem à atividade privada em
colaboração com o Poder Público), o Plenário considerou possível estender aos titulares de serventia
judicial não estatizada remunerados exclusivamente por custas e emolumentos o mesmo tratamento
conferido aos titulares de foro extrajudicial.
Por fim, o Tribunal ressaltou que, resguardados os direitos adquiridos, a persistência de serventias
judiciais privatizadas em alguns Estados-Membros é totalmente incompatível com o disposto no art. 31
do ADCT, sendo urgente que cada ente da Federação adote as providências cabíveis para regularizar a
situação. Mencionou o que decidido no julgamento da ADI 1.498/RS (DJU de 18.11.2002), no qual
consignada a determinação de que as serventias privatizadas devem retornar ao sistema estatizado.
RE 647827/PR, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 15.2.2017.
(Informativo 854, Plenário, Repercussão Geral)

TCU: correção da forma de pagamento de proventos de magistrado


A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, concedeu mandado de segurança
impetrado contra acórdão do Tribunal de Contas da União que teria considerado irregular o pagamento ao
impetrante de proventos equivalentes ao subsídio de desembargador federal.
No caso, o impetrante é juiz federal e, embora tivesse passado à inatividade em 2010, teria
adquirido o direito de se aposentar em 1994, quando o art. 192 da Lei 8.112/1990 ainda estava em vigor
(“Art. 192. O servidor que contar tempo de serviço para aposentadoria com provento integral será
aposentado: I – com a remuneração do padrão de classe imediatamente superior àquela em que se
encontra posicionado;”). Isso garantiria a ele o direito de se aposentar com remuneração equivalente ao
cargo imediatamente superior ao seu — v. Informativo 752.
A Turma consignou que o impetrante tem direito aos proventos calculados com a incidência do
inciso I do art. 192 da Lei 8.112/1990, ou seja, à remuneração paga sob o regime de subsídio, em parcela
única.

17
A ministra Rosa Weber, em voto-vista, acrescentou que o regime de subsídio não tornou os
proventos do autor, tal como originalmente fixados, supervenientemente incompatíveis com a exigência
de recebimento em parcela única. Ao contrário, a situação do impetrante se ajusta perfeitamente ao
regime de subsídio.
Pontuou que, se o autor tinha direito a receber, de acordo as regras que vigiam ao tempo da
satisfação dos requisitos para a sua aposentadoria, a remuneração do cargo imediatamente superior, vale
dizer, desembargador federal, seria decorrência lógica que, com a alteração da Emenda Constitucional
19/1998, ele passasse a perceber o subsídio daquele cargo.
Ressaltou que o autor não pretendia nenhum adicional de caráter salarial cumulativo ao subsídio.
Sua intenção era continuar a perceber o mesmo valor determinado pela lei vigente ao tempo em que
preencheu os requisitos para sua inativação, ou seja, os proventos equivalentes à remuneração atualmente
paga sob o regime de subsídio, em parcela única, a um desembargador federal (Lei 8.112/1990, art. 192,
I), na exata medida do Enunciado 359 da Súmula do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a ministra, resultaria impróprio se decotar uma parte do subsídio, adquirido a tempo e
modo constitucionais e legais, e passar a denominá-lo como vantagem pessoal, dando, artificialmente,
tratamento diferente a verbas iguais, uma vez que derivadas da mesma rubrica (subsídio), como se
distintas fossem.
Sustentou, ademais, que a questão não se resolveria pela tradicional aplicação da jurisprudência
consolidada no STF, segundo a qual se admite a modificação de regime jurídico dos servidores a qualquer
tempo, respeitada a irredutibilidade nominal dos vencimentos. Nessa ótica, a interferência do ato coator
sobejaria a simples alteração dos critérios relativos à composição dos proventos e repercutiria nas
garantias constitucionais do direito adquirido e da irredutibilidade dos proventos.
Por fim, concluiu que não se pode conceituar a situação pessoal do impetrante como uma
vantagem pecuniária, uma vez que ele não pretendia nenhum acréscimo ao seu vencimento base, mas
justo e exclusivamente o subsídio (parcela única) tal como assegurado no título de sua aposentadoria.
Vencido o ministro Roberto Barroso, que indeferia a segurança.
MS 32726/DF, rel. orig. Min. Roberto Barroso, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio, julgamento
em 7.2.2017.
(Informativo 853, 1ª Turma)

Cumulação de proventos, pensões e cargos públicos inacumuláveis em atividade


A Primeira Turma concedeu mandado de segurança impetrado contra ato do Tribunal de Contas da
União (TCU), que determinou à impetrada optar por uma das duas pensões que recebe em decorrência de
aposentadorias de seu falecido esposo — servidor público civil aposentado pelo SNI e militar reformado do
Exército —, ao fundamento de que a cumulação seria ilegal.
Inicialmente, afastou a preliminar de decadência. O acordão impugnado foi publicado em 3.3.2004, ao
passo que o mandamus somente foi protocolado em 13.10.2004, mais de 120 dias após a ciência do ato
impugnado, o que resultaria na perda do direito de ajuizar a ação mandamental.
O Colegiado, entretanto, asseverou que o fato de a impetrante haver sido favorecida por decisão liminar
deferida em 10.11.2004 — portanto, há mais de doze anos — justifica avançar na análise da impetração.
Ressaltou a necessidade de encontrar solução alternativa que leve em consideração a eficiência
processual e a primazia da decisão de mérito, normas fundamentais já incorporadas na estrutura do novo CPC
(1 e 2).
Ademais, citou precedentes da Corte no sentido da superação de óbices processuais, quando necessária
para adentrar no exame das questões de mérito. Apontou, ainda, precedente no sentido da obrigatoriedade da
observância do princípio da segurança jurídica, diante da concessão de medidas liminares em processos cujos
méritos são definitivamente julgados depois de passados muitos anos.
No mérito, a Turma anotou que o art. 11 (3) da Emenda Constitucional 20/1998 vedou expressamente a
concessão de mais de uma aposentadoria pelo regime de previdência dos servidores civis previsto no art. 40 da
Constituição Federal (CF). Registrou, no entanto, não haver qualquer referência à concessão de proventos
militares, os quais são tratados nos arts. 42 e 142 do texto constitucional.
Ressaltou que, por cumular a percepção de pensão civil com pensão militar, a impetrante está
enquadrada em situação não alcançada pela proibição da referida emenda. Por fim, o Colegiado apontou
precedentes nesse sentido (4).

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(1) . CPC/2015: “Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a
atividade satisfativa.”
(2) . CPC/2015: “Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum,
resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a
publicidade e a eficiência.”
(3) . EC 20/1998: “Art. 11 A vedação prevista no art. 37, § 10, da Constituição Federal, não se aplica aos membros de
poder e aos inativos, servidores e militares, que, até a publicação desta Emenda, tenham ingressado novamente no serviço público
por concurso público de provas ou de provas e títulos, e pelas demais formas previstas na Constituição Federal, sendo-lhes proibida
a percepção de mais de uma aposentadoria pelo regime de previdência a que se refere o art. 40 da Constituição Federal, aplicando-
se-lhes, em qualquer hipótese, o limite de que trata o § 11 deste mesmo artigo.”
(4) . AI 375011/RS (DJU de 28.10.2004); RE 298694/SP (DJU de 23.4.2004); MS 22357/DF (DJU de 5.11.2004); MS
25192/DF (DJU de 6.5.2005); MS 24958/DF (DJU de 1º.4.2005); AI 801096 AgR-EDv/DF (DJE de 30.6.2015).
MS 25097/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 28.3.2017.
(Informativo 859, 2ª Turma)

Integralidade e Emenda Constitucional 70/2012


Os efeitos financeiros das revisões de aposentadoria concedida com base no art. 6º-A (1) da
Emenda Constitucional (EC) 41/2003, introduzido pela EC 70/2012, somente se produzirão a partir da
data de sua promulgação (30.3.2012).
Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, deu provimento a recurso extraordinário
em que se discutia a possibilidade de servidor público aposentado por invalidez permanente, em
decorrência de doença grave, após a vigência da EC 41/2003, mas antes do advento da EC 70/2012,
receber retroativamente proventos integrais calculados sobre a remuneração do cargo efetivo em que se
deu a aposentadoria.
No caso, após 26 anos de serviço público, a recorrida aposentou-se por invalidez permanente, em
decorrência de doença grave, com proventos calculados com base na EC 41/2003 e na Lei 10.887/2004.
Ante a inesperada redução do valor de seus proventos, a servidora ajuizou ação para o
restabelecimento da quantia inicialmente percebida.
No curso do processo sobreveio a EC 70/2012, que introduziu o art. 6º-A. Com fundamento nesse
dispositivo, o juiz de primeiro grau julgou procedente a ação para restabelecer a integralidade dos
proventos de aposentadoria, acrescidos da diferença dos atrasados, corrigidos monetariamente. Essa
decisão foi mantida pelas demais instâncias judiciárias.
O Plenário afirmou que, no caso de aposentadoria por invalidez, a Constituição Federal (CF)
original assegurava o direito aos proventos integrais e à integralidade. Dessa forma, os proventos não
seriam proporcionais, mas iguais ao da última remuneração em atividade.
Essa situação perdurou até a EC 41/2003, que manteve os proventos integrais, não proporcionais
ao tempo de serviço, como se o servidor tivesse trabalhado todo o tempo de serviço. Porém, essa emenda
acabou com a integralidade e determinou a aposentadoria com base na média dos 80% dos maiores
salários de contribuição, e não mais no valor da remuneração do cargo.
Em 2012, a EC 70/2012 restabeleceu a integralidade, mas com efeitos financeiros a partir de sua
publicação. Assim, o servidor passou a ter direito à integralidade dos proventos. Esse direito, no entanto,
não retroage para alcançar período anterior.
Vencidos os ministros Dias Toffoli (relator), Edson Fachin, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski e
Cármen Lúcia, que negavam provimento ao recurso. Sustentavam que o servidor público aposentado por
invalidez permanente em decorrência de acidente em serviço ou de moléstia profissional ou doença grave,
contagiosa ou incurável prevista em lei, entre o início da vigência da EC 41/2003 e a publicação da EC
70/2012, teria jus à integralidade e à paridade desde a data da inativação.
Pontuavam que a EC 41/2003 não teria acabado com a integralidade das aposentadorias
concedidas por invalidez e que a EC 70/2012 não teria instituído nada de novo, mas apenas veio a dirimir
as dúvidas de modo a tornar claro o direito existente.

(1) Emenda Constitucional 41/2003: “Art. 6º-A. O servidor da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios,
incluídas suas autarquias e fundações, que tenha ingressado no serviço público até a data de publicação desta Emenda
Constitucional e que tenha se aposentado ou venha a se aposentar por invalidez permanente, com fundamento no inciso I do § 1º do
art. 40 da Constituição Federal, tem direito a proventos de aposentadoria calculados com base na remuneração do cargo efetivo em
que se der a aposentadoria, na forma da lei, não sendo aplicáveis as disposições constantes dos §§ 3º, 8º e 17 do art. 40 da
Constituição Federal.”
RE 924456/RJ, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 5.4.2017.
(Informativo 860, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

19
Cargo Público

Acumulação de cargo público e ‘teto’ remuneratório


Nos casos autorizados constitucionalmente de acumulação de cargos, empregos e funções, a
incidência do art. 37, XI (1), da Constituição Federal (CF) pressupõe consideração de cada um dos
vínculos formalizados, afastada a observância do teto remuneratório quanto ao somatório dos ganhos do
agente público.
Com base nesse entendimento, o Plenário, em julgamento conjunto e por maioria, negou
provimento a recursos extraordinários e reconheceu a inconstitucionalidade da expressão “percebidos
cumulativamente ou não” contida no art. 1º da Emenda Constitucional (EC) 41/2003, que alterou a
redação do art. 37, XI, da CF, considerada interpretação que englobe situações jurídicas a revelarem
acumulação de cargos autorizada constitucionalmente.
Além disso, declarou a inconstitucionalidade do art. 9º da EC 41/2003 (2), para afastar
definitivamente o art. 17 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) (3), por já ter
surtido efeitos na fase de transformação dos sistemas constitucionais — Cartas de 1967/1969 e 1988 —,
excluída a abrangência a ponto de fulminar direito adquirido.
No caso, os acórdãos recorridos revelaram duas conclusões principais: a) nas acumulações
compatíveis com o texto constitucional, o que auferido em cada um dos vínculos não deve ultrapassar o
teto constitucional; e b) situações remuneratórias consolidadas antes do advento da EC 41/2003 não
podem ser atingidas, observadas as garantias do direito adquirido e da irredutibilidade de vencimentos,
porque oponíveis ao poder constituinte derivado.
O Colegiado afirmou que a solução da controvérsia pressupõe interpretação capaz de
compatibilizar os dispositivos constitucionais em jogo, no que aludem ao acúmulo de cargos públicos e
das respectivas remunerações, incluídos os vencimentos e proventos decorrentes da aposentadoria,
considerados os preceitos atinentes ao direito adquirido (CF, art. 5º, XXXVI) e à irredutibilidade de
vencimentos (CF, art. 37, XV).
Ressaltou que a percepção somada de remunerações relativas a cargos acumuláveis, ainda que
acima, no cômputo global, do patamar máximo, não interfere nos objetivos que inspiram o texto
constitucional. As situações alcançadas pelo art. 37, XI, da CF são aquelas nas quais o servidor obtém
ganhos desproporcionais, observadas as atribuições dos cargos públicos ocupados. Admitida a incidência
do limitador em cada uma das matrículas, descabe declarar prejuízo à dimensão ética da norma,
porquanto mantida a compatibilidade exigida entre trabalho e remuneração.
Assentou que as possibilidades que a CF abre em favor de hipóteses de acumulação de cargos não
são para benefício do servidor, mas da coletividade. Assim, o disposto no art. 37, XI, da CF,
relativamente ao teto, não pode servir de desestímulo ao exercício das relevantes funções mencionadas no
inciso XVI (4) dele constante, repercutindo, até mesmo, no campo da eficiência administrativa.
Frisou que a incidência do limitador, considerado o somatório dos ganhos, ensejaria
enriquecimento sem causa do Poder Público, pois viabiliza retribuição pecuniária inferior ao que se tem
como razoável, presentes as atribuições específicas dos vínculos isoladamente considerados e respectivas
remunerações. Ademais, essa situação poderá potencializar situações contrárias ao princípio da isonomia,
já que poderia conferir tratamento desigual entre servidores públicos que exerçam idênticas funções. O
preceito concernente à acumulação preconiza que ela é remunerada, não admitindo a gratuidade, ainda
que parcial, dos serviços prestados, observado o art. 1º da CF, no que evidencia, como fundamento da
República, a proteção dos valores sociais do trabalho.
Enfatizou que o ordenamento constitucional permite que os ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF) acumulem as suas funções com aquelas inerentes ao Tribunal Superior Eleitoral (CF, art.
119), sendo ilógico supor que se imponha o exercício simultâneo, sem a correspondente contrapartida
remuneratória. Da mesma forma, os arts. 95, parágrafo único, I, e 128, § 5º, II, “d”, da CF veiculam
regras quanto ao exercício do magistério por juízes e promotores de justiça, de maneira que não se pode
cogitar, presente o critério sistemático de interpretação, de trabalho não remunerado ou por valores
inferiores aos auferidos por servidores que desempenham, sem acumulação, o mesmo ofício. Idêntica
orientação há de ser observada no tocante às demais circunstâncias constitucionais de acumulação de
cargos, empregos e funções públicas, alusivas a vencimento, subsídio, remuneração oriunda do exercício
de cargos em comissão, proventos e pensões, ainda que os vínculos digam respeito a diferentes entes
federativos.
Consignou que consubstancia direito e garantia individual o acúmulo tal como estabelecido no
inciso XVI do art. 37 da CF, a encerrar a prestação de serviços com a consequente remuneração, ante os

20
diversos cargos contemplados, gerando situação jurídica na qual os valores devem ser recebidos na
totalidade.
O teto remuneratório não pode atingir, a partir de critérios introduzidos por emendas
constitucionais, situações consolidadas, observadas as regras preexistentes, porque vedado o confisco de
direitos regularmente incorporados ao patrimônio do servidor público ativo ou inativo (CF, arts. 5º,
XXXVI, e 37, XV).
Essa óptica deve ser adotada quanto às ECs 19/1998 e 41/2003, no que incluíram a expressão
“percebidos cumulativamente ou não” ao inciso XI do art. 37 da CF.
Cabe idêntica conclusão quanto ao art. 40, § 11, da CF, sob pena de criar situação desigual entre
ativos e inativos, contrariando preceitos de envergadura maior, entre os quais a isonomia, a proteção dos
valores sociais do trabalho — expressamente elencada como fundamento da República —, o direito
adquirido e a irredutibilidade de vencimentos.
As aludidas previsões limitadoras, a serem levadas às últimas consequências, além de distantes da
razoável noção de teto, no que conduz, presente acumulação autorizada pela CF, ao cotejo
individualizado, fonte a fonte, conflitam com a rigidez constitucional decorrente do art. 60, § 4º, IV, nela
contido.
Vencido o ministro Edson Fachin, que dava provimento aos recursos extraordinários. Pontuava
que o art. 37, XI, da CF deveria ser interpretado literalmente, de modo que o teto deveria ser aplicado de
forma global e não individualmente a cada cargo.

(1) CF/1988: “Art. 37. (...) XI – A remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da
administração direta, autárquica e fundacional, dos membros de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os proventos, pensões ou outra espécie
remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão
exceder o subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, aplicando-se como limite, nos Municípios, o
subsídio do Prefeito, e nos Estados e no Distrito Federal, o subsídio mensal do Governador no âmbito do Poder Executivo, o
subsídio dos Deputados Estaduais e Distritais no âmbito do Poder Legislativo e o subsidio dos Desembargadores do Tribunal de
Justiça, limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo
Tribunal Federal, no âmbito do Poder Judiciário, aplicável este limite aos membros do Ministério Público, aos Procuradores e aos
Defensores Públicos.”
(2) Emenda Constitucional 41/2003: “Art. 9º Aplica-se o disposto no art. 17 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias aos vencimentos, remunerações e subsídios dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração
direta, autárquica e fundacional, dos membros de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios,
dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória percebidos
cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza.”
(3) ADCT: “Art. 17. Os vencimentos, a remuneração, as vantagens e os adicionais, bem como os proventos de
aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela
decorrentes, não se admitindo, neste caso, invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título.”
(4) CF/1988: “Art. 37. (...) XVI – é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver
compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI: a) a de dois cargos de professor; b) a de um cargo
de professor com outro técnico ou científico; c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões
regulamentadas;”
RE 612975/MT, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 26 e 27.4.2017.
RE 602043/MT, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 26 e 27.4.2017.
(Informativo 862, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Concurso Público

Promoção funcional retroativa nas nomeações por ato judicial


A nomeação tardia de candidatos aprovados em concurso público, por meio de ato judicial, à
qual atribuída eficácia retroativa, não gera direito às promoções ou progressões funcionais que
alcançariam houvesse ocorrido, a tempo e modo, a nomeação.
Com base nessa orientação, o Plenário, apreciando o Tema 454 da repercussão geral, por
unanimidade, negou provimento a recurso extraordinário em que se discutia o direito à promoção
funcional retroativa de candidatos nomeados por ato judicial.
No caso, candidatos aprovados em concurso para o cargo de defensor público do Estado de
Mato Grosso impetraram mandado de segurança voltado ao reconhecimento do direito à nomeação.
O pleito foi acolhido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em sede de recurso ordinário. Os
declaratórios formalizados pelos participantes do certame lograram êxito. Assim, to dos os direitos
inerentes ao cargo, inclusive financeiros, foram reconhecidos em caráter retroativo à data final do
prazo de validade do concurso.

21
O STJ, em novos declaratórios, esclareceu o alcance dos direitos. Entendeu ser devido o
cômputo do tempo de serviço a partir da expiração da validade do certame, bem assim, a título
indenizatório, o equivalente às remunerações que teriam sido percebidas a contar daquele marco até
a entrada em exercício no cargo. Deixou de reconhecer o direito às promoções funcio nais, pois
envolveriam, como requisito, não apenas o decurso do tempo, mas o atendimento a critérios
previstos na Constituição Federal e na Lei Orgânica da Defensoria do Mato Grosso. Contra esse
pronunciamento, foi interposto recurso extraordinário.
O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) salientou que a controvérsia se resume em
definir a pertinência das promoções funcionais – independentemente da submissão e do sucesso no
estágio probatório – de candidatos aprovados em concurso público que tiveram assegurada
judicialmente a nomeação, com efeitos retroativos, em razão da prática de ato da Administração.
Não se questiona a natureza do ato formalizado pelo Poder Público, se lícito ou ilícito. Tampouco se
discute o direito à nomeação, bem assim à indenização equivalente às remunerações que deixaram de
ser pagas e à contagem retroativa do tempo de serviço, presente o retardamento da nomeação.
Debate-se, tão somente, o direito às promoções sob os ângulos funcional e financeiro.
A Corte pontuou, ainda, que a promoção ou a progressão funcional – a depender do caráter da
movimentação, se vertical ou horizontal – não se resolve apenas mediante o cumprimento do
requisito temporal. Pressupõe a aprovação em estágio probatório e a confirmação no cargo, bem
como o preenchimento de outras condições indicadas na legislação ordinária.
Diante disso, asseverou que, uma vez empossado no cargo, cumpre ao servidor atentar para
todas as regras atinentes ao respectivo regime jurídico, incluídas as concernentes ao estágio
probatório e as específicas de cada carreira. Assim, somente considerado o desempenho do agente,
por meio de atuação concreta a partir da entrada em exercício, é possível alcançar a confirmação no
cargo, bem como a movimentação funcional, do que decorreriam a subida de classes e padrões,
eventual alteração na designação do cargo ou quaisquer outras consequências funcionais.

RE 629392 RG/MT, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 8.6.2017.


(Informativo 868, Plenário, Repercussão Geral)

CNJ e anulação de concurso público


A Segunda Turma, por maioria, concedeu a ordem em mandados de segurança para cassar ato
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que, nos autos de processo de controle administrativo,
determinou a anulação de concurso público para admissão nas serventias extrajudiciais no Estado do
Rio de Janeiro.
No caso, a anulação se deu em razão da incompatibilidade com os princípios da moralidade e da
impessoalidade, caracterizada pela existência de relacionamento pessoal entre o presidente da comissão
do concurso e duas candidatas aprovadas. O CNJ também assentou a parcialidade da comissão
examinadora ao entender que houve favorecimento das candidatas na correção das questões das provas.
A Turma pontuou que o CNJ, na sua competência de controle administrativo, não pode
substituir-se ao examinador, seja nos concursos para o provimento de cargos em cartórios, seja em
outros concursos para provimento de cargos de juízes ou de servidores do Poder Judiciári o.
As duas candidatas não puderam se manifestar após o aditamento do requerimento inicial no
âmbito do CNJ, situação que ampliou substancialmente o objeto da apuração ao acrescentar novas
causas de pedir que, ao final, constituíram-se os fundamentos únicos do ato combatido. Nesse contexto,
o Colegiado destacou a ocorrência de violação da garantia do devido processo legal, tendo em vista a
ausência de nova notificação dos interessados para que se manifestassem sobre os novos fundamentos.
Também não é possível afirmar a existência de irregularidade ou favorecimento a ensejar a
medida extrema adotada pelo CNJ, uma vez que o conselho entendeu haver “fortes indicações de
parcialidade”, sem, contudo, demonstrar as “evidências de favorecimento” que justificaram anulação
de todo o concurso.
Vencido o Ministro Dias Toffoli, que concedeu parcialmente a ordem, somente para
desconstituir a deliberação do CNJ de anulação de todo o concurso, mantendo o ato no tocante à parte
relativa às candidatas que possuíam relacionamento pessoal com o presidente da comissão do concurso.
Entendeu que o contraditório e a ampla defesa foram assegurados com a notificação inicial a
todos os interessados, o que lhes possibilitou, inclusive, o acompanhamento do feito e mesmo, se assim
desejassem (como de fato foi feito por parte dos candidatos) a apresentação voluntária de suas
conclusões quanto às questões surgidas no curso do procedimento.

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No que concerne, à anulação de todo o concurso público, com impacto aos demais candidatos,
destacou que não se pode partir, apenas, de presunções incidentes sobre ato de nítido caráter subjetivo
(correção de provas discursivas) para concluir pelo favorecimento de candidatos sem que haja indícios
outros a corroborar a conclusão. Admitir-se o contrário seria transformar as etapas dotadas de algum
nível de subjetividade em concursos públicos em fases de incerteza, sujeitas a constantes anulações,
com nítido prejuízo à segurança jurídica que deve pautar tal espécie de certame.
MS 28775/DF, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski,
julgamento em 17.10.2017.
MS 28777/DF, rel. Min. Dias Toffoli, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento
em 17.10.2017.
MS 28797/DF, rel. Min. Dias Toffoli, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento
em 17.10.2017.
(Informativo 882, Segunda Turma)

Contratação Temporária

Contratação temporária e autorização legislativa genérica


São inconstitucionais, por violarem o artigo 37, IX (1), da CF, a autorização legislativa genérica
para contratação temporária e a permissão de prorrogação indefinida do prazo de contratações
temporárias.
Com base nesse entendimento, o Plenário julgou procedente pedido formulado em ação direta para
declarar a inconstitucionalidade do inciso VI do art. 264 (2) e da expressão "prazos estes somente
prorrogáveis se o interesse público, justificadamente, assim o exigir ou até a nomeação por concurso
público", constante da parte final do § 1º (3) do mesmo artigo, todos da LC 4/1990 do Estado de Mato
Grosso.
Em seguida, o Tribunal, por maioria, modulou os efeitos da declaração de inconstitucionalidade
para autorizar a manutenção dos atuais contratos de trabalho pelo prazo máximo de um ano, a contar da
data da publicação da ata deste julgamento. Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Cármen
Lúcia (Presidente), que não modulavam os efeitos da decisão. O ministro Marco Aurélio frisava que, toda
vez que o STF agasalhasse situações inconstitucionais, ele não só estimularia os legislativos a disporem
de forma contrária à Constituição, como também acabaria tornando-a um documento simplesmente
flexível. A ministra Cármen Lúcia pontuava que a norma estaria em vigor há mais de 25 anos e não seria
possível existir situação de urgência que durasse por todo esse período.

(1) CF/1988, art. 37, IX: “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e,
também, ao seguinte: ... IX - a lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária
de excepcional interesse público”.
(2) Lei Complementar 4/1990, art. 264, VI: “Art. 264. Consideram-se como de necessidade temporária de excepcional
interesse público as contratações que visem a: ... VI – atender a outras situações motivadamente de urgência”.
(3) Lei Complementar 4/1990, art. 264, § 1º: “§ 1º As contratações de que trata este artigo terão dotação específica e não
poderão ultrapassar o prazo de 06 (seis) meses, exceto nas hipóteses dos incisos II, IV e VI, cujo prazo máximo será de 12(doze)
meses, e inciso V, cujo prazo máximo será de 24 (vinte e quatro) meses, prazos estes somente prorrogáveis se o interesse público,
justificadamente, assim o exigir ou até a nomeação por concurso público”.
ADI 3662/MT, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 23.3.2017.
(Informativo 858, Plenário)

Professor substituto e contratação temporária


É compatível com a Constituição Federal a previsão legal que exija o transcurso de 24 (vinte e
quatro) meses, contados do término do contrato, antes de nova admissão de professor temporário
anteriormente contratado.
Com base nesse entendimento, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Tema
403 da repercussão geral, por unanimidade, deu provimento a recurso extraordinário para denegar a
ordem de mandado de segurança e declarar a constitucionalidade do art. 9º, III, da Lei 8.745/1993
(1). O dispositivo veda a contratação de professor substituto com contrato ainda vigente ou
finalizado há menos de dois anos na mesma modalidade.
Para o Tribunal, a Lei 8.745/1993, que dispõe sobre a contratação temporária, demonstra de
forma expressa recaírem as hipóteses de contratação sobre atividades de caráter permanente, como a
contratação de professores. No entanto, o fato de a necessidade ser temporária, sobretudo nos casos
em que a atividade é contínua, não garante, por si só, que, ao término de determinado contrato, nova

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contratação se realize, caso a necessidade temporária persista. A impossibilidade de prorrogação não
impede que os já contratados também possam participar de nova seleção.
Tal situação traz, porém, um inegável risco. O servidor admitido sob regime temporário pode,
ainda que por meio de um novo processo seletivo, ser mantido em função temporária,
transformando-se em ordinário o que é, por sua natureza, extraordinário e transitório. O dispositivo
legal questionado visa a mitigar esse risco com a consequência – restritiva do ponto de vista dos
direitos fundamentais – de diminuir a competitividade, excluindo candidatos potenciais à seleção.
Essa medida, no entanto, é necessária e adequada para preservar a impessoalidade do concurso
público.
Admitida a legitimidade, a necessidade e a impessoalidade na cláusula de barreira imposta
pelo art. 9º, III, da Lei 8.745/1993, caberia perguntar se ela é, de fato, proporcionalmente ajustada. A
resposta dada pelo Poder Judiciário deve, contudo, assumir uma deferência ao Poder Legislativo. Em
situações como essa, cabe ao Poder Judiciário reconhecer ao legislador margem de conformação para
elencar qual princípio deve prevalecer. Assim, não configura o fensa à isonomia a previsão legal de
proibição, por prazo determinado, de nova contratação de candidato já anteriormente admitido em
processo seletivo simplificado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse
público.

(1) Lei 8.745/1993: “Art. 9º O pessoal contratado nos termos desta Lei não poderá: (...) III - ser novamente contratado, com
fundamento nesta Lei, antes de decorridos 24 (vinte e quatro) meses do encerramento de seu contrato anterior, salvo nas hipóteses
dos incisos I e IX do art. 2o desta Lei, mediante prévia autorização, conforme determina o art. 5 o desta Lei”.
RE 635648/CE, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 14.6.2017.
(Informativo 869, 2ª Turma)

Contratos Administrativos

Responsabilidade subsidiária da Administração e encargos trabalhistas não adimplidos


O Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, conheceu em parte e, na parte conhecida, deu
provimento a recurso extraordinário em que discutida a responsabilidade subsidiária da Administração Pública
por encargos trabalhistas gerados pelo inadimplemento de empresa prestadora de serviço. Na origem, o
Tribunal Superior do Trabalho (TST) manteve a responsabilidade subsidiária de entidade da Administração
Pública tomadora de serviços terceirizados pelo pagamento de verbas trabalhistas não adimplidas pela empresa
contratante. Isso ocorreu em razão da existência de culpa in vigilando do órgão público, caracterizada pela falta
de acompanhamento e fiscalização da execução de contrato de prestação de serviços, em conformidade com a
nova redação dos itens IV e V do Enunciado 331 da Súmula do TST (1). A recorrente alegava, em suma, que o
acórdão recorrido, ao condenar subsidiariamente o ente público, com base no art. 37, § 6º, da Constituição
Federal (CF), teria desobedecido ao conteúdo da decisão proferida no julgamento da ADC 16/DF (DJE de
9.9.2011) e, consequentemente, ao disposto no art. 102, § 2º, da CF. Afirmava, ainda, que o acórdão recorrido
teria declarado a inconstitucionalidade do art. 71, § 1º, da Lei 8.666/1993, embora a norma tenha sido declarada
constitucional no julgamento da ADC 16/DF. Sustentava violação dos arts. 5º, II, e 37, caput, da CF, por ter o
TST inserido no item IV do Enunciado 331 da sua Súmula obrigação frontalmente contrária ao previsto no art.
71, § 1º, da Lei de Licitações. Defendia, por fim, que a culpa in vigilando deveria ser provada pela parte
interessada, e não ser presumida — v. Informativos 852, 853 e 854.
Prevaleceu o voto do ministro Luiz Fux, que foi acompanhado pelos ministros Marco Aurélio, Dias
Toffoli, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia (Presidente) e Alexandre de Moraes. Entendeu que uma interpretação
conforme do art. 71 da Lei 8.666/1993, com o reconhecimento da responsabilidade subsidiária da
Administração Pública, infirma a decisão tomada no julgamento da ADC 16/DF (DJE de 9.9.2011),
nulificando, por conseguinte, a coisa julgada formada sobre a declaração de constitucionalidade do dispositivo
legal. Observou que, com o advento da Lei 9.032/1995, o legislador buscou excluir a responsabilidade
subsidiária da Administração, exatamente para evitar o descumprimento do disposto no art. 71 da Lei
8.666/1993, declarado constitucional pela Corte. Anotou que a imputação da culpa in vigilando ou in elegendo
à Administração Pública, por suposta deficiência na fiscalização da fiel observância das normas trabalhistas
pela empresa contratada, somente pode acontecer nos casos em que se tenha a efetiva comprovação da
ausência de fiscalização. Nesse ponto, asseverou que a alegada ausência de comprovação em juízo da efetiva
fiscalização do contrato não substitui a necessidade de prova taxativa do nexo de causalidade entre a conduta
da Administração e o dano sofrido. Ao final, pontuou que a Lei 9.032/1995 (art. 4º), que alterou o disposto no §
2º do art. 71 da Lei 8.666/1993, restringiu a solidariedade entre contratante e contratado apenas quanto aos
encargos previdenciários resultantes da execução do contrato, nos termos do art. 31 da Lei 8.212/1991.

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O ministro Alexandre de Moraes considerou inexistente a possibilidade de a Administração Pública vir
a responder por verbas trabalhistas de terceiros a partir de mera presunção, hipótese admitida apenas quando
houver prova inequívoca de falha na fiscalização do contrato. Ponderou que o § 6º do art. 37 da CF prevê a
responsabilidade civil objetiva do Estado como exceção. Em seu entendimento, elastecer a responsabilidade do
poder público em contratos de terceirização parece ser um convite para que se faça o mesmo em outras
dinâmicas de colaboração com a iniciativa privada, como as concessões de serviços públicos. Asseverou que a
consolidação da responsabilidade do Estado por débitos trabalhistas de terceiros, alavancada pela premissa de
inversão do ônus da prova em favor do trabalhador, acabaria por apresentar risco de desestimulo à colaboração
da iniciativa privada com a Administração Pública, estratégia essencial para a modernização do Estado.
Vencida a ministra Rosa Weber (relatora), acompanhada pelos ministros Edson Fachin, Roberto
Barroso, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello, que negavam provimento ao recurso. Concluíam: a) pela
impossibilidade de transferência automática para a Administração Pública da responsabilidade subsidiária pelo
descumprimento das obrigações trabalhistas pela empresa terceirizada; b) pela viabilidade de responsabilização
do ente público em caso de culpa comprovada em fiscalizar o cumprimento dessas obrigações; e c) competir à
Administração Pública comprovar que fiscalizou adequadamente o cumprimento das obrigações trabalhistas
pelo contratado.
Em seguida, o Tribunal deliberou fixar a tese da repercussão geral em assentada posterior.

(1) Enunciado 331 da Súmula do TST: “IV – O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador,
implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação
processual e conste também do título executivo judicial; e V – Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta
respondem subsidiariamente, nas mesmas condições do item IV, caso evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das
obrigações da Lei 8.666, de 21.6.1993, especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações contratuais e legais da
prestadora de serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre de mero inadimplemento das obrigações
trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada.”
RE 760931/DF, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento em
30.3.2017.
(Informativo 859, Plenário)

Responsabilidade subsidiária da Administração e encargos trabalhistas não adimplidos


O inadimplemento dos encargos trabalhistas dos empregados do contratado não transfere
automaticamente ao Poder Público contratante a responsabilidade pelo seu pagamento, seja em caráter
solidário ou subsidiário, nos termos do art. 71, § 1º, da Lei 8.666/1993.
Com esse entendimento, o Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, conheceu em parte
e, na parte conhecida, deu provimento a recurso extraordinário em que discutida a responsabilidade
subsidiária da Administração Pública por encargos trabalhistas gerados pelo inadimplemento de empresa
prestadora de serviço.
Na origem, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) manteve a responsabilidade subsidiária de
entidade da Administração Pública tomadora de serviços terceirizados pelo pagamento de verbas
trabalhistas não adimplidas pela empresa contratante. Isso ocorreu em razão da existência de culpa in
vigilando do órgão público, caracterizada pela falta de acompanhamento e fiscalização da execução de
contrato de prestação de serviços, em conformidade com a nova redação dos itens IV e V do Enunciado
331 da Súmula do TST.
A recorrente alegava, em suma, que o acórdão recorrido, ao condenar subsidiariamente o ente
público, com base no art. 37, § 6º, da Constituição Federal (CF), teria desobedecido ao conteúdo da
decisão proferida no julgamento da ADC 16/DF (DJE de 9.9.2011) e, consequentemente, ao disposto no
art. 102, § 2º, da CF. Afirmava que o acórdão recorrido teria declarado a inconstitucionalidade do art. 71,
§ 1º, da Lei 8.666/1993, embora a norma tenha sido declarada constitucional no julgamento da ADC
16/DF. Sustentava violação dos arts. 5º, II, e 37, caput, da CF, por ter o TST inserido no item IV do
Enunciado 331 da sua Súmula obrigação frontalmente contrária ao previsto no art. 71, § 1º, da Lei de
Licitações. Defendia, por fim, que a culpa in vigilando deveria ser provada pela parte interessada, e não
ser presumida — v. Informativos 852, 853, 854 e 859.
Prevaleceu o voto do ministro Luiz Fux, que foi acompanhado pelos ministros Marco Aurélio,
Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia (Presidente) e Alexandre de Moraes. A Corte entendeu que
uma interpretação conforme do art. 71 da Lei 8.666/1993, com o reconhecimento da responsabilidade
subsidiária da Administração Pública, infirma a decisão tomada no julgamento da ADC 16/DF (DJE de
9.9.2011), nulificando, por conseguinte, a coisa julgada formada sobre a declaração de
constitucionalidade do dispositivo legal. Observou que, com o advento da Lei 9.032/1995, o legislador
buscou excluir a responsabilidade subsidiária da Administração, exatamente para evitar o

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descumprimento do disposto no art. 71 da Lei 8.666/1993, declarado constitucional pela Corte. Anotou
que a imputação da culpa in vigilando ou in elegendo à Administração Pública, por suposta deficiência na
fiscalização da fiel observância das normas trabalhistas pela empresa contratada, somente pode acontecer
nos casos em que se tenha a efetiva comprovação da ausência de fiscalização. Nesse ponto, asseverou que
a alegada ausência de comprovação em juízo da efetiva fiscalização do contrato não substitui a
necessidade de prova taxativa do nexo de causalidade entre a conduta da Administração e o dano sofrido.
Ao final, pontuou que a Lei 9.032/1995 (art. 4º), que alterou o disposto no § 2º do art. 71 da Lei
8.666/1993, restringiu a solidariedade entre contratante e contratado apenas quanto aos encargos
previdenciários resultantes da execução do contrato, nos termos do art. 31 da Lei 8.212/1991.
Vencida a ministra Rosa Weber (relatora), acompanhada pelos ministros Edson Fachin, Roberto
Barroso, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello, que negavam provimento ao recurso. Concluíam: a)
pela impossibilidade de transferência automática para a Administração Pública da responsabilidade
subsidiária pelo descumprimento das obrigações trabalhistas pela empresa terceirizada; b) pela
viabilidade de responsabilização do ente público, em caso de culpa comprovada em fiscalizar o
cumprimento dessas obrigações; e c) pela competência da Administração Pública em comprovar ter
fiscalizado adequadamente o cumprimento das obrigações trabalhistas pelo contratado.
RE 760931/DF, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento em
26.4.2017.
(Informativo 862, Plenário)

Contrato de concessão: advento da Lei 12.783/2013 e prorrogação


A Segunda Turma negou provimento a recurso ordinário em mandado de segurança impetrado
contra ato do Ministro de Estado de Minas e Energia que indeferiu pedido formulado pela empresa, ora
recorrente, de prorrogação de contrato de concessão de serviço de geração de energia elétrica.
Na situação dos autos, em curso o prazo do documento celebrado entre a concessionária e o Poder
Público, sobreveio a Lei 12.783/2013, que subordinou a prorrogação das concessões de geração de
energia hidrelétrica alcançadas pelo artigo 19 da Lei 9.074/1995 (1) à aceitação expressa de determinadas
condições. A concessionária recusou essas condições ao fundamento de que tem direito à prolongação
pelo regime jurídico anterior por força de cláusula contratual. Após a interposição do recurso ordinário, a
usina hidrelétrica, escopo do acordo sobre o qual controvertem as partes, foi leiloada.
Preliminarmente, o Colegiado assentou que a realização do leilão não resultou na perda do objeto
do recurso. Em seguida, diante da ausência de direito líquido e certo à prorrogação contratual almejada,
manteve o acórdão do STJ em que denegado o mandado de segurança.
Afastou interpretação defendida pela impetrante no sentido de que a prorrogação estaria
condicionada tão somente a critérios objetivos — apresentação de documentos e comprovantes pela
concessionária — sem qualquer espaço à discricionariedade administrativa.
Pontuou que a discricionariedade à prorrogação é uma característica precípua do contrato
administrativo.
Não vislumbrou no elemento “prorrogação contratual” a pretendida condição de cláusula
econômica, passível de submissão ao equilíbrio econômico-financeiro do contrato e, por essa razão, não
entreviu qualquer impedimento à aplicação imediata ao ajuste de nova legislação que, dispondo sobre o
tema, advenha no decorrer dele.
Considerou incongruente com a natureza da prorrogação contratual a ideia de sua formalização em
momento antecedente ao seu término e a garantia indissolúvel de sua realização já no instrumento
contratual. Admitir o raciocínio pretendido pela empresa seria o mesmo que conceder ao contratado
posição de supremacia sobre a Administração.
Ressaltou que a legislação regedora do contrato e as próprias cláusulas contratuais sob exame, não
continham disposição que autorizasse conclusão no sentido da obrigatoriedade de renovação contratual. O
§4º do art. 19 da Lei 9.074/1995, inclusive, foi expresso quanto à possibilidade de negativa da
Administração à prorrogação contratual e regulou a questão. A simples remissão ao mencionado art. 19
seria suficiente para esvaziar o argumento. Não bastasse, a primeira subcláusula da avença remete à
expressão permissiva “poderá ser prorrogado”. No ponto, entendeu inexistir ato jurídico perfeito a
assegurar o que requerido.
Assinalou ser o tema pertinente à aplicação da teoria da imprevisão aos contratos firmados com a
Administração Pública um dos mais sensíveis e ainda mais tortuoso quando se refere aos contratos de
concessão, em regra firmados por extenso lapso temporal, com composição de custos muito complexa e
bastante suscetível à elevação de tarifas aos usuários dos serviços públicos.

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Registrou que, em diversas outras oportunidades, todas relacionadas a contratos em curso, o
Supremo Tribunal Federal (STF) fez prevalecer a necessidade de manutenção do equilíbrio econômico-
financeiro do contrato quando a alteração contratual ou legislativa impactasse na equalização do ajuste.
Todavia, na espécie, não se trata de alteração legislativa com impacto em contrato em curso. O término
do prazo contratual estava previsto para agosto de 2013. Após essa data, não havia mais a garantia de
continuidade do contrato, salvo por meio de prorrogação contratual, se assim fosse do interesse público, e
se atendidos os pressupostos exigidos.
Por escolha governamental, foi definida nova orientação para o sistema de fornecimento de
energia elétrica, mediante edição da Medida Provisória (MP) 579/2012, posteriormente convertida na Lei
12.783/2013, que trouxe novas disposições para as concessões de energia elétrica, as quais deviam ser
observadas pela Administração no momento de avaliar a renovação dos contratos de concessão. A lei foi
expressa nesse sentido e, também, estipulou a necessidade de manifestação das concessionárias quanto ao
interesse de permanecer sob a contratação nas novas bases legais, respeitando-se assim não apenas a
discricionariedade administrativa na renovação do contrato, mas também a bilateralidade, igualmente
característica dessa forma de avença.
Assinalou que a nova legislação, editada no curso do contrato, deve obedecer às disposições de
caráter econômico até seu termo final, o que, no caso, foi respeitado pela lei e observado pela
Administração, estando o concessionário livre para aceitar ou não os novos termos contratuais, sem que
se possa cogitar de violação ao equilíbrio econômico-financeiro por alteração legal prevista para incidir
depois do término do prazo de ajuste.
O Ministro Celso de Mello salientou que a Administração pode modificar unilateralmente as
cláusulas regulamentares, mesmo que não haja previsão no próprio contrato de concessão, porque ínsito à
potestade pública. É, de fato, uma prerrogativa de poder de que se vale o Estado para fazer prevalecer, de
um lado, a superioridade, a supremacia do interesse público sobre o interesse privado e, de outro lado,
para respeitar a cláusula de indisponibilidade desse interesse público.
Por fim, em face da negativa de provimento ao recurso, a Turma julgou prejudicada a ação
cautelar acessória, em que se pedia a suspensão dos efeitos do acórdão que denegara a ordem requerida
no mandado de segurança, mantendo a empresa na titularidade da concessão sob as bases iniciais do
contrato, até exame definitivo do recurso ordinário.

(1) Lei 9.074/1995: “Art. 19. A União poderá, visando garantir a qualidade do atendimento aos consumidores a custos
adequados, prorrogar, pelo prazo de até vinte anos, as concessões de geração de energia elétrica, alcançadas pelo art. 42 da Lei no
8.987, de 1995, desde que requerida a prorrogação, pelo concessionário, permissionário ou titular de manifesto ou de declaração de
usina termelétrica, observado o disposto no art. 25 desta Lei. § 1o Os pedidos de prorrogação deverão ser apresentados, em até um
ano, contado da data da publicação desta Lei. § 2o Nos casos em que o prazo remanescente da concessão for superior a um ano, o
pedido de prorrogação deverá ser apresentado em até seis meses do advento do termo final respectivo. § 3o Ao requerimento de
prorrogação deverão ser anexados os elementos comprobatórios de qualificação jurídica, técnica, financeira e administrativa do
interessado, bem como comprovação de regularidade e adimplemento de seus encargos junto a órgãos públicos, obrigações fiscais e
previdenciárias e compromissos contratuais, firmados junto a órgãos e entidades da Administração Pública Federal, referentes aos
serviços de energia elétrica, inclusive ao pagamento de que trata o § 1o do art. 20 da Constituição Federal. § 4o Em caso de não
apresentação do requerimento, no prazo fixado nos §§ 1o e 2o deste artigo, ou havendo pronunciamento do poder concedente
contrário ao pleito, as concessões, manifestos ou declarações de usina termelétrica serão revertidas para a União, no vencimento do
prazo da concessão, e licitadas”.
RMS 34203/DF, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 21.11.2017.
AC 3980/DF, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 21.11.2017.
(Informativo 885, Segunda Turma)

Domínio Público

Terras tradicionalmente ocupadas por indígenas: titularidade e indenização


O Plenário, por unanimidade, julgou improcedentes duas ações cíveis originárias, nas quais o Estado de
Mato Grosso solicitava indenização por desapropriação indireta de terras devolutas a ele pertencentes, sob a
alegação de que as terras teriam sido incluídas no perímetro de áreas indígenas sem a obediência ao procedimento
expropriatório devido.
O Colegiado salientou que, desde a Constituição de 1934, não se pode caracterizar as terras ocupadas
pelos indígenas como devolutas. Ressaltou ainda que a Constituição Federal de 1988 (CF/1988) estabeleceu que
as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são bens da União e dedicou vários dispositivos para tratar da
proteção dessas áreas [CF/1988, arts. 20, XI (1) e 213, § 1º a §6º(2)].

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Ademais, pontuou que os laudos antropológicos juntados aos autos deixaram claro que as áreas em
questão eram habitadas historicamente por indígenas. Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal assentou que a
titularidade das terras não é do Estado do Mato Grosso, sendo indevida, portanto, a indenização pleiteada.

(1) CF/1988: “Art. 20. São bens da União: (...) XI - as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.
(2) CF/1988: “Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos
originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades
produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução
física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das
riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
§ 3º O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras
indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada
participação nos resultados da lavra, na forma da lei.
§ 4º As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis.
§ 5º É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ‘ad referendum’ do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou
epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido,
em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a
que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante
interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a
ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé”.
ACO 362/MT, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 16.8.2017.
ACO 366/MT, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 16.8.2017.
(Informativo 873, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Amazônia Legal e regularização fundiária


O Plenário conheceu em parte de ação direta de inconstitucionalidade e, por maioria, julgou parcialmente
procedente o pedido para aplicar a técnica da interpretação conforme à Constituição, sem redução de texto:
a) ao § 2º (1) do art. 4º da Lei 11.952/2009, a fim de afastar qualquer entendimento que permita a
regularização fundiária das terras públicas ocupadas por quilombolas e outras comunidades tradicionais da
Amazônia Legal em nome de terceiros ou de forma a descaracterizar o modo de apropriação da terra por esses
grupos; e
b) ao art. 13 (2) do mesmo diploma, a fim de afastar quaisquer interpretações que concluam pela
desnecessidade de fiscalização dos imóveis rurais até quatro módulos fiscais, devendo o ente federal utilizar-se de
todos os meios referidos em suas informações para assegurar a devida proteção ambiental e a concretização dos
propósitos da norma, para somente então ser possível a dispensa da vistoria prévia, como condição para a inclusão
da propriedade no programa de regularização fundiária de imóveis rurais de domínio público na Amazônia Legal.
De início, o Colegiado assentou o prejuízo da pretensão relativa ao art. 15, I, §§ 2º, 4º e 5º, da Lei
11.952/2009 por perda do objeto, tendo em vista a superveniência da Lei 13.465/2017, que alterou
substancialmente o inciso I e o § 2º do art. 15 e revogou os §§ 4º e 5º. Assim, conheceu do pleito apenas no
tocante ao § 2º do art. 4º e ao art. 13 da Lei 11.952/2009.
Reportou-se à jurisprudência do Supremo Tribunal no sentido de que incumbe ao Estado e à própria
coletividade a especial obrigação de defender e preservar, em benefício das presentes e futuras gerações, o direito
ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
A correta política pública procura reduzir a desigualdade social e promover o desenvolvimento sustentável
da região, possibilitando o acesso às políticas de moradia, crédito rural, assistência técnica e extensão rural,
dependentes da regularização do título ou da posse ou da propriedade para se concretizar.
Relativamente ao § 2º do art. 4º, o Plenário entendeu que se abriu a possibilidade para exegese que permita
a terceiros — não integrantes dos grupos identitários de remanescentes de quilombos e comunidades tradicionais
— ter acesso a essas terras, se comprovados os demais requisitos para a regularização fundiária.
A Constituição, nos arts. 216 (4) do texto permanente e 68 (5) do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (ADCT), defere especial proteção aos territórios ocupados pelas comunidades com modos
tradicionais de criar, fazer e viver e pelos remanescentes quilombolas.
Extraiu a conceituação de comunidade quilombola do art. 2º do Decreto 4.887/2003 e a das comunidades
tradicionais do art. 3º do Decreto 6.040/2007 — que instituiu a Política de Desenvolvimento Sustentável dos
Povos e Comunidades Tradicionais. Ambas as regras se encontram no âmbito de tutela especial abarcado pela

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Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais, internalizada pelo
Decreto 5.051/2004.
A questão central, no que concerne à caracterização das comunidades tradicionais e de sua espécie
quilombola, é a terra. Eles mantêm uma relação com a terra que é mais do que posse ou propriedade. É uma
relação de identidade entre a comunidade e sua terra, que recebe especial atenção na Constituição e nos
compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro. Essa tutela, entretanto, não se verifica no
dispositivo legal em análise.
Mostra-se deficiente a proteção conferida pelo § 2º do art. 4º da Lei 11.952/2009, sendo preciso dar à
norma interpretação de acordo com os ditames constitucionais de forma a assegurar, em sua correta e máxima
efetividade, a garantia dos direitos territoriais dessas comunidades.
A respeito das comunidades remanescentes de quilombos, a Constituição assegura-lhes a propriedade das
terras que ocupam tradicionalmente. O Decreto 4.887/2003, apontado pela União como norma específica em
relação aos quilombolas, não trata de procedimento de regularização fundiária de terras da União.
Sobre as demais comunidades tradicionais, não há norma específica para a regularização de terras públicas
por elas ocupadas, pois o Decreto 6.040/2007 não dispõe sobre a delimitação e demarcação de terras a essa
população.
Logo, a Lei 11.952/2009, que seria de aplicação apenas subsidiária a esses grupos, passava a ser de
aplicação cogente, porquanto não era derrogada por qualquer outra, colocando em risco o exercício dos direitos a
eles resguardados constitucionalmente.
Além disso, o estatuto legal impugnado destina-se a promover a titulação de terras a proprietários
individuais, consoante se infere de seu art. 5º, que cuida da regularização da ocupação ao próprio ocupante, seu
cônjuge ou companheiro. Acontece que a propriedade de terras ocupadas pelas citadas comunidades é de feição
coletiva e, sem a garantia de um tratamento específico, possibilita-se a não observância dessa característica.
Noutro passo, quanto ao art. 13 da Lei 11.952/2009, o Colegiado compreendeu que o direito ao meio
ambiente equilibrado foi garantido a todos, de modo difuso, pelo texto constitucional, em seu art. 225, caput.
Sendo assim, deve o legislador tornar certa a máxima efetividade dos direitos fundamentais, vedado, de toda
maneira, proteção insuficiente à segurança desses direitos.
Os direitos fundamentais não podem ser tidos somente como proibições de intervenção, expressando ainda
um postulado de proteção. Pode-se dizer que os direitos fundamentais expressam não apenas uma proibição do
excesso, como também podem ser traduzidos como proibições de proteção insuficiente ou imperativos de tutela.
A tutela desse direito seria fragilizada diante da simples dispensa da vistoria prévia nos imóveis de até
quatro módulos fiscais, se apenas essa medida fosse eleita para a verificação do cumprimento dos requisitos legais
para a titulação do domínio ou concessão de direito real de uso.
Um exame mais aprofundado da questão posta desautorizaria simples conclusão pela retirada da norma do
ordenamento jurídico.
O Tribunal conjugou os interesses sensíveis que o problema da dispensa da vistoria prévia colocou. A
ausência do laudo de vistoria assumiu maior gravidade após a Lei 13.465/2017, que modificou vários dispositivos
da Lei 11.952/2009. Com efeito, se antes a União ancorava-se também na realização de vistoria final para a
concessão definitiva do título de domínio ou do termo de concessão de uso, agora, a nova redação conferida ao art.
16 não mais previa referida exigência, comprovando-se o cumprimento das cláusulas resolutivas pela juntada de
documentação pertinente. Ou seja, os imóveis de até quatro módulos fiscais, via de regra, não passariam por
qualquer vistoria no processo de regularização fundiária.
O reconhecimento de sua inconstitucionalidade, contudo, não podia levar ao comprometimento dos
propósitos dessa legislação. Foi necessário encontrar um ponto de equilíbrio entre a eficiência na fiscalização
dessas pequenas propriedades a serem regularizadas e a proteção do meio ambiente amazônico, de forma a
assegurar a real possibilidade de melhoria na qualidade de vida das pessoas que retiravam da floresta seu sustento
e que colaboravam para a manutenção do desenvolvimento sustentável da região.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que acompanhou o relator quanto ao conhecimento da ação, mas, na
parte conhecida, considerou-a improcedente. Vencido, em parte, o ministro Alexandre de Moraes, com relação ao
que decidido sobre o art. 13, ao entender pela presunção iuris tantum da boa-fé da declaração do ocupante do
imóvel, no que foi acompanhado pelo ministro Gilmar Mendes.

(1) Lei 11.952/2009: “Art. 4o Não serão passíveis de alienação ou concessão de direito real de uso, nos termos desta Lei, as ocupações
que recaiam sobre áreas: (...) § 2o As terras ocupadas por comunidades quilombolas ou tradicionais que façam uso coletivo da área serão
regularizadas de acordo com as normas específicas, aplicando-se-lhes, no que couber, os dispositivos desta Lei”.
(2) Lei 11.952/2009: “Art. 13. Os requisitos para a regularização fundiária dos imóveis de até 4 (quatro) módulos fiscais serão
averiguados por meio de declaração do ocupante, sujeita a responsabilização nas esferas penal, administrativa e civil, dispensada a vistoria prévia.

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Parágrafo único. É facultado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário ou, se for o caso, ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão
determinar a realização de vistoria de fiscalização do imóvel rural na hipótese prevista no caput deste artigo”.
(3) CF/1988: “Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à
sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
(...) § 4º A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio
nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso
dos recursos naturais”.
(4) CF/1988: “Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou
em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se
incluem: (...) II - os modos de criar, fazer e viver”.
(5) ADCT: “Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a
propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.
ADI 4269/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 18.10.2017.
(Informativo 882, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 1ª Parte: 2ª Parte:

Processo Administrativo Disciplinar

TCU: multa e prescrição da pretensão punitiva


A Primeira Turma, por maioria, denegou a ordem em mandado de segurança impetrado contra
decisão do TCU, que aplicou multa ao impetrante, em decorrência de processo administrativo
instaurado para verificar a regularidade da aplicação de recursos federais na implementação e
operacionalização dos assentamentos de reforma agrária Itamarati I e II, loca lizados em Ponta
Porã/MS.
Na impetração, alegava-se a ocorrência de prescrição. O impetrante, que à época da aludida
implementação era superintendente regional do INCRA, foi exonerado do cargo em 2003, e a
auditoria para apuração de irregularidades iniciou-se em 2007. Em 2008, o impetrante foi notificado
para apresentar justificativa, e, em 2012, foi prolatada a decisão apontada como ato coator.
Inicialmente, a Turma assinalou que a lei orgânica do TCU, ao prever a competência d o órgão
para aplicar multa pela prática de infrações submetidas à sua esfera de apuração, deixou de
estabelecer prazo para exercício do poder punitivo. Entretanto, isso não significa hipótese de
imprescritibilidade. No caso, incide a prescrição quinquenal, prevista na Lei 9.873/1999, que regula
a prescrição relativa à ação punitiva pela Administração Pública Federal Direta e Indireta. Embora se
refira a poder de polícia, a lei aplica-se à competência sancionadora da União em geral.
Estabelecido o prazo quinquenal, o Colegiado entendeu que, no caso, imputava-se ao
impetrante ação omissiva, na medida em que não implementou o plano de assentamento, conforme
sua incumbência, quando era superintendente. Assim, enquanto ele permaneceu no cargo, perdurou a
omissão. No momento em que ele deixou a superintendência, iniciou-se o fluxo do prazo
prescricional. Entretanto, a partir daquele marco temporal, não decorreram cinco anos até que a
Administração iniciasse o procedimento que culminou na punição aplicada.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que concedia a segurança.
MS 32201/DF, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 21.3.2017.
(Informativo 858, 1ª Turma)

Responsabilidade Civil do Estado

Responsabilidade civil do Estado: superpopulação carcerária e dever de indenizar


Considerando que é dever do Estado, imposto pelo sistema normativo, manter em seus presídios os
padrões mínimos de humanidade previstos no ordenamento jurídico, é de sua responsabilidade, nos termos do
art. 37, § 6º, da Constituição, a obrigação de ressarcir os danos, inclusive morais, comprovadamente causados
aos detentos em decorrência da falta ou insuficiência das condições legais de encarceramento.
Com essa orientação, o Tribunal, em conclusão e por maioria, deu provimento a recurso extraordinário
para restabelecer o juízo condenatório nos termos e limites do acórdão proferido no julgamento da apelação, a
qual fixara indenização no valor de dois mil reais a favor de detento. Consoante o acórdão restabelecido, estaria
caracterizado o dano moral porque, após laudo de vigilância sanitária no presídio e decorrido lapso temporal,
não teriam sido sanados os problemas de superlotação e de falta de condições mínimas de saúde e de higiene
do estabelecimento penal. Além disso, não sendo assegurado o mínimo existencial, seria inaplicável a teoria da
reserva do possível — v. Informativos 770 e 784.
Prevaleceu o voto do ministro Teori Zavascki (relator).

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Registrou, de início, a inexistência de controvérsia a respeito dos fatos da causa e da configuração do
dano moral, haja vista o reconhecimento, pelo próprio acórdão recorrido, da precariedade do sistema
penitenciário estadual, que lesou direitos fundamentais do recorrente, quanto à dignidade, intimidade, higidez
física e integridade psíquica. Portanto, sendo incontroversos os fatos da causa e a ocorrência do dano, afirmou
que a questão jurídica desenvolvida no recurso ficou restrita à reparabilidade, ou seja, à existência ou não da
obrigação do Estado de ressarcir os danos morais verificados nas circunstâncias enunciadas.
Em seguida, consignou que a matéria jurídica está no âmbito da responsabilidade civil do Estado de
responder pelos danos, até mesmo morais, causados por ação ou omissão de seus agentes, nos termos do art.
37, § 6º, da CF, preceito normativo autoaplicável, que não se sujeita a intermediação legislativa ou a
providência administrativa de qualquer espécie. Ocorrido o dano e estabelecido o seu nexo causal com a
atuação da Administração ou dos seus agentes, nasce a responsabilidade civil do Estado. Sendo assim e tendo
em conta que, no caso, a configuração do dano é matéria incontroversa, não há como acolher os argumentos
que invocam, para negar o dever estatal de indenizar, o princípio da reserva do possível, na dimensão
reducionista de significar a insuficiência de recursos financeiros.
Frisou que Estado é responsável pela guarda e segurança das pessoas submetidas a encarceramento,
enquanto ali permanecerem detidas, e que é seu dever mantê-las em condições carcerárias com mínimos
padrões de humanidade estabelecidos em lei, bem como, se for o caso, ressarcir os danos que daí decorrerem.
Ademais, asseverou que as violações a direitos fundamentais causadoras de danos pessoais a detentos
em estabelecimentos carcerários não poderiam ser relevadas ao argumento de que a indenização não teria o
alcance para eliminar o grave problema prisional globalmente considerado, dependente da definição e da
implantação de políticas públicas específicas, providências de atribuição legislativa e administrativa, não de
provimentos judiciais. Sustentou que admitir essa assertiva significaria justificar a perpetuação da desumana
situação constatada em presídios como aquele onde cumprida a pena do recorrente.
Relembrou que a garantia mínima de segurança pessoal, física e psíquica dos detentos constitui dever
estatal que tem amplo lastro não apenas no ordenamento nacional (CF, art. 5º, XLVII, “e”; XLVIII; XLIX; Lei
7.210/1984 - LEP, arts. 10, 11, 12, 40, 85, 87, 88; Lei 9.455/1997 - crime de tortura; Lei 12.874/2013 - Sistema
Nacional de Prevenção e Combate à Tortura), como também em fontes normativas internacionais adotadas
pelo Brasil (Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos das Nações Unidas; Convenção Americana de
Direitos Humanos; Princípios e Boas Práticas para a Proteção de Pessoas Privadas de Liberdade nas Américas,
contida na Resolução 1/2008, aprovada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos; Convenção da
Organização das Nações Unidas contra Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou
Degradantes; Regras Mínimas para o Tratamento de Prisioneiros, adotadas no 1º Congresso das Nações Unidas
para a Prevenção ao Crime e Tratamento de Delinquentes).
A criação de subterfúgios teóricos — como a separação dos Poderes, a reserva do possível e a natureza
coletiva dos danos sofridos — para afastar a responsabilidade estatal pelas calamitosas condições da
carceragem afronta não apenas o sentido do art. 37, § 6º, da CF, mas também determina o esvaziamento das
inúmeras cláusulas constitucionais e convencionais citadas. O descumprimento reiterado dessas cláusulas se
transforma em mero e inconsequente ato de fatalidade, o que não pode ser tolerado.
Por fim, o relator enfatizou que a invocação seletiva de razões de Estado para negar, especificamente a
determinada categoria de sujeitos, o direito à integridade física e moral não é compatível com o sentido e o
alcance do princípio da jurisdição. Acolher essas razões é o mesmo que recusar aos detentos os mecanismos de
reparação judicial dos danos sofridos, deixando-os descobertos de qualquer proteção estatal, em condição de
vulnerabilidade juridicamente desastrosa. É dupla negativa: do direito e da jurisdição.
Os ministros Edson Fachin e Marco Aurélio deram provimento ao recurso extraordinário em maior
extensão, para acolher o pedido formulado, na petição inicial, pela Defensoria Pública, de indenização de um
salário mínimo por mês de detenção enquanto presentes as condições degradantes de superlotação.
Vencidos os ministros Roberto Barroso, Luiz Fux e Celso de Mello, que, ao darem provimento ao
recurso, adotavam a remição da pena como forma de indenização.
RE 580252/MS, rel. orig. Min. Teori Zavascki, red. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes, julgamento
em 16.2.2017.
(Informativo 854, Plenário, Repercussão Geral) 1ª Parte : 2ª Parte :
3ª Parte :

ED: responsabilidade civil do Estado por ato ilícito e contrato administrativo


O Plenário, em conclusão de julgamento, rejeitou embargos de declaração opostos de decisão
proferida no RE 571.969/DF (1), na qual assentara-se que a União, na qualidade de contratante, possui

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responsabilidade civil por prejuízos suportados por companhia aérea em decorrência de planos
econômicos existentes no período objeto da ação — Informativo 818.
Alegou-se omissão quanto ao afastamento do instituto da preclusão acerca da impugnação aos
critérios utilizados na perícia para a aferição do desequilíbrio econômico-financeiro do contrato de
concessão. Sustentou-se, também, omissão sobre a prevalência do regime intervencionista do Estado com
relação ao instituto da responsabilidade objetiva. Arguiu-se ser contraditória a indicação do instituto da
desapropriação como exemplo de responsabilidade do Estado por ato ilícito, bem assim o próprio
resultado do julgamento, em face de conclusão do laudo pericial no sentido da ausência de nexo causal
entre as medidas de intervenção e o agravamento das dívidas da embargada. Por fim, afirmou-se que a
limitação de lucro excessivo não configura dano indenizável.
O Colegiado esclareceu que os embargos de declaração não se prestam para provocar reforma da
decisão embargada, salvo nos pontos em que haja omissão, contradição ou obscuridade (CPC, art. 535).
No caso, todavia, não se pretende provocar esclarecimento, mas modificar o conteúdo do julgado, para
afastar a responsabilidade da União pelos danos causados à embargada.
O acórdão impugnado enfrentou, devidamente, a questão relativa ao reconhecimento da preclusão
sobre a impugnação feita aos critérios utilizados na perícia para a aferição do desequilíbrio econômico-
financeiro do contrato de concessão.
Ademais, foi enfatizado que o afastamento da preclusão e, consequentemente, da intempestividade
da peça apresentada pela União, é matéria infraconstitucional, insuscetível de análise em sede de recurso
extraordinário. De igual modo, incabível, nessa via, o exame dos elementos afetos ao equilíbrio
econômico-financeiro de contrato administrativo.

(1) RE 571.969/DF, DJe de 18.9.2014.


RE 571969 ED/DF, rel. Min. Cármen Lúcia, julgamento em 3.8.2017.
(Informativo 871, Plenário, Repercussão Geral)

Serviços

Lei 12.485/2011 e TV por assinatura


O Plenário concluiu o julgamento de ações diretas ajuizadas em face de diversos dispositivos da Lei
12.485/2011, que dispõe sobre a comunicação audiovisual de acesso condicionado (Informativos 791 e 793).
O Colegiado, por maioria, julgou procedente em parte o pedido formulado na ADI 4.679/DF para
declarar a inconstitucionalidade apenas do art. 25 da Lei 12.485/2011 (1); e, por unanimidade, improcedentes
os pedidos formulados nas demais ações diretas.
Asseverou que a norma adversada, ao instituir o novo marco regulatório da TV por assinatura no Brasil,
almejou unificar a disciplina normativa aplicável ao setor, até então fragmentada em diplomas diferentes, a
depender da tecnologia usada para a transmissão do sinal ao consumidor. Em linhas gerais, a lei em referência
promove a uniformização regulatória do setor de TV por assinatura frente ao processo de convergência
tecnológica; reduz as barreiras à entrada no mercado; restringe a verticalização da cadeia produtiva; proíbe a
propriedade cruzada entre setores de telecomunicação e radiodifusão; e, por fim, institui cotas para produtoras e
programadoras brasileiras.
No tocante à alegada inconstitucionalidade formal dos artigos 9º, parágrafo único, 10, 12, 13, 15, 19,
§3º, 21, 22, 25, § 1º e 42, todos da Lei 12.485/2011, em razão de suposta violação à iniciativa legislativa
privativa do Chefe do Poder Executivo, a iniciativa normativa verificada quando da edição da lei em questão
está amparada, em primeiro lugar, na competência da União para legislar sobre telecomunicações (CF, art. 22,
IV), e, em segundo lugar, na autoridade do Congresso Nacional para dar concretude a diversos dispositivos do
Capítulo V (“Comunicação Social”) do Título VIII (“Da Ordem Social”) da Constituição, no que têm destaque,
em especial, os princípios constitucionais incidentes sobre a produção e a programação das emissoras de rádio
e televisão (CF, art. 221).
Esse entendimento não implica ab-rogação hermenêutica da sistemática constitucional aplicável ao
processo legislativo, notadamente no que respeita às matérias sujeitas a iniciativa reservada. A Constituição
contém diversas regras sobre o tema, sendo todas de observância compulsória e passíveis de exigibilidade
judicial sempre que descumpridas. Contudo, não se pode interpretar o art. 61, §1º, da CF sem maiores
considerações sobre a dinâmica da separação de Poderes, sob pena de, em vez de harmônicos entre eles (CF,
art. 2º), ter-se Poderes rivais uns dos outros.

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Por outro lado, os referidos dispositivos da lei impugnada não criam novas atribuições para a Agência
Nacional do Cinema (Ancine). Na realidade, apenas promovem a adaptação das regras que estabelecem a
competência da referida agência para regular e fiscalizar as atividades de comunicação audiovisual, contidas no
art. 7° da Medida Provisória 2.228-1/2001, às hipóteses em que a prestação dessas atividades ocorre por meio
do serviço de acesso condicionado. Com efeito, a citada medida provisória, ao criar a Ancine, lhe atribui,
dentre outras missões, a de “fiscalizar o cumprimento da legislação referente à atividade cinematográfica e
videofonográfica nacional e estrangeira nos diversos segmentos de mercados”. Portanto, o que se está a
promover é exatamente o cumprimento das atribuições da Ancine, sem a criação de nenhum órgão ou
ministério (CF, art. 61), que conduza à inconstitucionalidade formal dos dispositivos.
Em relação à impugnação aos artigos art. 5º, caput e §1º, e 6º, I e II, da Lei 12.485/2011 — dispositivos
que estabelecem restrições à propriedade cruzada entre os setores de telecomunicações e de radiodifusão, bem
como segmentam a cadeia de valor do audiovisual, separando as atividades de produção de conteúdo e de
transmissão do produto ao consumidor final —, não há que se falar em inconstitucionalidade. As diretrizes
constitucionais antitruste (CF, arts. 173, § 4º, e 220, § 5º), voltadas a coibir o abuso do poder econômico, e a
evitar concentração excessiva dos mercados, permitem combater a ineficiência econômica e a injustiça
comutativa tendentes a florescer em regimes de monopólio e oligopólio. No setor audiovisual presta-se também
a promover a diversificação do conteúdo produzido, impedindo que o mercado se feche e asfixie a produção de
novas manifestações. Nessa senda, as normas impugnadas pretendem, de forma imediata, concretizar os
comandos constitucionais inscritos nos referidos dispositivos constitucionais, com o objetivo de realizar de
forma mediata a dimensão objetiva do direito fundamental à liberdade de expressão e de informação, no que
tem destaque o papel promocional do Estado no combate à concentração do poder comunicativo.
No que se refere à alegada inconstitucionalidade dos artigos 9º, parágrafo único, 21 e 22 da Lei
12.485/2011, que estenderam os poderes normativos conferidos à Ancine, são legítimos os dispositivos. A
moderna concepção do princípio da legalidade, em sua acepção principiológica, ou formal-axiológica, chancela
a atribuição de poderes normativos ao Poder Executivo, desde que pautada por princípios inteligíveis, capazes
de permitir o controle legislativo e judicial sobre os atos da Administração. Na espécie, as normas impugnadas,
apesar de conferirem autoridade normativa à Ancine, estão acompanhadas por parâmetros aptos a conformar a
conduta de todas as autoridades do Estado envolvidas na disciplina do setor audiovisual, o que impede que
qualquer delas se transforme em órgão titular de um pretenso poder regulatório absoluto.
No que toca à restrição à participação de estrangeiros nas atividades de programação e empacotamento
de conteúdo audiovisual de acesso condicionado verificada no art. 10, caput e §1º, a CF/1988 não estabeleceu
qualquer regra jurídica que interdite a distinção entre brasileiro e estrangeiro, ao contrário do que acontece com
a situação do brasileiro nato e do naturalizado. Para esses, há explícita reserva constitucional acerca das
hipóteses de tratamento diferenciado, na forma do art. 12, § 2º, da CF. Mas é juridicamente possível ao
legislador ordinário fixar regimes distintos — respeitado o princípio geral da igualdade — revelando
fundamento constitucional suficiente para a diferenciação, bem como demonstrando a pertinência entre o
tratamento diferenciado e a causa jurídica distintiva.
No caso, o art. 10º, caput e § 1º, da lei referida, ao restringir a gestão, a responsabilidade editorial e as
atividades de seleção e de direção — inerentes à programação e ao empacotamento —, a brasileiros natos e
naturalizados há mais de dez anos, representou típica intervenção legislativa evolutiva do comando
constitucional encartado no art. 222, § 2º, da CF. Isso é condizente com os vetores axiológicos que informam,
em âmbito constitucional, a atividade de comunicação de massa, entre os quais a preservação da soberania e
identidades nacionais, o pluralismo informativo e a igualdade entre os prestadores de serviço, a despeito da
tecnologia utilizada na atividade.
Descabe falar, ademais, em inconstitucionalidade dos artigos 12, 13, 31, caput, §§ 1º e 2º, da lei sob
análise, que estabelecem: a) a exigência de prévio credenciamento junto à Ancine para exercício das atividades
de programação e empacotamento, b) o dever de prestação de informações solicitadas pela agência para fins de
fiscalização do cumprimento das obrigações de programação, empacotamento e publicidade; e c) a vedação à
distribuição de conteúdo empacotado por empresa não credenciada pela Ancine.
Em realidade, trata-se de exercício típico do poder de polícia preventivo do Estado, ou mesmo do
chamado direito administrativo ordenador. O poder de polícia administrativa manifesta-se tanto preventiva
quanto repressivamente, traduzindo-se ora no consentimento prévio para o exercício regular de certas
liberdades, ora na sanção aplicada ao particular em razão do descumprimento de regras materiais aplicáveis à
atividade regulada. Em qualquer caso, a ingerência estatal, fiscalizatória e punitiva, é garantia da efetividade da
disciplina jurídica aplicável.
Os artigos 12 e 13 da Lei 12.485/2011 simplesmente fixam deveres instrumentais de colaboração das
empresas para fins de permitir a atividade fiscalizatória da Ancine quanto ao cumprimento das novas
obrigações materiais a que estão sujeitos todos os agentes do mercado audiovisual. Já o art. 31, caput, §§ 1º e

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2º, da mesma lei, consubstancia engenhosa estratégia do legislador para conduzir as empacotadoras ao
credenciamento exigido pela nova disciplina normativa, bem como induzir o cumprimento das respectivas
cotas de conteúdo nacional.
No que diz com a fixação de cotas de conteúdo nacional, nos moldes em que estabelecida nos artigos
16, 17, 18, 19, 20 e 23 — dispositivos também impugnados nas ações diretas em apreciação —, necessário
saber se o legislador agiu com excesso, impondo restrições arbitrárias ou desproporcionais aos direitos do
cidadão. Nesse passo, constata-se que a legitimidade constitucional de toda intervenção do Estado sobre a
esfera jurídica do particular está condicionada à existência de uma finalidade lícita que a motive, bem como ao
respeito ao postulado da proporcionalidade. As referidas normas, ao fixarem cotas de conteúdo nacional para
canais e pacotes de TV por assinatura, promovem a cultura brasileira e estimulam a produção independente,
dando concretude ao art. 221 da CF e ao art. 6º da Convenção Internacional sobre a Proteção e Promoção da
Diversidade das Expressões Culturais.
Também não há que se falar em inconstitucionalidade em relação ao art. 24 da Lei 12.485/2011,
dispositivo que fixa limites máximos para a publicidade comercial na TV por assinatura. A citada norma
encontra-se em harmonia com o dever constitucional de proteção do consumidor (CF, art. 170, V), haja vista o
histórico quadro registrado pela Anatel de reclamação de assinantes quanto ao volume de publicidade na grade
de programação dos canais pagos.
Com referência ao art. 25 da Lei 12.485/2011, o argumento de inconstitucionalidade merece acolhida,
em virtude da violação ao princípio constitucional da isonomia (CF, art. 5º, caput), núcleo elementar de
qualquer regime republicano e democrático. Esse princípio, regra de ônus argumentativo, exige que o
tratamento diferenciado entre os indivíduos seja acompanhado de causas jurídicas suficientes para amparar a
discriminação, cujo exame de consistência, embora preserve um pequeno espaço de discricionariedade
legislativa, é sempre passível de aferição judicial por força do princípio da inafastabilidade da jurisdição. O art.
25 da lei proíbe a oferta de canais que veiculem publicidade comercial direcionada ao público brasileiro
contratada no exterior por agência de publicidade estrangeira, estabelecendo uma completa exclusividade em
proveito das empresas brasileiras e não apenas preferência percentual, sem prazo para ter fim e despida de
qualquer justificação que indique a vulnerabilidade das empresas brasileiras de publicidade, sendo, portanto,
inconstitucional.
Com relação à impugnação ao art. 29 da Lei 12.485/2011, que estabelece a possibilidade de outorga do
serviço de distribuição de acesso condicionado por autorização administrativa, sem necessidade de prévia
licitação, não se verifica qualquer inconstitucionalidade. O dever constitucional de licitar, previsto no art. 37,
XXI, da CF, somente incide nas hipóteses em que o acesso de particulares a alguma situação jurídica de
vantagem relacionada ao Poder Público não pudesse ser universalizada. Descabe cogitar de certame licitatório
quando a contratação pública não caracteriza escolha da Administração e todo cidadão pode ter acesso ao bem
pretendido. Ademais, no campo das telecomunicações, seria certo que Constituição admitiria a outorga de
serviço mediante simples autorização, como previsto no art. 21, XI, da CF.
O art. 29 viabiliza que a atividade de distribuição de serviço de acesso condicionado seja outorgado
mediante autorização administrativa, sem necessidade de prévio procedimento licitatório. Isso se justifica
diante da nova e abrangente definição desse serviço de acesso condicionado previsto no art. 2º da lei, apta a
abarcar todas as possíveis plataformas tecnológicas existentes, e não apenas cabos físicos e ondas de
radiofrequência, bem como diante da qualificação privada recebida pela atividade no novo marco regulatório
da comunicação audiovisual.
Quanto à suposta inconstitucionalidade do artigo 32, §§ 2º, 13 e 14, da Lei 12.485/2011, impor a
disponibilidade gratuita dos canais de TV aberta pelas distribuidoras e geradoras de programação de TV por
assinatura não ofende a liberdade de iniciativa nem os direitos de propriedade intelectual, porquanto o serviço
de radiodifusão é hoje inteiramente disponibilizado aos usuários de forma gratuita. A lei do serviço de acesso
condicionado apenas replicou, no âmbito desse serviço, a lógica vigente na televisão aberta.
No que diz respeito ao art. 36 da Lei 12.485/2011, que permite o cancelamento do registro de agente
econômico perante a Ancine, por descumprimento de obrigações legais, do mesmo modo não há que se falar
em inconstitucionalidade. De fato, a norma representa a garantia de eficácia das normas jurídicas aplicáveis ao
setor, sendo certo que há evidente contradição ao se impedir o início da atividade sem o registro, por não
preenchimento originário das exigências legais, e, ao mesmo tempo, permitir a continuidade da sua exploração
quando configurada a perda superveniente de regularidade. Desse modo, a possibilidade de cancelamento do
registro é análoga à possibilidade do indeferimento do credenciamento.
Por fim, é constitucionalmente válido o regime jurídico de transição, fixado no art. 37, §§ 1º, 5º, 6º, 7º e
11, da Lei 12.485/2011, que fixa regras sobre a renovação das outorgas após o fim do respectivo prazo original
de vigência de normas pertinentes a alterações subjetivas sobre a figura do prestador de serviço. Não há direito

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definitivo à renovação automática da outorga, sendo, ademais, possível a margem de conformação do
legislador para induzir os antigos prestadores a migrarem para o novo regime.
Outrossim, o art. 37, §§ 1º e 5º, ao vedar o pagamento de indenização aos antigos prestadores dos
serviços, em virtude das novas obrigações não previstas no ato de outorga original, não viola qualquer previsão
constitucional. Isso porque, em um cenário regulatório e contratual marcado pela liberdade de preços, descabe
cogitar de qualquer indenização pela criação de novas obrigações legais, desde que constitucionalmente
válidas.
É que eventuais aumentos de custos que possam surgir em razão dessa transição obrigatória deverão
ser administrados exclusivamente pelas próprias empresas, que podem, inclusive, repassá-los aos
consumidores, bem como retê-los em definitivo. É, assim, impertinente a invocação, no âmbito privado, do
equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, regra essa que se aplica aos contratos administrativos.
Vencido o Ministro Edson Fachin, que divergiu parcialmente do entendimento do Colegiado e julgou
totalmente improcedentes os pedidos formulados nas ações. Assim, reputou constitucional inclusive o referido
art. 25 da Lei 12.485/2011.

(1) Lei 12.485/2011: “Art. 25. Os programadores não poderão ofertar canais que contenham publicidade de serviços e produtos em
língua portuguesa, legendada em português ou de qualquer forma direcionada ao público brasileiro, com veiculação contratada no exterior,
senão por meio de agência de publicidade nacional”.
ADI 4747/DF, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 8.11.2017.
ADI 4756/DF, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 8.11.2017.
ADI 4923/DF, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 8.11.2017.
ADI 4679/DF, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 8.11.2017.
(Informativo 884, Plenário)

Servidor Público

Jornada de trabalho reduzida e legislação específica


A Segunda Turma, por unanimidade, concedeu a segurança para anular acórdão do Tribunal
de Contas da União (TCU) no ponto relativo a irregularidades na fixação de jornada de trabalho
diária reduzida para ocupantes de cargos de analista judiciário - especialidades medicina e
odontologia que não exerçam função de confiança ou cargo em comissão, mantendo vigentes os
parâmetros adotados no âmbito do Tribunal Regional do Trabalho da 20ª Região (TRT20).
No caso, o TRT20 fixou a jornada de trabalho dos servidores ocupantes dos cargos de analista
judiciário, área apoio especializado, especialidades medicina e odontologia em quatro e seis horas diárias (vinte
e trinta horas semanais), respectivamente, devendo o servidor designado para exercer cargo em comissão ou
função de confiança cumprir a jornada integral de trabalho estabelecida para os demais servidores do órgão
regional.
O TCU, por sua vez, concluiu pela existência de irregularidades na prestação ordinária de contas dos
gestores do TRT20, entre elas a jornada de trabalho reduzida para aqueles analistas. Diante disso, determinou
que o referido tribunal trabalhista fixasse a jornada de trabalho dos servidores médicos e odontólogos em
consonância com o regime jurídico estabelecido pela Lei 11.416/2006, c/c o art. 19 da Lei 8.112/1990 (1).
A Turma destacou que o Supremo Tribunal Federal já assentou, em precedente específico (2), que a
jornada diária de trabalho do médico servidor público é de quatro horas, nos termos do Decreto-Lei 1.445/1976
e da Lei 9.436/1997 (à época, posteriormente revogada pela Lei 12.702/2012) – normas que regulamentam o
tema.
Diante da existência de legislação específica (ainda que não trate categoricamente dos servidores do
Poder Judiciário) disciplinando a matéria em discussão, aplica-se o princípio da especialidade da lei, o que
afasta a observância da regra geral inserta no caput do art. 19 da Lei 8.112/1990.
O Colegiado também pontuou que idêntico raciocínio deve ser adotado acerca da jornada de trabalho
dos analistas judiciários da área de odontologia, mas sem equiparar essa situação à dos analistas judiciários da
área de medicina, ante a necessidade de observância do princípio da legalidade. De fato, para os odontólogos,
há regramento distinto que instituiu jornada de trabalho reduzida [Decreto-Lei 2.140/1984, art. 6º (3)].
Por fim, ressaltou que essa conclusão não contempla servidores analistas judiciários — especialidades
medicina ou odontologia — ocupantes de cargo em comissão e função comissionada, cujo respeito à jornada
integral de trabalho já foi substancialmente firmado pela Corte em outras ocasiões.

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(1) Lei 8.112/1990: “Art. 19. Os servidores cumprirão jornada de trabalho fixada em razão das atribuições pertinentes aos
respectivos cargos, respeitada a duração máxima do trabalho semanal de quarenta horas e observados os limites mínimo e máximo
de seis horas e oito horas diárias, respectivamente”.
(2) MS 25.027/DF, DJ de 1º.7.2005.
(3) Decreto-Lei 2.140/1984: “Art. 6º Fica extinto o regime de trabalho de 40 (quarenta) horas semanais em relação às
categorias funcionais mencionadas no artigo 5º, permanecendo o de 30 (trinta) horas semanais”.
MS 33853/DF, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 13.6.2017.
(Informativo 869, 2ª Turma)

Súmula Vinculante 37: reajuste de 13,23% e Lei 13.317/2016


A Primeira Turma, por maioria, em julgamento conjunto, deu provimento a agravos regimentais
em reclamações, nas quais se arguiu afronta ao teor da Súmula Vinculante 37 (1), ao argumento de que o
art. 6º da lei 13.317/2016 (2) não estendeu o direito à majoração de remuneração aos servidores públicos
federais.
A Turma ressaltou que a fundamentação da decisão com base no princípio da igualdade decorreu
tão somente da intenção de afastar a incidência do verbete 37. Ao aplicar a isonomia com base no art. 37,
X, da Constituição Federal (CF) (3), e elevar o percentual de 13,23%, consoante o disposto no art. 6º da
referida lei, o Poder Judiciário nada mais fez do que vedar a aplicação da Súmula Vinculante 37.
Vencidos os ministros Marco Aurélio e Rosa Weber, que negaram provimento aos agravos, por
entenderem não ter sido invocado o princípio da isonomia no caso.

(1) Súmula Vinculante 37: “Não cabe ao Poder Judiciário, que não tem função legislativa, aumentar vencimentos de
servidores públicos sob o fundamento de isonomia”.
(2) Lei 13.317/2016: “Art. 6o. A vantagem pecuniária individual, instituída pela Lei no 10.698, de 2 de julho de 2003, e
outras parcelas que tenham por origem a citada vantagem concedidas por decisão administrativa ou judicial, ainda que decorrente de
sentença transitada ou não em julgado, incidentes sobre os cargos efetivos e em comissão de que trata esta Lei, ficam absorvidas a
partir da implementação dos novos valores constantes dos Anexos I e III desta Lei”.
(3) Constituição Federal: “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência e, também, ao seguinte:
(...)
X - a remuneração dos servidores públicos e o subsídio de que trata o § 4º do art. 39 somente poderão ser fixados ou
alterados por lei específica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e
sem distinção de índices”.
Rcl 25927 AgR/SE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 31.10.2017.
Rcl 24965 AgR/SE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 31.10.2017.
(Informativo 884, Primeira Turma)

Súmula Vinculante 37: reajuste de 13,23% e Lei 13.317/2016


Não cabe ao Poder Judiciário, que não tem função legislativa, aumentar vencimentos de servidores
públicos sob o fundamento de isonomia.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma, por maioria, deu provimento a agravo
regimental em reclamação (vide Informativo 882).
No caso, a agravante insurgira contra decisão de turma recursal que, ao apreciar o art. 6º da lei
13.317/2016 (1), concluíra pelo direito do servidor do Judiciário Federal ao reajuste de 13,23%.
O Colegiado reputou haver ofensa ao Enunciado 37 da Súmula Vinculante (2). Assentou que a lei
posterior nada mais fez do que tentar dar um bypass em outras leis de 2003.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que negou provimento ao agravo, por entender não ter
sido invocado o princípio da isonomia no caso.

(1) Lei 13.317/2016: “Art. 6o. A vantagem pecuniária individual, instituída pela Lei no 10.698, de 2 de julho de 2003, e
outras parcelas que tenham por origem a citada vantagem concedidas por decisão administrativa ou judicial, ainda que decorrente de
sentença transitada ou não em julgado, incidentes sobre os cargos efetivos e em comissão de que trata esta Lei, ficam absorvidas a
partir da implementação dos novos valores constantes dos Anexos I e III desta Lei”.
(2) Súmula Vinculante 37: “Não cabe ao Poder Judiciário, que não tem função legislativa, aumentar vencimentos de
servidores públicos sob o fundamento de isonomia”.

Rcl 24965 AgR/SE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 28.11.2017.
(Informativo 886, Primeira Turma)

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DIREITO CIVIL

Associações

Autonomia de entidades desportivas e observância de normas gerais


Não viola o art. 217, I, da Constituição (“Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas
desportivas formais e não formais, como direito de cada um, observados: I - a autonomia das entidades
desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização e funcionamento”) decisão que determina
associação esportiva a observar a norma do art. 59 do Código Civil (“Art. 59. Compete privativamente à
assembléia geral: I - destituir os administradores; II - alterar o estatuto. Parágrafo único. Para as
deliberações a que se referem os incisos I e II deste artigo é exigido deliberação da assembléia
especialmente convocada para esse fim, cujo quorum será o estabelecido no estatuto, bem como os
critérios de eleição dos administradores”). Com base nesse entendimento, a Primeira Turma negou
provimento a agravo regimental.
O agravante alegava que, diante da autonomia conferida pela citada norma constitucional para a
organização e o funcionamento das entidades esportivas, estaria dispensado de observar o art. 59 do
Código Civil, que disciplina a forma de alteração dos estatutos de associações em geral.
A Turma afirmou que a decisão agravada está em consonância com a jurisprudência do Supremo
Tribunal Federal firmada a partir da ADI 2.937/SP (DJE de 28.5.2012).
RE 935482 AgR/SP, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 7.2.2017.
(Informativo 853, 1ª Turma)

Posse
Esbulho e terra indígena
A Segunda Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, não acolheu embargos de declaração em
que se discutiam eventual esbulho e a natureza indígena de área não ocupada por índios em 5.10.1988 (marco
demarcatório temporal, segundo entendimento firmado no julgamento da Pet 3.388/RR, DJE de 1º.7.2010).
As embargantes alegavam que o Enunciado 650 da Súmula do STF (1) não seria aplicável ao caso e
que a apreciação do recurso extraordinário da parte embargada demandaria o reexame de fatos e provas.
O Colegiado ressaltou não desconhecer o fato de que a orientação constante do Enunciado 650 da
Súmula do STF foi firmada em hipóteses em que a União postulava o reconhecimento da propriedade de áreas
ocupadas, no passado, por aldeamentos indígenas extintos. No entanto, o referido enunciado foi citado como
mero reforço argumentativo ao entendimento defendido no acórdão embargado, não havendo qualquer
omissão, contradição ou obscuridade a ser sanada no ponto.
Além disso, a Turma manteve o entendimento no sentido de ser possível a formulação, a partir dos fatos
expressamente indicados no acórdão recorrido, de um juízo seguro a respeito do tema constitucional discutido
no recurso extraordinário.
Salientou que o julgado embargado, à luz das premissas fáticas assentadas pelo Tribunal de origem,
apreciou de forma clara e exaustiva o preenchimento do requisito do marco temporal estabelecido na Pet
3.388/RR, bem como a ocorrência de renitente esbulho por parte de não índios.
Vencidos os ministros Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, que acolhiam os embargos de declaração.
Para eles, haveria elementos fundantes desse julgado que somente poderiam ser superados com o revolvimento
de fatos e provas.

(1) Enunciado 650 da Súmula do STF: “Os incisos I e XI do art. 20 da Constituição Federal não alcançam terras de
aldeamentos extintos, ainda que ocupadas por indígenas em passado remoto.”
ARE 803462 AgR-ED/MS, rel. orig. Min. Teori Zavascki, red. p/ o ac. Min. Celso de Mello,
julgamento em 21.3.2017.
(Informativo 858, 2ª Turma)

Sucessão

Sucessão e regime diferenciado para cônjuges e companheiros


No sistema constitucional vigente, é inconstitucional a diferenciação de regimes sucessórios
entre cônjuges e companheiros, devendo ser aplicado, em ambos os casos, o regime estabelecido no
artigo 1.829 do Código Civil.

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Com base nesse entendimento, o Plenário, ao apreciar o Tema 498 da repercussão geral, por
maioria, deu provimento ao recurso extraordinário para reconhecer, de forma incidental, a
inconstitucionalidade do art. 1.790 (1) do Código Civil de 2002 e declarar o direito do recorrente de
participar da herança de seu companheiro, em conformidade com o regime jurídico estabelecido no
art. 1.829 do referido código.
No caso, o tribunal de origem assentou que os companheiros herdam apenas os bens
adquiridos onerosamente na vigência da união estável, quando presentes os requisitos do art. 1.790
do Código Civil de 2002. Consignou ser imprópria a equiparação da figura do companheiro à do
cônjuge e afastou a aplicação do art. 1.829, I e II (2), do citado diploma legal. Ao interpretar o art.
226, § 3º (3), da Constituição Federal (CF), concluiu que não estariam igualados, para todos os fins,
os institutos do casamento e da união estável.
O Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou que a Constituição prevê diferentes modalidades
de família, além da que resulta do casamento. Entre essas modalidades, está a que deriva das uniões
estáveis, seja a convencional, seja a homoafetiva.
Frisou que, após a vigência da Constituição de 1988, duas leis ordinárias equipararam os
regimes jurídicos sucessórios do casamento e da união estável (Lei 8.971/1994 e Lei 9.278/1996).
O Código Civil, no entanto, desequiparou, para fins de sucessão, o casamento e as uniões
estáveis. Dessa forma, promoveu retrocesso e hierarquização entre as famílias, o que não é admitido
pela Constituição, que trata todas as famílias com o mesmo grau de valia, respeito e consideração.
O art. 1.790 do mencionado código é inconstitucional, porque viola os princípios
constitucionais da igualdade, da dignidade da pessoa humana, da proporcionalidade na modalidade
de proibição à proteção deficiente e da vedação ao retrocesso.
Na espécie, a sucessão foi aberta antes de ser reconhecida, pelo STF, a equiparação da união
homoafetiva à união estável e antes de o Conselho Nacional de Justiça ter regulamentado o
casamento de pessoas do mesmo sexo. Tal situação impede a conversão da união estável em
casamento, nos termos do art. 226, § 3º, da CF. Diante disso, a desequiparação é ainda mais injusta.
Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Ricardo Lewandowski, que negaram
provimento ao recurso.
O ministro Marco Aurélio pontuou ser constitucional o regime sucessório previsto no art.
1.790 do Código Civil de 2002, que rege a união estável, independentemente da orientação sexual
dos companheiros.
O ministro Ricardo Lewandowski entendeu que a distinção entre casamento e união estável
feita pelo constituinte (CF/1988, art. 226, § 3º) justifica o tratamento diferenciado no que diz
respeito ao regime sucessório das pessoas que optam por uma dessas duas situações ou por um
desses dois regimes.

(1) Código Civil/2002: “Art. 1.790. A companheira ou o companheiro participará da sucessão do outro, quanto aos bens
adquiridos onerosamente na vigência da união estável, nas condições seguintes: I – se concorrer com filhos comuns, terá direito a
uma quota equivalente à que por lei for atribuída ao filho; II – se concorrer com descendentes só do autor da herança, tocar-lhe-á a
metade do que couber a cada um daqueles; III – se concorrer com outros parentes sucessíveis, terá direito a um terço da herança; IV
– não havendo parentes sucessíveis, terá direito à totalidade da herança.”
(2) Código Civil/2002: “Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte: I – aos descendentes, em
concorrência com o cônjuge sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime da comunhão universal, ou no da
separação obrigatória de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime da comunhão parcial, o autor da herança não houver
deixado bens particulares; II – aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge; III – ao cônjuge sobrevivente; IV – aos colaterais.”
(3) CF/1988: “Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. (...) § 3º Para efeito da proteção do
Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em
casamento.”
RE 646721/RS, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento em
10.5.2017.
(Informativo 864, Plenário, Repercussão Geral)

Direito sucessório e distinção entre cônjuge e companheiro


No sistema constitucional vigente, é inconstitucional a diferenciação de regimes sucessórios entre
cônjuges e companheiros, devendo ser aplicado, em ambos os casos, o regime estabelecido no artigo
1.829 do Código Civil.

38
Com base nesse entendimento, o Plenário, ao apreciar o Tema 809 da repercussão geral, por
maioria, deu provimento ao recurso extraordinário para reconhecer, de forma incidental, a
inconstitucionalidade do art. 1.790 do Código Civil de 2002 (1) e declarar o direito da recorrente a
participar da herança de seu companheiro, em conformidade com o regime jurídico estabelecido no art.
1.829 do referido código (2) (vide Informativos 837 e 859).
No caso, a recorrente vivia em união estável, em regime de comunhão parcial de bens, há cerca de
nove anos, até seu companheiro falecer, sem deixar testamento. O falecido não tinha descendentes nem
ascendentes, apenas três irmãos.
O tribunal de origem, com fundamento no art. 1.790, III, do Código Civil de 2002, limitou o
direito sucessório da recorrente a 1/3 dos bens adquiridos onerosamente durante a união estável, excluídos
os bens particulares do falecido, os quais seriam recebidos integralmente pelos irmãos. Porém, se fosse
casada com o falecido, a recorrente teria direito à totalidade da herança.
O Supremo Tribunal Federal afirmou que a Constituição contempla diferentes formas de família,
além da que resulta do casamento. Nesse rol incluem-se as famílias formadas mediante união estável.
Portanto, não é legítimo desequiparar, para fins sucessórios, os cônjuges e os companheiros, isto é, a
família formada por casamento e a constituída por união estável. Tal hierarquização entre entidades
familiares mostra-se incompatível com a Constituição.
O art. 1.790 do Código Civil de 2002, ao revogar as Leis 8.971/1994 e 9.278/1996 e discriminar a
companheira (ou companheiro), dando-lhe direitos sucessórios inferiores aos conferidos à esposa (ou ao
marido), entra em contraste com os princípios da igualdade, da dignidade da pessoa humana, da
proporcionalidade na modalidade de proibição à proteção deficiente e da vedação ao retrocesso.
A Corte ainda ressaltou que, com a finalidade de preservar a segurança jurídica, o entendimento
ora firmado aplica-se apenas aos inventários judiciais em que a sentença de partilha não tenha transitado
em julgado e às partilhas extrajudiciais em que ainda não haja escritura pública.
Vencidos os ministros Dias Toffoli, Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski, que negaram
provimento ao recurso. Para eles, a norma civil apontada como inconstitucional não hierarquiza o
casamento em relação à união estável, mas acentua serem formas diversas de entidades familiares. Nesse
sentido, ponderaram que há de ser respeitada a opção dos indivíduos que decidem submeter-se a um ou a
outro regime.

(1) Código Civil/2002: “Art. 1.790. A companheira ou o companheiro participará da sucessão do outro, quanto aos bens
adquiridos onerosamente na vigência da união estável, nas condições seguintes: I – se concorrer com filhos comuns, terá direito a
uma quota equivalente à que por lei for atribuída ao filho; II – se concorrer com descendentes só do autor da herança, tocar-lhe-á a
metade do que couber a cada um daqueles; III – se concorrer com outros parentes sucessíveis, terá direito a um terço da herança;”
(2) Código Civil/2002: “Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte: I – aos descendentes, em
concorrência com o cônjuge sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime da comunhão universal, ou no da
separação obrigatória de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime da comunhão parcial, o autor da herança não houver
deixado bens particulares; II – aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge; III – ao cônjuge sobrevivente; IV – aos colaterais.”
RE 878694/MG, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 10.5.2017.
(Informativo 864, Plenário, Repercussão Geral)

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DIREITO CONSTITUCIONAL
Assistência Social

Estrangeiros e beneficiários de assistência social


Os estrangeiros residentes no País são beneficiários da assistência social prevista no art. 203, V, da
Constituição Federal (CF) (1), uma vez atendidos os requisitos constitucionais e legais.
Com base nessa orientação, o Plenário negou provimento a recurso extraordinário em que
discutida a concessão de benefício assistencial a estrangeiros residentes no Brasil.
Inicialmente, o Plenário registrou que o caso envolve os preceitos relativos à dignidade humana, à
solidariedade social, à erradicação da pobreza e à assistência aos desamparados, os quais fornecem base
para interpretação adequada do benefício assistencial estampado na Constituição Federal (CF).
Observou, com base em doutrina, que o substrato do conceito de dignidade humana pode ser
decomposto em três elementos: a) valor intrínseco, b) autonomia e c) valor comunitário.
Como “valor intrínseco”, a dignidade requer o reconhecimento de que cada indivíduo é um fim em
si mesmo. Impede-se, de um lado, a funcionalização do indivíduo e, de outro, afirma-se o valor de cada
ser humano, independentemente das escolhas, situação pessoal ou origem. Deixar desamparado um ser
humano desprovido dos meios materiais para garantir o próprio sustento, haja vista a situação de idade
avançada ou deficiência, representaria expressa desconsideração do mencionado valor.
Como “autonomia”, a dignidade protege o conjunto de decisões e atitudes relacionado
especificamente à vida de certo indivíduo. Para que determinada pessoa possa mobilizar a própria razão
em busca da construção de um ideal de vida boa, é fundamental que lhe sejam fornecidas condições
materiais mínimas. Nesse aspecto, a previsão do art. 203, V, da CF também opera em suporte dessa
concepção de vida digna, cabendo ao Estado brasileiro dar essa sustentação até mesmo ao não nacional.
Realçou que a ideia maior de solidariedade social constitui princípio da CF.
No mais, ponderou que o estrangeiro residente no País, inserido na comunidade, participa do
esforço mútuo, na construção de um propósito comum. Esse laço de irmandade, fruto, para alguns, do
fortuito e, para outros, do destino, faz-nos, de algum modo, responsáveis pelo bem de todos, até mesmo
daqueles que adotaram o Brasil como novo lar e fundaram seus alicerces pessoais e sociais nesta terra. Ao
lado dos povos indígenas, o País foi formado por imigrantes, em sua maioria europeus, os quais
fomentaram o desenvolvimento da nação e contribuíram sobremaneira para a criação e a consolidação da
cultura brasileira. Desde a criação da nação brasileira, a presença do estrangeiro no País foi incentivada e
tolerada. Não seria coerente com a história estabelecer diferenciação tão somente pela nacionalidade,
especialmente quando a dignidade está em xeque em momento de fragilidade do ser humano — idade
avançada ou algum tipo de deficiência.
Consignou que o constituinte instituiu a obrigação do Estado de prover assistência aos
desamparados, sem distinção. Com base no art. 6º da CF, os Poderes Públicos devem efetivar políticas
para remediar, ainda que minimamente, a situação precária daqueles que acabaram relegados a essa
condição, sem ressalva em relação ao não nacional. Nesse ponto, ressaltou que, pelo contrário, o art. 5º,
caput, da CF estampa o princípio da igualdade e a necessidade de tratamento isonômico entre brasileiros e
estrangeiros residentes no País.
Asseverou que a óptica veiculada na regra infralegal (Lei 8.742/1993), ao silenciar quanto aos
estrangeiros residentes no País, não se sobrepõe à revelada na CF, que estabeleceu, sem restringir os
beneficiários somente aos brasileiros natos ou naturalizados, que “a assistência social será prestada a
quem dela necessitar”.
A Corte afirmou que, ao delegar ao legislador ordinário a regulamentação do benefício, a CF o fez
apenas quanto à forma de comprovação da renda e das condições específicas de idoso ou portador de
necessidades especiais hipossuficiente. Dessa forma, não houve delegação relativamente à definição dos
beneficiários, já estabelecida. No confronto de visões, deve, portanto, prevalecer aquela que melhor
concretiza o princípio constitucional da dignidade humana, cuja observância surge prioritária no
ordenamento jurídico.
Ressaltou que o orçamento, embora seja peça essencial nas sociedades contemporâneas, não tem
valor absoluto. A natureza multifária do orçamento abre espaço à atividade assistencial, que se mostra de
importância superlativa no texto da CF. No ponto, registrou não terem sido apresentadas provas técnicas
da indisponibilidade financeira e do suposto impacto para os cofres públicos nem de prejuízo para os
brasileiros natos e naturalizados.

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Por fim, concluiu ser descabido o argumento de pertinência do princípio da reciprocidade, ou seja,
arguir que o benefício somente poderia ser concedido a estrangeiro originário de país com o qual o Brasil
tenha firmado acordo internacional e que preveja a cobertura da assistência social a brasileiro que esteja
em seu território. Apesar de a reciprocidade permear a CF, não é regra absoluta quanto ao tratamento dos
não nacionais. O Sistema Único de Saúde (SUS) é regido pelo princípio da universalidade a tutelar a
saúde, direito fundamental do ser humano. Assim, ao ingressar no território brasileiro, o estrangeiro tem
direito a atendimento médico pelo SUS, caso precise de assistência de urgência, sem necessidade de
reciprocidade para garantir tal suporte.
Em suma, somente o estrangeiro com residência fixa no País pode ser auxiliado com o benefício
assistencial, pois, inserido na sociedade, contribui para a construção de melhor situação social e
econômica da coletividade. Somente o estrangeiro em situação regular no País, residente, idoso ou
portador de necessidades especiais, hipossuficiente em si mesmo e presente a família pode se dizer
beneficiário da assistência em exame. Nessa linha de ideias, os estrangeiros em situação diversa não
alcançam a assistência, haja vista o não atendimento às leis brasileiras, fato que, por si só, demonstra a
ausência de noção de coletividade e de solidariedade a justificar a tutela do Estado.

(1) CF, Art. 203: “A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à
seguridade social, e tem por objetivos: (...) V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de
deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família,
conforme dispuser a lei.”
RE 587970/SP, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 19 e 20.4.2017.
(Informativo 861, Plenário)

Bens da União

Terrenos de marinha localizados em ilhas costeiras sede de Municípios e bens federais


A Emenda Constitucional (EC) 46/2005 não interferiu na propriedade da União, nos moldes
do art. 20, VII, da Constituição Federal (CF), sobre os terrenos de marinha e seus acrescidos situados
em ilhas costeiras sede de Municípios.
Com base nessa orientação, o Plenário, por maioria, negou provimento a recurso
extraordinário em que se discutia a situação dominial, à luz do art. 20, IV, da CF, dos terrenos de
marinha e seus acrescidos localizados em ilha costeira com sede de Município — no caso,
Vitória/ES — após a promulgação da Emenda Constitucional (EC) 46/2005.
O Colegiado entendeu que os terrenos de marinha e seus acrescidos situados na ilha costeira
em que sediado o Município de Vitória constituem bens federais.
Inicialmente, observou que a alteração introduzida pela EC 46/2005 criou, no ordenamento
jurídico, exceção à regra geral então vigente sobre a propriedade das ilhas costeiras. Com a redação
conferida ao art. 20, IV, da CF pelo constituinte derivado, deixaram de pertencer à União as ilhas
costeiras em que sediados entes municipais, expressamente ressalvadas, no novo comando
constitucional, as “áreas afetadas ao serviço público e a unidade ambiental federal e as referidas no
art. 26, II”, que remanesceram no patrimônio federal. Entretanto, com a mencionada alteração, não
mais se poderia presumir a propriedade da União sobre terras localizadas nas ilhas em que contida
sede de Município, ou seja, com a EC 46/2005, deixou de constituir título hábil a ensejar o domínio
da União o simples fato de determinada área estar localizada em ilha costeira, se nela estiver sediado
Município. Desse modo, a propriedade da União sobre determinada área depende da existência de
outro título para legitimá-la.
Para o devido equacionamento da controvérsia, é necessário ter presente o art. 20, VII, da CF,
cuja redação, dada pelo constituinte originário, a incluir, entre os bens da União, “os terrenos de
marinha e seus acrescidos”, foi mantida mesmo após o advento da EC 46/2005. Desse modo, a EC
46/2005 nada alterou o regime jurídico-constitucional dos terrenos de marinha.
Referiu-se à legislação de regência do instituto em vigor (1).
Como bens públicos dominiais, “podem ser utilizados pela Administração inclusive para
obtenção de resultados econômicos, o que supõe a possibilidade de uso pelos particulares”. Essa
utilização pode ser formalizada por meio dos competentes instrumentos previstos pelo Direito, entre
os quais o aforamento e a ocupação.
Nessa forma de utilização do bem público por particular, o senhorio e proprietário do terreno
é a União (CF, art. 20, VII), que possui o domínio direto do imóvel. A renda anual auferida pelo ente

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estatal é denominada foro, e a transmissão do bem, por ato inter vivos, onerosa ou gratuita, deve ser
comunicada à União, que, não exercendo seu direito de compra, receberá o pagamento de laudêmio.
O CC/2002, muito embora proíba, na esfera privada, a constituição de novas enfiteuses,
remete o regramento do instituto, quanto aos terrenos de marinha e seus acrescidos, às disposições
estabelecidas em lei especial, hoje, o Decreto-Lei 9.760/1946, entre outras normas esparsas.
O Colegiado asseverou que o deslinde da controvérsia depende, essencialmente, da
interpretação conferida ao inciso IV do art. 20 da CF, em sua redação atual. Estabelecida a regra
geral de que constituem bens da União as ilhas oceânicas e as costeiras, o constituinte derivado
excepcionou, no tocante ao domínio federal sobre as últimas, as que contenham a sede de
Municípios, que foram trespassadas à propriedade municipal. Ressalvou, em seguida, “áreas afetadas
ao serviço público e a unidade ambiental federal”, bens que, não obstante situados em território
municipal, pertencem à União.
Consignou que uma interpretação sistemática do texto constitucional conduz à conclusão
inarredável de que a alteração introduzida no inciso IV do art. 20 pela EC 46/2005 não teve o condão
de mudar o regime patrimonial dos bens referidos no inciso VII nem de nenhum outro bem arrolado
no mencionado dispositivo. Assim, a leitura proposta pelo recorrente, no sentido de que os terrenos
de marinha e acrescidos foram transferidos ao ente municipal, leva à conclusão desarrazoada de que
todos os demais bens constitucionalmente atribuídos à dominialidade da União — tais como
potenciais de energia elétrica, recursos minerais, terras tradicionalmente ocupadas pelos índios —, se
situados nas ilhas municipais, estão, após a EC 46/2005, igualmente excluídos do patrimônio federal.
Assim, as ressalvas constantes da parte final do dispositivo emendado devem ser compreendida s
como adendos aos demais bens integrantes do acervo patrimonial da União.
Ademais, os terrenos de marinha e seus acrescidos, do ponto de vista histórico, já integravam
o rol de bens da União, mesmo antes de as ilhas costeiras passarem a compor o patrimôn io federal, a
reforçar o rechaço à tese de que teria sido alterado o tratamento jurídico a eles conferido em razão da
modificação introduzida pela EC 46/2005 na propriedade das ilhas marítimas.
Também destoa do sistema de distribuição de bens entre as entidades da Federação entender
que os Municípios sediados em ilhas sejam proprietários dos terrenos de marinha, e não o sejam os
Municípios costeiros.
Com a EC 46/2005, portanto, as ilhas costeiras em que situada a sede de Município passaram
a receber o mesmo tratamento da porção continental do território brasileiro no tocante ao regime de
bens da União. A Corte salientou o fato de ter sido o princípio da isonomia a ratio essendi das
propostas de emenda à Constituição que deram origem à EC 46/2005.
A isonomia aspirada pelo constituinte derivado operou-se em prestígio da autonomia
municipal preconizada na Carta de 1988 e cuidou de equiparar o regime jurídico -patrimonial das
ilhas costeiras em que sediados Municípios àquele incidente sobre suas porções continentais,
favorecendo a promoção dos interesses locais e o desenvolvimento da região. Equivocado supor que,
no afã de se estabelecer tratamento isonômico entre Municípios continentais e insulares, se devesse
adotar, entre duas interpretações possíveis, aquela que elastecesse o comando constitucional ao
ponto de, sem motivo justificado, lhes conceder tratamento diferenciado.
Na averiguação dos efeitos da EC 46/2005 sobre o regime patrimonial dos bens arrolados no
art. 20, VII, da CF, deve-se adotar interpretação que privilegie a realização da igualdade preconizada
no sistema constitucional pátrio. A pretendida geração de efeitos desuniformes com relação aos
terrenos de marinha e acrescidos situados nos Municípios com sede em território continental e
aqueles sediados nas ínsulas costeiras carece de “elemento diferencial” que a autorize. Dessa forma,
em respeito ao princípio da isonomia, cumpre entender incidente a previsão contida no art. 20, VII,
da CF sobre ilhas costeiras e continente, indistintamente.
Dessa forma, o Plenário concluiu serem incólumes as relações jurídicas decorrentes da
propriedade da União sobre as áreas referidas no inciso VII do art. 20 da CF após a modificação
promovida no inciso IV do mesmo dispositivo pela EC 46/2005.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que dava provimento ao recurso. Para ele, diante da EC
46/2005, não se haveria como concluir que os terrenos de ilhas costeiras, em que se tem sede do
Município, continuam na propriedade da União.

(1) Decreto-Lei 9.760/1946: “Art. 2º São terrenos de marinha, em uma profundidade de 33 (trinta e três) metros, medidos
horizontalmente, para a parte da terra, da posição da linha do preamar-médio de 1831: a) os situados no continente, na costa
marítima e nas margens dos rios e lagoas, até onde se faça sentir a influência das marés; b) os que contornam as ilhas situadas em
zona onde se faça sentir a influência das marés. Parágrafo único. Para os efeitos dêste artigo a influência das marés é caracterizada

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pela oscilação periódica de 5 (cinco) centímetros pelo menos, do nível das águas, que ocorra em qualquer época do ano. Art. 3º São
terrenos acrescidos de marinha os que se tiverem formado, natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em
seguimento aos terrenos de marinha.”
RE 636199/ES, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 27.4.2017.
(Informativo 862, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Competência

Crime ambiental de caráter transnacional e competência


Compete à Justiça Federal processar e julgar o crime ambiental de caráter transnacional que
envolva animais silvestres, ameaçados de extinção e espécimes exóticas ou protegidas por compromissos
internacionais assumidos pelo Brasil. Com base nesse entendimento, o Plenário deu provimento ao
recurso extraordinário em que se discutia a justiça competente para processar e julgar crimes ambientais
transnacionais.
O Tribunal afirmou que as florestas, a fauna e a flora estão protegidas, no ordenamento jurídico
inaugurado pela Constituição de 1988, como poder-dever comum da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios (CF/1988, art. 23, VII).
Ressaltou que a Carta Magna dispõe que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”
(CF/1988, art. 225, caput), incumbindo ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da
lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou
submetam os animais a crueldade” (CF/1988, art. 225, § 1º, VII).
Asseverou que a competência da Justiça estadual é residual, em confronto com a Justiça Federal, à
luz da Constituição Federal e da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
Consignou que a competência da Justiça Federal aplica-se aos seguintes crimes ambientais, que
também se enquadram nas hipóteses previstas na Constituição, quando: a) atentarem contra bens, serviços
ou interesses diretos e específicos da União ou de suas entidades autárquicas; b) previstos tanto no direito
interno quanto em tratado ou convenção internacional, tiverem a execução iniciada no País, mas o
resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou na hipótese inversa; c) tiverem sido cometidos
a bordo de navios ou aeronaves; d) houver grave violação de direitos humanos; ou ainda e) guardarem
conexão ou continência com outro crime de competência federal, ressalvada a competência da Justiça
Militar e da Justiça Eleitoral, conforme previsão expressa da Constituição.
A razão de ser das normas consagradas no direito interno e no direito convencional conduz à
conclusão de que a transnacionalidade do crime ambiental de exportação de animais silvestres atinge
interesse direto, específico e imediato da União, voltado à garantia da segurança ambiental no plano
internacional, em atuação conjunta com a comunidade das nações.
Portanto, o envio clandestino de animais silvestres ao exterior reclama interesse direto da União no
controle de entrada e saída de animais do território nacional, bem como na observância dos compromissos
do Estado brasileiro com a comunidade internacional, para a garantia conjunta de concretização do que
estabelecido nos acordos internacionais de proteção do direito fundamental à segurança ambiental. Assim,
a natureza transnacional do delito ambiental de exportação de animais silvestres atrai a competência da
Justiça Federal, nos termos do art. 109, IV, da CF/1988.
RE 835558/SP, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 9.2.2017. (RE-835558)
(Informativo 853, Plenário, Repercussão Geral)

Execução individual de ação coletiva e competência


Não compete originariamente ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar execução individual de
sentenças genéricas de perfil coletivo, inclusive aquelas proferidas em sede mandamental. Tal atribuição cabe
aos órgãos judiciários competentes de primeira instância.
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma resolveu questão de ordem em que discutida a
competência para promover o cumprimento de sentença proferida em mandado de segurança coletivo, tendo
em conta o disposto no art. 102, I, “m” (1), da Constituição.
O Colegiado ressaltou que o cumprimento da sentença perante as instâncias ordinárias tem o condão,
assim como ocorre em sede de ação civil pública, de aproximar a execução dos eventuais beneficiários, o que
facilita o exercício do direito já reconhecido no mandado de segurança transitado em julgado.

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(1) CF/1988: “Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe: I –
processar e julgar, originariamente: (...) m) a execução de sentença nas causas de sua competência originária, facultada a delegação
de atribuições para a prática de atos processuais;”
PET 6076 QO /DF, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 25.4.2017.
(Informativo 862, 2ª Turma)

Justiça competente e servidor público celetista


O Plenário, ao apreciar o Tema 544 da repercussão geral, por maioria, negou provimento a recurso
extraordinário em que se discutiu a competência para processar e julgar causa que tem por objeto a
abusividade de greve de servidores públicos regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
No caso, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), ao julgar dissidio coletivo, entendeu que a greve
promovida por membros de guarda municipal não era abusiva.
Interposto recurso ordinário, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) extinguiu o processo sem
julgamento de mérito, em face da impossibilidade jurídica do pedido. Declarou a incompetência da justiça
do trabalho para apreciar a abusividade da greve deflagrada por guardas municipais.
O Supremo Tribunal Federal entendeu que a justiça comum é competente para julgar causa
relacionada ao direito de greve de servidor público, pouco importando se se trata de celetista ou
estatutário.
O ministro Alexandre de Moraes afirmou que guarda municipal exerce função de segurança
pública, portanto, não tem direito à greve. Deste modo, a justiça do trabalho não pode analisar a
abusividade do movimento paredista.
Vencidos os ministros Luiz Fux (relator), Roberto Barroso, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski e
Marco Aurélio, que deram provimento ao recurso. Fixaram a competência da justiça do trabalho para
processar e julgar questões atinentes ao exercício do direito de greve dos servidores públicos celetistas.
Pontuaram que se houver relação contratual, celetista, o vínculo é trabalhista, e é competente a justiça do
trabalho. Se estatutário, o vínculo é legal, administrativo, recaindo a competência sobre a Justiça comum.
Em seguida, o Colegiado deliberou fixar a tese de repercussão geral em assentada posterior.
RE 846854/SP, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgamento
em 25.5.2017.
(Informativo 866, Plenário, Repercussão Geral)

Justiça competente e servidor público celetista


A justiça comum, federal ou estadual, é competente para julgar a abusividade de greve de
servidores públicos celetistas da Administração pública direta, autarquias e fundações públicas.
Essa é a tese do Tema 544 da repercussão geral fixada, por maioria, pelo Plenário — Informativo
866.
Vencidos os ministros Roberto Barroso, Rosa Weber, que afirmaram que a tese é muito abrangente
e extrapola a controvérsia discutida no caso concreto, que se refere à competência para julgar a
abusividade de greve de guarda municipal.
Vencido, também, o ministro Marco Aurélio que fixou a competência da Justiça do Trabalho.
RE 846854/SP, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgamento
em 1º.8.2017.
(Informativo 871, Plenário, Repercussão Geral)

Vantagens remuneratórias e superveniência de regime jurídico


Não compete à Justiça do Trabalho julgar controvérsia referente aos reflexos de vantagem
remuneratória, que teve origem em período celetista anterior ao advento do regime jurídico único.
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma, por maioria, deu provimento a agravo
regimental para declarar competente a Justiça Federal. No caso, a decisão reclamada fixou a competência
da Justiça do Trabalho para julgar questão referente a reajuste decorrente do Índice de Preço ao
Consumidor (IPC) de março de 1990, período anterior ao advento da Lei 8.112/1990, que alterou o
regime jurídico de servidor público de celetista para estatutário.
.

A Turma assentou que a fixação da esfera jurisdicional competente para apreciar lide a envolver o
Poder Público está pautada na natureza do vínculo existente com o trabalhador. Portanto, compete à
Justiça Comum pronunciar-se sobre a existência, a validade e a eficácia das relações entre servidores e o

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poder público fundadas em vínculo jurídico-administrativo. Essa competência prevalece ainda que a
controvérsia esteja fundamentada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Vencido o ministro Edson Fachin (relator) que, na assentada do dia 31.08.2017, negou provimento
ao agravo regimental, por entender que o ato reclamado não guarda pertinência com a decisão indicada
como parâmetro.

Rcl 26064 AgR/RS, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento
em 21.11.2017.
(Informativo 885, Segunda Turma)

Competência Legislativa

Competência legislativa dos Municípios e Direito Ambiental


Os Municípios podem legislar sobre Direito Ambiental, desde que o façam fundamentadamente.
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma negou provimento a agravo regimental.
A Turma afirmou que os Municípios podem adotar legislação ambiental mais restritiva em relação
aos Estados-Membros e à União. No entanto, é necessário que a norma tenha a devida motivação.
ARE 748206 AgR/SC, rel Min. Celso de Mello, julgamento em 14.3.2017.
(Informativo 857, 2ª Turma)

Meio ambiente e poluição: competência municipal


O Município tem competência para legislar sobre meio ambiente e controle da poluição, quando se
tratar de interesse local.
Com esse entendimento, o Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, negou provimento
a recurso extraordinário em que se debateu a competência dos Municípios para legislar sobre proteção do
meio ambiente e controle da poluição. Cuida-se, na espécie, de recurso extraordinário contra acórdão de
tribunal estadual que, ao julgar apelação em mandado de segurança, reconheceu a legitimidade de
legislação municipal com base na qual se aplicaram multas por poluição do meio ambiente, decorrente da
emissão de fumaça por veículos automotores no perímetro urbano (vide Informativos 347, 431 e 807).
O Colegiado, preliminarmente e por decisão majoritária, conheceu do recurso. Entendeu viável a
utilização de mandado de segurança, uma vez ter sido impugnado, no caso, ato concreto fundado na
legislação municipal, cuja alegada não recepção pelo ordenamento constitucional vigente é objeto de
controvérsia no recurso.
Vencido, no ponto, o ministro Dias Toffoli, que reputou extinto o mandado de segurança e,
subsequentemente, prejudicado o recurso. Aduziu não caber mandado de segurança contra lei em tese (1).
No mérito, o Plenário considerou que as expressões “interesse local”, do art. 30, I, da Constituição
Federal (CF), e “peculiar interesse”, das Constituições anteriores, se equivalem e não significam interesse
exclusivo do Município, mas preponderante. Assim, a matéria é de competência concorrente (CF, art. 24,
VI), sobre a qual a União expede normas gerais. Os Estados e o Distrito Federal editam normas
suplementares e, na ausência de lei federal sobre normas gerais, editam normas para atender a suas
peculiaridades (2). Por sua vez, os Municípios, com base no art. 30, I e II, da CF (3), legislam naquilo que
for de interesse local, suplementando a legislação federal e a estadual no que couber.
Vencidos os ministros Cezar Peluso, Eros Grau e Gilmar Mendes, que proveram o recurso.
Asseveraram que a matéria de fundo diz respeito ao art. 22, XI, da CF (4).

(1) Enunciado 266 da Súmula do STF: “Não cabe mandado de segurança contra lei em tese.”
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: (...) VI – florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio
ambiente e controle da poluição. § 1º No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer
normas gerais. § 2º A competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. §
3º Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas
peculiaridades.”
(3) Constituição Federal/1988: “Art. 30. Compete aos Municípios: I – legislar sobre assuntos de interesse local; II –
suplementar a legislação federal e a estadual no que couber.”
(4) Constituição Federal/1988: “Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: (...) XI – trânsito e transporte.
RE 194704/MG, rel. orig. Min. Carlos Velloso, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento
em 29.6.2017.
(Informativo 870, Plenário)

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Competência legislativa: proteção do consumidor e lealdade à Federação
O Plenário, por maioria, julgou parcialmente procedente pedido formulado em ação direta para
declarar a inconstitucionalidade dos incisos II, III e IV do art. 2º da Lei 1.939/1991 do Estado do Rio de
Janeiro. A norma impugnada dispõe sobre a obrigatoriedade de informações nas embalagens dos produtos
alimentícios comercializados naquele Estado-Membro e estabelece as respectivas sanções.
Inicialmente, o Colegiado afastou preliminar no sentido de que o exame da constitucionalidade da
lei passaria pelo cotejo com o Código de Defesa do Consumidor (CDC). O foco da análise, no caso,
refere-se às regras constitucionais de repartição da competência legislativa e não ao exame da validade
dos atos impugnados em face da legislação infraconstitucional.
No mérito, o Tribunal repisou sua jurisprudência no sentido de que, em sede de competência
concorrente, o livre espaço para a atividade legislativa estadual é autorizado na hipótese de não existir
legislação nacional a contemplar a matéria. Ao existir norma geral, a legislação estadual poderá preencher
eventuais lacunas.
No caso, a lei impugnada entrou em vigor quando já havia ampla legislação nacional sobre a
matéria, e boa parte do conteúdo da norma local estava disciplinada por lei federal. Nesse sentido, a lei
estadual especifica exigências mais rígidas do que o previsto na legislação federal, ponto em que fica
claro o conflito normativo.
Esse conflito fica explícito quando se nota que um mesmo produto não pode ter dois rótulos ou
embalagens, um nacional e outro estadual, ainda que as informações contidas no produto em circulação
local sejam mais completas, em benefício do consumidor. Isso implicaria, em última análise, criar uma
autorização para que houvesse tantos rótulos quantos são os Estados-Membros.
A intenção do constituinte foi de, por um lado, promover a integração e a cooperação entre os
entes federados e, por outro, combater todas as práticas que estimulem a concorrência predatória ou a
criação de barreiras ao comércio ou à livre circulação de bens e pessoas no território nacional.
Além disso, os dispositivos impugnados também não se justificam diante do princípio da
proporcionalidade. Se admitido que os Estados-Membros possuem competência para legislar sobre
informações contidas em embalagens de produtos que circulam em seu território, o fim de proteção ao
consumidor é alcançado por meio excessivo, pois são criadas dificuldades a produtos provenientes de
outros Estados-Membros. Isso significa ferir o denominado princípio da lealdade à Federação, que
fomenta uma relação construtiva, amistosa e de colaboração entre os entes federados. Nesse sentido, os
dispositivos impugnados também estão em desconformidade do o art. 22, VIII, da Constituição Federal
(CF).
Assim, justifica-se a necessidade de o tema ser tratado privativamente pela União, de modo a
uniformizar o comércio interestadual e, consequentemente, evitar que os laços federativos sejam
embaraçados. Há clara predominância de interesse federal a evitar limitações que possam dificultar o
comércio interestadual.
Ainda que tenha havido casos em que o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a
constitucionalidade de legislações estaduais que determinam o aumento do número de informações que
devem ser fornecidas a consumidores locais, tratava-se de produtos específicos, e não de todos os
produtos alimentícios comercializados no local, como nesse caso.
Vencidos os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio, que julgaram o
pedido totalmente procedente, com fulcro no art. 24, § 4º, da CF. Incluíram, na declaração de
inconstitucionalidade, as penalidades previstas na legislação adversada. Para eles, a superveniência de
legislação federal (Lei 9.782/1999) que regule a matéria de forma detalhada implica perda de eficácia da
lei estadual que a contrarie.
Vencidos, também, os ministros Edson Fachin, Celso de Mello e Cármen Lúcia, que julgaram o
pedido totalmente improcedente. Consideraram que a máxima efetividade da proteção ao consumidor,
derivada do seu direito de informação, sustenta a lei em debate.
ADI 750/RJ, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 3.8.2017.
(Informativo 871, Plenário)

Lei estadual e prestação de serviço de segurança


Lei estadual que impõe a prestação de serviço de segurança em estacionamento a toda pessoa física ou
jurídica que disponibilize local para estacionamento é inconstitucional, quer por violar a competência privativa da
União para legislar sobre direito civil, quer por violar a livre iniciativa.

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Lei estadual que impõe a utilização de empregados próprios na entrada e saída de estacionamento,
impedindo a terceirização, viola a competência privativa da União para legislar sobre direito do trabalho.
Com base nesses entendimentos, o Plenário, por maioria, julgou procedente pedido formulado em ação
direta para declarar integralmente inconstitucional a Lei 1.748/1990 do Estado do Rio de Janeiro, que obriga
pessoas físicas ou jurídicas a oferecer estacionamento ao público, cercar o local e manter funcionários próprios
para garantia da segurança, sob pena de pagamento de indenização na hipótese de prejuízos ao dono do veículo.
Vencidos, em parte, os ministros Alexandre de Moraes, Edson Fachin e Ricardo Lewandowski, que
julgaram parcialmente procedente o pedido. Afirmaram que os Estados-Membros podem dispor sobre a prestação
de serviço de segurança em estacionamento por se tratar de matéria afeta ao Direito do Consumidor, portanto, de
competência concorrente entre União e Estados-Membros.
ADI 451/RJ, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 1º.8.2017.
(Informativo 871, Plenário)

Lei estadual e serviço de empacotamento


Lei estadual que torna obrigatória a prestação de serviços de empacotamento nos supermercados é
inconstitucional por afrontar o princípio constitucional da livre inciativa.
Ofende a competência privativa da União para legislar sobre Direito do Trabalho a mesma norma,
ao exigir que o serviço seja prestado por funcionário do próprio estabelecimento.
Com base nesses entendimentos, o Plenário julgou procedente pedido formulado em ação direta
para declarar inconstitucional a Lei 2.130/1993 do Estado do Rio de Janeiro.
Vencidos, em parte, os ministros Alexandre de Moraes (relator), Edson Fachin e Ricardo
Lewandowski, que julgaram parcialmente procedente o pedido. Afirmaram que o serviço de
empacotamento é norma afeta ao Direito do Consumidor, matéria, portanto, de competência concorrente
entre a União e os Estados-Membros. Além disso, entendem que a norma não viola o princípio da livre
inciativa.
ADI 907/RJ, rel. Min. Alexandre de Moraes, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento
em 1º.8.2017.
(Informativo 871, Plenário)

Competência Originária do STF

Licença-prêmio e interesse da magistratura


A Segunda Turma, por maioria, não conheceu de ação originária em que se discutia o direito de
magistrado gozar de licença-prêmio e determinou a devolução dos autos ao juízo de origem.
No caso, foi ajuizada ação, com base na simetria entre as carreiras da magistratura e do Ministério
Público, para reconhecer a percepção de licença-prêmio por tempo de serviço pelo período de três meses a cada
quinquênio ininterrupto de exercício, contado da data de ingresso do autor na magistratura.
O autor alegava ter direito à percepção de licença-prêmio garantida aos membros do Ministério Público
da União (MPU), prevista no art. 222 da Lei Complementar 75/1993, a partir da edição da Emenda
Constitucional 45/2004, que incluiu na Constituição Federal o § 4º do art. 129, por meio do qual o Conselho
Nacional de Justiça reconheceu a simetria entre os dois agentes políticos.
Inicialmente, a ação foi proposta perante juizado especial federal, que declinou de sua competência para
o Supremo Tribunal Federal (STF), por entender que a matéria atingia interesse privativo da magistratura, não
abarcando interesse direto de outros servidores.
A Turma assentou a incompetência do STF para apreciar o feito, ante a inexistência de interesse da
totalidade da magistratura nacional.
O órgão fracionado afirmou que a pretensão vertida nos autos não se mostra exclusiva da categoria, haja
vista o direito à fruição de licença-prêmio por tempo de serviço interessar não apenas ao autor, mas também a
outros agentes políticos e servidores públicos. Afinal, o benefício pode estar previsto em estatuto jurídico do
agente ou do servidor. Na hipótese dos autos, por exemplo, integra o estatuto do MPU e de outras carreiras do
serviço público federal.
Vencido o ministro Gilmar Mendes (relator), que conhecia da ação e julgava improcedente o pedido. O
ministro Dias Toffoli acompanhou o relator quanto ao conhecimento.

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Para o relator, a tese alegada na inicial interessa exclusivamente aos magistrados, já que nenhuma outra
categoria de agente público lato sensu (agente político, servidor ou empregado público), exceto a magistratura,
poderia ajuizar demanda requerendo simetria com o MPU.
Declarava prescritas as parcelas porventura devidas anteriormente ao quinquênio que antecede o
ajuizamento da demanda. Para que houvesse a interrupção da prescrição, seria necessário o reconhecimento
indene de dúvidas pelo devedor (Código Civil, art. 202, VI), o que não se verificou no caso.
Quanto ao mérito, consignava inexistir respaldo legal. Além disso, o rol de direitos e vantagens disposto
no art. 69 da Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN) seria taxativo. Portanto, não seria possível a
extensão aos magistrados de vantagens previstas em legislação de outra carreira.
AO 2126/PR, rel. orig. Min. Gilmar Mendes, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento em
21.2.2017.
(Informativo 855, 2ª Turma)

Confisco

Tráfico de drogas e confisco de bens


É possível o confisco de todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do
tráfico de drogas, sem a necessidade de se perquirir a habitualidade, reiteração do uso do bem para tal
finalidade, a sua modificação para dificultar a descoberta do local do acondicionamento da droga ou
qualquer outro requisito além daqueles previstos expressamente no art. 243, parágrafo único (1), da
Constituição Federal (CF).
O Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Tema 647 da repercussão geral, por maioria, deu
provimento ao recurso extraordinário interposto contra acórdão que determinou a devolução de veículo de
propriedade de acusado pela prática do crime de tráfico de entorpecentes, sob o fundamento de que a
perda do bem pelo confisco deve ser reservada aos casos de utilização do objeto de forma efetiva, e não
eventual, para a prática do citado delito.
Prevaleceu o voto do ministro Luiz Fux (relator). Para ele, o confisco de bens pelo Estado encerra
uma restrição ao direito fundamental de propriedade, garantido pelo art. 5º, caput e XXII, da CF (2).
Asseverou que o confisco de bens utilizados para fins de tráfico de drogas, da mesma forma como
as demais restrições aos direitos fundamentais expressamente previstas na Constituição Federal, deve
conformar-se com a literalidade do texto constitucional, vedada a adstrição de seu alcance por outros
requisitos que não os estabelecidos pelo art. 243, parágrafo único, da CF.
Consignou que o confisco, no direito comparado, é instituto de grande aplicabilidade aos delitos de
repercussão econômica, sob o viés de que “o crime não deve compensar”. Tal perspectiva foi adotada
pelo constituinte brasileiro e pela República Federativa do Brasil, que internalizou diversos diplomas
internacionais que visam reprimir severamente o tráfico de drogas.
Observou que o tráfico de drogas é reprimido pelo Estado brasileiro, por meio de modelo
jurídico-político, em consonância com os diplomas internacionais firmados. Os preceitos
constitucionais sobre o tráfico de drogas e o respectivo confisco de bens constituem parte dos mandados
de criminalização previstos pelo poder constituinte originário a exigir uma atuação enérgica do Estado
sobre o tema, sob pena de o ordenamento jurídico brasileiro incorrer em proteção deficiente dos direitos
fundamentais.
Segundo o relator, o confisco previsto no art. 243, parágrafo único, da CF deve ser interpretado à
luz dos princípios da unidade e da supremacia da Constituição, ou seja, não se pode ler o direito de
propriedade em separado, sem considerar a restrição feita a esse direito. Concluiu que a habitualidade do
uso do bem na prática criminosa ou sua adulteração para dificultar a descoberta do local de
acondicionamento, in casu, da droga, não é pressuposto para o confisco de bens nos termos do citado
dispositivo constitucional.
Vencidos os ministros Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio, que negaram provimento ao
recurso.
Para o ministro Ricardo Lewandowski, deve prevalecer a regra constitucional da proibição do
confisco, observados, ainda, os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. No caso, para ser
confiscado, seria necessário provar que o veículo teria sido destinado integralmente para a prática do
delito. Além disso, considerou que o parágrafo único do art. 243 não é um dispositivo independente, mas
deve ser lido em harmonia com o seu caput, o qual diz respeito apenas a propriedades rurais e urbanas de
qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração
de trabalho escravo na forma da lei.

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O ministro Marco Aurélio, de igual modo, emprestou ao parágrafo único do citado artigo a
disciplina de simples acessório, a remeter, necessariamente, a bens encontrados na propriedade objeto de
expropriação.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 243. As propriedades rurais e urbanas serão expropriadas e destinadas à reforma
agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em
lei, observado, no que couber, o disposto no art. 5º.
Parágrafo único. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e
drogas afins e da exploração de trabalho escravo será confiscado e reverterá a fundo especial com destinação específica, na forma da
lei”.
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: (...) XXII – é garantido o direito de propriedade”.
RE 638491/PR, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 17.5.2017.
(Informativo 865, Plenário, Repercussão Geral)

Conflito Federativo

Fundef e fórmula de cálculo


O valor da complementação da União ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino
Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) deve ser calculado com base no valor mínimo
nacional por aluno extraído da média nacional.
A complementação ao Fundef realizada a partir do valor mínimo anual por aluno fixada em
desacordo com a média nacional impõe à União o dever de suplementação de recursos, mantida a
vinculação constitucional a ações de desenvolvimento e manutenção do ensino.
Com base nesses entendimentos, o Plenário, em apreciação conjunta e por maioria, julgou
parcialmente procedentes os pedidos formulados em ações cíveis originárias para condenar a União ao
pagamento indenizatório da diferença entre os valores de complementação devidos, orçados com
fundamento no Decreto 2.264/1997, e na fórmula de cálculo apresentada com base no valor mínimo
nacional por aluno extraído da média nacional, durante os exercícios financeiros de 1998 a 2007.
No caso, a controvérsia limitou-se ao período de existência do Fundef, criado pela Emenda
Constitucional 14/1996 e extinto pela Emenda Constitucional 53/2006.
Questionou-se a metodologia adotada pela União para calcular o valor mínimo anual por aluno,
estabelecido no § 3º do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) (1), com a
redação dada pela Emenda Constitucional 14/1996. Nos termos das normas de regência, a União estava
obrigada a complementar os recursos do Fundef sempre que, no âmbito de cada Estado-Membro e do
Distrito Federal, a quantia por aluno fosse inferior ao valor mínimo de referência. O legislador ordinário
regulamentou a matéria por meio do art. 6º, § 1º da Lei 9.424/1996 (2).
Arguiu-se que o legislador ordinário utilizou o termo “Fundo” no singular e referiu-se à receita e à
matrícula total, de modo que o cálculo do valor mínimo anual por aluno deveria estar embasado em
valores tomados em âmbito nacional. A União sustentou não haver fundo único de âmbito nacional que
pudesse respaldar o cálculo defendido pelo Estado.
O Tribunal afirmou que o Fundef tem função distributiva. Por isso, a complementação estabelecida
para a União, a partir do art. 60 do ADCT, ao impor a ela a obrigação de complementar o valor por aluno
que não alcançar o mínimo definido nacionalmente, não estabelece uma discricionariedade. A União não
pode eleger a base de cálculo formada pelos elementos de índole estadual, porque isso significa ofender a
função redistributiva do Fundef.
Além disso, a Corte considerou ilegal o Decreto 2.264/1997 (3), que extravasou a delegação do §
1º, do art. 6º, da Lei 9.424/1996 e subverteu a lógica federativa e solidária da norma. Sendo assim,
entendeu pertinente o pleito de recálculo do valor mínimo nacional por aluno.
Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Luiz Fux, que julgaram improcedentes os
pedidos. Pontuaram que o dispositivo legal deve ser interpretado à luz dos parágrafos do art. 60 do
ADCT, na redação dada pela Emenda Constitucional 14/1996. O § 1º desse artigo determinava a criação
de fundos de natureza contábil separadamente no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal. A
legislação ordinária, ao materializar o comando do texto constitucional, não poderia contrariá-lo,
referindo-se a fundo de âmbito nacional que inexiste. Enfatizaram que é pertinente a óptica veiculada pela
União, segundo a qual o art. 6º, § 1º, da Lei 9.494/1996, ao empregar o termo “Fundo”, somente poderia
versar aquele criado no âmbito de cada Estado-Membro e do Distrito Federal.

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Por fim, o Tribunal, também por decisão majoritária, deliberou delegar aos ministros a faculdade
de decidir monocraticamente as demais ações cíveis originárias que tratem da mesma matéria. Vencido,
no ponto, o ministro Marco Aurélio.

(1) ADCT: “"Art. 60. Nos dez primeiros anos da promulgação desta emenda, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
destinarão não menos de sessenta por cento dos recursos a que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal, a manutenção e
ao desenvolvimento do ensino fundamental, com o objetivo de assegurar a universalização de seu atendimento e a remuneração
condigna do magistério. § 1º A distribuição de responsabilidades e recursos entre os estados e seus municípios a ser concretizada
com parte dos recursos definidos neste artigo, na forma do disposto no art. 211 da Constituição Federal, e assegurada mediante a
criação, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, de um fundo de manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental e de
valorização do magistério, de natureza contábil. § 2º O Fundo referido no parágrafo anterior será constituído por, pelo menos,
quinze por cento dos recursos a que se referem os arts. 155, inciso II; 158, inciso IV; e 159, inciso I, alíneas "a" e "b"; e inciso II, da
Constituição Federal, e será distribuído entre cada Estado e seus Municípios, proporcionalmente ao número de alunos nas
respectivas redes de ensino fundamental. § 3º A União complementará os recursos dos Fundos a que se refere o § 1º, sempre que,
em cada Estado e no Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. § 4º A União, os Estados,
o Distrito Federal e os Municípios ajustarão progressivamente, em um prazo de cinco anos, suas contribuições ao Fundo, de forma a
garantir um valor por aluno correspondente a um padrão mínimo de qualidade de ensino, definido nacionalmente. § 5º Uma
proporção não inferior a sessenta por cento dos recursos de cada Fundo referido no § 1º será destinada ao pagamento dos professores
do ensino fundamental em efetivo exercício no magistério. § 6º A União aplicará na erradicação do analfabetismo e na manutenção
e no desenvolvimento do ensino fundamental, inclusive na complementação a que se refere o § 3º, nunca menos que o equivalente a
trinta por cento dos recursos a que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal. § 7º A lei disporá sobre a organização dos
Fundos, a distribuição proporcional de seus recursos, sua fiscalização e controle, bem como sobre a forma de cálculo do valor
mínimo nacional por aluno”.
(2) Lei 9424/1996: “Art. 6º A União complementará os recursos do Fundo a que se refere o art. 1º sempre que, no âmbito
de cada Estado e do Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. § 1º O valor mínimo anual
por aluno, ressalvado o disposto no § 4º, será fixado por ato do Presidente da República e nunca será inferior à razão entre a
previsão da receita total para o Fundo e a matrícula total do ensino fundamental no ano anterior, acrescida do total estimado de
novas matrículas, observado o disposto no art. 2º, § 1º, incisos I e I”.
(3) Decreto 2.264/1997: “Art. 1º A partir de 1º de janeiro de 1998, o Ministério da Fazenda, quando da transferência para
os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dos recursos de que trata o art. 159 da Constituição, observará o disposto no art. 60
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, com a redação dada pelo art. 5º da Emenda Constitucional nº 14, de 1996, bem
como na legislação pertinente. Art. 2º O valor destinado ao Fundo de Manutenção e desenvolvimento do Ensino Fundamental e de
Valorização do Magistério em cada Unidade da Federação será creditado em contas individuais e específicas dos Governos
Estaduais, do Distrito Federal e dos respectivos Municípios, mediante aplicação de coeficientes de distribuição a serem fixados
anualmente. §) 1º Para o estabelecimento dos coeficientes de distribuição serão considerados: a) o número de alunos matriculados
nas escolas cadastradas das respectivas redes de ensino, apurado no Censo Escolar do exercício anterior ao da distribuição,
considerando-se para este fim as matrículas da 1º à 8º séries do ensino fundamental regular; b) a estimativa de novas matrículas,
elaborada pelo Ministério da Educação e do Desporto; c) a diferenciação do custo por aluno, segundo os níveis de ensino e os tipos
de estabelecimentos, conforme previsto no § 2º do art. 2º da Lei nº 9.424, de 24 de dezembro de 1996. § 2º Para fins do disposto
neste artigo, o Ministério da Educação e do Desporto; a) divulgará, até o dia 31 de março de cada ano, a estimativa do número de
alunos referida no parágrafo anterior por Estado, Distrito Federal e Município, bem assim as demais informações necessárias ao
cálculo dos recursos a serem repassados no ano subsequente, com vistas à elaboração das propostas orçamentárias das três esferas de
Governo. b) publicará, até o dia 30 de novembro de cada ano, as informações necessárias ao cálculo efetivo dos coeficientes de
distribuição para o ano seguinte e o Censo Escolar do ano em curso. § 3º Com base no Censo Escolar e nas demais informações
publicadas, o Ministério da Educação e do Desporto elaborará a tabela de coeficientes de distribuição dos recursos do Fundo, e a
publicará no Diário Oficial da União até o último dia útil de cada exercício, para utilização no ano subsequente, remetendo as
planilhas de cálculo as Tribunal de Contas da União, para exame e controle. § 4º Somente será admitida revisão dos coeficientes de
que trata o § 2º deste artigo se houver determinação do Tribunal de Contas da União nesse sentido. § 5º O repasse dos recursos nos
termos do caput deste artigo será efetuado nas mesmas datas do repasse dos recursos de que trata o art.159 da Constituição,
observados os mesmos procedimentos e forma de divulgação. Art. 3º Compete ao Ministério da Fazenda efetuar o cálculo da
complementação anual devida pela União ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização
Magistério em cada Estado e no Distrito Federal. § 1º O cálculo da complementação da União em cada ano terá como base o
número de alunos de que trata o § 1º do Art. 2º deste Decreto, o valor mínimo por aluno, definido nacionalmente, na forma do art.
6º, da Lei nº 9.424, de 24 de dezembro de 1996, e a arrecadação das receitas vinculadas ao Fundo. § 2º A complementação anual da
União corresponderá a diferença, se negativa, entre a receita anual do Fundo em cada Unidade da Federação e o valor mínimo da
despesa definida para Fundo no mesmo ano. § 3º As planilhas de cálculo da estimativa de complementação da União serão
remetidas previamente ao conhecimento do Tribunal de Contas da União. § 4º Até o dia 31 de dezembro de cada ano o Ministério da
Fazenda publicará o valor da estimativa da complementação da União para o ano seguinte, relativa a cada Unidade da Federação,
bem como o respectivo cronograma de pagamentos mensais ao Fundo. § 5º Após encerrado cada exercício, o Ministério da Fazenda
calculará o valor da complementação devida pela União com base na efetiva arrecadação das receitas vinculadas ao Fundo, relativa
ao exercício de referência. § 6º O Ministério da Fazenda promoverá os ajustes que se fizerem necessários entre a União, os Estados,
o Distrito Federal e os Municípios, em decorrência do cálculo da complementação efetivamente devida, até 30 dias após a entrega,
ao Ministério da Fazenda, dos dados oficiais relativos a arrecadação anual do ICMS do exercício encerrado, de todos os Estados e
do Distrito Federal. § 7º Nenhum ajuste relacionado com o pagamento da complementação da União será admitido ao longo do
respectivo exercício de competência. § 8º O cronograma de que trata o § 4º deste artigo observará a programação financeira do
Tesouro Nacional e contemplará pagamentos mensais de, no mínimo, 5% da estimativa de complementação anual, a serem
realizados até o último dia útil de cada mês, assegurados os repasses de, no mínimo, 45% até 31 de julho e 85% até 31 de dezembro
de cada ano. § 9º Parcela do valor da complementação devida pela União poderá ser destinada, em cada ano, ao ajuste de que trata o
§ 6º deste artigo. § 10 Estimativa da Complementação de que trata este artigo será efetuada pelo Ministério da Educação e do
Desporto e a Secretaria de Orçamento Federal, do Ministério do Planejamento e Orçamento para fins de inclusão na proposta
orçamentária do ano subsequente. § 11 O Ministério da Fazenda informará mensalmente ao Ministério da Educação e do Desporto e
ao Tribunal de Contas da União os valores repassados a cada Fundo de que trata este Decreto, discriminando a complementação
federal. Art. 4º Os recursos necessários ao pagamento da complementação da União ao Fundo serão alocados no Orçamento do
Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação - FNDE, podendo ser destinadas a essa finalidade receitas da contribuição do
Salário Educação até o limite de 20% do total da referida complementação. Art. 5º O Conselho de Acompanhamento e Controle

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Social sobre os Fundos de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério, no âmbito da
União terá a seguinte composição: I - quatro representantes do Ministério da Educação e do Desporto, sendo um do Fundo Nacional
de Desenvolvimento da Educação - FNDE e um do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - INEP; Il - um
representante do Ministério da Fazenda; Ill - um representante do Ministério do Planejamento e Orçamento; IV - um representante
do Conselho Nacional de Educação -CNE; V - um representante do Conselho Nacional dos Secretários Estaduais da Educação -
CONSED; Vl - um representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação - CNTE; VII - um representante da
União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação - UNDIME; VIII - um representante dos pais de alunos e professores das
escolas públicas de ensino fundamental. § 1º O Conselho de que trata o caput deste artigo será presidido pelo representante do
FNDE. ou pelo Ministro de Estado da Educação e do Desporto nas reuniões a que este comparecer. § 2º A participação no Conselho
de que trata este artigo não será remunerada, ressalvado o ressarcimento das despesas inerentes à participação nas reuniões. Art. 6º
Para as Unidades da Federação que anteciparem a implantação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino
Fundamental e Valorização do Magistério para o exercício de 1997, serão observados os seguintes procedimentos: I - as
transferências de recursos da União aos Estados e seus respectivos Municípios e ao Distrito Federal observarão o disposto neste
Decreto a partir da data da efetiva implantação do Fundo, desde que haja comunicação tempestiva a Secretaria do Tesouro Nacional,
do Ministério da Fazenda; II - para o cálculo dos coeficientes de distribuição serão observados somente os critérios definidos na
alínea "a" do § 1º do art. 2º; III - a complementação da União será paga à razão de um duodécimo do valor anual hipotético para
cada mês de efetiva vigência do Fundo em cada Unidade da Federação. Art. 7º Os Ministros de Estado da Educação e do Desporto,
da Fazenda, e do Planejamento e Orçamento proporão, até o dia 30 de abril de cada ano, o valor mínimo definido nacionalmente a
ser fixado para o ano subsequente, nos termos do art. 6º da Lei nº 9.424, de 24 de dezembro de 1996. Art. 8º Constitui falta grave a
adoção de quaisquer procedimentos que impliquem pagamento incorreto, pela União, dos valores devidos ao Fundo de que trata este
Decreto, aplicando-se aos responsáveis as cominações legais cabíveis. Art. 9º Compete ao Ministério da Educação e do Desporto
denunciar aos órgãos competentes a ocorrência de irregularidades, e respectivos responsáveis, que implicarem pagamento incorreto
dos valores devidos pela União ao Fundo. Art. 10. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação”.
ACO 648/BA, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento em
6.9.2017.
ACO 660/AM, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento em
6.9.2017.
ACO 669/SE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento em
6.9.2017.
ACO 700/RN, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento em
6.9.2017.
(Informativo 876, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Conselho Nacional de Justiça

Conselho Nacional de Justiça: processo disciplinar e competência autônoma


A competência originária do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para a apuração disciplinar, ao
contrário da revisional, não se sujeita ao parâmetro temporal previsto no art. 103-B, § 4º, V (1) da
Constituição Federal.
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma negou provimento a agravo regimental em
mandado de segurança em que se discutia deliberação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que aplicou
pena de aposentadoria compulsória a magistrado em processo disciplinar administrativo.
As acusações do processo administrativo disciplinar se referiam a demonstrações de proximidade
com grupo político local, nepotismo, violação do dever de imparcialidade e atuação jurisdicional eivada
de vícios.
A defesa alegou que um dos fatos que constitui objeto da denúncia já havia sido julgado pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tendo o agravante sido eximido da responsabilidade por decisão de
mérito. Sustentou também que, arquivado o processo, a revisão disciplinar só poderia ser instaurada a
menos de um ano do julgamento, conforme o art. 103-B, § 4º, V (1) da Constituição.
A Turma, entendeu que o CNJ tem preponderância sobre os dos demais órgãos do Poder Judiciário
com exceção do Supremo Tribunal Federal (STF).
O Colegiado compreendeu, ainda, que o processo administrativo disciplinar instaurado pelo CNJ
se deu em virtude de reclamação disciplinar autônoma, não estando relacionado à decisão do TSE.
Ademais, asseverou não haver evidências de ilegalidade ou abuso de poder na atuação do CNJ, que
apresenta capacidade correicional e autônoma para apreciar o atendimento, pelo magistrado, dos deveres
jurídicos da magistratura.
Por fim, dada a ausência de comprovação quanto à parcialidade da atuação do CNJ, a Turma
entendeu não caber ao STF adentrar no mérito do julgado disciplinar, visto que não constatado vício
procedimental.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 103-B. O Conselho Nacional de Justiça compõe-se de 15 (quinze) membros com
mandato de 2 (dois) anos, admitida 1 (uma) recondução, sendo: ... § 4º Compete ao Conselho o controle da atuação administrativa e
financeira do Poder Judiciário e do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes, cabendo-lhe, além de outras atribuições que lhe

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forem conferidas pelo Estatuto da Magistratura: ... V rever, de ofício ou mediante provocação, os processos disciplinares de juízes e
membros de tribunais julgados há menos de um ano”.
MS 34685 AgR/RR, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 28.11.2017.
(Informativo
886http://www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo885.htm,
Segunda Turma)

Conselho Nacional de Justiça e controle de controvérsia submetida ao Judiciário


Descabe ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cujas atribuições são exclusivamente
administrativas, o controle de controvérsia submetida à apreciação do Poder Judiciário.
Com base nesse entendimento, a 1ª Turma indeferiu mandado de segurança impetrado contra o
ato, por meio do qual o CNJ determinou o arquivamento de processo administrativo, ante a alegada
inviabilidade de controle, pelo Órgão, de questão submetida ao crivo do Supremo Tribunal Federal (STF).
A impetrante postulava no CNJ a sua recondução à titularidade interina de Tabelionato de Notas e
Ofício de Protesto de Títulos e o consequente afastamento de aprovado em concurso público que assumiu
o acervo do cartório. Afirmava o descumprimento da decisão liminar em mandado de segurança que
suspendeu o mencionado certame.
A Turma considerou, inicialmente, que o eventual descumprimento de decisão proferida pelo STF
não se resolve na seara do CNJ, mas, sim, na do próprio Tribunal, mediante reclamação.
Entendeu, ademais, que o CNJ observou, com acerto, o fato de a controvérsia estar submetida ao
Judiciário, quadro impeditivo da própria atuação, tendo em conta o disposto nos parágrafos 4º e 5º do
artigo 103-B da Constituição Federal.

MS 28845/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 21.11.2017.


(Informativo 885, Primeira Turma)

Controle de Constitucionalidade

ADI estadual e subsídio


Tribunais de Justiça podem exercer controle abstrato de constitucionalidade de leis municipais
utilizando como parâmetro normas da Constituição Federal, desde que se trate de normas de reprodução
obrigatória pelos Estados.
O art. 39, § 4º, da Constituição Federal não é incompatível com o pagamento de terço de férias e
décimo terceiro salário.
Com base nas teses acima fixadas, o Plenário, em conclusão e por maioria, deu parcial provimento
a recurso extraordinário para reformar o acórdão recorrido na parte em que declarava a
inconstitucionalidade dos arts. 6º e 7º da Lei 1.929/2008 do Município de Alecrim/RS (“Art. 6º. Ao
ensejo do gozo de férias anuais, o Prefeito Municipal perceberá o subsídio acrescido de um terço. § 1º. O
Vice-Prefeito terá direito à mesma vantagem se tiver atividade permanente na Administração. § 2º. O
gozo de férias correspondentes ao último ano do mandato poderá ser antecipado para o segundo semestre
daquele exercício. Art. 7º. Além do subsídio mensal, o Prefeito e o Vice-Prefeito perceberão, em
dezembro de cada ano, na mesma data em que for pago o décimo terceiro dos servidores do Município,
uma quantia igual aos respectivos vigentes naquele mês. Parágrafo Único. Quando houver pagamento da
metade da remuneração de um mês aos servidores, a título de adiantamento do décimo terceiro salário, na
forma da Lei Municipal, igual tratamento será dado ao Prefeito e ao Vice-Prefeito”). Entretanto, o
Colegiado manteve a declaração de inconstitucionalidade do art. 4º [“Art. 4º. Será pago ao Prefeito
Municipal, a título de indenização, o valor mensal de R$ 2.200,00 (dois mil e duzentos reais)”] — v.
Informativo 813.
Prevaleceu o voto do ministro Roberto Barroso. Asseverou que a citada verba prevista no art. 4º
não é verba de representação, uma vez que não possui caráter indenizatório.
Afirmou também que o regime de subsídio é incompatível com outras parcelas remuneratórias de
natureza mensal.
No entanto, sustentou não ser o caso do décimo terceiro salário e do terço constitucional de férias,
pagos a todos os trabalhadores e servidores com periodicidade anual. Desse modo, o art. 39, § 4º, da CF
não é incompatível com o pagamento dos citados adicionais.

52
Vencidos, em parte, os ministros Marco Aurélio (Relator), Edson Fachin, Ricardo Lewandowski e
Cármen Lúcia (Presidente), que negavam provimento ao recurso. Pontuavam que os agentes políticos
estão submetidos à regra do § 4º do art. 39, mas não figuram no rol de beneficiários da exceção criada
pelo § 3º do art. 39 da CF.
O ministro Marco Aurélio não participou da fixação do segundo enunciado de tese.
RE 650898/RS, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento
em 1º.2.2017.
(Informativo 852, Plenário, Repercussão Geral)

Bolsas de estudo e dedução do ICMS


O Tribunal, por maioria, julgou parcialmente procedente ação direta para declarar a inconstitucionalidade
do art. 3º da Lei 11.743/2002 do Estado do Rio Grande do Sul, conferindo à decisão efeitos ex nunc, a partir da
publicação da ata deste julgamento. A lei impugnada assegura às empresas patrocinadoras de bolsas de estudo
para professores que ingressam em curso superior a possibilidade de exigir dos beneficiários serviços para
implementação de projetos de alfabetização ou aperfeiçoamento de empregados dessas empresas, bem como
outras atividades compatíveis com a sua formação profissional. O art. 3º da lei impugnada autoriza o Poder
Executivo a conceder à empresa patrocinadora incentivo equivalente a 50% do valor da bolsa, a ser deduzido do
ICMS.
De um lado, a Corte entendeu que o princípio federativo reclama o abandono de qualquer leitura
inflacionada centralizadora das competências normativas da União, bem como sugere novas searas normativas
que possam ser trilhadas pelos Estados-Membros, Municípios e Distrito Federal. A prospective overruling,
antídoto ao engessamento do pensamento jurídico, possibilita ao STF rever sua postura em casos de litígios
constitucionais em matéria de competência legislativa, viabilizando o prestígio das iniciativas regionais e locais,
ressalvadas as hipóteses de ofensa expressa e inequívoca a norma da Constituição. Dessa forma, a competência
legislativa de Estado-Membro para dispor sobre educação e ensino, prevista no art. 24, IX, da CF, autoriza a
fixação, por lei local, da possibilidade de concessão de bolsas de estudo a professores em aprimoramento do
sistema regional de ensino.
Por outro lado, considerou que o pacto federativo reclama, para preservação do equilíbrio horizontal na
tributação, a prévia deliberação dos Estados-Membros para concessão de benefícios fiscais relativamente ao
ICMS, na forma prevista no art. 155, § 2º, XII, “g”, da CF e como disciplinado pela LC 24/1975, recepcionada
pela atual ordem constitucional. Por esse motivo, o art. 3º da Lei 11.743/2002 padece de inconstitucionalidade. Ao
conceder benefício fiscal de ICMS sem a antecedente deliberação dos Estados-Membros e do Distrito Federal,
caracteriza-se hipótese típica de exoneração conducente à guerra fiscal, em desarmonia com a Constituição.
Vencido, em parte, o ministro Marco Aurélio, que julgava improcedente o pedido. Para o magistrado, não
se trataria, no caso concreto, de guerra fiscal, por não ter havido implemento de um benefício fiscal propriamente
dito, mas simples contrapartida para as empresas que resolvessem adentrar esse campo e financiar o
aprimoramento da classe dos professores.
ADI 2663/RS, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 8.3.2017.
(Informativo 856, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Guerra fiscal e modulação de efeitos


O Plenário, por maioria, julgou procedente pedido formulado em ação direta para declarar, com efeitos ex
nunc, a inconstitucionalidade da Lei 15.054/2006 do Estado do Paraná. A norma restabelece benefícios fiscais
relativos ao ICMS, cancelados no âmbito dos programas “Bom Emprego”, “Paraná Mais Emprego” e
“Desenvolvimento Econômico, Tecnológico e Social do Paraná” (PRODEPAR).
O Colegiado afastou as preliminares de inconstitucionalidade formal por vício de iniciativa, de ofensa ao
princípio da isonomia e de descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Adotou, contudo, o fundamento
da guerra fiscal, em virtude da causa petendi aberta. No caso, ao ampliar benefício fiscal no âmbito do ICMS de
maneira unilateral, a lei impugnada incidiu em inconstitucionalidade.
No que se refere à modulação de efeitos da decisão, a Corte registrou que a sua jurisprudência não a tem
admitido em casos de leis estaduais que instituem benefícios sem o prévio convênio exigido pelo art. 155, § 2º,
XII, da CF, o que consistiria em incentivo à guerra fiscal.
Ressaltou, entretanto, que, nas hipóteses de a lei haver vigorado por muitos anos, a não modulação apenaria
as empresas que a tivessem cumprido. Por essa razão, o entendimento do Tribunal evoluiu no sentido de permitir a
modulação a fim de que a declaração de inconstitucionalidade produza efeitos ex nunc.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que julgava a ação improcedente.
ADI 3796/PR, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 8.3.2017. (ADI-3796)

53
(Informativo 856, Plenário)

Medida provisória: emenda parlamentar e “contrabando legislativo”


O Plenário, por maioria, julgou improcedente pedido formulado em ação direta ajuizada em
face dos arts. 113 a 126 da Lei 12.249/2010, incluídos por emenda parlamentar em projeto de
conversão de medida provisória em lei.
Os dispositivos impugnados: a) alteram os limites das unidades de conservação federais
Floresta Nacional do Bom Futuro, Parque Nacional Mapinguari e Estação Ecológica de Cuniã; b)
autorizam a União a doar ao Estado de Rondônia imóveis rurais de sua propriedade inseridos na área
desafetada da Floresta Nacional do Bom Futuro, sob condição de que em parte dela sejam criadas
uma área de proteção ambiental e uma floresta estadual; c) determinam sejam doadas ao Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pelos órgãos e pelas entidades federais
que as detenham, as terras da União contidas nos novos limites do Parque Nacional Mapinguari e da
Estação Ecológica de Cuniã; e d) declaram de utilidade pública, para fins de desapropriação pelo
ICMBio, os imóveis rurais privados existentes nas áreas de ampliação do Parque Nacional
Mapinguari e da Estação Ecológica de Cuniã.
Porém, a medida provisória que originou a lei em questão contemplava, originalmente, matérias
distintas das tratadas nos citados artigos.
O Colegiado reportou-se ao decidido na ADI 5.127/DF (DJE de 11.5.2016), no sentido de ser
incompatível com a Constituição CF apresentar emendas sem relação de pertinência temática com a
medida provisória submetida à apreciação.
Asseverou que a prática de inserção, mediante emenda parlamentar, no processo legislativo de
conversão de medida provisória em lei, de matérias de conteúdo temático estranho ao objeto originário da
medida provisória viola a Constituição, notadamente o princípio democrático e o devido processo
legislativo (CF, arts. 1º, caput e parágrafo único, 2º, caput, e 5º, caput e LIV).
Entretanto, nos termos do citado precedente, deliberou pela manutenção dos atos normativos
atacados, por conta do princípio da segurança jurídica. Naquele caso, o Plenário manteve hígidas todas as
leis de conversão fruto dessa prática promulgadas até a data do julgamento, ocorrido em 15.10.2015.
A ministra Rosa Weber (relatora), com ressalva de seu entendimento pessoal, endossou a
orientação quanto aos efeitos prospectivos daquela decisão.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que julgava a ação procedente.
ADI 5012/DF, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 16.3.2017. (ADI-5012)
(Informativo 857, Plenário)

Autonomia federativa: crimes de responsabilidade e crimes comuns praticados por


governador
É vedado às unidades federativas instituir normas que condicionem a instauração de ação penal contra
governador por crime comum à previa autorização da casa legislativa, cabendo ao Superior Tribunal de Justiça
(STJ) dispor, fundamentadamente, sobre a aplicação de medidas cautelares penais, inclusive afastamento do
cargo.
Com base nesse entendimento, o Plenário, em conclusão e por maioria, julgou procedente pedido
formulado em ações diretas para declarar a inconstitucionalidade de dispositivos das Constituições dos Estados
do Acre, de Mato Grosso e do Piauí. Os preceitos tratam da competência privativa da assembleia legislativa
local para processar e julgar o governador nos crimes de responsabilidade e cuidam do processo e julgamento
de chefe do Executivo estadual em crimes comuns, mediante admissão da acusação pelo voto de 2/3 da
representação popular local — ver Informativo 793.
O Supremo Tribunal Federal (STF) alterou o entendimento a respeito da necessidade de autorização
prévia das assembleias legislativas para instauração de ação penal. Afirmou que a orientação anterior, que
privilegiava a autonomia dos Estados-membros e o princípio federativo, entrou em linha de tensão com o
princípio republicano, que prevê a responsabilização política dos governantes. Verificou que, ao longo do
tempo, as assembleias legislativas bloquearam a possiblidade de instauração de processos contra governadores.
Há três situações que legitimam a mutação constitucional e a superação de jurisprudência consolidada:
a) mudança na percepção do direito; b) modificações na realidade fática; e c) consequência prática negativa de
determinada linha de entendimento. Para o Colegiado, as três hipóteses estão presentes no caso concreto.

54
Fora as situações expressamente previstas na Constituição Federal (CF), o poder constituinte estadual
não pode alterar a competência e o desempenho das funções materialmente típicas do Poder Judiciário e do
Ministério Público.
A definição dos crimes de responsabilidade e o estabelecimento das respectivas normas de processo e
julgamento são da competência legislativa privativa da União. Isso consta do Enunciado 46 da Súmula
Vinculante do Supremo Tribunal Federal.
Por fim, o afastamento do governador não é automático no caso de abertura de ação penal. O simples
recebimento de uma denúncia, ato de baixa densidade decisória, não pode importar em afastamento automático
do governador. Esse afastamento somente pode ocorrer se o STJ entender que há elementos a justificá-lo. O
governador pode ser afastado, mas não como decorrência automática do recebimento da denúncia.
Vencido em parte o ministro Celso de Mello (relator), que julgou parcialmente procedentes os pedidos
nos três casos. Pontuou que o crime de responsabilidade, por sua natureza jurídica político-constitucional, tem
caráter extrapenal, razão pela qual o Estado-membro pode legislar a respeito.
ADI 4764/AC, rel. Min. Celso de Mello, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento em
4.5.2017.
ADI 4797/MT, rel. Min. Celso de Mello, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento em
4.5.2017.
ADI 4798/PI, rel. Min. Celso de Mello, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento em
4.5.2017.
(Informativo 863, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Processamento de governador: autorização prévia da assembleia legislativa e suspensão de


funções
Não há necessidade de prévia autorização da assembleia legislativa para o recebimento de
denúncia ou queixa e instauração de ação penal contra governador de Estado, por crime comum,
cabendo ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), no ato de recebimento ou no curso do processo,
dispor, fundamentadamente, sobre a aplicação de medidas cautelares penais, inclusive afastamento
do cargo.
Com base nessa orientação, o Plenário, em conclusão e por maioria, julgou parcialmente
procedente pedido formulado em ação direta para: a) dar interpretação conforme ao art. 92, § 1º, I,
da Constituição do Estado de Minas Gerais para consignar não haver necessidade de autorização
prévia de assembleia legislativa para o recebimento de denúncia e a instauração de ação penal contra
governador de Estado, por crime comum, cabendo ao STJ, no ato de recebimento da denúncia ou no
curso do processo, dispor, fundamentadamente, sobre a aplicação de medidas cautelares penais,
inclusive afastamento do cargo; e b) julgar improcedente o pedido de declaração de
inconstitucionalidade da expressão “ou queixa” do art. 92, § 1º, I, da Constituição do Estado de
Minas Gerais — ver Informativos 851 e 855.
O referido dispositivo prevê que o governador será submetido a processo e julgamento perante
o STJ nos crimes comuns e será suspenso de suas funções, na hipótese desses crimes, se recebida a
denúncia ou a queixa pelo STJ.
Preliminarmente, o Colegiado, por maioria, conheceu da ação. Vencidos os ministros Dias
Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello.
No mérito, prevaleceu o voto do ministro Edson Fachin (relator), reajustado nesta sessão com
os acréscimos do voto do ministro Roberto Barroso no sentido do afastamento do cargo não se dar de
forma automática.
O relator afirmou a necessidade de superar os precedentes da Corte na dimensão de uma
redenção republicana e cumprir a promessa do art. 1º, caput, da Constituição Federal (CF), diante
dos reiterados e vergonhosos casos de negligência deliberada pelas assembleias legislativas
estaduais, que têm sistematicamente se negado a deferir o processamento de governadores.
Asseverou ser refutável a referida autorização prévia em razão de: a) ausência de previsão expressa e
inexistência de simetria; b) ofensa ao princípio republicano (CF, art. 1º, caput); c) ofensa à separação
de poderes (CF, art. 2º, caput”) e à competência privativa da União (CF, art. 22, I); e d) ofensa à igualdade (CF,
art. 5º, caput).
Esclareceu não haver na CF previsão expressa da exigência de autorização prévia de
assembleia legislativa para o processamento e julgamento de governador por crimes comuns perante
o STJ. Dessa forma, inexiste fundamento normativo-constitucional expresso que faculte aos Estados-membros
fazerem essa exigência em suas Constituições estaduais.

55
Não há, também, simetria a ser observada pelos Estados-membros. No ponto, o relator
considerou que, se o princípio democrático que constitui nossa República (CF, art. 1º, caput) se
fundamenta e se concretiza no respeito ao voto popular e à eleição direta dos representantes do povo,
qualquer previsão de afastamento do presidente da República é medida excepcional e, como tal, é
sempre prevista de forma expressa e taxativa, sem exceções.
O afastamento do presidente da República é medida excepcional, e, no caso de crime comum,
seu processamento e julgamento devem ser precedidos de autorização da Câmara dos Deputados
(CF, arts. 51, I; e 86, caput e § 1º, I). Essa exigência foi expressamente prevista apenas para
presidente da República, vice-presidente e ministros de Estado. Essa é uma decorrência das
características e competências que moldam e constituem o cargo de presidente da República, mas
que não se observam no cargo de governador.
Diante disso, verifica-se a extensão indevida de uma previsão excepcional válida para o
presidente da República, porém inexistente e inaplicável a governador. Sendo a exceção prevista de
forma expressa, não pode ser transladada como se fosse regra ou como se estivesse cumprindo a
suposta exigência de simetria para governador. As eventuais previsões em Constituições estaduais
representam, a despeito de se fundamentarem em suposto respeito à Constituição Federal, ofensa e
usurpação das regras constitucionais.
Segundo o relator, afastado o argumento de suposta obediência à simetria, a consequência da
exigência de autorização prévia de assembleia legislativa para processamento e julgamento de
governador por crime comum perante o STJ é o congelamento de qualquer tentativa de apuração
judicial das eventuais responsabilizações dos governadores por cometimento de crime comum. Essa
previsão afronta a responsividade exigida dos gestores públicos, o que viola o princípio republicano
do Estado.
A exigência viola, ainda, a separação de poderes, pois estabelece condição não prevista pela
CF para o exercício da jurisdição pelo Poder Judiciário. Assim, o STJ fica impedido de exercer suas
competências e funções até a autorização prévia do Poder Legislativo estadual. Esse tipo de restrição
é sempre excepcional e deve estar expresso na CF. Além disso, a previsão do estabelecimento de
condição de procedibilidade para o exercício da jurisdição penal pelo STJ consiste em norma
processual, matéria de competência privativa da União (CF, art. 22, I), portanto impossível de ser
prevista pelas Constituições estaduais.
O relator afirmou que estabelecer essa condição de procedibilidade equivale a alçar u m sujeito
à condição de desigual, supostamente superior por ocupar relevante cargo de representação. No
entanto, tal posição deveria ser, antes de tudo, a de servidor público. A autorização prévia de
assembleias estaduais para o processamento e julgamento de governador por crime comum perante o
STJ é, portanto, afronta cristalina à cláusula geral de igualdade estabelecida na CF.
Destacou que a Emenda Constitucional (EC) 35/2001 alterou a redação do art. 53, § 1º, da CF
e aboliu a exigência de autorização prévia das casas legislativas para o processamento e julgamento
de deputados federais e estaduais. O mesmo entendimento de valorização da igualdade e
accountability dos representantes do povo deve ser aplicado aos governadores, sem as exigências
prévias que consubstanciam privilégios e restrições não autorizados pela CF.
Por fim, sustentou inexistir inconstitucionalidade na expressão “ou queixa”, por considerá -la
coerente com o disposto no art. 105, I, “a”, da CF. Explicou que a CF não fez nenhuma distinç ão ao
se referir a “crimes comuns”, ou seja, não fez diferenciação entre crimes de ação penal pública ou
crimes de ação penal privada. Da mesma forma, a Constituição do Estado de Minas Gerais previu o
afastamento do governador no caso de recebimento de denúncia ou queixa.
Nesta assentada, o ministro Roberto Barroso esclareceu acompanhar o relator, e o ministro
Marco Aurélio esclareceu, ultrapassada a preliminar de admissibilidade da ação, também
acompanhar o relator.
Vencidos os ministros Dias Toffoli e Celso de Mello, que julgaram improcedente a ação, na
linha da jurisprudência até então prevalecente na Corte no sentido de considerar legítimas as normas
de Constituições estaduais que subordinam a deflagração formal de um processo acusatório contra o
governador a um juízo político da assembleia legislativa local.
ADI 5540/MG, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 3.5.2017.
(Informativo 860, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte :

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Alteração de limites de municípios e plebiscito
O Plenário, em conclusão de julgamento, reputou parcialmente procedente pedido formulado em
ação direta para declarar a inconstitucionalidade da Lei 3.196/1999 e para não conhecer da ação quanto à
Lei 2.497/1995, ambas do Estado do Rio de Janeiro. As normas impugnadas estabelecem os novos limites
territoriais dos Municípios de Cantagalo e Macuco — Informativos 495, 776 e 786.
No que se refere à Lei estadual 3.196/1999, o Colegiado apontou ofensa ao § 4º do art. 18 da
Constituição Federal (CF) (1), tendo em conta a ausência de consulta prévia, mediante plebiscito, às
populações dos municípios envolvidos.
A respeito da Lei estadual 2.497/1995, entendeu que o diploma foi elaborado antes do parâmetro
constitucional estabelecido pela EC 15/1996, tido por violado.
Por fim, o Colegiado, por maioria, decidiu não modular os efeitos da decisão, em razão da
impossibilidade de repristinação da Lei 2.497/1995 para disciplinar os limites territoriais entre os
Municípios de Cantagalo e Macuco, haja vista o trânsito em julgado de mandado de segurança, julgado
pelo TJ/RJ, em que expressamente declarada a invalidade do aludido diploma legal.
Vencidos, quanto à modulação, os ministros Teori Zavascki e Celso de Mello.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil
compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição. § 4º A
criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de Municípios, far-se-ão por lei estadual, dentro do período determinado por
Lei Complementar Federal, e dependerão de consulta prévia, mediante plebiscito, às populações dos Municípios envolvidos, após
divulgação dos Estudos de Viabilidade Municipal, apresentados e publicados na forma da lei”.
ADI 2921/RJ, rel. orig. Min. Ayres Britto, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento em
9.8.2017.
(Informativo 872, Plenário)

Amianto e competência legislativa concorrente


O Plenário, em conclusão e por maioria, julgou improcedente ação direta ajuizada contra a Lei
12.684/2007, do Estado de São Paulo, que proíbe o uso de produtos, materiais ou artefatos que contenham
quaisquer tipos de amianto no território estadual. Além disso, declarou incidentalmente a
inconstitucionalidade do artigo 2º da Lei 9.055/1995 (1), que permite a extração, industrialização,
comercialização e a distribuição do uso do amianto na variedade crisotila no País (vide Informativos 686,
848 e 872).
O Colegiado salientou que, no tocante à competência legislativa para normatizar a matéria, a
necessidade de busca, na Federação, de um ponto de estabilidade entre centralização e descentralização.
Dessa forma, compete concorrentemente à União a edição de normas gerais e aos Estados-Membros
suplementar a legislação federal no que couber [Constituição Federal (CF), art. 24, §§ 1º e 2º] (2).
Somente na hipótese de inexistência de lei federal é que os Estados-Membros exercerão competência
legislativa plena (CF, art. 24, § 3º) (2). Sobrevindo lei federal dispondo sobre normas gerais, a lei estadual
terá sua eficácia suspensa naquilo que contrariar a federal (CF, art. 24, § 4º) (2). De igual modo, aos
Municípios compete legislar sobre assuntos de interesse local e suplementar a legislação federal ou
estadual no que couber (CF, art. 30, I e II) (3).
Frisou ser imperativo que a competência concorrente exercida pela União englobe os interesses
nacionais, que não podem ser limitados às fronteiras estaduais. Entretanto, a competência federal para
editar normas gerais não permite que o ente central esgote toda a disciplina normativa, sem deixar
competência substancial para o Estado-Membro. Isso significa, também, não se admitir que a legislação
estadual possa adentrar a competência da União e disciplinar a matéria de forma contrária à norma geral
federal.
No caso, a Lei 9.055/1995 admite, de modo restrito, o uso do amianto, de modo que a legislação
local não poderia, em tese, proibi-lo totalmente. Porém, no momento atual, a legislação nacional sobre o
tema não mais se compatibiliza com a Constituição, razão pela qual os Estados-Membros passaram a ter
competência legislativa plena sobre a matéria até que sobrevenha eventual nova lei federal.
A Corte ressaltou que o processo de inconstitucionalização da Lei 9.055/1995 se operou em razão
de mudança no substrato fático da norma. A discussão em torno da eventual necessidade de banimento do
amianto é diferente da que havia quando da edição da norma geral. Se, antes, tinha-se notícia de possíveis
danos à saúde e ao meio ambiente ocasionados pela utilização da substância, hoje há consenso em torno
da natureza altamente cancerígena do mineral e da inviabilidade de seu uso de forma segura. Além disso,
atualmente, o amianto pode ser substituído por outros materiais (fibras de PVA e PP), sem propriedade
carcinogênica e recomendados pela Anvisa.

57
Portanto, revela-se a inconstitucionalidade material superveniente da Lei 9.055/1995, por ofensa
ao direito à saúde [CF, arts. 6º (4) e 196 (5)], ao dever estatal de redução dos riscos inerentes ao trabalho
por meio de normas de saúde, higiene e segurança [CF, art. 7º, XXII (6)], e à proteção do meio ambiente
[CF, art. 225 (7)].
Diante da invalidade da norma geral federal, os Estados-Membros passam a ter competência
legislativa plena sobre a matéria, até sobrevinda eventual de nova legislação federal. Como a lei estadual
questionada proíbe a utilização do amianto, ela não incide no mesmo vício de inconstitucionalidade
material da lei federal.
Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Luiz Fux que julgaram procedente a ação. O
ministro Marco Aurélio concluiu pela constitucionalidade do art. 2º da Lei 9.055/1995, bem como pela
inconstitucionalidade da legislação estadual, por inadequação ao art. 24, V, VI, XII, e § 3º, da CF (8).
Já o ministro Luiz Fux, entendeu que os Estados-Membros não tem competência legislativa para
proibir atividade expressamente admitida na Lei 9.055/1995. Pontuou que a matéria tratada pela Lei
estadual transcende os limites de competência do Estado-membro porque também trata de matéria de
Direito do Trabalho e Comércio Interestadual, que são de competência da União.
Vencido parcialmente o ministro Alexandre de Moraes, que julgou improcedente a ação, sem
declaração incidental de constitucionalidade. Para ele, a competência legislativa dos Estados-membros
deve ser ampliada, tendo em vista as diversas características locais.

(1) Lei 9.055/1995: “Art. 2º O asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco), do grupo dos minerais das
serpentinas, e as demais fibras, naturais e artificiais de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim, serão extraídas,
industrializadas, utilizadas e comercializadas em consonância com as disposições desta Lei”.
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: (...) § 1º No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais. § 2º A
competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. § 3º Inexistindo lei
federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades. § 4º A
superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário”.
(3) Constituição Federal/1988: “Art. 30. Compete aos Municípios: I - legislar sobre assuntos de interesse local; II -
suplementar a legislação federal e a estadual no que couber”.
(4) Constituição Federal/1988: “Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o
transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na
forma desta Constituição”.
(5) Constituição Federal/1988: “Art. 196 A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais
e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para
sua promoção, proteção e recuperação”.
(6) Constituição Federal/1988: “Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social: XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e
segurança”.
(7) Constituição Federal/1988: “Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
(8) Constituição Federal/1988: “Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: (...) V - produção e consumo; VI - florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos
naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; (...) XII - previdência social, proteção e defesa da saúde; (...)§ 3º
Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas
peculiaridades”.
ADI 3937/SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento em
24.8.2017.
(Informativo 874, Plenário)

Competência legislativa concorrente e direito ambiental


O Plenário julgou improcedente ação direta de inconstitucionalidade ajuizada pelo governador do
Estado de Santa Catarina, contra os arts. 4º (1) e 8º, parágrafo único (2), da Lei estadual 11.078/1999, que
estabelece normas sobre controle de resíduos de embarcações, oleodutos e instalações costeiras.
No caso, aponta-se ofensa ao art. 22, caput e I (3), da Constituição Federal (CF), por ser
competência privativa da União legislar sobre direito marítimo e civil. Alega-se, ainda, a existência de
ofensa à Convenção sobre Prevenção da Poluição Marinha por Alijamento de Resíduos e Outras Matérias,
concluída em Londres, em 29.9.1972, e promulgada no Brasil pelo Decreto 87.566/1982.
Primeiramente o Colegiado não conheceu do pedido de declaração de inconstitucionalidade quanto
à ofensa à referida convenção, promulgada pelo Decreto 87.566/1982. Esclareceu que a jurisprudência da
Corte não admite o exame de contrariedade à norma infraconstitucional em sede de controle concentrado
de constitucionalidade.

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No mérito, o Plenário entendeu que as questões atinentes a direito marítimo não constituem o
objeto principal do art. 4º da Lei 11.078/1999, do Estado de Santa Catarina. A tutela ao meio ambiente é o
seu principal escopo. Na mesma linha, afirmou que não se trata, no art. 8º desse diploma estadual, de
legislação sobre responsabilidade civil. O caso é de responsabilidade do agente causador por dano ao
meio ambiente, nos limites do disposto no art. 24, VIII (4), da CF. É, portanto, matéria de competência
legislativa concorrente.
Nesse contexto, o Colegiado esclareceu que cabe à União editar normas gerais que traçam um
plano, sem estabelecer pormenores. A competência legislativa dos Estados-membros e do Distrito Federal
é de caráter suplementar [CF, art. 24, § 2º (5)].
Todavia, diante da ausência de lei com normas gerais, o Estado-Membro pode legislar
amplamente, até que seja editada referida lei [CF, art. 24, §§ 3º e 4º (6)]. Assim, tendo em vista que, à
época da edição da Lei 11.078/1999, não havia lei geral sobre o tema, o Estado de Santa Catarina tinha
competência legislativa plena nessa matéria.

(1) Lei 11.078/1999 do Estado de Santa Catarina: “Art. 4º - As embarcações deverão contar com sistemas adequados para
receber, selecionar e dispor seus próprios resíduos, que serão descartados somente em instalações terrestres”.
(2) Lei 11.078/1999 do Estado de Santa Catarina: “Art. 8º - Em caso de derrame, vazamento ou deposição acidental de
óleo, em trato d’água ou solo, as despesas de limpeza e restauração da área e bens atingidos, assim como a destinação final dos
resíduos gerados, serão de responsabilidade do porto, terminal, embarcação ou instalação em que ocorreu o incidente. Parágrafo
único – É proibido o emprego de produtos químicos no controle de eventuais derrames de óleo”.
(3) Constituição Federal/1988: “Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal,
processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho”.
(4) Constituição Federal/1988: “Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: (...)VIII - responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico,
turístico e paisagístico”.
(5) Constituição Federal/1988: “Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: (...) § 2º A competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados”.
(6) Constituição Federal/1988: “Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: (...) 3º Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas
peculiaridades. § 4º A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for
contrário”.

ADI 2030/SC, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 9.8.2017 .


(Informativo 872, Plenário)

Direito à saúde e amianto


Em julgamento desprovido de eficácia vinculante por não alcançar o quórum exigido pelo art. 97
(1) da Constituição Federal (CF) em razão de impedimento dos ministros Roberto Barroso e Dias Toffoli,
o Plenário, em conclusão, não pronunciou juízo de constitucionalidade ou inconstitucionalidade do art. 2º
da Lei 9.055/1995 (2), que disciplina a extração, industrialização, utilização, comercialização e transporte
do asbesto/amianto crisotila e dos produtos que o contenham. (vide Informativo 873).
Os ministros Rosa Weber (relatora), Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e
Cármen Lúcia (presidente) julgaram procedente o pedido e declaram a inconstitucionalidade do art. 2º da
Lei 9.055/1995.
A relatora consignou que, diante das determinações constitucionais direcionadas ao legislador, a
tolerância ao uso do amianto crisotila, tal como positivada no art. 2º da Lei 9.055/1995, não protege
adequada e suficientemente os direitos fundamentais à saúde e ao meio ambiente, tampouco se alinha aos
compromissos internacionais de caráter supralegal assumidos pelo Brasil, sendo caso de
inconstitucionalidade por proteção insuficiente.
O ministro Edson Fachin reconheceu a existência de omissão caracterizada por proteção
insuficiente à saúde e ao meio ambiente, precisamente, porque, 22 anos depois da entrada em vigor da
norma atacada, o conjunto das circunstâncias técnico-científicas precisa ser revisitado.
O ministro Ricardo Lewandowski afirmou não haver dúvida, na comunidade científica mundial e
brasileira, quanto ao potencial cancerígeno de todas as variedades do amianto, inclusive do crisotila. Para
ele, ainda que houvesse alguma dúvida com relação à lesividade do amianto crisotila para a saúde
humana, é o caso de se aplicar o princípio da precaução, segundo o qual, para que o ambiente seja
protegido, serão aplicadas pelos Estados, de acordo com as suas capacidades, medidas preventivas. Onde
existam ameaças de riscos sérios ou irreversíveis, não será utilizada a falta de certeza científica total como
razão para o adiamento de medidas eficazes, em termos de custo, para evitar a degradação ambiental.
O ministro Celso de Mello ressaltou que a legislação federal ora em exame mostra-se incompatível
com valores básicos e direitos fundamentais consagrados pela ordem constitucional, pois não dispensa
tutela adequada e proteção suficiente ao direito à saúde, a revelar situação configuradora de

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inconstitucionalidade por omissão, resultante da falta ou da realização incompleta e imperfeita de um
programa social que deveria ter sido efetivamente assumido e implementado pelo Estado. Segundo o
ministro, o conteúdo material do preceito normativo em causa também vulnera a cláusula inscrita no art.
225 da Constituição da República, que consagra o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
A ministra Cármen Lúcia assentou a importância do princípio da precaução para a manutenção do
meio ambiente equilibrado.
Já os ministros Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Gilmar Mendes e Marco Aurélio reputaram
improcedente o pleito e declaram constitucional a norma impugnada.
O ministro Alexandre de Moraes salientou que, ao autorizar somente a variedade amianto crisotila,
a norma visou proteger a saúde e o meio ambiente equilibrado. O caráter protetivo da legislação ficou
demonstrado na medida em que veda expressamente outras formas de amianto. Ademais, ao permitir a
exploração do amianto crisotila, a norma impõe inúmeras restrições, além de observância contínua e
permanente da evolução da legislação sobre segurança, higiene, medicina do trabalho, acordos e
convenções internacionais e dos acordos entre sindicatos de empregados e empregadores.
O ministro Luiz Fux enfatizou que há uma profunda controvérsia na comunidade científica em
relação ao amianto, o que recomenda a autorrestrição do Poder Judiciário.
O ministro Gilmar Mendes ponderou que esse é um caso limítrofe, em termos de jurisdição
constitucional. Para ele, talvez se devesse adotar um juízo sensório na constatação de uma possível
caminhada rumo à inconstitucionalização. Seria o caso de recomendar que o Congresso reavaliasse o
sistema adotado, o que poderia levar até, eventualmente, à supressão da exploração. Entretanto, sublinhou
que a hipótese não seria de declaração de inconstitucionalidade de caráter cassatório.
O ministro Marco Aurélio afirmou que, ao declarar a inconstitucionalidade do dispositivo legal, o
Poder Judiciário substituiu o Congresso Nacional, em ofensa a independência e a harmonia entre os
Poderes.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 97 Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do
respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público”.
(2) Lei 9055/1995: “Art. 2º O asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco), do grupo dos minerais das
serpentinas, e as demais fibras, naturais e artificiais de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim, serão extraídas,
industrializadas, utilizadas e comercializadas em consonância com as disposições desta Lei. Parágrafo único. Para os efeitos desta
Lei, consideram-se fibras naturais e artificiais as comprovadamente nocivas à saúde humana”.
ADI 4066/DF, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 23 e 24.8.2017.
(Informativo 874, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte: 1ª Parte:
2ª Parte: 3ª Parte:

Julgamento de governador por crimes comuns e de responsabilidade e competência


legislativa
É vedado às unidades federativas instituírem normas que condicionem a instauração de ação penal
contra o governador por crime comum à prévia autorização da casa legislativa, cabendo ao Superior
Tribunal de Justiça (STJ) dispor fundamentadamente sobre a aplicação de medidas cautelares penais,
inclusive o afastamento do cargo.
Com esse entendimento, o Plenário, em conclusão e por maioria, julgou procedentes pedidos
formulados em ações diretas para declarar a inconstitucionalidade de dispositivos e expressões contidas
em normas das Constituições dos Estados da Bahia e do Rio Grande do Sul e da Lei Orgânica do Distrito
Federal. As normas questionadas tratam do condicionamento de instauração penal contra governador por
crime comum à prévia autorização da casa legislativa; do julgamento de governador, por crime de
responsabilidade, pela casa legislativa; e do afastamento automático do governador de suas funções
quando recebida a denúncia ou a queixa-crime.
O Colegiado citou a Súmula Vinculante 46, segundo a qual a definição dos crimes de
responsabilidade e o estabelecimento das respectivas normas de processo e julgamento são da
competência legislativa privativa da União. São, portanto, inválidas as normas de constituição estadual
que atribuam o julgamento de crime de responsabilidade à assembleia legislativa, em desacordo com a
Lei 1.079/1950.
Além disso, a constituição estadual não pode condicionar a instauração de processo judicial por
crime comum contra governador à licença prévia da assembleia legislativa. A República, que inclui a
ideia de responsabilidade dos governantes, é princípio constitucional de observância obrigatória, de modo
que a exceção prevista no art. 51, I (1), da CF é norma de reprodução proibida pelos Estados-Membros.

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Ademais, tendo em vista que as constituições estaduais não podem estabelecer a chamada “licença
prévia”, também não podem autorizar o afastamento automático do governador de suas funções quando
recebida a denúncia ou a queixa-crime pelo STJ.
Vencido o ministro Dias Toffoli (relator), que julgou parcialmente procedentes os pedidos, para
considerar válidas as normas que determinam a necessidade de autorização prévia da casa legislativa para
instauração de ação penal contra governador. Salientou que, à época de seu voto, era essa a orientação
jurisprudencial do STF sobre o tema.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 51. Compete privativamente à Câmara dos Deputados: I – autorizar, por dois terços de
seus membros, a instauração de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado”.
ADI 4777/BA, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o acórdão Min. Roberto Barroso,
julgamento em 9.8.2017.
ADI 4674/RS, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o acórdão Min. Roberto Barroso,
julgamento em 9.8.2017.
ADI 4362/DF, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o acórdão Min. Roberto Barroso,
julgamento em 9.8.2017.
(Informativo 872, Plenário)

Atividades privativas de nutricionista e livre exercício profissional


É constitucional a expressão “privativas”, contida no caput do art. 3º (1) da Lei 8.234/1991, que
regulamenta a profissão de nutricionista, respeitado o âmbito de atuação profissional das demais
profissões regulamentadas.
Com base nessa orientação, o Plenário, por maioria, julgou improcedente pedido formulado em
ação direta ajuizada contra o referido dispositivo legal.
O Tribunal afirmou que a Constituição, ao admitir que lei restrinja o exercício das profissões,
especificando requisitos mínimos ao exercício de atividades técnicas, apresenta-se como exceção à regra
geral da liberdade de exercício profissional. Essas restrições legais precisam ser proporcionais e
necessárias e estão restritas às “qualificações profissionais” — formação técnico/científica indispensável
para o bom desempenho da atividade.
O caso da profissão de nutricionista requer conhecimentos técnicos e científicos específicos para o
desempenho de suas funções.
O Colegiado ressaltou que as atribuições dos profissionais de nível médio são essencialmente
diversas daquelas atribuídas com exclusividade aos profissionais de nível superior.
A norma impugnada enumerou como privativas dos nutricionistas atividades eminentemente
técnicas que não se confundem com aquelas desempenhadas por outros profissionais de nível médio.
Portanto, não há inconstitucionalidade na exigência de nível superior em nutrição para atividades
eminentemente acadêmicas, a exemplo da direção, coordenação e supervisão de cursos de graduação;
planejamento, organização, direção, supervisão e avaliação de estudos dietéticos; ensino das matérias
profissionais dos cursos de graduação em nutrição; e ensino das disciplinas de nutrição e alimentação nos
cursos de graduação da área de saúde e outras afins.
Por outro lado, as atividades de planejamento, organização, direção, supervisão e avaliação de
serviços pertinentes à alimentação e nutrição, consultório de nutrição e dietética, e de assistência
dietoterápica hospitalar, ambulatorial e em consultório de nutrição não impedem nem prejudicam aquelas
pertinentes a outras áreas de nível superior, notadamente referentes a bioquímicos e médicos nutrólogos.
Assim, é imperativo destacar que existem ressalvas com relação a outras categorias profissionais,
tais como gastroenterologistas, nutrólogos, bioquímicos e demais profissões que, conquanto lidem com
atividades correlatas, não têm seu exercício tolhido pela regulamentação da profissão de nutricionista.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que julgou procedente o pedido formulado para declarar a
inconstitucionalidade do vocábulo “privativas”, constante do art. 3º da referida lei. Pontuou que o art. 5º,
XIII (2) da CF revela a liberdade no exercício de qualquer trabalho, ofício, ou profissão, atendidas as
qualificações profissionais que a lei estabelecer.

(1) Lei 8.234/1991: “Art. 3º São atividades privativas dos nutricionistas: I - direção, coordenação e supervisão de cursos de
graduação em nutrição; II - planejamento, organização, direção, supervisão e avaliação de serviços de alimentação e nutrição; III -
planejamento, coordenação, supervisão e avaliação de estudos dietéticos; IV - ensino das matérias profissionais dos cursos de
graduação em nutrição; V - ensino das disciplinas de nutrição e alimentação nos cursos de graduação da área de saúde e outras afins;
VI - auditoria, consultoria e assessoria em nutrição e dietética; VII - assistência e educação nutricional e coletividades ou indivíduos,
sadios ou enfermos, em instituições públicas e privadas e em consultório de nutrição e dietética; VIII - assistência dietoterápica

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hospitalar, ambulatorial e a nível de consultórios de nutrição e dietética, prescrevendo, planejando, analisando, supervisionando e
avaliando dietas para enfermos”.
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: (...) XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações
profissionais que a lei estabelecer”.
ADI 803/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 28.9.2017.
(Informativo 879, Plenário)

Extinção de Tribunais de Contas dos Municípios


A Constituição Federal não proíbe a extinção de Tribunais de Contas dos Municípios.
Esse é o entendimento do Plenário que, por maioria, julgou improcedente pedido formulado em
ação direita de inconstitucionalidade ajuizada contra emenda à Constituição do Estado do Ceará, que
extinguiu o Tribunal de Contas dos Municípios desse ente federado.
A requerente asseverou que a promulgação da citada emenda consiste em desvio do poder de
legislar. Sustentou que o ato atacado foi aprovado como retaliação por parlamentares que tiveram, na
condição de gestores municipais, as contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios do Estado
do Ceará.
O Colegiado entendeu que a fraude na edição de lei com o objetivo de alcançar finalidade diversa
do interesse público deve ser explicitada e comprovada. A mera menção à existência de parlamentares
com contas desaprovadas não conduz à conclusão de estarem viciadas as deliberações cujo tema é a
atividade de controle externo.
As alegações de ausência de economia orçamentária e perda de eficiência com a promulgação da
emenda questionada são insuficientes para configurar a inconstitucionalidade do ato. É impertinente, no
processo objetivo, adentrar questões fáticas como, por exemplo, a produção do Tribunal de Contas dos
Municípios e do Tribunal de Contas do Estado.
Afastado o desvio de poder de legislar arguido na petição inicial, cumpre analisar o argumento
segundo o qual o art. 31, § 1º e § 4º (1), da Constituição Federal impede a extinção de Tribunais de
Contas dos Municípios mediante norma de Constituição estadual.
Os Estados, considerada a existência de tribunal de contas estadual e de tribunais de contas
municipais, podem optar por concentrar o exame de todas as despesas em apenas um órgão, sem prejuízo
do efetivo controle externo. O meio adequado para fazê-lo é a promulgação de norma constitucional local.
O legislador constituinte permitiu a experimentação institucional dos entes federados, desde que não
fossem criados conselhos ou tribunais municipais, devendo ser observado o modelo federal, com ao
menos um órgão de controle externo.
É possível, portanto, a extinção de tribunal de contas responsável pela fiscalização dos Municípios
por meio da promulgação de Emenda à constituição estadual, pois a Constituição Federal não proibiu a
supressão desses órgãos.
Não se faz necessária a participação dos Municípios no processo, sobretudo quando considerado
que a estrutura de controle externo é integralmente arcada pelo Estado.
Quanto à iniciativa, a requerente sustenta a inconstitucionalidade da propositura por parlamentar.
O poder constituinte originário viabilizou aos tribunais de contas disporem sobre a própria
organização e funcionamento, e o fez com o propósito de assegurar-lhes a autonomia necessária para
exercer atividade fundamental à integridade do erário.
Essa norma protetiva não impede a extinção do Tribunal de Contas dos Municípios mediante
emenda cujo processo de elaboração tenha sido deflagrado por deputados estaduais. O rito de
emendamento constitucional observa regras próprias no tocante à iniciativa. Ante a densidade
representativa envolvida no procedimento de reconfiguração da ordem constitucional, a regra para
apresentação de emenda é mais rigorosa, atingindo as entidades políticas que efetivamente traduzam a
vontade popular manifestada por meio do sufrágio.
Segundo a Constituição do Estado do Ceará, propostas de emendas constitucionais podem ser
apresentadas por 1/3 dos membros da Assembleia Legislativa, pelo Governador do Estado ou por mais da
metade das Câmaras Municipais. No caso, o foi por deputados estaduais, consoante determinado na Carta
Estadual.
É inviável, a partir de leitura sistemática dos preceitos constitucionais, assentar a impossibilidade de
emenda à Constituição, de iniciativa parlamentar, versar a extinção de tribunal de contas estadual.

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A requerente sustenta que a tramitação da proposta de emenda à Constituição violou o princípio
democrático, a inviabilizar a plena atuação da minoria parlamentar. Descreve, na petição inicial, atos
praticados no processamento da emenda (pedido de vista, questões de ordem e recursos), que alega
contrariarem o Regimento Interno da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e a Constituição
Federal.
Descabe potencializar o princípio democrático, transformando-o em alavanca para ingerência do
Supremo Tribunal Federal (STF) no Legislativo. A intervenção judicial pressupõe, no campo do controle
concentrado, ofensa à Constituição Federal. As alegadas violações ao Regimento Interno não autorizam,
por si sós, a atuação do STF no campo do controle concentrado, exceto quando revelam a subversão de
norma constitucional, à qual a produção legislativa deve amoldar-se. No caso concreto, não foi o que
ocorreu. Ademais, o princípio democrático não pode ser utilizado como guarda-chuva de regras
regimentais em vigor no território nacional, o que transformaria o STF no guardião de todo e qualquer
procedimento legislativo.
Vencido o ministro Alexandre de Moraes, que julgou procedente o pedido, acompanhado pelo
ministro Gilmar Mendes.
Pontuou que o art. 75 (2) da Constituição Federal impede a extinção desses órgãos de controle.
Além disso, entendeu haver ocorrido desvio de finalidade e que a referida emenda violou o princípio
sensível previsto no art. 34, VII, “d” (3), da Constituição Federal.

(1) CF/1988: “Art. 31. A fiscalização do Município será exercida pelo Poder Legislativo Municipal, mediante controle
externo, e pelos sistemas de controle interno do Poder Executivo Municipal, na forma da lei. § 1º O controle externo da Câmara
Municipal será exercido com o auxílio dos Tribunais de Contas dos Estados ou do Município ou dos Conselhos ou Tribunais de
Contas dos Municípios, onde houver. [...] § 4º É vedada a criação de Tribunais, Conselhos ou órgãos de Contas Municipais”.
(2) CF/1988: “Art. 75. As normas estabelecidas nesta seção aplicam-se, no que couber, à organização, composição e
fiscalização dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, bem como dos Tribunais e Conselhos de Contas dos
Municípios”.
(3) CF/1988: “Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para: [...] VII - assegurar a
observância dos seguintes princípios constitucionais: [...] d) prestação de contas da administração pública, direta e indireta”.
ADI 5763/CE, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 26.10.2017.
(Informativo 883, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 1ª Parte: 2ª Parte:

ADI: amianto e efeito vinculante de declaração incidental de inconstitucionalidade


O Supremo Tribunal Federal (STF), por maioria, julgou improcedentes pedidos formulados em
ações diretas de inconstitucionalidade ajuizadas contra a Lei nº 3.579/2001 do Estado do Rio de Janeiro.
O referido diploma legal proíbe a extração do asbesto/amianto em todo território daquela unidade da
Federação e prevê a substituição progressiva da produção e da comercialização de produtos que o
contenham.
A Corte declarou, também por maioria e incidentalmente, a inconstitucionalidade do art. 2º(1) da
Lei federal nº 9.055/1995, com efeito vinculante e “erga omnes”. O dispositivo já havia sido declarado
inconstitucional, incidentalmente, no julgamento da ADI 3.937/SP (rel. orig. min. Marco Aurélio, red. p/
o ac. min. Dias Toffoli, julgamento em 24.8.2017).
A partir da manifestação do ministro Gilmar Mendes, o Colegiado entendeu ser necessário, a fim
de evitar anomias e fragmentação da unidade, equalizar a decisão que se toma tanto em sede de controle
abstrato quanto em sede de controle incidental. O ministro Gilmar Mendes observou que o art. 535 (2) do
Código de Processo Civil reforça esse entendimento. Asseverou se estar fazendo uma releitura do
disposto no art. 52, X (3), da CF, no sentido de que a Corte comunica ao Senado a decisão de declaração
de inconstitucionalidade, para que ele faça a publicação, intensifique a publicidade.
O ministro Celso de Mello considerou se estar diante de verdadeira mutação constitucional que
expande os poderes do STF em tema de jurisdição constitucional. Para ele, o que se propõe é uma
interpretação que confira ao Senado Federal a possibilidade de simplesmente, mediante publicação,
divulgar a decisão do STF. Mas a eficácia vinculante resulta da decisão da Corte. Daí se estaria a
reconhecer a inconstitucionalidade da própria matéria que foi objeto deste processo de controle abstrato,
prevalecendo o entendimento de que a utilização do amianto, tipo crisotila e outro, ofende postulados
constitucionais e, por isso, não pode ser objeto de normas autorizativas. A ministra Cármen Lúcia, na
mesma linha, afirmou que a Corte está caminhando para uma inovação da jurisprudência no sentido de
não ser mais declarado inconstitucional cada ato normativo, mas a própria matéria que nele se contém. O
ministro Edson Fachin concluiu que a declaração de inconstitucionalidade, ainda que incidental, opera
uma preclusão consumativa da matéria. Isso evita que se caia numa dimensão semicircular progressiva e
sem fim. E essa afirmação não incide em contradição no sentido de reconhecer a constitucionalidade da
lei estadual que também é proibitiva, o que significa, por uma simetria, que todas as legislações que são

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permissivas — dada a preclusão consumativa da matéria, reconhecida a inconstitucionalidade do art. 2º da
lei federal — são também inconstitucionais.
Em divergência, o ministro Marco Aurélio afirmou que o fenômeno previsto no inciso X do art. 52
da CF — regra que atende a independência e harmonia entre os poderes — é constitutivo e não
simplesmente declaratório, visto que diz respeito à suspensão da execução da lei no território nacional.
Quanto à improcedência dos pedidos, prevaleceu o voto da ministra Rosa Weber (Relatora).
A ministra Rosa Weber entendeu que a competência legislativa dos Estados não é plena, e sim
suplementar. Por isso, a norma estadual não pode confrontar a norma federal, de modo a provocar o seu
afastamento. No caso, a Lei nº 3.579/2001, ao regular aspectos da exploração do amianto relacionados a
produção e consumo, proteção do meio ambiente e controle da poluição e proteção e defesa da saúde, não
excede dos limites da competência suplementar dos Estados, no tocante a essas matérias.
Reputou que a lei atacada não possui conteúdo normativo que leve ao afastamento da norma geral
consubstanciada na Lei nº 9.055/1995. A lei federal é norma geral editada pela União no exercício da
limitada competência de conformação normativa conferida pelo art. 24, § 1º, da Constituição da
República.
No ponto, asseverou que os artigos 3º, 4º e 5º da Lei nº 3.579/2001, que proíbem a utilização, a
pulverização (spray) e a venda a granel de qualquer tipo de asbesto contemplam enunciados normativos
em tudo congruentes com o art. 1º, I, II e III, da Lei nº 9.055/1995. Por sua vez, os artigos 2º e 6º do
diploma estadual impugnado, que vedam no território do Estado do Rio de Janeiro, a extração, a
fabricação e a comercialização de produtos que contenham asbesto de qualquer tipo, traduzem o devido
exercício, pelo legislador fluminense, da competência concorrente suplementar, a teor do art. 24, V, VI e
XII, e § 2º, da Constituição da República.
Para a ministra Rosa Weber, a Lei nº 9.055/1995, como norma geral que é, adota uma postura
teleológica, frente à exploração econômica do amianto, e reconhece seus riscos e a necessidade de
controle. Define as condições mínimas a serem observadas para que a exploração do asbesto da variedade
crisotila seja tolerada como lícita. A simples tolerância não vincula a atividade legislativa de Estados e
Municípios. De modo algum ostenta eficácia preemptiva de atividade legislativa estadual que, no
exercício legítimo da competência concorrente, venha a impor controles mais rígidos ou proibitivos.
Portanto, a Lei nº 9.055/1995 e a Lei nº 3.579/2001 estão orientadas na mesma direção, tendo a legislação
estadual complementar, no caso, apenas avançado onde o legislador federal preferiu se conter. Ao impor
um nível de proteção mínima a ser observado em todos os Estados da Federação, a Lei nº 9.055/1995 não
pode ser interpretada como obstáculo à maximização dessa proteção, conforme escolha dos Estados,
individualmente considerados. A proibição progressiva encartada na legislação estadual em apreço está
alinhada à diretriz norteadora e à teleologia do regime previsto na Lei nº 9.055/1995.
A mesma conclusão de ausência de inconstitucionalidade formal conduz ao entendimento de que
inconstitucional, e em consequência nulo e ineficaz, o art. 2º da Lei nº 9.055/1995, a atrair, por si só, a
incidência do art. 24, § 3º, da Lei Maior, segundo o qual “inexistindo lei federal sobre normas gerais, os
Estados exercerão a competência legislativa plena”. Por isso, infundada a alegada afronta ao art. 24, V,
VI e XII, e §§ 1º a 4º, da Constituição Federal.
Também rejeitou a alegada inconstitucionalidade formal, seja ao fundamento da usurpação da
competência privativa da União, seja ao fundamento de vício de iniciativa. Observou que o art. 7º do
diploma fluminense estabelece limites de tolerância à exposição a fibras de amianto no ambiente de
trabalho. Não expressa norma trabalhista em sentido estrito, mas de proteção do meio ambiente. Já os
arts. 8º e 9º da lei fluminense disciplinam a rotulagem de produto quando no território do Estado, o que
não representa legislar sobre comércio interestadual.
Esclareceu que os arts. 7º, XII, XIII e XVII, e 10 da lei estadual, de iniciativa parlamentar, de fato
incorriam em vício de iniciativa, a teor do art. 84, II e VI, “a”, da Lei Maior, na esteira da jurisprudência
do STF, enquanto definiam procedimentos a serem observados pela Secretaria de Saúde do Estado do Rio
de Janeiro e assinalavam atribuições a servidores do Poder Executivo. Todavia, reconhecida a
constitucionalidade do seu art. 2º, e considerado o prazo de quatro anos, contados da sua publicação, para
a fabricação e a comercialização de produtos contendo amianto crisotila em sua composição, já exauridos
os efeitos dos seus arts. 7º, 8º, 9º e 10, pelo que não mais sujeitos ao controle de constitucionalidade em
sede abstrata.
Por fim, afastou a apontada inconstitucionalidade material da lei impugnada, por ofensa aos artigos
1º, IV, 5º, caput, II, XXII e LIV, e 170, caput, II, IV e parágrafo único, da CF. Explicou que, informada
pelo consenso técnico e científico hoje estabelecido, no tocante às premissas fáticas de que (i) todos os
tipos de amianto provocam câncer, não tendo sido identificado nenhum limite para o risco carcinogênico

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do crisotila, e (ii) a sua substituição se mostra absolutamente viável sob o aspecto econômico, a lógica da
inconstitucionalidade da proteção insuficiente ampara a conclusão de que não desarrazoadas as iniciativas
legislativas relativas à sua regulação, em qualquer nível federativo, ainda que resultem no banimento de
todo e qualquer uso do amianto.
Vencidos o ministro Marco Aurélio, que votou pela procedência do pedido, reportando-se ao voto
por ele proferido na ADI 3.937/SP e, em parte, o ministro Alexandre de Moraes, que, por considerar que
o art. 2º da Lei nº 9.055/1995, norma geral, é constitucional e não foi extirpado do ordenamento jurídico,
julgou parcialmente procedente os pedidos para dar interpretação conforme ao art. 2º e ao art. 3º, ambos
da Lei 3.579/2001 do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente, no sentido de que fica proibida, em todo
o território do Estado do Rio de Janeiro, a extração de asbesto, excluída a variedade crisotila, e de que
fica proibida a utilização de asbesto, excluída a variedade crisotila.

(1) Lei nº 9.055/1995: “Art. 2º O asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco), do grupo dos minerais das
serpentinas, e as demais fibras, naturais e artificiais de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim, serão extraídas,
industrializadas, utilizadas e comercializadas em consonância com as disposições desta Lei”.
(2) CPC: “Art. 535 (...)§ 5º Para efeito do disposto no inciso III do caput deste artigo, considera-se também inexigível a
obrigação reconhecida em título executivo judicial fundado em lei ou ato normativo considerado inconstitucional pelo Supremo
Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou interpretação da lei ou do ato normativo tido pelo Supremo Tribunal Federal como
incompatível com a Constituição Federal, em controle de constitucionalidade concentrado ou difuso”.
(3) CF: “Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal: (...)X - suspender a execução, no todo ou em parte, de lei
declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal”.
ADI 3406/RJ, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 29.11.2017.
ADI 3470/RJ, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 29.11.2017.
(Informativo 886, Plenário) Parte 1: Parte 2:

Amianto e competência legislativa concorrente


O Supremo Tribunal Federal, por maioria, julgou improcedentes os pedidos formulados nas ações
diretas de inconstitucionalidade ajuizadas contra a Lei nº 11.643/2001 do Estado do Rio Grande do Sul e
a Lei nº 12.589/2004 do Estado de Pernambuco; bem como na arguição de descumprimento de preceito
fundamental (ADPF) ajuizada em face da Lei nº 13.113/2001 e do Decreto 41.788/2002, ambos do
Município de São Paulo.
Os diplomas impugnados proíbem o uso, a comercialização e a produção de produtos à base de
amianto/asbesto naquelas unidades federativas (Informativos 407, 686, 848, 872 e 874).
A Corte, também por maioria, declarou incidentalmente a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei nº
9.055/1995.
A maioria dos ministros acompanhou o voto do ministro Edson Fachin (relator da ADPF 109/SP),
que o reajustou no sentido do voto proferido na sessão do dia 29.11.2017, no julgamento das ADI
3.406/RJ e ADI 3.407/RJ, ambas de rel. min. Rosa Weber (acima relatados). O ministro Edson Fachin
reiterou o acolhimento da declaração incidental de inconstitucionalidade do art. 2º da Lei nº 9.055/1995
suscitada a partir do voto do ministro Dias Toffoli.
Na ADPF 109/SP e na ADI 3.357/RS, ficou vencido o ministro Marco Aurélio que julgava
procedente o pedido.
Na ADI 3356/PE, ficaram vencidos os ministros Eros Grau (Relator) e Marco Aurélio.
ADPF 109/SP, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 30.11.2017.
ADI 3356/PE, rel. orig. Min. Eros Grau, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento em
30.11.2017.
ADI 3357/RS, rel. orig. Min. Ayres Britto, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento em
30.11.2017.
(Informativo 886, Plenário)

Direito de Greve

Direito de greve e carreiras de segurança pública


O exercício do direito de greve, sob qualquer forma ou modalidade, é vedado aos policiais civis e a todos
os servidores públicos que atuem diretamente na área de segurança pública.
É obrigatória a participação do Poder Público em mediação instaurada pelos órgãos classistas das carreiras
de segurança pública, nos termos do art. 165 do Código de Processo Civil (CPC), para vocalização dos interesses
da categoria.

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Com base nessas orientações, o Plenário, por maioria, deu provimento a recurso extraordinário com
agravo interposto contra acórdão que concluiu pela impossibilidade de extensão aos policiais civis da vedação do
direito à greve dos policiais militares.
Prevaleceu o voto do ministro Alexandre de Moraes. Para ele, a interpretação teleológica dos arts. 9º, 37,
VII, e 144 da Constituição Federal (CF) veda a possibilidade do exercício de greve a todas as carreiras policiais
previstas no citado art. 144. Não seria necessário, ademais, utilizar de analogia com o art. 142, § 3º, IV, da CF,
relativamente à situação dos policiais militares.
Esclareceu que a Constituição tratou das carreiras policiais de forma diferenciada ao deixá-las de fora do
capítulo específico dos servidores públicos. Segundo o ministro, as carreiras policiais são carreiras de Estado sem
paralelo na atividade privada, visto que constituem o braço armado do Estado para a segurança pública, assim
como as Forças Armadas são o braço armado para a segurança nacional. Diversamente do que ocorre com a
educação e a saúde — que são essenciais para o Estado, mas têm paralelo na iniciativa privada —, não há
possibilidade de exercício de segurança pública seja ostensiva pela Polícia Militar, seja de polícia judiciária pela
Polícia Civil e pela Polícia Federal, na União. Em outras palavras, não há possibilidade de nenhum outro órgão da
iniciativa privada suprir essa atividade, que, por si só, é importantíssima e, se paralisada, afeta ainda o exercício do
Ministério Público e do próprio Poder Judiciário.
Por isso, considerou que a segurança pública, privativa do Estado, deve ser tratada de maneira diferenciada
tanto para o bônus quanto para o ônus. Observou, no ponto, que uma pessoa que opta pela carreira policial sabe
que ingressa num regime diferenciado, de hierarquia e disciplina, típico dos ramos policiais. É um trabalho
diferenciado, por escala, com aposentadoria especial, diverso das demais atividades do serviço público. Os
policiais andam armados 24 horas por dia e têm a obrigação legal de intervenção e realização de toda e qualquer
prisão em flagrante delito. Devem cuidar ainda da própria segurança e de sua família, porque estão mais sujeitos à
vingança da criminalidade organizada do que qualquer outra autoridade pública. Justamente em razão dessas
peculiaridades, o ministro registrou a impossibilidade de os policiais participarem desarmados de reuniões,
manifestações ou passeatas.
Frisou que, ao analisar os anais da Constituinte relativamente ao art. 144 da CF e às carreiras policiais,
verificou uma dupla finalidade nas discussões constituintes: a) atender aos reclamos sociais para uma melhor
segurança pública, tendo em vista que no Brasil ocorrem cerca de 58 mil mortes violentas por ano, sendo 52 mil
homicídios dolosos; e b) reduzir a possibilidade de intervenção das Forças Armadas em questões internas, a fim
de evitar eventuais retornos autoritários à democracia.
As carreiras policiais, que representam o braço armado do Estado, são responsáveis por garantir a
segurança pública e a democracia. Portanto, não se pode permitir que realizem greve. Entretanto, segundo o
ministro, tem-se verificado a necessidade, cada vez maior, da garantia de lei e ordem, ou seja, de utilização das
Forças Armadas em defesa da segurança pública, situação que a Constituição buscou evitar com o
equacionamento e com a colocação de carreiras policiais como carreiras de Estado permanentes ao exercício
democrático.
Ponderou não se tratar, no caso, de um conflito entre o direito de greve e o princípio da continuidade do
serviço público ou da prestação de serviço público. Há um embate entre o direito de greve, de um lado, e o direito
de toda a sociedade à garantia da segurança pública, à garantia da ordem pública e da paz social, de outro. Quanto
a esse aspecto das carreiras policiais, deve ser valorada, no atual conflito, de forma muito mais intensa, a questão
da segurança pública, da ordem pública e da paz social. Afinal, eventuais movimentos grevistas de carreiras
policiais podem levar à ruptura da segurança pública, o que é tão grave a ponto de permitir a decretação do estado
de defesa (CF, art. 136) e, se o estado de defesa, em noventa dias, não responder ao anseio necessário à
manutenção e à reintegração da ordem, a decretação do estado de sítio (CF, art. 137, I).
Portanto, a prevalência do interesse público e do interesse social na manutenção da ordem pública, da
segurança pública, da paz social sobre o interesse de determinadas categorias de servidores públicos — o gênero
servidores públicos; a espécie carreiras policiais — deve excluir a possibilidade do exercício do direito de greve
por parte das carreiras policiais, dada a sua incompatibilidade com a interpretação teleológica do texto
constitucional, em especial dos arts. 9º, § 1º; e 37, VII da CF.
Ademais, para o ministro, é viável conciliar as previsões constitucionais sem aniquilar o direito de greve
dos servidores públicos. Frisou que a CF prevê a possibilidade de greve do gênero servidores públicos. E, mesmo
assim, a lei pode estabelecer restrições e limites, sejam parciais ou, para determinadas carreiras que são espécies
dos servidores públicos, totais. Não se está, dessa forma, a aniquilar o direito de greve dos servidores públicos,
mas a afirmar que, dentro dessa razoabilidade que a própria Constituição trouxe, não é possível o exercício do
direito de greve por determinadas carreiras, como as policiais.
Concluiu que, apesar de se referir à greve lato sensu da atividade privada, o art. 9º da CF aplica-se também
na interpretação do art. 37, VII, da CF. A manutenção da segurança pública e a defesa da vida, da incolumidade

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física, do patrimônio de toda a sociedade, da atividade de polícia judiciária, a alavancar a atividade do Ministério
Público e da própria Justiça criminal, são, prima facie, necessidades inadiáveis da comunidade (CF, art. 9º, § 1º).
Da mesma forma, o art. 37, VII, da CF prevê termos e limites ao exercício de greve. Ao compatibilizar o art. 144
da CF às razões já ditas, para colocação de um artigo específico para carreiras policiais — como braço armado do
Estado —, percebe-se que a própria Constituição já traz, quanto às carreiras policiais, a relatividade do exercício
do direito de greve dos servidores públicos. A CF garante o direito de greve ao gênero servidores públicos, com
limites e nos termos que a lei estabelecer, e, em relação à espécie carreiras policiais, não possibilita esse exercício,
sob pena de total desrespeito ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
O ministro Roberto Barroso acrescentou que, apesar de os policiais civis não poderem exercer o direito de
greve, é indispensável que essa categoria — que, no interesse público, sofre a restrição de um direito fundamental
— possa vocalizar as suas reivindicações de alguma forma. De lege ferenda, afirmou ser perfeitamente possível
que, ao mesmo passo em que se veda o direito de greve a policiais civis, seja estabelecida uma vinculação a outra
categoria para que eles se beneficiem de reivindicações de categorias afins, que não sejam, entretanto, nem de
segurança pública nem portem armas. De lege lata, à luz do direito vigente neste momento, reputou que a
alternativa está contida no art. 165 do CPC.
Vencidos os ministros Edson Fachin (relator), Rosa Weber e Marco Aurélio, que negavam provimento ao
recurso.
ARE 654432/GO, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 5.4.2017.
(Informativo 860, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte:

Direitos e Garantias Fundamentais

Reclamação: direito à informação e sessões secretas do STM


O Tribunal julgou procedente reclamação ajuizada contra ato do Superior Tribunal Militar (STM),
para determinar à autoridade reclamada dê fiel e integral cumprimento à ordem concedida no julgamento
do RMS 23.036/RJ (acórdão publicado no DJ de 25.8.2006).
No referido julgado, a concessão da ordem foi para que os impetrantes tivessem acesso a registro
documentais de sessões do STM ocorridas na década de 1970. Não obstante, feito um novo requerimento,
o STM o deferira somente ao que se refere às sessões públicas.
Inicialmente, o Colegiado observou que a decisão proferida no julgamento do citado RMS
23.036/RJ não limitou o acesso dos então impetrantes a documentos e arquivos fonográficos relacionados
apenas às sessões públicas dos julgamentos do STM. Naquela ocasião, pelo contrário, a Corte assentou
não haver campo para a discricionariedade da Administração em restringir o amplo acesso que os então
recorrentes deveriam ter aos documentos gerados a partir dos julgamentos ocorridos no período em
referência. Conferiu, assim, induvidosa amplitude àquela decisão e concluiu que o ato impugnado estava
em evidente descompasso com a ordem constitucional vigente, que erigiu o direito à informação ao status
de direito fundamental.
Por esse motivo, é injustificável a resistência do STM de se opor ao cumprimento da decisão pelo
STF, que taxativamente afastou os obstáculos erigidos para impedir fossem trazidos à lume a
integralidade dos atos processuais lá praticados, seja na dimensão oral ou escrita, cujo conhecimento
cidadãos brasileiros requereram, para fins de pesquisa histórica e resguardo da memória nacional.
Asseverou que o direito à informação, a busca pelo conhecimento da verdade sobre sua história,
sobre os fatos ocorridos em período avassalador do sentimento nacional e do espírito democrático que
exsurgia, assim como sobre suas razões, integra o patrimônio jurídico de todo e qualquer cidadão e
constitui dever do Estado assegurar os meios para o seu exercício.
Dessa forma, o Plenário concluiu que a autoridade reclamada deve permitir o acesso do reclamante
aos documentos descritos no requerimento administrativo objeto da impetração em questão, ressalvados
apenas aqueles indispensáveis ao resguardo de interesse público legítimo e à defesa da intimidade e
aqueles cujo sigilo se imponha para proteção da sociedade e do Estado, o que há de ser motivado de
forma explicita e pormenorizada pelo reclamado, a fim de sujeitar esse exame administrativo ao controle
judicial.
Rcl 11949/RJ, rel. Min. Cármen Lúcia, julgamento em 15.3.2017. (Rcl-11949)
(Informativo 857, Plenário)

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Ensino religioso em escolas públicas
O Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, julgou improcedente pedido formulado em
ação direta na qual se discute o ensino religioso nas escolas públicas do país. Conferiu interpretação
conforme à Constituição ao art. 33, caput, e §§ 1º e 2º (1), da Lei 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases
da Educação Nacional - LDB), e ao art. 11, § 1º (2), do acordo Brasil-Santa Sé aprovado por meio do
Decreto Legislativo 698/2009 e promulgado por meio do Decreto 7.107/2010, para assentar que o ensino
religioso em escolas públicas pode ter natureza confessional (Informativos 875 e 878).
Entendeu que o Poder Público, observado o binômio laicidade do Estado [CF, art. 19, I (3)] e
consagração da liberdade religiosa no seu duplo aspecto [CF, art. 5º, VI (4)], deverá atuar na
regulamentação integral do cumprimento do preceito constitucional previsto no art. 210, § 1º da CF (5),
autorizando, na rede pública, em igualdade de condições, o oferecimento de ensino confessional das
diversas crenças, mediante requisitos formais de credenciamento, de preparo, previamente fixados pelo
Ministério da Educação.
Dessa maneira, será permitido aos alunos se matricularem voluntariamente para que possam
exercer o seu direito subjetivo ao ensino religioso como disciplina dos horários normais das escolas
públicas. O ensino deve ser ministrado por integrantes, devidamente credenciados, da confissão religiosa
do próprio aluno, a partir de chamamento público já estabelecido em lei para hipóteses semelhantes (Lei
13.204/2015) e, preferencialmente, sem qualquer ônus para o Poder Público.
A Constituição garante a liberdade de expressão às ideias majoritárias e a minoritárias,
progressistas e conservadoras, políticas e ideias religiosas. Assim, não se pode, previamente, censurar a
propagação de dogmas religiosos no ensino religioso para aquele que realmente quer essas ideias. Os
dogmas de fé são o núcleo do conceito de ensino religioso. Dessa forma, o Estado violaria a liberdade de
crença ao substituir os dogmas da fé, que são diversos em relação a cada uma das crenças, por algo
neutro. A neutralidade no ensino religioso não existe. O que deve existir é o respeito às diferenças no
ensino religioso.
Vencidos os ministros Roberto Barroso (relator), Rosa Weber, Luiz Fux, Marco Aurélio e Celso de
Mello, que julgaram o pedido procedente, para dar interpretação conforme à Constituição aos preceitos
impugnados, por considerar que o ensino religioso ministrado em escolas públicas deve ser de matrícula
efetivamente facultativa e ter caráter não confessional, vedada a admissão de professores na qualidade de
representantes das religiões para ministrá-lo.

(1) LDB: “Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui
disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do
Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. § 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos
conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores. § 2º Os sistemas de ensino
ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso”.
(2) Acordo Brasil-Santa Sé: “Art. 11. A República Federativa do Brasil, em observância ao direito de liberdade religiosa,
da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação
integral da pessoa. §1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina
dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil,
em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação”.
(3) CF: “Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou
igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou
aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.
(4) CF: “Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: (...) VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e
garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de
assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva; VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de
crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e
recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;”.
(5) CF: “Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica
comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. § 1º O ensino religioso, de matrícula facultativa,
constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.
ADI 4439/DF, rel. orig. Min. Roberto Barroso, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 27.9.2017.
(Informativo 879, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Extradição

Extradição e perda de nacionalidade brasileira


A Primeira Turma, por maioria, julgou procedente pedido formulado em extradição ajuizada pelo
Governo dos Estados Unidos da América para assentar a possibilidade de entrega da extraditanda,

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brasileira nata naturalizada americana, acusada da suposta prática de homicídio doloso contra seu marido
naquele país.
Inicialmente, a Turma relembrou que a perda da nacionalidade brasileira da extraditanda,
decretada pelo Ministério da Justiça, teria sido validada no julgamento do Mandado de Segurança
33864/DF (DJE de 9.12.2016).
Asseverou que, na ocasião, a Turma, por maioria, firmou entendimento no sentido de que a
Constituição Federal (CF), ao tratar da perda da nacionalidade brasileira, estabeleceu duas hipóteses: a) o
cancelamento judicial da naturalização, em virtude da prática de ato nocivo ao interesse nacional, o que
somente alcança brasileiros naturalizados (art. 12, § 4º, I); e b) a aquisição voluntária de outra
nacionalidade secundária, o que alcança, indistintamente, brasileiros natos e naturalizados. Nesta última
hipótese — a de aquisição de outra nacionalidade —, não se perde a nacionalidade brasileira em duas
situações que constituem exceção à regra: a) tratar-se não de aquisição de outra nacionalidade, mas do
mero reconhecimento de outra nacionalidade originária, considerada a natureza declaratória deste
reconhecimento (art. 12, § 4º, II, “a”); e b) ter sido a outra nacionalidade imposta pelo Estado estrangeiro
como condição de permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis (art. 12, § 4º, II,
“b”). Entretanto, a situação da então impetrante não se enquadra em nenhuma dessas exceções, porque ela
já detinha, desde muito antes de 1999, quando requereu a naturalização, o denominado green card, cuja
natureza jurídica é a de visto de permanência e que confere, nos Estados Unidos da América, os direitos
que alega ter pretendido adquirir com a naturalização: a permanência em solo norte-americano e a
possibilidade de trabalhar naquele país. Em razão disso, desnecessária a obtenção da nacionalidade
norte-americana para os fins que constitucionalmente revelam exceção à regra da perda da
nacionalidade brasileira (CF, art. 12, II, § 4º, “a” e “b”). Ao contrário, a extraditanda pretendeu integrar-se
àquela comunidade nacional, o que justamente constitui a razão central do critério adotado pelo constituinte
originário para a perda da nacionalidade brasileira, critério este não excepcionado pela Emenda
Constitucional 3/1994, que introduziu as exceções previstas nas alíneas “a” e “b” do § 4º do inciso II do
art. 12 da CF.
Em seguida, a Turma considerou preenchidos todos os requisitos previstos na Lei 6.815/1980 e no
Tratado de Extradição firmado entre o Brasil e os Estados Unidos. Também não vislumbrou nenhum dos
óbices fixados no art. 77 da Lei 6.815/1980 ao deferimento do pedido: a) a extraditanda não é nacional
brasileira; b) sua extradição foi requerida por Estado que mantém Tratado de Extradição com o Brasil; c)
a pena máxima prevista para os crimes comuns — pelo qual responde — é superior a um ano de privação
de liberdade (art. III do Tratado de Extradição); d) a prisão foi decretada por juízo regularmente
instituído; e) o Brasil não é competente para o julgamento do crime; e f) o crime não tem conotação
política.
No que concerne à alegação de não ter sido apresentada tradução juramentada em língua
portuguesa dos documentos que instruem o pedido, o Colegiado entendeu que a expressão “tradução
oficial”, utilizada pelo art. 80 do Estatuto do Estrangeiro, refere-se à tradução cuja autenticidade é
certificada pelas autoridades do Estado requerente e cujo encaminhamento se dá por órgãos oficiais, o que
confere a mencionada autenticidade, nos termos do art. IX do Tratado e da jurisprudência desta Corte
(Ext 1100/República do Chile, DJE de 3.10.2008; Ext 1171/República da Argentina, DJE de 25.6.2010).
Observou que, no caso, a tradução foi certificada pelo Departamento de Estado dos Estados
Unidos da América, e os documentos encaminhados a esta Corte pelo Ministério da Justiça e pela via
diplomática, não havendo falar-se em defeito de tradução.
Por fim, a Turma salientou não ser possível prosperar a cooperação quando houver o risco de
imposição ao extraditando de penas não admitidas no ordenamento jurídico brasileiro. Assim, pode o
Estado que coopera em matéria penal exigir o compromisso formal de que tais penas não serão
eventualmente aplicadas ao extraditando entregue ao Estado requerente.
Dessa forma, deferiu o pedido de extradição e condicionou a entrega ao Estado requerente ao
compromisso formal de: a) não aplicar penas interditadas pelo direito brasileiro, em especial a de morte
ou prisão perpétua (CF, art. 5º, XLVII, “a” e “b”); b) observar o tempo máximo de cumprimento de pena
previsto no ordenamento jurídico brasileiro de trinta anos (CP, art. 75); e c) detrair da pena o tempo que a
extraditanda permaneceu presa para fins de extradição no Brasil.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que indeferia o pedido, ao fundamento de persistir a condição
de brasileira nata da extraditanda.
Ext 1462/DF, rel. Min. Roberto Barroso, 28.3.2017.
(Informativo 859, 1ª Turma)

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Homologação de declaração de concordância do extraditando
A Segunda Turma resolveu questão de ordem para homologar a declaração de concordância
com pedido extradicional apresentada por cidadão português, nos termos da Convenção de
Extradição entre os Estados Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Artigo
19). Em consequência, deferiu pedido de extradição formulado pelo Governo da República
Portuguesa contra acusado por suposta prática dos crimes de homicídio qualificado, roubo e furto
qualificado.
O extraditando, por meio de advogado regularmente constituído, manifestou, de forma
expressa, inequívoca e voluntária, anuência em ser imediatamente entregue às autoridades
competentes, independentemente da prévia observância das formalidades inerentes ao processo
extradicional.
O Colegiado ressaltou que a circunstância de o extraditando se declarar de acordo com o
pedido não exonera, em princípio, o Supremo Tribunal Federal do dever de efetuar rígido controle
de legalidade, em obediência ao princípio constitucional do devido processo legal.
Entretanto, a Convenção de Extradição entre os Estados Membros da Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa, que substituiu o tratado bilateral de extradição Brasil/Portugal,
estabeleceu regime simplificado de extradição, que autoriza a entrega imediata do extraditando às
autoridades competentes do Estado requerente, sempre que o súdito estrangeiro manifestar, de
forma livre e de modo voluntário e inequívoco, o seu desejo de ser extraditado (1).
A Turma considerou atendido o princípio da dupla tipicidade, já que os delitos imputados
ao extraditando também são considerados crimes pelo Direito Penal brasileiro. Também avaliou
estar presente o princípio da dupla punibilidade, uma vez que não se verificou nenhuma causa
extintiva de punibilidade.
Registrou a obrigatoriedade da observância da detração penal, a fim de que seja deduzido da
pena eventualmente imposta ao extraditando o período de prisão cautelar a que foi submetido no
Brasil, por efeito exclusivo do processo de extradição. Cons ignou o respeito ao limite de execução
da pena por tempo não superior a trinta anos.
Concluiu no sentido de delegar autorização ao relator da causa para que proceda, em casos
futuros, se assim entender pertinente, ao julgamento monocrático dos pleitos ext radicionais,
sempre que o próprio extraditando, com fundamento em norma convencional autorizativa,
manifestar, expressamente, de modo livre e voluntário, com assistência técnico -jurídica de seu
advogado ou defensor público, concordância com o pedido de sua extradição. Nessa hipótese, o
ato de homologação judicial da referida declaração equivalerá, para todos os efeitos, à decisão
final do processo de extradição, ouvida, previamente, a Procuradoria -Geral da República.

(1) Convenção de Extradição entre os Estados Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa:
“Artigo 19. Extradição simplificada ou voluntária. O Estado requerido pode conceder a extradição se a pessoa
reclamada, com a devida assistência jurídica e perante a autoridade judi cial do Estado requerido, declarar a sua expressa
anuência em ser entregue ao Estado requerente, depois de ter sido informada de seu direito a um procedimento formal de
extradição e da proteção que tal direito encerra”.
Ext 1476/DF, rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 9.5.2017.
(Informativo 864, 2ª Turma)

Extradição e expulsão de estrangeiro pai de filho brasileiro


A Segunda Turma deferiu parcialmente pedido de extradição feito pela Repú blica de
Portugal contra extraditando condenado pela prática de dois crimes de homicídio, na forma
tentada, e um crime de porte ilegal de arma de fogo.
A defesa afirmou que o extraditando tem dois filhos brasileiros com sua companheira
também brasileira, que dele dependem para seu sustento. Assim, pediu o sobrestamento do caso
para aguardar decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no RE 608.898 RG/DF (1), no qual se
discute a possibilidade de expulsão de cidadão estrangeiro cujo filho nasceu posteriorme nte ao
fato motivador do ato expulsório. Alegou que o julgamento poderia resultar na revisão do
Enunciado da Súmula 421/STF (2).
Primeiramente, o Colegiado reconheceu a prescrição do crime de porte ilegal de arma de
fogo. Em seguida, determinou a extradição em relação aos crimes de homicídio, na forma tentada.
A Corte entendeu que foram atendidos os requisitos da dupla tipicidade e da dupla punibilidade,
além de estarem satisfeitas todas as condições legais e convencionais aplicáveis .

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Ademais, salientou que a questão discutida no RE 608.898 RG/DF diz respeito à expulsão
de cidadão estrangeiro e não à extradição, institutos diferentes. Pontuou que a extradição é um
instrumento de cooperação na repressão internacional a delitos comuns. Nessa seara, o fato de o
extraditando ter filhos brasileiros menores, incapazes, dependentes de economia paterna não
ostenta relevância jurídica.

(1) RE 608.898 RG/DF, DJe de 28.9.2011.


(2) Enunciado da Súmula 421/STF: “Não impede a extradição a circunstâ ncia de ser o extraditando casado com
brasileira ou ter filho brasileiro”.
Ext 1497/DF, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 15.8.2017.
(Informativo 873, 2ª Turma)

Extradição e instrução deficiente


A Segunda Turma deferiu pedido de extradição instrutória formulado pelo Governo da Bélgica,
apresentado sem a cópia dos textos legais aplicáveis aos fatos que, em tese, correspondem aos crimes de
tráfico de drogas e de associação para o tráfico.
Considerou que o requerimento foi instruído de forma deficiente. No entanto, a defesa não discutiu
isso, e o estrangeiro demonstrou interesse em ser prontamente extraditado.
O Colegiado assentou haver sido compulsada a lei sobre o tráfico de substâncias em vigor na
Bélgica, ser a conduta típica e prevista, especificamente, no tratado de extradição.
Sublinhou que o STF não poderia conceder o pleito extradicional, se existissem dúvidas quanto à
legalidade, estivesse prescrita a pretensão ou houvesse outra impossibilidade.
O ministro Celso de Mello mencionou o art. 87 (1) da nova Lei de Migração (Lei 13.445/2017),
com o registro de que, apesar de ainda não estar em regime de plena eficácia, o diploma estabelece alguns
parâmetros presentes na espécie.

(1) Lei 13.445/2017: “Art. 87. O extraditando poderá entregar-se voluntariamente ao Estado requerente, desde que o
declare expressamente, esteja assistido por advogado e seja advertido de que tem direito ao processo judicial de extradição e à
proteção que tal direito encerra, caso em que o pedido será decidido pelo Supremo Tribunal Federal. ”
Ext 1512/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 24.10.2017.
(Informativo 883, Segunda Turma)

Dupla extradição: requisitos e competência


Em caso de reingresso de extraditando foragido, não é necessária nova decisão jurisdicional acerca
da entrega, basta a emissão de ordem judicial.
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma julgou dois agravos regimentais em extradição:
negou provimento ao primeiro e não conheceu do segundo. Ambos foram interpostos pela Defensoria
Pública da União contra a mesma decisão, que determinou a entrega de extraditando ao governo da
Espanha.
O caso se refere a indivíduo já extraditado que escapou à ação da justiça espanhola e reingressou
em território brasileiro. A defesa alegou a incompetência do relator para a realização da entrega, a não
formalização do novo pedido de extradição e a insuficiência de informações sobre o processo para a
avaliação da dupla punibilidade.
A Turma entendeu que, embora o art. XIX do Decreto nº 99.340/1990 (1) e o art. 98 da Lei
13.445/2017 (2) tratem da nova entrega como procedimento administrativo, verifica-se a necessidade de
ordem judicial para a prisão do estrangeiro conforme art. 5º, LXI, da Constituição (3). A legislação,
todavia, não impõe que a nova entrega se dê por decisão jurisdicional ou julgamento colegiado. Desse
modo, a Corte, ao avaliar novamente a questão, teria concedido mais garantias ao indivíduo do que a lei
prevê.
Considerou, ainda, suficiente a nota verbal do governo espanhol que postulou a detenção do
fugitivo para fins de extradição, haja vista a dispensabilidade expressa de formalidades para a nova
requisição.
Nessa perspectiva, a Turma concluiu também pela prescindibilidade de nova demonstração acerca
da dupla punibilidade ou outro requisito da extradição, porquanto não respaldada legalmente.

(1) Decreto nº 99.340/1990: “Art. XIX. O indivíduo que, depois de entregue por um Estado a outro, lograr subtrair-se à
ação da justiça e adentrar o território do Estado requerido, será detido mediante simples requisição feita por via diplomática, e
entregue, de novo, sem outra formalidade, ao Estado ao qual já fora concedida a sua extradição”.

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(2) Lei 13.445/2017: “Art. 98. O extraditando que, depois de entregue ao Estado requerente, escapar à ação da Justiça e
homiziar-se no Brasil, ou por ele transitar, será detido mediante pedido feito diretamente por via diplomática ou pela Interpol e
novamente entregue, sem outras formalidades”.
(3) Constituição Federal/1998: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: (...) LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de
autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei”.
Ext 1225/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 21.11.2017.
(Informativo 885, Segunda Turma)

Lei de Anistia e prescrição de crimes de lesa-humanidade


O crime de sequestro, por ser permanente, não prescreve enquanto não for encontrada a
pessoa ou o corpo.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma, por maio ria, deferiu a extradição,
requerida pelo governo argentino, referente à atuação de indivíduo em práticas delituosas durante
a ditadura militar argentina.
O extraditando, que à época era militar da marinha argentina, foi acusado de participação
em crimes de sequestro, tortura e eliminação de pessoas no período compreendido entre 1976 e
1983 (vide Informativo 882).
Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Alexandre de Moraes, que indeferiram a
extradição por entenderem que, apesar da dupla tipicidade dos fatos imputados (no Brasil e na
Argentina), não se verifica o requisito da dupla punibilidade, haja vista a não ratificação pelo
Estado brasileiro da Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forç ado de Pessoas, que
prevê a imprescritibilidade dos delitos de lesa-humanidade. Dessa forma, aplica-se o prazo
máximo de vinte anos para prescrição, previsto no Código Penal brasileiro no art. 109, I (1).
Além disso, afirmou ser inválida a alegação da procuradoria sobre a permanência dos
crimes de sequestro, por se tratar de situação de desaparecimento. Nesse sentido, conforme o art.
1º da Lei 9.140/1995 (2), afastou a adequação típica ao crime de sequestro e considerou presumida
a morte dos indivíduos sequestrados, já que extremamente provável.
Desse modo, reconhecendo a impunibilidade, no Brasil, de fatos semelhantes ocorridos no
período da ditadura militar, presente a anistia bilateral, ampla e geral versada na lei 6.683/1979, e
a prescrição dos delitos, apontou a inviabilidade da entrega do extraditando.

(1) Código Penal: “Art. 109. A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, salvo o disposto no
§1º do art. 110 deste Código, regula-se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao crime, verificando-se: I
- em vinte anos, se o máximo da pena é superior a doze”.
(2) Lei 9.140/1995: “Art. 1º. São reconhecidos como mortas, para todos os efeitos legais, as pessoas que tenham
participado, ou tenham sido acusadas de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 5
de outubro de 1988, e que, por este motivo, tenham sido detidas por agentes públicos, achando -se, deste então,
desaparecidas, sem que delas haja notícias”.
Ext 1270/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgamento
em 12.12.2017.
(Informativo 888, Primeira Turma)

Gratuidade de Ensino

Gratuidade de ensino e cobrança de mensalidade em curso de especialização


A garantia constitucional da gratuidade de ensino não obsta a cobrança por universidades
públicas de mensalidade em cursos de especialização.
Com base nessa orientação, o Plenário, por maioria, deu provimento a recurso extraordinário
para denegar segurança.
Preliminarmente, o Colegiado, também por maioria, indeferiu pedido de s ustentação oral do
advogado do amicus curiae da Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG) já ter se exaurido
a fase de sustentação oral na sessão anterior, e tendo ele se inscrito apenas na sessão subsequente.
Vencidos, no ponto, os ministros Marco Aurélio, Rosa Weber e Ricardo Lewandowski, que deferiam
o pleito, ao fundamento de que, se há inscrito terceiro, sem que ainda tivesse sido proferido qualquer
voto, se deveria, em prestígio ao devido processo legal, viabilizar a sustentação.

72
Quanto ao mérito, inicialmente, o Colegiado observou que, a despeito da Súmula Vinculante
12 (1), alargar a sua aplicação para os cursos de extensão seria interpretação equivocada do verbete
sumular.
Asseverou haver no texto constitucional uma diferenciação entre “ensino”, “pesquisa” e
“extensão”, que formam tripé harmônico e essencial para a educação de qualidade. Nos term os do
art. 206, IV, da Constituição Federal (CF), a gratuidade do ensino é um princípio aplicável a todos os
estabelecimentos oficiais. Para tanto, conforme exige o art. 212, caput, da CF, um percentual da
receita pública deve ser destinado à “manutenção e desenvolvimento do ensino”. O art. 213, § 2º, da
CF autoriza, “argumentum a contrario”, a captação de recursos destinados à pesquisa e à extensão
porque os recursos públicos, a que se refere o art. 212, caput, da CF, têm destinação precípua às
escolas públicas. Já as atividades descritas no art. 213, § 2º, da CF não necessariamente contam com
recursos públicos. Seria incorreto, porém, concluir que a Constituição não exige financiamento
público para a pesquisa e extensão.
Explicou que a indissolubilidade entre “ensino, pesquisa e extensão”, princípio previsto no
caput do art. 207 da CF, exige que o financiamento público não se destine exclusivamente ao ensino,
visto que, para a manutenção e desenvolvimento do ensino, são necessários, nos termos do art. 207 ,
pesquisa e extensão.
Entretanto, há um espaço de conformação no texto constitucional para a definição das
atividades que integram a manutenção e o desenvolvimento do ensino. De fato, o regime
constitucional de pós-graduação deve derivar das exigências constitucionais contidas no art. 207 da
CF. Impossível afirmar, com base na leitura estrita da CF, que as atividades de pós -graduação são
abrangidas pelo conceito de manutenção e desenvolvimento do ensino, parâmetro constitucional para
a destinação, com exclusividade, dos recursos públicos. Por isso, para a solução do presente caso, é
preciso examinar se a instituição de cursos de pós-graduação (especialização) implica,
necessariamente, gratuidade.
O Colegiado frisou competir ao legislador a tarefa de disciplinar quais características
determinado curso assumirá. Caso a atividade preponderante se refira à manutenção e ao
desenvolvimento do ensino, a gratuidade deverá ser observada, nos termos do art. 206, IV, da CF.
Para matéria relativa a ensino, pesquisa e extensão, a competência regulamentar é concorrente
entre a União e os Estados-Membros (CF, art. 24, IX), mas também é afeta à autonomia
universitária. Quanto a este último aspecto, a universidade pode contar, por expressa previsão
constitucional (CF, art. 213, § 2º), com recursos de origem privada. Ademais, embora não
disponham de competência para definir a origem dos recursos a serem utilizados para a manutenção
e o desenvolvimento do ensino, as universidades podem definir quais são as atividades de pesquisa e
extensão passíveis de realização em regime de colaboração com a sociedade civil. No exercício de
sua competência para definir normas gerais (CF, art. 24, § 1º), a União editou a Lei 9.394/1996, que
estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Dessa lei é possível depreender que os cursos
de pós-graduação se destinam à preparação para o exercício do magistério superior (arts. 64 e 66) e,
por isso, são indispensáveis para a manutenção e o desenvolvimento das instituições de ensino (art.
55).
Porém, é preciso observar que apenas os cursos de pós-graduação que se destinam à
manutenção e ao desenvolvimento do ensino são financiados pelo Poder Público. Novamente é a Lei
9.394/1996, em seus arts. 70 e 71, que fixa as regras para contabilizar essas despesas.
Segundo o Tribunal, não se deve, evidentemente, ler a Constituição com fundamento na lei,
mas sua referência exemplifica o fato de que ao legislador é possível descrever as atividades que, por
não se relacionarem com a manutenção e o desenvolvimento do ensino, não dependem de recursos
exclusivamente públicos. É lícito, dessa forma, às universidades perceber remuneração pelo seu
desempenho.
Além disso, a elaboração da lei não retira das universidades a competência para, por meio de
sua autonomia, desenvolver outras atividades voltadas à comunidade que não se relacionem
precisamente com a exigência constitucional da manutenção e do desenvolvimento do ensino. Essa
observação vai ao encontro do próprio texto constitucional, ou seja, não há, na previsão de
autonomia das universidades (CF, art. 207), remissão à regulamentação por lei, diversamente do que
ocorre com as regras sobre a carreira dos professores (CF, art. 206, V), com a forma de gestão
democrática (CF, art. 206, VI) e com a contratação de professores estrangeiros (CF, art. 207, § 1º).
Há, aqui, potencialmente, um choque entre as competências legais do Poder Legislativo e
normativas das universidades, ou do órgão encarregado de sua organização (CF, art. 211, § 1º). Esse

73
conflito tem, em tese, assento constitucional e não legal. No caso, contudo, não há conflito a exigir a
intervenção por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). Tanto a CF quanto a lei dão margem ao
juízo de conformação a ser realizado pelas universidades para definir se determinado curso de
especialização destina-se à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, hipótese em que, por
expressa previsão constitucional, os recursos para seu financiamento deverão ser exclusivamente
públicos. Nesse sentido, o art. 71 da Lei 9.394/1996 exclui das despesas de manutenção e
desenvolvimento a formação de quadros especiais para a administração, caso em que, desde que
restrita aos cursos de especialização, não haveria impedimento para as universidades, por an alogia,
disciplinarem outros cursos cuja cobrança de mensalidade fosse possível.
O Colegiado afirmou ser evidente que as universidades não são completamente livres para
definir suas atividades. O desempenho precípuo de suas funções exige que, no mínimo, h aja
completa realização daquelas que se relacionem com a manutenção e o desenvolvimento do ensino.
Nada impede que, para além dessas atividades, a universidade possa definir outros cursos para a
comunidade, como cursos de extensão, que, embora se relacionem ao ensino, guardam
independência quanto a ele.
Afastou o argumento de que, por ostentarem natureza autárquica ou fundacional, as
universidades somente poderiam adotar o regime tributário para a obtenção de receitas, a implicar
que o serviço desempenhado passasse a ser remunerado por taxa. Isso porque, em primeiro lugar, a
adoção do regime de direito público, previsto no art. 37 da CF, não impõe, necessariamente, que a
obtenção de receita seja exclusivamente pela via tributária. Ademais, o princípio da gr atuidade veda,
precisamente, a cobrança de prestação compulsória (CF, art. 205), como ocorre nas atividades de
manutenção e desenvolvimento do ensino. Além disso, por serem as atividades extraordinárias
desempenhadas de modo voluntário pelas universidades, pode ser estabelecida uma tarifa como
contraprestação.
Relembrou que, no julgamento da ADI 800/RS (DJE de 27.6.2014), se reconheceu que o traço
característico de uma prestação estatal remunerada por taxa é a compulsoriedade, prevista no art. 3º
do Código Tributário Nacional (CTN). Na mesma direção aponta ainda o Enunciado 545 da Súmula
desta Corte (2). Essa diferenciação é fundamental para também estender às atribuições
desempenhadas pelas universidades o entendimento sumulado pelo STF. Dessa forma, por não ser
taxa a cobrança de mensalidade para os cursos não relacionados com a manutenção e o
desenvolvimento do ensino, não está sujeita à legalidade estrita. Noutras palavras, podem as
universidades regulamentar a forma de remuneração do serviço desempenha do.
Ainda no que tange às limitações impostas às universidades, é mister registrar que os
professores são servidores públicos e, como tal, destinam-se ao desempenho das tarefas indicadas
nos seus cargos. Não podem, consequentemente, eximir-se de suas obrigações ordinárias para
desempenhar aquelas que, por conveniência, a universidade decidiu oferecer ao público, mediante
pagamento.
Além disso, embora tenham autonomia para definir as atividades ofertadas ao público, as
universidades devem ter em conta que prestam serviço público e, portanto, devem garantir os
direitos dos usuários (CF, art. 175, II), observar a modicidade tarifária (CF, art. 175, III) e manter
serviço de qualidade (CF, art. 206, VII), atendidas as exigências do órgão coordenador da educação
(CF, art. 211, § 1º). Finalmente, a regulamentação dessas atividades deve ainda observar o princípio
da gestão democrática do ensino (CF, art. 206, VI).
Em suma, o Plenário concluiu ser preciso reconhecer que nem todas as atividades
potencialmente desempenhadas pelas universidades se referem exclusivamente ao ensino. A função
desempenhada por elas é muito mais ampla do que as formas pelas quais elas obtêm financiamento.
Assim, o princípio da gratuidade não as obriga a perceber exclusivamente recursos públ icos para
atender sua missão institucional. Ele exige, porém, que, para todas as tarefas necessárias à plena
inclusão social, missão do direito à educação, haja recursos públicos disponíveis para os
estabelecimentos oficiais. O termo utilizado pela CF é que essas são as tarefas de manutenção e
desenvolvimento do ensino. Consequentemente, são a elas que se estende o princípio da gratuidade.
Nada obstante, é possível às universidades, no âmbito de sua autonomia didático -científica,
regulamentar, em harmonia com a legislação, as atividades destinadas preponderantemente à
extensão universitária, sendo-lhes, nessa condição, possível a instituição de tarifa.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que negava provimento ao recurso. Considerava que o
inciso IV do art. 206 da CF prevê um princípio inafastável que garantiria a gratuidade do ensino em
estabelecimentos oficiais, sem distinção, se de ensino básico, fundamental, superior, graduação ou
pós-graduação. Além disso, o inciso I do art. 206 da CF asseguraria a igualdade de condições de

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acesso e permanência na escola. Não caberia ao intérprete, portanto, fazer distinção onde o texto
constitucional não o fez, sob pena de gerar privilégio apenas aos que têm condições de arcar com os
valores cobrados para os cursos. Em suma, as universidades públicas deveriam prestar o serviço
educacional com base nas receitas previstas de forma exaustiva no texto constitucional (CF, art. 212)
e, por serem públicas, haveriam de viabilizar, sem necessidade de qualquer pagamento, o acesso do s
cidadãos em geral.

(1) Súmula Vinculante 12: “A cobrança de taxa de matrícula nas universidades públicas viola o disposto no art. 206, IV, da
Constituição Federal”.
(2) Enunciado 545 da Súmula do STF: “Preços de serviços públicos e taxas não se confundem, porque estas,
diferentemente daqueles, são compulsórias e têm sua cobrança condicionada à prévia autorização orçamentária, em relação à lei que
as instituiu”.
RE 597854/GO, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 26.4.2017.
(Informativo 862, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte:

Imunidade Parlamentar

Crime de divulgação de informação falsa sobre instituição financeira e imunidade


parlamentar
A Primeira Turma, por maioria, admitiu a impetração e, por unanimidade, concedeu ordem de habeas
corpus para cassar acórdão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região que condenou parlamentar pela prática
do delito de divulgação de informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira,
previsto no art. 3º da Lei 7.492/1986 (1).
No caso, o parlamentar convocou a imprensa e, no exercício da Presidência da Assembleia
Legislativa do Estado do Espírito Santo, opinou sobre a conveniência da privatização do Banco do Estado
do Espírito Santo (Banestes), ante a existência de dívida no valor de R$ 500 milhões.
A Turma pontuou que a declaração revelou a satisfação do parlamentar com a privatização do
Banco, que implicaria desoneração de dívida do Estado. Entendeu que não ficou configurado, na conduta
do paciente, o dolo de divulgar informação falsa ou incompleta sobre instituição financeira, pois as
afirmações do parlamentar estavam ligadas a análises de operações realizadas pelo Banestes.
Nesse contexto, o Colegiado asseverou haver ligação entre o que foi veiculado e o exercício do
mandato parlamentar. Tal aspecto foi potencializado pelo fato de as declarações terem ocorrido dentro da
assembleia. Concluiu pelo não afastamento da imunidade parlamentar relativa às opiniões, palavras e
votos, prevista no art. 53 (2), combinado com o art. 27, § 1º (3), da Constituição Federal.

(1) Lei 7.492/1986: “Art. 3º Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira: Pena –
Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa”.
(2) CF/1988: “Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões,
palavras e votos”.
(3) CF/1988: “Art. 27. O número de Deputados à Assembleia Legislativa corresponderá ao triplo da representação do
Estado na Câmara dos Deputados e, atingido o número de trinta e seis, será acrescido de tantos quantos forem os Deputados
Federais acima de doze. § 1º Será de quatro anos o mandato dos Deputados Estaduais, aplicando-se-lhes as regras desta Constituição
sobre sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação às
Forças Armadas”.
HC 115397/ES, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 16.5.2017.
(Informativo 865, Primeira Turma)

Imunidade parlamentar e medida cautelar


O Plenário, por maioria, julgou parcialmente procedente ação direta de inconstitucionalidade
na qual se pedia interpretação conforme à Constituição para que a aplicação das medidas
cautelares, quando impostas a parlamentares, fossem submetidas à deliberação da respectiva Casa
Legislativa em 24 horas.
Primeiramente, a Corte assentou que o Poder Judiciário dispõe de competênc ia para impor,
por autoridade própria, as medidas cautelares a que se refere o artigo 319 (1) do Código de
Processo Penal (CPP). Vencido, nesse ponto, o ministro Marco Aurélio que julgou ser inaplicável
a referida norma legal.
Prosseguindo no julgamento, o Tribunal, também por votação majoritária, deliberou
encaminhar, para os fins a que se refere art. 53, §2º (2), da Constituição Federal (CF), a decisão
que houver aplicado medida cautelar sempre que a execução desta impossibilitar direta ou
indiretamente o exercício regular do mandato legislativo.

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Salientou que, na independência harmônica que rege o princípio da separação dos Poderes, as
imunidades parlamentares, assim como a vitaliciedade na magistratura, a irredutibilidade de
vencimentos e a inamovibilidade, na independência harmoniosa que rege o princípio da separação
de Poderes, são instrumentos de vital importância, visto buscarem, prioritariamente, a proteção
dos parlamentares no exercício de suas funções, contra os abusos e pressões dos demais Po deres.
Constitui-se, pois, um direito instrumental de garantia de liberdade de opiniões, palavras e votos
dos membros do Poder Legislativo bem como de sua proteção contra prisões arbitrárias e
processos temerários.
O Plenário asseverou que essas imunidades não dizem respeito à figura do parlamentar em si,
mas à função por ele exercida, ao Poder que ele representa, no intuito de resguardar a atuação do
Legislativo perante o Executivo e perante o Judiciário, consagrando -se como garantia de
independência perante os outros dois Poderes constitucionais.
Afirmou que, no tocante à imunidade parlamentar processual em relação à prisão, a ratio da
norma constitucional é somente permitir o afastamento do parlamentar do exercí cio de seu
mandato conferido pelo povo em uma única hipótese: prisão em flagrante delito por crime
inafiançável. O art. 53, §2º, da CF protege o integral exercício do mandato parlamentar, ao referir,
expressamente, que a restrição à liberdade de ir e vir do parlamentar somente poderá ocorrer na
referida hipótese. Dessa forma, a norma constitucional estabeleceu, implicitamente, a
impossibilidade de qualquer outro tipo de prisão cautelar.
Nesse contexto, a Corte ponderou que, sendo a finalidade da imunidade formal proteger o
livre exercício do mandato parlamentar contra interferências externas, a ratio da norma
constitucional não pode ser contornada pela via das medidas cautelares diversas da prisão.
Assim, ato emanado do Poder Judiciário que houver aplicado medida cautelar que
impossibilite direta ou indiretamente o exercício regular do mandato legislativo, deve ser
submetido ao controle político da Casa Legislativa respectiva, nos termos do art. 53, § 2º, da CF.
Vencidos os ministros Edson Fachin, Roberto Barroso, Luiz Fux, Rosa Weber e Celso de
Mello, que julgaram improcedente o pedido. Entenderam que os poderes conferidos ao Congresso
para sustar processos penais em curso são estritos, circunscritos às hipóteses especificamente
limitadas na CF, pois as medidas cautelares penais não são instrumentais apenas ao processo
penal, mas também meios de tutela da fase pré-processual investigativa e da ordem pública.
Nesse sentido, a outorga constitucional de poder para sustar um processo penal não
compreende a concessão de poderes para impedir a adoção de providências cautelares necessárias
à tutela da ordem pública (visando a impedir reiteração delitiva), bem como, à tutela da
investigação e completa elucidação dos fatos.

(1) CPP: “Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I - comparecimento periódico em juízo, no prazo
e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II - proibição de acesso ou frequência a
determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato , deva o indiciado ou acusado permanecer distante
desses locais para evitar o risco de novas infrações; III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando,
por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer di stante; IV - proibição de
ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução; V -
recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e
trabalho fixos; VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira
quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; VII - internação provisória do acusado
nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou
semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para
assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência
injustificada à ordem judicial; IX - monitoração eletrônica”.
(2) CF: ”Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões,
palavras e votos. (...) § 2º Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser presos,
salvo em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Casa
respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão”.
ADI 5526/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 11.10.2017.
(Informativo 881, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte: 1ª Parte:
2ª Parte: 3ª Parte: 4ª Parte: 5ª Parte: 6ª Parte:

Meio Ambiente

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Paralisação de atividade econômica e meio ambiente
O Plenário, por maioria, deu provimento a dois agravos regimentais para indeferir o pedido de
suspensão de liminar em que se discutia a paralisação de empreendimento de mineração em Município
paraense no qual existentes comunidades indígenas, tendo em conta a proteção constitucional do meio
ambiente, do índio e das atividades econômicas (vide Informativo 830). Na mesma assentada, também por
maioria, julgou prejudicados embargos de declaração.
Em síntese, a Corte determinou o restabelecimento da decisão proferida em antecipação de tutela
recursal pelo Desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Naquela decisão foi determinada a
suspensão das atividades de mineração, o depósito mensal de R$ 1.000.000,00 a cada uma das sete aldeias
indígenas afetadas e a multa diária para a hipótese de descumprimento do julgado no valor de R$ 10.000,00.
No caso, o Colegiado afirmou haver um conflito entre dois valores. De um lado, o meio ambiente,
presente na comunidade indígena e merecedora de proteção, nos termos da Constituição Federal de 1988; de
outro, um aspecto patrimonial, que diz respeito não só à prestação de serviço, como também à arrecadação do
Estado e do próprio Município.
Salientou a presença de indícios de descumprimento pela mineradora de medidas preventivas,
mitigadoras e compensatórias previstas na licença ambiental. Em juízo mínimo de delibação, constatou haver
evidências de danos graves causados às comunidades indígenas pela atividade de mineração. Considerou que,
ainda que esses indícios não sejam posteriormente confirmados no curso da ação civil pública, são suficientes
para, com fundamento no princípio da precaução, justificar a suspensão da atividade minerária.
Ademais, ressaltou que o pedido de suspensão de liminar é medida excepcional que pressupõe a
existência de dano inafastável.
Tendo em vista a complexidade fática da matéria e o não cabimento da apreciação de matéria de mérito
nesse tipo de ação, o Tribunal decidiu devolver a discussão da matéria para as instâncias ordinárias.
Vencidos o ministro Ricardo Lewandowski (relator), que recebia os embargos como agravo regimental
e a ele negava provimento, e o ministro Gilmar Mendes, que recebia os embargos como agravo regimental e a
ele dava provimento. Quanto aos demais recursos, também ficaram vencidos os ministros Ricardo
Lewandowski (relator) e Gilmar Mendes, que negavam provimento aos agravos regimentais. Afirmavam que a
paralisação das atividades econômicas de mineração na região poderia causar prejuízos econômicos elevados,
imediatos e de difícil reparação ao Estado do Pará, inclusive com a possível e indesejável demissão de grande
número de trabalhadores.
SL 933 AgR-segundo, rel. Min. Ricardo Lewandowski, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio,
julgamento em 31.5.2017.
SL 933 ED/PA, rel. Min. Ricardo Lewandowski, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio,
julgamento em 31.5.2017.
(Informativo 867, Plenário)

Orçamento

ADPF e expropriação de recursos administrados pelo poder público estadual


O Plenário do Supremo Tribunal Federal, por maioria, deferiu parcialmente liminar em ação de
descumprimento de preceito fundamental (ADPF), para suspender, até o julgamento de mérito, os efeitos
de todas as decisões judiciais do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) e do Tribunal
Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT1) que tenham determinado o arresto, o sequestro, o bloqueio, a
penhora ou a liberação de valores das contas administradas pelo Estado do Rio de Janeiro, para atender a
demandas relativas a pagamento de salários, a satisfação imediata de créditos de prestadores de serviços e
tutelas provisórias definidoras de prioridades na aplicação de recursos públicos, exclusivamente nos casos
em que estas determinações tenham recaído sobre recursos escriturados, com vinculação orçamentária
específica ou vinculados a convênios e operações de crédito, valores de terceiros sob a administração do
Poder Executivo e valores constitucionalmente destinados a municípios, devendo, ainda, ser devolvidos
os recursos que ainda não tenham sido repassados aos beneficiários dessas decisões judiciais.
Preliminarmente, o Tribunal reconheceu a legitimidade ad causam ativa do governador do Estado
do Rio de Janeiro para o ajuizamento da ação, nos termos dos arts. 2º, I, da Lei 9.882/1999 (1) e 103, V,
da Constituição Federal (2).
A Corte, por maioria, também reputou cabível a ADPF, que tem por objeto, na forma do art. 1º,
caput, da Lei 9.882/1999, evitar ou reparar lesões a preceitos fundamentais resultantes de “atos do Poder
Público que determinam a expropriação de recursos administrados pelo Poder Executivo estadual”. Nesse
sentido, citou a orientação fixada no julgamento da ADPF 33/PA (DJ de 27.10.2006), que afirma não se

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configurar lesão a preceito fundamental apenas quando verificada possível afronta a um princípio
fundamental, tal como assente na ordem constitucional, mas também quando observada ofensa a regras
que confiram densidade normativa ou significado específico a esse princípio.
O Colegiado aduziu que a ADPF desempenha, no conjunto dos mecanismos de proteção da
higidez da ordem constitucional, função específica de evitar, à falta de outro meio eficaz para tanto, a
perenização no ordenamento jurídico de comportamentos estatais – ostentem eles ou não a natureza de
atos normativos – contrários a um identificável núcleo de preceitos – princípios e regras – tidos como
sustentáculos da ordem constitucional estabelecida. Consignou que, sem risco de vulgarizar o conteúdo
do núcleo essencial merecedor da proteção singular da ADPF, pode-se afirmar que o descumprimento de
preceito fundamental acionador do mecanismo de defesa da ordem constitucional [art. 102, § 1º, da CF
(3)] se manifesta na contrariedade às linhas mestras da Constituição, àquilo que, mesmo não identificado
com esta ou aquela fração do texto positivado, tem sido metaforicamente chamado, por escolas do
pensamento jurídico, de seu espírito, pilares de sustentação, explícitos ou implícitos, sem os quais a
ordem jurídica delineada pelo Poder Constituinte, seja ele originário ou derivado, ficaria desfigurada na
sua própria identidade. A própria redação do art. 102, § 1º, da CF, ao aludir a preceito fundamental
“decorrente desta Constituição”, é indicativa de que esses preceitos não se restringem às normas
expressas no seu texto, incluindo também prescrições implícitas, desde que revestidas dos indispensáveis
traços de essencialidade e fundamentalidade.
Sustentou, nesse sentido, parecer restarem poucas dúvidas de que a lesão ao postulado da
separação e independência entre os Poderes, ao princípio da igualdade ou ao princípio federativo,
considerada a centralidade da posição por eles ocupada no complexo deontológico e político
consubstanciado na Constituição, desfigura a própria essência do regime constitucional pátrio. O mesmo
pode ser dito quanto à garantia de continuidade dos serviços públicos, na medida em que estes assumem,
no regime previsto na Carta de 1988, instrumentos particularmente relevantes de distribuição de direitos
materiais subjetivos, notadamente os de natureza prestacional.
Observou, no entanto, que é preciso reconhecer a dificuldade em se incluir, entre os preceitos
fundamentais da ordem constitucional, normas veiculadoras de opções políticas relativas a determinados
arranjos financeiros e orçamentários, caso dos invocados “princípios e regras do sistema orçamentário”
[art. 167, VI e X, da CF (4)], e “regime de repartição de receitas tributárias” [arts. 34, V (5); 158, III e IV
(6); 159, §§ 3º e 4º (7); e 160 da CF (8)] e da alusão à “garantia de pagamentos devidos pela Fazenda
Pública em ordem cronológica de apresentação de precatórios” [art. 100 da CF (9)]. Nada obstante,
reconheceu que tais aspectos têm relação com a efetividade do modelo de organização da Administração
Pública preconizado pela Lei Maior e, em alguma dimensão, com a interação entre os Poderes e a
dinâmica do modelo federativo.
Tendo isso em conta, a Corte reputou enquadrar-se a controvérsia, tal como apresentada, em
hipótese de lesão a preceitos fundamentais indicados na inicial. Registrou, ademais, que, em certo sentido,
a tutela sobre o descumprimento de preceito constitucional alcança um universo de comportamentos
estatais mais amplo do que o de inconstitucionalidade, a abranger a lesão à Constituição resultante de “ato
do Poder Público” outro que não apenas a “lei ou ato normativo”, sempre que traduza efetivo e material
descumprimento da Constituição. Citou, no ponto, o que decidido na ADPF 101/DF (DJE de 4.6.2012) e
na ADPF 144/DF (DJE de 26.2.2010).
Concluiu que o conjunto de decisões do TJRJ e do TRT1 analisado amolda-se ao conceito de ato
do poder público passível de impugnação pela via da ADPF e considerou demonstrada, ao menos em
juízo delibatório, a insuficiência dos meios processuais ordinários para imprimir solução satisfatória à
controvérsia objeto da ADPF [Lei 9.882/1999, art. 4º, § 1º (10)].
Ressaltou, ainda, não ter o condão de elidir o cabimento da ADPF o deferimento das medidas
liminares requeridas no MS 34.483/RJ (DJE de 1º.12.2016) e na Rcl 25.581/RJ (DJE de 25.11.2016), em
que tratada a questão relativa ao repasse do duodécimo orçamentário do Poder Judiciário fluminense para
fins de pagamento de salários e subsídios de servidores e magistrados. Tais decisões estão contidas no
escopo da ADPF, cujo objeto, no entanto, é mais amplo e abrange contrições de receitas que objetivam
atender, além de determinações de imediato pagamento de salários de servidores estaduais ativos e
inativos (objeto das liminares citadas), a satisfação imediata de créditos de prestadores de serviços e o
cumprimento imediato de tutelas provisórias que estabelecem prioridades políticas para a aplicação de
recursos públicos.
Quanto ao pedido de liminar, o STF esclareceu, de início, ser o pano de fundo das decisões
judiciais impugnadas na presente ADPF a notória situação de grave dificuldade econômica e financeira
pela qual passa o Estado do Rio de Janeiro, especialmente ante as mudanças ocorridas no mercado
petrolífero mundial, a sensível redução na receita dos royalties da exploração do petróleo, a grave crise

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pela qual passa a Petrobras e toda a sua cadeia de produção, e a desaceleração da economia, com a
consequente redução das receitas tributárias do Estado.
Consignou que os documentos trazidos aos autos apontam que as sucessivas expropriações de
numerário existente nas contas do Estado do Rio de Janeiro, para saldar os valores fixados nas decisões
judiciais, têm alcançado recursos de terceiros, escriturados contabilmente, individualizados ou com
vinculação orçamentária específica. Essas determinações judiciais de bloqueio, penhora, arresto,
sequestro e liberação de verbas públicas alteram a destinação orçamentária dos recursos públicos,
remanejando-os de uma categoria de programação para outra, sem prévia autorização legislativa. Por isso,
pelo menos aparentemente, são dificilmente conciliáveis com as vedações contidas no art. 167, VI e X, da
Constituição da República.
A aparente usurpação de competências constitucionais reservadas ao Poder Executivo (exercer a
direção da Administração) e ao Poder Legislativo (autorizar transposição, remanejamento ou
transferência de recursos de uma categoria de programação para outra ou de um órgão para outro) sugere
configurada, na hipótese, provável lesão aos arts. 2º (11); 84, II (12); e 167, VI e X, da Carta Política.
O Tribunal, por fim, asseverou ser passível de tutela jurisdicional a realização de políticas
públicas, sobretudo para atender mandamentos constitucionais e assegurar direitos fundamentais. No
entanto, a subtração de qualquer margem de discricionariedade do chefe do Poder Executivo na execução
das despesas sugere haver indevida interferência do Poder Judiciário na administração do orçamento e na
definição das prioridades na execução de políticas públicas, em conflito com o disposto nos arts. 2º e 84,
II, da Carta Política, o que suscita preocupações também sob o prisma da harmonia entre os Poderes.
Além de comprometer a autonomia administrativa do Estado, por retirar do chefe do Poder Executivo os
meios essenciais à alocação de recursos financeiros, a proliferação de decisões judiciais que determinam
constrições imediatas, em descompasso com o cronograma de desembolso orçamentário, parece colocar
alguns credores em situação mais vantajosa do que outros em igual condição fática e jurídica, quebrando
a isonomia. Reputou presente, portanto, o fumus boni iuris e devidamente preenchido o requisito do
periculum in mora em face do elevado risco de comprometimento do patrimônio e das receitas correntes
do Estado do Rio de Janeiro.
Vencidos os ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski.
O ministro Marco Aurélio, preliminarmente, entendeu pelo não cabimento da arguição e, no
mérito, votou pela improcedência dos pedidos.
O ministro Ricardo Lewandowski concedeu parcialmente a liminar em menor extensão.

(1) Lei 9.882/1999: “Art. 2o Podem propor arguição de descumprimento de preceito fundamental: I - os legitimados para a
ação direta de inconstitucionalidade”.
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 103. Podem propor a ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória de
constitucionalidade: (...) V - o Governador de Estado ou do Distrito Federal”.
(3) Constituição Federal/1988: “Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição,
cabendo-lhe: (...) § 1.º A arguição de descumprimento de preceito fundamental, decorrente desta Constituição, será apreciada pelo
Supremo Tribunal Federal, na forma da lei”.
(4) Constituição Federal/1988: “Art. 167. São vedados: VI - a transposição, o remanejamento ou a transferência de recursos
de uma categoria de programação para outra ou de um órgão para outro, sem prévia autorização legislativa; (...) X - a transferência
voluntária de recursos e a concessão de empréstimos, inclusive por antecipação de receita, pelos Governos Federal e Estaduais e
suas instituições financeiras, para pagamento de despesas com pessoal ativo, inativo e pensionista, dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios”.
(5) Constituição Federal/1988: “Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para: (...) V -
reorganizar as finanças da unidade da Federação que: a) suspender o pagamento da dívida fundada por mais de dois anos
consecutivos, salvo motivo de força maior; b) deixar de entregar aos Municípios receitas tributárias fixadas nesta Constituição,
dentro dos prazos estabelecidos em lei”.
(6) Constituição Federal/1988: “Art. 158. Pertencem aos Municípios: (...) III - cinquenta por cento do produto da
arrecadação do imposto do Estado sobre a propriedade de veículos automotores licenciados em seus territórios; IV - vinte e cinco
por cento do produto da arrecadação do imposto do Estado sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações
de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação”.
(7) Constituição Federal/1988: “Art. 159. (...) § 3º Os Estados entregarão aos respectivos Municípios vinte e cinco por
cento dos recursos que receberem nos termos do inciso II, observados os critérios estabelecidos no art. 158, parágrafo único, I e II. §
4º Do montante de recursos de que trata o inciso III que cabe a cada Estado, vinte e cinco por cento serão destinados aos seus
Municípios, na forma da lei a que se refere o mencionado inciso”.
(8) Constituição Federal/1988: “Art. 160. É vedada a retenção ou qualquer restrição à entrega e ao emprego dos recursos
atribuídos, nesta seção, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, neles compreendidos adicionais e acréscimos relativos a
impostos. Parágrafo único. A vedação prevista neste artigo não impede a União e os Estados de condicionarem a entrega de
recursos: I – ao pagamento de seus créditos, inclusive de suas autarquias; II – ao cumprimento do disposto no art. 198, § 2º, incisos
II e III”.
(9) Constituição Federal/1988: “Art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal, Estaduais, Distrital e
Municipais, em virtude de sentença judiciária, far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à
conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas dotações orçamentárias e nos créditos adicionais
abertos para este fim”.

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(10) Lei 9.882/1999: “Art. 4o A petição inicial será indeferida liminarmente, pelo relator, quando não for o caso de
arguição de descumprimento de preceito fundamental, faltar algum dos requisitos prescritos nesta Lei ou for inepta. § 1o Não será
admitida arguição de descumprimento de preceito fundamental quando houver qualquer outro meio eficaz de sanar a lesividade”.
(11) Constituição Federal/1988: “Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o
Executivo e o Judiciário”.
(12) Constituição Federal /1988: “Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: (...) II - exercer, com o
auxílio dos Ministros de Estado, a direção superior da administração federal”.
ADPF 405 MC/RJ, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 14.6.2017.
(Informativo 869, Plenário)1ª Parte: 2ª Parte: 1ª Parte: 2ª Parte:
3ª Parte:

Precatórios

RFFSA e penhora anterior à sucessão pela União


É válida a penhora em bens de pessoa jurídica de direito privado, realizada anteriormente à
sucessão desta pela União, não devendo a execução prosseguir mediante precatório (art. 100, caput e § 1º,
da Constituição Federal). Com essa orientação, o Tribunal negou provimento a recurso extraordinário em
que se discutiam a validade da penhora de bem da extinta Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA),
realizada anteriormente à sucessão de seus créditos pela União, e a possibilidade de a execução prosseguir
mediante precatório.
O Tribunal observou, inicialmente, que a sucessão da RFFSA pela União ocorreu em 22.1.2007
(Medida Provisória 353/2007, convertida na Lei 11.483/2007), portanto, após a determinação da
constrição judicial realizada em 21.1.2005 e confirmada pelo TRT da 3ª Região em 25.10.2006.
Também registrou que, por expressa disposição normativa (art. 173, § 1º, II, da CF) e pela pacífica
jurisprudência da Corte, a RFFSA não tem os privilégios da Fazenda Pública, que, em regra, não são
extensíveis às empresas públicas nem às sociedades de economia mista, porquanto submetidas ao regime
jurídico das pessoas jurídicas de direito privado.
Anotou que a Corte, diante de situações excepcionais, tem entendido que determinadas pessoas
jurídicas de direito privado podem submeter-se ao regime de precatórios, como no caso da Empresa
Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), empresa pública que presta serviço público da competência da
União e por ela mantido.
Mencionou o RE 599.176/PR (DJE de 30.10.2014), com repercussão geral, no qual, diante
também de sucessão da RFFSA pela União, o Plenário concluiu que a imunidade recíproca do art. 150,
VI, “a”, da CF não exonera o sucessor das obrigações tributárias relativas aos fatos ocorridos antes da
sucessão. Reconheceu que a solução do mencionado precedente poderia ser aplicada ao presente caso e
salientou que os dois julgados tratam da mesma questão jurídica: a possibilidade de se concederem
privilégios próprios de pessoa jurídica de direito público, sucessora de empresa privada, aos atos
processuais praticados antes da sucessão.
Nesse sentido, não se pode falar em afronta a preceito constitucional nem em impenhorabilidade
absoluta do bem penhorado em data anterior à sucessão processual da RFFSA pela União, haja vista a
impossibilidade de a sucessão ter efeitos retroativos em prejuízo dos atos processuais praticados.
Asseverou que, em certo sentido, a mudança do regime do rito de processamento da execução,
quando já estabelecida a penhora, pode ser considerada uma fraude contra os credores. A mudança, no
curso do processo executivo, tal como posta nestes autos, representa uma forma de retirar dos credores a
garantia de seus créditos já aperfeiçoada e consolidada na forma do regime anterior.
Por fim, o Plenário frisou que, no caso, deve ser levado em conta que o débito exequendo decorre
do pagamento de direitos trabalhistas, com prestação de serviços iniciada na década de 1970, de ex-
empregado da antiga empresa Ferrovia Paulista S/A (FEPASA), cuja pretensão já está a se arrastar por
quase duas décadas. Salientou a existência de inúmeras execuções que tratam da mesma matéria, com
processos sobrestados nos tribunais de origem aguardando a solução da presente controvérsia, cujos
exequentes, se vivos, teriam mais de sessenta anos de idade. Concluiu que admitir a pretensão da União
no sentido de submeter o crédito dos exequentes à ordem cronológica de apresentação dos precatórios
tornaria ainda mais penosa a espera dos ex-trabalhadores em ver realizados seus direitos já reconhecidos e
amparados pela coisa julgada.
RE 693112/MG, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 9.2.2017.
(Informativo 853, Plenário, Repercussão Geral)

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Precatórios e sociedade de economia mista
É aplicável o regime dos precatórios às sociedades de economia mista prestadoras de serviço público
próprio do Estado e de natureza não concorrencial.
Com essa orientação, o Plenário, por maioria, julgou procedente pedido formulado em arguição de
descumprimento de preceito fundamental para cassar decisões proferidas pelo Tribunal Regional do Trabalho da
22ª Região. As deliberações resultaram em bloqueio, penhora e liberação de valores oriundos da conta única do
Estado do Piauí para pagamento de verbas trabalhistas de empregados da Empresa de Gestão de Recursos do
Estado do Piauí S/A (EMGERPI), estatal que compõe a administração indireta do ente federativo estadual.
Inicialmente, o Tribunal, também por maioria, converteu a apreciação do referendo da cautelar em
julgamento de mérito, em respeito à economia processual e por estar a ação devidamente instruída. Considerou,
ainda, ser cabível a ADPF, por estarem preenchidos os requisitos do art. 102, § 1º, da CF e da Lei 9.882/1999.
Vencido, no ponto, o ministro Marco Aurélio, que entendia inadequada a arguição, não referendava a liminar nem
convertia o referendo da cautelar em julgamento de mérito.
Em seguida, o Plenário asseverou que não se sujeitam ao regime de precatório apenas as entidades jurídicas
que atuam em mercado sujeito à concorrência, permitem a acumulação ou a distribuição de lucros. Essas se
submetem ao regime de execução comum das empresas controladas pelo setor privado.
Observou que a EMGERPI, instituída pela LC 83/2007, é sociedade de economia mista voltada à
capacitação e redistribuição de servidores para órgãos e entidades da Administração Pública estadual. Tem como
finalidade prioritária gerenciar recursos humanos da Administração Pública estadual, na medida em que seu
objeto social é capacitar, aperfeiçoar, absorver, redistribuir e ceder pessoal para órgãos e entidades da
Administração Pública do Piauí. Assim, não está configurada atividade econômica exercida em regime de
concorrência capaz de excluir a empresa do regime constitucional dos precatórios.
Acrescentou que o Estado do Piauí detém mais de 99% do capital votante da sociedade, que é mantida por
meio de recursos financeiros previamente detalhados na Lei Orçamentária Anual piauiense (Lei 6.576/2014),
repassados pelo Estado do Piauí e oriundos da conta única do ente mantenedor.
Tendo isso em conta, o Colegiado concluiu que as decisões impugnadas estão em confronto com o regime
de precatórios estabelecido no art. 100 da CF, não sendo o caso, ademais, de violação à ordem cronológica de
pagamento dos precatórios nem de alocação no orçamento da entidade de dotação destinada ao pagamento da
dívida. Registrou que as decisões impugnadas estão fundamentadas na inaplicabilidade do regime de precatórios
às execuções das decisões judiciais contrárias à EMGERPI, ainda que as disponibilidades financeiras da empresa
estivessem na conta única do Tesouro estadual.
Além disso, foram violados os princípios constitucionais da atividade financeira estatal, em especial o da
legalidade orçamentária (CF, art. 167, VI). Consignou que as ordens de bloqueio, penhora e liberação de valores
da conta única do Estado de forma indiscriminada, fundadas em direitos subjetivos individuais, poderiam
significar retardo/descontinuidade de políticas públicas ou desvio da forma legalmente prevista para a utilização
de recursos públicos.
Por fim, considerou que o bloqueio indiscriminado de provisões, da forma apontada pelo requerente, além
de desvirtuar a vontade do legislador estadual e violar os aludidos princípios constitucionais do sistema financeiro
e orçamentário, constitui interferência indevida, em ofensa aos princípios da independência e da harmonia entre os
Poderes (CF, art. 2º).
Vencido, quanto ao mérito, o ministro Marco Aurélio, que não acolhia o pedido formalizado, por entender
que, por se tratar de execução contra pessoa jurídica de direito privado, não caberia a utilização de um
instrumental próprio à Fazenda.
ADPF 387/PI, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 23.3.2017.
(Informativo 858, Plenário)

RPV e juros moratórios


Incidem os juros da mora no período compreendido entre a data da realização dos cálculos e a da
requisição ou do precatório.
Com base nesse entendimento, o Plenário, em conclusão, negou provimento a recurso
extraordinário em que discutida a incidência dos juros de mora no período supracitado — v. Informativo
805.
O Colegiado afirmou que o regime previsto no art. 100 da Constituição Federal (CF)
consubstancia sistema de liquidação de débito, que não se confunde com moratória. A requisição não
opera como se fosse pagamento nem faz desaparecer a responsabilidade do devedor. Assim, enquanto
persistir o quadro de inadimplemento do Estado, devem incidir os juros da mora. Portanto, desde a citação

81
— termo inicial firmado no título executivo — até a efetiva liquidação da Requisição de Pequeno Valor
(RPV), os juros moratórios devem ser computados, a compreender o período entre a data da elaboração
dos cálculos e a da requisição.
Segundo o Colegiado, a Súmula Vinculante 17 não se aplica ao caso, pois não cuida do período de
18 meses referido no art. 100, § 5º, da CF, mas sim do lapso temporal compreendido entre a elaboração
dos cálculos e a RPV.
Além disso, o entendimento pela não incidência dos juros da mora durante o aludido prazo foi
superado pela Emenda Constitucional 62/2009, que excluiu o § 12 ao art. 100 da CF.
A Corte enfatizou que o sistema de precatório, a abranger as RPVs, não pode ser confundido com
moratória, razão pela qual os juros da mora devem incidir até o pagamento do débito. Comprovada a
mora da Fazenda até o efetivo pagamento do requisitório, não há fundamento para afastar a incidência dos
juros moratórios durante o lapso temporal anterior à expedição da RPV.
No plano infraconstitucional, antes da edição da aludida emenda constitucional, entrou em vigor a
Lei 11.960/2009, que modificou o art. 1º-F da Lei 9.494/1997. A norma prevê a incidência dos juros para
compensar a mora nas condenações impostas à Fazenda até o efetivo pagamento. Não há, portanto,
fundamento constitucional ou legal a justificar o afastamento dos juros da mora enquanto persistisse a
inadimplência do Estado.
Ademais, não procede a alegação no sentido de que o ato voltado a complementar os juros da mora
seria vedado pela regra do art. 100, § 4º, da CF, na redação da Emenda Constitucional 37/2002. Há
precedentes do Supremo Tribunal Federal a consignar a dispensa da expedição de requisitório
complementar — mesmo nos casos de precatório — quando houvesse erro material, inexatidão dos
cálculos do precatório ou substituição, por força de lei, do índice empregado.
Também é insubsistente o argumento de que o requisitório deve ser corrigido apenas
monetariamente, ante a parte final da regra do art. 100, § 1º, da CF, na redação conferida pela Emeda
Constitucional 30/2000. O fato de o constituinte haver previsto somente a atualização monetária no
momento do pagamento não teria o condão de afastar a incidência dos juros da mora.
RE 579431/RS, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 19.4.2017.
(Informativo 861, Plenário)

Conselhos profissionais e sistema de precatórios


Os pagamentos devidos, em razão de pronunciamento judicial, pelos Conselhos de Fiscalização
não se submetem ao regime de precatórios.
Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, deu provimento a recurso extraordinário
em que se discutia a utilização, pelos conselhos de fiscalização profissional, do regime de precatório para
pagamentos de dívidas decorrentes de decisão judicial.
O Plenário reconheceu que os conselhos de fiscalização profissional são autarquias especiais —
pessoas jurídicas de direito público, que se submetem à fiscalização do Tribunal de Contas da União
(TCU) e ao sistema de concurso público para a seleção de pessoal. Além disso, esses órgãos são dotados
de poder de polícia e poder arrecadador. Entretanto, eles não participam do orçamento público, não
recebem aporte do Poder Central nem se confundem com a Fazenda Pública.
Segundo o Colegiado, o sistema de precatório foi concebido para assegurar a igualdade entre os
credores, com impessoalidade e observância de ordem cronológica, sem favorecimentos. Outra finalidade
do sistema de precatório é permitir que as entidades estatais possam programar os seus orçamentos para a
realização de despesas. Portanto, o precatório está diretamente associado à programação orçamentária dos
entes públicos.
A Corte ressaltou que os conselhos de fiscalização profissional têm autonomia financeira e
orçamentária. Portanto, sua dívida é autônoma em relação ao Poder Público. Desse modo, inserir esse
pagamento no sistema de precatório transferiria para a União a condição de devedora do conselho de
fiscalização.
Reputou que, se não é possível considerar esses conselhos como Fazenda Pública, tampouco seria
possível incluí-los no regime do art. 100 da Constituição Federal.
Vencido o ministro Edson Fachin (relator), que negava provimento ao recurso. Pontuava que o
regime de precatórios decorreria do reconhecimento da natureza jurídica de autarquia atribuída pelo
Supremo Tribunal Federal aos conselhos de fiscalização profissional.
RE 938837/SP, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio, julgamento
em 19.4.2017.

82
(Informativo 861, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Execução provisória de débitos da Fazenda Pública: obrigação de fazer e regime de


precatórios
A execução provisória de obrigação de fazer em face da Fazenda Pública não atrai o regime
constitucional dos precatórios.
Com base nessa orientação, o Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Tema 45 da repercussão
geral, por unanimidade, negou provimento a recurso extraordinário em que se questionava a possibilidade
de execução provisória (1) de obrigação de fazer contra a Fazenda Pública, haja vista a previsão
constitucional dos precatórios.
O caso trata de execução de obrigações de fazer, mediante implantação de benefício equivalente à
metade do valor de pensão instituída por militar decesso em favor da companheira, a par da outra metade
a ser percebida pela esposa, até então favorecida com a integralidade da verba.
Inicialmente, a Corte relembrou a jurisprudência firmada no sentido da inaplicabilidade ao Poder
Público do regime jurídico da execução provisória de prestação obrigacional, após a Emenda
Constitucional 30/2000, que deu nova redação ao § 1º do art. 100 da Constituição Federal.
Considerou, entretanto, que a sistemática dos precatórios não se aplica no caso concreto, por se
tratar de obrigação de fazer, ou seja, implantação de pensão instituída por militar.
Asseverou que toda decisão não autossuficiente pode ser cumprida de maneira imediata, na
pendência de recursos não recebidos com efeito suspensivo. Não há parâmetro constitucional nem legal
que obste a pretensão de executar provisoriamente a sentença condenatória de obrigação de fazer relativa
à implementação de pensão de militar, antes do trânsito em julgado dos embargos do devedor opostos
pela Fazenda Pública. Assim, inexiste razão para que a obrigação de fazer tenha seu efeito financeiro
postergado em função do trânsito em julgado, sob pena de hipertrofiar uma regra constitucional de índole
excepcionalíssima.
Dessa forma, concluiu haver compatibilidade material entre o regime de cumprimento integral de
decisão provisória do art. 475-O do CPC/1973 e a sistemática dos precatórios, com previsão no art. 100
da CF, haja vista que este apenas se refere às obrigações de pagar quantia certa.

(1) CPC/1973: “Art. 475-O. A execução provisória da sentença far-se-á, no que couber, do mesmo modo que a definitiva,
observadas as seguintes normas: I – corre por iniciativa, conta e responsabilidade do exeqüente, que se obriga, se a sentença for
reformada, a reparar os danos que o executado haja sofrido; II – fica sem efeito, sobrevindo acórdão que modifique ou anule a
sentença objeto da execução, restituindo-se as partes ao estado anterior e liquidados eventuais prejuízos nos mesmos autos, por
arbitramento; III – o levantamento de depósito em dinheiro e a prática de atos que importem alienação de propriedade ou dos quais
possa resultar grave dano ao executado dependem de caução suficiente e idônea, arbitrada de plano pelo juiz e prestada nos próprios
autos. § 1º No caso do inciso II do caput deste artigo, se a sentença provisória for modificada ou anulada apenas em parte, somente
nesta ficará sem efeito a execução. § 2º A caução a que se refere o inciso III do caput deste artigo poderá ser dispensada: I – quando,
nos casos de crédito de natureza alimentar ou decorrente de ato ilícito, até o limite de sessenta vezes o valor do salário-mínimo, o
exeqüente demonstrar situação de necessidade; II - nos casos de execução provisória em que penda agravo perante o Supremo
Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça (art. 544), salvo quando da dispensa possa manifestamente resultar risco de grave
dano, de difícil ou incerta reparação. § 3º Ao requerer a execução provisória, o exequente instruirá a petição com cópias autenticadas
das seguintes peças do processo, podendo o advogado declarar a autenticidade, sob sua responsabilidade pessoal: I – sentença ou
acórdão exeqüendo; II – certidão de interposição do recurso não dotado de efeito suspensivo; III – procurações outorgadas pelas
partes; IV – decisão de habilitação, se for o caso; V – facultativamente, outras peças processuais que o exeqüente considere
necessárias”.
RE 573872/RS, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 24.5.2017.
(Informativo 866, Plenário, Repercussão Geral)

Empresas Públicas e execução de débitos via precatório


As empresas públicas e sociedades de economia mista não têm direito à prerrogativa de execução
via precatório.
Esse é o entendimento da Primeira Turma, que, por maioria, negou provimento a agravo
regimental em recurso extraordinário.
A agravante, empresa pública constituída com capital integralmente pertencente ao Estado do
Paraná e prestadora de serviço público, sustentava ter direito à execução de débitos via precatório,
consoante o art. 100 (1) da Constituição Federal (CF).
A Turma entendeu pela aplicação do art. 173, §1º, inciso II (2), da CF, o qual submete a empresa
pública ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive quanto aos direitos e obrigações civis,
comerciais, trabalhistas e tributários. Assim sendo, observou incongruente considerar os bens integrantes

83
do patrimônio de empresas públicas, enquanto pessoas jurídicas de direito privado, como bens públicos, a
fim de gozar das vantagens decorrentes.
Vencido o ministro Alexandre de Moraes, que deu provimento ao agravo, por entender que
empresa pública prestadora de serviços tem direito à execução via precatório.

(1) Constituição Federal: “Art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal, Estaduais, Distrital e
Municipais, em virtude de sentença judiciária, far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à
conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas dotações orçamentárias e nos créditos adicionais
abertos para este fim. ”.
(2) CF: Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade econômica pelo
Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme
definidos em lei. § 1º A lei estabelecerá o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas
subsidiárias que explorem atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, dispondo
sobre: (...) II - a sujeição ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive quanto aos direitos e obrigações civis,
comerciais, trabalhistas e tributários; ”.
RE 851711 AgR/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 12.12.2017.
(Informativo 888, Primeira Turma)

Presidente da República

Art. 86 da CF: apreciação das teses da defesa e necessidade de aguardar juízo de


admissibilidade da Câmara dos Deputados
O Plenário, por maioria, resolveu questão de ordem — em inquérito que apura supostos delitos de
obstrução de justiça e organização criminosa praticados pelo presidente da República — no sentido de
que o juízo político de admissibilidade exercido pela Câmara dos Deputados [CF, art. 86, caput (1)]
precede a análise jurídica pelo STF para conhecer e julgar qualquer questão ou matéria defensiva
suscitada pelo denunciado.
A Corte decidiu, ainda, que a possibilidade de rescisão ou de revisão, total ou parcial, de acordo de
colaboração premiada, devidamente reconhecido pelo Poder Judiciário, em decorrência de
descumprimento de deveres assumidos pelo colaborador, não propicia conhecer e julgar alegação de
imprestabilidade das provas, porque a rescisão ou revisão tem efeitos somente entre as partes, não
atingindo a esfera jurídica de terceiros.
No caso, fatos alegadamente delituosos vieram à tona por meio de acordos de colaboração
premiada celebrados entre o Ministério Público Federal e integrantes de grupo empresarial. Entretanto,
diante de indícios de omissão de informação no acordo de delação premiada, a PGR abriu investigação
para apurar supostas irregularidades na celebração do acordo. A defesa, então, alegou que as provas
produzidas estavam maculadas e requereu a sustação da denúncia.
O Tribunal afirmou que, somente após a autorização da Câmara dos Deputados, é que se pode dar
sequência à persecução penal no âmbito do STF. Essa conclusão ressai cristalina quando se atenta para a
redação do art. 86, § 1º, I (1), da CF, o qual determina o afastamento do Presidente da República das suas
funções se recebida a denúncia ou a queixa-crime pelo STF.
A realização de um juízo de admissibilidade positivo por parte do STF, prévio ao da Câmara dos
Deputados, implicaria admitir que a CF tivesse imposto ao presidente da República enfrentar o juízo
predominantemente político, a ser realizado pela Câmara dos Deputados, fora do exercício de suas
funções.
Essa concepção teria o condão de aniquilar o próprio escopo protetivo da Presidência da República
buscado pela Constituição ao submeter a acusação por crime comum a um juízo prévio,
predominantemente político, a ser realizado pelos deputados federais.
Afinal, condicionando o processamento do Presidente da República à autorização da Câmara dos
Deputados, tem a CF, justamente, a finalidade de proteger a soberania do voto popular, impondo que,
quem fora eleito pelo sufrágio, só seja afastado do exercício de seu mandato com a autorização dos
representantes do próprio povo.
Essa é a razão, também, pela qual a CF elegeu a Câmara dos Deputados para realizar esse juízo
político, eis que se trata da Casa do Congresso Nacional tradicionalmente associada à representação do
povo.
Assim, somente após a autorização da Câmara dos Deputados, o STF determinará, nos termos do
art. 4º da Lei 8.038/1990 (2), a notificação do denunciado para, no prazo de 15 dias, apresentar sua
resposta à acusação.

84
Não cabendo ao STF proferir juízo de admissibilidade sobre denúncia oferecida contra o
presidente da República antes da autorização da Câmara dos Deputados, igualmente não cabe proferir
juízo antecipado a respeito de eventuais teses defensivas, cuja ambiência própria é o momento previsto no
art. 4º da Lei 8.038/1990, o qual prevê a apresentação de resposta à acusação após o oferecimento da
denúncia.
A discussão sobre o valor probatório dos elementos de convicção, ou mesmo a respeito da
validade desses elementos que eventualmente embasarem a denúncia, constitui matéria afeta à
configuração da justa causa, uma das condições da ação penal, cuja constatação ou não se dará por
ocasião do juízo de admissibilidade a ser levado a efeito pelo Plenário do STF, após eventual autorização
da Câmara dos Deputados.
O ministro Dias Toffoli ressaltou que, teoricamente, o relator, antes de encaminhar a denúncia ao
Congresso Nacional, pode trazê-la ao Plenário para a sua rejeição, quando não estiverem presentes
pressupostos processuais, quando houver carência da ação ou quando não houver justa causa.
Vencido o ministro Gilmar Mendes, que resolveu a questão de ordem no sentido de devolver os
autos à PGR para que esta limite a imputação dos atos do presidente aos fatos relativos ao seu mandato. O
ministro se manifestou, ainda, no sentido da possibilidade de se suspender o envio da acusação à Câmara
dos Deputados, até a conclusão das investigações sobre a participação de membros do Ministério Público
nos fatos narrados em gravação apresentada pelos investigados.

(1) CF: “Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele
submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes
de responsabilidade. § 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções: I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou
queixa-crime pelo Supremo Tribunal Federal; II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado
Federal. § 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do Presidente,
sem prejuízo do regular prosseguimento do processo. § 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o
Presidente da República não estará sujeito a prisão. § 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser
responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções”.
(2) Lei 8.038/1990: “Art. 4º. Apresentada a denúncia ou a queixa ao Tribunal, far-se-á a notificação do acusado para
oferecer resposta no prazo de quinze dias”.
Inq 4483 QO/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 20 e 21.9.2017.
(Informativo 878, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte:

Imunidade formal do Presidente da República e aplicabilidade a codenunciados


A imunidade formal prevista no art. 51, I, e no art. 86, caput, da Constituição Federal (1) (2), tem por
finalidade tutelar o exercício regular dos cargos de Presidente da República e de Ministro de Estado, razão pela
qual não é extensível a codenunciados que não se encontram investidos em tais funções.
Essa é a orientação do Plenário ao dar parcial provimento a agravos regimentais interpostos contra decisão,
por meio da qual, diante da negativa de autorização por parte da Câmara dos Deputados para instauração de
processo penal em face do Presidente da República e de Ministros de Estado, fora determinado o
desmembramento dos autos em relação a diversos investigados não detentores de foro por prerrogativa de função
no Supremo Tribunal Federal, determinando-se a remessa dos autos ao competente juízo de primeira instância.
Nessa medida, a Corte ordenou a remessa dos autos à Seção Judiciária do Distrito Federal, para livre
distribuição, vencidos, tão somente quanto à destinação a ser dada aos autos, os Ministros Edson Fachin (relator),
Roberto Barroso, Rosa Weber e Cármen Lúcia (Presidente), que os remetiam à 13ª Vara Federal da Subseção
Judiciária de Curitiba.
A Corte registrou que o regime de imunidades previsto na Constituição Federal, por se tratar de exceção à
norma de responsabilização por atos que afrontem regras dispostas no ordenamento jurídico positivo, não admite
interpretação extensiva, sendo legítima a incidência apenas nas restritas hipóteses elencadas pelo Poder
Constituinte. Assim, assentado o caráter restritivo das imunidades formais previstas no art. 86, caput, e art. 51, I,
da Constituição Federal, a negativa de autorização por parte da Câmara dos Deputados impede o processamento
da denúncia, exclusivamente, em relação ao Presidente da República e aos Ministros de Estado denunciados,
sendo inviável a extensão dos efeitos de tal decisão, de natureza eminentemente política, aos agravantes que não
se encontram investidos nos referidos cargos.
Por outro lado, na linha de entendimento já sedimentado no Supremo Tribunal Federal, deve-se proceder,
como regra, ao desmembramento dos inquéritos e ações penais originárias no tocante a coinvestigados ou a
corréus não detentores de foro por prerrogativa de função, admitindo-se, apenas excepcionalmente, a atração da
competência originária quando se verifique que a separação seja apta a causar prejuízo relevante, aferível em cada
caso concreto.

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Em acréscimo, observou-se que, considerada a autonomia do delito de organização criminosa, eventuais
crimes praticados no âmbito desta não ensejam, necessariamente, o reconhecimento da conexão para processo e
julgamento conjuntos. Essa autonomia é extraída da parte final do preceito secundário do tipo previsto no art. 2º
da Lei 12.850/2013 (3), na qual o legislador ordinário, após estabelecer a sanção abstrata ao delito de organização
criminosa, ressalva as reprimendas correspondentes às infrações penais praticadas pelo grupo organizado.
Na espécie, não se verificou qualquer prejuízo no desmembramento dos autos em relação aos não
detentores de foro por prerrogativa de função no Supremo Tribunal Federal, sendo incorreto afirmar que tal
medida representaria a responsabilização indireta do Presidente da República e dos Ministros de Estado em
relação aos quais a denúncia encontra-se suspensa por decisão da Câmara dos Deputados. Isso porque vige no
ordenamento jurídico-penal pátrio o princípio da responsabilidade subjetiva, como corolário do Direito Penal do
fato, adequado ao plexo de garantias vigente no Estado Democrático de Direito. Tal sistemática impõe ao órgão
acusatório o ônus da prova acerca dos elementos constitutivos do tipo penal incriminador, nos termos do art. 156
do CPP (4), a ser exercido no seio do contraditório estabelecido em juízo, em respeito à clausula do devido
processo legal.
Assim, no que tange à acusação do delito de organização criminosa, caberá ao Ministério Público Federal
produzir os elementos de prova capazes de demonstrar, em relação a cada um dos acusados, a perfeita subsunção
das condutas que lhes são atribuídas ao tipo penal que tutela o bem jurídico supostamente violado, em especial o
seu elemento subjetivo, composto pelo dolo de promover, constituir, financiar ou integrar organização criminosa.
No tocante à remessa dos autos ao juízo de primeira instância, prevaleceu o entendimento do Ministro
Alexandre de Moraes no sentido de não haver que se falar em prevenção relativamente à 13ª Vara Federal da
Subseção Judiciária de Curitiba, dado que os fatos apurados naquele juízo não teriam relação direta com a matéria
investigada nos inquéritos ora em julgamento.
Na mesma oportunidade, o Plenário rejeitou pedido formulado da tribuna pela defesa de dois dos
agravantes para que se transformasse a prisão provisória que lhes fora imposta em prisão domiciliar. Segundo a
Corte, o processo específico em que se discute a matéria não estaria em pauta, ausentes elementos mínimos
necessários à apreciação do pleito defensivo. Vencido, no ponto, o ministro Marco Aurélio, que deferia o pedido.

(1) CF/1988: “Art. 51. Compete privativamente à Câmara dos Deputados: I - autorizar, por dois terços de seus membros, a instauração
de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado”.
(2) CF/1988: “Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele
submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de
responsabilidade”.
(3) Lei 12.850/2013: “Art. 2º Promover, constituir, financiar ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, organização criminosa:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa, sem prejuízo das penas correspondentes às demais infrações penais praticadas”.
(4) Código de Processo Penal de 1941: “Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de
ofício: I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a
necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; II – determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de
diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante”.
Inq 4483 AgR-segundo/DF e Inq 4327 AgR-segundo/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento
em 14 e 19.12.2017.
(Informativo 888, Plenário)

Princípio da Igualdade

Cotas raciais: vagas em cargos e empregos públicos e mecanismo de controle de fraude


É constitucional a reserva de 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de
cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta.
É legítima a utilização, além da autodeclaração, de critérios subsidiários de heteroidentificação,
desde que respeitada a dignidade da pessoa humana e garantidos o contraditório e a ampla defesa.
Com base nesses entendimentos, o Plenário, por unanimidade, julgou procedente o pedido
formulado em ação declaratória de constitucionalidade em que se discutia a legitimidade da Lei federal nº
12.990/2014.
A norma reserva aos candidatos que se autodeclararem pretos ou pardos 20% das vagas oferecidas
nos concursos públicos para provimento de cargos e empregos públicos. Prevê também que, na hipótese
de constatação de declaração falsa, o candidato será eliminado do concurso e, se houver sido nomeado,
ficará sujeito à anulação da sua admissão, após procedimento administrativo. A lei ainda dispõe que a
nomeação dos candidatos aprovados respeitará os critérios de alternância e proporcionalidade, que
consideram a relação entre o número de vagas total e o número de vagas reservadas a candidatos com
deficiência e a candidatos negros (vide Informativo 864).

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Inicialmente, o Supremo Tribunal Federal (STF) enfrentou a questão das cotas raciais em três
planos de igualdade, tal como compreendida na contemporaneidade: a) formal; b) material; e c) como
reconhecimento.
A igualdade formal impede a lei de estabelecer privilégios e diferenciações arbitrárias entre as
pessoas, isto é, exige que o fundamento da desequiparação seja razoável e que o fim almejado seja
compatível com a Constituição. No caso analisado, o fundamento e o fim são razoáveis, motivados por
um dever de reparação histórica e por circunstâncias que explicitam um racismo estrutural na sociedade
brasileira a ser enfrentado.
Quanto à igualdade material, o Colegiado observou que o racismo estrutural gerou uma
desigualdade material profunda. Desse modo, qualquer política redistributivista precisará
indiscutivelmente assegurar vantagens competitivas aos negros.
Enfatizou, em relação à igualdade como reconhecimento, que esse aspecto identifica a igualdade
quanto ao respeito às minorias e ao tratamento da diferença de um modo geral. Significa respeitar as
pessoas nas suas diferenças e procurar aproximá-las, igualando as oportunidades. A política afirmativa
instituída pela Lei 12.990/2014 tem exatamente esse papel.
Frisou haver uma dimensão simbólica importante no fato de negros ocuparem posições de destaque
na sociedade brasileira. Além disso, há um efeito considerável sobre a autoestima das pessoas. Afinal,
cria-se resistência ao preconceito alheio. Portanto, a ideia de pessoas negras e pardas serem símbolo de
sucesso e ascensão e terem acesso a cargos importantes influencia a autoestima das comunidades negras.
Ademais, o pluralismo e a diversidade tornam qualquer ambiente melhor e mais rico.
O STF concluiu que a lei em análise supera com facilidade o teste da igualdade formal, material e
como reconhecimento.
Afastou a alegada violação ao princípio do concurso público. Afinal, para serem investidos em
cargos públicos, os candidatos negros têm de ser aprovados em concurso público. Caso não atinjam o
patamar mínimo, sequer disputarão as vagas. Observou que apenas foram criadas duas formas distintas de
preenchimento de vagas, em razão de reparações históricas, sem abrir mão do critério mínimo de
suficiência.
Rejeitou a apontada violação ao princípio da eficiência. Registrou ser uma visão linear de
meritocracia a ideia de que necessariamente os aprovados em primeiro lugar por um determinado critério
sejam absolutamente melhores que os outros. Tal conceito já havia sido rechaçado pelo ministro Ricardo
Lewandowski no julgamento da ADPF 186/DF (DJE de 20.10.2014), segundo o qual a noção de
meritocracia deve comportar nuances que permitam a competição em igualdade de condições.
Afirmou haver um ganho importante de eficiência. Afinal, a vida não é feita apenas de competência
técnica, ou de capacidade de pontuar em concurso, mas, sim, de uma dimensão de compreensão do outro
e de variadas realidades. A eficiência pode ser muito bem-servida pelo pluralismo e pela diversidade no
serviço público.
A Corte também não vislumbrou ofensa ao princípio da proporcionalidade. A demanda por
reparação histórica e ação afirmativa não foi suprida pelo simples fato de existirem cotas para acesso às
universidades públicas. O impacto das cotas raciais não se manifesta no mercado de trabalho
automaticamente, pois há um tempo de espera até que essas pessoas estudem, se formem e se tornem
competitivas. Ademais, seria necessário supor que as mesmas pessoas que entraram por cotas nas
universidades estariam disputando as vagas nos concursos.
Reputou que a proporção de 20% escolhida pelo legislador é extremamente razoável. Se essa
escolha fosse submetida a um teste de proporcionalidade em sentido estrito, também não haveria
problema, porque 20%, em rigor, representariam menos da metade do percentual de negros na sociedade
brasileira.
Quanto à autodeclaração, prevista no parágrafo único do art. 2º da Lei federal 12.990/2014, o
Supremo asseverou que se devem respeitar as pessoas tal como elas se percebem. Entretanto, um controle
heterônomo não é incompatível com a Constituição, observadas algumas cautelas, sobretudo quando
existirem fundadas razões para acreditar que houve abuso na autodeclaração.
Assim, acrescentou que é legítima a utilização de critérios subsidiários de heteroidentificação para
concorrência às vagas reservadas. A finalidade é combater condutas fraudulentas e garantir que os
objetivos da política de cotas sejam efetivamente alcançados, desde que respeitada a dignidade da pessoa
humana e assegurados o contraditório e a ampla defesa. Citou, como exemplos desses mecanismos, a
exigência de autodeclaração presencial perante a comissão do concurso, a apresentação de fotos e a

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formação de comissões com composição plural para entrevista dos candidatos em momento posterior à
autodeclaração.
A reserva de vagas vale para todos os órgãos e, portanto, para todos os Poderes da União. Os
Estados e os Municípios não estão obrigados por essa lei, mas serão consideradas constitucionais as leis
estaduais e municipais que adotarem essa mesma linha.
Quanto aos critérios de alternância e proporcionalidade na nomeação dos candidatos, o Plenário
exemplificou a forma correta de interpretar a lei. No caso de haver vinte vagas, quatro seriam reservadas a
negros, obedecida a seguinte sequência de ingresso: primeiro colocado geral, segundo colocado geral,
terceiro colocado geral, quarto colocado geral, até que o quinto convocado seria o primeiro colocado entre
os negros, e assim sucessivamente. Dessa forma, evita-se colocar os aprovados da lista geral primeiro e
somente depois os aprovados por cotas.
Os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli consignaram que a lei é constitucional apenas
quanto ao provimento inicial dos cargos e empregos públicos. Após o ingresso na carreira, o sistema de
cotas não deve ser usado na ascensão interna, a qual se dá mediante concursos internos de promoção e
remoção com critérios específicos, determinados pela Constituição, de antiguidade e merecimento.
Os ministros Edson Fachin e Luiz Fux entenderam que o art. 4º da Lei 12.990/2014 se projeta não
apenas na nomeação, mas em todos os momentos da vida funcional dos servidores públicos cotistas, tais
como remoção e promoção.
O ministro Roberto Barroso (relator) esclareceu que a questão da promoção não foi enfrentada
porque não consta do pedido nem foi discutida em memoriais.
Para o ministro Luiz Fux, por se tratar de política pública calcada no preâmbulo da Constituição
Federal, a lei vale para todas as unidades federadas.
ADC 41/DF, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 8.6.2017.
(Informativo 868, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 1ª Parte: 2ª Parte:
3ª Parte:

Processo Legislativo

Interpretação do art. 62, § 6º, da CF e limitação do sobrestamento


O Supremo Tribunal Federal, em conclusão de julgamento e por maioria, denegou a ordem em
mandado de segurança impetrado por parlamentares contra decisão do presidente da Câmara dos
Deputados em questão de ordem. No ato coator, foi fixada a orientação de que a interpretação adequada
do art. 62, § 6º (1), da Constituição Federal (CF) implicaria o sobrestamento apenas dos projetos de lei
ordinária, apesar de o dispositivo prever o sobrestamento de todas as deliberações legislativas da Casa em
que estiver tramitando medida provisória não seja apreciada em 45 dias (vide Informativos 572 e 778).
O Colegiado entendeu que a interpretação emanada do presidente da Câmara dos Deputados
reflete, com fidelidade, solução jurídica plenamente compatível com o modelo teórico da separação de
poderes. Tal interpretação revela fórmula hermenêutica capaz de assegurar, por meio da preservação de
adequada relação de equilíbrio entre instâncias governamentais (o Poder Executivo e o Poder
Legislativo), a própria integridade da cláusula pertinente à divisão do poder.
Nesse contexto, deu interpretação conforme ao § 6º do art. 62 da CF, na redação resultante da
Emenda Constitucional 32/2001, para, sem redução de texto, restringir-lhe a exegese. Assim, afastada
qualquer outra possibilidade interpretativa, fixou-se entendimento de que o regime de urgência previsto
no referido dispositivo constitucional — que impõe o sobrestamento das deliberações legislativas das
Casas do Congresso Nacional — refere-se apenas às matérias passíveis de regramento por medida
provisória. Excluem-se do bloqueio, em consequência, as propostas de emenda à Constituição e os
projetos de lei complementar, de decreto legislativo, de resolução e, até mesmo, de lei ordinária, desde
que veiculem temas pré-excluídos do âmbito de incidência das medidas provisórias [CF, art. 62, § 1º, I, II
e IV (2)].
Vencido o ministro Marco Aurélio, que concedeu a ordem. Para ele, o dispositivo constitucional
em debate é claro no sentido de que a não aprovação de medida provisória após 45 dias deve paralisar
toda a pauta, de modo a compelir a Casa Legislativa a se pronunciar de forma positiva quanto à
aprovação, ou de forma negativa, considerado o teor da medida provisória.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar
medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. (...) § 6º Se a medida provisória
não for apreciada em até quarenta e cinco dias contados de sua publicação, entrará em regime de urgência, subsequentemente, em

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cada uma das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, até que se ultime a votação, todas as demais deliberações
legislativas da Casa em que estiver tramitando.”
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar
medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. § 1º É vedada a edição de medidas
provisórias sobre matéria: I – relativa a: a) nacionalidade, cidadania, direitos políticos, partidos políticos e direito eleitoral; b) direito
penal, processual penal e processual civil; c) organização do Poder Judiciário e do Ministério Público, a carreira e a garantia de seus
membros; d) planos plurianuais, diretrizes orçamentárias, orçamento e créditos adicionais e suplementares, ressalvado o previsto no
art. 167, § 3º; II – que vise a detenção ou sequestro de bens, de poupança popular ou qualquer outro ativo financeiro; (...) IV – já
disciplinada em projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional e pendente de sanção ou veto do Presidente da República.”
MS 27931/DF, rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 29.6.2017
(Informativo 870, Plenário)

Reclamação

Responsabilidade administrativa por dívidas trabalhistas de empresas terceirizadas


A Primeira Turma, em conclusão e por maioria, desproveu agravo regimental em reclamação
ajuizada contra decisão da Justiça do Trabalho, em que se alegou violação à autoridade do Supremo
Tribunal Federal (STF) por contradição à Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 16/DF (DJE
de 9.9.2011).
Afirmou o reclamante ter sido condenado ao pagamento de verbas trabalhistas inadimplidas por
empresa contratada, o que afrontaria o disposto no art. 71, § 1º, da Lei 8.666/1993 (1), declarada
constitucional pela ADC 16/DF (Informativo 880).
O Colegiado negou seguimento à reclamação, entendendo que, por ser relacionada a paradigma de
tema de repercussão geral (Tema 246), firmado no julgamento do Recurso Extraordinário (RE)
760.931/DF (DJE de 12.9.2017), superveniente à ADC em questão, haveria a necessidade de esgotamento
de todas as instâncias ordinárias antes que o processo fosse julgado pela Suprema Corte, conforme art.
988, § 5º, II, do Código de Processo Civil/2015 (2).
Vencidos os ministros Alexandre de Moraes e Marco Aurélio, que deram provimento ao recurso e
julgaram procedente o pedido veiculado na reclamação. O ministro Alexandre de Moraes salientou não
ter sido incluída no tema a substituição da decisão da ADC 16/DF pela do RE 760.931/DF e,
consequentemente, não estabelecido o necessário esgotamento das instâncias inferiores. O ministro Marco
Aurélio frisou que não cabe entender suplantada a eficácia do acórdão alusivo à ação declaratória.

(1) Lei 8.666/1993: “Art. 71. O contratado é responsável pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais
resultantes da execução do contrato. § 1o A inadimplência do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e
comerciais não transfere à Administração Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto do contrato ou
restringir a regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de Imóveis”.
(2) CPC/2015: “Art. 988. (...) § 5º É inadmissível a reclamação: (...) II – proposta para garantir a observância de acórdão de
recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida ou de acórdão proferido em julgamento de recursos extraordinário ou
especial repetitivos, quando não esgotadas as instâncias ordinárias”.
Rcl 27789 AgR/BA, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 17.10.2017.
(Informativo 882, Primeira Turma)

Reclamação e índice de atualização de débitos trabalhistas


A Segunda Turma declarou improcedente reclamação ajuizada pela Federação Nacional (Fenaban)
contra decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que determinou a alteração de índice de
atualização de débitos trabalhistas.
No caso, o TST declarou a inconstitucionalidade, por arrastamento, da expressão “equivalentes à
TRD” contida no caput do art. 39 da Lei 8.177/91 (1) e determinou a revisão da Orientação
Jurisprudencial – OJ 300 (2) SbDI-1, que reconhece a TR como índice de atualização monetária de
débitos trabalhistas. Para tanto, o TST se apoiou nos acórdãos das ADI 4.357/DF (DJE de 6.8.2015) e na
ADI 4.425/DF (DJE de 6.8.2015), propostas em face da EC 62/2009, que alterou a sistemática dos
precatórios. Além disso, adotou a técnica de interpretação conforme à Constituição para que o texto
remanescente do dispositivo impugnado preservasse o direito à atualização monetária dos créditos
trabalhistas. O TST ainda definiu a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo Especial (IPCA-
E) como fator de atualização a ser utilizado na tabela de atualização monetária dos débitos trabalhistas na
Justiça do Trabalho. (vide Informativo 877).
A Turma entendeu que a Fenaban é parte ilegítima para propor reclamação. Ressaltou que o
reclamante não demonstrou como o seu interesse jurídico teria sido afetado pelo acórdão reclamado. No
mérito, julgou improcedente o pedido formulado. Rememorou que o Plenário se manifestou
contrariamente à chamada “transcendência” ou “efeitos irradiantes” dos motivos determinantes das

89
decisões proferidas em controle abstrato de normas e que a jurisprudência de ambas as Turmas deste
Tribunal é no sentido de inexistir estrita aderência entre o conteúdo das decisões que determinam a
utilização de índice diverso da TR para atualização monetária dos débitos trabalhistas e o decidido no
julgamento da ADI 4.357/DF e da ADI 4.425/DF.
Além disso, observou haver recurso interposto contra o acórdão do TST e a reclamação não pode
ser utilizada como sucedâneo de recurso.
Vencidos o ministro Dias Toffoli (relator) e o ministro Gilmar Mendes, os quais compreenderam
que a decisão do TST extrapolou os limites de sua competência ao aplicar entendimento firmado pelo
Supremo Tribunal Federal (STF), em controle abstrato de constitucionalidade com efeito vinculante, em
hipótese por ele não abrangida.

(1) Lei 8.177: “Art. 39. Os débitos trabalhistas de qualquer natureza, quando não satisfeitos pelo empregador nas épocas
próprias assim definidas em lei, acordo ou convenção coletiva, sentença normativa ou cláusula contratual sofrerão juros de mora
equivalentes à TRD acumulada no período compreendido entre a data de vencimento da obrigação e o seu efetivo pagamento”.
(2) OJ 300 “Não viola norma constitucional (art. 5°, II e XXXVI) a determinação de aplicação da TRD, como fator de
correção monetária dos débitos trabalhistas, cumulada com juros de mora, previstos no artigo 39 da Lei nº 8.177/91 e convalidado
pelo artigo 15 da Lei nº 10.192/01”.
Rcl 22012/RS, rel. Min. Dias Toffoli, red. p/ ac. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em
12.9.2017.
(Informativo 887, Segunda Turma)

Repercussão geral e reclamação: impossibilidade


É inviável reclamação com fundamento em afronta ao julgado da ADC 16.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma, por maioria, negou provimento a agravo regimental
em reclamação.
No caso, a agravante, empresa pública, havia sido condenada ao pagamento de verbas trabalhistas
inadimplidas por empresa contratada na condição de tomadora de serviços. Argumentou violada a autoridade
da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação Declaratória de Constitucionalidade
(ADC) 16 (DJE de 8.9.2011), que entendeu constitucional o art. 71, §1º (1) da lei nº 8.666/1993 (Lei de
Licitações).
A Turma pontuou que a tese firmada na ADC 16, no que toca à sua eficácia vinculante, foi plenamente
substituída com o julgamento do RE 760.931 (DJE de 11.9.2017) que, ao apreciar o (Tema 246) da repercussão
geral, firmou entendimento de que o inadimplemento dos encargos trabalhistas dos empregados do contratado
não transfere automaticamente ao Poder Público contratante a responsabilidade pelo seu pagamento, seja em
caráter solidário ou subsidiário, nos termos do art. 71, § 1º, da Lei nº 8.666/93.
Desse modo, assentou inviável reclamação com fundamento nesse julgado, e que eventual má
aplicação dessa nova tese acerca da responsabilidade subsidiária da Administração Pública pelos débitos
trabalhistas de contrato deve ser impugnada, inicialmente, por meio de recursos, nos termos do art. 988, §5º, II
(2), do Código de Processo Civil (CPC).
Vencidos os ministros Marco Aurélio e Alexandre de Moraes, que deram provimento ao agravo para
julgar procedente a reclamação e cassar o acórdão reclamado na parte que atribui responsabilidade subsidiária a
empresa pública. Afirmaram ser viável o ajuizamento de reclamação por ofensa ao decidido na ADC 16.

(1) Lei 8.666/1993: “Art. 71. O contratado é responsável pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais
resultantes da execução do contrato. § 1o A inadimplência do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais não
transfere à Administração Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto do contrato ou restringir a
regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de Imóveis. ”
(2) Código de Processo Civil: “Art. 988. Caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para:
(...)
§ 5º É inadmissível a reclamação:
(...)
II – Proposta para garantir a observância de acórdão de recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida ou de acórdão
proferido em julgamento de recursos extraordinário ou especial repetitivos, quando não esgotadas as instâncias ordinárias. ”.
Rcl 28623 AgR/BA, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 12.12.2017.
(Informativo 888, Primeira Turma)

Tribunal de Contas

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TCU: redução de pensão e direito individual
A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, indeferiu a ordem em mandado de
segurança impetrado em face de decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), que determinou, em 2015, a
redução no valor de pensão percebida em decorrência do falecimento do marido da impetrante, que era servidor
público.
A impetração sustentou óbice à revisão implementada, em razão da decadência, pois o benefício foi
deferido em 2007. Além disso, alegou cerceamento de defesa e violação do devido processo legal, pela ausência
de participação da beneficiária no processo administrativo.
A Turma salientou que o TCU atuou não apenas no sentido de alterar a pensão recebida pela impetrante,
mas realizou auditoria relativa a proventos e pensões oriundos do órgão onde trabalhava o marido dela. Assim, a
defesa de um direito individual não poderia ser exercida quanto àquele ato, porque, se admitidos todos os
possíveis interessados em um pronunciamento do TCU, estaria inviabilizada a fiscalização linear, externa, da corte
de contas. A irresignação, portanto, deveria ser dirigida ao órgão em que trabalhava o falecido, e não o TCU.
Vencido o ministro Alexandre de Moraes, que deferiu a ordem.
MS 34224/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 15.8.2017.
(Informativo 873, 1ª Turma)

91
DIREITO ELEITORAL
Eleições

Candidatura avulsa e repercussão geral


O Plenário, ao resolver questão de ordem suscitada pelo ministro Roberto Barroso (relator),
reconheceu a repercussão geral da questão constitucional tratada em recurso extraordinário com agravo.
Nele, se discute a possibilidade de candidato sem filiação partidária disputar eleições (candidatura
avulsa).
No caso, o recorrente, sem filiação partidária, teve a sua candidatura para a eleição de prefeito em
2016 indeferida.
O Plenário, de início e por maioria, entendeu que, muito embora a questão constitucional em
debate esteja prejudicada na hipótese dos autos — em razão do o esgotamento do pleito municipal de
2016 —, ela deve se revestir do caráter de repercussão geral tendo em vista sua relevância social e
política.
Vencidos, no ponto, os ministros Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e
Marco Aurélio, que entenderam pela prejudicialidade do recurso. Superada a preliminar, acompanharam
os demais quanto à questão de ordem.
ARE 1054490 QO/RJ, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 5.10.2017.
(Informativo 880, Plenário)

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DIREITO INTERNACIONAL
Tratados e Convenções

Antinomia entre o CDC e a Convenção de Varsóvia: transporte aéreo internacional


Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados internacionais
limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de passageiros, especialmente as
Convenções de Varsóvia e Montreal, têm prevalência em relação ao Código de Defesa do
Consumidor.
Com base nesse entendimento, o Plenário finalizou o julgamento conjunto de recursos nos
quais se discutiu a norma prevalecente nas hipóteses de conflito entre o Código de Defesa do
Consumidor (CDC) e a Convenção de Varsóvia de 1929 (ratificada e promulgada pelo Decreto
20.704/1931), a qual rege o transporte aéreo internacional e foi posteriormente alterada pelo
Protocolo Adicional 4, assinado na cidade canadense de Montreal em 1975 (ratificado e promulgado
pelo Decreto 2.861/1998).
No RE 636.331/RJ, ao apreciar o Tema 210 da Repercussão Geral, o Supremo Tribunal
Federal (STF), por maioria, deu provimento ao recurso extraordinário, para reduzir o valor da
condenação por danos materiais, limitando-o ao patamar estabelecido no art. 22 da Convenção de
Varsóvia (1), com as modificações efetuadas pelos acordos internacio nais posteriores.
No ARE 766.618/SP, o STF, também por maioria, deu provimento ao recurso extraordinário,
para, reformando o acórdão recorrido, julgar improcedente o pedido, em razão da prescrição.
A controvérsia apresentada no RE 636.331/RJ envolve os limites de indenização por danos
materiais em decorrência de extravio de bagagem em voo internacional. Já a questão posta em debate
no ARE 766.618/SP diz respeito ao prazo prescricional para fins de ajuizamento de ação de
responsabilidade civil por atraso em voo internacional (vide Informativo 745).
No RE 636.331/RJ, o Colegiado assentou a prevalência da Convenção de Varsóvia e dos
demais acordos internacionais subscritos pelo Brasil em detrimento do CDC, não apenas na hipótese
de extravio de bagagem. Em consequência, deu provimento ao recurso extraordinário para limitar o
valor da condenação por danos materiais ao patamar estabelecido na Convenção de Varsóvia, com as
modificações efetuadas pelos acordos internacionais posteriores.
Afirmou que a antinomia ocorre, a princípio, entre o art. 14 do CDC (2), que impõe ao
fornecedor do serviço o dever de reparar os danos causados, e o art. 22 da Convenção de Varsóvia,
que fixa limite máximo para o valor devido pelo transportador, a título de reparação.
Afastou, de início, a alegação de que o princípio constitucional que impõe a defesa do
consumidor [Constituição Federal (CF), arts. 5º, XXXII (3), e 170, V (4)] impediria a derrogação do
CDC por norma mais restritiva, ainda que por lei especial.
Salientou que a proteção ao consumidor não é a única diretriz a orientar a ordem econômica.
Consignou que o próprio texto constitucional determina, no art. 178 (5), a observância dos acordos
internacionais, quanto à ordenação do transporte aéreo internacional.
Realçou que, no tocante à aparente antinomia entre o disposto no CDC e na Convenção de
Varsóvia – e demais normas internacionais sobre transporte aéreo –, não há diferença de hierarquia
entre os diplomas normativos. Todos têm estatura de lei ordinária e, por isso, a soluçã o do conflito
envolve a análise dos critérios cronológico e da especialidade.
Em relação ao critério cronológico, o Plenário destacou que os acordos internacionais em
comento são mais recentes que o CDC. Observou que, não obstante o Decreto 20.704 tenha s ido
publicado em 1931, sofreu sucessivas modificações posteriores ao CDC. Acrescentou, ainda, que a
Convenção de Varsóvia – e os regramentos internacionais que a modificaram – são normas especiais
em relação ao CDC, pois disciplinam modalidade especial de contrato, qual seja, o contrato de
transporte aéreo internacional de passageiros.
Por tratar-se de conflito entre regras que não têm o mesmo âmbito de validade, sendo uma
geral e outra específica, o Colegiado concluiu que deve ser aplicado o § 2º do art. 2º da Lei de
Introdução às Normas de Direito Brasileiro (6).
Ademais, frisou que as disposições previstas nos aludidos acordos internacionais incidem
exclusivamente nos contratos de transporte aéreo internacional de pessoas, bagagens ou carga.
Assim, não alcançam o transporte nacional de pessoas, que está excluído da abrangência do art. 22

93
da Convenção de Varsóvia. Por fim, esclareceu que a limitação indenizatória abarca apenas a
reparação por danos materiais, e não morais.
No ARE 766.618/SP, o Colegiado pontuou que, por força do art. 178 da CF, em caso de
conflito, as normas das convenções que regem o transporte aéreo internacional prevalecem sobre o
CDC. Abordou, de igual modo, os critérios tradicionais de solução de antinomias no Direito
brasileiro: hierarquia, cronológico e especialização. No entanto, reputou que a existência de
dispositivo constitucional legitima a admissão dos recursos extraordinários nessa matéria; pois, se
assim não fosse, a discussão estaria restrita ao âmbito infraconstitucional.
Explicou, no ponto, que o art. 178 da CF prevê parâmetro para a solução desse conflito, de
modo que as convenções internacionais devem prevalecer. Reconheceu, na espécie, a incidência do
art. 29 da Convenção de Varsóvia (7), que estabelece o prazo prescricional de dois anos, a contar da
chegada da aeronave. Por conseguinte, deu provimento ao recurso e julgou improcedente o pleito
ante a ocorrência da prescrição.
Vencidos, em ambos os julgamentos, os ministros Marco Aurélio e Celso de Mello. Os dois
salientaram que os casos em análise envolvem empresas de transporte aéreo internacional de
passageiros, que realizam atividades qualificadas como prestação de serviços. Dessa forma, frisaram
que, por se tratar de uma relação jurídica de consumo, deveria ser aplicado o CDC, legislação
superveniente às normas internacionais em debate.
O ministro Celso de Mello pontuou ainda que a proteção ao consumidor e a defesa da
integridade de seus direitos representam compromissos inderrogáveis, que o Estado brasileiro
conscientemente assumiu no plano do nosso ordenamento constitucional. Afirmou que a Assembleia
Nacional Constituinte, em caráter absolutamente inovador, elevou a defesa do consumidor à posição
eminente de direito fundamental (CF, art. 5º, XXXII), atribuindo -lhe ainda a condição de princípio
estruturador e conformador da própria ordem econômica (CF, art. 170, V), cuja eficácia permite
reconhecer a precedência do CDC sobre as Convenções de Varsóvia e Montreal.

(1) Convenção de Varsóvia/1929 (Decreto 20.704/1931): “Art. 22. (1) No transporte de pessoas, limita-se a
responsabilidade do transportador, à importância de cento e vinte e cinco mil francos, por passageiro. Se a indenização, de
conformidade com a lei do tribunal que conhecer da questão, puder ser arbitrada em constituição de renda, não poderá o respectivo
capital exceder aquele limite. Entretanto, por acordo especial com o transportador, poderá o viajante fixar em mais o limite de
responsabilidade. (2) No transporte de mercadorias, ou de bagagem despachada, limita-se a responsabilidade do transportador à
quantia de duzentos e cinquenta francos por quilograma, salvo declaração especial de ‘interesse na entrega’, feita pelo expedidor no
momento de confiar ao transportador os volumes, e mediante o pagamento de uma taxa suplementar eventual. Neste caso, fica o
transportador obrigado a pagar até a importância da quantia declarada, salvo se provar ser esta superior ao interesse real que o
expedidor tinha entrega. (3) Quanto aos objetos que o viajante conserve sob os guarda, limita-se a cinco mil francos por viajante a
responsabilidade do transportador. (4) As quantias acima indicadas consideram-se referentes ao franco francês, constituído de
sessenta e cinco e meio miligramas do ouro, ao título de novecentos milésimos de mental fino. Elas se poderão converter, em
números redondos na moeda nacional de cada país”.
(2) CDC: “Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos
causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas
sobre sua fruição e riscos”.
(3) CF/1988: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: (...) XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor”.
(4) CF/1988: “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) V – defesa do
consumidor”.
(5) CF/1988: “Art. 178. A lei disporá sobre a ordenação dos transportes aéreo, aquático e terrestre, devendo, quanto à
ordenação do transporte internacional, observar os acordos firmados pela União, atendido o princípio da reciprocidade”.
(6) LINDB/1942: “Art. 2º Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue.
(...) § 2º A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior”.
(7) Convenção de Varsóvia/1929 (Decreto 20.704/1931): “Art. 29. (1) A ação de responsabilidade deverá intentar-se, sob
pena de caducidade, dentro do prazo de dois anos, a contar da data de chegada, ou do dia, em que a aeronave devia ter chegado a seu
destino, ou do da interrupção do transporte. (2) O prazo será computado de acordo com a lei nacional do tribunal que conhecer da
questão”.
RE 636331/RJ, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 25.5.2017.
ARE 766618/SP, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 25.5.2017.
(Informativo 866, Plenário, Repercussão Geral) 1ª Parte: 2ª Parte:

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DIREITO PENAL
Colaboração Premiada

Homologação de acordo de colaboração premiada e limites de atuação do relator


O Supremo Tribunal Federal (STF), em julgamento conjunto, resolveu questão de ordem e negou
provimento a agravo regimental em petição em que se discutiam, respectivamente, os limites da atuação do relator
em homologação de colaboração premiada e a distribuição ao ministro Edson Fachin (relator), por prevenção, da
Pet 7.003/DF, em razão do Inq 4.112/DF, cujo objeto são fatos relacionados à operação Lava Jato.
A questão de ordem foi suscitada pelo relator tendo em conta petição ajuizada pelo governador do Estado
de Mato Grosso do Sul e recebida como agravo regimental. O agravante contestou a distribuição por prevenção, e
não por sorteio, dos autos em que foram homologados os acordos de colaboração premiada celebrados entre o
Ministério Público Federal (MPF) e integrantes de grupo empresarial. Na petição, o governador pretendia o
reconhecimento da inexistência de conexão entre os fatos e condutas a ele imputados na Pet 7.003/DF, bem como
aqueles apurados no Inq 4.112/DF, e a consequente determinação da livre distribuição do feito.
No bojo desse debate, questionou-se o conteúdo dos acordos formalizados entre os colaboradores e o
MPF, com destaque para os limites da atuação jurisdicional no instituto em análise e seus reflexos na persecutio
criminis, à luz das garantias constitucionais e das normas regulamentadoras previstas na Lei 12.850/2013. Diante
disso, a questão de ordem foi submetida à deliberação do Plenário do STF, com base no princípio da segurança
jurídica, insculpido no art. 5º, XXXVI, da Constituição Federal (CF).
O Plenário, por maioria, resolveu a questão de ordem no sentido de reafirmar — nos limites dos §§ 7º e 11
do art. 4º (1) da Lei 12.850/2013 e incisos I e II do art. 21 (2) do Regimento Interno do STF (RISTF) — a
atribuição do relator para, monocraticamente, homologar acordos de colaboração premiada, oportunidade na qual
se limita ao juízo de regularidade, legalidade e voluntariedade da avença. Reafirmou, também, a competência
colegiada do STF para avaliar, em decisão final de mérito, o cumprimento dos termos bem como a eficácia do
acordo.
Além disso, consignou que acordo homologado como regular, voluntário e legal gera vinculação
condicionada ao cumprimento dos deveres assumidos pela colaboração. Salientou, ainda, que ao órgão colegiado
é facultada a possibilidade de analisar fatos supervenientes ou de conhecimento posterior que firam a legalidade,
nos termos do § 4º do art. 966 (3) do Código de Processo Civil/2015 (CPC/2015).
Inicialmente, a Corte asseverou haver dois pontos em discussão: o poder do relator à luz do RISTF para a
homologação do acordo de colaboração premiada, tanto no que concerne ao alcance quanto no que se refere aos
limites dos atos; e o momento de aferição do cumprimento dos termos do acordo e sua eficácia.
Diante disso, fixou dois nortes: a) os moldes do que foi decidido no HC 127.483/PR (DJE de 4.2.2016), a
fim de reafirmar a atribuição do relator como corolário dos poderes instrutórios para ordenar a realização de meios
de obtenção de provas, nos termos que lhe são conferidos pelos incisos I e II do art. 21 do RISTF, e, por
conseguinte, homologar monocraticamente acordos de colaboração premiada — oportunidade em que se limita ao
juízo de regularidade, legalidade e voluntariedade da avença, nos limites do art. 4º, § 7º, da Lei 12.850/2013; e b) o
juízo sobre o cumprimento dos termos do acordo de colaboração e sua eficácia, conforme preceitua o art. 4º, § 11,
da Lei 12.850/2013.
Nesse sentido, frisou que o que se põe ao exame do Colegiado é o momento dessa apreciação, ou seja, o
instante da análise de mérito. Essa é a ocasião da prolação da sentença no STF em decisão colegiada, em Turma
ou Pleno, etapa em que se confere concretude ao princípio acusatório que rege o processo penal no Estado
Democrático de Direito.
Destacou, ainda, que atualmente não há mais controvérsia acerca da natureza jurídica do instituto,
considerado, em termos gerais, um negócio jurídico processual firmado entre o Ministério Público e o
colaborador. Essa característica é representada pelas normas extraídas dos §§ 6º e 7º do art. 4º da Lei 12.850/2013,
as quais vedam a participação do magistrado na celebração do ajuste entre as partes e estabelecem os limites de
cognoscibilidade dos termos pactuados. Trata-se, portanto, de meio de obtenção de prova cuja iniciativa não se
submete à reserva de jurisdição, diferentemente do que ocorre, por exemplo, com a quebra do sigilo bancário ou
fiscal e com a interceptação de comunicações telefônicas.
Nesse panorama jurídico, as tratativas e a celebração da avença são mantidas exclusivamente entre o
Ministério Público e o pretenso colaborador, o que ocorreu no caso concreto. O Poder Judiciário é convocado ao
final dos atos negociais apenas para aferir os requisitos legais de existência e validade, com a indispensável
homologação. Nesse sentido foram as conclusões sobre a homologação no julgamento do HC 127.483/PR.

95
A Corte destacou, no ponto, que esse provimento interlocutório — o qual não julga o mérito da pretensão
acusatória, mas resolve uma questão incidente — tem natureza meramente homologatória, limitando-se ao
pronunciamento sobre a regularidade, legalidade e voluntariedade do acordo (art. 4º, § 7º, da Lei 12.850/2013). O
juiz, ao homologar o acordo de colaboração, não emite juízo de valor a respeito das declarações eventualmente
prestadas pelo colaborador à autoridade policial ou ao Ministério Público, nem confere o signo da idoneidade a
seus depoimentos posteriores.
Entendimento contrário colocaria em risco a própria viabilidade do instituto, diante da iminente ameaça de
interferência externa nas condições acordadas pelas partes, reduzindo de forma significativa o interesse no ajuste.
Essa “postura equidistante” do juiz em relação às partes no processo penal informa o citado comando legal que
prestigia o sistema acusatório. Se as declarações do colaborador são verdadeiras ou respaldadas por provas de
corroboração, esse juízo será feito apenas “no momento do julgamento do processo”, no momento diferido, qual
seja, na sentença, conforme previsto no § 11 do art. 4º da Lei 12.850/2013. Nessa etapa, serão analisados os
elementos trazidos pela colaboração e sua efetividade.
Dessa forma, o Colegiado considerou ser imprescindível chancelar a importância da preservação da
segurança jurídica e da própria figura da colaboração premiada como instrumento relevante para coibir delitos,
sobretudo contra o erário.
Em conclusão quanto ao primeiro ponto discutido, afirmou que, no ato de homologação da colaboração
premiada, não cabe ao magistrado, de forma antecipada e extemporânea, tecer juízo de valor sobre o conteúdo das
cláusulas avençadas, exceto nos casos de flagrante ofensa ao ordenamento jurídico vigente. Se assim agir, estará
interferindo indevidamente na atuação dos órgãos de investigação, porque a celebração do acordo de colaboração
premiada não trata de medida submetida à reserva de jurisdição.
Repisou que, conforme decidido no julgamento do HC 127.483/PR, o art. 21, I e II, do RISTF confere ao
relator poderes instrutórios para ordenar, de forma singular, a realização de quaisquer meios de obtenção de
provas. Ressaltou que a natureza jurídica do acordo de colaboração premiada como meio de obtenção de prova é
ato inserido nas atribuições regimentais do relator, ainda que os fatos apresentados pelos colaboradores envolvam
supostas ações e omissões de ocupante de cargo da Presidência da República, a serem provadas e, se
comprovadas, tornadas objeto de processamento de ação penal que compete ao Plenário do STF.
Portanto, não há qualquer óbice à homologação do respectivo acordo mediante decisão monocrática.
Quanto ao segundo ponto, o Colegiado esclareceu que o ensejo dessa oportunidade se relaciona ao
momento para o exercício da aferição do cumprimento dos termos do acordo e da sua eficácia ao que está previsto
no § 11 do art. 4º da Lei 12.850/2013.
Havendo foro por prerrogativa de função no STF, somente o juízo colegiado — Turma ou Pleno —
poderá examinar o recebimento da denúncia e, em caso afirmativo, julgar a respectiva ação penal (RISTF, art. 5º,
I). Esse juízo não é do relator, mas do Colegiado, sem embargo, para efeitos ordinatórios e instrutórios, da
previsão do art. 21, XV (4), do RISTF.
A instauração de inquérito é fase preliminar investigatória, na qual estão as colaborações, que, como meios
de obtenção de prova, não são idôneas para se condenar, mas apenas para se ensejar a investigação onde há dúvida
a ser dirimida ou indício a ser provado. Por isso, no momento de homologação, o juízo é preliminar e preambular.
Somente no julgamento de mérito o Poder Judiciário, autorizado pela lei, poderá definir a extensão da colaboração
e analisar o benefício respectivo.
A Corte observou, também, que a lei permite ao Judiciário, em fase diferida, após a conclusão da instrução
probatória, avaliar se os termos da colaboração premiada foram cumpridos e se os resultados concretos foram
atingidos, o que definirá sua eficácia. [Lei 12.850/2013, art. 4º, §§ 9º e 12 (5)]
Consignou que a última palavra será sempre do Colegiado, inexistindo quaisquer óbices jurídicos de
índole subjetiva ou objetiva aptos a impedir a atuação do relator. O julgamento de mérito será levado a efeito pelo
colegiado de juízes do STF ao apreciar os termos e a eficácia do acordo de colaboração. Reside na ambiência
inafastável do Pleno a atribuição de juiz natural nos termos da competência deferida pela ordem jurídica, o que
não contrasta com os regimentais poderes instrutórios e mesmo cautelares do relator.
Salientou, por fim, que o direito subjetivo do colaborador nasce e se perfectibiliza na exata medida em que
ele cumpre seus deveres. Estes são condictio sine qua non para que o colaborador possa fruir desses direitos.
Nesse contexto, o acordo homologado como regular, voluntário e legal gera vinculação, condicionada ao
cumprimento dos deveres assumidos pela colaboração, salvo ilegalidade superveniente apta a justificar nulidade
ou anulação do negócio jurídico.
Vencidos os ministros Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Marco Aurélio.
O ministro Ricardo Lewandowski divergiu pontualmente. Para ele, na delação premiada, apesar do
relevante papel do MPF, a última palavra — não quanto à conveniência e oportunidade da celebração do acordo,

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mas quanto à legalidade lato sensu da avença — é do Poder Judiciário; neste caso, do juiz relator e também do
Plenário, em última análise.
Asseverou existirem dois momentos para analisar as cláusulas e condições das delações premiadas. O
primeiro, precário e efêmero, é realizado pelo relator, com base no art. 21 do RISTF. Nele se verifica a presença
dos requisitos de regularidade, voluntariedade e legalidade. Esta última, no entanto, é empregada em seu sentido
amplo. O relator tem o dever de vetar cláusulas que excluam da apreciação do Judiciário lesão ou ameaça de lesão
a direitos; estabeleçam o cumprimento imediato da pena ainda não fixada; fixem regime de cumprimento de pena
não autorizado pela legislação em vigor; avancem sobre cláusulas de reserva de jurisdição; determinem o
compartilhamento de provas e informações sigilosas sem intervenção da justiça; ou autorizem a divulgação de
informações que atinjam a imagem ou a esfera jurídica de terceiros.
Em um segundo momento, havendo falha ou dados porventura não examinados na análise perfunctória da
legalidade pelo relator, caberá ao Plenário apreciar esses aspectos. A decisão do relator permite que a delação
premiada possa efetivar-se no plano da realidade fática, mas, embora importante, não vincula o Plenário no que
diz respeito aos aspectos da legalidade lato sensu. Em suma, a última palavra quanto à legalidade e à
constitucionalidade das cláusulas e condições ajustadas no acordo de colaboração premiada é do juiz natural, que,
nesse caso, é o Colegiado.
Para o ministro Gilmar Mendes, a homologação dos acordos de colaboração premiada é de competência
do Colegiado, especialmente em casos que envolvam dispensa da denúncia. O acordo de colaboração premiada
deve ser admitido, desde que esteja nos limites da Lei 12.850/2013. Compete à Corte realizar o controle efetivo e
eficaz dessa legalidade, que tem como limite apenas o espaço conferido pela lei para o juízo de conveniência e
oportunidade da acusação e da defesa, mas é poder-dever do juiz aprofundar a avaliação da legalidade do acordo,
inclusive quanto à extensão dos benefícios prometidos.
Segundo ressaltou, o acordo de colaboração não é simples meio de obtenção de prova, mas um negócio
jurídico com efeitos benéficos ao colaborador. Nessa mesma linha, os acordos, que podem envolver redução de
penas, não podem vincular o Colegiado, o qual, na fase de julgamento, avaliará apenas sua eficácia. Em alguns
casos, é oferecido perdão ao delator, com dispensa de denúncia, o que torna a decisão monocrática ainda mais
incompatível com o sistema jurídico caso o processo não seja submetido ao Colegiado. Por fim, o ministro
asseverou que a homologação do acordo não tem eficácia preclusiva completa, a afastar totalmente sua revisão,
por ocasião do julgamento.
Para o ministro Marco Aurélio, os poderes do relator no momento da homologação do acordo de
colaboração premiada não deveriam ser tão amplos. Para ele, não compete ao relator avançar e endossar os
parâmetros do acordo. Tal faculdade cabe apenas ao órgão que cumprirá o julgamento de eventual ação penal que
venha a ser proposta.

(1) Lei 12.850/2013: “Art. 4º O juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial, reduzir em até 2/3 (dois terços) a
pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a
investigação e com o processo criminal, desde que dessa colaboração advenha um ou mais dos seguintes resultados: (...) § 7º Realizado o
acordo na forma do § 6º, o respectivo termo, acompanhado das declarações do colaborador e de cópia da investigação, será remetido ao juiz
para homologação, o qual deverá verificar sua regularidade, legalidade e voluntariedade, podendo para este fim, sigilosamente, ouvir o
colaborador, na presença de seu defensor. (...) § 11. A sentença apreciará os termos do acordo homologado e sua eficácia.”
(2) Regimento Interno do STF: “Art. 21. São atribuições do Relator: I – ordenar e dirigir o processo; II – executar e fazer cumprir
os seus despachos, suas decisões monocráticas, suas ordens e seus acórdãos transitados em julgado, bem como determinar às autoridades
judiciárias e administrativas providências relativas ao andamento e à instrução dos processos de sua competência, facultada a delegação de
atribuições para a prática de atos processuais não decisórios a outros Tribunais e a juízos de primeiro grau de jurisdição;”
(3) Código de Processo Civil de 2015: “Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: (...) § 4º
Os atos de disposição de direitos, praticados pelas partes ou por outros participantes do processo e homologados pelo juízo, bem como os
atos homologatórios praticados no curso da execução, estão sujeitos à anulação, nos termos da lei.”
(4) Regimento Interno do STF: “Art. 21. São atribuições do Relator: (...) XV – determinar a instauração de inquérito a pedido do
Procurador-Geral da República, da autoridade policial ou do ofendido, bem como o seu arquivamento, quando o requerer o Procurador-Geral
da República, ou quando verificar: a) a existência manifesta de causa excludente da ilicitude do fato; b) a existência manifesta de causa
excludente da culpabilidade do agente, salvo inimputabilidade; c) que o fato narrado evidentemente não constitui crime; d) extinta a
punibilidade do agente; ou e) ausência de indícios mínimos de autoria ou materialidade.”
(5) Lei 12.850/2013: “Art. 4º (...) § 9º Depois de homologado o acordo, o colaborador poderá, sempre acompanhado pelo seu
defensor, ser ouvido pelo membro do Ministério Público ou pelo delegado de polícia responsável pelas investigações. (...) § 12. Ainda que
beneficiado por perdão judicial ou não denunciado, o colaborador poderá ser ouvido em juízo a requerimento das partes ou por iniciativa da
autoridade judicial.”
Pet 7074 QO/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 21, 22, 28 e 29.6.2017.
Pet 7074/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 21, 22, 28 e 29.6.2017.
(Informativo 870, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte: 4ª Parte:
5ª Parte: 6ª Parte: 7ª Parte: 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte:
4ª Parte: 5ª Parte: 6ª Parte: 7ª Parte: 8ª Parte: 9ª Parte:
10ª Parte:

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Concurso de Crimes

Latrocínio: pluralidade de vítimas fatais e concurso formal


A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, deu parcial prov imento ao
recurso ordinário em habeas corpus em que se pretendia a desclassificação do delito de latrocínio
para o de roubo, assim como a exclusão do concurso formal impróprio reconhecido quanto aos
crimes de latrocínio.
No caso, o recorrente foi condenado a 42 anos de reclusão pela prática das condutas previstas
nos arts. 148 (sequestro e cárcere privado); 157, § 3º, segunda parte (latrocínio), por duas vezes; e
211 (ocultação de cadáver) do Código Penal (CP). Reconheceu-se, ainda, o concurso formal
impróprio com relação aos crimes de latrocínio, considerada a existência de du as vítimas fatais.
A defesa pretendia a desclassificação do delito de latrocínio para o de roubo, ante a ausência
de provas de que o recorrente teria concorrido para a morte das vítimas, bem como em razão da
participação de menor importância na prática delituosa. Pedia, também, a exclusão do concurso
formal de crimes, por entender ter havido apenas um latrocínio, não obstante a pluralidade de
mortes. Requeria, por fim, o reconhecimento do direito à progressão ao regime semiaberto — v.
Informativo 846.
Quanto à desclassificação pretendida, o Colegiado consignou que o juízo sentenciante, em
harmonia com o ordenamento jurídico, julgou ter o recorrente contribuído ativamente para a
realização do delito, em unidade de desígnios e mediante divisão de tarefas, com pleno domínio do
fato. Além disso, o agente assumiu o risco de produzir resultado mais grave, ciente de que atuava em
crime de roubo, no qual as vítimas foram mantidas em cárcere sob a mira de arma de fogo. Para a
Turma, aquele que se associa a comparsa para a prática de roubo, sobrevindo a morte da vítima,
responde pelo crime de latrocínio, ainda que não tenha sido o autor do disparo fata l ou que sua
participação se revele de menor importância.
No tocante ao reconhecimento de crime único, a Turma ponderou ser o latrocínio delito
complexo, cuja unidade não se altera em razão da existência de mais de uma vítima fatal.
Acrescentou, por fim, que a pluralidade de vítimas é insuficiente para configurar o concurso de
crimes, uma vez que, na espécie, o crime fim arquitetado foi o de roubo (CP, art. 157, § 3º), e não o
de duplo latrocínio.
Vencidos os ministros Roberto Barroso e Rosa Weber, que negavam provimento ao recurso,
por entenderem que, diante da ocorrência de duas mortes, estaria configurado o concurso formal de
crimes.
RHC 133575/PR, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 21.2.2017.
(Informativo 855, 1ª Turma)

Contravenções Penais

Violência doméstica: contravenção penal e possibilidade de substituição da pena


A Primeira Turma, por maioria, indeferiu a ordem de habeas corpus em que solicitada a substituição da
pena privativa de liberdade por restritiva de direitos em caso de contravenção penal envolvendo violência
doméstica.
O paciente foi condenado por vias de fato, nos termos do art. 21 (1) da Lei de Contravenções Penais
(LCP), a vinte dias de prisão simples, em regime aberto. O juízo de 1º grau concedeu a suspensão condicional da
pena (sursis) pelo prazo de dois anos.
A Turma julgou improcedente o pedido, com base em interpretação extensiva do art. 44, I do Código
Penal (2), no caso de violência doméstica e familiar contra a mulher, em que a noção de crime abarcaria qualquer
conduta delituosa, inclusive contravenção penal.
Nesse sentido, reconhecida a necessidade de combate à cultura de violência contra a mulher no Brasil, o
Colegiado considerou a equiparação da conduta do paciente à infração de menor potencial ofensivo incoerente
com o entendimento da violência de gênero como grave violação dos direitos humanos.
Vencido o Ministro Marco Aurélio, que votou pelo deferimento da ordem. Entendeu se tratar de mera
contravenção penal, não abarcada pela Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), e considerou a prisão simples
prejudicial, em termos sociais, especialmente após a reconciliação do casal.

(1) Lei de Contravenções Penais: “Art. 21. Praticar vias de fato contra alguém: Pena - prisão simples, de quinze dias a três
meses, ou multa, de cem mil réis a um conto de réis, se o fato não constitui crime”.

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(2) Código Penal: “ Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade,
quando: I - aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime não for cometido com violência ou grave
ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo”.
HC 137888/MS, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 31.10.2017.
(Informativo 884, Primeira Turma)

Crimes Contra a Honra

Divulgação de discurso editado e difamação


A Primeira Turma recebeu queixa-crime formulada contra parlamentar pela prática do crime de difamação.
De acordo com a inicial, o parlamentar-querelado publicou, em perfil de rede social, trecho editado de discurso
feito pelo parlamentar-querelante com objetivo de difamá-lo.
O Colegiado entendeu que a edição do discurso foi feita com a clara intenção de difamar o querelante.
Pontuou que o ato de edição, corte ou montagem tem por objetivo guiar o espectador. Nesse contexto, destacou
que o emprego de tal expediente, quando voltado a difamar a honra de terceiros, configura o dolo da prática
criminosa.
Pet 5705/DF, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 5.9.2017.
(Informativo 876, Primeira Turma)

Crimes Contra a Liberdade Sexual

Atentado violento ao pudor qualificado e relação de parentesco


A Segunda Turma, por unanimidade, negou provimento a recurso ordinário em habeas corpus no
qual se discutiu o alcance da expressão “ascendente” prevista no inciso II do art. 226 (1) do Código Penal
(redação anterior à Lei 11.106/2005), para saber se é possível a majoração da reprimenda fixada a bisavô
condenado pelo delito de atentado violento ao pudor praticado contra sua bisneta [art. 214 (2) c/c art. 224
(3), “a”, do Código Penal (redação anterior à Lei 12.015/2009)].
O Colegiado asseverou que, na relação de parentesco com a bisneta, o bisavô está no terceiro grau
da linha reta, nos termos previstos no Código Civil, e não há, no ordenamento jurídico, nenhuma regra de
limitação quanto ao número de gerações.
Nesse contexto, pontuou ser juridicamente possível a majoração da pena privativa de liberdade
imposta ao recorrente, bisavô da vítima, em razão da incidência da causa de aumento prevista no inciso II
do art. 226 do Código Penal, considerada a figura do ascendente.
Ademais, observou que a vítima foi violentada dos sete aos nove anos de idade, entre o ano de
2003 e o início de 2006. Nesse período, o recorrente se aproveitou da sua condição especial de ascendente
e, em consequência, da confiança dos demais familiares. Assim, não só a relação de parentesco tem
relevância jurídica no caso, mas também a autoridade que o recorrente exercia sobre a vítima,
ameaçando-a ou presenteando-a para satisfazer o desejo sexual dele.

(1) CP/1940: “Art. 226. A pena é aumentada da quarta parte: (...) II – se o agente é ascendente, pai adotivo, padrasto,
irmão, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tem autoridade sobre ela” (Redação anterior
à Lei 11.106/2005).
(2) CP/1940: “Art. 214. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se
pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal: Pena – reclusão de dois a sete anos” (Redação anterior à Lei 12.015/2009).
(3) CP/1940: “Art. 224. Presume-se a violência, se a vítima: a) não é maior de catorze anos” (Redação anterior à Lei
12.015/2009).
RHC 138717/PR, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 23.5.2017.
(Informativo 866, Segunda Turma)

Crimes Contra a Ordem Tributária

Crime societário, individualização da conduta e teoria do domínio do fato


A Segunda Turma, por unanimidade, concedeu ordem em habeas corpus para trancar ação
penal envolvendo ex-diretores de empresa de telefonia por crimes contra a Fazenda Pública [art. 1º,
II (1), da Lei 8.137/1990 c/c. art. 71 (2) do Código Penal].
De acordo com a denúncia, os impetrantes, com domínio dos fatos na administração da
sociedade anônima, teriam fraudado a Fazenda Pública de Pernambuco por meio da inserção de
elementos inexatos em livros fiscais. Créditos tributários supostamente inexistentes teriam sido
destacados em notas fiscais de aquisição de serviços de telecomunicações para reduzir o valor do

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Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Além d isso, os acusados não apenas
detinham poder para decidir sobre a ilicitude, como também para persuadir os funcionários
contratados a executarem o ato, sendo responsáveis pela ocorrência da redução do tributo.
O ministro Ricardo Lewandowski (relator) asseverou que não se pode invocar a teoria do
domínio do fato, pura e simplesmente, sem nenhuma outra prova, citando de forma genérica os
diretores estatutários da empresa, espalhados pelo Brasil, para lhes imputar um crime fiscal que teria
sido supostamente praticado no Estado-membro.
O Colegiado pontuou que, em matéria de crimes societários, a denúncia deve apresentar,
suficiente e adequadamente, a conduta atribuível a cada um dos agentes, de modo a possibilitar a
identificação do papel desempenhado pelos denunciados na estrutura jurídico -administrativa da
empresa.
Ressaltou que, no caso, a acusação feita aos pacientes deriva apenas dos cargos por eles
ocupados na empresa de telefonia, estando ausente descrição mínima dos supostos atos ilícitos por
eles praticados.

(1) Lei 8.137/1990: “Art. 1º Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e
qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: (...) II – fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou
omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal”.
(2) CP/1940: “Art. 71. Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma
espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como
continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em
qualquer caso, de um sexto a dois terços”.
HC 136250/PE, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 23.5.2017.
(Informativo 866, Segunda Turma)

Crime de Lavagem ou Ocultação de Bens, Direitos e Valores

Lavagem de dinheiro, prescrição e crime permanente


A Primeira Turma, em conclusão de julgamento, condenou, por unanimidade, réu parlamentar à pena
privativa de liberdade de 7 anos, 9 meses e 10 dias de reclusão em regime inicial fechado e multa de 248 dias-
multa, no valor de 5 vezes o salário mínimo vigente à época do fato, aumentada em 3 vezes, pela prática do delito
de lavagem de dinheiro.
Na denúncia, considerando o que pende de exame pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os fatos
delituosos foram organizados em cinco grupos fático-delitivos.
Os dois primeiros grupos referem-se à ocorrência de ocultação e dissimulação da origem, natureza e
propriedade de recursos ilícitos, um entre 1993 e 2002, em contas-correntes localizadas na Suíça, e outro entre
1997 e 2001, em contas localizadas na Inglaterra.
O terceiro fato delituoso reporta-se à conduta do acusado, na qualidade de diretor de empresa registrada
nas Ilhas Virgens Britânicas, de orientar e comandar a conversão de ativos ilícitos em ADRs (American
Depositary Receipts) de outra pessoa jurídica, com o fim de dissimular sua utilização.
O quarto fato delituoso relaciona-se à ocorrência de imputações de ocultação e dissimulação da origem de
recursos ilícitos, bem como da movimentação e transferência desses valores, a fim de ocultar e dissimular sua
utilização, entre 1997 e 2006, por meio de doze contas-correntes na Ilha de Jersey.
O quinto fato delituoso diz respeito à conduta do acusado, na qualidade de representante e beneficiário de
pessoa jurídica registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, de transformar ativos ilícitos em debêntures conversíveis
em ações, com o fim de dissimular sua utilização, no período de 29.7.1997 e 30.7.1998 (vide Informativo 864).
Preliminarmente, a defesa requereu o desentranhamento do “parecer técnico” que acompanhava a
denúncia e a conversão do feito em diligência para a realização de perícia oficial pelo Instituto Nacional de
Criminalística. Alegou que o referido documento não se presta como prova válida, a substituir o exame de corpo
de delito a que se refere o art. 159 (1) do Código de Processo Penal, que deve ser elaborado por perito oficial.
O Colegiado, por maioria, rejeitou a preliminar arguida. Ressaltou que o referido parecer, embora se
autoqualifique “técnico”, não ostenta a característica de prova pericial. Trata-se apenas de descrição e compilação
dos documentos acostados nos outros 140 volumes apensos aos autos principais. A materialidade delitiva está
provada pelos documentos contidos nos autos, e não pela descrição e compilação no parecer. Salientou não haver
qualquer opinião técnica especializada nele contida capaz de influir na compreensão sobre a existência, ou não, da
atividade criminosa.

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Vencido, nesse ponto, o ministro Marco Aurélio (revisor), que admitia a preliminar. Para ele, o laudo
técnico elaborado por perito oficial é indispensável para a instrução do processo, por se tratar de um crime que
deixa vestígios.
Nada obstante, o Colegiado acolheu a manifestação da defesa relativamente à ocorrência de prescrição do
primeiro, do segundo, do terceiro e do quinto fatos delituosos constantes na denúncia. Salientou que o acusado
possui mais de setenta anos, fazendo incidir a regra do art. 115 (2) do Código Penal (CP), que manda computar os
prazos prescricionais pela metade. Assim, haja vista ser a pena máxima cominada aos delitos imputados de dez
anos de reclusão e, em 29.9.2011, quando o STF recebeu parcialmente a denúncia, já haver se passado mais de
oito anos, a punibilidade desse conjunto de fatos está extinta, nos termos dos arts. 107, IV, e 109, II, do CP (3).
A Turma entendeu não estar extinta a punibilidade pela prescrição quanto ao quarto fato imputado ao
acusado e condenou-o pela prática das condutas descritas no art. 1º, V e § 1º, II (4), da Lei 9.613/1998 (redação
anterior à Lei 12.683/2012).
Pontuou que o crime de lavagem de bens, direitos ou valores praticados na modalidade de ocultação tem
natureza de crime permanente. A característica básica dos delitos permanentes está na circunstância de que a
execução desses crimes não se dá em um momento definido e específico, mas em um alongar temporal. Quem
oculta e mantém oculto algo prolonga a ação até que o fato se torne conhecido.
A Turma destacou que o prazo prescricional referente ao quarto fato delitivo imputado tem sua contagem
iniciada, nos termos do art. 111, III, do CP (5), em 11.5.2006, data em que o órgão acusador tomou conhecimento
de documentação enviada ao Brasil pelas autoridades de Jersey. Desse modo, mesmo que se considerasse
instantânea, de efeitos permanentes, a ação de ocultar os bens, direitos e valores, o crime narrado no quarto fato
não estaria prescrito. Ainda que parte da doutrina entenda consumar-se o delito de lavagem apenas no momento
em que ocorre o encobrimento dos valores, compreendendo a permanência do escamoteamento mera
consequência do ato inicial, reconhece-se que, se houver novas movimentações financeiras por parte do agente,
essas últimas são atos subsequentes de uma mesma lavagem que começou com o mascaramento inicial.
Asseverou que as provas dos autos permitem perquirir o caminho percorrido desde a obtenção criminosa
dos recursos financeiros. Além disso, possibilitam verificar como as empresas relacionadas nos autos foram
utilizadas para a constituição de contas e fundos de investimento com a finalidade de ocultar e dissimular a
procedência criminosa de valores e, ainda, de transformar os ativos ilícitos em aparentemente lícitos.
Nesse contexto, entendeu estar devidamente constatada a materialidade, bem como a autoria do réu, que,
entre 1998 e 2006, de forma permanente, ocultou e dissimulou vultosos valores oriundos da perpetração do delito
de corrupção passiva. Para isso, utilizou-se de diversas contas bancárias e fundos de investimentos situados na Ilha
de Jersey, abertos em nome de empresas offshores, com o objetivo de encobrir a verdadeira origem, natureza e
propriedade dos referidos aportes financeiros. Configura-se, assim, a prática do crime de lavagem de dinheiro.
Apontou que a conduta do acusado foi dolosa, por visar à ocultação e dissimulação da origem criminosa
dos valores que movimentou e manteve ocultos no exterior até, pelo menos, o ano de 2006.
Vencido, no tocante à prescrição, o ministro revisor. Para ele, a lavagem de dinheiro é crime de natureza
instantânea com efeitos permanentes. O termo inicial da prescrição é a data da prática criminosa e não a da ciência
pelo Estado acusador. Assim, ficou caracterizada a prescrição da pretensão punitiva de todas as condutas
delituosas descritas na denúncia.
No entanto, superada essa etapa, a votação foi unânime quanto à condenação do parlamentar.
Na primeira fase da dosimetria da pena, o Colegiado identificou vetoriais negativas do art. 59 do CP (6)
suficientes para fixar a pena-base acima do mínimo legal, mas ligeiramente abaixo do termo médio, quais sejam:
a) O juízo de reprovação que recai sobre sua conduta é particularmente intenso, na medida em que se trata
de quem exerce há longa data representação popular, obtida por meio da confiança depositada pelos eleitores em
sua atuação. A transgressão da lei por parte de quem usualmente é depositário da confiança popular para o
exercício do poder, enseja juízo de reprovação muito mais intenso do que seria cabível em se tratando de um
cidadão comum;
b) Do ponto de vista da reprovabilidade, igualmente merece destaque negativo, no que diz respeito à
capacidade de compreensão da ilicitude do fato, a circunstância de ser o acusado homem de longa vida pública,
acostumado com regras jurídicas, às quais, com vantagem em relação aos demais cidadãos, tem a capacidade
acentuada de conhecer e compreender a necessidade de observá-las;
c) No que diz respeito às circunstâncias do crime, merece maior reprovação o fato de que a lavagem
ocorreu num contexto de múltiplas transações financeiras e de múltipla transnacionalidade, o que interfere na
ordem jurídica de mais de um Estado soberano. Ainda, a origem pública dos valores lavados é circunstância que
impõe um juízo de reprovabilidade mais acentuado;
d) Quanto às consequências, estas devem sofrer, nessa fase de aplicação da pena, maior juízo de
reprovação quando vão além das consequências usuais dessa modalidade criminosa. Nesse tópico, o crime

101
praticado pelo réu violou o bem jurídico tutelado pelo tipo de forma muito mais intensa do que o usual, tendo em
vista a vultuosidade dos valores envolvidos.
Na segunda fase da dosimetria, entendeu configurada a agravante do art. 62, I, do Código Penal, uma vez
que o acusado tinha papel primordial na trama criminosa, dirigindo a atividade dos demais agentes, chegando até a
se valer do temor reverencial próprio da condição de ascendente para dirigir a atuação dos demais agentes.
Considerou, ainda, presente a atenuante prevista no art. 65, I, do Código Penal, tendo em vista que o réu tem mais
de 70 (setenta) anos. Vencido, nesse ponto, o revisor quanto à ordem de consideração da atenuante e da agravante.
Na terceira fase da dosimetria, o Colegiado reputou presente a majorante da habitualidade prevista no art.
1º, § 4º (9), da Lei 9.613/1998. As múltiplas transações financeiras realizadas desde o momento em que os valores
aportaram nas contas situadas nas Ilhas de Jersey e as inúmeras transferências que perduraram por longo período
indicam que o crime de lavagem de capitais, para além de mera reiteração de condutas, passou a se constituir
numa prática usual por parte do acusado.
Determinou que o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade, em razão do contido nos
arts. 33, §§ 2º e 3º, do CP, bem como em razão de as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP serem
desfavoráveis, será o fechado.
Com base no art. 7º, I, da Lei 9.613/98, decretou a perda, em favor da União, dos bens, direitos e valores
objeto da lavagem em relação a qual foi o réu condenado, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé.
Com fundamento no art. 7º, II, da Lei 9.613/98, decretou a interdição do condenado para o exercício de
cargo ou função pública de qualquer natureza e de diretor, de membro de conselho de administração ou de
gerência das pessoas jurídicas referidas no art. 9º da mesma Lei, pelo dobro do tempo da pena privativa de
liberdade aplicada, bem como condenou o réu ao pagamento das custas processuais.
Por fim, o Colegiado assentou a perda do mandato de deputado federal do réu, comunicando-se a decisão
à Câmara dos Deputados para o efeito do disposto no § 3º do art. 55 (12) da Constituição Federal. Ressaltou que,
conforme jurisprudência consolidada da Turma, nos casos de prisão em regime inicial fechado, a decretação da
perda do mandato de parlamentar será apenas declarada pela Mesa legislativa. Isso porque, nesses casos, por força
do disposto nos arts. 55, III (10), e 56, II (11), da Constituição Federal, como o parlamentar fica material e
juridicamente impossibilitado de comparecer às sessões, a perda deve ocorrer não por deliberação política do
Plenário, porque não há juízo político a ser feito, mas apenas por uma declaração vinculada da Mesa.

(1) CPP/1941: “Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso
superior. § 1º Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior
preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. § 2º Os peritos não oficiais
prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo”.
(2) CP/1940: “Art. 115. São reduzidos de metade os prazos de prescrição quando o criminoso era, ao tempo do crime, menor de 21
(vinte e um) anos, ou, na data da sentença, maior de 70 (setenta) anos”.
(3) CP/1940: “Art. 107. Extingue-se a punibilidade: (...) IV – pela prescrição, decadência ou perempção; (...) Art. 109. A prescrição,
antes de transitar em julgado a sentença final, salvo o disposto no § 1º do art. 110 deste Código, regula-se pelo máximo da pena privativa de
liberdade cominada ao crime, verificando-se: (...) II – em dezesseis anos, se o máximo da pena é superior a oito anos e não excede a doze”.
(4) Lei 9.613/1998: “Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens,
direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. (...) V – contra a Administração Pública, inclusive a exigência, para si
ou para outrem, direta ou indiretamente, de qualquer vantagem, como condição ou preço para a prática ou omissão de atos administrativos; (...) §
1º Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização de bens, direitos ou valores provenientes de infração penal: (...) II – os
adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda, tem em depósito, movimenta ou transfere” (Redação anterior à Lei
12.683/2012).
(5) CP/1940: “Art. 111. A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, começa a correr: (...) III – nos crimes permanentes,
do dia em que cessou a permanência”.
(6) CP/1940: “Art. 59. O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às
circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para
reprovação e prevenção do crime: I – as penas aplicáveis dentre as cominadas; II – a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; III
– o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV – a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de
pena, se cabível”.
(7) CP/1940: “Art. 62. A pena será ainda agravada em relação ao agente que: I – promove, ou organiza a cooperação no crime ou dirige
a atividade dos demais agentes”.
(8) CP/1940: “Art. 65. São circunstâncias que sempre atenuam a pena: I – ser o agente menor de 21 (vinte e um), na data do fato, ou
maior de 70 (setenta) anos, na data da sentença”.
(9) Lei 9.613/1998: “Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens,
direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. (...) § 4º A pena será aumentada de um a dois terços, nos casos
previstos nos incisos I a VI do ‘caput’ deste artigo, se o crime for cometido de forma habitual ou por intermédio de organização criminosa”
(Redação anterior à Lei 12.683/2012).
(10) CF/1988: “Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador: (...) III – que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à
terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada”.
(11) CF/1988: “Art. 56. Não perderá o mandato o Deputado ou Senador (...) II – licenciado pela respectiva Casa por motivo de doença,
ou para tratar, sem remuneração, de interesse particular, desde que, neste caso, o afastamento não ultrapasse cento e vinte dias por sessão
legislativa”.

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(12 CF/1988: “Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador: (...) § 3º Nos casos previstos nos incisos III a V, a perda será
declarada pela Mesa da Casa respectiva, de ofício ou mediante provocação de qualquer de seus membros, ou de partido político representado no
Congresso Nacional, assegurada ampla defesa”.
(13) Lei 9.613/1998: “Art. 7º São efeitos da condenação, além dos previstos no Código Penal: (...) II – a interdição do exercício de cargo
ou função pública de qualquer natureza e de diretor, de membro de conselho de administração ou de gerência das pessoas jurídicas referidas no
art. 9º, pelo dobro do tempo da pena privativa de liberdade aplicada”.
(14) Lei 9.613/1998: “Art. 9º Sujeitam-se às obrigações referidas nos arts. 10 e 11 as pessoas jurídicas que tenham, em caráter
permanente ou eventual, como atividade principal ou acessória, cumulativamente ou não: I – a captação, intermediação e aplicação de recursos
financeiros de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira; II – a compra e venda de moeda estrangeira ou ouro como ativo financeiro ou
instrumento cambial; III – a custódia, emissão, distribuição, liquidação, negociação, intermediação ou administração de títulos ou valores
mobiliários. Parágrafo único. Sujeitam-se às mesmas obrigações: I – as bolsas de valores e bolsas de mercadorias ou futuros; II – as seguradoras,
as corretoras de seguros e as entidades de previdência complementar ou de capitalização; III – as administradoras de cartões de credenciamento
ou cartões de crédito, bem como as administradoras de consórcios para aquisição de bens ou serviços; IV – as administradoras ou empresas que
se utilizem de cartão ou qualquer outro meio eletrônico, magnético ou equivalente, que permita a transferência de fundos; V – as empresas de
arrendamento mercantil (‘leasing’) e as de fomento comercial (‘factoring’); VI – as sociedades que efetuem distribuição de dinheiro ou quaisquer
bens móveis, imóveis, mercadorias, serviços, ou, ainda, concedam descontos na sua aquisição, mediante sorteio ou método assemelhado; VII – as
filiais ou representações de entes estrangeiros que exerçam no Brasil qualquer das atividades listadas neste artigo, ainda que de forma eventual;
VIII – as demais entidades cujo funcionamento dependa de autorização de órgão regulador dos mercados financeiro, de câmbio, de capitais e de
seguros; IX – as pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras, que operem no Brasil como agentes, dirigentes, procuradoras,
comissionárias ou por qualquer forma representem interesses de ente estrangeiro que exerça qualquer das atividades referidas neste artigo; X – as
pessoas jurídicas que exerçam atividades de promoção imobiliária ou compra e venda de imóveis; XI – as pessoas físicas ou jurídicas que
comercializem joias, pedras e metais preciosos, objetos de arte e antiguidades; XII – as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de
luxo ou de alto valor ou exerçam atividades que envolvam grande volume de recursos em espécie” (Redação anterior à Lei 12.683/2012).
AP 863/SP, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 23.5.2017. (AP-863)
(Informativo 866, Primeira Turma)

Crimes Previstos na Legislação Extravagante

Princípio da congruência e “grandes devedores”


A Segunda Turma denegou a ordem em habeas corpus, em que discutida a possibilidade de incidir causa
especial de aumento de pena não arrolada na inicial acusatória, bem como o enquadramento da paciente nos
termos da Portaria 320/2008 da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).
A paciente foi condenada pela conduta tipificada no art. 1º, I, c/c art, 12, I, ambos da Lei 8.137/1990. O
impetrante argumentou em favor da não incidência dessa causa de aumento, uma vez que a quantia devida pela
paciente não a caracterizava como grande devedora.
O Colegiado registrou que, não obstante o princípio da correlação entre imputação e sentença — qual seja,
princípio da congruência — representar uma das mais relevantes garantias do direito de defesa, não houve
contrariedade no caso, uma vez que o juízo criminal não desbordou dos limites da imputação oferecida pelo
Ministério Público. Ressaltou, ademais, que a vultosa quantia sonegada — cerca de 4 milhões de reais — é
elemento suficiente para caracterização do grave dano à coletividade, constante no inciso I do art. 12, da lei
8.137/1990 (1). Em síntese, o Colegiado assentou que os fatos foram suficientemente elucidados na exordial
acusatória, sendo que o juiz, não se desbordando dos lindes da razoabilidade e da proporcionalidade, pode aplicar
essa agravante.
Por fim, quanto à Portaria 320/2008 da PGFN, a Turma anotou que essa norma infralegal apenas dispõe
sobre o Projeto Grandes Devedores no âmbito dessa Procuradoria, conceituando, para os seus fins, “grandes
devedores”, com o objetivo de estabelecer, na Secretaria de Receita Federal do Brasil, método de cobrança
prioritário a esses sujeitos passivos de vultosas obrigações tributárias, sem limitar ou definir, no entanto, o grave
dano à coletividade.
(1) Lei 8.137/1990: “Art. 12. São circunstâncias que podem agravar de 1/3 (um terço) até a metade as penas previstas nos
arts. 1°, 2° e 4° a 7°: I - ocasionar grave dano à coletividade; ”.
HC 129284/PE, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 17.10.2017.
(Informativo 882, Segunda Turma)

Transmissão clandestina de sinal de internet: atipicidade


A Primeira Turma deferiu a ordem de habeas corpus para absolver o paciente, com base no artigo
386, III (1), do Código de Processo Penal. No caso, foi imputada ao paciente a prática da infração descrita
no artigo 183 da Lei 9.472/1997 (2), em virtude de haver transmitido, clandestinamente, sinal de internet
por meio de radiofrequência.
A defesa sustentou a atipicidade formal e material da conduta. Asseverou que o oferecimento de
serviços de internet não pode ser entendido como atividade de telecomunicação. Aduziu, também, ser
ínfima a lesão ao bem jurídico tutelado.

103
O Colegiado destacou que o artigo 61, §1º (3), da Lei 9.472/97 preceitua que o serviço de valor
adicionado não constitui serviço de telecomunicação, classificando-se o provedor como usuário do
serviço que lhe dá suporte, com os direitos e deveres inerentes a essa condição.
Pontuou que, em seu artigo 183, a Lei define o crime de atividade clandestina, restringindo-o às
telecomunicações.
Em conclusão, a Turma decidiu que a oferta de serviço de internet, concebido como serviço de
valor adicionado, não pode ser considerada atividade clandestina de telecomunicações.

(1) Código de Processo Penal de 1941: “Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde
que reconheça (...) III - não constituir o fato infração penal; ”
(2) Lei 9.472/1997: “Art. 183. Desenvolver clandestinamente atividades de telecomunicação: Pena - detenção de dois a
quatro anos, aumentada da metade se houver dano a terceiro, e multa de R$ 10.000,00 (dez mil reais).”
(3) Lei 9.472/1997: “Art. 61. Serviço de valor adicionado é a atividade que acrescenta, a um serviço de telecomunicações
que lhe dá suporte e com o qual não se confunde, novas utilidades relacionadas ao acesso, armazenamento, apresentação,
movimentação ou recuperação de informações. § 1º Serviço de valor adicionado não constitui serviço de telecomunicações,
classificando-se seu provedor como usuário do serviço de telecomunicações que lhe dá suporte, com os direitos e deveres inerentes a
essa condição”.
HC 127978, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 24.10.2017.
(Informativo 883, Primeira Turma)

Lei de Segurança Nacional e competência do Supremo


A Primeira Turma negou provimento a recurso crime, interposto pelo Ministério Público contra sentença
absolutória proferida pelo juízo de primeira instância e encaminhado ao Supremo pelo Tribunal Federal (STF),
nos termos art. 102, II, b, da Constituição Federal (1).
A denúncia imputou ao réu a prática de atos preparatórios do crime de sabotagem em virtude de invasão
de hidrelétrica, conforme disposto no art. 15, § 2º, da Lei 7.170/1983 (Lei de Segurança Nacional) (2).
A Turma entendeu não se tratar de crime político. Negou provimento ao recurso e julgou extinta a ação
penal, concluindo pela impropriedade do meio utilizado e pela configuração de crime impossível.
Vencidos os ministros Alexandre de Moraes e Marco Aurélio, que determinaram a devolução dos autos ao
tribunal competente para que esse procedesse à análise do recurso.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição,
cabendo-lhe: (...) II - julgar, em recurso ordinário: (...) b) o crime político”.
(2) Lei 7.170/1983: “Art. 15 - Praticar sabotagem contra instalações militares, meios de comunicações, meios e vias de
transporte, estaleiros, portos, aeroportos, fábricas, usinas, barragem, depósitos e outras instalações congêneres. (...) § 2º - Punem-se
os atos preparatórios de sabotagem com a pena deste artigo reduzida de dois terços, se o fato não constitui crime mais grave”.
RC 1473/SP, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 14.11.2017.
(Informativo 885, Primeira Turma)

Cumprimento da Pena

Tráfico de drogas e fixação de regime inicial


A Segunda Turma, por maioria, concedeu a ordem em habeas corpus no qual se pretendia a
alteração do regime prisional imposto ao paciente condenado pela prática do crime de tráfico de drogas
— disposto no art. 33 da Lei 11.343/2006 (1) — a pena em regime inicial fechado, por força de decisão
exarada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
No caso, o STJ deu parcial provimento a recurso especial interposto pelo Ministério Público para
determinar o regime prisional fechado para o cumprimento inicial da pena.
A Turma asseverou que o condenado não reincidente, cuja pena seja superior a 4 anos e não exceda
a 8 anos, tem o direito de cumprir a pena corporal em regime semiaberto, segundo o art. 33, § 2º, “b”, do
CP (2), caso as circunstâncias judiciais do art. 59 (3) do mesmo diploma lhe sejam favoráveis.
Ademais, pontuou não haver fundamentação idônea necessária para a imposição de regime de
cumprimento de pena mais gravoso – Enunciados 718 (4) e 719 (5) da Súmula do Supremo Tribunal
Federal.
Por fim, salientou que não cabe ao STJ revolver fatos e provas para, analisando a quantidade e a
qualidade de droga, impor ao réu regime prisional mais gravoso.
Vencido o ministro Edson Fachin, que indeferia a ordem. Para ele, a fixação de regime mais
gravoso pelo STJ estaria devidamente justificada, pois, no julgamento da apelação, a pena-base ficou

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acima do mínimo legal, por ter sido considerada como desfavorável a circunstância do art. 42 da Lei
11.343/2006 (6).
(1) Lei 11.343/2006: “Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda,
oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda
que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena – reclusão de 5 (cinco) a 15
(quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.”
(2) CP/1940: “Art. 33 – A pena de reclusão deve ser cumprida em regime fechado, semiaberto ou aberto. A de detenção,
em regime semiaberto, ou aberto, salvo necessidade de transferência a regime fechado. (...) § 2º – As penas privativas de liberdade
deverão ser executadas em forma progressiva, segundo o mérito do condenado, observados os seguintes critérios e ressalvadas as
hipóteses de transferência a regime mais rigoroso: (...) b) o condenado não reincidente, cuja pena seja superior a 4 (quatro) anos e
não exceda a 8 (oito), poderá, desde o princípio, cumpri-la em regime semiaberto;”
(3) CP/1940: “Art. 59 – O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente,
aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja
necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: I – as penas aplicáveis dentre as cominadas; II – a quantidade de pena
aplicável, dentro dos limites previstos; III – o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV – a substituição da
pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível.”
(4) Enunciado 718 da Súmula do STF: “A opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui
motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada.”
(5) Enunciado 719 da Súmula do STF: “A imposição do regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada
permitir exige motivação idônea.”
(6) Lei 11.343/2006: “Art. 42. O juiz, na fixação das penas, considerará, com preponderância sobre o previsto no art. 59 do
Código Penal, a natureza e a quantidade da substância ou do produto, a personalidade e a conduta social do agente.”
HC 140441/MG, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 28.3.2017.
(Informativo 859, 2ª Turma)

Dolo

Crime de dispensa irregular de licitação e dolo específico


A Primeira Turma, por maioria, rejeitou denúncia oferecida contra deputado federal, pela suposta
prática do crime de dispensa de licitação fora das hipóteses previstas em lei [Lei 8.666/1993, art. 89 (1)].
No caso, o investigado, na qualidade de secretário estadual de Educação e com base em parecer da
Procuradoria Jurídica, teria homologado procedimento de inexigibilidade de licitação para aquisição de
licenças de software para a sistematização organizacional de horários e grades escolares na rede pública
estadual de Santa Catarina.
Na denúncia, o Ministério Público argumentou, com fundamento em laudo pericial, que existiam
outros softwares igualmente aptos à finalidade almejada pela Secretaria de Educação, o que indicaria a
necessidade de concorrência pública. Ademais, salientou que teria havido a prática de “sobrepreço”.
O Colegiado apontou que o laudo pericial constatou que o software da empresa escolhida tinha mais
especificações do que os das concorrentes e era mais adequado ao seu objeto. Ressaltou também a
ausência nos autos de prova de conluio com a empresa escolhida e de recebimento de qualquer vantagem
econômica pelo então secretário.
Frisou que, para a escolha do software, não houve qualquer participação pessoal do acusado. A
tomada de decisão foi feita em procedimento policêntrico pelas instâncias técnicas envolvidas.
Por fim, asseverou que o crime previsto no art. 89 da Lei 8.666/1993 reclama o dolo,
consubstanciado na vontade livre e consciente de praticar o ilícito penal, que não se faz presente quando o
acusado atua com fulcro em parecer da Procuradoria Jurídica no sentido da inexigibilidade da licitação.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que recebia a denúncia. Para ele, o crime de afastamento de
licitação teria natureza formal, sem necessidade, portanto, da exigência de dolo específico.
(1). Lei 8.666/1993: “Art. 89. Dispensar ou inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou deixar de observar as
formalidades pertinentes à dispensa ou à inexigibilidade: Pena – detenção, de 3 (três) a 5 (cinco) anos, e multa.”
Inq 3753/DF, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 18.4.2017.
(Informativo 861, Primeira Turma)

Teoria do domínio do fato e autoria


A teoria do domínio do fato não preceitua que a mera posição de um agente na escala hierárquica sirva
para demonstrar ou reforçar o dolo da conduta. Do mesmo modo também não permite a condenação de um
agente com base em conjecturas.
Com base nessa orientação, a Segunda Turma deu provimento ao recurso de apelação a fim de absolver o
réu, com base no art. 386, V (1), do CPP.

105
No caso, o apelante, deputado federal e ex-governador, foi condenado por peculato-desvio, por supostas
irregularidades verificadas durante a fase licitatória e de execução de obras para drenagem de águas pluviais na
construção e ampliação de quatro grandes lagoas para deságue final que objetivava pôr termo a enchentes.
Inicialmente, a Turma declarou a nulidade parcial da sentença que condenou o réu por participação nos
atos de gestão praticados por secretário.
Ao considerar a participação do réu em fatos estranhos, não narrados na denúncia, a sentença afrontou o
princípio da ampla defesa e contraditório. O réu foi surpreendido, depois de finda a instrução probatória, com
fato que lhe era desconhecido e acerca do qual não lhe foi oportunizado se manifestar.
Também se ofendeu o princípio do devido processo legal, tendo em vista que houve na hipótese, ação
penal ex officio, em desobediência ao modelo constitucional que enuncia ser função institucional privativa do
Ministério Público a promoção da ação penal pública [CF, art. 129, I (2)].
Ressaltou que o Ministério Público imputou ao réu responsabilidade por dar continuidade a
irregularidades iniciadas em gestão anterior, e que, segundo sua avaliação, seriam de “gritante notoriedade”.
Afirmou que, embora a norma processual preceitue não depender de prova os fatos notórios, nesta
categoria, porém, não se enquadram os fatos que demandam tarefa intelectiva do autor para serem
compreendidos e aceitos, como é o caso das irregularidades descritas nos autos.
Portanto, os elementos probatórios apontados pelo parquet são insuficientes para concluir pela
participação do réu. As fraudes perpetradas não eram notórias ao ponto de prescindir de maior substrato
probatório.
Destacou que nada mais se argumentou sobre a atuação do réu na empreitada criminosa além do fato dele
ter assinado os instrumentos de repasse e ter dado continuidade à obra que foi considerada irregular pelo TCU.
A razão para a ausência de argumentos mais concretos a comprovar o dolo e autoria, ao que tudo indica
pela frequente menção à “superioridade hierárquica do réu”, é a consideração pelo Ministério Público de que a
adoção da teoria do domínio do fato dispensaria o aprofundamento do papel por ele desenvolvido nas fraudes
denunciadas.
No caso vertente não se evidenciou qualquer controvérsia entre a função do réu na empreitada criminosa,
se o seu papel seria fundamental ou não, se seria autor ou mero partícipe. A dúvida existente reside, na
realidade, em momento ainda anterior a tal apreciação, pois sequer se demonstrou estar o réu envolvido nas
fraudes noticiadas.
Assim, não há razão para discutir a medida da participação de um agente que sequer se comprovou ter
anuído ou efetivamente concorrido para a prática delituosa. Só há motivo para discutir a medida da participação
depois de confirmada a sua existência.
É por isso que a adoção da teoria do domínio do fato, nos moldes em que utilizada pelo juízo de primeiro
grau, não socorre ao apelo acusatório. Antes disso, acaba por infirmá-lo, na medida em que restringe o conceito
aberto de autor preceituado pelo art. 29 (3) do CP.

(1) CPP/1941: “Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: (...) V –
não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal”.
(2) CF/1988: “Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: I - promover, privativamente, a ação penal
pública, na forma da lei”.
(3) CP/1940 “Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de
sua culpabilidade”.
AP 975/AL, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 3.10.2017.
(Informativo 880, Segunda Turma)

Dosimetria

Participação em organização criminosa e quantidade de drogas


A Segunda Turma, por unanimidade, deu parcial provimento a recurso ordinário em habeas corpus
para reconhecer a incidência da causa de diminuição da pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006
(1) e determinar que o juízo a quo, após definir o patamar de redução, recalcule a pena e proceda ao
reexame do regime inicial do cumprimento da sanção e da substituição da pena privativa de liberdade por
sanções restritivas de direitos, se preenchidos os requisitos do art. 44 do Código Penal (2).
No caso, a paciente foi condenada à pena de cinco anos de reclusão, em regime inicial fechado, e
ao pagamento de quinhentos dias-multa, pela prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei
11.343/2006.

106
A defesa alegou que o não reconhecimento da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei de
Drogas, pelas instâncias ordinárias, baseou-se unicamente na quantidade da droga apreendida.
O Colegiado assentou que a grande quantidade de entorpecente, apesar de não ter sido o único
fundamento apontado para afastar a aplicação do redutor do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006, foi
isoladamente utilizada como elemento para presumir-se a participação da paciente em uma organização
criminosa e, assim, negar-lhe o direito à minorante.
Ressaltou que, conforme a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a quantidade de drogas
não pode automaticamente levar ao entendimento de que a paciente faria do tráfico seu meio de vida ou
integraria uma organização criminosa (3). Ademais, observou que a paciente foi absolvida da acusação do
delito de associação para o tráfico, tipificado no art. 35 da Lei 11.343/2006 (4), por ausência de provas.
Dessa forma, a Turma considerou ser patente a contradição entre os fundamentos usados para
absolvê-la da acusação de prática do mencionado delito e os utilizados para negar-lhe o direito à
minorante no ponto referente à participação em organização criminosa.

(1) Lei 13.343/2006: “Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda,
oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda
que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena – reclusão de 5 (cinco) a 15
(quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa. (...) § 4º Nos delitos definidos no caput e no §
1º deste artigo, as penas poderão ser reduzidas de um sexto a dois terços, vedada a conversão em penas restritivas de direitos, desde
que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa”.
(2) CP/1940: “Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando: I –
aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa
ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo; II – o réu não for reincidente em crime doloso; III – a culpabilidade,
os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa
substituição seja suficiente”.
(3) HC 131.795/SP, DJE de 17.5.2016.
(4) Lei 13.343/2006: “Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer
dos crimes previstos nos arts. 33, ‘caput’ e § 1º, e 34 desta Lei: Pena – reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700
(setecentos) a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa”.
RHC 138715/MS, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 23.5.2017.
(Informativo 866, Segunda Turma)

Embargos de declaração em embargos de declaração e efeitos infringentes


O Plenário concluiu julgamento de embargos de declaração interpostos em face de acórdão proferido em
ação penal na qual os embargantes foram condenados por fraude em licitação (v. Informativos 820 e 838).
Constatado o empate na votação, a Corte deliberou conhecer dos embargos de declaração de dois dos
corréus, e os acolher, em parte, com efeitos modificativos; e rejeitar os embargos de declaração de outro dos
corréus, porém aplicando-lhe o disposto no art. 580 do Código de Processo Penal (1).
Afirmou que, na linha de precedentes do Tribunal, verificado o empate no julgamento de ação penal,
deveria prevalecer a decisão mais favorável ao réu.
Vencido, no ponto, o Ministro Marco Aurélio, que entendia aplicável o art. 13, IX, “a”, do Regimento
Interno do Supremo Tribunal Federal (2).
Assim, prevaleceu o voto proferido em assentada anterior pelo Ministro Dias Toffoli, no sentido de que
teria havido bis in idem quanto à valoração negativa da conduta social e da personalidade dos embargantes. Os
mesmos elementos que majoraram a culpabilidade também teriam justificado a negativação de suas condutas
sociais e personalidades. Desse modo, haveria que se decotar da pena-base a referida valoração negativa.
Igualmente, ainda na primeira fase da dosimetria, teriam sido consideradas favoráveis aos embargantes as
consequências do crime, pois “os procedimentos licitatórios se aperfeiçoaram por preços de mercado, tendo sido
as obras e os serviços realizados”. Apesar desse reconhecimento, o vetor não teria repercutido na pena.
Vencidos os Ministros Cámen Lúcia (relatora), Edson Fachin, Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux,
que rejeitavam os embargos de declaração.

(1) CPP: “Art. 580. No caso de concurso de agentes (Código Penal, art. 25), a decisão do recurso interposto por um dos réus, se
fundado em motivos que não sejam de caráter exclusivamente pessoal, aproveitará aos outros”.
(2) RISTF: “Art. 13. São atribuições do Presidente: IX – proferir voto de qualidade nas decisões do Plenário, para as quais o Regimento
Interno não preveja solução diversa, quando o empate na votação decorra de ausência de Ministro em virtude de: a) impedimento ou suspeição”.
AP 565 ED-ED/RO, rel. min. Cármen Lúcia, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento em
14.12.2017.
(Informativo 888, Plenário)

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Falsidade Ideológica

Falsidade ideológica e acumulação de cargos públicos


A Primeira Turma, por unanimidade, rejeitou a denúncia oferecida contra deputado federal, em razão da
ausência de justa causa necessária à instauração da ação penal [Código de Processo Penal, art. 395, III (1)].
Na peça acusatória, o Parquet imputa ao acusado a prática de falsidade ideológica [Código Penal,
art. 299 (2)], em razão de assinatura do termo de posse no cargo de ouvidor da Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), com a omissão da informação de que ocupava, desde o mês
anterior, o cargo de secretário parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco
(ALEPE). O termo de posse mencionado na exordial foi assinado tanto pelo superintendente da Sudene
quanto pelo empossado (denunciado), apenas com a referência à juntada de “declaração de bens e
rendimentos e, ainda, declaração quanto ao exercício ou não de outro cargo, emprego ou função pública”.
O Colegiado salientou que a inicial acusatória deve alicerçar-se em elementos probatórios
mínimos que demonstrem a materialidade do fato delituoso e os indícios suficientes de autoria, em
respeito aos princípios constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa.
Nesse contexto, pontuou que a denúncia não está acompanhada da mencionada “declaração quanto ao
exercício ou não de outro cargo, emprego ou função pública”, que teria sido assinada pelo acusado e,
assim, conferiria materialidade ao crime de falsidade ideológica.
Narrou que a referida “declaração de bens e valores” constitui um formulário preenchido pelo
acusado, destinado ao controle da evolução patrimonial dos ocupantes de cargo em comissão na Sudene,
no qual inexiste campo destinado à informação sobre acúmulo de cargos públicos.
Relatou que o não preenchimento, mencionado pelo Parquet, do item relativo aos “rendimentos
recebidos de pessoas jurídicas pelo titular” está justificado no próprio documento, que orienta o
subscritor, no caso de “declaração de ingresso”, a preencher unicamente alguns dos itens, entre os quais
não se inclui aquele referido na denúncia.
A Turma consignou não haver qualquer dado material a comprovar a afirmação da denúncia, no
sentido de que, “consciente e voluntariamente, omitiu tanto do respectivo termo quanto de seu anexo a
informação de que já ocupava outro cargo público e recebia rendimentos correspondentes”. Assim,
inexistindo qualquer campo no formulário sobre o acúmulo de cargos, não há justa causa para receber
denúncia que imputa ao acusado a omissão dessa informação em documento público.
Ademais, o Colegiado asseverou que as decisões proferidas pelas esferas administrativas e
jurisdicionais competentes são autônomas e independentes, razão por que o juízo criminal não está
vinculado à decisão proferida no âmbito administrativo, seja ela contrária ou favorável ao jurisdicionado.
Consectariamente, nenhuma repercussão sobre o presente feito têm as decisões proferidas no âmbito da
Sudene e da Alepe quanto à ausência de prejuízo ou de má-fé do acusado, no que se refere ao acúmulo de
cargos públicos. Pelas mesmas razões, a Turma ressaltou que o fato de uma mesma conduta ser
sancionada por diferentes ramos do Direito não conduz à incidência do princípio da intervenção mínima,
de modo a afastar a coercibilidade das normas de Direito Penal criminalizadoras da conduta.

(1) CPP/1941: “Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: (...) III – faltar justa causa para o exercício da ação
penal”.
(2) CP/1940: “Art. 299 – Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou
fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade
sobre fato juridicamente relevante: Pena – reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três
anos, e multa, se o documento é particular”.
Inq 4105/PE, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 30.5.2017.
(Informativo 867,1ª Turma)

Parte Geral

Atentado violento ao pudor e regime inicial semiaberto


A Segunda Turma, em conclusão de julgamento, negou provimento a recurso ordinário em habeas
corpus em que se pretendia a absolvição do recorrente pela prática de atentado violento ao pudor, em
razão de suposta insuficiência probatória.
A defesa alegou que a condenação estaria lastreada em elementos produzidos na fase inquisitorial.
Além disso, argumentou que a recusa do recorrente em fornecer material para realização de exame de
DNA teria sido valorada na condenação, sendo cediço que o réu não é obrigado a produzir prova que lhe
prejudique.

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A Turma assinalou que a condenação não se baseou exclusivamente nos elementos de informação
do inquérito, bem assim que, abstraída a presunção de inocência do recorrente em razão da falta de exame
de DNA, subsistiria prova suficiente para lastrear a condenação.
Por fim, o Colegiado, por maioria, concedeu a ordem, de ofício, para fixar o regime semiaberto
para início de cumprimento de pena.
A respeito, afirmou que, de acordo com a jurisprudência da Corte, caso favoráveis todas as
circunstâncias judiciais, de modo que a pena-base seja fixada no mínimo legal, não cabe a imposição de
regime inicial mais gravoso.
Vencido, no ponto, o ministro Edson Fachin, que não concedeu a ordem de ofício, considerada a
gravidade concreta do delito.
RHC 131133/SP, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 10.10.2017.
(Informativo 881, Segunda Turma)

Indulto e pena de multa


O indulto da pena privativa de liberdade não alcança a pena de multa que tenha sido objeto de
parcelamento espontaneamente assumido pelo sentenciado.
Com base nesse entendimento, o Plenário, em conclusão e por maioria, negou provimento a agravo
regimental em que se discutia a extinção da pena de multa imposta.
No caso, para ter direito à progressão de regime e ao indulto, e diante da impossibilidade de fazer o
pagamento integral de uma só vez, o sentenciado parcelou a pena de multa aplicada.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que deu provimento ao agravo regimental. Ressaltou que o indulto
leva à extinção da punibilidade e alcança não só a pena restritiva de liberdade como também a pena de multa.
EP 11 IndCom-AgR/DF, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 8.11.2017.
(Informativo 884, Plenário)

Pena

Tráfico de drogas e imediações de estabelecimento prisional


A Segunda Turma denegou a ordem de habeas corpus em que se pretendia afastar a aplicação da causa
de aumento prevista no art. 40, III, da Lei 11.343/2006 (1) em condenação por tráfico de drogas realizado nas
imediações de estabelecimento prisional.
No caso, o STJ deu provimento a recurso especial, interposto pelo Ministério Público, para determinar a
incidência da mencionada causa de aumento.
A defesa insurgia-se contra a não aplicação o Enunciado 7 da Súmula do STJ (2). Além disso, alegava
não ter sido demonstrado que o paciente comercializava qualquer tipo de entorpecente com frequentadores do
estabelecimento prisional.
A Turma asseverou que a jurisprudência do STF está sedimentada na impossibilidade do uso de habeas
corpus para reexame dos pressupostos de admissibilidade de recurso interposto no STJ. A suposta contradição
seria adequadamente solucionada em embargos de declaração dirigidos ao STJ, e não em habeas corpus
diretamente ao STF.
Ademais, salientou que a aplicação da referida causa de aumento se justifica quando constatada a
comercialização de drogas nas imediações de estabelecimentos prisionais, sendo irrelevante se o agente infrator
visa ou não aos frequentadores daquele local.

(1) Lei 11.343/2006: “Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda,
oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda
que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena – reclusão de 5 (cinco) a 15
(quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa. (...) Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a
37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços, se: III – a infração tiver sido cometida nas dependências ou imediações de
estabelecimentos prisionais, de ensino ou hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou
beneficentes, de locais de trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de qualquer natureza, de serviços
de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades militares ou policiais ou em transportes públicos;”
(2) Enunciado 7 da Súmula do STJ: “A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial.”
HC 138944/SC, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 21.3.2017.
(Informativo 858, 2ª Turma)

109
Remição da pena e jornada de trabalho inferior a seis horas
A Segunda Turma deu provimento a recurso ordinário em habeas corpus e concedeu a ordem para
que seja considerado, para fins de remição da pena, o total de horas trabalhadas em jornada diária inferior
a seis horas.
O Colegiado anotou que o condenado cumpria jornada de quatro horas diárias de trabalho por
determinação da administração do presídio. Ponderou que, nos termos da Lei de Execução Penal (LEP) (1
e 2), a jornada diária não deve ser inferior a seis nem superior a oito horas. Afirmou que, para computar
os dias de remição, a administração penitenciária somou as horas trabalhadas e as dividiu por seis.
A Turma concluiu que, ao fazer a conversão matemática do cálculo da remição, a administração
penitenciária agiu dentro dos limites previstos na LEP. Asseverou que o condenado não poderia ser
apenado por um limite de horas imposto pelo próprio estabelecimento penitenciário na execução de sua
pena.
Por fim, deliberou que a obrigatoriedade do cômputo de tempo de trabalho deve ser aplicada às
hipóteses em que o sentenciado, por determinação da administração, cumpra jornada inferior ao mínimo
de seis horas, ou seja, em que a jornada de trabalho não derive de ato voluntário nem de indisciplina ou
insubmissão do preso.

(1) LEP/1984: “Art. 33. A jornada normal de trabalho não será inferior a 6 (seis) nem superior a 8 (oito) horas, com
descanso nos domingos e feriados.”
(2) LEP/1984: “Art. 126. O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir, por trabalho ou
por estudo, parte do tempo de execução da pena. § 1º A contagem de tempo referida no “caput” será feita à razão de: (...) II – 1 (um)
dia de pena a cada 3 (três) dias de trabalho.”
RHC 136509/MG, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 4.4.2017.
(Informativo 860)

Cumprimento de pena em regime semiaberto ou aberto e estabelecimento prisional adequado


A Segunda Turma julgou improcedente reclamação ajuizada para garantir a observância, pela
instância de origem, da Súmula Vinculante 56 (1).
O reclamante cumpre pena em regime semiaberto. Em razão de não estar recolhido em colônia
penal, pleiteou lhe fosse concedida prisão domiciliar ou antecipação do regime aberto, o que foi negado.
O Colegiado ressaltou o direito de o apenado cumprir a reprimenda em estabelecimento adequado
ao regime imposto. Ponderou que a concessão de prisão domiciliar ou regime aberto é inviável, diante do
regramento previsto na Lei de Execução Penal. Informou que o reclamante cumpre pena em ala de
penitenciária destinada exclusivamente a internos do regime semiaberto e que todos os benefícios
inerentes ao regime lhe são assegurados.
A Turma deliberou no sentido de serem aceitáveis estabelecimentos não qualificados como colônia
agrícola ou industrial (regime semiaberto) ou casa de albergado ou estabelecimento adequado (regime
aberto). Entretanto, não é permitido o alojamento conjunto de presos dos regimes semiaberto e aberto
com presos do regime fechado.

(1) Súmula Vinculante 56: “A falta de estabelecimento penal adequado não autoriza a manutenção do condenado em
regime prisional mais gravoso, devendo-se observar, nessa hipótese, os parâmetros fixados no RE 641.320/RS.”
Rcl 25123/SC, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 18.4.2017.
(Informativo 861)

Perda do mandato parlamentar e declaração da mesa diretora da casa legislativa


A Primeira Turma, em conclusão e por maioria, julgou procedente ação penal e condenou
deputado federal à pena de 12 anos, 6 meses e 6 dias de reclusão, em regime inicial fechado, mais 374
dias-multa no valor de 3 salários mínimos, pela prática dos crimes de corrupção passiva [Código Penal,
art. 317 (1)] e lavagem de dinheiro [Lei 9.613/1998, art. 1º, V (2)]. Como efeitos da condenação foram
determinadas a perda do mandato parlamentar e a interdição para o exercício de cargo ou função pública
de qualquer natureza e de diretor, membro de conselho de administração ou de gerência das pessoas
jurídicas citadas na lei de combate à lavagem de dinheiro (redação anterior), pelo dobro da duração da
pena privativa de liberdade.
No caso, foi revelado esquema criminoso que atuou em vários Estados, com o objetivo de desviar
recursos públicos por meio da aquisição superfaturada, por prefeituras, de ambulâncias e equipamentos
médicos, como resultado de licitações direcionadas. Segundo a acusação, cabia ao deputado condenado

110
apresentar emendas ao orçamento geral da União, destinadas a Municípios das regiões norte e nordeste do
Estado do Rio de Janeiro, para beneficiar grupo empresarial.
Em relação ao crime de corrupção passiva, o Colegiado considerou haver nos autos elementos de
provas que demonstram o recebimento de vantagens indevidas por meio de depósitos em contas-correntes
de terceiros. O livro-caixa da empresa apreendido na operação continha registros de pagamento ao
acusado com as datas e os valores dos repasses. Além disso, em acordo de colaboração premiada, os
proprietários afirmaram haver acertado o pagamento de comissão de 10% sobre o valor de cada emenda
apresentada, fato comprovado por meio de recibos de operações de crédito efetuadas em nome de pessoas
ligadas ao parlamentar condenado.
Quanto ao crime de lavagem de dinheiro, a Turma concluiu que as provas colhidas nos autos
indicam que os valores recebidos por terceiros foram utilizados para pagamento de despesas do deputado
com aluguel de imóveis, aquisição de veículos e quitação de impostos. Essa foi a forma como o acusado
efetivou a circulação dissimulada dos valores, por terceiros e em benefício próprio, convertendo dinheiro
oriundo de corrupção em bens e serviços incorporáveis ao seu patrimônio formal. Quanto a esse crime,
ficou vencido o ministro Marco Aurélio, que votou pela absolvição do acusado.
Relativamente à fixação da pena e aos efeitos da condenação, a ministra Rosa Weber (relatora)
ressaltou que a corrupção ocorreu em momento singular de cooptação de parlamentar federal para
esquema criminoso, planejado e infiltrado nos altos cargos da Administração Pública. Além do descrédito
para a democracia, o crime drenou recursos da saúde pública, área extremamente carente na sociedade
brasileira. A motivação foi criar fonte perene de recursos ilícitos provenientes da corrupção associada a
métodos de lavagem de capitais diretamente conectados ao mandato parlamentar.
Quanto à pena, prevaleceu o voto da relatora, também por maioria. Vencido o ministro Alexandre
de Moraes, que majorou a pena em relação a cada crime, presente a continuidade delitiva, na metade.
O Colegiado, nos termos do voto do ministro Roberto Barroso e por decisão majoritária, decidiu
pela perda do mandato com base no inciso III do art. 55 da Constituição Federal (CF) (3), que prevê essa
punição ao parlamentar que, em cada sessão legislativa, faltar a 1/3 das sessões ordinárias. Nesse caso,
não há necessidade de deliberação do Plenário e a perda do mandato deve ser automaticamente declarada
pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.
Salientou que, como regra geral, quando a condenação ultrapassar 120 dias em regime fechado, a
perda do mandato é consequência lógica. Nos casos de condenação em regime inicial aberto ou
semiaberto, há a possibilidade de autorização de trabalho externo, que inexiste em condenação em regime
fechado.
Ressaltou que a CF é clara ao estabelecer que o parlamentar que não comparecer a mais de 120
dias ou a 1/3 das sessões legislativas perde o mandato por declaração da Mesa, e não por deliberação do
Plenário. Assim, para quem está condenado à prisão em regime fechado, no qual deva permanecer por
mais de 120 dias, a perda é automática. Vencido, quanto à interdição, o ministro Marco Aurélio.
Por último, a Turma assentou a perda do mandato e sinalizou a necessidade de declaração pela
Mesa da Câmara, nos termos do § 3º do art. 55 da CF (4).

(1) CF/1988: “Art. 317. Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou
antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”.
(2) Lei 9.613/1998: “Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou
propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. (...) V – contra a Administração
Pública, inclusive a exigência, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, de qualquer vantagem, como condição ou preço para
a prática ou omissão de atos administrativos”.
(3) CF/1988: “Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador: (...) III – que deixar de comparecer, em cada sessão
legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada”.
(4) CF/1988: “Art. 55. (...) § 3º Nos casos previstos nos incisos III a V, a perda será declarada pela Mesa da Casa
respectiva, de ofício ou mediante provocação de qualquer de seus membros, ou de partido político representado no Congresso
Nacional, assegurada ampla defesa”.
AP 694/MT, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 2.5.2017.
(Informativo 863,1ª Turma)

Perdão Judicial

Colaboração premiada e requisitos para concessão de perdão judicial


Em conclusão de julgamento, a Primeira Turma indeferiu a ordem em habeas corpus no qual se
discutia a necessidade de “espontaneidade” ou unicamente de “voluntariedade” na colaboração premiada
para a concessão de perdão judicial — v. Informativo 839.

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O Colegiado afirmou que, segundo o art. 13 da Lei 9.807/1999, o juiz pode, de ofício ou a
requerimento das partes, conceder o perdão judicial e a consequente extinção da punibilidade ao acusado
primário que cooperar efetiva e voluntariamente com a investigação e o processo criminal. Porém, dessa
colaboração deve resultar: a) a identificação dos demais coautores ou partícipes da ação criminosa; b) a
localização da vítima, com integridade física preservada; c) a recuperação total ou parcial do produto do
crime.
Consignou que os vocábulos “voluntariedade” e “espontaneidade” foram utilizados pelo tribunal a
quo sem distinção de sentido. Ressaltou a necessidade de a colaboração do réu, para efeito de concessão
do perdão judicial, decorrer de livre vontade, desprovida de qualquer tipo de constrangimento.
Verificou a sinonímia entre os termos em definições de dicionário da língua portuguesa. De acordo
com a obra consultada, “voluntário” seria “aquilo que não é forçado, que só depende da vontade;
espontâneo”.
Salientou que, ao afastar a aplicabilidade do benefício, o tribunal de origem considerou ausente a
efetividade da colaboração como meio para obter provas. As investigações policiais, em momento
anterior ao da celebração do acordo, revelaram os elementos probatórios acerca do esquema criminoso
integrado pela paciente, especializado em enviar pessoas ilegalmente para o exterior.
Por fim, sustentou que o julgamento impugnado levou em conta, na dosagem da diminuição da
pena, o alcance da colaboração prestada.
HC 129877/RJ, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 18.4.2017.
(Informativo 861)

Prescrição

Repercussão geral: suspensão processual e prescrição


O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu julgamento de questão de ordem em recurso
extraordinário no qual se discutiam o alcance da suspensão processual preconizada no art. 1.035, §
5º (1), do Código de Processo Civil (CPC) e os seus efeitos sobre os processos penais cuja matéria
tenha sido objeto de repercussão geral reconhecida pela Corte. Questionava -se a possibilidade de
suspensão – enquanto não julgado o recurso extraordinário paradigma – do prazo prescricional da
pretensão punitiva de crimes ou contravenções penais objeto das ações penais sobrestadas.
A questão foi suscitada em recurso extraordinário, com repercussão geral reconhecida ( Tema
924), que no qual se impugna acórdão que considerou atípica a conduta contravencional do jogo de
azar, prevista no art. 50 da Lei de Contravenções Penais (Decreto -Lei 3.688/1941) (vide Informativo
867).
A Corte, por maioria, acompanhou o voto, ora reajustado, do ministro Luiz Fux (relator).
A questão de ordem foi resolvida da seguinte forma:
a) a suspensão de processamento prevista no § 5º do art. 1.035 do CPC não consiste em
consequência automática e necessária do reconhecimento da repercussão geral realizada com fulcro
no caput do mesmo dispositivo, sendo da discricionariedade do relator do recurso extraordinário
paradigma determiná-la ou modulá-la;
b) a possibilidade de sobrestamento se aplica aos processos de natureza penal;
c) neste contexto, em sendo determinado o sobrestamento de processos de natureza penal,
opera-se, automaticamente, a suspensão da prescrição da pretensão punitiva relativa aos crimes que
forem objeto das ações penais sobrestadas, a partir de interpretação conforme a Constituição do art.
116, I (2), do Código Penal (CP);
d) em nenhuma hipótese, o sobrestamento de processos penais determinado com fundamento no
art. 1.035, § 5º, do CPC abrangerá inquéritos policiais ou procedimentos investigatórios conduzidos
pelo Ministério Público;
e) em nenhuma hipótese, o sobrestamento de processos penais determinado com fundamento no
art. 1.035, § 5º, do CPC abrangerá ações penais em que haja réu preso provisoriamente;
f) em qualquer caso de sobrestamento de ação penal determinado com fundamento no art.
1.035, § 5º, do CPC, poderá o juízo de piso, no curso da suspensão, proceder, conforme a
necessidade, à produção de provas de natureza urgente.
Asseverou que a suspensão do prazo prescricional para a resolução de questão externa
prejudicial ao reconhecimento do crime abrange a hipótese de suspensão do prazo prescricional nos
processos criminais com repercussão geral reconhecida, porquanto a resolução da questão
concernente à repercussão.

112
Entendeu que a interpretação conforme a Constituição Federal do art. 116, I, do CP se funda
nos postulados da unidade e da concordância prática das normas constitucionais. O legislador, ao
impor a suspensão dos processos sem instituir, simultaneamente, a suspensão dos prazos
prescricionais, cria o risco de erigir sistema processual que vulnera a eficácia normativa e a
aplicabilidade imediata de princípios constitucionais.
Além disso, o sobrestamento de processo criminal, sem previsão legal de suspensão do prazo
prescricional, impede o exercício da pretensão punitiva pelo Ministério Público e gera desequilíbrio
entre as partes. Desse modo, fere a prerrogativa institucional do Parquet e o postulado da paridade
de armas, violando os princípios do contraditório e do devido processo legal.
Afirmou, ainda, que o princípio da proporcionalidade opera tanto na esfera de proteção contra
excessos estatais quanto na proibição de proteção deficiente. No caso, flagrantemente violado pelo
obstáculo intransponível à proteção de direitos fundamentais da sociedade de impor sua ordem penal.
Observou que a interpretação conforme à Constituição, segundo os limites reconhecidos pela
jurisprudência do STF, encontra-se preservada. A exegese proposta não implica violação à expressão
literal do texto infraconstitucional, tampouco à vontade do legislador, considerando a opção
legislativa que fixou todas as hipóteses de suspensão da prescrição da pretensão punitiva previstas
no ordenamento jurídico nacional, qual seja, a superveniência de fato impeditivo da atuação do
Estado-acusador.
Aduziu que o sobrestamento de processos penais determinado em razão da adoção da
sistemática da repercussão geral não abrangerá inquéritos policiais ou procedimentos investigatório s
conduzidos pelo Ministério Público. O § 5º do art. 1.035 do CPC prevê apenas a possibilidade de
suspensão dos processos pendentes que versarem sobre a questão debatida e tramitarem no território
nacional, não ostentando os mencionados expedientes de investigação a natureza jurídica de
processo, mas sim de procedimento.
Acrescentou que o sobrestamento de processos penais determinado em razão da adoção da
sistemática da repercussão geral tampouco abrangerá ações penais em que haja réu preso
provisoriamente. Não se mostra admissível, sob pena de ampliação injustificada do período de
restrição do direito de liberdade do acusado, que a segregação processual perdure enquanto estiver
suspenso o curso da marcha processual e do prazo prescricional concernente às i nfrações penais
cogitadas.
Além disso, registrou que, em qualquer caso de sobrestamento de ação penal determinado com
fundamento no art. 1.035, § 5º, do CPC, o juízo de piso poderá, a partir de aplicação ana lógica do
disposto no art. 92, caput, do Código de Processo Penal (CPP), autorizar, no curso da suspensão, a
produção de provas de natureza urgente.
Vencidos os ministros Edson Fachin e Marco Aurélio.
O ministro Edson Fachin rejeitou a questão de ordem por entender ser necessária lei em sentido
formal para que o fenômeno da suspensão seja reconhecido como causa interruptiva da prescrição.
O ministro Marco Aurélio assentou a inconstitucionalidade do art. 1.035, § 5º, do CPC por
afronta ao art. 5º, XXXV, da CF. Além disso, reputou não ser o referido dispositivo aplicável ao
processo-crime, tendo em conta o art. 3º do CPP, por ser com ele incompatível.

(1) CPC/2015: “Art. 1.035. O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso extraordinário
quando a questão constitucional nele versada não tiver repercussão geral, nos termos deste artigo. (...) §5o Reconhecida a
repercussão geral, o relator no Supremo Tribunal Federal determinará a suspensão do processamento de todos os processos
pendentes, individuais ou coletivos, que versem sobre a questão e tramitem no território nacional”.
(2) CP/1940: “Art. 116. Antes de passar em julgado a sentença final, a prescrição não corre: I - enquanto não resolvida, em
outro processo, questão de que dependa o reconhecimento da existência do crime”.
RE 966177 QO RG/RS, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 7.6.2017.
(Informativo 868, Plenário, Repercussão Geral) 1ª Parte: 2ª Parte:
3ª Parte:

Cômputo do tempo de prisão provisória e reconhecimento da prescrição da pretensão


executória
A Primeira Turma rejeitou os embargos de declaração por entender ausentes as hipóteses
autorizadoras de seu cabimento e julgou prejudicado o habeas corpus, tendo em vista a superveniência de
decisão de Vara Federal Criminal, que reconheceu a prescrição da pretensão executória do Estado (vide
Informativo 854).

113
Na espécie, os embargantes alegaram que estiveram presos provisoriamente pelo período de 3
meses e 13 dias e que a detração desse período, nos termos do art. 42 (1) do Código Penal (CP),
implicaria a redução da pena imposta para 3 anos, 11 meses e 18 dias. Argumentaram que, feita a
detração do período de prisão provisória, estaria caracterizada, no caso, a prescrição da pretensão
executória, conforme preceituam os arts. 109 e 110 (2) do Código de Processo Penal (CPP).

(1) Código Penal: “Art. 42 - Computam-se, na pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão
provisória, no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no
artigo anterior”.
(2) Código de Processo Penal: “Art. 109. Se em qualquer fase do processo o juiz reconhecer motivo que o torne
incompetente, declará-lo-á nos autos, haja ou não alegação da parte, prosseguindo-se na forma do artigo anterior. Art. 110. Nas
exceções de litispendência, ilegitimidade de parte e coisa julgada, será observado, no que Ihes for aplicável, o disposto sobre a
exceção de incompetência do juízo”.
HC 122577 ED/RJ, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 28.11.2017.
(Informativo 886, Primeira Turma)

Princípios e Garantias Penais

Rádio comunitária e princípio da insignificância


A Segunda Turma concedeu a ordem em habeas corpus para absolver o paciente, denunciado pela
alegada prática de desenvolver clandestinamente atividades de telecomunicação (Lei 9.472/1997, art.
183), em face da aplicação do princípio da insignificância.
No caso, tratava-se de proprietário de rádio comunitária cujo sinal supostamente causaria
interferência nos serviços de comunicações instalados na região.
A Turma ressaltou que a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), em laudo técnico,
reconheceu que, se a alegada interferência se confirmasse, atingiria canais que não estão sequer
outorgados a operar na pequena área de cobertura da rádio comunitária.
Asseverou não ser possível reconhecer a tipicidade material da conduta ante a incidência na
hipótese do princípio da insignificância. Afinal, o bem jurídico tutelado pela norma (segurança dos meios
de comunicação) permaneceu incólume, sem sofrer qualquer espécie de lesão nem ameaça de lesão a
merecer intervenção do Direito Penal. Nesse sentido, não foi demonstrada lesividade concreta, mas
apenas potencial. Assim, a matéria deveria ser resolvida na esfera administrativa.
Salientou, por fim, a importância das rádios comunitárias como prestadoras de serviço público e a
aparente boa-fé do paciente.
HC 138134/BA, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 7.2.2017.
(Informativo 853, 2ª Turma)

Tipicidade

Queixa-crime e individualização da conduta


A Primeira Turma determinou o desmembramento de queixa-crime em relação ao querelado não
detentor de foro por prerrogativa de função. Quanto aos demais querelados, rejeitou, por maioria, a inicial
acusatória.
No caso, a queixa-crime foi oferecida por deputado federal, em face de radialista e sócios-proprietários
de empresa de radiodifusão sonora, pela prática dos crimes de calúnia, difamação e injúria (CP, arts. 138, 139 e
140, § 3º).
O Colegiado registrou que o querelante não individualizou, minimamente, as condutas dos querelados
detentores de prerrogativa de foro e lhes imputou fatos criminosos em razão da mera condição de sócios-
proprietários do veículo de comunicação social por meio do qual o radialista teria proferido as supostas ofensas
à honra do peticionário.
Nesse contexto, pontuou que a mera posição hierárquica dos acusados na titularidade da empresa de
comunicação, sem a descrição da ação e sem elementos que evidenciem a vontade e consciência de praticar o
crime imputado, inviabiliza o prosseguimento da ação penal, por manifesta ausência de justa causa.
Ademais, ressaltou que os princípios constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da
ampla defesa (CF, art. 5º, LIV e LV) impõem que a inicial acusatória tenha como fundamentos elementos
probatórios mínimos que demonstrem a materialidade do fato delituoso e os indícios suficientes de autoria.

114
Vencido, no mérito, o ministro Marco Aurélio. Para ele, a peça primeira da ação penal privada atenderia
aos arts. 41 e 395, II e III, do CPP. Ponderava que, considerado o pano de fundo — uma disputa política no
Estado do Pará —, os detentores da prerrogativa de serem julgados pelo STF seriam os autores intelectuais, e o
radialista teria atuado a partir de orientação dos dois.
Pet 5660/PA, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 14.3.2017.
(Informativo 857, 1ª Turma)

Impossibilidade de trancamento de ação penal via “habeas corpus”


A Primeira Turma, por maioria, indeferiu habeas corpus impetrado em favor de denunciado pela
prática do crime de estupro de vulnerável (Código Penal, art. 217-A).
No caso, o paciente, aos dezoito anos de idade, manteve relação sexual com a vítima, de treze anos de
idade. Na impetração, sustentava-se ausência de justa causa pela atipicidade da conduta, pois a conjunção
carnal teria sido consentida pela vítima, em razão de relacionamento afetivo com o paciente.
O Colegiado reafirmou entendimento segundo o qual, sendo a vítima menor de quatorze anos, o estupro
é presumido, embora se trate de dois jovens, com idades próximas, em relacionamento afetivo. A ministra Rosa
Weber destacou, ainda, o fato de o paciente estar solto.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que concedia a ordem para trancar a ação penal. Afirmava
não existir crime presumido e considerava que a condição de vítima não se verificaria quando, nos dias atuais,
menor de quatorze anos aquiesce em manter relação sexual.
HC 122945/BA, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso,
julgamento em 21.3.2017.
(Informativo 858, 1ª Turma)

115
DIREITO PENAL MILITAR
Tipicidade

HC: Crime militar impróprio e competência


A Primeira Turma, em conclusão e por maioria, indeferiu a ordem em habeas corpus pelo qual se
discutia a competência para o julgamento de militar denunciado pela suposta prática do crime de
falsidade ideológica na forma continuada [CPM, art. 312, c/c o art. 80 (1)]. No caso, o paciente
teria atestado, falsamente, a regularidade técnica para navegação de embarcações civis. A defesa
alega a incompetência da justiça militar para o julgamento do feito (Informativo 755).
A Turma apontou que o crime em comento tem natureza formal. Configura -se, portanto,
independentemente do resultado e, ademais, é praticado em detrimento da fé públic a militar.
Incide, portanto, o art. 9º, II, “e”, do CPM (2); e o art. 124 da CF (3).
Vencido o ministro Luiz Fux (relator), que concedeu a ordem.

(1) CPM: “Art. 312. Omitir, em documento público ou particular, declaração que dêle devia constar, ou nêle inserir ou
fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade
sôbre fato jurìdicamente relevante, desde que o fato atente contra a administração ou o serviço militar: Pena - reclusão, até cinco
anos, se o documento é público; reclusão, até três anos, se o documento é particular. (...) Art. 80. Aplica-se a regra do artigo
anterior, quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições
de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subseqüentes ser considerados como continuação do
primeiro”.
(2) CPM: “Art. 9º. Consideram-se crimes militares, em tempo de paz: II - os crimes previstos neste Código, embora
também o sejam com igual definição na lei penal comum, quando praticados: ... e) por militar em situação de atividade, ou
assemelhado, contra o patrimônio sob a administração militar, ou a ordem administrativa militar”.
(3) CF: “Art. 124. à Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei”.
HC 110233/AM, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio, julgamento em
10.10.2017.
(Informativo 881, Primeira Turma)

116
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Atos Processuais

Alegação de nulidade e aproveitamento de atos processuais


A Segunda Turma negou provimento a agravo regimental em mandado de segurança em que discutida a
nulidade de procedimento administrativo avocado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
No caso, o CNMP rejeitou a alegação de que a suspeição de autoridades locais conduziria necessariamente
à nulidade de todo o feito por elas instruído, e concluiu pela aplicação da pena de suspensão de membro do
ministério público por 45 dias.
A Turma afirmou que o Regimento Interno do CNMP permite o aproveitamento dos atos processuais
[arts. 107 (1) e 108 (2)].
Assinalou que, conforme destacado pelo voto condutor do acórdão do CNMP nos autos do procedimento
avocado, os atos que foram objeto de aproveitamento são basicamente as provas documentais e os depoimentos
das testemunhas ouvidas sob o crivo do contraditório. Esses atos foram praticados pela comissão processante
designada para instruir o feito, sem qualquer atuação da corregedora ou de sua substituta, ambas declaradas
suspeitas. Não houve, assim, demonstração de prejuízo pelo acusado.
Não vislumbrou, desse modo, ilegalidade no apontado ato coator, o qual afastou, fundamentadamente e
com observância das normas legais, as suscitadas nulidades no procedimento avocado.
(1) Regimento interno do CNMP: “Art. 107. O Relator ouvirá em dez dias o membro ou o servidor do Ministério Público e o órgão
disciplinar de origem. § 1º Findo o prazo do caput deste artigo, com ou sem as informações, o Relator pedirá a inclusão do processo em pauta,
para deliberação pelo Plenário. § 2º Decidindo o Plenário pela avocação, a decisão será imediatamente comunicada ao Ministério Público
respectivo, para o envio dos autos no prazo máximo de cinco dias”.
(2) Regimento interno do CNMP: “Art. 108. Recebidos os autos do feito avocado, serão estes novamente autuados como distribuição ao
mesmo Relator, por prevenção. (…) § 2º Ao Relator ou Corregedor, conforme o caso, caberá ordenar e dirigir o procedimento avocado, podendo
aproveitar os atos praticados regularmente na origem”.
MS 34666 AgR/DF, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 29.8.2017.
(Informativo 875, 2ª Turma)

Coisa Julgada

Preclusão e autonomia das entidades esportivas


A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, negou provimento a agravo
regimental em que discutida a validade de decisão judicial que proclamou o Sport Clube Recife como
campeão brasileiro de futebol profissional do ano de 1987. O pronunciamento judicial transitou em
julgado em 1999. Depois, sobreveio a Resolução 2/2011 da Confederação Brasileira de Futebol (CBF),
por meio da qual o Clube de Regatas Flamengo também foi considerado campeão brasileiro de futebol de
1987.
Posteriormente, o pedido de cumprimento da sentença formulado pelo Sport Clube Recife foi
acolhido, com a determinação, em caráter liminar, da revogação do ato impugnado, uma vez reconhecida
a existência de prévia decisão judicial alcançada pela preclusão.
O Colegiado ponderou ter transitado em julgado a decisão judicial que conferiu o título de
campeão ao clube pernambucano, contra a qual não cabe recurso nem alteração por resolução posterior da
CBF.
A coisa julgada, como manifestação do princípio da segurança jurídica, assume a estatura de
elemento estruturante do Estado Democrático de Direito. Assim, a autonomia das entidades desportivas
não autoriza a transformação da CBF em órgão revisor de pronunciamentos jurisdicionais alcançados pela
preclusão. Não se devem potencializar os conceitos de autonomia técnica e de mérito desportivo, em
detrimento do que soberanamente decidido em processo judicial. A eficácia estabilizadora da coisa
julgada, considerados os respectivos limites subjetivos e objetivos, estende-se ao campo administrativo —
e recreativo — que caracteriza atuação da entidade máxima do futebol brasileiro.

Vencido o ministro Roberto Barroso, que dava provimento ao agravo regimental.


RE 881864 AgR (2)/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 18.4.2017.
(Informativo 861, 1ª Turma)

117
Propositura da ação: associação e momento para a filiação
A eficácia subjetiva da coisa julgada formada a partir de ação coletiva, de rito ordinário, ajuizada
por associação civil na defesa de interesses dos associados, somente alcança os filiados, residentes no
âmbito da jurisdição do órgão julgador, que o fossem em momento anterior ou até a data da propositura
da demanda, constantes da relação jurídica juntada à inicial do processo de conhecimento.
Com base nesse entendimento, o Plenário, apreciando o Tema 499 da repercussão geral, por
maioria, negou provimento ao recurso extraordinário e declarou a constitucionalidade do art. 2º-A (1) da
Lei 9.494/1997.
No caso, determinada associação propôs ação coletiva ordinária contra a União. O objetivo era a
repetição de valores descontados a título de imposto de renda de servidores, incidente sobre férias não
usufruídas por necessidade do serviço.
Com a procedência do pleito no processo de conhecimento e o subsequente trânsito em julgado,
foi deflagrado, por associação, o início da fase de cumprimento de sentença. Nesta, o tribunal de origem
assentou, em agravo, a necessidade de a primeira peça da execução vir instruída com documentação
comprobatória de filiação do associado em momento anterior ou até o dia do ajuizamento da ação de
conhecimento, conforme o art. 2º-A, parágrafo único, da Lei 9.494/1997, incluído pela Medida Provisória
2.180-35/2001 (vide Informativo 863).
O Plenário ressaltou que, ante o conteúdo do art. 5º, XXI (2), da Constituição Federal, autorização
expressa pressupõe associados identificados, com rol determinado, aptos à deliberação. Nesse caso, a
associação, além de não atuar em nome próprio, persegue o reconhecimento de interesses dos filiados.
Decorre daí a necessidade da colheita de autorização expressa de cada associado, de forma individual, ou
mediante assembleia geral designada para esse fim, considerada a maioria formada.
Enfatizou que a enumeração dos associados até o momento imediatamente anterior ao do
ajuizamento se presta à observância do princípio do devido processo legal, inclusive sob o enfoque da
razoabilidade. Por meio da enumeração, presente a relação nominal, é que se viabilizam o direito de
defesa, o contraditório e a ampla defesa. Reputou que a condição de filiado é pressuposto do ato de
concordância com a submissão da controvérsia ao Judiciário.
Vencido o ministro Ricardo Lewandowski, que deu provimento ao recurso para afastar a exigência
de prévia filiação para que o associado possa executar a sentença proferida em ação coletiva de rito
ordinário. Para o magistrado, o legislador ordinário restringiu, indevidamente, o alcance dos dispositivos
constitucionais que garantem o amplo acesso à Justiça e a representatividade das associações quanto aos
seus associados.
Vencido, em parte, o ministro Edson Fachin, que deu parcial provimento ao recurso extraordinário,
na linha do ministro Ricardo Lewandowski, mas restringiu a condição de filiado até a época da formação
do título exequendo.
Vencido, em parte, o ministro Alexandre de Moraes que proveu parcialmente o extraordinário para
dar interpretação conforme quanto à circunscrição.

(1) Lei 9.494/1997: “Art. 2º-A. A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta por entidade associativa, na
defesa dos interesses e direitos dos seus associados, abrangerá apenas os substituídos que tenham, na data da propositura da ação,
domicílio no âmbito da competência territorial do órgão prolator. Parágrafo único. Nas ações coletivas propostas contra a União, os
Estados, o Distrito Federal, os Municípios e suas autarquias e fundações, a petição inicial deverá obrigatoriamente estar instruída
com a ata da assembleia da entidade associativa que a autorizou, acompanhada da relação nominal dos seus associados e indicação
dos respectivos endereços”.
(2) CF/1988: “Art. 5º (...) XXI – as entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm legitimidade para
representar seus filiados judicial ou extrajudicialmente”.
RE 612043/PR, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 10.5.2017.
(Informativo 864, Plenário, Repercussão Geral) 1ª Parte: 2ª Parte:

Formação, Suspensão e Extinção do Processo

Ministério Público comum e especial e legitimidade processual


A Segunda Turma negou provimento a dois agravos regimentais em reclamações, ajuizadas por
membros do Ministério Público Especial junto aos Tribunais de Contas. Em ambos os casos, se trata de
concessão indevida de aposentadoria especial a servidor público civil, em suposta afronta ao que decidido
pelo STF na ADI 3.772/DF (DJE de 7.11.2008).
A Turma concluiu pela ausência de legitimidade ativa de causa, visto que a legitimidade
processual extraordinária e independente do Ministério Público comum não se estende ao Ministério

118
Público junto aos Tribunais de Contas, cuja atuação se limita ao controle externo, nos termos da
Constituição.

Rcl 24156 AgR/DF, rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 24.10.2017.


Rcl 24158 AgR/DF, rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 24.10.2017.
(Informativo 883, Segunda Turma)

Honorários Advocatícios

Ausência de apresentação de contrarrazões e honorários recursais


É cabível a fixação de honorários recursais, prevista no art. 85, § 11 (1), do Código de
Processo Civil (CPC), mesmo quando não apresentadas contrarrazões ou contraminuta pelo
advogado.
O Tribunal, por unanimidade, negou provimento a agravo regimental em ação originária e,
por maioria, fixou honorários recursais.
Quanto à fixação de honorários recursais, prevaleceu o voto do ministro Luiz Fux, que
confirmou o entendimento fixado pela Primeira Turma. Para ele, a sucumbência recursal surgiu c om
o objetivo de evitar a reiteração de recursos; ou seja, de impedir a interposição de embargos de
declaração, que serão desprovidos, independentemente da apresentação de contrarrazões. A
finalidade não foi remunerar mais um profissional, porque o outro apresentou contrarrazões.
O ministro Edson Fachin afirmou que a expressão “trabalho adicional”, contida no § 11 do
art. 85 do CPC, é um gênero que compreende várias espécies, entre elas, a contraminuta e as
contrarrazões.
Vencidos, nesse ponto, os ministros Marco Aurélio (relator), Celso de Mello e Cármen Lúcia,
que não fixaram os honorários, considerada a inércia do agravado em apresentar contraminuta ao
agravo interno. O ministro Marco Aurélio asseverou que, sem a apresentação de contrarrazões nem
de contraminuta, não há como aditar os honorários anteriormente fixados.

(1) CPC/2015: “Art. 85. A sentença condenará o vencido a pagar honorários ao advogado do vencedor. (...) § 11. O
tribunal, ao julgar recurso, majorará os honorários fixados anteriormente levando em conta o trabalho adicional realizado em grau
recursal, observando, conforme o caso, o disposto nos §§ 2º a 6º, sendo vedado ao tribunal, no cômputo geral da fixação de
honorários devidos ao advogado do vencedor, ultrapassar os respectivos limites estabelecidos nos §§ 2º e 3º para a fase de
conhecimento”.
AO 2063 AgR/CE , rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento em
18.5.2017.
(Informativo 865, Plenário, Repercussão Geral)

Fracionamento de honorários advocatícios: impossibilidade


A Segunda Turma, por maioria, deu provimento a agravo em recurso extraordinário, no qual se
arguiu a impossibilidade de fracionamento de honorários advocatícios, em face do art. 100, § 8º, da
Constituição (1).
O Colegiado ressaltou que, apesar de a possibilidade de execução autônoma dos honorários ser
ponto pacífico, eles não se confundem com o crédito dos patrocinados. Salientou que, no caso, inexiste a
pluralidade de autores titulares de crédito e, por conseguinte, o litisconsórcio. A quantia devida a título de
honorários advocatícios é única, e, por se tratar de um único processo, calculada sobre o montante total
devido. Por essa razão, o fato de o advogado ter atuado em causa plúrima não torna plúrimo também o
seu crédito à verba advocatícia.
Asseverou que o argumento de que o litisconsórcio facultativo simples representa, na verdade,
várias causas cumuladas não pode ser utilizado para justificar a legitimidade do fracionamento da
execuçãodos honorários advocatícios sucumbenciais. A Turma assentou que a condenação à verba
honorária no título executivo foi global, ou seja, buscou remunerar o trabalho conjunto prestado pelo
causídico.
Vencido o ministro Edson Fachin (relator), que desproveu o agravo por entender possível a
execução fracionada dos honorários advocatícios.

(1) Constituição Federal: “Art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal, Estaduais, Distrital e
Municipais, em virtude de sentença judiciária, far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à
conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas dotações orçamentárias e nos créditos adicionais
abertos para este fim.

119
(...)
§ 8º É vedada a expedição de precatórios complementares ou suplementares de valor pago, bem como o fracionamento,
repartição ou quebra do valor da execução para fins de enquadramento de parcela do total ao que dispõe o § 3º deste artigo. ”.
RE 1038035 AgR/RS, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli,
julgamento em 7.11.2017.
(Informativo 884, Segunda Turma)

Intervenção de Terceiros

Amici curiae e tempo de sustentação oral


Havendo três amici curiae para fazer sustentação oral, o Plenário, por maioria, deliberou
considerar o prazo em dobro e dividir pelo número de sustentações orais.
O tempo de sustentação oral é de quinze minutos. O Colegiado considerou esse tempo em dobro
(trinta minutos) e, dividido pelos três amici curie, disponibilizou dez minutos para a manifestação de cada
um deles na tribuna.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que não dobrou o prazo para sustentação oral pelo
fato de amicus curiae não ser parte processual.
RE 612043/PR, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 4.5.2017.
(Informativo 863, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte:

Liquidação/Cumprimento/Execução

Condenação contra a Fazenda Pública e índices de correção monetária


O art. 1º-F da Lei 9.494/1997 (1), com a redação dada pela Lei 11.960/2009, na parte em que
disciplina os juros moratórios aplicáveis a condenações da Fazenda Pública, é inconstitucional ao incidir
sobre débitos oriundos de relação jurídico-tributária, aos quais devem ser aplicados os mesmos juros de
mora pelos quais a Fazenda Pública remunera seu crédito tributário, em respeito ao princípio
constitucional da isonomia [CF, art. 5º, caput (2)]; quanto às condenações oriundas de relação jurídica
não-tributária, a fixação dos juros moratórios segundo o índice de remuneração da caderneta de poupança
é constitucional, permanecendo hígido, nesta extensão, o disposto no art. 1º-F da Lei nº 9.494/1997 com a
redação dada pela Lei nº 11.960/2009.
O art. 1º-F da Lei nº 9.494/1997, com a redação dada pela Lei nº 11.960/2009, na parte em que
disciplina a atualização monetária das condenações impostas à Fazenda Pública segundo a remuneração
oficial da caderneta de poupança, revela-se inconstitucional ao impor restrição desproporcional ao direito
de propriedade [CF, art. 5º, XXII (3)], uma vez que não se qualifica como medida adequada a capturar a
variação de preços da economia, sendo inidônea a promover os fins a que se destina.
Com base nessas orientações, o Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, deu parcial
provimento a recurso extraordinário em que discutida a validade da utilização dos índices oficiais de
remuneração básica da caderneta de poupança para a correção monetária e a fixação de juros moratórios
incidentes sobre condenações impostas à Fazenda Pública, conforme determina o art. 1º-F da Lei
9.494/1997, com a redação dada pela Lei 11.960/2009.
Na espécie, o ora recorrido ajuizou ação ordinária em face do INSS com pedido de concessão do
benefício assistencial previsto no art. 203, V, da CF (4). O juízo de primeiro grau, então, julgou
procedente o pedido e determinou que o INSS instituísse, em favor do autor, benefício de prestação
continuada, na forma do art. 20 da Lei 8.742/1993 - LOAS (5). O pagamento das prestações vencidas
deveria ser acrescido de correção monetária pelo IPCA, a partir de cada parcela, e juros de mora de
acordo com o índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança. Interposta apelação pela
autarquia previdenciária, a sentença foi mantida. (Informativos 811 e 833).
O Colegiado assentou a natureza assistencial da relação jurídica em exame (caráter não-tributário);
manteve a concessão de benefício de prestação continuada (LOAS, art. 20) ao ora recorrido, atualizado
monetariamente segundo o IPCA-E desde a data fixada na sentença; e fixou os juros moratórios segundo
a remuneração da caderneta de poupança, na forma do art. 1º-F da Lei 9.494/1997 com a redação dada
pela Lei 11.960/2009.
O Tribunal destacou, inicialmente, que as decisões proferidas pelo STF na ADI 4.357/DF (DJe de
26.9.2014) e na ADI 4.425/DF (DJe de 19.12.2013) não fulminaram por completo o art. 1º-F da Lei
9.494/1997, na redação dada pela Lei 11.960/2009. Nesses julgados foi declarada a inconstitucionalidade
da correção monetária pela TR apenas quanto ao intervalo de tempo compreendido entre a inscrição do

120
crédito em precatório e o efetivo pagamento. Isso porque a norma constitucional impugnada nas ADIs
[CF, art. 100, § 12, incluído pela EC 62/2009 (6)] referia-se apenas à atualização do precatório e não à
atualização da condenação após a conclusão da fase de conhecimento.
A redação do art. 1º-F da Lei 9.494/1997, como fixada pela Lei 11.960/2009, é, porém, mais ampla,
englobando tanto a atualização de precatórios quanto a atualização da própria condenação. Não há,
contudo, qualquer motivo para aplicar critérios distintos de correção monetária de precatórios e de
condenações judiciais da Fazenda Pública.
A finalidade básica da correção monetária é preservar o poder aquisitivo da moeda diante da sua
desvalorização nominal provocada pela inflação. Esse estreito nexo entre correção monetária e inflação
exige, por imperativo de adequação lógica, que os instrumentos destinados a realizar a primeira sejam
capazes de capturar a segunda. Índices de correção monetária devem ser, ao menos em tese, aptos a
refletir a variação de preços que caracteriza o fenômeno inflacionário, o que somente é possível se
consubstanciarem autênticos índices de preços. Os índices criados especialmente para captar o fenômeno
inflacionário são sempre obtidos em momentos posteriores ao período de referência e guardam, por
definição, estreito vínculo com a variação de preços na economia.
Assim, no caso, está em discussão o direito fundamental de propriedade do cidadão (CF, art. 5º,
XXII) e a restrição que lhe foi imposta pelo legislador ordinário ao fixar critério específico para a
correção judicial das condenações da Fazenda Pública (Lei 9.494/1997, art. 1º-F). Essa restrição é real na
medida em que a remuneração da caderneta de poupança não guarda pertinência com a variação de preços
na economia, sendo manifesta e abstratamente incapaz de mensurar a variação do poder aquisitivo da
moeda. Nenhum dos componentes da remuneração da caderneta de poupança guarda relação com a
variação de preços de determinado período de tempo, como disciplinado pelo art. 12 da Lei 8.177/1991
(7).
Desse modo, a remuneração da caderneta de poupança prevista no art. 1º-F da Lei 9.494/1997, na
redação dada pela Lei 11.960/2009, não consubstancia índice constitucionalmente válido de correção
monetária das condenações impostas à Fazenda Pública.
Vencidos, em parte, os ministros Teori Zavascki, Dias Toffoli, Cármen Lúcia (Presidente) e Gilmar
Mendes, que deram provimento total ao recurso.
Vencido, também, o ministro Marco Aurélio, que negou provimento ao recurso.

(1) Lei 9.494/1997: “Art. 1º-F. Nas condenações impostas à Fazenda Pública, independentemente de sua natureza e para
fins de atualização monetária, remuneração do capital e compensação da mora, haverá a incidência uma única vez, até o efetivo
pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e juros aplicados à caderneta de poupança”.
(2) CF: “Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes”.
(3) CF: “Art. 5º (...) XXII - é garantido o direito de propriedade”.
(4) CF: “Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à
seguridade social, e tem por objetivos: V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e
ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a
lei”.
(5) Lei 8.742/1993: “Art. 20. O benefício de prestação continuada é a garantia de um salário-mínimo mensal à pessoa com
deficiência e ao idoso com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção
nem de tê-la provida por sua família”.
(6) CF: “Art. 100 (...) § 12. A partir da promulgação desta Emenda Constitucional, a atualização de valores de requisitórios,
após sua expedição, até o efetivo pagamento, independentemente de sua natureza, será feita pelo índice oficial de remuneração
básica da caderneta de poupança, e, para fins de compensação da mora, incidirão juros simples no mesmo percentual de juros
incidentes sobre a caderneta de poupança, ficando excluída a incidência de juros compensatórios”.
(7) Lei 8.177/1991: Art. 12. Em cada período de rendimento, os depósitos de poupança serão remunerados: I - como
remuneração básica, por taxa correspondente à acumulação das TRD, no período transcorrido entre o dia do último crédito de
rendimento, inclusive, e o dia do crédito de rendimento, exclusive; II - como remuneração adicional, por juros de: a) 0,5% (cinco
décimos por cento) ao mês, enquanto a meta da taxa Selic ao ano, definida pelo Banco Central do Brasil, for superior a 8,5% (oito
inteiros e cinco décimos por cento); b) 70% (setenta por cento) da meta da taxa Selic ao ano, definida pelo Banco Central do Brasil,
mensalizada, vigente na data de início do período de rendimento, nos demais casos. § 1° A remuneração será calculada sobre o
menor saldo apresentado em cada período de rendimento. § 2° Para os efeitos do disposto neste artigo, considera-se período de
rendimento: I - para os depósitos de pessoas físicas e entidades sem fins lucrativos, o mês corrido, a partir da data de aniversário da
conta de depósito de poupança; II - para os demais depósitos, o trimestre corrido a partir da data de aniversário da conta de depósito
de poupança. § 3° A data de aniversário da conta de depósito de poupança será o dia do mês de sua abertura, considerando-se a data
de aniversário das contas abertas nos dias 29, 30 e 31 como o dia 1° do mês seguinte. § 4° O crédito dos rendimentos será efetuado:
I - mensalmente, na data de aniversário da conta, para os depósitos de pessoa física e de entidades sem fins lucrativos; e II -
trimestralmente, na data de aniversário no último mês do trimestre, para os demais depósitos”.
RE 870947/SE, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 20.9.2017.
(Informativo 878, Plenário, Repercussão Geral)

121
Mandado de Segurança

Mandado de segurança e prazo decadencial


A Primeira Turma deu provimento a recurso ordinário em mandado de segurança interposto contra
acórdão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que reconheceu a decadência da impetração e a
inadequação da via mandamental.
A Turma entendeu que o termo inicial para formalização do mandado de segurança pressupõe a
ciência do impetrante quanto ao ato a ser impugnado, quando esse surgir no âmbito de processo
administrativo do qual seja parte, nos termos dos arts. 3º e 26 da Lei 9.784/1999 (1). Além disso,
descartou a hipótese de inadequação da via mandamental, uma vez que a instrução do processo se deu
com documentos suficientes ao exame da pretensão veiculada na petição inicial.
Vencido o ministro Alexandre de Moraes, que negou provimento ao recurso. Reconheceu a
decadência do prazo de 120 dias, por entender que não há exigência de intimação pessoal expressa na Lei
10.559/2002.

(1) Lei 9.784/1999: “Art. 3º O administrado tem os seguintes direitos perante a Administração, sem prejuízo de outros que
lhe sejam assegurados: I - ser tratado com respeito pelas autoridades e servidores, que deverão facilitar o exercício de seus direitos e
o cumprimento de suas obrigações; II - ter ciência da tramitação dos processos administrativos em que tenha a condição de
interessado, ter vista dos autos, obter cópias de documentos neles contidos e conhecer as decisões proferidas; III - formular
alegações e apresentar documentos antes da decisão, os quais serão objeto de consideração pelo órgão competente; IV - fazer-se
assistir, facultativamente, por advogado, salvo quando obrigatória a representação, por força de lei.
(...)
Art. 26. O órgão competente perante o qual tramita o processo administrativo determinará a intimação do interessado para
ciência de decisão ou a efetivação de diligências”.
RMS 32487/RS, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 7.11.2017.
(Informativo 884, Primeira Turma)

Prisão Civil

Prisão civil por descumprimento de prestação alimentícia e dívida pretérita


A Primeira Turma concedeu habeas corpus para afastar a custódia do paciente, preso em virtude
de não ter efetuado o pagamento de prestação alimentícia.
O Colegiado ressaltou que a prisão foi determinada em virtude de débito referente ao período
compreendido entre 2006 e 2010.
Concluiu que a prisão por dívida é pertinente apenas no caso de descumprimento inescusável de
prestação alimentícia, não sendo cabível quando se referir à execução de débito passado.
HC 121426/SP, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 14.3.2017.
(Informativo 857, 1ª Turma)

Recursos

ED e juízo de admissibilidade de RE
Os embargos de declaração opostos contra a decisão de presidente do tribunal que não admite
recurso extraordinário não suspendem ou interrompem o prazo para interposição de agravo, por serem
incabíveis.
Esse é o entendimento da Primeira Turma que, por maioria e em conclusão, converteu embargos
declaratórios em agravos regimentais e a eles negou provimento (vide Informativo 700).
Vencidos os ministros Marco Aurélio e Luiz Fux, que deram provimento aos agravos, por
entenderem que todo pronunciamento com carga decisória desafia embargos declaratórios.
ARE 688776 ED/RS, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 28.11.2017.
ARE 685997 ED/RS, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 28.11.2017.
(Informativo 886, Primeira Turma)

122
DIREITO PROCESSUAL PENAL
Ação Penal

Pedido de desclassificação e emendatio libelli


A Primeira Turma, por maioria, indeferiu a ordem em habeas corpus no qual se alegava nulidade do
processo, por ausência de defesa técnica, e incoerência entre decisão do juiz presidente e entendimento do júri.
O paciente foi pronunciado inicialmente por crime de homicídio qualificado, tendo a defesa lançado a tese
de desclassificação para o crime de rixa com resultado morte. Ao promover a quesitação, o juiz presidente
questionou o júri primeiramente acerca da prática de homicídio, tendo-se constatado concorrência do acusado para
o resultado morte. Em seguida, entendeu-se praticado crime menos grave, a rixa. Feitas tais indagações, o juiz
prosseguiu à quesitação de qualificadoras do crime de homicídio e condenou o réu por dois crimes, homicídio e
rixa, esse último já prescrito.
Sustentava a defesa ter havido prejuízo ao réu, à medida que a tese defensiva se converteu em nova
acusação, sem oportunidade de defesa. Além disso, afirmava ter sido ultrapassado o limite da pronúncia, em que
constava apenas um crime, e ignorado o entendimento do conselho de sentença de que o réu teria cometido crime
menos grave, implicando contrariedade aos princípios do tribunal do júri, especialmente o da plenitude da defesa.
A Turma, apesar de admitir a erronia do Juiz Presidente quanto à explicação e à ordem adequada dos
questionamentos, compreendeu a quesitação de crimes autônomos, em concurso material, evidenciando
emendatio libelli, nos termos do art. 383 (1) do Código de Processo Penal (CPP). Pontuou, ainda, a inexistência de
prejuízo à defesa, haja vista a prescrição do crime de rixa acrescido posteriormente à acusação.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que concedeu a ordem. Entendeu a inobservância da
organicidade do direito a partir da quesitação de qualificadoras do homicídio após a conclusão dos jurados quanto
à prática de crime menos grave e consequente procedência do pedido de desclassificação.
(1) CPP: “Art. 383. O juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou queixa, poderá atribuir-lhe definição jurídica
diversa, ainda que, em conseqüência, tenha de aplicar pena mais grave”.
HC 122875/PE, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgamento
em 19.9.2017.
(Informativo 878, Primeira Turma)

Princípio do promotor natural e substituição de órgão acusador ao longo processo


A Primeira Turma, por maioria, indeferiu a ordem em habeas corpus no qual se pugnava a nulidade
absoluta da ação penal, em face de violação ao princípio do promotor natural.
No caso, a denúncia se deu por promotor que não o atuante em face do Tribunal do Júri, exclusivo para
essa finalidade. O paciente foi denunciado como incurso nas penas dos arts. 121, caput, do Código Penal (CP) e
12 da Lei 6.378/1976, por haver ministrado medicamentos em desacordo com a regulamentação legal, tendo a
vítima falecido.
A Turma reconheceu não haver ferimento ao princípio do promotor natural. No caso concreto, a priori,
houve o entendimento de que seria crime não doloso contra a vida, fazendo os autos remetidos ao promotor
natural competente. Não obstante, durante toda a instrução se comprovou que, na verdade, tratava-se de crime
doloso. Com isso, o promotor que estava no exercício ofereceu a denúncia e remeteu a ação imediatamente ao
promotor do Júri, que poderia, a qualquer momento, não a ratificar.
O colegiado entendeu, dessa maneira, configurada ratificação implícita. Outrossim, asseverou estar-se
diante de substituição, consubstanciada nos princípios constitucionais do Ministério Público (MP) da unidade e da
indivisibilidade, e não da designação de um acusador de exceção.
Vencido o ministro Marco Aurélio, por considerar violado o princípio do promotor natural.

HC 114093/PR, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 3.10.2017.
(Informativo 880, Primeira Turma)

Competência

Arquivamento e remessa dos autos


A Primeira Turma, em conclusão e por maioria, deu provimento a agravo regimental em inquérito
e determinou a remessa dos autos a juízo de primeira instância para apurar a eventual responsabilidade
penal de terceiros em fato criminoso — v. Informativo 837.

123
No caso, os autos foram encaminhados a esta Corte pelo juízo de primeiro grau em razão da
presença de um investigado com foro por prerrogativa de função no Supremo Tribunal Federal (STF).
O Ministério Público (MP) alegava a prévia existência de indícios de implicação delitiva de outros
indivíduos sem prerrogativa de foro e salientava que a autoria do fato criminoso teria sido apurada antes
da remessa dos autos ao STF, muito embora esses autos já tivessem sido arquivados nesta Corte.
A Turma entendeu que, vislumbrando o titular da ação penal a aparência de práticas criminosas
contra indivíduos sem prerrogativa de foro antes da declinação de competência a esta Suprema Corte, é
adequado o encaminhamento dos autos originais ao juízo declinante para, se for o caso, o órgão do MP na
origem prosseguir na investigação com o aproveitamento dos atos até então praticados.
Afirmou, ainda, que a atuação judicial deve ser comedida em sede de investigações preliminares e
que, por se tratar de um momento ainda bastante embrionário, não cabe definir limites objetivos e
subjetivos da investigação.
Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Luiz Fux, que negavam provimento ao agravo
regimental. Segundo eles, o inquérito dizia respeito, unicamente, a investigado com foro por prerrogativa
de função no STF, cujos autos foram arquivados.
Inq 3158 AgR/RO, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber, julgamento
em 7.2.2017.
(Informativo 853, 1ª Turma)

Foro por prerrogativa de função e desmembramento de inquérito


A Segunda Turma negou provimento a agravo regimental em reclamação no qual se pretendia o
reconhecimento da usurpação de competência do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo juízo reclamado em
razão do não desmembramento de inquérito depois de vislumbrado, no curso das investigações, o suposto
envolvimento de deputado federal.
A defesa alegava que, embora tivessem sido captados diálogos que demonstrassem o envolvimento de
autoridade com prerrogativa de foro, o juízo de primeiro grau não declinou da competência em situação em que
seria imperiosa a remessa dos autos ao STF.
O Colegiado entendeu não haver cogitar de usurpação de competência desta Corte quando a simples
menção a nome de autoridade com prerrogativa de foro — seja em depoimentos prestados por testemunhas ou
investigados, seja na captação de diálogos travados por alvos de censura telefônica judicialmente autorizada —,
assim como a existência de informações, até então fluidas e dispersas a seu respeito, são insuficientes para o
deslocamento da competência para o juízo hierarquicamente superior.
Ressaltou que, para haver atração da causa ao foro competente, é imprescindível a constatação da
existência de indícios da participação ativa e concreta do titular da prerrogativa em ilícitos penais.
Por seu turno, ao analisar as informações prestadas pelo juízo reclamado, a Turma verificou que o
deputado federal não foi alvo de nenhuma medida cautelar autorizada por aquele juízo no curso da persecução
penal. Além disso, os fatos verificados sobre o parlamentar não tinham relação direta com o objeto da
investigação em desfavor do agravante.
Nesse contexto, asseverou ser inviável, em reclamação, o reexame do conteúdo do ato reclamado e de
todo o conjunto fático-probatório para chegar à conclusão diversa. Por fim, salientou que, conforme a
jurisprudência da Corte, a eventual declaração de imprestabilidade dos elementos de prova angariados em
suposta usurpação de competência criminal do STF não alcançaria aqueles destituídos de foro por prerrogativa
de função, como no caso.
Rcl 25497 AgR/RN, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 14.2.2017.
(Informativo 854, 2ª Turma)

Início de investigação e conexão


A Primeira Turma, por maioria, denegou ordem em habeas corpus em que se pretendia
revogar a prisão do condenado, ao argumento da incompetência da Justiça Federal de Curitiba/PR
para o julgamento de processo-crime relativo aos delitos de estupro de vulnerável e de produção,
armazenamento e disseminação de pornografia infanto-juvenil praticados na residência do paciente
em São Paulo.
O Colegiado pontuou que todas as investigações tiveram início em Curitiba, onde os pedófilos
foram presos, a partir das quais foi possível chegar ao paciente e ao site russo pelo qual era
disseminada a pornografia infanto-juvenil.

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Ressaltou que os investigados trocavam informações no eixo Curitiba–São Paulo, o que
evidencia a conexão entre os crimes de uns e de outros. Em razão disso, a Turma concluiu não haver
ofensa ao princípio do juiz natural.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que concedeu a ordem para assentar a
competência da Justiça Federal de São Paulo, declarando insubsistentes as decisões formalizadas
pelo juízo de Curitiba. Asseverou que o fato de informações prestadas em investigação instaurada
perante o aludido juízo terem levado ao paciente não foi suficiente para ensejar cone xão probatória
entre os crimes.
HC 135883/PR, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 6.6.2017.
(Informativo 868, 1ª Turma)

Crime praticado por procurador da República e competência


A Segunda Turma, diante do empate na votação, concedeu habeas corpus de ofício em favor de
procurador da República e de advogado, presos preventivamente em razão de fatos investigados na
“Operação Patmos”. Os autos do inquérito tinham sido encaminhados ao TRF da 3ª Região, localidade
em que o procurador investigado ocupa seu cargo atualmente. Na época dos fatos, porém, o investigado
atuava como procurador da República exclusivamente no âmbito do TRF da 1ª Região.
A Turma deliberou, de início, fixar a competência do TRF da 1ª Região para processar e julgar o
investigado. Baseou-se, para tanto, na interpretação do art. 108, I, “a”, da Constituição Federal (CF),
segundo o qual compete aos TRFs processar e julgar, originariamente, os juízes federais da área de sua
jurisdição.
O mesmo tratamento dado aos juízes federais no tema deve ser conferido aos membros do
Ministério Público e aos advogados, tendo em vista que o vocábulo “jurisdição”, do texto constitucional,
deve ser entendido também como “atribuição”. Assim, o procurador da República precisa ser julgado pelo
TRF em cuja área exerce suas atribuições, sob pena de ofensa ao princípio do juiz natural. Além disso, o
Colegiado destacou o art. 70 do Código de Processo Penal (CPP), segundo o qual o foro para julgar
quaisquer crimes se processa segundo o critério ratione loci.
Ademais, os requisitos para a manutenção da prisão, constantes do art. 312 do CPP, não mais
subsistem.
Assim, a Turma decidiu revogar a prisão preventiva, com a imposição de medidas cautelares
diversas da prisão, de acordo com o art. 319 do CPP. Suspendeu, ainda, o procurador do exercício da
atividade pública, sem prejuízo da percepção dos subsídios.
Estendeu os efeitos da decisão ao advogado também investigado, exceto no que tange à
continuidade do exercício profissional.
Os ministros Edson Fachin (relator) e Celso de Mello não concederam a ordem.
Pet 7063/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski,
julgamento em 1º.8.2017.
(Informativo 871, 2ª Turma)

Denúncia

Crime de dispensa ou inexigibilidade indevida de licitação e viabilidade da denúncia


A Primeira Turma, em conclusão e por maioria, rejeitou denúncia oferecida em face de deputado
federal pela suposta prática dos crimes previstos no art. 89 da Lei 8.666/1993 (“Art. 89. Dispensar ou
inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou deixar de observar as formalidades pertinentes à
dispensa ou à inexigibilidade”) e no art. 1º, XIII, do Decreto-Lei 201/1967 (“XIII - Nomear, admitir ou
designar servidor, contra expressa disposição de lei”), por condutas supostamente praticadas enquanto
ocupava o cargo de prefeito municipal.
Para a acusação, teria havido irregularidades na contratação de Organização da Sociedade Civil de
Interesse Público (OSCIP) por ente municipal, com a verdadeira finalidade de admissão direta de
servidores sem a observância da regra constitucional do concurso público. A defesa alega, em suma, a
atipicidade da conduta imputada ao acusado — v. Informativo 855.
O Colegiado reconheceu, de início, a ocorrência da prescrição quanto ao crime definido no art. 1º,
XIII, do Decreto-Lei 201/1967, referente à suposta contratação de pessoal sem observância da regra do
concurso público.

125
No tocante ao crime previsto no art. 89 da Lei 8.666/1993, consignou que a dispensa ou
inexigibilidade é incriminada, de acordo com o tipo penal, quando o fato não se enquadra nas hipóteses
legais de dispensa ou de inexigibilidade (Lei 8.666/1993, arts. 24 e 25), ou as formalidades pertinentes à
dispensa ou à inexigibilidade não são observadas (Lei 8.666/1993, art. 26).
Ressaltou, ademais, que o tipo penal do art. 89 da Lei de Licitações prevê crime formal, que
dispensa o resultado danoso para o erário. Nesses termos, a não exigência de prejuízo patrimonial, para a
consumação do delito, não afasta a necessidade de que, para adequação da conduta à norma penal, sua
prática revele desvalor maior para o ordenamento jurídico do que a observância parcial ou imperfeita de
normas procedimentais. Assim, se, por um lado, o ilícito administrativo se aperfeiçoa com o simples atuar
do administrador público, que não esteja estritamente em consonância com o princípio da legalidade; por
outro, a prática de um delito penal exige uma conduta planejada e voltada finalisticamente a executar a
conduta criminosa, com o fim de obter um proveito criminoso de qualquer natureza.
Diante das peculiaridades que envolvem a distinção entre, de um lado, o ilícito cível e
administrativo e, de outro lado, com maior desvalor jurídico, o ilícito penal, há a necessidade de
sistematizar critérios para análise da ocorrência ou não do tipo versado no art. 89 da Lei 8.666/1993.
Busca-se, com isso, reduzir o elevado grau de abstração da conduta prevista no tipo penal e, por
consequência, atender aos princípios da ultima ratio, da fragmentariedade e da lesividade.
Entendeu que podem ser estabelecidos três critérios para a verificação judicial da viabilidade da
denúncia que trate da prática do crime disposto no art. 89 da Lei 8.666/1993. Esses critérios permitem que
se diferencie, com segurança, a conduta criminosa definida no art. 89 da Lei 8.666/1993 das
irregularidades ou ilícitos administrativos e de improbidade, intencionais ou negligentes.
O primeiro critério consiste na existência de parecer jurídico lavrado idoneamente pelo órgão
competente. Nesses termos, o parecer do corpo jurídico, quando lavrado de maneira idônea, sem indício
de que constitua etapa da suposta empreitada criminosa, confere embasamento jurídico ao ato, até mesmo
quanto à observância das formalidades do procedimento. O parecer jurídico favorável à inexigibilidade
impede a tipificação criminosa da conduta, precisamente por afastar, desde que inexistentes outros
indícios em contrário, a clara ciência da ilicitude da inexigibilidade, e determina o erro do agente quanto
ao elemento do tipo, qual seja, a circunstância “fora das hipóteses legais” (CP, art. 20).
No tocante a esse aspecto, sustentou que, no caso, a procuradoria-geral do Município foi
consultada, quanto à necessidade de realização de licitação, anteriormente à assinatura do termo de
parceria entre o município e a OSCIP. A existência de parecer do órgão jurídico especializado, no sentido
da licitude da dispensa ou da inexigibilidade da licitação, constitui óbice ao enquadramento típico da
conduta do administrador público que, com base nele, assinou o termo contratual no exercício de sua
função, salvo indicação de dolo de beneficiar a si mesmo ou ao contratado e/ou narrativa mínima da
existência de união de desígnios entre os acusados, para realização comum da prática delitiva.
O segundo critério a ser observado corresponde à indicação, na denúncia, da especial finalidade de lesar
o erário ou promover enriquecimento ilícito dos acusados. Para tanto, o crime definido no art. 89 da Lei
8.666/1993, de natureza formal, independe da prova do resultado danoso. Porém, para que a conduta do
administrador seja criminosa, é exigível que a denúncia narre a finalidade do agente de lesar o erário, de obter
vantagem indevida ou de beneficiar patrimonialmente o particular contratado, ferindo com isso a razão
essencial da licitação (a impessoalidade da contratação).
Sobre esse critério, asseverou que a denúncia não mencionou a existência de indício de que o acusado
teria agido com o fim de obter algum proveito ilícito ou de beneficiar a OSCIP contratada, em detrimento do
erário. Ponderou, ainda, que o tipo previsto no art. 89 da Lei 8.666/1993 tem como destinatário o administrador
e adjudicatários desonestos, e não os supostamente inábeis. A intenção de ignorar os pressupostos para a
contratação direta ou a simulação da presença desses são elementos do tipo, que não se perfaz a título de
negligência, imprudência ou imperícia — caracterizadores de atuar culposo.
Como último critério, destacou a necessária descrição do vínculo subjetivo entre os agentes. Assim, a
imputação do crime definido no art. 89 da Lei 8.666/1993 a uma pluralidade de agentes demanda a descrição
indiciária da existência de vínculo subjetivo entre os participantes para a obtenção do resultado criminoso, não
bastando a mera narrativa de ato administrativo formal eivado de irregularidade. Em outros termos, deve-se
perquirir se a denúncia, ao narrar a prática de crime em concurso de agentes, indica a presença dos elementos
configuradores da união de desígnios entre as condutas dos acusados, voltadas à prática criminosa comum.
Quanto a esse ponto, afirmou que, na espécie, a investigação não reuniu indícios mínimos da existência
de vínculo subjetivo entre os acusados, voltado à obtenção de proveito criminoso.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que recebia a denúncia. Para ele, o tipo penal previsto no art. 89 da
Lei 8.666/1993 é estritamente formal, dispensando o dolo específico, bem como a existência de prejuízo para a

126
Administração Pública. Ademais, observou que a denúncia apresentada pela acusação, embora sintética, teria
atendido aos requisitos legais.
Inq 3674/RJ, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 7.3.2017.
(Informativo 856, 1ª Turma)

Recebimento da denúncia: corrupção passiva e lavagem de dinheiro


A Segunda Turma, por maioria, recebeu em parte denúncia oferecida contra senador e dois de seus
assessores pela prática do crime de corrupção passiva, previsto no art. 317, caput e § 1º, do CP [“Art. 317
- Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes
de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem: Pena -
reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. § 1º - A pena é aumentada de um terço, se, em
consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de
ofício ou o pratica infringindo dever funcional”], e pelo delito de lavagem de dinheiro, disposto no
art. 1º, caput e § 4º, da Lei 9.613/1998.
No caso, de acordo com a inicial acusatória, o parlamentar, com auxílio de seus assessores, teria
solicitado e recebido vantagem indevida em vultosa quantia, em razão de sua função pública, para a sua
campanha ao Senado Federal em 2010.
O montante seria oriundo do esquema de corrupção e lavagem de dinheiro estabelecido na
Diretoria de Abastecimento de empresa petroleira estatal, na época ocupada por pessoa que solicitava e
recebia quantias ilícitas de empresas em decorrência da celebração irregular de contratos com a estatal e
da obtenção de benefícios indevidos no âmbito das contratações. Parte dessas quantias ilícitas era
repassada a agentes políticos por esse diretor a fim de assegurar sua permanência no cargo e a
manutenção do esquema criminoso.
Desse modo, o repasse de propina ao senador teve por finalidade a manutenção do diretor no
cargo, fosse pela não interferência nessa nomeação e no funcionamento do esquema criminoso, fosse pelo
apoio político, para sua sustentação, por parte do parlamentar, forte candidato à reeleição e nome de
relevo de partido político, agremiação partidária da base do Governo Federal e uma das responsáveis pela
Diretoria de Abastecimento da estatal.
A propina foi paga sob o disfarce de doações eleitorais “oficiais” realizadas por empresa
empreiteira, que fazia parte do esquema criminoso em questão, em favor do diretório estadual do partido
do parlamentar.
A Turma afirmou que, nesse momento processual de recebimento da denúncia, compete ao
julgador tão somente analisar a existência de suporte probatório mínimo a embasar a peça acusatória e
atestar a presença dos requisitos necessários para o recebimento, ou não, da denúncia (CPP, arts. 41, 395
e 397; Lei 8.038/1990, arts. 1º a 12).
Ressaltou que, na espécie, a exordial acusatória atende aos requisitos do art. 41 do CPP. Observou
que a denúncia narra a prática pelos acusados, em tese, dos crimes de corrupção passiva majorada (CP,
art. 317, § 1º, c/c art. 327, § 2º) e de lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998, art. 1º, caput e § 4º), condutas
relacionadas ao suposto recebimento pelo senador, com auxílio direto de dois de seus assessores, de
vantagem indevida paga no âmbito de esquema criminoso arquitetado em torno da Diretoria de
Abastecimento da estatal.
Assentou constar da denúncia descrição compreensível das condutas imputadas aos acusados, com
indicação das circunstâncias de tempo, lugar e modo, sem qualquer prejuízo ao exercício de defesa. Aliás,
o direito à defesa foi exercido de forma ampla pelos denunciados, que se contrapuseram, em suas
respostas, aos fatos e à capitulação indicada pelo órgão acusatório.
Ao lado disso, não é necessário que a denúncia descreva minuciosamente as ações ilícitas, mesmo
porque isso equivaleria a exercício de antecipação do que será apurado na fase instrutória, sob o crivo do
contraditório. O que se exige é uma descrição lógica e coerente que possibilite ao acusado compreender a
imputação e exercer seu direito de defesa.
Com relação à materialidade e aos indícios de autoria — pressupostos básicos ao recebimento de
qualquer denúncia —, é possível atestá-los, em especial pelo substrato indiciário.
O Colegiado frisou que os indícios demonstram que o recebimento dos valores espúrios teria
ocorrido de forma dissimulada, por intermédio de duas doações eleitorais oficiais realizadas pela
empreiteira ao diretório estadual do partido do senador e, posteriormente, repassadas pela agremiação
partidária ao parlamentar.

127
Consignou que os elementos colhidos durante a investigação também indicam a possibilidade do
cometimento do delito de lavagem de dinheiro, com a ocultação e dissimulação da origem dos valores
desviados de contratos da estatal, mediante a utilização de mecanismos para dificultar a identificação do
denunciado como destinatário final das quantias supostamente destinadas à sua campanha. A
operacionalização desses pagamentos teria sido efetuada por doleiro, que administrava uma verdadeira
estrutura criminosa especializada em branqueamento de capitais, conforme narrado por colaborador, que,
em síntese, revela pagamentos realizados por empreiteiras, a título de propina, tanto em espécie como por
meio de emissão de notas com base em contratos fictícios de prestação de serviços ou, ainda, depósitos no
exterior.
Reiterou que, nesta fase, não se exige juízo de certeza. Desse modo, o material indiciário mostra-se
suficiente ao recebimento da denúncia, motivo por que não procedem as teses defensivas suscitadas
contra a peça acusatória, que descreve a ocorrência de crimes antecedentes (contra a Administração
Pública), bem como indica com clareza a ação e intenção dos denunciados de ocultar os valores recebidos
por intermédio de organização criminosa, que se subsumem ao tipo penal descrito no art. 1º, V e § 4°, da
Lei 9.613/1998, na redação anterior à Lei 12.683/2012, em vista de os fatos terem ocorrido em 2010.
Enfatizou, por outro lado, que deveria ser excluída da denúncia a causa de aumento do art. 327, §
2º, do CP (“A pena será aumentada da terça parte quando os autores dos crimes previstos neste Capítulo
forem ocupantes de cargos em comissão ou de função de direção ou assessoramento de órgão da
administração direta, sociedade de economia mista, empresa pública ou fundação instituída pelo poder
público”), por ser incabível pelo mero exercício de mandato popular. Para isso, a situação exigiria uma
imposição hierárquica que não foi demonstrada nos autos.
Sublinhou que, ao contrário do que sustentado pelas defesas, a denúncia não está amparada apenas
em depoimentos prestados em colaboração premiada, mas em outros indícios que reforçam as declarações
prestadas pelos colaboradores e bastam nesse momento de cognição sumária, tais como: dados
telefônicos, informações policiais e documentos.
Vencidos, em parte, os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, que rejeitavam a denúncia em
relação aos assessores, nos termos do art. 395, III, do CPP (“A denúncia ou queixa será rejeitada quando:
III – faltar justa causa para o exercício da ação penal.”). Pontuavam não ter a denúncia demonstrado
minimamente que os assessores sabiam da suposta corrupção passiva.
Além disso, os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, com fundamento no art. 6º da Lei
8.038/1990, julgavam improcedente a imputação de lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998, art. 1º, caput e
§ 4º) deduzida contra todos os denunciados. Sustentavam que, conforme narrado pelo parquet, o crime de
lavagem de dinheiro estaria resumido a uma doação eleitoral, a qual constituiria simples consumação na
modalidade receber ou exaurimento na modalidade solicitar do crime de corrupção passiva. Portanto,
estaria ausente a autonomia de condutas a justificar o concurso material de crimes e evidente o excesso de
acusação.
Inq 3982/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 7.3.2017.
(Informativo 856, 2ª Turma)

Recebimento da denúncia: corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa


A Segunda Turma recebeu em parte a denúncia contra deputado federal e outros pela suposta prática
dos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e integração de organização criminosa. Não a acolheu
em relação a acusado que já responde, no Inq 4.112/DF, pelos mesmos fatos quanto ao último crime. Além
disso, rejeitou a denúncia contra duas acusadas por falta de justa causa (CPP, art. 395, III).
No caso, de acordo com a inicial acusatória, o denunciado deputado federal teria solicitado, aceitado
promessa e recebido, por intermédio e em unidade de desígnios com os outros acusados, vantagem pecuniária
indevida em vultosa quantia, para se omitir no cumprimento do seu dever parlamentar de fiscalização da
administração pública federal, o que teria viabilizado o funcionamento de organização criminosa voltada para a
prática dos crimes de peculato, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro no âmbito de empresa estatal
de distribuição de petróleo.
Inicialmente, a Turma rejeitou as preliminares suscitadas. Indeferiu o pedido de reabertura de prazo
para aditamento da defesa; considerou que a manifestação da Procuradoria-Geral da República às respostas
apresentadas pelos acusados à denúncia, após o transcurso do prazo de cinco dias, não gera nulidade; afastou a
alegação de vício em interceptações telefônicas realizadas no âmbito de procedimento que tramitou perante o
juízo da 13ª Vara Federal; observou que o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos acusados, bem como as
buscas em endereços a eles vinculados não estariam maculados; ponderou que o fato de o Procurador-Geral da
República não ter denunciado nestes autos crimes de corrupção ativa não acarreta a inépcia da denúncia com
relação aos delitos de corrupção passiva.

128
O Colegiado negou provimento a agravo regimental interposto contra decisão que deferiu o
desmembramento do processo. Consignou que o desmembramento não acarreta inépcia da denúncia ou ofensa
aos princípios da indivisibilidade, da obrigatoriedade e da indisponibilidade da ação penal.
Frisou que a denúncia relata, de forma pormenorizada, os fatos supostamente delituosos e suas
circunstâncias e explana, de modo compreensível e individualizado, a conduta criminosa, em tese, adotada
pelos envolvidos, nos termos do que determina o art. 41 do CPP. Dessa forma, não há qualquer prejuízo ao
exercício do direito de defesa. Explicou que o que a lei impõe é uma descrição lógica e coerente, a fim de
permitir aos acusados a compreensão das imputações e o exercício amplo do contraditório, o que se verifica na
espécie.
Enfatizou que, ao menos para esta fase processual, há elementos nos autos que demonstram, de forma
individualizada, o possível envolvimento do parlamentar e de outros dois acusados na prática de crimes de
corrupção passiva (CP, art. 317, § 1º) no âmbito da estatal, com subsequente execução, em tese, de atos de
lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998, art. 1º, § 4º), para a ocultação e dissimulação da origem e natureza dos
valores indevidos recebidos por eles.
A acusação também procede, nesta fase, quanto aos indícios de que o deputado e outro cometeram, em
tese, o crime de integrar organização criminosa (Lei 12.850/2013, art. 2º, § 3º e 4º, II). Esses denunciados
associaram-se a diversas outras pessoas para a prática permanente e reiterada de crimes de corrupção passiva,
no âmbito da estatal, e de lavagem de dinheiro.
A Turma ressaltou que a imputação dos crimes de corrupção passiva a duas acusadas é particularmente
frágil, porquanto a exordial acusatória não sustenta terem elas ciência dos atos de corrupção em tese praticados,
nem demonstra, sequer de forma indiciária, qualquer liame subjetivo entre elas e os demais denunciados. Na
mesma linha, não há como atribuir às denunciadas a prática de lavagem de dinheiro, se a acusação não alega
terem elas conhecimento da origem ilícita dos valores em espécie supostamente recebidos nem indica a
destinação por elas dada ao numerário.
Por fim, asseverou que a denúncia não está amparada apenas em depoimentos prestados em
colaboração premiada. Há inúmeros outros indícios que reforçam as declarações prestadas pelos colaboradores,
tais como, dados telemáticos e bancários, depoimentos, informações policiais e documentos, o que é bastante
neste momento de cognição sumária, quando não se exige juízo de certeza acerca de culpa.
Inq 3990/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 14.3.2017.
(Informativo 857, 2ª Turma)

Recebimento da denúncia: fraude à licitação e peculato


A Primeira Turma, por maioria, recebeu denúncia oferecida contra deputado federal pelos crimes de
dispensa indevida de licitação e modificação ilegal de contrato administrativo, previstos nos arts. 89 (1) e 92 (2)
da Lei 8.666/1993 (Lei das Licitações). Em seguida, o órgão fracionário, por maioria, acolheu a denúncia
quanto ao delito de peculato, na modalidade desvio, previsto no art. 312, § 1º (3), do Código Penal (CP).
No caso, segundo a inicial acusatória, o parlamentar, então secretário de Estado, junto com outros
acusados, teria — ao deflagrar processo administrativo que deu origem à contratação direta de determinada
construtora — concorrido para a dispensa de licitação relativa à reforma de ginásio municipal, sob a
justificativa de suposta situação de emergência.
Além disso, o acusado teria participado da celebração de termo aditivo para reforma e ampliação das
instalações do ginásio, cujo valor em percentual estaria acima do permitido, bem como da elaboração de
parecer jurídico que teria embasado a referida modificação contratual, o que afrontaria o art. 65, § 1º (4) da Lei
de Licitações.
A denúncia narra, ainda, que o deputado teria autorizado o pagamento antecipado, sem antes ter
observado a efetiva realização das obras, concorrendo assim diretamente para o desvio dos recursos públicos
destinados à reforma do ginásio.
Preliminarmente, a Turma afastou a alegação de bis in idem. Afirmou que as condutas de dispensar
licitação fora das hipóteses legais e de deixar de observar as formalidades pertinentes à dispensa constituem
crime único.
No que se refere à dispensa de licitação, assentou, indiciariamente, que não ficou demonstrada situação
de emergência ou de urgência.
Rejeitou a assertiva de que o tipo do art. 89 da Lei de Licitações seria inconstitucional. Consignou que o
controle de constitucionalidade de tipos penais sob o parâmetro da ofensa ao princípio da proporcionalidade na
fixação do quantum abstrato da pena deve ser excepcional e comedido e, no caso, não ficou demonstrado.

129
Quanto ao delito do art. 92 da Lei 8.666/1993, ressaltou que o quadro indiciário aponta que o aditivo
contratual extrapolou as meras alterações qualitativas no contrato. Dessa forma, ficou descaracterizado o objeto
do contrato. Ademais, os limites legais de alteração aparentemente foram descumpridos, em afronta ao § 1º do
art. 65 da Lei 8.666/1993, o qual estabelece escala máxima de 50% para os acréscimos contratuais.
O fato de a dispensa de licitação e de o aditamento do contrato terem sido precedidos de parecer
jurídico não é bastante para afastar o dolo, caso outros elementos externos indiciem a possibilidade de desvio
de finalidade, ou de conluio entre o gestor e o responsável pelo parecer.
A Turma destacou a presença dos requisitos do art. 41 do CPP para o recebimento da denúncia, até
mesmo para o suposto crime de peculato. Sublinhou que há, no inquérito, elementos que indicam a necessidade
da abertura da ação penal também em relação ao suposto desvio de verbas públicas.
Vencida, em parte, a ministra Rosa Weber (relatora), que não recebia a denúncia quanto ao delito de
peculato. Pontuava a violação do princípio do contraditório porque a defesa não teve acesso aos dados
pertinentes à quebra do sigilo bancário da empresa lesada pela subtração dos recursos.

(1) Lei 8.666/1993, art. 89: “Art.89. Dispensar ou inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou deixar de
observar as formalidades pertinentes à dispensa ou à inexigibilidade: Pena - detenção, de 3 (três) a 5 (cinco) anos, e multa.”.
(2) Lei 8.666/1993, art. 92: “Art. 92. Admitir, possibilitar ou dar causa a qualquer modificação ou vantagem, inclusive
prorrogação contratual, em favor do adjudicatário, durante a execução dos contratos celebrados com o Poder Público, sem
autorização em lei, no ato convocatório da licitação ou nos respectivos instrumentos contratuais, ou, ainda, pagar fatura com
preterição da ordem cronológica de sua exigibilidade, observado o disposto no art. 121 desta Lei: Pena - detenção, de dois a quatro
anos, e multa”.
(3) Código Penal, art. 312, § 1º: “Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem
móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio: Pena - reclusão, de
dois a doze anos, e multa. § 1º - Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, embora não tendo a posse do dinheiro, valor ou
bem, o subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona a
qualidade de funcionário”.
(4) Lei 8.666/1993, art. 65, § 1º: “Art. 65. Os contratos regidos por esta Lei poderão ser alterados, com as devidas
justificativas, nos seguintes casos: (...) § 1º O contratado fica obrigado a aceitar, nas mesmas condições contratuais, os acréscimos
ou supressões que se fizerem nas obras, serviços ou compras, até 25% (vinte e cinco por cento) do valor inicial atualizado do
contrato, e, no caso particular de reforma de edifício ou de equipamento, até o limite de 50% (cinqüenta por cento) para os seus
acréscimos”.
Inq 3621/MA, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, 28.3.2017.
(Informativo 859, 1ª Turma)

Execução da Pena

Custódia cautelar e marco inicial para progressão de regime


A Primeira Turma deu provimento a recurso ordinário em habeas corpus em que discutido o
marco inicial para fins de obtenção de progressão de regime. No caso, o recorrente foi preso
cautelarmente por força de mandado de prisão preventiva, mas foi fixada como termo inicial para a
obtenção do benefício da progressão a data da publicação da sentença condenatória.
A Turma entendeu que a custódia cautelar necessariamente deve ser computada para fins de
obtenção de progressão de regime e demais benefícios executórios, desde que não ocorra condenação
posterior apta a configurar falta grave. Partindo-se da premissa de que, diante da execução de uma única
condenação, o legislador não impôs qualquer requisito adicional, impende considerar a data da prisão
preventiva como marco inicial para a obtenção de benefícios em sede de execução penal.
RHC 142463/MG, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 12.9.2017.
(Informativo 877, Primeira Turma)

Execução Provisória da Pena

Reclamação, preso advogado e execução provisória da pena


A Segunda Turma, por unanimidade, negou provimento a agravo regimental em reclamação no qual se
pretendia a transferência do agravante de cela comum de estabelecimento prisional para sala de estado-maior
em razão da sua condição de advogado preso provisoriamente.
A defesa sustentou que o agravante teria direito a permanecer custodiado em sala de estado-maior,
nos termos do art. 7º, V, da Lei 8.906/1994 (1). A constitucionalidade dessa norma foi reconhecida pelo
Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da ADI 1.127/DF (2).
O Colegiado pontuou que a execução em debate diz respeito a acórdão penal condenatório
proferido em segundo grau. Dessa forma, seguindo a orientação jurisprudencial do STF (3), ainda que não

130
transitada em julgado a condenação do agravante, a prisão não mais se reveste de natureza cautelar, mas
sim das características de prisão-pena, a qual exige a formulação de juízo de culpabilidade em título
judicial condenatório.
Salientou ainda que a Corte não discutiu, na ADI 1.127/DF, se o direito de o advogado permanecer
recolhido em sala de estado-maior se estenderia, ou não, ao preso em razão de acórdão penal
condenatório de segundo grau. Nesse contexto, a Turma reputou ausente a estrita aderência do objeto do
ato reclamado ao conteúdo da ação direta paradigma e concluiu pela impropriedade da reclamação
constitucional.

(1) Lei 8.906/1994: “Art. 7º São direitos do advogado: (...) V – não ser recolhido preso, antes de sentença transitada em
julgado, senão em sala de Estado Maior, com instalações e comodidades condignas e, na sua falta, em prisão domiciliar”.
(2) ADI 1.127/DF, DJE de 11.6.2010.
(3) HC 126.292/SP, Pleno, rel. min. Teori Zavascki, DJE de 17.5.2016: “(...) a execução provisória de acórdão penal
condenatório proferido em grau de apelação, ainda que sujeito a recurso especial ou extraordinário, não compromete o princípio
constitucional da presunção de inocência afirmado pelo art. 5º, LVII, da Constituição Federal”.
Rcl 25111 AgR/PR, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 16.5.2017.
(Informativo 865, Segunda Turma)

Execução antecipada da pena e ação cautelar


A Primeira Turma, por maioria, não conheceu de habeas corpus no qual se buscava a suspensão da
execução provisória da pena pelos quais os pacientes foram condenados em primeira instância.
No caso, os impetrantes foram condenados pela prática dos crimes de associação criminosa [CP,
art. 288, caput (1)] e estelionato contra entidade de direito público, em continuidade delitiva [CP, art. 171,
§ 3º (2), c/c o art. 71 (3)]. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região, ao julgar a apelação, reduziu as
penas. O Ministério Público Federal interpôs recurso especial (REsp) requerendo a execução provisória
da pena. Esse pedido foi concedido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O Colegiado destacou que a defesa, ao invés de ingressar com habeas corpus contra determinação do
imediato cumprimento da pena, ajuizou uma ação cautelar para dar efeito suspensivo ao recurso especial.
Pontuou que, nesse caso, a ação cautelar tem o mesmo efeito de um habeas corpus, porque mantém soltos os
condenados até que o STJ possa analisar o recurso interposto. Ressaltou que ainda caberia recurso contra a
decisão do STJ por se tratar de decisão monocrática de ministro relator. Nesse contexto, a Turma considerou
que incide, por analogia o Enunciado 691 da Súmula do STF (4). Ademais, salientou que não caracteriza
teratologia ou manifesta ilegalidade negar efeito suspensivo a um recurso que, em regra, não o tem.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator) que concedia a ordem para que os pacientes
aguardassem em liberdade o desfecho do processo. Para ele, o caráter provisório da execução deve ser
afastado porque é impossível devolver a liberdade perdida ao cidadão.

(1) Código Penal/1940: “Art. 288. Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes: Pena -
reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos”.
(2) Código Penal/1940: “Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou
mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena - reclusão, de um a cinco anos, e
multa, de quinhentos mil réis a dez contos de réis. (...) § 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento
de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência”.
(3) Código Penal/1940: “Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da
mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos
como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em
qualquer caso, de um sexto a dois terços”.
(4) Enunciado 691 da Súmula do STF: “Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus impetrado
contra decisão do Relator que, em habeas corpus requerido a tribunal superior, indefere a liminar”.
HC 138633/RJ, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgamento
em 8.8.2017.
(Informativo 872, 1ª Turma)

Execução provisória da pena


A Primeira Turma, por maioria, não conheceu de habeas corpus em que discutido o direito do paciente
permanecer em liberdade até o trânsito em julgado da condenação.
No caso, o juízo condenou o réu à pena de 19 anos e seis meses de reclusão pela prática de atentado
violento ao pudor e lhe garantiu o direito de recorrer em liberdade. Interposta apelação pela defesa, o tribunal
de justiça absolveu o paciente por ausência de prova. Contra essa decisão foi interposto recurso especial. O
Superior Tribunal de Justiça (STJ), então, restabeleceu a condenação, mas reduziu a pena, por ter reconhecido

131
o crime continuado. Em seguida, o STJ não acolheu os embargos declaratórios e o relator monocraticamente
negou provimento aos embargos de divergência e determinou o início da execução provisória da pena.
A Turma afirmou que não é cabível habeas corpus contra decisão monocrática. A impetração é
substitutiva de agravo regimental.
Mesmo que fosse conhecido o habeas corpus, o Plenário admite atualmente a execução provisória da
pena a partir de condenação em segundo grau. Mencionou que até este momento há três decisões do Plenário:
uma, em habeas corpus; uma medida cautelar; e outra, em Plenário Virtual, no sentido dessa possibilidade.
Além disso, ainda que prevalecesse a posição minoritária defendida pelo ministro Dias Toffoli, no
sentido de que só é possível a execução provisória da pena a partir de condenação proferida pelo STJ, foi
efetivamente esse Tribunal Superior que, sem inovar factualmente nos autos, se valeu de provas já existentes
produzidas e consideradas para condenar o paciente.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator) que conheceu da impetração e concedeu a ordem. Para o
ministro, o STJ, ao restabelecer a condenação, silenciou a respeito de o réu poder, ou não, recorrer em
liberdade e só veio a determinar a prisão provisória em embargos de divergência.
HC 139391/RN, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 29.8.2017.
(Informativo 875, 1ª Turma)

Habeas Corpus

Condenação em segundo grau e execução da pena


A Primeira Turma declarou prejudicada a impetração de habeas corpus no qual se buscavam o
conhecimento de apelação interposta perante tribunal de justiça e a revogação de prisão preventiva a fim
de que o paciente — condenado pelo tribunal do júri — pudesse aguardar o julgamento do recurso de
apelação em liberdade.
No caso, sobreveio o julgamento da apelação da defesa com a redução da pena privativa de
liberdade e a expedição de nova ordem prisional, por conta da exequibilidade de penas após condenação
em segundo grau.
A Turma entendeu que acarreta prejuízo da impetração o superveniente julgamento do mérito de
habeas corpus pelo STJ, a determinar o conhecimento da apelação, assim como a mudança no título
prisional.
Além disso, consignou que a ordem não poderia ser concedida de ofício porquanto a
jurisprudência do STF é no sentido da exequibilidade da pena depois das decisões de segunda instância.
Vencido, nesse ponto, o ministro Marco Aurélio (relator), que concedia a ordem de ofício por
entender existir ofensa ao princípio constitucional da não culpabilidade.
HC 129295/SC, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso,
julgamento em 21.2.2017.
(Informativo 855,1ª Turma)

Habeas corpus e direito à visitação


Não cabe habeas corpus para tutelar o direito à visita em presídio.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma, por maioria, não admitiu a impetração.
No caso, a paciente, possuidora de prótese metálica, requereu o direito a visita sem submeter ao detector
de metais. O juízo indeferiu o pedido e esclareceu que, quando houver restrições à utilização do aparelho
detector de metais, por motivo de saúde, a visita deve ser realizada no parlatório.
A Turma afirmou que não há, na hipótese dos autos, restrição ao direito de liberdade. A decisão atacada
tem natureza administrativa. Portanto, o habeas corpus não é o meio processual adequado para discutir a
questão controvertida.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que deferiu a ordem. Consignou que o fato de a visitante
ser detentora de prótese metálica não inviabiliza o direito de avistar-se com o preso.
HC 128057/SP, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgamento
em 1º.8.2017.
(Informativo 871, 1ª Turma)

132
Habeas corpus e estabelecimento prisional adequado
A Segunda Turma negou provimento a recurso ordinário em habeas corpus interposto
contra decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). No writ, o sentenciado alegou estar
cumprindo pena em regime mais gravoso em razão da ausência de vaga em estabelecimento
prisional compatível com o regime semiaberto.
O colegiado constatou a existência de divergência entre o entendimento do juiz de primeiro
grau e do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). Contudo, relatou que a decisão do STJ se
fiou nos fundamentos sólidos apresentados pelo TJSC. Nesse contexto, concluiu que seria
necessário o reexame de fatos e provas para se chegar a um entendimento diverso. Pontuou que o
habeas corpus não comporta tal análise, por se tratar de instrumento de cognição restrita .
Não obstante o não provimento do recurso, a Turma decidiu oficiar ao Conselho Nacional
de Justiça, para verificar se o Complexo Penitenciário Industrial de Santa Catarina atende aos
requisitos para o cumprimento do regime semiaberto.
RHC 146317/SC, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 22.8.2017.
(Informativo 874, 2ª Turma)

Habeas corpus impetrado contra decisão de ministro do STF


Não cabe habeas corpus, se a impetração for ajuizada em face de decisões monocráticas
proferidas por ministro do Supremo Tribunal Federal.
O Plenário, por maioria, não conheceu do writ impetrado contra decisão de ministro desta
Corte que determinou a custódia cautelar do paciente.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que julgou prejudicada a impetração ante a
revogação da prisão preventiva do paciente.
HC 115787/RJ, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, 18.5.2017.
(Informativo 865, Plenário)

Habeas corpus: pedido de extensão e circunstâncias fáticas incomunicáveis


A Segunda Turma conheceu em parte, e, na parte conhecida, por unanimidade, indeferiu
pedido de extensão dos efeitos do acórdão proferido neste habeas corpus. A ordem havia sido
conferida para revogar a prisão preventiva do paciente, decretada nos autos de ações penais da 13ª
Vara Federal da Seção Judiciária do Paraná, determinando sua substituição por medidas cautelares
dela diversas [CPP, art. 319 (1)], a serem estabelecidas pelo juízo de origem. A Turma também
não conheceu de outros pedidos de extensão no mesmo sentido formulados em favor de três réus.
Inicialmente, observou que o art. 580 (2) do Código de Processo Penal (CPP) é norma
processual penal garantidora de tratamento jurídico isonômico para os corréus que apresentam
idêntica situação jurídica à do réu beneficiado em seu recurso. De acordo com a referida norma,
no caso de concurso de agentes, a decisão do recurso interposto por um deles aproveitará aos
demais quando seus fundamentos não forem de caráter exclusivamente pessoal. Essa regra da
teoria geral dos recursos é aplicável ao habeas corpus, porque, embora não seja recurso, é ação
autônoma de impugnação e deve receber o mesmo tratamento legislativo.
A Turma asseverou defluir, ainda, do art. 580 do CPP que a extensão somente pode alcançar
os que integram a mesma relação jurídico-processual daquele que foi beneficiado em seu recurso
ou ação. Em razão disso, duas hipóteses de ordem objetiva não legitimam a invocação do
dispositivo legal:
(a) quando o requerente da extensão não participa da mesma relação jurídico -processual
daquele que foi beneficiado por decisão judicial da Corte, o que evidencia a sua ilegitimidade;
(b) quando se invoca extensão de decisão para outros processos que não foram examinados
pela Corte, o que denuncia fórmula de transcendência dos motivos determinantes, com o propósi to
de promover a análise per saltum do título processual pelo Supremo Tribunal Federal, e expõe a
risco o sistema de competências constitucionalmente estabelecido.
Desse modo, o Colegiado entendeu haver, em relação a um dos pedidos formulados,
legitimidade do requerente, haja vista ele figurar como corréu do paciente beneficiado com a
ordem em duas ações penais. Entretanto, julgou ser inviável a extensão na forma do art. 580 do
CPP.
No que se refere à primeira dessas ações penais, registrou que o voto co ndutor do acórdão,
ao reputar adequada a substituição da custódia do paciente por medidas cautelares diversas,
considerou, além dos crimes investigados, a condição pessoal do paciente naquele contexto fático -
processual. Segundo o Colegiado, não há relação de identidade com a situação do requerente.

133
Existem, quanto a este, incomunicáveis circunstâncias fáticas na custódia processual com aquelas
que viabilizaram a prisão do paciente do habeas corpus. Em razão disso, indeferiu-se o pedido de
extensão.
No tocante à segunda ação penal, não há interesse de agir do requerente, visto que, ao
contrário do que o juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba havia feito em relação ao paciente deste
habeas corpus, não teria sido necessário decretar nova prisão cautelar do requ erente.
A Turma não conheceu do pedido de extensão para outras três ações penais desse mesmo
requerente, nas quais o paciente do habeas corpus não seria corréu. Citou, nesse sentido, o que
decidido no julgamento do HC 118.533/MS (DJE de 24.4.2017). Salien tou que o propósito da
defesa do requerente seria o de promover, pelo mecanismo da transcendência dos motivos
determinantes, o controle de legalidade, diretamente pelo STF, de decisões estranhas ao objeto do
presente writ, em ofensa ao sistema de competências constitucionalmente estabelecido.
Por fim, a Turma também não conheceu dos pedidos de extensão de outros dois requerentes
por entender que isso seria pretensão revisional do que fixado no HC 138.850/PR (DJE de
16.3.2017) e no HC 141.431/PR (DJE de 22.3.2017), cujos agravos regimentais pendem de
julgamento. Frisou que, quando forem julgados os referidos agravos, o relator, com base na
adequada instrução daqueles habeas corpus, disporá de melhores condições de reavaliar
precisamente a situação prisional dos requerentes, à luz do entendimento firmado pelo Colegiado
neste habeas corpus. Do contrário, seria decidir, por via transversa, os agravos regimentais
daqueles habeas corpus, em manifesta usurpação da competência do juiz natural da causa.

(1)CPP/1940: “Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I – comparecimento periódico em juízo, no
prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II – proibição de acesso ou frequência a
determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante
desses locais para evitar o risco de novas infrações; III – proibição de manter contato com pessoa determinada quando,
por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante; IV – proibição de
ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução; V –
recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e
trabalho fixos; VI – suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira
quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; VII – internação provisória do acusado
nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou
semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII – fiança, nas infrações que a admitem, para
assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência
injustificada à ordem judicial; IX – monitoração eletrônica”.
(2)CPP/1940: “Art. 580. No caso de concurso de agentes (Código Penal, art. 25), a decisão do recurs o interposto
por um dos réus, se fundado em motivos que não sejam de caráter exclusivamente pessoal, aproveitará aos outros”.
HC 137728 EXTN/PR, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 30.5.2017.
(Informativo 867, 2ª Turma)

“Habeas corpus” e medida cautelar de afastamento de cargo público


O habeas corpus pode ser empregado para impugnar medidas cautelares de natureza criminal diversas da
prisão. Com base nessa orientação, ao concluir o julgamento conjunto de duas impetrações, a Segunda Turma, por
maioria, concedeu a ordem para revogar a suspensão do exercício da função pública de Conselheiro do Tribunal
de Contas do Estado do Amapá e demais medidas cautelares pessoais impostas pelo Superior Tribunal de Justiça
(STJ).
O Colegiado rejeitou, por maioria, a preliminar de inadequação da via eleita, suscitada sob o argumento de
inexistir ameaça à liberdade de locomoção.
Asseverou que, no caso, discute-se a ideia de proteção judicial efetiva e que a ação de habeas corpus deve
ser admitida para atacar medidas criminais que, embora diversas da prisão, afetem interesses não patrimoniais
importantes da pessoa física.
Se, por um lado, essas medidas são menos gravosas do que os encarceramentos cautelares, por outro, são
consideravelmente onerosas ao implicado. Mais do que isso, se descumpridas, podem ser convertidas em prisão
processual.
Enfatizou que, caso fechada a porta do habeas corpus, restaria o mandado de segurança. Nos processos em
primeira instância, talvez seja suficiente para conferir proteção judicial recursal efetiva ao alvo da medida cautelar.
No entanto, naqueles de competência originária de tribunal, confundem-se, na mesma instância, as competências
para decretá-la e para analisar a respectiva ação de impugnação. Isso, na prática, esvazia a possibilidade de
impugná-la em tempo hábil.

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No mérito, a Turma considerou que, conquanto o feito seja complexo, as medidas vigem por prazo
excessivo, sem amparo em fatos excepcionais que justifiquem seu alongamento. Apenas na fase de ação penal, o
afastamento dura mais de dois anos.
Vencido o ministro Edson Fachin. No tocante ao conhecimento, compreendeu que as imposições cautelares
não acarretam gravame ao direito de locomoção dos pacientes. Quanto ao mérito, denegou a ordem. Entendeu que
a marcha processual não ultrapassou os limites da razoabilidade.
HC 147303/AP, rel. min. Gilmar Mendes, julgamento em 18.12.2017.
HC 147426/AP, rel. min. Gilmar Mendes, julgamento em 18.12.2017.
(Informativo 888, Segunda Turma)

“Habeas corpus” e visita íntima


O habeas corpus não é o meio adequado para tutelar visita íntima, por não estar envolvido o
direito de ir e vir.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma inadmitiu a impetração.
HC 138286, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 5.12.2017.
(Informativo 887, Primeira Turma)

Repercussão geral e sobrestamento de processo-crime


O habeas corpus não é o meio adequado para discutir crime que não enseja pena privativa de liberdade.
Esse é o entendimento da Primeira Turma, que, por maioria, não conheceu de habeas corpus, no qual se
discutia a suspensão de processo-crime, na hipótese de o tema estar submetido ao Supremo Tribunal Federal
(STF) em sede de repercussão geral (vide Informativo 871).
O paciente foi denunciado como incurso no art. 28 (1) da lei 11.343/2006 (Lei de Drogas).
A Turma assentou que, ante a previsão desse artigo e na impossibilidade de imposição de pena que possa
restringir a liberdade de ir e vir, tem-se como imprópria a impetração de habeas corpus.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que deferiu a ordem para determinar a suspensão do
processo-crime.

(1) Lei 11.343/2006: “Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo
pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I -
advertência sobre os efeitos das drogas; II - prestação de serviços à comunidade; III - medida educativa de comparecimento a
programa ou curso educativo. ”.
HC 127834/MG, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 05.12.2017.
(Informativo 887, Primeira Turma)

Inquirição

Violação da ordem de inquirição de testemunhas no processo penal


A inquirição de testemunhas pelas partes deve preceder à realizada pelo juízo.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma, por maioria, concedeu, em parte, a ordem de habeas
corpus para que se proceda a nova oitiva, mantidos todos os demais atos processuais.
No caso, a magistrada primeiro inquiriu as testemunhas e, só então, permitiu que as partes o fizessem.
Vencidos os ministros Marco Aurélio (relator) e Alexandre de Moraes, que concederam a ordem para
assentar a nulidade do processo-crime a partir da audiência de instrução e julgamento.
HC 111815/SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento em
14.11.2017.
(Informativo 885, Primeira Turma)

Intimação

Tramitação em tribunal superior e intimação de defensoria pública estadual


A Primeira Turma, por maioria, não admitiu a impetração de habeas corpus em que discutida
a possibilidade de atuação de Defensoria Pública estadual perante o STJ.

135
No caso, Defensoria Pública estadual interpôs, em favor do paciente, agravo em face da não
admissão de recurso especial perante o STJ. Ocorre que a Defensoria Pública da União, e não a
estadual, foi intimada da decisão proferida no agravo, o que, segundo a defesa, implicou o trânsito
em julgado do pronunciamento e a subsequente expedição de mandado de prisão contra o paciente.
O Colegiado entendeu ser inadequada a via eleita por se tratar de habeas corpus substitutivo
de agravo regimental, uma vez que foi impetrado contra decisão monocrática de ministro do STJ.
Asseverou que, consoante a jurisprudência desta Corte, a intimação há de ser feita à DPU, já
organizada e no desempenho regular de suas atividades perante os tribunais superiores.
Ademais, salientou que a DPU foi estruturada sob o pálio dos princípios da unidade e da
indivisibilidade para dar suporte às Defensorias Públicas estaduais e fazer as vezes daquel as de
Estados-Membros longínquos, que não podem exercer o múnus a cada recurso endereçado aos
tribunais superiores.
Vencido o Ministro Marco Aurélio, que deferia a ordem. Para ele, haveria de presumir -se que,
tendo a Defensoria Pública estadual interposto o recurso especial, ela estaria acompanhando-o e que
a falta de representação em Brasília não poderia motivar o direcionamento da intimação à DPU.
HC 118294/AP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso,
julgamento em 7.3.2017.
(Informativo 856, 1ª Turma)

Investigação Penal

Inquérito e compartilhamento de peças


A Segunda Turma, por maioria, deu provimento a agravo regimental interposto contra decisão que
determinou o compartilhamento de peças de investigação com a 13ª Vara Federal de Curitiba/PR, que apura
crimes praticados no âmbito da Transpetro e ligados a suposta organização criminosa investigada na Operação
Lava Jato.
No caso, depoimentos de colaborador apontam para a responsabilidade conjunta de cinco membros de
partido político por supostos atos de corrupção que envolveriam a manutenção do delator na chefia da
Transpetro, mediante pagamento de vantagem indevida, desviada de contratos da companhia. Daqueles, quatro
são atualmente senadores. O agravante era senador na época dos atos mencionados, mas hoje não ocupa cargo
eletivo.
A Turma afirmou que a decisão agravada, embora não seja expressa nesse sentido, deixa margem para a
interpretação de que teria ocorrido uma cisão subjetiva das investigações em relação ao agravante.
Ressaltou que o Supremo Tribunal Federal (STF) supervisiona investigações pelos mesmos fatos contra
outros investigados, e por fato conexo contra o agravante.
Por outro lado, suscitou haver dúvida objetiva e fundada sobre qual juízo supervisionaria as
investigações contra o agravante pela suposta corrupção no âmbito da Transpetro.
Sublinhou que, na hipótese dos autos, em que quatro dos cinco investigados têm prerrogativa de foro,
haveria risco de o compartilhamento de dados com a 13ª Vara Federal de Curitiba/PR acarretar em
investigação de personagens sob a jurisdição do STF, o que poderia gerar anulação processual.
Vencido o ministro Edson Fachin (relator), que mantinha a decisão agravada. Pontuava que o
compartilhamento não significaria declinação nem afirmação de competência. Frisava que os mesmos
documentos e anexos remetidos para Curitiba, à guisa de compartilhamento, foram juntados em inquérito que
tramita na Suprema Corte.
Pet 6138 AgR-segundo/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli,
julgamento em 21.2.2017.
(Informativo 855, 2ª Turma)

Delação premiada e sigilo


O sigilo sobre o conteúdo de colaboração premiada deve perdurar, no máximo, até o recebimento
da denúncia.
Essa é a orientação, da Primeira Turma, que negou provimento a agravo regimental.
A Turma afirmou que, no âmbito da Administração Pública, a publicidade é a regra e o sigilo a
exceção (CF, art. 5º, LX) (1).

136
O sigilo do que ajustado é elemento essencial para a efetividade da colaboração firmada, como
forma de garantir o êxito das investigações (Lei 12.850/2013, art. 7º, § 2º) (2), e para assegurar a proteção
da pessoa do colaborador e das pessoas próximas (Lei 12.850/2013, art. 5º, II) (3).
A Lei, visando a consecução desses objetivos, estabeleceu diversas cautelas a serem adotadas. O
art. 7º dispõe que o pedido de homologação do acordo será sigilosamente distribuído, contendo apenas
informações que não revelem a identificação do colaborador e do objeto.
O sigilo sobre o conteúdo da colaboração premiada, consoante versa o § 3º do citado artigo, deve
permanecer, como regra, até o recebimento da denúncia.
O preceito trata da cessação do sigilo relativamente ao acordo, além de assegurar o direito de o
investigado conhecer aqueles que o subscreveram a denúncia, de modo a viabilizar a ampla defesa e o
contraditório. A delação premiada objetiva, com transparência, a elucidação de fato criminoso.
O parágrafo citado não encerra observância absoluta, mas termo final máximo. Deve ser mantido
até esse ponto apenas se houver necessidade concreta.
Uma vez realizadas as diligências cautelares, cuja indispensabilidade tiver sido demonstrada a
partir das declarações do colaborador, ou inexistentes estas, não subsiste razão para o sigilo.
Nada impede que o sigilo do acordo seja afastado em momento anterior ao recebimento da
denúncia e, assim, possibilitar o conhecimento daquele que subscrevera o acordo, bem como o conteúdo
do que declarado. Deste modo, tem-se a otimização dos princípios da ampla defesa e do contraditório, em
favor do investigado ou dos atingidos pela colaboração premiada. Não há direito subjetivo do colaborador
a que se mantenha, indefinidamente, a restrição de acesso ao conteúdo do acordo, ao argumento de que o
sigilo teria sido elemento constitutivo da avença.
A Turma ressaltou que o art. 19 (4) da referida norma, ao prever como crime a conduta de imputar
falsamente, sob pretexto de colaboração com a Justiça, a prática de infração penal a pessoa que sabe ser
inocente, ou de revelar informações sobre a estrutura de organização criminosa que sabe inverídicas — a
chamada delação caluniosa —, reforça a necessidade de conhecimento do que veiculado no acordo.

(1) CF: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: ... LX - a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o
exigirem”.
(2) Lei 12.850/2013: “Art. 7º. O pedido de homologação do acordo será sigilosamente distribuído, contendo apenas
informações que não possam identificar o colaborador e o seu objeto. § 1º. As informações pormenorizadas da colaboração serão
dirigidas diretamente ao juiz a que recair a distribuição, que decidirá no prazo de 48 (quarenta e oito) horas. § 2º. O acesso aos autos
será restrito ao juiz, ao Ministério Público e ao delegado de polícia, como forma de garantir o êxito das investigações, assegurando-
se ao defensor, no interesse do representado, amplo acesso aos elementos de prova que digam respeito ao exercício do direito de
defesa, devidamente precedido de autorização judicial, ressalvados os referentes às diligências em andamento. § 3º. O acordo de
colaboração premiada deixa de ser sigiloso assim que recebida a denúncia, observado o disposto no art. 5º”.
(3) Lei 12.850/2013: “Art. 5 º. São direitos do colaborador: ... II - ter nome, qualificação, imagem e demais informações
pessoais preservados”.
(4) Lei 12.850/2013: “Art. 19. Imputar falsamente, sob pretexto de colaboração com a Justiça, a prática de infração penal a
pessoa que sabe ser inocente, ou revelar informações sobre a estrutura de organização criminosa que sabe inverídicas: Pena -
reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa”.
Inq 4435 AgR/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 12.9.2017.
(Informativo 877, Primeira Turma)

Jurisdição e Competência

Encaminhamento de cópia de depoimento e definição de competência


A Segunda Turma, por maioria, proveu dois agravos regimentais interpostos contra decisão
que determinara o envio de cópia dos termos de depoimento de colaboradores na operação Lava -Jato
às Seções Judiciárias do Distrito Federal e do Estado do Paraná, em razão d o declínio da
competência do Supremo Tribunal Federal (STF) para a supervisão das investigações .
O Colegiado entendeu que, no caso específico, os fatos investigados não guardam relação com
a operação Lava-Jato. Assim, o tema não deve ser encaminhado à Seção Judiciária do Estado do
Paraná, mas sim às varas competentes da Seção Judiciária do Distrito Federal, onde os fatos
ocorreram [Código de Processo Penal, art. 70 (1)]. Ademais, pontuou que o encaminhamento de
cópia a duas varas, para que os juízes definam quem será competente para o julgamento, gera um
conflito indesejado e provoca insegurança jurídica.
Vencido o ministro Edson Fachin (relator) que negava provimento aos agravos regimentais.
Para ele, o declínio não significa definição de competência. Destina-se a resguardar a autonomia

137
jurisdicional do juízo que receberá os autos na verificação, mediante o cotejo com os demais feitos
que ali tramitam, da existência ou não da conexão em quaisquer das suas modalidades. Dessa forma,
evita-se a supressão de instância.

(1) Código de Processo Penal /1941: “Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a
infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução”.
Pet 7075 AgR/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes,
julgamento em 15.8.2017.
Pet 7076 AgR/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes,
julgamento em 15.8.2017.
(Informativo 873, 2ª Turma)

Fato único: investigados sem prerrogativa de foro e não desmembramento


A Primeira Turma, por maioria, deu provimento a agravo regimental interposto contra decisão do relator
que havia determinado o desmembramento e a remessa, ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região, dos autos de
inquérito instaurado para investigar a suposta prática de crimes cometidos por senador da República e outros três
acusados.
A Turma entendeu que, na hipótese, o Ministério Público investiga um fato único, a respeito do qual
pleiteia a acusação com desmembramento de funções no fato. Dessa forma, não se aplica a conexão ou
continência entre crimes, por haver um único fato separado, o qual deve ser julgado no Supremo Tribunal Federal
(STF).
O Ministro Roberto Barroso ressaltou que o Plenário considerou excepcional o foro por prerrogativa, mas
que é a união indissociável entre as condutas, e não a mera conexão, que revela a impossibilidade de se proceder
ao desmembramento do processo. Observou que, no caso sob exame, o atual estágio da investigação revela que as
condutas dos investigados sem prerrogativa de foro estão indissociavelmente unidas à conduta do parlamentar.
Desse modo, estão de tal forma unidas que não seria possível apurar os fatos de maneira dissociada, visto que o
desmembramento, diante dos elementos coletados até o presente momento, traria inequívoco prejuízo às
investigações.
Vencido o Ministro Marco Aurélio, relator, que desprovia o agravo por considerar que o STF deveria
processar e julgar unicamente autoridades com prerrogativa de foro, tendo em conta que as normas definidoras de
sua competência são de direito estrito.
Inq 4506 AgR/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 14.11.2017.
(Informativo 885, Primeira Turma)

Medidas Cautelares Diversas da Prisão

Senador e imposição de medidas cautelares diversas a prisão


A Primeira Turma, por maioria, deu parcial provimento a agravo regimental interposto para
restabelecer as medidas cautelares proferidas pelo ministro Edson Fachin (então relator), além de
determinar o recolhimento noturno de senador acusado pela suposta pratica de corrupção passiva e por
tentativa de embaraçar investigação a envolver organização criminosa.
Na decisão, o então relator suspendeu o exercício das funções parlamentares ou de qualquer outra
função pública do senador. Além disso, determinou a proibição do parlamentar de contatar outro
investigado ou réu e de ausentar-se do País.
Feita a redistribuição dos autos, o ministro Marco Aurélio foi designado relator. Interposto agravo
regimental pelo parlamentar, o relator reconsiderou as imposições de medidas cautelares diversas da
custodia determinadas pelo ministro Edson Fachin.
Contra essa decisão, a PGR interpôs o presente agravo regimental, no qual pleiteia o
restabelecimento das medidas cautelares, além da prisão preventiva por flagrante impróprio quanto ao
crime de corrupção passiva e flagrante próprio quanto aos crimes de pertencimento à organização
criminosa e obstrução de investigação.
Preliminarmente, a Turma, resolveu questão de ordem suscitada pelo relator e deliberou manter o
julgamento deste agravo no respectivo âmbito.
O Colegiado negou o pedido de prisão preventiva. Sublinhou haver dúvida razoável sobre o
sentido e o alcance do art. 53, § 2º, da CF (1) e a sua aplicabilidade neste caso concreto.

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Entretanto, entendeu configurada a autoria e a materialidade. Afirmou estar documentada nos
autos solicitação de vultosa quantia pelo senador por intermédio de sua irmã. Ressaltou a tentativa de
ocultação da origem do dinheiro e de providências para embaraçar o curso da operação Lava Jato.
Reputou necessário o recolhimento domiciliar noturno do parlamentar, tendo em visa que a Turma
decretou a prisão domiciliar dos que teriam sido mandatários da operação. Considerou incongruente
decretar a prisão domiciliar aos coautores menos relevantes, sem a aplicação de nenhum tipo de restrição
à liberdade de ir e vir de quem supostamente teria sido o mandante.
Vencidos, em parte, os ministros Marco Aurélio (relator) e Alexandre de Moraes, que negaram
provimento ao agravo. Pontuaram que a liminar de afastamento é, de regra, incabível, sobretudo se
considerado o fato de o desempenho parlamentar estar vinculado a mandato que se exaure no tempo.
Portanto, o afastamento do exercício do mandato implica esvaziamento irreparável e irreversível da
representação democrática conferida pelo voto popular.
O ministro Alexandre de Moraes consignou que, embora juridicamente possível a aplicação de
outras medidas cautelares diversas da prisão ao parlamentar, sua imposição seria inócua, tendo em vista a
impossibilidade de decretação de prisão preventiva em caso de descumprimento.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de
suas opiniões, palavras e votos. (...) § 2º Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser presos,
salvo em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Casa respectiva, para
que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão”.
AC 4327 AgR-terceiro-AgR/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto
Barroso, julgamento em 26.9.2017.
(Informativo 879, Primeira Turma)

Nulidades

Instauração de investigação criminal e determinação de interceptações telefônicas com base


em denúncia anônima
A Segunda Turma denegou a ordem em habeas corpus em que se pretendia o reconhecimento da
ilegalidade de ação penal e de interceptações telefônicas iniciadas a partir de denúncias anônimas.
No caso, o Ministério Público estadual, após receber diversas denúncias anônimas de prática de
crimes e seus possíveis autores, procedeu a investigações preliminares, com a oitiva informal de
testemunhas. Diante da verossimilhança das alegações, instaurou procedimento de investigação no qual
foi requerida quebra do sigilo telefônico dos envolvidos.
Por essa razão, o paciente foi denunciado pela suposta prática dos crimes de associação criminosa
e corrupção ativa (duas vezes), previstos nos arts. 288 e 333 do CP, e de fraude à licitação (cinco vezes),
previsto no art. 90 da Lei 8.666/1993.
Os impetrantes sustentavam que, por terem sido iniciadas a partir de denúncias anônimas — sem a
comprovação da realização de diligências preliminares nos autos —, as investigações preliminares
(portaria e procedimento investigativo criminal) e o procedimento relativo às interceptações telefônicas
deveriam ser declarados nulos. Alegavam, ainda, que as interceptações telefônicas não teriam atendido às
regras e condições estabelecidas pela Lei 9.296/1996.
A Turma rememorou entendimento do STF no sentido de que a denúncia anônima é válida,
quando as investigações se valem de outras diligências para apurar a delatio criminis.
Asseverou que a necessidade das interceptações telefônicas foi devidamente demonstrada pelo juiz
natural da causa, bem como que havia indícios suficientes de autoria de crimes punidos com reclusão,
conforme exigido pelo art. 2º da Lei 9.296/1996. Quanto às prorrogações das interceptações telefônicas,
ponderou que a Corte tem admitido a razoável dilação dessas medidas, desde que respeitado o prazo de
quinze dias entre cada uma das diligências, o que não caracteriza desrespeito ao art. 5º da Lei 9.296/1996.
Ressaltou, por fim, que o indeferimento de diligências pelo magistrado de primeiro grau não
configura cerceamento de defesa. Afinal, o art. 400, § 1º, do CPP (§ 1º “As provas serão produzidas numa
só audiência, podendo o juiz indeferir as consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias”) prevê
a possibilidade de o juiz indeferir provas consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias, sem
que isso implique nulidade da respectiva ação penal. Sustentou que a discussão sobre o acerto ou
desacerto dessa decisão exigiria exame aprofundado dos fatos e provas da causa, o que não se mostra
viável em habeas corpus, que não admite dilação probatória.
HC 133148/ES, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 21.2.2017.
(Informativo 855, 2ª Turma)

139
Defesa prévia e prerrogativa de foro
A Primeira Turma, por maioria, resolveu questão de ordem no sentido de deferir habeas corpus de ofício
para trancar ação penal por ausência de justa causa e inépcia da denúncia.
Na ação penal, discutia-se nulidade processual em face do recebimento de denúncia sem defesa prévia e da
não observância da prerrogativa de foro conferida a prefeitos (CF, art. 29, X).
No caso, foi ajuizada ação penal contra o então prefeito, hoje deputado federal, e outros, pela suposta
prática do delito de fraude em licitação pública, previsto no art. 90 da Lei 8.666/1993 e, também, pelo crime de
responsabilidade, disposto no art. 1º do Decreto-Lei 201/1967.
O juízo de origem recebeu, primeiramente, a denúncia quanto ao crime definido no art. 90 da Lei
8.666/1993 e determinou a notificação dos acusados para apresentarem defesa escrita contra o crime de
responsabilidade, nos termos do art. 2º, I, do Decreto-Lei 201/1967 — v. Informativo 854.
A Turma afirmou que o prefeito detém prerrogativa de foro, constitucionalmente estabelecida. Desse
modo, os procedimentos de natureza criminal contra ele instaurados devem tramitar perante o tribunal de justiça
(CF, art. 29, X). Observou, também, que não houve submissão das investigações ao controle jurisdicional da
autoridade competente. Além disso, a denúncia, ao arrepio da legalidade, fundou-se em supostas declarações,
colhidas em âmbito estritamente privado, sem acompanhamento de qualquer autoridade pública (autoridade
policial, membro do Ministério Público) habilitada a conferir-lhes fé pública e mínima confiabilidade.
Ressaltou que os indícios que serviram de fundamento à denúncia não lograram indicar, nem mesmo
minimamente, a participação ou o conhecimento dos fatos supostamente ilícitos pelo acusado detentor da
prerrogativa de foro perante a Suprema Corte. Também não foi observada a ritualística procedimental prevista no
Código de Processo Penal para a instauração do inquérito policial. Assim, a ausência de liame subjetivo entre o
então prefeito e os supostos beneficiários dos recursos públicos, somada à existência de parecer jurídico favorável
à homologação da licitação e às indicações de que, no curso da execução do contrato, a própria Administração
Pública recusou o pagamento de notas fiscais emitidas pelo suposto beneficiário sem comprovação da entrega dos
bens nelas listados, são circunstâncias que ilidem o dolo e a participação do prefeito na prática criminosa.
Sublinhou que o prefeito foi incluído entre os acusados, unicamente, em razão da função pública
hierarquicamente superior à dos demais envolvidos, sem indicação mínima de sua participação em prática ilícita, o
que evidencia, por conseguinte, violação à responsabilidade penal subjetiva, em contraposição à objetiva, cuja
demonstração repele a responsabilidade presumida. Portanto, o recebimento da denúncia quanto ao crime
licitatório não observou o direito de resposta preliminar do acusado, previsto em procedimento especial, que
prevalece sobre o comum. Consectariamente, reconheceu a extinção da punibilidade do crime definido no art. 90
da Lei 8.666/1993, pois a decisão válida de recebimento da denúncia data de 30.1.2014, quando o delito licitatório
já havia sido alcançado pela prescrição, ocorrida em 3.8.2013, considerada a pena máxima em abstrato.
A Turma determinou a remessa dos autos ao juízo de origem, para as providências cabíveis quanto aos
demais acusados.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que não acolhia a questão de ordem. Pontuava que o momento
processual para examinar a justa causa seria o do recebimento da denúncia, já ocorrido no juízo de origem.
Segundo o ministro, as alegações apresentadas na defesa prévia confundem-se com o mérito, sendo descabido
apreciá-las nessa fase.
AP 912/PB, rel. Min. Luiz Fux, julgamento em 7.3.2017.
(Informativo 856, 1ª Turma)

Prevenção

Colaboração premiada: prevenção e conexão


Quanto à prevenção da relatoria, o Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, negou
provimento ao agravo regimental.
Inicialmente, o Plenário fez uma cronologia da tramitação dos feitos relacionados à operação Lava Jato.
Registrou que, nos termos do art. 69 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal (RISTF), as ações e
os recursos que tratam de fatos conexos ao objeto da Rcl 17.623/PR foram aglutinados sob a mesma relatoria,
entre os quais figuram o Inq 3.883/PR e o Inq 4.112/DF, então distribuídos ao ministro Teori Zavascki. Em
razão do falecimento do ministro Zavascki e da posterior opção, por ato da ministra presidente Cármen Lúcia,
para integrar a Segunda Turma do STF, o ministro Edson Fachin foi designado, por sorteio, como relator da
aludida operação.

140
A redistribuição dos feitos a sua relatoria foi materializada nos autos dos citados inquéritos; pois, à
época, a Rcl 17.623/PR já estava arquivada, diante do trânsito em julgado da decisão de mérito. Por isso, tais
inquéritos, desde então, vêm sendo utilizados como referência à distribuição por prevenção ao relator dos feitos
relacionados à operação Lava Jato, importando afirmar que a correta delimitação do parâmetro de aferição das
causas de modificação da competência (conexão e continência) deve ter por referência seus predecessores.
Em seguida, teceu considerações acerca do instituto da colaboração premiada, necessárias ao correto
desate da controvérsia quanto à prevenção. Nesse sentido, ressaltou que, no seio da avença, o colaborador
presta declarações perante a autoridade policial e/ou o Ministério Público com vistas a um ou mais resultados
elencados nos incisos do art. 4º da Lei 12.850/2013. Não raro, como ocorre na hipótese em análise, relata-se
mais de um fato delituoso em contextos não necessariamente imbricados.
Ponderou que, apesar de a Corte ter decidido, no Inq 4.130 QO/PR (DJE de 3.2.2016), que o juízo
homologador do acordo não é, necessariamente, competente para o processamento de todos os fatos relatados,
existindo, entretanto, entre esses episódios, ao menos um em que se verifique a presença de conexão com
objeto de feito previamente distribuído, faz-se imperiosa a observância da regra prevista no art. 79, caput (1),
do Código de Processo Penal (CPP), a demandar a distribuição por prevenção, nos exatos termos do art. 69,
caput, do RISTF.
Com efeito, verificada a existência de liame de natureza objetiva, subjetiva ou probatória entre o
conteúdo de termos de depoimento prestados pelo colaborador e o objeto de investigação em curso, incumbe à
autoridade judicial responsável pela supervisão do procedimento investigatório, por força da prevenção,
homologar o acordo de colaboração celebrado e adotar, subsequentemente, as providências acerca de cada fato
relatado. Tal conclusão resguarda o jurisdicionado dos efeitos da litispendência e da coisa julgada.
O Colegiado frisou ser o juízo prevento o detentor de condições mais adequadas para analisar os pontos
de contato entre as declarações dos colaboradores e as outras investigações em curso, impondo, se for o caso, a
tramitação conjunta.
Ressaltou que o pano de fundo da controvérsia está na homologação dos acordos de colaboração
premiada celebrados entre integrantes de grupo empresarial e o Ministério Público Federal (MPF). Conforme
requerimento ministerial na Pet 7.003/DF, no momento em que submetidos à homologação judicial, noticiou-
se a existência, entre os termos de depoimento prestados, de fatos envolvendo autoridades com foro por
prerrogativa de função no STF, entre os quais se identificaram procedimentos já distribuídos ao relator com
objetos conexos. Salientou que, embora da narrativa exposta pelo MPF não seja possível constatar a prática de
atos em detrimento da Petrobras S.A. – parâmetro inicialmente utilizado pela Corte para definir os limites da
operação de repercussão nacional (Inq 4.130/PR) e, por conseguinte, a prevenção –, não se verifica qualquer
mácula na distribuição do pedido de homologação dos acordos de colaboração.
Lembrou, ademais, que a jurisprudência da Corte orienta-se no sentido de ser a fixação da competência
de um ministro para relatar causas e recursos um assunto atinente à organização interna do Tribunal e, portanto,
indisponível ao interesse das partes. Cuida-se de ato privativo da Presidência do STF, na qualidade de órgão
supervisor da distribuição, e, como tal, de mero expediente, a atrair a incidência do art. 504 do Código de
Processo Civil.
Quanto ao caso em tela, afirmou que, conforme relatório da decisão proferida na Pet 7.003/DF em
18.5.2017, o colaborador, em seus termos de depoimento, relata, entre outros fatos, o sistema de conta-corrente
que teria como beneficiário ex-parlamentar. Este, por sua vez, atuaria em favor de grupo empresarial em
questões relativas a financiamentos da Caixa Econômica Federal (CEF), especialmente no âmbito do
Fundo de Investimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS). O acordo de colaboração
premiada submetido à homologação do STF, por conter menção a autoridades detentoras de foro por
prerrogativa, demonstra evidente relação de conexidade com o objeto do Inq 4.266, deflagrado para
apurar as condutas supostamente delituosas praticadas pelo então deputado federal em detrimento do FI-FGTS,
administrado pela CEF.
Considerou, ainda, que, embora o aludido inquérito tenha sido baixado ao primeiro grau de jurisdição,
pois o investigado não mais ocupa o cargo que lhe garantia a prerrogativa de foro no STF, o art. 74, § 1º, do
RISTF estabelece que “o inquérito ou a ação penal, que retornar ao Tribunal por restabelecimento da
competência por prerrogativa de foro, será distribuído ao Relator original”. Em outras palavras, caso o
investigado incorra em qualquer das situações jurídicas previstas no art. 102, I, “b” e “c”, da Constituição
Federal (CF), os autos devem retornar ao ministro Fachin, na qualidade de sucessor do ministro Teori Zavascki
no que toca à cadeia de prevenção estabelecida com a distribuição da Rcl 17.623/DF.
Por todas essas razões, o Plenário julgou não se verificar qualquer ilegalidade na distribuição por
prevenção do pedido de homologação do acordo de colaboração premiada em análise, diante da evidente
existência de fatos relatados conexos com investigações em curso sob sua relatoria.

141
Entendeu não se poder falar, ainda, em violação ao princípio do juiz natural no tocante às providências
adotadas na decisão proferida em 18.5.2017, relativamente às pessoas mencionadas nos depoimentos dos
colaboradores e desprovidas de foro por prerrogativa na Suprema Corte. Constatado o envolvimento de alguma
das autoridades elencadas no art. 102, I, “b” e “c”, da CF, cabe ao STF decidir, com exclusividade, sobre a
permanência da investigação ou da ação penal deflagrada em desfavor das demais pessoas não submetidas à
jurisdição criminal originária prevista no citado dispositivo constitucional, adotando-se, como regra, o
desmembramento, salvo nas hipóteses em que a cisão possa causar prejuízo relevante.
Desse modo, tendo em vista que os termos de depoimento prestados pelo colaborador fazem parte de
um mesmo acordo de colaboração premiada, os fatos dos quais não há notícia de participação de autoridade
detentora de foro por prerrogativa no STF, além daqueles em que não se observa qualquer relação de
conexidade com investigações ou ações penais em curso, devem ser encaminhados para tratamento adequado
perante a autoridade jurisdicional competente.
Na hipótese em concreto, tendo em conta que o agravante atualmente ocupa o cargo de governador do
Estado do Mato Grosso do Sul e que os fatos a ele relacionados não se afiguram conexos com quaisquer
investigações ou ações penais em curso no STF, o ministro Fachin autorizou o procurador-geral da República a
utilizar os respectivos termos de depoimento perante o Superior Tribunal de Justiça, órgão do Poder Judiciário
competente, nos termos do art. 105, I, “a”, da CF, para o adequado tratamento dos fatos em observância às
garantias constitucionais aplicáveis.
Por fim, concluiu não haver qualquer mácula no procedimento adotado na Pet 7.003/DF, seja na sua
distribuição por prevenção, seja nas providências deferidas na decisão de 18.5.2017.

(1) CPP: “Art. 79. A conexão e a continência importarão unidade de processo e julgamento, salvo:”
Pet 7074 QO/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 21, 22, 28 e 29.6.2017.
Pet 7074/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 21, 22, 28 e 29.6.2017.
(Informativo 870, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte: 4ª Parte:
5ª Parte: 6ª Parte: 7ª Parte: 1ª Parte: 2ª Parte:
3ª Parte: 4ª Parte: 5ª Parte: 6ª Parte: 7ª Parte:
8ª Parte: 9ª Parte: 10ª Parte:

Prisão Domiciliar

Substituição de prisão preventiva por domiciliar e cuidados maternos


A prisão preventiva poderá ser substituída pela domiciliar quando o agente for mulher com filho de até 12
anos de idade.
Com base nesse entendimento, a Primeira Turma concedeu a ordem de habeas corpus para implementar a
prisão domiciliar da paciente.
A paciente e o marido foram presos em flagrante como incurso no art. 33, caput (1), da Lei 11.343/2006
(Lei de Drogas).
O Colegiado asseverou que não foi observado o art. 318, inciso V (2), do Código de Processo Penal
(CPP), incluído pela Lei 13.257/2016, que versa sobre políticas públicas para a primeira infância. Esse benefício
não foi estendido pela Turma ao cônjuge, que é corréu no processo.

(1) Lei 11.343/2006: “Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda,
oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda
que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: ”.
(2) Código de Processo Penal: “Art. 318. Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente for:
(...)
V - mulher com filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos; ”.
HC 136408/SP, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 5.12.2017.
(Informativo 887, Primeira Turma)

Prisão Preventiva

Reclamação e prisão preventiva


O Plenário negou provimento a agravo regimental em reclamação no qual se discutia a legitimidade da
prisão preventiva do reclamante e, por maioria e de ofício, indeferiu a ordem de “habeas corpus”.

142
No caso, o agravante sustentava que a autoridade reclamada teria violado as decisões proferidas pelo
STF nas Ações Cautelares 4.070/DF (DJE de 21.10.2016) e 4.175/DF (DJE de 19.9.2016). Alternativamente,
requeria a concessão da ordem de habeas corpus de ofício, em vista da ausência de requisitos que justificassem
a decretação da prisão preventiva, o que configuraria flagrante constrangimento ilegal.
O Tribunal afirmou que, ao julgar as referidas ações cautelares, não se manifestou sobre os requisitos da
prisão preventiva, o que impede a utilização da reclamação.
Verificou, também, que o agravante impetrou habeas corpus quando a discussão a respeito dos
requisitos de sua prisão preventiva estavam em análise no STJ. Por essa razão, é prematura a manifestação do
STF sobre o tema antes de esgotadas as instâncias antecedentes.
O cabimento de reclamação deve ser aferido nos estritos limites das normas de regência, que a
concebem para a preservação da competência do STF ou para garantia da autoridade de suas decisões (CF, art.
102, I, “l”). A reclamação não se destina, destarte, a funcionar como sucedâneo recursal nem se presta a atuar
como atalho processual destinado a submeter a mais alta Corte do País, per saltum.
Afinal, é assente na jurisprudência do STF a concepção segundo a qual a competência originária da
Suprema Corte se submete ao regime de direito estrito, não admitindo interpretação extensiva.
A despeito da dicção do art. 654, § 2º, do CPP, segundo o qual “Os juízes e os tribunais têm
competência para expedir de ofício ordem de ‘habeas corpus’, quando no curso de processo verificarem que
alguém sofre ou está na iminência de sofrer coação ilegal”, tal regra não dispensa a observância do quadro de
distribuição constitucional das competências para conhecer do habeas corpus. Vale dizer, somente o órgão
jurisdicional competente para a concessão da ordem a pedido pode conceder o writ de ofício.
Nessa linha, ainda que o STF seja Corte de vértice, a Constituição somente lhe outorgou competência
para habeas corpus “quando o coator for tribunal superior ou quando o coator ou o paciente for autoridade ou
funcionário cujos atos estejam sujeitos diretamente à jurisdição do STF, ou se trate de crime sujeito à mesma
jurisdição em uma única instância”, nos exatos termos do art. 102, I, “i”, da CF, e quando for paciente o
presidente da República, o vice-presidente, os membros do Congresso Nacional, seus próprios ministros, o
procurador-geral da República, os ministros de Estado, os comandantes da Marinha, do Exército e da
Aeronáutica, os membros dos tribunais superiores, do TCU e os chefes de missão diplomática de caráter
permanente, em razão da incidência da regra prevista no art. 102, I, “d”, combinado com o art. 102, I, “b” e “c”,
todos da CF.
Portanto, é necessário que o tema tenha sido submetido às instâncias antecedentes e que se possa
depreender ato coator praticado por tribunal superior, ainda que se tenha por ato coator a omissão em conceder
um habeas corpus de ofício diante de uma ilegalidade cujo conhecimento fosse possível. Vale dizer, a Suprema
Corte pode conceder a ordem de ofício, se verificar que um tribunal superior teve a oportunidade de sanar uma
coação ilegal e não o fez.
Ademais, se houve coação ilegal contra o agravante, essa não seria mais imputável ao juiz de primeiro
grau, autoridade reclamada. O reclamante impetrou habeas corpus perante tribunal regional, que denegou a
ordem. Essa situação que faz da corte regional, caso seja mesmo ilegal a prisão do agravante, a autoridade
coatora. Há, portanto, alteração do título, o que torna sem objeto o pedido de concessão de ordem de ofício.
O STF tem entendido que se torna desnecessária a análise de impetrações quando o estado de liberdade
é alvo de ato jurisdicional superveniente e autônomo, que desafia impugnação própria, em evidente hipótese de
prejudicialidade.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que concedia a ordem de ofício. Pontuava não haver fundamento
idôneo para a manutenção da prisão preventiva. Além disso, frisava que o habeas corpus não sofreria qualquer
peia. O fato de haver outro writ submetido ao crivo do STJ não impediria a apreciação do habeas corpus de
ofício pelo STF, pouco importando que isso implicasse queima de etapa ou supressão de instância.
Rcl 25509 AgR/PR, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 15.2.2017.
(Informativo 854, Plenário)

“Habeas corpus”, competência do STF e soberania dos veredictos do Tribunal do Júri


A Primeira Turma, por maioria, não admitiu a impetração, revogou a liminar anteriormente
deferida em habeas corpus e determinou o restabelecimento da prisão preventiva do paciente.
No caso, ele teve a prisão preventiva decretada em agosto de 2010, acusado de homicídio
qualificado, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver. Em março de 2013, o Tribunal do Júri o
condenou a 22 anos e 3 meses de prisão, em regime fechado, tendo sido mantida a prisão preventiva.
Posteriormente, em julgamento de habeas corpus impetrado no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o
pedido foi denegado em decisão monocrática.

143
O Colegiado afirmou que incide óbice ao conhecimento da ordem impetrada no Supremo Tribunal
Federal (STF), uma vez que se impugna decisão monocrática de ministro do STJ, que determinou a
extinção do habeas corpus [Enunciado 691 da Súmula do STF (1)]. Conforme jurisprudência
consolidada, o exaurimento da instância recorrida é, como regra, pressuposto para ensejar a competência
do STF.
Salientou que, em hipóteses de teratologia (2) ou excepcionalidade (3), autoriza-se a apreciação de
habeas corpus quando não encerrada a análise na instância competente. No presente caso, entretanto, não
se apresenta nenhuma das hipóteses, pois a custódia cautelar foi mantida em sentença condenatória
devidamente fundamentada e em respeito à soberania dos veredictos do Tribunal do Júri, e não há excesso
de prazo atribuível direta e exclusivamente à inércia dos órgãos judiciários.
Ressaltou que, em julgamento recente de caso análogo, foi proclamada a tese de que “a prisão do
réu condenado por decisão do Tribunal do Júri, ainda que sujeita a recurso, não viola o princípio
constitucional da presunção de inocência ou não culpabilidade” (4).
Vencido o ministro Marco Aurélio, que concedia a ordem. Para ele, não seria aplicável o
entendimento firmado no Enunciado 691 da Súmula do STF.

(1) Enunciado 691 da Súmula do STF: “Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de ‘habeas corpus’ impetrado
contra decisão do Relator que, em ‘habeas corpus’ requerido a tribunal superior, indefere a liminar.”
(2) HC 138.414 AgR/RJ (DJE de 20.4.2017).
(3) HC 137.078/SP (DJE de 24.4.2017).
(4) HC 118.770/SP (DJE de 24.4.2017).
HC 139612/MG, rel. Min. Alexandre de Moraes, julgamento em 25.4.2017.
(Informativo 862)

Prisão preventiva e acordo de colaboração premiada


A Segunda Turma concedeu habeas corpus para revogar prisão preventiva decretada em razão de
descumprimento de acordo de colaboração premiada.
A prisão preventiva do paciente foi restabelecida quando prolatada a sentença que o condenou a
dezesseis anos e dois meses de prisão por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e por integrar organização
criminosa, com fundamento no descumprimento dos termos do acordo celebrado.
O Colegiado entendeu não haver relação direta entre a prisão preventiva e o acordo de colaboração
premiada. Por essa razão, o descumprimento do acordado não justifica a decretação de nova custódia cautelar.
Na liminar confirmada pela Turma, foi determinada a substituição da prisão por medidas cautelares
alternativas. Naquela ocasião, observou-se não haver, do ponto de vista jurídico, relação direta entre o acordo
de colaboração premiada e a prisão preventiva. A Lei 12.850/2013 não apresenta a revogação da prisão
preventiva como benefício previsto pela realização de acordo de colaboração premiada. Tampouco há previsão
de que, em decorrência do descumprimento do acordo, seja restabelecida prisão preventiva anteriormente
revogada. Portanto, a celebração de acordo de colaboração premiada não é, por si só, motivo para revogação de
prisão preventiva.
A Turma concluiu no sentido de ser necessário verificar, no caso concreto, a presença dos requisitos da
prisão preventiva, não podendo o decreto prisional ter como fundamento apenas a quebra do acordo.
HC 138207/PR, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 25.4.2017.
(Informativo 862)

Prisão preventiva, risco de reiteração delitiva e presunção de inocência


A Segunda Turma, por maioria, concedeu a ordem em habeas corpus para revogar a prisão
preventiva do paciente e determinar a sua substituição por medida cautelar diversa [Código de Processo
Penal (CPP), art. 319 (1)], a ser estabelecida pelo juízo de origem. Além disso, determinou a extensão da
ordem concedida à prisão decretada em outro processo em que o paciente também é réu (2).
No caso, o paciente foi preso preventivamente em 3.8.2015 em razão de decisão do juízo de primeiro
grau fundada na garantia da ordem pública — em virtude do risco de reiteração delitiva — e da conveniência
da instrução criminal. Sobreveio, em 17.5.2016, sentença condenatória na qual o paciente foi
condenado à pena de vinte anos e dez meses de reclusão pelos crimes de corrupção passiva e
lavagem de dinheiro em contexto de organização criminosa, vedado o direito de recorrer em
liberdade.

144
O Colegiado pontuou que a prisão cautelar é a ultima ratio, e somente pode ser imposta se as outras
medidas cautelares não se mostrarem adequadas ou suficientes para a contenção do periculum libertatis [CPP,
art. 282, § 6º (3)].
Os pressupostos que autorizam uma medida cautelar devem estar presentes não apenas no momento de
sua imposição, como também necessitam se prolongar no tempo, para legitimar sua subsistência.
A constrição cautelar do paciente somente foi decidida e efetivada dez meses após o último pagamento
atribuído a ele — em outubro de 2014 — pelo juízo de origem. Com efeito, ainda que a decisão da autoridade
judiciária tenha-se amparado em elementos concretos de materialidade, os fatos que ensejaram o aventado risco
de reiteração delitiva estão longe de ser contemporâneos do decreto prisional.
Nesse contexto, a Turma entendeu subsistir o periculum libertatis, que pode ser remediado com
medidas cautelares diversas da prisão e menos gravosas, o que repercute significativamente no direito de
liberdade do réu.
Ademais, o princípio da presunção de inocência [Constituição Federal (CF), art. 5º, LVII (4)], como
norma de tratamento, significa que, no curso da persecução penal, o imputado, diante do estado de inocência
que lhe é assegurado, não pode ser tratado como culpado nem ser a ele equiparado. Em sua mais relevante
projeção, o referido princípio implica a vedação de medidas cautelares pessoais automáticas ou obrigatórias. A
prisão provisória derivada meramente da imputação se desveste de sua indeclinável natureza cautelar e perde
seu caráter de excepcionalidade [CF, art. 5º, LXVI (5)] — traduz punição antecipada —, o que viola o devido
processo legal [CF, art. 5º, LIV (6)].
Para o Colegiado, descabe utilizar a prisão preventiva como antecipação de uma pena que não foi
confirmada em segundo grau. Do contrário, seria implementada verdadeira execução provisória em primeiro
grau. Tal medida seria contrária ao entendimento fixado pela Corte no sentido de que a execução provisória de
acórdão penal condenatório proferido em grau de apelação, ainda que sujeito a recurso especial ou
extraordinário, não compromete o princípio constitucional da presunção de inocência (7).
Vencidos os ministros Edson Fachin (relator) e Celso de Mello, que denegaram a ordem. Para eles, a
complexidade dos fatos apurados permite o alongamento do trâmite sem que isso configure constrangimento
ilegal. Ademais, pontuaram que, diante da pluralidade de condutas atribuídas ao paciente e da gravidade
concreta dessas infrações penais, o receio de reiteração delitiva que ensejou a manutenção da prisão preventiva
estaria fundado em base empírica idônea.

(1) CPP/1941: “Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I – comparecimento periódico em juízo, no prazo e
nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II – proibição de acesso ou frequência a determinados lugares
quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de
novas infrações; III – proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o
indiciado ou acusado dela permanecer distante; IV – proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente
ou necessária para a investigação ou instrução; V – recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o
investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos; VI – suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza
econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; VII – internação provisória
do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou
semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII – fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o
comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial;
IX – monitoração eletrônica”.
(2) Ação Penal 5030883-80.2016.4.04.7000/PR.
(3) CPP: “Art. 282. As medidas cautelares previstas neste Título deverão ser aplicadas observando-se a: I – necessidade
para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a prática de
infrações penais; II – adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou
acusado. (...) § 6º A prisão preventiva será determinada quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar”.
(4) CF/1988: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: (...) LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;”
(5) CF/1988: “Art. 5º (...) LXVI – ninguém será levado à prisão ou nela mantido, quando a lei admitir a liberdade
provisória, com ou sem fiança;”
(6) CF/1988: “Art. 5º (...) LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;”
(7) HC 126.292/SP (DJE de 17.5.2016).
HC 137728/PR, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Dias Toffoli, julgamento em
2.5.2017.
(Informativo 863, 2ª Turma)

Súmula 691/STF e supressão de instância


A Segunda Turma, por maioria, não conheceu de pedido de habeas corpus em que se pretendia
revogar a prisão preventiva do paciente acusado da prática dos delitos de lavagem de dinheiro e
participação em organização criminosa.

145
No caso, o writ foi impetrado contra decisão monocrática de ministro do Superior Tribunal de
Justiça (STJ) na qual se indeferiu liminar requerida nos autos de recurso ordinário em habeas corpus em
trâmite no STJ.
A Turma entendeu ser o caso de aplicação do Enunciado da Súmula 691 (1) do STF. Ressaltou que
o enunciado somente pode ser superado quando houver teratologia, flagrante ilegalidade ou abuso de
poder que possam ser constatados ictu oculi, o que não se verifica na espécie.
Salientou que a análise de alegado constrangimento ilegal se confunde com o próprio mérito da
impetração, que depende do exame pormenorizado dos autos em juízo de cognição exauriente. Tal análise
deve ocorrer após a devida instrução do feito, inclusive com a manifestação do Ministério Público
Federal. Pontuou que avançar neste momento processual levaria à vedada supressão de instância e ao
extravasamento dos limites de competência do STF.
Vencidos os ministros Gilmar Mendes (relator) e Dias Toffoli, que concederam a ordem para
revogar a prisão preventiva decretada em desfavor do paciente e determinar que o juízo analise a
necessidade de aplicação das medidas cautelares previstas no art. 319 (2) do Código de Processo Penal
(CPP), acompanhando sua execução.
Ambos entenderam que o perigo representado pela liberdade do paciente à ordem pública ou à
instrução criminal poderia ser mitigado por medidas cautelares menos gravosas do que a prisão.
Ressaltaram que, na linha do que a Turma decidiu em processo similar (3), a prisão deve ser
reavaliada, conforme a evolução das circunstâncias do caso. Nesse contexto, consideraram relevante, em
favor do paciente, o fato de seus crimes estarem ligados à atuação de grupo político atualmente afastado
da gestão pública, bem como de ele haver-se desligado do escritório de advocacia do qual era sócio e em
cuja sede o citado grupo político atuava.

(1) Súmula 691/STF: “Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de ‘habeas corpus’ impetrado contra decisão
do Relator que, em ‘habeas corpus’ requerido a tribunal superior, indefere a liminar”.
(2) Código de Processo Penal/1941: “Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I – comparecimento periódico
em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II – proibição de acesso ou frequência a
determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses
locais para evitar o risco de novas infrações; III – proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias
relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante; IV – proibição de ausentar-se da Comarca quando a
permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução; V – recolhimento domiciliar no período noturno e nos
dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos; VI – suspensão do exercício de função pública ou
de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais;
VII – internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos
concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII – fiança, nas infrações
que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência
injustificada à ordem judicial; IX – monitoração eletrônica”.
(3) HC 127.186/PR, DJE de 3.8.2015.
HC 143476/RJ, rel. orig. Min. Gilmar Mendes, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski,
julgamento em 6.6.2017.
(Informativo 868, 2ª Turma)

Prisão preventiva e excesso de prazo


A Segunda Turma, por unanimidade, concedeu ordem em habeas corpus para revogar prisão
preventiva dos pacientes em razão do excessivo prazo de duração da prisão. Além disso, determinou que
o Superior Tribunal de Justiça julgue recurso especial (1) referente a esse caso no prazo máximo de dez
sessões (entre ordinárias e extraordinárias), contado da comunicação da decisão.
Na espécie, a prisão cautelar prolongou-se por mais de sete anos. Os pacientes, embora
pronunciados, sequer foram submetidos a julgamento perante o Tribunal do Júri.
A Turma afirmou que nada justifica a permanência de uma pessoa na prisão, sem culpa formada,
quando configurado excesso irrazoável no tempo de sua segregação cautelar. Ressaltou que, em nosso
sistema jurídico, a prisão meramente processual do indiciado ou do réu reveste-se de caráter excepcional,
mesmo que se trate de crime hediondo ou de delito a este equiparado.
Pontuou que o excesso de prazo, quando exclusivamente imputável ao aparelho judiciário – não
derivando, portanto, de qualquer fato procrastinatório causalmente atribuível ao réu –, traduz situação
anômala que compromete a efetividade do processo. Além de tornar evidente o desprezo estatal pela
liberdade do cidadão, frustra uma prerrogativa básica que assiste a qualquer pessoa: o direito à resolução
do litígio sem dilações indevidas [Constituição Federal, art. 5º, LXXVIII (2)].

146
Ademais, salientou que a duração prolongada, abusiva e irrazoável da prisão cautelar ofende, de
modo frontal, o postulado da dignidade da pessoa humana, que representa significativo vetor
interpretativo, verdadeiro valor-fonte que conforma e inspira todo o ordenamento constitucional.

(1) REsp 1.540.240/RS.


(2) Constituição Federal/1988: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: (...) LXXVIII – a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração
do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”.
HC 142177/RS, rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 6.6.2017.
(Informativo 868, 2ª Turma)

Prisão preventiva e destruição de provas


A Primeira Turma, por maioria, deu parcial provimento a agravos regimentais em que se discutiu a
revogação de prisão preventiva de acusados do cometimento dos delitos de corrupção passiva, lavagem de
dinheiro, constituição e participação em organização criminosa e obstrução à investigação de organização
criminosa.
De acordo com a decisão agravada, senador da república, com o auxílio de sua irmã, de seu primo
e de assessor de outro senador, supostamente recebeu dinheiro espúrio. Segundo a deliberação, há
indicativos da prática de lavagem dos valores e estabilidade na associação dos investigados para a
realização de atividades delituosas múltiplas.
Prevaleceu o voto do ministro Luiz Fux, que deu provimento ao agravo para substituir a prisão
preventiva dos agravantes por prisão domiciliar. O ministro também determinou que se proibisse o
contato dos investigados entre si, que se exigisse a entrega dos seus passaportes e se monitorassem
eletronicamente todos eles.
Ainda segundo o ministro, é possível que a atuação livre dos partícipes possa influir na instrução
probatória futura. Porém, isso não foi objeto da decretação de prisão.
Verificou, além disso, não haver elementos caracterizadores da destruição das provas no tocante ao
delito de corrupção e ressaltou existirem indícios para julgar a ação penal quanto a esse delito. Afirmou
que os crimes conexos são julgados simultaneamente, mas não há ainda denúncia oferecida. Concluiu que
as medidas propostas são explícitas no sentido de inibir toda e qualquer forma de intromissão na produção
da prova dos demais delitos.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que deu provimento aos agravos para que houvesse a
imediata expedição de alvará de soltura em favor dos agravantes. Além disso, seria impróprio considerar
a gravidade concreta da imputação. Não existe a segregação automática tendo em conta o delito
eventualmente cometido, levando à inversão da ordem do processo-crime, que direciona, presente o
princípio da não culpabilidade, a apurar para, selada a culpa, prender. Em relação à reiteração delitiva e
ao embaralhamento da investigação, é necessário haver dados concretos e individualizados, a demonstrar
a indispensabilidade da custódia para a decretação da prisão preventiva.
Vencidos, também, os ministros Roberto Barroso e Rosa Weber, que negaram provimento aos
agravos. Para eles, a decisão em que se decretou a prisão preventiva dos agravantes está devidamente
fundamentada. Reputaram não haver dúvidas quanto à autoria e à materialidade. Por fim, esclareceram
que a decisão agravada demonstrou a habitualidade delituosa dos agravantes e a possibilidade de virem a
embaralhar a justiça.
AC 4327 AgR/DF-segundo, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento
em 20.6.2017.
AC 4327 AgR/DF-quarto, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento
em 20.6.2017.
AC 4327 AgR/DF-sexto, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luiz Fux, julgamento em
20.6.2017.
(Informativo 870, 1ª Turma)

Excesso de prazo no julgamento de ação penal


A segunda Turma deferiu a ordem em habeas corpus para determinar a soltura do paciente, ante o
excesso de prazo da prisão cautelar a ele imposta.
No caso, ele foi preso preventivamente pela suposta prática de delitos previstos na Lei
11.343/2006 (Lei de Drogas).

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O impetrante alegou excesso de prazo na conclusão da instrução, sem contribuição da defesa para
tanto.
A Turma declarou que houve flagrante excesso de prazo na segregação cautelar que se decretou,
porquanto já se passaram mais de quatro anos desde a prisão preventiva do paciente, sem haver, sequer,
audiência de interrogatório. Asseverou evidente o retardamento injustificado no julgamento da ação
penal, configurando, nesse caso, hipótese de situação anômala capaz de comprometer a efetividade do
processo.
HC 141583/RN, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 19.9.2017.
(Informativo 878, Segunda Turma)

Provas

Desarquivamento de inquérito e excludente de ilicitude


O arquivamento de inquérito policial por excludente de ilicitude realizado com base em
provas fraudadas não faz coisa julgada material.
Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, denegou a ordem de habeas corpus.
No caso, após o arquivamento do inquérito, o Ministério Público reinquiriu testemunhas e
concluiu que as declarações prestadas naquele inquérito teriam sido alteradas por autoridade policial.
Diante dessas novas provas, o Parquet ofereceu denúncia contra os pacientes — v. Informativos 446,
512 e 597.
O Tribunal entendeu possível a reabertura das investigações, nos termos do art. 18 do CPP
(1), ante os novos elementos de convicção colhidos pelo Ministério Público.
Asseverou que o arquivamento do inquérito não faz coisa julgada, desde que não tenha sido
por atipicidade do fato ou por preclusão.
Vencidos os ministros Marco Aurélio, Joaquim Barbosa e Cezar Peluso, que deferiam a
ordem. Frisavam que o arquivamento com base em excludente de ilicitude faz coisa julgada ma terial,
o que impediria o desarquivamento do inquérito policial, mesmo com novas provas.

(1) CPP, art. 18: “Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta de base para a
denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver notícia”.
HC 87395/PR, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgamento em 23.3.2017.
(Informativo 858, Plenário)

Crime achado e justa causa


A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, por maioria, indeferiu ordem de habeas corpus
em que se discutia a ilicitude de provas colhidas mediante interceptação telefônica durante investigação
voltada a apurar delito de tráfico internacional de drogas.
No caso, o juízo de origem determinou a prisão preventiva do paciente em razão da suposta prática
de homicídio qualificado. O impetrante sustentou a ilicitude das provas colhidas, a inépcia da denúncia e
a falta de justa causa para o prosseguimento da ação penal.
O Colegiado afirmou que a hipótese dos autos é de crime achado, ou seja, infração penal
desconhecida e não investigada até o momento em que se descobre o delito. A interceptação telefônica,
apesar de investigar tráfico de drogas, acabou por revelar crime de homicídio. Assentou que, presentes os
requisitos constitucionais e legais, a prova deve ser considerada lícita. Ressaltou, ainda, que a
interceptação telefônica foi autorizada pela justiça, o crime é apenado com reclusão e inexistiu o desvio
de finalidade.
No que se refere à justa causa, considerou presente o trinômio que a caracteriza: tipicidade,
punibilidade e viabilidade. A tipicidade é observada em razão de a conduta ser típica. A punibilidade, em
face da ausência de prescrição. E a viabilidade, ante a materialidade, comprovada com o evento morte, e a
autoria, que deve ser apreciada pelo tribunal do júri.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que deferiu a ordem. Pontuou não haver justa causa e reputou
deficiente a denúncia ante a narração do que seria a participação do paciente no crime.
HC 129678/SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
13.6.2017.
(Informativo 869, 1ª Turma)

148
Quebra de sigilo bancário de contas públicas e requisição pelo Ministério Público
A Segunda Turma, em conclusão, negou provimento a recurso ordinário em habeas corpus em que
se pretendia trancar ação penal instaurada para apurar crimes de desvio de verbas públicas, lavagem de
dinheiro e fraudes em licitações. Argumentou-se que as provas seriam ilícitas, pois teriam sido colhidas
por meio de quebra de sigilo bancário solicitada por ofício encaminhado pelo Ministério Público (MP),
sem autorização judicial, a gerente de instituição financeira. O Tribunal de origem entendeu que as contas
públicas, por força dos princípios da publicidade e da moralidade [CF, art. 37 (1)], não têm, em geral,
direito à intimidade e à privacidade. Por conseguinte, não são abrangidas pelo sigilo bancário. A defesa
alegou que não estaria em discussão a publicidade inerente às contas públicas, conforme consignado no
acórdão recorrido, mas sim a violação ao direito fundamental à intimidade da pessoa humana. Sustentou
que a ação penal movida contra os recorrentes estaria edificada em provas obtidas por meio inidôneo, pois
a autorização judicial é indispensável para a quebra de sigilo bancário (Informativo 844).
O Colegiado asseverou que o sigilo de informações necessário à preservação da intimidade é
relativizado quando há interesse da sociedade em conhecer o destino dos recursos públicos.
Diante da existência de indícios da prática de ilícitos penais envolvendo verbas públicas, cabe ao
MP, no exercício de seus poderes investigatórios [CF, art. 129, VIII (2)], requisitar os registros de
operações financeiras relativos aos recursos movimentados a partir de conta-corrente de titularidade da
prefeitura municipal. Essa requisição compreende, por extensão, o acesso aos registros das operações
bancárias sucessivas, ainda que realizadas por particulares, e objetiva garantir o acesso ao real destino
desses recursos públicos.
Decidir em sentido contrário implicaria o esvaziamento da própria finalidade do princípio da
publicidade, que é permitir o controle da atuação do administrador público e do emprego de verbas
públicas.

(1) Constituição Federal/1988: “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência e, também, ao seguinte:”.
(2) Constituição Federal/1988: “Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: (...) VIII - requisitar diligências
investigatórias e a instauração de inquérito policial, indicados os fundamentos jurídicos de suas manifestações processuais;”.
RHC 133118/CE, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 26.9.2017.
(Informativo 879, Segunda Turma)

Requisito de Admissibilidade Recursal

Interposição de recurso via “e-mail”


A Primeira Turma denegou habeas corpus em que se discutia a possibilidade de manejo de
peça recursal exclusivamente por meio de correio eletrônico.
No caso, foi inadmitido recurso especial em razão da intempestividade, por impossibilida de
de apresentação da peça via e-mail.
O Colegiado consignou que a Lei 9.800/1999, ao permitir que as partes utilizem o sistema de
transmissão de dados e imagens do tipo fac-símile ou outro semelhante para a prática de atos
processuais que dependam de petição escrita, não autoriza a adoção do e-mail.
Ressaltou, ainda, que a excepcionalidade prevista na lei à interposição direta de recurso não
dispensa a apresentação subsequente do documento original.
HC 121225/MG, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 14.3.2017.
(Informativo 857, 1ª Turma)

Sentença Absolutória

Falsidade ideológica e ausência de dolo


A Primeira Turma, por unanimidade, com base no art. 386, III (1), do Código de Processo Penal (CPP),
absolveu deputado federal acusado de suposta prática do crime de falsidade ideológica, previsto no art. 299 do
Código Penal.
.

No caso, o parlamentar, então prefeito, e o presidente, à época, do Instituto de Previdência, Aposentadoria


e Pensões dos Servidores Municipais, elaboraram, assinaram e apresentaram ao Ministério da Previdência Social
(MPAS) comprovantes de Repasse e Recolhimento ao Regime Próprio de Previdência Social contendo
informações falsas. Os documentos atestavam o recolhimento integral da parcela patronal referente a alguns
meses, quando, na verdade, teria havido recolhimento a menor das respectivas contribuições sociais. Tais dados

149
teriam possibilitado a obtenção, no MPAS, de diversos Certificados de Regularidade Previdenciária emitidos em
favor do Município e, consequentemente, a transferência voluntária de recursos da União.
A Turma entendeu que, ausente o dolo, elemento subjetivo do tipo penal, o fato praticado não é típico.
Consequentemente, não constitui infração penal.
Considerou que a materialidade e a prática da conduta estão comprovadas pela assinatura do denunciado
em documentos com informações falsas. No entanto, as provas produzidas não evidenciam que ele tivesse ciência
inequívoca do conteúdo inverídico dos documentos que havia assinado na condição de prefeito, tampouco que o
tenha feito com o objetivo de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade de fato juridicamente
relevante.
(1) CPP/1941: “Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: (...) III – não constituir
o fato infração penal”.
AP 931/AL, rel. Min. Roberto Barroso, julgamento em 6.6.2017.
(Informativo 868, 1ª Turma)

Suspeição

Suspeição e inimizade capital


O Plenário negou provimento a agravo regimental em sede de arguição de suspeição promovida
pelo presidente da República em face do procurador-geral da República.
No caso, a defesa requereu a declaração de suspeição procurador-geral alegando que ele estaria
extrapolando seus limites constitucionais e legais inerentes ao cargo e adotando obsessiva conduta
persecutória contra o Presidente da República, cuja motivação seria de ordem pessoal. O ministro Edson
Fachin (relator) rejeitou a arguição em decisão monocrática. Contra essa decisão, a defesa interpôs agravo
regimental insistindo na existência de inimizade capital entre as partes.
O Colegiado aduziu que, de acordo com a análise conjunta das manifestações públicas feitas pelo
procurador-geral com os esclarecimentos por ele prestados, não é possível reconhecer inimizade capital.
Asseverou que a emissão de opinião por parte do chefe do Ministério Público da União, por si só,
não se qualifica como hipótese de inimizade capital. Mais que isso, a explicitação das ações
desencadeadas pelo Ministério Público afigura-se conduta potencialmente consentânea com a
transparência que deve caracterizar o agir republicano.
Além disso, ressaltou que o fato de o procurador-geral supostamente não ter informado quais fatos
respaldariam eventual acusação por obstrução de Justiça igualmente não traduz inimizade capital, visto
que a denúncia sempre deverá observar os requisitos do art. 41 (1) do Código de Processo Penal (CPP),
bem como submeter-se aos filtros jurídicos e políticos próprios da imputação de crimes ao presidente da
República.
Em seguida, a Corte afirmou que o requerimento do procurador-geral para que o acesso aos autos
do inquérito fosse restringido apenas ao delegado que já estava trabalhando na investigação não se traduz
em interferência ministerial na Polícia Federal. Independentemente do acerto ou desacerto desse
requerimento, tal proceder, por meio do qual se almejava resguardar a apuração, não indica inimizade
capital entre o membro do Ministério Público e qualquer das partes.
Por fim, apontou que a alegação no sentido de que membro do Ministério Público diverso do
arguido informou a advogado (e não à parte) funcionamentos do instituto da colaboração premiada não
consubstancia a realidade normativa que legitimaria o reconhecimento de causa de suspeição.
Primeiramente porque tal alegação decorre exclusivamente de informe jornalístico sem corroboração
mínima, sendo que, sob a sistemática do CPP, a arguição dessa natureza desafia maior robustez.
Não bastasse isso, o Tribunal ponderou que não há como presumir o conhecimento do arguido
acerca dessa cogitada circunstância. Explicou que as causas de impedimento e suspeição são sempre
pessoais, no sentido de que não é possível acolher a alegação de que eventual esclarecimento prestado por
um procurador da República contaminaria, automaticamente, a higidez da atuação do procurador-geral da
República. Asseverou que, nesse contexto, não há como potencializar a suposta subordinação entre o
referido procurador e o procurador-geral da República.
(1) CPP: “Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a
qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol
das testemunhas”.
AS 89/DF, rel. Min. Edson Fachin, julgamento em 13.9.2017.
(Informativo 877, Plenário)

150
Tramitação em Tribunais

Habeas corpus e julgamento monocrático em tribunais


A Primeira Turma deferiu a ordem de habeas corpus para determinar ao STJ a análise, por órgão
colegiado, do tema de fundo de habeas corpus lá impetrado.
No caso, o relator do processo no STJ, em decisão monocrática, não conheceu do pedido por considerar
que a impetração foi utilizada como substitutiva de recurso ordinário.
A impetrante sustentava a inconstitucionalidade do art. 34, XVIII, do Regimento Interno do STJ. Tal
dispositivo possibilita ao relator, monocraticamente, negar seguimento aos pedidos ou recursos evidentemente
intempestivos, incabíveis, improcedentes, contrários a súmula, ou quando o Tribunal for manifestamente
incompetente para apreciar o pleito formulado.
A Turma asseverou que reiterados pronunciamentos do STF são no sentido de incumbir não ao relator no
âmbito do STJ, mas a este último, como colegiado, julgar o habeas corpus.
Ressaltou, ainda, que a situação está a merecer a glosa, sob pena de os 27 Tribunais de Justiça e os 5
Tribunais Regionais Federais virem a proceder de idêntica forma, esvaziando o sentido da impetração.
HC 120496/MS, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 14.3.2017.
(Informativo 857, 1ª Turma)

151
DIREITO DO TRABALHO
FGTS

FGTS e prescrição trintenária


O Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, negou provimento a recurso
extraordinário interposto em face de decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que havia
considerado ser de trinta anos o prazo para exigir judicialmente dos empregadores e tomadores de
serviços o depósito de valores relativos ao FGTS, ainda que depois da Constituição em vigor — v.
Informativo 634.
O Colegiado declarou, ainda, a inconstitucionalidade do art. 23, § 5º, da Lei 8.036/1990 e do
art. 55 do Decreto 99.684/1990, com eficácia ex nunc, de modo a alcançar apenas os processos
ajuizados posteriormente à data deste julgamento (Lei 9.868/1999, art. 27).
Destacou que o tema, quanto ao prazo prescricional, deveria ser revisto à luz da ordem
constitucional vigente, com o exame das consequências da constitucionalização do instituto levado a
efeito apenas com a promulgação da nova Carta. Nesse contexto, observou que o art. 7º, XXIX, da
CF contém determinação expressa acerca do prazo de prescrição referente à propositura de ações
atinentes a “créditos resultantes das relações de trabalho”.
Apontou que a aplicabilidade daquele dispositivo constitucional à cobrança judicial dos valores
devidos ao FGTS foi reconhecida pelo TST, ao editar o Enunciado 3621.
No entanto, frisou que o entendimento da Corte trabalhista de ser aplicável apenas parte do
dispositivo constitucional é, além de contraditório, dissonante do postulado hermenêutico da máxima
eficácia das normas constitucionais. Sinalizou que o prazo deve ser o de cinco anos, previsto no
inciso XXIX do art. 7º da CF. Em seguida, ponderou que, por mais de vinte anos, tanto o STF quanto
o TST mantiveram posicionamento de que o prazo prescricional do FGTS é de trinta anos.
Aludiu à possibilidade de se modularem os efeitos em sede de controle incidental. Por fim,
assinalou que, no caso, o princípio da segurança jurídica recomendaria fosse mitigado o princí pio da
nulidade da lei inconstitucional, com a consequente modulação de efeitos da decisão. Assim, seria
possível resguardar as legítimas expectativas dos trabalhadores brasileiros, que se pautavam em
manifestações, até então inequívocas, do tribunal competente para dizer a última palavra sobre a
interpretação da Constituição e da corte responsável pela uniformização da legislação trabalhista.
Ressaltou que essa tese foi acolhida pelo Plenário do STF no julgamento do ARE 709.212/DF
(DJE de 18.2.2015) efetuado sob a sistemática da repercussão geral. Na ocasião, os efeitos da
declaração de inconstitucionalidade foram modulados, de modo que a nova orientação
jurisprudencial valeria apenas para as ações propostas a partir da data daquele julgamento.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que dava provimento ao recurso. Afirmava que, observado
o biênio, seria possível pleitear, na inicial da reclamação trabalhista, as parcelas dos últimos cinco
anos.

(1) Enunciado 362/TST: “É trintenária a prescrição do direito de reclamar contra o não recolhimento da contribuição
para o FGTS, observado o prazo de 2 (dois) anos após o término do contrato de trabalho”.
RE 522897/RN, rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 16.3.2017.
(Informativo 857, Plenário)

152
DIREITO TRIBUTÁRIO
Contribuição Previdenciária

Contribuição previdenciária e exercentes de mandato eletivo


Incide contribuição previdenciária sobre os rendimentos pagos aos exercentes de mandato eletivo,
decorrentes da prestação de serviços à União, aos Estados e ao Distrito Federal ou aos Municípios, após o
advento da Lei 10.887/2004, desde que não vinculados a regime próprio de previdência.
Com base nessa orientação, o Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Tema 691 da repercussão
geral, por unanimidade, negou provimento a recurso extraordinário em que se discutiu a submissão dos
entes federativos ao pagamento de contribuição previdenciária patronal incidente sobre a remuneração
dos agentes políticos não vinculados a regime próprio de previdência social, após o advento da Lei
10.887/2004, na forma do art. 22, I, da Lei 8.212/1991 (1).
A Corte entendeu que a Emenda Constitucional 20/1998 passou a determinar a incidência da
contribuição sobre qualquer segurado obrigatório da previdência social, art. 195, I, “a” e II (2) e no art.
40, §13 (3), ambos da Constituição Federal, que submeteu todos os ocupantes de cargos temporários ao
regime geral de previdência, o que alcança os exercentes de mandato eletivo.

(1) Lei 8.212/1991: “Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art.
23, é de: I - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos
segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua
forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer
pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do
contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa”.
(2) CF/1988: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da
lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes
contribuições sociais: I - do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: a) a folha de
salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem
vínculo empregatício; (...) II - do trabalhador e dos demais segurados da previdência social, não incidindo contribuição sobre
aposentadoria e pensão concedidas pelo regime geral de previdência social de que trata o art. 201”.
(3) CF/1988: “Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de caráter contributivo e solidário, mediante
contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o
equilíbrio financeiro e atuarial e o disposto neste artigo. (...)§ 13 - Ao servidor ocupante, exclusivamente, de cargo em comissão
declarado em lei de livre nomeação e exoneração bem como de outro cargo temporário ou de emprego público, aplica-se o regime
geral de previdência social”.
RE 626837/GO, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 25.5.2017.
(Informativo 866, Plenário, Repercussão Geral)

Contribuições Sociais

Incidência do ICMS na base de cálculo da contribuição para o PIS e da COFINS


O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) não compõe a base de cálculo
para a incidência da contribuição para o PIS e da COFINS. Com essa orientação, o Tribunal, por
maioria, deu provimento a recurso extraordinário no qual se discutia a possibilidade de inclusão do
montante do ICMS gerado na circulação de mercadoria ou prestação de serviço no conceito de
faturamento para fins de incidência da contribuição para o PIS e da COFINS — v. Informativo 856.
Prevaleceu o voto da ministra Cármen Lúcia (Presidente e relatora). Consignou que a inclusão
do ICMS na base de cálculo das referidas contribuições sociais leva ao inaceitável entendimento de
que os sujeitos passivos desses tributos faturariam ICMS, o que não ocorre. Assim, enquanto o
montante de ICMS circula por suas contabilidades, os sujeitos passivos das contribuições apenas
obtêm ingresso de caixa de valores que não lhes pertencem. Em outras palavras, o montante de
ICMS, nessas situações, não se incorpora ao patrimônio dos sujeitos passivos das contribuições, até
porque tais valores são destinados aos cofres públicos dos Estados-Membros ou do Distrito Federal.
Ponderou, igualmente, que a parcela correspondente ao ICMS pago não tem natureza de
faturamento (nem mesmo de receita), mas de simples ingresso de caixa. Por essa razão, não pode
compor a base de cálculo da contribuição para o PIS ou da COFINS.
Asseverou que tanto a análise jurídica quanto a contábil do ICMS — ambas pautadas em sua
não cumulatividade, principal característica desse tributo — revelam não ser possível incluir o ICMS
na base de cálculo da contribuição para o PIS e da COFINS, nem também excluí -lo totalmente. Isso
porque, enquanto parte do montante do ICMS é entregue diretamente ao Estado, parte dele mantém -

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se no patrimônio do contribuinte até a realização de nova operação. A análise jurídica do princípio
da não cumulatividade aplicado ao ICMS, entretanto, leva em consideração apenas o conteúdo
normativo do art. 155, § 2º, I, da CF1.
Sobre esse aspecto, também com fundamento na doutrina, pontuou que a Constituição, no
tocante à compensação, consagrou a ideia de que a quantia a ser desembolsada pelo contribuinte a
título de ICMS é o resultado de uma subtração em que o minuendo é o montante de imposto devido e
o subtraendo é o montante de imposto anteriormente cobrado ou cobrável. O realizador da operação
ou prestação tem o direito constitucional subjetivo de abater do montante do ICMS a recolher os
valores cobrados, a esse título, nas operações ou prestações anteriores. O contribuinte, se for o caso,
apenas recolhe aos cofres públicos a diferença resultante dessa operação matemática.
Assim, nem todo montante de ICMS é recolhido pelos contribuintes posicionados no meio da
cadeia (distribuidor e comerciante), ou seja, parte do valor do ICMS destacado na fatura é
aproveitada pelo contribuinte para compensar com o montante do imposto gerado na operação
anterior. Em algum momento, ainda que não exatamente o mesmo, ele será recolhido e, por isso, não
constitui receita do contribuinte. Logo, ainda que contabilmente escriturado, não guarda expressa
definição constitucional de faturamento para fins de apuração da base de cálculo da contribuição
para o PIS e da COFINS, pois o valor do ICMS tem como destino fiscal a Fazenda Pública.
Ademais, por ser inviável a apuração do ICMS, considerando-se cada mercadoria ou serviço e
a correspondente cadeia, adota-se o sistema de apuração contábil ou escritural do imposto. Nesse
sentido, o montante de ICMS a recolher é apurado mês a mês, com base no total de créditos
decorrentes de aquisições e no total de débitos gerados nas saídas de mercadorias ou serviços. Em
suma, o princípio da não cumulatividade operacionaliza-se por meio da compensação entre débitos e
créditos na escrituração fiscal.
Para a relatora, o regime da não cumulatividade impõe concluir que, embora se tenha a
escrituração da parcela do ICMS ainda a se compensar, o montante integral não se inclui na
definição de faturamento adotada pelo Supremo Tribunal Federal, motivo por que ele não pode
compor a base de cálculo da contribuição para o PIS e da COFINS.
Enfatizou que, embora o ICMS incida sobre todo o valor da operação, o regime de
compensação importa na possibilidade de, em algum momento da cadeia de operações, haver saldo a
pagar do tributo, se a venda for realizada em montante superior ao da aquisição e na medida desse
aumento do valor. Em outras palavras, o valor do ICMS é indeterminável até se efetivar a operação
subsequente. Afasta-se, pois, da composição do custo e deve, por conseguinte, ser excluído da base
de cálculo das mencionadas contribuições.
Por fim, verificou que o recolhimento do ICMS na condição de substituto tributário (Lei
9.718/1998, art. 3º, § 2º, I, in fine) importa transferência integral às Fazendas Públicas estaduais do
montante recolhido, sem a necessidade de compensação e, portanto, de identificação de saldo a
pagar, pois não há recolhimentos posteriores pelos demais contribuintes substituídos.
Se a norma exclui o ICMS transferido integralmente para os Estados-Membros da base de
cálculo das mencionadas contribuições sociais, também deve ser excluída a transferência parcial
decorrente do regime de não cumulatividade.
Vencidos os ministros Edson Fachin, Roberto Barroso, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, que
negavam provimento ao recurso.

(1) CF, art. 155, § 2º, I: “Art. 155...§ 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: I – será não cumulativo,
compensando-se o que for devido em cada operação relativa à circulação de mercadorias ou prestação de serviços com o montante
cobrado nas anteriores pelo mesmo ou outro Estado ou pelo Distrito Federal”.
RE 574706/PR, rel. Min. Cármen Lúcia, julgamento em 15.3.2017.
(Informativo 857, Plenário, Repercussão Geral) 1ª Parte: 2ª Parte:
3ª Parte: 4ª Parte:

Contribuição social do empregador rural sobre a receita da comercialização da produção


É constitucional formal e materialmente a contribuição social do empregador rural pessoa
física, instituída pela Lei 10.256/2001, incidente sobre a receita bruta obtida com a comercialização
de sua produção.
Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, deu provimento a recurso
extraordinário em que se discutia a constitucionalidade do art. 25 da Lei 8.212/1991, com a redação
dada pelo art. 1º da Lei 10.256/2001, que reintroduziu, após a Emenda Constit ucional 20/1998, a

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contribuição a ser recolhida pelo empregador rural pessoa física sobre a receita bruta proveniente da
comercialização de sua produção, mantendo a alíquota e a base de cálculo instituídas por leis
ordinárias declaradas inconstitucionais em controle difuso pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O Colegiado observou que a Lei 9.528/1997 incluiu no caput do art. 25 da Lei 8.212/1991 a
contribuição do empregador rural pessoa física, cuja base de cálculo é a receita bruta proveniente da
comercialização da produção. Como a receita bruta não figurava no elenco do art. 195, I, da
Constituição Federal (CF) como uma base de cálculo possível para a incidência de contribuições
sociais, o STF, em dois precedentes, concluiu pela inconstitucionalidade do e mprego dessa base de
cálculo, a qual somente poderia ser instituída por lei complementar, nos termos do art. 195, § 4º, da
CF.
Entretanto, com a Emenda Constitucional 20/1998, que incluiu a receita ao lado do
faturamento como uma materialidade passível de ser tributada para fins de financiamento da
seguridade social (CF, art. 195, I), passou a ser possível a instituição de contribuição patronal do
empregador rural pessoa física com base na receita bruta proveniente da comercialização da
produção. Assim, a Lei 10.256/2001 reincluiu a figura do empregador rural pessoa física na
disciplina já existente e em vigor para o segurado especial — produtor rural que não tem
empregados.
A Corte ressaltou que a norma impugnada, ao incluir um novo sujeito passivo no dis positivo
de uma lei que já existia e já definia claramente os elementos do fato gerador, a base de cálculo e a
alíquota, violou o princípio da legalidade.
Ademais, ao dar tratamento diferenciado para o produtor rural, o empregador rural pessoa
física e o empregador urbano pessoa física, a lei em questão não ofendeu o princípio da isonomia,
pois, se assim fosse, em nenhuma hipótese seria possível desonerar a folha de salários como política
tributária.
Vencidos os ministros Edson Fachin (relator), Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Marco
Aurélio e Celso de Mello, que negavam provimento ao recurso.
Pontuavam que o art. 1º da Lei 10.256/2001, ao recolocar o empregador rural pessoa física na
condição de contribuinte do tributo, sem dispor expressamente sobre os demais elementos da regra-
matriz de incidência tributária, de modo a aproveitar do binômio base de cálculo/fato gerador e da
alíquota já prevista para a figura do segurado especial, teria vulnerado a CF.
Não seria possível conceber técnica legislativa que permitisse o aproveitamento das alíquotas
e bases de cálculo de contribuição social com inconstitucionalidade reconhecida pelo STF.
Consignavam que a Emenda Constitucional 20/1998 em nada teria alterado essa conclusão,
pois inviável reputar a validade de uma norma legal anteriormente considerada inconstitucional, em
decorrência de uma alteração formal da CF.
Além disso, haveria inconstitucionalidade material da norma impugnada também por patente
violação ao princípio da isonomia, em virtude de injustificado tratamento diferenciado conferido aos
empregadores pessoa física, a depender da ambiência do labor, se urbano ou rural.
Frisavam que também procederia a afirmação de que o empregador rural pessoa física seria
duplamente tributado, em razão da incidência simultânea de contribuições sociais, o que atrairia a
vedação ao bis in idem.
RE 718874/RS, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgamento em 29 e 30.3.2017.
(Informativo 859, Plenário) 1ª Parte: 2ª Parte: 3ª Parte:

Contribuição social e ganhos habituais


A contribuição social a cargo do empregador incide sobre ganhos habituais do empregado, quer
anteriores ou posteriores à Emenda Constitucional 20/1998.
Com essa orientação, o Plenário negou provimento a recurso extraordinário em que se discutia o
alcance da expressão “folha de salários” para fins de incidência da contribuição social.
De início, o Plenário observou que o conflito de interesses analisado envolvia período anterior e
posterior à Emenda Constitucional 20/1998, que modificou o art. 195 da Constituição Federal (CF) e passou a
prever que a contribuição incide sobre “folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados,
a qualquer título, a pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício”.
Registrou que, no caso, a última cláusula não tem pertinência, pois o pedido se referia a valores pagos
aos segurados empregados.

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Asseverou que, antes mesmo da Emenda Constitucional 20/1998, o art. 201, § 4º, da CF previa que “os
ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados ao salário para efeito de contribuição
previdenciária e consequente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei”. Esse dispositivo não está
ligado apenas à contribuição do empregado, haja vista a inexistência de qualquer cláusula que assim o restrinja,
ou seja, encerra alusão à contribuição previdenciária.
Tendo isso em conta, o Colegiado concluiu que cabe proceder à interpretação sistemática dos diversos
preceitos da CF. Dessa forma, se, de um lado, o art. 195, I, da CF disciplinava, antes da Emenda Constitucional
20/1998, que o cálculo da contribuição era devido pelos empregadores a partir da folha de salários; de outro,
estes últimos, os salários, vieram a ser revelados, quanto ao alcance, pelo citado § 4º (atual § 11) do art. 201 da
CF. Pelo disposto, remeteu-se à remuneração percebida pelo empregado, ou seja, às parcelas diversas
satisfeitas pelo tomador dos serviços, exigindo-se, apenas, a habitualidade.
RE 565160/SC, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 29.3.2017.
(Informativo 859, Plenário)

COFINS: ampliação da base de cálculo e majoração de alíquota


O Plenário, ao apreciar o Tema 34 da repercussão geral, em conclusão de julgamento e por maioria, negou
provimento a recurso extraordinário em que se discutiu a constitucionalidade da ampliação da base de cálculo e da
majoração de alíquota da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (COFINS), instituída pela Lei
10.833/2003, resultante da conversão da Medida Provisória 135/2003 (vide Informativo 844).
O Tribunal entendeu não haver vício formal na conversão da referida medida provisória, nem ofensa ao
art. 246 da Constituição Federal (1) na hipótese de mera majoração de alíquotas de contribuições sociais. Além
disso, assentou não se fazer necessária a reserva de lei complementar por não se tratar de novo tributo.
Quanto à vedação ao efeito confiscatório, concluiu ser juridicamente insustentável buscar guarida nesse
princípio em sede de jurisdição constitucional. Tal posicionamento considerou a orientação do Supremo Tribunal
Federal segundo a qual a caracterização desse efeito pressupõe a análise de dados concretos e peculiaridades de
cada operação ou situação, tomando-se em conta custos, carga tributária global, margens de lucro e condições
pontuais do mercado e de conjuntura econômica.
Por fim, afirmou que eventuais diferenças entre os regimes de lucro real ou de lucro presumido, inclusive a
respeito do direito ao creditamento, não representam ofensa à isonomia ou à capacidade contributiva. A sujeição
ao regime do lucro presumido é uma escolha do contribuinte, considerado seu planejamento tributário.
Vencido o ministro Marco Aurélio, que conheceu em parte do recurso e, na parte conhecida, deu
provimento ao extraordinário. Pontuou haver vício formal, por afronta ao art. 246 da Constituição Federal, na
conversão da medida provisória. Além disso, reputou violado o princípio da isonomia.
Em seguida, o Tribunal deliberou fixar a tese de repercussão geral em assentada posterior.

(1) “Art. 246. É vedada a adoção de medida provisória na regulamentação de artigo da Constituição cuja redação tenha sido alterada por
meio de emenda promulgada entre 1º de janeiro de 1995 até a promulgação desta emenda, inclusive”.
RE 570122/RS, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgamento
em 24.5.2017.
(Informativo 866, Plenário, Repercussão Geral)

Impostos

ICMS e lei estadual


É válida lei estadual que dispõe acerca da incidência do ICMS sobre operações de importação
editada após a vigência da EC 33/2001, mas antes da LC 114/2002, visto que é plena a competência
legislativa estadual enquanto inexistir lei federal sobre norma geral, conforme art. 24, § 3º Constituição
Federal (1).
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma deu provimento a agravo regimental interposto
pelo Estado de São Paulo e, por conseguinte, negou provimento a recurso extraordinário em que se
alegava a inconstitucionalidade da incidência do ICMS sobre importação de veículo para uso próprio,
determinada por lei estadual anterior à LC 114/2002.
Conforme tese de repercussão geral (Tema 171), o Colegiado entendeu válida, embora de eficácia
contida, a lei estadual que versa sobre tributos em importação de bens (Lei 11.001/2001), editada após a
vigência da EC 33/2001, que deu nova redação ao art. 155, §2º, IX, “a” da CF/88 (2).
Vencido o ministro Teori Zavascki (relator), que negou provimento ao agravo.

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(1) Constituição Federal/1988: “Art. 24. (...) § 3º Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a
competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades”.
(2) Art. 155. (...)§ 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: IX - incidirá também: a) sobre a entrada de bem
ou mercadoria importados do exterior por pessoa física ou jurídica, ainda que não seja contribuinte habitual do imposto, qualquer
que seja a sua finalidade, assim como sobre o serviço prestado no exterior, cabendo o imposto ao Estado onde estiver situado o
domicílio ou o estabelecimento do destinatário da mercadoria, bem ou serviço;
RE 917950 AgR/SP, rel. Min. Teori Zavascki, julgamento em 5.12.2017.
(Informativo 887, Segunda Turma)

Imunidades Tributárias

Entidades beneficentes de assistência social e imunidade


O Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, com base no princípio da fungibilidade,
conheceu das ações diretas de inconstitucionalidade como arguição de descumprimento de preceito
fundamental.
Vencidos os ministros Roberto Barroso, Dias Toffoli, Cármen Lúcia e Marco Aurélio, que não
convertiam as ações. O ministro Dias Toffoli ressaltava que, incluída em pauta a ação direta antes do
exaurimento da eficácia da lei temporária impugnada, o Tribunal deveria julgá-la. O ministro Marco
Aurélio afirmava que, se o ato normativo abstrato e autônomo tivesse sido revogado, seria o caso de
decretar o prejuízo da ação (v. Informativos 749 e 844).
No mérito, prevaleceu o voto do ministro Teori Zavascki, que julgou procedentes os pedidos
veiculados nas Ações Diretas de Inconstitucionalidade 2.028 e 2.036 para declarar a inconstitucionalidade
do art. 1º da Lei 9.732/1998, na parte em que alterou a redação do art. 55, III, da Lei 8.212/1991 e
acrescentou-lhe os §§ 3º, 4º e 5º, bem como dos arts. 4º, 5º e 7º da Lei 9.732/1998.
Além disso, julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados nas Ações Diretas de
Inconstitucionalidade 2.228 e 2.621 para declarar a inconstitucionalidade dos arts. 2º, IV; 3º, VI e §§ 1º e
4º; 4º, parágrafo único, todos do Decreto 2.536/1998; assim como dos arts. 1º, IV; 2º, IV e §§ 1º e 3º; e 7º,
§ 4º, do Decreto 752/1993.
Afirmou que a reserva de lei complementar aplicada à regulamentação da imunidade tributária,
prevista no art. 195, § 7º, da Constituição Federal (CF), limita-se à definição de contrapartidas a serem
observadas para garantir a finalidade beneficente dos serviços prestados pelas entidades de assistência
social, o que não impede seja o procedimento de habilitação dessas entidades positivado em lei ordinária.
Explicou que, justamente por cumprir uma missão mais nobre, a imunidade se diferencia das
isenções e demais figuras de desoneração tributária. A imunidade de contribuições sociais serve não
apenas a propósitos fiscais, mas à consecução de alguns dos objetivos fundamentais para a República –
como a construção de uma sociedade solidária e voltada para a erradicação da pobreza –, os quais não
podem ficar à mercê da vontade transitória de governos. Devem ser respeitados, honrados e valorizados
por todos os governos, transcendendo a frequência ordinária em que se desenvolvem costumeiramente os
juízos políticos de conveniência e oportunidade, para desfrutar da dignidade de políticas de Estado.
Portanto, não se pode conceber que o regime jurídico das entidades beneficentes fique sujeito a
flutuações legislativas erráticas, não raramente influenciadas por pressões arrecadatórias de ocasião. É
inadmissível que tema tão sensível venha a ser regulado por medida provisória. O cuidado de inibir a
facilitação de flutuações normativas nesse domínio justifica-se, sobretudo, pela própria jurisprudência do
Supremo Tribunal Federal, que afirma não haver direito adquirido a determinado tratamento tributário.
Assim, diante da relevância das imunidades de contribuições sociais para a concretização de uma
política de Estado voltada à promoção do mínimo existencial e da necessidade de evitar que as entidades
compromissadas com esse fim sejam surpreendidas com bruscas alterações legislativas desfavoráveis à
continuidade de seus trabalhos, deve incidir nesse caso a reserva legal qualificada prevista no art. 146, II,
da CF. É essencial frisar, todavia, que essa proposição não produz uma contundente reviravolta na
jurisprudência da Corte a respeito da matéria, mas apenas um reajuste pontual. Aspectos meramente
procedimentais referentes à certificação, à fiscalização e ao controle administrativo continuam passíveis
de definição em lei ordinária. A lei complementar é forma somente exigível para a definição do modo
beneficente de atuação das entidades de assistência social contempladas pelo art. 195, § 7º, da CF,
especialmente quanto às contrapartidas a serem observadas por elas.
Por essas razões, o ministro Teori Zavascki concluiu pela inconstitucionalidade dos artigos da Lei
9.732/1998 que criaram contrapartidas a serem observadas pelas entidades beneficentes, e também dos
arts. 1º, IV; 2º, IV e §§ 1º e 3º; 7º, § 4º, do Decreto 752/1993, que perderam o indispensável suporte legal

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do qual derivam. Contudo, não há vício formal – tampouco material – nas normas acrescidas ao inciso II
do art. 55 da Lei 8.212/1991 pela Lei 9.429/1996 e pela Medida Provisória 2.187/2001, essas últimas
impugnadas pelas Ações Diretas de Inconstitucionalidade 2.228 e 2.621.
As sucessivas redações do art. 55, II, da Lei 8.212/1991 têm em comum a exigência de registro da
entidade no Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), a obtenção do certificado expedido pelo
órgão e a validade trienal do documento. Como o conteúdo da norma tem relação com a certificação da
qualidade de entidade beneficente, fica afastada a tese de vício formal. Essas normas tratam de meros
aspectos procedimentais necessários à verificação do atendimento das finalidades constitucionais da regra
de imunidade.
Vencidos, em parte, os ministros Dias Toffoli e Marco Aurélio, que julgavam totalmente
procedentes os pedidos formulados nas Ações Diretas de Inconstitucionalidade 2.228 e 2.621 e, portanto,
reputavam inconstitucional o art. 55, II e III, da Lei 8.212/1991, com a redação conferida pelo art. 5º da
Lei 9.429/1996, bem como os arts. 9º e 18, III e IV, da Lei 8.742/1993.
Por fim, o ministro Marco Aurélio aditou o seu voto para assentar a inconstitucionalidade formal
do art. 55, III, da Lei 8.212/1991, na redação conferida pelo art. 1º da Lei 9.732/1998.
ADI 2028/DF, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber, julgamento
em 23.2 e 2.3.2017.
ADI 2036/DF, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber, julgamento
em 23.2 e 2.3.2017.
ADI 2621/DF, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber, julgamento
em 23.2 e 2.3.2017.
ADI 2228/DF, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber, julgamento
em 23.2 e 2.3.2017.
(Informativo 855, Plenário)

Entidades beneficentes de assistência social e imunidade


Os requisitos para o gozo de imunidade hão de estar previstos em lei complementar.
Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, deu provimento ao recurso extraordinário
para declarar a inconstitucionalidade formal do art. 55 da Lei 8.212/1991, que dispõe sobre as exigências
para a concessão de imunidade tributária às entidades beneficentes de assistência social (v. Informativos
749 e 844).
Prevaleceu o voto do ministro Marco Aurélio (relator). Ele explicou que as normas de imunidade
tributária constantes da Constituição Federal (CF) objetivam proteger valores políticos, morais, culturais e
sociais essenciais e não permitem que os entes tributem certas pessoas, bens, serviços ou situações ligadas
a esses valores. Além disso, lembrou que o § 7º do art. 195 da CF traz dois requisitos para o gozo da
imunidade: ser pessoa jurídica a desempenhar atividades beneficentes de assistência social e atender a
parâmetros legais.
No que se refere à primeira condição, o ministro asseverou que o Supremo Tribunal Federal (STF)
conferiria sentido mais amplo ao termo “assistência social” constante do art. 203 da CF, a concluir que,
entre as formas de promover os objetivos revelados nos incisos desse preceito, estariam incluídos os
serviços de saúde e educação.
Reputou que toda pessoa jurídica a prestar serviços sem fins lucrativos com caráter assistencial,
em favor da coletividade e, em especial, dos hipossuficientes, atuaria em conjunto com o Poder Público
na satisfação de direitos fundamentais sociais. Por isso, o constituinte assegurou a imunidade a essas
pessoas em relação tanto aos impostos quanto às contribuições sociais, a partir da impossibilidade de
tributar atividades típicas do Estado em favor da realização de direitos fundamentais no campo da
assistência social.
O ministro ainda frisou que a definição do alcance formal e material do segundo requisito
(observância de “exigências estabelecidas em lei”) deveria considerar o motivo da imunidade em
discussão – a garantia de realização de direitos fundamentais sociais.
Sinalizou que, por se tratar de limitação ao poder de tributar, as “exigências legais” ao exercício
das imunidades seriam sempre “normas de regulação” às quais o constituinte originário teria feito
referência no inciso II do art. 146 da CF, a serem dispostas em lei complementar.
Assinalou que, para disciplinar as condições mencionadas no § 7º do art. 195 da CF, dever-se-ia
observar a reserva absoluta de lei complementar, sob pena de negar-se que a imunidade discutida fosse
uma limitação ao poder de tributar. Ponderou caber à lei ordinária apenas prever requisitos que não
extrapolem os estabelecidos no Código Tributário Nacional (CTN) ou em lei complementar

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superveniente. Seria, portanto, vedado criar obstáculos novos, adicionais aos já dispostos em ato
complementar.
Pontuou que, sob o pretexto de disciplinar aspectos das entidades pretendentes à imunidade, o
legislador ordinário teria restringido o alcance subjetivo da regra constitucional, a impor condições
formais reveladoras de autênticos limites à imunidade.
Entendeu que, no caso, teria ocorrido regulação do direito sem que estivesse autorizado pelo art.
146, II, da CF. O art. 55 da Lei 8.212/1991 previra requisitos para o exercício da imunidade tributária
contida no § 7º do art. 195 da CF, a revelar condições prévias ao aludido direito. Assim, deveria ser
reconhecida a inconstitucionalidade formal desse dispositivo no que ultrapassasse o definido no art. 14 do
CTN, por afronta ao art. 146, II, da CF.
Considerou que os requisitos legais exigidos na parte final do mencionado § 7º, enquanto não
editada nova lei complementar sobre a matéria, seriam somente aqueles do art. 14 do CTN.
Concluiu por assegurar o direito à imunidade de que trata o art. 195, § 7º, da CF – haja vista que
reconhecido pelo magistrado sentenciante que a entidade preenchera os requisitos exigidos no CTN – e,
por consequência, desconstituir o crédito tributário inscrito em dívida ativa, com a extinção da respectiva
execução fiscal.
Por fim, o relator aditou o voto para esclarecer que não haveria fundamento autônomo no aresto
impugnado a ensejar o desprovimento do recurso, porquanto o tribunal de origem teria decidido com base
na aplicação do art. 55 da Lei 8.212/1991.
Vencidos os ministros Teori Zavascki, Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, que
negavam provimento ao recurso. Aduziam que o acórdão recorrido se assentou não apenas na questão da
reserva de lei complementar como veículo adequado à definição do modo beneficente de prestar
assistência social, mas também na circunstância de a demandante não ter preenchido uma das exigências
validamente previstas pela Lei 8.212/1991, a de obtenção de título de utilidade pública federal.
O ministro Ricardo Lewandowski reajustou o voto para acompanhar o relator.
RE 566622/RS, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 23.2.2017.
(Informativo 855, Plenário, Repercussão Geral)

Imunidade tributária e contribuinte de fato


A imunidade tributária subjetiva aplica-se a seus beneficiários na posição de contribuinte de
direito, mas não na de simples contribuinte de fato, sendo irrelevante, para a verificação da existência do
beneplácito constitucional, a repercussão econômica do tributo envolvido.
Com base nessa orientação, o Tribunal deu provimento ao recurso extraordinário no qual se
pretendia a não aplicação da imunidade tributária constante do art. 150, VI, “c”, da CF relativamente ao
ICMS incidente na aquisição de insumos, medicamentos e serviços adquiridos por entidade de assistência
social na qualidade de consumidora (contribuinte de fato).
Na espécie, o Tribunal de origem afastou a exigência do recolhimento do ICMS nas operações de
aquisição, por entidade de assistência social (na qualidade de consumidor final), de medicamentos,
máquinas e equipamentos necessários à execução de suas finalidades filantrópicas, ante a configuração da
imunidade tributária prevista no art. 150, VI, “c”, da CF.
Para o recorrente, a aquisição de insumos e produtos no mercado interno na qualidade de
contribuinte de fato não estaria albergada pela imunidade tributária prevista no art. 150, VI e § 4º, da CF.
Sustentava, ainda, que a relevância das atividades prestadas pelas entidades de assistência social não
poderia conferir aos fornecedores particulares, não abrangidos pela regra imunizante, a não incidência do
ICMS na venda de mercadorias e serviços.
O Colegiado rememorou que prevalece no STF o entendimento de que a imunidade tributária
subjetiva se aplica a seus beneficiários na posição de contribuinte de direito, mas não àqueles na condição
de simples contribuinte de fato, bem como de que é irrelevante, para a verificação da incidência ou não da
imunidade constitucional, a discussão acerca da repercussão econômica do tributo envolvido.
Ressaltou, também, que a jurisprudência do STF vem se posicionando pela impossibilidade de se
estender ao particular vendedor (contribuinte de direito) a imunidade tributária subjetiva que detém o
adquirente de mercadoria (contribuinte de fato).
Assim, o beneficiário da imunidade tributária subjetiva na posição de simples contribuinte de fato,
embora possa arcar com os ônus financeiros dos impostos envolvidos nas compras de mercadorias, caso

159
tenham sido transladados pelo vendedor contribuinte de direito, desembolsa importe que juridicamente
não se qualifica como tributo, mas sim preço, decorrente de uma relação contratual.
Destacou a impossibilidade de, no contexto do exercício das atividades econômicas, ter-se certeza
da efetiva transferência do encargo financeiro dos tributos, em razão de o lucro não ser tabelado.
Ademais, quanto à regra contida no art. 150, § 5º, da CF (“§ 5º A lei determinará medidas para que os
consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços”),
asseverou não haver transformação dos contribuintes finais em contribuintes de direito dos impostos
incidentes sobre mercadorias e serviços que repercutem economicamente, mas sim existir o
reconhecimento de que “o consumidor ou usuário não é contribuinte, tanto assim que precisa ser
informado a respeito dos tributos que oneram mercadorias e serviços”.
Pontuou, igualmente, que a temática da repercussão econômica tributária está na área de formação
dos preços e que, apenas com substancioso estudo dos fatores e das circunstâncias (como condições de
tempo, lugar e conjectura econômica), seria possível verificar, num juízo de relativa previsibilidade, a
provável repercussão econômica do tributo. Ponderou, dessa forma, ser desaconselhável considerar a
denominada repercussão econômica do tributo para verificar a existência ou não da imunidade tributária.
Essa orientação, a propósito, alinha-se aos precedentes da Corte no sentido de ser a imunidade tributária
subjetiva constante do art. 150, VI, “c”, da CF aplicável à hipótese de importação de mercadorias pelas
entidades de assistência social para uso ou consumo próprio. Com efeito, essas entidades ostentam, nessa
situação, a posição de contribuintes de direito, o que é suficiente para o reconhecimento da imunidade. O
fato de também serem apontadas, costumeira e concomitantemente, como contribuintes de fato é
irrelevante para a análise da controvérsia, portanto.
Asseverou, por fim, que a tese firmada não prejudica o entendimento adotado, em sede de recursos
repetitivos, pelo STJ no julgamento do REsp 1.299.303/SC (DJE de 14.8.2012), no sentido de que o
consumidor de energia elétrica tem legitimidade para propor ação declaratória com pedido de repetição de
indébito a fim de afastar, no tocante ao fornecimento de energia elétrica, a incidência do ICMS sobre
demanda contratada e não utilizada. Essa situação, além de peculiar, está inserida no contexto da
concessão de serviço público e tem regime jurídico próprio.
RE 608872/MG, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 22 e 23.2.2017.
(Informativo 855, Plenário, Repercussão Geral)

Componentes eletrônicos que acompanham livro e imunidade tributária


A imunidade tributária constante do art. 150, VI, “d”, da Constituição Federal (CF), aplica-se ao
livro eletrônico (“e-book”), inclusive aos suportes exclusivamente utilizados para fixá-lo.
A imunidade tributária da alínea “d” do inciso VI do art. 150 da CF alcança componentes
eletrônicos destinados exclusivamente a integrar unidade didática com fascículos.
Com base nessas orientações, o Plenário, em conclusão, negou provimento a dois recursos
extraordinários, julgados em conjunto, nos quais discutido o alcance da imunidade prevista no art. 150,
VI, “d”, da CF, de modo a abarcar tanto componentes eletrônicos que acompanham e complementam
material didático impresso, utilizados em curso prático de montagem de computadores, quanto livros
eletrônicos — v. Informativo 753.
Em relação ao RE 330.817/RJ, o Tribunal assentou que o art. 150, VI, “d”, da CF não se refere
apenas ao método gutenberguiano de produção de livros e que o vocábulo “papel” não é essencial ao
conceito desse bem final. Consignou que o suporte das publicações é apenas o continente (corpus
mechanicum) que abrange o conteúdo (corpus misticum) das obras e, portanto, não é o essencial ou o
condicionante para o gozo da imunidade. Asseverou que os diversos tipos de suporte (tangível ou
intangível) que um livro pode ter apontam para a direção de que eles somente podem ser considerados
como elemento acidental no conceito de livro. Ressaltou que o livro não precisa ter o formato de códice
para ser considerado como tal. Reputou, de igual modo, dispensável, para o enquadramento do livro na
imunidade em questão, que seu destinatário (consumidor) tenha necessariamente que passar sua visão
pelo texto e decifrar os signos da escrita. Dessa forma, a imunidade alcança o denominado audio book, ou
audiolivro (livros gravados em áudio, seja no suporte CD-Rom, seja em qualquer outro). Essa conclusão é
harmônica com a teleologia da norma e está intimamente ligada à liberdade de ser informado, à
democratização e à difusão da cultura, bem como à livre formação da opinião pública.
Acrescentou que, relativamente aos livros eletrônicos, sua maior capacidade de interação com o
leitor/usuário (a partir de uma máquina), em comparação com os livros contidos nos códices, não cria
empecilho para o reconhecimento da imunidade tributária ao bem final. O aumento da interação parece
estar associado ao processo evolutivo da cultura escrita, ou seja, atualmente os livros eletrônicos
permitem uma busca quase que imediata de qualquer palavra no texto escrito e, até mesmo, o aumento ou

160
redução do tamanho de sua fonte. É possível, ainda, o compartilhamento de seu conteúdo com uma
infinidade de leitores, com um simples toque de botão (e acesso à internet). Portanto, é inegável a maior
facilidade de transporte e armazenamento do e-book.
O avanço na cultura escrita apontou para o advento de novas tecnologias relativas ao suporte dos
livros, como o papel eletrônico (e-paper) e o aparelho eletrônico (como o e-reader) especializados na
leitura de obras digitais, os quais têm justamente a intenção de imitar a leitura em papel físico. Eles estão
igualmente abrangidos pela imunidade em discussão, por equipararem-se aos tradicionais corpos
mecânicos dos livros físicos, mesmo que acompanhados de funcionalidades acessórias ou rudimentares,
como acesso à internet para download de livros digitais, dicionários, possibilidade de alteração de tipo e
tamanho da fonte, marcadores, espaçamento, iluminação do texto etc.
O argumento de que a vontade do legislador histórico foi restringir a imunidade ao livro editado
em papel não se sustenta em face da própria interpretação histórica e teleológica do instituto. Ainda que
se partisse da premissa de que o objetivo do legislador constituinte de 1988 tivesse sido restringir a
imunidade, seria de se invocar, ainda, a interpretação evolutiva, método interpretativo específico das
normas constitucionais. Os fundamentos racionais que levaram à edição do art. 150, VI, “d”, da CF
continuam a existir mesmo quando levados em consideração os livros eletrônicos, inequívocas
manifestações do avanço tecnológico que a cultura escrita tem experimentado. Consoante a interpretação
evolutiva da norma, eles estão inseridos no âmbito dessa imunidade tributária.
Em suma, o Plenário entendeu que a imunidade de que trata o art. 150, VI, “d”, da CF alcança o
livro digital (e-book). De igual modo, as mudanças históricas e os fatores políticos e sociais da atualidade,
seja em razão do avanço tecnológico, seja em decorrência da preocupação ambiental, justificam a
equiparação do “papel”, numa visão panorâmica da realidade e da norma, aos suportes utilizados para a
publicação dos livros. Nesse contexto moderno, portanto, a teleologia da regra de imunidade igualmente
alcança os aparelhos leitores de livros eletrônicos (e-readers) confeccionados exclusivamente para esse
fim, ainda que eventualmente equipados com funcionalidades acessórias ou rudimentares que auxiliam a
leitura digital, tais como dicionário de sinônimos, marcadores, escolha do tipo e tamanho da fonte e
outros. Apesar de não se confundirem com os livros digitais propriamente ditos, esses aparelhos
funcionam como o papel dos livros tradicionais impressos, e o propósito seria justamente mimetizá-lo.
Estão enquadrados, portanto, no conceito de suporte abrangido pela norma imunizante. Entretanto, esse
entendimento não é aplicável aos aparelhos multifuncionais, como tablets, smartphones e laptops, os
quais são muito além de meros equipamentos utilizados para a leitura de livros digitais. No caso concreto,
o CD-Rom é apenas um corpo mecânico ou suporte e aquilo que está nele fixado (seu conteúdo textual) é
o livro, ambos abarcados pela imunidade do citado dispositivo constitucional.
Nessa mesma linha foi a conclusão do julgamento do RE 595.676/RJ, nos termos do voto do
ministro Marco Aurélio (relator). Em aditamento ao voto proferido na sessão do dia 6.8.2014, o ministro
Marco Aurélio consignou que, tratando-se de apreciação de recurso sob o ângulo da repercussão geral,
implicando a observância da extensão do pronunciamento por juízes e tribunais do País, cabe ressaltar
que a imunidade não alcança a aquisição dos elementos eletrônicos se verificado — em um primeiro
momento, pelas autoridades fiscais competentes, e, se instaurado litígio, pelas instâncias judiciais
ordinárias, soberanas no exame das provas — o dissimulado propósito final de produção de bens para
consumo próprio ou ulterior comercialização.
RE 330817/RJ, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 8.3.2017.
RE 595676/RJ, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 8.3.2017.
(Informativo 856, Plenário, Repercussão Geral)

IPTU: imunidade tributária recíproca e cessão de uso de bem público


Na linha do que foi decidido no julgamento do RE 601.720/RJ, no qual fixou-se a tese de
repercussão geral no sentido da incidência do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana
(IPTU), considerado imóvel de pessoa jurídica de direito público cedido a pessoa jurídica de direito
privado, devedora do tributo, o Plenário, por maioria, deu provimento a recurso extraordinário interposto
pelo Município do Rio de Janeiro contra acórdão que afastou, com base no disposto no art. 150, VI, “a”,
da Constituição Federal (CF) (1), a cobrança do citado imposto relativamente à empresa detentora da
concessão de uso de imóvel situado em aeroporto de propriedade da União — v. Informativo 597.
Prevaleceu o voto do ministro Joaquim Barbosa (relator).
O ministro considerou que a atividade exercida pela recorrida é alheia à administração
aeroportuária, já que explora ramo do comércio de importação e exportação de veículos automotores,
peças, acessórios, oficina mecânica, reparos, pintura de quaisquer veículos e outras atividades correlatas
ao ramo automobilístico. Dessa forma, a atividade tem por finalidade aumentar o patrimônio das pessoas

161
que se associaram na empreitada, não sendo destinada à filantropia ou à benemerência. Além disso, o
contrato firmado prevê que a responsabilidade pelo pagamento de tributos municipais recai sobre o
concessionário. Por isso, dificilmente seria possível concordar que a tributação implica surpresa ao
contribuinte, que leva em conta a carga tributária em suas previsões de custo. Por fim, a desoneração
concedida tem como efeito colateral garantir vantagem competitiva artificial. Afinal, a retirada de um
custo permite o aumento do lucro ou a formação de preços menores, o que provoca desequilíbrio das
relações de mercado.
Consignou ser o momento de revisão da jurisprudência da Corte, a fim de que fosse assentada a
inaplicabilidade da imunidade tributária recíproca à propriedade imóvel desvinculada de finalidade
estatal.
Na questão de a recorrida não poder ser considerada sujeito passivo da exação, por ser incabível
sua qualificação como “possuidora a qualquer título”, o relator superou orientação consolidada pela
Segunda Turma. Com isso, concluiu que a matéria poderia ser objeto de apreciação em recurso
extraordinário e afastou, em consequência, a aplicação dos Enunciados 279 e 283 da Súmula do Supremo
Tribunal Federal (STF).
Afirmou que a definição do sujeito passivo do IPTU depende de interpretação constitucional, pois,
com fundamento na competência tributária, o ente federado cobra validamente o tributo. Salientou que o
art. 34 do Código Tributário Nacional (CTN) (2) deve ser lido à luz da Constituição, com ênfase em três
pontos: materialidade possível do IPTU, isonomia e livres iniciativa e concorrência.
Entendeu que a sujeição passiva também abarca a figura do responsável tributário, não podendo o
tribunal de origem pura e simplesmente julgar ser a tributação inválida, porquanto direcionada a quem
não é proprietário.
Assinalou, ainda, a existência de termo de responsabilidade — em que se firmou a
responsabilidade do concessionário pelo pagamento de tributos municipais — a compor o conjunto fático-
probatório, o que torna desnecessária a reabertura de instrução para decidir esse caso.
Destacou que o locatário empresarial com fins lucrativos também é possuidor a qualquer título,
para fins de incidência do IPTU, nos termos constitucionais. Resgatou, no ponto, a essência do Enunciado
456 da Súmula do STF (3) para adequar o julgado às linhas essenciais que dariam sentido tanto à
imunidade tributária como à atribuição de sujeição passiva.
O ministro Roberto Barroso, em razão da mudança da jurisprudência da Corte em matéria
tributária, modulou o seu voto.
Vencido o ministro Dias Toffolli, que negava provimento ao recurso.

(1) CF/1988: “Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao
Distrito Federal e aos Municípios: (...)VI – instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;”
(2) CTN: “Art. 34. Contribuinte do imposto é o proprietário do imóvel, o titular do seu domínio útil, ou o seu possuidor a
qualquer título.
(3) Enunciado 456 da Súmula do STF: “O Supremo Tribunal Federal, conhecendo do recurso extraordinário, julgará a
causa, aplicando o direito à espécie.”
RE 434251/RJ, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o ac. Min. Cármen Lúcia,
julgamento em 19.4.2017.
(Informativo 861, Plenário)

IPTU e imóvel de ente público cedido a empresa privada


O Plenário, em conclusão de julgamento e por maioria, deu provimento a recurso extraordinário em
que se discutia a incidência do Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) sobre imóvel de propriedade de
ente público — no caso, a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (INFRAERO) — concedido a
empresa privada exploradora de atividade econômica com fins lucrativos — v. Informativo 813.
O Colegiado pontuou que a imunidade recíproca prevista no art. 150, VI, “a” (1) da Constituição
Federal (CF) não foi concebida com o propósito de permitir que empresa privada atue livremente no
desenvolvimento de atividade econômica e usufrua de vantagem advinda da utilização de bem público.
Asseverou que a referida previsão decorre da necessidade de observar-se, no contexto federativo, o
respeito mútuo e a autonomia dos entes. Não cabe estendê-la para evitar a tributação de particulares que
atuam no regime da livre concorrência. Nesse contexto, salientou que, uma vez verificada atividade
econômica, nem mesmo as pessoas jurídicas de direito público gozam da imunidade (CF, art. 150, §3º)
(2).

162
Assentou que o IPTU representa relevante custo operacional, comum a todos que exercem a
atividade econômica da recorrida. Afastar tal ônus de empresa que atua no setor econômico, a partir de
extensão indevida da imunidade recíproca, implica desrespeito ao princípio da livre concorrência (CF, art.
170, IV) (3), por conferir ao particular uma vantagem inexistente para os concorrentes.
Ademais, ressaltou que a hipótese de incidência do IPTU não se limita à propriedade do imóvel,
pois inclui o domínio útil e a posse do bem. O mesmo entendimento vale para o contribuinte do tributo,
que não se restringe ao proprietário do imóvel, mas alcança tanto o titular do domínio útil quanto o
possuidor a qualquer título. Nesse sentido, o Colegiado ponderou que não há falar em ausência de
legitimidade da empresa ora recorrida para figurar em polo passivo da relação jurídica tributária.
Vencidos os ministros Edson Fachin e Celso de Mello, que negavam provimento ao recurso. Para
eles, a) a liberdade de conformação legislativa do Poder Executivo municipal está adstrita à posse, que,
per se, pode conduzir à propriedade; b) o particular concessionário de uso de bem público não pode ser
eleito, por força de lei municipal, para figurar como sujeito passivo de obrigação tributária referente ao
IPTU, porque a sua posse, nesse caso, é desdobrada; e c) o imóvel qualificado como bem público federal
remanesce imune aos tributos fundiários municipais, ainda que destinado à exploração comercial.
Em seguida, a Corte deliberou aguardar a oposição de embargos de declaração, para discutir
eventual modulação de efeitos da decisão, e fixar a tese referente à repercussão geral em assentada
posterior.

(1) CF/1988: “Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao
Distrito Federal e aos Municípios: (...)VI – instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;”
(2) CF/1988: “Art. 150. (...) § 3º – As vedações do inciso VI, "a", e do parágrafo anterior não se aplicam ao patrimônio, à
renda e aos serviços, relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos
privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário, nem exonera o promitente comprador da
obrigação de pagar imposto relativamente ao bem imóvel.”
(3) CF/1988: “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) IV – livre
concorrência;”
RE 601720/RJ, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio, julgamento
em 6.4.2017.
(Informativo 860, Plenário)

IPTU e imóvel de ente público cedido a empresa privada


Incide o IPTU, considerado imóvel de pessoa jurídica de direito público cedido a pessoa jurídica
de direito privado, devedora do tributo.
Esse é o entendimento do Plenário, que, em conclusão de julgamento e por maioria, deu
provimento a recurso extraordinário em que se discutia a incidência do Imposto Predial Territorial
Urbano (IPTU) sobre imóvel de propriedade de ente público — no caso, a Empresa Brasileira de
Infraestrutura Aeroportuária (INFRAERO) — concedido a empresa privada exploradora de atividade
econômica com fins lucrativos — v. Informativos 813 e 860.
O Colegiado pontuou que a imunidade recíproca prevista no art. 150, VI, “a” (1), da Constituição
Federal (CF) não foi concebida com o propósito de permitir que empresa privada atue livremente no
desenvolvimento de atividade econômica e usufrua de vantagem advinda da utilização de bem público.
Asseverou que a referida previsão decorre da necessidade de observar-se, no contexto federativo, o
respeito mútuo e a autonomia dos entes. Não cabe estendê-la para evitar a tributação de particulares que
atuam no regime da livre concorrência. Nesse contexto, salientou que, uma vez verificada atividade
econômica, nem mesmo as pessoas jurídicas de direito público gozam da imunidade (CF, art. 150, § 3º)
(2).
Assentou que o IPTU representa relevante custo operacional, comum a todos que exercem a
atividade econômica da recorrida. Afastar tal ônus de empresa que atua no setor econômico, a partir de
extensão indevida da imunidade recíproca, implica desrespeito ao princípio da livre concorrência (CF, art.
170, IV) (3), por conferir ao particular uma vantagem inexistente para os concorrentes. Ademais,
ressaltou que a hipótese de incidência do IPTU não se limita à propriedade do imóvel, pois inclui o
domínio útil e a posse do bem. O mesmo entendimento vale para o contribuinte do tributo, que não se
restringe ao proprietário do imóvel, mas alcança tanto o titular do domínio útil quanto o possuidor a
qualquer título. Nesse sentido, o Colegiado ponderou que não há falar em ausência de legitimidade da
empresa ora recorrida para figurar em polo passivo da relação jurídica tributária.
Vencidos os ministros Edson Fachin e Celso de Mello, que negavam provimento ao recurso. Para
eles, a) a liberdade de conformação legislativa do Poder Executivo municipal estaria adstrita à posse, que,

163
per se, pode conduzir à propriedade; b) o particular concessionário de uso de bem público não poderia ser
eleito, por força de lei municipal, para figurar como sujeito passivo de obrigação tributária referente ao
IPTU, porque a sua posse, nesse caso, seria desdobrada; e c) o imóvel qualificado como bem público
federal remanesceria imune aos tributos fundiários municipais, ainda que destinado à exploração
comercial.

(1). CF/1988: “Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao
Distrito Federal e aos Municípios: (...)VI – instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;”
(2). CF/1988: “Art. 150. (...) § 3º – As vedações do inciso VI, "a", e do parágrafo anterior não se aplicam ao patrimônio, à
renda e aos serviços, relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos
privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário, nem exonera o promitente comprador da
obrigação de pagar imposto relativamente ao bem imóvel.”
(3). CF/1988: “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) IV – livre
concorrência;”
RE 601720/RJ, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio, julgamento
em 19.4.2017.
(Informativo 861, Plenário, Repercussão Geral)

Petrobras e imunidade
A imunidade recíproca, prevista no art. 150, VI, “b”, da Constituição Federal (CF), não se estende
a empresa privada arrendatária de imóvel público, quando seja ela exploradora de atividade econômica
com fins lucrativos. Nessa hipótese é constitucional a cobrança do IPTU pelo Município.
Esse o entendimento do Plenário, que, em conclusão de julgamento e por maioria, negou
provimento a recurso extraordinário em que se discutia a possibilidade de reconhecimento de imunidade
tributária recíproca a sociedade de economia mista ocupante de bem público. No caso, o Tribunal de
Justiça do Estado de São Paulo considerou ser a Petróleo Brasileiro S.A. (PETROBRAS) parte legítima
para figurar como devedora do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) incidente sobre imóvel
localizado no Porto de Santos — v. Informativo 846.
O Colegiado deliberou que a imunidade tributária recíproca de natureza subjetiva, que envolve
pessoas jurídicas de direito público, não se estende para além das situações do art. 150, § 2º, da CF.
Asseverou que tanto as sociedades de economia mista quanto as empresas públicas sujeitam-se ao regime
jurídico próprio das empresas privadas, por força do art. 173, § 2º, da CF. Ressaltou que o fato de o
imóvel pertencente à União ser utilizado para a persecução de interesse público não atrai a imunidade
quanto ao IPTU, haja vista que a recorrente é sociedade de economia mista com capital social negociado
na bolsa de valores, ou seja, é pessoa jurídica de direito privado com claro objetivo de auferir lucro.
Anotou, tendo em conta a limitação imposta pelo § 3º do art. 150 da CF, que, se as pessoas jurídicas de
direito público que exploram atividade econômica não gozam da imunidade, as de direito privado também
não poderiam fazê-lo. Ademais, o reconhecimento da imunidade recíproca, no caso, implica violação ao
princípio da livre concorrência estampado no art. 170 da CF, por conferir vantagem indevida a pessoa
jurídica de direito privado, não existente para os concorrentes. Por fim, à luz dos arts. 32 e 34 do Código
Tributário Nacional (CTN), no sentido de que a hipótese de incidência do IPTU abrange não só a
propriedade, mas também o domínio útil e a posse do imóvel, e de que o contribuinte do IPTU é tanto o
proprietário do imóvel como o titular do seu domínio útil, ou o seu possuidor a qualquer título, o Plenário
concluiu não se poder falar em ausência de legitimidade da recorrente para figurar no polo passivo da
relação jurídica tributária.
O ministro Roberto Barroso, em voto-vista, afirmou que a imunidade recíproca das pessoas
jurídicas de direito público foi criada pelo constituinte para proteção do pacto federativo, não havendo
sentido estendê-la a empresa privada arrendatária de bem público que o utiliza para fins comerciais.
Entender que os particulares que fazem uso dos imóveis públicos para exploração econômica lucrativa
não devam pagar IPTU significaria colocá-los em vantagem concorrencial em relação às outras empresas.
Anotou que os contratos firmados entre as empresas privadas e a Administração Pública conferem
diversos direitos aos particulares. Asseverou que o bem é formalmente público, mas materialmente
privado, uma vez que o particular tem quase todas as prerrogativas do proprietário, não havendo
precariedade da posse. Nesses casos, está caracterizado o fato gerador do IPTU, e a sujeição passiva que
permite ao Município de Santos efetuar a cobrança. Pontuou, ademais, que o Município, por previsão
legal, atribui responsabilidade tributária às empresas arrendatárias de bem. Por fim, concluiu que
impossibilitar a cobrança de IPTU de particular que explora atividade econômica em imóvel público é
perenizar situação extremamente prejudicial aos Municípios, ao pacto federativo e à ordem econômica, no
que se refere à livre concorrência.

164
Para o ministro Luiz Fux, após o advento da CF/1988, considerada pós-positivista, dois princípios
ou regras de supradireito assumiram relevo no direito tributário. Em primeiro lugar, o contribuinte não é
considerado objeto de tributação, mas sujeito de direitos. Em segundo lugar, com a inserção dos
princípios da isonomia e da capacidade contributiva, criou-se também uma regra de supradireito na
análise das questões tributárias, a justiça fiscal. Considerou inaceitável, sob o ângulo da justiça fiscal, a
possibilidade de quem explora atividade econômica não pagar o imposto devido ao Município. Ressaltou
que a Corte interpretou a imunidade recíproca como verdadeira garantia institucional para preservação do
sistema federativo, motivo pelo qual se assentou sua extensão apenas às empresas que, embora tenham
personalidade jurídica de direito privado, qualifiquem-se tão somente como prestadoras de serviço
público, sem intuito lucrativo. Indicou precedentes nesse sentido (1). Apontou também os critérios
estabelecidos pelo STF para o reconhecimento da extensão da imunidade tributária: a) a imunidade é
subjetiva e aplicável a propriedades, bens e serviços utilizados na satisfação dos objetivos institucionais
imanentes ao ente federado, cuja tributação poderia colocar em risco a respectiva autonomia política, b)
as atividades de exploração econômica destinadas a aumentar o patrimônio do Estado ou de particulares
devem ser tributadas por representarem manifestação de riqueza, cuja tributação não afeta a autonomia
política e revela capacidade contributiva, c) a tributação não deve ter como efeito colateral a quebra dos
princípios da livre concorrência e do exercício da atividade profissional e econômica lícita.
Vencidos a ministra Carmen Lúcia (presidente) e os ministros Celso de Mello e Edson Fachin, que
davam provimento ao recurso.

(1) ARE 638315/BA (DJE de 31.8.2011); RE 253394/SP (DJU de 11.4.2003); RE 265749/SP (DJU de 12.9.2003); RE
253.472/SP (DJE de 1º.2.2011).
RE 594015/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 6.4.2017.
(Informativo 860, Plenário)

Incentivo Fiscal

Alíquota de IPI para produção de açúcar e localização geográfica


Surge constitucional, sob o ângulo do caráter seletivo, em função da essencialidade do produto e do
tratamento isonômico, o artigo 2º da Lei nº 8.393/1991 (1), a revelar alíquota máxima de Imposto sobre
Produtos Industrializados - IPI de 18%, assegurada isenção, quanto aos contribuintes situados na área de
atuação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE e da Superintendência de
Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM, e autorização para redução de até 50% da alíquota, presentes
contribuintes situados nos Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.
Com base nesse entendimento, o Plenário negou provimento a recurso extraordinário.
Inicialmente, o Tribunal não conheceu da questão da constitucionalidade da Lei 9.532/1997, por
falta de prequestionamento.
Afirmou que a Constituição Federal (CF) autoriza o legislador a implementar, no âmbito da opção
político-normativa, presente a razoabilidade — se a alíquota fixada estiver em patamar aceitável —,
distinções, sem vínculo à divisão por regiões: Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte.
Assentou que o alcance do caráter seletivo do tributo, em função da essencialidade do produto,
implica variação de alíquotas de acordo com a própria mercadoria. Assim, o fato de o açúcar integrar a
cesta básica, cujos produtos não têm incidência do IPI, é insuficiente para que se conclua pela
impossibilidade da cobrança do tributo.
Frisou que o princípio da isonomia é observado quando não ocorre preferência desarrazoada em
relação a Estado-Membro, ao Distrito Federal ou a Município. No caso, o art. 2º da Lei 8.393/1991
encerrou verdadeiro incentivo fiscal no que concerne às áreas mencionadas. A cláusula constitucional
(CF, art. 151, I) a remeter às diferentes regiões do País não tem interpretação a ponto de desconsiderar as
áreas referidas no preceito da lei e ligadas ao Nordeste e à Amazônia. Também não há tratamento
diferenciado em razão deste ou daquele Estado-Membro. O parágrafo único do art. 2º, ao revelar que, nos
Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, a alíquota de 18% poderá ser reduzida em até 50%, remete,
necessariamente, à situação dos contribuintes e do desenvolvimento na produção nesses Estados-
Membros. Portanto, o Legislativo atuou no campo do incentivo fiscal, embora de forma estrita,
considerados os Estados-Membros mencionados.

(1) Lei 8.393/1991, art. 2º1: “Art. 2° Enquanto persistir a política de preço nacional unificado de açúcar de cana, a alíquota
máxima do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI incidente sobre a saída desse produto será de dezoito por cento, assegurada
isenção para as saídas ocorridas na área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE e da
Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM. Parágrafo único. Para os Estados do Espírito Santo e do Rio de

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Janeiro, é o Poder Executivo autorizado a reduzir em até cinqüenta por cento a alíquota do IPI incidente sobre o açúcar nas saídas
para o mercado interno”.
RE 592145/SP, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 5.4.2017.
(Informativo 860, Plenário, Repercussão Geral)

Limitação ao Poder de Tributar

Regime Tributário

Redução da base de cálculo do ICMS e estorno de créditos


A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, deu provimento a agravo
regimental em que se pretendia o estorno total dos créditos do ICMS gerados na entrada de insumos
tributados, na hipótese de o contribuinte exercer a opção pela tributação com redução da base de cálculo
na saída das mercadorias.
No caso, norma estadual instituiu regime tributário opcional a empresas transportadoras
contribuintes do ICMS. Com isso, ficava facultada ao contribuinte a manutenção do regime normal de
crédito e débito do imposto ou a apuração do débito com o benefício da redução da base de cálculo,
vedada, nesta hipótese, a utilização de quaisquer créditos relativos a entradas tributadas.
O Colegiado entendeu que, havendo a opção pelo regime ordinário ou por regime mais favorável
de tributação e estabelecendo a lei um regramento específico para o regime mais favorável, a adesão a ele
não gera o direito ao creditamento se a lei o excluir. Assim, o contribuinte deve optar por um dos regimes.
Vencido o ministro Marco Aurélio (relator), que negava provimento ao recurso por entender que a
legislação em debate violaria o princípio da não cumulatividade, pois deveria resguardar o
aproveitamento dos créditos na proporção da redução da base de cálculo.
AI 765420 AgR-segundo/RS, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber,
julgamento em 21.2.2017.
(Informativo 855, 1ª Turma)

Taxas

Município e taxa de combate a sinistros


O Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Tema 16 da repercussão geral, por maioria, negou
provimento a recurso extraordinário em que se discutiu a constitucionalidade de taxa de combate a
sinistros instituída por lei municipal.
Na espécie, o tribunal de origem assentou a inconstitucionalidade da taxa, por considerar o
serviço público por ela financiado de competência estadual. De acordo com o acórdão recorrido,
houve inadequação do custeio, por meio de taxa, em face da ausência de especificidade e
divisibilidade do serviço (vide Informativo 855).
Prevaleceu o voto do ministro Marco Aurélio (relator).
O relator inicialmente citou a orientação fixada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento
da ADI 1.942 MC/PA (DJ de 22.10.1999), no sentido de que, em face do art. 144, caput, V e § 5º
(1), da Constituição Federal, sendo a segurança pública dever do Estado e direito de todos, exercida
para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, por meio , entre
outras, da polícia militar, essa atividade do Estado somente pode ser sustentada por impostos, e não
por taxa.
Consignou que a prevenção e o combate a incêndios se fazem mediante a atuação da polícia
retratada no corpo de bombeiros, sendo atividade essencial do Estado e, por isso, remunerada por
meio de impostos. Desse modo, entendeu ser inconcebível que, a pretexto de prevenir sinistro
relativo a incêndio, venha o Município a substituir-se ao Estado, com a criação de tributo sob o
rótulo de taxa.
O ministro reforçou que a atividade precípua do Estado é viabilizada mediante arrecadação de
impostos. Por sua vez, a taxa decorre do exercício do poder de polícia ou da utilização efetiva ou
potencial de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou postos à
disposição. Assim, no âmbito da segurança pública, no tocante à preservação e ao combate a
incêndios, nem mesmo o Estado poderia instituir validamente taxa.

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Em suma, considerou que a manutenção do corpo de bombeiros, que é um órgão estadual, e
não municipal, é feita estritamente por impostos, e não por taxas.
Vencidos os ministros Luiz Fux, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, que
deram provimento ao recurso.
Em seguida, a Corte deliberou fixar a tese referente à repercussão geral em assentada
posterior.

(1) CF/1988: “Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a
preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos se guintes órgãos: (...) V – polícias
militares e corpos de bombeiros militares. (...) § 5º Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da orde m
pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a e xecução de atividades de
defesa civil”.
RE 643247/SP, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 24.5.2017.
(Informativo 866, Plenário, Repercussão Geral)

Base de cálculo de taxa de fiscalização e funcionamento e número de empregados


As taxas municipais de fiscalização e funcionamento não podem ter como base de cálculo o
número de empregados ou ramo de atividade exercida pelo contribuinte.
Com base nesse entendimento, a Segunda Turma, por maioria, negou provimento a agravo em
que se discutiu a legitimidade da Taxa de Fiscalização de Estabelecimentos (TFE), instituída pela
Lei 13.477/2002 do Município de São Paulo.
No caso, o recorrente alegou que a base de cálculo da TFE é o custo do exercício do poder de
polícia e que a lei paulistana utilizou como critério para aferição justa desse custo o tipo de atividade
desenvolvida no estabelecimento. Aduziu, ainda, que o custo da fiscalização municipal é diretamente
proporcional à atividade desenvolvida pelo contribuinte.
A Turma afirmou não ser possível o conhecimento da matéria relativa à Lei 13.647/2003, que
teria introduzido critérios secundários para diferenciar o tamanho de estabelecimentos dedicados a
uma mesma atividade. O tema não foi debatido pelo tribunal de origem e o recorrente levantou a
questão apenas em sede de agravo regimental manejado no Supremo Tribunal Federal (STF).
Vencido o ministro Edson Fachin, que proveu parcialmente o agravo, para determinar a
exigibilidade da referida taxa nos exercícios de 2003, 2004 e 2005. Pontuou que o critério adotado
pela lei municipal é objetivo e permite presunção razoável do custo de fi scalização do
estabelecimento por parte do Município. Dessa forma, é constitucional a adoção de valores fixos
retirados da atividade econômica do contribuinte para a mensuração do quantum debeatur de taxa.
ARE 990914/SP, rel. Min. Dias Toffoli, julgamento em 20.6.2017.
(Informativo 870, 2ª Turma)

Majoração de taxa por portaria e princípio da reserva legal


A Primeira Turma, por maioria, deu provimento a agravo regimental para determinar o
seguimento de recurso extraordinário em que discutida a possibilidade de majoração, por portaria do
Ministério da Fazenda, da alíquota da Taxa de Utilização do Sistema Integrado de Comércio Exterior
(Siscomex).
A Turma frisou que o ato ministerial majorou em 500% os valores atribuídos à taxa em
questão. Ademais, a Lei 9.716/1998, na qual instituído o tributo, sequer estabelece balizas mínimas
para eventual exercício de delegação tributária por parte do chefe do Executivo. De igual modo, por
se tratar de taxa, e não de imposto, não há permissivo constitucional para excepcionar -se o princípio
da reserva legal em matéria tributária.
Vencidos a ministra Rosa Weber (relatora) e o ministro Alexandre de Moraes, que
desproveram o agravo por entenderem se tratar de ofensa meramente reflexa à Constituição Federal
(CF).
RE 959274 AgR/SC, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso,
julgamento em 29.8.2017.
(Informativo 875, 1ª Turma)

Município e taxa de combate a sinistros


A segurança pública, presentes a prevenção e o combate a incêndios, faz-se, no campo da
atividade precípua, pela unidade da Federação, e, porque serviço essencial, tem como a viabilizá-la a
arrecadação de impostos, não cabendo ao Município a criação de taxa para tal fim.

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Essa é a tese do Tema 16 da repercussão geral fixada pelo Plenário — Informativo 866.
RE 643247/SP, rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 1º.8.2017.
(Informativo 871, Plenário, Repercussão Geral)

Tributos

Valor Adicionado Fiscal: forma de cálculo e questão infraconstitucional


A matéria referente à forma de cálculo do Valor Adicionado Fiscal (VAF) não ostenta natureza
constitucional.
Com essa orientação, o Tribunal, por maioria, negou provimento a embargos de divergência
opostos contra acórdão da Segunda Turma nos quais se sustentava divergência em relação ao acórdão
proferido pela Primeira Turma no RE 136.189/SP (DJU de 22.5.1992).
Nos termos do voto condutor do acórdão paradigma, o ponto essencial à regência da repartição de
receitas entre Estados-Membros e Municípios — alçados os últimos, no federalismo brasileiro, ao status
de entidade política autônoma, a concretização dos caracteres essenciais da definição do “valor
adicionado” seria um problema nacional: se a própria Constituição não lhe delegou o deslinde — como o
fazia explicitamente o art. 23, § 8º, até a EC 17/1980, e o faz hoje, explicitamente, o art. 161, I, do texto
de 1988 —, seria na Constituição mesma que se haveria de buscar, até onde por possível, a densificação
do conceito necessário.
O Tribunal, preliminarmente e também por maioria, conheceu dos embargos de divergência por
reputar preenchidos todos os pressupostos processuais. Asseverou haver controvérsia entre os órgãos
fracionários do STF em relação à índole constitucional ou infraconstitucional da forma de cálculo do
VAF do ICM, sob a vigência da EC 1/1969, após a promulgação da EC 17/1980, para fins de seguimento
de recurso extraordinário. Vencidos, no ponto, os ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski, que
não conheciam dos embargos.
Quanto ao mérito, prevaleceu o voto do ministro Edson Fachin que, ao se referir ao acórdão
paradigma, entendeu que o fato de a matéria ser de abrangência nacional não implica dizer que, por isso,
também é necessariamente constitucional.
Asseverou que, no caso, verifica-se apenas que o poder constituinte derivado decidiu excluir da
esfera da política ordinária uma decisão fundamental para o federalismo fiscal, isto é, os critérios de
partilha das receitas do ICM pertencentes ao Estado por meio da constitucionalização desses critérios. No
entanto, estaria claro que não se extrairia um conceito de VAF do que positivado na Constituição, sendo
necessária a concretização normativa do Poder Público nos âmbitos legislativo e administrativo para
regular a vontade do constituinte.
Acrescentou que o VAF é um critério econômico contábil que se pauta simplificadamente na
diferença entre notas fiscais de venda e notas fiscais de compra na espacialidade do município.
Vencidos os ministros Dias Toffoli (relator) e Roberto Barroso, que davam parcial provimento ao
recurso.
RE 296178 AgR-ED-Edv/MG, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin,
julgamento em 23.2.2017.
(Informativo 855, Plenário)

Supremo Tribunal Federal


Secretaria de Documentação - SDO
Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados - CJCD
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