Vous êtes sur la page 1sur 256

comum para designar toda e qualquer forma de marginalização, dis-

criminação, desqualificação, estigmatização ou mesmo de pobreza.


Porém, sua base encontra-se nos anos 1980. Como categoria analítica
importada da França (Bouget, 1992) e usada inicialmente por Buarque
(1993), mas alimentada pela visibilidade cotidiana de uma pobreza
que, de rural, tomou-se urbana e, em seguida, metropolitana.
Os anos 1980 são os da inflexão de nossas representações so-
ciais sobre os pobres e marginais dos anos 1960 e 1970. Mas
também de nosso estilo e dimensão de desenvolvimento econô-
mico. Ingressamos na era da fossilização da estrutura social, com
perda crescente do movimento ascensional de mobilidade social.
Entramos no modelo econômico de aguda dependência global,
com pagamento de altos juros pela dívida externa, internaciona-
lização de nossas empresas e busca sôfrega de investimentos in-
ternacionais, pois não há mais poupança interna nem capacidade
de investimento por parte do setor público. Adentramos no pro-
cesso acelerado de inovação tecnológica e competitividade em-
presarial, criando o desemprego estrutural e tecnológico. Aderi-
mos à hegemonia neoliberal - sem jamais termos sido liberais -
encolhendo o Estado, reduzindo as políticas sociais, incentivan-
do a cultura da concorrência e da competição pela posse de bens
materiais. Paradoxalmente, também inauguramos a era da "es-
tagnação" econômica, abandonando as taxas históricas de 7,5%
em média por ano, para habitar a dos medíocres 2%. Como o
Coelho de Alice no país das Maravilhas, o país corre acelerada-
mente para não sair do lugar. Ou, o que dá no mesmo, moderni-
za-se para se tornar mais injusto.
No mundo, e no Brasil, o novo movimento de internacionalização
da economia, associado à hegemonia neoliberal, produziu um au-
mento considerável das desigualdades sociais. A questão da justiça
social tomou-se o centro dos debates internacionais e nacionais.
Peíg\lntam().n()~ ~e () crescimento da desigualdade - produzindoo

57
fenômeno da exclusão - não irá criar rupturas societais significati-
vas, extinguindo o sonho de uma sociedade democrática e justa, que
marcou o nascedouro da sociedade moderna no Ocidente.
O tema das iniqüidades sociais ou da injustiça social é contempo-
râneo ao processo de gestação da sociedade moderna entre os séculos
XVIl e XVIII. Objeto pennanente de estudo e debate entre cientistas
sociais e filósofos desde aquela época, vez ou outra reflui, para em
seguida ressurgir com novo ímpeto e novas vestes. Marcou o século
XIX europeu, com a revolução industrial, mas também o latino-ame-
ricano, com as independências e a abolição da escravatura.
No Brasil o tema tem, igualmente, uma longa história e consti-
tui um dos esteios do momento da produção de nossa identidade
nacional em inícios deste século (Ortiz, 1985), fundante, portanto,
de nosso pensamento social como sugeriu recentemente, em en-
saio brilhante, Sales (1994). É sobre o tema da iniqüidade que me
debruço aqui, analisando a sua face mais hodierna: a da exclusão
social.

Desigualdade, pobreza e exclusão


O senso comum, no Brasil, confunde - e tem suas razões - os
diversos tennos estruturantes do tema das iniqüidades sociais: desi-
gualdade, pobreza e exclusão.
O conceito de desigualdade social refere-se, como é conhecido,
à distribuição diferenciada, numa escala de mais a menos, das ri-
quezas materiais e simbólicas produzidas por uma detenninada so-
ciedade e apropriadas pelos seus participantes. Pobreza2, por sua
vez, significa a situação em que se encontram membros de uma de-
terminada sociedade de despossuídos de recursos suficientes para
viver dignamente, ou que não têm as condições mínimas para suprir
as suas necessidades básicas. Vida digna e necessidades básicas cons-
tituem, sempre, definições sociais e históricas, variando, no entan-
to, no t~mpo e no espaço. Abmnches (1935) irá falar da pobreza

58
como "destituição material", ao que se deveria acrescentar a dimen-
são da destituição simbólica.
Embora próximos, os termos desigualdade e pobreza são evi-
dentemente distintos, um não implicando necessariamente o outro.
Assim, um determinado país pode ter uma grande desigualdade na
distribuição de suas riquezas sem que haja pobres, embora seja pou-
co comum. Ou pode ter uma pequena escala de diferença na distri-
buição das riquezas, tendo a maioria de seus membros na condição
de pobreza.
Desigualdade e pobreza são conceitos diferentes entre si, mas
igualmente distintos do de exclusão social. O conceito de exclusão
social está mais próximo, como oposição, do de coesão social ou,
como sinal de ruptura, do de vínculo social. Por similitude, encon-
tra-se próximo, também, do conceito de estigma e mesmo, embora
menos, do de desvio. Neste caso, entre outras, a diferença reside no
fato de que o excluído não necessita cometer nenhum ato de trans-
gressão, inversamente ao desviante e à semelhança dos que sofrem
discriminação pura e simples. A condição de excluído lhe é imputa-
da do exterior, sem que para tal tenha contribuído direta ou mesmo
indiretamente.
Numa perspectiva própria à sociologia de Durkheim (1984),
a exclusão social seria um dos efeitos secundários do processo
de ruptura dos laços de solidariedade orgânica, próprios à socie-
dade moderna. No sentido inverso do crescimento da densidade
material e social, o sociólogo francês observava uma queda da
densidade moral produzindo patologias sociais, a mais grave sen-
do a anomia, resultado da primazia das relações de mercado que
não têm fins propriamente sociais e morais. Estes decorrem da
ação do Estado, o único capaz de colocar ordem onde tende a se
instalar a desordem, que nasce da debilidade dos vínculos soci-
ais próprios à divisão do trabalho social fundadores de nossas
~ociedadeg modernas.

59
dificuldades de reconhecer no outro direitos que lhe são próprios,
como se representando e representado não fossem semelhantes.
Compreende, ademais, a auto-representação do excluído que, ao
romper o vínculo societário, desenvolve vínculos comunitários par-
ticulares, como forma de sobrevivência social, de preenchimento
das rupturas. Sinais de uma coesão social fragmentada, patológica,
como diria Durkheim.
Há três acepções, do ponto de vista sociológico, do tenno exclu-
são social. O primeiro é uma decorrência do conceito de anomia,
como citado anterionnente. Trata-se da concepção mais ampla e mais
genérica. Neste sentido, o conceito de exclusão social aproxima-se
do de discriminação racial, sexual, religiosa, ou outra. Assim, toda
discriminação ou rejeição social seria uma forma de exclusão. Ne-
gros, nordestinos pobres, minorias sexuais e religiosas, sem-terra,
entre outros, seriam grupos sociais excluídos, por vezes, detentores
de formas particulares e substitutivas de socialização. Embora não
estejam fonnalmente excluídos de direitos, suas diferenças não são
aceitas e, por vezes, não são toleradas. Confundem-se, assim, com
os grupos de estigma e/ou de desvio.
Na segunda acepção, o não-reconhecimento se traduz numa cla-
ra exclusão de direitos. São grupos sociais - trabalhadores pobres,
mendigos, biscateiros - que não têm uma clara integração no mun-
do do trabalho, não possuindo, em decorrência, condições mínimas
de vida. Por vezes, esta não-integração produz efeitos de não inser-
ção social. Paugam irá denominá-Ios de "desfavorecidos" (1993),
enquanto Castel irá chamá-Ios de "desfiliados" (1991). Em grande
parte eles se confundem com o que em alguns países denomina-se
de "novos-pobres". Os efeitos são de discriminação, mas também
de exclusão de direitos. Estigmatizados como os anteriores, embora
não necessariamente pelas mesmas razões, sofrem o processo espe-
cífico de não ingressarem no mundo dos direitos ou dele serem ex-
D\ll~O~, ptlfCÜÜ ou totalmente.

61

---.
Existe ainda uma terceira acepção aqui denominada de nova ex-
clusão. Neste caso, o não-reconhecimento vai além da negação ou
recusa de direitos. Insere-se em um processo de - usando uma frase
famosa de Hannah Arendt - recusa ao espaço da obtenção de direi-
tos. Estes grupos sociais - moradores de rua, índios ou
modernômades3 - passam a "não ter direito a ter direitos". Sem se-
rem reconhecidos como semelhantes, a tendência é expulsá-Ios da
órbita da humanidade. Passam, assim, a ser objeto de extermínio,
como os meninos de rua na Guatemala e no Rio de Janeiro, os men-
digos ou índios em Brasília e outras cidades brasileiras4 . Mas tam-
bém inclui determinadas populações da África, em que o Estado
desaparece e os organismos internacionais são ineficientes. Instala-
se uma espécie de genocídio disfarçado em que milhares de homens
e mulheres morrem, a cada ano, de fome, Aids ou guerras.
Assim posto o problema - e ainda numa primeira abordagem -
pode ocorrer exclusão social sem que haja desigualdade social (dis-
tribuição diferenciada de riqueza). Como também não é necessário
haver pobreza (incapacidade de suprir suas necessidades básicas)
para que ocorra aquele fenômeno. Se bem relacionados, e por vezes
de fonna íntima, os três conceitos podem ser considerados separa-
damente, possuindo uma relativa autonomia, que se estreita ou se
amplia segundo o caso em estudo.

A exclusão como problema na sociedade moderna


A diferença entre os três tennos - desigualdade, pobreza e exclu-
são - pode ainda ser percebida quando relacionados ao processo de
constituição da sociedade moderna e, particularmente, do ideário
que a alimenta.
A sociedade moderna é concebida como uma sociedade aber-
taS, de grande mobilidade social, em que os indivíduos se consti-
tuem como personagens centrais. Movida pela racionalidade, ten-
do a c~enc~a como a forma de saber central, seu sistema econô-

62
mico é naturalmente vocacionado à universalidade, expulsando
a idéia de exterioridade. Cria, em decorrência, uma História mun-
dial, quando antes existiam apenas Histórias regionais. Além dis-
so, por meio do processo de diferenciação, consolida espaços
regidos por lógicas distintas, entre as quais a do poder, que se
despersonaliza para se materializar em lugares sociais (Badie &
Birnbaum, 1991).
Duas esferas distintas e antagônicas constituem a sociedade mo-
derna. A primeira - sem qualquer ordem cronológica é a esfera da
-

igualdade jurídico-política, em que a lei única considera todos os


homens iguais, inexistente nas sociedades pretéritas, sempre de di-
reito plural. E a segunda é a esfera da desigualdade no acesso aos
bens materiais e simbólicos. Não obstante esta esfera seja preexistente
à sociedade moderna, nesta ela é completamente reformulada (Nas-
cimento, 1994 e 1998). A tensão entre as esferas da igualdade e da
desigualdade, ambas legítimas em suas lógicas próprias, é resolvida
pelo Estado, sobretudo em sua concepção melhor desenvolvida até
hoje, o Estado de Bem-estar Social.
A desigualdade social na sociedade moderna tem várias
conotações. De forma simples, assinalo duas. Tem uma conotação
positiva, na medida em que nela reside o processo de concorrência e
desenvolvimento, onde se situa o eixo da inovação tecnológica e do
dinamismo social e econômico. A desigualdade entre os indivíduos
em uma sociedade de mobilidade aberta faz com que esta sociedade
tenha um dinamismo extraordinário. A mobilidade que caracteriza a
sociedade moderna faz com que cada indivíduo se veja como res-
ponsável pelo lugar que ocupa na escala social, sendo por isso esti-
mulado a mudá-Ia, ascendendo socialmente. Mas existe uma
conotação negativa, na medida em que a desigualdade, ao crescer,
diferenciando os Homens, coloca em risco a construção do espaço
da igualdade. Esta conotação negativa é mais manifesta quando gru-
pOSsociais são colocado~ no e~paço da pobreza ab~oluta e, sobretu-

63

_.------
do, na fronteira da sobrevivência, pois, assim, ficam impossibilita-
dos de participar da gestão dos bens comuns.
Desse ponto de vista, a desigualdade, dentro de determinados
limites - que são o da indigência - não constitui nenhum problema
para a sociedade modema. Em termos moderados, é, na realidade,
um de seus componentes essenciais, legítimos e benéficos.
Por outro lado, se a pobreza relativa é um simples e puro reflexo
da desigualdade, a pobreza absoluta tem uma outra conotação e au-
tonomia, e sua existência não constitui - em si - um verdadeiro
problema, no sentido de ameaça, para a sociedade moderna. Isso, na
medida em que for temporal, circunstancial. No ideário da socieda-
de moderna - não confundir com nossa triste realidade - há momen-
tos de grande inovação tecnológica que criam desempregos e con-
duzem grupos sociais significativos a situações de miséria, que logo
se desfazem com a disseminação das novas tecnologias e a criação
de novos postos de trabalho. Para enfrentar estes momentos, que
são simultaneamente sociais e individuais, a sociedade moderna criou
mecanismos de proteção especiais que vieram a redundar no Estado
do Bem-estar Social (Rosanvallon, 1981).
Inversamente à pobreza, a exclusão social, como expulsão de
grupos sociais do espaço da igualdade, é um problema para a socie-
dade moderna, pois se opõe frontalmente ao seu ideário. Se a demo-
cracia da Grécia antiga excluía escravos, mulheres e estrangeiros,
sendo portanto restrita, a democracia moderna está assentada no prin-
cípio de que todos os homens são iguais e, assim, membros de direi-
to do espaço público da gestão dos bens comuns. De certa forma, a
exclusão social, na segunda acepção do termo e, sobretudo, na ter-
ceira, é uma ameaça constante, simultaneamente, à existência do
espaço de iguais e à inexistência de exterioridade, características
intrínsecas da sociedade moderna. De um lado porque expulsa ou
impede o ingresso de determinados indivíduos na esfera da igualda-
de, negando a existência de uma lei única, de outro lado porque cria

64

------
um exterior inadmissível para a modernidade que sempre se preten-
deu universal.
A constituição da exclusão social é hoje a maior ameaça à cons-
trução da sociedade moderna, uma ameaça 'direta ao seu ideário de
igualdade, que Montesquieu denominará de convenção fundante. E
sua repulsa está presente na condenação, e mesmo rejeição, aos re-
gimes excludentes que se criaram ao longo do século XX, como o
nazismo na Alemanha e o apartheid na África do Sul.
Mas afinal, em que consiste esta nova exclusão social?

As múltiplas dimensões do fenômeno


Antes de ingressar na explicação sobre a natureza da nova exclu-
são social, seria necessário introduzir mais uma premissa-chave do
problema: a de que a exclusão social é um fenômeno de múltiplas
dimensões. E, em primeiro lugar, a dimensão histórica.
O problema da exclusão social, repito, não é novo. Foucault de-
monstrou cabalmente os processos de sua criação e legitimação no
século XVIII (Foucault, 1975). Na Europa pré-moderna, judeus,
heréticos e leprosos eram os principais objetos do processo de ex-
clusão social, sem uma relação direta com sua participação nas ri-
quezas produzidas (Geremek, 1987). Podiam ser ricos ou pobres,
eram sempre excluídos. Os judeus e os leprosos sofreram o proces-
so de exclusão não em decorrência do nível de participação nas ri-
quezas produzidas ou de qualquer comportamento ativo, de desvio,
por exemplo, mas do simples fato de serem judeus ou de terem con-
traído a lepra. Já os heréticos são excluídos sociais do tipo que se
aproxima do desviante, pois o processo de exclusão decorre de uma
ação, interpretada pelos outros como de transgressão à norma reli-
giosa então predominante.
Na Europa hodiema, o processo social de exclusão escolhe par-
ticularmente os imigrantes, em especial da África, e seus descen-
denteg, como objeto preferido. O racismo e a xenofobia, que não se

65
confundem com o fenômeno que aqui nos interessa, são, no entanto,
as suas expressões mais visíveis. Hoje, porém, o fenômeno da ex-
clusão conhece novos contornos, ainda não suficientemente estuda-
dos (Touraine, 1991; Donzelot, 1991): europeus, alguns brancos,
começam também a ser objetos do processo de exclusão social. São
os chamados "novos-pobres" e/ou jovens de periferia que Dubet
(1987) denominou de "galere". Agora, a exclusão social está associ-
ada diretamente à capacidade da sociedade em criar emprego para
seus membros ou a eles atribuir um renda mínima de vida. Por sua
vez, no Brasil colonial, como veremos em seguida, os excluídos não
se confundem com os pobres, mas os "outros" não reconhecidos
como semelhantes: índios e escravos.
A exclusão social é portadora de uma geografia. E em um duplo
sentido espacial.
Em um primeiro sentido, há lugares em que a exclusão se pro-
cessa com mais nitidez, como na maior parte da África - que se
descolou do mercado internacional por intermédio da criação de
novos produtos que tomaram sua mercadoria sem competitividade
- ou nos morros do Rio de Janeiro, lugar emblemático do tráfico de
droga - consumida pela classe média - e da incompetência do Esta-
do brasileiro. Lugares estigmatizados, em que se nasce e se cresce
excluído.
Em um outro sentido espacial: os excluídos não têm lugar.
Vagabundeiam pelos interstícios das cidades ou entre cidades como
na Europa nos primórdios da modernidade (Charle, 1991). São os
sem-teto, sem-moradia, sem-trabalho, com seus vínculos familiares
rompidos, que fazem do espaço da rua sua morada. Ou, os sem-
terra, que percorrem o país em busca de um lote para plantar e co-
mer. Ou ainda, os trabalhadores migrantes de todo o mundo que
vivem em movimento constante, expulsos pelos deslocamentos do
capital, que se implanta hoje aqui, amanhã acolá. Os citados
modernômadêS.

66
Ao lado das dimensões histórica e geográfica, a exclusão social
tem uma dimensão econômica, sobretudo na forma recente que tem
assumido. Aparentemente, o aumento da desigualdade social, rela-
cionado mas não restrito ao aumento do desemprego, está criando
grupos sociais que não possuem acesso aos bens máteriais e simbó-
licos, em particular, que não têm possibilidades de encontrar um
lugar no mundo do trabalho, com repercussões não apenas na cria-
ção de grupos sociais pobres, mas também na auto-estima destas
mesmas pessoas. A nova revolução científico-tecnológica, iniciada
em meados dos anos 1970, estaria por trás deste fenômeno de forma
mais abrangente, e as crises sucessivas, após aquela década, de for-
ma mais conjuntura!.
Uma pergunta que se faz para os analistas é até que ponto os
efeitos desta revolução científico-tecnológica são passageiros. Nes-
ta hipótese, a disseminação das novas tecnologias criaria, em breve,
novos postos de trabalho, modificando as taxas de desemprego e,
sobretudo, a sua tendência ascendente, em conformidade com os
ciclos de Kondratief. Outros vêem algo mais substantivo: o pleno
emprego do final dos anos 1950 seria inalcançável, pela natureza
diferenciada desta mesma revolução, sem parâmetros de compara-
ção com as anteriores (Castells, 1998).
É praticamente impossível dizer hoje quem tem razão, pois os
defensores do caráter transitório do fenômeno do desemprego têm
fortes argumentos na história, enquanto os defensores do surgimento
de um novo tipo de sociedade, em que o emprego toma-se uma rari-
dade, têm elementos empíricos importantes. Não cabe aqui ingres-
sar nessa discussão, apenas assinalar que os novos excluídos são
marcados pelo desemprego ou incapacidade de renda, em parte, mas
apenas em parte, confundindo-se com os pobres ou novos-pobres.
Como não poderia deixar de ser, a exclusão tem, também, uma
dimensão especificameate social, conforme já sinalizado, pois, a não-
integH\ç~o no mundo do tNbalho complementa.se com a não.inser.

67
ção social. Na impossibilidade de recuperar vínculos que se desfa-
zem, os indivíduos são conduzidos a construírem estratégias de so-
brevivência as mais insólitas e inesperadas. Carreteiro, em sua tese
doutoral (1993), identifica uma estratégia intitulada projeto doença
como a forma que os determinados excluídos encontram para ame-
nizar seu sofrimento decorrente da rejeição e obterem algum reco-
nhecimento social.
Para compreender o fenômeno da nova exclusão social em sua
plenitude é necessário introduzir uma outra dimensão igualmente im-
portante, a da representação social. Os grupos sociais sujeitos à exclu-
são social sofrem uma mutação na forma como a sociedade os repre-
senta. Deslocam-se de uma representação de diferença, de diversida-
de, para uma de dessemelhança. Como os índios na representação dos
portugueses que aqui chegavam no século XVI (Nascimento, 1999).
Assim, a nova exclusão social se constrói num processo múlti-
plo, simultaneamente econômico (expulsão do mundo do trabalho),
cultural (representação específica de não-reconhecimento ou nega-
ção de direitos) e social (ruptura de vínculos societários e, por ve-
zes, comunitários).
A serem utilizadas as categorias da cidadania de Marshall, seria
possível dizer que, além de uma expulsão do mundo da economia,
os novos excluídos são expulsos dos direitos sociais e, em decorrên-
cia, correm o perigo de sofrer restrições nos espaços político e civil.

A nova exclusão social


Tomando em consideração estas diversas premissas é possível,
agora, formular em que consiste a nova exclusão social em termos
gerais, para depois ingressar no espaço específico do Brasil. Trata-
se da formulação de uma hipótese, merecedora de aprofundamento
posterior, mas não custa exprimi-Ia.
A nova exclusão social consiste num processo que articula di-
yersÇ\sdimensões e que ~ construido histórica e geogrÇ\ficamente. É

68
uma tendência que se desenha em nossos dias, sob algumas vigas
que cabe aqui explicitar, mesmo que sucintamente.
Em primeiro lugar, existe a suposição de que a presente revolu-
ção científico-tecnológica traz consigo reformulações profundas não
apenas nas relações de trabalho mas na natureza mesma do mundo
do trabalho. O princípio é simples: cada vez mais há necessidade de
menos pessoas para assegurar a reprodução ampliada da sociedade.
Com esta revolução inicia-se o processo de substituição (e amplia-
ção) da inteligência. Neste sentido, guarda uma enorme diferença
com as revoluções pretéritas que apenas substituíam (e ampliavam)
a força muscular. Com a automação, a telemática, a biogenética e os
novos materiais, entre outros, um contigente humano cada vez maior
será dispensável ao processo produtivo, aumentando a desigualdade
social em termos de renda per capita e estilo de vida. Neste enfoque,
não haveria condições de criar os postos de trabalho necessários
para compensar os que são destruídos e incorporar a força de traba-
lho disponível. Instala-se o desemprego estrutural (Schaff, 1990),
que cada país tende a resolver de maneira distinta, segundo a natu-
reza e capacidade de análise e decisão dos seus atores políticos, mas
sempre com aumento das massas excluídas do "mundo do traba-
lho".
O que há de novo nesse processo, para a questão que aqui anali-
so, é que um contingente cada vez maior de pessoas transforma-se
de exército de reserva em lixo industrialÓ - não apenas não têm tra-
balho ou capacidade de gerar renda suficiente como não têm as qua-
lidades requeri das para nele ingressar.
Por isso mesmo, são novos-pobres, pois detêm características
sociais distintas, das quais decorrem representações sociais novas.
A nova exclusão social constitui-se de grupos sociais que se tor-
nam, em primeiro lugar, desnecessários economicamente. Perdem
qualquer função produtiva, ou se inserem de fonna marginal no pro-
ce~~o \)Iod\ltl\JO, e \)a~~am a ~e comtituií em um peso econômico

69

---
para a sociedade (dos que trabalham e/ou têm renda) e para os go-
vemos.
Em segundo lugar, com essas mudanças sociais ocorrem trans-
formações nas representações sociais a respeito destes indivíduos,
pois eles não são apenas objeto de discriminação social. Pouco a
pouco, de forma homeopática, passam a ser percebidos como soci-
almente ameaçantes. Bandidos em potencial. Indivíduos perigosos.
A nova representação social do "pobre-excluído" alimenta-se,
em grande parte, do crescimento da violência urbana que parece
conhecer um crescimento ímpar em diversos países ocidentais. N es-
te quadro, essa violência estaria relacionada, na Europa, à evidente
quebra de coesão social, mas também à perda de mobilidade ascen-
dente destas sociedades. No caso latino-americano, aos dois fatores
anteriores que se manifestam com tintas diferenciadas, somam-se a
rápida urbanização e o aumento da visibilidade das desigualdades
sociais, quando não um claro empobrecimento social. A rápida ur-
banização provoca um deslocamento do indivíduo de uma situação
pautada pelas relações primárias para uma situação com predomi-
nância das relações sociais secundárias, de menor controle social. E
este tende, ainda, a diminuir com o aumento da visibilidade social
advinda do rápido progresso dos meios de comunicação. Os traba-
lhadores pobres são tensionados pelo apelo ao consumo e a impos-
sibilidade de exercê-lo. Tensão que só pode ser resolvida em uma
sociedade de mobilidade social em processo de fossilização pela
transgressão da lei. Este é o ciclo que alimenta o aumento da violên-
cia urbana e, simultaneamente, as novas representações sociais so-
bre os pobres.
O que distingue estes novos excluídos dos antigos pobres
parisienses ou, nos termos de Chevalier (1984), das "classes perigo-
sas"? Várias são as diferenças, mas quero inicialmente chamar a
atenção para uma em particular. Antes, os indivíduos destas classes
eram objeto de um complicado e sofisticado processo de

70

------
"domesticação", de adestramento, na expressão preferida de
Foucault. As escolas, os presídios, os hospícios, a urbanização, en-
tre outros, além de uma sofisticada legislação e mecanismo~ clara-
mente repressivos, eram criados com o objetivo de produzir uma
força de trabalho requerida pela expansão do emprego, no período
de disseminação de mudanças no processo produtivo ao longo dos
séculos XVIl a XIX. E mesmo na primeira metade do XX. No início
do século XXI, porém, parte dos trabalhadores não interessa mais à
economia e os mecanismos de domesticação se diluem, perdem efi-
ciência, começam a se quebrar ou, simplesmente - ou de forma pa-
radoxal -, transformam-se em obstáculos de integração no mundo
do trabalho. Vide, por exemplo, a ação dos sindicatos.
A demanda social - e de mercado - passa a ser, em relação aos
"desqualificados", a de repressão. Grupos de extermínio se formam
nas grandes cidades latino-americanas. Novas formas de intole:ân-
cia emergem nas cidades européias, com o crescimento da xenofo-
bia na França, do neonazismo na Alemanha e das Ligas na Itália. O
que se vê hoje em dia, em diversos países, é que os "desqualificados",
por meio de mecanismos diversos, entre os quais o da saturação da
política, são gradativamente afastados do espaço da representação
como "agentes incômodos". E esta é a terceira característica dos
novos excluídos.

o caso do Brasil: a dimensão histórica


A exclusão social no Brasil está estreitamente relacionada à de-
sigualdade social e à pobreza, possui uma dimensão histórica parti-
cular e, em parte, é responsável pelas dificuldades da constituição
de seu espaço de igualdade. Comecemos a abordagem pela dimen-
são histórica, em percurso que será feito sempre de forma breve.
Três são os personagens clássicos da exclusão social no Brasil,
país que nasce sob este signo: os índios, os negros e os trabalhado-
re~ rur:llS.

71
No início do século XVI, ainda antes do tráfico de escravos, são
os índios os grandes excluídos, considerados pelos europeus (Voltaire
inclusive) como uma espécie de sub-raça, homens inferiores ou
mesmo semi-homens. Desde então têm sido perseguidos e dizima-
dos. Sua população atrofiou-se, muitos grupos étnicos desaparece-
ram e alguns estão ainda em fase de extinção. Em grande parte os
índios foram eliminados por resistirem à escravidão e não se inte-
grarem plenamente ao processo produtivo dominante do Brasil
mercantilista. Se foram úteis no início da colonização, em seu período
extrativista, perderam parte de sua importância no início dos
plantations. Por um bom tempo, os índios foram os primeiros ex-
cluídos necessários, indispensáveis na produção de mercadoria (pau-
brasil) e na ocupação do novo território pelos portugueses.
Os negros africanos, despidos de qualquer direito, considerados
como simples mercadorias, foram os pilares indispensáveis à insta-
lação da economia colonial no Brasil, o empreendimento de maior
sucesso econômico no século XVII no continente americano (Cal-
deira, 1999). Esta economia não existiria sem eles. Assim, os escra-
vos eram necessários à economia mas excluídos da cidadania, à se-
melhança dos índios que não eram considerados como cidadãos.
Após a abolição - e com o início do processo de industrialização
neste século -, emerge o segundo tipo de excluídos necessários: os
trabalhadores rurais. Sobre eles recai o principal fardo do processo
de acumulação que possibilitou a industrialização brasileira, princi-
palmente entre os anos 1930-1960. Não eram mais considerados ob-
jetos como os escravos, mas não tinham qualquer cidadania, fosse
política (não eleitores) ou social (não sindicalizados e sem proteção
social). Mesmo da cidadania cívica eram em parte despidos, pois
estavam sujeitos à polícia e à justiça dos grandes proprietários de
terra.
À semelhança dos escravos e dos índios, os trabalhadores rurais
foram indispensáveis à economia em um determinado momento. No

72
início do século XX, além de mão-de-obra, que migrava para as
cidades, forneciam insumos e matéria-prima às indústrias e alimen-
tos baratos aos trabalhadores. Foram componentes indispensáveis
ao processo de industrialização, propiciando aos empresários uma
margem de lucro extra para os novos investimentos.
Dessa forma, ao longo de sua história, o Brasil conheceu três
tipos clássicos de excluídos, distintos entre si, mas com um lastro
comum: eram indispensáveis ao desenvolvimento econômico.

Uma exclusão específica: a cidadania hierarquizada


A abordagem da exclusão social, nos tempos recentes, tem sido
feita, também, na ótica da cidadania, e não apenas na perspectiva da
economia, esta significando o reconhecimento de que o indivíduo é
um semelhante e, portanto, alguém revestido de direitos e, sobretu-
do, do direito de ampliar seus direitos. Em termos análogos ao de
Hannah Arendt, porém em situação invertida: ser incluído é ter di-
reito a ter (novos) direitos.
É com o processo de integração nacional, inscrito na construção
da modernidade a partir das décadas de 1920-1930, que a cidadania
começa a tomar forma no Brasil, e a exclusão social a assumir novas
configurações. O Estado Novo e a política populista, que se inicia
desde então, são as formas e os instrumentos pelos quais se dá a
integração dos trabalhadores urbanos. Porém, isso ocorreu por meio
de uma engenharia institucional cujo resultado é uma cidadania
excludente. A inserção no mundo do trabalho formal, industrial,
possibilita ao indivíduo o ingresso no espaço cidadão, aprisionando
na exclusão os restantes. O mundo da cidade, formado em sua mai-
oria de cidadãos, de fato ou em potencial, opõe-se ao mundo rural,
formado por uma população majoritariamente de excluídos. Migrar
significa ampliar consideravelmente suas possibilidades de "ter di-
reito a ter direitos": ao voto, à proteção social, ao acesso às riquezas
lldvind9.~ com a industrialização, entre outros.

73

----------
Os anos 1950-1960 colocam na agenda a integração social e a
política da massa de trabalhadores rurais, processo que passa pela
sindicalização, expansão das relações de assalariamento e, finalmen-
te, pela integração política e social. E que ocorre por meio de lutas
que vão das Ligas Camponesas ao Movimento dos Sem-Terra, pas-
sando pelo sindicalismo rural, o qual atinge, em meados da década
de 1980, uma massa mais numerosa do que a dos sindicalizados
urbanos.
Com a Constituição de 1988, pela primeira vez o sufrágio uni-
versal real é estabelecido. A cidadania política é extensiva a toda a
Nação. Como o operário, o trabalhador rural, que passara a "ter o
direito de ter direitos" como resultado das lutas dos anos 1950-1960,
vem a ser reconhecido como cidadão, pois agora é tido no mundo da
política como sujeito legítimo.
Todas as lutas que marcaram os movimentos sociais no Brasil,
incluindo os denominados de novos, nas décadas de 1970 e 1980,
tinham também, na sua extrema diversidade, esta marca: eram lu-
tas pela integração social. Segundo uma expressão clássica de
Merton, eram movimentos hiperconformistas: seus objetivos eram
os de serem reconhecidos, os de terem direitos, os de ingressarem
no mundo da cidadania. Entendidos em seu sentido mais amplo,
incluíam o direito aos bens indispensáveis a uma vida humana dig-
na. Portanto, direito à terra, à moradia, ao transporte, à educação,
à saúde, ao voto, à participação política, à organização partidária,
dentre outros.
Aparentemente, a década de 1980 é aquela da vitória da luta
social pela integração social (e nacional, no sentido de que não há
nação moderna sem cidadania), mas também a de seu esgotamen-
to. O Brasil parece assumir a conformação não de um espaço dual
de cidadania (os que têm direitos e os que não têm, como já se
sugeriu existir nos anos 1930) mas uma forma plural e fragmenta-
da: uns têm mais direitos do que outros, enquanto outros ainda

74

---
começam a habitar o espaço do não-direito. A cidadania excludente
é substituída pela cidadania fragmentada, melhor dizendo,
hierarquizada.

o percurso da desigualdade à exclusão


É interessante observar que as lutas sociais pela integração soci-
al e política ocorrem simultaneamente ao processo de formação de
um mercado econômico nacional, com forte mobilidade social as-
cendente e mudanças na estrutura ocupacional e educacional, em-
bora de maneira diferente segundo as diversas categorias sociais. As
mulheres, por exemplo, conseguiram um alto nível de mudança em
sua posição social, o mesmo não ocorrendo com os negros. As mu-
lheres tomaram-se maioria na estrutura educacional, inclusive uni-
versitária, enquanto os negros permaneceram presos na base da pi-
râmide social. Mas esse processo foi também concomitante, em um
outro aspecto, ao aumento da desigualdade social. Ao mesmo tempo
em que o país crescia a níveis extraordinários (média de 7,5% ao
ano), completava o ciclo da industrialização mediante a substitui-
ção de importações, reduzia os bolsões de pobreza e aumentava a
desigualdade na estrutura social.
Esse paradoxo, apenas aparente, de crescimento econômico e
desigualdade social predominou na literatura sobre as iniqüidades
sociais nos anos 1970. Uma farta literatura foi produzida, então, sobre
o tema (Tolipan & Tinelli, 1975), em que se assinalava que os bolsões
de pobreza diminuíam ao mesmo tempo em que a desigualdade au-
mentava. CavaIcanti & Villela (1990) insistiram com a tese de que o
país conhecia um processo crescente de integração. A literatura vi-
gente, como diz Marcel Bursztyn, neste mesmo livro, relevava o
tema da marginalidade. E não só no Brasil, como em toda a América
Latina (Kowarick, 1981).
A desigualdade social não deixou de crescer com o modelo eco-
nômico vigente desde 1930, mas os bo1sões de pobreza, principal-

75

---
mente na década de 1970, diminuíram, passando de cerca de 40%
para 20% em 1980 (Brandão Lopes, 1992). Observou-se, neste pe-
ríodo, um paradoxo: a sociedade produzia sua coesão social em meio
a uma desigualdade crescente.
A novidade da década de 1980 não foi a redução da desigualda-
de, concomitante à queda no ritmo de crescimento, mas a inversão
no processo de diminuição do número de pobres. Ocorreu, portanto,
uma int1exão no movimento anterior que absorvia a pobreza absolu-
ta. Pela primeira vez os bolsões de pobreza não diminuíram
percentualmente. Para os mais otimistas, mantiveram-se estacioná-
rios, com irregularidades, ao longo da década (Eichemberg Silva,
1992; Rocha, 1991).
Marcante na década de 1980 foi, sobretudo, a visibilidade que a
pobreza alcançou. Nos últimos quarenta anos, a pobreza havia se
deslocado do campo para a cidade e, naquela década, começava a
deslocar-se para as metrópoles (Rocha, 1992). Começava também a
mover-se do mundo do trabalho informal para o mundo do trabalho
formal (Telles, 1992).
A literatura sobre o tema da iniqÜidade social trocou, na década
de 1980, a problemática da desigualdade pela da pobreza (Abranehes,
1985; Zaluar, 1985). Os pobres, sua condição de vida, suas repre-
sentações sociais, tornaram-se importantes objetos de investigação,
"desnaturalizando-se" a pobreza.
Na passagem da década de 1980 para a de 1990 ocorreu um ou-
tro deslocamento. A questão social moveu-se para a problemática
da exclusão, entendida inicialmente, porém, como o risco inerente
da criação de uma sociedade dual, seja como resultado da crise
(Jaguaribe, 1989), criando um caos social, seja como resultado da
lógica do modelo econômico vigente (Buarque, 1991 e 1993), cri-
ando a apartação.
O país deixou para trás as discussões em torno das desigualda-
des regionais ou sociais, e mesmo o interesse pelo estudo dos po-

76
bres e seu modo de vida, para se concentrar no entendimento de um
fenômeno que parecia novo: o da exclusão social.

Pobreza e violência
Prefiro não entrar na disputa teórica se os riscos de dualização
encontram-se no âmbito da instabilidade-crise-recessão econômica
em que o pais vive há quase duas décadas, nas quais o Brasil parou
de crescer, mudou a lógica do seu modelo econômico, abriu suas
fronteiras, enxugou seu Aparelho de Estado e aumentou a sua de-
pendência externa. Entre outras razões, porque a dualização parece-
me pouco consistente como proposição analítica ou pensamento
prospectivo.
O crescimento industrial, mesmo no Brasil, não parece mais capaz
de criar empregos e os mecanismos de proteção social estão extrema-
mente fragilizados. É evidente que o retomo do crescimento deverá
pelo menos diminuir os bolsões da pobreza de conjuntura, mas pode
aí estagnar, não possuindo o novo modelo econômico qualquer meca-
nismo àistributivista capaz de produzir modificações substantivas.
Sinais: a economia industrial não cria mais emprego no ritmo das
décadas anteriores, mesmo com o crescimento da produtividade e da
produção. Como exemplo, a indústria nacional cresceu cerca de 10%
em 1993 sem aumentar os postos de trabalho que, ao contrário, dimi-
nuíram (editorial da Folha S. Paulo, 13/02/94). E o mesmo tem ocor-
rido desde então. O setor secundário não pára de aumentar sua produ-
tividade e de diminuir o seu contingente empregado.
Outra razão para não me intrometer em "discussões alheias" ,é
que o processo de produção da nova exclusão social tem um funda-
mento econômico evidente, mas possui uma segunda face igualmente
importante: a da representação social que se faz sobre os pobres nas
camadas sociais mais favorecidas, relacionadas à violência urbana,
emergente n?s anos 1980, e que necessita de uma explicação (Nas-
cimento, 1995),

77
Parece-me uma hipótese plausivel supor que o crescimento da
violência urbana está diretamente relacionado ao surgimento da nova
exclusão social. Mas não necessariamente ao crescimento da pobre-
za no espaço urbano.
É evidente que o termo violência urbana é muito genérico. Que-
ro porém chamar a atenção em especial para a violência que se abate
sobre os setores mais ricos da sociedade. Violência manifesta parti-
cularmente por meio de assalto à mão armada, com dolo ou não,
roubo e seqüestro.
A violência aqui referida, parece-me uma hipótese plausivel, está
relacionada não apenas ao aumento da pobreza mas a ouL os fatores.
Cito alguns que me parecem mais ou menos evidente,,:
a) o processo de urbanização acelerada deslocou uma massa huma-
na significativa de um espaço social com predominância das re-
lações primárias, com forte controle social, pC1rasituações com
predominância de relações sociais secundárias, com menor con-
trole social;
b) as mudanças nos costumes, incluindo no âmbito da família,
reduziram ainda mais o poder do controle social já enfraque-
cido;
c) o progresso dos meios de comunicação na sociedade brasileira
estimulou a população a um extraordinário desejo de consumo;
d) o crescimento destes mesmos meios de comunicação deu uma
maior visibilidade às desigualdades sociais;
e) as lutas sociais pelo ingresso no mundo da igualdade politico-
jurídico e por maior acesso a bens materiais e simbólicos deram
às massas urbanas uma consciência de que as desigualdades so-
ciais são injustas;
f) a instabilidade politica, resultante do processo de transição pro-
longado e conservador, colocou diversas instituições em crise de
legitimidade, incluindo as autoridades governamentais;

78
g) o bloqueio da mobilidade social, resultante da queda do ritmo de
crescimento econômico, deixou camadas pobres sem perspecti-
vas para a mudança de seu lugar social.
Ao que deveria acrescentar mais um fator:
h) o esgotamento das lutas sociais pela integração, resultando no
refluxo dos movimentos sociais (Nascimento & Barreira, 1993).
Com essa Última expressão quero indicar que, a partir da segunda
mctade dos anos 1980, há um refluxo nos movimentos sociais
em geral, particularmente urbanos, pela relação pouco positiva
entre custos e benefícios da participação no espaço pÚblico. Ao
longo daquela década, participantes dos movimentos popula-
res e das lutas sociais, particularmente nas periferias urbanas,
percebcram que o resultado de suas mobilizações não apenas
era pouco significativo como se desfazia com o tempo (mudan-
ça de governo, inflação, abandono ou degradação dos serviços
pÚblicos), devido ao esgotamento, evidente a partir de 1990,
do que denomino (Nascimento, 1993) o espaço societal regula-
do. Por sua vez, o espaço da representação política tornou-se
menos permeável aos mais pobres e o Estado suspendeu, a par-
tir de 1995, Si.Tit-spolÍtlc"associais, exceto educação.
Em tal situação restam ao pobre duas possibilidades:
a) conformar-se com a situação de "destituição material" para si e,
aparentemente, para seus descendentes, pois as possibilidades
de romper a linha de pobreza reduziram-se de maneira drástica e
parecem fugir de seu horizonte de vida; ou
b) transgredir as leis vigentes (seja isoladamente, seja de fonna or-
ganizada).
A violência urbana, como sugere Machado (1993), em verdade
ganha na década de 1980 os contornos de um tipo de sociabilidade e
uma resposta de revolta que não apresenta recursos de assimilação,
ma~, inVél'~aménté, agudiza ~éU~mecani~mo~ de ex.clusão.

79
Representações da pobreza e exclusão social
Um fenômeno interessante de observar: estes tipos de violência
ocorrem ao mesmo tempo em que a visibilidade da pobreza aumen-
ta. No interior das camadas sociais mais favorecidas ocorre a produ-
ção de uma imaginária relação de causa e efeito entre pobreza e
violência7, ainda mais quando a violência urbana ganha espaço e
visibilidade, com muito "sucesso", na mídia. Pesquisa realizada em
Brasilia permitiu-me constatar a dimensão imaginária da violência
urbana, ou seja, que esta é, pela maioria dos membros da classe
média, superdimensionada (Nascimento, 1998).
Os pobres e a situação de pobreza são representados como vio-
lentos e ameaçadores à segurança pessoal e aos bens das camadas
mais favorecidas. Parece-me plausível sugerir que no Brasil conhe-
ce-se, nos tempos recentes, um deslocamento no interior da repre-
sentação dos pobres pelas camadas sociais mais favorecidas. Vou
tentar apenas ilustrar esta idéia.
No pós-guerra predominava a idéia do pobre como um Jeca Tatu:
um indivíduo indolente, preguiçoso e espacialmente distante. A po-
breza, então, encontrava-se praticamente restrita ao mundo rural. É
tema de folclore em nossa literatura, como bem enfatiza Monteiro
Lobato, e mesmo no cinema nascente (ver o personagem de
Mazzaropi).
Nos anos 1960-1970 o pobre já se avoluma no espaço urbano,
mas é tido como um malandro, que não gosta de trabalhar. Por esta
razão, sempre encontra meios, nem sempre muito lícitos, mas em
geral não-violentos, de sobreviver. Talvez a imagem do malandro
carioca, de então, ilustre bem esta representação.
No anos 1980-1990, em que a pobreza tornou-se sobretudo ur-
bana e metropolitana (em termos de volume, pois as situações de
maior miséria permanecem no campo) e, portanto, mais visível, a
sua representação pelos mais favorecidos transfonnou-se completa-
Illente. Agora õ põbre é representado corno um bandido em potencial.

80
Suas imagens são, sobretudo, as dos moradores de rua e, entre estes,
os pivetes, que cheiram cola e roubam os transeuntes nas praças e
ruas das grandes cidades. Sua figura mais ilustrativa é a do bandido
urbano, "indivíduo geralmente escuro e nordestino".
Pobre e bandido juntam-se, numa única imagem, para produzir o
novo excluído.

Conclusão

Finalmente posso anunciar a conclusão destas reflexões: o nosso


processo de desenvolvimento tende a produzir um novo tipo de ex-
clusão social marcado pela fonnação de grupos sociais considera-
dos:
a) desnecessários economicamente, pois não se trata mais de exér-
cito de reserva na medida em que não têm mais condições de
ingressar no processo produtivo moderno;
b) incômodos politicamente, pois são responsabilizados pelos er-
ros e mazelas da política, a eles sendo atribuída a responsabili-
dade pela eleição de Collor (o candidato da elite irresponsável e
dos descamisados ignorantes - diz o senso comum); e
c) perigosos socialmente, na medida em que são vistos como
transgressores da lei, bandidos em potencial.

Logicamente, grupos sociais desta natureza tornam-se passíveis


de extinção fisica.
Com esta mudança, o recurso não será mais o da repressão
educativa, para absorver mão-de-obra nova, mas o da repressão pura
e simples para eliminar o indivíduo que não tem possibilidade -
nem a "sociedade" tem interesse - de ser transformado em mão-de-
obra. O excluído moderno é, assim, um grupo social que se torna
economicamente desnecessário, politicamente incômodo e social-
mente ameaçador, podendo, portanto, ser fisicamente eliminado. É
\:~t\:Último nSp\:cto que funda a nova exclusão social.

81
Se essa tendência se configura, estabelece-se o que Buarque
(1993) tem denominado de apartação social, um novo apartheid
que tende a assumir formas hoje inexistentes, mas cujos traços já
estão "no ar": transformar as Forças Armadas em forças policiais
para combater a marginalidade e o tráfico de drogas; desqualificar o
voto do pobre; cercar as cidades, impedindo o ingresso de imigran-
tes nacionais (o que tem efetivamente acontecido em algumas cida-
des do Sul e Sudeste do pais); estabelecer a pena de morte e expan-
dir os grupos de exterminio, entre outros. Todos são temas de atua-
lidade neste final de século.
Nessa tendência, a expulsão do mundo econômico (renda e con-
sumo) antecede a do mundo político e social (direitos), para final-
mente ingressar na esfera da vida. É sintomático que o único movi-
mento social significativo dos anos 1980, o movimento de Betinho,
de combate à fome e de solidariedade com os pobres, tenha pratica-
mente se extinguido com o seu criador. Mau presságio, porque toma
mais angustiante a percepção dos mecanismos e idéias da exclusão
social, embora os sinais de esperança persistam no forte sentimento
de solidariedade ainda existente no âmbito da populaçào brasileira.
Não defendo a hipótese - o que certas passagens do texto podem
induzir de que esta tendência seja inevitável. Ela o será se continuar
o modelo econômico e social de dependência externa, exportação
de emprego, perda de soberania, desprezo pelos trabalhadores po-
bres; se continuar a vingar o modelo de comportamento de uma cer-
ta elite brasileira - de desprezo pelo povo e pela natureza, demons-
trando o seu parco compromisso com o nacional; se o modelo eco-
nômico continuar acentuando o crescimento de forma horizontal (in-
clusào de mercados no exterior) e não vertical (incluindo não con-
sumidores nacionais no universo do consumo e dos direitos). Nesse
caso será necessário "conter" as massas exclui das internamente.
Entre a situação atual e a de apartação social, forma extrema de
exclusào, hil um largo espaço e um longo tempo a serem percorri-

82
dos. Trata-se, "apenas", de uma das tendências inscritas no presen-
te. Afinal, assim como as tendências contidas neste, o futuro tam-
bém é plural,
A gravidade do fenômeno não se encontra tanto em seu caráter
iminente, em que não acredito, mas no fato de que só pode ser resol-
vido com uma forma distinta de encarar a dinâmica social. Hoje,
ações sociais que tinham o efeito de integração ganham,
tendencialmente, a conotação de terem o efeito inverso. Por exem-
plo: as lutas operárias até os anos 1980, no mundo inteiro, Brasil
inclusive, tinham como resultado uma maior integração da força de
trabalho. Todo ganho em direito refletia-se na integnição de novos
contingentes, fossem eles proteção à mulher ou ao menor, fossem
relativos à redução das horas de trabalho ou à regulamentação das
horas extras. Hodiernamente as lutas operárias ameaçam ter o efeito
inverso: o de impedir o ingresso, dos que estão fora, no mundo do
trabalho formal. O exacerbamento do corporativismo, a que a socie-
dade tem assistido ultimamente, não passa de uma manifestação de
"fechamento social" - um movimento para "cerrar as portas do bai-
le aos que nele ainda não ingressaram".
A produção dos novos excluídos parece ser o sinal mais evidente
de que a questão social mudou de natureza. Gradativamente ela aban-
dona o berço do século XIX, em que nasceu como questão operária,
para assumir contornos ainda indefinidos, de restrição à exclusão
social, seu novo leito no século XXI.

83
Referências bibliográficas

ABRANCHES, S. Os despossuídos. Crescimento e pobreza no país dos mila-


gres. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
BADIE, 8.; BIRNBAUM, P. Sociologie de I 'Elal. Paris: Grasset, 1991.
BRANDAo LOPES, 1. (eoord.). Brasil 1989: um eSludo socioeconÔmico da
indigência c da pobreza urbana. Campinas: NEPPfUNICAMP, janeiro de
1992 (Relatório final).
BOURGET, D.; NOGUES, H. Observaloire européen des poliliques de lutte
conlre les exclusions sociales rapporl consolidé. Centre d' Eeonomie des
besoins soeiaux, octobre 1992.
BUARQUE, C. O que ê aparlaçelo. São Paulo: Brasiliense, 1993 (Coleção
Primeiros Passos).
BURSZTYN, M.; ARAÚJO, C. H. Da ulopia à excluselo: vivendo lUISruas em
Brasília. Rio de Janeiro: Garamond; Brasília: Codeplan, 1997.
CALDEIRA, J. A naç'elo mercanlilisla. São Paulo: Editora 34, 1999.
CARRETEIRO, T C. Exclusion Sociale el conslruclion de I'idenlilé. Paris:
L'Harmattan, 1993.
CASTEL, R. De I'indigenee à I'exclusion, Ia désaffiliation. Précarité du travail
ct vulnérabilité relationnelle. In: DONZELOT, J.; ROMAN, 1. Face à
I 'exclusion: le modete(rançais. Paris: Esprit, 1991, p. 137-168.
CASTELLS, M. La sociélé en réseaux. L 'êre de I 'informalion. Paris: Fayard,
1998.
CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, R.; VILLELA, R. A siluaçelo social no
Brasil: um balanço de duas décadas. Rio de Janeiro: novembro de 1990
(mimeo ).
CHARLE, C. Hisloire :sociale de Ia France au XIX" siêcle. Paris: Seuil, 1991.
CHEVAUER, L. Classes laborieuses el classes dangereuses. Paris: Hachette,
1984.
DONZELOT, J. Le social du lroisiême Iype. In: DONZELOT, 1.; ROMAN, J.

Face à I 'exclusion: le modêlefrançais. Paris: Esprit, 199 1, p. 15-39.

84
DUBET, F. La galere: jeunes en survie. Paris: Fayard, ] 987.
DURKHEIM, E. A divisilo do Iraba!!1O social. Lisboa: Presença, 1984.
UCHEMBERG SILVA, L. C. (coord.). O i/ue moslrillll os indicadores sohri' a
pobrca na decada padido. Rio de Janeiro: IPEA, agosto de 1992 (Texto
para discussão 274).
JAGUARIBE, H. et aI. Brasil: reforma ou caos. Rio de Janeiro: Paz c Terra,
1989.
FOUCAULT, M. Surveiller el punir. Paris: Gallimard, 1975.
GEREMEK, B. Lo polence ou 10pilié. L 'Europe elli's pouvres du moyell iÍgi'
o nos/ours. Paris: Gallimard, 1987.
GOFFMAN, E. Sligmole. Paris: Minuit, 1975.
GRAFMEYER, Y; JOSEPH, I. [,école de Chicago. Paris: Champ Urbain,
] 979.

KOWARICK, L. Capilalismo e marginalidade na América Lalino. Rio de Ja-


neiro: Paz c Terra, 1981.
MACHADO DA SILVA, L. A. Violência e sociabilidade. Tel/(h;ncios do oluol
conJunlura urbano no Brasil. Rio de Janeiro: IUPERJ IFCS/UFRJ, 1<)<)3
(mimeo ).
MAFFESOLI, M. Li' lemps d('.\'lribus. Paris: Livre de Poehe, 199 I (réedil1un).
NASCIMENTO, C. C. do. Confi'unlo com a ollaidade: u imaginário i'umpi'U
no gravura suhri' o Brasil do século XVi. Universidade de Brasília, 19<)9.
Dissertação de Mestrado, Departamento de História.
NASCIMENTO, E. P. do. A exclusão social na França c no Brasil: situações
(aparentemente) invertidas, resultados (quase) similares? In: D]NIZ, E.;
LEITE LOPES, 1. S.; PRANDI, R. (orgs.). Brasil no raslro do crisi'. São
Paulo: Hucitec, 1994.
Globalização c exclusão social: fenômenos de uma nova
crise da modernidade'i ]n: DOWBOR, L.; ]ANN], O; RESENDE, P-E
(orgs.). Desafios da glubalizaçilu. Petrópolis: Vozes, 1998.
A difícil constituição da exclusão social no Brasil. ]n:
CODEPLAN. Polílicas pÚblicas: exc/usiio social. Brasília, ] 998, p. 3 I -58

(Codeplan: Temas Codeplan, 2).

85
Natas

Esta é uma versão revista e aumentada de um artigo publicado em 1994 na revista do


CRH com o título: "Hipóteses sobre a nova exclusão social: dos excluídos necessári-
os aos excluídos desnecessários"
2 Refiro-me aquI, naturalmente, ao conceito de pobreza absoluta e não relativa, que trata
da posição dos indivíduos na hierarquia social.
3 Expressão usada por Cristovam Buarque na apresentação do livro de BURSZTYN, M.,
ARAUJO, C. H. Da utopia à exclusão: vivendo nas ruas de Bras/lia. Rio de Janeiro:
Garamond; Brasília: Codeplan, 1997.

4 Em O Estado de S. Paulo de 15 de março de 1994 encontra-se uma pequena notícia,


originária de Porto Alegre, com este título "Vereador prega extermínio de menores"
Referia-se a uma declaração do vereador de Novo Hamburgo, Antônio de Lima (PMDB):
"Eu disse apenas que os bandidos têm que morrer quando são novos para não inco-
modarem depois".
5 Chamo a atenção do leitor para a diferença entre a concepção ou o ideá rio da socieda-
de moderna e sua efetiva realidade: um desempenha o papel de guia para a constru-
ção, sempre inacabada, do outro.

6 Enquanto outros, diria Bursztyn, "vivem do mesmo lixo".


7 Neste sentido, mesmo organizaçôes de prestígio como a Anistia Internacional deixam-
se absorver pelo automatismo. Em um de seus fílmes veiculado pela TV, um pobre, ao
nada encontrar em casa para comer, pega uma faca e sai. A sugestão das imagens é
clara: sem comida, o pobre mata.

87
3

Migrações e vida nas ruas


CARLOS HENRIQUE ARAÚJO

Vi nascer um deus a espinha da noite


entre emhaixadores, os mendií!,os espreitam
entre publicanos, os in(el'llinhos..
entre verdureiros, e o homem eSifuece
entre mensalistas, metade da ciência atÔmica.
no Maracancl, vi nascer um deus.
em Pa/"{/-Iá-do-mapa, O mais pohre,
ifuando os í!,atos rondam o mais simples.

Carlos Drummond de Andradc

Introdução

Realizar estudos sobre pessoas que moram nas ruas ou vivem


delas é uma tarefa desafiadora. Em dois sentidos o desafio se mani-
festa com mais intensidade. O primeiro, é que a vida dessas pessoas
não é nada simples ou óbvia, como pode parecer pelo uso do jargão
"população de rua". Para além de tal jargão escondem-se diversida-
des, relações interpessoais e de trabalho complexas. Diferentes per-
fis e di ferentes redes de sociabilidade podem ser encontradas nas
ruas das grandes cidades. Trajetórias de vida e históricos diferenci-
ados das pessoas que moram nas ruas sugerem diferentes causas
dessa situação e diferentes estratégias ou formas de sobrevivência.
Estas trajetórias se revertem em complexidades sociais e culturais
impossíveis de serem decifradas por conceitos simples c
homogeneizadores.

RR
o segundo desafio se dá no plano metodológico. É difícil
pesquisar a população de rua, porque ela é tlutuante, temporária e
nômade. O levantamento de dados exige técnicas especiais e dificil-
mente pode ser feito tendo em conta todas as regras de pesquisa
empírica, dentro das boas recomendações metodológicas e estatísti-
cas. Em suma, não é fácil contar as pessoas, saber quem são e como
pensam, entender suas redes de sociabilidade e suas formas de so-
brevivência.
Após um periodo relativamente longo I de convívio com estes
desafios, algumas soluções estão sendo encaminhadas. O primeiro
desafio sugere a incorporação de conceitos, modificando-os sem-
pre, readaptando-os e reavaliando-os criticamente, a partir da baliza
dos dados empiricos. No plano metodológico, foram desenvolvidas
técnicas especiais de pesquisa, associando coleta clássica de dados
~ com o uso de questionários estruturados e tentativas amostrais - a
observações participantes.
Os sem-teto, os que moram nas ruas, têm por trás de sua situação
uma longa história e causas sociais detenninadas que se ligam a ques-
tões econômicas, de migração, de desagregação familiar, de desempre-
go, de violência urbana, de drogadição, de alcoolismo, entre outras. O
peso de cada uma dessas variáveis é específico de situações diferencia-
das entre países, regiões e cidades, e no tempo. Dar peso maior a uma
ou a outra só se justifica tendo tais especificidades em mente.
Estas diversidades podem ser exemplificadas. Em recente obra,
EscoreI (1999) assinala que reduzir as explicações do fenômeno da
situação de rua no Brasil à desvinculação do mundo do trabalho é
um erro, devido à própria história do assalariamento no país. O fe-
nômeno da situação de rua, por exemplo, na França se liga direta-
mente às mudanças no mundo do trabalho, pois este atingiu ni veis
universais naquele país. No Brasil, esta universalidade nunca se deu.
No Rio de Janeiro, cidade pesquisada por Escorei, o fator
determlnante da sltuaçào de rua e a desvinculação sociofamiliar. A

89
população de rua é formada basicamente por jovens solteiros nasci-
dos na própria cidade do Rio de Janeiro.
Por contraste, em Brasília, a maior parte da população de rua é for-
mada por famílias de migrantes recentes que saem de pequenas cidades
do interior goiano e baiano, onde há desemprego no mundo rural, para
viver nas ruas de Brasília, seja esmolando, seja catando lixo (papel e
latas). Famílias inteiras vivem desses pequenos bicos (chefe cata, côn-
juge seleciona e separa o papel e os metais, e filhos viram tlanelinhas-
vigiam CalTOS)e geralmente auferem rendas bem maiores do que qwm-
do trabalhavam em suas cidades de origem pm1icipam da economia
-

politica do lixo da capital da RepÚblica (Bursztyn & AraÚjo, 1997).


Bursztyn (1999) chama a atenção - o que se encaixa perfeita-
mente na situação de rua de Brasília - para os "impasses nas rela-
ções campo-cidade" como determinantes das "possibilidades de in-
serção na vida urbana". Os professores americanos Snow & Anderson
(1998), em um estudo sobre a população de rua da cidade de Austin,
no Texas, revelam o caráter da diversidade dos perfis dos sem-teto.
Há famílias nas ruas, as quais mantêm os seus laços, inclusive nas
formas variadas de sobrevivência. Por outro lado, há solteiros sem
vinculos familiares nas ruas das grandes cidades. No estudo desses
professores americanos é proposto um gradiente de elementos an-
tropológicos de classificação dos perfis da população de rua, reve-
lando uma imensa diversidade.
Alba Zaluar, apud Rosa, 1995, também constata a mesma diver-
sidade, ao comentar em um congresso diversas experiências de pes-
quisas com população de rua nas principais metrópoles brasileiras.
Portanto, o fenômeno da diversidade de causas e estratégias de so-
brevivência da situação de rua parece ser algo recorrente, no tempo
e no espaço.
O mesmo ocorre com a situação de rua de crianças e adolescen-
tes. Muito embora haja uma certa homogeneidade para o fenômeno
enlre as grandes cidades, os perl1s e as causas para qUe uma criança

90
ou adolescente passe a viver das e nas ruas contêm uma imensa di-
versidade sociocultural, com causas econômicas, de desagregação
familiar e escolar. As pesquisas demonstram a complexidade de com-
portamento, de valores, de causas da situação de rua, de níveis de
estruturação familiar e das atitudes e opiniões das crianças e adoles-
centes em situação de rua. Tal complexidade se confronta direta-
mente com o estigma social de meninos e meninas de rua atribuído
ás crianças e aos adolescentes que estão nas ruas.
Neste artigo será discutido um aspecto de dois tipos específicos de
população de rua em Brasília: a migração e as fàmílias que moram
nas ruas e crianças e adolescentes em situação de rua. O mote de dis-
cussão será a contextualização do problema no Distrito Federal, mos-
trando que a população de rua que vive em Brasília é o corolário de
uma ocupação urbana segregadora e excludente. Em outros tennos,
pode-se afirmar que Brasília consolidou um modelo de ocupação
polinucieado e excludente2, no qual a população de rua seria o resul-
tado, por assim dizer, extremo de um processo histórico-social. Este
mesmo processo engendrou as crianças e adolescentes em situação de
rua. Aliás, os dois tipos de população que, de alguma forma, convi-
vem com as adversidades das ruas do Distrito Federal em muito se
relacionam e estão imbricados de fonna contundente.
Por fim, será feito um breve comentário sobre as políticas pÚbli-
cas adequadas para enfrentar o problema em Brasília e, mesmo, no
Brasil.
Este artigo, então, serve para depreender um panorama geral do
conjunto de pessoas que vivem das ruas e, por vezes, moram nas
ruas e para introduzir alguns conceitos gerais, os quais procuram
mostrar as especificidades do que seja viver e morar nas ruas.

Segregação

Pode-se argumentar, com propriedade, que a pobreza é endêmica


I\ó Bn1~i\ e I\Ó~Pilíses pel'i[~l'ieó~. TJode-se mesmo dizer que a falta

91
mínima de condições dignas de vida é um fenômeno mais amplo,
tanto no espaço quanto no tempo, que acompanha o homem desde
sempre, fazendo parte de sua luta de domínio da natureza. Assinala-
se, ainda, que a escassez natural da falta de domínio pleno das for-
ças de produção gera as desigualdades e, de forma mais radical, os
despossuídos.
Por outro lado, é difícil encontrar algum teórico sério que con-
teste o evidente avanço que os homens conseguiram e estão conse-
guindo no dominio da natureza. Muitos afirmam que as sociedades
chegaram a extrair da natureza, a partir da tecnologia de produção, o
suficiente para que todos vivam em patamares minimos de sobrevi-
vência. A produção de alimentos do planeta, por exemplo, seria su-
ficiente para as carências básicas de todos que nele vivem.
Em termos gerais, o problema da pobreza e da extrema pobreza,
seja de países, seja de coletivos ou indivíduos, seria advindo muito
mais da circulação das mercadorias, da distribuição dos bens, en-
fim, da apropriação e distribuição do excedente, do que propria-
mente da produção. Estes níveis gerais estão subordinados à ação
coletiva e a sua organização estrutural. São vontades estruturadas
historicamente. Com isso, afirma-se enfaticamente que a pobreza é
fruto de opções, evidentemente, opções coletivas determinadas pela
ação social no passado, opções relativamente condicionadas. Por-
tanto, um problema, hoje, muito mais moral-coletiv01 no nível infra-
estrutural do que de dificuldade de exploração da natureza (difícul-
dade tecnológica). Sabe-se que os instrumentos capazes de permitir
ao homem avançar em termos de força produtiva desenvolveram-se
muito, mas sabe-se com a mesma clareza que pouco se domesticou
o processo de luta pelo excedente conseguido. Neste elemento do
reino da produção, vive-se ainda de forma selvagem, com poucos,
os mais fortes, dominando muitos, os mais fracos.
A regulamentação da distribuição dos bens de uma sociedade
nào ~ ~\go Mtum\, que ~eja dirigido por leis a-históÜcas, tais como

92
as "leis do mercado". Muito menos a posição dos homens na esfera
da produção, o /oeus social dos produtores e dos donos da produção,
é detenninada por características ou qualidades estritamente indivi-
duais. Quando se fala em mais fortes, essa qualidade pode ser cir-
cunscrita sociologicamente. Em outros termos, as variáveis que de-
terminam o que é ser mais forte, o que é ser dono dos meios de
produção, o que é ter posição privilegiada no consumo dos exceden-
tes são detenninadas histórica-socialmente. Aliás, o desvelamento
destas variáveis é uma das funções mais nobres dos cientistas soci-
ais: mostrar que qualquer quadro social é determinado por circuns-
tâncias históricas e "equações" sociais e não por leis invisíveis. E
nisto consiste a nobreza desta ciência: revelar as forças sociais-co-
letivas que disputam os bens, sejam estes materiais ou simbólicos.
No Brasil, o desenvolvimento social não tem acompanhado o
desenvolvimento econômico. Somente na segunda metade deste sé-
culo o PIB total brasileiro foi multiplicado por 11 e o produto indus-
trial por 164. A economia brasileira demonstrou um desempenho
invejável. Por outro lado, os indicadores sociais não têm a mesma
performance. A desigualdade de renda, a distância social e cultural
entre os estratos socioeconômicos é uma das maiores do mundo. O
Brasil é um conhecido recordista em concentração de renda. Essa
desigualdade faz com que o país apresente índices de desenvolvi-
mento social medíocres, se comparados ao desenvolvimento econô-
miCO.
A distância entre os estratos faz com que o capital escolar também
seja concentrado entre os mais ricos. E é esta associação estruturada
entre pobreza e distribuição de escolaridade que, no caso das crianças
e dos adolescentes em situação de rua, é de suma importância. Este
fenômeno, apesar da recente universalização do ensino no Brasil na
segunda metade do século, faz com que as crianças pobres tenham
que deixar as escolas para complementar a renda familiar, ou, até mes-
H\D,proveI D~u~tQnto da fam\\ia. A taxa de evasàú escúlar e matrícula

93
no Brasil não é a mesma para todos os segmentos da população. t
conhecido na literatura que essas taxas aumentam progressivamente
quanto menor o nível de renda' . O mesmo vale para a taxa de partici-
pação das crianças no mercado de trabalho.
As crianças das famílias maís pobres, na maior parte das vezes,
dividem o tempo da escola com o trabalho ou com as ruas. Em ou-
tras palavras, as crianças mais carentes precisam complementar a
renda familiar realizando pequenos trabalhos (biscates) ou pressio-
nando o mercado de trabalho, geralmente a parte mais precária do
mercado ou o próprio mercado informal. O tempo gasto no trabalho
dificulta e impede o desenvolvimento pleno na escola, podendo até
afastar definitivamente a criança da sala de aula.
Outro efeíto do trabalho infantil se dá diretamente no mercado
de trabalho com relação aos chefes de família ou cônjuges. Uma
criança em mercado escasso concorre com o emprego de um adulto,
podendo afetar o rendimento médio do trabalho assalariado. O salá-
rio ou o servíço pago a uma criança sempre vale menos na lógica do
mercado. A criança é mais despreparada e desprotegida socialmente
em termos de direitos trabalhistas. É vantagem pagar menos para
um menor realizar um trabalho do que pagar mais para um adulto
realizar o mesmo serviço. Este efeito causa desemprego entre adul-
tos chefes de família, o que faz com que novas crianças precisem
completar a renda familiar, afastando-as da escola e inserido-as no
mercado de trabalho ou nas ruas.
A concentração do capital escolar aparece como elemento deci-
sivo no processo de fabricação da situação de rua de crianças e ado-
lescentes!>. No caso da produção de famílias sem teto, o elemento
fundamental, em Brasilia, é a desorganização e a concentração da
produção agrícola. As famílias que vívem nas ruas de Brasília têm
em seu histórico de vida social o abandono do campo ou mesmo o
convivi o com o trabalho temporário em pequenas cidades de produ-
çào rural. Passam, entào, a tentar a sorte no meio ul'b~Il().O fenôme-

94
no da situação de rua de crianças e adolescentes c da população
adulta (reunidas em famílias) no Distrito Federal se liga, assim, es-
treitamente à migração, aliás, uma tônica na Capital.
No Brasil, como já foi dito, as diferentes causas de situação de
rua de famílias se modificam tendo em conta a diversidade dos
locais e de suas histórias sociais. No Rio de Janeiro, segundo
EscoreI, pode-se identificar como fundamental a desvinculação
familiar para o processo de fabricação de populações de rua. Os
dados mostrados na pesquisa mostram o jovem solteiro
dcsqualificado para o trabalho como o tipo social predominante na
população de sem-teto do Rio de Janeiro. Vive desgarrado de sua
família e passa a tentar encontrar vínculos novos ao léu, quase
sempre fracassando.

o problema em Brasília
Dos anos 60 aos anos 90, a história da capital da República tor-
nou-se uma amostra importante dos contrastes sociais vividos na
sociedade brasileira. Brasília, por muito tempo, foi o símbolo da
modernidade do Brasil. Viveu quase que exclusivamente do setor
público e da construção civil e exibiu suas potencialidades de cres-
cimento em um ritmo acelerado, tanto econômica quanto
demograficamente.
Entretanto, esse mesmo crescimento trouxe consigo as estrutu-
rais contradições econômicas e sociais do tipo de desenvolvimento
implementado no Brasil ao longo de sua história econômica7 . Nes-
tes termos, Brasília não poderia mais conter sua utopia, não mais
poderia ser a cidade idealizada pelos urbanistas.
Esses contrastes já se tornaram evidentes logo após a construção
da Capital. Ao lado do crescimento econômico durante as duas pri-
meiras décadas de sua existência, ficava evidente o tipo de desen-
volvimento em emergência: excludente, tanto espacial quanto eco-
l\()mi~amente.

95
Hoje, Brasília exibe os mesmos contrastes socioeconômicos de qual-
quer outro grande centro urbano. São contrastes vistos e vividos cotidi-
anamente no centro, na periferia e, em geral, nas ruas da capital, nas
quais as crianças e adolescentes em situação de rua e as famílias que
perambulam ou vivem da cata de lixo são os maiores exemplos. A rea-
lidade social e econômica do Brasil se impôs. O que era para ser apenas
uma cidade administrativa tomou-se uma metrópole, onde a desigual-
dade e a exclusão aumentam. Nas últimas duas décadas constitui-se em
um centro urbano com graves problemas sociais e econômicos e, sobre-
tudo, uma cidade-estado de grande desigualdade social e de renda.
O Plano Piloto (centro da cidade) originalmente resumiria
Brasília. Logo após a construção, e mesmo durante, ficou claro que
a capital da República não seria só o Plano Piloto. Era preciso en-
contrar soluções habitacionais para abrigar os candangos (trabalha-
dores da construção civil que vieram para o Planalto Central cons-
truir Brasília) porque, mesmo acabada sua tarefa de edificar a cida-
de, eles não voltariam para seus lugares de origem.
Emjunho de 1958, portanto, antes da inauguração, o governo de
Israel Pinheiro (primeiro prefeito de Brasília) providenciou a retira-
da da invasão (ocupação irregular de espaço urbano) Sarah
Kubitschek e construiu TaguatingaX . Segundo dados da época, a in-
vasão era uma cidade operária com mais de 15 mil habitantes.
Ceilândia, outra cidade-satélite, foi construí da no governo de Hélio
Prates da Silveira, em março de 197 I. Os seus habitantes vieram de
invasões que proliferavam no Plano Piloto.
Mesmo após a criação das cidades ao redor do Plano Piloto, o
nÚmero de imigrantes pobres aumentava a cada dia, constituindo
grandes agrupamentos populacionais, como a favela do CEUB,
na década de 80. Novas soluções precisavam ser encontradas.
Mais cidades foram construídas, agora não mais satélites, mas
precários aglomerados habitacionais, intitulados assentamentos.
Feitos de maneira aleatorla e sem planejamento urbano de longo

96
prazo, milhares de pessoas foram neles assentadas, em terrenos
doados pelo governo de Joaquim Roriz, nos anos de 1988 a 1994.
Podem ser citadas Samambaia, Santa Maria, Riacho Fundo e São
Sebastião. Todos foram feitos a partir da distribuição gratuita de
lotes para populações locais e migrantes. Em termos de estraté-
gia política, foi inaugurado na capital o que pode ser chamado de
Coronelismo Urbano: a concessão de bens públicos em troca de
alianças político-emocionais, redundando inclusive em exclusi-
vidade eleitoral9
O fato é que muitos, na esperança de encontrar melhores condi-
ções de renda, foram migrando para Brasília. A capital do país ainda
está no imaginário popular do brasileiro como a cidade da esperan-
ça. A distribuição de lotes só veio reforçar este mito, aumentando
ainda mais o fluxo migratório para Brasília. Pode-se afirmar que a
associação de uma política populista-eleitoreira - irresponsável ad-
ministrativamente -, à imagem da terra prometida, foi explosiva na
capital do Brasil.
Hoje, o processo de exclusão espacial consolidou-se com o
inchaço populacional do Entorno (municípios de Minas Gerais e
Goiás que dependem da economia da Capital). Formaram-se verda-
deiras cidades-dormitórios ao redor de Brasília. Sem desenvolvi-
mento econômico autônomo, o Entorno constitui uma frágil região
geoeconômica.
Em termos gerais, a segregação espacial era fruto da segregação
social e econômica. No início, era o Plano Piloto, o centro moderno,
vistoso, com baixos índices de violência urbana 10, logo após as cida-
des-satélites, sem o mesmo planejamento urbano, sem a mesma infi'a-
estrutura e sem as mesmas condições socioespaciais. Depois, os as-
sentamentos, verdadeiras favelas promovidas pelo poder público,
scm a menor infra-estrutura básica, Agora, de maneira mais radical
ainda, a explosão demográfica dos municipios goianos e mineiros
ViLinh()~, ~idade~ dependenles da Capital.

97
A espacial idade das desigualdades de renda e de capital escolar
demonstram que o fenômeno de expansão de Brasília, do centro para
a periferia, segue a mesma trajetória das grandes metrópoles latino-
americanas, com a diferença essencial de que, em outras megalópoles,
o fenômeno não é controlado de perto pelas autoridades locais. Na
Capital, os fenômenos de ocupações irregulares de terra no espaço
urbano foram controlados e orientados pelo poder local e dirigidos
por um processo de "planejamento" visando à periferização.
O ritmo de crescimento da cidade sempre foi acelerado. Em sua
primeira década de vida, a população de Brasília cresceu 285% em
uma média de 14,4% ao ano. Nos anos 70, o crescimento médio
anual foi de 8, I%, o que corresponde a um incremento total, na dé-
cada, da ordem de 115,52%. Entre 1980 e 1991, a cidade teve sua
população aumentada em 36,06%. A população ideal estimada no
plano original (500 mil habitantes) foi atingida já ao final da década
de 1960.
É importante assinalar que a taxa global de crescimento
populacional de Brasília deve ser entendida de forma desagregada,
segundo cada região administrativa. Assim, o Plano Piloto, que na
época da inauguração concentrava 48% da população, vai perdendo
sua importância relativa, chegando em 1991 com apenas 13,26% da
população total do DF e, em 1996, com 11%. Por outro lado,
Ceilândia (que nem existia na década de 60), já reunia 22,75% da
população total do Distrito Federal em 1991.
Na região do Entorno, o aumento da população, que depende
quase integralmente da dinâmica de Brasília, foi intenso. Santo
Antônio do Descoberto, em Goiás, cresceu 9,78% entre 1980 e
1991, e 24,84% entre 1991 e 1996. As taxas dos municípios de
Planaltina de Goiás (Brasilinha) e Luziânia (GO) foram, respec-
tivamente, de 9,17% e 5,83%, nos anos 199011 A ocupação do
Entorno ocorreu segundo um padrão intenso e desordenado. Tal
tend~ncia l'e\1eté, por um l~uo, uni proce~~o e~pontânco de fuga

98
às limitações do planejamento urbano da Capital e do elevado
custo da terra e, por outro lado, manifesta o poder de atração
representado pela infra-estrutura de serviços pÚblicos do Distri-
to Federal e pela política de distribuição de lotes no governo de
Joaquim Rorizl2.
Uma das variáveis que explica essa periferização é o intenso pro-
cesso de desigualdade econômica. A segregação espacial é acompa-
nhada e, em parte, determinada pela segregação econômica. O fenô-
meno das crianças e adolescentes em situação de rua no Distrito
Federal também é o retrato desta segregação econômica.
Isto é observável no tocante à distribuição da renda familiar.
Apesar da posição de Brasília ser privilegiada com uma renda bruta
média familiar de R$ 1.679,95 segundo a pesquisa sobre o perfil
socioeconômico das familias de Brasília (PISEF-DF)13, a concen-
tração de renda é muito grande. A desigualdade de renda em Brasília
fica clara quando se utilizam os dados sobre a renda média mensal
bruta das famílias.
Em algumas regiões há famílias com renda bruta média mensal
de menos de R$ 600,00 reais, como é o caso da maioria dos chama-
dos assentamentos. Por outro lado, há regiões com famílias que têm
renda bruta média familiar de mais de R$ 7.000,00. A região mais
pobre da capital é o Paranoá, com 4,6 salários mínimos, e a mais
rica, Lago Sul, que tem renda familiar de quase 66 salários míni-
mos, ou seja, 14,3 vezes maior. Há famílias, em Brasília, que vivem
com uma renda per capita um pouco maior que um salário mínimo
e outras com quase 17 salários mínimos per capita.
A concentração das rendas mais altas em algumas regiões é a
principal característica, em termos econômicos, da Capital da Re-
pÚblica. A situação, hoje, é o retrato fiel de sua história e demonstra
o atual estágio de periferização: 19,2% das famílias têm uma renda
acima de 25 salários mínimos e 49,55% têm renda entre 2 e 10 salá-
rios mlnlmos. Nos extremos, 13,91 % das familias vivem com uma

99
renda média mensal de, no máximo, dois salários minimos e 10,25%,
com mais de 40 salários mínimos.
Alguns dados gerais14 demonstram os níveis de pobreza de algu-
mas regiões de Brasília. Em Recanto das Emas, mais de 68,4% dos
chefes de família têm até o primeiro grau incompleto, sendo que
7,2% são analfabetos. Apenas 1% de chefes de domicílios tem o
curso superior completo. Em Samambaia quase 10% dos chefes de
família não sabem ler e escrever e somente 1,3% tem curso superior
completo. Em São Sebastião, por exemplo, 16,4% de chefes de fa-
mília são analfabetos. Já no Paranoá, mais de 17% dos chefes de
família não sabem ler nem escrever.
Para ter uma idéia mais clara da pouca escolaridade dos chefes
de família destas regiões administrativas, basta saber que no Plano
Piloto, uma região rica, há 0,19% de chefes de família analfabetos e
mais de 50°!c)com o curso superior completo. No Lago Sul, região
de classe social mais abastada, há 0,27% de chefes de família anal-
fabetos e 64,1% com escolaridade superior completa.
Esses dois indicadores - renda bruta média mensal e escolarida-
de dos chefes de família são enfáticos e demonstram que, apesar
~

de a Capital da RepÚblica exibir bons níveis de desenvolvimento no


contexto socioeconômico brasileiro, apresenta uma profunda desi-
gualdade social.
É importante salientar que a população de rua de Brasília, que
constitui um grave problema social e de difícil solução, está fora das
estatísticas dos domiciliados. O último levantamento realizado em
Brasília indicou, no centro da Capital, a presença de mais de 500
famílias em situação de rua. Trata-se de famílias que vivem de catar
papel para vender às empresas de reciclagem, de esmolas e de pe-
quenos serviços. Na maior parte, são migrantes recentes que che-
gam em Brasília, atraídos pela generosidade de sua gente (alto po-
der aquisitivo) e pela fartura do seu lixo (papel produzido pela buro-
cnici~\ êst~t~\)" .

100
GONÇALVES, M. C. V. Favelas teitnosas: lutas por moradia. Brasilia:
Thesaurus, 1998.
MORAES, A.; SANT' ANA, S. R. Amliaçe/o do Programa Bolsa-Escola do
G!JF. Brasilía: Fundação Esquel, UNICEF, UNESCO, maio 1997.
LUSK, M.; MASON, D. Meninos c meninas "de rua" no Rio de Janeiro: um
estudo sobre sua tipologia. In: A criança no Brasil de hoje. Rio de Janeiro:
Editora Universidadc Santa Úrsula, 1993.
NASCIMENTO, E. P. do. Pohre3a e exc/use/o social no Brasil as mÚltiplas
dimenscJes dolenÔmeno. Paris: IRFED/ CCE, 1993 (Rclatório aprcscntado
em maio] 993).
PAVIANL A. Brasilia: cidade c capital. ln: NUNES, B. F. (org.). Brasília. a
construç'e/o do cotidiano. Brasilia: Paralelo 15, 1997.
PINHEIRO, V. Modelos dc descnvolvimento e políticas sociais na América
Latina. ln: IPEA. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICA-
DA. Plal/e/amento e Políticas PÚblicas. Brasílía, jun.ldcz. 1995.
PNUD/IPEA. RelatÓrio sohre o desenvolvimento humano 1/0Brasil. Brasília, 1996.
RIZZINI, L ct aI. (orgs.). A crial/ça no Brasil de hoje. Rio de Janciro: Editora
Universitária Santa Úrsula, 1996.
RUAS, C. Os movImentos migratórios no Distrito Federal. ln: ENCONTRO
DE DEMOGRAFIA DA REGIÃO CENTRO-OESTE, I., Anais... Brasilia:
CODEPLANINEP, 1997.
SABÓYA, 1.; ROCHA, S, Programas dc Renda Mínima: linhas gerais de uma
metodologia dc avaliação a partir do estudo do DF. In: LOBATO, A. L M.
(org.). Garantia de renda mínima: ensaios e propostas. Brasilia: IPEA,
ou!. de 1997.
SALAMA, P.; VALIER, J. Pobre3as e desigualdades no terceiro mUl/do. São
Paulo: Nobcl, 1997.
SNOW, D.; ANDERSON, L. Desafi)rtunados: um estudo sohre o povo das
ruas. Pctrópolis: Vozcs, 1998.
SOARES, G.; DILLON, A. Detcrminantes do homicídio no Distrito Fcdcral.
ln: CODEPLAN. Políticas pÚblicas: exc/use/o social. Brasília, 1998

(Codeplan. Tcmas Codeplan, 2).

116
ROSA. C. iV!.M. Poplllu('rlo de IlIa: Brasil e Calladá. São Paulo: HUCITEC.
199"
SOLS.\..\ H. \;Li\C!-IADO. M. S. JACCOUD. L. de: B Taguatinga: uma
histÓria candanga. !n: PAVIANL A. (org.). Brasília: moradia e exclllsÚo.
Brasília: Editora da Unive:rsidade: de Brasilia. 1996.
LNESCO. UNICEf e:PÓLIS. BOLSA-ESCOLA Melhoria edueaeiollal e re-
dllçÚo da pohre::.a. Brasilia, : 99~.
URANL li. Cre:scimento e:ge:ração de emprego e renda no BrasIL LlIa ;VOVlI.
Revista de Cultura e Política, Desígualdades. Silo Paulo, CEDEC, 1995
Nem/a míllillw: 1'llIa (f\'aliaí'Úo das propostas existentes"

jJWtll' de si/llu/a('õcs COIII dcu/os da PNAD/1990. Rio de Janeiro, 1995


(mnlleo)

L\LC;,\R. ,\. Crime e castigo vistos por uma antropóloga. In: BINGEMER.
M. ('" BARTHOLO JR.. R. dos S. (orgs,), Violência, crime e Cilstigo, Sãu
Paulo: Loyob. I c)9h,

117
Notas

A primeira experiência de pesquisa sobre população de rua de que participei foi em


1996, a qual gerou o livro Da utopia à exclusão: vivendo nas ruas de Brasilia, em co-
autoria com Mareei Bursztyn. Nos anos 1996 e 1997, coordenei pesquisas sobre cri-
anças e adolescentes em situação de rua em Brasilia, que estão relatadas no livro A
face jovem da exclusão: perfil das crianças e adolescentes em situação de rua em
Brasilia. Em 1999, colaborei em uma última pesquisa sobre famílias que vivem nas
ruas, coordenada por Marcel Bursztyn. Portanto, são pelo menos CinCO anos em que,
de certa forma, convivo com esses desafios, na capital da República.

2 Esta idéia é desenvolvida com maestria pelo professor Aldo Paviani em vários livros e
artigos sobre a capital da República. Em particular, pode-se consultar o texto "Brasília:
cidade e capital", apud Nunes, 1997.

3 Essas idéias, em seu conteúdo mais teórico, estão sendo retomadas pelas grandes
teorias sociais do final do século XX. Próprias do século XIX, Marx, Durkheim e Weber,
para citar alguns, ganham nova força. O Império da interpretação que privilegia o
acaso, a ação individual, a força do meío natural ou as leis invisíveis e intrinsecas do
mercado perdem força para a visão de que o homem coletivo está no centro das
decisões e que suas opções estruturam a realidade no plano histórico. Castells assim
entende a unidade central das determinações estruturais: "O produto do processo
produtivo é usado pela sociedade de duas formas: consumo e excedente. As estrutu-
ras sociais interagem com os processos produtivos determinando as regras de apro-
priação, distribuição e uso do excedente. Essas regras constituem modos de produ-
ção, e esses modos definem as relações sociais de produção, determinando a exis-
tência de classes sociais, constituídas como tais mediante sua prática histórica. O
principio estrutural de apropriação e controle do excedente caracteriza um modo de
produção" (Castells, 1999:34).
4 Ver Urani, 1995.
5 Dados coletados indicam de maneira inequívoca este fato. Segundo as pesquisas do
PNUDIIPEA, 1996,81% das crianças de 5 a 6 anos que freqüentam a pré-escola são
filhos de familias de mais de 2 salários mínimos percapita, contra 37% dos filhos das
famílias com menos de 2 salários minimos. Mais de 97% das crianças de 7 a 14 anos
de famílias de mais de 2 salários mínimos per capita freqüentam o 1° grau, contra
37% dos filhos, na mesma faixa etária, das famílias com menos de 2 salários per
capita.

6 Talvez este seja o mais grave problema social do Capitalismo moderno. Ampliando o
problema para o que se chama comumente de exclusão social, as crianças e adoles-
centes em situação de rua são o exemplo supremo da negação da possibilidade de
integração social e econômica. Este fato é apenas um exemplo de um processo mun-
dial crescente: "Mas hoje o que importa mesmo é estudar a exclusão social. O que
importa é essa massa de jovens, que vejo na Europa e aqui no Brasil, que não conse-
gue penetrar no mercado de trabalho" (Furtado, 1999:94).

7 "A existência de desigualdades sociais fortemente pronunciadas nem de longe constitui


Sémpre um obslácu\o para o crf!SCllwm\o Os f!)(f!mp\os Of!ssa aíirmação são \lumo-

118
rosos. Já lembramos o caso de alguns países da América Latina (Brasil e México),
onde as desigualdades sociais (ver original) aumentaram no decorrer das décadas de
60 e 70 em prol das camadas sociais ricas e médias. (...) Esses regimes de acumula-
ção foram extremamente excludentes, apesar de induzirem a um crescimento muito
elevado" (Salama, & Valier, 1997:180).
8 "O cenário social do cotidiano brasiliense no final dos anos 1950 foi composto por uma
proliferação de favelas, aqui denominadas 'invasões' pelas autoridades governamen-
tais, as quais se localizaram, de modo geral, próximas ao principal núcleo urbano, a
Cidade Livre. Dessa forma, a administração local (...) foi obrigada a encontrar solu-
ções imediatas que pudessem fazer frente ao problema social grave daí advindo. A
criação de Taguatinga, a primeira cidade-satélite oficialmente constituída, é um exem-
plo disso" (Sousa, Jaccoud & Machado, 1996:60).

9 O Programa de Assentamento do governo de Roriz fOi e é ainda tema de inúmeros


debates acalorados, que vão desde denúncias de favorecimento de cabos eleitorais,
venda de lotes, falsificação de dados até manipulação político-eleitoral. No livro Fave-
las teimosas, uma tese de doutorado defendída por Gonçalves, na Universidade Ca-
tólica de São Paulo, há um bom resumo destes debates (Gonçalves, 1998).
10 Em um estudo recente sobre os Determinantes do Homicídio no Distrito Federal, Gláucio
Ary Dillon Soares constata a relação estatística significativa entre crescimento do
homicídio e criação de assentamentos populacionais desorganizados e sem infra-
estrutura básica: "Os dados demonstram que, em 1996, a pobreza socialmente de-
sorganizada era o mais íntimo determinante da taxa de homicídios. (...) esta variável
tinha correlações substanciais com outras duas, o fator de desenvolvimento econõml-
co e social e a taxa de crescimento demográfico recente (...)" (Soares, 1998:119).
11 Ver Censos demográficos 1980, 1991 e contagem 1996: IBGE.
12 "Se compararmos as taxas de crescimento de Brasília com o Entorno, verificamos
que, ao projetar a população, num período de, aproximadamente, 30 anos, a po-
pulação do Entorno será maior que a de Brasilia, o que demonstra a importãncla
que a região do Entorno vem adquirindo tanto pela sua proximidade de Brasília,
como num contexto estadual" (Fernandes & Cordeiro, 1997:173).
13 Todos os dados sobre renda familiar foram extraídos de uma pesquisa realizada pela
Companhia do Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan, 1997).
14 Todos os dados são da Codeplan, 1997.
15 Para maiores detalhes sobre a população de rua em [3,asília ver Bursztyn & Araújo,
1997.
16 Os dados e a maior parte das conclusões aqui apresentadas sobre as crianças e os
adolescentes em situação de rua estão descritos em detalhes em Araujo, 1998.
17 As pesquisas, coordenadas por Carlos Henrique Araújo, foram realizadas pela Compa-
nhia do Desenvolvimento do Planalto Central Codeplan
- - e pela Secretaria da Crí-
ança e Assistência Social do Dístrito Federal. Durante o período de 16 a 20 de setem-
bro de 1996, foram entrevistadas 892 crianças e adolescentes na faixa etária de 7 a
18 anos incompletos. No mesmo período mensal, no ano de 1997, com a utílização da
mesma metodologia, foram entrevistados 574 crianças e adolescentes, nos mesmos
locais. Os entrevistadores foram os educadores de rua, pessoas que mantinham con-
tatos cotídianos com os meninos e meninas, Para detalhes da técnica de pesquisa ver
Araújo, 1998.

I] 9
18 Este fenõmeno já foi constatado por inúmeras pesquisas não só no Brasil, mas em toda
a América Latina: "As pesquisas realizadas na América Latina confirmam que, de fato,
apenas uma minoria das crianças que trabalham e até mesmo dormem nas ruas é
realmente independente e livre de elos familiares. No caso do Brasil, Lusk (1989)
concluiu que cerca de 90% das crianças 'de rua' ou viviam em suas casas ou manti-
nham contato regular, senão ocasional, com suas respectivas famílias" (Lusk & Mason,
1993:158).

19 Ver Bursztyn & Araújo, 1997.

20 A intensificação do atendimento direto às crianças e aos adolescentes nas ruas e o


aumento no número de visitas domiciliares às familias das crianças e dos adolescen-
tes em situação de rua são atividades da Secretaria da Criança e Assistência Social
do Governo de Brasilia.
21 O "Não dê esmolas, dê Cidadania" tenta convencer os cidadãos a não dar esmolas à
população de rua e a crianças e adolescentes em situação de rua, canalizando os
recursos de esmolas para as instituições de assistência social.

22 Este último critério é a garantia do não incentivo à migração.


23 Em geral, as recomendações das avaliações realizadas até então sobre a Bolsa-escola
sugerem que, quanto mais tempo as famílias receberem o benefício, mais chances o
Programa tem de cumprir os seus objetivos, tanto de combater a pobreza quanto de
garantir o acesso e a freqüência das crianças à escola.

24 Os efeitos da Bolsa-escola não se restringem aos filhos. O fato de as mães serem as


principais requerentes e as responsáveis pelo recebimento do benefício faz com que
se tornem mais responsáveis em relação aos filhos.
25 Para maiores detalhes ver ARAUJO, C. H. Bolsa-escola: renda mínima associada à
educação. In: CACCIA-BAVA, S. (org.). Programas de renda mínima no Brasil: impac-
tos e potencialidades. São Paulo: Pólis, 1998.

26 Em Campinas houve uma diminuição drástica do número de meninos de rua; o número


de menores em 1995 - 550 - foi reduzido para 47 em março de 1997. Para checar
detalhes ver: BEJERANO, S. R. Programa de Garantia de Renda Minima: a experiên-
cia de Campinas. In: CACCIA-BAVA, S. (org.). Programas de renda minima no Brasil:
impactos e potencialidades, São Paulo: Pólis, 1998.

27 índices citados e analisados por ARAUJO, C. H. Bolsa-escola: renda mínima associada


à educação. In: CACCIA-BAVA, S. (org.). Programas de renda mínima no Brasil: im-
pactos e potenclalidades. São Paulo: Pólis, 1998.

28 MORAES, A.; SANT'ANA, S. R. Avaliação do Programa Bolsa-escola do GDF. Brasília


Fundação Esquel, UNICEF, UNESCO, maio 1997.

29 UNESCO, UNICEF e PÓLlS Bolsa-escola: melhoria educacional e redução da pobre-


za, Brasília, mar. de 1998.

30 SABÓYA, J.; ROCHA, S. Programas de Renda Minima: linhas gerais de uma metodologia
de avaliação a partir do estudo do DF. In: LOBATO, A. L M. (org.). Garantia de Renda
Minima: ensaios e propostas. Brasííia: IPEA, ou!. de 1997.
31 "O que se propõe aqui, como fórmula para evitar que famílias excluídas do acesso às
condições básicas de sobrevivência no interior sejam despejadas nas estradas que
levam à perambulação, é a adoção de uma modalidade particular de Bolsa-escola:

não mais no destino, mas sim na origem" (Bursztyn & Araújo, 1997:102).

120
4

Juventude:
N ovo alvo da exclusão social
EUMAR PINHEIRO DO NASCIMENTO

o grande desafio da nação em face de seus jovens é o de lhes


propiciar as condições para criar, amar e desenvolver um projeto de
vida socialmente integrado, que contemple a consolidação do regi-
me democrátic.o, a abolição da exclusão social, o respeito pelo meio
ambiente e a integração com o mundo, além de sua realização pes-
soall.

Introdução

Hoje em dia, grande parte dos personagens da exclusão confunde-


se com os que denominamos comumente de "pobres" pessoas des-
tituídas de bens materiais e simbólicos mínimos para suprír suas ne-
cessidades básicas. Os exemplos mais contundentes são moradores
de rua, menínos em situação de risco, trabalhadores infantís, famílias
indigentes, trabalhadores que ganham salário mínimo, sem-tena e sem-
teto. Pobreza e exclusão aparentemente tornam-se idênticas. Sabe-
mos que esta simbiose não é tão simples. No passado não houve uma
relação tão estreita desses dois fenômenos e, em certos momentos da
História, nem mesmo existiu qualquer relação entre eles.
Um exemplo importante desta dístância entre exclusão e pobre-
za é o caso da Europa Medieval e mesmo Renascentista. Os clássi-
cos personagens da exclusào social eram os judeus, os leprosos c os

121
hereges, inclusive "mulheres consideradas bruxas" (Geremek, 19í\7).
Ou o caso dos personagens clássicos da exclusão social brasileira,
como os índios e os escravos (Nascimento, 1994). Uns e outros eram
submetidos à exclusão social não por serem pobres, mas por serem
vencidos e aprisionados. Cativos de guerra. Criação decorrente do
tipo de desenvolvimento econômico da época e das representações
sociais que os europeus tinham do "outro", habitantes dos continen-
tes americano ou africano. A percepção e as discussões sobre os
índios do Brasil no âmbito da Igreja e das elites européias seiscentistas
referiam-se à possibilidade ou não da detenção da alma por parte
dcstes, se eram semelhantes aos conquistadores, se eram membros
da raça humana, portanto, passíveis de conversão à fé cristã.
A idéia ampla de exclusão social compreende outros persona-
gens além dos pobres - os índios, os homossexuais e os negros.
Entretanto, não se pode esconder que o "grosso da tropa" são faces
distintas da pobreza. Da mesma maneira, na acepção restrita de ex-
clusão social- grupos passíveis de extermínio por terem se tornado
desnecessários economicamente, incômodos politicamente e peri-
gosos socialmente' - a identificação é ainda maior, pois nela estão
incluídos grupos específicos, todos pobres (como as crianças e ado-
lescentes infratores, os mendigos e os moradores de rua).
A identificação entre pobres e excluídos, hoje, dá-se por diver-
sas razões, todas relacionadas à natureza da sociedade moderna e às
mudanças na noção de exclusão social, produzida ao longo da
modernidade.
Em primeiro lugar, na sociedade moderna, ao inverso das anterio-
res, não existem fronteiras, não há exterioridade. Todos os conflitos
são resolvidos ou são passíveis de soluções internas. Com o surgimento
do espaço da igualdade e do Estado-Nação, foram implementados
mecanismos internos de resolução dos cont1itos. O sistema econômi-
co capitalista, na medida em que se implantou, por sua vocação natu-
ral 1 mundÜl\nç~o, dirimiu íl noçào de exterioridude. Qmmdo os es-

122
cravos rebelavam-se no Brasil colônia, só havia uma possibilidade de
vitória: a criação de qui lombos, as organizações exteriores à socieda-
de colonial-escravagista. Hoje, em caso explícito de discriminação,
os negros podem recorrer àjustiça, à mídia ou a manifestações e pro-
testos sociais. Caso idêntico ocorreu em todas as sociedades pretéri-
tas, onde o ostracismo era a punição mais violenta. O indivíduo mor-
ria não por estar só e, assim, impossibilitado de produzir os bens de
sua subsistência, mas sobretudo porque estava separado daqueles que
lhe davam identidade e sentido de existência.
Cria-se, dessa forma, um paradoxo na sociedade moderna, pois
o excluído sempre está dentro, na medida em que não existe mais o
eSlarfora. Sempre está envolvido no processo de produção - consu-
mo. Sempre ocupa um destes lugares, senão os dois. Os catadores
de papel ou lixo em geral, por exemplo, estão inseridos no processo
produtivo, ocupando a base de uma hierarquia de negócios, cujo
ápice é ocupado por indivíduos ricos, que se apropriam dos valores
produzidos na base. O mesmo ocorre com os trabalhadores infor-
mais pobres da esfera de comércio que, com seu trabalho, reduzem
os custos da distribuição, evitando o pagamento de impostos e bene-
ficios salariais. Os moradores de rua, em grande parte, não vão para
as ruas por falta de trabalho no Brasil, pois o alto rodízio é uma
condição de existência do trabalhador pobre, é sua condição cotidi-
ana. Os trabalhadores pobres adotam a rua como sua moradia sobre-
tudo porque romperam seus laços familiares, conforme demonstrou,
em sua tese, Escorei (1999). Moradores de rua distintos dos de
Brasília, como demonstra Bursztyn em seu artigo, pois na Capital
eles são sobretudo de origem rural e migram por causa da fome.
Morador de rua ou catador de papel, mendigo ou biscateiro, to-
dos estão inseridos, cada qual a sua maneira, no processo de produ-
ção e consumo, desempenhando suas funções específicas. Excluí-
dos, mas não exteriores à sociedade moderna. Excluidos porque não
tem acesso aos bens materiais e simb6\icos modernos ou não têm

123
condições de pm1icipar da gestão pÚblica, pelo simples fato de se
encontrarem no patamar mínimo da sobrevivência. Além, evidente-
mente, de serem estigmatizados.
Em segundo lugar, a identidade pobre-exclui do é construída pela
profunda desigualdade inerente ao desenvolvimento capitalista. O
sistema capitalista moderno, em sua capacidade intrínseca de au-
mentar a produção e a produtividade de forma sistemática, criou
uma mudança e uma variedade extraordinária de respostas às neces-
sidades humanas, aumentando, ao mesmo tempo, estas mesmas ne-
cessidades. Mas, de maneira simultânea, criou um sistema de distri-
buição extremamente hierárquico, deixando em sua base uma enor-
me massa de pessoas destituídas de bens. A nova fase de desenvol-
vimento, com a marca da globalização, apenas agudizou essa desi-
gualdade. Regiões inteiras, hoje, no mundo, vivem uma situação de
verdadeiro genocídio, como a África, com milhões de pessoas mor-
rendo por desnutrição.
A identidade pobre-excluído foi agravada nos tempos recentes
devido, sobretudo, aos efeitos de três fenômenos recentes: a terceira
revolução científico-tecnológica iniciada em meados dos anos 1970,
mudando o padrão técnico-econômico da produção; a globalização,
ou nova expansão do capital no campo internacional, aumentando
as desigualdades sociais já existentes entre países; e a vitória do
neoliberalismo a partir de finais dos anos 1970, na lnglaterra e nos
Estados Unidos, e sua hegemonia no mundo ocidental nos anos 1980.
Os três fenômenos articulam-se para aprofundar as desigualdades
sociais, aumentar a dimensão da pobreza e críar o desemprego de
longa duração. Além de esgarçar, aqui e acolá, o Estado de Bem-
estar Social.
Finalmente, o espaço da desigualdade, em sua nova dimensão,
impede que se consolide o espaço da igualdade, deixando à margem
dos direitos justamente aqueles que nào têm recursos para acionar
os mecanismos de defesa.

124
As marcas maiores da exclusão social hoje, porém, são a sua
diversidade e a sua aceleração.
A sociedade moderna sempre foi marcada pelo jogo da integração
c exclusão. A novidade, no caso do Brasil, é que a exclusão começa
a ganhar, revertendo a tendência dos primeiros 70 anos deste século.
Enquanto os bolsões de pobreza diminuíram de cerca de 40% para
aproximadamente 20% na década de 70 (Eichemberg Silva, 1992),
voltaram a crescer nas décadas de 1980 e 1990, chegando hoje a
níveis próximos aos de 1970: 36%. Não apenas o processo de
integração parou de predominar, como mudou de natureza. Se antes
era necessário apenas acelerar os índices de crescimento econômico
para reduzir significativamente os bolsões de pobreza, hoje este es-
forço, embora importante, não é mais suficiente. São indispensáveis
políticas sociais específicas e eficientes. É o que a vitória do
neoliberalismo no Brasil, desde 1989, impediu de se consolidar.
A exclusão se manifesta como um tufão que vai incorporando
aos seus domínios um número crescente de pessoas e um número
sempre diverso de personagens. Entre estes novos personagens en-
contram-se justamente os jovens.

.Juventude e diversidade

Como é sabido, a definição de juventude pode assumir conotações


diversas. O recorte etário, cujo valor instrumental é inegável, per-
mite uma referência concreta, mas não resolve os problemas da pre-
cisão conceitual. Por outro lado, mesmo neste recorte, há divergên-
cias. Aqui considera-se a definição utilizada pela Organização Pan-
americana de Saúde e pela Organização Mundial de Saúde, e por
diversos órgãos públicos no Brasil. A OPS e a OMS definemjuven-
tude como os indivíduos situados entre 15 e 24 anos. Atribuem ên-
I~lse conceitual ao aspecto sociológico, indicando o processo de pre-
paração para o desempenho do papel de adulto na sociedade, tanto
\\u p\anu f~\mi\ia\' Ll\.umto \\0 p\'0f1~~i0nal. No ~mbito Jes\.e períoJo,

125
distinguem aquele que se refere à adolescência propriamcnte dita,
compreendendo os individuos entre 15 e 17 anos. Neste caso, a de-
finição agrega elementos fisiológicos e psicológicos relativos à for-
mação biológica e cognitiva do individuo, e à estruturação de sua
personalidade.
O recorte etário, apesar de sua precisão, tende a sugerir uma
homogeneidade inexistente, como se os jovens fossem um singular,
quando na realidade são um plural. Há grandes diversidades entre
os jovens decorrentes da amplitude do leque etário adotado, mas
também de outras variáveis como região, classe, escolaridade, nivel
de renda e gênero. Como espelho da sociedade, eles refletem suas
desigualdades, desencontros e contradições.
Observe-se, por exemplo, as diferenças sociológicas entre os
jovens situados na faixa etária de 15 a 17 anos (também denomi-
nados de adolescentes) e os que se encontram no outro extremo,
entre 20 e 24 anos, além das distinções comportamentais e bioló-
gicas. A taxa de escolarização do primeiro grupo, no Brasil, é su-
perior a 70% e, do segundo grupo, é levemente superior a 20%.
Metade do primeiro grupo está apenas estudando, enquanto a me-
tade do segundo está apenas trabalhando. Entre os adolescentes
que trabalham, mais de um terço não tem carteira assinada e igual
percentagem não tem qualquer remuneração. No grupo dos 20 a
24 anos, 40% trabalham com carteira assinada e apenas R'!j, não
têm remuneração. Diferenças ocorrem também nas horas traba-
lhadas: entre os jovens de 15 a 17 anos, cerca da metade trabalha
40 horas ou mais. No segundo grupo este percentual é de aproxi-
madamente 80%. No primeiro grupo predomina a situação de es-
tudante e, no segundo, a de trabalhador.
Diferenças marcantes ocorrem nos dois grupos quando tomamos
em consideração a variável gênero. Os adolescentes masculinos que
trabalham mais de 40 horas semanais são mais de 60%, enquanto as
adolescentes sào pouco mais da metade. E entre 20 e 24 anos, os

126
jovens que trabalham são quase 90%, contra cerca de 2/3 das jo-
vens. Estas, por sua vez, preparam-se melhor para o futuro. Entre os
15 e 17 anos, aquelas que apenas estudam são quase 60%, contra
menos da metade dos rapazes. Dentre estes, um quarto já se encon-
tra fora da escola, apenas trabalhando, contra menos de 10% das
garotas.
A comparação regional revela um quadro heterogêneo: o
percentua1 de participação dos jovens na população total era de 18,7%
no Sudeste e de 22,5% no Norte, em 1997. Enquanto nas regiões Sul
e Sudeste, em média, aos 17 anos de idade, os adolescentes conclu-
íram o ensino fundamental, no Nordeste completaram menos de seis
anos de estudo.
As distinções de renda são notórias. As de raça são menos evi-
dentes, mas se entrelaçam. Apenas a título de exemplo: os jovens de
pais brancos cuja renda mensal é superior a 5 salários mínimos são
15'%, enquanto os jovens que têm pais negros ou pardos com renda
familiar semelhante são menos que 4%.
Essas diferenças tendem a se reproduzir, tornando as desigual-
dades inaceitáveis, alimentadoras de conflitos e dores, sofrimentos
e tensões. Sob uma população estimada de 167 milhões de pessoas,
o nÚmerode jovens de 15a 24 anos - que seriam hoje cerca de 33,5
milhões - deve variar pouco em termos absolutos nos próximos 20
anos, embora com uma curva percentual descendente muito nítida,
conforme pode-se observar no quadro a seguir.

Estimativa do Crescimento Populacional e dos Jovens (15 a 24 anos) Bra-


sileiros e seu Percentual.

População total (I) 167.716.538 179.556.501 190.977.109 210.727.174


15 a 19 anos (A) 17.294.242 17.041.999 16158691 17.101.688
20 a 24 anos (8) 16.4 78.360 17.153.730 16.918.261 16.453.200
A I B (2) 33.772.602 34.] 95.729 33.076.952 33.554.888
I /2 (0/,,) 20,1 19,0 17,3 15,9

I'tmlc: lHC;!, Sill/ese dos indicadores sociais, 1998.

127
Finalmente, não se pode esquecer que a juventude constitui uma
etapa na existência humana moderna marcada pela transição entre a
fase infantil e a adulta. Criança, adolescente, jovem e adulto são
conceitos reconhecidamente culturais, que têm assumido conteúdos
distintos ao longo do tempo e das sociedades. Nos casos das socie-
dades onde, recentemente, a permanência dos indivíduos no mundo
escolar tende a se alongar, a inserção no mundo do trabalho a se
retardar e a expectatíva de vida a crescer, o conceito de juventude
tende a se alongar na faixa etária, aproximando-se dos 27 anos. Outros
autores e entidades eliminam o período de 15 a 17 anos, sob o argu-
mento de suas especificidades diferenciais].
Dessa forma, a diversidade, a transição e a historicidade confor-
mam o leito que abriga a noção de juventude.

Sociedade e juventude: Os grandes desafios

A sociedade brasileira foi marcada, ao longo dos primeiros 80


anos deste século, por um forte crescimento econômico, o qual se
refletia em sua dinâmica de mobilidade ascendente. Com taxas de
crescimento anuais médias em tomo de 7,5%, o país foi capaz,
mesmo em meio a uma grande desigualdade social, de integrar à
sociedade moderna parte considerável de seus membros, deslo-
cando-os do campo para a cidade, inserindo-os em um mercado de
trabalho ágil, com acesso aos bens de consumo modernos. A déca-
da de 80, e a seguinte, marcam uma inversão nesta tendência. Não
apenas o país pcrdeu a sua dinâmica econômica, caindo seus índi-
ces de crescimento anual para cerca de 2%, como perdeu sua capa-
cidade de integração social. Por isso, na década de 80, observamos
o surgimento de um processo de cristalização, ou fossilização da
estrutura social.
Está contido, neste processo, o risco crescente de exclusão soci-
al em sua forma mais radical: a apartação ou nova exclusão social
(Huarque, 199]; Na~cilHênto, 1994). Ele se distinguc das formas

128
anteriores como a exclusão dos escravos e dos trabalhadores ru
-

rais pelo fato de que agora constituem-se grupos sociais que vã


-

sendo gradativamente considerados desnecessários economicamen


te, perigosos socialmente e incômodos politicamente. Em uma situ
ação desta natureza, estes grupos sociais tomam-se passíveis de eli
minação física.
O grande desafio à sociedade brasileira, portanto, não é apenas I
de retomar os níveis anteriores de crescimento econômico, mas, so
bretudo, de crescer integrando, redistribuindo as riquezas, em Ull
novo contexto econômico e social.
Os jovens, como espelho dessa sociedade, são assaltados po
inÚmeros problemas, desafios e incertezas, alguns antigos e outro
novos: a pobreza e a desigualdade social; as crescentes dificulda

escolarizacão e da qualificacão orofissional:


qiicncIa e da droga; a precanedade dos espaços de lazer e esporte:
a perda de confiança na efetividade do sistema jurídico; o descré-
dito nas instituições pÚblicas; o desprezo pelos políticos e seus
partidos; o desinteresse pela vida política e a participação pÚblica.
Esses dilemas se resumem na falta de perspectivas e projetos para
o futuro.
O grande desafio da nação em face de seus jovens é o de lhes
propiciar as condições para criar, amar e desenvolver um projeto de
vida socialmente integrado, que contemple a consolidação do regi-
me democrático, a abolição da exclusão social, o respeito pelo meio
ambiente e a integração com o mundo, além de sua realização pes-
soal. Esse projeto irá garantir a melhora constante na qualidade de
vida de todos os brasileiros. Sem ele, os jovens são prisioneiros da
ética do imediato: ter todas as coisas na medida de seu desejo e no
tempo mais breve possível.
Esse grande desafio pode ser abordado a partir de quatro dimen-
sões próprÜs à juventude~

lL~
..Inserção no mundo do trabalho
Riscos da marginalidade e da violência
.. Integração familiar
Participação política e social.
Aqui abordamos brevemente cada uma dessas dimensões, inspi-
rados pela convicção de que a vitória sobre a exclusão social no
caso dos jovens só pode ser alcançada tomando-se em consideração
o conjunto destas dimensões. Elas têm a qualidade de abarcar gran-
des especificidades do ser jovem. Não de fon11a exaustiva, pois se-
ria necessário acrescentar pelo menos as dimensões da descoberta
da sexualidade e do sentimento do lúdico, próprios da idade juvenil.
Nós as carregamos conosco ao longo da vida, mas jamais com a
dramaticidade do ser jovem.

Primeiro desafio:
A inserção no mundo do trabalho
A passagem para a idade adulta é marcada, na sociedade moderna,
pela construção da autonomia. Esta, desenvolvendo-se ao longo da
adolescência e da juventude, consolida-se pela inserção positiva no
mundo do trabalho e se traduz na capacidade de produzir os meios
necessários ao seu auto-sustento. Ademais dos fatores biológicos e
psíquicos, a autonomia social traduz-se em níveis de escolaridade e
de qualificação profissional. Estudos específicos apontam não só a
correlação positiva entre educação e salário, mas também reforçam a
contribuição da educação como fundamental na desigualdade salari-
al. Portanto, educação e qualificação profissional são os dois primei-
ros fatores essenciais para a inserção do jovem no mundo do trabalho.
O esforço que o país vem desenvolvendo no campo educacio-
nal voltado para a juventude é ímpar. Por exemplo, entre 1990 e
1997, a taxa de escolarização dos jovens entre 15 e 17 anos teve
um crescimento da ordem de 30%, compreendendo hoje pratica-
lllente 75% de~te~. Comiderando-se O espaço urbano, ela é da or-

130
dem de 80%. Mesmo assim, os indicadores ainda são insuficientes
e desiguais.
Os analfabetos entre os jovens ainda são quase 2 milhões. A situa-
ção é mais deficitária entre os rapazes, correspondendo a 65% destes.
As diferenças de escolaridade entre as zonas urbanas e rurais são
marcantes. Os jovens urbanos com 18 anos têm, em média, 50% a mais
de escolaridade do que seus pares que residem no campo. A escolarida-
de dos mais ricos Uovens que vivem em famílias com mais de 2 salários
minimos per capita) é praticamente o dobro daquela dos mais pobres
(que vivem em familias com renda per capita de salário mínimo).
Se a melhoria no campo educacional e da qualificação profissio-
nal é fato reconhecido e positivo, a capacidade de absorção dos jo-
vens pelo mundo do trabalho tem-se deteriorado nacionalmente. Com-
parando-se as últimas três décadas, o Brasil conheceu, de forma per-
manente, o crescimento das taxas de desemprego, que atinge mais os
jovens do que outras faixas etárias. E, entre estes, os mais pobres e de
menor escolaridade. Em 1997, quando a taxa nacional de desocupa-
ção era de 7,8%, entre os jovens de 18 a 24 anos era de 13,3%.
Assim, o ingresso no mundo do trabalho torna-se cada vez mais
dificil para os jovens. E sem esta inserção não há como ter autono-
mia, a passagem à idade adulta bloqueia-se ou a tentação à
marginalidade torna-se irresistível. Nada mais do que outro cami-
nho para a exclusão. Universalizar o ensino médio, criar formas de
aprendizagem e qualificação eficiente, adotar mecanismos de inser-
ção no mundo do trabalho (como o trabalho civil voluntário) e gerar
empregos especiais para este grupo de trabalho é o único caminho
para o enfrentamento dessa face jovem da exclusão.

Segundo desafio:
Enfrentar a marginalidade e a violência
Não é nova a preocupação da sociedade brasileira com a vio-
\QI\~Ü\.ílúde-~e regi~trá-l~ n~ muu~nça ue éonduta da populaçào,

131
1a mensagem dos meios de comunicação, nos discursos politI-
~os, nos trabalhos acadêmicos e nos projetos governamentais.
'Jestes diversos discursos os jovens tendem a ocupar o lugar de
Jrodutores de violência, com destaque para seu envolvimento com
i delinqüência, a criminalidade e o tráfico de drogas, assim como
JS confrontos nas periferias entre gangues, nas sai das dos bailes
funks ou no embate violento entre torcidas organizadas. Porém,
mtes que produtores da violência, os jovens são suas principais
vítimas.
O fenômeno é, evidentemente, mais complexo e os estudos exis-
tentes são ainda precários. A violência assume configurações mÚlti-
plas - desde a agressão fisica com morte até as agressões verbais
:otidianas no âmbito familiar ou profissional. Ocupa espaços diver-
sificados - apanágio de grupos de jovens da periferia, o assalto a
lojas comerciais por parte de jovens de classe média ganha notorie-
dade mediática nas grandes cidades. Relaciona-se, em grande parte,
ao poder de atração do mercado e à perda de valores que Costa (1999),
entre outros, tem insistentemente denunciado. As estatísticas são dé-
beis, pois a denÚncia implica risco e trabalho. O espaço privado
encobre grande parte do fenômeno, impedindo-o de ser claramente
visualizado e conhecido.
De toda forma, os nÚmeros neste campo são chocantes. Em 1997,
72,2% dos jovens entre 15 e 19 anos que morreram foram mortos
por causas externas (principalmente homicídio, trânsito e suicídio),
enquanto este mesmo percentual para toda a população encontrava-
se em torno de 16%. Em 1998, o percentual de jovens mOlios por
causas violentas cresceu para 77%. No caso de homicídios, a dife-
~ ~

caso, a maioria dos seus atores - vítimas


_~ J~ " 1 ~'"'V'\nl.."Y\""' ta. h"h;tr}'Y\ta.(.' r

O crescimento do nÚmero de jovens envolvidos com drogas e


com infrações diversas esta relacionado à falta de perspectiva soci-

1J2
aI, às dificuldades de inserção no mundo do trabalho, à ausência de
alternativas de lazer e aos processos de desintegração familiar, re-
fletindo a ausência de um projeto de vida. Mas também está articu-
lado com outras variáveis mais gerais tais como a perda de ritmo na
mobilidade social ascendente, o crescente apelo ao consumo e o
enfraquecimento das normas morais.

Terceiro desafio:
A integração familiar

Na sociedade moderna, a conceituação da juventude implica


a afirmação de que este é o momento de preparação para a cons-
tituição de uma nova inserção familiar. É o momento em que o
indivíduo deíxa a sua família de origem e prepara-se para consti-
tuir a sua própria família, deslocando-se do papel central de
filho(a) para o de pai/mãe. Nas sociedades mais pobres, porém,
assim como a inserção no mundo do trabalho ocorre mais cedo, a
constituição de uma nova família, com todas as suas implica-
ções, inclusive o da maternidade-paternidade, também se realiza
de maneira prematura.
Diversos analistas têm detectado um claro vínculo entre pobreza
e gravidez na adolescência. No Brasil, no âmbito das fàmilias indi-
gentes, 37% das mulheres tinham tido filhos antes de 20 anos, em
1997. Se considerarmos o grupo das mulheres nào pobres, este
percentual cai para 12%. No mesmo ano, entre as famílias que vi-
vem com menos de 1 salário minimo per capita, 8,9% das garotas
entre 15 e 17 anos tiveram filhos. Considerando as famílias que vi-
vem com mais de 2 salários mínimos per capita, este percentual é
de 0,8% eIBGE, 1998).
A precocidade na constituição da família - e na maternidade -

tem implicações graves sobre a formação dos jovens em geral e


das adolescentes em particular, com efeitos no campo da estabili-
dade familiar e da educaçào da prole. A gravidez precoce está rei a-

133
cionada a fatores de renda e educação, mas também a mudanças
nos comportamentos sexuais e nos valores morais no âmbito da
sociedade. O erotismo crescente na sociedade brasileira, median-
te, sobretudo, os meios eletrônicos, tem contribuido certamente
para este fenômeno.
O mais grave, porém, encontra-se nos processos de desintegra-
ção familiar dos lares dos jovens mais pobres. O ir para a rua, tanto
entre crianças e jovens, está relacionado ao fracasso ou sucesso da
integração familiar e à atração de consumo, antes de quaisquer ou-
tros fatores (Araújo, 1998). E parte do fenômeno da gravidez preco-
ce encontra sua razão de ser em uma estratégia de afirmação e iden-
tidade, de adolescentes, em famílias de pouca integração. Não tendo
outra expectativa de vida, estas adolescentes fazem do ser mãe seu
projeto de vida.

Quarto desafio:
A participação política e social

Uma das principais preocupações brasileiras refere-se aos riscos


que a democracia sofre, advindos dos níveis das desigualdades soci-
ais e do pífio comportamento da economia, nas décadas de 80 e 90.
Um outro aspecto diz respeito ao decréscimo de participação nos
pleitos eleitorais, com a possibilidade de estar ocorrendo uma apatia
politica no país, além dos aspectos que dificultam o exercício da
govcrnabilidade, tais como a dispersão da representação parlamen-
tar e do leque partidário. Ambos são resultantes muito mais dos pro-
cessos internos da política parlamentar do que propriamente dos plei-
tos eleitorais ao longo dos Últimos dezoito anos em que o Brasil
conheceu cinco eleições federais (1982, 1986, 1990, 1994 e 1998).
No caso da participação eleitoral, as duas Últimas eleições presi-
denciais demonstram que não houve modificações substantivas. O
percentual de votos brancos, nulos e abstenções, em 1998, foi leve-
mente maior do que em 1994, respectivamente, 38,8% e 38%. Se

134
não houve aumento significativo, continua preocupante o fato de
que quase 40% dos brasileiros em condições de votar, por razões
distintas, não tiveram uma expressão positiva a respeito do pleito
mais importante para o país. Tal preocupação se confirma ao exami-
nar apenas a variável abstenção, que subiu no mesmo período de
19% para 22,9%.
Em relação aos jovens, a preocupação é ainda maior, sobretudo
em se tratando daqueles que se encontram na faixa etária de 16 e
17 anos, quando Ihes é facultado pela primeira vez o direito do
voto. Embora os jovens demonstrem mais interesse com a política
do que os adultos e idosos, conforme pesquisa recente do IBOPE
(1999): 50'% dos jovens entre 16 e 24 anos consideram os partidos
políticos como importantes ou muito importantes numa democra-
cia, contra 40% entre os adultos de 35 a 49 anos e 31 % entre os de
50 anos ou maís; 50% dos jovens entre 16 e 24 anos consideram
que o Brasil vive numa democracia contra 44% dos adultos entre
35 e 49 anos.
Relacionado a este aspecto, alguns analistas têm enfatizado o
descrédito dos jovens nas instituições pÚblicas e nos atores políti-
cos. Os profissionais da política alcançam sempre os piores índices
de aprovação nas pesquisas de opinião públíca, juntamente com as
instituições políticas. As constantes denúncias de políticos e autori-
dades públicas envolvidos em corrupção transmitem um sentimento
de descrédito da juventude em suas instituições democráticas. Con-
vertem-se em um desprezo pela atividade política.

Conclusão

Como citado no início deste texto e expresso em seu próprio


-

título --, não pretendi ser exaustivo, mas apenas ilustrativo, abordan-
do algumas das dimensões-chave que caracterizam e angustiam os
jovens e seus responsáveis. Essas dimensões sào traduzi das em de-
~~\rlD~ no con\bat~ à cÀe\u~~ü ~ü~ia\ no âmbito da juventude. T 0-

135
mam, portanto, em consideração, as características próprias deste
grupo social.
O mais relevante talvez seja o fato de que a questão dajuventude
é complexa. Compreende múltiplas dimensões, interligadas e em
constante mudança. Significa, assim, que nenhuma intervenção go-
vernamental específica pode, por si só, criar as condições favorá-
veis da inserção social integrada. Ou resolver os inúmeros proble-
mas e angústias que assaltam os adolescentes e jovens brasileiros.
Assim como a abordagem analítica tentou abarcar múltiplas facetas
da questão, as intervenções podem ter igualmente este caráter, por
meio de ações integradas. Ganha-se não apenas em sinergia mas,
sobretudo, em compreensão e eficiência.

136
Referências bibliográficas

ARAÚJO, C. H. Afacejo\'em da exclusiío: perfil das crianças e adol",scentes


em situaçiío de rua em Brasilia. Brasilia: Codeplan, 1998.
BARROS, R. P. de; MENDONÇA, R. S. P. de. Os determinantes da desigual-
dade no Brasil: a economia em perspectiva, /996. Rio de Janeiro: IPEA,
1996.
BUARQUE, C. O que é apartaçiío? São Paulo: Brasiliense, 1993.
CAMARANO, A. A. Jovens brasileiros: já independentes') ln: Como vai? Po-
pulaçiío Brasileira (V) I, Brasilia, p. 1-12, mar. 2000.
COSTA FREIRE, 1. Ra::.ÔespÚblicas, emoçÔes privadas. Rio de Janeiro: Rocco,
1999.
EICHEMBERG SILVA, L. C. (org.). O que mostram os indicador",s sobre a
pohre::.a na década perdida. Rio de Janeiro: IPEA, 1992.
ESCOREL, S. Vidas ao léu: trajetórias de exclusiío social. Rio de Janeiro: Ed.
Fiocruz, 1999.
GEREMEK, B. La potence ou Ia pitié. L 'Europe et les patlvres du moyen âge
á nosjours. Paris: Gallimard, 1994.
lBGE. Instituto Brasileiro de Geografia c Estatística. Síntese de indicador",s
sociais, /998. Rio de Janeiro, 1999 (IBGE. Estudos c Pesquisas. Informa-
ção demográfica c soeioeconômica, n. I).
JORGE, M. H. M. Como morrem nossos jovens. In: Jovens: acontecendo nas
trilhas das políticas pÚblicas. Brasília: Comissão Nacional dc População c
Desenvolvimento, 1998, v. I.
NASCIMENTO, E. P. do. Hipóteses sobre a nova exclusão social: dos excluí-
dos necessários aos excluídos desnecessários, Caderno CRH, 21, p. 29-47,
jul-dez. 1994.
. Caleidoscópio juvenil. hreves reflexÔes sobre asjuventu-
des brasilienses. Brasília, 1997. Texto não publicado.

SPOSITO, M. P. A sociabilidade juvenil e a rua: novos conflitos e a ação cole-

137
tiva na cidade. Tell/po social, v. 5, n. 1/2, p. 161-178, 1994.
WAISEFISZ, J. Mapa da \'iolência: osjovens do Brasil;jllvenlllde, violência e
cidadania Rio de Janeiro: Garamond, 1998.

Notas

1 Este texto foi elaborado para um trabalho do Ministério do Planejamento cujo objetivo é
integrar os programas governamentais focalizados na juventude.

2 Ver Capitulo 2, do mesmo autor, neste livro -" Dos excluídos necessários aos excluídos
desnecessários".

3 De certa forma todas as fases da existência são de transição. Transição entre o nasci-
mento e a morte. No caso particular da juventude, a principal transição é marcada por
transformações biológicas, psíquicas e sociais, normalmente tensas e dramáticas.

138
5

Vivendo de teimosos
moradores de rua da cidade
do Rio de Janeiro

SARtdI ESCOREI.

Rio, quarenta graus


cidade maravilha
purgatório da bele::a e do caos

Fausto Fawcett

Introdução

A população que mora nas ruas é personagem e cenário do dra-


ma social das grandes cidades do pais. Personagens que nalTam suas
trajetórias de múltiplas, constantes e cumulativas desvinculaçães.
Expõem o ponto de degradação que as condições de vida urbana
atingem. Cenários do meio ambiente social desaparecem na paisa-
gem, naturalizados e banalizados em sua miséria e isolamento. Cons-
tantemente despojados de seus poucos pertences, instados a circular
pelas ruas sem poder fixar-se, sobrevivem a cada dia de teimosos
que são, insistindo em continuar vivos e a expor suas misérias no
espaço público. Os que vivem nas ruas mostram "em carne viva" as
conseqüências objetivas e cotidianas dos modelos de desenvolvi-
mento concentradores e injustos adotados nas últimas décadas que
reduziram, drástica e dramaticamente, o campo de possibilidades
nas quais podem se movimentar e usufruir das riquezas produzidas
e dos conhecimentos alcançados.
Os moradores de rua sintetizam em suas existências as caracte-
risticas pelas quais pode-se afin11arque no Brasil contemporâneo há

139
exclusão social. Em suas condições cotidianas de vida podem ser
percebidos os elementos que configuram a materialização de pro-
cessos de exclusão. A população de rua expressa uma condensação
de trajetórias (processos) de exclusão, a cristalização em uma con-
dição (estado) extrema mas permanente.
A condição limítrofe da situação de excluído que pode ser
verificada empiricamente no cotidiano de pessoas que moram nas
ruas da cidade, dos que estão "sem lugar no mundo", totalmente
desvinculados ou com vínculos tão frágeis e efêmeros que não cons-
tituem uma unidade social de pertencimento, é parte de uma traje-
tória composta por situações variadas (heterogêneas) de extrema
vulnerabilidade.
Estas vidas que vemos nas ruas e nas praças da cidade do Rio
de Janeiro são vidas ao léu, a descoberto e sem "eira nem beira".
São vidas de pessoas desvinculadas no sentido material e afetivo
e, no campo simbólico, são marginalizados, discriminados e nega-
dos. Entretanto, os que estão nas ruas nos falam dos pobres abriga-
dos, de famílias de trabalhadores urbanos pobres, grupo social que
pagou o preço de todos os projetos governamentais - esperando a
repartição do bolo do crescimento econômico na ditadura, penali-
zado com a inflação galopante da Nova República, sofrendo as
conseqÜências das politicas de ajuste e da má gestão das políticas
SOCIaiS.
lnstigada pela realidade brasileira contemporânea e em resposta
aos estímulos intelectuais e políticos da Ação da Cidadania contra a
Fome e a Miséria, pela Vida, coordenada pelo sociólogo Herbert de
Sousa (Betinho) e por D. Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias
(RJ), articulei Hannah Arendt com Robert Castel para elaborar o
conceito de exclusão social e propor uma metodologia de análise do
fenômenol. Assim, considero a exclusão social como um processo
no qual - no limite os indivíduos são reduzidos à condição de
-

animallahorans, cuja única atividade é a sua preservação biolÓgi-

140
ca, e na qual estão impossibilitados do exercício pleno das
potencialidades da condição humana2 .
Analiso a exclusão social, sob influência dos eixos de vinculação/
desvinculação propostos por Castel (1991), considerando-a como
um processo que envolve trajetórias de vulnerabilidade, fragilidade
ou precariedade e até ruptura dos vínculos em cinco dimensões da
existência humana em sociedade.
Figura 1: Eixos de Análise, Robert Castel (1991)

CIXO +
ocupacional

Zona da Zona da
Vulnerabil idade Inserção

+
eixo sociofamiliar
Zona da
Zona da
Dcsvinculação
Assistência3
ou Exclusão

Cada eixo é um processo no qual ocorrem múltiplas e variadas


possibilidades entre duas situações polares (positiva - inserção, ins-
crição, integração e negativa -. exclusão, desvinculação, ruptura).
-

Este processo tem "traduções" específicas segundo o âmbito da vida


social em que se desenvolve.
Não há uma correspondência unívoca e sistemática entre um pro-
cesso de desvinculação que ocorre no eixo do trabalho, por exem-
plo, e o que pode ser verificado no mesmo momento na esfera
sociofamiliar. Essa perspectiva de análise possibilita perceber a
heterogeneidade das histórias de vida de pessoas que, no limite, na
~iluação polar nég~tiva, na condiçào de excluído, sào jogadas numa

141
'vala comum' que homogeneiza sob um estigma, a pluralidade e a
diversidade humanas e de grupos sociais.
Castel (1991) analisa os eixos sociofami liar e econômico-
ocupacional. No primeiro, a inserção corresponde a vínculos familiares
sólidos e estáveis, relações de amizade, coleguismo, companheirismo,
vizinhança, que se deixam perceber na família, no time de futebol, no
grupo religioso, nas festas da comunidade, no lazer. A fragilização e a
precariedade das relações tàmiliares, de vizinhança e de comunidade,
conduzem o indivíduo ao isolamento e à solidão. São percursos de
distanciamento dos valores e das relações que estruturam o cotidiano e
trajetórias de dificuldades em conseguir mobilizar apoios frente a situ-
ações de labilidade dos vínculos econômicos ou políticos.
No mundo do trabalho, o processo se desenvolh' entre uma inser-
ção estável e regular que conjuga o binômio assalariamento (rendi-
mentos) e proteção social, típica das sociedades de trabalho dos paí-
ses centrais e uma condição de ruptura dos vínculos ~desemprego crô-
nico ou jovens que nunca conseguiram estabelecer sequer um vínculo
precário). Exclusão neste âmbito é mais que ocupar uma posição mar-
ginalizada no processo de produção e acumulação capitalista e é a
-

condição contemporânea de ser supérfluo e desnecessário. Entre uma


situação e outra há inúmeras possibilidades de vulnerabilidade,
precarização, instabilidade, irregularidade, desemprego recorrente,
ocasional, cíclico, rendimentos decrescentes e infonnalidade.
A centralidade dos vínculos com a esfera econômico-ocupacional
determina que o trabalho seja o critério que confere a legitimidade e
a dignidade da existência do cidadão. Os processos nesse âmbito
estão fortemente relacionados à identidade e auto-estima do indiví-
duo-trabalhador-cidadão de modo que a análise de trajetórias de
vulnerabilidade e desvinculação na dimensão ocupacional deve es-
tar pennanentemente orientada em duas direções: as condições de
vida do trabalhador, incluindo possibilidades de poupança e pers-
pectivas de futuro (mobilidade social) e, em paralelo, porém com

142
características próprias, a constituição do trabalho como "sistema
identitário", referencial de comportamentos e valores do trabalha-
dor. Dessa forma deve ser analisada a posição que o trabalhador
ocupa tanto na estratificação socioeconômica quanto na estratificação
simbólica (valorização social da função).
Ao esquema de análise proposto por Castel, incorporei os eixos
da política (cidadania), cultural (valores simbólicos) e o âmbito da
vida que pode ser representado da seguinte forma:
Figura 2: Dimensões da Exclusão Social

+
eixo
oeupaeional

. Zona da Exclusão

Zona da Inserção

~> Exemplos de inserções


Zonas de vulncrabilidade
/ exclusões parciais

!"'".

No âmbito político ou esfera da cidadania são analisadas a


fonnalização e a experiência dos direitos, identificando a amplitude
de situações que são apreendidas e a igualdade no acesso e usufruto.
Às possibilidades que os diversos grupos têm de se fazer represen-

143
tar na esfera pública, em defesa de seus interesses e direitos legiti-
mos, também integram este eixo cuja sitwlção polar positiva está
representada pela cidadania plena universal4 que envolve, ainda, a
ação política, ou seja, a participação na construção de um mundo
comum, de uma esfera pública de igualdade. No outro lado do pro-
cesso observa-se o território da infracidadania ocupado por certos
grupos, em geral pobres, revelando uma impossibilidade de instituir
uma regra igualitária de reciprocidade (Telles, 1992). Estes mesmos
grupos são excluídos da atividade política (ou nela têm apenas um
papel figurativo) porque estão privados de recursos de poder e pelo
desencanto (senão aversão) que sentem em relação à política e aos
políticos. Ao longo do processo observam-se várias situações que
revelam o 'estilhaçamento da cidadania' (Lautier, 1992), a existên-
cia de uma cidadania fragmentada. Dentre estas situações está o
clientelismo, ou seja, o usufruto dos direitos e a participação medi-
ados por políticos ou personagens dotados de poder.
No eixo cultural em que se desenvolve a troca de valores simbó-
licos podem ser observados os processos do mundo da subjetivação,
da construção de identidades, a relação com o outro e as representa-
ções sociais. Trajetórias de desvinculação podem conduzir à experi-
ência de não encontrar nenhum estatuto e nenhum reconhecimento
nas representações sociais, ou só encontrá-Ios em negativo. São ca-
minhos que podem envolver discriminação, estigmatização,
criminalização, não-reconhecimento, indiferença, negação da iden-
tidade ou identidade negativa, conformismo, naturalização e
banalização. As reações à radical diferença do outro percorrem ca-
minhos de acentuação das similitudes (relações de proximidade e
igualdade) ou de acentuação das diferenças (relações de distância e
estranheza) atingindo estas a distância máxima quando recusa-se
qualquer similitude - até a mais geral (humanidade). Procede-se,
assim, a uma desumanização do outro ou a uma "diferenciação tal
que chega a criar lespecies' diferentes de homens" (Buarque, 1993).

144
Como 'pano de fundo' de todos esses processos está a dimensão
da própria vida, âmbito no qual podem ser analisadas trajetórias de
inserção/desvinculação por meio dos fenômenos relacionados à saÚ-
de/doença e à violência. Entre o pólo positivo de uma vida saudável
e longeva e o pólo negativo da morte, encontramos diversos episó-
dios de morbidade, mortalidade, diferenças de esperança de vida,
gravidade de patologias, incidência 'preferencial' de causas de do-
enças e mortes em determinados grupos sociais (como homicídios e
causas externas de modo geral em homens, jovens, pretos ou pardos
e pobres, moradores das periferias urbanas), além das iniqüidades
existentes em relação ao acesso e à utilização dos serviços de saÚde
de qualidade. Todos esses fenômenos revelam tanto a distinção que
há entre viver e sobreviver quanto o grau de dificuldades encontra-
das por uns e por outros para permanecerem vivos. Eis que surgem
então pessoas que sobrevivem de teimosas. As péssimas condições
de vida e a proteção social ausente ou extremamente precária reve-
lam que a sobrevivência quase impossível é fruto de determinação
pessoal.
"Sem saber o nome do presidente da RepÚblica, Adalgisa Evaristo,
de 31 anos, compartilha com os oito filhos situação vivida por milhões
de brasileiros que engrossam as estatísticas da miséria. A família mora
nwn casebre de terra batida em São João de Meriti (Baixada Flurninense),
vive com pouco mais de R$ 100mensais - somadasas rendas dos bis-
cates de Adalgisa e da filha de 15 anos, com metade do salário mínimo
oferecido pelo Programa de Renda Mínima da Prefeitura.
'Roupa e sapato não dá para comprar. A gente usa o que ganha',
conta a mulher. (...) Analfabeta, nunca foi à escola, nem conheceu
direitos, como o trabalho com carteira assinada. Jamais votou.
Nos li anos dedicados à prole, acostumou-se a biscates como
lavagem de roupas e capina de jardins e quintais. Nunca trabalhou
com carteira assinada 'porque sempre tem uma criança doente', la-
menta, lembrando-se do filho Ricardo, 11 anos, anêmico, menor do

145
que o de 10, Leonardo. O médico receitou vitaminas, mas a caixa
custa R$ 12 e só dura 15 dias.
A família é uma das 200 em situação de miséria atendidas pelo
programa da Prefeitura, que eondieiona o pagamento mensal de meio
salário mínimo à freqüência escolar. (...) só não estudam os três pe-
quenos (...) e a maior. Fernanda, 15 anos, que abandonou a escola.
Grávida, a adolescente ganha R$ 25 mensais para tomar conta de
uma criança vizinha para que os pais trabalhem fora"'-
Assim como podem ser observadas diferentes trajetórias de vida
segundo processos diferenciados de desvinculação - mais intensos
num eixo, existência ou não de vínculos em outras dimensões que
sirvam de anteparos - pennitindo experiências heterogêneas de ex-
clusão social, também há diferenciações de configuração do fenôme-
no da exclusão segundo os contextos sociais em que se desenvolvem.
A situação francesa, sempre utilizada como contraponto na medida
em que a maior parte dos estudos foi realizada naquele país, caracte-
riza-se por um contexto de vulnerabilidade de massa pós-proteções
sociais, associado a elevados índices de desemprego (Castel, 1995).
Num país em que as referências de proteção próxima (família e terri-
tório) já tinham sido integralmente substituídas pela proteção social
secundária das ações públicas institucionalizadas, pelos direitos de
cidadania relacionados com a inserção fonnal no mundo do trabalho,
a problemática contemporânea é a precarização do trabalho conjugada
com as crises financeira, ideológica e filosófica do Estado de Bem-
estar Social (Rosanvallon, 1995).
A configuração do fenômeno da exclusão social no Brasil adqui-
re especificidades na medida em que o desenvolvimento econômico
expandiu e aprofundou vulnerabilidades associadas à pobreza. A
unidade familiar permaneceu como principal suporte das relações
sociais da classe trabalhadora pobre, que nunca chegou a ser substi-
tuído ou significativamente complementado por ações pÚblicas. A
cidadania nào foi universalizada e o mercado informal desempe-

146
nhou um importante papel como mecanismo de inserção. Nesse con
texto, a pobreza estrutural associada às intensas desigualdades soci
ais configuram o principal eixo de desvinculação.

Territorialidade
Os moradores de rua expressam por si um estado pennanente di
desvinculação e um estatuto de excluído. Presentes nas grandes cida
des do mundo assim como no meio urbano brasileiro!>, como grup<
social, guardam entre si características semelhantes não importando;
cidade em que se localizam. Entretanto, o espaço urbano interfen
significativamentenos grupos que se fonnam nas ruas nos tipos di
-

agrupamento, nas possibilidades de fixação, nas atividades de sobre


vivência que podem ser realizadas - e, em contrapartida,os morado
res de rua marcam o tecido urbano. Essa interferência recíproca podl
ser observada nas diferenças entre os perfis das populações de [li;
segundo a cidade em que moram. Em particular, a especificidade d,
espaço urbano de Brasília contrasta significativamente com a das de
mais cidades Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre sobre cujo
- -

moradores de rua obtivemos dados (Escorei, 1999).


Dentre os tàtores que interferem na constituição e estabilidade do
grupos de moradores de rua encontram-se intrinsecamente associa
dos o tecido relacional interno ao grupo e o espaço urbano ocupado
sua territorialidade. Os grupos estabelecem um cotidiano onde sã(
compartilhadas estratégias de sobrevivência fisiológica e rendimen
tos (o produto da esmola, alimentos, infonnações sobre locais propí
cios ao pedido, repouso, obtenção de documentos e assistência en
geral), por sua vez, condicionadas ao tipo de espaço urbano ocupado
A população de rua distribui-se na geografia das cidades segun
do as possibilidades de obtenção de rendimentos e de resolução di
suas necessidades básicas. Entre estas verifica-se que, num primei
ro momento, segurança e cobertura (abrigo ou teto) são os princi
,,~is \'el1Uisih\s.Em seQuida. !'\ara sobreviver nas ruas. os locais sà,

1~
escolhidos segundo as possibilidades de oferta de água, alimentos
e/ou doações e rendimentos. O mais dificil é conseguir um local
onde possam de maneira regular tomar banho, lavar a roupa e lim-
par seus pertences. A dificuldade de acesso à água e à higiene é
relativamente homogênea em todo o território urbano. Por outro lado,
como em relação à comida há fartura de oferta e doações, este crité-
rio delimita um território relativamente vasto da cidade.
A diferença de oferta dos recursos básicos e da obtenção de ren-
dimentos faz com que os moradores de rua ocupem e circulem por
determinados bairros da cidade. Cícero, um morador de rua, elabo-
rou uma tipologia topográfica da população de rua:
"As pessoas que moram no centro da cidade são mais margina-
lizados (roubam, cometem crimes), os que moram aqui em Botafogo
são mais acomodados (porque em Botafogo há muita distribuição
de comida). Já a gente que estiver assim pra Ipanema, Zona Sul, é
outro tipo, cata papelão, cata jornal, cata latinha, vende coisas usa-
das na rua, porque lá já é lugar que não dá comida, tá entenden-
do,?7."
Em todas as cidades os grupos se localizam ao redor de "centros
de consumo", distribuição esta que, em Brasília, adquire configura-
ções urbanísticas bem demarcadas: área de supennercados, área de
bancos, área de clínicas. Nas demais cidades - Rio de Janeiro, São
Paulo e Porto Alegre - o local preferido é o Centro por oferecer as
condições de sobrevivência e também porque, ficando deserto à noi-
te, confere ao grupo uma privacidade doméstica. As entidades de aju-
da que fornecem alimentação e auxílios diversos constituem impor-
tantes "pólos de atração" de agrupamentos, identificados pelo horário
em que se encontram. Pontos fixos e estabelecidos podem ser modifi-
cados segundo uma ação mais intensa dos órgãos públicos mas, sem
dúvida, os locais mais propícios para donnir e viver na rua acabam
sendo (re)ocupados por grupos, constituindo-se em "pontos tradicio-
nais de ocupação".

148
Em pesquisa recente, Rodrigues & Silva Filho (1999) observa-
ram a seguinte distribuição de um total de 3.535 pessoas que mora-
vam nas ruas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro:
Tabela 1: Distribuição Espacial da População de Rua na Região Metropoli-

tana do Rio de Janeiro, 1999.

Área ........ < %


Centro 33.50
Zona Norte 27,31
Zona Sul 14,17
Zona Oeste 3,42
São Gonçalo/Alcãntara 0,02
Niterói 12,75
Caxias 1,78
São João de Meriti 1,35
Nilópolis 3,05
Nova Iguaçu 2,65
Total 100,0
Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999

Observa-se que a maior concentração de população de rua está


no Ccntro da cidade do Rio de Janeiro e que os locais mais pobres
não atraem os moradores de rua, como a Zona Oeste do município
do Rio e as cidades vizinhas mais pobres de Niterói (São Gonçalo e
AIcÚntara) e da Baixada Fluminense (Caxias, São João de Meriti,
Nilópolis e Nova Iguaçu).
A territorialidade dos grupos de crianças e adolescentes nas ruas
é um elemento tão característico que "tentar uma tipologia dos me-
ninos depende de uma topologia" (Silva & Milito, 1995). A tipologia
topológica parece identificar perfis diferenciados dos grupos orga-
nizados em torno de territórios, com diferenças em suas auto-repre-
sentações e atitudes na rua, entre meninos de rua de várias cidades
ou entre localidades de uma mesma cidade. Nesses grupos, uma das
regras básicas é a observância da territorialidade, o controle do es-
paço, a delimitação de percurso, a chegada de estranhos (estrangei-

149
ros) comentada como "tem alemão no pedaço". Algumas vezes, se
apossam de um espaço, como aconteceu, por exemplo, com a
Candelária (Silva & Milito, 1995).
Apesar de terem que se movimentar continuamente, os moradores
de rua tendem a estabelecer um território de circulação. Ou seja, são
itinerantes mas dentro de um espaço delimitado. "Ele vive circunscri-
to a um habitat por ele definido que pode ser até ao longo de uma rua
ou em torno de um bairro, praça ou quarteirão" (Simões JÚnior, 1992).
Os depoimentos obtidos revelaram a territorialização da mora-
dia, como no caso de Dalton, que dizia que a marquise podia variar
mas sempre era em Botafogo; ou Miguel, que passava o dia entre
Botafogo e Copacabana onde "garimpava" o lixo e conseguia ali-
mentação, mas dormia em Ipanema, num "lugar calmo, bom de se
ficar": era um canteiro perto de um edifício, onde ele afastava os
vasos de plantas e fazia um "quadradinho" que ficava quentinho,
não chovia e era seguro, "não mexem com a gente"X .
A modalidade de territorialização das famílias nas ruas difere
não apenas dos indivíduos isolados ou em duplas, como também
dos grupos mistos. Os grupos familiares buscam espaços para fixar-
se e reconstituir minimamente uma rotina doméstica. No Rio de Ja-
neiro, nos primeiros anos da década de 90, foram caracterizados
dois perfis da população de rua: os que viviam sob viadutos ~ famí-
lias que constituíam comunidades - e os que viviam nas ruas e pra-
ças, que raramente constituíam comunidades.
A estreita relação entre a população de rua e as atividades de cole-
ta do lixo é evidenciada em todas as cidades. A preponderância da
estrutura familiar ou comunitária na economia política do lixo carac-
terizada em Brasília (Bursztyn & AraÚjo, 1997) parece ser conseqüente
à predominância que o grupo familiar tem no interior do conjunto da
população de rua do DF, diferenciando-se do Rio de Janeiro, São Pau-
lo e Porto Alegre. Porém, como em qualquer lugar, a tendência da
uniuaué familiar desabrigada ~ procurar um lugar onde assentar-se e,

150
a partir desse assentamento, explorar possíveis e variadas estratégias
de sobrevivência no espaço urbano.
A hospitalidade do espaço urbano carioca foi substancialmente
modificada nas últimas décadas, prevalecendo um processo onde o pri-
vado foi "fortificado" nos condomínios fechados e o espaço público foi
"selecionado" com o gradeamento das praças. Segundo Neves (1995),
esse processo concentrou os desabrigados em espaços delimitados de
obtenção de rendimentos e de sociabilidade, aumentando a sua visibili-
dade e, ao mesmo tempo, permitindo que eles desenvolvessem práticas
de reconhecimento de sua existência, estimulados pela vida em gmpo.
A visibilidade, naturalmente, aumenta com a limitação dos espa-
ços, com a magnitude numérica e com a tendência à fixação do gru-
po. O aumento da visibilidade dos gmpos tem correlação positiva
com a intensidade da repressão. O agrupamento é um critério
institucional para o recolhimento: a Fundação Leão XIII não reco-
lhe quem anda sozinho, somente se houver grupo: "se tiver com
galera, com patota, a gente leva" (Martins, 1993).
O movimento constante e o isolamento tendem a diminuir a visi-
bilidade da ocupação e da habitação do espaço público nas grandes
cidades. São nesse sentido os depoimentos dos que adotam o isola-
mento como fonna de evitar cont1itos, seja entre moradores de rua,
seja com transeuntes, seja com as instituições. Itinerância e fixação
se intercalam no cotidiano dos moradores de rua, variando segundo
as circunstâncias. Alguns fatores interferem propiciando a fixação,
como a sombra de uma árvore ou uma marquise que proteja mais, a
complacência e a compaixão dos transeuntes, trabalhadores e mora-
dores com teto do local, a baixa visibilidade de locais que possibili-
tem o acúmulo de pertences e a proximidade da rede de sobrevivên-
cia e de acesso à água. Alguns locais sempre estavam ocupados,
ainda que nem sempre pelas mesmas pessoas. Em outros espaços a
presença de pessoas tinha estreita dependência do horário e do dia
da semana.

\5\
Por outro lado, os elementos que favorecem a itinerância são as
condições climáticas, a realização de eventos (numa noite de jogo
de futebol, a população de rua de Botafogo diminuiu sensivelmente,
devido ao deslocamento das pessoas para as proximidades do
Maracanã, onde podiam encontrar fartura de latas), o aumento da
visibilidade do local (a conclusão de obras públicas e a retirada do
entulho), os dias da semana e o horário (exemplos típicos são as
igrejas nos domingos e as agências bancárias em dias de semana). A
itinerância é condicionada pelos horários estabelecidos para distri-
buição de comida e outras doações pelas instituições assistenciais,
assim como por fatores relacionados com as possibilidades de tra-
balho e rendimentos por meio da coleta do lixo, no caso, as relações
estabeleci das com porteiros e vigias para acesso às "fontes", o horá-
rio de passagem do caminhão da limpeza urbana e o horário de fun-
cionamento dos depósitos de ferro-velho que compram os materiais
coletados. A fixação depende de que não haja reclamações (portei-
ros, moradores, comerciantes) e, por vezes, ocorrem mudanças de
locais por outros interesses (amizades ou comida mais próxima).
Foi possível observar locais "típicos" de pedido de esmola per-
to de bancos (agências ou caixas 24 horas), ou de supermercados.
Esses pontos eram ocupados sempre pelas mesmas pessoas, em
geral idosos ou deficientes físicos, cujas marcas de infortúnio eram
visíveis e, portanto, garantiam a legitimidade do pedido. A escolha
desses lugares parece acontecer devido não só ao movimento de
pessoas, como também ao "apelo à consciência" que propiciam. A
transitoriedade da fixação era visível pelos vestígios (lixo, pape-
lão, sacolas, restos de comida e mesmo colchões e lençóis), que
indicavam a passagem pelo local e a possibilidade de um retorno.
Foi possível observar tanto moradores de rua mais fixos - como os
catadores da rua Sorocaba, e Solange, que se instalou na calçada
da rua Nelson Mandela - quanto outros que viviam em trânsito.
Dentre estes últimos existiam dois subgrupos: os que percorriam

152
itinerários fixos e repetidos diariamente e os que andavam segun-
do as circunstâncias.
As entidades de ajuda aos moradores de rua não trabalham de
maneira integrada e a articulação entre elas (a "rede") é realizada pela
própria população de rua, cujo conhecimento das atividades ofereci-
das lhes pem1ite construir um roteiro diário de demandas, que incide
tanto em sua territorialização quanto na sua distribuição de tempo. As
entidades podem funcionar como elementos catalisadores da forma-
ção de vínculos, solidariedade e agregação da população de rua, tanto
com as entidades quanto entre os moradores.

Os moradores das ruas do Rio de Janeiro


Responder quem são e quantas são as pessoas que habitam os
logradomos públicos da cidade depende de qual é a definição de popu-
lação de rua. Distinguindo entre aqueles que estão nas ruas circunstan-
cialmente, temporariamente e pennanentemente, ou entre os que estc/o
na rua e os que são da rua, alguns autores consideram a estadia tempo-
rária ou circunstancial como "situação de rua" e apenas os que vivem
permanentemente nos espaços públicos como moradores de rua (Se-
bes, 1992). Outros adotam definições mais abrangentes considerando
população de rua o "conjunto daqueles que vivem pennanentemente
nas ruas ou que dependem de atividade constante que implique ao me-
nos um pemoite semanal na rua" (Rodrigues & Silva Filho, 1999). Essa
última definição, se por um lado possibilita identificar com maior pre-
cisão os diversos usos das ruas, por outro lado, ao incorporar a prosti-
tuição (ou trabalhadores do sexo) como parte da população de rua, au-
menta a heterogeneidade e o número dos moradores de rua consideran-
do uma atividade iniciada na rua mas desenvolvida fora dela e com
rendimentos se não altos, relativamente regulares.
A Fundação Leão XIII aparece com critérios de definição por
exclusão: "quem estiver dormindo na rua e não for boêmio, peão de
ubm, dcscmprq~l\du, cl\melô, Cíltadm de papet, artesão, carrq;adm,

153
lavador ou guardador de carro, é identificado como 'mendigo pro-
fissional' e pode ser recolhido a um dos abrigos da fundação"~ . Os
moradores de rua, em geral, rejeitam enfaticamente a denominação
de mendigos mas é assim que as autoridades, os transeuntes e a im-
prensa se referem a eles.
Em junho de 1999, por ocasião da Cimeira da América Latina e da
União Européia, a cidade do Rio de Janeiro foi preparada para receber
convidados ilustres. "Até os cerca de 1.500 mendigos que vivem sob os
viadutos deverão sumir da paisagem, de acordo com o secretário de Go-
VCl110"IO.O Secretário Municipal de Desenvolvimento Social (SMOS),
ao iniciar uma campanha contra a esmola, declarou que o número de
moradores de rua na cidade do Rio de Janeiro, incluindo criança.<;,era de
1.303pessoas" 11 .A pesquisa desenvolvida por professores da Uerj, com
apoio da Faperj, entre maio e junho de 1999, pesquisando 71 bairros da
RMRJ, identificou a presença de 3.535 moradores de rua, "dimensões
manuseáveis pelos poderes públicos". Destes, 1.300 moravam nas ruas
do município do Rio de Janeiro e 440 do total da RMRJ eram menorcs de
18 anos (Rodrigues & Silva Filho, 1999).
Em agosto de 1999, a SMDS trabalhava com o mesmo número-
1.300 pessoas morando nas ruas, mas em setembro, quando funcio-
nários da Secretaria Estadual da Criança e do Adolescente recolhe-
ram crianças e adolescentes que viviam nas ruas, a estimativa apre-
sentada foi de cerca de 1.000 crianças na RMRJI2. Poucos dias de-
pois, o secretário de Desenvolvimento Social do município do Rio
dcclarou que "nos seus cálculos, das cerca de 1.600 pessoas que
moram nas ruas, a maioria (985) é de adultos solteiros, que estavam
de fora dos planos da Prefeitura"I). Nas ruas foram contadas em
uma noite 95 pessoas dormindo sob as marquises do centro da cida-
del4 e 58 adultos e 30 crianças no bairro de Copacabanal5 . No início
deste ano, a subprefeita de Copacabana declarou à imprensa que
"pesquisa da prefeitura revelou que a população de rua de
Copacabal1ll está estimada em 250 pessoas" I".

154
Ou seja, ninguém sabe quantas pessoas moram nas ruas da cidade
e da RMRJ. Essas pessoas não são recenseadas pelo IBGE, não en-
tram nas estatísticas e tampouco são levadas em consideração no pla-
nejamento de programas sociais17.O número não é fixo, pois a popu-
lação de rua flutua ao longo do ano, durante os períodos do dia e
durante os dias de semana. Alguns pernoitam na rua em dias de sema-
na (trabalhadores empregados sem dinheiro para a condução), outros
vêm para as ruas somente nos finais de semana (mulheres com filhos
que pedem esmola nas cercanias das praias da Zona Sul da cidade).
Ainda que com desconfiança em relação à possibilidade de che-
gar a um número exato de moradores de rua, a pesquisa desenvolvi-
da por professores da Uerj teve um desenho metodológico que lhe
confere confiabilidade. O que todas as pesquisas revelam é que não
há um único perfil da população de rua, há perfis; não é um bloco
homogêneo de pessoas, são populações. Há, sim, características
freqÜentem ente verificadas, como a predominância do sexo mascu-
lino e a situação de carência material, mas cada homem miserável
apresenta trajetórias próprias de desvinculação e de chegada às ruas.
Na caracterização dos moradores de rua do Rio de Janeiro, contras-
tamos as informações levantadas em pesquisa anterior (EscoreI, 1999)
com os dados apresentados por Rodrigues & Silva Filho (1999).
No Rio de Janeiro a população de rua está constituída, em sua
maioria, por homens sós em idade produtiva.

Tabela 2: Idade e Tempo de Moradia nas Ruas, Região Metropolitana do


Rio de Janeiro, 1999.

o a 15 20,0
16 a 25 15,0 3 5,9
26 a 35 25,0 11 21,6
36 a 45 30,0 20 39,2
Mais de 45 10,0 17 33,3
Total 100,0 51 100,0

Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999.

]55
Entre 1986 e 1991, levantamentos da Fundação Leão XIII evidenci-
aram que 76% eram homens com preponderância da faixa etária de 26
a 40 anos (cerca de 43% no período) e concentração de 61,2% entre 1R
e 40 anoslX . Os que estão na rua há 3 meses têm, em média, cerca de 30
anos enquanto os que estão na rua há 10 anos têm quase 43 anos em
média. Em maio de 99, a pesquisa da Uerj verificou a mesma distribui-
ção seglmdo o gênero (76,64% de homens e 23,36% de mulheres). Nessa
pesquisa, a amostra foi dividida segundo o tempo de moradia nas ruas
para comparar expectativas pessoais entre indivíduos que possuem ex-
periências totalmente diversas e foi encontrada a seguinte distribuição:

Tabela 3: Sexo da População Segundo o Tempo que Está na Rua na Re-


gião Metropolitana do Rio de Janeiro, 1999.

Menos de 3 meses 33 82.5 7 17,5 40 100,0


Mais de 10 anos 46 90,2 5 9,8 51 100,0
Total 420 78,S 115 21,5 535 100,0

Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999.

Quando os pesquisadores formularam a pergunta "qual a sua cor'?"


para identificar a cor auto-referida não esperavam obter a variedade
de respostas incluídas sob a variável outros: "jambo, marrom-bom-
bom, azul, normal, bronzeado, castanho, preto tipo A etc". A cor
auto-referida como não-branca foi bem acima do percentual da po-
pulação não-branca no total de brasileiros segundo o IBGE. De to-
dos os modos a hipótese de que os não-brancos seriam em maior
número foi confinllada. Confirmada também está a frase da música
Haiti de Caetano Veloso e Gilberto Gil:
"de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pre-
tos só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pre-
tos) e aos quase brancos pobres como pretos, como é que pretos,
pobres e mulatos e quase brancos quase pretos de tão pobres são
tratados..." .

156
y ,
IU...,""IU-r.1 t' -- --::J - --- ~-v--

Brancos 13
Negros ou pretos 20
Morenos 31
~~~ 10
Mulatos 7
Não responderam 10
Outros 9
Total 100,0
Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999.

A maioria dos moradores de rua tem família; os órfãos e abando.

tatos com os familiares independe da presença da família ou paren.

SVlncUlaçao SO(;lOJaI11I11ar, alem ue pOSSJL1!!!ld! S!lUd! COIlJU!!LU!,


processo de desenvolvimento histórico-social do país, já que e
; conjunturas promovem aumento ou diminuição da população (
L Pesquisas anteriores e em outras cidades (São Paulo e Po
, .., '-'6. ..,
1 ILJ SJ ) Y J..~ J..J J..uJ..\.-I.J..J.J.. ~vJ..~, J..J.J..\.-I.J..vJ
'"1\.-1 v~, \.-'lI'-'''' b '-'...

tempo de moradia nas ruas eram os que estavam há pouco tempe


-

(recentíssimo (
- menos de um mês e recente menos de 6 meses) -

os que nelas habitavam prolongada ou cronicamente (mais de 2 anos)

Tabela 5: População de Rua Segundo Tempo de Moradia nas Ruas, de Acor


do com a Comunidade Evangélica de Jesus, 1995.

Recentissimo - > 1 semana < 1 mês 7 2,9


Recente - > 2 meses < 6 meses 47 19,3
Intermediário - > 7 meses < 1 ano 24 9,8
Prolongado - > 2 anos < 4 anos 39 16,0
Crônico - > 5 anos 25 10,2
Sem informação 97 39,7
Não mora na rua 5 2,0
Total 244 100,0
,, i [:" , ;1; I ,...,
,,...
c f ("" -1oot:::

!
-
A pesquisa mais recente reitera os dados em relação aos que vi-
vem nas ruas há mais tempo embora apresente percentuais diferen-
ciados em relação aos que nelas estão há pouco tempo.
Tabela 6: População Segundo o Tempo de Moradia nas Ruas, Região Me-
tropolitana do Rio de Janeiro, 1999.

Tempo de Moradiá nasRl.las %


Os que estão há 3 meses nas ruas 10,57
Os que estão há 6 meses 14,20
Os que estão há 10 anos ou mais 10,78
Total 35,55

Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999.

A grande maioria de homens que está na rua, em idade produtiva,


apresenta um nivel baixo de escolaridade. São analfabetos funcio-
nais, isto é, indivíduos que passaram pela escola mas não utilizam os
conhecimentos no dia-a-dia. A característica mais fortemente associ-
ada à pobreza é o nível educacional (Rocha, 1995). Sabe-se, também,
que é maior a proporção de chefes analfabetos ou com até três anos de
escolaridade nos domicílios urbanos pobres e indigentes (Lopes, 1992).
As informações disponíveis sobre níveis de escolaridade nos mo-
radores de rua da cidade do Rio de Janeiro indicavam, em 1991, que
quase metade (47,8%) possuía apenas o 1Q grau incompleto (FLXIJI,
1991). A pesquisa realizada em maio de 1999 verificou que a média
de escolaridade situava-se em 4,6 anos, aquém dos 5,3 anos da mé-
dia nacional, ainda que mais elevada do que os 4,2 anos da média
nacional para os grupos pretos e pardos. A escolaridade média não
apresentou grandes alterações quando foi relacionada ao tempo de
moradia nas ruas: 5, 10 anos entre aqueles que moravam nas ruas há
menos de 3 meses e 5, 18 anos de estudo entre os que moravam nas
ruas há mais de 10 anos (Rodrigues & Silva Filho, 1999).
Entre as 244 fichas de moradores de rua da Comunidade Evan-
gélica de Jesus (1993/1994) os conflitos fari1iliares eram os mais
enfatizados como motivos que os haviam levado a morar nas ruas. A

15R
contabilização realizada foi do número de menções, isto é, vezes em
que a situação foi assinalada nas fichas: conflitos ou desavenças
familiares foram assinalados 66 vezes, sendo especificamente
registradas a violência doméstica (9 vezes) e as dificuldades com
pais ou cônjuges alcoólatras ou drogados (8 vezes). Outras situa-
ções que podem ser relacionadas com vulnerabilidades na dimensão
sociofamiliar como histórias institucionais na infãncia foram assi-
naladas 15 vezes. Já o desemprego foi mencionado em 37 das 244
fichas (na reduzida proporção de 15%). Onze vezes foi assinalada a
vinda para a cidade do Rio de Janeiro em busca de trabalho; uma
vez foi mencionada dificuldade em conseguir emprego e três vezes
a dificuldade em pagar aluguel. O grupo de moradores de rua da
Comunidade Evangélica de Jesus fez, ao todo, 54 menções a pro-
cessos de desvinculação ocupacional em contraposição às 98 men-
ções assinaladas nas fichas referentes a processos de desvinculação
no âmbito sociofamiliar.
Os pesquisadores da Uerj obtiveram informações muito pareci-
das em maio de 1999: 31 % dos menores de 18 anos e 36% dos mai-
ores de 18 anos alegavam problemas familiares como motivo para a
ida para a rua. O desemprego foi o motivo apontado por 3,5% dos
menores de 18 anos e 16% dos maiores de 18 anos. Se reagrupadas,
as categorias relacionadas com objetivo de subsistência ou
complementação da renda familiar tomam-se ainda mais expressi-
vas (Rodrigues & Silva Filho, 1999).
Os vínculos com o mundo do trabalho devem ser analisados con-
siderando-se tanto os ofícios ou atividades realizados anteriormen-
te, quanto as atividades realizadas na rua e fora da rua por aqueles
que nelas moram. Há que distinguir entre a realização de atividades
ou funções em que os vínculos são de curta duração no tempo, de
baixa exigência de qualificação ou experiência, e as relações não
assalariadas entre prestador e consumidor. Já o exercício de um ofi-
cio ou profissão supõe a exigência de conhecimentos c habilidades,

159
enquanto a ocupação de um emprego envolve uma relação de
assalariamento, contratualizada ou não.
Foi possível veríficar que os ofícios anteriores dos moradores de
rua apresentavam indicadores de alta vulnerabilidade ocupacional,
seja pelo grau de pobreza extremo ou alto, seja pela proporção de
baixas rendas e rendas miseráveis nas ocupações. As trajetórias de
desvinculação ocupacional originavam-se tanto do mercado [oonal
quanto do informal, tanto do trabalho assalariado quanto do traba-
lho autônomo, embora este só estivesse presente na forma de não
protegido (vendedores ambulantes, catadores de lixo). Na análise
mais qualitativa das trajetórias ocupacionais, algumas característi-
cas sobressaíram: a segmentação na duração dos vínculos empre-
-

gos irregulares, descontínuos, temporários; atividades de baixa qua-


lificação com alto potencial de substituição e nível de rendimentos
limítrofe com o consumo de sobrevivência.
Antes de morar nas ruas, esses indivíduos mantinham com o
mercado de trabalho relações que já eram extremamente precárias e
instáveis. Os processos de desvinculação ocorreram- de forma mais
ou menos abrupta, partindo de posições variáveis segundo a
formalização ou não - sobre uma estrutura geral de inserção no
mundo do trabalho extremamente vulnerável. As trajetórias
ocupacionais são configuradas por um movimento no qual a ausên-
cia ou precariedade de qualificação implicam a intermitência do vín-
culo, a não-fixação no mundo do trabalho. O processo é de desloca-
mentos por atividades e por lugares em busca de atividades migra-
-

ções e 'virações' -, de diversidade de atividades em oposição a uma


especialização num ofício e de inserções segmentadas em detrimen-
to da criação de vínculos mais pennanentes e estáveis.
As pesquisas sobre a construção civil (Sousa, 1994) e sobre os
catadores do aterro sanitário de Jardim Gramacho (Souza, 1995)
permitem caracterizar inserções que tangenciam as trajetórias
ocupacionais dos moradores de rua, Nessas OCUpaÇões também fo-

160
ram observados baixos níveis de escolaridade, alta taxa de
rotatividade, segmentação dos vínculos e precariedade de rendi-
mentos.
No Rio de Janeiro, levantamentos realizados pela Fundação Leão
XIII - em 1986 com 600 moradores de rua e em 1991 com 1.016 -
apontaram percentuais similares nos dois momentos (62%) dos que
declaravam a existência anterior de vínculo empregatício formal
(FLXIII, 1991). Material divulgado na imprensa, pela mesma insti-
tuição, em 1991, indicava que 61,3% da população de rua já tivera
carteira assinada e destes, 29,3% há menos de 4 anos. Em maio de
1999 foi verificado que 45,61 % dos moradores de ruajá tiveram car-
teira assinada.
Tabela 7: Total de Moradores de Rua e Moradores de Rua Acima de 18
anos com Trabalho Anterior com Carteira Assinada, Região Metropolitana
do Rio de Janeiro, 1999.

Sim 45,61 58,6


Não 37,75 32,4
Não responderam 16.64 4,5
Não se aplica 4,5
Total 100,0 100,0

Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999.

Ao analisar as estratégias de sobrevivência pode-se verificar que


entre os moradores de rua há uma alta taxa de ocupação. sendo
minoritárias as parcelas dos que se declaram sem ocupação e dos
caracterizados como pedintes. O leque de atividades é bastante se-
melhante nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e
Brasília. As atividades exercidas nas ruas têm como característica
geral o fato de que a oportunidade de seu exercício geralmente .está
associada à moradia nas ruas. Há ocupações típicas dos moradores
de rua, dentre as quais se destaca a catação de lixo, Não são ativida-
des que exijam qualquer qualificação, embora envolvam um pro-

161
cesso de aprendizado, uma apropriação do "território de trabalho" e
relações específicas com transeuntes - investidos ou não de autori-
dade - para viabilizar o seu exercicio.
As atividades realizadas nas ruas podem ser analisadas segundo
diversos parâmetros:
. a necessidade ou não de instrumentos de trabalho (carrinho,
ferramentas); a necessidade de investimento prévio (estoque de mer-
cadorias para vendedores ambulantes);
. a vinculação ou não com apropriação mais permanente do ter-
ritório; o exercício do oficio segundo a localização no espaço urba-
no (topografia das atividades);
. a regularidade ou não do exercício das atividades com dias e
horários mais propicios; atividades ocasionais, "extras", intermitentes
como pequenos serviços (serviços de carreto, auxiliar de vendas de
bebidas e alimentos na praia durante o verão), ou atividades regula-
res (carregador de caminhões em feiras);
.a realização por faixas etárias ou gêneros específicos como me-
ninos engraxates, a venda de balas e doces em sinais ou de flores
por crianças e mulheres;
.a relação estabelecida com os poderes públicos (fiscalização e
policiais );
. a realização isolada ou em grupo;
. a especialização em determinados oficios, principalmente na
catação de certos produtos no lixo (papel, latas) ou alternância de
expedientes;
. os rendimentos auferidos entre formas monetarizadas e não
monetarizadas (alimentação em troca de serviços de carreto ou de
limpeza);
. a relação estabelecida com a clientela entre a confiança e o
medo;
. o status social da atividade (legitimidade, dignidade) e a re-
pressão (ou não) que desencadeia.

162
Podem ser assinalados três grandes grupos de atividades realizadas
com vistas a obtenção de rendimentos: catadores, atividades vinculadas
à mercantilização do medo ou propriamente à criminalidade e a mendi-
cância. Porém, as atividades da maior parte dos moradores de rua têm a
intermitência como caracteristica principal; são atividades que preci-
sam ser buscadas diariamente: dependendo das circunstâncias, das soli-
citações ou das oportunidades, o morador de rua pode estar guardando
carros hoje, carregando e descarregando caminhões de feira amanhã,
encartando jornais ou catando latas. A atividade de biscateiro, o "faz
tudo" que respondia às pequenas e variadas solicitações de consertos
domésticos, foi substituída pelo "faz qualquer coisa", solicitada ou não.
São as "virações", qualquer atividade (ao seu alcance) que possa rever-
ter em dinheiro, alimentos ou outros donativos. Como dificilmente con-
seguem auferir rendimentos necessários à sua reprodução (mesmo le-
vando em conta o rebaixamento dos custos em função de sua moradia
nas ruas), devem associar atividades variadas com a obtenção de auxílios
(monetários ou não) de particulares ou de instituições.

Tabela 8: Atividades Ocupacionais Realizadas por Moradores de Rua no


Rio de Janeiro, 1986, 1991 e 1993.

Sem ocupação 17,3


Pedintes 28,0 6,2
Catadores 128,0 11,0
Guardadoresllavadores 13,8 10,2
Vendedores ambulantes 11,3'9 15,2
Artesãos 15,8
Construção civil 0,7 3,11 3,0
Carregadores 2,2 0,7 8,3
Marisqueiros 4,7
Outras ocupações 11,3 18,320 3,0
Fonte: FLXIII, 1991; SMOS/RJ2'.

Na pesquisa de maio de 1999 foi perguntado aos 535 moradores


de rua se tinham trabalho fixo e qual era. 64 entrevistados (12%)
responderam que tinham trabalho fixo, 450 (84%) responderam que

163
não tinham e 21 (4%) não responderam. Dentre aqueles que decla-
raram ter trabalho fixo, 76,6% (49 pessoas) referiram atividades re-
alizadas na rua e apenas 23,4% (15 pessoas) referiram atividades
realizadas fora da rua. Ao analisar o tipo de trabalho fixo foi verifi-
cado que apenas 15 pessoas, 2,8% da amostra, desenvolviam ativi-
dades profissionais fora da rua: garis, diaristas, vigias na construção
civil que buscavam formas de complementação da renda recebida
em trabalhos (fonnais ou infonnais) com remuneração fixa. 9,2%
da amostra consideraram a atividade que desenvolviam regulannente
na rua (catar, engraxar) como trabalho fixo.
Os pesquisadores da Uerj analisaram as estratégias de sobrevi-
vência segundo a atividade desenvolvida e a obtenção de rendimen-
tos observando três grandes conjuntos:
a) desenvolvem algum tipo de trabalho na rua e dela obtêm ren-
dimentos: biscateiros, camelôs/ambulantes, carregadores, catadores/
vendedores, engraxates, guardadores de carro, trabalhadores do sexo,
outros, correspondendo a 51,9% dos entrevistados;
b) não desenvolvem nenhum tipo de trabalho mas obtêm rendi-
mentos na rua e diferenciam-se segundo as modalidades de obten-
ção: pedir, ganhar, roubar ou jogar significando 25,4%;
c) obtêm rendimentos fora da rua: benef1cios previdenciários (apo-
sentado, reformado, pensão, FGTS), reservas anteriores (poupan-
ça), emprego fixo fora da rua (gari, segurança, taxista etc.) e na rua
buscam complementar os rendimentos regulares, correspondendo a
16,2% do total (Rodrigues & Silva Filho, 1999).
Em quaisquer dessas atividades realizadas nas ruas, os rendi-
mentos auferidos não alteram as condições presentes de vida em
que o custo de reprodução é extremamente baixo, nem possibilitam
a reconstituição do "fundo de consumo". A realização das ativida-
des pode ser incompatível com a obtenção de doações por parte das
instituições, de forma que o dinheiro recebido é consumido na ali-
mentação e na bebida diárias. Vários depoimentos enfatizaram que,

164
Tabela 9: População Segundo Tipo de Trabalho Principal, Região Metropo-
litana do Rio de Janeiro, 1999.

Não trabalham 154 28,8


Prestam serviços ou vendem na rua 150 28,1
Catadores 82 15,3
Prostituição 18 3,4
Biscates ou atividades fora da rua 65 12,1
Aposentados ou pensionistas 4 0,7
Pedem esmola 3 0,6
Roubam ou achacam 1 0,2
Ganham no jogo 1 0,2
Não se aplica 5 0,9
Não responderam 52 9,7
Total 535 100,0
Fonte: Rodrigues & Silva Filho, 1999.

Foi observada, também, a distribuição espacial das estratégias


de sobrevivência na rua:

Tabela 10: Atividades Realizadas por Moradores de Rua e sua Distribuição


Espacial em Zonas da Cidade do Rio de Janeiro, 1999.

Não trabalham 29 41 53 6
Esmoiam 14 34 36
Prestam serviços 18 4,3 41,5
Biscates 8 35 52 6
Aposentados 1 57 14
Prostituição 33 17 29 23
Roubam ou achacam 1,5 50 37 12
Jogam 5 40 42 12 6
Coletam 11 2 44 29 18
Não usam moeda 72
Tráfico 3 61 3 36

Fcmte. \\oclrig\Jes & Sil'!a filho, 1999.

165
na rua, o que se ganha se gasta de imediato. Por vezes a tarefa é
realizada apenas durante o tempo necessário para conseguir com-
prar uma refeição ou pagar a hospedagem em pensões baratas. Os
catadores mencionavam como um "dia bom" quando conseguiam
receber cerca de vinte reais, mas isso não lhes possibilitava senão
sobreviver melhor naquele dia. Ainda devem ser levados em consi-
deração tanto o dinheiro despendido em cigarros e bebidas alcoóli-
cas, que são veículos de socialização na rua, quanto a inutilidade de
guardar dinheiro pois são grandes as possibilidades de roubos.
Realizando cotidianamente atividades que mal permitem a so-
brevivência, permanecem interminavelmente prisioneiros dentro de
um círculo de labor e consumo, no qual não há esforço individual
que permita a sua transposição. Não são reconhecidos como traba-
lhadores, a mendicância não é legitimada, pois, em geral, são ho-
mens sadios e em idade produtiva, não são considerados como cida-
dãos e tampouco como humanos. Mesmo ocupando a cena pública,
são relegados à experiência mais privativa, que é a de uma existên-
cia individual limitada à sobrevivência singular e diária. Integram o
lixo humano, abandonados à própria sorte de conseguir sobreviver
dia após dia, reproduzindo-se como animallaborans, que não dei-
xam vestígio algum no mundo.

Conclusões

Perguntados sobre o futuro, os que vivem nas ruas assinalam as


dificuldades para conseguir sair da rua e voltar a inserir-se em ativida-
des regulares. Entre os 51 moradores que estavam na rua há mais de
10 anos, cerca de 18% achavam que iriam continuar na mesma situa-
ção e entre os 40 que estavam na rua há menos de 3 meses, também
18% consideravam que iriam continuar. As perspectivas futuras nas
duas situações eram similares (Rodrigues & Silva Filho, 1999).
O somatório de experiências fragmentadas, o desenraizamento de
suas origens e trajetórias familiares, as limitações concretas e cres-

166
centes que impedem que eles ultrapassem a muralha da desvinculação
fazem com que a idéia de um futuro fique cada vez mais distante, algo
doloroso de pensar posto que inatingível. A capacidade de sonhar é o
que pennite distinguir o movimento do migrante daquele da popula-
ção de rua. "O sonho de encontrar as condições para viver com mais
dignidade é o elemento energizador da errância que nutre os proces-
sos migratórios em nosso país. Se estou certa, o homem da rua seria o
homem que deixou de sonhar" (D'!ncao, 1995).
O migrante se move continuamente, pois está à procura de um
futuro 'melhor', mas a população de rua perdeu sua habilidade de
sonhar ou essa capacidade está envolta na névoa da embriaguez,
que a faz acreditar ser possível o que a realidade lhe mostra, dura e
cruamente, ser inatingível. As perspectivas de futuro estão bloquea-
das e a vida está limitada a conseguir sobreviver.
Os moradores de rua são a face exposta da vulnerabilidade (em
grande escala) dos submetidos à pobreza e às imensas desigualdades
sociais. Populações sem cidadania ou cujo cotidiano se desenvolve
no terreno da infracidadania são as famílias vulneráveis em todos os
sentidos que devem arcar com a sobrecarga da ausência de proteção
social. Embora a questão social esteja identificada com grupos po-
bres, populações marginalizadas, a sua existência questiona como es-
tão ocorrendo as relações no conjunto da sociedade e questiona, tam-
bém, o núcleo do processo, ou seja, é parte de uma dinâmica global e
"denuncia" o preço do modelo econômico e social, o eixo central do
processo que associa desenvolvimento e pobreza.

167
Referências bibliográficas

ARFNDT, H. Condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.


BONDER, N. Um libelo eontra a exclusão. Resenha de WERNECK, Cláudia.
Sociedade inclusiva. Idéias, Jornal do Brasil, 3 jun. 2000, p. 5.
I3UARQUE, C. O que é apartação: o apartheid social no Brasil. São Paulo:
13rasiliense, 1993.
BURSZTYN, M.; ARAÚJO, C. H. Da utopia á exclusão: vivendo nas ruas
em Brasília. Rio de Janeiro: Garamond; Brasilia: Codeplan, 1997.
CASTEL, R. De I'indigenee à I'exelusion, Ia désaffiliation: préearité du travail
et vulnérabilité relationnelle. In: DONZELOT, 1. (org.). Face á I 'exclusion
le II/Odele ji'ançais. Paris: Ed. Esprit. 1991, p. 137-168.
Les métamorphoses de Ia question sociale: une chrollique du
.'
salariat. Paris: Fayard, 1995.
D'INCAO, M.i\. Comentários dos assessores sobre o perfil da população de
rua. In: ROSA, C. M. M. (org.). Populaçeio de rua: Brasil e Canadá. São
Paulo: Hueitec,1995.
ESCOREL, S. Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social. Rio de Janeiro: Ed.
Fioeruz, 1999.
GOVERNO do Estado do Rio de Janeiro. Coorden8doria Estadual de Desen-
volvimento Social. Fundação Leão XIII. Pe/jil da população de rua da
cidade do Rio de .Janeiro. Rio de Janeiro, 1991 (mimeo).
LAUTIER, B. L 'État-Providence en Amérique Latine: utopie légitimatrice ou
moteur du développement? Communieation au colloque du Cela-is
(Université Libre de I3ruxelles) "L'Amérique Latine: 500 apres, une réelc
démoeratie est-elle eneore possible'i" Bruxelas, 1992 (mimeo).
LOPES,1. B. (coord). Brasil, 19119: um estudo socioeconÔmico da indigência
e da pobre::.a urbana. Campinas: NÚeleo de Estudos de Politicas Públicas/
Unieamp, 1992 (mimeo).
MARTINS, A. L. L. Livres acampamentos da miséria. Rio de Janeiro: Obra

Aberta, 1993.

168
NEVES, D. P. A miséria em espetáculo, Serviço Social & Sociedade, v. 47, p.
79-98, 1995.
ROCHA.. S. Governabilidade c pobreza: o desafio dos nÚmeros. !n:
VA.LLA.DA.RES, L.; COELHO, M. P. (org.). Governabilidade e pobre::a
1/0 Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995, p. 221-265.
RODRIGUES, 1. A.; SILVA. FILHO, D. de S. Uma TV sob a rampa do metrô c
outras formas de inclusão da pobreza nas ruas. In: Fundação de A.mparo à
Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. NÚcleo de Difusão Científica. Dra-
ma social: Anais do seminário. Rio de Janeiro. 1999, p. 67-95.
ROSA.NVA.LLON, P. Ia nueva cuestión social: repensar el Estado providen-
cia. Buenos Aires: Manantial, 1995.
SECRETARIA. Municipal do Bem-Estar Social (Sebes/SP). Populaçe/o de rua:
quem é, como vive, como é vista. São Paulo: Hucitee, 1992.
SILVA, H. R. S.; MILITO, C. Vo::es do meioIio: etnografia sobre a singulari-
dade dos diálogos que envolvem meninos e adolescentes ou que tomam a
adolescência e a infância por tema e objetos nas ruas da cidade de Se/o
Sehastie/o do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
SIMÕES JÚNIOR, 1. G. Moradores de rua. São Paulo: Pólis, 1992.
SOUSA, N. H. B. de. Trabalhadores pobres e cidadania: a experiência da
exc/use/o e da rebeldia na construç(jo civil. São Paulo: Departamento de
Sociologia, FFLCH/USP, ] 994. Tese de Doutorado.
SOUZA., F. V. F. Sobrevivendo das sobras: as novasfonnas de miséria urba-
lia. Rio de Janeiro: Escola de Serviço Soeial/UFRJ, 1995. Dissertação de
Mestrado.
TELLES, V. S. A cidadania inexistente: incivilidade e pobre::a; um estudo
sobre trabalho efamilia na Grande Se/o Paulo. São Paulo: FFLCH, USP,
1992. Tese de Doutorado.

169
Notas

1 Para uma discussão conceitual e metodológica mais pormenorizada, ver Escorei (1999),
cap.1.

2 Estudando as atividades da vita activa da condição humana, Arendt (1991) distingue


entre o labor do animallaborans, atividade em que mais nos parecemos com os ani-
mais, cujo produto é a própria vida, o trabalho do homo faber que interage com a
natureza fabricando objetos e o próprio mundo em que vivemos, e a ação, o agir e o
falar que, em sua análise, são o que mais distinguem os seres humanos das demais
espécies constituindo uma espécie de segunda vida: o bios politikos.

3 As duas zonas constituidas pela vinculação num dos eixos e desvinculação no outro são
denominadas zonas de vulnerabilidade. Entretanto, a desvinculação do mundo do
trabalho com a manutenção dos vinculas sociofamiliares constitui tradicionalmente o
campo da assistência social.

4 Quando a cidadania plena está restrita a alguns grupos não se constituem direitos e sim
privilégios. Nilton Bonder em "Um libelo contra a exclusão", resenha do livro de Cláu-
dia Werneck, Sociedade inclusiva, ressalta: "O livro contém um importante
ensinamento: a solidariedade e a cidadania, através da sintese da inclusão, são as
formas mais profundas e duradouras
de 'auto-ajuda'. Incluir o outro, nos inclui ainda
mais. Permite que façamos parte de um 'todos' que vale a pena, um 'todos' que não é
um vazio numérico - um singular fingindo-se de plural. (...) Quem cabe em seu 'to-
dos'? Idéias, Jornal do Brasil, 3 jun. 2000, p. 5.
5 "Adalgisa vive de teimosa", reportagem de Francisco Luiz Noel na série de reportagens
"De mal a menos mal": estudo indica que crescimento econômico, sozinho, não é
suficiente para acabar com a pobreza. O dilema da redistribuição de renda. Jornal do
Brasil, 21 maio 2000, p. 2-3.

6 A esse respeito, ver também o Capitulo 1, "Da pobreza à miséria, da miséria à exclusão:
o caso das populaçôes de rua", de Mareei Bursztyn, nesta obra.
7 Diário de campo, Botafogo, segunda-feira, 14 abro 1997 - entrevista.

8 Diário de campo, Botafogo, quarta-feira, 9 abro 1997.

9 Laura Carneiro, gestão do prefeito César Maia; O Dia, 29 maio 1993.


10 Airton Aguiar, gestão do prefeito Luiz Paulo Conde; Veja, 23 jun. 1999.

11 Carlos Augusto Araujo Jorge, gestão do prefeito Luiz Paulo Conde; Folha Universal, 1
ago. 1999.

12 Fernando William, gestão do governador Anthony Garotinho; Folha de São Paulo, 10


se!. 1999.

13 Carlos Augusto Araujo Jorge; O Globo, 15 e 16 se!. 1999.

14 O Globo, 14 set. 1999


15 O Globo, 20 ou!. 1999.

16 Tereza Bergher, gestão do prefeito Luiz Paulo Conde; Jornal do Brasil, 15 jan. 2000.

17 A esse respeito, ver capo 8 nesta obra.

170
18 Em trabalho anterior (Escorei, 1999), já tinha sido identificado que as pequenas altera-
ções no perfil etário da população de rua tinham sido no sentido de um discreto enve-
lhecimento, com incremento das faixas etárias acima de 40 anos (FLXIII, 1991). Esse
dado foi corroborado com as informações apresentadas em reportagem do Jornal do
Brasil, 4 jun. 2000.

19 Inclui vendedores ambulantes e artesãos.

20 Inclui a alternativa "nenhuma das anteriores".


21 O Estado de S. Paulo, 7 fev. 1993.

171
6

Migração, redes e projetos


os moradores de rua em Brasí1ia

DIJACI DAVID DE OLIVEIRA

Introdução

Ao longo dos Últimos anos temos nos dedicado à pesquisa e às


ref1exões sobre os moradores de rua em Brasília. Nesse percurso
surgiram algumas indagações expostas neste trabalho. Em primeiro
lugar, t~lzemos uma comparação entre algumas pesquisas e traba-
lhos sobre migração para Brasílial desenvolvidos por Gonzales &
Bastos (1973 e 1975) e Bursztyn & AraÚjo (1996, 1997 e 1999). 1';
importante fazer algumas observações. A primeira é de ordem histÓ-
rica, isto é, a pesquisa de Gonzales & Bastos foi realizada ainda em
pleno "milagre econômico", enquanto que as de Bursztyn & AraÚjo
inserem-se em um momento de forte dec1ínio da oferta de emprego.
Um dado significativo nesses dois períodos é a capacidade aquisiti-
va do dinheiro. Até meados da década de 1970, o salário minimo
permitia um padrão de vida razoável para uma família de baixa ren-
da. No período das pesquisas realizadas por Bursztyn & AraÚjo, o
contexto econômico exigia uma renda muito mais elevada para as-
segurar o mesmo padrão daquele outro período.
Nos dois casos, a referência é o migrante de baixa renda. Outro
elemento diferenciador que devemos levar em conta é o mercado de
possibilidades que é sensivelmente distinto para as duas épocas na
oferta de equipamentos de bem-estar social. Por fim, um grande
diferenciador nos dois momentos daquelas pesquisas é que os entre-

172
vistados de Gonzales & Bastos são migrantes que têm residência
fixa no Distrito Federal. Já os entrevistados de Bursztyn & AraÚjo
são migrantes moradores de rua.
Na segunda parte deste trabalho vamos discutir, mais especifica-
mente, a situação dos migrantes nas pesquisas elaboradas por
Bursztyn & AraÚjo. Procuramos construir um breve quadro analíti-
co do processo de migração. Esse debate é feito tendo por base a
leitura dos resultados das pesquisas citadas anteriormente. Nossa
preocupação será refletir como o quadro desfavorável do lugar de
partida "empurra" o migrante a estabelecer novos espaços de cons-
trução de uma vida digna.
Na terceira parte analisamos a situação de um segmento dos
moradores de rua em Brasília, sobretudo dos catadores de papel.
Nessa parte optamos por desenvolver um "deslocamento" teórico.
Ou seja, em nosso trabalho utilizamos uma linha de raciocinio
construí da por Martins (1994) para refletir sobre "os novos atores"
do campo, utilizando suas construções teóricas para pensar os no-
vos atores no espaço urbano.
Uma Última ressalva que gostaríamos de expor é quanto à
categorização dos migrantes nos dois períodos. Nas duas pesqui-
sas a que nos referimos, são analisados os fluxos migratórios para
Brasília. Apesar das várias semelhanças, atribuiremos para aque-
les entrevistados por Gonzales & Bastos a categoria de
"migrantes" e, para os entrevistados por Bursztyn e AraÚjo, de
"migrantes moradores de rua", por ser essa a sua condição de
vida em Brasília.

Migrantes brasilienses: origens e trajetórias


De 1957 a 1959, Brasília teve um crescimento populacional
vertiginoso passando de 12.700 para 51.640 habitantes. Estatis-
ticamente, isso representa um crescimento da ordem de 400%
em quase praticamente dois anos. Um ano depois, a cidade ganha

173
praticamente 100.000 novos habitantes, ou seja, em 1960 regis-
trava-se em Brasília um total de 141.742 habitantes (Gonzales &
Bastos, 1973). Em 1970, segundo Gonzales & Bastos (1975),
Brasília já se encontrava entre os 11 municípios brasileiros com
população acima de 500.000 habitantes, o que indicava um cres-
cimento relativo de 285% na Última década. Esse espetacular cres-
cimento é compreensível. Trata-se do período da inauguração,
ocupação e ampliação da Capital brasileira. Entretanto, o fenô-
meno da migração tem-se mantido ao longo dos anos e, mesmo
hoje, passadas três décadas, Brasília ainda se apresenta como um
forte pólo de atração de migrantes, o que leva a um cYéscimento
significativo a cada ano. Dados levantados por Paviani (1996)
mostram que, de 1970 a 1980, Brasília teve um incremento de
um milhão de habitantes e de 1980 até 1991 ganhou mais 400.000
novos habitantes.
Segundo Paviani (1996), Brasília pOSSUI um crescimento
vegetativo na ordem de 40.000 pessoas ao que se soma um ingresso
anual na ordem de 45 a 50.000 migrantes. Portanto, Brasília ganha,
anualmente, uma "nova cidade"2. A elevada taxa migratória de
Brasília, presente desde a sua criação, mostra de que fonna a cidade
surgiu como um pólo alternativo de atração para as outras regiões
brasileiras e, em especial, porque se apresentava como um lugar de
oportunidades econômicas (cf. Gonzales & Bastos, 1975). Outro dado
importante apontado por Gonzales & Bastos (1973) é que mais da
metade da população migrante provinha da região Nordeste. Essa
região contabilizava cerca de 53,68% da população residente no
Distrito Federal no ano de 1973, sendo que o estado do Ceará con-
tribuía com 12% dos migrantes.
Mesmo com um significativo fluxo de migração proveniente da
região Nordeste, o Estado que mais contribuía para o processo mi-
gratório encontrava-se na região Sudeste. Minas Gerais fornecia,
naquele período, cerca de 20% da população do DF.

174
Dados mais recentes levantados por Bursztyn & Araújo (1997)
apontam novas composições nas áreas de procedência. Atualmente
o Nordeste fornece o maior número de migrantes para o Distrito
Federal. Entre os dados dos dois períodos algumas diferenças de-
vem ser destacadas. A pesquisa elaborada por Gonzales & Bastos
(1973) referia-se a pessoas que migraram para Brasília e que possu-
íam algum domicílio. Já a pesquisa de Bursztyn & Araújo (1997)
trabalha com pessoas migrantes sem nenhum domicílio regulariza-
do em Brasílía. Por meio desta última pesquisa podemos perceber
como o Estado de Minas Gerais deixa de ser o grande protagonista
desse processo, passando essa condição para a Bahia.
É sabido que o processo migratório está diretamente lígado a uma
constelação de fatores que interagem, proporcionando o estímulo ao
processo de migração. De maneira ampla, podemos falar em dois fa-
tores: o de expulsão e o de atração (Gonzales & Bastos, 1973 e 1975).
Com relação à expulsão, os dados da pesquisa de campo elaborados,
tanto por Gonzales & Bastos quanto por Bursztyn & Araújo, compro-
vam que os migrantes procuraram se estabelecer em outras cidades
antes de Brasília. Ou seja, experimentaram sucessivos processos de
expulsão. Segundo Gonzales & Bastos (1973), 60% da população
pesquisada já havia passado por duas ou mais cidades antes de chegar
a Brasília. Esse processo é denominado por eles de "migrações por
etapas" e demonstra sucessivos processos de expulsão dos migrantes.
Com relação ao segundo ponto, os processos de atração são, so-
bretudo, construções subjetivas3, em especial a esperança de opor-
tunidades melhores. Bursztyn & Araújo (1997), estudando os
migrantes que entraram em Brasília após janeiro de 1995, assinalam
que eles mantinham a ilusão de Brasília ser um lugar onde se pode-
ria ganhar a vida, o que é um fator fundamental como estímulo: a
busca de um emprego.
Dados recolhidos na pesquisa de Gonzales & Bastos (1973) mos-
tram que, em suas cidades de origem, as condições de emprego eram

175
bastante precárias, obrigando a grande maioria (66%) a viver sob
condição de desemprego aberto ou disfarçado (ocupação vinculada
aos pais ou aos parentes). Esses mesmos dados se mantêm nos le-
vantamentos realizados no final dos anos 1990 (Bursztyn & AraÚjo,
1997) aliados, porém, a um novo agravante: se antes os migrantes
de baixa renda conseguiam - ainda que com relativa dificuldade -
se inserir no mercado de trabalho formal, hoje temos contingentes
significativos vivendo ao acaso nas ruas.
O estudo comparativo das duas pesquisas nos leva a algumas
conclusões iniciais. Entre elas, podemos apontar como elemento
básico para a compreensão do processo de migração o estudo das
condições precárias de vida nas cidades de origem. Uma das possi-
bilidades para afirmarmos isso é o fato de que parte expressiva dos
migrantes, ao responder às perguntas das entrevistas realizadas em
1996, 1997 e 1999, coordenadas por Bursztyn, mostrou o desejo de
retomar às suas cidades de origem. O impeditivo para a realização
desse desejo são as condições precárias de sobrevivência naquelas
regiões. Assim, mesmo vivendo sob condições subumanas, a vida
em Brasília acaba sendo incomparavelmente melhor que em suas
cidades de origem. Elemento fundamental para essa constatação,
nas palavras dos próprios migrantes, é que em Brasília eles não pas-
sam fome. Vários moradores de rua foram taxativos ao afirmar que
as pessoas sempre fornecem algum tipo de alimento isso pode ser
-

amplamente constatado nas várias frentes de voluntários ou de reli-


giosos que distribuem sopas.

Moradores de rua em Brasília: projetos e redes


Três elementos se tornam decisivos para a permanência do
migrante de baixa renda nas ruas de Brasília, mesmo se ele não con-
segue um emprego ou moradia no sentido fonna!:
1°. A possibilidade de sobreviver do lix04. Mesmo sendo uma
CGudiçiiG desumana, G lixo tem sido suficiente pam assegurar condi-

176
ções de vida superiores àquelas oferecidas pelos lugares onde vive-
ram anterionnente;
2°. possibilidades de conseguir alimento no dia-a-dia. Ainda que
não consiga dinheiro, o migrante morador de rua sempre obtém al-
guma espécie de alimento;
3°. manutenção da esperança de que, uma vez estando numa "ci-
dade grande", algum dia algo será feito para ajudá-Io (como, por
exemplo, a doação de um lote). Essa terceira possibilidade, entre-
tanto, só é registrada após algum tempo de permanência na cidade.
Um conceito bastante útil para compreendermos essa situa-
ção é o de "projeto". Ou seja, o migrante veio para Brasilia com
um projeto e buscará estabelecer meios para construí-Io. Segun-
do Velho (1994), projeto é a organização da conduta por meio da
qual o indivíduo objetiva atingir finalidades específicas. Assim,
ainda que possamos imaginar grandes rupturas no projeto inicial
(responsável pela vinda para Brasília), isso não significa que este
não tenha sido reconstruído de outras formas. O conceito de pro-
jeto atua mais no plano individual. Para compreender os proces-
sos no plano da dimensão sociocultural acreditamos ser impor-
tante para nossa discussão o que Velho chama de "campo de pos-
sibilidades". O uso desses dois conceitos nos permite pensar a
ação do indivíduo tanto como portador de uma racionalidade como
um indivíduo passível de sofrer os vieses da ação do seu meio
social (Velho, 1994).
O migrante que procura estabelecer-se em Brasilia, como já dis-
semos, buscou oportunidades em outras cidades. Não conseguiu se
estabelecer por causa de uma série de fatores que vão desde a falta
de profissão até uma conjuntura socioeconômica desfavorável (de-
corrente de crises nacionais e internacionais, do desemprego estru-
tural e conjuntural). Suas possibilidades são limitadas. Porém, é pre-
ciso ir adiante em busca de seu espaço. Nesse ponto, ele reconstrói
II ."
séU proJeto, ou busca um novo 1ugar para constrm-' 1o. "Para o

177
migrante, Brasília é um lugar possível para a concretização desse
projeto.
Segundo dados levantados por Bursztyn & Araújo (1997), em
Brasília o migrante se depara com situações bastante adversas, quan-
do não estabelece contato anterior (redes de relações familiares ou
de amigos). Porém, este não é o caso da grande maioria dos migrantes.
Muitos já estiveram antes no local ou fizeram alguma espécie de
contato por meio de redes interpessoais. É possível, por meio de
várias "negociações da realidade" - ou seja, condutas do indivíduo
diante de um conjunto de situações e suas relações consigo próprio
e com os outros -, ampliar o campo de possibilidades (Velho, 1994).
A negociação feita não é inteiramente destituída de sustentação. Por
meio dos seus pares já estabelecidos, um indivíduo recebe orienta-
ções mínimas, tais como: a) onde ficar; b) com quem trabalhar; c)
onde trabalhar; d) como vender o produto do seu trabalho ou sua
mão-de-obra; e) como fazer reserva de valor. Estamos, portanto, di-
ante de uma rede de relações bem demarcadas.
O primeiro personagem da rede é o amigo ou parente com quem
o migrante faz contato. Há vários casos de indivíduos que vieram
trabalhar em casa de conhecidos, em chácaras como caseiros ou ain-
da vieram "pegar uma empreitada". Embora façam conexões dife-
renciadas no caminho até Brasília, em tais casos acabam estabele-
cendo negociações, conflituosas ou não, com as redes dos catadores
de papéis, ou outras, por meio de distintas trajetórias.
Feito o contato com um dos vários personagens da rede, tem início
o processo de deslocamento de sua região para se estabelecer no "es-
paço de domínio" dos migrantes que o antecederam. Nesse ponto há
uma adaptação às várias regras do novo espaço com relação ao lugar
de moradia, à divisão do trabalho e ao espaço de produção. Não é
possível construir, fazer o que se quer ou mesmo trabalhar em qual-
quer parte. Os conhecidos se estabelecem quase sempre próximos uns
dos outros. Dividem as tarefas domesticas e a produção do trabalho

178
externo. Uma vez estabelecidos, passam para o reconhecimento da
área de trabalho. Tomando o exemplo particular do "catador de pa-
pel", antes de possuir seus próprios instrumentos e local de trabalho,
o migrante morador de rua recém-chegado passa por um estágio de
dependência (normalmente ele chega sem nenhum capital monetá-
rio). Seu trabalho consiste em ajudar aquele que o recebeu até que,
pelo seu trabalho, possa adquirir um lugar para morar e, por fim, ter
condições de adquirir um cavalo peça-chave para sua sobrevivência
~

e, por isso mesmo, um dos bens mais valiosos a que pode aspirar.
Uma vez satisfeitas as condições para sua autonomia, o migrante
vai, pouco a pouco, erguendo sua moradia no "cerrado"5 e constrói
uma carroça com madeiras de sobras de construções. O passo se-
guinte refere-se à divisão do território de trabalho, ou seja, o local
onde recolherá papel, latas de alumínio ou ainda outros materiais
que possam ser vendidos, no caso específico do catador de papel.
Temos novos personagens na rede: o "fornecedor de cavalos" e os
moradores de rua, "donos" de outras áreas.
Personagem importante nessa rede é o "comprador de papel".
Sem ele o trabalho básico dos catadores de papel seria inútil, já que
estes apenas recolhem e fazem a triagem sem nenhuma preocupa-
ção com a transfonnação.
Algumas empresas de Brasília são responsáveis pela compra re-
gular do papel. A empresa, portanto, apresenta-se como outro agente
da rede de relações dos moradores de rua. Quem representa a empresa
na negociação é um "atravessador", normalmente o motorista de ca-
minhão que transporta os papéis recolhidos até o pátio da empresa.
Em geral, o motorista surge como um mediador. Faz os contatos com
os migrantes, acerta a negociação e recolhe os papéis. Sem a presença
dos catadores que forneceram o papel recolhido, o motorista 6 leva o
produto para a empresa, pesa os papéis. Após a pesagem é contabilizado
o valor total que será, então, encaminhado aos catadores de papéis
pelo mesmo motor~sta, em geral, por ocasião da próxima compra.

179
Compra-se tanto o papel-jornal, o papelão, quanto o papel bran-
co que é o que mais remunera. O contato do catador de papéis com
a empresa também pode ser feito por meio de telefone público, pelo
qual o migrante de baixa renda infonna sobre a existência de mate-
rial a ser vendido. Certas "áreas produtivas" chegam a ser bastante
rentáveis, e alguns moradores de rua possuem telefone celular, au-
tomóveis usados, além de outros bens domésticos.
A rede que se estabelece, segundo Velho, é resultado de um proces-
so de negociação da realidade. Os primeiros migrantes que foram viver
nas ruas, provavelmente garimpavam o lixo em busca de algo que pu-
desse ser aproveitado por eles. Descobriram, então - por algwna outra
forma de relação, fruto de trajetórias que se aproximam ou mesmo que
se cruzam -, a possibilidade da coleta do papel como meio de produção
de bens e obtenção de renda, e dele fizeram uma mercadoria.
Essa rede de relações é que tem assegurado tanto a permanência
quanto a possibilidade de crescimento do contingente dos migrantes
moradores de rua em Brasília, nos últimos anos. Isto se deve a al-
guns fatores característicos: o fato de Brasília possuir um dos maio-
res parques gráficos do país e alto consumo de papéis decorrente da
burocracia estatal, aliado ao fato de que repartições públicas não
reciclam o lixo. Como observam Bursztyn & Araújo (1997), Brasília
produz um lixo significativamente valioso e esse valor permite ao
migrante morador de rua uma renda regular na faixa de 2 a 3 salários
minimos mensais. A condição de ser morador de rua e de buscar na
própria rua a constituição dos seus meios de sobrevivência torna
mais complexa a dinâmica do espaço urbano que é marcado pelo
surgimento de "novos atores".

Novos atores no espaço urbano


A metrópole, segundo Simmel (1979), é sede da economia mo-
netária devido à concentração da troca econômica, além de ser um
espaço onde ocorre um processo amplo e multifacetado de infonna-

180
ções. A dinâmica implementada peja metrópole obriga as pessoas a
um processo de indivídualização muito forte, em contraposição às
relações de vizinhança da cidade pequena. O processo de
índividualização implica o aperfeiçoamento e a especialização do
individuo. Outra característica da grande cidade é a necessidade de
uma maior divisão do trabalho. O indivíduo se especializa e se dife-
rencia porque tem de disputar um espaço no meio social da cidade
grande.
Refletindo sobre essas elaborações teóricas de Simmel, pode-
mos caminhar para três constatações imediatas: a primeira. m,lIS
óbvia, é o fato de que na grande cidade há uma maior concentra-
ção de riqueza, de dinheiro e, portanto, maiores possibilidades ele'
\cnda da força de trabalho para o capital. Dai a motivação de mUI-
tos migrantes em seguirem para as grandes cidades ou para aque-
las que, em situações especificas, apresentam um universo maior
de possibilidades socioeconômicas. A segunda diz respeito à ne-
cessidade de especialização. Aqui percebemos o quanto é di Ikil
para migrante, sem um conhecimento especifico, "vender" sua
°
mão-de-obra na grande cidade. Esse é o caso da maioria dos
migrantes moradores de rua, uma vez que eles não possuem sc-
quer o primeiro grau completo (cf. Bursztyn & AraÚjo, 1996, 1997
e 1999). Assim, o migrante que não conseguiu se estabelecer, aca-
ba tendo de morar nas ruas'- A terceira constatação retirada da lei-
tura de Simmel é a de que o individuo, na grande cidade, acaba
procurando construir a sua própria função. Isso é decorrente do
processo de "negociação da realidade ", da necessidade e do desejo
de construir o seu "projeto". Nesse sentido, o migrante morador
de rua analisa as possibilidades que a cidade oferece e tenta extrair
novas oportunidades. É o caso dos "catadores de papel", dos "ven-
dedores de boró" na beira do Lago Paranoáx, e dos "flanelinhas"'>,
casos especificos de especializações que não requerem um amplo
conhecimento escolar. Nào se trata de especializações preexistentes

18\
no mercado: tais casos marcam a luta cotidiana dos migrantes
moradores de rua que se estabelecem em Brasília.
A constituição dessas novas categorias profissionais nos remete
a uma outra discussão que acreditamos ser importante: a
complexificação das redes de atores em detenninados meios soci-
ais, fonnulada por Martins (1993) para discutir alguns problemas
existentes no campo. O autor afirma que uma das grandes dificulda-
des para a compreensão das relações estabelecidas no campo são os
métodos e esquemas teóricos utilizados por muitos autores que apon-
tam as relações de produção no Brasil com estruturas que passam da
colonial e escravista à de dependência dos paises desenvolvidos.
Martins procura trabalhar com a concepção de "desenvolvimen-
to desigual" a qual, segundo ele, poderia explicar a convivência de
situações tão dispares quanto as presentes no campo brasileiro. Ele
afirma que essas situações coexistem por meio de articulaçeio de
modos de produçeio. Martins levanta essa questão para refletir sobre
a presença de mão-de-obra em fazendas acusadas de utilizarem prá-
ticas de trabalho rígidas e altamente exploradoras, usufruindo, ao
mesmo tempo, de avançadas tecnologias, além do fato de pertence-
rem a grandes grupos internacionais.
Aprofundando mais a questão, Martins mostra como, desde o
momento em que um trabalhador rural é expulso do campo e sai em
busca de um trabalho, vai-se configurando uma rede de "novos ato-
res" que passa pela polícia municipal e chega ao grande fazendeiro.
Segundo ele, o trabalhador rural chega a uma cidade em busca de
trabalho. Sem recursos, ele pode passar por duas situações: a pri-
meira é a de se hospedar numa pensão até que apareça alguém inte-
ressado no seu trabalho. Essa mesma pessoa irá "saldar" a divida do
trabalhador na pensão, o que será descontado posteriormente do
pagamento que ele irá receber. Na segunda situação, de acordo com
denúncias, policiais prendem pessoas estranhas em suas regiões e as
soltam mediante pagamento de fiança feito por uma pessoa em rela-

182
ção à qual aquele trabalhador passa a ter uma dívida. Em ambos os
casos, um atravessador (o chamado "gato") está formando um "time"
para prestar algum serviço a algum fazendeiro. As pessoas
selecionadas vão trabalhar até "saldar" a dívida do albergue ou da
fiança, além das despesas diárias de alimentação, entre outras, du-
rante o trabalho. Enquanto não "saldar" sua dívida o peão irá traba-
lhar duro sendo que, em vários casos, ele é vigiado por capangas
para que não fuja. O problema que se apresenta é que, por mais que
ele trabalhe, invariavelmente não vê sequer a cor do dinheiro e nem
liquida sua dívida (é o chamado sistema de "barracão": o peão só
pode comprar no estabelecimento do patrão que define preços de
maneira que a dívida nunca seja saldada).
Segundo Martins, o que está em questão é o capital avançado,
que cria e recria essas relações. Esse processo de superexploração
do trabalhador rural irá beneficiar, ao final, o grande capital, que
ampliará sua renda. O que vemos são trabalhadores rurais, possei-
ros e pequenos proprietários, vítimas de um sistema que reestrutura
as relações sociais, constituindo "novos atores" que irão proporcio-
nar a manutenção e a sobreacumulação do capital.
Acreditamos que essa mesma leitura elaborada por Martins pode
ser transferida do campo para o espaço urbano. Podemos utilizar
como exemplo aquele mesmo trabalhador rural que foge do campo
e vai para a grande cidade onde as relações serão distintas. Entretan-
to, temos também a presença de "novos atores" sociais: o flanelinha,
o vendedor de boró e o catador de papéis. Nos três casos temos dife-
rentes soluções encontradas pelos moradores de rua para sua sobre-
vivência. O caso mais "bem-sucedido" é o do catador de papéis que
é aquele em que mais se projeta a situação de sobreexploração da
mão-de-obra.
Ainda que as empresas possam recolher os contêineres de lixo nas
repartições públicas (e existem muitos especificamente para papéis),
para elas é muito mais rentável comprar do catador de papéis, não

183
tendo que assumir a responsabilidade de fazer todo o processo de se-
leção do material. Fazer esse trabalho implicaria a contratação de mão-
de-obra e conseqüente pagamento de encargos trabalhistas. O resulta-
do é que a empresa, que antes contratava pessoal para fazer a seleção
dos papéis, passa a contar com mão-de-obra a um custo bem menor.
O que à primeira vista parece ser uma "caridade" (comprar o papel
dos moradores de rua), na verdade se traduz numa superexploração
do trabalho. Assim como a grande empresa agrícola que amplia seu
capital por meio da articulação de novos atores no campo, empresas
urbanas também ampliam seus ganhos por meio da utilização do mes-
mo processo no espaço urbano.

Conclusão
Segundo um dos clássicos da sociologia, Durkheim (1995), a
"solidariedade" é um elemento fundamental para a composição da
sociedade. Para ele, na sociedade moderna, a solidariedade resulta,
sobretudo, da divisão do trabalho social. Esta divisão distingue os
indivíduos em torno das suas profissões, impulsionando um conti-
nuo processo de troca, para fazer face às necessidades de sobrevi-
vência, fato possível para Durkheim devido a relações de
complementaridade (solidariedade orgânica).
O debate sobre a solidariedade emergiu, em especial, no final
dos anos 1990. Isto porque, contemporaneamente, a sociedade tem
apresentado modificações significativas em várias esferas. Muitas
dessas mudanças provocam um efeito profundo na vida de grupos
de indivíduos em várias partes do mundo, obrigando-os a sobrevi-
ver em condições de extrema precariedade. Tal situação tem levado
alguns autores a afirmar que é preciso restabelecer alguns elos per-
didos do processo de organização da sociedade - entre eles o da
democracia.
Herbert de Souza, o Betinho (1993), discutindo a democracia,
propõe uma leitura mais complexa desse conceito. Segundo ele, dc-

184
mocracia deve envolver cinco valores básicos: liberdade, igualda-
de, diversidade, participação e solidariedade, com ênfase neste Últi-
mo valor. A solidariedade é incorporada mediante uma análise em
que a sociedade surge impregnada por valores, prevalecendo as ações
pessoais em detrimento das ações coletivas. Aqui caberia uma ques-
tão: o que faz com que o migrante de baixa renda, ainda que vivendo
nas ruas em Brasília, permaneça nessa condição e não busque outro
espaço? Uma das respostas seria que aqui ele tem mais chances de
conseguir se estabelecer. Essa possibilidade pressupõe que Brasília
poderia ser um espaço social favorável socialmente, diríamos, um
espaço democrático. Essa é, entretanto, uma percepção inteiramen-
te desconectada da realidade se observarmos, em seguida, a forte
estrutura de segregação socioespacial da cidade. Um dos elementos
que "segura" o migrante, segundo suas próprias palavras, é a "gene-
rosidade" de grande parte da população ao ceder tanto alimentos
quanto objetos para muitos daqueles que vivem nas ruas em Brasilia.
Outro, é a possibilidade de sobreviver da coleta de lixo.
Uma pergunta que emerge daquela análise é se a existência de
uma parcela de pessoas socialmente excluídas decorre, também, de
processos de ruptura dos laços de solidariedade. Harvey (1993) afir-
ma que o processo de superconcentração da riqueza é um dos grandes
fatores de empobrecimento no mundo. Segundo ele, a
superconcentração acanetou uma redefinição do mundo do trabalho.
O que está em jogo são as possibilidades de ampliação das margens
de lucro, o que seria obtido de várias maneiras: pela diminuição da
mão-de-obra empregada ou pela ampliação da exploração dos traba-
lhadores, seja por meio da desregulamentação das obrigações traba-
lhistas, seja pela contratação de mão-de-obra sub-remunerada (Harvey,
1993). Um dos resultados dessa tendência no mundo do trabalho foi a
necessidade de os trabalhadores buscarem fODl1asde especialização
como garantias de manutenção ou aquisição de outras possibilidades
de emprego. Poucos, entretanto, se encaixam no perEI do proEssional

185
altamente especializado (consultores) ou trabalhadores "pol ivalentes".
Parte daqueles que não obtiverem uma especialização terão poucas
chances no restrito mercado de trabalho. Podemos afinnar que o mo-
rador de rua está "integrado" à economia globalizada, pelo menos
quanto a alguns aspectos da sua exigência: afinal ele é poli valente
(faz vários tipos de serviços) e é inteiramente t1exivel (o que não acar-
reta custos além do salário básico). Se ele não se encaixa é devido à
ausência de uma especialização técnica.
Harvey mostra, ainda, que esse processo de busca da lucratividade
que tem como suporte a exploração de mão-de-obra sub-remunera-
da entre outros elementos, mostra o fim da era do fordismo já não
-

interessa mais ao mercado ampliar a mão-de-obra para que haja mais


consumo, mas diminuir, para que haja menos despesas. Se a divisão
social do trabalho é um ponto essencial para a constituição da soli-
dariedade, como afirmava Durkheim, então, com o fim da ideologia
do fordismo, esses laços começaram a se romper. Esse mesmo capi-
tal, entretanto, se mostra inteiramente desprendido de qualquer con-
trole estatal. Não tem fronteiras nacionais e, portanto, foge das obri-
gações de assegurar qualquer retorno social.
Se a existência de uma parcela de pessoas em situação social-
mente precária decorre, também, de processos de ruptura dos laços
de solidariedade, por parte do conjunto da sociedade, dentro do gru-
po comunitário esse tem sido um elemento importante para que essa
parcela possa tanto sobreviver quanto buscar superar suas precárias
condições de vida. Pelos trabalhos de campo realizados nas pesqui-
sas conduzi das por Bursztyn e Araújo nos anos de 1996, 1997 e
1999, fica evidente que os migrantes que vivem nas ruas em Brasilia
mantêm práticas de auto-ajuda e de solidariedade entre os seus pa-
res, constituindo várias redes sociais. As redes tanto se estruturam
em torno do núcleo familiar, como por meio de relações de amizade.
Essas relações de auto-ajuda e de solidariedade são básicas, em
\í:íriD~ ca~Ds,para a composição de uma outra estrutura social entre

186
eles tendo como base a rede econômica. Assim, estabelecem quem
deve fazer o quê, de que maneira e onde, ou seja, são estabeleci das
as funções sociais das pessoas, quem organiza a coleta da matéria-
prima (papel) e o local de coleta. A reconstituição das relações entre
os migrantes moradores de rua oeorre por processos muito similares
aos da vida comunitária.
Sabemos, entretanto, que essa rede é complexa, revelando
interfaces com organizações e pessoas fora do segmento daqueles
comumente chamados de socialmente excluídos. Isso nos leva a
questionar a associação mecânica da condição de moradores de rua
ao conceito de exclusão social. Acreditamos que o tenno, por si só,
não explica o problema. Como podemos afinnar que são "excluí-
das" as pessoas que moram nas ruas mas, ao mesmo tempo, reco-
lhem papel com uma certa regularidade e o revendem periodica-
mente a uma empresa especializada em reciclagem de papel e que o
vende para fábricas da grande metrópole nacional que é São Paulo?
Refletindo sobre esse problema é que Nascimento (1996) traba-
lha com o conceito de "nova exclusão social" na qual um determi-
nado grupo da sociedade é vítima dos processos sociais estabeleci-
dos, criando uma "desnecessidade" crescente de força de trabalho.
Esses processos tornam o grupo: a) economicamente desnecessário;
b) politicamente incômodo; c) socialmente perigoso. O processo de
estigmatização desse mesmo grupo implicaria uma exacerbação da
condição de "socialmente perigoso" e o grupo como "passível de
eliminação".IO
O que podemos constatar com relação aos migrantes morado-
res de rua é que eles respondem, em graus variados, ao processo
de vida em condições socialmente degradantes. Mas não há indíci-
os objetivos que nos permitam afirmar que eles se enquadrariam
na "nova exclusão" (cf. Nascimento, 1994, 1996, 1997 e Tosta,
1997). Primeiramente, podemos afirmar que eles são politicamen-
te incàmodos, seja pelas evidências da existência de migrantes

187
moradores de rua perambulando pelos vários estados brasileiros
ou mesmo fugindo dos seus estados devido às condições precárias
de sobrevivência, seja por revelarem a "incompetência" do poder
pÚblico. Em segundo lugar, os migrantes moradores de rua são
economicamente desnecessários dentro do mercado fonnal mas não
o são no circuito ampliado da economia capitalista, que se vale de
"trabalhadores de rua" (caso dos catadores de papel). Terceiro, os
migrantes moradores de rua provocam um temor no imaginário
social como pessoas socialmente perigosas. Quanto a esse Último
aspecto, entretanto, a pesquisa realizada em Brasília não confirma
a hipótese da exacerbação desse elemento. Portanto, não é possí-
vel afirmarmos que existe o desejo expresso de eliminá-los fisica-
mente.
Temos, assim, uma situação cheia de meandros típicos de uma
realidade cada vez mais complexa em que coexistem, como diria
Martins, diferentes fonnas de produção. Apontar a existência de
"novos atores" apenas identifica o surgimento de sujeítos que pas-
sarão a interagir dentro de um determinado contexto. Entretanto, no
momento de analisar em profundidade a condição daquele indiví-
duo dentro do processo de produção, novamente teremos que bus-
car outros conceitos que nos permitam uma melhor compreensão.
Poderíamos, então, afirmar que os migrantes moradores de rua
são cidadãos em processo de exclusão social, na medida em que
estão sendo privados, lenta e gradualmente, dos seus direitos soci-
ais. Essa condição os obriga a viver à margem do conjunto da socie-
dade, sem usufruir dos bens que ela oferece aos cidadãos "inclui-
dos". São cidadãos em processo de exclusão e marginalização, situ-
ação que os obriga a viver em detenninadas condições de vida, den-
tro de suas possibilidades e daquelas que são oferecidas pelo meio,
negociando novos papéis, fazendo com que sLlljam novas realidades
sociais sem, contudo, romperem - até o momento com o processo
~

Ue prouução capitalÚÜa.

188
Referências bibliográficas

BURSZTYN, M.; ARAÚJO, C. H. Da utopia à exclusão: vivendo nas ruas em


Brasília. Rio de Janeiro: Garamond; Brasília: Codeplan, 1997, 1111'.
DURKHElM, E. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes,
1995,4R3p.
GONZALES, É. N.: BASTOS, M. 1. de S. R. Migraçiio para Bmsília. Brasilia:
Instituto de Ciências Humanas/Universidade de Brasilia, 1973, 1631'.
. Migraçâo para Brasília: uma anàlise dos migrwltes de
renda baixa. Brasilia: Departamento de Sociologia, Universidade de
Brasilia, 1975,21 p. (Série Sociológica, 7).
HARVEY, D. A condiçiio pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da
lI1udança cultural. São Paulo: Edições Loyola, s/d., 3491'.
NASCIMENTO, E. P. do. Hipóteses sobre a nova exclusão social: dos excluí-
dos necessários aos excluídos desnecessários, Caderno CRH, 21, p. 29-47,
jul./dez. 1994.
. A exclusão social no Brasil: algumas hipóteses de trabalho
c quatro sugestões práticas, Cadernos do CEAS, 152, São Paulo, p. 57-66,
1996.

---,-~
. A difícil constituição da exclusão social no Brasil. Traba-
lho apresentado no VIII Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia.
Anais. Brasilia: Universidade de Brasilia, 1997, 181'.
MARTlNS, 1. de S. A chegada do estranho. São Paulo: Hucitee, 1994, 1791'.
PAVIANI, A. A realidade da metrópole: mudança ou transformação na eidade'l
In: PAVIANI, Aldo (org.). Brasília: moradia e exc/usiio. Brasília: Editora
da UnB, 1996, p. 213-229.
SIMMEL. G. A metrópole c a vida mental. In: VELHO, O. G. (org.). O/enÓ-
menu urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, p. 11-25.
SOUZA, H. (Betinho). Democracia. In: FERREIRA, C. de S. et aI. (orgs.).
Pcnsamento inquieto. Brasília: Editora da UnB, 1993.

189
TOSTA, T. L. D. Memórias da rua, memórias da exclusão. In: BURSZTYN,
M. (org.). O povo no lixo. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.
. A construção das representações sociais: a imagem do po-
bre como excluído. Trabalho apresentado no VIII Congresso da Sociedade
Brasileira de Sociologia. Anais. Brasilia: Universidade de Brasília, 1997,
22p.
VELHO, G. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas.
Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1994, 137p.

190
Notas

Quando falamos em Brasília, estamos nos referindo, em vários momentos, a toda a


região do Distrito Federal. Optamos por este procedimento, pois tanto os residentes
das cidades-satélites quanto os migrantes não fazem distinção entre seu lugar de
procedência e o atual lugar em que vivem.

2 Dados preliminares da Pesquisa de Informações Socioeconõmicas das Famílias do Dis-


trito Federal PISEFIDF - indicavam uma sensível queda da taxa de crescimento
-
populacional. Isso se deve, acreditamos, a três fatores básicos: 1) pela diminuição da
taxa de crescimento populacional de Brasília; 2) pela queda dos empregos na cons-
trução civil na região; 3) pela diminuição da oferta de empregos publicos.

3 Vale lembrar que parte dos estimulos nasce, também, de campanhas publicitárias esta-
duais que vendem uma imagem paradisíaca de suas regiões e cujo objetivo é atraír
novos investimentos e turistas.

4 A sobrevivência por meio do lixo não é um fenõmeno novo. Existe há muito tempo e em
vários lugares do mundo. O que interessa nesse estudo é como a sobrevivência por
meio do lixo passa a fazer parte da trajetóría do migrante como elemento de interse-
ção entre o mundo da exclusão e o da "quase inclusão".

5 Expressão utilizada para designar todas as áreas verdes, bosques e sobretudo áreas
não utilizadas próximas ao centro de Brasília. Grande parte dessas áreas ainda pos-
sui uma parcela de vegetação típica do Cerrado.

6 O motorista é chamado pelos migrantes que vivem da coleta de papel de "meu patrão".
Isso ocorre porque toda a negociação estabelecida com a empresa é feita, pratica-
mente, apenas via motorista (é ele quem compra, quem estabelece as condições,
quem decide o preço e quem paga).

7 Poderíamos perguntar por que esse migrante não optou por morar numa favela
estabelecida e sim em barracas nas ruas, ou próximo ao centro da cidade? A resposta
tem dois desdobramentos: primeiro, porque foi exercida uma vigilãncia sistemática
(embora nem sempre eficiente) na tentativa de ímpedir o crescimento ou formação de
novos focos de favelas; segundo, diz respeito às necessidades de sobrevivência. Como
vários migrantes foram trabalhar com a coleta de lixo, o custo de deslocamento de
alguma cidade da periferia consumiria praticamente toda a renda.- Dai sua opção por
morar nas proximidades, ou seja, no Cerrado.

8 Brasilia tem o formato de um avião em diagonal. O que seria a parte inferior do "avião" é
totalmente margeado por um lago artificial. Em alguns pontos mais próximos das áreas
residenciais, podemos encontrar os vendedores de boró (iscas para pesca criadas a
partir de alimentos apodrecidos).

9 Para maiores detalhes, ver também neste livro o artigo de Tania Ludmila Dias Tosta,
"Memórias das ruas, memórias da exclusão"
10 Ver Elimar Pinheiro do Nascimento em "A difícil constituição da exclusão social no
Brasil", texto apresentado no VIII Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia,
Universidade de Brasília. Brasilia, 1997.

191
Imagens da rua
,
~
~..".: --
7

Memória das ruas, memórias


da exclusão
TANIA LUDMILA DIAS TOSTA

A presença crescente de moradores de rua no espaço urbano,


a ameaça de desemprego e a temida escalada da violência urbana
ganham uma espetacular visibilidade em nossa época. Tais ques-
tões são alvo de debates e manchetes jornalísticas em todo o mun-
do. Permeiam cada vez mais o imaginário de homens e mulheres
das grandes cidades. Mas o que a ciência tem a dizer sobre isso?
Muitas análises foram apresentadas para compreender essas ques-
tões, sendo que alguns enxergam-nas como parte de uma conj un-
tura mais ampla. Há, ainda, a preocupação em realizar uma refle-
xão teórica que se distinga das manifestações empíricas ou das
representações que são construí das sobre esses temas, devido a
sua intensa propagação no imaginário social. Neste sentido, per-
cebe-se a formação de um novo conceito que aparece inicialmente
entre os cientistas sociais, para depois invadir o discurso da mídia,
dos políticos e mesmo as conversas do cotidiano: a exclusão so-
cial.
Entretanto, com a intensa difusão desta nova teoria ocorreu tam-
bém uma descaracterização de seu sentido, a partir dos variados
usos e confusões que engendrou. Assim, torna-se cada vez mais
fluida e suscetível a equívocos como categoria do pensamento ci-
entífico. É principalmente por isso que o conceito gerou tanta con-
trovérsia no meio científico. As críticas apontam que seria uma
categoria vaga, demasiadamente ampla, que esconderia a origem

201
da exclusão e seria uma quebra da visão dialética da luta de clas-
ses. Para Fitoussi & Rosanvallon (1996), seria uma nova forma de
maniqueismo (os que estão dentro versus os que estão fora), uma
simplificação que se apresenta como um obstáculo para compre-
ender as mudanças por que passa a sociedade. Criticam a aborda-
gem da exclusão social por esta ter polarizado a atenção em detri-
mento de uma análise global do sistema. Concluem enfatizando
que a exclusão não é um estado social, mas resultado de um pro-
cesso. Por isso seria necessário mostrar as transformações sociais
que estão por trás deste processo.
Muitos autores que trabalham atualmente com o conceito de ex-
clusão social concordam com essas criticasl, apontando como fator
preponderante de desvirtuamento de seu sentido a banalização do
tema. Mas demonstram a importância da nova temática, desde que
definida e analisada com o devido cuidado conceitual e metodológico.
Paugam (1996) mostra a evolução que ocorre de uma abordagem
monetária da pobreza (em que também não há um consenso na defi-
nição da sua mensuração) para uma abordagem multidimensional.
Além disso, assinala o fato de a desigualdade não ser suficiente para
explicar a ruptura e a crise identitária que caracterizam o processo
de exclusão. Dubar (1996) também observa que o conceito tenderia
a juntar situações diversas e a esvaziar a questão das relações de
produção, e afirma, assim, a necessidade de considerá-lo não sim-
plesmente como um estado, mas como uma construção social (pro-
duto histórico de mecanismos sociais). Isto porque o que hoje se
chama exclusão é resultado de transformações nas instituições
estruturantes da vida econômica e social. Assim sendo, a exclusão
seria uma ausência prolongada de emprego e também uma perda de
relações sociais.
Para muitos, a raiz do processo de exclusão está na mudança
do modelo produtivo, com a evolução do funcionamento do mer-
cado de trabalho. É aqui que entra o aumento do desemprego,

202
notadamente do desemprego de longa duração (mais de um ano),
pois quem se afasta do processo produtivo tem cada vez menos
chances de se reintegrar ao mundo do trabalho. Mas a exclusão
não se resume a uma não-integração no trabalho; trata-se, ainda,
de uma fragilização do vínculo social, explicada pelas modifica-
ções da estrutura familiar e de sociabilidade nas sociedades con-
temporâneas.
Em geral, a exclusão social pode se caracterizar por um proces-
so de ruptura dos vínculos sociais de um determinado grupo em
relação a toda a sociedade. Esta definição, entretanto, se confunde
com inÚmeras outras expressões como marginalização, desvio e
estigmatização. Para evitar tal ambigÜidade, consideramos neces-
sária uma maior focalização do fenômeno na questão do emprego.
em seu significado como capacidade de integração para a socieda-
de contemporânea. Neste sentido, permanece a perspectiva do tra-
balho como centro da coesão social e transações sociais, mesmo
em uma época em que se discute longamente a crise da sociedade
do trabalho. Apesar de estar sofrendo profundas mudanças, com-
partilhamos a perspectiva de que o trabalho continua ocupando
posição de destaque como fator de estruturação social. Uma não
integração ao mundo do trabalho pode significar uma não-inser-
ção social.
Há ainda um processo mais profundo de exclusão no qual certos
grupos sociais não são reconhecidos nem mesmo na sua condição
de seres humanos, portadores de direitos. É assim que se torna im-
portante investigar a construção de uma representação social do ex-
cluído em que sua expulsão do mundo dos direitos tem a aceitação
da sociedade.
Como diz Nascimento:
"...a nova exclusão social se constrói num processo simultanea-
mente econômico, com a expulsão do mundo do trabalho, cultural,
pela representação específica de não reconhecimento ou negação de

203
direitos, e social, através da ruptura de vínculos societários e, por
vezes, comunitários" (1994:35).
A vinculação entre exclusão social e violência se faz por meio
da identificação de pobreza com marginalidade. O excluído é per-
cebido como socialmente ameaçador. É aqui que a exclusão se
reforça, com a criação de representações sociais nas quais ora é
objeto de pena e indiferença, ora de medo e eliminação. Assim,
em um caso extremo no processo de exclusão social, sua elimi-
nação passa a ser vista se não com aprovação, ao menos com
indiferença.
Pode-se, então, apreender como ponto diferenciador da con-
cepção a sua dimensão simbólica: a exclusão é um processo de
ruptura do vínculo social (que liga os indivíduos), além da ruptura
simbólica das representações que lhes são comuns (ligação de cada
indivíduo à socíedade). O indivíduo excluído não é simplesmente
quem é rejeitado física, geográfica ou materialmente, ele não ape-
nas é excluído da troca material e simbólica, como também (e prin-
cipalmente) ocupa um espaço negativo na representação social do-
minante.

As trajetórias
O aumento da visibilidade dos que moram nas ruas é dado
pela presença de uma quantidade significativa de pessoas que
utilizam o espaço público para fins privados. Entretanto, esse
segmento populacional não se constitui necessariamente como
um grupo homogêneo: sob uma designação comum encontram-
se situações bastante diferentes. Diferenças podem ser percebi-
das pelo tempo que a pessoa mora na rua, os motivos, as condi-
ções de alojamento/abrigo, os meios de sobrevivência, o grau de
contatos pessoais e sociais que mantém, o grau de estruturação
familiar, a vinculação com a economia e a percepção que ela tem
de sua situaçào.

204
o importante aqui é enfatizar que a condição de morador de
rua pode corresponder a um momento em um processo e não a um
estado definitivo. Por isso é necessário analisar de maneira mais
profunda esta condição por meio de uma pesquisa qualitativa, na
qual a experiência subjetiva da exclusão se articula com a análise
da trajetória e suas características objetivas. Assim, torna-se mais
fácil compreender as diferentes fases do processo pelas quais pas-
sou cada indivíduo, suas dificuldades e formas de adaptação. Para
reconstituir as etapas do percurso e identificar os fatores impor-
tantes em um possível afastamento da integração econômica e so-
cial, foi realizada uma entrevista aberta e em profundidade (histó-
ria de vida) com três pessoas que fizeram do espaço público em
Brasília a sua moradia2.
Rivaldo, vendedor de boró (isca para peixe, variante de coró),
mora em barraca à beira do lago. Francisco, vigia de carros, mora
em barraco em área de um prédio em construção abandonado.
Joelma, catadora de papel, mora em invasão no cerrado3 em frente
a um clube. Todos se situam na área urbana do Plano Piloto de
Brasília. São três personagens emblemáticos entre os moradores
de rua: três percursos diferentes, mas que guardam semelhanças
significativas no processo de migração, procura de meios de so-
brevivência e fixação de residência no espaço público do Distri-
to Federal.
Todos os três têm origem no Nordeste do país, todos vêm de
família pobre, de origem rural, todos tiveram uma educação fonnal
precária (ou nula), todos começaram a trabalhar na infância. Ne-
nhum conseguiu permanecer no mercado de trabalho fonnal.

À procura de trabalho
A busca de trabalho é a razão principal das constantes mudan-
ças de cidade de dois deles. Como assinalam Bursztyn & Araújo
(\ 997), a partir de uma pesquisa mais extensa com mlgrantes re-

205
centes que passaram a morar nas ruas do DF, o conceito de
"migrante" não se aplica mais em casos como estes. As trajetórias
de deslocamento, de cidade em cidade, em busca de melhores con-
dições de vida (ou simplesmente algum trabalho), sem fixarem-se
por muito tempo em um só local, se adequam mais ao conceito de
"perambulante" .
Esse fenômeno também foi percebido por Damon & Firdion
(1996) em estudo sobre a população de rua da França. Os constantes
deslocamentos são comparados ao movimento do pingue-pongue.
Embora focalizem mais a atenção sobre os deslocamentos que se
fazem no interior da cidade (que também são característicos da po-
pulação de rua no Distrito Federal), mostram que estes se reprodu-
zem entre as cidades.
Vemos, como um exemplo, a trajetória de Joelma. Nascida em
Caldeirão Grande, na Bahia, com a idade de quatro anos mudou-se
para SaÚde, depois para Miguel Calmon, Itabuna, Jacobina c
Abaeté, todas na Bahia, sempre trabalhando (muitas vezes
retomando a estas cidades, além de rápidas passagens por outras).
Após passar um período em Brasília, foi procurar trabalho em Vol-
ta Redonda (RJ), Ribeirão Preto (SP), Irecê (BA), Barreiras (BA)
c, finalmente, em Brasília de novo. Trabalha desde os sete anos: na
roça, cortando sisaI. "tratando" animais abatidos, cuidando de por-
cos, cortando cacau, colhendo laranja, quebrando pedra para fazer
brita, e hoje catando papel, plástico e latas. No Distrito Federal, já
morou em muitas invasões em várias localidades e foi removida
outras tantas vezes. Já retomou à Bahia diversas vezes com o di-
nheiro da passagem pago pelo Governo do Distrito Federal, mas
sempre volta porque, segundo ela, "lá é muito difícil, num tem
trabalho". Joelma tem planos de retomar ao interior de seu Estado
de nascença e voltar ao trabalho na roça. Como ela diz: "Tamos
esperando para ir embora porque eu já abusei aqui. Eu gostava,
mas agora o papel baixou, fica esse vento, é um adoecer danado,

206
tcm confusão, a gente não pode deixar o barraco só. (...) Aí eu vou
para roça, que lá eu vou cuídar do que é meu".
Outro que tem um percurso de deslocamentos bem acentuado é
Rivaldo. Nasceu em Pirapozinho, São Paulo, mas retomou com os
pais para a cidade de origem, Porto Real do Colégio, em Alagoas,
aos dois anos. Com o falecimento da mãe, foi criado pela tia em São
Paulo. Trabalhou na construção civil em Recife, depois em Garanhuns
(PE) e, em Ilha das Flores (SE), trabalhou plantando arroz. Voltou a
São Paulo, onde trabalhou nas cidades de Guarujá, Osasco,
Guarulhos, Santana do Pamaiba, Bertioga, São Vicente, Praia Gran-
de e Peruíbe. "Aí o serviço acabou" e, então, fez o trajeto rumo a
Brasília. Não tem planos de mudar de vida, embora fale vagamente
em conseguir um lote para morar. "Aqui eu me sinto como se tives-
se num palacete. Não pelo que eu tenho. Não tenho caramba nenhu-
ma aqui, é pelas pessoas que chegam aqui".
Mas há diferenças: enquanto estes dois fizeram o longo percurso
de perambular de cidade em cidade à procura de emprego e meios
de sobrevivência para finalmente chegar ao Distrito Federal, o ter-
ceiro veio diretamente para a capital do país em busca de melhores
condições de vida. Francisco nasceu em Maruim, no interior de
Sergipe, mas aos sete anos foi morar com a avó na capital do Esta-
do, para ajudá-Ia. Voltou para casa somente aos 12 anos e, três anos
depois, fugiu para Aracaju, onde conseguiu trabalho como ajudante
de empregada doméstica, até se "especializar em cozinha". Aos 17
voltou ao interior para se alistar e conseguiu trabalho em restauran-
tes. Retomando para Aracaju, arranjou emprego, com carteira assi-
nada, permanecendo até a falência do restaurante, no período Collor.
Com isso, decide vir a Brasília (em suas palavras: á capital. onde
rola dinheiro), para conseguir um emprego em restaurante, mas, com
o roubo de seus documentos, acabou morando embaixo de pontes c
em barracos. Hoje afirma ter uma possibilidade de obter um empre-
go na c;dade, dev;do às suas relações pessoais e uma certa especia-

207
lização profissional. "Não quero ser grande, mas também não quero
ser esse ridículo que eu sou hoje".

o cotidiano da rua
Os meios de sobrevivência que cada um dos sujeitos de pesquisa
encontrou diferem bastante e, de certa forma, mostram oportunida-
des de trabalho bastante representativas deste universo da popula-
ção, sem contar com os que vivem exclusivamente da solidariedade
alheia. No caso do Distrito Federal, o catador de lixo aparece com
grande destaque, ao lado dos que vivem de esmolas e biscates, nas
estatísticas sobre como se sustentam os migrantes que habitam o
espaço das ruas do DF:
"A maior parte desses migrantes vive da coleta de material
reciclável (papel, metais, garrafas) e de esmolas. Um percentual de
98% dos chefes de família afinnou que estão desempregados, vi-
vem de esmolas, biscates ou catam lixo, contra apenas 2% que afir-
maram estar empregados com carteira assinada". (Bursztyn & Ara-
újo, 1997:83).
A trajetória de vida de Joelma é uma clara demonstração do
percurso pelo qual muitos migrantes passam ao chegarem à Ca-
pital. Veio com o marido, pela primeira vez, de carona de Jacobina,
na Bahia, até o Núcleo Bandeirante (cidade do Distrito Federal),
onde ofereceram ao casal o trabalho de caseiros em uma chácara
no entorno do DF. Dois anos depois, estavam de volta às ruas do
Núcleo Bandeirante, onde, observando os que viviam da venda
do lixo, perceberam aí uma maneira de sobreviver na e da rua:
"Eu prestava atenção, via aquele povo andando na rua com aque-
les carrinho, outras vezes pegando papelão. Aí disse: 'Não, já
que num tem o que fazer, não arrumo emprego, vou fazer a mes-
lna coisa'''.
Nesta rotina, que durou três anos, a família vendia principal-
mente latas de alumínio. Depois disto, já estiveram em várias inva-

208
sões. Como a maioria dos que se estabelecem nas ruas, afinna ter-se
mudado umas 20 vezes somente dentro do DF, muitas vezes sendo
removida pelo poder público e, outras, em busca de áreas de traba-
lho e residência melhores. Na época da entrevista, morava em inva-
são com mais de 40 famílias, próximo ao centro de Brasilia, grande
produtor da matéria-prima cobiçada por todos: o papel.
Com o passar do tempo, o lixo passa a significar não apenas a
simples sobrevivência da familia, mas até mesmo uma fonte de
acumulaçào de bens. Se, no inicio, o lixo se vincula somente à
possibilidade de achar restos de comida, com o trabalho de separa-
ção e venda do lixo reciclável, este se transforma em valiosa maté-
ria-prima de trabalho, possibilitando um retorno financeiro que
servirá não apenas para a sobrevivência biológica, mas também
para a compra de televisão, aparelho de som e até carro, além dos
obrigatórios cavalo e carroça. Neste sentido, ser catador é, de al-
guma forma, vencer na luta da rua. Para isso, no entanto, há que se
observar um conjunto de regras e hierarquias preestabelecidas:
conhecer as pessoas que compram o lixo separado e conseguir um
espaço no "loteamento" de ruas feito entre os carroeeiros para pe-
gar o lixo, além de, obviamente, um local de moradia próximo ao
local de trabalho.
Geralmente, cada família tem seu cavalo, a earroça para reco-
lher o papel e também um local fixo de trabalho, uma rua ou um
trecho onde somente ela pode recolher o lixo: "Nós pega [lixo] lá
no Setor Comercial. (...) Cada rua assim tem um dono que trabalha
assim. Dois num dá certo de trabalhar (...). Lá o povo já conhece
já, a gente (...), é só ver a gente e já colocam pra fora pra gente
pegar".
Como acontece com grande parte dos catadores (entre os que
têm família), há uma divisào famíliar do trabalho. O marido geral-
mente sai eom a carroça em busca do papel e a mulher fica em casa,
~eparalldo O \ix.o recolhido, alüm de ser responsável pelo trabalho

209
doméstico e por cuidar dos filhos. Estes, quando ficam mais velhos,
ajudam os pais, ou vão vigiar carros, ou pedir esmola. Na t~unília
em análise, os papéis se repetem: o homem trabalha, sobretudo, na
rua, c a mulher, exclusivamcntc cm casa. Joelma cnfatiza sempre
sua árduajornada de trabalho, numa tentativa dc rcsponder aos quc,
segundo cla, julgam o trabalho
fácil. Entre o lixo recolhido, ela se-
para o papel branco e ainda recolhe o plástico, () jornal, as latas e o
cobre, além de todo o trabalho que "naturalmente" tàz parte dos
devcres da mulher:
"Aqui meu dia é tão dificil... Eu tiro papel, eu ensaco os plástI-
cos, eu faço comida, eu lavo prato, é roupa, a vida ae li é mUito
trabalho, trabalho demais. Eu trabalho tanto que à doite eu !'um
agÜento dormir, gcmendo, fico com o corpo che:~ de doI. E qual-
qucr hora que eu trabalho, num tem hora marcada não, que toda
hora tcm papcl".
Mas, apesar da I~lrtura do lixo de Brasília tel gawi;~ldc a sobrevi-
vência da hunília por vários anos, além da compra ti" algumas "coi-
sinhas" (no momcnto da entrevista, eles possuiam TV, fogão e um
carro, além da carroça, dois cavalos e 50 galinhas), Joelma reclama
que o trabalho não dá o retorno que dava no passado. Isto por dois
motivos: o papel baixou e aumentou o número de catadores de lixo.
Naquele momento, o quilo do papel estava sendo vendido por RS
O,OX. Desta forma, recebiam RS 100 a R$ 1601 por quinzcna, depen-
dendo da quantidade de material vendido:
"Aqui tá ruim demais, já prestou, presta mais não (...). Você che-
ga na rua assim, tem muito carroceiro. Aí se muito você trabalhar aí,
você hlz 1.000 (quilos), 1.500 por quinzena, num dá mais 2.000
como dava. Primeiro a gente ganhava muito dinheiro mesmo aqui.
Você mandava 1.000 quilos, era RS 170. Hoje em dia você manda
2.000 pra dar RS160. Agora tá dificil!"
Com mais e mais pessoas descobrindo o lixo como um "rentável"
meio de '\id:1 (OU:10 menos um possível meio de sobrevivência), ocor-

210
reu o aumcnto da concorrência, com uma pauperização da catcgoria e,
para alguns, o trabalho insalubre e desgastante perde seu atrativo. Obvi-
amentc, isto só é verdadeiro para quem tem outra perspectiva de vida,
pois, mesmo com todo o estigma e a precariedade de se trabalhar com o
lixo c com a diminuição do valor do papel, a remuneração desta catego-
ria ainda está acima do salário minimo oficial brasileiro e continua atra-
indo muitos recém-migrados. Ser catador, portanto, continua a ser uma
das mais acessiveis fonnas dc se vencer no mundo da rua.
Os outros sujeitos desta pesquisa não scguem uma rotina tão
estabeleci da como esta, são meios de sobrevivência bem diferentes
c que segucm rcgras mais Ouidas. Rivaldo, por exemplo, que che-
gou à cidade sem conhecer ninguém c foi andando até avistar o Lago
Paranoá, acabou sendo convidado pelo antigo "dono" para perma-
necer no local onde mora até hoje. O morador antcrior voltou para
sua terra, em Minas Gerais, depois de ensiná-lo como criar o boró,
utilizado como isca para peixe. E assim Rivaldo se estabeleceu como
criador e vendedor de boró, seumcio de sustento há três anos, dcsde
que chegou ao Distrito Federal:
"Vivo só da venda do boró. Não que eu ganhe rios de dinheiro,
mas dá pra comprar a minha comida, pra num ter que ir lá em cima
pedir pra ninguém (...). Nem ter que pegar em lixeira. Dá pra com-
prar minha carne com feijão, arroz, macarrão, cafezinho, pronto.
Todo dia tem gente, mas só que num é assim essas coisa não. f: um
real, dois real, quatro, cinco, dez, vinte real, fim de semana. Mas dá
pra viver".
Como se pode vcr, as condições de trabalho de Rivaldo não po-
dem ser comparadas à jornada de Joelma. Evidentemente, tanto o
trabalho como as perspectivas de vida diferem nos dois casos, mes-
mo porque o primeiro depende somente do ponto que conseguiu
junto ao lago, do boró que aparece quando a abóbora apodrece no
chão e do tratamento que reserva aos "clientes" quc sempre retomam

21l
Apesar de precário, o local de moradia/trabalho de Rivaldo é
essencial para o seu meio de vida e sobrevivência. Rivaldo já teve o
barraco desmanchado duas vezes pela Terracap, a companhia imo-
biliária de Brasília, já que legalmente a área pertence à Companhia
de Água e Esgoto de Brasília (Caesb). Por isso, Rivaldo passou uma
temporada dormindo em uma barraca de acampar doada por um
amigo e depois ficou mais seis meses dormindo no carro de outro
amigo. Recusa-se a sair do local onde vive, apesar de concordar
com a retirada de pessoas que se estabelecem embaixo das pontes e
nas avenidas, porque "ali é o cartão-postal de Brasília". Com esta
frase, ele reproduz a noção de que os moradores de rua são indesejá-
veis à paisagem oficial. Mas, no seu entendimento, ocupar uma pe-
quena área à beira do lago, escondida pelo mato, onde mora e traba-
lha, não pode ser considerado equivalente à ocupação das áreas mais
centrais e visíveis e, por isso, mais incômodas para os "moradores
legais de Brasília".
Francisco, o terceiro sujeito da pesquisa, também chegou à capi-
tal sem conhecer ninguém. Inicialmente, alimentava-se dos restos
de frutas da Ceasa e das lixeiras dos supermercados. Depois de per-
manecer um tempo sozinho, embaixo de pontes e viadutos, passou
quatro anos morando na ponte do Bananal, local já ocupado por
várias moradores, de onde saiu no começo do ano de 1998 por reco-
mendação de um policial que fazia uma batida em busca dos trafi-
cantes que ocupam a área. No momento da entrevista, morava no
barraco de uma amiga e vigiava carros como meio de sobrevivên-
cia. Conseguiu estabelecer um ponto certo de trabalho no estaciona-
mento de um setor de clínicas e hospitais, bastante próximo ao seu
local de moradia:
"A gente sai daqui seis, sete horas para vigiar carro, que é aqui
pertinho, bem naquele edifício ali. Aí volta 22h, depende do que a
gente ganha. Ás vezes a gente vai lá pra 15 (quadra 315 norte),
num fica uma~ pro~tituta~ ali') C..) Quandoé fmal de semana,ou

212
como hoje que é feriado, aí que elas tão lá, é ótimo para vigiar
carro. Tem muito movimento. Só que a polícia embarreira muito.
Por causa delas, porque elas ficam ali, mas elas também vendem
droga. (...) Você também tem que ver o movimento, como tá o
movimento de carros nos bares, se tá cheio os bares... Se tiver cheio,
você fica, que sabe que vai dar ótimo. Porque eles ficam até tarde,
tem vigia, e aí pronto".
A invasão dos estacionamentos "público e gratuitos" das gran-
des cidades por guardadores de carros é geralmente citada pelos donos
de carros como um moderno meio de extorsão de dinheiro em troca
da garantia de não ter o carro danificado. Alguns vigias chegam a ter
um preço fixo que deve ser pago adiantado para ter direito a usar o
"seu" estacionamento. Assim, a ameaça dos flanelinhas está cada
vez mais presente no imaginário da população possuidora de carro.
É o medo e a irritação que se instalam por trás de cada "posso vigi-
ar?". A representação social difundida é que cada uma destas pesso-
as é um criminoso em potencial. Deste modo, Francisco, como grande
parte dos vigias de carro de Brasília, necessita usar técnicas da "psi-
cologia da rua", como parte essencial das regras para sobrevivência
nas ruas. Ele cita, como exemplo, a estratégia utilizada para "como-
ver" o dono do carro quando este afinna não ter dinheiro: "Aí você
diz bem assim - porque as frases vêm - 'Que Deus lhe ajude, que
você um dia ganhe, que tenha pra nos dar'. Aí eles voltam, dá 10,
15, 20 reais, entendeu? Sei lá, porque aquilo toca no coração deles,
né? A gente diz coisas que tocam no coração deles, eles voltam e
dão o dinheiro da gente".

Estrutura familiar
Como a exclusão não se expressa somente por meio da falta de
trabalho, é necessário verificar também como estão configurados os
vínculos sociais dos indivíduos analisados. Para EscoreI (1998), no
~rasi\, esses vincu\os podem ser ate mesmo mais relevantes para a

213
compreensão da exclusão social. Isso porque seu estudo mostrou
que os vínculos que os moradores de rua estabelecem com o mundo
do trabalho sempre foram frágeis. Assim, no Brasil, a desvinculação
da esfera familiar significaria a perda da Última proteção possivel.
Segundo EscoreI:
"No Brasil, onde contingentes populacionais numerosos encon-
traram, ao longo do periodo republicano, grandes obstáculos de in-
serção na esfera produtiva, nunca alcançaram um estatuto de cida-
dania plena e a estrutura familiar se manteve como principal suporte
das relações sociais, limitar o conceito de exclusão social à esfera
do trabalho é, do meu ponto de vista, reduzir as possibilidades de
compreensão do fenômeno" (Escorei, 1998:268).
Neste sentido, para compreender a integração social, faremos uma
rápida abordagem da estrutura familiar, para, em seguida, analisar
as relações sociais em geral. Como é na familia que se dá o início do
processo de socialização, é interessante notar como se estabelece-
ram as relações familiares entre os sujeitos estudados. As entrevis-
tas mostram que eles não cresceram sob uma estrutura familiar tra-
dicional (mãe/pai/filhos) pennanente.
Joelma deixou de ter contato com a mãe após a separação dos
pais, mudando para outra cidade com o pai. Mas depois que o pai
passou a morar com outra mulher, ela deixou de ter contato com ele,
"porque a mulher bebe e eu num gosto de gente que bebe". Assim,
há dez anos não tem ligação com o pai. Por outro lado, passou a
telefonar para a mãe e tem intenção de buscá-Ia quando conseguir
uma moradia definitiva. Mora hoje com seu companheiro, com quem
"se amigou" ("pra dizer a verdade, nunca nem namorei") e o filho
de sete anos. "Aí nós vive lutando esse tempo todinho, graças a Deus.
Nós num briga, nós num tem discussão, nós num tem desunião. O
que um quer, o outro quer. E assim nós vamos levando a vida".
Francisco também não permaneceu muito tempo com os pais.
Aos sete anos, no meio de dez irmàos, foi esco1hido para ir à

214
Capital morar com a avó, para ajudá-Ia nas tarefas domésticas e
fazer companhia. A partir daí passou a transitar constantemente
entre a casa da avó e a da madrinha, na Capital, e a casa de sua
família no interior, onde sua permanência é marcada por confli-
tos familiares. Um irmão, que se estabeleceu em São Paulo, cha-
mou-o para morar lá, mas ele recusou pois "não sou muito ape-
gado à família". Desta forma, nos cinco anos que está no Distrito
Federal não tem qualquer contato com ninguém da familia. Há
dois anos conheceu uma mulher de lrecê (Bahia), com quem ca-
sou (não oficialmente). No entanto, ela mora em lrecê com os
filhos, porque aqui, morando nessas condições, não é lugar para
ela, nas palavras de Francisco.
Para finalizar, Rivaldo é outro que não teve uma estrutura fa-
miliar muito sólida. Depois de algum tempo doente, sua mãe
morre e ele passa a ser criado por uma tia. O pai vai morar com
outra pessoa, com a qual Rivaldo não mantém boas relações e
eles se afastam. Casa-se com uma prima, tem dois filhos e depois
separam-se, o que lhe causa certa desestruturação psicológica e
mesmo pensamentos suicidas. Depois de um tempo em que an-
dou sem muito rumo ("Agora vou ficar que nem um doido"), casa-
se novamente, aos 31 anos, com uma menina de 12, com quem
tem mais dois filhos. Mas ("Num dei sorte na vida"), a nova es-
posa '"acha outro melhor", causando nova separação. Agora, "sumi
no mundo e vivo aqui só, porque não me dou bem com a minha
família". Há três meses falou com os filhos que moram em Aracaju
com os avós. Atualmente está morando com outra mulher, embo-
ra no momento da entrevista ela estivesse viajando, visitando os
filhos (dela) na Bahia.
Parece significativo o fato que todos eles abdicaram
deliberadamente de manter relação ou contato com os pais, sen-
do que só Joelma passou a contatar a mãe. Quando lembram do
pai, remetem a uma figura autoritinia, embora, por outro taao,

215
demonstrem admiração e reconhecimento. Como diz Rivaldo:
"Fui criado em regime da lei do cão". Mas ele também afirma:
"Ele criou todos os cinco irmãos trabalhando. É um cara incrível.
(...) Meu pai foi quem me ensinou a viver". E Francisco: "Se
você disser assim, 'Não, ele nunca me deu condições', você mente.
Porque ele deu: ele foi muito responsável com os filhos dele,
muito e até demais".
Em relação à família constituída, também é interessante notar
que não ocorreram casamentos oficiais, mas 'amigamentos'. Sim-
plesmente passam a dividir o mesmo teto, embora com Francisco
nem isso ocorra, já que sua mulher mora em outra cidade. Com rela-
ção ao Rivaldo, as duas separações o afetaram de maneira bastante
profunda, tendo uma forte ligação com seus constantes deslocamcn-
tos. Todos esses exemplos reforçam a idéia de que as mudanças nas
estruturas familiares e nas práticas relacionais contemporâneas po-
dem contribuir para uma diminuição no grau de integração social,
pelo cnfraquecimento dos laços e da solidariedade familiares.

Vínculos sociais

Pela ótica da socialização, que designa os processos que assegu-


ram a construção das identidades sociais dos indivíduos, é necessá-
rio pcnsar a integração social de maneira mais ampla, saindo do
âmbito familiar para as relações sociais em geral. É neste sentido
que analisamos a constituição de redes de amizade e os contatos
sociais estabelecidos pelos sujeitos de nosso estudo.
Joelma passa a maior parte do tempo em casa ("não saio pra
canto nenhum"). Como sua parte na divisão familiar do trabalho é
separar o lixo que o marido recolheu, ela fica quase sempre restrita
à área do cerrado em que mora. Afirma que, às vezes, vai apenas
para a Vila Planalto, que fica próxima (por volta de 3 km), para
fazer alguma compra, e assim mesmo volta rapidamente, por medo
de deixar o barraco vazio. Seus relacionamentos se restringem às

216
famílias que partílham a mesma área de moradia, além das pessoas
que, por algum motivo, saem da rota do asfalto para percorrer o
caminho de mato e encontrar a invasão. Estas pessoas geralmente se
deslocam até este local por necessídade de trabalho, como os que
vão recolher o lixo que foi separado, pagar aos catadores, além dos
funcionários do governo que precisam dar uma solução para a utili-
zação indevida da área, ora derrubando barracos, ora procurando
soluções. Também circulam pelos cerrados algumas "almas
caridosas" e/ou evangelizadoras. Quanto aos que habitam a mesma
área, embora enfatize a boa relação de vizinhança, Joelma diz não
gostar de "se meter na casa dos outros".
Rivaldo também passa a maior parte de seu tempo em casa, ou
melhor, no seu "quintal" à beira do lago onde estendeu uma rede, na
qual espera seus "clientes" e amigos. E é aqui que ele se diferencia
de Joelma. Se, por um lado, afinna: "Eu não saio para canto ne-
nhum, não conheço Brasília quase nada. Saio daqui só para o co-
mércio ali. Ou senão ali na Rodoviária", em compensação, o "mun-
do" vem até ele. Graças ao meio de sobrevivência que encontrou,
seu espaço de moradia (e trabalho) está sempre cheio de gente. Para
ele, isso se deve a um fato que frisa bastante: tem muita amizade
porque sabe tratar as pessoas. "Estou aqui já há três anos e o pessoal
que você vê por aqui é assim, tudo amizade. Por quê? Porque eu sou
um cara direito, sou honesto, gosto da honestidade. (...) Tá sempre
cheio de gente aqui. Por quê? Não é tanto pelo ambiente, é eu que
trato bem as pessoas". Pessoas de todos os níveis são igualmente
bem recebidas, de mendigo alcoólatra a juiz. ("Pra mim, mendigo é
como se fosse um Sílvio Santos".) São várias as pessoas de alto
nível socioeconômico que usam este espaço como forma de lazer,
pescando e conversando. Há também os que lá vão pescar tentando
conseguir algo para comer mesmo. São pessoas muito pobres que
Rivaldo acolhe e com quem partilha sua refeição - afinal, ele tam-
bhn jit passou fome.

217
Francisco, ao contrário dos outros, afirma conhecer "os bura-
cos de Brasília todinhos". Além disso, demonstra repetidamente o
grande valor que atribui às amizades. Estas duas características
contribuem bastante para potencializar os contatos sociais que es-
tabelece, sem contar a atividade escolhida como meio de sobrevi-
vência. Apesar de não conhecer ninguém quando chegou à cidade,
hoje ele tem um amplo leque de relacionamentos. Estes não se
compõem apenas de outras pessoas que vigiam carros e/ou moram
nas ruas. Como diz: "Peguei muito conhecimento com policiais
daqui. Peguei conhecimento com o pessoal do Corpo de Bombei-
ros. Peguei muito conhecimento aqui. Conheço gente lá do Lago
Norte, como dona v., pessoa excelente, apesar de rica, mas sim-
ples. Ela me via todo sujo, que eu passava por lá e a gente sentava,
sentava na porta dela e conversava. Ela é Testemunha de Jeová,
deve ser por isso...". Esta Última frase, que poderia passar desper-
cebida, parece bastante significativa. O que significariam estas
reticências? Deve ser por isso que uma pessoa rica aceita sentar
para conversar com um morador da rua? Deve ser por isso que ela
não saiu correndo quando o viu?
Mas as pessoas que ele mais conhece ou com quem mais se rela-
ciona são pessoas de Irecê, da Bahia, terra da sua "esposa". É im-
portante lembrar que uma grande parte dos migrantes recentes que
moram nas ruas do DF são provenientes desta cidades.
Além disso, como ele diz na fala em que afinna seu desapego à
família, "Sempre procurei me desprender mais. Procurar novas ami-
zades e fazer delas uma família. Sempre fiz aqui, como essa, Maria,
que eu conheci aqui, como o pessoal na outra ponte que eu conhe-
ci". Esta afinnação tem significado literal: Francisco mora no barra-
co de d. Maria e sua família, pois teve que largar sua Última mora-
dia, a ponte do Bananal, ponto de tráfico de drogas. A convivência
entre eles reproduz os laços de solidariedade de uma família, um
ajudando o outro. Segundo Francisco, tal fato nào e comum entre os

2]8
moradores de rua que, no máximo, aceitam um companheiro para
um pernoite. No caso aqui relatado, ele não apenas mora com a fa-
mília, mas também come, divide as tarefas domésticas, lavando roupa
ou cuidando das crianças, e divide as doações que recebe dos
brasilienses:
"Se eu ganhar algum dinheiro aqui, coloco aí dentro. Tô moran-
do com eles, por isso tem que dividir, entendeu? Eles dividem comi-
go tudo, até a comida dos filhos deles. Às vezes só tem pros filhos
deles, e eles dizem, 'Não, vamos deixar pro Francisco, o Francisco
precisa também'. Deixam pra mim, por que não posso deixar pra
eles? Tem que deixar. E a gente vai levando, né? Por isso que eu
ainda tô com eles, porque eles são pessoas jóias".

Percepção da situação

A maneira como os sujeitos pesquisados percebem sua situação


é um ponto fundamental na análise sobre moradores de rua como
indivíduos socialmente excluídos. Uma questão que é sempre reto-
mada pelos moradores de rua é a necessidade de se diferenciarem
socialmente. Fazem questão de se distinguir tanto do 'mendigo pro-
fissional' que vive somente à custa de esmolas, como dos 'margi-
nais' em geral (principalmente o ladrão ou traficante). Este fato é
atestado por Damon & Firdion (1996) na observação de que cada
morador de rua tende a se diferenciar daquele que considera estar
abaixo dele.
A valorização do trabalho e a afirmação de que não são como os
que vivem apenas da ajuda alheia constituem um ponto consensual
na fala dos três entrevistados. É como Joelma, que enfatiza o fato de
trabalhar desde os sete anos de idade: "Trabalho desde pequenini-
nha. Já amanheceu o dia, era pequenininha mesmo, eu não agüenta-
va". E depois afirma: "O pessoal daqui (do DF) de primeiro ajudava
muito! Logo quando eu cheguei naquele Bandeirante (Núcleo Ban-
de;rante) aE, a gente recebia mais ou menos umas 10 cestas por dia.

219
(...) o povo dava muita roupa, muito calçado, muita cesta básica,
davam direto. Aí era bom. (...) Mas sempre a gente não esperava só
por isso não: a gente trabalhava. Essa família nossa, graças a Deus,
aonde nós chega é só para trabalhar. Não fiquemos abusando de
ninguém não".
O mesmo discurso é repetido por Rivaldo, outro que teve de tra-
balhar na infância. Aos doze anos já estava 'pegando na enxada'.
Após anos de trajetória profissional, passou a trabalhar na constru-
ção civil, onde construiu uma identidade social, hoje ameaçada em
função do seu afastamento do mercado de trabalho: "Eu sou eletri-
cista. Hoje não sou caramba nenhuma, não sou nada. Mas eu sou
pro fiss ional".
Apesar de perceber sua situação atual como um claro declínio de
status social, ainda tem necessidade de afirmar a dignidade de seu
meio de vida como fruto do próprio esforço:
"É melhor do que eu ter que ir lá pedir aos outros, me humilhan-
do. A humilhação é a pior coisa, eu odeio humilhação, sabe como é?
Quando o cara chega num restaurante, 'Moço, me dê uma coisa as-
sim'. E o cara, 'Ah, vai trabalhar". (...) Num gosto de pedir. (...) Eu
pedir pra você um real pra comprar um pão e eu saber que você tá
com dinheiro e você, 'Não, num tenho não'. Isso me deixa triste,
sabendo que eu tô com fome, tô precisando comer e vou pedir a
você, você tem... Aquilo é mesmo que me dar um soco na cara e me
derrubar no chão. Por isso eu num peço de jeito nenhum. Só quando
eu tava morrendo de fome, lá em Garanhuns. Eu tava me tremendo
de fome, todinho. Tava com quase dois dias sem comer, já. Aí tem
que pedir mesmo. Roubar num vou, vou pedir".
Por fim, Francisco também cresceu sob a regra de valorização
do trabalho, repetida tanto pelo pai como pela avó. Sua situação
difere um pouco porque ele não trabalhou fora. Entretanto, saiu de
sua casa, da convivência com seus pais e irmãos para "ajudar" a
avó na capital, o que não deixa de ser uma forma de trabalho: o

220
trabalho doméstico, que, afinal, foi o que fez quando teve que tra-
balhar "fora".
"Era sempre que desde pequeno tinha que trabalhar, entendeu?
Eu sempre trabalhei desde pequeno, quer dizer eu num trabalhava
fora, mas dentro de casa eu trabalhava. (...) Que minha vó era assim:
você tinha que aprender tudo pra quando algum dia você precisasse,
você num tava impedindo nem atrofiando ninguém".
A especialização em cozinha, e depois, cozinha francesa, é moti-
vo de grande orgulho para Francisco, reafirmando a importância do
trabalho como estruturador da identidade social. É neste sentido que
percebe sua situação atual como "ridícula", apesar de tentar colocá-
Ia como uma "lição de vida":
"Se eu tô vivendo isso, eu digo, 'Não, é uma lição'. Já coloco
isso na frente porque se for parar pra pensar eu vou enlouquecer.
Vou pular lá de cima. Porque tem gente que se desespera quando se
encontra numa situação dessas. Principalmente como eu, que já vivi
páginas bonitas na minha vida".
Como os outros, Francisco entra em algumas contradições em
relação às freqüentes, porém, controvertidas, doações da população
brasiliense. Talvez pela ambigüidade de sua posição: ao mesmo tem-
po em que é percebido como pertencente a um segmento geral dos
moradores de rua (que, mesmo que seja esporadicamente, vive com
doações alheias), procura se diferenciar desta massa afirmando o
valor do trabalho, calcado em seu meio de sobrevivência oficial como
vigia de carros e em seu passado profissional sempre colocado em
destaque e como projeto futuro. É como um complexo jogo de iden-
tificação e diferenciação com a população de rua em geral, aqui par-
ticularmente os que vivem de esmolas. Por um lado, ele afirma que
se fosse rico nunca daria algo para alguém que morasse embaixo da
ponte, porque: "muita gente tá aí debaixo da ponte, mas eles não
precisam não, num precisam mesmo. É só pra pegar coisa pra poder
vender. mes fazem comerCIOmesmo. MUitos, e pra se drogar". Mas,

221
por outro lado, critica o serviço social que procura retirar essas mes-
mas pessoas da rua e exalta a generosidade do brasiliense, em com-
paração aos nordestinos:
"Aqui é uma cidade que você tem de lutar bastante. Acontece
essa coisa de dinheiro fácil, também. Às vezes você tem sorte em
arrumar alguém, como vigiando um carro mesmo, alguém que dá
R$ 10, R$ 15, R$ 20, até dá mais, né? (...) É legal, acontece muitos
lances muito bonitos aqui, entendeu? Às vezes o pessoal do Centro
Espirita, agora mesmo, nesse período agora, eles vêm com envelo-
pes assim, com RS 100, R$ 200, e eles dá, a cada um, um envelope.
Eles ajudam muito".
A relação morador de rua/marginal também aparece de maneira
muito clara nos depoimentos dos entrevistados, assim como o incô-
modo advindo de tal situação. A população, em geral, e a polícia,
em particular, são os sujeitos comuns desta "confusão", atribuindo
ao primeiro (morador de rua) o status do segundo (marginal), no
sentido de indivíduo delinqÜente, que vive à margem das leis.
A representação do indivíduo sem domicílio fixo ou convencio-
nal como marginal-delinqÜente é mostrada de maneira bastante ex-
plícita por Francisco, tanto pelos homens da lei como pela socieda-
de. Sua experiência com a polícia começa com o período em que
morou na ponte do Bananal, que se transformou em um ponto de
tráfico de drogas. Sendo um local conhecido, são realizadas batidas
policiais freqÜentes, em que o método de investigação baseia-se,
muitas vezes, na força física.
"A primeira vez que eu apanhei da polícia foi aqui. Você se sente
até, num sei se é humilhado... Um marginalizado, entendeu'l Acho
que é muito mais marginalizado, porque eles não sabem que é. Eles
espancam demais."
Agora que saiu da área de risco, para não acabar "pagando pelos
outros", ainda tem que passar por constrangimentos constantes de
ser vislo como marginal na sua área de trabalho:

222
vesso. Eu faço alguma coisa, tenho que sair dali da frente dela, para
ela não pensar que eu sou um marginal".

Exclusão social?
Pode-se perceber, com as trajetórias descritas, pessoas que não
conseguiram integrar-se ao mundo do trabalho fonnal e por isso fo-
ram procurando outros meios de sobrevivência, até chegar ao ponto
de catar lixo, vender isca de peixe, vigiar carro, tudo isso na rua.
Além de ser um espaço de abrigo, em todos os casos, a rua também
é fonte de sobrevivência. O espaço de morar é o mesmo de traba-
lhar, o espaço de produção e de reprodução.
Mas isso significa que eles são excluídos? Se, por um lado, fo-
ram expulsos do mercado de trabalho formal, eles conseguem uma
precária sobrevívência por outros meios. E a integração social? Cu-
riosamente, todos têm histórico de desagregação familiar, além de
não manterem ligação com a família de origem. Embora isto não
seja regra para o estabelecimento de um processo de exclusão, é
sabido que a vinculação familiar proporciona uma rede de solidari-
edade que, de certa forma, protege o indivíduo. Em se tratando de
relações mais amplas, restabelecem um vínculo social do tipo co-
munitário, restritas a um grupo, que não se generaliza para toda a
sociedade. São claramente vistos pelos outros segmentos sociais
como transgressores de uma ordem socialmente dada de organiza-
ção do espaço.
O morador de rua contemporâneo transformou-se em sujeito
emblemático da categoria de exclusão social. Reúne uma série de
características significativas, como a ausência de um domicílio fixo,
afastamento do mercado de trabalho e - intensamente imbricado
aos fatores anteriores - um certo distanciamento social e uma ima-
gem negativa de si. Todas essas características se interligam: o tra-
balho é produtor de uma identidade social e de uma rede de relações
sociais, além de suprir as necessidades econômicas; a casa toma-se

224
um quadro de referência territorial e pennite as relações de vizi-
nhança, além do acesso à cidadania (pois a referência domiciliar é
necessária até para a obtenção de documentos de identidade); por
outro lado, a moradia em espaço público toma visível o que origi-
nalmente estaria restrito ao privado, além de colocar a miséria em
primeiro plano nas áreas mais nobres e centrais da cidade, o que,
por sua vez, causa incômodo e medo na sociedade em geral.
Com tudo isso podemos afirmar que o indivíduo entra em um
processo de exclusão social, reforçado pela imagem que se produz
do morador de rua ligado à violência e à criminalidade. Esta associa-
ção é realizada não só pelos meios de comunicação de massa, como
também é construída cotidianamente, pelo estigma que sofre o
catador de lixo, a suspeita que recai sobre o 'flanelinha' e a necessi-
dade do morador de rua em se afirmar como trabalhador honesto,
para não ser visto como marginal, ou ser confundido com um bandi-
do perigoso.
Tal imagem pode ser atestada por uma pesquisa(' realizada entre
1995-1996, com o objetivo de compreender a cultura política da
população de mais alta renda de Brasília. Entre as questões feitas,
várias remetiam à relação com a alteridade, entre as quais o mora-
dor de rua, nas figuras do mendigo e do menino de rua. Concluiu-se
que a imagem do excluído social toma-se mais palpável quando as-
sume tal grau de visibilidade. Neste sentido, os brasilienses não ad-
mitem que a existência de mendigos seja causada pelo problema do
desemprego e outras causas sociais mais amplas, o que implicaria a
idéia de que estes não trabalham por preguiça ou outra razão indivi-
dual. A imagem da criança de rua reafirma a materialização da ame-
aça e o incômodo causado na sociedade, o que pode significar a
semente da construção de uma representação social do excluído como
pengoso.
Mas a representação que a sociedade produz sobre o morador
de rua constitui-se de forma bastante contraditória. Se, por um

225
lado, há uma grande quantidade de pessoas que vê esta categoria
como uma afronta à ordem social, exigindo medidas punitivas
por parte do poder pÚblico, há também muitos que percebem o
indivíduo sem domicílio fixo como vítima de uma situação que
procuram amenizar com a distribuição de alimentos, roupas e
dinheiro. Esta atitude é criticada pelos próprios sujeitos entre-
vistados que reconhecem que muitos moradores de rua fazem
comércio de sua situação, existindo mesmo os que montam uma
barraquinha de dia para receber doações e voltam para suas casas
à noite.
Cada um dos moradores de rua entrevistados seguiu uma traje-
tória diferente, com experiências e percepções distintas, mas suas
trajetórias se assemelham ao trilhar rumo ao processo de exclusão
social. A vida nas ruas do Distrito Federal é uma realidade para
Rivaldo há três anos, para Francisco há cinco, e para Joelma isso já
é fato há mais ou menos oito anos, com algumas interrupções. Ape-
sar de todos os três terem encontrado alguma estratégia de sobrevi-
vência e, de alguma forma, terem se acostumado com o modo de
vida nas ruas, isto não significa absolutamente que eles estejam sa-
tisfeitos com sua situação, sem procurar alternativas. Tanto é assim,
que os dois últimos têm projetos factíveis de um futuro melhor. Já o
primeiro, embora seja o que menos tempo acumulou de moradia nas
ruas, parece mais resignado com sua atual existência, apesar de, às
vezes, entrar em contradição na sua tentativa de racionalizar seu
discurso com seu status quo.
O que não pode ser esquecido é a visão da exclusão como um
processo, e não estado. Assim, o excluído é um indivíduo que pas-
sa por uma condição de precarização, mas não há como dizer que
seja um excluído absoluto, pois de alguma forma, mesmo por meio
de muito esforço, será possível encontrar algum tipo de inserção
social, a não ser que se chegue ao extremo da eliminação física
destas pessoas (ou que seja um eremita, completamente isolado).

226
Isso reforça a concepção da exclusão social como processo de rup-
turas e não como fato constituído. Também é importante lembrar
que, sendo um processo ao qual se pode chegar, essas pessoas tam-
bém podem sair dele, embora este segundo movimento se confi-
gure de forma mais difícil que o primeiro.

227
Referências bibliográficas

BURSZTYN, M.; 1\RAÚJO, C. H. Da utopia à exclusão - vivendo lUIS n/os


em Brasília. Rio de Janeiro: Garamond; Brasilia: Codeplan, 1997, 111p.
D1\MON, 1.; FIRDION, 1.M. Vivre dans Ia rue: Ia question SDF. In: P1\UG1\M,
S. (org.). L 'exclusion - L 'état des sovoirs. Paris: La Déeouverte, 1996,583
r., r. 374-386
DUBAR, C. Socialisation et processus. In: PAUGAM, S. (org.). L 'exclusiol/
L 'état des sovoirs. Paris: La Découverte, 1996, p. 111-119.
ESCOREL, S. Vidas ao léu: uma etnografia da exclusão social. Brasilia: De-
partamento de Sociologia, Universidade de Brasilia, 1998, 293 p. Tese de
Doutorado.
FITOUSSI, J. P.; ROS1\NVALLON, P. Le nouvel âge des inégalités. Paris:
Seuil, 1996, 240r.
N1\SCIMENTO, E. P. do. Hipóteses sobre a nova exclusão social: dos exclui-
dos nccessários aos excluídos desnecessários. Cadernos CRH, Salvador,
n.2I,p.29-47,1994.
. A cxclusão social na França e no Brasil: situaçõcs (aparente-
mente) invertidas, resultados (quase) similares? In: DINIZ, E.; LOPES,
1.: PR1\NDI, R. (orgs.). O Brasil no rastro da crise. São Paulo: ANPOCS/
Hucitec/IPEA, 1994, p. 289-303.
P1\UG1\M, S. Introductlon -
Ia constitution d'un paradigme. In: P1\UGAM, S.
(org.). L 'Exc/usion -
I 'état des savoirs. Paris: La Découverte, 199Ó,
r. 7-19.
SCHN1\PPER, D. Intégration et cxclusion dans les sociétés modcrncs. In:
P1\UGAM, S. (org.). L 'Exclusiol/ - I'état des savoirs. Paris: La Découvertc,
1996, p. 23-3 I.
YÉPEZ DEL CASTILLO, 1. A comparativc approach to social cxc1usion:
Icssons from Francc and Belgium. The Internatiol/a! Labour Review, v.
133, n. 5/6, p. 613-634, 1994.

228
Natas

1 Como afirma Paugam: "Não se trata mais de designar um ou mais grupos sociais carac-
terizados por uma exclusão de fato, mas sobretudo de sublinhar a existência de pro-
cessos que podem conduzir a essas situações extremas. Para chegar a essa aborda-
gem, fOIpreciso retomar para a análise das situações precárias e ver ai a origem da
exclusão ou ao menos uma de suas causas essenciais" (Paugam, 1996:15) (Tradu-
ção da autora).
2 Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar sua identidade.
3 Vegetação típica do Planalto Central onde se localiza o Distrito Federal, mas aqui é a
maneira como os próprios moradores de rua chamam o local onde montam suas bar-
racas/barracos, geralmente um local mais afastado, cercado por mato.
4 Na época, 1 real correspondia a aproximadamente 90 centavos de dólar
5 Como demonstra a pesquisa realizada por Bursztyn & AraúJo (1997:64-65): "DoIs muni-
cípios balanos se destacaram, na amostra pesquisada, como procedência dos
migrantes: Irecê e Barreiras. Nada menos de 25% vêm destas localidades. Isso per-
mite infenr que, diferentemente das outras metrópoles brasileiras, cujos migrantes de
baixa renda vêm de toda parte, em Brasília é possível identificar pólos de origem"
6 "Cultura e Política no Brasil: Personalidade Autoritária e Exclusão Social. Um Estudo
Comparativo - Brasilia e Recife", realizado sob coordenação geral de Elimar Pinheiro
do Nascimento. Aqui, utilizamos apenas os dados da etapa da pesquisa que analisa a
área de Brasilia, realizada em conjunto com Maria Zélia Barba Rocha, Danlelli Jatobá
Franca, Lara Rodngues e Tanía Ludmila Dias Tosta

229
8

Vira-mundos e "rola-bostas"l
M/\RCEL BURSZTYN

Ainda viro esse lIIundo


1'11I festa, /mhalho e pâo.
Gilberto Gil & 1. C. Capinam

Os recenseamentos nacionais são importantes instrumentos, que


nos ajudam a melhor conhecer nossa realidade. Retratam o estado
da população e da economia. Como os anteriores, o censo
demográfico realizado em 1991 contribuiu para que pesquisadores
e jornalistas descobrissem traços pouco conhecidos de nosso país.
Nos Últimos anos, ficamos conhecendo um personagem que dei-
xou a opinião pÚblica brasileira desconcertada: o llOmem-gahiru:.
Trata-se de um sertanejo pequeno e franzino. Trabalhador e resigna-
do diante das adversidades de seu dia-a-dia, esse brasileiro se habi-
tuou a comer pouco, a ter uma dieta alimentar pobre em proteínas.
Resistente, ele não hesita em buscar na rara fauna e flora do sertão
nordestino seu alimento. Come calango e palma forrageira, quando
há. O poeta João Cabral de MeIo Neto, em Morte e Vida Severina, já
havia, mesmo antes da "descoberta" do homem-gahiru, descrito sua
dit1cil sobrevivência:
... Comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trahalhw:
Quantos são os brasileiros gabirus, não sabemos muito bem. Mas
eles foram, certamente, contados no Último censo, pois têm endere-
ço fixo'-

230
Os anos 1990 trouxeram também à cena um novo personagem,
que já existia antes, mas em escala bem reduzida. São os
"perambulantes", vira-mundos, pessoas desterradas e sem vinculo
com locais fixos. São brasileiros que não entram nas estatísticas e
nas contagens demográficas, mas que são cada vez mais visíveis,
vagando pelas estradas ou circulando pelas cidades. Sobrevivem
da caridade ou de trabalhos eventuais, geralmente em atividades
informais. São flanelinhas, catadores de papel e de latas, mendi-
gos. Vivem sob as pontes e marquises, em barracas de lona plásti-
ca, em albergues pÚblicos, ou ao relento. Nunca ficam muito tem-
po no mesmo local. Quando estão nas cidades, são vistos como
seres estranhos pela população. O poder pÚblico não sabe como
lidar com eles. A prática mais comum dos organismos governa-
mentais encarregados de tratar desse assunto tem sido a de forne-
cer passagens de ônibus para outra localidade, procedimento que
re!roalimenta o ciclo interminável de perambulação. Não sabendo
como resolver o problema, uma atitude governamental também
comum tem sido a omissão.
A busca de entendimento das mazelas originárias da ausência de
enfrentamento de problemas sociais que, normalmente, exigem um
Estado forte e atuante, levou à realização de uma série de pesquisas
com migrantes que vivem nas ruas de Brasília. Os resultados foram
eloqÜentes. Serviram para esclarecer as características da popula-
ção de rua e, mais adiante, em confronto com outros estudos realiza-
dos cm contextos diferenciados, permitiram que se percebessem as
particularidades do caso da Capital do país.
A análise que se segue enfoca o quadro atual que caracteriza c
condiciona a vida das populações de rua, a partir do entendimento
das novas configurações das migrações campo-cídade, demonstnll1-
do como velhas formas "marginais" de trabalho urbano vão perden-
do cspaço para novas estratégias de sobrevivência, cada vez mais
desvinculadas de nossa sociedade. As novas configurações do tra-

231
balho nas ruas apontam para um interessante paradoxo. Por um lado,
as populações de rua vão sendo exclui das do modo de vida
institucionalizado das cidades, que lhes fecham as portas às possibi-
lidades de prestação de serviços em nível doméstico ("biscates");
por outro, nas franjas do mercado, um importante "serviço" passa a
scr provido pelos moradores das ruas: o reaproveitamento de mate-
riais recicláveis despejados no lixo, que alimenta um crescente seg-
mento da economia urbana e cumpre uma relevante função ambiental
na ecologia das cidades.

Brasílía, terra de migrantes... e de excluídos


Desde o início de sua construção, ainda nos anos 1950, a nova
Capital tornou-se uma referência às rotas migratórias nacionais.
Grandes levas de trabalhadores -- os candangos -- a11uíram para a
construção da cidade, instalando-se nos canteiros de obras e dan-
do origem ás primeiras cidades-satélites. Grande parte dos
candangos permaneceu no DF, mesmo depois da fase mais intensa
de construção.
Ficou, portanto, marcada no processo de ocupação da cidade a
existência de fortes laços de relações com outros estados: do Nor-
deste (principalmente operários da construção), de Minas Gerais e
de Goiás (estados vizinhos, de onde vieram tanto trabalhadores da
construção civil quanto ex-agricultores que buscavam uma inserção
no meio urbano) e do Rio de Janeiro (funcionários transferidos).
A história de Brasília é também caracterizada por um proces-
so complexo de ocupação do solo. Desde o princípio, tem havido
dificuldade de implementar as regulamentações físico-territoriais,
demonstrando que a realidade é rebelde ao planejamento. Há re-
gistros, no Arquivo PÚblico do DF, de ações institucionalizadas
de promoção do regresso de migrantes aos estados de origem
desde a primeira metade da década de 1960. Já naquela época
preocupava o poder publico a proliferaçào de áreas invadidas por

232
populações migrantes de baixa renda, que buscavam na Capital
Federal alternativas de integração no mundo do trabalho urbano.
Dois elementos serviam, então, de fator de atração: a enorme ofer-
ta de postos de trabalho nas obras de construção civil e a possibi-
lidade de obtenção de emprego no setor público, também em fran-
ca expansão.
As taxas de crescimento da população no DF revelam a inten-
sidade do afluxo de migrantes. Logo na primeira década, o incre-
mento demo gráfico foi da ordem de 285%, ou seja, 14,4% ao ano.
Nos anos 1960, o Distrito Federal teve sua população aumentada
em uma média anual de 8,1%. No período censitário entre 1980 e
1991, quando o ritmo de crescimento urbano nacional já apresen-
tava uma retração, a Capital Federal teve sua população aumenta-
da em 36,06%.
Fica evidente, portanto, que em toda a sua curta história, Brasília
tem crescido bem acima dos índices de crescimento vegetativo, ab-
sorvendo migrantes de outros estados. Mas a dinâmica recente da
economia da Capital - marcada pelo esgotamento do ciclo de em-
pregos na construção civil e no aparelho governamental chama a
~

atenção para uma questão: o que, no Distrito Federal, vem atraindo


os novos migrantes?
Essa indagação serviu de ponto de partida para uma ampla linha
de pesquisa iniciada em 1996 e que se desdobrou em quatro fases
sucessivas de levantamentos4 . A questão originária da referida pes-
quisa era a identificação das motivações dos novos migrantes, em
optarem pela destinação do DF, mesmo sendo evidente o estrangu-
lamento do mercado de trabalho local e inexistindo qualquer possi-
bilidade de se associar a Capital brasileira ao imaginário da oferta
de emprego industrial.
Os dados levantados apontaram para constatações surpreen-
dentes. A mais relevante delas foi a da existência de uma nova
modalidade de migração, não mais centrada na expectativa de

233
assentamento em novo local para a construção de uma nova vida,
mas sim como reflexo de um desterro absoluto. Uma migração
sem rumo e sem fim. Identificou-se, na pesquisa, um contingente
de famílias que passaram a "viver na estrada", deslocando-se de
uma cidade a outra sem qualquer perspectiva de ingresso - mes-
mo que precário - na vida urbana. A esses migrantes chamamos
de "perambulantes".
Mas foi possível também detectar que uma parcela (pequena)
desses "perambulantes" consegue infiltrar-se na vida da cidade, pe-
netrando numa intrincada teia de atividades que, embora marginais,
são de utilidade a um sistema econômico complexo, que se desdo-
bra ora em serviços pessoais (lavadores e guardadores de carros),
ora em atividades subsidiárias à produção industrial (reciclagem de
materiais, com destaque para o papel).
Embora seja uma terra de migrantes, Brasília hoje apresenta ca-
racterísticas econômicas que a colocam em posição similar à das
demais metrópoles brasileiras, no tocante à atratividade exercida pelo
mercado de trabalho. A diferença é que, diferentemente das demais
cidades, a Capital do país não possui uma base econômica industrial
que sirva de referência aos migrantes. Entretanto, a situação da po-
pulação de rua no DF revela particularidades, quando comparada a
outras grandes cidades brasileiras.
Como atores econômicos, os moradores das ruas podem chegar
a se inserir em circuitos oficiais de mercado, como é o caso dos que
catam latas de alumínio, papel e metais, que são vendidos a
"atravessadores" que, por sua vez, fornecem matérias-primas a in-
dústrias de reciclagem. Esse tipo de atividade, que em Brasília tem
importante papel como empregador de moradores de rua (a quase
totalidade dos que permanecem na cidade sobrevive, pelo menos
em parte, graças à cata de materiais recicláveis no lixo) é, no entan-
to, de menor relevância relativa em outras capitais. De acordo com
dados de pesquisa realizada pela PUCJRS em Porto Alegre, no ano

234
de 1995, citados por Escorei (1998),48,5% de uma amostra de 222
moradores de rua não exerciam nenhuma atividade produtiva, sen-
do que os demais se dedicavam a expedientes típicos da vida nas
ruas, como a guarda de carros. Apenas 4,55% dos pesquisados viviam
da cata de papel. O mesmo estudo apresenta dados para São Paulo
(46% eram catadores de papel e de latas, em 1995) e para o Rio de
Janeiro (lI % catavam papel, em 1993).
Vale ressaltar que, contrariamente ao enquadramento na cate-
goria de excluídos, que pressupõe a desnecessidade do morador
d:!, ruas, no caso dos catadores trata-se de trabalhadores "úteis".
'"',Il) Úteis, na medida em que o fruto de seu trabalho contribui
para esferas mais amplas do sistema produtivo oficiaP. Se são
111obilizados para a cata é porque, em última instância, tornam
viáveis economias nos custos de produção. Em Brasília, sai mais
em conta para as empresas de reciclagem comprar dos catadores
de papel do que recolher a matéria-prima nos contêineres que
estão dispostos estrategicamente pela cidade com a finalidade
específica de coletar papel. E a explicação está no fato de que o
serviço de cata manual, sobre o qual não incide qualquer vínculo
trabalhista, elimina os custos da separação, na indústria, de resí-
duos nocivos ao processamento (copos de plástico, papel-carbo-
no, grampos).
As particularidades de Brasília, em relação às cidades analisa-
das por Escorei (Rio, São Paulo e Porto Alegre), não se limitam à
importância da cata de materiais recicláveis na geração do susten-
to das famílias que moram nas ruas. Também no que concerne à
origem dessa população há uma grande diferenciação: enquanto
em Brasília a maior parte é de migrantes, particularmente recém-
chegados (72% vindos do Nordeste, em 1996), nas demais cidades
a maioria é nascida nos próprios estados.
Também no que diz respeito ao padrão de estrutura familiar das
populações de rua, Brasília apresenta situação particular. EscoreI

235
(1998: 137) tipifica os moradores das ruas do Rio de Janeiro como
"homens sós, sem convivência permanente com o grupo familiar".
Na Capital Federal, entretanto, a maioria é composta por jovens ca-
sais com filhos (dois terços dos chefes de família ou seus cônjuges
tinham menos de 35 anos, em 1996). Enquanto no Rio e em São
Paulo a condição de moradores de rua resulta, principalmente, da
desagregação familiar, em Brasília o detenninante é o estrangula-
mento das condições de sobrevivência no campo e nas pequenas
cidades do interior.

Expressões da exclusão em Brasília6


Brasilia é uma amostra importante dos contrastes sociais vividos
na sociedade brasileira. A Capital, por muito tempo, foi o simbolo da
modernidade do Brasil, materializando o sonho futurista de JK.
A idealização de Brasília como uma cidade igualitária, organiza-
da e funcional foi transformada pela realidade estrutural de um Bra-
sil de contrastes e historicamente desigual e pelos problemas típicos
do meio urbano, isto é, das cidades modernas. O planejamento urba-
no da Capital idealizou uma cidade eminentemente burocrática, dis-
tante dos conflitos sociais e politicos e, sobretudo, igualitária. Pelo
seu plano urbanístico, a nova Capital expressaria a negação de uma
das expressões mais marcantes do subdesenvolvimento: a pobreza,
expressa em grande desigualdade social.
Entretanto, Brasília exibe hoje os mesmos contrastes
socioeconômicos de qualquer outro grande centro urbano brasilei-
ro. São contrastes vistos e vividos cotidianamente no centro, na pe-
riferia e, em geral, nas ruas da Capital. A realidade social e econô-
mica do Brasil se impôs. O que era para ser apenas uma cidade bu-
rocrática tornou-se uma metrópole, onde a desigualdade e a exclu-
são aumentam substancialmente. A idéia de Brasília como uma ilha
de prosperidade é, hoje, uma vaga referência desprovida de funda-
mento.

236
Diferentes grupos sociais, coesos e altamente característicos, in-
tegram o quadro geral do fenômeno da exclusão social no Distrito
Federal. Como será analisado mais adiante, a população de rua pode
ser estratificada em diferentes grupos, que possuem características
marcantes.
Esses grupos têm traços em comum, como o grau de pobreza, o
convívio com a violência e o baixo nível de escolaridade. Tem, cada
um, fonnas específicas de relacionamento com a cidade, com o tra-
balho, além de formas exclusivas de perceber suas relações com o
espaço urbano e com as políticas públicas. São exemplos típicos de
processos de empobrecimento e de transformação de valores funda-
mentais pela exclusão.
Não são mais os marginais clássicos ou os "pivetes", ou até
mesmo os mendigos como a sociedade acostumou a vê-Ios. São
pessoas que estão intrinsecamente ligadas às transformações no
mundo moderno. A mecanização e a falta de reforma agrária, que
expulsam mão-de-obra do campo, produzem o migrante excluído;
a concentração de renda, o desemprego e a desagregação familiar
produzem as crianças e os adolescentes em situação de rua, ante-
sala do aprendizado da criminalidade. São grupos representativos
das conseqüências singulares do processo de modernização da so-
ciedade brasileira.

Migrantes recentes que vivem nas ruas de Brasília


Em pesquisa (Bursztyn & Araújo, 1997) que teve como objetivo
investigar as características da população de rua no Distrito Federal,
ficou evidente a grande correlação entre as condições de morador
de rua e migrante. O estudo buscava entender as razões de migração
para o Distrito Federal e como estes migrantes pobres e sem-teto
percebiam suas relações com o Estado.
Ao serem pesquisadas 150 famílias migrantes que vivem nas ruas
e que chegaram há menos de 18 meses no Distrito Pederal, foi pos-

237
sível constatar, entre outros aspectos, que 98% dos chefes dessas
famílías estavam desempregados e viviam fundamentalmente de catar
papel e outros materiais no lixo, pedir esmolas e de pequenos servi-
ços não qualificados.
Em suas últimas procedências, 50% dos entrevistados ganhavam
menos de um salário mínimo e 21% ganhavam entre um e dois salá-
rios mínimos. Mais de 70% vieram do Nordeste brasileiro e alegam
que migraram porque estavam passando fome e desempregados. Um
terço desses migrantes morava anteriormente no campo e o restante
já habitava espaços urbanos, apesar de quase todos terem origens
rurais.
Pela pesquisa foi possível constatar que 43% já tinham passado
pelo Distrito Federal pelo menos uma vez e que, desses, 11% já
tinham estado em Brasílía mais de quatro vezes. Nada menos de
87% deles chegaram a Brasília a pé ou de carona, depois de longas
viagens, com inúmeras paradas pelo caminho. Foram parar nas ruas
por não terem referências de parentes ou amigos estabelecidos em
domicílio oficial (80% não sabiam onde iriam morar ao chegar ao
DF). Uma vez ingressando na cidade, acabaram encontrando algu-
ma forma de engajamento econômico (catadores), ou descobriram
as redes de sobrevivência (mendicância ou caridade), caso contrá-
rio, continuariam sua trajetória de migração, seguindo outros ru-
mos.
Apesar da péssima qualidade de vida a que têm acesso no Distri-
to Federal, 80% alegam que suas vidas melhoram, pois Brasília ofe-
rece, em termos de estratégia de sobrevivência, maiores possibilida-
des. Muitos, 88%, afin11aram que em Brasília não passavam fome,
pois, por meio da coleta de material reciclável e da mendicância,
obtinham renda suficiente para as suas necessidades básicas.
A pesquisa mostrou como esta população vivia anteriormen-
te, em sua Última procedência ou cidade de origem, seus relacio-
namentos sociais basicos e sua visào do Estado como provedor.

238
De forma invariável, os novos migrantes que estavam nas ruas
dispunham de melhores condições habitacionais em suas locali-
dades de origem (60% moravam em casa de alvenaria, 69% dis-
punham de energia elétrica, apenas 8% viviam anteriormente sob
teto de lona plástica ou papelão, condição em que estavam vi-
vendo em Brasilia). Sua migração não se deu, portanto, pela bus-
ca de moradia, mas sim pela busca da sobrevivência (embora a
expectativa de ganhar lote ou obter uma casa estivesse presente
no imaginário de boa parte dos entrevistados): 85% alegam que
migraram por estarem passando fome; 78% não tinham emprego
fixo na origem.
A pesquisa permitiu identificar, também, que os migrantes que
viviam nas ruas de Brasília guardavam ainda fortes vínculos cultu-
rais e de parentesco com suas origens. Não poderiam ser considera-
dos, nesse sentido, como moradores crônicos de rua, como é o caso
mais freqÜente em outras grandes cidades brasileíras. A pesquisa
realizada em 1999 aponta que apenas 10% dos migrantes que esta-
vam vivendo nas ruas de Brasíliajá eram moradores de rua nas suas
localidades de origem.

Tipologia da população de rua


A população de rua de Brasilia pode ser típificada segundo dife-
rentes categorias. São grupos característícos, que podem ser encon-
trados em outras cidades, ainda que em proporções diferenciadas.
Cada uma das categorias analisadas tem traços bem partículares,
diferenciando-se pela sua relação com o trabalho, estratégias de sub-
sistência, vinculações sociais, expectativas e visão de mundo. As
pesquisas realizadas junto à população de rua da cidade permitem a
diferenciação de 12 grupos: 7

·Catadores de lixo seco - constituem o grupo mais bem-sucedi-


do economicamente entre as populayõvs dv rua. Desempenham uma
atividade que se integra ao circuito econômico oficial da cidade, na

239
medida em que fornecem matéria-prima a indústrias. Vivem geral-
mente em agrupamentos de barracas de lona plástica, muito próxi-
mo da zona central, de onde coletam lixo seco (sobretudo papel). Os
organismos públicos e atividades de serviço são os maiores manan-
ciais de papel. O comércio contribui com papelão de embalagens.
Em média, o rendimento dessas famílias está entre 2,5 e 3 salários
mínimos. A quantidade de membros de cada família em idade de
trabalho (geralmente acima dos dez anos) é um fator importante para
o nível de rendimento. Possuir carroça e animal de tração (cavalo) é
uma condição necessária à atividade de cata de lixo seco. Comple-
mentarmente ao papel e ao papelão, esses trabalhadores também se
dedicam à cata de latas de alumínio, metais, vidro e plástico. Mais
de 90% de sua renda provêm do papel. Cerca de 150 famílias vivem
da cata do papel dos lixos dos ministérios e do poder legislativo.
Estima-se em 1.500 o número de famílias que vivem da coleta de
lixo em Brasília.

· Trabalhadores de rua (flanelinhas) - como em qualquer ci-


dade brasileira de grande porte, cuidar de carros nos estaciona-
mentos públicos é uma atividade que mantém uma parcela consi-
derável da população (de rua e mesmo estabelecida). A maior par-
te dosflanelinhas de Brasília vive em alguma cidade periférica ao
centro da cidade, em loteamentos ou em áreas invadidas. São, nes-
se sentido, trabalhadores que se deslocam de casa para o local de
trabalho. Mas cuidar de carros é também uma das atividades que
compõem a cesta de ocupações que asseguram a subsistência dos
moradores de rua.

· Albergados - o governo do Distrito Federal possui uma casa-


albergue, onde são instalados, provisoriamente, moradores de rua
ou famílias pobres que chegam à cidade sem qualquer ponto de
referência para acolhimento. Na maioria dos casos, os albergados
são pessoas removidas de áreas publicas (sob pontes e viadutos,

240
jardins etc.) e que devem ser "devolvidas" a seus estados de ori-
gem. É importante assinalar que, para a população de rua, o alber-
gue é a pior das opções: preferem viver sob uma lona plástica do
que nas péssimas condições do alojamento público. Além disso,
todos afirmam que a condição de albergado é incompatível com a
cata do lixo e é associada a um estigma que impede aqueles que se
valem desse endereço como referência de conseguir emprego. Os-
cila entre 50 e 80 o número de famílias instaladas no albergue pú-
blico do Distrito Federal.
. Catadores nômades - na medida em que a lata de alumínio
foi-se tornando valorizada no mercado de reciclagem, o interesse
por este produto, por parte de catadores, aumentou. Assim, surgiu
um grupo de famílias que passou a se especializar em seguir os
eventos onde há grande consumo de refrigerantes e cerveja (jogos,
feiras, festas populares). São famílias estruturadas que se instalam
junto aos locais dos eventos, em tendas de lona plástica. Ali, orga-
nizam-se para as várias atividades (domésticas e geração de ren-
da). Alguns se dedicam a cuidar de carros nos estacionamentos;
outros, colocam-se em locais estratégicos para a coleta de latas;
crianças praticam a mendicância; as mulheres mais velhas penna-
necem nas barracas, cuidando dos pequenos, como se fosse uma
espécie de creche improvisada. Permanecem ali enquanto dura o
evento (no caso de feiras e exposições, principalmente). Depois,
deslocam-se para outro local, onde haja multidões, carros e latas.
Entre um evento e outro, podem regressar a suas casas, quase sem-
pre em alguma invasão distante do centro da cidade. Nas segun-
das-feiras, é comum os catadores nômades vasculharem o lixo das
residências de classe alta, antes da chegada do caminhão da coleta
pública, em busca das latas das festas e dos churrascos do final de
semana.

· Sem-lixo e sem-teto, mais ou menos sedentários - parte dos


moradores de rua pode facilmente ser encontrada em locais pre-

241
visíveis. Há famílias que permanecem por longo período sob pon-
tes e viadutos, ou em outros locais públicos e que, quando são
removidas por ação governamental, logo regressam ao mesmo
local. Alguns têm ocupação econômica, como é o caso dos ven-
dedores de boró, uma larva retirada da terra, que serve de isca
aos pescadores que freqÜentam a orla do lago Paranoá. Outros
preferem a comodidade de estarem instalados em local de grande
circulação e visibilidade, que lhes assegura um permanente rece-
bimento de doações de víveres e de roupas por parte da popula-
ção oficial da cidade. Como alegam, "Brasília é um bom lugar
porque seu povo é generoso". 77% dos migrantes moradores de
rua entrevistados em 1999 afirmam que Brasília é um bom lugar
para se obter algum rendimento e porque é uma cidade onde não
se passa fome. Por não disporem de capital para adquirir uma
carroça e um cavalo, os integrantes desse grupo não conseguem
ingressar na categoria dos catadores de lixo seco, que estão num
estágio superior na hierarquia social dos moradores de rua. Nes-
se sentido, são sem-lixo.

· Sem-lixo e sem-teto errantes - como os integrantes


acima, estes moradores de rua também não ascenderam à condição de
do grupo

catadores de lixo. A maior diferença funcional é seu caráter errante.


Vagam pela cidade, movidos por decisões que parecem não obedecer
a critérios muito previsíveis. São mendigos, pessoas socialmente
desvinculadas, com os laços familiares rompidos, às vezes com dis-
tÚrbios mentais. Vivem da caridade pública e são ajudados,
episodieamente, pela ação de grupos religiosos. Nesse sentido, mes-
mo na condição de errantes, conhecem os locais onde podem obter
algum auxílio: a distribuição de sopa pelos católicos, os agasalhos das
associações de senhoras caridosas, os mantimentos dos espíritas.

· Catadores complementares - trata-se de uma categoria não pro-


priamente formada por moradores de rua, mas que concorre com

242
estes na coleta de materiais recicláveis. São pessoas que circulam
pelas ruas da cidade, vasculhando latas de lixo, principalmente jun-
to aos grandes supermercados, ao final do dia. Dali, recolhem man-
timentos descartados (sobretudo frutas e legumes deteriorados), que
servem na alimentação da família. Muitos deles são até mesmo em-
pregados oficialmente e, antes de embarcarem de volta para casa,
procuram latas de alumínio nas latas de lixo junto aos pontos de
ônibus. A renda da coleta de latas pode ajudar a pagar a passagem.
. Andarilhos - nesta categoria estão incluídos aqueles que pas-
sam pela cidade sem estabelecer qualquer vínculo de permanência.
Historicamente, são pessoas que, por alguma razão (que pode ser
emocional) se tornaram desterradas e vagam pelo pais. Nas pesqui-
sas realizadas em Brasília, foram encontradas, inclusive, pessoas
que já estiveram além das fronteiras nacionais. Esses andarilhos tra-
dicionais geralmente não buscam trabalho: sobrevivem de doações
e, às vezes, de transgressões (furtos, tráfico de drogas). Recente-
mente, um novo contingente se juntou à categoria de andarilhos: são
ainda desterrados, que não encontraram vínculos com a cidade, mas
são constituídos por famílias estruturadas e buscam uma via de en-
trada na vida urbana ou no mercado de trabalho. Estes são os novos
"perambulantes", vira-mundos, que passam pelas cidades, como
passam pelas estradas, em busca de um porto seguro. Geralmentc,
se instalam nas franjas do centro da cidade, no limite entre as estra-
das, que os trouxeram a Brasília, e as avenidas, que nem sempre os
levam a integrar-se na vida urbana.

· Pivetes - sob esta denominação incluímos os menores (crian-


ças e adolescentes) que se encontram em situação de rua. Muitos
deles passam parte da semana nas ruas, mas têm família, instalada
em algum endereço, com a qual mantêm vínculos. De acordo com
pesquisa (Araújo e Reis, 1996) efetuada junto a 892 crianças e ado-
lescentes em situação de rua na faixa etária de 7 a 18 anos incomple-

243
tos, entrevistados no centro da Capital, a maior parte destes está nas
ruas à procura de renda. Do universo pesquisado, a grande maioria,
89,3%, é do sexo masculino. 19,5% dos entrevistados são crianças
de 7 a 12 anos incompletos; 80,5% são adolescentes de 12 a 18 in-
completos. Os dados obtidos revelam que cerca de um terço das
crianças e adolescentes em situação de rua do Distrito Federal é cons-
tituído por migrantes recentes. E mais da metade não nasceu no Dis-
trito Federal. Há, portanto, uma forte correlação entre as condições
de migrante e de criança em situação de rua. 88,8% dos menores
pesquisados afirmaram morar com a família e 80,4% alegaram não
ter nenhum tipo de problema de relacionamento com algum mem-
bro de suas famílias; 64, I% declararam que o pai, a mãe ou ambos
trabalham. Do total do universo pesquisado, 22,4% vão para as ruas
todos os dias e 2,6% apenas um dia por semana. Mais de 80% decla-
raram ir para as ruas à procura de trabalho. 82,7% disseram que
pretendem sair das ruas e que, para isso, é necessário que arrumem
um emprego ou alguma outra fonte de renda. Das crianças e adoles-
centes que trabalham nas ruas, 70,5% ganhavam até 15 reais por dia
(cerca de 15 dólares). 5 I% dos entrevistados declararam que estão
estudando, sendo que desses, 61,7% têm até a 4a série do 10 grau
(35,5% têm da 5" à 8" série do 10grau). A pesquisa mostra, grosso
modo, um novo perfil dos chamados meninos e meninas de rua. O
caráter de marginalidade atribuído sempre às crianças e adolescen-
tes de rua mostra-se equivocado. São menores que precisam com-
pletar a renda de suas famílias.

· Foras-da-/ei - dentre os moradores de rua são encontrados


bém indivíduos que se valem da impessoalidade dos espaços públi-
tam-

cos para esconder sua condição irregular perante a lei. A situação


dos moradores de rua é normalmente precária, do ponto de vista da
documentação; apenas 65% da amostra de 249 famílias estudadas
em 1999 possuem carteira de identidade; os demais alegam que
perderam seus papéis ou que estes foram roubados. 24% dos adultos

244
entrevistados não possuem certidão de nascimento. É impossível à
polícia exigir documentação dessa população. Assim, as ruas são
também um bom lugar para acobertar foragidos e mesmo homens
que, separados de suas mulheres, preferem o anonimato da rua à
obrigação de pagar pensão. Pela própria característica desse grupo,
é difícil precisar o número de seus membros. Estima-se que sejam
muito poucos.
. Hippies - esta é a denominação auto-atribuída por um gru-
po bem particular de moradores de rua de Brasília. Consideran-
do-se herdeiros dos princípios legados pelos velhos hippies do
início da década de 1970, esses remanescentes seguem afirman-
do sua fidelidade ao slogan "paz e amor". Desconhecem a ex-
pressão que simbolizava o objeto de recusa, há três décadas: o
establishment. Mas não admitem enquadrar-se no mundo oficial,
inclusive no mundo do trabalho: não aceitam nem sequer execu-
tar pequenos serviços de rua, como lavar carros. Sobrevivem da
venda de bugigangas e bijuterias que produzem artesanalmente,
e da mendicância. Vivem em grupos estruturados, com grande
mobilidade de entradas e saídas de membros. Formam casais,
geralmente pouco duradouros. Têm grande número de crianças,
que não freqüentam escolas e ajudam na mendicância. Embora
dependam principalmente de esmolas, não admitem qualquer
comparação de sua situação com a dos mendigos. Diferentemen-
te dos velhos hippies, que consumiam LSD, estes se valem da
droga a que conseguem ter acesso (maconha, merla e, sobretudo,
cachaça). As diversas pesquisas e contagens de população de rua
identificam um número não superior a cem indivíduos nesse gru-
po, incluindo-se as crianças.
. Pedintes de Natal - já é tradição o afluxo de migrantes que
vêm temporariamente a Brasília, na época das festas de fim de ano,
para mendigar. À alta renda per capita e o espírito çaridoso da po-

245
pulação local tornam rentável o empreendimento de um grande nú-
mero de famílias que se deslocam principalmente da região Nordes-
te, para permanecer entre um e dois meses na Capital do pais. Pes-
quisa realizada em dezembro de 1997 identificou cerca de 500 fa-
mílias nessa condição, todas vivendo nas ruas, sob pontes e viadu-
tos e em jardins públicos. A esse grupo deve-se somar um grande
contingente de crianças, residentes com suas famílias em cidades-
satélites e nos municípios do entorno do Distrito Federal, que tam-
bém se valem do espírito natalino para praticarem a mendicància.
Há uma clara correlação entre os períodos de seca, que afetam as
condições de vida no sertão nordestino, e as migrações temporárias
para a Capital do país.

Características dos catadores de lixo seco


As pesquisas realizadas entre 1996 e 1999 revelam importantes
traços característicos de um grupo bem particular de moradores das
ruas: os catadores de lixo seco.
São quase todos nordestinos, com destaque para os da Bahia (nada
menos que 52% da amostra pesquisada em 1999 vinha daquele Esta-
do). A origem rural é majoritária, embora vários já tenham tentado a
vida em alguma cidade de menor porte. Deixam o meio rural por não
conseguirem mais garantir o sustento de suas famílias com as precá-
rias condições de trabalho no campo. Em particular, duas localidades
na Bahia contribuem com um elevado contingente desses migrantes:
Irecê, área de intensivos investimentos na lavoura de soja, e Barrei-
ras, também beneficiada com vultosos investimentos na produção de
feijão irrigado. Depreende-se daí que há uma relação preocupante entre
a modemização da agricultura e a emigração de trabalhadores dessas
áreas. Nesse sentido, é possível qualificar o universo de migrantes
pesquisado como refugiados da modernidade agrícola.
A característica da cultura rural se reflete no modo como os
catadores de materiais recicláveis se relacionam com o trabalho.

246
Mesmo lidando com um ciclo econômico curto, mantêm com o tra-
balho uma relação agrícola. Valem-se de expressões típicas da la-
voura: "colhem" o lixo, ao invés de catar; guardam-no no "chiquei-
ro", e não no cercado. Não são garimpeiros, extrativistas do lixo,
como pode parecer à primeira vista. São lavradores de materiais
recicláveis.
Os catadores de lixo seco possuem características bem diferen-
tes daquelas dos catadores de lixo em geral, que operam nos locais
de despejo oficial dos resíduos sólidos. Não habitam junto ao local
de coleta, não recolhem ou transportam o lixo, que é despejado pe-
los caminhões do governo. Moram, geralmente, em invasões
"institucionalizadas", ou seja, áreas públicas ocupadas de forma ir-
regular, mas razoavelmente estáveis. Por suas características pró-
prias, configuram um modo de organização bem distinto dos demais
grupos de moradores de rua.
Dentre as características identificadas pelas pesquisas, merecem
destaque as seguintes:

· Mobilidade - são bastante móveis, deslocando-se dentro de


um amplo perímetro da cidade, na busca dos fardos de lixo que,
depois, serão objeto de minuciosa coleta. Vivem em barracos de lona,
reforçados por algumas tábuas, sempre em áreas pouco visíveis, com
abundância de vegetação (para a pastagem dos animais). Como são
objeto de freqüentes remoções pelos órgãos governamentais, mu-
dam-se de um local para outro com facilidade, dentro de um peque-
no raio de distância. Suas habitações são simples e de fácil monta-
gem/desmontagem.

· Versatilidade - praticam diversas atividades, alternando


do com os humores do mercado. O papel é o produto mais valoriza-
de acor-

do, mas também se dedicam à cata de latas, plásticos, vidros, cobre.


Dão grande importância ao cartucho descartável de impressoras de
~omputador, QU~ ~ão \1~ndidos a n~gociantes de um florescente mero

247
cado. Por vezes, prestam pequenos serviços a algum habitante da
cidade oficial, transportando entulho de obras para ser despejado
em local oculto.

· Auto-emprego - coerentes com uma das características


balhador da pós-modemidade, são, involuntariamente, seus próprios
do tra-

patrões. Trabalham por conta própria, de acordo com um ritmo e


segundo procedimentos que dependem da decisão de cada um. Como
na agricultura tradicional, a família é a unidade de trabalho.

· Criatividade a adversidade das condições de trabalho e mo-


~

radia transforma os catadores de materiais recicláveis em habilido-


sos e polivalentes trabalhadores. Erguem seus barracos, instalam suas
"gambiarras" para retirar clandestinamente energia dos postes de
luz das proximidades, constroem e reformam suas carroças sobre
velhos eixos de automóvel.

· Espírito empreendedor - a versatilidade e a criatividade são


características que se valorizam com o notável espírito empreende-
dor dos catadores. Afinal, vale salientar que, dentre um amplo grupo
de migrantes que se tornam moradores de rua ou seguem
perambulando pelo país, eles são os que sobressaíram, encontrando
o caminho do mercado de materiais recicláveis, topo da hierarquia
social e econômica dos moradores de rua.

· Juventude ~ na pesquisa de 1999, um terço dos chefes de famí-


lia ou cônjuges entrevistados estava na faixa entre 15 e 25 anos;
apenas 14% tinham mais de 46 anos.

· Família ampla e estruturada - dadas as condições habitacionais,


a célula familiar por domicílio se resume ao casal e aos filhos (há
famílias com até 15 filhos, mas a média é de três). Porém há impor-
tantes laços de parentesco entre vizinhos. A organização para o tra-
balho se resume à célula familiar. O homem sai às ruas em busca do
mateIial a ~eI catado; os filhos homens com mais de dez anos aju-

248
dam o pai ou, quando têm mais de uma carroça, saem sós; as mulhe-
res e crianças pequenas se ocupam da cata e separação dos materi-
ais. Quanto maior o número de membros da familia, maior a renda.

·
Perspicácia e resignaçào - a capacidade de recomeçar, após
serem desalojados, é notável entre os catadores.

·
Atraídos por forças centrípetas urbanas - a atração exerci da
pelo centro da cidade, local de trabalho e residência, é bem maior do
que o efeito de expulsão no rumo das periferias, exercido pelo poder
público (forças centrífugas)8 .

-
· Moradiajunto ao local de "processamento" de sua produçào
como dependem dos despojos da área nobre da cidade, têm de
estar instalados nas proximidades, a uma distância viável de ser per-
corrida de carroça. E sendo o papel o produto mais importante, é na
área onde está a burocracia do aparelho de Estado que se encontra a
maior fonte de coleta. Há, nesse sentido, um imbricamento entre os
diferentes elos de uma complexa cadeia de relações econômicas:

Burocracia c:> Papel c:> Lixo c:> Catadores c:> Atravessadores


{).
Papel Comércio <:=> Indústria (SP) <:=> Indústria(DF)

o ciclo se fecha e, nele, o catador é uma peça fundamental. Por


ser um elo de uma complexa cadeia de mercado, o catador não pode
ser considerado como excluído; ele é, na verdade, incluído, ainda
que muito mal e marginalmente.

· Despojamento de exigências higiênicas e de infra-estrutura


saneamento - não faz parte do universo imediato de expectativas
de

dos catadores a melhoria das condições sanitárias. Convivem com


um meio insalubre, onde as crianças brincam descalças e nuas no
lixo. Embora estejam diretamente expostos a riscos - no trânsito, na
proxirnidllde de rnllteriais deteriorados, na falta de in~talaçõe~ ~ani-

249
tárias, no precário acesso à água potável - tais condições não se
apresentam como prioritárias em suas expectativas.

·Infàrmalidade - mantêm relações regulares com compradores


dos produtos que coletam, mas não têm qualquer vinculação
contratual ou escrita. Um terço dos adultos não tem carteira de iden-
tidade.

· Vínculos regulares, mas não formais, com a economia formal


- diferentemente dos biscateiros, não entram nas casas da popula-
ção da cidade oficial. Nesse sentido, relacionam-se com a economia
da cidade, mas não com os cidadãos.

·Visclo de curto prazo - a instabilidade de seu modo de vida,


sempre sujeito a remoções, provoca um comportamento pragmáti-
co, imediatista. Não têm muita preocupação com o dia de amanhã.
Importa o hoje. Para isso contribui também o curto ciclo de suas
atividades econômicas. Auferem algum tipo de rendimento quase
que a cada dia. Nesse aspecto, vêem uma enorme vantagem em rela-
ção à vida no campo, onde dependem de ciclos anuais e vulneráveis
às vicissitudes do clima e do mercado.

·Dotação de algum capital - a atividade de cata de materiais


recicláveis no lixo, nos moldes praticados pelo grupo aqui estuda-
do, exige também algum capital. Adquirir um cavalo pode custar de
três a quatro salários mínimos. Com uma carroça em bom estado,
esse valor dobra. Os catadores mais prósperos chegam a possuir
vários animais e veículos, situação que lhes permite operar como
empresários, recebendo parte do rendimento dos que para eles tra-
balham. Pela sua importância econômica e liquidez, o cavalo é tam-
bém uma reserva de valor, na qual são acumuladas as poupanças.
Isso se explica também pelo fato de que as condições habitacionais
são precárias e a segurança da permanência no local é pequena. Daí,
até o patrimônio deve ser semovente. Tão importante é o cavalo

250
que, na hierarquia de gastos dos catadores, é o principal item. Entre
ração, remédios e reposição de ferradura, um cavalo custa mensal-
mente mais de meio salário mínimo: mais do que o custo de manu-
tenção de uma criança do grupo.

· Função "rola-bosta" - os catadores de materiais


no lixo prestam um importante serviço à sociedade, na medida em
recicláveis

que transformam resíduos, que normalmente são despejados na na-


tureza, em matéria-prima para novo processamento industrial. Com
isso, têm uma dupla função ambiental: reduzem a pressão sobre o
meio, resultante da descarga de materiais não degradáveis ou de
difícil degradação; e contribuem para uma redução na demanda
relativa de recursos naturais e energia (como exemplo, vale sali-
entar que o consumo de energia corresponde a 95% do custo da
lata de alumínio e esse valor pode ser integralmente economizado
com o reaproveitamento). Por sua função de sumidouros de rejeitos,
podem ser comparados aos escaravelhos rola-bostas, que escavam
as fezes do gado e fertilizam a terra. E, diferentemente dos ho-
mens-gabirus, não predam de forma direta o meio natural para ti-
rar sua alimentação. Há que se considerar, entretanto, que, se por
um lado os catadores prestam um serviço positivo em termos
ambientais, por outro acarretam danos ao meio ambiente, por de-
gradarem as áreas onde estão instalados, espalhando resíduos e
queimando materiais não aproveitáveis. Esses aspectos negativos
podem ser minimizados por uma ação do poder público voltada à
racionalização dessa forma de trabalho, com o provimento de um
serviço de coleta e destinação apropriada dos rejeitos não
recicláveis.

· Pouca expectativa em relação ao poder público - diferente-


mente da tradição cliente lista, típica do patrimonialismo do meio
rural brasileiro, os catadores não demonstram grande expectativa
em rdação ao poder público ou aos \'políticos". Sua auto-suEcien-

251
cia e o caráter clandestino de seu trabalho fazem com que o que
mais esperem do governo seja não impedir que trabalhem.
. Acesso à informação - o sistema de informação do grupo
catadores de lixo seco é bem peculiar. É verdade que têm acesso às
notícias da mídia televisiva. Mas o veículo mais importante é a co-
municação infoDnal, passada no convívio tanto nos locais de mora-
dia/trabalho, como nas ruas. Assim, as notícias circulam de fonna
bem rápida. De uma fonna ou de outra, todos acabam sendo infor-
mados da iminente ação de desalojamento por parte do governo.
Recentemente, com a massificação da telefonia celular, vários
catadores adquiriram seus aparelhos pré-pagos, que facilitam a co-
municação com os compradores de seus materiais.

· Acesso à saúde por circularem com desenvoltura pela cidade,


-

conhecem os hospitais e, sempre que necessitam, recorrem a seus


serviços. Em caso de emergência, sabem como acionar os bombei-
ros, que constituem a instituição com melhor imagem entre os
catadores: 94% dos entrevistados afiDnam que confiam nos bom-
beiros9.
. Acesso precário à educação - 74% das famílias entrevistadas
em 1999 tinham filhos em idade escolar fora das escolas. Isso se
explica, principalmente, pela insegurança da pennanência nos luga-
res de moradia. Os pais alegam que são obrigados a se mudar com
tanta freqüência que não se sentem motivados a inscrever seus fi-
lhos na escola.
. Manutenção de vínculos com a origem - com grande freqüên-
cia, visitam seus familiares nas localidades de origem. Por vezes,
numa dessas viagens, trazem algum familiar para Brasília, para o
trabalho de coleta.
. Expectativa de moradia estável - embora de uma maneira ge-
ral a maior expectativa dos moradores de rua seja a garantia da pro-

252
xima refeição, no caso dos catadores de materiais recicláveis essa
preocupação já não é tão forte. Uma vez assegurada a subsistência
imediata, a habitação aparece como expectativa no imaginário do
catador. Ter uma casa própria é o maior desejo de 69% dos entrevis-
tados em 1999. Em segundo lugar, com 27%, vem o sonho de ter um
emprego.

· Pouco associativismo - traço cultural do pequeno agricultor


tradicional, o individualismo é uma forte característica dos catadores.
Há uma tendência a restringir os espaços de cooperação à esfera
familiar. Mecanismos coletivos de trabalho e mesmo de gestão do
seu espaço vivencial quase inexistem. Não há delimitação precisa
dc pontos de coleta de lixo de cada catador: prevalece uma lógica
espacial geral, associada à proximidade dos locais de moradia, mas
é comum que uns "invadam" a área dos outros.

· Sistema hierárquico tradicional - por não haver qualquer or-


ganização comunitária formal, prevalecem, no sIstema de relaçoes
sociais, os laços de afinidade e liderança familiares. Mais do que a
idade ou a precedência na estrutura familiar, prevalece ()
"pioneirismo" como critério de liderança. Os mais antigos no local
e mais bem estabelecidos são os mais influentes no sistema de rela-
ções sociais das comunidades. Em torno deles, estruturam-se gru-
pos coesos de famílias, que são permeáveis a novas adesões, mas
sào também rígidos na rejeição de vizinhos indesejáveis. Nesse sen-
tido, os grupamentos de barracos refletem uma identidade que pode
ser familiar ou de afinidades de origem.

· Aspirações de consumo urbanas mesmo tendo origens rurais,


-

mantendo vínculos com as localidades de origem e preservando tra-


ços culturais tipicamente agrícolas, os catadores não diferem do res-
to da população urbana de baixa renda, em termos de hábitos e aspi-
rações de consumo. Todos buscam uma forma de trazer luz elétrica
a seus barracos. Possuem TV, aparelho de som e fogão a gás, quase

253
sempre obtidos em permutas. Alguns têm automóvel, que também
são adquiridos por escambo.

· Como na agricultura, também são explorados por atra-


vessadores - a situação insegura e informal dos catadores não impe-
de que sejam sistematicamente visitados por compradores dos pro-
dutos recicláveis. Caminhões, com o logotipo de empresas formais,
freqÜentam regulan11ente os espaços de habitação dos catadores. A
mercadoria coletada é levada às empresas, onde é pesada. Só na
visita seguinte é que se efetua o pagamento. A predisposição dos
catadores a uma subordinação em relação a quem lhes provê o paga-
mento pelo seu trabalho explica o fato de que os compradores mais
regulares são chamados de "patrão". Além dos representantes das
empresas, há também intermediários, que compram dos catadores e
revendem com lucro no mercado de recicláveis. O processamento
final dos produtos é feito em São Paulo; as empresas locais são ape-
nas intermediárias, que agregam algum valor em processo de
beneficiamento primário.

· Beneficiados pelo assistencialismo privado a caridade privada


~

é um importante fator de garantia da subsistência dos catadores. É


muito comum receberem doações de víveres, de roupas e de materi-
ais. Por conta disso é possível afirmar que a renda real (o nível de vida
de que dispõem, de fato) é bem mais elevada do que a renda monetá-
ria que auferem, contadas todas as diferentes fontes de cada família.
· Indiferença e complacência do poder público a única medida
~

em relação aos catadores que as instituições governamentais conse-


guem vislumbrar é a remoção. Mas como não há qualquer política
no sentido de promover sua inserção social no circuito fon11al da
cidade, permanecem na mesma vida. Fora as remoções episódicas,
há uma tolerância geral em relação à cata dos materiais recicláveis.
A legislação do trânsito proíbe a circulação de carroças em vias pú-
bli~as, mas não há como ~oibi-las. O roubo de energia e de água sào

254
conhecidos e, por vezes, reprimidos, mas as práticas se mantêm, por
meio de uma notável capacidade de regeneração de redes.

Conclusão
o momento atual, no Brasil, é caracterizado por um caos migra-
tório, que não obedece aos padrões regulares de fluxos campo-cida-
de, no rumo de determinados centros urbanos, como foi nas décadas
anteriores. Hoje, temos um crescente contingente de migrantes que
são "perambulantes", vira-mundos: circulam pelo país, sem rumo e
sem futuro, permanecendo apenas durante o período em que conse-
guem alimentação. Migram de um lugar a outro, não mais em busca
de uma nova vida, como aqueles que se dirigiam a São Paulo atraí-
dos pelo mito do emprego industrial. Agora, mais do que qualquer
atrativo, o que motiva a perambulação é a próxima refeição (Bursztyn
e AraÚj0,1997).
Nossas pesquisas, ao serem confrontadas com estudos sobre
outras metrópoles nacionais, revelam características singulares de
Brasília. Ao contrário de uma população de rua em sua maioria
oriunda da própria cidade e composta, sobretudo, por indivíduos
socialmente desvinculados, no caso da Capital Federal há uma forte
presença de famílias estruturadas de migrantes recentes. São em
geral agricultores que foram "expulsos" do campo devido aos
impasses que a realidade rural nacional impõe à sua sobrevivên-
cia. Guardam, ainda, fortes vínculos familiares e culturais em re-
lação às suas origens, para onde regressam sempre que possível,
não podendo, no entanto, lá permanecer, devido à falta de condi-
ções de subsistência. Diferentemente de outros locais, portanto,
no caso de Brasília é possível vislumbrar políticas pÚblicas imedi-
atas de inserção social desses migrantes: promover ações de
"desmigração", ou seja, criar condições para i1l.stalar estas famí-
lias em assentamentos de reforma agrária, de forma perene e sus-
tentáveL em suas localidades de origem.

255
Os trabalhadores da rua, em particular os catadores de materiais
recicláveis, possuem importantes características necessárias ao mundo
do trabalho da pós-modemidade. São ecléticos, versáteis, dependem
pouco da proteção pública e se auto-empregam. Agregue-se a esses
aspectos uma importante função que desempenham: a reinserção no
circuito formal da economia de um grande volume de materiais que são
despejados no lixo. São, nesse sentido, elos positivos da economia de
recursos naturais e redução da degradação ambiental potencial.
Por tirarem seu sustento dos despojos da sociedade incluída na
vida urbana oficial, os catadores de lixo praticam, em certa medida,
uma versão moderna do "ciclo caranguejo", irretocavelmente des-
crito por Josué de Castro. Meio século depois, os trabalhadores rola-
bostas são um retrato incômodo da incompetência das elites políti-
cas nacionais, que não souberam promover um projeto de desenvol-
vimento que permitisse a distribuição dos frutos do progresso eco-
nômico entre todos os grupos da sociedade.

256
Referências bibliográficas

ARAÚJO, C. H. F.; REIS, A. Perfil das crianças e adolescentes do Distrito


Federal. Brasília: Codeplan, 1996 (pesquisa não publicada).
BURSZTYN, M.; ARAÚJO, C. H. Da utopia à exclusão vivendo nas ruas
-

em Brasília. Rio de Janeiro: Garamond; Brasilia: Codep1an, 1997.


. O pós-neolibera1ismo e o mundo da exclusão. Brasília, 1997
(mimeo).
ESCOREL, S. Vidas ao léu: uma etnografia da exclusão social. Universidade
de Brasilia, 1998. Tese de Doutorado em Sociologia.

257
Natas

Cf. dicionário Aurélio: "Rola-bosta: escaravelho - inseto coleóptero (H'), vive dos
excrementos de mamíferos herbívoros. As fêmeas de certas espécies preparam uma
bolinha de excremento, na qual põem o ovo, e que enterram depois de empurrá-Ia a
certa distãncia ('H)' Sinônímo de rola-bosta, coró, bicho-carpinteiro". O rola-bosta tem
importante função ecológica, na medida em que ajuda a fertilizar o solo. A função
ambiental dos catadores de lixo, que têm como meio de vida o aproveitamento de
materiais encontrados nos rejeitos, é comparável, no meio urbano, à do rola-bosta.
2 Gabiru - mamifero roedor comum na zona rural.
3 De acordo com os critérios do IBGE, o universo da população é dividido em zonas
censitárias, onde estão situadas as famílias com localização definida. Não há como
incluir na contagem indivíduos que se encontrem, na data do censo, em local que não
conste dos mapas de endereços que cabem a cada recenseador. Assim, populações
itinerantes que não se encontrem em alguma "residência" cadastrada não são conta-
das.
4 No primeiro semestre de 1996, realizamos pesquísa, levantando dados junto a um unI-
verso de 150 familias de migrantes recentes que viviam nas ruas do centro de Brasília
ou que se encontravam albergadas em instituição pública de acolhimento de popula-
ção de rua. Os dados e análises decorrentes foram compilados em Bursztyn & Araú-
jo,1997. Na época do Natal de 1997, efetuamos um amplo levantamento do universo
da população de rua no DF, entrevistando cerca de 500 famílias. Em 1998, uma amostra
de 44 famílias de catadores de lixo foi objeto de minuciosa pesquisa, que identificou
trajetórias de vida, estratégias de sobrevivência, vínculos com as localidades de ori-
gem, dentre outros aspectos. Em 1999, com a colaboração de alunos da Universida-
de de Brasília, foi aplícado um questionário junto a 249 famílias que estavam vivendo
nas ruas de Brasília. As informações destas pesquisas serviram de referência para
este texto.
5 Estima-se que as atívidades de reciclagem de materiais coletados no lixo de Brasília
movimentem, anualmente, um volume de cerca de 20 milhôes de dólares (cf. Correio
Braziliense, 26/1/00).
6 Este tópico é baseado em um trecho do texto inédito elaborado conjuntamente com
Carlos Henrique Araújo, em 1997, "O pós-neoliberalismo e o mundo da exclusão".
7 Vale salientar que há mais uma categoria que, embora não esteja incluída entre os
moradores de rua, é composta de trabalhadores que possuem muitas das caracterís-
ticas destes: os catadores que operam nos lixões e nas usinas de lixo. Em geral são
residentes em invasões de áreas públicas, não necessariamente próximas ao "local
de trabalho", e não circulam pelas ruas do centro da cidade. Não vão em busca do
lixo; recebem-no nos locais de depósito. Neste sentido, mantêm com o "local de tra-
balho" uma relação semelhante à dos trabalhadores em atividades instítucionalizadas.
8 Ver o Capítulo 1, nesta obra.
9 A instítuição que vem em segundo lugar na confiança dos catadores é a igreja/religião,
CQm 88%,

258
Sobre os Autores

Carlos Henrique Araújo - nasceu em Brasília em 1969. É graduado em His-


tória (1992) e mcstrc em Sociologia (1995) pela Universidade de Brasilia.
Foi Assessor Especial do Governador do Distrito Federal (gcstão Cristovam
Buarque -
1995-1998) c Gerente de Pesquisa da Companhia do Planalto
Central -
CODEPLAN durante os anos de 1996 a 1998, onde eoordenou
e executou inÚmeras pesquisas de opinião e socioeconômicas sobre a rea-
lidade social do Distrito Federal. Foi bolsista (1999 a OS/2000), pelo CNPq,
de Desenvolvimento Tecnológico, executando trabalhos no Centro de De-
senvolvimento Sustentável (UnB). É consultor para assuntos de pesquisa
de opinião pÚblica de inÚmeros governos municipais e estadual, além de
ser Assessor Especial do Governador João Alberto Capiberibe, do Amapá.
Autor de livros sobre pobreza e realidade urbana e artigos de pesquisa,
epistemologia e teoria sociológica.

Dijaci David de Oliveira - naseeu em Picuí, na Paraiba, em 1967. Graduou-


se em Sociologia pela Universidade de Brasília, onde também concluiu o
mestrado na área de sociologia da cultura. É consultor do PNUD, onde
desenvolve pesquisa sobre ensino superior. Também atua como pesquisa-
dor associado ao Movimento Nacional de Direito~ Humanos -
MNDI-I-,

no qual coordena as publicações da série "Violência em Manchete", que


analisa dados sobre a violência noticiada no Brasil.

Elimar Pinheiro do Nascimento- nascido no Reeife em 1947, é doutor em


Sociologia pela Universidade René Descartes, Paris (1982). Fez pós-
doutoramento na École des Hautes Études en Sciences Sociales, com Alain
Touraine (1992). Trabalhou na Europa como documentarista e editor da

revista do SEUL (1972-1976) e, em Moçambique, no Ministério da Edu-

259
cação e na Universidade Eduardo Mondlane (1976-1979). No Brasil, foi
professor nas universidades federais da Paraíba (1980-19R3), Pernambuco
(1985-1987) e desde 1987 leciona na Universidade de Brasília, no Depar-
tamento de Sociologia e no Centro de Desenvolvimento Sustentável. Foi
diretor do Centro de Estudos Josué de Castro (Recife) c vice-prcsidentc da
Associação dos Sociólogos de Pernambuco. Trabalhou no governo
Cristovam Buarque (DF) como chefe de sua assessoria especial, rcsponsá-
vel por Ciência c Tecnologia, e Sccretário-adjunto de Comunicação. É au-
tor de vários livros e artigos.

MareeI Bursztyn - nascido no Rio dc Janeiro em 1951, é graduado em Eco-


nomia (1973) e mestre em Planejamento Urbano e Regional (1976), pcla
Universidade Fcderal do Rio dc Janeiro. Na University of Edinburgh, Es-
cócia, obteve o Diploma in Planning Studies (1977). É doutor em Descn-
volvimento Econômico e Social pela Université de Paris I (Sorbonne), 1982,
e em Ciências Econômicas pela Université de Picardie, na França, 1988.
Foi professor das universidades federais do Rio de Janeiro e da Paraíba e
da Université de Paris I (Sorbonne). Desde 1992, leciona no Departamento
de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), e a partir de 1996 é coor-
denador de pós-graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável, da
mesma universidade. Ocupou diversos postos na administração pÚblica fe-
deral e do Distrito Federal (governo Cristovam Buarque). É autor de vários
livros e artigos.

Sarah EscoreI - nascida em Washington, D.C. (EUA) em 1952, é graduada


em Medicina (1977) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e espe-
cialista em saÚde pÚblica (1979) pela Escola Nacional de SaÚde PÚblica da
Fundação Oswaldo Cruz. Nessa mesma instituição obteve o título de Mes-
tre em SaÚde PÚblica (1987). É doutora em Sociologia pela Universidade
de Brasília (1998). Colaborou com o Ministério da SaÚde da Nicarágua
(1980-1982), foi assessora de Planejamento da Secretaria Municipal de

S:l'Í111e
llDR\D G~hneiro li \)~j-l \)~~) ~ aSSéssora da Pl'esidcncia da Funda-

260