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5/23/2018 Da guerra às guerras: a lógica da disseminação – Felipe Ziotti Narita

Felipe Ziotti Narita

Da guerra às guerras: a lógica da disseminação

PUBLICADO EM 14 DE ABRIL DE 201729 DE MAIO DE 2017 POR FELIPE ZIOTTI NARITA


POSTADO EM CAPITALISMO, CIÊNCIAS SOCIAIS, POLÍTICA, TEORIACOM A TAG ÉRIC
ALLIEZ, CRISE, GUERRA, NEOLIBERALISMO, PÓS-ESTRUTURALISMO, TEORIA SOCIAL

Imagem via Los Angeles County Museum of Art (h ps://collections.lacma.org/node/172165)

Por Felipe Zio i Narita

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“Capitalism and neoliberalism carry wars within them like clouds carry storms”. Em tom de axioma, Éric
Alliez conduziu sua lecture na Universidade de Kingston em abril de 2017. Intitulada Capital’s art of
war, a conferência é proveniente de um livro escrito em co-autoria com Maurizio Lazzarato, Guerres et
capital (Éditions Amsterdam, 2016), de modo que a fala de Alliez em Londres, seguindo as trilhas da
publicação impressa, desenvolveu alguns pontos para uma crítica do desenvolvimento do capital em
estreita correlação com o fenômeno das guerras. O quadro analítico proposto por Alliez, concebido
como um campo conceitual capaz de investigar a constituição histórica do capitalismo neoliberal
(uma “contra-história do capitalismo”), coloca no centro do problema o tema da guerra – ou, como o
filósofo francês enfatiza, das guerras. Trata-se, a rigor, de uma genealogia que decompõe, na formação
do sistema socioeconômico, uma perspectiva que pretende articular a crítica da economia política, a
crítica da guerra e a crítica do Estado, buscando um mapa conceitual para a análise política
contemporânea a partir da mobilização dos savoirs assuje is foucaultianos.[1]

De partida, para Alliez, guerra não é uma metáfora. A proposta consiste, sobretudo, em pensar o
conceito a partir de suas multiplicidades à luz da constituição do contemporâneo. Existe, portanto, a
disseminação de uma lógica de conflito social que assinala o tempo de subjetivação de guerras civis.
Seguindo a inventiva terminologia da filosofia política de Deleuze e Gua ari, entramos em um
período de construção de novas máquinas de guerra. Ao passo que o Estado compreende a
perpetuação dos órgãos de poder, a máquina de guerra implica a autonomização (uma esfera de
racionalidade própria, uma exteriorização em relação ao aparelho estatal, conforme Deleuze e
Gua ari)[2] de setores de atividade do campo social potencialmente absorvidos pela administração
do Estado (politizados, portanto) e segmentados no setor militar. Se o desenvolvimento do
capitalismo, desde a constituição dos Estados nacionais, é interpretado como um longo processo de
apropriação das máquinas de guerra pelos aparelhos do Estado, o investimento de capital constante e
variável em matéria-prima, em instrumentos e na disciplina moral da população implica que o núcleo
da guerra não é apenas a aniquilação (anéantissement) do exército, mas a gestão de uma economia
populacional.[3] Esse ponto parece central para o argumento de Alliez, construído em estreito
diálogo com o campo teórico de Deleuze e Gua ari, na medida em que o autor entende as novas
máquinas de guerra como elementos de interface não apenas em relação aos fins militares do conflito,
mas sobretudo em relação às estratégias de intervenção junto à população. Esses nichos do conflito,
como práticas disseminadas, são centrais na abordagem.

À economia moral da população subjazem as figuras da crise como momentos de elaboração de


subjetividade. Se a guerra é pensada como lógica disseminada no campo dos conflitos sociais
contemporâneos, para Alliez, essa percepção é indissociável da financeirização: assim como a
financeirização do fim do século XIX conduziu à guerra total e à crise de 1929, a financeirização
contemporânea está no epicentro de uma guerra civil global, controlando todas as suas polarizações.
Alliez analisa uma espécie de “semiologia” do capital, entendida como uma cartografia da crise e de
seus novos sujeitos produzidos on the ground. Nesse sentido, a agenda de lutas assimétricas contra a
economia da dívida implica a disseminação de guerras e lógicas de conflito tanto no Norte quanto no
Sul globais, de modo que esse pano de fundo funciona como contexto para interpretação dos novos
movimentos de massa que, desde a crise de 2008 e as mobilizações de 2011, tem reivindicado o
espaço político das ruas – do Occupy aos Indignados espanhóis, dos estudantes chilenos e canadenses
(diante, sobretudo, dos protestos em Quebec) aos efeitos de austeridade decorrentes do crash grego,
da profunda crise de representação e do desencanto com o modelo de desenvolvimento da última
década (com uma dose de confiança na institucionalidade do sistema político) no Brasil às ruas
tomadas pelos jovens do Nuit debout francês em 2016. Se a experiência da crise (profundamente ligada
ao descrédito em relação aos sistemas políticos representativos – como argumentarei no final do texto
–, à predação neoliberal e à deterioração da situação econômica, especialmente nas periferias e semi-
periferias do sistema-mundo) articula estruturalmente o conjunto diverso de mobilizações, a
construção dessas novas subjetividades políticas, para Alliez, é elaborada no próprio campo do
conflito social.

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A gestão política, coordenada por técnicos do mercado (market technicians), e a dinâmica predatória
da acumulação neoliberal implicam constantes guerras contra a economia da dívida. Especialmente
na União Europeia, diante da gritante crise dos refugiados, a ascensão das direitas e do populismo
nacionalista (as eleições de 2017, em alguns países do bloco, certamente serão parte da prova de fogo
da tradução desses discursos à política institucional) tem fomentado um novo direcionamento para
guerras contra estrangeiros, imigrantes e islâmicos. Em síntese, a desterritorialização ilimitada
alavancada pela ascensão da globalização a partir dos anos 1980 parece ceder lugar a uma nova
reterritorialização. Aqui, o continuum entre guerra, economia e política fica evidente: além das
guerras econômicas (bloqueio de bens e transações, embargos econômicos e demais formas de
bloodless wars), a multiplicação dos domínios das guerras também diz respeito à fratura nas narrativas
identitárias nacionais (especialmente diante do estrangeiro). Como guerras neocoloniais, esses
conflitos não estão exclusivamente nas periferias do sistema-mundo: as guerras foram traduzidas,
agora, para o interior das economias centrais do capitalismo, produzindo novas narrativas e
anátemas sobre o inimigo interno, o imigrante, o islâmico, o refugiado etc. Além da fratura na
estabilidade das antigas narrativas identitárias nacionais e sua problemática reintegração em um
mundo desterritorializado pela autonomização da modernização capitalista e dos processos de
globalização, as massas empobrecidas, o precariado e a endocolonização em relação às mulheres e
aos imigrantes situam as guerras como guerras para a gestão da população. A reversibilidade entre
guerra e poder, para Alliez, determina tanto a instabilidade crônica do capitalismo financeiro quanto
seus estados de guerra disseminados pelo espaço social. A grande questão a ser examinada, portanto,
é o caminho oferecido para o mapeamento conceitual do cenário.

A genealogia do contemporâneo

Se o dinheiro e a guerra, para Alliez, estão intimamente associados à organização do mercado


mundial – por isso o autor entende aqueles dois elementos como núcleos da própria ideia de
governança global (global governance) –, a ontologia do capitalismo implica, sobretudo, uma
perspectiva genealógica para a decomposição e a crítica do contemporâneo. Nesse sentido, o percurso
metodológico procura delinear as convergências entre estruturas que conformam e são conformadas
pela constituição do mercado mundial. A análise histórica, portanto, não é preocupada com a
descrição empírica dos processos socioeconômicos e políticos – trata-se, antes, de uma articulação
conceitual capaz de decompor as linhas de força do presente. Uma teoria, digamos.

Para Alliez, a acumulação do capital e o monopólio da força pelo Estado caminham pari passu. Sem a
valorização da riqueza no circuito do capital e sem o exercício da guerra, o Estado não teria
conseguido administrar a população. À luz desse quadro, portanto, a expropriação dos mecanismos
de produção e a apropriação dos meios de exercício da força são condições do capital e da formação
do Estado, de modo que a história do capitalismo é entrecortada por guerras de classes, raças e sexos
– processos de subjetividades e de civilizações. Se a colonização moderna a partir do final do século
XV é entendida como o ano de nascimento do capital, um duplo movimento deve ser considerado: a
colonização interna (Europa) e a externa (as Américas) são entendidas como fenômenos mutuamente
dependentes, analisados à luz da acumulação primitiva de Marx. Mas Alliez não pensa a acumulação
primitiva como uma fase do desenvolvimento do capital: ela expressa, antes, uma condição de
existência do próprio modo de produção por meio da expropriação e da despossessão.

Seguindo de perto a teoria de Deleuze e Gua ari, Alliez afirma que o Estado comanda a
expropriação/apropriação da multiplicidade de máquinas de guerra por meio da galvanização de
duas esferas fundamentais. A partir do capitalismo dependente das estruturas estatais (nos séculos
XVI, XVII e XVIII), o desenvolvimento do capital realiza, sobre suas tensões de desterritorialização e
reterritorialização, uma articulação das dinâmicas de mercado com a construção de um sistema-
mundo entrecortado pela acumulação. Como incorporação das máquinas de guerra pelos
dispositivos do Estado, as estruturas estatais centralizam a privatização feudal e institucionalizam a

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violência como monopólio público da força, de modo que a divisão do trabalho atinge, além das
atividades produtivas, a própria profissionalização militar. O Estado, nesse sentido, é construído
como uma megamáquina de poder por meio da captura e da institucionalização do exercício da força.

A grande virada na organização política dos mecanismos de guerra e de exploração econômica,


contudo, é situada na segunda metade do século XIX. A alta modernidade e a efetiva expansão do
capitalismo como sistema social autonomizado em seu desenvolvimento indicam uma reconfiguração
significativa no quadro analítico, na medida em que o capital integra o Estado, suas funções de
soberania (tanto política quanto militar) e seus procedimentos administrativos por meio da
financeirização. A consequência imediata dessa reconfiguração, para Alliez, sublinha a
financeirização como expressão mais bem acabada da máquina de guerra do capital, submetendo a
desterritorialização militar do Estado (sobretudo à luz das experiências coloniais) à desterritorialiação
do capital no circuito revolucionário desencadeado pelo capitalismo global (e aqui, creio, Alliez perde
uma ótima oportunidade de debater as teorias do imperialismo – embora sua opção pela ideia do
capitalisme mondial integré (CMI), de Gua ari,[4] implicitamente indique um distanciamento das
perspectivas do imperialismo, sobretudo, pela noção de axiomisation do socius, pela abordagem da
nova segmentação social como multiplicidades correlacionadas e pelo afastamento em relação ao eixo
fundamental da divisão do trabalho). A máquina de produção é inseparável da máquina de guerra,
interligando as estruturas sociais em torno do ciclo de valorização (Verwertung) do capital (retomando
uma expressão do modelo de crítica da economia política de Marx). Esse poder isomórfico, para
Alliez, significa a própria tradução da absorção, pelo Estado, da máquina de guerra a partir de sua
integração com a exploração econômica e a financeirização acelerada pela modernização social.

O epígono dessa conversão das formações sociais no sentido da apropriação das máquinas de guerra
aceleradas pelo capital está nas guerras mundiais – expandindo um pouco a análise, eu diria que esse
processo também amarra as subsequentes rupturas com as democracias parlamentares à luz do
trauma de 1914. Pela primeira vez, a completa subsunção da sociedade e de suas forças produtivas à
economia de guerra é efetivada. O bem-estar (welfare), portanto, preparou a guerra (warfare), de modo
que a escalada global da militarização transformou o internacionalismo do trabalho em milhões de
soldados nacionalistas, reterritorializando o horizonte do político. Retomando, em outra chave, a
máxima de Clausewi , “warfare pursued its logic by other means in welfare”. A conversão das máquinas
de guerra nas economias liberais das “décadas de ouro” do pós-1945, portanto, é a próxima etapa da
investigação.

Tecnologia, guerras e subjetividades

A referência de Alliez a um conhecido texto de Heidegger, a proposição XXVI da Überwindung der


Metaphysik de 1951, é sintomática. Publicado na mesma conjuntura da conhecida Brief über den
Humanismus, o trecho mencionado posiciona o célebre tema do “abandono do ser” (Seinsverlassenheit)
à luz da instrumentalização tecnológica e da massificação das mobilizações da população, tornando
as fronteiras entre guerra e paz opacas (unkenntlich).[5] A guerra, como distorção do consumo dos
entes (Seiende), é prosseguida (forgese t) na paz. A “era do consumo” (Zeitalter der Vernu ung) e sua
racionalização social a partir do planejamento, do cálculo e da setorização de atividades, portanto,
implica a própria instrumentalização do homem como material precário (Rohstoff) no círculo da
produção técnica e de sua retroalimentação. Alliez lê o diagnóstico heideggeriano como a rebarba do
desenvolvimento técnico e de sua forma capitalista de organização à luz do salto produtivo e
industrial do pós-guerra, elaborando um novo conceito de segurança a partir da guerra
materializada, ou seja, uma insegurança organizada pela catástrofe programada – aqui, a ideia do
complexo industrial-militar é fundamental para o encaminhamento da análise.

A dinâmica da Guerra Fria é interpretada justamente nesse registro. Como modelo de socialização e
capitalização da sociedade e das populações por meio da economia de guerra, a conjuntura assinala
uma passagem estrutural na formação da máquina de guerra do capital: a apropriação da guerra e do
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Estado pela subordinação do saber. Aqui, a estrutura cognitiva do novo capitalismo, mobilizando o
aparato tecnológico e a economia da informação (frutos diretos das guerras mundiais), implica uma
nova totalização desses elementos à luz do complexo industrial-militar.

Conforme Alliez, o complexo industrial-miliar parece alcançar plena efetividade, sobretudo, a partir
do novo salto tecnológico pós-1980. A plena realização da conversão pragmática do saber-poder em
técnica setorizada da guerra (militar) implica a absorção da máquina de guerra (e sua racionalidade
interna) pelas máquinas tecnológicas. As consequências políticas são enormes. As intervenções dos
Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, no começo dos anos 2000, evidenciam que, malgrado o
desastre político decorrente das guerras na paisagem geopolítica do Oriente Médio (como ficou
evidente nos eventos posteriores, especialmente no Iraque, com novos ciclos de violência), o
gerenciamento de informações e as operações de alta tecnologia envolvidas desenham um modelo de
guerra centrada em redes (network-centered war), garantindo uma rápida vitória, a emergência de
novos “estados de violência” high-tech e, por assim dizer, uma assepsia ímpar nos cálculos do conflito
(percepção refinada na esteira das intervenções militares na Sérvia e no Kosovo, nos anos 1990).[6]

A convergência entre as máquinas de guerra e as máquinas tecnológicas desenvolve novos


mecanismos da governamentalidade. Substituindo as guerras industriais do começo do século XX, as
guerras contra a população tem marcado o fundamento de um novo “humanismo” centrado tanto na
preservação dos cidadãos e dos valores nacionais em relação ao potencial desintegrador do
estrangeiro (um discurso identitário, portanto) quanto na intervenção tópica e asséptica para
emancipação dos indivíduos em novas formas “democráticas” (ainda que por vias nada
democráticas). As guerras desterritorializadas não assumem plenamente a forma do paradigma da
guerra entre Estados, mas circunscrevem a população, sobretudo, em um campo de atuação para
táticas anti-insurrecionais. A disseminação da lógica do conflito junto à sociedade “pacificada”, aqui,
implica uma sucessão ininterrupta de múltiplas guerras contra as populações. Se Alliez entende as
guerras como disseminações no espaço social junto à multiplicidade da população, a abordagem
supõe a dispersão do conflito social – de modo que este não estaria mais galvanizado, tal como o
modelo das sociedades industriais, em critérios puramente localizados em classes.

Nesse sentido, 1968 marca uma reorientação fundamental nessa genealogia da guerra e do capital. As
ondas de protestos (exemplificada pelo maio francês, mas certamente não restrita a ele) indicaram
novos momentos da subjetividade, constituindo um ciclo de conflitos fora da institucionalidade
partidária. Ao lado das guerras de descolonização nas periferias, guerras de classes, raças e sexos
questionavam os mecanismos de endocolonização nos centros e nas semi-periferias do sistema-
mundo. A emergência dessa nova pragmática de lutas, portanto, é inseparável de enormes rupturas
subjetivas com a deslegitimação dos dispositivos de saber-poder. Fundamentalmente, a dispersão e a
disseminação da lógica dos conflitos, para Alliez, assinala a passagem de um paradigma da guerra
para a possibilidade de guerras, ou seja, de uma microfísica do poder (à la Foucault) e de uma
micropolítica (no sentido de Deleuze e Gua ari) – uma dilatação da lógica do conflito no sentido da
ocupação de nichos (foyers) do espaço social,[7] com a setorização e a disseminação de mecanismos
moleculares de poder e de resistência.

Dois processos, portanto, entrecortam a disseminação das guerras: a financeirização decorrente da


valorização do capital e a aludida convergência entre máquinas de guerra e máquinas tecnológicas no
horizonte dos Estados nacionais. Em outros termos, a economia da dívida, a precarização das
condições de vida e os novos dispositivos de segurança constroem um horizonte de guerras
interconectadas. Os resultados da crise de 2008, especialmente nas economias centrais, implicam a
ascensão de novas ondas nacionalistas e de um novo populismo que, dividindo e polarizando a
população, produzem novos espaços de exclusão e endocolonização subjacentes às narrativas
identitárias (mulheres, imigrantes etc.). Alliez identifica a matriz desses conflitos em um
ressurgimento da matriz de guerras coloniais, que, a rigor, não eram apenas confrontos diretos entre
Estados, mas movimentações contra as populações. Dois núcleos articulam essa configuração: as
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guerras são fractais (irregularidade e descontinuidade em diversas escalas da realidade) e


transversais (simultaneamente concebidas no campo macropolítico e micropolítico). A integração de
Estado, guerra, ciência e tecnologia, conformando as linhas de força da globalização desde o fim dos
anos 1970, situa a estrutura das sociedades na órbita do processamento de informações e da
estabilização do mercado: uma espécie de último ciborgue que, dispondo da praxis social para
coordenação coletiva das atividades socioeconômicas, organiza o “intelecto geral” de Marx.[8]

Guerras, violência e gramática moral

Um questionamento não respondido adequadamente pela interpretação de Alliez (ao menos durante
sua fala em Londres) é o problema da violência. A teoria e a genealogia das relações entre guerra(s),
capital e Estado, do meu ponto de vista, parecem vacilar na medida em que não discutem uma teoria
da violência como núcleo do problema.[9] Essa ausência, aliás, torna o conceito de guerra um pouco
opaco e até indiferenciado para lidar com contextos e lógicas bem diferentes. Basicamente, a ideia de
Alliez é sair do “paradigma da guerra” de Clausewi , que enfatizava a racionalidade da guerra como
política instrumental do Estado nacional, teorizando-a a partir das coordenadas do sistema de
Estados soberanos pós-1648 e da revolução militar e política de Napoleão Bonaparte.[10] Tenho a
impressão de que a abordagem pretende reduzir as guerras a uma lógica do conflito social:
procedimento interessante, na medida em que a guerra não é entendida em sentido metafórico por
Alliez – além de iluminar temas importantes decorrentes da disseminação das lógicas de conflito, dos
mecanismos de endocolonização e da mobilização de afetos e sentimentos que dialogam com o
conjunto da população (não propriamente confinados à esfera militar). Analiticamente, contudo, o
argumento parece equiparar dinâmicas que não são propriamente equivalentes (por exemplo, a onda
de conflitos e de predação econômica na Grécia em 2015, as falas de François Hollande e Manuel Valls
(em 2015) de que “nous sommes en guerre” e a escalada militar de amplo alcance na Síria desde 2011).
Igualmente importante, creio, é a consideração do bombardeio de imagens e da superexposição dos
espaços/indivíduos na produção de novos imaginários sociais sobre as guerras – a rigor, novas
lógicas de percepção.[11]

Outro ponto correlato, aliás, é o modelo de ampliação do conflito social – lido por Alliez como
guerras. A economia da dívida e as formas predatórias de apropriação do comum certamente marcam
pautas importantes das mobilizações sociais desde 2011. A diversidade dos movimentos, no entanto,
não pode ser reduzida a um uníssono anti-capitalista – para não mencionar o modo no mínimo
discutível com que Alliez insere a “Primavera Árabe” (termo ao qual o autor ainda insiste em
recorrer) nesse mesmo horizonte. O fato é que esse amplo ciclo de ocupações, conflitos e mobilizações
da sociedade civil também precisa ser pensado como expressão do desgaste e do descrédito (a
confiança, afinal, é fundamental em sistemas democráticos representativos) das formas de
representação (sobretudo em relação aos partidos). Essa nova desconfiança, aliás, mobiliza toda uma
agenda de melhorias de serviços públicos pautada no reconhecimento moral de direitos e de
cidadania (pautas muito evidentes no caso brasileiro, mencionado por Alliez).

As próprias formas de subjetivação na disseminação dos conflitos sociais após os anos 1980
(especialmente nos anos 2000) devem ser pensadas, também, conforme as novas esferas de circulação
e de mobilização dos sujeitos – o que Gua ari chamou de subjectivité mass-médiatisé.[12] Aqui,
descontinuidades fundamentais precisam ser demarcadas em relação à disseminação dos conflitos –
ou das guerras, como Alliez indica na esteira dos eventos internacionais de 1968. Para além de uma
exumação das revoltas daquele período ou da realização de uma agenda para suprir “as falhas
herdadas de 1968”, creio que fundamental é situar as novas subjetividades nas mobilizações
construídas por redes remotas e a difusão de temas e propostas à luz do cyberativismo. Em síntese: o
tema da descontinuidade pode estar no centro da genealogia.

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Notas

[1] Foucault, Michel. Il faut défendre la société. Paris: Gallimard, 1997.

[2] Deleuze, Gilles; Gua ari, Félix. Mille plateaux. Paris: Seuil, 1980. p. 441.

[3] Deleuze, Gua ari, 1980, op. cit., p. 524.

[4] Gua ari, Félix. Le capitalisme mondial intégré et la révolution moléculaire. Paris: Centre d’Information
sur les Nouveaux Espaces de Liberté, 1981.

[5] Heidegger, Martin. Überwindung der Metaphysik. In: Heidegger, Martin. Gesamtausgabe: Vorträge
und Aufsä e. Frankfurt am Main: Vi orio Klostermann, 2000. p. 91-94. (Vol. 7)

[6] Chamayou, Grégoire. Teoria do drone. Trad. Célia Euvaldo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

[7] Deleuze, Gua ari, 1980, op. cit., p. 260-262.

[8] Marx, Karl. Ökonomische Manuskripte 1857/1858. In: Marx/Engels Werke. Berlim: Die , 1983. p. 602.
(MEW, 42)

[9] Gros, Fréderic. États de violence. Paris: Gallimard, 2006.

[10] Aron, Raymond. Penser la guerre, Clausewi . Paris: Gallimard, 2009. (2 vols.)

[11] Baudrillard, Jean. La Guerre du Golfe n’a pas eu lieu. Paris: Galilée, 1991. Virilio, Paul. Guerra e
cinema. Trad. Paulo Roberto Pires. São Paulo: Boitempo, 2005.

[12] Gua ari, Félix. Les modes de production de subjectivité. In: Gua ari, Félix. Qu’est-ce que
l’écosophie?. Paris: Lignes, 2013. p. 278.

(h ps://felipeznarita.files.wordpress.com/2017/04/felipe-zio i-narita-blog-14-abril-

20171.pdf) (h p://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/)

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