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RICHARD RORTY – O Belo e a Consolação - BBC

BBC: Define-se como um filósofo pragmatista. O que quer dizer?


RORTY: Os pragmatistas dizem: pare de pensar nos termos dos gregos
antigos. Esqueça a diferença entre aparência e realidade, entre corpo e alma
ou entre intelecto e percepção. Veja o homem, depois de Darwin, como um
animal inteligente, cada vez mais esperto, a falar das coisas e a lidar com as
coisas. Não procure um mundo fora dos sentidos ou a realidade atrás da
aparência ou a alma através do corpo. Muito do pragmatismo é o mesmo tipo
de crítica que temos em Heidegger quando fala da tradição onto-teológica.
***
RORTY: Infelizmente o pragmatismo tornou-se uma teoria ou definição da
verdade. Teria sido melhor que os pragmatistas tivessem dito: podemos falar
sobre justificação, mas não sobre a verdade. Não há nada a dizer sobre isso.
Aquilo a que chamamos verdades são convicções que justificamos. Mas
sabemos que uma convicção pode ser verdade sem ser justificada. É tudo o
que sabemos acerca da verdade. A justificação depende de uma audiência e
de várias verdades. A verdade não depende de nada e, como não depende de
nada, não há nada a dizer sobre ela. Verdade com V grande [maiúsculo] é
como Deus. Não há muito a dizer sobre Deus. É por isso que os teólogos
falam da inefabilidade. Os pragmatistas contemporâneos dizem que
“verdade” é indefinível. Não importa. Sabemos como usá-la, não é preciso
defini-la.
***
RORTY: ... o pragmatista quer livrar-se da distinça entre realidade e a
aparência
***
BBC: Qual é o sentido da vida? Porque faz cada vez menos sentido fazer esta
pergunta?
RORTY: O ponto de vista dos gregos é que num dado momento da
interrogação se pode parar porque se atingiu o objetivo. Os pragmatistas
dizem que não fazem ideia como é atingir o objetivo. Se o objetivo da
interrogação é encontrar concordância com a realidade ou ver o rosto de
Deus ou substituir factos por interpretações, não nos serve de nada. Só
sabemos trocar nossas justificações, convicções e desejos com os outros
seres humanos. E, pelo que podemos ver, a vida humana será sempre assim.
Portanto, a tentativa platônica de deixar o tempo e chegar à eternidade ou
deixar as conversas e chegar às certezas é para os pragmatistas um produto
de uma era na nossa história em que a vida era tão desesperante e sem
perspectivas de melhoria, que as pessoas se refugiavam num outro mundo.
O pragmatismo surge com a Revolução Francesa e a tecnologia industrial,
que fizeram o século XIX acreditar no progresso. Quando o objetivo é
melhorar a vida dos nossos descendentes em vez de superar a história e o
tempo, a nossa ideia da utilidade da filosofia muda. Nas eras platônicas e
teístas a função da filosofia era tirá-lo dessa miséria para um lugar melhor.
(...) A reação contra essa tradição greco-cristã de procurar a felicidade
através da união com uma ordem natural, é dizer: não existe uma ordem
natural, mas uma possibilidade de uma vida melhor para os seus trisnetos. É
mais que o suficiente para dar sentido ou inspiração à vida.
Uma frase de Hans Blumenberg que me impressionou muito dizia: “Algures
trocamos a esperança de sermos imortais pela esperança de ter bisnetos”.
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RORTY [citando Nabokov]: Há um trecho famoso no epílogo de “Lolita”
em que ele diz:
“Para mim, uma obra de ficção só existe na medida em que me deixa ficar
numa felicidade estética. Uma sensação de estar ligado com outras formas
de existência, em que a arte (curiosidade, ternura, gentileza, êxtase), é a
norma”.
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Uma visão pragmatista da filosofia analítica contemporânea
Richard Rorty
Ensaio de duas partes:
1ª – Discussão com as opiniões de seu filósofo da ciência favorito, Arthur
Fine. O qual tornou-se famoso por sua defesa de uma tese cuja discussão
parece-lhe central à filosofia contemporânea: realismo e anti-realismo
devem deixados de lado. Assim, concordando com seus filósofos da
linguagem favoritos, Donald Davidson e Robert Brandom. Dessa forma,
pensamento e/ou linguagem não contem representações da realidade,
livrando-nos assim do problema sujeito/objeto, herdado de Descartes e do
problema aparência/realidade, herdado dos gregos.
2ª – Teses curtas, abruptas e dogmáticas sobre a necessidade de abandonar
as noções entrelaçadas de “método filosófico” e de “problemas filosóficos”.
Comenta que se alguém se afastar da noção representacionista,
provavelmente, se aproximara da noção historicista. Para a primeira os
problemas filosóficos e métodos podem ser revisistados, enquanto para a
segunda, não. Pois ao admitir o fluxo de mudança histórico, é admitido a
mudança dos métodos e dos problemas, sendo esses passíveis de revisitação
apenas como “sugestões imaginativas para a redescrição da situação
humana”. Assim “o progresso filosófico não é, portanto, uma questão de
problemas sendo resolvidos, mas de descrições sendo aperfeiçoadas”.
***
I
The natural ontological atitude, de Arthur Fine, inicia com “O realismo está
morto” e defende que os realistas não possuem razões que justifiquem sua
posição. O que eles têm são somente razões do coração1.
Para Rorty, na filosofia contemporânea, há uma divisão significativa:
representacionistas versus anti-representacionistas.
Representacionistas são aqueles que afirmam que há um correspondência da
mente e/ou linguagem com a realidade, enquanto os anti-representacionista.
Dentro dessas definições, os representacionistas são considerados realistas –
devido admitirem a correspondência com o real.

1
Referência a Pascal: O coração tem razões que até mesmo a própria razão
desconhece.
Em seguida destaca um problema da posição realista/representacionista: a
divisão da cultura em áreas hard e soft. Isso resulta numa distinção entre
aqueles que conseguem ascender ao nível hard para com aqueles que se
mantém no nível soft. Distinção oposta a proposta pragmática de não
separação da cultura e de hierarquias.
Rorty destaca que ainda assim, nem representacionistas nem anti-
representacionistas possuem argumentos arrasadores. E que de uma certa
forma, ambos recorrem a um standart não-humano. Apelar a esse standart é
uma postura ocidental, por assim dizer. Sobre essa postura comenta: “Acho
que seria uma boa ideia retecer a rede de crenças e desejos compartilhados
que formam a cultura ocidental para se livrar dessa convicção”. No fim das
contas, só restam as razões do coração, a vontade de crer.
Somente quando essa mudança cultural ocorrer é que poderemos “desfrutar
de tais aparatos intelectuais como a Suma contra os gentios [Sto. Tomás de
Aquino] ou o Nomear e a Necessidade [Saul Kripke] como espetáculos
estéticos”.
***
II
Dezesseis teses metafilosóficas que resumem as suspeitas de Rorty quanto
noção de “método filosófico” e “problemas filosóficos”.
1ª – Impasses filosóficos clássicos não são suscetíveis de resolução por meio
de modos mais cuidadosos e exatos de extrair significados. Seria insensato
pensar nas discordâncias entre Carnap e Austin, Davidson e Lewis, Kripke e
Brandom, Fine e Leplin ou Nagel e Dannett como se originando de
significados discrepantes que eles próprios acreditam ter encontrado em
certos enunciados.
2ª – Os filósofos citados possuem uma matriz filosófica-educacional
(anglófona) comum, não praticam nenhum método em comum e possuem em
comum apenas um interesse “O que acontece se transformarmos as questões
filosóficas antigas acerca da relação do pensamento com a realidade em
questões sobre a relação da linguagem com a realidade? ”.
3ª – Essa inversão não torna a filosofia da linguagem em filosofia primeira.
Contra Dummett, pois a natureza do significado passível de descoberta não
tem relevância para os argumentos atuais.
4ª – As diversas respostas à questão da relação entre a linguagem e a
realidade, dadas pelos filósofos analíticos, de fato se dividem ao longo de
algumas das linhas que uma vez dividiram os realistas dos idealistas. Contra
Dummett, por afirmar que a primeira foi marcada pela discordância a
respeito de quais sentenças são tornadas verdadeiras pelo mundo e quais
são por nós. Rorty refere-se a Bain e Bradley, Moore e Royce.
5ª – Os anti-representacionistas não usam um método diferente dos
representacionistas. Todos recorrem ao mesmo standart: não-humano.
6ª – Quando “método”... significando “procedimento decisório neutro”,
não há tal coisa como método filosófico ou científico.
7ª – A ideia de que a filosofia deveria ser posta no caminho seguro de uma
ciência é uma péssima ideia. Isso geraria um enrijecimento da filosofia,
transformando-a numa especificidade ou sistema.
8ª – Os pensamentos não têm partes discretas na forma correta, mas os
enunciados têm. O dictum de Frege de que as palavras somente têm
significado nos contextos de sentenças será visto pelos futuros historiadores
intelectuais como o início do fim da filosofia represationista. Pois a
representação consiste em correspondência parte-por-parte de complexos
mentais com não mentais, com linguísticos e não-linguísticos. Ou seja, os
pensamentos não têm partes discretas na forma correta, mas os enunciados
têm.
9ª – A questão entre os não-representacionistas e os representacionistas não
é uma questão de método.
10ª – A ideia de que os problemas da filosofia permanecem os mesmos, mas
que o método de lidar com eles muda, suscita a questão metafilosófica entre
representacionistas e os não-representacionistas. Pois “problemas
filosóficos”, como conceito, permanecem fixos para alguém como Kant e
mutáveis para alguém como Hegel.
11ª – Nagel confunde o afastamento de uma matriz disciplinar
historicamente determinada com o afastamento da própria filosofia. A
filosofia não é algo do qual alguém possa se afastar. Descartes e Hobbes ao
se afastarem do aristotelismo, Carnap e Heidegger em relação ao
neokantismo.
12ª – Há a possibilidade do afastamento de matrizes filosóficas gastas
gerarem novos programas filosóficos, como Descartes e Carnap. Ou gerarem
filósofos não redutíveis a sistemas, como Montaigne e Heidegger. Programas
de pesquisa não são essenciais a filosofia. São apenas uteis para
profissionalização dela.
13ª – A profissionalização dá aos atomistas uma vantagem sobre os holistas
e, desse modo, aos representacionistas sobre os não-representacionistas.
Pois os primeiros são mais sistemáticos do que os que afirmam que tudo é
relativo ao contexto.
14ª – A grande cisão entre a filosofia “analítica” e a “continental” é
aplamente devida ao fato de que o historicismo e o anti-representacionismo
são muito mais comuns entre os filósofos não-anglófonos do que entre seus
colegas anglófonos.
15ª – O progresso filosófico não é feito executando-se pacientemente, os
programas de pesquisa até o fim. Todos esses programas, eventualmente,
esvaem-se. O progresso é feito por meio de grandes feitos imaginativos.
Hegel e Wittgenstein, são exemplos.
16ª – Esperar por um guru é algo perfeitamente respeitável para os filósofos.
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RORTY [citando Nabokov]: Há um trecho famoso no epílogo de “Lolita”
em que ele diz:
“Para mim, uma obra de ficção só existe na medida em que me deixa ficar
numa felicidade estética. Uma sensação de estar ligado com outras formas
de existência, em que a arte (curiosidade, ternura, gentileza, êxtase), é a
norma”.
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