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1.

AS KLÍNICAS
ESQUIZOANALÍTICAS – por
Gregorio Baremblitt
Abril 20, 2018 por Anderson dos Santos
As Klínicas Esquizoanalíticas, é um texto que compõe a 3ª edição
revisada do livro Introdução à Esquizoanálise (Ed. FGB/IFG, 2010), de
Gregorio Baremblitt. A Fundação Gregorio Baremblitt e o Instituto Félix
Guattari descrevem no prefácio deste livro que a principal intenção
da Coleção Esquizoanálise e Esquizodrama, a qual o livro se encontra, é “a
publicação de textos que sejam de utilidade para todos os interessados
nessa práxis, em especial, agentes sociais implicados na transformação do
mundo contemporâneo”. Cabe acrescentar que este não é um texto que se
encontrava disponível na Internet, pois através das minhas buscas e
releituras pude perceber que o livro-PDF disponível na rede faz parte de
uma antiga edição, sendo este trabalho revisado e atualizado. Desta forma,
em conexão com a intenção acima, transcrevi esta re-edição onde
Baremblitt acrescenta novas linguagens e ideias críticas-reflexivas sobre As
Klínicas Esquizoanalíticas. Para finalizar, quem desejar ir além desta
leitura, sugiro que busque (também) experimentar a leitura da edição mais
recente do livro.

Jackson Pollock, N.5, 1948.


Respeitamos sinceramente as denominações (que pretendem
“determinar” um estatuto) e as periodizações (que atribuem uma ou outra
ordem sequencial) à obra de Deleuze e Guattari. Mas sabemos que se
trata de um rizoma multiplicitário inesgotável, e nunca submetido a um
decalque definitivo que o divida em partes estanques e inamovíveis. Nada
tenho contra uma leitura filosófica ou lógica, ou sociológica da citada obra.
Mas, parece-me poder prevenir a aparição de um fenômeno
surpreendente: as leituras feitas feitas desde um ponto de vista específico
muito frequentemente dão dois resultados notáveis (entre outros).
Primeiro, a leitura especifica em questão, para poder assimilar a
esquizoanálise a seus domínios (e, portanto, a seus alcances) acaba por
“podar” o rizoma esquizoanalítico, desvitalizando-o e triando-lhe audácia
e ousadia. Segundo, a “impregnação” esquizoanalítica da especificidade
em pauta é tão intensa, que acaba por “digeri-la”, ou por “contaminá-la”,
como gostariam de dizer Tarde, Artaud e Camus.
O acima exposto não questiona de modo algum o fato de que, cada um,
dê à sua cartografia o nome que lhe pareça mais original e expressivo, já
que terão percorrido sempre itinerários únicos e não repetíveis.
Mas,e as navegações que eu tenho proposto e feito, por pobres que
possam ser, não são por sua vez, singulares e nunca exaustivas? Sem dúvida
alguma, mas o que queremos ver como diferença é que temos escolhido
rotas, canais e portos que procuram não sair da esquizoanálise mesma ( se
é que esse poliverso mutante, esse oceano turbulento de máquinas livres
em variação contínua admite um simulacro de mesmidade). Não digo que
“Capitalismo e Esquizofrenia” deva ser o primeiro livro, nem o último a ser
visitado, apenas sustendo que é indispensável passar por ele.
Quanto aos nomes, creio que são: esquizoanálise ou pragmática universal
(segundo constam em O Anti-Édipo e em Mil Platôs, respectivamente), mas
também cabem à esquizoanálise os apelativos de ecosofia, ecopráxis,
micropolítica, “uma cura”, “uma vida”. Assim como também se pode dizer
dela que é sabedoria… e filosofia… e ciência… e arte (sobretudo literatura e
música)… e política… e clínica… e delírio e qualquer individuação
por hecceidade. Nenhuma dessas denominações nos estranharia. O
importante é que depois desse livro-evento… já nada será como antes… e
que esse advento merece, além de “todos os nomes da história”, um nome
próprio. Algo assim como “O efeito Deleuze e Guattari“, “esquizoanalizar,
1968, Paris“. Mas, justamente por isso, é preciso perguntar se depois desta
individuação, “todos” os nomes-estatutos e os “inventários de diferenças”,
tanto quanto suas “periodizações-hierarquizações” (por exemplo, as
especificidades e as profissionalidades) não tendem a tornarem-se
irreversíveis e transversalmente mutantes?
Em outras palavras: uma vez fragmentadas, pinçadas, “digeridas” e ejetadas
parcialmente pela esquizoanálise, as profissionalidades e as especificidades
devem deixar de existir como tais? “Tudo” se torna assim parcialmente
esquizoanálise? Isto é, ou bem uma questão de “gostos” ou uma escolha
meramente estratégica. Brincando um pouco com a questão do “gosto”:
quem quer que seja, quando se trata, por exemplo, de automóveis, pode
preferir um Cadillac modelo 1950 a um Sedan ecológico movido a energia
solar, ou a um trem bala movido a fusão atômica. Mas tendo satisfações de
colecionador e ainda de restaurador, nada se saberá da potência
estratégica e da “dose” de realteriadade das invenções mencionadas; por
isso é pouco o que pode ter a esquizoanálise de “retrô” ou de “revival”. Pelo
menos é certo que em muitos itens a esquizoanálise reavalia releituras de
um passado que realmente foi melhor.
Da esquizoanálise se pode fazer uma cartografia materialista dialética, ou
uma empirista lógica, ou neo-positivista, ou fenomenológica, ou
existencialista, ou humanista, ou estruturalista, mas o “viés” de leitura da
especificidade em questão terá inevitavelmente “um não sei que a mais
de diferente” que confere à disciplina em questão um “valor agregado”
inconfundível. Não importa demasiado se a especificidade em questão
acaba apropriando-se caladamente de moléculas, partículas ou fluxos da
esquizoanálise (como tem ocorrido regularmente). Segundo acredito, uma
das razões para conservar os modos, processos e efeitos, assim como
assumir explicitamente cada uma dessas respectivas leituras, são suas
inesperadas e não reconhecidas mutações, o qual tem muito a ver com a
importância que Deleuze e Guattari atribuem nos experimentos
esquizoanalíticos a certa dose de real, possível e impossível, que serve de
algo como uma ancora do barco na tormentosa travessia do especialista
no insondável e proceloso mar esquizoanalítico.
Não falta quem diga, com mais interesses que inspiração, que a militância,
a educação, as “ciências médicas”, a vida cotidiana etc. são “aplicações
clínicas” da esquizoanálise. Talvez seja assim, mas é interessante que
nenhuma das práticas mencionadas se gaba especialmente de ser uma e
só uma especificidade.
Tampouco, falta quem interrogue que o que denominamos de psicanálise
nunca poderá ter nenhum viés esquizoanalítico? Parece evidente que não,
mas se isso chegar a acontecer, será que a psicanálise não terá já devindo
esquizoanálise? Por que não? E ainda, se deveio e se seguirá devindo
esquizoanalítica, o fará, inevitavelmente, de maneiras singulares, e como
multiplicidades, ou seja, sempre como o outro de uma
suposta esquizoanálise princeps que, a rigor, não existe como tal. Mas
o certo é que conceber uma psicanálise assim, é como (guardando as
devidas distâncias) disfarçar qualquer fascismo aggiornado. Será
ridículo conservar o nome, o divã, a semiologia do significante, o
sujeito, “isto é o que você queria dizer”, a “fama”, o marketing, o
inconsciente edipiano etc.
Por isso, os deleuzianos “de carteirinha”, assim como os pundonorosos
reativos a uma presuntiva ortodoxia esquizoanalítica impossível, tanto em
termos como de fato, podem dormir tranquilos. O problema não é esse. A
questão consiste em como aprender a sonhar acordados.
As klínicas esquizoanalíticas, com k, obviamente, têm tudo a ver com o
klinamen: desvio produtivo na queda dos átomos que, segundo os
atomistas, os epicúreos e os estóicos, gerava um encontro de trajetória que
“criava” o novo. Tais klínicas, que pouco e nada tem a ver com o clinos (o
paciente deitado, reclinado passivo etc), não serão importantes demais
para constituir um patrimônio dos clínicos convencionais? Particularmente,
dos intelectuais que ostentam antigos e diversos títulos que os consagram
como tais? Refirmo-me, especialmente, aos que se proclamam filósofos-
professores, psicanalistas, holistas, sistêmicos… ou não sei o quê?
Não se pode desconhecer que muitos desses clínicos devêm
ocasionalmente esquizoanalistas sem sabê-lo (e que talvez nem precisem
inteirar-se disso). A partir da ideia de heterogênese (o diferente que nasce
do diferente, o diferente que estoura no seio do igual), jamais
conseguiremos nem ignorar nem conhecer a infinita variedade dos
dispositivos klínicos, assim como a dos efeitos klínicos dos agenciamentos
que, desde a superfície de registro-controle, não se identificam como
klínicos. Mas tampouco, cabe desconhecer que há quem se acha
esquizoanalista e se apresente, por exemplo, como psicanalista, o qual não
aparenta propriamente ser, nem uma estratégia de infiltração, nem um
disfarce segundo o qual um simulacro se fantasie de “boa cópia”; mais
parecem ser “más cópias” que aspiram aos benefícios que, na “República”,
estão reservados aos “autênticos pretendentes”. Certamente, sabemos que
certas denominações e títulos podem ser inevitáveis para poder “infiltra-
se” num trabalho que, embora seja micropolítico ou minoritário, pode
envolver multidões (multiplicitárias). Não é por causalidade que Gilles
Deleuze cunhou o prognóstico: “vislumbro um mundo no qual todos
seremos clandestinos“. Desde uma micro percepção hiper veloz, não
costuma ser muito difícil distinguir um militante esquizoanalista disfarçado
de membro do establishment de um psicanalista supostamente “apócrifo”,
ou de um professor ortodoxo fantasiado de esquizoanalista, ou de um
esnobe de variadas titulações ou de nenhuma. Não me parece que quando
necessário, seja complicado fazer essa distinção. Por um lado, dá para ver
um esquizoanalista disfarçado de sacerdote de um culto filosófico
(supostamente para poder sobreviver, pretensão essa que não temos
porque questionar). Por outro lado, é bastante menos difícil “diagnosticar”
como esquizoanalista a um líder indígena lutando pela demarcação das
suas terras para dar-lhes um uso agrícola “orgânico” do que um
“esquizoanalista na moda” exibindo uma coroa de penas, desfilando num
hotel cinco estrelas.
Por tudo isso, será que “não dá a pensar” que devir um klínico
esquizoanalista não passa pelos títulos que legitimam ou “autorizam” essa
condição, mas que passa muito mais por um modo de klinicar, por um
modo de viver desejante, produtivo, revolucionário? Será que para
conceitualizar esse modo de viver, basta a fórmula indubitavelmente
magnífica: não fascista? Ou é preciso acrescentar, por exemplo: não
neoliberal e até não social real ou não social-democrata?
Ou seja, não-heterogestor e não-hetero-analítico?
Será que para um viver desse modo, fazer klínica esquizoanalítica exige-se
delimitar qual parte do afetar e ser afetado da existência do “expert”
corresponde ao “ofício” de klínico?
Já ouvi e até escrevi que na formulação das perguntas estão implícitas as
respostas. Mas gostaria muito que o leitor não tomasse estas interrogações
como deliberadamente retóricas. Porque, é acaso “ponto pacífico” como
devém e devirão as ofertas, as demandas, os contratos, as implicações, as
caixas de ferramentas, os diagnósticos e as curas nas klínicas
esquizoanalíticas? São por acaso “ponto pacífico” quais serão os espaços e
os tempos, os personagens klinicais (tanto por parte dos “agentes”, como
pela dos “pacientes”): individuais, coletivos, equipes, grupos, organizações,
civilizações? Como seria a formação de um klínico esquizoanalista, como
seriam suas “sociedades científicas ou acadêmicas”, suas “comunicações
bibliográficas”, seus “conselhos e sindicatos”?
Por um lado: faz sentido colocar estas perguntas, boa parte de cujas
formulações já começam obsoletas para a nova klínica (tanto como
esquizoemas como enquanto recursos de intervenção), já que constituem
exatamente o que há que se criticar e recriar? E, não obstante: faz sentido
tratar de prever o imprevisível, de dizer o indizível, de conceitualizar o
virtual recém atualizado ou por atualizar? As klínicas esquizoanalíticas
como transmutação? Ou como elegante aggiornamento subliminar
homeopático, mais ou menos flagrante? Falando nisso: o leitor já ouviu
falar em homeopatia quântica? Será que já tem uma homeopatia
esquizoanalítica? Que diabos será isso?
Mais substancialmente: as klínicas esquizoanalíticas estarão destinadas
exclusivamente às elites pagantes? … Ou ao Povo? … Seja até mesmo que
se entenda um “povo que está por vir”?
Sabemos que “máquina de guerra” não significa “artefato bélico”, mas,
assim como os “mundos” estão cheios de genocidas: vale a pena qualquer
maquinação, que não tenha, pelo menos, umadimensão guerreira? Como
se assegurar para distinguir a “biolência” combativa necessária de uma
violência pela morte?
Interessa, por exemplo, interrogar-se o que não seria klínica
esquizoanalítica, embora a negação não seja um recurso preferencial da
esquizoanálise?
É bom recordar que das proposições indecidíveis surgem as conexões
inventivo-revolucionárias e também pode surgir a geléia pós-moderna.
Nessa Catedral flutuante, chamada O Anti-Édipo, construída por dois
geniais compagnons (trabalhadores autogestionários da construção, no
século XII, na França), estão prescritos dois tipos de tarefas para a
esquizoanálise: as negativas e as positivas. Será arbitrário demais
imaginar que todos os escritos “anteriores” e “posteriores” (enfatizando Mil
Platôs), não fazem outra coisa que cumprir “lisa” e “aionicamente” com
essas duas tarefas? Que outra coisa podemos fazer, os klínicos
esquizoanalíticos, que continuar reinventando esses trabalhos?
Uma klínica com um paradigma estético, uma estética klínica, ou uma
klínica estética sem paradigma algum? Uma ciência menor dita em uma
língua menor, que se transversalize com uma literatura menor… Uma
filosofia sem fundamento, um pensamento sem imagem, uma
micropolítica do desejo… Uma práxis da diferença, de conexões que dêem
à luz as singularidades intensivas, da proliferação de multiplicidades
incapturáveis, da geração de hecceidades irredutíveis, da concepção de
individuações inclassificáveis… O certo é que todos esses conceitos,
funções e variações (esquizoemas) são para nós, contemporâneos, um
inapreciável “presente dos deuses”, com a condição de que as valiosas
instruções acerca de “como fazer um corpo sem órgãos” (ou “como montar
dispositivos caósmicos”) são capítulos maravilhosos que narram o “que se
passou”, mas não o que “está se passando”, nem o que “está por passar”.
Uma klínica como uma desabituação dos hábitos e uma canalização para a
conexão das afinidades paradoxais? Uma klínica como uma desmitificação
das semelhanças, das analogias, das contradições da representação e da
noção? Uma klínica como da afirmação da diferença? Uma Klínica como a
promoção de um novo entendimento para gestar “bons encontros”? Uma
klínica como uma nova arte do uso disjunto das faculdades? Uma klínica
como geração do acontecer-sentido? Uma klínica como uma nova lógica
do sentido e da sensação? Uma klínica como assunção da univocidade do
ser e do eterno retorno da diferença, tanto quanto como da
transvalorização dos valores? Uma klínica como reformulação de “falsos
problemas” e como “estratégias” para a atualização do virtual? Uma klínica
com a inclusão de semióticas a-significantes? Uma klínica nômade dos
espaços lisos, das dobras infinitas, do pensamento do fora, do diagrama e
não do programa, da desterritorialização, das linhas de fuga, do
acontecimento, dos novos ritornelos literários ou musicais contra a brusca
interrupção ou a aceleração ao infinito do processo esquizôntico, contra as
reterritorializações normais, neuróticas, e perversas (de divã), paranóicas,
melancólicas e esquizofrênicas (de manicômio), contra o edipismo, o
familiarismo, o estatismo, os fundamentalismos, totalitarismos, tiranias,
dita-duras ou “brandas”, ou contra o organismo? Uma klínica maquínica?
Uma crítica e klínica… Uma noologia klínica… Uma klínica do devir mulher,
uma klínica do devir animal, do devir célula, do devir imperceptível, do devir
cérebro? Uma klínica que funciona “entre”, ou seja, que provoca realizações
da realteridade nos interstícios “entre” as realidades molares, sejam elas
micro ou macro.
Apenas como uma menção vale opinar que, em geral, as klínicas mais
intensivantes são as que se valem das artes e das artesanais, mas,
especialmente, as que passam pelos corpos, tanto os que descritivamente
denominamos “meu” ou “teu” corpo (que em geral tem alguma
correspondência com o corpo anátomo-fisiológico), mas falando muito
mais amplamente, se refere aos diversos corpus: físico-químico, neuronal,
familiar, grupal, institucional, linguístico, corporativo, “imaginário”,
“simbólico”, intuitivo, cultural etc. Isto seja dito sem perder de vista que em
cada um desses estratos, códigos e territórios pode-se tratar tanto do
corpo sem órgãos, como do corpo-cheio, como do corpo pleno.
Do mesmo jeito que cada leitor pode fazer suas próprias cartografias na
leitura da obra esquizoanalítica, cada operador pode inventar suas
klínicas. Isso não implica que não possa inspirar-se em algumas que já
existem e que podem ser-lhe afins.
O autor destas páginas inventou em 1973 uma klínica que denominou
esquizodrama. Muitos companheiros o têm praticado e incrementado
desde então em diversos países da América Latina e Europa. Trata-se da
obra de uma multiplicidade de autores.
Cabe suspender aqui estas linhas reconhecendo que tem capítulos
extraordinários de Capitalismo e Esquizofrenia aos que não temos tido
aqui folego para referir-nos em detalhe. Ficarão, talvez, para outra
oportunidade. Ars longa vita brevis.