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RESENHA:

Jean Brum

PROCESSO, FORMA E SIGNIFICAÇÃO – UMA BREVE CONSIDERAÇÃO

Corrêa, Roberto Lobato (Inédito).

Publicado originalmente em 1985, o livro Espaço e Método1 do geógrafo


brasileiro Milton Santos é uma referência singular no trato de questões teórico-
metodológicas na procura de uma interpretação do espaço geográfico e suas dinâmicas.
Um dos destaques da obra é a proposição de que estrutura, processo, função e forma
constituem-se enquanto as categorias analíticas fundamentais através das quais é
possível compreender a produção do espaço. Muito bem recebido no cenário da
geografia brasileira, o argumento levantado por Santos no livro foi (e ainda é)
amplamente discutido nos mais variados espaços acadêmicos, suscitando posturas em
defesa do exposto na obra, assim como novos olhares sobre as categorias elencadas pelo
autor. O texto “Processo, Forma e Significado - uma breve consideração” do geógrafo
Roberto Lobato Corrêa se insere neste debate como uma interessante reflexão da
possibilidade de novos caminhos para as discussões levantadas por Santos.

Relacionando duas matrizes teóricas distintas, representadas pelo materialismo


histórico dialético, presente na obra de Milton Santos, e os estudos culturais, base de
apoio para a chamada “nova geografia cultural”, Corrêa busca uma reflexão teórica
mais ampla sobre as categorias de análise do método geográfico. Tomando como
referência o trabalho do filósofo Ernest Cassirer, “A Filosofia das Formas
Simbólicas”2, Corrêa defende a incorporação da categoria significado como
complemento necessário as categorias de estrutura, processo, função e forma, visando
um enriquecimento da proposição original de Santos.

Na primeira parte do texto, Corrêa dedica-se a uma exploração, ainda que breve,
das categorias apontadas por Santos. Encarando o espaço como um produto social, que
é ao mesmo tempo reflexo, meio e condição da reprodução social, Corrêa aponta que as
categorias elencadas por Santos configuram-se como elementos essenciais para a análise

1
SANTOS, M. Espaço e Método. São Paulo, Nobel, 1985.
2
CASSIRER, E. A Filosofia das Formas Simbólicas. Vol. 1, A Linguagem. São Paulo, Martins Fontes,
2001(1953).

1
das dinâmicas espaciais. O autor destaca que a categoria estrutura se refere à própria
organização da sociedade, em suas dimensões políticas, econômicas, sociais e culturais.
A estrutura, contudo, não é estática; o conjunto de mecanismos e ações a partir dos
quais a estrutura se movimenta são considerados como o processo. A noção de função
abarca as atividades sociais que permitem a reprodução social, sendo a forma,
compreendida como uma criação humana material ou não material, meio pelo qual as
atividades se realizam. As quatro categorias são apresentadas como indissociáveis entre
si, mantendo uma relação dialética. Corrêa busca sintetizar as quatro categorias em dois
conjuntos, estrutura-processo e função-forma, ou, como o próprio autor sugere,
simplesmente processo e forma, afinal, tais pares manteriam relações estreitas de co-
construção. A relação entre processo e forma é explorada por Corrêa através do
comentário sobre algumas das possíveis maneiras pelas quais esses pares interagem, a
fim de avançar na compreensão das implicações em assumir essas categorias no estudo
da organização do espaço. No entanto, para que este espaço, encarado como produto-
produtor social, se torne inteligível é preciso reconhecer o papel estruturante dos
significados; apenas a luz dos significados as coisas ganham coerência. Corrêa propõe
os significados, apoiando-se, sobretudo, em Cassirer e nos postulados da geografia
cultural (tanto a Saueriana como a pós-70), como um complemento as categorias já
destacadas, dando origem, nas palavras do autor, a uma tríade; processo, forma e
significado.

Consideremos a incorporação do significado como categoria básica de análise do


espaço, proposta por Corrêa, uma contribuição fundamental para o pensamento
geográfico. Ao relacionar significado, forma e processo o autor rompe com a ênfase aos
aspectos materiais do espaço e abre caminho para um repensar a geografia que valoriza
o papel do simbolismo na percepção e organização do espaço. Os significados são,
como o próprio autor coloca, parte imprescindível da prática humana; se todo
comportamento humano é simbólico, também processo e forma estão impregnados de
simbolismo, logo, o próprio espaço geográfico. Assumindo essa postura, Corrêa nos
chama a atenção para a existência de formas simbólicas, passíveis de diferentes
interpretações a luz de quem as observa. Corrêa aponta para a consideração de que tais
formas podem ser materiais ou não materiais. Neste ponto, acreditamos na necessidade
de um maior aprofundamento. Um exemplo interessante do que pedimos maior
destaque pode ser observado nos padrões de migração dos índios Guarani Mbya; sua

2
busca por deslocar-se em direção ao litoral e estabelecer aldeamentos próximos a essas
regiões está pautada no mito de que o paraíso (yvy maraey, a terra sem mal) está
localizado além do Atlântico, e que é preciso cruzar o oceano para atingi-lo3. Yvy
Maraey é um espaço, composto de processo, forma e significado; assim como Corrêa
defende, é uma forma simbólica não material, existe apenas na mente dos índios mbya,
mas, como argumentamos, tem fortes implicações materiais, pois é através deste mito
que o grupo constrói seu padrão migratório. Assim como os mbya, cada um de nós
possui suas próprias formas simbólicas não materiais que definem nossas práticas e
espaços materiais, reconhecê-las e interpreta-las exige um esforço em repensar as bases
teóricas da geografia. Acreditamos ser este um desafio preciso para a geografia, e o
reconhecimento de Corrêa do significado como categoria necessária a análise espacial
representa um caminho para descortinar essas questões, sem deixar encerrar-se em uma
matriz de pensamento única e excludente.

Resenha por Jean Brum


Mestrando – Programa de Pós Graduação em Geografia
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

3
LADEIRA, M. I. O Caminhar Sob a Luz- Território mbya à beira do oceano. São Paulo, UNESP, 2007.