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FUNAI

Indigenista Especializado

1. Noções de Etnologia Indígena. 1.1. Questões de "indianidade" e identidade étnica. 1.2.


Sociobiodiversidade. 1.2.1. Diversidade linguística. 1.2.2. Demografia indígena. 1.3. Economias
indígenas. 1.4. Aspectos de organização social indígena. 1.5. Aspectos de religiões indígenas. 1.6.
Cosmologias e mitos indígenas. 1.7. A diversidade das culturas indígenas. ............................................ 1

2.Noções de Antropologia Social e Cultural. 2.1. Identidade e etnocentrismo. 2.2. O trabalho de campo.
2.3. Culturas e línguas indígenas no Brasil. ............................................................................................ 16

3. Terras indígenas. 3.1. Organização política das comunidades. 3.2. Movimentos indígenas. ......... 28

4. Etnicidade e resgate histórico-cultural de elementos étnicos no contexto atual.............................. 42

5. Os direitos indígenas e o ordenamento constitucional e infralegal. 5.1. Indigenato. ....................... 42

6. História do Brasil-Colônia. 6.1. Gestão dos territórios luso-americanos ......................................... 47

6.1.1. Legislação régia portuguesa sobre os direitos dos índios as suas terras ................................. 52

6.1.2. Aldeamentos indígenas ............................................................................................................ 58

6.1.3. Catequese jesuítica e franciscana............................................................................................ 59

6.2. História do Brasil-Império. 6.2.1. Rebeliões do Período Regencial e participação indígena ........ 60

6.2.2. Indianismo e romantismo ......................................................................................................... 62

6.2.3. Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios ........................................................................ 63

6.2.4. Lei de Terras (1850)................................................................................................................. 68

6.2.5. Extinção dos aldeamentos e esbulho das terras indígenas ...................................................... 69

6.3. Brasil-República e indigenismo. 6.3.1. Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) ........... 73

6.3.2. Protecionismo e assimilacionismo ............................................................................................ 77

6.3.3. Museu do Índio (anos 1950) e Parque Nacional do Xingu (anos 1960) .................................... 78
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6.3.4. O fim do SPI e o nascimento da Funai ..................................................................................... 80

6.3.5. O indigenismo no regime militar (anos 1960 a 1980) ............................................................... 80

6.3.6. A redemocratização e a cidadania indígena na Constituição de 1988 ...................................... 89

7. As políticas públicas direcionadas aos povos indígenas. ............................................................... 98

8. A influência da tecnologia na modificação de valores culturais indígenas. ................................... 104

9. Noções de demografia dos povos indígenas. ............................................................................... 106

10. Noções de Geoprocessamento. ................................................................................................. 118

11. Noções de Cartografia ............................................................................................................... 122

12. Noções de Desenvolvimento Sustentável. ................................................................................. 131

13. Noções de Gestão Ambiental..................................................................................................... 142

14. Noções de Sociologia. ............................................................................................................... 154

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1. Noções de Etnologia Indígena.
1.1. Questões de "indianidade" e identidade étnica.
1.2. Sociobiodiversidade.
1.2.1. Diversidade linguística.
1.2.2. Demografia indígena.
1.3. Economias indígenas.
1.4. Aspectos de organização social indígena.
1.5. Aspectos de religiões indígenas.
1.6. Cosmologias e mitos indígenas.
1.7. A diversidade das culturas indígenas.

1.1. Questões de "indianidade" e identidade étnica.

Segundo o ilustre doutrinador Oliveira Filho, o termo “indianidade” é concebido no sentido de uma
forma de concepção dos indivíduos formulada nas relações de interação destes com os órgãos tutelares
ou aparelhos de Estado a partir de uma determinada “imagem do que deve ser um índio”. Isso acaba por
impor aos diversos grupos sociais (e culturas) um modelo, que passa a ser efetivamente assumido por
estes grupos. É o processo de emergência ética que exige uma nova concepção a respeito de cultura e
que deve ser compreendida por todos que lidam com questões indígenas.
Assim, as questões de indianidade versam sobre debates e análises desenvolvidas para se chegar a
essa nova concepção a respeito da cultura indígena e sua identidade étnica. Mas o que seria essa
identidade étnica? Segundo o ilustre doutrinador Barth a identidade étnica refere-se as pessoas que são
parecidas consigo (se identificam) na cor de pele, cultura, língua e que compartilham história e origem
comuns.
Cabe trazer ao estudo o sentido do que é identidade, tendo em vista que pelos antropólogos e
sociólogos está pode ser entendida a partir de duas dimensões: a pessoal e a social que, embora
interconectadas, realizam-se em níveis diferentes.
A primeira dessas dimensões, a pessoal, serve de base para a posterior construção de uma identidade
de grupo (étnico, social, profissional).
Ela é estabelecida sempre de forma relacional, visto que, para se estabelecer o eu, é imperioso poder
determinar as diferenças em relação ao outro.
Portanto, as determinações que estabelecem a identidade de cada um surgem na interação com os
demais agentes de um determinado campo, onde existam relações sociais. Essas permitem aos
participantes classificar os indivíduos a partir de elementos que determinem o que eu sou e o que me
diferencia em relação ao que os outros agentes são. Servem de parâmetros para tal classificação
elementos biológicos, culturais, profissionais, sociais ou quaisquer outros capazes de salientar as
diferenças entre o eu e os outros na interação social.
O princípio de classificação que determina as identidades pessoais nos remete a uma característica
importante das sociedades humanas, perpassando culturas e tempos: a necessidade de nomear e
representar os sujeitos, estabelecendo sentidos e significados para esses sujeitos e suas diferentes
categorias. Aplicando a necessidade de classificação para o estabelecimento da identidade pessoal,
Brandão (1986) nos remete aos princípios definidos por Marcel Mauss para o estudo da origem da ideia
de pessoa:
1) como uma categoria de nominação e diferenciação de outros seres do mundo, a ideia de pessoa
não é inata ao espírito humano, ela é uma produção social;
2) como outras construções simbólicas da cultura dos povos, a ideia de pessoa tem uma história
própria, dentro da história social da humanidade;
3) em uma mesma época essa ideia difere de uma sociedade para a outra, podendo não existir sequer
em algumas. (BRANDÃO, 1986).
A segunda dimensão de identidade, proposta por antropólogos e sociólogos, é a social. Realizada em
um nível de identidade acima da identidade pessoal, configura-se pela atualização da identidade pessoal
em relação à noção de grupo. Essa atualização é dada pelo reconhecimento, por parte dos indivíduos,
de elementos identitários semelhantes ou idênticos em outros agentes. Estabelece-se, então, uma nova
classificação, aproximando os que possuem elementos de identidade comuns que, por sua vez, servem

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para determinar os que pertencem e os que não pertencem ao grupo social. A relação existente entre
identidade pessoal e a noção de grupo pode ser verificada em diferentes níveis de identidade – classe
social, etnia, nacionalidade, etc. É de fundamental importância para o funcionamento dessa noção de
grupo o sentimento de pertença, pois esse se reflete na base de formação de uma identidade social, que
depende da atribuição por outros, mas também da autoatribuição.
Dessa forma, as identidades sociais assumem um caráter amplamente relacional, sendo formadas à
medida que os agentes as utilizem para classificar a si e aos outros nas interações sociais.
As identidades construídas nas relações entre índios e brancos, historicamente, tenderam a depreciar
o indígena. Desde o período dos “descobrimentos”, momento em que duas realidades socioculturais se
encontraram, as interações entre os habitantes das terras a Oeste do Atlântico e os colonizadores
construíram representações ou estranhamentos que relegaram a segundo plano as identidades dos
chamados povos pré-colombianos. Dentre as interações que redimensionaram as identidades de índios
e europeus, destacam-se três níveis: a identidade cultural, a identidade pessoal e a identidade étnica.
Essa afirmação, foi embasada na afirmação de Paula Caleffi (2003) ao tratar da desconstrução
identitária das populações pré-colombianas, iniciada no século XVI, com a chegada de Colombo ao
território que o navegador genovês imaginava ser as Índias Orientais.
Nesse momento, foi atribuída, pelos europeus, uma nova identidade aos grupos humanos ali
existentes, generalizando-os como índios. Essa classificação homogenizante estabeleceu uma nova
identidade a partir da qual os índios, dali em diante assim chamados, passaram a ser representados na
interação com o colonizador europeu.
A nova identidade atribuída por Colombo colocou, numa mesma categoria, culturas diversas e,
considerando que as instituições que serviam de representação para as identidades nacionais nos
séculos XV e XVI podiam também ser aplicadas aos grupos indígenas (língua, território tradicionalmente
ocupado, história comum, etc), porque não dizer, nações diferentes. Essa atribuição de identidade marcou
o início do processo de desconstrução da identidade cultural das populações indígenas, o qual continuou
com o envio de missionários religiosos que passaram a agrupar os índios em missões, reduções e
aldeamentos, para lhes apresentar a fé católica e, através da catequização, os padrões de convivência e
os modelos de produção que eram interessantes ao colonizador.
Enquanto a identidade cultural dos indígenas era desconstruída, impunha-se o modus vivendi (modo
de viver) europeu. As divindades indígenas deveriam ser abandonadas, devendo esses aceitar o batismo
e a iniciação no Cristianismo. Os modelos sociais de convivência nas antigas aldeias passaram a ser
repelidos pelos colonizadores que precisavam inserir os indígenas no modelo de servidão dos Estados
europeus para, assim, disporem de sua mão-de-obra. Os modelos técnicos de produção, através dos
quais os indígenas tradicionalmente se relacionavam com o meio ambiente, também precisavam ser
substituídos, pois as roças de subsistência dos grupos indígenas não dariam conta do volume de
produção necessário à empresa da colonização e, além disso, não estavam enquadrados nas ambições
dos exploradores europeus. A substituição da religião, dos padrões de convívio e dos modelos produtivos
indígenas – elementos constitutivos da identidade cultural de um povo – foram os elementos que
estabeleceram os significados da conquista da América pelos europeus e reapresentaram os indígenas
como inferiores. O processo pelo qual foram impostos os modelos religiosos, produtivos e de convívio
social europeus representa a essência do que se chama desconstrução das identidades culturais
indígenas.
A manutenção de elementos da cultura indígena em empreendimentos movidos pela Coroa portuguesa
e depois pelo Império Brasileiro, deu importância à ideia de que as diversas frentes de expansão que se
desenvolveram no Brasil aparecem como espaços de interação entre sociedades, culturas e identidades.
Enquanto as frentes de ocupação e colonização avançavam, a identidade indígena não foi
passivamente desconstruída. Os índios buscaram formas de reação e articulação política, econômica e
cultural com o colonizador, criando elementos híbridos que acabaram por manter vivos traços
constitutivos das identidades indígenas. As articulações entre colonizadores e índios, desenvolvidas
durante o contato, a partir das quais ambos os envolvidos trocaram e passaram a adotar elementos
constitutivos de identidades diferentes das suas, sublinham o caráter de interação cultural existente nos
contatos entre índios e brancos no Brasil.
Um segundo nível de identidade questionado, durante a conquista da América, foi a própria identidade
do indígena como pessoa, como ser humano. Dentre as muitas particularidades imprimidas pela influência
da Igreja à conquista, aparece o questionamento em torno da existência ou não de alma nos indígenas.
Embora, nos padrões atuais, uma discussão desse porte pudesse jogar a argumentação a um nível
puramente metafísico e de cientificidade duvidosa, para o período, a discussão era bastante pertinente.
A classificação dos indígenas como não-humanos facilitava em muito as possibilidades de exploração
dessas populações. A importância dessa questão podia ser constatada mais facilmente na ocupação da

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América espanhola, sendo bastante conhecidos os debates entre o Frei Bartolomé de Las Casas e o
Doutor Sepúlveda, travados no século XVI sobre a mesma.
A dificuldade dos europeus em classificar o outro que ali se apresentava era interpelada ainda, como
se pode perceber, pelos interesses envolvidos na conquista. O questionamento direto da possibilidade de
identificação dos indígenas como homens ganhou então uma face política, configurando uma ferramenta
que justificava a subjugação daqueles “seres inferiores”.
As dificuldades de classificação, por parte dos europeus, daqueles habitantes das terras “descobertas”
não foram uma exclusividade da América espanhola. A carta de Pero Vaz de Caminha, descrevendo as
terras encontradas, também deixou transparecer essa dificuldade. Caminha serviu ainda para destacar
uma outra característica dos processos de atribuição de identidades, a de ela se basear na carga de
conhecimentos anteriores trazida pelos envolvidos na interação. A dificuldade de Caminha em descrever
os indígenas não existia somente por que era uma população desconhecida dos europeus, mas também
pelo fato de que os indígenas não podiam ser associados aos padrões então conhecidos pelos
exploradores, assim tinham que ser descritos como um novo tipo físico, ou pelo menos pelo que aqueles
sujeitos não eram, como nos seguintes fragmentos do texto de Caminha, apresentados na releitura feita
por Tufano (2003):
A feição deles é parda, um tanto avermelhada, com bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam
nus, sem nenhuma cobertura. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas, e
nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. [...] Nenhum deles era circuncidado, mas, ao
contrário, eram todos assim como nós. (TUFANO, 2003).

A importância da carga histórica anteriormente adquirida pelo grupo ou indivíduo, para a atribuição de
identidades também transparece nos relatos indígenas do encontro entre os povos pré-colombianos e os
exploradores europeus.

Neste contexto, considerando essa evolução histórica a identificação étnica dos indígenas envolve
hoje processos de organização social da diferença cultural mediados por agentes e agências indigenistas
que visam monopolizar o sentido do que é ser "índio" com o propósito de regular a distribuição dos
"direitos indígenas" segundo critérios "racionais". São estes critérios que convertem a identificação étnica
dos índios, que na verdade são segregados da sociedade não-india, essa problemática técnico-
burocrático, ao invés de perceber como indicativa da necessidade de uma política indigenista específica
para "índios”, que jamais chegarão a ser totalmente "desindianizados".
A questão não é saber quanto de "índio" sobrou na mistura, mas saber como elaborar um modelo de
interpretação para múltiplos processos de mistura conformadores de múltiplas indianidades ou modos de
ser índio "uma etnia não é nem uma cultura, nem uma sociedade, mas um composto específico, um
equilíbrio mais ou menos instável do cultural e do social. para nos indígenas o que conta efetivamente
como critério definidor é a auto-identificação étnica, isto é, que uma dada coletividade se auto-identifique
como indígena, sendo indígenas todos os indivíduos que são por ela reconhecidos enquanto membros
de um grupo étnico determinado.
Ser índio hoje, no Brasil, passou pela classificação de uma categoria étnica e chegou aos
reconhecimentos público e jurídico de indivíduos portadores de direitos por serem reconhecidos como
pertencentes a uma categoria etnicamente diferenciada. A delimitação do grupo étnico a partir dos
parâmetros inaugurados por Barth, na década de 60, baseados principalmente na ideia de auto-atribuição
e atribuição por outros, apareceu no Brasil com efeitos que se refletiram na Constituição de 1988.
Dessa delimitação como grupo etnicamente diferenciado, e portador de direitos como tal, vieram os
direitos indígenas do reconhecimento de uma sociedade e cultura; a terra; definição clara do que é terra
indígena; direitos indígenas coletivos; melhores garantias para a exploração de recursos minerais e
naturais em suas terras; proibição da remoção dos grupos de seus territórios tradicionais.

Identidade étnica e etnicidade

Para o estudo deste tópico iremos utilizar como base o texto de Caroline Kraus Luvizotto, Etnicidade
e identidade étnica1, que é extremamente rico em detalhes e aborda de uma forma clara e objetiva o
tema, vejamos:

1
LUVIZOTTO, CK. Cultura gaúcha e separatismo no Rio Grande do Sul [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica,
2009. 93 p. ISBN 978-85-7983-008-2. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>.

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Quando se pensa na possibilidade de identificação étnica, corre-se o risco de buscar grupos culturais
fechados e estáticos, de buscar uma filiação, um nome, um recorte geográfico. No entanto, a questão não
é tão simples. Mesmo que os registros históricos fornecessem as pistas necessárias para esse tipo de
identificação, ou de qualquer outra natureza de fonte acadêmica, esses dados não teriam, por si sós,
autoridade para desenhar um mapa desse percurso, na medida em que os grupos humanos e a
construção da identidade étnica são extremamente dinâmicos e flexíveis. Dessa maneira, a concepção
de etnicidade está além da definição de culturas específicas e, portanto, é composta de mecanismos de
diferenciação e identificação que são acionados conforme os interesses dos indivíduos em questão, assim
como o momento histórico no qual estão inseridos.
Os conceitos de grupo étnico, identidade étnica e etnicidade têm uma complexa trajetória teórica nas
Ciências Sociais. As dificuldades podem ser constatadas nas muitas coletâneas, em textos e estudos de
caso publicados desde a década de 1970. A unidade concreta de análise – o grupo étnico – tem sido
definida por diferentes combinações de características que vão da cultura comum à identidade étnica
simbolicamente construída. A revisão do conceito – realizada com base em trabalhos de autores como
Abner Cohen (1969) e Frederick Barth (1969), por exemplo – resultou na incorporação das noções de
identidade étnica e etnicidade, com críticas contundentes à concepção tradicional que concebia o grupo
étnico como unidade cultural distinta, separada. Sobre a complexidade de se estudar o conceito de
etnicidade, Poutignat & Streiff-Fenart (1998) afirmam o seguinte:
Estudar a etnicidade consiste, então, em inventariar o repertório das identidades disponíveis em uma
situação pluriétnica dada e descrever o campo de saliência dessas identidades nas diversas situações de
contato. A análise situacional da etnicidade liga-se ao estudo da produção e da utilização das marcas,
por meio das quais os membros das sociedades pluriétnicas identificam-se e diferenciam-se, e ao estudo
das escolhas táticas e dos estratagemas que acionam para se safarem do jogo das relações étnicas.
Entre essas táticas figuram especialmente a alternância de identidades (identity switching), o domínio da
impressão e os processos de alter-casting que permitem atribuir um papel étnico ao outro.
Segundo Poutignat & Streiff-Fenart (1998), nas diversas formas de conceituação, a etnicidade pode
ser definida como caráter ou qualidade do grupo étnico (Glazer & Moynihan, 1975), como fenômeno
situacional (Williams, 1989), como o sentimento de formar um povo (Gordon, 1964), como o
relacionamento entre grupos que se consideram e são considerados culturalmente distintos (Eriksen,
1991) ou como fenômeno de natureza política ou econômica, remetendo a grupos de pessoas unidas em
torno de interesses comuns (Cohen, 1974).
As contribuições desses e de outros autores permitem avançar no sentido de considerar as
especificidades de uma identidade propriamente étnica. Lapierre (1998) e Poutignat & Streiff-Fenart
(1998) propõem que a identidade étnica é uma forma de organização social cujo sistema de categorização
fundamenta-se em uma origem suposta. A questão referente à origem é recuperada da contribuição
weberiana sobre os grupos étnicos, para a qual a crença subjetiva na origem comum constitui um laço
característico da etnicidade.
A partir dos estudos de Barth (1998), torna-se possível definir grupo étnico como uma forma de
organização social, que expressa uma identidade diferencial nas relações com outros grupos e com a
sociedade mais ampla. A identidade étnica é utilizada como forma de estabelecer os limites do grupo e
de reforçar sua solidariedade. Nessa concepção, a continuidade dos grupos étnicos não é explicada em
termos de manutenção de sua cultura tradicional, mas depende da manutenção dos limites do grupo, da
contínua dicotomização entre membros e não membros (nós/eles). Os traços culturais que demarcam os
limites do grupo podem mudar, e a cultura pode ser objeto de transformações, sem que isso implique o
esvaziamento da solidariedade étnica.
Poutignat & Streiff-Fenart (1998) concordam com a definição de Barth e completam:
Há que convir com Barth, que a etnicidade é uma forma de organização social, baseada na atribuição
categorial que classifica as pessoas em função de sua origem suposta, que se acha validada na interação
social pela ativação de signos culturais socialmente diferenciadores. Esta definição mínima é suficiente
para circunscrever o campo de pesquisa designado pelo conceito de etnicidade: aquele dos estudos dos
processos variáveis e nunca terminados pelos quais os atores identificam-se e são identificados pelos
outros na base de dicotomizações Nós/Eles, estabelecidas a partir de traços culturais que se supõe
derivados de uma origem comum e realçados nas interações raciais.
Frederich Barth (1998) afirma que os indivíduos têm de estar conscientes de sua identidade étnica e
com uma atuação dinâmica a seu favor. Isso significa que cada indivíduo, dentro de um determinado
contexto histórico e geográfico, contribui para a etnicidade de seu grupo, servindo como ator da trama
cultural. Nem sempre as pessoas de um grupo participam da formação de sua identidade étnica
conscientemente. Muito do que aprendem a respeito de sua identidade étnica é inconsciente e faz parte
de sua educação desde seu nascimento.

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A etnicidade é uma entidade relacional, pois está sempre em construção, de um modo
predominantemente contrastivo, o que significa que é construída no contexto de relações e conflitos
intergrupais. A forma contrastiva que caracteriza a natureza do grupo étnico resulta de um processo de
confronto e diferenciação. Tudo isso acentua a natureza dinâmica da identidade étnica que se constrói
no jogo de confrontos, oposições, resistências, como também, e sobretudo, no jogo da dominação e
submissão. Barth também ressalta que o caráter contraditório da relação entre grupos étnicos aparece
mais claramente quando se trata de minorias em suas relações de sujeição para com as sociedades que
as envolvem.
Sendo assim, identidade étnica implica cultura. Cultura faz parte da identidade étnica de um grupo, e
tal identidade transcende os aspectos culturais deste, porque é influenciado por aspectos que estão fora
da dimensão do grupo. Cultura vem a ser o aspecto de um grupo que permite que seus integrantes se
sintam unidos entre si.
Tanto cultura como etnicidade são termos que implicam obrigatoriamente uma dinâmica. Isso significa
que um grupo não permanecerá com seus aspectos culturais indeterminadamente, mas que essas
qualidades serão modificadas com o passar do tempo, de acordo com o que o novo contexto contribuirá
para a comunidade. Uma cultura necessariamente vai se transformar com o passar do tempo em
consequência de fatores externos ou internos. Por isso, sua identidade étnica estará constantemente
sendo colocada em questão.
De acordo com Barth (1998), grupos não podem ser ordenados como um todo homogêneo. Culturas
estão sempre em movimento, contêm contradições e são incoerentes.
Juntando a problemática das variações que cada cultura traz consigo e sua implicação no estudo da
identidade étnica de um grupo, Barth afirma que a cultura pode ser utilizada para manter a diferenciação
entre grupos étnicos próximos geograficamente, por meio de processos internos que possam acentuar
as diferenças entre eles.
Seguindo a reflexão de Barth, Poutignat & Streiff-Fenart (1998) explicam a relação entre etnicidade e
cultura:
Em razão dessa disjunção entre cultura e etnicidade, geralmente se admite que o grau de
enraizamento das identidades étnicas nas realidades culturais anteriores é altamente variável, e que toda
cultura “étnica” é, em certa medida, “remendo”. A etnicidade não é vazia de conteúdo cultural [...] mas ela
nunca é também a simples expressão de uma cultura já pronta. Ela implica sempre um processo de
seleção de traços culturais dos quais os atores se apoderam para transformá-los em critérios de
consignação ou de identificação com um grupo étnico.
Concorda-se igualmente em reconhecer que os traços ou os valores aos quais pessoas escolhem para
prender suas identidades não são necessariamente os mais importantes, os que possuem
“objetivamente” o maior poder de demarcação [...] Uma vez selecionados e dotados de valor emblemático,
determinados traços culturais são vistos como a propriedade do grupo no duplo sentido de atributo
substancial e de posse [...] e funcionam como sinais sobre os quais se funda o contraste entre Nós e Eles.
Nessa perspectiva, a concepção de cultura é entendida nas suas dimensões antropológica e
sociológica, não restrita aos aspectos puramente étnico/raciais, mas articulada a outras categorias como
nação, classe, gênero, religiosidade. A cultura compreendida a partir desse ponto de vista articula essa
diversidade de relações produzidas no cotidiano, combina seus significados simbólicos, constituindo o
que Geertz (1978) denominou de teia de significados. Uma dinâmica que rompe com a visão de cultura
no singular, remetendo para uma concepção de que a cultura é mais bem compreendida se for inserida
dentro de universos múltiplos, coexistindo e enfrentando esses movimentos permanentemente em
processo de metamorfose.
A ideia de etnia deve ser introduzida em contextos sociais, políticos e econômicos, a fim de situar e
entender os fenômenos étnicos contemporâneos, tornando expressões como movimentos étnicos, grupos
étnicos, guerra entre etnias, etnia cigana, negra, afro-americana, indígena, correntes em nosso cotidiano.
A etimologia do termo etnia situa-se na expressão grega ethnós, que significa povo. Quanto ao termo
étnico, procede do latim éthnicus. A partir do século XIX, o termo passou a ser associado à terminologia
raça como forma de distinguir as diferentes populações humanas. Vários estudiosos propuseram,
inclusive, a substituição do termo raça pelo de etnia, embora essa proposição não tenha alterado as
concepções hierarquizadoras já consagradas pelo conceito de raça na distinção dos grupos humanos.
Essa perspectiva ajuda a formular uma possível diferenciação entre estes dois conceitos, utilizando os
processos históricos distintos que os forjaram.
O conceito de raça deriva de um contexto impositivo de distinções – classificações de características
físicas, biológicas – por parte de grupos dominantes no período colonial. Já o termo etnia envolve a
descrição daquelas características herdadas culturalmente que fundamentam a existência de um
determinado grupo humano em um passado ancestral comum (Pujadas, 1993). Nesse sentido, a

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identidade étnica passa a ser o acúmulo dessas heranças culturais que permitem significar distinções
perante outros grupos sociais/étnicos.
No Brasil, por exemplo, o reconhecimento de diferenças étnicas e expressões que podem ser
chamadas de etnicidades – manifestadas por meio de identidades específicas – ocorre nas populações
indígena e negra, até de modo mais explícito, porque esses grupos sofrem mais, objetivamente,
processos de discriminação e preconceito. No entanto, aparecem também entre descendentes de
imigrantes, além das outras identidades vinculadas às diversidades regionais que assumem caráter étnico
na medida em que se apoiam em ideais separatistas que, nos últimos anos, atingiram ressonância global.

Dentro dessa problemática, observa-se que não são as diferenças culturais que acentuam as
diferenças dos índios em relação aos demais brasileiros, mas sim sua etnicidade, que é legitimada por
meio de aspectos históricos, sociais e políticos. A identidade étnica de um grupo transcende seus
aspectos culturais, não envolvendo somente aspectos internos dessa cultura, mas sendo particularmente
envolvida pelas interações do grupo com o mundo a seu redor. Não se deve falar de cultura no singular,
mas em culturas, no plural. Não se deve fazer uma classificação de culturas, principalmente porque as
práticas e as instituições variam de formação social para formação social. A diversidade das culturas
existentes acompanha a variedade da história humana, expressa possibilidades de vida social organizada
e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza.

1.2. Sociobiodiversidade.

De acordo com o governo brasileiro, a sociobiodiversidade é o conceito que expressa a inter-relação


entre diversidade biológica e a diversidade de sistemas socioculturais. Ou seja, são os mais variados
produtos agrícolas que um país consegue produzir respeitando e integrando processos de agricultores
locais (serviços) que possuem modos diferentes e/ou adaptados de cultivo.
O conceito da Sociobiodiversidade é ligado à sua cadeia produtiva, que consiste em um sistema
integrado, constituído por atores interdependentes e por uma sucessão de processos de educação,
pesquisa, manejo e produção, beneficiamento a distribuição, comercialização e consumo de produtos e
serviços da sociobiodiversidade, com identidade cultural e incorporação de valores e saberes locais, que
asseguram a distribuição justa e equitativa dos seus benefícios.
Entende-se por biodiversidade a variedade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo,
dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos
ecológicos de que fazem parte; envolvendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de
ecossistemas.
E nesse quesito, o Brasil é excelente por natureza. Somos considerados um país muito diversificado
por integrar o grupo dos 20 países que, juntos, possuem mais de 70% da biodiversidade do planeta em
apenas 10% da superfície. Apresenta uma natureza exuberante de espécies e paisagens com
características peculiares e intrínsecas a cada Bioma: a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga, a
Mata Atlântica, a Zona Costeira Marinha e o Pampa.
Por sua vez, toda essa riqueza biológica também está associada a uma grande diversidade
sociocultural, que pode ser representada por mais de 200 povos indígenas e por inúmeras comunidades
tradicionais, como quilombolas, extrativistas, pescadores, agricultores familiares, entre outras.
Estas comunidades são as detentoras de todo o conhecimento associado a esses agroecossistemas,
podendo ou não, serem valorizadas nas questões que envolvem o manejo e a preservação de toda essa
biodiversidade.
O governo brasileiro desenvolve essa área integrando ações voltadas ao fortalecimento das cadeias
produtivas e à consolidação de mercados sustentáveis para os produtos oriundos da sociobiodiversidade
brasileira, dentro da Secretaria de Agricultura Familiar.
Além disso, o governo também implementou, em 2008, o Plano Nacional da Sociobiodiversidade para
a promoção das cadeias de produtos, agregação de valor socioambiental, geração de renda das famílias
e a segurança alimentar de povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares.
Portanto, podemos classificar a sociobiodiversidade brasileira como uma das mais ricas variedades
culturais, ou seja, uma imensidão de etnias, raças, crenças e culturas.
O território brasileiro é muito conhecido pelas comunidades estrangeiras, com novos costumes, e,
acaba trazendo ao nosso país um valor que nem podemos imaginar.
O direito dos povos brasileiros, sendo eles nativos ou não é segurado pela Constituição Federal, com
isso fica garantido o direito, independente de etnias, da convivência harmônica entre os povos,
promovendo a igualdade inclusive entre os grupos mais pobres, e os que são considerados minorias.

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1.2.1 Diversidade Linguística

Embora não haja dados totalmente precisos, os estudiosos em geral concordam com a estimativa de
que atualmente são ainda faladas no Brasil cerca de 180 línguas indígenas. Estima-se também que desde
a chegada dos portugueses houve a perda de 1.000 línguas, o que representa 85% das línguas existentes
no território brasileiro no século XVI. As línguas remanescentes são todas minoritárias, calculando-se em
aproximadamente 155.000 o número total de falantes. É muito variável o número de falantes por língua,
havendo apenas uma, o Ticuna, com cerca de 20.000.Três línguas - o Makuxi, o Terena e o Kaingang,
contam com 10.000 falantes; vinte línguas têm entre 1.000 e 10.000 falantes, e as outras 156 têm menos
de mil, sendo que dentre elas, 40 são faladas por menos de cem pessoas, havendo casos de línguas com
menos de 20 falantes.
Essas estimativas devem ser ainda consideradas com certa cautela, pois as línguas indígenas
encontram-se sob as mais diferentes pressões, sofrendo o impacto do crescente contato com a população
envolvente e a língua majoritária. Contudo, não há em geral levantamentos que permitam estabelecer
com maior margem de exatidão os reflexos do impacto do Português nos distintos grupos em termos de
deslocamento da língua indígena, tanto no que se refere a graus de bilinguismo / monolinguismo, quanto
no que se refere à interferência do Português nessas línguas, nem sempre claramente perceptível nas
fases iniciais, mas que vai aos poucos contribuindo para a perda da língua minoritária.
As línguas indígenas acham-se hoje concentradas nas regiões amazônica e centro oeste, nos Estados
do Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Acre, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e
Tocantins e, em menor proporção em outros estados do Brasil. Algumas delas são faladas em regiões
limítrofes entre o Brasil e outros países vizinhos.
O número ainda existente de línguas indígenas brasileiras representa uma grande diversidade
linguística: as 180 línguas se distribuem por cinco grandes grupos - Tronco Tupi, Tronco Macro-Jê,
Família Karib, Família Aruak, Família Pano; havendo ainda nove outras famílias menores e dez
Isolados linguísticos.
O Tronco Tupi, estabelecido bem claramente, inclui 6 famílias genéticas: Tupi-Guarani (com 33
línguas e dialetos), Mondé (com 7 línguas), Tupari (com 3 línguas), Juruna, Munduruku e Ramarana (cada
uma com 2 línguas) e 3 línguas: Aweti, Mawé e Puruborá. A família Tupi-Guarani caracteriza-se por
grande dispersão geográfica: suas línguas são faladas nas diferentes regiões do Brasil e também em
outros países da América do Sul (Bolívia, Peru, Venezuela, Guiana.Francesa, Colômbia, Paraguai e
Argentina). As demais famílias do tronco Tupi estão todas localizadas em território brasileiro, ao sul do rio
Amazonas.
No tronco Macro-Jê, definido com base em evidências menos claras, são incluídas 6 famílias
genéticas (Jê, Bororo, Botocudo, Karajá, Maxacali, Pataxó) e 4 línguas (Guató, Ofayé, Erikbaktsá e
Fulniô). As línguas filiadas a esse tronco, exclusivamente brasileiro, são faladas principalmente nas
regiões de campos e cerrados, desde o sul do Maranhão e Pará, passando pelos estados do centro oeste
até Estados do sul do País.
A família Karib é representada, no Brasil, por 20 línguas, distribuídas ao norte e ao sul do rio
Amazonas. Outras línguas da família Karib são faladas nas Guianas, na Venezuela e Colômbia.
Dezessete línguas representam a família Aruak (Arawak) no Brasil, estando situadas no noroeste e
oeste do País e também na região do Alto Xingu e ao sul da mesma. Há outras línguas da família Aruak
faladas fora de território brasileiro.
A família Pano inclui 13 línguas faladas no Brasil, situadas nos estados do Acre, Rondônia e
Amazonas, ainda pouco estudadas, e outras no Peru e Bolívia.

Os principais troncos linguísticos dos povos indígenas no Brasil são Tupi, Aruák e Macro-Jê.

Outras famílias linguísticas são: Tucano, com 11 línguas e vários dialetos; Arawá, com 7 línguas; Makú,
com 6 línguas; Katukina e Yanomámi, cada uma com 4 línguas; Txapakura e Nambikwara, com 3 línguas
cada; Múra, com 2 línguas e Guaikuru, com 1 língua no Brasil (Kadiwéu).
Dez outras línguas indígenas são classificadas como isoladas, isto é, constituem tipos linguísticos
únicos: Tikuna, Irantxe/ Münkü, Trumai, Máku, Aikana, Arikapu, Jabuti, Kanoê e Koaiá ou Kwaza.

1.2.2. Demografia Indígena

As principais etnias indígenas brasileiras na atualidade são:


- Ticuna com aproximadamente 35 mil habitantes,
- Guarani com aproximadamente 30 mil habitantes,

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- Caiagangue com aproximadamente 25 mil habitantes,
- Macuxi com aproximadamente 20 mil habitantes,
- Terena com aproximadamente 16 mil habitantes,
- Guajajara com aproximadamente 14 mil habitantes,
- Xavante e Ianomâmi com aproximadamente 12mil habitantes,
- Pataxó com aproximadamente 9.700 mil habitantes e;
- Potiguara com aproximadamente 7.700 mil habitantes2.

Localização das tribos indígenas no território brasileiro

Povos Indígenas mais conhecidos do Brasil


- Aimoré: grupo não-tupi, também chamado de botocudo, vivia do sul da Bahia ao norte do Espírito
Santo. Grandes corredores e guerreiros temíveis, foram os responsáveis pelo fracasso das capitanias de
Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Só foram vencidos no início do Século XX.
- Avá-Canoeiro: povo da família Tupi-Guarani que vivia entre os rios Formoso e Javarés, em Goiás.
Em 1973, foram pegos "a laço" por uma equipe chefiada por Apoena Meireles, e transferidos para o
Parque Indígena do Araguaia (Ilha do Bananal) e colocados ao lado de seus maiores inimigos históricos,
os Javaé.
- Bororós: também chamados Coroados ou Porrudos e autodenominados Boe. Os Bororós
Ocidentais, extintos no fim do século passado, viviam na margem leste do rio Paraguai, onde, no início
do Séc. XVII, os jesuítas espanh óis fundaram várias aldeias de missões. Muito amigáveis, serviam de
guia aos brancos, trabalhavam nas fazendas da região e eram aliados dos bandeirantes. Desapareceram
como povo, tanto pelas moléstias contraídas, quanto pelos casamentos com não-índios.
- Caeté: os deglutidores do bispo Sardinha viviam desde a Ilha de Itamaracá até as margens do Rio
São Francisco. Depois de comerem o bispo, foram considerados "inimigos da civilização". Em 1562, Men
de Sá determinou que fossem "escravizados todos, sem exceção".
- Caiapós: explorando a riqueza existente nos 3,3 milhões de hectares de sua reserva no sul do Pará
(especialmente o mogno e o ouro), os caiapós viraram os índios mais ricos do Brasil. Movimentaram cerca
de U$$15 milhões por ano, derrubando, em média, 20 árvores de mogno por dia e extraindo 6 mil litros
anuais de óleo de castanha. Quem iniciou a expansão capitalista dos caiapós foi o controvertido cacique
2
Fonte: Funai (Fundação Nacional do Índio).

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Tutu Pompo (morto em 1994). Para isso destituiu o lendário Raoni e enfrentou a oposição de outro caiapó,
Paulinho Paiakan.
- Carijó: seu território estendia-se de Cananéia (SP) até a Lagoa dos Patos (RS). Vistos como "o
melhor gentio da costa", foram receptivos à catequese. Isso não impediu sua escravização em massa por
parte dos colonos de São Vicente.
- Goitacá: ocupavam a foz do Rio Paraíba. Tidos como os índios mais selvagens e cruéis do Brasil,
encheram os portugueses de terror. Grandes canibais e intrépidos pescadores de tubarão. Eram cerca
de 12 mil.
- Ianomâmi: povo constituído por diversos grupos cujas línguas pertencem à mesma família.
Denominada anteriormente Xiriâna, Xirianá e Waiká.

Os índios sobrevivem usufruindo dos recursos naturais oferecidos pelo meio ambiente, eles caçam,
plantam, pescam, coletam e produzem seus próprios instrumentos de trabalho. A terra pertence a todos
os membros da tribo e cada um tira dela seu próprio sustento. Preservam o ambiente ao qual estão
inseridos, pois dele dependem para seu sustento.
Os indígenas tem sua cultura completamente diferente da nossa sociedade, embora não tenham a
mesma educação a qual temos, eles sabem tirar do meio ambiente sem que cause sérios danos e
impactos ambientais. Nós que nos intitulamos civilizados fazemos completamente o inverso.
A cultura indígena nos últimos tempos vem sofrendo com a influência dos que se intitulam civilizados,
com a inserção do homem civilizado e com sua cultura, os indígenas aos poucos vão perdendo sua
identidade histórico-cultural.

1.3 Economias Indígenas

Os povos indígenas convivem secularmente com a floresta, por isso são distintos conhecedores de
seu meio. Isto lhes capacitou a dominar o meio ambiente e desenvolver tecnologias eficientes e
apropriadas na extração, utilização e manutenção dos recursos naturais e fontes disponíveis como:
florestas, rios, lagos, igarapés, etc. Assim eles desenvolvem uma economia sustentável produtiva e
diversificada, gerando alimentos, medicamentos, utensílios e ferramentas.
Os indígenas observam as regiões e o clima para executar agricultura, caça, pesca e coleta de frutos.
Produzem todos os alimentos necessários a uma dieta alimentar rica e balanceada. A atividade comercial
decorre de como os grupos julgam necessário. Arte e cultura também integram sua economia. Contudo,
essa estrutura vem sendo alterada a partir de pressões externas.
Na região amazônica, existem, pelo menos 40 povos que se mantêm distanciados do contato com
nossa sociedade. Consequentemente, vivem suas economias em sentido pleno, sem interferência da
lógica capitalista, para a qual o lucro e a acumulação de dinheiro estão acima de tudo, até da própria vida.
A maioria destes povos ainda vive de suas economias tradicionais. A base de suas relações comerciais
é a troca ou a venda de produtos confeccionados nas aldeias, como a farinha, o artesanato e alimentos
vindos da caça e da pesca.
Na relação com a sociedade circundante e com seus vizinhos, eles adquirem sal, açúcar, roupas e
produtos industrializados. Mas, não dependem do mercado. A maioria dos grupos continua a manter uma
relação econômica interna, na qual não existe circulação de dinheiro, sustentada na relação de
reciprocidade e de partilha de tudo o que produzem ou adquirem.
Para algumas pessoas, isso pode parecer coisa muito antiga ou só possível em comunidades muito
pequenas e singulares.

O que caracteriza as economias indígenas é basear-se na cooperação e não na competição.

Visam produzir bem, mas sabem respeitar o jeito e o lugar de cada pessoa na busca da subsistência
não apenas de indivíduos isolados, mas de toda a comunidade. Consideram que uma pessoa não ter o
necessário para viver é um atestado de incompetência e inviabilidade para toda a comunidade. Por isso,
todos garantem que cada um receba o necessário e ninguém se aproprie de mais do que lhe é necessário.
Quando são respeitadas e podem viver seu estilo de vida tradicional, as comunidades indígenas
conseguem sempre produzir o necessário para a vida sem destruir a natureza e sem criar pobres e ricos
na sociedade. Produzem o necessário para viver bem, mas não pressupõem a geração de excedentes.
A finalidade de suas atividades econômicas é a vida e não o lucro.

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1.4 Aspectos de organização social indígena

Com relação aos aspectos de organização social indígena, vislumbra-se que entre os indígenas não
há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os mesmo direitos e recebem o mesmo
tratamento. A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os
habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho (machado, arcos, flechas, arpões) são de
propriedade individual. O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e
idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio. Já os homens da tribo
ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra, derrubada das árvores, entre outros.
A formação social é bastante simples, as aldeias não possuem grandes concentrações populacionais
e as atividades são exercidas de forma coletiva. O índio que caça ou pesca a mais divide seu alimento
com os outros.
A coletividade é uma característica marcante entre os índios. Suas cabanas são divididas entre vários
casais e seus filhos, como não existe classes sociais, até mesmo o chefe da tribo divide sua cabana.
Duas figuras importantes na organização das tribos são o pajé e o cacique. O pajé é o sacerdote da
tribo, pois conhece todos os rituais e recebe as mensagens dos deuses. Ele também é o curandeiro, pois
conhece todos os chás e ervas para curar doenças. Ele que faz o ritual da pajelança, onde evoca os
deuses da floresta e dos ancestrais para ajudar na cura. O cacique, também importante na vida tribal, faz
o papel de chefe, pois organiza e orienta os índios.
A educação indígena é bem interessante. Os pequenos índios, conhecidos como curumins, aprender
desde pequenos e de forma prática. Costumam observar o que os adultos fazem e vão treinando desde
cedo. Quando o pai vai caçar, costuma levar o indiozinho junto para que este aprender. Portanto a
educação indígena é bem pratica e vinculada a realidade da vida da tribo indígena. Quando atinge os 13
os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta.

1.5 Aspectos de religiões indígenas

Assim como em toda sociedade, cada nação indígena possui crenças e rituais religiosos diferenciados,
mas todas acreditam nas forças da natureza e nos espíritos de seus ancestrais. Para cultuar a estes,
fazem festas, rituais e cerimônias. O responsável por transmitir estes conhecimentos para os habitantes
da tribo é o Pajé. É interessante observar o respeito que os mais velhos adquirem da parte de todos. A
experiência que adquiriram pelos anos de vida os tornam símbolos de tradições da tribo.
Há relatos que tribos chegavam a enterrar o corpo dos índios em grandes vasos de cerâmica
juntamente com seus pertences pessoais, evidentemente isto mostra que estas tribos acreditavam que
existe vida após a morte.

Estrutura das Religiões indígenas


A estrutura das religiões indígenas é sólida e muito bem elaborada, permitindo a equilibração do
homem com o meio intra e extra psíquico. A harmonia deste com a Mãe Terra é condição básica para
sua sobrevivência e é, portanto, elemento inseparável de seus ritos e encontro com a transcendência.
As tradições religiosas indígenas são diferentes entre si, há uma diversidade de povos e culturas que
se distinguem no tipo biológico, línguas, costumes, ritos, organização social, etc.
Suas religiões são profundamente marcadas por rituais nos quais os mitos são revividos com
intensidade de modo que em algumas comunidades os participantes no ato ritualístico sentem-se parte
da divindade. As práticas religiosos caracterizam-se de ritos de defumação, entoação de cantos, uso de
instrumentos musicais, incorporação, transe e uso de remédios retirados das plantas e ervas.

Ideia do Transcendente
O Transcendente (Deus) em algumas tribos é compreendido como um ser natural, bondoso, que gosta
de todos e que está em paz com todos os seres.
Algumas nações acreditam no Transcendente como um Ser Superior e em seres menores, seus
auxiliares.
Há também religiões que acreditam num mundo espiritual povoado de divindades (espíritos), sem uma
hierarquia definida entre eles. São os espíritos dos ancestrais, os espíritos das florestas, das ervas
medicinais, entre outros.
Os espíritos maus devem ser apaziguados e os bons devem ser convencidos a ajudá-los. Os nomes
dados à divindade superior e aos espíritos variam de uma nação para outra: Maíra, Itukoóviti (aquele que
criou todas as coisas), Nhyanderú, Nhyanderuvusú, Nhyanderupapá, etc.

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Entretanto, a maioria das tribos dá mais atenção às mitologias de heróis míticos, caracterizados como
heróis civilizadores, que ensinaram técnicas, costumes, ritos e as regras sociais aos membros da tribo.
Em algumas tribos o sol ou a névoa que cobre as florestas à tardinha ou de manhã é considerado
como o reflexo e a representação ou manifestação do Ser Supremo ou das divindades. Contudo, cada
nação concebe o Transcendente e o representa de forma diversa.

Sabedoria Dos Antepassados


A sabedoria dos antepassados é preservada através da oralidade. Honrar os ancestrais constitui-se o
centro da ética religiosa indígena.

Sacerdotes-Médicos
Os mediadores entre os espíritos e membros da comunidade são os xamãs, também chamados pajés,
os quais exercem a função de sacerdotes e médicos. Para ser Pajé ou Xamã, a pessoa precisa passar
por uma experiência psicológica transformadora que a leve inteiramente para dentro de si mesma. O
inconsciente inteiro se abre e o Pajé mergulha nele. Certas vezes, esse homem - ou mulher - dotado de
autoridade religiosa, ingere substâncias alucinógenas, com o intuito de, em rituais, atingir estados
alterados de consciência, entrando assim em contato com entidades do mundo espiritual. Neste caso, os
espíritos malévolos serão controlados e combatidos e os bons serão convencidos a ajudar.

A Importância Do Rito
O rito fundamenta toda a realidade, define a organização da vida social e é fonte de memória e
conhecimento. Há rituais para celebrar o fim das estações da chuva ou seca, outros para comemorar a
chegada das colheitas; há rituais de casamento e vitórias em guerras com outras tribos.
Revestem-se de grande importância para as famílias os rituais de iniciação ou passagem para a vida
adulta dos jovens e também o nascimento de crianças. Os rituais estão ligados aos mitos. O ritual e o
mito atualizam o passado e ajudam a modificar e compreender o presente.

Texto Sagrado
O texto sagrado é transmitido na forma oral. São histórias míticas que os sábios anciões contam
oralmente para toda a tribo, preservando assim a sabedoria e a tradição.
Os mitos falam geralmente da origem e transformação do universo, da vida, das outras nações
indígenas, dos fenômenos de ordem espiritual ou sobrenatural que acontecem com as pessoas na aldeia.
Contam como os homens aprenderam a cultivar a terra, a fabricar os instrumentos, qual a posição de sua
sociedade tribal em relação às outras, quem instituiu as suas regras sociais e ritos religiosos, o que
acontece com as pessoas depois da morte, etc. Atualmente, porém, algumas comunidades indígenas
utilizam a escrita.

Vida Além Morte


De modo geral, nas diversas nações indígenas, acredita-se que cada pessoa possui um espírito
imortal. A ideia de espírito difere de um grupo para outro. Há comunidades como os Krahó, ramo dos
Timbíra, que acreditam que não somente os seres humanos possuem espírito, mas todos os seres sejam
animais, vegetais ou minerais.
Alguns dividem a alma em duas forças, uma das quais permanece na terra em situação de perigo para
os seres vivos e outra parte vai para o paraíso.
Os Kaingáng acreditam que o indivíduo, após a morte, torna-se outra vez jovem, vivendo mais uma
vida em outro plano existencial. Morre novamente, transformando-se num pequeno inseto, formiga preta
ou mosquito.
Os Kayová acreditam que o espírito ou alma tem uma parte sublime, de origem celeste e outra parte
menos boa da alma que se desenvolve durante a existência do indivíduo. Para essa tribo, a reencarnação
só é possível para as almas das crianças que morreram.
De modo geral, predomina a crença de que a morte é o corte abrupto da vida e início de outra vida
repleta de alegrias.

1.6 Cosmologias e mitos indígenas

Cosmologias
Conceitua-se cosmologias como teorias sobre o mundo. Versa sobre a ordem do mundo e seu
movimento no espaço e no tempo, no qual a humanidade é apenas um dos muitos personagens em cena.
As cosmologias definem o lugar que os humanos ocupam no cenário total e expressam concepções que

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revelam a interdependência permanente e a reciprocidade constante nas trocas de energias e forças
vitais, de conhecimentos, habilidades e capacidades que dão aos personagens a fonte de sua renovação,
perpetuação e criatividade.
Na vida cotidiana, essas concepções orientam, dão sentido, permitem interpretar acontecimentos e
ponderar decisões. São expressas através da linguagem simbólica da dramaturgia dos rituais. Música,
ornamentos corporais, entre outros recursos, permitem o contato com outras dimensões cósmicas, com
momentos outros do mundo e do processo da vida (e da morte).

Mitos
Os especialistas costumam definir os mitos como narrativas orais, que contêm verdades consideradas
fundamentais para um povo (ou grupo social) e que formam um conjunto de histórias dedicado a contar
peripécias de heróis que viveram no início dos tempos (no tempo mítico ou das origens), quando tudo foi
criado e o mundo, ordenado. O que se enfatiza, dessa perspectiva, é o caráter de narrativas que os mitos
têm.
Há uma outra definição acerca da utilização do termo no singular, “o mito”, que pode também ser
conceituado com um nível específico de linguagem, uma maneira especial de pensar e de expressar
categorias, conceitos, imagens, noções articuladas em histórias cujos episódios se pode facilmente
visualizar. O mito, então, é percebido como uma maneira de exercitar o pensamento e expressar ideias.
Quais seriam, porém, suas características distintivas?
Estas duas definições coincidem no que é essencial: primeiro, ambas indicam que os mitos dizem algo
e algo importante, a ser levado a sério; segundo, ambas apontam também para o fato de uma das
especificidades do mito estar na maneira de formular, expressar e ordenar as ideias e imagens pela qual
se constitui como discurso, e pela história que narra; por fim, ambas sugerem uma relação particular entre
o mito (ou os mitos), o modo de viver e pensar e a história daqueles povos responsáveis por sua
existência.

De que falam os mitos?


Geralmente os mitos narram indiferenciação entre humanos e animais, que se relacionam como iguais;
céu e terra próximos, que quase se tocam; viagens cósmicas, homens que voam, gêmeos primevos,
incestos criadores; origens subterrâneas; dilúvios; humanidades sub-aquáticas; caos, conquistas,
transformações... É o mundo tomando forma, definindo lugares e características de personagens hoje
conhecidos.
São os temas míticos, que contam aventuras e seres primordiais, em uma linguagem que se constrói
com imagens concretas, captáveis pelos sentidos; situadas em um tempo das origens, mas referidas ao
presente, encerrando perspectivas de futuro e carregando experiências do passado. Assim, complexos,
são os mitos.
São, também, extremamente variados, já que são criações originais de cada grupo com identidade
cultural própria, referidos às suas condições de existência e à cosmovisão aí elaborada. Mas é igualmente
inegável a sua condição de variações sobre temas comuns, compartilhados não apenas localmente mas,
em alguns casos, em escala universal. Particulares e locais, universais e essencialmente humanos.
Talvez resida aí uma parte do fascínio e do mistério dos mitos.
Em universos socioculturais específicos, como aqueles constituídos por cada sociedade indígena no
Brasil, os mitos se articulam à vida social, aos rituais, à história, à filosofia própria do grupo, com
categorias de pensamento elaboradas localmente que resultam em maneiras peculiares de conceber a
pessoa humana, o tempo, o espaço, o cosmos. Nesse plano, definem-se os atributos da identidade
pessoal e do grupo, que é distintiva e exclusiva, e construída no contraste com aquilo que é definido como
o “outro”: a natureza, os mortos, os inimigos, os espíritos.
As mitologias e as cosmologias indígenas tratam, portanto, de temas com que se preocupam todos os
homens, com menor ou maior grau de elaboração, expressão ou consciência. São temas, como se vê,
que remetem à essência do que significa ser humano e estar no mundo. Por isto mesmo, apesar do
estranhamento inicial trazido por signos desconhecidos - que carregam concepções inesperadas,
articuladas a teorias cuja tradução escapa à primeira aproximação - a comunicação é possível e se dá
não só na pesquisa e na divulgação, como também fascina e desafia.

Alguns Mitos Indígenas

Uiara (Yara ou Iara) - a rainha das águas


A jovem Tupi Uiara era a mais formosa mulher das tribos que habitavam ao longo do Rio Amazonas.
Por sua doçura, todos os animais e plantas a amavam. Mantinha-se, entretanto, indiferente aos muitos

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admiradores da tribo. Em uma tarde de verão, após o Sol se pôr, Uiara permanecia no banho, quando foi
surpreendida por um grupo de homens estranhos. Sem condições de fugir, a jovem foi agarrada e
amordaçada. Acabou por desmaiar, sendo violentada e atirada ao rio. O espírito das águas transformou
o corpo de Uiara em um ser duplo. Continuaria humana da cintura para cima, tornando-se peixe no
restante. Uiara passou a ser uma sereia, cujo canto atrai os homens de maneira irresistível. Ao verem a
linda criatura, eles se aproximam e são arrastados para as profundezas, de onde nunca mais voltarão.

Mandioca - o pão indígena


Mara era uma jovem índia, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz.
Certa noite, Mara adormeceu na rede e teve um sonho estranho. Um jovem loiro e belo descia da Lua e
dizia que a amava. O jovem, depois de lhe haver conquistado o coração, desapareceu de seus sonhos
como por encanto. Passado algum tempo, a filha do cacique, embora virgem, percebeu que esperava um
filho. Para surpresa de todos, Mara deu à luz uma linda menina, de pele muito alva e cabelos tão loiros
quanto a luz do luar.
Deram-lhe o nome de Mandi (ou Maní) e na tribo ela era adorada como uma divindade. Pouco tempo
depois, a menina adoeceu e acabou falecendo, deixando todos amargurados. Mara sepultou a filha em
sua oca, por não querer separar-se dela. Desconsolada, chorava todos os dias, de joelhos diante do local,
deixando cair leite de seus seios na sepultura. Talvez assim sua filha voltasse à vida, pensava. Até que
um dia surgiu uma fenda na terra de onde brotou um arbusto.
A mãe se surpreendeu. Talvez o corpo da filha desejasse dali sair. Resolveu então remover a terra,
encontrando apenas raízes muito brancas, como Mandi (Maní), que, ao serem raspadas, exalavam um
aroma agradável. Todos entenderam que criança havia vindo à Terra para ter seu corpo transformado no
principal alimento indígena. O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi (Maní) fora
sepultada na oca.

Vitória-régia (ou mumuru) – a estrela dos lagos


Maraí era uma jovem e bela índia, que amava muito a natureza e tinha o hábito de contemplar chegada
da Lua e das estrelas. Nasceu nela, então, um forte desejo de se tornar uma estrela. Perguntou ao pai
como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, soube que Jacy, a Lua, ouvia
os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas, transformava-as em estrelas. Muitos dias
se passaram sem que a jovem realizasse seu sonho. Maraí resolveu, então, aguardar a chegada da Lua
junto aos peixes do lago. Assim que ela apareceu, Maraí, encantada com sua imagem refletida na água,
foi sendo atraída para dentro do lago, de onde nunca mais voltou. A pedido dos peixes, pássaros e outros
animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a em uma bela planta aquática, que recebeu
o nome de vitória-régia (ou mumuru), a estrela dos lagos.

Guaraná – a essência dos frutos


Aguiry era um alegre indiozinho, que se alimentava somente de frutas. Todos os dias saía pela floresta
à procura delas, trazendo-as num cesto para distribuir entre seus amigos. Certo dia, Aguiry se afastou
demais da aldeia e se perdeu na mata. Jurupari, o demônio das trevas que tinha corpo de morcego, bico
de coruja e também se alimentava de frutas, vagava pela floresta quando encontrou o índio não hesitou
em atacá-lo. Os outros índios encontram Aguiry morto ao lado de um cesto vazio. Tupã, o deus do bem,
ordenou que retirassem os olhos da criança e os plantassem sob uma grande árvore seca. Seus amigos
deveriam regar o local com lágrimas, até que ali brotasse uma nova planta, da qual nasceria o fruto que
conteria a essência de todos os outros, deixando mais fortes e mais felizes aqueles que dele comessem.
A planta que brotou dos olhos de Aguiry possui sementes em forma de olhos e recebeu o nome de
guaraná.
Curupira
Trata-se de um ser do tamanho de uma criança de seis ou sete anos, peludo como o bicho preguiça,
de unhas compridas e afiadas, com o calcanhar para frente e os dedos dos pés para trás, que anda nu
pela floresta. Ele toma conta da mata e dos animais e mora nos buracos das árvores que tem raízes
gigantescas, muito comuns na Floresta Amazônica. O curupira ajuda os caçadores e os pescadores que
lhe oferecem cachaça, fósforo e fumo. Esta oferta é para que o indivíduo tenha fartura nas caçadas,
pescarias e roçados. As pessoas que não têm devoção pelo curupira sentem medo, enjôo e náuseas a
quilômetros de distância dele. Com essas pessoas, ele brinca fazendo com se percam na mata. Para se
livrar do curupira deve-se cortar uma vara, fazer uma cruz e colocar em um rolo de cipó tumbuí, bem
apertado. Ele vê esse objeto e procura desmanchar o enrolado. Enquanto fica entretido em desmanchar
o enrolado, a pessoa tem tempo para fugir.

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Saci Pererê
Muito esperto e travesso, ele aparece sempre às sextas-feiras, à noite, pulando com uma perna só,
mostrando seus olhinhos brilhantes e os dentes pontiagudos. Usa uma camisa e uma carapuça vermelha
na cabeça e traz em uma das mãos um cachimbinho de barro. Sua tarefa é carregar para uma mata muito
distante crianças desobedientes e manhosas, gorar ovos de ninhadas, queimar balões, azedar leite, fazer
o milho de pipoca virar piruá e atacar os viajantes, pedindo fumo e fogo. Se alguém recusa seu pedido,
ele faz cócegas na pessoa até que ela morre de tanto rir.

Boto
É o mais importante habitante encantado do Rio Amazonas. À meia-noite ele se transforma em
homem, andando por cima dos paus das beiradas do rio, de preferência sobre os buritizeiros tombados
nas margens. Veste roupa branca e usa um chapéu branco para ocultar uma abertura no alto da cabeça
por onde sai um forte cheiro de peixe e hálito de maresia. Ele aparece tão elegante nas festas que encanta
e seduz as donzelas. Dança a noite toda com as mais jovens e mais bonitas da festa. Sai com elas para
passear e antes do amanhecer pula na água e volta à forma primitiva de peixe, deixando as moças sempre
grávidas. Além de sedutor e fecundador é conhecido também como o pai das crianças de paternidade
desconhecida, pois as mães solteiras o acusam de ser o pai de seus filhos. O boto-homem é obcecado
por mulheres, sente o cheiro feminino a grandes distâncias. Para evitar que ele apareça esfrega-se alho
na canoa, nos portos e nos lugares onde ele gosta de aparecer.

Uirapuru
Certa vez um jovem guerreiro apaixonou-se pela esposa do grande cacique, mas como não podia se
aproximar dela pediu a Tupã (Lua) que o transformasse em pássaro. Tupã fez dele um pássaro de cor
vermelho-telha, que toda noite ia cantar para sua amada. Quando cacique notou seu canto tão lindo e
fascinante, perseguiu a ave para prendê-la só para si. O uirapuru voou para bem distante da floresta e o
cacique que o perseguia, perdeu-se dentro das matas e igarapés e nunca mais voltou. O lindo pássaro
volta sempre, canta para a sua amada e vai embora, esperando que um dia ela descubra seu canto e seu
encanto.

Caipora
Trata-se de um menino de pele escura, pequeno e rápido, cabeludo e feio, que fuma cachimbo, e tem
a função de proteger os animais da floresta, os rios e as cachoeiras. Vive sondando as matas montado
em um porco, sempre com uma longa vara na mão. Quando o caçador se aproxima o caipora pressente
sua chegada através do vento que lhe agita os cabelos. Então sai a galope em seu porco fazendo barulho
para espantar veados, coelhos, capivaras e outros animais de caça. Às vezes, o caçador, sem ver direito,
corre atrás do próprio caipora que montado em seu porco faz zigue-zague pelo mato até perder-se de
vista3.

Mito Da Chegada Do Fogo


Há muito tempo, um homem Deni foi caçar onça, que era o único bicho mau. De repente, gritou o
passarinho bubu ao Deni:
- Tem fogo aí!
O índio assustado, viu em frente uma árvore enorme em chamas. Ao se aproximar, sentiu muito calor.
Então pegou uma vara, encostou no fogo e a vara queimou. Rapidamente, levou a brasa para casa e fez
fogo.
Os outros índios da aldeia se admiraram e pediram fogo para ele, mas o Deni não concedeu uma brasa
sequer. Mandou que eles mesmos buscassem mais fogo na árvore no meio da floresta. Os índios foram
ao lugar indicado, mas ali não encontraram mais nada.
Então o índio, que descobriu a brasa, decidiu repartir o fogo. Por isso, os índios Deni não deixam
apagar o fogo até hoje.
Os Deni fazem parte dos povos indígenas que ainda sobreviveram na Amazônia. Este povo é formado
por vários grupos espalhados às margens dos rios Xeruã e Cuniuá, ambos afluentes do Rio Solimões.

Mito Da Origem Dos Índios


No começo só havia Mavutsinim. Ninguém vivia com ele. Não tinha mulher. Não tinha filho, nenhum
parente ele tinha. Era só.
Um dia ele fez uma concha virar mulher e casou com ela.

3
Fonte: FUNAI (Fundação Nacional do Índio).

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Quando o filho nasceu, Mavutsinim perguntou para a esposa:
- É homem ou mulher?
- É homem.
- Vou levar ele comigo. E foi embora.
A mãe do menino chorou e voltou para a aldeia dela. A lagoa virou concha outra vez.
Nós – dizem os índios – somos netos do filho de Mavutsinim4.
Esse mito é dos Kamaiurá, indígenas que vivem atualmente no Norte de Mato Grosso.

Mito Da Origem Do Mundo E Da Humanidade


Segundo o povo Dessâna (Amazônia).
No princípio o mundo não existia. As trevas cobriam tudo. Enquanto não havia nada, apareceu a mulher
por si mesma. Isso aconteceu no meio das trevas. Ela apareceu sustentando-se sobre o seu banco de
quartzo branco.
Enquanto aparecia ela o cobriu com enfeites e o fez como um quarto. Ela se chamava Yebá Burô, a
Avó do Mundo ou Avó da Terra.
Havia coisas misteriosas para ela criar por si mesma.
Foi ela que pensou o futuro do mundo, sobre os futuros seres. Depois de ter aparecido, ela começou
a pensar sobre como deveria ser o mundo.

1.7 A diversidade das culturas indígenas

Os povos indígenas do Brasil compreendem um grande número de diferentes grupos étnicos que
habitam o país desde milênios antes do início da colonização portuguesa, que principiou no século XVI,
fazendo parte do grupo maior dos povos ameríndios.
Os índios parecem semelhantes, mas existem muitas diferenças entre eles5. Todos os aspectos da
cultura indígena podem variar bastante entre os povos, ou até mesmo dentro de uma mesma comunidade
ao longo do tempo.
A língua, a forma de organização social e política, os rituais, os mitos, as formas de expressão artística,
as habitações e a maneira de se relacionar com o meio ambiente são exemplos de fatores que se
diferenciam.
Mas essa diversidade não significa que a cultura dos povos indígenas foi enfraquecida. Isso porque,
por mais fortes e enraizadas que sejam, as culturas não permanecem sempre iguais.
As características de qualquer cultura se transformam por meio do contato com as outras culturas e
das mudanças sociais, e isso ocorre inclusive nas comunidades indígenas.
Estima-se a existência de cerca de 200 sociedades indígenas no Brasil. O número exato não pode ser
estabelecido, na medida em que existem grupos indígenas que vivem de forma autônoma, não mantendo
contato regular com a sociedade nacional.
Os dados demográficos das sociedades indígenas de hoje devem ser interpretados à luz do processo
histórico, considerando as formas de contato que cada grupo tem mantido com a sociedade nacional, os
efeitos das epidemias e os confrontos que tiveram com as frentes de expansão.

A população dessas sociedades é muito variável, havendo grupos relativamente numerosos


como os Tikuna (20 mil), Guarani (30 mil ), Kaingaing (20 mil ), Yanomami (10 mil ) e outros como
os Ava-Canoeiros, cuja população atual é de apenas 14 pessoas, o que implica que essa sociedade
se encontra seriamente ameaçada de desaparecer.

As sociedades indígenas são muito diferenciadas entre si e, normalmente, essas diferenças não
podem ser explicadas apenas em decorrência de fatores ecológicos ou razões econômicas.
Na década de 50, numa tentativa pioneira de caracterizar as semelhanças e diferenças existentes entre
os diversos grupos indígenas brasileiros, o antropologo Eduardo Galvão desenvolveu o conceito de áreas
culturais. Esse conceito procurou agrupar todas as culturas de uma mesma região geográfica que
partilhavam um certo número de elementos em comum.

Assim, os grupos indígenas do Brasil foram classificados em 11 áreas culturais: Norte-Amazônica;


Juruá-Purus; Guaporé; Tapajós-Madeira; Alto-Xingu; Tocantins-Xingu; Pindaré-Gurupi; Paraná;
Paraguai; Nordeste e Tietê-Uruguai.
4
Villas Boas, Orlando e Villas Boas, Cláudio, Xingu, Os índios, seus netos, R. de Janeiro, Zahar, 1970, p. 55.
5
A Diversidade Cultural dos Povos Indígenas. Disponível em: http://www.museudoindio.gov.br/educativo/pesquisa-escolar/251-a-
diversidade-cultural-dos-povos-indigenas.

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A área cultural do Alto-Xingu, por exemplo, adquiriu sua conformação geográfica a partir da observação
de certos costumes comuns e específicos à maioria dos grupos indígenas da região. Entre esses
costumes, destacam-se: a festa dos mortos, também conhecida como Kuarup; o uso cerimonial do
propulsor de dardos; o uluri, acessório da indumentária feminina; as casas de projeção ovalada e tetos-
parede em ogiva e o consumo da mandioca como base da alimentação desses grupos.
Decorridos quase 50 anos do estudo de Galvão, permanece a ideia, como recurso didático, de distribuir
as sociedades indígenas em áreas, chamando atenção para suas características específicas e, ao mesmo
tempo, assinalando a sua diversidade cultural. Considerando o fato de que várias sociedades indígenas
se situam em região de fronteira e que circulam pelos países limítrofes ao Brasil- onde vivem parentes e
outros grupos com os quais se relacionam-, uma nova configuração classificatória para as sociedades
indígenas vem sendo proposta pelo antropólogo Julio Cesar Melatti - as áreas etnográficas - que se
estende para toda a América do Sul.
Para a definição das áreas etnográficas foram consideradas, sobretudo, as seguintes questões: a
classificação linguística, o meio ambiente e o contato das sociedades indígenas entre si e com as
sociedades nacionais. A classificação linguística é importante na medida em que existe um fundo cultural
comum às sociedades que falam línguas relacionadas, fazendo supor que sejam oriundas de uma única
sociedade anterior, mais remota no tempo. Por essa concepção foram estabelecidas 33 áreas
etnográficas para toda a América do Sul.

2. Noções de Antropologia Social e Cultural.


2.1. Identidade e etnocentrismo.
2.2. O trabalho de campo.
2.3. Culturas e línguas indígenas no Brasil.

2.1. Identidade e etnocentrismo

- Identidade6

Com o surgimento dos debates em torno da pós-modernidade e do multiculturalismo7, no final do


século XX, o tema das identidades veio à tona na História. Na verdade, a noção de identidade não é nova
nas ciências humanas, já sendo bem conhecida da Psicologia e da Antropologia, mas é uma preocupação
recente para os historiadores, desenvolvida principalmente por aqueles que trabalham com a
interdisciplinaridade. Esse conceito tem atingido relevância tal para a compreensão do mundo de hoje
que alcançou já as salas de aula, o que é visível, por exemplo, na inquietação dos educadores em
promover a conscientização sobre a diversidade cultural brasileira: o conhecimento dessa diversidade
passa pela definição das identidades étnicas, regionais, entre outras. A noção de identidade tornou-se,
assim, um dos conceitos mais importantes de nossa época.

O conceito de identidade vem levantando muitas questões em diversos campos das ciências humanas.
Sua origem remete à Filosofia e à Psicologia, mas hoje a Antropologia tem sido uma das ciências mais
prolíficas em seu estudo. Além disso, a área interdisciplinar conhecida como Estudos Culturais - um dos
principais frutos da pós modernidade nas ciências humanas e sociais - também tem questionado a
construção de identidades sob os prismas mais diversos: sociológicos, linguísticos e por meio da teoria
da comunicação. Nesse contexto, a noção de identidade gerou muitos conceitos diferentes: identidade
nacional, identidade étnica, identidade social, cada um deles com uma gama de significados e métodos
de análise próprios.

Partindo de uma definição filosófica, a qual agrega conceituações antropológicas e psicológicas,


Dominique Wolton define identidade como o caráter do que permanece idêntico a si próprio; como uma
característica de continuidade que o Ser mantém consigo mesmo. Partindo dessa idéia, podemos
6
Texto adaptado de SILVA, K. V. e SILVA, M. H. – Ed. Contexto – São Paulo; 2006
7
Multiculturalismo é um termo que descreve a existência de muitas culturas numa região, cidade ou país, com no mínimo uma predominante.
O Canadá e a Austrália são exemplos de multiculturalismo; porém, alguns países europeus advogam discretamente a adoção de uma política
multiculturalista.

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compreender a identidade pessoal como a característica de um indivíduo de se perceber como o mesmo
ao longo do tempo. Tanto para a Antropologia quanto para a Psicologia, a identidade é um sistema de
representações que permite a construção do "eu”, ou seja, que permite que o indivíduo se torne
semelhante a si mesmo e diferente dos outros. Tal sistema possui representações do passado, de
condutas atuais e de projetos para o futuro. Da identidade pessoal, passamos para a identidade cultural,
que seria a partilha de uma mesma essência entre diferentes indivíduos.

Todos temos identidade, a palavra inclusive está em nosso dia-a-dia: no Brasil, somos registrados em
um documento, a carteira de identidade. Tal documento é a representação oficial do indivíduo como
cidadão. Ele é uma representação, entre várias, de nossa identidade social. Para a Psicologia Social, a
identidade social é o que caracteriza cada indivíduo como pessoa e define o comportamento humano
influenciado socialmente. Nesse sentido, a identidade social é o conjunto de papéis desempenhados pelo
sujeito per si. Papéis que, além de atenderem a determinadas funções e relações sociais, têm profunda
representação psicológica por se referirem sempre às expectativas da sociedade. A Psicologia Social
assume, assim, que a personalidade, a história de vida de cada um, é bastante influenciada pelo meio
social, pelos papéis que o indivíduo assume socialmente. Nesse sentido, a identidade social é construída
para permitir a manutenção das relações sociais de dominação.

Além disso, tomar consciência da própria identidade, tomar consciência de si é um primeiro passo para
alterar, se necessário, a identidade social, como dominado. Já na Antropologia, o conceito de identidade
serve para uma infinidade de abordagens diferentes. O antropólogo social Roberto DaMatta, por exemplo,
usa a noção de identidade social para discutir a construção de uma identidade nacional brasileira. Em
sua obra O que faz o Brasil, DaMatta se preocupa em responder como se constrói uma identidade social
e, mais especificamente, como um povo se transforma em Brasil. Para ele, a construção da identidade
social é feita de afirmativas e negativas, a partir dos posicionamentos dos indivíduos diante das situações
do cotidiano. De acordo com DaMatta, uma pessoa cria sua identidade ao se posicionar diante das
instituições, ao responder às situações sociais mais importantes da sociedade: como um indivíduo
entende o casamento, a Igreja, a moralidade, a Arte, as leis etc, é o que define sua identidade social.
Esses perfis seriam construídos a partir das fórmulas dadas pela sociedade, e não criados simplesmente
pela escolha individual.

Um ponto de vista muito controverso no trabalho de DaMatta, entretanto, é sua definição de uma
identidade brasileira única. Para ele, o Brasil se define qualitativamente a partir do futebol, do carnaval,
do sincretismo, da sensualidade etc. E muitos são os pensadores que criticam essa visão, considerando-
a muito simplista, por escamotear todas as diferenças regionais, étnicas e sociais existentes no Brasil e
considerar apenas os estereótipos criados sobre o Brasil.

A questão das identidades tem gerado, ainda na Antropologia, muitas outras vertentes de trabalho. Na
América Latina, diversos têm sido os autores preocupados com a ligação entre identidade, nação e etnia,
que refletem sobre a construção das identidades étnicas, regionais e nacionais, conceitos muitas vezes
interligados. Para autores como George Zarur e Parry Scott, o conceito de identidade é muito importante
para a compreensão do mundo globalizado, em que o enfraquecimento dos Estados nacionais tem gerado
a fragmentação das identidades nacionais e o ressurgimento de outras identidades, de gênero, étnicas,
justamente dessa fragmentação. Nesse sentido, é possível estudarmos as identidades com base em
muitas premissas, como, a partir do hibridismo, ou seja, da sobreposição de identidades diferentes, o que
é cada vez mais comum nos países que recebem grandes levas de imigração. Nesses lugares, os
imigrantes de diferentes origens se mesclam, assim como suas culturas, criando culturas híbridas. Essa
Antropologia estuda a identidade em seu caráter relacional, ou seja, uma identidade se constrói a partir
do encontro com os outros.

Recentemente, a História, dentro dos novos interesses gerados pela interdisciplinaridade e pela pós-
modernidade, tem tentado trabalhar com o conceito de identidade. Talvez um dos principais campos da
historiografia a refletir sobre essa noção seja o dos estudos da memória. Para David Lowenthal,
identidade e memória estão indissociavelmente ligadas, pois sem recordar o passado não é possível
saber quem somos. E nossa identidade surge quando evocamos uma série de lembranças. Isso serve
tanto para o indivíduo quanto para os grupos sociais.

Mas, talvez o campo de estudos que mais tem-se preocupado com a questão da identidade seja o dos
Estudos Culturais. Tal campo, surgido na Inglaterra no final do século XX com autores como Stuart Hall,

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tem como objetivo criticar o estabelecimento de hierarquias culturais, nas quais algumas culturas são
consideradas superiores a outras. Esses estudos têm grande interesse em discutir conceitos como raça,
etnia e nação do ponto de vista da produção cultural, trabalhando com temas como indústria cultural,
cultura popular, colonialismo e pós-colonialismo. Temas para os quais a compreensão da construção das
identidades é fundamental. É dessa perspectiva que Tomaz Silva afirma que a compreensão da
identidade deve levar em consideração sua relação intrínseca com a diferença, pois a identidade não
existe sem a diferença: ao dizer que somos brasileiros, estamos automaticamente dizendo que não somos
alemães, nem chineses, por exemplo. Kathryn Woodward concorda com essa perspectiva, identificando
a identidade como uma construção relacional, ou seja, para existir ela depende de algo fora dela, que é
outra identidade. Além disso, precisamos considerar que toda identidade é uma construção histórica: ela
não existe sozinha, nem de forma absoluta, e é sempre construída em comparação com outras
identidades, pois sempre nos identificamos como o que somos para nos distinguir de outras pessoas. A
identidade feminina, por exemplo, se constrói ante a identidade masculina, a identidade dos negros ante
a identidade dos brancos etc.

Para Ana Carolina Escosteguy, a construção das identidades culturais no novo milênio é a temática
central dos Estudos Culturais. Vemos, assim, que os interesses se aproximam muito dos da Antropologia,
e não é à toa, pois os Estudos Culturais são um campo de estudos nitidamente interdisciplinar, ou
transdisciplinar como querem alguns.
Mas por que o conceito de identidade é algo tão frisado pelas ciências humanas do século XXI?
Antropólogos e culturalistas acreditam que a globalização aproximou culturas e costumes e, logo,
identidades diferentes. Assim, a convivência com o diferente faz com que as identidades aflorem. Por
outro lado, a crise do Estado nacional e dos valores instituídos pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial
tem trazido a necessidade de construção de novos valores, buscados sobretudo nas identidades de
grupos de gênero, étnicas, regionais. Vemos, assim, a complexidade da noção de identidade e sua
enorme importância para a construção da cidadania. Ao levantarmos em sala de aula a bandeira do
respeito à diversidade cultural, às minorias, estamos nos inserindo na discussão sobre a identidade.
Nesse sentido, não podemos apenas receber as conclusões oferecidas pelos livros didáticos, é preciso
aprofundamento nos debates sobre as várias faces da construção das identidades no mundo globalizado.

Etnocentrismo8

Se a cultura no que tange aos valores e visões de mundo é fundamental para nossa constituição
enquanto indivíduos (servindo-nos como parâmetro para nosso comportamento moral, por exemplo),
limitar-se a ela, desconhecendo ou depreciando as demais culturas de povos ou grupos dos quais não
fazemos parte, pode nos levar a uma visão estreita das dimensões da vida humana. O etnocentrismo,
dessa forma, trata-se de uma visão que toma a cultura do outro (alheia ao observador) como algo menor,
sem valor, errado, primitivo. Ou seja, a visão etnocêntrica desconsidera a lógica de funcionamento de
outra cultura, limitando-se à visão que possui como referência cultural. A herança cultural que recebemos
de nossos pais e antepassados contribui para isso, pois nos condiciona ao mesmo tempo em que nos
educa.

O etnocentrismo trata-se de uma avaliação pautada em juízos de valor daquilo que é considerado
diferente. Por exemplo, enquanto alguns animais como escorpiões e cães não fazem parte da cultura
alimentar do brasileiro, em alguns países asiáticos estes animais são preparados como alimentos, sendo
vendidos na rua da mesma forma como estamos habituados aqui a comer um pastel ou pipocas. Assim,
o que aqui é exótico, lá não necessariamente o é. Outro exemplo, para além da comida, é a vestimenta,
pois, tomando como base o costume do homem urbano de qualquer grande centro brasileiro, certamente
a pouca vestimenta dos índios e as roupas típicas dos escoceses – o chamado kilt – são vistas com
estranheza. Da mesma forma, um estrangeiro, ao chegar ao Brasil, vindo de um país qualquer com muita
formalidade e impessoalidade no trato, pode, ao ser recepcionado, estranhar a cordialidade e a simpatia
com que possivelmente será tratado, mesmo sem ser conhecido.

Estes são apenas alguns dentre tantos outros exemplos que ilustram as diferenças culturais nos mais
diversos aspectos. O ponto alto da questão não está apenas em se constatar as diferenças, mas sim em
aprender a lidar com elas. Dessa forma, no momento de um choque cultural entre os indivíduos, pode-se
dizer que cada um considera sua cultura como mais sofisticada do que as culturas dos demais. Aliás,

8
Texto adaptado de Paulo Silvino RIBEIRO, P. S. Doutorando em Sociologia pela UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas.

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esta foi a lógica que norteou as ações de estratégia geopolítica das nações dentre as quais nasceu o
capitalismo como modo de produção. Esses países consideravam a ampliação da produção em escala e
o desenvolvimento do comércio, da ciência e, dessa forma, a adoção do modo de vida do europeu como
“homem civilizado”, fatores necessários e urgentes. Logo, caberia a este último a função de civilizar o
mundo, argumento pelo qual se defendeu o neocolonialismo como forma de dominação de regiões como
a África.

Tomar conhecimento do outro sem aceitar sua lógica de pensamento e de seus hábitos acaba por
gerar uma visão etnocêntrica e preconceituosa, o que pode até mesmo se desdobrar em conflitos diretos.
O etnocentrismo está, certamente, entre as principais causas da intolerância internacional e da xenofobia
(preconceito contra estrangeiros ou pessoas oriundas de outras origens). Basta pensarmos nas relações
entre norte-americanos e latinos (principalmente mexicanos) imigrantes, entre franceses e os povos
vindos do norte do continente africano que buscam residência neste país, apenas como exemplos. A
visão etnocêntrica caminha na contramão do processo de integração global decorrente da modernização
dos meios de comunicação como a internet, pois é sinônimo de estranheza e de falta de tolerância.

Contudo, a inevitabilidade do choque cultural é um fato, pois as culturas naturalmente possuem bases
e estruturas diferentes, dando significação à vida de formas distintas. Prova disso estaria no papel social
assumido pelas mulheres, que certamente não possuem os mesmos direitos enquanto pessoa humana
em sociedades ocidentais e orientais. Este fato, aliás, tem sido objeto de longas discussões internacionais
acerca dos direitos humanos e das questões de gênero. A complexidade dessa questão é muito clara,
pois se para nós do lado ocidental algumas práticas são contra o direito à vida e à emancipação; para
outras culturas essas mesmas práticas devem ser aceitas com naturalidade, pois apenas reproduziriam
uma tradição.

Dessa forma, a tolerância com relação à diferença é válida, mas seu limite não está claro, pois como
podemos aceitar pacificamente o apedrejamento de mulheres ou a mutilação de seus corpos? Daí a
necessidade da reflexão constante sobre tais limites, uma vez que o maior objetivo sempre será o convívio
harmonioso e a valorização da vida.

2.2. O trabalho de campo

Trabalho de campo9

Este é um tema com muitas entradas e ligado a debates permanentes na história da disciplina. A
pesquisa de campo é o procedimento básico da Antropologia há pelo menos um século e sua literatura é
vasta, comportando dimensões múltiplas que vão desde aspectos eminentemente metodológicos, até
existenciais e epistemológicos. Quanto ao relativismo, igualmente, trata-se de tema filosófico, ético,
conceitual e metodológico, exigindo cautela em sua reflexão. De toda forma, a história da disciplina
confunde-se com estes temas, de modo que pensá-los criticamente significa pensar a própria identidade
da Antropologia enquanto ciência e discurso. Tomarei neste texto, um viés possível. A ideia é tentar refletir
sobre como o ideal de transparência, fundador da antropologia moderna, aquele de buscar traduzir “o
ponto de vista do nativo”, sofreu um processo criativo de relativização a partir de transformações ocorridas
na relação observador/observado dentro da história da disciplina. Tais transformações, segundo me
parece, longe de representarem uma aludida superação dos modelos clássicos, constituem, há muito, o
cerne de debates internos, aparentemente reduplicados, fazendo parte do processo incessante de
renovação teórica e metodológica da disciplina

A importância do tema reveste-se de contornos ainda maiores no momento atual em que as ciências
sociais passam por um profundo reexame e novos desafios estão colocados, a partir das metamorfoses
de seu objeto - a sociedade global - tendendo com isso a rever seus procedimentos, seus dualismos
tradicionais, epistemologias e até sua divisão organizacional do saber.
Na palavras de Octávio Ianni: “No âmbito da globalização, vista como uma totalidade histórico-teórica,
reabrem-se os contrapontos, as continuidades e as descontinuidades, sintetizados em noções tais como
sujeito e objeto de conhecimento, parte e todo, passado e presente, espaço e tempo, singular e universal,
micro teoria e macro teoria. Estes e outros problemas envolvem novos desafios e outras perspectivas

9
Texto adaptado LACERDA, E. P.

19
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quanto se trata de refletir sobre as relações, processos e estruturas, bem como as formas de sociabilidade
e os jogos das forças sociais, que desenham as configurações e os movimentos da sociedade global”.

Neste contexto de transformações e novos desafios, é objetivo deste texto contribuir para a reflexão
sobre a natureza dos procedimentos e do objeto do trabalho de campo antropológico. Em que pese a
multiplicidade de ângulos que o tema “trabalho de campo e relativismo” pode se revestir, mas tomando
como base essa conexão, procuraremos situar historicamente o modelo fundante que definiu
profissionalmente a disciplina, tomando como foco e perspectiva, a relação observador - observado ( ou
pesquisador-nativo, sujeito cognoscente-objeto cognoscível, etc), para depois situar as transformações e
problemas enfrentados por este modelo, à luz de reflexões e movimentos ligados ao debate
contemporâneo da pós-modernidade em Antropologia, um debate que, na verdade, inaugura outros
problemas. Finalizarei inserindo algumas moderações que me parecem importantes, na tentativa de
conter o pendor pessimista que por vezes tem aflorado neste debate.
Modelo Malinowsky modelo

A abordagem antropológica de base, a que todo pesquisador considera hoje como incontornável,
quaisquer que sejam suas opções teóricas, provém de uma ruptura inicial com qualquer modo de
conhecimento abstrato, especulativo ou conjectural, isto é, que não esteja baseado na observação direta
dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. Esta assertiva faz sentido pleno para nós
hoje porque na década de 20, Bronislaw Malinowsky, opondo-se à utilização dos materiais etnográficos
para invenção de supostas linhas evolutivas de desenvolvimento, sistematizou o uso do método
etnográfico chamado por ele de “observação participante” como o único modo de conhecimento em
profundidade da alteridade cultural que poderia escapar do etnocentrismo.
Tratava-se de uma pesquisa intensiva e de longa duração em que o etnólogo partilhava a existência
de uma população em cuja mentalidade ele se esforça para penetrar, através do aprendizado da língua
vernacular e pela observação meticulosa dos fatos da vida cotidiana. Tratava-se de compreender o ponto
de vista do nativo através deste procedimento paciente, permitindo com isso que aparecessem
progressivamente as interrelações entre todos os fatos observados e, a partir daí, a definição da cultura
do grupo estudado.

A partir deste método, a Antropologia consolidou seus status de disciplina científica, sendo o
antropólogo, aquele que legitimava seu texto (a etnografia), evocando a experiência que teve de uma
outra cultura. A ideia que legitima o método é a de que apenas através da imersão no universo social e
cosmológico de outra cultura, o antropólogo pode chegar a compreende-la. O pesquisador profissional
deve passar por um processo de transformação pelo qual ele, idealmente, torna-se nativo.
Mas se essa transformação é condição essencial para o conhecimento, ela não é suficiente. A
experiência cotidiana é a-sistemática, e até que a cultura apareça retratada coerentemente no texto
etnográfico vai uma longa distância. Malinowsky fala sobre isso na Introdução aos Argonautas do Pacífico
Ocidental. Do mesmo modo que o antropólogo tem que se transformar ao entrar em uma outra cultura,
ele tem que re-elaborar a sua experiência ao sair dela, de modo a transforma-la em uma descrição
objetiva (científica) da cultura como um todo. Esta reelaboração é inspirada por uma teoria da cultura
específica, - e aqui o ponto é fundamental, pois, que as mudanças e visões posteriores sobre o modo de
conhecer o Outro, na história da disciplina, não podem deixar de ser analisadas também sob este mesmo
enquadramento. A legitimação do trabalho de campo como método de pesquisa antropológica associou-
se à formulação de uma teoria (a funcionalista) que concebia as culturas como unidades discretas,
existentes sob forma unitária e acabada, passíveis de serem observadas e conhecidas - desde que
olhadas com os olhos treinados do antropólogo profissional. Culturas eram totalidades que deveriam ser
recompostas pelo antropólogo e descritas como tais, embora não se apresentassem à experiência dessa
maneira. Além disso, sendo as culturas todos complexos difíceis de serem apreendidos em um período
relativamente curto de tempo, os antropólogos tenderam a se fixar em temas ou instituições. Assumiu-se
assim que partes eram microcosmos do todo e que, consequentemente, o estudo de partes poderia levar
ao conhecimento do todo - a cultura trobriandesa. Finalmente, o método associou-se à ideia de que as
culturas deveriam ser estudas e representadas sincronicamente e no presente.

O ponto que gostaria de reter refere-se ao efeito geral do método malinowskiano. No processo de
reelaboração da experiência cultural cujo resultado final é o texto etnográfico e onde se supõe haver uma
descrição coerente da cultura estudada, estabeleceu-se uma disjunção, um distanciamento entre o
antropólogo (e sua cultura) e a cultura do grupo estudado. Entretanto esta separação, como escreve
Strathern não era aleatória, mas consciente e marcava a introdução do modernismo na antropologia:

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“A divisão entre observador e observado foi sempre consciente. O que caracterizou o modernismo na
antropologia foi a adoção dessa divisão como um exercício teórico através do fenômeno do trabalho de
campo. Quando o(a) antropólogo(a) “entrava” em uma outra cultura, levava consigo essa consciência.
Isso é o que foi inventado pelos pesquisadores de campo da época de Malinowsky.”
A novidade de Malinowsky e dos antropólogos que lhe seguiram foi justamente a de criar um novo
contexto para descrever os outros. Nele, o outro e sua cultura eram distanciados e definitivamente
apresentados como diferentes, uma diferença de perspectiva, não de evolução. O ponto de vista nativo,
ao se reproduzirão seu contexto específico, não poderia mais ser incorporado ao da cultura do
antropólogo e de seus leitores. Como escreve Caldeira, “no máximo os pontos de vista poderiam ser
justapostos pelo antropólogo, este ser privilegiado que se movimenta entre dois mundos, conhece o
estranho, o descobre e traduz essa perspectiva diferente para os leitores de sua própria cultura”.

Note-se então que a partir de Malinowsky, as etnografias passam a carregar consigo uma consciência
sobre a diversidade do mundo, revelando em seus textos a idéia de um outro radicalmente diverso de
nós. A denúncia do etnocentrismo e o relativismo cultural constituíram consequências centrais da criação
desse novo contexto. No entanto, ao demarcar a diferença e a distância entre as culturas e, com isso, a
impossibilidade de que uma fosse avaliada em função dos valores e da visão da outra, acabou-se
paradoxalmente dificultando a possibilidade de se trabalhar a diferença como crítica cultural, com efeito,
uma das bases em que se assentou a antropologia da época, por exemplo, na crítica ao racismo.
O modelo ou método malinowskiano de conhecimento do outro, que podemos categorizar como
clássico, continua a definir o status quo da disciplina. O lugar do “pesquisador” e do “nativo” ficaram aí
bem definidos: o pesquisador, treinado academicamente, saía do seu contexto de origem e encontrava o
nativo, distante, iletrado, freqüentemente além-mar. Depois de passar algum tempo junto a algum grupo
estranho, retornava a sua origem e escrevia textos em que retratava culturas como um todo. Se nos
valermos da matriz disciplinar de Cardoso de Oliveira, poderemos afirmar sem dúvida, que o modelo
dessa relação atravessou os três paradigmas tradicionais da disciplina: o racional-estruturalista, o
estrutural funcionalista e o culturalista. Pretendemos verificar em quais sentidos e direções, o quarto
paradigma, tem provocado a desconstrução do modelo clássico, (tendo em mente, lembro, o foco na
relação observador - observado.)

As críticas do movimento pós-moderno

Certamente que como modelo ideal, o método malinowskiano não foi seguido inteiramente. De acordo
com Mariza Peirano, “no decorrer do século os antropólogos fizeram de tudo um pouco: viveram isolados,
contrataram nativos, pagaram por informações, seduziram grupos com miçangas, foram ridicularizados,
prestaram socorros, sentiram-se espiões, traidores, viveram crises de consciência”, e no entanto, neste
processo “cruzaram oceanos para estranhar e reconhecer a alteridade, tornando-se os ingleses,
africanistas; os franceses, americanistas, os norteamericanos, oceanistas”. Na altura da década de 60,
houve um momento de crise. Foi quando se pensou que a pesquisa de campo desapareceria em função
do processo de descolonização que transformava os “nativos” em cidadãos de nações independentes. É
quando Lévi-Strauss enfatiza com otimismo que à disciplina interessa principalmente as diferenças, que
nunca seriam eliminadas, fazendo do antropólogo um legítimo intermediário dessa relação. No entanto,
uma coisa ficaria clara nesta situação: a própria pesquisa de campo, longe de ser uma fórmula, passaria
a ser vista como um fenômeno histórico, inserida em um contexto biográfico, político e teórico, o que
implica diferenças de abordagem dependentes do momento histórico. Assim como o trabalho de campo
teve um início, pode também ter um fim.

Como o advento da antropologia interpretativa nos Estados Unidos, a pesquisa de campo tradicional
e o modelo textual dela derivado, começam a ser amplamente questionados. A cultura passa a ser vista
não mais como um todo coerente e integrado mas como texto e a tarefa da antropologia, o exercício de
sua interpretação e crítica. É aqui que os antropólogos pós-modernos de orientação hermenêutica,
começam a fazer barulho. Para eles, o modelo clássico, desenvolvido no âmbito do que foi chamado
“encontro colonial”, implicava um ideal de transparência e fatualidade na representação do outro, em que
o nativo, sempre passivo, era submetido a uma autoridade soberana, produtora de um texto(etnográfico)
e uma voz(autoral) de caráter monológicos, que não questionava o caráter da relação de poder entre os
polos do observador e do observado. A alternativa proposta foi a construção de “etnografias
experimentais”, tendo como modelo o diálogo ou melhor, a polifonia. O objetivo final, no que diz respeito
ao autor, seria fazer com que ele agora se diluísse no texto, minimizando em muito a sua presença, dando

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espaço aos outros, que antes só apareciam através dele. Nas palavras de um representante do novo
modelo:
“O princípio da produção textual dialógica situa as interpretações culturais em diferentes contextos
intercambiáveis e obriga os escritores a encontrar diversas maneiras de apresentar realidades, que são
de fato negociadas, como intersubjetivas, cheias de poder e incongruentes. Nesta visão, “cultura” é algo
sempre relacional, uma inscrição de processos comunicativos que existem, historicamente, entre sujeitos
e relações de poder... Assim que o dialogismo e a polifonia são reconhecidos como modos de produção
textual, a autoridade monofônica é questionada, aparecendo como uma característica de uma ciência que
pretendeu representar culturas”.

Note-se então que o antropólogo não se encontra mais numa situação privilegiada em relação a
produção de conhecimentos sobre o outro. Sua posição é relativizada. Ele não é mais aquele que re-
elabora uma experiência para explicitar a realidade de uma cultura com uma abrangência e coerência
impossíveis para aqueles que a vivem no cotidiano. Não é mais um sujeito cognoscente privilegiado, mas
igualado ao nativo e tem que falar sobre o que os iguala: suas experiências cotidianas. O ponto de vista
nativo torna-se então meta inalcançavel. As vozes são todas equiparadas e o que se representa são
sujeitos individuais, não papeis sociais. Se os etnógrafos clássicos acreditavam que poderiam ir além da
diversidade das experiência de campo, de modo a reconstruira totalidade, os pós-modernos contudo, dão
valor de objetividade à diversidade, pressupõem sua irredutibilidade e negam a possibilidade de
reconstruir uma totalidade que dê sentido a todas as posições diversas. O que o antropólogo pode fazer
é inscrever processos de comunicação em que ele é apenas uma das muitas vozes. Ele pode evocar,
sugerir conexões de sentido, provocar, ironizar, mas não descrever totalidades culturais. Essa perspectiva
inverte o procedimento clássico: o autor não se esconde para afirmar sua autoridade cientifica, mas se
mostra para dispersar sua autoridade.

Evidentemente, mudaram as condições em que se faz o trabalho de campo e o contexto em que se


escreve sobre o outro, fazendo com que ficassem cristalinas as famosas declarações de Geertz de que
agora “somos todos nativos” ou de que os antropólogos não estudam aldeias mas em aldeias”. Como
escreve Caldeira:
“O desmantelamento dos impérios coloniais, a restruturação das relações entre as nações do Primeiro
e Terceiro Mundo, e a atenção para as sociedades complexas - a dos antropólogos, faz com que o
antropólogo não se defronte mais com culturas isoladas ou semi-isoladas, mas cidadãos de nações que
se relacionam por complexos caminhos culturais e políticos com a nação de onde vem o antropólogo. Ou
então defronta membros de sua própria sociedade. Essas transformações no macrocontexto tem levado
ainda a mudanças nos temas pesquisados e na maneira de encara-los. Os antropólogos contemporâneos
se preocupam com transformações, com história, com encontros e sincretismos, com práxis e
comunicação e, principalmente com relações de poder”.

No entanto, uma observação de Mariza Peirano é pertinente aqui: se a perspectiva do trabalho de


campo incomoda, não é porque hoje se enfatiza as relações de poder implícitas nessa relação, mas
porque simplesmente “o ideal de paridade implícito na Introdução aos Argonautas de 1922, foi o modelo
que vingou”, contra a então chamada antropologia de gabinete. A pesquisa de campo entre os
trobriandeses talvez seja um dos mitos generalizados que as antropologias (centrais ou periféricas),
partilham no mundo.

De todo modo, as discussões dos pós-modernos têm, a meu ver, seu lugar no mundo antropológico
contemporâneo. Como crítica do positivismo e da ideologia da transparência da representação,
chamando atenção para o modo como são construídos os textos etnográficos, abrindo novas sendas no
debate incessante sobre o conceito de cultura, provocando caminhos experimentais que fazem
movimentar os cânones rigidamente estabelecidos na disciplina, justamente num tempo em que às
ciências sociais se apresentam novas formas de autoconsciência. No entanto, algumas démarches se
impõem, como que para pôr as idéias em seu devido lugar, sob pena de entrarmos em processos
indigestos devido a absorção de “alimentos” prontamente embalados, novos universalismos que aportam,
ou desenvolvimentos perversos, repletos de crises existenciais e morais.

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Demárches que se impõem

- A tensão essencial
A centralidade fundamental do fazer antropológico não está, como querem os pós modernos, na
relação entre o autor individual e as implicações retórico-políticas dos textos que escreve, e sim na tensão
criativa entre teoria e pesquisa. Essa tensão permanente entre o saber acumulado nas disciplina e as
categorias nativas apresentadas pelos informantes, impactam na personalidade total do etnógrafo,
fazendo com que diferentes culturas se comuniquem na experiência singular de uma única pessoa. Ela
escreve: “Esta experiência não se reduz, no texto etnográfico a uma mera ilustração, mas o texto sim,
resulta da combinação de uma ambição da disciplina, que se vê como universalista e os dados (novos)
detectados pelo pesquisador em determinado contexto etnográfico”. O exemplo dado é claro: “não há
teoria antropológica de Evans-Pritchard, mas a teoria sobre bruxaria que nasceu do confronto entre a
bagagem intelectual europeia de Evans-Pritchard e o interesse dos Azande em explicar seus infortúnios”.
Desse modo, a descoberta antropológica já é um diálogo, mas não entre indivíduos - pesquisador e nativo,
e sim entre teoria acumulada e o confronto com uma realidade que traz novos desafios para ser
compreendida.
Além do mais, o movimento experimental norte-americano, está muito bem contextualizado numa
crítica autorreflexiva de cunho moral e inspiração democrática para aqueles que agora acreditam viver
em mundo pós-colonial.
Em antropologias “nativas” como a nossa, que sempre estudaram sua própria sociedade, o processo
de entender um outro que faz parte da nossa própria cultura conduz quase que inevitavelmente a pensar
criticamente sobre a nossa relação com ele e sobre seu lugar na nossa sociedade. Como diz Peirano:
para nós “as questões morais têm uma conotação eminentemente política”.

O questionamento da pesquisa de campo como prática, não pode fazer perder essa tensão essencial,
segundo Peirano. De outro lado, penso que, ao mantermos a centralidade dessa tensão, que é o eixo
básico da disciplina, não deixamos também de recolocar o importante problema da escritura etnográfica
na base de uma ciência com vocação pluralista, mas sem obscurecer a densidade teórica, esta, sim, um
exercício permanente de verificação da plausibilidade do discurso antropológico, que só pode ser feito
pela produção de mais etnografias. Desse modo, se a posição privilegiada do etnógrafo clássico foi
relativizada pela nova antropologia, a posição experimentalista dos pós-modernos não deixa de ser
relativizada por uma antropologia que não abre mão daquele lado cientifico, sistematizante e
generalizante da disciplina. Quando resvala para posturas meramente confessionais, auto absorventes,
naquilo que o próprio Geertz, inspirador maior do movimento, chamou de “doença endêmica, que ao invés
de produzir etnografias, produz diários, reflexões metacientíficas, jornalismo cultural, ativismo sociológico
todos informados por uma sinceridade redentora que não passa de esperança fútil e estéril”, a nova
antropologia, recai naquilo que Gellner, um crítico feroz do relativismo e do interpretativismo, aduz como:
“uma vez que todo conhecimento é dúbio, sendo saturado por teoria/etnocêntrico/dominado por
paradigma/ligado a interesses etc, o autor, angustiado, lutando contra dragões, pode escrever o que
quiser”. Preocupado com essa espécie de “misticismo semiótico” ou “relativismo obscuro”, Gellner,
arremata: “Precisamos de uma antropologia que não transforme a cultura em fetiche, que reconheça com
a mesma franqueza tanto as limitações coercitivas quanto as conceituais, e devemos voltar ao mundo
real, que não trata mundos conceituais como se fossem autoexplicativos”.

- Contra o desalento pós-moderno


A tendência pós-moderna abriu investimentos desconstrutivistas por todos os lados. Um deles refere-
se à perda e ao pânico daí decorrente, do objeto da antropologia: a cultura. Em artigo recente, Marshal
Sahlins, abre fogo contra o que chama “o pessimismo sentimental” que varre o mercado anglófono, onde
o termo cultura parece estar em franca liquidação. Mostrando inúmeros exemplos no mundo de
“florescimento” ou “intensificação” cultural, em que novas formas de vida translocais e neotradicionais,
reinventam seu próprio passado, subvertendo seu próprio exotismo, tais culturas estão, no dizer de Bruno
Latour, “transformando a antropologia em algo favorável a elas, ‘reantropologizando’, se me permitem o
termo, inteiras da Terra que se pensava fadadas à homogeneidade monótona de um mercado global e
de um capitalismo desterriorializado (...) Essas culturas, tomadas de um novo ímpeto, são fortes demais
para que nos demoremos sobre nossas infâmias passadas ou nosso atual desalento. O que se carece é
de uma antropologia disposta a assumir seu formidável patrimônio e a levar adiante suas muitas e valiosas
intuições”.

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Celebrando o fenômeno, Sahlins vai dizer que “os povos que sobreviveram fisicamente ao assédio
colonialista, vem tentando incorporar o sistema mundial a uma ordem ainda mais abrangente: seu próprio
sistema de mundo. A tarefa da antropologia agora é uma só: ao invés de reforçar a ilusão de que a
resistência dos povos indígenas é um arremedo de autenticidade imposto pela “Grande Narrativa” do
capitalismo, a nossa tarefa agora é a “indigenização da modernidade”. As culturas não são ilusões
póstumas da pós modernidade, nostálgica de um “primitivo” que está sempre desaparecendo, mas a
nomeação e a distinção de um fenômeno único: a organização de experiência e da ação humanas por
meios simbólicos.

Este é o fenômeno do qual os antropólogos terão sempre que dar testemunho. Se as técnicas para
compreender as culturas classicamente estudadas, não possuem uma relevância eterna, a crítica pós-
moderna do trabalho de campo e da etnografia, não têm como corolário o fim da “cultura”, e sim que a
cultura assumiu uma variedade de novas configurações, nas quais a antropologia deveria aproveitar a
oportunidade para se renovar, descobrindo novos e inéditos padrões da experiência humana.

2.3. Culturas e Línguas Indígenas no Brasil

História do passado de nossos primeiros habitantes10

Falaremos agora sobre a história do passado de nossos primeiros habitantes que começa com perdas
e danos. Falar dos povos e línguas indígenas e de sua dolorosa história, no decorrer destes 500 anos de
conquista e dominação, remete inexoravelmente a números, na maioria das vezes meras deduções, mas
que têm de comum quantificarem perdas e extermínios.
Assim é que Darcy Ribeiro, em Culturas e línguas indígenas do Brasil, estima em 1 milhão população
indígena na época da chegada da frota de Cabral, que teria baixado para um máximo de 100 mil no século
XX. Já em O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, Darcy Ribeiro revê esse cálculo, elevando-
o para 5 milhões, estimativa um pouco mais condizente aos resultados de recentes pesquisas, na região
amazônica feitas pelos arqueólogos norteamericanos Anna Roosevelt e Michael Heckenberger que
comprovam ter havido na Amazônia, em períodos anteriores à penetração europeia, um povoamento
extremamente denso em estágio avançado de cultura material e organização social. Essas investigações
se contrapõem à teoria vigorante da adaptação ecológica, pela qual, na época pré-cabralina, os grupos
indígenas seriam pequenos e rarefeitos, com um desenvolvimento limitado pela pobreza do ecossistema,
o que impediria o crescimento e a concentração populacional.

O que aconteceu, no século XVII, com a ocupação da Amazônia, foi um processo vertiginoso de
extermínio e de população. As perdas foram, pois, bem maiores do que as que figuram nas estatísticas
mais conhecidas.
Aryon Dall’Igna Rodrigues estima que, às vésperas da conquista, eram faladas 1.273 línguas. Hoje o
cálculo mais difundido é 350 mil pessoas e 206 etnias. São cerca de 180 línguas, das quais a grande
maioria se encontra na região amazônica, para uma população que se distribui em 41 famílias, dois
troncos, uma dezena de línguas isoladas. Em 500 anos, uma perda de cerca de 85%.
É de surpreender que, apesar da escravidão que lhes foi imposta, das entradas e bandeiras, dos
descimentos e da política colonial de homogeneização, o Brasil, seja, no contexto sul-americano, o país
com a maior diversidade genética. Por outro lado, tem uma das mais baixas concentrações de população
por língua. O número de falantes vai de um máximo de 20.000 a 10.000 (Guarani, Tikuna, Terena, Makuxi,
Kaingang) aos dedos de uma mão, quando não resta um único e último falante. A densidade populacional
média é de menos de 200 falantes por língua.
A descoberta de novos grupos indígenas e as pesquisas que se intensificaram após a década dos 80,
com a consolidação da pós-graduação, têm efeitos marcantes no campo de reconstrução da história e
classificação genética das línguas indígenas brasileiras, pois podem revelar novos agrupamentos
genéticos, ou novos acréscimos a famílias, ou troncos já estabelecidos.
É da mudança ocorrida na segunda metade do século passado, quando linguistas, graças à ação de
mestres, como José de Oiticica, Joaquim Mattoso Câmara Jr. e Aryon Dall’Igna Rodrigues, assumiram a
responsabilidade de devolver às populações indígenas um pouco do muito que lhes tiramos e de construir
uma consciência coletiva de nossa responsabilidade social, que relatarei a seguir.

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Texto adaptado de LEITE, Y. Línguas Indígenas Brasileiras e a Esperança de um Futuro. UFRJ, Museu Nacional e UGF.

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Até os anos 60 do século passado, poucas pessoas tinham conhecimento de que esse extermínio de
populações inteiras havia acontecido no decorrer dos 5 séculos que nos antecederam. E pouco ou nada
se sabia sobre a diversidade linguística existente no País. Criara-se o mito de um Brasil linguística e
culturalmente, homogêneo.
A negação de um Brasil multilíngue e multicultural tem uma longa história que se inicia com a política
dos jesuítas e a catequização dos povos que aqui habitavam. Segundo Candida Drummond Barros et alii
(1996), no artigo “A língua geral como identidade construída”, o multilingüismo existente na província do
Grão Pará, era bem conhecido, tanto que Manuel da Nóbrega, padre jesuíta, considerava a área uma
torre de Babel, com um número de línguas muito maior do que a que se conhecia através da Bíblia.
No Tupinambá, a língua mais usada na costa do Brasil, havia uma variedade dialetal bem pronunciada.
Aryon Rodrigues (Op. cit.) chama a atenção (no artigo “Descripción del tupinambá en el período colonial:
el arte de Anchieta), para o fato de que Fernão Cardim, em 1584, mencionou 68 idiomas distintos do
Tupinambá numa área que corresponde aproximadamente aos atuais Estados de Sergipe, Bahia, Espírito
Santo e Rio de Janeiro.
Nos tempos atuais, podemos evocar o cartão postal das etnias indígenas brasileiras. Refiro-me à
região conhecida como Alto Xingu, ao norte do Estado de Mato Grosso onde vivem nove etnias que falam
línguas geneticamente distintas (Tupi, Karib, Arawak) e que participam de uma mesma rede de intensas
relações rituais e matrimoniais.
A supremacia do Tupinambá como língua de instrução, num quadro complexo como o relatado, poderia
talvez ser explicada pela sua expansão geográfica. No entanto, os motivos para uma única língua
prevalecer, em meio de tamanha diversidade genética, são de ordem bem diferente. Como ressalta o já
mencionado artigo de Barros et al, a multiplicidade de línguas era um empecilho à conversão, e todas
deveriam ser reduzidas a uma só, de preferência a mais comum e a mais usada por um maior número de
falantes, isto é, a mais geral.

Esta política de institucionalização de uma língua indígena como geral foi parte de uma política
indigenista colonial que estabeleceu uma categoria de “índio”, que não existia no mundo pré-colonial.
Índio era uma categoria superétnica, reduzidas as diferenças dos grupos a um modelo único aplicado a
toda a população indígena. A categoria índio marcava a oposição entre o colonizador e o colonizado.
Mantinha a alteridade cultural em relação ao colonizador, porém sem recuperar o étnico, ou seja, as
especificidades próprias de cada grupo como unidade político-econômica.

Para a maior eficácia da prática da conversão e homogeneização linguística, era necessário


estabelecer mais dicotomias, que lançassem as sementes de um julgamento valorativo positivo dos
convertidos: língua boa/língua ruim, índios mansos/índios bravos, tupi/tapuia.
A política posta em prática pelos jesuítas, com o apoio da Coroa, tirou dos índios seus costumes, suas
terras, sua cosmologia, sua música e sua língua. A uma diversidade condenada, impôs lhes uma
homogeneidade, cujo objetivo era manter a unidade do território conquistado.
Essas populações, segundo Gândalvo sem fé, nem lei, nem rei – porque em tupinambá não há f, r e l
–, deveriam passar a ter só uma fé, uma só lei e um só rei. Estavam, assim, lançadas as bases para um
imaginário de uma Terra Brasílica linguística e culturalmente homogênea.
É somente no século XIX que se começa a descobrir a diversidade e o multilingüismo do Brasil e se
inicia a documentação mais ampla dessas línguas. Do período colonial só restaram publicadas três
gramáticas: duas sobre o Tupinambá – a de Anchieta (1595) e a de Luiz Figueira (1687) – e a de Luís
Mamiani sobre a língua Kiriri (1699), um catecismo em tupinambá (Ibidem) e um catecismo na língua
Manau.

Com a expulsão dos jesuítas e fechadas as Missões, no século XIX entram em cena os viajantes que
aqui vinham em expedições para o estudo da fauna, flora, rios e montanhas deste imenso país, ainda tão
desconhecido. E em sua longa caminhada por regiões longínquas, encontravam grupos indígenas e,
embora sem formação em fonética ou em teorias gramaticais, registravam suas línguas, legando-nos
vocabulários, algumas frases, e excertos gramaticais.
Sobressaem-se, neste período, os pesquisadores alemães Carl Friedrich Phil von Martius, Karl von
den Steinen, Theodor Koch Grünberg, Paul Ehrenreich. e Curt Unkel que, ao se naturalizar brasileiro,
acrescentou a seu nome alemão Curt Unkel, o sobrenome que lhe foi dado pelos Apapokuva Guarani,
Nimuendaju “ aquele que fez sua morada entre nós” E assim se tornou Curt Unkel Nimuendaju, autor do
Mapa Etno-histórico, um monumental trabalho no qual se encontram o nome da etnia encontrado nas
documentações existentes para cada língua indígena com o ano em que foram feitas, sendo, assim,
possível reconstruir a história das migrações e ocupações de territórios das populações indígenas.

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Uma figura ímpar, pela originalidade de sua metodologia de trabalho e pela qualidade do material que
legou, é Capistrano de Abreu e sua gramática Kaxinawá (Pano), entusiasticamente elogiada por Paul
Garvin (1946), Mattoso Camara (1965) e Mario A. Perini (1997), em artigo intitulado “Um Prometeu da
linguística brasileira”.
Recentemente a obra de Capistrano foi alvo de uma exegese feita por Christino (2006) em sua tese
de doutorado A rede de Capistrano de Abreu (1853-1927): uma análise historiográfica do rã-txa-hu-ni-ku-
~i em face da sul-americanística dos anos 18901929.
Capistrano não fez viagens, não se deslocou, nem participou de expedições. Trabalhou em sua casa,
com um empregado Kaxinawá.

As principais famílias linguísticas brasileiras foram delineadas nessa época: Tupi, Jê, Pano, Karib. O
encontro com a diversidade e com o pluralismo foi fruto do trabalho, de esmero e acuidadade de não-
especialistas em linguística: Curt Unkel Nimuendaju era autodidata, von Martius, botânico e farmacêutico,
von den Steinen tinha sua formação básica em medicina com especialização em psiquiatria,
KochGrünberg, era formado em filologia clássica e Capistrano de Abreu era historiador.
A documentação que fizeram, sem dúvida, muitas vezes deixa a desejar quanto ao registro fonético e
à interpretação de formas. Porém seu valor factual histórico é inestimável, pois algumas delas têm mais
de 100 anos. Os povos indígenas não têm uma história escrita, nem documentos antigos. São esses
trabalhos, quer de conteúdo etnológico, quer lingüístico, que lhes dão profundidade histórica e permitem,
por comparação com os dados atuais, reconstruir um estágio mais anterior e depreender, com maior
certeza, processos de mudanças, quer espaciais, quer linguísticas.

Os estudos sobre o Tupi, como a língua indígena falada no País, perduraram por muito tempo, embora
tenham assumido outra forma, qual seja, a de verificar sua influência no português do Brasil.
Criou-se a tradição de que estudar as línguas indígenas era listar os empréstimos vocabulares do tupi
e sua adaptação ao português (“peteca” do tupi petek, “quarar” – por ao sol – do tupi kwara – “sol” –,
“jacaré” do tupi yaka´ré, “arara”, “cururu” – tipo de sapo. Os topônimos também foram objeto de estudo,
por exemplo, “Itacoatiara” – pedra pintada –, “Araçatuba” – lugar que tem muito araçá (goiaba grande,
denominação para a goiaba que persiste até hoje na Bahia e tyb – plantação abundância).
Vários foram os apelos feitos por linguistas da necessidade urgente de um programa de pesquisa das
línguas indígenas brasileiras, uma vez que havia o sério perigo de sua extinção, o que poderia significar
também a extinção física do grupo.
A institucionalização do campo de estudos de línguas indígenas era ainda baixa no começo dos anos
80. Dominava, ainda, o Summer Institute of Linguistics (SIL), hoje cognominado, International Institute of
Linguistics, e seu modelo e metodologia para a pesquisa de campo. A esta instituição havia sido entregue,
a partir do final dos anos 50, a gigantesca tarefa de acumular conhecimentos sobre as línguas indígenas
no Brasil. O SIL trouxe não só os missionários-linguistas, mas também o modelo padronizado de como
se deveria fazer a pesquisa de campo e de como deveriam ser apresentadas as descrições e análises.
Na tentativa de inovação, a história se repetia: trocava-se documentação linguística de povos
conquistados pela salvação de suas almas. Além disso seu principal objetivo era traduzir a Bíblia para as
línguas indígenas, cuja finalidade era, mais uma vez, substituir seus mitos, seus costumes e suas
concepções do mundo.

O fim das alianças entre o SIL e instituições acadêmicas e governamentais brasileiras, no final dos
anos 70 e início dos anos 80, coincidiu com a consolidação da pós-graduação nas universidades Iniciou-
se uma nova era e tornaram-se possíveis novos rumos na documentação e descrição das línguas
indígenas brasileiras. A linguística conquistava a sua autonomia, no Museu Nacional da Universidade,
Federal do Rio de Janeiro, em Pernambuco, na Universidade de Brasília, na Universidade de Campinas.
Aos poucos, se constitui um corpo docente capacitado e, mais do que isso, com formação teórica
diversificada.
Um mero exame da produção em línguas indígenas nos últimos quinze anos e das dissertações e
teses oriundas dos programas de pós-graduação mostra, de imediato, uma salutar mudança: a
destupinização tão almejada se efetivou, o molde hegemônico de descrição esvaiu-se e a diversidade
teórica instalou-se.
Novos centros de pesquisa surgiram nas Universidades Federais de Goiás, do Pará, de Pernambuco,
do Amazonas, de Alagoas, na Universidade de São Paulo, na Universidade Estadual de Londrina, no
Museu Paraense Emilio Goeldi.
Lucy Seki (1999 e 2000a) apresentou um levantamento, ainda parcialmente inédito, que abrange tanto
os artigos publicados, as comunicações em congresso, encontros, seminários, quanto às dissertações de

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mestrado e teses de doutorados realizadas no país e no exterior, cobrindo o período de 1.960 até meados
dos anos noventa. Desse levantamento constam 400 títulos de trabalhos publicados, em periódicos
nacionais e estrangeiros, sem contar as comunicações a congressos, simpósios, seminários e encontros,
ainda não publicados, mas que circulam entre os especialistas. Além disso, temos 107 dissertações de
mestrado, das quais 5 foram feitas no exterior e 44 de doutorado, das quais 16 foram defendidas no
exterior.

Novas pesquisas se acumulam, em quantidade e qualidade maiores, a partir do começo deste novo
século. A Gramática do Kamaiurá reinaugura, em bases modernas, o estudo descritivo das línguas tupi-
guarani. O avanço é grande e o campo está em plena efervescência. Observe-se, porém, que apesar de
se estar lidando com línguas até bem recentemente ágrafas que se caracterizam, portanto, pela oralidade,
não se tem notícia de arquivos institucionais sonoros, ou mesmo, iniciativas de arquivos abertos para
consulta ao público, inclusive aos índios, onde a documentação já existente possa ser consultada. Um
novo campo se abre com novas ferramentas e novos conceitos de trabalho de campo para a
documentação linguística. À tarefa clássica de produzir gramáticas e léxicos de uma determinada língua
(ou variante), se acrescenta, agora, a de coletar amostras amplas de eventos e de gêneros de fala, em
áudio e em vídeo. Começam a ser construídos arquivos e acervos digitais e multimídia que serão abertos
para a consulta pública e, sobretudo, para o uso e à participação ativa das comunidades de falantes ou
de ex-falantes. Acervos existentes e inaccessíveis, à beira, eles mesmos, da extinção, às vezes
guardando dados e informações preciosos e únicos, podem ser ‘salvos’, postos, assim, à disposição dos
falantes e de seus descendentes.
Também ampliaram-se as fontes de financiamento para as pesquisas. As línguas indígenas são hoje
consideradas patrimônio imaterial da humanidade. É dever de todos salvá-las e mantê-las. Hoje as
Fundações de Amparo à Pesquisa, a Petrobrás e o CNPq, com sua dotação mensal aos bolsistas de
produtividade em pesquisa para gastos referentes ao projeto para o financiamento de viagens, material
de consumo, livros e material necessário para a execução da pesquisa, como gravadores, máquinas
digitais para a gravação no campo, também nos permitem um registro mais acurado da língua indígena
em todas as suas manifestações.
O mais importante é que os próprios falantes estão se transformando em pesquisadores, muitos já
formados em Universidades que abriram suas portas e têm projetos especiais de formação de professores
indígenas com 3.º grau.

Em 2003, Josimar Xawapare’ymi Tapirapé, formado em magistério indígena e professor da Escola


Estadual Tapi’itãwa, situada na aldeia de mesmo nome, em Confresa a 1.165 km da Capital de Mato
Grosso foi premiado pela Fundação Victor Civitas (São Paulo), na categoria Educação e Línguas
Indígenas por seu trabalho de recuperação do léxico tapirapé. Na cerimônia de entrega dos prêmios em
São Paulo, compareceu formalmente vestido ao modo dos brancos, mas na face estava desenhada, com
tinta de genipapo, sua marca tribal. Seguia, assim, a etiqueta de seus hospedeiros, mas matinha sua
identidade étnica. Em entrevista em vídeo feito na aldeia disse: “Faço todo esse trabalho na Escola
bilíngue porque não quero mais ver um tapirapé assinando com o dedão”. E acrescentou “O português é
nossa segunda língua”. “Não podemos deixar de falar a nossa língua”.

No congresso internacional intitulado Semantics of underrepresented languages (SULA 4), realizado


na Universidade de São Paulo nos dias 25e 26 de maio deste ano, o professor Mutuá Mehináku Kuikuro
foi convidado a fazer uma conferência a qual deu o título Primeiros contatos: meu avô e a linguística e
apresentou em coautoria com Bruna Franchetto a comunicação Formas e conceitos da pluralidade em
Kuikuro. Mutuá é candidato a uma bolsa da Fundação Ford/ Fundação Carlos Chagas no âmbito do
Programa de Ação Afirmativa ao Mestrado em Linguística com projeto sobre neologismos em Kuikuro.
Assim, aos poucos, apesar da discriminação e do preconceito que ainda existem nas cidades
circunvizinhas, diminuem-se o medo de brancos e a vergonha de ser índio.
No entanto, serão essas ações afirmativas suficientes para afastar definitivamente os perigos de
extinção? Em 1992, Michael Krause lançou um alerta para o mundo, ao afirma, com base em rigoroso
levantamento, que, no século XXI, 3.000 das 6.000 línguas existentes no mundo desaparecerão e 2.400
estarão perto da extinção. Apenas 600, ou seja 10%, se encontram seguras, a salvo. Em 1998, Ken Hale
vaticina que, no século XXI, a categoria "língua" incluirá somente aquelas faladas por, no mínimo, 100.000
pessoas. Isso significa que 90 % das línguas do planeta estão em perigo; pelo menos 20% – ou talvez
50% – das línguas já estão agonizando. Uma língua agonizante ou "em perigo" é, tipicamente, uma língua
local, minoritária, e em uma situação de ruptura geracional: onde, se os pais ainda falam com seus
próprios pais suas línguas maternas, já não o fazem mais com seus próprios filhos, que abandonam

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definitivamente o uso da língua nativa, destinada à morte dentro de um século, a menos que algo aconteça
para a sua revitalização.

Se nosso objetivo e missão é evitar que as línguas indígenas escapem de uma futura extinção
precisamos de dados controlados e confiáveis que nos permitam dar graus de prioridade às que correm
maior perigo, devido ao seu reduzido número de falantes.
Porém a ausência de dados quantitativos comparáveis e definidos persiste até hoje. Vimos que as
pesquisas arqueológicas tornam as estimativas de 1 milhão ou mesmo de 5 milhões para a população
pré-cabralina muito baixas. Nas quantificações atuais, na maioria das vezes, os números se referem ao
número de pessoas e não aos de falantes da língua. Além disso, porém, os critérios para a inclusão na
categoria “índio” e para a diferença entre língua e dialeto variam de autor para autor, e nem sempre estão
explicitados.

É bom ressaltar que sabemos que há, pelo menos, 33 línguas ameaçadas de extinção iminente por
terem de 2 a 15 falantes e ainda cerca de 50 grupos sem contato.
Temos uma grande tarefa pela frente e em condições realmente favoráveis. Longe estamos dos
séculos que nos antecederam. O progresso foi rápido
Por que devemos salvar essas línguas e preservá-las e revitaliza-las? A perda de uma língua, sem
documentação, e da diversidade linguística é irreversível, pois diminui as possibilidades de uma
reconstrução mais completa da pré-história linguística e também de determinar a natureza, o leque e os
limites das possibilidades linguísticas humanas, tanto em termos de estrutura, quanto em termos de
comportamento comunicativo ou de expressão e criatividade poética. Mais graves e mais complexas são
as consequências da perda linguística para as populações indígenas, minoritárias e sitiadas. Se a relação
entre identidade linguística e identidade étnica, cultural e política é complexa – não sendo elas redutíveis
uma à outra, como mostram os povos indígenas do nordeste – não há dúvida quanto às consequências
da agonia e desaparecimento de uma língua, com relação à perda da saúde intelectual do seu povo, das
tradições orais, das formas artísticas (poética, cantos, oratória), dos conhecimentos, de perspectivas
ontológicas e cosmológicas. Certamente diversidade linguística e diversidade cultural podem ser
equacionadas e, nesse sentido, a perda linguística é uma catástrofe local e para toda a humanidade.

A tarefa dos linguistas que se dedicam a essa área de conhecimento é, pois, gigantesca: formar
pessoal capacitado para cumprir essa missão, tanto professores e pesquisadores indígenas, quanto
membros da academia, realizar um levantamento que possibilite priorizar as ações mais urgentes,
registrar essas línguas em todos os seus aspectos, e procurar financiamento para que todos esses
registros sejam postos à disposição de seus verdadeiros donos.
A saída que vejo trabalhar lado a lado com nossos colegas indígenas para que eles sejam os atores
principais e nós passemos a meros coadjuvantes. Quero viver o bastante para ver a passagem definitiva
do bastão do conhecimento.

3. Terras indígenas.
3.1. Organização política das comunidades.
3.2. Movimentos indígenas.

Terra Indígena (TI) é uma porção do território nacional, de propriedade da União, habitada por um ou
mais povos indígenas, por ele(s) utilizada para suas atividades produtivas, imprescindível à preservação
dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e necessária à sua reprodução física e cultural,
segundo seus usos, costumes e tradições. Trata-se de um tipo específico de posse, de natureza originária
e coletiva, que não se confunde com o conceito civilista de propriedade privada.
O direito dos povos indígenas às suas terras de ocupação tradicional configura-se como um direito
originário e, consequentemente, o procedimento administrativo de demarcação de terras indígenas se
reveste de natureza meramente declaratória. Portanto, a terra indígena não é criada por ato constitutivo,
e sim reconhecida a partir de requisitos técnicos e legais, nos termos da Constituição Federal de 1988.
Ademais, por se tratar de um bem da União, a terra indígena é inalienável e indisponível, e os
direitos sobre ela são imprescritíveis. As terras indígenas são o suporte do modo de vida diferenciado e
insubstituível dos cerca de 300 povos indígenas que habitam, hoje, o Brasil.

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Quantas são e onde se localizam? Atualmente existem 462 terras indígenas regularizada que
representam cerca de 12,2% do território nacional, localizadas em todos os biomas, com concentração
na Amazônia Legal. Tal concentração é resultado do processo de reconhecimento dessas terras
indígenas, iniciadas pela Funai, principalmente, durante a década de 1980, no âmbito da política de
integração nacional e consolidação da fronteira econômica do Norte e Noroeste do País.

Nesse contexto, inaugurou-se um novo marco constitucional que impôs ao Estado o dever de demarcar
as terras indígenas, considerando os espaços necessários ao modo de vida tradicional, culminando, na
década de 1990, no reconhecimento de terras indígenas na Amazônia Legal, como as terras indígenas
Yanomami (AM/RR) e Raposa Serra do Sol (RR).
Nas demais regiões do país, caracterizadas por avançado processo de colonização e exploração
econômica e cuja malha fundiária é mais intrincada, os povos indígenas conseguiram manter a posse em
áreas geralmente diminutas e esparsas, muitas das quais foram reconhecidas pelo Serviço de Proteção
aos Índios (SPI) entre 1910 e 1967, desconsiderando, contudo, os requisitos necessários para reprodução
física e cultural dos Povos Indígenas, como é o caso das áreas ocupadas pelos povos indígenas no Mato
Grosso do Sul, em especial os Guarani Kaiowá.
Essa realidade, verificada principalmente nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, além do estado do
Mato Grosso do Sul, expressa uma situação de confinamento territorial e de permanente restrição dos
modos de vida indígena, onde se constata a existência de um alto contingente populacional de povos
indígenas vivendo, em muitos casos, em áreas diminutas ou sem terras demarcadas.
É justamente nessas regiões que se verifica atualmente a maior ocorrência de conflitos fundiários e
disputas pela terra, impondo ao Estado brasileiro o desafio de promover as demarcações das terras
indígenas, sem desconsiderar as especificidades do processo de colonização, ocupação e titulação
nessas regiões, contribuindo com ordenamento territorial e para a redução de conflitos.

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Sublinhe-se que aproximadamente 8% das 426 terras indígenas tradicionalmente ocupadas já
regularizadas, inclusive algumas com presença de índios isolados e de recente contato, não se encontram
na posse plena das comunidades indígenas, o que também impõe desafios a diversos órgãos do Governo
Federal para a efetivação dos direitos territoriais indígenas, para que se proteja devidamente esse
singular patrimônio do Brasil e da humanidade.
A demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas se constitui com uma das
principais obrigações impostas ao estado brasileiro pela Constituição Federal de 1988. No entanto,
existem outros formatos de regularização fundiária de terras indígenas, além das tradicionalmente
ocupadas, como as reservas indígenas e as terras dominiais. Existe também a figura da interdição de
área para proteção de povos indígenas isolados.

Modalidades de Terras Indígenas


Nos termos da legislação vigente (CF/88, Lei 6001/73 – Estatuto do Índio, Decreto n.º1775/96), as
terras indígenas podem ser classificadas nas seguintes modalidades:
1. Terras Indígenas Tradicionalmente Ocupadas: São as terras indígenas de que trata o art. 231 da
Constituição Federal de 1988, direito originário dos povos indígenas, cujo processo de demarcação é
disciplinado pelo Decreto n.º 1775/96.
De acordo com a Constituição Federal vigente, os povos indígenas detêm o direito originário e o
usufruto exclusivo sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
As fases do procedimento demarcatório das terras tradicionalmente ocupadas, abaixo descritas, são
definidas por Decreto da Presidência da República e atualmente consistem em:
a) Em estudo: Realização dos estudos antropológicos, históricos, fundiários, cartográficos e
ambientais, que fundamentam a identificação e a delimitação da terra indígena.

b) Delimitadas: Terras que tiveram os estudos aprovados pela Presidência da Funai, com a sua
conclusão publicada no Diário Oficial da União e do Estado, e que se encontram na fase do contraditório
administrativo ou em análise pelo Ministério da Justiça, para decisão acerca da expedição de Portaria
Declaratória da posse tradicional indígena.
c) Declaradas: Terras que obtiveram a expedição da Portaria Declaratória pelo Ministro da Justiça e
estão autorizadas para serem demarcadas fisicamente, com a materialização dos marcos e
georreferenciamento.

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d) Homologadas: Terras que possuem os seus limites materializados e georreferenciados, cuja
demarcação administrativa foi homologada por decreto Presidencial.
e) Regularizadas: Terras que, após o decreto de homologação, foram registradas em Cartório em
nome da União e na Secretaria do Patrimônio da União.
f) Interditadas: Áreas Interditadas, com restrições de uso e ingresso de terceiros, para a proteção de
povos indígenas isolados.

2. Reservas Indígenas: São terras doadas por terceiros, adquiridas ou desapropriadas pela União,
que se destinam à posse permanente dos povos indígenas. São terras que também pertencem ao
patrimônio da União, mas não se confundem com as terras de ocupação tradicional. Existem terras
indígenas, no entanto, que foram reservadas pelos estados-membros, principalmente durante a primeira
metade do século XX, que são reconhecidas como de ocupação tradicional.
A União poderá estabelecer, em qualquer parte do território nacional, áreas destinadas a posse e
ocupação pelos povos indígenas, onde possam viver e obter meios de subsistência, com direito ao
usufruto e utilização das riquezas naturais, garantindo-se as condições de sua reprodução física e cultural.
Para constituição das Reservas Indígenas, adotam-se as seguintes etapas do processo de
regularização fundiária:
a) Encaminhadas com Reserva Indígena (RI): Áreas que se encontram em procedimento
administrativo visando sua aquisição (compra direta, desapropriação ou doação).
b) Regularizadas: Áreas adquiridas que possuem registro em Cartório em nome da União e que se
destinam a posse e usufruto exclusivos dos povos indígenas. * inclue-se neste item, a área Dominial

3.Terras Dominiais: São as terras de propriedade das comunidades indígenas, havidas, por qualquer
das formas de aquisição do domínio, nos termos da legislação civil.

4. Interditadas: São áreas interditadas pela Funai para proteção dos povos e grupos indígenas
isolados, com o estabelecimento de restrição de ingresso e trânsito de terceiros na área. A interdição da
área pode ser realizada concomitantemente ou não com o processo de demarcação, disciplinado pelo
Decreto n.º 1775/9611.

3.1. Organização política das comunidades.


3.2. Movimentos indígenas.

Há 100 anos o Estado brasileiro criou o Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores
Nacionais (SPILTN), a primeira estrutura organizacional responsável por uma política indigenista oficial.
A Fundação Nacional do Índio – Funai, hoje vinculada ao Ministério da Justiça, tem suas origens
relacionadas com a criação do extinto SPILTN, mais tarde denominado apenas Serviço de Proteção aos
Índios (SPI).
Criado pelo Decreto-Lei n.º 8.072, de 20 de junho de 1910, o SPI teve como objetivo ser o órgão do
Governo Federal encarregado de executar a política indigenista. Sua principal finalidade era proteger os
índios e, ao mesmo tempo, assegurar a implementação de uma estratégia de ocupação territorial do país.
A criação do SPI modificou profundamente a abordagem da questão indígena no Brasil.
Com este a Igreja deixou de ter a hegemonia no tocante ao trabalho de assistência junto aos índios,
de modo que a política de catequese passou a coexistir com a política de proteção por parte do Estado.
Além disso, buscou-se centralizar a política indigenista, reduzindo o papel que os estados
desempenhavam em relação às decisões sobre o destino dos povos indígenas.
A criação do SPI buscou modificar o quadro que vinha se delineando desde o final do século XIX.
Nesse período, eventos relevantes, como a independência política do Brasil e o advento da monarquia,
não trouxeram mudanças significativas à política indigenista. Esta continuou a ser realizada nos mesmos
moldes do Período Colonial, ou seja, com base na criação e manutenção de aldeias indígenas, tendo a
catequese como principal instrumento, inclusive com a participação de um leque maior de congregações
religiosas.
A primeira Constituição, de 1824, ignorou completamente a existência das sociedades indígenas,
prevalecendo uma concepção da sociedade brasileira como sendo homogênea. Consequentemente, não
reconheceu a diversidade étnica e cultural do país e estabeleceu como sendo de competência das
Assembleias das Províncias a tarefa de promover a catequese e de agrupar os índios em
estabelecimentos coloniais, o que acarretou impactos significativos sobre as terras ocupadas.

11
Fonte: Funai (Fundação Nacional do Índio).

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No início do século XX, constatou-se que a catequese missionária não havia conseguido converter os
índios, defender seus territórios contra invasores, nem impedir seu extermínio, seja em decorrência das
doenças que os contagiavam, seja promovido por matadores profissionais que eram contratados para
abrir caminho à imigração e à especulação de terras.
Essa situação foi agravada pelos trabalhos de abertura da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que
atravessava o território dos Kaingang, no estado de São Paulo, desencadeando uma disputa armada
entre estes índios e os trabalhadores da estrada. No Espírito Santo e em Minas Gerais, eram os Botocudo
que lutavam para impedir a invasão de suas terras por colonos.
Com a chegada de imigrantes europeus aos estados do Sul do País, sobretudo Santa Catarina e
Paraná, acenderam-se as disputas por terras entre esses colonos e os índios que lá habitavam. A principal
tarefa do SPI foi "pacificar" os povos indígenas em luta contra segmentos da sociedade nacional, o que
ocorria em diversos pontos do território brasileiro.
O então coronel Cândido Rondon foi convidado para dirigir o novo órgão, em reconhecimento às suas
experiências no interior do país e seus contatos pacíficos com vários povos indígenas.
Mais de meio século depois, a Funai foi criada por meio da Lei n.º 5.371 de 5/12/1967 em substituição
ao SPI. Esta decisão governamental foi tomada num momento histórico em que predominavam, ainda,
as ideias evolucionistas sobre a humanidade e o seu desenvolvimento através de estágios. Esta ideologia
de caráter etnocêntrico influenciou a visão governamental, sendo que a Constituição vigente naquela
época estabelecia a figura jurídica da tutela e considerava os índios como "relativamente incapazes".
Mesmo reconhecendo a diversidade cultural entre as muitas sociedades indígenas, a Funai tinha o
papel de integrá-las, de maneira harmoniosa, na sociedade nacional. Considerava-se que essas
sociedades precisavam "evoluir" rapidamente, até serem integradas, o que é considerado na prática como
uma negação da riqueza da diversidade cultural.
Posteriormente, com a edição da Lei n.º 6.001 de 19/12/1973 (conhecida como Estatuto do Índio) se
formalizaram os procedimentos a serem adotados pela Funai para proteger e assistir as populações
indígenas, inclusive no que diz respeito à definição de suas terras e ao processo de regularização
fundiária. O Estatuto do Índio representou um avanço em relação à política indigenista praticada,
estabelecendo novos referenciais no que diz respeito à definição das terras ocupadas tradicionalmente
pelos índios.
O Estatuto também assegurou aos índios seu acesso ao quadro de pessoal da Funai, como forma de
lhes possibilitar a participação efetiva na implementação de programas e projetos destinados às suas
comunidades.
Entretanto, a nova política indigenista continuou ambígua no que se refere ao reconhecimento da
especificidade cultural dos índios, pois propunha se a proteger as diferentes culturas indígenas ao mesmo
tempo em que objetivava sua integração na sociedade brasileira. Mesmo com os avanços alcançados na
abordagem da questão indígena, a função de tutela continuou sendo exercida pelo Estado reforçando a
relação paternalista e intervencionista deste para com as sociedades indígenas, mantendo-as submissas
e dependentes.

Contexto atual

O processo de democratização do Estado brasileiro, durante a década de 1980, permitiu e incentivou


a ampla discussão da chamada "questão indígena" pela sociedade civil e pelos próprios índios, que
começaram a se conscientizar e a se organizar politicamente, num processo de participação crescente
nos assuntos de seu interesse.
Nas discussões e atividades políticas que envolveram o período de elaboração da Constituição,
promulgada em 1988, foi intensa a atuação de entidades civis dedicadas à causa indígena, bem como de
entidades constituídas pelos próprios índios.
A Constituição de 1988 instaurou um novo marco conceitual, substituindo o modelo político pautado
nas noções de tutela e de assistencialismo por um modelo que afirma a pluralidade étnica como direito e
estabelece relações protetoras e promotoras de direitos entre o Estado e comunidades indígenas
brasileiras. Além disso, estabeleceu o prazo de cinco anos para que todas as terras indígenas (TIs) do
país fossem demarcadas. Assim, estas mudanças de visão, de abordagem e dos princípios que devem
orientar a ação do Estado exigiram uma reformulação dos seus mecanismos de ação relativos às
populações indígenas.
Porém, a demora na regulamentação do texto constitucional e na efetivação das imprescindíveis
mudanças não permitiu o cumprimento do prazo supracitado, mas continua permitindo e facilitando a
permanência da antiga política e, em muitos casos, da visão do início do século XX Em seus mais de 40
anos de existência, a Funai foi objeto de diversas iniciativas de reforma administrativa que foram limitadas

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pela falta de estabilidade institucional e pela insuficiente decisão política de promover as mudanças
necessárias em atenção aos preceitos da Constituição e da base legal vigente.
Em pleno início do Século XXI, os desafios existentes não somente estão centrados nessa tarefa, mas
incluem a necessidade de ajustar a estrutura do Estado para a abordagem da temática indígena ao
contexto social, político e econômico atual. Esses desafios, vinculados ao processo de desenvolvimento
do país promovido pela ação dos programas governamentais, dos investimentos privados e da ação da
sociedade como um todo no marco da consolidação da democratização, exige uma Funai ágil, moderna
e de atuação estratégica que possa cumprir com as suas atribuições e atender melhor às necessidades
e aspirações das populações indígenas.

Desafios

Um dos maiores desafios da política indigenista brasileira, é melhorar a integração e sinergia das ações
do governo federal em parceria com estados, municípios e sociedade civil, com vistas a maior eficiência
e eficácia das políticas, Passados mais de 20 anos da promulgação da Constituição, ainda persistem
situações de conflito que tornam vulneráveis os povos indígenas e suas terras, invadidas por madeireiros,
garimpeiros, atividades agropecuárias ilegais, entre outras, decorrentes do processo de expansão
econômica do país nos últimos anos, sobretudo na Amazônia Legal.
O governo federal tem empenhado grande esforço para atacar essa questão, planejando e operando
um sistema articulado de monitoramento territorial e ambiental dessas terras, como também promovendo,
em parceria com outros órgãos de governo, organizações não governamentais e com a participação
indígena, projetos de gestão territorial.
Ao lado disso, a Funai desenvolveu um conjunto de procedimentos de proteção dos direitos indígenas,
coordenando o componente indígena que integra os estudos de impacto ambiental em processos de
licenciamentos ambientais de empreendimentos como hidrelétricas, rodovias, linhas de transmissão e
distribuição, etc.
Para dar conta desses novos desafios, o Governo Federal deu início a uma ampla reformulação da
política indigenista com a reestruturação da Funai, a criação da Comissão Nacional de Política Indigenista
– CNPI e dos Comitês Regionais paritários, espaços políticos estratégicos do protagonismo dos indígenas
junto ao governo.
A Funai implantou um Centro de Formação Indigenista em Brasília e ampliou seu quadro de servidores,
qualificando e ampliando sua capilaridade, respeitando as territorialidades indígenas e os contextos
regionais com gestão participativa.
Nacionalmente, a CNPI constitui se no mais relevante espaço de articulação e concertação de políticas
públicas voltadas aos povos indígenas, envolvendo vários órgãos do governo federal e representantes
indígenas de todas as regiões do país.
Mais recentemente o governo federal criou a Secretaria Especial de Saúde Indígena no âmbito do
Ministério da Saúde, de modo a conferir maior eficácia ao Subsistema de Saúde Indígena do SUS. Na
última década, a proteção e a promoção dos direitos dos povos indígenas se tornou a base fundamental
de atuação do Estado, e os esforços centraram-se na superação de paradigmas conceituais de tutela e
assistencialismo que historicamente referenciaram as ações governamentais com os povos indígenas no
Brasil.
Com esse propósito, um conjunto de políticas e ações de longo prazo foi desenvolvido, com destaque
para o Programa Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas, componente do Plano
Plurianual do governo federal, coordenado pela Funai desde 2008 com uma perspectiva de articulação e
transversalidade das políticas públicas, e para Política Nacional de Gestão e Territorial e Ambiental de
Terras Indígenas – PNGATI, instituída pelo Decreto n.º 7747, de 05 de junho de 2012.

1. A POLÍTICA NACIONAL DE PROMOÇÃO E PROTEÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS - PNPPPI

Embora a institucionalização de políticas públicas voltadas para os povos indígenas seja bastante
antiga, nos últimos anos, temos observado um intenso fenômeno de desconcentração de ações
referentes à pauta, o que pressupõe o compartilhamento, entre Ministérios e órgãos federais, das
responsabilidades pela execução e monitoramento das políticas de promoção e proteção dos direitos dos
povos indígenas; e de descentralização, que significa a repartição de competências entre União, Estados,
Municípios e Distrito Federal.

Tais fenômenos de desconcentração e descentralização da política indigenista podem ser observados


na análise da legislação aplicável à temática indígena. Exemplificativamente, citamos:

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a) Acerca da educação voltada para os povos indígenas: Lei nº 9394/1996, Lei nº 10172/2001, Decreto
nº 26/91, Portaria Interministerial MJ/MEC nº 559/91, Lei 10558/2002, Lei nº 11096/2005, Decreto nº
7778/2012: essas legislações estabelecem que a Funai não possui competência direta para execução de
políticas públicas de educação escolar e superior indígenas, cabendo ao Ministério da Educação e às
Secretarias Estaduais e Municipais de Educação;

b) Acerca as saúde indígena: Lei nº 8080/90, Portaria nº 254/2002, Lei 12.314/2010, Decreto nº.
7.336/2010, Decreto nº 7778/2012: tais legislações estabelecem que compete à Secretaria de Saúde
Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde, executar a política de atenção básica à saúde dos povos
indígenas, sendo as áreas de média e alta complexidade responsabilidade de Estados e Municípios, no
sistema de compartilhamento de atribuições do SUS. Assim, cabe à Funai o papel de monitorar e fiscalizar
as ações de saúde desempenhadas pela SESAI, Estados e Municípios.
Não obstante à existência dessa legislação que distribui a diversos órgãos e entes políticos a atribuição
de executar parcelas da política indigenista brasileira, o fato é que essa descentralização e
desconcentração não foi incorporado de forma ampla pelos órgãos públicos, pela opinião pública e pelos
próprios executores da política, sendo bastante comum que a Funai seja instada a se manifestar acerca
de determinada parcela da política indigenista cuja execução não compete à autarquia mas, sim, tão
somente, a coordenação.
Visando, assim, dar maior concretude a esse arranjo institucional complexo, já que envolve diversos
Ministérios e órgãos do Poder Executivo Federal, mas também instituições e secretarias de estados e
municípios, a Funai vem promovendo cooperações com esses múltiplos atores da política indigenista. Os
Termos de Cooperação ou Acordos de Cooperação pactuados visam garantir o cumprimento e a
efetivação da política indigenista brasileira, assumindo efetivamente a Fundação Nacional do Índio sua
missão de coordená-la.
Ocorre que a adoção de múltiplos Termos de Cooperação é uma medida paliativa, uma vez que, como
tais instrumentos tem prazo certo de vigência, dependendo, ainda, de eventual interesse político, as ações
desenvolvidas acabam não tendo a continuidade necessária a médio e longo prazo, para garantir um
quadro de efetivo respeito aos direitos específicos dos povos indígenas no Brasil.
Diante desse quadro, faz-se necessário, inicialmente, estabelecer um pacto em prol do respeito aos
direitos dos povos indígenas, sob a coordenação da Fundação Nacional do Índio, adotando-se como
principal instrumento a criação de uma Política Nacional de Promoção e Proteção dos Povos Indígenas.
No âmbito dessa Política, entendemos ser relevante a instituição de um Sistema Nacional de Política
Indigenista - SNPI, que congregasse os arranjos institucionais necessários à articulação, pactuação e
execução de políticas públicas voltadas aos povos indígenas, com espaços para a participação e o
controle social.
Tal instrumento garantiria um modelo de gestão compartilhada e participativa, garantindo a autonomia
dos entes federados ao mesmo tempo em que promoveria a implementação mais sistêmica e articulada
da política indigenista, distribuindo responsabilidades e competências, uniformizando e sistematizando a
atuação dos órgãos e entes, visibilizando os direitos dos povos indígenas e possibilitando um
monitoramento mais efetivo, adequado e transparente, a partir de metas, objetivos, sistemas de
informação e indicadores de gestão, a exemplo de outros sistemas criados pelo Governo Federal.
A institucionalização de um Sistema Nacional de Política Indigenista englobaria as seguintes estruturas
e instâncias: a) Conferências Nacional, Regionais e Locais de Política Indigenista, compreendendo
instâncias de discussão das políticas, avaliação e proposição de avanços; b) Conselhos Nacional e
Regional, para acompanhamento e deliberação da política indigenista, podendo, em âmbito local, ser
reconhecido os espaços dos Comitês Regionais da Funai; c) órgão de coordenação central do SNPI,
representado pela FUNAI; d) comitê tripartite (estados, municípios e União) para negociações e
pactuações federativas; e) órgãos executores da política indigenista; f) ouvidorias; g) fundo para co-
financiamento da política indigenista e repasse menos burocrático de recursos.
A Funai, a partir de reflexões internas e decorrentes da interação com outros órgãos responsáveis pela
execução de ações no âmbito da política indigenista, vem acumulando subsídios à proposição desta
iniciativa, estando apta à coordenação deste debate e à formulação de proposta nesse sentido, por meio
de processo participativo com indígenas e demais órgãos públicos envolvidos.
A definição do Programa de Promoção e Proteção dos Direitos dos Povos Indígenas no PPA 2012-
2015 já apresentam pontos de convergência com ações de diversos órgãos federais, os quais precisam
ser articulados e organizados para garantir uma atuação sistêmica e mais efetiva, voltada à redução das
desigualdades regionais e considerando-se a participação dos povos indígenas.

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Os conceitos de promoção e proteção encontram-se consubstanciados no PPA 2012-2015 do Governo
Federal, "Plano Mais Brasil", e resultam do aprimoramento da política indigenista, levada a efeito
especialmente pela FUNAI.
O conceito de proteção não implica em tutela, rejeitada pelo texto constitucional de 1988, e que
pressupunha uma incapacidade dos povos indígenas e uma natura condição assimétrica entre os
superiores capazes (os ocidentais tutores) e os incapazes (os indígenas tutelados). A "proteção" diz
respeito, sim, à garantia contemporânea de que os direitos dos povos indígenas não sejam violados por
uma relação assimétrica de poder, historicamente observada entre esses povos e a sociedade
envolvente, implicando em graves ameaças à integridade física e cultural dos índios e sobre suas terras
tradicionalmente ocupadas.
Já o conceito de promoção, busca romper com a tradição assistencialista e clientelista das políticas
até então implementadas aos povos indígenas. A "promoção" pressupõe o reconhecimento da diferença
como fator positivo e potencializador, e não como fator de "desigualdade social". O diálogo com os povos
indígenas é sempre possível, sendo positivo quando considera as trocas simétricas, respeitando-se
modos e temporalidades adequadas a cada caso. O Brasil tem papel central nesse desafio para o século
XXI: pensar e propor relações entre Estado e povos indígenas que leve em conta as especificidades e
que demonstre um diálogo, franco, efetivo e enriquecedor.
No contexto das proposições para adoção de uma nova política indigenista, voltada para o contexto
pós-1988, pós-tutela, é importante destacar a missão da Funai, qual seja:
"Coordenar o processo de formulação e implementação da política indigenista do Estado brasileiro,
instituindo mecanismos efetivos de controle social e de gestão participativa, visando à proteção e
promoção dos direitos dos povos indígenas."
Nesse sentido, são essenciais as definições de diretrizes estratégicas de atuação dos diversos órgãos
e entes executores e fiscalizadores da política indigenista brasileira.
Assim, propomos que a Política de Proteção e Promoção dos Povos Indígenas visando a posse plena,
pelos povos indígenas, de seus territórios, deve ser focada nas seguintes eixos de atuação, que devem
ser pautadas pelo reconhecimento da autonomia indígena, pelo reconhecimento da necessidade de
políticas específicas e diferenciadas, a incorporação da temática indígena por outros órgãos públicos e
pelo diálogo intercultural:
- proteção social
- etnodesenvolvimento
- regularização fundiária
- monitoramento e fiscalização territorial
- gestão ambiental e territorial

2. GESTÃO AMBIENTAL E TERRITORIAL

2.1. AVANÇOS:
- 2012: Instituição da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas – PNGATI
por meio do Decreto nº 7747 da Presidenta Dilma
- 2013: Instituição do Comitê Gestor da PNGATI em reunião realizada em 31 de outubro, quando
também foi aprovado o Regimento Interno da instância
- 2013: lançamento de edital no valor de R$ 4.000.000,00, a partir de cooperação entre a Funai e o
MMA, para elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental – PGTAs. Aprovação de 16 projetos
com previsão de início entre 2013 e 2014. Em elaboração pela Funai 03 PGTAs: Terra Indígena
Marãiwatsédé/MT, do povo Xavante, e Terras Indígenas Sai-Cinza e Munduruku/PA, do povo Munduruku,
ambas, regiões prioritárias para o Governo Federal. Finalizados pela Funai 03 PGTAs em Roraima, no
Acre, e no Mato Grosso. No total, já foram elaborados realizados 25 PGTAs. Atualmente estão em
processo de elaboração 23, e 10 estão em fase de implementação, todos com participação da Funai.

2.2. PROPOSTAS:
- Elaboração de PGTAs em todas as TIs regularizadas
- Implementação de todos os PGTAs elaborados
- Apresentação de estratégia com medidas institucionais para a gestão territorial e ambiental
compartilhada de áreas que apresentam interface entre terras indígenas e unidades de conservação
federais (GT Interinstitucional Funai / ICMBio instituído em 29 de maio de 2013 para discussão e
apresentação da proposta. Prazo de conclusão dos trabalhos de GT: maio de 2014)

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
3. ETNODESENVOLVIMENTO

Em virtude das particularidades existentes entre diferentes regiões, países como o Brasil necessitam
adotar estratégias em busca de melhoria das condições de vida das suas populações diferentes daquelas
adotadas por países desenvolvidos, evitando, sobretudo, repetir os modelos provenientes do exterior,
uma vez que as trajetórias históricas são diferentes. Ainda, em se tratando de populações indígenas, há
de ser considerada, com grande ênfase, a diversidade sociocultural dos diferentes grupos étnicos. Tem-
se considerado fatores e situações como suporte a um processo de desenvolvimento duradouro, os quais
devem ser tomados em conjunto, já que há uma interdependência entre eles:
- "Estratégias voltadas para as necessidades básicas, ou seja, uma estratégia destinada a satisfazer
as necessidades fundamentais de um grande número de pessoas, mais do que crescimento econômico
por si mesmo. Isto significa que o país deve concentrar seus recursos e esforços no sentido de produzir
os bens essenciais";
- Fortalecer "visão interna, ou endógena, e não uma visão externa e orientada para as exportações e
importações";
- "Usar e aproveitar as tradições culturais existentes e não rejeitá-las a priori como obstáculo são
desenvolvimento" e, ainda, basear as ações de desenvolvimento "no uso dos recursos locais quer sejam
naturais, técnicos e humanos";
- "Respeitar, e não destruir, o meio ambiente, ou seja, é válida do ponto de vista ecológico", orientando-
se "para a auto sustentação nos níveis local, nacional e regional";
- "Ser mais participativa do que tecnocrática".

3.1. AVANÇOS:
- Projetos em Terras Indígenas de fomento a atividades produtivas, com apoio do Programa Piloto para
a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil – PPG7, do Banco de Desenvolvimento Alemão – KFW e do
Global Environment Facility – GEF, como por ex: o Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas – PDPI,
os Projetos Demonstrativos – PDA, o Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas
da Amazônia Legal – PPTAL, o Programa Carteira Indígena, e o Projeto GATI de Gestão Ambiental e
Territorial em Terras Indígenas, que deu origem à política de mesmo nome.
- 2007: Instituição da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades
Tradicionais
- 2010: Instituição da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
- 2012: Criação da DAP-I
- 2012: Chamada Pública do Brasil sem Miséria para inclusão dos indígenas no acesso ao fomento e
ATER
- 2013: Inclusão de representação indígena na Conferência de Desenvolvimento Rural Sustentável

3.2. PROPOSTAS:
- Ampliação do acesso pelos indígenas à política de fomento e Assistência Técnica e Extensão Rural
– ATER, a partir da sensibilização de instituições de ATER preparadas para lidar com as especificidades
das populações beneficiárias, visando romper a dependência das comunidades em relação às cestas
básicas.
- Adequação dos equipamentos, benefícios e serviços de fomento e ATER às especificidades culturais
indígenas
- Instituição de Programa de acesso, multiplicação, distribuição e cultivo de sementes tradicionais aos
povos indígenas
- Realização periódica de Feiras Nacionais de Sementes Tradicionais
- Regulamentação do Turismo em Terras Indígenas – TIs e apoio aos projetos sustentáveis de
etnoturismo e ecoturismo, respeitada a autonomia e a diversidade dos Povos Indígenas. Portaria
Interministerial do Ministério da Justiça, Funai, e Ministério do Turismo, regulamentando o
desenvolvimento de atividades turísticas nas TIs do Brasil e implementação de um sistema de fiscalização
das atividades turísticas nas Tis

4. DOCUMENTAÇÃO BÁSICA, PREVIDÊNCIA, E ASSISTÊNCIA SOCIAL

4.1. AVANÇOS:
- Investimento da Funai na articulação com estados, municípios e outras organizações para a redução
do sub-registro dentre a população indígena e a ampliação do acesso desta população à documentação
básica. De janeiro à setembro 2013, foram emitidos cerca de 14.500 documentos civis, sendo,

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
aproximadamente, 11 mil, correspondentes a Registro Civil de Nascimento, garantindo cidadania aos
Povos Indígenas
- Atendimento do indígena como segurado especial, com direito à aposentadoria por idade ou por
invalidez, auxílio-doença, auxílio-acidente, salário maternidade, pensão por morte, e auxílio-reclusão
- Instalação de Centros de Referência de Assistência Social nas aldeias
- 2012: Garantia do registro de nomes e etnias indígenas e de aldeias na documentação básica
- 2013: Assinatura de Acordo de Cooperação Técnica entre Funai e Secretaria de Renda e Cidadania
– MDS, instituindo agenda de trabalho que prevê estudos e ações para adequação dos programas de
Desenvolvimento Social às especificidades indígenas
- 2013: Realização de pesquisa para avaliação do desempenho do PBF e de outras políticas
coordenadas pelo MDS
- 2013: Parceria Funai / MDA / MDS permitiu que as distribuições das cestas básicas às comunidades
beneficiárias nas aldeias possam realizar-se por empresas contratadas pela CONAB. Em 2013 foram
distribuídas cerca de 5,3 mil toneladas de alimentos, totalizando 219.998 cestas de alimentos, para mais
de 65,2 mil famílias indígenas em situação de vulnerabilidade extrema e insegurança alimentar

4.2. PROPOSTAS:
- Adequação dos equipamentos, benefícios e serviços de assistência às especificidades culturais
indígenas
- Política de documentação e serviços para povos transfronteiriços
- Criação da Base de Dados sobre acesso indígena a políticas sociais e de cidadania
- Regulamentar o monitoramento das ações de saúde e educação escolar indígena pela Funai
- Realização de novos Censos das populações indígenas no Brasil

5. INFRAESTRUTURA

5.1. AVANÇOS:
- Inclusão dos indígenas como beneficiários do Programa Nacional de Habitação Rural – PNHR e do
Programa Minha Casa Minha Vida – MCMV
- Equiparação do atendimento dos povos indígenas ao dos agricultores familiares
- Previsão da possibilidade de investimento diferenciado para a construção de habitações tradicionais,
conforme a organização cultural do Povo e comunidade beneficiários
- Inclusão dos indígenas como beneficiários do Programa Luz para Todos

5.2. PROPOSTAS:
- Institucionalizar no âmbito dos Programas Nacional de Habitação Rural e Minha Casa Minha Vida,
uma linha de fomento específica para construções tradicionais indígenas
- Ampliar o acesso dos indígenas aos Programas de Infraestrutura com oferta de habitação e energia
(quando necessário)
- Aumentar no âmbito do Programa Luz Para Todos a oferta de fontes alternativas de energia – Ex:
solar

6. SAÚDE INDÍGENA

6.1. AVANÇOS:
- 1999: Estabelecimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena no âmbito do SUS
- 2002: Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas
- 2007: Estabelecimento de diretrizes para a Política de Atenção Integral à Saúde Mental das
Populações Indígenas
- 2010: Criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI
- 2013: Lotação de médicos em aldeias para prestação de serviços de atenção básica, por meio do
Programa 'Mais Médicos'
- 2013: Realização da Conferência Nacional de Saúde, precedida de etapas locais

6.2. DESAFIOS:
- Fortalecimento da Política de Atenção Básica à Saúde, com instalação de unidades de saúde em
todas as Terras Indígenas
- Atendimento de Alta e Média Complexidade que respeite as especificidades indígenas

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
- Qualificação das equipes de atendimento – olhar diferenciado e respeito às práticas tradicionais de
cura
- Atendimento nas áreas de remoto acesso
- Concurso público específico e capacitação de servidores para atuar junto aos Povos Indígenas

NOTA nº1: Em 1999, por meio do Decreto Presidencial nº 3156, a responsabilidade pela atenção à
saúde indígena deixou de ser de responsabilidade da Funai, passando a constituir uma atribuição,
primeiramente da Fundação Nacional de Saúde – Funasa, e posteriormente da Secretaria de Saúde
Indígena – SESAI e demais instâncias do Sistema Único de Saúde – SUS. Todavia, a Funai mantém
dentre suas finalidades institucionais, a atribuição de monitorar as ações e serviços de atenção à saúde
indígena

NOTA nº2: É fundamental que as atividades relacionadas à atenção básica à saúde do indígena sejam
prestadas, sempre que possível, dentro das terras indígenas

7. EDUCAÇÃO

7.1 AVANÇOS:
- Reconhecimento do direito a uma educação escolar indígena bilíngue, específica, diferenciada e
intercultural
- Acesso crescente ao ensino superior – vagas complementares e/ou vestibular específico
- Estabelecimento de cursos específicos para a formação de professores indígenas no nível superior -
Licenciaturas Interculturais ou Indígenas (2010 – mais de 5 mil professores indígenas habilitados)
- Aumento significativo do orçamento da União dedicado à educação escolar indígena (2002: 400 mil
e 2004: 3,6 milhões)
- Produção significativa de materiais bilíngues e construção de escolas nas aldeias (Programa de
Ações Articuladas do MEC a partir de 2007)
- 2003: Criação do Programa Nacional de Alimentação Escolar Indígena
- 2005: Criação do Projeto Inovador de Fortalecimento de Escolas de Ensino Médio Indígena
- 2009: Criação dos Territórios Etnoeducacionais – gestão compartilhada para o desenvolvimento da
educação intercultural indígena
- 2013: Programa Bolsa Permanência MEC – Instituído a partir da articulação entre a Funai e o MEC
como forma de suceder e qualificar o benefício de apoio financeiro custeado até então exclusivamente
pela Fundação a estudantes universitários indígenas. Grande parte dos indígenas que ingressam em
instituições de ensino superior, por ser egressa de comunidades indígenas nada ou pouco monetarizadas,
teriam remotas chances de permanência nas cidades que sediam as instituições sem o apoio do Estado
por meio destes recursos

7.2. DESAFIOS:

- Produção de materiais bilíngues para os últimos anos do ensino fundamental e para o ensino médio
- Publicação e divulgação da publicação acadêmica indígena
- Implementação do ensino médio intercultural nas escolas indígenas
- Construção de um sistema diferenciado de avaliação escolar indígena
- Institucionalização de políticas de acesso de estudantes indígenas ao ensino superior e que permitam
sua permanência
- Implantação do Programa Nacional de Educação Escolar Indígena (em fase de conclusão pelo MEC
com apoio da Funai)
- Construção de um Sistema Próprio de Educação Escolar Indígena (em discussão na Comissão
Nacional de Educação Escolar Indígena)

NOTA nº1: Em 1991, por meio do Decreto Presidencial nº 26, a responsabilidade pela coordenação
das ações referentes à educação indígena, passou a constituir uma atribuição do Ministério da Educação,
e o seu desenvolvimento, ficou à cargo das Secretarias Estaduais e Municipais de Ensino. Todavia, as
definições devem ser precedidas de oitiva da Funai, que mantém dentre suas finalidades institucionais, a
atribuição de monitorar as ações e serviços de educação diferenciada para os povos indígenas

NOTA nº2: A Funai segue com a responsabilidade de fomentar a realização de processos educativos
próprios (tradicionais)

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NOTA nº3: É fundamental que as atividades ligadas ao ensino fundamental e ao ensino médio dos
indígenas sejam prestadas, sempre que possível dentro das terras indígenas.

8. PROTEÇÃO DAS TERRAS E PROMOÇÃO DE SEGURANÇA PÚBLICA AOS INDÍGENAS

Atualmente verifica-se um aumento da criminalidade e de outras violências afetando os povos


indígenas no Brasil. Dentre os fatores que agravam esse quadro, podemos citar a crescente facilitação
do acesso às áreas indígenas por terceiros em virtude da proximidade de algumas terras indígenas a
centros urbanos e/ou das faixas de fronteira do país, do incremento das malhas rodoviárias e hidroviárias
e do investimento em empreendimentos de infraestrutura em todo o país e, sobretudo, em razão da
insuficiência de ações de promoção social efetivamente articuladas às de proteção territorial e segurança
pública com cidadania, desenvolvidas por meio de parcerias entre a Funai e órgãos de segurança pública
dos estados e Governo Federal. Neste contexto, intensifica-se o consumo de bebidas alcoólicas e outras
drogas, que também têm se mostrado como propulsores de atos violentos.

8.1. AVANÇOS:
- Criação de uma Coordenação-Geral de Monitoramento Territorial na Funai
- Participação da Funai na Comissão Interministerial de Combate aos Crimes e Infrações Ambientais
- Acordo de Cooperação Técnica com o Departamento de Polícia Federal para a promoção de ações
conjuntas

8.2. PROPOSTAS:
- Para superação deste cenário, a Funai propõe a elaboração e Implementação da: Estratégia Nacional
De Enfrentamento à Violência Contra Povos e Terras Indígenas, contemplando 03 eixos de atuação
interinstitucional para o enfrentamento aos Crimes contra o patrimônio da União, em regiões de fronteira,
e violências ou ameaças aos povos em situação de isolamento voluntário; Crimes contra a coletividade
indígena; e Crimes comuns praticados em TIs regularizadas – Proposta Preliminar da Funai para subsidiar
o debate na Oficina – Anexo. Aguardando realização de Oficina para pactuação da estratégia entre
Ministério da Justiça – MJ e Força Nacional, Funai, Polícia Federal, e Polícia Rodoviária Federal
- Regulamentação do Poder de Polícia da Funai, habilitando seus servidores à realização de
fiscalização das Terras Indígenas, coibindo e reprimindo a extração ilícita de recursos naturais das áreas
que integram o patrimônio da União. Aguardando realização de Oficina para pactuação da
regulamentação entre Ministério da Justiça – MJ e Força Nacional, Funai, Polícia Federal, e Polícia
Rodoviária Federal
- Incremento orçamentário para as ações de proteção preventivas, a partir do fortalecimento das
formas próprias de organização social dos povos indígenas e de solução de conflitos internos, inclusive
por meio de capacitações das comunidades em vigilância territorial.

9. CIDADANIA, MOBILIZAÇÃO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL INDÍGENA

9.1. AVANÇOS:
- Crescente constituição das associações e organizações indígenas
- Criação de instâncias pelo Governo que asseguram a participação indígena:
- 1999: Conselhos Distritais de Saúde Indígena
- 2001: Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena
- 2004: Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
- 2006: CNPI – Comissão Nacional de Política Indigenista
- 2009: Comitês Regionais
- 2013: Comitê Gestor da PNGATI
- 2004: Ratificação da Convenção 169 Organização Internacional do Trabalho – OIT; Internalizada no
ordenamento jurídico vigente por meio da Lei nº:
- 2009: Processo participativo de construção e apresentação de Projeto de Lei que institui o novo
Estatuto do Índio
- 2010 e 2011: Processo participativo de construção e apresentação da proposta de Política Nacional
de Gestão Ambiental e Territorial – PNGATI
- 2012: Instituição de GTI para discussão e apresentação de proposta de regulamentação da Consulta
Livre Prévia e Informada aos Povos Indígenas, com base no que dispõe a Convenção 169 da OIT

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
9.2. PROPOSTAS:
- Instâncias de participação e controle social compondo o Sistema Nacional de Política Indigenista
- Regulamentação da Consulta Livre Prévia e Informada aos Povos Indígenas, com base no que dispõe
a Convenção 169 da OIT – Memorando contendo notas da da Funai – Anexo
- Realização da I Conferência Nacional de Proteção e Promoção aos Direitos dos Povos Indígenas em
2015, com início das etapas preparatórias (locais, regionais) em 2014
- Realização em 2014 da Campanha de Enfrentamento ao Racismo e Preconceito contra os Povos
Indígenas – em parceria com a SEPPIR
- Fortalecimento da Ouvidoria da Funai, com a implementação de um "Disque Funai" que permita
ligações gratuitas pelos indígenas para apresentar denúncias, solicitações, reclamações, e sugestões, e
da Ouvidoria Itinerante que possa realizar incursões periódicas às terras indígenas

10. INTERVENIÊNCIA EM PROCESSOS DE LICENCIAMENTO AMBIENTAL

10.1. AVANÇOS:
- Organização da atuação da Funai nos processos de licenciamento, com a criação da Coordenação-
Geral de Licenciamento
- Garantia da oitiva dos povos indígenas nos processos
- Reconhecimento por outros setores governamentais da importância do componente indígena nos
processos de licenciamento ambiental
- Normatização dos procedimentos internos da Funai e dos demais setores governamentais sobre a
participação da Funai nos Processos de Licenciamento Ambiental

10.2. DESAFIOS:
- Qualificação do processo de adimplemento das medidas de mitigação e compensação de impactos
- Normatização plena dos procedimentos do componente indígena
- Garantia plena do direito de consulta no âmbito dos processos de licenciamento ambiental
- Possibilidade plena de interveniência da Funai em processos de licenciamento referentes a
empreendimentos estaduais e municipais
- Garantia do direito e regulamentação da consulta no âmbito dos processos de licenciamento
ambiental
- Capacitação de agentes para a participação nos processos de licenciamento ambiental

11. PROCESSOS DE DEMARCAÇÃO DE TERRAS INDÍGENAS

Conforme já descrito, após a promulgação da Constituição Federal de 1988, inaugurou-se um novo


marco legal, que impõe ao Estado o dever de demarcar as terras indígenas e fazer protege-las,
considerando os espaços necessários à reprodução dos modos de vida tradicionais desses povos, com
a necessária perspectiva de futuro para as comunidades, o que culminou, na década de 1990, com a
regularização fundiária de grande parte das terras indígenas da Amazônia Legal.
As terras indígenas localizadas em regiões caracterizadas por intenso processo de colonização e
expansão econômica, designadamente no Centro-Sul, Sudeste e Nordeste do país, a despeito de
abrigarem a maior parte da população indígena do país, ficaram à margem dessa nova política de
demarcação e os povos indígenas permaneceram confinados em áreas ínfimas, reconhecidas pelo
Serviço de Proteção aos Índios entre 1910 e 1967, sob o antigo marco legal. Neste sentido, a União, por
meio da Funai, cumprindo seu dever constitucional e visando superar as situações de violações de direitos
humanos, centrou esforços, a partir de meados da década de 2000, nas demarcações de terras indígenas
nessas áreas, como se pode depreender da análise do quadro abaixo.

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11.1. AVANÇOS:

Importa esclarecer que 8% das 419 terras indígenas já regularizadas e que integram o patrimônio da
União para usufruto exclusivo dos povos indígenas e são registradas nos cartórios e Secretaria de
Patrimônio da União, inclusive algumas com presença de índios isolados e recém-contatados, não se
encontram na posse plena das comunidades indígenas, o que impõe desafios ao Governo Federal para
a definitiva regularização fundiária dessas áreas e a efetivação dos direitos territoriais indígenas, com a
devida proteção dos bens da União.

11.2. DEBATES EM PAUTA:


- A participação da Funai já vem ocorrendo nos debates intragovernamentais voltados à otimização
dos processos de regularização fundiária das TIs. Assim, sugerimos a edição de nova Portaria do
Ministério da Justiça, após debate e diálogo com representações indígenas (especialmente na CNPI), nos
termos que vêm sendo debatidos, e a manutenção dos termos do Decreto nº 1775/96
- Tendo em vista as inúmeras proposições legislativas tendentes à regulamentação do parágrafo 6º do
artigo 231 da Constituição Federal, a Funai propõe que eventual proposta de Governo nesse sentido
venha a considerar sua manifestação sobre o tema, expressa em Nota Técnica – Anexo

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11.3. PROPOSTAS:
- Criação do Programa Nacional de Compensação por Participação no Ordenamento Fundiário
(nomenclatura preliminar), visando possibilitar a compensação de eventuais danos sofridos por
detentores de títulos sobrepostos às terras indígenas ante a nulidade dos mesmos, decorrente do
reconhecimento pela União de Terras Indígenas – sistematização da proposta em fase de conclusão pela
Funai em conjunto com o MJ, com base nas discussões já realizadas no âmbito deste Ministério. A
proposta, em suma, deve prever formas de capitalização dos Estados por iniciativas tendentes à compra
de terras para assentamento de beneficiários da Reforma Agrária, reparação de danos a possuidores de
áreas tituladas por Estado ou pela União dentro de terras indígenas, no intuito de evitar e solucionar
conflitos decorrentes dos processos de demarcações.

12. POLÍTICA DE PROTEÇÃO DE POVOS INDÍGENAS ISOLADOS E RECÉM CONTATADOS

12.1. AVANÇOS:
- Avanços na localização de grupos de índios isolados, visando e viabilizando sua proteção, além da
articulação de operações para a consolidação da posse plena de povos isolados e recém-contatados de
seus territórios, a exemplo da Terra Indígena Awá
- Qualificação da metodologia aplicada na proteção de localização e monitoramento de índios isolados
- Constituição de programas de políticas públicas específicos para os povos indígenas recém
contatados, a exemplo dos Programas Korubo e Zo'é, por meio de articulações interinstitucionais, com
órgãos como o MEC, MDA, MDS, INCRA, MS/SESAI, Governos estaduais e Municipais
- Grupo de Trabalho interministerial entre SESAI/MS e FUNAI/MJ, instituído com a finalidade de
desenvolver políticas específicas de saúde para os povos indígenas isolados e recém-contatados.

12.2 – DESAFIOS:
- Fortalecimento da política de saúde para os povos indígenas recém-contatados, com a elaboração
de planos emergenciais e formalização de protocolos conjuntos entre FUNAI e SESAI
- Fortalecimento da articulação com órgãos de segurança para a realização das operações conjuntas
de proteção às terras indígenas com presença de índios isolados
- Estruturação adequada das Frentes de Proteção Etnoambientais, visando o fortalecimento da Política
de Proteção dos Povos Indígenas Isolados e a garantia de condições dignas de trabalho aos servidores
lotados nessas unidades
- Ampliação dos programas específicos de políticas públicas para os povos indígenas recém-
contatados, por meio de parcerias e articulações interministeriais.12

4. Etnicidade e resgate histórico-cultural de elementos étnicos no


contexto atual.

Caro candidato (a),


Este assunto foi abordado no decorrer dos tópicos 1 e 2.

5. Os direitos indígenas e o ordenamento constitucional e infralegal.


5.1. Indigenato.

O tratamento jurídico brasileiro conferido aos povos indígenas por muito tempo esteve atrelado à
concepção de que estes constituíam entrave ao desenvolvimento nacional em razão de não se rederem
aos objetivos políticos e econômicos predominantes, ou seja, conforme o período histórico brasileiro
observa-se que a legislação indígena ao invés de promover a tutela dos interesses das sociedades
indígenas, se fundamenta basicamente na estigmatização destas, tratando-as de forma preconceituosa
sem se importar efetivamente no atendimento de suas necessidades, peculiaridade que esteve presente
em todo o processo legislativo indigenista desde o período colonial até o século XX, no qual em 1988 a
Constituição Federal promulgada rompeu com essa concepção até então adota.
Pode-se afirmar, com convicção, que os direitos indígenas estão divididos em dois momentos distintos,
antes e depois da Constituição de 1988.
12
Fonte: Funai (Fundação Nacional do Índio).

42
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Antes dominava em nosso ordenamento jurídico o paradigma da integração, por meio da assistência
(auxílio), e da assimilação que, calcado em ideais evolucionistas desenvolvidos na Europa em meados
do século XIX, indicava que o simples, os povos primitivos, evolui para o mais complexo, sociedades
ocidentais civilizadas. A integração pressupunha a nacionalização do índio, em um processo irreversível
e inevitável elaborado por meio da assistência, que auxiliaria essa evolução.
A Constituição brasileira de 1988 estabeleceu um novo marco em relação aos direitos dos povos
indígenas, possibilitando encontrar um amparo legal para suas reivindicações, principalmente em relação
às demarcações de seus territórios tradicionais.
Influenciada pelos processos de descolonização que vieram a partir dos anos 1970, nossa Constituição
ficou a meio caminho dos novos projetos constitucionais europeus mais recentes, principalmente as
constituições portuguesas e espanhola, oriundas também de períodos de ditadura e com influências
marcantes dos direitos humanos emergentes, e do novo constitucionalismo latino-americano, centrados
nos direitos de bem viver e dos projetos de vida coletivos.
Assim, a Constituição Federal promulgada em 1988 é a primeira a trazer um capítulo sobre os povos
indígenas. Reconhece os "direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam". Eles não
são proprietários dessas terras que pertencem à União, mas têm garantido o usufruto das riquezas do
solo e dos rios.
Apesar da Carta Magna de 1988 possuir somente dois artigos, trouxe avanços importantes para o que
estava invisível até aquele momento, o direito dos povos indígenas. O caput do artigo 231 merece especial
atenção em virtude de sua abrangência, reconhecendo ao mesmo tempo vários direitos. Além do caput,
é importante citar dois parágrafos, relacionados à terra indígena e o aproveitamento de suas riquezas
minerais:

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições,
e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,
proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
(...)
§ 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente,
cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
§ 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a
lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso
Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da
lavra, na forma da lei.

Em relação à redação do citado dispositivo constitucional, que lhe impôs um caráter indiscutivelmente
progressista, é de suma importância o reconhecimento do direito à alteridade, ou seja, o direito de ser
diferente e de ter sua cultura reconhecida.

Código Civil
Historicamente o índio sempre foi tratado como incapaz. A tutela do Estado visava a proteção dos
povos indígenas, para que naturalmente eles fossem integrados à sociedade, e a representação civil, face
ao entendimento das circunstâncias especiais do índio, no contexto social e jurídico, que não teria
condições de realizar determinados atos.
O antigo Código Civil brasileiro, Lei 3.071, de 01.01.1916, qualificava o índio, ainda denominado de
silvícola, como incapaz relativamente a certos atos, colocando um ponto final na tutela orfanológica
prevista anteriormente. Contudo, somente com o novo Código Civil, Lei 10.406, de 10.01.2002, os índios
passaram a não ser mais tratados como incapazes, dispondo somente no parágrafo único do artigo 4º
que a capacidade dos índios será regulada por legislação especial, fazendo uma referência neutra a uma
regulamentação especial legal.
O Estatuto do Índio regulamentou, nos artigos 4 e de 7 a 11, a tutela dos índios e das comunidades
indígenas, aplicando, conforme a necessidade, os princípios da tutela comum. A tutela seria de
responsabilidade da União, que a exerceria através do competente órgão de assistência aos silvícolas,
ou seja, a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, instituída pela Lei 5.371, de 05.12.1967, que assim
dispõe:

Art. 1º Fica o Governo Federal autorizado a instituir uma fundação, com patrimônio próprio e
personalidade jurídica de direito privado, nos termos da lei civil, denominada "Fundação Nacional do
Índio", com as seguintes finalidades:
(...)

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Parágrafo único. A Fundação exercerá os poderes de representação ou assistência jurídica inerentes
ao regime tutelar do índio, na forma estabelecida na legislação civil comum ou em leis especiais.

Com o novo ordenamento constitucional, a tutela indígena, na forma em que estava regulamentada no
Estatuto do Índio, passou a ser questionada. Contudo, para Souza Filho, os dispositivos que tratam da
tutela no Estatuto do Índio foram recepcionados pela Constituição de 1988.
Deste modo, feita estas considerações indispensáveis à compreensão da situação jurídica dos índios
no Brasil, o disciplinamento de sua capacidade por designação do Código Civil de 2002 (artigo 4º,
parágrafo único), encontra-se disciplinada no Estatuto do Índio (Lei n. 6.001/73), segundo o qual o
indígena brasileiro ao nascer já se encontra sob o regime de tutela sendo incapaz para os atos da vida
civil até que atenda certos requisitos (artigo 9º, Lei n. 6.001/73) e torne-se livre desse regime. Tal situação
afeta diretamente o efetivo exercício dos direitos indígenas por seus titulares, se revelando como
expressão típica do sistema de integração defendido por tal legislação.

Nesse sentido, o atual diploma indígena vigente apesar de considerar válido ato praticado por índio
que revele consciência e conhecimento sobre o ato conjugado com a inexistência de prejuízo, como
resquício da política integracionista, considera de plano o índio como absolutamente incapaz,
disciplinando que:

“Art. 8º São nulos os atos praticados entre o índio não integrado e qualquer pessoa estranha à
comunidade indígena quando não tenha havido assistência do órgão tutelar competente”.

O órgão supramencionado que executa a tutela indígena em nome da União é a Fundação Nacional
do Índio – FUNAI

Estatuto do Índio
A Lei nº 6.001, de 19/12/1973, denominado Estatuto do Índio, dividiu os povos indígenas em graus,
conforme sua integração:
a) isolados: quando vivem em grupos desconhecidos ou de que se possuem poucos e vagos informes
através de contatos eventuais com elementos da comunhão nacional;
b) em vias de integração: quando, em contato intermitente ou permanente com grupos estranhos,
conservam menor ou maior parte das condições de sua vida nativa, mas aceitam algumas práticas e
modos de existência comuns aos demais setores da comunhão nacional, da qual vão necessitando cada
vez mais para o próprio sustento; e
c) integrados: quando incorporados à comunhão nacional e reconhecidos no pleno exercício dos
direitos civis, ainda que conservem usos, costumes e tradições característicos da sua cultura.

Com o fim do regime militar, buscou-se a construção de uma democracia pautada em conceitos de
uma sociedade plural e participativa, necessitando dar um fim por completo a todo entulho autoritário e
ditatorial. Para isso, seria necessária uma nova Constituição, que satisfizesse os anseios de liberdade
democrática e um novo conceito de cidadania, que reconhecesse o Estado nacional fundado em uma
sociedade plural e banindo todas as formas de discriminação e preconceito.

5.1. Indigenato.

A imposição de regimes jurídicos aos povos indígenas pelo Estado luso-brasileiro fez-se constante em
todo o processo colonial de conquista e ocupação. Os direitos dos povos nativos eram reconhecidos nos
discursos teóricos e nas normas estatais, mas negado na prática pela sociedade luso-brasileira e pelo
próprio sistema que, em tese, os reconhecia. Nesse contexto, admitia-se o Direito do “Outro” a partir da
concepção do Direito do “Eu”, ou seja, não se reconhecia o sistema jurídico oriundo das relações
indígenas a partir das concepções destes, mas sim o que o colonizador entendia por Direito. O Estado
português, portanto, ditava, ao seu modo, o sistema jurídico ao qual esses povos deveriam se subordinar,
fato que contribuirá significativamente para a intervenção no modo de vida das sociedades indígenas e
para o espólio de suas terras, marcando, assim também, a História do surgimento da Nação brasileira.
Não obstante, as Histórias dos povos indígenas dão conta da diversidade étnica e cultural existente
antes mesmo da invasão europeia nestas terras. A variedade das práticas de resistência contra
hegemônicas praticamente equivaliam-se à multiplicidade das próprias nações ameríndias. Se o
colonizador português buscava fazer imperar os seus institutos e modelos de organização jurídica e
territorial, os povos indígenas insistiam em desconhecê-los, ou aceitá-los, ressignificando-os, sem que

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isso importasse em sua anulação nesses espaços. Ademais, alguns povos indígenas, visualizando as
contradições do sistema colonial, apoderaram-se de seu discurso no intuito de salvaguardar-lhes parte
de seus territórios tradicionais e evitarem maiores conflitos diretos (armados) com a sociedade ocidental.
Da colonização portuguesa à atualidade, inúmeras regras jurídicas foram impostas aos índios visando
regular sua vida e organização territorial no Brasil. Algumas normas referiam-se à (privação de) liberdade
do indígena, que decorriam de conveniências político-econômicas e de discussões acerca da própria
natureza humana (existência de alma) do indígena; outras normas buscaram regular sua situação
territorial, com o intuito de confiná-los a uma pequena porção de terras, para catequizá-los e “civilizá-los”,
de modo a liberar espaço para as frentes econômicas da sociedade dominante, e, ao mesmo tempo,
colocar à sua disposição a mão-de-obra indígena.
Com a formação do Estado brasileiro no início do século XIX, a ideia de organização social ocidental
que se apresentava à época refletia claramente a adoção da fórmula: um Estado, uma Nação. Nesse
sentido, a cúpula detentora do poder político-econômico entendia ser necessária a identificação dos
habitantes do Brasil a uma única Nação, um único Povo. O mito fundador brasileiro, em que se sustenta
a fusão das três raças (índio, negro e branco), surge, então, para negar a diversidade cultural existente
(diversidade presente até mesmo no âmbito de cada uma dessas “raças”), afirmando, por conseguinte, a
existência no país de uma só Nação – a brasileira.
Nota-se, desde logo, a imposição violenta de normas criadas pelo invasor e a negação das tradições,
religiões, organizações sociais e territoriais e dos próprios sistemas jurídicos indígenas, causando a
destruição física, cultural e espiritual de muitos povos. Não obstante, inúmeras etnias resistiram/resistem,
isolando-se e/ou reconstruindo e reconfigurando seu modo de vida, possibilitando-lhes, assim, manterem
vivas suas identidades étnicas e culturais.
A participação indígena na construção da sociedade brasileira, portanto, não desaparece logo após o
período colonial, como se conta na História oficial, e ressurge (ou não) com o advento da Constituição de
1988. A presença indígena mostra-se nas relações sociais, nos enfrentamentos, na sua interiorização, na
sua interferência nas criações normativas estatais, entre outras. Assim, inúmeras etnias indígenas
resistiram/resistem, isolando-se e/ou reconstruindo e reconfigurando seu modo de vida, possibilitando-
lhes, com isso, manterem vivas suas identidades étnicas e culturais.
Do protagonismo indígena, fez-se aprovar na Assembleia Nacional Constituinte – ANC – de 1987/88
um capítulo específico para tratar de seus direitos e garantias. Observa-se que a nova ordem jurídica,
instaurada pela Lei Fundamental de 1988, rompeu com a orientação assimilacionista das normas
anteriores, inaugurando, ainda, novos fundamentos para os direitos indígenas, pautados na dignidade da
pessoa humana e na proteção à diversidade étnica e cultural da sociedade brasileira. Considerou-se,
assim, a importância das diversas formas de expressão social, de sentir e dar sentido à vida, e as
inúmeras respostas que as sociedades podem dar ao seu desenvolvimento; diversidade esta que se
mostra como elemento característico da Humanidade.
Nesse sentido, retorna-se à questão central do papel do Estado brasileiro na proteção da diversidade
étnica e cultural, cabendo, então, a ele oferecer os elementos indispensáveis para a garantia do exercício
pleno do direito à diferença, ao qual, no caso das populações indígenas, a terra tradicional está
intimamente relacionada. Ressalte-se, ainda, que, no concernente ao direito à terra, a Constituição o
reconheceu expressamente em seu texto, cravando-lhe o status de originário, no intuito de lhe garantir
maior e imediata efetividade.
Para uma melhor compreensão do direito originário indígena faz-se indispensável o estudo sobre a
teoria do indigenato, cuja origem data da época do Brasil colonial. Dessa forma, este trabalho monográfico
busca expor sucintamente acerca das normatizações lusitanas/brasileiras, desde o início da colonização
até o período que antecede à Constituição de 1988, relativas à imposição de um estatuto jurídico para o
reconhecimento do direito territorial dos povos nativos do Brasil[4], detendo-se, principalmente, na
formação dos institutos fundadores do direito originário indígena no País e nas consequências jurídicas
de seu reconhecimento, atentando-se, ademais, para as práticas indigenistas e para as representações
sociais acerca dos índios no território brasileiro.
As discussões acerca do direito dos povos nativos sobre as terras que ocupam não ocorreram somente
em Portugal a respeito das relações com as sociedades nativas da colônia Brasil. Esse tema enfrentou
vigorosos debates em grande parte da Europa. Essas preocupações já se apresentam há algum tempo
em outras sociedades, como, por exemplo, na Grécia de Aristóteles.
Na Europa, o espanhol Francisco de Vitória, buscando justificar o direito territorial dos Povos nativos
da “América hispânica”, afirmava que “por si mesmo (o direito de descoberta) não justifica a posse
(espanhola) sobre esses bárbaros mais do que se eles houvessem descoberto a nós”.
O reconhecimento das terras ocupadas pelos nativos e da respectiva soberania se deu, sobretudo,
nos Estados europeus que não se beneficiaram com a divisão do Novo Mundo entre Espanha e Portugal.

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Tal reconhecimento servia perfeitamente para justificar uma nova colonização por parte desses países,
pois, ao reconhecer a soberania dos povos indígenas sobre seus territórios, consequentemente,
desconsideravam o direito de descoberta. Assim, colocavam-se em condição de igualdade com Espanha
e Portugal num suposto direito de conquistar e ocupar os vazios territoriais no novo continente.
No que concerne ao Brasil, a teoria do indigenato foi instituída por meio do Alvará de 1º de abril de
1680, confirmado pela Lei de 7 de junho de 1755. Esta lei afirmava o direito originário dos índios às terras
que ocupassem.
O invasor, ao regular as organizações e as ocupações territoriais indígenas, reconhecia, sob o prisma
do modelo jurídico ocidental, o direito territorial indígena. Contudo, apesar de se tratar da imposição de
um sistema jurídico estrangeiro, impôs-se a prevalência da posse indígena sobre qualquer outro título
aquisitivo, não importando se a ocupação indígena precedia ou não ao título. Preferiu-se, portanto, o
direito à terra dos índios, aos quais sempre se reservava, porquanto serem, “os Índios, primários e
naturais senhores delas”.
Nota-se, ainda, que o reconhecimento se fazia também em relação aos aldeamentos artificialmente
criados pelo invasor, onde se alocavam os índios descidos do sertão e de outras regiões. Daí se extrai
que, desde o início da colonização do Brasil, o fundamento do direito indígena não depende da aferição
de ocupação imemorial sobre a terra, mas sim do simples fato de ser indígena.
Fica nítido, então, que o “indigenato”, desde sua origem, não se vincula à posse imemorial. Isso desfaz
toda a confusão feita por muitos juristas acerca da relação entre a posse indígena e o caráter histórico da
ocupação como pressuposto para o reconhecimento do direito dos índios sobre suas terras tradicionais.
A expressão “originais senhores delas” foi conferida pelo colonizador português de forma genérica,
referindo-se à terra em sentido amplo (continente “descoberto”). Assim, considerou-se a totalidade das
populações indígenas como habitantes originários do “Novo Mundo”.
Importante ressaltar ainda que, desde a Lei de 6 de junho de 1755, o reconhecimento das terras
indígenas goza de caráter permanente, uma vez que são reservadas aos índios “para gozarem delas por
si e todos seus herdeiros”. Na origem do indigenato, não há, portanto, nenhuma menção à transitoriedade
desse direito, como se a concretização da pretensa assimilação do mundo ocidental pelos povos nativos
ultimasse o direito à terra. Muito pelo contrário, o direito brasileiro sempre lhes conferiu uma destinação
vitalícia, que perdura na descendência indígena, configurando-se em uma hereditariedade étnico-
coletiva ad eternum.
Acrescente-se, por fim, que os dispositivos constitutivos do indigenato (do período colonial)
reconheceram o senhorio dos índios sobre as terras que ocupam, a abranger, inclusive, a soberania
desses povos sobre elas, o que justificava o não pagamento de foro ou de tributo sobre essas terras.
Da colonização portuguesa à atualidade, inúmeras regras jurídicas foram impostas aos índios visando
regular sua vida e organização territorial no Brasil. Algumas normas referiam-se à (privação de) liberdade
do indígena, que decorriam de conveniências político-econômicas e de discussões acerca da própria
natureza humana (existência de alma) do indígena; outras normas buscaram regular sua situação
territorial, com o intuito de confiná-los a uma pequena porção de terras, para catequizá-los e “civilizá-los”,
de modo a liberar espaço para as frentes econômicas da sociedade dominante, e, ao mesmo tempo,
colocar a sua disposição mão-de-obra indígena.
Todavia, desde essa época, considerou-se a existência dos direitos territoriais dos povos nativos,
sendo, no entanto, constituídos ao modo europeu de utilização e delimitação territorial. O indigenato era
o instituto que declarava o reconhecimento do direito dos índios as suas terras, reservando-se sempre o
prejuízo de terceiros, visto que os considerava primeiros e senhores naturais dessas terras. Não obstante,
a realidade nas relações entre as sociedades “brancas” e “indígenas” demonstraram o desrespeito pelas
próprias leis do sistema jurídico hegemônico.
Assim, fez-se necessário que os povos indígenas se organizassem sob novas formas para se opor e
fazer garantir a sua existência enquanto povo com organização social, normatizações, costume, tradições
próprias. A mobilização dos indígenas, com o apoio de organizações indigenistas, obteve bons resultados
na positivação constitucional dos direitos indígenas, fazendo-se aprovar, na Constituição Federal de 1988,
um capítulo específico para tratar das garantias dos povos indígenas. Observa-se, ademais, que a nova
ordem jurídica instaurada pela Lei Fundamental de 1988 inaugura novos fundamentos para os direitos
indígenas, pautados na dignidade da pessoa humana e na proteção à diversidade étnica e cultural da
sociedade brasileira.
Rompeu-se, então, com a orientação assimilacionista presente nas legislações anteriores,
consagrando o direito à diferença. As diversas formas de expressão social, de sentir e dar sentido à vida,
e as inúmeras respostas que as sociedades podem dar ao seu desenvolvimento foram consideradas de
suma importância para a sociedade. Nesse sentido, retornou-se à questão central do papel do Estado
brasileiro na proteção da diversidade étnica e cultural. A mera tolerância das diferentes práticas

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socioculturais não mais condiz com a necessidade de vivência étnica e cultural desses povos; por isso
impôs-se ao Estado o dever de garantir e proporcionar os elementos necessários para que possam viver
plenamente sua cultura, tornando-se, então, indispensável a efetivação dos inúmeros direitos
concatenados ao direito à diferença, tais como o direito à autodeterminação, à autonomia, à participação,
aos territórios tradicionais e ao seu controle, e à educação diferenciada.
Contudo, apesar da instauração de um novo paradigma no campo de proteção aos direitos indígenas,
o estudo do instituto do indigenato ainda se faz necessário para compreender a consolidação do direito
indigenista sobre as terras indígenas, conferindo ao interprete da norma um aprofundamento teórico e
histórico acerca do direito originário indígena, o que lhe servirá de base para interpretação e aplicação
dos direitos indígenas previstos na Constituição da República de 1988.
Em suma, o direito territorial atribuído ao indigenato tem como fundamento o fato de os índios serem
os primeiros habitantes e naturais senhores da terra; estabelecendo-se a primazia desse direito sobre
qualquer outro. Assim, o título do indigenato (posse indígena) prevalece sobre todos os outros títulos,
porquanto se trata de direito originário. Nesse sentido, reunidos os elementos que o caracterizem
(ocupação tradicional indígena), declaram-se extintos e nulos eventuais direitos de terceiros, não
importando a data da ocupação indígena, “porque na concessão destas [terras] se reserva sempre o
prejuízo de terceiro”. Trata-se de um direito perpétuo, garantido aos indígenas para a sua continuidade
como povos com relações identitárias pré-colombianas.

Fonte: http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,a-construcao-da-teoria-do-indigenato-do-brasil-colonial-a-constituicao-
republicana-de-1988,43728.html

6. História do Brasil-Colônia.
6.1. Gestão dos territórios luso-americanos.

A Sociedade Colonial

Logo após a chegada dos portugueses no Brasil (1500), a coroa portuguesa começou a temer invasões
estrangeiras no território brasileiro. Esse temor era real, pois corsários e piratas ingleses, franceses e
holandeses viviam saqueando as riquezas da terra recém descoberta. Era necessário colonizar o Brasil
e administrar de forma eficiente.

O Período Pré-Colonial: A fase do Pau-Brasil (1500 a 1530)

O termo “Descobrimento do Brasil” traz uma visão pautada no eurocentrismo, que é a valorização da
cultura europeia em detrimento das outras, já que expõe a chegada (termo mais apropriado) dos
portugueses ao Brasil como o início da civilização e da presença humana no país, desconsiderando a
presença e a cultura indígena já presentes há milhares de anos neste território. Os portugueses chegam
ao Brasil em 22 de abril de 1500, com a esquadra de Pedro Alvares Cabral, iniciando o período conhecido
como Pré-Colonial.
Durante o período Pré-Colonial foi grande a exploração do pau-brasil, que alcançava um bom valor na
Europa, utilizado no tingimento de tecidos (daí vem o nome brasil, pois a madeira soltava um pigmento
avermelhado, semelhante à cor de uma brasa). O corte e transporte das toras de pau-brasil eram feitas
pelos indígenas, a partir de trocas (escambo) com os portugueses. Os portugueses não encontraram de
imediato metais ou pedras preciosas no Brasil, e também não tiveram interesse em criar colônias no
Durante os primeiros trinta anos, o Brasil foi atacado pelos holandeses, ingleses e franceses que
tinham ficado de fora do Tratado de Tordesilhas (acordo entre Portugal e Espanha que dividiu as terras
recém descobertas em 1494). Os corsários ou piratas também saqueavam e contrabandeavam o pau-
brasil. O medo da coroa portuguesa era perder o território brasileiro para um outro país. Para tentar evitar
estes ataques, Portugal organizou e enviou ao Brasil as Expedições Guarda-Costas, porém com poucos
resultados.
Os portugueses continuaram a exploração da madeira, construindo as feitorias no litoral que nada mais
eram do que armazéns e postos de trocas com os indígenas.
No ano de 1530, o rei de Portugal, D. João III, organizou a primeira expedição com objetivos de
colonização, comandada por Martin Afonso de Souza, com a intenção de povoar o território brasileiro,
expulsar os invasores e iniciar o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil.

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A cana-de-açúcar

Houveram muitos motivos para a escolha da cana como produto da colônia, entre eles a ocorrência
do solo de massapê, que é propício para o cultivo da cana-de-açúcar. Além disso, era um produto muito
bem cotado no comércio europeu. As primeiras mudas de cana-de-açúcar chegaram no início da
ocupação efetiva do território brasileiro, trazidas por Martim Afonso de Souza em 1533 e plantadas no
primeiro engenho, construído em São Vicente.
Os principais centros de produção açucareira do Brasil localizavam-se nos atuais estados de
Pernambuco, Bahia e São Paulo. A ocupação do Brasil no Século XVI esteve profundamente ligada à
indústria açucareira. A economia de plantation possui relação intensa com os interesses dos
proprietários de terras que lucravam enormemente com as culturas de exportação.
O latifúndio, isto é, a grande propriedade rural, formou-se nesse período, tendo consequências até os
dias de hoje. A produção da cana-de-açúcar também contribuiu para a vinculação dependente do país
em relação ao exterior, a monocultura de exportação e a escravidão e suas consequências. A colônia
portuguesa de exploração prosperou graças ao sucesso comercial da produção da cana-de-açúcar.

Fonte: http://4.bp.blogspot.com/Economia+no+século+XVI.jpg

O senhor de engenho, que era proprietário do complexo de produção de açúcar, ou engenho


desfrutava de admirável status social. Os engenhos eram compostos de amplas propriedades de terras
ganhas através da cessão de sesmarias. O senhor de engenho e sua família moravam na casa-grande –
local onde ele desempenhava sua autoridade junto aos seus, cumprindo seu papel de patriarca.
Em 1630 os holandeses invadiram o nordeste da colônia, na região de Pernambuco, que era a maior
produtora na época. Durante sua permanência no Brasil, os holandeses adquiriram o conhecimento de
todos os aspectos técnicos e organizacionais da indústria açucareira. Esses conhecimentos criaram as
bases para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente, de produção de açúcar em
grande escala, na região do Caribe. A concorrência imposta pelos holandeses, que haviam sido expulsos
pelos portugueses, fez com o Brasil perdesse o monopólio que exercia mercado mundial do açúcar,
levando a produção a entrar em declínio.

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As Capitanias Hereditárias

A implantação do regime de capitanias hereditárias no Brasil, em 1534, está vinculada a incapacidade


económica do Estado português em financiar diretamente a colonização, pois o monopólio do comercio
com as índias se tornara deficitário. Por essa razão, e considerando urgência de se colonizar o Brasil. D.
João III decidiu dividi-lo em capitanias hereditárias, para que elas mesmas fossem colonizadas com
recursos particulares, sem que a coroa tivesse que investir dinheiro.
O regime de capitanias já havia sido aplicado com êxito nas ilhas atlânticas (Madeira, Açores. Cabo
Verde e São Tomé). No próprio Brasil já existia a capitania de São Joao, correspondente ao atual
arquipélago de Fernando de Noronha.
O território brasileiro foi dividido em 14 capitanias (uma delas subdividida em dois lotes), doadas a
doze donatários. Os limites de cada território, definidos sempre por linhas paralelas iniciadas no litoral,
estavam especificados na Carta de Doação. Este documento estipulava também que a capitania seria
hereditária, indivisível e inalienável, podendo ser readquirida somente pela Coroa. Um segundo
documento era o Foral, que regulamentava minuciosamente os direitos do rei. Na realidade, os donatários
não recebiam a propriedade das capitanias, mas apenas sua posse. De qualquer forma possuíam amplos
poderes administrativos, militares e judiciais, sendo responsáveis unicamente perante o soberano. Tra-
tava-se, portanto, de um regime administrativo descentralizado.
São Vicente e Pernambuco foram as únicas capitanias que prosperaram. O fracasso do projeto como
um todo decorreu de vários fatores: falta de coordenação entre as capitanias, grande distância da
metrópole, excessiva extensão territorial, ataques indígenas, desinteresse de vários donatários e. acima
de tudo. Insuficiência de recursos.
As capitarias hereditárias não desapareceram com a criação do Governo-Geral: elas foram gradual-
mente readquiridas pela Coroa, até serem totalmente extintas, na segunda metade do século XVIII. pelo
marques de Pombal.

Fonte: http://www.estudopratico.com.br/

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Principais Capitanias Hereditárias e seus donatários: São Vicente (Martim Afonso de Sousa),
Santana, Santo Amaro e Itamaracá (Pêro Lopes de Sousa), Paraíba do Sul (Pêro Gois da Silveira),Espírito
Santo (Vasco Fernandes Coutinho), Porto Seguro (Pêro de Campos Tourinho), Ilhéus (Jorge Figueiredo
Correia), Bahia (Francisco Pereira Coutinho), Pernambuco (Duarte Coelho), Ceará (António Cardoso de
Barros), Baía da Traição até o Amazonas (João de Barros, Aires da Cunha e Fernando Álvares de
Andrade).

Governo Geral

Reconhecendo o fracasso do regime de capitanias hereditárias, D. João III resolveu criar o Governo-
Geral. Por meio dessa medida o monarca visava centralizar a administração colonial, subordinando as
capitanias a um governador-geral que coordenasse e acelerasse o processo de colonização do Brasil.
Com esse objetivo elaborou-se em 1548 o Regimento do Governador-Geral no Brasil que regulamentava
as funções do governador e de seus principais auxiliares — o ouvidor-mor (Justiça), o provedor-mor
(Fazenda) e o capitão-mor (Defesa).
O primeiro governador-geral foi Tomé de Sousa, que fundou Salvador, primara cidade e capital do
Brasil. Com ele vieram os primeiros jesuítas e foi criado o primeiro bispado em terras brasileiras.
A administração do segundo governador-geral, Duarte da Costa, apresentou sérios problemas:
revoltas dos índios na Bahia, conflito entre o governador e o bispo e, principalmente, a invasão francesa
do Rio de Janeiro (criação da França Antártica). Em compensação, o terceiro governador-geral, Mem de
Sá, mostrou-se tão eficiente que a metrópole o manteve no cargo até sua morte; foi ele quem conseguiu
expulsar os invasores franceses, graças a atuação de seu sobrinho Estado de Sá.
Depois de Mem de Sá, por duas vezes a colônia foi dividida temporariamente em dois governos-gerais:
a Repartição do Norte, com capital em Salvador, e a do Sul, com capital no Rio de Janeiro.
Durante a União Ibérica, o Brasil foi transformado em duas colônias distintas: Estado do Brasil (cuja
capital era Salvador e, depois, Rio de Janeiro) e Estado do Maranhão (cuja capital era São Luís e, depois,
Belém). A reunificação só seria concretizada pelo marquês de Pombal, em 1774.
Além das capitanias e do Governo-Geral, foram criadas as Câmaras Municipais nas vilas e nas cidades
do Brasil Colônia. O controle edifico das Câmaras Municipais era exercido pelos grandes proprietários
locais, os "homens-bons", o que reforçava suas posições sociais de mando. Entre suas competências,
destacavam-se o ceder deliberativo sobre preços de mercadorias e a fixação dos valores de alguns
tributos.
As eleições para as Câmaras Municipais eram realizadas ente os "homens-bons". Elegiam-se três
vereadores, um procurador, um tesoureiro e um escrivão, sob a presidência de um juiz ordinário, (juiz de
paz), mais tarde substituído, pelo juiz de fora. Ao longo da colonização, os choques entre os interesses
da metrópole e os da colônia, isto é, entre o centralismo e o localismo, foram simbolizados,
respectivamente, pelo Governo-Geral e pelas Câmaras Municipais.

Companhia de Jesus

A Companhia de Jesus foi criada por Inácio de Loyola em 1534, como resposta para os movimentos
religiosos, em especial a reforma protestante e a contrarreforma, que aconteciam na Europa. Seu objetivo
era espalhar a fé católica pelo mundo.
Os primeiros representantes da Ordem jesuítica chegaram ao Brasil comandados pelo padre Manuel
da Nóbrega, no ano de 1549, em uma expedição comandada por Tomé de Souza. Após desembarcarem
na Bahia, ajudaram na fundação da cidade de Salvador, além de percorrerem as capitanias vizinhas.
O Projeto Educacional Jesuítico não era apenas um projeto de catequização, mas sim um projeto bem
mais amplo, um projeto de transformação social, pois tinha como função propor e implementar mudanças
radicais na cultura indígena brasileira.
Uma das estratégias adotadas por Manuel da Nóbrega na conversão dos gentios foi a construção de
aldeias de catequização, que se situavam próximas das vilas e cidades portuguesas. Essas aldeias eram
habitadas pelos padres jesuítas e pelos índios a serem convertidos.
No ano de 1553, José de Anchieta chega ao Brasil. Anchieta esteve à frente do Colégio na vila de São
Paulo de Piratininga, fundada em 1554. Durante seu tempo no colégio fez contato intenso com os grupos
indígenas locais, o que auxiliou na elaboração de um guia de gramática e um dicionário.
A partir da década de 1580, a missão realizava-se por meio de visitas esporádicas aos grupos
localizados nas matas. Essas visitas eram espaçadas e demoravam até quinze dias ou mais, umas das
outras, e os padres não permaneciam muito tempo entre os grupos. Devido ao segundo contato ser
sempre demorado, quando aconteciam os índios já não detinham as orientações anteriores.

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Na segunda metade do século XVIII, a presença dos jesuítas no Brasil sofreu um duro golpe. Nessa
época, o influente ministro Marquês de Pombal decidiu que os jesuítas deveriam ser expulsos do Brasil
por conta da grande autonomia política e econômica que conseguiam com a catequese. A justificativa
para tal ação adveio da ocorrência das Guerras Guaraníticas, onde os padres das missões do sul
armaram os índios contra as autoridades portuguesas em uma sangrenta guerra.
Apesar desse episódio, a herança religiosa dos jesuítas ainda se encontra manifesta em vários setores
da nossa sociedade. Muitas escolas tradicionais do país, bem como várias instituições de ensino superior
espalhadas nos mais diversos pontos do território brasileiro, ainda são administradas por setores
dirigentes da Igreja Católica. Somente no século XIX, foi que as escolas laicas passaram a ganhar maior
espaço no cenário educacional brasileiro.

Outros atividades econômicas

Na região Nordeste a atividade pastoril expandiu-se rapidamente, pois o capital necessário para a
montagem de uma fazenda de gado era bastante reduzido. As terras eram fartas e o criador precisava
somente requerer a doação de uma sesmaria ou simplesmente apossar-se da terra. Para adquirir os
animais também não era necessário grande investimento, já que era possível para os colonos trabalharem
por volta de 5 anos em fazendas de gado com pagamento feito através da participação no nascimento de
novos animais (geralmente o colono recebia uma cria em cada quatro), o que garantia que quando
terminasse o tempo de serviço, o colono teria adquirido um pequeno rebanho, garantindo a possibilidade
de conduzir seus negócios de forma independente.
As instalações das propriedades pastoris eram simples, com poucas casas e alguns currais feitos com
material encontrado nas localidades. O método de criação também era muito simples, feito de maneira
extensiva (O gado vivia solto no campo), o que dispensava mão-de-obra numerosa ou especializada.
Em uma fazenda de três léguas era comum a utilização de dez a doze homens para o serviço, que
poderiam ser negros forros (com carta de alforria), mestiços ou indígenas, que possuíam grande
habilidade para a atividade. Dificilmente eram utilizados escravos.
Na região amazônica a geografia impedia a implantação de fazendas de cultivo ou a criação de
animais. Ao penetrarem os rios e selvas da região os portugueses notaram que os índios utilizavam uma
grande variedade de frutas, ervas, folhas e raízes para fins medicinais e alimentícios. Os produtos
utilizados, em especial cacau, baunilha, canela, urucum, guaraná, cravo e resinas aromáticas foram
chamados de drogas do sertão, e possuíam bom valor de comercio na Europa, podendo ser vendidas
como substitutas ou complementos das especiarias. Além das plantas, outras variedades de drogas do
sertão incluíam: gordura de peixe-boi, ovos de tartaruga, araras e papagaios, jacarés, lontras e felinos.

Fonte: http://2.bp.blogspot.com/ Economia+do+século+XVII.jpg

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6.1.1. Legislação régia portuguesa sobre os direitos dos índios as suas terras

A exploração e ocupação do território hoje denominado Brasil foi executada pelos portugueses com o
objetivo de garantir lucros para a empreitada colonial. Desde o primeiro contato com as populações
nativas, em 1500, buscou-se entender e encontrar produtos e formas extração de mercadorias que
tivessem a possibilidade de gerar lucros no mercado europeu.
Pouco atrativa no primeiro contato, apesar da abundância de beleza natural e também de pessoas,
como descrito pelo escrivão Pero Vaz de Caminha, a terra brasileira vai ganhar a atenção dos
portugueses somente com o declínio do comércio na Índia, ainda no século XIV, incluindo aí também a
ameaça de conquista do território pelos franceses.
Sobre a população local, os hábitos e a vestimenta causaram espanto, como atestado no trecho a
seguir:

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos.
Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm
tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus
ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão,
agudos na ponta como um furador. Metemnos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre
o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os
estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia
alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por
baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que
seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava
pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira
que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a
levantar.
[...]
Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos,
porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença. E portanto, se os
degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles,
segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual
praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-
se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons
corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa.

Fonte: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/carta.pdf

A forma de vida totalmente diferente dos indígenas que aqui habitavam levaram os portugueses a
entenderem que os habitantes nativos eram seres inferiores, e deveriam, portanto, obedecê-los, o que de
fato foi cogitado.
Dentro dos interesses coloniais portugueses, estava principalmente a garantia de mão-de-obra nativa
e de estabelecer bases para a exploração econômica do novo território. Para consecução deste objetivo,
foram fundamentais as políticas de descimento e de aldeamento.
O descimento consistia no deslocamento de povos inteiros dos chamados sertões até a proximidade
de povoados portugueses. Essa era uma tarefa a cargo ora de moradores ora de religiosos, a depender
da legislação ao longo do tempo, mas sempre com a presença de missionários: uma vez descidos, os
índios deviam ser catequizados e civilizados.
A partir do processo de descimento foram sendo formadas as aldeias, como forma de sedentarizar e
converter os índios amigos, já que a distância cada vez maior entre os povoados portugueses e as terras
indígenas tornava necessária a colaboração dos próprios índios. Ainda sobre os aldeamentos, o controle
e a chefia ficou a cargo de padres jesuítas.
Segundo Rodrigo Marchini, a legislação régia portuguesa apresenta um caráter de dualidade, sendo
que “essa dualidade consiste em haver duas formas de tratamento jurídico em relação aos índios que
ocorrem simultaneamente no tempo. De fato, se acompanharmos a sequência cronológica dos
dispositivos pode-se acreditar que ela seja contraditória e não demonstre uma progressão lógica de um
sistema de organização, mas a busca pela racionalidade que parecia faltar nos levou a concordar com o
entendimento da professora Beatriz Perrone-Moisés no artigo "Índios livres e índios escravos – Os
princípios da legislação indigenista do período colonial (século XVI a XVIII)", in CUNHA, Manuela Carneiro

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da (org.), História dos Índios no Brasil, 2a edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.117,
segundo a qual a legislação indigenista colonial não deve ser considerada confusa e conflitante, com
alguns momentos de liberdade e outros de escravidão, visto que há uma clara diferença de tratamento
legal entre os índios aliados e inimigos o que explica as aparentes contradições na legislação, pois ao
invés de uma política de administração dos índios que repetidamente se nega, existem duas políticas
oficiais uma protetiva para os aliados e outra de conquista para os inimigos.

O duplo tratamento que inicialmente se percebe claramente, vai com o passar do tempo se mostrando
menos radical, mas não menos significativo. Assim, a dicotomia entre índios aliados e inimigos passa
muito lentamente a ser entre índios integrados e índios isolados. No Império, apenas os índios que tiveram
contato com os não-índios e estão se integrando terão proteção estatal, ao passo que os índios isolados
não terão, por exemplo, garantias sobre sua ocupação de terras.”
Nesse sentido, em 1562 o governador geral Mem de Sá doa a um grupo de indígenas que afirmavam
ser cristianizados, uma porção de terras:

Carta de Sesmaria 7 de setembro de 1562

"Carta de sesmaria da terra dos Indios da Aldeia do Espirito Santo deste Colegio.

1. Saibam quantos este instrumento de Carta de data de sesmaria virem que no ano do nascimento
de Nosso Senhor Jesus Cristo da era de mil e quinhentos e sessenta e dois anos, em os sete dias do
mes de Setembro do dito ano, em esta cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, em as casas
da morada de mim escrivão ao diante nomeado, apareceu um requerendo dos Indios, moradores e
povoadores do gentio Espirito Santo, e por ele me foi apresentada um petição e nela um despacho posto
do Senhor Mendo de Sá, do Concelho de El-Rei Nosso Senhor, Capitão desta cidade e Governador Geral
de todo este Estado do Brasil, de cujo traslado da dita petição e despacho tudo é o seguinte:
Senhor,
Dizem os Indios moradores da povoação do Espirito Santo que eles se apresentaram na dita povoação
para aprenderem a doutrina cristã e se converterem e serem cristãos, e já pela bondade de Deus Nosso
Senhor muitos deles são Cristãos e todos se dispõem para o serem, e tem feito igreja em que os ensinam
Padres da Companhia de Jesus; e porque eles suplicantes tem necessidade de terras em que possam
fazer semente e criações para si e os [que] descem e para isso tem necessidade das terras e matos que
estão de redor da dita povoação, que começam por baixo da tapera, donde esteve outra povoação dos
antepassados, donde se mudaram à em que agora estão, partindo pela banda do campo ao longo dos
midos de terra e pela tapera, que foi do Grilo, e correndo até o Rio Capicaji até da povoação de Santo
Antonio, e por acima até um caminho que vai para a povoação de São Tiago, que parte de uma tapera
que se chama Cuirestiba, e dai corre até o rio da dita povoação do Espirito Santo, que se chama
Araragoacope, e passando o dito rio correndo pelo dito caminho que ia da povoação velha, que estava
no caminho, digo, caminho que vai para São Tiago até aguas vertentes, e daí cortando ao sul até uma
cerca velha de Santo Espirito para São Tiago e pelo rio abaixo até a tapera de Faoajo: pedem a Vossa
Senhoria que no dito sitio lhes faça mercê de tres leguas de terra em quadra para fazerem os mantimentos
e criações deles e os das sementes, e lhes mande passar a sua carta de sesmaria no que receberão
mercê e esmola, pedindo eles suplicantes ao dito Senhor Governador que pela sobredita maneira lhes
fizesse mercê da dita terra pera suas criações e mantimentos. E visto pelo Senhor Governador seu pedir
e dizer justo; e, havendo respeito ao que na sua petição fazem menção e por lhe El-Rei Nosso Senhor
[dizer] em sua carta que dê terra aos suplicantes para nela fazerem os mantimentos e criações, lhe deu
a dita terra de que em sua petição fazem menção, a qual lhe concede, como pelo despacho do dito Senhor
consta. E Lhas deu de sesmaria por virtude de um Capitulo de uma carta de El-Rei Nosso Senhor, cujo
traslado dele e do dito despacho é o seguinte.
2. Traslado do despacho do Senhor Governador:
Dou aos Indios e moradores da povoação de Santo Espirito as três leguas de terra em quadra, que
pedem, de que lhe farão sua carta em forma. Hoje, vinte dias do mes de Agosto de mil e quinhentos e
sessenta e dois annos. Mem de Sá.
3. Traslado do capítulo de uma Carta da Rainha Nossa Senhora, que veiu ao Senhor Governador Mem
de Sá, em que começa:
Dizem tambem que seria grande remedio para aumento e conservação da conversão dos ditos gentios
repartirem-se e darem-se terras aos que já fossem cristãos, digo, e darem-se aos que fossem cristãos
terras proprias e sitos e lugares para isso convenientes, em que possam fazer os mantimentos e
grangearias sem lhes poderem ser tiradas, porque por não terem terras proprias alguns, depois de

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convertidos e apartados de seus brutos costumes, se vão para diversas partes remotas donde não podem
ser doutrinados e se tornam a perder, e outros se ausentam por os proprios portugueses lhe tomarem as
terras em que fazem mantimentos; tambem convem que alguns, que agora são convertidos, tenham
nessa Capitania terras que lhe foram tomadas e dadas a outrem sem causa justa e que seria grã
consolação e quietação tornar-se-lhe ou parte delas. Encomendo-vos consulteis estas cousas com os
Padres da Companhia, que nessa Capitania estiverem, e façais nisso de maneira que vos parecer que
convem ao bem e aumento da conversão e conservação dos ditos gentios e não seja escandalo a outras
partes e a todos se ouçam de justiça e igualdade.
4. Por virtude do qual capitulo da dita carta, deu as ditas terras aos ditos Gentios, povoadores de Santo
Espirito. E por verdade lhe mandou ser feita esta Carta pela qual manda que eles hajam a posse e
senhorio das ditas terras, deste dia para todo sempre para si e para os herdeiros, descendentes e
ascendentes, que após eles vierem , com tal condição e entendimento que eles lavrem, aproveitem as
ditas terras deste dia por diante. E por verdade esta assinou. E eu Francisco Vidal, escrivão que a escrevi,
este capitulo aqui trasladei da propria carta, que a Rainha Nossa Senhora escreveu ao Senhor
Governador; e este traslado com ela concertei sem duvida, digo, sem cousa que duvida faça. Mem de
Sá."
Referência: Beatriz Perrone-Moisés, "Inventário da Legislação Indigenista 1500-1800",
in Manuela Carneiro da Cunha (org.), "História dos Índios no Brasil", São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Fonte: Leite, Serafim, "Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil", vol III, São Paulo: Comissão do IV Centenário, 1
956, pp. 508-511.Transcrito por Rodrigo Sérgio Meirelles Marchini.

Novamente, no que diz respeito aos índios convertidos, em 1582 é concedida uma nova doação de
terras, para todos aqueles índios que descerem e se converterem e caso elas fossem tomadas deviam
ser restituídas:

Alvará de 21 de agosto de 1582

"Alvará de El-Rei no qual manda dar terras aos índios de Sesmaria e que os Governadores façam
restituir aos índios as terras que seus vassalos lhes tiverem tomado e ocupado.

Eu EL-Rei faço saber aos que êste Alvará virem que eu soi informado que será muito do serviço de
Deus e meu exemplo e benefício das fazendas e engenhos dos meus Vassalos das partes do Brasil
darem-se terras de Sesmaria ao gentio que descer do sertão para fazerem suas lavouras e que será isto
meio para descerem muitos e virem mais depressa no conhecimento de Nossa Santa Fé e receberem o
Santo Batismo pelo que mando ao meu Governador das ditas partes que ora é ou ao diante fôr e ao
Provedor-mor da minha fazenda em elas que ordene com o gentio que descer se reparta em aldeias junto
às ditas fazendas lhes façam dar tantas terras de Sesmarias quantas bastarem para comodamente
fazerem suas lavouras e se manterem, as quais lhes serão dadas por medição e se lançarão nos livros
das Câmaras das Capitanias das ditas partes com declaração das confrontações delas e os nomes das
aldeias e do dia, mês e ano em que se lhes deram para a todo o tempo se saber como as ditas terras
lhes pertencem e lhes não poderem ser tomadas em tempo algum e outrossim hei por bem que as terras
que forem dadas de Sesmarias, algumas aldeias dos índios que estão juntas da Capitania do Salvador
das ditas partes as tenham e possuam e sendo-lhes tomadas algumas por meus vassalos o dito meu
Governador ou Provedor de minha fazenda lhes fará logo restituir com efeito procedendo nisso com muita
diligência. Notifico assim e mando que na maneira que se neste contém o cumpram e guardem e façam
inteiramente cumprir e guardar, o qual se registrará nos ditos livros das Câmaras e o traslado dele
concertando e assinado por um dos meus Escrivães da Câmara e se envia por três ou quatro vias às
ditas partes os quais se cumprirão tão inteiramente como êste próprio se lá fôra que hei por bem que
valha como carta e que não passa pela Chancelaria sem embargo das ordenações do segundo livro que
o contrário dispõe. Francisco Barros fez em Madri a vinte um de agosto de mil e quinhentos oitenta e dois
anos. Roque Viera o fez escrever. Concertada com a própria por mim Gaspar Beleagoa Carneiro. O qual
traslado de Alvará eu Francisco de Couto Barreto, Tabelião público do Judicial e Notas por Sua Majestade
nesta cidade do Salvador e seus Termos fiz trasladar de um traslado que me presentou o Reverendo
Padre Francisco Reis da Companhia de Jesús que assinou de como recebeu e a êle me reporto e êste
concertei com o Tabelião comigo abaixo assinado, o subscreví, que o assinei de meu próprio sinal
seguinte. Hoje, cinco de Março de mil seiscentos e cinquenta e dois anos. Levei o próprio Francisco dos
Reis. Concertado por mim Tabelião Francisco do Couto Barreto. Comigo Tabelião Manuel Teixeira Pinto."

Referência: Beatriz Perrone-Moisés, "Inventário da Legislação Indigenista 1500-1800", in Manuela Carneiro da Cunha
(org.), "História dos Índios no Brasil", São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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Fonte: Documentos Históricos, vol. LXIV, Rio de Janeiro: Typ. Baptista de Souza, 1944, pp. 94-95.
Transcrito por Rodrigo Sérgio Meirelles Marchini.

Sobre o direito amplo dos índios à terra, a primeira lei nesse sentido data de 1 de abril de 1680, ou
seja, 150 anos após o início da colonização efetiva e escravização dos indígenas. A referida lei tinha
validade para o Maranhão. Segue abaixo a transcrição da lei, preservada a linguagem:

Lei de 1 de abril de 1680

"Ley Sobre a liberdade do gentio do Maranhão.

Dom Pedro etc. Faço saber aos que essa Ley virem que sendo informado ELRei meu Senhor e Pay
que Deos tem dos injustos captiveiros a que os moradores do Estado do Maranhão por meios ilicitos
reduzião os Indios delle, e dos graves danos, excessos, offenças de Deos que para este fim se cometião
fez uma Ley nesta Cidade de Lisboa em 9 de Abril de 655 em que prohibio os ditos captiveiros,
exceptuando quatro casos em que de direito herão justos e licitos, a saber quando fossem tomados em
justa guerra que os Portuguezes lhe movessem intervindo as circunstancias na dita Ley declaradas, ou
quando impedissem a pregação evangelica, ou quando istivessem prezos a corda para serem comidos,
ou quando fossem vendidos por outros Indios que os houvessem tomado em guerra justa, examinando-
se a justiça della na forma ordenada na dita Ley, e por não haver sido eficaz o dito remedio, nem o de
outras Leys antecedentes do Anno de 1570, 1577, 1595, 1652, 1653, com que o dito Senhor Rey meu
Pay e outros Reis seus predesessores procurarão atalhar este dano, antes se haver continuado athe o
presente com grande escandalo e excesso contra o serviço de Deos e meu impedindo-se por esta cauza
a conversão d'aquella gentilidade, que dezejo promover e adiantar, e que deve ser e he o meu primeiro
cuidado, e tendo mostrado a esperiencia que suposto sejão licitos os captiveiros por justas razões de
direito nos casos exceptuados na dita Ley de 655 e nas anteriores, com tudo que são de maior
ponderação as razões que ha em contrario para os prohibir em todo o cazo, serrando a porta, aos
pretextos simulações e dolo com que a malicia abusando dos casos em que os captiveiros são justos
introduz os injustos, enlaçando-se as conveniencias não somente em privar da liberdade aquelles a quem
a comunicou a natureza e que por direito natural e positivo são verdadeiramente livres, maz tambem nos
meios ilicitos de que usão para este fim;
Dezejando reparar tão grandes danos e inconvenientes e principalmente facilitar a converção de
aquelles gentios e pello que convem ao bom governo tranquilidade e conservação d'aquelle estado com
parecer dos do meo Conselho ponderada esta materia com a madureza que pedia a importancia della
examinando-se as Leys antigas e as que especialmente, sobre este particular se estabelecerão para o
Estado do Brazil a onde por muitos annos se esperimentarão os mesmos danos e inconvenientes que
ainda hoje durão e se sentem no Maranhão;
Houve por bem mandar fazer esta Ley conformando-me com a antiga de 30 de Julho de 609 e com a
Provisão que nella se refere de 5 de Julho de 605, (sic) passadas para todo o Estado do Brazil, e
renovando-a sua disposição ordeno e mando que daqui em diante se não possa cativar Indio algum do
dito Estado em nenhum caso nem ainda nos exceptuados nas ditas Leys que para este fim nesta parte
revogo e hei por derrogadas como se dellas e das suas palavras e desposições figura expressa e
declarada menção ficando no mais em seu vigor, e sucedendo que algua pessoa de qualquer condição
ou qualidade que seja, captive e mande captivar algum Indio publica ou secretamente por qualquer titulo
ou pretexto que seja, o ouvidor geral do dito Estado o prenda e tenha a bom recado, sem neste caso
conceder homenagem, alvará de fiança ou fieis carcereiros e com os autos que formar o remeta a este
Reino entregue ao Capitão ou Mestre do primeiro navio que para elle vier para nesta cidade o entregar
no Limoeiro della e me dar conta para o mandar castigar como me parecer; E tanto que o dito ouvidor
geral lhe constar do dito captiveiro porá logo em sua liberdade o dito Indio ou Indios, mandando-os para
qualquer das Aldeas dos Indios catholicos e livres que elle quizer, E para me ser mais facilmente prezente
se esta Ley se observa inteiramente mando que o Bispo e Governador d'aquelle Estado e os Prelados da
Religiões delle e os Parochos das Aldeas dos Indios medem conta pelo conselho Ultramarino e junta das
Missões dos transgressores que houver da dita ley e de tudo o que nesta materia tiverem noticia e for
conveniente para a sua observancia, E sucedendo mover-se guerra ofenciva ou defensiva a algua nação
dos Indios do dito Estado nos casos e termos em que por minhas leys e ordens é permitido os Indios que
na tal guerra forem tomados, ficarão somente prizioneiros como ficão as pessoas que se tomão nas
guerras da Europa, e somente o governador os repartirá como lhe parecer mais conveniente ao bem e
segurança do Estado pondo-os nas Aldeas dos Indios livres e catholicos aonde se possão reduzir a fé e
servir o mesmo Estado e conservarem-se na sua liberdade e com o bom tratamento que por ordens

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repetidas está mandado e de novo mando e emcomendo se lhes dê em tudo sendo severamente
castigado quem lhes fizer qualquer vexação, e com maior rigor os que lhe fizerem no tempo em que delles
se servirem por se lhe darem na regartição, Pello que mando aos Governadores, Capitãis Mores, Officiais
da Camara e mais Ministros do Estado do Maranhão de qualquer qualidade e condição que sejão a todos
em geral e a cada hum em particular cumprão e guardem esta Ley que se registará nas Camaras do dito
Estado, e por ella hey por derogadas não somente as sobreditas leys como assima fica referido, maz
todas as mais e quaesquer regimentos e ordens que haja em contrario ao disposto nesta que somente
quero que valha tenha força e vigor como nella se contem sem embargo de não ser passada pela
chancelaria, e das ordenações regimentos em contrario primeiro d'Abril de 1680.//"

Referência: Beatriz Perrone-Moisés, "Inventário da Legislação Indigenista 1500-1800", in Manuela Carneiro da Cunha
(org.), "História dos Índios no Brasil", São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Fonte: Lei. 01-04-1680, in Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Livro Grosso do Maranhão, vol.66, Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1948, pp. 57-59.
Transcrito por Rodrigo Sérgio Meirelles Marchini.

Na mesma data, foi publicado também um alvará, referente á catequese dos índios:

Alvará de 1 de abril de 1680

"Alvará sobre se consignarem aos Religiosos da Companhia de Jezus do Estado do Maranhão em


cada hum Anno dusentos e cincoenta Mil reis na renda do contrato das Baleas da Bahia e Rio de Janeiro
para sustento de vinte Missionarios.

Eu o Principe, como regente e governador dos Reinos de Portugal e Algarves. Faço saber aos que
este meu Alvará virem que pello muito que convem ao serviço de Deos e meu aplicar todos os meios
mais efficases para conversão do gentio do Maranhão, e por justos respeitos que a isso me movem e que
moverão aos Senhores Reis meus predesessores a empregarem nesta ocupacão aos relligiosos da
Companhia; Houve por bem que elles possão hir somente aquelle Sertão tratar de reduzir a fée descer e
domesticar aquelle gentio, e por que para se conseguir obra tanto do serviço de Deos hade ser necesario
maior numero de Religiosos do que até agora tinhão n'aquellas Missões assim para penetrar o Sertão
como para as residencias que nelle hande ter para cuja sustentação não bastará o que athe agora se
lhes dava por conta de minha Fazenda// Hey por bem fazer-lhes mercê /de mais/ de duzentos e cincoenta
mil reis em cada hum Anno, emquanto n'aquelle Estado do Maranhão outros bens sufficientes para sua
sustentação e gastos das Missões, consignados a metade nas rendas da Bahia e a outra a metade nas
mesmas rendas do Rio de Janeiro tudo no contrato das Baleias com declaração que o começarão a
vencer do primeiro de Janeiro deste anno prezente de 680 e que serão para sustento de 20 sugeitos que
sempre os Padres serão obrigados a ter no noviciado que tem no Maranhão alem dos que até agora tem
os quaes serão destinados para as Missões d'aquelle Estado, em que somente se empregarão, e sendo
mandados para outras partes irão outros em seu logar, e não havendo sempre o dito numero não
vencerão da dita quantia mais que o que tocar aos sugeitos que houver rateando-se devida pelo dito
numero de 20 para o que o Procurador dos Padres será obrigado mostrar certidão jurada do superior da
Caza do dito noviciado, em que declare em que numero dos sugeitos que nella ha fora dos ocupados a
outros officios, occupações e ministerios para cobrar a quantia que lhe couber, e pella certidão de hum
anno poderá cobrar no seguinte pella defficuldade que haverá em poder hir ao mesmo anno, e poderá
cobrar sem ella os primeiros trez annos, que será necessario para haver sugeitos que cheguem ao dito
numero.
Pello que mando ao meu Governador e Capitão General do Estado do Maranhão ao Mestre de Campo
General do Estado do Brasil a cujo cargo está o Governo delle e ao Governador da Capitania do Rio de
Janeiro e mais Ministros a que pertencer cumprão e guardem este Alvará muito inteiramente como nelle
se contem, sem duvida algua, o qual não passará pela chancelaria e valerá como Carta sem embargo da
ordenação do Livr. 2. tit. 39 em contrario, e se passou por duas vias.
Antonio Marreiros da Fonceca a fez em Lisboa ao 1 de Abril de 680.
O Secretario Antonio Lopes da Lavra a fez escrever.
//Principe//"

Referência: Beatriz Perrone-Moisés, "Inventário da Legislação Indigenista 1500-1800", in Manuela Carneiro da Cunha
(org.), "História dos Índios no Brasil", São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Fonte: Alvará. 01-04-1680, in Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Livro Grosso do Maranhão, vol.66, Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1948, pp. 56 e 57.
Transcrito por Rodrigo Sérgio Meirelles Marchini.

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Como visto anteriormente, de um lado existe a proteção dos índios convertidos, como em 7 de
setembro de 1696 em que por Carta Régia o Rei manda o Capitão-mor da Paraíba restituir as sesmarias
dadas aos índios que estavam esbulhadas por não-índios; em 8 de janeiro de 1697, avisado, por um
religioso, da situação de índios em processo de conversão, o Rei manda por Carta Régia dar sesmarias
aos índios; e em 4 de março de 1697, por Lei, o Rei manda que não se maltrate os índios da Capitania
do Ceará, para conservá-los na fé católica.

Do outro lado reprime-se os índios rebeldes, como em 9 de janeiro de 1697, por Carta Régia,
mandando-se conquistar as terras de uns índios resistentes e após a dominação dar a terra para outras
pessoas cultivarem; em 20 de novembro de 1699, por Carta Régia, o Rei manda aumentar o número de
escravos indígenas no Maranhão para repor os escravos mortos.

Adiantando para o final do período colonial, existe o Regimento de 10 de abril de 1804 dado ao então
Governador Geral Fernando José de Portugal e Castro, que determina que as aldeias indígenas quando
abandonadas tornavam-se devolutas, o regimento comenta que assim se fazia desde 1716.

Regimento de 23 de Janeiro de 1677 cuja execução se recomenda para 10 de abril de 1804

* transcrito parcialmente *

"Regimento que trouxe Roque da Costa Barreto, Mestre de Campo General do Estado do Brasil em
data de 23 de Janeiro de 1677 com varias observações feitas pelo actual Vice-Rei, e Capitão General de
Mar, e Terra do Estado do Brasil D. Fernando José Portugal, em cumprimento da Provisão do Conselho
Ultramarino de 30 de Julho de 1796 cuja execução se recomenda por outra de 10 de abril de 1804 em as
quaes se apontam as Ordens que tem alterado, ampliado, ou restringido alguns Capítulos do mesmo
Regimento, interpondo-se o parecer sobre os Artigos presentemente praticaveis.
-
Eu o principe como Regente e Governador dos Reinos de Portugal, e dos Algarves. Faço saber aos
que este meu Regimento virem que tendo consideração a não haver no Governo Geral do Estado do
Brasil Regimento certo por onde os Governadores delle hajam de administrar o bom Governo do dito
Estado, e convir que ora o que eu nomear o leve, e fique para os mais Governadores, que lhe succederem
o observem; e mandando ver os que havia antigos do mesmo Governo, e Ordens dos Senhores Reis
meus Predecessores, e minhas, assim pelo seu Conselho Ultramarino como em Junta de Ministros
particulares, e ultimamente pelos do meu Conselho de Estado, fui Servido resolver se fizesse para o dito
Governo o Regimento seguinte.
(...)
CAPITULO 4
A primeira causa por que os senhores Reis meus Predecessores mandaram povoar aquellas partes
do Brasil, foi porque a Gente dellas viesse ao conhecimento de nossa Santa Fé Catholica, que é o que
sobretudo desejo, e assim encommendo muito ao Dito Governadador, e ponho em primeira obrigação
que tenha nisto particular cuidado como convem, e é necessario em materia de tanta importancia, fazendo
guardar aos novamente convertidos os Privilegios, que lhe são concedios, repartindo-lhes as terras
conforme as Leis que tenho feito sobre sua liberdade, fazendo-lhes todo o mais favor que for justo, de
maneira que entendam, que em se fazerem Christãos não somente ganha o espiritual; mas tambem o
temporal, e seja exemplo para outros se conservarem, e se não consinta que a nenhums se faça
aggravos, nem vexações e fazendo-lh'as proverá o Governador conforme minhas Leis, e Provisões
avisando-me do que se fizer.
CAPITULO 5
Da mesma maneira lhe encomendo muito os Ministros que se occupam na conversão, e doutrina dos
Gentios, para que sejam favorecidos em tudo o que para este effeito for necessario, tendo com elles a
conta que é razão, fazendo-lhes fazer bom pagamento nas Ordinarias que têm de minha Fazenda para
sua sustentação; porque de todo o bom effeito que nesta materia houver, me haverei por bem servido.
(...)
CAPITULO 20
Procurará com particular cuidado guardar, e conservar a paz com o Gentio vizinho daquelle Estado
encaminhando o que tenha com os Portuguezes muita comunicação, e castigando com rigor o mau
tratamento, que se lhe fizer, como tambem ao Gentio, que for rebelde, e fizer hostilidades mandará o
Governador proceder contra elle na forma das Ordens que estão dadas; e porque um dos meios mais
convenientes, que se pode usar para a conservação da paz com o Gentio, e o domesticar com os

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Portuguezes, é o entender-se a sua lingua, dará o Governador Ordem a que se faça della vocabulario, e
se imprima para com maior facilidade se poder aprender, quando não esteja feito, como se ordenou aos
Governadores passados.
(...)"

Referência: Beatriz Perrone-Moisés, "Inventário da Legislação Indigenista 1500-1800", in Manuela Carneiro da Cunha
(org.), "História dos Índios no Brasil", São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Fonte: Documentos Historicos, vol. VI, Rio de Janeiro: Augusto Porto & C, 1928, pp. 312-466.
Transcrito por Rodrigo Sérgio Meirelles Marchini.

6.1.2. Aldeamentos indígenas

Os aldeamentos foram os locais de trabalho dos missionários, que buscavam catequizar as populações
indígenas.
Utilizados como forma de atração, os aldeamentos normalmente estavam localizados próximos às
povoações coloniais, para incentivar o contato com os portugueses.
A organização dos aldeamentos era feita de acordo com padrões “mestiços”, híbridos, de disposição
dialogal. Viviam nas aldeias índios de etnias e grupos diversos que concorriam para as mesmas de formas
variadas: resgates, descimentos, consentimento, pacificação, etc., e os missionários.
Nos aldeamentos jesuíticos os índios eram educados para viver como cristãos. Essa educação
significava uma imposição forçada de outra cultura, a cristã. Os jesuítas valiam-se de aspectos da cultura
nativa, especialmente a língua, para se fazerem compreender e se aproximarem mais dos indígenas.
Entre os vários exemplos de estudo da língua indígena para a utilização como ferramenta de conversão
é possível citar os padres José de Anchieta e António Ruiz de Montoya.
O primeiro dicionário conhecido da língua Tupi foi escrito pelo padre José de Anchieta e publicado em
1595, com o nome de “Arte de Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil”.
Anchieta, que missionou no Brasil desde 1553, notava (como seus contemporâneos) a grande
semelhança da língua falada pelos indígenas do litoral: os tupis. Em uma carta de 1584, ele observa que
todos os povos do litoral “têm uma mesma língua que é de grandíssimo bem para a sua conversão”.
Seriam assim povos cuja identidade estaria associada à língua geral, como os jesuítas chamavam o “tupi
universal” que inventaram. Ao lado da inegável semelhança de todos os dialetos tupis, o agrupamento
das diversas “castas” resolveu-se na necessidade homogeneizadora que os primeiros missionários viam
para lidar com os grupos nativos. Tratava-se de entender para transformar, compreender as culturas
indígenas para substituí-las pelo Evangelho. Os jesuítas, desde cedo, determinaram que a catequese, ou
a conquista das almas, seria mais facilmente realizada se usassem da língua dos naturais. Assim, a
Gramática da língua mais usada na costa do Brasil surge com um instrumento da conversão do indígena.
O primeiro dicionário da língua Guarani foi escrito no ano de 1639 pelo padre António Ruiz Montoya.
Publicado em Madrid, no dicionário de 814 páginas traz cerca de 8100 palavras. Não por acaso a
publicação que traduz para o castelhano recebeu o nome “Tesouro da Língua Guarani”.

Sobre a relação dos indígenas com os aldeamentos, como bem destacam Mota e Chagas13, ao tratar
das reduções jesuíticas na região do Guairá (atual paraná), os índios guarani, por seu lado, fizeram
alianças, acordos e guerras, no sentido de garantir sua liberdade. É preciso lembrar que, quando fizeram
aliança com os jesuítas, eles buscaram uma forma de não ser submetidos, por exemplo, à servidão
(encomiendas). Para entender a história da ocupação dos territórios do Guairá, é preciso considerar as
relações entre os diversos grupos: conquistadores e seus interesses, os guarani, os Kaingang (inimigos).

Com expedições denominadas de descimentos, os missionários convenciam os índios através da


retórica a descerem de suas aldeias para se juntarem a novos aldeamentos. Pela legislação, o
aldeamento garantia a liberdade indígena, no entanto, nesse ambiente, os indígenas foram forçados a
adaptar-se a novos elementos culturais, sofrendo interferência religiosa e moral. Eram obrigados a
trabalhar e por lei deveriam receber pagamento, uma nova realidade completamente diferente da sua
tradição.
Os jesuítas nunca foram contrários ao trabalho indígena e, muito menos, à sua inserção no mundo
colonial. O que eles não sustentavam era a servidão natural dos mesmos e a sua escravização, salvo por
motivo de “guerra justa”.
13
Chagas, Nádia Moreira; Mota, Lúcio Tadeu. O GUAIRÁ NOS SÉCULOS XVI E XVII – AS RELAÇÕES INTERCULTURAIS. Disponível em
http://projetos.unioeste.br/projetos/cidadania/images/stories/ArquivosPDF/biblioteca/O_Guair_nos_sec._XVI_e_XVII_.pdf

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Para os jesuítas, o objetivo final da catequização e conversão começava a mostrar seu sucesso a partir
da destruição e da perda dos costumes dos povos indígenas.
O modelo, tal como inaugurado pelos jesuítas, perdurou ao longo de todo o período colonial, embora
tenha sofrido significativas alterações com a política indigenista pombalina, inaugurada com o Diretório
dos Índios (1757-1758), que já apostava na secularização das aldeias, e reforçada após a expulsão dos
jesuítas em 1759-60.

6.1.3. Catequese jesuítica e franciscana

Companhia de Jesus

A Companhia de Jesus foi criada por Inácio de Loyola em 1534, como resposta para os movimentos
religiosos, em especial a reforma protestante e a contrarreforma, que aconteciam na Europa. Seu objetivo
era espalhar a fé católica pelo mundo.
Os primeiros representantes da Ordem jesuítica chegaram ao Brasil comandados pelo padre Manuel
da Nóbrega, no ano de 1549, em uma expedição comandada por Tomé de Souza. Após desembarcarem
na Bahia, ajudaram na fundação da cidade de Salvador, além de percorrerem as capitanias vizinhas.
O Projeto Educacional Jesuítico não era apenas um projeto de catequização, mas sim um projeto bem
mais amplo, um projeto de transformação social, pois tinha como função propor e implementar mudanças
radicais na cultura indígena brasileira.
Uma das estratégias adotadas por Manuel da Nóbrega na conversão dos gentios foi a construção de
aldeias de catequização, que se situavam próximas das vilas e cidades portuguesas. Essas aldeias eram
habitadas pelos padres jesuítas e pelos índios a serem convertidos.
No ano de 1553, José de Anchieta chega ao Brasil. Anchieta esteve à frente do Colégio na vila de São
Paulo de Piratininga, fundada em 1554. Durante seu tempo no colégio fez contato intenso com os grupos
indígenas locais, o que auxiliou na elaboração de um guia de gramática e um dicionário.
A partir da década de 1580, a missão realizava-se por meio de visitas esporádicas aos grupos
localizados nas matas. Essas visitas eram espaçadas e demoravam até quinze dias ou mais, umas das
outras, e os padres não permaneciam muito tempo entre os grupos. Devido ao segundo contato ser
sempre demorado, quando aconteciam os índios já não detinham as orientações anteriores.
Na segunda metade do século XVIII, a presença dos jesuítas no Brasil sofreu um duro golpe. Nessa
época, o influente ministro Marquês de Pombal decidiu que os jesuítas deveriam ser expulsos do Brasil
por conta da grande autonomia política e econômica que conseguiam com a catequese. A justificativa
para tal ação adveio da ocorrência das Guerras Guaraníticas, onde os padres das missões do sul
armaram os índios contra as autoridades portuguesas em uma sangrenta guerra.
Apesar desse episódio, a herança religiosa dos jesuítas ainda se encontra manifesta em vários setores
da nossa sociedade. Muitas escolas tradicionais do país, bem como várias instituições de ensino superior
espalhadas nos mais diversos pontos do território brasileiro, ainda são administradas por setores
dirigentes da Igreja Católica. Somente no século XIX, foi que as escolas laicas passaram a ganhar maior
espaço no cenário educacional brasileiro.

Educação

A história da educação no Brasil tem início com a vinda dos padres jesuítas no final da primeira metade
do século XVI, inaugurando a primeira, mais longa e a mais importante fase dessa história, observando
que a sua relevância encontra-se nas consequências resultantes para a cultura e civilização brasileiras.
Os jesuítas se dedicaram à pregação da fé católica e ao trabalho educativo. Logo perceberam que não
seria possível converter os índios à fé católica sem que soubessem ler e escrever. De Salvador a obra
jesuítica estendeu-se para o sul e, em 1570, vinte e um anos depois da sua chegada, já eram compostos
por cinco escolas de instrução elementar (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo
de Piratininga) e três colégios (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia).
A educação era privilégio das classes abastadas, pois as famílias tradicionais faziam questão de terem
um doutor (médico ou advogado) e um padre. Era usada como instrumento de legitimação da colonização,
inculcando na população ideias de obediência total ao Estado português. Os jesuítas impunham um
padrão educacional europeu, que desvalorizava completamente os aspectos culturais dos índios e dos
negros. Quanto às mulheres, mesmo das famílias mais abastadas, raramente recebiam instrução escolar,

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e esta limitava-se às aulas de boas maneiras e de prendas domésticas. As crianças escravas, por sua
vez, estavam excluídas do processo educacional, não tendo acesso às escolas.

Os Franciscanos

Ainda que não tenham sido os jesuítas os primeiros a pisar a Terra de Santa Cruz – vale lembrar que
junto com Pedro Álvares Cabral vieram os franciscanos. Essa primazia dos franciscanos, no entanto, não
legou à posteridade o mesmo alcance que tiveram os jesuítas, que durante duzentos e dez anos, a partir
da chegada em 1549 até a expulsão em 1759, detiveram o monopólio da educação.
Os frades franciscanos foram os primeiros religiosos a iniciarem o trabalho de catequese com os
indígenas e, até 1549, eram os únicos a se dedicarem a tal responsabilidade.
Apesar de terem sido os primeiros a chegar ao Brasil, os franciscanos não buscaram fundar missões
e aldeamentos, pelos menos até o final do século XIV.
Até mesmo a fundação da primeira Custódia no Brasil não foi uma iniciativa dos frades menores, pois
a ação partiu do Governador de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho que, através de um pedido
ao rei Filipe II, da União Ibérica, demonstrou o seu interesse na vinda dos frades franciscanos, alegando
intencionar um desenvolvimento material e espiritual para Pernambuco.
O custódio Frei Melchior de Santa Catarina desembarcou em Olinda no dia 12 de abril de 1585,
acompanhado por sete irmãos franciscanos: Frei Francisco de São Boaventura, Frei Francisco dos
Santos, Frei Affonso de Santa Maria, Frei Manuel da Cruz, Frei Antônio dos Martyres, Frei Antônio da Ilha
e Frei Francisco da Cruz.
Após estabelecidos, os frades iniciaram seu apostolado voltado para o confessionário e para as
pregações, buscando eliminar os hábitos considerados impróprios para cristãos. A catequese indígena
foi iniciada posteriormente, quando os colonos demonstravam interesse na escravização dos índios,
prática que não agradava os missionários. Ao lado do convento construíram um seminário, onde
ensinavam aos filhos dos índios os preceitos morais da fé católica. Sendo os índios convertidos ao
cristianismo, o desejo dos colonos em escravizar a população nativa era acalmado.
Diante do trabalho “pacificador”, desempenhado pelos franciscanos na referida comunidade é que as
demais Capitanias passam a solicitar a criação de novos conventos.
A presença de franciscanos na colônia com o objetivo de catequizar tribos indígenas não agradaram
ao jesuítas, que não admitiam dividir a catequese indígena com qualquer outra ordem religiosa.
O suposto método de doutrinação dos franciscanos era considerado menos rígido e, por isso, foi
apontado como a principal causa da rivalidade entre as duas ordens, pois muitos catecúmenos que
estiveram sob os cuidados dos jesuítas, os abandonaram na busca por aquela outra forma de catequese.
Assim, os franciscanos não só enfrentaram os ciúmes dos jesuítas, como este sentimento fez surgir
contendas entre eles, a ponto de causar embaraços no desenvolvimento da cristianização indígena e da
própria colonização portuguesa, como aconteceu na cidade de Filipéia de Nossa Senhora das Neves,
gerando ainda escândalos entre os colonos residentes.

6.2. História do Brasil-Império.


6.2.1. Rebeliões do Período Regencial e participação indígena

Em muitas partes do império a insatisfação com o governo cresceu muito, levando alguns grupos a
apelarem para a luta armada e a revolta como forma de protesto.

Cabanagem (1833-1840)
A Cabanagem foi uma revolta que ocorreu entre 1833 e 1839, na região do Grão-Pará, que
compreende os atuais estados de Amazonas e Pará. A revolta começou a partir de pequenos focos de
resistência que aumentaram conforme o governo tentava sufocar os protestos, impondo leis mais rígidas
e a obrigação de participação no exército daqueles que fossem considerados praticantes de atos
suspeitos. A cabanagem contou com grande participação da população pobre, principalmente os
Cabanos, pessoas que viviam em cabanas na beira dos rios. Os revoltosos tomaram a cidade de Belém,
porém foram derrotados pelas tropas imperiais.

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Revolução Farroupilha (1835-1845)
A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos foi uma revolta promovida por grandes proprietários
de terras no Rio Grande do Sul, conhecidos como estancieiros. O objetivo de seus líderes era de separar-
se do restante do país.
A revolta começa pelo descontentamento de produtores do sul do país em relação à produtores
estrangeiros de Charque, principalmente os platinos e argentinos que comercializavam e concorriam com
os estancieiros pelo mercado do produto no Brasil, utilizado principalmente na alimentação de escravos.
Em 1835, insatisfeitos com o governo, os estancieiros iniciam a revolta, tendo Bento Gonçalves como
principal chefe do movimento, comandando as tropas farroupilhas que dominaram Porto Alegre. Com as
vitórias obtidas foi proclamado um governo independente em 1836, conhecido como Republica do Piratini,
com Bento Gonçalves como presidente.
Em 1839, o movimento farroupilha conseguiu ampliar-se. Forças rebeldes, comandadas por Giuseppe
Garibaldi e Davi Canabarro, conquistaram Santa Catarina e proclamaram a República Juliana. A revolta
consegue ser contida somente após a coroação de D. Pedro II e os esforços do Barão de Caxias,
encerrando os conflitos em 1 de março de 1845.

Revolta dos Malês (1835)


Em Salvador, nas primeiras décadas do século XIX, os negros escravos ou libertos correspondiam a
cerca de metade da população. Pertenciam a vários grupos étnicos, culturais e religiosos, entre os quais
os muçulmanos – genericamente denominados malês -, que protagonizaram a Revolta dos Malês, em
1835.
O exército rebelde era formado, em sua maioria, por “negros de ganho”, escravos que vendiam
produtos de porta em porta e, ao fim do dia, dividiam os lucros com os senhores. Podiam circular mais
livremente pela cidade que os escravos das fazendas, o que facilitava a organização do movimento. Além
disso, alguns conseguiam economizar e comprar a liberdade. Os revoltosos lutavam contra a escravidão
e a imposição da religião católica, em detrimento da religião muçulmana.
A repressão oficial resultou no fim da Revolta dos Malês, que teve muitos mortos, presos e feridos.
Mais de quinhentos negros libertos foram degredados para a África.

Sabinada (1837-1838)
A Sabinada ocorreu na Bahia, com o objetivo de implantar uma república independente. Foi liderada
pelo médico Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, e por isso ficou conhecida como Sabinada. O
principal objetivo da revolta era instituir uma república baiana, mas só enquanto o herdeiro do trono
imperial não atingisse a maioridade legal. Diferentemente de outras revoltas ocorridas no período, a
sabinada não contou com o apoio das camadas populares e nem com os grandes proprietários rurais da
região, o que garantiu ao exército imperial uma vitória rápida.

Balaiada (1838-1841)
A Balaiada ocorreu no Maranhão, em 1838, e recebeu esse nome devido ao apelido de uma das
principais lideranças do movimento, Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, o "Balaio", conhecido por ser
um vendedor do produto.
A Balaiada representou a luta da população pobre contra os grandes proprietários rurais da região. A
miséria, a fome, a escravidão e os maus tratos foram os principais fatores de descontentamento que
levaram a população a se revoltar.
A principal riqueza produzida na província, o algodão, sofria forte concorrência no mercado
internacional, e com isso o produto perdeu preço e compradores no exterior. Além da insatisfação popular,
a classe média maranhense também se encontrava descontente com o governo imperial e suas medidas
econômicas, encontrando na população oprimida uma forma de combatê-lo.
Os revoltosos conseguiram tomar a cidade de Caxias em 1839 e estabelecer um governo provisório,
com medidas que causaram grande repercussão, como o fim da Guarda Nacional e a expulsão dos
portugueses que residiam na cidade.
Com a radicalização que a revolta tomou, como a adesão de escravos foragidos, a classe média que
apoiava as revoltas aliou-se ao exército imperial, o que enfraqueceu bastante o movimento e garantiu a
vitória 1841, com um saldo de mais de 12 mil sertanejos e escravos mortos em batalhas. Os revoltosos
que acabaram presos foram anistiados pelo imperador.

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6.2.2. Indianismo e romantismo

Cultura

D. Pedro II foi um grande apreciador das ciências e das artes. Diferente do cenário político, onde
apresentava-se poucas vezes, geralmente no início e no fim dos trabalhos na câmara, o monarca teve
um influente papel na produção cultural e na fabricação da identidade brasileira.
D. Pedro era frequentador assíduo das reuniões do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB),
que tornou-se um centro produtor de literatura e outros trabalhos intelectuais, sob a proteção do
imperador. Já no ano de 1838, havia sido convidado a tornar-se “protetor” da instituição, e em 1839
ofereceu uma das salas do paço imperial para as reuniões do Instituto.
No campo literário, o romantismo predominou, com a exaltação da figura indígena, apontado como
elemento importante da cultura brasileira, porém descrito a partir de traços europeizados e
representações de passividade perante o domínio dos brancos. A obra O Guarani, publicada em 1857
por José de Alencar, é um exemplo dessa representação. O índio Peri é retratado como um herói, que
luta contra outras tribos indígenas rebeldes e antropófagas (praticantes de algumas formas de
canibalismo). Outros autores também produziram obras centradas na figura do indígena, como Gonçalves
Dias em I-Juca-Pirama, e Gonçalves de Magalhães em A Confederação dos Tamoios.
No campo artístico, as obras do pintor Victor Meireles buscavam também retratar um indígena passivo
em relação aos portugueses, porém heroico e símbolo de martírio. Dois exemplos dessa representação
estão nas obras abaixo:

A Primeira Missa no Brasil, 1861. Museu Nacional de Belas Artes.

A obra A Primeira Missa no Brasil demonstra os indígenas em situação de passividade, curiosos com
o povo estranho que acabara de chegar em seus territórios, executando um ritual religioso. Nenhum
indígena opõe-se à realização da missa, mesmo sendo totalmente diferente de suas crenças ou
costumes. A cruz aparece como elemento central na composição da imagem, com o objetivo de afirmar
a fé católica.

Moema, 1866. Museu de Arte de São Paulo

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Apesar de ser índia, Moema, representada na obra de 1866, possui pela extremamente clara, quase
branca. O quadro é uma interpretação do conto Caramuru, do frei Santa Rita Durão, escrito em 1781.
Moema, apaixonada por Caramuru, resolve atirar-se ao mar quando o português está regressando para
a Europa. Incapaz de alcançar o barco, a índia acaba morrendo afogada, em uma inocente busca por seu
amor. O corpo de Moema, já sem vida na praia, está envolto por uma natureza mística e exuberante.

6.2.3. Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios

6.2.3. Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios.14

A criação das Diretorias Gerais e Parciais dos Índios por todo o território brasileiro foi originada por
meio do Regulamento das Missões de Catequese e Civilização dos Índios criado pelo Decreto n° 426 de
24 de julho de 1845
As Diretorias dos Índios tinham como responsabilidade as mediações entre os índios e os Governos
Imperial e Provincial.

Segundo o Regulamento, cada Província teria um Diretor Geral de Índios, nomeado pelo Imperador
que deveria interagir com o respectivo Presidente da Província para algumas questões, como por
exemplo, requisitar os objetos que o Governo Imperial enviasse para os índios, a fim de distribuí-los pelos
Diretores das Aldeias e pelos Missionários (§ 10 do artigo 1º). Com relação à Assembleia Provincial,
deveria propor “a criação de Escolas de primeiras Letras para os lugares, onde não baste o Missionário
para este ensino” (§ 18 do artigo 1º). As Aldeias eram controladas por um Diretor, nomeado pelo Diretor
Geral.
Tanto o Governo Imperial e quanto o Governo Provincial seriam juridicamente responsáveis pela
Diretoria. Essa divisão de responsabilidade apenas aconteceu a partir do Ato Adicional de 12 de agosto
de 1834, que alterou a constituição e, dentre outros, criou as Assembleias Legislativas Provinciais,
delegando-lhes competências legislativas e materiais, ou seja, competência de editar leis e de colocá-las
em prática, incluindo a de elaborar as leis orçamentárias (artigo 10, §§ 5º e 6º) e a de “[p]romover,
cumulativamente com a assembleia e o governo geral, a organização da estatística da província, a
catequese, a civilização dos indígenas e o estabelecimento de colônias” (artigo 11, § 5º).

Na Província de São Paulo, o Diretor Geral dos Índios nomeado pelo Imperador foi o Brigadeiro José
Joaquim Machado de Oliveira, que, por sua vez, deveria nomear diretores leigos para cada aldeia
indígena da província.
Machado de Oliveira se posicionava a favor da vertente que via a catequese e civilização como saída
do estado de barbárie, contrariando aqueles que não acreditavam ser possível qualquer mudança. Mesmo
que o Regulamento das Missões fosse um passo a favor dessa vertente, ainda assim, era composto por
ideias bastante diversificadas.
O aldeamento de Itariri chama atenção, por ser um dos poucos que Machado de Oliveira considerava
ter dado certo. Ele foi criado em 21 de janeiro de 1847, no município de Iguape, porque, segundo o diretor
geral, existiram famílias de indígenas Guarani Nhandeva, que deixaram as matas, em 1837 e ali se
asilaram, vivendo do trabalho braçal onde era este exigido, e talvez sob a condição de escravos.

Abaixo está reproduzido o decreto na íntegra:

Decreto nº 426, de 24 de Julho de 1845

Contêm o Regulamento ácerca das Missões de catechese, e civilisação dos Indios.

Hei por bem, Tendo ouvido o Meu Conselho de Estado, Mandar que se observe o Regulamento
seguinte:

Art. 1º Haverá em todas as Provincias um Director Geral de Indios, que será de nomeação do
Imperador. Compete-lhe:
§ 1º Examinar o estado, em que se achão as Aldêas actualmente estabelecidos; as occupações
habituaes dos lndios, que nellas se conservão; suas inclinações e propensões; seu desenvolvimento
14
http://www.ambienteterra.com.br/paginas/indio/seusdireitos.html

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industrial; sua população, assim originaria, como mistiça; e as causas, que tem influido em seus
progressos, ou em sua decadencia.
§ 2º Indagar os recursos que offerecem para a lavoura, e commercio, os lugares em que estão
collocadas as Aldêas; e informar ao Governo Imperial sobre a conveniencia de sua conservação, ou
remoção, ou reunião de duas, ou mais, em uma só.
§ 3º Precaver que nas remoções não sejão violentados os Indios, que quizerem ficar nas mesmas
terras, quando tenhão bem comportamento, e apresentem um modo de vida industrial, principalmente de
agricultura. Neste ultimo caso, e emquanto bem se comportarem, lhes será mantido, e ás suas viuvas, o
usufructo do terreno, que estejão na posse de cultivar.
§ 4º Indicar ao Governo Imperial o destino que se deve dar ás terras das Aldêas que tenhão sido
abandonadas pelos Indios, ou que o sejão em virtude do § 2º deste artigo. O proveito, que se tirar da
applicação dessas terras, será empregado em beneficio dos Indios da Provincia.
§ 5º Indagar o modo por que grangeão os Indios as terras, que lhes tem sido dadas; e se estão
occupadas por outrem, e com que titulo.
§ 6º Mandar proceder ao arrolamento de todos os Indios aldeados, com declaração de suas origens,
suas linguas, idades, e profissões. Este arrolamento será renovado todos os quatro annos.
§ 7º Inquerir onde ha Indios, que vivão em hordas errantes; seus costumes, e linguas; e mandar
Missionarios, que solicitará do Presidente da Provincia, quando já não estejão á sua disposição, os quaes
lhes vão pregar a Religião de Jesus Christo, e as vantagens da vida social.
§ 8º Indagar se convirá fazel-os descer para as Aldêas actualmente existentes, ou estabelecel-os em
separado; indicando em suas informações ao Governo Imperial o lugar onde deve assentar-se a nova
Aldêa.
§ 9º Diligenciar a edificação de Igrejas e de casas para a habitação assim dos Empregados da Aldêa,
como dos mesmos Indios.
§ 10. Distribuir pelos Directores das Aldêas, e pelos Missionarios, que andarem nos lugares remotos,
os objectos que pelo Governo Imperial forem destinados para os Indios, assim para a agricultura, ou para
o uso pessoal dos mesmos, como mantimentos, roupas, medicamentos, e os que forem proprios para
attrahir-lhes a attenção, excitar-lhes a curiosidade, e despertar-lhes o desejo do trato social; requisitando-
os do Presidente da Provincia, segundo as Instrucções que tiver do Governo Imperial.
§ 11. Propôr ao Presidente da Provincia a demarcação, que devem ter os districtos das Aldêas, e
fazer demarcaras terras que, na fórma do § 15 deste artigo e do § 2º, forem dadas aos Indios. Se a AIdêa
já estiver estabelecida, e existir em lugar povoado, o districto não se estenderá além dos limites das terras
originariamente concedidas á mesma.
§ 12. Examinar quaes são as Aldêas que precisão de ser animadas com plantações em commum, e
determinar a porção de terras que deve ficar reservada para essas plantações, assim como a porção das
que possão ser arrendadas, quando, attenta ainda a pequena população, não possão os Indios aproveital-
as todas.
§ 13. Arrendar por tres annos as terras, que para isso forem destinadas, procedendo ás mais miudas
investigações, sobre o bom comportamento dos que as pretenderem, e sobre as posses que tem. Nestes
arrendamentos não se comprehende a faculdade de derrubar matos, para o que será necessario o
consenso do Presidente, que será expresso no contracto, com declaração dos lugares onde os possão
derrubar.
§ 14. Examinar quaes são as Aldêas, onde, pelo seu adiantamento, se possão aforar terras para casas
de habitação; informar ao Governo Imperial com o quantitativo do fôro; e aforal-as segundo as
Instrucções, que receber. Não são permittidos aforamentos para cultura.
§ 15. Informar ao Governo Imperial ácerca daquelles Indios, que, por seu bom comportamento e
desenvolvimento industrial, mereção se lhes concedão terras separadas das da Aldêa para suas
grangearias particulares. Estes Indios não adquirem a propriedade dessas terras, senão depois de doze
annos, não interrompidos, de boa cultura, o que se mencionará com especialidade nos relatorios annuaes;
e no fim delles poderão obter Carta de Sesmaria. Se por morte do concessionario não se acharem
completos os doze annos, sua viuva, e na sua falta seus filhos, poderão alcançar a sesmaria, se, além do
bom comportamento, e continuação de boa cultura, aquella preencher o tempo que faltar, e estes a
grangearem pelo duplo deste tempo, com tanto que este nem passe de oito annos, e nem seja menos de
quinze o das diversas posses.
§ 16. Dar licença ás pessoas que quizerem ir negociar nas Aldêas novamente creadas, com
estabelecimento ou fixo, ou volante; e retiral-a, quando o julgar conveniente. Quanto ás que já estão
estabelecidas, examinará quaes as que estão nas circumstancias de precisarem desta protecção; e as
declarará sujeitas a esta disposição, com dependencia de approvação Imperial.

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§ 17. Representar ao Presidente da Provincia a necessidade que possa haver de alguma força militar,
que proteja as Aldêas, a qual poderá ter um Regulamento especial.
§ 18. Propor á Assembléa Provincial a creação de Escolas de primeiras Letras para os lugares, onde
não baste o Missionario para este ensino.
§ 19. Empregar todos os meios licitos, brandos, e suaves, para atrahir Indios ás Aldêas; e promover
casamentos entre os mesmos, e entre elles, e pessoas de outra raça.
§ 20. Esmerar-se em que lhes sejão explicadas as maximas da Religião Catholica, e ensinada a
doutrina Christã, sem que se empregue nunca a força, e violencia; e em que não sejão os pais violentados
a fazer baptisar seus filhos, convindo attrahil-os á Religião por meios brandos, e suasorios.
§ 21. Cuidar na introducção da vaccina nas Aldêas, e facilitar-lhes todos os soccorros nas epidemias.
§ 22. Corresponder-se com os Missionarios, de quem receberá todos os esclarecimentos para a
catechese e civilisação dos Indios, providenciando no que couber em suas faculdades; e com todas as
Autoridades, por quem possa ser auxiliado.
§ 23. Vigiar na segurança, e tranquillidade das Aldêas, e seus districtos, requerendo, ou constituindo
procurador para requerer perante as Justiças, e requisitando das Autoridades competentes as
providencias necessarias.
§ 24. Indagar se nas Aldêas, e seus districtos, morão pessoas de caracter rixoso, e de máos costumes,
ou que introduzão bebidas espirituosas, ou que tenhão enganado aos Indios com lesão enorme; e fazel-
as expulsar até cinco leguas fóra dos limites dos districtos.
§ 25. Informar-se dos meios de subsistencia, que tem as Aldêas, para providenciar que não
sobrevenha alguma fome, que seja causa de que os Indios abalem para os matos, ou se derramem pelas
Fazendas, e Povoações.
§ 26. Promover o estabelecimento de officinas de Artes mecanicas, com preferencia das que se
prestão ás primeiras necessidades da vida; e que sejão nellas admittidos os Indios, segundo as
propensões, que mostrarem.
§ 27. Indagar quaes as producções do lugar de mais facil cultura, e de mais proveito; esmerando-se
em fazer adoptar aquelle genero de trabalho, e modo de vida, que offereça mais facilidade, e a que os
Indios mais promptamente se acostumem.
§ 28. Exercer toda a vigilancia em que não sejão os Indios constrangidos a servir a particulares; e
inquerir se são pagos de seus jornaes, quando chamados para o serviço da Aldêa, ou qualquer serviço
publico; e em geral que sejão religiosamente cumpridos de ambas as partes os contractos, que com elles
se fizerem.

§ 29. Vigiar que não sejão os Indios avexados com exercicios militares, procurando que se lhes dê
aquella instrucção, que permittir o seu estado de civilisação, suas occupações diarias, e seus habitos e
costumes, os quaes não devem ser aberta, e desabridamente contrariados.
§ 30. Fiscalizar as rendas das Aldêas, quaesquer que sejão as suas fontes; e exercer vigilante
inspecção sobre as producções das lavouras, pescas, e extracções de drogas, e de outro qualquer ramo
de industria, e em geral sobre todos os objectos destinados para o uso, e consumo das Aldêas.
§ 31. Applicar os dinheiros, e outros quaesquer objectos, segundo as necessidades das Aldêas, e na
conformidade das ordens do Governo Imperial, dando uma conta circumstanciada todos os annos, e todas
as vezes que uma urgente necessidade o obrigue a fazer alguma despeza extraordinaria, da applicação,
que houver resoluto.
§ 32. Servir de Procurador dos Indios, requerendo, ou nomeando Procurador para requerer em nome
dos mesmos perante as Justiças, e mais Autoridades.
§ 33. Propôr ao Presidente da Provincia o Director da Aldêa, o Thesoureiro, Almoxarife e o Cirurgião,
preferindo-se para estes empregos os casados aos solteiros; suspender os tres ultimos, e em geral a
todos os que estão empregados no serviço das Aldêas, nomeando interinamente quem os substitua, e
dando parte immediatamente ao Presidente, ou ao Director da Aldêa, segundo pertencer a nomeação ao
primeiro, ou ao segundo.
§ 34. Organizar a Tabella dos vencimentos dos Pedestres, e dos salarios dos officiaes de officios, que
estiverem ao serviço das Aldêas; e leval-a ao conhecimento do Governo Imperial para sua approvação.
§ 35. Approvar, e mandar pôr em execução provisoriamente a Tabella, organizada pelos Directores
das Aldêas, dos jornaes, que devem ganhar os Indios, que forem chamados para o serviço das mesmas,
ou qualquer outro serviço publico; levando-a ao conhecimento do Governo Imprial para sua final
approvação.
§ 36. Propor ao Governo Imperial os Regulamentos especiaes para o regimes das Aldêas, e as
instrucções convenientes para o desenvolvimento de sua industria; tendo attenção ao estado de
civilisação dos Indios, sua indole, e caracter; ás necessidades dos lugares, em que se acharem ellas

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estabelecidas; ás produções do Paiz, e ás proporções, que o mesmo offerece para o seu adiantamento
moral, e material.
§ 37. Apresentar todos annos ao Governo Imperial o Orçamento da receita e despeza das Aldêas, e
um Relatorio circumstanciado do seu estado em população, instrucção, e industria, com exposição miuda
da execução das disposições deste Regulamento; exigindo dos Directores das Aldêas outros iguaes, que
o habilitem a esclarecer o Governo sobre os progressos, ou decadencia das mesmas, e as causas, que
para isso tem concorrido; e apontando as providencias, que convenha ser adoptadas.
§ 38. Expor ao Governo Imperial os inconvenientes, que tenha encontrado na execução deste
Regulamento, e de outros, que houver de fazer; indicando as medidas, que julgar apropriadas para se
conseguir o grande fim da catechese, e civilisação dos Indios.

Art. 2º Haverá em todas as Aldêas um Director, que será de nomeação do Presidente da Provincia,
sobre proposta do Director Geral. Compete-lhe:
§ 1º Informar ao Director Geral a necessidade, que possa haver de trabalhos em commum, e a
natureza destes; assim como sobre a parte dos productos desses trabalhos, que deva reservada para o
uso commum dos Indios.
§ 2º Designar as terras, que devem ficar reservadas para as plantações em comum, depois de
determinada a porção, que o deve ser pelo Director Geral; assim como as que devem ficar para as
plantações particulares dos Indios, e as que possão ser arrendadas, art. 1º § 2º.
§ 3º Inspeccionar essas plantações ou outros quaesquer trabalhos da Aldêa; e procurar consumo aos
seus productos, depois de feitas as reservas necessarias.
§ 4º Nomear quem substitua o Thesoureiro, ou Almoxarife, nos impedimentos imprevistos, e de caso
repentino.
§ 5º Nomear os Indios para as plantações, ou outros trabalhos em commum, ou para qualquer serviço
publico; procurando repartir o trabalho com igualdade, e ir de accordo, quanto ser possa, com o Maioral
dos mesmos Indios.
§ 6º Fazer entregar ao Thesoureiro, ou Almoxarife, os productos dos trabalhos dos Indios, os objectos
obtidos em troca dos que forem vendidos, o dinheiro pertencente á Aldêa, qualquer que seja sua origem,
e em geral todos os objectos destinados para a aldêa.
§ 7º Distribuir os objectos, que forem applicados pelo Director Geral para os trabalhos communs, e
particulares dos Indios; e os que forem destinados para animar, e premiar os Indios já aldeados, e attrahir
os que ainda o não estejão.
§ 8º Applicar os dinheiros, e mais objectos, segundo as determinações do Director Geral; podendo,
em casos urgentes, gastar, sob sua responsabilidade, do dinheiro, que houver em caixa, até a quantia de
cem mil réis, de que dará conta ao mesmo Director para sua approvação.
§ 9º Nomear, suspender, e despedir os Pedestres, e officiaes de officios, que estiverem ao serviço da
AIdéa, e determinar o serviço, que devem fazer.
§ 10. Vigiar sobre a segurança, e tranquilidade da Aldêa, e seu districto; podendo, em caso, menores,
reter em prisão, até seis dias, o que a perturbar, sendo Indio; e não sendo, fazel-o expulsar para fóra da
Aldêa, e até do seu districto: e em casos maiores, prender e remetter ás Justiças ordinarias com todas as
indicações que esclareção a verdade.
§ 11. Requerer ás Autoridades policiaes contra os que, tendo sido expulsos em virtude do paragrapho
antecedente, ou do § 24 do art. 1º, se estabelecerem dentro dos limites declarados no Mandado de
despejo, ou não queirão obedecer a este.
§ 12. Ter debaixo de suas ordens a força militar que se houver de mandar collocar na Aldêa, e seu
districto; representando a necessidade, que della possa haver, ao Director Geral, conformando-se com
as instrucções que receber e com o Regulamento especial do § 17 do art. 1º.
§ 13. Alistar os Indios, que estiverem em estado de prestar algum serviço militar, e acostumal-os a
alguns exercicios, animando com dadivas aos que mostrarem mais gosto e zelo pelo serviço, e tendo
todo o cuidado em que não se desgostem por excesso de trabalho. Dará uma conta circumstanciada ao
Director Geral das disposições que encontrar para ser levada ao conhecimento, do Governo Imperial, que
resolverá sobre, a opportunidade de se crearem algumas Companhias, as quaes poderão ter uma
organização particular.
§ 14. Procurar que sejão demarcadas as terras dadas aos indios, e proceder á demarcação das
porções das mesmas, que, em virtude deste Regulamento, tenhão de ser demarcadas dentro dos seus
limites.
§ 15. Esmerar-se em que as festas tanto civis como religiosas se fação com a maior pompa, e
apparato, que ser possa; procurando introduzir nas Aldêas o gosto da musica instrumental.

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§ 16. Servir de Procurador dos Indios, podendo nomear quem faça as suas vezes para requerer
perante as Justiças, e outras Autoridades.
§ 17. Dar parte todos os trimestres ao Director Geral dos acontecimentos mais notaveis na Aldêa, e
fazer um relatorio annual do estado em que se ela acha, com declaração da execução, que tem tido as
disposições deste Regulamento, e com o orçamento da receita e despeza para o anno seguinte.
§ 18. Exercer as funcções do art. 1º, desde o § 1º até o § 9º, e desde o § 19 até o § 30; entendendo-
se que suas faculdades são restrictas á Aldêa de que é Director; e que em lugar do Presidente, ou
Governo Imperial, deve dirigir-se ao Director Geral da Provincia.

Art. 3º Ao Thesoureiro compete:


§ 1º Receber os dinheiros pertencentes a Aldêa, qualquer que seja a origem d'onde provenha,
recolhendo-os em uma caixa, de que o Director da Aldêa terá uma chave; assim como receber todos os
objectos, que forem destinados para o serviço, e uso da Aldêa.
§ 2º Ter a seu cargo a escripturação, e contabilidade, para o que terá os livros proprios, fornecidos
pela Fazenda Publica.
§ 3º Ajudar ao Director da Aldêa na sua correspondencia, particularmente na confecção dos mappas
estatisticos.
§ 4º Fazer os pagamentos, e entregar os objectos, que estiverem debaixo de sua guarda, segundo as
ordens que receber do Director Geral, e as determinações do Director da Aldêa.
§ 5º Dar todos os annos uma conta circumstanciada ao Director Geral de todos os dinheiros e objectos
que houver recebido; dos empregos, que fez; e das ordens que os autorizárão.
§ 6º Escrever em todos os actos, que houverem de ser remettidos ás Justiças, e nos termos das
demarcações das porções de terras, a que houver de proceder o Director da Aldêa dentro dos limites das
terras da Aldêa.
§ 7º Substituir o Director da Aldêa em seus impedimentos imprevistos, e de caso repentino dando
parte immediatamente ao Director Geral para prover interinamente.

Art. 4º Quando o estado da Aldêa não exiba um Tesoureiro, um Almoxarife receberá todos os objectos
que forem destinados para a Aldêa, e os entregará segundo as ordens do Director da mesma, dando
annualmente conta ao Director Geral; e o Director da Aldêa receberá os dinheiros que á mesma
pertencerem.

Art. 5º O Cirurgião tem a seu cargo a botica, e os instrumentos cirurgicos; e cuidará da enfermaria
com um Enfermeiro, que será um dos Pedestres, que proporá ao Director da Aldêa.

Art. 6º Haverá um Missionario nas Aldêas novamente creadas, e nas que se acharem estabelecidas
em lugares remotos, ou onde conste que andão Indios errantes. Compete-lhe:
§ 1º Instruir aos Indios nas maximas da Religião Catholica, e ensinar-lhes a Doutrina Christã.
§ 2º Servir de Parocho na Aldêa, e seu districto, emquanto não se crear parochia.
§ 3º Fazer o arrolamento de todos os Indios pertencentes á Aldêa, e seu districto, com declaração dos
que morão nas Aldêas, e fóra dellas; dos baptisados, idades e profissões; e dos nascimentos, e obitos, e
casamentos: para o que lhe serão fornecidos os livros pelo Bispo Diocesano, pela caixa das Obras Pias.
§ 4º Dar parte ao Bispo Diocesano, por intermedio do Director Geral da Provincia, do estado espiritual
da Aldêa; representando as necessidades que encontrar e apontando as providencias que lhe parecerem
mais proprias para occorrer a ellas.
§ 5º Representar ao Director Geral, por intermedio do da Aldêa, a necessidade que possa haver de
outro Missionario, que o ajude, principalmente se houver nas vizinhanças Indios errantes, que seja mister
chamar á Religião e sociedade.
§ 6º Ensinar a ler, escrever e contar aos meninos, e ainda aos adultos, que sem violencia se
dispuzerem a adquirir essa instrucção.
§ 7º Substituir ao Director da Aldêa, quando esteja impedido o Thesoureiro, e nos casos, em que este
o póde substituir.

Art. 7º A creação de Thesoureiro, Almoxarife, cirurgião, dependerá do estado, em que se achar a


Aldêa, e da sua importancia; e do lugar, em que estiver collocada: sobre o que o Director Geral informará
ao Governo Imperial para resolver. O Cirurgião poderá servir de Thesoureiro, e as circumstancias o
permittirem. Seus vencimentos, e os dos Missionarios serão fixados segundo as informações dos
Directores Geraes.

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Art. 8º A creação dos Pedestres e officiaes de officios; seu numero, salario, organização, e a natureza
dos officios, dependeráõ das circumstancias locaes, segundo as informações dos Directores Geraes.

Art. 9º As informações, de que trata o artigo; antecedente, as do art. 7º, e as do art. 1º §§ 2º, 4º, 8º,
14, 15, 16, 34, 35, 36, e 37, serão transmittidas ao Governo Imperial por intermedio do Presidente da
Provincia, que as acompanhará com as observações convenientes.

Art. 10. Nos impedimentos do Director Geral o Presidente da Provincia nomeará quem o substitua; e
nos impedimentos do Director da Aldêa, que não serão imprevistos, e de caso repentino, fará a nomeação
o Director Geral.

Art. 11. Emquanto servirem, terão a graduação honoraria o Director Geral de Brigadeiro, o Director da
Aldêa de Tenente Coronel, e o Thesoureiro de Capitão; e usaráõ do uniforme, que se acha estabelecido
para o Estado Maior do Exercito.

José Carlos Pereira de Almeida Torres, Conselheiro de Estado, Ministro e Secretario de Estado dos
negocios do Imperio, assim o tenha entendido e faça executar despachos necessarios.

Palacio do Rio de Janeiro em vinte e quatro de Julho de mil oitocentos quarenta e cinco; vigesimo
quarto da Independencia e do Imperio.

Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.

José Carlos Pereira de Almeida Torres.

6.2.4. Lei de Terras (1850)

A política agrária durante o período colonial brasileiro esteve baseada na concessão de sesmarias, um
regime de doações de terras utilizado pela coroa portuguesa, cujo objetivo seria estimular a ocupação do
território e estender o alcance da ação civilizatória. A historiografia registra que esse sistema de
ordenação territorial, que condicionava a efetiva ocupação e o tratamento produtivo do agraciado às terras
recebidas como condição necessária para a manutenção da propriedade, foi ao longo do tempo alvo de
inúmeras alterações em seus dispositivos legais, refletindo as diferentes realidades históricas que se
impunham aos gestores das políticas públicas.
D. João VI, tentando ordenar a distribuição das sesmarias e reconhecendo que ordens suas e
determinações anteriores sobre os limites das sesmarias concedidas estavam sendo desrespeitadas
amplamente, tornando-se foco de litígios entre os proprietários de terra, suspendeu em 1809 a emissão
de novas concessões até que as medições fossem regularizadas por funcionários a serem designados
para todas as vilas do país.
No mesmo alvará, o monarca ressaltava a importância estratégica do tema para a agenda Real: “(...)
para que se ajunte, tanto quanto se possa, o interesse do Bem Público no aumento da Agricultura, e
Povoação desse vastíssimo Estado, que muito Desejo promover, e adiantar, com a segurança, os
Sagrados Direitos da Propriedade, de cuja ofensa resultaria o despovoamento das terras, e a
despovoação”.
A sesmaria era o principal meio legal de apropriação das terras, em geral destinada a cidadãos com
influência junto à burocracia estatal. A menção de denúncias sobre abuso e ilegalidades ocorridas na
distribuição e manutenção das sesmarias não é rara na historiografia. No entanto, entre a obtenção de
uma sesmaria e sua efetiva ocupação, não era incomum a ocorrência de hiato temporal relativamente
longo, extrapolando inclusive a previsão legal. Como exemplo, sesmarias concedidas no início de 1800
na área do atual município de Leopoldina, que em poucas décadas se consolidaria como uma das
principais cidades da região da Zona da Mata Mineira, só começaram a ser efetivamente ocupadas
décadas depois, e mesmo assim por familiares do titulares. Com a independência do Brasil, o sistema de
posses tornou-se o único no país até o advento da lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, que dispunha
sobre as terras devolutas do império, legitimando as sesmarias e posses anteriormente constituídas,
desde que cultivadas.
Como parte dos acordos firmados entre Brasil e Inglaterra depois que a antiga colônia de Portugal
adquiriu sua independência, estava a exigência da abolição do trabalho escravo, medida que beneficiava

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largamente os interesses ingleses. Apesar do comprometimento brasileiro em acabar com a escravidão
em 5 anos (antes de 1830), a primeira medida expressiva do país nesse sentido concretizou-se apenas
em 4 de setembro de 1851, com a lei Nº 581, conhecida como Lei Eusébio de Queiroz.
A lei proibia o tráfico negreiro no Brasil, e criminalizava a prática como ato de pirataria para aqueles
que nela insistissem.
Como consequência da proibição do tráfico de escravos, que constituíam a quase totalidade da mão-
de-obra no país, os cafeicultores do sudeste tiveram de importar escravos de dentro do território,
especialmente da região Nordeste, que passava por um período de decadência.
Poucos dias depois da aprovação da lei Eusébio de Queiroz, foi aprovada outra lei, que ficou conhecida
como Lei de Terras.
Com o objetivo de garantir a posse de terras nas mãos dos grandes proprietários rurais, especialmente
os produtores de café, a lei Nº 601, de 18 de setembro de 1850 tinha a pretensão de regulamentar as
terras ditas devolutas, ou seja, terras desocupadas, na visão desses grandes proprietários (vale lembrar
que essas terras, apesar de declaradas desocupadas eram habitadas por indígenas, vistos como
selvagens e algo um pouco além de animais, e por posseiros que não possuíam títulos de posse
das terras).

Além disso, a criação da lei pretendia


- Estabelecer a compra como única forma de obtenção de terras públicas. Desta forma, inviabilizou os
sistemas de posse ou doação para transformar uma terra em propriedade privada.
- O governo imperial pretendia arrecadar mais impostos e taxas com a criação da necessidade de
registro e demarcação de terras. Esses recursos tinham como destino o financiamento da imigração
estrangeira, voltada para a geração de mão-de-obra, principalmente, para as lavouras de café. Vale
lembrar que o tráfico de escravos já era uma realidade que diminuía cada vez mais a disponibilidade de
mão-de-obra escrava.
- Dificultar a compra ou posse de terras por pessoas pobres, favorecendo o uso destas para fins de
produção agrícola voltada para a exportação. Este objetivo foi alcançado pelo governo, pois esta lei
provocou o aumento significativo nos preços das terras no Brasil.
- Favorecer os grandes proprietários rurais, que passavam a ser os únicos detentores dos meios de
produção agrícola, principalmente a terra, no Brasil.
- Tornar as terras um bem comercial (fonte de lucro), tirando delas o caráter de status social derivado
da simples posse.

6.2.5. Extinção dos aldeamentos e esbulho das terras indígenas

Fonte: Trabalho Apresentado no Simpósio Temático “Os Índios e o Atlântico”,


XXVI Simpósio Nacional de História da ANPUH. PEDRO ABELARDO DE SANTANA.
Disponível em: http://www.ifch.unicamp.br/ihb/SNH2011/TextoPedroAbelardo.pdf

A abordagem da história indígena que trata da ação e reação dos índios ao Regulamento das Missões,
é assunto de alguns estudos recentes. Este é o viés que pretendo seguir na minha investigação, da qual
faço um breve apanhado neste artigo.
A cobiça pelas terras indígenas foi intensa na segunda metade do século XIX em várias Províncias do
Brasil, tanto da parte de particulares como do Estado. Negando-se a existência de índios, afirmando-se
que estavam misturados e que não existia mais nenhum em estado “puro”, considerava-se as suas terras
devolutas, ou justificava-se a ocupação ilegal delas por parte de particulares. Estes em Sergipe eram
fazendeiros e senhores de engenho.
No ano de 1851, o Presidente da Província de Sergipe, Amancio João Pereira de Andrade, afirmou
“Por essa informação verá V. Ex. que não existem Índios selvagens nesta Provincia”. A informação foi
dirigida à Assembleia Legislativa e repetia frase já constante em vários relatórios anteriores de outros
Presidentes. Nos anos subsequentes a mesma cantilena é repetida. Por traz deste discurso havia um
interesse, o de declarar a inexistência de índios e tornar as suas terras devolutas e a disposição para
outros projetos do Estado brasileiro. (Relatório do Presidente da Província de Sergipe, 19/07/1851)
O acesso as terras dos índios ou usurpação na visão de alguns estudiosos estava em curso e a
aprovação de Lei de Terras em 1850 acelerou este processo. Na prática, a Lei de Terras promoveu a
institucionalização de mecanismos que burlaram o direito dos índios sobre suas terras e provocaram o
“desaparecimento” indígena. Dois conjuntos de legislação surgidos um após o outro, o Regulamento das
Missões (1845) e a Lei de Terras, levaram a integração forçada do índio e a incorporação de suas terras,

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fazendo com que o governo justificasse o “desaparecimento” dos índios. Entretanto, estes resistiam a
incorporação à população regional e a tomada das terras e reapareciam. Estudando o Ceará, João Leite
Neto diz que a “extinção” foi “uma construção da história oficial, visando atender os interesses dos
poderes locais”. (NETO, 2006: 158-60).
Eram cinco os aldeamentos sergipanos que alcançaram o século XIX: Gerú, Água Azeda, Japaratuba,
Pacatuba e São Pedro do Porto da Folha.
Localizado próxima ao Rio Real, o Aldeamento de Geru foi fundado em 1666 para reunir índios Kiriri.
Ao longo de sua história consta a catequese jesuítica, conflitos com fazendeiros e a transformação em
Vila. Quando se tornou Vila, um crescente número de brancos passou a ocupar suas terras com a
obrigação de pagar pelo uso delas. Mas, observamos durante a primeira metade do século XIX uma série
de atritos entre índios e posseiros, cujos motivos se relacionavam com a ocupação da terra dos índios
sem o pagamento devido.
O Aldeamento de São Felix de Pacatuba foi fundado por capuchinhos franceses no final do século
XVII. Reuniu índios Carapotós, Caxagó e Natu. Tornou-se Vila no século XIX. Século em que a população
era de setecentos índios, que se dedicavam à caça e pesca. (SOUZA, 1944: 41-42). A partir de 1835,
passou-se a negar a existência de índios e ganharam vulto os conflitos, tendo como causa a presença de
posseiros brancos e negros. As autoridades são dúbias, ora negando, ora atestando existir “um pequeno
número de índios” completamente civilizados e misturados com a população. Os índios não se
conformaram com a usurpação de seus domínios e procuraram as vias legais para retomá-los apelando,
inclusive, ao Imperador em 1873. (Oficio do juiz Casemiro de Sena Madureira. Vila Nova, 04/03/1872.
APES. Fundo G1, Pacote 1304; Oficio de Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão. Aracaju,
26/04/1873. APES. Fundo G1, Pacote 07).
O Aldeamento ou “Missão de Nossa Senhora do Carmo de Japaratuba” foi constituído pelos
capuchinhos franceses em meados do século XVII, aglutinando índios dispersos nos vales dos rios
Japaratuba, Lagartixos e Siriri. No século XVIII, os frades carmelitas ocuparam a Missão. Reuniu grupos
de Caacicas, Boimé e Tupinambá. (DANTAS, 1983-87: 43-5). Foi administrada conjuntamente por
capuchinhos e carmelitas. Sobre a Missão de Japaratuba, o contemporâneo Marcos Antonio de Souza
fala que os índios viviam “errantes e por serem imorigerados servem de muito gravame aos seus
vizinhos”. Fica evidente o conflito com os proprietários dos arredores, que invadiram as terras indígenas.
(SOUZA, 1944: 37-8). Era habitada em 1825 por cerca de 213 moradores. Em 1854 foi transformada em
Freguesia. Em 1859 passou a ser Vila. (MOTT, 1986: 35)
São Pedro do Porto da Folha, um aldeamento na margem do rio São Francisco, principiou em meados
do século XVII, reunindo índios Aramuru e posteriormente outras etnias como Uruma, Carapotós, Romaris
e Xocó. (DANTAS; DALLARI, 1980: 22) Tiveram conflitos com o religioso que os administrava. Em 1859,
denunciaram frei Doroteu de Loreto, seu missionário, por arrendar as terras à revelia dos seus interesses
e não repassar o dinheiro. O padre disse que a revolta dos índios era devido a não reconhecê-lo como
Diretor e porque ele castigava no tronco os desordeiros e aqueles que o afrontavam. (Ofício do frei
Doroteu de Loreto, Porto da Folha, 19/11/1859. APES. Fundo G1, pacote 1890).
Os índios dos cinco aldeamentos sergipanos já estavam envolvidos em conflitos com os proprietários
da sua vizinhança quando ocorreu a aprovação da Lei de Terras. Anteriormente também já era negada a
existência de índios em Sergipe e já se mostrava o interesse de se apossar das suas terras. No período
as autoridades demonstram o interesse de promover a solução do problema da mão-de-obra no País
através da imigração, que também serviria para ocupar as áreas desabitadas. Em 1836, assim se
expressa o Presidente da Província: “A palavra Colonização para os brasileiros, Senhores, deve ser hoje
sinônimo de prosperidade, e segurança; de prosperidade, porque sem braços de nada valem os nossos
fertilíssimos terrenos”. As terras dos índios já são listadas no período como devolutas: “Terrenos existem
devolutos nas margens do Rio Real, onde se podem estabelecer Colônias, assim como nos terrenos das
antigas Aldeias, hoje desocupadas”. O projeto de colonização através de imigrantes não se concretizou
em Sergipe, mas fez parte dos planos progressistas de vários administradores. (Relatório do Presidente
da Província de Sergipe, 1836).
Em 1844, o presidente da Província de Sergipe criou uma Diretoria Geral de Índios, com um diretor
geral e um diretor para cada aldeia. Decisão confirmada pelo Regulamento das Missões um ano após. A
duração desta Diretoria foi curta, pois sua extinção ocorreu em 6 de abril de 1853, pelo decreto nº 1.139.
O decreto é bem resumido, diz: “Não existindo na Província de Sergipe Índios que estejam nas
circunstancias previstas no Decreto nº 426 (...) Hei por bem suprimir a Diretoria Geral dos Índios da
mesma Província”. Um aldeamento continuou com um diretor parcial. Mas, a partir desta extinção, os
índios perderam o direito a terra. Uma questão para ser investigada é se as terras ficaram com os índios
como propriedade individual ou foram vendidas para não índios. Segundo o Regulamento das Missões
as terras das aldeias extintas deveriam ser dadas plenamente aos índios, mas houve momento em que

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elas ficaram sob o poder das Câmaras Municipais, das províncias e depois dos estados. (CUNHA, 1992:
218-21).
Após a aprovação da lei de terras são extintos aldeamentos em Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo,
Ceará, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, com base no argumento da mestiçagem.
Anteriormente já havia esta prática com a remoção de índios para outros aldeamentos. Beatriz
Dantas diz que se admitia a existência de índios em Sergipe até a década de quarenta e que na década
de cinquenta sob o argumento da mestiçagem as autoridades negam esta existência, pedem a extinção
das aldeias e a incorporação das terras aos bens da nação. Entretanto, este parece ser um discurso dúbio
das autoridades, porque nos Relatórios dos presidentes da Província posteriores, ainda se fala em índio,
em mestiço e em missões. É claramente um discurso contraditório das autoridades. (DANTAS, 1991: 51-
53).
Foi o Ceará a primeira província a negar a existência de índios em 1850, afirma Isabelle Silva. O
presidente da província no relatório de 1863 afirma “já não aqui índios aldeados ou bravios”, em outro
trecho continua que acham-se “descendentes destes confundidos na massa da população civilizada”.
Segundo a autora, esses trechos serviram como “decreto da extinção”, repetindo falas anteriores de
outros presidentes. Desde 1850 já estava autorizado o sequestro e “incorporação aos próprios nacionais”
das terras indígenas. Trata-se de um discurso contraditório, pois o Estado, por outro lado, legitimou as
posses de muitos índios, fez empréstimos aos índios, fundou aldeias e utilizou mão-de-obra indígena. O
conceito de indianidade traçado justificou a expropriação de muitas terras indígenas, mas não de todas
porque a documentação mostra a continuidade das lutas dos índios. (SILVA, 2009: 3-4).
Entretanto, predominou o discurso da extinção dos índios. No novo critério de indianidade ser
misturado na população equivalia a não ser índio, acarretando a dissolução do aldeamento e a perda dos
direitos territoriais. Este processo começou com a Coroa portuguesa e continuou com a Lei de Terras.
Mas, no Ceará, no século XIX, os índios existiam, lutaram e mantiveram tradições, conclui Isabelle Silva.
Edson Hely Silva associa o discurso oficial sobre o desaparecimento dos índios à emergência do
caboclo, nova identidade que negava a indígena e evitava perseguições. O caboclo teria sido fruto de um
processo de miscigenação racial e integração cultura na visão de alguns estudiosos. Citando
Pernambuco, nos apresenta um personagem da literatura, João Mundu, do conto “O caboclo” escrito por
Estevao Pinto em 1922. O personagem é descrito como tendo avos cariris ou sucurus, que faziam arcos
e tacapes. Ele representa o caboclo residente do interior. Posteriormente o termo caboclo será
amplamente utilizado para designar os “remanescentes indígenas”. (SILVA, 2008: 29-31 e 48).
Em relação a Sergipe, os conflitos de terra entre índios e fazendeiros estavam em efervescência. Em
diversos momentos do século XIX os índios se revoltaram. A reação dos índios aos ataques sobre suas
terras se deu de diversas formas. Em Geru, iniciaram um processo de abandono da povoação, fugindo
para as matas próximas, onde fundaram a povoação denominada Chapada. A evasão para a Chapada
foi uma forma encontrada para evitar o conflito. Entretanto, eles não desistiram da sua antiga aldeia.
Fizeram várias reclamações ao Presidente da Província cobrando as rendas de suas terras. Esses
episódios demonstram a luta dos índios para manter a sua identidade, diante de posseiros e autoridades
que insistiam em negar a existência deles, como aconteceu em 1851, quando o Presidente afirmou não
haver mais “um só índio”. (Ofício do Presidente da Província. 24.3.1851. Arquivo Público do Estado de
Sergipe. Fundo G1, Pac. 243).
Ocorreram outras formas de protestar contra as arbitrariedades cometidas contra os índios. É o caso
dos índios da Aldeia de Água Azeda que tinham sido transferidos para a Aldeia de Geru por volta de 1826.
Eles não aceitam esta medida e retornam para o seu antigo habitat. Também os índios de São Pedro do
Porto da Folha viajam ao Rio de Janeiro para falar com o Imperador. Abandono de aldeias e a entrevista
com o Imperador não foram estratégias só dos índios sergipanos, em outras províncias do Nordeste isso
foi comum. (DANTAS, 1991: 4851).
Os índios da Aldeia de Pacatuba mostravam-se mobilizados desde 1826, quando recorreram às armas
para defender seus interesses e invadiram a cadeia de Vila Nova, em protesto contra a substituição do
diretor capuchinho por um diretor fazendeiro. A invasão teve como finalidade libertar o seu principal líder
destinado a seguir, compulsoriamente, para o Rio de Janeiro a serviço da Marinha. A motivação da prisão
foi à terra da Missão que era ambicionada pelo proprietário de um engenho vizinho. Este conseguiu
nomear um parente para Diretor da aldeia, provocando a rebelião dos índios. (DANTAS, 1992: 448). Para
defender o seu Sargento-mor, Serafim José Vieira, que se encontrava preso, cerca de duzentos e
cinquenta índios invadiram a cadeia portando armamentos tradicionais como arco e flechas. Eles também
foram ajudados por outros senhores de engenho. (Ofício de Bento de Melo Pereira para o Vice-Presidente
da Província. Vila Nova, 19/12/1826. APES. Fundo G1, Pacote 2208).
Há relatos de insatisfação também no Aldeamento de São Pedro do Porto da Folha. No decorrer do
século 19 aconteceram diversas mudanças no aldeamento. Após a saída dos capuchinhos e a criação da

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Freguesia em 1821, a população branca em São Pedro era significativa, enquanto os brasílicos se
retraíam as outras etnias e os mestiços aumentavam. Em 1825 habitavam nesse lugarejo mais de 70%
de não-índios (brancos, pardos e pretos), que se dedicavam à criação de gado e à pequena lavoura.
(DANTAS, 1980: 156-7). No final do século o próprio missionário informava que não existiam
“propriamente índios selvagens”, mas sim indivíduos domesticados vivendo da lavoura e do fabrico de
potes e panelas. Essa população, em 1872 tinha se reduzido mais ainda devido a uma epidemia de cólera,
entretanto devemos desconfiar das fontes porque elas deixam patente o desejo de extinguir as etnias
nativas em nome da nacionalidade brasileira. (Ofício do frei Doroteu de Loreto. São Pedro, 24/02/1872.
APES, Fundo G1, pacote 1304).
Diante deste quadro de conflitos, o Governo Imperial pensou em soluções para resolver a questão
indígena. Uma das soluções era a retomada da catequese, defendida pelo Ministro dos Negócios. Para
isso, mandou vir oito padres capuchinhos da Europa. Ele via nos índios uma solução para a falta de mão-
de-obra. Portanto, os padres deveriam se dirigir para os sertões mais distantes onde residiam nações
“mais bárbaras e ferozes”, cuidar da catequese e educação destes. Em 1844, um destes missionários foi
enviado para Sergipe. O papel dos religiosos era colocar em prática a política de assimilação dos índios,
transformando-os em mão-de-obra. (PARAISO, 1998: 498-512).
Pretendo investigar melhor o alcance entre os índios de Sergipe do Regulamento das Missões e da
Lei de Terras. Principalmente duas questões, a atuação dos Diretores de aldeia e o destino das terras
das aldeias. Com quem elas ficaram? Temos ciência de que os índios lutaram contra a usurpação das
terras dos aldeamentos e contra a extinção dos mesmos. O Regulamento de 1845 permitia que leigos
administrassem as aldeias e estas passaram a ser entendidas como uma transição para a “assimilação”
dos índios. Em 1853, foi extinta a Diretoria Geral de Índios de Sergipe, mas continuaram existindo
diretores de aldeias. Entretanto, nas décadas seguintes a mesma medida foi estendida para outras
Províncias. A extinção da Diretoria significou a interrupção da nomeação de diretores e missionários e da
aplicação de verbas, em seguida ocorreu a venda das terras dos aldeamentos.
Patrícia Sampaio estudou o Regulamento acerca das missões de catequese e civilização dos índios,
estabelecido pelo Decreto nº 426 de 24 de julho de 1845, concluindo que se trata de uma legislação fruto
do desejo de encontrar uma solução final para a questão do índio. A solução encontrada foi ação
missionária para catequizar e civilizar os índios. Esta ficou a cargo dos capuchinhos, que entre 1829 e
1840 estiveram de fora da catequese. Portanto, os barbadinhos, à serviço do Estado, foram os
responsáveis pela execução do Regulamento. A autora discorda que o Regulamento tenha sido a única
legislação sobre os índios do século XIX. Afirma que a partir da extinção do Diretório dos Índios emergiram
várias soluções alternativas para as diferentes realidades locais. Em sua opinião, excetuando a Amazônia
Portuguesa, o Diretório continuou vigorando no Brasil até 1822. E, após 1834 as Assembleias passaram
a legislar sobre os índios. (SAMPAIO, 2008: 2-10).
O Regulamento das Missões previa para os aldeamentos escolas, incentivo aos ofícios e a produção
de alimentos visando a sua “auto sustentação”. Uma novidade presente nele é a regulamentação do
arrendamento por três anos e o aforamento, apenas para morar, das terras dos índios. É uma
unanimidade historiográfica que o Regulamento foi um desastre para os índios e consolidou a
expropriação de suas terras.
No tocante aos tramites administrativos previsto pelo Regulamento das Missões, o diretor geral se
comunicava com o Ministério dos Negócios e com o presidente da Província. Já o Diretor de aldeia
apresentava relatórios anuais ao Diretor Geral e tinha poder de polícia. Uma diretoria podia ter várias
aldeias sobre sua jurisdição. Em Sergipe, desde 1848 havia um Diretor Geral de Índios ocupando. Dois
anos após quem estava no cargo era Gonçalo Paes
Barboza Madureira. Pretendo investigar melhor a atuação destes diretores. De acordo com
Patrícia Sampaio, em 1845 somente tinham diretores gerais as seguintes províncias: Pará,
Ceará, Goiás, Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. No mesmo ano, Paraíba e Rio Grande do Norte
diziam “os índios estão confundidos com o resto da população, habitando Vilas sujeitas às autoridades
civis”. (SAMPAIO, 2008: 16-18).
A simultaneidade entre o Regulamento das Missões e a questão da terra é um assunto tratado por
Kaori Kodama. Explica que primeiro a catequese visou a expansão da fé, mas depois objetivou a
expansão e garantia do território do Império português. No século XIX busca-se o preenchimento
populacional do território do Império brasileiro, ocorrendo assim, a vinculação entre a política de terras e
a política de aldeamentos. Pela nova legislação as terras das aldeias podiam ser aforadas, o Diretor de
índios podia decidir sobre a extinção, remoção ou reunião de duas ou mais aldeias. Desta forma, as
aldeias eram encaradas numa situação de transitoriedade e as suas terras podiam ser dissolvidas,
através da compra por particulares ou simplesmente pela usurpação e apropriação ilegal delas.
(KODAMA, 2005: 241-243).

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A Lei de Terras aprovada em 1850 e regulamentada em 1854 não teve uma “aplicação rigorosa” até
1875 segundo o Ministro da Agricultura, devido aos interesses políticos do Império. A lei previa a
demarcação das terras públicas, mas os problemas políticos da época impediam tal ação. A lei contrariava
fazendeiros coibindo apropriações abusivas e irregulares de terras. Como a legitimação da posse e
revalidação dos títulos passava pelos presidentes de província, que julgavam os processos questionando
a propriedade, as decisões podiam ser flexibilizadas. Como se obtinha a propriedade?
Em várias partes do país houve apropriações abusivas de terras públicas por meio da falsificação de
documentos. Uma questão interessante é saber como isso ocorreu em Sergipe com as terras dos índios.
Ocorreram também processos judiciais, ou ações de esbulho, onde o invasor era acionado para
desocupar as terras. Para se ter título de propriedade era preciso comprovar “cultura efetiva” e morada
habitual. Em relação aos aldeamentos de Sergipe, é importante investigar se os índios receberam títulos
de propriedade. (CHRISTILLINO, 2010: 217-31).
Os responsáveis pela conservação das terras públicas era o juiz municipal, os delegados e
subdelegados distritais. No Sul do Brasil muitos juízes municipais eram controlados pelos chefes rurais,
por isso, estes (grileiros) não eram denunciados. O cargo de delegado de polícia podia ser ocupado por
um grileiro. Já o cargo de subdelegado sempre esteve nas mãos das elites rurais. No Sul, tanto a elite
fundiária quanto pequenos posseiros recorreram ao processo de legitimação de terras. Uma consulta aos
livros de registros de terra do Arquivo Público de Sergipe pode dar pistas sobre as terras dos aldeamentos.
Cito este estudo de Cristiano Christillino porque ele dá algumas pistas sobre o acesso à terra e os conflitos
entre particulares e índios. (CHRISTILLINO, 2010: 233-36).

6.3. Brasil-República e indigenismo.


6.3.1. Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI)

SERVIÇO DE PROTEÇÃO AOS ÍNDIOS (SPI) Instituição criada pelo decreto nº 8.072, de 20 de junho
de 1910 com o nome de Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais
(SPILTN). Tinha por tarefa a pacificação e proteção dos grupos indígenas, bem como o estabelecimento
de núcleos de colonização com base na mão de obra sertaneja. As duas instituições foram separadas em
6 de janeiro de 1918 pelo decreto Lei nº 3 454, e a instituição passou a ser denominada SPI. O SPI foi
extinto em 1967 quando da criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
A origem do SPI estava nas redes sociais que ligavam os integrantes do Ministério da Agricultura,
Indústria e Comércio (MAIC), Apostolado Positivista no Brasil e Museu Nacional, pois o MAIC previu
desde a sua criação a instituição de uma agência de civilização dos índios. As atividades das Comissões
de Linhas Telegráficas em Mato Grosso deram notariedade a Cândido Mariano da Silva Rondon. Ele e
outros militares positivistas que integravam redes de relações políticas regionais e nacionais (Bigio, 2003),
vinculadas a instituições civis e aparelhos governamentais, sediados na Capital Federal, se envolveram
numa polêmica pública relativa à “capacidade ou não de evolução dos povos indígenas” (Lima, 1987, p.
172). A partir de 1908, Rondon propôs que fosse criada uma agência indigenista do Estado brasileiro
tendo por finalidades: a) estabelecer de uma convivência pacífica com os índios; b) garantir a
sobrevivência física dos povos indígenas; c) estimular os índios a adotarem gradualmente hábitos
“civilizados”; d) influir “amistosamente” na vida indígena; e) fixar o índio à terra; f) contribuir para o
povoamento do interior do Brasil; g) possibilitar o acesso e a produção de bens econômicos nas terras
dos índios; h) empregar a força de trabalho indígena no aumento da produtividade agrícola; i) fortalecer
as iniciativas cívicas e o sentimento indígena de pertencer à nação brasileira (Lima, 1987).
As iniciativas do SPI envolviam a intervenção na vida indígena através de um ensino informal, a partir
das necessidades criadas, evitando-se influenciar a organização familiar. O objetivo era impedir conflitos
entre diferentes povos enquanto o SPI introduzia inovações culturais, prevendo possíveis mudanças nos
locais de habitação dos índios. Foram estimuladas mudanças no trabalho indígena com a difusão de
novas tecnologias agrícolas e o ensino da pecuária, além da arregimentação de índios para os trabalhos
de conservação das linhas telegráficas (Lima, 1987).
A experiência de Rondon no trato com povos indígenas e suas ideias positivistas sobre os índios,
convergentes com os projetos de colonização e povoamento definidos na criação do MAIC, originaram o
convite que o tornou primeiro diretor do SPI. Dessa forma, foi instaurado um novo poder estatizado que
assegurava o controle legal das ações incidentes sobre os povos indígenas. Esse poder foi formalizado
na malha administrativa do SPI, a partir de um código legal (regimentos, decretos, código civil, etc.).

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Para a administração da vida indígena foi formalizada uma definição legal de índio, através do Código
Civil de 1916 e do Decreto nº 5.484, de 1928. Os indígenas tornaram-se tutelados do Estado brasileiro,
um direito que implicava num aparelho administrativo único, mediando as relações índios – Estado –
sociedade nacional. A terra, a representação política e o ritmo de vida foram administrados por
funcionários estatais, com os índios adotando uma indianidade genérica (Oliveira, 2001).

Os indigenistas do SPI trabalharam em diferentes tipos de postos indígenas (de atração, de criação,
de nacionalização, etc.), assim como em povoações e centros agrícolas. Dependendo de recursos
financeiros e políticos, o SPI adotou um quadro funcional heterogêneo, envolvendo desde militares
positivistas a trabalhadores rurais sem qualquer formação. A pedagogia nacionalista empregada por
esses agentes controlava as demandas indígenas, mas podia resultar em situações de fome, doenças e
de população, contrárias aos objetivos do Serviço.

A ação do SPI foi marcada por contradições identificadas como "paradoxos indigenistas" (Oliveira,
1988), pois tinha por objetivo respeitar as terras e a cultura indígena, mas agia transferindo índios e
liberando territórios indígenas para colonização, impondo uma pedagogia que alterava todo o sistema
produtivo indígena.

As iniciativas do SPI envolviam a intervenção na vida indígena através de um ensino informal, a partir
das necessidades criadas, evitando-se influenciar a organização familiar. O objetivo era impedir conflitos
entre diferentes povos enquanto o SPI introduzia inovações culturais, prevendo possíveis mudanças nos
locais de habitação dos índios. Foram estimuladas mudanças no trabalho indígena com a difusão de
novas tecnologias agrícolas e o ensino da pecuária, além da arregimentação de índios para os trabalhos
de conservação das linhas telegráficas (Lima, 1987).
De 1910 a 1930, o SPI fez parte do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio; de 1930 a
1934, esteve ligado ao Ministério do Trabalho; de 1934 a 1939, foi integrado ao Ministério da Guerra,
como parte da Inspetoria de Fronteiras; em 1940 voltou ao Ministério da Agricultura e, mais tarde, passou
para o Ministério do Interior. Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI) com
o objetivo de atuar como órgão formulador e consultor da política indigenista brasileira. A ideia seria a de
que o SPI daí por diante teria somente atribuições executivas, o que não ocorreu. A atuação do SPI se
concentrou na pacificação de grupos indígenas em áreas de colonização recente. Em São Paulo, Paraná,
Espírito Santo, Mato Grosso e outras regiões foram instalados postos indígenas. Após a consolidação da
pacificação eram feitas negociações com os governos estaduais para a criação de reservas de terras
para a sobrevivência física dos índios. Progressivamente eram introduzidas atividades educacionais
voltadas para a produção econômica e ações destinadas a atender as condições sanitárias dos índios. O
SPI buscou garantir a posse de terras aos índios através da concessão de terras devolutas. Inúmeras
propostas foram feitas pelo SPI de criação de terras indígenas e que foram negadas pelos governos
estaduais. Nos postos indígenas eram instalados oficinas mecânicas, engenhos de cana de açúcar e
casas de farinha, e os índios treinados em diversos ofícios. As crianças eram enviadas as escolas dos
postos, sendo que estas também recebiam filhos de colonos de empregados dos postos e crianças da
população vizinha, o que permitia um processo de integração da população. O SPI enfrentou durante toda
a sua existência problemas de carência de recursos e dificuldades de qualificação de seu pessoal. A
atuação do órgão acabou por gerar resultados opostos a sua proposta. Eram frequentes as denúncias de
casos de fome, doenças, assassinatos e escravização. No início da década de 1960, sob a acusação de
genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI). O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os escalões.
Em 1967, durante o regime militar, o SPI e o CNI foram extintos e substituídos pela Fundação Nacional
do Índio (FUNAI).
A ação do SPI foi marcada por contradições identificadas como “paradoxos indigenistas” (Oliveira,
1988), pois tinha por objetivo respeitar as terras e a cultura indígena, mas agia transferindo índios e
liberando territórios indígenas para colonização, impondo uma pedagogia que alterava todo o sistema
produtivo indígena.

As intervenções do SPI
As principais iniciativas do SPI desde sua criação estavam voltadas para a pacificação e
sedentarização de grupos indígenas em áreas de colonização recente. Em São Paulo, Paraná, Espírito
Santo, Mato Grosso e outras regiões, foram instaladas equipes de atração e inúmeros postos indígenas.
Os inspetores do órgão aplicavam a técnica de contato difundida por Rondon, mantendo atitudes
defensivas até estabelecer amizade com os índios e consolidar a pacificação. A partir de então, era

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estabelecida uma negociação com os governos estaduais na tentativa de garantir uma reserva de terras
para a sobrevivência física dos índios. De forma progressiva, introduziam-se atividades educacionais
voltadas para a produção econômica e atendiam-se, precariamente, às condições sanitárias dos índios.

Atração e pacificação
As táticas e técnicas de contato com povos indígenas, empregadas nas atividades de atração e
pacificação do SPI, foram paulatinamente desenvolvidas por Rondon, no âmbito das Comissões de
Linhas Telegráficas, desde o final do século XIX. Eram práticas filiadas a uma longa genealogia que tinha
origem nos contatos dos jesuítas com os povos indígenas desde o séc. XVI.
Uma das principais táticas, em um cerco pacífico de povos indígenas (Lima, 1995), era a de identificar-
se como amigo, isto é, como um interlocutor de confiança. Nas atividades de atração foram adotadas as
seguintes técnicas
1. A turma de atração deveria ser constituída por trabalhadores esclarecidos a respeito dos problemas
do contato;
2. Chefe da equipe experiente no trato com os índios
3. Participação de índios do mesmo tronco linguístico dos índios arredios para trabalharem como guias
e intérpretes;
4. Equipe de atração instalada dentro do território indígena;
5. Construção de um posto indígena protegido, além da plantação de roçado;
6. Exploração das redondezas do posto indígena, conhecendo matas, rios e tapiris;
7. Exibição de armas de fogo, diante de qualquer ataque de índios hostis, demonstrando que a equipe
tinha poderio que não seria usado contra o grupo;
8. Instalação de tapiris com presentes, distribuindo-se os índios intérpretes pelas matas. As trocas de
presente estabeleciam a fase inicial de “namoro” com os índios arredios;
9. Após o contato inicial, a pacificação era consolidada com ampla confraternização. Entretanto, se
houvesse algum incidente grave, poderia ocorrer o colapso da atividade de atração
Todas essas táticas e técnicas foram reduzidas pelo SPI a normas padronizadas de ação em qualquer
atividade de atração, ignorando-se as especificidades de cada caso (Freire, 2005). Elas estão sintetizadas
nas 37 instruções de procedimentos em frentes de atração, elaboradas em 1943 pela Inspetoria do
Amazonas e Acre, ou nas normas difundidas pelos boletins internos do SPI (Freire, 2005).
As práticas de atração estabeleciam tais normas desde o início dos trabalhos de institucionalização do
SPI. As pacificações eram realizadas em regiões conflituadas, com servidores feridos ou mortos nessas
atividades. Entretanto, quase não há informações disponíveis sobre índios mortos, no pós-contato, na
história do SPI. O que ocorreu com os Kayapó do Pará após as atrações comandadas pelo sertanista
Francisco Meirelles, no final dos anos 50, revela as limitações das técnicas adotadas pelo SPI, pois
morreram centenas de índios devido a doenças, fome e falta de assistência .
Além de seguir as normas rondonianas de pacificação, os inspetores do SPI adotavam iniciativas
arriscadas para os índios. Era o caso de duas técnicas empregadas pelo sertanista Francisco Meirelles:
a invasão de aldeias ou de acampamentos indígenas e o deslocamento dos índios para longe de suas
terras no pós-contato (Freire, 2005). A invasão intimidava os índios, tendo sido utilizada entre os Pakaa
Nova e subgrupos Kayapó. O deslocamento causava mortandade, porque, em geral, não havia
assistência sanitária nem comida na nova área indígena. Rondon também transferiu índios Arití (MT) de
suas terras, acreditando beneficiá-los.

As terras dos índios

A assistência aos índios pelo SPI devia "garantir a efetividade da posse dos territórios ocupados por
índios e, conjuntamente, do que neles se contiver, entrando em acordo com os governos locais, sempre
que for necessário" (Oliveira, 1947, p. 93). O objetivo era o MAIC (Ministério da Agricultura, Indústria e
Comércio) buscar junto aos governos estaduais a legalização dessas posses, confirmando antigas
concessões de terras e obtendo terras devolutas para as povoações indígenas.
A legislação indigenista interna ao SPI garantia direitos que só começaram a ser formalizados na
Constituição de 1934. Os Estados sempre dificultaram a cessão de terras devolutas para o domínio da
União. Tratavam as terras dos índios como devolutas, mesmo após a Constituição de 1934, que, pela 1ª
vez, estabeleceu o respeito à "posse de terras de silvícolas que nelas se achem permanentemente
localizados, sendo-lhes, no entanto, vedado aliená-las" (Brasil, 1993, p. 17). Foi um conflito de
competências que atravessou a história do SPI e só foi encerrado, em 1973, com o Estatuto do Índio.
Áreas propostas para futura demarcação como reserva indígena, como a do projeto do Parque
Indígena do Xingu (1952), foram consideradas pelo governo de Mato Grosso terras devolutas, sendo

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invadidas e registradas por particulares. No cômputo geral, o SPI reservou pequenas áreas de terras que
funcionaram mais como reserva de mão-de-obra indígena do que como estímulo à reprodução do modo
de vida tradicional dos índios.

Assistência sanitária
A disseminação de doenças e a ocorrência de epidemias para as quais os povos em guerra ou
dominados tinham baixa imunidade contribuiu para a conquista dos povos indígenas do Brasil na época
colonial. O contágio da varíola, gripe, tuberculose, pneumonia, coqueluche, sarampo e outras viroses
levaram à dizimação de inúmeros povos indígenas, à mortandade de milhares de índios. Nas primeiras
décadas do século XX, essa realidade não foi alterada: nos grupos recém-contatados pelo SPI, aldeias
inteiras foram destruídas por doenças pulmonares. Ao causar alta mortalidade, o pós-contato iniciava o
desequilíbrio das condições de sobrevivência de um povo que já enfrentava doenças endêmicas como
verminoses e malárias, passando a conviver com a desnutrição, a dificuldade de produção de alimentos
e a falta de cuidados sanitários.
O SPI dificilmente conseguia controlar, estabilizar e melhorar a condição sanitária de povos indígenas
que enfrentavam surtos epidêmicos. Em campo, no início dos anos 50, o antropólogo Darcy Ribeiro foi
testemunha da morte de dezenas de índios Urubu Kaapor dizimados por sarampo e coqueluche (Brasil.
SPI, 1953; 1954). Os postos indígenas possuíam alguns medicamentos, mas a maioria de seus
encarregados era leiga em assistência sanitária.

Assistência educacional
Dos antigos aldeamentos missionários aos postos indígenas do SPI, a alfabetização de crianças e
adultos indígenas visava consolidar a sedentarização de um povo. Esse processo pedagógico envolvia
cultos cívicos, aprendizado de trabalhos manuais, técnicas da pecuária e novas práticas agrícolas.
Pressupunha também novos cuidados corporais, como o uso de vestimentas e o ensino de práticas
higiênicas.
Os postos indígenas instalavam oficinas mecânicas, engenhos de cana e casas de farinha, treinando
os índios em diversos ofícios, além de investir na educação para transformar os índios em trabalhadores
nacionais (Lima, 1995). Desde o século XIX, crianças indígenas eram enviadas para as escolas de
artífices existentes nas capitais estaduais como ocorreu em Manaus na gestão do SPI (Freire, 2007).
A política de “nacionalização” dos índios esteve presente em quase todos os postos, onde a professora
das crianças indígenas era quase sempre a esposa do encarregado, orientando essas crianças para a
integração à população regional à medida que aceitavam também como alunos os filhos de colonos, dos
empregados do posto e de fazendas vizinhas. Essas escolas não se diferenciavam das escolas rurais, do
método de ensino precário à falta de formação do professor, predominando a formação de índios como
produtores rurais voltados para o mercado regional.
Má gestão, falta de recursos, corrupção funcional foram alguns dos motivos que levaram à extinção
do SPI em 1967, dando origem à Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

O fim do SPI
Embora a história do SPI tenha sido marcada pela influência de figuras proeminentes e comprometidas
com o destino dos povos indígenas, sua atuação não era a regra. Permanentemente carente de recursos,
o órgão acabou por envolver de militares a trabalhadores rurais que não possuíam qualquer preparação
ou interesse pela proteção aos índios. Suas atuações à frente dos Postos Indígenas de todo o país
acabaram por gerar resultados diametralmente opostos a esta proposta. Casos de fome, doenças,
depopulação e escravização eram permanentemente denunciados. No início da década de 1960, sob
acusações de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI). O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os
escalões (Oliveira e Freire, 2006: 131). Em 1967, em meio à crise institucional e ao início da ditadura, o
SPI e o CNPI foram extintos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

REFERÊNCIAS
BRASIL. Legislação indigenista. Brasília : Senado Federal/Subsecretaria de Edições Técnicas,
1993.
______. Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1953. Relatório das atividades
do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1953. Rio de Janeiro : Serviço de Proteção aos
Índios, 1953.

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Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1954. Relatório das atividades do
Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1954. Rio de Janeiro : Serviço de Proteção aos Índios,
1954.

FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. Saudades do Brasil: Práticas e representações do campo


indigenista no século XX. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – PPGAS/MN, UFRJ, Rio de Janeiro,
2005.
LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações
sobre a constituição do discurso e da prática da “proteção fraternal” no Brasil. In: OLIVEIRA, João
Pacheco de (Org.). Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro : Marco Zero : Ed.
UFRJ, 1987. p. 149-204.

6.3.2. Protecionismo e assimilacionismo

Assimilacionismo

No dicionário a palavra assimilacionismo recebe a seguinte definição “corrente que preconiza a


assimilação de culturas periféricas pelas culturas dominantes”15.

Por assimilacionismo entendemos que um determinado grupo cultural minoritário num processo de
“deculturação” esquecem os traços da sua cultura de origem e, simultaneamente, adquirem os da cultura
dominante.

Tem como base uma perspectiva ideológica que considera umas culturas superiores às outras e supõe
um papel passivo das culturas mais fracas: muitas vezes, ao grupo mais fraco exige-se mesmo que adote
os traços do grupo dominante. Neste caso, uma das culturas elimina efetivamente a outra (ajustamento
por eliminação). Na prática, no entanto, verifica-se que só alguns aspectos da cultura subordinada são
eliminados em favor da cultura dominante.

Em termos de comunidades migrantes, culturalmente diferentes e minoritárias, portanto mais fracas, a


forma de reação a esta situação parece depender de duas condições: primeiro, que haja uma opção clara
e vigorosa dos indivíduos candidatos à integração, de se inserirem na sociedade de acolhimento;
segundo, que haja uma opção coletiva suficientemente clara e explícita da sociedade de acolhimento
para reconhecer a identidade cultural própria e um estatuto de igualdade aos novos integrados.

Protecionismo

É definido como sistema de proteção da indústria ou do comércio de um país, concretizado em leis


que proíbem ou inibem a importação de determinados produtos, por meio da taxação de produtos
estrangeiros.

É uma doutrina que prega um conjunto de medidas a serem tomadas no sentido de favorecer as
atividades econômicas internas, reduzindo e dificultando ao máximo, a importação de produtos e a
concorrência estrangeira. Alguns exemplos de medidas protecionistas:

- Criação de altas tarifas e normas técnicas de qualidade para produtos estrangeiros, reduzindo a
lucratividade dos mesmos;
- Subsídios à indústria nacional, incentivando o desenvolvimento econômico interno;
- Fixação de quotas, limitando o número de produtos, a quantidade de serviços estrangeiros no
mercado nacional, ou até mesmo o percentual que o acionário estrangeiro pode atingir em uma empresa.

A OMC (Organização Mundial do Comércio) é responsável pela fiscalização do comércio entre os


países e dos atos protecionistas. O papel dessa organização é promover a liberalização do comércio
internacional. O protecionismo é vantajoso, em tese, pelo fato de proteger a economia nacional da
concorrência externa, garantir a criação de empregos e incentivar o desenvolvimento de novas
tecnologias. No entanto, estas políticas podem, em alguns casos, fazer com que o país perca espaço no
15
http://www.dicionarioinformal.com.br/assimilacionismo/

77
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
mercado externo; provocar o atraso tecnológico e a acomodação por parte das empresas nacionais, já
que essas medidas tendem a protegê-las; além de aumentar os preços internos.

6.3.3. Museu do Índio (anos 1950) e Parque Nacional do Xingu (anos 1960)

Um Museu só faz sentido na medida em que cada um se sente refletido e homenageado de alguma
forma. Na medida em que provoca questionamentos, na medida em que cada informação captada resulte
em mais uma pergunta, numa sucessão de eventos que nos transforme e nos faça melhores, como seres
humanos, como cidadãos e como profissionais. O Museu do Índio foi criado, em 1953, no Serviço de
Proteção aos Índios – SPI, agência do Governo encarregada de dar assistência aos índios no Brasil.
No início da década de 60, o Museu foi transferido para o Conselho Nacional de Proteção aos Índios
– CNPI, órgão responsável pelo assessoramento e formulação da política indigenista oficial da época.
Em 1967, o Governo militar resolveu reunir o SPI, o CNPI e o Museu em um único órgão, a Fundação
Nacional do Índio- FUNAI, onde a instituição está inserida até hoje.
Atualmente, o Museu do Índio é uma importante instituição de pesquisa sobre línguas e culturas
indígenas. Tem sob sua guarda documentos relativos à maioria das sociedades indígenas
contemporâneas, constituídos de 15.840 peças etnográficas e 15.121 publicações nacionais e
estrangeiras, especializadas em etnologia e áreas afins. Seus diversos serviços são responsáveis pelo
tratamento técnico de 76.821 registros audiovisuais e 833.221 documentos textuais de valor histórico e
contemporâneo.
Sob a direção do antropólogo Darcy Ribeiro, o Museu do Índio foi inaugurado no dia 19 de abril de
1953, no Rio de Janeiro. "Será um museu onde os pesquisadores e etnólogos poderão encontrar vasto
material de estudo sobre nossos servícolas", anunciou o Estado na época.
O prédio já foi residência oficial na época do império e abrigou, entre outras figuras políticas, o
marechal Rondon, pioneiro na política indigenista no País. Em 1865 o imóvel foi doado para abrigar um
órgão de pesquisas sobre as culturas indígenas brasileiras. Em 1910, se tornou sede do Serviço de
Proteção ao Índio (SPI) e, entre 1953 e 1978, foi sede do Museu do Índio. Em 1978, o museu foi transferido
para o bairro de Botafogo, na zona sul.
O prédio que abrigava anteriormente o Museu do Índio, no Maracanã, existe até hoje e era
administrado pela Companhia Nacional de Abastecimento e o Ministério da Agricultura, antes de ser
comprado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro para dar lugar a um estacionamento e um centro
de compras anexo ao estádio do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.
O casarão que abriga, atualmente, o Museu do Índio/FUNAI foi tombado como patrimônio de
preservação cultural do País em 22 de fevereiro de 1967. Vinte anos depois, a construção também passou
a ser considerada patrimônio do município do Rio de Janeiro, pelo decreto 6934, de 9 de setembro de
1987.
A construção do atual museu forma um conjunto arquitetônico com prédios do mesmo período na Rua
das Palmeiras e outros no bairro de Botafogo, como a Casa de Rui Barbosa e o Museu Villa-Lobos; e na
cidade, como a Casa França-Brasil e o Palácio do Itamaraty.

Parque Nacional do Xingu (anos 1960).

A criação do Parque do Xingu resultou de um longo processo de luta entre instituições do Estado
brasileiro e setores da sociedade civil envolvendo o controle territorial e/ou privatização de terras. Sua
superfície corresponde a uma pequena parcela da vasta região onde se encontrava presente, já no início
do século XX, uma variedade significativa de etnias indígenas localizadas na bacia do alto rio Xingu no
estado brasileiro de Mato Grosso.
A partir dos anos 40 foi sendo sistematizado o contato entre setores da sociedade nacional, mais
precisamente indigenistas com os grupos indígenas. Um posto de assistência do órgão oficial
encarregado da tutela aos grupos indígenas no Brasil - o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) foi criado
e instalado no Alto Xingu. Em 1952 foi apresentado ao Congresso Nacional um Anteprojeto para a criação
de um parque nacional na referida região. Neste projeto estava previsto um perímetro bem maior que o
atual, incluindo uma zona tampão de amortecimento do contato com as frentes de expansão, de proteção
às nascentes da bacia hidrográfica e da preservação do meio ambiente imediatamente circunvizinho à
região ocupada pela população indígena.
Em 1961 foi criado pelo governo federal no alto Xingu o Parque Nacional do Xingu . Em 1973 é, por
força do Estatuto do Índio, alterado na sua condição jurídica para parque indígena. A lei 6001/73 em seu

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artigo 28 define: Parque Indígena é a área contida em terra para posse dos índios, cujo grau de integração
permita assistência econômica, educacional e sanitária dos órgãos da União, em que se preservem as
reservas de flora e fauna e as belezas naturais da região .O novo status remeteu o Parque do Xingu à
subordinação da FUNAI – Fundação Nacional do Índio e, portanto, não mais subordinado ao IBAMA -
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, caso permanecesse como
parque nacional. Segundo a legislação ambiental brasileira parques nacionais correspondem a áreas
geográficas extensas e delimitadas, dotadas de atributos naturais excepcionais, objeto de preservação
permanente, submetidas à condição de inalienabilidade e indisponibilidade de seu todo.
Considerando-se a configuração do PIX em relação ao território mato-grossense constata-se que este
se encontra “ilhado”. Isto porque o Parque do Xingu sofre pressões constantes sobre sua geografia e
população, ao situar-se em meio à ocupação do seu entorno, por grandes fazendas do agronegócio, pela
mobilidade dos trabalhadores rurais e pelas novas cidades. Ao longo desses últimos 60 anos, a
consolidação do espaço rural e urbano do estado de Mato Grosso resultou na expansão espacial da
economia para o interior do Brasil, resultando em impactos socioambientais, especialmente para o
conjunto de etnias localizadas no Parque Indígena do Xingu.
A ampliação do Parque Indígena do Xingu é atualmente uma das principais reivindicações de líderes
indígenas endereçadas a FUNAI- Fundação Nacional do Índio. O parque tem quase 30 mil quilômetros
quadrados, embora seu território atualmente seja muito menor do que o inicialmente previsto. Nas quatro
décadas seguintes a sua criação, incorporou algumas pequenas áreas, porém não suficiente para incluir
as nascentes da bacia hidrográfica e evitar a pressão do desmatamento e da progressiva influência do
complexo do agronegócio.
A leitura do atual mapa de uso e ocupação de Mato grosso revela a vulnerabilidade do Parque do
Xingu e de seus habitantes sobre o entorno ligado ao uso das terras pelo agronegócio
A ideia de criação do Parque tomou forma numa mesa-redonda convocada pela Vice-Presidência da
República em 1952, da qual resultou um anteprojeto de um Parque muito maior do que o que veio
finalmente a se concretizar. A despeito dos poderes legislativo e executivo do Mato Grosso estarem
representados nessa mesa-redonda, inclusive por seu governador, o estado começou a conceder, dentro
desse perímetro, terras a companhias colonizadoras. Por isso, quando foi finalmente criado o Parque
Nacional do Xingu, pelo Decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado pelo presidente Jânio Quadros, sua
área correspondia a apenas um quarto da superfície inicialmente proposta. O Parque foi regulamentado
pelo Decreto nº 51.084, de 31/07/1961; ajustes foram feitos pelos Decretos nº 63.082, de 6/08/1968, e nº
68.909, de 13/07/1971, tendo sido finalmente feita a demarcação de seu perímetro atual em 1978.
Tendo em vista os povos que lá habitam, pode-se dividir o Parque Indígena do Xingu em três partes:
uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu), uma na região central (o chamado Médio Xingu) e outra ao
sul (o Alto Xingu). Na parte sul ficam os formadores do rio Xingu; a região central vai do Morená
(convergência dos rios Ronuro, Batovi e Kuluene, identificada pelos povos do Alto Xingu como local de
criação do mundo e início do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do Rio Xingu, encontra-se a
parte norte do Parque
Na década de 80, tiveram início as primeiras invasões de pescadores e caçadores no território do PIX.
Ao final dos anos 90, as queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque ameaçavam
atingi-lo e o avanço das madeireiras instaladas a oeste começou a chegar perto dos limites físicos
definidos pela demarcação. Ademais, a ocupação do entorno começava a poluir as nascentes dos rios
que abastecem o Parque e que ficaram fora da área demarcada. Nesse processo, fortaleceu-se entre os
moradores do PIX a percepção de que está a caminho um incômodo “abraço”: o Parque vem sendo
cercado pelo processo de ocupação de seu entorno e já se evidencia como uma “ilha” de florestas em
meio ao pasto e a monocultura na região do Xingu.A questão da fiscalização do território é presença certa
na agenda dos assuntos políticos do Parque, sendo discutida tanto em encontros de lideranças e
assembleias da Atix (Associação Terra Indígena Xingu) como na interlocução com a Funai e os órgãos
ambientais federal (Ibama) e estadual (Fundação Estadual do Meio Ambiente - Fema).
Para tanto, foi montada uma infra-estrutura dos citados onze postos de vigilância para proteger as
áreas que propiciam um acesso direto ao Parque, como a intersecção dos principais rios com os limites
do PIX e o ponto em que a BR-080 margeia esses limites.

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6.3.4. O fim do SPI e o nascimento da Funai

http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/o-servico-de-protecao-aos-indios-(spi)

Embora a história do SPI tenha sido marcada pela influência de figuras proeminentes e comprometidas
com o destino dos povos indígenas, sua atuação não era a regra. Permanentemente carente de recursos,
o órgão acabou por envolver de militares a trabalhadores rurais que não possuíam qualquer preparação
ou interesse pela proteção aos índios. Suas atuações à frente dos Postos Indígenas de todo o país
acabaram por gerar resultados diametralmente opostos a esta proposta. Casos de fome, doenças,
depopulação e escravização eram permanentemente denunciados. No início da década de 1960, sob
acusações de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI). O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os
escalões (Oliveira e Freire, 2006: 131). Em 1967, em meio à crise institucional e ao início da ditadura, o
SPI e o CNPI foram extintos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Funai16
A Fundação Nacional do Índio – FUNAI é o órgão indigenista oficial do Estado brasileiro. Criada por
meio da Lei nº 5.371, de 5 de dezembro de 1967, vinculada ao Ministério da Justiça, é a coordenadora e
principal executora da política indigenista do Governo Federal. Sua missão institucional é proteger e
promover os direitos dos povos indígenas no Brasil.
Cabe à FUNAI promover estudos de identificação e delimitação, demarcação, regularização fundiária
e registro das terras tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas, além de monitorar e fiscalizar as
terras indígenas. A FUNAI também coordena e implementa as políticas de proteção aos povo isolados e
recém-contatados.
É, ainda, seu papel promover políticas voltadas ao desenvolvimento sustentável das populações
indígenas. Nesse campo, a FUNAI promove ações de etnodesenvolvimento, conservação e a
recuperação do meio ambiente nas terras indígenas, além de atuar no controle e mitigação de possíveis
impactos ambientais decorrentes de interferências externas às terras indígenas.
Compete também ao órgão a estabelecer a articulação interinstitucional voltada à garantia do acesso
diferenciado aos direitos sociais e de cidadania aos povos indígenas, por meio do monitoramento das
políticas voltadas à seguridade social e educação escolar indígena, bem como promover o fomento e
apoio aos processos educativos comunitários tradicionais e de participação e controle social.
A atuação da Funai está orientada por diversos princípios, dentre os quais se destaca o
reconhecimento da organização social, costumes, línguas, crenças e tradições dos povos indígenas,
buscando o alcance da plena autonomia e autodeterminação dos povos indígenas no Brasil, contribuindo
para a consolidação do Estado democrático e pluriétnico.

6.3.5. O indigenismo no regime militar (anos 1960 a 1980)

Adaptado de http://memoriasdaditadura.org.br/indigenas/ e http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-


indigenista-oficial/funai

Após o golpe civil-militar de 1964, um novo período econômico se iniciou no Brasil. Construções de
grandes obras (hidrelétricas, estradas e desmatamento de áreas para a criação de grandes latifúndios
para pecuária) se espalharam por todas as regiões do país, e no caminho desses projetos inúmeros povos
com suas terras, reconhecidas ou não, passaram a ser tratados como obstáculos para o desenvolvimento.
Em 1967, o governo militar criou a Fundação Nacional do Índio (Funai), para dar continuidade ao
trabalho do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Embora o discurso e os objetivos continuassem voltados
para o protecionismo e a assistência aos índios, na prática, os conflitos continuaram.
Nas regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia e o Centro-Oeste, as terras indígenas eram
invadidas por criadores de gado, madeireiros ou garimpeiros. O Estado tinha pouco controle nessas
regiões, e as violências contra os indígenas tinham, frequentemente, a conivência das autoridades locais.
As políticas indigenistas foram integralmente subordinadas aos planos de defesa nacional, construção
de estradas e hidrelétricas, expansão de fazendas e extração de minérios. Sua atuação foi mantida em
plena afinidade com os aparelhos responsáveis por implementar essas políticas: Conselho de Segurança

16
http://www.funai.gov.br/index.php/quem-somos

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Nacional (CSN), Plano de Integração Nacional (PIN), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA) e Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
A ação da Funai durante a ditadura foi fortemente marcada pela perspectiva assimilacionista. O
Estatuto do Índio (Lei nº 6.001) aprovado em 1973, e ainda vigente, reafirmou as premissas de integração
que permearam a história do SPI.
Apesar das irregularidades que levaram à extinção do SPI, seu quadro funcional foi transferido para a
Funai. Com recursos escassos e mal contabilizados, a Funai continuou a operar, assim como o SPI, com
profissionais pouco qualificados. Não se concretizou a proposta de se realizar planejamentos
antropologicamente orientados, conduzidos por profissionais de formação sólida, bem pagos e
comprometidos com o futuro dos povos indígenas. O órgão foi permeado, em todos os níveis, por redes
de relações pessoais, clientelistas e corporativas, que remetem ao paternalismo e ao voluntarismo que
dominaram o velho SPI.
Projetos como a construção das hidrelétricas de Itaipu e de Tucuruí, no Rio Tocantins, e a criação do
maior latifúndio do mundo no norte do Mato Grosso, em terra indígena Xavante, expulsaram centenas de
comunidades e provocaram milhares de mortes nas aldeias. A abertura da rodovia Transamazônica BR-
230, planejada para cortar o Brasil transversalmente, da fronteira com o Peru até João Pessoa na Paraíba,
afetou de maneira trágica 29 grupos indígenas, dentre eles, 11 etnias que viviam completamente isoladas.
Documentos e relatos colhidos durante as investigações recentes da Comissão Nacional da Verdade
apontam que cerca de 8 mil indígenas foram mortos, em conflitos, crises de abastecimento ou epidemias
trazidas pelos trabalhadores, em consequência da construção de quatro rodovias: a Transamazônica; a
BR-174, que liga Manaus a Boa Vista; a BR-210, conhecida com Perimetral Norte; e a BR 163, que liga
Cuiabá a Santarém. Essas estradas faziam parte do Plano de Integração Nacional (PIN), instituído em
1970, pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. O PIN previa que 100 quilômetros em cada lado das
estradas a serem construídas deveriam ser destinados à colonização. A intenção do governo era assentar
cerca de 500 mil pessoas em agrovilas que seriam fundadas nesses locais.
O processo civilizatório imposto pela ditadura civil-militar incluía perseguição, criminalização, prisão e
tortura de lideranças indígenas que lutavam por seus territórios ou que tivessem comportamento
considerado inadequado pela Funai.
Durante a ditadura, as comunidades indígenas encontraram entre os antropólogos, sertanistas e
missionários ligados ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) seus principais apoiadores para resistir
às violências e às ameaças cometidas pelo regime, pelos donos de terras e pelos colonos e trabalhadores
do garimpo.

LEI Nº 6.001, DE 19 DE DEZEMBRO DE 1973.

Dispõe sobre o Estatuto do Índio.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a


seguinte Lei:

TÍTULO I
Dos Princípios e Definições

Art. 1º Esta Lei regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com
o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente, à comunhão
nacional.
Parágrafo único. Aos índios e às comunidades indígenas se estende a proteção das leis do País, nos
mesmos termos em que se aplicam aos demais brasileiros, resguardados os usos, costumes e tradições
indígenas, bem como as condições peculiares reconhecidas nesta Lei.

Art. 2° Cumpre à União, aos Estados e aos Municípios, bem como aos órgãos das respectivas
administrações indiretas, nos limites de sua competência, para a proteção das comunidades indígenas e
a preservação dos seus direitos:
I - estender aos índios os benefícios da legislação comum, sempre que possível a sua aplicação;
II - prestar assistência aos índios e às comunidades indígenas ainda não integrados à comunhão
nacional;
III - respeitar, ao proporcionar aos índios meios para o seu desenvolvimento, as peculiaridades
inerentes à sua condição;
IV - assegurar aos índios a possibilidade de livre escolha dos seus meios de vida e subsistência;

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V - garantir aos índios a permanência voluntária no seu habitat , proporcionando-lhes ali recursos para
seu desenvolvimento e progresso;
VI - respeitar, no processo de integração do índio à comunhão nacional, a coesão das comunidades
indígenas, os seus valores culturais, tradições, usos e costumes;
VII - executar, sempre que possível mediante a colaboração dos índios, os programas e projetos
tendentes a beneficiar as comunidades indígenas;
VIII - utilizar a cooperação, o espírito de iniciativa e as qualidades pessoais do índio, tendo em vista a
melhoria de suas condições de vida e a sua integração no processo de desenvolvimento;
IX - garantir aos índios e comunidades indígenas, nos termos da Constituição, a posse permanente
das terras que habitam, reconhecendo-lhes o direito ao usufruto exclusivo das riquezas naturais e de
todas as utilidades naquelas terras existentes;
X - garantir aos índios o pleno exercício dos direitos civis e políticos que em face da legislação lhes
couberem.
Parágrafo único. (Vetado).

Art. 3º Para os efeitos de lei, ficam estabelecidas as definições a seguir discriminadas:


I - Índio ou Silvícola - É todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é
identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade
nacional;
II - Comunidade Indígena ou Grupo Tribal - É um conjunto de famílias ou comunidades índias, quer
vivendo em estado de completo isolamento em relação aos outros setores da comunhão nacional, quer
em contatos intermitentes ou permanentes, sem contudo estarem neles integrados.

Art 4º Os índios são considerados:


I - Isolados - Quando vivem em grupos desconhecidos ou de que se possuem poucos e vagos informes
através de contatos eventuais com elementos da comunhão nacional;
II - Em vias de integração - Quando, em contato intermitente ou permanente com grupos estranhos,
conservam menor ou maior parte das condições de sua vida nativa, mas aceitam algumas práticas e
modos de existência comuns aos demais setores da comunhão nacional, da qual vão necessitando cada
vez mais para o próprio sustento;
III - Integrados - Quando incorporados à comunhão nacional e reconhecidos no pleno exercício dos
direitos civis, ainda que conservem usos, costumes e tradições característicos da sua cultura.

TÍTULO II
Dos Direitos Civis e Políticos
CAPÍTULO I
Dos Princípios

Art. 5º Aplicam-se aos índios ou silvícolas as normas dos artigos 145 e 146, da Constituição Federal,
relativas à nacionalidade e à cidadania.
Parágrafo único. O exercício dos direitos civis e políticos pelo índio depende da verificação das
condições especiais estabelecidas nesta Lei e na legislação pertinente.

Art. 6º Serão respeitados os usos, costumes e tradições das comunidades indígenas e seus efeitos,
nas relações de família, na ordem de sucessão, no regime de propriedade e nos atos ou negócios
realizados entre índios, salvo se optarem pela aplicação do direito comum.
Parágrafo único. Aplicam-se as normas de direito comum às relações entre índios não integrados e
pessoas estranhas à comunidade indígena, excetuados os que forem menos favoráveis a eles e
ressalvado o disposto nesta Lei.

CAPÍTULO II
Da Assistência ou Tutela

Art. 7º Os índios e as comunidades indígenas ainda não integrados à comunhão nacional ficam sujeito
ao regime tutelar estabelecido nesta Lei.
§ 1º Ao regime tutelar estabelecido nesta Lei aplicam-se no que couber, os princípios e normas da
tutela de direito comum, independendo, todavia, o exercício da tutela da especialização de bens imóveis
em hipoteca legal, bem como da prestação de caução real ou fidejussória.

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§ 2º Incumbe a tutela à União, que a exercerá através do competente órgão federal de assistência
aos silvícolas.

Art. 8º São nulos os atos praticados entre o índio não integrado e qualquer pessoa estranha à
comunidade indígena quando não tenha havido assistência do órgão tutelar competente.
Parágrafo único. Não se aplica a regra deste artigo no caso em que o índio revele consciência e
conhecimento do ato praticado, desde que não lhe seja prejudicial, e da extensão dos seus efeitos.

Art. 9º Qualquer índio poderá requerer ao Juiz competente a sua liberação do regime tutelar previsto
nesta Lei, investindo-se na plenitude da capacidade civil, desde que preencha os requisitos seguintes:
I - idade mínima de 21 anos;
II - conhecimento da língua portuguesa;
III - habilitação para o exercício de atividade útil, na comunhão nacional;
IV - razoável compreensão dos usos e costumes da comunhão nacional.
Parágrafo único. O Juiz decidirá após instrução sumária, ouvidos o órgão de assistência ao índio e o
Ministério Público, transcrita a sentença concessiva no registro civil.

Art. 10. Satisfeitos os requisitos do artigo anterior e a pedido escrito do interessado, o órgão de
assistência poderá reconhecer ao índio, mediante declaração formal, a condição de integrado, cessando
toda restrição à capacidade, desde que, homologado judicialmente o ato, seja inscrito no registro civil.

Art. 11. Mediante decreto do Presidente da República, poderá ser declarada a emancipação da
comunidade indígena e de seus membros, quanto ao regime tutelar estabelecido em lei, desde que
requerida pela maioria dos membros do grupo e comprovada, em inquérito realizado pelo órgão federal
competente, a sua plena integração na comunhão nacional.
Parágrafo único. Para os efeitos do disposto neste artigo, exigir-se-á o preenchimento, pelos
requerentes, dos requisitos estabelecidos no artigo 9º.

CAPÍTULO III
Do Registro Civil

Art. 12. Os nascimentos e óbitos, e os casamentos civis dos índios não integrados, serão registrados
de acordo com a legislação comum, atendidas as peculiaridades de sua condição quanto à qualificação
do nome, prenome e filiação.
Parágrafo único. O registro civil será feito a pedido do interessado ou da autoridade administrativa
competente.

Art. 13. Haverá livros próprios, no órgão competente de assistência, para o registro administrativo de
nascimentos e óbitos dos índios, da cessação de sua incapacidade e dos casamentos contraídos segundo
os costumes tribais.
Parágrafo único. O registro administrativo constituirá, quando couber documento hábil para proceder
ao registro civil do ato correspondente, admitido, na falta deste, como meio subsidiário de prova.

CAPÍTULO IV
Das Condições de Trabalho

Art. 14. Não haverá discriminação entre trabalhadores indígenas e os demais trabalhadores,
aplicando-se-lhes todos os direitos e garantias das leis trabalhistas e de previdência social.
Parágrafo único. É permitida a adaptação de condições de trabalho aos usos e costumes da
comunidade a que pertencer o índio.

Art. 15. Será nulo o contrato de trabalho ou de locação de serviços realizado com os índios de que
trata o artigo 4°, I.

Art. 16. Os contratos de trabalho ou de locação de serviços realizados com indígenas em processo
de integração ou habitantes de parques ou colônias agrícolas dependerão de prévia aprovação do órgão
de proteção ao índio, obedecendo, quando necessário, a normas próprias.
§ 1º Será estimulada a realização de contratos por equipe, ou a domicílio, sob a orientação do órgão
competente, de modo a favorecer a continuidade da via comunitária.

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§ 2º Em qualquer caso de prestação de serviços por indígenas não integrados, o órgão de proteção
ao índio exercerá permanente fiscalização das condições de trabalho, denunciando os abusos e
providenciando a aplicação das sanções cabíveis.
§ 3º O órgão de assistência ao indígena propiciará o acesso, aos seus quadros, de índios integrados,
estimulando a sua especialização indigenista.

TÍTULO III
Das Terras dos Índios
CAPÍTULO I
Das Disposições Gerais

Art. 17. Reputam-se terras indígenas:


I - as terras ocupadas ou habitadas pelos silvícolas, a que se referem os artigos 4º, IV, e 198, da
Constituição;
II - as áreas reservadas de que trata o Capítulo III deste Título;
III - as terras de domínio das comunidades indígenas ou de silvícolas.

Art. 18. As terras indígenas não poderão ser objeto de arrendamento ou de qualquer ato ou negócio
jurídico que restrinja o pleno exercício da posse direta pela comunidade indígena ou pelos silvícolas.
§ 1º Nessas áreas, é vedada a qualquer pessoa estranha aos grupos tribais ou comunidades
indígenas a prática da caça, pesca ou coleta de frutos, assim como de atividade agropecuária ou extrativa.
§ 2º (Vetado).

Art. 19. As terras indígenas, por iniciativa e sob orientação do órgão federal de assistência ao índio,
serão administrativamente demarcadas, de acordo com o processo estabelecido em decreto do Poder
Executivo.
§ 1º A demarcação promovida nos termos deste artigo, homologada pelo Presidente da República,
será registrada em livro próprio do Serviço do Patrimônio da União (SPU) e do registro imobiliário da
comarca da situação das terras.
§ 2º Contra a demarcação processada nos termos deste artigo não caberá a concessão de interdito
possessório, facultado aos interessados contra ela recorrer à ação petitória ou à demarcatória.

Art. 20. Em caráter excepcional e por qualquer dos motivos adiante enumerados, poderá a União
intervir, se não houver solução alternativa, em área indígena, determinada a providência por decreto do
Presidente da República.
1º A intervenção poderá ser decretada:
a) para pôr termo à luta entre grupos tribais;
b) para combater graves surtos epidêmicos, que possam acarretar o extermínio da comunidade
indígena, ou qualquer mal que ponha em risco a integridade do silvícola ou do grupo tribal;
c) por imposição da segurança nacional;
d) para a realização de obras públicas que interessem ao desenvolvimento nacional;
e) para reprimir a turbação ou esbulho em larga escala;
f) para a exploração de riquezas do subsolo de relevante interesse para a segurança e o
desenvolvimento nacional.

2º A intervenção executar-se-á nas condições estipuladas no decreto e sempre por meios suasórios,
dela podendo resultar, segundo a gravidade do fato, uma ou algumas das medidas seguintes:
a) contenção de hostilidades, evitando-se o emprego de força contra os índios;
b) deslocamento temporário de grupos tribais de uma para outra área;
c) remoção de grupos tribais de uma para outra área.

3º Somente caberá a remoção de grupo tribal quando de todo impossível ou desaconselhável a sua
permanência na área sob intervenção, destinando-se à comunidade indígena removida área equivalente
à anterior, inclusive quanto às condições ecológicas.

4º A comunidade indígena removida será integralmente ressarcida dos prejuízos decorrentes da


remoção.

5º O ato de intervenção terá a assistência direta do órgão federal que exercita a tutela do índio.

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Art. 21. As terras espontânea e definitivamente abandonadas por comunidade indígena ou grupo tribal
reverterão, por proposta do órgão federal de assistência ao índio e mediante ato declaratório do Poder
Executivo, à posse e ao domínio pleno da União.

CAPÍTULO II
Das Terras Ocupadas

Art. 22. Cabe aos índios ou silvícolas a posse permanente das terras que habitam e o direito ao
usufruto exclusivo das riquezas naturais e de todas as utilidades naquelas terras existentes.
Parágrafo único. As terras ocupadas pelos índios, nos termos deste artigo, serão bens inalienáveis da
União (artigo 4º, IV, e 198, da Constituição Federal).

Art. 23. Considera-se posse do índio ou silvícola a ocupação efetiva da terra que, de acordo com os
usos, costumes e tradições tribais, detém e onde habita ou exerce atividade indispensável à sua
subsistência ou economicamente útil.

Art. 24. O usufruto assegurado aos índios ou silvícolas compreende o direito à posse, uso e percepção
das riquezas naturais e de todas as utilidades existentes nas terras ocupadas, bem assim ao produto da
exploração econômica de tais riquezas naturais e utilidades.
§ 1° Incluem-se, no usufruto, que se estende aos acessórios e seus acrescidos, o uso dos mananciais
e das águas dos trechos das vias fluviais compreendidos nas terras ocupadas.
§ 2° É garantido ao índio o exclusivo exercício da caça e pesca nas áreas por ele ocupadas, devendo
ser executadas por forma suasória as medidas de polícia que em relação a ele eventualmente tiverem de
ser aplicadas.

Art. 25. O reconhecimento do direito dos índios e grupos tribais à posse permanente das terras por
eles habitadas, nos termos do artigo 198, da Constituição Federal, independerá de sua demarcação, e
será assegurado pelo órgão federal de assistência aos silvícolas, atendendo à situação atual e ao
consenso histórico sobre a antigüidade da ocupação, sem prejuízo das medidas cabíveis que, na omissão
ou erro do referido órgão, tomar qualquer dos Poderes da República.

CAPÍTULO III
Das Áreas Reservadas

Art. 26. A União poderá estabelecer, em qualquer parte do território nacional, áreas destinadas à
posse e ocupação pelos índios, onde possam viver e obter meios de subsistência, com direito ao usufruto
e utilização das riquezas naturais e dos bens nelas existentes, respeitadas as restrições legais.
Parágrafo único. As áreas reservadas na forma deste artigo não se confundem com as de posse
imemorial das tribos indígenas, podendo organizar-se sob uma das seguintes modalidades:
a) reserva indígena;
b) parque indígena;
c) colônia agrícola indígena.

Art. 27. Reserva indígena é uma área destinada a servidor de habitat a grupo indígena, com os meios
suficientes à sua subsistência.

Art. 28. Parque indígena é a área contida em terra na posse de índios, cujo grau de integração permita
assistência econômica, educacional e sanitária dos órgãos da União, em que se preservem as reservas
de flora e fauna e as belezas naturais da região.
§ 1º Na administração dos parques serão respeitados a liberdade, usos, costumes e tradições dos
índios.
§ 2° As medidas de polícia, necessárias à ordem interna e à preservação das riquezas existentes na
área do parque, deverão ser tomadas por meios suasórios e de acordo com o interesse dos índios que
nela habitem.
§ 3º O loteamento das terras dos parques indígenas obedecerá ao regime de propriedade, usos e
costumes tribais, bem como às normas administrativas nacionais, que deverão ajustar-se aos interesses
das comunidades indígenas.

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Art. 29. Colônia agrícola indígena é a área destinada à exploração agropecuária, administrada pelo
órgão de assistência ao índio, onde convivam tribos aculturadas e membros da comunidade nacional.

Art. 30. Território federal indígena é a unidade administrativa subordinada à União, instituída em região
na qual pelo menos um terço da população seja formado por índios.

Art. 31. As disposições deste Capítulo serão aplicadas, no que couber, às áreas em que a posse
decorra da aplicação do artigo 198, da Constituição Federal.

CAPÍTULO IV
Das Terras de Domínio Indígena

Art. 32. São de propriedade plena do índio ou da comunidade indígena, conforme o caso, as terras
havidas por qualquer das formas de aquisição do domínio, nos termos da legislação civil.

Art. 33. O índio, integrado ou não, que ocupe como próprio, por dez anos consecutivos, trecho de terra
inferior a cinqüenta hectares, adquirir-lhe-á a propriedade plena.
Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica às terras do domínio da União, ocupadas por
grupos tribais, às áreas reservadas de que trata esta Lei, nem às terras de propriedade coletiva de grupo
tribal.

CAPÍTULO V
Da Defesa das Terras Indígenas

Art. 34. O órgão federal de assistência ao índio poderá solicitar a colaboração das Forças Armadas e
Auxiliares e da Polícia Federal, para assegurar a proteção das terras ocupadas pelos índios e pelas
comunidades indígenas.

Art. 35. Cabe ao órgão federal de assistência ao índio a defesa judicial ou extrajudicial dos direitos
dos silvícolas e das comunidades indígenas.

Art. 36. Sem prejuízo do disposto no artigo anterior, compete à União adotar as medidas
administrativas ou propor, por intermédio do Ministério Público Federal, as medidas judiciais adequadas
à proteção da posse dos silvícolas sobre as terras que habitem.
Parágrafo único. Quando as medidas judiciais previstas neste artigo forem propostas pelo órgão
federal de assistência, ou contra ele, a União será litisconsorte ativa ou passiva.

Art. 37. Os grupos tribais ou comunidades indígenas são partes legítimas para a defesa dos seus
direitos em juízo, cabendo-lhes, no caso, a assistência do Ministério Público Federal ou do órgão de
proteção ao índio.

Art. 38. As terras indígenas são inusucapíveis e sobre elas não poderá recair desapropriação, salvo o
previsto no artigo 20.

TÍTULO IV
Dos Bens e Renda do Patrimônio Indígena

Art 39. Constituem bens do Patrimônio Indígena:


I - as terras pertencentes ao domínio dos grupos tribais ou comunidades indígenas;
II - o usufruto exclusivo das riquezas naturais e de todas as utilidades existentes nas terras ocupadas
por grupos tribais ou comunidades indígenas e nas áreas a eles reservadas;
III - os bens móveis ou imóveis, adquiridos a qualquer título.

Art. 40. São titulares do Patrimônio Indígena:


I - a população indígena do País, no tocante a bens ou rendas pertencentes ou destinadas aos
silvícolas, sem discriminação de pessoas ou grupos tribais;
II - o grupo tribal ou comunidade indígena determinada, quanto à posse e usufruto das terras por ele
exclusivamente ocupadas, ou a ele reservadas;

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III - a comunidade indígena ou grupo tribal nomeado no título aquisitivo da propriedade, em relação
aos respectivos imóveis ou móveis.

Art. 41. Não integram o Patrimônio Indígena:


I - as terras de exclusiva posse ou domínio do índio ou silvícola, individualmente considerado, e o
usufruto das respectivas riquezas naturais e utilidades;
II - a habitação, os móveis e utensílios domésticos, os objetos de uso pessoal, os instrumentos de
trabalho e os produtos da lavoura, caça, pesca e coleta ou do trabalho em geral dos silvícolas.

Art. 42. Cabe ao órgão de assistência a gestão do Patrimônio Indígena, propiciando-se, porém, a
participação dos silvícolas e dos grupos tribais na administração dos próprios bens, sendo-lhes totalmente
confiado o encargo, quando demonstrem capacidade efetiva para o seu exercício.
Parágrafo único. O arrolamento dos bens do Patrimônio Indígena será permanentemente atualizado,
procedendo-se à fiscalização rigorosa de sua gestão, mediante controle interno e externo, a fim de tornar
efetiva a responsabilidade dos seus administradores.

Art. 43. A renda indígena é a resultante da aplicação de bens e utilidades integrantes do Patrimônio
Indígena, sob a responsabilidade do órgão de assistência ao índio.
§ 1º A renda indígena será preferencialmente reaplicada em atividades rentáveis ou utilizada em
programas de assistência ao índio.
§ 2° A reaplicação prevista no parágrafo anterior reverterá principalmente em benefício da comunidade
que produziu os primeiros resultados econômicos.

Art. 44. As riquezas do solo, nas áreas indígenas, somente pelos silvícolas podem ser exploradas,
cabendo-lhes com exclusividade o exercício da garimpagem, faiscação e cata das áreas referidas.

Art. 45. A exploração das riquezas do subsolo nas áreas pertencentes aos índios, ou do domínio da
União, mas na posse de comunidades indígenas, far-se-á nos termos da legislação vigente, observado o
disposto nesta Lei.
§ 1º O Ministério do Interior, através do órgão competente de assistência aos índios, representará os
interesses da União, como proprietária do solo, mas a participação no resultado da exploração, as
indenizações e a renda devida pela ocupação do terreno, reverterão em benefício dos índios e constituirão
fontes de renda indígena.
§ 2º Na salvaguarda dos interesses do Patrimônio Indígena e do bem-estar dos silvícolas, a
autorização de pesquisa ou lavra, a terceiros, nas posses tribais, estará condicionada a prévio
entendimento com o órgão de assistência ao índio.

Art. 46. O corte de madeira nas florestas indígenas, consideradas em regime de preservação
permanente, de acordo com a letra g e § 2º, do artigo 3°, do Código Florestal, está condicionado à
existência de programas ou projetos para o aproveitamento das terras respectivas na exploração
agropecuária, na indústria ou no reflorestamento.

TÍTULO V
Da Educação, Cultura e Saúde

Art. 47. É assegurado o respeito ao patrimônio cultural das comunidades indígenas, seus valores
artísticos e meios de expressão.

Art. 48. Estende-se à população indígena, com as necessárias adaptações, o sistema de ensino em
vigor no País.

Art. 49. A alfabetização dos índios far-se-á na língua do grupo a que pertençam, e em português,
salvaguardado o uso da primeira.

Art. 50. A educação do índio será orientada para a integração na comunhão nacional mediante
processo de gradativa compreensão dos problemas gerais e valores da sociedade nacional, bem como
do aproveitamento das suas aptidões individuais.

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Art. 51. A assistência aos menores, para fins educacionais, será prestada, quanto possível, sem
afastá-los do convívio familiar ou tribal.

Art. 52. Será proporcionada ao índio a formação profissional adequada, de acordo com o seu grau de
aculturação.

Art. 53. O artesanato e as indústrias rurais serão estimulados, no sentido de elevar o padrão de vida
do índio com a conveniente adaptação às condições técnicas modernas.

Art. 54. Os índios têm direito aos meios de proteção à saúde facultados à comunhão nacional.
Parágrafo único. Na infância, na maternidade, na doença e na velhice, deve ser assegurada ao
silvícola, especial assistência dos poderes públicos, em estabelecimentos a esse fim destinados.

Art. 55. O regime geral da previdência social será extensivo aos índios, atendidas as condições
sociais, econômicas e culturais das comunidades beneficiadas.

TÍTULO VI
Das Normas Penais
CAPÍTULO I
Dos Princípios

Art. 56. No caso de condenação de índio por infração penal, a pena deverá ser atenuada e na sua
aplicação o Juiz atenderá também ao grau de integração do silvícola.
Parágrafo único. As penas de reclusão e de detenção serão cumpridas, se possível, em regime
especial de semiliberdade, no local de funcionamento do órgão federal de assistência aos índios mais
próximos da habitação do condenado.

Art. 57. Será tolerada a aplicação, pelos grupos tribais, de acordo com as instituições próprias, de
sanções penais ou disciplinares contra os seus membros, desde que não revistam caráter cruel ou
infamante, proibida em qualquer caso a pena de morte.

CAPÍTULO II
Dos Crimes Contra os Índios

Art. 58. Constituem crimes contra os índios e a cultura indígena:


I - escarnecer de cerimônia, rito, uso, costume ou tradição culturais indígenas, vilipendiá-los ou
perturbar, de qualquer modo, a sua prática. Pena - detenção de um a três meses;
II - utilizar o índio ou comunidade indígena como objeto de propaganda turística ou de exibição para
fins lucrativos. Pena - detenção de dois a seis meses;
III - propiciar, por qualquer meio, a aquisição, o uso e a disseminação de bebidas alcoólicas, nos
grupos tribais ou entre índios não integrados. Pena - detenção de seis meses a dois anos.
Parágrafo único. As penas estatuídas neste artigo são agravadas de um terço, quando o crime for
praticado por funcionário ou empregado do órgão de assistência ao índio.

Art. 59. No caso de crime contra a pessoa, o patrimônio ou os costumes, em que o ofendido seja índio
não integrado ou comunidade indígena, a pena será agravada de um terço.

TÍTULO VII
Disposições Gerais

Art. 60. Os bens e rendas do Patrimônio Indígena gozam de plena isenção tributária.

Art. 61. São extensivos aos interesses do Patrimônio Indígena os privilégios da Fazenda Pública,
quanto à impenhorabilidade de bens, rendas e serviços, ações especiais, prazos processuais, juros e
custas.

Art. 62. Ficam declaradas a nulidade e a extinção dos efeitos jurídicos dos atos de qualquer natureza
que tenham por objeto o domínio, a posse ou a ocupação das terras habitadas pelos índios ou
comunidades indígenas.

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§ 1° Aplica-se o disposto deste artigo às terras que tenham sido desocupadas pelos índios ou
comunidades indígenas em virtude de ato ilegítimo de autoridade e particular.
§ 2º Ninguém terá direito a ação ou indenização contra a União, o órgão de assistência ao índio ou os
silvícolas em virtude da nulidade e extinção de que trata este artigo, ou de suas conseqüências
econômicas.
§ 3º Em caráter excepcional e a juízo exclusivo do dirigente do órgão de assistência ao índio, será
permitida a continuação, por prazo razoável dos efeitos dos contratos de arrendamento em vigor na data
desta Lei, desde que a sua extinção acarrete graves conseqüências sociais.

Art. 63. Nenhuma medida judicial será concedida liminarmente em causas que envolvam interesse de
silvícolas ou do Patrimônio Indígena, sem prévia audiência da União e do órgão de proteção ao índio.

Art. 64 (Vetado).
Parágrafo único. (Vetado).

Art. 65. O Poder Executivo fará, no prazo de cinco anos, a demarcação das terras indígenas, ainda
não demarcadas.

Art. 66. O órgão de proteção ao silvícola fará divulgar e respeitar as normas da Convenção 107,
promulgada pelo Decreto nº 58.824, de 14 julho de 1966.

Art. 67. É mantida a Lei nº 5.371, de 5 de dezembro de 1967.

Art. 68. Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

EMÍLIO G. MEDICI
Alfredo Buzaid
Antônio Delfim Netto
José Costa Cavalcanti

6.3.6. A redemocratização e a cidadania indígena na Constituição de 1988

O direito de ser índio - Movimentos indígenas: cidadania e direitos políticos:17

Introdução:
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade”. (Art. 5 da Constituição Federal de 1988).

O movimento indígena ou movimentos indígenas pelas múltiplas formas de atuação seja de forma
coletiva ou individual. Segundo Sidnei Peres, o termo usado no singular pelos diversos atores envolvidos
ofusca o caráter plural e complexo deste fenômeno social. Não havendo uma unidade nacional devido às
especificidades de cada região. (Peres, 2010;22) De acordo como se constituiu a situação histórica de
cada povo é que se estruturam as relações e as demandas em várias escalas. As trajetórias individuais
na política, a nível local (o único a chegar a nível federal foi Mario Juruna como deputado federal), o
reconhecimento pela mídia de alguns líderes indígenas como representante dos povos indígenas,
manifestações como as ocupações de prédios da FUNAI, os fechamentos de estradas, os sequestros
feitos por alguns grupos indígenas e mais recentemente as organizações indígenas como frente de
negociações com o Estado, dialogam e confrontam a política oficial do Estado brasileiro.
Com a promulgação da Constituição de 1988, conhecida como a Constituição cidadã a forma como o
indígena era visto pela sociedade brasileira mudou. A própria Constituinte de 1987 demonstrou a
demanda da urgência da questão indígena para garantir os direitos sociais, culturais e políticos desses
povos. A presença de indígenas com seus adereços, a cena marcante de Ailton Krenak pintando o rosto
com tinta de jenipapo como forma de protesto, os debates apoiados por Organizações Não
Governamentais (ONGs) ou setores progressistas da Igreja Católica como o Conselho Indigenista

17
Ana de Melo. Anais do XVI – Encontro Regional de História da ANPUH/RIO – Saberes e práticas científicas. ISBN 978 – 85 – 65957 – 03
– 8.

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Missionário (CIMI) ligado ao Conselho Nacional dos Bispos do Brasil, assim também como o debate de
outros interessados como “a participação de representantes da agência indigenista, de assessorias das
forças armadas, de uma articulação da região amazônica e de lobistas das mineradoras” ·,fizeram da
questão indígena um grande debate.
A busca por garantia dos direitos do indígena e a manutenção da ordem e da soberania brasileira
estava em pauta na constituinte, de ambos os lados parecia óbvio que o Brasil era multicultural, ou seja,
“a coexistência de várias culturas dentro de uma mesma sociedade”(Todorov,2012:164) e que os grupos
indígenas deveriam ser contemplados na nova Carta constitucional.

O fim da tutela:
A grande mudança desta Constituição frente ás anteriores foi a extinção da tutela que alargou os
espaços de diálogo entre o Estado brasileiro e os grupos indígenas, uma mudança no foco da política
indigenista que deixa de buscar a assimilação e passa a ter um papel de preservação. Os avanços podem
ser sentidos pelo aumento de Terras Indígenas (TI) demarcadas, que segundo dados do Instituto
Socioambiental (ISA) são 12,38% do território brasileiro e 21% da área total da Amazônia.
A Constituição de 1988 está em consonância com as leis internacionais, das quais o Brasil é signatário
como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre povos indígenas e tribais
em países independentes assinada em 1989 e aprovada no Brasil pelo Decreto 143 de 20/06/02 e
promulgada no Decreto n°5.051 de 19/04/04 na qual a questão participativa é legitimada para a
formulação de um Estado plural e democrático, e esclarece que a utilização do termo povos para
denominar essas coletividades indígenas povos não “deverá ser interpretada no sentido de ter implicação
alguma no que se refere aos direitos que possam ser conferidos a esse termo no direito internacional”
(Convenção 169 Art1°) e a Declaração dos direitos indígenas da União das Nações Unidas (ONU) de
2007. Essa legislação possui um avanço no reconhecimento dos direitos desses povos e demonstra a
visibilidade crescente alcançada por eles. Num contexto de redemocratização, o ponto principal dessa
nova Carta é o fato de passar respeitar “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições”
(Constituição 1988 artigo 231). O reconhecimento de plena capacidade civil desses povos, retirando a
tutela proferida aos relativamente incapazes semelhante àquela empregada aos menores de idade civil e
os órfãos, torna ilegal uma prática tutelar que conta do período colonial e institucionalizada no período
republicano através do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e sua sucessora a Fundação Nacional do Índio
(FUNAI). Os indígenas passam depois de 1988 a terem direito ao autogoverno de seus territórios, o direito
à livre associação e a cidadania plena.

Territórios indígenas segundo a Constituição de 1988. “Muita terra pra pouco índio?”

A preservação desses povos juntamente com seus territórios como nichos ecológicos passam a
integrar a agenda de debates nacionais e internacionais, principalmente com o Brasil sendo sede da
Conferência Mundial sobre Meio Ambiente (Eco 92). Levantada à questão de preservação ambiental
houve um aumento na demarcação das terras indígenas e uma mudança de foco da política indigenista
contando com o apoio da opinião pública internacional.
O essencialismo e um discurso ligado à manutenção do meio ambiente como missão desses povos
frente ao avanço desenvolvimentista é de suma importância para atender suas reivindicações e a retórica
utilizada por eles, seus defensores e até no discurso do Estado que tem como interlocutor a FUNAI. É
comum ouvirmos argumentações de líderes indígenas em defesas de seus territórios como povos ligados
à natureza, a “mãe terra”, como se lhes fossem atribuída uma essência primitiva que os ligam ao território
de uma forma diferente do resto da humanidade. Pois a questão territorial não é só geográfica, mas
também não é salvadora. Eles estão ligados ao território pra a própria sobrevivência. Esses territórios
indígenas têm que lhes garantir o sustento para sua reprodução física e cultural. O avanço econômico
biossustentável deve ser uma preocupação de todos nós, não só dos “povos das florestas” que hoje
ocupam as cidades também. Uma questão de parceria levaria o Estado brasileiro e os povos indígenas
no conhecimento da biodiversidade amazônica que não se restringe a madeira, minérios e recursos
hídricos. Segundo Manuela Carneiro da Cunha “há pelo menos umas 250 mil espécies vegetais, das
quais cerca de 150 são bastante usadas como alimento; mas 95% da alimentação mundial repousa sobre
apenas 30 espécies, o que torna a humanidade particularmente vulnerável, já que o aparecimento de
novos vírus pode afetá-las e provocar a fome mundial. Daí decorre a importância estratégica fundamental
de bancos genéticos e de sementes que permitam novos pontos de partida”.(Carneiro da
Cunha,2012,pag:133)
Assim a exploração deve ser feita pensando nos povos indígenas e na sua sobrevivência, mas também
no destino do Brasil como nação. Utilizar o conhecimento acumulado por eles em prol de um

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desenvolvimento que nos engrandeça como uma nação pluriétnica, mas com destinos comuns. É
necessário refletir que os povos indígenas não são naturalmente “guardiões” da natureza, seria ingênuo
pensar assim.
Eles preservam porque dependem dele, e daí a importância desses territórios serem em áreas
contínuas e não em ilhas, para que sejam autossuficientes. Se o mundo está preocupado com a emissão
de carbono e a conservação ambiental e vemos iniciativas como as do Fundo Global de Meio Ambiente,
ligado ao Banco Mundial que compensam países que protelam a exploração imediata e temos cada vez
mais criações de Reservas ambientais em áreas indígenas, é de suma importância acordos com povos
indígenas para que haja um desenvolvimento econômico sustentável, para que a sobrevivência seja
garantida de forma plena.
A obrigatoriedade da participação direta dos povos indígenas em questões que lhes dizem respeito,
garantindo os direitos de representação, autogoverno e consentimento prévio e informado, aumentou
consideravelmente as associações indígenas como um meio de diálogo e de uma política dos movimentos
indígenas. Logo, há o reconhecimento de uma cidadania hibrida na qual o indígena deve ter respeitado
seu direito como ser humano, como brasileiro e por sua identidade étnica. Um dos pontos mais
conflitantes são as questões dos recursos naturais em T.I.
O direito sobre terras habitadas como povos originários é inquestionável, e sustenta-se numa tradição
jurídica sólida. Frei Francisco de Vitória, considerado um dos fundadores do direito internacional, já no
século XVI dizia que os indígenas eram verdadeiros senhores de suas terras, inclusive retirando do Papa
a autoridade de atribuir a divisão da América entre portugueses e espanhóis. Apesar dos conflitos gerados
desde então, e se instalar as “guerras justas” para civilizar, temos esse direito reconhecido em várias leis,
como o Alvará de 1° de abril de 1680 ou a reforma pombalina de 1755, ou na proposta de José Bonifácio
em “Apontamentos para a civilização dos índios do Brasil” apresentada a constituinte de 1823 que pedia
“justiça, não esbulhando mais os índios, pela força, das terras que ainda lhes restam, e de que são
legítimos senhores, pois Deus lh”as deu”. Assim segue durante o Império e República, o direito histórico
dos indígenas a seus territórios.
As representações dos indígenas presentes nos discursos da agencia indigenista em âmbito nacional
demonstram uma visão como povos originários e tradicionais, tendo o isolamento como autentico e
primitivo contra a visão de aculturação e mistura vista como impura e ilegítima. Se o direito à terra é
inquestionável o mesmo não se pode dizer dos recursos hídricos e minerais contida nela. Da mesma
forma que necessita como já foi dito anteriormente de consulta prévia e informada dos povos diretamente
relacionados, necessita também de aprovação do Congresso Nacional, uma vez que são terras da União
(Constituição Federal Art. 231. Inciso III). Assim a disputa pelos recursos naturais tomam proporções
internacionais como vimos nos casos da hidrelétrica de Belo Monte no Pará e de Balbina no estado do
Amazonas, ou a construção da Transamazônica, incompleta há 40 anos. Sem falar das invasões em
terras indígenas, exploração mineradora e intensos conflitos locais que tornam as regiões norte, centro-
oeste e nordeste principal palco de violentas disputas pela terra e seus usos. Ao nos debruçarmos sobre
as especificidades construídas historicamente, culturalmente, locais e globais podemos chegar à
compreensão de processos complexos, saindo de uma noção de relações simples, de um imaginário de
homogeneidade dos
povos indígenas para construções de contextos e estratégias políticas diversificadas. De acordo com
as ações realizadas por esses povos nas relações que mantém com a sociedade circundante e com o
Estado, poderemos alcançar o entendimento se estamos caminhando para uma política realmente
indígena. Que será demonstrada através da administração de seus territórios e dos recursos naturais
encontrados nesse território, na participação nas ações decisórias dos assuntos referentes a esses povos
como reza a Constituição cidadã.
Entre continuidades e rupturas procurarmos entender o processo entre a prática e as leis
normatizadoras no âmbito nacional e internacional que regulam ou deveriam regular tal prática. E nesse
árduo percurso de implantação da legislação, (lembrando que tal lei foi escrita em resposta a
reivindicações prévias, num debate intenso sobre os direitos das populações indígenas), que saem
questionamentos sobre o sujeito político de caráter coletivo que se constrói nessas articulações dos
movimentos indígenas e o diálogo que mantém com o Estado.
Podemos observar que ainda se perpetua a visão de imaturidade política e administrativa desses
povos, mas a ambiguidade nas relações que mantém com os governos aos quais estão subordinados,
sugere uma estratégia de negociação de acordo com seu estatuto jurídico em vigor
Através da prática, das redes de relacionamentos formadas regionalmente é que se constroem os
rumos dos movimentos indígenas.
Atualmente as associações indígenas são a forma representativa mais expressiva desses povos junto
ao Estado. A cooptação das associações indígenas por ONGs, a gerencia de recursos do Estado em

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diversas instâncias (municipal, estadual e federal), aprender usar a “máquina” burocrática para ter acesso
à cidadania tão presente na Constituição, fazem desse modelo uma forma de apropriação da cultura não
indígena por esses povos. Os convênios firmados entre diversos grupos e associações indígenas além
de tornarem esses últimos dependentes desses recursos, fazem com que haja um afastamento dos
objetivos de obtenção de autonomia pretendido no cerne dos movimentos indígenas. A atuação dessas
associações, que além da representatividade também atuam, em alguns casos, administrando recursos
de projetos específicos, como o Distrito Sanitário
Especial Indígena (DSEI) responsável pela saúde indígena e ligado ao Ministério da Saúde, demonstra
uma nova relação com o Estado e com a sociedade civil. O treinamento para apreensão do funcionamento
dessas instituições geralmente são feitos através das ONGs, que não devem ser destituídas de questões
políticas. O aumento de associações indígenas é significativo nas últimas décadas: passando de 4 em
1984 para 474 em 2004 segundo dados do ISA principalmente na Amazônia Legal (estados da região
norte mais os estados do Mato Grosso, Tocantins e Maranhão) onde estão 262 dessas organizações
refletindo a prioridade internacional de financiamentos nesta região.

Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI):


Nesse contexto que em 5 de junho de 2012 que a presidente Dilma Rousseff instituiu através do
Decreto n°7.747 a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), um
programa que conta com a participação do Ministério da Justiça, do Meio ambiente, a Fundação Nacional
do Índio e representantes indígenas. As consultas englobam a proteção ambiental e territorial das T.I com
especial atenção às áreas de sobreposição das terras indígenas com unidades de Conservação
ambiental, pois a própria administração deve passar por consulta prévia e informada dos indígenas, o
mesmo ocorre com os territórios etno educacionais criados pelo Ministério da Educação para atender ao
Decreto n°6861 de 27/05/2009 que institui o direito de uma educação diferenciada preservando suas
culturas, mas tendo acesso ao conhecimento universal acumulado pelo homem. Neste sentido podemos
observar que a entrada no diálogo de diferentes esferas públicas, diferentes ministérios, e ONGs fazem
das relações estabelecidas pelos indígenas, cada vez mais plurais, sejam pela diversidade étnica ou pela
diversidade de atores locais com quem estabelecem relações que por muitas vezes se mostram
conflitantes. A FUNAI deixa de ser o único canal de interlocução dos indígenas com o Estado brasileiro e
os recursos vindos de outros ministérios e Fundações de fórum privado mostram a presença desses
povos na vida política, econômica e cultural do país. Os movimentos indígenas objetivam uma
mobilização da sociedade civil e do Estado para as demandas específicas como demarcação de terras
indígenas, fiscalização para a manutenção desses territórios, escolas bilíngues, saúde diferenciada e
principalmente a autonomia de gerir seus territórios. Em 2006 na Conferência Nacional dos povos
indígenas obtiveram um documento com as propostas para uma política indígena onde através da auto
representação e numa unidade “imaginada” onde as diferenças étnicas se fundem numa reafirmação
frente ao “não índio” pretende-se uma autonomia e o fim real da tutela que não é jurídica, mas ainda real.
Na abertura do documento em questão o discurso oficial da FUNAI (representante do Estado) é a de
representação e participação real dos povos indígenas de acordo com a Constituição (Conferência
Nacional dos Povos Indígenas contou com a participação de 900 delegados, representando 173 etnias
indígenas).
Segundo ainda o discurso oficial a tutela deverá ser mantida como sinônimo de proteção especial, mas
com autonomia dos povos indígenas e com ações locais nas instancias estaduais e municipais, essas
ações e a própria conferencia perpassa pela ideia de construção de uma” sociedade livre, justa e solidária”
mas será que na prática representam efetivamente a diversidade vivenciada pelos povos indígenas? O
PNGATI em suas consultas vai ouvir e respeitar suas vontades ou vão cumprir uma agenda formal
prescrita na lei? Líderes do movimento indígena ao participarem do PNGATI ou da gestão de territórios
etno educacionais ou de um Distrito sanitário Especial Indígena estão sendo ouvidos ou ouvintes? O
Brasil é um país pluriétnico e a legislação deve contemplar essa diversidade étnica. Os indígenas
contrariando todas as previsões do século passado chegaram ao futuro e dados recentes demonstram
que nas últimas décadas do século XX houve um crescimento populacional significativo.
Mas a sobrevivência digna desses povos em seus territórios, principalmente fora da Amazônia,
alcançando a autogestão com base em seus recursos naturais e humanos, sem depender de recursos
externos, ainda se mostra deficitária tendo um longo caminho a ser percorrido.

Conclusão:
“No dia em que não houver lugar para o índio no mundo, não haverá lugar para ninguém”. (Aílton
Krenak. Líder do povo Krenak de Minas Gerais)

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Falamos anteriormente no direito de ocupação de território pelos indígenas como povos originários,
mas o direito de ser indígena hoje vem da questão jurídica, como minorias dentro do Estado-nação. Os
ideais de liberdade e igualdades nos remetem ao século XVIII principalmente com as primeiras
Constituições escritas, como a francesa (1789) e a americana (1776). A ideia de que os indivíduos são
sujeitos de direitos políticos e depois sociais e a inserção cada vez maior de diversos atores na esfera
pública vem crescendo desde então e vemos da segunda metade do século XX em diante, através de
movimentos sociais, o reconhecimento dos direitos das mulheres, dos deficientes físicos, dos gays, de
grupos étnicos, entre outros. A Declaração dos Direitos Humanos no pós Segunda Guerra Mundial nos
aproxima do direito natural desenvolvido na cultura Greco-romana, onde para o bem comum teriam leis
que fazem parte da “natureza “humana como todos os homens terem direito a vida ou nascerem livres,
assim todos sem exceção entram nos acordos societários das sociedades modernas ocidentais, e mesmo
os excluídos encontram um palco para lutas em busca de seus direitos. Os indígenas por exemplo, são
vistos pelo senso comum, como tendo privilégios e não direitos, uma vez que ainda não estão em relações
de simetria com o Estado Brasileiro e com a sociedade circundante, mas vemos atualmente relações
cada vez menos assimétricas e que a interlocução entre os indígenas e o Estado Brasileiro não é uma
luta por poder mas uma negociação para uma convivência em busca do respeito mútuo.
Os direitos indígenas dentro de uma perspectiva dos direitos humanos, ainda estão em construção. O
individualismo iniciado no século XVIII, ocupa cada vez mais espaço nos debates do nosso século, mas
qual o espaço das coletividades nesse mundo de diferenças particulares, onde todos são sujeitos de
direitos?
O maior desafio dos povos indígenas no século XXI são o de garantir seus direitos a saúde, educação
diferenciada, a terra, representação e a manutenção dos direitos já adquiridos.
O questionamento sobre suas identidades que voltam de forma intensa nesse momento seria uma
maneira de destituí-los de suas terras.
A Constituição de 1988 versa mais sobre a questão territorial e do respeito à cultura indígena, mas
deixa abstrato quem é esse indígena sujeito de direito (dos 7 parágrafos do artigo 231, seis falam de terra
e um de recursos naturais).
O conceito de cultura como algo construído e flexível como as encontradas em Max Weber e Fredrik
Barth foram primordial para a resolução de processos de reconhecimento étnico que tiveram atuação de
antropólogos. A FUNAI ainda tem como base a Lei 6001(19/12/1973), conhecido como Estatuto do Índio,
ainda em vigor, o indígena é identificado por auto declaração e reconhecimento da sociedade circundante.
O indígena é descrito conforme seu grau de contato: isolados, em vias de integração e integrados (artigo
4°). Resquícios de um pensamento positivista do início do século XX. Os processos de etno gêneses
demonstram a capacidade de articulação política e apoiados pela legislação vão fortalecendo suas
identidades como forma de garantia de suas terras e direitos diferenciados por educação e saúde.
Os rumos da política indigenista que está se desenhando, tanto estatal como dos movimentos
indígenas tem muitos desafios para que a aplicação do texto constitucional não seja somente retórica e
o maior deles é entendermos que eles não são os outros.
Pertencemos a uma história comum e isso é que nos traz unidade. Assim como outros segmentos da
sociedade, os indígenas possuem o direito de organização e representação.
Enfim, direito à cidadania e quiçá um dia contribuírem de forma efetiva para o desenvolvimento
econômico do país e para sua sobrevivência que é a de todos nós.

Questões

01. (IF-AL - Professor – História – CEFET/2013) No processo crescente que levou à abolição dos
escravos (1888), o Brasil passou a instituir uma legislação que iria culminar com a abolição. Em 1850 foi
sancionada a Lei Euzébio de Queiróz (proibição do tráfico de escravos). Em contrapartida o império
instituiu a Lei das Terras, que significou:
(A) Objetivando regularizar os quilombos que existiam no Brasil, foi criada a Lei das Terras, dessa
forma, os quilombolas poderiam permanecer nas terras ocupadas.
(B) O império objetivava com a criação da LEI DAS TERRAS facilitar a aquisição de terras pelos negros
libertos e dificultar para os imigrantes.
(C) A Lei das Terras tinha o objetivo de restringir terras para os novos libertos e facilitar para os
imigrantes.
(D) Pensando em proteger os negros libertos, a Lei das Terras seria um arcabouço jurídico que
protegeria todos os brasileiros.
(E) Visando a aumentar os valores das terras, a lei foi criada dificultando, assim, a compra por parte
dos libertos, favorecendo a permanência dos libertos como trabalhadores nas fazendas já existentes.

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02. (CESGRANRIO) “A América é uma mulher... Pelo menos assim ela aparece nas iconografias entre
o século XVI e XVIII; o ventre opulento, o longo cabelo amarrado com conchas
e plumas, as pernas musculosas, nus os seios. (...) A representação assim construída pelos europeus
traduzia um discurso que tentava se impor como concepção social sobre o Novo Mundo: a América, como
uma bela e perigosa mulher, tinha que ser vencida e domesticada para ser melhor explorada (...).”
PRIORE, Mary Del. Imagens da terra fêmea: a América e suas mulheres.
In: VAINFAS, Ronaldo (org.) A América em tempo de conquista.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

Desde o final do século XV, a Europa buscou dominar, domesticar e ocidentalizar essa “América
mulher”. A ocidentalização, iniciada após a Conquista, resultou de um projeto colonizador que visou, além
da exploração econômica, à imposição da cultura europeia e cristã no Novo Mundo.
São ações que permitiram o sucesso desse processo de moldagem cultural da América, EXCETO a(o)
(A) catequese dos índios.
(B) imposição do idioma do colonizador ao colonizado.
(C) transposição para a América dos moldes ibéricos de organização político-administrativa.
(D) respeito aos valores culturais dos povos locais, facilitando, assim, as relações com os
conquistadores e a aceitação das novas relações de produção e trabalho.
(E) estabelecimento de missões jesuíticas tanto na América portuguesa quanto na espanhola.

03. (PUC-Rio) A conquista e a colonização europeia na América, entre os séculos XVI e XVII,
condicionaram a formação de sociedades coloniais diversas e particulares. Sobre tais sociedades
podemos afirmar que:
I – Nas áreas de colonização espanhola, explorou-se exclusivamente a força de trabalho das
populações ameríndias, sob a forma de relações servis, como a mita e a encomenda;
II – Nas áreas de colonização portuguesa, particularmente nas áreas destinadas ao fabrico do açúcar,
foi empregada, em larga escala, a mão de obra de negros africanos e/ou de indígenas locais;
III – Ao norte do litoral atlântico norte-americano, área de colonização inglesa, houve o estabelecimento
de pequenas e médias propriedades, nas quais se utilizou tanto o trabalho livre quanto a servidão por
contrato;
IV – Na região do Caribe, em áreas de colonização inglesa e francesa, assistiu-se à implantação da
grande lavoura, voltada para a exportação e assentada no uso predominante de mão de obra de escravos
africanos.

Assinale a alternativa correta.


(A) Apenas as afirmativas I e II estão corretas.
(B) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas.
(C) Apenas as afirmativas II, III e IV estão corretas.
(D) Apenas as afirmativas I, III e IV estão corretas.
(E) Todas as afirmativas estão corretas.

04. (ENEM) Na verdade, o que se chama genericamente de índios é um grupo de mais de trezentos
povos que, juntos, falam mais de 180 línguas diferentes. Cada um desses povos possui diferentes
histórias, lendas, tradições, conceitos e olhares sobre a vida, sobre a liberdade, sobre o tempo e sobre a
natureza. Em comum, tais comunidades apresentam a profunda comunhão com o ambiente em que
vivem, o respeito em relação aos indivíduos mais velhos, a preocupação com as futuras gerações, e o
senso de que a felicidade individual depende do êxito do grupo. Para eles, o sucesso é resultado de uma
construção coletiva. Estas ideias, partilhadas pelos povos indígenas, são indispensáveis para construir
qualquer noção moderna de civilização. Os verdadeiros representantes do atraso no nosso país não são
os índios, mas aqueles que se pautam por visões preconceituosas e ultrapassadas de “progresso”.
AZZI, R. As razões de ser guarani-kaiowá. Disponível em: www.outraspalavras.net. Acesso em: 7 dez.
2012.

Considerando-se as informações abordadas no texto, ao iniciá-lo com a expressão “Na verdade”, o


autor tem como objetivo principal
(A) expor as características comuns entre os povos indígenas no Brasil e suas ideias modernas e
civilizadas.
(B) trazer uma abordagem inédita sobre os povos indígenas no Brasil e, assim, ser reconhecido como
especialista no assunto.

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(C) mostrar os povos indígenas vivendo em comunhão com a natureza, e, por isso, sugerir que se
deve respeitar o meio ambiente e esses povos.
(D) usar a conhecida oposição entre moderno e antigo como uma forma de respeitar a maneira
ultrapassada como vivem os povos indígenas em diferentes regiões do Brasil.
(E) apresentar informações pouco divulgadas a respeito dos indígenas no Brasil, para defender o
caráter desses povos como civilizações, em contraposição a visões preconcebidas.

05. (ENEM) Coube aos Xavante e aos Timbira, povos indígenas do Cerrado, um recente e marcante
gesto simbólico: a realização de sua tradicional corrida de toras (de buriti) em plena Avenida Paulista
(SP), para denunciar o cerco de suas terras e a degradação de seus entornos pelo avanço
do agronegócio.
RICARDO, B.; RICARDO, F. Povos indígenas do Brasil: 2001-2005.
São Paulo: Instituto Socioambiental, 2006 (adaptado).

A questão indígena contemporânea no Brasil evidencia a relação dos usos socioculturais da terra com
os atuais problemas socioambientais, caracterizados pelas tensões entre
(A) a expansão territorial do agronegócio, em especial nas regiões Centro-Oeste e Norte, e as leis de
proteção indígena e ambiental.
(B) os grileiros articuladores do agronegócio e os povos indígenas pouco organizados no Cerrado.
(C) as leis mais brandas sobre o uso tradicional do meio ambiente e as severas leis sobre o uso
capitalista do meio ambiente.
(D) os povos indígenas do Cerrado e os polos econômicos representados pelas elites industriais
paulistas.
(E) o campo e a cidade no Cerrado, que faz com que as terras indígenas dali sejam alvo de invasões
urbanas.

06. (Fuvest 2014) A colonização, apesar de toda violência e disrupção, não excluiu processos de
reconstrução e recriação cultural conduzidos pelos povos indígenas. É um erro comum crer que a história
da conquista representa, para os índios, uma sucessão linear de perdas em vidas, terras e distintividade
cultural. A cultura xinguana – que aparecerá para a nação brasileira nos anos 1940 como símbolo de uma
tradição estática, original e intocada – é, ao inverso, o resultado de uma história de contatos e mudanças,
que tem início no século X d.C. e continua até hoje.
Carlos Fausto. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

Com base no trecho acima, é correto afirmar que


(A) o processo colonizador europeu não foi violento como se costuma afirmar, já que ele preservou e
até mesmo valorizou várias culturas indígenas.
(B) várias culturas indígenas resistiram e sobreviveram, mesmo com alterações, ao processo
colonizador europeu, como a xinguana.
(C) a cultura indígena, extinta graças ao processo colonizador europeu, foi recriada de modo mitológico
no Brasil dos anos 1940.
(D) a cultura xinguana, ao contrário de outras culturas indígenas, não foi afetada pelo processo
colonizador europeu.
(E) não há relação direta entre, de um lado, o processo colonizador europeu e, de outro, a mortalidade
indígena e a perda de sua identidade cultural.

07. (Fuvest 2013)

Victor Meireles. Moema,1866

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Em seu contexto de origem, o quadro acima corresponde a uma;
(A) denúncia política das guerras entre as populações indígenas brasileiras.
(B) idealização romântica num contexto de construção da nacionalidade brasileira
(C) crítica republicana à versão da história do Brasil difundida pela monarquia.
(D) defesa da evangelização dos índios realizada pelas ordens religiosas no Brasil.
(E) concepção de inferioridade civilizacional dos nativos brasileiros em relação aos indígenas da
América Espanhola.

08. (Comvest 2013) A história de São Paulo no século XVII se confunde com a história dos povos
indígenas. Os índios não se limitaram ao papel de tábula rasa dos missionários ou vítimas passivas dos
colonizadores. Foram participantes ativos e conscientes de uma história que foi pouco generosa com
eles.
(Adaptado de John M. Monteiro, “Sangue Nativo”, em
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/sangue-nativo. Acessado em 14/07/2013.)

Sobre a atuação dos indígenas no período colonial, pode-se afirmar que:


(A) A escravidão foi por eles aceita, na expectativa de sua proibição pela Coroa portuguesa, por
pressão dos jesuítas.
(B) Sua participação nos aldeamentos fez parte da integração entre os projetos religioso e bélico de
domínio português, executados por jesuítas e bandeirantes.
(C) A existência de alianças entre indígenas e portugueses não exclui as rivalidades entre grupos
indígenas e entre os nativos e os europeus.
(D) A adoção do trabalho remunerado dos indígenas nos engenhos de São Vicente contrasta com as
práticas de trabalho escravo na Bahia e Pernambuco.

09. (Vunesp 2012) Leia o texto para responder à questão 04

[Os tupinambás] têm muita graça quando falam [...]; mas faltam-lhe três letras das do ABC, que são F,
L, R grande ou dobrado, coisa muito para se notar; porque, se não têm F; é porque não têm fé em
nenhuma coisa que adoram; nem os nascidas entre os cristãos e doutrinados pelos padres da Companhia
têm fé em Deus Nosso Senhor, nem têm verdade, nem lealdade a nenhuma pessoa que lhes faça bem.
E se não têm L em sua pronunciação, é porque não têm lei alguma que guardar, nem preceitos para se
governarem; e cada um faz lei a seu modo, e ao som da sua vontade; sem haver entre eles leis com que
se governem, nem têm leis uns com os outros. E se não têm esta letra R na sua pronunciação, é porque
não têm rei que os reja, e a quem obedeçam, nem obedecem a ninguém, nem ao paio filho, nem o filho
ao pai, e cada um vive ao som da sua vontade [...j.
(Gabriel Soares de Souza. Tratado descritivo do Brasil em 1587, 1987.)

Os comentários de Gabriel Soares de Souza expõem


(A) a dificuldade dos colonizadores de reconhecer as peculiaridades das sociedades nativas.
(B) o desejo que os nativos sentiam de receber orientações políticas e religiosas dos colonizadores.
(C) a inferioridade da cultura e dos valores dos portugueses em relação aos dos tupinambás.
(D) a ausência de grupos sedentários nas Américas e a missão civilizadora dos portugueses.
(E) o interesse e a disposição dos europeus de aceitar as características culturais dos tupinambás.

10. (UECE 2010) No Brasil, os europeus adotaram diferentes estratégias para tentar controlar os
indígenas ao longo do período colonial. Sobre essas estratégias são feitas as seguintes afirmações:
I. A presença de missionários cristãos encarregados da “conquista espiritual dos nativos” representou
uma importante estratégia neste processo.
II. O surgimento de uma disputa pela fé dos indígenas foi observado entre os padres vindos da Europa
e os xamãs, líderes religiosos indígenas.
III. Nessa disputa, os missionários católicos levaram vantagem e a Ordem Religiosa que mais obteve
sucesso na tarefa de catequizar os índios foi a Ordem Franciscana.

É correto o que se afirma


(A) somente em II.
(B) somente em I e III.
(C) em I, II e III.
(D) somente em I e II.

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Respostas

01. Resposta: E
A Lei de Terras, além de garantir a manutenção da propriedade nas mãos de grandes proprietários,
visava direcionar a mão-de-obra liberta ou imigrante para o trabalho assalariado, evitando a fragmentação
das terras em um modelo baseado na pequena propriedade.

02. Resposta: D
Os europeus, ao chegarem na América, entenderam seus habitantes como seres selvagens,
desprovidos de cultura, de religião e de leis, estando portanto, entregues à barbárie, em sua visão. Por
serem vistos como selvagens, os europeus mudaram os costumes dos grupos indígenas encontrados,
tanto na América Portuguesa, quanto na América Espanhola, impondo sua língua e religião, e
condenando aqueles que fossem contrários.

03. Resposta: C
A afirmativa I está incorreta por dizer que a mão de obra utilizada nas áreas de colonização espanhola
era exclusivamente ameríndia, o que não é correto, pois houve a utilização de mão de obra de africanos
escravizados em algumas regiões, como no Vice-Reino de Nova Granada.

04. Resposta: E
A intenção do autor é demonstrar o caráter civilizado das sociedades indígenas, que não são nem um
pouco homogêneas como a palavra “índio” usada genericamente para definir qualquer indivíduo que
pertença a um grupo indígena.

05. Resposta: A
O avanço da busca por terras cultiváveis para o plantio de soja, principalmente, tem entrado em conflito
com grupos indígenas nessas regiões, que se recusam a abandonar suas terras, e muitas vezes acabam
expulsos ou mortos em conflitos com fazendeiros.

06. Resposta: B
Durante muito tempo foi comum a ideia da Aculturação do indígena, ou seja, a perda de sua cultura
e inserção na cultura nacional, descaracterizando o indivíduo como indígena. Esse ponto de vista tem
mudado com o entendimento de que os povos indígenas brasileiros não “perderam” sua cultura, apenas
tiveram de adaptá-la para garantir a sobrevivência, tanto de seus praticantes como de seus costumes.

07. Resposta: B
Inspirado no poema “Caramuru”, do Frei Santa Rita Durão, o quadro retrata a morte de Moema, índia
apaixonada por Caramuru que morre afogada ao tentar alcançar o barco no qual Caramuru retornava
para Portugal, ilustrando através de uma metáfora a dependência do Brasil de Portugal. A imagem foi
pintada no século XIX, quando temas da cultura nacional como o indianismo eram recorrentes nas artes
como forma de reafirmação nacional, que buscava explicar as origens do Brasil através da mistura entre
portugueses e indígenas, com a posterior adição do negro. Outra obra da época é o romance O Guarani,
de José de Alencar, publicado em 1857.

08. Resposta: C
O auxilio prestado aos europeus por parte de muitos grupos indígenas foi bastante complexo e
envolveu muitas razões políticas. Muitas vezes a aliança a um determinado grupo (bandeirantes, jesuítas,
encomenderos) representava a oportunidade de eliminar um inimigo ou resistir aos processos de trabalho,
conflitos e escravidão impostos.

09. Resposta: A
Ao tentar entender as sociedades nativas do Brasil sob o ponto de vista europeu, era impossível
perceber as maneiras de organização social existentes, reduzindo-as à infantilidade ou barbárie. Essa
análise prejudicou os povos indígenas, que foram vistos durante muito tempo como selvagens e pagãos,
sem moral ou regras.

10. Resposta: D
A religião foi um fator extremamente importante no processo colonizador da América. Os padres da
Companhia de Jesus, denominados jesuítas foram aqueles que tiveram participação mais expressiva na

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conquista religiosa, muitas vezes conflituosa devido à resistência na aceitação de uma nova religião por
parte dos indígenas.

7. As políticas públicas direcionadas aos povos indígenas.

A Fundação Nacional do Índio (Funai)

Desde 1967, a Fundação Nacional do Índio (Funai) é o órgão indigenista oficial responsável pela
promoção e proteção aos direitos dos povos indígenas de todo o território nacional.

A criação da Funai no contexto da ditadura militar


Embora projetada pelos intelectuais do CNPI para superar os antigos impasses do SPI, a Funai acabou
por reproduzi-los. Sua criação foi inserida no plano mais abrangente da ditadura militar (1964-1985), que
pretendia reformar a estrutura administrativa do Estado e promover a expansão político-econômica para
o interior do País, sobretudo para a região amazônica. As políticas indigenistas foram integralmente
subordinadas aos planos de defesa nacional, construção de estradas e hidrelétricas, expansão de
fazendas e extração de minérios. Sua atuação foi mantida em plena afinidade com os aparelhos
responsáveis por implementar essas políticas: Conselho de Segurança Nacional (CSN), Plano de
Integração Nacional (PIN), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Departamento
Nacional de Produção Mineral (DNPM).

A ação da Funai durante a ditadura foi fortemente marcada pela perspectiva assimilacionista. O
Estatuto do Índio (Lei nº 6.001) aprovado em 1973, e ainda vigente, reafirmou as premissas de integração
que permearam a história do SPI. Por um lado, pretendia-se agregar os índios em torno de pontos de
atração, como batalhões de fronteira, aeroportos, colônias, postos indígenas e missões religiosas. Por
outro, o foco era isolá-los e afastá-los das áreas de interesse estratégico. Para realizar este projeto, os
militares aprofundaram o monopólio tutelar: centralizaram os projetos de assistência, saúde, educação,
alimentação e habitação; cooptaram lideranças e facções indígenas para obter consentimento; e limitaram
o acesso de pesquisadores, organizações de apoio e setores da Igreja às áreas indígenas (M. Santilli,
1991).

A estrutura do órgão
O órgão foi concebido em bases semelhantes às do SPI. Até 1991 se manteve vinculado ao extinto
Ministério do Interior, que sempre exerceu grande ingerência sobre suas ações. Os presidentes
nomeados entre as décadas de 1970 e 1980 eram, em grande maioria, militares ou políticos de carreira
pouco ou nada comprometidos, e até mesmo contrários aos interesses indígenas. A administração foi
centralizada em Brasília. Os postos indígenas foram mantidos e as inspetorias transformadas em
delegacias regionais. Outras instâncias – ajudâncias, superintendências, administrações executivas,
núcleos locais de apoio – foram criadas e extintas ao longo do tempo. A despeito destas modificações, a
Funai se estruturou aos moldes do SPI, de modo mais ou menos centralizado, com grande rigidez
burocrática, em três níveis espaciais: nacional, regional e local (Souza Lima, 2001).

Apesar das irregularidades que levaram à extinção do SPI, seu quadro funcional foi transferido para a
Funai. Com recursos escassos e mal contabilizados, a Funai continuou a operar, assim como o SPI, com
profissionais pouco qualificados. Não se concretizou a proposta de se realizar planejamentos
antropologicamente orientados, conduzidos por profissionais de formação sólida, bem pagos e
comprometidos com o futuro dos povos indígenas. O órgão foi permeado, em todos os níveis, por redes
de relações pessoais, clientelistas e corporativas, que remetem ao paternalismo e ao voluntarismo que
dominaram o velho SPI. A criação da Funai foi marcada pela ineficiência, desinteresse e dificuldade de
operação, o que levou o órgão a limitar sua intervenção a favor dos índios a situações altamente críticas,
conflituosas e emergenciais, consequentes dos planos de colonização e exploração econômica que
chegavam aos extremos do país (Oliveira, 2006; Souza Lima, 2002).

A emergência da questão indígena no cenário nacional


Neste contexto desfavorável, a questão indígena começou a emergir no cenário político nacional. A
maior parte das organizações de apoio aos índios se estruturou na década de 1970. Entre elas destaca-
se: as comissões pró-índio (CPIs), as associações nacionais de apoio ao índio (ANAIs), o Conselho

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Indigenista Missionário (CIMI), o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), a Operação Amazônia Nativa
(OPAN), o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) e o Núcleo de Direitos Indígenas
(NDI). Estas duas últimas se juntaram para fundar o atual Instituto Socioambiental (ISA). Criadas por
intelectuais e clérigos envolvidos com a questão indígena, estas entidades passaram a realizar
importantes trabalhos como: o questionamento fundamentado às políticas oficiais, a interlocução entre
índios e Funai, bem como a formulação de alternativas concretas para o indigenismo brasileiro (M. Santilli,
1991; Souza Lima, 2002).
Na década de 1980, diversas manifestações indígenas passaram a ganhar visibilidade nacional.
Também neste período começaram a se estruturar suas primeiras organizações formais de base
comunitária ou regional. Em âmbito nacional foi criada a União das Nações Indígenas (UNI), que já não
existe mais. Conheça as organizações indígenas compiladas pelo ISA.

Os povos indígenas e o marco jurídico atual


Com as mobilizações indígenas e das organizações de apoio, a Constituição de 1988 acabou por
conferir um tratamento inédito aos povos indígenas. Pela primeira vez foi reconhecido seu direito à
diferença (Art. 231), rompendo com a tradição assimilacionista que prevaleceu até então. Foi garantido o
usufruto exclusivo de seus territórios tradicionalmente ocupados, definidos a partir de seus usos,
costumes e tradições (Art. 231). A União foi instituída definitivamente como instância privilegiada das
relações entre os índios e a sociedade nacional. Através do artigo 232, os indígenas e suas organizações
foram reconhecidos como partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos, o que
incentivou a expansão e a consolidação de suas associações. Para isso, foram definidos canais diretos
de comunicação entre os índios, o Ministério Público e o Congresso Nacional. Com estas medidas, o
conceito de “capacidade relativa dos silvícolas” (Código Civil, 1917), e a consequente necessidade do
“poder de tutela” perderam validade e atualidade. Estas vitórias constitucionais precisariam, entretanto,
ser regulamentadas e consolidadas politicamente.
Em 1991, uma Comissão Especial foi instaurada para rever o Estatuto do Índio (1973) a partir do
enfoque inovador da Carta de 1988. Foram abordados temas como: a situação jurídica dos índios e as
responsabilidades assistenciais da Funai; os direitos de autoria e a propriedade intelectual; a proteção
ambiental e a regulamentação do uso e exploração de recursos naturais; os procedimentos de
demarcação de terras indígenas. A tramitação do projeto, entretanto, foi paralisada em 1994.

A descentralização do indigenismo oficial


No início da década de 1990, houve amplos debates acerca do papel do órgão indigenista oficial a
partir do novo marco jurídico. O Ministério do Interior foi extinto e a Funai foi transferida ao Ministério da
Justiça. Blocos parlamentares anti-indígenas propunham fechá-la, sem substituí-la por nada novo, o que
provocaria um grande vazio administrativo. Mobilizações indígenas e organizações de apoio defendiam
que a reestruturação do órgão fosse feita concomitantemente à aprovação do texto do Estatuto. Em 1991,
o governo Collor realizou, por meio de decretos, uma ampla reforma das atribuições da Funai. As
responsabilidades sobre saúde, educação, desenvolvimento rural e meio ambiente foram
descentralizadas, e passaram a ser exercidas pelos Ministérios da Saúde, Educação, Desenvolvimento
Agrário e Meio Ambiente. As ações extra-Funai decretadas por Collor tomaram rumos distintos e
impactaram de modos diferenciados os povos indígenas do Brasil. Durante os anos FHC estas políticas
passaram a adquirir contornos administrativos mais precisos. Algumas ONGs e associações indígenas
passaram a participar ativamente do processo de implementação das políticas públicas.
Com os decretos de 1991, a Funai, esvaziada em suas atribuições, passou a se concentrar nas
políticas de regularização fundiária. Em 1996, o governo FHC modificou as regras para a demarcação de
Terras Indígenas visando destacar a necessidade da participação indígena e o direito a contestação das
partes afetadas (Decreto 1775/96, Portaria 14/96).

O desenvolvimento dos projetos participativos


Também em 1996 passou a operar o Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas
da Amazônia Legal (PPTAL), resultado da parceria entre a Funai e o Programa Piloto para a Conservação
das Florestas Tropicais do Brasil – PPG7. Embora direcionado à demarcação de terras, o PPTAL se
propôs a criar alternativas concretas e de longo prazo ao modelo tutelar. Sua proposta se baseou no
estímulo ao controle social e à atuação indígena qualificada na estrutura da Funai e do Estado de modo
mais abrangente. Em seu âmbito, a partir da experiência dos Wajãpi do Amapá, foi criado o modelo de
“demarcação participativa”, que tem como premissa básica a parceria e a corresponsabilidade dos povos
indígenas na formulação das políticas que lhes afetam diretamente. Neste modelo, a própria demarcação
é tomada como apenas uma das etapa do processo mais abrangente de gestão sustentável das Terras

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Indígenas. Trata-se de uma proposta baseada no diálogo intercultural, que apenas se realiza enquanto
política pública com o pleno envolvimento e concordância dos povos interessados (Mendes, 2002).
A experiência inovadora do PPTAL estimulou a criação em 2001 do Projeto Demonstrativo dos Povos
Indígenas (PDPI), desenvolvido no âmbito do Ministério do Meio Ambiente em parceria com o PP-G7.
Este projeto é voltado ao financiamento de iniciativas de valorização cultural e desenvolvimento
sustentável elaborados e geridos pelas populações indígenas e seus parceiros.

A Funai e as novas demandas por reconhecimento indígena


Em 2002, a ratificação pelo governo brasileiro da Convenção nº 169 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT) sobre “Sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes” (1989) aprofundou a
sustentação jurídica às demandas de povos antes tomados por aculturados e integrados, que atualmente
reivindicam, em diversas regiões do Brasil, seus direitos indígenas diferenciados. Cada vez mais
numerosas, estas reivindicações trazem novos desafios à atuação da Funai, responsável pela
demarcação das Terras Indígenas no país.

A valorização dos conhecimentos tradicionais


Na virada do milênio, os conhecimentos indígenas e tradicionais passaram a ganhar destaque na
agenda nacional e internacional. As discussões se concentram na criação e aprimoramento de
mecanismos legais que impeçam que estas populações sejam expropriadas de seu rico patrimônio
intelectual, produzido ao longo de gerações. O problema é evidente no caso dos conhecimentos
associados à biodiversidade que têm sido alvo de inúmeros casos de biopirataria. Embora acordos
internacionais como a Convenção da Diversidade Biológica e a Agenda 21, criadas no contexto da Eco-
92, tenham destacado a urgência do problema, apenas em 2002 o Brasil iniciou, através de decreto
presidencial (nº 4.339, de 22 de agosto de 2002), uma política nacional de biodiversidade, que, entretanto,
precisa ser aprimorada em diversos aspectos (J. Santilli, 2000, 2002). Também neste âmbito e neste
período, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), vinculado ao Ministério da
Cultura, passou a realizar ações de proteção, valorização e salvaguarda do patrimônio cultural material e
imaterial de povos indígenas e tradicionais. Estas ações decorrem do esforço de regulamentação da
Constituição de 88, que em seus artigos 215 e 216 formaliza o valor imaterial dos bens culturais. No ano
2000 o decreto 3.551 instituiu os mecanismos oficiais de valorização e proteção do patrimônio cultural no
Brasil. Estes instrumentos, entretanto, se encontram em fase inicial de consolidação e são alvo de
pesquisas e debates entre especialistas. Até mesmo no campo internacional as propostas neste sentido
são recentes. Data de 2003 a Convenção da UNESCO para a “Salvaguarda do Patrimônio Cultural
Imaterial”.

O desafio da consolidação do paradigma participativo


Desde a Constituição de 1988 o indigenismo oficial passou por diversas e significativas mudanças,
voltadas, de modo geral, ao reconhecimento e à valorização da diferença cultural. As políticas públicas
direcionadas aos povos indígenas têm se tornado cada vez mais descentralizadas e realizadas no âmbito
de diversos ministérios que atuam em parceria com agências de cooperação internacional e organizações
não-governamentais. A premissa elementar do conjunto das ações é o estímulo à participação e à co-
responsabilidade indígena na gestão das políticas destinadas a eles. Entretanto, o sucesso destas
políticas depende de sua plena consolidação jurídica e institucional em todos níveis, do local ao governo
central. Afinal, o poder tutelar, o assistencialismo e o assimilacionismo ainda são uma realidade
fortemente enraizada em diversas práticas do relacionamento entre o Estado e os povos indígenas.
Em relação à consolidação jurídica deste novo momento, é notável que o Estatuto do Índio de 1973,
de bases integracionistas, ainda esteja vigente. Entre 1991 e 1994, foi apresentada uma proposta de
substituição ao texto que jamais foi votada pelo congresso. Em março de 2006, o governo federal criou a
Comissão Nacional de Política Indígenista (CNPI). Em sua agenda, foi estabelecida a prioridade da
atualização do Estatuto, com vistas a apresentar uma regulamentação integrada dos diversos temas da
agenda dos povos indígenas: o patrimônio e os conhecimentos tradicionais, a proteção e a gestão
territorial e ambiental, as atividades sustentáveis e o uso de recursos renováveis, o aproveitamento de
recursos minerais e hídricos, a assistência social, a educação escolar e o atendimento à saúde
diferenciados. Em julho de 2009, a proposta - construída com a participação de representantes indígenas
– foi apresentada ao Congresso Nacional e aguarda votação.
Neste contexto, o atual CNPI e a Funai tem a tarefa de articular e integrar o conjunto das ações estatais
de defesa dos direitos indígenas, com vistas a promover o paradigma participativo e superar
definitivamente seu papel tutelar. Com este objetivo, o órgão indigenista oficial têm realizado esforços
para atualizar suas práticas e modos de funcionamento.

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Reestruturação da Funai
Em fins de 2009, o governo Lula anunciou, por meio de decreto presidencial (nº 7.056, 28/12), um
amplo plano de reestruturação da Funai, que pretende oferecer maior capacidade de atuação onde vivem
os povos indígenas. As Administrações Executivas Regionais (AERs) e Postos Indígenas (PIs) foram
substituídos por Coordenações Técnicas Locais e Regionais, formadas por técnicos qualificados, que
passarão a desenvolver ações participativas junto aos povos indígenas envolvidos. Nesta estrutura, está
planejada a criação de Conselhos Consultivos, nos quais os indígenas e as organizações parceiras
participam diretamente na formulação, implantação e gestão das políticas públicas a eles destinadas.
Além disso, está prevista a criação de 3,1 mil cargos a serem preenchidos até 2012. Esta nova estrutura
pretende, conforme sua direção, superar os impasses históricos do órgão indigenista oficial. Apreensivos,
diversos povos se posicionaram contra as mudanças e reclamaram de falta de consulta prévia prevista
na Convenção nº 169 da OIT.

Lista de organizações de apoio aos povos indígenas


Segue uma lista de entidade de apoio aos povos indígenas, com um breve resumo de suas atividades:

AMAZOÉ - Apoio Mobilizado ao Povo Zo'é e Outras Etnias


A AMAZOÉ é uma associação civil sem fins lucrativos, apartidária e laica, formada a partir de 2003 por
um pequeno grupo de indivíduos que têm dedicado vários anos de trabalho, convívio e suporte aos Zo’é.
Pretendemos viabilizar formas alternativas e criativas de apoio a este povo indígena, tanto em aspectos
logísticos e práticos, quanto pela carência de canais de divulgação e sensibilização pública para questões
críticas, políticas indigenistas e situações dramáticas referentes aos chamados “índios isolados”: povos
não-contatados, povos ocultos, autônomos ou “invisíveis”, como têm sido chamados os povos indígenas
sem “contato regular” com o restante das sociedades nacionais.

ANAI – Associação Nacional de Ação Indigenista


A ANAI faz indigenismo aplicado na região Nordeste-Leste, a mesma área compreendida pelos
estados "representados" pela organização indígena Apoinme – Articulação dos Povos Indígenas no
Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. Seus ativistas intervêm em políticas públicas direcionadas para
os povos indígenas da região nas áreas fundiária, de educação, saúde, sustentabilidade etc. Assessoram
a Apoinme e organizações indígenas de caráter local na região, em especial na Bahia, em ações de
formação política, de direitos indígenas e outros temas. Possui uma rede de disseminação de notícias
sobre povos indígenas denominada ANAIND.

CCPY (Comissão Pró-Yanomami)


Criada em 1978, a Comissão Pró-Yanomami (CCPY), originalmente denominada Comissão pela
Criação do Parque Yanomami, é uma organização não-governamental brasileira sem fins lucrativos
dedicada à defesa dos direitos territoriais, culturais e civis dos Yanomami. Seu primeiro objetivo foi lutar
pela demarcação da Terra Indígena Yanomami. Para isso, dedicou-se a uma longa e ampla campanha
nacional e internacional de modo a informar e sensibilizar a opinião pública e pressionar o Estado
brasileiro a efetuar a demarcação de uma área contínua e adequada às necessidades dos Yanomami.
Depois de 13 anos desta campanha ininterrupta, a Terra Indígena Yanomami foi oficialmente demarcada
em 1991 e homologada e registrada em 1992, garantindo, assim, a esse povo indígena o direito
constitucional de usufruto exclusivo de quase 96.650 quilômetros quadrados localizados no norte dos
estados de Roraima e Amazonas. Uma vez garantida oficialmente a Terra Indígena Yanomami, a CCPY
passou a concentrar-se em duas áreas fundamentais: saúde, retomando em 1991 um programa de
assistência iniciado em 1981 (porém interrompido com a invasão garimpeira de 1987-89), e educação,
com o fomento, a partir de 1995, de uma rede de escolas em três regiões do território yanomami no estado
do Amazonas.

CIMI – Conselho Indigenista Missionário


“O Cimi é um organismo vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que, em sua
atuação missionária, conferiu um novo sentido ao trabalho da igreja católica junto aos povos indígenas.
Impulsionados(as) por nossa fé no Evangelho da vida, justiça e solidariedade e frente às agressões do
modelo neoliberal, decidimos intensificar a presença e apoio junto às comunidades, povos e organizações
indígenas e intervir na sociedade brasileira como aliados (as) dos povos indígenas, fortalecendo o
processo de autonomia desses povos na construção de um projeto alternativos, pluriétnico, popular e
democrático.”

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COMIN – Conselho de Missão entre Índios
O Conselho de Missão entre Índios (Comin) é um órgão da Igreja Evangélica de Confissão Luterana
no Brasil (IECLB). Foi criado em 1982, com a finalidade de assessorar e coordenar o trabalho da IECLB
com os povos indígenas em todo Brasil. Para atender este objetivo, o Comin se faz presente junto a
alguns povos e comunidades indígenas, criando parcerias e dando apoio nas áreas da educação, saúde,
terra, organização e auto-sustentação. O Comin tem como princípio e compromisso apoiar as prioridades
colocadas pelos povos e comunidades indígenas, respeitando seu jeito de ser e sua cultura, trabalhando
com eles e não por eles.

CPI-AC (Comissão Pró-Índio do Acre)


A Comissão Pró-Índio do Acre (CPI – AC) é uma organização não-governamental, indigenista, criada
em 19 de fevereiro de 1979. Presente em 11 municípios, conta com três coordenações: educação, saúde,
meio ambiente/agricultura. Desenvolve cursos de formação, assessora as aldeias, providencia
documentação e publicação didática para 9 etnias, em 20 terras indígenas (Ashaninka, Kaxinawá, Arara,
Manchineri, Apurinã, Jaminawa, Yawanawá, Kulina e Katukina). Além dessas atividades, realizadas no
Acre, a CPI assessora programas voltados para as populações indígenas de outros estados.

CPI-SP (Comissão Pró-Índio de São Paulo)


A organização não-governamental Comissão Pró-Índio de São Paulo foi fundada em 1978 por um
grupo de antropólogos, advogados, médicos, jornalistas e estudantes para defender os direitos dos povos
indígenas frente às crescentes ameaças do regime ditatorial vigente naquela época. Nos seus 30 anos
de existência, Comissão Pró-Índio de São Paulo tem atuado junto com índios e quilombolas para garantir
seus direitos territoriais, culturais e políticos, procurando contribuir com o fortalecimento da democracia e
o reconhecimento dos direitos das minorias étnicas.

CTI (Centro de Trabalho Indigenista)


Fundado em 1979, o Centro de Trabalho Indigenista por meio dos programas atua diretamente com
as comunidades indígenas – Guarani, Timbira, Terena, Vale do javari -, repassando recursos e assessoria
técnica. Cada programa foi elaborado a partir de demandas locais identificadas em conjunto com os
índios. O objetivo do trabalho é que as comunidades reduzam a dependência em relação ao Estado e a
outras agências assistenciais, assumindo o controle de toda e quaisquer intervenções em seus territórios.
Os programas significam ações continuadas e perfazem uma ou mais linhas temáticas, organizadas e
viabilizadas por meio de projetos inter-complementares.

Iepé (Instituto de Formação e Pesquisa em Educação Indígena)


O objetivo central do Iepé é contribuir para o fortalecimento cultural e político e para o desenvolvimento
sustentável das comunidades indígenas que vivem no Amapá e norte do Pará, proporcionando-lhes
assessoria especializada e capacitação técnica diversificada para que se organizem e possam enfrentar
de forma articulada os desafios crescentes que se colocam hoje às suas comunidades e organizações,
para a defesa de seus interesses. Partimos do pressuposto de que a consolidação de um movimento de
articulação entre os grupos indígenas da região, em torno de questões de interesse coletivo, é também a
melhor maneira de fortalecer suas organizações representativas frente aos seus interlocutores externos.

INESC - O Instituto de Estudos Socioeconômicos


É uma organização não governamental, sem fins lucrativos, não partidária e com finalidade pública.
Tem por missão: "Contribuir para o aprimoramento da democracia representativa e participativa visando
à garantia dos direitos humanos, mediante a articulação e o fortalecimento da sociedade civil para
influenciar os espaços de governança nacional e internacional". Criado em 1979, o Inesc atua, em todos
os seus projetos, com duas principais linhas de ação: o fortalecimento da sociedade civil e a ampliação
da participação social em espaços de deliberação de políticas públicas. Um de seus públicos-alvo são as
populações indígenas situadas no Brasil.

Instituto Socioambiental (ISA)


Fundado em 22 de abril de 1994, o ISA incorporou o patrimônio material e imaterial de 15 anos de
experiência do Programa Povos Indígenas no Brasil do Centro Ecumênico de Documentação e
Informação (PIB/CEDI) e o Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) de Brasília. Ambas organizações de
atuação reconhecida nas questões dos direitos indígenas no Brasil. O Atualmente o ISA possui quatro
programas envolvidos diretamente com a defesa e a garantia dos povos indígenas situados no Brasil,

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bem como em projetos de formação e intervenção social em diversas áreas. Veja a seguir o resumo de
cada um deles. Para maiores informações e detalhes de cada programa, entre nos links indicados.

KANINDÉ (Associação de Defesa Etnoambiental)


A Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse
Público - OSCIP, sem fins lucrativos, fundada em 15 de novembro de 1992, por um grupo de pessoas
que trabalhavam com o povo indígena Uru-eu-wau-wau e na defesa do meio ambiente, em Rondônia.
Entre as principais atividades desenvolvidas, desde a sua criação, destaca-se as ações de vigilância e
fiscalização da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau e do Parque Nacional de Pacaás Novos, a assessoria às
organizações indígenas, laudos de impacto ambiental, Diagnóstico Etnoambiental Participativo em Terras
Indígenas, avaliações ecológicas rápidas, educação ambiental, elaboração de projetos e
acompanhamento de políticas públicas.

OPAN (Operação Amazônia Nativa)


O apoio da ONG Operação Amazônia Nativa (Opan) aos Enawenê-Nawê tem como objetivo promover
ações indigenistas nas áreas de saúde, educação, economia e controle do território. Em 1995, teve início
um processo de alfabetização na língua nativa, que tem como marca diferencial não ser acompanhado
da criação de um espaço escolar definido. Mais recentemente, por solicitação expressa dos Enawenê-
Nawê e levando-se em conta o processo de intensificação do contato, foi iniciado o ensino da língua
portuguesa e de aritmética, além do trabalho sistemático de discussão sobre aspectos políticos,
econômicos e epidemiológicos da região e do País. Para a defesa de suas terras, a Opan desenvolve,
junto com os Enawenê-Nawê, um programa de fiscalização dos limites do território e o monitoramento do
entorno. No campo da economia, buscou-se ampliar a produção interna por meio do plantio de
castanheiras e da introdução de outros cultivares. Em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista
(CTI) e sob a direção da antropóloga Virgínia Valadão, a Opan viabilizou a realização do vídeo Yãkwa, o
banquete dos espíritos.

PORTAL KAINGANG
É um espaço de divulgação da cultura e dos direitos do povo Kaingang que se encontram espalhados
em todos os estados da região sul e sudeste no Brasil. Foi criado e é mantido pelos indigenistas e
pesquisadores Juracilda Veiga e Wilmar da Rocha D'Angelis.

Projeto Vídeo nas Aldeias


O Projeto Vídeo nas Aldeias promove, há 14 anos, o encontro do índio com sua imagem. A proposta
é tornar o vídeo um instrumento de expressão das identidades indígenas, refletindo suas visões sobre si
mesmos e sobre o mundo. Ao equipar as comunidades indígenas com aparelhos de vídeo, o projeto
estimulou o intercâmbio de imagens e informações entre os povos. A formação de documentaristas
indígenas foi feita, inicialmente, de aldeia em aldeia, produzindo registros para uso interno. Hoje, através
de oficinas nacionais e regionais, eles aprendem e discutem juntos como falar de sua realidade para o
seu povo e para o mundo.

URIHI - Saúde Yanomami


A URIHI - Saúde Yanomami é uma organização não-governamental brasileira que tem por objetivos
institucionais apoiar os índios Yanomami e promover a defesa dos seus direitos coletivos, especialmente
o seu direito à saúde. A organização prestou assistência à saúde de 50% da população Yanomami
residente no Brasil, no período de janeiro de 2000 a julho de 2004, através de convênio com a FUNASA.

Projeto Trilhas De Conhecimentos: Ensino Superior Indígena


O Projeto Trilhas de Conhecimentos - o ensino superior de indígenas no Brasil, teve início em fevereiro
de 2004 e visa dar suporte ao etnodesenvolvimento dos povos indígenas no Brasil, através de sua
formação no ensino superior.

Programa Parakanã - Propkn


É uma ação indigenista junto aos índios Parakanã – Awaete (autodenominação) desenvolvida através
de um convênio firmado entre a ELETRONORTE e FUNAI como forma mitigadora dos impactos
ambientais e sociais provocados pela instalação da Usina Hidrelétrica de Tucuruí pertencente a
CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO BRASIL S/A – ELETRONORTE. Com a formação do lago,
devido a construção da barragem, parte da Terra Indígena Parakanã ficou submersa. O PROPKN foi

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elaborado por uma equipe multidisciplinar, com participação da FUNAI e ELETRONORTE, com os
objetivos abaixo descritos e com previsão de duração por 25 anos a partir de 1988.

Programa Waimiri-Atroari
Sob a denominação de Programa Waimiri Atroari iniciou-se, em 1988, uma ação indigenista junto à
comunidade indígena conhecida como Waimiri Atroari - habitante ao norte do Amazonas e sul de Roraima
-, com o objetivo de oferecer-lhes condições de melhor enfrentar as dificuldades do relacionamento com
a sociedade brasileira e atenuar os impactos dos empreendimentos econômicos que atingem o seu
território tradicional. Coube à Eletronorte propor esta ação indigenista, como forma de atenuar os
impactos provocados pela interferência do reservatório da UHE Balbina nas terras dos Waimiri Atroari, e
que objetiva mitigar grande parte dos problemas provocados pela ação do Estado e de empresas privadas
na vida dos Waimiri Atroari.

Núcleo de Políticas Públicas para os Povos Indígenas


O Núcleo de Políticas Públicas para os Povos Indígenas (NPPPI) da SMDHSU (Secretaria Municipal
de Direitos Humanos e Segurança Urbana) é uma estrutura administrativa voltada à abertura de espaços
interétnicos e dialógicos que orientem a gestão de políticas públicas pautadas pela escuta tecnicamente
qualificada, pelo respeito à diferença à luz da legislação vigente, especialmente a Constituição Federal
de 1988, o Decreto nº 5.051/2004 que ratifica a Convenção nº 169/1989 da Organização Internacional do
Trabalho, a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul, e os avanços expressos na Lei Orgânica de
Porto Alegre e nos diversos instrumentos normativos do país.
As ações desenvolvidas pelo NPPPI são pautadas por três eixos: a visitação continuada dos coletivos
e áreas de vida indígenas, visando à realização de reuniões com lideranças (caciques e xamãs),
especialistas (anciãos, professores bilíngues, agentes de saúde, entre outros) e comunidades indígenas;
o acompanhamento de programas e políticas voltados aos povos indígenas, especialmente no âmbito
municipal; e a formulação de projetos de políticas públicas visando à promoção, proteção e qualidade de
vida dos povos indígenas, sempre considerando outras esferas governamentais e não governamentais e
suas competências e, principalmente, as formas autônomas de organização indígena que orientam todo
esse processo.

8. A influência da tecnologia na modificação de valores culturais indígenas.

A população indígena é formada por diferentes povos com hábitos, costumes e línguas distintas.
Atualmente o rápido avanço tecnológico tem permitido a aproximação entre os índios que ainda vivem
em reservas e o restante da população. O contato com os meios de comunicação, especialmente a
televisão, o telefone e a internet, colabora na busca pela adoção de um novo estilo de vida e na perda de
antigos valores.
Há cerca de quatro anos, foi destaque na imprensa nacional e estrangeira a história de índios suruís
que vivem na reserva indígena Sete de Setembro, na divisa entre os Estados de Rondônia e Acre, fazendo
uso das novas tecnologias para defender a terra na qual eles vivem do desmatamento. Com a ajuda de
GPS, eles passaram a monitorar a posição de madeireiros ilegais. Os dados são enviados para
autoridades competentes, como Polícia Federal e Fundação Nacional do Índio (Funai), para que as
providências cabíveis sejam tomadas. Foi quando os arcos e flechas deixaram de ser as únicas
ferramentas de defesa do território, e as novas tecnologias passaram a fazer parte do dia a dia de muitas
tribos indígenas.
A proximidade das comunidades indígenas aos centros urbanos faz com que os índios acessem os
instrumentos disponíveis das tecnologias de informação e comunicação, trazendo esses recursos e os
incluindo no seu dia a dia e nas suas relações de sociabilidade. Essas mídias são adaptadas não levando
em conta o fazer dessa comunidade, ou seja, a formação do povo. Muitas crianças e jovens são expostas
desde cedo à televisão e à internet, o que pode ser considerado natural para quem vive nas fronteiras
culturais. O problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do
ocidente. O conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as
novas tecnologias, fica do lado de fora. Por outro lado, essas mídias tem servido para dar visibilidade e
‘guardar’ a história e a memória da comunidade indígena, dentro de recursos tecnológicos que atraem o
olhar do índio e também que fazem com que os mesmos sintam-se incluídos no mundo, pois a cultura
deles também é difundida para a sociedade.

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Os índios e a tecnologia
Guardadas as devidas proporções, assim como nas outras regiões do mundo, do Brasil e da
Amazônia, as tecnologias invadiram o dia a dia das pessoas, seja pela mera cópia de um cd pirata, seja
pelos aparelhos sofisticados que passaram a fazer parte da vida pessoal e profissional dos indivíduos na
contemporaneidade. Da mesma maneira, os índios foram atraídos pelos encantos desses aparatos
tecnológicos, levado pela proximidade de suas aldeias, assim como sua inserção no convívio com as
cidades urbanas. Esse contato com as mídias foi incorporado à cultura indigena. Hoje é comum encontrar
nas comunidades Indígenas aparelhos de TV, filmadoras, DVDs, rádios, telefones celulares, câmeras e
computadores. Algumas populações indígenas passaram a utilizar e consumir produtos dessa sociedade
informacional. Não que isso seja um crime, pelo contrário, pode representar uma oportunidade de
“capturar” as informações, os relatos e socializá- los de vez os conhecimentos e a cultura indígena não
somente para os índios mais jovens, mas com toda a sociedade que desconhecem a riqueza dos
primeiros habitantes do Brasil. O jovem Suruí transita por outros espaços e se constitui também em outras
identidades, já que ele pode ser um eleitor, um estudante, pode receber uma bolsa assistencial do
governo, ter um número de celular, possuir um MP3, conviver com jovens da sociedade envolvente.
Portanto, se essa tecnologia é uma realidade e adentrou a vida dos índios Suruí, é preciso conciliar sua
utilização com as tradições do povo, do mesmo modo que deve ser aplicada como recurso didático na
educação, levando em conta a memória e história do povo indígena.
Durante muito tempo acreditou-se que os meios de comunicação eliminariam os vestígios das
tradições populares, que a sociedade seria toda homogênea em uma única e grande cultura.
Nem sequer pode-se atribuir aos meios eletrônicos a origem da massificação das culturas populares.
Esse equivoco foi apropriado pelos primeiros estudos sobre a comunicação, segundo os quais a cultura
massiva substituiria o culto e o popular tradicionais (CANCLINI, 2000, p. 255).
É interessante destacar que a noção de popular é reforçada nas mídias ainda levando em conta uma
lógica de mercado, ou seja, a mídia tem um papel central já que as pessoas necessitam do seu discurso
para que possam construir o sentido social da realidade. E não é diferente com a comunidade ìndigena
Suruí que passa compreender como importante ter sua história e tradições serem narradas pelos diversos
meios de comunicação. A mídia, neste sentido, não é apenas um suporte tecnológico, mas uma instituição
responsável por criar uma lógica de mundo, muitas vezes, não muita clara, mas que exerce sentido na
vida humana, pois influencia as relações sociais ou até cria novas formas de sociabilidade.
Hoje, a imagem midiática começa na primeira idade das crianças e vai até o fim da sua vida, ditando
as intenções daqueles que trabalham para construir esses sentidos, sejam produtores anônimos ou
ocultos: no despertar pedagógico da criança, nas escolhas econômicas e profissionais do adolescente,
nas escolhas tipológicas (a aparência) de cada pessoa, até nos usos e costumes públicos ou privados,
às vezes como “informação”, às vezes velando a ideologia de uma escolha ou persuadindo os
comportamentos. As crianças começam a desenvolver algumas lógicas de pensamento a partir de uma
programação televisiva.
Muitas crianças indígenas, mesmo vivendo com suas famílias, bem cedo são expostas à escola
ocidental, à televisão e até mesmo à internet, o que é natural para quem vive nas fronteiras culturais. O
problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do ocidente. O
conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas
tecnologias, fica do lado de fora. Ainda que existam sociedades isoladas dentro da Amazônia, no Brasil,
lembra a antrópologa Ivânia Neves, a maioria dos povos indígenas mantém relações efetivas com a
sociedade envolvente. Já estabelecem, portanto, uma fronteira cultural com as instituições ocidentais
(igreja, escola, televisão, rádio, secretarias públicas, ONGs, entre outras). Nascidas dentro deste cenário,
a grande maioria das crianças indígenas vive hoje nestas fronteiras. Historicamente, o início do contato
entre as sociedades indígenas e as instituições ocidentais, além de terem resultado na morte de milhares
de índios, quer seja por processos de violência, quer seja por questões de saúde, representa quase
sempre uma grande desestruturação política e cultural para estas sociedades. Este contato, no entanto,
uma vez realizado estabelece uma nova e irreversível ordem para as sociedades indígenas. Se as
gerações mais velhas não dominavam a língua portuguesa, hoje, na realidade de muitas sociedades, o
que se observa é o fato de que as crianças falam apenas a língua portuguesa. Não podemos perder de
vista que existem grupos indígenas que não falam mais uma língua tradicional.
Ao se trabalhar a questão da tecnologia deve-se levar em conta que seus avanços produzem
transformações na experiência cotidiana, estabelecendo novas relações de sociabilidade
É interessante destacar que algumas experiências já vem sendo realizadas com resultados positivos
com relação a inserção dos índios no mundo digital. Desde 1987 vem sendo realizado o projeto
denominado Vídeo nas Aldeias, na área de produção audiovisual indígena no Brasil, com o objetivo de
apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e

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culturais, por meio de recursos audiovisuais (www.videonasaldeias.org.br). O uso do vídeo permite que
as comunidades indígenas selecionem e fortaleçam manifestações culturais que elas desejam tanto
conservar para as futuras gerações quanto apresentar como parte de sua identidade. Ele é um
instrumento adaptado a formas tradicionais de produção e transmissão cultural apoiado na força da
palavra e na memória oral (www.videonasaldeias.org.br). O Vídeo nas Aldeias surgiu como proposta das
atividades da ONG Centro de Trabalho Indigenista, como um experimento realizado por Vincent Carelli
entre os índios Nambiquara, depois abrangendo outras aldeias brasileiras. Hoje o projeto criou um
importante acervo com mais de 70 filmes sobre os povos indigenas no Brasil.
A utilização das mídias também passa na concepção dos índios como instituições importantes de
divulgação de identidades e de visibilidades. É interessante destacar que os indivíduos e as formas de
relação entre eles são alimentadas pela mídia porque a maior parte dos conhecimentos acerca do mundo,
dos modelos de papel, dos valores e dos estilos de comportamento chega à mente humana não pela
experiência direta do mundo físico e das relações com os outros, mas cada vez mais pela mediação dos
meios de comunicação. E diversas questões passam a habitar a mente humana, a partir da discussão
por esses meios. Esses meios se tornam fundamentais como suportes de inclusão e exclusão sociais e
de controle das coisas que acontecem no mundo (COSTA, 2010, p. 62).
Com o surgimento da Internet e seus adventos, o homem se deparou com um espaço que antes era
difícil de imaginar: um lugar onde pudesse exprimir suas Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo
de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 12 - ideias, pensamentos, opiniões, sua vida
cotidiana, e ao mesmo tempo, um lugar onde tudo isso poderia ser visto.
Dessa maneira, uma perspectiva onde a cultura ocidental ainda se sobrepõe sobre a indígena, é
possível hoje utilizar os recursos tecnológicos em benefício da comunidade, pois eles abrem novas
possibilidades, principalmente no sentido de que podem servir também para atrair e seduzir o mundo
indígena, ou seja, contando a história e memória do povo nos artefatos. Não é possível excluir esses
recursos, mas é possível adaptá-los para que sejam utilizados como instrumentos para comunidade, já
que eles podem produzir o mundo deles e divulgá-los para sociedade como um todo.

Referências Bibliográficas
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Hibrídas: estratégias para entrar e sair da Modernidade.3ª. Edição.
São Paulo: Edusp, 2000. 385.
COSTA, Alda Cristina. O embate entre o visível e o invisível: a construção social da violência no
jornalismo e na política. 2010. 346 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Curso de Pós-Graduação
em Ciências Sociais, Universidade Federal do Pará, Belém, 31/08/2010.
Apresentação. Disponível em: http://www.videonasaldeias.org.br/2009/. Data do acesso: 08/11/2010.

9. Noções de demografia dos povos indígenas.

O estudo da população de uma área qualquer deve se iniciar pelas informações quantitativas básicas,
ou seja, os valores de sua população relativa, esta também denominada de densidade demográfica. A
população absoluta corresponde ao número total de habitantes de uma determinada área. Trata-se de
uma informação importante, uma vez que através dela pode-se ter uma ideia de um eventual mercado de
consumo, ou da disponibilidade de mão-de-obra na região, ou ainda da necessidade e do porte dos
investimentos governamentais para o conjunto da população. Quando uma certa porção do espaço
apresenta uma elevada população absoluta, é considerada uma área populosa, o Brasil apresenta
atualmente (2011) uma população de 194.227.984 habitantes. Essa quantia faz do país a quinta nação
mais populosa do planeta, ficando atrás apenas da China e Índia, Estados Unidos e Indonésia,
respectivamente. O Brasil é um país populoso, porém, é uma nação pouco povoada, com baixo índice de
densidade demográfica. A densidade demográfica é o resultado da divisão da população de um
determinado lugar por sua extensão territorial. São 194.227.984 pessoas em uma extensão territorial de
8.547.403,5 km², apresentando aproximadamente 22,72 habitantes por Km2, bem distante dos 881,3
habitantes por Km2 de Bangladesh.
No Brasil, o instrumento de coleta de dados demográficos é o recenseamento ou censo. O órgão
responsável pela contagem da população é o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que
realiza a pesquisa por meio de entrevistas domiciliares. O conhecimento quantitativo da população é de
fundamental importância, pois esses dados possibilitarão a realização de estimativas sobre mercado de
consumo, disponibilidade de mão de obra, além de planejamentos para a elaboração de políticas públicas
destinadas à saúde, educação, infraestrutura, etc. O primeiro censo demográfico realizado no Brasil foi

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
em 1872, nessa ocasião a população totalizava 9.930,478 habitantes, em 1900 era de 17.438.434, já em
1950 a população era de 51.944.397, no ano 2000 a quantidade de habitantes do Brasil registrada foi de
169.590.693. Conforme estimativas do IBGE, a população brasileira em 2050 será de aproximadamente
260 milhões de pessoas, apresentando um aumento populacional de quase 67 milhões de habitantes em
relação à população atual.
Em razão do constante aumento populacional ocorrido no Brasil, principalmente a partir da década de
1960, intensificando-se nas últimas décadas, o país ocupa hoje a quinta posição dos países mais
populosos do planeta, ficando atrás apenas da China, Índia, Estados Unidos e Indonésia. De acordo com
dados do Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a população brasileira atingiu a marca de 190.755.799 habitantes.
No Brasil, o crescimento vegetativo é o principal responsável pelo aumento populacional, já que os
fluxos migratórios ocorreram de forma mais intensa entre 1800 e 1950. Nesse período, a população
brasileira totalizava 51.944,397 habitantes, bem longe dos atuais 190.755.799.
A população relativa, ou densidade demográfica, corresponde à relação entre o número de habitantes
de uma determinada área e sua extensão territorial. É obtida através da divisão da população absoluta
pela área territorial. Diz-se que uma área é povoada quando apresenta uma elevada densidade
demográfica; quando sua densidade é muito baixa, diz-se que é um vazio demográfico. A taxa de
população relativa do Brasil coloca-o entre os países menos povoados do planeta. É importante ressaltar
que a densidade demográfica é um dado que nos fornece a distribuição teórica, e não real, da população
pelo país. Entretanto, quando a densidade demográfica é alta, como a de alguns países europeus ou de
leste-sudeste asiático, pode-se supor que ela se aproxime bastante da realidade. Isso porque alguns
desses países têm pequena extensão territorial e, consequentemente, disponibilidade mínima de espaço,
ocorrendo, assim, uma ocupação mais homogênea de todo o território.
Se a densidade demográfica é baixa, como no caso do Brasil, Canadá e outros países, a situação
efetiva da distribuição da população pode ou não coincidir com o índice de população relativa. A
população relativa do Brasil é reflexo de sua grande extensão territorial, e a baixa densidade demográfica
não retrata a realidade nacional. Isso porque a população está muito mal distribuída: cerca de 90% dela
se concentram próximo ao Oceano Atlântico, numa faixa que raramente ultrapassa 600km de largura.

A Distribuição da População Brasileira

O início e a evolução do povoamento do território brasileiro pelos portugueses teve um caráter


marcadamente periférico. Um dos fatores responsáveis por isso foi o interesse mercantilista da época;
visava-se apenas à exploração imediata das riquezas coloniais, sem preocupação com a colonização
definitiva. As poucas cidades e vilas, assim como todas as áreas agrícolas, concentravam-se na costa
atlântica, elo de união com a Metrópole. O Tratado de Tordesilhas, que estabelecia os limites dos
territórios na América entre Portugal e Espanha, foi sendo gradativamente desrespeitado. Durante os
séculos XVII e XVIII, com as bandeiras, a mineração, a penetração pelo vale do rio Amazonas e a
expansão da pecuária no vale do São Francisco e o sertão do Nordeste, ocorreu o maior povoamento do
interior. Formaram-se, na verdade, “ilhas” de povoamento, pois a maior parte da população ainda
continuou próxima ao litoral.
No final do século XIX e início do século XX, tivemos a fase de exploração da borracha na Amazônia,
que, embora tenha durado pouco tempo, no Sudeste, ocorria a “marcha do café”, propiciando o avanço
da povoação para o interior do estado de São Paulo e norte do Paraná. Após a segunda Guerra Mundial,
e principalmente durante o governo de Juscelino Kubtschek (1956-1960), ocorreu um grande
desenvolvimento industrial no Sudeste. Essa industrialização, que se estende até hoje, tem atraído
contingentes populacionais de todas as outras regiões.

População por município em 2010

A população brasileira é muito desigualmente distribuída no território, com um forte contraste entre
litoral e interior, o primeiro é densamente povoado, enquanto o último é muito menos ocupado. Esse
contraste reflete os efeitos do processo de processo de colonização e assentamento do território que foi
feito, basicamente, a partir do litoral para o interior, de leste a oeste e, secundariamente, de sul para norte.
Até as áreas de concentração têm ocupação desigual: mesmo em estados com grandes contingentes
populacionais grandes lacunas aparecem, e apenas São Paulo, o Paraná, Rio de Janeiro, Sergipe e
Alagoas estão com seu território ocupado de maneira quase contínua.
No resto do país, a distribuição da população está relacionada com redes de transportes, vias
navegáveis (na Amazônia) e rodovias: pode-se seguir no mapa, marcado pelas sedes dos municípios, as

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
principais rodovias amazônicas (BR364 Cuiabá-Porto Velho, BR163 Cuiabá-Santarém, BR010 Brasília-
Belém, BR230 Transamazônica).

Malha municipal - Área dos municípios


Causa e consequência desses contrastes de povoamento, as diferenças entre os municípios são
enormes, se os menores são semelhantes aos seus equivalentes europeus, outros são do tamanho de
países do velho continente. Entre o menor, Santa Cruz de Minas (Minas Gerais, 3,6 km2) e o maior,
Altamira (Pará, 159.533km2), a proporção é demais de 1para 44.000. Quatro municípios, todos
localizados na Amazônia ultrapassam os 100000 km2(a área sua combinada é quase do tamanho da
França). Ao somaras áreas dos dez primeiros (de mais de 5.000 no total), chegamos a 11%do país, juntos
eles representam a mesma área que os 3.450 menores juntos.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Os casos extremos
Densidades
Densidade populacional por município em 2010

A distribuição de densidades obedece a uma lógica claramente Leste-Oeste, o resultado do processo


de ocupação e colonização a partir da costa. Assim, as maiores densidades estão na parte mais próxima
do litoral no Nordeste, no Sudeste e no Sul, elas podem ultrapassar a marca das 10 000pessoas por
quilômetro quadrado nas capitais. Dividindo os 5.565municípiosem três grupos iguais, constrói-se um
mapa de densidades contrastantes: a maior parte da Amazônia e do Centro-Oeste tem densidades muito
baixa, entre 0,13e 16habitantes por quilômetro quadrado, onde se destacam apenas as capitais e alguns
municípios que têm entre 16e 38habitantes por quilômetro quadrado.
A zona litorânea tampouco é homogênea: quase deserta ao norte do Rio Amazonas, ela é dividida em
duas partes, de ambos os lados de um centro pouco ocupado (sul da Bahia e Espírito Santo). No
Nordeste, o contraste nacional, entre o litoral e interior, é reiterado. No Sudeste e no Sul, no entanto, a
densidade continua a ser elevada em muitas áreas próximas da fronteira ocidental do país, é o único
lugar onde o Brasil mais povoado tem certa "profundidade", mas a densidade cai drasticamente na
fronteira entre os estados de São Paulo e do Paraná, no leste, e do Mato Grosso do Sul, no oeste.

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A população Absoluta por Regiões
O Sudeste é a região mais populosa do país, em função de seu alto grau de desenvolvimento
econômico-industrial, que desde a década de 1930 transformou-a num grande polo de atração
populacional. Segunda região em população absoluta, o Nordeste se caracteriza por uma alta taxa de
natalidade, que supera a taxa de mortalidade e a grande emigração. O forte povoamento regional deve-
se também a fatores históricos, uma vez que foi em sua faixa litorânea que tiveram início o povoamento
do Brasil e seu aproveitamento econômico. O Sul é a terceira região brasileira em população absoluta.
Seu povoamento deveu-se, sobretudo a maciça entrada de imigrantes europeus, no final do século
passado, que para ali foram atendendo à política imigratória do governo, que desejava povoar a região.
Hoje também o fato de ser a segunda região brasileira em produção econômica, atraindo grande número
de migrantes internos.
A Região Norte é pouco populosa em função de dois aspectos muito marcantes: sua paisagem natural
– onde se destacam uma floresta muito fechada e um clima super úmido – e sua economia, que sempre
esteve ligada ao extrativismo. Mais recentemente, com a implantação de projetos hidrelétricos, minerais
e industriais, sua população cresceu rapidamente, passando do quinto para o quarto lugar. O Centro-
Oeste é a região menos populosa do país, tendo em vista sua atividade básica – a pecuária extensiva –
não exigir muita mão-de-obra. Além disso, houve a introdução da lavoura comercial intensamente

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
mecanizada, que também não gera muito emprego, não atraindo migrantes para a região e não
oferecendo grandes perspectiva para quem nasce lá, que, por isso, acaba emigrando.

A População Relativa por Regiões


A população relativa brasileira, em função da grande extensão territorial, é relativamente baixa. Além
de ter uma baixa densidade demográfica, o Brasil apresenta uma distribuição irregular dos habitantes
pelo território. A região Sudeste é a de maior densidade demográfica, devido, como já vimos, ao seu
maior desenvolvimento econômico. A industrialização atraiu para a região grande número de imigrantes,
vindos de todas as partes do país, tornando-a a mais populosa e mais povoada região brasileira. A região
sul é a segunda em densidade demográfica, em função de dois fatores: é como o Sudeste, uma região
bastante rica (o que concentra população), e é formada apenas por três estados, fato que por si só já
contribui para elevar a densidade regional. O Nordeste, muito populoso, é a segunda região em população
absoluta. Entretanto, sua densidade demográfica é bem menor que a do Sudeste e do Sul, devido à sua
grande área e ao fato de ser área de saída de população, tendo em vista seus graves problemas sociais
e econômicos.
O Centro-Oeste é a quarta região brasileira em densidade demográfica, em função de sua extensa
área e de sua economia baseada na agropecuária desenvolvida com pouca mão-de-obra. A região mais
vazia do país é o Norte. Sua baixa densidade demográfica retrata a pequena participação da região na
economia brasileira e sua grande área territorial (45,25% do território nacional). As áreas de densidade
demográfica mais elevada – o Sudeste, o Sul e a porção oriental do Nordeste – historicamente foram as
primeiras a serem povoadas e são as que concentram a produção econômica do país.

As Formas de Crescimento Populacional


Existem duas maneiras de a população de um país crescer numericamente: o movimento vertical e o
movimento horizontal. O movimento vertical é fundamentado na diferença entre a quantidade de crianças
que nascem anualmente e a quantidade de pessoas que morrem, nesse mesmo ano, indicada através de
valores porcentuais (%), ou em milhagem (‰). A diferença entre as duas taxas será, então, a taxa de
crescimento da população. A esse resultado denominamos crescimento natural ou crescimento
vegetativo. Já o movimento horizontal corresponde às migrações (deslocamento das pessoas de uma
área para outra, onde fixam residência). Esse processo afeta diretamente o número de habitantes das
duas áreas, a de origem e a de destino.
Taxa de fecundidade: O número médio de filhos tidos nascidos vivos por mulher ao final de seu
período fértil, no Brasil, foi de 1,86 filho em 2010, bem inferior ao do Censo 2000, 2,38 filhos. Essa
diminuição dos níveis de fecundidade ocorreu em todas as grandes regiões brasileiras. Os maiores
declínios foram observados nas regiões Nordeste e Norte, que possuíam os mais altos níveis de
fecundidade em 2000. Entre as unidades da federação, a mais baixa taxa de fecundidade pertence ao
Rio de Janeiro (1,62 filho por mulher), seguido por São Paulo (1,63) e Distrito Federal (1,69). A mais alta
foi a do Acre (2,77 filhos por mulher).

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O padrão de fecundidade das mulheres brasileiras também sofreu alterações entre 2000 e 2010. A
tendência observada até então era de rejuvenescimento, isto é, uma maior concentração dos níveis de
fecundidade nas idades mais jovens. Em 2010, ocorre uma mudança, e os grupos de 15 a 19 anos e de
20 a 24 anos de idade, que concentravam 18,8% e 29,3% da fecundidade total em 2000, respectivamente,
passaram a concentrar 17,7% e 27,0% em 2010. Para os grupos de idade acima de 30 anos, observa-se
um aumento de participação, de 27,6% em 2000 para 31,3% em 2010.
Taxa de mortalidade: o Brasil apresenta uma elevada taxa de mortalidade, também comum em países
subdesenvolvidos, enquadrando-se entre as nações mais vitimadas por moléstias infecciosas e
parasitárias, praticamente inexistentes no mundo desenvolvido. Desde 1940, a taxa de mortalidade
brasileira também vem caindo, como reflexo de uma progressiva popularização de medidas de higiene,
principalmente após a Segunda Guerra Mundial; da ampliação das condições de atendimento médico e
abertura de postos de saúde em áreas mais distantes; das campanhas de vacinação; e do aumento
quantitativo da assistência médica e do atendimento hospitalar.
Taxa de mortalidade infantil: De 2000 para 2010, a taxa de mortalidade infantil caiu de 29,7‰ para
15,6‰, o que representou decréscimo de 47,6% na última década. Com queda de 58,6%, o Nordeste
liderou o declínio das taxas de mortalidade infantil no país, passando de 44,7 para 18,5 óbitos de crianças
menores de um ano por mil nascidas vivas, apesar de ainda ser a região com o maior indicador. O Sul
manteve os menores indicadores em 2000 (18,9‰) e 2010 (12,6‰).
Na última década, a diminuição das desigualdades sociais e regionais contribuiu para a formação do
quadro atual de baixa na mortalidade infantil e de maior convergência entre as regiões. Todavia, ainda há
um longo caminho a percorrer para que o Brasil se aproxime dos níveis das regiões mais desenvolvidas
do mundo, em torno de cinco óbitos de crianças menores de um ano para cada mil nascidas vidas.
Crescimento vegetativo: a população de uma localidade qualquer aumenta em função das migrações
e do crescimento vegetativo. No caso brasileiro, é pequena a contribuição das migrações para o aumento
populacional. Assim, como esse aumento é alto, conclui-se que o Brasil apresenta alto crescimento
vegetativo, a despeito das altas taxas de mortalidade, sobretudo infantil. A estimativa da Fundação IBGE
para 2010 é de uma taxa bruta de natalidade de 18,67‰ — ou seja, 18,67 nascidos para cada grupo de
mil pessoas ao ano, e uma taxa bruta de mortalidade de 6,25‰ — ou seja 6,25 mortes por mil nascidos
ao ano. Esses revelam um crescimento vegetativo anual de 12,68.
Expectativa de vida: no Brasil, a expectativa de vida está em torno de 76 anos para os homens e 78
para as mulheres. Dessa forma, esse país se distância das nações paupérrimas, em que essa expectativa
não alcança 50 anos (Mauritânia, Guiné, Níger e outras), mas ainda não alcança o patamar das nações
desenvolvidas, onde a expectativa de vida ultrapassa os 75 anos (Noruega, Suécia e outras). A
expectativa de vida varia na razão inversa da taxa de mortalidade, ou seja, são índices inversamente
proporcionais. Assim no Brasil, paralelamente ao decréscimo da mortalidade, ocorre uma elevação da
expectativa de vida.
Taxa de natalidade: As taxas de natalidade do Brasil, enquadradas entre as mais elevadas do mundo,
vêm decrescendo nitidamente nos últimos anos. A análise desse declínio nas taxas de natalidade do país
deve ser paralela à análise do processo de urbanização da população brasileira, particularmente a partir
de 1940. Direta ou indiretamente, as variações no número de nascimentos estão relacionadas às
implicações socioeconômicas decorrentes do processo de urbanização do país. Entre inúmeros outros,
costumam-se destacar como fatores inibidores da natalidade, principalmente após 1970, os seguintes:
- no meio urbano, a idade média para o casamento é maior que no meio rural, diminuindo, assim, o
período social de fertilidade e, consequentemente, a média de filhos por família;
- nas áreas urbanas, o custo da criação dos filhos é muito elevado, pois as exigências são maiores
(educação, vestuário, transporte, etc.);
- a integração da mulher no campo de trabalho promoveu uma queda na natalidade, devido às
restrições à gravidez no trabalho e à falta de creches. Essa é também uma das razões que explicam o
elevado número de abortos realizados anualmente no país;
- como consequência da urbanização, houve maior acesso a métodos anticoncepcionais,
especialmente na última década.

Estrutura Etária da População Brasileira


Em função das transformações ocorridas nos últimos anos, especialmente no que se refere à
natalidade (o número de crianças na faixa de 1 a 4 anos alcançou um total inferior ao das crianças de 5
a 9), a pirâmide etária do Brasil começou a assumir uma nova forma. A ainda significativa juventude da
população brasileira, quase metade do total da população, se por um lado poderia ser considerada uma
vantagem para o país, do ponto de vista da potencialidade da força de trabalho, por outro gera uma série
de problemas sociais e econômicos, como:

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- necessidade de grandes investimentos em setores como educação e saúde, e na ampliação do
mercado de trabalho;
- excessiva oferta de mão-de-obra, uma vez que as vagas no mercado de trabalho não acompanham
o seu crescimento, o que determina a proliferação dos baixos salários, do subemprego e do desemprego;
- alto percentual de inativos ou dependentes, uma vez que aproximadamente 1/3 da população
brasileira tem menos de 14 anos de idade.
O modelo de desenvolvimento da sociedade brasileira não optou pelo preparo educacional ou
profissional dessa juventude, nem pela valorização de seus recursos, e o que se vislumbra para o país,
num futuro próximo, é o agravamento dos problemas sociais já considerados insuportáveis hoje. Os dados
do Censo 2010, divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que, no
máximo 40 anos, a pirâmide etária brasileira será semelhante à da França atual. O país terá taxa de
natalidade mais baixa e, com isso, média de idade maior. Há 50 anos, o país tinha o mesmo perfil etário
do continente africano hoje: muitos jovens e crianças. Desde então, a população do país cresce em ritmo
cada vez mais lento.
De acordo com o IBGE, a expansão demográfica média anual foi de apenas 1,17% nos últimos dez
anos, ante 1,64% na década anterior. Nos anos 60, era de 2,89%. A população do país deve continuar a
crescer por mais duas gerações até os anos 2030. Depois, deve estacionar ou até diminuir. O país deve
começar a se preparar para as transformações que já acontecem em países como a França. Temos a
oportunidade de antecipar discussões como a da reforma da Previdência. Com um número de pessoas
em idade ativa menor do que o de idosos, a solvência do sistema ficará ameaçada. Porém, até atingir
esse estágio, o país será beneficiado pelo chamado “bônus demográfico”, caracterizado pela maior
presença de adultos na sociedade. O predomínio da população produtiva vai dar condições de minimizar
o impacto do envelhecimento nas contas públicas. A redução do número de crianças deve permitir ao
país melhorar acesso e qualidade da educação sem aumentar muito os investimentos. Haverá também
transformações no mercado de produtos e serviços. Com mais adultos e idosos, são esperadas
mudanças nos serviços de saúde, na construção civil e até em lazer. O país vai ter cada vez mais idosos
levando vida ativa. A economia vai ter que se adaptar às novas necessidades de consumo dessa
população.

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Estrutura por Atividade
O estudo da distribuição da população por atividades econômicas e profissionais se realiza a partir da
análise da chamada População Economicamente Ativa (PEA) e da População Não-Economicamente
Ativa (PNEA), também conhecida como População Economicamente Inativa (PEI). De forma geral,
considera-se como População Economicamente Ativa, ou PEA, a parcela da população absoluta que,
tendo mais de 10 anos (no caso do Brasil, mais de 16 anos), está voltada pra o mercado de trabalho,
tanto a que está efetivamente empregada, quanto a que está procurando emprego. A População
Economicamente Inativa, ou PEI, é portanto, a parcela da população que não está envolvida com o
mercado de trabalho, ou seja, é a que não está trabalhando, nem está à procura de emprego. Nesse
caso, incluem-se as crianças com menos de 10 anos de idade (menos de 16 no Brasil), os idosos e
aposentados, os inválidos e as donas de casa, pois o trabalho doméstico, quando não é realizado por
empregados, não é considerado atividade econômica. A População Economicamente Ativa costuma ser
agrupada em três setores de atividades econômicas.

Setores Atividades
Primário Relacionadas com o campo, com a agropecuária e o extrativismo.
Relacionadas diretamente com a produção industrial, a construção civil
Secundário
e a mineração.
Relacionadas com a prestação de serviços (educação, saúde, lazer,
Terciário
serviços bancários etc.) e o comércio.

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A distribuição da População Economicamente Ativa pelos setores de atividade apresenta grandes
diferenças entre países com distintos níveis de desenvolvimento. Países desenvolvidos, como a
Alemanha, em geral têm sua População Economicamente Ativa concentrada no setor terciário, como
produto de seu progresso econômico e social, e uma parcela muito pequena no setor primário, altamente,
mecanizado. Já em países subdesenvolvidos, como a Indonésia, o setor primário emprega a maioria dos
trabalhadores, resultado do elevado grau de atraso econômico e tecnológico. Há ainda países em estágio
intermediário, como a Polônia, que embora apresente predomínio da População Economicamente Ativa
no setor terciário, ainda tem um setor primário significativo, pois não dispõe de alta mecanização agrícola.

População Economicamente Ativa Brasileira

Os Indicadores Sociais no Brasil


Analisando-se os dados coletados e divulgados pelo IBGE, é possível afirmar-se que houve uma
melhora nas condições sociais de grande parcela da população brasileira. Entre os principais indicadores
dessa melhora, destacam-se o índice de distribuição de renda, o nível de escolaridade e o número de
domicílios que dispõem de bens e serviços básicos.
- Distribuição de renda: A desigualdade no Brasil atingiu o menor nível da história, segundo o estudo
Desigualdade e Renda na Década. O Índice de Gini chegou a 0,5304 em 2010, superando o patamar da
década de 60 (quanto mais o índice se aproxima de, mais desigual é o país). O Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) identificou que 16.267.197 de pessoas vivem com renda per capita mensal
de até R$ 70 no Brasil. Em 2010, a pobreza no País caiu 16% e atingiu a marca de 67,3% desde a
implantação do Plano Real: 31,9% no governo Fernando Henrique e 50,6% durante o governo Lula,
superando o período de implementação do plano.
- Nível de alfabetização: a situação educacional da maioria da população do país ainda é
extremamente grave e vergonhosa; no entanto, houve também aí uma ligeira melhora. O porcentual de
habitantes sem instrução ou com menos de 1 ano de instrução – os analfabetos diminuiu, enquanto o
porcentual de habitantes com 11 anos ou mais de instrução passou de 14,4% para 15,4%, nesse últimos
anos.
- Domicílios com bens e serviços básicos: os dados mostram que nesse item também se verificou uma
melhora. Dentre os serviços existentes, a iluminação elétrica está presente em quase todos os domicílios
brasileiros (97,8%) e a coleta de lixo em 87,4% das moradias. Já o serviço de abastecimento de água
alcança 82,7% dos domicílios e o esgotamento sanitário 67,2%.

Estrutura Étnica da População Brasileira


Um dos traços mais característicos da estrutura étnica da população brasileira é a enorme variedade
de tipos, resultante de uma intensa mistura de raças. Esse processo vem ocorrendo desde o início da
nossa história, portanto há quase 5 séculos. Três grupos étnicos básicos deram origem à população
brasileira: o branco, o negro e o índio. O contato entre esses grupos começou a ocorrer nos primeiros
anos da colonização, quando os brancos (portugueses) aqui se instalaram, aproximaram-se dos
indígenas (nativos) e trouxeram os escravos negros (africanos). A miscigenação ocorreu de forma

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relativamente rápida já nesse período, dando origem, então, aos inúmeros tipos de mestiços que
atualmente compõem a população brasileira.
Esses dados, entretanto, são muito discutíveis, porque não levam em conta as origens étnicas dos
indivíduos, mas apenas a cor de sua pele. Assim devem ser analisados com cautela, pois a discriminação
racial que atinge alguns grupos étnicos faz com que as respostas dos entrevistados sejam, muitas vezes,
diferentes da realidade. É comum que um entrevistado negro ou índio responda ser mestiço, assim como
indivíduos mestiços respondam ser branco. Um fato, no entanto, é inquestionável: a população brasileira
torna-se cada vez mais miscigenada, diminuindo as diferenças mais visíveis entre os três grupos étnicos
originais.
O Índio: Nunca se fizeram levantamentos precisos sobre o número de indígenas no Brasil, até porque
muitos grupos nativos mantiveram-se distantes do contato com a civilização. Entretanto, estima-se que
houvesse, no século XVI, um número entre 4 e 5 milhões de índios que, ao longo dos quatro séculos de
aproximação com o branco, viram-se reduzidos a aproximadamente 320 mil indivíduos. Devido a
processos contínuos de extinção – lutas, doenças, fome – e aculturação, pela qual os indígenas perdem
suas origens culturais e linguísticas, assimilando as do homem branco, esse número tende a diminuir
ainda mais, segundo seu grau de contato com o homem civilizado, os indígenas podem ser classificados
em: isolados (sem nenhuma aproximação e tornando-se cada vez mais raros); de contato intermitente
(embora já tendo se aproximado dos brancos, conservam ainda certa autonomia cultural); de contato
permanente; integrados (alfabetizados, inseridos no mercado de trabalho, com acesso aos produtos do
mercado de consumo etc.).
Historicamente, o que se observou não foi a tendência à integração, mas sim à extinção do índio pois,
além das doenças trazidas pelo contato com os brancos (gripe, sarampo, malária etc.), contribuíram para
a extinção de vários grupos indígenas os conflitos pela posse de terra. Com a expansão das fronteiras
agrícolas e a recente descoberta de minérios em áreas das regiões Norte e Centro-Oeste, tornou-se
comum a invasão das reservas indígenas por grupos de posseiros e garimpeiros, tornando os conflitos
ainda mais frequentes e graves. Até mesmo o governo viola os limites dessas reservas ao construir
rodovias e hidrelétricas em seus limites. A fundação Nacional do Índio (FUNAI) tem como função aplicar
a legislação contida no Estatuto do Índio, que fala em garantir seus costumes e propiciar-lhes uma
educação que vise a sua integração. Para muitos, entretanto, manutenção de costumes e integração são
conceitos antagônicos, pois integrar significa destruir língua, hábitos e crenças. Veja como a Constituição
de 1988 aborda a questão do índio:
Capítulo VIII – Dos índios
Art. 231 – São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições,
e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,
proteger e respeitar todos os seus bens.
§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, e por eles habitadas em caráter permanente,
as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos
ambientais necessários ao seu bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo
seus usos, costumes e tradições.
§ 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se à sua posse permanente,
cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
O Negro: Apesar de já ser predominante no Brasil, a população negra ainda sofre com a desigualdade
racial.
Em comparação com o Censo realizado em 2000, o percentual de pardos cresceu de 38,5% para
43,1% (82 milhões de pessoas) em 2010. A proporção de negros também subiu de 6,2% para 7,6% (15
milhões) no mesmo período. Esse resultado também aponta que a população que se autodeclara branca
caiu de 53,7% para 47,7% (91 milhões de brasileiros).
Essa mudança de cenário faz parte de uma mudança cultural que vem sendo observada desde o
Censo de 1991. O Brasil ainda é racista e discriminatório. Não é que da noite para o dia o País tenha
deixado de ser racista, mas existem políticas. As demandas (da população negra), a questão da exclusão,
tudo isso tem feito parte da agenda política.
O Branco: Pela primeira vez na História do Censo, a população do Brasil deixa de ser
predominantemente branca. Pelos dados de 2010, as pessoas que se declararam brancas são 47,73%
da população, enquanto em 2000 eram 53,74%. Nos outros Censos, até agora, os brancos sempre tinham
sido mais que 50%. Em 2010, do total de 190.749.191 brasileiros, 91.051.646 se declararam brancos –
o que faz com que, apesar de continuar sendo o grupo com maior número de pessoas em termos
absolutos, a população branca tenha percentual menor do que a soma de pretos, pardos, amarelos e
indígenas.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
A migração interna: A migração interna corresponde aos movimentos populacionais que ocorrem
dentro do país sem alterar sua população total, embora provoquem significativas mudanças econômicas
e sociais nas áreas onde acontecem.
Migração inter-regional: Devido a alterações históricas na estrutura socioeconômica das várias
regiões brasileiras, verificamos que, em certos períodos, algumas áreas atraem populações, enquanto
outras as repelem. Podemos identificas, assim, diversas movimentações inter-regionais relacionadas a
fatos históricos. Além dessas movimentações, há inúmeras outras em toda a história do Brasil, surgindo
sempre novos fenômenos desse tipo. É o caso, por exemplo, das atuais frentes pioneiras que avançam
em direção ao Brasil Central e Amazônia. As migrações internas, além de refletirem no seu deslocamento
as mudanças econômicas que estão se realizando nas várias regiões, são de extrema importância no
processo de ocupação territorial do país.

Outros Fluxos Migratórios


Dentro do país, há outros fluxos populacionais que não se caracterizam como migrações internas, pois
não são duradouros. Apresentando ritmo, dimensão e objetivos variados, são chamados migrações
pendulares. Os principais são:
- deslocamento dos corumbás – é o fluxo de pessoas que deixam o agreste ou o Sertão nordestino no
período seco, após a colheita do algodão, para trabalhar na colheita de cana-de-açúcar na Zona da Mata,
regressando depois ao local de origem. Tais fluxos e refluxos de população são ritmados pela alternância
de períodos chuvosos e secos;
- deslocamento de boias-frias – corresponde aos movimentos de pessoas que, morando nas cidades,
dirigem-se diariamente às fazendas para trabalhos agrícolas, conforme as necessidades dos fazendeiros.
Trata-se de um movimento urbano-rural.
- deslocamento dos habitantes de cidades-dormitórios – são movimentos pendulares, diários e
constantes, que se realizam em massa, dos núcleos residências periféricos, como bairros e cidades
satélites, em direção aos centros industriais. Verificam-se nas zonas metropolitanas de grande densidade
demográfica, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, etc.;
- deslocamento de fins de semana e férias – realizam-se com objetivos de lazer e descanso, sendo
típicos de áreas de economia industrial. Periódicos e sazonais, tais movimentos estão ligados, em geral,
à população que desfruta de um padrão de vida mais elevado.

A População Brasileira é Eminentemente Urbana


O Brasil chegou ao final do século XX como um país urbano. Este é o resultado de um processo
iniciado na década de 50 na região Sudeste. A partir de então, este contraste se acentuou e se
generalizou pelas cinco grandes regiões do país. Segundo o último Censo realizado, a população é mais
urbanizada que há 10 anos: em 2000, 81% dos brasileiros viviam em áreas urbanas, agora são 84%.
Em 2010, apenas 15,65% da população (29.852.986 pessoas) viviam em situação rural, contra 84,35%
em situação urbana (160.879.708 pessoas). Em 2000, da população brasileira 81,25% (137.953.959
pessoas) viviam em situação urbana e 18,75% (31.845.211 pessoas) em situação rural. Para se
comparar, internacionalmente, o grau de urbanização no mundo há poucos anos ultrapassou 50%. Na
União Europeia, há desde países com 61%, como Portugal, até outros como a França, com 85% da sua
população morando em região urbana. No BRIC, o Brasil é o que possui maior grau de urbanização, pois
a Rússia tem 73%, a China, 47% e a Índia, apenas 30%. Os EUA possui grau de urbanização pouco
menor do que o do Brasil: 82%. Todos esses são de acordo com o The World FactBook da CIA para o
ano de 2010.

A região Sudeste segue sendo a região mais populosa do Brasil, com 80.353.724 pessoas. Entre 2000
e 2010, perderam participação das regiões Sudeste (de 42,8% para 42,1%), Nordeste (de 28,2% para
27,8%) e Sul (de 14,8% para 14,4%). Por outro lado, aumentaram seus percentuais de população
brasileira as regiões Norte (de 7,6% para 8,3%) e Centro-Oeste (de 6,9% para 7,4%).

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Entre as unidades da federação, São Paulo lidera com 41.252.160 pessoas. Por outro lado, Roraima
é o estado menos populoso, com 451.227 pessoas. Houve mudanças no ranking dos maiores municípios
do país, com Brasília (de 6º para 4º) e Manaus (de 9º para 7º) ganhando posições. Por outro lado, Belo
Horizonte (de 4º para 6º), Curitiba (de 7º para 8º) e Recife (8º para 9º) perderam posições.
Como a população brasileira é predominantemente urbana - 84,4% é esperado que a estrutura
nacional por sexo e idade nacional seja próxima da observada na área urbana. As diferenças entre as
estruturas etárias das áreas urbana e rural se devem principalmente aos fatores da dinâmica demográfica
dessas duas populações. Desse modo, têm-se as áreas urbanas com níveis de fecundidade e de
mortalidade mais baixos do que os das áreas rurais e os movimentos migratórios que, na grande maioria
das vezes, caracterizam a área urbana como de forte atração populacional e a rural como expulsora.
Segundo os resultados do Censo Demográfico 2000, das 5 196 093 pessoas que efetuaram movimentos
migratórios de “data fixa”, 75,1% eram de áreas urbanas com destino urbano, 12,4% eram de áreas rurais
com destino urbano; 7,7% de áreas urbanas com destino rural; e apenas 4,8% de áreas rurais com destino
rural.

10. Noções de Geoprocessamento.

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O termo geoprocessamento representa a área do conhecimento que utiliza técnicas matemáticas e
computacionais para o tratamento de informações geográficas que influenciam as áreas de Cartografia,
Energia e processamento, Transportes, Comunicação, Análise de recursos naturais e Planejamento
Urbano. Ou, ainda, o conjunto de técnicas relacionadas ao tratamento da informação espacial.
As ferramentas computacionais utilizadas nas técnicas de Geoprocessamento, são conhecidas como
Sistemas de Informação Geográfica (SIG), permitindo desse modo a realização de análises complexas,
ao integrar dados de diversas fontes e ao criar bancos de dados geo-referenciados. Tornam ainda
possível automatizar a produção de documentos cartográficos.

1. Histórico do geoprocessamento

A técnica do geoprocessamento teve início nos Estados Unidos e na Inglaterra na década de 50 com
o intuito de otimizar a produção e manutenção de mapas. Entretanto, devido ao fato da informática estar
ainda pouco desenvolvida, a atividade era muito cara e restrita e ainda nem existia o conceito de GIS
(Geographic Information System, ou Sistemas de Informações Geográficas, em português) que só viria a
ser empregado na década de 70.
Contudo, a partir da década de 80, concomitantemente ao desenvolvimento da tecnologia dos
computadores e softwares, o geoprocessamento deu um salto, principalmente após a fundação da NCGIA
(National Centre for Geographical Information and Analysis), em 1989, quando o geoprocessamento
passou a ser reconhecido oficialmente como uma disciplina científica.
Nos últimos anos temos presenciado a massificação do geoprocessamento. Com o lançamento de
ferramentas como o Google Earth, qualquer pessoa mesmo que não entenda nada de geoprocessamento
pode ter acesso a mapas de qualquer região do mundo que aliam imagens de satélite, GPS e modelos
em 3D.

2. Tipos de dados tratados em SIG

O aspecto mais fundamental dos dados tratados em um SIG é a natureza dual da informação: um dado
espacial ou dado geográfico possui uma localização expressa como coordenadas de um mapa e atributos
descritivos representados num banco de dados convencional (Câmara Neto, 1995). Outro aspecto é que
os dados geográficos não existem sozinhos no espaço: tão importante quanto localizá-los é descobrir e
representar as relações entre os diversos dados. Segundo alguns autores, as aplicações de
geoprocessamento lidam com dois grandes tipos de dados espaciais:

•Geo-campos: são variações espaciais contínuas. São usadas para grandezas distribuídas
espacialmente, tais como tipo de solo, topografia e teor de minerais. Correspondem, na prática, a dados
temáticos, imagens e modelos numéricos de terreno; e
•Objetos geográficos (ou geo-objetos): são individualizáveis e têm identificação.

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http://www.ebah.com.br/

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Este tipo de dado tem atributos não espaciais, armazenados em um banco de dados convencional, e
pode estar associado a várias representações gráficas. Alguns exemplos são: escolas, municípios e
fazendas.

2. 2.1 - Mapas temáticos

Mapas temáticos são dados do tipo geo-campo e caracterizam-se por conter regiões definidas por um
ou mais polígonos, como mapas de uso do solo e de aptidão agrícola de uma região. Este tipo de dado é
armazenado na forma de arcos (limites entre regiões), incluindo os nós (pontos de interseções entre
arcos) para montar uma representação topológica. A topologia construída é do tipo arco-nó-região: arcos
se conectam entre si através de nós (ponto inicial e final) e arcos que circundam uma área definem um
polígono (região).
Os mapas temáticos podem ser armazenados também sob a forma matricial (“raster”). A área
correspondente ao mapa é dividida em células de tamanho fixo e cada célula tem um valor
correspondente ao tema mais frequente naquela localização espacial.

2.2.2. - Mapas cadastrais

Mapas cadastrais são dados do tipo geo-objeto, onde cada elemento é um objeto geográfico, que
possui atributos e pode estar associado a várias representações gráficas. Por exemplo, os lotes de uma
cidade são elementos do espaço geográfico que possuem atributos (dono, localização, valor venal, IPTU,
etc.) e podem ter representações gráficas diferentes, como pontos, linhas e polígonos. Normalmente a
parte gráfica dos mapas cadastrais não é representada na forma matricial. A forma mais eficiente e
convencional de armazená-la é como coordenadas vetoriais, com sua topologia associada.
Mapas cadastrais têm formatos relativamente simples e a maior parte das aplicações que os utilizam,
realizam consultas ao banco de dados e apresentam os resultados de forma simbólica. Portanto, para a
realização dessas consultas, é fundamental que haja uma boa ligação entre o mapa cadastral e o banco
de dados. Um geo-objeto é individualizável e tem identificação com o mundo real. Esta identificação
possibilita ligar a sua representação (dados gráficos) a seus atributos (dados tabulares).
Um dado do tipo temático (geo-campo) não é identificável e nem individualizável. Portanto, as
representações gráficas resultantes de uma classificação são tratadas apenas como pertencentes a um
certo tema ou classe. Neste modelo é possível apenas associar atributos gerais que descrevem as
classes utilizadas. Portanto, não se pode separar e associar atributos específicos a cada representação
gráfica.
Um dado do tipo geo-objeto ou modelo cadastral, é identificável e separável. Então, o usuário pode
identificar e associar atributos descritivos a cada representação gráfica. Por exemplo, numa plantação de
soja (simbolizado sobre o mapa com representações poligonais) pode-se informar, para cada polígono, o
tipo de fertilizante utilizado, a marca do herbicida, o custo por hectare e o índice de produção. Neste
modelo, os polígonos de soja são denominados de objetos geográficos e podem ser manipulados através
do sistema, para serem exibidos em gradação de cores de acordo com o índice de produção, ou de acordo
com o tipo de fertilizante utilizado. Isto é possível, porque cada polígono tem atributos descritivos que
permitem ao sistema analisá-lo e exibi-lo de forma adequada.
2.2.3 - Redes

As Redes também são do tipo geo-objeto e também se caracterizam por cada objeto (por exemplo:
um cabo telefônico, transformador de rede elétrica ou cano de água) possuir uma localização geográfica
exata e estar associado a atributos descritivos, presentes no banco de dados. Dados de redes são
compostos por informações associadas a serviços de utilidade pública, como água, luz, telefone, redes
de drenagem (bacias hidrográficas), malhas viárias, etc. As informações gráficas de redes são
armazenadas em coordenadas vetoriais, com topologia arco-nó: arcos têm um sentido de fluxo e nós têm
atributos que podem ser fontes ou sorvedouros. Neste tipo de dado (da mesma forma que no cadastral)
também é fundamental a ligação com banco de dados, para que se possa realizar consultas e apresentar
os resultados de forma adequada. Estes tipos de dados são mais complexos de serem tratados que dados
cadastrais. Normalmente os pacotes de rede de sistemas comerciais possuem cálculos de caminho ótimo
e crítico, mas nem sempre são suficientes para a exigência das aplicações.

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2.2.4 - Imagens

As imagens são do tipo geo-campo, obtidas por satélites ou aeronaves e armazenadas como matrizes,
onde cada elemento unitário de informação (“pixel”) está ligado a certas características físicas e/ou
químicas do material da superfície. O uso de imagens de satélite tem se tornado comum em SIG e suas
características mais importantes são: resolução espectral (número de bandas); resolução espacial (a área
unitária da superfície terrestre observada instantaneamente por cada sensor); e resolução temporal
(intervalo de tempo entre passagens sucessivas sobre uma mesma área).

2. 2.5 - Modelos numéricos de terreno

Os Modelos Numéricos de Terreno (MNT) também são do tipo geocampo e denotam a representação
de uma grandeza que varia continuamente no espaço. Um MNT é normalmente associado à altimetria,
mas pode ser utilizado para modelar outros fenômenos de variação contínua, tais como variáveis
geofísicas, geoquímicas e batimetria. Em MNT podem ser utilizados dois tipos de representações:

•Grades regulares: matriz de elementos com espaçamento fixo, onde é associado o valor estimado da
grandeza na posição geográfica de cada ponto da grade; e

•Malhas triangulares: a grade é formada por conexão entre amostras do fenômeno, utilizando, por
exemplo, a triangulação de Delaunay2. A grade triangular é uma estrutura topológica vetorial do tipo arco-
nó formando recortes
•A triangulação de Delaunay garante que o circumcírculo de cada triângulo não contém nenhum outro
ponto de outra triangulação.

2.3 - Banco de dados

Dentre todos os tipos de dados mencionados na seção 2.2, o trabalho tem interesse em focalizar o
mapa cadastral. Mapas cadastrais normalmente têm a parte gráfica (mapas descritos vetorialmente em
forma de arcos e nós) armazenada de maneira convencional, ou seja, em forma de arquivos, e a parte
descritiva (atributos) armazenada em um banco de dados. Portanto, para entender melhor esse tipo de
dado e conhecer como ele pode ser manuseado, são necessários certos conceitos sobre banco de dados,
além de entender como um SIG realiza a conexão entre a parte gráfica e a descritiva.
Um sistema gerenciador de base de dados (SGBD) consiste de uma coleção de dados
interrelacionados e de um conjunto de programas para acessá-los. É um sistema computadorizado de
gravação e armazenamento, cujo propósito é manter os dados e permitir sua recuperação quando
necessária (Date, 1994). Um SIG contemporâneo, segundo Câmara Neto (1995), integra um SGBD e
simplifica alguns serviços para o programador, tais como:

•Armazenar e recuperar dados; •permitir acesso lógico independente da estrutura de armazenamento


físico;
•Permitir acesso a dados padronizados;
•Definir restrições de consistência para serem automaticamente impostas;
•Controlar acesso concorrente por múltiplos usuários; e
•Proteger contra perda ou acesso não autorizado.

A forma usual de integrar as informações geográficas com um ambiente de banco de dados, utiliza um
SGBD relacional para armazenar os atributos convencionais dos objetos geográficos (na forma de
tabelas) e arquivos para guardar as representações geométricas. No modelo relacional, os dados são
organizados na forma de uma tabela onde as linhas correspondem aos geo-objetos e as colunas
correspondem aos atributos.
A cada entrada de atributos não-espaciais, feita por meio de um SGBD relacional, é imposto um
identificador único ou rótulo, através do qual é feita a ligação lógica com suas respectivas representações
gráficas que exemplifica as ligações lógicas criadas entre os rótulos dos talhões de um mapa florestal e
seus atributos correspondentes (registros no campo TALHÃO) numa tabela de banco de dados.
O mesmo tipo de relacionamento lógico pode ser feito em outros casos, como por exemplo: moradores
em um lote, lotes em uma quadra, quadras em bairro, bairros em uma cidade; hidrantes de segurança ou
telefones públicos ao longo de uma avenida; postos de serviço e restaurantes ao longo de uma rodovia.

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A partir desta organização, um SIG é capaz de associar a representação gráfica desses geo-objetos
com a informação descritiva contida em seu banco de dados e também de computar novas informações
e exibi-las sob a forma de mapas. Assim, para obter informações sobre estradas como, tipo de pavimento,
largura, comprimento ou número de vias, pode-se consultar o dado tabular (atributos) correspondente e
apresentar os resultados de forma inteligível.

2.3.1 - Conexão de dados gráficos e tabulares

A conexão entre o dado gráfico (espacial) e o dado tabular (descritivo) é fundamental em um SIG.
Segundo Câmara Neto (1995), para que isto ocorra existem três condições que devem ser obedecidas:

• Manter um relacionamento único entre dados gráficos sobre o mapa e registros na tabela de atributos;
• manter a ligação entre o dado gráfico e o registro através de um único identificador; e
• Manter o identificador armazenado fisicamente no arquivo que contém os dados gráficos e no arquivo
que contém o correspondente registro da tabela de atributos.
Essas condições possibilitam a um SIG criar novos mapas baseados em informação tabular e
permitem realizar por exemplo, as seguintes operações:
•Apontando-se para uma representação sobre o mapa, identificar o geo-objeto e exibir uma lista de
seus atributos; e
•Apontando-se para um registro na tabela de atributos, identificar o geo-objeto correspondente e
realçar suas representações gráficas sobre o mapa.

Os identificadores são utilizados nessas operações como um meio de ligação entre as representações
gráficas do mapa e seus respectivos atributos tabulares e vice-versa. Essas operações fornecem
interatividade entre dados gráficos e tabulares.

2.3.2 - Conexão com dados multimídia

A integração de dados multimídia num SIG admite várias estratégias. De uma forma geral, esses dados
são exibidos por produtos especializados e são armazenados em formatos padronizados como TIFF3,
GIF4, JPEG5, MPEG6 e AVI7 .
Existem várias maneiras de conectar um geo-objeto a dados multimídia. A forma direta é acrescentar
uma nova coluna à tabela de atributos para que o geo-objeto possa conter o nome de um arquivo de dado
multimídia. Esta maneira simples de associação permite ligar apenas um único arquivo de dado para cada
geo-objeto. Outra forma de efetuar a conexão, é através da utilização de uma nova tabela. Esta tabela
deve ter duas colunas, uma contendo o identificador do geo-objeto e a outra o nome do arquivo multimídia.
Uma terceira maneira de conexão, também utilizando identificadores, pode ser feita sem usar tabelas.
Esta forma consiste em compor o nome do correspondente arquivo de dados multimídia com o
identificador do geo-objeto. Por exemplo, tendo-se o arquivo “fazenda-São-Lucas.tif” correspondente ao
geo-objeto identificado por “345”, pode-se mudar o nome deste arquivo para “fazenda-São-Lucas.tif.345”.
Neste exemplo em particular, o sistema deve procurar, num repositório previamente definido, todos os
arquivos cuja extensão sejam iguais ao do identificador do geo-objeto em questão.
A vantagem dos dois últimos métodos é a capacidade de associação de vários arquivos de dados
sobre um mesmo geo-objeto, sem a necessidade de acrescentar colunas à tabela de atributos.
Os métodos descritos acima possibilitam ao sistema obter o nome ou os nomes dos arquivos
associados a cada geo-objeto. Através do nome do arquivo, deve-se arquitetar uma forma de localizar o
dado e exibí-lo adequadamente.

2.4 - Interface com o usuário

A interface com o usuário é a parte que integra todas as aplicações e permite requerer e receber
informações espaciais de um sistema. Seu projeto influencia quão facilmente pode-se interagir com um
SIG e quão rapidamente pode-se entender os resultados apresentados (Egenhofer, 1990). Correntemente
os SIGs têm procurado melhorar esses aspectos de interação, de modo a tornar seu uso amigável e
requerer pouco tempo de treino por parte de quem vai usá-lo. Nesse aspecto, o enfoque principal é como
o usuário pode recuperar os dados espaciais e como ele pode interagir com o dado representado sobre
a tela de uma estação de trabalho.
Um sistema de visualização de dados deve ser de fácil manuseio, uma vez que a maioria de seus
usuários é composta por não-especialistas em computação, preocupados em utilizá-lo como ferramenta

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de trabalho dentro de suas áreas de conhecimento. Portanto, a interface deve ser de fácil operação e
permitir diferentes tipos de análises, além de possibilitar a inclusão de novas técnicas. Em geral, interfaces
do tipo janelas são mais fáceis de serem manuseadas, mas possuem menor versatilidade e variabilidade.
Essas interfaces exigem do projetista certos cuidados, de modo a permitir formular questões apropriadas
e expressar claramente suas respostas. Por outro lado, as linguagens de comando podem formular
questões com grande versatilidade e variabilidade, mas requerem mais tempo de treino e aprendizagem.

11. Noções de Cartografia

Os mapas são sempre uma simplificação do mundo real, feita sobre uma superfície geométrica plana
(papel ou monitor de computador). Por mais detalhes que o mapa tenha, ele sempre é uma simplificação
do lugar que o cartógrafo quer representar.

Título:
Os mapas têm uma linguagem própria, profundamente ligada à Geografia, e um conjunto de regras
bem definidas. Para desenhar um mapa ou para poder entende-lo, é necessário conhecer essa língua
cartográfica, com a qual, por meio de signos, se realiza uma forma de comunicação entre as pessoas.
Trata-se de uma linguagem visual e universal, sujeita a regras convencionadas por organizações e
tratados internacionais.
Em função de seu uso e de outros aspectos técnicos, os mapas apresentam algumas diferenças entre
si:
a) Mapa básico – é sempre desenhado a partir de um preciso levantamento do local a ser
cartografado. Usa uma escala pequena, representando grandes partes da superfície terrestre, com
poucos detalhes. Quase sempre apresenta limites políticos-administrativos. Normalmente é usado para
representar uma parte do mundo ou até mesmo todo ele; é o caso do chamado mapa-múndi

Os mapas de pequena escala não apresentam muitos detalhes, servindo para dar uma noção geral
sobre diferentes aspectos de grandes porções da superfície terrestre.

b) Carta – é um mapa com escala grande, ou seja, mostra detalhes do local representado. É ideal para
mostrar locais pequenos, geralmente partes de uma região ou cidade. Raramente apresenta limites
político-administrativos entre países.

Os mapas de grande escala são ideais para representar espaços pequenos, mostrando detalhes do
espaço geográfico. Quando apresenta muitos detalhes, um mapa desse tipo pode também ser
chamado de planta.

c) Mapa temático – é amplamente utilizado na Geografia moderna e na divulgação de informações


de outras ciências, em especial por meio da mídia. Por meio de símbolos quantitativos e qualitativos, o
fenômeno a ser representado é mostrado em sua distribuição espacial.
As duas formas mais comuns de mapa tem ético são:
* Cartograma – é uma representação cujo objetivo maior é mostrar informações sobre a distribuição
espacial do objeto de estudo. É geralmente baseado em mapas bastante precisos, nos quais se lançam
as informações cujo comportamento espacial queremos conhecer. O interesse maior do cartograma é o
conteúdo, ou seja, as informações que ele apresenta sobre uma população, uso do solo agrícola,
distribuição espacial da indústria, etc.;
* Anamorfose – é um mapa no qual as superfícies reais (geralmente países ou estados e regiões de
um país) sofrem uma distorção para se tornarem proporcionais à variável que está sendo representada.

Quaisquer que sejam os tipos de mapas, todos eles têm dois problemas para resolver: como reduzir
proporcionalmente o que será representado e como representar num espaço geométrico plano o que é,
na realidade curvo?
Na realização dessas tarefas, especialmente da segunda, ocorrem inevitáveis distorções. Essas
dificuldades técnicas, são parcialmente solucionadas por meio de:
* Escalas, que estudam o problema da dimensão do local a ser representado, ou seja, realizam uma
relação matemática entre as dimensões reais do objeto a ser cartografado e as medidas do mapa a ser
criado;

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* Projeções, que estudam o problema da forma, já que todas as áreas terrestres que ultrapassam 100
quilômetros de extensão exigem que se leve em conta a curvatura do planeta.

Orientação:
A orientação é sem dúvida um elemento fundamental, pois sem ela fica muito difícil de responder a
pergunta “onde?”, considerando que a carta, o mapa, a “planta” ou outro tipo de representação espacial,
sob os preceitos da Cartografia, é uma parcela de um sistema maior, o planeta Terra (se for esse o planeta
trabalhado). E, em sendo assim, é preciso estabelecer alguma referência para se saber onde se está
localizado, na imensidão da superfície deste planeta.
A orientação deve ser utilizada, de preferência, de forma simultânea à apresentação das às
coordenadas geográficas (meridianos e paralelos cruzados na forma de um sistema chamado de rede
geográfica), no mapa, as quais também servem para se marcar a posição de um determinado objeto ou
fenômeno na superfície da Terra, de modo que a direção norte aponte sempre para a parte de cima da
representação (seguindo o sentido dos meridianos). E caso a representação não contenha coordenadas
geográficas é importante dotá-la de um norte, ou de uma convenção que dê a direção norte da
representação, geralmente na forma de seta ou da conhecida “rosa dos ventos”19:

Rosa dos Ventos

Escala:
A escala é uma relação matemática entre as distâncias existentes no mundo real e aquelas que
traçamos nos mapas. Por meio dela podemos indicar quantas vezes as dimensões reais do lugar foram
reduzidas para serem representadas no mapa. Existem dois tipos principais:

a) Escala gráfica – exprime, em um desenho semelhante a uma régua, a relação entre o mapa e o
mundo real que ele representa. A vantagem dessa forma de escala está em sua fácil e imediata leitura,
permitindo a determinação da distância por comparação. Ela é representada por uma linha graduada,
dividida em partes iguais, cada uma delas representando uma certa unidade de comprimento que define
as distâncias no local representado. Isso permite efetuar medidas diretas sobre o mapa.

A escala gráfica indica, de forma direta, quantos quilômetros cada centímetro do mapa representa, de
tal forma que, com uma simples régua, podemos calcular a distância real entre dois pontos
representados.

b) Escala numérica – normalmente é expressa por uma fração cujo numerador é a medida no mapa
(sempre 1 centímetro) e o denominador, a medida correspondente no terreno, sempre na mesma unidade
(geralmente centímetros). Assim, numa escala 1/300.000, por exemplo, qualquer medida linear no mapa
é 300.000 vezes maior no terreno. A escala numérica pode ser representada de três formas diferentes,
dependendo das convenções de cada país:
1
1:300.000, 1/300.000 ou .
300.000
Quanto menor for o denominador, maior será a escala, portanto mais detalhes poderão ser
representados. Assim, a escala 1:5.000 é maior que a escala 1:5.000.000, pois na primeira cada
centímetro representa 5 mil centímetros, ou 50 metros, enquanto na segunda cada centímetros
representa 5 milhões de centímetros, ou 50 quilômetros.
Por isso, de foram geral, nos referimos às escalas como grandes ou pequenas. Se o espaço que
queremos cartografar é muito grande, como a América Anglo-Saxônica, por exemplo, e dispomos de uma

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Disponível em: http://www.geoluislopes.com/2012/08/principais-elmentos-para-leitura.html. Acesso em: Fevereiro/2016.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
pequena folha de papel, é evidente que teremos de fazer uma grande redução para que o espaço
representado caiba no papel.
Mapas desse tipo são chamados mapas em pequena escala, pois a anotação numérica revela uma
fração pequena, como, por exemplo, 1:65.000.000. Isso significa que cada centímetro do mapa equivale
a 65 milhões de centímetros ou 650 quilômetros do espaço real.
Ao contrário, se queremos reproduzir um espaço geográfico menor, uma parte da cidade do Rio de
Janeiro, por exemplo, não é preciso realizar uma redução tão grande. Assim, usaríamos uma escala
1:25.000, ou seja, 1 centímetro do mapa seria equivalente a apenas 25 mil centímetros do espaço real,
ou 0,25 quilômetro. Por isso, mapas desse tipo são chamados de mapas em grande escala, já que a
fração não é tão pequena como no caso anterior.

Quanto maior a superfície real (mapa da América Anglo-Saxônica), menor é a capacidade de


representação do mapa (poucos detalhes). Quanto menor é a superfície real (mapa da cidade do Rio
de Janeiro), maior a capacidade de representação do mapa (mais detalhes).

A distinção entre escala grande e pequena não está convencionada mundialmente, o que significa que
em alguns lugares um mapa de 1:25.000 já é classificado como de grande escala, enquanto em outros o
hábito é denominar assim apenas os mapas com escala a partir de 1:10.000.
Sem uma escala adequada é impossível construir um bom mapa. A escala não é simplesmente uma
fria e distante relação matemática. Por meio dela podemos observar melhor o mundo real, repleto de
informações a serem cartografadas. A escolha da escala adequada permite uma análise correta do
espaço que se pretende cartografar e do nível de detalhamento necessário: é ela que determina a
precisão, a legibilidade e a eficiência de um mapa.

Cálculos com Escala

Com um bom mapa na mão e uma régua, podemos fazer cálculos usando escalas. Basicamente as
questões de concursos em geral sobre o assunto trabalham com dois tipos de problemas:
1. Determinação da distância real – Para calcular a distância real entre dois pontos, multiplicamos
a distância em centímetro no mapa pelo valor da escala. Depois transformamos o resultado obtido em
quilômetros pelo simples corte de 5 zeros. A distância real (D) resulta da multiplicação da distância
no mapa (d) pela escala do mapa (E).
D=dxE
Exemplo: Num mapa de escala 1:3.000.000, qual é a distância real, em linha reta, entre as cidades
A e B, distantes entre si 7 centímetros?
Solução: 7 x 3.000.000 = 21.000.000 centímetros, ou seja, 210 quilômetros.

2. Determinação da escala do mapa – Para descobrir uma escala, divide-se uma distância real
conhecida pelo número obtido com a medição no mapa. Vejamos o seguinte caso: Num mapa em que
a escala não está declarada, as cidades A e B estão distantes 4 centímetros. A escala do mapa (E)
resulta da divisão da distância real (D) pela distância no mapa (d).
E=D:d
Exemplo: A distância real entre as cidades A e B, em linha reta, é de 160 quilômetros. Qual é a
escala do mapa?
Solução: 160:4 = 40, ou seja, 1 centímetro do mapa equivale a 40 quilômetros no terreno.
Transformamos os quilômetros em centímetros pela simples adição de 5 zeros. Portanto, a escala é
1:4.000.000.

Legenda:
Denominamos legenda as simbologias usadas para representar um fenômeno qualquer num mapa.
Os mapas, geralmente, são muito ricos em informações, representadas por meio de símbolos. Para
entender o que está “escrito” nessa linguagem cartográfica, é necessário decodificar esses símbolos, ou
seja, interpretar os códigos apresentados na legenda. Os símbolos mais usados são as linhas, as cores
e os grafismos.

a) Linhas – são utilizadas duas formas:


* Lineares – para representar fenômenos com continuidade, tais como estradas, ferrovias, rios,
fronteiras, etc. Elas podem surgir no mapa com aspectos diversos. Por exemplo, a representação de um
rio com diferentes espessuras pode significar uma variação de sua largura real; se uma linha tracejada

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
substitui seu traço contínuo, provavelmente representa a perenidade ou a intermitência desse rio. Se um
canal artificial foi construído perpendicularmente ao rio, uma linha reta contínua vai representa-lo. Para
os demais elementos, estradas, ferrovias, túneis, pontes, oleodutos, etc., o procedimento é parecido;
* Isorritmas – são linhas que unem pontos de um local onde um determinado fenômeno tem
intensidade igual. Uma das mais utilizadas é a isoípsa, que interliga pontos da mesma altitude, também
conhecida por curva de nível. Veja na tabela abaixo outras linhas utilizadas:

Tipos de intensidade igual Unem pontos de


isoalinas salinidade
isóbaras pressão atmosférica
isóbatas profundidade
isóclinas inclinação magnética
isoietas pluviosidade
isoípsas altitude
isotermas temperatura

b) Cores – são geralmente utilizadas para representar fenômenos de intensidade variável, como zonas
de diferentes altitudes e profundidades. São convenções internacionais, seguidas por todos os países do
mundo.
As cores mais usadas são:
* Azul, para representar águas tanto na superfície terrestre quanto nos mares e oceanos – a tonalidade
pode variar de acordo com a profundidade das águas do local;
* Verde, em geral usado em mapas de relevo para representar a altimetria;
* Marrom, também usado em mapas de relevo para altimetria;
* Preto, usado quase só em nomenclaturas, como por exemplo, nomes de cidades, portos, etc.

c) Símbolos – são usados para representar os mais variados fenômenos. Muitos são extremamente
particulares e utilizados apenas em alguns tipos de mapas. Outros são relativamente universais. Eles
sempre representam um fato ou objeto, podendo apresentar formas e funções muito diferentes.
Os símbolos proporcionais podem indicar diferenças do tamanho de uma produção, por meio de figuras
geométricas simples. Já os símbolos pictóricos procuram identificar o objeto representado de forma direta.
Há muito outros tipos de símbolos.

Observando mapas!

Os mapas fornecem uma visão gráfica muito precisa dos fatos geográficos, sempre com o uso de
uma linguagem simbólica. Todos os detalhes de um mapa bem desenhado são importantes, por isso
tudo deve ser observado com cuidado e atenção.
Em geral, inicia-se com a observação pelo título do mapa. Depois, deve-se procurar sua orientação.
Nos mapas que usamos hoje, o norte geralmente fica na parte superior. Por isso, podemos dizer que o
mapa está orientado para o norte. É um hábito utilizado desde a Antiguidade e adotado até hoje, porque
a cartografia se desenvolveu muito nos países do hemisfério norte. Mas nem sempre foi assim. Na
Idade Média, por exemplo, era comum a orientação inversa, ou seja, a parte de cima do mapa
representava o sul. Já os árabes, seguidores de Maomé, orientavam seus mapas para o leste, ou
oriente, onde se situa a cidade sagrada de Meca. (O termo “orientação” significa, etimologicamente,
posicionado para o oriente).
Também deve ser dada muita atenção ao texto do mapa, que pode trazer importantes significados.
O tamanho das letras e seu corpo, em maiúsculas ou minúsculas, podem indicar diferentes fenômenos
ou diferentes hierarquias. Outros detalhes que você deve aprender a observar:
* fenômenos climáticos – são representados por meio de linhas como as isotermas, isóbaras,
isoietas, etc.;
* hidrografia – os rios são representados por linhas contínuas ou descontínuas, de diferentes
larguras e cores. Na forma de manchas, de diferentes tamanhos e cores, representam-se lagoas,
mares, áreas de inundação, represas, etc. Áreas tracejadas em azul representam pântanos;
* transportes – em geral na forma de linhas, com diferentes aspectos e cores para ferrovias,
rodovias, oleodutos, gasodutos. Usam-se também símbolos para representar aeroportos, portos
marítimos e fluviais, estações de metrô, aeroportos, etc.;

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* aspectos urbanos – símbolos de diferentes formas e tamanhos para capitais, cidades grades,
médias ou pequenas, edifícios públicos, jardins, hospitais, escolas, etc.;
* nomenclatura – a designação do local aparece com nomes em diversos tamanhos e tipos de
letras diferentes, às vezes até com cores diferentes;
* topografia – pode estar representada na forma de linhas que unem pontos da mesma altitude
(isoípsas) ou profundidades (isóbatas), ou na forma de cores.

Bibliografia:

ANTUNES, Vera Lúcia da Costa. Geografia do Brasil: Quadro Natural e Humano. Coleção Objetivo –
Livro 24. Editora Sol.

SCALZARETTO, Reinaldo. Geografia Geral – Geopolítica. 4ª edição – Livro 2. São Paulo: Anglo.

Localização:

Quanto à sua posição geográfica, o Brasil ocupa, dentro do continente sul – americano, a posição
centro-leste, possuindo fronteira com quase todos os países sul-americanos, exceto o Equador, Chile e
Trinidad-Tobago.
A linha do Equador atravessa o País, ao norte do Amazonas, sul de Roraima, norte do Pará e sul do
Amapá, enquanto o Trópico de Capricórnio corta o extremo sul do Mato Grosso do Sul, sul de São Paulo
e norte do Paraná.
Disso concluímos que o Brasil situa-se, quase inteiramente, na zona tropical da Terra. Somente 8%
do território nacional se localiza na zona subtropical, e cerca de 7% situa-se no Hemisfério Norte; o
restante, no Hemisfério Sul.

Orientação:

O processo de orientação desenvolve-se para atender à necessidade de deslocar-se em um


determinado rumo, mesmo quando não é possível guiar-se pelos acidentes geográficos.

Meios de Orientação:

a) Sol: onde nasce é o Leste; onde se põe é o Oeste; a partir daí, temos os pontos cardeais:
N – norte (setentrional);
S – sul (meridional);
L ou E – leste ou este (oriental);
O ou W – oeste (ocidental).

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b) Lua: processo idêntico ao do Sol.

c) Cruzeiro do Sul: aponta o Sul (apenas no Hemisfério Sul).

d) Ventos: conhecendo-se a direção dos ventos dominantes.

e) Bússola: sua agulha imantada aponta sempre para o norte magnético.

Bússola

Rosa-dos-Ventos:
É formada com os pontos cardeais: Norte, Sul, Leste, Oeste, pontos colaterais e os pontos
subcolaterais.

Colaterais ficam entre os pontos cardeais:


NORDESTE – NE – entre norte e este;
SUDESTE – SE – entre sul e este;
SUDOESTE – SO – entre sul e oeste;
NOROESTE – NO – entre norte e oeste.

Subcolaterais ficam entre os pontos cardeais e os colaterais:


N NE – NOR – NORDESTE;
N NO – NOR – NOROESTE;
E NE – ES – NORDESTE;
E SE – ES – SUDESTE;
S SE – SU – SUDESTE;
S SO – SU – SUDOESTE;
O SO – OES – SUDOESTE;
O NO – OES – NOROESTE.

A rosa-dos-ventos utilizada para orientação

Bibliografia:

ANTUNES, Vera Lúcia da Costa. Geografia do Brasil: Quadro Natural e Humano. Coleção Objetivo –
Livro 24. Editora Sol.

SCALZARETTO, Reinaldo. Geografia Geral – Geopolítica. 4ª edição – Livro 2. São Paulo: Anglo.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Questões

01. (ANP – Especialista em Regulação – CESPE/2013) Um dos principais objetivos da cartografia é


representar a Terra por meio de mapas e, para isso, a escala e os sistemas de coordenadas são
elementos essenciais. A respeito desses elementos, julgue o item a seguir.
A escala de um mapa é a relação constante que existe entre as distâncias lineares, medidas em um
mapa, e as distâncias lineares correspondentes, medidas em um terreno, ou seja, a escala é uma
proporção matemática. Dessa forma, é correto afirmar que a escala é uma relação numérica entre o mapa
e a realidade que ele representa.
(....) Certo (....) Errado

02. (IF/SP – Professor de Geografia – FUNDEP/2014) A escala de um mapa é aquela que


(A) descreve atributos qualitativos e quantitativos do espaço representado.
(B) formula a relação existente entre o mapa e o terreno.
(C) permite localizar objetos e fenômenos segundo rede de coordenadas.
(D) define propriedades geométricas segundo sistema de projeção.

03. (SEDU/ES – Professor de Geografia – CESPE/2010) Acerca da utilização da cartografia como


elemento fundamental da ciência geográfica, julgue o próximo item.
A escala gráfica é utilizada em todos os mapas, principalmente naqueles que sofrem alterações nas
suas dimensões, pois mantém-se utilizável em nova configuração dimensional do mapa.
(....) Certo (....) Errado

04. (Prefeitura de Nilópolis/RJ – Professor de Geografia – FUNCEFET/2011) A história da


cartografia revela-nos como surgiram os primeiros mapas. Encantamo-nos ao observar os mapas antigos,
elaborados pelas diferentes civilizações. Obras como as [...], sobre a pré-história e as sociedades
tradicionais, [...] apresenta-nos um acervo de mapas, até chegar aos dias atuais, por meio dos livros e
das exposições.

Com base na citação, pode-se afirmar que:


(A) a cartografia, como uma ciência do campo das engenharias, contribui pouco para a ciência
geográfica e para o seu ensino nas escolas.
(B) os mapas apresentam uma função importante no ensino de geografia, pela sua capacidade de
representar o espaço geográfico.
(C) os mapas não possuem a capacidade de representar o espaço geográfico, não apresentando uma
função importante no ensino de geografia
(D) a geografia, como uma ciência do campo das “ciências sociais”, não necessita das chaves de
interpretativas produzidas pelos mapas

05. (UFF – Técnico de Laboratório – Geografia – UFF/Adaptada) A bússola é um instrumento de


orientação. É formada por uma agulha imantada que se apoia num eixo vertical. Essa agulha gira sobre
um fundo onde estão indicados os pontos de orientação. A ponta da agulha da bússola indica,
aproximadamente, a direção:
(A) sul;
(B) leste;
(C) norte;
(D) oeste;
(E) sudeste.

06. (SEDUC/RJ – Professor Docente I – CEPERJ/2015) Se os alunos observarem diariamente o


nascer e o pôr do sol, perceberão a regularidade dos pontos de nascente e poente. Ficará fácil a
determinação dos pontos cardeais usando a seguinte convenção:
(A) O Norte é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Leste com
a mão direita e o Oeste com a mão esquerda, ficando o Sul às suas costas.
(B) O Sul é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Leste com a
mão direita e o Oeste com a mão esquerda, ficando o Norte às suas costas.
(C) O Norte é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Oeste com
a mão direita e o Leste com a mão esquerda, ficando o Norte às suas costas.

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(D) O Leste é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Sul com a
mão direita e o Norte com a mão esquerda, ficando o Oeste às suas costas
(E) O Oeste é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Norte com
a mão direita e o Sul com a mão esquerda, ficando o Leste às suas costas.

07. (IBGE – Técnico em Informações de Geografia e Estatística – CESGRANRIO/2013) No espaço


aéreo brasileiro, uma aeronave se desloca, em linha reta, de Palmas, no Tocantins, para Brasília, no
Distrito Federal.
De acordo com os pontos cardeais, essa aeronave descreve uma trajetória no sentido
(A) sul – norte
(B) leste – oeste
(C) norte – sul
(D) nordeste – sudoeste
(E) sudoeste – nordeste

08. (DNIT – Analista – ESAF/2013) Em Cartografia, WGS84, SAD69 e SIRGAS2000 são termos
relacionados com:
(A) Sistemas de projeção
(B) Receptores de GPS
(C) Referenciais geodésicos
(D) Sistema de coordenadas
(E) Tipos de estações da RBMC (Rede Brasileira de Monitoramento Contínuo) do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística)

09. (DPF – Perito – CESPE/2013) A respeito de cartografia, julgue o item a seguir.


Os mapas de cartografia são concebidos por meio de dois elementos da realidade: localização e
espaço.
(....) Certo (....) Errado

10. (SEDUC/PI – Professor de Geografia – NUCEPE/2015) A representação e o conhecimento sobre


a superfície terrestre são buscas constantes do cotidiano humano e a Cartografia favorece estes
processos.
Assinale a alternativa que indica CORRETAMENTE contribuições da Cartografia na localização sobre
a superfície terrestre.
(A) A localização precisa de um determinado ponto sobre a superfície terrestre é dada a partir da rede
geográfica.
(B) As linhas que cobrem a superfície da Terra no sentido Norte-Sul são denominadas paralelos, que
permitem a divisão do planeta em dois hemisférios e dois polos.
(C) Para localização de um ponto na superfície terrestre é necessária a determinação da distância
entre um ponto qualquer e os paralelos de referências.
(D) A Latitude de um lugar é expressa a partir da diferença espacial entre este e o Equador, medida
em graus de 0º a 180º sempre na direção Leste ou Oeste.
(E) Na localização sobre a superfície terrestre é preciso considerar exclusivamente as projeções
cartográficas que permitem a construção de quadrículas nas quais é possível localizar os lugares.

11. (ANP – Especialista em Regulação – CESPE/2013) Cartografia e geoprocessamento são duas


ferramentas importantes em estudos ambientais como suporte à tomada de decisão. Com relação a essas
ferramentas, julgue os próximos itens.
Córrego Alegre, SAD-69 e WGS-72 são exemplos de datum utilizados na cartografia moderna.
(....) Certo (....) Errado

Respostas

01. Resposta: Certo.


A escala é uma relação matemática entre as distâncias existentes no mundo real e aquelas que
traçamos nos mapas. Por meio dela podemos indicar quantas vezes as dimensões reais do lugar foram
reduzidas para serem representadas no mapa.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
02. Resposta: B.
A escala, em cartografia, é a relação matemática entre as dimensões do objeto no real e a do desenho
que o representa em um plano ou um mapa. Constitui-se em um dos elementos essenciais de um mapa,
juntamente com a orientação, a legenda (convenções cartográficas) e a fonte.

03. Resposta: Certo.


A escala é um atributo matemático de representação cartográfica, que indica a redução das dimensões
do terreno utilizada para representá-lo. Pode ser expressa de modo numérico, por meio de uma fração,
ou de modo gráfico, por meio de uma linha graduada. Ao contrário do que está afirmado na questão,
alguns mapas trazem uma escala gráfica, outros trazem uma escala numérica e, existem ainda, os que
trazem os dois tipos de escalas. A vantagem da escala gráfica é manter a proporcionalidade quando
surgem reduções ou ampliações.20

04. Resposta: B.
Os mapas têm uma linguagem própria, profundamente ligada à Geografia, e um conjunto de regras
bem definidas.
Os mapas são sempre uma simplificação do mundo real, feita sobre uma superfície geométrica plana.

05. Resposta: C.
Bússola: sua agulha imantada aponta sempre para o norte magnético.

06. Resposta: A.
Segue abaixo a imagem para orientação, disponível em:
http://www.inf.furb.br/obeb/geografia_novo/image008.jpg. Acesso em: Fevereiro/2016:

07. Resposta: C.
O avião sai de Tocantins (cima) que fica ao norte de Brasília (baixo), portanto a rota do avião que sai
do Norte é em direção ao sul de Tocantins, onde fica Brasília; assim, letra C - norte – sul.

08. Resposta: C.
Segundo o IBGE, um sistema geodésico de referência é um sistema de referência composto por uma
figura geométrica representativa da superfície terrestre, posicionada no espaço, permitindo a localização
única de cada ponto da superfície em função de suas coordenadas tridimensionais, e materializado por
uma rede de estações geodésicas. Exemplos de sistema geodésico de referência: atualmente o Brasil
utiliza o SIRGAS2000 (Sistema de Referência Geocêntrico para as Américas) mas já admitiu também
anteriormente o uso do SAD69 (South American Datum 1969) e do WGS84.21

09. Resposta: Errado.


Por definição, a localização não é um elemento da realidade, é uma convenção criada pelo homem.
Nem todo mapa produzido precisa de localização definida.

20
Autor: Sávia Cordeiro, Mestre em Direito Constitucional (PUC-Rio) e Assessora da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de
Janeiro.
21
Autor: Sávia Cordeiro, Mestre em Direito Constitucional (PUC-Rio) e Assessora da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de
Janeiro.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
10. Resposta: A.
Rede Geográfica - A rede geográfica é um conjunto de linhas imaginárias, formadas por paralelos e
meridianos, que servem para localizar qualquer ponto na superfície terrestre. Esta rede é de fundamental
importância para a confecção de mapas e é o princípio de funcionamento de um GPS, dentre outras
utilizações.
Paralelos - O principal paralelo é o Equador (0°), o qual divide a terra em dois hemisférios: o hemisfério
sul (HS) e o hemisfério norte (HN). Além do Equador existem outros paralelos com nomes especiais, os
quais são: o círculo polar ártico (HN) e o antártico (HS), trópico de câncer (HN) e o trópico de capricórnio
(HS).
Os paralelos é que vão determinar a latitude de um determinado lugar na superfície terrestre, dessa
forma podemos entender como latitude: é a distância medida em graus de um lugar na superfície terrestre
ao Equador.
Meridianos - Apenas com latitude não é possível determinar um ponto na superfície terrestre. Com
isso, são traçadas linhas imaginárias de um polo ao outro, cortando perpendicularmente os paralelos, os
quais são denominados de meridianos.
Por meio deste encontra-se a longitude de um lugar, tendo como referência o meridiano de Greenwich,
dividindo a terra em hemisfério oriental e hemisfério ocidental.
Desse modo compreendemos por longitude: toda distância medida em graus, de um determinado lugar
da superfície terrestre ao meridiano de Greenwchi.
Disponível em:
http://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/geografia/a-rede-geografica.htm.

11. Resposta: Certo.


Historicamente, no Brasil já foram oficialmente adotados quatro referenciais geodésicos: Córrego
Alegre, Astro Datum Chuá, SAD69, WGS84.

12. Noções de Desenvolvimento Sustentável.

A história do conceito de Desenvolvimento Sustentável

O conceito de desenvolvimento sustentável foi oficialmente declarado na Conferência das Nações


Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972, na cidade de Estocolmo, Suécia, e, por isso,
também chamada de Conferência de Estocolmo. A importância da elaboração do conceito, nessa época,
foi a de unir as noções de crescimento e desenvolvimento econômico com a preservação da natureza,
questões que, até então, eram vistas de forma separada.
Em 1987, foi elaborado o Relatório “Nosso Futuro Comum”, mais conhecido como Relatório
Brundtland, que formalizou o termo desenvolvimento sustentável e o tornou de conhecimento público
mundial. Em 1992, durante a ECO-92, o conceito “satisfazer as necessidades presentes, sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” tornou-se o eixo
principal da conferência, concentrando os esforços internacionais para o atendimento dessa premissa.
Com esse objetivo, foi elaborada a Agenda 21, com vistas a diminuir os impactos gerados pelo aumento
do consumo e do crescimento da economia pelo mundo.

Conceito e aplicação do desenvolvimento sustentável

O termo desenvolvimento sustentável propõe uma forma de desenvolvimento que tem como princípio
atender as necessidades das gerações do presente sem que haja comprometimento das gerações futuras
atenderem suas próprias necessidades.
O desenvolvimento sustentável pode ser dividido em três componentes: sustentabilidade social,
sustentabilidade ambiental e sustentabilidade econômica, conforme pode ser observado na figura abaixo:

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
1. A Sustentabilidade Social: é orientada para o desenvolvimento humano, a estabilidade das
instituições públicas e culturais, bem como a redução de conflitos sociais. É um veículo de humanização
da economia, e, ao mesmo tempo, pretende desenvolver o tecido social nos seus componentes humanos
e culturais.

2. A sustentabilidade Ambiental: Consiste na manutenção das funções e componentes dos


ecossistemas de modo sustentável capazes de se adaptar a alterações, para manter a sua variedade
biológica. É também a capacidade que o ambiente natural tem de manter as condições dignas para as
pessoas e para os outros seres vivos

3. Sustentabilidade Econômica: Consiste em um conjunto de medidas e políticas que visam à


incorporação de preocupações e conceitos ambientais e sociais.

COMO ATINGIR O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL?

Parta alcançar o desenvolvimento sustentável é necessário reconhecer que os recursos naturais não
são infinitos e a partir disso utiliza-los de maneira consciente e planejada. Isso significa optar pelo
consumo de bens produzidos com tecnologia e materiais menos ofensivos ao meio ambiente, utilização
racional dos bens de consumo, evitando que haja o desperdício e evitar o excesso e ainda, após o
consumo, cuidar para que os resíduos, se houver, não provoquem degradação ao meio ambiente. Para
tal se faz necessária a prática dos três “erres”, como exemplificado a seguir:
Adotar a prática dos três 'erres':
1. REDUÇÃO: que se recomenda evitar adquirir produtos desnecessários;
2. REUTILIZAÇÃO: que sugere que se reaproveite embalagens, plásticos e vidros;
3. RECICLAGEM: que orienta separar o que pode ser transformado em outro produto ou, então, em
produto semelhante.

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Além da adoção dos três erres, uma série de outras medidas devem ser tomadas pelos Estados
nacionais:
a) limitação do crescimento populacional;
b) garantia de alimentação a longo prazo;
c) preservação da biodiversidade e dos ecossistemas;
d) diminuição do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias que admitem o uso de fontes
energéticas renováveis;
e) aumento da produção industrial nos países não-industrializados à base de tecnologias
ecologicamente adaptadas;
f) controle da urbanização selvagem e integração entre campo e cidades menores;
g) as necessidades básicas devem ser satisfeitas. No nível internacional, as metas propostas pelo
Relatório são as seguintes:
h) as organizações do desenvolvimento devem adotar a estratégia de desenvolvimento sustentável;
i) a comunidade internacional deve proteger os ecossistemas supranacionais como a Antártica, os
oceanos, o espaço;
j) guerras devem ser banidas;
k) a ONU deve implantar um programa de desenvolvimento sustentável.

Conservação e Recuperação Ambiental

Entre as atribuições do Fundo Amazônia, estabelecidas em Decreto Presidencial (Decreto n° 6.527,


de 01.08.2008), constam, entre outras, o apoio à
(I) gestão de florestas públicas e áreas protegidas;
(II) recuperação de áreas desmatadas; e
(III) a conservação e uso sustentável da biodiversidade.

Portanto, a questão da conservação e recuperação dos ecossistemas naturais, da biodiversidade e


dos serviços ambientais é central à própria existência do Fundo Amazônia. Nessa linha, tem-se que na
construção do Quadro Lógico do Fundo Amazônia, ferramenta de planejamento, gestão e monitoramento
de impactos, foram destacadas como integrantes de sua lógica de intervenção:
- Ampliação de áreas protegidas;
- Consolidação da gestão de florestas públicas e áreas protegidas; e
- Apoio à recuperação de áreas desmatadas e degradadas, tornando-as aptas a serem utilizadas para
fins econômicos e de conservação ecológica. Por sua vez, as “Diretrizes” do Fundo Amazônia
estabelecem como temas prioritários a:
- Consolidação de áreas protegidas, em especial as Unidades de Conservação de Usos Sustentável e
Terras Indígenas;
- Desenvolvimento e implantação de modelos de recuperação de APPs e Reserva Legal, com ênfase
no uso econômico.

O termo biodiversidade - ou diversidade biológica - descreve a riqueza e a variedade do mundo natural.

Biodiversidade ou diversidade biológica é a diversidade da natureza viva. Desde 1986, o termo e


conceito têm adquirido largo uso entre biólogos, ambientalistas, líderes políticos e cidadãos
conscientizados no mundo todo. Este uso coincidiu com o aumento da preocupação com a extinção,
observado nas últimas décadas do Século XX. Refere-se à variedade de vida no planeta Terra, incluindo
a variedade genética dentro das populações e espécies, a variedade de espécies da flora, da fauna, de
fungos macroscópicos e de microrganismos, a variedade de funções ecológicas desempenhadas pelos
organismos nos ecossistemas; e a variedade de comunidades, habitats e ecossistemas formados pelos
organismos.

Quantas espécies existem no mundo

Não se sabe quantas espécies vegetais e animais existem no mundo. As estimativas variam entre 10
e 50 milhões, mas até agora os cientistas classificaram e deram nome a somente 2 milhões de espécies.
Entre os especialistas, o Brasil é considerado o país da "megadiversidade": aproximadamente 20% das
espécies conhecidas no mundo estão aqui. É bastante divulgado, por exemplo, o potencial terapêutico
das plantas da Amazônia. Para entender o que é a biodiversidade, devemos considerar o termo em dois
níveis diferentes: todas as formas de vida, assim como os genes contidos em cada indivíduo, e as inter-

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relações, ou ecossistemas, na qual a existência de uma espécie afeta diretamente muitas outras. A
diversidade biológica está presente em todo lugar: no meio dos desertos, nas tundras congeladas ou nas
fontes de água sulfurosas. A diversidade genética possibilitou a adaptação da vida nos mais diversos
pontos do planeta. As plantas, por exemplo, estão na base dos ecossistemas. Como elas florescem com
mais intensidade nas áreas úmidas e quentes, a maior diversidade é detectada nos trópicos, como é o
caso da Amazônia e sua excepcional vegetação.

Quais as principais ameaças à biodiversidade

A poluição, o uso excessivo dos recursos naturais, a expansão da fronteira agrícola em detrimento dos
habitats naturais, a expansão urbana e industrial, tudo isso está levando muitas espécies vegetais e
animais à extinção. A cada ano, aproximadamente 17 milhões de hectares de floresta tropical são
desmatados. As estimativas sugerem que, se isso continuar, entre 5% e 10% das espécies que habitam
as florestas tropicais poderão estar extintas dentro dos próximos 30 anos. A sociedade moderna -
particularmente os países ricos - desperdiça grande quantidade de recursos naturais. A elevada produção
e uso de papel, por exemplo, é uma ameaça constante às florestas. A exploração excessiva de algumas
espécies também pode causar a sua completa extinção.
Por causa do uso medicinal de chifres de rinocerontes em Sumatra e em Java, por exemplo, o animal
foi caçado até o limiar da extinção. A poluição é outra grave ameaça à biodiversidade do planeta. Na
Suécia, a poluição e a acidez das águas impede a sobrevivência de peixes e plantas em quatro mil lagos
do país. A introdução de espécies animais e vegetais em diferentes ecossistemas também pode ser
prejudicial, pois acaba colocando em risco a biodiversidade de toda uma área, região ou país. Um caso
bem conhecido é o da importação do sapo cururu pelo governo da Austrália, com objetivo de controlar
uma peste nas plantações de cana-de-açúcar no nordeste do país. O animal revelou-se um predador
voraz dos répteis e anfíbios da região, tornando-se um problema a mais para os produtores, e não uma
solução.

O que é a Convenção da Biodiversidade

A Convenção da Diversidade Biológica é o primeiro instrumento legal para assegurar a conservação e


o uso sustentável dos recursos naturais. Mais de 160 países assinaram o acordo, que entrou em vigor
em dezembro de 1993. O pontapé inicial para a criação da Convenção ocorreu em junho de 1992, quando
o Brasil organizou e sediou uma Conferência das Nações Unidas, a Rio-92, para conciliar os esforços
mundiais de proteção do meio ambiente com o desenvolvimento socioeconômico.
Contudo, ainda não está claro como a Convenção sobre a Diversidade deverá ser implementada. A
destruição de florestas, por exemplo, cresce em níveis alarmantes. Os países que assinaram o acordo
não mostram disposição política para adotar o programa de trabalho estabelecido pela Convenção, cuja
meta é assegurar o uso adequado e proteção dos recursos naturais existentes nas florestas, na zona
costeira e nos rios e lagos. O WWF-Brasil e sua rede internacional acompanham os desdobramentos
dessa Convenção desde sua origem. Além de participar das negociações da Conferência, a organização
desenvolve ações paralelas como debates, publicações ou exposições. Em 2006, a reunião ocorreu em
Curitiba, PR.

Legislação Ambiental

A legislação ambiental fornece os parâmetros que balizam o empreendimento, assim como permite a
identificação das ações de manejo ambiental que deverão ser realizadas pelo empreendedor, beneficiário
e demais agentes envolvidos, para estar em conformidade com a legislação. A Constituição de 1988
orienta a cooperação entre a União, os Estados e os Municípios, em relação ao meio ambiente e ao
aproveitamento dos recursos hídricos, destacando-se os artigos 23 e 24.

O Art. 23 trata da competência comum na proteção do meio ambiente e do combate à poluição em


qualquer de suas formas:
- preservação das florestas, da fauna e da flora;
- proteção dos documentos, das obras e outros bens de valor histórico, artístico ou cultural;
- fomento à produção agropecuária e organização do abastecimento alimentar;
- promoção de programas referentes à construção de moradias, bem como a melhoria destas
habitações no tocante ao saneamento básico;

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- registro, acompanhamento e fiscalização das concessões de direitos de pesquisa e exploração de
recursos hídricos e minerais.
A cooperação entre a União, o Estado e os Municípios, em relação a esses assuntos, deve ser
normalizada por lei complementar, visando o equilíbrio do desenvolvimento e do bem estar nacional. O
Art. 24 trata da competência concorrente do domínio das leis por parte dos referidos entes da Federação,
exceto o Município. Conforme esse dispositivo, a estrutura das normas gerais pertence ao poder
legiferante da União, sem entrar em detalhes ou minúcias, sendo estas de competência dos Estados e
do Distrito Federal. Não existe, porém, Lei Federal sobre normas gerais. Os Estados exercerão
competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades. No elenco de matérias mencionadas
no Art. 24, tem-se, entre outras, aquelas pertinentes a:
- florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais,
proteção ao meio ambiente e controle da poluição;
- responsabilidade por dano ao meio ambiente, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico,
turístico e paisagístico.
A Lei Nº 6.938, de 31 de agosto de 1981 (com alterações na Lei Nº 7.804, de 18 de julho de 1989), se
refere à Política Nacional do Meio ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, tendo
criado o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), cuja estrutura é composta por órgãos e
entidades da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, responsáveis pela proteção e melhoria da
qualidade ambiental. Desta lei destaca-se o seu Art. 8º, que, fazendo referência às áreas que são
consideradas Patrimônio Nacional, estabelece que o Conama, quando julgar necessário, poderá
determinar a realização de estudos alternativos e das possíveis consequências ambientais de projetos
públicos ou privados, requisitando aos órgãos federais, estaduais e municipais, bem como a entidades
privadas, as informações indispensáveis para a apreciação dos estudos de impacto ambiental e
respectivos relatórios, nos casos de obras ou atividades de significativo potencial de degradação
ambiental.
Dentre os instrumentos listados na Lei Nº 6.938/81, destacam-se os incisos III e IV (a avaliação de
impactos ambientais, o licenciamento e a revisão de atividades efetivas ou potencialmente poluidoras).
Tais instrumentos possibilitam ao órgão ambiental permitir, induzir, modificar ou mesmo rejeitar a
implantação de empreendimentos e atividades públicas ou privadas que visem a utilização de recursos
ambientais. Segundo o Art. 10 da citada Lei "a construção, instalação, ampliação e funcionamento de
estabelecimentos e de atividades utilizadoras de recursos ambientais, consideradas efetiva ou
potencialmente poluidoras, bem como as capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental,
dependerão de prévio licenciamento de órgão estadual competente, integrante do Sistema Nacional do
Meio ambiente - SISNAMA, e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis - Ibama, em caráter supletivo, sem prejuízo de outras licenças exigíveis".
Para obtenção de uma das licenças, a Lei Nº 6.938/81, em seu Art. 9º, inciso III, estabelece como pré-
requisito a "Avaliação de Impactos Ambientais". A Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) é um instrumento
de política ambiental formado por um conjunto de procedimentos, que tem como objetivo assegurar a
realização do exame sistemático dos impactos ambientais de uma determinada ação proposta (projeto,
programa, plano ou política), e de suas alternativas, onde os resultados sejam apresentados de forma
adequada ao público e aos responsáveis pela tomada de decisão, sendo, desta forma, por eles
devidamente considerados antes que as decisões sejam tomadas. Visando proporcionar a avaliação do
impacto ambiental, foram criadas as figuras do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de
Impacto Ambiental (RIMA), pelo Decreto Nº 88.351/83, em seu Art. 18°. Como este decreto foi revogado
pela edição do Decreto 99.274/90, o EIA e o RIMA passaram a ser regidos por este último.
Ao regulamentar a Lei Nº 6.938/81, o Decreto Federal Nº 99.274/90, em seu Art. 7º, inciso III, delegou
ao Conselho Nacional do Meio Ambiente - Conama a competência para estabelecer normas e critérios
gerais para o licenciamento das atividades potencialmente poluidoras. Assim, o Conama, baixou a
Resolução Nº 001, de 23 de janeiro de 1986, definindo impacto ambiental como "qualquer alteração das
propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou
energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam
(I) a saúde, a segurança e o bem estar da população;
(II) as atividades sociais e econômicas;
(III) a biota;
(IV) as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e
(V) a qualidade dos recursos ambientais", criando a obrigatoriedade de realização de EIA/RIMA para
o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente.

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Em 1987, "considerando a necessidade de que sejam editadas regras gerais para o licenciamento
ambiental de obras de grande porte, especialmente aquelas em que a união tenha interesse relevante,
como a geração de energia elétrica", o Conama editou a Resolução Nº 006, de 16 de setembro daquele
ano, a qual, complementando a Resolução Nº 001, define os aspectos processuais do licenciamento.
“Considerando a necessidade de revisão dos procedimentos e critérios utilizados no licenciamento
ambiental, de forma a efetivar a utilização do sistema de licenciamento como instrumento de gestão
ambiental, instituído pela Política Nacional de Meio Ambiente; a necessidade de regulamentação de
aspectos do licenciamento ambiental estabelecidos na PNMA, que ainda não foram definidos; a
necessidade de ser estabelecido critério para exercício da competência para o licenciamento a que se
refere o Art. 10 da Lei Nº 6.938/81; e a necessidade de se integrar à atuação dos órgãos competentes do
SISNAMA na execução do PNMA, em conformidade com as respectivas competências”, o Conama
deliberou a Resolução Nº 237, de 19 de dezembro de 1997, que regulamenta o sistema nacional de
licenciamento ambiental e define, em seu Art. 8º, a Licença Prévia (LP), a Licença de Instalação (LI) e a
Licença de Operação (LO).
Esta resolução continuou por detalhar os critérios básicos para a elaboração do Estudo de Impacto
Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), como instrumentos da Política
Nacional do Meio Ambiente, e obrigatórios para o licenciamento de obra ou atividade potencialmente
causadora de significativa degradação do meio ambiente.

A Resolução Conama Nº 237/97 fixou os seguintes conceitos:

Licenciamento Ambiental: procedimento administrativo pelo qual o órgão ambiental competente


licencia a localização, instalação, ampliação e a operação de empreendimentos e atividades utilizadores
de recursos ambientais, considerados efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob
qualquer forma, possam causar degradação ambiental, considerando as disposições legais e
regulamentares e as normas técnicas aplicadas ao caso. Licença Ambiental: ato administrativo pelo qual
o órgão ambiental competente estabelece as condições, restrições e medidas de controle ambiental que
deverão ser obedecidas pelo empreendedor, pessoa física ou jurídica, para localizar, instalar, ampliar e
operar empreendimentos ou atividades utilizadoras de recursos ambientais, consideradas efetiva ou
potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental.
Os empreendimentos e atividades são licenciados por um único nível de competência.

Estudos Ambientais: são todos e quaisquer estudos relativos aos aspectos ambientais relacionados à
localização, instalação, operação e ampliação de uma atividade ou empreendimento, apresentado como
subsídio para a análise da licença requerida, tais como: relatórios ambientais, planos e projetos de
controle ambiental, relatório ambiental preliminar, diagnóstico ambiental, plano de manejo, plano de
recuperação de área degradada e análise preliminar de risco.
O EIA deverá obedecer a uma série de requisitos, definidos pela Resolução Conama Nº 001/86:
- contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização do projeto, confrontando-as com a
hipótese de não execução do mesmo;
- identificar e avaliar sistematicamente os impactos ambientais gerados nas fases de implantação e
operação da atividade, definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos
impactos, denominada área de influência do projeto, considerando-se, em todos os casos, a bacia
hidrográfica na qual se localiza;
- considerar os planos e programas governamentais, propostos e em implantação na área de influência
do projeto, em suas compatibilidades.

O RIMA, por sua vez, deverá ser apresentado "de forma objetiva e adequada à sua compreensão". A
publicidade a ser dada ao RIMA é requisito fundamental, de forma que os órgãos públicos e a população
possam manifestar-se (Resolução Conama Nº 001/86). Os pedidos de licenciamento, sua renovação e a
respectiva concessão devem ser publicados no jornal oficial do Estado, bem como em um periódico
regional ou local de grande circulação. Compete ao Conama fixar os prazos para a concessão das
licenças, observada a natureza técnica da atividade.
A Resolução Conama Nº 237/97, em seu anexo 1, estabelece também as atividades ou
empreendimentos sujeitos ao licenciamento ambiental.

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ÓRGÃO COMPETÊNCIA
Licenciar empreendimento ou atividade:
- o Localizado(a) ou desenvolvido(a) conjuntamente no Brasil ou país limítrofe,
no mar territorial, na plataforma continental, na zona econômica exclusiva, em
terras indígenas ou em Unidades de Conservação Ambiental;
- o Localizado(a) ou for desenvolvida em dois ou mais Estados;
- o Cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites territoriais do país
Ibama ou de um ou mais Estados;
- o Pesquisa, lavra, produção, beneficiamento, transporte, armazenagem e
disposição de material radioativo ou que utilize energia nuclear, em conjunto
com a CNEN;
- o Bases ou empreendimentos militares, quando couber;
- o Ibama faz o licenciamento considerando o exame técnico procedido pelos
Estados, e pode, eventualmente, delegar-lhes o licenciamento.
Licenciar empreendimento ou atividade:
- o Localizada ou desenvolvida em mais de um município ou em Unidade de
Conservação de domínio estadual ou do Distrito Federal;
- o Localizado(a) ou desenvolvido(a) nas florestas e demais formas de vegetação
Órgão
natural de preservação permanente (Lei Nº 4771/65);
Ambiental
- o Cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites territoriais de um
Estadual
ou mais Municípios.
- o Órgão Ambiental Estadual faz o licenciamento considerando o exame técnico
procedido pelos órgãos ambientais dos Municípios, e quando couber, o parecer
de órgãos federais.
Compete ao Órgão Ambiental Municipal, ouvidos os órgãos competentes da
Órgão União, dos Estados e do Distrito Federal, quando couber, o licenciamento
Ambiental ambiental de empreendimentos e atividades de impacto ambiental local e
Municipal daqueles que lhe forem delegadas pelo Estado, por instrumento legal ou
convênio.

Legislação Ambiental Brasileira

Segundo a Constituição Federal, todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. A Justiça tem o
dever de acompanhar e julgar as transformações econômicas, políticas e sociais para defender o bem
público, principalmente, os crimes contra o patrimônio natural, urbano e cultural.
A partir da Lei 12.011, de 2009, editada pelo Congresso Nacional sob iniciativa do STJ (Superior
Tribunal de Justiça), foi estabelecido a criação de 230 novas Varas Federais de 2010 a 2014, uma média
de 46 novas varas a cada ano. Essas novas varas são especializadas em crimes ambientais, com
autoridade para julgar processos que envolvam a União, empresas públicas, fundação ou autarquia
federal. No outro lado, no banco do réus, o processo pode envolver pessoas físicas, jurídicas e o próprio
poder público em casos de crimes ambientais, danos e omissões. No ano de 2010, a Vara Federal
Ambiental e Agrária de Belém iniciou suas atividades com cerca de 3.500 processos que antes tramitavam
em outras Varas Federais do estado.
A legislação ambiental brasileira é considerada uma das mais avançadas do mundo, sua estrutura
começou a ser composta em 1981, a partir da Lei 6.938 da Política Nacional de Meio Ambiente que infere
sobre questões relacionadas ao planejamento, gestão e fiscalização. Atualmente, o Brasil conta com
normas específicas e com a Lei de Crimes Ambientais. A Constituição Federal estabelece as questões
ambientais como missão reservada à União, estados, Distrito Federal e municípios. Leia a seguir a
evolução da legislação ambiental brasileira:
- 1934: Criação do Código de Águas e do Código Florestal, passo inicial para a legislação ambiental
brasileira;
- 1965: Código Florestal, Lei 4.771: Lei que visou estabelecer proteção das áreas de preservação
permanente;

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- 1967: Lei da Fauna Silvestre, Lei 5.197: Lei que classificou como crimes a utilização, perseguição,
caça de animais silvestres, caça profissional, comércio de espécies da fauna silvestre e produtos
derivados da caça;
- 1975: Decreto-Lei 1.413 que iniciou o estabelecimento do controle da poluição provocada por
atividades industriais;
- 1979: Lei 6.766, referente ao Parcelamento do Solo Urbano, com regras para loteamentos em áreas
urbanas;
- 1980: Lei 6.803, lei do Zoneamento Industrial nas Áreas Críticas de Poluição, concedeu aos estados
e municípios a autoridade de impor padrões e limites ambientais para licenciamento industrial;
- 1981: Lei 6.938, lei da Política Nacional do Meio Ambiente que estabeleceu a Política Nacional de
Meio Ambiente;
- 1985: Lei 7.347, conhecida como a Lei da Ação Civil Pública referente à ação civil pública de
responsabilidades por danos ao meio ambiente;
- 1988: Lei 9.605, conhecida como a Lei de Crimes Ambientais que reordenou a legislação ambiental
brasileira;
- 2000: Lei 9.985, a lei SNUC, Sistema Nacional de Unidades de Conservação;
- 2001: Lei 10.257, é criado o Estatuto das Cidades para conceder às autoridades municipais estruturas
para o desenvolvimento equilibrado das cidades sem comprometimento do meio ambiente.

Estocolmo 1972

Os sérios problemas ambientais que afetavam o mundo foram a causa da convocação pela Assembleia
Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1968, da Conferência das Nações Unidas sobre o
Meio Ambiente Humano, que veio a se realizar em junho de 1972 em Estocolmo. Essa Conferência
chamou a atenção das nações para o fato de que a ação humana estava causando séria degradação da
natureza e criando severos riscos para o bem estar e para a própria sobrevivência da humanidade. Foi
marcada por uma visão antropocêntrica de mundo, em que o homem era tido como o centro de toda a
atividade realizada no planeta, desconsiderando o fato de a espécie humana ser parte da grande cadeia
ecológica que rege a vida na Terra.
A Conferência foi marcada pelo confronto entre as perspectivas dos países desenvolvidos e dos países
em desenvolvimento. Os países desenvolvidos estavam preocupados com os efeitos da devastação
ambiental sobre a Terra, propondo um programa internacional voltado para a Conservação dos recursos
naturais e genéticos do planeta, pregando que medidas preventivas teriam que ser encontradas
imediatamente, para que se evitasse um grande desastre. Por outro lado, os países em desenvolvimento
argumentavam que se encontravam assolados pela miséria, com graves problemas de moradia,
saneamento básico, atacados por doenças infecciosas e que necessitavam desenvolver-se
economicamente, e rapidamente. Questionavam a legitimidade das recomendações dos países ricos que
já haviam atingido o poderio industrial com o uso predatório de recursos naturais e que queriam impor a
eles complexas exigências de controle ambiental, que poderiam encarecer e retardar a industrialização
dos países em desenvolvimento.
A Conferência contou com representantes de 113 países, 250 organizações não governamentais e
dos organismos da ONU. A Conferência produziu a Declaração sobre o Meio Ambiente Humano, uma
declaração de princípios de comportamento e responsabilidade que deveriam governar as decisões
concernentes a questões ambientais. Outro resultado formal foi um Plano de Ação que convocava todos
os países, os organismos das Nações Unidas, bem como todas as organizações internacionais a
cooperarem na busca de soluções para uma série de problemas ambientais.

Rio de Janeiro 1992

Em 1988 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma Resolução determinando à realização,
até 1992, de uma Conferência sobre o meio ambiente e desenvolvimento que pudesse avaliar como os
países haviam promovido a Proteção ambiental desde a Conferência de Estocolmo de 1972. Na sessão
que aprovou essa resolução o Brasil ofereceu-se para sediar o encontro em 1992. Em 1989 a Assembleia
Geral da ONU convocou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CNUMAD), que ficou conhecida como "Cúpula da Terra", e marcou sua realização para o mês de junho
de 1992, de maneira a coincidir com o Dia do Meio Ambiente. Dentre os objetivos principais dessa
conferência, destacaram-se os seguintes:
- examinar a situação ambiental mundial desde 1972 e suas relações com o estilo de desenvolvimento
vigente;

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- estabelecer mecanismos de transferência de tecnologias não poluentes aos países
subdesenvolvidos;
- examinar estratégias nacionais e internacionais para incorporação de critérios ambientais ao
processo de desenvolvimento;
- estabelecer um sistema de cooperação internacional para prever ameaças ambientais e prestar
socorro em casos emergenciais;
- reavaliar o sistema de organismos da ONU, eventualmente criando novas instituições para
implementar as decisões da conferência.

Essa Conferência foi organizada pelo Comitê Preparatório da Conferência (PREPCOM), que foi
formado em 1990 e tornou-se responsável pela preparação dos aspectos técnicos do encontro. Durante
as quatro reuniões do PREPCOM antecedentes à Conferência, foram preparados e discutidos os termos
dos documentos que foram assinados em junho de 1992 no Rio de Janeiro. O PREPCOM foi também
importante na medida em que inovou os procedimentos preparatórios de Conferências internacionais,
permitindo um amplo debate político e intercâmbio de ideias entre as delegações oficiais e os
representantes dos v rios setores da sociedade civil, por meio de entidades e cientistas. A participação
ativa de atores não governamentais nesse processo é um indício do papel cada vez mais importante
desses atores em negociações internacionais.
Em geral, pode-se dizer que representantes de ONGs e do setor privado têm tido um papel significativo
nos anos recentes na elaboração de importantes acordos internacionais, assistindo delegações oficiais,
ou até sendo incluídos como parte das mesmas. A Conferência da ONU propiciou um debate e
mobilização da comunidade internacional em torno da necessidade de uma urgente mudança de
comportamento visando a preservação da vida na Terra. A Conferência ficou conhecida como "Cúpula
da Terra" (Earth Summit), e realizou-se no Rio de Janeiro entre 3 e 14 de junho de 1992, contando com
a presença de 172 países (apenas seis membros das Nações Unidas não estiveram presentes),
representados por aproximadamente 10.000 participantes, incluindo 116 chefes de Estado. Além disso,
receberam credenciais para acompanhar as reuniões cerca de 1.400 organizações não governamentais
e 9.000 jornalistas. Como produto dessa Conferência foram assinados 05 documentos. São eles:
1. Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
2. Agenda 21
3. Princípios para a Administração Sustentável das Florestas
4. Convenção da Biodiversidade
5. Convenção sobre Mudança do Clima

A relação a seguir contém dados sobre os principais tratados internacionais em matéria ambiental,
alguns de alcance internacional, outros de alcance regional, sem contudo esgotar a matéria.

Convenção sobre Pesca no Atlântico Norte Conservação e uso racional dos estoques
de peixes.
1959 Convenção sobre Pesca no Atlântico NE Conservação e uso racional dos estoques
de peixes.
(Protocolo 91) Tratado Antártico Utilização da Antártica para fins pacíficos.
Convênio sobre Proteção dos Trabalhadores contra Radiações Ionizantes Proteção
da saúde e segurança dos trabalhadores.
1960
Convenção sobre Responsabilidade de Terceiros no Uso da Energia Nuclear
Compensação sobre danos causados e garantia do uso pacífico da energia nuclear.
Convenção sobre Proteção de Novas Qualidades de Plantas Reconhecimento e
1961
proteção dos cultivadores de novas variedades de plantas.
Acordo de Cooperação em Pesca Marítima Promover a cooperação na pesca e
1962
pesquisa sobre recursos do mar.
Convenção de Viena sobre Responsabilidade Civil por Danos Nucleares Provisão de
recursos contra danos resultantes do uso pacífico da energia nuclear.
Acordo sobre Poluição do Rio Reno contra Poluição Cooperação entre países para
1963
prevenir a poluição e manter qualidade da água.
Tratado proibindo ensaios nucleares na atmosfera, espaço ultraterrestre (Lua, etc.)
Desincentivar a produção e testes de armas nucleares.
Convenção sobre Conselho Internacional para Exploração do Mar Nova constituição
1964
para conselho criado em 1902.

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Convenção sobre Conservação do Atum do Atlântico Manter populações e promover
1966
uso racional.
1967 Convenção Fitossanitária Africana Controle e eliminação de pragas das plantas.
Convenção Africana sobre Conservação da Natureza e Recursos Naturais
1968
Conservação e utilização do solo, água, flora e fauna para as futuras gerações.
Convenção sobre Conservação dos Recursos Vivos do Atlântico SE Cooperação e
uso racional de recursos.
Convenção Internacional sobre Responsabilidade Civil por Danos Causados por
1969
Poluição por Óleo Visa compensação de danos causados por derramamento de óleo.
Convênio Relativo à Intervenção em Alto Mar em caso de acidentes com Óleo Para
tomada de providências em acidentes que afetem o mar e a costa.
(Emendada em 1982) Convenção Relativa às Áreas Úmidas de Importância
Internacional (RAMSAR) Proteção das áreas úmidas, reconhecendo seu valor
econômico, cultural, científico e recreativo.
Convênio sobre Proteção contra Riscos de Contaminação por Benzeno Proteção de
1971
trabalhadores na produção, manuseio e uso do benzeno.
Convênio sobre Responsabilidade Civil na Esfera do Transporte Marítimo de
Materiais Nucleares Responsabiliza o operador da instalação nuclear por danos
causados em incidente nuclear no transporte marítimo de material nuclear.
Convenção sobre Prevenção da Poluição Marítima por Navios e Aeronaves Controle
de despejos de substâncias nocivas.
Convenção para Conservação dos Leões Marinhos da Antártica Proteção, Estudo,
1972
Uso Racional.
Convenção das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano Declaração de
Princípios sobre Proteção do Meio Ambiente.
Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies de Flora e Fauna Selvagens
em Perigo de Extinção (CITES) Evitar a exploração através do comércio internacional.
Seus anexos relacionam diferentes categorias de espécies ameaçadas.
Convenção para Prevenção da Poluição do Mar por Navios Preservação do meio
1973
ambiente marinho contra poluição por óleo e outras substâncias, visando a
diminuição do despejo incidental.
Convenção para Proteção do Urso Polar Medidas conservacionistas para proteção
do urso, importante recurso do Ártico.
Convenção sobre Proteção Ambiental - países escandinavos (Dinamarca, Finlândia,
Suécia e Noruega) Proteção e melhoria do meio ambiente e cooperação para esse
1974 fim.
Convenção para Prevenção da Poluição Marinha por Fontes Terrestres Conjunto de
medidas para proteção do meio ambiente marinho.
Convenção para Proteção dos Trabalhadores contra Problemas Ambientais Proteção
1977
contra problemas devidos à poluição do ar, som, vibração.
Convenção Regional do Kuwait sobre Proteção do Ambiente Marinho Prevenir,
combater a poluição do meio ambiente marinho.
1978
Tratado de Cooperação Amazônica Promover o desenvolvimento harmonioso e
distribuição equitativa dos benefícios do desenvolvimento entre as partes.
Convenção para Proteção de Espécies Migratórias de Animais Selvagens Proteção
de animais que migram além das fronteiras nacionais.
1979
Convenção sobre Poluição Transfronteiriça Proteção contra os efeitos nocivos da
Poluição do Ar, visando sua redução.
Convenção sobre Direito do Mar Estabelece o regime jurídico para os mares e
1982
oceanos, bem como padrões de proteção e sanções contra a poluição.
Tratado de Zona Livre de Elementos Nucleares do Pacífico Sul. Estabelece zona livre
de utilização de materiais nucleares.
Protocolo sobre Áreas Protegidas e Fauna e Flora - Região Oriental da África
1985 Proteção de espécies ameaçadas de extinção e de áreas de habitats naturais.
Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio Proteção da saúde
humana e do meio ambiente contra os efeitos nocivos das alterações da camada de
ozônio.

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Convenção sobre Breve Notificação a respeito de Acidentes Nucleares Fornecimento
1986 de informações sobre acidentes de forma rápida para minimização das
consequências da radiação.
(Emendas em 1990 e 1992) Protocolo de Montreal sobre as Substâncias que Esgotam
1987 a Camada de Ozônio Estabelece etapas para a redução e proibição da manufatura e
uso de substâncias degradadoras da camada de ozônio.
Convenção sobre Controle de Movimentos Transfronteiços de Resíduos Perigosos
(Convenção da Basiléia) Comercialização internacional e depósitos de substâncias
tóxicas.
1989
Convenção Internacional sobre Poluição por Óleo Propugna a tomada de medidas
conjuntas ou isoladas para se preparar ou responder a incidentes de poluição por
derramamento de óleo.
Convenção Africana sobre o Banimento da Importação e Controle do Movimento e
Gerenciamento de Resíduos Perigosos Transfronteiriços (Bamako) Proibição da
importação para a África de Resíduos Perigosos.
Convenção s/ Cooperação Pesqueira entre Países Africanos beirando o Oceano
Atlântico Cooperação nas atividades pesqueiras visando autossuficiência alimentícia
através do uso racional e integrado dos recursos pesqueiros.
1991 Protocolo ao Tratado Antártico sobre Proteção Ambiental Designa a Antártica como
Reserva Natural, destinada à paz e à ciência; determina princípios de proteção
ambiental da região; estabelece a cooperação no planejamento e condução das
atividades na região.
Convenção sobre Avaliação de Impacto Ambiental em Contextos Transfronteiriços
Assegurar a execução de AIA antes da tomada de decisão sobre uma dada atividade
que pode causar significativo impacto ambiental.
Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Carta de
Princípios para um novo estilo de vida na terra, proteção dos recursos naturais e
busca do desenvolvimento sustentável.
Agenda 21 Diretrizes para o desenvolvimento sustentável em longo prazo, a partir de
temas prioritários, tais como: desmatamento, lixo, clima, solo, desertos, água,
biotecnologia, etc.
Princípios para a Administração Sustentável das Florestas Busca um consenso
global sobre o manejo, conservação e desenvolvimento sustentável das florestas.
Convenção da Biodiversidade Conservação da Biodiversidade, mantendo a maior
variedade de organismos vivos, comunidades e ecossistemas, para atender às
presentes e futuras gerações 1992 Convenção sobre Mudança do Clima Estabilizar
as emissões de gases efeito estufa num nível que evite graves intervenções com o
sistema climático global e que permita o desenvolvimento sustentável.
1992 Resolução da Assembleia Geral da ONU criando a Comissão de Desenvolvimento
Sustentável Conjunto de medidas para proteção do meio ambiente marinho.
Acompanhar a implementação da Agenda 21 e continuar os trabalhos após a ECO92.
Convenção para Proteção do Meio Ambiente do Atlântico Nordeste Prevenção e
eliminação de poluição por fontes terrestres; eliminação e prevenção de poluição por
despejo ou incineração; proibição de despejos por fontes extra costeiras. Incluir os
princípios da precaução do poluidor-pagador.
Convenção para Proteção do Mar Negro contra Poluição Prevenir, reduzir e controlar
a poluição para proteção e preservação do meio ambiente do Mar Negro.
Convenção para Proteção do Mar Báltico Prevenção e eliminação de poluição; inclui
os princípios do poluidor-pagador e da precaução e exige o uso da melhor tecnologia
e prática disponível.
Convenção sobre os Efeitos Transfronteiriços de Acidentes Industriais Prevenção de
acidentes industriais e mitigação de seus efeitos.
Convenção sobre Responsabilidade Civil por Danos Resultantes de Atividades
Perigosas ao Meio Ambiente (Conselho da Europa, CEE, outros países) Assegurar
1993
compensação adequada por danos resultantes de atividades perigosas ao meio
ambiente e meios de prevenção e recuperação.

141
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Convenção de Londres sobre Banimento de Despejo de Resíduos de Baixo Índice de
Radiação nos Oceanos Impõe banimento permanente do despejo de resíduos de
baixo índice de radiação nos oceanos.
Convenção s/ Proibição de Desenvolvimento, Produção, Armazenamento e Uso de
Armas Químicas e sobre sua Destruição Proíbe o desenvolvimento e produção de
armas químicas e os países contratantes se submetem a inspeções para esse fim.
Convenção Internacional de Combate à Desertificação nos Países afetados por
Desertificação e/ou Seca Reconhece a importância do combate à pobreza, da melhor
1994
distribuição dos benefícios do desenvolvimento e do atendimento às necessidades
de saúde e bem-estar das populações afetadas pela desertificação.

Atenção candidatos, de acordo com dados divulgados pela ONU se todos os cidadãos consumissem
como os norte-americanos, precisaríamos de 2,5 planetas (pegada ecológica). Por isso, a Maxi-educa
propõem a cada um de vocês que façam o teste para saber qual a sua pegada ecológica
(http://www.suapegadaecologica.com.br/), e a partir de então façam uma auto avaliação e que coloque
em prática o que aprendemos nesse tópico.

13. Noções de Gestão Ambiental.

Ação compensadora e Ação mitigadora

Os impactos causados pelo homem no meio ambiente são constantes. E em alguns casos, são
capazes de provocar uma enorme desarmonia, arruinando ecossistemas e lavando espécies inteiras à
extinção. Para tentar prevenir e de alguma maneira minimizar estas ações negativas, os órgãos ligados
à proteção do meio ambiente criam mecanismos e diretrizes. No Brasil, dentre os mais importantes estão
as chamadas Medidas Mitigatórias.

Essas medidas são aplicadas com o respaldo governamental e fazem parte das leis específicas que
regem a utilização de ambientes naturais. As Medidas Mitigatórias funcionam ainda como parâmetro para
avaliar danos que venham a ser provocados por empresas que realizem suas explorações em área
destinada à preservação ambiental ou se estas, de alguma maneira, ultrapassarem os limites
estabelecidos para as suas atividades.

Confira abaixo os tipos de Medidas Mitigatórias, segundo o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis):

Medidas mitigadoras Preventivas


São medidas que têm como objetivo minimizar ou eliminar eventos adversos que se apresentam com
potencial para causar prejuízos aos itens ambientais do meio natural (físico, biótico e antrópico). Este tipo
de medida procura anteceder o impacto negativo.

Medidas Mitigadoras Corretivas


Visam restabelecer a situação anterior à ocorrência de um evento adverso sobre o item ambiental
destacado nos meios físico, biótico e antrópico, através de ações de controle ou de eliminação/controle
do fator provocador do impacto.

Medidas Mitigadoras Compensatórias


Consistem em medidas que procuram repor bens socioambientais perdidos em decorrência de ações
diretas ou indiretas do empreendimento.

Medidas Potencializadoras
São aquelas que visam otimizar e maximizar o efeito de um impacto positivo decorrente direta ou
indiretamente da implantação do empreendimento.

As medidas apresentadas foram classificadas de acordo com o solicitado pelo ELPN/IBAMA no Termo
de Referência No 039/05, que norteou a elaboração deste EIA, sem considerar medidas compensatórias.

142
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Assim as medidas foram classificadas de acordo com os seguintes critérios (baseado em USAID/ENCAP,
2005 e adaptado ao TR ELPN/IBAMA Nº 039/05):

Aquífero22
Um aquífero é toda formação geológica subterrânea capaz de armazenar água e que possua
permeabilidade suficiente para permitir que esta se movimente. São verdadeiros reservatórios
subterrâneos de água formados por rochas com características porosas e permeáveis que retém a água
das chuvas, que se infiltra pelo solo, e a transmitem, sob a ação de um diferencial de pressão hidrostática,
para que, aos poucos, abasteça rios e poços artesianos.
São através dos aquíferos que os cursos de águas superficiais (rios, lagos, nascentes, fontes,
pântanos e afins) são mantidos estáveis e o excesso de água é evitado através da absorção da água da
chuva. Como podem ser utilizadas como fonte de água para consumo, exigem cuidados para sua
preservação afim de evitar a sua contaminação.
Aquíferos podem ser classificados de várias formas. De acordo com o armazenamento da água,
podem ser:

Figura: Aquífero

Fonte: www.oeco.org.br.

(1) Aquíferos livres ou freáticos


São reservatórios formados por rochas permeáveis, parcialmente saturados de água, cuja base é
formada por uma camada impermeável (por exemplo, argila) ou semipermeável. O topo é limitado por
uma superfície livre de água (superfície freática) que se encontra sob pressão atmosférica. O nível da
água é determinado pelo regime de chuvas. É o tipo de aquífero mais comum e mais explorado e,
portanto, o mais suscetível à contaminação.

(2) Aquíferos confinados ou artesianos


Nestes reservatórios, o teto e a base são formados extratos rochosos impermeáveis. Além disso, ele
está completamente saturado de água. A água subterrânea está confinada sob uma pressão maior que
a pressão atmosférica. Por este motivo, quando se perfura para a extração de água (um furo artesiano),
ela sobe para um o nível muito superior, podendo até jorrar. Nesse tipo de aquífero, a contaminação,
quando ocorre, é muito mais lenta e portanto, muito mais difícil de se ser recuperada.
Outra classificação é aquela baseada no tipo de rocha armazenadora:

(3) Aquíferos Porosos


Esses tipos de aquíferos apresentam poros por onde a água circula. São comumente formados por
rochas sedimentares consolidadas (os detritos apresentam-se ligados por um cimento, como é o caso
das brechas) ou não consolidadas (os detritos não estão ligados entre si, como no caso das dunas) e
solos arenosos. Representam os tipos de aquíferos mais importante, pelo grande volume de água que
armazenam, e por sua ocorrência em grandes áreas. Ocorrem nas bacias sedimentares e em todas as
várzeas onde se acumularam sedimentos arenosos.

22
Dicionário Ambiental. O que é um Aquífero. Disponível em: http://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28001-o-que-e-um-aquifero.

143
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
(4) Aquíferos Fraturados ou Fissurados
Os aquíferos fraturados estão associados à rochas ígneas e metamórficas. A capacidade destas
rochas em acumular água está relacionada à quantidade de fraturas, suas aberturas e intercomunicação.
Poços perfurados nestas rochas fornecem poucos metros cúbicos de água por hora. A possibilidade de
ter um poço produtivo dependerá, tão somente, de o mesmo interceptar fraturas capazes de conduzir
água.

(5) Aquíferos Cársticos


São formados em rochas carbonáticas, como o calcário. Constituem um tipo peculiar de aquífero
fraturado, onde as fraturas, devido à dissolução do carbonato pela água, podem atingir aberturas muito
grandes, criando, verdadeiros rios subterrâneos.

Aquífero Guarani

No Brasil, está localizada uma das maiores reserva subterrânea de água doce do mundo, o Aquífero
Guarani. Tem, aproximadamente, 1,2 milhão de km², abrange partes dos territórios do Uruguai, Argentina,
Paraguai e principalmente Brasil, onde está 70% da sua área total (840 mil km²), sob a região centro-
sudoeste. O restante se distribui entre o nordeste da Argentina (255 mil km²), noroeste do Uruguai (58.500
km²) e sudeste do Paraguai (58.500 km²), nas bacias do rio Paraná e do Chaco-Paraná. Estima-se que
quinze milhões de pessoas habitem a área de ocorrência do aquífero.
O Guarani é um aquífero livre e poroso: consiste primariamente de sedimentos arenosos que,
depositados por processos eólicos durante o período Triássico (há aproximadamente 220 milhões de
anos), foram modificadis pela ação química da água, pela temperatura e pela pressão e se transformaram
em arenito, uma rocha sedimentar muito porosa e permeável e que permite a acumulação de água no
seu interior.
Nomeado em homenagem ao povo Guarani, em 1996, possui um volume de aproximadamente 55 mil
km³ e profundidade máxima por volta de 1.800 metros, com uma capacidade de recarregamento de
aproximadamente 166 km³ ao ano por precipitação. Apesar de ser reputadamente capaz de abastecer a
população brasileira com água potável por 2500 anos, não é a maior reserva existente. Esta distinção
pertence a outro aquífero brasileiro, o Aquífero Alter do Chão, localizado em Alter do Chão, Pará.

Avaliação de impacto ambiental23

O que é Avaliação de Impacto Ambiental - AIA?24

A Avaliação de Impacto Ambiental -AIA é um instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, de


grande importância para a gestão institucional de planos, programas e projetos, em nível federal, estadual
e municipal.

A Política Nacional do Meio Ambiente- PNMA, instituída pela Lei 6.938/81, tem por objetivo a
preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País,
condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da
dignidade da vida humana,

O Estudo de Impacto Ambiental -EIA, foi introduzido no sistema normativo brasileiro, via Lei 6.803/80,
no seu artigo 10, § 3º, que tornou obrigatória a apresentação de “estudos especiais de alternativas e de
avaliações de impacto” para a localização de polos petroquímicos, cloroquímicos, carboquímicos e
instalações nucleares.

Posteriormente, a Resolução CONAMA 001/86 estabeleceu a exigência de elaboração de Estudo de


Impacto Ambiental-EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental-RIMA para o licenciamento de
diversas atividades modificadoras do meio ambiente, bem como as diretrizes e atividades técnicas para
sua execução. De acordo com essa Resolução, o EIA/RIMA deve ser realizado por equipe multidisciplinar
habilitada, não dependente direta ou indiretamente do proponente do projeto e que será responsável

23
PORTAL EDUCAÇÃO - Cursos Online: Mais de 1000 cursos online com certificado. Disponível em: http://www.portaleducacao.com.br/
biologia/artigos/4639/avaliacao-de-impacto-ambiental#ixzz3e5t75JXG.
24
IBAMA MMA. Disponível: http://www.ibama.gov.br.

144
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
tecnicamente pelos resultados apresentados (art. 7º). Os custos referentes à realização do EIA/RIMA
correrão à conta do proponente (art. 8º).

O artigo 2º define que o EIA/RIMA deve ser submetido à aprovação do órgão estadual competente e,
em caráter supletivo, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis-
IBAMA. A este cabe, também, a aprovação do EIA/RIMA para o licenciamento de atividades
modificadoras do meio ambiente que, por lei, seja de competência federal.

Os artigos 10 e 11 estabelecem os procedimentos para manifestação de forma conclusiva do órgão


estadual competente ou do IBAMA ou, quando couber, do Município, sobre o RIMA apresentado. Sempre
que julgarem necessário, esses órgãos realizarão Audiência Pública para informar sobre o projeto e seus
impactos ambientais e discutir o RIMA.
A Constituição Federal de 1988, finalmente, fixou, através de seu artigo 225, inciso IV, a
obrigatoriedade do Poder Público exigir o Estudo Prévio de Impacto Ambiental para a instalação de obra
ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, despontando como
a primeira Carta Magna do planeta a inscrever a obrigatoriedade do estudo de impacto no âmbito
constitucional.

Modelos de Gestão25

Diversos motivos têm levado os estudiosos da administração a buscarem estratégias mais atuais e
flexíveis para a estruturação das organizações, de forma a fazer com que possam cumprir a missão para
a qual foram criadas.

Entre esses motivos estão:

- a certeza de que a mudança é um processo acelerado que envolve toda a sociedade;


- a existência de uma grande massa de conhecimento e tecnologia disponíveis, nem sempre
aproveitados ou utilizados de forma a garantir melhor qualidade de vida;
- a constatação da forma de ser e de trabalhar das pessoas;
- a percepção de que todos os elementos do sistema organizacional interagem entre si e estão
conectados uns aos outros por uma rede de relações;
- o reconhecimento de que o cliente ou usuário de um produto ou serviço vem ganhando importância
frente às organizações, fazendo com que estas passem a definir seus procedimentos internos em função
das expectativas e necessidades de seus clientes.

Os modelos teóricos que orientam a estruturação do trabalho na oferta de serviços e na produção de


bens ganham, nesse contexto, significado mais amplo, já que permitem explicar a diferença entre o que
funciona bem e o que não funciona nas organizações.

Pedido de Licenciamento Ambiental

Para obter informações sobre como realizar o Pedido de Licenciamento Ambiental de seu
empreendimento (projeto, plano ou programa), o empreendedor deve procurar o órgão ambiental
licenciador - o órgão estadual de meio ambiente ou o IBAMA, dependendo da(s) atividade(s) a ser(em)
implantada(s). Nesse momento, o órgão licenciador informa o empreendedor se o licenciamento
ambiental é necessário e que tipo de documento técnico deverá ser apresentado para a obtenção de
licenças.

Papel Atual e Alternativo IBAMA

Órgão condutor do processo de licenciamento ambiental de atividades que envolvam a participação


de mais de um estado ou que, por lei, sejam de competência federal.

25
IBAMA MMA. Disponível: http://www.ibama.gov.br.

145
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Legislação Pertinente ao Licenciamento Ambiental

Atualmente, o órgão ambiental licenciador tem na legislação ambiental sua principal ferramenta para
orientar o empreendedor quanto às exigências a serem cumpridas para obtenção do licenciamento
ambiental. Embora alguns poucos órgãos estaduais de meio ambiente tenham estabelecido normas e
procedimentos próprios para atender suas demandas específicas, a maioria deles ainda dispõe da
legislação federal como única ferramenta de apoio para orientar o empreendedor no pedido de
licenciamento ambiental:

• Lei 6.938/81 - estabelece como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente o
licenciamento e a revisão de atividades efetivas ou potencialmente poluidoras;

• Decreto 99.274/90, Capítulo IV - trata do licenciamento ambiental de atividades utilizadoras de


recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras, bem como dos
empreendimentos capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental;

Breve explicação sobre os Agentes Sociais, Procedimentos e Ferramentas da Avaliação de


Impacto Ambiental26

• Resolução CONAMA 001/86 - estabelece a exigência de elaboração de Estudo de Impacto


Ambiental-EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental-RIMA para o licenciamento das atividades
constantes do seu artigo 2º;

• Resolução CONAMA 006/86 - trata dos modelos de publicação de pedidos de licenciamento, em


quaisquer de suas modalidades, sua renovação e a respectiva concessão de licença;

• Resolução CONAMA 011/86 - altera e acrescenta atividades no artigo 2º, da Resolução 001/86;

• Resolução CONAMA 006/87 - estabelece regras gerais para o licenciamento ambiental de obras de
grande porte de interesse relevante da União, como a geração de energia elétrica;

• Resolução CONAMA 010/87 - estabelece como pré-requisito para licenciamento de obras de grande
porte a implantação de uma estação ecológica pela instituição ou empresa responsável pelo
empreendimento com a finalidade de reparar danos ambientais causados pela destruição de florestas e
outros ecossistemas;

• Resolução CONAMA 005/88 - dispõe sobre licenciamento das obras de saneamento para as quais
seja possível identificar modificações ambientais significativas;

• Resolução CONAMA 008/88 - dispõe sobre licenciamento de atividade mineral, o uso do mercúrio
metálico e do cianeto em áreas de extração de ouro;

• Resolução CONAMA 009/90 - estabelece normas específicas para o Licenciamento Ambiental de


Extração Mineral das classes I, III, IV, V, VI, VII, VIII e IX;

• Resolução CONAMA 010/90 - estabelece critérios específicos para o licenciamento ambiental de


extração mineral da classe II. Além das referências acima, existe uma legislação básica, em nível federal,
estadual e municipal, que deve ser observada no momento da solicitação do licenciamento ambiental: a
Constituição Federal; as Leis Orgânicas municipais; o Código de Águas; o Código Florestal; o Estatuto
da Terra; as Resoluções do CONAMA sobre padrões de qualidade do ar e da água e sobre unidades de
conservação; as leis de proteção do patrimônio arqueológico, histórico e cultural, etc. (Consulte: IBAMA.
Coletânea da Legislação Federal de Meio Ambiente, 1992).

26
IBAMA MMA. Disponível: http://www.ibama.gov.br.

146
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Elaboração do Termo de Referência para Estudos Ambientais

O que é Termo de Referência?

O Termo de Referência é o instrumento orientador para a elaboração de qualquer tipo de Estudo


Ambiental (EIA/RIMA, PCA, RCA, PRAD, PLANO DE MONITORAMENTO, etc). Tem por objetivo
estabelecer as diretrizes orientadoras, conteúdo e abrangência do estudo exigido do empreendedor, em
etapa antecedente à implantação da atividade modificadora do meio ambiente.

É elaborado pelo órgão de meio ambiente a partir das informações prestadas pelo empreendedor na
fase de pedido de licenciamento ambiental.

Em alguns casos, devido a deficiências infraestruturas e do reduzido número de pessoal especializado,


o órgão de meio ambiente solicita que o empreendedor elabore o Termo de Referência, reservando-se
apenas ao papel de julgá-lo e aprová-lo. Em outros casos, com a finalidade de agilizar o processo de
licenciamento ambiental, o empreendedor adianta-se, apresentando já na solicitação do licenciamento a
proposta de Termo de Referência.

O Termo de Referência bem elaborado é um dos passos fundamentais para que um estudo de impacto
ambiental alcance a qualidade esperada.

Para o licenciamento de ações e atividades modificadoras do meio ambiente, a legislação prevê a


elaboração de documentos técnicos específicos, pelo empreendedor, conforme o tipo de atividade a ser
licenciada, tais como:

• Estudo de Impacto Ambiental-EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental-RIMA. São exigidos


para as atividades listadas nas Resoluções CONAMA 001/86, 011/86, 006/87, 009/90 e outras definidas
na legislação de nível estadual e municipal. A Resolução CONAMA 001/86 fornece orientação básica
para a elaboração do EIA/RIMA, estabelecendo definições, responsabilidades, critérios básicos e
diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental como um dos
instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente.

• Plano de Controle Ambiental-PCA. É exigido para concessão de Licença de Instalação de atividade


de extração mineral de todas as classes previstas no Decreto-Lei 227/67; deve conter os projetos
executivos de minimização dos impactos ambientais avaliados através de EIA/RIMA na fase de
Licenciamento Prévio-LP. No caso específico da extração mineral da Classe II, existe a possibilidade de
substituição do EIA/RIMA pelo Relatório de Controle Ambiental-RCA, a critério do órgão ambiental
competente (Resolução CONAMA 009/90).

O RCA tem sido exigido também por alguns órgãos de meio ambiente para outros tipos de atividade.

• Plano de Recuperação de Áreas Degradadas-PRAD. Tem sido utilizado para a recomposição de


áreas degradadas pelas atividades de mineração. É elaborado de acordo com as diretrizes fixadas pela
NBR 13030, da Associação Brasileira de Normas Técnicas, e por outras normas pertinentes. Não há
diretrizes para outros tipos de atividades.

A análise do Estudo Ambiental (EIA/RIMA, PCA, RCA, PRAD, etc.) tem como propósitos:27

• Verificar se foram cumpridas todas as exigências contidas no Termo de Referência, na Resolução


CONAMA 001/86 e nos outros instrumentos legais pertinentes que tratam da proteção do meio ambiente;

• Identificar eventuais falhas e omissões no estudo apresentado e sugerir a sua complementação antes
da Audiência Pública, quando convocada;

• Extrair os condicionantes para o licenciamento das atividades;

• Identificar os agentes envolvidos na fase de monitoramento dos impactos negativos.

27
IBAMA MMA. Disponível: http://www.ibama.gov.br.

147
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Bacia hidrográfica

Bacia hidrográfica é uma área onde ocorre a drenagem da água das chuvas para um determinado
curso de água (geralmente um rio). Com o terreno em declive, a água de diversas fontes (rios, ribeirões,
córregos, etc) deságuam num determinado rio, formando assim uma bacia hidrográfica. Logo, uma bacia
hidrográfica é formada por um rio principal (as vezes dois ou três) e um conjunto de afluentes que
deságuam neste rio principal.
Ou seja, conjunto de terras drenadas por um rio principal, seus afluentes e subafluentes. A ideia de
bacia hidrográfica está associada à noção da existência de nascentes, divisores de águas e
características dos cursos de água, principais e secundários, denominados afluentes e subafluentes. As
bacias hidrográficas podem ser classificadas em litorâneas (o curso d'água principal escoa diretamente
para o oceano) ou interiores (o curso d'água principal deságua em outro rio).

É uma área definida topograficamente, drenada por um curso d’água ou um sistema conectado de
cursos d’água tal que toda vazão efluente seja descarregada através de uma simples saída (ou exutório);

A bacia hidrográfica é um sistema onde a entrada é o volume de água da chuva e a saída é o volume
de água escoada. Perceba a ilustração abaixo.

Entr
ada

S
aída

Principais Bacias Hidrográficas do Brasil

Bacia Amazônica
- Localizada na região norte do Brasil, é a maior bacia hidrográfica do mundo, possuindo 7 milhões de
quilômetros quadrados de extensão (4 milhões em território brasileiro).
- O rio principal desta bacia é o Amazonas que nasce no Peru e depois percorre o território brasileiro.
- Possuí cerca de 23 mil quilômetros de rios navegáveis.
- Fazem parte desta bacia diversos afluentes do rio Amazonas como, por exemplo, rio Negro, Solimões,
Branco, Juruá, Xingu, Japurá, entre outros.

Bacia do Araguaia-Tocantins
- Localiza-se nas regiões central e norte do Brasil, entre os estados de Tocantins, Goiás, Pará e Mato
Grosso do Sul.
- Os dois rios principais que fazem parte desta bacia são o Araguaia e o Tocantins.
- O rio Tocantins possui bom potencial hidrelétrico, sendo que nele está instalada a usina de Tucuruí.

148
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Bacia do rio Paraná
- Possui uma extensão de, aproximadamente, 800 mil quilômetros quadrados.
- Localiza-se em grande parte na região sudeste e sul do Brasil (região de maior desenvolvimento
econômico do país).
- Seu principal rio é o Paraná que recebe as águas de diversos afluentes como, por exemplo, rio Tietê,
Paranapanema e Grande.
- Possui grande potencial gerador de energia elétrica. Nesta bacia encontram-se as usinas hidrelétricas
de Itaipu (maior do Brasil) e Porto Primavera.
- A hidrovia Tietê-Paraná é uma importante rota de navegação nesta bacia.

Bacia do rio Paraguai


- O principal rio desta Bacia é o Paraguai.
- Grande parte desta bacia estende-se pela planície do Pantanal Mato-Grossense.
- Os rios desta bacia são muito usados para a navegação.
- O rio Paraguai drena a água de uma região de aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados.

Bacia do rio Parnaíba


- Localiza-se na região nordeste, entre os estados do Ceará, Maranhão e Piauí.
- Possui, aproximadamente, 340 mil quilômetros quadrados de extensão.
- O principal rio é o Parnaíba que recebe as águas de diversos afluentes, sendo que os principais são:
rios Gurguéia, Balsas, Uruçuí-Preto, Poti, Canindé e Longa.
- A principal atividade econômica desenvolvida no rio Parnaíba é a piscicultura (criação de peixes).

Bacia do rio São Francisco


- Localiza-se em grande parte em território do Nordeste, entre os estados da Bahia, Sergipe e Alagoas.
Porém, o trecho inicial da bacia está localizado no norte de Minas Gerais.
- Possui uma área de, aproximadamente, 650 mil quilômetros quadrados de extensão.
- O rio São Francisco é muito importante para a irrigação de terras em seu percurso e também para a
navegação.
- Os principais afluentes do São Francisco são: rios Pardo, Ariranha, Grande e das Velhas.

Bacia do rio Uruguai


- Situada na região sul do Brasil, esta bacia estende-se também pelo território do Uruguai.
- Possui cerca de 180 mil quilômetros quadrados de extensão.
- Esta bacia apresenta importante potencial hidrelétrico, além de ser usado para a irrigação nas
atividades agrícolas.

Bacia do rio Paraíba do Sul


- Localiza-se na região sudeste, entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro (maior parte).
- Sua extensão é de, aproximadamente, 300 mil quilômetros quadrados.
- O principal rio desta bacia é o Paraíba do Sul.

Bacias Hidrográficas podem ser desmembradas em um número qualquer de SUB-BACIAS


dependendo do ponto de saída considerado ao longo do seu eixo principal ou canal coletor.

Microbacias: unidade do ecossistema onde pode ser observada a delicada relação de


interdependência entre os fatores abióticos e bióticos, sendo que perturbações podem comprometer a
dinâmica de seu funcionamento.

149
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
O primeiro passo a ser seguido na caracterização de uma bacia é, exatamente, a delimitação de seu
contorno, ou seja, a linha de separação que divide as precipitações em bacias vizinhas, encaminhando o
escoamento superficial para um ou outro sistema fluvial. São 3 os divisores de uma bacia:
- Geológico;
- Freático;
- Topográfico.

Dadas as dificuldades de se efetivar o traçado limitante com base nas formações rochosas (os estratos
não seguem um comportamento sistemático e a água precipitada pode escoar antes de infiltrar) e no nível
freático (devido as alterações ao longo das estações do ano), o que se faz na prática é limitar a bacia a
partir de curvas de nível, tomando pontos de cotas mais elevadas para comporem a linha da divisão
topográfica.

Planejamento e gestão ambiental.

As empresas têm se defrontado com um processo crescente de cobrança por uma postura responsável
e de comprometimento com o meio ambiente. Esta cobrança tem influenciado a ciência, a política, a
legislação, e as formas de gestão e planejamento, sob pressão crescente dos órgãos reguladores e
fiscalizadores, das organizações não governamentais e, principalmente, do próprio mercado, incluindo as
entidades financiadoras, como bancos, seguradoras e os próprios consumidores.
Sob tais condições, as empresas têm procurado estabelecer formas de gestão com objetivos explícitos
de controle da poluição e de redução das taxas de efluentes, controlando e/ou minimizando os impactos
ambientais, como também otimizando o uso de recursos naturais – controle de uso da água, energia,
outros insumos, etc. Uma das formas de gerenciamento ambiental de maior adoção pelas empresas tem
sido a implementação de um sistema de gestão ambiental, segundo as normas internacionais Série ISSO
14000, visando a obtenção de uma certificação.
São dois os sistemas de gestão ambiental utilizados pelas empresas no Brasil: a NBR Série ISO 14001,
foco desse estudo, e o Programa de Ação Responsável. O mais difundido é o baseado na norma NBR
Série ISO 14001; o segundo, é o Programa de Atuação Responsável, patrocinado pela Associação
Brasileira de Indústrias Químicas.
Segundo a NBR Série ISO 14001 (1996), “as normas de gestão ambiental têm por objetivo prover às
organizações os elementos de um sistema ambiental eficaz, passível de integração com outros elementos
de gestão, de forma a auxiliá-las a alcançar os seus objetivos ambientais e econômicos”. Essas normas
enfatizam os seguintes aspectos da gestão ambiental: sistemas de gerenciamento ambiental, auditoria
ambiental e investigações relacionadas, rotulagem e declarações ambientais; avaliação de desempenho
ambiental e termos e definições. Este conjunto reflete e atende as necessidades das empresas, criando-
lhes uma base comum para o gerenciamento empresarial das questões relativas ao meio ambiente.

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Os elementos-chave, ou os princípios definidores de um Sistema de Gestão Ambiental baseados na
NBR Série ISO 14001, através dos quais podem ser verificados os avanços de uma empresa em termos
de sua relação com o meio ambiente, são:
1) Política ambiental;
2) Planejamento;
3) Implementação e operação;
4) Verificação e ação corretiva;
5) Análise crítica.

Na implementação de um Sistema de Gestão Ambiental, contudo, o primeiro passo deve ser a


formalização por parte da direção da empresa, perante a sua corporação, do desejo da instituição em
adotar um SGA, deixando claro suas intenções, e enfatizando os benefícios a serem obtidos com a sua
adoção. Isso se traduz em comprometimento de sua alta administração, ou, em alguns casos, dos
gerentes e chefias de suas unidades, com a realização de palestras de conscientização e de
esclarecimentos da abrangência pretendida, realização de diagnósticos ambientais, definição formal do
grupo coordenador, definição de um cronograma de implantação, e, finalmente, no lançamento oficial do
programa de implantação do SGA. As etapas de implantação do SGA são resumidamente descritas
abaixo.

Princípio 1. Política Ambiental

A norma NBR Série IS0 14001, define Política Ambiental como “a declaração da organização, expondo
suas intenções e princípios em relação ao seu desempenho ambiental global, que provê uma estrutura
para a ação e definição de seus objetivos e metas ambientais”. A política ambiental estabelece, dessa
forma, um senso geral de orientação e fixa os princípios de ação para a organização”.
A Política Ambiental da empresa deve ser consubstanciada por meio de um documento escrito – carta
de compromisso da empresa - que aborde todos os valores e filosofia da empresa relativos ao meio
ambiente, bem como aponte os requisitos necessários ao atendimento de sua política ambiental, por meio
dos objetivos, metas e programas ambientais. Reis & Queiroz (2002) consideram a política ambiental
como a grande declaração de comprometimento empresarial, relativo ao meio ambiente, constituindo a
fundação ou base do sistema de gestão. A política ambiental contém as diretrizes básicas para a definição
e revisão dos objetivos e metas ambientais da empresa. A Série ISO 14001, no seu requisito relativo à
política ambiental, afirma que: a alta administração deve estabelecer a política ambiental da empresa e
assegurar que ela:
- seja apropriada à natureza, escala e impactos ambientais de suas atividades, produtos ou serviços;
- inclua o compromisso com a melhoria contínua e a prevenção da poluição;
- inclua comprometimento com a legislação e normas ambientais aplicáveis e demais requisitos
subscritos pela organização;
- forneça a estrutura para o estabelecimento e revisão dos objetivos e metas ambientais;
- esteja disponível para o público”.

Princípio 2. Planejamento

A Série ISO 14001 recomenda que a organização formule um plano para cumprir sua Política
Ambiental.
Este plano deve incluir os seguintes tópicos: aspectos ambientais; requisitos legais e outros requisitos;
objetivos e metas; e programas de gestão ambiental.

1. Aspectos ambientais
O objetivo desse item da norma é fazer com que a empresa identifique todos os impactos ambientais
significativos, reais e potenciais, relacionados com suas atividades, produtos e serviços, para que possa
controlar os aspectos sob sua responsabilidade. Segundo esta norma, aspecto ambiental significa a
causa de danos ambientais e impacto ambiental significa os seus efeitos ambientais, adversos ou
benéficos.

2. Requisitos legais e outros requisitos


Os requisitos definidos pela política ambiental da empresa coloca com clareza os comprometimentos,
destacando-se o atendimento à legislação, normas ambientais aplicáveis e outros requisitos ambientais.

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Nesta etapa, são definidos critérios para o cadastramento e a divulgação da legislação ambiental, dos
códigos de conduta aplicáveis a situações específicas da empresa, e dos compromissos ambientais
assumidos pela corporação.

3. Objetivos e metas
À semelhança das demais políticas empresariais, a política ambiental também tem o seu
desdobramento em objetivos e metas a serem alcançados em um determinado período de tempo, além
de seguir uma lógica coerente com as fases de planejamento. Desta forma, os objetivos e metas devem
refletir os aspectos e impactos ambientais significativos e relevantes visando o desdobramento em metas
e objetivos ambientais a serem alcançados operacionalmente por setores específicos da empresa, com
responsabilização definida.

4. Programas de Gestão Ambiental


Na forma como concebido pela Série ISO 14000, o Programa de Gestão Ambiental deve ser entendido
pela empresa como sendo um roteiro para implantar e manter um sistema de gestão ambiental que
permita alcançar os objetivos e metas, previamente definidos. O programa de gestão ambiental deve
conter um cronograma de execução, que permita comparação entre o realizado e o previsto, recursos
financeiros alocados às atividades e definição de responsabilidades e prazos de cumprimento dos
objetivos e metas.

Princípio 3. Implementação e Operação

Esse princípio recomenda que para que haja uma efetiva implantação da Série ISO 14001, a empresa
deve desenvolver os mecanismos de apoio necessários para atender o que está previsto em sua política,
e nos seus objetivos e metas ambientais.

1. Estrutura organizacional e Responsabilidade


Este item é definido com suficiente clareza pela Série ISO 14001, pois afirma que “as funções,
responsabilidades e autoridades devem ser definidas, documentadas e comunicadas, a fim de facilitar
uma gestão ambiental eficaz”. Afirma ainda que a administração deve fornecer os recursos – humanos,
financeiros, tecnológicos e logísticos – essenciais à implantação e controle do sistema de gestão
ambiental.

2. Treinamento, Conscientização e Competência


A empresa deve estabelecer procedimentos que propiciem aos seus empregados a conscientização
da importância e responsabilidade em atingir a conformidade com a política ambiental; em avaliar os
impactos ambientais significativos, reais ou potenciais de suas atividades, os benefícios ao meio ambiente
que possam resultar da melhoria no seu desempenho pessoal, bem como as consequências potenciais
da inobservância dos procedimentos operacionais recomendados. Ainda, identificar as necessidades de
treinamento, particularmente aos empregados cujas atividades possam provocar impactos ambientais
significativos sobre o meio ambiente.

3. Comunicação
A empresa deve criar e manter procedimentos para a comunicação interna e externa. Desta forma,
devem ser criados canais de comunicação organizacional e técnica entre os vários níveis e funções dentro
da organização; a empresa deve receber, documentar e responder a comunicação relevante recebida
das partes externas interessadas nos aspectos ambientais e no sistema de gestão ambiental; manter
registros das decisões relativas aos aspectos ambientais importantes e sua comunicação às partes
externas envolvidas. A identificação do tipo de divulgação pode ter impacto positivo sobre a imagem da
instituição, definindo um público de maior interesse e desenvolvendo estratégias de comunicação externa.
Selecionar canais favoráveis, veículos e forma de comunicação deixando claro a intenção de
periodicidade da comunicação.

4. Documentação do Sistema de Gestão Ambiental


A documentação pode ser compreendida como um meio de assegurar que o sistema de gestão
ambiental seja compreendido não só pelo público interno, mas também pelo ambiente externo com o qual
a empresa mantém relações, tais como clientes, fornecedores, governo, sociedade civil em geral, etc.
Recomenda-se também que a empresa defina os vários tipos de documentos, estabeleça e especifique
os procedimentos e controle a eles associados. A natureza da documentação pode variar em função do

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porte e complexidade da empresa. A documentação pode estar sob a forma física ou eletrônica. No
entanto, a adoção pela empresa de uma ou outra forma, não deve prescindir-se de um processo de
atualização e disponibilização aos interessados.

5. Controle de documentos
Os documentos exigidos pela Série ISO 14001 devem obedecer a procedimentos para o seu controle,
de maneira que toda a documentação possa ser localizada, analisada e periodicamente atualizada quanto
à conformidade com os regulamentos, leis e outros critérios ambientais assumidos pela empresa. Da
mesma forma, exige que a empresa possua um controle dos documentos do sistema de gestão ambiental
requerendo para isso, controle da distribuição da versão atualizada e a eliminação das versões
desatualizadas.

6. Controle operacional
O controle operacional pressupõe a identificação por parte da empresa das operações e atividades
potencialmente poluidoras. Este controle visa garantir o desempenho ambiental da empresa, no que diz
respeito ao compromisso obrigatório expresso na Política Ambiental, no que se refere à “prevenção da
poluição”. O controle operacional deve consistir de atividades relacionadas à prevenção da poluição e
conservação de recursos em novos projetos, em modificações de processos e nos lançamentos de novos
produtos e embalagens. Em termos práticos, o controle operacional na empresa deve ser realizado
abordando noções sobre as principais atividades que impliquem em controle ambiental: resíduos,
efluentes líquidos, emissões atmosféricas, consumo de energia e água.

7. Preparação e atendimento a emergências


A organização deve estabelecer e manter mecanismos que possam ser acionados a qualquer
momento para atender a situações de emergência e eventos não controlados. Isso implica em identificar
as possíveis situações emergenciais, definir formas de mitigar os impactos associados, prover os recursos
necessários e treinar periodicamente uma brigada de emergência.

Princípio 4. Verificação e Ação Corretiva

Este item da norma cria condições de se averiguar se a empresa está operando de acordo com o
programa de gestão ambiental previamente definido, identificando aspectos não desejáveis e mitigando
quaisquer impactos negativos, além de tratar das medias preventivas.
A Verificação e Ação Corretiva são etapas orientadas por quatro características básicas do processo
de gestão ambiental: Monitoramento e Medição, Não-conformidades e Ações Corretivas e
Preventivas, Registros e Auditoria do SGA

1. Monitoramento e Medição
Todo e qualquer sistema de gestão empresarial envolve as fases de planejamento, implementação,
execução, operação e avaliação dos resultados alcançados. Esta sequência de etapas interdependentes
também se verifica com o sistema de gestão ambiental. Desta forma, o sistema deve prever as ações de
monitoramento e controle para verificar a existência de problemas e formas de corrigi-los. Segundo o
insigne doutrinador Moreira, monitorar um processo significa acompanhar evolução dos dados, ao passo
que controlar um processo significa manter o processo dentro dos limites preestabelecidos.
Consiste em estabelecer medidas-padrão para a verificação do desempenho ambiental das empresas.
Os aspectos ambientais significativos – emissões atmosféricas, efluentes líquidos, ruídos, etc. - devem
ter suas características medidas periodicamente e seus resultados comparados com os padrões legais
aplicáveis. Geralmente, os órgãos de controle da qualidade ambiental estabelecem em documentos
apropriados as características a serem medidas e a periodicidade das medições. O estabelecimento de
medidas e o acompanhamento do desempenho ambiental das empresas são ferramentas úteis no sentido
de gerenciar as atividades ambientais, principalmente aquelas consideradas estratégicas.

2. Não-conformidades e Ações Corretivas e Preventivas


Neste quesito é fundamental o entendimento do conceito de não-conformidade e a responsabilidade
pela observação, documentação, comunicação e correção das não-conformidades. Não-conformidade
significa qualquer evidência de desvio dos padrões estabelecidos com base nos aspectos legais ou de
comprometimento da empresa. As ações corretivas devem ser pautadas em procedimentos que
possibilitem a eliminação da não-conformidade e sua não reincidência. As ações preventivas devem
apoiar-se na possibilidade de ocorrência de não -conformidades, estabelecendo-se procedimentos para

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a verificação de suas causas potenciais. Geralmente a análise de risco efetuada quando da elaboração
dos estudos de avaliação dos impactos ambientais é uma fonte de informação na identificação da
necessidade de adoção de medidas preventivas.

3. Registros
A empresa deve estabelecer procedimentos para o registro das atividades do SGA, incluindo
informações sobre os treinamentos realizados. Estes registros devem ser mantidos em ambiente seguro,
serem claros quanto ao seu conteúdo, e estarem prontamente disponíveis para consulta. O tempo de
retenção da documentação deve ser estabelecido e registrado.

4. Auditoria do Sistema de Gestão Ambiental


Por auditoria, entende-se o procedimento de verificação dos cumprimentos de todas as etapas de
implementação e manutenção do sistema de gestão ambiental. As audito rias do sistema de gestão
ambiental devem ser periódicas, sendo recomendadas duas auditorias internas por ano.

Princípio 5. Análise Crítica

Após a etapa da auditoria, e considerando possíveis mudanças nos cenários internos e externos, como
novas pressões de mercado e as recentes tendências do ambiente externo da empresa - além do
compromisso de melhoria contínua requerido pela SGA -, é o momento da administração identificar a
necessidade de possíveis alterações em sua Política Ambiental, nos seus objetivos e metas, ou em outros
elementos do sistema. Em resumo, aqui o processo de gestão pode ser revisado, bem como o processo
de melhoria contínua exercitado.

14. Noções de Sociologia.

A RELAÇÃO INDIVÍDUO – SOCIEDADE

Sociedade, indivíduo e Estado28

A dúvida reina no espírito dos homens, pois nossa civilização treme em suas bases. As instituições
atuais não mais inspiram confiança e os mais inteligentes compreendem que a industrialização capitalista
vai contra os próprios objetivos que diz perseguir. O mundo não sabe como sair disso. O parlamentarismo
e a democracia periclitam e alguns creem encontrar salvação optando pelo fascismo ou outras formas de
governos “fortes”. Do combate ideológico mundial sairão soluções para os problemas sociais urgentes
que se apresentam atualmente: crises econômicas, desemprego, guerra, desarmamento, relações
internacionais, etc. Ora, é dessas soluções que dependem o bem-estar do indivíduo e o destino da
sociedade humana.
O Estado, o governo com suas funções e seus poderes, torna-se, assim, o centro de interesse do
homem que raciocina. Os desenvolvimentos políticos que ocorreram em todas as nações civilizadas
levam-nos a fazer essas perguntas: desejamos um governo forte? Devemos preferir a democracia e o
parlamentarismo? O fascismo, sob uma ou outra forma, a ditadura, quer seja monárquica, burguesa ou
do proletariado, oferecem soluções aos males ou às dificuldades que atormentam nossa sociedade? Em
outros termos, conseguiremos apagar as taras da democracia com a ajuda de um sistema ainda mais
democrático, ou devemos cortar o nó górdio do governo popular com a espada da ditadura? Minha
resposta é: nem um, nem outro. Sou contra a ditadura e o fascismo, e oponho-me aos regimes
parlamentares e às pretensas democracias populares. É com razão que se falou do nazismo como de um
ataque contra a civilização.

A mesma coisa se poderia dizer de todas as formas de ditadura, opressão e coerção, pois o que é a
civilização? Todo o progresso foi essencialmente marcado pela extensão das liberdades do indivíduo em
detrimento da autoridade exterior, tanto no que concerne à sua existência física quanto à política ou
econômica. No mundo físico, o homem progrediu até controlar as forças da natureza e utilizá-las em seu
próprio proveito. O homem primitivo realiza seus primeiros passos na estrada do progresso quando logra
produzir fogo, triunfando assim sobre o próprio homem, e reter vento e captar água. Que papel a
autoridade ou o governo desempenharam nesse esforço de melhoria, invenção e descoberta? Nenhum,
28
Texto adaptado da autora Emma GOLDMAN, E.

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ou melhor, nenhum positivo. É sempre o indivíduo quem realiza o milagre, geralmente a despeito das
proibições, das perseguições e da intervenção da autoridade, tanto humana quanto divina. Da mesma
forma, no campo político, o progresso consiste em afastar-se cada vez mais da autoridade do chefe de
tribo, de clã, do príncipe e do rei, do governo e do Estado. Economicamente, o progresso significa mais
bem-estar para um número de pessoas incessantemente crescente. E, culturalmente, ele é o resultado
de tudo o que se realiza algures: independência política, intelectual e psíquica cada vez maior. Nessa
perspectiva, os problemas de relação entre o homem e o Estado revestem uma significação
completamente nova. Não é mais questão de saber se a ditadura é preferível à democracia, se o fascismo
italiano é superior ou não ao hitlerismo.

Uma questão muito mais vital se nos apresenta: o governo político, o Estado, é proveitoso para a
humanidade? Qual é sua influência sobre o indivíduo? O indivíduo é a verdadeira realidade da vida, um
universo em si. Ele não existe em função do Estado, ou dessa abstração denominada “sociedade” ou
“nação”, que não é senão um ajuntamento de indivíduos. O homem sempre foi e é – necessariamente –
a única fonte, o único motor de evolução e progresso. A civilização é o resultado de um combate contínuo
do indivíduo ou dos grupamentos de indivíduos contra o Estado, e até mesmo contra a “sociedade”, quer
dizer, contra a maioria hipnotizada pelo Estado e submetida a seu culto. As maiores batalhas já travadas
pelo homem foram contra obstáculos e prejuízos artificiais que ele próprio se impôs e que paralisam seu
desenvolvimento. O pensamento humano sempre foi falseado pelas tradições, pelos costumes, pela
educação enganadora e iníqua, dispensada para servir os interesses daqueles que detém o poder e
gozam de privilégios; ou seja, pelo Estado e palas classes proprietárias. Esse conflito incessante dominou
a história da humanidade. Podemos dizer que a individualidade é a consciência do indivíduo de ser o que
é, e de viver essa diferença. É um aspecto inerente a todo ser humano e um fator de desenvolvimento.
Estado e as instituições sociais fazem-se e desfazem-se, enquanto a individualidade permanece e
persiste. A própria essência da individualidade é a expressão, o sentido da dignidade e da independência
– eis seu terreno de predileção. A individualidade não é esse conjunto de reflexos impessoais e maquinais
que o Estado considera como um “indivíduo”. O indivíduo não é apenas o resultado da hereditariedade e
do meio, da causa e do efeito. É isso e muito mais.

O homem vivo não pode ser definido: ele é fonte de a vida e de todos os valores; ele não é uma parte
disso ou daquilo: é um todo, um todo individual, um todo que evolui e se desenvolve, mas que permanece,
contudo, um todo constante. A individualidade assim descrita nada tem em comum com as diversas
concepções do individualismo e, sobretudo, com aquele que denominarei “individualismo de direita, à
americana”, que é tão somente uma tentativa disfarçada de coagir e vencer o indivíduo em sua
singularidade. Esse pretenso individualismo, que sugere fórmulas como “livre empresa”, “american way
of life”, arrivismo e sociedade liberal, é o laissez-faire econômico e social: a exploração das massas pelas
classes dominantes com a ajuda da velhacaria legal; a degradação espiritual e o doutrinamento
sistemático do espírito servil, processo conhecido sob o nome de “educação”. Essa forma de
“individualismo” corrompido e viciado, verdadeira camisa de força da individualidade, reduz a vida a uma
corrida degradante aos bens materiais, ao prestígio social; sua sabedoria suprema exprime-se numa
frase: “Cada um por sie maldito seja o último”. Inevitavelmente, o “individualismo” de direita desemboca
na escravidão moderna, nas distinções sociais aberrantes, e conduz milhões de pessoas à sopa dos
pobres. Esse “individualismo” em questão é o dos senhores, enquanto que o povo é arregimentado numa
casta de escravos para servir a um punhado de “super-homens” egocêntricos.

Os Estados Unidos são, sem dúvida, o melhor exemplo dessa forma de individualismo, em nome do
qual a tirania política e a opressão social são elevadas à posição de virtudes, enquanto que a menor
aspiração, a menor tentativa de vida mais leve e mais digna será imediatamente considerada como
antiamericanismo intolerável e condenada, sempre em nome desse mesmo individualismo. Houve um
tempo em que o Estado não existia. O homem vivia em condições naturais, sem Estado nem governo
organizado. As pessoas estavam agrupadas em pequenas comunidades de algumas famílias, cultivando
o solo e entregando-se à arte e ao artesanato. O indivíduo, posteriormente a família, era a célula de base
da vida social: cada um era livre e igual a seu vizinho. A sociedade humana dessa época não era um
Estado, mas uma associação voluntária onde todos se beneficiavam da proteção de todos. Os mais
velhos e os membros mais experientes do grupo eram os guias e os conselheiros. Eles ajudavam a
resolver os problemas vitais, o que não significa governar e dominar o indivíduo. Foi só mais tarde que
se viu surgir governo político e Estado, consequências do desejo dos mais fortes de tirar vantagens dos
mais fracos, de alguns contra a maioria. O Estado eclesiástico ou secular serviu, então, para dar uma
aparência de legalidade e de direito aos danos causados por alguns à maioria. Essa aparência de direito

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era o meio mais cômodo de governar o povo, pois um governo não pode existir sem o consentimento do
povo, consentimento verdadeiro, tácito ou simulado.
O constitucionalismo e a democracia são as formas modernas desse pretenso consentimento,
inoculado pelo que se chama “educação”, autêntico doutrinamento público e privado. O povo consente
porque é persuadido da necessidade da autoridade; inculcam nele a ideia de que o homem é mau,
virulento e demasiado incompetente para saber o que é bom para ele. É a ideia fundamental de todo
governo e de toda a opressão. Deus e o Estado só existem e são sustentados por causa dessa doutrina.
No entanto, o Estado não é mais que um nome, uma abstração. Assim como outras concepções do
mesmo tipo – nação, raça, humanidade -, ele não tem realidade orgânica. Denominar o Estado de
organismo é uma tendência doentia de fazer de uma palavra um fetiche. A palavra Estado designa o
aparelho legislativo e administrativo que trata de certos negócios humanos – e, na maioria das vezes,
trata mal. Ele nada contém de sagrado, de santo ou de misterioso. O Estado não tem consciência, não é
encarregado de uma missão moral, não mais do que uma companhia comercial seria encarregada de
explorar uma mina de carvão ou uma ferrovia. O Estado não tem mais realidade do que os deuses ou
diabos. São apenas reflexos, criações do espírito humano, pois o homem, o indivíduo, é a única realidade.
O Estado é só a sombra do homem, a sombra de seu obscurantismo, de sua ignorância e de seu medo.
A vida começa e acaba com o homem, o indivíduo. Sem ele não há raça, humanidade, Estado. Nem
mesmo sociedade. É o indivíduo que vive, respira e sofre. Desenvolve-se e progride lutando
continuamente contra o fetichismo que ele nutre com respeito às suas próprias invenções e, em particular,
ao Estado. A autoridade religiosa edificou a vida política à imagem daquela da Igreja. A autoridade do
Estado, os “direitos” dos governantes vinham do alto; o poder como a fé, era de origem divina. Os filósofos
escreveram espessos volumes provando a santidade do Estado, às vezes chegando, inclusive, a
conceder-lhe a infabilidade. Alguns desses filósofos disseminaram a opinião demente de que o Estado é
“supra-humano”, realidade suprema, “o absoluto”.

A pesquisa era uma blasfêmia, a servidão a mais elevada das virtudes. Graças a tais princípios,
chegou-se a considerar certas ideias como evidências sagradas, não porque sua verdade tivesse sido
demonstrada, mas por serem repetidas continuamente. Os progressos da civilização são essencialmente
caracterizados por um questionamento do “divino” e do “mistério”, do pretenso sagrado e da “verdade
eterna”; é a eliminação gradual do abstrato, ao qual se substitui pouco a pouco o concreto. Quer dizer, os
fatos precedem ao imaginário, o saber à ignorância, a luz à obscuridade. O lento e difícil processo de
liberação do indivíduo não se realizou com a ajuda do Estado. Ao contrário, foi empreendendo um
combate ininterrupto e sangrento que a humanidade conquistou o pouco de liberdade e independência
de que dispõe, arrancado das mãos dos reis, dos czares e dos governos. A personagem histórica desse
longo calvário é o Homem. Sozinho ou unido a outros, é sempre o indivíduo que sofre e combate as
opressões de toda espécie, as potências que o subjugam e degradam. Mais ainda, o espírito do homem,
do indivíduo, é o primeiro a rebelar-se contra a injustiça e o aviltamento; o primeiro a conceber a ideia de
resistência às condições nas quais ele se debate. O indivíduo é o gerador do pensamento libertador,
assim como do ato liberador. E isso não diz respeito apenas ao combate político, mas a toda a gama dos
esforços humanos, em todos os tempos e sob todos os céus.

É sempre o indivíduo, o homem com sua força de caráter e sua vontade de liberdade, que abre o
caminho do progresso humano e dá os primeiros passos rumo a um mundo melhor e mais livre; nas
ciências, na filosofia, no campo das artes bem como no da indústria, seu gênio eleva-se em direção aos
cumes, concebe “o impossível”, materializa seu sonho e comunica seu entusiasmo aos outros, que, por
sua vez, se engajam na peleja. No campo social, o profeta, o visionário, o idealista que sonha com um
mundo segundo seu coração ilumina o caminho das grandes realizações. O Estado, o governo, qualquer
que seja sua forma, característica ou tendência, quer seja autoritário ou constitucional, monárquico ou
republicano, fascista, nazista ou bolchevique, é, por sua própria natureza, conservador, estático,
intolerante e oposto à mudança. Se às vezes evolui de maneira positiva, é que, submetido a pressões
fortes o bastante, é obrigado a operar a mudança que se lhe impõe, pacificamente às vezes, brutalmente
na maioria das vezes, quer dizer, pelos meios revolucionários. Além do mais, o conservadorismo inerente
à autoridade sob todas as suas formas torna-se inevitavelmente reacionário. Duas razões para isso: a
primeira, é que é natural para um governo não apenas conservar o poder que detém, como também
reforçá-lo, ampliá-lo e perpetuá-lo no interior e no exterior de suas fronteiras. Quanto mais forte a
autoridade, quanto maio o Estado e seus poderes, mais intolerável será para ele uma autoridade similar
ou um poder político paralelo. A psicologia governamental impõe uma influência e um prestígio em
constante crescimento, nacional e internacionalmente, e o governo agarrará todas as oportunidades para
ampliá-los. Os interesses financeiros e comerciais que dão sustentação ao governo que os representa e

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os serve motivam essa tendência. A razão de ser fundamental de todos os governos, para a qual os
historiadores dos tempos passados fechavam voluntariamente os olhos, é hoje tão evidente que os
próprios professores não podem mais ignorá-la. O outro fator que obriga os governos a um
conservadorismo cada vez mais reacionário é a desconfiança inerente que eles têm do indivíduo, o temor
da individualidade. Nosso sistema político e social não tolera o indivíduo com sua constante necessidade
de inovação. É, portanto, em estado de “legítima defesa” que o governo oprime, persegue, pune e às
vezes mata o indivíduo, sendo ajudado por todas as instituições cujo objetivo é preservar a ordem
existente. Ele recorre a todas as formas de violência e é apoiado pelo sentimento de “indignação moral”
da maioria contra o herético, o dissidente social, o rebelde político, maioria essa em quem se inculcou
desde séculos o culto do Estado, educada na disciplina, na obediência e na submissão à autoridade e no
respeito a ela, cujo eco se faz ouvir em casa, na escola, na igreja e na imprensa.

A melhor muralha da autoridade é a uniformidade; a menor divergência de opinião torna-se, então, o


pior dos crimes. A mecanização em grande escala da sociedade atual acarreta um acréscimo de
uniformização. Encontramo-la presente em toda parte: nos hábitos, nos gostos, na escolha das vestes,
nos pensamentos, nas ideias. Contudo, é no que convimos denominar “opinião pública” que encontramos
seu concentrado mais aflitivo. Bem poucos têm a coragem de opor-se a ela. Aquele que recusa submeter-
se é de pronto “bizarro”, “diferente”, “suspeito”, fautor de desordens no seio do universo estagnante e
confortável da vida moderna. Sem dúvida nenhuma, mais que a autoridade constituída, é a uniformidade
social que prostra o indivíduo. O fato de ele ser “único”, “diferente”, separa-o e torna-o estrangeiro em seu
país e, às vezes, até mesmo em seu lar, mais que o expatriado cujas opiniões geralmente coincidem com
aquelas dos “auctóctones”. Para um ser humano sensível, não é suficiente encontrar-se em seu país de
origem para se sentir em casa, a despeito de isso supor tradições, impressões e recordações de infância,
todas as coisas que nos são caras. É muito mais essencial encontrar uma certa atmosfera de
pertencimento, ter consciência de “fazer corpo” com as pessoas e o meio, para sentir-se em casa, quer
se trate de relações familiares, de relações de vizinhança ou, então, daquelas que mantemos na região
mais vasta comumente denominada país.

O indivíduo capaz de interessar-se pelo mundo inteiro jamais se sente tão isolado, tão incapaz de
partilhar os sentimentos de seu círculo do que quando se encontra em seu país de origem. Antes da
guerra, o indivíduo tinha ao menos a possibilidade de escapar à prostração nacional e familiar. O mundo
parecia aberto a suas buscas, a seus ímpetos, a suas necessidades. Hoje, o mundo é uma prisão e a
vida uma pena de prisão perpétua a purgar na solidão. Isso é ainda mais verdade desde o evento da
ditadura, tanto de direita quanto de esquerda. Friedrich Nietzsche qualificava o Estado de monstro frio.
Como qualificaria a fera hedionda oculta sob o casaco da ditadura moderna? Não que o Estado tenha
alguma vez alocado um campo de ação muito grande ao indivíduo, mas os campeões da nova ideologia
estatal não lhe concedem nem sequer o pouco do qual dispunha. “O indivíduo não é nada”, clamam eles.
Só a coletividade conta. Não querem nada menos que a submissão total do indivíduo para satisfazer o
apetite insaciável de seu novo deus. Curiosamente, é no seio da intelligentsia britânica e americana que
encontramos os mais ferozes advogados da nova causa. No momento, ei-los arrebatados pela “ditadura
do proletariado”. Apenas em teoria, é claro. Na prática, eles preferem ainda se beneficiar das poucas
liberdades que lhes são concedidas em seus respectivos países. Eles vão à Rússia para curtas visitas,
ou enquanto representantes da “revolução”; contudo, eles se sentem, apesar de tudo, mais seguros em
seus países. Por sinal, talvez não seja apenas a falta de coragem que retém esses bravos britânicos e
esses americanos em seus próprios países. Eles sentem, talvez inconscientemente, que o indivíduo
permanece o fato fundamental de toda associação humana e que, por mais oprimido e perseguido que
seja, é ele que vencerá a longo prazo. O “gênio do homem”, que não é outra coisa senão uma maneira
diferente de qualificar a personalidade e sua individualidade, traça um caminho através do labirinto das
doutrinas, através dos muros espessos da tradição e dos costumes, desafiando os tabus, desafiando a
autoridade, afrontando o ultraje e o cadafalso – para, às vezes, ser como profeta e mártir pelas gerações
seguintes. Sem esse “gênio do homem”, sem sua individualidade inerente e inalterável, ainda estaríamos
a percorrer as florestas primitivas. Piotr Kropotkin mostrou os resultados fantásticos que podemos esperar
quando essa força que é a individualidade humana trabalha em cooperação com outras.

O grande erudito e pensador anarquista disfarçou, desse modo, biológica e sociologicamente, a


insuficiência da teoria darwiniana no que se refere à luta pela sobrevivência. Em sua extraordinária obra
O apoio mútuo, Kroptkin mostra que no reino animal, tanto quanto na sociedade humana, a cooperação
– por oposição às lutas intestinas – opera no sentido da sobrevivência e da evolução das espécies. Ele
demonstra que, ao contrário do Estado devastador e onipotente, só o apoio mútuo e a cooperação

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voluntária constituem os princípios básicos de uma vida livre, fundada sobre o indivíduo e a associação.
No presente momento, o indivíduo é apenas um peão no tabuleiro da ditadura e nas mãos dos fanáticos
do “individualismo à americana”. Os primeiros buscam uma desculpa no fato de que estão à procura de
um novo objetivo. Os segundos nem sequer pretendem ser inovadores. De fato, os zeladores dessa
“filosofia” reacionária nada aprenderam e nada esqueceram. Contentam-se com zelar pra que persista a
ideia de um combate brutal pela sobrevivência, ainda que a necessidade desse combate tenha
desaparecido por completo. É evidente que este se perpetua justamente porque é inútil. A pretensa
superprodução não é a eloquente demonstração de que esse combate pela sobrevivência só deve sua
manutenção à cegueira dos adeptos do “cada um por si”, ao risco de assistir à autodestruição do sistema?
Uma das características insensatas dessa situação é a ausência de relação entre o produtor e o objeto
produzido.

O operário médio não tem nenhum contato profundo com a indústria que o emprega; permanece
estranho ao processo de produção, do qual é apenas uma engrenagem. E, como tal, é substituível a
qualquer momento por outros seres humanos igualmente despersonalizados. O trabalhador que exerce
uma profissão intelectual ou liberal, conquanto tenha a vaga impressão de ser independente, não é mais
bem favorecido. Ele também não teve grande escolha nem mais possibilidade de encontrar seu próprio
caminho em seu ramo de atividade do que seu vizinho trabalhador manual. Geralmente são
considerações materiais, um desejo de prestígio social, que determinam a orientação intelectual. A isso
vem acrescentar-se a tendência de abraçar a carreira de abraçar a carreira paterna para tornar-se
professor, engenheiro, assumir o escritório de advocacia ou o consultório médico, etc, pois a tradição
familiar e a rotina não exigem grandes esforços nem personalidade. Em consequência, a maioria das
pessoas insere-se mal no mundo do trabalho. As massas prosseguem com grande dificuldade seu
caminho, sem procurar ir mais longe, antes de tudo porque suas faculdades então entorpecidas por uma
vida de trabalho e rotina; e, depois, eles precisam ganhar a vida. Encontramos a mesma trama nos
círculos políticos, talvez com mais força. Ali não é criado nenhum espaço para a livre escolha, para o
pensamento ou para a atividade independentes. Só encontramos marionetes boas apenas para votar e
pagar os impostos. Os interesses do Estado e os do indivíduo são fundamentalmente antagônicos. O
Estado e as instituições políticas e econômicas que ele instaurou não podem sobreviver senão modelando
o indivíduo, a fim de que ele sirva a seus interesses; eles o condicionam no respeito à lei e à ordem,
ensinando-lhe obediência, submissão e fé absoluta na sabedoria e na justiça do governo; exigem antes
de tudo o total sacrifício do indivíduo quando o Estado precisa dele, em caso de guerra, por exemplo. O
Estado considera seus interesses como superiores àqueles da religião e de Deus. Pune até em seus
escrúpulos religiosos ou morais o indivíduo que se recusa a combater seu semelhante, porque não há
individualidade sem liberdade, e esta é a maior ameaça que pode pesar sobre a autoridade. O combate
que o indivíduo sustenta em condições tão desfavoráveis – com frequência ao preço de sua vida - é ainda
mais difícil porque seus adversários não estão interessados em saber se ele está certo ou errado. Não
são nem o valor nem a utilidade de seu pensamento ou de sua ação que erguem contra ele as forças do
Estado e da “opinião pública”. As perseguições contra o inovador, o dissidente, o contestador, sempre
foram causadas pelo temor de que a infabilidade da autoridade constituída seja questionada e seu poder
solapado. O homem só conhecerá a verdadeira liberdade, individual e coletiva, quando se libertar da
autoridade e de sua fé nela. A evolução humana nada mais é que uma penosa caminhada nessa direção.

O desenvolvimento não é em si nem a invenção, nem a técnica. Correr a 150 quilômetros por hora não
é uma prova de civilização. É pelo indivíduo, autêntico modelo social, que se mede nosso grau de
civilização; é por suas faculdades individuais, pelas possibilidades de ele ser livremente o que é, de
desenvolver-se e progredir sem intervenção da autoridade coercitiva e onipotente. Socialmente falando,
a civilização e a cultura devem ser medidas pelo grau de liberdade e pelas possibilidades econômicas de
que goza o indivíduo; devem ser igualmente medidas pela unidade e pela cooperação social e
internacional, sem restrição legal ou qualquer outro obstáculo artificial; pela audiência de castas
privilegiadas; por uma vontade de liberdade e dignidade humanas. Em resumo, o critério de civilização é
o grau de emancipação real do indivíduo. O absolutismo político foi abolido porque o homem percebeu,
no decorrer de séculos, que o poder absoluto é um mal destruidor. Mas o mesmo vale para todos os
poderes, quer ser aquele dos privilégios, do dinheiro, do padre, do político ou da pretensa democracia.
Pouco importa a cor que caráter específico da coerção reveste: o negro do fascismo, o pardo do nazismo
ou o vermelho pretensiosos do bolchevismo.

O poder corrompe e degrada tanto o senhor quanto o escravo, esteja esse poder nas mãos do
autocrata, do parlamento ou do soviete. Mas o poder de uma classe é ainda mais pernicioso do que o do

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ditador, e nada é mais terrível do que a tirania da maioria. No transcurso do longo processo histórico, o
homem aprendeu que a divisão e a luta conduzem à destruição e que a unidade e a cooperação fazem
progredir sua causa, multiplicam suas forças e favorecem seu bem-estar. O espírito governamental
trabalha desde sempre contra a aplicação social dessa lição fundamental, exceto quando o Estado tem
interesse nela. Os princípios conservadores e antissociais do Estado e da classe privilegiada que o
sustenta são responsáveis por todos os conflitos que colocam os homens uns contra os outros. São cada
vez mais numerosos aqueles que começam a ver claro, sob a superfície da ordem estabelecida. O
indivíduo deixa-se cegar cada vez menos pelo brilho enganador dos princípios estatais e pelos
“benefícios” do “individualismo” preconizado pelas sociedades ditas liberais.
Ele se esforça para alcançar as perspectivas mais amplas das relações humanas que só a liberdade
proporciona. Isso porque a verdadeira liberdade não é uma simples pilha de papéis intitulada
“constituição”, “direito legal” ou “lei”. Também não é uma abstração derivada dessa outra irrealidade
chamada “Estado”. Não é o ato negativo de ser liberdade de algo, pois essa liberdade é apenas a
liberdade de morrer de fome. A verdade liberdade é positiva; é a liberdade rumo a algo, a liberdade de
ser, de fazer, e os meios empregados para isso. Não pode se tratar, então, de uma doação, mas de um
direito natural do homem, de todos os seres humanos. Esse direito não pode ser concedido ou conferido
por nenhuma lei, nenhum governo. A necessidade, o desejo ardente dele se faz sentir em todos os
indivíduos. A desobediência a todas as formas de coerção é sua expressão instintiva. Rebelião e
revolução são tentativas mais ou menos conscientes de conquistá-lo. Essas manifestações individuais e
sociais são as expressões fundamentais dos valores humanos. Para nutrir esses valores, a comunidade
deve compreender que seu apoio mais sólido, mais durável, é o indivíduo. No campo religioso, bem como
no campo político, fala-se de abstrações acreditando tratar-se de realidade. No entanto, quando se vem
tratar verdadeiramente de coisas concretas, parece que a maioria das pessoas é incapaz de encontrar
um interesse viral por isso. Talvez seja porque a realidade é por demais prosaica, demasiado freia para
despertar a alma humana. Só os assuntos diferentes, pouco comuns, provocam o entusiasmo; quer dizer,
o Ideal que faz surgir a centelha da imaginação e do coração humano. É preciso algum ideal para tirar o
homem da inércia e da monotonia de sua existência e transformar o vil escravo em personagem heroica.
É aqui que intervém, evidentemente, o oponente marxista cujo marxismo ultrapassa, por sinal, o do
próprio Marx. Para ele, o homem é apenas um boneco nas mãos dessa onipotência metafísica
denominada determinismo econômico, vulgarmente conhecido como luta de classes. A vontade do
homem, individual e coletiva, sua vida psíquica, sua orientação intelectual, tudo isso conta muito pouco
para nosso marxista, e em nada afeta suas concepções da história humana. Nenhum estudante
inteligente negaria a importância do fator econômico no progresso social e no desenvolvimento da
humanidade. Todavia, só um espírito obtuso e obstinadamente doutrinário se recusará a ver o importante
papel da ideia, enquanto concepção da imaginação e resultado das aspirações do homem. É aqui que
intervém, evidentemente, o oponente marxista cujo marxismo ultrapassa, por sinal, o do próprio Marx.
Para ele, o homem é apenas um boneco nas mãos dessa onipotência metafísica denominada
determinismo econômico, vulgarmente conhecido como luta de classes.

A vontade do homem, individual e coletiva, sua vida psíquica, sua orientação intelectual, tudo isso
conta muito pouco para nosso marxista, e em nada afeta suas concepções da história humana. Nenhum
estudante inteligente negaria a importância do fator econômico no progresso social e no desenvolvimento
da humanidade. Todavia, só um espírito obtuso e obstinadamente doutrinário se recusará a ver o
importante papel da ideia, enquanto concepção da imaginação e resultado das aspirações do homem.
Seria vão e sem interesse tentar comparar dois fatores da história humana. Nenhum fator pode ser
considerado como o único fator decisivo do conjunto dos comportamentos individuais e sociais.
Avançamos muito pouco em psicologia humana, e talvez nunca seremos muito avançados para pesar e
medir os valores relativos de tal ou qual fator determinante do comportamento humano. Formular tais
dogmas, em suas conotações sociais, é puro fanatismo; no entanto, veremos uma certa utilidade no fato
de que essa tentativa de interpretação político-econômica da história prova a persistência da vontade
humana e refuta os argumentos dos marxistas. Felizmente, alguns marxistas começam a ver que seu
credo não é toda a verdade; afinal de contas, Marx era um ser humana, demasiado humano para ser
infalível.
Atualmente, as aplicações práticas do determinismo econômico na Rússia abrem os olhos dos
marxistas mais inteligentes. Podemos ver, com efeito, ajustamentos se operando no nível dos princípios
marxistas nas fileiras socialistas e nas fileiras comunistas dos países europeus, inclusive. Eles lentamente
compreendem que sua teoria não levou muito em consideração o elemento humano – der Mensch, como
salienta um jornal socialista. Por mais importante que seja, o fator econômico não é, contudo, suficiente
para determinar sozinho o destino de uma sociedade. A regeneração da humanidade não se realizará

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sem a aspiração, a força energética de um ideal. Esse ideal, para mim, é a Anarquia, que com toda
certeza nada tem a ver com a interpretação errônea que os adoradores do Estado e da autoridade se
associam para disseminar. Essa filosofia lança as bases de uma nova ordem social, fundada nas energias
liberadas do indivíduo e na associação voluntária dos indivíduos liberados. De todas as teorias sociais, a
Anarquia é a única a proclamar que a sociedade deve estar a serviço do homem e não o homem a servido
da sociedade. O único objetivo legítimo da sociedade é prover as necessidades do indivíduo e ajudá-lo a
realizar seus desejos. É só nesse caso que ela se justifica e participa dos progressos da civilização e da
cultura. Sei que os representantes dos partidos políticos e os homens que lutam com selvageria pelo
poder me estigmatização com a marca do anacronismo incorrigível. Pois bem, aceito com alegria essa
acusação. É para mim um conforto saber que falta consistência à sua histeria e que seus louvores são
sempre temporários. O homem aspira libertar-se de todas as formas de autoridade e poder, e não são os
discursos estrepitosos que o impedirão de romper para sempre seus grilhões. Os esforços do homem
devem prosseguir – e eles prosseguirão.

A Declaração dos Direitos do Homem da Organização das Nações Unidas (ONU).

Recebe o nome de Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão um documento elaborado durante
a Revolução Francesa de 1789, e que iria refletir a partir de sua divulgação, um ideal de âmbito universal,
ou seja, o de liberdade, igualde e fraternidade humanas, acima dos interesses de qualquer particular.
À época, a França acabava de encerrar séculos de um regime absolutista, onde quem tinha a vontade
suprema era o monarca. Tal arranjo foi necessário ao momento do nascimento da moderna França porque
era o único meio de se fazer respeitar a unidade nacional e prestar obediência a uma autoridade
centralizada. Com o tempo, porém, tal forma de organização do estado passou a ser uma ferramenta
tanto da nobreza como do clero para oprimir, controlar e explorar o povo, o que fazia do cidadão da época
um ser humano limitado pelas imposições dos governantes do Estado.

A consciência desta situação não estava evidente à maioria da população, pois todos os estados
vizinhos seguiam o mesmo formato de administração, e assim, parecia ser o controle total do monarca (o
chamado absolutismo) uma forma natural de administração. As ideias trazidas pelo humanismo e mais
tarde pelo iluminismo, viriam a mudar a sua perspectiva acerca de um governo eficiente. Com esses
novos conceitos, o povo deixaria de ser obrigado a servir aos interesses do governante, surgindo, ao
contrário, um governo que passaria a servir aos interesses dos cidadãos, garantindo os seus direitos e
deveres.

É exatamente devido a esta mudança de perspectiva que se iniciou a Revolução Francesa, que
desejava dar todo o poder ao povo. Como a história mostraria, tal desejo seria logo frustrado pelos
interesses das classes burguesas, que assumiram de modo informal o controle do estado quando as
classes dominantes, nobreza e clero, foram desbaratadas. Mesmo assim, algum progresso foi alcançado,
e a consciência de que o povo deveria ser o interesse central no desenvolvimento de qualquer estado foi
a partir de então levado a sério. Prova disso é a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
anunciada ao público em 26 de agosto de 1789. A importância desse documento nos dias de hoje é ter
sido a primeira declaração de direitos e fonte de inspiração para outras que vieram posteriormente, como
a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU (Organização das Nações Unidas),
em 1948.

Apesar da declaração elaborada pela ONU ter um alcance maior, por ter sido elaborado no âmbito de
uma organização que agrega boa parte das nações do mundo, a Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão permanece ainda como documento válido para os dias atuais, por pensar o ser humano acima
do poder particular em qualquer esfera.

Princípios e Valores

Declaração Universal dos Direitos Humanos (Resolução 217-A (III) – da Assembleia Geral das
Nações Unidas, 1948).

A Declaração Universal dos Direitos Humanos consolida os valores relativos aos direitos humanos,
tratando dos direitos civis, políticos, sociais, econômicos e culturais. Referida Declaração foi aprovada
pela Resolução 217 da Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 10 de dezembro de 1948.

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O objetivo da declaração é proteger os direitos de todas as pessoas, sem distinção e seus 30 artigos
falam sobre o direito ao trabalho, à saúde, à alimentação, à educação e direitos sociais econômicos e
culturais, bem como o direito à vida, a segurança social, à liberdade, direito de ir e vir, liberdade de
expressão e pensamento e, por fim, direitos políticos.

Declaração Universal dos Direitos Humanos29


(Resolução nº 217 – Assembleia Geral da ONU)

Aprovada pela Res. nº 217, durante a 3ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral da ONU, em
Paris, França, em 10-12-1948.

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família


humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz
no mundo,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos
bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade e que o advento de um mundo em que os
homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e
da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,
Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para
que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão,
Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações,
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos
humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos
homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de
vida em uma liberdade mais ampla,
Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com
as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais da pessoa
e a observância desses direitos e liberdades,
Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta
importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A Assembleia Geral proclama:

A presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por
todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da
sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação,
por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de
caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância
universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos
dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo 1º
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e
consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Comentário: Como fundamento inicial, a DUDH, traz o reconhecimento das dimensões que se referem
aos princípios da liberdade e da igualdade. Este artigo também faz reconhecimento explícito sobre a
razão e consciência como fundamentos essenciais à pessoa humana e estabelece a necessidade de
reciprocidade no tratamento, ou seja, espírito de fraternidade.
Aristóteles vinculou a ideia de igualdade à ideia de justiça, mas, nele. Trata-se de igualdade de justiça
relativa que dá a cada um o seu, uma igualdade - como nota Thomé — impensável sem a desigualdade
complementar e que é satisfeita se o legislador tratar de maneira igual os iguais e de maneira desigual
os desiguais.30
O assunto também foi tratado no Art. 5º, caput, da Constituição Federal:

29
Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/integra.htm, Acesso em: 25/06/2015
30
Direitos Humanos e Cidadania, Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/c1.html, Acesso em: 02/07/2015

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Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...)

Artigo 2º
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião
política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra
condição.
Não será tampouco feita qualquer distinção fundada na condição política, jurídica ou
internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território
independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de
soberania.

Comentário: O texto declaratório está focado na igualdade, sob uma perspectiva de condenar a
distinção, mas deixa a desejar pois não menciona mecanismos visando abolir ou reduzir algumas formas
de distinção, o que coube à pactos e convenções específicas.
Proclamar esse primeiro, inviolável, direito, mãe de todos os direitos humanos, abre-nos a uma
perspectiva da humanidade como verdadeira fraternidade. Já alguém recordou oportuna mente que os
direitos humanos são muito mais que uma realidade jurídica, enquanto refletem um ‘dever ser’, uma
desafiadora prospectiva que a humanidade se impõe para respeitar sua própria dignidade; para ser uma
humanidade não apenas hominizada, mas plenamente humanizada.31
Por sua vez, a Constituição Federal abriga a mesma veemente condenação, colocando homens e
mulheres iguais em direitos e obrigações, garantindo a liberdade religiosa, a convicção filosófica ou
política, punindo severamente as práticas de racismo.

Artigo 3º
Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Comentário: Sem sombras de dúvida a vida é o bem mais precioso da pessoa humana, e assim sendo,
recebeu lugar de destaque entre os direitos à serem protegidos, tanto na DUDH, como em todas as leis
ao redor do mundo.
Nas palavras de José Afonso da Silva32, o direito à existência consiste no direito de estar vivo, de lutar
peio viver, de defender a própria vida, de permanecer vivo. É o direito de não ter interrompido o processo
vital senão pela morte espontânea e inevitável. Existir é o movimento espontâneo contrário ao estado
morte.
A vida humana não é apenas um conjunto de elementos materiais. Integram-na, outrossim, valores
imateriais, como os morais. A Constituição, mais que as outras, realçou o valor da moral individual,
tornando-a mesmo um bem indenizável (art. 5º - V e X). A moral individual sintetiza a honra da pessoa, o
bom nome, a boa fama, a reputação que integram a vida humana como dimensão imaterial.
A liberdade aparece em conjunto com o direito à vida, por se tratar de pressuposto básico para que
haja desenvolvimento intelectual e material. Esta liberdade não pode ser vista como atributo da igualdade,
mas trata-se de um direito essencial do indivíduo, formando o trio de direitos pessoais essenciais do
indivíduo: vida, liberdade e segurança pessoal, direitos estes que visam proporcionar à pessoa as
condições mínimas de sobrevivência.
Nossa Constituição Federal reproduz de forma extremamente fiel esses três preceitos declaratórios,
principalmente reproduzidos no Art. 5º.

Artigo 4º
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão
proibidos em todas as suas formas.

Comentário: O combate à escravidão tem como preceitos a liberdade e a legalidade, o que busca
impedir que alguém seja tolhido de seus direitos básicos em nome de uma pretensa superioridade, seja
ela física, racial ou mesmo econômica.

31
Dom Pedro Casaldáliga. Direitos Humanos: Conquistas e Desafios, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/2.html, Acesso em: 02/07/2015
32
SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/3.html, Acesso em: 02/07/2015

162
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A escravidão é o estado ou a condição a que é submetido um ser humano, para utilização de sua força,
em proveito econômico de outrem.33
Conforme ensina René Ariel Dotti34, em senso comum, a servidão implica numa relação de
dependência de uma pessoa sobre outra que é o servo ou escravo. Sociologicamente, o vocábulo é
empregado para traduzir a relação de dependência entre um grupo ou camada social sobre outra como
ocorre na aristocracia e que é submetida ao pagamento de tributos e a obrigação de prestar serviços.

Artigo 5º
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou
degradante.

Comentário: A proibição quanto à tortura, já vinha estabelecida no Código de Hamurabi, em seu Art.
19: Desde já, ficam abolidos ao açoites, a tortura, a marca de ferro quente e todas as mais penas cruéis.
Em seu livro Direitos Humanos – Conquistas e Desafios35, o rabino Henry Sobel afirma que a tortura,
um crime inafiançável de acordo com a Constituição brasileira, continua a ser praticada pelos agentes do
Estado, aviltando toda a polícia. O espancamento, o choque elétrico e o pau-de-arara são técnicas usadas
rotineiramente para esclarecer crimes. O tratamento nas prisões é cruel, desumano e degradante. As
condições nas penitenciárias e nas cadeias públicas do país são abomináveis.
O conceito específico de tortura vem tratado na Convenção Internacional contra a tortura e outros
tratamentos ou penas cruéis, desumanas ou degradantes, e no âmbito interno, está regulamentado na
Lei nº 9.455/1997, faz sua própria conceituação, baseada na convenção citada.

Artigo 6º
Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.

Comentário: O presente dispositivo traz como premissa reconhecer que toda pessoa, todos os
indivíduos, sem qualquer tipo de distinção, devem ser tratados como pessoa humana, o que significa
existir uma consideração implícita no sentido de que todos, se refere à todas as pessoas.
Pode-se afirmar que ser considerado como pessoa é um pressuposto no qual se amparam os
legisladores e que é a base para todos os outros direitos afirmados aqui.
Todo ser dotado de vida é indivíduo, isto é: algo que não se pode dividir, sob pena de deixar de ser. O
homem é um indivíduo, mas é mais que isto, é uma pessoa. (...) Por isso é que ela constitui a fonte
primária de todos os outros bens jurídicos36.

Artigo 7º
Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.
Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração
e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Comentário: Aqui nota-se que a princípio da igualdade foi novamente abordado, reafirmando-o,
contudo em caráter mais específico, visando a proteção legal, tanto em face da própria discriminação,
quanto em face à proteção contra qualquer tipo de incitamento à qualquer discriminação.

Artigo 8º
Toda pessoa tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes recurso efetivo para os
atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela
lei.

Comentário: A características fundamental do presente dispositivo é a busca para efetivar a prestação


judicial, ou a aplicação da justiça, em qualquer situação, principalmente quando houver a ameaça a
direito. A Constituição Federal abriga o presente dispositivo e ainda reconhece, de forma subsidiaria,
princípios que visam garantir seu efetivo cumprimento.

33
Direitos Humanos e Cidadania, Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/4.html, Acesso em
02/07/2015
34
DOTTI, René Ariel, Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/4.html, Acesso em 02/07/2015
35
SOLBEL, Henry. Direitos Humanos – Conquistas e Desafios, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/5.html, Acesso: 02/07/2015
36
SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/6.html, Acesso em 02/07/2015

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Importante ressaltar que a Constituição Federal, em seu Art. 5º, assegura a todos o direito de obter a
tutela jurisdicional, trazendo mesmo uma proteção da justiça, e manifesta-se no sentido de que não se
pode excluir da apreciação do judiciário qualquer assunto, simples ou complexo, que a pessoa tenha
necessidade de apreciação.

Artigo 9º
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Comentário: Novamente o dispositivo declaratório invoca o princípio da legalidade, enquanto


instrumento abstrato de garantia, a fim de que qualquer comando jurídico que venha a impor um
comportamento forçado deve se originar de regra geral, o que significa uma irrestrita submissão e respeito
à lei.
O princípio da reserva legal decorre deste dispositivo, tendo natureza concreta, circunscrevendo um
comportamento pessoal que deve se pautar em cada um dos limites impostos pela lei formal.
Aqui verifica-se que a intangibilidade física e a incolumidade moral das pessoal está sujeita à custódia
do Estado, garantidas pelo presente dispositivo e reafirmadas internamente pelo inciso XLIX, do Art. 5º
da Constituição Federal.

Artigo 10
Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um
tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de
qualquer acusação criminal contra ela.

Comentário: Mais uma vez a DUDH invoca o princípio da igualdade, agora combinado com a
independência e à imparcialidade perante à Justiça, visando garantir que decisões sejam emanadas por
um tribunal, visando também impedir a existência de tribunal de exceção.
Este dispositivo reconhece a instituição do júri para julgamento dos crimes dolosos contra a vida, onde
é possível assegurar a plena defesa, o sigilo das votações e a soberania dos veredictos.
A Declaração é expressa: assegura a qualquer pessoa direito de audiência junto ao poder judiciário,
que é independente e imparcial, não só por torça da investidura de seus membros, na carreira, por
concurso de títulos e provas, mas também por pertencer a um poder que, pela Constituição, não é
subordinado a nenhum outro. A independência do juiz é absoluta e mesmo na hierarquia judiciária ele
não deve obediência a magistrados superiores. O seu julgamento deve seguir exclusivamente o seu
entendimento, de acordo com a sua consciência37.

Artigo 11
§ 1º Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que
a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe
tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
§ 2º Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não
constituam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais
forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

Comentário: Em um primeiro momento, este artigo da DUDH aborda o princípio da presunção de não
culpabilidade, situação em que o Estado deve comprovar a culpa do indivíduo, produzindo as provas
necessárias para tal.
Conforme ensina Dotti38, a presunção de inocência é um dos princípios relativos à prova e que incide
no sistema de processo penal, salvo as exceções determinadas na lei (prisão provisória, busca e
apreensão, violação do sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das
comunicações telefônicas etc.).
Diante deste dispositivo, percebe-se que o Estado Democrático de Direito pressupõe a existência de
interligação entre o princípio aqui estabelecido e os princípios do devido processo legal, da ampla defesa
e do contraditório.
A segunda parte deste dispositivo consagra o princípio da reserva legal e o princípio da anterioridade
em matéria penal, o que significa dizer que fixam a obrigatoriedade da existência prévia de lei restritiva,

37
Direitos Humanos e Cidadania, Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/10.html, Acesso em:
02/07/2015
38
DOTTI, René Ariel, Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/11.html, Acesso em: 02/07/2015

164
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
sendo que só assim será possível considerar uma conduta como delituosa, e esta somente poderá ser
punida se houver estipulação prévia da punição cabível.

Artigo 12
Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na de sua família, no seu lar ou na
sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção
da lei contra tais interferências ou ataques.

Comentário: Este artigo abriga o direito à inviolabilidade da vida privada de cada indivíduo, o que
inclui sua intimidade, a honra, a reputação, sendo que este direito se estende à casa e à família, incluindo
também o direito à proteção da lei contra atos que possam, de alguma forma, violar essa garantia.
José Afonso da Silva39 ensina que a vida privada, em última análise, integra a esfera íntima da pessoa,
porque é repositório de segredos e particularidades do foro moral e íntimo do indivíduo. A tutela
constitucional visa proteger as pessoas de dois atentados particulares:
(a) ao segredo da vida privada; e
(b) à liberdade da vida privada

Artigo 13
§ 1º Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de
cada Estado.
§ 2º Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Comentário: Aqui trata-se do direito à liberdade de locomoção, ou o tão proclamado direito ou


liberdade de ir e vir, preceito este que afasta qualquer restrição à plena liberdade material da pessoa
humana.
Neste direito estão compreendidos o direito de acesso, de ingresso e de trânsito em todo o território
nacional, incluindo também o direito de permanência e saída do país, cabendo a escolha apenas à
conveniência pessoal.
É bastante claro que se trata de um preceito que deriva do princípio da liberdade, tratando de confirmar
a natureza humana de movimentar-se ou deslocar-se de um lugar à outro, garantindo assim, a
permanência pelo tempo que desejar, podendo estabelecer residência conforme sua vontade.

Artigo 14
§ 1º Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros
países.
§ 2º Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por
crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Comentário: Os preceitos aqui descritos podem ser conferidos, de forma genérica, no § 2º, do Art. 5º
da Constituição Federal e complementadas pelo Art. 4º, X, também da Constituição Federal.
A intensão do legislador foi garantir o trânsito entre os países, voltado para aqueles que se encontram
em situação precária, dada a perseguição, seja ela política, militar ou mesmo social.
O próprio dispositivo traz a exceção no sentido de que não será considerado como perseguido aquele
que cometeu crime, seja ele elencado na legislação comum ou crime contra os Direitos Humanos, sendo
que nesses casos, o autor do crime deverá responder por eles.

Artigo 15
§ 1º Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
§ 2º Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de
nacionalidade.

Comentário: O presente dispositivo tem como finalidade garantir que todas as pessoas possam ter os
direitos conferidos ao cidadão de cada Estado, impedindo a existência dos chamados apátridas, o que
significa dizer que todas as pessoas tem direito a estar oficialmente vinculadas à um Estado ou país, o
que vai lhe garantir que possa gozar dos direitos e garantias constituídas por aquele.

39
SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/12.html, Acesso em: 02/07/2015

165
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Este dispositivo está plenamente formalizado na Constituição Federal, em seu Art. 12, I e II, garantindo
também o direito à nacionalidade.

Artigo 16
§ 1º Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou
religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em
relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
§ 2º O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.
§ 3º A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da
sociedade e do Estado.

Comentário: Aqui nota-se a reafirmação da proscrição à discriminação, bem como a garantia da


liberdade de expressão e a soberania da manifestação da vontade, sendo que o direito ao casamento e
à constituição de família deve ser plenamente garantido pelo Estado.
No direito pátrio, tais garantias estão estabelecidas no Art. 226 da Constituição Federal.

Artigo 17
§ 1º Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
§ 2º Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Comentário: O mundo ocidental sempre buscou mecanismos de proteger a propriedade, sendo esta
bastante enaltecida pelas sociedades capitalistas, mas também foi objeto de regramento em sociedades
africanas e asiáticas. Desta forma, considerou-se a propriedade como um princípio essencial para o
desenvolvimento da atividade humana, como resultado de seu trabalho e de sua capacidade.
Em um primeiro momento, a propriedade era tratada como bem absoluto, permitindo que seu senhor
praticasse quaisquer tipos de atos. Conforme a evolução e a necessidade de proteção surgiram, passou-
se a dar maior limitação à propriedade. Atualmente o direito à propriedade, bem como o direito de uso da
mesma, está restringido principalmente pelo princípio da função social, sendo que ao proprietário cabe o
uso e gozo de seu bem desde que de maneira que não cause distúrbios à coletividade.

Artigo 18
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a
liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo
ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em
particular.

Comentário: Trata-se de mais um princípio que reforça a liberdade, em termos gerais, e que a
concretiza em termos específicos ao determinar que cada indivíduo terá liberdade de pensamento, e
como consequência, também tem liberdade de consciência e de religião.
Por liberdade de pensamento, entende-se como o direito de exprimir, por qualquer forma, o que se
pense em ciência, religião, arte, ou o que for’. Trata-se de liberdade de conteúdo intelectual e supõe o
contato do indivíduo com seus semelhantes, pela qual ‘o homem tenda, por exemplo, a participar a outros
suas crenças, seus conhecimentos, sua concepção do mundo, suas opiniões políticas ou religiosas, seus
trabalhos científicos40.
No direito pátrio, a Constituição Federal não traz explicitamente o direito à liberdade de pensamento,
mas o utiliza como pressuposto para garantir a sua manifestação, que está expressamente garantida na
Carta Maior. Como decorrência lógica, tem-se ainda a liberdade de expressão, que também é garantida.

Artigo 19
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de,
sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por
quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Comentário: Este dispositivo é decorrência do dispositivo anterior, ou seja, a garantia da liberdade de


pensamento é que assegura a liberdade de opinião e de expressão. Trata-se de preservar um dos direitos
fundamentais para o homem, no que tange a sua vida social.

40
SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/18.html, Acesso em: 02/07/2015

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1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
A liberdade de expressão, ou de manifestação do pensamento, é um dos aspectos externos da
liberdade de opinião. Desta forma, nota-se que há uma correlação entre a liberdade de opinião e a
liberdade de recepção de informações e ideias, o que também dá sustentação ao direito de expressão e
visam garantir a plenitude do princípio da liberdade.
Para Alexandre de Moraes41, o direito de receber informações verdadeiras é um direito de liberdade e
caracteriza-se essencialmente por estar dirigido a todos os cidadãos, independentemente de raça, credo
ou convicção político-filosófica, com a finalidade de fornecimento de subsídios para a formação de
convicções relativas a assuntos públicos.

Artigo 20
§ 1º Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.
§ 2º Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Comentário: O dispositivo busca a garantia da liberdade, tanto de reunião como de associação, uma
vez que se tratam de coisas distintas. Para Alexandre de Moraes42, o direito de reunião é uma
manifestação coletiva da liberdade de expressão, exercitada por meio de uma associação transitória de
pessoas e tendo por finalidade o intercâmbio de ideias, a defesa de interesses, a publicidade de
problemas e de determinadas reivindicações. O direito de reunião apresenta-se, ao mesmo tempo, como
um direito individual em relação a cada um de seus participantes e um direito coletivo no tocante a seu
exercício conjunto.
O direito de reunião tem como pressuposto a pluralidade de participantes e também uma noção de
duração limitada no tempo, pois se assim não fosse, estaríamos diante de uma associação.
O Art. 5º da Constituição Federal tem dispositivos garantindo as duas coisas, reunião e associação, e
impõe limites quanto à sua finalidade, exigindo que estas sejam realizadas com propósitos pacíficos.

Artigo 21
§ 1º Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por
intermédio de representantes livremente escolhidos.
§ 2º Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
§ 3º A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em
eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente
que assegure a liberdade de voto.

Comentário: Este dispositivo traz três postulados básicos, que visam garantir o livre exercício dos
direitos políticos.
Os direitos políticos estão fundamentados pelo princípio da soberania popular e devem ser entendidos
como meios de garantir que cada cidadão possa participar das decisões políticas de seu país, bem como
ser capaz de votar e ser votado e ainda, garantia de um sistema eleitoral claro, que permita o acesso
amplo para todos.

Artigo 22
Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo
esforço nacional, pela cooperação internacional de acordo com a organização e recursos de cada
Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre
desenvolvimento da sua personalidade.

Comentário: Este dispositivo afirma que todos tem direito à seguridade social, o que está
fundamentado no fato de que cada pessoa tem a condição de membro da sociedade. A referida
seguridade social é destinada a promover a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais,
entendidos como indispensáveis à dignidade humana.
Cabe a cada Estado a promoção destes direitos, dentro de sua organização e respeitando os limites
de seus recursos, sendo possível a cooperação internacional para que se possa atingir as metas.

41
MORAES, Alexandre. Direitos Humanos Fundamentais, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/19.html, Acesso em: 02/07/2015
42
MORAES, Alexandre. Direitos Humanos Fundamentais, Disponível em:
http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/20.html, Acesso em: 02/07/2015

167
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Artigo 23
§ 1º Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e
favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
§ 2º Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
§ 3º Toda pessoa que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe
assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que
se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
§ 4º Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para a proteção de seus
interesses.

Comentário: Este dispositivo traz uma melhor especificação do princípio da liberdade e ainda, um
reforço da proibição com relação à escravidão. Trata-se de dispositivo que permite que cada indivíduo
busque seu trabalho digno e as condições que melhor lhe aprouverem para realização do mesmo.
Importante notar que há um reforço quanto à igualdade, ao se estabelecer que não podem haver
distinções salariais.
A Constituição Federal contempla tal dispositivo, regulamentando em seus Arts. 7º à 11, que traz os
princípios básicos quanto às relações de trabalho.

Artigo 24
Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho
e a férias periódicas remuneradas.

Comentário: Trata-se de um complemento quanto às relações de trabalho, buscando a garantia de


que o trabalhador terá tempo específico para descansar, não sendo obrigado a trabalhar
ininterruptamente.
Mais uma vez, tal dispositivo foi recepcionado pela Constituição Federal em seus artigos 7º a 11,
conforme mencionado no dispositivo anterior.

Artigo 25
§ 1º Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde
e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais
indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice
ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.
§ 2º A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as
crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Comentário: Trata-se de disposição de amplo aspecto e que enfrenta grandes obstáculos para sua
implementação. O que se busca é a garantia de todos os aspectos da vida do indivíduo e para isso
determina direito a um padrão de vida, o que seria o mínimo necessário para que se tenha uma vida
digna.
O dispositivo especifica alguns direitos, contudo deve-se salientar que em termos gerais, todos já foram
tratados anteriormente. No direito pátrio, encontram-se positivados nos artigos 6º a 9º e 226 a 230 da
Constituição Federal.

Artigo 26
§ 1º Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus
elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-
profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
§ 2º A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana
e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A
instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos
raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da
paz.
§ 3º Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a
seus filhos.

Comentário: A educação, enquanto direito fundamental da pessoa humana, é algo que foi consolidado
somente nos tempos modernos e de forma bastante elitista e excludente, sendo que na prática, não
permitia o acesso das classes inferiores.

168
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Conforme ensina Cesare de Florio La Rocca43, a formulação adotada pela Declaração Universal dos
Direitos Humanos é, ao mesmo tempo, genérica, abrangente e específica. Nela aparecem claramente as
dimensões instrução, da formação, da expansão. Poderíamos afirmar que o artigo 26 conseguiu resumir
em seu texto o objetivo fundamental da educação que é o de educar para a vida. E não apenas a vida do
cotidiano, e sim desse, inserido de maneira dinâmica, construtiva e participativa na própria caminhada
existencial do gênero humano.

Artigo 27
§ 1º Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir
as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.
§ 2º Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de
qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.

Comentário: Este dispositivo apresenta dois preceitos básicos, sendo que o primeiro está voltado para
a garantia do direito de participação na vida cultural, incluindo as artes e processos científicos. Já o
segundo preceito refere-se à garantia dos interesses morais, tido como subjetivos, e materiais, objetivos,
relativos à produção cultural.
Trata-se de direito bastante recente. O direito à propriedade imaterial é manifestado com o
reconhecimento dos direitos que protegem todas as formas de uso de obras intelectuais, artísticas ou
científicas.

Artigo 28
Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades
estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Comentário: Aqui tem-se que a efetiva realização dos direitos do homem tem como precondição a
existência de uma ordem social interna em cada país que reúna as condições essenciais para que possa
ser reivindicado o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, e ainda, uma ordem
internacional de coexistência dos países entre si que assegure a cada um deles uma realidade em que
se atenda ao pleno exercício dos direitos e das liberdades consagrados na Declaração44.
Os autores da DUDH, sabiamente percebem que a proteção aos direitos estabelecidos nesta, pode
ser frustrada se não houver, formalmente, um quadro interno e externo, em que seja possível cultuar o
respeito aos direitos de cada indivíduo.

Artigo 29
§ 1º Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento
de sua personalidade é possível.
§ 2º No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações
determinadas por lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito
dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública
e do bem-estar de uma sociedade democrática.
§ 3º Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente
aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Comentário: Trata-se de fixar expressamente os deveres de cada indivíduo para com a comunidade,
numa forma de contrapartida em face dos direitos anteriormente assegurados.
Nas palavras de DOTTI45, os indivíduos têm deveres para com a sua família e a sociedade onde vivem
assim como são titulares de direitos cujo reconhecimento e proteção não dependem somente do Estado
mas também de todos os cidadãos. Daí porque os deveres comunitários constituem um caminho de dupla
via.

43
LA ROCCA, Cesare de Florio. Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU – Artigos Comentados, Disponível em:
http://dhnet.org.br/direitos/deconu/coment/orocca.html, Acesso em 03/07/2015
44
Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU – Artigos Comentados, Disponível em:
http://dhnet.org.br/direitos/deconu/coment/lavenere.html, Acesso em: 03/07/2015
45
DOTTI, René Ariel, Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/sc/scdh/parte2/xxx/29.html, Acesso em: 03/07/2015

169
1202594 E-book gerado especialmente para THIAGO PAULINO DOS SANTOS
Artigo 30
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a
qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer
ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

Comentário: Este último dispositivo, que fecha a DUDH, busca manter aberta as possibilidades de
concretizar outros valores que possam estar presentes no discurso jurídico politicamente utilizável.
Em termos de técnica legislativa, inova, se confrontada com textos constitucionais nacionais e normas
internacionais. E justamente porque abandonou o esquema de democracia formal: proclamar direitos e
remeter, para um possível interior do próprio texto (Constituição ou Tratado), ou para princípios existentes
em dado sistema legal, o conteúdo do direito apontado mas não definido46.

16.2.2. Influência dos Meios de Comunicação na Sociedade Indígena.

Índio, mídia e representações sociais47

É difícil pensarmos no brasileiro, no que diz respeito à sua formação e estrutura, sem refletir sobre o
tema “índio” e sua relação com a história. À medida que buscamos memórias das origens da sociedade
brasileira, percebemos inúmeras combinações de características herdadas da cultura dos povos
indígenas, tais como, sua identidade, arquitetura, música, vestuário, e medicina. Nesse grupo social
encontramos uma diversidade cultural múltipla, em que existem imaginários específicos, tradições
próprias e modos de vida diferentes da ideia usual do “índio” presente no senso comum.
Serge Moscovici cita a ancoragem e a objetivação como mecanismos utilizados para gerar as
representações sociais, pois fornecem subsídios necessários à classificação de algo. Nesse caso, ao
pensarmos na representação do índio em nossa sociedade, reproduzimos um modo de ver e pensar o
indígena herdado de tempos coloniais.
“O primeiro mecanismo tenta ancorar ideias estranhas, reduzi-las a categorias e imagens comuns,
colocá-las em um contexto familiar [...] O objetivo do segundo mecanismo é objetivá-los, isto é,
transformar algo abstrato em algo quase concreto, transferir o que está presente na mente em algo que
exista no mundo físico”.

Das poucas informações que chegam ao grande público, percebemos a cultura indígena sendo
abordada pelos meios de comunicação com temas bastante específicos, entre eles, destacamos a
violência, invasões, desalojamentos e datas de comemoração. Se observarmos como os índios são
apresentados na sociedade, entendemos que é atribuída uma visão do “índio” como o diferente, o
preguiçoso, suprimido pela economia vigente, muitas vezes reforçando a visão dos antigos colonizadores
em relação à força de trabalho indígena que fora posteriormente substituída pelos negros.
Denise Jodelet (2001) apresenta uma possível caracterização das representações sociais em que a
comunidade científica está de acordo:
É uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada. Com o objetivo prático, e que
contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. Igualmente designada como
saber de senso comum ou ainda saber ingênuo, natural, esta forma de conhecimento é diferenciada,
entre outras, do conhecimento científico. Entretanto, é tida como um objeto de estudo tão legítimo quanto
este, devido à sua importância na vida social e à elucidação possibilitadora dos processos cognitivos e
das interações sociais.
Os sistemas de classificação e descrições que circulam dentro de uma sociedade, mesmo estas
últimas sendo descrições científicas, implicam em um elo de prévios sistemas e imagens, uma
estratificação na memória coletiva e uma reprodução na linguagem que reflete um conhecimento anterior
que quebra as amarras com a informação presente. De acordo com Moscovici:

Longe de refletir, seja o comportamento ou a estrutura social, uma representação muitas vezes
condiciona ou até mesmo responde a elas. Isso é assim, não porque ela possui uma origem coletiva, ou
porque ela se refere a um objeto coletivo, mas porque, como tal, sendo compartilhada por todos e
reforçada pela tradição.

46
Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU – Artigos Comentados, Disponível em:
http://dhnet.org.br/direitos/deconu/coment/pinaude.html, Acesso em: 03/07/2015
47
Texto adaptado de MINARDI, D.

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O jornalista recorre a essas representações sociais para tornar legítima uma determinada visão
hegemônica a respeito dos índios. Segundo Moscovici, “na verdade, qualquer pessoa que tenha sido
jornalista, sociólogo ou psicólogo clínico, sabe como a representação de tal ou qual gesto, ocorrência ou
palavra, pode confirmar uma notícia ou um diagnóstico”.
No caso indígena, observamos que são raras as vezes que encontramos as vozes de lideranças sendo
efetivamente representadas e suas reivindicações pautadas pelos meios de comunicação. Os porta-vozes
indígenas são, em sua maioria, instituições, organizações não governamentais, que assumem a lacuna
deixada pelo Estado e mídia, no que diz respeito à garantia dos direitos indígenas. Direitos esquecidos
por se tratar de assuntos de um grupo social desprivilegiado. A representação social é definida por
estereótipos, sendo a reafirmação de uma comunicação dominante. Mídia e índio geram temas
conflituosos.
Consideramos válido estudar assuntos ligados ao tema em questão com o objetivo de preparar os
futuros profissionais para garantir que sua função de oferecer informação à sociedade seja respeitada,
garantindo assim os direitos dessa população e contribuindo com sua sobrevivência. A forma como a
mídia representa os índios influencia na maneira como eles mesmos são vistos pela sociedade.
Infelizmente, na maioria dos casos a representação social do índio apresentada pela mídia distorce fatos,
excluindo testemunhas indígenas para privilegiar interesses políticos.
Uma vez que essas vozes indígenas são escutadas e apresentadas sem interferências externas, pode
ser possível que as reivindicações e necessidades indígenas sejam atendidas. Dentre os interesses e
reivindicações desse grupo, podemos destacar o desejo pela inclusão social, autonomia, liberdade,
cidadania, direito à terra e à preservação de suas tradições.
Essa representação baseada no censo comum, se referindo à antiga visão romântica do índio e
bastante utilizada em livros didáticos na escola, reforça uma característica de distanciamento cultural e
contribui para problematizar ainda mais as disputas por terras indígenas. Muitos fazendeiros tem o poder
de influenciar a mídia local, no intuito de denegrir a imagem do índio, descaracterizando-o e diminuindo
sua identidade, consequentemente o seu direito à terra.

Enquadramento e Meios de Comunicação Social

Se partirmos do princípio que a realidade que temos acerca do mundo é construída a partir das
informações que nos chegam da mídia, vemos a importância de analisar o processo de elaboração das
informações sobre o mundo, como forma de entender a própria realidade. Como afirma Luiz Gonzaga
Mota (2005), “são as notícias que tornam o complexo e desordenado mundo no qual vivemos menos
caótico para cada um de nós, que nos ajudam a selecionar, priorizar, organizar e, compreender e ordenar
os acontecimentos da nossa realidade imediata”.
O tema “índio” e o que nos remete sua ideia, geralmente não interessa à mídia comercial, ora por
complicações políticas, ora por desinteresse em relação aos problemas que eles enfrentam, pois se trata
de uma minoria marginalizada. Por esse motivo, consideramos importante entender um pouco do
funcionamento dos bastidores de redações, no intuito de compreender como são estabelecidas e
priorizadas as escolhas pelas informações centrais de uma notícia, ou seja, suas fontes, suas ênfases e
recortes. Em geral, no cotidiano das redações, os jornalistas são orientados a cobrir assuntos exclusivos
e recortando informações de interesse da classe dominante. Mauro Porto (2011) afirma que:

A luta para assegurar a circulação livre de informação é essencial para as democracias


contemporâneas, mas ignorar a esfera da interpretação e dos enquadramentos contribui para obscurecer
importantes problemas das suas estruturas políticas e comunicacionais. [...] A mídia é uma das
instituições mais importantes na formação do conjunto de alternativas nos limites em que as decisões são
tomadas. Neste processo, grupos privilegiados frequentemente têm êxito no enquadramento das
alternativas de forma a sustentar suas próprias posições de poder, ativando, assim, o consenso ativo dos
grupos subalternos. A construção de uma posição política hegemônica depende, em grande parte, de
como a mídia enquadra as alternativas políticas.

O jornalista se apropria das palavras do senso comum, formatando as informações sob sua percepção
em relação à sua experiência de mundo com conceitos e ideias predeterminadas, delimitadas e
classificadas. Os enquadramentos - ou pontos de vista - que são construídos pela mídia, organizam o
mundo tanto para os jornalistas que escrevem relatos sobre ele, como também, em um grau importante,
para nós que recorremos às suas notícias.
Os meios de comunicação são um sistema no qual agentes ativos com objetivos específicos estão
constantemente engajados em um processo de construção de significado. Em lugar de pensá-los como

171
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um conjunto de estímulos aos quais os indivíduos respondem, devemos pensá-los como a arena de uma
disputa simbólica complexa sobre qual interpretação irá prevalecer. Este sistema cultural encontra
indivíduos pensantes e a consciência política emerge a partir da intercessão destes dois níveis.
O jornalista, ao buscar a constituição dos fatos, procura significar, classificar, ressignificar, seja pela
busca na memória coletiva, ou por sua compreensão sob o tema para propiciar a assimilação do receptor.
Nesse sentido, vemos o índio ser representado por características impostas pelo senso comum, sem a
oportunidade dessas representações serem discutidas e pensadas. Assim, relatos apresentados pela
mídia que tem como fontes “lideranças indígenas” nem sempre trazem os significados que os índios
realmente querem mostrar para a sociedade.
Quem detém o controle da mídia são os grandes empresários, as pessoas ligadas ao agronegócio e
aos grandes empreendimentos, enxergando nos índios um retrocesso em relação ao desenvolvimento
econômico. Portanto, as matérias com a temática do índio, em sua maioria, representam-no como
preguiçoso, violento, confuso e em alguns momentos até como ex-índio, diminuindo sua identidade e
consequentemente seus direitos como cidadão brasileiro. Achamos conveniente relacionar o conceito de
enquadramento com o de representações sociais, por considerar que os enquadramentos realizados
pelos jornalistas quando se refere à questão indígena é influenciado pela caracterização de uma
representação social sobre a classe indígenas já difundida e interiorizada pela sociedade. Sendo assim,
a maneira como são abordadas as notícias sobre os problemas do índio influencia sua imagem dentro da
sociedade. Conforme Giltlin, enquadramentos da mídia são padrões persistentes de cognição,
interpretação e apresentação, de seleção, ênfase e exclusão, através dos quais os manipuladores de
símbolos organizam o discurso, seja verbal ou visual, de forma rotineira.
Essas ênfases e recortes nem sempre são fiéis a real representatividade do índio e nem sempre
contribuem para que suas reivindicações sejam atendidas, embora possa situar o leitor sobre o assunto
tratado.

Questões

01. (AL-GO - Analista Legislativo - Comunicador Social - CS-UFG/2015) “Todo homem tem direito
à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e
procurar, receber e difundir in- formações e ideias por quaisquer meios de expressão, independentemente
de fronteiras” (Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos). Esse direito refere-se à:
(A) Liberdade de cátedra.
(B) Liberdade de imprensa.
(C) Liberdade sindical.
(D) Liberdade de expressão.

02. (PC-GO – Papiloscopista – FUNIVERSA/2015) No que se refere à Declaração Universal dos


Direitos Humanos, assinale a alternativa correta.
(A) Todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nessa
Declaração, não se podendo fazer nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou
internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente,
sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
(B) Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
Esse direito pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito
comum.
(C) Aquele que praticar um crime poderá ser culpado por uma ação que, no momento, não constituía
delito perante o direito nacional ou internacional.
(D) Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus
elementares e fundamentais. A instrução técnico-profissional será obrigatória.
(E) A maternidade e a infância têm direito a cuidados e à assistência especiais, sendo que, às crianças
nascidas dentro do matrimônio, é assegurada maior proteção social.

03. (CBM-MG - Oficial do Corpo de Bombeiros Militar – IDECAN/2015) Quanto às considerações


enunciadas no preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, marque a afirmativa
INCORRETA.
(A) O desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultam em atos bárbaros que ultrajam a
consciência da humanidade.
(B) Aspira-se por um mundo em que todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade
de viverem a salvo do temor e da necessidade.

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(C) É essencial que os direitos humanos sejam protegidos por meio de rebeliões contra a opressão
para que o ser humano não seja compelido ao império da lei.
(D) Os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos
fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na igualdade de direitos entre homens e mulheres.

04. (SEE-MG - Professor de Educação Básica – IBFC/2015) Assinale a alternativa correta sobre o
órgão que proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
(A) Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas.
(B) Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
(C) Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.
(D) Assembleia Especial de Justiça da Organização das Nações Unidas.

05. (SAPeJUS – GO - Agente de Segurança Prisional – FUNIVERSA/2015) Segundo a Declaração


Universal dos Direitos Humanos, assinale a alternativa correta.
(A) Deve-se presumir a inocência de todo acusado de um crime até que a sua culpabilidade tenha sido
provada de acordo com a lei, em julgamento público, no qual lhe sejam asseguradas todas as garantias
necessárias a sua defesa.
(B) A lei protege todo homem contra interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar, não
se estendendo tal proteção a sua correspondência.
(C) Todo homem tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros, sendo vedada qualquer
restrição a esse direito.
(D) Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito, no
entanto, não inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião
ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público
ou em particular.
(E) Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito não se estende, porém,
à liberdade de, sem interferências, ter opiniões e procurar, receber e transmitir informações e ideias por
quaisquer meios, além das fronteiras de seu país.

Respostas

01. Resposta: D.
O princípio constante da questão está expresso no Art. 18 da DUDH, que reforça a liberdade de modo
geral e garante que cada indivíduo possa expressar seus pensamentos livremente.

02. Resposta: A.
Letra a) CORRETA, nos termos do Artigo 2 da Declaração: 1. Todo ser humano tem capacidade para
gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie,
seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social,
riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada
na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se
trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra
limitação de soberania.
Letra b) ERRADA, conforme redação do Artigo 14 da Declaração: 1. Toda pessoa, vítima de
perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. 2. Este direito não pode ser
invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos
contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
Letra c) ERRADA, mais claramente definido no Art. 5º, XXXIX, CF: não há crime sem lei anterior que
o defina, nem pena sem prévia cominação legal. Também chamado de Princípio da Reserva Legal.
Letra d) ERRADA, de acordo com Artigo 26 da Declaração: 1. Todo ser humano tem direito à instrução.
A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será
obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos (não obrigatória), bem como a
instrução superior, está baseada no mérito.
Letra e) ERRADA, baseada no preceito do Artigo 25 da Declaração: 2. A maternidade e a infância têm
direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio,
gozarão da mesma proteção social.

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03. Resposta: C.
O desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultam em atos bárbaros que ultrajam a
consciência da humanidade. Quando a questão menciona o desprezo e o desrespeito PELOS direitos
humanos, deixa entender que a palavra PELO faz referência aos atos causados pelos Direitos Humanos
e não contra os Direitos Humanos.

04. Resposta: A.
Conforme consta no preâmbulo: A Assembleia Geral das Nações Unidas proclama a presente
"Declaração Universal dos Direitos do Homem" como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e
todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em
mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses
direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por
assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos
próprios Estados Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

05. Resposta: A.
A questão refere-se à letra da própria DUDH. Assim sendo, tem-se que: Letra a) CORRETA, veja o
Artigo 11, I, DUDH: Todo o homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente
até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe
tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias a sua defesa.
Letra b) ERRADA, nos termos do Artigo 12, DUDH: Ninguém será sujeito a interferências na sua vida
privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques a sua honra e reputação.
Todo o homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Letra c) ERRADA, conforme disposto no Artigo 17, DUDH: I: Todo o homem tem direito à propriedade,
só ou em sociedade com outros. II: Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade. Contudo,
necessário analisar também o art. 5, XXIV da CF - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação
por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em
dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição.
Letra d) ERRADA, diante do texto do Artigo 18, DUDH: Todo o homem tem direito à liberdade de
pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a
liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância,
isolada ou coletivamente, em público ou em particular.
Letra e) ERRADA, de acordo com o Artigo 19, DUDH: Todo o homem tem direito à liberdade de opinião
e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e
transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.

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