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1. INTRODUÇÃO

Este estudo almeja contribuir para o debate acerca do esclarecimento dos títulos

de crédito, esperando auxiliar a interpretação de tais conceitos.

Acreditamos que o jurista não deve jamais ater-se à exegese, mas buscar sempre

o fundamento social que não apenas justifica a norma como também lhe confere

o precioso sopro de vida.


2

2. PARTE HISTÓRICA

Os títulos de crédito surgiram na Idade Média; conforme afirma Fábio U. Coelho;

como instrumentos destinados à facilitação da circulação do crédito comercial.1

Segundo Silvio de S. Venosa, o comércio, em sua fase inicial, necessitava de

instrumentos que permitissem a rápida circulação de bens e de créditos, sem

maiores formalismos. As feiras que se realizavam regularmente nas cidades

apontam as primeiras evidências. As mercadorias deviam estar fisicamente

presentes, a princípio, para serem comercializadas. Não havia, no direito romano

tradicional, a noção de cessão de bens, que ingressa muito lentamente no Direito.

Outra questão que impedia a circulação imaterial dos bens era a necessidade da

proteção da boa-fé do adquirente.

Os títulos de crédito, com a noção moderna, têm origem na letra (lettera) dos

comerciantes italianos da Idade Média. Com o esfacelamento do império romano,

havia grandes dificuldades de transportar valores por terrenos inóspitos, sujeitos a

inimigos e piratas. Criou-se, destarte, a prática de os comerciantes depositarem

quantias junto aos banqueiros, que entregavam um documentos certificando o

fato e atestando a importância. Surgia aí a nota promissória. Por outro lado, os

comerciantes sacavam contra os banqueiros ordens de pagamento, dando origem

1
COELHO, Fábio Ulhoa; Curso de Direito Comercial; Vol. 1; 2003; Ed. Saraiva – São Paulo
3

às letras de câmbio. De início, a letra era um simples instrumento que atestava

um contrato de câmbio, ou seja, troca de moedas.

Com base nessa origem, os costumes foram evoluindo para permitir, além do

vencimentos à vista do título, vencimentos a prazo ou a certo prazo de vista,

surgindo aí o instituto do aceite. Surge, então, a possibilidade de ser transferido o

documento representativo do crédito por meio de endosso, assinatura “in dorso”,

no verso. Essa transferência, no entanto, não tinha, a princípio, a concepção que

hoje conhecemos, possuindo ainda a compreensão da cessão civil de direitos.

Sob esse prisma, a obrigação do endossatário não era autônoma, pois poder-se-

ia alegar contra ele todas as exceções que poderiam ser opostas ao endossante.

Aponta Jorge A. Perrone de Oliveira que somente em meados do século0 XIX foi

atingida a concepção atual dos títulos de crédito, qual seja, o fato de eles

representarem um valor independentemente do negócio jurídico que lhes deu

causa.

Como regra geral, a história dos títulos de crédito aponta quatro fases:

I – período italiano até 1650;

II – período francês, de 1650 a 1848;

III – período germânico, de 1848 a 1930; e

IV – período do direito uniforme, desde 1930.

O período italiano é assim denominado porque o centro das operações de

comércio estava situado nas cidades marítimas da península itálica. As feiras aí

realizadas atraíam mercadores distantes. Cada cidade, porém, tinha sua própria
4

moeda e esse fator constituía dificuldade para o comércio. Daí surgir, então, o

chamado câmbio manual, por meio do qual um corretor encarregava-se da troca

de moedas. No entanto, ainda assim persistia o risco do transporte desses

valores. Evolui-se daí para o chamado câmbio trajetício, pelo qual o banqueiro

recebia moeda de certa espécie em sua cidade e se obrigava a entregar, em

outra praça, a pessoa designada pelo credor, as mesma soma de dinheiro em

outra moeda.

Nesse fenômeno surgia, portanto, o embrião dos títulos de crédito, a fim de

facilitar a rápida circulação de valores. Aponta ainda Luiz Emydio F. da Rosa Jr.

Que o banqueiro, nessa situação, emitia dois documentos: a cautio, que

confessava o reconhecimento da dívida e a promessa de entregar o valor

equivalente no prazo, lugar e moeda que haviam sido contratados, e a littera

cambii, uma carta pela qual o banqueiro dava ordem a seu correspondente,

domiciliado em outra cidade, para pagar ao credor ou a pessoa por ele designada.

Aponta-se que a cautio deu origem à nota promissória e a littera cambii, à letra de

câmbio. Os títulos ainda não tinham a conotação moderna, pois a letra de câmbio

da época apenas podia representar uma operação de câmbio a distância. Sua

função era basicamente de pagamento e não de instrumento de crédito.

No chamado período francês surge na França a cláusula à ordem, em 1650. A

praxe deixara de exigir que a letra de câmbio fosse emitida para lugares distantes,

transformando-se em instrumento de crédito e pagamento entre os comerciantes.

O denominado período alemão tem início em 1848, ano da promulgação da lei

cambial alemã. A letra de câmbio passa a Ter a compreensão moderna, de ordem

de pagamento, título literal e autônomo.


5

O último período, o da Lei Uniforme, corresponde à uniformalização da legislação

cambiária, decorrente da aprovação, em 1930, da Lei Uniforme de Genebra,

quanto às letras de câmbio e notas promissórias e, em 1931, com a Lei Uniforme

sobre cheques. Essa legislação sofreu forte influência da lei alemã de 1848.

João Eunápio Borges recorda que a doutrina afirma que essa divisão é arbitrária e

que a verdadeira transformação ocorreu com a introdução do endosso. Antes do

endosso, a letra é apenas o instrumento de um contrato de câmbio. Com o

endosso e o reconhecimento do direito autônomo do endossatário, a letra adquire

as características de título de crédito, título à ordem , passível de circulação,

rompendo com a tradição romana que não a admitia.

Nosso Código Comercial de 1850 disciplinava as letras de câmbio e notas

promissórias (arts. 314 a 427), no que foi substituído pelo Decreto nº 2.044, de 31

de dezembro de 1908. Essa lei era avançadíssima na época e adaptou-se sem

maiores dificuldades à Lei Uniforme de Genebra, introduzida em nossa legislação

interna. A adoção pelo país da Lei Uniforme trouxe o inconveniente que diz

respeito às “reservas”. Isso significa que países signatários dessa convenção

reservaram-se o direito de regular determinadas matérias, em suas legislações

internas, afastando assim a aplicação da Lei Uniforme. Desse modo, quando se

examina um dispositivo da Lei Uniforme, há que se verificar se nosso país não fez

reserva. Se isso ocorreu, deveremos procurar o dispositivo que trata da matéria

na lei interna, basicamente o Decreto nº 2.044/1908. Do que se explanou, chega-

se à conclusão de que há dispositivos do velho diploma nº 2.044 que continuam

em vigor. Agora, novo obstáculo à harmonização surge com a disciplina geral dos

títulos de crédito no novo Código Civil. Em tese, teremos basicamente três


6

diplomas regulando a mesma matéria, além, das legislações específicas sobre

cheque, duplicata etc.2

2
VENOSA, Silvio de Salvo; Contratos em Espécie, Vol. 3; 2003; Ed. Atlas S.A. – São Paulo
7

3. CONCEITO DE TÍTULOS DE CRÉDITO

Cesare Vivante formulou a sua célebre definição: Título de crédito é um

documento necessário para o exercício do direito literal e autônomo nele

mencionado. Para Rubens Requião, essa definição, concisa e precisa, foi

adotada pelo Código Civil, em nosso país, cujo art. 887 propõe: “ O título de

crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele

contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei”.3

Afirma Fábio U.Coelho; que esse conceito; formulado por Vivante e aceito pela

unanimidade da doutrina comercialista, sintetiza com clareza os elementos

principais da matéria cambial. Nele se encontram, ademais, referências aos

princípios básicos da disciplina do documento (cartularidade, literalidade e

autonomia), de forma que o seu detalhamento permite a apresentação da teoria

geral do direito cambiário.4

De acordo com Maria Helena Diniz; título de crédito, é um documento

comprobatório de uma relação entre credor e devedor e representativo de uma

3
REQUIÃO, Rubens; Curso de Direito Comercial, 2 º volume; 2003; Ed.Saraiva – São Paulo
4
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit
8

obrigação creditícia, facilitando a cobrança judicial do crédito, visto ser título

executivo extrajudicial (CPC, art. 585, I). Todavia, somente produzirá se for

definido por lei especial e quando preencher os requisitos da lei ( CC, art. 887),

pois, apenas a exibição da cártula, ou seja, do documento no qual os atos

cambiários, que constituem o crédito, foram lançados, gera a pretensão ao direito

nele consignado.

É preciso não olvidar que, havendo omissão de qualquer requisito legal, retirando

a validade do título de crédito, não se terá a invalidade do ato negocial

subjacente, que lhe deu origem (CC, art. 888).5

Conforme Fábio U. Coelho, o título de crédito se distingue dos demais

documentos representativos de direitos e obrigações, em três aspectos: em

primeiro lugar, ele se refere unicamente a relações creditícias. Não se documenta

num título de crédito nenhuma outra obrigação, de dar, fazer ou não fazer.

Apenas o crédito titularizado por um ou mais sujeitos, perante outro ou outros,

consta de um instrumento cambial. A Segunda diferença entre o título de crédito e

muitos dos demais documentos representativo de obrigação está ligada à

facilidade na cobrança do crédito em juízo. Ele é definido pela lei processual

como título executivo extrajudicial (CPC, art. 585, I); possui executividade, quer

dizer, dá ao credor o direito de promover a execução judicial do seu direito. Em

terceiro lugar, o título de crédito ostenta o atributo da negociabilidade, ou seja,

está sujeito a certa disciplina jurídica, que torna mais fácil a circulação do crédito,

a negociação do direito nele mencionado. Facilitam, ao credor, encontrar terceiros

interessados em antecipar-lhe o valor da obrigação (ou parte deste), em troca da

5
DINIZ, Maria Helena; Curso de Direito Civil Brasileiro, vol. 3; Teoria das obrigações contratuais e
extracontratuais; 18ª Ed. Revista e atualizada de acordo com o novo Código Civil; 2003; Ed. Saraiva – São
Paulo.
9

titularidade do crédito. Em outros termos, se o credor tem o seu direito

representado por um título de crédito ( por exemplo, uma nota promissória,

duplicata ou cheque pós-data), ele pode facilmente descontá-lo junto ao banco de

que é cliente. Na operação de desconto bancário, o Tcredor do título de crédito

(descontário) transfere a titularidade do seu direito ao banco (desconstador) e

recebe deste, adiantado, uma parte do valor do crédito. No vencimento, o banco

irá cobrar o devedor, lucrando com a diferença entre o valor facial do título e o

montante antecipado ao credor originário.6

6
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit.
10

4. REQUISITOS ESSENCIAIS DOS TÍTULOS DE CRÉDITO

Comenta Maria Helena Diniz, que o título de crédito deve conter a data da sua

emissão, a indicação precisa dos direitos por ele conferidos e a assinatura do

emitente, que pode ser o devedor (cheque e nota promissória) ou o credor (letra

de câmbio e duplicata). Se não contiver indicação de vencimento, será à vista,

contra apresentação. Se o local da emissão e do pagamento não estiver nele

indicado, será o do domicílio do emitente. Assim é porque apenas produzirão

efeitos jurídicos os atos nele lançados. O teor do título é que indicará o conteúdo

e a extensão do direito nele exarado. Ninguém pode pleitear mais direitos nem

exigir mais obrigações do que o mencionado no documento, diante do princípio da

literalidade.

Nada obsta a que o título seja emitido por meio de caracteres criados em

computador ou meio técnico equivalente e que constem da escrituração do

emitente (CC, art. 889, parágrafos 1º a 3º).

Esses requisitos são mínimos para todos os títulos de crédito, inclusive os

inominados, criados pela prática, pois os nominados reger-se-ão por leis

especiais (CC, art. 903). Todos os documentos emitidos com tais requisitos são

títulos de crédito, sujeitos, na hipótese de título ao portador, à autorização legal


11

(CC, art. 907). Não comportam cláusula de estipulação de juros, salvo se lei

especial a admitir, nem proibição de endosso, nem qualquer restrição de direitos e

obrigações, nem excludente de responsabilidade pelo pagamento ou por

despesa, nem mesmo dispensa de observância de termos e formalidade

prescritas (CC, art. 890), em virtude do fato de não ser contrato, mas mera

obrigação de pagar certa quantia pecuniária.7

De acordo com Silvio de Salvo Venosa, deve constar nos títulos de credito os

requisitos essenciais, sem os quais não será considerado eficaz; não terá

obedecido aos aspectos de liquides e certeza. A omissão de qualquer requisito

essencial não faz desaparecer o negócio jurídico que lhe deu causa (CC, art.

888). O art. 889 do CC dispõe que o título deve conter “ a data da emissão, a

indicação precisa dos direitos que confere, e a assinatura do emitente”. Como a

própria lei reconhece no parágrafo 3º do artigo, esses requisitos são os mínimos

exigidos; as leis que regulam os títulos respectivos poderão exigir outros.

Acrescenta o parágrafo 1º que o título será a vista se não contiver indicação de

vencimento, enquanto o parágrafo 2º diz que se considerará lugar da emissão o

de pagamento, quando não indicado no título, o domicílio do emitente.

A Lei Uniforme, no art. 1º, traça os requisitos básicos da letra de câmbio, que é o

título de crédito básico, cujos princípios ilustram todos os demais. O mesmo já

fazia o Decreto nº 2.044/08, também no art. 1º. Desse modo os requisitos

essenciais de cada modalidade de título devem ser procurados na lei específica,

como a nota promissória, cheque, duplicata, cédulas de crédito etc. Em qualquer

um deles estarão, presentes os requisitos referidos do art. 889. Muitos outros

deverão participar necessariamente dos títulos, porém. Embora possa haver


7
DINIZ, Maria Helena, ob. cit.
12

nuanças de uma modalidade para outra, Wilges Bruscato sintetiza o que em

linhas gerais, o título deve conter:

• denominação do título inserida no texto;

• substancia, qual seja, mandato ou ordem, ou promessa de pagamento;

• quantia, inclusive por extenso;

• assinatura do sacador ou emitente;

• identificação do devedor;

• identificação da pessoa a quem título deve ser pago;

• local de pagamento;

• vencimento;

• data e lugar da emissão ou saque;

• assinatura de devedor, se não for o emitente, ou de seu mandatário

especial;

• número de ordem e

• domicílio do devedor.

O novo Código, absorvendo regra tradicional, induz que não havendo indicação

de vencimento, o título é a vista ( CC, art. 889, parágrafo 1º). Se não houver

menção expressa de vencimento a vista, contudo, deve haver espaço na cártula


13

para a referência ao vencimento, pois a exigibilidade a vista não, é o que

ordinariamente ocorre.8

Se o documento for um título de crédito, ele será sinal imprescindível do direito

que nele se contém, de forma que:

I . O direito não existe sem o documento no qual se materializa;

O direito não pode ser exigido sem a exibição e a entrega do título ao devedor

que satisfaz a obrigação nele prometida;

O direito não se transmite sem a transferência do título;

O adquirente do título não é sucessor do cedente, na relação jurídica que o liga

ao devedor, mas se inexiste direito constante do título, como credor originário e

autônomo. São lhe inoponíveis as defesas pessoais do devedor contra seus

antecessores, na propriedade do título.9

8
VENOSA, Silvio de Salvo, ob. cit.
9
Site: www.advocaciaconsultoria. com.br
14

5. CARACTERÍSTICAS DOS TÍTULOS DE CRÉDITO

Três são as características que informam o regime jurídico cambial: cartularidade,

literalidade e autonomia.

5.1 Cartularidade

Segundo Fábio Ulhoa Coelho, para que o credor de um título de crédito exerça os

direitos por ele representados é indispensável que se encontre na posse do

documento (também conhecido por cártula). Sem o preenchimento dessa

condição, mesmo que a pessoa seja efetivamente a credora, não poderá exercer

o seu direito de crédito valendo-se a dos benefícios do regime jurídico-cambial.

Por isso é que se diz, no conceito de título de crédito, que ele é um documento

necessário para o exercício do direito nele contido. Como aplicação prática desse

princípio, tem-se a impossibilidade de se promover a execução judicial do crédito


15

representado instruindo-se a petição inicial com cópia xerográfica do título de

crédito.10

Somente quem exibe a cártula (isto é, o papel em que se lançaram os atos

cambiários constitutivos de crédito) pode pretender a satisfação de uma

pretensão relativamente ao direito documentado pelo título. Quem não se

encontra com o título em sua posse, não se presume credor. Um exemplo

concreto de observância desse princípio é a exigência de exibição do original do

título de crédito na instrução da petição inicial de execução. Não basta a

apresentação de cópia autêntica do título, porque o crédito pode ter sido

transferido a outra pessoa e apenas o possuidor do documento será legítimo

titular do direito creditício.

Como o título de crédito se revela, essencialmente, um instrumento de circulação

do crédito representado, o princípio da cartularidade é a garantia de que o sujeito

que postula a satisfação do direito é mesmo o seu titular. Cópias autênticas não

conferem a mesma garantia, porque quem as apresenta não se encontra

necessariamente na posse do documento original, e pode já tê-lo transferido a

terceiros. A cartularidade é, desse modo, o postulado que evita enriquecimento

indevido de quem, tendo sido credor de um título de crédito, o negociou com

terceiros (descontou num banco, por exemplo). Em virtude dela, quem paga o

título deve, cautelarmente, exigir que le lhe seja entregue. Em primeiro lugar, para

evitar que a cambial, embora paga, seja ainda negociada com terceiros de boa-fé,

que terão direito de exigir novo pagamento; em segundo, para que o pagador

possa exercer, contra outros devedores, o direito de regresso (quando for o caso).

10
COELHO, Fábio Ulhoa; Manual de Direito Comercial; 14ª Edição;2003; Editora Saraiva; São Paulo
16

O princípio da cartularidade não se aplica, no direito brasileiro, inteiramente à

duplicata mercantil ou de prestação de serviços. Há hipóteses em que a lei

franqueia ao credor desses títulos o exercício de direito cambiários, mesmo que

não se encontre na posse do documento. Assim, prevê o protesto por indicações

(LD, art. 13, parágrafo 1º, in fine), meio pelo qual o credor da duplicata retirada

pelo devedor pode protestá-la, apenas fornecendo ao cartorário os elementos que

a individualizam (nome do devedor, quantia devida, fatura originária, vencimento

etc.); prevê a lei, também, a possibilidade de execução judicial da duplicata

mercantil não restituída pelo devedor, desde que protestada por indicações e

acompanhada do comprovante da entrega e recebimento das mercadorias (LD,

art. 15, II). O princípio da cartularidade é excepcionado, em parte, em relação às

duplicatas.11

5.2 Literalidade

Para Rubens Requião, o título é literal porque sua existência se regula pelo teor

de seu conteúdo. O título de crédito se enuncia em um escrito12; segundo Fábio

Ulhoa Coelho; somente produzem efeitos jurídico-cambiais os atos lançados no

próprio título de crédito. Atos documentados em instrumentos apartados, ainda

que válidos e eficazes entre os sujeitos diretamente envolvidos, não produzirão

efeitos perante o portador do título. O exemplo mais apropriado de observância do

princípio está na quitação dada em recibo separado. Quem paga parcialmente um

11
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit.
12
REQUIÃO, Rubens, ob. cit.
17

título deve pedir a quitação na própria cártula, pois não poderá se exonerar de

pagar o valor total, se ela vier a ser transferida a terceiro de boa-fé. Outro

exemplo de aplicação do princípio da literalidade se encontra na inexistência do

aval, quando o pretenso avalista apenas se obrigou em instrumento apartado. Se

do título não consta a assinatura da pessoa de quem se pretendia o aval, a

garantia simplesmente não existe, em razão do princípio da literalidade.

O princípio da literalidade projeta conseqüências favoráveis e contrárias, tanto

para o credor, como para o devedor. De um lado, nenhum credor pode pleitear

mais direitos que os resultantes exclusivamente do conteúdo do título de crédito;

isso corresponde, para o devedor, a garantia de que não será obrigado a mais do

que o mencionado no documento. De outro lado, o titular do crédito pode exigir

todas as obrigações decorrentes das assinaturas constantes da cambial; o que

representa, para os obrigados, o dever de as satisfazer na exata extensão

mencionado no título. Se alguém deve mais do que a quantia escrita na cambial,

só poderá ser cobrado, com base no título, pelo valor do documento; se deve

menos, não poderá exonerar-se de pagar todo o montante registrado. Esses

aspectos da literalidade são os responsáveis pela facilitação na circulação do

crédito documentado em título de crédito. O terceiro descontador tende a

concordar com a operação de desconto, ou seja, tem maior interesse em adiantar

parte do valor do título, para posteriormente cobrar a totalidade do devedor,

porque pode, sem outra providência além da leitura do documento, certificar-se da

existência e extensão do crédito transacionado.


18

O princípio da literalidade, a exemplo do da cartularidade, não se aplica

inteiramente à disciplina da duplicata, cuja quitação pode ser dada, pelo legítimo

portador do título, em documento em separado (LD, art. 9º, parágrafo 1º).13

5.3 Autonomia

Rubens Requião, diz que o título de crédito é autônomo, mas segundo Vivante,

porque o possuidor de boa-fé exercita um direito próprio, que não pode ser

restringido ou destruído em virtude das relações existentes entre os anteriores

possuidores e o devedor. Cada obrigação que deriva do título é autônoma em

relação às demais.14

De acordo com Fábio Ulhoa Coelho, as implicações do princípio da autonomia

representam a garantia efetiva de circulabilidade do título de crédito. O terceiro

descontador não precisa investigar as condições em que o crédito transacionado

teve origem, pois ainda que haja irregularidade, invalidade ou ineficácia na

relação fundamental, ele não terá o seu direito maculado.

Princípio da autonomia das obrigações cambiais se desdobra em dois outros

subprincípios, o da abstração e o da inoponibilidade das exceções pessoais aos

terceiros de boa-fé. É qualificado de subprincípios porque, na verdade, nada

acrescentam ao que já se encontra determinado pelo princípio da autonomia. A

abstração e a inoponibilidade corrrespondem a modos diferentes de se reproduzir

13
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit.
14
REQUIÃO, Rubens, ob. cit.
19

o preceito da independência entre as obrigações documentadas no mesmo título

de crédito.

5.4 Abstração

Ressalta Fábio Ulhoa Coelho, que somente se verifica a abstração, se o título

circula. Em outros termos, só quando é transferido para terceiros de boa-fé,

opera-se o desligamento entre o documento cambial e a relação em que teve

origem. A conseqüência disso é a impossibilidade de o devedor exonerar-se de

suas obrigações cambiárias, perante terceiros de boa-fé, em razão de

irregularidades, nulidades ou vícios de qualquer ordem que contaminem a relação

fundamental. E ele não se exonera exatamente porque o título perdeu seus

vínculos com tal relação.

Quando o título de crédito é posto em circulação, diz-se que se opera a

abstração, isto é, a desvinculação do ato ou negócio jurídico que deu ensejo à

sua criação.

5.5 Inoponibilidade

Pelo subprincípio da inoponibilidade das exceções pessoais aos terceiros de boa-

fé, o executado em virtude de um título de crédito não pode alegar, em seus


20

embargos, matéria de defesa estranha à sua relação direta como o exeqüente,

salvo provando a má-fé. São, em outros termos, inoponíveis aos terceiros

defesas (exceções) não fundadas no título.15

15
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit.
21

6. TEORIA DE VIVANTE

Vivante desdobra a relação jurídica em duas partes, baseada em um duplo

sentido da vontade. Para explicar a posição distinta do devedor, há que penetrar

nos motivos de sua vontade, fazer a análise desta vontade, que é o fundamento

da obrigação, e reconhecer que se ele, para obter o benefício do crédito, quis dar

à outra parte, seja vendedor ou mutuante, um título apto para a circulação, quis

também não obstante, conservar intatas contra ele as defesas que o direito

comum proporciona. Mas a disciplina do título deve adaptar-se a essa diferente

direção da vontade que lhe deu origem, devendo a condição do devedor regular-

se conforme a relação jurídica total que deu origem ao título, quando se encontra

ante aquele com quem o negociou; e se deva, em troca, ajustar a sua vontade

unilateral, tal como se manifestou no título, se encontra frente aos subseqüentes

portadores de boa-fé.

Assim, em relação ao seu credor, o devedor do título se obriga por uma relação

contratual, motivo por que contra ele mantém intatas as defesas pessoais que o

direito comum lhe assegura; em relação a terceiros, o fundamento da obrigação

está na sua firma (do emissor), que expressa sua vontade unilateral de obrigar-
22

se, e essa manifestação não deve defraudar as esperanças que desperta em sua

circulação.16

16
Site: www.advocaciaconsultoria.com.br
23

7. TEORIA DA CRIAÇÃO

O direito deriva da criação do título. O subscritor dispõe de um elemento de seu

patrimônio; fez para a vida o que, por um testamento, faria para efeitos post

mortem; dispor dos próprios bens. O título é como o testamento: tem valor

próprio, dispensa e lhe repugna o acordo de vontades. O emissor fica ligado a

sua assinatura, e obrigado para o futuro portador, credor eventual e

indeterminado. Mas só com o aparecimento desse futuro detentor é que nasce a

obrigação. Assim, com a entrada em circulação do título nasce a obrigação; com

a concepção do escrito nasce, apenas o título.17

A conseqüência da teoria da criação é severa e grave. O título roubado ou

perdido, antes da emissão, mas após a criação, leva consigo a obrigação do

subscrito.

17
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24

8. TEORIA DA EMISSÃO

Sustenta essa teoria que do ato da criação, isto é, da assinatura do título, não

pode surgir vínculo algum, porque a redação e subscrição não patenteiam ainda

a vontade de se obrigar. Só após o abandono voluntário da posse, seja por ato

unilateral, seja por tradição, é que nasce a obrigação do subscritor. Sem emissão

voluntária não se forma o vínculo. Se o título foi posto fraudulentamente em

circulação, não subsiste a obrigação.18

18
REQUIÃO, Rubens, ob. cit.
25

9. TEORIA ADOTADA PELO DIREITO BRASILEIRO

Afirma Rubens Requião, que o antigo Código Civil brasileiro disciplinou os

títulos de crédito ao portador, embora fosse muito criticada a inclusão dessa

matéria em seu âmbito. Considerou-os não como resultantes de relação

contratual, mas de declaração unilateral da vontade. Por isso alinhou-os sob

o título Das Obrigações por Declaração Unilateral da Vontade, ao lado do

capítulo “ Da Promessa de Recompensa”.

Não é fácil, por outro lado, situar a doutrina do Código de 1916 entre as

teorias da criação ou da emissão. Clóvis, ao estudar a reivindicação dos

títulos ao portador, revela que “fundiram-se em nosso direito doutrinas

divergentes”. Em face dos diversos dispositivos legais, com efeito, ora

aparece-nos a teoria da emissão, ora a da criação. Tomemos como

exemplo o disposto no art. 1.506, que dizia: “ A obrigação do emissor

subsiste, ainda que o título tenha entrado em circulação contra a sua

vontade”. Isso é pura teoria da criação, na qual se integra a obrigação pela

simples assinatura do subscritor no título, pouco importando que o tenha

feito circular.

A possibilidade de reaver o título, posto a circular indevidamente, nos

aproxima da teoria da emissão... O Código atual, no art. 909 e parágrafo


26

único, tem disposição semelhante, ao estabelecer “ o proprietário, que

perder ou extraviar título, ou for injustamente desapossado dele, poderá

obter novo título em juízo, bem como impedir sejam pagos a outrem capital

e rendimentos”. Conclui que “o pagamento, feito antes de ter ciência da

ação referida neste artigo, exonera o devedor, salvo se provar que ele tinha

conhecimento do fato”.

A conclusão a tirar é que o Código de 1916 não se filiou puramente a

nenhuma das duas teorias, temperando os rigores da teoria da criação com

nuanças da teoria da emissão. Tal ecletismo foi mantido no Código de

2002.19

19
REQUIÃO, Rubens, ob. cit.
27

10. TÍTULO DE CRÉDITO EM BRANCO

Segundo Venosa20, nada impede que o título seja criado ou emitido com espaços

em branco, ou totalmente em banco. É fundamental para sua exigibilidade,

contudo, que a cambial esteja completa no momento da cobrança. Nesse

diapasão, surge a problemática de há muito tratada pela doutrina sobre os títulos

assinados ou emitidos em branco. Na nota promissória, por exemplo, que contém

uma promessa de pagamento, bem como em outros títulos, como cheque e letra

de câmbio, apenas a assinatura do emitente é essencial ao título quando de sua

formação. O emitente aceita e confia a quem entregar o título o preenchimento da

nota, tais como valor, vencimento, lugar de pagamento etc. Importa saber a

natureza desse fenômeno.

Lembre-se de que há muito o STF firmou o entendimento na Súmula 387: “A

cambial emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada

pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto”.

Sistematizando o pensamento doutrinário, há um mandato claro nessa letra em

branco, conferido ao portador de boa-fé. Questões surgirão quando ocorrer

20
Venosa Direito Civil Contratos em espécie pg.449
28

abusos nesse mandato, isto é, no preenchimento. Quem recebe um título

incompleto ou em branco recebe também a autorização para preenchê-lo. Importa

que o faça de boa-fé, de acordo com o mandato recebido. Cabe aos interessados

acautelaram-se devidamente, resguardando-se com um documento escrito que

defina e delimite esse mandato, ou seja, a autorização para o preenchimento da

cártula. Lembre-se, porém, de que uma vez em circulação o título, esse negócio

inicial é, com princípio, estranho ao portador atual, não podendo o devedor opor-

lhe essa exceção. A pendenga resolver-se-á, nesse caso, pelas vias ordinárias

entre os participantes do mandato.

A respeito do título de crédito incompleto e do que expusemos aqui, dispões o

artigo 891 do Novo Código:

“O título de crédito, incompleto ao tempo da emissão, deve ser preenchido de

conformidade com os ajustes realizados”.

Parágrafo único. O descumprimento dos ajustes previstos neste artigo

pelos que dele participaram não constitui motivo de oposição ao terceiro portador,

salvo se este, ao adquirir o título, tiver agido de má-fé.

A disposição harmoniza-se com o artigo 10 da Lei Uniforme. Se o portador sabe

do ajuste do mandato e se vale de sua posição para cobrar quantia exorbitante,

estará consubstanciada sua má-fé, possibilitando matéria de defesa, como aduz a

lei.
29

11. SAQUE

Doutrinando sobre este instituto, Venosa21 diz que o emitente de um título deve

ter plena capacidade, como em todos os atos da vida civil. Ao emitir o título, seja

ele letra de câmbio, nota promissória, cheque ou qualquer outro, também o

emitente vincula-se solidariamente ao título, com relação ao portador de boa-fé,

na hipótese de circulação.

No entanto, quando um título de crédito é criado pelo credor, ele terá a posição de

sacador. É evidente que um negócio subjacente deve legitimar o saque, ou seja,

uma obrigação anterior. O saque, admitido em alguns títulos, como a letra de

câmbio e a nota promissória envolvem sempre, no nascedouro, um negócio

jurídico que dá origem ao crédito.

21
Venosa. Direito Civil, Contratos em espécie. pg 449
30

12. ACEITE

Quando é credor que efetua o saque, sendo o sacador, há necessidade de que o

devedor concorde com ele, isto é, reconheça a obrigação de pagar estampa no

título. Ao firmar o título nessas condições, dá-se o aceite, isto é, o sacado aceita a

posição de devedor naquele título. Por meio de aceito, o sacado assume a

posição de devedor principal do título, embora todos os futuros apositores de

assinaturas na cártula também se vinculem solidariamente. O aceite é ato

voluntário que deve ser conferido pelo próprio sacado. O sacador pode emitir a

ordem para pagar a um terceiro beneficiário ou a ele próprio.

Nos títulos mais amplos, nos quais figuram o sacador, sacado e o beneficiário,

como a letra de câmbio, pode ocorrer que o sacado não concorde em aceitar ou

não seja encontrado para tal. Nessa vertente, ocorre a recusa ou falta de aceite.

Essa recusa ou falta de aceite somente pode ser comprovada pelo protesto, ato

formal que estudaremos adiante. O protesto evidenciará essa situação, sendo

essencial para preservar o direito de regresso contra os demais coobrigados do

título, se houver. Apresentado o título para aceite, o protesto deve ocorrer no

primeiro dia útil imediato.


31

O aceite pode ser parcial, isto é, o sacado somente aceita parte do débito, ou

modificativo, quando o sacado altera a data do vencimento ou o lugar de

pagamento. O aceite também pode se condicional, quando o sacado submete o

pagamento a uma condição suspensiva ou resolutiva. Note que “o sacador não

pode lançar uma ordem condicional no título de crédito, mas o sacado pode

lançar um aceite condicional” (Bruscato, 2001:33). O sacado vincula-se com o

aceite, segundo a condições que declarou.

Note também que o aceite não é essencial para a existência, validade e eficácia

da letra, que pode ter vida independentemente dele. Basta a assinatura do

sacador ou emitente que, na falta de aceite, será o devedor principal. A firma do

sacador na cártula representa promessa ao tomador de que haverá o aceite, e na

hipótese de este não ocorrer, responsabiliza-se o sacador. Tomador é o que

receber o título e se coloca como beneficiário ou possuidor. O sacado, cujo nome

consta da letra, é quem deve aceitá-lo, por si ou por meio de mandatário

especial. Contudo, enquanto não houver o aceite, não há responsabilidade do

sacado. O aceite deve ser dado no próprio título. Aceite em separado não cria

obrigação cambial, apesar de debate na doutrina a esse respeito. No caso de

duplicatas, a lei permite expressamente que seja dado em separado (artigo 7º da

Lei no 5.474/68). A responsabilidade cambial do sacado surge com seu aceite. No

caso das duplicatas, título causal representativo de uma venda, a recusa do

aceite somente pode ocorrer com base nas situações elencadas na lei (artigo 8º

da Lei no 5.474/68).

Um terceiro pode aceitar a letra assumindo a posição de interveniente. Cuida-se

do aceite por intervenção. Waldirio Bulgarelli observa que de acordo com a lei
32

uniforme, o aceite por intervenção somente pode ocorrer após o protesto

(1987:146).

O aceite, uma vez dado, é irretratável. A Lei Uniforme permite, contudo, que o

aceitante cancele o ato antes da restituição da letra, o que equivale à recusa. O

sacado, ao receber a letra, deve devolvê-la imediatamente.


33

13. ENDOSSO

Segundo Venosa22, após a criação do título, importa lembrar acerca de sua

circulação, outra de suas características importantes. O endosso é o modo

peculiar de transferência cambiária. É um dos modos de circulação, pois esta

também pode ocorrer por simples tradição do título. Entende-se que, a princípio, o

possuidor do título goza de boa-fé e pode exercer todos os direitos inerentes ao

título. Sob esse prisma, o art. 893 do novo Código dispõe que “a transferência do

título de crédito implica a de todos os direitos que lhe são inerentes”. Desse

modo, tradição e endosso são as duas modalidades de transferência do título de

forma injusta ou indevida, o que caracteriza a má-fé, tal é matéria a ser provada

pelo devedor e interessados. Mais uma vez enfatiza o novo Código, no artigo 901,

que ficará desonerado o devedor que paga o título ao legitimo portador, no

vencimento, sem oposição, salvo se agiu de má-fé.

Ao endossar o título, assinando-o, o endossante transfere a cártula ao

endossatário, com o direito nele incorporado. O endossatário torna-se o legitimo

portador. O termo significava a assinatura “ no dorso, isto é, no verso do título. A

22
Venosa. Direito Civil. Contratos em espécie. Pg. 451
34

Lei Uniforme não fez essa exigência, de modo que o endosso pode-se dar em

qualquer local da cártula, no verso ou anverso. Esse também é o sentido do artigo

910 do novo Código, que dispõe que o endosso pode ser dado no verso ou no

anverso do próprio título. Somente para o endosso em branco a lei exige que seja

no verso ou em folha anexa, denominada alongamento do título, quando há falta

de especo (artigo 13 da Lei Uniforme). Endosso em branco caracteriza-se por

simples assinatura que autoriza a transferência do título, sem indicação do

beneficiário. Após o endosso em branco, o título circula por simples tradição. No

endosso em preto, o endossante indica expressamente: “pague a fulano de Tal”.

No endosso em preto inaugura-se denominada cadeia de endossos: cada

endossatário pode, por sua vez, também endossar. Note que, pelo princípio da

autonomia das obrigações cambiárias, a falsidade de uma das assinaturas de

endosso, não viciada a cadeia de endossos, uma vez que o portador não é

obrigado a verificar a autenticidade de cada assinatura (Oliveira, 1999:89). Sob

esse prisma, o artigo 911, parágrafo único, do novo Código estatui que aquele

que paga título está obrigado a verificar a regularidade da série de endossos, mas

não a autenticidade das assinaturas.

Como regra geral, o portador de título com uma série regular e ininterrupta de

endossos é considerado o legítimo possuidor do título, ainda que o último

endosso seja em branco (artigo 911 do novo Código).

Quem recebe o título por endosso em branco pode mudá-lo para endosso em

preto, colocando seu nome ou nome de terceiro; pode também endossar

novamente o título, em branco ou em preto, ou pode transferi-lo sem novo

endosso, mediante simples tradição. Essas regras, consagradas por força de

usos e costumes, constam expressamente do artigo 913 do novo Código.


35

O endosso não admite condição. Deve ser puro e simples, não se admitindo, da

mesma forma, endosso parcial. Nesse sentido se coloca expressamente o artigo

912 do novo Código, ao considerar não escrita qualquer condição aposto no

endosso e dando como nulo o endosso parcial. O possuidor de um título

endossado em branco é considerado seu legitimo portador, salvo provar em

contrário.

A Lei Uniforme admitiu que a letra contenha a cláusula “não à ordem”, que era

vedada pelo Decreto no 2.044. Essa cláusula proíbe a circulação por meio do

endosso. A transmissão do título, nesse caso, por tradição, tem o efeito de mera

cessão civil. Geralmente, a problemática do título não à ordem surge quando a

nota promissória, por exemplo, se mostra vinculada a um contrato. É comum essa

rotina nos contratos de mútuos bancários. Sem a ressalva expressa da vinculação

e a advertência a terceiros, a regra geral é a ampla circulação do título. Como

observa Jorge Perrone de Oliveira, nada impede, pois, que a vinculação a

determinado contrato seja descrita na própria cártula e que, as demais, para

maior segurança do devedor, seja colocada a proibição de circulação (1999:91).

O novo Código Civil cria aqui uma questão a ser analisada, pois o artigo 890

considera não escrita cláusula proibitiva de endosso. A princípio, por força do

artigo 903, essa disposição terá o condão de derrogar a Lei Uniforme. Com a

palavra, a jurisprudência.

O endosso, como já dito, instituto de natureza eminentemente cambiária, possui

várias distinções da cessão de crédito. O endosso é ato unilateral, enquanto a

cessão é negócio bilateral. O endosso confere os direitos cambiários autônomos,

estampados no título, enquanto a cessão é restrita aos direitos que descreve. O


36

endosso somente ocorre por meio de ato cambial, no próprio título, enquanto a

cessão possui a forma de contrato.

O artigo 919 do novo Código observa que a aquisição do título à ordem, por meio

diverso do endosso, tem efeito de cessão civil. Há, nesse caso, que se pesquisar

a vontade dos interessados, pois o artigo 913 permite que o endossatário

transfira o título sem novo endosso, sem que com isso se excluam como regra, os

direitos cambiários.

Por outro lado, o chamado endosso póstumo, ou seja, o endosso posterior ao

vencimento do título produzirá os mesmos efeitos do anterior. (artigo 920). A

disposição já constava da Lei Uniforme (artigo 20), diferentemente do Decreto no

2.044 que concedia a esse endosso apenas o efeito de cessão civil. No entanto,

há um complemento no artigo 20 da Lei Uniforme, que não consta no artigo 920:

“Todavia, o endosso posterior ao protesto por falta de pagamento, ou feito depois

de expirado o prazo fixado para se fazer o protesto, produz apenas efeitos de

uma cessão ordinária de créditos. Salva prova em contrário, presume-se que um

endosso sem data foi feito antes de expirado o prazo fixado para se fazer o

protesto”.

Não tendo disposto diferentemente o novo Código Civil, há que se entender como

aplicável o complemento da Lei Uniforme. Os efeitos de cessão civil ocorrerão

nessa prevista e restrita hipótese. Com esse efeito de cessão civil, o título não

perde sua executoriedade, mas perde a abstração podendo ser invocadas em

face do endossatário, considerado cessionário, todas exceções que o devedor

tinha contra o endossante (Cedente) (Oliveira, 1999:96).


37

Quem recebe um título mediante endosso, recebe um título literal e autônomo. O

endossatário, por seu lado, ao lançar sua assinatura na cártula, também se torna

solidariamente responsável pelo valor nele contido. Pode-se afirmar que o título

de crédito tem um visco: quem que nele aponha sua assinatura ficará obrigado.

Esse sentido sempre fora tradicional em direito cartular, tanto que a Lei Uniforme,

no artigo 15, estipula que, salvo cláusula em contrário, o endossante é garante,

tanto da aceitação como do pagamento da letra. O novo Código Civil modifica

para o sentido oposto essa óptica: “Ressalvada cláusula expressa em contrário,

constante do endosso, não responde o endossante pelo cumprimento da

prestação constante no título (artigo 914). Desse modo, na regra geral do novo

Código Civil, desprezando norma da Lei Uniforme, o endossante não mais se

responsabiliza pelo título, salvo menção expressa. Acrescenta o § 1º do artigo 914

que “assumindo responsabilidade pelo pagamento, o endossante se torna

devedor solidário”. Pergunta-se: implicar-se-á a regra doravante a todos os títulos

de créditos? Pelo artigo 15 da Lei Uniforme, o endossante, salvo disposição em

contrário, é garante tanto da aceitação como do pagamento da letra. Deve ser

estabelecida doravante nova praxe nos títulos, para que o endossante

permaneça devedor solidário, apondo-se expressão “endossante solidário” ou

equivalente. Certamente, o mercado de títulos de crédito não receberá bem essa

norma. Caberá à nova jurisprudência definir o âmbito de sua aplicação. Com a

inovação do novo Código, coloca-se em relevo a função precípua do endosso,

que não é reforçar a garantia, mas transferir a cártula. Desse modo, nesse novo

sistema, o endosso não implica solidariedade, salvo cláusula expressa em

contrario.
38

Lembre-se de que o endossante, ou qualquer coobrigado, pagando o valor do

título, tem ação regressiva contra os coobrigados anteriores.

Há que se mencionar, além do endosso propriamente dito, o endosso-mandato ou

endosso-procuração que traz outra série de questões. A Lei Uniforme, o

menciona no artigo 18. Trata-se de endosso que não transfere a propriedade da

cártula, mas somente outorga poderes de cobrança ao portador. O endossatário

poderá cobrar o título, mas somente em nome do endossante. Desse modo, os

obrigados somente podem opor contra esse endossatário as exceções que

oporiam ao endossante. Cuida-se de uma modalidade de mandato própria do

direito cambial. A lei não exige forma específica, basta que fique evidenciado.

De acordo com a Revista do Advogado23, o endosso é o modo específico de

circulação dos títulos à ordem e representa uma simplificação em relação à

circulação dos créditos do direito comum, sujeitos às regras dos artigos 206 a 298

do Código Civil. Consiste na simples assinatura do proprietário no verso ou no

anverso do Título (Código Civil, artigo 910), antecedida ou não de uma declaração

indicando a pessoa a quem a soma dever ser paga.

Todavia, o endosso não nos permite apresentar uma definição simples e unitária,

em razão das múltiplas funções que exerce e dos seus diversos efeitos. Assim, a

qualificação jurídica do endosso não pode ser determinada a não ser em relação

a cada uma dessas alternativas.24

Atendendo à sua principal função, que á a transferência do título, podemos dizer

que endosso é a declaração cambial lançada nos títulos à ordem pelo seu

23
Revista do Advogado (a circulação dos títulos de crédito no novo Código Civil p. 36-37
24
Antonio Pavone La Rosa, Lê Letra de cambio, cit, p.303
39

proprietário (endossante), a fim de transferi-lo a terceiro (endossatário). É um dos

elementos necessários para circulação dos títulos à ordem, ou seja, um dos

elementos que, justamente com a tradição, integra a transmissão do título (Lei

Uniforme, artigo 11).

O artigo 11 da Lei Uniforme afirma peremptoriamente que a letra de câmbio é

transmissível mediante endosso, ainda que a cláusula “à ordem” não conste no

seu texto, e esta característica foi mantida no Código Civil, que considera não

escrita a cláusula proibitiva de endosso (artigo 890).

Todavia, como o artigo 903 do Código dispõe que a lei especial, em matéria de

títulos de crédito, sobrepõe-se aos dispositivos do próprio Código, deve-se

entender que, em matéria de letra de câmbio e notas promissórias, a Lei Uniforme

continua aplicável, sendo a elas admissíveis as restrições ao endosso previstas

na própria Lei Uniforme, examinadas abaixo.

Pelos mesmos motivos, não se aplica às letras de câmbio e notas promissórias o

disposto na parte final do mesmo artigo 890 do Código, que dispões considera-ser

não escrita a clausula que: ”Além dos limites fixados em lei, exclua ou restrinja

direitos e obrigações”.

O artigo 890 do Código Civil também não aplica as duplicatas, pois a Lei no

5.474/68 não contém disposições específicas sobre a transmissão das duplicatas,

aplicando-se subsidiariamente, assim normas da Lei Uniforme, conforme previsto

no artigo 25 da Lei no 5.474/68.

O disposto no Código se restringe aos denominados títulos de crédito atípicos.

Quanto à cláusula restritiva de novo endosso, veja-se o título próprio, abaixo.


40

Se atentarmos para outras funções exercidas pelo endosso, veremos que ele

sempre transfere a posse, mas nem sempre a propriedade do título no endosso-

mandato, por exemplo, não se transfira a propriedade, somente a posse do título.

O endosso confere direitos autônomos, ao contrário da cessão civil, da qual

resultam direitos derivados.

Na cessão civil, o cessionário coloca-se no lugar do cedente, sucedendo-lhe o

mesmo direito do qual aquele era titular, ficando sujeito às mesmas exceções

àqueles oponíveis. O endossatário, ao contrário, recebe um direito distinto e

autônomo em relação ao direito do endossante; daí a possibilidade de aquisição a

non doino, em que o endossante transfere um direito do qual não era titular e,

sendo o endossatário terceiro de boa-fé, nenhuma exceção poderá lhe ser

oposta.

13.1 O endosso de títulos nominativos

A definição de endosso que apresentamos acima se pode afigurar restritiva, em

face do disposto no artigo 923, caput, do Código Civil, que admite a transferência

dos títulos nominativos por endosso, uma inovação em nosso direito.

Mantemos a definição, no entanto. O próprio artigo 921 do Código Civil define o

título nominativo como “o emitido em favor de pessoa cujo nome conste no

registro do emitente”.
41

Ainda que o Código Civil permita a transferência dos títulos nominativos por

endosso, este possui efeitos limitados, pois só tem eficácia perante o emitente do

título uma vez feita a competente averbação no seu registro. Portanto, não

podemos dizer que o endosso dos títulos nominativos seria, por si, para a

transferência da propriedade.

Pode-se objetar, ainda, contra a definição que adotamos, que o endosso dos

títulos “à ordem” também não transfira, por si, a propriedade do título, pois se faz

necessária a tradição do mesmo. Ocorre que esse ato é praticado pelo próprio

endossante, não por terceiro, como exige o Código, no endosso de títulos

nominativos.

O Código Civil estabeleceu, no entanto, um requisito adicional para o endosso

dos títulos nominativos, que não está presente nos títulos à ordem: o endossatário

deve comprovar a autenticidade da assinatura de todos os endossantes (artigo

923, § 2º parte final).

Uma parte da doutrina entendeu que a necessidade de comprovação da

autenticidade dos endosso nos títulos nominativos contraria a tradição de nosso

direito.25 Sem razão, no entanto. Não é da tradição do nosso direito a

transferência por endosso dos títulos nominativos e o que distingue a sua

circulação daquela dos títulos à ordem é, precisamente, a segurança que a

caracteriza. Portanto, teve razão o legislador em exigir a comprovação da

autenticidade que, em razão da novidade, não encontra tradição a ser

contrariada.

25
Mauro Rodrigues Penteado, “Exposição justificativa de proposta de modificação do Título VIII, Livro I,
Parte Especial, do Projeto de Código Civil ( PLC no 11/84) que dispõe sobre os títulos de crédito”, in O
Projeto de Código Civil no Senado Federal, Brasília, Senado Federal, 1998, v. II, p. 292, nota 54.
42

13.2 Qualificação Jurídica do Endosso

O endosso é ato tipicamente cambiário, por que só pode ter por objeto título de

crédito. É ato jurídico unilateral (traduz a manifestação de vontade de uma única

parte) e abstrato, ao contrário da cessão de crédito, que é ato convencional. Não

se confundem endosso e cessão, portanto, em fase do princípio de autonomia

dos direito e obrigações cartulares.

Alguns autores afirmam que o endosso representa uma sub-rogação, que se daria

em virtude de lei, mas concordamos com Orlando Gomes em que o uso do termo

“sub-rogação” com referência à cessão de direitos é inconveniente “porque o

termo se usa para significar a transmissão de um gravame sobre coisas”26.

É o endosso, portanto, uma ordem de pagamento, dada ao sacado-aceitante

(letra de câmbio, duplicata, cheque) ou emitente (nota promissória), pelo

endossador (proprietário do título) a favor de endossatário, ou seja, do terceiro a

quem ele transfira a propriedade do título.

13.3 Requisitos do endosso

São requisitos do endosso cambiário a incondicionalidade e a proibição do

endosso parcial.
26
Orlando Gomes. Obrigações, 15ª ed. Rio de Janeiro. Forense, 2002, item 154, p. 212
43

O endosso parcial é considerado nulo pelo artigo 1º da Lei Uniforme, dispondo no

mesmo sentido o artigo 18, caput, da Lei do Cheque (Lei no 7.357/85).

Esse entendimento foi mantido no artigo 912, parágrafo único, do Código Civil.

Como explica Ascarelli, o título é coisa indivisível; o endosso transmite a posse da

coisa: daí a impossibilidade do endosso ser parcial, pois não pode ser parcial a

transmissão da posse da coisa indivisível.27

No endosso condicional o endosso é válido, mas a condição considera-se não

escrita (artigo 12 da Lei Uniforme; Código Civil, artigo 912, caput).

Como a própria origem da palavra indica, “endosso” significa “in dorso”, ou seja,

no verso; o endosso é, habitualmente, lançado no verso do título.

A regra é a seguinte: quando o endosso é representado apenas pela assinatura

do endossante, ela deve ser lançada no verso do título. Quando o endosso é

precedido de uma expressão que traduza a vontade de endossar (como as

declarações ä título de endosso”, “vale” endosso, “por endosso”, etc.) o endosso

pode ser lançado tanto no verso como no anverso do título. Assim dispõem a Lei

Uniforme (artigo 13) e o Código Civil (artigo 910 § 1º ).

O Código Civil (artigo 910) se refere, apenas, ao endosso lança no verso ou no

anverso do próprio título, mas deve-se entender admissível o endosso lançado no

alongamento do próprio título, que é uma folha ligada a ele. O alongamento, sob

aos aspectos físico e jurídico, é considerado como se fosse o próprio título (por

exemplo, Lei Uniforme, artigo 13; Lei do Cheque, artigo 19 caput).

27
Túlio Ascarelli, Teoria Geral dos Títulos de Crédito, São Paulo, Saraiva, 1943, pg. 313, nota 2
44

A razão para tanto se revela pelo fato de que apesar de a lei não limitar o número

de assinaturas (endosso, avais, etc.) que pode conter o título, o seu espaço físico

pode ser insuficiente para a totalidade das assinaturas.

13.3 Efeitos do endosso

O endosso produz dois efeitos: serve para a transmissão do título e para a

garantia de seu pagamento.

Para que o adquirente esteja legitimado ao exercício do direito mencionado no

título não basta que ele esteja na posse do mesmo: é necessário que exista um

endosso a seu favor.

Se forem vários endosso, é necessário que sejam contínuos, ou seja, que haja

identidade entre o autor de cada um dos endossos e o beneficiário do endosso

precedente.

Assim a legitimação cartular para o exercício do direito cambiário nasce do

concurso de dois elementos: a posse do título e o endosso. Nesse sentido é que

se afirma que o endosso transmite a propriedade do título (Lei Uniforme, artigos

14 e 16).

Porém, no endosso somente produz tal efeito se a ele se seguir a entrega efetiva

e real do título ao endossatário. Permanecendo o título nas mãos do endossante,


45

este pode, a qualquer tempo cancelar o endosso. Assim, a propriedade dos títulos

à ordem se transfere não só pelo endosso, em apenas pela tradição, mas pela

tradição do título devidamente endossado, o que equivale à tradição

documentada (Código Civil, artigo 910 § 2º).

O endosso cancelado, isto é, riscado pelo endossante, será considerado não

escrito, não produzindo, pois, efeitos (Lei Uniforme, artigo, 16). O Código Civil se

refere, ainda, ao endosso riscado “parcialmente” (artigo 910, § 3º), ao qual atribui

os mesmos efeitos que o riscado totalmente.

Aparentemente o legislador quis esclarecer que qualquer “risco” invalida o

endosso, mas a expressão pouco acrescenta, significando, apenas, que esse fato

invalida a declaração unilateral de vontade de endossar.

O endosso, quando realizado porá transmitir o título (a exceção, como visto, é o

endosso-mandato), tem, na legislação especial, o efeito de constituir para o

endossante uma obrigação solidária de regresso (Lei Uniforme, artigos 15 e 16).

Essa obrigação solidária para com os demais obrigados do título, que assume o

endossante a favor do endossatário, é absolutamente abstrata, no sentido de que,

nos títulos causais, os vícios literais que neles se apresentam não aproveitam ao

endossante. Este, ao endossar a cártula, assuem uma obrigação abstrata, por

força mesmo da abstração que o título causal, originariamente nulo em mãos do

emitente, assuem ao circular.

Ora, se a circulação dos títulos à ordem se faz pelo endosso, este opera a

abstração do título e, portanto, a abstração da obrigação do endossante, solidária,

outrossim, com os demais obrigados.


46

A regra acima foi invertida pelo Código Civil, no artigo 914, caput, com a seguinte

redação:

“Artigo 914. Ressalvada cláusula expressa em contrário, constante do endosso,

não responde o endossante pelo cumprimento da obrigação constante do título”.

O disposto no artigo 914 do Código não se aplica ao endosso das letras de

cambio e notas promissórias em razão do disposto no artigo 903 do Código, que

dispões que a lei especial, em matéria de títulos de crédito, sobrepões-se aos

dispositivos do próprio Código.

Também não se aplica às duplicatas, pois a Lei no 5.474/68 não contém

disposições específicas sobre a transmissão da duplicata, aplicando-se,

subsidiariamente, as normas da Lei Uniforme, conforme previsto no artigo 25 da

Lei do Cheque (Lei no 7.357/85).

Igualmente, não se aplica aos cheques, em razão do disposto no artigo 21 da Lei

do Cheque (Lei no 7.357/85).

O disposto no artigo 914 do Código se restringe, portanto, aos denominados

títulos de crédito atípicos.

São imponíveis ao endossatário as exceções pessoais do devedor contra

os endossantes anteriores (Código Civil, artigo 916).


47

13.4 Cláusulas especiais

Já vimos que o endosso produz, como regra geral, o efeito de criar uma obrigação

de garantia do pagamento para o endossante, que pode ser exercida pela via do

direito de regresso, caso venha a ser negado o aceite ou o pagamento do título.

No entanto, mediante cláusula expressa no próprio título, o endossante pode se

exonerar dessa responsabilidade. Essas cláusulas estão sendo denominadas

cláusulas especiais.

À vista do disposto no artigo 912 do Código Civil, que considera “não escrita no

endosso qualquer condições a que o subordine o endossante”, vale notar que as

cláusulas especiais abaixo examinadas não configuram condições. Na definição

do artigo 121 do mesmo Código.

“Considera-se condição a cláusula que, derivando exclusivamente da vontade

das partes, subordina o efeito do ato jurídico a evento futuro e incerto”.

As clausulas a seguir referidas não subordinam o endosso a evento incerto, mas

limitam a responsabilidade do endossante, não configurando condições. De

qualquer forma, não se aplicam ao endosso das letras de câmbio e notas

promissórias em razão do disposto no artigo 903 do Código, que dispõe que a lei

especial, em matéria de títulos de crédito, sobrepõe-se aos dispositivos do próprio

Código.

Pelo mesmo motivo, não se aplica às letras de câmbio e notas promissórias o

disposto na parte final do mesmo artigo 890 do Código, que dispõe considerar-se
48

não escrita a cláusula que: “ Além dos limites fixados em lei, exclua ou restrinja

direitos e obrigações”.

O artigo 890 do Código Civil também não se aplica à duplicatas, pois a Lei no

5.474/68 não contém disposições específicas sobre a transmissão da duplicata,

aplicando-se, subsidiariamente, as normas da Lei Uniforme, conforme previsto no

artigo 25 da Lei no 5.474/68.

Igualmente, não se aplica ao cheque, cuja transmissão está regulada nos artigos

17 a 28 da Lei no 7.357/85.

O disposto no Código se restringe aos denominados títulos de crédito atípicos.

13.4 Cláusula “não à ordem”

A Lei uniforme, como visto, não inclui como requisito essencial da letra de câmbio

a presença da cláusula “à ordem”. Isto porque a cambial, por sua natureza, é um

título à ordem (Lei Uniforme, artigo 11, alínea 1). Ainda assim, permitiu o

legislador que o sacador, e apenas ele, insira na letra de câmbio a cláusula “não à

ordem” (Lei Uniforme artigo 11, alínea 2). A cláusula “não à ordem” é a cláusula

pela qual o sacador impede a circulação do título por endosso, passando a ser

transferível somente por meio de uma cessão civil (Lei Uniforme, artigo 11). Ela

não retira do título sua característica cambiária e nem proíbe a sua circulação;

apenas veda que essa circulação se faça por meio de endosso.


49

O Código Civil considera não escrita a cláusula proibitiva de endosso (artigo 890)

em dispositivo aplicável, por conseqüência, à cláusula “não à ordem”. Todavia,

pelas razões aqui expostas deve-se entender que a cláusula “não à ordem” não

se aplica às letras de câmbio e notas promissórias.

O artigo 890 do Código Civil também não se aplica à duplicatas, pois a Lei no

5.474/68 não contém disposições específicas sobre a transmissão da duplicata,

aplicando-se, subsidiariamente , as normas da Lei Uniforme, conforme previsto no

artigo 25 da Lei no 5.474/68. Igualmente, não se aplica ao cheque, pois o disposto

no artigo 17 § 1º, da Lei no 7.357/85 admite, expressamente, a aposição da

cláusula “não à ordem”.

O disposto no Código Civil se restringe, portanto, aos denominados títulos de

crédito atípicos.

13.6 Cláusula restritiva de novo endosso

O portado, ao endossar o título, pode proibir novo endosso, para não ficar

responsável pelo pagamento perante os endossatários posteriores. A cláusula

restritiva de novo endosso não impede, propriamente, o novo endosso, mas este

não produzirá efeitos cambiários, pois o endossante não garante o pagamento a

quem a letra de câmbio for posteriormente endossada (Lei Uniforme, artigo 15,
50

alínea 2ª). Essa cláusula só produz efeitos em relação àquele que inseri-la no

título.28

O Código Civil considera não escrita a Clausula proibitiva de endosso (artigo 890),

dispositivo aplicável, por conseqüência, à possibilidade de novo endosso.

Todavia, deve-se entender que a cláusula restritiva de novo endosso não se

aplica às letras de câmbio e notas promissórias.

O artigo 890 do Código Civil também não se aplica às duplicatas, pois a Lei no

5.474/68 não contém disposições específicas sobre a transmissão da duplicata,

aplicando-se subsidiariamente, as normas de Lei Uniforme, conforme previsto no

artigo 25 da Lei no 5.474/68.

Igualmente, não se aplica ao cheque, pois o artigo 21, parágrafo único, da Lei no

7.357/85, admite expressamente a cláusula restritiva de novo endosso.

O disposto no Código se restringe, portanto, aos denominados títulos de crédito

atípicos.

Distingue-se a cláusula restritiva de novo endosso da cláusula “não à ordem”, que

só pode ser aposta por sacador na letra de câmbio ou emitente na nota

promissória.

28
Luiz Emydio F. da Rosa Jr., Títulos de crédito, Rio de Janeiro, Renovar, 2000, p. 235
51

13.7 Cláusula “sem garantia”

Por meio da cláusula ‘sem garantia”, o endossante se exonera de

responsabilidade cambiária perante qualquer portador. Ela tem efeito diversos da

cláusula restritiva de novo endosso, pois esta atua somente em favor do

endossante que a inseriu (Lei Uniforme, artigo 15 alínea 1ª ), ficando liberado da

obrigação solidária do pagamento ou do aceita da letra de câmbio.

O Código Civil considera não escrita a cláusula excludente de responsabilidade

pelo pagamento (artigo 890). Todavia, deve-se entender que a cláusula “sem

garantia” aposta nas letras de cambio e notas promissórias.

O artigo 890 do Código Civil também não se aplica às duplicatas, pois a Lei no

5.474/68, não contém disposições específicas sobre a transmissão de duplicata,

aplicando-se, subsidiariamente, as normas da Lei Uniforme, conforme previsto no

artigo 25 da Lei no 5.474/68.

Igualmente, o disposto no artigo 890 do Código Civil é inaplicável aos cheques,

em razão do dispostos no artigo 21, parágrafo único, da Lei do Cheque (Lei no

7.357/85).

O disposto no Código se restringe, portanto, aos denominados títulos de crédito

atípicos.

Distingue-se a cláusula “sem garantia” da cláusula “não à ordem”, que só pode

ser aposta por sacador na letra de câmbio ou emitente na nota promissória. A


52

cláusula “sem garantia” tem efeitos exclusivamente cambiários, pois não impede

que seja efetivada a responsabilidade do endossante por meio de ação causal.29

13.8 Modalidade de endosso

O endosso, sem qualquer qualificativo, na legislação especial, é aquele que

transfere a propriedade do título e todos os direitos dele emergentes. Legitima,

pois, o endossatário a exercer os direitos inerentes ao título e a dispor do mesmo,

mas gera a obrigação solidária pelo seu pagamento.

No Código Civil, como regra geral, o endosso não gera a responsabilidade pelo

pagamento do título (artigo 814, caput).

13.9 Endosso em preto e em branco

As expressões endosso em preto e em branco estão consagradas pelo uso e,

hoje, pelo Código Civil, que usa ambos os termos sem esclarecer o seu preciso

significado (artigo 913).

29
Antonio Pavone La Rosa, La Letra de cambio, cit, p. 336.
53

Endosso em preto, pleno ou completo, é aquele em que se menciona o nome do

endossatário, traduzido em geral pela expressão “pague-se a fulano”.

Endosso em branco é aquele em que não se cita o nome do endossatário,

revelando-se mediante a simples assinatura do endossante, podendo ou não

haver uma expressão indicativa, por exemplo, “por endosso” ou simplesmente

“endosso”.

Para fins de circulação, pode equiparar-se o endosso em branco com a cláusula

“à ordem”, pois o título poderá, a qualquer momento, voltar a circular por endosso.

O Código Civil (artigo 913) admite o preenchimento pelo endossatário do endosso

em branco com seu nome ou de terceiro, em dispositivo cuja aplicabilidade será

examinada abaixo.

Assim, o artigo 14 da Lei Uniforme estabelece que o portador de um título

endossado em branco poderá preencher o espaço em branco, endossar

novamente o título ou, simplesmente, transferi-lo como título ao portador Lei do

cheque (Lei no 7.357/85, artigo 20, inciso I), igualmente, permite o preenchimento

pelo portador do endosso em branco.

O endosso em branco foi vedado pelo disposto na Lei no 8.088/90, artigo 19, nos

seguintes termos: “todos os títulos, valores mobiliários e cambiais serão emitidos

sempre sob a forma nominativa, sendo transferíveis somente por endosso em

preto”.

A doutrina permaneceu omissa sobre os efeitos da Lei no 8.088/90 em relação à

Lei Uniforme, com a exceção de Rubens Requião, que, por sua vez, se limita a

registrar a dúvida sobre “se a lei ordinária tem supremacia sobre a Lei Uniforme,
54

que expressamente prevê a forma não nominativa do endosso, ou seja, o

endosso em branco.30

31
Conforme expusemos em trabalho anterior, com fundamento na jurisprudência

do Supremo Tribunal Federal32 e do Superior Tribunal de Justiça33 o legislador

tem, sim, esta possibilidade, pois a lei posterior revoga a anterior. Todavia, no

caso concreto, podemos acrescentar outros argumentos ao anteriormente

expostos, como segue.

Segundo entendemos, o artigo 11 da Lei Uniforme afirma, peremptoriamente, que

a letra de câmbio é transmissível mediante endosso, e esta característica não

pode ser alterada pelo legislador nacional. No entanto, no artigo 13 ela expressa

uma faculdade, afirmando que o endosso “pode não designar o beneficiário”.

Nada indica, ao nosso ver, que o legislador ordinário tenha a obrigação de

oferecer ambas as opções ao endossante, mas, sim, que ele tem a faculdade de

fazê-lo. Se ele o fizer, terá que obedecer ao disposto no artigo 13, 2ª alínea, da

Lei Uniforme, admitindo que o endosso em branco seja escrito “no verso da letra

ou da folha anexa”.

Desta forma, entendemos que a restrição a essa faculdade, pelo legislador

ordinário, não exclui do endosso os efeitos que lhe são próprios, nem impede que

ele seja realizado pela outra modalidade prevista na própria lei (endosso em

30
Rubens Requião, Curso de direito comercial, 2º vol., 22ª ed, atual, São Paulo, Saraiva, 2000, pg. 268.
31
Títulos de crédito: em conformidade com o novo Código Civil, cit., item 5.1.6. pg. 43
32
Supremo Tribunal Federal, Extradição – EXT-662/PU, Tribunal Peno, Relator Ministro Celso de Mello;
votação: por maioria; resultado: deferida em parte; julgamento em 28 de novembro de 1996, publicação
diário da Justiça e 30/5/1997, p. 231176, Ementário, v. 01871-01; p. 00015. Precedentes referidos: Recurso
Extraordinário no 80004, Revista Trimestral de Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal – RTJ –
83/8009, EXT-541, RTJ-145/428, EXT-396, RTJ-105/3, EXT-669, EXT-633.
33
Superior Tribunal de Justiça, Recurso Especial no 74.376-RJ. Terceira Turma, Relator Ministro Eduardo
Ribeiro, julgamento em 9 de outubro de 1995, unânime.
55

preto). Assim, o legislador nacional pode eliminar a possibilidade de serem os

títulos endossados em branco sem ferir o disposto na Lei Uniforme.

O Código Civil apresenta duas inovações em relação a esse regime legal:

a) admite a existência de títulos ao portador, ainda que sujeitos a lei

especial (artigos 904 a 909).

No entanto, o mesmo Código ressalta, no artigo 903, que, “salvo disposição

diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste

Código”.

A Lei no 8.088/90 é lei especial em relação ao Código Civil, lei geral por sua

própria natureza, ainda que não tenha a característica de lei geral sobre títulos de

crédito, bem como em ralação à Lei Uniforme, lei geral sobre letras de câmbio e

notas promissórias. Por esta razão continuamos entendendo que, salvo na

hipótese de revogação expressa da Lei no 8.088/90, não é possível o endosso em

branco de títulos de crédito em nosso direito.

É inaplicável, no confronte entre a Lei no 8.088/90 e o Código Civil, o princípio de

que a lei posterior revoga a anterior em virtude da disposição expressa do artigo

903 do próprio Código.


56

13.10 Endosso-mandato

Endosso-mandado ou endosso-procuração é aquele em que o endossante visa

apenas constituir o endossatário seu procurador, para efeito de cobrar o valor do

título (Lei Uniforme, artigo 18).

Na redação do artigo 917, caput, do Código Civil, ele “confere ao endossatário o

exercício dos direitos inerentes ao título. Não transfere a propriedade do título,

portanto (apenas a posse), nem o endossante assume qualquer responsabilidade

frente ao endossatário” 34.

O endossatário, nessa hipótese, é mero representante do endossante para agir

em seu nome, judicial ou amigavelmente. Representa, portanto, esta hipótese, e

uma exceção à regra do endosso como instrumento para transferência do título.

Exerce, assim, o procurador, direitos em nome do endossante e nunca em seu

próprio nome, não podendo, pois, alienar o título, embora possa endossá-lo

novamente na qualidade de procurador.

O endosso-mandato só assinala, por exemplo, com a declaração: “Pague-se ao

Banco tal valor em cobrança”, vindo em seguida a assinatura do endossante-

mandante.

O endossante-mandatário não exerce direito próprio, portanto, só lhe serão

oponíveis as exceções que seriam oponíveis contra o mandante (endossante).

34
Por estas razões Fran Martins. Titulo de crédito, 5ª ed. Ver, e aum., Rio de Janeiro, Forense, 1987, v I, pg.
168, o denomina um “falso endosso”.
57

A Lei Uniforme, artigo 18 quis dizer que esse mandato não se extingue por morte

ou incapacidade do “mandante”, e não do “mandatário”, havendo erro de

tradução. O Código Civil corrigiu o erro da nossa tradução da Lei Uniforme, ao

dispor “com a morte ou a superveniente incapacidade do endossante, não perde a

eficácia o endosso-mandato” (artigo 117, § 2º ).

No mesmo sentido, ainda, o artigo 26, parágrafo único, da Lei do Cheque (Lei no

7.357/85).

Fica parcialmente alterado, assim, no que se refere aos títulos de crédito, o

sistema do Código Civil que dispõe extinguir-se o mandato pela morte ou

interdição de uma das partes (artigo 682, inciso II), ou pela mudança de estado

que inabilite o mandante a conferir os poderes, ou mandatário para exercer

(artigo 682, inciso III)35 .

No Código Civil, se interpretarmos literalmente o disposto no artigo 917, § 1º. O

endossatário, no endosso-mandato, ao endossar novamente, não pode restringir

os poderes que outorga, em disposição já criticada por Fran Martins, que não via

razão para se impedir a restrição de poderes36. O que não é possível,

evidentemente, se interpretada a norma dentro do sistema, é outorgar mais

poderes do que se recebeu, não mesmo.

35
O mesmo ocorria nos regime do Código Civil de 1916.
36
Fran Martins. Titulo de crédito, cit., , v I, pg. 170.
58

13.11 Endosso-penhor

O denominado endosso-penhor (Código Civil, artigo 918), também chamado

endosso-caução ou endosso pignoratício, constitui um penhor do título de crédito

mediante simples endosso.

Como visto acima, constitui-se em forma de garantia utilizada principalmente para

empréstimos concedidos pelos bancos a seus clientes.

Por meio dele, o endossatário pode exercer todos os direitos inerentes ao título.

Não transfere a propriedade do título, no entanto, apenas a posse.

O endosso lançado pelo endossatário caucionado somente vale como endosso-

mandato porque, não sendo proprietário do título, não pode o endossatário

pignoratício transferi-lo a terceiros.

Por isso, diz a ali que qualquer endosso por ele feito vale como endosso-

mandato, ou seja, ele só pode endossar novamente o título na qualidade de

procurador (Código Civil, artigo 918 § 2º ).

13.12 Endosso póstumo

Endosso póstumo é aquele lançado posteriormente ao vencimento do título. De

acordo com o artigo 920 do Código Civil e artigo 20 da Lei Uniforme, o endosso

posterior ao vencimento tem os mesmo efeitos do endosso anterior a ele.


59

O Código Civil não distingue entre o endosso lançado posteriormente ao protesto

e aquele anterior a ele, para determinar os seus efeitos, ao contrário do artigo 20

da Lei Uniforme.

Todavia, como o artigo 903 do Código dispõe que a disposição da lei especial, em

matéria de títulos de crédito, Sobrepõe-se aos dispositivos do Código, dever-se

entender que, em matéria de letras de câmbio e notas promissórias, a Lei

Uniforme continua aplicável.

Assim, em matéria de letras de câmbio e notas promissórias, o endosso lançado

depois do protesto ou depois de espirado o prazo de apresentação para protesto

produzirá os efeitos de uma cessão civil, por aplicação do artigo 20 da Lei

Uniforme.

O mesmo ocorre com os cheques, em razão do disposto no artigo 27 da Lei do

Cheque (Lei no 7.357/85).

O artigo 920 do Código Civil também não se aplica às duplicatas, pois a Lei no

5.474/68 não contém disposições específicas sobre a transmissão da duplicata,

aplicando-se, subsidiariamente, as normas da Lei Uniforme, conforme previsto no

artigo 25 da Lei no 5.474/68.

O disposto no Código se restringe, portanto, aos denominados, títulos de crédito

atípicos. Isto significa que, embora se revestindo da forma de endosso, o ato não

irá gozar da autonomia característica dos títulos de crédito, mas estará sujeito às

regras da cessão civil (artigo 887 a 903 do Código Civil): o mesmo ocorrerá com a

aquisição de título por qualquer meio diverso do endosso (Código Civil, artigo

919).
60

13.13 Conclusão

Verificamos, no curso dessa exposição, no confronto entre a disciplina dos títulos

de crédito na legislação especial com o Código Civil, que a principal modificação

trazida por este se refere à possibilidade de criação dos chamados títulos de

crédito atípicos.

Ainda que o legislador tenha previsto a possibilidade de circulação desses títulos,

bem como a aposição de garantias de terceiros no mesmo, eles não contam,

salvo cláusula expressarem sentido contrário, com a responsabilidade solidária

dos endossantes. Resta saber, portanto, o que só poderá ser avaliado pela classe

empresarial, da utilidade de um título circular sem essa garantia.

É de se notar que, se uma determinada fórmula de circulação de direitos vier a

ser adotada de tal forma pela classe empresarial que justifique o seu tratamento

legislativo, a fim de garantir a segurança necessária para a sua utilização, isto

significaria a criação de um novo título típico.

Os denominados títulos de crédito atípicos também não se caracterizam como

títulos executivos extrajudiciais, por falta de previsão legal, não gozando das

garantias do processo de execução. Para isto, dependeriam de outra alteração

legislativa, desta vez no Código de Processo Civil.

Ainda que se possa imaginar essa alteração, não nos parece possível uma

tipicidade aberta dos títulos executivos, de forma que cada particular possa criar o

seu, pela sua vontade autônoma, sob pena de se desvirtuar o processo de

execução.
61

Uma parte da doutrina aventou a possibilidade de se incluir, nos referidos títulos,

a assinatura de duas testemunhas, para transformar os títulos atípicos em títulos

executivos. Neste caso, estaríamos desvirtuando a essência da legislação

cambiária que, precisamente para garantir a circulação dos mesmos, rejeita a

possibilidade de assinatura sem efeitos cambiários.

A ação monitória, por sua vez, que é perfeitamente aplicável aos referidos títulos,

Aída não se revelou um instrumento eficaz para a segurança as relações

jurídicas,. Isto porque, ainda que a defesa do devedor seja exercida por meio de

ação autônoma, ela não traz a garantia da constrição sobre os bens do devedor, a

grande vantagem prática do processo de execução.

Por fim, dada a alteração do artigo 2º da Lei no 6.385/76 (Lei do Mercado de

Valores Mobiliários) pela Lei no 10.303/2001, é de se imaginar, ainda, a

possibilidade de circulação de tais títulos como valores mobiliários, cabendo a

cada um refletir sobre qual será a vantagem por eles oferecida para a segurança

do mercado de capitais.

Estas as observações que julgamos necessárias fazer ao regime da circulação

dos títulos de crédito no atual Código Civil, em confronto com a legislação

especial que permanece em vigor.


62

14. AVAL

De acordo com o doutrinador Venosa37, o aval representa uma declaração

cambial, cuja finalidade é garantir o pagamento de um título de crédito. O

pagamento dos títulos de crédito em geral, independentemente de aceito ou de

endosso, pode ser garantido por aval. Nesse sentido, o artigo 897 do novo Código

Civil dispõe, genericamente, que o pagamento de título de crédito, que contenha

obrigação de pagar soma determinada, pode ser garantido por aval. O aval é,

portanto, uma garantia pessoal, na qual um terceiro se responsabiliza pelo

cumprimento da obrigação estampada no título, nas mesmas condições do

devedor ou de qualquer obrigado. É instituto essencialmente cambiário, regido por

regras próprias.

Reina muita divergência quanto à origem da palavra. Rosa Jr. refere-se a quatro

correntes explicativas (2000:269). Alguns juristas franceses apóia à valoir, tendo o

significado do ato atribui valor a um título de crédito. Segundo outros, aval teria

origem na palavra árabe havala, que tem sentido de obrigação de garantia. Uma

37
Venosa. Direito Civil: Contrato em Espécie, pg.449-458
63

terceira corrente vê a origem no terno italiano avallo e francês à val, significando

firmare a vallo, ou seja, assinar abaixo de outra firma. A quarta corrente busca a

origem da palavra nos termos latinos vallatus, vallare, que evoluíram finalmente

para avallo, com o sentido de reforço de obrigações.

O aval constitui uma obrigação autônoma e independente. Como já expusemos,

todos os signatários de um título, como regra, sacador, endossantes, aceitante e

avalistas garantem solidariamente o pagamento. Enquanto nas obrigações civis

em geral a garantia é um acessório, na obrigação cambial o avalista equipara-se

ao avalizado. O aval é, destarte, modalidade de garantia tipicamente cambial. O

avalista obriga-se no mesmo nível de seu avalizado.

O aval surge como uma assinatura aposta ao título, tanto de forma singela como

precedida de uma declaração como “por aval de fulano”, “em garantia de”. A Lei

Uniforme dispõe que o aval deve indicar a pessoa que se avaliza; na falta de

indicação, entender-se-á que o aval é do sacador (artigo 31). Esse mesmo

dispositivo menciona que o aval deve ser colocado na face anterior do título, o

que nunca foi muito seguido na prática. Tanto assim é que o novo Código Civil

permite que o aval seja colocado no verso ou anverso (artigo 898). Esse mesmo

artigo, no § 1º , da mais recente lei, dispõe que se o aval for dado no anverso do

título, é suficiente a simples assinatura. Acrescenta ainda o § 2º , que se

considera não escrito o aval cancelado. O artigo 899, modificando a orientação da

Lei Uniforme, diz que o avalista equipara-se àquele cujo nome indicar (“por aval

de fulano”). Na falta de informação, o aval se referirá ao emitente ou devedor final.

O aval, portanto, é uma garantia in rem, ao valor do título , e não in presonam. O

aval é, na verdade, um reforço das garantias cambiais, isto é, as já existentes, por


64

sua natureza, no título cambial. Sendo instituto exclusivo dos títulos de crédito, só

terá eficácia quando lançado no bojo de um deles.

Os maiores pontos de contato e também de celeuma do aval é com a fiança. Os

institutos afastam-se, porém. Muitas são as diferenças. Apontam-se,

exemplificativamente, algumas. A fiança é garantia pessoal, disciplinada

doravante exclusivamente pelo Código Civil, não havendo mais que se distinguir a

fiança civil da fiança mercantil, diferença ainda persistente no sistema do Código

do 1916. O aval é uma declaração cambiária. A fiança é contrato, estando sujeita

á autorização conjugal se o fiador é casado, o que não ocorre no aval. No aval, a

garantia é de uma obrigação liquida, por essa é a natureza da obrigação

cambiária. A fiança, por outro lado, pode garantir qualquer obrigação, liquida ou

ilíquida. A fiança é contrato intuitu personae, enquanto o aval é garantia a

pessoas indeterminada ainda que seja em preto. No aval não se permite o

benefício de ordem admitido na fiança, porque a obrigação do avalista é solidária.

O fiador que paga sub-roga em todos os direitos do credor, mas somente poderá

demandar de cada um dos outros fiadores a perspectiva quota (artigo 831; antigo

artigo 1.495 do Código); o avalista que paga assume direito autônomo, originário,

em relação à pessoa avalizada e aos demais devedores.

O aval, que é garantia, também não se confunde com o endosso, como vimos,

que é forma de transferência do título. Ambos, contudo, são figuras exclusivas do

direito cambiário. Enquanto o endosso somente pode ser formalizado por pessoa

determinada entre as que figuram no título, beneficiário ou portador, o aval pode

ser firmado por qualquer pessoa, estranho ou não à relação cambiária.


65

O aval deve constar do título ou em folha anexa, segundo o artigo 31 da Lei

Uniforme. A folha anexa é o chamado alongamento do título, que se faz

necessário por falta de espaço.

Também no aval há referência ao aval em branco e ao aval em preto. Neste

último, o avalista indica o nome do avalizado (“por aval de...” ou expressão

equivalente). O aval em branco, sem indicação do avalizado, já referido no artigo

898 do novo Código, deve ser dado no anverso, para não se confundir com o

endosso (Lei Uniforme, artigo 31). Não há nulidade, no entanto, se lançado no

verso e puder ser claramente identificado (Rosa Jr., 2000:279).

O novo Código Civil veda expressamente o aval parcial (artigo 897, parágrafo

único). O tema foi objeto de discussão no passado, pois a autorização de aval

parcial não constava do Decreto no 2.044. A Lei Uniforme admitiu-o

expressamente no artigo 30. Essa permissão sempre foi entendida inconveniente

pelas dificuldades práticas que acarreta, razão pela qual o novo Código optou

pela proibição peremptória.

Outra questão de interesse que o instituto do aval levanta é quanto à

possibilidade de aval antecipado, isto é, concedido antes do aceito e do endosso.

O artigo 14 do Decreto no 2.044 admitia expressamente. A Lei Uniforme silencia.

A doutrina diverge com acalorados debates sobre sua admissão e sua natureza

jurídica. Parece-nos que esse aval não contraria os princípios de autonomia ínsita

às obrigações cambiais. Se o aval antecipado não seguir a formalização cambial

do avalizado, se, por exemplo, aval de futuro endosso que não se completa, esse

aval, que era condicional, não terá eficácia. Contudo, a matéria longe está de uma

posição majoritária.
66

A questão dos avais superpostos é outro tema polêmico. Não há dificuldades do

ponto de vista do credor, pois, tendo em vista a autonomia das obrigações e

solidariedade de todo os coobrigados, de qualquer um deles pode ser exigido o

pagamento. O problema situa-se no âmbito dos próprios avalista, porque é regra

cambial a possibilidade de ação regressiva por parte daquele que pagou. Se os

avais são simultâneos, não haverá, em síntese, direito de enegreço que supões

uma sucessividade de avais e de coobrigados. Também aqui a doutrina divide-se;

uns defendendo que na presença de vários avais, devem ser considerados

simultâneos; outros entendendo que devem ser considerados sucessivos. O STF,

de há muito, editou a Súmula 189, adotando a primeira corrente, entendendo que

avais em branco e superpostos consideram-se simultâneos e não sucessivos.

Nesse caso, não haverá obrigação cambiária entre eles, respondendo todos pela

integralidade do crédito, sem possibilidade de divisão pro rata. No entanto,

Perrone de Oliveira lembra de rumoroso julgado do próprio SRF que decidiu de

forma inversa, admitindo que o avalista que pagou, pode cobrar do outro avalista

a quota parte de vida por esse coobrigado (RE no 70.715, RTJ 55/77) (1000:113).

Se não é a decisão mais técnica, é, sem dúvida, a mais justa. Para que sejam

evitados entraves, quando há vários avais, os interessados devem indicar

claramente a quem é dado o aval, porque é possível ser dado aval, a aval já

dado. O novo Código Civil não toma posição expressa a respeito como fez, por

exemplo, a Lei do Cheque, que estabeleceu no artigo 51, § 3º , que as regras das

obrigações solidárias regem as relações entre coobrigados do mesmo grau.

A regra geral, todavia, fora essas situações, é no sentido de o avalista ter ação

de regresso contra o avalizado e demais coobrigados anteriores (artigo 899, § 1º

do novo Código). Esse mesmo dispositivo, no § 2º , atendendo à autonomia das


67

obrigações cambiais, assevera que subsiste a responsabilidade do avalista, ainda

que nula a obrigação de quem a ele se equipara, a menos que a nulidade decorra

de vício de forma. Tanto assim é que persiste o aval se dado em referência a um

menor, por exemplo.

O aval também pode ser dado posteriormente ao vencimento do título, cujos

efeitos são idênticos ao aval anterior.


68

15. CLASSIFICAÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS

Maria Helena Diniz38, afirma que os títulos de crédito poderão ser: 39

1º - Normativos, se contiverem uma declaração receptícia de vontade

dirigida a pessoa identificada, sendo a prestação por esta exigível; logo, o credor

da obrigação será a pessoa em cujo favor se emite a declaração, sendo que esta

poderá investir outra pessoa na sua titularidade por meio das normas atinentes à

cessão de crédito, exceto se houver cláusula proibitiva (Código Civil, artigos. 921

a 926);

2º - À Ordem, se o réus credendi for nomeado, mas com possibilidade de

efetuar-se sua transferência mediante mera aposição de assinatura no verso ou

anverso do título (Código Civil, artigos. 919 a 920). O endosso é, portanto, o ato

pelo qual se transfere a propriedade ou a posse de um título de crédito, sendo

obrigatória a indicação do número do endossante, pessoa física ou pessoa

jurídica, no imposto de renda (CPF ou CGC). Pode ser mencionada a pessoa

38
Maria Helena Diniz Curso de Direito Civil Brasileiro. Teoria das Obrigações Contratuais e
Extracontratuais. pg. 748
39
Caio M. S. Pereira, op. cit. 486-8 e 491-7. Floriano Lima de Toledo, op. Cit., p. 221-50. Gualtier e
Winszhy, Título circulatórios, ns. 63 e 67, Ascarelli, Teoria geral dos títulos de crédito São Paulo, Saraiva,
1993, Messineo, I Titoli di credito, 2, ed. CEDAM, 1934, 2 v.
69

favorecida (endosso em preto), isto é, o endossatário, a pessoa a quem se

transfere o título, ou, então, não a mencionar, caso em que se terá o endosso em

branco, constituindo na simples assinatura do endossante, transformando-se o

título nominativo em título ao portador. É o caso, por exemplo, do título cambial,

que poderá revestir a forma de uma ordem de pagamento. Ou nota de

pagamento (nota promissória) A duplicata também é um título à ordem, que

consiste num instrumento emitido e entregue pelo vendedor ao comprador, nas

vendas mercantis à prazo. Pode ser, ainda, emitida na prestação de serviço. O

cheque é uma ordem de pagamento emitida a favor de terceiro ou do próprio

subscrito, por quem tenha provisão de fundos em poder do sacado, sendo

também um título à vista. Ma já se decidiu que: Á prática comercial de emissão de

cheque com data futura de apresentação, popularmente conhecido como cheque

“pré-datado”, não desnatura a qualidade cambiarifome, representando garantia

de dívida com a conseqüência de ampliar o prazo de apresentação (STJ. Resp

223.486). Há títulos de crédito que representam determinada mercadoria como o

conhecimento de transporte, de depósito e o warrant, emitido pelas companhias

de armazéns gerais como representativo da mercadoria depositada.

O pagamento de título de crédito que contenha obrigação de pagar soma

determinada pode ser garantido por aval (Código Civil, artigo 897),

estabelecendo-se uma grande fidejussória.

3º - Ao portador, se traduzirem a obrigação de prestar dirigindo-se a um

credor anônimo (Código Civil, artigos. 904 a 909). Daí a exigibilidade da prestação

por qualquer pessoa que os detenha (Código Civil, artigo. 905), exceto na

hipótese de desapossamento injusto, em que o devedor será judicialmente

intimado a que não pague o capital ou seu interesse (Código Civil, art. 909).
70

Flávio Ulhoa40 comentando sobre a classificação dos títulos de crédito,

classificam-se, segundo quatro critérios: a) Quanto ao modelo; b) Quanto à

estrutura; c) Quanto às hipóteses de emissão; d) Quanto à circulação.

Quanto ao modelo, os títulos podem ser vinculados ou livres. No primeiro caso,

somente produzem efeitos cambiais os documentos que atendem ao padrão

exigido. É o caso do cheque e da duplicata. Neles, o emitente não é livre para

escolher a disposição formal dos elementos essenciais à criação do título. O

emitente do cheque deve necessariamente fazer uso do papel fornecido pelo

banco sacado, fornecido em talões, via de regra. Os empresários que emitem

duplicata, por sua vez, dêem confeccioná-las obedecendo as normas de

padronização formal definida pelo Conselho Monetário Nacional (LD, artigo 27).

Já os títulos de modelo livre são aqueles em que, por não existir padrão de

utilização obrigatória, o emitente pode dispor à vontade os elementos essenciais

do título. Pertencem a essa categoria a letra de câmbio e a nota promissória.

Assim qualquer papel, independentemente da forma adotada, será nota

promissória, desde que atendido os requisitos que a lei estabeleceu para esse

título de crédito. São inteiramente dispensáveis, portanto, os formulários

impressos que se costumam vender nas papelarias.

Há títulos de crédito que podem adorar qualquer forma, desde que atendidos os

requisitos da lei (são os de modelo livre), e há os que devem atender a um padrão

obrigatório (os de modelo vinculados).

40
Flavio Ulhoa Curso pág. 381 a 383
71

Quanto à estrutura, os títulos de crédito se classificam em ordem de pagamento e

promessa de pagamento. As ordens de pagamento geram no momento do saque,

três situações jurídicas distintas:

1) A do sacador, que ordenou a realização do pagamento;

2) A do sacado, para quem o ordem foi dirigida e que irá cumpri-la, se

atendidas as condições para quem a ordem foi dirigida e que irá cumpri-

la, se atendidas as condições para tanto;

3) A do tomador, que é o beneficiário da ordem, a pessoa em favor de

quem ela foi passada.

O cheque, a duplica e a letra de câmbio são títulos dotados dessa estrutura.

Quando assino um cheque, dou ordem ao banco, em que tenho conta, para que

proceda ao pagamento de determinada importância à pessoa para quem entrego

o título. De outro lado, a emissão da promessa de pagamento dá ensejo apenas

a duas situações jurídicas, a do promitente, que assume a obrigação de pagar, e,

a do beneficiário da promessa.

A nota promissória, o próprio nome o revela é título pertencente a essa categoria.

Por ela, o subscritor promete pagar a certo sujeito, ou a quem ele repassar o

direito, a importância assinalada.

Na ordem, o sacador do título de crédito manda que o sacado pague determinada

importância; na promessa, o sacador assume o compromisso de pagar o valor do

título.
72

Pelo terceiro critério de classificação, que leva em conta as hipóteses de emissão,

os títulos podem ser causais, limitados e não causais (ou abstratos). São os

títulos causais os que somente podem ser emitidos nas hipóteses autorizadas por

lei. A duplicata mercantil, por exemplo, apenas pode ser gerada para a

documentação de crédito oriundo de compra e venda mercantil Os títulos

limitados são os que não podem ser emitidos em algumas hipóteses circunscritas

pela lei. A letra de cambio, por exemplo, não pode ser sacada pelo comerciante,

para documentar o crédito nascido da compra e venda mercantil; a lei das

duplicatas o proíbe (LD, artigo 2º ). Por sua vez, os títulos não causais podem ser

criados em qualquer hipótese. São dessas categorias o cheque e a nota

promissória. Atente-se que essa classificação não está relacionada a diferentes

formas de aplicação do regime de circulação cambial. Títulos causais e limitados

circulam, rigorosamente falando, sob o mesmo regime que os abstratos (isto é,

sujeitam-se à cartularidade, literalidade e autonomia das obrigações cambiais).

Há títulos que só podem ser emitidos em determinadas hipóteses autorizadas por

lei (causais), há os que não podem ser emitidos em certos casos (limitados) e,

finalmente, os que podem ser emitidos em qualquer situação (não causais).

De acordo com o derradeiro critério, Classificam-se os títulos de crédito em três

categorias: a) Ao portador; b) Nominativos à ordem; c) Nominativos não à ordem.

A diferença entre elas reside no ato que opera a circulação do crédito. Os títulos

ao portador não ostentam o nome do credor e, por isso, circulam por mera

tradição; isto é, basta a entrega do documento, para que a titularidade do crédito

se transfira do antigo detentor da cártula para o novo. Os nominativos à ordem

identificam o titular do crédito e se transferem por endosso, que é o ato típico da


73

circulação cambiária. Os nominativos não à ordem, que também identificam o

credor, circulam por cessão civil de crédito.

Registros que a classificação aqui apresentada, relativa à circulação, não coincide

com a que se encontra na doutrina em geral. De fato, usualmente se distinguem

os títulos à ordem dos nominativos, embora com a ressalva de que os dois

ostentam o nome do credor. Para a doutrina tradicional, repetindo lições de

Vivante, os nominativos circulariam através de documentos de transferência ou

registro em livro do emitente. Seria o caso das ações das sociedades anônimas

(cf. Martins, 1982:20/21; Requião, 1971, 2:308/309; Borges, 1971:32/33). A

solução de Vivante é aplicável ao direito italiano, tendo em vista que o Código

Civil a adota de forma expressa. Para o direito brasileiro, entretanto, não faz

sentido. Rejeita-se esse modo de organizar a matéria, portanto, até mesmo

porquê a classificação, para ser precisa, além de se limitar aos títulos de crédito

próprios (isto é, cuja disciplina se exaure no direito cambiário), deve incluir

também a alternativa dos títulos com a cláusula “não à ordem”.

Quando à circulação, os títulos são ao portador ou nominativos, subdividindo-se

estes em “a ordem” e “não à ordem”.

Por fim, o doutrinador deixa assente que os títulos de crédito impróprios

(categoria que engloba o conhecimento de transporte, os títulos de Armazéns

Gerais, as cédulas de crédito e outros) não devem ser lembrados na

apresentação da classificação dos títulos de crédito. Por definição aqueles títulos

estão sujeitos a regime jurídico próximo ao cambial, ou seja, trata-se de

documentos que apenas em parte se submetem ao direito cambiário. Daí a idéia

de impropriedade na sua identificação. Ora, como não se encontram totalmente


74

regidos pelo direito cambial, não são títulos de crédito, não se classificam como

tais.

De acordo com manual de Direito Comercial41 a classificação dos títulos de

crédito se faz por quatro principais critérios, a saber: a) quanto ao modelo, b)

quanto à estrutura; c) quanto às hipóteses de emissão, d) quanto à circulação.

O primeiro desses critérios distingue os títulos de crédito entre aqueles de modelo

livre e os de modelo vinculado. No primeiro grupo, de que são exemplos a letra de

cambio e a nota promissória, estão os títulos de crédito cuja forma não precisa

observar um padrão normativamente estabelecido. Os seus requisitos devem ser

cumpridos para que se constituam títulos de crédito, mas a lei não determina uma

forma específica para eles. Já grupo dos títulos de modelo vinculado, em que se

encontram o cheque e a duplicata mercantil, reúne aqueles em relação aos quais

o direito definiu um padrão para o preenchimento dos requisitos específicos de

cada um. Um cheque somente será um cheque se lançado no formulário próprio

fornecido, por talão, pelo próprio banco sacado,. Mesmo que se lancem, em um

instrumento diverso, todos os requisitos que a lei estabelece para o cheque, este

instrumento não será título de crédito, não produzirá os efeitos jurídicos do

cheque.

No tocante ao critério pertinente à estrutura, os títulos de créditos serão ordem de

pagamento ou promessa de pagamento. No primeiro caso, o saque cambial dá

nascimento a três situações jurídicas distintas: a de quem dá a ordem, a do

destinatário da ordem e a do beneficiário da ordem de pagamento. No caso da

promessa, apenas duas situações jurídicas distintas emergem do saque cambial:

41
Ulhoa. Manual de Direito Comercial, pg. 232 -234.
75

a de quem promete pagar e a do beneficiário da promessa. A letra de câmbio, o

cheque e a duplicata mercantil são ordens de pagamento, ao passo que a nota

promissória é uma promessa de pagamento.

Quanto à hipóteses de emissão, os títulos de crédito ou são causais ou não-

causais (também chamados de abstratos), segundo a lei circunscreva, ou não, as

causa que autorizam a sua criação. Um título causal somente pode ser emitido se

ocorrer o fato que a lei elegeu como causa possível para sua emissão, ao passo

que um título não-causal, ou abstrato, pode ser criado por qualquer causa, para

representar obrigação de qualquer natureza no momento do saque. A duplicata

mercantil, exemplo de título causal, somente pode ser citada para representar

obrigação decorrente de compra e venda mercantil. Já o cheque e a nota

promissória podem ser emitidos para representar obrigações das mais diversas

naturezas.

Finalmente, em relação ao ato jurídico que opera a transferência da titularidade

do crédito representado pela cártula, ou seja, quanto à circulação, os títulos de

crédito podem se ao portador ou nominativos. Os títulos ao portador são aqueles

que, por não identificam o seu credor, são transmissíveis por mera tradição,

enquanto os títulos nominativos são os que identificam o seu credor e, portanto, a

sua transferência pressupõe, além da tradição, a prática de um outro ato jurídico.

Os títulos de crédito nominativos ou são “à ordem” ou “não à ordem”, Os

nominativos com a clausula “à ordem” circulam mediante tradição acompanhada

de endosso, e os com a cláusula “não à ordem” circulam com a tradição

acompanhada de cessão civil de crédito. Endosso e cessão civil são atos jurídicos

transladadores de titularidade de crédito que se diferenciam quanto aos efeitos,

conforme se examinará no momento apropriado (capítulo 17, item 3) novo Código


76

Civil de 2002, o conceito de títulos nominativos é diverso. Seriam desta categoria

os títulos em que o nome do favorecido consta de registros de emitente (artigo

921) e cuja circulação depende de alterações neste registro. Não há, no direito

brasileiro, nenhum título de crédito que atenda a essa condição.


77

16. TÍTULOS AO PORTADOR

16.1 Definição e traços característicos

No conceito de Maria Helena Diniz42 O título ao portador é o documento pelo

qual seu emitente se obriga a uma prestação a quem lho apresentar como seu

detentor43, salvo a hipótese de lei especial, como a Lei no 8.021/90, que, vedando

pagamento ou resgate de qualquer título ou aplicação tem como rendimentos ou

ganhos a benéfico não identificado, extingue títulos ao portador, inclusive nas

ações de sociedades anônimas para garantir a identificação de contribuintes na

esfera fiscal, permitidos estão títulos ao portador, que por ela não são alcançados.

Constituem títulos ao portador:

a) Títulos da dívida pública (Decreto-lei no 3.545/41 e Lei no 891/49);

b) Ações ao portador de sociedades anônimas, que, atualmente, pela Lei no

8.021/90, que alterou a redação da Lei no 6.404/75, artigo 20, só podem ser

nominativas.

42
Maria Helena Diniz Curso de Direito Civil Brasileiro. Teoria das Obrigações Contratuais e
Extracontratuais. Pg. 748-749
43
Ennceerys, Ripp e Wolf, Decrech de obligaciones, I, 2, § 294, p. 531; Clóvis Beviláquia, Código Civil
comentado, v. 5, p. 622; Silvio Rodrigues, op. Cit, p. 425, Decreto n. 142-B, de 1983; Decretos-leis n.
1.344/39, 5.475/43, 8.277/45; Lei n. 2.977/56, art.9º; Resolução n. 39/66 do BCB; Decreto-lei n.286/67.
Sobre letra de câmbio e nota promissória, vide Decreto n. 57.663/66. ADCOS, n. 83.074, 1982. A Lei n.
9.065/95 (sobre Plano Real) veda emissão, pagamento e compensação de cheques no valor supeiror a R#
100,00 sem identificação do beneficiário.
78

c) Cheques ao portador até valor inferior a cem reais (Lei no 9.069/95);

d) Debêntures, isto é, obrigação ao portador, emitidas pelas companhias ou

empresas concessionárias de serviços públicos de água, saneamento e energia

elétrica.

e) Bilhetes de loteria (Decreto-lei no 6.259/44 e Decreto-lei no 204/87, artigo 6º ,

RT, 542:201), de rifa (JB, 155:325; RT, 389:124, 403:155, 390:359) ou de

tômbola, desde que autorizados;

f) Pules do jockey club;

g) Entradas de teatro ou cinemas, passagem de trem, bondes, e ônibus;

h) Títulos de capitalização

i) Vales postais ao portador

j) Cupões para sorteio de mercadorias, distribuídos gratuitamente pelas casas

comercias;

k) Títulos de renda, emitidos de acordo com o Decreto-lei no 3.033/41;

l) Letras do tesouro (Decreto-lei no 4.790/42; CF. artigo 164, § 2º e LC no

101/2000);

m) Letras imobiliárias (Lei no 4.390/64, artigo 47);44

n) Apólices ou bilhetes de seguros (Código Civil, artigo 760 e parágrafo único).

44
W. Barros Monteiro, op, cit. P. 376. Sobre cheque vide Súmula 554 do STF. “Constituindo contravenção
penal – artigo 51 e seu parágrafos do Dec-lei no 3.688/41, a promoção de rifa sem obediência à legislação
especial, o participante de boa-fé tem direito, comprovada por qualquer modo a premiação de seu bilhete, a
receber o objeto prometido, com perda e danos, ou o promovente da mesma rifa a entregar o premio à
Fazenda Nacional, sujeito às penalidades previstas naquela legislação”(TJRJ, ADCOAS, n. 86, 1982).
79

O título ao portador apresenta os seguintes traços característicos: 45

1) Exigência de um documento em que se encontre lançada a promessa do

emitente de realizar certas prestação, devidamente firmado por ele;

2) Necessidade de indeterminação do credor, que será quem possuir o

documento legítima ou ilegitimamente;

3) Possibilidade de ser transmitido por simples tradição manual (Código Civil,

artigo 904), independentemente de anuência do devedor, por ser-lhe indiferente a

transmissão do direito de crédito, já que se obrigou para com a pessoa que

detenha o título e o apresente, reclamando a prestação devida. Circulará toda vez

que passar de uma pessoa par outra, surgindo, então, novo credor;

4) Exigibilidade da prestação devida, pois o detentor de um título ao portador, por

ser possuidor, poderá, mediante simples apresentação, reclamá-lo do subscritor

ou emissor (Código Civil, artigo 905). Há presunção de que está autorizado a

dispor do título. Tal presunção cessará apenas quando houver legítima oposição

judicial de terceiro, devidamente fundada. Se não estiver essa oposição, o

detentor do título será seu legitimo portador, e, pagando-o, o subscritor exonerar-

se-á do liame obrigacional;

5) Exoneração do subscrito, ou emissor, pagando a quem detentor, esteja ou não

autorizado a dispor do título, pois a apresentação será devida ainda que o título

tenha entrado em circulação contra a vontade do emitente (Código Civil, artigo

905, parágrafo único; RF, 108:304) Isto é assim porque o subscritor, ou emissor,

45
Serpa Lopes, op. Cit. P. 139; Larenz Derecho de obligaciones. Madrid, 1959, v. 2, § 60; Pontes de
Miranda, Títulos ao portador, in Manual do Código Civil de Paulo Lacerda, v. 16, parte 1, p. 128 e 150; W.
Barros Monteiro, op. Cit, p. 376-8; Orlando Gomes, op. cit., p. 292.; Caio M. S. Pereira, op. cit., p. 498; João
Luiz Alves. Código Civil anotado, v. 2. p. 550; Bassil Doer, Curso moderno de direito civil. São Paulo,
Nelpa, v. 3, p. 299 e 300.
80

não terá o direito de verificar a legitimidade do portador (RT, 546:73), pois seu

dever é pagar a quem lhe apresentar o título;

6) Necessidade de autorização para a sua emissão, já que o Código Civil, no

artigo 907, prescreve que “É nulo o título ao portador emitido sem autorização da

lei especial”. Com exceção de títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados e dos

Municípios, somente Lei Federal poderá criar título ao portador (Constituição

Federal, artigos 21, VII, 163 e 164). Não há liberdade de emissão de títulos ao

portador, reputar-se-ão nulos, se emitidos para pagamento de determinada soma

em dinheiro se autorização legal. O vale utilizado no comércio para comprovar

algum suprimento urgente, retirada em dinheiro, adiantamento, ou empréstimo

rápido, não está incluído na proibição (RT, 137:293, 287:824; RF, 104:56;

112:165; AJ, 105:463, 116:419). O Código Penal, no artigo 292, trata do crime de

emissão de título ao portador sem permissão legal.

16.2 Efeitos Jurídicos

O título ao portador acarreta efeitos jurídicos, tais como:46

1) Subsistência da obrigação da obrigação do emissor, ainda que o título

tenha entrado em circulação contra a sua vontade (Código Civil, artigo 905,

46
W. Barros Monteiro, op. Cita. P. 378-81; Serpa Lopes, op cit., p. 150-8; Bassil Dowe, op. Cit. P. 300-3;
Silvio Rodrigues, op. Cit. P. 426-8; Laurez. Op. Cit, vl 2. p. 486. Folleville, Traité de la possession dês n
meubles ete dês tirers au porteur, Paris. 1875. Carvalho de Mendonça. A vontade unilateral nos direitos de
crédito. Rio de Janeiro. Freitas Bastos.l 1940; Pontes de Miranda, op. Cit., m. 82; Inglês de Sousa, Título ao
portador, Rio de Janeiro, 1898. Orlando Gomes, op, cit, p. 294-6; Ravà, II títolo di credito, Milano, Giuffrà,
1936; RT, 484-121, 443:241. 547:192, 543:133, 534:219, 527:222, 649:83; Decreto n. 2.044, de 1908, artigo
51; Lei n. 891/49; Código Civil, artigos 1.233, 1.268, 371 e 905; Código de Processo Civil, artigos 907 e 913.
“Não podendo ser imputado ao estabelecimento de crédito emitente o extravio do 5ítulo ao portador nem a
demora no processo da ação anulatória, não pode dele ser exigida renda correspondente e reinvestimento ou
reaplicação não autorizada. Ciente que ficou sendo da ação, da qual participou, deve, porém, o emitente a
renda correspondente ao depositário judicial do valor do título, que devia ter providenciado”(TRRJ,
ADCOAS, n. 90.058, 1983).
81

parágrafo único), pois o título, por si só, já encera a obrigação do subscritor ou

emissor. O subscritor não terá legitimidade para investigar a causa aquisitiva do

portador de boa fé. O detentor, ao perceber o título, não terá o dever de averiguar

se ele foi colocado legitimamente em circulação, o que entravaria a função

circulatória do título (RT, 152:192).

2) Impossibilidade de o devedor (subscritor ou emissor) opor ao portador

outra defesa além da que assentar em nulidade interna ou externa de sua

obrigação, foi da fundada em direito pessoal (Código Civil, artigo 906). Dessa

maneira, o devedor poderá opor três defesas ao portador:

a) Nulidade interna do título, como, por exemplo: em razão da incapacidade

do subscritor, de prescrição do título etc. Porém o erro, o dolo, a coação, a

simulação, a que o portador seja alheio, não poderão ser argüidos contra ele, sob

pena de paralisar a livre circulação do título;

b) Nulidade externa do título, como na hipótese de falsificação da assinatura

do emissor;

c) Direito pessoal do emitente contra o portador, como má fé do portador

(furto do título), compensação.

3) Obrigação do subscritor de cumprir a prestação somente se o título lhe for

apresentado (Código Civil, artigo 905). Assim sendo, o subscritor poderá repelir a

cobrança feita por quem se apresentar sem o título. Apenas nos casos de perda e

extravio, devidamente justificados, o subscritor poderá pagá-lo, à vista da decisão

judicial Código Civil, artigo 909). Havendo furto, roubo, apropriação indébita, ou

mesmo perda do título, seu dono deverá pedir intervenção judicial, observando o
82

procedimento do Código de Processo Civil, artigos 907 a 913. Logo, poderá

requerer a substituição do título pr outro e a suspensão dos efeitos cambiais do

título perdido, por meio de ação judicial, como o escopo de impedir que aquele

que o datem injustamente e venha a receber o pagamento. Com efeito, dispõe o

Código Civil, no artigo 909, que: “o proprietário, que perder ou extraviar título, ou

for injustamente desapossado dele, poderá obter novo título em juízo, bem como

impedir que seja pagos a outrem capital e rendimentos”. Pelo Código de Processo

Civil, artigo 911, bastará que a ação seja julgada procedente, substituindo-se o

título, dentro do prazo que a sentença lhe assinar. Porém, sem a prova do injusto

desapossamento, o judiciário não poderá declarar caducos títulos ao portador

(RF, 109:451, 137:82, 159:182). E acrescenta o parágrafo único do artigo 909 do

Código Civil: “O pagamento, feito antes de ter ciência da ação referida neste

artigo, exonera o devedor, salvo se, se provar que ele tinha conhecimento do

fato”.

4) Obtenção, em juízo, de novos títulos ao portador, injustamente

desapossados, extraviados ou furtados (Código Civil, artigo 909; Código Processo

Civil, I), não abrangendo a hipótese de apropriação indébita (RT, 174:189, RF,

122:181) ou de sua aquisição em Bolsa (RT, 121:249).

5) Presunção de propriedade do título por parte daquele cujo nome estiver

nenê inscrito, que, então, poderá impedir o pagamento de capital e rendimento a

outrem, e, anda, reivindicá-lo de quem quer que injustamente o detenha (Código

Civil, artigo 909, 1ª alínea).

6) Possibilidade de o possuidor de título danificado ou dilacerado, porém

identificável, obter do emitente, ou subscrito, a sua substituição, mediante sua


83

restituição e o pagamento das despesas (Código Civil, artigo 908) com tal

substituição. E se o título anterior, substituído pelo novo, estiver garantido por

aval, o avalista deverá subscrever também o título, que veio a substituir aquele.

Venosa47 afirma que os títulos de crédito podem ser nominativos, à ordem e não

à ordem; e ao portador. Nominativo é o título que indica o beneficiário,

identificando-o. Tal não significa, contudo, que o título não passa ser transferido.

Título à ordem é aquele no qual o devedor é nomeado, porém com a possibilidade

de transferência mediante endosso, ou seja, simples assinatura no documento. A

clausula à ordem pode vir expressa no texto da cártula, ou decorrer de norma

legal, como geralmente ocorre, que a entende presente ainda que não conste

expressamente. Título ao portador é aquele dirigido ao credor, que se apresentar

para cobrá-lo. Esse o sentido fixado no artigo 1.505 do Código Civil antigo ao

estipular que:

“O detentor de um título ao portador, quando dele autorizado a dispor, pode

reclamar do respectivo subscritor ou emissor a prestação devida. O subscritor, ou

emissor, porém, exonera-se, pagando a qualquer detentor, esteja ou não

autorizado a dispor do título”.

O título ao portador é um documento pelo qual seu emitente obriga-se a uma

prestação ao portador que com ele se apresentar. Qualquer que seja a

modalidade do título, como enfatizado, há sempre dois elementos constantes,

quais sejam, um corpo material traduzido em um documento e a substancia da

obrigação que nele se contém.

47
Venosa Direito Civil: Contratos em Espécie, Títulos de Crédito: pg. 458-461
84

A legislação brasileira permite inúmeros títulos ao portador, como títulos da dívida

pública, bilhetes de loteria, vales postais. Quando a lei não específica uma forma,

o título ao portador possui forma livre, aspecto que interessa diretamente ao

capítulo do Código Civil vertente. Os títulos ao portador não diferem dos

contratos, sua diferença consiste na manifestação unilateral de vontade.

Anota o artigo 907 do novo Código que é nulo o titulo ao portador emitido sem

autorização de lei. A proibição já constava do Código anterior, no tocante às

obrigações em dinheiro (artigo 1411). A lei pode proibir que determinados títulos

de créditos sejam ao portador. Lembre-se de que o título pode ser emitido

incompleto ou em branco, devendo estar preenchido quando de sua

apresentação.

Apontemos, como faz Serpa Lopes (1962:148), que os títulos ao portador que não

seguem os estritos termos da lei cambiária pode apresentar em seu bojo a causa

do débito.

“A causa debenti só não figura na Letra de Cambio ao portador, dado ser a

cambial um contrato literal, isto é, um contrato que haver vida da sua própria

forma literal, e cuja causa debendi parte do próprio título creditório, mas nada

obsta que, fora dos títulos assim criados pela lei, o título ao portador traga em seu

contexto a menção da causa debendi.

Veja, por exemplo, os ingressos de teatro e diversões em geral, os bilhetes de

loteria, que conferem um crédito a seus portadores. Geralmente, a forma livre

aplica-se aos títulos de bens e serviços. Para a emissão de títulos para

pagamento em dinheiro, há necessidade de autorização legal, sob pena de

nulidade (artigo 1.511 do Código de 1916).


85

O artigo 1.510 do Código de 1916 permite que o título com o nome do credor

traga cláusula autorizando o pagamento ao portador, mas faculta que o devedor

exija justificação de legitimidade do detentor ou que este preste caução. Trata-se

do que a doutrina denomina título de legitimação. Caracteristicamente, esses

títulos não são ao portador, mais se assemelhando aos títulos à ordem. A

segunda parte do artigo reflete nuança de direito real sobre o instituto dos títulos

de crédito, ao estabelecer que “aquele cujo nome se acha inscrito no título

presume-se dono, e pode reivindicá-lo de quem quer que injustamente o

detenha”.

Dentro dos princípios firmados no Código Civil de 1916, que não se identificam

com as normas cambiárias estabelecidas na legislação própria, a regra geral era

no sentido da permissibilidade de emissão de títulos ao portador. As exceções

devem ser buscadas no ordenamento.

O título passa a gerar efeitos jurídicos no momento de sua entrega ao portador.

Entenda, porém, que essa entrega deve ser límpida, isenta de vícios de vontade,

pois tal aspecto inquina o ato, como em qualquer negócio, jurídico. Não se

confundem os vícios que podem macular a vontade criadora do título com a falta

de autorização do emitente para sua circulação. Nesse sentido, estampava o

artigo 1506 que a obrigação subsistia, ainda que o título tivesse entrado em

circulação contra a vontade do emitente. Essa proibição de circulação poderia

ocorrer antes ou depois de seu pagamento, total ou parcial. A entrega do título ao

devedor presume sua quitação. Também o título pode receber a quitação por

escrito. Se esses cuidados não forem tomados, ou se o título for furtado, pode a

cártula circular contra a vontade do emissor. Nisso não se podem prejudicar os

terceiros de boa-fé, daí a razão do artigo 905, parágrafo único (antigo artigo
86

1.506). Cumpre ao prejudicado que, efetuando o pagamento ao detentor legítimo,

volte-se contra quem ele tenha causado o prejuízo. Somente não estará obrigado

a pagar o terceiro que se apresenta com o título se lograr provar que a detenção

deste é ilegítima, de má-fé, o que deve sempre ser provado por quem alega. Má-

fé não se presume. O artigo 905 do novo Código estampa como regra legal, que o

possuidor de titulo ao portador tem direito à prestação nele indicada, mediante

sua simples apresentação ao devedor. Ainda, dispões o artigo 904 que a

transferência do título ao portador faz-se por simples tradição em consonância

com o já referido artigo 893.

Como o título ao portador se basta para comprovar uma obrigação, sua perda ou

extravio requer procedimento tendente a sua substituição. Como a dívida está

representada pela cártula, não está o devedor obrigado a pagar se o documento

não lhe é apresentado, salvo se for declarado nulo (artigo 1.508 do Código de

1916). Aquele que for injustamente desapossado do título somente mediante

intervenção judicial poderá impedir que o ilegítimo detentor receba o que o título

estampa (artigo 1509).

No caso de extravio, perda, furto, roubo, apropriação indébita do título ao

portador, devidamente justificados, seu proprietário deverá pedir intervenção

judicial, assim estabelecida pelo artigo 1.509, a fim de ser obtida a caducidade do

instrumento desaparecido. O procedimento é estabelecido pelos artigos 908 a 913

do CPC., sob a epígrafe “Da ação de anulação e substituição de títulos ao

portador”. Esse mesmo processo é utilizado para a ação de reivindicação do

título. O foro competente é o do juízo do domicílio do emitente. Há que se provar

o injusto desaparecimento do documento. Se não for conhecido o detentor do

título, basta que se proceda à citação por edital dos terceiros interessados.
87

Somente se admitirá a contestação ao pedido se o detentor aportado juntar ao

título. O foro competente é o do juízo do domicílio do emitente. Há que se provar

o injusto desaparecimento do documento. Se não for conhecido o detentor do

título, basta que se proceda à citação por edital dos terceiros interessados.

Somente se admitirá a contestação ao pedido se o detentor apontado juntar o

título reclamado (artigo 910 do CPC). Com a procedência do pedido, a sentença

declarará o título caduco, ordenando ao devedor que lavra outro em substituição,

dentro de prazo ali fixado (artigo 911 do Código Processo Civil.)

Igual procedimento aplicar-se-á a título parcialmente destruído ou dilacerado,

almejando sua substituição (artigo 912). A jurisprudência tem repelido a pretensão

de reivindicação de títulos frutos de apropriação indébita ou aquisição em bolsa,

devendo os prejudicados recorrer às vias ordinárias. O processo estabelecido

pelo CPC não se aplica às letras de cambio e notas promissórias, para as quais

continua em vigor o artigo 36 do Decreto-lei no 2.044/1908, que disciplina o

processo para anulação de título cambiário extraviado, embora a questão não

seja isenta de dúvidas.

O novo código apresenta outras disposições acerca da deterioração ou perda do

título. O artigo 908 dispõe que o possuidor de título dilacerado, porém

identificável, tem direito a obter do emitente a substituição do anterior, mediante a

restituição do primeiro e o pagamento das despesas. O artigo 909 refere-se à

perda, extravio ou injustos desapossamento do título. O proprietário poderá obter

novo título em juízo, como visto, bem como impedir que sejam pagos a outrem o

capital e rendimentos. O parágrafo único desse dispositivo protege, porém, o

devedor que paga antes de ter ciência da ação judicial. Esse pagamento exonera
88

o devedor, salvo se, se provar que tinha ele conhecimento do fato, o que lhe

suprime a boa-fé.

Conforme nos doutrina Requião48 os títulos emitidos ao portador não revelam o

nome da pessoa beneficiada. Têm inserido a cláusula “ao portador” ou mantém

em branco o nome do beneficiário ou tomador, que é o titular do crédito. A Lei no

9.021, de 12 de abril de 1990, impõe, no artigo 4º, que as ações devem ser

nominativas, excluindo as ações ao portador. Isso não impedia que, naquela

época, outros títulos comportassem a cláusula ao portador. A sua circulação se

processava com extrema facilidade, pela simples traição manual. Quem os

detinha presumia-se proprietário legítimo. Era usado geralmente para os títulos

emitidos em massa.

O Código Civil, no artigo 904, explica, ao disciplinar o título ao portador, que sua

transferência “se faz por simples tradição”. O artigo 930 do projeto de Código de

Obrigações (1965), fiel à teoria da criação (no 511 supra), dispunha que “a

subscrição de títulos de crédito ao portador obrigava o emitente a satisfazer a

prestação devida a quem lhe apresentar, ainda quanto entre em circulação contra

a vontade do emitente”. No artigo 909, o Código Civil apenas dispõe que “o

proprietário, que perder ou extraviar título, ou for dele injustamente desapossado,

poderá obter novo título em juízo, bem como impedir sejam pagos a outrem

capital e rendimentos”:.

Em decorrência da política monetária, várias legislações, sobretudo as que, como

a nossa, se filiam à Convenção de Genebra de 1930, prescrevem a liberdade de

emissão de títulos ao portador, que traduzem a obrigação de pagar certa

48
Requião, pg. 369 e 370
89

importância em dinheiro. Além disso, o artigo 1.511 do Código Civil de 1916 é

secundado pelo artigo 907 do Código Civil de 2002, que declara nulos os títulos

ao portador emitidos sem autorização de lei especial. Essa lei especial,

naturalmente, será federal, pois a União a Constituição reserva o direito de

legislar sobre direito comercia, l sistema monetário, títulos e política de crédito

(artigo 22, I, VI, VII). Por isso, com o advento da Lei Uniforme de Genebra (no 528

infra), não são admissíveis em nosso direito a letra de câmbio ou nota promissória

ao portador. Lei no 8.021/90, artigo 2, III, vedou a emissão de cheque, sem

identificação de beneficiário, sempre que tivesse valor superior ao de cem bônus

do tesouro nacional, hoje extintos. Após essa lei, houve a edição da Lei no 8.088,

de 31 de outubro de 1990, cujo artigo 19 eliminou praticamente a forma ao

portador dos títulos de crédito, ao dispor que “Todos os títulos, valores mobiliários

e cambiais serão emitidos sempre sob a forma nominativa, sendo transmissíveis

somente por endosso em preto”, imposição que alcançou até mesmo os títulos

emitidos antes da lei, caso fossem reemitidos, repactuados, desdobrados ou

agrupados. O desatendimento da forma nominativa implica a inexigibilidade do

débito representado pelo título irregular.

Finalmente, a Lei no 9096, de 29 de junho de 1995, que dispôs, sobre o plano

econômico denominado Real, no seu artigo 69 estabeleceu a vedação de

emissão, pagamento, compensação de cheques de valor superior a R$ 100, 00

sem identificação do beneficiário.


90

17. TÍTULOS NOMINATIVOS

Diz o art. 921 do Código Civil títulos nominativos, os emitidos em favor de

pessoas cujo nome conste no registro de emitente, e o emitente não está

obrigado a reconhecer como proprietário senão quem figure no registro nessa

condição.

Disse o mestre Requião que os títulos nominativos são títulos de crédito emitidos

em nome de uma pessoa determinada, cuja transmissão não é perfeita senão

quando se registra nos livros do devedor49.

Segundo Maria Helena Diniz título nominativo é aquele emitido em favor de

pessoa cujo nome conste no registro do emitente, transferindo-se a outrem

apenas mediante termo assinado pelo proprietário e pelo adquirente ou pelo

endosso, se conter o nome do endossatário, tendo este eficácia só perante o

emitente.50 Assim são nominativos aqueles títulos que constar o nome da pessoa

com direito ‘a prestação nele consignada. Pode a obrigação do emitente ser

49
REQUIÃO, Rubens, ob. cit.
50
DINIZ, Maria Helena; ob. cit.
91

avalizada, não podendo ser a do endossante, pelo fato deste não ser responsável

pelo seu pagamento.

Sílvio de Salvo Venosa coloca que os títulos nominativos podem ter as mais

variadas finalidades, possuem regras próprias e integram microssistemas

jurídicos como pôr exemplo, as ações de sociedade anônima.

Esclarece Venosa que essa modalidade de título seja transferida por endosso em

preto, isto é, que contenha o nome do endossatário, existindo alguns títulos

nominativos que exigem outros requisitos. Quando permitir a legislação específica

o Título Nominativo pode ser transformado em ‘a ordem e ao portador, a pedido

do proprietário e a sua custa.

Finalmente Venosa traz que o emitente de boa-fé, que realizar as cautelas

devidas, fica desonerado de responsabilidade inclusive não podendo ser inquirido

por exemplo se o emitente não averbou devidamente a transferência do título,

apesar de procedimento correto seguido pelo interessado.51

51
VENOSA, Silvio de Salvo, ob. cit.
92

18. TÍTULO À ORDEM

Para Rubens Requião, títulos à ordem são os emitidos em favor de pessoa

determinada transferindo-se pelo endosso. Sua diferenciação em relação aos

títulos nominativos se dá pelo simples endosso sem qualquer formalidade.

A um título nominativo que se insira cláusula à ordem, este perde a sua natureza

de puro título nominativo, passando então a circular pelo endosso e se este for

em branco sua circulação pode prosseguir como se fora simples título ao

portador.

Para o mestre Letra de Câmbio é tipicamente um título à ordem, contendo

implicitamente a cláusula à ordem. Daí reza a Lei Uniforme de Genebra no art. 11:

“Toda letra de câmbio, mesmo que não envolva expressamente a cláusula à

ordem é transmissível por via de endosso”.52

52
REQUIÃO, Rubens; ob. cit.
93

Segundo Maria Helena Diniz o título à ordem identifica o titular do crédito e é

transferível a terceiro por endosso que é o ato típico da circulação cambiária.

Para ela, decorrem do título `a ordem algumas conseqüências jurídicas, dentre as

quais sito três:

A obrigatoriedade de verificação por parte do que pagar o título, da regularidade

da série de endossos, mas não da autenticidade das assinaturas (C.C. art. 911,

parágrafo único)

Irresponsabilidade do endossante pelo cumprimento da prestação constante do

título, exceto se houver cláusula expressa em contrário constante do endosso

(C.C. art. 914) Em regra, há desvinculação automática do endossante ao

pagamento.

Produção dos mesmos efeitos pelo endosso seja nele anterior ou posterior ao

vencimento do título ( C.C. art. 920)53

53
DINIZ, Maria Helena; ob. cit.
94

19. VENCIMENTO DO TÍTULO DE CRÉDITO

Entende Sílvio de Salvo Venosa que vencimento é o momento em que a

obrigação pode ser exigida. Caracterizando-se inadimplemento o título não pago

a partir desta data, iniciando também o prazo prescricional.

Particularidades a respeitos da maturação dos títulos: O vencimentos a vista,

permite que o título seja exigido desde sua emissão ou saque, estando neste

título mencionada a expressão “ pagável a vista” . O vencimento a dia certo, que

é o mais comum e mais utilizado, trazendo “ pague no dia . . . . . ” . No vencimento

a tempo certo de data, é estabelecido um prazo de dias a partir da emissão ou

saque do título (pague-se a trinta dias da data da emissão). No vencimento a

tempo certo de vista, é estabelecido um prazo de dias a partir da apresentação

para aceite, naquelas títulos que o admitem (pague-se a trinta dias de vista)

Salienta Venosa que sempre na contagem de prazo, exclui-se o dia do início e

inclui-se o dia do vencimento, prorrogando-se até o próximo dia útil em caso de

vencimento em feriado. Antecipa-se o vencimento, em caso de falta ou recusa do

título, desde que provado o protesto, ou em caso de falência. Colocando também


95

que antes do vencimento o título não é exigível, nem é obrigado o credor a

recebe-lo, entretanto, no vencimento o é, ainda que parcial, pois a contrário das

obrigações o título pode se parcial.

Existe ainda o pagamento por intervenção onde pode um terceiro indicado pelo

devedor efetuar o pagamento. Aqui não é obrigado o credor a aceitar o

pagamento parcial, sendo quando integral.

O mestre ainda disserta quanto a prescrição dos títulos de créditos continuam os

dispositivos das leis específicas. Sendo a letra de câmbio e nota promissória três

anos o prazo prescricional. O prazo é de um ano, a contar do protesto feito em

tempo hábil, sendo de seis meses, após data que o obrigado efetuar o

pagamento.54

Quanto ao cheque Venosa mostra que a prescrição é de seis meses a partir do

final do prazo para apresentação ao sacado, sendo este de trinta dias para a

mesma praça e de sessenta dias para praça diferente. Já para as duplicatas, o

prazo é de três anos, a contar do vencimento para ação contra devedor principal

ou avalista. Será de um ano a contar do protesto para ação dos devedores contra

devedores.

Dispôs, todavia a Lei Uniforme que depois de expirado o prazo para apresentação

de uma letra à vista, ou a certo termo de vista, ou para fazer o protesto por falta

de aceite ou pagamento, o portador perdeu os seus direitos de ação contra os

outros coobrigados, à exceção do aceite.

54
VENOSA, Silvio de Salvo: ob. cit.
96

20. O PAGAMENTO

Apresentação para pagamentos.

Para Rubens Requião assim que vencida, a letra deve ser apresentada para

pagamento, sendo esta apresentação condição essencial, pois sua exibição num

primeiro plano comprova sua qualidade de credor.55

Considerando que a letra de câmbio é uma obrigação “ quérable ”, contudo, o uso

e o costume fez com que ela seja admitida como uma obrigação “ portable “.

A Lei Uniforme dispõe que a letra deve ser apresentada para pagamento no dia

do vencimento ou em um dos dois dias úteis seguintes. Entretanto, entre nós a

letra deve ser apresentada ao sacado ou aceitante no lugar designado e no dia do

vencimento, sendo tal dia feriado, no primeiro dia útil imediato.

55
REQUIÃO, Rubens; ob. cit.
97

20.1 EFEITOS DA NÃO APRESENTAÇÃO.

Venosa coloca que o portador que não apresentar a letra para o pagamento, seja

qual for a modalidade de prazo de vencimento, na época determinada perde o

direito de regresso contra o sacador endossantes e avalistas.

20.2 REGRAS DE PAGAMENTOS

Venosa esclarece que após o pagamento pode o sacado exigir que a letra lhe

seja entregue, devidamente quitada, devendo o devedor recusar o pagamento se

o credor não a exibir e nela não passar a quitação, pois de nada vale a quitação

em separado em relação a terceiros de boa-fé pôr exemplo.

A posse do título pelo devedor, presume o seu pagamento. Em relação aos

endossos a Lei Uniforme deixou claro que aquele que paga a letra é obrigado a

verificar a regularidade da sucessão dos endossos, mas não a autenticidade das

assinaturas dos endossantes, exceto a do último que recebe e que dá a quitação.

O S.T.F. pela sua primeira Turma, decidiu que somente se caracteriza a recusa

se demonstrada pelo protesto.56

56
VENOSA, Silvio de Salvo, ob. cit.
98

20.3 LUGAR DO PAGAMENTO

Para Rubens Requião a indicação do lugar em que se deve efetuar o pagamento

e requisito não essencial, pois na sua falta será o lugar designado ao lado do

nome e o lugar do domicílio do sacado.

O C.C. no art. 889 parágrafo segundo, elege o domicílio do emitente como lugar

da emissão e do pagamento, no caso de omissão.57

20.4 OPOSIÇÃO DE PAGAMENTO

O mesmo mestre acima, cita que aquele que paga antecipadamente a letra fica

responsável pela validade desse pagamento. O devedor, uma vez advertido pela

declaração da oposição ao pagamento, perde a presunção de boa-fé, e se pagá-

lo pode ser inquirido a pagar novamente.

A oposição deve ser inequívoca, devendo há um tempo atrás, dar o aviso por

carta registrada, hoje, isto se dá pelo Oficial de Registro Público.

57
Requião, Rubens; ob. cit.
99

20.5 EFEITOS DO PAGAMENTO

Traz Requião que o pagamento efetuado pelo aceitante ou pelos respectivos

avalistas desonera da responsabilidade os coobrigados. Já o que pagou tem ação

cambial para receber o que desembolsou contra o aceitante.


100

21. CONVERSABILIDADE DOS TÍTULOS DE CRÉDITO

Segundo Requião58, os títulos de crédito nascem com sua lei de circulação,

dependendo ou da intenção da lei ou da vontade do emitente. Quando a lei que

determina a forma do título, não é possível convertê-la em outra. Uma nota do

tesouro nosso papel-moeda), que é ao portador, não pode pela vontade de seu

detentor ser transformada em título nominativo.

58
Requião pg. 372
101

22. TÍTULOS DE CRÉDITO CONHECIDOS NO DIREITO


BRASILEIRO

São vários os títulos de crédito conhecidos no atual estágio do direito brasileiro.

Estão eles regulados por leis especiais, não havendo uma disciplina geral para os

mesmos, ao contrário do que ocorre no México, por exemplo, onde há um diploma

especial denominado Lei Geral de Títulos e Operações de Crédito. O Código Civil

não disciplina espécies de títulos de crédito, mas apenas esboça a teoria geral

(vide no 504 supra).

Por ora, todavia, devemos pesquisar em várias leis os títulos de crédito existentes

no direito brasileiro. Aqui vão eles indicados, como a leis que os disciplinam:

1- LETRA DE CÂMBIO – Decreto no 2.044, de 31 de dezembro de 1.908,

alterado pelo Decreto no 57.663, de 24 de janeiro de 1.966 – Lei Uniforme de

Genebra.

2- NOTA PROMISSÓRIA - Idem.

3- CHEQUE - Lei no 7.357, de 02 de setembro de 1.985.

4- DUPLICATA COMERCIAL - Lei no 5.474, de 18 de julho de 1.968, alterada

pelo Decreto-lei no 436, de 27 de janeiro de 1.969.


102

5- DUPLICATA SERVIÇO – Idem.

6- CONHECIMENTO DE DEPÓSITO – Decreto-lei no 1.102, de 21 de

novembro de 1.903.

7- “WARRANT”- Idem.

8- CONHECIMENTO DE TRANSPORTE - Decreto no 19.473, de 10 de

dezembro de 1.930.

9- LETRA HIPOTECÁRIA - Lei no 7.684, de 02 de dezembro de 1.967.

10- CÉDULA RURAL PIGNORATÍCIA – Decreto-lei no 167, de 14 de fevereiro de

1.967.

11- CÉDULA RURAL HIPOTECÁRIA – Idem.

12- CÉDULA RURAL PIGNORATÍCIA E HIPOTECÁRIA – Idem.

13- NOTA DE CRÉDITO RURAL – Idem.

14- NOTA PROMISSÓRIA RURAL – Idem.

15- DUPLICATA RURAL – Idem.

16- LETRA IMOBILIÁRIA - Lei no 4.380, de 31 de agosto de 1.964.

17- CERTIFICADO DE DEPÓSITO BANCÁRIO – Lei no 4.728, de 14 de julho de

1.965.

18- CÉDULA DE CRÉDITO INDUSTRIAL – Decreto-lei no 413, de 09 de janeiro

de 1.969.
103

19- NOTA DE CRÉDITO INDUSTRIAL – Idem.

20- AÇÕES DE SOCIEDADE POR AÇÕES - Lei no 6.404, de 15 de dezembro de

1.976.

21- CERTIFICADO DE DEPÓSITO DE AÇÕES – Idem.

22- PARTES BENEFICIÁRIAS – Idem.

23- CERTIFICADO DE DEPÓSITO DE PARTES BENEFICIÁRIAS - Idem.

24- DEBÊNTURES – Idem.

25- CERTIFICADO DE DEPÓSITO DE DEBÊNTURES – Idem

26- CÉDULA DE DEBÊNTURES – Idem

27- BONUS DE SUBSCRIÇÃO DE AÇÕES – Idem

28- CERTUIFICADO DE BÔNUS DE SUBSCRIÇÃO DE AÇÕES – Idem

29- BILHETE DE MERCADORIA - Lei no 165-A, de 1.890.

30- CÉDULA HIPOTECÁRIA - Decreto-lei no 70, de 21 de novembro de 1966, e

resolução no 228, de 04 de julho de 1972, do Banco Central do Brasil .

31- CERTIFICADO DE DEPÓSITO EM GARANTIA – Lei no 4.728, de 14 de julho

de 1.965, artigo 31.

32- CERTIFICADOS DE INVESTIMENTO – Resolução no 145, de 14 de abril de

1.970, do Banco Central do Brasil.


104

33- CÉDULA DE CRÉDITO À EXPORTAÇÃO – Lei no 6.313, de 16 de dezembro

de 1.975. Circular do BCB 7.586, de 25 de outubro de 1.977.

34- NOTA DE CRÉDTIO À EXPORTAÇÃO – Idem.

35- CÉDULA DE REGISSTRO COMERCIAL.

36- NOTA DE CRÉDITO COMERCIAL.

37- CÉDULA DE PRODUTO RURAL – CPR – Lei no 8.929, de 22 de agosto de

1.994.

38- CERTIFICADOS DE ENERGIA ELÉTICA – Instrução no 267, de 1º de agosto

de 1.997, da Comissão de Valores Mobiliários.

39- CERTIFICADOS DE RECEBÍVEIS IMOBILIÁRIOS – CRI – Lei no 9.514, de

19 de fevereiro de 1.998.

40- CONHECIMENTO DE TRANSPORTE MULTIMODAL DE CARGAS – Lei no

961, de 19 de fevereiro de 1.998.

41- CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO – Medida Provisória no 2.161/35, de 23

de agosto de 2.001, e Medida Provisória no 2.160/25, de 23 de agosto de 2.001.

42- CERTIFICADO DE CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO – Medida Provisória

no 2.161/35, artigo 19.

43- LETRA DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO – Medida Provisória no 2.223, de 4 de

setembro de 2.001.

44- CÉDULA DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO – Medida Provisória no 2.223, de 4 de

setembro de 2.001.
105

23. LETRA DE CÂMBIO

23.1 Constituição e Exigibilidade do Crédito Cambiário

A letra de câmbio, cuja estrutura possibilita o exame de todos os aspectos

relevantes dos atos de constituição e exigibilidade do credito cambial.

No Brasil, quase não existe a letra de cambio. Como o direito brasileiro criou um

título de crédito mais operacional – a duplicata mercantil -, a letra de câmbio

deixou de ser utilizada pelos comerciantes, e, hoje, é até mesmo proibida a sua

emissão, na compra mercantil e na prestação de serviços.

É um titulo de pouquíssima utilização, mas que serve, melhor que qualquer outro,

à completa apresentação dos institutos jurídico-cambiários.

A importância do titulo para o desenvolvimento do comércio internacional, por

outro lado, de ensejo, no inicio do século XX, a iniciativas diplomáticas que

redundaram, em 1930, na assinatura da Convenção de Genebra para a adoção

de uma lei uniforme sobre letra de câmbio e nota promissória. Uniformizando-se o

direito sobre a matéria cambial, os acordos comerciais entre empresas sediadas

em países diferentes podiam ser concluídos com maior facilidade.


106

Segundo Coelho59, a disciplina da constituição e exigibilidade do credito cambiário

é objeto da Convenção de Genebra, que prevê a sua uniformização nos direitos

dos paises signatários, entre os quais o Brasil.

O Brasil, quando participou da Convenção de Genebra, já possuía direito

cambiário bastante evoluído, representado pelo Decreto n. 2044, de 1908.

Apenas em 1966, foi editada norma com intuito de atender ao compromisso

internacional assumido em 1930: o decreto n. 57.663, que “promulga as

Convenções para adoção de uma Lei Uniforme em matéria de letras de câmbio e

notas promissórias”.

Agregam -se à Convenção dois anexos: o texto da lei uniforme e as reservas

admitidas, como o Brasil assinalou 13 reservas, a lei uniforme não vigora

inteiramente entre nós.

Nas matérias reservadas, permanecem em vigor as normas correspondentes do

Decreto n. 2044/08 – que compõem a chamada lei cambial interna.

Por outro lado, como não se operou revogação expressa desse decreto, por força

do art. 2ª, §1ª, da Lei de Introdução ao Código Civil, os dispositivos

correspondentes à matéria não disciplinada pela lei uniforme continuam vigentes.

Com esses esclarecimentos podemos enumerar, em síntese, os requisitos

essenciais que a letra de câmbio deve conter:

1ª - a palavra “letra de câmbio”;

2ª - a quantia que deve ser paga;

59
COELHO, Ob. cit. P. 389
107

3ª - o nome de quem deve pagar (sacado);

4ª - o nome da pessoa a quem deve ser pago (tomador);

5ª - a data e lugar onde a letra é sacada;

6ª - a assinatura de quem emite a letra (sacador)

23.2 Ineficácia da Cambial Por Falta de Requisitos Essenciais

O formalismo da letra de câmbio impõe que seja revestida de requisitos

essenciais. O título a que faltar um desses requisitos deixa de ser de câmbio. O

mandamento deflui do ar. 2ª da Lei Uniforme: “O escrito em que faltar um dos

requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como letra...”. O

decreto n. 2044, de 1908, dispunha que “não será letra de câmbio o escrito a que

faltar qualquer dos requisitos acima enumerados”.

Segundo Requião60, a letra de câmbio é uma ordem de pagamento à vista ou a

prazo. Sendo uma ordem de pagamento que alguém dirige a outrem para pagar a

terceiro, importa numa relação entre pessoas que ocupam três posições no título:

a de sacador, a de sacado e a de beneficiário da ordem.

60
REQUIÃO, Ob. cit. p. 387.
108

23.3 Saque da Letra de Câmbio

O sacador da letra de câmbio é a pessoa que dá a ordem de pagamento; o

sacado, a pessoa para quem a ordem é dada; e o tomador, o beneficiário da

ordem. A letra de câmbio, assim, é a ordem que o sacador dá ao sacado, no

sentido de pagar determinada importância ao tomador.

O saque da letra, portanto, é o ato de criação do título de credito. É através dele

que o sacador dá nascimento à letra de câmbio.

23.4 Aceite da Letra de Câmbio

A letra de câmbio é uma ordem de pagamento que o sacador endereça ao

sacado. Este não se encontra obrigado a cumprir a ordem contra a sua vontade.

Pelo contrário, enquanto não manifesta sua concordância, através de ato lançado

no próprio título, o sacado não tem nenhuma obrigação cambial. Esse ato é o

aceite. Através dele, o sacado se vincula ao pagamento da letra de câmbio e se

torna o seu devedor principal.

O aceite decorre da assinatura do sacado no anverso da letra de câmbio.

A recusa parcial do aceite manifesta-se na hipótese em que o sacado concorda

em obrigar-se por uma parte do valor da letra de câmbio (aceite limitativo), ou

introduz condições de pagamento diversas da estabelecida pelo sacador (aceite


109

modificativo). Nas duas hipóteses, dá-se o vencimento antecipado do titulo, e o

aceitante se vincula, nos termos do seu aceite.

23.5 Cláusula Não Aceitável

Pela cláusula não aceitável, o sacador proíbe a apresentação da letra de câmbio

ao sacado antes do dia designado para o seu vencimento. Sua utilidade é

preservar os coobrigados do título contra a antecipação do vencimento, que

decorreria de eventual recusa do aceite.

23.6 Endosso da Letra de Câmbio

Na medida em que o ato responsável pela transferência do crédito a outro sujeito

de direito é objeto de disciplina jurídica específica, que o resguarda nas hipóteses

de insolvência do devedor originário ou de eventuais vícios anteriores, na criação

e circulação do documento.

Esse ato é o endosso, pelo qual o credor de um título de crédito com a cláusula à

ordem transmite os seus direitos a outra pessoa. O endosso introduz, na letra de


110

câmbio, duas novas situações jurídicas: a do endossante e a do endossatário. Na

primeira, encontra-se o credor do título que resolve transferi-lo a outra pessoa; na

segunda situação jurídica, essa última, para quem o crédito foi passado.

Os títulos de crédito possuem, implícita, a cláusula “à ordem”, em virtude da qual

se admite a circulação sujeita à disciplina do direito cambiário. A cláusula “não à

ordem”, que deve ser expressa, não impede a circulação do crédito, apenas o

regime jurídico aplicável.

O endosso normalmente produz dois efeitos: transfere o título ao endossatário e

vincula o endossante ao seu pagamento. Isto é, enquanto o endossatário se torna

o novo credor da letra de câmbio, o endossante passa a ser um de seus co-

devedores. No exemplo de sempre: se Antonio (sacador) saca letra contra

Benedito (aceitante), em favor de Carlos (tomador), este último pode, antes do

vencimento, negociar o crédito nela representado, e de que é titular, junto a

Darcy. Ao transferir o título – e, com isto, o próprio crédito -, Carlos se identifica

como endossante, e Darcy como endossatário. A partir de então, a letra de

câmbio documenta crédito titularizado por Darcy, do qual são devedores Benedito

(devedor principal), Antonio e Carlos (co-devedores)

O endosso pôde ser em branco, ou em preto. No primeiro caso, o ato de

transferência da titularidade do crédito não identifica o endossatário; no segundo

identifica.
111

23.4 Aval da Letra de Câmbio

O aval é o ato cambiário pelo qual uma pessoa (avalista) se compromete a pagar

título de crédito, nas mesmas condições que um devedor desse título (avalizado).

Em geral, quando o credor não se considera inteiramente garantido frente a

determinado devedor – porque este não possui situação econômica estável ou

patrimônio suficiente à satisfação da dívida -, é comum a exigência de uma

garantia suplementar, representada pela obrigação assumida por outra pessoa.

Se o devedor é sociedade limitada, de micro, pequeno ou médio porte, o credor

normalmente exige que o seu sócio majoritário se comprometa pessoalmente com

o pagamento da dívida.

Assim, além do patrimônio da pessoa jurídica, também o do sócio garante o

cumprimento da obrigação. Nessas, hipóteses, se o crédito é documentado numa

letra de câmbio, o ato pelo qual a garantia suplementar se viabiliza é o aval.

Usualmente, o avalista garante todo o valor do título, mas a lei admite o aval

parcial.

Duas são as características principais do aval, em relação à obrigação avalizada:

de um lado, a autonomia; de outro, a equivalência. O avalista assume, perante o

credor do título, uma obrigação autônoma, mas equivalente à do avalizado. Ou,

para dizer o mesmo, por termos diversos, o aval é dotado de autonomia

substancial e acessoriedade formal.


112

Coelho61 declara, o aval representa garantia dada em favor de devedor da letra de

câmbio. Ele é autônomo e equivalente à obrigação do avalizado.

23.8 Vencimento

O saque , aceite, endosso e aval são os atos de constituição do crédito cambiário.

Através de sua prática, criam-se vínculos jurídicos, pelos quais um sujeito se

torna credor de outro, e esse devedor daquele. O crédito assim constituído será

exigível, quando atendidos determinados pressupostos. O primeiro, normalmente,

se verifica com o decurso do tempo.

O fluir do tempo é o fato a que o direito positivo atribui a qualidade de pressuposto

para a cobrança do crédito documento na cambial.

O vencimento extraordinário da letra de câmbio se dá em duas oportunidades: no

caso de recusa do aceite pelo sacado e na falência do aceite. Em relação à

primeira, lembre-se que o sacado, na letra de câmbio, não tem nenhuma

obrigação cambial se não praticar o ato de manifestação de sua concordância

com a ordem que o sacador lhe endereça. Seu aceite é sempre facultativo, de

forma que a eventualidade da recusa está presente em qualquer letra.

Opera-se a antecipação do vencimento, no caso, a menos que o título tenha sido

emitido com a cláusula “não aceitável”, ou se trate de letra à vista. Na segunda

61
COELHO, Ob. cit. p. 410.
113

circunstÂncia em que ocorre o vencimento extraordinário da letra de câmbio, a da

falência do aceitante, a exigibilidade antecipada é garantia dos credores. Nota-se

que é efeito de qualquer falência a antecipação do vencimento de todas as

obrigações do falido.

Classificam-se as letras, segundo o vencimento, em quatro espécies:

a) letra com vencimento em dia certo;

b) letra à vista;

c) letra a certo termo da vista;

d) letra a certo termo da data .

23.9 Pagamento

O pagamento da letra de câmbio extingue uma, algumas ou todas as obrigações

cambiais nela mencionadas, dependendo de quem paga. Se o devedor principal

paga a letra, o ato jurídico correspondente extingue todas as obrigações

documentadas no título. Se o pagamento é realizado pelo aceitante, assim, opera-

se a desconstituição da totalidade dos vínculos creditícios, liberando-se sacador,

endossantes e avalistas da letra.


114

Se, contudo, é o co-devedor que paga, o pagamento extingue a obrigação de

quem pagou e a dos devedores posteriores, e aquele que pagou pôde exercer,

em regresso, o direito creditício contra os devedores anteriores.

Na verdade, a liberação dos devedores cambiários segue uma única regra, que é

a de desfazimento das obrigações posteriores à do devedor que cumpriu a

obrigações posteriores à do devedor que cumpriu a obrigação documentada no

título. Como o devedor principal é o primeiro dos devedores, não há nenhum

anterior a ele. Desse modo, o seu pagamento extingue a totalidade das

obrigações porque todos os demais devedores são posteriores.

23.10 Prazo para Apresentação

A letra deve ser apresentada, ao aceitante, para pagamento, no dia do

vencimento. Se o título vence num dia não útil, a apresentação deve ser feita no

primeiro dia útil seguinte.

Para o direito comercial, útil é o dia com expediente bancário regular. Se for

feriado, ou se as autoridades com competência para o ato suspendem o

atendimento bancário, o dia não se considera útil para todos os efeitos da

legislação comercialista. Também compromete a utilidade do dia, para o direito


115

comercial, a anormalidade do expediente, provocada por greve dos bancários ou

qualquer outra razão.

A regra de apresentação da letra ao aceitante no dia do vencimento é aplicável

aos títulos pagáveis no Brasil. Nesse caso, somente se admite a apresentação no

primeiro dia útil seguinte, se o vencimento recai em dia não útil. Caso o

pagamento deva se realizar no exterior, a regra é diferente, porque se admite a

apresentação feita também nos dois dias úteis seguintes ao vencimento,

independente de ter esse recaído em dia útil ou não.

A inobservância do prazo de apresentação a pagamento, por si só, não traz

nenhuma conseqüência de relevo ao portador da letra de câmbio. A lei o

estabelece, na verdade, para disciplinar o início da fluência do prazo para o

protesto, cuja desobediência – esta sim – pôde ser prejudicial aos direitos do

credor. Apenas se a letra contém cláusula sem despesas, que dispensa o

protesto, a inobservância do prazo de apresentação a pagamento redunda na

perda do direito de cobrança.

Existe, na lei, autorização a qualquer devedor da letra, para depositar o seu valor,

na hipótese de não-apresentação tempestiva do título a pagamento. Quer dizer,

se o endossatário desobedece ao prazo de apresentação a pagamento, o

aceitante ou o co-devedor podem proceder ao depósito judicial do valor da

cambial, às custas do credor.


116

23.11 Cautelas no Pagamento

A doutrina recomenda cautelas para quem paga título de crédito. Em primeiro

lugar, em razão do principio da literalidade, deve-se exigir a quitação no próprio

título, já que não produz efeitos jurídico-cambiais o ato lançado em instrumento à

parte.

A outra cautela decore do princípio da cartularidade, e consiste em exigir a

entrega de título, indispensável para o exercício do direito de regresso ou, pelo

menos, para impedir que o documento seja transferido a terceiro de boa-fé.

Também cabe, por fim, registrar a conferencia da regularidade dos endossos

como medida de cautela no pagamento dos títulos de crédito.

23.12 Anulação da Letra de Câmbio

Segundo Requião62, o Decreto n° 2.044, socorreu o credor, criando a ação de

anulação da letra extraviada ou destruída. Lei Uniforme disso não cogitou, pois o

problema diz respeito ao direito processual comum, não sendo tema que deva

necessariamente ser versado numa lei cambiária. Portanto, temos para nos que a

62
REQUIÃO, Ob. cit. p. 459.
117

matéria não foi revogada pelo silencio da Convenção de Genebra, estando em

vigor o Capitulo X da antiga Lei, sob o título “Da anulação da letra”.

O proprietário da letra, autor da ação, deve justificar, na petição inicial, a sua

propriedade, bem como esclarecer as circunstâncias que resultaram no extravio

ou destruição do título. Por extravio deve entender-se a pêra, furto ou qualquer

outra forma de apossamento. A letra e os fatos devem, assim, ser cumpridamente

descritos com clareza e precisão.

23.13 Prescrição da Ação

A prescrição é a perda da ação atribuída a um direito, e de toda a sua capacidade

defensiva, em conseqüência do não-uso delas, durante um determinado espaço

de tempo.

Em virtude da celeridade e informalismo peculiares aos negócios mercantis, os

prazos, de prescrição se tornam cada vez mais exíguos.

A lei cambia de 1908 havia fixado o prazo de prescrição em cinco anos a favor do

sacador aceitante, e respectivos avalistas, e de doze meses a favor do

endossante e respectivos avalistas, contados do dia em que a ação podia ser

proposta.

A Lei Uniforme reduziu ainda mais esses prazos, como se vê:


118

a) as ações contra o aceitante prescrevem em três anos a contar do

vencimento;

b) as ações do portador contra os endossantes e contra o sacador

prescrevem em um ano, a contar da data do protesto feito em tempo útil,

ou da data do vencimento, quando se trata de letra com cláusulas “sem

despesas”;

c) as ações dos endossantes uns contra os outros e contra o sacador

prescrevem em seis meses a contar do dia em que o endossante pagou a

letra ou em que ele próprio foi acionado.

A prescrição pôde ser interrompida, mas só produz efeito em relação à pessoa

contra quem foi dirigida. Por iniciativa do portador, é claro, pôde interromper-se a

prescrição contra um ou todos os obrigados ou coobrigados.


119

24. NOTA PROMISSÓRIA

Segundo Requião63, nota promissória é uma promessa direta de pagamento do

devedor ao credor. Integra o direito cambiário, pois é uma espécie de cambial.

Constitui compromisso escrito e solene, pelo qual alguém se obriga a pagar

outrem certa soma em dinheiro.

Difere a nota promissória da letra de câmbio. A primeira é uma promessa de

pagamento, já a segunda é uma ordem de pagamento.Na nota promissória a

relação cambiária se estabelece apenas entre duas pessoas: o emitente, devedor,

que promete o pagamento ao beneficiário, que é o credor.

O emitente da nota promissória é equiparado, para os efeitos legais, ao aceitante

a letra de câmbio, pois no título ocupa a posição de devedor. A nota promissória

não tem aceite, pois a simples assinatura do emitente o obriga ao pagamento,

como ocorre com o aceitante da letra de câmbio.

Como título cambiário a nota promissória segue a disciplina da letra de câmbio,

não só legal como doutrinariamente.

63
REQUIÃO, Rubens. ob. cit., p. 465
120

Coelho64, relata que a nota promissória é uma promessa do subscritor de pagar

quantia determinada ao tomador, ou à pessoa a quem esse transferir o título.

A nota promissória, tanto no Decreto n° 2.044 como na Lei Uniforme, ao lado da

letra de câmbio, integra a lei cambial e é objeto do chamado direito cambiário.

Aplicam-se-lhe todos os preceitos reguladores da letra de câmbio, naquilo que

evidentemente com ela for compatível. A Lei Uniforme, no art. 77, é expressa ao

determinar que lhe são aplicáveis, na parte em que não sejam contrárias à sua

natureza, as disposições relativas às letras de câmbio e concernentes ao

endosso, aval, vencimento, pagamento, direito de ação por falta de pagamento,

pagamento por intervenção, cópias, alterações, prescrição, dias feriados,

contagem de prazo e interdição de dias de perdão. A disciplina jurídica, portanto,

é a mesma.

São requisitos essências, sem o que o título não será cambiário, os seguintes,

exigidos pela Lei Uniforme (art. 75): a) Denominação nota promissória inserida no

próprio texto e expressa na língua empregada na redação do título; b) a promessa

pura e simples de pagar a quantia determinada; c) o nome da pessoa a quem ou

a ordem de quem deve ser paga; d) a indicação do lugar em que se deve efetuar

o pagamento; e) a indicação da data em que a nota promissória é emitida; f) a

assinatura de quem a emite (subscritor).

A Lei Uniforme inclui entre os elementos que a nota promissória deve conter, mais

os seguintes: a época do pagamento e a indicação do lugar em que foi passada.

Estes não são requisitos essenciais, pois no art. 76 estabelece que, se a nota

promissória não indicar a época do pagamento, será considera pagável à vista;

64
COELHO, Fábio Ulhoa. ob. cit., p. 429
121

não indicando, de forma especial, o lugar onde o título foi emitido considera-se

como tendo sido o lugar do pagamento e, e ao mesmo tempo, o lugar do domicílio

do subscritor; a que não contenha indicação do lugar onde foi passada

considera-se como tendo sido no lugar designado ao lado do nome do subscritor.


122

25. CHEQUE

Segundo, Fábio Ulhoa Coelho65, o cheque é uma ordem de pagamento à vista,

sacada contra um banco e com base em suficiente provisão de fundos

depositados pelo sacador em mãos do sacado ou decorrente de contrato de

abertura de crédito entre ambos.

A lei do cheque n.° 7.357/85 em seu art. 32, dispõe sobre seu elemento essencial

que tem natureza de ordem à vista, qualquer cláusula que venha a alterar esta

sua essencial característica é considerada não escrita e, portanto, ineficaz. Um

cheque pós-datado é pagável em sua apresentação, à vista, mesmo que esta se

dê em data anterior àquela indicada como a de sua emissão (art. 32, parágrafo

único).

O credor do cheque não pode responsabilizar o banco sacado pela inexistência

ou insuficiência de fundos disponíveis.

65
COELHO,Fábio Ulhoa , ob. cit., p.252.
123

A Instituição Financeira responde apenas por ato ilícito que venha a praticar, mas

não pode assumir qualquer obrigação cambial referente a cheques sacados por

seus correntistas.

Os fundos disponíveis em conta corrente pertencem, até a liquidação do cheque,

ao correntista sacador.

25.1 ANÁLISE DOS REQUISITOS ESSENCIAIS

I – A denominação “cheque”. Todo título cambiário contém em sua face,

necessariamente, a sua designação, para que qualquer um, por mais desatento

que esteja, logo perceba de que documento se trata.

II – A ordem incondicional de pagar quantia determinada.

A Lei Uniforme enuncia para o requisito: “ O mandato puro e simples de pagar

quantia determinada”.

III – O nome do banco ou da instituição financeira que deve pagar (sacado).

O princípio de que o cheque somente poderá ser sacado contra um banqueiro

resulta não só de dispositiva expresso da lei, como também de preceitos esparsos

contidos em nossa legislação financeira. Acresce que a Lei n°. 4.728, que regula

e disciplina o mercado de capitais, ao aludir as contas bancárias, dando ao

cheque o poder probatório de pagamento, restringe-os aos “Bancos e casas

bancárias” (art. 51).


124

IV- Indicação do lugar do pagamento.

O cheque se chama domiciliado quando for pagável no domicílio de terceiro, quer

na localidade em que o sacado tenha domicílio, quer em outra, desde o terceiro

seja banco (art. 11).

V- A indicação da data e lugar de emissão. A indicação da data da emissão é

importante pois permite determinar se na ocasião o sacador tinha capacidade de

se obrigar. Além disso, é essencial para se calcular o prazo de apresentação e de

prescrição.

VI- Assinatura do emitente (sacador), ou de seu mandatário com poderes

especiais. A assinatura é o requisito mais importante do cheque.

A Convenção de Genebra reservou aos países aderentes a faculdade de

determinar de que maneira pode ser suprida a falta de assinatura, desde que por

uma declaração autêntica escrita no cheque se constatar a vontade daquele que

deveria ter assinado (Anexo II, art. 2°).

Entende-se por assinatura todo e qualquer sinal material, que sirva para

identificar, nos papéis ou títulos, a personalidade daquele que a opõe.

O problema da forma da assinatura, constitui matéria de competência da

legislação nacional. Qualquer tipo de assinatura, extensa ou abreviada, a simples

rubrica, uma chancela, servem para autenticar a declaração de vontade,

vinculando o autor ao papel.

O problema da vinculação do analfabeto, por outro lado, é resolvido de forma

pratica. Não sendo admissível, no cheque, a assinatura a rogo, nem a sua


125

aposição de suas impressões digitais, o analfabeto, ou incapacitado fisicamente

para assinar, deve constituir um mandatário com poderes especiais, por

instrumento público (em que é válida a sua assinatura a rogo, atestada por duas

testemunhas).

O cheque é título de modelo vinculado, cuja a emissão somente pode ser feita em

documento padronizado, fornecido em talões, pelo banco sacado ao correntista.

O devedor principal de um cheque é o seu sacador.

Segundo Requião66, o cheque pode assumir diversos aspectos funcionais, que

passamos a examinar.

O cheque cruzado por duas linhas paralelas em sua face, lançadas pelo sacador

ou portador, restringe a sua circulação e somente pode ser pago ser pago a um

banco ao a um cliente do sacado. A lei dispões sobre o cheque cruzado, isto é

atravessado por dois traços paralelos só pode ser pago a um banco; e se o

cruzamento tiver o nome do banco, só a este pode ser feito o pagamento. É um

cheque, como se vê, de circulação restrita.

Cheque bancário, de tesouraria ou administrativo. O art. 9°. Da nova lei, no inc. III,

permite que o cheque possa ser emitido contra o próprio banco sacador, desde

que não ao portador.

O art. 6°. Da Lei Uniforme assim enunciou: “O cheque não pode ser passado

sobre o próprio sacador, salvo no caso em que se trata dum cheque sacado de

um estabelecimento para outro estabelecimento, ambos pertencentes ao mesmo

sacador.

66
REQUIÃO, ob. cit., p.520.
126

Cheque especial. Os estabelecimentos bancários, afim de acolherem e

prestigiarem clientes de qualidade, favorecem para eles a movimentação de

contas sem que necessariamente tenham, no momento, fundos disponíveis. É

criada uma linha de crédito aberta ao titular da conta, que pode sacar sem a

suficiente provisão de fundos, quando previamente fixada em contrato entre as

partes.

Cheque “para levar em conta”. É um cheque emitido com cláusula impeditiva de

seu pagamento em numerário. Basta que o sacador ou portador insira na face do

cheque, transversalmente, a menção “para levar em conta”, ou outra equivalente.

Esse cheque é eminentemente escritural, pois o seu efeito só admite que o

sacado faça a liquidação por lançamento do crédito em conta, ou transfira de uma

conta para outra em compensação. Esse lançamento de escritura vale como

pagamento.

Existem outras espécies de cheque que não estão inseridas na lei, mas que sã

aceitas pelos usos e costumes.

Cheque de viagem. Para facilitar a segurança dos recursos que o viajante ou

turista transporta consigo, instituiu-se um sistema de cheque de grande utilidade e

conforto. Os estabelecimentos bancários que com eles operam, vendem o cheque

isolado ou em talonários, de importâncias fixas, impressas no seu texto. Na

presença do banqueiro, ou funcionário seu, o emitente- após identificar-se- apõe a

sua assinatura na parte superior do cheque, ali ficando ela registrada. A qualquer

momento, em praça diferente ou na mesma praça, o viajante emite o cheque,

identificando-se novamente e o assinando, ao pé, em lugar indicado. Conferindo a

assinatura aposta anteriormente no alto do cheque, com a Segunda assinatura


127

lançada na parte inferior, de modo a permitir a sua conferência, está o cheque

pronto para ser pago.

Cheque fiscal. Batizamos com este nome os cheques emitidos pelas autoridades

fiscais, para devolução de excessos de arrecadação tributária. As Instituições do

Ministério da Fazenda criaram o cheque de restituição de imposto de renda-

pessoa física.

Cheque postal. O art. 66 dispõe que os vales ou cheques postais, os cheques de

poupança ou assemelhados e os cheques de viagem regem-se pelas disposições

especiais a eles referentes.

Extinção do cheque marcado. A antiga Lei n°. 2.591/12, regulava o cheque

marcado, desde que houvesse concordância o sacado marcava o pagamento

para certa data. A Lei Uniforme não registra o cheque marcado, no que foi

seguida pela nova lei.

Nada impede, hoje, que portador concorde com a dilação, dando “ um prazo de

respiro” para o sacado obter o encaixe necessário. Seria fruto de uma convenção

extracartular entre o sacado e o portador, nada impedindo que por ato volitivo

este admita a dilação do pagamento. Isso não pode ser denominado

cambiariamente como cheque marcado, como era na lei anterior.


128

25.2 O CHEQUE NÃO ADMITE ACEITE MAS COMPORTA O VISTO

O cheque por definição doutrinária e legal, é uma ordem de pagamento à vista.

Está fora, pois, de cogitação o seu aceite. Considera-se não escrita qualquer

declaração nesse sentido, enuncia o art. 6°.

O art. 7° , com efeito, admite que o sacado, a pedido do emitente ou do portador

legitimado, lance e assine, no verso do cheque, que não ao portador e ainda não

endossado, visto, certificado ou outra declaração equivalente, datada e por

quantia igual à indicada no título.

25.3 O ENDOSSO DO CHEQUE

O cheque, já vimos, é um título que importa uma ordem de pagamento à vista.

Essa é, na verdade, a sua principal função. Sua vida, pois, deve ser transitória.

Isso não importa em dizer que não possa ser negociado, circulando. Ele

corporifica um crédito que pode ser transferido a novo credor. Essa circulação se

efetua normalmente pelo endosso, bastando simplesmente a assinatura do

beneficiário no seu verso. O portador ou beneficiário se torna, assim, endossante

ou endossador e o novo beneficiário, que o substitui, o endossário.


129

25.4 O AVAL.

O capítulo III, nos art. 29 e 30, regula o aval do cheque. O pagamento do cheque,

como o da cambial, pode ser garantido por aval dado por terceiro, com exceção

do sacado ou mesmo do signatário do título. O avalista torna-se obrigado da

mesma forma que o avalizado, como é da essência do instituto.

O art. 29 da lei esclarece que o aval pode ser dado no todo ou em parte.

Denomina-se aval parcial.

O aval é lançado no cheque ou na folha de alongamento. Exprime-se pelas

palavras “por aval”, ou fórmula equivalente, com a assinatura do avalista. O lugar

próprio para recebê-lo é no verso do cheque, salvo quando se tratar da assinatura

do emitente. Não é possível o aval dado pelo emitente, pois esse é o criador do

título, obrigado principal, e não seria lógico que fosse garantir o própria obrigação.

O art. 31 dispõe que o avalista se obriga da mesma maneira que o avalisado.

Subsiste sua obrigação, ainda que nula a ele garantida, salvo se a nulidade

resultar de vício de forma. Isso decorre do princípio da autonomia da obrigação.

O avalista que paga o cheque adquire todos os direitos dele resultantes contra o

avalisado e contra os obrigados para com este em virtude do cheque.


130

25.5 OBRIGAÇÃO SOLIDÁRIA

Uma das curiosidades jurídicas do instituto do cheque é de que todos os

obrigados respondem solidariamente para com o portador do cheque. Esse

princípio, expresso no art. 51 da lei, dispõe que o portador tem o direito de

demandar todos os obrigados, individual ou coletivamente, sem estar sujeito a

observar a ordem em que se obrigam. O mesmo direito cabe ao obrigado que

pagar o cheque.

A regra segue basicamente as disposições do direito civil. O art. 275 do código

civil, dispõe claramente que “o credor tem direito a exigir e receber de um ou

alguns dos devedores, parcial ou totalmente, a dívida comum. No primeiro caso,

todos os demais devedores continuam obrigados solidariamente pelo resto.

25.6 DIREITO PENAL SOBRE O CHEQUE

Requião67 relata que no art. . 65 dispõe, que os efeitos penais na emissão sem

suficiente provisão de fundos, da frustração de seu pagamento, da falsidade, da

falsificação e da alteração do cheque continuam regidos pela legislação criminal.

67
REQUIÃO, Rubens ob. cit., p536
131

25.7 PRAZO DE APRESENTAÇÃO

Segundo Coelho68, o cheque deve ser apresentado pelo credor, o banco sacado,

para liquidação, dentro do prazo assinalado pela lei (LC, art. 33). Para os “da

mesma praça”, o prazo é de 30 dias; para os “de praça diferente”, 60, sempre a

contar do saque.

A inobservância do prazo de apresentação acarreta a perda do direito de executar

os endossantes do cheque, e seus avalistas, se o título é devolvido por

insuficiência de fundos (LC, art. 47, II).

Ressalta-se, que o cheque, mesmo após o transcurso dos 30 ou 60 dias da lei,

ainda poderá ser apresentado ao banco sacado, para fins de liquidação. Apenas

depois de prescrita a execução_ quer dizer Ultrapassados 6 meses do término do

prazo de apresentação_ , o sacado não poderá mais receber e processar o

cheque (LC, art. 35, parágrafo único, in fine).

25.8 CHEQUE PÓS-DATADO

COELHO69, relata que o cheque pós-datado é importante instrumento de

concessão de crédito ao consumidor. Embora a pós-datação não produza efeitos

68
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit.
69
COELHO, ob cit, p. 441.
132

perante o banco sacado, na hipótese de apresentação para liquidação, ela

representa um acordo entre o tomador e o emitente. A apresentação precipitada

do cheque significa o descumprimento do acordo. Neste caso o banco não poderá

negar à liquidar os cheques se houver, em conta, fundos bastantes ou recursos

disponíveis provenientes de contrato de abertura de crédito (cheque especial).

Ao se parcelar o preço do fornecimento em duas ou mais vezes, tem-se preferido

geralmente, para comodidade de ambas as partes, a entrega pelo consumidor de

tantos cheques quantas forem as parcelas, emitidos com data futura (o cheque

pós-datado que, além dos círculos dos cultores do direito cambiário, todos

conhecem por cheque pré-datado). O crescente uso desse tipo de cheque

representa, sem dúvida, um certo desvio da natureza do título, criado para

instrumentalizar pagamentos à vista.

Se o cheque pós-datado, apresentado ao sacado antes da data combinada entre

consumidor (emitente) e fornecedor (tomador), for liquidado, cabe a indenização

pela inadimplência da obrigação de não fazer, contratualmente assumida _ por via

oral ou escrita, através de publicidade (CDC, art. 30) ou de outro meio _ pelo

credor.

Por outro lado, se o cheque pós-datado apresentado em data anterior à

combinada retornar ao empresário fornecedor, em razão de insuficiência de

fundos, uma vez promovida a sua execução judicial, terá o consumidor o direito

de, no embargos, exigir a redução proporcional do valor da cobrança, para

compensação dos prejuízos que sofreu, em particular com o pagamento da taxa

do serviço de compensação bancária e demais encargos contratuais. Além disso,

deve ao fornecedor suportar integralmente os ônus da sucumbência,


133

prosseguindo a execução pelo saldo remanescente, se houver. Cabe ainda, a

reparação pelos danos morais sofridos pelo emitente.

Sobre a pós-datação, cabe, considerar alguns desdobramentos da definição do

cheque como título “bancável”. Explique-se: as instituições financeiras, no

desenvolvimento de suas atividades típicas, descontam títulos de crédito

(duplicatas e notas promissórias, fundamentalmente), antecipando ao seu credor

o valor do crédito a se realizar em data futura _ na verdade, parte desse valor,

para lucrar com a diferença _ e recebendo-os por endosso.

Destarte, o cheque pós-datado pode servir de título negociável, para fins de

desconto bancário ou cessão para empresa de fomento mercantil (factoring).

25.9 SUSTAÇÃO DO CHEQUE

O pagamento do cheque pode ser sustado pelo emitente em duas hipóteses: a)

revogação, também chamada contra ordem (LC, art. 35); b) oposição (LC, art.

36). Em ambas, o objeto é impedir a liquidação do cheque, pelo banco sacado;

pressupõem, portanto, não tenha essa realizado à data da sustação. Cheque

regularmente processado e pago não pode ser objeto de revogação e oposição.

Ao banco sacado não cabe apreciar as razões do ato. Se a sustação é, em

particular, medida justa ou abuso de direito, isso não é coisa que se deva

preocupar o banco. A validade ou invalidade da sustação somente pode ser


134

determinada pelo juiz, cabendo ao prejudicado demandar o emitente e provar o

abuso no exercício do direito.

Autorizam em geral, a sustação os fatos de desapossamento indevido de talões

de cheques ou do título já emitido (assim a perda, o roubo, furto, apropriação

indébita, etc.). Nota-se que a infundada sustação do pagamento do cheque tem

os mesmos efeitos penais da emissão do cheque sem fundos; isto é, caracteriza

crime de estelionato (CP, art. 171, § 2°, VI). O emitente não pode sustar a

liquidação do título, a pretexto de preservar seus direitos contratuais e forçar a

terminação dos serviços. Até mesmo porque o cheque pode Ter sido transferido,

por endosso, a terceiro de boa-fé, que se encontra amparado pelo direito

cambiário.

25.10 CHEQUES SEM FUNDOS

Verificando o banco sacado, no procedimento de liquidação do cheque, não

possui o emitente fundos suficientes em sua conta de depósito, deve restituir o

título a quem lho apresentara, com a declaração correspondente. Anote-se que o

banco deve pagar os cheques seguindo a ordem de apresentação. Quando dois

ou mais cheques são apresentados simultaneamente, não havendo fundos


135

suficientes para o pagamento, o sacado deve dar preferência aos de data de

emissão, prevalece o número inferior (LC, art. 40).

Por norma regulamentar do Banco Central, cada cheque comporta apenas duas

apresentações, mas o credor não se encontra obrigado a realizá-las, em nenhum

caso. Ou seja, devolvido o cheque sem fundos, pode o credor promover a

cobrança judicial de imediato, sem a Segunda apresentação.

A emissão de cheque sem fundos é punida , no Brasil, como crime. Além disso, o

emitente está sujeito a sanções de natureza administrativa. A emissão de cheque

sem fundos caracteriza estelionato (CP, art. 171,§ 2°,VI). Como estelionato, a

conduta apenas é típica se dolosa, fraudulenta e danosa, quem emite cheque

sem fundos por culpa, por negligenciar no controle do saldo não incorre em crime,

e pode, até o recebimento da denúncia, pagar o cheque e, com isso, obstar a

ação penal.(Súmula 246 do STF).

No âmbito administrativo, cabe ao Banco Central disciplinar a repressão ao uso

do cheque sem fundos. A sistemática vigente prevê, em suma, duas sanções: a

inscrição no CCF (Cadastro de Emitente de Cheques Sem Fundos) e o

pagamento da taxa do Serviço de Compensação de Cheques e Outros Papéis.


136

26. DUPLICATA

26.1 Histórico

Baseado nos ensinamentos doutrinários de Rubens Requião70 e Fábio Ulhoa

Coelho71, constatamos que a duplicata é o título de crédito criado pelo direito

brasileiro. Sua origem se encontra no Código Comercial de 1850, que impunha

aos comerciantes atacadistas, na venda aos retalhistas, a emissão de fatura ou

conta – isto é, a relação por escrito das mercadorias entregues. O instrumento

devia ser emitido em duas vias (“por duplicado”, dizia a lei), as quais, assinadas

pelas artes, ficavam uma em poder do comprador, e outra do vendedor. A conta

assinada pelo comprador, por sua vez, era equiparada aos títulos de crédito,

inclusive para fins de cobrança judicial.

Com a legislação cambiária de 1908, foi revogada a norma que atribuía á conta

assinada os efeitos de título de crédito, sendo repelidas pelo banco

permanecendo em vigor, mais ainda ineficaz, a obrigatoriedade da fatura em duas

vias, nas operações entre comerciantes. Anota a doutrina, também, que o

70
REQUIÃO, Rubens. ob. cit.
71
COELHO, Fábio Uhoa. Curso de Direito Comercial. Obra cit., p 452
137

comércio resistiu a doação da letra de câmbio e da nota promissória (Requião,

2003, p 542), continuando, ao que tudo indica, a prevalecer a informalidade nas

transações. A sistemática criada pelos elaboradores do Código Comercial de

1850 somente foi resgatada, para atender a necessidade de ordem fiscal. Em

1915, o governo tentou tornar obrigatória a emissão das faturas, para fins de

controlar a incidência do imposto do selo. Nos anos 1920, o I Congresso das

Associações Comerciais surgiu a criação, por lei, de um título (a “duplicata

fatura”).

Assim a duplicata, é o título nascido como instrumento de controle de incidência

de tributos. Os comerciantes, ao realizarem operações de venda, estavam

obrigados a emitir a duplicata e, ao assiná-las, deveriam inutilizar estampilhas

previamente adquiridas nas repartições fiscais (colando-as no título e lançando

sobre elas a assinatura).

No fim dos anos 1960 a disciplina jurídica da duplicata passou por nova

mudança, com a edição da Lei m. 5.474/68 (LD) e do Dec. – lei n. 436/69, que

alterou parcialmente. A partir de então, o título passa a ter funções de exclusiva

natureza comercial, relacionadas a constituição, circulação e cobrança do crédito

nascido de operações mercantis ou de contratos de prestação de serviços,

desvencilhando-se dos aspectos fiscais que cercavam.

A diferença essencial entre a letra de câmbio e a duplicata reside no regime

aplicável ao aceite. De fato, enquanto o ato de vinculação do sacado a cambial é

sempre facultativo, no título brasileiro, a sua vinculação é obrigatória (ou seja, o

sacado, quando devedor do sacador, se obriga ao pagamento da duplicata, ainda

que não a assine).


138

É sobretudo importante registrar que a nossa lei da década de 1960, ao aprimorar

a disciplina de institutos típicos da duplicata, como o aceite obrigatório (LD, art.

8º), o protesto por indicações (LD, art. 13 § 1º ) e a execução do título não

assinado (LD, art. 15, I), acabou criando as condições necessárias ao

desenvolvimento dos meios informatizados de registro, circulação e cobrança do

crédito. São duas as duplicatas: a mercantil e a de prestação de serviços.

26.2 Conceito de Duplicata Mercantil

Baseado em REQUIÃO72 e na lei 5474 de 1968, pode-se ter a noção de duplicata,

que é um título de crédito formal, circulante por meio de endosso, constituindo um

saque fundado sobre crédito proveniente de contrato de compra e venda

mercantil ou de prestação de serviço, assimilado aos títulos cambiários por força

de lei.

A Lei nº 5.474, de 1968, não exige a emissão da duplicata, constituindo, portanto,

uma faculdade do credor. Se pretender ele operar bancariamente com o crédito

resultante da venda, emitirá a duplicata; não o desejando, porém, poderá cobrar

simplesmente a fatura do comprador, sem que tenha a necessidade de emitir o

título. Pode até figurar como condição do contrato de compra e venda e não-

extração de duplicata, comprometendo-se o comprador, findo o prazo concedido,

72
REQUIÃO ob. cit., P549
139

a efetuar o pagamento, mediante recibo na fatura ou por outro documento que

identifique a causa da quitação.

26.2.1 Requisitos

Os requisitos básicos para emissão de uma duplicata encontram-se no art.2º, §1º

da Lei das Duplicatas. Sendo eles:

I – a denominação “DUPLICATA”, a data de sua emissão e o número de ordem.

Por data de emissão, entende-se a data que emitiu a referida duplicata, por

número de ordem, entende-se que existem várias duplicatas com o mesmo

número de ordem, acrescido de A,B,C...

OBS: A fatura não terá o mesmo número da duplicata por que ela não é

obrigatória. A não ser quando o comerciante se utiliza de Nota Fiscal Fatura.

II – Número da Fatura ou da Nota Fiscal Fatura.

III – Data certa do vencimento, ou declaração de ser a duplicata á vista.

Será à vista quando no ato da apresentação ocorrer o pagamento, quando o

pagamento não ocorre como a forma descrita anteriormente a data certa ou o dia

certo do vencimento deve vir especificado.

IV – O nome e domicilio do vendedor e do comprador.

O vendedor cria o título. É o sacador.

O vendedor tem que ser comerciante ou uma empresa prestadora de serviços.


140

O comprador pode ser qualquer pessoa. É o sacado.

Só é necessário a assinatura do emitente.

A Lei diz que as pessoas que fazem parte de uma duplicata tem que ser

domiciliadas no território nacional. Mas, se uma pessoa estiver na embaixada

brasileira, pode, por ser extensão do território nacional.

V - A importância a pagar em algarismos e por extenso.

VI –A praça do pagamento (lugar do pagamento) é o domicilio do comprador

(sacado), porém, as partes podem convencionar outros.

VII – Cláusula – “ a ordem”.

Uma duplicata pode ser endossada. Dá segurança á pessoa que vai receber por

que todos os que assinaram serão responsáveis pelo pagamento (coobrigados).

VIII – A declaração do reconhecimento de sua exatidão e a obrigação de pagá-la.

O comprador é obrigado a assinar (funciona como aceite).

XI - Assinatura do emitente é obrigatório.

OBS: A Lei 6304 de 1975 possibilitou o uso da rubrica mecânica.

A Lei nº 6.268, de 24 de novembro de 1975, determina, em seu art. 3º, que as

duplicatas de fatura, como todos os títulos de crédito, conterão obrigatoriamente a

identificação do devedor pelo número de sua cédula de identidade, de inscrição

no Cadastro de Pessoas Físicas, do Título Eleitoral ou da Carteira Profissional.


141

A duplicata mercantil é um título de modelo vinculado, devendo ser lançada em

impresso próprio do vendedor, confeccionado de acordo com o padrão previsto da

resolução n. 102 (de 26/11/1968), do conselho Monetário Nacional (LD, art. 27).

Não configura uma duplicata e nem gera efeitos cambiais, o documento que,

mesmo preenchendo os requisitos supra citados, não observe o padrão legal.

Coelho73 afirma que o comerciante que emite duplicata mercantil estará obrigado

a escriturar um livro especifico (art.19 da L.D), livro este denominado de “Livro de

Registro de Duplicatas”. A ausência da devida escritura acarreta conseqüências

no campo civil e penal ao comerciante.

26.2.2Remessa e Devolução

Preceitua Requião74 que o vendedor terá 30 (trinta) dias para remeter a duplicata

do comprador a contar da data da emissão. A remessa dessa duplicata, ao

comprador, é feita para aceite porque a duplicata é em Título de Crédito de

“aceite obrigatório”.

73
COELHO, Fábio Ulhoa, ob. cit.,p. 284
74
REQUIÃO, Rubens ob. cit., p. 551
142

Se a duplicata foi encaminhada por um banco ou por uma instituição financeira, o

vendedor terá 10 (dez) dias para apresentá-la ao comprador, a contar da data do

recebimento.

O comprador, de posse da duplicata quando não for à vista, deverá devolvê-la ao

apresentante dentro de 10 dez dias, contados da data de sua apresentação,

devidamente aceita, ou acompanhada de declaração escrita justificativa da

recusa.

Poderá o sacado reter a duplicata até a data do vencimento; mas para legitimar

essa retenção é necessário que tenha havido expressa concordância do sacador

ou de seu representante, e não só da instituição financeira apresentante, como

faz supor a lei, e desde que o sacado comunique por escrito tê-la aceito e retido.

Essa comunicação substituirá o título ao caso de protesto ou na ação executiva,

quando necessário.

As regras de remessa e devolução citadas e comentadas encontram- se

legalizados nos termos do art. 6º da Lei das Duplicatas.

26.2.3 Aceite da Duplicata

Como título de crédito, a duplicata deve ser levada ao aceite do comprador, para

tornar-se um obrigação líquida e certa, suscetível de fundamentar ação executiva

nos termos de nossas leis processuais e, agora, da lei especial. O comprador


143

poderá, todavia, recusar o aceite, desde que a mercadoria não tenha sido

entregue, ou tenha sido avariada, quando não expedida ou entregue por sua

conta e risco; por vícios, defeitos e diferenças, na qualidade ou quantidade das

mercadorias, devidamente comprovadas; divergências nos prazos ou nos preços

ajustados (art. 8º da L.D) .

ULHOA75 conclui, portanto que, se o comprador da mercadoria é devedor do

preço correspondente (porque o vendedor cumpriu com as suas obrigações, na

execução do contrato de compra e venda) , então ele não pode se recusar a ver

sua dívida documentada por um título de efeitos cambiários, a duplicata, mesmo

que esta não esteja assinada.

26.2.4 Espécies de Aceite

Em razão da obrigatoriedade do ato de vinculação do sacado a duplicata, podem-

se divisar, em relação a esse título, três modalidades de aceite: ordinário, por

presunção e por comunicação.

A primeira espécie de aceite da duplicata (ordinário) resulta da assinatura do

devedor no campo próprio do documento, isto é, no canto esquerdo inferior do

75
COELHO, Fábio Ulhoa, p457
144

título, segundo o padrão do CMN. Essa forma de vincular o sacado ao pagamento

da duplicata somente cabe na hipótese de utilização do suporte papel. Se a

duplicata é emitida em meio magnético, não é materializável a assinatura de

próprio punho.

A duplicata com aceite ordinário é título executivo extrajudicial contra o sacado e

seu avalista, independentemente de se encontrar protestada, ou não (LD, art.15,

I).

O aceite por presunção decorre do recebimento das mercadorias pelo comprador,

quando inexistente recusa formal. Trata-se da forma mais corriqueira de se

vincular o sacado ao pagamento da duplicata.

Caracteriza-se o aceite presumido, mesmo que o comprador tenha retido ou

inutilizado a duplicata, ou tenha restituído sem assinatura. Desde que recebidas

as mercadorias, sem a manifestação formal de recusa, é o comprador devedor

cambiário, independentemente da atitude que adota em relação ao documento

que lhe foi enviado.

Com a utilização do meio magnético para fins de registro do crédito, o aceite por

presunção tende a substituir definitivamente o ordinário, até mesmo porque a

duplicata não se materializa mais num documento escrito, passível de remessa ao

comprador.

Por fim, cabe mencionar-se o aceite por comunicação, introduzido em 1968. Essa

modalidade é, das três, a menos usual, de existência praticamente nenhuma.

Opera-se (desde que a instituição financeira descontadora, mandatária ou

caucionada o autorize) mediante a retenção da duplicata pelo comprador e envio


145

de comunicação escrita ao vendedor, transmitindo o seu aceite. O instrumento da

comunicação, necessariamente em suporte papel, pode ser carta, telegrama ou

telecópia (fax), não se admitindo mensagens transmitidas e arquivadas em meio

magnético (e-mail). O documento, em que o comprador comunicou ao vendedor o

aceite, substitui a duplicata para fins de protesto e execução (LD, art. 7º, § 2º). A

figura está condenada a breve extinção, na medida em que se choca de frente

com o processo de despapelização do registro do crédito.

O doutrinador Rubens Requião76 supõe que este preceito esteja inspirado no art.

29 da Lei Uniforme de Genebra.

26.2.5 Duplicata Simulada

A lei considera infração penal, a emissão de duplicata sem a correspondente

venda efetiva de mercadoria, conforme art. 172 do Código Penal Brasileiro.

O crime pode ocorrer, pela simples emissão da duplicata que não corresponda a

uma venda efetiva ou a serviço prestado.

Implicitamente, portanto, a lei não autoriza a emissão de duplicata na venda de

mercadorias para entrega futura.

76
REQUIÃO, Rubens, ob. cit., p. 552
146

Ao entender de Requião77, nesta hipótese a mercadoria inexistente nas mãos do

vendedor no momento do contrato, destarte a duplicata assim extraída é ilegal,

equiparando-se á duplicata simulada.

A fatura acompanha, conforme o sistema legal, a entrega, real ou simbólica, da

mercadoria. Ilegal, portanto, o saque de duplicata sem o aperfeiçoamento da

tradição da coisa vendida.

Elucidativo acórdão, a respeito dessa matéria, foi lavrado pelo Tribunal de Alçada

Criminal de São Paulo, que decidiu: “...quem emite duplicata sem base em um

contrato de compra e venda perfeito e acabado e em vias de execução mediante

a entrega da coisa vendida, não pode deixar de ter a intenção de iludir terceiro,

porque sabe praticar um ato em flagrante oposição à lei, ato que visa a lhe

conferir uma situação vantajosa, ainda que aparente”78 .

26.2.6 Protesto da Duplicata Mercantil

A Lei das Duplicatas, no seu art. 13, diz ser possível protestar uma duplicata por

falta de aceite, devolução ou pagamento.

77
REQUIÃO, Rubens ob. cit., p. 550
78
Trib. De Al. Crim. De S. Paulo, acórdão unânime da 3º Câmara, em 17-12-1970, Ap. nº 24.254- Capital
147

Fabio Ulhoa Coelho79, relata que, o título de crédito comporta protesto único, que

será de uma dessas categorias, de acordo com a circunstância em que for

efetivado. Em outros termos, a duplicata recusada, retida e impaga será

protestada uma só vez; pouco importa o tipo de protesto, porque os seus efeitos

são idênticos, em qualquer hipótese.

Assim concluí-se que são as circunstâncias em que o título é apresentado ao

cartório que definem a natureza do protesto.

Ainda no art. 3º, §3º da Lei das Duplicatas, encontra-se especificado que o lugar

do pagamento é também o lugar do protesto, logo os cartórios só poderão

protocolizar quando verificado a consonância entre a base territorial de sua

competência e o constante na duplicata, sob pena de responderem por perdas e

danos (Lei nº 9492/97, art. 33.).

O protesto deve ser providenciado, pelo credor, no prazo de 30 (trinta) dias,

seguintes ao vencimento da duplicata, sob pena de perda do direito creditício

contra os co-devedores do título e seus avalistas (LD, art. 13, § 4º). Deve-se,

entretanto, evitar, em relação a duplicata mercantil, a classificação do protesto em

necessário ou facultativo, para fins de conservação do direito cambiário, porque

ela somente tem pertinência quando praticado o aceite ordinário ou por

comunicação. Se o aceite é presumido, o protesto é indispensável (LD, art. 15, II).

Segundo Coelho80 , a retenção da duplicata pelo comprador impede, por óbvio, a

sua apresentação pelo vendedor ao cartório de protesto. Para a efetivação do ato

formal, nesse caso, a lei admite que o credor indique ao cartório os elementos

79
COELHO, F U, ob. cit. p.459
80
COELHO, F. U., ob. cit., p 460
148

que identificam a duplicata em mãos do sacado. A partir dos dados escriturados

no Livro de Registro de Duplicatas, extrai-se boleto, com todas as informações

exigidas para o protesto. Esse boleto é enviado ao cartório para processamento

do protesto.

O protesto da duplicata pode ser feito, em qualquer caso, mediante simples

indicação do credor, dispensada a exibição do título ao cartório.

Relata,Coelho81, que a prática comercial, tem preferido, o protesto por indicações,

a emissão da triplicata. De fato, nos termos do art. 23 da LD, a perda ou extravio

da duplicata obriga o vendedor a extrair a triplicata, nada mais que uma cópia da

duplicata, uma segunda via, feita com base nos registros constantes da circulação

que obrigatoriamente o comerciante deve manter (art. 19). Costuma o comércio

emitir a triplicata sempre que a duplicata é retida pelo comprador. A rigor, não se

enquadra esta emissão nas hipóteses legais de perda ou extravio, mas, desde

que não importe em qualquer prejuízo para as partes, não haverá problemas em

se proceder desta maneira. O que não se pode afirmar é que a emissão da

triplicata, em caso de retenção da duplicata, esteja autorizada em lei. Isto não,

posto que a lei, nesta situação, se limita a facultar ao credor o protesto por

indicações, somente.

Ao entender Requião82, Lei das Duplicatas, nº 5.474, no art. 14, apresentava

redação insuficiente ao regular, entre outros casos, o protesto por indicação do

portador. Nova redação, conseqüentemente, é apresentada pelo Decreto-lei nº

436, de 27 de janeiro de 1969.

81
COELHO, F. U. Manual... ob. cit., p. 287
82
REQUIÃ0, R ob. cit.. p. 561
149

Dispõe o artigo em sua nova redação que o instrumento de protesto por falta de

aceite, de devolução ou de pagamento, ou feitos por indicação do portador deverá

conter os requisitos do art. 29 do Decreto nº 2.044, de 1908, que, regulando o

protesto da letra de câmbio, sobreviveu a introdução da Lei Uniforme, de

Genebra, em nosso direito interno. No caso de protesto por indicação do portador,

o inciso II do art. 29 do Decreto nº 2.044, que alude a “transcrição literal da letra e

das declarações nela inseridas pela ordem respectiva”, será substituído pela

reprodução das indicações feitas pelo portador do título. Essas indicações,

evidentemente, não podem ser simplesmente oferecidas verbalmente, mas por

escrito, fundadas em documento (protocolo de entrega) que prove o recebimento

do título pelo sacado.

26.2.7 Execução da duplicata mercantil

O grande doutrinador Fábio U. Coelho83 relata que a execução da duplicata contra

o sacado depende da modalidade de aceite praticado. Se ordinário, basta à

exibição do título; se presumido, é necessário o protesto e a comprovação da

entrega das mercadorias, ou seja, se o sacado restituiu ao sacador a duplicata

assinada, basta esse documento para o ingresso da execução. Se o sacado a

devolveu sem a assinatura, a execução depende de três documentos: a duplicata,

o instrumento de protesto e o comprovante do recebimento das mercadorias. Se

83
COELHO, F.U. ob. cit., p. 462-3
150

retiver a duplicata, e o sacador optou pela emissão da triplicata, a execução

depende das mesmas condições, isto é, da exibição da triplicata, do instrumento

do seu protesto e da prova do recebimento das mercadorias. Finalmente, se,

diante da retenção da duplicata, procedeu o sacador ao protesto por indicações, o

título executivo será composto por dois documentos: o instrumento de protesto

por indicações e o comprovante da entrega das mercadorias.

Se a execução se dirige contra o avalista do sacado, o credor deve exibir o título

(duplicata ou triplicata) de que consta o aval, sendo dispensável o protesto. O fim,

se executado é endossante ou avalista de endossante, o título executivo se

constitui também com a exibição do título (duplicata ou triplicata), em que foi

praticado o ato cambiário de endosso ou aval, acompanhado do instrumento de

protesto que ateste a protocolização no cartório, antes de transcorridos mais de

30(trinta) dias do vencimento. Nesse caso, vige o disposto no art. 13, §4º, da LD,

que condiciona o exercício do direito creditício, mencionado na duplicata, á

efetivação do protesto no prazo legal apenas contra “endossantes e respectivos

avalistas”. Quer dizer, contra o avalista do sacado, o protesto não é condição de

executividade da duplicata ou triplicata.

Prescreve a execução da duplicata em 3 (três) anos, a contar do vencimento,

contra o sacado e seu avalista; em 1(um) ano, contado do protesto, contra os

endossantes e seus avalistas; e em 1(um) ano, a partir do pagamento, para o

exercício de direito de regresso contra co-devedor (LD, art. 18).


151

26.3 DUPLICATA DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS

A duplicata de prestação de serviços encontra amparo nos artigos 20 e 21 da LD,

podendo ser emitida por sociedades empresariais cuja atividade são serviços. A

pessoa física, também pode emiti-la, desde que desenvolva empresarialmente a

atividade econômica de fornecedor de serviços ao mercado, hipótese raríssima, é

o que preceitua Coelho84 .

A duplicata de prestação de serviços está sujeita ao mesmo regime jurídico da

duplicata mercantil. Apenas duas especificidades devem ser destacadas:

a causa que autoriza sua emissão não é a compra e venda mercantil, mas a

prestação de serviços;

o protesto por indicações depende da apresentação, pelo credor, de documento

comprobatório da existência do vínculo contratual e da efetiva prestação dos

serviços. Em razão do regime comum desses títulos, encontra-se a sociedade

empresaria prestadora de serviços obrigada á escrituração do Livro de Registro

de Duplicatas, a emissão da fatura ou nota fiscal-fatura discriminatória dos

serviços contratados etc.

Aplicam-se, além disso, as regras sobre aceite, circulação, protesto e execução

previstas para a duplicata mercantil. Quer dizer, também a duplicata de prestação

de serviços é título de aceite obrigatório, vinculando-se o sacado ao pagamento

da cambial, a menos que presente causa justificativa para a recusa.

84
COELHO, F.U ob. cit.p. 468
152

A lei as menciona:

incorrespondência entre o título e os serviços efetivamente prestados;

vícios ou defeitos na qualidade dos serviços;

divergência em prazos ou preços (LD, art. 21).

Quando não se verificam tais circunstâncias, o sacado da duplicata de prestação

de serviços é devedor do título e expõe-se a execução, mesmo que não o tenha

assinado.

Como os regimes são os mesmos, não há dúvidas de que a duplicata de

prestação de serviços admite, tal como a mercantil, registro exclusivo em meio

magnético.
153

27. TÍTULOS BANCÁRIOS

27.1 Introdução

Embasados nos ensinamentos de Fábio U. Coelho85 podemos afirmar que a

atividade típica dos bancos consiste na intermediação de crédito, onde o banco

capta dinheiro das pessoas quando têm disponível, para fornecê-lo a quem dele

precisa. Assim esta atividade é fiscalizada e controlada pelo governo, e no Brasil,

é crime punido com reclusão, de 1 a 4 anos, e multa explorar atividade de

intermediação de crédito sem autorização do Banco Central (lei n. 7492/86, art.

16).

Costuma-se classificar as operações bancárias em duas categorias.

De um lado, as passivas, onde o banco se torna devedor do cliente, isto é, o

banco capta dinheiro do cliente através do certificados de depósito bancário, ou

aplicação num fundo de investimento, torna-se credora de obrigação pecuniária

ou pelo menos de uma prestação de serviços da instituição financeira.

De outro lado, encontra-se as operações ativas, onde o banco é credor do cliente,

ou seja, o fornecimento de dinheiro, de crédito concedido pelo banco.

85
COELHO, F. U.... ob. cit., p.470
154

Concluindo, a atividade bancária define-se pela intermediação do crédito. Os

bancos captam dinheiro dos clientes que o possuem disponível (operações

passivas) para emprestá-lo aos que dele necessitam (ativas). Os títulos de crédito

representam, por isso, importante instrumento na exploração da atividade

bancária.

Coelho86 constata que a intermediação do crédito é a essência da atividade

bancária, os títulos de crédito naturalmente desempenham função instrumental de

grande importância.

É comum o mútuo bancário documentar-se por contrato e também por nota

promissória.

O desconto é operação financeira necessariamente lastreada em títulos

bancários, que abrange as cédulas de crédito para financiamento de atividade

econômica e a cédula de crédito bancário.

27.2 Títulos de financiamentos de atividade econômica

A implantação e exploração de atividades econômicas dependem muito do

acesso regular ao crédito bancário, assim a ordem brasileira contemplas

mecanismos que visam asseguram o financiamento das atividades empresariais,

desenvolvendo instrumentos negociais próprios para atender às peculiaridades de

86
COELHO, F. U. ob. cit.,p. 471
155

cada setor da economia. (por exemplo, as microempresas e empresas de

pequeno porte).

A partir da 2º metade dos anos 1960 diversos títulos de financiamentos foram

introduzidos ou redisciplinados.

O primeiro dos instrumentos financeiros remodelados foram às cédulas de crédito

rural (Dec. Lei 167/67) e a seguir as cédulas de crédito industrial (Dec. Lei n.

413/69), cédulas de crédito comerciais (Lei n. 6840/80).

Financiamento é uma espécie de mútuo bancário, que o mutuário está obrigado a

dar certa destinação ao dinheiro mutuado, não tendo liberdade para usar o

dinheiro como quiser, devendo ater-se estritamente á finalidade declarada na

operação financeira.(Decreto – Lei nº 167/67 ou 413/69, art. 6º).

ULHOA87, destaca os seguintes aspectos do regime jurídico dos títulos bancários

de financiamento da atividade econômica:

as cédulas de crédito autorizam a capitalização de juros, no montante de 1% ao

ano (Decreto-Lei nº 167/67 ou 413/69, art. 5º, Súmula 93 do STJ).

Nos financiamentos com garantia real, a cédula é instrumento suficiente para

registro da oneração do bem.

Nos financiamentos sem garantia real, o título bancário denomina-se nota de

crédito.

As cédulas e notas de crédito devem ser levadas a registro no cartório de

Imóveis, para produzir efeitos perante terceiros.

87
COELHO, F. U.ob. cit., p.472
156

Vacila a jurisprudência sobre as normas regentes da execução judicial do título

concluído alguns julgados que a regularização processual dos Decretos – Leis nº

167/67 e 413/69 não foi revogada pelo CPC de 1973.

27.2 Cédulas de crédito bancário

Em muitas operações de crédito bancário fica difícil ou quase impossível calcular,

previamente o valor da obrigação devida pelo cliente do banco, esta

impossibilidade gera uma dificuldade na hora da cobrança judicial, porque faltará

a liquidez, vez que o instrumento de conta bancária não podia conter o valor certo

da obrigação. Assim a instituição financeira só poderá agir, inicialmente, através

da ação de conhecimento que é bem mais demorada e ineficiente que a ação de

execução. Era comum então a instituição financeira emitir noto promissória, caso

verificado o inadimplemento da obrigação creditícia, mas este mecanismo de

cobrança foi barrado pelo Código de Defesa do Consumidor (Cap. 11, item 2.2) e

por jurisprudências.

Outro mecanismo utilizado pelos bancos para recuperar o dinheiro emprestado é

a emissão de extrato da posição devedora, que acrescido do instrumento

contratual do mútuo ou da abertura de crédito, constituiria título executivo

extrajudicial. Neste caso parte das jurisprudências tem acolhido esta tese, parte

refutando, ainda não é ponto pacífico nos Tribunais.


157

As cédulas de crédito bancário são promessas de pagamento em dinheiro pelo

cliente mutuante em favor de banco mutuário, cuja liquidez pode decorrer da

emissão, pelo credor, de extrato de conta ou planilha de cálculo. Além de facilitar

e baratear o acesso ao crédito bancário, esses títulos dão ensejo à execução

judicial em caso de inadimplemento, é o que nos ensina Coelho88.

88
COELHO, F. U. ob. cit., p.474.
158

28. PROTESTO

A Lei n.º 9.492/97, define: “ Protesto é o ato formal e solene pelo qual se prova a

inadimplência e o descumprimento de obrigação originada em títulos e outros

documentos de dívida.”

Fiel à origem cambiária do instituto, o protesto tem por através desta lei, base a

constatação do descumprimento de uma obrigação cambial. O legislador inova e

moderniza o conceito de protesto ao permitir que também outros documentos de

dívida possam ser protestados. Na verdade, amplia as possibilidades de

protestos, dentro dos princípios básicos históricos.

Aduz Venosa89 que, em matéria cambial, o protesto é prova oficial e insubstituível

da falta ou recusa, quer do aceite, quer do pagamento, sendo de suma

importância para o portador do título e para seus coobrigados de regresso. Sem o

protesto, o portador de um título perderá os direitos contra os devedores de

regresso, e, no tocante a esses coobrigados, a lei assegura a cada um deles,

mediante o protesto, o meio simples e seguro de exercer seu próprio direito de

89
VENOSA, Sílvio, ob. cit., p. 465
159

regresso contra os coobrigados a eles anteriores. O protesto produz efeitos

cambiário e extracambiários.

Ainda baseados nos pensamentos de Venosa, para a doutrina tradicional, o

protesto é um ato formal, com finalidade essencialmente probatória, uma vez que

evidencia que o devedor não cumpriu a obrigação constante do título. Trata-se de

ato jurídico em sentido estrito. O efeito probante do ato decorre exclusivamente

da lei.

Atualmente, em nosso país, houve uma guinada na óptica do protesto, pois ele

está regulado pela Lei n.º 9.492, de 10 de setembro de 1997, diploma que

basicamente pretendeu regulamentar a atividade dos cartórios de protesto, mas

que ampliou enormemente, entre nós, o alcance e o conceito do protesto. Ao lado

dessa mais recente lei, continuam em vigor os estatutos tradicionais, ligados ao

protesto cambial: Decreto n.º 2044/1908; Lei Uniforme de Genebra ( Decreto n.º

57.663/66); Lei n.º 5474/68 e Lei n.º 7.357/85.

Já mencionado anteriormente o protesto pode ser por falta de aceite, protesto por

falta de pagamento, protesto por falta de devolução do título e protesto com

finalidade especial.

O protesto por falta de aceite ocorre quando a cambial é apresentada para aceite

e há recusa por parte do devedor indigitado. Esse protesto somente pode ser

ultimado antes do vencimento do título ou após o decurso do prazo legal para o

aceite ou para devolução (art. 21, § 1º, da Lei n.º 9.492/76).

O protesto por falta de pagamento é o destinado a evidenciar que não ocorreu

pagamento de um título. Esse protesto, como é óbvio, somente pode ser ultimado
160

após o vencimento da cambial (art. 21, § 2º, da Lei n.º 9.492/97). Nesse aspecto é

que se torna possível o protesto de outros documentos de dívida, conforme a

mais recente lei.

O protesto por falta de devolução ocorre quando o sacado retém a letra de

câmbio ou duplicata enviada para aceite, não devolvendo o título no prazo legal.

Nessa hipótese, o protesto será lavrado com base na segunda via da letra ou na

triplicata (art. 23 da Lei n.º 5.474/68).

O protesto com finalidade especial é destinado a títulos e documentos que a

princípio não eram protestáveis, mas cujo protesto serve para atingir uma

finalidade ou completar o sentido das obrigações no universo negocial.

No concerne à função do protesto, faz-se referência ao protesto necessário e ao

protesto facultativo.

O protesto necessário, obrigatório ou conservatório é o que constitui ato essencial

para o exercício de um direito cambial do credor. Trata-se, por exemplo, de

resguardar o direito de regresso com relação a coobrigados do título e o direito de

requere falência com fundamento no art. 10 da Lei de Falência. A Lei Uniforme de

Genebra introduziu a possibilidade da dispensa de protesto no art. 45, mediante

cláusula inserida pelo sacador, quando então valerá para todos os coobrigados.

Uma vez inserida a cláusula “sem protesto”, fica o portador dispensado do

protesto com relação a todos os coobrigados, quando aposta pelo sacador, ou

algum ou alguns coobrigados mencionados expressamente. A lei adverte, porém,

que o portador não fica dispensado da apresentação do título para garantir o

direito de regresso. Essa cláusula, todavia, não é normalmente utilizada em nosso

meio negocial.
161

De outro lado se posta o protesto facultativo ou probatório. Nesse caso, o titular

de um direito que leva o débito a protesto realiza o ato para comprovar que o

devedor não cumpriu a obrigação no prazo e na forma devidos. O protesto tem,

portanto, uma finalidade probatória que ressalta à primeira vista no exame do

instituto. Sob essa óptica, não há distinção formal entre as diversas modalidades

de protesto. A segunda finalidade que se ressalta no protesto é a conservatória de

direitos, esta apenas reservada para situações específicas na lei.

Se levarmos em conta a tradição e origem histórica de protesto, é evidente que

não é qualquer documento representativo de obrigação que pode ser protestado.

O legislador não foi expresso a esse respeito e parece evidente que sua intenção

não foi tornar o protesto um panacéia ou um placebo jurídico. Considerando que o

protesto de origem cambiária sempre foi utilizado para títulos representativos de

dívida líquida e certa que autorizam a ação de execução; essa mesma teleologia

deve ser aplicada a esses outros documentos citados pela novel lei. Desse modo,

embora haja quem à primeira vista possa sufragar opinião mais extensiva, o

dispositivo do art. 1º da Lei 9492/97 deve ser interpretado restritivamente, no

sentido de que o protesto é utilizável somente para os títulos cambiários e para os

demais títulos executivos judiciais e extrajudiciais, que estão elencados nos arts.

584 e 585 do Código de Processo Civil.

Outros doutrinadores, citados por Venosa90 defendem posição extensiva,

entendendo que o protesto abrangeria, além dos títulos de crédito em geral, todos

os documentos públicos e particulares representativos da dívida. Há que se dizer,

todavia, que essa interpretação mais ampla é francamente minoritária e não

resiste a um exame completo do instituto do protesto.


90
VENOSA, Sílvio, ob. cit., p. 468
162

Por fim, é importante lembrar que a Lei n.º 10.710, de 29 de dezembro de 2000,

do Estado de São Paulo, diploma que cuida de custas e emolumentos nesse

Estado, ao se referir aos protestos, na nota n.º 14 é expressa: “Compreendem-se

como títulos e outros documentos de dívidas sujeitas a protesto comum ou

falimentar os títulos de crédito, como tais definidos em lei, e os documentos

considerados como títulos executivos judiciais ou extrajudiciais pela legislação

processual” .

Desse modo, a lei paulista sufraga a maioria doutrinária apontada. A conclusão,

portanto, deixando à margem eventual interpretação mais elástica, é que,

doravante, os documentos descritos no art. 585 do Código de Processo Civil,

como títulos executivos extrajudiciais, são protestáveis. Assim, são protestáveis,

entre outros, a escritura pública ou outro documento assinado pelo devedor, o

documento particular assinado pelo devedor e por duas testemunhas, o

instrumento de transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria

Pública ou pelos advogados dos transatores, os contratos de hipoteca, penhor,

anticrese, caução, seguro de vida, aluguel ou renda de imóvel etc. Portanto, em

matéria de inquilinato, por exemplo, o protesto pode ser tirado em face do

inquilino ou do fiador, ou de ambos, existindo contrato escrito. Não se nega

também, por igual razão, que são igualmente protestáveis os títulos executivos

judiciais descritos no art. 584 do CPC, como a sentença condenatória cível, a

sentença arbitral, a sentença homologatória de transação ou de conciliação e a

sentença estrangeira homologada pelo STF.

Apresentado o título ou outro documento de dívida para protesto, cumpre ao

tabelião examinar os caracteres formais do título, não lhe cabendo examinar os

fatores intrínsecos do título ou da dívida, nem cabendo investigar a ocorrência de


163

prescrição ou caducidade (art. 9º da Lei n.º 9.492/97). Somente perante vícios

formais os títulos serão devolvidos ao apresentante, ficando obstado o protesto. O

procedimento do protesto é disciplinado basicamente nessa lei, é o que nos

ensina Silvio Venosa91.

91
VENOSA, Sílvio, ob. cit., p. 470
164

29. OUTROS TÍTULOS DE CRÉDITO

Além dos títulos de créditos já mencionados no decurso deste trabalho, existem

outros títulos de créditos, que recebem a denominação de:

• Conhecimento de Depósito e “Warrant”

• Conhecimento de Transporte

• Letra Imobiliária

• Letra Hipotecária

• Cédula Hipotecária (Certificado de Recebíveis Imobiliários, Letra de Crédito

Imobiliário, Cédula de Crédito Imobiliário)

• Certificado de Depósito e de Investimento

• Titulo de Crédito Industrial (Financiamento Industrial, Cédula de Crédito

Industrial)

• Nota de Crédito Industrial (Certificados de Energia Elétrica)


165

• Títulos de Crédito à Exportação (Cédula de Crédito à Exportação e Nota de

Crédito à Exportação)

• Título de Crédito Comercial (Cédula de Crédito Comercial e Nota de

Crédito Comercial).
166

30. CONCLUSÃO

Concluímos nosso trabalho com a célebre definição de título de crédito por

Cesare Vivante: “Título de crédito é um documento necessário para o exercício do

direito literal e autônomo nele mencionado”.

O título prova a existência de uma relação jurídica, especificamente a relação de

crédito; ele constitui a prova que certa pessoa é credora de outra; ou de que duas

ou mais pessoas são credoras de outra.

O cheque, nota promissória, letra de câmbio, duplicata ou qualquer outro título de

crédito, representam obrigação creditícia.

O título de crédito refere-se unicamente a relações creditícias, está ligado à

facilidade na cobrança do crédito em juízo; possui executividade, ostenta o

atributo de negociabilidade, que torna mais fácil a circulação do crédito, a

negociação do direito nele mencionado.

Não há duvidas, que com a criação dos títulos de crédito, os capitais, pela rápida

circulação, tornam-se mais úteis e, portanto, mais produtivos, permitindo que

deles melhor se disponha, a serviço da produção da riqueza.

Compreende-se, assim, a enorme importância que adquiriram os títulos de crédito

na economia atual, tornando seu estudo um dos pontos altos do moderno direito

comercial.
167

Os três princípios do direito cambiário (literalidade, cartularidade e autonomia)

não são produtos do engenho do legislador e dos juristas, apenas. Ao contrário,

decorrem de um longo processo histórico, em que os comerciantes vêm

desenvolvendo e aprimorando os mecanismos de tutela do crédito comercial.

O nosso Código Civil, adotou a definição concisa e precisa de Vivante, cujo artigo

887 propõe: “O título de crédito, documenta necessário ao exercício do direito

literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os

requisitos da lei”.

Este arquivo compõe a coletânea STC


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168

31. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOITEX, Fernando Netto. A circulação dos títulos de crédito no novo código civil.
Revista do Advogado.

COELHO, Fábio Ulhoa; Curso de direito comercial. v.1, 7 ed rev e atual de


acordo com o novo Código Civil e alterações da LSA. São Paulo:Saraiva,
2003.

_________. Manual de direito comercial. 14 ed. rev. e atual. de acordo com o


novo cód. Civil e alterações da LSA, e ampl. com estudo sobre o comércio
eletrônico. São Paulo: Saraiva, 2003.

DINIZ, Maria Helena, Curso de direito civil brasileiro, v.3: teoria das obrigações
contratuais e extracontratuais; 18 ed. rev. e atual. de acordo com o novo
Código Civil, São Paulo, Saraiva, 2003.

REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. v 2, 23 ed atual por Rubens


Edmundo Requião. São Paulo: Saraiva, 2003.

VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: contratos em espécie. v 3, 3 ed atual de


acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Atlas,2003.

ZARIF, Antonio Carlos. Título de crédito. Disponível no site


http//:www.advocaciaconsultoria.com.br, acessado em 28 de outubro de
2003.

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