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CDD: 141

HEGEL E O PROCESSO DE AUTO-REFERENCIALIDADE DA


LIBERDADE NO DIREITO NATURAL MODERNO

CESAR AUGUSTO RAMOS

Departamento de Filosofia
Universidade Federal do Paraná
Rua General Carneiro, 460, 7º andar
80069-000 CURITIBA, PR
cauramos@uol.com.br

Resumo: Este artigo procura examinar a relação de Hegel com a tradição do direito natural
moderno, especialmente com Hobbes. Esta análise trabalha com a suposição de que Hegel realiza e
supera (aufhebt) o potencial teórico e histórico do elemento auto-referencial da liberdade presente no
jusnaturalismo moderno. Pretende-se, também, analisar aspectos hobbesianos que “subsistem” na
Filosofia do Direito de Hegel.

Palavras-chave: liberdade; hegelianismo; jusnaturalismo; modernidade.

Abstract: This article seeks to examine Hegel’s relation with the modern natural law tradition,
especially with Hobbes. This analysis works with the supposition that Hegel achieves and overcomes
(aufhebt) the theoretical and historical potential of the self-referential element of freedom which is
present in modern jusnaturalism. We also intend to analyse hobbesian aspects that “subsist” in
Hegel’s Philosophy of Right.

Key-words: freedom; hegelianism; jusnaturalism; modernity.

O uso do termo direito natural na época de Hegel indicava o estudo do jus


naturalis presente nos programas das universidades alemãs desde o século XVII.
Autores como Pufendorf, Thomasius, Wolff, Kant, Fichte e outros, entendiam o
direito natural como a doutrina filosófica do direito. Qual é a relação de Hegel
com essa tradição do jusnaturalismo moderno, uma vez que este filósofo também
compreende o direito natural (Naturrecht) como direito filosófico (philosophische
Recht), distinto do assim chamado direito positivo (positive Recht)? 1

1No texto das Lições de 1818/19 (Homeyer) “o nome Direito Natural – justifica

Hegel – é pois apenas usual, não totalmente certo, pois sob natureza compreende-se: 1) A

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Nos textos da maturidade, a referência ao direito natural moderno é
sugerida a partir do duplo título que Hegel dá à sua obra: Grundlinien der Philosophie
des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse (Linhas Fundamentais da
Filosofia do Direito ou Direito Natural e Ciência do Estado em Compêndio), publicada em
1821. O sugestivo nome desta obra pode induzir a um equívoco sugerido pela sua
duplicidade: a filosofia do direito hegeliana seria equiparada ao direito natural? Se
esta não é a intenção do autor, e já que a referência ao direito natural permanece,
há de se perguntar qual o estatuto e o sentido da relação de Hegel com o
jusnaturalismo moderno. O uso da expressão direito natural sugere apenas um
costume corrente da época, ou revela um diálogo crítico e constitutivo da filosofia
política hegeliana com a tradição do direito natural moderno, particularmente com
Hobbes?
Na análise da relação de Hegel com o jusnaturalismo moderno, um aspecto
precisa ser considerado: o sentido histórico-filosófico da filosofia política deste
período. Retratado como um processo auto-referencial 2 de constituição de
categorias políticas, dentre elas o elemento essencial da liberdade, o direito natural
moderno do século XVII oferece a Hegel a possibilidade de uma nova inter-

essência do conceito; 2) Natureza sem consciência (significado próprio). Nome apro-


priado: Direito filosófico.” (Vorlesungen über Rechtsphilosophie, ed. Ilting. Nachschrift
Homeyer, 1818/9, 3b. 1, 239f.)
2Com o termo auto-referencialidade quero designar o processo pelo qual a

modernidade vai elaborar formas de explicação da realidade, particularmente na ética e na


política, que se organizam em torno de um modelo auto-referente do sujeito. Normas e
direitos são produzidos segundo os critérios da auto-referencialidade da subjetividade, isto
é, a partir de uma instância reflexiva (razão) e legislante (vontade) que possui, nela mesma,
o fundamento para o seu agir e julgamento. O modelo clássico – marcado pelo objeti-
vismo na relação entre o pensamento e a realidade, pela racionalidade como princípio
ontológico do saber e do agir, pela identidade entre a lei humana e a lei natural – dá lugar
a um modelo de fundo subjetivista onde o pensamento “re-apresenta” a realidade segun-
do critérios da racionalidade abstrata do sujeito. Com a subsunção do direito natural à
ótica da representação do sujeito, os seus fundamentos são deslocados à auto-referen-
cialidade. O direito natural não é mais a expressão de um universo de leis naturais que
servem de medida para a conduta dos homens, mas a postulação de princípios originários
imanentes à racionalidade do sujeito e referidos à subjetividade na sua capacidade de auto-
afirmação e criação.

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pretação, incorporando esse elemento na sua teoria. Aprofunda, assim, o potencial


teórico e histórico da questão da auto-referencialidade da liberdade, elemento
nodal do pensamento político hegeliano e, ao mesmo tempo, realiza a Aufhebung
do direito natural moderno.
A partir da hipótese acima formulada, os seguintes pontos serão sugeridos
nesse trabalho: I) a questão da auto-referencialidade não ocupa um lugar central
para o jovem Hegel na elaboração da sua filosofia política, mas se constitui no
elemento principal da sua doutrina a partir do período final da Realphilosophie de
Jena (1805/6); II) o conceito hobbesiano de liberdade permite o processo de
constituição auto-referencial da liberdade no direito natural moderno; III) o
hegelianismo e a radicalização desse processo; IV) elementos hegelianos de
“Aufhebung” do direito natural moderno; V) a “subsistência” do hobbesianismo na
Filosofia do Direito de Hegel.

I
A partir do período da Realphilosophie de Jena, 3 Hegel abandona a
terminologia e o método excessivamente substancialista sobre a natureza e, com
isso, revê seu posicionamento crítico quanto ao direito natural e à liberdade
subjetiva. Nesse tempo, reexamina a filosofia fichteana, recepcionando positi-
vamente a metafísica da subjetividade 4 . Simultaneamente, abandona a concepção

3Riedel assinala que o jovem Hegel, na crítica à visão empírica e formalista do direito e

da natureza, e na tentativa de restabelecer o significado positivo do direito natural,


orientou-se pelo “método da posição absoluta da natureza e da eticidade que é própria da
primeira fase do desenvolvimento da sua filosofia do direito”. Nesta época, e no ensaio de
juventude de 1802, Hegel se apóia na filosofia da natureza de Schelling, aplicando-a na
determinação da eticidade (Sittlichkeit), onde a particularidade e possíveis manifestações da
subjetividade são absorvidas no sistema identitário da eticidade absoluta. O conceito de
natureza como “deus sive natura” de Spinoza, e como “essência” no sentido teleológico de
Aristóteles é aplicado à dimensão ética e política, a qual, a exemplo da substância
spinozana – natura naturaus –, determina os indivíduos como acidentes – natura naturata.
Nesse contexto, observa Riedel, o jovem Hegel dirige sua crítica ao direito natural
moderno, principalmente quanto à absolutização do sujeito e da liberdade individual.
4 O comentário de B. Bourgeois ao Direito Natural de Hegel discorda da tese de Riedel.

Bourgeois pretende ver, já no ensaio juvenil hegeliano sobre o Direito Natural, um

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de direito natural de fundo aristotélico. A partir daí, a relação com o
jusnaturalismo moderno é reavaliada, apresentando-se como um projeto de
superação/conservação do processo auto-referencial da liberdade presente no
direito natural moderno, e não mais a sua mera rejeição em nome do organicismo
político dos escritos juvenis.
O que ganha força especulativa não é mais a natureza, mas o conceito
(Begriff) e o seu direito; não mais a “absoluta substância” da eticidade, mas a
articulação do conceito com a singularidade do direito, a pessoa (jurídica). O novo
critério do direito passa a ser a capacidade jurídica universal, a “pessoa” como
conceito do eu do homem, cuja descoberta pressupõe a ruptura com toda a
pretensa ordem da natureza e sua lei. O homem no seu conceito e não mais no
seu estado de natureza, o eu como unidade da particularidade com a
universalidade constituem, doravante, objetos de análise da filosofia hegeliana.
São esses os elementos (a concepção não conceitual de estado de natureza,
a saída deste estado como uma exigência racional, a concepção de pessoa e o seu
reconhecimento jurídico, a noção positiva de liberdade e o organicismo ético-
político) que vão balizar a evolução do pensamento político hegeliano em relação
ao direito natural moderno, particularmente o de Hobbes.
Se esses elementos são tematizados nos textos da juventude segundo o
modelo do organicismo substancialista de fundo schellingiano-espinozano, e arti-

momento pré-formativo da opção teórica de Hegel pelo sujeito que se apresentaria,


segundo Riedel, apenas a partir do final do período jenense. Com efeito, conclui
Bourgeois, se o hegelianismo consiste em conceber a substância como sujeito, o texto
sobre o direito natural representa o “momento crítico, crucial, de qualquer modo
‘trágico’”, onde o pensamento especulativo de Hegel, em que pese o estilo
‘substancialista’, manifesta a sua opção pelo conteúdo e pela forma subjetivista. “O artigo
de 1802-1803 marca um momento capital na passagem da afirmação do negativo (em si
subjetivo) no positivo (o ser substancial) à afirmação do positivo como negativo, da
substância como sujeito.” (BOURGEOIS, 1986, p. 16). Apesar desse ponto de vista anti-
riedeliano, Bourgeois concorda que a idéia de direito natural evolui no hegelianismo para
um direito ‘natural’ baseado na liberdade. “A passagem de uma filosofia do liame
substancial, positivo, imediato, natural, da natureza e do espírito, para uma filosofia do
liame subjetivo, negativo, mediato, espiritual, implica a passagem da fundação do direito
natural sobre uma natureza ética para a sua fundação sobre a liberdade.” (Idem, p. 637).

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culados no quadro do ideal da eticidade grega, a obra da maturidade (Filosofia do


Direito) vai operar um deslocamento significativo do realce ao organicismo para a
ênfase, cada vez mais decisiva, do modelo auto-referencial da Idéia de liberdade.
Com a valorização da subjetividade dos modernos, esse modelo assume o lugar
central na análise da vida ética e na recepção crítica do jusnaturalismo, ameni-
zando, assim, o aspecto fortemente organicista dos escritos da juventude. 5
Consciente da crítica ao direito natural dos modernos, Hegel percebe que a
solução para a dicotomia liberdade/natureza está, precisamente, na radicalização
idealista da liberdade já apontada por Kant; ou seja, em assumir a Idéia de
liberdade na força auto-constituidora do seu conteúdo lógico, mas que se revela
historicamente nas instituições sociais e políticas. Contudo, este diálogo (crítico)
com a modernidade só se manifesta e se constitui em elemento especulativo
irrecusável a partir da superação do organicismo substancialista do jovem Hegel, e
da aceitação, dialeticamente incorporada na Filosofia do Direito, do princípio auto-
referencial da liberdade anunciada pelo jusnaturalismo moderno e progressiva-
mente incorporado na sua doutrina política.

II
O direito natural moderno, exemplarmente consignado por Hobbes, não
compreende o homem como um ser que se realiza em vista de um fim – dado pelo
processo teleológico de efetivação de potencialidades –, mas como um ser cuja
essência é definida por princípios que se referem à natureza humana, imanentes à
condição de um indivíduo racional e referidos ao sujeito a partir de causas
eficientes e materiais. A natureza humana é pensada modernamente segundo o

5A partir da Realphilosophie de Jena, Hegel vai percebendo a superioridade do estado

moderno. Acatar a importância da subjetividade, da liberdade individual, da autonomia da


pessoa significa abandonar o privilégio da helenidade onde o princípio da liberdade
individual e da subjetividade estão ausentes. O jovem Hegel nutria uma admiração
nostálgica pela antigüidade, pelo organicismo da bela totalidade grega. Através dos seus
estudos da economia política clássica, principalmente de J. Steuart, da atenção à moderna
teoria do direito natural com Hobbes e Rousseau, e do reconhecimento do valor da
subjetividade em Kant e Fichte, Hegel destaca a definitiva importância política e filosófica
da liberdade subjetiva e do direito particularidade como essenciais à modernidade.

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modelo da identidade auto-referente que se manifesta no princípio da liberdade e
da igualdade abstratamente atribuído a todos os indivíduos, em oposição à lei
natural dos antigos que definia, objetivamente, o lugar e o estatuto de cada sujeito.
A referência à natureza do indivíduo só é real se ele for senhor de si
mesmo. A liberdade é, então, um pressuposto necessário para a realização do
indivíduo naquilo que ele deseja ser. A explicação da sociedade e do Estado
também está referida à liberdade dos sujeitos, enquanto indivíduos que possuem o
atributo da liberdade como direito próprio, subjetivo.
O Leviatã estabelece de modo inequívoco o que Hobbes entende por
direito natural, nele ressaltando a liberdade como fato primário referido ao sujeito:
“O direito de natureza, a que os autores geralmente chamam jus naturale, é a liberdade
que cada homem possui de usar seu próprio poder, da maneira que quiser, para a
preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua vida; e conseqüentemente de
fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios
adequados a esse fim” 6 .
No De Cive, Hobbes diz que “pela palavra direito, nada mais se significa do
aquela liberdade que todo homem possui para utilizar suas faculdades naturais em
conformidade com a razão reta.” 7 Com efeito, Hobbes inaugura na modernidade
um conceito de liberdade como direito natural próprio do indivíduo, isto é, como
atributo do sujeito para usar a si mesmo e as suas faculdades para a sua
sobrevivência e preservação. E nisso todos os homens são iguais. Se qualquer
homem tem o direito de perseverar no seu ser, o seu conatus, logo ele deve ter a
liberdade para usar todos os meios necessários para a obtenção desse fim.
Ao identificar o direito de natureza com a liberdade natural do homem,
Hobbes desloca o direito para esfera de uma facultas do sujeito: ele é um atributo
de cada indivíduo, e se traduz no poder próprio que cada homem tem para a
preservação de sua própria natureza. Com a distinção entre lex e jus promovida por
Hobbes, a liberdade – definida como um direito de cada um de fazer tudo aquilo
que é necessário para sua auto preservação –, é anterior à lei. Ela é um atributo
natural radicado no indivíduo. “Embora os que têm tratado desse assunto

6 HOBBES, O Leviatã; 1979, cap. XIV, p. 78.


7 HOBBES, Do Cidadão; 1992, p. 35.

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costumem confundir jus e lex, o direito e a lei, é necessário distingui-los um do


outro. Pois o direito consiste na liberdade de fazer ou de omitir, ao passo que a lei
determina ou obriga a uma dessas coisas. De modo que a lei e o direito se
distinguem tanto como a obrigação e a liberdade...” 8 .
A liberdade é o direito imanente ao sujeito, uma qualidade que lhe é
própria enquanto faculdade que cada um tem de fazer tudo aquilo que é
necessário para a sua própria sobrevivência. Trata-se, então, da liberdade como
direito subjetivo, cuja referência é o próprio indivíduo. 9 A liberdade aqui é um direito
natural, porque, no estado de natureza os homens estão obrigados tão somente a
fazer ou deixar de fazer algo sob a condição de que esta obrigação seja um ato
desejado por eles. É perfeitamente racional conceber um ser que possa agir
conforme ele queira, sem ser impedido por nada, condição elementar para
assegurar a sua subsistência.
Em outra passagem, Hobbes define a liberdade como a “ausência de
impedimentos externos, impedimentos que muitas vezes tiram parte do poder que
cada um tem de fazer o que quer” 10 . Ou ainda: “o homem livre é aquele que,
naquelas coisas graças à sua força e engenho é capaz de fazer, não é impedido de
fazer o que tem vontade de fazer” 11 . desde que nenhum obstáculo ou
impedimento externo (lei) o impeça. No De Cive a liberdade “nada mais é que
ausência de impedimentos e obstáculos ao movimento; portanto, a água represada
num vaso não está em liberdade, porque o vaso a impede de escoar; quebrado o
vaso, ela é libertada.” 12

8 HOBBES, O Leviatã; 1979, cap. XIV, p. 78.


9 “Hobbes não parte, como o faz a grande tradição da ‘lei’ natural, isto é, de uma
ordem objetiva, mas do ‘direito natural’, isto é, de um direito subjetivo absolutamente
justificado, longe de ser dependente de qualquer lei prévia, ordem ou obrigação”.
(STRAUSS, 1973, p. viii). Também M. Villey não hesita em opinar que esse direito natural
subjetivo é o fundamento e o princípio primeiro da filosofia política de Hobbes: “o direito
em Hobbes é tirado do indivíduo; de um indivíduo separado pela análise científica de toda
ordem social pré-existente, e já uma ‘robinsonada do próprio sujeito’: é verdadeiramente
um direito subjetivo”. (VILLEY, 1975, p. 658).
10 HOBBES, O Leviatã; 1979, cap. XIV, p. 78.
11 Ibid., II, cap. XXI, p. 129.
12 HOBBES, Do Cidadão; 1992, p. 171.

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Ao acrescentar ao elemento auto-referencial da liberdade (direito natural
subjetivo) o aspecto da materialidade da ação livre como sendo aquela que o
homem é capaz de realizar, – quando ele tem o poder para agir ou não, e quando
ele tem a possibilidade de execução, isto é, quando não há impedimento ou
obstáculo para a sua ação –, Hobbes afasta-se do potencial de auto-
referencialidade que o seu entendimento de liberdade prometia. A liberdade passa
a ser tematizada como uma liberdade física análoga ao “livre” movimento das
coisas dos seres vivos e inanimados. Com isso, Hobbes quer evitar que o direito
natural da liberdade seja interpretado como um atributo do livre arbítrio. “Do uso
da expresssão livre arbítrio não é possível inferir qualquer liberdade da vontade, do
desejo ou da inclinação, mas apenas a liberdade do homem: a qual consiste no
fato de ele não deparar com entraves ao fazer aquilo que tem vontade, desejo ou
inclinação de fazer.” 13
Essa correção do conceito puramente auto-referencial de liberdade permite
ao hobbesianismo justificar o direito de mando sobre os outros. A liberdade
natural pode e dever ser limitada, e esta é a finalidade da lex: “o direito é liberdade,

13 HOBBES, O Leviatã; 1979, cap. XXI, p. 129. Ao acrescentar à liberdade como

direito natural subjetivo, o elemento objetivo da ausência de impedimentos, Hobbes


inspira uma das acepções de liberdade – a assim chamada ‘liberdade negativa’ ou
‘liberdade de’ –, presente na filosofia política moderna em autores como Locke,
Montesquieu, Tocqueville e outros. O tradicional debate entre a liberdade individual e a
liberdade política foi recolocado no século XX, por I. Berlin no seu ensaio “Duas concepções
de Liberdade.” Neste ensaio, o autor Berlin distingue dois significados para a liberdade. No
significado negativo, a liberdade é a ausência de impedimentos, barreiras ou restrições
para que alguém possa fazer ou deixar de fazer aquilo tem desejo de fazer. Um homem
não é livre quando sua ação é obstruída ou coagida por outrem. A coerção significa uma
deliberada interferência de um outro ser humano que restringe a minha liberdade naquilo
que eu poderia agir ou deixar de agir de outra forma caso não existisse essa interferência.
A liberdade é negativa no sentido de alguém estar livre da (liberty from) interferência de
outrem (homens ou instituições). A segunda concepção de liberdade, proposta por I.
Berlin, enfatiza o aspecto da autonomia da vontade, do homem como senhor de si. Essa
concepção de liberdade significa a radicalização da tendência de auto-referencialidade
presente na filosofia moral e política dos modernos, e encontra na filosofia hegeliana a
expressão máxima de realização.

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nomeadamente a liberdade que a lei civil nos permite, e a lei civil é uma obrigação
que nos priva da liberdade que a lei de natureza nos deu” 14 . Trata-se, portanto,
não mais da liberdade natural, mas da liberdade do súdito (política), isto é a
liberdade que advém a cada um quando se abandona a condição do estado de
natureza, na qual “todo homem tem o direito de fazer tudo aquilo que ele deseja”.
A liberdade natural do homem pode ser “limitada e restringida pela lei civil”,
condição importante para a paz.
A liberdade ou civil consiste em fazer tudo aquilo que não é proibido pela
lei do soberano que cria um obstáculo ou impedimento ao livre movimento do
súdito. “A liberdade dos súditos está apenas naquelas coisas que, ao regular as
suas ações, o soberano permitiu: como a liberdade de comprar e vender, ou de
outro modo realizar contratos mútuos: de cada um escolher a sua residência, sua
alimentação, sua profissão, e instruir seus filhos conforme achar melhor, e coisas
semelhantes.” 15 A lei civil é uma espécie de impedimento artificial ou político, e
significa que, no seu silêncio, não há obstáculo para a liberdade do súdito. A
submissão à lei não é atentatória à liberdade natural, apenas uma necessidade que
a convívio social do estado civil impõe como uma exigência racional que
prescreve a necessidade da obediência para a manutenção da paz e da vida
civilizada. 16
Com esta análise da liberdade, Hobbes evita o caráter eminentemente auto-
referencial do conceito (também hobbesiano) de liberdade como direito próprio
do indivíduo (facultas). Pode-se constatar no jusnaturalismo moderno uma pro-
gressiva tendência de desnaturalização da liberdade, traduzida pela racionalização
auto-referencial. Esta tendência, já presente em Hobbes, se aprofunda com
Rousseau, 17 e encontra no idealismo da teoria do direito natural (racional) de

14HOBBES, O Leviatã; 1979, II, cap. XXVI, p. 174.


15Idem, cap. XXI, p. 131.
16 “O eixo da teoria do Estado de Hobbes consiste em insistir sobre a racionalidade de

renunciar a ser livre de toda obrigação de obedecer às leis humanas” (SKINNER, 1991, p.
201).
17 O conceito rousseauniano de liberdade como “obediência à lei que se estatui à si

mesma”, revela de modo exemplar o caráter auto-referencial da liberdade do indivíduo,

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Kant, com a idéia de liberdade que se basta a si mesma como fato da razão, sua
forma (transcendental) de fundamentação a mais radical. 18

III
Com a aceitação do princípio da subjetividade dos modernos, e com a
valorização da autonomia do sujeito (Kant e Fichte), Hegel radicaliza a tendência
da filosofia moderna no sentido da construção de um sujeito auto-referente.
Pretende, assim, que a sua própria filosofia seja a expressão máxima desse
processo, na medida em que ela representa a consumação e, simultaneamente, a
sua superação. O diálogo (crítico) do pensamento hegeliano em relação à tradição
do direito natural moderno ocorreu no sentido de promover uma verdadeira
Aufhebung do conceito auto-referencial de liberdade.
O desenvolvimento hegeliano da auto-referencialidade, através da qual o
esquema dialético do reconhecimento é sobre-determinado pelo conceito da
referência a si mesmo 19 , se explicita pela análise da Idéia de liberdade que se

definida como autonomia da vontade, e constitui a própria essência do homem: “renun-


ciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem”
18Michel Villey interpreta essa desnaturalização do direito natural na Rechtslehre de Kant

como a própria morte do direito natural. “Kant baniu toda referência à natureza [...] No
sentido próprio a doutrina de Kant é exatamente a antítese do direito natural – tal como a
tradição clássica havia entendido. Kant matou o direito natural, pois sua filosofia é usada,
precisamente, para negar que, da observação das coisas, pode-se concluir para o dever ser
dos fenômenos e tirar um direito; ela lança um abismo entre as coisas e as ordens da razão
prática, entre o Sein e o Sollen.” VILLEY, 1962, p. 61) Essa interpretação peca pelo
excesso ao não considerar que a “morte” do jusnaturalismo moderno com Kant é, na
verdade, o seu momento mais significativo, pois representa o coroamento de um processo
de abstração dos fundamentos do direito natural.
19 Essa auto-posição do conceito presente na Ciência da Lógica é o resultado de uma

evolução no pensamento de Hegel a partir dos escritos juvenis de Jena (1801/1806). Mas
é preciso reconhecer, como observou Bienestock, que nesse período “a noção de
reconhecimento desempenha um papel crucial na filosofia prática de Hegel em Jena, e
mesmo mais tarde: reconhecer-se nas instituições dadas ou, mais precisamente, no mundo –
reencontrar-se ‘em si’ (bei sich) no mundo –, tais são precisamente as expressões pelas
quais Hegel descreve a noção de liberdade” (BIENESTOCK, 1992, p.18).

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desenvolve em três dimensões ou sentidos que se interpenetram: o lógico-meta-


físico, o histórico e o institucional.
Do ponto de vista histórico, Hegel afirma que “a história universal repre-
senta a marcha gradual do princípio cujo conteúdo e a consciência da liberdade.” 20 A
história universal vista como o “progresso na consciência da liberdade”, retrata o
movimento, também histórico, de constituição da liberdade. Paralelamente a esse
processo, a liberdade revela-se como a “ex-posição” do espírito, cuja essência é a
liberdade que alcança, nos tempos modernos, a sua realidade efetiva (Wirklichkeit).
Na Filosofia do Direito (1821), o princípio da modernidade é tematizado
como uma verdade especulativa que os tempos modernos revelam, e se traduz no
“princípio da liberdade subjetiva” (Prinzip der subjektiven Freiheit). Essa liberdade
significa o reconhecimento formal (jurídico) da autonomia do sujeito e do seu
valor como pessoa e como proprietário. A sensibilidade de Hegel a esses temas,
presentes na tradição do direito natural moderno, faz da sua filosofia política uma
teoria que destaca a importância do indivíduo e da liberdade subjetiva 21 .
O grande progresso da modernidade consiste no reconhecimento da
subjetividade como um momento absoluto. A liberdade subjetiva determina a
ação e o pensamento segundo a autonomia da vontade individual, e não mais por
critérios exteriores e heterônomos. A alavanca que move os tempos modernos
está apoiada sobre um fundamento que se basta a si mesmo: a liberdade da
vontade subjetiva, pelo qual tudo aquilo que o indivíduo faz deve estar mediado
pela sua vontade. Ela é, também, o divisor espiritual da Europa moderna de
outras épocas que carecem desse princípio. “O direito da particularidade do sujeito
de encontrar sua satisfação ou, o que é o mesmo, o direito da liberdade subjetiva,
constitui o ponto crítico e central na diferença entre o tempo moderno e a anti-

20 HEGEL, Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte, Werke 12. Werke in 20 Bänden;

1970, p. 77.
21 A propósito, Ritter observa que “para Hegel a liberdade da subjetividade e sua

realização tornou-se a substância e o fundamento do Estado moderno. Durante quase um


século acreditou-se firmemente que a sua filosofia fazia violências ao indivíduo e à
liberdade sacrificando-a ao estado todo poderoso. Foi apenas nos últimos anos que se
compreendeu o lugar central que ocupam na filosofia de Hegel a individualidade e a sua
liberdade subjetiva” (RITTER, 1970, p. 83).

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güidade” 22 . Mas é apenas na noção do indivíduo membro da sociedade civil, onde
os interesses pessoais e a liberdade subjetiva aparecem como direitos elementares
irrenunciáveis, que o sujeito moderno torna-se uma realidade efetiva. 23
Nos tempos modernos, o princípio da liberdade consolidou-se, juridica-
mente, nas monarquias modernas – principalmente pela expressão do ‘eu quero’
do monarca –, culturalmente na Aufklärung, economicamente na Revolução Industrial
Inglesa e, politicamente na Revolução Francesa. Na Aufklärung, o homem encontra em
si mesmo o verdadeiro conteúdo e a explicação suficiente da realidade (moral e
política) com exclusão de qualquer autoridade que não seja a luz da sua própria
razão. A Revolução Industrial Inglesa lança as bases de uma sociedade que se torna
independente dos vínculos tradicionais de produção, ao afirmar a validade do
interesse de cada indivíduo e de suas riquezas calcadas no valor do trabalho como
força produtiva autônoma. Enfim, a Revolução Francesa reivindica o cumprimento
político do princípio da liberdade ao pretender a efetivação revolucionária do
elemento básico da liberdade: uma vontade que quer a si mesma. Princípio
indeterminado e formal que na filosofia kantiana desponta na sua expressão
abstrata e, entre os franceses, afirma-se na tentativa de sua realização prática.
Do ponto de vista lógico-ontológico, a liberdade se traduz pela estrutura
auto-referencial peculiar da lógica do conceito. O fato da liberdade alcançar o
estatuto dialético de uma liberdade em-si e para-si, onde ela possui em si mesma o
seu ser-aí, representa a mais absoluta auto-referencialidade (Beisichselbstsein),

22 HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im

Grundisse. Werke 7. Werke in 20 Bänden; 1970, §124, obs.


23 A Filosofia do Direito de 1821 supera definitivamente o esquema juvenil de análise da

modernidade segundo o modelo clássico, procurando apreendê-la de acordo com a


referência da atualidade e segundo a verdade dos tempos modernos. Após o ‘abandono’
do modelo clássico, com o rompimento do esquema teórico tradicional da filosofia
prático-política e a aceitação do princípio da liberdade subjetiva das sociedades modernas,
Hegel passa a compreender a sociedade civil-burguesa como lugar histórico-sistemático
próprio das relações sociais-econômicas distintas da esfera do Estado, enquanto locus
privilegiado do político. A partir de então, a sociedade civil-burguesa (bürgerliche Gesellschaft)
e a sua compreensão pela economia política como “uma das ciências que encontrou na
época moderna seu próprio terreno”, constitui um marco histórico inarredável que a
especulação filosófica deve desvendar o seu sentido e anunciar a sua verdade.

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Hegel e a Liberdade no Direito Natural Moderno 117

característica essencial do conceito de liberdade, do Espírito, (“a liberdade é a


essência própria do Espírito e a sua própria realidade efetiva.”) e da subjetividade. 24
“Assim, o Espírito está puramente em si e nisso ele é livre, pois a liberdade
consiste justamente em estar consigo mesmo no seu Outro, em depender de si,
em ser a atividade determinante de si mesmo (...) A liberdade existe apenas lá
onde não há para mim nenhum Outro que não seja eu mesmo.” 25 Ser livre é estar
no seu próprio elemento (bei sich sein), isto é, na própria liberdade, tendo em si
mesmo a razão de ser do agir autônomo.
O Espírito é uma singularidade que se manifesta numa relação idêntica a si
e livre em si mesmo. Ele é uma atividade que se repõe constantemente através da
exteriorização de si mesmo, constituindo-se, portanto, numa livre subjetividade.
“Formalmente a essência do Espírito é, por conseguinte, a liberdade, a absoluta
negatividade do conceito enquanto identidade consigo mesmo. Segundo essa
determinação formal, ele pode abstrair-se de toda exterioridade, de sua própria
exterioridade, do seu próprio ser-aí (Dasein), pode suportar a negação de sua
imediatidade individual, sua dor infinita; isto é, pode manter-se afirmativo nessa
negatividade e ser idêntico a si.” 26
Finalmente, a análise hegeliana da liberdade se completa com o seu sentido
institucional. A natureza lógica-conceitual da Idéia de liberdade exige a negação do
aspecto puramente abstrato da sua auto-referência ideal, realizando-se concreta-
mente na história da realidade social e política dos homens. O verdadeiro e
concreto ser-aí da vontade livre em-si e para-si constitui, precisamente, o direito,
no qual a liberdade individual encontra sua razão de ser.
É justamente a livre atividade dos homens na produção histórica das suas
instituições sociais, culturais e políticas que Hegel quer compreender como
produto da liberdade e da atividade do Espírito. O homem só pode estar consigo

24 Lima Vaz comentando essa auto-referencialidade diz que “o conceito aparece assim,

para Hegel, como o protótipo lógico do sujeito, vindo a alcançar, na Idéia absoluta, a total
reflexão em si ou a absoluta identidade de ser-em-si e do ser-para-si.” (LIMA VAZ, 1997, p.
42).
25 HEGEL, Enciclopédie des Sciences Philosophiques, I. La Science de la Logique; 1970, §24,

ad., p. 477.
26 HEGEL, Enzyklopädie der philosophischen Wissenchaften im Grundisse (1830); 1969, §382.

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118 Cesar Augusto Ramos
mesmo na objetivação de suas ações e junto com os outros em relações de
intersubjetividade. O direito, as instituições políticas e sociais são realizações
comunitárias que trazem o sinal da sua própria razão de ser: a liberdade que não
se reduz à sua dimensão meramente individual.
Desse ponto de vista, é possível compreender a tese hegeliana exposta no
começo da Filosofia do Direito de que a “Idéia do direito é a liberdade: para
apreendê-la verdadeiramente é preciso conhecê-la no seu conceito e no seu ser-aí
(Dasein) que adota o conceito.” 27 O direito não tem o significado estrito de leis
jurídicas, mas de uma filosofia que compreende a realidade social, política e
jurídica dos homens como o “ser-aí de todas as determinações da liberdade.”
Como Idéia, a liberdade deve ser vista na articulação lógica da idealidade
(conceitual) com a sua realização. Assim, no desenvolvimento desta Idéia, cada
nível que ela alcança corresponde a um determinado ser-aí do conceito autárquico
de liberdade. Tanto a liberdade da pessoa (jurídica) e do sujeito moral, bem como
as realizações objetivas, concretas e comunitárias na família, na sociedade civil-
burguesa e no Estado, concretizam a existência empírica da auto-referencialidade
do conceito de liberdade. Conceito esse que, enquanto idealidade pressuposta no
conteúdo ideal da sua auto-referencialidade, se efetiva na configuração concreta de
suas exposições, tanto a nível individual como social e político, revelando um
conteúdo real.

IV
A relação de Hegel com o direito natural de Hobbes pode ser analisada a
partir de alguns textos que fazem referência explícita a esse filósofo, como é o
caso das Lições sobre a História da Filosofia. Nessa obra, umas poucas páginas é
dedicada para comentar algumas passagens, principalmente do De Cive. Outros
textos não são tão explícitos, mas a referência ao hobbesianismo é visível. Por
exemplo, nos escritos juvenis Maneiras de tratar cientificamente o Direito Natural
(1802/3), no Sistema da Vida Ética (1802/3), em algumas passagens da Fenome-
nologia do Espírito (1806/7), da Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817) e da Filosofia
do Direito (1821).

27 HEGEL, Rechtsphilosophie, op. cit., §1. Ad.

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Hegel e a Liberdade no Direito Natural Moderno 119

As Lições sobre a História da Filosofia, 28 avaliando a obra política de Hobbes


(O Leviatã, citado apenas no Cap. 13 e, principalmente, o De Cive), afirmam que ela
“contêm pensamentos mais sãos acerca da natureza da sociedade e do governo do
que aqueles que se achavam em curso na sua época [...]” 29 Estes “pensamentos
sãos” constituem pontos importantes para a compreensão da política e do Estado
que o filósofo inglês incorpora na sua doutrina, e que são reapropriados por
Hegel, naquilo que se chamou da “correção especulativa do hobbesianismo.”
Alguns desses pontos são indicados de passagem nas Lições, outros
aparecem de forma difusa no conjunto da obra de Hegel, como por exemplo: a
dedução do estado político a partir de princípios imanentes inscritos na
racionalidade da natureza humana, a idéia de que o estado de natureza constitui a
condição natural do homem na imediatidade da sua vontade natural (sendo esta
condição de violência e de domínio de uns sobre os outros), o abandono desse
estado como exigência racional, pois o conceito de humanidade não pode se
realizar nesta condição.
Nos escritos da maturidade, a noção de estado de natureza – com as carac-
terísticas que o jovem Hegel já havia assinalado, a saber, ausência de reconhe-
cimento pela inexistência de mediações sociais dada pela imediatidade natural do
homem como simples ser-aí, liberdade negativa vazia de determinações –, perde
um certo poder heurístico que os textos da juventude pareciam indicar.
A Enciclopédia das Ciências Filosóficas resume esta nova posição crítica: “A
expressão direito natural, que chegou a ser ordinária na doutrina filosófica do
direito, contém o equívoco entre o direito entendido como existente de modo
imediato na natureza e aquele que se determina mediante a natureza da coisa, isto é,
o conceito. O primeiro sentido é aquele que teve curso outrora: assim que, ao
mesmo tempo, foi inventado um estado de natureza, no qual devia valer o direito
natural, e frente a este, a condição da sociedade e do Estado parecia exigir e levar

28 Estas Lições constituem uma série de cursos dados por Hegel em Heidelberg (1816-

18), depois em Berlin (1819-1830), e foram publicadas por seu discípulo Karl-Ludwig
Michelet em 1833.
29 HEGEL, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie III, Werke 20. Werke in 20

Bänden; 1971, p. 226.

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120 Cesar Augusto Ramos
em si uma limitação da liberdade e um sacrifício dos direitos naturais. Porém, em
realidade, o direito e todas as suas determinações fundam-se somente na livre
personalidade: sobre uma determinação de si que é o contrário da determinação natural. O
direito da natureza é, por esta razão, o ser-aí da força, a prevalência da violência, –
e um estado de natureza é um estado onde reinam a brutalidade e a injustiça do
qual nada mais verdadeiro se pode dizer senão que é preciso dele sair. A sociedade,
ao contrário, é a condição onde o direito se realiza; o que é preciso limitar e
sacrificar é precisamente o arbítrio e a violência do estado natural.” 30
Na Filosofia do Direito, a noção de pessoa (na abstração do direito) é
fundamental para compreender os indivíduos como essências livres, aos quais se
atribui a determinação de um direito, igualmente válido para todos, pelo qual cada
indivíduo é respeitado e tratado como essência livre. Nesse sentido, o princípio do
direito prescreve: “seja uma pessoa e respeite os outros como pessoas”. Devido à
sua abstração, esse direito não exprime nenhum conteúdo, e a forma que ele
assume é a da interdição: “não lesar a personalidade e o que dela se segue”.
Essa igualdade formal derivada da universalidade da pessoa constitui um
momento necessário, embora ainda abstrato e imediato, no desenvolvimento da
liberdade. A igualdade só pode ser definida pelo pressuposto conceitual da
identidade dos homens, possível apenas pela consideração de uma qualidade ideal
– a liberdade – que se atribui a todos os homens. De um suposto estado de
natureza é impossível deduzir uma teoria da igualdade dos indivíduos,
considerando-os como pessoas, e fundamentar uma teoria do direito com base na
liberdade. Tal análise, já presente nos escritos de Jena, é retomada e aprofundada
na Filosofia do Direito sob a perspectiva da auto-referencialidfade da liberdade.
Com a noção de pessoa como ser-aí imediato da Idéia de liberdade, Hegel
supera (e também conserva) o indivíduo do direito natural moderno. O indivíduo
permanece na figura da pessoa como capacidade jurídica com alcance universal.
Na crítica ao jusnaturalismo, o filósofo mantém o direito do indivíduo, mas na
acepção jurídica da pessoa, como “puro conceito do eu do homem”.
Pensada segundo as determinações do Espírito objetivo, o direito, a polí-
tica, o Estado têm origens totalmente diferente da explicação jusnaturalista. A

30 HEGEL, Enzyklopädie; 1969, §502, obs.

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Hegel e a Liberdade no Direito Natural Moderno 121

noção de origem ou de fundamento significa, para Hegel, a natureza das coisas,


ou seja, aquilo que é segundo o seu conceito. O erro do jusnaturalismo consiste
em pensar o Estado pela ótica da representação de uma natureza originária, quer
seja ela real, fictícia ou ideal. Um suposto estado de natureza é algo em-si; algo que
é definido por aquilo que não deve ser: “um estado de injustiça, de violência, de
tendências não reprimidas, de atos e de sentimentos não humanos.”
Um segundo equívoco do argumento jusnaturalista consiste em transferir
as determinações da ordem pública do Estado politicamente organizado para um
suposto estado de natureza. Por exemplo, a capacidade jurídica dos contratantes
na instituição do pacto social ou é indevidamente transferida da realidade jurídica
(social/política) para um estado não jurídico e nem político, ou, contrariamente,
constitui-se uma ordem política através de um instrumento do direito privado, o
contrato, o qual só pode produzir uma vontade comum, a dos contratantes, mas
não uma vontade universal, pública. Se a liberdade natural é pensada como
motivo para a produção do Estado, e se a ordem política for proposta como
restrição da liberdade natural dos contratantes, então a liberdade não pode ser
limitada por aquilo que ela mesma constituiu.

V
Apesar das críticas às principais teses da escola do direito natural moderno,
alguns elementos dessa escola “subsistem” na Filosofia do Direito. Elementos que,
na sua “supressão/conservação”, são incorporados no significado especulativo da
filosofia política de Hegel, e estão presentes em diversos momentos da sua obra,
nela adquirindo um sentido próprio. O Estado, pensado como a realização
máxima do Espírito objetivo, a natureza de certo modo, nele permanece
“espiritualizada” no elemento da particularidade daquilo que é humano, errático e
contingente. Subsiste no Estado um certo relativismo, o momento da diferença
produzido pela alteridade da Idéia de liberdade como resultado da exterioridade
na passagem da Lógica à Natureza.
Essa Aufhebung de elementos do direito natural moderno pode ser
diagnosticada em diversos pontos da Filosofia do Direito. Na teoria da vontade livre
da Introdução, o aspecto da vontade natural na análise da liberdade permanece na

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122 Cesar Augusto Ramos
figura da liberdade arbítrio (Willkür). Também na primeira parte da obra, no
direito abstrato, o elemento jusnaturalista do pressuposto do indivíduo como
sujeito de direitos, inclusive o de ser proprietário de si mesmo e das coisas que são
apropriadas pelo seu trabalho. Esse viés lockeano está “presente” no conceito de
pessoa (capacidade jurídica) de ter direitos e de ser proprietário. Neste conceito, a
súmula das leis de natureza de Hobbes – “Faz aos outros o que gostarias que te fizessem
a ti”– ecoa na versão hegeliana do preceito do direito abstrato que diz: “sê uma
pessoa e respeite os demais como pessoas.”
Mas é na terceira parte da Filosofia do Direito, na seção que trata da Socie-
dade Civil-burguesa, que a “presença” de elementos “suprassumidos” do direito
natural moderno, particularmente hobbesianos, mostra-se mais evidente. É na
sociedade civil-burguesa que se fala propriamente da “representação concreta que se
chama homem”, 31 e é nela que o direito “natural” da pessoa tem a sua fenome-
nização.
Definida como o reino do entendimento e da particularidade – um dos
elementos da sociedade civil-burguesa presente na pessoa como uma “mistura de
necessidade natural e de arbítrio” – esta sociedade conserva e suprime a natureza
no seio da própria Sittlichkeit. Pelo concurso da cultura (Bildung) e pela mediação
dos outros na satisfação social das carências, há um processo de superação da
natureza que Hegel chama de libertação da necessidade natural. Mas, adverte o
filósofo, “essa libertação é apenas formal, já que a particularidade dos fins continua
sendo o conteúdo que lhe serve de fundamento.” 32
O texto da Enciclopédia diz que a “luta pelo reconhecimento e a submissão a
um senhor é o fenômeno donde surge a vida social dos homens como começo
dos Estados.” 33 Isso pode induzir à idéia de que, no estado de natureza, a luta de
vida e morte pelo reconhecimento é o momento que impulsiona à fundação do
Estado, havendo nessa leitura, nítida influência hobbesiana? Com esta idéia,
estaria Hegel colocando a violência (Gewalt), fundamento do fenômeno acima
descrito, como princípio da vida ética negando, assim, a figura, embora abstrata,

31 HEGEL, Rechtsphilosophie, op. cit., §190, obs.


32 Ibid., §195.
33 HEGEL, Enzyklopädie; 1969, §433, obs.

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Hegel e a Liberdade no Direito Natural Moderno 123

do direito? Se isso pode ser legítimo para a formação da consciência individual


mergulhada no desejo egoísta de si e de suas pulsões, havendo necessidade da sua
formação para uma consciência universal, a luta pelo reconhecimento (e a
violência como elemento dessa luta) não pode valer para explicar o nascimento do
Estado, segundo a sua essência categorial, pois a violência não pode ser o
fundamento do direito. Hegel usa a expressão fenômeno (Erscheinung) para
enfatizar apenas um forma de aparecer do Estado, como sendo o seu “começo
exterior ou fenomenal [...] mas não seu princípio substancial.” 34
De forma análoga, o momento categorial anterior para a constituição do
Estado no esquema da Sittlichkeit é a sociedade civil-burguesa que Hegel chama
exatamente do “mundo fenomênico do ético” (Erscheinungswelt des Sittlichen) 35 . Como
fenômeno, esta sociedade guarda o aspecto da violência – no sentido hobbesiano
– que necessita ser superada no Estado e pelo Estado. Nele, o reconhecimento
(político) de que todos são pessoas e cidadãos pode ser efetivamente assegurado.
O parágrafo 200 da Filosofia do Direito faz menção explícita a um estado de
natureza. Como a natureza caracteriza-se pela desigualdade – portanto, não tem
sentido falar de uma igualdade natural – se produz entre o homens (movidos que
são pela “diversidade no desenvolvimento das disposições naturais, corporais e espiri-
tuais, já por si desiguais;” 36 ) uma desigualdade social, a da “riqueza patrimonial”.
A sociedade, ao mesmo tempo que promove uma igualdade, a do homem
enquanto homem, prolonga e potencia uma desigualdade natural de um suposto
estado de natureza. É justamente essa “particularidade natural”, à qual se
acrescenta uma “particularidade arbitrária”, que Hegel explicitamente chama de
“resto do estado de natureza” 37 Tudo indica que este estado refere-se a Hobbes,
principalmente quando Hegel caracteriza a sociedade civil-burguesa como o
“campo de batalha de todos contra todos.” 38 Ao comportar elementos do “estado
de natureza” e, ao mesmo tempo, possuir na sua própria lógica contraditória uma

34 Idem, §433, obs.


35 HEGEL, Rechtsphilosophie, op. cit., §181.
36 Ibid., §200.
37 Ibid., §200, obs.
38 Ibid., §289, ad, cf. tb. §198.

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124 Cesar Augusto Ramos
racionalidade, embora astuciosa, a sociedade civil-burguesa constitui o espaço que
possibilita a mediação entre elementos considerados naturais (o conflito, a luta, a
concorrência) de uma racionalidade negativa e o aspecto ético-político da
racionalidade positiva do Estado.
Hobbes concebe o Estado como o reino da razão (imperium rationis), o lugar
adequado para a realização política da racionalidade. O hegelianismo político
representa o ponto culminante desse processo de racionalização do Estado,
procurando conservar a racionalidade do projeto político hobbesiano, traduzido
por Hegel como um momento importante de um tipo de racionalidade – a do
entendimento – mas incapaz de dar conta deste projeto. O princípio da
racionalidade do Estado na superação de uma forma de sociabilidade e de vida
como condição que permite a paz, o progresso e o direito constitui um ponto que
Hegel aprofunda, modificando o esquema jusnaturalista de Hobbes.
Ao interpretar a sociedade civil-burguesa segundo alguns aspectos do
estado de natureza hobbesiano, Hegel mantém o conflito como um fato estrutural
e imanente a um determinado momento da eticidade. Cabe à racionalidade do
Estado, não como uma exigência de um ideal normativo, mas como uma
necessidade histórica que os novos tempos revelam, e que a razão traduz como
exigência conceitual, a resolução desse conflito.
A interpretação que Hegel dá à liberdade faz da sua filosofia política o
ponto final de um processo de racionalização da liberdade representada pelo
aspecto da autotelia tematizada pelos modernos, particularmente pelos filósofos
do chamado direito natural. Para Hegel, isso se apresentou como o resultado
dialético de um duplo trabalho convergente: de um lado, o aprofundamento
definitivo da auto-referencialidade na filosofia política, e, de outro, a superação
dessa auto-referencialidade no espaço público da Sittlichkeit na figura do Estado,
momento em que o jusnaturalismo está definitivamente ultrapassado.
Na tentativa de definir e legitimar a liberdade pelo núcleo de racionalidade
que ela mesma contém, a Aufhebung do direito natural moderno operada pelo
hegelianismo político se apresentou para além da sua origem natural e para aquém
do seu dever-ser formalista. Com a radicalização da liberdade como Idéia, Hegel
efetiva o processo de desnaturalização da liberdade, entendendo-a não mais como

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Hegel e a Liberdade no Direito Natural Moderno 125

um direito natural, mas em si mesma, como elemento espiritual que se desloca do


seu fundamento natural e se compreende segundo a lógica da auto-refencialidade
da Idéia de liberdade que se realiza na história.
A idéia hegeliana de liberdade representa uma correção especulativa do con-
ceito de liberdade como direito subjetivo do jusnaturalismo moderno. Com efeito,
no mesmo momento em que a filosofia política hegeliana efetiva o processo
progressivo de desnaturalização de liberdade – que é pari passo, o seu movimento
mais expressivo de auto-referência –, o jusnaturalismo é, também, profundamente
criticado nas suas teses principais: a concepção de estado de natureza, o contrato
social, a atomização dos sujeitos, a identidade da societas civilis com o Estado, a
liberdade reduzida ao livre-arbítrio.
Contudo, esta correção só foi possível pelo aprofundamento, também
especulativo, da estrutura auto-referencial da liberdade subjetiva que o direito
natural moderno já prenunciava desde o seu começo. Essa radicalização da
auto-referencialidade, operada pela Idéia hegeliana de liberdade como uma
estrutura lógica subjetiva que se autopõe a si mesma e nela permanece, encontra
na Filosofia do Direito de Hegel o seu momento de acabamento que é, também, o
seu termo final.

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