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Ética Ambiental

Parte 1
Alfredo Marcos

A Ética Ambiental trata de um ponto de vista racional os problemas


morais relacionados com o ambiente. Este ramo da Ética tem cada vez mais
importância, uma vez que os problemas ambientais atualmente estão
presentes em nosso cotidiano, pois nossa capacidade de intervenção sobre o
meio é cada vez maior. A idéia de que a Ética Ambiental é apenas Ética
Aplicada é errada.

Em primeiro lugar, porque a Ética constrói-se de baixo para cima, da


experiência moral para os princípios mais abstratos e não ao contrário. A
palavra "ética" procede do grego (ethos), que significava, inicialmente,
“morada” e posteriormente “costume” ou “caráter”.

A palavra "moral" vem do latim (mos, moris) e quer dizer praticamente o


mesmo, pois está relacionada com a morada e os costumes. Assim, a moral
como a morada, não é construída a partir do telhado, como pode sugerir a idéia
de Ética Aplicada. Considerando a Ética Ambiental como Ética Aplicada
sugerimos que já dispomos de um conjunto de princípios gerais, de validade
universal e que a única coisa que temos a fazer é aplicá-los aos casos
concretos a que se reduzem os problemas de Ética Ambiental. Esta imagem da
Ética dá origem a confusão. Os tais princípios, quando os há, são fruto da
experiência moral decorrente da ação concreta em circunstâncias concretas.
Aristóteles afirmava que apenas realizando ações justas se faz algo justo e que
"o que há a fazer depois de ter aprendido, aprendemo-lo fazendo".1

Em segundo lugar, a posse de princípios gerais não garante que atuemos


corretamente nos casos concretos, pois é necessária prudência e equidade
para aplicar os princípios gerais, caso contrário, a sua aplicação mecânica

1
Aristóteles. Ética a Nicómaco, 1103b 32 e ss.

1
pode dar origem a injustiças maiores. Por sua vez, a prudência e a equidade
não podem ser reduzidas a princípios gerais, porque são saberes vivos.

Em terceiro lugar, a relação entre os princípios e os casos particulares é


de ida e volta, ou seja, dialética. Falando concretamente de Ética Ambiental,
pode dar origem a que a Ética Geral acabe por sofrer modificações importantes
por causa do aparecimento de um novo núcleo de problemas. De fato, é isso o
que acontece.

As questões de Ética Ambiental ameaçam as mais reputadas tradições do


pensamento ético, incluindo, defendem alguns, a própria tradição ética
ocidental.

Por exemplo: a tradição contratualista moderna, com prestigiados


representantes atuais, como John Rawls, defende que uma sociedade é justa
se as suas normas de convivência podem ser pensadas como um contrato
aceito livremente em condições de igualdade por todos os afetados. Pensa-se,
por isso, na convivência de pessoas livres e iguais. Nada disto nos ajuda
quando falamos de justiça nas relações entre gerações muito distantes, ou
entre pessoas e animais não-humanos. Em conseqüência, o novo domínio de
problemas ambientais não é meramente um campo de aplicação de normas
éticas pré-existentes, mas um banco de testes para estas e uma fonte de
sugestões para um novo pensamento ético.

Poderíamos perguntar:

[1] Porque faz falta uma reflexão ética ambiental?

[2] Não serão suficientes as nossas intuições e sentimentos?

Não podemos, nem devemos deles prescindir, mas sem uma discussão
racional não é possível decidir corretamente sobre os problemas básicos nem
sobre os conflitos.

As políticas de meio ambiente procuram manter um meio limpo e utilizável


para as pessoas, preservar alguns espaços naturais e proteger a
biodiversidade. Mas pode haver sempre quem se pergunte por que devemos
pagar impostos ou aceitar restrições para favorecer a biodiversidade.

2
Além disso, estes três objetivos podem entrar em conflito e ameaçar-se
mutuamente, de maneira que às vezes tenhamos que decidir entre um ou
outro, ou conciliá-los criativamente: para manter a diversidade ou a limpeza
pode fazer falta a intervenção humana, com a qual se reduz o caráter natural
de um meio envolvente.

Como escolher nestes casos e com que critérios?

A natureza e os seres naturais têm valor em si ou tudo se reduz à sua


utilidade para o ser humano?

Quais têm valor e porquê e como se pode comparar esse valor com o
bem-estar dos seres humanos quando há que conciliar ambos?

Será que se deve decretar uma moratória na experimentação de


medicamentos em animais ou o interesse humano justifica o sofrimento dos
animais não humanos?

O que acontece quando o interesse da espécie se opõe ao de certos


indivíduos?

O que vale mais, um indivíduo com maior valor intrínseco (por exemplo,
um primata) ou um vivente que pertença a uma espécie em perigo de extinção?

Sob que critérios se deve decidir o conflito de interesses entre gerações


diferentes?

Como distribuir com justiça riscos ambientais entre pessoas e nações


diferentes?

Dificilmente podemos abordar todas estas questões apenas com as


nossas intuições morais e bons sentimentos (ainda que sem eles também não
seja possível responder-lhes).

Em definitivo, a reflexão ética é necessária também quando se discutem


questões ambientais. É necessária uma base racional para tomar decisões
ambientais boas e corretas de um ponto de vista moral.

3
Parte 2
O Antropocentrismo proclama o primado absoluto do homem sobre a
natureza e o seu direito a dominá-la. Nega qualquer caráter moral à relação
entre o homem e o resto dos seres naturais.

Pelo contrário, o Humanismo está fundado sobre na idéia de cuidado da


natureza (embora não exclua a sua utilização para a vida boa do ser humano)
e admite que as relações do homem com os outros seres naturais podem ter
caráter moral. O Humanismo é freqüentemente criticado atribuindo-lhe
injustamente idéias que apenas o Antropocentrismo defende.

Por vezes, o Antropocentrismo é chamado de Ética do cowboy ou Ética


da fronteira, pois procura basicamente a conquista, a colonização, a
urbanização e a exploração de tudo o que permanece selvagem. O único valor
que se atribui à natureza é de caráter econômico, para a satisfação das
necessidades humanas, e reconhece o direito absoluto do homem sobre a
natureza, confiando que haverá solução tecnológica para qualquer problema
ambiental.

De fato raramente se articula e defende estas idéias de modo explícito,


menos ainda no âmbito acadêmico, uma vez que não se coaduna com o que
se considera ser politicamente correto. Não há que duvidar que o politicamente
correto age no mundo acadêmico como uma forma de censura sutil e poderosa
que inclusivamente se interioriza sob a forma de auto-censura.

Sem dúvida, apesar da ausência de uma defesa teórica do


Antropocentrismo, existe uma cultura popular bastante difundida e assumida de
modo bastante consciente. Esta atitude não é estranha nas pessoas cuja
relação com a natureza tem sido dura, na maioria das vezes pertencentes às
camadas mais pobres, que conheceram bem o seu lado amargo. Em outro
sentido, o Antropocentrismo age freqüentemente como um guia prático, por
exemplo, na produção industrial ou agropecuária.

4
As práticas antropocêntricas utilizadas por algumas empresas nem
sempre são claramente brutais. Pelo contrário, às vezes são compatíveis com
um certo verniz ecológico que as torna socialmente respeitáveis.

Parte 3
Alguns críticos do Antropocentrismo, como Peter Singer e Tom Regan
propõem também estender a consideração da relevância moral a todos os
seres sencientes, ou seja, a todos os seres que sejam capazes de sofrimento,
incluindo desejos e frustrações.2 Singer e Regan, portanto, são parcialmente
Biocentristas.

Entretanto, este Biocentrismo incompleto de Singer e Regan recebe


críticas dos Biocentristas mais radicais (como Paul Warren Taylor) e dos
Ecocentristas (como Holmes Rolston III) por deixar fora da consideração moral
muitos seres vivos que são incapazes de sofrimento ou frustração e outras
entidades como ecossistemas ou espécies.

A extensão do círculo moral aos animais superiores e até aos sencientes


em geral, é insuficiente tanto para Taylor como para Rolston. A questão –
afirma Holmes Rolston III – não é tão simples como pensava Bentham. Não é o
caso que [os animais] possam raciocinar, ou se podem falar ou até se podem
sofrer. A questão é se a natureza, ao nível da vida senciente, é um jogo
apaixonante […] Os sofrimentos, prazeres, interesses e bem-estar dos animais
individuais são uma parte, mas apenas uma parte, das considerações de uma
ética ambiental.3

Biocentristas mais radicais consideram as idéias de Singer e de Regan


como uma mera extensão das idéias éticas tradicionais. De fato é bem
evidente que Singer propõe uma forma mais ampla de utilitarismo hedonista
tradicional para enfrentar alguns dos problemas morais da nossa relação com

2
Singer, Peter. Liberación animal. Trota: Madrid, 1999; Regan, Tom. The Case for Animal
Rights. University of Califórnia Press, 1983.
3
Rolston III, Holmes. Environmental Ethics. Duties to and Values in Natural World. Temple
University Press; Philadelphia, 1988, p. 93.

5
os animais, e quase nada diz diretamente sobre problemas como a
contaminação ou as alterações climáticas. Pelo contrário, os Biocentristas
propõem uma reforma muito mais radical da Ética, um novo pensamento ético
integral, que enfrente os problemas ambientais, que inclua até uma nova idéia
do que é a vida boa.

O fracasso de uma reforma desta amplitude obrigar-nos a ir mais além ao


território da ética. Deste modo, o Biocentrismo converte-se em algo mais do
que uma Ética Ambiental, converte-se numa Filosofia Ambiental que inclui uma
metafísica, uma epistemologia, uma estética e uma filosofia política. Há aqui
um programa que ultrapassa em muito o horizonte das nossas relações com os
animais capazes de sentir dor.

Vejamos, de uma forma positiva, quais são as propostas dos


Biocentristas.

O primeiro e mais básico dos seus objetivos consiste em desenvolver uma


filosofia em que se reconheça o valor intrínseco das entidades naturais vivas e
não apenas o seu valor instrumental.

Encontramos indícios da Ética Biocêntrica nos escritos de Albert


Schweitzer (1975 – 1965)4, que dedicou parte da sua vida ao serviço da
medicina em lugares remotos e isolados de África. Sua ética pode ser resumida
pela expressão “reverência pela vida”. Segundo ele, esta seria a atitude correta
do ser humano relativamente à natureza. A base desta ética, pelo menos de
um ponto de vista biológico, encontra-se naquilo que o próprio autor qualificava
como uma experiência mística que havia ocorrido numa das suas viagens por
um rio africano. Qualquer pessoa nessa situação poderia entender diretamente
o valor dos seres vivos, da vida em si e por si mesma, independentemente de
toda a finalidade humana. Claro que as pessoas podem, por vezes, perceber
por si o valor dos seres vivos, e a experiência mística, nesta área como em
outras, deve ser encarada por todos com todo o respeito e consideração. Mas
na hora de estabelecer as bases filosóficas da Ética Ambiental será necessário
algo diverso. Como é possível estabelecer sobre bases racionais, e não

4
Cfr. Des Jardins. Environmental Ethics. Wadsworth: Belmont, 1067, pp. 130-1.

6
apenas sentimentais ou intuitivas ou místicas, a natureza intrínseca do valor
dos seres vivos?

Antes de responder, torna-se necessário fazer uma observação. O que


está em causa aqui é o valor dos seres vivos e não os seus direitos.

Segundo Biocentristas, como Paul W. Taylor ou Kenneth Goodpaster5, a


consideração moral para com os viventes, a atitude de respeito ou reverência
pela vida e os nossos deveres neste sentido, derivam, não nos direitos dos
seres vivos, mas no seu valor. Qualquer pessoa pode negar que os seres vivos
não-humanos tenham direitos e, ainda assim, reconhecer-lhes valor e
relevância moral, e reconhecer, em conseqüência, que temos deveres para
com eles.

Há que ter em atenção que do fato dos seres vivos não terem interesses
próprios não se segue que tenham direitos. Os direitos são considerados mais
como interesses que foram reconhecidos como legítimos no seio de um
sistema de regras capaz de resolver conflitos entre direitos que se opõem.

Além do mais, para resolver os problemas ambientais não é


imprescindível reconhecer direitos duvidosos a todos os seres vivos, mas é
suficiente para dispor de um dever de respeito por parte do homem. Jesús
Mosterín entende que a solicitação de direitos para os animais (por exemplo,
no Projeto Grande Símio) não supõe um compromisso com a natureza
intrínseca desses direitos, mas a adoção de uma retórica socialmente
conveniente.6

Passemos agora para a questão do valor intrínseco dos organismos


individuais.

Paul W. Taylor, um dos mais destacados Biocentristas, afirma que os


organismos individuais são “centros teleológicos de vida”, o que lhes confere
valor intrínseco: “A nossa concepção de cada organismo como um centro
teleológico de vida é tanto o reconhecimento da realidade da sua existência

5
Goodpaster, K. E. “On being Morally Considerable”. In: Journal of Philosophy, 75/6, Junho,
1978m, pp. 308-25.
6
Mosterín, Jesús. Vivam os Animais! Debates: Madrid, 1998.

7
como da sua individualidade única, que persegue o seu próprio bem à sua
maneira”.

Uma profunda consciência deste fato permite-nos encarar cada


organismo como o indivíduo que é, e conseguir um “entendimento pleno do
ponto de vista definido pelo seu próprio bem. Então podemos adotar o
compromisso moral de respeito por tal organismo”.7

Para finalizar a referência as idéias dos Biocentristas é preciso


acrescentar que elas são opostas à consideração da superioridade do ser
humano.8 O centro da moral deve ser a própria vida, o respeito ou reverência
por ela e não o ser humano, que é apenas mais um dos seres vivos. Daí se
segue que a resolução de conflitos de interesses deve fazer-se em função da
importância dos interesses e não da importância dos seres implicados no
conflito.

De fato, o Biocentrismo nega qualquer graduação no que diz respeito à


importância dos seres vivos.9 Se os seres humanos não são os mais
importantes, então também o não são os seres sencientes ou os animais
designados de superiores. Quando há conflito apenas importa calcular a
importância dos interesses em conflito.

Taylor apresenta cinco princípios que pretendem ser um guia para a


resolução de conflitos.10

O primeiro desses princípios é a autodefesa.

Se for a própria vida a estar em perigo, então é lícito eliminar ou ferir a


fonte da ameaça. Por exemplo, é lícito para um ser humano tentar eliminar
microorganismos patológicos que o invadem ou disparar contra um animal que
o ataque.

7
Taylor, P. W. Respect for Nature. A Theory of Environmental Ethics. Princeton University
Press: Princeton, 1986, pp. 128-9.
8
Idem, p. 129 e ss.
9
Rolston faz aqui uma ressalva. Considera que os seres que sejam capazes de dar-se conta
do seu próprio bem, têm mais valor.
10
Idem, p. 263-306.

8
Os outros quatro princípios (proporcionalidade, mal menor, justiça
distributiva e justiça retributiva) servem para resolver conflitos menos graves.
Baseiam-se na distinção entre interesses básicos e interesses não básicos.

Quando está em jogo um interesse básico e um não básico, o primeiro


tem prioridade, independentemente de quem esteja envolvido. Por exemplo,
não é justo matar répteis para fazer bolsas com a sua pele. Em qualquer caso,
quando os interesses são compatíveis, devem realizar-se de uma forma tal que
cause o menor mal possível a todas as partes (tanto humanos como não
humanos) e de um modo justo (os custos e benefícios devem distribuir-se
imparcialmente, sem discriminar em função da condição humana de alguma
das partes em conflito). Inclusivamente, nos casos em que tenha sido cometida
uma injustiça, devemos retribuir pela injustiça causada.

Parte 4
Apesar do biocentrismo ampliar de forma apreciável o âmbito da
consideração moral e supor, nas suas versões mais completas, uma alteração
filosófica profunda, foi criticado por ser limitado e individualista.

A ênfase dada por Taylor ao valor dos organismos individuais, cada qual
em prol do seu próprio fim, acaba por ter como efeito a fixação excessiva nas
relações conflituosas. A sua ética corre o risco de deslizar para uma coleção de
indicações procedimentais para a resolução justa de conflitos entre indivíduos.
Deste modo, perde-se de vista as relações ecossistêmicas de cooperação e
dependência mútua. Segundo Taylor, não temos deveres diretos para com os
ecossistemas, as espécies ou seres naturais não vivos.

Tendo em conta as limitações do biocentrismo, alguns pensadores, como


Holmes Rolston III ou Lawrence E. Jonhson11 optaram por filosofias mais
holísticas e, em conseqüência, éticas mais inclusivas que reconheçam também
a relevância moral de entidades supra-individuais, como os ecossistemas.

11
Jonhson, L.E. A Morally Deep World. Cambridge University Press, 1991; Rolston III, Holmes.
Environmental Ethics. Temple University Press, 1988.

9
Tais posições podem denominar-se de ecocentristas. O ecocentrismo
inspira-se, obviamente, na ciência e na ecologia, e nas entidades e relações
que estas nos ajudaram a conhecer e apreciar.

O ecocentrismo é algo mais de que uma teoria ética. Tal como o


biocentrismo, constitui uma filosofia ambiental bastante abrangente:

[a] uma metafísica que nos fala do estatuto ontológico das espécies, dos
ecossistemas, dos processos e das relações que ocorrem na natureza;

[b] uma epistemologia que tem que enfrentar o problema do trânsito do


descritivo para o normativo, já que uma ética baseada na ciência, como a
ecologia, tem que saber responder à objeção da falácia naturalista;

[c] uma estética que contribua para o reconhecimento do valor intrínseco


de certas entidades naturais que apreciamos como belas;

[d] e uma filosofia política que discuta a legitimidade das ações a favor
das entidades naturais e a justiça ambiental.

Trata-se, em suma, de uma tentativa para sair dos esquemas intelectuais


característicos da modernidade e de uma autêntica refundação filosófica da
nossa cultura.

A gama de valores que se podem reconhecer nos seres vivos e nos


ecossistemas é, para os ecocentristas, bastante extensa, e não está limitada
aos valores mais materialistas ou economicistas. Por exemplo, Rolston III12
refere os valores da natureza, desde os mais óbvios e materiais, já que é
valiosa para a nossa sobrevivência, passando por valores econômicos e
lúdicos, até valores espiritualmente mais elevados, como os epistêmicos ou
estéticos. Mas, ainda assim, estes valores poderiam ser encarados como
meramente instrumentais. Poderiam ser espirituais e elevados tanto quanto se
quisesse, mas não deixariam de ser instrumentais. Relativamente a estes, os
valores mais materiais e econômicos sempre apresentam a vantagem de
parecer mais objetivos e quantificáveis. Por isso, se reconhecemos na natureza
apenas valores instrumentais, quando estes entram em conflito entre si, o que
12
Rolston III, Holmes. Environmental Ethics. Duties to an Values in Natural World. Temple
University Press, 1988, p. 3-26.

10
sucede com freqüência, ganharão sempre os mais materiais, os aparentemente
mais objetivos e quantificáveis. Deste modo, entre a preservação da harmonia
nas relações ecossistêmicas ou a beleza de uma paisagem ou a obtenção de
um maior rendimento industrial, está claro para que lado cairá a decisão.

Os defensores de uma ética ecocêntrica partem da constatação dos


danos que efetivamente provocamos nos seres vivos e nos ecossistemas. A
própria magnitude destes danos, a exploração abusiva da natureza, é por si só
uma indicação clara, para qualquer pessoa sensível, de que algo anda mal.
Temos a intuição clara de que é assim, de que estamos a destruir entidades
valiosas por si mesmas, independentemente do valor que possam ter para nós.

Mas há que reconhecer que é difícil estabelecer o valor intrínseco de


entidades supra-individuais como os ecossistemas. Em qualquer caso, trata-se
de uma questão empírica, quer dizer, será necessário mostrar que estas
entidades possuem um grau de integração próximo do dos organismos
individuais, que elas próprias são realmente unidades individuais, que também
possuem fins próprios, e que também são “centros teleológicos de vida”.

Agora percebe-se com claridade em que medida a ética ambiental


depende da ecologia. São necessários estudos empíricos que provem o grau
de integração das entidades supra-individuais. Disso dependerá a sua
consideração moral. É óbvio que os ecossistemas possuem valor indireto na
medida em que tornam possível a vida dos seres individuais, humanos e não
humanos. Mas o ecocentrismo afirma algo mais, afirma que os ecossistemas
também têm valor intrínseco e merecem consideração moral por si mesmos, e
que os seres humanos têm deveres para com eles.13

Os ecocentristas defendem que o mesmo se pode dizer de outras


entidades supra-individuais, como as espécies e as populações. Contudo, da
minha perspectiva, no caso das espécies não está em causa apenas uma
questão empírica, mas igualmente problemas conceptuais complexos. Para
muitos – entre os quais me incluo – as espécies, ao contrário dos organismos,
os ecossistemas ou as populações, não são sequer entidades concretas, mas
conceitos abstratos, que apenas podem possuir valor indireto. Parece que um
13
Rolston III, p. 160 e ss.

11
biocentrista que pretenda reconhecer valor intrínseco às espécies deveria
começar por aceitar a sua condição de indivíduos. Todavia, o estatuto
ontológico das espécies é, no mínimo, um assunto problemático.

Parte 5
A Ética da Terra

A origem desta corrente encontra-se na obra de Aldo Leopold (1887-


1948), A Sand County Almanac14, publicada em 1949; um texto pioneiro pelo
seu conteúdo e até belo na sua forma literária.

Leopold é, em primeiro lugar, um ecologista, um dos fundadores desta


ciência, bem como um observador apaixonado, sensível, cuidadoso e irônico
da natureza. Era ainda um magnífico professor, segundo o que pudemos
saber. Contudo, não acredito que possa de alguma forma ser considerado um
filósofo sistemático. A sua obra faz vibrar perante os nossos olhos o
emaranhado de relações ecológicas entre os seres vivos, e entre estes e a
parte não viva da natureza. Os seus escritos soam como a melhor prosa dos
grandes naturalistas, e podem recordar-nos os belos relatos de Darwin sobre a
sua viagem no Beagle. A simpatia poética com que observa a natureza
permite-lhe relativizar a importância, às vezes dramática e grandiloqüente, que
nos atribuímos enquanto humanos. O seu conhecimento profundo das relações
ecológicas habilita-o a desvalorizar rapidamente o húmus do individualismo:
também há verdade e ser em tudo e nas suas relações, e não apenas nas
substâncias individuais. A sua arma é a ironia e às vezes a ternura. Mas nem
todos os seus leitores estão dispostos a entrar nesse jogo. Há quem odeie o
também e prefira o apenas. Questão de advérbios.

Alguns se empenharam em converter as máximas de Leopold em


axiomas, e em dar um sentido literal às suas ondulantes metáforas. Visto desta

14
Leopold, A. A Sand County Almanac and Sketches Here and There. Oxford University Press,
1949.

12
forma, sem graça e em sentido literal, acaba por parecer um misantropo
ecofundamentalista.

É verdade que Leopold insiste na realidade da “comunidade biótica”,


formada pela matéria orgânica e não orgânica e por todos os seres vivos.

É certo que chegou a escrever que “algo está correto quando tende a
preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica”15
Para ele seriam legítimos apenas os comportamentos que não interferissem
com o profundo equilíbrio das conexões naturais entre os seres. De acordo
com este pressuposto, o homem é considerado como apenas mais um. Um
ser, claro está, cuja ação pode ser justa ou injusta. Mas também é certo que
esta afirmação, tão frequentemente citada, tem um contexto pertinente para a
sua interpretação. Tentarei mostrar qual. O parágrafo em que aparece a
afirmação antes citada, diz o seguinte:

O ponto que havia de mover para pôr em marcha o processo de


evolução que conduziria a uma ética da terra é simplesmente
este: deixar de pensar que o uso adequado da terra é apenas um
problema econômico. Examinar cada questão em termos do que
é correto de um ponto de vista ético e estético, para além do que
convém economicamente. Algo é correto quando tende a
preservar a integridade, a estabilidade e beleza da comunidade
biótica. É incorreto quando tende ao contrário. 16

Não parece que exista aqui qualquer tentativa de colocar os indivíduos ao


serviço do todo, muito menos os seres humanos ao serviço da Terra, mas
tenta-se chamar a atenção para certos valores esquecidos na relação entre o
ser humano e a natureza. Não nego, contudo, que a fórmula concreta que
fecha o parágrafo seja infeliz. Mas vejamos uma passagem do mesmo livro em
que a ironia se manifesta. Está a falar do anel dos pássaros, concretamente de
um bando de pássaros negros, que Leopold levou a cabo durante mais de uma
década para estabelecer a sua demografia e longevidade:

15
Leopold, A. Una Ética de la Tierra. Ed. Los Libros de la Catarata: Madrid, 2000, p. 155
(introduzi algumas modificações no estilo da tradução).
16
Idem, p. 155

13
No sexto Inverno, o 65290 não apareceu, e a sua ausência nas
quatro campanhas seguintes confirmou o veredicto de que estava
“desaparecido em combate”. Apesar de tudo, 65290 foi o único […]
que mostrou engenho para sobreviver durante cinco Invernos. 3
duraram quatro anos, 7 sobreviveram três anos, 19 alcançaram os
dois anos, e 67 desapareceram depois do primeiro Inverno. Portanto,
se me dedicasse a vender seguros de vida a estes pássaros, poderia
calcular o prémio com total garantia. Mas colocar-se-ia o problema
seguinte: em que moeda se pagaria às viúvas? Imagino-me com
ovos de formiga […] Parece – especula Leopold sobre as causas de
morte – que o tempo é o único assassino e é tão desprovido de
humor e de sentido das suas proporções que é capaz de matar um
pássaro negro. Suspeito que a Escola Dominical dos pássaros
negros lhes ensinou os pecados mortais: não entrarás em locais
ventosos durante o Inverno e não te molharás antes da ventania.17

A ética da terra de Aldo Leopold constituiu uma crítica audaz e precoce do


antropocentrismo (do que se pode chamar de antropocentrismo forte), do
otimismo tecnológico ingênuo, dos valores materialistas de uma sociedade
voltada para o consumismo, inconsciente dos seus limites, ignorante da sua
dimensão ecológica.

Jorge Reichmann, o editor da obra de Leopold em espanhol, afirma: “para


mim, Leopold encontra-se mais no terreno comum existente entre o
antropocentrismo moderado e o biocentrismo débil”18.

Acredito que esta é uma interpretação correta da posição de Leopold, que


não é, em qualquer caso, um anti-humanista, É verdade, contudo, que é difícil
construir uma autêntica visão filosófica sobre a ironia e a denúncia de Leopold.
Quando se tenta, corre-se o risco de chegar a conclusões morais paradoxais e
ameaçadoras da dignidade do ser humano.
17
Leopold, A. Una Ética de la Tierra. Ed. Los Libros de la Catarata: Madrid, 2000, p. 113-4. Às
vezes parece que Leopold e outros ecocentristas, criticam o antropocentrismo, mas que caem
de costas no mais ingênuo antropocentrismo. Entendo que apenas uma leitura irônica pode
salvar Leopold desta crítica.
18
Reichmann, J. Introducción a: A. Leopold: Una Ética de la Tierra. D. Libros de la Catarata:
Madrid, 2000, p. 32-3. O que Reichmann chama de “antropomorfismo moderado” é
aproximadamente o que chamo de “humanismo”.

14
Encontramos um exemplo claro deste deslize na obra de Baird Callicot,
um dos discípulos de Leopold. Nos primeiros escritos de Callicot podemos
apreciar o mais cru fundamentalismo ecológico alimentado com todo o tipo de
afirmações misantrópicas. Para fazer justiça a Callicot há que reconhecer que
acabou mais tarde por recuar nas suas teses mais infelizes. De qualquer forma,
a interpretação filosófica que Callicot faz de Leopold continua a ser
tendencialmente ecofundamentalista (sob o nome de ”holismo”).

No contexto de uma discussão filosófica técnica, as afirmações que


melhor testemunho dão de Leopold são deste tipo:

A ética ambiental situa o valor último da comunidade biótica e


atribui diferentes valores morais aos indivíduos que fazem parte da
mesma função deste nível […] A entidade inanimadas, como
oceanos, lagos, montanhas […] atribui-lhes mais valor que aos
animais individuais. 19

E, segundo Callicot, o ser humano não é um caso especial. Em


conseqüência, a procura de uma fundamentação filosófica no emotivismo de
Hume e na sociobiologia introduzem, na minha opinião, novos elementos que
debilitam a sua ética ambiental, que se mantém, assim, dentro da tradicional
alternância moderna entre o cientismo e a irracionalismo.

Marcos, Alfredo
Ética ambiental.

Valladolid: Universidad de Valladolid , 2001


Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira
Fonte: http://qualia-esob.blogspot.com/

19
Por exemplo, Callicot, 1980 citado com aprovação por Eduward Abbey, segundo o qual os
veículos de resgate não deveriam entrar numa reserva natural mesmo que estivesse um ser
humano em perigo, e estava de acordo com Garret Hardin que considerava que era pior matar
uma serpente do que um homem. Em J. B Callicot, 1989. aparecem vários artigos de Callicot.
Na primeira parte pode seguir-se a sua evolução relativamente aos direitos e valores dos
indivíduos, desde as posições mais fundamentalistas do seu texto mais famoso de 1980, e aqui
reproduzido, até certa aproximação às teses a favor dos direitos dos animais de Regan.

15