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ESTUDOS ETNOBOTANICOS QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS EM COMUNIDADES TRADICIONAIS NO PETAR- PARQUE ESTADUAL E TURÍSTICO DO ALTO RIBEIRA E SEU ENTORNO, IPORANGA,SP.

V.T.Rego; R. Próspero; E. Callera; L.M.Chau

A pesquisa etnobiológica e etnoecológica vem tomando vulto nos últimos tempos,

devido à crescente consciência da comunidade acadêmica e dos órgãos planejadores de que

o saber que sociedades tradicionais possuem a respeito do seu ambiente representa um

potencial muito rico para estabelecerem-se alternativas de “desenvolvimento sustentável”, sobretudo em áreas de alta complexidade ecológica, como é o caso das florestas tropicais

(De Walt, 1994 e Begossi, 1996). Parafraseando Gottilieb e Borin (2001), é possível dizer que o Brasil, e em especial

o Estado de São Paulo, está frente a um grave dilema: o que fazer com as poucas áreas

naturais ainda preservadas e com o conhecimento acumulado pelas populações tradicionais? Como conciliar avanços tecnológicos evocados pela sociedade moderna e conservação da natureza? Tal situação é alarmante se for considerado que um quinto ou mais das espécies de todos os grupos provavelmente desaparecerão durante os próximos 30 anos, enquanto que a população humana duplica nas regiões quentes do mundo. Para procurar entender as relações expostas acima, é bastante útil combinar a perspectiva etnobiológica e etnoecológica, que se embasam em um conhecimento imerso na realidade local e, em parte, por ela determinado, com o instrumental teórico- metodológico da ciência da Biologia, Ecologia e das Ciências Humanas. Estudos deste teor

permitem ainda formular hipóteses que podem ser testadas pelos métodos da ecologia biológica.

O presente trabalho teve por objetivo estudar e pesquisar o saber tradicional para o

uso e manejo dos recursos naturais locais relacionados à flora, tais como espécies medicinais, alimentares, ornamentais; fornecedores de fibras; madeira entre outros e a coleta de dados quantitativos e qualitativos sobre os diversos usos da fauna local, a partir do aporte da Etnobotânica. São realizados trabalhos em comunidades, seguindo a variável localização das comunidades, ou seja, um grupo de comunidades que habita áreas dentro do PETAR (com uma legislação fundiária e ambiental específica e restritiva) e outro grupo que habita áreas ao entorno do PETAR, fora dele (com uma legislação fundiária e ambiental específica, também restritiva). Este trabalho teve início em dezembro de 2003, na região do entorno do Parque Estadual Turístico Alto do Ribeira PETAR, município de Iporanga - SP, através de reuniões com a comunidade local buscando um aprofundamento de relações pessoais com seus membros e uma apresentação e esclarecimento do estudo, seus objetivos e a metodologia a ser aplicada. Os transectos tem uma área de 2000 m 2 (200 x 10 metros), dividido ao meio, cortada longitudinalmente à maior dimensão, ficando duas áreas de 1000m 2 (200 x 5 metros) sendo que, em uma metade foram marcamos apenas indivíduos com DAP Diâmetro a altura do peito (1.30m) acima de 2.5 cm, e na outra metades apenas indivíduos com DAP acima de 5 cm. Foi aberta uma subparcela para o trabalho com as herbáceas ou arbóreas de DAP abaixo que 2.5 cm. Esta subparcela possui 1m de largura por 10 m de comprimento, sendo que se abriram 10 subparcelas nesta área, mesclando-se, no sentido maior da área (200m), 10m de subparcela e 10m sem a subparcela. As coletas do material botânico com o auxílio de um mateiro, que tinha o trabalho de realizar uma pré-identificação, com nomes populares na área, o que facilitaria o trabalho

possibilitando a coleta de apenas um indivíduo por espécie no transecto. Esta metodologia foi muito bem sucedida tendo em vista o tempo que foi economizado. Foi considerada uma pequena parcela de erros devido a dependencia do conhecimento popular de apenas um mateiro na divisão das espécies, mas como o estudo tem por objetivo enfocar o trabalho etnobotânico, achau-se por melhor fazê-lo.

O trabalho de coleta e montagem de exsicatas consistiu em coletar de cada planta

três ramos que estivessem em bom estado para posterior identificação. Os materiais coletados foram postos para secar em estufa elétrica, confeccionada s para esta finalidade,

até a completa secagem, e após isso foram colocadas em freezer, para desinfestação de possíveis pragas. O material Botânico coletado foi enviado para ESALQ Escola Superior de Agricultura “Luís de Queirós” e para o Departamento de Ciências Florestais da Faculdade de Ciências Agronômicas da UNESP de Botucatu, para a realização da identificação botânica de forma a garantir sua autenticidade.

A fitossociologia consistiu basicamente em analisar a distribuição das áreas basais

de cada espécie para cada área do estudo. Considerou-se a área basal como um bom indicador de dominância e distribuição diamétrica de cada espécie em uma dada área. Os levantamentos de dados históricos de vida das pessoas entrevistadas nas comunidades foram feitos através de entrevista semi-estruturada, levantando os seguintes pontos: nome completo; idade; escolaridade; estado civil; local de nascimento e de criação; local de origem dos entrevistados e de seus ascendentes; há quanto tempo sua família encontrava-se na região; a origem de seus conhecimentos; com o que trabalhou e com o que trabalha atualmente; a importância dada à mata em seu dia a dia, e como seria sua vida sem ela; como é feita a transferência do conhecimento sobre as plantas para seus

descendentes. As pessoas consideradas “chave” para serem entrevistadas e indicadas para o trabalho foram contatadas logo no início das idas à Iporanga. Essas pessoas foram previamente escolhidas através de um levantamento feito com os próprios moradores

locais. Depois de realizado o trabalho de campo de levantamento dos conhecimentos nos transectos, perguntava-se para cada entrevistado se ele tinha conhecimento de outra pessoa que seria indicada para o trabalho, o que indica o uso da metodologia tipo “bola de neve” na escolha das pessoas a se trabalhar.

A abordagem e entrevista em campo consistiram em parar na frente de cada árvore

marcada e perguntar se conhecia aquela planta. Em casos positivos, era perguntado o nome dado à planta e se era utilizava para algum fim. Por fim, era perguntado se havia algo a

mais a ser dito sobre a planta. Em casos negativos, passava-se para a próxima planta demarcada. Foram escolhidas sete categorias de usos: Alimentação; Artesanato/Utensílio; Construção/Cerca; Medicinal; Lenha; Ornamental e Outros. Na Délfica área 1, alocada em floresta de capoeira velha e situada sobre solo com formação de filito, encontramos 698 indivíduos arbóreos no total, sendo 253 com DAP acima que 5cm e 445 indivíduos com DAP acima de 2,5cm. Analisando os dados recolhidos podemos dizer que, em função da área apresentar-se em fases primárias de regeneração, podemos encontrar o “domínio” de poucas espécies em quantidade de indivíduos por 2000m 2 e conseqüentemente maior área basal relativa. Em Délfica área 2, situada sobre solo de formação calcária, algumas espécies apresentam-se numerosas, porém a diversidade de espécies foi pouco superior a encontrada em Délfica área 1. Além disso, devido a presença de indivíduos relativamente grandes em diâmetro, foi possível notar que algumas espécies encontrarem-se em menor quantidade de indivíduos na área, contudo possuem um valor de área basal maior, como é o caso da figueira branca e da carova.

A área denominada Passagem do Meio está situada sobre solo de formação filito. Esta área tem um histórico grande de perturbação, era destinada ao plantio de arroz e abacaxi em sistema de “coivara”, porém nos últimos 20, 25 anos se encontra em processo

de regeneração caracterizada pela presença concentrada de muitos indivíduos de poucas espécies, como a Guaricica (Vochysia bifalcata) com 19.07% da área basal total da área, seguida da Tabucuva (Pera glabrata) com 15.43% da área basal total e Natal (Tibouchina mutabilis) com 7.83% da área basal total. Foram encontradas 68 espécies de indivíduos arbóreos ao total.

A Quarta área denominada João Gaúcho está situada sobre solo de formação

calcária basicamente. Nesta área foram encontradas 75 espécies diferentes. De acordo com o histórico levantado junto aos moradores locais, esta é uma área em estágio inicial de

regeneração, pois há menos de 20 anos era explorada como pasto para o gado. A fase

inicial de regeneração é confirmada observando a distribuição das espécies encontradas, sendo o Jacaré (Piptademia gonoacantha), espécie caracterizada como pioneira, responsável por 37.63% da área basal total.

Na área João Game, alocada em solo com formação calcárea, foi observado o maior

número de espécies entre as cinco áreas trabalhadas. Foram encontradas 84 espécies de plantas arbóreas, com 14 espécies de cipós e 17 espécies de plantas herbáceas. Foram realizadas 18 entrevistas no total e observou-se, através de análise estatística, que não há diferença significativa entre os conhecimentos das pessoas que vivem dentro e fora do PETAR, assim como entre os grupos -caboclos e quilombolas- para cada espécie. Contudo, foi encontrada diferença estatística entre os dados levantados quanto ao uso das plantas em função do solo, sustentando a hipótese de que a mesma espécie encontrada sobre diferente tipo de solo pode vir a ter outro nome e uso diferente No cotidiano dos entrevistados, apesar de as espécies das áreas de filito também receberem uso, foi verificado maior valor de uso para as espécies encontradas nas áreas de calcário devido ao fato destas áreas serem destinadas ao roçado e extração de recursos da floresta.

Nº de citações Distribuição dos usos Alimentação 1400 Artesanato/Utensílio 1200 Construção 1000 800
Nº de citações
Distribuição dos usos
Alimentação
1400
Artesanato/Utensílio
1200
Construção
1000
800
Lenha
600
Ornamental
400
200
Medicinal
0
Outros

Figura 1: Gráfico mostrando a distribuição das citações por cada categoria de uso

Em ambas as áreas, as espécies citadas receberam indicações de uso diferentes e a maioria é indicada para mais de uma categoria de uso. A importância relativa de uma determinada espécie está diretamente relacionada com os usos comuns para essa espécie numa comunidade. Talvez pela proximidade entre os bairros, os casamentos entre integrantes das diferentes comunidades e as influências externas, tenham levado a uma relação mais homogênea da importância que cada espécie tem para estas comunidades. Mesmo após a implantação do Parque, e com isso a chegada de várias restrições ao uso da floresta, não houve perda do conhecimento tradicional entre os entrevistados, o saber permanece mesmo entre aqueles que moram dentro do Parque. Isso vem a reforçar a afirmação feita por antropólogos e cientistas de que, o conhecimento em uma comunidade é difuso, ou seja, é compartilhado por todos da comunidade, não importando sua origem étnica ou situação fundiária. É importante destacar que a transferência deste conhecimento sobre o uso das plantas da floresta dos mais velhos para os mais jovens esta se tornando muito complicado e não freqüente por diversos fatores, dentre eles, a influência dos turistas na expectativa de vida dos jovens que agora querem sair da região para trabalharem fora e a falta de oportunidade de trabalho na região, o que deixa muitos jovens sem ocupação o dia inteiro, ocasionando alguns problemas sociais, entre eles a ingestão excessiva de álcool e consumo de drogas.

Autores: Veridiana Toledo Rego, Rodrigo de Próspero e Eduardo Calera Pedrosa. Coordenador Orientador: Professor Dr. Lin Chau Ming Situação do Projeto: Tramitação Inicio do projeto: dez 2003 Término: dez 2005 Contatos: linming@fca.unesp.br