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TRADUÇÃO

/V

NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO

O N o v o T e s t a m e n t o apresenta-se sob a forma de uma coletânea de vinte e sete livros, todos escritos em grego e de dimensões muito desiguais. Por volta do se'culo II criou-se o costume de designar esta coletânea pela expressão de “Novo Testamen­ to". Com efeito, os escritos que a compõem ha­ viam pouco a pouco adquirido tamanha autorida­ de que eram tidos praticamente em pe' de igualda­ de com os textos do Antigo Testamento, por muito tempo considerados pelos cristãos sua única Bí­ blia, por eles nomeada “ a Lei e os Profetas” , se­

início as condições em que os primeiros cristãos foram levados a elaborar uma nova compilação das Sagradas Escrituras. A seguir, deve estudar como esses textos, constantemente copiados e recopiados. conseguiram vencer os quase quatorze se'culos de movimentada história entre sua reda­ ção e sua fixação de forma quase imutável, quan­ do da invenção da imprensa; e deve, ao mesmo tempo, dar conta da maneira pela qual se podem remediar as diversas alterações sofridas pelo texto no decorrer de sua transmissão manuscrita. Final­

gundo o costume judeu da época. Se os escritos cristãos acabaram sendo chamados dc “ Novo Tes­ tamento” , isto se deve essencialmente a terem os primeiros teólogos cristãos, depois de Paulo (2Cor 3.14), julgado que esses textos encerravam as dis­

mente, a I n tr o d u ç ã o tenta fazer uma apresentação tão exata quanto possível do ambiente histórico, religioso e cultural em que o Novo Testamento nasceu e se difundiu. Esses três principais aspectos da I n tr o d u ç ã o são

posições de uma nova aliança, cujos termos de­

comumente

denominados de p r o b l e m a

d o

c â n o n ,

viam reger as relações entre Deus e seu povo

p r o b l e m

a

d o

t e x t o

e

p r o b l e m

a

d o

a m

b i e n t e

de

durante a última fase da história da salvação. A

origem do Novo Testamento.

 

palavra “Testamento” traduz o termo empregado em hebraico para designar a aliança concluída entre Deus e Israel. O fato de falarem numa nova alian­ ça levou os cristãos a designarem, conseqüente­ mente, a coletânea dantes denominada “ a Lei e os Profetas” , com o nome de Antigo Testamento, indicando com isso que viam nela sobretudo a codificação da antiga Aliança mosaica, que a seu ver, fora simultaneamente renovada e superada por Jesus. A redação desses vinte e sete livros e sua com­ pilação numa coletânea ünica decorreram de um processo demorado e complexo. Por outra parte, a transmissão dessas obras, desde a antigüidade ate' nossos dias. implicou certo numero de contingên­ cias. que não isentaram o texto de alterações. Fi­ nalmente. a distância, tanto histórica como geo­ gráfica e cultural, que nos separa do universo do Novo Testamento constitui uma dificuldade es­

O cânon do Novo Testamento. Assim como a palavra portuguesa “ regra” , a palavra grega k a n õ n admite um sentido figurado, o de regra de conduta ou regra dc fé. Em português, a palavra “ cânon” conservou este segundo sentido; designa, em cer­ tos casos, uma lista oficial. Neste sentido éque se fala de um cânon dos livros sagrados para desig­ nar a lista oficialmente reconhecida dos livros considerados normativos para a vida e a fé da Igreja. Com este sentido, o termo só entrou efeti­ vamente em curso, na literatura cristã, a partir do século IV. Cabe perguntar como os primeiros cristãos fo­ ram induzidos a pensar e concretizar a constitui­ ção de uma nova coletânea dc livros sagrados e a realizá-la, complementando a coletânea denomina­ da “a Lei e os Profetas” . Sumariamente, esta evo­ lução pode ser esquematizada da seguinte forma:

sencial para uma boa compreensão desta literatu­ ra. Toma-se, pois, indispensável, hoje, situá-la no ambiente que assistiu ao seu nascimento e difusão inicial. Qualquer introdução ao Novo Testamento, por sumária que seja. vê-se obrigada a examinar dc

Para os cristãos da primeira geração, a autorida­ de suprema em matéria religiosa assentava-se em duas instâncias. A primeira era o Antigo Testa­ mento, citado pelos primeiros autores cristãos em todas as suas partes, ou quase, como revelação de Deus. A segunda instância, que logo adquiriu pree-

minência, era comumente denominada “o Senhor” . Esta expressão designava, dc uma só feita, o en­ sinamento outrora ministrado por Jesus ( lCor 9,14) e a autoridade do Ressuscitado, expressa por in­ termédio dos apóstolos (2Cor 10,8.18). Dessas duas instâncias que tinham força dc critério, só o An­ tigo Testamento constava de textos escritos. Em contrapartida, as palavras do Senhor e a pregação dos apóstolos foram conservadas oralmente du­ rante muitos anos, e só com o desaparecimento dos últimos apóstolos sc tomou consciência da necessidade, quer dc fixar por escrito o essencial do seu ensinamento, quer dc assegurar a conser­ vação do que eles haviam redigido. A questão da autoridade de que se revestiam essas novas obras devia necessariamente surgir um dia, mesmo que, num primeiro tempo, a autoridade da tradição oral tenha prevalecido amplamente em face dos docu­ mentos escritos. Até cerca do ano 150, parece que os cristãos se deixaram conduzir quase inconscientemente ao esboço dc uma nova coletânea das Sagradas Es­ crituras. Há grandes probabilidades de que eles primeiramente tenham reunido e utilizado em sua vida eclesiástica um compêndio das epístolas de Paulo. Ao agir assim, seu objetivo não era cons­ tituir um suplemento da Bíblia. Eles simplesmen­ te se deixaram levar pelas circunstâncias: de fato, os documentos paulinos já estavam escritos numa época em que, em ampla escala, a tradição evan­ gélica ainda se conservava só oralmente; ademais, o próprio Paulo preconizara a leitura pública de suas cartas, bem como sua circulação pelas igrejas circunvizinhas (ITs 5,27; Cl 4,16). Em todo caso, desde o início do século II, nume­ rosos autores cristãos dão a perceber claramente que conhecem um avultado número de epístolas paulinas. Daí poder concluir-se que uma compila­ ção dessas epístolas foi constituída muito cedo e logo teve vasta difusão, devida, sem dúvida, à gran­ de notoriedade do apóstolo. A despeito da autori­ dade que se atribuía a esses escritos, não existe todavia, antes do início do século II (cf. 2Pd 3,16), testemunho de que os tenham considerado como Escritura Sagrada e como detentores de uma auto­ ridade comparável à da Bíblia. Durante todo este período, a posição dos evan­ gelhos não sc manifesta tão elaramente quanto a das epístolas de Paulo. Sem dúvida, as obras dos antigos autores cristãos não carecem de citações

dos evangelhos ou de alusões aos mesmos, mas quase sempre é difícil definir se as citações são feitas segundo textos escritos que esses autores tivessem ante os olhos ou se eles se contentavam com evocar fragmentos da tradição oral. De qual­ quer forma, antes de 140 não existe testemunho algum de que se tenha conhecido uma coletânea de escritos evangélicos. Nem se aduz qualquer ca­ ráter normativo ligado a uma dessas obras. Só na segunda metade do século II é que surgem teste­ munhos cada vez mais claros da existência de uma coletânea dc evangelhos e da autoridade que, pro­ gressivamente, lhe foi atribuída. Por volta de 150. inicia-se um período decisivo para a formação do cânon do Novo Testamento. Justino Mártir foi o primeiro a indicar que os cris­ tãos liam os quatro evangelhos, por ocasião das assembléias dominicais, considerando-os como obras dos apóstolos (ou, quando menos, de perso­ nagens diretamente ligadas aos apóstolos) e atri­ buindo-lhes uma autoridade análoga à da Bíblia. Se esses escritos foram investidos de tamanha autoridade, não foi tanto por causa de sua origem apostólica, mas antes pelo fato de retraçarcm a his­ tória do “ Senhor", de acordo com a tradição rece­ bida. Muito cedo, entretanto, ressaltou-se a aposto- licidade dessas obras, cm particular quando foi pre­ ciso defendc-las contra a proliferação de escritos do mesmo gênero, mas cujo conteúdo dependia, o mais das vezes, dc uma imitação grosseira, ou mesmo da mais pura fantasia. Dc fato. pouco depois dc 150, mal se fez sentir na Igreja a necessidade de uma norma aceita uni­ versalmente, os cristãos voltaram-se para a coletâ­ nea dos quatro evangelhos, que então se haviam imposto à atenção dc todos, em virtude de suas qualidades internas e da autenticidade do testemu­ nho que davam do “ Senhor” . De muitos pontos de vista era tão esmagadora a superioridade dos qua­ tro que, bem depressa, eles eclipsaram o conjunto da literatura paralela, de tal sorte que se pode considerar que, por volta de 170, os quatro evan­ gelhos já haviam adquirido o estatuto de literatura canônica, muito embora esta palavra ainda não houvesse sido pronunciada. Quanto às epístolas de Paulo, há quase certeza dc que não entraram uma após outra no cânon: foi o conjunto da coletânea que nele foi acolhido a partir do momento em que a idéia de possuir um cânon do Novo Testamento começou a se impor

na Igreja. É provável que a noção de apostolicida- de, já invocada cm favor da autoridade dos escri­ tos evangélicos, tenha atuado mais amplamente em favor da literatura paulina, que. pouco a pouco e de maneira fortuita, assumira o aspecto de uma compilação cuja autoridade era amplamente acei­ ta nas igrejas do século II. Percebe-se que assim nasceu o princípio de um novo cânon das Sagradas Escrituras, mas este princípio, no fundo, jamais foi verdadeiramente discutido. A existência do cânon é antes uma si­ tuação de fato, que se generalizou rapidamente na Igreja. A reflexão teológica só interveio a p a s t e r i o r i ante a necessidade de definir pormeno­ rizadamente o conteiído do cânon. Muito prova­ velmente este movimento foi acelerado pela inter­ venção do herege Marcião (t 160) que. por rejei­ tar integralmente a autoridade do Antigo Testa­ mento, tinha urgente necessidade de dotar a sua igreja de novas Escrituras Sagradas e, por conse­ guinte. de um novo cânon. Desta forma, os marcionitas contribuíram até certo ponto para vulgarizar o princípio do novo cânon. o qual se admite ser composto de duas partes, o Evangelho e os Apóstolos, exatamente como o antigo tam­ bém se compunha de duas partes, a Lei e os Pro­ fetas. Desde o fim do século II, a idéia dc uma nova norma escriturística implantou-se solidamente na Igreja, mas faltava definir o conteüdo do novo cânon. A lista definitiva das obras pertencentes ao cânon só se fixaria progressivamente, à medida que se estabelecesse um acordo em prol da cres­ cente consciência da unidade da Igreja, graças ao desenvolvimento das relações entre as diversas comunidades de cristãos. Entre 150 e 200, assiste- -se à definição progressiva do livro dos Atos como obra canônica. No fim do séc. II. Irineu de Lião considera esta obra como Escritura Sagrada e a cita como o testemunho de Lucas a respeito dos Apóstolos. De fato, o livro dos Atos foi acolhido no cânon especialmente por seu parentesco com o terceiro evangelho, do qual era continuação. A evo­ lução da noção de autoridade apostólica, no de­ curso do séc. II, foi igualmente um fator impor­ tante para a inclusão no cânon desta obra, que bem cedo foi considerada como introdução neces­ sária ao conjunto das epístolas. Quando se tenta, no limiar do séc. III. fazer um balanço desta evolução, chega-se às seguintes constatações: em toda a parte, os quatro evange­

lhos conquistaram uma posição inexpugnável, que nunca mais lhes seria contestada. Desde este pe­ ríodo, pode-se considerar concluído o cânon dos evangelhos. Quanto ao que diz respeito à segunda parte do cânon (os Apóstolos), deparam-se por toda a parte citados como Sagrada Escritura treze epís­ tolas de Paulo, o livro dos Atos e a primeira epís­ tola de Pedro. Certa unanimidade formou-se acer­ ca da primeira epístola de João. Assim, o cânon definitivo já está mais do que esboçado. Subsis­ tem, todavia, zonas de incerteza. Ao lado de obras que se impuseram universalmente à Igreja por uma espécie de evidência interna, encontra-se um nu­ mero importante de obras "flutuantes” , menciona­ das como canônicas por alguns Padres, mas tidas só como leitura proveitosa por outros. A epístola aos Hebreus, a segunda de Pedro, a de Tiago e a de Judas entram neste caso. Paralelamente, obras que nesta época são habitualmente citadas como Escritura Sagrada, e por conseguinte incluídas no cânon, não se manteriam muito tempo nesta situa­ ção e se veriam por fim expulsas dele. Foi o que sucedeu com a obra de Hermes intitulada “o Pas­ tor” , com a Didaqué, com a primeira epístola dc Clemente, a epístola de Bamabé e o apocalipse de Pedro. Nesta fase do processo, o critério de apostolici- dade parece ter atuado de forma bastante geral, e vêem-se pouco a pouco cair em desgraça todas as obras que era impossível vincular a um apóstolo. Os livros que ainda seriam contestados durante o séc. III foram precisamente aqueles cuja apostoli- cidade era discutida neste ou naquele setor da Igreja. Os casos mais controversos foram os da epístola aos Hebreus e o do Apocalipse. A canoni- cidade da primeira foi por longo tempo energica­ mente negada no Ocidente e a do segundo, no Oriente. Por outro lado, a segunda e a terceira epís­ tolas de João, a segunda epístola de Pedro e a epís­ tola de Judas só se impuseram lentamente. Não é necessário acompanhar pormenorizadamente todas as fases desta evolução, que resultará, no decorrer do séc. IV, na constituição de um cânon cujo con­ junto é idêntico ao que nós conhecemos hoje, só persistindo incerteza quanto à ordem dos livros. A preocupação com a unidade, numa Igreja na qual se impunha sempre mais a precedência roma­ na, contribuiu consideravelmente para atenuar as divergências que se haviam manifestado em algu­ ma fase do processo da formação do cânon.

Os apócrifos do Novo Testamento. Os livros reconhecidos como canônicos tomaram-se. por isso mesmo, textos sagrados e passaram a desfrutar, a partir da data de sua agregação ao cânon. uma cspc'cie de imunidade que lhes valeu chegar ate' a era da imprensa em bom estado de conservação. O mesmo não sucedeu com as obras que não lograram implantar-se no cânon. Se algumas delas (como a Didaque' ou a epístola de Bamabe') des­ frutavam de estima geral e. por este motivo, fo­ ram bem conservadas a despeito da sua exclusão do cânon, outras, em compensação, por não terem os mesmos ti'tulos. foram descartadas de forma bem mais brutal da pra'tica eclesiástica; tomaram- -se assim muito vulneráveis, o que explica que ainda só existam em forma de vestígios. Reservou-se a denominação dc "apócrifos” , ou seja. “ escondidos", para um certo numero de obras que. apesar dc certa semelhança com os escritos canônicos do Novo Testamento, eram considera­ das como transmissoras dc idéias estranhas às da Igreja e. em geral, secretas ou latentes, isto é, reservadas para um ambiente “ sectário” , único a poder dispor delas para nelas haurir um "verda­ deiro conhecimento", ou gnose. Mais tarde, con- sideraram-se apócrifas as obras sobre as quais a Igreja recusava fundamentar a doutrina e fé e cuja leitura pública nas funções dominicais não autori­ zava. Esses livros, embora fossem em certos ca­ sos recomendados à leitura individual por seu caráter edificante, deviam permanecer ocultos no decorrer da prática litúrgica pública. E nesta últi­ ma acepção que a palavra seria ordinariamente compreendida antes de, no momento da conclusão do cânon. vir a designar escritos falsamente atri- buídos a apóstolos. A partir desta data, uma cono­ tação nitidamente pejorativa prende-se ao termo “apócrifo". As obras apócrifas serão então consi­ deradas como veículos de erro. Seja qual for o seu valor literário, os apócrifos do Novo Testamento não deixam de ser obras extremamente preciosas para o estudo da evolu­ ção das idéias religiosas nos séculos II c III. Podem-se distinguir, g r o s s o m o d o , no conjunto da literatura apócrifa, quatro categorias de escri­ tos, que correspondem às diversas classes de es­ critos canônicos. Vale dizer que existem evange­ lhos, atos dos apóstolos, epístolas e apocalipses apócrifos. Só algumas destas obras serão aqui mencionadas.

Os evangelhos dos Nazarenos, dos Hebrcus c dos Egípcios só chegaram até nós através de cita­ ções feitas pelos Padres da Igreja. Pelo que se pode julgar, tratava-se de escritos bastante pareci­ dos com os evangelhos canônicos. O evangelho dc Pedro, do qual se descobriu um fragmento no

Egito nos fins do século passado, já contém traços de um gnosticismo que sc manifesta em toda a sua extensão em obras mais bem conhecidas por nós, desde a recente descoberta, sempre no Egito, de livros como o evangelho da Verdade, o evangelho de Filipe e o evangelho dc Tomé, este último contendo muitos pontos comuns com os evange­ lhos sinóticos. Essas obras diferenciam-se clara­ mente, porém, dos evangelhos canônicos, pelo fato dc não comportarem praticamente nenhum elemen­ to narrativo. O livro conhecido com o nome de Proto-cvangclho dc Tiago apresenta uma narrati­ va ampliada dos evangelhos da infância, interes- sando-se mais particularmente pela história de Maria e pelos fatos que cercaram o nascimento de Jesus. Quanto aos atos apócrifos, são em geral escritos de edificação popular, inspirados longinquamente no livro canônico dos Atos. Comprazem-se em desenvolver o elemento maravilhoso na vida dos apóstolos que pretendem glorificar. De qualquer forma, esta é a impressão deixada pelos atos dc João, Paulo, Andrc'.

Excetuando-se o caso da E p ís t o l a

A p o s t o l o r u m

,

escrita por volta de 150, e que se prende mais ao gênero apocalíptico, pouco há a dizer das epísto­ las apócrifas. Na verdade, estes escritos não se podem comparar com as epístolas canônicas: as- scmelham-se menos a cartas do que a pequenos tratados de teologia, além de serem bastante me­

díocres. Quanto aos apocalipses apócrifos, podem ser citados, além do “ Pastor” de Hermas o apoca­ lipse de Pedro (uma especulação sobre a vida futura, o paraíso c o inferno) e o apocalipse de Paulo, que pretende pormenorizar a famosa visão relatada por 2Cor 12, durante a qual o apóstolo fora arrebatado ao terceiro céu. Todos estes livros são posteriores aos escritos canônicos, dos quais são muitas vezes imitações. Em geral, não incorporam em si nenhuma tradi­ ção histórica antiga e, por isso, não são de grande valia para o estudo do Novo Testamento, seja qual for o interesse que apresentem para a história do pensamento cristão mais tardio.

O texto do Novo Testamento. Conhecemos o tex­ to dos vinte e sete livros do Novo Testamento através de um número muito grande de manuscri­ tos, redigidos em línguas bem diversas e conser­ vadas atualmente em bibliotecas espalhadas pelo mundo. Nenhum desses manuscritos e' autógrafo:

todos eles são cópias, ou cópias de cópias dos manuscritos outrora redigidos pela mão do pró­ prio autor ou por ele ditados. Todos os livros do Novo Testamento, sem cxceção, foram escritos em grego, e existem nesta língua mais de 5.000 ma­

nuscritos, sendo que os mais antigos estão redigi­ dos em papiro e os demais em pergaminho. Em papiro, só se possuem partes, por vezes pequenas, do Novo Testamento. Os mais antigos manuscri­ tos gregos contendo a maior parte ou a íntegra do Novo Testamento são duas Bíblias em pergami­ nho que datam do sc'culo IV. A mais venerável e'

o

C o d c x

V

a t i c a n u s , assim chamado por ser con­

servado na Biblioteca do Vaticano; este manuscri­ to, de origem desconhecida, infelizmente mutila­ do, atesta o Novo Testamento, salvo a Epístola aos Hebreus 9 .14 -13 2 5 . a primeira e segunda epís­ tolas a Timóteo, as epístolas a Tito e a Filêmon, o Apocalipse. No segundo manuscrito, denomina­ do C o d e x S i n a i t i c u s , por ter sido descoberto no mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai, o

Novo Testamento esta' completo; acrescenta-se-lhc ate' a epístola de Barnabe' e parte do "Pastor” de Hermas. livros que não seriam conservados pelo cânon definitivo do Novo Testamento. Hoje. o Sinaítico se conserva no British Museum, de Lon­ dres. Esses dois manuscritos estão redigidos em bela caligrafia chamada maiúscula ou uncial bíbli­ ca. Nada mais são do que os mais celebres dentre cerca de 250 outros pergaminhos dc escrita idên­ tica ou mais ou menos ana'loga. datados do scculo III ate' o seculo X ou XI; aliás cm sua maioria, máxi- mc os mais antigos, só conservam uma fração, por vezes bem pequena, do texto do Novo Testamento. Nem todas as cópias do Novo Testamento que chegaram até nós são idênticas. Muito pelo con­ trário, podem discernir-se entre elas diferenças, cuja importância varia, mas cujo número e', em todo caso, bem considerável. Algumas destas di­ ferenças só concernem a pormenores gramati­ cais, ao vocabulário, ou à ordem das palavras; ou­ tras vezes, porém, verificam-sc entre os manuscri­ tos divergências que afetam o sentido de passa­ gens inteiras.

A origem dessas divergências é bastante fácil de descobrir. Dc fato, o texto do Novo Testamento foi, durante muitos séculos, copiado e recopiado por escribas mais ou menos competentes, nenhum deles, porém, isento das deficiências de toda a sorte que fazem com que cópia alguma, por fiel que seja, se conforme plenamente a seu modelo. A isto deve-se acrescentar que certo número de es­ cribas, animados das melhores intenções, tenta­ ram por vezes corrigir passagens de seu modelo, que lhes pareciam eivadas quer de erros caracte­ rizados. quer dc alguma falta de precisão teológi­ ca. Ao agirem assim, introduziram no texto vari­ antes inéditas, quase sempre errôneas. Pode-se finalmente acrescentar que o uso cultuai que sc fez de não poucas perícopes do Novo Testamento provocou freqüentes deslizes do texto, no sentido de embelezamentos litúrgicos ou de harmonizações favorecidas pela recitação oral. Inevitavelmente, no decorrer dos séculos, as transformações introduzidas pelos escribas se so­ maram umas às outras, donde o texto ter final­ mente chegado à época da imprensa carregado de corrupções várias, que sc traduzem pela presença de um número assaz considerável de variantes. O objetivo ideal visado pela "crítica textual” é reconstituir, com base em todos esses documentos divergentes, um texto que com a maior probabili­ dade se aproxime do original. De qualquer forma, não há como esperar uma recuperação do próprio texto original. O primeiro trabalho da crítica textual consiste em levar em consideração todos “os testemunhos" existentes do texto. Em outras palavras, é-lhe ne­ cessário arrolar e classificar todos os documentos que reproduzem, no todo ou em parte, o texto do Novo Testamento. Aqui levam-se em conta não só os manuscritos redigidos em grego, mas também todos os que incluem traduções do Novo Testamen­ to nas línguas correntes entre os cristãos dos pri­ meiros séculos (essencialmente o latim, o siríaco e o copta). Em certo número de casos, essas tradu­ ções se fizeram com base em originais gregos an­ teriores ao V a t i c a n u s ou ao S i n a i t i c u s , podendo tes­ temunhar um estado do texto anterior ao que se pode alcançar por intermédio dos mais antigos manuscritos gregos. A medida que o seu substrato grego pode ser reconstituído com precisão, as tra­ duções antigas desempenham um papel importante no estabelecimento do texto do Novo Testamento.

Além dos manuscritos gregos e das versões an­ tigas, a crítica textual tenta valer-se das inúmeras citações do Novo Testamento que se encontram nas obras dos primeiros Padres da Igreja. A incon­ testável vantagem dessas citações é, em particu­ lar, a de remontar muitas vezes a um estado do texto anterior ao que transmitem as versões mais antigas (e, por conseguinte, além do que permiti­ riam conhecer os mais antigos manuscritos gre­ gos). De outra parte, pode-se determinar a data e origem geográfica dessas citações com relativa fa­ cilidade e, assim, tem-se à mão um meio para for­ mar uma idéia do texto do Novo Testamento cm uso numa época exata, neste ou naquele setor da Igreja. Em contrapartida, estas citações apresen­ tam um duplo inconveniente. Não só cada uma delas reproduz unicamente um fragmento do tex­ to, mas sobretudo, infelizmente para nós, os Pa­ dres citavam o mais das vezes dc cor e sem muito rigor, de modo que nem sempre é possível confiar totalmente nas informações que transmitem. Uma vez arrolada c analisada a profusão dc do­ cumentos constituída pelos manuscritos gregos, as antigas traduções e as citações patrísticas, a crítica textual, esforçamo-nos por ordenar tudo isso, a fim dc utilizá-lo da melhor forma, com vistas a remontar o mais longe possível rumo ao texto ori­ ginal. Nessa perspectiva, um exame atento levou os especialistas a constatar que o elenco das testemu­ nhas conhecidas se repartia em um número bas­ tante limitado de grupos capitais. Destarte, foi pos­ sível constituir três ou quatro grandes famílias dc testemunhas, cujos representantes revelam ser cópias dc um mesmo modelo. Como conseqüência deste trabalho, ainda ina­ cabado, mas ja' considera'vel, a crítica hodiema pode basear-se, cm escala bastante ampla, não mais na massa de testemunhos individuais, mas em grupos de testemunhas, cada uma das quais repre­ sentando um tipo de texto cuja origem pode ser datada e localizada com maior ou menor certeza. Os principais tipos de textos identificados pela crítica são os seguintes:

— motivo pelo qual se chama também "bizan­

tino”

ou

k o i n è

é k d o s is

(edição comum). Ele re­

vela uma preocupação característica com a ele­ gância e clareza; facilmente harmoniza entre si passagens mais ou menos paralelas e amalgama as variantes de um mesmo trecho. Sua qualidade crítica é medíocre. Apesar de tudo isso, foi a par­ tir de variedades tardias deste texto que se efetu­

aram as primeiras edições impressas no Novo Testamento, cujo texto sc imporia durante mais de três séculos como l e . x t u s r e c e p t u s ou texto recebi­ do por todos. — Um texto chamado “ alexandrino" ou “ egíp­ cio” : tudo indica, dc fato, ser a sua pa'tria o Egito e mais exatamente, Alexandria. Suas principais tes­ temunhas são o V a t i c a n u s e, em grau inferior, o

S i n a i l i c u s . Ele existia, ao

mais tardar, por volta dc

300, e certas descobertas recentes fazem pensar que, ao menos quanto aos evangelhos, teria exis­ tido numa data sensivelmente anterior. Chamam- -no amiúde de texto "neutro", pois parece não re­ sultar de uma revisão realmente sistemática e ten­ denciosa. Todos os especialistas, ou quase, con­ cordam em reconhecer-lhe, no conjunto, um valor crítico elevado, quer este provenha de uma tradi­ ção manuscrita especialmente fiel, quer de uma restauração textual, cuja qualidade não seria de surpreender no mundo alexandrino. Por isso, des­ de a segunda metade do séc. XIX, as edições do Novo Testamento seguem de boa mente, e com razão, esse tipo dc texto que, entretanto, não deve ser considerado como testemunha sempre e em tudo infalível. — Um texto chamado “ocidental". Este apelati­ vo, que data do séc. XVIII, verificou-se parcial­ mente inexato. Com efeito, as antigas versões la­ tinas do Novo Testamento e certos manuscritos greco-latinos, como o C o d e x B e z a e (século IV?) para os Evangelhos e os Atos, atestam deveras a

ampla difusão desse tipo dc texto no Ocidente; agora, porém, é evidente que ele existiu também no Oriente, como o demonstram certas versões orientais, muitas citações e fragmentos dc antigos manuscritos gregos. Em muitos casos, esse texto

— Um texto chamado “ antioqueno” ou “ sírio” , “ocidental” , cuja origem e unidade ainda perma­

por causa de sua origem, geralmente situada em Antioquia, por volta de 300. Ele é atestado pela imensa maioria dos manuscritos gregos, sobre­ tudo os mais recentes, pois tomou-se bastante ra­ pidamente o texto mais usado no mundo bizantino

necem problemáticas, apresenta-se como sendo a forma mais antiga e universalmente atestada do Novo Testamento. Ele se distingue por uma ten­ dência pronunciada às explicações, às precisões, às paráfrases, às harmonizações, que muito geral­

mente o afastam do texto primitivo; em mais de um caso. porém, suas antigas variantes, sobretudo quando breves, são dignas de consideração. Essas grandes famílias de manuscritos não são as únicas que se podem identificar. Existem tam- be'm formas intermediárias entre os tipos mais definidos que acabamos de mencionar. Contudo, não é necessário adentrar nesses pormenores para dar a entender todo o interesse deste método, que consiste em isolar certos tipos de textos e situa'-los no tempo e no espaço, graças aos dados cronoló­ gicos e geográficos que as versões, as citações e, em dadas circunstâncias, a palcografia oferecem. Com isso, toma-se possível esboçar, para cada variante, para cada livro, para o Novo Testamento inteiro, pelo menos uma história do texto que permita ver quais são as formas mais antigas, as mais amplamente atestadas e, por conseguinte, as que, em paridade de outras condições, têm maior probabilidade de corresponder ao texto original. Este primeiro trabalho crítico, que se chama “crítica externa” , ainda não é suficiente. Não raro, por exemplo, ele resulta na constatação da exis­ tência. no séc. II ou III. de duas variantes do mesmo trecho bastante difundidas e entre as quais a escolha é difícil. Neste caso, só resta recorrer aos préstimos da “ crítica interna". Esta já não considera essencialmente as varian­ tes como tipos diferentes do texto do Novo Tes­ tamento. Pelo contrário, parte do princípio que o teor de cada variante deve ser examinado como um caso individual, resultante de uma intervenção intempestiva, consciente ou não, de um copista. O objetivo da crítica interna é, antes de mais nada, reconstituir dc maneira precisa a espécie de inter­ ferência que foi feita pelo copista responsável pela eclosão da variante e quais foram as motivações dessa intervenção. Estabelecido isto, e' relativamen­ te fácil, a seguir, reter como leitura primitiva a que se revelou como sendo origem de todas as leituras corrompidas. Este método, contudo, dá margem a uma ampla intervenção do juízo subjetivo do críti­ co, que deve explorar simultaneamente sua opi­ nião pessoal sobre o texto e seu conhecimento, não só do modo costumeiro de proceder dos escri­ bas. mas também dos erros que eles cometem com maior freqüência. Este caráter subjetivo do méto­ do explica em grande parte por que só é emprega­ do como complemento da crítica externa. Seja como for, os resultados conseguidos desde

cerca de 150 anos pela crítica textual do Novo Testamento são notáveis. Atualmente, o texto do Novo Testamento pode ser considerado como bem estabelecido. Só poderia ser novamente posto em dúvida seriamente devido à descoberta de novos documentos. Esses resultados tomaram possíveis os progres­ sos enormes que se podem verificar entre as edi­ ções modernas do Novo Testamento e as que haviam sido efetuadas entre 1520 e 1850, mais ou menos, antes da aplicação rigorosa das regras da crítica textual. A edição mais difundida em nossos dias é a da Nestlc-Aland, que se baseia no texto das três grandes edições científicas realizadas na segunda metade do séc. XIX por Tischendorf, Wescott e Hort, e Weiss. O G r e e k N e w T e s t a m e n t . editado pelas Sociedades Bíblicas e levado a cabo por K. Aland, M. Black, B.-M. Metzger e A. Wik- gren, esmerou-se em aprimorar-lhe o texto. Nesta última edição é que, com algumas exceções, se baseia a presente tradução.

O ambiente do Novo Testamento. O cristianis­

mo nasceu

no seio

de

um

povo que passara por

uma história tormentosa. Após o doloroso exílio

babilônico, que marcara definitivamente a cons­ ciência judaica, Israel tomara a instalar-se preca­ riamente na Palestina; mas, quando reintegraram a Terra Prometida, os judeus tiveram de se dar conta de que os tempos haviam mudado e já não se podia pensar em viver lá como nos tempos anteriores. De fato, a Palestina se tomara, mais do que outrora. objeto da cobiça de interesses que a ultrapassavam e também, mais do que outrora, via- -se exposta às influências insidiosas e persistentes de idéias estrangeiras e, portanto, pagãs. que, de forma sempre mais aguda, entravam em conflito com as tradições judaicas ancestrais que eles se esforçavam por manter intactas, apesar de todos os obstáculos. Com o passar dos anos, o confronto entre o judaísmo e o mundo circunvizinho evoluiu para formas cada vez mais violentas.

Desde a morte de

Alexandre Magno, em 32 3 , a

Palestina caíra sob a dependência dos reis helê- nicos. Estes tiveram para com os judeus atitudes muito diversas, desde uma grande tolerância até as mais furiosas tentativas de absorção cultural. O nome de Antíoco IV Epífanes (175 -164) ficou li­ gado ao mais cruel destes esforços para subjugar a pulso o particularismo judeu, impondo-lhe a

conversão ao hclenismo. O ponto culminante foi a consagração do templo de Jerusalém a Zeus Olím­ pico. Esses acontecimentos, relatados no livro dos

Macabeus, tiveram como efeito obrigar todos os judeus piedosos (os h a s i d i m ) quer à resistência passiva, quer à revolta. A insurreição militar, sob a chefia dos irmãos Macabeus, resultou na recon­ quista de uma relativa independência política e religiosa, que durou cerca de um século. A dinas­ tia dos hasmoneus, que tomou este nome de um antepassado de Judas Macabcu, governou de fato a Palestina até lhe ser imposto o regime romano. Intervindo para pôr fim às disputas internas que dividiam os últimos hasmoneus, Pompeu apode­ rou-se de Jerusalém no ano 63 a.C. O período romano da história da Palestina foi dominado, em seus primórdios pela dinastia dc Herodes. Herodes Magno (Mt 2 ,1) reinou de 40 a

4

a.C., não raro graças ao terror.

A

sua origem

iduméia e, portanto, não-davídica, juntamente com

a sua crueldade, atraíram sobre ele um ódio im­ placável por parte do povo judeu. À sua morte, os três filhos repartiram o reino entre si. A Herodes Antipas coube como herança a Galiléia (Lc 3,1) e a Pcréia, onde reinou de 4 a.C. até 39 d.C. Ele c' conhecido por ter mandado matar João Batista (Mc 6,17-29) e por ter desempenhado um papel no processo de Jesus (Lc 23,6-16). Dc Arquelau (Mt 2,22), que recebera a Judéia e a Samaria, e de Filipe, que recebera os territórios situados ao nor­ te da Pcréia (Lc 3,1), os evangelhos citam apenas os nomes. Contudo, o poder político predominante estava na mão dos funciona'rios romanos, prefeitos ou procuradores. O Novo Testamento conservou a lembrança de vários deles. Pôncio Pilatos. o quin­ to da série, exerceu suas funções brutalmente, en­ tre os anos 27 e 37; Félix. homem cruel e viciado (se acreditarmos em Tácito), procurador de 52 a 60, contribuiu amplamente para fazer eclodir a guerra civil nos territórios sob sua jurisdição. Perante ele é que compareceu Paulo em Cesa- réia (At 23,23-24.26); seu sucessor foi Festo (At 25-26), diante de quem Paulo apelou para o tribu­

nal de César (At

2 5 ,11-12 ).

O governo dos procuradores fora interrompido por uma breve restauração do poder dos Herodes em benefício de Agripa I, neto de Herodes Mag­ no, e que se salientou, segundo o Novo Testamen­ to. como um dos primeiros perseguidores da Igre­

ja nascente (At 12,1-23). Este intermédio (39-44) não viu melhorar a situação da Palestina. Sob os últimos procuradores, as perturbações políticas nada mais fizeram do que ampliar-se e, em 66. acabaram degenerando numa verdadeira revolta. A repressão energicamente aplicada pelos roma­ nos levou, cm 70, à destruição de Jerusalém e do seu Templo. Uma vez destruído o Templo, os judeus viram-se impossibilitados de celebrar o seu culto. Era todo o sistema político, religioso e na­ cional do judaísmo que naufragava na pior catás­ trofe de sua história. Ao que parece, antes que se produzissem esses funestos eventos, a pequena comunidade cristã saíra de Jerusalém, para refugiar-se em Pela, na Decápole. A partir de 70. a história do judaísmo reduz-se praticamente à história dos milhões de judeus que, havia séculos, se tinham dispersado por toda a bacia do Mediterrâneo, na Mesopotâmia e até na Pérsia, ao sabor de todas as tormentas políticas que tinham sacudido o Oriente Médio. As comu­ nidades mais numerosas desta dispersão ou “ Diáspora” residiam em Alexandria, em Antioquia e cm Roma. Ali, os judeus gozavam de um esta­ tuto jurídico particular que lhes permitia manter uma administração religiosa c civil baseada na Lei mosaica. Um anti-semitismo popular latente con­ tribuía para isolar essas comunidades de seu am­ biente social, mas só raramente os hostilizava de forma deliberadamente violenta. A vida religiosa e cultural dos judeus da Diáspora centrava-se na Sinagoga, instituição que funcionava ao mesmo tempo como escola, núcleo cultural e lugar de culto. Este consistia essencialmente na oração, na leitura da Torá e na sua explicação. Na época de Jesus, o judaísmo representava um sistema sociorreligioso homogêneo, fundado na fé no Senhor, o Todo-poderoso e Único, e no respei­ to a uma norma absoluta, a Torá ou Lei. A partir desses dois elementos fundamentais, o pensamen­ to judaico podia evoluir com muita liberdade, gozando, notadamente. de larga tolerância por parte das instâncias religiosas. Toda a vida judaica desenrolava-se à luz divina da Lei. Sendo de origem divina, esta Lei é perfei­ ta. Contudo, ela precisa ser explicada e interpreta­ da, para poder aplicar-se aos problemas concretos e individuais. Protraindo-se por longos séculos, este esforço de explicitação teve como resultado

desenvolver, em torno da Torá escrita, uma Tora' oral, constituída pelo que chamavam de Tradição dos Antigos e tida como remontando ate' Moise's, atrave's de uma cadeia ininterrupta dc rabinos. O Novo Testamento da' o nome de escribas a esses letrados judeus, inte'rpretes da Tora'. Na e'poca de Jesus, eles desfrutavam de uma autoridade consi­ derável no seio da população c, em particular, nas suas camadas me'dias. Exercendo na sociedade as funções dc teólogos e juristas, ocupavam lugar de destaque na vida judaica. A partir do séc. III da nossa era, os rabinos empreenderam pôr por escri­ to o conjunto da tradição dos escribas, que até então conservara-se oral. Este trabalho enorme resultou na constituição da Mishná (repetição da Lei, comentário) que. por sua vez, entrou na com­ posição do Talmud (ensinamento). O outro pólo da vida judaica era incontestavel- mente, no séc. 1, o Templo de Jerusalém, para o qual convergiam os sentimentos religiosos e na­ cionais de todo o povo. De fato. o Templo era concebido como centro do mundo, lugar onde Deus devia manifestar-se no último dia. Todos os ju­ deus maiores de idade e dc sexo masculino con­ sideravam uma obrigação, para não dizer um pra­ zer, pagar o imposto do didracma, que se destina­ va a prover às necessidade do santuário. As fun­ ções cultuais e liturgicas eram assumidas por sa­ cerdotes que se escolhiam entre os descendentes da família de Aarão. Em suas tarefas, eram eles assistidos por levitas. Toda uma classe sacerdotal gravitava assim em torno do santuário dc Jerusa­ lém; ela se hierarquizava rigorosamente sob a autoridade suprema de um Sumo Sacerdote, que também presidia ao Sinédrio, assembléia de 70 membros, sacerdotes e leigos, que tinham compe­ tência em assuntos civis e religiosos. Ao mesmo tempo, um crescente antagonismo opunha os escribas a esses representantes da clas­ se sacerdotal. Este antagonismo era um dos aspec­ tos da oposição que reinava entre o Templo c a Sinagoga, ou entre saduceus e fariseus. Essas duas grandes tendências formavam o que ordinariamente se denomina judaísmo oficial. Na época de Jesus, os saduceus já viam a sua autoridade fortemente contestada. De fato, eles eram, sob todos os pontos de vista, conservadores e partidários da ordem, embora esta fosse romana, o que lhes garantia, aliás, o essencial de suas prebendas. Por isso, eles eram para o povo seria­

mente suspeitos de colaboração, senão mesmo de conluio com a potência pagã de ocupação. Em todo o caso, tinham perdido toda a influência so­ bre o povo. Este preferia, aos saduceus, seus ad­ versários fariseus, nos quais via, ao contrário, patriotas fiéis ao Senhor e à Lei, até mesmo des­ cendentes dos famosos h a s i d i m que se tinham as­ sociado à revolta contra Antíoco Epífanes na épo­ ca dos Macabeus. Em 70. a ruína do Templo de­ via acarretar a dos saduceus. que dele dependiam inteiramente. A partir desta data, o judaísmo ofi­ cial é representado unicamente pela tendência farisaica. A margem desses dois grandes “ partidos", exis­ tiam. no tempo de Jesus, diversas seitas, algumas das quais são de grande interesse para o conheci­ mento do ambiente de origem do cristianismo. A respeito da seita dos zelotes, só possuímos informações parciais e difíceis de interpretar. Pa­ rece que formavam uma ala extremista do partido dos fariseus. Seus membros estavam dispostos a fazer respeitar as prescrições da Lei por todos os meios, inclusive violentos. Apresentados por ve­ zes como vulgares assaltantes de estrada, eram antes fanáticos religiosos, irredutível mente opos­ tos a qualquer forma de autoridade que não pro­ viesse diretamente da Lei. Por isso, não hesitavam em punir de morte os que, a seu ver, se tinham tomado culpados de graves faltas contra a Lei e. mais particularmente, os que colaboravam com o poder pagão de ocupação. É possível que certos discípulos de Jesus, ou até Paulo, tenham tido relações com a seita dos zelotes. antes de se tor­ narem cristãos. Ainda mais periféricos do que os zelotes, porém mais bcm-conhecidos depois da descoberta dos ma­ nuscritos do mar Morto em Qumran, os essênios eram na maioria monges, mas alguns podiam re­ sidir fora do mosteiro central de Qumran e exer­ cer notável influência sobre os habitantes da Pa­ lestina. Eram os essênios, muito hostis às autori­ dades judaicas que estavam no poder e principal­ mente ao Sumo Sacerdócio. Apesar de judeus muito rigorosos, os essênios acolheram muitas idéias estrangeiras, as quais adaptaram à sua teo­ logia. Assim é que, sem dúvida por influências iranianas, eles foram induzidos a desenvolver uma doutrina claramente dualista. fundada na oposição radical de dois espíritos ou duas forças, uma do Bem, outra do Mal, que lutam num combate sem

trcguas até o dia derradeiro, em que se assistira' ao triunfo definitivo do Príncipe da Luz sobre o Anjo das Trevas. O Novo Testamento nunca sc refere aos essênios; não contem nenhum indício de uma influência direta do essenismo sobre o cristianismo. Pode-se afirmar, entretanto, que personagens como João Batista, Jesus c os primeiros discípulos estão mais próximos dos meios “ secta'rios” judeus do século 1 do que do judaísmo oficial. Ora, enquanto se saiba, esses meios todos simpatizavam mais ou menos com as idéias essênias. Por isso. não é im­ possível que o cristianismo das origens tenha ad­ mitido até certo ponto essas idéias e que uma men­ talidade c um procedimento de natureza essênia tenham predominado no seio da primeira comuni­ dade cristã de Jerusalem, ao menos durante algum tempo. Os essênios devem ter participado ativamente na rebelião contra os romanos. Eles desaparecem da cena da história na tormenta de 70. Os acontecimentos que levaram à destruição de Jerusalém dão testemunho do grau de exasperação atingido pelas massas judaicas submetidas à arbi­ trariedade dos procuradores romanos. Esta exas­ peração, amplamente explorada pelos elementos zelotes, alimentava-se, outrossim. no manancial de todas as crenças apocalípticas que muito sc tinham desenvolvido na Palestina desde o século II a.C. Cada vez mais, arraigara-se na consciência judai­ ca a convicção dc que Deus não tardaria a afrontar o desafio da presença paga na Terra Santa e iria restabelecer a sua justiça, ao mesmo tempo que os privilégios dos seus eleitos, implantando de ma­ neira espetacular o seu Reino na terra. Esta intervenção divina devia marcar o fim das atuais tribulaçõcs. ao mesmo tempo que o início de uma nova era, da qual seriam banidos o Mal e a impiedade. Finalmente, tal advento devia ser anunciado por um recrudescimento das catástro­ fes e calamidades, acompanhadas pela subversão definitiva c total dos inimigos de Deus. Este con­ junto dc crenças constitui as concepções escatológicas do judaísmo antigo. No século I da nossa era, as esperanças escato­ lógicas estavam longe dc constituir uma unidade coerente. O que havia era um pulular de idéias bastante confusas, difíceis de serem ordenadas. Contudo, o que se pode afirmar é que. nas proxi­ midades da era cristã, essas concepções se

radicalizaram muito claramente, pelo menos em certos meios. As desventuras de Israel eram então profundas demais para que fosse razoável esperar por mais tempo que um messias humano e histó­ rico pudesse restaurá-lo um dia cm sua dignidade

  • dc povo eleito. Doravante, só de Deus é que, cada

vez mais, se esperava uma mudança da situação:

e somente em virtude de uma subversão cósmica e pela irrupção de um mundo totalmente novo se vislumbrava a realização da tão suspirada trans­ formação. Neste cenário apocalíptico, o papel do messias nem sempre é muito importante. Ao se referirem a ele, os autores apocalípticos já não parecem considerá-lo, como outrora, um messias terrestre, um ungido de Jave'. em outras palavras,

um rei descendente da família dc David que assu­ miria funções essencialmente políticas e militares para garantir, com a ajuda de Deus. a libertação e a prosperidade do povo. O messias tende cada vez mais a assumir o aspecto de um ser sobrenatural, associado a Deus niais do que aos homens. Em certo numero de apocalipses, ele rcccbc o nome

  • dc Filho do Homem — que designa, na realidade,

uma figura essencialmente celeste, sem ponto de contato real com a humanidade c inacessível ao sofrimento. O conjunto das concepções messiânicas c apocalípticas desta época fornece certo numero de materiais a partir dos quais se elaborou a cris- tologia dos cristãos. Contudo, a consideração do destino sofredor de Jesus impôs aos cristãos con­ ferir um conteúdo inteiramente novo ao quadro que lhes era fornecido pelo messianismo c a apo­ calíptica dos seus contemporâneos.

Alguns traços do mundo grcco-romano. No iní­ cio da era cristã, o mundo romano é o herdeiro direto do império grego construído por Alexandre Magno. Por sob um verniz romano, deparam-se a mesma administração provincial, as mesmas con­ dições de vida coletiva c individual, numa pala­ vra, a mesma civilização helenista, e a língua comum ainda c o grego. Um olhar sobre o mapa do império romano, mais que uma simples enumeração, mostra-nos sua extensão. Tem as dimensões de um mundo e a cada ano assenta melhor sua autoridade, reduzin­ do os particularismos e opondo-se às investidas

dos bárbaros (germanos, partos

...

).

Resultado de numerosas conquistas, o império agrupa territórios de estatutos diferentes: o Egito,

propriedade pessoal do imperador, que para lá delega um prefeito vice-rei; os protetorados. anti­ gos reinos que conservam suas instituições tradi­ cionais; e as províncias. Entre estas devem-se dis­ tinguir as províncias senatoriais (Ásia = Ásia Menor) e as províncias imperiais, onde ainda es­ tacionavam as tropas romanas e a autoridade era exercida pelos governadores responsáveis unica­ mente perante o imperador (Síria). Os procurado­ res administram regiões que se assinalam por ca­ racterísticas particulares (Jude'ia). Este sistema autoritário, que não reserva às re­ giões mais do que uma aparência dc autonomia (assemble'ias provinciais), garante a todos uma paz relativa, mas real, de que se aproveitam particu­ larmente os territórios da Ásia, graças aos inter­ câmbios que a ordem favorece. De resto, as cida­ des fruem de certa liberdade: são geridas pela

asscmblc'ia ( e k k l ê s í a ) , cujos membros são todos

os cidadãos, e sobretudo

pelo conselho (b o t i l é ) dos

notáveis. As corporações desempenham igualmente função importante na vida local. Ale'm dc ser cidadão da sua cidade natal, uma

pessoa pode gozar da cidadania romana: este pri­ vilegio pode provir de direito hereditário (e' o caso de Paulo), ser adquirido a preço de ouro ou con­ ferido a título de recompensa. O cidadão romano e' isento das penas corporais e ignominiosas (At 22.25-29) e pode recorrer ao direiro de apelar para o imperador (At 25,10ss.). Pouco antes da era cristã, os imperadores come­ çam a ser considerados como seres divinos, filhos de deus, deuses eles mesmos. Este processo, que sofre ampla influência das crenças orientais (Egi­ to, Pérsia), corresponde perfeitamente à lógica dos fatos: sendo um o império, o culto deve manifes­ tar o seu único fundamento. Tibério, Cláudio, Vespasiano preferiram limitar-se a incentivar o culto do imperador falecido, mas Calígula, Nero e Dominiciano se fizeram adorar. Na realidade, esta religião não foi imposta por Roma; bastou que o imperador desse livre curso ao entusiasmo, à gra­

tidão

... des ou corporações. Isto explica a impressionante floração deste culto (Éfeso dedicava-lhe vários templos), que coexistia perfeitamente com as de­ mais formas religiosas. Os sumos sacerdotes eram escolhidos dentre os magistrados locais. Tratava- -sc de um encargo dispendioso, mas que garantia ao seu titular uma real influência política, uma

ou à obsequiosidade das províncias, cida­

vez que a religião estava estreitamente imbricada na administração. Esta situação criaria para os primeiros cristãos um terrível problema: como continuar sendo bom cidadão sem aceitar deixar-se induzir à adoração do imperador? Muitos trechos do apóstolo Paulo se esclarecem quando lidos a esta luz: tratava-se nada menos que de rejeitar toda uma concepção do mundo. As visões do Apocalipse repisam amiú- de este problema candente. As massas do povo prendem-se mais particular­ mente ao culto prestado aos deuses familiares protetores, muito próximos dos cuidados cotidia­ nos. mas os cultos cívicos são os que, junto com o culto imperial, manifestam melhor o caráter essencial da religião da época: toda a vida cotidia­ na acha-se impregnada de religião e dc uma reli­ gião que, além do mais, é oficial. As fases da vida do homem, quer como indivíduo quer como mem­ bro de uma sociedade, seja ela qual for (família, tribo, corporação, cidade), são por ela profunda­ mente marcadas. Assim, qualquer cargo público implica necessariamente uma participação ativa no culto. Trata-se de uma religião muito diversificada (os deuses são legião), mas o culto deles é sempre meramente ritual. Convém honrar os deuses e oferecer-lhes sacrifícios de acordo com as regras; nisto consiste a piedade. As cerimônias abrangem orações litúrgicas (in­ vocação, convite ao deus para o sacrifício, pe­ didos de benefícios) e sacrifícios, concebidos como presentes ofertados ao deus, geralmente ali­ mentos. Uma parte do sacrifício é queimada; o resto e. quer consumido pelo clero local ou pe­ los fiéis, quer posto à venda no mercado. Daí surgem os problemas para os cristãos que com­ pram essas carnes ou são convidados para tais refeições (ICor 8). A gratidão do homem para com o deus que o atendeu exprime-se não raro por meio de ofertas votivas como as que foram encontradas nas esca­ vações da piscina Probática em Jerusalém (havia ali um santuário pagão dedicado a um deus curan­ deiro). O amálgama das idéias e das pessoas favorecia evidentemente a difusão de cultos de origem orien­ tal e de cunho menos terra-a-terra. Citemos os cultos isíacos, segundo os quais provações suces­ sivas de iniciação conduzem o homem à assimila­

ção com Osíris, o deus morto, que os sortilégios dc ísis devolveram à vida. Neles pressagiava-se uma certeza da imortalidade. Os “ mistérios” ficam mais estreitamente ligados ao culto cívico e conservam seus liames locais, mesmo quando a sua fama se propaga por todo o impc'rio. Trata-se de ritos sagrados, antecedidos por uma longa preparação numa atmosfera em que a noção de segredo assume por vezes grande im­ portância. O mais das vezes, não passam de ritos ligados às estações e destinados a garantir a fe- cundidade. Sucede tambe'm que pretendam confe­ rir aos fiéis segurança quanto à vida de além- tumulo (sempre e unicamente em virtudo do rito; o ensinamento, o dogma quase não desempenham papel algum). Assim, os mistérios de Elêusis e os

mistérios dionisíacos (Dionísio = Baco), nos quais se exprimem com selvageria a necessidade de eva­ são pelo êxtase e o delírio sagrado por ocasião de corridas desatinadas e da manducação de carnes ainda palpitantes. Um deus que assim ensejava furtar-se momentaneamente às condições terrenas não podia desamparar seus fiéis depois da morte. Eis alguns dos traços característicos do mundo onde os primeiros cristãos iriam viver professan­ do a sua fé: só Cristo é o Senhor, e não o impe­ rador. Portanto, a ele é que se deve obedecer, arriscando-se a ir frontalmente de encontro ao quadro religioso dc qualquer vida. Só ele pode ser adorado numa vida de consagração, numa condu­ ta inspirada pelo amor do qual Cristo é testemu­ nha e que traz consigo o penhor da vida eterna.

EVANGELHOS SINOTICOS

INTRODUÇÃO

O Evangelho c os evangelhos. Antes de mais nada. o Evangelho e', de acordo com o sentido

com que deparamos nos evangelhos. Aliás, é ve­ rossímil que, no decorrer da história, alguns des­

grego da palavra, a B o a N o v a da Salvação (cf. Mc 1,1), a pregação desta Boa Nova. Assim o entende o apóstolo Paulo ao falar do s e u evangelho: trata- se do anúncio da salvação na pessoa de Jesus, o Cristo. De sorte que, na origem, o Evangelho não foi um livro1, obra literária ou histórica; e se o título evangelho foi dado aos quatro livros atribuí­ dos a Mateus, Marcos, Lucas e João, é porque cada um desses autores proclama esta Boa Nova

ses materiais já tivessem recebido uma forma es­ crita: por exemplo, certas formulações litúrgicas como as profissões de fé, coletâneas de palavras de Jesus ou o relato da Paixão dc Jesus que, sem dúvida, bem cedo constituiu um ciclo de narra­ ções claramente estruturado. Os evangelistas trabalharam a partir desses da­ dos tradicionais que, na vida movediça das pri­ meiras comunidades, já tinham adquirido formas

no relato que

faz das palavras e obras de Jesus,

diversas, à medida que a Boa Nova, antes de pas­

bem como

na narrativa que traz de sua

morte e

sar a texto estabelecido, era uma palavra viva, que,

Ressurreição. O leitor moderno, cioso de exatidão e sempre à cata de fatos estabelecidos e verificados, fica des­ concertado à vista dessa literatura, que lhe parece desconexa, cujo plano carece de continuidade, cu­ jas contradições parecem insuperáveis e que não logra responder a todas as perguntas que se lhe fazem. Tal reação será vantajosa para o leitor, se o levar a suscitar os verdadeiros problemas, pri­ meiramente o do gênero literário dos evangelhos. Os seus redatores não são literatos que, instalados numa escrivaninha, a manusear documentos devi­ damente classificados, se teriam abalançado a es­ crever uma vida de Jesus de Nazaré desde o nas­ cimento até a morte. Totalmente diversa é a ma­ neira como se deve encarar a composição dos evangelhos. Jesus falou, anunciou a Boa Nova do Reino, convocou discípulos, curou doentes, reali­ zou atos significativos. Após sua morte e à luz da fé pascal, os discípulos e, depois deles, os prega­ dores anunciaram a sua Ressurreição, repetiram suas palavras e referiram seus atos de acordo com as necessidades da vida das Igrejas. Durante cerca de quarenta anos, formaram-se tradições orais, que conservaram e transmitiram, por meio da prega­ ção, da liturgia e da catequese, todos os materiais

simultaneamente, nutria a fé dos cristãos, ensina­ va os fiéis, adaptava-se aos diversos ambientes, respondia às necessidades das Igrejas, animava sua liturgia, exprimia uma reflexão sobre a Escritura, corrigia os erros e, ocasionalmente, replicava aos argumentos dos adversários. Destarte, os evangelistas recolheram e puseram por escrito, cada um segundo sua perspectiva, o que lhes era fornecido pelas tradições orais. Mas não se contentaram com isto. Tinham também consciência de estarem anunciando a Boa Nova para os homens de seu tempo, com a preocupação de ensinar e responder aos problemas das comu­ nidades para as quais escreviam2. Mais adiante se verá qual foi a perspectiva peculiar dc cada evan­ gelista. Ressaltemos, por enquanto, um fato capi­ tal, que agora quase não é mais contestado, depois das pesquisas das últimas gerações sobre a histó­ ria da tradição e da formação dos evangelhos: os evangelhos nos remetem, por numerosos porme­ nores característicos, à fé e à vida das primeiras comunidades cristãs. Dentre muitas ilustrações possíveis, os textos que nos contam a última ceia de Jesus são um exemplo disso. Deles, possuímos quatro versões (Mt, Mc, Lc, ICor), que na reali­ dade reduzem a dois tipos: por um lado, um tes-

1. Foi Justino quem . por volla

de

150. usou primeiro esta palavra para designar

o evangelho como livro (/ Apologia. 6 6 3 ).

2. Tentou-se indicar nas notas da tradução as tendências que caracterizam cada evangelista, toda vez que isto foi possível, e sempre com pmdència. As indicações que foram encontradas, p. ex. na anotação às parábolas, só intentam assinalar uma tendência dc imerpretaçSo. Os títulos das pcrícopes esforçam-se lambem por salientar o sentido dominante do texto. Assim. p. ex „ a parábola tradicionalmente intitulada O Filho pródigo é aqui intitulada O Filho reencontrado.

temunhado por Mateus e Marcos, por outro, o que nos c fornecido por Lucas e Paulo. Ora, esses dois tipos, que diferem em vários pontos3,apresentam- se ambos como textos que reproduzem fórmulas tradicionais já fixadas pelo uso litúrgico. Paulo tr a n s m i t e o que r e c e b e u . Ao invés de narrar a última ceia de Jesus em todos os seus pormenores, os evangelistas centram sua narrativa nos gestos c palavras do Mestre, que se repetem na celebração eucarística. Assim, a fórmula l e n d o a b e n ç o a d o , que é a de Mateus c Marcos, denota provavelmen­ te um uso palestino (conforme à bênção judaica), ao passo que o uso por Lucas e Paulo do termo

d a r

g r a ç a s

(em grego

e u k h a r is t é ô )

evoca dc pre­

ferência um ambiente helcnico. Outros exemplos dc duas versões diferentes dc uma mesma tradi­ ção, como o pai-nosso (Mt 6,9-15; Lc 1 1,2-4), ou

as bem-aventuranças (Mt 5 ,3-12; Lc 620-26). nos permitem acercar-nos tanto da natureza das tradi­ ções recolhidas como do pensamento particular de cada evangelista. A passagem pela tradição oral também explica por que numerosas pcrícopes se apresentam como pequenas unidades literárias centradas numa pala­ vra ou num ato de Jesus, sem enquadramento cro­

nológico ou geográfico preciso; indicam-no as fórmulas introdutórias, vagas por si sós: n a q u e l e s

d i a s

(Mt

3 ,1; Mc 8.1), n a q u e l e t e m p o (Mt 11,25),

  • d e p o is d is s o (Lc 10,1), o r a (Lc 8.22; 9,18.27.51; 11,27). Cada uma dessas narrativas teve de início uma existência independente das outras, e sua acomodação é muitas vezes obra dos evangelistas. No emprego que as primeiras gerações fizeram dessas traduções, as recordações narradas foram vazadas em certas formas literárias de relativa fi- xidez; é o que sucede em relatos, episódios que enquadram e situam um dito de Jesus, cenas de controvérsia, de cura ou de milagre. Uma estrutu­ ra peculiar a cada um destes gêneros é muitas vezes

fácil dc descobrir. Então, como se devem

considerar essas tradi­

ções, sc estão a tal ponto marcadas pelo uso que sc fez delas antes de serem fixadas nos evange­

lhos? Qual o crédito que se lhes pode conceder? Qual a sua relação com a realidade da história de Jesus? A essas perguntas pode-se responder que, sendo os nossos documentos testemunhos da fé em Jesus, o Cristo, é este Cristo reconhecido pela fé que eles nos querem fazer encontrar. Contudo, afirmar que os evangelhos são uma pregação, que seus autores — mesmo Lucas, cioso da história4 — pretenderam antes dc mais nada ser testemu­ nhas da Boa Nova, não significa serem eles indi­ ferentes à realidade (histórica) dos fatos que refe­ rem; mas o seu interesse maior é fazer sobressair o seu sentido, mais do que reproduzir exatamente

o teor literal das palavras de Jesus (cf. as diferen­ tes formas das bem-aventuranças, do pai-nosso, da fórmula eucarística) ou as circunstâncias e por­ menores dos seus atos. Apresentam uma tradição que já é uma interpretação. É pelo estudo minu­ cioso dos textos que tais palavras5 ou tais relatos6 hão de surgir como sólidos pontos dc referência para a história do ministério dc Jesus; não poucos métodos acham-se ao alcance dos historiadores para tentar estabelecê-los. Aqui, dois pontos há que devem ser especificados:

— É certo que, através da tradição, e apesar de não sc poder verificar historicamente todo o con­ teúdo do evangelho, numerosos indícios — que,

aliás, esclarecem os demais textos — nos permi­

tem saber que a fé em Cristo ressuscitado se en- raíza na vida e nas ações de Jesus. — Só temos acesso às palavras e ações de Jesus através das “traduções” que delas nos fornecem as tradições antigas e as redações dos evangelistas. A transcrição em grego daquilo que primordial­ mente foi vivenciado em aramaico é apenas o as­ pecto mais aparente desse fenômeno de transmis­ são. Pode-sc tentar reconstituir o que Jesus falou cm sua língua materna, bem como se pode tentar reconstituir as circunstâncias exatas em que pro­ nunciou tal parábola ou operou tal cura. Todavia, essas tentativas ficam afetadas em seus pormeno­ res por uma probabilidade maior ou menor. Essas limitações da verificação histórica decorrem da

  • 3. Abençoar/dar graças — meu corpo/meu corpo que é dado por vós — meu sangue da Aliança/a nova Aliança em meu sangue

— ausência em Mt e Mc da ordem: “Fazei isto em minha mcmória,\

4.

Cf.

Lc

1,1-4.

  • 5. 1.15: o anúncio da proximidade do Reino não é reflexo da pregação dos cristãos; pois estes, depois da Páscoa,

Por ex. Mc

anunciavam, não o Reino, inas a Ressurreição. Cf. também Mc

13.32. a palavra referente

ao dia e

à hora.

  • 6. Por ex. Mc 6.8-9: o envio dos Doze sem nenhum recurso material supõe decerto uma missão muito limitada no tempo e no

espaço, não as missões longínquas que a primeira geração cristã presenciaria.

própria natureza dos evangelhos. A fe' em Cristo vivo iluminava as recordações referentes a Jesus c se exprimia por um testemunho vivo, com tudo o que este comporta de relatos fragmentários, repe­ tições, ajustes, intervenções da testemunha ou do narrador. A função e a virtude própria desses tex­ tos são, todavia, atrair o leitor à fe'. O estudo critico dos evangelhos permite assim ultrapassar uma leitura ingênua c inserir-se na perspectiva própria do Novo Testamento. Por mais longe que sc possa remontar na pesquisa, a per­ gunta fica de pe': quem é Jesus? Ao invés de se sentir desprovido e incerto, o leitor que se dispu­ ser a ler os evangelhos nesta perspectiva, notada- mente, fazendo um estudo comparado dos textos7, sempre encontrará mais do que dc inicio suspeita­ va. Pois, com seus múltiplos elementos de respos­ ta e seu modo de compreender os dados da tradi­ ção, cada um dos evangelhos fomccer-lhe-á o meio de verificar e enriquecer seu conhecimento dc Jesus, fazendo-o participar do movimento que, sem cessar, vai do passado de Jesus à fé atual da co­ munidade cristã e da convicção das testemunhas, àquele que é sua fonte.

Os evangelhos e suas relações mútuas. O evan­ gelho chegou até nós sob a forma de quatro livretes. À primeira leitura, percebe-se que o quarto evan­ gelho possui características que o situam à parte, embora não deixe de ter ligações com os três pri­ meiros (cf. Introdução ao Evangelho de São João). Estes três são testemunhos cuja redação é anterior à do evangelho de João. O evangelho segundo Marcos, cuja origem é, com toda a verossimilhan­ ça. romana, pode ser datado dos anos 65-70. Os evangelhos segundo Mateus e Lucas, redigidos quinze a vinte anos mais tarde, não refletem os mesmos ambientes e têm destinatários bem dife­ rentes. Contudo, suas características são tão seme­ lhantes que puderam ser denominados “ sinóticos", nome proveniente dc uma obra publicada no fim do século XVIII com o título de S i n o p s is (ou seja:

visão simultânea), que trazia os textos de Mateus, Mancos, Lucas em três colunas paralelas, de for­ ma a facilitar a comparação entre eles. Esse fato cria um problema particular.

a)

O

f a l o

s i n ó t i c o .

As semelhanças e diferenças

entre os sinóticos referem-se: ao material empre­ gado, à disposição em que se apresenta e à sua

formulação.

 

Quanto

ao

m

a t e r i a l ,

eis

um

levantamento

aproximativo do número de versículos comuns a

dois ou três evangelhos:

 
 

Mt

Mc

Lc

comuns aos três

330

330

330

comuns a Mt-Mc

178

178

comuns a Mc-Lc

100

100

comuns a Mt-Lc 230

 

230

peculiares a cada um

330

 

53

500

Ao lado das partes comuns, existem fontes pró­ prias para cada evangelho. — Quanto à disposição, as perícopcs agrupam- se em quatro grandes partes:

  • A. preparação do ministério de Jesus.

A

  • B. O ministério da Galiléia.

  • C. subida para Jerusalém.

A

  • D. Ministério em Jerusalém. Paixão e Ressur­

reição. Dentro dessas quatro partes, Mateus distribui as suas perícopes numa ordem que lhe é peculiar até o cap. 14; a partir daí, apresenta perícopcs co­ muns a ele e a Marcos, na mesma ordem que este. Lucas intercala as perícopcs que lhe são próprias no meio de um quadro geral que é idêntico ao de Marcos (assim. Lc 6,20-8,3 ou 9 ,5 1-18 ,14 ). Deve- -se, contudo, notar que, no interior desta concor­ dância dc conjunto, há discrcpâncias. por vezes,

no próprio seio de passagens comuns (assim, em Lucas, o chamamento dos discípulos ou a visita a Nazaré). — Quanto à formulação, verifica-se igualmente um estreito parentesco entre os textos: assim, um

mesmo termo

raro ( a f t e n t a i ) encontra-se em Mt

9,6 = Mc 2,10 = Lc 5,24; ou ainda, somente duas

palavras diferem, entre 63, em Mt 3.7b-10 = Lc 3.7b-9. Por outro lado, uma discordância surge bruscamente em passagens que no conjunto são parecidas: numa estrutura fixa, as palavras são diferentes, ou então com palavras idênticas, a es­ trutura é diferente.

  • 7. Os iríidutores esforçaram-se. às vezes à custa de certas asperezas de estilo, por salientar as semelhanças e diferenças entre os

textos paralelos dos evangelhos. Dessa forma, o leitor poderá fazer comparações por si mesmo, em bora nenhuma nota lhe chame

a atenção a respeito.

b)

I n t e r p r e t a ç ã o

d o

f a t o

s i n ó t i c o .

O

problema

criado pelo fato sinótico estará resolvido quando se tiverem explicado juntamente as semelhanças e as divergências. Reina um acordo entre os críticos a respeito de

certos pontos. P r i m e ir o ,

q u a n t o

à

o r i g e m

d o s

e v a n ­

g e l h o s . Dois fatores determinaram o estado atual dos textos: a função da comunidade que criou a tradição, quer oral quer escrita, c a função do

1. Certos críticos, mais sensíveis às diferenças do que às concordâncias, preferem renunciar à interdependência imediata dos sinóticos.

  • a) Uns evocam uma documentação múltipla: os

evangelistas teriam utilizado coleções mais ou menos extensas, agrupando desde o início (prova­ velmente com vistas à pregação missiona'ria da

Igreja) pequenas compilações de fatos e sentenças (agrupamentos dc milagres, reunião de senten­

escritor que manejou as diversas tradições. As variações nas hipóteses dependem essencialmente da importância relativa atribuída pelos críticos a estes dois fatores: poderiam as discordâncias ex- plicarcm-se todas pela atividade redatorial do es­ critor ou exigiriam o recurso a contatos havidos em nível pré-sinótico?

Q u a n t o

a o

m

é t o d o

a

s e g u ir , reina certo acordo.

As omissões ou acréscimos de matérias e as mo­ dificações na formulação podem ser explicadas mais ou menos adequadamente pelas “ intenções" dos diversos redatores; mas por causa da arbitra­ riedade que ameaça as interpretações que se po­ dem dar das mesmas, a solução do problema não pode ser fornecida no nível dos materiais ou da formulação. Só o exame da disposição autoriza uma resposta firme. Para explicar as concordânci­ as entre longas seqüências de textos, impõe-se a hipótese dc uma dependência literaria (e não so­ mente oral), quer imediata (interdependência), quer mediata (dependência de uma fonte comum). Para explicar as discordâncias, uns acentuam a influên­ cia da comunidade durante a fase pré-sinótica, outros, a dos redatores. Mais exatamente, os críti­ cos concordam geralmente em afirmar dois prin­ cípios: Marcos depende de Mateus e de Lucas, Mateus e Lucas são entre si independentes; com efeito, estes últimos entram em desacordo quando um deles deixa de concordar com a ordem de Marcos, e ambos têm passagens comuns com Marcos que o outro não repetiu (Mt: 178 w .; Lc:

l(X) w .). O desacordo entre os críticos subsiste quanto à interpretação da relação de Marcos com os outros dois sinóticos. Teria havido contatos, entre Mateus e Marcos c entre Lucas e Marcos, sob a forma de dependência imediata do evangelho de Marcos ou sob a forma dc dependência relativamente a um texto pré-sinótico comum? Eis, em resumo, as duas modalidades de hipóteses que hoje são sustenta­ das:

ças

...

);

assim se explicariam as concordâncias

menores entre Mateus e Lucas contra Marcos, que contradizem a sua dependência deste; assim se justificariam tambe'm as variantes que dificilmen­ te podem ser atribuídas ao trabalho redatorial ou a perspectivas teológicas diferentes.

  • b) Outros críticos, embora se mantenham fiéis à

flexibilidade da hipótese precedente, estimam des­ cobrir na origem da tradição sinótica dois docu­

mentos principais, ale'm das tradições singulares. Impõe-se uma constatação: a disposição difere,

conforme se trate da parte central (pregação na

Galiléia: Mt 4 .1 3 -1 3 ,5

8 par.) ou das duas seções

que a enquadram (Mt 3 .1-4 ,12 par.; Mt 14,1-24,51 par.). A estreita concordância que domina essas duas seções envolventes sugere a existência de um documento de base idêntico para os três evan­ gelhos; pelo contrário, a discordância que caracte­ riza a parte central (ministe'rio na Galiléia) revela um estado menos adiantado da organização das tradições. Destarte, na origem dos três sinóticos. haveria, além das tradições singulares, dois docu­ mentos principais: um, já fortemente estruturado, outro em estado ainda fluido, no momento em que foram empregados pelos evangelistas, embora seu estado de fusão estivesse então mais ou menos adiantado. 2. Todavia, a maioria dos críticos aderem à hi­

pótese das Duas Fontes. Conforme esta. Mateus e Lucas dependem imediatamente dc Marcos, bem como de uma fonte comum independente deste

(muitas

vezes

chamada

Q, do alemão

Q

u e l l e ) .

Marcos e esta documentação seriam as duas fon­ tes principais de Mateus e Lucas. O esquema se­

guinte resume esta hipótese.

 

Mc

Doc. comum

Mt próprio — ►

Mi Lc <—

Lc próprio

Hoje cm dia esta hipótese é apresentada com muito mais nuanças do que inicialmente. Ela tem a grande vantagem de facilitar o estudo do traba­ lho redacional de Mateus e Lucas. Assim explicar- -se-iam pelo trabalho de redação literária as adi­ ções, omissões e transposições verificadas no fato sinótico. Convém observar que, em nossos dias, não se ousa mais resolver categoricamente a questão de saber sc o documento comum a Mateus e Lucas é um documento escrito ou uma fonte oral*, nem de saber se o texto de Marcos usado por Mateus e Lucas é o que nós possuímos ou algum outro. No entanto, seja qual for a hipótese crítica ado­ tada para abordar o problema sinótico, só um tra­

balho minucioso permite determinara natureza das perspectivas de cada evangelista. Acrescente-se que o exame das fontes literárias não é nem o único, nem talvez o mais importante para compreender melhor os evangelhos sinóticos. Fontes documen­ tais, tradição oral, influência do ambiente de ori­ gem e utilização de material diverso pelos redatores finais são elementos que se devem levar simulta­ neamente em consideração, ao se querer dar conta do fenômeno original que é a literatura evangélica. Este rápido apanhado da questão sinótica talvez ajude o leitor a melhor penetrar as perspectivas de cada um dos evangelistas que serão indicadas nas introduções particulares a Mateus, Marcos e Lucas.

Uma “sinopse evangélica”

A presente tradução visualiza as semelhanças e diferenças no vocabulário dos evangelhos nas “ matérias paralelas” , que constituem a maior parte do texto dos três primeiros evangelhos (Mt, Mc e Lc). O uso criterioso das referencias dos "paralelos sinóticos” acrescentados entre () ao título de cada perícope permite portanto usar esta tradução para fins de estudo comparativo dos três primeiros evangelhos.

  • 8. Para este documento, sò 50% do vocabulário e' comum » Ml c Lc. De 23 perícope!

..

apenas 13 se encontram na mesma ordem

em

Mt e

Lc.

EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

INTRODUÇÃO

O prólogo e o final. Em vez de antepor, como Lucas, um prefácio ao seu evangelho, Mateus indica o senlido da sua ohra no prólogo que abre

Belém; mas Jesus se lhe furta e se refugia na Galiléia, símbolo da terra dos gentios. Morte e ressurreição vêm assim prefiguradas nesta histó­

a narrativa da vida pública de Jesus (1-2) e no final que encerra o evangelho (28,16-20), por ocasião da única aparição do Ressuscitado: "Toda

a autoridade me fo i dada

no céu e sobre a terra.

Ide, pois: de todas as nações fazei discípulos, ba­ tizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espí­ rito Santo, ensinando-as a guardar tudo o que vos

ordenei. Quanto a mim, eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos tempos!" Neste “manifesto” do Ressuscitado, dois pontos mais salientes são sublinhados: a autoridade de Cristo e a função de seus discípulos.

ria trágica, que finalmente desemboca na procla­ mação do Evangelho aos próprios pagãos. Com isto, Jesus, o Messias, dá o remate à his­ tória de Israel. Outra maneira de Mateus ma­ nifestá-lo é a demonstração escriturística. Ele salpica o seu texto com citações, na intenção de mostrar que o modo de agir de Jesus se ilumina constantemente pela Escritura: “Assim devia cum­ prir-se o oráculo do profeta" (1,22 nota). Portan­ to, os que rejeitaram Jesus enganaram-se quanto à sua pessoa: Jesus é verdadeiramente o Messias esperado pelos judeus.

  • I. Como os outros evangelhos, o de Mateus re­

    • 2. Com autoridade, este Jesus deu aos Onze o

lata a vida e o ensinamento de Jesus; e, a seu modo, porém mais do que eles, explicita a cristo- logia primitiva. O Emanuel anunciado a José (1,23), isto é, ''Deus conosco", ficará presente aos que crêem até o fim dos tempos (28,20), como o "mestre e docente" (didata) que ele fo i na terra e continua sendo, por intermédio de seus discípu­ los, com uma autoridade plena que recebeu de Deus — e não de Satanás (4,8-10) —, já que o Pai tudo lhe entregou (II,27). É isto que confere ao evangelho de Mateus a perspectiva ética que o caracteriza. Em conformidade com as Escrituras, este Jesus foi rejeitado pelos judeus, de sorte que a Boa Nova possa ser comunicada aos pagãos. Eis o que mos­ tra. em resumo, o prólogo. De fato, este tem a função, mais que de narrar os acontecimentos da infância de Jesus, de exprimir, a partir de antigas tradições, o sentido da vida terrena daquele que ressurgiu dos mortos. Ao passo que, em nome de Israel e da linhagem de David, José acolhe o Menino concebido do Espírito e nascido da Vir­ gem Maria, eis que, em decorrência da visita dos magos — prefigurações dos pagãos que a Boa Nova convida à salvação —, Jerusalém, os sumos sacerdotes, o rei Herodes, todos o ignoram, o re­ jeitam e perseguem. Em vez de adorá-lo, Herodes chega a tentar matá-lo junto com as crianças de

encargo de anunciar a Boa Nova e de fazer de todas as nações discípulos seus. Este anúncio é primeiro o do “Reino dos céus", conforme a ex­ pressão que caracteriza o primeiro evangelho e que, aliás, se situa dentro da tradição judaica so­ bre o Reino de Deus. Deus é, de fato, o soberano que permanece presente a seu povo e que, em momentos oportunos, intervém com autoridade no curso da história. Tal modo de falar provém de­ certo, em parte, do regime político de Israel no decorrer dos séculos; a ocupação romana só con­ segue acirrar o sonho de uma intervenção sobe­ rana de Deus: sim, só Deus é nosso Rei, compraziam-se em dizer os judeus da época. Mas, se Jesus mantém a expressão “Reino dos céus", não o faz. no sentido de uma libertação política; ainda menos no sentir de Mateus, pois ele refere estas palavras depois da morte de Jesus e, por isso, não poíle contar com a realização por Jesus de tal sonho. Em Mateus, a expressão tornou-se técnica, para designar a soberania de Deus sobre o seu povo; ela é mesmo empregada em sentido absoluto, quan­ do Jesus anuncia “os mistérios do Reino” (13,11). Alhures em Lucas ou em João — ela fo i comu- mente reinterpretada e significa: vida eterna, céu. Eis por que, em Mateus, a expressão permanece ambígua. Assume tanto o significado de “reina­

do” como, às vezes, o de “reino”, quando vem introduzida por um verbo que signifique “entrar no" (3,2 nota). Ela não visa simplesmente ao fu ­ turo, mas igualmente ao presente. A.v parábolas

sentença dentro da repetição de uma mesma pa­ lavra. procedendo assim a uma “inclusão” (6,19 e 6,21: 7,16 e 7,20; 16,6 e 16,12); emprega o paralelismo sinonímico ou antitético, por exem­

1,29-31).

do Reino (13) indicam as suas características:

plo, sob a forma de quiasmo (16,25); não receia

inaugurado pelo gesto do semeador, deve frutifi­ car até a messe final, de maneira misteriosa e a despeito dos fracassos ocasionais. Em razão des­ ta perspectiva escatológica, o Reino de Deus nâo pode, pois, identificar-se com a Igreja, mesmo se o termo Igreja ” ( 16,18; 18,18) designa a comu­ nidade dos discípulos que anunciam o Reino e lhe produzem os sinais. Esta comunidade tem por lei o serviço mútuo (18,12-14) e detém, com Pedro, as chaves do Reino ( 16,16; 18,19). Embora saiba que o Reino já está inaugurado, ela ora, ainda

repetir as mesmas fórmulas (8,12: 22,13; 25,30), o mesmo fraseado para designar igual realidade (8,2 e 9,18; 9,4 e 12,25) ou a mesma palavra na boca de locutores diferentes (3,2; 4,17; 10,7). Suas narrações se caracterizam comumente pela brevi­ dade: o anedótico de Marcos desaparece para dar lugar a uma apresentação catequética, que é só­ bria e até hierática (comparem-se as narrativas de cura da sogra de Pedro em Mt 8,14-15 e Mc

hoje e sempre:

“Faze com que venha o teu rei­

Mateus gosta de compor conjuntos por agrupa­ mentos numéricos (assim são privilegiados os

no!” (6,10).

números 7, 3 ou 2) ou por meio de encadeamen-

Composição literária. Mateus trabalhou basea­ do em fontes que lhe são comuns com Marcos ou Lucas; mas, dentro do quadro desta semelhança geral, oferece uma narração bem diferente da de Marcos, quer pelo número e amplidão dos elementos que lhe são próprios (p. ex. 1-2; 5-7:

tos (assim 18,4-6). Ao passo que Marcos e Lucas se contentam com justapor as suas fontes, Mateus colige palavras e narrativas (assim 85-13 com­ parado com Lc 7,1-10 e 13,28-29), visando a um sentido mais profundo. Gosta de combinar ensi­ namentos análogos: assim, insere o "Paí-nosso" num conjunto que já formava uma composição

II.1-30; 13,24-30.36-52; 18,10-35: 28,9-20). quer pela liberdade com que utiliza certas matérias que lhe são comuns com Marcos (compare-se, p. ex., Mt 4,1-11 com Mc 1,12-13; Mt 8,23-27 com Mc 4,35-41; Mt 9,9-13; com Mc 2,13-17; Mt 14, 13-21 com Mc 6. 32-44; Mt 16,13-20 com Mc 8,27-30; Mt 21.18-19 com Mc 11,12-14; Mt 21, 3-46 com Mc 12,2-12: Mt 24,1-36 com Mc 13, 1-37), quer finalmente por um conjunto de ele­ mentos que ele hauríu com toda a verossimilhan­ ça de uma coletânea de palavras de Jesus que também Lucas deve ter empregado (p. ex. 3,7-10; 7.7-11; 11,4-6; 12,43-45). É difícil precisar até que ponto essas fontes já foram anteriormente inseridas em agrupamentos mais amplos, mas pode-se, pelo confronto com Marcos e Lucas, constatar o modo de Mateus compor.

acabada (6,7-15 em 6,1-18) e compõe “discur­ so sconferindo-lhes caráter exaustivo (assim 10,17-42; 13,35-53; 25). Ao conjunto de milagres que constitui 8,1-17, Mateus acrescenta outras séries de milagres (8,23-9,8 e 9,18-34); aos três anúncios do destino do Filho do Homem, acres­ centa desenvolvimentos que amplificam o ensina­ mento de Jesus (assim 18,5-35; 19,1-20,16). Finalmente e sobretudo, sempre na ordem da composição literária, são de notar os cinco gru­ pos que se denominam, por falta de termo melhor, os “discursos” de Jesus. São conglomerados de palavras de Jesus que constituem a trama do evan­ gelho e sâo pontuados pela cláusula aposta a ca­ da um deles: "Ora, tendo Jesus concluído essas instruções" (cf. 7,28 nota). Esses “discursos" apresentam sucessivamente a “justiça do Reino”

  • I. suturas cronológicas, exceto em 4,17 e (5-7), os arautos do Reino (10), os mistérios do

16,21, normalmente carecem de valor (cf. 3,1 nota). As indicações topográficas costumam ser bastante vagas e não autorizam a composição de um itinerário minucioso; graças a elas, entretan­ to, o leitor se vê colocado ante uma trajetória

histórica e não ante uma mera sucessão de cenas. Mateus gosta de engastar uma narrativa ou uma

Reino (13), os filhos do Reino (18), a vigilância e fidelidade requeridas na espera da manifestação final do Reino (24-25).

  • 2. A partir dessas evidentes características de

estilo, o leitor tenta realizar agrupamentos mais vastos. Mas então, já não é Mateus que o exige; é o leitor que o pro/>õe. Por isso, a presente tra­

dução não quis impor grandes divisões ao texto do evangelho. Aqui, todavia, julgamos lítil assina­

lar três tipos de divisão, três '‘planos" de Mateus propostos pelos criticas.

  • a) O mais simples, aparentemente, e‘ o plano

geográfico, analogo ao que se julga descobrir em Marcos: ministério de Jesus na Galiléia (4,12- 13,58); atividade de Jesus nas regiões limítrofes da Galiléia, seguida da viagem a Jerusalem (14,1- 20,34); finalmente, ensinamento, padecimentos, morte e ressurreição de Jesus em Jerusalem (21.1- 29,20). A dificuldade provem do fato de ninguém conseguir mostrar que Mateus tinha alguma in­ tenção teologica especifica ao mencionar esses vários lugares; assim, a divisão geográfica talvez

não passe de uma moldura dentro da qual foram agrupadas as diversas matérias.

  • b) Outros autores estabelecem o plano de acor­

do com os “cinco discursos” destacados por Mateus graças às cláusulas anteriormente indica­ das. De fato, há ai’ cinco conjuntos em que se encontra compendiado o ensino de Jesus; mas sera' que eles permitem distribuir os assuntos dentro de uma alternância narração-discurso? Tal cor­ respondência so' e'fácil de mostrar para 11-12 e 13; mas, nesta hipótese, sera' realmente possível qualificar 11-12 de narrativa, j á que estes capí­ tulos formam uma serie de pequenos discursos apenas situados no espaço e no tempo? Quanto aos outros conjuntos, nâo se pode estabelecer uma

relação estreita entre 3—4 e 5-7, nem entre 14-17 e 18; e unir 8-9 com 10 ou 19-23 com 24-25 e' forçar o texto. O Evangelho de Mateus não e'um catecismo ilustrado com exemplos: narra uma existência histórica que tem alcance doutrinai.

  • c) Outros pensaram que Mateus quis reproduzir,

sobre uma trama histórica, o drama da existência

de Jesus. Tendo-se em conta os “sumários" (4,

12-17; 12,15-21

...

),

os encadeamentos (12, 15-21

e 3,13-17; 11,1-12,50 e 8,1-9,34), as anotações topográficas dominantes (8,1-9,34; 14,1-16,20; 20,29-28,20) ou recessivas ( 11,1-12,50; 16, 21-20,28), a variedade dos auditorios — predo­ minância da multidão (8,1-9,34), dos inimigos (U ,1-12.50: 21.23-23,29). dos discípulos (14. 1-20.34; 24,1-25,46) —, pode-se distribuir o con­ junto em duas grandes partes. Na primeira (3,1-1358), Jesus se apresenta, mas o povo judeu se recusa a crer nele. Todo-poderoso em obras e palavras (4,12-9,34), envia seus dis­

cípulos a anunciarem a Boa Nova (9,35-10,42):

efetua-se então a opção pro ou contra Jesus: os ouvintes são convidados a discernir o evento que se realiza, nos milagres anteriormente narrados (II-

12) ou no novo ensinamento em parábolas (13). No fim, Jesus e' rejeitado pelos seus (13,53-58). Na segunda parte (14-28), Jesus percorre o ca­ minho que o leva pela cruz à glo'ria da Ressurrei­ ção. Dois movimentos animam esta narrativa: um, com base geográfica (14,1-16,20), depois com base doutrinai (16,21-20,34), permite que Jesus ministre á sua comunidade um ensinamento par­ ticular. O outro sucede em Jerusalem, onde Jesus faz uma entrada majestosa e toma posse do Tem­ plo (21,1-22); depois disto, ele enfrenta seus ini­ migos: manifesta em trés parábolas o desígnio de Deus (21,18-22,14), sai vitorioso das controvér­

sias e ciladas que lhe armam (22,15-46) e denun­ cia a hipocrisia dos escribas e fariseus (23). De­ pois, Jesus anuncia o julgamento do mundo intei­ ro (24—25): deixa-se julgar e condenar pelos ho­ mens (26-27). Finalmente, Deus o ressuscita (28). De sorte que Mateus relata um drama. Jesus exigia do povo judeu uma adesão incondicional à sua pessoa; proclamava a admissão dos pagãos no Reino dos ceus. Este encontro deveria ter sido o arremate do destino do povo de Deus; mas em conseqüência da recusa de Israel, tornou-se sepa­ ração, arrancamento. Desde então, a comunidade dos discípulos, fiel ao ensinamento de Jesus res­ suscitado, e'o verdadeiro povo de Deus que, sub­ traído á prepotência dos arrendatários rebeldes, deve produzir os frutos esperados por Deus

(21,43).

A comunidade de Mateus. Pela escolha do seu

material, bem como peta ordenação do mesmo, o Evangelho de Mateus desvenda as preocupações do ambiente em que foi dado ü luz. Indiquemos três aspectos do mesmo.

  • 1. Mateus e'o evangelista que mais insiste na

lei, na Escritura, nos costumes judaicos; por exem­ plo, introduz por conta própria referências às três grandes práticas de piedade judaicas (esmola, oração, jejum): á diferença de Marcos (7,3-4), não sente necessidade de explicar tais usos; final­ mente, Jesus se dirige com prioridade ao seu povo (10,6; 15,24). Mas esta insistência na lei e'corri­ gida por outra, sobre a plenificaçáo que a lei deve receber e que a Escritura aponta na própria pes­

soa de Jesus; e, por fim, sobre os abusos gerados pelas tradições farisaicas. Tudo é submetido a uma reinterpretação radical, como mostram as "antí­ teses” do Sermão da Montanha, no cap. 5. Mateus insiste na passagem da Boa Nova aos pagãos; o que lhe interessa é, portanto, a explosão do evan­ gelho no âmbito do mundo inteiro; todos os ho­ mens serão chamados a juízo pelo Filho do Ho­ mem (25,31-46), todas as nações serão convida­ das a receber o ensinamento de Jesus (28,19).

  • 2. Em Mateus, diversamente de Marcos, os dis­

cípulos ocupam um lugar único na economia da Revelação; são profetas, sábios e escribas da nova

lei (13^2; cf. 23,34), mas, ao atenuar seus traços fisionômicos históricos, Mateus aplicou-se em fa ­ zer deles tipos duradouros: assim, eles prefiguram o comportamento de qualquer discípulo do por­ vir, até mesmo quando se mostram homens de pouca fé <8,26; 14,31; 16,8; 17,20).

  • 3. Finalmente, o retrato de Cristo é influenciado

pela comunidade cristã de Mateus. Já indicamos como Jesus cumpre as Escrituras, justificando com isto o desígnio de Deus e fundamentando a apologética cristã. Além disto, Mateus, com uma insistência que lhe ê peculiar, apresenta Jesus como Mestre, o Docente por excelência (5,2.19; 7,29; 21,23; 22,16; 4,23; 9,35; etc.). Em Marcos, este termo tem o sentido geral que lhe é comum no mundo antigo; em Lucas, vê-se Jesus a ensinar os seus discípulos a rezar (Lc 11,1); em Joâo, o seu ensinamento refere-se sobretudo à sua pró­ pria pessoa (Jo 8,20.28). Em Mateus, o Mestre ensina principalmente a nova “justiça", ou seja, uma fidelidade nova à lei de Deus (5,19-20; 7,29; 15.9; 28.20); dela é o intérprete “escatológico", revestido da “autoridade” suprenm de Deus. a fim de apartar seus ouvintes das “tradições hu­ manas” cujos guardiães são os escribas (15,9) e ensinar-lhes uma nova perfeição (5,48; 19,21). Desde o início do evangelho, Jesus é Cristo, fi­ lho de David. Filho do próprio Deus. Na sua qua­ lidade de Filho de Deus e Cristo, Jesus é o “didata", o intérprete decisivo da vontade de Deus. Daí se compreende como o discípulo já o chame,

da mesma forma que um cristão,

“Senhor”, e que

Mateus omita os traços que em Marcos descre­ vem a cólera de Jesus, sua irritação ou ternura;

Cristo ostenta uma dignidade muito mais consis­

tente do que em Marcos (compare-se Mt 13,35 e

Mc 6,3;

Mt

15,33 e

Mc 8,4

...

).

Destinatários, data, autor. Para os antigos Pa­

dres da Igreja, a coisa era simples: o primeiro evangelho fora escrito pelo apóstolo Mateus “para os fiéis provenientes do judaísmo” (Orígenes). Muita gente ainda pensa assim, embora a crítica moderna atente mais à complexidade do proble­ ma. Diversos fatores permitem localizar o primei­ ro evangelho. Parece evidente que o texto atual reflete tradições aramaicas ou hebraicas: voca­ bulário tipicamente palestino (ligar e desligar:

16,19; jugo a carregar, reino dos céus

), expres­

... sões estas que Mateus julga inútil, explicar a seus leitores, diversos usos judaicos (5,23; 12,5; 23,5.15.23). Por outra parte, parece evidente que este evangelho não é uma simples tradução de um original aramaico, mas revela uma redação gre­ ga. Embora tipicamente impregnado de tradições judaicas, não se pode afirmar que sua proveniên- cia seja palestina. Comumente, estima-se que te­

nha sido escrito em Antioquia (Inácio refere-se a ele pelos inícios do século 11) ou na Fenícia, pois nestas regiões vivia um grande número de judeus. Finalmente, pode-se entrever uma polêmica con­ tra o judaísmo sinagoga! ortodoxo dos fariseus, tal como se manifesta na assembléia sinagoga! de Jâmnia pelos anos 80. Em tais condições, nume­ rosos são os autores que datam o primeiro evan­ gelho dos anos 80-90. quiçá um pouco mais cedo; não se pode obter total certeza a tal respeito. Do seu autor, nada diz o evangelho. A mais antiga tradição eclesiástica (Pápias, bispo de Hierápolis, primeira metade do século II) o atri­ bui ao apóstolo Mateus-Levi. Grande número de Padres (Orígenes, Jerônimo. Epifünio) seguem- -Ihe a opinião, e certos autores quiseram deduzir daí que se pode atribuir ao apóstolo uma primei­ ra forma, aramaica ou hebraica, do nosso Mateus grego. Mas o estudo do evangelho não confirma essas hipóteses, sem todavia invalidá-las radical­ mente. Por isso, na falta de conhecer com preci­ são o nome do autor, convém contentar-se com alguns traços delineados no evangelho mesmo: o autor se reconhece na sua obra. Versado nas Es­ crituras e tradições judaicas, conhecendo, respei­ tando, mas interpelando rudemente os chefes re­ ligiosos do seu povo, perito nu arte de ensinar e fazer “compreender" Jesus a seus ouvintes, insis­ tindo sempre nas conseqüências práticas do seu ensinamento, ele corresponderia bastante aos tra­ ços característicos de um letrado judeu feito cris­

tão, um

“dono de casa

que

tira do

seu

tesouro

coisas novas e velhas" {13,52).

Atualidade do primeiro evangelho. Desde o sé­

culo II, o Evangelho dc Mateus foi considerado como “o evangelho da Igreja", talvez devido às tradições que refere acerca da “Igreja" (16,18 e 18,18) ou, mais provavelmente, devido à riqueza e ordenação de sua documentação. Ainda hoje pode sê-lo, soh condição de não se lhe pedir o que não quer nem nos pode dar. Ao interpelar a sua Igreja, Mateus pouco se importa com repro­ duzir ao pé da letra a linguagem do tempo de Jesus; identifica-se tão bem com a voz de sua Igreja, da qual é intérprete, que dificilmente se consegue ouvir a “testemunha ocular". Por isso, em vez de recorrer a ele primeiramente para re­ constituir uma história do tempo de outrora, é mister ler nele o evangelho da atual comunidade de Mateus. A melhor maneira de escutá-lo será assumir a atitude do crente tal como Mateus o descreve. Outrossim, o leitor não se deve incomo­ dar com o caráter semitizante do seu estilo, por exemplo lastimarulo que ete se ache jungido a um pesado aparato de citações escriturísticas. Toma­ das essas precauções, Mateus fala muito adequa­ damente ao cristão de hoje. Evangelho da plenificação de Israel por Jesus, Mateus manifesta o enraizamento da Igreja em

sua tradição original. A Igreja não é um “novo Israel", mas o “verdadeiro Israel"; ela não suce­ de a Israel, mas indica a direção em que o Israel não convertido a Jesus deve avançar para alcan­ çar sua culminação e, em sentido oposto, ela deve descobrir neste Israel as suas próprias raízes. Ao omitir a identificação da Igreja com o Reino dos céus, Mateus recorda à Igreja de hoje sua verdadeira fisionomia. Sem dúvida, a instituição é necessária para que a comunidade de Jesus so­ breviva, mas ela é provisória: o Reino de Deus é, por si só, o que dá sentido à Igreja, situando-a no seu lugar próprio com referência a Deus e a Je­ sus Cristo, que agem na história dos homens. O cristão hodierno é convidado por Mateus a assumir a atitude dos discípulos do tempo de Je­ sus. Com eles, pode reconhecer o seu Senhor todo- -poderoso, e ouvir que se lhe lance em rosto a própria incredulidade, mas também receber a missão de anunciar a Boa Nova até os confins do mundo. Assim, atualiza-se a relação do crente com o seu Senhor Jesus. Num mundo em devir, o Ressuscitado manifesta a sua presença e convida os crentes a voltarem incessantemente aos ensinamentos que ele minis­ trou durante sua vida terrestre: a identidade en­ tre o Cristo ressuscitado e Jesus de Nazaré torna­ do presente pelo evangelho, tal é o núcleo do tes­ temunho de Mateus.

EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Gn 22.18

Gn 21,3-12;

25,26:2935;

ICr 1.34

Gn 38,29-30;

ICr 2.4.S.9;

R(

4.

I2.1K-I9

Rt

4.

13.17-22;

ICr 2,10-12

Rt 4,17.22

ICr 2.13-15

2Sm 12.24

ICr 3.10-14

Genealogia dc Jesus Cristo. (Lc 3,23-38). ' "Livro das origens dc Je­ sus Cristob, filho de David, filho de Abraão, Abraão gerou' Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou Judá e seus irmãos, JJuda' gerou Farés e Zara, de Tamar, Farés gerou Esrom, Esrom gerou Arâm, 4Arâm gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson, Naasson gerou Salmon, 5Salmon gerou Booz, de Raab, Booz gerou Jobed, de Rute, Jobed gerou Jessé, ‘Jessé gerou o rei David, David gerou Salomão, da mulher de Urias, 7Salomão gerou Roboão, Roboão gerou Abias, Abias gerou Asa. "Asa gerou Josafat, Josafat gerou Jorão, Jorão gerou Ozias, ’Ozias gerou Joatão, Joatão gerou Acaz, Acaz gerou Ezequias, ‘•Ezequias gerou Manasses,

1

Manasse's gerou Amon. Amon gerou Josias, "Josias gerou Jeconias e seus irmãos; sucedeu então a deportação para Babi­ lônia. l2Depois da deportação para Babilônia. Jeconias gerou Salaticl, Salatiel gerou Zorobabel, l3Zorobabcl gerou Abiud, Abiud gerou Eliaquim, Eliaquim gerou Azor, l4Azor gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquim, Aquim gerou Eliud, l5Eliud gerou Eleazar, Eleazar gerou Matan, Matan gerou Jacó, “Jacó gerou José, esposo de Maria de que nasceu Jesus, a quem chamam de Cristo. 170 numero total das gcraçõesd é, pois:

2Rs 24.

12*16:

2Cr 36.10;

Jr 27.20

ICr 3.17.19:

E*1 3.2

27.17.22

quatorze de Abraão a David, quatorze de David à deportação para Babilônia, qua­ torze da deportação para Babilônia até Cristo.

O anúncio a José.

'“Eis qual

foi a ori­

gem de Jesus Cristo'. Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José.

  • a. O prólogo ao evangelho compreende, depois da genealogia

de Jesus (1.1-17). cinco cenas, em que se alternam os sonhos dc

José (1.18-25; 2.13-15; 2,19-23) e as intervenções de Herodes (2,1-12.16-18). Duas tradições. uma referente a Herodes e a outra a José. parecem mutuamente independentes quanto ao estilo, à estrutura e ao conteúdo.

  • b. Lit. Livro da gênese de Jesus Cristo. Decalcando este título

sobre o que inicia a narrativa da descendência do primeiro ho­

mem {Eis a

lista da família de Adão, Gn 5.1). Mt sugere que

Jesus, iniciando o livro de uma nova gênese, toma o lugar de Adào (cf. Lc 338). Contudo, aqui a história relatada nâo é a da sua descendência, mas a da sua ascendência: em Jesus a história passada encontra o seu sentido. Quanto à relação da genealogia de Mt com a de Lc. cf. Lc 3.23 nota.

  • c. Gerar alguém é transmitir-lhe a própria imagem, a imagem

dc Deus (Gn 5.1-3). pelo sangue (genealogias lineares clássicas:

Gn 11; ICr 5,27-29) ou pela adoção (cf. Gn 10). Para apresentar a origem do homem que sabe ressuscitado e presente à sua Igre­ ja até o fím dos tempos (Mt 28.16-20), Mt recorre primeiro ao gênero literário bíblico das genealogias: Jesus tem suas raízes no povo eieito. Ao mencionar os nomes das quatro mulheres. Tamar, Raab. Rute. a mulher de Urias, Mt realça a presença de três

estrangeiras (lição de universalismo) e as condições irregulares em que conceberam (lição de graça).

  • d. Várias explicações são propostas para este numero quatorze,

repetido três vezes: I) eie seria a soma do valor numérico das três consoantes que. em hebraico, formam o nome dc David (D = 4, V = 6). donde 4 + 6 + 4 = 14; mas qual era a ortografia

deste nome. e Mt não atribui aqui igual importância a Abraão? 2) Conforme os cômputos apocalípticos da época. Jesus surge ao termo da sexta semana (3 x 14 = 6 x 7) da história sagrada que começa com Abraão, ou seja. na plenitude dos tempos. Mas esta explicação estribu-se artificialmente no algarismo 7. que não é mencionado por Mt. 3) Mais simplesmente. Mt verificou que a genealogia transmitida por Rt 4.18-22 (repetida em ICr 2.10-13) fornecia dez nomes, desde Farcs até David; acrescentando-lhe o

pai de Farés e os três patriarcas, dava quatorze desde Abraão até David. Ao reproduzir este número básico para os outros dois períodos, sob condição de omitir os nomes dos três reis entre Jorão e Ozias, Mt teria com isto encontrado um quadro bftlico para sua genealogia.

  • e. Lit. Ora. de Jesus Cristo tal fo i a gênese (cf. 1,1). O fato do nascimento legal, afirmado peia genealogia, torna-se agora

tema de uma namiiiva: José. filho de David. recebe Jesus em sua

Ora, antes de terem coabitado, achou-se ela grávida por obra do Espírito Santo. '*Josc, seu esposo', que era um homem justo6 c não queria difamá-la publicamen­ te, resolveu rcpudiá-la secretamenteh. “Tal era o projeto que concebera, mas eis que o Anjo do Senhor1 lhe apareceu em sonho e disse: “Jose', filho dc David, nâo temas receber em tua casa Maria, tua esposa: o que foi gerado nela pro­ vém do Espírito Santo, 2,e ela dará à luz i.25: um filho a quem porás o nome de Jesus,

U 'íVi

P°'s e

ele que

salvará o

seu

povo dos

ai 4,i2 seus pecadosJ”. 22Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor dissera

N «.K.iogr.

pelo profeta1*:13Eis que a virgem concebe­ rá e dará à luz um filho, ao qual darão o nome de Emanuel, o que se traduz:

"Deus conosaf " .24Ao despertar, Jose' fez o que o Anjo do Senhor lhe prescrevera:

Dt 2.7

acolheu em sua casa a sua esposa,“ mas nâo a conheceu até quando ela deu à luz um filho™, ao qual ele deu o nome de

J e s u s-

ü

u

2.21

i

:

n A visita dos magos. 'Tendo Jesus

l*- 2.4-7

nascido, em Belém da Judéia, no tem­ po do rei Herodes", eis que magos° vin- dos do Oriente chegaram a Jerusalém 2e perguntaram: “Onde está o rei dos ju­ deus que acaba de nascer? Vimos o seu astro no orientep e viemos prestar-lhe ho- N m 24.17 menagem”. JA esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado, e toda Jerusalém com ele. 4Rcuniu todos os sumos sacerdotes e os escribas do povo’, e inquiriu deles o

lc i a 3.1

linhagem. Sem duvida, essa narrativa é resultado de longa ela­

boração literária. Repetindo provavelmente uma narração apologética anterior (um sonho: cf. 2.13.19). na qual Deus evo­ ca. através das objeções de José. as calúnias concernentes ao nascimento virginal. Ml a orienta teologicamente, graças à cita­ ção de Is 7.14. que traduz a fé da Igreja na concepção virginal (cf. Ix: 1.26*38). Assim fazendo, dá-se resposta à questão levan­ tada pela genealogia: eis o modo pelo qual Jesus, embora sendo filho de uma virgem, foi filho de David.

  • f. Antes mesmo dc levarem vida comum, os jovens que sc

comprometeram ao casamento sâo considerados esposos: só o repúdio legal podia desligá-los do seu vínculo.

  • g. Será quc José se mostra justo por observar a lei que autoriza

o divórcio em caso de adultério? ou por mostrar-se indulgente? ou por motivo da justiça de que devia usar com uma inocente? ou por não querer ser tido como pai do divino Infante? A res­ posta a essas perguntas continua controvertida.

  • h. Nenhum texto do AT pode justificar o carátcr secreto desse

repudio: pelo contrário, para ser legal, ele deve ser autenticado por um certificado oficial (Dt 24.1). Donde a pergunta dc S. Jerônimo: “Como é quc José pode ser qualificado de justo, quando esconde o crime dc sua esposa?** A resposta para esta questão depende da tradução e da interpretação dos vv. 18 e 21; para poder agir justamente. José deve ter formado uma opinião a respeito da origem da criança: Filho divino ou filho adultcrino.

  • i. Apelativo que. como no AT. designa a intervenção do pró­

prio Deus (Gn 16.7.13; Ex 3.2). É mister não confundir Anjo Jo Senhor com os anjos. j. Segundo sua etimologia, a palavra Jesus significa “O Se­ nhor salva**. Duas interpretações da mensagem angélica são pos­ síveis: 1) O anjo revela a José a concepção virginal de Maria e lhe confia, além disso, a missão de dar à criança o nome dc Jesus, 2) O anjo revela que. embora Maria esteja grávida por obra do Espírito Santo, cabe entretanto a José um papel capital a desempenhar: conferir a esta criança a filiação davídica, dan­ do-lhe o nome.

  • k. Primeira das citações de cumprimento das Escrituras, me­

diante as quais Mt interpreta os acontecimentos mais marcantes da vida dc Jesus (1,22; 2.15.7.23; 4.14; 8.17; 13.35; 21.4; 27.9).

Todas elas apresentam uma forma substancialmente idêntica:

para que se cumprisse o que fo i dito pelo profeta. Acerca do verbo cumprir, cf. 5.17 nota.

  • I. A citação é feita conforme o texto grego de Is 7.14, exceto

quanto a darás o nome. que é traduzido por Mt darão o nome.

sem dúvida para adaptar a citação ao contexto: de fato. Jesus

não foi chamado Emanuel por José. Outra explicação: Mt segui­ ria uma tradição textual dc Is 7.14 atestada em Qumran (IQ Is") quc traz: chamarão.

  • m. Um filho. Na linguagem

bíblica, o verbo conhecer pode de­

signar as relações sexuais (Gn 4.1.17: cf. Lc 13 4 nota). A inten­ ção de Mt é frisar que Maria era virgem quando Jesus nasceu. Pode-se pensar na maneira como. no AT. Deus protegeu a gra­

videz de Sara e a de Rebeca até o nascimento de Isaac e de Jacó. pai do povo eleito (Gn 20; 26). Será que Maria leve. ulteriormcnte. relações conjugais com José? Nada se pode concluir deste texlo.

  • n. Herodes Magno nasceu por volta de 73 a.C. Filho de

Antípater. mordomo dc João Hircano II (63-40). em 47 foi no­

meado estratego da Galiléia. depois da Cclessíria. cm 41. tetrarca da Judéia. e cm 40, rei da judéia. pelo senado romano. Conquis­ tou Jerusalém em 37. exterminou os hasmoneus e recebeu de Augusto a Traconítidc. a Batanéia e a Auraníiide. Hábil político, grande construtor de cidades helenísticas. apoiou-se no partido dos fariseus: morreu em 4 a.C., sendo que o nascimento de Jesus pode ser fixado dois anos antes. Ao pôr o rei Herodes em con­ tato com Jesus. Mt prenuncia o conflito quc vai opor às autori­

dades oficiais o verdadeiro rei e salvador do seu povo (121;

2.2). Outro tema próprio de Mateus: aquele que as autoridades do povo rejeitaram é adorado pelas nações pagãs, representadas pelos magos.

  • o. A palavra grega magos assumia significados diversos: sa­

cerdotes persas, mágicos, propagandistas

religiosos.charlatàes ...

O grego bíblico só o emprega em Dn 22.10. Aqui. poderia designar astrólogos babilônios, talvez postos em contato com o messianismo judaico; nada indica quc sejam reis.

  • p. No orieníe. Outra tradução possível: ao surgir; a mesma

coisa em 2,9.

  • q. Herodes convoca os responsáveis oficiais pela vida religio­

sa do povo; os sumos sacerdotes são os membros das grandes

famílias sacerdotais de Jerusalém; os escribas são os intérpretes oficiais da lei. Esses dois grupos encontram-se reunidos contra

jo 7.42

lugar onde o Messias devia nascer. 5“Em

ta-te, toma contigo o menino e sua mãe,

Belém da Judéia, disseram-lhe eles, pois

é isto o que foi escrito pelo profeta: ‘£

e foge para o Egito; fica ali até nova

ordem, pois Herodes vai procurar o me­

 

tu,

te rra

d e

n ã o

é s

nino para fazê-lo perecer”. uJosé levan-

ICr

11.2

a

B e lé m , m en o s

d e

Ju

d á :

q

u e

a

p a s c en

Ju d ú , d a s ti

d e c e rto d is trita is

o

c h e fe

im p o rta n te

é

p o is ta rá

d e

s e d e s

s

a ir á

q u e m eu

I s r a e l,

p o v i f '. ' ’ En­

tou-se, tomou consigo o menino e sua

mãe, de noite, e retirou-se para o Egito’.

l!Ali ficou ate a morte de Herodes, para

 

tão Herodes mandou chamar secretamen­

que se cumprisse o que dissera o Senhor

te os magos, inquiriu deles a época exata

pelo profeta: D o

E g ito

c h a m e i

m eu filh o ".

em que aparecera o astro, “c os enviou a

Belém dizendo: “Ide informar-vos com

Massacre dos meninos de Belém. “En­

exatidão acerca do menino; e, quando o

tão Herodes. vendo-se iludido pelos

tiverdes encontrado, avisai-me para que

magos, foi acometido de grande furia e

também eu va' prestar-lhe homenagem”.

mandou matar, em Belém e todo o seu

9

A estas palavras do rei, eles se puseram território, todos os meninos dc até dois

 

2.2

a caminho, e eis que o astro que tinham

anos, segundo o tempo de que ele sc

 

visto no oriente' avançava à sua frente

havia certificado com os magos”. l7Então

até parar em cima do lugar onde estava

cumpriu-se o que fora dito pelo profeta

o menino. I0À vista do astro, sentiram

uma alegria muito grande. "Entrando na

Jeremias.

{*U

m a

voz

o u v

em

R a m á ,

Lc 2.16

casa, viram o menino com Maria, sua

p ra n to s

e

fe z - s e lo n g o

ir la m en to :

 

si 72.10.

lu5

mãe, e prostrando-sc, prestaram-lhe ho-

menagem; abrindo seus escrínios, ofere­

ceram-lhe por presente ouro, incenso e

é

R a q u e l

n ã o

e p o r q u e

q u e e r

q u e le s

c h o ra

s e r j á

s eu s filh

c o n s o la d a ,

n ã o

e x is t e n f.

o s

mirra1. ,2Depois. divinamente avisados em

2.22

sonho de que não tomassem a ir ter com

Volta do Egito. Fixação cm Nazaré.

Herodes, retiraram-se para sua pa'tria por

l9Dcpois da morte de Herodes, o Anjo

outro caminho.

do Senhor apareceu a José, no Egito, “ e

1.20:

lhe diz: “Levanta-te. toma contigo o

2,1213

A fuga para o Egito. '-'Depois da parti-

menino e sua mãe. e põe-te a caminho

Ex 4.19

1.20: da deles, eis que o Anjo do Senhor apa-

para a terra dc Israel; pois estão mortos

21(1 rece em sonho a José“ e lhe diz: “Levan-

os que haviam tramado contra a vida do

Jesus em 21.15; Mt associa com mais freqüência os sumos sa­ cerdotes aos anciãos do povo {263.47; 27,1 etc.). O sentido em ambos os casos é o mesmo: os verdadeiros responsáveis pelo drama são os chefes do povo.

  • r. Esta citação de Mq 5.1 esta combinada com 2Sm 5.2 dc

modo muito original: ela não corresponde exatamente ao texto do AT. nem hebraico nem grego. Põe na boca dos conselheiros de Herodes uma profecia sobre Belem. cuja importância é assim

ressaltada por Mt.

  • s. Acerca da expressão no oriente, cf. 2.2 nota. Este astro não corresponde aos astros que conforme o modo de pensar antigo,

nào raro. determinavam o destino dos heróis. Dc preferência, i

o astro que. da pane de Deus. designa Jcsus à adoração dos magos como rei messiânico (cf. lambem Nm 24.17).

  • I. Incenso e m ina. Riquezas e perfumes tradicionais da Ar;íbia

A expectativa messiânica judaica contava, para o rei esperado,

com a homenagem e as oferendas de todas as nações (cf. ls

60.6).

  • u. Relato litemríamente aparentado com os relatos “eloislas"

dos sonhos de Abimelec (Gn 20 3-7 ). dc Laban (31.24)

e. mais

particularmente, de Jacó na noite de sua partida para o Egito (46.2-4): n{ se encontra o esquema comando-cxecução (cf. 1.18

nota). Km sonho são recebidas as diretrizes de Deus que conduz o seu povo. Mesmo conceito que em At (16.9; 18,9:23.11). mas sem a nota de encorajamento como nos sonhos dc Paulo.

  • v. Construção semelhante à das narrações da fuga de Jacó (Gn

27.43-45). de Lot (Gn 19.15) ou de MoÍse's (Ex 2,15); leia-se sobretudo a narrativa de Jeroboào que foge para o Kgito. lugar tradicional dc refugio, conforme a Bíblia (1 Rs 11.40).

  • w. Tradução do texto hebraico de Os 11.1. cujo sentido local

Ml acertadamente conserva (cf. Os 12.14). O que Ml quer nâo

é justificar o objetivo do deslocamento, mas fundar na profecia o exílio dc Jesus evocando o Êxodo.

  • x. Relato provavelmente pre-mateano. de feitura semelhante a

Mt 22,7. talvez modificado pelo evangelista, cm vista da citação (2.18), com a especificação em Belém e todo o seu território: o

conjunto foi adaptado ao contexto pela menção aos magos. Quanto ao fundo, a história condiz perfeitamente com os ha*bitos dc Herodes.

  • y. Tradução livre do texto hebraico dc Jr 31.l5.com algumas

reminiscéncias do texto grego. Raquel, mâe dos israelitas do Norte, chora por seus filhos exilados. Belém: lugar tradicional do tumulo de Raquel; Ramá: lugar de reunião dos deportados que partiam para o exílio (Jr 40.1).

menino”. 2lJosc' levantou-se. tomou con­

sigo o menino c sua mãe. e entrou na

terra de Israel'. “ Mas ao saber que

Arquelau“ reinava na Judéia em lugar do

seu pai Herodes, teve medo de ir para la';

2.12 c, avisado divinamente em sonho, reti-

Mc i.w rou-se para a região da Galiléia. 2'E veio

u' morar numa cidadc chamada Nazaré, para

que se cumprisse o quc fora dito pelos

-se Joâo, o Batista. proclamandod no dc-

serto

da Judéia1': J"Convcrtei-vosr: o Rei­

Mt us

nado dos céus* aproximou-scT -'Dele é

que falara o profeta Isaías ao dizer: “U m a k 40.3

voz n h o

c la m a d o

n o S e n h o r,

d e s e rt o :

'P r e p a r a

s u

e n d ir e it a i

i

o

a s

c a m i­ v e r e ­

das1 ’ ".

''João usava um traje de pêlo de

camelo, com um cinto dc couro à volta

dos rins; alimentava-se de gafanhotos e

profetas: e le s e r á

ch a m a d o

n a zo reu ''.

 

de mel silvestre'.-'Então Jerusalém, toda

 

a Judéia c toda a região do Jordão

iam

o

João Batista (M c

1 ,2-6; L

c

3 ,1 - 6 ;

J o

ter com ele; 6faziam-se batizar1 por ele

1,1 9 - 2 3 ) . 'Naqueles diasc, apresenta-

no Jordão, confessando os pecados1.

  • z. Esta narrativa é certamente influenciada pela do exílio de

Moisés em Midian (Ex 4.19-23).

  • a. 4rquelau: Etnarca da Judéia. Sumaria e Iduméia. dc 4 a.C.

até 6 d.C. Destituído pelo imperador Augusto a pedido dc uma

delegação de judeus e samaritanos. foi exilado em Viena, nus Gaitas. Seu domínio foi entregue a um governador romano.

  • b. Nazoreu. Jesus é chamado assim nos Atos (cf. At 2.22

noia). Difícil é determinar o texto ao qual Mt quer referir-se. O

icrmo mio eqüivale ncm a nazareno, cidadão de Nazaré, nem a um membro da seila dos nazorenianos. Como em 26.71. Mt vé nesta palavra um equivalente de galileu (26.69). sendo que ali se pode compreender: aquele de Nazaré (21.11; cf. Jo 1.45; Al 1038). Nâo é impossível que Mt lenha querido evocar o Sumo

de Deus f)or excelência, o nazir (Jz 13.5; cf. 16.17; Mc

1.24).

  • c. Naqueles dias. No grego, esta expressão introduz habitual'

mente, como aqui. um novo episddio sem ligação cronológica com o que precede. — A narração da vida publica de Jesus é

introduzida, bem como cm Mc e Lc. por um tríptico: pregação de João (3,1-12). balismo de Jesus (3.13-17). tentação de Jesus

(4.1-11).

  • d. Proclamando. Em grego, kéryssein. donde deriva kèrygma

(querfgma). Do uso profano (proclamação do arauto em nome do rei: cf. Gn 41.43), o verbo passou para o domínio religioso (proclamação em nome de Deus: cf. JI 2,1). Usado aqui paru a pregação de João Batista, ainda o sera para a de Jesus (4,17). dos seus discípulos (10,7.27). da Igreja primitiva (At 8,5). Em Ml (exceto cm 11.1). o conteúdo da proclam;tção é brevemente lem­ brado (3.2-3; 4.17; 10.7) ou condensado nas expressões o Evan- gelhodo Reino (4.23; 935; 24.14) ou o Evangelho (26.13); noie- -sc que os verbos proclamar e evangelizar (= anunciar uma boa nova) podiam ser inais ou menos sinônimos no grego da Scptuaginta (cf. 2Sm 1.20; Is 40.9).

  • c. Judéia.

Expressão peculiar de Ml. que sd aparece aqui.

Região maldcfinida. situada entre a cadeia de montanhas que corre de Jerusalém a Hebron. e o Mar Morto ou o Jordão inferior (cf. 3.6. onde a atividade de Joào é localizada de modo mais preciso). Conforme mosira o v. 3. Mt se interessa menos pela exatidão topográfica do que pelo significado bíblico do deserto (cf. 4,1; 11,7: 14.13: 24.26). Nesta região, então pouco povoada, mas nâo desértica no sentido moderno da palavra, é que foram descobertos, a panir de 1947. os veslígios das instalações e dos escritos chamados “do mar Morto". Cf. ja /M c 2.29: “Muitos homens que buscavam a justiça e o direito desceram ao deserto para aí sc estabelecerem’*.

táncia (3,2; 4.17; 1120-21; 12.41). De preferência ao sentido inculcado pela etimologia grega (mudança dc mentalidade), é

preciso reconhecer nele o tema. capital no AT. sobretudo desde Jeremias, da mudança de orientação, da volta incondicional ao Deus da aliança. Ml equipara as pregações do Batista e de Jesus (32; 4.17). embora distinga seus ministérios quanto à finalidade

do balismo (3.11): conversão comprovada por atos (3.8 nota) ou recusa dos judeus de se converterem (1 1.2021; 12.41; cf. l-c 532; 15,7).

  • g. Em conformidade com o uso judaico que evita pronunciar

o nome dc Deus. Mt diz Reinado dos céus preferivelmente a Reinado de Deus (só Mt 12.28; 19.24; 2131.43). As palavras dos céus não designam um reino celeste, mas que Aquele que está nos céus (5.48: 6.9; 721) reina sobre o mundo. Instruído pelo

AT. Mi sabe que o reino sempre pertenceu ao Senhor (SI 22.29; 103.19; 145.11-13 etc.); mas ele entende anunciar que este Rei­ nado de sempre se aproximou dos homens na pessoa de Jesus.

A rigor, só se deveria traduzir por reino quando se quer designar

o âmbito (p. cx., entrar no

...

:

5.20; 7.21; 183; 19,23). Nos

outros casos, convém traduzir por reinado. Cf. Lc 4.43 nota.

  • h. Ou tornou-se próximo. Mesma expressão em 4.17 e 10.7

(mesmo verbo, traduzido também por chegar, em 21.1.34; 26.45-

46). Hoje cm dia. ela sc interpreta: l ) O Reinado está próximo, ou muito próximo (Jesus anuncia a vinda ou imipçào iminente c universal desie reino); 2) o Reinado está presente (cf. 12.28. com um outro verbo: já chegou até w s), sendo que esta presen­ ça se pode compreender de modos diversos: ou o Reinado já está plenamente realizado, ou eslá secretamente inaugurado na pes­ soa e atividade de Jesus, mas cm breve será manifestado a todos. De qualquer forma, a vinda do Reinado exige a conversão.

  • i. Ao citarem Is 4 0 3 . os sinóticos seguem o grego, que põe no deserto em conexão com vy>c e não com prefwai, como fa/ o

lexto hebraico. Substituem uma estrada para nosso Deus < = YHWHi por suas veredas, tomando com isso possível a aplicação do lexto ao próprio Jesus, proclamado pelos cristãos como *‘Senhor“.

j. João usa os trajes clássicos dos profetas (Zc 13.4). em par­ ticular de Elias (2Rs 1.8). que regressara na pessoa de João Batista (cf. Mi 17,9-13: Ml 323).

  • k. Batizar. Por ser oferecido a todos, conferido por Joào e re­

cebido uma só vez, este balismo difere profundamente das ablu- ções rituais dos essénios (quc eram cotidianas) e do batismo dos prosélitos (quc os ‘purificava" para permitir-lhes entrar cm conta­ to com os judeus): cf. Mc 1.4 nota. Graças à conversão à qual

  • f. Convertebvos. Este verbo e o substantivo correspondente está ligado, eie prepara para o batismo trazido por Jesus (Mt 3.1 f ).

aparecem, em Mt. em contextos que lhe conferem grande impor-

I. Cf.

Mc

15

nota.

Apelo de João à conversão (Lc 3.7-9).

7Como visse muitos fariseus e saduceus'"

batizará no Espírito

Santo

e

no

fogo1.

l2Traz

na mão a pá, vai joeirar sua cira e

que vinham ao seu batismo, disse-lhes:

12.34; 23,33 “ Crias de víboras, quem vos ensinou

u 21.23: como fugir da ira" que está para vir?

recolher o trigo no celeiro; mas o refugo,

ele o queimará

extingue"” .

110

fogo

que

não

se

"Produzi, pois, fruto que testemunhe da

cr 5.6: ci 3.6;

A p 6.6.17

8

vossa conversão”: ’ e não concebais dizer

Batismo de Jesus (Mc 1.9-11; Lc 3.21-

,

a vos mesmos:

-

Temos por pai Abraao 22; . cf. Jo 1,29-34). '-'Então chega Jesus,

.

,

33.37.39; p0js cu vos digo. destas pedras aqui Deus

vindo da Galiléia ao Jordão, junto a João,

J» U 3:

,^5'

R m 4.12

pode suscitar

filhos a Abraão. 10O ma­

para fazer-se batizar' por ele. ‘■'João quis

chado já está

pronto para cortar’’ a raiz

opor-se a isto: “ Eu é que preciso ser

7,i9;

'í / i s i

das árvores: toda árvore que não der bom

*™t0 serí' cortí*da e lançada ao fogo.

Batismo de água e batismo de fogo (Mc

Jo 1.26.

1,7-8; Lc 3.15-18; cf. Jo 1.24-28). " “ Eu

ai ij;3|'if|36

Al 1 3|’q44

11.3:

Jo i.i5;

Al 13.25

V0!i batizo

na1* água, em

vista

da con-

vcrs5° ;

mas aquele que vem

depois de

mim é mais

forte do que eur: eu

não sou

digno

c

tirar-lhe as sandálias*; ele

vos

  • m. Aqui, Mt aproxima fariseus e saduceus como cm 16.1.6.

11.12 e, em outro sentido. 22,34. Em outro lugar, aproxima os fariseus dos escribas (c. 23). Lc. no relato paralelo (3,7-9) só se refere às multidões. Tais diferenças explicam-se pelos ambientes difcFentes aos quais os evangelistas sc dirigem.

  • n. Neste anúncio do julgamento que se aproxima, a cólera

designa a reação do Deus santo diante do pecado (cf. Is 30, 27-33). Joào anuncia a chegada iminente do juiz escatológico.

mas Jesus apresenta-se como servo manso e humilde (12.18-21). aquele que. segundo Paulo, salva da ira (ITs 1.10).

batizado por ti, dizia, e és tu que vens a

mim*?” ,5Mas Jesus replicou-lhe: “ Dei­

xa, agora é assim que nos convém cum­

prir toda a

justiça*” . Então, ele 0 deixa

fazer. “ Logo que foi batizado, Jesus saiu

da água. Eis

que

os céus

se

abriram', e

ele viu o Espírito de Deus descer como

uma pomba2 c

pairar sobre ele, 17c

eis

que uma voz vinda dos céus dizia: “ Este

G n 22,2; Ml 12,18;

17.5

parece preferível admitir que o fogo não muda dc sentido do v. 11 para o v. 12, onde sc trata realmente de um castigo; o fogo representa pois. de preferência, a cólera (cf. 3,7 nota), correlativo necessário (cf. Rm 1,16-18) da participação na santidade de Deus

(a conjunção e acrescentaria então um matiz especial).

  • u. No AT e no NT. a messe é a imagem do juízo final, da

consumação dos tempos, por ser a ocasião em que o hom grào (ou a parte sadia do trigo) é separado do ruim (Jl 4.12-13; Is

27.12-13; Ap 14,14-16; cf. Mt 13,30 nola).

  • v. Para fazer aceitar que Jesus tenha sido balizado no meio dos

  • o. Lit. um fruto "digno" da vossa conversão; o mesmo adje­ pecadores, a tradição evangélica evoca uma palavra profética

tivo em Mt 10,10.11.13.37.38; 22,8. A palavra fruio, no singu­ lar. designa aqui todo o comportamento do homem, não uma particular manifestação dc piedade, ou de moral. A conversão requerida nâo é frulo da pregação do Batista. Ou João exige que a conversão real se manifeste no comportamento, ou denuncia a conversão dc seus ouvintes como ilusória, já que destituída de alcance real. A segunda interpretação é recomendada por 3,9.10. p, Lit. está posto contra a raiz.

  • q. O 1/ hebraico subjacente â preposição em não tem necessa­

riamente sentido locativo. mas pode ter um valor insirumental (cf. Ap 6.8; 19.21; compare Mc 5.25 e Mt 9.20); aqui pela água. pelo Espirito. r . Ao contrário do que sucede habitualmente nos cortejos ofi­ ciais. a personagem mais importante vem aqui em segundo lu­ gar. Só aqui e em 12.29, Jcsus e designado como o Forte, qua­ lificativo que. no AT (Dn 9.4; Jr 32.18). caracteriza Deus e, por volta dos tempos de Jcsus. o Messias esperado (cf. Salinos de Sahmãoi. Ao termo força Mt prefere autoridade 0 2 9 ', 9.6;

28.18).

  • s. Não calçar suas sandálias, mas /iVar-lhas: gesto caracterís­ tico do cscravo.

    • t. De forma menos externa que a água. o fogo simboliza a

ação de Deus

que purifica, depura (Ml 3 2: Zc 13,9; cf. IPd

1.7). Por isso. poder-se-ia compreender: “O Espírito Santo que depura como o fogo” (a conjunção e seria explicativa). Mas

(3,17): Jcsus. que se assimila aos pecadores, é de falo o Filho dc Deus.

  • w. O pmtesio de João Batista pretende ressaltar a superiorida­

de de Jesus, como anteriormente sua pregação mostrava a supe­ rioridade do batismo vindouro com relação ao batismo da água (cf. Jo 3,23-30).

  • x. Em Ml. a palavra justiça designa a fidelidade nova e radical

à voniade de Deus (5.6.10.20; 6.133; 21,32). João Batista e Jesus

sujeitam-se juntamente a um desígnio de Deus cujo significado há de ser revelado por todo o evangelho, quer Jesus se solidarize aqui com os pccadorcs para salvá-los, quer o batismo represente

o primeiro protesto público de Jesus contra o sonho judaico de um Messias triunfante (cf. 4,1-11. 11.2-6; 16,13-23).

  • y. Expressão que significa a união entre a terra e o céu (cf. Al

7.56; 10.11-16: Jo 1.51) e uma revelarão celeste (Is 63.19; Ez

l.l; Ap 4.1; 19,11). — Alguns mss. acrescentam: para ele.

  • z. Nenhuma interpretação segura pôde scr dada deste símbolo.

Provavelmente não sc trata dc uma alusão à pomba que voltou à arca de Noé (Gn 8,8-12). Alguns, estribados em tradiçòes

judaicas, identificaram a pomba com Israel. Para outros, ela sugere o amor de Deus (cf. Ct 2,14; 5.2) que desce à terra. Finalmente,

de acordo com as outras tradições judaicas que viam uma pomba no Espírito de Deus adejando sobre as águas (Gn 1,2). alguns estimam que ela evoca a nova criação que se efetua no batismo de Jesus.

 

é o meu Filho bem-amado*. aquele que

a

t e u

r e s p e i t o

o r d e m

a

s e u s

a n j o s

e

e l e s

me aprouve escolher11".

t e

c a r r e g a r ã o

n a

s

m

ã o s .

p a r a

e

v i t a r

q u e

 

c o n t u n d a s

o

p e ' e m

a l g u m

a

p e d r a 1” .''Je­

 
 

a

A

tentação dc Jesus1 { M c

1 , 1 2 - 1 3 ;

sus

lhe

diz: “Também esta' escrito: N â o

icor 10.9

L c 4 . 1 - 1 3 ) . 'Então Jesus foi conduzi­

p o r i ís

à

p r o v a

o

S e n h o r

 

t e u

D e u s *".*O

do pelo Espírito ao deserto, para scr ten-

diabo o leva ainda a uma montanha mui­

Hb 2.1»;

tado pelo diabo. 2Depois de ter

jejuado

to alta; mostra-lhe todos os reinos do

4,15 quarenta dias e quarenta noitesd, acabou

mundo e seu esplendor ve lhe diz: “Tudo

sentindo fome. -'O tentador' aproximou-

isso te darei, se, prostrando-te, me

4.6; se e lhe disse: “ Se e's o Filho de Deus',

adoraresk” . '“Então Jesus lhe diz: “ Reti­

27'40 ordena que estas pedras se transformem

ra-te, Satanás'! Pois está escrito: A o S e -

em pães” . *Mas ele respondeu:

“ Esta'

n h o r

t e u

D

e u s

a d o r a r a s

 

e

s o ' a

e l e

p r e s -

mi 2.1Í:

escrito: N ã o

s o ' d e

p ã o

v i v e r a

o

h o m

e m

,

t a r e /s

c u l t o " ' ” . "Então o diabo o deixou,

] ^

;l425.

m

a s

d e

t o d a

a

p a l a v r a

q u e

s a i

d a

b o c a

e

eis

que

se

aproximaram

anjos, e

o

Ap4.io-.

d e

D e u

.

serviam".

 

n.16:

5.i4 ;7 .ii:

JEntão o diabo o leva à Cidade Santa,

19.4.10:22.»

^ 52j- coloca-o sobre a cumeeira do Templo*

Jesus rctira-se

para

a

Galiléia

 

( M

c

mi

2 7 J3

*e

d i z ;

“ Se

és o Filho de Deus, atira-

1 , 1 4 - 1 5 ;

 

L c

4 , 1 4 - 1 5 ) .

,2Depois que sou-

14.3:

Ap 11.2:

21.2.10:

22.19

-te para baixo,

pois esta' escrito: E l e

d a r t í

be que João fora entregue", Jesus retirou- j’Cj6j],7'

4.3: 27.40

  • a. Estas palavras associam a terminologia de Sl 2.7. que repete

a antiga profecia de Natan em 2Sm 7.14 (tu es meu filho

...

)

à dc

ls 42.1 (meu bem-amado que me aprouve escolher), lista ultima passagem ainda nào apresenta o servo sofredor de Is 53. mas

aquele que não levanta a voz (42,2; cf. Mt 12,18-21). nâo vaci­ la, nem e'quebrantado (Is 42.4). Graças à fusão desses textos escriturísticos. Mt une em Jesus as duas figuras proféticas do filhô de estirpe real e do Servo.

  • b. Lit. em quem pus o meu beneplácito. Nâo se trata de uma

complacência arbitrária, mas de uma eleição visando a uma

missão: daí; escolher.

  • c. Esta narração deriva dc uma tradição que remonta, quanto

ao essencial, a Jesus (cf. Mc 1.12-13): de fato. a recusa do messianismo terreno, que é sua afirmação central, data do tempo pré-pascal. e o combate com Satanás sd chegou a termo com a morte e a ressurreição de Jesus. Esta recordação foi reassumida por Mt e Lc num estilo de controvérsia, mostrando a superiori­

dade dc Jesus sobre seu adversário. Af Jcsus aparece como o novo Israel tentado no deserto, como indicam as citações ex­ pressas do Dcutcronômio (83; 6.16; 6.13). Jesus recusa, não sò recorrer a forças espirituais para fins terrenos, como também intimar Deus a salvá-lo magicamente por um milagre e subme- ter-se a Satanás para dominar politicamente o mundo. Ao contrá­ rio de Israel. Jesus sai vencedor do combate: nào se deixou apartar dc Deus. Mt frisa o aspecto messiânico da Tentação, graças à dupla tipologia de Jesus, novo Israel e novo Moisés. Associada ao batismo, a cena pode fornecer tambem o sentido da existência cristi: em princípio, todo filho de Deus triunfou do demônio.

  • d. O numero quarenta (= os anos de uma geração) designa um

período bastante longo, cuja duração exata não se conhece (Gn 7.4; Ex 24.18). Aqui. este prazo talvez evoque o tempo que Moisés passou no alto do monte <Ex 34.28: Dt 9.9.18); prova­ velmente simboliza os 40 anos passados por Israel no deserto (Nm 14.34), aos quais já se referiam os 40 dias de caminhada de

Elias (I Rs 19.8).

  • e. Numerosos sào os tentadores que se apresentaram a Jesus

durante sua vida (16.1; 193; 22.18.35); a narrativa atual quer

fornecer o sentido dessas diversas tentações.

  • f. Ou seja: J d que e's o Filho de

Deus. A argumentação repete

a palavra celeste pronunciada no batismo (3.17).

  • g. Mateus cita Dt 8 3 segundo o grego; o texto hebraico

não tem tanta precisão:

Senhor".

...

de

tudo

o

que

sai da

boca do

  • h. A cumeeira. em grego diminutivo de uma palavra signifi­

cando a ala de um edifício, poderia também referir-se à cornija

superior de uma das grandes portas, donde Jesus teria precisado

atirar-se para manifestar a sua “messianidade" às multidões que

geralmente se apinhavam neste lugar.

  • i. Cf. Sl 91.11-12. citado conforme o grego. Como em Dt 8 3 .

essas palavras do Sl 91 nâo visam exatamente ao Messias, mas

a qualquer israelita fiel que espera o socorro so de Deus. A Satanás, que cita as Escrituras ao pé da letra, Jesus responde evidenciando o seu significado fundamental.

  • J. Dt 6.16. Lit. “Não tentaras o Senhor, teu Deus". Tentar a

Deus é um tema corriqueiro no AT (Ex 17,2-7; Nm 14,22; Sl

  • 78.18 etc.). em dois sentidos complementares: desobedecer-lh

para ver uté onde chega sua paciência ou. como aqui. recorrer à

sua bondade com objetivo interesseiro.

  • k. Lit. se. caindo (a meus pes), me adorares. Aqui. o

verbo adorar designa um ato de submissão total, dc conseqüên­

cias concretas e imediatas (cf. 2.2: 8.2; 9.18; Gn 37.7-10). Igual sentido em 28,17.

  • I. Retira-te: a mesma injunção será feita a Pedro em 16.23.

acrescida de uin apelo a segui-lo (retomado aqui por alguns

manuscritos, que acrescentam: atriís).

m. Dt 6.13;

cf.

Ex 34.14;

Dt 3239;

Is 43,10.

  • n. O verbo servir significa aqui servir à mesa. dar de comer

(cf. 8.15). Jesus recebe dos anjos, isto é. de Deus por seus

mensageiros, o alimento que recusou providenciar para si, obe­ decendo à sugestão de Satanás. Ele ensinará seus discípulos a

pedi-lo e a recebê-lo igualmente ao Pai (6.11).

  • o. Isto é. preso, aprisionado (cf. Lc 3,20). como é dito igual­

mente de Jesus (17,22; 26.2; 27.2.18.26). A escolha do termo e

a forma do verbo no passivo sugerem que. embora os atores do drama sejam os homens, quem o dirige segundo seus próprios desígnios é Deus (cf. At 428).

-scppara a Galiléia.,JA seguir, abando-

do logo as redes, seguiram-no*. 2llndo

jo 2.12 nando Nazara'q, veio morar em Cafar­

naum, à beira-mar', nos territórios de

Zabulon e dc Neftali, Mpara que se cum­

prisse o quc diz o profeta Isaías':

daí adiante, ele viu mais dois irmãos:

Tiago, filho de Zebedeu, c João, seu ir­

mão, no barco com Zebedeu. seu pai,

consertando as redes. Ele os chamou.

 

15 T e r r a

 

d e

Z a b u l o n ,

t e r r a

d e

N e f t a l i ,

 

“ Deixando logo seu barco e seu pai,

c a m

i n h o

d o

m

a r ,

seguiram-no.

A l é m

- J o r d ã o ,

 

Lc i.79

G

a l i l é i a

d

a s

N a ç õ e s !

 

Jesus c as multidões ( M c 1 , 3 9 ; L c 6 , 1 7 -

16 O

p o

v o

q u e

j a z i a

n a s

tr e v a s

 

1 8 ) . “ A seguir, percorrendo toda a Ga-

9.35:

v i u

u

m

a

g r a n d e

l u z ;

liléia, ele ensinava cm suas sinagogas, Ml 1,9

p a r

a

o

s

q u e

j a z i a m

n a

r e g i ã o

s o m

b r i a

proclamava a Boa Nova do Reino5 e

 

d

a

m

o

r t e

 

curava toda doença e enfermidade entre

 

l e v a n t o u - s e

u m

a

l u z .

o povo”. “ Sua fama espalhou-se por toda

I7A

partir de então, Jesus

começou1 a

a Síria, c trouxeram-lhe todos os quc

mc 6.55-56

proclamar:

 

“Convertei-vos:

o

Reinado

padeciam de toda a espécie dc doenças e

dos céus aproximou-se” “.

Chamamento dos primeiros discípulos

Jo 1.40.4!

( M

c

1 , 1 6 - 2 0 ;

L c

5 , 1

- 1 1 ) .

'"Andando

longo do

mar da Galiléia, viu dois

ao

ir­

mãos, Simão, chamado Pedro, e André,

tormentos: endemoninhados, lunáticos,

paralíticos; ele os curou. “ E grandes mul­

tidões o seguiram, vindas da Galiléia e mc 3.7-x

da Deca'pole, de Jerusalém c da Judéia. e

de além do Jordão.

seu irmão, que lançavam a rede ao mar:

m

O Sermão da Montanha ( M c

3 , 1 3 ;

eram pescadores. '*Disse-lhes: "Vinde em

^

L c 6 , 1 2 - 1 3 . 2 0 ) . ‘Ao ver as multi­

meu seguimento*, e farei de vós pesca­

dores de homens"".“ Eles então, deixan­

dões, Jesus subiu à montanha. Sentou-

-se,

c

seus discípulos

aproximaram-se

  • p. Este verbo cosiuma scr usado por Mt para indicar recuo

diante de um perigo (2.12.13.14.22; 12.15; 14.13; 15.21: cf. 14.13 nota).

  • q. Forma rara. melhor atestada aqui do que Nazaré. Esta indi­

cação supõe que a família de Jesus se instalara neste lugar (2.23).

O profeta de Nazaré (cf. 21.11) abandona sua pátria, como

abandona seus inimigos (16,4) ou Jerusalém (21.17).

  • r. Trata-sc do lago de Genesaié (cf. Lc 5,1; 8.22). O lugar

onde se erguia Cafarnaum é localizado comumentc a NO do

lago. hoje Tell Hum.

  • s. Para precisar não somente o lugar, mas o significado profé­

tico do ministério de Jesus desde o inicio. Mt é o unico que cita

Is 8,23-9.1. modificando-lhe. aliás, profundamente o texto. Es­

sas palavras caracterizam o conjunto do evangelho de Mateus:

na Galiléia. Jesus dirige-se às tribos do povo mais ameaçadas pela noite pagã. como fora Israel por parte dos assírios. Por isso mesmo, este ministério entra em contato com todas as nações (28.19). Ao passo que outros sc retiram ao deserto (por exem­ plo. os homens de Qumran ou João Batista) ou concentram sua atividade em Jerusalém. Jesus, o Emanuel anunciado pelo profe­ ta (ls 7.14; 8.8,10). escolhe a Galiléia das nações, quc Mt evoca no decurso do seu evangelho (cf. 2,22; 3.13; 4,23.25; 28.16).

  • w. A respeito da expressão pescadores dc homens, cf. Mc 1.17

nota.

  • x. No judaísmo do séc. 1. o verbo seguir designava habitual­

mente o respeito, a obediência c os numerosos serviços quc os discípulos dos rabinos deviam prestar a seus mestres. Ao aplicar este termo a Jesus e a seus discípulos. Mt lhe modifica o sentido em vários pontos: l ) já não é o discípulo que escolhe seu mestre:

o chamamento vem de Jesus e é geralmente atendido por uma obediência imediata (4.22; 9.9); 2) os discípulos seguem Jesus nào só como ouvintes, mas como colaboradores, testemunhas do

Reino dc Deus. obreiros da sua messe (10.1-27). da mesma forma como entre os zelotes os discípulos não se ligam só ao ensino do mestre, mas à sua pessoa: 3) Mt revela amiude quc as multidões seguem Jesus, indicando com isto que elas procuram vagamente nele o mestre que não encontraram nos rabinos oficiais da sina­ goga (425; 8.1; 12.15; 14,13 etc.): 4) num segundo período. Jesus procede a uma crítica deste seguimento, mostrando que ele significa muito mais do que a princípio os discípulos ou as multidões tinham imaginado; seguir Jesus é nada menos quc tomar sobre si a sua cruz (1624).

  • y. Lit. o Evangelho do Reino, expressão peculiar a Mt (935;

24.14). Ela designa, quer o anuncio da chegada deste reino ou

  • t. A

formula A partir de

...

que. além daqui. s<$ sc depara em

reinado de Deus (cf. 3 2 nota), quer este anúncio com todas as

16.21. quer ressaltar, não só. num sentido mitigado, que Jesus

instruções práticas de Jesus que o evangelista nele inclui, isto é.

pôs-se a

,

mas que solenemente inaugura o ministério da sua

todo o evangelho mateano.

pregação; Jesus vai aprt*\entar-se em palavras (5.1-7.29) e em atos (8.1-9,34).

  • u. Cf. 3.2 nota.

  • v. Lit. Vinde ap*is mim. Expressão análoga: 16.23-24.

  • z. Além do anuncio do Evangelho, as curas significam quc o

Reino dc Deus está em açào (cf. 10.1-7.8; 11.5 nota). Por meio

da palavra ioda. Mt frisa o alcance universal do compodamenio

de Jesus: talvez aluda a ls 53.4, citado cm

Mt 8.17.

dele". 2E,

tomando

a

p a la v ra \ ele

os

* Felizes os que agem em prol da paz;

ensinava':

eles serão chamados filhos de Deus.

As bem-aventuranças ( L c

6 , 2 0 - 2 6 ) .

10Felizes os perseguidos por causa da

justiça: deles e' o Reino dos ceus.

 

' “Felizes'1 os

e' o

Reino

pobres de coração': deles

"Felizes sois vós quando vos insultam,

dos ce'us.

vos perseguem e mentindo dizem contra

si 37.ii

4 Felizes os

mansos': seu quinhão será a

vós toda a especie de mal por minha

161X3“.

causa. l2Alegrai-vos e regozijai-vos, por­

s Felizes os que choram*1: eles serão

que grande é a vossa recompensa nos

consolados,

ce'us: foi assim, com efeito, que perse­

si 42,3

6 Felizes os que têm

fome

e

sede da

guiram os profetas que vos precederam*.

justiça1: eles serão saciados. 7 Felizes os misericordiosos: eles

O

sal

e

a

luz

( M

c

9 5 0 ;

4,21;

L c

14,

13

alcançarão misericórdia,

34-35; H ,1 6 ; 18,33). l3“ Vós sois o sal da

si 24.2:

* Felizes os corações puros1: eles verão a

terra1.Se o sal perde seu sabor, como tor­

5U2

Deus.

nara' a ser sal? Não serve mais para nada;

IR-* 5.26:

Lc 1.79:

Hb 12.14;

Tg 3.IH

IPü 3.14

10.22:

IPd 4.14

2Cr 36.16

At 7 32 :

Hb It.32-38:

Tg 5.10

  • a. Como Lc (6.20-49) e valendo-se de um material muitas

vezes semelhante. Ml reuniu sentenças de Jesus num discurso inaugural que expõe a nova justiça cristã. Depois das Bem- -aventuranças. que servem dc exórdio (53-12): (I) a justiça per­ feita (enunciado geral: 5.13-20, seguido de cinco ilustrações:

5.21-48). (II) as boas obras (enunciado geral: 6.1. seguido de

três ilustrações: 6.2-18). (!!!) três admoestações. cada qua! se­ guida de uma ilustração (7.1-12: 7.13-20; 7*21-27). Situado no conjunto do Evangelho, o Sermão da Montanha não se apresenta como a caria magna do cristianismo: faltam-lhe. entre outras

coisas, a Cruz. a Eucaristia, a Igreja, o Espírito. É um apelo dirigido por Jesus a quem o queira seguir.

  • b. Lit. abrindo a boca.

  • c. Ensinava. O Sermão da Montanha é apresentado por Mt

como uma didakhê, ensino que supõe a proclamação anterior do

Reino.

  • d. Feliz.es. Exprimindo-se conforme uma fórmula clássica da

Bíblia, usada para felicitar alguém por um dom concedido (Mt 13.16: 16.17) ou pam anunciar a felicidade a determinada cate­ goria dc pessoas (Mt 11.6: Lc 1! .28; cf. Lc 6.20 nota). Jesus vem declarar quem são os que se encontram na situação mais propfcia para receber o Reino de Deus. — Dois tipos de bem- -aventuranças foram aqui agrupadas por Mt e Lc. O primeiro (Mt 53-9) gira em torno da pobreza e do comportamento do homem: o segundo <5.10-12). que concerne à perseguição, pode ter sido pronunciado em circunstâncias diferentes, provavelmen­ te durante a segunda parte da vida dc Jesus. — As duas formu­ lações das bem-aventuranças. por Mt e por Lc. poderiam ajudar a remontar ao estádio profético, o de seu pronunciamento por Jesus em pessoa. Neste estádio. Jesus não diz quais são as vir­ tudes necessárias para entrar no Reino; apresenta-se como Mes­ sias enviado para os pobres, os preferidos de Deus (cf. Mt 11.15). aqueles que. cá na terra, não são avantajados c dependem só de Deus. Ao passo que Lc contrapõe os pobres aos ricos como se contrapõe o céu vindouro à tenra presente. Mt mostra que a pobreza interior é a condição necessária para entrar no Reino. Todavia, essas duas interpretações só assumem seu verdadeiro sentido se marcarem uma relação com Jesus que enuncia a pa­ lavra e que se doa.

  • e. Lit. pobres peto espírito ou em espírito. Este espírito não é

o Espírito Santo, ncm a inteligência, mas. como o coração do v. 8. o centro e a totalidade da pessoa: O Senhor está próximo dos corações quebrantados e .«f/m os espíritos abatidos (Sl 34,19).

Esses pobres pertencem à grande família dos que as provações materiais e espirituais acostumaram a sd contar com o socorro

de Deus: Sou pobre e miserável, o Senhor pensa em mim

...

(Sl

40.18). Juntamente com os milagres, a evangelização dos pobres é o sinal dado por Jesus aos emissários de João Batista para reconhecerem nele o Messias esperado (Mt 113).

  • f. Assim como os pobres, os mansos o são menos por tempe­

ramento do quc pela dura necessidade da sua condição social e

religiosa. Jesus se apresenta como um deles (Mt 11.29; 213): o discípulo dc Cristo deve asscmelhar-sc a ele (2Cor 10.1; Gl 5.23: Tt 3.2; IPd 3.!6). — Alguns manuscritos invertem os versículos 4 e 5.

  • g. Vale dizer a Terra Prometida, outra expressão do Reino dos

céus: Os humildes possuirão a terra (Sl 37,! I).

  • h. Lit. os que estão de luto. Não os melancólicos, nem as

vítimas da opressão social quc. em virtude da !ei de compensa­

ção. terão na outra vida uma contrapartida, recebendo o Messias (Lc), mas os que ainda esperam a Consolação definitiva (Ix 2.25). a unica que libertará os homens dc sua aflição (cf. Is

61.2).

Í. Justiça. Com toda a verossimilhança, não sc trata da justiça

de Deus (isto é. da salvação escatológica. pois Jesus nunca acon­ selhou mais do que a espera vigilante), nem da justiça social sobre a terra, mas da justiça da prática, da vida cristã sempre mais perfeita, quc é a fonte da justiça entre os homens (cf. 5.20 nota). j. Lil. os puros quanto ao coração. Como a pobreza do v. 3. esta pureza é a do cerne mesmo da pessoa, designado pela pa­ lavra espírito (traduzido por coração) no v. 3. Não se trata de uma perfeição moral, mas de uma retidão pessoal que os evan­ gelhos designam também com o termo simplicidade (cf. 6.22 nota e 15.11 nota. Quanto ao sentido bíblico da palavra coração,

cf.

Lc

1,66 nota).

  • k. Depois da bem-aventurança referente aos perseguidos em

geral (v. 10: “Felizes" sem verbo), vêm a aplicação aos discí­ pulos (v. II: “Felizes sois vós"; v. 12 “alegrai-ww") e a recor­

dação dos perseguidos dc outrora, os profetas, de quem são os continuadores (cf. Mt 10.41; 13.17; 23,24).

  • I. O sal torna os alimentos saborosos (Jó 6:6); por ter a pro­

priedade de conservá-los (Br 627). acaba significando o valor duradouro de um contrato, ta! como uma aliança de sal (Nm 18.19). pacto perpétuo (2Cr 133). Mateus interpreta a palavra de Jesus (Lc 1434; Mc 930). afirmando que o crente deve

jogam-no fora c é calcado aos pés pelos

Jo K.12:

9.5:

PI 2.15

Mc 4,21:

U

«.16;

11.33

homens.

l4“ Vós

sois

a

luz

do mundo. Não se

pode esconder uma cidade situada num

monte. l5Quando se acende uma lâmpa­

da. não é para pô-la debaixo do alqueire,

mas sobre a luminária, e ela brilha para

todos os que estão na casa™. “ Assim tam­

ET 5.K.9:

IPd 2.12

bém brilhe a vossa

luz aos olhos

dos

homens, a fim de que, vendo as vossas

boas obras", eles glorifiquem o vosso Pai

que esta' nos céus.

Jesus e a lei. l7,‘Não penseis que vim ab-

3.15:

-rogar a Lei ou os Profetas: não vim

Rm 3,31

ab-rogar, mas cumprir". l8Pois em verda-

u -16.17: de eu vos declaro, antes que passem o

2L3J céu e a terra, não passarão da lei um i

nem um ponto do P , sem que tudo haja

sido cumprido11. '"Portanto, no Reino dos

Tg 2.io céus. aquele que transgredir um só des­

ses mínimos mandamentos e ensinar os

homens a fazer o mesmo será declarado

o mínimo; pelo contrario, quem os puser

em pratica e os ensinar, no Reino dos

céus sera declarado grander. “ Pois eu vos

digo: sc a vossa justiça" não ultrapassar

a dos escribas e dos fariseus, de modo

algum entrareis no Reino dos céus.

Homicídio e reconciliação ( M c 1 1 , 2 5 ;

L c 1 2 5 7 - 5 9 ) . 2l“Ouvistes que foi dito aos

antigos1: N ã o

c o m e t e r á s

h

o

m

i c í d i o aquele

que cometer um

homicídio respondera'

Ml l9.IXp;

Rm

13.9:

Tg

2 .11

por ele no tribunal*. “ Pois eu vos digo:

todo aquele que se encolerizar contra seu

u o

3.15

irmão respondera por isso no tribunal;

aquele que disser a seu irmão: ‘ Imbecil"'

estará sujeito ao julgamento do Sinédrio';

aquele que disser: ‘ Louco5’ sera' passível

da geena de fogo*. “ Portanto, quando

fores apresentar a tua oferenda ao altar,

se ali te lembrares de que teu irmão tem

algo contra ti, Mdeixa a tua oferenda ali,

diante do altar, e vai primeiro reconci-

liar-te com o teu irmão; depois, vem apre­

sentar a tua oferenda. 2SPõe-te logo de

acordo com teu adversário*, enquanto es-

conservar e (ornar saboroso o mundo dos homens em sua aliança com Deus: senão, já nào serve para nada, c os discípulos mere­ cem ser jogados fora (cf. Lc 1435).

  • m. No Oriente, a casa das pessoas humildes consta de uma peça.

  • n. A saber, aquelas de que o Sermão da Montanha apresenta alguns exemplos.

    • o. Cumprir. O verbo grego plèroun pode significar realizar (p. uma profecia: 1.22 nota) ou encher (uma rede: 13.48: uma

ex ..

medida: 2332). O contexto do Sermão da Montanha convida a ler aqui o segundo sentido. Jesus não sò se propõe a cumprir a profecia, mas quer levá-la à perfeição, e com isso dar o verda­ deiro sentido ao código de vida religiosa em que a lei então se transformara; com isso. faz-lhe alcançar uma perfeição radical e recobrar sua simplicidadc original (cf. 5.20).

  • p. Lit. nem um iota, nem o mínimo traço. No alfabeto, o iod

é a menor letra; o traço talvez designe a ponta ou barra que

distinguem duas letras entre si (um pouco como o G do C). De qualquer forma, o sentido é que nenhum pormenor da lei deve ser menosprezado.

  • q. Expressão difícil: provavelmente nâo signifique até que eu

lenha cumprido tudo na cruz. nem até que todos os mandamen­ tos tenham sido cumpridos por meus discípulos, mas até o fim do mundo. A lei. revalidada por Jesus, guarda toda a sua auto­ ridade.

r.

As expressões o mínimo ...

grande nào exprimem uma idéia

de hierarquia no Reino. Com estas expressões, os rabinos res­ pectivamente desaprovavam ou aprovavam os diversos compor­ tamentos dos homens.

  • s. Como em 5,6.10. esta justiça é a fidelidade dos discípulos

à lei de Deus. fidelidade nova, tomada possível e urgente pela

interpretação autorizada (7.29) que Jesus dá desta lei. A mesma palavra, com o mesmo sentido: 3.15; 5.6.10; 6.1.33; 2132.

  • t. antigos. No plural, a palavra aqui empregada por Mt

{arkhuioi) designa os que nos precederam, os antepassados, que

se encontram na origem da tradição (cf. Lc 9.8.19); nào se deve

confundi-la com presbvteroi (cf. Mt 16,21; 21,23 etc.), que de­

signa os anciãos no sentido de notáveis.

  • u. O que o Decálogo proíbe é o homicídio deliberado, p. ex.

a vingança pessoal (cf. Ex 20,13; Dt 5,17).

  • v. Tribunal. Jesus resume as punições enunciadas na lei, sem

ater-se à sua formulação literal (Ex 21.12; Lv 24.17; Nm 35.16-

18; Dt 17.8-13). Mais exatamente. Jesus nâo diz que tal homem é passível de morte; proclama que ele está sujeito a um julga­ mento de condenação, que é o juízo de Deus (cf. Rm 132).

  • w. Lit. raká, provável transcrição da injuria talmúdica reiqà

(imbecil, insensato

...

):

cabeça oca. desmiolado.

  • x. O grande Sinédrio de setenta e um membros, sediado em

Jerusalem. cm oposição aos simples tribunais (cf. 5.21-22). de vinte e três membros, espalhados pelo país (cf. 10,17 nota).

  • y. Louco. Injuria de per si bastante banal, mas que. ao que

parece, podia assumir entre os judeus um sentido muito mais

grave e visar a uma rebelião contra Deus (cf. Dt 32,6; (Cor

4.10).

  • z. A geena, vale de Jerusalém onde sc praticaram em honra dc Moloc holocaustos de crianças (2Cr 283: 33,6); profanada por

Josias (2Rs 23,10), talvez tenha sido transformada em lixo pu­

blico. Em todo caso. tomou-se símbolo de maldição (Jr 731; 19,6), e até de maldição eterna, na literatura apocalíptica. É neste

ultimo sentido que o NT a ela se refere (10 vezes em Mt).

  • a. Aplicação catequética feita por Mt de

uma

parábola

escatológica (Lc 12,57-59). Esta mostrava a necessidade de converter-se antes que fosse tarde; Mt quer dar a entender que é mister nào estar irado com um homem ao comparecer diante do Deus-juiz. sob pena de condenação eterna.

 

tás ainda a caminho com e le ; não acon­

u m

c e r t i f i c a d o

d e

 

r e p ú d i< f i .} *Eu .

porém,

 

teça que esse adversário

te entregue ao

vos digo: quem quer que repudie sua

ju iz , e o ju iz , ao policial, e sejas lançado

mulher — exceto em caso de união ilíci­

iK.34-35

na cadeia. “ Em

verdade, eu

te digo;

de

ta1* — expõe-na ao adultério; e se alguém

lá não sairás enquanto não tiveres pago

sc casa com uma repudiada, é adúltero.

o último tostãoh.

 
 

O ju ra m en to . •'•'"Ouvistes ainda que foi

 
 

A d u lté rio

c e scân da lo

( M

t

1 8 , 8 - 9 ;

M

c

dito

aos antigos: N ã o j u r a r á s ,

m as

c u

m -

9 , 4 3 . 4 7 - 4 8 ) .

^ “ O uvistes que foi

 

p r ir á s

o s

t e u s

j u r a m

e n t o s

p a r a

c o m

o

Ml l9.1Xp:

'

 
 

.

 

c o m

e t e r á s

a d u l t é r i o '. “ Pois eu

dito: N ã o vos digo:

 

S e n h o r J.

wEii.

porém,

vos

digo

que

não

Tg 5.12

qualquer um que olha para uma mulher0

jureis, em hipótese alguma: nem p e l o

c é u ,

Rm 13.9;

cobiçando-a, já cometeu

adulte'rio

com

que

é o

tr o n

o

d e

D

e u s ,

3Snem

p e l a

t e r r a ,

is 66.1:

Te2,u

ela, em seu coração.

 

que

é

o

e s c a h e l o

d e

s e u

s

p é s ,

nem p o r

2^;22:

“ “ S e

o teu olho direito te leva à queda',

arranca-o e atira-o longe de tir: pois é pre­

J e r u s a l é m

R e i .

que -“ N ão jures

,

é a

C

i d a d e

d o

g r a n d e

tampouco

por tua cabe­

si 4x3

ferível para ti que um só membro teu

ça,

pois

não podes fazer um só cabelo

pereça a que seja lançado na geena teu

ficar branco ou preto. 37Q uando falardes,

corpo

inteiro.

“ E

se tua

mão

direita te

dizei

‘ S im ’

ou

‘ N ão,J: todo

o

resto

vem

2Cof

ih.k-9;

leva à queda, corta-a e lança-a

longe de

do

M aligno.

u 7 '20

Mc 9.43-47

tj.

e- preferi'vel

para

ti

que

um

 

membro teu

pereça

a

que

parar

na

O

ta lião

(

L c

6 , 2 9 - 3 0 ) .

“ “ O uvistes que

 

geena teu corpo

inteiro.

 

foi dito:

O l h o

/w r

o l h o

e

d e n t e

p o r