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(P164)

O Planeta
Gigante
Autoria
KURT BRAND

Tradução de
S. PEREIRA MAGALHÃES

Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Bombardear o sol do gigantesco planeta
Hércules é a única chance para a Galáxia!...

Como os mundos da Galáxia, com seus bilhões de sóis e planetas, são


realmente muito pouco conhecidos, não obstante os milhares de aparelhos tipo
Explorer, que há muitos anos se dedicam à tarefa de descobri-los e de estudá-los,
eles mostram claramente os acontecimentos dos anos 2326 e 2327. Embora os
terranos, sob a direção do Grande Administrador Perry Rhodan, venham
desenvolvendo há bastante séculos a Cosmonáutica — primeiro com as naves de
transição, depois com o sistema kalupiano — foi, entretanto, no ano 2326 que,
por uma infeliz coincidência, descobriu-se a existência dos terríveis gafanhotos
córneos e dos vermes do pavor. Especialmente estes últimos, que representam um
grande perigo para toda a Via Láctea, pois dispõem de armas terríveis, sendo,
ainda, praticamente invulneráveis.
Comandos especiais terranos — cientistas, soldados, especialistas e
mutantes — passaram por grandes decepções no grande afã de desvendar os
mistérios dos vermes-monstro, até que finalmente quatro especialistas da USO, o
chamado “Corpo de Bombeiros Galácticos”, organização dirigida pelo Lorde-
Almirante Atlan, conseguem entrar em contato com um dos espécimes do verme
do pavor no planeta Euhja.
Este, a muito custo, revela o segredo de sua raça aos quatro agentes e faz
aliança com os terranos contra seus senhores, os “benévolos”, dominadores do
“Segundo Império, na parte leste da Via Láctea.
Entrementes, pouca coisa se sabe sobre as razões de os “benévolos” estarem
na dependência dos vermes-monstro, que não têm progresso tecnológico algum.
Mas resta ainda muita coisa a ser esclarecida. E quem o descobre é o genial Tyll
Leyden, com sua equipe científica na terceira lua do gigantesco planeta Hércules,
O Planeta Gigante...

Personagens Principais:

Tyll Leyden — O fleumático astrônomo e físico, para quem a hora do café


era sagrada.
Sascha Populos — Um grande técnico em gravitação e também espião.
Gastão Robet — O astrofísico que acreditava haver fantasmas no Planeta
Gigante.
Mungs, Players e Mussol — Colaboradores de Tyll Leyden.
Perry Rhodan — O Grande Administrador, que recebe 17 queixas contra
Tyll, mas não toma conhecimento.
Reginald Bell — Homem impulsivo, não tolera pessoas com “preguiça” de
falar.
1

A Explorer-777 estava iniciando a aterrissagem na terceira lua do único


planeta do Sistema Solar EX-2115-485.
Este planeta fora denominado “Hércules”, e nome mais adequado que este
não havia. Hércules era o maior de todos os planetas conhecidos. Seu diâmetro
tinha a “bagatela” de 2 213 000 quilômetros. Possuía dezessete luas, e girava em
torno de um enorme sol amarelo. Todas estas luas possuíam oxigênio, eram do
tamanho da Terra, como se esperassem que os homens as viessem colonizar.
Todos que estavam na central de comando da Explorer-777 olhavam
encantados para a tela panorâmica. O gigantesco Planeta Hércules tomava boa
parte da tela.
— Dia e noite, paira ameaçador este gigante sobre Impos.
O primeiro-oficial não esperou resposta à sua observação e continuou:
— Com o tempo, ninguém mais vai agüentar isto. A gente tem que estar
sempre com medo de que o troço despenque na cabeça de todos aqui.
O que o primeiro-oficial falou, todos já estavam pensando.
A Explorer pousou em terra firme. Ninguém podia perceber que a nave
esférica acabava de percorrer 52.419 anos-luz. A grande rampa de desembarque
desceu por entre os suportes telescópicos, e a comporta se abriu. Enormes cargas,
presas em chapas de guindaste antigravitacional, flutuavam rumo ao solo,
comandadas por robôs. E as máquinas desciam indiferentes aos olhares de
centenas de homens aglomerados próximo da grande nave.
Era o comando de pesquisa que a Explorer-2115 deixara na terceira lua
deste sistema, “Impos”, nome que deram ao satélite, cuja denominação já
constava em todos os catálogos siderais.
Os técnicos tiveram que esperar pacientemente meia hora, até que o
comandante da nave de exploração veio cumprimentá-los. O Major Guara sabia
que os cientistas não estavam ali para ouvir grandes tiradas de oratória. Queriam
somente saber o que a Explorer-777 trouxera para Impos. Guara chamou cada um
dos chefes de equipe e lhes entregou cópias dos conhecimentos da carga.

— Mister Leyden! — O Major Guara estava de pé na plataforma de um dos


apoios telescópicos. Por ser o mais alto de todos entre o numeroso grupo de
cientistas, podia ver cada um do lugar onde estava. Sua chamada não foi
respondida. Repetiu o nome e Mister Leyden não apareceu.
— Leyden não é chefe de equipe — disse alguém.
Guara não se deu por contente.
— Tenho que falar com ele! Onde posso encontrá-lo?
Do meio do grande grupo, falou um técnico:
— Nesta hora, mais ou menos, deve estar tomando café. Mas não vale a
pena incomodá-lo, não vai se apressar por isso.
Na sua longa experiência de comandante de naves de exploração, Guara
sabia que cientistas são sempre homens diferentes, singulares, mas desta vez não
tomou este fato em consideração.
— Onde é que está tomando café? Oito casas de material plástico, de
construção achatada, estavam num pequeno planalto, a menos de um quilômetro
da espaçonave. Ali se abrigavam os cientistas, já há três semanas, aliás, com
muito pouco espaço para se moverem.
Ao lado de mister Mungs, um dos cientistas do comando de pesquisa, o
Major Guara se dirigiu para a segunda casa, e seu guia o acompanhou até a porta
do refeitório. Tyll Leyden, físico e astrônomo, estava sentado, calmo, à mesa do
refeitório.
A chegada da Explorer-777 não o impedira de tomar sua primeira refeição
normalmente. Olhou para a porta e respondeu com um movimento da cabeça à
saudação do major, cortando ao meio uma torrada onde passara queijo.
— Sou o Major Guara! — apresentou-se o comandante da espaçonave de
exploração. — Tenho uma mensagem para lhe transmitir, Mister Leyden.
O físico e astrônomo apontou-lhe uma cadeira com a mão esquerda,
enquanto com a direita metia na boca a fatia de torrada com queijo. Guara,
naturalmente, ficou perplexo. Fosse outro, teria perguntado: “qual é a mensagem
que o senhor me traz?”, mas Tyll Leyden era diferente — não disse uma palavra!
Guara se sentou.
— O senhor já tomou café, major? — Leyden continuava comendo com a
maior calma do mundo.
— Obrigado — respondeu o major, desajeitado. Seus olhos começavam a
tremer e a piscar. Não estava acostumado a um procedimento tão pouco
respeitoso.
— Nem mesmo um cafezinho? Está mesmo muito bom.
Guara olhava para o cientista que o acompanhara, sem saber o que fazer.
Mas Mungs não mostrou nenhuma reação. Conhecia bem Leyden.
— Mister Leyden, estou chegando da Terra — disse o major, frisando bem
cada palavra.
Tyll Leyden duplicou a porção de queijo em cima da torrada, fazendo-o com
um capricho artístico.
O major fervia por dentro, mas se dominou e apenas perguntou:
— Mister Leyden, interessa-lhe, por acaso, saber que lhe trago importante
mensagem do “Grande Administrador”?
Devia interessar a Leyden certamente, pois o confirmou com a cabeça. Não
podia falar e não queria mesmo, porque ninguém fala de boca cheia. Seus olhos
claros, porém, não mostravam nenhuma excitação. Olhou para o relógio.
— Daqui a oito minutos, estou de novo em serviço, major. Não quer mesmo
um cafezinho?
O que o Major Guara pensava nesse momento de especial sobre os civis e
cientistas, não se podia exprimir com palavras decentes.
— Ah!... Com os diabos! — exclamou ele, em voz ríspida de comando,
jogando a mensagem de Rhodan sobre a mesa. — Não vou esperar mais oito
minutos para falar com o senhor. É pena que não pertence à minha tripulação...!
Leyden não se perturbou. Continuou comendo com a mesma fleuma e
apenas olhou para o major, que se precipitou nervoso para a porta, batendo-a com
violência. Mungs, que guiara o major para o local onde estava Leyden,
permaneceu ali. Tivera em Impos muitos trabalhos ao lado de Leyden por isso o
conhecia melhor, estimando muito o físico e astrônomo. Agora, no entanto, era
de opinião que seu amigo se excedera em relação ao major, ou melhor, deveria
ter sido mais respeitoso para com ele, pelo menos tendo em consideração que o
oficial era portador de uma mensagem de Rhodan.
O documento escrito continuava no lugar onde o major o jogara. Leyden
esvaziou a xícara de café e consultou mais uma vez o relógio.
Terminara a hora do café. O cientista pegou o grande envelope e o abriu.
Desdobrou a folha plástica e começou a ler.
— Mas era só o que faltava...! — disse, depois de ter tomado conhecimento
do seu conteúdo. — Quem será que me fez esta brincadeira?
Mungs pensava que tivesse acontecido algo de muito grave com Leyden.
— Você tem que voltar para a Terra com a 777? — perguntou excitado.
— Não, mas Perry Rhodan me nomeou chefe da equipe de pesquisa em
Impos. Acho que quem me arranjou este abacaxi foi o Tenente-Coronel Herzog
da Explorer-2115.
Mungs olhava para seu colega, sem saber o que dizer. Tyll Leyden, vinte e
nove anos, fora nomeado chefe de mais de cem cientistas e nem se alegrava com
o maravilhoso e importantíssimo cargo? Não, não mostrava sinais de
contentamento, tanto que disse logo em tom de recusa:
— Não tenho nenhuma simpatia pelo papelório da burocracia.
— Pois eu lhe dou os parabéns — disse-lhe o amigo com muita sinceridade.
— Mas, que vai dizer a isto o triunvirato?
Leyden também não sabia. Até o presente momento, o comando em Impos
era feito por três cabeças.
— Olha aqui, Mungs, leia isto.
O rapaz passou a vista, curioso, nas poucas linhas. Eram muito claras.
Rhodan dava plenos poderes ao jovem Tyll Leyden.
Com a mensagem de Rhodan na mão, Leyden procurou o triunvirato.
Os três colegas se encontravam na cabina do Major Guara e discutiam com
o comandante, que quase perdeu a calma ao ver Leyden.
— Que pretende o senhor aqui? — gritou.
— Desculpe — disse Leyden entregando ao mais próximo a carta de
Rhodan. Embora os três homens contassem na certa que seus poderes provisórios
seriam logo substituídos pela nomeação de um chefe definitivo, nunca lhes
passou pela cabeça que Tyll Leyden pudesse ser nomeado a este posto de tanta
importância.
— O senhor acha — perguntou Guara um tanto ríspido — que não tenho
outra coisa que fazer a não ser cuidar do senhor?
— Sim — redargüiu Leyden — gostaria de saber se os mapas siderais que
encomendei por meio do Tenente-Coronel Herzog já foram entregues.
— Pergunte ao chefe de sua equipe — foi a resposta seca de Guara.
— Seja como o senhor quiser — e dizendo isto, Leyden se retirou. Não era
de seu feitio bajular e procurar agradar os superiores e mesmo assim conseguia
sempre o que queria.
Um dia de Impos mais tarde, incumbiu até os arqueólogos de novas
missões, de acordo com seus planos. Dispunha as coisas com tal jeito que dias
depois os técnicos ficaram surpresos notando que, sem o perceberem, estavam
fazendo seus trabalhos já noutra estrutura.
Já na tarde anterior, a Explorer-777 deixara o sistema, Guara e Leyden não
se falaram mais. O novo chefe, recém-nomeado, não teve mesmo tempo para
isto, mergulhado que estava no “mar de papel”. Trabalhou até além da meia-noite
e só parou quando pôde escrever na última folha dos documentos: Tudo pronto
até a data presente.
Com a 777 chegaram 42 novos cientistas, o que demonstrava os cuidados
que Rhodan dedicava ao planetário descoberto em Impos, no cume de uma
montanha.
Leyden entrou num flutuador e se dirigiu à montanha. Atrás de um vale
semicircular, a cadeia de montanhas subia a mais de oito mil metros. Sobrevoou
primeiro o vale a cem metros de altura, examinando-o bem. Descobriu ruínas de
uma cidade destruída, uma torre de uns cinqüenta metros de altura, também
bastante destroçada, mas indicando ser o maior edifício no centro.
Grandes fossas cavadas dentro do perímetro urbano indicavam que os
arqueólogos procuravam, até em maior profundidade, vestígios de uma velha
civilização que aí vicejou, sabendo há quantos milênios foi isto.
Muito raramente se falava em Impos do Ser Coletivo que destruíra seu
planeta artificial e fugira de um perigo, não se sabe bem de quê. Ele, o Ser
Coletivo, trouxera os homens para Impos, pois escondera na Montanha Canora
um dos vinte e cinco ativadores celulares, de tão alto valor. Na busca do
instrumento maravilhoso, prolongador indefinido da vida, Tyll Leyden descobrira
o planetário na parte escavada na rocha. Quando se iniciou a pesquisa da idade, a
surpresa foi tal que os terranos começaram a desconfiar de seus instrumentos. De
acordo com o que registravam, a tecnologia na Montanha Canora ia além de 1,3
milhões de anos atrás.
Com o argumento de que nenhuma máquina pode funcionar por tanto
tempo, tentou-se duvidar dos resultados da medição do tempo. A Explorer-2115
já havia chegado há mais tempo à Terra e já estava incumbida de outras tarefas de
exploração, mas a discussão entre os cientistas ainda continuava.
Indiferentes a isso, as máquinas roncavam na montanha; também indiferente
em sua heráldica majestade, lá continuava, na catedral de pedra de seis mil
metros de altura, a reprodução da Via Láctea em miniatura, na escala exata de um
bilionésimo.
Durante sua curta estada em Impos, os arqueólogos se aprofundavam cada
vez mais nas muitas camadas das ruínas da grande cidade. Avançavam rápidos
com os mais modernos meios de escavação. Mas, apesar de tudo, não tinham
chegado ainda à primeira camada, ou seja, a mais velha.
Deram à cidade em ruínas o nome de Eona. Estava em contradição com
todos os conhecimentos científicos o fato de que jamais houve uma raça
inteligente, cuja civilização tivesse existido por tantos milênios. Os cientistas não
podiam esquecer o diabólico fantasma que o Ser Coletivo fizera descer para eles,
quando aportaram com a Explorer-2115 em Impos. Por artes do Ser Coletivo,
foram transformados, isto é, regredidos a quarenta milênios na História, travando
contato então com os “barrigas-redondas”, uma raça humanóide antiqüíssima e
muita beliciosa, que nunca poderão ter sido descendentes desse grande povo que,
aí, pelo oitavo milênio, criou este parque de máquinas perfeitas: o planetário em
miniatura.
Os “barrigas-redondas” não tinham nenhuma semelhança com esta raça tão
evoluída da Antigüidade, da qual se descobrira uma escultura bem insinuante.
No interior arredondado, de oito mil metros de diâmetro, do maciço de
pedra, atrás do conjunto de máquinas, fora encontrada esta escultura,
representando uma figura esbelta, sem braços e pernas. Uma vestimenta que
pendia suavemente não permitia distinguir característicos anatômicos. Estava
num pedestal que girava lentamente. A cabeça estilizada, não era de ser humano.
Boca e nariz não existiam, mas o par de olhos, que possuía brilho próprio, tinha
muita coisa de humano.
No entanto, entre os bilhões de homens da atual Galáxia, não havia um só
de cujos olhos transparecesse tanta lucidez, bondade e sabedoria. Não se podia
duvidar de que nesta escultura estava encarnada a imagem real da raça
desaparecida.
Fizeram medições de idade nesta estátua e não faltou de novo o fator
surpresa — a escultura era bem mais nova que todos os instrumentos técnicos na
Montanha Canora. Seria o arremate, a coroa de uma série de criações geniais?
Colocaram-na no pedestal flutuante e giratório, quando se acendeu no primeiro
dia todo o planetário e uma luz suave se difundiu para todos os lados.
Tudo eram mistérios. E Ele, o Ser Coletivo, trouxera os terranos para este
ambiente misterioso. Fizera-os descobrir o singular planetário e os terranos
prenderam a respiração de surpresa quando constataram que o posicionamento de
todas as estrelas estava cientificamente de acordo com a realidade lá fora.
Ele tinha conhecimento desta maravilha e estava fugindo de uma grande
desgraça. Nunca fazia nada sem segundas intenções. Havia pois alguma relação
entre o planetário e a temida desgraça?
Somente uma pessoa tivera capacidade para chegar a esta pergunta, sem
contudo deixar transparecer suas suposições: Tyll Leyden. Seria este legado de
tempos antiqüíssimos um elo de ligação para o hoje? Elo que ligava entre si duas
margens de 1,3 milhões de anos. Passado e presente.
Leyden não se esqueceu do aviso do ser fantasma do Planeta Peregrino: “Às
vezes é bom se entregar a estas brincadeiras, mormente quando se tem que evitar
uma região perigosa. Vocês ainda vão viver muita coisa”.
Que estava insinuado nesta referência? Como poderia este sistema ser
considerado uma região perigosa?
Ao falar hoje cedo sobre a situação, Leyden fizera referência a isto. Teve
que ignorar os olhares perplexos de seus colegas. Não se preocupava com o fato
de os colegas o julgarem medroso.
“Ponto 3: Controle diário do sistema, de todo o sistema, a começar pelo
Sol, passando para o planeta Hércules, até sua última lua. Diariamente, ao
meio-dia, quero ver os relatórios a respeito.”
Num outro item, proibira a desmontagem das máquinas na montanha. Aos
protestos dos especialistas em robôs, respondeu ele com a pergunta:
— Podem os senhores garantir que, com a desmontagem das instalações,
não se vai prejudicar o funcionamento do planetário?
Ninguém lhe podia dar esta garantia. Passou então para o segundo ponto.
Assim, em quinze minutos, distribuiu as incumbências a cada chefe de equipe.
Parecia haver deixado muita coisa como estava antes, mas, quem acreditasse
nisto, não conhecia bem o jovem físico e astrônomo.
Leyden, em seu flutuador, chegou perto do grande portão interno. O último
trecho até o planetário fez a pé, a fim de se aproximar de um grande conjunto de
máquinas, que funcionavam com um leve zumbido. No mesmo instante, um
campo magnético o levantou para a abertura no teto da sala de máquinas. Ao
desaparecer na escotilha, já estava no planetário.
Não conseguia mais somar as horas que havia passado ali, sabia apenas que
algo irresistível o atraía para o planetário, obrigando-o mesmo a entrar.
Imediatamente, seus olhos estavam voltados para o alto, onde cintilava toda a
Galáxia, com seus milhões de sistemas solares, movendo-se constantemente,
como acontecia realmente no Universo.
Bastava que ele pensasse apenas numa determinada estrela, com um pouco
de concentração, e na mesma hora flutuava no espaço rumo ao local em que
pensara. Seus colegas quebravam a cabeça para procurar explicar o fenômeno,
mas acabavam desistindo, um após o outro. Não achavam mesmo nenhuma
explicação. Até o momento, não se sabia qual era o mecanismo que punha em
movimento o planetário sob a cúpula da catedral de pedra de seis mil metros de
altura. Muitos cientistas não acreditavam mais ver o dia em que poderiam
entender a finalidade de um só destes aparelhos, naquela confusão de máquinas e
instalações.
Leyden foi caminhando lentamente para o lado de fora, passou por dois
conjuntos de máquinas, maiores que uma casa normal, e encontrou então seus
colegas, os astrônomos. Quatro homens projetaram três mapas siderais e os
estavam comparando. Tyll Leyden chegou despercebido. Gostava mais de ouvir
do que de discutir.
Fazia, às vezes, sinais de aprovação. Dois dos mapas haviam chegado no dia
anterior com a Explorer-777. Vieram da Terra, mas eram um velho trabalho
arcônida. Foram equipes de cientistas terranos que os salvaram dos planetas de
Árcon, onde certamente ficariam jogados ou seriam destruídos pelo relaxamento
no fundo de museus e arquivos.
— Leyden tinha razão — ouviu nitidamente Players dizer. — Não quis
acreditar. Eu mesmo jamais chegaria a pensar nisso.
Com os diabos!... Então não se pode mais confiar neste planetário. Pode-se
ver, em todos os mapas, esta aglomeração de estrelas e, aqui, sobre nossas
cabeças há apenas uma mancha escura, nada mais. Ninguém vai me dizer que,
depois de alguns milênios, surgiram do nada milhares e milhares de sistemas
solares com suas séries de planetas. Tão depressa assim, as coisas não vão.
Foi neste momento que os cientistas notaram a presença de Leyden. Todos
já se conheciam da Explorer-2115. Calado e calmo como sempre, o astrônomo e
físico se aproximou das projeções de mapeamento sideral.
Mussol, baixote e de traços fisionômicos rudes, sacudia a cabeça sem parar,
rindo alto.
— Um vírgula três milhões de anos... não é brincadeira. Num período tão
grande assim, muita coisa pode desaparecer. Se, por exemplo, algumas milhares
de órbitas deixaram de existir, então é claro que lá em cima fica uma mancha
escura. Meu palpite é que houve uma falha parcial.
Players não acreditava nisso.
— Sua hipótese parece-me muito artificial, Mussol. Que acha disso,
Leyden?
— Ainda temos que estudar muito esse assunto — evitou de entrar na
discussão.
O magro Players e Mussol subiram flutuando com o chefe até a Galáxia
artificial.
Os outros dois ficaram embaixo.
— De que maneira pode uma máquina ler nossos pensamentos? Como é que
entende nosso sistema de contar. Isto não entra na minha cabeça! — exclamou
Players impulsivo.
— É assim e acabou! — disse Mussol.
A uma distância de dois metros um do outro, foram puxados rapidamente
para a cúpula, que era ao mesmo tempo sua Galáxia. Aproximavam-se cada vez
mais do conjunto cintilante. O que parecia lá do chão uma espiral quase
compacta, separava-se agora em sistemas solares isolados, até as nebulosas
esféricas.
Flutuavam na direção daquele setor, que lá embaixo estava reproduzido no
grande mapa. O raio energético que os trouxe brecou de repente, levou-os em
curvas sinuosas, passando pelo Sistema de Halos e penetrando mais para o
interior do mar de estrelas.
De repente, não era mais possível prosseguir, pois os sóis artificiais,
diferentes em grandeza e potência de irradiação, exata-mente como eram na
realidade, estavam por demais juntos uns dos outros. E naquela aparente
confusão de sóis, os cientistas pareciam estar em casa. Vários sóis tinham
planetas girando em órbitas de velocidades diferentes. Cada ponto luminoso se
movia. Os muitos bilhões de sóis giravam junto com a Via Láctea, naturalmente
que não se podia ver de imediato.
— Ali — disse Players, sem ter coragem de apontar com a mão. Tivera que
passar pela mesma escola que Leyden, pois, quando tentou tocar num dos pontos
luminosos, levou um choque que lhe doeu, como acontecera com seu chefe.
Estes “homens antigos”, como os terranos chamavam as velhas civilizações
de milênios atrás, ao planejarem esta maravilha técnica pensaram em tudo e
montaram um esquema perfeito de segurança, parecendo às vezes exagerado, a
fim de evitar a destruição ou a depredação de sua Galáxia artificial.
Os três fitavam parados o mar de estrelas. Num determinado ponto, sem
nenhuma explicação, não havia nada, era apenas uma abertura vazia, cheia
somente de escuridão. Leyden estava calado, muito pensativo. A escuridão era
diferente, não tendo nada em comum com o fundo escuro da cúpula na rocha.
Não era propriamente escura, puxava mais para um cinza-forte.
Olhou para Mussol e Players que não repararam nada, não viram nenhuma
diferença. Leyden passou a ouvir um pouco de sua conversa.
— Como se tivessem deixado de propósito este buraco vazio. Leyden, como
é que você descobriu isto?
— Por acaso — respondeu lacônico.
Uma palavra do comentário de Players fora como um choque elétrico para
ele:... de propósito!... Se os “homens antigos” fizeram isto de propósito, só lhe
restava uma pergunta: por que motivo?
— Aqui não vamos aprender mais nenhuma novidade — disse Mussol
descontente.
Como todo o resto, a falha de estrelas naquele ponto continuaria sendo um
mistério. Olhou para Leyden, do outro lado, três metros longe do misterioso
ponto, separado por muitas centenas de pequenos sóis, pairando pensativo.
— Nossa visita a este trecho da Galáxia lhe serviu para alguma coisa,
Leyden?
— Sim, nos traz novos problemas. Novamente, o raio luminoso os tirou de
onde estavam, levando-os para baixo.
— Nada — disse simplesmente Players para os colegas que ficaram
trabalhando embaixo. — A viagem para cima foi inútil. Pois é, mas onde está
Leyden?
Ao dar a volta pelo conjunto de máquinas que tapava a vista do planetário,
viu seu colega descendo a pequena escada de saída.
“Acho que ele também não gostou da visita ao alto”, pensou Players,
voltando então para seus colegas. Mas, por dentro, Players não estava nada
contente. A perfeição técnica daquela Galáxia artificial não permitia pensar em
erro, em esquecimento. Na semana anterior, os técnicos fizeram dezenas de
severos testes. Primeiramente quiseram constatar a distância exata do nosso
sistema pátrio. Mediram as distâncias para a Terra, para Marte e os demais
planetas e finalmente para o nosso Sol. As medições estavam exatíssimas.
Quando se processaram os cálculos de volumes e naturalmente a relação de cada
corpo celeste com sua miniatura, os técnicos olhavam uns para os outros,
estupefatos, sem saber o que dizer. Aquela imensa construção artificial sob a
abóbada rochosa era um fac-símile em miniatura de tamanha exatidão, que só
este fato já era algo de misterioso.
Nenhum ser inteligente da Galáxia estava em condições, nem mesmo para
imaginar, e muito menos para construir o que estava ali acima de suas cabeças, já
há mais de um milhão de anos.
Tyll Leyden, porém, continuava perseguido pela expressão de Players —
“de propósito”. Bloqueava seus pensamentos e não o deixava em paz. Com muito
mais intensidade do que nunca, desde que estivera em Impos pela primeira vez e
descobrira o planetário, a idéia do Ser Coletivo do Planeta Peregrino pairava
sempre em seu consciente e se lembrava então de tudo que sabia a respeito dele.
Ele, o Ser Coletivo, também era da época dos “homens antigos”. Não teria
sentido querer exprimir sua idade em números. Períodos de tempo, que
ultrapassam os milhões dos milhões, fogem da capacidade imaginativa do
homem. Mas não corria um boato de que o Ser Coletivo prometera um dia velar
sobre os passos do chefe, o Grande Administrador?
Leyden estava deixando a gigantesca sala de máquinas e dirigia-se para o
flutuador. Quando estava abrindo sua porta, seu minicomunicador interrompe-lhe
os pensamentos. O astrofísico Gastão Robet lhe pedia que viesse imediatamente
para a central.
O flutuador saiu do estacionamento e subiu logo a oitenta metros. O
corredor de quatro quilômetros de comprimento, até chegar à luz do dia, tinha
cem metros de altura e quarenta de largura. Oitenta metros era a altura prevista
para a mão de saída. Ao sair para o ar livre, deu de frente com o planeta gigante
Hércules, pouco acima do vale. Pela primeira vez, depois de tantos dias, sentia a
ameaça que parecia rolar do imenso planeta. Como a todos os outros, custava-lhe
também muito libertar-se deste sentimento angustiante. Olhou para o planalto,
onde, outrora, aterrissará a Explorer-2115. Ele e seus colegas ainda pertenciam a
esta nave de exploração. Sua permanência em Impos era só por tempo limitado.
Desde a véspera, modificara-se muito a aparência do planalto. A Explorer-
777 descarregara ali 18 casas de plástico que já estavam montadas. Os robôs
fizeram este trabalho com muita técnica. Entre as dezoito casas, sete estavam
destinadas a fins científicos. Conferindo os conhecimentos de desembarque de
material, Leyden vira o que a 777 trouxera para Impos. O valor da carga estava
além dos cem milhões de solares. Cada um dos chefes de equipe fizera listas com
requisição de material à Terra. Percorreu com a vista as novas construções e se
dirigiu com o flutuador para o abrigo provisório dos astrofísicos.
Os cinqüenta robôs descarregados pela Explorer-2115 prestaram, desde o
primeiro dia em que os cientistas tinham que fazer tudo sozinhos, inestimáveis
serviços. Sem o trabalho destes homens-máquina, os cientistas não teriam feito a
terça parte do que fizeram.
Gastão Robet esperava por Leyden junto ao setor de astrofísica.
— Ótimo que o senhor veio tão depressa. Os fantasmas estão se mexendo
no seu Hércules — disse como saudação, caminhando à sua frente. O assim
chamado acampamento provisório era um recinto de dez por dez metros, e a
equipe de três técnicos que ali se abrigava sentia-se relativamente bem.
Leyden olhou para os dois homens. Estes permaneceram em seu posto,
sentados diante de um aparelho. Estavam tão aprofundados em seus trabalhos que
nem sequer olharam para trás quando ele entrou.
— Veja como a bruxa está solta em Hércules — disse Robet.
Na sua voz não havia ironia ou brincadeira. Seus colegas se afastaram para
os lados a fim de que ele pudesse olhar para o aparelho. Leyden puxou um
tamborete e sentou. Não disse nenhuma palavra sobre o termo “fantasma” ou
“bruxa.” Como Robet e seus dois colaboradores, ficou de olhos fixos no
diagrama que se alterava sempre mais.
— Não sei por que não notamos isto antes. Na espaçonave, teríamos
simplesmente consultado o computador. Mas, e aqui?
Robet não estava contente com sua descoberta, embora tivesse notado uma
coisa muito importante: o centro de gravidade do gigantesco planeta Hércules
não correspondia ao seu centro geométrico.
— Mas os senhores podiam ter notado isto — havia um pouco de censura
na voz de Leyden.
— É o que nós nos dizemos desde que fizemos tal descoberta, Leyden. É
que, antes, ninguém pensou nisso. Sinto muito.
Era um colega falando com o outro. O fato de Leyden ser o chefe, não
mudava nada.
Leyden fazia seus apontamentos, quando levantou-se para procurar o
pequeno computador, um aparelho de pouca capacidade para o registro de dados.
Robet, curioso, ficou ao lado dele. Conseguiu ver o final da pergunta feita. Dava
para ter uma noção do que Leyden queria saber e isto era o suficiente.
— Que é isto, Leyden? Você está pensando que...
— E você não? Quero agir com segurança. Tenho que saber se este
deslocamento do centro de gravidade ocorre normalmente ou é dirigido. Se muda
de lugar, quero saber por quê.
— Nunca chegaria a uma idéia desta. Mas você pode ter razão. Por que será
que não reparamos neste fenômeno antes? Santo Deus, não são boas as
perspectivas.
O computador começou a roncar, caindo uma longa tira no recipiente de
saída. Leyden a examinou, dobrou-a e a meteu no bolso. Havia uma pergunta no
olhar de Robet. Gostaria de ler os sinais decifrados.
— O centro de gravidade do Hércules se desloca, Robet, pelo cálculo da
maior probabilidade, numa velocidade muito perigosa para nós. Continuem
ininterruptamente com os controles e fiquem sempre observando. É possível que
este processo seja normal para o planeta gigante. Mas quem pode ter certeza?
Não demonstrou a inquietação que ia nele. O computador lhe revelara mais
outra coisa, embora apenas com uma probabilidade de 78 por cento. De acordo
com esse dado, o Hércules era um planeta duplo. Podia-se fazer a comparação
com um ovo, cuja gema está bem no centro, cercada pela clara. Mas esta gema —
aqui uma enorme concentração de massa no planeta gigante — se deslocava.
Leyden reprimiu o desejo de mandar avaliar o tamanho do planeta dentro do
próprio planeta. Um pressentimento o obrigava a não deixar transpirar nada de
suas suposições, em hipótese alguma. Os mistérios em Impos já eram muitos e
davam o que fazer a seus colegas, e não queria jamais aumentar a intranqüilidade
entre os mesmos. Antes de sair do departamento de Astrofísica, pediu a Robet
que não deixasse transpirar nada sobre suas observações.
— Temos que ter certeza primeiro — disse concluindo.
Não se utilizou mais do flutuador, mas foi a pé até o posto de rádio. Estava
de serviço um técnico em hiper-rádio.
— Um momento, por favor! — disse Leyden sentando e começando a
escrever. Entregou a folha ao técnico. — Transmita isto para Terrânia.
Tratava-se de uma pequena, mas muito dispendiosa lista de material.
Leyden tinha suas dúvidas se iam mesmo colocar estes instrumentos à disposição
do comando de Impos.
Esperou até que a mensagem fosse transmitida em código, em ondas curtas.
— Avise-me, por favor, assim que a Administração de Material em Terrânia
se manifestar a respeito.
Imperceptível mas ininterruptamente, Tyll Leyden foi ficando senhor dos
pontos estratégicos para, em poucos dias, ser o homem mais bem informado de
Impos. Não o fazia por egoísmo ou para fazer carreira, mas tão-somente pela
inexplicável sensação de inquietação que lhe ia ao íntimo.
“Vocês ainda vão presenciar muita coisa”! Não conseguia se esquecer desta
profecia do Ser Coletivo do planeta Peregrino.
Nesta noite foi acordado duas vezes em seguida. O primeiro chamado veio
de Gastão Robet. Leyden ouviu com muita atenção seu relatório, o qual afirmava
que o centro de gravidade do Hércules coincidia agora com o centro de sua
massa. Isto queria dizer que o pequeno planeta se mantinha agora normal no
centro do planeta maior.
Leyden começou a pensar nos instrumentos que solicitara de Terrânia,
quando, uma hora depois do chamado de Robet, veio a ligação do
radiotelegrafista. A Administração de Material em Terrânia recusara o pedido de
material feito por Leyden.
“Mas vou conseguir estes instrumentos”, pensava o astrônomo e físico.
Deitou-se novamente e logo dormiu.
Uma semana mais tarde, foi novamente alarmado por Gastão Robet. O
departamento de Astrofísica se transladara para uma das novas casas, enquanto o
recinto de dez por dez metros servia agora para guardar os instrumentos mais
sensíveis, que no momento não estavam sendo usados.
Ao penetrar no departamento de Astrofísica, deparou-se com um colega que
preferia ver a uns milhares de anos-luz longe dele.
2

Sascha Populos, técnico em gravitação, tinha fama de ser um intrigante


inescrupuloso e carreirista. Leyden já havia constatado isto e procurava sempre
se desviar de sua presença.
— Continua tudo na mesma! — Com estas palavras, Gastão Robet recebeu
seu chefe e, indignado, apontou para o instrumento que apresentava um
diagrama. — Populos passou por aqui casualmente, Leyden. Interessou-se pelo
caso, mas não concorda com sua teoria de um planeta dentro do outro.
Leyden examinou de alto a baixo o técnico em gravitação, sem dar na vista.
Seu sorriso convencido lhe servia de aviso, mas disfarçou seus sentimentos. Em
desobediência a suas ordens, Robet, falara, pois, sobre o fenômeno do planeta
Hércules. Não se podia, portanto, fazer mais nada. Sascha populos haveria de
fazer com que em uma hora todos estivessem a par de tudo.
O equipamento técnico do departamento de astrofísica melhorara, mas nem
um só dos aparelhos trazidos pela 777 podia ser utilizado para estudar o
fenômeno do Hércules.
O centro de gravidade do planeta já se deslocara novamente, como estava
evidente no diagrama.
— Claro que é uma besteira falar que dentro do Hércules se movimenta um
outro planeta — disse o intrometido Populos, sem que ninguém lhe pedisse sua
opinião. — Temos diante de nós o caso típico que aconteceu no planeta Hutul.
Leyden não conhecia a história do planeta Hutul, mas não fez nenhuma
pergunta a Populos. O astrofísico explicou:
— Observei e comparei o fenômeno de hoje com o da semana passada.
Aquilo que em certos pontos sai muito do centro geográfico do Hércules, se
desloca hoje como há sete dias. Na minha opinião, é muito cedo para se julgar o
fato. Temos que ter mais dados, o que importa dizer que temos de esperar
algumas semanas. O senhor está de acordo com isto, Leyden?
— Sim.
Com orgulho na voz, embora sem muito alarde, disse Sascha Populos:
— Gostaria de me ocupar do caso.
Tyll Leyden fitou-o enquanto dizia:
— Pelo que me consta, o senhor está lotado na Montanha Canora. O chefe
de sua equipe o dispensou de seu trabalho?
Era mais que uma recusa.
— Leyden, sou técnico em gravitação — respondeu ele e seus olhos azuis
começaram a cintilar.
— E eu sou físico e em geral minha ocupação é com problemas
astronômicos ou astrofísicos. O senhor vai ter a bondade de se dirigir agora para
seu setor.
Populos se retirou sem dizer uma palavra e Leyden o seguiu com a vista.
“Tenho que me precaver deste homem”, pensava Tyll, voltando depois a se
interessar pelo diagrama do aparelho.
— Robet, com os elementos desta segunda observação, o senhor deve estar
em condições de formular um esquema, embora imperfeito, do deslocamento do
centro de gravidade.
— Se o senhor quiser aceitar um esquema, admitindo dez por cento de
inexatidão, terá então em poucos minutos os resultados do que descobrimos até
agora.
— Faça isto, Robet. Até logo mais.
A cada sete dias, se manifestava em Hércules o inexplicável fenômeno do
deslocamento. Aos poucos, Robet e seus cooperadores foram perdendo o
estímulo de se dedicarem a este enigma. Em compensação, Sascha Populos
aproveitava cada minuto livre para observar e fazer medições. Mas não chegou a
saber nada do Projeto Hércules que Leyden desenvolvera, num trabalho comum
com técnicos em sondas e arqueólogos experimentados.
Na manhã do dia 4 de agosto, três sondas subiram no espaço e ninguém
sabia o que elas continham, com exceção de sete terranos que permaneciam
sentados no edifício de construção achatada, diante de um amplo parque de
instrumentos sofisticados, onde acompanhavam a rota das sondas.
Com estes instrumentos, Tyll Leyden queria penetrar nas profundezas do
planeta. Teoricamente era possível, porém precisava-se esperar pelos resultados
práticos. O caminho para o Hércules não era tão grande. A distância média entre
Impos e ele era de 984.000 quilômetros. Depois de meia hora de vôo, o posto de
rastreamento do acampamento comunicou que os três instrumentos estavam em
queda livre na direção do planeta.
O tempo passava e Leyden continuava esperando com seus colaboradores,
seis ao todo. Neste momento, a primeira sonda tocara o solo gelado do gigante,
abrindo caminho na crosta gelada de gás metano. Pouco mais tarde, chegaram
também as outras duas sondas. Desapareceram no interior do planeta. As sondas
utilizavam a energia da queda e registros impotrônicos a transformavam
rapidamente num fortíssimo campo magnético para proteger os instrumentos, que
serviam simultaneamente de mecanismo de perfuração. Conversores de grande
potência cuidavam que, quando a energia fosse diminuindo, os campos de
proteção em torno dos instrumentos continuassem os mesmos. Davam ao mesmo
tempo a energia necessária para dissolver a estrutura rochosa, e assim os
instrumentos continuavam se aprofundando cada vez mais no interior do
Hércules.
“Está dando certo?”, esta era a frase mais repetida na divisão de Astrofísica.
Reinava no recinto um silêncio cheio de tensão, muito raramente interrompido
pelos estalos dos relês. Quatro vidros foscos iluminados por eles transmitiam
diagramas ou amplitudes. Todos os aparelhos estavam acoplados com o
computador. Não se perdia nenhum dado. O que escapava aos olhos atentos dos
cientistas era captado pelo setor de armazenamento.
Era o dia 4 de agosto de 2326, exatamente no momento em que Lemy
Danger, no planeta Eysal, dava seu malfadado tiro no ativador celular.
Quase na frente de Leyden, explodiu e voou pelos ares aquele aparelho que
seu colega de escola, na Explorer-7094, lhe trouxera de Terrânia. Todos os
instrumentos, atrás e ao lado de Leyden, também arrebentaram. E no mesmo
instante cessou a ligação com as sondas. As telas de controle não exibiam mais os
diagramas e as amplitudes. Foi como se a mão de um gigante tivesse rebentado
todas as ligações.
Um dos cientistas desligou a chave geral.
A tentativa com o planeta redundara em fiasco.
— Que foi que aconteceu? — perguntavam-se os cientistas, homens que
não sabiam nada da missão de um membro da USO — Lemy Danger — em
Eysal.
De repente, Leyden se converteu no centro das atenções, e todos os olhares
se volveram para ele. Mas ele também não podia dizer nada. Seu
minicomunicador estava chamando.
— Mister Leyden, por favor venha para cá... por favor!
Dobrou o braço e falou bem perto do microfone de pulso:
— Aqui fala Leyden, estou ouvindo.
— Aqui fala da sala de máquinas da Montanha Canora. Deu a louca em
todas as máquinas. O senhor consegue me ouvir com este barulho infernal? De
repente, começaram a roncar todos os aparelhos. Parece que o diabo está solto
por aqui.
“Aqui conosco também”, pensou Leyden, sem o dizer, naturalmente.
— Quem está falando?
— Engenheiro Turander. Gostaria de dar permissão para todos abandonarem
o recinto.
— Somente quando houver verdadeiro perigo. Fim.
Leyden forçava a cabeça para achar uma explicação.
— Será que a causa disso são nossas três sondas? — ouviu um dos colegas
dizer atrás dele, e também já fizera esta pergunta a si mesmo. Será que o planeta
Hércules se defendera desta maneira inusitada contra a tentativa de sondagem de
seus segredos?
— A positrônica está em ordem? — perguntou.
Foram experimentar. Não, não sofrera nenhum prejuízo. Também estavam
intactos os instrumentos de rastreamento e de medição de distâncias, porém não
existiam mais as ligações com as sondas. Leyden ficou perplexo. Deu mais uma
olhada nos instrumentos. Julgava ter descoberto alguma coisa.
Todos os instrumentos que funcionavam à base da quinta dimensão estavam
destruídos. Os de quatro, porém, funcionavam normalmente.
— A positrônica está perfeita! — exclamou Robet.
Para espanto de todos, Leyden não fez uso do computador. Estava pensando
em outra coisa. Queria conferir sozinho os controles. Uma suspeita vaga, mas
terrível, estava tomando forma nele.
— Por favor, meus senhores, saiam um pouco! — pediu, pois queria ficar
sozinho com o computador, o mais depressa possível. Mas um chamado do
planetário atrapalhou-lhe os planos.
Quando voava no flutuador para a Montanha Canora, Leyden não
reconheceu a pessoa que estava sentada no outro aparelho no momento de sua
chegada. Mas vira Sascha Populos e virara a cabeça para o lado, quando passou
rente em seu flutuador.
Mungs, Players e Mussol chamaram Leyden com as palavras:
— Venha logo, o diabo anda solto por aqui.
Quando atravessou o enorme portal e penetrou na gigantesca sala de
máquinas, foi atacado, no verdadeiro sentido da palavra, pelo barulho infernal
dos instrumentos. O chão tremia a seus pés. Ao tocar uma máquina, tirou a mão
bruscamente, como se tivesse levado um choque. Pelo pequeno aparelho de
pulso, chegou aos seus ouvidos um grito como nunca ouvira. Como que atingido
por um raio, caiu gemendo.
Quando o campo magnético o levou através da barreira óptica, reparou que
era também uma barreira acústica. Sentiu um silêncio benéfico. Olhou para os
três auxiliares, como a perguntar alguma coisa. Mungs começou a contar o que se
passou.
— Quando é que as máquinas começaram a roncar aqui? Hora exata, por
favor? — interrompeu-o Leyden.
Mungs disse a hora com exatidão até dos minutos. Leyden agradeceu.
Esperava este dado para o mesmo momento em que todos os aparelhos que
funcionavam à base da quinta dimensão foram destruídos.
— E depois? — perguntou Leyden. Mungs continuou:
— As máquinas diminuíram o terrível barulho, mas ainda continuaram com
algum zumbido. Falei com Players a respeito e passamos pela escultura. Leyden,
você já reparou que não somente seus olhos brilham, mas também seu pedestal?
E se não nos enganamos, Players e eu, o pedestal gira agora com mais rapidez,
que antes.
Quando passavam ao longo da máquina gigantesca de quase cem metros,
Leyden notou que o funcionamento era agora muito mais barulhento que antes.
Chegaram à escultura que se apoiava num pedestal giratório, iluminado por um
vermelho fraco. A cintilação dos olhos parecia a mesma, mas a velocidade da
rotação estava estranhamente maior. Leyden parou.
— É isto mesmo — disse depois de fazer uns cálculos. — Três voltas e
meia por minuto.
Depois virou-se para o planetário.
— Ainda está lá em cima, isto é, o principal.
— Ainda — repetiu Mungs. — Quando as máquinas começaram a roncar,
todos os sóis começaram a brilhar como se estivessem para explodir. A
iluminação que vem da cúpula estava tão berrante, que dava para ofuscar e
parecia que tudo iria rebentar em nossas cabeças.
— E depois, tudo se normalizou? — quis saber Leyden.
Mungs respirou profundamente.
— Sim, mas não na sala de máquinas. Turander nos mandou para fora, mas
não chegamos até embaixo. O barulho nos fez voltar ao planetário. Estamos
sentados num barril de pólvora que pode ir pelos ares a qualquer momento. O
que realmente aconteceu? Leyden, você sabe mais do que nos disse até agora.
O cientista procurou uma desculpa:
— Vou subir e ver bem de perto o planetário. Depois, vamos falar mais a
respeito.
Deixou-se levar para cima. Ia observando tudo e, para seu alívio, não viu
nada de extraordinário. No entanto, ia com o receio de ter deixado de ver alguma
coisa importante. Depois voltou para junto dos colegas.
Não continuou a conversa interrompida com Mussol e Mungs, pois devia
voltar o mais depressa possível para a positrônica no seu departamento, consultar
os dados armazenados e comparar com eles seus cálculos.
Enquanto deslizava no flutuador rumo à sua equipe, começou a pensar, pela
primeira vez depois de tanto tempo, na teoria de Falton. Falton foi um arcônida
que viveu há mais de seis mil anos. Logo depois de sua morte, seus trabalhos
caíram no esquecimento, até que cientistas terranos os encontraram num antigo
computador. Mas em toda a extensão do Império, a teoria de Falton não foi bem
aceita. Não obstante o parecer negativo de cientistas de renome, Leyden não
deixou de se preocupar com a referida teoria, estando disposto a experimentá-la.
Arregimentou para isto a metade dos cientistas da Explorer-2115, embora o
comandante o proibisse de mexer com tal assunto.
Faltou afirmava em sua teoria que, em virtude de um certo número de
medições em pleno espaço, se podia constatar se um sistema solar tinha ou não
planetas e se estes estavam habitados ou eram, pelo menos, habitáveis.
Leyden deixou o flutuador. Mas ficou surpreso e desconfiado ao ver outro
flutuador diante do edifício da equipe de astrofísica.
Com três passos largos, chegou até a porta. Abriu-a e viu Sascha Populos
diante do computador. O técnico em gravitação estava de costas para ele. Será
que não notara a entrada de Leyden?
— Populos?!
O cientista levou num susto e se virou para trás.
— O senhor? — disse em voz sumida, mas silabada. — Santo Deus, o
senhor me assustou.
Leyden olhou friamente para ele.
— Que está fazendo aqui? Populos sorriu.
— O planeta Hércules e seus fenômenos me interessam muito. Será que
agora é proibido fazer pesquisas científicas nas horas de folga? Estou aqui para
resolver uns cálculos. Mas queria saber quem foi o bobalhão que esvaziou todo o
computador, colocando-o no zero.
“Foi você mesmo”, pensou Leyden, irritado, mas conseguiu se controlar.
Uma explosão de cólera seria sem sentido, pois, como conseguiria provar que
Sascha Populos apagara de propósito os dados do computador? Assim, fez cara
de indiferente para uma situação tão desagradável.
— Quem sabe, alguém o fez sem querer, Populos. Você tinha necessidade
de ativar o setor de dados?
Sabia que, com tal pergunta, jamais iria pegar o técnico em gravitação.
— Não sou, como o senhor, um livro vivo de fórmulas, Leyden. Que eu
dependo dos dados do computador, todo mundo sabe. Mas o senhor parece que
não vê com bons olhos minha presença aqui, em sua proximidade. Mas vou
encontrar um computador em outro lugar. Por favor, o computador está aqui às
suas ordens!
Ele sorriu malicioso.
— Obrigado — respondeu Leyden, de rosto imóvel, esperando até que
Populos deixasse o recinto e se afastasse com o flutuador. Depois, com poucos
controles, constatou que todo o saber ali acumulado fora apagado.
O computador perdia, com isso, o seu valor. Leyden tentou dominar sua
cólera. Aproximou-se mais uma vez daqueles aparelhos que, de um instante para
o outro, foram destruídos por um agente externo. O cientista não se recordava de
jamais ter vivido coisa igual.
— Isto que aconteceu foi de quinta dimensão. Não há dúvida — disse ele
em voz alta.
Calou-se e olhou para fora, para o Hércules.
“Vou descobrir ainda o segredo do deslocamento do seu centro de
gravidade”, pensou ele, para logo depois começar a rir. Sascha Populos não
poderia fazer muita coisa com os conhecimentos roubados do computador.
Faltam-lhe os dados básicos que estão somente no cérebro eletrônico da divisão
de Astrofísica. Além disso, Populos não possuía o diagrama confeccionado com
exatidão, que indicasse a trajetória do deslocamento do centro de gravidade.
Como chefe geral de Impos, era dever de Leyden supervisionar o
prosseguimento dos trabalhos de todas as equipes. Voou para Eona e aterrissou
bem perto da grande escavação que já tinha a profundidade de uma mina, indo
além de duzentos metros sob a terra. Um robô o levou para as profundezas, onde
estavam os especialistas. O Professor Attik o cumprimentou amigavelmente.
— Faz tempo que o senhor não vem mais aqui. Alegro-me pela sua visita.
Iria mesmo convidá-lo para ver nossos trabalhos.
O arqueólogo falava com entusiasmo e seu rosto irradiava excitação.
Leyden, que em si não se interessava muito por escavações, acompanhou o
professor. Passou por máquinas especializadas automáticas, por motores que
roncavam e por intermináveis esteiras rolantes. Desceram degraus que pareciam
polidos há pouco. Attik parou de repente.
— Olhe só isto aqui — disse apontando para os degraus que, mesmo para
dentro da escavação, ainda estavam iluminados. — Pesquisamos à esquerda e à
direita, Leyden. Cada degrau tem uma largura de trezentos metros, e o número
deles vai a quatrocentos. Não nos é conhecido o material de que é feito tudo isto.
Nosso aço de Terconit é manteiga em comparação com ele.
Tyll Leyden tentava imaginar uma escadaria de trezentos metros de largura,
com mais de quatrocentos degraus. Achava uma coisa absurda, irreal. Olhou
então para cima e viu o reboco liso, já um pouco gasto.
— Isto também pertence à escadaria, professor? — perguntou ele.
Attik abanou a cabeça negativamente.
— Aos 202 metros de profundidade, pudemos ligar o aparelho de sucção e
em três horas abrimos um vão de doze metros, deixando assim a escadaria livre
de todos os lados. Ah! Aí vêm os robôs. O senhor dispõe de tempo para ver a
construção?
— Que construção?
— Na profundidade de 372 metros, encontramos a primeira construção
existente.
Desculpe meu exagero. O que resta ainda é apenas a abóbada da adega
subterrânea. A construção que havia em cima dela deve ter sido destruída numa
catástrofe de grandes proporções, há mais 1,3 milhões de anos.
— Esta medição de tempo estará certa, Attik?
O arqueólogo meneou a cabeça.
— Infelizmente, não. Tivemos que fazer uma estimativa. Este material — e
ele apontou para os degraus — não permite avaliação por períodos de tempo. É
praticamente indeformável.
— O senhor não vai querer dizer com isto que todos os nossos cálculos de
idade são falsos — disse Leyden sorrindo.
— Por estranho que pareça, digo que sim. Não falsos, mas inexatos. O
senhor quer ver uma residência destes “homens antiqüíssimos”?
Num vôo de flutuador, foram levados para baixo por um robô, descendo os
quatrocentos degraus. A cada cinqüenta metros havia uma luz acesa, que, embora
muito forte, não dava para iluminar o degrau inteiro. Mas o foco de luz lá
embaixo parecia bem maior. Quando o robô guiou o flutuador através de um
portal imenso e parou, havia sobre eles uma cúpula polida.
— Veja, Leyden! A construção é do mesmo material que a escadaria.
Era estranho mesmo, que o material que havia nas camadas superiores
estivesse todo destruído embora fosse tão resistente.
— O senhor encontrou alguma coisa que dê alguma explicação sobre os
“homens da antigüidade”?
A resposta do professor foi meio decepcionante:
— Temos provas irrefutáveis de que os homens da época saíram levando
tudo que havia nesta adega. Sobre eles, porém, não sabemos mais do que o pouco
que sabemos agora.
— E o entulho ou terra que o senhor está tirando para fora?
— É de data mais recente. Não resistiu a nenhuma determinação de idade.
Mas não devemos estar contentes por termos encontrado esta construção?
Leyden olhou para a abóbada da adega, que ao longe mergulhava na
escuridão.
— Quando o portão se abriu, recebemos uma lufada de ar fresco no rosto.
Leyden quase não ouviu esta observação do professor. Segundos depois foi
que se conscientizou do seu significado.
— As máquinas ainda estão trabalhando, professor?
— Sim, trabalham de novo, Leyden. Estávamos os oito colegas diante do
portão e não o podíamos abrir de maneira alguma, quando, de repente, o chão
tremeu. Não, não me olhe assim desconfiado! Não fomos vítimas de alucinação.
Primeiro veio o tremor que atingiu com toda nitidez também a escadaria e...
— Você se lembra a que horas foi isto?
— Por acaso, sim. Por quê? Interessa-lhe tanto assim?
O professor deu-lhe o momento exato:
— Foi neste mesmo segundo que todos os instrumentos da seção de
Astrofísica, que funcionavam à base da quinta dimensão, falharam e a Via Láctea
do planetário foi ameaçada e aqui, no fundo da terra, abriu-se um portão de
adega.
— Você não acredita no que estou dizendo, não é Leyden?
Havia uma leve censura na voz do professor.
— Você encontrou as máquinas?
Às vezes, o modo de se expressar de Leyden, suas mudanças bruscas de um
assunto para o outro, se tornavam quase insuportáveis.
— Não, Leyden! Não conseguimos descobrir nenhum vestígio de máquinas.
A abóbada da adega de cinco mil metros de extensão...
— Quanto mesmo?
— Uma adega quadrada, Leyden. Quinhentos por quinhentos metros, sendo
que a altura era de oito metros e vinte. Vazia, completamente vazia, sem o menor
vislumbre de poeira.
Os pensamentos de Leyden se moviam em outra direção. Com sua enorme
extensão, a adega devia chegar, em parte ao menos, até um certo ponto por baixo
da grande sala de máquinas da Montanha Canora. De um momento para o outro,
o jovem chefe da missão em Impos compreendeu que Attik e seus colaboradores
não foram vítimas de nenhuma alucinação, ao sentirem aquele tremor que
percorreu todo o chão.
Foi naquele instante que todo o conjunto de máquinas na grande sala
começou a roncar, ronco este acompanhado pelo tremor do solo.
— Leyden, não está se sentindo bem? Você está tremendamente pálido!
Tyll não estava mais em condições de pensar com clareza. Não sabia ainda
de uma onda de choques gravitacionais que partia de Eysal e se estendia por toda
a Galáxia. Sabia apenas que uma equipe de cientistas, usando três sondas,
tentaram penetrar no centro do planeta Hércules. Como astrofísico, não podia
imaginar que três alfinetadas no gigante pudessem causar tal reação. O que lhe
parecia mais obscuro era de que maneira o planeta Hércules podia responder ao
ataque triplo exata-mente no plano pentadimensional. As leis da Física não o
permitiam e no entanto acontecera.
— Realmente, não me sinto nada bem. Será que um robô me pode levar
para cima?
Não viu nada da fantástica escadaria, quando o flutuador do robô o levou de
volta. Deixou-se cair no banco de trás e mandou que o robô conduzisse-o para
seu posto de trabalho.
Assim que chegou, procurou pelo diagrama onde estava registrada a
trajetória do centro de gravidade em deslocamento. Procurou-o por longo tempo,
até perceber que fora roubado e sabia naturalmente quem era o ladrão: Sascha
Populos.
Deixou novamente seu local de trabalho e se dirigiu para o segundo andar,
onde se localizava o laboratório do técnico em gravitação.
Bateu à sua porta e Populos mandou-o entrar. O rosto do técnico se
transtornou ao ver Leyden.
— O que há? — perguntou em voz baixa, mas com um pouco de rispidez.
Leyden sentou-se bem na sua frente.
— Estou lhe perturbando o trabalho, Populos?
O técnico se abriu num largo sorriso:
— Na qualidade de chefe, o senhor nunca atrapalha.
— Não estou aqui como chefe. Vim aqui para lhe chamar a atenção,
Populos. Acho que você ainda não me conhece bem.
— Não sei a que vem sua repreensão. Tem alguma coisa contra mim? Por
que não me diz claramente? Prefiro a sinceridade e a franqueza, sempre.
Leyden se levantou.
— Não são necessárias muitas palavras para nos entendermos. Reflita um
pouco no que lhe disse.
Saiu e fechou a porta e não ouviu mais a risada de Populos, nem sua
observação: “Você voltará muito mais depressa para a Terra do que está
pensando”.
***

Tyll Leyden jamais confiava nos outros. No meio de sua equipe, onde era
chefe da turma, até sua nomeação, cumpria toda sua obrigação da turma, pelo
menos enquanto seus deveres de chefe geral o permitiam.
Estava agora esperando há uma hora, no posto de hiper-rádio. O quartel-
general da USO anunciara uma comunicação importante para este dia, às 14
horas, tempo normal. Até o momento não viera nada. Olhava distraído para o
oscilógrafo de ondas, que dava com exatidão a amplitude constante do hiper-
rádio. Seus olhos se arregalaram e chegou mais perto.
— Venha aqui e olhe uma coisa interessante — disse ao radiotelegrafista de
serviço.
E os dois não tiraram mais os olhos da luzinha verde no vidro do
oscilógrafo. A onda parou por uns segundos, depois desapareceu. Parecia não
existir mais, enquanto linhas em ziguezague cruzavam a tela, rebentavam
rapidamente, revezando-se com a amplitude. Por cinco ou seis vezes, os dois
presenciaram este espetáculo, que acabou sumindo.
Chegou então a esperada mensagem do quartel-general da USO. De início
foi explicado o motivo do atraso na transmissão. Leyden ouviu o nome do
planeta Eysal e depois, pela primeira vez, a palavra “gafanhotos córneos”.
Resmungou irritado quando foi dito que estes gafanhotos estariam em condições
de devorar até aço terconídio. Mas, de repente, Leyden estremeceu todo, quando
no relatório se fez menção da data 4 de agosto em conexão com o nome de
planeta Eysal. Falou-se de um gerador de energia gravitacional com choque
frontal, que no dia 4 de agosto desencadeou um imenso abalo gravitacional em
quinta dimensão. Embora estivesse sob forte pressão nervosa, Leyden se sentia
mais aliviado. Não fora, portanto, ele e seus colegas que provocaram o choque
gigantesco pentadimensional de gravitação com as três sondas. Que acontecera
afinal no planeta Eysal? De onde viera o instrumento Gravestog?
O porta-voz da USO, no quartel-general, não deu tempo a Leyden para
prosseguir em seus pensamentos.
— Todos os comandos, independente a que finalidade se destinem, estão
solicitados a comunicar imediatamente à USO suas observações sobre o abalo
gravitacional. Pelas notícias que temos em mão, deduz-se que todos os
rastreadores estruturais deixaram de funcionar no mesmo momento. Há uma
fundada suposição de que nas naves Explorer se tenham feito preciosas medições
referentes a este abalo. A USO pede a todas as unidades que examinem com
cuidado todos os registros e demais observações e os transmitam logo via rádio
para o quartel-general.
— O pessoal está nervoso por lá, hein? — constatou o técnico em hiper-
rádio.
Leyden concordou. Já havia quase se esquecido dos temíveis gafanhotos.
Mas, nas próximas semanas e meses, tornaram-se o pesadelo constante de todos
em Impos, pesadelo este ampliado com a figura grotesca do verme-monstro.
Deixou pensativo a cabina de rádio. Gostaria de saber mais coisas sobre o
funcionamento do aparelho Gravestog no planeta Eysal. No mesmo instante,
porém, reconheceu que teria ainda que esperar muito até se enfronhar nos
detalhes. Seus colegas e ele não conseguiram aumentar muita coisa em suas
pesquisas. Sucesso verdadeiro estava tendo somente a equipe de arqueólogos.
Leyden voltou a pensar na obra-prima do planetário que já existia há mais
de um milhão de anos e suas constelações mantinham a exatidão matemática de
sempre. Era realmente uma instalação de valor inestimável.
Parou, de repente, no caminho de piso plástico. Que foi que aconteceu
pouco antes da transmissão da USO? Toda a transmissão foi em quinta dimensão
e se notaram perturbações no hiperespaço. No entanto, a chapa de amplitudes
mostrava com clareza sinais de interferências.
Chamou depressa pelo mini-rádio de pulso, seu colaborador Gastão Robet.
— Venha depressa para o local do rádio, Robet. Fim da transmissão.
Robet encontrava-se na Montanha Canora. A equipe de cibernética solicitara
seu auxílio. Falavam de impulsos parasitas que, de acordo com sua opinião,
tinham que ter uma só origem.
Até o momento, Robet não conseguira determinar o tipo de interferências,
nem podia dizer de onde vinham, embora não pudesse negar sua existência. A
chamada de Tyll Leyden lhe viera num momento muito desagradável.
Apressou-se em deixar a escavação gigantesca para chegar o mais depressa
possível a seu interessante trabalho. Tinha a intenção de deixar Leyden a par de
suas observações. Mas assim que chegou diante dele no posto de rádio, esqueceu
todos os outros pensamentos. O que Leyden lhe tinha para contar era cem vezes
mais interessante que seu próprio problema, isto é, de procurar a origem das
interferências parasitas lá na montanha.
— Perturbações no hiper-rádio — repetiu ele, balançando a cabeça. Depois
fitou o técnico de rádio. — Você não reconheceu o tipo destes fenômenos?
— Não e posso lhe dizer que nunca vi coisa semelhante.
— Santo Deus! — disseram quase ao mesmo tempo Leyden e Robet,
olhando desconcertados para os colegas.
— Quando foi que você observou isto pela primeira vez? — perguntou Tyll
Leyden curioso.
O técnico de rádio era a calma em pessoa.
— Não lhe poderia responder a pergunta, se a USO não tivesse mencionado
antes o forte abalo do dia 4 de agosto. Naquela ocasião, o ziguezaguear maluco
no oscilógrafo de ondas foi muito pior. E foi assim também agora?
— Sim — respondeu Leyden. — Mas vamos continuar nosso trabalho.
Vamos ligar para a faixa de ondas coletivas das Explorer. Procure saber o que foi
observado por lá. Você tem tempo, não é?
Robet também olhou admirado para Leyden. Não sabia o que o astrônomo e
físico pretendia com tudo isto.
A mensagem foi transmitida, e uma depois da outra as naves de exploração
se apresentaram. Aos encouraçados que estavam a mais de dez mil anos-luz,
Leyden pediu que fossem excluídos. Finalmente, entrara em contato com sete
espaçonaves de exploração. Nenhuma delas estava a mais de cinco mil anos-luz
do seu sistema. Três naves Explorer não souberam dizer nada, mas as outras
quatro constataram perturbações na recepção do hiper-rádio.
— Faça ligação agora com seu departamento de gravitação — pediu
Leyden.
Teve que ter paciência até que ficassem prontos os contatos com as quatro
naves Explorer. E os chefes de equipe foram então se apresentando. Em poucas
palavras, Leyden lhes disse quais os dados que lhe interessavam. Das quatro
naves veio quase ao mesmo tempo a pergunta: o senhor quer localizar a origem
de um suposto choque gravitacional?”
— Sim, e aliás, com a fórmula de Falton.
— Falton? — perguntou alguém da nave de exploração. — Quem é este
Falton?
Leyden insistiu.
— Por favor, dê-me os dados separadamente. Tenho urgência deles.
Pela ordem do número de matrícula, cada nave transmitiu seus dados pela
voz do chefe de equipe. Numa quase monotonia, os valores se repetiam no alto-
falante. Ninguém, na cabina de rádio, estava tomando nota, pois o computador
recebia os dados com muito mais precisão que o melhor taquígrafo.
Durante a exposição da última nave de exploração, Tyll Leyden virou-se
para trás e teve um calafrio. Sascha Populos estava de pé junto à porta, tomando
nota. Terminada a transmissão, Populos levantou os olhos, sorriu cínico, fez um
cumprimento e saiu.
Somente depois que a porta bateu, foi que o radiotelegrafista e Robet
olharam para trás.
— Tivemos uma visita — disse Leyden, seco. — Populos.
— O senhor não gosta de Populos, não é?
Leyden descartou a pergunta:
— É um homem que entende de seu trabalho.
Com isto, Robet não sabia mais do que antes. Leyden pediu ao
radiotelegrafista que lhe apanhasse os dados recém-transmitidos do computador.
Quando a folha perfurada caiu no aparador, pegou-a, dobrou-a e a meteu no
bolso, sem que ninguém notasse.
— Você pode vir comigo, Robet?
No seu escritório, sentaram-se frente a frente.
— Você conhece a teoria de Falton, Robet?
Robet sorriu.
— Será que o senhor se esqueceu de que também vim da Explorer-2115? Lá
o senhor levantou muita poeira com sua teoria faltoniana, e inclusive me deu uma
boa lista de trabalhos. E o senhor vai querer aplicá-la também aqui? Tem de fato
alguma esperança de sucesso? Um choque de gravitação não pode ser comparado
com a gravidade específica e a intensidade magnética de um sistema solar.
Parece que Leyden não ouviu a última frase.
— Você me pode sugerir três ou quatro colaboradores discretos, que ao
mesmo tempo entendam bem do assunto?
— Em que setor, senhor: gravidade, astrofísica, irradiação, hiperespaço?
— O quanto possível, nenhuma especialidade, mas colaboradores de faro
agudíssimo.
Robet o olhou indagativo.
— Deste gabarito só existe um em Impos... o senhor, e talvez mais outro...
Sascha Populos.
Sem a menor alteração na fisionomia, Leyden respondeu:
— Foi exatamente nele que pensei. Duas horas mais tarde, Robet e Leyden
ainda estavam sentados juntos. Servindo-se do pequeno computador do
escritório, examinaram os problemas mais difíceis. O resultado de seus estudos
os surpreendeu: não deu em nada. A tentativa de aplicar a teoria de Falton tendo
por base os dados transmitidos pelas quatro naves Explorer fracassou
miseravelmente. O próprio Leyden ficou espantado.
— Vamos terminar com isto — propôs Gastão Robet.
— Vamos antes até o posto de rádio! No caminho para lá, Robet perguntou:
— O senhor não quer dizer o que pretende fazer?
Leyden entrou em contato com a Explorer-2115, cuja tripulação pertencia a
quase totalidade dos cientistas de Impos. Pedira para falar com Gus Orff, chefe
da divisão de Astrofísica. Orff se apresentou. Seu rosto surgiu no videofone e
mostrou muito contentamento em ver e falar com Leyden, depois de tanto tempo.
Mas Leyden não dispunha de muito tempo para assuntos pessoais.
— Orff, você poderia me enviar todos os documentos sobre o raio de luz
que perseguiu a Explorer-2115 no vôo para este sistema? Gostaria muito de ter
estes dados.
Gus Orff, a mais de 16.000 anos-luz de distância, ficou pensativo olhando
para seu amigo.
— Você vai receber tudo em pouco tempo. Espere um pouco, por favor.
Passou-se alguns minutos até o rosto de Orff voltar à tela.
— Ligue agora a nossa faixa de emergência. Precisa ainda de mais alguma
coisa? Eu posso lhe arranjar. Tenho mesmo que falar agora com Terrânia e fazer
um pouco de pressão com o chefe do almoxarifado. Como é que você está se
dando com o homem?
“Muito mal!” era o que Leyden queria mas não chegou a dizer. Porém, não
disse quantas manobras tinha que inventar para chegar a seus objetivos.
— Que estão fazendo os pesquisadores em Impos? Já conseguiu desvendar
os segredos do planetário?
— Está muito difícil, Orff, mas sua ajuda vai ser de grande valia, muito
obrigado. Há mais alguma coisa?
Não havia mais nada para falar e o videofone apagou. Através da faixa de
emergência da 2115, os dados chegaram às instalações de Impos, em ondas
curtas. A tira de papel onde se registraram os sinais codificados tinha mais de
dois metros de comprimento.
Leyden e Robet voltaram calados para o escritório.
— Vamos continuar com os cálculos — disse Tyll Leyden.
3

Perry Rhodan franziu a testa. Tinha diante de si uma pasta de documentos,


em que se levantavam grandes acusações contra o astrofísico Tyll Leyden.
Dezessete cientistas em Impos se queixavam da administração pouco planejada,
cheia de incoerências, de suas interferências descabidas nos seus respectivos
setores de trabalho, afirmando com muita seriedade que Tyll Leyden sabotava
toda pesquisa produtiva.
O libelo estava assinado por todos os dezessete cientistas. Ao documento
básico também estavam anexados os pareceres individuais de todos os dezessete
homens.
Rhodan já estava lendo o quarto parecer contra Leyden, quando se lembrou
de que fora ele mesmo quem nomeara Leyden para chefe de Impos. Quem foi
que lhe recomendou Leyden? Estranho que não conseguisse se lembrar. Resolveu
então entrar em contato com a central dos comandos das naves Explorer.
— Onde se encontra no momento a Explorer-2115?
— Em Terrânia, senhor! Aterrissou ontem à noite. Partirá novamente depois
de amanhã para...
Isto pouco interessava a Rhodan.
— Chame o comandante da Explorer. Teve que esperar com paciência até
que os traços duros do tenente-coronel surgissem na tela do videofone. O
comandante queria se apresentar. Rhodan, com um cumprimento, o dispensou.
— O astrônomo e físico Tyll Leyden pertence à sua tripulação, Herzog? Por
favor, dê-me sua opinião sobre este homem. Queria também saber se ele está em
condições de chefiar um grupo de pesquisadores.
Herzog se concentrou para responder. Balançou a cabeça.
— Leyden... como se eu tivesse suspeitado, senhor. Posso perguntar por que
razão deseja minha opinião sobre ele?
— Não, Herzog. Quero apenas ouvir seu pensamento sincero, pessoal, sobre
Leyden. Por favor! — Rhodan insistia.
Este caso ia levar mais tempo do que dispunha.
Herzog se empertigou.
— Senhor, é a primeira vez que Leyden se torna chefe de um grupo de
pesquisa. Não é nem o tipo de um comandante, nem o de um chefe de cientistas.
Ele é, como tudo indica, um oportunista que foge de todas as dificuldades.
Aceita, sem protesto, quando uma coisa lhe é negada, não faz comentários para
proibições expressas. Mas, de repente, senhor, se apresenta a seus chefes com
fatos consumados. Este homem conhece todos os truques para atingir seu
objetivo. Procura sempre o caminho da menor resistência. Não se pode, porém,
com isto atribuir a ele desonestidade ou conduta ilegal.
— Seus projetos têm pé e cabeça, Herzog?
— É difícil dizer, senhor! Mas, se me permite voltar ao primeiro assunto...
— Por que não?
— Obrigado. Tyll Leyden sabe, como ninguém, atrair a metade da
tripulação de uma Explorer para seu trabalho e, mesmo aí, nenhum colega sabe
para que fim realiza este trabalho.
— Você quer contar isto a mim, Herzog? — Rhodan olhou firme para ele.
Os extravasamentos do tenente-coronel pareciam inacreditáveis. Falava e
falava e Rhodan ouvia sempre mais interessado. No depoimento de Herzog
houve alusão a uma experiência de Leyden com a teoria de Falton e ao fato de
que o rapaz fleumático botou no trabalho a metade do pessoal para realizar sua
tentativa.
— Senhor, não sei se ele será capaz de fazer isto com o senhor, mas nem
Gus Orff, chefe de seu setor na Explorer, nem eu como comandante, estávamos
em condições de fazer com que ele nos fornecesse relatórios parciais, a fim de
acompanharmos seus trabalhos. Somente quando tinha o resultado completo
diante de si é que vinha nos avisar.
— É verdade isto?
— Senhor, tenho que confiar agora no julgamento de seu chefe de setor,
Gus Orff, que jura pelo valor do trabalho de Leyden. Chamou-o uma vez de um
homem dominado pelo trabalho. E no entanto, externamente, não se nota nada de
sua obstinação pelo trabalho. O senhor deve ver um dia como Leyden anda. A
gente pensa que está dormindo. Mas não é assim. Conheci homens que parecem
fleumáticos, mas são muito mais rápidos que outros.
— Herzog, o que você me vai dizer agora se eu lhe disser que estão se
queixando dele? Acusam-no até de estar boicotando o trabalho de pesquisa em
Impos.
O Tenente-Coronel Thomas Herzog era dono de uma memória fora do
comum. Não se esquecera do que Tyll Leyden fizera no ataque à cidade que
revivera seu passado depois de quarenta mil anos de destruída.
Protestou energicamente contra a acusação sem nenhuma base na realidade.
— Herzog — interveio Rhodan — olhe que dezessete colegas assinaram
esta acusação.
— Isto não pode ser verdade, senhor. Rhodan leu os nomes dos dezessete
acusadores. O de Sascha Populos não estava entre eles.
— E aqui estão os motivos aduzidos para provar a sabotagem.
O comandante da Explorer-2115 ouvia de respiração presa. Não lhe saía da
cabeça o pensamento de que se tratava de uma jogada suja. Estava crente de que
as acusações não tinham justificativa.
— Então, Herzog? — Rhodan olhou frio para o comandante.
— Senhor, há alguma coisa errada em tudo isto. Há coisa muito diferente
atrás desta trama. Naturalmente... — O rosto tenso de Herzog se desanuviou. —
Senhor, estou quase afirmando que Leyden está de novo na pista de coisa
importante ou experimentando algo desconhecido, que, evidentemente, altera seu
comportamento e o justifica também.
Rhodan olhou admirado para ele.
— O senhor tem um excelente conceito a respeito de Leyden.
O comandante reagiu.
— Não, não é verdade. Não posso é esquecer como eu também fiz uma
opinião errada do rapaz. Não podia suportar sua moleza e o aparente desinteresse
por tudo, o que me levou a julgá-lo erradamente. Até que um belo dia, vi a
realidade com meus próprios olhos, e o rapaz me convenceu de que eu estava
totalmente enganado. Senhor, uma coisa assim ninguém esquece. Por isso é que
tenho muita cautela agora e acho que seus colegas estão interpretando mal o
procedimento dele.
— Bem, Herzog, vou confiar em você. Estas acusações não me interessam
por enquanto. Eu lhe agradeço.

***

Descobriu-se no planetário o sétimo ponto onde faltavam milhares e


milhares de sóis com seus planetas e luas. Este sétimo enigma também continuou
insolúvel, ninguém podia atinar com a razão por que faltavam ali as estrelas. Pelo
exame sistemático da Galáxia artificial foi que se descobriu, há três dias, esta
última falha. Foi novamente Leyden quem reparou que, neste ponto da obra de
arte, não existia aquela escuridão suave do fundo, mas apenas um cinza-escuro
desbotado.
Novamente ele se perguntou, ali mesmo, no momento da constatação, o que
isto poderia significar. Não tinha resposta, pelo menos por enquanto.
— Sete é um número azarento — disse um de seus colegas.
Tyll Leyden não deu muita atenção ao palpite. Deixou-se flutuar para o
solo, encaminhando-se depois para a casa de máquinas, onde o ruidoso
funcionamento dos estranhos aparelhos era insuportável. Só se podia penetrar
agora na sala de máquinas com os trajes espaciais de isolamento acústico. Sem
isto, ninguém agüentaria.
O engenheiro Turander se aproximou dele. A comunicação tinha que ser
feita através do rádio do capacete.
— Leyden, quero preveni-lo. Mande todo mundo para fora daqui, do
contrário todos nós voaremos pelos ares. Exatamente hoje, às 17:34 h, tempo
normal, faz três dias que estes mecanismos estranhos roncam desta maneira, e
com tal força, que se pode sentir a rocha tremer até mesmo na cúpula da adega. O
Professor Attik e seus colaboradores gostariam de parar tudo hoje mesmo e não
amanhã. Estão com medo que o colosso caia em cima deles. Nós, porém, temos
receio de que tudo vá pelos ares. Leyden não quis entrar no assunto.
— As medições ainda não deram nenhum resultado?
Sua pergunta se referia ao ronco terrível das máquinas. Era e continuou
sendo um mistério por que a menor emissão energética na sala de máquinas
através do revestimento se extravasava.
Os nervos de Turander já estavam bem abalados. Não era de estranhar sua
resposta irritada:
— Vá para o inferno todo este trabalho de loucos! Não conseguimos apurar
nada, como se tudo aqui estivesse mudo. Não sabemos nem de onde vêm estas
interferências que deixam nossos cibernéticos desesperados.
Pela primeira vez, Leyden ficou sabendo de uma coisa que alguns cientistas
já sabiam. Turander tinha que fornecer relatórios. Não foi com prazer que Leyden
o escutou dizer:
— O único que se esforça para localizar a origem das interferências é
Populos. Mas ele também já desistiu. Robet também fingiu interesse, mas deixou
tudo de lado.
Leyden não deu atenção à última observação do engenheiro:
— Os variômetros da quinta dimensão estão derrotando os cibernéticos.
Era cada vez mais freqüente o uso pelos cibernéticos desta construção dos
posbis para constatar com exatidão a queda em fenômenos pentadimensionais
pouco esclarecidos.
— Derrotar não é bem o termo. Alguma coisa está interferindo e
falsificando os resultados dos variômetros. Populos diz que tais interferências
vêm do hiperespaço, mas que nada têm a ver com as flutuações da gravitação.
Também não chegou a descobrir o que seria e de onde vêm. Leyden, eu lhe peço,
mande todo mundo sair da Montanha Canora. As coisas não estão indo nada bem.
Mas a opinião de Tyll era totalmente outra.
Há três dias, às 17:34 h, tempo normal, todas as máquinas deste enorme
recinto aumentaram sensivelmente o barulho.
Há três dias, às 17:34 h, tempo normal, quatro fortes tremores de terra
abalaram as dezessete luas do planeta Hércules. Todos os sismógrafos arcônidas
enguiçaram. No entanto, o único sismógrafo que se encontra no centro da
montanha não registrou nada de terremoto.
O nervosismo e quase pânico devido aos fortes abalos, todos eles com mais
de dez minutos de duração, já estavam acabando hoje, três dias depois. Mas
ninguém tinha ânimo para um trabalho concentrado.
Calados, um olhando para o outro, ali estavam Leyden e Turander, na
galeria das máquinas. Os conjuntos imensos, da altura de uma casa normal, não
eram mais tocados por mãos humanas. Tocar em sua carcaça equivalia a se expor
a um choque de cem mil volts. As vibrações emanadas das carcaças jogariam
qualquer pessoa no chão. Ali dentro daquelas máquinas os diabos deviam estar
soltos.
Leyden queria apenas saber por quê. Por que roncavam daquele jeito? Que
pretendiam alcançar ou impedir?
Achava que os “homens antigos” que há mais de um milhão de anos
viveram neste mundo, não iriam fazer coisas fora do bom-senso. Daí então
concluir: o funcionamento louco do conjunto mecânico tinha sua razão de ser.
Turander achou que o silêncio de Leyden já estava demasiadamente longo.
— O senhor manda ou não manda o pessoal sair?
A pergunta não podia ser mais clara.
— Não!
Pelo rádio do capacete podia-se ouvir como Turander estava com a
respiração ofegante. Chegou bem na frente de Leyden, e este perguntou bem
calmo:
— Somente com a próxima coleta de assinaturas, Turander?
O outro riu.
— Não faça isso! Como se o senhor não soubesse que já foram
encaminhadas para Terrânia diversas queixas contra sua administração. Que
santo forte o senhor tem junto de Perry Rhodan para que este o proteja tanto?
Leyden não tinha a menor idéia de que fizeram queixas contra ele. Ao invés
de insistir no assunto, disse:
— Seria uma ótima oportunidade, Turander — e se encaminhou para o
grande portão.
Pelo estalo no rádio do capacete, notou que o colega desligara. Seus
pensamentos estavam longe. De repente ficou escutando e ligou todo o volume
para recepção. Reconheceu a voz de Populos, era ele mesmo. O som estava fraco
mas dava para entender. E ouviu um diálogo que lhe revelou muita coisa, menos
o nome do personagem desconhecido.
Populos: — Necessito urgentemente do deslocamento das curvas coloridas
e todos os dados sobre o campo magnético do planetário. Não me interessa
saber como eram antes do tremor de terra. Você pode me arranjá-los até hoje de
tarde?
A outra voz: — Robet parece ter ficado desconfiado. Mas posso dar um
jeito. Já tenho seus últimos cálculos. Leyden, com a sua teoria de Falton, já lhe
mostrou um novo método, muito interessante.
Populos: — Traga tudo. Como vão seus trabalhos na origem das
freqüências parasitas? Já descobriu onde começa tudo? Tem que estar na
montanha e, na minha opinião, no planetário. Você não consegue ainda entrar
no planetário?
A outra voz: — Fim da transmissão. — Quem está respirando aí?
Populos e o outro ouviram a respiração de Leyden, que olhava admirado
para os pequenos controles na altura do pescoço de seu uniforme, constatando
que mudara sem querer a freqüência do seu minúsculo rádio do capacete e assim
se tornara, também, falante.
Passou depois para a outra faixa e desligou o transmissor.
“Sascha Populos...”, pensava Leyden. “Este homem pensava em me
enganar.” Depois, voltou ao diálogo que acabara de ouvir. Só não podia
compreender por que Populos exigia os deslocamentos das curvas coloridas.
Lamentava que Populos não tivesse sido mais claro, mais preciso. Estava ainda
mergulhado nestes pensamentos quando entrou na cabina de rádio. Havia em
Impos dois técnicos em hiper-rádio. Os dois estavam ajoelhados diante do
aparelho, tendo desmontado boa parte dele. Leyden caminhou até eles sem dizer
uma palavra. Um deles olhou para o chefe, dizendo:
— Pois é, Leyden, um belo “abacaxi”! Antes do meio-dia de amanhã, não
podemos falar nem transmitir. Só podemos captar uma salada, de ruídos e o que
irradiamos não pode chegar ao hiper-rádio. Se ao menos soubéssemos onde está
o defeito do nosso aparelho...
— Já são três dias que o aparelho não vem funcionando bem.
Esta frase foi uma dica para Leyden. Na mesma hora, deu meia-volta e saiu
correndo, ele que geralmente andava tão calmo.
Há três dias, começara algo diferente e, mais uma vez, foi no dia 4 de
agosto.
Já tinha passado de meia-noite, quando Leyden, Robet e Mussol, esgotados,
fizeram uma pausa. Há oito horas que estavam sentados, numa puxada, no
escritório de Leyden, fazendo ininterruptamente medições, cálculos, indo de um
resultado para o outro. Uma coisa já estava fora de dúvida: O gigantesco planeta
não tinha mais o diâmetro primitivo de 2.213.000 quilômetros, ele estava
diminuindo.
Mas não era só isso: o Hércules perdia também massa!...
A massa perdida chegava já a três vezes o tamanho de Impos.
Procurou se orientar por meio de um calendário, pois não confiava mais em
si mesmo. Onde ficara o fenômeno do deslocamento do centro de gravidade do
Hércules? Hoje seria o dia em que, depois de sete períodos consecutivos, o
deslocamento devia estar muito visível. Mas não havia mais deslocamento no
Hércules. Neste ponto, ao menos, o gigantesco planeta voltara ao normal.
— Não agüento mais — disse Robet cansado.
Mussol estava sentado, distraído, e olhando para suas unhas. Tyll Leyden
olhou de um para o outro.
— Espero vocês amanhã cedo, boa noite!
Depois ouviu seus passos desaparecendo na distância. Não estava cansado,
nem exausto. Não tinha mesmo tempo para isto. Levantou-se e fechou a porta por
dentro. Passou depois para o recinto ao lado, onde, no correr da tarde, montara
um laboratório de medições, com o auxílio de Robet e Mussol, e também dos
robôs, mandando vir instrumentos de diversos setores. Protestos de muitos
colegas não adiantaram nada. A maior parte destes instrumentos deviam estar à
disposição dos técnicos de gravitação.
Somente uma pessoa não protestara contra as ordens de Leyden: Sascha
Populos. Acreditava que a erva daninha que semeara entre seus colegas já estava
bem crescida para uma boa safra.
Ligou a chave geral e uma máquina depois da outra começou a funcionar,
acendendo também os sinais verdes. Começou então o árduo trabalho das
medições e cálculos, correndo de um lado para o outro, dos locais de medição à
mesa de trabalho, para de repente parar espantado e ficar de respiração presa. O
rastreador estrutural ameaçava rebentar. Seus ponteiros e escalas móveis
oscilavam com exagerada rapidez, todos na faixa vermelha de alta
periculosidade. O que isto representava, somente Tyll Leyden podia saber.
Toda a instalação estava sendo atingida no momento por um gigantesco
choque de gravitação. Por um triz que o astrofísico não deu um grito. O Hércules
reduzira mais ainda o seu volume, exatamente neste momento.
— Meu Deus! — suspirou ele.
Das profundezas de Impos veio um ronco, qual trovão, seguido de estalos e
de um crepitar estranho. Impos estava sendo atingido novamente por violento
terremoto. Leyden tentou se agarrar em alguma coisa, mas o movimento do solo
a seus pés foi mais veloz e ele foi atirado a um canto. Não perdeu os sentidos,
mas ficou um tempo sem poder pensar com clareza. Esperava que a qualquer
momento Impos se partisse em pedaços e os atirasse todos no espaço.
De um momento para o outro, tudo voltou à calma. As entranhas do satélite
silenciaram e as próprias camadas externas voltaram ao normal. Já se podia ouvir
o ronco e a trepidação dos conjuntos mecânicos em volta.
Ao se levantar, com o corpo dolorido, Leyden teve a impressão de ter tido
uma alucinação:
“— Ainda haverão de presenciar o que lhes está reservado!”
Quem é que o estava chamando? “Leyden...! Leyden...!”
Era Turander, que gritava como um louco no rádio, lá da galeria de
máquinas na montanha.
— Leyden, por amor de Deus!
O astrofísico ligou então seu aparelho do capacete e um gargalhar estranho
penetrou em seus ouvidos, acompanhado de outros ruídos que não podia
identificar, pois não os ouvira antes.
— Está me ouvindo, Leyden? Isto aqui é o inferno, um inferno de
máquinas. Sou o último aqui dentro e também já estou desaparecendo. Eu... — o
resto se afogou num fragor indescritível.
Turander tentou de novo se fazer compreender no meio do barulho
alucinante, mas sua voz desapareceu e a transmissão cessou também,
subitamente.
Teria Turander desligado o rádio ou estava morto?
Leyden reprogramou o robô. Era o único em Impos a quem cabia o
privilégio de transformá-lo numa máquina de guerra. A missão do robô seria, dali
em diante, impedir que alguém desautorizado penetrasse em seu escritório,
durante sua ausência.
Ao chegar ao ar livre, ainda havia leve tremor no chão. As construções de
material plástico, em alicerces simples, balançavam de um lado para o outro. Em
toda parte estavam acesas as lâmpadas de emergência. — poderosos faróis
portáteis que lançavam seus raios concentrados até o próximo maciço da
montanha.
Não havia mais nenhum maciço, mas tão-somente a montanha de oito mil
metros, cercada por um gigantesco deserto de ruínas.
O terremoto provocara o desmoronamento numa parte da montanha, mas
não foi suficiente para destruir o planetário no penhasco.
Leyden compreendeu logo o que pretendia o forte grupo de quase cem
homens que marchavam direto para ele. Estava cercado por todos os lados pelos
faróis portáteis. É verdade que já esperava coisa semelhante, quando encontrou
no seu escritório duas armas de desintegração e outra de raios hipnóticos, bem
escondidas.
Os rostos duros que estava vendo não o perturbaram. Ele mesmo estranhou
isto.
Tinha na mão direita um desintegrador e na outra a pistola hipnótica de
grande alcance. Com olhar sereno, disse em voz normal:
— E agora, meus caros colegas, abram-me caminho, por favor. Quem
estiver na minha frente está me impedindo de ver o que está se passando no
penhasco e me obriga a fazer uso da arma.
Que pretendia o grupo? Queriam obrigá-lo? Devia renunciar ao cargo de
chefe? Teria que dar como causa de sua renúncia “espontânea” os acontecimentos
confusos de Impos que ele, pretensamente, não estaria em condições de suportar
mais? Leyden já havia pensado em tudo isso. Daí a firmeza de sua atitude e de
suas palavras, embora falasse com a paciência de sempre. Ninguém ali estava
crendo que Leyden fizesse mesmo uso das armas.
Como braços cintilantes, os feixes de luz atravessavam a escuridão. Alguns
tremiam nervosos de um lado para o outro. Encurralado pela multidão, Leyden
não podia dar um passo.
— Fique aqui, maluco! — gritou-lhe um colega. — A Montanha Canora
está para desmoronar.
Os homens que lhe estavam em volta não arredaram pé. Lia-se no rosto
deles indignação e medo de morrer. Da montanha vinha um crepitar constante e
roncos intermitentes que anunciavam a desgraça. O chão começou a tremer e,
subitamente, milhões de toneladas de pedra começaram a rolar.
Às costas de Leyden ecoou um grito lancinante e, no mesmo instante, a luz
gerada pelos muitos faróis se anuviou e os cientistas todos foram atingidos por
forte tosse, alguns em perigo de ficarem sufocados. Segundos depois, um não
podia mais ver o outro, pois uma densa nuvem de poeira os envolveu.
Leyden guardou as armas. Era empurrado de todos os lados. Não se
entendia uma palavra, pois era ininterrupto o ronco do maciço. Será que a
montanha de oito mil metros, com o singular planetário, havia desmoronado e
encoberto tudo com milhões e milhões de toneladas de rocha?
Leyden foi envolvido pela corrida em pânico dos seus colegas e caiu.
Alguém, sem querer, chegou a pisar nele e acabou também caindo. O astrofísico
não fez esforço para se levantar. Encostou o ouvido no chão e começou a escutar.
Impos gritava! Das profundezas de suas entranhas um ronco anunciava um novo
tremor de terra. E ele chegou, dez vezes mais forte que o primeiro, uma coisa
simplesmente indescritível. Depois, passou tudo. Depois de dez minutos, depois
de meia hora? Leyden não sabia. Perdera a noção do tempo. E o que era aquilo lá
ao longe? Leyden levantou a cabeça e viu então que o terrível estremecimento
das entranhas de Impos se completava agora com um furacão.
“Não agüento mais, não agüento mais!”, pensava Leyden, agarrando-se
com toda força nas pontas das rochas. Será que estava resguardado da ventania?
Será que o furacão passava acima dele? Teria forças para quanto tempo? E
quando começaria o novo dia?
Viu primeiro somente faróis portáteis, perdidos por seus colegas na
confusão da fuga. Percebeu depois que o ar já estava livre da poeira. Pegou num
dos faróis e apontou para a direção onde estava antes a grande montanha. Os
raios fortes lhe permitiram ver os contornos da Montanha Canora. O planetário
ainda estava lá, o maciço de oito mil metros existia, enquanto tudo em torno dele
fora destruído.
“Tenho que ir para lá.” Este pensamento o levou para frente e, quando
percebeu o que estava fazendo, já estava a caminho do planetário.
Raiava o dia, quando chegou ao portal na rocha e penetrou no gigantesco
corredor que levava para o interior da montanha. Viu um flutuador no
estacionamento e dentro dele um traje espacial. Examinou-o antes de vesti-lo,
partindo então para o portal interno. Pelo que disse Turander, não devia haver
mais ninguém na montanha. Leyden estava diante do grande portal fechado. Os
raios de seu farol varriam todo o recinto, examinando com muito cuidado o chão
e o teto. Procurava pelas conseqüências do tremor de terra. Mas, por mais que
olhasse, tudo parecia intacto, tão perfeito como antes.
E aquele admirável e benfazejo silêncio que o cercava! Chegou a ter
calafrio.
“Silêncio aqui...” — perguntou a si mesmo — “...e atrás deste portal... será
que as máquinas estão roncando? Como é que não sinto o chão tremer?”
Correu para o portal, puxou a viseira para frente e atarraxou o capacete. O
portão se abriu e Leyden penetrou na casa de máquinas. Hesitou, mas acabou
ligando o microfone externo de seu traje espacial, e ficou parado, atônito. O
microfone externo lhe trazia aos ouvidos o ritmo suave das máquinas
gigantescas. Não roncavam mais e o chão de rocha não tinha trepidação.
E Tyll Leyden compreendeu o que estava acontecendo.
— Oh! Meus “homens da antigüidade”! — suspirou ele, empurrando o
capacete para trás.
O silêncio continuou o mesmo. Aproximou-se devagar dos mecanismos e
tocou num deles com a mão. Sentiu apenas o metal frio, nada mais.
— Meu Deus! Está tudo normal! Automaticamente lhe veio a pergunta:
“Por quê? Por que uma raça que há tantos milhares de séculos não existia se
rodeara de tanta segurança em relação à maior obra-prima da Galáxia? Seria o
planetário alguma coisa mais que simples reprodução da Via Láctea?”
Leyden levou as mãos à cabeça. Não compreendia o que estava vendo,
estava mesmo perplexo. Tentou deixar de lado tudo que fosse secundário, para só
pensar no porquê. Não estava, porém em condições de se concentrar. Passara por
tanta coisa nestas últimas vinte e quatro horas, acumulara tantos conhecimentos
novos e vira tantas perguntas insolúveis surgirem a cada passo!
“Tenho que voltar ao planetário”... era o pensamento que o dominava. Ao
penetrar no foco luminoso, o campo magnético o puxou para cima, passando pela
abertura e pela barragem óptica e acústica. Por cima dele, abria-se a cúpula da
imensa catedral, abria-se a reprodução da Via Láctea. Estava tudo como deixara
antes. Dirigiu-se para um determinado ponto da periferia, sempre olhando para o
soberbo planetário. Passava constantemente a mão pelos olhos, pois alguma coisa
o fazia ver reflexos. Estaria cansado demais? Seus olhos lhe estariam dizendo
que estava passando da conta, indo além de suas forças? Engraçado, pois não se
sentia muito cansado. Tinha mesmo a sensação de haver dormido demais e de
estar com novas forças.
Sem o perceber, seus passos o levaram para a escultura que continuava
girando em seu pedestal. Os olhos da estátua tinham luz de dentro para fora.
Passou de novo as mãos nos olhos, mas o brilho deles continuou o mesmo. Ao
esticar os braços para ela, não teve nenhum pressentimento de perigo. Quando a
escultura deslizou por seus dedos, sentiu o frio de sempre. Deu um passo para
trás e sacudiu resignado a cabeça.
Que significaria o resplendor da estátua?
Quanto mais pensava a respeito, mais evidente se tornava a
responsabilidade que assumira perante seus colegas. Ao se recordar do modo
como fora recebido pelo grupo, pouco antes do tremor de terra, veio-lhe um
gosto amargo à boca. Sentia-se feliz agora pelo fato de a nuvem de poeira os ter
envolvido, sem nenhum ruído, pelo tremor de terra e pelo furacão que se
seguiram. Esta feliz coincidência o livrara de ter que atirar em seus colegas.
Mas, por que razão os olhos da estátua ainda refulgiam com luz tão intensa?
Por que as máquinas não roncavam mais?
Tudo isto tinha que ter um significado. Não acreditava que “os homens do
passado” pretendessem alguma coisa de mal com os descobridores de seu
planetário.
— É para a gente se desesperar! — exclamou em voz alta.
“Tenho que subir ao planetário”, pensou com tanta intensidade, que se
ativou um feixe de raios e o transportou para cima.
Não havia um objetivo determinado, e ele, pelo menos, não o tinha. Tinha
que pensar em Perry Rhodan. Neste momento compreendeu o que este homem
fizera pela humanidade. Com quantos mistérios se defrontara e a todos eles
resolvera.
— Sou um fracassado! — disse Leyden amargurado.
Encontrava-se a 2.000 metros acima do solo circular da catedral de pedra.
Com a mesma presteza de sempre, foi carregado para cima. Foi então que tornou,
enfim, a ver as estrelas artificiais. Apertou de novo os olhos, mais forte que lá
embaixo, e lhe voltaram os reflexos.
— Reflexos? — perguntou a si mesmo e repetiu: — Reflexos?
Em certos pontos da Via Láctea artificial via-se uma coloração diferente,
fora do natural. Eram manchas coloridas que brilhavam na luz irisada.
Leyden ainda estava a mil metros da periferia da Galáxia, quando fez a
segunda descoberta. Contou sete trechos irisados, para ter de novo diante de si
mais um por quê. Estes borrões brilhantes dentro da Via Láctea encontravam-se
exatamente nos mesmos lugares onde Leyden e seus colegas deram por falta de
nebulosas. Concentrou seus pensamentos no objetivo que tinha em mira e os
raios o levaram o mais próximo possível deles. Não teve nenhuma sensação
diferente ao pairar a quase cinco mil metros de altura e de estar rodeado por
milhões de pontos luminosos que representavam sóis. Não tinha tempo de se
preocupar com tais coisas. Olhava para as manchas luminosas e se lembrou de
que antes estas manchas lhe pareceram de um cinza desbotado.
“Para baixo”, pensou ele. E um outro feixe de raios o levou para o círculo
no solo da casa de máquinas. Ao sair, o grande portão se fechou automaticamente
atrás dele. Entrou no flutuador, passou pelo longo corredor e chegou ao ar livre.
O dia irrompera em Impos. Mas Leyden não reconheceu mais o trecho em
volta, nem mesmo mais ao longe. Onde estava o planalto com suas casas de
material plástico? Existiam ainda, mas agora numa forte depressão do terreno. Os
telhados rasos pouco sobressaíam dos blocos de pedra arrastados para ali.
Percebeu que, enquanto estivera na montanha, um novo terremoto varrera Impos.
De Eona e suas ruínas e da torre de cinqüenta metros, não se via mais nada. Uma
avalanche de rochas cobrira tudo. Sobrara apenas uma viela estreita, separada à
direita e à esquerda da avalancha do monte, viela essa que levava para a
Montanha Canora.
Leyden não notou que seu flutuador pousou suavemente depois de chegar
ao seu objetivo.
Perplexo, continuava olhando para o singular caminho da Montanha
Canora. A viela fora intencional, os “homens da antigüidade” a conservaram
apesar dos terremotos e dos deslizamentos, estes fantásticos “homens da
antigüidade” que viveram há mais de um milhão de anos, com sua técnica mais
forte que as forças da natureza desenfreada, mais forte que as energias de um
satélite do tamanho de um planeta normal.
Com o pensamento distante, deixou o flutuador. Quase não notou que a
maioria das casas estavam tortas. Viu seus colegas postados à frente delas,
discutindo. Passou por eles, caminhando na direção de seu posto de trabalho.
Somente à porta, escancarada pela posição oblíqua da casa, lembrou-se de que
era o chefe em Impos e, agora, depois de toda a catástrofe, tinha que dar
instruções. Virou-se para trás e encarou um por um. Havia medo nos seus olhos,
de permeio com ódio e desprezo.
— Meus senhores! — sua voz não estava muito forte. — Os senhores
devem começar com os trabalhos de limpeza e depois continuar com suas
pesquisas na Montanha Canora. Lá está tudo normal. Procurem agir como
homens inteligentes.
Acreditava com isto ter dito tudo.
Entrou na casa e subiu para o primeiro andar. Quatro degraus antes, parou
na escada. Na entrada para seu local de trabalho, estava destruído o robô que
programara para a defesa de seus documentos. Faltava a metade do tronco do
homem-máquina. A porta fora arrombada. Leyden sacou o desintegrador e a
pistola de raios hipnóticos. No momento, ali não estava mais o cientista, mas o
elemento formado para luta na Explorer-2115. Entrou na sala com dois pulos
rápidos. À sua mesa de trabalho estava um homem que logo tentou se levantar.
Eram exatamente sete horas e três minutos.
O homem ali sentado era Sascha Populos, o técnico em gravitação.
Às sete horas e seis minutos, Leyden chamou pelo hiper-rádio o médico da
expedição. Sascha Populos estava desacordado, sob o efeito de uma descarga
hipnótica. Em poucos minutos chegou o médico, curvou-se sobre a vítima, olhou
espantado e disse com expressão de pavor:
— Quem deu esta surra em Populos?
— Eu — explicou Leyden.
Não foi necessário dizer mais que isto.
— Mande levá-lo para a enfermaria e ponha dois robôs de combate para
vigiá-lo. Populos está sob ordem de prisão.
O médico não acreditou no que ouvira.
— Pelo amor de Deus, por que surrou o homem assim?
— Tirem-no da minha frente! — Foi só o que disse Leyden.
Pelo rádio, o médico chamou um robô. Poucos segundos depois, o técnico
em gravitação era levado nos braços metálicos de um autômato para a
enfermaria. E Tyll Leyden passou a estudar os documentos que encontrou nos
bolsos de Sascha. Pouco depois, subiu para o segundo andar, onde estava o
gabinete de trabalho do especialista em gravitação. Mas não ficou muito tempo
ali. Não se preocupava com as acirradas discussões de alguns grupos na rua que
ligava as casas. Atravessou-a e foi para a casa onde morava Populos. Ao abrir a
porta do quarto, deu de cara com as costas de um homem inclinado contra a
mesa, que, levando um susto, se virou, fazendo um movimento rápido com a mão
na direção do bolso.
Com a maior calma, Leyden lhe desfechou um tiro de raios paralisadores.
Na mesma hora, agachou-se para o corpo inerme e apanhou a folha de papel que
ia sendo enfiada no bolso. Examinou os documentos sobre a mesa e, quando viu
o diagrama sobre o deslocamento do centro de gravidade do Hércules, que havia
sido roubado de seu escritório, não teve dúvida, e ligou mais uma vez o seu
minúsculo rádio de pulso. Mas, além de chamar o médico, chamou também
Gastão Robet, Mussol e Players. Os cientistas chegaram antes do médico.
— Olhem só uma coisa — disse o chefe. Players reconheceu suas anotações
em alguns documentos e Gastão Robet descobriu a letra de Sascha Populos nos
papéis roubados.
Quando o médico chegou, Leyden deu as instruções:
— Trate Mille Davis como deve ser tratado do ponto de vista médico. Deve
ficar preso até a chegada da próxima espaçonave. Do mesmo modo como
Populos, nenhum contato com o ambiente de fora. Obrigado por tudo.
O médico pigarreou, queria dizer alguma coisa, mas ao notar o olhar duro
de Leyden, silenciou. Inclinou-se sobre Mille Davis e lhe aplicou o pulsômetro
no braço, a fim de constatar com que intensidade fora atingido.
— Leyden, o senhor atirou com carga plena, por que isto? — Havia
indignação nos olhos do médico.
— Meta a mão no seu bolso direito, doutor.
O médico obedeceu e tirou para fora um desintegrador destravado. Ninguém
viu a expressão de espanto no rosto do médico, pois os dois auxiliares de Leyden
estavam ocupados em examinar os papéis roubados e falsificados. O chefe
começou a examinar também o recinto, mas antes se dirigiu mais uma vez ao
médico:
— Doutor, minhas instruções valem também para o tempo em que os dois
pacientes estiverem sob seus cuidados.
— O senhor precisava mesmo bater desta maneira em Populos?
Sem lhe dizer uma palavra, Leyden abriu a boca e mostrou que lhe faltavam
dois molares.
O doutor lhe pediu desculpas, meio sem jeito.
A partir deste momento, havia um médico em Impos que não tinha mais
dúvidas sobre as qualidades de Tyll Leyden como chefe de uma equipe de
pesquisadores.
Depois que Davis foi também transportado por um robô, o astrofísico se
dirigiu aos dois colegas:
— Vocês podem me encontrar no aposento, digo, no escritório de Populos.
Com toda certeza, encontraremos lá muita coisa interessante.
— O senhor chama isto de interessante, Leyden? Se apenas a metade dos
cálculos de Populos está certa, então o seu mutismo significa um atentado de
morte contra nós todos.
Leyden deixou os dois colegas sozinhos.
4

Leyden se dirigiu para o primeiro grupo de cientistas que encontrou à frente


e interrompeu sua conversa:
— Meus senhores, se quiserem podem ficar aqui até amanhã cedo, de
braços cruzados, que eu lhes garanto que deixarão Impos com a próxima
espaçonave. Ou voltam para seus trabalhos. Como preferirem, meus senhores.
Já tinha quase atravessado a rua, quando ouviu um comentário mordaz:
“Que sujeito atrevido!” — Não deu bola, nem tinha mesmo tempo para perder
com bobagens.
No local de trabalho de Populos, encontrou primeiro os papéis normais, até
que deu com um bloco de folhas com o título “Molkex”.
Todo membro da tripulação de qualquer espaçonave tinha noção exata do
que era molkex, gafanhoto córneo ou verme do pavor. Terranos, arcônidas,
acônidas, enfim, todas as inteligências, falavam do assunto. Diariamente, estes
temas eram debatidos na televisão. A palavra gafanhoto era sinônimo de
destruição. A notícia da existência de um segundo império na Via Láctea causara
quase um maior choque do que a reportagem sobre os trezentos planetas
habitados que foram devastados e devorados pelos gafanhotos.
Sobre molkex, Tyll Leyden sabia pouca coisa. O documento que tinha em
mãos era-lhe desconhecido. Pelo menos não havia tomado ciência dele até então.
Começou a ler e a estupefação ia crescendo nele. O conceito “Molkex” o
inflamava todo, a tal ponto de se esquecer de que viera ali para examinar o
escritório de Populos. Entrou, de repente, Gastão Robet e lhe disse que estava na
hora do café.
Leyden sacudiu a cabeça.
— O quê? — Robet estranhou o chefe. — O senhor não quer café hoje?
Puxa vida, o que está lendo de tão fascinante? Ah!... Molkex. Este assunto...
— É isso mesmo — disse para ficar livre de Robet.
Neste momento, Impos foi novamente sacudida por um terremoto. Robet
puxou Leyden com força e os dois pularam para fora da casa. O chão em que
estavam subia e descia em espaços irregulares, sem falar dos roncos provenientes
das profundezas e do mesmo inferno de antes com o rolar de rochas e cascalhos.
Em conseqüência do afundamento do solo na região, as casas estavam agora
numa profunda depressão do terreno. O medo de ficar preso entre paredes que
oscilavam levou Leyden e Robet para mais longe. Mas, onde quer que
estivessem, o perigo era o mesmo. Leyden puxou Robet para trás, pois, a poucos
metros deles, a terra se abrira, deixando à vista uma fenda ameaçadora. Impos
parecia mesmo chegar ao fim.
Robet voltou para trás e viu o braço de Leyden apontando para alguma
coisa. Não podia saber o que era, até que, depois de segundos, percebeu tratar-se
da Montanha Canora. O gigante de oito mil metros não sofria nada com o
terremoto, imóvel na sua grandeza, como uma ilha em meio à tempestade.
De repente, tudo voltou à calma. E Impos ainda existia, se bem que para os
cientistas era grande o trabalho. Todos, com exceção de Populos e de Davis,
estavam fazendo a mudança de todas as instalações e móveis para o interior da
Montanha Canora. Era grande o serviço prestado pelos robôs, que carregavam
máquinas pesadas em placas antigravitacionais.
Como um náufrago que, mesmo na hora derradeira ainda espera por
milagre, assim todos acreditavam nos dados fornecidos por Leyden, crentes de
que, na Montanha Canora, não corriam mais perigo. Os robôs acabavam de
carregar o resto da mudança, mais ou menos às 14 horas.
Lá embaixo, na depressão do terreno cheio de sulcos, ficaram apenas as
casas semi-destruídas de material plástico, que acabariam desaparecendo com o
próximo tremor de terra. Para maior garantia, Leyden fechou o grande portão de
entrada para o rochedo.
Nas horas seguintes, Leyden não teve um só momento de sossego, estava
em toda parte. Os mini-comunicadores não paravam: “Por favor, venham para
cima, tragam tais e tais instrumentos...”
Acima deles estava o planetário. Os oitenta homens que ali estavam podiam
se perder naquela superfície de oito mil metros de diâmetro. Lá em cima,
cintilava, viva, a Via Láctea. Mas o brilho já não era uniforme. Em sete pontos
esmaecera bem a cintilação de antes. Os astrônomos que estiveram no alto
voltaram transtornados. Falavam de um brilho fosco, acinzentado.
A estátua estava muito diferente. Quando Leyden a viu depois de muitas
horas, ficou parado, olhando sem compreender. Estátua e pedestal irradiavam
agora um vermelho forte. Mas a rotação da figura no pedestal estava
demasiadamente lenta. Medira o tempo de uma volta completa: 68 segundos.
O que estava se passando? Ninguém o sabia. Leyden deixou o ambiente da
estátua giratória e procurou os especialistas em hiper-rádio. O grande transmissor
já estava montado e o oscilógrafo de ondas estava ligado. Ao invés de uma
amplitude limpa, acusava linhas confusas e ziguezagues.
— O aparelho de hiper-rádio está funcionando perfeitamente, Leyden. As
interferências vêm do hiperespaço. Mas depois que o aparelho foi transferido
para cá, está havendo outra interferência constante. Está vendo isto aqui?
O técnico apontou para uma chapa iluminada por dentro. Em sua margem
inferior aparecia alguma coisa com espantosa regularidade. Não era, porém,
possível interpretá-la, pois o que aparecia devia ser uma parte mínima do que de
fato havia.
Leyden percebeu um pequeno detalhe. Quando este se repetiu, deixou o
tempo correr. Na terceira vez que o detalhe se manifestou — uma interrupção
mínima na seqüência ininterrupta do fenômeno — desligou e marcou o tempo: 68
segundos.
— Meus senhores! A estátua está irradiando em hiper-rádio. Utilizem-se do
grande computador e tentem decifrar seus impulsos.
Nem reparou que todos olhavam admirados para ele, considerando-o um
gênio. Leyden saiu correndo, aparecendo segundos depois entre os técnicos em
gravitação, ocupados todos com seus problemas. Todos os instrumentos estavam
funcionando. Por incrível que fosse, o terrível tremor de terra não danificara os
instrumentos. Somente os arqueólogos lamentavam a falta das escavadeiras
automáticas, completamente perdidas.
Dois físicos faziam todo o esforço para substituir, na medida do possível,
Sascha Populos, que estava preso. Leyden estava para fazer uma pergunta ao
líder do grupo, quando Players se aproximou dele e lhe segredou alguma coisa ao
ouvido. Ambos saíram do local. Num canto, formado por dois grandes conjuntos
de máquinas, Gastão Robet estava esperando Leyden. Mussol estava sentado
diante do intercomunicador tendo acoplado um pequeno computador, que emitia
uma folha perfurada depois da outra.
Este recanto se convertera na central de dados. Para cá vinham todas as
comunicações, medições e cálculos dos diversos grupos. Oitenta cientistas e
técnicos trabalhavam num problema, sem saber mesmo do que se tratava.
— Leyden, veja isto aqui! — pediu Robet, estendendo-lhe um bloco cheio
de fórmulas. — Estas fórmulas foram confeccionadas por Populos.
— Descobriu algum erro nelas, Robet? Onde?
Este apontou para um determinado ponto.
— Obrigado.
Leyden apanhou as folhas de papel de suas mãos. Não se podia esconder a
desilusão no rosto de Robet, e Leyden fez como se não o visse.
— Vocês podem me achar no grande computador — disse e saiu
rapidamente.
Minutos depois, estava ele de novo no minicomunicador.
— Mussol, venha para cá com o intercomunicador.
Nem percebeu, depois, que Mussol já estava montando seu meio de
comunicação bem perto dele. Leyden estava à procura e já quase na pista de um
processo inimaginável, tudo isso devido a um erro de pensamento de Populos,
erro que Gastão Robet descobrira nos cálculos do grande técnico em gravitação.
Sascha Populos não fizera propriamente erro de cálculo, mas não pensara com
lógica num determinado ponto e tomara então uma fórmula básica errada.
Pelos cálculos de Populos, as dezessete luas do planeta Hércules estavam na
iminência de se precipitarem contra o planeta-mãe, catástrofe esta que ocorreria
dentro de cinco dias. E este fato, ele escondera de todos, até mesmo de seu
superior, a quem tinha obrigação de comunicar a descoberta, a suposta
descoberta.
Agora, Leyden quebrava a cabeça para achar o resultado certo. As fórmulas
da teoria de Falton lhe vieram de novo à cabeça. Desde que estava em Impos,
tentara aplicá-la, sem chegar e nenhum resultado. Agora, porém, estava diante de
muitos dados novos, o que fez com que arranjasse mais um trabalho para o
computador.
— Players, Robet, venham cá! Depois, dirigindo-se a Mussol:
— Vamos ao computador.
Robet e Players chegaram e Leyden lhes colocou nas mãos as folhas
perfuradas.
— Preparem-nas para a programação.
Não estavam mais conhecendo Leyden.
O computador estava de novo em funcionamento e devia agora ficar
ocupado com as fórmulas de Falton. Confiara outras tarefas a Players e a Robet,
enquanto ele ficou junto do coletor de dados, até que a longa tira começou a dar
voltas. Foi quando Leyden empalideceu, dando as costas aos colegas para que
não o vissem transtornado. Havia pavor nos seus olhos e tinha fundadas razões
para isto: o gigantesco planeta Hércules estava sendo devorado por dentro! Daí a
redução de seu volume.
— Leyden, os astrofísicos querem falar com você — disse Mussol.
Levou quase um susto e olhou para trás.
— Leyden, a situação em todos os satélites é a mesma: de plena
instabilidade. Nenhuma das dezessete luas foi poupada dos terremotos de
proporções planetárias. Parece que neste sistema está se dando uma onda
kalupiana invertida.
— Onda kalupiana! — repetiu Leyden apressado. — Mas isto é quinta
dimensão! Isto é, constataram como centro dos terremotos o próprio Hércules?
— Infelizmente, não. Não se sabe o ponto de partida, embora suponhamos
ser o gigante, mas não o podemos provar.
— Mas o faremos logo, não é?
— Talvez — disse seu colaborador, procurando uma evasiva. — Vou lhe dar
agora os dados.
Leyden continuou ouvindo. Após a transmissão dos dados, ficou parado,
abstraído, com os olhos fixos na Via Láctea artificial.
Alguém já dissera: “Os ‘homens da antigüidade’ omitiram propositalmente
as concentrações de estrelas em sete pontos da Galáxia” porém não se lembrava
mais quem o dissera, o que não tinha maior importância. O importante mesmo
era o fato e era necessário conscientizá-lo.
Propositalmente...! Leyden continuava olhando para o planetário, com a
atenção toda concentrada nos sete pontos de coloração viva. Brilhavam tanto que
ninguém podia deixar de ver.
Leyden não ficou mais surpreso quando viu os sete pontos de luz mais
intensa ficarem, de repente, mais escuros, voltando logo ao brilho primitivo.
Depois de observar o fenômeno pela terceira vez, fez a marcação dos segundos
no relógio. Ao ler o número, não teve nenhuma surpresa: 68 segundos.
Portanto, havia dado um passo à frente: a estátua e a Galáxia artificial
estavam interligadas. Leyden começou a quebrar a cabeça. Luz vermelha não
significava perigo em quase todas as raças? As condições em Impos não podiam
ficar mais perigosas do que já estavam. Preocupado, passou a mão pelo cabelo
louro-cinza. No meio deste movimento, teve um calafrio. Era como se tivesse
ouvido a voz do “Ser Coletivo” do planeta Peregrino. Sabia que era pura
imaginação. Mas as terríveis palavras não lhe saíam da cabeça: “Vocês ainda vão
presenciar o que está para vir”.
Pensamentos científicos se misturavam com preocupações comuns. O Ser
Imortal, aliás, nunca agira contra os interesses dos terranos. Por mais ridículas
que fossem suas brincadeiras, estas escondiam sempre um benefício para os
homens de Perry Rhodan.
O Ser Imortal fugira de um perigo inimaginável. Não fizera a menor
menção sobre o que representava este perigo e de onde vinha. Teria se referido a
este perigo quando disse, por ocasião do encontro do ativador celular na
Montanha Canora, que esta região não lhe agradava, exatamente por lhe ser
perigosa?
Mungs estava na frente de Leyden e o arrancou de suas divagações. Não
podia ter chegado numa hora mais desfavorável. Os olhos de Mungs estavam
arregalados de excitação:
— Leyden, nossos pesquisadores em Terrânia fizeram uma grande
descoberta.
Ele falava dos especialistas de Terrânia que Leyden solicitara para conferir a
Via Láctea artificial de Impos, setor por setor, com a verdadeira, para, por meio
destes controles, saber por que, em alguns lugares, faltavam grandes
aglomerações de estrelas.
Mungs falara de uma grande descoberta. Leyden, por sua vez, já passara por
tantas surpresas que nada mais lhe seria estranho.
— Pois não, Mungs, pode dizer.
— Leyden, em sete pontos faltam estrelas que realmente existem lá fora na
Via Láctea. Por sua vez, nossos pesquisadores encontraram, no planetário,
estrelas que não existem em nossa Galáxia. E o que é singular nesta descoberta:
ou este sistema aqui é o ponto de partida para a diminuição de estrelas ou é seu
ponto final.
— Onde posso encontrar os cientistas que fizeram esta pesquisa?
Não mencionou qualquer outra palavra que denunciasse sua preocupação,
apenas perguntou pelos técnicos.
Poucos instantes depois, estava entre eles.
Dois projetores começaram a funcionar, sem produzirem no entanto
qualquer imagem. Enquanto isso, o chefe da equipe fazia o relatório para Leyden.
— Assim que projetarmos os dois mapas siderais simultaneamente na
mesma tela maior, o senhor vai constatar que com a direção do abalo no sentido
do braço espiralado C-67 existe um trecho de diminuição de estrelas. Por favor,
projeção!
O resultado foi espetacular. Cada uma das duas cópias tinha uma coloração
básica diferente. Quando a mesma estrela coincidia nas duas projeções, a cor
então virava uma mistura. Nos lugares onde não se registrava coincidência, as
estrelas projetavam sua cor específica.
Dentro do emaranhado de estrelas, destacava-se com muita clareza um
trecho que, conforme o planetário, estava cheio de sóis que na realidade não
existiam.
— Nosso sistema aqui ou é um ponto de partida ou o fim. Infelizmente, a
projeção não pode dizer qual seja o certo. Qual é sua opinião, Leyden?
O astrofísico não quis se pronunciar. Os projetores foram desligados.
Leyden agradeceu e saiu. Para os demais cientistas, fora uma grande descoberta;
mas, para ele, o trecho de diminuição de sóis só podia assustar.
Será que o Ser Imortal do planeta Peregrino fugira de um monstro que
destruía agrupamentos de estrelas, como se fossem um punhado de areia?

***
Os homens lá da Montanha Canora gemiam com o trabalho que Leyden lhes
impusera. Os matemáticos da Explorer-2115 se lembravam de terem feito
cálculos semelhantes na nave de exploração.
Tyll Leyden voltou de uma excursão com três homens. Quatro robôs
carregavam os instrumentos de que se utilizaram. Lá fora encontraram de novo
uma situação infernal. Depois que o enorme portão se abriu no paredão de rocha,
puderam ver um panorama conturbado pelo tremor de terra. Estavam agora
seguros no longo corredor. Somente ali foi que os companheiros de Leyden
puderam compreender como os “homens da antigüidade” haviam construído
aquela catedral de pedra com tanta garantia contra terremotos. Enquanto
esperavam pelo fim dos abalos sísmicos, do qual não sentiam o menor reflexo ali
no corredor, Leyden aproveitou o tempo para dar uma explicação que parecia
fantasiosa, mas que não podia de maneira alguma ser desprezada.
— Senhores! O que nos está acontecendo, alguns instrumentos nesta
montanha já previram há muito tempo. Uma das primeiras reações foi o ronco de
máquinas gigantescas. Para isto só existe uma explicação: as máquinas tiveram
que duplicar a energia de que necessitava a instalação da montanha para fazer
face ao perigo que se aproxima.
No debate que se seguiu a esta afirmação, Leyden não tomou parte. Depois
de esperarem três horas abrigados na montanha, um homem enviado para o
portão veio avisar que em Impos já reinava plena calma.
Iniciaram-se então várias séries de exames no Hércules, pelo espaço de
quase duas horas. O grupo não se afastara mais do que duzentos metros da rocha.
Um homem estava constantemente observando o sismógrafo arcônida que previa
os tremores de terra com cinco minutos de antecedência.
A diminuição do planeta gigantesco tomava proporções inauditas. Leyden
não estava mais dando tanta atenção ao fenômeno. Com a série de exames, queria
constatar qual era o tamanho do planeta dentro do outro planeta Hércules. Fortes
abalos gravitacionais em plano pentadimensional tornavam o trabalho um
suplício. Já estava quase para desistir da tentativa, quando um de seus
companheiros veio gritando e apontando para o Hércules.
A superfície gelada com gás metano rebentou num determinado ponto do
planeta. Uma erupção energética, semelhante a uma protuberância, se projetou no
espaço. Felizmente para todos não foi na direção de Impos.
— Parece com o raio luminoso — disse Leyden, que não tirava os olhos dos
instrumentos. — Até que enfim! Essa erupção valeu a pena.
A protuberância desaparecera num instante e o Hércules voltara a ficar
como antes. Tyll Leyden estava intimamente mais feliz: o gigantesco planeta
desvendara pelo menos um de seus mistérios.
Aquele raio luminoso vindo do hiperespaço, que há tempos atrás perseguira
a Explorer-2115, deixara de ser um mistério. Estava mais do que evidente de que
se tratava de uma erupção energética. Mas, depois que Leyden consultou os
dados colhidos, sacudiu a cabeça descontente.
A erupção luminosa já era para ele um fato passado, fato este que nunca fora
constatado nesta forma tão original.
Na montanha, Leyden deu uma série de incumbências a cada um de seus
homens.
— Com os diabos, para que tudo isto de novo? — protestou o líder da
equipe de matemáticos.
Mas como Tyll Leyden não queria que penetrassem em seus segredos,
simplesmente não respondeu nada, porque era o único que sabia das coisas
terríveis que estavam para acontecer. Enfim, queria poupar aos outros este
sofrimento inútil. Tinha certeza de que ficariam sabendo de tudo no seu devido
tempo. No Hércules, vivia, pois, alguma coisa que devorava o planeta de dentro
para fora. O que seria? Algo de vivo? E por que começara sua atividade tão
recentemente?
— Já sei, já sei! — gritou Leyden com grande alvoroço.
Todo mundo correu para ele, fazendo-lhe inúmeras perguntas. Leyden,
porém, silenciou. Que sentido tinha então mencionar a data de 4 de agosto do ano
passado?
Tudo o que estava acontecendo no Hércules fora ativado pela onda de
abalos de origem energético-gravitacional que, no dia 4 de agosto de 2326, fizera
estremecer toda a Galáxia.
Novamente precisou do computador e se sentia feliz pelo fato de que, há
poucos dias, recebera muitos dados sobre a teoria de Falton. Iria aplicá-la de
novo, mas de forma diferente, circunscrita ao seu objetivo principal.
Após seis mil anos, Falton, o velho arcônida, iria receber as honras que não
teve em vida. Durante cinco horas, Leyden encheu o computador de novos dados.
Depois, afastou-se cansado e sentou numa cadeira. Sabia que teria de esperar
horas e horas pelo resultado.
O mutismo de Leyden contribuía para afastar os colaboradores curiosos.
Neste momento, estava ali sozinho, pensando na teoria de Falton. O velho
arcônida levantara a tese de que, sob certas condições, se podia dizer se o planeta
possuía vida ou era capaz de possuí-la.
Que era vida? Vida era um conjunto de funções que não precisava ter
inteligência nem instinto, mas tinha que mostrar reações. Quanto a saber como
seriam estas reações, e se o conceito vida fosse tomado em sentido tão amplo,
não seria necessário restringir o âmbito das reações.
Foi deste ponto de vista que Leyden partiu para, durante horas, ficar
abastecendo de dados o cérebro eletrônico. E perguntava-se: seria uma forma de
vida até então desconhecida que habitava o Hércules, produzindo abalos
gravitacionais, deslocando-se no planeta e causando tremores de terra em suas
dezessete luas?
Leyden não estava prestando muita atenção no que se passava em torno
dele. Os astrônomos e astrofísicos não tiravam mais os olhos do planetário.
Alguns poucos observavam a estátua cuja coloração caía cada vez mais para o
vermelho vivo. Mais para frente, outro grupo conferia as medições e ficavam
preocupados ao constatarem que o Hércules diminuía de volume mais depressa
do que supunham, propiciando assim maiores abalos de gravitação.
Não só em Impos, mas em todas as luas, o caos era total. Os tremores se
sucediam de tal forma que a cada momento se podia esperar uma destruição total
em algum satélite.
Somente na Montanha Canora é que nada mudava. Especialistas em
envoltórios magnéticos de proteção tentaram descobrir se o bloco de oito mil
metros estava protegido por algo semelhante, pois dentro da rocha não se notava
o menor sinal de abalos sísmicos. Embora não conseguissem provar nada,
afirmavam que devia haver uma proteção especial e ainda tinham esperança de
descobri-la.
Já os dois técnicos de hiper-rádio estavam desanimados. Não tinha sentido
desmontar toda a aparelhagem para localizar a causa do enguiço, pois o aparelho
estava em ordem. Se, apesar disso, não se conseguia emitir ou receber uma
comunicação por hiper-rádio, a causa estava nas perturbações externas que
destruíam toda a amplitude.
Os exploradores de Impos estavam isolados, estavam separados do resto do
Império. Se a central de comando em Terrânia não se desse conta de que não
recebiam mais contatos de Impos e se não lembrassem de mandar socorro
urgente, haveriam de encontrar mais tarde apenas uma sepultura natural coletiva.
— Acho que Leyden está ficando louco querendo nos obrigar a permanecer
aqui — disse um dos técnicos em radio-transmissão. — Só gostaria de saber o
que o prende neste inferno. Está de fato fascinado por este caos que pode ser
nossa sepultura.
Um outro estava mais calmo.
— Vou ligar de novo o conversor de símbolos, quem sabe entrará agora em
contato com a estátua.
Os dois técnicos de rádio ficaram na escuta. E o conversor de símbolos
começou a falar:
— Existência super-heterodinâmica!
Houve uma pequena pausa e logo depois se escutou a voz metálica:
— Os sentinelas do espaço estão chamando! Toda vida está ameaçada de
destruição. Evocamos a vida para que se conscientize do perigo.
— Vamos, chame Leyden, ele tem que ouvir isso!
Um dos rapazes do rádio saiu correndo, gritando a plenos pulmões:
— Leyden, transformador de símbolos está falando!
Só assim, conseguiu arrancar Leyden de seus pensamentos. Instantes
depois, o chefe de Impos estava ao lado do aparelho de tradução, ouvindo
atentamente, e pegou ainda a última parte da mensagem:
— Numa região de sobrecarga, surgida na última hora, a 4.000 cigins do
nosso sistema, conseguiu-se deter a existência. Mas a distância de apenas 4.000
cigins era por demais pequena. A explosiva sobre-saturação atingiu nosso
sistema com terríveis conseqüências. Contra nossos cálculos, houve o caos em
nosso espaço. Penetraram hiper-energias, unindo-se com fenômenos anormais e
se precipitaram contra nós. Uma pequena parcela desapareceu nas profundezas
das ilhas luminosas. Os sentinelas do espaço estão chamando! Procurem achar
o caminho pelo qual a existência chegou até nós e procurem ver os sete sinais e
sua significação. Criem uma zona de sobrecarga antes que a existência se
aproxime. Destruam-na, ou toda a vida será destruída. Se a existência continuar
viva, não haverá mais nenhuma ilha luminosa. Ela é uma existência ultra-
heterodinâmica!
Houve uma pequena pausa e mais uma vez soou a voz metálica do
conversor de símbolos. Leyden se ergueu, dando a impressão de muito
envelhecido. “Agora todos já sabem”, pensava ele. Não podia compreender como
não tinham percebido nada, até o momento. Não queriam perceber ou não
percebiam mesmo, por lhes faltar um pouco de fantasia? Será que não tinha
maior significado o fato de a advertência luminosa se dar exatamente de 68 em
68 segundos? E não se notava que a estátua não era outra coisa senão um
transmissor automático? E o que acabara de comunicar não era coisa sem
importância, era um aviso de perigo iminente, ameaçando a todos.
Quem transmitiu o aviso chamou o grande perigo de “existência super-
heterodinâmica”. Leyden não tinha dúvidas de que o conversor de símbolos
traduzira tudo corretamente. Já pelo próprio conceito se evidenciava a situação de
perigo. Era um receptor de sobrecarga que transformava matéria estável de
quatro dimensões em hiperenergia, para viver da matéria transformada. Era pois
um misto de alvo vivo, devendo ser ao mesmo tempo imensamente grande.
Leyden não se esquecia daqueles trechos sem estrelas dentro da Galáxia artificial,
que no seu ponto final apontava com muita clareza para este sistema.
A “existência” fora capaz de destruir grandes porções da Via Láctea. “Foi
capaz”... portanto, já viera uma vez. E quando fora isso?
Seus colegas estranharam quando o jovem astrônomo e físico os encheu
novamente de outros trabalhos. Toda nova incumbência estava rotulada com a
expressão: “Temos que saber tudo”.
Leyden proibiu todo contato com o grande recinto de máquinas, prendendo
assim os cientistas na catedral de pedra. Colocou Mungs como vigia do
computador que ainda estava em funcionamento.
— Mungs, não permita que ninguém leia os resultados quando o
computador os lançar para fora, e você também não deve ler.
Dizendo isso, deixou a catedral de pedra e se deixou transportar pelo campo
magnético para o local das máquinas. Destacou cinco homens para voar com um
jato “Space”. A expressão fisionômica dos mesmos indicava não estarem nada
entusiasmados com a nova incumbência.
— Mantenham o aparelho preparado para partir assim que lhes der ordem.
Deverão se afastar a toda velocidade do sistema e só lá fora entrar em vôo linear.
A distância do Hércules deve ser no mínimo de cinco horas-luz. Neste ponto,
enviar mensagem na faixa especial de Perry Rhodan, em caráter de urgência
urgentíssima. Devem repetir a mensagem.
Os homens se entreolhavam perplexos. Todos compreenderam que Leyden
os estava mandando para um comando no espaço. Havia hesitação nos seus
olhos.
Mungs entrou em contato com o chefe, pelo minicomunicador:
— Leyden, já saiu o resultado e Gastão Robet quer a todo custo lê-lo.
Todos viram como o rosto de Tyll Leyden se avermelhou de repente.
— Você tem uma arma, Mungs? — perguntou o chefe pelo aparelho de
pulso.
— Sim, tenho, mas para quê?
— Para atirar naquele que tocar na tira do computador. Não vou querer ter
malucos em torno de mim. Está bem entendido, Mungs?
— Perfeitamente, senhor.
Leyden desligou o aparelho e, olhando para os cinco homens atônitos, disse:
— Acham que a humanidade toda deve ser destruída, ou sentem algum
orgulho em fazer alguma coisa pela salvação de todos nós? Meus senhores, a
decisão está em suas mãos. Os senhores terão tempo de se decidirem.
Dizendo isto, deixou os homens ali parados.
A expedição de Impos ia passar a noite de ano-bom na catedral de pedra.
Ninguém pensava em comemorar o raiar do novo ano. Um depois do outro, os
cientistas iam chegando alquebrados de cansaço. Somente um parecia não
conhecer a palavra esgotamento: Tyll Leyden. Ouviu com freqüência que, nos
últimos dias, o chamavam de “senhor de escravos”.
Era inexorável consigo mesmo e, com sua maneira de dedicação total,
conseguia milagres com seus homens. Muitas e muitas vezes o computador lhe
negara seus serviços, e outras tantas ele o programara com novos dados. Já sabia
agora o que os “homens da antigüidade” entendiam com a expressão “cigin”. Os
matemáticos o ajudaram neste trabalho. O cigin correspondia à distância de um
ano-luz e se baseava na translação de Impos em torno de seu sol. Mas a idéia de
saber, por meio do planetário, quando o suprahet atacaria a Galáxia, só quem
teve mesmo foi Tyll Leyden.
Parado a mil metros sob a espiral, concentrou toda sua mente para imaginar
a constelação como ela se apresentava no momento da explosão. O que Leyden já
conseguira uma vez, foi capaz de repetir, graças aos “homens do passado”.
Segundos depois de sua concentração, houve um movimento acima dele. A
miniatura da Via Láctea fez uma rotação em torno de seu eixo falso. Milhões e
milhões de sóis com seus planetas e satélites se deslocaram de onde estavam.
Ficaram muitas horas lá em cima. Milhares de fotografias foram tiradas, às vezes
em condições difíceis. Depois, vieram as complicadas interpretações. Ao raiar o
dia 3, de acordo com o calendário “Standard”, o resultado total foi apresentado a
Leyden: dia 3 de janeiro do ano 2.327.
— Ele levou tanto tempo assim? — admirou-se Leyden ao ver a data do dia.
Com este “ele”, Leyden pensava em suprahet, numa existência gigantesca
destituída de toda inteligência.
Vindo das profundezas do universo, há quase 1,2 milhões de anos, irrompeu
na Galáxia para devorar milhões de sistemas e assim ameaçar a terra-pátria dos
“homens da antigüidade”. Literalmente falando, conseguiram no último minuto,
com o deslocamento no espaço, uma zona de sobrecarga, através da qual a
existência podia prosperar. Ele, o suprahet, não podia mais deter a concentração
de energia. Neste caso, “devorava a si mesmo”. Transformou-se num campo
fechado de tensões cujos valores ultrapassavam todas as concentrações naturais.
A explosão no contínuo normal se assemelhava então a uma detonação atômica.
Mas, ao contrário dos cálculos dos “homens da antigüidade”, não se perdeu no
hiperespaço, mas se estabilizou, no processo de transformação pela quarta
dimensão, em massa.
Sem deixar perceber nada, Leyden ia tomando conhecimento das notícias.
Pela terceira vez, graças a seus pensamentos, modificou-se novamente a posição
dos corpos celestes. O raio transportador o levou para o ponto mais próximo
possível deste sistema. Viu apenas dezessete planetas, circulando em torno de um
sol amarelo, não encontrando, porém, o planeta Hércules. Este surgira apenas
depois da destruição de suprahet: era ele o monstro. Sua grossa camada gelada de
metano não era outra coisa senão uma espécie de forte geada.
O astrofísico continuava contemplando a miniatura da Galáxia. Idéias e
fórmulas dançavam em sua mente, pensando também, às vezes, num bloco de
apontamentos com o título “Molkex.”
Molkex, a matéria que não devia existir — molkex era o enigma do
Hércules. Molkex era sempre ainda o suprahet, era sempre a existência, mas em
forma passiva. A onda de choques energéticos de origem gravitacional, do dia 4
de agosto do ano findo, a reativara. Aquele raio luminoso atirado contra a
Explorer-2115 se deu então em estado de quase subconsciência, isto é,
meramente automático.
“Ele” fora ativado, encontrando-se agora em estado de transformação, vindo
da fase de existência, como suprahet, sem sentido e sem razão, nada mais que um
monstro de proporções gigantescas.
Será que o Ser Imortal do planeta Peregrino fugira também dele? Era uma
pergunta que Leyden não podia responder. Sabia, porém, que o destino da
Galáxia estava em suas mãos. Escondera por tempo demasiado tudo que sabia?
Não devia ter avisado, há mais tempo, a Perry Rhodan, a Atlan ou mesmo a
Reginald Bell?
Quando estava no meio dos cinco homens que selecionara para voar para
fora do sistema, com o único jato “Space” que possuíam, a fim de enviar um
hiper-rádio para a Terra, disse com a maior naturalidade:
— Eu vou com vocês.

***
O jato “Space” subiu vertical, assim que deixaram a Montanha Canora.
Impos foi novamente sacudido por terríveis tremores de terra. O Hércules pendia
no espaço, cada vez mais ameaçador. Podia-se ver a olho nu como progredia o
processo de redução de volume.
Já era dia, mas os homens não viam o seu sol. Impos estava envolto numa
nuvem imensa de poeira revolvida pelo furacão. As forças da natureza pareciam
querer competir com o jato “Space”, mas sua propulsão foi mais forte. Em
poucos segundos, o aparelho varou as camadas mais baixas da atmosfera e se
lançou no espaço. Todos os instrumentos de rastreamento estavam funcionando.
Leyden imaginava que continuavam saindo fortes abalos de gravitação do planeta
Hércules, que eram superiores às forças amortecedoras do rastreador estrutural,
instrumento este que não queria de maneira alguma expor ao perigo. Queria usá-
lo somente quando o Hércules estivesse a mais de cinco minutos-luz de distância.
O pequeno jato disparava com velocidade sempre crescente, numa rota que
o afastava cada vez mais do planeta em processo de redução. Até então, tudo
corria normal, no entanto, à medida que se aproximava o momento em que o
aparelho passaria para o semi-espaço, o nervosismo aumentava.
— Vamos, rapaz! — dizia Leyden, olhando para o jovem piloto com
expressão encorajadora. Não imaginava quanta força e confiança irradiava seu
olhar sereno. Também não sabia que impressão causara na tripulação quando
disse que os acompanharia.
Veio a transição para o semi-espaço, sem nenhum incidente. O conversor
kalupiano roncava e o rastreador de relevo apontava para o sol que lhes servia de
destino, uma estrela a pouco mais de cinco anos-luz.
Leyden se virou para o radiotelegrafista, entregando-lhe uma tira de papel:
— Olhe aqui, irradie isto, depois de passarmos por este sol. Já está com a
freqüência de Rhodan?
Ele mesmo se certificou disso e viu como o radiotelegrafista colocou a tira
de papel. Estava tudo redigido em código, de maneira que ninguém, fora Leyden,
saberia o que fora transmitido. Nem mesmo os técnicos da grande estação de
hiper-rádio de Terrânia conseguiriam decifrá-lo.
Leyden hesitava se devia ou não ligar o rastreador estrutural. Olhou para o
indicador dos anos-luz. O jato se achava exatamente a dois anos-luz do sistema
Hércules.
— Não, não ligo não!
O piloto olhou admirado para ele:
— Gostaria de ter a sua calma!
— Calma? Você me acha calmo? Já fui calmo, mas há algumas semanas que
não o sou mais. Quando chegaremos ao ponto certo?
Mudou então de assunto e nem a estes homens disse o que estava para
acontecer. Mas no seu relatório a Perry Rhodan não escondeu nada. Neste hiper-
rádio, em que também pedia socorro à Terra, podia-se ler: “Se não nos vierem
buscar até a meia-noite do dia 4 de janeiro, qualquer outro socorro chegará
tarde.”
— Daqui a cinco minutos, entro no espaço normal — disse o piloto.
Estes cinco minutos se transformaram numa eternidade, até que chegou a
transição. O pequeno mas possante transmissor de hiper-rádio do jato “Space”
irradiou dez vezes seguidas o curto impulso. Na fração de um segundo, estava
condensado um relatório de meia hora de duração.
O transmissor silenciou, passando automaticamente para a escuta.
Esperaram. O tempo passava e Terrânia não respondia.
— Vamos! Faixa de emergência! — Leyden não estava agüentando mais.
Sabia muito bem que nem os mais poderosos super-encouraçados do Império
podiam fazer milagre e que um trecho de 50.000 anos-luz era uma grande
viagem.
A mão do radiotelegrafista já estava tocando a alavanca de freqüência,
quando o alto-falante começou a estalar, ouvindo-se de permeio uma voz que não
dava bem para entender. Depois ficou mais clara:
— A comunicação não está clara, repitam a mensagem. Não entendemos
nada, repitam.
Em sua poltrona, Leyden se virou para o lado e ligou a chave do rastreador
estrutural.
— Santo Deus! — exclamou ao ver os valores fantásticos dos abalos
estruturais.
Mesmo numa distância de mais de cinco anos-luz, a estrutura do espaço fora
afetada pelos abalos do deslocamento gravitacional. Constantemente, o ponteiro
de um instrumento atingia e às vezes passava da faixa vermelha. Leyden estava
surpreso de o instrumento estar resistindo tanto, quando, de repente, deixou de
funcionar, com um forte estalo.
— Vamos mais cinco anos-luz para frente, tão depressa quanto possível!
Espero que o jato agüente...
O pequeno aparelho mergulhou de novo no semi-espaço, atingindo
velocidade cada vez maior. Passou novamente para o espaço normal e a
mensagem foi transmitida mais dez vezes.
— Aqui fala Leyden, chefe do grupo de pesquisa de Impos. Recebeu nossa
mensagem? Em caso afirmativo, transmita-a imediatamente para Perry Rhodan.
Grau de emergência urgentíssima. Faça-o com a maior carga energética possível.
Uma voz de homem, quase cavernosa, perguntou:
— Que está acontecendo com vocês?
Calmo, imperturbável, Leyden respondeu:
— Uma centena de homens morrerão, se você continuar com estas
perguntas. Está me compreendendo? Não me faça perguntas, mas transmita meu
rádio imediatamente a Perry Rhodan.
— Qual é o número de seu registro especial, mister Leyden?
O homem no transmissor do cruzador pesado era um osso duro de roer.
Conhecia o regulamento e tinha que agir de acordo. Sabia que somente casos
excepcionais de extrema urgência permitiam entrar em contato direto com o
Grande Administrador. Leyden que não se esquecia da fórmula mais complicada,
não se lembrava agora do número de seu registro de prioridade.
— Não sei, não — constatou ele, falando porém fora do microfone.
No mesmo instante, afastou o radiotelegrafista e virou a alavanca de
freqüência para a faixa de emergência. Apertou o botão do automático e o pedido
de socorro do pequeno jato “Space” foi pelo espaço em hiper-rádio.
Quando, depois de trinta segundos, o botão do automático desligou, Leyden
apertou de novo a tecla de emergência de SOS.
— Mesmo que tenha de assustar toda a Via Láctea, aposto que em cinco
minutos minha mensagem estará nas mãos de Rhodan.
O telegrafista olhava para ele espantado. Mas Leyden continuava com o
dedo comprimindo a tecla de emergência.
Logo veio a resposta. Espaçonaves a mais de 30.000 anos-luz de distância
chamavam o jato “Space”. O pedido de socorro continuava sendo transmitido. De
repente, uma voz metálica sobressaiu a toda confusão de vozes:
— Aqui fala Terrânia, aqui fala Terrânia!
Mais do que depressa, Leyden ligou. Pela terceira vez, em dez repetições,
saiu o impulso de hiper-rádio. E assim que terminou, apresentou-se de novo à
estação de Terrânia:
— Confirmamos recepção, mensagem retransmitida...
Leyden se afastou um pouco e sorriu mais aliviado. Virando-se para o piloto
do jato, disse:
— Vamos voltar para Impos. Lá já nos terão colocado na lista dos
desaparecidos.
O jato voltou, usando de novo de toda a sua força para mergulhar no semi-
espaço. Leyden voltou às suas meditações. Não lhe saía da cabeça a admoestação
do Ser Imortal do planeta Peregrino.
O sistema que abrangia Hércules e suas luas era de fato uma região muito
perigosa. Inconscientemente abanava a cabeça. Tentava imaginar a formação do
planeta gigantesco. Tudo que sabia sobre a constituição de planetas, de nada lhe
servia neste caso.
O gigantesco Hércules, no seu interior, nada mais era do que molkex — a
forma passiva, materialmente estável do suprahet. No decorrer de mais de um
milhão de anos, formara-se, como um manto envolvente, a camada gelada de gás
metano. Constituindo-se, então, como novo centro do sistema, abstraindo-se do
seu próprio sol, atraíra para si, com o correr do tempo, os dezessete planetas
como satélites. Quantos abalos e convulsões físicas devem ter se registrado aqui
durante muitos milênios, até que todas as órbitas se estabilizassem, ninguém o
poderá saber.
Ao chegar a este ponto, em suas reflexões, perplexo e horrorizado, Leyden
perguntou a si mesmo:
— Qual terá sido a intensidade deste abalo, de gravitação, desfechado do
Planeta Eysal? Que instalações mecânicas, que parque gigantesco de máquinas
foi este que esteve em condições de realizar isto?
Seus pensamentos começaram a girar em torno dos “benévolos”, quando o
piloto lhe veio desviar a atenção.
— Leyden, o senhor não está vendo como a montanha de oito mil metros
está inclinada? E é neste inferno que tenho de aterrissar?
Impos estava de fato irreconhecível. Este mundo, muito semelhante à Terra,
com imensas florestas e majestosas montanhas, se convertera numa esfera de
entulhos e blocos de pedra espalhados por todo canto. Como uma cunha, com sua
extremidade fina virada para cima, lá estava a Montanha Canora torta, no meio
do mar de pedras e cascalhos.
Leyden regulou a ampliação da tela para o máximo. A Montanha Canora
parecia pular para dentro do jato “Space”. O chefe nem reparou nisso, o que ele
procurava era somente localizar o gigantesco portal na rocha, e logo o achou.
— Aterrisse na frente do portal — ordenou.
Quando o piloto quis retrucar alguma coisa, bastou um olhar duro de seu
chefe.
E o jato “Space” aterrissou.
5

Perry Rhodan se encontrava numa reunião muito importante, quando lhe


comunicaram a recepção de uma mensagem de urgência urgentíssima, vinda de
Impos. Contudo não se mencionou o nome de Leyden.
Rhodan ficou aparentemente perplexo. O nome Leyden já o vinha
preocupando há muito tempo. Dentro de um ou dois dias, sairia de Terrânia uma
nave Explorer diretamente para Impos, a fim de observar o mais breve possível o
correr dos acontecimentos, já que a estação de hiper-rádio não estava
funcionando, há mais de três dias, no terceiro satélite.
— Senhor — disse a voz pelo intercomunicador — a mensagem foi
transmitida pela faixa de emergência e a origem do rádio não é Impos, mas de um
ponto a dez anos-luz do satélite.
Enquanto a mensagem era transmitida, Rhodan tomou sua decisão e,
olhando em volta, disse:
— Meus senhores, temos que interromper a reunião.
Pouco depois, estava em seu escritório e mandou reproduzir a mensagem de
Leyden. Ainda não chegara à terça parte do relatório, quando mandou chamar
Bell, Atlan, Marshal e Mercant, que por sua vez puseram em estado de alerta toda
a Frota do Império, inclusive a USO. Todos estes chefes estavam na Terra; no
entanto, levou meia hora até que todos se reunissem.
A mensagem foi novamente apresentada e todos ouviam calados e com a
respiração presa:

— Através do choque gravitacional de Eysal, surgiu novamente


uma supersaturação dos resíduos passivos acumulados durante um
vírgula dois milhões de anos. A reativação produziu um processo de
transformações, em virtude do qual o molkex, materialmente estável,
regrediu para o suprahet. Tal processo ainda está em curso e não se
pode dizer quando terminará.
“Os sinais de alerta transmitidos pela estátua não forneceram
nenhum dado pelo qual se pudesse conhecer os meios utilizados pelos
“velhos da antigüidade”, há mais de um vírgula dois milhões de anos,
para fazer explodir o suprahet. Pelos cálculos feitos à base da teoria de
Falton, pôde ser constatado que nem toda a massa de molkex está
acumulada no planeta Hércules, mas uma parte caiu em outro planeta,
que temos que supor serem a pátria dos vermes-monstro.
“Desta maneira, temos que contar com o fato de que todas as
massas de molkex, independente de suas proporções, dos pontos em que
estejam na Galáxia, se encontram atualmente no mencionado processo
de transformação. Não se pode, porém, dizer ainda se pequenas
quantidades bastam para fazer delas um suprahet vivo.
“Seguem agora os cálculos realizados e as provas...”

Nathan, o gigantesco cérebro positrônico da Lua, já os estava conferindo. Já


na primeira reprodução do relatório de Leyden, Rhodan mandara fazer uma
ligação para Nathan, carregando o enorme computador com os dados de Leyden.
Calados e ao mesmo tempo perplexos, Rhodan e seus amigos ficaram
aguardando os resultados da Lua terrana. Ninguém se atrevia a ridicularizar o
relatório de Leyden, muito menos contestar suas afirmações. Quando, depois de
uma hora, Nathan não deu resposta, Rhodan aconselhou dar o alarme preventivo.
Os povos da Via Láctea ouviram o alarme de grau um, primeiro pelo grande
transmissor de Terrânia”, depois pelas estações da USO. Quase ninguém notou a
palavra “preventivo”.
Depois de uma hora e dezessete minutos, Nathan apresentou seus
resultados.
O maior computador do Império Unido confirmou os cálculos do chefe da
missão em Impos, e apoiou a sua proposta de afastar do conjunto tempo-espaço
todo o sistema EX-2115-485.
Bell não deixou de dar sua opinião:
— Este Leyden não se preocupa com bagatelas. Como é que ele imagina
isto?
Atlan olhou assustado, Rhodan não. Inclinou-se mais para frente e disse:
— Seria uma ótima oportunidade para podermos usar nossas bombas de
gravitação, não é, Gorducho?
— Todas? Você vai usar todas as bombas de gravitação? Meu Deus, isto
seria o cúmulo!
— É preciso tocar o demônio para fora. O que me deixa admirado é que este
Leyden descobriu qual é o meio adequado para isto, isto é, criar algo semelhante
com a zona de sobrecarga dos “homens da antigüidade”.
— E, se com isso, destruirmos uma parte da Via Láctea, Perry? Vou lhe
dizer com muita franqueza: tenho medo da experiência. Entenda-me bem: tenho
receio de desencadearmos uma catástrofe que já de início não podemos controlar.
Rhodan perguntou com muita calma:
— Você quer ficar olhando de braços cruzados até que o processo de
transformação esteja completo e surja de novo em nossa Galáxia um suprahet? O
que diz, Bell? Ninguém de nós pode se responsabilizar por isso. Nós não somos
os “homens da antigüidade”. A nossa técnica não chegou ainda a tamanha
grandeza, como a deles, há mais de um milhão de anos. E não esqueça uma coisa,
Bell. Enquanto estou informado, Leyden se apaixonou pelo seu planetário em
Impos. E é ele quem nos dá o conselho: “Toquem todo o sistema, com Hércules e
seus dezessete satélites, para fora do universo de Einstein!” Além disso, disse-
nos com toda clareza que a transformação de molkex em suprahet está em
andamento. Disse-nos, mais ainda, que o processo de transformação só pode ser
contido com saturação de explosivos. No afastamento do perigo, devem estar
incluídos também os vermes do pavor.
A central dos comandos Explorer em Terrânia estava chamando Perry
Rhodan, com a seguinte mensagem:
— Senhor, acabam de chegar notícias da Frota que observa o sistema
Eastside.
As notícias dizem que os “benévolos” estão em pânico, com decolagens
contínuas. Nas mensagens dos comandantes há unanimidade quanto à afirmação
de que as naves de molkex, depois de decolagens de emergência, explodem no ar
como bolhas de sabão.
— Qual é a causa disso? — perguntou Rhodan, que, como seus
companheiros, ouvia admirado.
— Até o momento não há explicação, senhor. Nossos comandantes não
sabem dizer nada.
Ao terminar a mensagem, Rhodan olhou para Bell, Atlan, Mercant e
Marshall.
— Então? Podemos interpretar esta notícia a nosso favor ou temos de novo
qualquer obra do diabo nisso?
— Na minha opinião, na nossa Galáxia estão acontecendo coisas demais —
disse Bell carrancudo. — Gafanhotos córneos, vermes do pavor, molkex que de
repente fica vivo... e agora nós com as bombas de gravitação! Santo Deus, não
acham que é demais tudo isto ao mesmo tempo?
— Não fomos nós que provocamos estes desastres — disse Rhodan com
muita ponderação, quando os demais nada disseram para as palavras de Bell. —
Temos que ver como dar conta de tudo.
— E o que vai acontecer com o comando de exploração de Impos? —
perguntou Atlan.
Rhodan começou a andar de um lado para o outro, parou diante da janela,
olhou para a selva de pedra de Terrânia lá embaixo e disse, sem se virar para os
amigos:
— Dentro de duas horas, os cruzadores tipo Cidade, Lhasa e Troja estarão
aterrissando em Impos para receber os cientistas a bordo. Nós partiremos com a
Eric Manoli. Neste comando, teremos oportunidade de falar mais detalhadamente
com mister Leyden. Acho que todos nós devemos muito a ele. Providenciem para
que, junto às bombas de gravitação, tenhamos também uma boa reserva de
bombas nucleares.

***

A Montanha Canora se transformara novamente numa caverna onde


imperavam fortes vibrações e um barulho caótico. Leyden e a tripulação do jato
“Space” foram atingidos, no portão da rocha, por uma onda de ruídos tal, que os
obrigou a voltar para o pequeno aparelho, onde vestiram o traje espacial,
atarraxaram o capacete com viseira bem larga e ligaram todo o sistema protetor.
Assim, penetraram mais uma vez na montanha de oito mil metros, que
apresentava agora uma inclinação de trinta graus.
No parque de estacionamento, encontraram flutuadores revirados e
totalmente inutilizados, devido ao violento choque provocado pela inclinação da
montanha. De cara amarrada, os homens fizeram o trecho de volta em vôo
flutuante usando o dispositivo do traje espacial. Ao passarem pelo grande portão
interno, uma forte luminosidade ofuscou-os em cheio. Observaram também que
os gigantescos conjuntos de máquinas pareciam pequenos sóis.
Leyden ligou o dosímetro de pulso e constatou admirado a ausência de
qualquer irradiação. Pelo rádio do capacete, comunicou aos rapazes que não
havia perigo nenhum no recinto de máquinas. Ele mesmo não sabia como
chegara a confiar tanto assim na técnica dos “homens da antigüidade”.
Tinham que passar pelos conjuntos motores, cujas carcaças incandesciam
num vermelho-claro. Parecia incrível que não derretessem com tamanho calor.
No entanto, ao medir a temperatura, teve uma surpresa: as carcaças irradiavam
luz fria!
“Coisa singular”, pensou ele, correndo atrás dos outros. Mas não disse nada
de suas observações. Enquanto o campo magnético o transportava para a abertura
no teto, pôde sentir como a montanha tremia e a rocha abaixo dele se rasgava em
fendas de cem metros de comprimento.
O raio luminoso deixou-o no planetário.
As palas de suas viseiras, que entravam em ação automaticamente pelo
excesso dos raios luminosos, continuavam protegendo seus olhos. Da Via Láctea
artificial desciam sete feixes de raios de um vermelho estranho, dando à imensa
cúpula uma aparência fantástica.
Leyden não teve tempo de olhar para o planetário lá no alto, nem por fração
de segundo. Todos os cientistas e técnicos estavam abrigados na catedral de pedra
e, embaixo, na sala de máquinas, não havia ninguém. O chefe da missão em
Impos foi cercado pelos colegas exaltados. O que ouvia no rádio do capacete era
tão forte e confuso, que não dava para entender uma palavra. Somente quando
pediu silêncio com movimento da mão direita, houve uma pausa.
— Meus senhores, Terrânia ouviu nosso pedido de socorro. Esperemos até
que sejamos recolhidos pelas Explorer.
Ninguém se deu por satisfeito com estas duas frases, e o vozerio voltou aos
ouvidos de Leyden. Com uma calma indizível, ouviu tudo por alguns momentos,
depois abriu caminho por entre eles e saiu.
Quinze minutos mais tarde, encontraram-no de novo. Estava tomando seu
café, com a maior naturalidade.
Depois do cruzador tipo Cidade, Troja, seu irmão gêmeo Lhasa também
deixou o satélite Impos, em estado de alarme. Ainda enquanto os cientistas
estavam subindo a rampa de embarque, a terceira lua do planeta Hércules foi
mais uma vez sacudida por forte tremor de terra. Assim, a tripulação do Lhasa
pôde fazer uma idéia do que os cientistas e técnicos tiveram que agüentar nos
últimos dias.
Acelerando ao máximo, o Lhasa deixou o sistema, afastando-se cada vez
mais do Hércules, cujos tremendos choques gravitacionais destruíram os
rastreadores estruturais do Troja e do próprio Lhasa.
Um único cientista deixava Impos, intimamente a contragosto: Tyll Leyden.
Estava pensando no fantástico planetário, nos grandes conjuntos de máquinas,
naquela maravilhosa construção dos “homens da antigüidade”, que há mais de
1,2 milhões de anos estava em funcionamento — por assim dizer, como
“sentinela do Universo”. Mas pensava também na transformação de molkex, e
um calafrio percorreu seu corpo, sentindo depois receio de que Perry Rhodan não
levasse a sério seu relatório.
Leyden entrou na sala de comando do Lhasa, exatamente quando a grande
tela mostrava o gigantesco planeta que desaparecia na escuridão do espaço. Pela
conversa de alguns oficiais, percebeu que o cruzador entraria logo no semi-
espaço. Apresentou-se então ao comandante, que olhou admirado para o jovem à
sua frente e indagou:
— Ah! O senhor é Tyll Leyden? Não são muito amistosas as observações
que seus colegas fazem a seu respeito. Meus homens e eu assistimos o final de
um tremor de terra. Tenho que lhe dizer que isto basta para os próximos dez anos.
Que foi que o obrigou a ficar tanto tempo assim em Impos? O senhor foi quem
descobriu o planetário, não é verdade?
— Sim, fui eu. Posso fazer uma ligação com o Administrador?
O comandante olhou-o mais espantado ainda.
— Ligação com Perry Rhodan, mister Leyden?
Isto não era coisa nem para ele, comandante de um cruzador tipo Cidade... e
este jovem falava em ligação para Rhodan, como se fosse seu assistente
particular.
— Claro que é com Perry Rhodan, comandante.
A resposta de Leyden parecia tão indiferente, como se nela não houvesse
nada de extraordinário. A reação do comandante foi uma negativa, um simples
não.
Leyden não reagiu de forma alguma à negativa, apenas perguntou:
— Posso me utilizar do computador de bordo?
Nos cruzadores do Império, o sistema de atividades era diferente do das
naves de exploração.
— O que o senhor pretende com o computador? — perguntou o
comandante, perplexo.
Leyden botou a mão no bolso e retirou o documento que o nomeava chefe
da missão em Impos.
— Leia isto!
O comandante leu o texto, devolveu-o e disse abanando a cabeça:
— Tenho que continuar com o meu não, mister Leyden...
Não pôde ir mais longe, pois sua central de hiper-rádio estava chamando o
nome Tyll Leyden, comunicando que Perry Rhodan desejava falar com ele.
O comandante ficou boquiaberto e começou a olhar para o jovem de outra
maneira. Leyden olhou em volta, viu a tela do videofone do hiper-comunicador e
ligou.
O rosto de Perry Rhodan apareceu na tela.
— O senhor é Leyden? Alegro-me muito em conhecê-lo. O comandante da
nave está ouvindo? Eu o vejo daqui e isto vai simplificar um pouco. O Lhasa vai
voar de encontro à nossa concentração, e você, Leyden, venha com todos os seus
documentos para a Eric Manoli. Eu o espero aqui. Até logo.
Leyden não precisou dizer uma só palavra. A tela do videofone apagou.
Atrás dele falou o comandante, em tom de embaraço:
— O senhor pode usar o computador de bordo, mas não toque no piloto
automático.
Leyden voltou até o lugar onde deixara uma pasta repleta de papéis. Perry
Rhodan teve que esperar dez minutos, até que do Lhasa veio a comunicação de
que Tyll Leyden logo faria o transbordo.
Bell e Atlan encontravam-se na cabina de Rhodan. Bell continuava com seu
hábito de tamborilar os dedos na mesa.
— Seu Leyden parece se dar muita importância, Perry! Acho o cúmulo nos
fazer esperar dez minutos.
Rhodan continuou calmo.
— Não acha melhor, Gorducho, esperar que ele mesmo nos diga por que
demorou a vir para cá?
Quando finalmente Leyden entrou na cabina, não teve tempo de dizer uma
só palavra, nem mesmo de fazer a saudação ao Grande Administrador do Império
Unido. Bell então o atacou com a pergunta formulada em termos ríspidos:
— Por que fez Perry Rhodan esperar tanto tempo?
— Senhor! — Leyden olhou para os três. — Tive um problema no
computador e fui obrigado a esperar pelo resultado. Posso pedir que vejam os
resultados?
Tyll Leyden se comportou perante Perry Rhodan da mesma maneira como
agira com o Comandante Thomas Herzog, da Explorer-2115. Era e continuava
sendo um homem de poucas palavras. Era também de opinião de que a folha que
entregara a Perry Rhodan era mais clara que todas as palavras.
Rhodan passou uma vista rápida no papel e o passou a Atlan. O terceiro a
receber foi Bell que, depois de interpretar os sinais, não disse nada. O primeiro a
falar foi Rhodan:
— Temos que avisar, em radio-circular, repetido constantemente, a todos os
proprietários de espaçonaves e aos armadores em geral. Só agora compreendo
por que, nos últimos dias, chegaram a um número assustador as comunicações
sobre espaçonaves perdidas. Leyden, como foi que você descobriu isto? —
Rhodan olhava para o jovem com curiosidade, enquanto Bell se retirara para
formular e pôr em andamento o aviso circular a todas as naves terranas e não-
terranas.
— Senhor, tentei conhecer, ao menos por alto, as quantidades de energia
que a existência irradia no planeta Hércules. Não consegui. Então, me perguntei:
que acontece com as espaçonaves que operam com o velho sistema de transição,
nos hipersaltos? E o resultado disso, já lhe comuniquei.
Rhodan sorriu, apesar da situação tão séria. Em qualquer sentido, este
jovem cientista parecia mesmo fora de série. Qualquer outro teria trombeteado
sua descoberta, mas Tyll Leyden dissera apenas duas frases simples, que nada
diziam, deixando então que os cálculos falassem por ele.
Estes cálculos afirmavam com grande clareza que cada uma das antigas
espaçonaves se desintegravam durante a transição no hiperespaço. A causa disso
estaria nos abalos energéticos da existência, que no hiperespaço provocam curto-
circuito nos motores de tração, levando a uma explosão.
— Onde estão, porém, seus documentos, Leyden? Só para sua informação,
quero lhe dizer que o cérebro positrônico da Lua aprovou todos os seus cálculos e
nós já estamos a caminho do Hércules com noventa por cento de toda a Frota.
Mas onde estão mesmo seus documentos?
Sem dizer nada, Leyden se agachou para apanhar sua pasta e a colocou
sobre a mesa, para abri-la sem dizer uma palavra.
— Só isso? — perguntou Atlan com visível ironia na voz. Julgou que ali
houvesse umas duas mil folhas.
Sem responder, Leyden apanhou no meio dos papéis um bloco que estava
grampeado.
— Aqui estão os resultados finais dos cálculos avulsos que em grande parte
estão relacionados entre si.
Meia hora mais tarde, Rhodan, Atlan e Bell ficaram observando com que
fleuma Tyll Leyden deixou a cabina.
— É um tipo formidável! — disse Bell sacudindo a cabeça. — Quando fala,
parece a própria preguiça. — Depois deu uma boa risada. — É... mas este rapaz
fleumático foi quem nos ensinou a ativar nossos próprios pensamentos. Tenho
que confessar que o rapaz me impressionou tanto que... Sim, qual é a novidade?
O intercomunicador estava chamando por Reginald Bell.
— Senhor, quanto mais nos aproximamos do nosso objetivo, mais fortes
ficam as interferências no hiper-comunicador. Quase não conseguimos mais
contato com a Terra ou com Árcon.
— O aviso circular e repetido já foi transmitido para todos os antigos
aparelhos de transição?
— Sim, já foi recebido em toda parte e está sendo retransmitido pelas bases
e espaçonaves por toda a Galáxia. Eu... um momento, por favor! A frota que está
no sistema Eastside se apresenta. O comunicado é o seguinte: Naves dos
“benévolos”, vindo em vôo direto na direção do sistema Eastside, mudaram de
repente de direção, não se podendo desprezar a hipótese de se dirigirem agora
para o gigantesco planeta Hércules. Fim da mensagem.
Bell queria desligar, quando o rato-castor Gucky se apresentou. Ele prestava
auxílio ao verme-monstro Pedro, no último convés da espaçonave.
— Perry — disse Gucky — o negócio com Pedro não vai bem. Ele pede
para ser transferido para um velho cruzador robotizado.
— Venha prestar mais informações aqui em minha cabina, meu caro.
— Impossível, Perry. Os senhores não fazem idéia de como Pedro está
perturbado. Tem medo de perder o juízo. Fala constantemente de influências que
se tornam cada vez mais fortes, de visões estranhas e de uma voz que o chama,
sempre mais nítida. Perry, temos que transportá-lo, do contrário ele morre a
bordo.
Rhodan olhou perguntando para seus colegas e eles concordaram.
— Está certo, meu caro. A Eric Manoli vai parar e uma nave robotizada vai
encostar. A nave vai levar Pedro para a zona de libração.
— Mas tem que ser muito rápido, porque o pobre Pedro está se contorcendo
em cãibras. Aqui... você o está vendo?
Gucky alterara o ângulo de seu intercomunicador. A objetiva grande-angular
dava para pegar agora o verme-monstro que se virava no chão, parecendo mesmo
tremer de dor. Tinha nos olhos uma expressão de angústia e perturbação.
Era uma coisa que nem Rhodan, nem Bell e nem Atlan esperavam.
— Vai logo Gucky. Você ainda consegue falar com ele?
— Uma vez ou outra, Perry! O esquisito é que os ataques o acometem em
intervalos certos. Há poucos minutos, quando ainda não se sentia tão mal, disse
ele: “Já tive isto uma vez, só não sei quando”. Perry, você consegue entender
uma coisa destas? Eu, pelo menos, não estou entendendo nada.
— Não tenho muito tempo para conversar, meu amigo. Tenho que mandar
chamar uma espaçonave robotizada. Diga a Pedro que ele será transportado logo.
Mas por que exatamente uma nave robotizada?
Gucky ia começar a falar, mas parou.
— Vamos, Gucky! Responda! — disse Rhodan mais energicamente.
— Pois é, pouco antes de eu chamá-lo, Pedro me confidenciou que tinha
medo de fazer explodir a nossa Eric Manoli...
— A nave robotizada estará aí em pouco tempo. Procure tranqüilizá-lo,
Gucky.
Com isso, a conversa chegou ao fim. Os dois minutos que se seguiram
foram ocupados em ordens expedidas. A Eric Manoli parou e uma nave
comandada por robôs chegou mais perto. Tyll Leyden também foi convocado e,
para variar, não chegou a tempo. Bell procurou saber onde estava o astrofísico.
Do posto de comando veio a notícia de que Tyll Leyden botara quase todo o
pessoal do serviço do computador a trabalhar para ele.
Rhodan colocou a mão no ombro de Bell e disse apenas:
— Então?
Contra sua vontade, Bell desistiu de fazer com que Leyden comparecesse
imediatamente ao escritório de Rhodan. Um tanto aborrecido, olhou para o lado
de Atlan, que desde o aparecimento do jovem astrofísico não fizera nenhum
comentário.
— Almirante, que diz o senhor do procedimento estranho do jovem terrano?
Atlan sorriu irônico!
— Mister Leyden tem uma personalidade e, cá entre nós, é competente.
Pedro, o verme-monstro, já tinha sido transportado para o velho aparelho
robotizado que começava já o caminho de volta, quando cinco naves Explorer
deram o alarme.
Estas espaçonaves, equipadas com os melhores instrumentos e os maiores
cientistas do Império, observaram nas últimas horas que os abalos gravitacionais
chegavam a proporções tais que deixavam prever uma catástrofe de
conseqüências imprevisíveis.
Não obstante as incríveis e incessantes interferências na recepção do hiper-
rádio, foi possível decifrar a mensagem de perigo das naves Explorer, mensagem
esta que foi encaminhada a Rhodan, exatamente no momento em que Leyden
entrava no seu escritório.
Sem dizer uma palavra, o astrofísico colocou uma tira de papel de mais de
um metro sobre a mesa e Rhodan pegou-a imediatamente para estudar. Parou, de
repente, olhando perplexo para o jovem astrofísico:
— Já amanhã? Amanhã entre 14 e 18 horas, tempo “Standard”? Amanhã
deve terminar a transformação de molkex em existência? Como é que o senhor
sabe isto, mister Leyden?
— A teoria de Falton é inesgotável, senhor. Difícil é explicar a constituição
da existência, uma mistura da pentadimensional com a quarta dimensão. Mas, se
o senhor não está familiarizado com a teoria de Falton, não estou em condições
de lhe explicar por que será exatamente amanhã que termina a transformação de
molkex em existência no Hércules e nós então passaremos a enfrentar o suprahet.
— Queira Deus que o senhor esteja enganado, mister Leyden. Teve
conhecimento de que tivemos de deixar sair de nossa nave o verme do pavor
Pedro e deixá-lo voltar? Mandou-nos avisar que tinha receio de sua inteligência.
Leyden fez que sim, como se isto não lhe fosse surpresa.
— Transformações do molkex também nos vermes do pavor! Posso ir,
senhor? Tenho ainda alguma coisa que fazer.
— Quando é que o senhor não vai ter nada que fazer, mister Leyden?
— Quando este caso ficar resolvido, senhor.
— Então não quero detê-lo aqui, mister Leyden.
Podia-se calcular a enorme periculosidade das transformações de molkex
para toda a Galáxia pelas fantásticas providências que o Império Unido tomou
para deter o processo iminente.
Desde a constituição do Império Estelar, nunca houve tamanha
concentração de espaçonaves como nesta expedição contra o sistema EX-2115-
485 com Hércules e suas dezessete luas. E nunca, até então, uma frota tão
numerosa levava consigo tão grande número de bombas de gravitação.
Pela zona de libração do semi-espaço disparavam os mais pesados e os mais
leves aparelhos, tendo todos um único objetivo. Todos a bordo já sabiam que era
apenas questão de horas e sabiam também que eram impossíveis as transmissões
de hiper-rádio para a Terra ou qualquer outra direção, em virtude da crescente
onda de interferências.
Uma nave abandonara sua esquadrilha e tomara a direção de retorno. Era a
DD-0-586, uma espaçonave robotizada, do tipo de construção antiga, levando a
bordo o desesperado Pedro.
As tripulações de todas as cosmonaves estavam prontas para entrar em ação.
Sabiam do que se tratava e estavam a par de como consegui-lo. Era a primeira
vez que os intrépidos terranos iam tentar a quase fantástica empresa de banir do
espaço de Einstein um sistema solar inteiro. Muito natural também que as
opiniões dos cientistas estivessem muito divididas quanto ao sucesso ou fracasso
do plano fenomenal. Tyll Leyden, o cérebro e articulador de tudo, não podia estar
enganado, seus cálculos falavam uma linguagem muito clara. E seu melhor
aliado era o próprio Perry Rhodan.
Rhodan voltou novamente ao assunto do fator certeza no plano de Leyden.
— Será que a força de 17 vezes 5.000 gravitações e cerca de 100.000
bombas arcônidas serão suficientes para lançar o Hércules para o hiperespaço?
Será que com nossa experiência, o suprahet não se transformará em vida? Será
que com a liberação destas energias, vamos provocar um impulso que fortalece
de tal maneira o suprahet, que lhe dá possibilidade de continuar no espaço
normal, enquanto todo o resto desaparece no hiperespaço?
Leyden pertencia aos homens do alto-comando da operação da Eric Manoli.
Todas as perguntas eram feitas a ele, que as ia respondendo:
— Não sei, não, senhor!
— A teoria de Falton não nos poderia ajudar?
— Creio que não, senhor.
Via-se nele que não se sentia bem respondendo a perguntas.
Bell interveio na conversa:
— O senhor não tem nenhuma idéia de como, ou com que meios, os
“homens da antigüidade” estabeleceram a zona de sobrecarga, com que há 1,2
milhões de anos o suprahet explodiu? O senhor conhece melhor do que ninguém
a Montanha Canora em Impos.
Leyden olhou um pouco para ele, pensativo, e depois disse:
— O certo é que ninguém conhece nada da composição da Montanha
Canora. As ruínas de Eona, que nossos arqueólogos escavaram, não revelaram
nenhum segredo.
Mas Bell, cabeçudo, insistiu com suas perguntas:
— Como é que o senhor explica a elevada inteligência dos vermes do pavor,
enquanto o suprahet não possui nem inteligência nem instinto, o que é uma
contradição berrante.
— Não, não há nenhuma contradição, se considerarmos que os tais vermes
se originam das massas de molkex, mas de um molkex que se encontra no
processo de transformação devido à explosão do suprahet. Este processo de
relativamente pequena massa de molkex, em comparação com a enorme
quantidade acumulada no Hércules, se deu menos em órbitas energéticas do que
muito mais na esfera orgânica. O desdobrar deste fenômeno levou tempo e se
estendeu por mais de um milhão de anos. As propriedades energéticas de molkex,
praticamente indestrutíveis, passaram como característico inalterado para os
vermes-monstro. O comportamento de Pedro provou sobejamente que ainda hoje
existem ligações profundas entre a massa de molkex e cada um dos vermes-
monstro. Senhor, estas considerações não foram submetidas ainda a nenhum
computador. Não passam, portanto, de mera opinião minha.
Chegou a vez de Atlan que também tinha sua dúvida:
— Leyden, como é que o senhor explica a seguinte contradição: o molkex
no Hércules foi ativado, vamos dizer assim, pelo choque gravitacional de 4 de
agosto. Para poder se transformar no suprahet necessita de enormes quantidades
de energia adicional que ele retira de resíduos de matéria no Hércules, matéria
esta que não é molkex. Até aí, está claro. Por sua vez, não dispõe ainda no
momento de energia suficiente. Como pode então irradiar energia sem parar? De
um lado, não tem energia suficiente... do outro, esbanja o pouco que tem. O
senhor pode me explicar isto?
— Não há contradição — disse Leyden sem hesitar. — O suprahet é meio
pentadimensional, meio da quarta dimensão. Alimenta-se energeticamente das
duas fontes.
Mas o Hércules e sua matéria são da quarta dimensão. O que o senhor
considera desperdício não é outra coisa do que absorção de alimento em âmbito
pentadimensional. Nós mesmos vemos como o Hércules invade nosso contínuo.
Mas, senhor, a sua opinião pessoal não é obrigada a seguir a minha.
— Sim, é verdade, ainda tenho minhas dúvidas.
Percebia que o Gorducho não ia muito com as teorias de Leyden. Por que
motivo o jovem não defendia com mais ardor suas opiniões? Não teria amor-
próprio?

***

O sistema EX-2115-485 estava hermeticamente cercado pelas astronaves do


Império. Nesta muralha circular de bloqueio estavam cinco mil encouraçados
robotizados e cerca de trezentos cruzadores pesados com tripulação terrana.
Distribuídos por igual, aterrissaram em todas as dezessete luas do Sistema,
tomando parte nos infernais tremores de terra. Nenhum comandante se atreveu a
mandar para fora da nave um só tripulante. Todo o descarregamento das bombas
arcônidas de gravitação foi efetuado pelos robôs. Para isto, tiveram que lançar
mão de todos os robôs existentes no Império. As tripulações, por sua vez,
olhavam atônitas, nas grandes telas, o desenrolar do maior comando terrano de
todos os tempos.
O rádio comum funcionava relativamente bem, mas toda a aparelhagem de
hiper-rádio estava desligada. Nas proximidades do planeta Hércules, qualquer
ligação destes instrumentos significaria sua destruição.
Com alguma distorção, sempre chegava das dezessete luas algumas
mensagens. Eram os comandantes das unidades pesadas falando sobre o
andamento dos trabalhos de descarga das bombas. Todas as cosmonaves
pairavam a alguns metros do solo sacudido por terremotos. Os robôs desciam em
terra com as pesadíssimas bombas, depositavam-nas corretamente e subiam
novamente pelas comportas abertas.
Não havia mais dúvida: as dezessete luas estavam condenadas à
destruição!...
Os aparelhos de Impos anunciaram ter terminado o descarregamento. E
quase na mesma hora veio a mesma comunicação das luas, 6, 9, 14 e 15. Como
última esquadrilha, saíram do sistema aquelas cosmonaves que descarregaram
bombas na segunda lua. Durante o trabalho de colocação das bombas, tiveram de
trocar quatro vezes de local onde flutuavam, devido às enormes fendas que se
abriam a seus pés.
Encontravam-se agora somente cinco mil espaçonaves no sistema,
agrupadas uniformemente em torno do sol. O império já tinha dado como
desaparecida esta enorme esquadrilha. Nenhuma das naves robotizadas tinha
possibilidade de escapar da catástrofe que se desencadearia no sistema EX-2115-
485. Quem estava atrás das torres de artilharia, fazendo tudo que fora
programado, eram os robôs, que não conheciam nem medo, nem perigo. Tinham
sob a mira telescópica o sol EX-2115-485, e esperavam apenas a ordem de
comando, para que, dos cinco mil aparelhos robotizados, disparassem as bombas
de gravitação.
Estava calculado que cada encouraçado robotizado daria três séries de
descarga e, depois, acompanhando a destruição do sol, se precipitariam no
hiperespaço.
Um corpo celeste deste sistema fora poupado: o Hércules, o planeta que de
sua grandeza descomunal não tinha mais nada. Nele não foram despejadas
bombas de gravitação e não houve o cerco hermético das cinco mil naves
robotizadas.
No posto de comando da Eric Manoli reinava uma tensão diferente. A
poderosa Frota do Império se retirara para o semi-espaço, e no rastreador
topográfico o sistema EX-2115-485 era observado de todos os lados e por todas
as naves.
Os minutos passavam com uma lentidão de arrebentar os nervos. Muitos
milhares de torres de artilharia já apontavam para o alvo ainda muito distante.
Seria interrompida a contagem do tempo para o momento decisivo e as
esquadrilhas voltariam ao espaço normal a fim de impedir que os candidatos à
autodestruição se projetassem de encontro ao EX-2115-485?
Na Eric Manoli, os objetivos eram vistos mais depressa que nas demais
naves.
— Não há dúvida de que são belonaves dos veneráveis!
Neste momento, surge Leyden ao lado de Rhodan.
— Senhor, não deve interromper a contagem regressiva da hora “H”
determinada. A massa de um molkex está quase terminando seu processo de
transformação. Olhe por favor, para as correntes energéticas pentadimensionais
que não têm quase mais força de tremor de terra.
Apontou para uma curva de cintilação azulada que ficava cada vez mais
fraca.
— Mas, e os “benévolos”, mister Leyden?
O astrofísico sorriu.
— Como achar melhor, senhor. Acho que ultimamente tenho me esquecido
de tomar café — dizendo isso, cumprimentou-o e desapareceu atrás do
computador.
Bell disse com voz suplicante:
— Deixe de lado a contagem regressiva, Perry! Por causa de algumas naves
de molkex não vamos arriscar toda a Galáxia.
— Dentro de duas horas — respondeu Rhodan, que ainda não tomara
nenhuma decisão.
Neste momento, chegou-lhe às mãos uma notícia que muito o abateu: o
verme-monstro Pedro, num acesso de loucura, destruíra a nave robotizada que o
recebera. A mais de vinte mil anos-luz de distância deste sistema, ouvira-se a
transmissão do pedido de socorro da nave robotizada. Uma astronave do Império,
que casualmente trafegava pelas proximidades, disparou para o local da
catástrofe e lá só encontrara destroços. Do verme-monstro não se via mais nada.
— Lamento por ele — disse Rhodan. — Sinto muito a sua perda, era um
bom amigo.
De repente, olhou para cima. Em três segundos chegaria a hora decisiva.
Não se podia mais impedir a destruição do sistema EX-2115-485.
O robô BG-087-653 estava sentado à frente do registro geral do comando
ativador da bateria de fogo. Seu sistema de lentes visuais acompanhava o leve
tremular de alguns ponteiros. Nele, como em centenas de milhares de outros
robôs nas cinco mil naves, a programação corria inexorável. E o fato de que esta
programação o levaria à destruição, em nada o afetava. Viu o prazo da hora
decisiva chegar a seu término e os relâmpagos dos canhões gravitacionais de sua
nave, ininterruptos. As miras telescópicas mantinham as armas apontadas para o
sol EX-2115-485. Em 4.999 outras naves robotizadas as cenas se repetiam.
Faltava ainda uma fração de segundo e o robô BG-087-653 continuava
observando. Dezoito geradores na espaçonave produziam a energia necessária
para os canhões de gravitação. Em rápidas espirais na direção do sol, uma boa
dúzia de bombas de gravitação formaram a primeira salva de disparos. O mesmo
aconteceu em 4.999 outras espaçonaves robotizadas.
O robô BG-087-653 não tinha a menor idéia do que fosse uma bomba de
gravitação, nem sabia que só poderia ser atirada contra um alvo sólido. Também
não lhe interessava saber quais eram seus efeitos, e nem por que um sistema solar
inteiro iria ser destruído.
O robô não se movia. Somente observava. Pela brusca mudança de cor
numa escala colorida, constatou que a primeira salva de bombas já terminara.
Veio a segunda, depois a terceira.
Depois, por toda parte, não se via outra coisa a não ser sol. Não havia mais
nem uma só das cinco mil naves robotizadas: viraram fumaça e poeira no espaço.
Concomitantemente com a detonação de 300.000 bombas arcônidas nas
dezessete luas, lançaram-se também contra o sol dezessete vezes 5.000 bombas
de gravitação.
No vidro fosco do rastreador topográfico havia uma assustadora vibração
arroxeada. Onde, ainda há poucos segundos, luas giravam em torno de um
planeta gigantesco, estendeu-se, por todos os lados, um vagalhão imenso de
ondas em tons violeta, cuja direção era o planeta Hércules, que acabou tragado
no turbilhão. O sol se transformou num monstro de tonalidade azul-clara, e
cresceu com uma rapidez tal que nem mesmo a vista humana podia acompanhar.
Então, todos que estavam nas astronaves do Império e assistiam a este fim de
mundo, tinham a sensação de estar vendo este vagalhão incandescente já há
muitos minutos.
Rhodan, Bell, Atlan e Leyden não tiveram tempo de ver aquele espetáculo
sem par. Estavam diante de um grande instrumento ao lado do computador,
acompanhando as oscilações loucas dos ponteiros, a rotação acelerada das
escalas coloridas, o vaivém das amplitudes e a variação das cores primitivas na
pequena tela de iluminação indireta.
Há dois segundos, iniciara a dissolução do sol e de seu sistema. Por quatro
segundos, logo no início, houve uma reação à destruição. Neste curto intervalo, o
número colossal de bombas que detonavam transformaram matéria em energia
numa proporção tal que o espaço normal se dissolveu com o excesso de tensão
energética, tocando o excedente para o hiperespaço.
O cronômetro do aparelho acusava 4,37 segundos, quando o sistema
desapareceu. Atrás deles, os homens gritavam, homens que não conheciam nem
medo, nem terror. O vagalhão incandescente explodira num raio, cuja direção
ninguém podia determinar. Mas, com este raio, parece que a imensa onda
luminosa chegou ao fim. Ela que, em poucos segundos, partindo do nada, se
ampliou milhões e milhões de vezes, oriunda de uma gigantesca explosão,
formou então uma imagem como se, com o raio, tivesse provocado uma
implosão.
Esta onda, ou melhor, este vagalhão incandescente, continuava com seu
brilho ofuscante de um azul-claro. Tornou-se tão intensa sua luz que ninguém
mais podia olhar para ela na tela do rastreador. No entanto, o imenso vagalhão se
reduzia a olhos vistos, parecendo tomar determinada direção.
De repente, tudo cessou. O vagalhão perdeu a intensidade e seu azul se
diluiu para o branco, permitindo uma sensação de alívio, tanto que na sala de
comando da Eric Manoli já se respirava com mais tranqüilidade.
Menos Tyll Leyden, que arranjara um lugar no rastreador de relevo, assim
que o instrumento ao lado do computador entrou em pane. Olhava para o
vagalhão, como se sua vida dependesse dele. Foi o assunto das primeiras
conversas, sendo que ninguém mais pensava no Hércules. Calculou-se o diâmetro
do vagalhão e o computador de bordo se ocupou com o espectro luminoso de
seus movimentos. Leyden ouvia todos os comentários, não perdia uma só
palavra. Guardava também os valores estudados. Virando-se, fitou a tela do
rastreador.
Uma única pergunta o preocupava: será que o Hércules, e com ele toda a
massa de molkex, fora atirado para o hiperespaço quando a onda gigantesca
parecia estremecer a metade da Galáxia?
Ninguém estava em condições de responder a uma pergunta destas. Bell se
aproximou de Leyden, parou na sua frente, fitou-o duramente e perguntou com
mais veemência ainda:
— Então, mister Leyden? O sistema solar, nós já destruímos, não é? Mas, e
a massa molkex? Ou será que criamos agora um ultrapotente suprahet?
Não se alterou a expressão calma dos olhos de Leyden. O fato de um dos
homens mais poderosos do Império o obrigar a tomar posição quanto à grande
experiência, não o perturbava.
— Temos que ter paciência, o senhor, eu e todos os outros. Levará algum
tempo até que termine o abalo pentadimensional. É claro que as opiniões podem
se dividir e considerar o raio, que a maioria pôde observar, um fenômeno
secundário de gravitação. Para mim, foi muito mais do que isto. Para mim, foi a
última atuação dos sentinelas, dos “homens da antigüidade”! O raio veio de
Impos, dos imensos conjuntos mecânicos e dos reservatórios energéticos da
Montanha Canora. Este raio criou a zona de sobre-saturação. Não fomos, pois,
nós, mas os “homens da antigüidade” que, pela segunda vez, destruíram o
suprahet. Mas, senhor, como posso levar a mal, se tem outra opinião?
— Acho que você não pode levar a mal ninguém — exclamou Bell, meio
irritado. — Leyden, por que motivo você nunca se empenha em defender com
gana as suas opiniões? Acho que você nem consegue dar um murro numa mesa.
A expressão do astrofísico não se alterou.
— Creio que o senhor está sendo vítima de um engano. Um de meus
colegas em Impos, Sascha Populos, julgou poder me atacar sem encontrar
resistência. Depois, o médico da expedição me recriminou pelo fato de não ter
mais reconhecido Populos. Sobre a maneira de se defender, as opiniões também
variam.
Bell teve que se retirar calado. Ao chegar perto de Rhodan, disse
aborrecido:
— Mister Leyden é um fleumático exagerado. Você acredita nesta história
com Populos?
Rhodan puxou Bell para o lado.
— Meu caro — disse ele quase no ouvido do amigo — não se deixe enganar
pelas aparências. Ouvi certos detalhes a respeito de Leyden que me deixaram de
boca aberta. Todo homem tem suas particularidades, você, eu, todos nós... mas
todas as excentricidades de Tyll Leyden não pesam nada em comparação com o
que lhe devemos. Até hoje, não encontrei um homem, que depois de descobrir,
por pesquisa ou por acaso, uma solução para um problema importante, não
quisesse se elevar acima dos outros, como se fosse algo mais que seus colegas. A
única exceção foi Tyll Leyden. É realmente um homem fora de série.
Bell não teve tempo de fazer objeções a esta opinião de Rhodan. O hiper-
rádio já estava funcionando normalmente, e as mensagens que chegavam eram
estarrecedoras. Centenas de naves de propulsão por transição eram dadas como
perdidas. Até a um raio de vinte mil anos-luz, a explosão pentadimensional
abalara o Universo. Mas, entre as notícias de grandes catástrofes, havia algumas
de causar muita alegria.
Uma espaçonave terrana socorrera Pedro, o verme do pavor, quase já sem
forças, flutuando no espaço, e o levaram para bordo, onde se recuperou em pouco
tempo, mandando dizer a Perry Rhodan o seguinte: “Nunca me senti tão livre e
tão bem como agora. O terrível pesadelo quase me matou, mas felizmente já
acabou”.
Rhodan sorriu feliz. Bell estava radiante e o próprio arcônida Atlan tomava
parte no contentamento de todos.
— Onde está Leyden? — perguntou Bell, procurando-o por todos os cantos
do posto de comando. — Ele deve ouvir a novidade sobre Pedro. Não é a melhor
prova de que não existe mais suprahet? Não tenho mais dúvidas agora de que
aquele raio, dentro do campo energético das bombas de gravitação, veio do
parque de máquinas da Montanha Canora. Mas, neste caso...
Bell parou de repente, mas Atlan continuou seu pensamento:
— Neste caso, estaria provado que nós não tínhamos condições de criar uma
zona de sobrecarga, para nela destruirmos o molkex ou o suprahet. Quem sabe
mesmo nossa tentativa somente serviria para torná-lo mais forte do que nunca, se
não tivéssemos recebido, realmente no último instante, o auxílio dos “homens da
antigüidade”. Gostaria, porém, de saber como Leyden descobriu que este raio
salvador veio da Montanha Canora.
O fantástico astrofísico estava sendo procurado pelo intercomunicador.
Deixara a central de comando, sem que ninguém percebesse.
— Estou aqui, senhor.
— Dê uma chegada, por favor, até nós aqui na central.
— De boa vontade, senhor, logo depois que terminar meu café. Meu tempo
de lanche termina daqui a vinte e três minutos. Até lá os senhores terão que ter
paciência.
Bell estava quase perdendo o fôlego e o rosto de Atlan parecia uma máscara
de ferro. Houve apenas um que sorriu: Perry Rhodan. Sabia que a pausa para o
café era uma coisa sagrada para Tyll Leyden.

***

Os terranos acabaram, pois, destruindo a substância de onde se originaram,


desde os tempos primitivos, os vermes-monstro. Mesmo assim, os terranos têm a
coragem de propor aliança com os vermes do pavor. Tyll Leyden voa para
Tombstone — com a Nave-Contato Terrânia — título da próxima aventura do
Pacificador do Universo!
A evolução da Humanidade é apresentada numa incomparável história do futuro. Uma epopéia que atinge
distâncias e lapsos temporais inimagináveis. Esta epopéia subdividida em ciclos, é um caso único na história da
literatura utópica.
1o Ciclo: A Terceira Potência Volumes: 1 a 49.
Na Lua, Perry Rhodan encontra-se com Crest e Thora. Com o auxilio da tecnologia arcônida funda a Terceira
Potência e impede a eclosão da guerra mundial atômica. A Humanidade cria sua navegação espacial e verificam-se os
primeiros contatos com as inteligências de outros sistemas solares. Os mutantes fazem sua aparição.
P-01 Missão Stardust P-25 O Supercrânio
P-02 A Terceira Potência P-26 O Duelo dos Mutantes
P-03 A Abóbada Energética P-27 O Domínio do Hipno
P-04 O Crepúsculo dos Deuses P-28 Cilada Cósmica
P-05 Alarma Galáctico P-29 A Frota dos Saltadores
P-06 O Exército de Mutantes P-30 Perigo no Planeta Gelado
P-07 Invasão Espacial P-31 O Imperador de Nova Iorque
P-08 Base Em Vênus P-32 Vôo Para o Infinito
P-09 Socorro Para a Terra P-33 Mundo de Gelo em Chamas
P-10 Batalha no Setor Vega P-34 Levtan, o Traidor
P-11 Mutantes em Ação P-35 O Planeta dos Deuses
P-12 O Segredo do Cofre de Tempo P-36 O Flagelo do Esquecimento
P-13 A Fortaleza das Seis Luas P-37 O Planeta Louco
P-14 Charada Galáctica P-38 Avanço Para Árcon
P-15 Pista no Tempo e no Espaço P-39 O Mundo dos Três Planetas
P-16 Os Espíritos de Gol P-40 Luta Contra o Desconhecido
P-17 O Planeta do Sol Moribundo P-41 O Aliado do Gigante
P-18 Os Rebeldes de Tuglan P-42 S.O.S.: Espaçonave Titan
P-19 O Imortal P-43 Cuidado Com os Microrrobôs
P-20 Ameaça A Vênus P-44 O Homem e o Monstro
P-21 A Guerra Atômica que Não Houve P-45 Aralon, o Centro de Epidemias
P-22 A Fuga de Thora P-46 Projeto Aço Arcônida
P-23 Chave Secreta X P-47 Gom Não Responde
P-24 Na Selva do Mundo Primitivo P-48 O Olho Vermelho do Sistema Beta
P-49 A Morte da Terra
2.° Ciclo: Atlan e Árcon Volumes: 50 a 99
Atlan emerge da abóbada construída sob as águas do Atlântico. Funda-se o Império Solar, dirigido por Perry
Rhodan. Aquilo proporciona a Perry Rhodan e aos amigos do mesmo a ducha celular, que prolonga a vida. Verifica-se a
luta contra os druufs, o avanço para Árcon e os conflitos com o computador-regente de Árcon.
P-50 Atlan, O Solitário do Tempo P-75 O Universo Vermelho
P-51 O Soro da Vida P-76 Sob as Estrelas de Druufon
P-52 O Pseudo P-77 Nas Algemas da Eternidade
P-53 Os Condenados de Isan P-78 O Sacrifício de Thora
P-54 O Duelo P-79 O Inferno Atômico
P-55 A Sombra do Supercrânio P-80 Nas Cavernas dos Druufs
P-56 Os "Mortos Vivem P-81 A Nave dos Antepassados
P-57 O Atentado P-82 Xeque-Mate: Universo
P-58 Ataque do Invisível P-83 Planeta Topsid, Favor Responder!
P-59 O Regresso do Nada P-84 Recrutas de Árcon
P-60 Fortaleza Atlântida P-85 Escola de Guerra Naator
P-61 O Robô Espião P-86 A Chave do Poder
P-62 Os Anões Azuis P-87 As Cavernas do Sono
P-63 Os Microtécnicos P-88 O Caso Columbus
P-64 A Prisão do Tempo P-89 A Grande Hora de Gucky
P-65 Um Sopro de Eternidade P-90 Atlan Em Perigo
P-66 Os Escravos Cósmicos P-91 O Regresso de Ernst Ellert
P-67 Interlúdio em Silico V P-92 Missão Secreta: Moluque
P-68 A Caça das Dimensões P-93 O Inimigo Oculto
P-69 A Morte Espera no Semi-Espaço P-94 O Sol Chamejante
P-70 Últimos Dias de Atlântida P-95 Céu Sem Estrelas
P-71 Tigris Erra o Salto P-96 O Mistério do Anti
P-72 Os Embaixadores de Aurigel P-97 O Preço do Poder
P-73 Os Três Desertores P-98 Forças Desencadeadas
P-74 O Pavor P-99 Um Amigo da Humanidade
3o Ciclo: Os Posbis Volumes: 100 a 149
A primeira nave espacial de longa distenda de Perry Rhodan, com o sistema de propulsão linear, penetra no
Sistema Azul dos arcônidas. Surgem os robôs positrõnico-biológicos (POSBIS) com suas naves-fragmentárias. É
fundada a Aliança Galáctica com Perry Rhodan como "Grande Administrador". Perry Rhodan recebe de Aquilo
um ativador celular e torna-se relativamente imortal.
P-100 A Estrela do Destino P-126 As Sombras Atacam
P-101 O Globetrotter das Estrelas P-127 Entre as Galáxias
P-102 A Divisão III Entra em Ação P-12b Os Assassinos do Hiperespaço
P-103 O Monstro de Plasma P-129 Incêndio Atômico Em Mecânica
P-104 Os Traficantes de Alaze P-130 Voluntários Para Frago
P-105 A Frota-Fantasma P-131 Esconderijo No Futuro
P-106 O Deus Falso P-132 O Poder dos Monstros
P-107 O Sistema Azul P-133 Robôs, Bombas e Mutantes
P-108 O Deserto da Morte P-134 Os Canhões de Everblack
P-109 O Bloqueio de Iso P-135 Sentinelas da Solidão
P-110 Na Pista dos Antis P-136 As Feras do Submundo
P-111 Sob Uma Falsa Bandeira P-137 Assalto à Galáxia
P-112 O Homem de Duuas Caras P-138 Risco Infinito
P-113 A Flor Milagrosa de Utik P-139 Os Laurins Estão Chegando
P-114 O Chamado da Eternidade P-140 O Morto Que Não Deve Morrer
P.115 O Imperador e o Monstro P-141 A Base dos Invisíveis
P-116 O Duelo Sob o Sol Geminado P-142 Os Agentes da Destruição
P-117 Frota Espacial Roubada P-143 Proibido Para os Homens
P-118 O Sargento Robô P-144 O Convite dos Robôs
P-119 Sementes da Desgraça P-145 O Exército dos Fantasmas
P-120 O Planeta da Mecanização P-146 Atrás da Muralha do Tempo
P-121 A Herança dos Sáurios P-147 As Máquinas Enlouquecem
P-122 A Morte do Lorde Almirante P-148 Salto No Intercosmo
P-123 Sabotagem Em A-1 P-149 A Batalha dos Duzentos Sóis
P-124 O Psicoduelo
P-125 O Salvador do Império
4o Ciclo: O Segundo Império Volumes: 150 a 199
Ele ou Aquilo espalha 25 ativadores celulares pela galáxia. Surge o perigo dos vermes do pavor, e os
terranos descobrem o império dos azuis, situado no setor oriental da Galáxia. Verifica-se o primeiro levante de
colonos terranos contra o Império Unido. O rebelde é Iratio Hondro, chefe de Plofos.
P-150 Os Especialistas a USO
P-151 Sinais da Eternidade
P-152 Maior Que o Sol
P-153 Um Punhado de Vida
P-154 A Caçada de Aralon
P-155 Os Escravos de Nowhere
P-156 Lemy e o Lobo-Batráquio
P-157 Nave "Explorer" em Perigo
P-158 O Flagelo da Galáxia
P-159 O Caçador de Monstros
P-160 O Espelho do Terror
P-161 Quatro Agentes da USO
P-162 Pacto Com a Morte
P-163 O Segundo Império
P-164 O Planeta Gigante
P-165 Nave-Contato Terrânia
P-166 O Labirinto de Eysal

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