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Associação Brasileira de Daseinsanalyse

Revista da Associação Bra si leira de Das einsanolyso • N" !J :,J()OO .

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO .... ................... ....... .......... .... .... .. .. .... .. ...... .. .............. 3

A NATUREZA DA SINGULARIDADE DA PSICANÁLISE


Daseinsanalyse I Associação Brasileira de Daseinsanalyse - Medard Boss ... .. .. ....... .. ................... ... ..... ....... ... .. .................. ......... ........ 4
Nº 9 (2000) - São Paulo: A Assoc iação, 2000

DASEINSANALYSE E PSICOTERAPIA
Irregular Ida Elizabeth Cardinalli ............. .... .... ... ....... ...... .. ..11
ISSN 15 17·445X

UMA CARACTERIZAÇÃO DA PSICOTERAPIA


1 . Psicologia - Periódicos João Augusto Pompéia .... ...... .. ................................... .. ... 19
2. Psicoterapia- Psicopatologia - Fenomenologia- Existencial

DESFECHO - ENCERRAMENTO DE UM PROCESSO


CDD 150.5
João Augusto Pompéia ....... ... .... ....... ... ................................... ....... ....... 31

!\TRAJETÓRIA HUMANA: UMA PERSPECTIVA


DASEINSANALYTICA
Maria Beatriz Cytrynmvicz ........ .... .............. .. ............ .......................... 44

O TEMPO DA INFÂNCIA
filiaria Beatriz Cytrynowicz ..... ""54

() MUNDO DA CRIANÇA
A/(I ria Beatriz Cytrynowicz .. .. .... .. . .. ........ .. .. .... .. ....... .. . 74
Associa ção Brasileira de Daseinsanalyse
Rua Cristi ano Vian a, 172 - Fones : 3082-9618 · 3081 -6468-
CEP 05411-000 - São Pau lo () ' I ' I ~ MPO DA MATURIDADE
FILIADA À INTERNATIONAL FEDERATION OF ,lt11111 !l u.rzusto Pompéia ......................... .. ....... ................. ..... ....... .. .. .. ... . 90
DASEINSANALYSIS- ZURICH- SUIÇA
A TRAJETÓRIA HUMANA: UMA PERSPECTIVA Finally, he explains that the question ofhow or who the child is can
DASEINSANALÍTICA* be answered only by taking into consideration the world in which he or
she lives and which the adult who asks the question is also present. In
this sense, h e question refers not only to another person, but it also answers
MARIA BEATRIZ CYTRYNOWICZ
the adult's question "who am I"?

Resumo
PALAVRAS-CHAVE: Criança, Desenvolvimento, Ser Humano,
Este é o primeiro de três miigos que se propõem a uma compreen- Daseinsanalyse, Ser-no- mundo.
são da criança, desenvolvida a pmiir da perspectiva daseinsanalítica, que
tem como base a fenomenologia existencial.
Questiona, primeiramente, o conceito de desenvolvimento infantil, Introdução
comum à psicologia, que se forma na observação geral da maioria e que TRAJETÓRIA HUMANA - com este título tentaremos desenvol-
propõem parâmetros de normalidade e anormalidade. Aponta, então, a ver, à luz da Daseinsanalyse, uma maneira de entender e falar da criança,
importância de considerar a criança como ser humano em pmiicular,-re-
do adolescente e do adulto, enquanto a própria unidade (Dasein, Existên-
levando a sua condição de ser-no-mundo sempre compartilhada com e
cia) que eles constituem, mas também e conjuntamente na própria
pelo outro. E, assim, esclarece como a pergunta sobre como ou quem é a especificidade de cada um. Como compreender a criança, que se toma
criança só pode ser respondida considerando-se o mundo em que ela
adolescente e este que se toma adulto, mas que quando é criança é já
vive, em cada caso, no qual está também o próprio adulto que faz a per-
inteiramente e do jeito dela mesma de ser? Como falar do adolescente
gunta. Neste sentido, esta pergunta não se refere apenas a uma outra pes-
que é ele, mas que também não é, mas que este "não é" não é nem a
soa, mas também responde a pergunta "Quem sou eu?" do adulto.
criança nem o adulto, mas justamente ele mesmo?
A Daseinsanalyse, entendida aqui, é um método em seu sentido mi-
Abstract- The Human Trajectory: A Daseinsanalitic Perspective ginal (META) de caminho de atuação, desenvolvida inicialmente pelo psi-
quiatra suíço Medard Boss (1903-1990) fundamentado na obra básica do
filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) SER E TEMPO (1927) e
This miicle is the first three, pmpmiing an understanding of the child em suas originais contribuições posteriores, tanto no campo da ontologia e
from the daseinsanalytical view, which is based on existential phenomenology. filosofia, como aquelas diretamente ligadas ao campo da psicologia e psi-
Firstly the author questions the concept of child development, quiatria, como os SEMINÁRIOS DE ZOLLIKON (1959-1969).
common in psychology, formed by observation ofthe majority and which Na verdade, não organizamos estes encontros apa1iir do título "Traje-
determines standards o f normality and abnormality. tória Humana". Ao contrario, este foi um título que smgiu posteriormente,
He then points out the importance o f considering the child as a par- depois de muitos estudos e conversas em tomo do desafio que é trazer para
ticular human being, stressing its condition as a being-in-the-world, always a Psicologia, especialmente para a atuação em psicoterapia, os ensinamentos
shares with and by the other. básicos fenomenológicos e a abertma da compreensão desenvolvidos por
Heidegger sobre o existir humano e o próprio Ser. Nestes nossos estudos e
conversas estiveram sempre presentes, além daquilo que lemos de Mmiin
Apresentado em Abril de 1993, na Associação Brasileira de Daseinsanalyse, SP- Brasil.
Heidegger, Medard Boss e outros autores próximos no caminho da

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fenomenologia e dos temas em questão, a poesia sobretudo de poetas como Primeiramente queremos ressaltar que organizamos nossos traba-
Fernando Pessoa, e a nossa própria experiência profissional e pessoal. lhos "Trajetória Humana" em torno de três tempos (épocas):
O que podemos falar - e como - que guarde a possibilidade da Tempo da Infância (Maria Beatriz Cytrynowicz)
abrangência para todos e a especificidade de cada um, em cada caso?
Tempo da Adolescência (Carlos Eduardo Carvalho Freire)
Isto será possível? Como aproximar a compreensão mais fundamental da
essência do existir humano como ser-em-cada-caso e sempre-já-em-to- Tempo da Maturidade (João Augusto Pompéia)
talidade para um campo de atuação que, em sua tradição, viu e continua Tempo da Infância está dividido em três partes: Trajetória Huma-
vendo, o homem segundo princípios gerais e forças comuns, como se na, Tempo da Infância e Mundo da Criança.
fora uma realidade material qualquer ?
Esperamos que esta divisão venha a se tornar clara a medida do
A compreensão desenvolvida em e apartir de SER E TEMPO sobre desenvolvimento do próprio trabalho.
Temporalidade, Historicidade, Espacialidade, Cuidado (Sorge), Culpa-
bilidade, Angustia e Ser Mortal é definitiva para que não mais possamos
nos contentar com as explicações teórico-científicas-psicológicas, das SOBRE O DESENVOLVIMENTO INFANTIL
mais diversas correntes, para o desenvolvimento e as condutas humanas.
A sequência das experiências psicológicas não pode mais, em si, ser vis- É o mais comum que os estudos sobre o ser humano, feitos na Psi-
ta como determinante de tudo que podemos compreender como éondi- cologia, sejam chamados de DESENVOLVIMENTO quando se referem
ção humana. Ao contrário, o acontecer psicológico, sendo histórico e aos bebês e as crianças.
assim temporal e situado, se dá já no humano e é nesta condição que
Mas tanto que se fala em desenvolvimento, pouco se pensa sobre
ganha o seu sentido. O que significa então ser-humano?
isto, na Psicologia. Esta palavra desenvolvimento é usada com diferentes
Estamos nos propondo a compreender esta questão na perspectiva sentidos e em diferentes contextos. Por exemplo:
da experiência do seu acontecer - que é fundamental em qualquer atua-
"Esta criança está pouco desenvolvida, necessita de mais exercícios
ção na Psicologia. Esta proposta aceita, no fundo, a possibilidade de tor-
físicos".
nar conhecida a criança, o adolescente e o adulto, de um modo tal que
preserve a fundamental condição humana de ser-si-mesmo. Tornar-co- "O ego ainda não está desenvolvido nesta idade!"
nhecido e deixar-ser é a nossa direção. "Esta é uma classe para os mais desenvolvidos!"
Dito de outro modo, a possibilidade desta empreitada está compre- E ainda: "Os países são mais desenvolvidos, não desenvolvidos ou
endida nesta poesia do poeta Raimundo Gadelha: em desenvolvimento".
"Temos no olhar O que significa desenvolvimento em cada uma das frases acima? Há
a prisão de imagens desenvolvimento como crescimento fisico , condição psicológica, fmiale-
e no coração cimento emocional, qualidade intelectual, fator sócio-econômico, padrão
sede de liberdade ... cultural, ou simplesmente como surgimento de algo que antes não havia.
*
a emoção do vôo."
Ante tal diversidade de uso da expressão desenvolvimento será que
ela é a melhor maneira para começarmos a compreender o nosso próprio
Gadelha, R. (199 1) Um Estmnh o Chamado Horizonte viver?

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Vale ainda relembrar que "teorias de desenvolvimento", na Psicolo- É importante também lembrar que, no campo da Medicina, o cres-
gia, se ocupam dos humanos até a idade próxima dos doze anos. O que cimento normal é um parâmetro muito valioso. Mas, devido à própria
está implícito ai? Além disso, tais leis de desenvolvimento servem como natureza da prática médica, os padrões são afastados imediatamente nas
padrão de normalidade, como as que determinam a melhor idade para as situações críticas. Quanto mais cuidadoso for o médico, mais atento es-
crianças entrarem na escola, ou que determinam se elas apresentam con- tará à observação particular do exame clínico de seu paciente e da histó-
duta normal. Teorias de desenvolvimento cognitivo e emocional, das mais ria individual do observado. Isto faz pensar que as situações críticas mais
diversas correntes teóricas na psicologia, referem-se a "desenvolvimento iminentes forçam o olhar para uma direção mais singular, deixando de
normal". Desenvolvimento normal torna-se padrão de crescimento e con- lado o menos significativo em cada caso, ou seja, o geral. Na crise, pare-
duta. A descrição de comportamentos normais gerais atende a um princí- ce que a média se retrai e o singular se acentua. Esta é uma experiência
pio científico da verdade universal. Assim, com as teorias de desenvolvi- com a qual os médicos estão particularmente em contato.
mento, a Psicologia tem atendido à busca dos parâmetros gerais que ser-
Não nos parece então adequado compreender a criança a pmtir do
vem à comparação e a unificação de todos os humanos.
caráter geral do desenvolvimento que somente aproxima normalidades
Na Educação institucionalizada, p.ex., o estabelecimento de pa- de crescimento ou conduta, mas que pouco nos diz do modo de ser crian-
drões e objetivos comuns para todos os alunos é necessário. Pois, uma ça e do tempo da infância. Assim, voltamos à pergunta: Como podemos
escola - que represe1~ta o mundo público e geral em certo sentido, como compreender, a partir de uma perspectiva da Daseinsanalyse, a criança, o
disse Hmmah Arendt - sem o mínimo de organização pré-estabelecida, seu mundo e o tempo da infância?
não funciona .
Quando uma criança nasce, ainda na maternidade, no primeiro dia
Um exemplo de experiência de escola sem normas prévias foi a de vida, passado o momento crítico do nascimento (de quando se per-
inglesa SUMMER HILL. Por volta dos anos 60, alguns educadores acre- gunta "O bebê está bem, é normal?") é muito comum que as visitas ou
ditaram que o que estava errado com as escolas tradicionais era a exis- mesmo os familiares perguntem "Com quem se parece o bebê?" ou que
tência de normas impostas pelos adultos. Então propuseram uma nova brinquem sobre o futuro da criança "Vai ser engenheiro ? Não, vai ser
escola em que somente estavam previamente arranjadas as condições médico ... Acho que vai ser artista". Nestas horas sempre me ocorre a
gerais básicas como : prédio, subsídio financeiro, professores disponí- agonia que as pessoas devem estar sentindo: incomodadas com aquilo
veis para a nova experiência, etc ... O funcionamento geral, desde a re- que não vêem, se apressam em dar uma cara, uma feição ao bebê.
cepção dos alunos à divisão por classes e a escolha das atividades e au-
Muitas vezes, a torcida já existe antes do pequeno nascer: "Seria
las, era resolvido pelas crianças. A experiência acabou em fracasso. E se
tão bom se ele puxasse o jeito do pai", "Seria fantástico se ele levasse o
disse na época que tinha havido uma completa infantihzação de todo o
jeito artístico da mãe", "E se fosse atleta ! " O bebê já nasce com uma
sistema e conseqüente desmoronar de qualquer sentido educacional. Havia
cara! Mas ...
ocorrido falta de metas claras. As metas que se referem ao movimento
em direção ao futuro , no caso de uma escola, implicam necessariamente Logo, logo, já nos primeiros dias, o bebê surpreende: Lembro-me
no comprometimento do adulto com o próprio en~ino e educação. So- de uma mãe que ficava inconformada com o seu filhinho que dormia
mente depois de estudar, é que alguém pode conhecer mais, refletir e, quase sem parar e mal acordava para comer. Logo começaram as preocu-
então, escolher as metas para o ensino. pações em relação ao bebê: "Será que ele vai ficar subnutrido? Ele vai
morrer de inanição?"
Outra mãe quase teve um "stress" quando a sua filhinha "chorava
A Crise na Educação em Entre o Passado e o Futuro. 1954.
sem parar" . A impressão, num primeiro momento, é que algo não estava

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certo. Algo saiu errado, anormal. Bebês não dormem tanto! Bebês não mesmo ou pela desatenção de quem não viu. Isto mostra que nem sempre
choram tanto! Mas, quem disse isto? Quem decidiu? as experiências descobertas prevalecem em seu sentido primeiro no de-
Na verdade, foi ninguém. Mas aquelas mães, como todas as mães, correr do caminho, como uma totalidade. Possibilidades inicialmente
esperavam por um filho com uma cara, com um jeitão! descobertas nem sempre permanecem, outras são descobertas mas não
atentamente. Algumas retornam, outras não.
E é assim que se inicia a tarefa de todos os bebês, os que ainda
são bebês, os que ainda virão e os que já foram: acontecer ele mesmo Caminhar não é uma tarefa sempre fácil de ser realizada. Muitas
no seu mais peculiar e único ser. Nesta tarefa já está em jogo um sim vezes é difícil ir contra o que se espera de nós ou ser considerado "anor-
e um não, um mostrar e um esconder, um aceitar e um recusar, pois já mal". Por exemplo, em algumas ocasiões vemos alguém se rebelar. Mui-
de início, como humano, o bebê já é constituído pela historicidade, tas vezes, no consultório, percebemos que a rebeldia e a afronta são ten-
esta que se apresenta tanto em seu caráter de herança, como de se tativas de descobrir ou "manter a própria cara". São como gritos contra o
criar ele próprio . jeitão "normal", contra a "cara que se deve ter", contra a regra.

Como vemos, logo de início, cabe ao pequeno bebê mostrar, apon- Caminhar pode ser também uma tarefa muito sofrida. Quando é
tar quem ele é. Esta é uma tarefa que ninguém pode executar por ele. assim, é experimentada com receio e a descoberta das próprias possibili-
Nem por procuração. Do jeito que ele é, somente ele mesmo. E para isto dades e das reais oportunidades que o mundo oferece são ameaças pre-
não é necessário que ele saiba o que está fazendo, que aprenda, nem que sentes em cada tentativa.
decida fazê-lo. A ele cabe apenas e sobretudo realizar a tarefa de ser. Quase sempre, também, descobrir-se e descobrir o próprio caminho
Esta não é uma tarefa como as outras: não tem lugar nem hora certa, não se dá em harmonia: crises e desilusões povoam os caminhos . Nem
não trata de alguma coisa ou pessoa específica, não tem objetivo prévio: sempre o que descobrimos COlTesponde àquilo que queríamos ou imagi-
moto-contínuo de vida! návamos.
O DESENVOLVIMENTO, no sentido próprio do acontecer huma- Cada caminhar se dá em seu ritmo. Cada pessoa segue o seu pró-
no, não pode ser descrito por ·um projeto prévio. Podemos melhor prio, como o próprio batimento cardíaco. Mas, como este, também sofre
descrevê-lo como um CAMINHAR, não como um caminho, mas como as interferências de fatores "externos". As condições em torno, as priva-
o caminhar mesmo. Neste sentido, como se movimentar que abre a pos- ções, as solicitações, as companhias, podem estimular ou inibir (não ex-
sibilidade de um certo caminho, pois é quando caminhamos que desco- tinguir) o próprio caminhar.
brimos o caminho que trilhamos.
... Nas relações entre pais e filhos, crianças e adultos, algumas vezes o
Este caminhar se dá, em cada caso, descobrindo e encobrindo pos- próprio caminhar das crianças sofre interferências que dificultam a des-
sibilidades. E esta é uma tarefa que não tem idade: já é dada no nasci- coberta do próprio caminho. Por exemplo, uma mãe superprotetora que
mento e nos acompanha até o morrer. controla todas as atividades do filho, mesmo que seja com a intenção de
Às vezes ele é solitário, outras é compartilhado por pessoas que melhor protegê-lo das ameaças, está dificultando o crescimento do filho ,
nele se tornam mais presentes ou que se distanciam. Assim, no próprio enquanto o impede de descobrir e experimentar suas próprias possibili-
caminhar estamos já, desde o início, descortinando o próprio caminho dades de enfrentar situações adversas.
com as possibilidades de convívio com os outros. Quando isto acontece, esta criança perde a possibilidade de experi-
O caminho que este caminhar trilha às vezes permanece descober- mentar mais livremente a sua tarefa mais original que é descobrir que ela
to, outras vezes se encobre logo que é descortinado, pelo esquecimento mesma pode ser e como. Assim, o caminho descoberto em seu caminhar

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estará sempre aquém ou além da medida possível, desde a maior retração "Constato triste:
provocada pelo temor até a d~smedida e exagero provocados pela falta enquanto envelheço,
de familiaridade consigo e com o mundo. todos os dias,
Outras vezes, é a desilusão dos pais com os filhos que se torna tão renasce mais querido
grande, que acarreta maior dificuldade para a criança enfrentar a própria o filho que não tenho".
vida. Compreender-se como responsável pela desilusão dos pais pode (Raimundo Gadelha)
assumir um caráter extremamente pesado. Nesses casos, os pais não con-
seguem perceber que há uma diferença entre o filho que eles tanto dese-
jaram e o filho que nasceu. Não se trata da mesma pessoa, esta é a reali-
dade. Os pais precisam aprender a conhecer seus filhos, como aos filhos Bibliografia
cabe aprender a conhecer os próprios pais. Se os pais não se dispõem
- ARENDT, H.- Entre o Passado e o Presente, "A Crise na Educação"
nesta aprendizagem, ambos permanecerão iludidos e desiludidos e, as-
Editora Perspectiva S.A. , São Paulo, 1979.
sim, permanecerão sempre distantes uns em relação ao outro e da própria
possibilidade de aceitar quem são. - GADELHA, R. - Um Estreito Chamado Horizonte. Massao Olmo
Ed. São Paulo, 1991.
Finalmente, é importante ainda relembrar mais um aspecto :
- HEIDEGGER, M. - Ser e Tempo.(1927) Editora Vozes, Petrópolis,
"Quem é que se preocupa com a questão do desenvolvimento?".
1989.
Ceriamente este não é um tema .das conversas entre as crianças.
- HEIDEGGER, M. - Being and Tim e. Basil Blackwell Oxford, 1973.
(Mesmo que a criança seja muito intelectualizada, felizmente!) A crian-
ça pode se preocupar com o próprio crescimento, algumas vezes queren- - HEIDEGGER, M. - Seminários de Zollikon . Tradução ainda não
do, outras não, "ficar grande". publicada de Gabriela Arnhold e Maria de Fátima de Almeida
Prado
Mas é o adulto, quando se encontra desencontrado ou desco-
nhecido para si mesmo que, algumas vezes, substitui a pergunta
"Quem sou eu?" ou "Como é a minha vida?" por outra: "O que é ser
criança?"
Esta form a de perguntar mais distanciada~ parece que se refere
unicamente a uma outra pessoa. Isto é um engano. Pois, quem é esta
criança senão nós, cada um de nós adultos que fazemos esta pergunta,
em nossa máis própria possibilidade de ter sido um dia? Ser criança
ou ter sido criança é, pois, a nossa própria possibilidade de já ter sido,
um dia.
É compreendendo esta possibilidade já realizada, compreendendo
a própria realização (desenvolvimento próprio), como caminhar e não
como o resultado final ou ponto de chegada, que podemos começar a
falar da criança, em seu sentido mais próprio.

52 53
O TEMPO DA INFÂNCIA* These initial considerations lead us to see more clearly how
temporality and historicity evolve in childhood, with the precedence of
the immediate and the simultaneous appearance of past and future ,
MARIA BEATRIZ CYTRYNOWICZ
instigated by the child's curiosity.

Resumo
PALAVRAS-CHAVE: Infância, Tempo, Criança, Crescer, Criar, Descobrir
Neste segundo artigo que propõem uma compreensão
fenomenológico-existencial da criança, o desenvolvimento infantil é
visto como um revelar de possibilidades, o que, ao mesmo tempo, apro- Vamos começar relembrando o poeta Raimundo Gadelha, no livro
xima e afasta o ser humano do possível de si mesmo e do mundo de "Um estreito chamado horizonte" :
possibilidades.
"Temos no olhar
Ressalta que o existir da criança, desde o início, só pode ser com- a prisão de imagens
preendido como uma totalidade, por mais que para isto tenhamos que e no coração
reconhecer a limitação do alcance de nossa compreensão, e a partir dos sede de liberdade ...
modos como se apresenta a sua relação com o mundo mais próximo. a emoção do vôo."
Com estas considerações iniciais, pode-se ver mais claramente como
se dá a temporalidade e a historicidade na infância, com a primazia do O que nos diz este poema a respeito de nossa questão inicial:
imediato e o surgimento conjunto do passado e do futuro, instigado pala
curiosidade da criança. "De que DESENVOLVIMENTO falamos, a partir da
Daseinsanalyse?"
' Bem, assim como no poema, a prisão de imagens convive com a
Abstract- Childhood sede de liberdade na emoção do vôo, assim o DESENVOLVIMENTO e
o DESENVOLVER-SE também convivem no existir humano.

This second article presents a phenomenological-existential O existir humano se dá em um movimento que, ao mesmo tempo,
understanding of childhood. The development of the child is regarded as abre e fecha que, ao mesmo tempo, mostra e esconde.
a revealing of possibilities which at the same time'approaches the human Este movimento - que é tão bem dito com a palavra DESVELAR -
being to, and distances him from the possible in himself and the world o f é também chamado simultaneamente de DESEVOLVIMENTO e DE-
possibilities. SENVOLVER-SE.
From the beginning the existing child should be understood only as Ao mesmo tempo em que, cada um de nós, nos desenvolvemos
a whole, although to this end we must recognize the limits ofthe reach of estamos tanto indo na direção de nosso próprio caminhar descortinando-
our understanding. It should also be understood from the ways in which o e aproximando as nossas peculiaridades, como estamos também:
its relation with the world shows itself.
1 -Nos afastando de certos modos próprios de ser, alguns dos quais mo-
dificados tão radicalmente até o ponto de os considerarmos perdidos,
Apresentado em Abril de 1993 na Associação Brasileira de Dase insanalyse. SP - Brasil.
como p.ex: o brincar no adulto.

54 55
2 - Indo na direção dos outros e do mundo comum, isto é, do convívio. cada um, são demarcados pelo até onde que exclui o outro). A mesma
Isto é assim, dito de w11 modo bastante simplificado, se compreendemos sugestão aparece nas preocupações com a educação: até onde as crianças
o existir humano (Dasein, Ser e Tempo) desde a sua origem e sempre como: podem ir? Até onde a sua conduta não desrespeita o outro? Ou até onde a
sua conduta é prática de liberdade e não um excesso indesejável? Assim
1 - Poder- ser que se mostra sempre de um modo tal e não de outro. nos acostumamos a pensar nos chamados limites educativos das crianças.
2 - Compartilhando em um mundo junto a outras pessoas e coisas. O limite, compreendido assim, significa fim, significa impedimento.
Tais referências são estruturas fundamentais de ser do ser- humano No entanto, podemos compreender o limite também como o que
e não aquisições que podem simplesmente deixar de ser, ou serem omiti- de-limita. O mesmo limite, quando pode de-limitar, não é aquele que
das, na vida de cada um. Cabe a cada um de nós, aí sim, (e não por põe um final, que impede ou que encerra, mas é aquilo a partir do que
simples decisão) desde que nos constituímos como existência (o nasci- algo é possibilitado.
mento) articular, ou mesmo reafirmar a cada momento, uma configura-
çã'? própria de existir. Chamamos tal configuração de história e, nela, Assim, em nossa experiência mais próxima, compreendemos o nosso
podemos encontrar revelados os modos possíveis de cada um existirdes- corpo e a nossa pele não somente como o que nos impede ou nos encerra,
cobertos e desenvolvidos ou não desenvolvidos. mas como o que nos possibilita compreender e o que nos possibilita irmos
de um lugar para outro. Isto é, não somos primeiramente dentro de nosso
Mas, ao mesmo tempo em que se dá tal configuração (história) algo corpo mas a partir dele. (c f. M. Boss) É a partir de como somos, e isto quer
peculiar acontece: permanecemos escorregadios, escapando do já confi- dizer, do modo como existimos, sempre numa relação de abertura, com-
gurado na direção de ser para além do que já somos. Por isso não podemos, preendida também a partir de nosso corpo sensível e de nossa história, que
pela nossa própria condição de ser, sermos compreendidos somente pela estamos abertos ao contato com os outros e as coisas em volta. E é a partir
nossa história. Somos como o poema diz: "Sede de Liberdade". E tal pecu- deste contato que nos constituímos do modo como somos. O modo como
liaridade também não é uma aquisição ou fi·uto de opção ou desejo. percebemos e cuidamos concretamente de nosso corpo está intimamente
Podemos encontrar alguma dificuldade para compreender o existir ligado com o que percebemos a partir dele. Assim dizemos nossa existên-
humano conjuntamente como dois movimentos diferentes, pois comumente cia não se encerra nos limites de nosso corpo. E é assim, neste constante
seguimos a tradição de um pensamento que procura acabar com a proximi- e original "jogo" de conter e abrir, ao mesmo tempo, que compreendemos
dade das diferenças sem nenhuma passagem ou ligação entre elas (do ne- como somos e isto significa também o nosso corpo.
gro que se opõe ao claro, do justo que se opõe ao injusto) e para o qual, a Também no campo da educação quando dizemos um não, podemos
verdade significa a vigência do absoluto. Estamos....... mais acostumados a estar não somente impedindo, mas libertando novas possibilidades para
pensar excluindo e não nos provoca o menor espanto a evidência da lei que o existir de uma criança. Por exemplo:
diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço.
Se meu filho me pergunta se pode ir a um determinado lugar e eu
Esta dificuldade de compreender dois movimentos ou sentidos con- acho que aquele não é um lugar apropriado para ele, eu não permito. Isto
juntos e diferentes, aparece p.ex: com a noção de limites. não quer dizer que simplesmente eu esteja cerceando a sua liberdade.
Comumente compreende-se que o corpo humano é limitado pela Primeiramente se o assunto for importante ele não vai acabar por
pele que o envolve. E que este corpo é o limite físico do homem. ai simplesmente com um não. Se acabar, é porque não era tão impor-
Este entendimento sugere limite como um até onde. (Até onde posso tante ou porque não havia condições para qualquer esclarecimento, no
ir e até onde pode ir o outro, em relação tanto ao lugar como ao direito de momento.

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A própria liberdade é uma questão muito mais ampla e mais funda- abre um caminho que nos leva em outras direções - a meu ver, direções
mental para que possa ser extinta simplesmente com um não. Também estas muito mais ricas e fascinantes. O nosso desafio é pensar a lingua-
não podemos esquecer, que a falta de permissão não impede nenhum gem na relação com o crescimento das crianças des-cobrindo estas novas
filho de fazer o que ele quer. (Voltaremos à relação dos adultos com as direções. Isto será de grande importância sobretudo para a psicologia
crianças mais tarde). pois poderemos então:
Um outro exemplo, no campo da psicologia, é o caso da tão conhe- 1 - Compreender melhor a fala e o falar da criança como possibilidade
cida "necessidade de estabelecer limites" da terapia infantil. Se, de ante- fundamental de expressar sentido.
mão, já deixamos estabelecido o que a criança pode e o que ela não pode
2 -A partir do que poderemos nos abrir para os significados das desco-
fazer, como podemos esperar que ela possa mais livremente descobrir as
bertas articuladas pela fala e pelas palavras no convívio próprio da crian-
suas próprias condições, possibilidades e limitações? Ainda mais quan-
ça com o adulto e para a compreensão deste convívio. E também podere-
do a terapia deve ser o lugar para descobertas próprias, pois descobrir as
mos compreender melhor as inter-corrências possíveis dos impedimen-
próprias limitações faz parte do próprio crescimento.
tos da fala articulada na vida da própria criança e de seus mais próximos,
A compreensão dos significados de limite mostra como algo pode como por exemplo: as afazias.
significar simultaneamente A e B.
3- Finalmente poderemos encontrar um caminho novo e mais apropria-
Ainda há um segundo ponto que gostaria de ressaltar à respeito da do para compreendermos e falarmos dos recém-nascidos, bebês e crian-
questão inicial "De que desenvolvimento falamos, a partir da ças que ainda não expressam, como fala e palavras, o que compreendem.
Daseinsanalyse": compreender DESENVOLVER I DESENVOLVIMEN- E, então, também poderemos dizer mais apropriadamente do convívio
TO como coisa do homem - não adulto não criança, mas tanto adulto entre essas crianças e os mais próximos e do significado do brincar.
como cnança.
É curioso como voltamos sempre ao desenvolvimento das crianças. SER CRIANÇA
É certo que, no início deste"trabalho, parti da criança mas chegamos
Vamos começar aproximando uma poesia não publicada do poeta,
depois ao adulto que se pergunta "Quem sou eu?" (Trajetória Humana).
amigo e também psicólogo Miguel Perosa:
O que significa isto?
Será que temos a vista tão turva em relação ao modo de ser da cri-
INFÂNCIA
ança? Ou será que já esquecemos como fomos um dia e queremos
relembrar? Será que, ao relembrarmos o desenvolvimento da criança, "Quando eu era pequeno Quando eu era pequeno
além de compreendê-la melhor (como os nossos filhos, pacientes e alu- Eu jogava bola Cada pequena parte do mundo
nos), não estaremos também clareando a nossa própria visão de adultos? E o jogo e a bola Absorvia todo o meu esforço
Eram toda a minha vida Todo o meu 1iso, toda a minl1a tristeza
Será que ainda podemos responder tais perguntas sem antes consi-
derarmos a questão sobre a linguagem que tem sido compreendida, qua-
Quando eu era pequeno Quando eu era pequeno
se sempre a partir da lingüística, como uma propriedade dos homens, no
Eu brincava de mãe-de-rua A minha vida era profundamente vivida
mesmo sentido como são vistos os homens que possuem um corpo, uma
E o brincar e a brincadeira Intensamente vivida
mente e um espírito? Com a fenomenologia, a partir de Heidegger, se
Completavam a minha existência Absolutamente vivida."

58 59
Quando leio este poema, sempre sou tomada de uma certa emoção. de para saber o que quer. Como pode desistir tanto?" Ela, a mãe, me
Nele é dito, com grande simplicidade e beleza, que CRIANÇA falava de seu filho de 10 anos.
TAMBÉM É GENTE. Isto parece óbvio? Outra mãe totalmente fora de si me falava de seu filho de 8 anos:
Quando a gente pára para olhar direitinho o que se diz para as crian- "Como ele pode se descontrolar tanto?" Ela estava saindo de uma série
ças ~ou sobre elas- a gente vê como elas são vistas. Muitas vezes tenho a sucessiva de desencontros amorosos e seu filho estava bastante inquieto,
impressão de que se tratam de figuras muito estranhas, seres diferentes. arteiro e não obedecia às ordens dela.
Quantas vezes a gente não ouve, por aí, " .. . podemos falar. Não se preo- A dose exagerada também surge no campo das relações "amoro-
cupe. Ela ouve mas não entende nada". Eu também já ouvi assim: "Cri- sas" das crianças.
ança não tem querer", "Criança não sabe o que quer". E também já escu-
Lembro-me de um menino que quase que tinha que ficar de pronti-
tei: "Criança não tem que falar!"
dão para a chegada de qualquer menina. Mesmo quando estava "ligado"
Nestas ocasiões, fico imaginando o tipo da criança que seria aquela. num filme de TV ou numa brincadeira qualquer. Inevitavelmente vinha a
Penso numa "espécie" de será, isto é, algum tipo que é (claro que é) mas que, pergunta-comentário dos pais: "Não era gostosa a gatinha!?"
na realidade, não é ainda: que ainda não compreende, que não tem querer e
E aquela garota que não podia brincar do que mais gostava: correr, pular
não pode dizer. Como peça incompleta, ela tem que aguardar um momento
e subir em árvores. Ai dela quando se sujava e ralava os joelhos. Vinha o ser-
no futuro em que, aí sim, estará pronta para entrar em ação, como um E. T.
mão. "Mocinha tem que se cuidar, garotos não gostam de meninas feias".
Mas também fico imaginando que essas frases podem também ser
E a outra garota, que era atazanada pela pergunta: "Quem é o na-
ditas como uma recriminação. Perdendo a paciência, o adulto saca a sua
moradinho na escola?"
autoridade e o lugar submisso da criança.
Estas crianças são vistas como pessoas maduras, prontas para qual-
Parece que para o E.T. ou para o submisso falta um já é e sobra um
quer situação. A maturidade seria algo automático para as crianças. Delas
vai ser (será)!
é esperado o que ainda não é e recusado o que elas podem expe1imentar.
Mas, há também outros modos de olhar a criança:
Neste caso, parece-me que sobra um ter que ser e falta um vai ser.
Tem o "mini-adulto", um adulto em miniatura. Este é criança so-
No entanto, apesar de visões aparentemente opostas ~ uma da cri-
mente porque é baixinho. Ele é maduro. Muito responsável. Cumpridor
ança que ainda não é gente e a outra da criança que já é adulto, elas tem
de seus compromissos. Nunca "fura" com suas obrigações. Com ele não
o mesmo ponto de partida.
tem surpresas. Esta criança é um pequeno ad~lto :
Tanto a e1iança que ainda não é gente como a que é miniatura de adul-
Do menino se diz: "É o homem da casa quando o pai não está."
to são visões construídas a pm1ir de um modelo de um certo adulto. Temos
Da menina se diz: "É a mamãezinha". aqui modelos de crianças construídos a partir de modelos de adultos.
Estes não são somente jeitos carinhosos de lidar com estas crianças. Ser adulto, neste universo, é mais um modelo. É uma lente, através
Quantas vezes não disfarçam uma exigência em dose exagerada de res- da qual, as pessoas enxergam vendo adultos e crianças.
ponsabilidades?
Assim as crianças, de um jeito ou de outro, não tem para quem se
Certa vez, ouvi de uma mãe: "Eu não agüento quando ele assume mostrar. Como elas são, qual é o seu apelo, permanece distante do olhar
compromisso e depois, desiste ... Ele já tem idade. Já tem responsabilida- e do ouvir diretos de um adulto próximo.

60 61
No entanto, esta "prática das lentes" não é apenas um costume in- vido. Ambas, compreendidas não como um fato, mas como possibilidades
gênuo das relações familiares cotidianas. Ela permeia também as teorias de relação, concretizadas ou não, compõem a história de cada um.
infantis.
Esta busca de referência deve ser compreendida no sentido de am-
Na própria psicologia, a Teoria da Sexualidade Infantil foi de- pliar as possibilidades existenciais atuais, quando algumas possibilida-
senvolvida por Freucl, segundo ele mesmo, através das observações de des fundamentais estão esquecidas para alguém. Isto é, quando este es-
seus pacientes adultos. Estes pacientes contavam suas lembranças da quecimento significa privação ou redução da realização da própria vida,
infância e Freud analisava. Depois de organizar e selecionar tais rela- na perspectiva de compreender e ampliá-la, relembrar a infância torna
tos, Freud formulou a sua própria teoria (c f. Freud em Teoria da Sexu- atuais referências já vividas.
alidade Infantil).
Relembrar a infância é assim em 1o lugar, a possibilidade de uma
Não podemos esquecer que Freud fundamentou seu trabalho nos experiência que aproxima o que foi um dia e também a possibilidade de
princípios explicativos que chamou de Metapsicologia. A partir da perceber o esquecimento do que pode ser lembrado ou novamente vivido.
Metapsicologia, formulou o mecanismo de regressão. Este foi o pon-
É esta a experiência, ela mesma, que amplia as possibilidades de viver.
to que o levou a acreditar que fazia uma psicologia infantil, a partir
do entendimento explicativo dos desvios de conduta e neuroses dos A amplitude de tal experiência nunca poderá se esgotar num único
adultos. fato passado ou presente. A procura das causas e explicações que acabou
sendo, para nós ocidentais, o significado mais comum da palavra com-
Não podemos desconsiderar a premissa de Freud: o adulto doente é
preender, não dá conta de tal amplitude.
aquele que não cresceu. Doente, o adulto regride e se torna, neste esta-
do, criança.
Retomando os modos como as crianças são compreendidas, além
Há aí uma confusão.
das "ainda não gente" e "miniaturas de adulto" construídas a partir do
É ce1io que o adulto pode encontrar na infância- como temos algu- modelo de adulto, há ainda:
mas vezes apontado - uma referência para a compreensão de sua própria
"Crianças cronológicas" - São crianças de base estatística que apa-
vida. No entanto, isto não significa que a vida do adulto seja explicada
recem nas pesquisas. São crianças sem vida: são idades e tipos de com-
por fatos que ocorreram na infância. Também não significa que aquele
portamento.
adulto que permaneceu imaturo seja uma criança que não cresceu.
"Crianças ingênuas"- Uma caracterização mais próxima da moral
O imaturo é o adulto que não cresceu. Não é a criança que não
ou da religião. São aquelas que não tem culpa. São os inocentes, para
cresceu. quem o querer, as artimanhas e transgressões não dizem respeito.
Há aí um desvio de entendimento: a criança seria como um adul-
Fala-se de fases de desenvolvimento das crianças, descreve-se com-
to doente.
portamentos específicos destas fases, indica-se critérios de idade. Mas é
Diferentemente de buscar causas e explicações, RELEMBRAR A IN- importante também dizer: nem sempre as crianças foram compreendidas
FÂNCIA pode nos servir. Relembrar a infância - INFÂNCIA como possi- como as crianças de hoje.
bilidade própria de ter sido um dia - pode servir como busca de referência
Há um livro muito interessante, chamado Metablética, em que
para a compreensão da vida do adulto. As referências possíveis dizem
seu autor Van Den Berg, nos conta das crianças dos sécs. XV e XVI.
respeito tanto ao que foi como ao que não pode ser descoberto ou desenvol-
Nesta época, até aproximadamente a idade de 4 ou 5 anos, as crianças

62 63
viviam despreocupadamente em relação a se tornarem adultas. Os adul- É mmial! A criança não é menos mortal do que o adulto ou o velho.
tos não tinham os cuidados pedagógicos que hoje conhecemos. As cri- (Por mais que pensar sobre isto aterrorize).
anças passavam o dia entre elas mesmas e compartilhavam o mundo
Ela também sente culpa e não gosta de se sentir culpada.
comum dos adultos. Desde já começavam a aprender o ofício do pai ou
da mãe. As crianças nobres ou filhos de ricos mercadores aprendiam Foge do desconforto e da solidão.
também a ler e escrever. Mas não havia a literatura infantil que hoje
Não gosta de ficar sozinha no escuro ou no fechado.
conhecemos. As crianças aprendiam a ler e escrever nos textos clássi-
cos de Filosofia e na Bíblia, em grego e latim. Aos doze anos as meni-
nas casavam e antes dos quinze, o garoto. Vemos aqui que a criança é, como o adulto, gente.
Criança e adulto viviam em maior proximidade. Havia um mundo Mas , ainda assim, não podemos passar por cima de uma
de ocupações que era compmiilhado por eles. constatação.
As noções atuais de desenvolvimento não são adequadas para com- Eu digo: "Quando eu era criança" ou eu também digo: "Eu não sou
preender o que acontecia com as crianças naquela época. As noções atu- mais criança" ou "Estou como uma criança".
ais subentendem uma diferença básica de uma fase inicial de desenvolvi-
mento e que através de um processo é superada até que a criança se torne O que significa isto? O que significa SER CRIANÇA? O que signi-
adulta. fica Tempo de ser criança?

Van Den Berg nos relembra e a poesia Infância nos fez pensar: Para tentar responder da melhor maneira, vamos brincar com as
palavras:
A criança também é gente, não somente os adultos o são.
A palavra CRIANÇA vem do Latim CREANTIA.
Ela é completa, é inteira.
CREANTIA é formada do verbo CREO, CREARE.
Não necessita que o futuro çhegue para dizer o que quer. (Se ela não
sabe dizer, não é porque é criança, mas por outra coisa). Este verbo significa, ao mesmo tempo, CRESCER e CRIAR.

A criança não precisa do futuro para, de algum modo, compreender CRESCER é desabrochar.
o que se passa. CRIAR é realizar.
O mundo da criança é inteiro. CRIAÇÃO remete ao crescimento.
Ela vive com os outros, brinca com suas coisas. Ocupa-se, fantasia, CRESCIMENTO remete a criação.
tem seus medos e seus desejos. (E somente ela mesma pode vivê-los, é
Assim, na CRIANÇA (que é criatura) encontramos a realização da
importante que se diga).
criação original e o acontecimento do desabrochar.
Ela vive seu dia a dia e vê sua vida do seu jeito; às vezes é confusa
Ser criança é, assim, o desabrochar da criação e é, também, realizar
e às vezes é impressionantemente clara.
o próprio crescimento.
Ela fala muito ou fica um "túmulo".
Na criança, como encontrei num antigo dicionário, o ser humano
Mostra-se ou se esconde e, às vezes, engana ou tenta enganar. E começa a se criar. Neste sentido falamos não de forma, não de fase ou de
também se engana. um certo período que vai passar. Falamos de despontar.

64 65
O TEMPO DA INFÂNCIA das crianças: a idade certa para entrar na escola ou para o cinema e para
sair desacompanhada.
I- TEMPO
Este é aquele tempo que as crianças precisam aprender. Não rara-
Movimentação e realização, desabrochar e criação, acontecem sem-
mente podemos observar como para elas é distante esta noção de tempo.
pre numa ce1ia DURAÇÃO. Por exemplo: Uma criança deseja muito a chegada de uma pessoa queri-
DURAÇÃO não é fase. Fase é um segmento determinado entre dois da ou de uma coisa ou de um momento especial. Quantas vezes vamos
pontos e composto pela sucessão de fatos que normalmente são ligados ouvi-la perguntar se já chegou "agora", se "já é amanhã" ou se já é o "dia
numa relação causal. seguinte". Seria apressado concluir que ela tem uma deficiência de com-
DURAÇÃO é TEMPO. Assim dizemos: a duração ou o decorrer de preensão ou uma mente confusa, uma vez que ela não sabe se já é ou não
uma vida ou o tempo de uma vida. As duas expressões significam o mes- o "agora", o "amanhã" ou o "dia seguinte" .
mo, o acontecer de uma vida. CRONOS é caracterizado por: - ser igual para todos , geral,
Assim, chegamos ao ponto mais fundamental. Compreender o que - ser dividido em palies, pontual,
significa SER CRIANÇA leva à experiência humana mais radical que é
- ser seqüencial e linear, do antes e
a do TEMPO. Radical aqui tem o sentido de raiz, não de moderno.
do depois
Na criança se emaíza o TEMPO. Podemos dizer também que a dura-
A experiência de tempo que privilegia as medidas mais objetivas,
ção ou o decorrer de uma vida está engatado na infância, com a criança.
as regularidades e as seqüências prévias dos acontecimentos se dá num
Mas não é a criança que faz o tempo, nem que o possui. Mas é com mundo onde também se privilegia tais características.
ela e a pmiir dela que ele se instaura em cada existir humano.
Assim, podemos compreender que estas noções de tempo cronoló-
Assim, SER TEMPORAL não é uma questão infantil, mas humana. gico são bastante restritas para abarcar a intensidade da chegada do espe-
O que significa isto? Que tempo é este do qual estou falando? Como rado e a força de algo que só se realizará depois, mas que já se impõem
podemos compreender melhor a infância? na sua espera. A eternidade dos momentos e a oportunidade da chegada
Para os gregos antigos, o que hoje para nós é apenas tempo consti- do esperado não são cronológicas. Englobam muito mais. Englobam ex-
tuía três experiências distintas: periências que não são comuns ou previsíveis.

1 - Havia CRONOS que corresponde ao nosso conceito comum do


tempo cronológico: 2 - Havia também AION.
do tempo que se conta, do intratemporal e das coisas do mundo; do Este era o tempo da eternidade, dos deuses e da imortalidade.
tempo de todo mundo: "ninguém vive fora deste tempo: dos dias, das
horas, meses e ano." O tempo eterno, que não dizia respeito aos homens.

As ciências norteiam-se por este tempo . O homem vive preso Era o tempo da mitologia.
nele: nos horários e compromissos. Os prazos e as urgências são me-
didos pelos cronogramas. É o tempo do convívio geral na seqüência 3 - E havia KAIRÓS .
dos fatos.
Este é o tempo que não pode ser medido, verificado e que não é
É o tempo que serve para a determinação dos fatos prévios da vida igual para todos .

66 67
É o tempo que somente pode se dar como o tempo ce1io, adequado, Vamos lembrar:
da oportunidade para a realização. É o momento possível.
O bebezinho acorda. Ele chora. Alguém se aproxima, ele pára de chorar.
É o tempo opmiuno para uma certa realização ou para a realização
de uma certa possibilidade. Mais tarde, ele acorda e chora. Alguém se aproxima, ele continua
a chorar.
Como diria o poeta, é o tempo para o surgir das estrelas e dos tro-
vões - que somente podem ser percebidos, depois de estarem há muito Alguém diz: "É wn danadinho. Sabe o que quer. Quer sair do berço".
no firmamento, mas em condições adequadas. Mesmo assim, as condi- Mas, se ele continua a chorar, temos uma dica: ele tem algo (cóli-
ções adequadas não fazem com que as estrelas e os trovões sejam perce- cas, fome, fralda suja).
bidos pelos distraídos e preocupados e também pelos medrosos.
Assim é que KAIRÓS é o tempo do possível e da possibilidade: é o
Sabemos que o bebezinho MOSTRA NA HORA o que tem ou o
tempo existencial.
que quer. Isto é tanto verdadeiro que se chegou a formular a TEORIA
É o tempo em que faz sentido a pergunta da criança: "Agora já é DO PRINCÍPIO DO PRAZER: as crianças seguem o princípio do
amanhã?" Este "amanhã" não é o dia seguinte, mas é o momento ce1io em prazer.
que algo já poderia acontecer. É o tempo em que futuro e presente se jun-
Pensando com cuidado: O que é este tal de PRINCÍPIO DO PRAZER?
tam e presente e passado se tornam um único .Isto pode ser visto nos tem-
pos de verbo "poderia acontecer" ou "estou lembrando o que passou". Princípio do prazer quer dizer: É PRA JÁ! Não há considerações
intermediárias. Se está doente, o bebê chora até que a dor passe. Se está
Este é o tempo que permite que se diga: "Nunca mais isto ..." "Já
com fome , o bebê reclama até que lhe dêem de comida.
vai!" "Que demora!" "A minha vida inteira ..." "Espera um pouquinho
só!" que são expressões sem medidas objetivas mas que expressam clara O bebê MOSTRA LOGO a insatisfação e a satisfação.
e intensamente algo. O bebê cresce um pouco, parece que já entende quando falamos .
É o tempo do: - em cada caso Mas, nem sempre o bebê quer atender.
- da proximidade Está na hora de dormir. Se até ontem o bebê ia para a cama direiti-
- da totalidade unida de significado. nho sem reclamar, hoje ele não quer mais. Chora sem parar. Não quer
mais ficar sozinho no qumio.
KAIRÓS não é o tempo da criança. Nem mesmo é uma questão infan-
til. Mas ele se instaura com e na criança. Ele é humano, de todos os homens. Nestas ocasiões se diz: "Ele vai chorar até se cansar e dormir".
É a partir desta experiência de tempo (que os antigos gregos cha- A criança já tem um ano e meio. Ela diz: "Qué chocolate". Mas está
mavam KAIRÓS) que mais amplamente podemos compreender o modo na hora do almoço e ela não ganhou. Ela não pára, insiste tanto que ou
de ser criança e o tempo da infância. leva uma bronca e chora ou acaba "vencendo pelo cansaço".
Depois começa a gostar de histórias: Incrível! Quer sempre ames-
IT- INFÂNCIA ma e sabe ela inteirinha.

O que podemos dizer, especialmente, do tempo da infância? Do Vai para a escola e começa a fazer as lições. Aí se não sabe fazer
tempo das crianças? Do tempo das recordações infantis? uma, ·o mundo cai sobre a cabeça': "Eu nunca vou conseguir! ".

68 69
O que vemos? (Não estamos aqui falando em qualidade de futuro "aberto" ou "fe-
Nas experiências das crianças, prevalece sempre o imediato. O tempo chado", como falamos no futuro dos deprimidos. Este já é um futuro
da Infância é o lugar do já, da presença imediata do agora. descortinado retraído).

Nas experiências infantis, a experiência imediata prevalece sobre qual- No que implica a primazia do presente na vida da criança?
quer aspecto passado ou futuro. Ela é a que vigora, portanto, é mais vigorosa. Diferentemente também do que pode se pensar, a primazia do pre-
· Nas experiências infantis não há uma divisão equilibrada de passado, sente na infância NÃO traz imobilidade (o que é diferente com o adulto).
presente e futuro . Assim dizemos: o viver temporal da criança exacerba o A primazia do presente com o envolvimento com o imediato, na
presente. A força do imediato é tão grande que chega a poder abarcar toda infância, é a experiência mais radical da não permanência dos significa-
a vida com igual intensidade, desde o desespero com uma dorzinha "a dos e não determina uma relação de imobilidade com um mundo restrito,
toa", até o desesperado abandono de uma criança com a saída da mãe. mas uma constante e rica possibilidade de renovação. O que é agora,
O desespero é uma resposta que, na criança, é provocada facilmen- logo-logo pode não ser mais. O brincar e as brincadeiras mostram espe-
te. (É com o crescimento, com a ampliação temporal, que o desespero cialmente esta rica mobilidade com a descoberta e miiculações constan-
vai se tornar mais singularizado). Na criança uma resposta com a intensi- temente diferentes das relações com o mm1do.
dade do desespero é mais comum e, assim, sua importância é mais
As descobe1ias podem abranger diversos âmbitos do existir da
inespecífica e difusa.
criança junto às coisas em volta e às pessoas, desde as mais familiares
Diferente do que se costuma pensar, é o presente que domina o até as mais distantes. Ao mesmo tempo, se dá também a descoberta de
tempo da criança. Costuma-se dizer: "A criança tem todo o futuro pela seus diferentes modos de humor.
frente". "O futuro da criança é maior do que o do adulto ou do ancião".Isto
. Ouvimos uma criança dizer "te adoro" e, logo depois, não impmia
não é verdadeiro na perspectiva existencial da criança, que parece ter um
futuro muito curto. Que a criança tem "todo o tempo pela frente" somen- porque motivo, ela diz: "Você é boba, não gosto mais de você!". E, logo
depois voltar aos mil amores.
te é uma constatação distanciada, na perspectiva lógica do outro.
O futuro parece ser tão menor quanto for a criança. Assim, dissemos acima, a infância é também o tempo de
impermanência de significados e do fascínio pelas descobertas. E o fas-
Assim, a primazia do presente, num sentido vivencial, aponta um cínio pelas descobertas se confunde com o presente. Mas as descobertas,
caráter especial também do futuro da criança. Este aparece inicialmente elas mesmas não são o presente. Cada nova descoberta surge sempre da
de modo mais restrito. totalidade das referências significativas que, a cada momento, podem se
O futuro vai se descortinando a medida em que o passado vai sur- rearticular. Na criança, esta remiiculação constante se dá como cresci-
gindo juntamente às experiências e descobertas de "ter sido", quando mento, pois implica ampliação dos significados já conhecidos, ante a
também vão surgindo as lembranças, os aprendizados e a descobe1ia de perspectiva da novidade, das surpresas, dos desafios, isto é, do futuro .
ter que esperar. Assim é que o futuro é tão cmio quanto o passado. O Viver intensamente e envolver-se com as próprias descobe1ias é uma
futuro da criança vai se abrindo a medida em que ela vai vivendo e cres- constante na infância. Assim, quando a criança é privada de descobertas,
cendo, na criação de sua história. Ter paciência e poder prever são pos- dá-se uma restrição em sua vida. Isto pode ocorrer devido a condições
sibilidades que serão descobertas com a experiência da espera, isto é, de sociais, de relacionamento ou ambientais, ou por doença. Há casos de
um futuro mais vigoroso. Neste sentido, elas são possibilidades inicial- privação que podem levar até a própria mmie, tal o grau de carência de
mente veladas para as crianças. cuidado ou de solicitações e estímulos do mundo próximo.

70 71
Na infância vivemos no tempo das DESCOBERTAS próprias e do Bibliografia
mundo.
- BOSS, M. -"Medicina Psicossomática: Ciência ou Magia" Revista
Quando descobre a si mesmo, aos outros e as coisas, a criança se da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, 11° 8, São Paulo, 1997.
constitui já, e desde sempre, como um estar-no-mundo que realiza a
sua própria história. Podemos, então, compreender outra dimensão de - FERREIRA, A. G. - Dicionário de Latim Português. Porto Editora
seu próprio existir: a historicidade própria. Não nos referimos aqui a Ltda
história comumente entendida como uma sequência de fatos ou vivências - FOUCAULT, M. -Doença Mental e Psicologia. Tempo Brasileiro R.J.
datadas que determina os acontecimentos do presente ou do futuro ,
.
mas , à historicidade, como a condição fundamental apoiada na
temporalidade do existir humano, conforme Heidegger , que explícita
- FREUD, S. - Tres ensayos para una teoria sexual 2. La Sexualidade
Infantil Obras Completas Tomo 11 Biblioteca Nueva, Madrid, 1973 .
"o contexto da vida" ante a provocação do que ainda não é e pode vir a - GADELHA, R. - Um Estreito Chamado Horizonte. Massao Ohno
ser, ante o imediato presente e, ao mesmo tempo, ante o retorno ao já Ed. São Paulo, 1991.
possível e vivido. "História significa aqui um conjunto de aconteci-
- HEIDEGGER, M. - Ser e Tempo. (1927) Editora Vozes, Petrópolis,
mentos e influência que atravessa "passado", "presente" e "futuro". Aqui
1989.
o passado não tem primazia."
- HEIDEGGER, M.- Being and Time. Basil Blackwell Oxford, 1973.
Crescer é abrir-se para o futuro. Isto quer dizer: crescer está voltado
para a possibilidade do novo, do que ainda não é. Crescimento, assim, é - HEIDEGGER, M. - Seminários de Zollikon. Tradução ainda não
tanto compreendido pela presença do imediato, como do advir que já o publicada de Gabriela Arnhold e Maria de Fátima de Almeida
penne1a. Prado
No crescimento, pleno de possibilidades do novo, de algo que ainda - LIMA, H. e BARROSO, G. - Pequeno Dicionário Brasileiro da Lín-
não é, desvela-se um futmo. Dizemos "a criança quer crescer", "criança gua Portuguesa. Ed. Civilização Brasileira S.A. e Companhia Ed.
imita o adulto", "não quer ser criança" ... Nacional, São Paulo, 1957
Sendo já gente, a criança quer deixar para trás suas próprias li- - VAN DEN BERG, J. H. - Metablética (Psicologia Histórica) Ed.
mitações, quer deixar de ser quem ela é, pois , como todos os huma- Mestre Jou, 1965, São Paulo
nos , existe provocada, chamada, pelo que ainda não é. No entanto,
esta provocação aproxima também a experiência de desamparo, uma
vez que o mais familiar de suas próprias possibilidades é momenta-
neamente abandonado pela sua própria condição de crescimento, do
advir do que ainda não é.

Ser e Tempo parágrafos 55 , 56, 72 e 73.

72 73
O MUNDO DA CRIANÇA* PALAVRAS-CHAVE: Criança, Mundo, Relação Adulto-Criança, Fan-
tasia, Brincar, Realidade
MARIA BEATRIZ CYTRYNOWICZ Há um livro de histórias MANU, A MENINA QUE SABIA OU-
VIR, de Michael Ende, o mesmo autor de HISTÓRIAS SEM FIM,
cuja segunda parte começa assim: "Há na vida um grande mistério que é
Resumo
o Tempo. Existem calendários e relógios que o medem, mas significam
Neste terceiro artigo, em que a compreensão do existir da crian- pouco, porque às vezes, uma hora parece uma eternidade, ao passo que
ça é desenvolvida a partir da fenomenologia existencial, encontramos de outras vezes passa como um relâmpago."
na relação com o mundo considerações fundamentais: o descobrir das Esta passagem da segunda parte: O tempo perdido aproxima de
próprias possibilidades e limitações da criança se torna explícito jun- maneira muito feliz o que tem sido, no fundo, a nossa questão. "Afinal,
to ao descobrir da significabilidade do mundo. Somente ai é que quem somos, como fomos e como seremos?" Pois esta questão não fala
podemos ver o surgir da angústia fundamental, das implicações do mais do que do Tempo, este "algo" misterioso que se instaura desde o
cuidado na relação do adulto com a criança, como a dependência, a início com e na criança. Neste início ele recebe o nome de Infância; de-
simbiose e a representação, e do sentido radical de ser mortal. Por pois vai receber outros nomes. Isto é assim porque o tempo sempre se dá
fim, podemos ver como, no mundo do brincar e da fantasia, encontra- de maneira especial e diferente no decorrer da existência humana e com
mos o lugar e a disposição máxima para o descobrir e experimentar ela está intimamente imbricado.
das possibilidades próprias e do mundo, intrínsecos ao crescimento
de cada criança. A palavra Infância é composta em sua origem por In, Fans Fos que
significa sem fala, mas também, na luz ou na claridade, conforme consi-
deramos o prefixo In como de negação ou de relação e os possíveis sig-
Abstract - The World of the Child nificados do nominativo Fans,Fos. No entanto, é conjuntamente destes
dois modos que primeiramente compreendemos a existência humana no
tempo da criança ou na infância: na claridade sem fala! Deste modo ori-
The third article develops the understanding o f the existing child ginal podemos compreenderá modo também especial da relação entre as
based on existential phenomenology. In the relation with the world crianças e os outros, no qual ela se mostra e é percebida mais no âmbito
we find fundamental considerations: the child's discovering ofhis own do cuidado dos outros do que de seu próprio dizer. Encontramos aqui, na
possibilities and the limitations becomes explicit together with etimologia, uma pista importante para uma compreensão mais original e
discovering the significability o f the world. Only then can we see the não metafórica do existir humano na infância.
emergence o f fundamental anxiety, o f the implications o f c are in the
Metáforas são criações ou expressões livres de objetividade de
adult-child relation such as dependence, symbiosis and representation,
que nos servimos para melhor compreender algo, que em nosso caso
and ofthe radical meaning ofbeing mortal. Finally, we see how in the
seria a compreensão mais original da criança e do adulto em seu pecu-
world o f play and fantasy we find the place and maximal disposition
liar "já sido". Contudo, algumas vezes, o uso delas tem trazido dificul-
for discovering and experimenting the possibilities o f the self and the
dades quando elas são tomadas como os acontecimentos ou fatos reais,
world which are intrinsic in the growth of each child.
ou a própria realidade, e não mais como a melhor expressão do enten-
dimento de algo importante no conjunto de acontecimentos. Encontra-
Apresentado em Abril de 1993. na Associação Brasileira de Daseinsanalyse. SP- Brasil. mos na Psicologia, tanto no campo das teorias como no da prática clí-

74 75
nica, exemplos de metáforas usadas para interpretar significados de que as crianças vivem fascinadas nesta permeabilidade. As lembranças e
experiências do desenvolvimento das crianças e dos bebês, de suas es- as expectativas que se formam facilmente são reunidas no presente. E é
truturas internas, do mundo e da realidade. O mito de Édipo é um exem- esta reunião que compõe o enredo único de cada brincadeira, numa arti-
plo de como uma metáfora extremamente rica na descrição da condi- culação constante dos modos presentes possíveis de relação. Isto tam-
ção humana, do ser livre e do ser mortal, se transformou numa estrutu- bém ocorre ç;om os acontecimentos ansiosamente esperados que ainda
ra determinante e aprisionadora da realidade humana que tem influen- não se deram mas que podemos observar tanto no aguardo impaciente do
ciado toda uma época. amanhã que virá, como da chegada de uma pessoa querida que se fez
Com o método fenomenológico, desenvolvido a partir de SER E anunciar. Todos estes acontecimentos estão fortemente marcados como
TEMPO de Martin Heidegger, procuramos um caminho que nos aproxi- presenças imediatas. As crianças parecem sempre aproximar tudo das
me a compreensão da infância e da criança, o que não quer dizer dos mais diversas maneiras: elas mexem em tudo- se diz até que "crianças
significados escondidos de suas experiências internas, às quais não po- tem olhos nas pontas dos dedos" - esfregam coisas nos cabelos, levam à
demos ter acesso. Ao contrário, procuramos não desconsiderar justamente boca e aos olhos qualquer coisa, se assustam facilmente com barulhos,
aquilo que aparece e aí nos situamos. E o que da infância podemos inici- estranham pessoas diferentes ...
almente dizer está sempre vinculado ao âmbito de nosso cuidado, da nossa É assim, envolvidas totalmente no que aproxima, que as crianças
experiência própria e do mundo, isto é, conforme a nossa experiência. descobrem o mundo e seus significados, isto é, as relações entre as diver-
Crianças não nascem falando, mas não resta qualquer dúvida que podem sas descobertas.
ser compreendidas!
Podemos ver tudo isto acontecer concretamente nas "pesquisas" ou
O mundo da criança, ao qual nos referimos, é aquele compreendido nos enredos das brincadeiras em que elas participam. Nas brincadeiras,
em proximidade com ela e é, somente nesta relação de proximidade, que quando as histórias vão se alinhando, a criança descobre o mundo e a si
nós adultos podemos descobrir a importância do mundo próximo para o mesma, descobre o mundo em que vive e descobre o que pode e o que
crescimento das crianças. Esta formulação tem duplo significado. Pri- não pode. Quando brinca, a criança experimenta- relembrando, modifi-
meiramente, o que consideramos como "importância do mundo" signifi- cando, inventando, atualizando - o que quer e o que não quer ante o que
ca o que percebemos como mais permanente e que passa a compor a se impõe, de tudo o que aparece. É assim, deste modo que chamamos de
história da criança e, em seguida, que se refere à possibilidade de enten- criativo, que a criança cresce.
dimento e ao envolvimento.
Mas, a possibilidade de um futuro mais alargado, mais amplo, nem
Nesta perspectiva, como já vimos antes em Tempo da Infância, sempre é descortinada de modo tranqüilo. Isto também é importante
podemos dizer que descobrir o mundo, do mais desconhecido e estranho ressaltar.
para o mais familiar e acolhedor, fascina a criança. A criança é curiosa!
O tempo da infância é em primeiro lugar o tempo do já, do que se apre- Se, por um lado, descobrir um mundo mais rico de significados e a
senta agora, do imediato. É o tempo da descoberta. si mesmo mais instrumentado para enfrentá-lo é revigorante, por outro
lado, aproxima também o desamparo e a experiência individual e pmii-
As crianças na infância vivem intensamente e se envolvem total- cular da angustia.
mente naquilo que se apresenta.
Exemplos destes momentos são as situações em que as crianças
A relação com o mundo é assim sempre rica de novas possibilida- choram com a proximidade de um desconhecido ou a falta do familiar.
des na infância e a mobilidade de significados é uma constante no mun- Nestes momentos dizemos: "Ela está estranhando". Mais tarde, elas se
do infantil. É assim que algo que agora é uma coisa, logo não será mais e desesperam quando o pai ou a mãe vão sair de casa. E, ainda mais

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tarde, quando ouvem referências a guerras, explosões, catástrofes ou I -A RELAÇÃO CRIANÇA E ADULTO
histórias do extraordinário, podem sentir extrema angústia. Experimen-
Vimos anteriormente que, quando uma criança nasce, ainda na ma-
tam aí a própria impotência e a ameaça de destruição, ou seja, aquilo
ternidade, nas primeiras horas de vida, os familiares e amigos, comemo-
que compreendemos como finitude humana. Nestes momentos o mun-
rando o seu nascimento, já sê voltam para o futuro do bebê e perguntam:
do da criança se amplia para além do imediato, numa intensa e nada
"O que ele será quando crescer?, Com quem ficará parecido ?
tranqüila possibilidade vivencial. Esta intensidade do envolvimento com
a proximidade de situações desagradáveis de impotência leva a criança Depois, já em casa, quando cuida do bebê e de seu bem estar, o adulto
a desesperar-se . também se volta para o futuro. Ele quer evitar que o bebê fique doente, ele quer
manter a saúde do bebê. Este cuidado com o bebê é também cuidado de futuro.
Quando acalenta, quando alimenta, quando estimula ou repreende
Medard Boss, em seu livro, ANGUSTIA CULPA E LIBERTA-
a criança, o adulto tem a vista para além do imediato. Quando se aproxi-
ÇÃO Cap. III, escreve:
ma para ver porque o bebê chora, o adulto não espera uma simples
"Todavia, por mais amparado que tenha sido o lactente, a criança constatação. Ele espera poder compreender o choro e, então, resolver um
brevemente terá que experimentar a angustia, ora em menor ora em desconforto, cuidando da criança.
maior medida. Mesmo uma criança de três ou quatro anos pode acordar
Isto é o que queremos compreender melhor: o adulto quando é cons-
sobressaltada noite após noite, em virtude de nos seus sonhos ver repe-
tantemente solicitado a cuidar da criança cuida do próprio vir a ser.
tidamente aproximar-se, a mesma bola gigantesca e escura. Este acon-
tecimento onírico em-responde a aproximação turbulenta de todo o seu Heidegger, no parág. 48 de SER E TEMPO diz:
futuro humano. No entanto, na sua fragilidade infantil, ela ainda não "Ao Dasein, enquanto ele é, falta em cada caso ainda algo que ele
sente capacidade para aceitá-lo e suportá-lo. Por isso, sonhando, ela pode ser e será". Esta é a primeira formulação a respeito do ser mortal do
teme sua carga como a uma monstruosidade esmagadora. Nos pesade- homem e explícita o sentido mais radical da falta que, a cada momento, é
los infantis com animais ferozes, assaltantes ou incêndios devastado- incessantemente preenchida em nosso existir, a medida que existir res-
res, que de vez em quando pertúbam as noites de praticamente todas ponde constantemente a uma dada solicitação. Assim, quando um adulto
as crianças, elas temem a destruição de sua condição humana regular e se depara com a solicitação de cuidar de uma criança, se depara também,
conhecida, no caos de forças compressivas, dominantes e incontroláveis ao mesmo tempo, tanto com a sua própria possibilidade de realizar-se
de sua vitalidade natural." (pág. 27) como responsável pelo crescimento da criança, como com a condição da
criança de ainda não está descoberta para si e para os outros.
Nesta passagem, Boss nos lembra do outro lado das experiências
infantis de descoberta. Esta lembrança nos ajuda a ampliar a nossa com- E, assim, na proximidade com a criança, é que o adulto pode perce-
preensão da infância: o advir que descobre também o desamparo. ber exatamente tanto a falta, que lhe diz respeito, como a que se refere a
própria criança. Neste momento, ele pode se dispor, ou não, a responder
Conforme temos exposto, há no tempo da infância uma primazia do
à solicitação daquele cuidado e realizá-lo, ou não.
presente imediato. Mas não podemos esquecer que a perspectiva do ime-
diato e do intenso envolvimento com o que se apresenta pode trazer mo- Entretanto, é mais comum que a falta -presente já desde o nasci-
mentos de extremo desamparo. Pois, aí também encontramos a perspec- mento- na criança seja compreendida como 'fragilidade infantil', como
tiva de seu crescimento, estando a criança voltada para o futuro, isto é, se fosse uma condição que se extinguirá com o crescimento ou que será
está atraída, para a possibilidade de algo novo. E quando isto se dá sem o substituída pela condição de adulto. Esta interpretação é uma má com-
amparo do familiar, a criança experimenta extrema angústia. preensão tanto do viver da criança, como do viver do adulto.

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Por um lado, o bebê ainda não desenvolveu uma história própria, riscos. Estas duas últimas considerações conjuntamente talvez nos le-
ainda está começando a descobrir o mundo e a ele mesmo, neste sentido vem a prescindir de outras considerações mágicas ou angelicais. A pro-
é um mistério a ser desvendado. Este mistério parece ser tanto para a funda ligação entre adulto e criança é o que torna mais difícil compreen-
pequena criança como também para o adulto. der e expressar o que e como se origina num ou o que e como vem do
Ante a falta, ante o que ainda não é, o adulto continua a ser constan- outro. E quando não há qualquer preocupação inicial com esta diferença,
temente solicitado . E, correspondendo à solicitação de cuidar do que ainda facilmente o adulto pode passar a se compreender não mais como res-
é mistério, o adulto pode se sentir até responsável pela própria vida da ponsável mas ditador da vida da criança. Isto pode ocorrer de diferentes
cnança. modos e intensidade desde o ditar necessidades e "vontades" de uma
criança até o ditado sobre as crianças em geral.
Esta responsabilidade é acolhida, às vezes, como uma carga e, às
vezes, de bom grado. Mas, de um jeito ou de outro, o adulto responsável Dizemos, muitas vezes, que o adulto cuida da criança porque esta é
é solicitado a cuidar do crescimento da criança. Cuidar aqui tem o senti- dependente.
do do cuidado preocupado que afasta o que atrapalha, abrindo o caminho A DEPENDÊNCIA DA CRIANÇA, como aqui estamos vendo, não
para o crescimento mais sadio. Mas, esta responsabilidade pode provo- é uma característica isolada da criança. Mas é um traço da relação entre
car também angústia no adulto a medida que ressalta as suas próprias adultos e crianças.
limitações e possibilidades.
O adulto é solicitado a olhar pela criança. Neste olhar por ela, ele
Por outro lado, na vida de uma criança há muitas coisas que atrapa- lança a vista na am12litude que a visão da criança não alcança. Pois, de
lham o seu crescimento. algum modo, ele compreende as delimitações do viver da criança. Na
Encontramos aqui desde as condições ambientais gerais até as con- solicitude, ou cuidado preocupado, o adulto existe de um modo que pode
dições mais pessoais, como as corpóreas ou de afetividade. antecipar experiências ainda não descobertas pela criança.

Mas, há aquela condição que é a mais radical de todas e presente Para a criança é providencial, em certas situações, que alguém ante-
para todas as crianças e adultos também. Nesta radical condição, o atra- cipe o que pode estar para além do imediato. Isto se refere tanto ao reco-
palhar tem o sentido definitivo do impedimento. Esta condição é o pró- nhecimento das suas necessidades e o caminho para satisfazê-las, como
prio ser mortal. ao apoio e encorajamento para descobrir o ainda novo. E a criança está
sempre muito disponível para receber o que lhe vem ao encontro ou o
Esta condição da falta que, a todo momento, está presente e ausen- que lhe falta. E o que lhe vem ao encontro é não somente através do que
te, o adulto cuida de afastar. é feito ou dito, mas também pelo modo do olhar. Uma criança muito
Quando acompanhamos o crescimento de uma criança, não é difícil pequena, em situações extremas, pode até chegar a morrer pela falta des-
perceber como frequentemente ela se arrisca e permanece ' inteira'. De te olhar.
um lado, é fácil ver que muitas vezes avaliar algo como perigo é "coisa" Quando antecipa experiências ainda não descobertas, o adulto está
do adulto que se retrai mais ante um risco. Mas, por outro lado, há a ' representando' a criança na escolha destas experiências.
crença que "as crianças tem muitos anjos da guarda". Isto não está muito
distante da realidade!!! Mas, se não podemos aferir se os perigos que o REPRESENTAR é uma possibilidade de ser com o outro, de com-
adulto considera como riscos, são riscos de fato para a criança, também paliilhar, em que um torna presente algo para o outro.
sabemos que, na maior parte do tempo, as crianças estão acompanhadas, Isto acontece, por exemplo, quando a criança é representada pelos pais
vigiadas ou controladas por alguém que as impedem de correr maiores na escolha de uma escola, na procura de um médico ou na decisão de fre-

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quentar a aula de natação. A possibilidade de representar não se limita à
Ter cuidado, cuidar de alguém, não é somente poupar-lhe experiên-
relação entre crianças e adultos. Na relação entre adultos ela também ocorre.
cias desagradáveis ou fazer que siga um determinado caminho.
Por exemplo, a procuração é um recurso jurídico que reconhece fonnalmen-
te a representação. Nas relações informais entre adultos, ela também se dá. Esses são somente dois sentidos que o cuidar pode assumir. Ambos
tem em comum a falta de paciência, a pressa ou o receio, e não percebem
Nas relações entre adulto e criança, entretanto, a representação é
as necessidades, solicitações e possibilidades existenciais das crianças.
mais original e mais freqüentemente necessária, pois aproxima não uma
coisa ou um fato , mas um certo caminho a seguir, cuja decisão não pode Necessidades, solicitacões e possibilidades não são abstrações, mas
ainda ser da própria criança. estão sempre presentes nos relacionamentos e podem ser vistas pelo olhar
cuidadoso.
Apesar de não depender da vontade, não podemos dizer que a re-
presentação é natural, nem obrigatória e geral. Ela é uma possibilidade Assim, o cuidado mais original com a criança cuida das próprias
que depende de cada caso e da compreensão que se tem deste caso. possibilidades. Isto as vezes se dá de modo doloroso pois significa, tam-
bém, o confronto com as situações de falta e perda, que envolvem sem-
Este é o 'segredo ' da representação: descobrir quando, como e o que
pre a própria limitação. Outras vezes se dá no sentido da alegria, do riso
antecipar para, a partir daí, poder bem representar a criança. e do contentamento.
Assim antecipação e representação se dão em diferentes modos do
Mas o que acontece quando os adultos passam a seguir uma con-
cuidar. Aqui damos alguns exemplos:
duta que não admite modelos na educação das crianças? O que acontece
Cuidado autoritário: impõe regras que devem ser seguidas e, extre- quando ' tudo é relativo ', 'tudo pode ', 'a criança é quem decide'?
mamente exigente, não olha as condições próprias de cada criança,
A criança perde a op01iunidade de descobrir um apoio a partir do
desconsiderando as suas necessidades e negando as suas possibilidades.
qual pode se lançar. Este apoio é a clareza de um referencial e é um modo
Cuidado indiferente: também desconsidera necessidades mas, ao de experimentar propriamente o histórico junto ao outro. Esta experiên-
contrário do autoritário, omite p~sições. cia é pertencente a própria condição humana de estar já sempre lançada
num mundo compatiilhado que acolhe de um certo modo, numa certa
Cuidado exibicionista: encontra na criança oportunidade para se
totalidade significativa de possibilidades humanas já vividas.
avaliar, para angariar reconhecimento e aprovações gerais.
Assim, as crianças , privadas da clareza de um referencial
Cuidado que mima: atrofia possibilidades próprias da criança e di-
ficulta o seu crescimento, poupando sofrimentos. próximo,que se constitui apmiir de experiências significativas, perma-
necem perdidas, sem conseguir decidir para onde ir, nem o que podem e
Cuidado que estimula: de quem está sempre na frente provocando o que não podem. Até que, por força das imposições gerais, impessoais,
descobertas. descobrirão que 'tudo não pode', que ' nada é relativo' e que 'não é sem-
Cuidado paciente: de quem sabe esperar pelas oportunidades e pelo pre que elas decidem'.
possível. Quando 6 adulto não se permite dizer o que para ele é imp01iante, a
Diante de alguns modos, muitas vezes, as crianças se tornam criança percebe a confusão e fica confusa.
inconformadas, apáticas, teimosas, medrosas ou revoltadas. Neste últi- Assim, não é de estranhar quando vemos crianças e jovens adoles-
mo caso, parece não aceitar o cuidado do adulto e chega até a mostrar centes chegando aos consultórios de terapia sofrendo por não poderem
que necessita de algo diferente (Ex.: "Quero morar em outra casa!"). expressar o que desejam de si nem para si mesmos.

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Na falta do adulto, a criança perde a oportunidade para experimen- Dizemos que a criança vive no mundo da brincadeira.
tar o já vivido e isto se refere até ao modo como vai perceber a si mesma. Dizemos que a criança é poder brincar e que brincar é ser criança.
Isto se dá porque a presença do adulto aproxima a confiança, isto é, a
descoberta da experiência de confiar. E, de fato, isto acontece: criança vive brincando. Brinca com as
mãos, com a voz, com os brinquedos, com o fiozinho de linha e com a
Com a presença de alguém mais velho, que já viveu e 'já sabe' , a
imaginação. As crianças não precisam de brinquedo, objeto para brincar.
criança descobre a confiança. Ao contrário é o brincar que torna as coisas brinquedos.
Mas não podemos esquecer também que o adulto cuida da criança
Mas não é somente que as crianças brincam. O mundo da criança é
do modo como pode. Ele não pode tudo, ou qualquer coisa, e não é ele
também o mundo do brincar. Assim é que se diz.
quem decide sobre os limites do possível. Ele não pode nem prever, nem
determinar, a vida da criança. É no cuidado com ela, que ele vai desco- Brincar não é jogar. Jogar implica em regras fixas que devem ser
brir as possibilidades e limitações do próprio cuidado. seguidas. Brincar também não é representar, como atuação no teatro.
Brincar de teatro é outra coisa diferente de trabalhar como um ator no
Assim, no envolvimento entre criança e adulto. tanto criança como
teatro.
adulto encontram oportunidade de desenvolvimento. E, se um dos dois
estiver prisioneiro de um processo, o outro também não estará livre para Para as terapias psicológicas e práticas ludoterápicas, BRINCAR
compartilhar outras possibilidades. É UM JOGO DE APARÊNCIAS. Nelas, o brincar é entendido como
um jogo que segue regras gerais anteriores .Na ludoterapia, os brin-
Neste sentido, cuidar da abertura para as possibilidades futuras de uma
quedos parecem ser algo que na realidade o terapeuta sabe que eles
criança, implica em cuidar da abertura para as próprias possibilidades futuras.
não são. As crianças não conhecem o real significado que o terapeuta
apreenderia como dado do próprio brinquedo. Por exemplo: um re-
11 - O MUNDO DO BRINCAR E DA FANTASIA vólver é uma arma usada para agressão . O contexto de agressão da
brincadeira surgiria com o uso do revólver. Ao contrário, compreen-
Primeiramente quero lembrar que o brincar aqui não é aquele que demos que é na situação de agressão que o revólver pode aparecer
comumente se opõe ao falar e que é expressado assim: "O adulto fala, a como uma arma de agressão, pois ele também pode ser usado como
criança brinca" ou "a linguagem da criança é o brinquedo". um martelo para prender algo ou como uma coisa para chamar al-
Vemos crianças brincando e falando. Ao mesmo tempo. O que sig- guém para brincar junto.
nifica isto? Afinal, o que é mesmo brincar? Da mesma forma que a fantasia e os sonhos, o brincar tem perma-
Brincar é atuar. É uma forma de atuação. Brincando, interagimos necido preso a noções preestabelecidas, de satisfação de desejos ilusóri-
com o mundo, com os outros e com as coisas ao redor. Neste momento, os e irrealizáveis.
fazemos algo, realizamos, criamos e constmímos. A partir e neste contexto:
Falar é expressar. Falando expressamos aquilo que compreendemos 1 - Todo brincar teria um significado oculto
de nós e do mundo. Isto é, mostramos expressamente, diretamente, co-
mumcamos. 2- Haveria sempre um brincar organizado pré-determinado
Atuar e expressar, assim, são duas coisas totalmente diferentes e 3 - As brincadeiras nada mais seriam do que uma repetição com-
que não se opõem, mas se completam. pulsiva (para Melanie Klein, de fantasias masturbatórias)

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Afinal, tal compreensão do brincar nos permitiria compreender a Já vimos como as crianças são seduzidas pela possibilidade das
existência da criança como despontar de criação e realização de uma descobertas.
história própria, ou de crescimento? (Que vimos ser o sentido original
Vimos também como, no tempo da infância, as experiências são
da palavra CRIANÇA).
predominantemente imediatas, isto é, voltadas para o que está mais pre-
Como poderíamos compreender o surgimento de modos de ser da sente. E que este envolvimento é tão fmie que aspectos do passado ou do
originalidade e processos de criatividade e diferenciação, partindo de um futuro são "fundidos" na experiência imediata.
pressuposto do desenvolvimento da criança como repetição de padrões
A criança, neste encantamento pelo que se apresenta, se liga folie-
(de brincadeiras, por exemplo)?
mente naquilo que aparece e que 'logo-logo' poderá mudar, não impor-
A partir de tais formulações , torna-se fácil compreender porque tando o que era anteriormente. Neste sentido, ela sempre fica contida no
há tantas teorias, cada vez mais complexas do ponto de vista intelec- que apareceu ..
tual, para explicar a ocorrência de processos criativos e mais origi-
nais e para explicar como se dá a diferenciação ou individualização. BRINCAR significa FAZER LIGAÇÕES , LIGAR. Neste sentido é
Quando estamos amarrados por conceitos tão estreitos, por elemen- DESCOBRIR RELAÇÕES, é ENREDAR, FAZER ENREDO ou FA-
ZER HISTÓRIA.
tos conhecidos e previamente determinados, é necessário muito exer-
cício intelectual para que possamos nos mover e abarcar toda a rique- O mundo do brincar é uma realidade que liga, que envolve. Neste
za humana. sentido é uma realidade envolvida constantemente por relações originais
que surgem da própria liberdade de ser.
Criatividade, originalidade e diferenciação são condições fundamen-
tais do brincar e de cada brincadeira que compõem a dinâmica do Essas relações não são previamente determinadas. Elas são DE-LI-
crescimento.Como, então, podemos melhor compreender o brincar e a MITADAS pela vontade e desejos possíveis, e não possíveis, que surgem
fantasia na perspectiva do crescimento, isto é, da descoberta e realização com os envolvimentos diretos da criança junto ao mundo. Assim, a reali-
das próprias possibilidades e do mundo? dade é descoberta numa proximidade imediata, nunca genérica uniforme
ou pré-determinada. Este acontecimento provoca o encantamento do brin-
A etimologia mais uma vez ajuda. A Língua Portuguesa nos ofere-
car. Descobrimos quando nos aproximamos!
ce, como poucas, a riqueza de duas palavras diferentes como jogar e brin-
car, jogo e brincadeira, cujos significados apontam para duas diferentes Se podemos compreender a originalidade deste acontecimento, po-
possibilidades humanas de contato. demos então facilmente compreender porque as c1ianças brigam tanto quan-
BRICANCADEIRA vem do Latim VINCULUM, palavra que tem do blincam. Na brincadeira, cada criança está entregue ao manuseio direto
das coisas com o seu jeito peculiar de pegar. E nwna brincadeira conjunta,
sua origem no verbo VINCIO, IRE que quer dizer:
é necessário escolher e decidir-se por wn modo ou um caminho a seguir.
- ligar, atar, amarrar, prender; Qual é o melhor? Cada criança, por já estar nele escolhe o seu caminho. E,
- paralisar, tolher, tirar, conter; quanto mais fmie é o envolvimento de cada criança com a brincadeira,
mais "adequado" será o seu próprio jeito. Este é o problema ...
- encantar, seduzir;
Podemos então, compreender como a interferência de alguém de
Podemos pensar nestes significados não como coisas excludentes, fora da brincadeira, para decidir e não para esclarecer, geralmente tende
separadas, mas como diferentes e juntas, isto é, como coisas que mesmo a aumentar o conflito, não satisfazendo a nenhuma das crianças envolvi-
diferentes, se dão conjuntamente. das. Nestas situações os limites de uma brincadeira se mostram não a

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partir dos impedimentos impostos por autoridades externas ou por regras ção. As crianças, ao contrário, quando querem se esconder, não brincam,
gerais, mas do próprio brincar. jogam. Elas também descobrem como se esconder atrás das regras dos
No mundo do brincar, realidade real e envolvimento se fundem. jogos. E neste momento o brincar se distancia.
Vemos muitas vezes como crianças que até aquele momento brincavam Estamos nos referindo aqui ao brincar que propicia a libertação dos
na maior amizade se tornam inimigas como na brincadeira. Ouvimos significados do mundo e o conhecimento mais amplo de si e do outro.
adultos dizerem: "Essa brincadeira vai dar em briga!" Isto é, que nos leva a descobrir e nos aproximar de quem somos.
Na brincadeira, as crianças experimentam diretamente as suas des- Desenvolvemos aqui uma aproximação do mundo do brincar e da
cobertas, enquanto as descobrem. brincadeira, mas há ainda muito que pode ser dito ...
Por isto dissemos antes que CRIATIVIDADE, ORIGINALIDADE
E DIFERENCIAÇÃO são condições fundamentais presentes em cada
Bibliografia
brincadeira.
O brincar, como a fantasia, é um modo de atuação em que a reali- - BOSS, M. - Angustia Culpa e Libertação. Livraria Duas Cidades, São
dade ganha maior proximidade. Pois, na fantasia, 'experimentamos' a Paulo, 1997.
realidade a partir dos limites do que nos é possível e não dos limites - ENDE, MICHAEL - Manu a menina que sabia ouvir. Salamandra,
apresentados pelo conhecimento geral, de todos. É neste sentido que, na 1984.
fantasia, a criança fica mais amparada e a realidade então aproximada
- FERREIRA, A. G. - Dicionário de Latim Português. Porto Editora
torna-se mais familiar e acolhedora.
Ltda
Fantasia, como infância, encontra a sua origem em FANS , FOS que
- HEIDEGGER, M. - Ser e Tempo. (1927) Editora Vozes, Petrópolis,
significa, como vimos anteriormente, na claridade, na luz. Assim, tam-
bém podemos compreender que a realidade aproximada na fantasia quer 1989.
dizer a realidade iluminada que pode aparecer. E, assim, dizemos: - HEIDEGGER, M. - Being and Time. Basil Blackwell Oxford, 1973.
A FANTASIA APROXIMA E FAMILIARIZA A REALIDADE E - HEIDEGGER, M. - Seminários de Zollikon. Tradução ainda não
AMPARA A CRIANÇA. publicada de Gabriela Amhold e Maria de Fátima de Almeida
Prado
É impmiante ainda lembrar que o brincar não é uma possibilidade - LIMA, H. e BARROSO, G. - Pequeno Dicionário Brasileiro da Lín-
perdida para o adulto. Acontece que para o adulto, entregue aos cuidados gua Portuguesa. Ed. Civilização Brasileira S.A. e Companhia Ed.
de outras possibilidades mais permanentes ou inflexíveis, como os com- Nacional, São Paulo, 1957.
promissos e preocupações com a responsabilidade de seu próprio viver, a
possibilidade do brincar tornou-se mais distante. Em alguns momentos
ela reaparece disfarçada e até como esconderijo. O "adulto brincalhão",
que não se compromete ou sente dificuldade para aceitar a própria vida,
em suas possibilidades e limitações, muitas vezes usa a brincadeira para
se esconder. Ele manipula o brincar e não se entrega ao que é mais origi-
nal da brincadeira, que é a originalidade da descoberta e experimenta-

88 89

...
O TEMPO DA MATURIDADE* Ao propormos como tema 'o tempo da maturidade', a palavra tem-
po presente nesta expressão insinua a possibilidade da pergunta: Quando
é este tempo?
JOÃO AUGUSTO POMPÉIA
A pergunta que queremos manter aqui, entretanto, não é esta, especial-
Resumo mente se nesse "quando" estiver suposta uma cronologia. Indagamos princi-
palmente "como" se apresenta a matmidade, qualquer que seja o momento.
Neste texto não se está considerando a maturidade como sinônimo Queremos compreender o termo maturidade, e para isto pedimos
de idade adulta.
ajuda às metáforas e às palavras de pensadores e poetas. Estes, mesmo
A maturidade do homem é um modo de ser que : compreende e sem empregar o termo, conseguem descrever modos de ser que se apro-
aceita as próprias limitações, bem como as possibilidades vislumbradas ximam daquilo que para nós se apresenta como maturidade.
tanto em si mesmo como no mundo, tendo a visão da oportunidade; res- Em nosso caminho de compreensão, nos vem ao pensamento que a
ponde às solicitações do mundo numa entrega cuidadosa, reconhecendo palavra maturidade, diferentemente de infância e de adolescência, vem
que não sabe tudo, não pode tudo e que não é indispensável; e que, entre- carregada de um valor positivo. Infância e adolescência são termos que, ao
tanto, aceita a responsabilidade pelo que percebe como sendo a sua parte descreverem determinados momentos da trajetólia desse ente que é o Das ein
no compartilhar a vida.
costumam ser valorizados negativamente. Dizemos por exemplo: "aquele
cara teve uma atitude adolescente" ou "ele agiu de modo infantil". A pala-
vra maturidade guarda praticamente todo o valor. Quando é dito que m11a
Abstract- The Time of Maturity
pessoa teve uma atitude madura, isto corresponde a wn elogio.
Em geral o valor que atribuímos ao tempo da maturidade se associa
Maturity is not considered a synonym of adulthood. à idéia do pleno.
Man's maturity is a way ofbeing which comprehends and accepts Geralmente considera-se a infância e a adolescência como a prepa-
its own limitations as well as the possibilities glimpsed in itself and in the ração para o tempo da maturidade, que é o objetivo a ser atingido. Nesta
worlcl, perceiving opportunities; it responds to the demands ofthe world visão, quando a pessoa age de forma madura, alcançou o ápice de seu
by yielding carefully, realizing that it does not know everything, is not desenvolvimento. A maturidade aparece freqüentemente ligada à idéia
all-powerful and is not indispensable, but it accepts responsibility for de um homem ideal, cuja vida segue wn percurso rumo à realização ple-
what it perceives to be its part in sharing life. na. É como se fosse o desfecho de uma existência, quando algo está de
alguma forma encerrado, permitindo a manifestação plena do sentido
que ao longo da história da pessoa foi se articulando.
PALAVRAS-CHAVE: Maturidade, Ser- no- mundo, Plenitude, Liber-
É dessa maneira que nossa cultura configura o percurso em direção
dade, Renuncia
à maturidade. Supõe-se que etapas precisem desaparecer para que outras
possam surgtr.
É esta a idéia de desenvolvimento humano que serve de fundo para
Apresentado em Maio de 1993, na Assoc iação Brasil eira de Daseinsanalyse, SP - Brasil.
certas observações como as feitas por Foucault sobre a doença mental.
Este texto foi editado por tv1ari a de Jesus Tati t Sapienza, a partir de gravação original. Foucault diz em Doença Mental e Psicologia:

90 91
"A doença mental situa-se na evolução como uma perturba- Em nossa vida cotidiana esta maneira de pensar aparece quando, ao
ção do seu curso; por seu aspecto regressivo, ela ocasiona condu- classificarmos como infantil a conduta de alguém, dizemos que ele não é
tas infantis ou formas arcaicas de perso nalidade. Mas o mais criança para se comportar assim, sugerindo que lhe é vedado com-
evolucionismo engana-se ao ver nestes retornos a própria essência portar-se como tal.
do patológico e sua origem real. Se a regressão à infância se mani-
Se quiséssemos representar graficamente esta idéia que é aceita de
festa nas neuroses, é somente como um efeito. Para que a conduta
modo geral, a respeito do percurso rumo à maturidade, faríamos uma
infantil seja para o doente um refúgio, para que o seu reaparecimento
reta onde cada etapa sucede a outra tomando a anterior como base. Esta
seja considerado um fato patológico irredutível, é preciso que a
representação faz com que a fase anterior desapareça, oculta e integrada
sociedade instaure entre o presente e o passado do indivíduo uma
num novo momento.
margem que não se pode e nem se deve transpor. É preciso que a
cultura somente integre o passado, forçando-o a desaparecer." Este enfoque é o que facilita a ligação da idéia de maturidade com a
idade adulta.
Essa observação é extremamente pe1iinente para as análises da do- Podemos, porém, pensar a trajetória humana alargando o horizonte
ença mental em que a perspectiva da regressão é considerada como ca- do nosso entendimento. Para isto teremos de conceituar o percurso como
racterística básica. uma representação circular onde Dasein apareceria não como uma reta
que se alonga, mas como um círculo que se amplia.
Mais adiante em um outro trecho ele acrescenta:
Na ampliação do círculo, aquilo que está no centro não fica para trás
"E nossa cultura tem bem esta marca. Quando o século XVIII,
nem para fora , mas permanece ali. Esta perspectiva de ampliação refere-se
com Rousseau e Pestalozzi, preocupou-se em constituir para a cri-
a possibilidades mais amplas que não competem com as anteriores, mas
ança, com regras p edagógicas que seguem seu crescimento, um
sugerem outra forma de relacionamento com o mundo. A ampliação possi-
mundo que esteja à sua altura, ele permitiu que se formasse em
bilita que aumentem o âmbito e o número das condutas maduras. Não
torno das crianças um meio irreal, abstrato e arcaico, sem relação
limitamos, entretanto, a possibilidade de tais condutas ao adulto.
com o mundo adulto. Toda a· evolução da pedagogia contemporâ-
nea, com irrepreensível objetivo de preservar a criança dos confli- Na representação do círculo, uma criança pode estar vivendo em
tos adultos, acentua a distância que separa, para um homem, sua um determinado momento, num tempo cuja denominação grega é kairós,
vida de criança de sua vida de homem feito. Isto significa que para em que pode nos surpreender ao manifestar uma compreensão tão pro-
poupar conflitos à criança, ela a expõe a um conflito mai01~ à con- funda de uma realidade. A criança nos surpreende pela possibilidade de
tradição entre sua infância e sua vida real." chegar tão longe. Talvez sua restrição não seja apenas uma limitação pró-
pria do período da infância, mas também a correspondência a uma ex-
pectativa. Delas não se espera nada de mais sério.
Quando Foucault se refere à margem entre presente e passado que
não se deve transpor e ao passado que é forçado a desaparecer, isto se O ser maduro é uma possibilidade concreta também para as crian-
apóia na idéia de que, no percurso em direção à maturidade, as fases ças e adolescentes. A maturidade entendida no sentido de experiência
precedentes devem ser eliminadas tendo em vista a chegada ao tempo plena, pode se dar a qualquer momento da vida. Ela é um modo de ser do
da maturidade. Isto significa que um determinado modo de ser mais Dasein que pode surgir mesmo num momento que não seja aquele que a
amadurecido só se inaugura à medida que o modo anterior tiver sido nossa cultura, ou as culturas de modo geral, reservaram para o surgimento
eliminado. de uma conduta madura.

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Queremos também neste texto repensar a questão da maturidade Aqui deixamos de lado a idéia de maturidade como um processo
como algo que se conquista e que se passa a possuir como uma coisa uniforme de desenvolvimento, de desenrolar-se. É verdade que a gente
adquirida. Como a maturidade é considerada um valor, existe um desejo, se desenrola, mas a gente vive se enrolando também. Esta liberdade de
uma expectativa de que se possa tomar posse dela. Ela é vista como algo movimento articula nossa história, que cresce dia a dia de uma forma
onde se pode chegar e então dizer: "agora tenho a maturidade, daqui em acumulativa. Mas não acumulamos maturidade. Sua natureza é outra.
diante serei um homem maduro ". Vejamos como se manifesta a maturidade na infância e na adoles-
Na terapia é comum as pessoas se decepcionarem com isto.Em al- cência.
guns momentos o paciente é capaz de vivências muito maduras, de uma Na infância a maturidade aparece como uma coisa engraçadinha,
amplitude e acuidade que espantam até a ele mesmo. Se nesse momento surpreendente, bem humorada. Quase todas as histórias fazem rir. Na
ele disser: "então agora estou maduro", vai descobrir algum tempo de- adolescência, no entanto, perdem a graça. A maturidade do adolescente
pois que a maturidade se esvaiu, se evaporou. Poderá pensar que regrediu. freqüentemente cutuca o adulto. Na adolescência os momentos de com-
Mas não se trata disso, aí há um engano que é de outra natureza. preensão muito profundos ou aparecem associados à dor- são momentos
O desejo da posse da maturidade cria uma certa expectativa de em que ele está sofrendo e consegue uma compreensão ampla de sua
que se defina completamente o que seria o homem maduro como se verdade ou da realidade do mundo -ou associados à raiva, à crítica. Muitas
com isto se pudesse trazer o mapa do tesouro e dizer: "Vocês chega- críticas de adolescentes são extremamente incômodas, principalmente
rão lá e possuirão a maturidade se seguirem estas indicações. Final- quando representam verdades que o adulto não pode contestar, quando
mente se tornarão sábios, libertos do sofrimento e alcançarão uma apontam para determinadas contradições nem sempre admitidas.
profundidade de compreensão". Esta meta desejada aproxima-se da- Por outro lado, todo mundo tem uma coleção de historinhas infantis
quilo que os orientais chamam de iluminação. É o momento da sabe- para contar, momentos em que as crianças eventualmente falam coisas
doria. Algumas vezes se pensa que a pessoa que chegou até a ilumi- de que se morre de rir pela sua profunda adequação.
nação possui a iluminação. Mas isto não é verdade. Ninguém que se
torna iluminado permanece iluminado. Aqui vão alguns exemplos dessas histórias. Uma mãe me contõu:
"Levei meu filho de cinco anos para dormir como faço todas as noites.
Na posse, existe uma profunda vontade de paralisar o tempo. Posse Coloquei-o na cama, contei uma história e ele não queria dormir. Então
significa querer fazer parar o tempo com relação ao que se pretende pos- eu disse para ele: filho vê se dorme logo que eu tenho de fazer uma
suir num dado instante. No caso da maturidade, é como se tendo ficado porção de coisas . Ele respondeu: mãe, o que você tem de fazer? Eu disse:
maduro, o indivíduo ficasse protegido das modificações que o tempo tenho de ler um livro. Ele me interrompeu: mãe, você não tem de ler o
continua trazendo. Mas é enganosa essa sedução de vencermos o próprio seu livro, você quer ler o seu livro".
tempo. Dasein não pode sair do tempo.
O menino havia compreendido a diferença entre o "querer" e o "ter
Para Dasein a maturidade haverá de ser necessariamente transitó- de". Isto dito por uma criança levou a mãe a ouvir mais profundamente
ria, não só por sua condição de ser motial, mas também por sua condição do que se tivesse vindo de um adulto.
essencial de ser temporal. Os momentos de maturidade serão sempre
momentos. O fato de se ter chegado a viver de uma forma que retrospec- Uma outra mãe, extremamente organizada, tem uma filhinha que
tivamente, ou que diante de um observador externo possa ser classifica- não é nada ordeira. Um dia ela pediu para a filha pegar a lancheira, mas
da ou interpretada como madura, não significa que isto se tornou um a menina não a encontrava. A mãe começou a dar uma bronca, dizendo
status. A concepção de Dasein como ser-no-mundo afasta tal asserção. que ela perdia o casaco, a lancheira, o sapato, tudo. A certa hora falou:

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"Não é possível, você vive perdendo as coisas, ontem foi não sei o quê, Num certo momento surge a floração . O metabolismo transforma-
hoje sei lá o quê, o que é que vai ser amanhã? Assim não dá". Quando ela se, desviando a maior parte da energia para a ação reprodutiva. Em al-
parou para tomar fôlego, a filha disse: "Você também perde! " Esta afir- guns casos isto chega a ser tão intenso que desencadeia um processo de
mação da menina era um terror para uma pessoa tão organizada, o tipo destruição da planta original.
da pessoa que não perde nada. A mãe retrucou: "Eu perco?" E a menina: Quando as plantas começam a florir, é interessante observar a ana-
"É, você perde" .. A mãe disse:" Então me diz o que é que eu perco". E a logia entre a floração e o surgimento da sexualidade do jovem.
filha respondeu: "Você perde a paciência."
A flor tem características fascinantes. Lembram muito os desejos,
Esse tipo de apreensão instantânea e imediata cmTesponde a um as aspirações e, ao mesmo tempo, a fragilidade da adolescência. A flor é
momento de maturidade. Independente das características peculiares - uma coisa que se destaca, é exibicionista por definição. A flor existe para
é claro que o entendimento da criança não é o entendimento que o adulto se mostrar. E ao mesmo tempo é extremamente delicada, é muito mais
tem - o fato é que algumas experiências infantis podem ser tão amplas vulnerável, em geral, do que as folhas, os galhos, o tronco. Uma árvore
e profundas quanto qualquer experiência de adulto, se bem que de uma florida pode ser percebida de longe no meio da mata. Se ela tiver o ama-
forma segmentada e momentânea. relo do ipê nós a enxergaremos a uma longa distância. A flor destaca-se
Com as reflexões feitas até aqui abrimos a perspectiva da maturida- do abrigo de uma certa uniformidade e mostra-se.
de como sendo uma certa compreensão de si mesmo e do mundo. Além de mostrar-se na forma e na cor, - existem flores que são de
Essa palavra, entretanto, precisa ser melhor caracterizada Para isso, uma sofisticação imensa, como algumas orquídeas que têm um recmie
primeiramente faremos uso das metáforas existentes . Depois iremos em quase rococó, de tão detalhado - a flor mostra-se também através do
busca de autores para que nos ajudem a pensar. perfume. O perfume se estende de uma forma sutil.
É conhecida a metáfora das estações do ano associadas ao desen- De alguma fonna nós humanos ficamos fascinados com a floração e,
volvimento humano . Ligamos quase imediatamente primavera e infân- com nossa mania de nos apoderarmos, tentamos nos apossar dela. Se a flor
cia, verão e juventude, outono e maturidade e, por fim, velhice e mor- cheira, queremos cheirar como ela. Então ela é colhida, seu perfume é extra-
te associamos com o inverno. É v~rdade, porém, que o inverno também ído e pode ser espalhado em nós. Esta operação, ainda que instrumentalizada
poderia ser pensado como o momento em que a energia da planta se tecnicamente, tem algo de transposição e de posse, uma identificação, uma
concentra nas raízes, no que está oculto, naquilo que tem a condição do aproximação. É como se o perfume da flor nos dissesse respeito também,
v1r a ser. fizesse sentido em nós, uma coisa que só deveria fazer sentido na próp1ia
A vegetação e as estações do ano são referências freqüentes no I flor. Essa apropriação do perfume conta w11 pouco do nosso desejo da vitali-
Ching, o que o torna um livro poético, independente de seu caráter mís- dade da flor, de sua presença, da amplitude, da sutileza de uma parte da
tico ou mágico. planta que é visualmente tão fmte e ao mesmo tempo acompanhada de algo
invisível. Nós não podemos ver o perfume, só podemos aspirá-lo.
O desenvolvimento de uma planta é uma boa imagem do percurso
do Das ein. Nesta imagem, a infância é comparada ao surgimento da planta, A imagem da flor é muito rica para nossa compreensão da adoles-
ao seu crescimento inicial. Toda a energia está voltada para a adaptação cência: seus desejos, sua expansão, a supervalorização do corpo, seu "che-
mais imediata à configuração do ambiente, às propriedades do solo, à gue-i", seu chamar a atenção.
luz, etc. A planta inicialmente é muito frágil , mas à medida que cresce De uma forma mais berrante ou mais sutil, a flor, essa coisa com-
torna-se mais resistente e definida. pletamente nova, vigorosa e frágil, está profundamente ligada à transito-

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riedade. E quando ela desaparece, ou está murchando, isto nos dá uma seu espírito e de sua solidão e não se cansou disso durante dez anos.
sensação tristonha, pois flores murchas dão a sensação de decadência; Mas enfim seu coração se transformou, e uma manhã, levantando-se
mas, ainda aí algo está se preparando, uma transformação está aconte- com a aurora, dirigiu-se para diante do sol e lhe falou assim:
cendo. São particularmente interessantes essas flores que são sucedidas Ó 'grande astro! Qual seria tua felicidade, se tu não tivesses
pelo fruto. A geração do fruto dá-se praticamente colada ao cálice, por- estes que tu iluminas?
que na perda do vigor das pétalas, nesse cair, parece que vai havendo Há dez anos tu vens em direção à minha gruta: tu estarias
uma concentração de força. Tudo aquilo que num primeiro momento veio cansado de tua luz e deste caminho ,sem mim, minha águia e minha
para fora, de repente se recolhe, volta-se sobre si mesmo. É um outro serpente.
momento, outra operação que está se preparando. Enquanto este movi- Mas nós te esperávamos cada manhã, nós tomávamos teu su-
mento de retração vai acontecendo, alguma coisa vai inchando e aí vai péijluo e te bendizíamos por isso.
surgindo o fruto. Pois bem! Eu estou cansado de minha sabedoria, como a abe-
O fruto guarda a semente e portanto fala da possibilidade real da lha que acumulou muito mel. Preciso de mãos que se estendam.
fecundação. Mas ele fala também de outra coisa. Fala principalmente Eu gostaria de dar e distribuii~ até que de novo, os sábios
da dimensão do recolhimento, desse voltar-se para dentro, do amadu- entre os homens se tornassem alegres por sua loucura e os pobres
recer. O que chamamos de maduro, na linguagem mais corrente, é o felizes por sua riqueza.
fruto. Poucas vezes usamos o termo maduro para a flor, ou mesmo Eis porque eu devo descer às profundezas, como tu fazes à
para a planta como um todo. noite quando vais por trás dos mares, levando tua claridade para o
mundo inferior, ó astro transbordante de riqueza!"
Há pessoas que ficam presas no momento da flor. Não conseguem
amadurecer. Estão sempre valorizando a mesma coisa, não acreditam nas
possibilidades do fruto. É próprio do fruto gestar no seu interior. A flor A imagem que Zaratustra deixa aqui, entre outras, é a de que a
chama a atenção, é vistosa, espalha seu perfume de uma forma ampla. Mas maturidade é o momento da plenitude no sentido da disponibilidade
o fruto também é uma coisa que çhama, só que sua solicitação é de uma para repartir, para compartilhar. Isso, de alguma forma pressiona o ho-
outra ordem. Chama porque gesta, porque tem sabor. Do fruto, não dize- mem, exige-o. Por outro lado é a hora também de compreender a im-
mos tanto que ele é bonito, dizemos principalmente que é gostoso. portância do receber. O ato de receber fundamenta o sentido da ação de
Ao fazermos uso da metáfora do desenvolvimento da planta, estamos dar. Aquele que recebe faz por aquele que doa a função de permitir que
o sentido do dar aflore.
aproximando o tempo da maturidade ao momento do fruto. O ser madu-
ro é um modo de ser de cuja essência faz parte o não chamar a atenção A disponibilidade para receber, ou seja, não precisar se sentir sem-
(embora muitas vezes dele possa resultar um compmiamento amplamente pre o doador, faz parte de uma condição de maturidade. Quem vive nessa
percebido no mundo). disponibilidade pode ser capaz de ver o quanto as coisas são dadas, são
Agora passemos aos autores que de alguma forma nos ajudam a concedidas.
pensar o que caracteriza o tempo da maturidade. Essa idéia aparece numa citação de Heidegger sobre Hêilderlin: "Em
Citamos primeiramente Nietzsche . Na primeira parte de Assim Fa- abril voltou para a Suábia, sua terra. Pouco depois lhe foi concedida a
lava Zaratustra, logo no prólogo, ele diz: poesia intitulada Retorno."
"Quando Zaratustra completou trinta anos, ele deixou sua pá- Curioso é que Heidegger não diz que o poeta fez a poesia. A poesia
tria e o lago de sua pátria e foi para a montanha. Aí ele usuFuiu de lhe foi concedida.

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Ser capaz de receber não significa passividade. Supõe, ao contrá- "Deixe a seus julgamento ~ sua própria e silenciosa evolução sem a
rio , o movimento de acolher aquilo que nos é dado, a capacidade pe1iurbar; como qualquer progresso, ela deve vir do âmago do seu ser e
freqüentemente difícil de reconhecer uma certa gratuidade das coisas. não pode ser reprimida ou acelerada por coisa alguma. Tudo está em
Falamos de receber, de aceitar. Esta palavra chama outra muito pró- levar a termo e,depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente no
xima que é entrega. Freqüentemente, aceitar implica responder a uma âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a
solicitação do mundo, e esta resposta pode exigir uma entrega àquilo que seu próprio intelecto,cada impressão e cada germe de sentimento e aguar-
solicita. dar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova
claridade: só isto é viver artisticamente na compreensão e na criação.
Medard Boss em Angústia, Culpa e Libertação, refere-se a esse res-
ponder à solicitação das coisas como algo ligado a um modo de ser maduro: "Aí o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não
são nada. Ser artista não significa calcular e contm~ mas sim amadure-
"Justamente a possibilidade de corresponder ou de esquivar- cer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüila as
se àquela reivindicação das coisas, forma a característica básica tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha ne-
da liberdade humana. Mas se ele (o ser humano) assume livre- nhum verão. O verão há de VÍiê Mas virá só para os pacientes, que aguar-
mente seu estar-culpado diante das possibilidades vitais dadas a dam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eter-
ele, se ele se decide, neste sentido, a um ter-consciência e um dei- nidade. Aprendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido:
xar-se-usar adequado, então ele não mais experimenta o estar-cul- a paciência é tudo."
pado essencial da existência humana como uma carga e uma opres-
são de culpa. Carga e opressão serão superadas pela vontade que É impossível esgotar as significações dessas palavras. Todas me-
deixa feliz de estar à disposição ,sem reservas, de todos os fenôme- recem uma reflexão, pois mostram, cada uma a seu modo, as diferen-
nos, como seu guardião, como seu âmbito aclarador de aparecer e tes formas com que o tempo aparece: desde as expressões "deixar
desfraldmê Ao estar-solicitado e ao estar-chamado por tudo aquilo amadurecer inteiramente" e "como se diante deles estivesse a eterni-
que quer aparecer na luz de sua existência, abre-se também ao ser dade", até a conclusão que marca significativamente a maturidade: "a
humano o inesgotável sentido de sua própria existência." paciência é tudo".
A maturidade se relaciona com o tempo levando-o extremamente
a sério, numa proximidade muito grande, com uma consciência cada
O entregar-se maduro à solicitação daquilo que chama, o estar a
vez maior. Quanto mais consciência do tempo, mais tempo e menos
serviço de alguma coisa, integram de tal forma a existência enquanto vir-
pressa.Esse "como se" a eternidade estivesse pela frente, significa uma
a-ser, que podemos nos permitir uma brincadeira com esta expressão
peculiar relação confiante do homem com o mundo: a paciência.
h·ansformando-a assim: vir-a-ser, a-ser-vir, ser-vir-a. Tal é a articulação
entre o vir-a-ser e o paciente "estar a serviço de algo" .
É grande, por outro lado, a desarticulação ou a distância entre aque- Falamos no início que a maturidade é associada à idéia do pleno.
la forma de vir-a-ser e a apressada vontade de posse, mesmo quando se .Agora queremos acrescentar que este pleno comporta em si a aceita-
trata da posse da maturidade. ção da falta, da ausência, da fragilidade, da finitude e da renúncia. Dis-
to faz parte o poder conviver com o que fica em aberto e até mesmo
No começo desta exposição, ao introduzirmos a questão da posse,
com a possibilidade de que promessas não sejam cumpridas. Isto não
nós nos referimos à relação do homem com o tempo. Agora vejamos como
poderia ser melhor dito do que através da poesia de Borges, The
Rilke, em Cartas a um Jovem Poeta, nos ajuda a pensar essa relação. Unending Gift:

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"Um pintor nos prometeu um quadro. A compreensão e a aceitação de diferenças fazem palie do tempo
Agora, em New England sei que ele morreu. Senti, como ou- da maturidade também. Nosso compositor popular Oswaldo Montenegro
tras vezes, a tristeza de compreender que somos como um sonho. descreve as diferenças complementares em sua canção Metade :
Pensei no homem e no quadro perdidos.
" E que a força do medo que tenho não me impeça de ver o
(Só os deuses podem prometei~ porque são imortais)
que anseio, que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvi-
Pensei em um lugar pré-fixado que a tela não ocupará.
dos e a boca, porque metade de mim é o que grito, mas a outra
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa a
metade é silêncio.
mais, uma coisa, um dos enfeites ou hábitos da casa; agora é ilimi-
Que a música que eu ouço ao longe seja ainda que tristeza, que a
tada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e não
mulher que eu amo seja para sempre amada, mesmo que distante,
atada a ninguém.
porque metade de mim é partida, e a outra metade é saudade.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e
Que as palavras que eu falo, não sejam ouvidas como prece
estará comigo até o fim . Obrigado, Jorge Larco.
nem repetidas comfervoT~ apenas respeitadas como a única coisa
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há
que resta de um homem, inundado de sentimento,
algo imortal.)"
porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo."
Chama a atenção a maneira como o autor passa da constatação de A letra continua, mas as imagens mais sugestivas estão nesta pri-
que os mmiais não podem prometer, visto que a finitude impede a garan- meira parte. Quando ela fala em metades, isto não se refere a conflitos,
tia da realização, para a descoberta da possibilidade da promessa: o po- mas à experiência do pleno.
der prometer não se apóia sobre o compromisso da realização e sim no
compromisso da própria promessa.
Miguel Perosa, de forma muito inspirada, resume o momento em
Esta é uma das características marcantes da maturidade: o momen- que se percebe como um homem maduro: "cheio de poderes" e "frágil".
to em que não se "tem de" fazer mais nada, porque se descobriu que o
compromisso mais fundamental é com a promessa. Na promessa há algo "Eu sou um homem F ágil, cheio de poderes que sou.
de imortal. Na obra, não. E na minha vida, tudo que tenho, devo. E consegui com
esforço.
Da ausência, nos fala Drummond de forma surpreendente em seu Não tenho muita leitura, mas cada vez leio melh01~
poema Ausência: Não tenho muita idéia, mas cada vez penso melho1~
"Por muito tempo achei que a ausência é falta . Tenho uma família que a cada dia se consolida,
E lastimava, ignorante, a falta . e por isso fica vulnerável às exigências do tempo.
Hoje não a lastimo. Uma virtude, talvez a única: aprendo a esperar o tempo.
Não há falta na ausência. E por isso um grande am01~ cheio de alegria e mágoa
A ausência é um estar em mim. bate fúndo aqui dentro do peito."
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres, Miguel foi muito feliz nessa descrição de um amor feito de alegria
Porque a ausência, esta ausência assimilada e mágoa e no poder contemplar aquilo que se realiza como aquilo que se
Ninguém a rouba mais de mim." torna vulnerável ao tempo.

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Queremos ainda dizer algo sobre a renúncia. Esta questão é difí- Como em todas as passagens de Heidegger ele é capaz de apro -
cil. As palavras de Heidegger que traremos aqui provavelmente não ximar algo extremamente lúcido, preciso e, ao mesmo tempo , im-
facilitarão uma explicação, mas certamente darão o que pensar sobre possível de ser agarrado . Aqui, a perspectiva de todas as formas de
renúncia. ausência é o espaço da disponibilidade, da presença de um Deus, e
No final de O Caminho do Campo ele diz: enquanto espaço é ainda necessariamente ausência. No que diz res -
peito à religiosidade, o peculiar da maturidade é o estar disponível
"O apelo do caminho do campo é agora totalmente claro: É a na ausência.
alma que fala? É o mundo ? É Deus?
Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renúncia não Dissemos antes que traríamos as palavras de poetas e pensado-
tira, mas ela dá. Ela dá a força inesgotável do Simples. Pelo apelo, res para nos ajudarem a pensar a maturidade. E as palavras que en-
em uma Origem distante, uma terra natal nos é restituída." contramos foram: dedicação, entrega, paciência, incerteza, falta , fra-
gilidade, renúncia. Estaremos pensando a maturidade como um mo-
mento de desistência?
Esta citação sugere as mais diversas interpretações. Mas uma coisa
é certa: ela fala de uma renúncia que conduz a algo e que dá uma força; Certamente não. A compreensão madura de mundo simplesmente
fala de um apelo que restitui a Dasein uma terra natal. Restituir a terra leva em consideração critérios que podem ser diferentes daqueles que
natal podemos entender como possibilitar o retorno à morada original. nos são impingidos culturalmente como associados ao sucesso. E então,
Retornar à morada é poder sentir-se em casa, mesmo nessa estranha con- onde ficam a competição, o ganhar ou perder, a luta enfim?
dição de se sentir estrangeiro o tempo todo. Convidemos novamente um poeta, Thomas S. Eliot, para que nos
Ainda em O Caminho do Campo, a idéia de um retorno pode ser diga, em seu poema East Coker:
percebida no traçado concreto de um caminho que é descrito como sain- .................................. .And what there is to conquer
do da cidade e a ela voltando.No momento em que chega de volta ao By strengh and submission, has already been discovered
lugar de origem ele se completa. . Once or twice, or severa! times, by men whom one cannot
Quando falamos do pleno, do que se completa, do acabado, do ma- hope
duro é comum esbarrarmos na questão da religiosidade. Consideramos To emulate - but there is no competitions
aqui que esta não é uma característica da maturidade. A religiosidade There is only the fight to recover what has been lost
pode ou não estar presente em qualquer dos momentos da vida. And found and lost again and again : and now, under
Conditi.ons
Em uma entrevista a Der Spiegel, em setembro de 1966, Heidegger That seem umpropitious. But perhaps neither gain o r loss
posicionao Dasein de forma surpreendente dizendo : For us, there is only the trying. The rest is not our business.
''A filosofia não poderá produzir diretamente nenhuma trans-
formação do estado atual do mundo. E isto não vale apenas para a ( .................................. .. ..... E o que há para conquistar
filosofia, mas para todo sentir e para todo empenho simplesmemte Por força ou submissão, já foi descoberto
humano. Só um Deus é que nos pode salvm" Resta-nos uma só pos- Uma vez, duas, várias vezes por homens com os quais não se
sibilidade: preparm~ com o pensamento e a poesia, uma disposição pode esperar
para o aparecimento ou para a ausência de Deus no ocaso ou seja Competir- mas não há competição alguma -
para sucumbirmos na vigência do Deus ausente." Há apenas a luta para recuperar o que foi perdido

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E achado e perdido de novo e de novo: e agora em condições O adolescente considera que o todo é enorme, mas que ele só está
Que não parecem propícias. Mas talvez não haja ganho nem tendo acesso a uma parte mínima. O que ele está tendo ou fazendo é
Perda sempre muito pouco. Por exemplo, vai a um show, mas há outros dez aos
Para nós, há apenas o persistir. O resto não nos concerne.) quais precisa ir. É como se a totalidade das coisas fosse a lista imensa
daquilo que há para fazer, para ver, para ser, para ter, para resolver, para
Metáforas, pensadores e poetas nos abriram o caminho, este que ago- experimentar e assim por diante.
ra nos permite destacar com mais precisão algumas caracte1isticas que acha- Já na maturidade a relação com a totalidade muda. Não é que a
mos próprias da maturidade, a pmiir de uma perspectiva da Daseinsanalyse. "lista" aumente, já que a pessoa amplia o alcance da visão, ou que
- A ocorrência de um processo de expansão do Dasein, em que a ao contrário diminua, pois compreende que há coisas que se exclu-
realização de si mesmo significa entrega ao mundo, entrega ao outro. Na em, outras que estão fora de alcance ou que não cabem no espaço de
maturidade, a pessoa se debruça sobre o mundo, as coisas, os outros, não uma vida.
mais como na infância e adolescência, momentos esses em que vai em A mudança é de outra natureza. O todo é percebido como o vazio
direção ao mundo buscando principalmente extrair coisas dele, pleno de possibilidades. E aqui, possibilidades não têm o caráter impera-
instrumentalizar-se para a vida em todos os seus aspectos. Agora, ela se tivo do ter de ser, são de fato possibilidades e isto quer dizer: poder ser e
debruça para compartilhar, para proporcionar, para permitir que as coi- poder não ser.
sas sejam: um trabalho, uma obra, filhos, uma nova realidade, uma nova
perspectiva política, filosófica, científica. Diante dessa imensidão de possibilidades em todos os planos, a
pessoa se aproxima do pensamento socrático: "quanto mais conheço mais
Qualquer que seja a área, o que este novo Dasein quer propor neste percebo minha ignorância".
momento é permitir e ampliar a expressão do outro.
Se alguém chega a perceber isto, uma coisa provavelmente aconte-
-Este Dasein voltado para o mundo está, por outro lado, mais perto ce: a diminuição da crença no próprio poder. !I
de si mesmo. Visto que Dasein tem como sua condição fundamental ser-
-Por outro lado, a pessoa pode se tornar capaz de ver aquilo que se
no-mundo, sua maior dedicação ao mundo é uma forma de estar mais
apresenta no momento, justamente como a oportunidade concreta que
próximo dessa sua condição fundamental. Assim, encontramos um modo
solicita seu envolvimento no acontecer do mundo. Ele é chamado pelo
de ser que procura ser mais "próprio".
momento e pela situação como pmiicipante. Não se trata aqui de atuar
A pessoa pode ser mais "propriamente ela" e se afastar mais dos sobre, mas atuar com.
parâmetros ditados por aquilo que costumeiramente designamos como
Este jeito de pensar afasta-se da idéia corrente que enfatiza a dispu-
"a gente", "todos nós", e que bem no fundo, ao perguntarmos de quem se
ta pelo poder, a dominação, o controle, e esbarra mesmo num fundamen-
trata, a resposta é: "ninguém".
to metafísico, a Vontade de Poder como essencial.
Ao mesmo tempo em que se "apropria" de si mesmo, percebe a
Esta questão mereceria um aprofundamento, mas aqui diremos sim-
condição peculiar e particular de cada Dasein e que não há regra, norma
plesmente que sair do exercício do controle, do poder, não implica sub-
ou lei que possa explicar toda essa complexidade.
missão, abandono da existência.
-Um novo modo de relacionar-se com a totalidade do possível.
Não falamos em passividade e sim em receptividade. Acompa-
Para a criança o todo é a pmie que está presente, o tempo é o agora nhar uma situação participando dela é diferente de submissão e de
e o agora é o mesmo que sempre. alienação.

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A submissão mantém o acontecimento distanciado de nós. A domi- - Querer fazer a sua pmie, estando atento às possibilidades que se
nação, entretanto, também distancia o acontecimento. O que existe de "entificam" num determinado kairós leva à necessidade de fazer algu-
comum tanto na submissão como na dominação é a distância. mas escolhas.
Só na pmiicipação é possível a proximidade. Chegar pe1io abre a Escolhemos, porém, sempre apenas entre aquilo que nos é dado
possibilidade de nos darmos conta de que nosso fazer concreto é sempre escolher. Desde a concepção, quando recebemos uma constituição gené-
carregado de nossa participação no mundo e de uma participação do tica, já nos fomos dados. Recebemos uma família, um país, uma época.
mundo em nosso agir. Cotidianamente vão nos sendo dadas condições que nos encaminham a
-A aceitação de que não abarcamos toda a realidade em nosso co- pensar e sentir de determinados modos.
nhecimento. Momento a momento somos solicitados e nossas escolhas são fei-
Falamos antes que a percepção de nossa ignorância diante da tas diante do que nos é dado conhecer das possibilidades que se apresen-
totalidade de possibilidades pode moderar nossa ânsia de controle. tam e do que nos é dado sendo a pessoa que somos.
Além disso, não só no terreno das possibilidades, mas em algum grau Nossa entrega às solicitações do mundo e o modo como consegui-
somos ignorantes também no terreno daquilo que chamamos realida- mos responder a elas vão fazendo de nós a pessoa que somos. E não
de. Muitas vezes, porque fizemos bem a nossa parte na direção da temos outra pessoa para chegar a ser a não ser esta que nos foi dado ser.
realização de um projeto, queremos ter a garantia do resultado. O Por ela somos responsáveis.
resultado, entretanto, pode vir diferente porque a realidade não fez a
parte dela como imaginávamos ou porque ela não era como pensáva- - A consciência de não termos tanto poder pode trazer um certo
mos. Podemos dizer que é muito pouco o que temos para ir do conhe- desencanto, pode afetar nossos sonhos.
cimento à realidade. Não podemos desprezar a realidade que conhecemos em nome da
É relativamente fácil sabermos o que queremos, devemos, precisa- fascinação, ou do encantamento com o próprio sonho. Não é mais espera-
mos e pretendemos fazer. O difícil e praticamente impossível é sabermos do na maturidade uma ingenuidade que não deixa perceber a situação con-
o que estamos fazendo . Não conhecemos toda a realidade. É isto que nos creta que nos cerca, o que se torna oportuno e o que deixa de ser oportuno.
lembra a tragédia de Édipo, que fez tudo certo, para no final descobrir Esse desencanto não significa um viver amargo sem expectativas e
que fez tudo o que não queria. Descobriu que estava errado. De repente planos, mas uma quebra daquele "estar encantado" que faz acreditar que
tudo o que ele fez virou no avesso. as coisas têm de ser e serão como queremos. Se lembrarmos das histórias
- Abe1iura para uma dimensão do tempo enquanto op01iunidade, que tradicionalmente ouvimos e contamos para as crianças, é quando se
tempo propício para alguma coisa, ocasião. É aquilo que os gregos cha- rompe o "encantamento" que a pessoa pode passar a viver a própria vida.
mam de kairós. .Sonhar também é próprio do adulto maduro, mas diferentemente
A maturidade aberta para o vazio cheio de possibilidades com- da infância e da adolescência, seu sonho nunca terá extensão suficiente
preende que estas se "encarnam" nas ocasiões, como diria Merleau- para encobrir toda a realidade. Neste momento, sonhar será principal-
Ponty, ou nelas se "entificam", segundo uma abordagem mente, contando com a realidade, comprometer-se com o que se vislum-
heideggeriana. bra como possibilidade desejada e caminhar nessa direção.
Esta compreensão alerta tanto para a hora de pmiicipar, de compar- - Quando a consciência da limitação do poder se aprofunda um pouco
tilhar, como para a hora de se afastar de algo . mais vai esbarrar no tema do ser mortal.

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I~

A morte se opõe a todas as outras possibilidades porque configura a - BOSS, M. - Angustia Culpa e Libertação Livraria Duas Cidades, São
limitação por excelência. É a possibilidade que nega todas as outras. O Paulo, 1975.
ser mortal não é apenas a condição deste ente que é o Dasein que num
- ELIOT , T.S . - "Four Quartets " Harcourt Brace Jovanovich Publish.s,
determinado momento morre. É o anunciar presente de que em cada
San Diego, N ew York, London, 1971
momento este ente é totalmente limitado e dispensável.
- FOUCAULT, M. - Doença Mental e Psicologia Tempo Brasileiro,
Pode ser assustador perceber que, para ser, precisamos do mundo e
Rio de Janeiro, 1975.
o mundo não precisa de nós. O mundo precisa de Dasein, mas não exata-
mente deste Dasein que estou sendo. - HEIDEGGER, M. - El Ser Y El Tempo. Fondo de Cultura Económica,
sa ed. Mexico, 1974.
Havíamos dito que maturidade não é sinônimo de idade adulta. O
adulto ,porém, enquanto um Dasein que conta sempre com o tempo, já - HEIDEGGER, M. - "Martin Heidegger ". Tempo Brasileiro n° 50.
"teve" o tempo (mesmo do ponto de vista cronológico) durante a infân- Rio de Janeiro, 1977
cia e adolescência para conquistar uma familiaridade com o mundo sob - HEIDEGGER, M. - "O Caminho do Campo ".In: Revista de Cultura
os mais variados aspectos, para expandir seus recursos e par a Vozes n° 4 Ano 71, 1977.
instrumentalizar-se; ele já teria adquirido novas formas de contato com o
âmbito de suas possibilidades e limitações próprias, já teria alcançado - NIETZSCH, F. -Assim Falava Zaratustra Edições de Ouro. Rio de
uma certa forma de relacionamento consigo e com os outros, com as Janeiro, 1966.
coisas do mundo, com sua historicidade e perspectiva de futuro . - RILKE, R.M. - Carta a um Jovem Poeta Ed. Globo, Porto Alegre, 1976.
Sendo assim, a vida adulta torna-se o tempo oportuno, o kairós em
que o modo de ser maduro pode ser mais freqüente e abrangente. Neste
sentido ela pode ser associada ao tempo da maturidade. Seria agora a
ocasião em que o indivíduo se sente suficientemente crescido, fmialeci-
do para se dedicar a um projeto que não é ele mesmo. É como se come-
çasse um processo de transbordamento.
E retornamos aqui à idéia do pleno, que de tão pleno transborda. É
aquele marcado pela aceitação, pela entrega, pelo compartilhar, pela paci-
ência, pela responsabilidade; que pode conter todos os vazios que provêm
da falta, da ausência, da renúncia, da incerteza; que tem mais o sabor do
fmto do que o exibicionismo da flor; que transborda no recolhimento.

Bibliografia

- ANDRADE, C.D - Corpo - Novos Poemas Ed. Record , 9-ed. Rio de


Janeiro, 1984.
- BORGES, J. L.- Obras Completas Vol II Ed. Globo, PmioAlegre, 1998.

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