Vous êtes sur la page 1sur 527

1

1ᵃ edição – 2016

2
COLETÂNEA DE MENSAGENS

Autor: Hugo Lapa

3
Contato com Hugo Lapa

E-mail: lapapsi@gmail.com

Blog: http://hugolapa.wordpress.com

Site: www.terapiadevidaspassadas.net

Curta a página Espiritualidade é amor no Facebook

4
Dedicatória

Este livro é dedicado ao Padre Pio de Pietrelcina.


Seu exemplo de vida e sua renúncia em favor do
bem têm sido uma inspiração em meu caminho.

5
Índice

Mensagens sobre Sofrimento ......................... 13

Lições do Sofrimento
Atravessando o Vale do Sofrimento
O Remédio Amargo
Nascer de Novo
Madrugada escura
Ataque espiritual
Luz e trevas
Do mundo caminhamos para Deus
Tudo está dando certo
A lenda da flor azul
O jardineiro cósmico
Provações da vida
Nosso Posicionamento na Vida
Luz Divina
Um Homem num Leito de Hospital
Perguntas para a Vida
Siga em Frente
Véu da Ilusão
Força Interior
Destino e Escolha
O Bom e o Mau
Nosso Egoísmo
Comparações
Criar Expectativas
A Arte de Viver
Quem tudo quer
Simplicidade do Viver
Provocando Sofrimento
Não sou nada

6
Como encarar os problemas da vida
As Partes perdidas
Buscar Deus somente na dor
O Consolo após a morte
Desejo e Sofrimento
O Apego
Não se importe tanto
Quando você perder
Não lute
Não reaja ao mal
A Vida nos ensina
Superando o sofrimento
Perdas da Vida
Sentimento de Vazio
Vale dos Arrependidos
A Pedra que me jogaram
A esperança

Mensagens sobre Relacionamentos ................ 154

Esperar o outro
Amor e dependência emocional
A Venda nos Olhos
Sobre os filhos
Solidão
Sinto-me só
Medo de perder
Obrigado Professor
Educação e Limites
Reflexo de si mesmo
Tratando como espírito eterno
Decepção com as pessoas
Papel de Salvador
O Mal está sempre no outro?
O que é importante em sua vida

7
Quem é o obsessor?
O Último abraço
Mimar os filhos

Mensagens sobre Evolução


Espiritual e Libertação .................................... 207

Você é espírito
A mente tranquila
A escolha certa
O Lobo Feroz
Deixe tudo fluir
Materialismo espiritual
O erro do outro
Caminho do Meio
Paz de espírito
Fundo do Poço
Como transmutar nosso karma
A Pedra no caminho
Preciso mesmo disso?
Não se identifique
Viva pelo Espírito
A Fábula do pássaro que aprendeu a voar
Imagem e essência
O Caminho dos Sábios
Preocupações
Ser e estar
Pensamentos Obsessivos
Ninguém nos afeta
O Silêncio Interior
Sobre a Humildade
A Fábula do Pintinho e do Ovo
Cinco Regras da Raiva
O que é o Sucesso
A Maledicência

8
Tempo de Despertar
Sentido da Vida
O Velho e o novo
Rótulo e embalagem
Aceitar a vida
Eu estou certo
A porta da verdade
Viver Fugindo
Felicidade e Paz
Tudo tem um fim
Meu Inimigo
Sabedoria e Ignorância
Contradição humana
Hoje em dia
Início e Fim
Falatório Pessoal
Não critique
Mudança externa e interna
A Vaidade
Os três obsessores
Conselhos de Vida
Onde foi que eu errei
O que te faz feliz
Grandes Corporações
Orgulho nos faz perder

Mensagens sobre Religião e Fé ........................ 337

Ser e essência
Oração de Deus
O que é espiritualidade
Religião e espiritualidade
A Paz Espiritual
Deus e perfeição
A melhor religião

9
A religião mais verdadeira
Fé em Deus
Uma Luz na escuridão
Encontrar Deus
Fé na Vida
Um Obsessor no centro espírita
Cair e Levantar
Contato com o anjo
A Benzedeira e a melhor oração
Os Falsos Profetas
Para ser feliz
O que é Deus
A Chuva Divina
Ascensão Celestial
Deus em nossa vida
A Fé
Deus está em nosso próximo
Resgate de si mesmo
Inferno e Paraíso
A Pobreza
O que vamos levar desta vida
Seja verdadeiro
Vida Simples
O Tempo de Deus
Lição de Vida

Mensagens sobre Bem e Caridade ................... 423

A Joia da Caridade
A Chama Sagrada
Semeando o bem
O Trabalho no Bem
Sete Pedras Preciosas
Fazer o bem
A real necessidade

10
Caridade
Respeito
Reflexões sobre a caridade
O bem cura
O Amor transforma
Amor Incondicional
Dar e Receber
Preocupação com os outros
A Estrada da Vida
O Consolo Espiritual
Meu Quintal

Mensagens sobre as
Leis Naturais da Vida ......................................... 470

Princípios espirituais da vida


O Outro Lado da Vida
A Parábola do Deserto e do Mundo
Ensinamentos de Vida
Ah se eu soubesse
Sinais da Vida
O Prisma Espiritual
Um homem mau no céu
O que você quer
A Vida Passa
Eu sou universal
Lei da Afinidade
A Eterna Aurora
Metamorfoses da Vida
O Poder
O que é a vida
Passado, presente e futuro
Individualismo e coletivismo
As Aparências do Mundo
Um dia você vai morrer

11
Nossos Apegos
O Valor do Vazio

12
MENSAGENS SOBRE SOFRIMENTO

LIÇÕES DO SOFRIMENTO

Quando você estiver atravessando um profundo so-


frimento, procure lembrar de oito princípios básicos
da vida:

1 – Não há mal que dure para sempre. Qualquer dor,


ou sofrimento que você esteja passando é necessari-
amente passageiro. Por mais que demore e por mais
que o sofrimento pareça eterno, um dia ele sempre
terá um fim.

2 – Você não é a única pessoa a sofrer no mundo.


Nosso sofrimento sempre parece maior, pois esta-
mos sentindo-o diretamente, em nós mesmos. Mas
basta olhar para o lado e ver o quanto cada pessoa
no mundo sofre de igual forma, ou até mais grave-
mente que nós.

3 – Pense que, se o sofrimento fosse menor, ele po-


deria não ser suficiente para provocar um movi-
mento em você e te tirar do conformismo. No mo-
mento em que o sofrimento se torna insuportável,
esse limite nos força a tomar uma atitude e a buscar
um desenvolvimento. Se alguma parte do seu orga-
nismo não começasse a doer fortemente, você não
saberia que ele precisa de cuidados, e não buscaria a
cura. Da mesma forma, quando há uma enfermidade
da alma precisando de purificação interior, é neces-

13
sário que a dor nos tire da inação e nos mostre o
caminho. Logo, não reclame da dor, tome-a como a
base de sua transformação e do seu desapego das
coisas fúteis e efêmeras.

4 – Tal como uma criança grita e se debate quando


toma uma vacina, nós também reclamamos e esper-
neamos quando Deus nos coloca diante das vacinas
doloridas da vida. Da mesma forma que a vacina irá
imunizar a criança e evitar doenças futuras, assim
também o sofrimento advindo das adversidades da
vida tem o poder de imunizar nosso espírito e nos
libertar das futuras doenças da alma.

5 – Uma grande lição do sofrimento é que só apren-


demos uma coisa quando a realizamos e sentimos. É
como o aluno de natação e seu professor. Por mais
que o professor explique a teoria da natação, num
dado momento o aluno precisará mergulhar na água
e se virar sozinho para conseguir nadar. É certo que,
em algum momento o professor precisa jogar a pes-
soa na água, e deixa-la sozinha, para que ela aprenda
a nadar pelos seus próprios meios e recursos, sem
depender mais de ninguém. Em essência, Deus faz
isso para que cada pessoa cresça por si mesma e se
torne independente, pois é assim que evoluímos es-
piritualmente. Por esse motivo, Deus nos coloca num
mundo de sofrimento para que, sem nenhuma ajuda
nos momentos difíceis, possamos aprender as sagra-
das lições da vida.

6 – Saiba que, se os sofrimentos da vida fossem sim-


ples de serem vencidos, o mérito espiritual seria
igualmente simples, e pouco traria de benefícios es-
pirituais para nosso espírito. Quanto maior o sofri-

14
mento, maior o mérito em supera-lo, e consequen-
temente, maior a conquista espiritual. Portanto, não
reclame do sofrimento, agradeça a Deus a oportuni-
dade de atravessar uma provação.

7 – Os sofrimentos da vida mundana podem ser


comparados aos sofrimentos que passamos na infân-
cia. Quando somos crianças, as pequenas tribulações
de briguinhas com colegas, lutas por brinquedos,
ciúmes dos irmãos, gozações dos meninos, tudo isso
parece terrível. Naquela fase esses probleminhas
parecem imensos, mas após nosso crescimento e
amadurecimento volvemos o olhar novamente à
infância e nos damos conta do quão irrisórios e in-
significantes eram esses problemas. Os adultos po-
dem até deixar de lado pequenas rixas infantis por
descobrirem o seu caráter banal. O que acontece na
infância com a visão da fase adulta, é semelhante ao
que ocorre na visão do espírito no plano espiritual
em relação aos sofrimentos do mundo. Percebemos a
sua natureza transitória e sua total irrelevância di-
ante da eternidade da vida espiritual.

8 – E por fim, não se esqueça: Deus nos dá a cruz do


sofrimento na medida em que podemos carrega-la.
Se Deus desse uma cruz mais pesada do que alguém
poderia conduzi-la, ele seria um Deus injusto. Como
Deus é a inteligência perfeita e infinita, Ele te co-
nhece muito melhor do que ti mesmo, e sabe que
você é capaz de carregar uma pesada cruz. Logo, não
reclame da injustiça do sofrimento, tome para si a
sua cruz, pois ela foi esculpida pelo carpinteiro cós-
mico, que conhece tuas forças e sabe que você é ca-
paz de passar pelos labirintos tortuosos da vida e

15
conseguir a sagrada e tão sonhada purificação inte-
rior.

16
ATRAVESSANDO O VALE DO SOFRIMENTO

Quando você estiver passando por um grave sofri-


mento, não hesite em chorar…

Chore, chore o quanto for necessário, e coloque tudo


de ruim para fora. Não tenha vergonha. Chorar não
te faz fraco, ao contrário: permitir que o sentimento
flua te faz mais forte. Aqueles que prendem o choro
não conseguem lidar com suas emoções, e essas os
controlam. Portanto, chore, sem receio…

Libere toda a emoção retida. Solte tudo que esteja


preso dentro de você. Visualize uma fumacinha ne-
gra saindo do seu peito. Desprenda-se.

Depois de chorar e de liberar todo o sentimento re-


primido e engasgado, ore….

Faça uma oração, depois faça outra, e outra… Ore até


sentir que sua energia vai se elevando, se elevando…
até você se sentir envolvido de energias boas, ener-
gias calorosas, que te acolhem… até você sentir paz…
até você sentir que suas emoções negativas vão
sendo purificadas. Ore um Pai Nosso, uma Ave Maria,
e faça uma oração sincera, de coração, colocando
todo o seu ser naquela prece.

Não ore pedindo apenas… Ore simplesmente para se


sentir mais próximo do Senhor, para se harmonizar
com Deus. Sinta o calor divino esquentando seu
peito. Entregue-se à oração e a Deus com toda a con-
fiança. Não importa como seja Deus para você, colo-
que-se nas mãos de Deus e tenha fé.

17
Depois disso, perdoe as ofensas; perdoe as calúnias,
perdoe o mal que qualquer pessoa tenha te feito. O
perdão é purificador e libertador. Perdoe, pois você
também não é perfeito, e pode errar. Perdoe e en-
tenda que cada pessoa tem um nível de desenvolvi-
mento. Faça como Jesus e diga “Pai, perdoe-os, pois
eles não sabem o que fazem”. Perdoe 7 vezes 70 ve-
zes. Emane vibrações de amor, paz e bem àqueles
que por ventura te fizeram mal. Você se sentirá
muito, muito melhor…

Depois disso, não peça a Deus que diminua o peso de


sua cruz, peça mais força para conseguir conduzir
sua cruz para onde ela tiver que ir. Deus jamais te
daria uma cruz mais pesada do que você pode carre-
gar. Por isso confie em Deus. Se nem os homens fa-
zem cadeados sem chaves, Deus, que é a inteligência
infinita de todo o universo, jamais te colocaria den-
tro de um problema que não tivesse solução.

Nesse ponto, entregue seu problema a Deus. Faça


isso da seguinte forma: Visualize seu problema, dê
uma forma a ele, qualquer uma. Depois que seu pro-
blema tiver sido formatado, jogue para bem alto e
veja ele se integrar ao infinito, ao plano divino. Pense
mais ou menos assim: “Deus, nesse momento, eu
entrego esse meu problema a Ti. Rogo que me dê
sabedoria e me conceda os sinais necessários para
que eu atravesse com resignação e fé esta dura pro-
vação.”

Abra sua mente. O sofrimento deve nos ajudar a


abrir os olhos para novas possibilidades. Sempre que
perdemos uma coisa, ganhamos outra. Todo fim é
sempre um novo começo. Quando descemos ao

18
fundo do poço, não há mais para onde cair, esse en-
tão é o momento em que tudo começa a melhorar.
Portanto, amplie sua visão e veja aquilo que, até
agora, você não conseguiu ver. A solução do seu pro-
blema pode ser mais simples do que você imagina. E
lembre-se que aquilo que não tem remédio, remedi-
ado está.

Não perca a fé e siga em frente. A única coisa que


você não pode fazer ao enfrentar o vale de lágrimas
da existência mundana é deixar de caminhar. Conti-
nue sua peregrinação neste mundo de espinhos e
trevas… Olhe para frente e siga. Quem para, perece.
Quem continua caminhando, mesmo sujo com a mais
densa lama, e mantém sua fé, faz brotar uma chama
sagrada em seu interior e se liberta do sofrimento.

Jamais se esqueça: não há mal que sempre dure….


Um dia, mesmo que demore, tudo isso irá se encer-
rar, e o que sobra é apenas uma pequena lembrança.
Quando você despertar desse profundo sonho de
muitas ilusões será recebido nos planos superiores,
de braços abertos, comemorando o grande sucesso
do cumprimento de sua missão na Terra…

19
O REMÉDIO AMARGO

Uma mulher estava passando por grandes sofrimen-


tos em sua vida. Estava cheia de dívidas, seu marido
a abandonou, seus filhos brigaram com ela, e havia o
risco de perder a sua casa. Já não aguentava mais
aquela situação, e começou a se questionar o motivo
de tamanho sofrimento. Pensou em desistir de tudo e
tirar sua própria vida.

À noite, em meio a muitas lágrimas derramadas,


orou a Deus pedindo que interrompesse tanto sofri-
mento, pois ela não queria passar por tudo aquilo.
Fez uma prece declarando: “Deus, por favor, Não
consigo aguentar tanto sofrimento, tantas dificulda-
des em minha vida. O Senhor é todo poderoso. Su-
plico que retire este peso dos meus ombros”.

Após a oração, a mulher deitou-se e adormeceu. Co-


meço a sonhar que um anjo vinha em sua presença e
lhe dizia as seguintes palavras: “Sou o anjo que Deus
enviou para te acudir nesse momento. Por favor ve-
nha comigo”.

No sonho, a mulher foi seguindo o anjo e percebeu


que ambos iam regressando ao seu próprio passado.
Começou a rever várias fases de sua vida, e final-
mente parou numa cena em que ela obrigava seu
filho a tomar um remédio. O anjo aproximou-se e
disse: “A resposta as tuas angústias está dentro de ti.
Tu mesmo usou este método para ajudar teus filhos”.

A mulher olhou a cena e viu que, num passado não


muito distante, quando seus dois filhos ainda eram
crianças, ela os obrigou a tomar um remédio bas-

20
tante amargo. Um dos seus filhos estava doente, e o
médico havia receitado aquele medicamento afir-
mando que, caso o menino não o tomasse, poderia
ficar ainda mais doente. Mas, ao contrário, se ele
tomasse a medicação, iria melhorar em pouco tempo.
A mãe então levou o remédio para o filho. O menino
recusou-se a tomar a medicação, dizendo que o gosto
era muito amargo, e que ele não queria sentir aquilo.
A mãe então disse que ele deveria tomar de qualquer
forma, caso contrário iria castigá-lo severamente. O
filho chorou, esperneou, gritou, fez muitas cenas,
mas finalmente tomou o medicamento. Alguns dias
depois estava curado de sua enfermidade.

O anjo, que acompanhava tudo, perguntou a mulher:

– Você deixaria de dar este medicamento a seu filho


por que ele pediu, alegando que não queria sentir o
gosto ruim do remédio?

– De jeito nenhum! Respondeu a mãe. Se o medica-


mento é necessário, e se vai cura-lo, ele precisa to-
mar, não importa a sua vontade. Pois naquele mo-
mento ele era uma criança, e não podia entender o
que se passava e a importância da medicação.

O anjo respondeu:

– O mesmo ocorre entre você e Deus. Deus é seu pai


ou mãe, e a humanidade inteira são Seus filhos. Os
seres humanos são como crianças que não compre-
endem ainda os benefícios do remédio amargo dos
sofrimentos e provações da vida. Da mesma forma
que tu obrigas teu filho a tomar uma medicação que
é para o bem dele, Deus também nos coloca em cir-

21
cunstâncias que nos são indesejadas, mas que são
imprescindíveis para a cura do nosso espírito. Tam-
bém para ti, os sofrimentos são remédios muito
amargos, e te revoltas e te recusas a sentir tamanho
dissabor. Procure compreender que, da mesma
forma que teu filho precisou do medicamento para
se curar, teu espírito precisa atravessar estas tribu-
lações para se purificar.

22
NASCER DE NOVO

Certa vez, sonhei que estava num campo gramado


muito extenso, num dia nublado, fresco e com uma
brisa bem leve e acolhedora. Estava sentado debaixo
de uma grande árvore.

O sonho parecia bem real. Olhei para o lado, e incrí-


vel, percebi que Jesus estava sentado sob a mesma
árvore que eu, observando a paisagem, com olhar
sereno e profundo.

“O que Jesus estaria fazendo do meu lado?” Pensei.


Resolvi falar com ele e disse:

– Senhor, deu-me a honra de sua presença. Por que


resolveu falar comigo nestas belas paragens esver-
deadas?

O senhor olhou-me com muito carinho, e disse:

– Você sempre quis entender o motivo do sofrimento


humano. Então estou aqui para te fazer essa revela-
ção.

Não tinha vontade de falar coisa alguma, apenas de


ouvir Nosso Senhor, Jesus, que estava ali, me dando
um precioso ensinamento.

– Sim mestre. Por favor, explique-me sobre o sofri-


mento humano.

Subitamente, apareceu diante de nossos olhos uma


mulher dando à luz a uma criança. Olhei aquela cena
e não compreendi. Jesus disse:

23
– O que te revelarei agora desejo que seja passado a
toda a humanidade. Lembra-te do que foi dito: “Para
entrar no Reino dos Céus é necessário nascer de
novo”. Pois bem. O sofrimento é como uma mulher
dando a luz. O parto é o momento mais doloroso na
vida de uma mulher, e é igualmente o único que
permite o nascimento. Dessa forma, o sofrimento é
como um parto. Sofremos muito, chegamos ao limite
da dor suportável ao ser humano, mas o resultado
disso, quando sabemos aproveitar, é um novo nasci-
mento. Se não permitimos o nascimento do ser inte-
rior que jaz latente no âmago de cada um, a dor pode
se perpetuar. Mas se deixarmos o novo nascimento
ocorrer, o sofrimento cessa. No caso da dor e do so-
frimento, o efeito não é o nascimento de outra pes-
soa, mas de um novo eu, da morte do “velho homem”
e do nascimento do “novo homem”, renascido, reno-
vado e divino. Esse é o significado profundo do so-
frimento.

Agradeci imensamente a Jesus, e despertei para um


novo dia…

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Em verdade, em verdade


te digo que aquele que não nascer de novo, não pode
ver o reino de Deus.” (João 3: 3)

24
MADRUGADA ESCURA

Joana estava vivendo o inferno na Terra. Seus pais


morreram, seu marido a deixou, seus filhos foram
embora e ela acabara de perder o emprego. Estava
sozinha no mundo, sem ninguém que a amparasse.
Sentiu uma solidão imensa, um abismo em seu inte-
rior, um vazio que mal podia traduzir em palavras. A
vida havia perdido todo o sentido.

Jogou-se na cama após saber chegar em casa. Arre-


messou a carta de demissão no lixo e ficou prostrada
por meia hora, ainda em estado de choque. Depois
começou a chorar. Chorou por horas a fio… O choro
se tornara compulsivo, e ela simplesmente não con-
seguia parar de chorar. A angústia e a incerteza a
consumia completamente.

Seus olhos ficaram inchados de tão pesados prantos.


Era de madrugada, e ela só ouvia a cantoria do grilo
que insistia em proferir sua melodia noturna. Mesmo
assim, todo o seu chão parecia ter desaparecido e a
palavra esperança havia se tornado algo muito dis-
tante para ela. “Minha vida agora será um oceano de
trevas”, pensou. “Nunca mais verei a luz novamente.”
E continuou chorando….

A madrugada parecia muito silenciosa e fria. O


tempo parecia não passar, e o escuro da noite se re-
velava assustador para Joana. “Ficarei nessa escuri-
dão para sempre?” disse para si mesma. “Não posso
aguentar todas essas perdas”.

O choro e o sofrimento continuaram madrugada a


dentro, e a angústia apertava forte seu peito. Estava

25
quase desistindo de viver… Já eram mais de 5:00 da
madrugada. Joana foi ao banheiro, pegou uma nava-
lha, e disse em voz alta:

– Deus, por favor, me dê uma luz. Tenho eu espe-


rança em minha vida?

Nesse momento, Joana olhou para a janela, e o sol


estava nascendo. Ela ficou um tempo de olhos fecha-
dos, chorando, e decidindo se cortaria ou não sua
garganta. Ela pensou “Senhor, por favor, lhe imploro.
Dê-me uma esperança, me dê uma luz. Só há trevas
em minha vida, haverá alguma luz sobre mim?”

Nesse momento, um raio de sol entra pela sua janela


e vai iluminar precisamente a sua face. Joana sentiu a
luz incidindo sobre seu rosto e mal podia acreditar.
Pediu uma luz e essa luz veio… Ela então abriu a ja-
nela de sua casa, e viu que o sol estava começando a
brilhar. Joana pensou:

“O sol começou a brilhar sobre mim. É um novo dia


que está nascendo… Passei a madrugada inteira
mergulhada em prantos, dor, angústias e sofrimento.
Vivi nas trevas o que parecia ser uma eternidade,
mas a despeito da mais escura madrugada, o sol não
deixou de brilhar no dia seguinte. Sim, minha vida
recomeça agora.”

Joana, levantou-se, tomou um banho, se arrumou, e


foi procurar emprego…

Toda madrugada, por mais escura e sofrida que seja,


sempre precede um novo amanhecer… Não perca a

26
esperança, pois a luz de Deus sempre volta a bri-
lhar sobre você.

27
ATAQUE ESPIRITUAL

Um homem estava passando por uma fase de muito


sofrimento. Chorava quase o dia inteiro…

Certa vez, estava tentando dormir a noite, e começou


a se sentir muito mal. Começou a perceber que havia
dezenas de espíritos sombrios que o atacavam e o
transmitiam muitas energias negativas.

Muitos pensamentos ruins, de morte, destruição e


sofrimento começaram a atravessar sua mente.
Lembrou-se de terríveis traumas da infância, e tudo
isso parecia se intensificar em fortes emoções nega-
tivas.

O homem começou então a mandar aquelas entida-


des embora, com muita firmeza, dizendo:

– Vão embora daqui! Aqui não é o lugar de vocês!


Começou também a ofender aquelas entidades, e
sentir ódio de todas elas. Quanto mais ele se opunha
a elas com um tom emocional de raiva, mais elas o
atacavam e sugavam a sua energia. O homem come-
çou a sentir-se meio tonto, de tão mal que estava
passando. Começou a ter pensamentos suicidas e
pensou seriamente em pegar uma faca e dar cabo de
sua vida.

No meio do caos e da confusão mental de trevas que


ele se encontrava, lhe veio um pensamento bem leve.
Ele resolveu seguir este conselho que lhe chegou.

Iniciou então uma oração, com muita fé, dirigida a


Deus. Colocou todo o seu coração, mente e alma na-

28
quela prece e sintonizou com Deus. Entregou-se ao
plano divino naquele instante. Proferiu também as
palavras “Ainda que eu ande pelo vale da sombra e
da morte, não temerei nenhum mal, pois estas co-
migo Senhor”. Fez várias preces com muita fé e se
colocou nas mãos de Deus.

Depois de um tempo, sentiu que todo o clima do am-


biente começou a mudar. Estava mais tranquilo, fisi-
camente também se sentia melhor, a tontura passou,
as emoções ruins foram aliviadas, e começou a sen-
tir-se bem e relaxado. Percebeu que os espíritos fo-
ram se retirando, até que deixaram totalmente sua
residência.

O homem então viu que toda aquela situação havia


passado, e agradeceu a Deus pela mensagem que
havia recebido antes de iniciar a oração.

A mensagem dizia:

“Não brigue com a escuridão. Acenda uma luz… e


todas as trevas se dissipam.”

29
A RAZÃO DA DOR

Um homem foi acometido por um terrível sofri-


mento.

Orou fervorosamente a Deus pedindo que sua dor


fosse amenizada.

Um anjo apareceu e disse:

– O que deseja meu filho?

O homem ficou muito feliz de ver o anjo. Aproveitou


aquela sublime presença e perguntou:

– Não aguento mais tanto sofrimento. Por que a dor


precisa ser tão intensa?

O anjo respondeu:

– Se a dor fosse menor, ela não seria suficiente para


você tomar uma atitude e se transformar.

30
LUZ E TREVAS

Uma mulher estava bastante abalada com seus pro-


blemas atuais. Encontrava-se depressiva, tomava
medicamentos e não via mais saída para a sua situa-
ção. O suicídio era uma opção desde muito tempo,
mas nunca teve coragem de tirar sua vida.

Certo dia, resolveu procurar um guru oriental que


muitos tinham como um verdadeiro mestre. Foi en-
tão visitar o guru no mosteiro onde ele vivia. As-
sim que encontrou o mestre, contou sua situação e
pediu:

– Querido guru, por favor, me dê uma orientação


sobre a minha vida. A única coisa que vejo é escuri-
dão.

– Encontre-me amanhã de manhã no alto desta co-


lina. Quero te mostrar uma coisa, disse o mestre.

A mulher esperou até o dia seguinte, e assim que o


dia raiou, foi encontrar com o mestre ansiosa pela
resposta.

Logo que chegou ao alto da colina, observou o mes-


tre em frente a um túnel escuro.

– Peço que entre por este túnel, até a parte mais es-
cura do mesmo. Mas não pare de caminhar. Aconteça
o que acontecer, continue caminhando.

A mulher, sem entender nada, confiou e fez o que o


mestre pediu. Adentrou no interior do túnel, que
ainda estava iluminado pelos raios de sol. Conforme

31
ela foi penetrando na parte interna do túnel, perce-
beu que a luz estava começando a se enfraquecer.
Entrou ainda mais fundo, e quase não mais conse-
guia se ver ou ver qualquer coisa lá dentro. Começou
então a sentir medo. Não sabia o que continha ali no
interior do túnel. Talvez um bicho viesse atacá-la, ou
poderia topar numa pedra, cair e machucar-se. Co-
meçou a suar e tremer descontroladamente. Imagi-
nou-se sendo atacada por animais, sendo picada por
cobras ou aranhas, etc. Pensou também se tudo
aquilo não passou de uma armadilha do suposto sá-
bio para estupra-la. Na escuridão, na hora do temor,
sua imaginação foi bem longe. Inevitavelmente com-
parou a situação atual de sua vida com aquela escu-
ridão tenebrosa. Porém, reuniu os últimos resquícios
de coragem, e lembrou-se das palavras do sábio que
a havia orientado a não parar no caminho, a seguir
em frente, caminhando, independente de qualquer
coisa. Então fez isto, continuou percorrendo o túnel,
mesmo sem nada enxergar. Andou alguns quilôme-
tros e começou a ver uma pequena brecha de luz a
frente. Continuou mantendo o mesmo passo. A luz foi
aumentando, e logo se revelou como sendo a saída
do túnel. Voltou a enxergar-se e a ver tudo, e final-
mente saiu do túnel.

Assim que saiu, deparou-se com o guru, com um sor-


riso no rosto.

– Mestre, disse ela, não compreendi por que tive que


atravessar este túnel. Por que me fizeste passar por
essa escuridão?

O mestre respondeu:

32
– Para que pudesse ter contato com a luz no final do
túnel. Observe que você iniciou sua jornada dentro
do túnel, chegou a região mais escura de sua traves-
sia e assim que você cruzou a metade do caminho,
viu um ponto luminoso mostrando a saída. Você
quase desistiu de caminhar, paralisada pelo medo e
por outras travas emocionais. Isso é o que costuma
acontecer com a maioria das pessoas quando se de-
param com a escuridão. Elas param ali, ficam imobi-
lizadas e até entorpecidas por conta do medo e da
cegueira da escuridão, das névoas da ignorância.
Nossa mente começa a viajar e imaginamos muito
mais problemas e perigos do que de fato existem. A
escuridão faz a mente ver riscos e sofrimentos onde
nada existe. Mas quando se insiste em seguir a traje-
tória com firmeza, sem desistir, mesmo na escuridão,
saímos da região central do túnel e vislumbramos a
luz que sempre, e afirmo, sempre… brilha do outro
lado. Jamais se esqueça desta lei natural da vida:
quando chegamos ao ponto mais escuro do túnel,
estamos iniciando o caminho da saída. O mesmo
ocorre em nossa vida: assim que chegamos ao ápice
da escuridão, caso continuemos caminhando, um
pequeno facho de luz é avistado, e se persistimos,
encontraremos certamente a luz que dissipa as tre-
vas.

33
DO MUNDO CAMINHAMOS PARA DEUS

A dúvida é o caminho da sabedoria. Aquele que du-


vida de tudo, até mesmo da própria dúvida, chega a
certeza de que nada sabe, e nesse momento… se ini-
cia a sabedoria.

Através da mentira pode-se chegar a verdade. De


tanto que vivemos a mentira em toda a nossa vida;
de tanto que a mentira nos sufoca, nos ilude, nos
engana, nos sabota, começamos a abrir os olhos,
ainda que de forma tímida, para entrever a verdade.

Por meio do tempo seguimos um trajeto rumo à


eternidade. O tempo passa, tudo acontece, os fenô-
menos fluem, as situações mudam, tudo se forma e
perece, tudo vai e vem, tudo começa e termina, as
coisas existem e deixam de existir. Nesse ciclo infin-
dável da temporalidade, começamos a sentir um
pouco da inefável natureza da eternidade.

Vivendo intensamente a prisão da carne iniciamos


nossa jornada rumo à liberdade. O cativeiro terrestre
nos prende, nos oprime, nos aperta, nos esmaga, nos
escraviza. Sentindo o cárcere dos desejos e dos so-
frimentos do mundo vamos aos poucos nos soltando,
nos elevando e, sem embargo, vamos atingindo a
leveza da libertação espiritual.

Mergulhados nas trevas começamos a peregrinar em


direção à luz. No túnel escuro e aterrador do vale de
lágrimas do mundo, tudo parece perdido, estranho,
vazio, sem sentido. Nesse momento, diante da tama-
nha escuridão, vislumbramos a luz que nos guia pe-
las vias da plenitude. Quanto maior a escuridão

34
desse mundo, mais brilhante será a luminosidade.
Das densas trevas começamos a enxergar a luz.

Perdidos pelos labirintos do mundo é que acabamos


por nos encontrar. O ser precisa antes se perder para
só depois se encontrar. Quem não se perde, não pode
se achar. Perdendo-se dentro das estradas limitadas
da existência humana é que a alma começa a encon-
trar-se no infinito sem caminhos.

Viajando por todos os lugares chegamos a lugar ne-


nhum. Nesse lugar sem lugar descobrimos que não
se caminha para fora, mas sim para dentro de nós
mesmos. Percorremos o mundo, peregrinamos pelo
cosmos para descobrir que não saímos do lugar, não
saímos de dentro de nós. A única viagem possível é
aquela que vai para o interior, para a essência de
nosso ser.

Seguindo pelas ilusões e miragens do mundo alcan-


çamos a plena realidade. É percorrendo a ilusão que
se chega ao real; é pelo esgotamento da miragem que
se vê a realidade. Precisamos cair mil vezes nos so-
nhos, nos devaneios do mundo, nas aparências que
ludibriam, envolvidos pelas quimeras e ficções da
existência para só depois descobrir o verdadeiro, o
essencial, o real. De tanto cair no poço fundo e vazio
da ilusão acordamos finalmente para a realidade.

É por intermédio da morte no mundo que atingimos


o renascimento no ser. Morremos muitas vezes para
aprender a não mais morrer. Precisamos passar mi-
lhares ou milhões de vezes pela morte para entender
que nossa essência não morre. Vivemos, morremos,
nosso corpo se degrada, e aos poucos vamos renas-

35
cendo, morrendo para deixar de morrer, decaindo na
existência para deixar de perecer. Assim, gradual-
mente, vamos alcançando a verdadeira vida… vamos
atingindo a imortalidade.

36
TUDO ESTÁ DANDO CERTO

Uma moça, chamada Caroline, jovem e muito religi-


osa estava fazendo as primeiras escolhas em sua
vida. Decidiu que queria ser médica e optou em cur-
sar medicina. Porém, no primeiro vestibular, não
alcançou nota suficiente para passar. No ano se-
guinte prestou mais uma vez, e de novo não obteve
sucesso. Estudou muito e tentou pelo terceiro ano
consecutivo, e mais uma vez não conseguiu ser apro-
vada na universidade.

Após três decepções em três anos seguidos ela orou


fervorosamente a Deus e perguntou por que ela não
conseguia passar na universidade e qual era o mo-
tivo de suas tentativas frustradas. Ficou em oração
por um tempo e veio em sua mente uma voz angeli-
cal que disse:

– “Está dando certo…”.

Caroline ouviu a voz, mas não deu importância, já


que obviamente o vestibular não tinha dado certo,
pois ela não passou em medicina, que era seu sonho.
No ano seguinte tentou Direito e conseguiu ser apro-
vada, porém com certa tristeza.

Quando estava cursando Direito, leu num cartaz da


faculdade uma excelente oportunidade de estágio,
num dos escritórios de advocacia mais conceituados
do Brasil. Passou por uma entrevista de emprego e
foi muito elogiada pelo entrevistador. Mas na prova
teórica necessária para a aprovação não teve o
mesmo sucesso e foi reprovada. Assim que chegou
em casa, a noite, orou mais uma vez aos anjos e per-

37
guntou por que o estágio também tinha dado errado,
assim como a medicina. “Por que quase tudo dá er-
rado?”, perguntou ela em oração. Subitamente ouviu
a mesma voz angelical dizendo

– “Está dando certo…”.

Mais uma vez não deu importância à voz, posto que,


obviamente, ela tinha perdido uma grande oportuni-
dade de estágio.

Caroline morava num apartamento com sua mãe.


Havia terminado a faculdade quando, num ataque
cardíaco fulminante, sua mãe morreu e a deixou so-
zinha neste mundo. Caroline se desesperou muitís-
simo, pois era bastante apegada a sua mãe. Desen-
volveu um quadro depressivo após a perda e preci-
sou de alguns meses até se recuperar. Numa de suas
crises de desespero, fez uma prece dirigida aos anjos
do Senhor e mais uma vez perguntou:

– Por que Senhor? Por que tudo em minha vida dá


errado?

Mais uma vez, a mesma voz angelical, muito bela,


ressoou dentro de sua mente, mas agora lhe veio
também à imagem de um anjo, que disse:

– “Está dando certo…”.

Caroline já começava a ficar brava com a voz. “Nada


está dando certo, que droga!”, disse ela em voz alta.
“Tudo em minha vida está dando errado! Não en-
tendo por que Deus faz isto comigo!”

38
Após a morte de sua mãe, Caroline, que já era viciada
em trabalho, começou a ficar ainda mais mergulhada
nos afazeres do escritório em que começou a traba-
lhar. Já estava por demais estressada e cansada de
tanto trabalho, e por isso acabou ficando muito do-
ente e foi conduzida a UTI de um hospital com um
quadro bem grave. Ficou mais de dois meses inter-
nada, sem poder trabalhar, e ficou pensando sobre a
sua vida até aquele momento. Sua sensação era de
ter perdido tudo e estar à beira de um surto. Mais
uma vez orou ardentemente e pediu uma explicação
a Deus e aos anjos.

– Deus, por favor, me ajude. Perdi tudo e estou aqui


neste leito de hospital inválida. Qual o sentido de
tudo isso? Por que tudo dá errado para mim?

Caroline ficou tão nervosa com essa situação que


acabou tendo um ataque cardíaco. Percebeu seu
corpo muito leve e começou a levitar acima do leito
hospitalar. Viu a equipe médica tentando reanima-la,
mas sem sucesso. De repente já não estava mais no
hospital, mas numa espécie de cosmos espiritual
infinito, além do tempo e do espaço, numa região de
luz e amor. Nesse momento, uma voz suave disse:

– “Está dando certo…”.

Caroline reconheceu aquela voz. Era a mesma voz


que, ao longo de várias fases de sua vida até aquele
momento, havia sempre lhe incentivado com a afir-
mativa de que tudo estava dando certo. Logo depois
um anjo apareceu. Caroline então resolveu aprovei-
tar aquela situação de “quase-morte” e perguntou ao
anjo.

39
– Ao longo de minha vida sempre ouvi sua voz di-
zendo que tudo estava dando certo. Mas eu não pas-
sei em medicina, perdi o estágio que tanto queria
para minha carreira em Direito, minha mãe, que era
a pessoa que eu mais amava morreu, fiquei depres-
siva e agora estou aqui, morta, após uma grave en-
fermidade. Como é possível acreditar que minha vida
deu certo?

O anjo, com olhar amoroso, respondeu:

– Caroline, em todos os momentos difíceis de sua


vida eu lhe disse que as coisas estavam dando certo,
e de fato estavam. Você não passou na faculdade de
medicina por que não seria feliz como médica, não
era esse o seu dom. Você seria mais produtiva, feliz e
cumpriria muito mais a sua missão sendo advogada.
Você não passou no “prestigiado estágio”, pois seria
estuprada no escritório nos primeiros dias de tra-
balho, o estuprador ficaria impune e isso provocaria
feridas psicológicas que você dificilmente superaria.
A morte de sua mãe serviu para você se libertar do
apego que tinha dela, e para você aprender a se virar
sozinha, como você conseguiu depois. A doença que
te levou a interrupção do seu trabalho veio para que
você pudesse parar um pouco com sua rotina super
corrida e estressante e refletisse um pouco sobre
você mesma, caso contrário, algo pior poderia ocor-
rer. Tudo isso serviu de aprendizado, lições que você
jamais irá perder. Por isso eu sempre lhe transmitia
o pensamento de que “Está dando certo”. De um
ponto de vista humano limitado, tudo estava dando
errado, mas de um ponto de vista infinito, dentro do
seu desenvolvimento espiritual, tudo estava dando

40
certo. Muitas vezes as pessoas pedem a solução dos
seus problemas e acreditam que sua vida está toda
errada. E na maioria das vezes, está tudo dando
certo, mas o ser humano não percebe isso. Os anjos
ficam repetindo “está dando certo… está dando
certo…” e as pessoas não acreditam. Agora volte a
Terra, pois ainda não chegou a sua hora. Você vai
retornar e passar a viver uma existência muito me-
lhor.

41
A LENDA DA FLOR AZUL

(Provação e Missão humana)

Há uma lenda muito antiga, que vem de tempos


imemoriais, e que se perdeu dos anais da história
conhecida. É uma lenda muito bela, que conta a estó-
ria de um menino de sete anos de idade que se cha-
mava “Archen”.

Havia uma serpente muito perigosa que passeava


pela região onde Archen morava. Essa serpente se
chamava “Daimonia”, muito conhecida por sua cor de
um tom azul escuro. Muitas pessoas haviam sido
picadas e mortas por essa cobra. Seu veneno era
perigosíssimo, e dizem que era capaz de matar uma
pessoa em apenas 3 minutos. Archen, no entanto, era
um menino muito puro e abençoado pelos deuses.
Por isso ele foi escolhido para uma missão que aju-
daria todo o povo de sua região.

Certo dia, Archen estava brincando numa estrada de


terra, num lugar de muita natureza. Sua mãe estava
sentada a uns 50 metros do filho apreciando as bele-
zas naturais. Archen andava pela estrada, olhando os
pássaros, quando de repente Daimonia, a perigosa
serpente apareceu ali. Archen não percebeu a pre-
sença da serpente, e assim que a viu, ela pulou rapi-
damente na perna do menino, picando-o, sem que ele
pudesse esboçar qualquer reação. O menino sentiu a
força da picada e a dor latejante. Começou então a
chorar muito… A lenda conta que suas lágrimas caí-
ram sobre o local da picada e depois derramaram no
solo. Como o veneno agia rapidamente, em 3 minutos

42
o menino já estava morto. Foi encontrado pela mãe
somente uma hora depois.

A lenda pode parecer muito triste, mas ela tem um


final feliz. Archen foi enterrado no mesmo lugar onde
a serpente o havia picado. A estória termina dizendo
que no exato local onde Archen foi enterrado, nasceu
e desabrochou uma belíssima flor azul, várias delas.
Ao contrário da pele da serpente, a coloração da flor
não era de um azul escuro, mas de um azul muito
claro e límpido. Dizem que essa flor continha o pre-
cioso antídoto que por muitos séculos protegeu o
povo da letal picada da Serpente Daimonia. Assim,
Archen teria cumprido a sua missão e conseguido
salvar a vida de milhares e milhares de pessoas de
várias gerações seguintes, pois seu sofrimento fez
com que brotasse do solo uma sagrada flor que con-
tinha o antídoto para o mal que há muito assolava os
habitantes daquela região.

Essa estória simples contém um significado muito


profundo, que serve para a vida de qualquer pessoa.
Ela revela o sentido do sofrimento e da missão que
se segue a partir da cura, renovação ou purificação
que o sofrimento nos traz, assim como o possível
início de uma caminhada que semeará o mundo com
algum benefício espiritual, caso a pessoa permita o
renascimento. Essa lenda encontra correspondência
em outras lendas, como a lenda da flor de lótus, que
da lama faz nascer a flor com o branco mais puro da
natureza, e também a lenda do curador ferido, que se
fere e desse ferimento nasce a cura para o mal.

Vemos muito exemplos na vida humana de como um


grande sofrimento, uma ferida interior, uma doença,

43
ou qualquer outra adversidade ou provação pode se
transformar num caminho, numa missão ou na reali-
zação de um trabalho do bem que se espalhe pelo
mundo. Em Psicologia, esse processo se dá quando
alguém consegue transformar o seu maior complexo
num arquétipo, ou seja, num “modelo” que servirá de
caminho para que outras pessoas sigam seus passos
e tomem um rumo na vida. Vamos citar alguns
exemplos:

Pessoas que sofreram graves doenças podem se


transformar em médicos, enfermeiros e curadores, e
iniciarem a missão de ajudar a curar outras pessoas.
Pessoas que sofreram graves acidentes, tiveram
grandes perdas, podem iniciar campanhas, ações ou
projetos de lei que visem melhorar as condições que
provocaram os acidentes, como os acidentes de trân-
sito. Pessoas que passaram por depressões gravíssi-
mas ou outros transtornos psíquicos se tornam
grandes terapeutas, psicólogos ou ajudadores. Pes-
soas que viveram a extrema pobreza criam ou se
engajam em projetos sociais diversos. Pessoas que
foram injustiçadas e passam a lutar por justiça. Pes-
soas que foram abandonadas na infância e lutam por
iniciativas contra o abandono, por adoção ou proje-
tos a favor das crianças. Pessoas que transformam
um grande medo numa coragem inspiradora; uma
grande angústia no consolo; um grande ódio num
sublime amor; uma grande desesperança numa ina-
balável fé ou esperança na vida, que vem iluminar os
passos de outras pessoas.

Seria possível estender essa lista indefinidamente,


citando muitos exemplos de como é possível trans-
formar um sofrimento numa missão em favor do

44
coletivo, ou como transformar um complexo, uma
ferida interior, num arquétipo, ou modelo de con-
duta e modo de ser que pode curar ou ser o guia de
dezenas, centenas ou milhares de pessoas. Numa
analogia com as cores, Archen transformou o azul
escuro da pele da serpente no azul claro da flor. Ou-
tros podem transformar o vermelho escuro no ver-
melho claro; o amarelo escuro no amarelo claro; o
verde escuro no verde claro, dentre outros exemplos,
e isso depende da “cor” da “serpente” que te “picou”
e feriu. Muitas vezes, quanto maior o sofrimento,
maior o poder de transformação quando a pessoa
consegue se purificar através da provação, e conse-
gue transformar a provação numa missão.

Você também pode transformar sua doença numa


cura; seu sofrimento ou provação numa missão, seu
complexo num arquétipo, modelo ou exemplo de
vida. Basta fazer como Archen, morrer para seu eu
inferior e deixar a flor azul nascer do solo do túmulo
onde você enterrou o “velho homem”.

Transforme a serpente que te picou na flor que de-


sabrocha, esparge seu perfume, e que será o antídoto
ou a luz para outras pessoas.

45
O JARDINEIRO CÓSMICO

Era uma vez uma plantinha muito bela, que vivia


num suntuoso e vasto jardim muito florido. Ela es-
tava sempre feliz, pois o jardineiro dedicava muita
atenção a ela, cultivando, regando e cuidando de
várias formas.

Certo dia, uma grande tempestade se abateu sobre o


jardim. A plantinha foi arrastada pelo vento, seus
galhos ficaram como trapos e quase que seu tronco
foi quebrado.

No dia seguinte, o jardineiro começou a cuidar do


jardim, como costumava fazer. Assim que ele chegou
na plantinha, ao invés de cuidar dela, como sempre
fazia, ele começou a cortar seus galhos. A plantinha
tomou um susto, e sentiu todo seu corpo vegetal
doer muito. Perdeu várias partes de si mesma, e fi-
cou muito triste com tudo isso.

Ela pensou: “Mas como o jardineiro pôde fazer isso


comigo? Eu que sou uma das plantas mais belas e
vigorosas do imenso jardim. Ele me abandonou de-
pois dessa terrível tempestade e agora quer se livrar
de nós.”

O tempo passou, e novos galhos começaram a nascer


no lugar dos que foram cortados. Ela cresceu mais,
ficou mais robusta e estava até mais bonita.

Passados alguns meses, outra feroz tempestade de-


sabou sobre o jardim, trazendo ventos fortíssimos,
parecidos com a outra vez. No entanto, dessa vez a
plantinha pouco se vergou. Sentiu a intensidade do

46
vento, mas parecia que estava mais forte, e manteve-
se firme enraizada no chão resistindo bravamente à
fúria da tormenta. Após o susto, ela ficou bem.

Uma árvore, que residia próximo ao jardim, disse a


plantinha:

– Minha querida, o jardineiro não cortou seus galhos


por que te abandonou, ou por que não se importava
com você. Há uma lição que nós, árvores mais anti-
gas, aprendemos após tantas tormentas. Toda planta,
quando é podada, se torna mais forte e mais resis-
tente. Por esse motivo o jardineiro podou várias de
vocês, retirando os galhos já envelhecidos e usados,
permitindo nascer novos galhos, renovados e resis-
tentes.

A plantinha chorou, e agradeceu muito ao jardineiro


pela ajuda…

Assim também ocorre com Deus e os seres humanos.


Deus, o Jardineiro Cósmico, poda nosso emocional,
retirando dele os pedaços envelhecidos das lem-
branças acumuladas, obrigando o homem a se des-
prender do lixo emocional do seu passado. O homem,
assim como a plantinha, ao ser podado por Deus, se
renova e se torna mais forte e mais experiente. As-
sim ele não sofre tanto quando as mais terríveis in-
tempéries o atingem. É preciso entender bem essa
verdade: não existem erros nos planos de Deus.

47
PROVAÇÕES DA VIDA

Deus nos tira o casaco para ver se nós aprendemos a


resistir ao frio.
Deus coloca uma estrada longa para ver se aprende-
mos a caminhar.
Deus nos faz ficar cegos para ver se conseguimos
enxergar além das aparências.
Deus nos faz cair para ver se aprendemos a levantar.
Deus nos afasta das pessoas para ver se aprendemos
a valorizar o outro.
Deus nos coloca limites para ver se somos capazes de
supera-los.
Deus coloca barreiras em nossa frente para ver se
somos capazes de transpô-las.
Deus nos faz perder para ver se somos capazes de
nos desapegar.
Deus nos joga na escuridão para ver se somos capa-
zes de acender a luz.
Deus nos tira o chão para ver se somos capazes de
voar.
Deus nos faz morrer para ver se, finalmente, nós
somos capazes de renascer.
Todas as circunstâncias da vida são provações que
necessitamos passar.
É como o aluno que faz uma prova…
A prova serve para testar seus conhecimentos,
Mas na vida as provações servem para testar o ser
humano e sua fé.
Avaliar, verificar e nos ajudar a viver na plenitude de
nossa ética, do nosso caráter, do nosso desprendi-
mento, de nossa fé e do nosso amor.
Quando Deus te tirar o chão, não reclame… Aprenda
a voar.

48
Voe pelos espaços sagrados do despertar espiritual
no seio do infinito…

49
NOSSO POSICIONAMENTO NA VIDA

Um homem estava muito triste com sua situação


atual. Sua vida estava cada vez mais difícil. Não sabia
mais o que fazer e pensou em desistir.

De repente, presenciou um acidente de carro. Dois


carros colidiram de forma brutal. Um dos motoristas
saiu do carro e disse:

“Ai meu Deus, que droga! Que inferno de vida! Perdi


meu carro nessa batida! Como a vida é injusta! Que
raiva de tudo!

Outro motorista, que sofreu o mesmo acidente na


colisão, com os mesmos danos ao seu veículo, saiu do
carro e disse:

Graças a Deus estou vivo! Abençoado seja esse dia


em que minha vida foi salva. Consegui sobreviver a
um acidente fatal. Estou feliz e aliviado.

O homem viu aquela cena e agradeceu a Deus pela


resposta, pensando:

“Claro, agora eu compreendi. O primeiro motorista


sofreu o mesmo acidente e reagiu negativamente,
amaldiçoou tudo e ficou raivoso. O segundo, ao con-
trário, agradeceu ter sobrevivido e abençoou a exis-
tência. Tudo na vida depende da forma como nos
posicionamos diante das circunstâncias. Boa parte
dos problemas que enfrentamos com a ver com a
forma como nós o encaramos. O que importa não são
as situações em si mesmas. O que faz a diferença é a
forma como nós reagimos ao que nos ocorre”.

50
Não importa o que te aconteça na vida, o importante
é o que você faz com isso.

51
LUZ DIVINA

Muitos já ouviram falar da famosa “luz no fim do


túnel”, mas a maioria não sabe exatamente qual o
significado dessa luz. Em muitas das chamadas “ex-
periências de quase morte” aparece o túnel e a luz no
final. A luz funciona como se fosse um “guia” dos
espíritos que estão na condição de quase morte e
também dos espíritos que acabaram de desencarnar.

O chamado “Livro Tibetano dos Mortos” também fala


sobre essa luz, a qual ele denomina de “Clara Luz”. O
bardo, que é o espírito que acabou de desencarnar e
que está atravessando as etapas do período pós-
morte, deverá, segundo a tradição tibetana, seguir
em direção a essa luz para se iluminar e também
para fugir da necessidade da roda das encarnações.

Os monges tibetanos que seguem O Livro Tibetano


dos Mortos passam por um treinamento que dura
boa parte da vida e que consiste apenas em se prepa-
rar para a morte, e principalmente, prepararem-se
para este momento derradeiro onde o “bardo”, ou a
alma após a morte, precisa ser orientado pela clara
luz e se integrar nela. Na tradição Hindu, mais espe-
cificamente nos Upanishades, há uma referência bas-
tante poética sobre a luz, o texto sagrado diz: “Há
uma luz que brilha para além de todas as coisas na
Terra, para além de nós, para além dos céus, para
além do mais alto, do mais alto dos céus. É a luz que
brilha nos nossos corações”.

Em algumas obras espíritas e espiritualistas é possí-


vel encontrar algumas referências sobre essa luz.
Aqueles que possuem mediunidade desenvolvida

52
podem, algumas vezes, acompanhar a transição de
uma alma logo após o desligamento do corpo físico e
o que acontece em seguida. Alguns espíritos se depa-
ram com essa luz brilhando para eles, como se a luz
os estivesse chamando para o plano espiritual mais
elevado. O que acontece é que os espíritos sentem a
luz, sentem a sua grandiosidade e um excelso enlevo
espiritual onde são arrebatados a uma realidade que
só poderia ser chamada por nós de divina.

No entanto, sentindo todo esse êxtase cósmico de


amor total, pureza total, etc, as almas recém desen-
carnadas têm a impressão de que se tornam peque-
nos diante dessa luz, e também que, se forem em
direção a luz, eles vão se dissolver nela e isso vai
neutralizar sua individualidade, tal como uma pe-
quena gota poderia dissolver-se e se perder no oce-
ano. Porém, tanto O Livro Tibetano dos Mortos
quanto os espíritos de luz garantem que não é isso
que ocorre. Como diz a máxima mística: “Não se trata
de perder-se no oceano, mas de tornar-se oceano”.

Mas o que é exatamente essa luz? Todos sabem que,


do ponto de vista de nossa mente dual, a luz é o
oposto da escuridão. Pois bem, podemos dizer que a
vida humana se depara a todo momento com uma
oscilação entre luz e escuridão. Em alguns momentos
estamos preenchidos de luz e em outros caímos na
mais aterradora escuridão. A escuridão parece tomar
a nossa vida naqueles momentos em que, por exem-
plo, passamos por um trauma fortíssimo, perdemos
alguém que muito amamos, mergulhamos numa de-
pressão profunda, vivemos uma crise de vários tipos,
sofremos um grave acidente, pegamos uma doença
fatal, dentre outros casos.

53
Nesses momentos de grande sofrimento, algumas
vezes parece que ficamos tão mal, mas tão mal que
caímos numa espécie de vazio. Algumas pessoas sen-
tem como se estivessem num vazio sem fim, como
que caindo num abismo psicológico, e nada parece
restar em nossa vida a não ser trevas e vazio. Em
casos extremos como esse, as pessoas podem ter
uma sensação de sufocamento da própria identidade,
onde sentem o seu ego se dissolver, como se elas
mesmas fossem deixar de existir e cair numa pro-
funda escuridão. Muitas pessoas estão a um passo
dessa escuridão e aqui ocorre um outro fenômeno:
elas ficam tão desesperadas em fugir dessa escuridão
que acabam por reforça-la dentro de si.

No entanto, nesses momentos de angústia extrema, é


preciso lembrar que Deus nada faz de inútil, que
tudo tem um propósito superior, e que mesmo no
vazio existe alguma coisa. Na natureza não existe a
queda num abismo sem fim, nada é excluído do cos-
mos. Mesmo as fezes servem como adubo da terra, e
mesmo a semente que caiu esquecida na terra pode
pensar que está prestes a morrer, mas ela morre
para dar lugar a uma linda plantinha que começa a
brotar. O mesmo ocorre com os seres humanos. Nos
momentos de maior desespero, onde a escuridão
toma conta de nossa vida, é justamente o momento
em que a luz pode brilhar com mais intensidade. As
pessoas podem pensar que esse é o momento que
Deus as abandonou, mas é justamente o contrário.
Alguns podem não entender isso, mas é algo simples
de compreender. Observemos que a noite precisa
aparecer com sua escuridão para que as estrelas
possam brilhar no céu. Da mesma forma, a escuridão

54
total precisa se fazer em nossa vida para que possa-
mos ver a luz, tanto a luz externa de Deus quanto a
luz interna, que existe dentro de cada um. No plano
do absoluto, essas duas luzes são uma só e mesma
luz.

Então, a pergunta mais importante é: o que fazer


quando nossa vida está sendo engolida pela escuri-
dão? A resposta não poderia ser outra senão “Vá
para a luz”. Todos devem conhecer o famoso versí-
culo bíblico que foi feito justamente para esse mo-
mento (assim como para todos os momentos difíceis
da vida), que diz “O Senhor é meu pastor e nada me
faltará (…) Ainda que eu ande pelo vale da sombra e
da morte, nada temerei, pois estás comigo Senhor”
(Salmo 23). Isso significa que, mesmo que a pessoa
esteja submersa na mais densa escuridão, Deus ja-
mais a abandonou, ao contrário: esse é o momento
em que a luz primordial divina está mais próxima .
Mas a pessoa precisa ir até a luz; a pessoa precisa ir
até essa sublime emanação luminosa.

Nesse momento, a fé deve ser o farol que guia aque-


les que desejam sair das trevas e ir para a luz.

Assim também ocorre nas chamadas iniciações dos


mistérios. O candidato à iniciação é colocado numa
situação em que vivencia o chamado “umbral” ou
“abismo”, que é a escuridão total, onde todas as suas
imperfeições e impurezas vão aparecer mais fortes
do que nunca, e ele precisa vencer sua sombra para
se envolver na luz. Falamos com mais detalhes sobre
a iniciação espiritual em outro artigo deste mesmo
blog.

55
Obviamente “Ir até a luz” não significa levantar e
caminhar até uma luz que fica a sua frente. Trata-se
apenas de se integrar na luz divina e permitir que
Deus tome conta de sua vida. Nesse momento vamos
compreender o profundo significado de outra má-
xima bíblica que diz “Já não sou eu quem vive, mas o
Cristo que vive em mim” (Gálatas 2:20). Assim, a
pessoa deve se integrar na luz e se entregar comple-
tamente a Deus, sem qualquer restrição. Explicando
de uma forma mais simples: Deus nos joga na escuri-
dão para que possamos encontrar a luz. É justamente
quando somos jogados na escuridão que se apre-
senta o momento mais propício para a harmonização
com a luz divina. Meditem nessas explicações, e a luz
divina estará sempre com vocês, como uma chama
eterna que nunca se apagará, ardendo em vosso inte-
rior.

56
UM HOMEM NUM LEITO DE HOSPITAL

Estava na rotina de minha vida,


Trabalhando e vivendo normalmente.
Agora estou aqui, nesta cama de hospital,
Esperando, deitado, a morte iminente.

Tinha tudo, casa, comida e lazer,


Mas o essencial, escapou-me por inteiro,
Em poucos momentos da minha existência,
Lembrei-me que tudo era passageiro.

Agora a angústia vem para ficar,


E quero minha vida de volta,
Às vezes me pego a chorar,
Remoendo-me na revolta.

Sei que não aproveitei a vida,


Da forma como gostaria,
Se pudesse voltar no tempo,
Até na árvore eu subiria.

Queria fazer tanto e nada fiz,


Fingindo-me de sério e correto,
Mas acredite, não aproveitar a vida,
Só te deixa incompleto.

Quero rolar na grama,


Mergulhar no rio,
Sujar-me na lama,
E aceitar o desafio.

Quero ficar com meus pais,


Curtir a família e a natureza,

57
E agora estou paralisado,
Preso num leito de tristeza.

Não entendi como a vida é simples,


Para quem não se prende ao superficial.
Se soubesse o quanto era feliz,
Quando cultivava meu quintal,

E contemplava com naturalidade,


O alvorecer matinal.
Agora tudo mudou,
E não posso sequer me mexer,
Apenas movimentos com a boca,
Eu posso levemente fazer.

Mas espere, ainda posso falar…


Mexer a boca devagar,
Quero aproveitar esse momento,
E falar de sentimento.

Posso dizer a meus entes queridos,


O quanto sempre os amei,
Pois durante toda a minha vida,
O amor eu nunca declarei.

Sinto-me estranho, estou com frio,


E me sentindo leve…
Agora percebo, estou morto,
E tive uma existência breve.

Nem sequer pude falar,


À minha família o quanto os amei,
Perdi mais esta oportunidade,
Algo que, em minha vida, nunca tentei.

58
Vejo minha vida passar num segundo,
Tudo um desperdício, nada foi profundo,
Agora compreendo claramente como as coisas são,
O que vale, de verdade, é a pureza de intenção.

Minha fé foi uma mentira,


Uma máscara social,
Devia ter sido eu mesmo,
Bastava apenas ser natural.

Agora vejo claramente,


Que a vida não se desperdiça,
Perdi tudo de mais precioso,
Mergulhando no fútil e na cobiça.

Deixo, portanto, essa mensagem a você,


Que ainda está vivo e consciente,
Não esqueça de valorizar as coisas pequenas,
Pois a vida é um presente.

Viva e deixe viver…


Sem se preocupar com a aparência,
Acredite, quando tudo perecer,
Só lhe resta a consciência.

Valorize as coisas simples,


Isso sim tem importância,
Não deseje os prazeres quiméricos,
De quem vive na extravagância.

Não inveje uma pessoa,


Que vive na ignorância,
Mas também não a condene,
Cultive a tolerância.

59
Com o avançar da idade,
É essencial a humildade.
Esqueça a ganância,
Tudo isso é arrogância.
Deixe de lado a vaidade,
E cultive a caridade.

Se alguém te agredir,
Ofereça uma flor,
Algumas pessoas desconhecem,
O benefício que traz o amor.

Assim, construa uma obra que sobreviva,


E esteja pautada no bem,
Para que a semente cresça em cada um,
Agora, e no futuro também.

60
PERGUNTAS PARA A VIDA

Qualquer pessoa, seja homem ou mulher, de qual-


quer profissão, de qualquer religião e de qualquer
classe social deve responder para si mesmo algumas
perguntas básicas sobre a vida, se um dia quiser vi-
ver em paz interior. Responda essas doze perguntas
com toda a sinceridade, e veja qual é o resultado:

São as suas coisas e bens que te possuem ou você


possui as suas coisas e os seus bens?

Você dá mais valor às aparências, à forma, à apresen-


tação, ao exterior, ou dá mais valor à essência?

Você cria necessidades ilusórias de coisas que não


precisa, ou consegue viver bem apenas com o neces-
sário?

Você cria muitas expectativas sobre as pessoas e a


vida, ou não espera que a vida ou as pessoas corres-
pondam ao que você deseja?

Você acredita que é vítima das circunstâncias, da


sorte ou do azar, ou entende que é responsável pela
sua vida?

Você faz o bem esperando ganhar algo em troca, ou o


bem realizado já é o ganho que você esperava?

Você deseja impor as suas verdades a outros, ou


aceita as verdades dos outros com respeito?

61
Você sacrifica sua vida interior visando algumas
conquistas mundanas, ou sacrifica algumas conquis-
tas mundanas visando paz na sua vida interior?

Você reclama do que tem achando que a vida tem


obrigação de lhe dar mais, ou agradece o que a vida
te deu e procura fazer o melhor com o que tem?

Você foge de si mesmo e do enfrentamento de suas


imperfeições, ou aceita mergulhar em seu interior
para resolver suas más inclinações?

Você se acha melhor do que a média das pessoas, ou


tem humildade e aceita trabalhar a si mesmo para se
tornar alguém melhor para si mesmo e para os ou-
tros?

Você ainda acredita que suas maiores conquistas são


exteriores, ou já entendeu que suas maiores conquis-
tas são interiores?

Analise bem essas doze perguntas. Se você estiver


mais inclinado à primeira parte da pergunta, reveja
profundamente a sua vida. Por outro lado, se você
estiver mais afeito a segunda parte das perguntas,
então continue assim, pois você está no caminho
certo para a paz interior.

62
SIGA EM FRENTE

Numa pequena cidade do interior, havia um padeiro,


o dono da padaria, que diziam ser um homem sin-
gular. Todos que entravam em sua padaria podiam
ler a seguinte inscrição numa placa afixada na pa-
rede:

“A vida é feita de duas escolhas principais. Escolha


sempre seguir em frente.”

Certo dia, um viajante passou pela rua da padaria e


resolveu comprar pão. Entrou no estabelecimento,
viu a placa e não entendeu direito seu conteúdo. O
padeiro olhou para o forasteiro e perguntou se ele
queria comprar algo. O viajante disse que havia fi-
cado intrigado com a inscrição da placa e pediu ao
padeiro que explicasse seu significado. O padeiro
respondeu:

– Meu caro, isso é simplesmente a vida…

- Na vida humana temos sempre duas opções em


tudo…

Ou ficamos remoendo as mágoas e dores, ou perdo-


amos tudo e seguimos em frente.

Ou ficamos nos sentindo culpados pelos nossos er-


ros, ou aprendemos com eles e seguimos em frente.

Ou deixamos o medo nos paralisar, ou enfrentamos o


medo e seguimos em frente.

63
Ou caímos e ficamos no chão machucados, ou nos
levantamos e seguimos em frente.

Ou lamentamos as perdas do passado ou tentamos


renovar nossa vida no presente e seguimos em
frente.

Ou nos acomodamos ao estado atual, ou agimos para


mudar as coisas e seguimos em frente.

Ou ficamos reclamando das desgraças da vida, ou


assumimos a responsabilidade de nossa vida e se-
guimos em frente.

Ou esperamos algo do outro e nos decepcionamos,


ou passamos a confiar em nós mesmos e seguimos
em frente.

Ou vamos morrendo e definhando um pouco a cada


dia, ou vamos morrendo e renascendo um pouco a
cada dia.

Tudo isso se resume em:

Ou viver esperando a morte, ou não esperar nada e


viver a vida.

O viajante ficou maravilhado com as explicações. O


padeiro concluiu:

Você, que está viajando, alguma vez ficou parado no


mesmo lugar indefinidamente? Não, pois isso atrasa-
ria a sua viagem e seria contraproducente. O ser hu-
mano é também um viajante do cosmos, e não pode
jamais ficar parado… É necessário sempre seguir em

64
frente, não importa o que aconteça. Então a vida é
sempre uma questão de ou ficar parado em algo, ou
libertar-se e seguir em frente. Essas são as duas es-
colhas do espírito humano.

O que você tem escolhido até hoje? Não importa o


que você escolheu até agora. Siga em frente… O que
importa é o que você vai escolher a partir de agora.

65
O VÉU DA ILUSÃO

Quando todos seus amigos te deixarem por você ter


perdido tudo, não se desespere. Agora você sabe
quem é seu amigo de verdade.

Quando toda sua força humana se encerrar, não se


desespere. Busque sua força espiritual que nunca se
esgota.

Quando toda a inteligência humana não der conta de


resolver um problema, não se desespere. Busque sua
inteligência emocional e sua intuição espiritual.

Quando você descobrir todas as mentiras e falsida-


des que inventaram, não se desespere. Agora você
está muito mais próximo da verdade.

Quando todas as concepções sobre Deus não derem


conta de explicar o plano divino, não se desespere.
Esse é o momento de você encontrar Deus dentro de
você.

Quando todos os caminhos que você percorreu esti-


verem bloqueados, não se desespere. Agora é a hora
certa de você criar seu próprio caminho.

Quando toda a crença religiosa não conseguir te aju-


dar, não se desespere. Esse é o momento de desper-
tar sua verdadeira fé e apoiar-se em Deus sem dog-
mas.

Quando a doença te abater e você ficar parado numa


maca de hospital, não se desespere. Esse é o mo-

66
mento de você ficar um pouco consigo mesmo, refle-
tir sobre sua vida e se conhecer melhor.

Quando toda a ilusão do mundo se quebrar e se es-


vair, não se desespere. Agora você poderá encontrar
aquilo que é real além de qualquer véu de miragens
mundanas.

Quando você perder tudo e nada mais te sobrar, não


se desespere. Esse é o momento em que você pode
encontrar a si mesmo.

Sempre que o manto das fantasias e dos sonhos da


vida mundana se romper, você tem uma chance de
enxergar e viver a realidade tal como ela é.

Então, quando você perder algo e não souber mais o


que encontrar, procure refletir se não é a vida te aju-
dando a romper todos os véus que cegam tua visão.

67
O BOM E O MAU

O que é bom e o que é mau em nossa vida?

A maioria das pessoas passam pela vida sem questi-


onarem a si mesmas o significado dos opostos bem e
mal, certo e errado, positivo e negativo, etc. Vamos
nessa oportunidade explicar vários pontos relacio-
nados a existência do bem e do mal na vida humana,
para que cada pessoa possa compreender melhor
esses temas que são universais em nossa cultura.

O primeiro ponto diz respeito as noções de bom e


mau como algo relativo e condicionado, que existem
dentro de uma visão humana, mas que são inexisten-
tes na realidade espiritual. Consideramos algo bom e
algo mau dependendo de nossos valores, crenças, de
nossa moral, de nossa religião ou de qualquer código
que consideremos verdadeiro. Uma doença pode ser
considerada algo muito ruim, mal e negativo do
ponto de vista humano, mas de uma perspectiva es-
piritual uma doença pode ser algo extremamente
positivo, pois nos liberta de uma série de limitações
mentais e abre nossa vida para novas perspectivas. A
perda de um emprego pode ser considerada algo
péssimo e desastroso, mas para o espírito, é algo
sublime e libertador. Não sentimos dessa forma, pois
estamos trancados na matéria, mergulhados em ilu-
sões e abarrotados de conceitos sociais e culturais. O
fim de um relacionamento pode ser péssimo para a
pessoa, mas ótimo para o espírito e para seu avanço
espiritual, pois impõe o desapego e a libertação de
certas prisões emocionais que cultivamos em relação
àquela pessoa. O bem e o mal também são definidos
em termos de códigos religiosos, mas nem sempre o

68
que as religiões julgam como mal ou pecaminoso de
fato é assim. Cada religião pode ter definições dife-
rentes do que é bom ou mau: a homossexualidade
pode ser considerada pecado em algumas formas de
cristianismo mais ortodoxas, já no Budismo, a ho-
mossexualidade em si mesma não é impedimento no
caminho da iluminação. Fora da esfera religiosa, o
que é bom para uma pessoa pode não ser para outra.
O que é bom para uma época pode não ser para ou-
tra. O que é bom numa cultura pode não ser na outra.
E assim poderíamos estender ao máximo muitos
exemplos que demonstram serem as noções de bem
e mal sempre relativas ao sujeito que as observa.

O segundo ponto nos mostra o quanto algo conside-


rado mau num momento de nossa vida pode depois
se transformado em algo bom e vice versa. Quantas
situações que numa época de nossa vida nos pare-
ciam devastadoras e na época seguinte pensamos:
“Foi ótimo tal situação ter ocorrido, pois consegui
reconstruir minha vida de outra forma”. Ou quando
pensamos “Foi bom o término desse relacionamento,
pois aquela pessoa não me fazia bem” Ou quando
admitimos que “aquele antigo emprego me tomava
muito tempo e agora que fui demitido e estou traba-
lhando em outro lugar, posso me dedicar mais a mi-
nha família”. Todas essas situações deixam claro que
tudo aquilo que parece ruim, mal, desastroso num
certo período de nossa vida, passa a ser encarado
como algo bom, positivo e renovador em outro mo-
mento. As ilusões de uma época podem ser quebra-
das pelo que consideramos mal e posteriormente
serem tomadas por algo que, no final das contas, foi
positivo. São muitas as situações que podem ser más
num momento e depois se transformarem em algo

69
bom. Por exemplo, (1) a perda num momento pode
se transformar num ganho posterior; (2) o afasta-
mento de certos falsos amigos pode ser considerado
ruim, mas nos faz descobrir os poucos amigos ver-
dadeiros; (3) a disciplina paterna pode nos desagra-
dar na infância, mas nos transformará numa pessoa
correta na idade adulta; (4) os estudos da escola
podem ser desgastantes, penosos e chatos, mas serão
a chave para a entrada na universidade; (5) o fim de
um relacionamento pode nos ajudar a encontrar
outra pessoa com maior afinidade conosco; (5) uma
doença pode nos tirar do ritmo estressante do tra-
balho e nos permitir reavaliar nossa vida e pensar
um pouco mais em nós mesmos; (6) uma doença
também pode nos obrigar a mudar certos hábitos e
nos tornarmos uma pessoa mais saudável; (7) uma
pessoa que nos fere com palavras duras, mas verda-
deiras, pode nos abrir os olhos sobre alguma faceta
autodestrutiva de nossa personalidade; (8) uma
mentira descoberta pode nos causar muito mal estar,
mas a queda da mentira nos coloca diante da ver-
dade (9) a iminência da morte pode nos tornar mais
humanos, pode nos aproximar de nossa família, pode
nos ajudar a resolver certas questões em nossa vida,
pode nos inspirar à solidariedade, ao amor e à paz.
São muitas as situações que nos causam dor, mau
estar, cólera, mágoa, tristeza, sofrimento, etc, mas
que depois nos elevam, nos abrem os olhos, nos co-
locam frente a frente com a verdade, nos renovam,
ou nos fazem renascer.

O terceiro ponto deixa claro que o bom e o mau não


vem do prazer ou conforto gerado, mas sim de uma
vivência mais real da existência. Isso significa que o
ser humano interpreta como sendo bom tudo aquilo

70
que lhe gera prazer, conforto, satisfação, etc. Obvia-
mente, o que é prazeroso nem sempre pode ser con-
siderado bom, pelo contrário: muitas vezes o prazer
pode ser um caminho para nossa perdição espiritual
e um mergulho mais acentuado nas ilusões do
mundo. Por exemplo, um viciado pode fazer uso de
uma substância qualquer e sentir um imenso prazer
com seu uso. Essa substância pode gerar um deleite
corporal, uma euforia emocional, uma viagem in-
terna de puro gozo mental. No entanto, todos sabem
que muitas substâncias podem causar vícios quími-
cos e psicológicos, a ponto de tornar a pessoa total-
mente dependente. O que é maravilhoso para o vici-
ado após a ingestão da substância, pode se tornar um
inferno no futuro. O vício muitas vezes é um caminho
sem volta e pode destruir totalmente a vida de uma
pessoa. Em outro exemplo, uma pessoa pode gostar
muito de fazer sexo e deleitar-se nesses prazeres por
bastante tempo. Sempre que desejamos muito uma
coisa, como por exemplo o sexo, a tendência humana
é sempre a de se fazer um esforço para reproduzir
essa mesma experiência prazerosa no futuro. Tudo o
que é bom, obviamente, queremos que continue
acontecendo e nos gerando aquele prazer. No en-
tanto, muitas vezes não encontramos o prazer da
forma como gostaríamos, seja pela ausência de um
parceiro, seja por alguma doença que nos incapacite,
ou por qualquer outro motivo e isso pode nos causar
carência, revolta, insatisfação, desejo reprimido, etc,
de modo que o prazer que antes era motivo de con-
tentamento, depois acaba se tornando algo que pre-
cisamos muito, que nos falta, que nos cria uma au-
sência e, da mesma forma, o que antes era bom,
passa a ser considerado algo ruim; passa a ser um
problema quando o bom não está mais a nossa dis-

71
posição como antes. Tudo aquilo que nos faz bem e
gera prazer, quando não temos, acabamos sofrendo
pela falta, e isso nos gera decepção, desgosto, frus-
tração, sensação de fracasso, etc. O que antes era
prazer, depois acaba se transformando em dor. E
podemos dizer que, quanto maior o prazer, maior
será a dor pela ausência do prazer. Por isso, é fato
que o bom não está no prazer, posto que se assim
fosse, o prazer não geraria a dor da perda do prazer
e uma ausência que sempre fica em nosso interior
pelos momentos de prazer que não podem mais ser
vividos. Por isso, o prazer é sempre algo efêmero,
passageiro e ilusório: quem busca o prazer como
sendo algo bom vê-se na posição futura inexorável
da perda desse bom, e consequentemente, do bom
transformar-se em mau, em angústia, em privação.
Quando consideramos o bom sempre tendo como
fonte os prazeres do mundo acabamos caindo numa
posição de erro, posto que o mundo é ilusório e
nunca vai nos satisfazer. O ser humano quer sempre
mais e mais, e esse “querer mais” é um sofrimento
por si mesmo, ainda mais quando o desejo não pode
ser saciado e surge a falta. A busca pelo prazer é
também uma imensa perda de tempo para o espírito,
posto que na vida espiritual não existe nem prazer
nem dor, mas sim uma busca pela eterna essência da
vida. Por esse motivo, tudo que é bom no mundo não
é necessariamente bom para o espírito.

O quarto ponto nos mostra como algo que conside-


ramos mau pode ser o agente de nossa transforma-
ção. Dentro dessa visão, o mal nada mais é do que o
bem ainda não visto, não compreendido ou não re-
conhecido. Um bom exemplo é a estória da vacina e
da criança. O ato de tomar uma vacina com agulha

72
pode ser considerada abominável para a criança, que
não compreende a razão de seus pais estarem lhe
causando aquela dor. Mas a vacina que a criança
toma nada mais é do que o processo de imunização
de doenças futuras. A dor da vacina é o livramento
de enfermidades que iriam acometer a criança. En-
quanto a criança vê a vacina como algo dolorido e
sem sentido, o pai vê como a cura e o alívio de pro-
blemas futuros. Tanto a criança quanto o pai tem
perspectivas diferentes sobre o bom e o mau para a
criança. A criança parece correta de seu ponto de
vista e o pai está correto também numa perspectiva
de maior experiência de vida e conhecimento. Da
mesma forma, o que as pessoas veem como mal, so-
frido, ruim, catastrófico, difícil, espinhoso nada mais
é do que a cura de enfermidades espirituais. O que
ocorre quando a criança resiste à vacina? Não há
dúvida que o pai vai obriga-la a tomar, pois sabe que
é o melhor para ela. Nós somos como essa criança
que resiste à vacina que nos conduzirá à cura…
Quanto mais nos debatemos evitando o “mal” da
vacina, mais prolongamos o sofrimento de forma
desnecessária, um sofrimento de agora que será a
cura para o nosso espírito no futuro.

O quinto ponto nos mostra o quanto o que conside-


ramos mau pode ajudar em nossa libertação e des-
pertar espiritual. A maioria das pessoas desconhece
esse fato, mas muitas situações que interpretamos
como péssimas, desesperadoras e sofridas nos vem
para nossa livramento espiritual. O adulto pode lem-
brar de sua infância e com alívio reconhecer que:
“Foi ótimo quando meu pai me tirou à força do meu
quarto, pois eu ficava o dia todo brincando com meus
bonequinhos e vivia num mundo que eu mesmo ha-

73
via criado. Assim que perdi meus bonequinhos, eu
sofri muito, chorei, esperneei, mas depois pude sair
da prisão do meu quarto e comecei a ir na rua brin-
car. Assim que fiz isso, tive muito mais liberdade,
comecei a brincar com outras pessoas e estava real-
mente livre, e não preso apenas no meu mundo.” O
ser humano atravessa um processo semelhante a
essa criança. O mal vem para que a pessoa saia da
prisão de sua consciência, e passe a sair do “quarto”
de seus limites mentais, correndo livremente pelos
“campos infinitos do espírito”. Aqui podemos obser-
var claramente que bem e mal existiam apenas em
nossa consciência, mas não na realidade. Bem e mal
são estados passageiros que dependem sempre de
uma referência limitadora daquilo que é bom e da-
quilo que é mal. Para o espírito, não há bom nem
mau, há experiências que nos fazem despertar.

O estar mal é apenas um ponto de vista humano, que


não considera uma visão maior e abrangente da his-
tória daquela alma. O mal de agora pode se trans-
formar em bem… e o bem de agora pode depois se
tornar mal. Mas bem e mal nada mais são do que
estados ilusórios que dependem de um observador
externo que os caracteriza como tal. Além disso, o
mal nada mais é do que o caminho do bem. O mal é
como aquele extremo cansaço e desespero ao escalar
uma altíssima montanha, mas que nos conduz a uma
visão panorâmica do mundo a nossa volta e nos
deixa mais próximos do céu. Para a alma há o ser… e
apenas o ser; há o atravessar experiências visando
seu desenvolvimento. Como tudo é experiência que o
faz avançar em espírito, tudo é bom, mesmo que
consideremos “mau”. Ninguém deve esquecer que o
sofrimento se transforma em benção, as trevas aju-

74
dam a acender nossa luz, a dor nos purifica e o ódio
se transforma em amor. De igual maneira, a morte,
que muitos consideram como a pior coisa da vida
humana, não é o fim… mas o começo de uma nova
vida.

75
FORÇA INTERIOR

Há alguns séculos, um escravo trabalhava para um


grande feudo. Seu trabalho consistia basicamente em
carregar grandes quantidades de mantimentos de
um ponto a outro. Era um trabalho muito desgas-
tante, que o consumia demais.

Certo dia, já exausto de carregar sempre mantimen-


tos tão pesados, ele abaixou os sacos e ajoelhou-se…
Orou fervorosamente a Deus pedindo que seu fardo
fosse diminuído.

Nesse momento, um anjo desceu do céu e o saudou.


Ele ficou muito feliz com a presença do anjo e disse:

– Ser angelical, por favor me ajude a conduzir essa


carga diária tornando-a mais leve, para que eu possa
realizar meu trabalho com menos esforço.

O anjo respondeu:

– Dar-te-ei uma benção muito melhor. Eu te ofereço


mais força para que você consiga superar seus limi-
tes e atingir sua meta diária de trabalho. Assim a
carga que você conduz lhe parecerá menos pesada.
Se Deus diminuísse o peso de sua cruz, a próxima
dificuldade que você fosse enfrentar lhe causaria o
mesmo problema, e você sentiria novamente o peso
do seu fardo. Por isso, é melhor você se tornar mais
forte, pois sendo assim todo fardo lhe parecerá mais
leve. Cada adversidade da vida nos obriga a extrair
forças de nosso interior, e esse é um dos objetivos
das provas que Deus nos proporciona. Portanto, ao
invés de pedir uma carga mais leve, peça sempre

76
mais força para carrega-la. Esse é um pedido que
agrada a Deus, pois o objetivo de todas as provas da
vida humana é tornar os seres mais fortes interna-
mente, superando seus limites, e, com isso, torna-los
mais sábios.

O homem entrou dentro dele mesmo e começou a


sentir uma força interior brotando do âmago do seu
ser. Ele pegou novamente a carga, e sentiu que agora
o peso parecia mais leve. Isso o permitiu conduzir os
mantimentos de forma mais eficaz até o seu objetivo.

77
DESTINO E ESCOLHA

Você não pode evitar de ter limites, mas pode criar


as condições para supera-los.

Você não pode evitar a tempestade, mas pode se


abrigar quando a chuva vem.

Você não pode evitar que alguém te agrida, mas pode


buscar a tranquilidade quando isso ocorre.

Você não pode evitar uma ou outra queda durante a


vida, mas pode se levantar sempre que cai.

Você não pode evitar a passagem do tempo, mas


pode se adaptar a uma nova época.

Você não pode evitar o envelhecimento, mas pode


adquirir a sabedoria das experiências de vida.

Você não pode evitar que seus filhos cresçam, mas


pode prepara-los para a vida.

Você não pode evitar que outros te julguem, mas


pode conduzir sua vida sem se preocupar e sem so-
frer com a visão dos outros sobre você.

Você não pode evitar que outros falem mal de você,


mas pode não dar importância e seguir em frente.

Você não pode evitar de errar, mas pode aceitar suas


imperfeições e aprender com seus erros para que
eles não mais se repitam no futuro.

78
Você não pode evitar que uma ou outra coisa dê er-
rado, mas pode buscar consertar tudo o que você
considera incorreto.

Você não pode evitar que existam muros no cami-


nho, mas pode pula-los ou contorna-los para conti-
nuar no caminho.

Você não pode evitar de, por vezes, seguir caminhos


falsos, mas pode avistar e mudar de direção esco-
lhendo novos caminhos.

Você não pode evitar que as pessoas morram, mas


pode aceitar a morte como parte da vida.

Você não pode evitar de morrer, mas pode, com toda


certeza, escolher viver.

E por fim… Você não pode evitar as turbulências da


vida, mas pode escolher cultivar a paz de espírito.
Como diz a máxima: o que uma pessoa te faz, é o
karma dela; a forma como você reage, é o seu karma.

Não importa o que te aconteceu, o que importa é o


que você faz a partir do que aconteceu.

Não são as circunstâncias da vida que nos fazem mal,


mas sim a forma como nos posicionamos a elas.

Você não controla o que te acontece, mas pode con-


trolar o que fazer a respeito.

Escolha, portanto, viver em paz… viver em plena paz


de espírito.

79
NOSSO EGOÍSMO

Era uma vez uma mulher de meia idade chamada


Maria das Dores.

Maria tinha muitos problemas na vida, e não sabia


lidar com eles. Seus filhos brigavam com ela, seu
marido se divorciou, ela tinha frustrações profissio-
nais, tinha doenças diversas e conflitos internos.

Maria ficava muito envolvida com seus problemas.


Sempre pensava muito em como solucionar seus
males, ficava apenas se preocupando com isso; pas-
sava a vida inteira, quase 24 horas do seu tempo
remoendo suas atribulações. Era sempre “eu, eu eu”;
“meus problemas, meus filhos, meu profissional, meu
casamento, minhas fraquezas”, etc.

Certo dia, uma amiga foi visitar Maria das Dores.


Após ouvir Maria fazer um relato pormenorizado e
detalhado que tudo que a incomodava, a amiga disse:
Maria, você precisa parar de ficar pensando apenas
nos seus problemas. Perceba como esse é um com-
portamento um tanto egocêntrico, pois parece que só
existe isso no mundo. Venha comigo hoje visitar uma
instituição.

Maria não queria ir, pois se sentia desgastada de


tanto pensar em seus contratempos, mas acabou
aceitando o convite. Lá chegando, viu que se tratava
de um hospital psiquiátrico público, e encontrou
muitas pessoas em situação de profundo desespero.
Homens e mulheres vivendo muitos sofrimentos
psíquicos, alguns impossíveis de serem definidos.
Maria conversou com vários e tentou ajuda-los.

80
No dia seguinte, a amiga levou Maria num asilo pú-
blico de idosos. Maria observou todo o descaso que
os velhinhos são submetidos por suas famílias, que
os abandonaram como se não mais prestassem.
Ela conversou, brincou e riu com muitos deles. Pela
primeira vez em sua vida, Maria sentia um alívio do
peso dos seus próprios problemas. No momento em
que tentava prestar auxílio a pessoas enfermas,
abandonadas, carentes e solitárias, ela não mais se
sentia tão envolvida pelas adversidades de sua pró-
pria vida.

Maria e a amiga frequentaram várias outras institui-


ções e organizações públicas e civis. Com o tempo,
Maria quase não se concentrava em suas dores, seus
conflitos, seus pesares. Ela havia percebido que es-
tava tão focada em suas próprias mazelas que quase
não conseguia enxergar a vida lá fora. A partir do
momento em que passou a olhar além e não ficar
apenas debruçada em suas questões e preocupações,
tudo começou a fluir melhor, e agora ela se sentia
bem e leve.

A amiga de Maria disse que uma importante lição


poderia ser tirada de tudo isso. A amiga resumiu da
seguinte forma:

“Nosso egoísmo em pensar apenas em nossos pro-


blemas aumenta muito a carga do nosso sofrimento.
Por outro lado, o nosso altruísmo em pensar mais no
coletivo diminui muito nossa carga, alivia o fardo e
nos ajuda na libertação dos nossos males.”

81
COMPARAÇÕES

Não te compares aos outros.


Não entre jamais no jogo da comparação.
Acaso a rosa vermelha vive a sonhar com a brancura
imaculada da rosa branca?
Ou a margarida do campo sofre invejando a fragrân-
cia do lírio?
A comparação é a mãe de muitos sofrimentos desne-
cessários.
Quem se compara com aos demais, vive sofrendo por
aquilo que lhe parece faltar.
Desejamos ter o que o outro tem; fazer o que o outro
faz; ser o que o outro é.
Mas cada pessoa é única nas profundezas de uma
singular individualidade,
E nisso reside a riqueza e a beleza da vida.
Como seria a sociedade humana se todos seguissem
uma criação de modelo ideal?
Onde estaria a diversidade se todos se guiassem pela
propaganda do igual?
Não compare duas crianças, colocando a outra para
baixo,
Dizendo “fulano é bom, e você está sendo mau”.
Preserve suas crianças do cruel jogo da comparação.
Sociedades mais avançadas entenderão o grosseiro
erro de comparar duas crianças,
Pois cada qual tem suas qualidades, suas virtudes,
seu papel e sua missão.
Seria como comparar o jacaré com a cobra,
Cada um tem seu papel na imensa cadeia do ciclo da
vida.
Toda comparação visa um modelo ideal que, em es-
sência, é falho.
Posto que serve apenas para uma época, um padrão

82
e algumas circunstâncias.
A comparação fará parecer que uns são superiores
ou inferiores a outros,
Mas você não é superior e nem inferior a ninguém.
Cada pessoa vive etapas distintas dentro das experi-
ências que escolheu para si mesma.
Quando te comparas a outros, desconheces suas fe-
ridas, suas mágoas, suas fraquezas,
A comparação se faz apenas pela superfície das coi-
sas,
Que retrata apenas um fragmento do real.
Tens certeza de que alguém que parece bem, está
mesmo bem?
És capaz de penetrar nos meandros mais secretos do
coração humano?
Quem tu julgas no ápice da felicidade humana, pode
atravessar tormentas que nem fazes ideia.
Não desmereças o que você tem e o que você é.
Não dê tanto poder as aparências do outro, e nem
retire o poder de ti.
Tampouco fique desejando a queda do outro para te
sentires melhor.
Avança-te a ti mesmo mesmo, no caminho do desen-
volvimento, independente das aparências externas
de sucesso.
Não olhe para os lados, não se deixe desviar do teu
caminho focando-se em vias alheias.
Cada percurso é único em valor e profundidade.
Podes fraquejar na corrida da vida se vês todos a tua
frente,
E podes sentir-se exageradamente confiante e per-
der a corrida se vês outros atrás de ti.
Não olhe para os lados, pois ninguém veio ao mundo
para vencer outros,
Mas sim para vencer nossos próprios limites; para

83
vencer a nós mesmos e ir além.
Deixa de lado, portanto, o jogo da comparação,
Pois somente assim percorrerás a senda da vida com
equilíbrio e paz.

84
CRIAR EXPECTATIVAS

Não espere nada de ninguém…


Nem fique criando expectativas sobre a vida.
A expectativa é o primeiro passo para o sofrimento.
Quem fica esperando algo, não vive,
E quem vive, não fica esperando.
Quanto mais você espera de alguém,
Mais se decepciona quando o outro não corresponde.
A frustração é sempre proporcional as nossas expec-
tativas.
A vida nunca te prometeu nada, ela apenas é o que é.
Somos nós que projetamos nela sonhos e ilusões,
Que desde que foram criadas, já estão fadadas ao
fracasso.
Quem fica esperando retribuição, sofre mais por não
ser retribuído.
Quem fica esperando atenção, sofre mais por não
ganhar a atenção.
Quem fica esperando afeto, sofre mais por não rece-
ber o afeto esperado.
Criamos um ideal de como as coisas devem ser,
E ficamos sempre na expectativa de que esse ideal se
concretize.
Mas todo ideal é sempre destituído de realidade
Criar expectativas é abster-se do real e viver na ilu-
são.
O ideal é, por definição, inalcançável.
Nunca uma coisa estará exatamente como nós espe-
ramos,
A realidade estará sempre ao menos levemente dife-
rente do ideal.
O tolo cria muitas expectativas,
O homem comum ainda espera ao menos um pouco
da vida.

85
Mas o sábio, nada espera, e por isso, nunca se decep-
ciona.
Quem vive sem nada esperar ganha a cada segundo.
Quem vive esperando perde a cada segundo.
Quem não cria ideais e nada espera, vive melhor.
“Não espero nada, o que vier é lucro.”,
Este é o melhor lema para nossas vidas.
Esse se satisfaz com pouco, e esse pouco se torna
suficiente.
Quem não cria expectativas, não cai em desilusões,
Vive sem esperar pelos frutos de suas ações, e assim,
está satisfeito.

86
A ARTE DE VIVER

Um professor muito sábio e sensato começou a mi-


nistrar sua aula numa escola pública. Ele lecionava
para adolescentes de 14 e 15 anos. Antes de iniciar,
ele disse que hoje realizaria uma atividade diferente,
mas que não poderia ainda ser revelada aos alunos.
Logo após iniciada a aula, um dos alunos chegou 20
minutos atrasado. O professor virou-se, viu o aluno
sentando na carteira e perguntou com firmeza:

– Por que você chegou atrasado? Quero uma boa


explicação! – O aluno respondeu:

– Foi o trânsito professor. Estava todo engarrafado.


Outro aluno chegou meia horas depois do início da
aula, o professor fez a mesma pergunta. O aluno
disse:

– Eu moro muito longe professor. É difícil chegar na


hora.

Mais um rapaz chegou 40 minutos depois do início


da aula. O professor, de novo, fez a mesma pergunta.
O jovem respondeu:

– Tinha um bloqueio policial por onde o ônibus veio


professor. E isso atrasou a viagem.

O último aluno havia chegado 50 minutos depois de


iniciada a aula. O professor, dessa vez, foi mais firme
ainda na pergunta do porquê ele ter se atrasado. O
jovem ficou encabulado, olhou para baixo, pensou
por um instante e disse com toda a sinceridade:

87
– Desculpe professor, foi culpa minha. Eu dormi
tarde e não consegui acordar hoje, por isso me atra-
sei.

O professor ouviu o aluno e disse:

– Parabéns!

O aluno e toda a classe ficaram sem entender. O


professor explicou.

– Essa era a atividade surpresa que faria hoje com


vocês. Estou dando os parabéns a esse rapaz, pois de
todos que chegaram atrasados, ele foi o único que
admitiu a própria responsabilidade pelos seus atos.
Ele confidenciou a todos que dormiu tarde e por isso
não conseguiu acordar. Ele não jogou a culpa no
trânsito, no bloqueio policial ou na distância de onde
mora. Não deu nenhuma desculpa para se livrar. Ele
trouxe a responsabilidade para si e admitiu seu erro.
Os alunos ficaram calados e perplexos com a dis-
curso do professor. Ele concluiu:

– Prestem bastante atenção nisso que vos ensino


agora, pois admitir os próprios erros e não ficar cul-
pabilizando as pessoas, as circunstâncias ou o
mundo é o primeiro passo para o desenvolvimento e
o amadurecimento do ser humano. Quem culpabiliza
algo ou alguém tem tudo para se dar mal na vida,
mas quem não atribui culpas e traz a responsabili-
dade para si tem tudo para se sair melhor na arte de
viver.

88
Reflexão: Você costuma atribuir culpas a algo ou
alguém pelos seus erros, ou traz a responsabilidade
para si?

89
QUEM TUDO QUER

Quem quer tudo conquistar, acaba por perder tudo.


Quem quer dominar, acaba por ser o dominado.
Quem quer levar vantagem, acaba perdendo todas as
vantagens.
Quem quer as coisas somente para si, acaba por per-
der uma a uma.
Quem quer subir no topo do mundo, acaba caindo no
mais profundo abismo.
Quem quer chegar mais rápido, acaba por se perder
no caminho.
Quem quer ser melhor em tudo, acaba por ser o pior
no essencial.
Quem quer passar a perna no outro, acaba por levar
um grande tombo.
Quem quer vencer uma discussão de todas as for-
mas, acaba por perder a razão e a percepção.
Quem quer fazer tudo apenas do seu jeito, acaba por
fazer tudo errado.
Quem quer de todas as formas estar sempre satis-
feito, acaba por viver na insatisfação.
Quem quer passar uma imagem positiva sempre,
acaba por viver frustrado e incompreendido.
Quem quer agradar a todos todo o tempo, acaba por
viver mais para os outros do que para si mesmo.
Quem quer construir castelos e barreiras inquebran-
táveis neste mundo, acaba por ver sua vida desmo-
ronar.
Quem quer viver sempre na previsibilidade, acaba
por se chocar mais facilmente com o imprevisto.
E por fim, todos devem compreender que, aqueles
que querem ser tudo, acabam por serem nada.
Na vida, precisamos abandonar a ideia de onipotên-
cia, de poder, de mando, de conquistas totais.

90
Ninguém pode ser completo, necessário, absoluto e
irrestrito.
Entender nossos próprios limites, aceitar a vida, vi-
ver na realidade e buscar o melhoramento interior é,
com efeito, o melhor caminho que o ser humano
pode trilhar neste mundo.

91
SIMPLICIDADE DO VIVER

É difícil estudar? Pode ser ainda mais difícil viver


sem estudo.
É difícil fazer o bem? Experimente levar uma vida
fazendo o mal e sofrendo as consequências desse
mal.
É difícil divorciar-se? Pode ser ainda muito mais difí-
cil viver preso num casamento infeliz e vazio.
É difícil aceitar o outro? Pode ser ainda mais difícil
querer ficar impondo ao outro nossa maneira de
agir.
É difícil ser honesto? Pode ser ainda muito mais difí-
cil, com o passar do tempo, viver na desonestidade.
É difícil ser desprendido? Pode ser ainda muito mais
difícil viver preso, apegado e dependente a uma série
de coisas, pessoas e situações.
É difícil viver dentro da ordem? É muito mais difícil
viver em meio a desordem e ao caos.
É difícil encarar nossos problemas e se tratar? É
muito mais difícil viver doente, transtornado, ca-
rente e cheio de conflitos internos não resolvidos.
É difícil falar a verdade? É muito mais difícil contar
uma mentira e ter que ficar sustentando essa falsi-
dade por longos períodos.
É difícil viver em silêncio? É muito mais difícil viver
no barulho, na confusão e nos ruídos constantes de
nossa tagarelice interior.
É difícil ficar calado? É muito mais difícil falar boba-
gens, magoar alguém quando falamos sem pensar ou
falar sem medir as consequências de nosso discurso.
É difícil viver apenas com o necessário? É muito mais
difícil viver uma vida superficial, fútil e infeliz.
É difícil viver uma vida simples? É muito mais difícil
viver na extravagância, no vazio da sofisticação e na

92
carência de ter tudo e não ter nada ao mesmo tempo.
É difícil amar? É muito mais difícil viver uma vida
sem amor.
É difícil ser você mesmo? É muito mais difícil viver
como sendo o sonho de uma personalidade ideal e
falsa.
É difícil viver no real? Se você pensa que é muito
penoso e árduo viver no real, acredite… é muito mais
difícil e doloroso viver na ilusão…

93
PROVOCANDO SOFRIMENTO

Uma das verdades da vida, um axioma de sabedoria,


que muitas pessoas têm dificuldade de entender ou
não querem admitir, é a seguinte:

“Ninguém faz ninguém sofrer.”

Sim, é fato que ninguém provoca o sofrimento em


ninguém, pelo simples motivo de que todo o sofri-
mento nasce apenas de nossa própria condição psi-
cológica, emocional e espiritual. Cada pessoa sofre
sempre pelas suas próprias questões internas, por
sua predisposição ao sofrimento e não por que al-
guém lhe impingiu esse sofrimento.

É importante entender que estamos falando de so-


frimento e não de dor. A dor, no sentido orgânico do
termo, pode ser provocada pelo outro. Se um ban-
dido nos dá um tiro, vamos necessariamente sentir
dor. Mas se estivermos em paz com nossa consciên-
cia e tivermos fé inabalável em Deus, apesar da dor,
não haverá sofrimento pelo ocorrido. O sofrimento
somente ocorre quando nós mesmos o produzimos
com base em nossas imperfeições, em nossas expec-
tativas, em nossas ambições, em nossos desejos, em
nossas fraquezas, etc. Cada pessoa sofre por suas
próprias mazelas e limites. Essas fraquezas nascem
sempre da própria pessoa, jamais são criadas exter-
namente por alguém.

Vamos elaborar uma ilustração para que isso fique


mais claro. Imagine que uma pessoa tem uma ferida
no braço. Outra pessoa vem e toca nessa ferida. O
resultado não será outro senão a dor do toque na

94
ferida. Mas se a pessoa tocasse em nosso braço e não
existisse uma ferida, não haveria dor na hora do to-
que. Só há dor por haver uma predisposição nossa,
uma ferida, uma fraqueza de nosso ser na hora do
toque. O mesmo ocorre com o sofrimento. Se uma
pessoa consegue nos provocar algum tipo de sofri-
mento, isso significa que existe uma ferida dentro de
nós, uma fraqueza, uma predisposição interna que é
ativada.

Em outro exemplo, vamos imaginar um homem que


se apaixonou por uma mulher. Esse homem criou
uma série de expectativas em sua mente sobre essa
mulher. Ele gerou em sua mente um anseio em pos-
suir essa mulher para si. Seu desejo é ficar com ela.
No entanto, se ela diz que não o ama e quer ficar com
outra pessoa, ele naturalmente vai sofrer por isso.
Mas a causa do sofrimento não será o “não” da moça,
mas sim todas as expectativas que ele criou, seu an-
seio por tê-la, seu desejo romântico de namorar e
casar, sua imaginação solta criando situações e mais
situações que não poderão ocorrer na prática. É isso
que gera o sofrimento, e não a negativa da moça em
ficar com ele.

Portanto, não acredite que o sofrimento vem de al-


guém, ou de fora de você. Por mais que as ilusões do
mundo nos façam crer que o sofrimento é provocado
pelo outro, todo sofrimento sempre nasce de nós
mesmos.

95
NÃO SOU NADA

Um menino de 12 anos tinha voltado da escola aos


prantos. Seus pais estavam viajando e seu avô ficou
cuidando dele. O avô viu que o menino estava cho-
rando e foi falar com ele, perguntando:

– Aconteceu alguma coisa?

-Tive uma briga na escola – disse o menino meio


choroso – e um dos garotos fez pouco de mim, di-
zendo que eu não sou nada.

O avô pensou por um tempo de cabeça baixa. Depois


olhou para o neto e disse:

– Que bom que você é nada!

O menino olhou para o avô e disse para ele parar de


brincadeira, pois o assunto era sério.

– Eu estou falando sério! – Disse o avô enfatica-


mente. – Preste atenção no que vou lhe dizer agora:

– Muitas pessoas não compreendem isso, mas o


nada, ou o vazio, está presente em tudo que existe
em nosso mundo, e podemos até mesmo dizer que o
mundo não é mundo se não fosse o nada, ou o vazio.
Observe que um copo de água só tem utilidade gra-
ças ao espaço de vazio, ou de nada que existe dentro
dele, e se ele não tivesse esse espaço vazio, não po-
deria nele caber todas as coisas, nem água, nem coisa
alguma. Graças ao espaço vazio de dentro de uma
casa que as pessoas podem morar nela. Uma resi-
dência não seria útil se não possuísse um espaço com

96
nada dentro onde pudesse caber tudo. Uma flauta só
toca graças ao espaço de “nada”, de vazio que existe
no seu interior. Inclusive se em nossa casa estivesse
lotado de milhares de coisas, não teríamos espaço
nem para nos mexer, ou seja, não teríamos qualquer
liberdade. É justamente o nada ou o vazio que nos
permite a liberdade de movimento e de ser. É possí-
vel construir uma casa num terreno cheio de rochas,
por exemplo, ou temos antes de retirar tudo e criar
um espaço vazio para depois construir a nova resi-
dência? O nada ou vazio é o espaço que permite a
criação e a existência de algo.

Um copo cheio não cabe mais qualquer líquido, mas


um copo vazio pode conter qualquer tipo de líquido.
Com os seres humanos ocorre a mesma coisa: não
ser nada implica na liberdade de ser o que quiser-
mos. Pode-se mesmo dizer que se você não é nada,
então você pode ser qualquer coisa. Você tem infini-
tas possibilidades de ser o que quiser. Azar daqueles
que são alguma coisa, pois estes que são algo só são
esse algo e mais nada. Você não… Você tem um uni-
verso de possibilidades de ser, enquanto eles só tem
uma possibilidade. O nada é um infinito reservatório
de possibilidades e criação, além de ser um pré-re-
quisito para a liberdade.

O menino parou de chorar e ficou surpreso com as


explicações do avô. O senhor concluiu:

Então, quando alguém disser que você é nada, ou que


você é vazio por dentro, agradeça a essa pessoa, pois
mesmo sem saber, esse é um grande elogio.

97
COMO ENCARAR OS PROBLEMAS DA VIDA

Os seres humanos enfrentam problemas a todo mo-


mento. A vida humana parece ser uma eterna resolu-
ção de problemas. As problemáticas humanas encon-
tram-se tão arraigadas em nossa existência que para
muitos é impossível conceber a arte de viver sem
que elas estejam presentes. Nessa oportunidade va-
mos descrever sucintamente alguns aspectos da na-
tureza dos problemas humanos para que cada pes-
soa, em sua rotina, possa melhor lidar com eles:

Todo problema tem solução: Esse é o aspecto mais


importante que todos devem entender sobre os pro-
blemas humanos. A verdade é que todo problema
sempre tem uma solução, pois não podemos jamais
conceber um problema onde não exista uma solução.
Seria como imaginar uma porta sem maçaneta. Para
que serviria uma porta sem uma maçaneta? Seria
uma porta que jamais poderia ser aberta, e isso invi-
abilizaria sua própria existência e função de porta.
Há uma frase que diz “Ninguém faz cadeados sem
chave. Do mesmo modo, Deus não te dá problemas
sem solução.” Algumas pessoas dizem: Tudo tem
solução, só a morte que não tem solução. Mas esse
pensamento é um equívoco. De fato, a morte não tem
solução, mas ela não tem solução pelo simples fato
dela não ser um problema. A morte, que seria o fim
derradeiro da existência, é apenas uma passagem
para uma nova forma de vida. A morte no corpo fí-
sico é um renascimento no plano espiritual, assim
como o sol que “morre” no horizonte, mas sempre
renasce do outro lado do mundo. Assim como o dia
segue a noite, um problema sempre tem uma solu-
ção. Para cada lágrima há sempre um conforto, para

98
cada doença há sempre uma cura, para cada perda
há sempre um ganho, assim como para cada pro-
blema há sempre uma solução, mesmo que não a
enxerguemos. A solução pode não ser exatamente o
que desejamos ou esperamos, mas ela existe.

Nenhum problema é inútil: Assim como tudo em


nossa vida tem uma função, todos os problemas
sempre nos trazem algo. O problema é como uma
caixa com um código. Quando descobrimos seu có-
digo e abrimos a caixa, ela sempre nos traz um
aprendizado importante para nossa vida. Por exem-
plo, uma mulher cujos namorados sempre a deixam
no início do relacionamento. Ela não entende o mo-
tivo desse padrão. Mas refletindo sobre sua vida e
seu comportamento, ela descobre que desde o início
de seus relacionamentos ela tinha uma forte postura
de cobrança em relação aos namorados. Isso os sufo-
cava e eles a deixavam. Esse problema a ajudou a
enxergar que os términos vinham dessa cobrança e a
cobrança tinha origem numa carência que ela tinha
dentro de si. Depois ela pode descobrir que essa ca-
rência tinha como causa a indiferença de seus pais
em relação a ela mesma. A moça decide então que
precisa vencer essa carência para que possa enfren-
tar esse problema e não mais atuar com cobranças
excessivas. Isso significa que o problema que ela
enfrentou acabou sendo a chave para lhe revelar algo
de negativo que existia dentro de si. Assim, o pro-
blema a ajudou a enxergar melhor a si mesma e a se
tornar uma pessoa mais evoluída. Há um ditado po-
pular que diz “Quando Deus fecha uma porta, ele
abre uma janela”. Os problemas nunca são inúteis,
eles sempre têm um propósito para nossa vida. Eles
nos ensinam algo, principalmente a sermos pessoas

99
melhores. São também como cargas pesadas que
levamos, que nos obrigam ao exercício diário e nos
fazem mais fortes. O ato de desvendar um problema
contribui em nosso autoconhecimento. Nossa reação
diante de uma forte tempestade diz muito sobre
quem somos e nos ajuda a nos conhecer. Passamos a
conhecer nossos ser mais íntimo dependendo de
como nos posicionamos diante da tormenta, pois
enquanto uns saem correndo amedrontados, outros
se tranquilizam e buscam uma solução. Portanto, os
problemas da vida são nossos maiores professores,
eles nos ensinam muito sobre a vida e principal-
mente sobre nós mesmos. Por isso, todo problema
tem sempre um significado profundo em nossa vida.

Criar um Problema: Isso é muito comum de aconte-


cer. Muito daquilo que nós consideramos um pro-
blema é na verdade um problema falso, um problema
que nós mesmos criamos. Problemas podem ser cri-
ados pela nossa excessiva sensibilidade, pelas nossas
feridas internas, pelas nossas crenças, por uma mo-
ral intransigente ou pela generalização de situações.
Existem várias formas de criar problemas. Por
exemplo, um homem, após um relacionamento fra-
cassado, internaliza uma crença de que nenhuma
mulher presta. Passa muito tempo e ele evita relaci-
onamentos por conta dessa crença. Anos se passam e
ele sente-se sozinho, carente e infeliz, pois não con-
segue mais se relacionar. Nesse caso não é um pro-
blema real, mas um problema falso, que ele mesmo
criou com base numa crença igualmente criada e
alimentada por si mesmo. Ele poderia ter outros re-
lacionamentos que fossem satisfatórios, mas sua
crença o impedia de conhecer outras pessoas e assim
ele mesmo criou seu problema e seu consequente

100
sofrimento. Esse tipo de situação é mais comum do
que a maioria pensa. Boa parte dos nossos proble-
mas somos nós mesmos que criamos.

A solução é mais simples do que pensamos: No


caso de existir um problema real e não um problema
falso ou imaginário, a solução de um problema é
quase sempre mais simples do que supomos. O ser
humano tem a tendência de sempre engrandecer um
problema, seja por simples medo ou por alguma
predisposição inconsciente. No entanto, ao se debru-
çar em sua solução, muitas vezes ele constata que
trata-se de algo mais simples do que se previa inici-
almente. O problema sempre parece mais grave
quando olhado de longe, ou quando fugimos dele. A
própria fuga de um problema pode aumentar seu
tamanho, pois quando o evitamos, ele parece crescer
em tamanho e periculosidade. Mas quando nos apro-
ximamos do problema visando resolve-lo de forma
franca e aberta, a solução quase sempre se desenrola
de um jeito mais tranquilo do que nos parecia a prin-
cípio. Sempre que você se deparar com um problema
procure refletir se você não está complicando algo
que em essência é simples.

Nossa sensibilidade aumenta o problema: Esse é


outro aspecto importante. Nossa sensibilidade diante
de um problema, assim como nossas tendências in-
conscientes baseadas em experiências prévias nega-
tivas quase sempre transforma algo menor em algo
maior, e nos induz a não resolução do problema.
Uma pessoa mais sensível sempre verá um perigo
adicional onde não existe. É como tocar numa ferida
em nossa pele. Se uma pessoa toca numa pele sem
qualquer ferida, não há dor, mas se essa pessoa toca

101
com a mesma intensidade numa pele onde há uma
ferida mais ou menos profunda, a dor será maior ou
menor dependendo da profundidade da ferida. A
influência do problema sobre nós também depende
da profundidade de nossas feridas interiores. Quanto
maior nossa sensibilidade apoiada nas feridas do
passado, maior será o tamanho do problema na ótica
da pessoa.

Sofrendo por antecipação: Esse é outro aspecto


muito comum no trato com os problemas. A maioria
das pessoas quando toma ciência de um problema, já
começa a sofrer por antecipação, antes mesmo dos
efeitos do problema se abaterem sobre ela. Algumas
vezes nem sabemos se o problema é real ou vai se
concretizar e já começamos a sofrer. Nesse caso, cri-
amos um problema antes do problema se instalar. A
própria antecipação do sofrimento já se torna um
problema em si mesmo, um problema adicional que
não existia até então, mas que pode causar efeitos
até mais devastadores do que o problema em si. Por
exemplo, uma suspeita de doença no coração. A pes-
soa já começa a sofrer mesmo antes de saber se ela
tem mesmo um problema no coração. Já começa a
chorar, a ficar deprimida, a não querer sair de casa, a
faltar no trabalho, a sentir angústia, etc. Ela nem sabe
ainda se sua doença tem cura, mas ela já começa seu
sofrimento antecipado que, como dissemos, muitas
vezes é pior do que o sofrimento do próprio pro-
blema.

Um problema que esconde outro: Isso também


ocorre muitas vezes. Quando não queremos aceitar a
existência de um problema, criamos outro que serve
como proteção para não resolvermos o problema

102
maior. Esse é o caso de casais que brigam por pe-
quenas coisas, detalhes sem importância, para não
terem que mexer na “caixa preta” do relacionamento
que oculta o real problema. Muitas pessoas preferem
mergulhar em problemas pequenos para deixarem o
problema grande intocado. Algumas sentem-se irri-
tadas pelo problema maior, mas ao invés de encara-
lo, tentam resolver o problema menor acreditando
que ele é a real ameaça. É preciso não se enganar
com relação ao problema maior, a fim de não ficar-
mos perdendo tempo com os problemas menores e
sem muita importância.

“O que não tem remédio, remediado está”: Esse


provérbio popular é muito importante e merece ser
citado aqui. Todo problema tem solução, mas se por
acaso existir algum problema insolúvel, não há o que
fazer a respeito, e nesse caso, ele já está solucionado.
Não há o que se preocupar com problemas insolú-
veis, pois nesse caso a única coisa que resta fazer é
aceitar as coisas como são. Não há motivo para preo-
cupações, para sofrimentos, para dores, para deses-
pero. Se não há solução, o que fazer? Nada pode ser
feito, portanto, já está solucionado. Quando você
perceber um problema que aparentemente não tem
solução, é assim que as coisas devem ser, consequen-
temente, apenas aceite, e não haverá mais um pro-
blema.

Acostumar-se com um problema: Aquela situação


problemática vivida durante anos ou mesmo décadas
pode criar em nós um certo costume, ou mesmo uma
zona de conforto que nos impede de seguir em
frente. As circunstâncias do problema nos afetaram
por tanto tempo que não conseguimos mais nos en-

103
xergar sem ele, é como se o problema já fizesse parte
de nossa identidade, do nosso modo de ser. Algumas
pessoas podem até mesmo se recusar a resolve-lo
para não saírem da zona de conforto a que estão
acostumadas, que é cômoda, segura e onde há ga-
nhos secundários. Conheci uma pessoa rica que so-
fria há mais de 15 anos com o transtorno do pânico.
Ela começou a fazer uma terapia e logo iniciou um
processo de melhora. Porém, quando sentiu que es-
tava melhorando e que a partir de sua reabilitação
deveria passar a cuidar de si mesma, e não mais re-
ceber o amparo dos pais e dos enfermeiros que a
assistiam, ela claramente hesitou, largou a terapia e
não quis assumir a si mesma. Isso ocorre com muitas
pessoas que passaram anos mergulhadas em um
problema e que não conseguem mais ver como seria
sua vida sem ele. Essa reformulação de vida sem
aquele problema pode ser um passo difícil que mui-
tos se recusam a dar.

104
AS PARTES PERDIDAS

Havia um homem que não estava feliz com sua vida.


Sentia-se muito triste e vazio. Na hora de dormir, fez
uma oração a Deus pedindo uma orientação sobre o
que fazer para se tornar uma pessoa mais feliz, mais
integral, sem esse vazio que sentia.

Apagou a luz, deitou-se, e assim que fechou os olhos,


ouviu uma voz dizendo:

“Para preencher esse vazio, recupere as partes per-


didas de sua alma”.

O homem não compreendeu a mensagem e julgou se


tratar de um capricho de sua imaginação.

O homem dormiu e começou a sonhar… Sonhou que


estava num campo esverdeado muito extenso, onde
caminhava livremente. De repente, viu uma luz
saindo de dentro dele. O homem sentiu que essa luz
era sua própria essência, sua energia mais profunda,
sua vida ou sua centelha cósmica… em outras pala-
vras, era seu próprio ser. Essa luz se dividiu em mirí-
ades de luzes e foi pousando em diversos lugares
diferentes daquele imenso campo.

Nesse momento, o homem sentiu uma imenso vazio,


que entendeu ser a ausência de si mesmo, e saiu cor-
rendo pelo campo em busca daquela luz. Viu então
sua mãe passando pelo caminho portando um peda-
cinho da sua luz. Lembrou-se do quanto sentia sau-
dade de sua mãe já falecida e percebeu que uma
parte de seu ser “morreu” quando ela partiu. Depois

105
viu sua ex-esposa, que o deixou por outro homem, e
percebeu também um pedacinho de sua luz com ela.

Nesse momento, o homem sentiu o quanto sua ex-


esposa lhe fazia falta e o término do casamento havia
deixado um buraco em seu peito. O homem então foi
se deparando com várias cenas diferentes: com as
humilhações que sofreu na escola, que também ha-
viam tirado um pouco de sua alegria de viver. Essas
crianças da escola também estavam com uma parte-
zinha de sua luz. O chefe que o demitiu injustamente
também estava portando um fragmento da sua luz.
As meninas que o haviam rejeitado igualmente esta-
vam de posse de uma pequena porção de sua luz.

Depois disso, o homem começou a ver que sua luz


estava distribuída por milhares de lugares e situa-
ções diferentes: traumas de infância, apegos, praze-
res quiméricos, saudades, desejos não satisfeitos, sua
fixação na comida, na cerveja, as horas que perdia
com jogos e situações inúteis, suas raivas, seus me-
dos, suas mágoas, suas carências, tudo isso estava
roubando dele a luz que antes residia em seu inte-
rior. O homem sentiu, assustado, que muitas partes
de si mesmo estavam distribuídas em milhares de
pessoas, lugares, situações e sentimentos diferentes,
e esse era o motivo de todo o vazio que sentia há
muitos anos. Todos os sonhos não realizados, os res-
sentimentos, as carências, as rejeições das pessoas,
as pessoas que ele amava, mas que se foram, tudo
isso havia ficado com uma pequena parte do seu ser.
Não que essas coisas tenham lhe roubado a si
mesmo, mas ele mesmo havia deixado um pouco de
sua luz perdida pelo caminho, no seu passado, em
todos os seus apegos, traumas e faltas. Seu ser estava

106
fragmentados em muitas partes, que haviam ficado
pelo caminho em decepções, apegos, sofrimentos e
ausências.

O homem sentiu que precisava reverter essa situa-


ção, e para isso o único caminho era recuperar todas
as “partes perdidas” do seu próprio ser. Ele preci-
sava agora retomar a luz de si mesmo que ficara per-
dida pelo caminho, presa em pessoas, situações e
sentimentos. Fez uma viagem de volta, e foi pegando
de volta todos os pedaços do seu interior que ficaram
distribuídos pelas areias do tempo. Foi resgatando a
si mesmo em todas essas miragens passadas, rea-
vendo as frações perdidas do seu ser em diversas
partes do mundo transitório e ilusório.

Quando conseguiu reassumir todas as partes de si


mesmo e traze-las de volta para si, o vazio em seu
interior sumiu. O homem passou a se sentir maravi-
lhosamente preenchido e livre. Sentiu um calor di-
vino em seu peito, que o fazia sentir-se mais íntegro.
Ele não estava mais preso em milhares de pessoas,
situações e sentimentos. Ele retomara a si mesmo em
pedaços do exterior e devolveu todas as partes per-
didas ao seu interior. Estava agora integral e pleno
de si mesmo.

Quando acordou, sentiu um bem estar maravilhoso.


Decidiu que nunca mais iria se extraviar nas ilusões
do caminho e jamais permitiria que partes de si
mesmo ficassem perdidas pelos recantos do mundo.

Reflexão: Onde estão as partes perdidas de ti


mesmo? Recupere-as, pois só assim serás feliz.

107
BUSCAR DEUS SOMENTE NA DOR

De vez em quando vejo uma pessoa dizer:

Por que Deus somente nos ensina pela dor? Não seria
mais fácil aprender pela felicidade, pela satisfação,
pela alegria, pelo amor?

A resposta a essa pergunta é bem simples. Sim, seria


muito melhor que o ser humano pudesse aprender
pela felicidade, pelo amor, pela bondade, mas não é
isso que as pessoas fazem. Todos podem observar
isso em abundância na vida humana. Pare um pouco
e lembre nesse instante dos momentos da vida de
outras pessoas e da sua própria vida em que você
estava feliz, em que tudo corria bem, em que nada te
faltava, em que você estava satisfeito, alegre, com
seus desejos satisfeitos, ou seja, bastante confortável
na vida.

Qual é a postura de quase todas as pessoas quando


estão muito bem? A tendência é cada um ficar estag-
nado; é permanecer como se está, é não sair do lugar.
Vamos refletir: se um lugar está bom, confortável e
atende aos nossos desejos, queremos sair deste lu-
gar? Não… Desejamos permanecer nessa condição o
maior tempo possível. Quando nos encontramos em
condições favoráveis, não pensamos em nossa me-
lhora, não pensamos em ir além, não pensamos em
crescer, em evoluir, em nos desenvolver, em nos
libertar, em buscar alternativas, em olhar para nós
mesmos e nos descobrir…

Por exemplo, aquele jovem rico que tem tudo, tem


uma namorada linda, faz muitas viagens, come tudo

108
o que gosta, vive uma vida muito confortável, tem
muita energia para sair e curtir. Esse jovem vai de-
sejar buscar Deus, ou vai mergulhar num mundo
materialista, superficial, ilusório, de conforto e sa-
tisfação dos desejos passageiros? Mas quando esse
jovem começar a envelhecer, o que vai ocorrer? Ele
vai aos poucos perdendo toda a sua energia, pode
começar a ter várias doenças, se tornará mais de-
pendente dos outros, não poderá mais sair, viajar,
não será mais atraente para as mulheres, seus falsos
amigos podem abandona-lo, sua família pode não
procura-lo como antes, ele pode ficar carente e va-
zio… Pode ainda ser rico, mas já não poderá mais
usufruir o dinheiro e seus prazeres como antes.

Nesse momento, em que ele começa a perder tudo,


ele poderá começar a pensar em Deus e a entender
que a vida não é apenas a busca pelo prazer, festas,
viagens, tecnologias, sexo, etc. Quando nos depara-
mos com a inevitabilidade da morte, com a degene-
ração do corpo físico e com a carência, a falta e o
vazio, nossa perspectiva começa a mudar e passamos
a buscar algo que seja imortal, essencial.

Alguém faz esforço em observar a si mesmo, em se


autoconhecer, quando tudo está bem? Alguém pensa
em buscar a Deus quando o mundo nos provê todas
as necessidades materiais? Quantas pessoas buscam
a Deus na bonança? Quase ninguém… Mas quantas
pessoas buscam a Deus durante uma forte tempes-
tade? Quantas pessoas pensam que precisam se me-
lhorar quando estão de férias, fazendo sua viagem
favorita, com muito dinheiro no bolso? Mas e quando
perdemos tudo, não temos mais dinheiro, nossos
parentes e amigos morreram ou nos deixaram?

109
Nesse momento lembramos que existe um Deus, que
a vida não é apenas dinheiro, viagens, sexo, comida,
festas, redes sociais, conforto, etc. Nesse momento,
começamos a sentir necessidade de buscar algo que
o mundo não pode e nunca pôde nos oferecer… A
verdade é que o ser humano só busca Deus quando a
dor lateja, quando ele perde alguém que amava,
quando não tem mais dinheiro, quando não vê mais
saída, ou seja, quando o mundo já não pode mais lhe
oferecer aquilo que ele deseja.

Muitas pessoas só passam a se preocupar verdadei-


ramente com sua saúde após passarem por uma
grave doença. Depois que vem a dor da enfermidade,
elas fazem uma reflexão e decidem que, daqui em
diante, elas devem fazer exercícios, ter uma alimen-
tação mais saudável, cultivar hábitos positivos, ter
bons pensamentos, etc. O ser humano só busca se
melhorar com o dor… São poucos os que seguem o
caminho do amor quando estão bem e confortáveis
no mundo. Por isso os mestres costumam dizer que o
ser humano precisa perder o mundo para encontrar
a Deus e a si mesmo. O mundo abafa nossa essência
espiritual e precisamos recupera-la, pois a vida ver-
dadeira só existe em nossa natureza essencial, mas
profunda e divina.

É preciso que a inteligência da vida nos tire todas as


vestimentas ilusórias, todas as aparências, todos os
confortos passageiros, todos os desejos, todas as
posses… É preciso que tudo isso seja tirado para que
uma pessoa passe a buscar a si mesmo e sua essên-
cia. Como disse Jesus: “Toda a pessoa que bebe desta
água, voltará a ter sede. Mas aquele que beber da

110
água que eu dou nunca mais terá sede. A água que eu
dou se tornará numa fonte de água viva dentro dele.
Ela lhe dará a vida eterna”. (João 4:13-14) Jesus quis
dizer que quem vive bebendo o líquido das miragens
do mundo sempre terá sede, pois as benesses mun-
danas são uma uma ilusão, uma aparência, um so-
nho, uma fantasia. Mas quem bebe da essência da
vida, que é real e eterna, nunca mais sentirá qual-
quer falta, qualquer carência, qualquer tristeza,
qualquer vazio.

Essa é a resposta do motivo de Deus não nos ensinar


pela felicidade, mas pela falta, pela perda, pela dor,
pela destruição, pelo caos. Os momentos em que
tudo nos é favorável, tendemos a ficar paralisados e
não buscar nosso desenvolvimento… não nos liber-
tar deste mundo instável, de aparência, de ilusão.
Mas quando perdemos tudo que é exterior, começa-
mos a olhar para o nosso interior e buscar a essência
divina dentro de nós mesmos.

111
O CONSOLO APÓS A MORTE

É fato que o ser humano tem muita dificuldade de


aceitar a morte. Muitas pessoas me mandam mensa-
gens pedindo um consolo, uma palavra ou mesmo
uma psicografia de um ente querido ou amigo já fale-
cido. O sofrimento dessas pessoas pela “perda” de
alguém que muito amam parece não ter fim. Por esse
motivo, decidi escrever alguns dos principais pontos
a respeito da vida após a morte. Essas informações
podem ajudar algumas pessoas a enfrentarem com fé
e resignação a passagem de pessoas muito queridas.

O primeiro ponto que todos devem entender para se


consolarem com a partida de uma pessoa que ama-
mos é a verdade de que a morte, absolutamente, não
existe. É preciso que todos saibam que a morte é
apenas uma passagem, uma transição de um estado a
outro de existência. A morte nada mais é do que a
perda do corpo físico. Descartamos o invólucro car-
nal e passamos a existir apenas numa dimensão mais
sutil de realidade. Aquilo que somos lá no fundo e
que não depende do corpo físico para existir se con-
serva e vai ao plano espiritual. A morte é apenas uma
mudança de vibração. Costumo comparar a morte a
uma espécie de viagem que nossos entes queridos e
amigos fizeram. Uma viagem para um lugar distante
que nós ainda não podemos ir. Um dia, é certo que
vamos encontrar as pessoas falecidas que muito
amamos e ninguém deve duvidar disso. Por mais que
as impressões materiais possam nos fazer crer que a
vida se encerra com a morte, é certo que a vida con-
tinua sempre, em muitos níveis, fases, planos e esta-
dos da existência universal.

112
O segundo ponto fala da ausência de sentido caso a
morte fosse o fim de tudo. Isso significa que se a
alma humana se encerrasse definitivamente com a
morte, a vida não teria nenhum sentido. Imagine que
vivemos apenas um segundo da eternidade e mor-
remos, para nunca mais voltar, nunca mais existir.
Qual seria o sentido da vida se assim fosse? Seria
melhor que abraçássemos logo esse fim absoluto,
que seria nosso destino inexorável, do que permane-
cer na Terra apenas para gozar nossa condição ma-
terial. Portanto, se acreditamos que a vida tem um
sentido, jamais podemos aceitar a ideia do fim abso-
luto do ser. Por outro lado, se a morte representasse
a extinção completa de nosso ser, de nossa vida, do
nosso eu, essa morte seria o único fim absoluto de
alguma coisa em toda a natureza e universo. Isso
porque nada que é natural morre de fato, mas ocorre
apenas uma mudança de forma. A flor que morre
renasce como abudo da terra; a semente que morre
no solo nasce como planta; a lagarta morre como
lagarta e nasce a borboleta. Como diz Lavoisier,
“Nada se perde, tudo se transforma”. Tudo aquilo
que morre, renasce em outra forma. Essa é uma lei
natural que também vale para a alma humana. O
espírito também morre como forma para depois
aderir a outra forma. Como dissemos em um de nos-
sos escritos, morremos no plano físico, para renascer
no plano espiritual, da mesma forma que o sol
“morre” no horizonte num ponto da Terra e “nasce”
no outro lado do mundo. Portanto, não há morte… há
sempre continuidade da vida.

O terceiro ponto nos informa que a morte existe no


nascimento e o nascimento existe na morte e que
ambos são parte de um mesmo ciclo da alma. Da

113
mesma forma que a morte de uma pessoa é motivo
de lágrimas e saudade para aqueles que permane-
cem no plano físico, aqueles que permanecem no
plano espiritual também sofrem e sentem saudades
de nós quando nascemos no plano físico. O contrário
também ocorre: quando uma alma nasce na Terra,
ela é recebida com alegria e festa. Da mesma forma,
quando a alma morre no plano físico, ela é recebida
com alegria e festa no plano espiritual. Portanto,
assim como não há motivo para tristeza quando uma
alma nasce, também não há motivo para tristeza
quando ela morre, pois muitos espíritos que a amam
ficam muito felizes com sua chegada ao plano espiri-
tual. Aqui reside outro aspecto importante da
morte… Sempre acontece da alma que acabou de
desencarnar ser recebida no plano espiritual pelos
seus entes queridos espirituais, que o recebem com
todo o amor e carinho. As pesquisas com “experiên-
cias de quase morte” confirmam de forma clara esse
ponto. Esses espíritos foram pessoas que a alma
amou, ama e conviveu ao longo de sua existência
terrena e ao longo de muitas vidas passadas. Por
esse motivo, não há qualquer razão para sofrimento,
posto que, quando desencarnamos, as pessoas que
desencarnaram antes de nós estarão lá para nos re-
ceber e regozijar-se com nossa chegada à pátria espi-
ritual. Pessoas que acreditamos termos “perdido”
aparecerão nesse sublime momento de nossa che-
gada ao plano espiritual e nos receberão com todo o
amor e carinho.

O quarto ponto fala sobre a possibilidade de a alma


ficar presa a Terra e nos fazer muito mal. Já falamos
sobre isso em outro texto, portanto, não nos alonga-
remos nesse assunto. O que as pessoas precisam

114
saber é que não devem ficar prendendo mental-
mente um espírito junto delas, pois nesse caso, ela
pode se tornar o que no espiritualismo se chama de
um “espírito preso a Terra” e gerar muito mal aos
encarnados e a si próprio. É muito comum que uma
alma recém desencarnada fique presa a nós por
conta de nosso apego. Quando isso ocorre, ela pode
sugar nossas energias, assim como nos transmitir
toda a sua tristeza, confusão e até fazer com que fi-
quemos doentes e deprimidos. É necessário permitir
que a alma ascenda ao plano espiritual e não fique
aprisionada na matéria. Portanto, uma forma eficaz
de diminuir nossa dor é permitir a partida do espí-
rito que pode ter ficado preso a Terra. Em outro
texto de nossa autoria ensinamos uma técnica que
permite ao encarnado encaminhar o recém desen-
carnado ao plano espiritual. O nome da técnica é
“Encaminhando Espíritos”. Ela pode ser encontrada
no blog de Hugo Lapa. Pessoas que realizaram essa
técnica relataram sentirem-se aliviadas e mais tran-
quilas após sua realização. Isso se deve ao fato que o
desencarnado já não está mais conosco, nos transmi-
tindo sua tristeza e pesar.

O quinto ponto, e muito importante, é que a morte


nos ajuda a dissolver os apegos que temos diante de
algumas pessoas. Se uma pessoa não consegue viver
a sua vida após a morte de outra pessoa, significa
que ela se apoiava emocionalmente no outro, o outro
era seu sustento psicológico, seu alimento emocio-
nal, e ninguém pode ficar dependente assim de outra
pessoa. Por exemplo, quando um filho morre e uma
mãe não consegue dar continuidade a sua vida, sig-
nifica que essa mãe era totalmente dependente do
seu filho no sentido emocional. Ela estava presa a

115
esse apego e essa dependência emocional do filho.
Mas o desenvolvimento espiritual pressupõe o fim
de todos os apegos, o fim de qualquer dependência
emocional. Pressupõe que sejamos capazes de viver
sem nos apoiar no outro, sem descontar no outro
nossas carências, sem usar o outro como nosso ali-
mento emocional. Por isso, Deus leva momentanea-
mente as pessoas que amamos a fim de nos libertar
desse apego ao outro. Não vamos confundir amor
com apego. O amor mais puro, real, não é apegado,
não nos faz estar viciados no outro, necessitando de
sua presença conosco. O amor incondicional é aquele
que existe mesmo quando a pessoa amada está longe
e, mesmo sentindo saudade, aceitamos de bom grado
essa condição, pois não estamos presos ao outro.
Portanto, conseguem lidar melhor com a morte
aqueles que não cultivam nenhum apego. Ao contrá-
rio, aqueles que estão muito apegados, praticamente
não conseguem mais seguirem suas vidas sem o ou-
tro. É preciso amar sem posses, sem se anular pelo
outro, sem fazer do outro nossa vida. Dessa forma, a
passagem se torna muito menos dolorosa e não nos
prejudica.

O sexto ponto nos mostra que nenhuma vida pode


ser interrompida antes da hora, como as ilusões do
mundo podem nos fazer supor. Vejo muitas mães
dizendo que “perderam” seu filho “antes da hora” e
que ele ainda tinha muito para viver nessa vida não
fosse a causa de sua morte, como um homicídio, um
acidente de carro, uma doença que o acometeu, den-
tre outras causas de sua morte. Queremos declarar
aqui a verdade de que ninguém morre antes da hora.
Em primeiro lugar, é certo que não há interrupção da
vida, posto que a vida sempre continua e jamais se

116
extingue. Em segundo lugar, essa “interrupção” não
foi algo que ocorreu ao acaso, por acidente ou pela
força das circunstâncias, mas precisava acontecer.
Isso porque quando uma alma desencarna, sua mis-
são na Terra já se completou. Mesmo quando uma
pessoa é assassinada, ela só desencarnou porque sua
hora chegou, caso contrário, o assassino não conse-
guiria seu intento e algo daria errado. Uma alma só
deixa a Terra quando não precisa mais ficar aqui,
pois já passou por todas as provas e expiações que
necessitava e já cumpriu sua missão. Portanto,
mesmo um jovem de 15 anos que foi assassinado,
não teve sua vida interrompida pelo assassino. Ele
foi embora porque Deus permitiu que ele se liber-
tasse da matéria após o término de sua missão e das
provas que precisava suportar para evoluir espiritu-
almente. Seu tempo terrestre se esgotou e nada mais
havia para ele fazer na Terra.

Esse é um ponto bem difícil das pessoas compreen-


derem, mas é verdadeiro e também consolador.
Aqueles que tomam consciência de que as pessoas
apenas desencarnam quando terminaram suas tare-
fas terrenas para a vida presente, são mais resigna-
das e não cultivam dúvida ou raiva de certos aconte-
cimentos que consideramos como a causa da morte.
Por outro lado, mesmo pessoas mais jovens, até cri-
anças nos primeiros anos, têm uma missão a cumprir
e são úteis ao desenvolvimento espiritual de uma
família e em alguns casos até mesmo da coletividade.
É o caso de crianças em tenra idade que são violen-
tadas e assassinadas. As almas que passam por essas
tragédias, que tocam a sociedade, podem ser espíri-
tos missionários que vêm nos ensinar a importância

117
do amor, do perdão e vem sensibilizar a todos de que
é urgente uma transformação em nível global.

O sétimo ponto e um dos mais importantes é o fato


de que a morte nos mostra o quanto esse mundo é
transitório, efêmero e ilusório. O ser humano sempre
procurou negar a morte, pelo simples fato de que ele
é muito apegado ao mundo e seus prazeres. Acredi-
tamos que nós vamos viver eternamente nesse
mundo, que o outro vai ficar conosco até a velhice e
acabamos esquecendo da imprevisibilidade da
morte. Temos a ilusão de que a morte ocorre com os
outros, mas nunca conosco. Queremos acreditar que
vamos viver 100 anos e que nossa família nunca vai
morrer. Essa crença inconsciente vem do irremediá-
vel apego que temos diante do mundo das formas, da
matéria e dos prazeres. A morte é um instrumento
que Deus se serve para ir dissolvendo aos poucos
dentro de nós esse apego a matéria e as ilusões do
mundo. Por outro lado, a morte nos dá uma noção de
que não há tempo a perder, de que tudo que deve-
mos realizar, precisamos fazer imediatamente, sem
desvios e sem atraso. Portanto, a morte serve para
nos mostrar que essa vida aqui é somente uma pas-
sagem e que estamos apenas temporariamente re-
vestidos de matéria. De outro modo, uma pessoa que
amamos pode ir embora a qualquer momento e isso
é que nos move a dar-lhe o devido valor, a perdoar, a
aproveitar sua estada conosco e trata-la com amor e
carinho. Ninguém deve permitir que a raiva, as dis-
putas de ego, a soberba, as contrariedades, as rixas
pequenas e os problemas passageiros sejam causas
de brigas, pois o outro pode ir embora mais rápido
do que esperamos e a culpa de tê-lo maltratado e não
lhe dar valor pode nos torturar por anos.

118
DESEJO E SOFRIMENTO

Quando uma pessoa vem e diz que você é ruim, mui-


tas vezes isso te irrita porque no fundo você deseja
ser bom ou passar a imagem de bom.
Quando uma pessoa vem e diz que você é um mau
profissional, muitas vezes isso te afeta porque no
fundo você deseja ser um exímio profissional ou
quer passar essa imagem a outros.
Quando uma pessoa vem e diz que você é pequeno,
muitas vezes isso te aborrece porque no fundo você
deseja ser grande ou quer parecer grande perante os
outros.
Quando uma pessoa vem e diz que você é fraco, mui-
tas vezes isso te entristece porque no fundo você
deseja ser forte e poderoso ou quer transmitir essa
impressão aos demais.
Quando uma pessoa vem e te trata como subalterno,
muitas vezes isso te chateia porque no fundo você
deseja ser o chefe, o comandante, o líder, o destaque.
Quando uma pessoa diz que você é feio, pare e per-
ceba o quanto isso te abala possivelmente porque, no
fundo, você deseja muito ser visto como bonito, es-
belto, deslumbrante, garboso etc.
Todo sofrimento humano está baseado nessa sim-
ples regra: eu desejo, não tenho, (ou perco) me frus-
tro e sofro.
Eu queria ser algo, não sou, ou deixo de ser, e isso me
dói.
Se a pessoa não desejasse ser isso ou aquilo, ela não
sofreria por não ser isso ou aquilo.
Nossos desejos não satisfeitos criam o sofrimento
que nos tortura e nos degrada, nos apequena, nos faz
cair nas mágoas, frustrações e tormentos.

119
Quem não deseja ser alto, não sofrerá por ser baixo;
quem não deseja ser bonito, não sofrerá por ser feio;
quem não deseja ser santo, não sofrerá por ser pro-
fano.
Quem se aceita como é e tem fé na dádiva da vida,
evita muitos sofrimentos por conta de desejos não
satisfeitos, e não padece com as frustrações daquilo
que se desejou, se perdeu ou não se conseguiu.
Viva a existência universal com a graça daquele que
tem tudo, por nada desejar para si.
Como diz a máxima: quem perde seu telhado, ganha
o céu como teto, assim como as estrelas brilham den-
tro de sua residência.
Quem deseja suprir seus próprios interesses, sofre
com o maior mal do ser humano: o egoísmo.
Essa é a raiz de todo o sofrimento.

120
O APEGO

Quanto mais você se apega a uma pessoa, mais você


sofre com sua perda.
Quanto mais você se apega a algum bem, mais você
sente falta quando o perde.
Quanto mais você se apega a sua aparência, mais
você sofre com o envelhecimento.
Quanto mais você se apega a algum objeto, mais va-
zio você fica quando isso vai embora.
Quanto mais você se apega a um dogma, mais você
sofre por descobrir que essa suposta verdade era
falsa.
Quanto mais você se apega a uma situação, mais você
deixa de viver outras situações que poderiam ser
proveitosas.
Quanto mais você se apega a um sentimento (como a
raiva ou a mágoa), mais você vai repeti-lo dentro de
ti e mais essa emoção te domina.
Quando uma situação nos proporciona um prazer
repetido,
Isso pode gerar um apego que funciona como ali-
cerce psicológico em nossa vida.
Aquele que se apega facilmente, faz sua vida depen-
der do objeto de seu apego.
Apego é o caminho mais fácil: gera conforto, estabili-
dade e nos dá uma base… algo para nos segurar.
Mas trata-se de uma base falsa, pois tudo o que
existe, um dia chegará ao fim… posto que nada se
mantém eternamente.
Aquele que não imagina sua vida sem algo ou al-
guém, está seguindo rumo à infelicidade.
Nos apegamos a pessoas, a coisas, a situações, a
ideias e até a emoções.
Mas o maior apego é sobre nós mesmos.

121
Não queremos morrer, não queremos nos perder,
não queremos ser esquecidos.
Alimentamos o máximo nosso ego para sentir que
continuaremos existindo.
Tudo aquilo com que nos apegamos, ficamos com
medo de perder.
E o medo paralisa nossa vida, nos atrasa, nos prende
e nos desequilibra.
O apego é um dos maiores inimigos do ser humano…
ele sempre nos escraviza e nos submete.
O apegado diz: “Não posso viver sem isso”, “Não
posso viver sem aquilo”.
Quando nos apegamos, precisamos sempre de mais e
mais e nunca estamos satisfeitos.
Quem se apega a uma pessoa, quer sua presença a
todo momento e não consegue mais viver sem ela.
Quem se apega quer, de alguma forma, suprir uma
carência ou uma ausência dentro de si mesmo.
Mas é inútil, pois nossos apegos nunca poderão nos
preencher.
A fé na vida é, com efeito, o oposto do apego.
Quem tem fé, não se apega a nada, não precisa de
coisa alguma para se completar emocionalmente.
Aquele que coloca muitas coisas ao redor de uma
lâmpada, acaba abafando seu brilho.
Libere totalmente sua lâmpada, sua chama interior,
de tudo que a abafa.
Assim sua essência brilhará livremente.
Renuncie a todos os seus apegos, deixe de lado tudo
aquilo que te prende… Não há outro nome… isso se
chama liberdade.
Aquele que vive desprendido de tudo, sem depen-
dências, sem vícios, necessitando do mínimo possí-
vel…
Esse é muito mais feliz.

122
NÃO SE IMPORTE TANTO

Havia um homem que detestava barulho. Ele vivia


reclamando e brigando com o morador do aparta-
mento de cima, por ser um vizinho muito barulhento.
O que ele mais queria era ter um pouco de paz e que
o vizinho parasse com os constantes ruídos. Certo
dia, ele percebeu que não mais adiantava ficar sem-
pre estressado, pois nada iria mudar. Dessa forma,
decidiu não mais se importar com o barulho, e pas-
sou a concentrar sua consciência em outras coisas.
Com o tempo, os barulhos do vizinho foram dimi-
nuindo, até que praticamente não existiam mais.
Depois que ele parou de ficar bravo e dar valor ao
barulho, este cessou e nunca mais o incomodou.

Havia um rapaz que passou anos sofrendo bullyng


dos seus colegas de escola. Os rapazes caçoavam dele
pelas suas características físicas. Ele ficava bravo, se
deixava irritar e quase sempre saía do sério. O rapaz
queria muito que os colegas parassem de enche-lo,
mas não adiantava. Sempre que os colegas perce-
biam que ele se deixava afetar, eles aumentavam o
bullyng sobre ele. Certo dia, o rapaz decidiu que não
daria mais importância ao que os outros falassem. Os
colegas então falavam, zoavam, faziam pouco dele,
mas agora ele parecia não ligar. Aos poucos os meni-
nos foram parando com o bullyng, até que, num dado
momento, pararam de escarnece-lo em definitivo.

Uma jovem queria muito encontrar um homem e


casar. Esse sempre foi seu sonho, pois queria muito
constituir uma família. No entanto, o tempo passava
e nenhum dos seus relacionamentos vingava. Ela
estava muito carente e sentindo-se muito solitária.

123
Os anos escorriam sobre suas mãos e nada do ho-
mem da sua vida aparecer. Certo dia, ela parou de se
importar com isso e foi viver sua vida. Deixou de
lado a preocupação em ter alguém ao seu lado e pas-
sou a não se importar mais com isso. Certo dia,
quando menos esperava, conheceu um homem, se
apaixonou e logo depois de casaram.

Na vida humana ocorre assim: sempre que deseja-


mos muito algo, a ponto de depender de uma coisa
para viver, a vida pode bloquear por um tempo essa
situação. O querer excessivo, a neurose ou a irritação
por não conseguir algo, faz com que fiquemos presos
a essa situação por um tempo indefinido. É como o
inseto preso numa teia de aranha: quanto mais ele se
debate tentando se libertar, mais preso fica.

O mesmo ocorre com os seres humanos: quanto mais


batemos o pé, ou ficamos agitados e nervosos ten-
tando nos livrar de algo que nos incomoda, ou dese-
jando algo prazeroso e ideal de que necessitamos,
mais presos ficamos e mais bloqueamos nossa liber-
tação. Mas quando cessamos essa necessidade den-
tro de nós, tudo começa a fluir de forma livre e es-
pontânea. Isso acontece porque os planos de Deus
sempre pressupõe que não devemos nos importar
tanto com as coisas, a ponto de nos tornarmos de-
pendentes delas. Somente quando não precisamos
de alguma coisa, é que ela passa a acontecer natu-
ralmente.

124
QUANDO VOCÊ PERDER

Quando você perder seus brinquedos, você poderá


brincar com tudo.
Quando você não tiver mais uma casa, sua residência
será o lar planetário.
Quando você perder seu quintal, você terá o quintal
do mundo com todas as matas e florestas.
Quando você não tiver mais irmãos, todos os seres
humanos serão seus irmãos.
Quando você não tiver mais luz elétrica, o sol será
sua luz.
Quando a luz de sua vida física se apagar, você terá a
luz do seu espírito.
Quando você não amar apenas uma ou outra pessoa,
você passará a amar todas as pessoas e todos os se-
res viventes.
Quando você não tiver mais isso ou aquilo, você terá
todas as coisas.
Quando seu mundo for destruído, você ainda terá o
mundo real para ser seu.
Quando a luz de sua vida física se apagar, você ainda
terá a luz do seu espírito.
Quando você perder a si mesmo, você será tudo em
Deus.

125
NÃO LUTE

Tudo o que existe na vida humana é um conflito de


opostos.
Vivemos em conflito entre o que é e o que não é.
Uma eterna briga buscando o que desejamos e ten-
tando evitar o que não desejamos.
Uma luta contra realizar o ideal e deixar de lado tudo
o que se afaste desse ideal.
Um combate permanente entre como acreditamos
que algo ou alguém deve ser e como acreditamos que
não deve ser.
Sempre existe uma disputa mental entre o que de-
vemos e o que não devemos fazer.
Estamos sempre evitando a dor e buscando o prazer,
e nisso há uma tensão, um perene conflito.
Até mesmo em nossa mente é travada uma luta entre
pensamentos desejados e indesejados.
A própria natureza do pensamento é buscar algo.
E quando buscamos algo, há algo em nós que está em
falta.
Todo buscar implica em algo que não se possui,
E nessa busca sempre há um conflito em direção a
algo que se quer alcançar.
Aqui reside o problema: na busca há sempre o con-
flito;
No conflito existe sempre algo que se consegue e
algo que não se consegue.
Quando buscamos nosso desejo e conseguimos, fi-
camos felizes.
Então se inicia outro conflito: o medo de perder o
que já se conquistou.
E quando não se consegue o desejo, há o conflito pela
sensação da falta; pela ausência do desejo.

126
Quando estamos em repouso, ficamos entediados
para estar em movimento;
E quando estamos em movimento, ficamos cansados
e almejamos o repouso.
Não importa o que se faça; não importa o quanto se
esteja feliz ou satisfeito,
O conflito continua existindo, de forma abundante,
em toda a vida humana.
Não importa o quanto você é feliz ou acredita que é
ou que pode ser feliz.
Quanto maior a satisfação, maior será a frustração
pela perda desse prazer.
Quanto maior a busca, maior a ausência dentro de
nós, e dessa forma, maior é o conflito.
A roda do mundo gira e por melhor que seja nossa
situação, sempre sucedera o conflito, a tensão e a
confusão.
O sábios ensinaram a fórmula para o fim do sofri-
mento:
Cesse toda a luta entre ter e não ter; entre querer e
não querer; entre o prazer e a dor; entre ser e não
ser.
Os sábios dizem: não busque fora o que você só pode
encontrar dentro de ti.
“Se deixar de lutar, deixo de viver”, dizem alguns.
Mas é justamente na luta onde reside a perda, a dor,
a ilusão e a morte.
Quando paramos de lutar e nos colocamos além dos
conflitos, a verdadeira vida do espírito começa a fluir
de nosso interior.
Outros podem argumentar que sem luta nada se
melhora no mundo.
A conclusão desse pensamento é que mesmo na luta
não há garantia de melhora.

127
Podemos lutar e nos destruir muitas vezes, que o
mundo só mudará quando tiver que mudar.
Quem luta pode se ver com o poder de mudar, mas
esse mudar é sempre ilusório.
A vida só se transforma de dentro para fora e nunca
de fora para dentro.
É nosso interior que precisa estar em paz. Assim
todo conflito desaparece e isso reflete uma harmonia
no mundo externo.
Não deseje algo para depois não sofrer pela perda.
Não anseie pelo futuro nem se prenda ao passado,
pois tudo o que você precisa já está no presente.
Não busque explicação, pois a essência do cosmos é
inefável e incognoscível.
Não vá de um ponto a outro, pois sua essência está
aqui, lá no fundo, em seu interior.
Não lute contra, entregue a Deus.
A cessação da luta e dos conflitos não é algo passivo,
mas ativo,
É a vida dando a vida para a vida. E não a vida lu-
tando contra a vida; ou a vida anulando a vida.
A luta, as brigas e os conflitos trazem a perda, a dor e
a morte.
A harmonia e a aceitação trazem a paz, a essência e o
espírito.

128
NÃO REAJA AO MAL

Aquele que responde uma agressão com outra agres-


são se coloca no mesmo nível do seu agressor.
Aquele que sente raiva daquele que cultiva raiva por
nós se deprecia tal como o raivoso.
Aquele que devolve a ofensa ao seu ofensor torna-se
tão degradado quanto a baixeza da ofensa que repu-
diamos no outro.
Aquele que reage com irritação a situações estres-
santes está semeando cada vez mais irritação em sua
vida.
Aquele que luta contra quem luta conosco acaba se
pondo na linha de combate e pode sempre sofrer
ataques.
Aquele que se deixa envolver pela energia negativa
de que nos maldiz e nos maltrata, está alimentando
mutuamente o mal que quer evitar.
Quando levantamos a voz para aquele que grita co-
nosco, quedamos na corrente da cólera que nos pre-
judica e desvitaliza.
Aquele que reage ao mal com o mal coloca-se no
mesmo nível do mal que condena para si.
Seja superior às investidas da escuridão; coloque-se
acima das energias pesadas; eleve-se sem reagir.
Quando você reage ao mal, ele te atinge; mas quando
você se coloca acima dele, ele jamais pode te alcan-
çar.
Não responda ao agressor com agressão; ao ofensor
com ofensa; ao mal com o mal.
É como entrar numa poça de lama para jogar a
mesma lama que jogaram em nós, quem se suja é
você.
Uma pessoa só pode te atingir se você responder na
mesma moeda.

129
Curve-se do mal, esquive-se da lama das emoções
negativas que querem te passar.
Porém, não evite o mal por medo, covardia ou sub-
missão,
Mas para não decair no mesmo abismo que o outro
se encontra.
Quando alguém te convida para a escuridão, você só
entra na porta das sombras se quiser.
Deixe a agressão, a ofensa, a raiva, a provocação, a
hostilidade, o menosprezo com aquele que os possui
em si.
Não se deixe contaminar ou envolver pelas energias
negativas.
Coloque-se acima, invulnerável ao mal que jogam em
você.
A correnteza do mal só te puxa se você mergulhar no
rio.

130
A VIDA NOS ENSINA

Maria Eduarda era uma pessoa orgulhosa e traba-


lhava como faxineira em um restaurante. Ela detes-
tava o trabalho que fazia, pois acreditava que era
algo menor, inferior, mas não tinha escolha, pois
precisava do dinheiro para se sustentar. Ela tinha
que engolir seu orgulho e aprender a ser humilde. A
vida estava lhe ensinando a virtude da humildade.

Jonathan era um rapaz muito preguiçoso. Não gos-


tava de trabalhar e nem de estudar. Seus pais tive-
ram uma crise financeira e começaram a perder tudo
o que tinham. Jonathan estava agora numa encruzi-
lhada, pois precisava tomar uma atitude e arranjar
um emprego, assim como iniciar seus estudos. A vida
estava lhe ensinando o valor do esforço e a sair do
conformismo.

Elaine era uma pessoa muito nervosa, irritada e não


admitia receber ordens. Trabalhava em um banco
quando certo dia houve uma mudança na equipe. O
novo chefe era um homem autoritário e começou a
pegar no pé de Elaine. A moça, muito irritada, não
podia responder nem brigar com ele, caso contrário
seria demitida. Por isso foi obrigada a se controlar e
a relevar certas atitudes do chefe. A vida estava lhe
ensinando a ser uma pessoa menos nervosa e mais
tranquila.

Augusto era um homem muito organizado, muito


certinho e tinha horror a desorganização. Tinha
crenças muito rígidas e era bastante conservador.
Certo dia, conheceu e se apaixonou por uma mulher
que era o oposto dele. A moça era liberal, não ligava

131
para organização e não cultivava as mesmas crenças
que ele. Augusto detestava esse jeito da moça, mas a
amava muito, e por isso, foi obrigado a conviver com
as diferenças e teve que se tornar uma pessoa mais
aberta. A vida estava lhe ensinando o respeito as
diferentes visões de mundo e comportamentos,
abrindo sua mente.

A vida sempre nos coloca em situações que nos obri-


garão a rever nossos comportamentos, valores e
crenças e a nos tornarmos pessoas melhores. Não
reclame ou fique brigando com as circunstâncias,
mas procure decifrar sua mensagem. Nada disso é
ruim, mal ou negativo, mas é apenas a força e a inte-
ligência da vida tentando te ensinar algumas lições
de sabedoria.

E você, que está passando por algum sofrimento,


reflita… O que a vida está querendo te ensinar?

132
SUPERANDO O SOFRIMENTO

Existem alguns pontos básicos que todas as pessoas


devem conhecer no momento em que estão atraves-
sando um profundo sofrimento. Vamos analisar cada
um desses pontos, de forma bem resumida, para que
qualquer pessoa possa, em momentos de grande
provação, superar os infortúnios e as tormentas da
melhor forma possível.

O primeiro ponto é o seguinte: é importante que to-


dos saibam que nenhum sofrimento deve ser evi-
tado. No momento em que uma pessoa tenta de to-
das as formas evadir-se do ato de sofrer, isso signi-
fica que ela já está sofrendo. Isso pode não ser tão
óbvio para algumas pessoas que procuram conter,
reprimir ou esquivar-se de todas as formas de amar-
gura, aflição, etc. Mas é certo que sempre que alguém
procura preservar-se de algum tipo de sofrimento,
há uma parte de seu ser, mesmo que inconsciente,
que já sofre. Não haveria motivo para se tentar evitar
algo que não vai ocorrer; ou seja, se a pessoa tenta
evitar o sofrimento, é porque ele já é uma realidade
interna e está prestes a suceder. Há algo dentro de
nós que está a ponto de eclodir e, por um mecanismo
de defesa, nós reprimimos esse sentimento.

O segundo ponto fala sobre o valor de se reconhecer


o sofrimento. Se o sofrimento realmente está prestes
a acontecer, isso significa que ele já está dentro de
nós, e portanto, deve ser reconhecido. Muitas pes-
soas não sabem disso, mas é melhor conhecer os
sentimentos negativos que residem dentro de nós e
deixar que eles apareçam, do que ficar fingindo que
eles não existem e conviver com eles. Isso porque o

133
conhecimento e a vivência das realidades interiores
permite a libertação delas. No entanto, é certo que
aqueles que procuram esconder ou camuflar suas
emoções e seu sofrimento, acabam fazendo-os retor-
nar depois com mais força e em momentos indeseja-
dos. Como disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a
verdade vos libertará”. Isso significa que é melhor
conhecer a verdade do que ocorre em nosso interior,
pois assim poderemos nos libertar dela. Há um prin-
cípio psicológico que diz assim: tudo aquilo que es-
condemos dentro de nós, e de que não temos consci-
ência, passa a nos controlar. O sofrimento que camu-
flamos e não queremos aceitar ou identificar tam-
bém funciona assim. Quando reconhecemos o sofri-
mento em seu nível mais profundo, retiramos as
rédeas dele e passamos nós ao comando.

O terceiro ponto aborda uma máxima muito impor-


tante sobre a permanência do sofrimento dentro de
nós. Essa máxima diz o seguinte: O sofrimento contí-
nuo e difuso é muito pior do que o sofrimento ab-
rupto e intenso. O primeiro tende a permanecer,
enquanto o segundo tende a passar muito mais rá-
pido. Isso significa que o sofrimento que permitimos
que ocorra, que deixamos fluir, que vem forte, duro,
árduo, vigoroso, pesado e profundo, tende a passar
num espaço de tempo bem mais curto. Por outro
lado, o sofrimento que se evita, que procuramos dis-
simular, que reprimimos e não queremos sentir,
tende a manter-se mais tempo, a perdurar e sobrevi-
ver por um período bem maior dentro de nós. Ima-
gine uma represa cheia de água que precisa desem-
bocar no rio. Um homem, para evitar toda a turbu-
lência das águas, abre apenas uma fresta da represa
para que a água passe. Obviamente a água jorrará

134
com menos força e demorará muito mais tempo para
sair. Mas se o homem abrir mais as comportas, a
água se chocará com o rio e provocará muito mais
agitação, no entanto, ela fluirá com muito mais rapi-
dez e logo a represa estará vazia. Por outro lado, se
as comportas forem muito pouco abertas, a água
continuará chegando à represa e uma hora ela vai
transbordar ou se romper. O mesmo ocorre com o
sofrimento do ser humano. Quando evitamos a aber-
tura de nossas comportas emocionais para não sen-
tir e não tomar consciência da dor e do sofrimento,
podemos estar enchendo cada vez mais nosso depó-
sito de emoções. Da mesma forma que chegará uma
hora em que a represa não poderá conter toda a
água, também vai acontecer de não ser mais possível
conter nossas emoções e elas transbordarem. Ficar
contendo o escoar do sofrimento pode provocar o
rompimento de nossas comportas emocionais, e
nesse caso, o sofrimento será muito mais intenso.

O quarto ponto nos ajuda a compreender que,


quanto mais reprimimos uma emoção dentro de nós,
mais forte ela se torna e mais danos ela provoca. Isso
ocorre com qualquer atividade mental ou emocional
do ser humano. Imagine que um pensamento vem
repetidas vezes em nossa mente. Se uma pessoa
tenta evitar que ele surja em sua mente, tentando
anula-lo ou usar sua “força mental” para exclui-lo,
esse processo só aumentará sua intensidade e o fará
retornar com mais força. Por isso que muitas pessoas
sofrem de pensamentos obsessivos, dos quais não
conseguem se libertar. Isso ocorre por uma razão
muito simples: ao tentar excluir de todas as formas
um pensamento, damos-lhe muito poder sobre nós,
dotamos esse pensamento de uma grande importân-

135
cia. Se ele não pode de jeito nenhum aparecer, é por-
que ele é muito poderoso e pode nos afetar seria-
mente. Por isso, quanto mais desejamos banir, su-
primir ou eliminar algo dentro de nós, mais damos
poder a isso, e mais forte ele se torna. Ocorre o
mesmo com o nosso sofrimento. Quanto mais dese-
jamos evita-lo, mais potente e resistente ele aparece
dentro de nós.

O quinto ponto nos diz o seguinte: quando o sofri-


mento vem de forma muito intensa, e atinge seu
ponto máximo, a tendência é que ele comece a decair
e a se enfraquecer. É como uma onda no mar. A onda
chega próxima a terra, vai crescendo, atinge um
ponto máximo de altura, e com isso cai, quebrando-
se na praia. Tudo aquilo que é levado ao extremo
começa a perder sua energia e o resultado é sua
queda abrupta ou gradual. Para aqueles que desejam
libertar-se de toda forma de sofrimento, esse é um
princípio muito importante, pois ele é a base de
como enfraquecer uma forte emoção negativa. Por
isso, o exercício que todos podem realizar segue essa
linha, que descreveremos agora.

No momento em que um grande sofrimento lhe aba-


ter e você não conseguir lidar com ele, a primeira
coisa que você deve fazer é não reprimi-lo. Sim, você
deve deixa-lo fluir, como já explicamos, para que ele
seja reconhecido e não haja qualquer repressão. Vai
doer muito, vai ser muito ruim passar por isso, mas é
um caminho necessário para o seu enfraquecimento
e a nossa libertação. Em segundo lugar, não fique
brigando com ele, mas aceite-o como parte de um
processo de autoconhecimento e crescimento inte-
rior. Em terceiro lugar, deixe que ele venha e atinja o

136
ponto máximo, sem no entanto que você se identifi-
que com ele. Procure pensar que o sofrimento vem,
mas ele não faz parte de você, e que ele irá embora.
Se a pessoa se identifica com ele, ele permanecerá.
Mas se você entender que todo esse sofrimento é
apenas um momento de sua vida, e que isso logo vai
passar, a tendência é que ele se vá em pouco tempo.
Por isso deixe tudo fluir, chore… bote tudo pra fora e
permita que ele atinja o ponto máximo, para que,
como dissemos, ele possa começar a decair.

Outro ponto importante é o seguinte: no momento


mais difícil, entregue-se ao seu objeto de fé e tenha a
convicção interior de que tudo isso tem um sentido
maior, e que existe um plano cósmico de desenvol-
vimento interior para sua alma. A entrega desinte-
ressada a Deus, com toda a fé, é a matéria prima que
fará com que todo sofrimento vá se dissolvendo. Se a
angústia te abater fortemente, deixe-a fluir; se a dor
vier, aceite-a e permita sua livre expressão; se a de-
cepção tomar conta de todas as suas entranhas, não
dê poder a ela, e conceda passagem… Quem conse-
gue seguir estes passos, pode se libertar do sofri-
mento em pouco tempo.

137
PERDAS DA VIDA

Se você perdeu algo, não era seu de verdade.


Se esse algo for mesmo para você, não se preocupe,
pois ele vai retornar.
Nada do que não é nosso fica conosco.
E nada do que nos pertence pode ir embora.
Se nunca mais voltou, não chore, pois não era para
você.
Mas se era para você, não chore também, pois o re-
gresso é certo.
Tudo o que vai embora, nunca nos pertenceu;
E se nos pertence, não importa o quanto demore,
Um dia é restituído.
Ninguém deve chorar pela ilusão destruída,
Mas antes agradecer pela verdade desvelada.
Assim como a banana jogada na terra se torna adubo,
O erro cometido se transforma no adubo da experi-
ência e sabedoria.
Não se preocupe com as perdas da vida.
Pois é certo que jamais há perda,
Mas sim renovação, recomeço, um novo advento.
Quando perdemos uma coisa, ganhamos outra.
A vida é um contínuo abrir mão do que se possui por
algo maior.
Somente sofre aquele que não admite perder agora
para ganhar depois.
Como a lagarta que perde sua roupagem rastejante,
Para sair do casulo e abrir suas belas asas em encan-
tadores voos extáticos.
Somente ganha de verdade, quem conquista em espí-
rito.
O que é do corpo, perece; o que é do espírito, perma-
nece.
A matéria se degrada, o sentimento se esvai, mas o

138
espírito é perene…
Você pode perder uma coisa, pode perder dinheiro,
pode perder uma pessoa, pode perder sua saúde,
Só não pode mesmo, jamais, perder a si mesmo,
quem você é em essência.
Muitas pessoas preferem ganhar no mundo às custas
de desistirem de si mesmas..
Perdem tempo trabalhando para ganhar dinheiro e
desistem de buscar quem eles são.
A pior perda é quando deixamos a vida nos levar
E nos tornamos robôs ou marionetes das circunstân-
cias.
Por outro lado, como dizem os mestres:
“Toda sensação de perda vem de uma falsa sensação
de posse”.
Acreditamos que somos capazes de possuir algo ou
alguém,
E dessa posse ilusória, julgamos que algo foi perdido.
Mas a verdade é que não podemos possuir coisa al-
guma nesse mundo.
Nada se possui, portanto, nada pode ser perdido…
Não temos um espírito, somos um espírito, uma es-
sência.
Dessa forma, podemos perder o que temos, mas ja-
mais o que somos.

139
SENTIMENTO DE VAZIO

Muitas pessoas relatam que sentem um vazio dentro


de si mesmas. Como se algo as faltasse, como se não
estivessem mais vivendo suas próprias vidas.

Existem diversas explicações para o surgimento


desse sentimento de vazio que assola boa parte da
humanidade. Mas de uma forma geral a explicação é
a de que estamos vivendo nossa vida sem levar em
conta aquilo que somos lá dentro de nós. Hoje vive-
mos na era da tecnologia, da informação e do con-
sumo, onde quase não precisamos refletir sobre nós
mesmos, onde milhares de soluções são vendidas
como “produtos” de mercado, onde descontamos
nossas carências na comida, em remédios de diver-
sos tipos e em programas de TV, onde passamos
mais tempo num aparelhinho de celular do que con-
vivendo com nossos irmãos, onde também vivemos
mais no barulho, no concreto, no cimento e na polui-
ção do que na natureza, junto com a grama verde, o
rio que corre, com a brisa matutina do campo ou com
os animais que antes alegravam nossa vida.

Tudo isso nos proporciona uma sensação de ausên-


cia de algo que é essencial, de vazio da alma, um es-
tado de torpor onde apenas reagimos aos estímulos
externos, falamos compulsivamente e buscamos o
prazer a todo custo, sempre como forma de amenizar
um pouco a falta profunda que existe dentro de
nossa alma. Essas soluções fúteis podem ser compa-
radas a alguém que bebe agua do mar para aplacar a
sua sede: quanto mais bebemos, mais sentimos sede
e a consequência pode ser uma forte disenteria. O
espírito da vida parece ter se retirado do mundo

140
atual e dado espaço ao novo reality show ou ao es-
tojo de maquiagem da moda.

E qual a melhor forma de preencher o vazio que fica


desse mundo fútil e sem alma?

Em primeiro lugar, é preciso retomar o contato com


a natureza. A seiva vital da mãe Terra nos acolheu há
milênios e dela nascemos e nos alimentamos. Um dos
motivos desse vazio é a dolorosa separação do filho
perante sua mãe sagrada. Os filhos da Terra preci-
sam regressar ao seu lar natural, e assim voltar a
viver na simplicidade de um belo campo gramado
esvoaçando com a brisa, de um canto de pássaro e de
um mergulho num riacho de águas frescas e límpi-
das.

Em segundo lugar, precisamos deixar de ser o que o


outro espera de nós. Hoje em dia vivemos sendo tão
somente aquilo que as pessoas esperam de nós, ape-
nas para agradar o outro. Sendo assim, deixamos de
ser nós mesmos e passamos a ser apenas uma ima-
gem projetada dos desejos do outro. As pessoas acei-
tam ser essa imagem ideal criada para que, com isso,
possam se sentir amadas pelo outro, mas obvia-
mente isso nunca dá certo. As pessoas nunca rece-
bem o amor do outro apenas sendo uma cópia do
que a mídia e a sociedade determinam. É fato que
muitas pessoas comem muito, consomem muito e
fazem muitas coisas a fim de preencher esse vazio,
mas claro que isso nunca funciona. Parar de viver de
acordo com as tendências da moda, com as exigên-
cias do mercado, imitando modelos de comporta-
mento socialmente aceitáveis e permitindo que
nosso interior expresse aquilo que somos é essencial

141
para aqueles que aspiram a uma vida mais plena e
feliz. Neste caso, a vaidade e o orgulho são os princi-
pais ingredientes do vazio que se forma dentro de
cada um.

Em terceiro lugar, as pessoas precisam se dedicar


mais à leituras, ao teatro, a filmes humanistas, à me-
ditação, à contemplação e ficarem mais tempo sozi-
nhas, consigo mesmas. Uma das características do
mundo atual é que, de uma forma geral, o ser hu-
mano tem medo da solidão, e por isso evita a todo
custo o ato de ficar consigo mesmo. Mas quando uma
pessoa fica consigo mesma, e percebe o quanto isso é
positivo, ela começa a se sentir melhor e passa a não
mais temer a solidão. No momento em que ela não
mais evitar a solidão, ela pode se libertar, ao menos
em parte, dessa tentativa sistemática de ser amado
pelos outros, e isso ajuda a extinguir comportamen-
tos de desespero em que visamos ser amados e acei-
tos. Passamos a gostar mais de nós mesmos, não
como mera personalidade, mas como uma essência
ou uma luz espiritual que vive e se desenvolve no
plano material.

Além dos três aspectos anteriores, é importante


também deixamos de lado as futilidades, as superfi-
cialidades e passarmos a nos dedicar àquilo que re-
almente importa, como nossa família, nosso trabalho,
nosso desenvolvimento interior, à leituras, à medita-
ção e a reflexão sobre nossa vida. É difícil de acredi-
tar que existem pessoas vivendo no mundo de hoje
que jamais fizeram reflexões mais profundas sobre
quem são e o que estão fazendo aqui nessa vida. Pare
e reflita sobre essas questões fundamentais, e pro-
cure se ater a tudo o que é essencial, como valores

142
universais, aquilo que não é tragado pelas corrente-
zas do tempo, como o amor, a caridade, a compaixão,
a paz, a tolerância, o respeito, a vida, etc. Faça mais
períodos de reflexão e não se aquiete caso você não
encontre respostas prontas. A força que empenha-
mos na busca pelo sentido da vida é muito mais im-
portante do que o encontro com respostas prontas e
acabadas. Respostas prontas são sempre dispensá-
veis, uma vez que podem dar origem ao fanatismo
religioso, a intolerância em relação a crenças e com-
portamentos alheios, além de gerar estagnação e
bloquear nosso caminho.

Outro fator importante é permitir que a vida flua


com toda liberdade dentro de nós. Emoções presas
geram tensão, irritação e depressão. E como fazer
isso? Quando sentir vontade de chorar, chore;
quando sentir desespero, se desespere; quando sen-
tir raiva, bote para fora sem atingir outros; quando
sentir tristeza, fique triste; quando sentir alegria,
viva essa alegria; quando sentir uma emoção, per-
mita sua livre expressão. Não fique prendendo seus
sentimentos, não tenha vergonha de demonstrar o
que sente e nem acredite que emoções que vêm à
tona implicam em fraqueza. Pessoas que vivem se
anulando, se reprimindo frequentemente têm pro-
blemas com suas emoções, e passam a viver como
zumbis, autômatos, frios e sem alma. A partir disso
cresce um vazio dentro delas. Não importa se hoje
você está triste ou melancólico, amanhã você estará
melhor. Ficar bloqueando a tristeza só fará com que
você não olhe para ela, não a descarregue, não a li-
bere, e assim ela ficará represada dentro de você e
causará muito mais efeitos deletérios em seu psi-
quismo.

143
Reflita sobre esses pontos e procure pratica-los em
sua vida. O vazio interior é ausência de uma existên-
cia plena onde vivemos pelo mundo ilusório e não
pela essência que existe dentro de tudo e todos.

144
VALE DOS ARREPENDIDOS

Um espírito estava prestes a nascer no mundo mate-


rial. Um anjo que o estava instruindo decidiu con-
duzi-lo a um vale no submundo do plano espiritual
onde dezenas de milhares de espíritos se mantinham
presos. Muitos não sabem, mas as almas que vivem
nos mundos espirituais sempre se ligam uns aos ou-
tros pela afinidade de suas vibrações e de sua natu-
reza.

O espírito e o anjo chegaram a um vale desconhecido


de muitos, conhecido como o “Vale dos espíritos ar-
rependidos”, para onde vão as almas daqueles que
viveram vidas superficiais, cometeram erros e não
aproveitaram a sua encarnação. Ambos foram con-
versando com alguns desses espíritos. Um deles
disse:

“Desperdicei minha vida com a bebida, a boemia,


bares, futebol, churrascos e com falsos amigos. To-
dos eram meus “amigos” quando eu estava bem, be-
bia e contava muitas piadas nos botecos da vida, mas
depois que contraí uma doença, todos se afastaram.
No leito de morte vi que desperdicei minha vida com
frivolidades e depois que cheguei ao plano espiritual
tive uma forte sensação de tempo perdido…”

Outro espírito de uma mulher, ainda chorosa, nos


disse:

“Sim, desperdicei minha encarnação tentando ajudar


meu filho a ser alguém na vida. Eu não percebi que
fazia isso porque me sentia carente e sozinha. No
fundo queria que ele ficasse comigo e não desejava

145
sua liberdade e independência. Eu era dependente
dele e por isso achava que o estava ajudando, mas só
o prejudiquei. Eu o mimei muito e depois ele não
conseguia ser independente. No meu leito de morte
ele nem apareceu. Eu vivia também para outras pes-
soas e elas nunca me deram nenhum valor. Podia ter
feito tantas coisas na vida, estudado, trabalhado, me
dedicado a vida espiritual, mas perdi toda uma en-
carnação vivendo em função de outras pessoas.”

Outra alma, que parecia muito triste, disse:

“Sim, eu desperdicei minha vida mergulhando no


trabalho e vivendo apenas para conquistar bens ma-
teriais. Meu objetivo na vida eram os melhores car-
gos, os melhores salários, ganhar mais e mais di-
nheiro, status e uma posição de destaque. Vaidade
das vaidades, tudo isso era apenas vaidade, como diz
Salomão na Bíblia. Perdi 70 anos da minha vida com
bobagens, futilidades e remoendo coisas supérfluas.
Como gostaria de ter uma outra chance e cuidar mais
de mim mesmo, ajudar outras pessoas, amar mais,
dar valor as coisas simples da vida, me ligar no espí-
rito eterno que sou, ter vivido mais a vida espiritual,
e não as ilusões do mundo material. Aqui no plano do
espírito, nada podemos trazer da matéria.”

Uma alma que parecia um pouco agitada e até irada


dizia:

“Aquele líder religioso me enganou! Ele me prome-


teu um paraíso no céu se eu desse o dízimo, se se-
guisse os dogmas da religião, se eu fosse casto e reto,
e estou aqui, nesse vale sombrio, amargando todas
as consequências de um vazio interior pela total

146
perda de tempo. Gostaria de voltar a vida e mudar de
postura, não acreditar cegamente em líderes religio-
sos, ter fé apenas em Deus, amar e não cultivar dog-
mas ou verdades prontas e acabadas. Poderia ter
exercido a verdadeira espiritualidade, mas perdi
tempo, muito tempo e fui um hipócrita. Não prati-
cava o que eu mesmo pregava. Mas pensando bem,
no fundo ninguém me enganou, eu mesmo que me
deixei enganar, pois acreditar em dogmas e no fun-
damentalismo era algo muito mais cômodo do que
me desenvolver espiritualmente e me tornar uma
pessoa melhor, mais humilde e mais amorosa.”

Outros espíritos diziam:

“Eu desperdicei minha vida com sexualidade descon-


trolada”; “Já eu desperdicei minha vida com intelecto
agudo e muito conhecimento teórico, mas sem prá-
tica e sem experiência direta”; “Eu fiz algo muito
comum: desperdicei minha vida me julgando sempre
superior a outras pessoas, e não compreendi que
esse sentimento de superioridade nada mais era do
que uma forma de abafar a imensa insegurança e
inferioridade que eu sentia.”

E assim, muito relatos nos foram passados pelos


espíritos presos ao “Vale dos Arrependidos”, almas
que desperdiçaram a oportunidade que Deus lhes
deu de evoluir espiritualmente se detendo em ques-
tões banais, transitórias e sem nenhuma importância
para a verdadeira vida, que é a vida do espírito imor-
tal que somos.

Você, que ainda está encarnado e vivendo a sua vida,


não faça como esses espíritos, que jogaram suas vi-

147
das fora levando existências superficiais, sem alma,
sem profundidade, sem se perguntarem quem são e
o que estão fazendo aqui. Almas que vivem apenas
pelo corpo e pelas aparências do mundo, e não pelo
espírito e pela verdade. Você tem tempo de mudar,
não desperdice essa sagrada oportunidade de de-
senvolvimento espiritual que Deus te deu… que é a
vida.

148
A PEDRA QUE ME JOGARAM

Havia um jovem de 22 anos que tinha diversos pro-


blemas. Ele era tímido, tinha dificuldade de relacio-
namentos e vivia com medo de tudo. Era filho de pais
separados, que decidiram se divorciar quando o jo-
vem tinha 4 anos de idade.

Mas havia um problema… Toda vez que a mãe lem-


brava o filho da importância dele tomar uma atitude
e se libertar desses infortúnios, o jovem sempre co-
locava a culpa em seu pai. Ele dizia que, em sua in-
fância, seu pai o havia traumatizado, pois sempre
repetia que ele não prestava; que ele era incapaz,
que os outros garotos eram melhores que ele, dentre
outros absurdos.

A mãe concordava com o rapaz que seu pai era uma


pessoa difícil, mas enfatizava sempre a necessidade
do filho se libertar destes traumas e seguir em frente
com sua vida. Mas o filho se recusava alegando que
os traumas estavam muito arraigados dentro dele, e
que a culpa era toda de seu pai. Esse discurso do
jovem já se perpetuara por anos e anos, sempre co-
locando a responsabilidade de seus bloqueios em seu
pai.

Certo dia, o filho estava dirigindo o carro e a mãe


estava no banco ao lado. O jovem estava mais uma
vez insistindo na ideia de que o seu pai era o culpado
por todas as travas de relacionamento e medos que
ele carregava na vida. De repente, alguém jogou uma
pedra que caiu dentro do carro, pois o vidro do veí-
culo estava aberto, e quase acertou sua mãe. Ambos

149
tomaram um susto, mas nenhum prejuízo sofre-
ram. A pedra ficou no chão próximo dos pés da mãe.

O filho, dirigindo, pediu que a mãe jogasse a pedra


para fora do carro. A mãe disse que não conseguia
fazer isso. O filho, surpreso, perguntou por que ela
não conseguia jogar a pedra para fora do carro. A
mãe disse:

– A culpa é de quem jogou a pedra, e eu fiquei trau-


matizada com essa situação. Agora estou imóvel e
não consigo jogar a pedra para fora.

O filho não entendeu o motivo de mãe não conseguir


jogar a pedra fora, pois bastava se inclinar, pegar a
pedra e tira-la do carro. O filho disse que não estava
entendendo e pediu para a mãe explicar. A mãe res-
pondeu:

– Isso lhe parece absurdo, mas é exatamente o que


você faz. Você joga a culpa no outro de ter jogado a
pedra em seu carro. Mas não importa se alguém jo-
gou a pedra, quem mantém a pedra ou qualquer
coisa que jogarem dentro do veículo somos nós
mesmos. Não podemos agora mesmo retirar a pedra
atirada? Da mesma forma, uma pessoa não precisa
ficar com o lixo emocional que outra jogou nela,
basta retirar o peso desse lixo e seguir em frente.
Não podemos evitar que outros taquem pedras em
nosso carro ou em nossa vida, mas podemos nos
desfazer de todas as pedras que nos jogaram.

O rapaz havia compreendido a fala da mãe. A mãe


completou:

150
– Portanto, nunca esqueça disso: o que o outro faz
com você é de responsabilidade dele. Você manter
isso dentro de você é responsabilidade sua.

151
A ESPERANÇA

A esperança é algo de extremo valor em nossa vida.


No entanto, a maioria das pessoas canaliza suas es-
peranças no mundo e nas pessoas. Essa é a forma
errada de se ter esperança.

É preciso entender de uma vez por todas que esse


mundo nada tem a nos oferecer. Na vida humana
tudo é incerto, tudo é instável, tudo muda a todo
instante, tudo é inseguro e passível de interpretações
equivocadas. Enxergamos uma coisa, e depois vemos
que era outra coisa.

As pessoas não são e nem poderiam ser aquilo que


esperamos. Colocamos todas as nossas esperanças
em tudo o que é imperfeito, incerto, defeituoso, falho,
errático, viciado e sem realidade. Todas as esperan-
ças relacionadas a vida humana um dia vão falhar,
vão nos frustrar, pois esse mundo é falho, as pessoas
são falhas e aqui tudo é vazio.

Por isso, ninguém deve alimentar sua esperança com


as coisas que existem nesse mundo. Muitas pessoas
têm esperança que um dia vai ganhar mais dinheiro;
que um dia vão encontrar sua alma gêmea; que um
dia vão se curar de uma doença; que um dia as con-
dições de vida serão mais favoráveis; que um dia
terão conforto e estabilidade. Algumas dessas coisas
podem até ocorrer da forma como esperamos, mas
sempre por um período limitado e tão logo comece-
mos a nos acostumar com elas, tudo nos será tirado.
Por isso, não canalize sua esperança em qualquer
coisa relacionada a melhora da vida humana. Deixe
de lado qualquer esperança humana, qualquer ex-

152
pectativa sobre pessoas e coisas que existem nesse
mundo.

Muitos vão perguntar: se tudo neste mundo é incerto


e vazio, onde então devemos depositar nossa espe-
rança?

A chama sagrada da esperança só pode ser deposi-


tada naquilo que não depende deste mundo para
existir. A esperança deve ser colocada em Deus. A
esperança deve ser colocada na vida futura, na cer-
teza de que, não importa o que aconteça, a vida sem-
pre continua. A esperança deve ser colocada na exis-
tência do nosso espírito, que é uma centelha do infi-
nito que reside eternamente dentro de nós. A espe-
rança deve ser colocada na certeza de uma existência
pós-morte. A esperança deve ser colocada na convic-
ção de uma ordem e harmonia cósmica, que tudo
compensa, tudo conserta e tudo põe em seu devido
lugar. A esperança deve ser semeada em nosso inte-
rior e não na instabilidade exterior. E, finalmente, a
esperança deve ser colocado na essência da vida, que
tudo permeia e tudo ilumina.

153
MENSAGENS SOBRE
RELACIONAMENTOS

ESPERAR O OUTRO

Não acredite que o outro pode preencher o vazio que


há dentro de ti. Isso só você pode fazer.

Não projete no outro as suas carências, pois você vai


se frustrar. A carência não se resolve com o outro,
mas com a autoaceitação.

Não transfira ao outro os seus desejos, acreditando


que você só poderá se satisfazer a partir de alguém.
Somente você pode usufruir dos seus desejos.

Não acredite que o outro deve seguir o caminho que


você seguiu. Cada pessoa faz a sua própria história
baseado em suas escolhas.

Não queira que o outro faça algo por você. É melhor


que você mesmo realize, pois assim a alegria é maior.

Não espere que o outro vá corresponder às suas as-


pirações e vontades. Cada pessoa é diferente e nin-
guém é o modelo de perfeição que você construiu.

Seja feliz independente do outro. Não espere que o


outro seja feliz para você ser feliz. Não acredite que a
infelicidade do outro pode impedir sua felicidade.

154
Não viva como se o outro fosse capaz de te comple-
tar. Ninguém completa ninguém, e ninguém pode
tirar algo de ti.

Ou você é inteiro por si mesmo, ou continuará eter-


namente esperando o outro para preencher um bu-
raco que, certamente, jamais será preenchido.

155
AMOR E DEPENDÊNCIA EMOCIONAL

Não confunda amor com dependência emocional e


não faça do outro a sua razão de viver.

Infelizmente boa parte das pessoas ainda faz essa


confusão: confunde amor com dependência e aca-
bam fazendo do outro a sua própria vida, seja filho,
marido, esposa, irmão, pai, mãe, etc.

Quando nossa vida não está bem, tentamos extrair o


bem do outro, mas isso nunca dá certo. Quando
nossa vida está vazia, tentamos preenche-la, por
exemplo, com um filho, mas um filho jamais vai nos
preencher. Quando nossa vida está sem sentido, ten-
tamos dar esse sentido entrando numa simbiose com
uma pessoa.

O grande problema é que essa simbiose sempre é


desfeita. O preenchimento do vazio que vem de fora
sempre acaba. O filho pode sair de casa, pode mor-
rer, pode parar de falar conosco… Nosso marido
pode se afastar, nos abandonar, morrer, etc. As pes-
soas que decidimos estabelecer como nossa muleta
emocional sempre podem sair de nossa vida. Por
isso, todos devem saber que, buscar alguém para nos
dar vida é o mesmo que tirar a vida de nós pró-
prios… A verdade é que: se uma pessoa é tudo para
você… você acaba se tornando nada. E o resultado
disso é apenas um… sofrimento.

Vejo quase diariamente pessoas caindo nas mais


profundas depressões e vazios porque em algum
momento elegeram uma pessoa para ser sua tábua
de salvação, ser sua muleta emocional… filhos são os

156
exemplos mais extremos dessa situação, mas é pos-
sível fazer isso também com outros parentes ou
mesmo amigos. O resultado é sempre o mesmo: um
dia o outro vai embora ou nos decepciona e parece
que perdemos uma parte de nós mesmos que deixa-
mos no outro e, consequentemente, sofremos e de-
primimos.

Quem quiser ter como companheira a infelicidade,


deve fazer exatamente isso: colocar no outro o sen-
tido de nossa vida. Mas quem quiser ter como com-
panheira a felicidade, a alegria e a liberdade, não
deve depositar em ninguém uma carga de dependên-
cia emocional, pois o efeito pode ser devastador em
nossa vida.

Enquanto o ser humano buscar o sentido da vida


fora de si mesmo, no outro, sua vida não terá sen-
tido… O sentido da vida só pode ser encontrado em
nós mesmos e em nossa essência divina.

157
A VENDA NOS OLHOS

Uma adolescente e seu avô eram muito próximos.


Eles sempre conversavam sobre todos os assuntos, e
o diálogo era sempre muito aberto e sem restrições.
Eram não apenas neta e avô, mas também bons ami-
gos.

Certo dia, a adolescente veio contar ao avô sobre o


término de seu primeiro namoro. Em prantos ela mal
conseguia formular as frases, tentando explicar ao
avô o motivo do seu namorado ter dito que não que-
ria mais nada com ela, pois havia traído ela e ficado
outra pessoa. A menina estava inconsolável. Já o avô,
um homem equilibrado, fazia algumas ponderações
importantes, dizendo:

– Minha querida, pense bem, ao menos vocês tiveram


um namoro rápido, foram apenas 7 meses juntos. Já
pensou se fossem anos e anos de relacionamentos
que descambasse numa traição? É sempre melhor
descobrir logo quem é o outro do que ficar se ilu-
dindo.

Mas a menina parecia não ouvir os apontamentos do


avô e dizia que ela havia sido enganada por ele. Ela
começou a relatar todas as promessas que o namo-
rado havia feito, todas as palavras bonitas que ele
proferia a ela, todos os afagos, todos os presentes, e
outras coisas que indicavam que ele gostava dela.

– Ele me enganou vô! Dizia ela repetidamente ao avô.


O senhor continuava a consolando, mas depois de
muito tempo, ele percebeu que a neta não estava
nem ouvindo o que ele dizia, e ficava apenas repe-

158
tindo que ele a havia enganado. O avô sentiu que
deveria ser mais direto com a neta e disse:

– Pare um pouco de falar querida, e me responda


uma coisa. Foi ele que te enganou, ou foi você que
fechou os olhos para quem ele era?

A menina ficou muda, não sabia o que dizer. O avô


prosseguiu:

– Querida, há um grande ensinamento na vida que


vou te passar agora. Guarde isso com você, pois te
protegerá de muitos infortúnios. Na maioria das ve-
zes, ninguém nos engana num relacionamento, nós é
que fechamos os olhos para quem a pessoa é de ver-
dade. As pessoas gostam de cultivar ilusões, e por
isso querem enxergar apenas as promessas de amor
eterno, de estabilidade, de afeto, e de muitas outras
coisas que o outro nos diz. Mas verdadeiramente
somos nós que fechamos os olhos e optamos em não
vislumbrar o outro dentro da realidade. Portanto,
jamais vende seu olhar e, por mais doce que alguém
pareça, não dê as costas para a realidade.

“Na maioria das vezes, ninguém nos engana em um


relacionamento, nós é que fechamos nossos olhos.”

159
SOBRE OS FILHOS

A forma como o pai e a mãe devem tratar e criar seus


filhos sempre foi objeto de polêmica. Muitos pais
ainda têm sérias dúvidas sobre o que fazer para edu-
car seus filhos da melhor forma possível. É certo que
uma boa educação é essencial para se formar seres
humanos melhores, mais maduros e mais aptos a
enfrentar os desafios da vida. Todos sabem que as
crianças de hoje são o futuro do nosso planeta, por
isso é muito importante que a formação dada a eles
seja a melhor possível para que tenhamos um mundo
melhor. Nesse texto decidimos tecer algumas consi-
derações básicas que todas as pessoas deveriam sa-
ber sobre a relação entre pais e filhos. Falaremos não
apenas do ponto de vista humano, mas também do
que nossos filhos representam do ponto de vista
espiritual.

A primeira coisa que todos os pais deveriam saber


sobre seus filhos é a máxima que diz: “Nossos filhos
não são nossos, mas deles mesmos e do mundo”. Como
diz Kalil Gibran, os filhos “Vem através de vós, mas
não de vós. Embora vivam convosco, não vos perten-
cem”. Quem duvida desse princípio, vale refletir: É
por algum esforço nosso que o feto é gerado no
corpo, ou apenas permitimos que nosso corpo seja
utilizado e talhado pelo grande arquiteto do universo
para que os seres venham ao mundo através de nós?
Quem gera os filhos não são os pais… é a inteligência
da vida, criada por Deus e não por nós, seres huma-
nos. Os filhos nascem por nosso intermédio, mas não
por nossa habilidade, nossa inteligência, nossa cons-
ciência, mas pela inteligência divina que reside em
nosso organismo. Muitos pais esquecem essa ver-

160
dade e passam a cultivar a ilusão de que os filhos são,
de alguma forma, sua propriedade. Nada poderia ser
mais falso que isso. Nossos filhos sao seres humanos
em desenvolvimento do ponto de vista biológico e
psicológico, mas sao espíritos livres, independentes,
e não nos pertencem, não são nossos e nem de nin-
guém. Por isso devemos sempre respeitar sua indi-
vidualidade e não tentar molda-los a nossa forma de
pensar e viver.

O segundo ponto, muito importante por sinal, diz


que nossa tarefa com nossos filhos se constitui em
duas vias simples: o cuidado e a orientação. Cuidado
significa que os pais receberam a sagrada missão,
que veio de Deus, de tomar conta, responsabilizar-se,
ocupar-se e zelar pelos filhos. No entanto, devem
fazer isso apenas enquanto ainda eles não sao capa-
zes de cuidar de si mesmos. E orientação no sentido
de que não se pode forçar os filhos a ser ou fazer
aquilo que os pais acreditam ser o melhor para eles.
É importante entender que os pais devem apenas
mostrar o caminho, e cabe aos filhos seguir por esse
trajeto ou escolher seu próprio roteiro de vida. Os
pais não podem e não devem forçar os filhos a fazer
isso ou aquilo, mas apenas orientar, propor, sugerir,
aconselhar, recomendar, mostrar os caminhos, as
possíveis trajetórias, com seus perigos, seus percal-
ços, e a forma de percorrer cada estrada da vida, mas
os pais não podem conduzir o filho por essa via, nem
impor ou forçar algo, podem apenas observa-lo de
longe e deixar que ele caminhe por si mesmo.

O terceiro ponto é igualmente importante e tem rela-


ção com o segundo. Ele diz que os pais jamais devem
resolver algo para os filhos, mas deixar que os filhos

161
solucionem seus problemas por si mesmos. Muitos
pais veem seus filhos numa situação difícil e sentem-
se impelidos a resolver para o filho, fazer por ele,
decidir algo para que o filho não decida, solucionar
um enigma para que o filho não precise ter trabalho
em encontrar uma solução. Ninguém deve duvidar
que essa atitude impede o desenvolvimento dos fi-
lhos e cria indivíduos acomodados, apáticos, depen-
dentes e por vezes tiranos, que exigem que os pais
sempre façam aquilo que lhe cabe fazer. Nesse âm-
bito é essencial deixar o filho o mais livre possível
para resolver seus problemas, ainda mais os pro-
blemas criados por ele mesmo. Por outro lado, colo-
car algum peso de responsabilidade neles desde
cedo ajuda em seu amadurecimento. Fazer tudo por
eles, ao contrário, atrasa seu desenvolvimento e cria
indivíduos paralisados e inaptos para a vida.

O quarto ponto, mas tão importante quanto os ante-


riores, nos fala da nossa condição espiritual como
pais. Vamos entender isso com calma, pois esse
ponto é muito importante. Do ponto de vista espiri-
tual, pode-se dizer que não há pais e filhos, mas ape-
nas espíritos em evolução. Todos devem saber que o
papel de pai, o papel de mãe e o papel de filho são
apenas isso: papéis humanos. Não são realidades do
plano espiritual, são apenas condições biológicas do
corpo físico e relações afetivas humanas. Isso signi-
fica que, no mundo espiritual, não há pai, mãe ou
filho, há espíritos parceiros, almas afins, seres espiri-
tuais que se amam e se ajudam, onde um contribui
para a evolução do outro. Dentro da teoria da reen-
carnação, os papéis humanos podem se inverter de
uma vida para outra. Isso significa que numa vida um
espírito pode ser pai e na vida seguinte pode ser fi-

162
lho. Numa vida um espírito pode ser mãe e na outra
irmã. Numa vida pode ser filho e na outra pai, e as-
sim por diante. Essa alternância de papéis mostra
que os filhos nem sempre foram nossos filhos, po-
dem ter sido nossos pais, avós, irmãos, amigos, ou
podemos nem mesmo tê-los conhecidos em vidas
passadas. Por isso, todos devem entender que dentro
da realidade espiritual, que é a única verdadeira, não
há papéis, há apenas espíritos, seres dotados de uma
essência divina que busca por si mesma. Quando
espíritos encarnam na mesma família como pai, mãe
e filho, na realidade não há pai, mãe e filho, há ape-
nas espíritos parceiros que buscam juntos evoluir e
se aproximar de Deus, realizar o propósito divino em
si mesmos, despertar espiritualmente para a reali-
dade cósmica. Por isso se diz que não há pai e mãe,
pelo simples motivo de que o único pai é Deus, e to-
dos nós somos seus filhos. Sim, somos filhos de Deus,
e não somos filho, pai, mãe, avô, avó. Somos todos
irmãos, pois todos são filhos de Deus. Deus é o único
pai ou mãe celestial.

O quinto ponto diz que ninguém deve acreditar que


os pais são os únicos que devem orientar os filhos.
Essa é uma ideia equivocada e limitada. Muitas vezes
os filhos ensinam muito mais os pais do que os pais
ensinam os filhos. Aqui não há uma hierarquia pa-
terna e materna, mas como já dissemos, uma parce-
ria espiritual. Há filhos que são espíritos mais evo-
luídos ou bem mais evoluídos que os pais. Hoje em
dia isso é uma realidade cada vez mais evidente. Al-
gumas crianças que vêm nascendo neste mundo são
espíritos missionários, seres de luz, que vem ao seio
de uma família mais para ensinar do que para
aprender. Portanto, a verdade é que os papéis hu-

163
manos são ilusórios e, fundamentalmente, todos so-
mos espíritos em parceria evolutiva, onde no labora-
tório familiar, aprendemos o ABC das lições da eter-
nidade.

O sexto ponto fala de duas questões que estão en-


trelaçadas. A primeira é que os pais muitas vezes
projetam nos filhos aquilo que desejaram para si
mesmos e conquistaram, ou não conseguiram alcan-
çar durante suas vidas. A segunda é que os pais fre-
quentemente reproduzem a criação dos seus pró-
prios pais nos filhos, e assim uma espécie de onda de
erros familiar vai sendo disseminada de geração em
geração, até que alguma das gerações resolva inter-
romper o ciclo e não crie os filhos com os mesmos
erros com que foi criado. Essas são duas questões
importantes e que o pai e a mãe deveriam sempre
refletir. É preciso muito cuidado para não agir com
os filhos da mesma forma que nossos pais agiram
conosco ou cair no extremo oposto, que também é
um grande erro. Por exemplo, se um pai teve uma
educação rígida, ele pode passar ao filho essa mesma
educação fria e endurecida. Mas também pode cair
no oposto e dar uma educação libertina, onde os fi-
lhos podem tudo e vivem sem qualquer limite. É pre-
ciso tomar cuidado para não tentar se curar da edu-
cação que recebemos com os exageros do outro ex-
tremo. Por outro lado, não devemos jamais misturar
nossos desejos com os desejos dos nossos filhos. O
pai pode ser militar, mas não necessariamente é
melhor para o filho seguir seus passos e entrar para
o exército. Uma mãe pode ter casado virgem, mas
não necessariamente o melhor hoje para sua filha é
também casar-se virgem. Nesse sentido, os pais de-
vem sempre respeitar as escolhas dos filhos e procu-

164
rar evitar ao máximo projetar neles seus próprios
desejos realizados ou não realizados. Muitos pais
frustrados, que não conseguiram o que almejaram na
vida, podem exigir que os filhos sigam por um cami-
nho que não é o dele, mas sim o caminho que o pai
queria trilhar, e não o fez. Um pai que desejava ser
atleta e não realizou esse sonho pode tentar se reali-
zar através do filho. Esse é um erro considerável, que
pode prejudicar muito o jovem em desenvolvimento
e desvia-lo de seu caminho. Nesse terreno, é preciso
muito cuidado para não projetar nos filhos nossos
próprios desejos e respeitar sempre sua particulari-
dade e identidade.

O sétimo ponto diz respeito à forma de educar os


filhos. Não apenas as crianças, mas também os adul-
tos nos ouvem e nos respeitam mais pelo nosso
exemplo do que pelas nossas palavras. Ninguém
pode ter respeito ou querer seguir alguém que en-
sina uma coisa, mas não é o exemplo daquilo que
prega. Filhos seguem muito mais o nosso exemplo do
que os nossos ensinamentos. Isso significa que, se
você deseja transmitir uma mensagem ao seu filho,
ensine mais com seu modo de ser do que com suas
palavras. Os filhos começam seu aprendizados atra-
vés da imitação e o primeiro modelo que eles têm
acesso são seus pais, que começam sendo seus he-
róis, idealizados e cheios de poder. Esse é o mo-
mento em que os filhos estão mais receptivos a in-
fluência positiva ou negativa dos pais. Se o pai não é
o exemplo daquilo que ensina, suas lições terão
muito pouco impacto nos filhos, mas se o pai ou a
mãe é o modelo daquilo que deseja ensinar, as pala-
vras são dispensáveis, pois o exemplo já traduziu
tudo o que seria necessário dizer.

165
SOLIDÃO

Por que a vida nos coloca em situações de soli-


dão, a ponto de nos sentirmos sozinhos e amar-
gurados com tudo?

Em primeiro lugar, ninguém nunca está sozinho. Por


mais isolada que uma pessoa esteja, no alto das mon-
tanhas do himalaia, ela sempre conta com a presença
de seres espirituais zelando por ela e auxiliando sua
missão na Terra.

Quando expandimos nossa consciência, passamos a


ter um contato sutil com outros seres, sejam huma-
nos, animais, vegetais, minerais, seres espirituais,
etc, de modo que temos a companhia de todo o cos-
mos junto a nós. Somente sente-se sozinho quem se
isolou em consciência e passou a viver dentro dos
limites do seu ego, vendo apenas as suas necessida-
des, e não o coletivo, ou a vida universal a que per-
tencemos.

A solidão é muito mais um sentimento do que uma


realidade: uma pessoa pode sentir-se só dentro de
uma multidão, e outra pode sentir-se em comunhão
com todos isolada no local mais inóspito que se
possa imaginar.

Quem se abre para a vida não se sente só; quem se


fecha dentro de si mesmo, e vive trancado em suas
próprias demandas, desejos, crenças e expectativas,
esse sim vive solitário.

Ninguém está verdadeiramente sozinho, as pessoas é


que se sentem sozinhas por terem construído barrei-

166
ras que teriam como objetivo as proteger da vida.
Essas muralhas as impedem de ver a vida, de co-
mungar com os seres e as coisas, a viver e experi-
mentar tudo, a entrar em sintonia com os múltiplos
níveis de realidade.

Por analogia, um bilionário pode sentir-se só dentro


de sua mansão, mas sua solidão nada mais é do que o
isolamento que ele mesmo provocou em decorrência
do medo de sair e enfrentar o mundo como ele é. Ele
optou em viver a ilusão do seu conforto enquanto
milhões de pessoas passam fome, dormem no chão e
sofrem. Ele procura ficar alheio a tudo e viver numa
ilusão que ele mesmo criou. Quem vive alheio ao seu
próximo inevitavelmente cai na solidão.

O medo de perder a sua riqueza o fez proteger-se


dentro de seus bens, mas como é de conhecimento
geral, a riqueza não protege ninguém, ao contrário,
muitas vezes cria mais problemas, e um deles, e o
mais frequente, é a solidão. Obviamente esse exem-
plo não serve apenas para quem se isola nas riquezas
materiais, mas também para aqueles que se isolam
usando como escudo qualquer desejo humano, qual-
quer máscara, qualquer crença arraigada. Dentro
disso entra principalmente a vaidade, o orgulho e o
egoísmo.

A solidão pode ser resolvida com a abertura de nossa


consciência para a vida, e com a renúncia de se viver
apenas para nós mesmos.

Por outro lado, há pessoas que gostam de se isolar, e


outras que detestam ficar sozinhas. Essas últimas
parece que não conseguem estar apenas com elas

167
mesmas. Isso muitas vezes pode caracterizar uma
fuga de si, uma tentativa sistemática de não parar,
olhar para nosso interior e nos reconhecer como
somos. Há pessoas que terminam um relaciona-
mento e já vão logo entrando em outro.

Períodos mais ou menos longos de solidão podem


ajudar as pessoas a se encontrarem, e organizarem
sua mente, e a sentirem mais a si mesmas sem a in-
fluência de ninguém. Os momentos de solidão podem
nos ajudar a nos dissociarmos da carência e da falta
em relação a outros.

Muitos precisam se isolar após um relacionamento


para ficarem um tempo consigo mesmos e nova-
mente passarem a ser apenas o que elas são. Em re-
lacionamentos longos, muitas vezes as pessoas po-
dem se despersonalizar, e se tornar aquilo que o
outro espera de nós. Também podemos ceder em
nosso modo de ser em diversos aspectos, a ponto de
quase deixarmos de ser nós mesmos em benefício de
uma relação a dois. Por esse motivo, um tempo longo
de solidão após um relacionamento pode ajudar cada
um a se desprender e se limpar de tudo isso.

Há uma frase de Fernando Pessoa que diz “Para ser-


mos dois, é necessário ser um”. Isso significa que
para vivermos uma relação é preciso que ambos se-
jam uma individualidade, e não uma fusão de dois
em um, numa massa despersonalizada comum.
Para finalizar, a vida nos coloca em situações em que
nos sentimos solitários para que possamos ficar co-
nosco mesmos. O objetivo é ficar mais tempo consigo
mesmo e melhorar nosso autoconhecimento.

168
Por isso que muitos mestres espirituais procuram os
locais mais isolados para meditar. Jesus ficou 40 dias
e 40 noites no deserto a fim de conseguir elevar sua
consciência e encontrar a verdade dentro dele. O
isolamento, quando bem praticado, pode trazer mui-
tos benefícios para a alma humana.

169
SINTO-ME SÓ

Uma mulher estava num casamento que já durava 15


anos. Era um relacionamento já completamente des-
gastado, que, em termos práticos, já havia terminado,
e estava sendo mantido apenas nas aparências. Os
dois viviam juntos na mesma casa, mas mal se fala-
vam. A mulher não terminava com ele por um motivo
muito simples: ela tinha medo da solidão.

Certo dia, ela resolveu procurar ajuda, e iniciou uma


psicoterapia. Logo no primeiro dia, o terapeuta fez
uma série de perguntas, e ela respondia tudo for-
malmente, sem se abrir muito. Ela relatou as condi-
ções de seu casamento e disse que se sentia muito
mal e carente.

O psicólogo perguntou por que motivo ela não se


separava do marido. Ela respondeu:

– Não sei bem. Mas o principal é o medo da solidão.

O psicólogo pensou por um instante e disse:

– Observe o que você está me dizendo. Você não de-


seja separar-se dele porque tem medo da solidão.
Mas eu te digo: será que você já não está solitária
dentro do casamento?

A mulher ficou estarrecida com essa colocação. O


psicólogo continuou:

– Pare para pensar e veja o óbvio. Você tem medo de


passar por algo que, na prática, já ocorre. Você tem
medo separar-se e ficar sozinha, mas dentro do ca-

170
samento você já está sozinha! Então, se você já está
sozinha, qual o motivo do medo? E se é algo que já
está acontecendo, não há porque ter medo, pois já
acontece e você já sofre os efeitos da solidão. Você só
deveria ter medo de ficar onde está, paralisada e
solitária, e não de mudar sua condição. Portanto,
caso você deseje, separe-se, pois ao menos você terá
uma chance de não mais sentir-se solitária.

171
MEDO DE PERDER

Um rapaz estava namorando uma jovem, mas no


fundo, essa jovem só estava interessada em seu di-
nheiro. Muito rico, o rapaz adorava a menina.

Apesar de trata-la como uma princesa, ela o es-


nobava e só aceitava sua companhia na medida em
que ela podia usufruir de seu patrimônio e sua ri-
queza.

O tempo passou, e todos a volta do rapaz, parentes e


amigos, o alertavam sobre essa situação. A mãe dizia:

– Filho, largue essa moça. Ela só está interessada em


seu dinheiro.

– Mas eu gosto dela mãe, e não quero perdê-la.


Seus amigos diziam a mesma coisa:

– Meu caro, essa garota não gosta de você de ver-


dade, ela só gosta de dinheiro.

– Mas eu gosto dela, e não quero perde-la, reafirmava


sempre o rapaz.

Sua irmã mais velha, vendo aquela situação, também


entrou no coro alertando:

– Você está deixando de aproveitar uma parte impor-


tante de sua vida por causa dessa menina.
Acorda irmão!

– Mas eu gosto dela. E não quero perde-la. Insistiu o


rapaz, repetindo a mesma frase.

172
Num outro dia, o rapaz estava andando na rua, pen-
sando seriamente sobre seu relacionamento, e sem-
pre lhe vinha o mesmo pensamento, o de que “não
queria perde-la”.

Passando por um homem maltrapilho na rua que


distribuía panfletos, o homem aproximou-se e entre-
gou ao rapaz uma folha de papel com alguns dizeres.
O homem, um religioso que convidava as pessoas
para o seu templo, costumava entregar as pessoas
folhetos com ensinamentos de vida, lições e provér-
bios.

O rapaz pegou o folheto, leu, e sentiu-se tonto, quase


desmaiou. O homem o interpelou perguntando se ele
estava bem. O rapaz ficou alguns minutos parado,
pensando, com olhar distante, e disse ao homem.

– Muito obrigado. O senhor abriu a minha mente.

– Isso acontece algumas vezes. Disse o homem, com


um sorriso no rosto e com a alegria de quem havia
entendido que cumprira sua missão do dia.

No dia seguinte, o rapaz marcou um encontro com a


jovem. Logo que os dois se encontraram, a jovem
disse:

– Então, hoje eu estava a fim de ir ao shopping com-


prar uns vestidos novos, sapatos e outras coisinhas.
Depois pensei em passearmos com seu carro pela
cidade, e irmos para um hotel de luxo. O que acha?

173
O rapaz olhou profundamente nos olhos da jovem e
disse:

– Tenho uma ideia melhor. Hoje decidi que não vive-


rei pelo medo de perder, mas pelas infinitas possibi-
lidades que a vida a todo momento nos oferece. Não
há motivo para eu continuar nessa prisão. Estamos
terminando aqui nosso namoro. Tome, isso é para
você (O rapaz entregou o folheto a jovem).

A jovem ficou chocada com a atitude do rapaz. Nunca


o havia visto tão confiante. Depois que o rapaz foi
embora, sem olhar para trás, a jovem abriu o folheto
e viu escrito:

“Não se pode perder algo que nunca nos pertenceu.”

174
OBRIGADO PROFESSOR

Um homem foi conversar com um mestre para en-


tender um fato estranho. O homem pediu uma expli-
cação ao mestre, dizendo:

– Mestre, existe uma pessoa do meu convívio que


sempre me tira do sério. Essa pessoa consegue pro-
vocar o que há de pior dentro de mim. Como devo
proceder diante disso?

O mestre olhou para o homem e respondeu:

– Você deve dizer, “obrigado professor”.

O homem ficou sem entender nada e perguntou:

– Como assim tenho que dizer “obrigado professor”?

O mestre respondeu:

– Sim… Uma pessoa que consegue provocar aquilo


que existe de pior dentro de ti é alguém que contri-
bui no seu autoconhecimento. Ele desperta algo que
estava lá no fundo, oculto em seu interior, mas que
você tentava camuflar. Ele te ajuda a reconhecer e
trabalhar dentro de si esse seu lado sombrio. Essa
pessoa é, na realidade, um professor para você,
mesmo que ele não saiba disso. Ele te ajuda a perce-
ber e clarear algo que, sem ele, você não era capaz de
enxergar. Portanto, na próxima vez que o vir e que
ele novamente despertar o que há de pior em você,
agradeça as lições que ele vem trazer revelando o
que reside numa esfera profunda de sua mente.

175
EDUCAÇÃO E LIMITES

Um menino de 7 anos estava brincando na rua, como


sempre fazia todos os dias. Num dado momento, ele
briga com um coleguinha e bate nele, o que faz o ou-
tro menino chorar. A mãe do menino que bateu ouve
os gritos, vai ao local e pega seu filho. No entanto, ela
não fala nada ao seu filho, não o repreende e nem
aponta seu erro, mas simplesmente se omite.

Alguns meses depois, o menino bate em outras cri-


anças, e mais uma vez a mãe não fala nada e nem o
corrige.

Anos depois, o menino toca a campainha das casas


na vizinhança. A mãe não toma nenhuma atitude e
finge que nada viu.

Anos depois, o menino joga lama na porta das casas


dos vizinhos e sai correndo. A mãe, como sempre, se
omite e não educa seu filho.

Anos depois, o menino já era um rapaz, um adoles-


cente de 17 anos. Ele brigou com um colega de sua
turma. Após um tempo, chamou amigos e todos se
juntaram para espancar seu colega da escola. O rapaz
fica todo ensanguentado. O rapaz chega em casa
meio machucado com a mão com sangue. A mãe,
como sempre, finge que não vê.

Alguns anos depois o rapaz começa a praticar pe-


quenos roubos. A mãe vê objetos de valor dentro de
casa, mas não pergunta ao filho a procedência deles.
Ela desconfia dos roubos, mas nada faz.

176
Meses depois, o rapaz tenta roubar a carteira de um
homem. O rapaz agarra a carteira e puxa com força,
mas o homem era bem forte, e segura firme a car-
teira. Ambos começam uma briga. No entanto, o ho-
mem era um policial, que saca seu revolver e, sem
titubear, dá três tiros no rapaz. Ele é levado às pres-
sas ao hospital. Sua mãe chega, e vê que seu filho está
com a vida por um fio…. e chora muito. Uma hora
depois, o filho morre, e a mãe morre em vida.

Sempre que um pai ou uma mãe ensinam, desde a


tenra infância aos seus filhos, noções de respeito aos
semelhantes, ela não está protegendo as outras pes-
soas dos seus filhos. Ela está, principalmente, prote-
gendo seu filho dele mesmo, e de tragédias iminentes
futuras.

Ensine aos seus filhos a lição de vida mais impor-


tante de todas: o respeito a outros. Caso contrário, a
destruição que ele causa ao seu redor, no seu meio,
pode ser apenas o primeiro passo para a destruição
de sua própria vida.

177
O REFLEXO DE SI MESMO

Uma mãe e um filho adolescente moravam juntos,


mas não se davam bem. Viviam brigando pelos me-
nores motivos. A mãe dizia que o filho era pregui-
çoso, não queria estudar, e não fazia nada direito. O
filho acusava a mãe de ser ausente e de várias outras
coisas. Com o tempo as brigas foram se intensifi-
cando cada vez mais, até que estava se tornando
quase insuportável a convivência de ambos. O filho
ofendia a mãe, e a mãe, nervosa, acabava também
por ofende-lo, e ambos chegavam a ficar dias sem se
falar.

A mãe começou a sentir-se cada vez pior. Sentia uma


angústia imensa tomando conta de si. Cogitou enviar
o filho para ser criado com a irmã, mas sentiu que
isso não daria certo. Após uma semana de longas e
profundas brigas, a mãe fez uma fervorosa oração
pedindo a Deus que lhe desse uma explicação sobre a
razão de tantas brigas. “Senhor, me diga, por que não
consigo conviver bem com meu filho?” falou em ora-
ção.

Era noite, a mãe resolveu deitar-se, pois teria um dia


de trabalho bastante árduo assim que acordasse.
Quando o sol estava começando a nascer, meia hora
antes de acordar para ir ao trabalho, sentiu-se leve e
começou a sonhar. Estava no meio de um campo de
trigo imenso, e subitamente apareceu um anjo lumi-
noso que se aproximava dela.

– Por favor, venha comigo. Quero mostrar-lhe algo


relacionado ao seu filho, disse o anjo.

178
A mãe, entendendo que Deus havia captado suas
súplicas, não pensou duas vezes e foi junto com o
anjo.

Chegaram num local meio escuro e pesado. Havia um


espelho bem bonito e grande no centro.

– Veja sua imagem neste espelho, disse o anjo.


A mulher aproximou-se do espelho, esperando ver
sua própria imagem refletida, mas viu a imagem de
seu filho no lugar. Tomou um grande susto e derra-
mou muitas lágrimas. Então perguntou ao anjo:

– Mas o que isso significa? Por que estou vendo a


imagem do meu filho refletida neste espelho, ao in-
vés de minha própria imagem? Perguntou.

O anjo respondeu:

– Essa é a resposta para as brigas e confusões entre


você e seu filho. Vocês são muito parecidos em ten-
dências e comportamentos, e seus defeitos são quase
os mesmos. Quando você briga com seu filho, está
vendo nele o próprio reflexo de todos os defeitos que
você procura ocultar de si mesma. O mesmo ocorre
com ele. Um é o reflexo do outro, vocês comparti-
lham de quase os mesmos defeitos e os dois atacam-
se pelo defeito que ambos possuem. Mas Deus, em
sua infinita sabedoria, colocou duas pessoas tão se-
melhantes juntas, para que pudessem, em parceira,
ver a si mesmas uma na outra, e dessa forma, reco-
nhecerem seus defeitos e ajudarem-se mutuamente a
resolver suas principais imperfeições. Não brigue
com seu filho pelas mesmas deficiências e falhas que
guardas em teu interior. Resolva tuas más inclina-

179
ções, as brigas cessarão e vocês poderão voltar a
viver em paz.

180
TRATANDO COMO ESPÍRITO ETERNO

(Este conto é baseado em um caso real)

Uma mulher, já de meia idade, estava muito desgas-


tada em seu casamento. Conforme os anos foram
passando, seu marido se tornara extremamente
agressivo. Chegava em casa do trabalho sempre de
mau humor, irritado, e algumas vezes embriagado.
Frequentemente berrava, e exigia que sua esposa
fizesse tudo para ele, mas ele quase nada fazia em
benefício dela. A vida sexual de ambos era pratica-
mente inexistente. O casamento já estava por um fio
e a mulher a beira de um colapso nervoso. Foi con-
versar com um monge, que diziam muito sábio, so-
bre sua situação. Ela explicou tudo e o monge disse:

– Você tem duas opções. Ou separa-se dele ou pode


fazer uma coisa que vou orienta-la a fazer. Mas per-
manecer neste casamento apenas por comodismo só
vai causar mais mal ainda a ambos.

A mulher refletiu por uma instante e disse:

– Sim, eu vou me separar, mas quero tentar uma úl-


tima solução. Por favor, me explique o que posso
fazer.

– Pois bem, disse o monge. Todas as pessoas pos-


suem um lado egoísta, interesseiro, materialista, e
um lado humano, fraterno, elevado e divino. Suas
brigas com ele demonstram que você o está tratando
como uma pessoa e exigindo dele reações que só
tocam seu lado inferior. Passe, a partir de agora,
trata-lo como um ser espiritual, como uma alma vi-

181
vente num corpo. Por mais que ele a trate mal, res-
ponda com amor, com carinho, e faça as coisas que
ele gosta. Inicialmente ele pode ficar bem irritado
com sua tranquilidade, mas insista e trate-o como
seu coração desejar e não de acordo com seus inte-
resses terrenos.

A mulher sentiu-se tocada por estas palavras, e vol-


tou a sua residência. No mesmo dia a noite, preparou
um jantar do jeito que seu marido gostava, arrumou
tudo, e aguardou ele chegar. Ao chegar do trabalho,
ele estava um pouco embriagado, e começou recla-
mando do serviço. A mulher, muito afetuosa, pediu
que ele se sentasse a mesa para comerem juntos.

O marido sentiu que algo estava diferente. Por algum


motivo se irritou, e começou a reclamar da esposa.
Sua irritação chegou a um nível tal, que ele arremes-
sou copos e pratos na parede. A mulher, impassível e
tranquila, ficou em silêncio, e apenas recolheu os
estilhaços de vidro do chão. Ele continuou aos berros
com ela, mas a mulher nada disse, ficou apenas ou-
vindo ele, com atenção, e disse:

– Meu amor, seja o que for que eu tenha feito contra


você, agora prometo melhorar. Eu te amo e quero
seu bem.

O homem ficou bastante surpreso, e foi desarmado


pela reação amorosa de sua esposa. Ficou um pouco
mais calmo, mas mesmo assim, ainda sob o efeito da
bebida, continuou resmungando.

Nos dias e semanas seguintes ocorreu situações se-


melhantes. O homem chegava estressado, irritado, e

182
descontava toda a sua raiva na esposa. A mulher sen-
tia-se muito mal, irritada, mas sempre que sentia
raiva, procurava acalmar-se e não revidar no mesmo
nível, mas ao contrário, seguia as orientações do
monge, que sugeriu que o tratasse não como perso-
nalidade humana, mas como um espírito eterno, uma
luz em desenvolvimento na matéria. A mulher então
continuou tratando-o amorosamente, ouvindo-o,
dando afeto e transmitindo paz a ele, mesmo em
meio a gritos, acusações, reclamações e agressões
verbais.

Mais uma semana se passou e a mulher preparou um


jantar impecável para o marido. E mais uma vez o
marido chegou estressado do trabalho, mas dessa
vez um pouco mais tranquilo. Sentou-se a mesa
aborrecido com algo. Ele a tratava com irritação e ela
sempre devolvia a agressão com palavras amorosas
e tranquilas. Passou-se um tempo, e ele estava agora
em silêncio. Permaneceu em silêncio por quase meia
hora durante o jantar. De repente, olhou para baixo,
e começou a chorar copiosamente, soluçava de tanto
chorar… estava em prantos profundos. A mulher
estava espantada com tudo aquilo, pois quase nunca
o havia visto chorar em 30 anos de casamento. Então
ele disse:

– Meu Deus! O que eu fiz esse tempo todo com você?


Você é uma mulher maravilhosa e eu não percebi
isso em todo esse tempo. Estive te tratando muito
mal, gritando, te criticando, cheguei até a te agredir
fisicamente, mas você não merece nada disso. Você é
uma pessoa muito boa e estou muito arrependido de
ter feito isso. Peço que me perdoe.

183
Nesse momento, a mulher também desatou a chorar.
Ambos se abraçaram forte e ficaram cerca de dez
minutos chorando abraçados. A partir deste dia, seu
marido tonou-se uma pessoa bem diferente. Ainda
sentia o estresse do trabalho e ainda conservava um
pouco de irritação, mas a qualidade da vida do casal
melhorou muitíssimo e o matrimônio foi salvo.
A mulher foi conversar com o monge e contou como
tudo ocorreu. Ela então perguntou ao monge:

– Mas por que ele mudou assim? Como eu consegui


transforma-lo?

O monge respondeu:

– É bem simples. Você se desligou do nível de sua


personalidade humana, e passou a trata-lo como um
espírito eterno, uma alma universal que passa por
experiências humanas. Você acessou esse nível dele,
com amor e paz, e ajudou-o a despertá-lo. No mo-
mento em que você o tratava como ser espiritual, e
não como homem terreno, você permitiu que sua
própria alma se expressasse, e não seu ego limitado.
Sempre que regamos uma plantinha com água e sol,
ela desabrocha. A alma humana precisa ser regada
com amor e luz, e igualmente ela desabrocha.

184
DECEPÇÃO COM AS PESSOAS

Há muito tempo, havia um monge diferente dos de-


mais. Ele não permanecia trancado no mosteiro ape-
nas fazendo orações. Sempre que suas obrigações lhe
permitiam, ele fazia longos discursos sobre a impor-
tância de que diminuírem as injustiças sociais entre
as pessoas. “Não há justificativas nas escrituras para
a existência de homens ricos e homens pobres”, dizia
ele.

Após algum tempo de pregação, multidões compare-


ciam aos seus discursos, e isso começou a preocupar
os poderosos da região. Os ricos temiam uma revolta
popular e a perda de seus bens.

Resolveram então que seria melhor calar o monge.


Um grupo de comerciantes muito ricos ofereceram
propina ao líder do mosteiro onde o monge vivia, e
pediram que o expulsasse de lá. O líder se deixou
levar pela cobiça e pediu ao monge que se retirasse.
Mas o monge não desistiu, reuniu um grupo de aju-
dantes, que também eram monges, e começou a
construir um outro mosteiro. Os comerciantes então
ofereceram rios de dinheiro aos monges, que se ver-
garam ao poder material e largaram suas tarefas,
abandonando o monge.

O monge então resolveu tocar sozinho a construção


do novo mosteiro e continuou suas pregações por
justiça social. Certo dia foi cercado por um grupo de
brutamontes que o espancaram até deixá-lo pros-
trado no chão, desacordado.

185
O religioso precisou de alguns dias para se recupe-
rar, mas logo que o fez continuou a construção do
mosteiro e voltou a fazer suas pregações. Quando o
mosteiro estava quase pronto, os comerciantes con-
trataram pessoas da região para tocar fogo na cons-
trução, e assim ocorreu.

O monge viu, com lágrimas nos olhos, seu mosteiro


ser queimado, fruto de tanto trabalho. Decidiu, no
entanto, que iria construir outro mosteiro, e come-
çou colocando a primeira pedra.

Um homem, que já acompanhava o monge desde o


início, ficara espantado com sua persistência. Resol-
veu então falar com o monge.

– O senhor foi expulso do seu mosteiro e traído pelo


seu líder, seus pares também o traíram e abandona-
ram, o senhor foi agredido e teve seu novo mosteiro
queimado por pessoas da região que deveriam
apoia-lo… e no entanto, continua firme em seu pro-
pósito de ajudar. Após tantas traições o senhor não
se decepciona com as pessoas?

O monge respondeu:

– Não… Eu não me decepciono, por que eu não es-


pero nada das pessoas. Eu não guardo nenhuma ex-
pectativa em relação a elas. Se eu esperasse algo das
pessoas, sem dúvida já teria me frustrado muito, e
não poderia continuar este trabalho. Mas como nada
espero dos outros, jamais me frustro. Quanto mais
uma pessoa cria expectativas de qualquer tipo, maior
é a sua frustração. Não esperar nada de outrem é
condição essencial para se viver e fazer o bem.

186
O PAPEL DE SALVADOR

É muito comum de se encontrar, nos dias de hoje,


pessoas que sofrem do terrível vício do papel de
“salvadoras”. Muitas vezes, o papel de salvador blo-
queia nossa vida de tal maneira que o resultado
acaba sendo a depressão. Salvador é todo aquele que
quer ajudar os outros em excesso. É aquele que se
oferece ou se doa demasiadamente a outros, e a par-
tir desse comportamento surge uma série de pro-
blemas. Vamos entender melhor neste artigo no que
consiste o papel de salvador e o que cada pessoa
pode fazer para se libertar dessa tendência. Explica-
remos tudo em tópicos curtos para que as ideias se
tornem mais acessíveis e objetivas.

Em primeiro lugar, o “salvador” é todo aquele que


vive mais a vida dos outros do que a sua própria
vida. Ele se preocupa mais com o que acontece com
outras pessoas do que consigo próprio. Ele pensa
muito na vida dos filhos, na vida dos pais, na vida dos
irmãos, na vida dos familiares e na vida alheia do que
em suas próprias questões. Não apenas pensa mais
na vida de outrem, como busca agir de forma a auxi-
liar, instruir, beneficiar ou amparar os outros em
muitas situações diferentes. Com esse comporta-
mento, o salvador passa a ser apenas um espectador
da própria vida, fica apenas assistindo sua existência
passar diante dos seus olhos, e não mais participa
dos principais eventos, posto que passou a viver
apenas pelos outros.

A maternidade sempre foi um terreno fértil para a


expressão do papel de salvador. É muito comum ver
mães reclamando dos filhos, alegando que se sacrifi-

187
caram por eles, e que depois os filhos não reconhece-
ram os esforços feitos. Quantas mães passam a viver
apenas para ajudar seus filhos?

Quantas mães procuram sempre evitar a todo custo


que seu filho se prejudique pelos seus próprios atos?
Quantas mães visam superproteger os filhos e co-
loca-los numa redoma de vidro? Quantas mães bus-
cam fazer pelos filhos aquilo que cabem apenas a
eles próprios? Esse comportamento atrasa a vida de
ambos, bloqueia o desenvolvimento do filho e torna
a mãe insatisfeita com a sua vida.

Aqui podemos adiantar que os salvadores sempre


esperam por um reconhecimento que não pode
nunca preencher a lacuna que eles mesmos deixaram
em suas vidas. Esse vazio foi criado pela perda das
melhores partes de nossas vidas que se esvaíram
enquanto estávamos mais preocupados em viver a
vida dos outros. É certo que, quem vive a vida do
outro acaba perdendo a sua própria vida, e a conse-
quência dessa escolha não poderia ser outra senão a
frustração e um sentimento de perda de si mesmo. O
salvador não vive com os outros, ele vive em função
dos outros. Toda a sua vida se encaminha, se orga-
niza e se programa para a resolução dos conflitos
alheios.

O salvador sempre presta essa ajuda de forma bas-


tante exagerada, e muitas vezes é uma assistência
não solicitada. Todos deveriam ter consciência de
que só é possível amparar uma pessoa quando esta
reconhece que tem um problema e quando pede
nossa ajuda. Quando alguém não sabe que tem um
problema, ou mesmo não quer melhorar, de nada

188
adianta insistirmos no auxílio a essa pessoa. Só é
possível resolver algo quando há a percepção de um
problema. Se a pessoa não reconhece o que tem
como um problema, talvez a melhor saída seja per-
mitir que ele sinta na pele as consequências de seus
atos. Por outro lado, ninguém pode ajudar eficaz-
mente uma pessoa quando esta se nega a fazer algo
por si mesma. O salvador é “especialista” em se me-
ter na vida dos outros e encontrar brechas para im-
por sua visão das coisas. Como o salvador perdeu o
controle de sua própria vida, ele deseja conquistar o
controle da vida dos outros.

Outra característica do salvador é suas constantes


tentativas de resolver a vida de alguém de tal forma
que a pessoa não precise fazer nada ou quase nada
para se melhorar. O salvador cultiva a crença de que
é possível uma pessoa solucionar os problemas da
outra, mas obviamente essa ideia é totalmente falsa.
Ninguém pode fazer pelo outro aquilo que só cabe a
ele fazer. E aqui entra outra característica do salva-
dor: o desejo de que outras pessoas fiquem depen-
dentes dele. Muitas vezes a ajuda prestada pelo sal-
vador visa preparar o terreno para que seja criada
uma relação de dependência entre salvador e a pes-
soa “salva”. A atitude de salvador acaba sendo, para
algumas pessoas, uma forma de se conquistar poder,
ou de instituir uma relação de ordem e mando. “Eu te
ajudo, mas você deve fazer o que eu quero”.

Um dos artifícios muito utilizados pelo salvador é o


jogo da culpa. Em alguns casos, o salvador fica ressal-
tando ao outro “o quanto o ajudou”; “o quanto ele
melhorou”; “o quanto ele se sacrificou por ele”; “o
quanto ele precisa dele”; e obviamente “o quanto ele

189
lhe deve por isso”. O salvador deseja atenção, afeto,
carinho, além de outros ganhos psicológicos. Muitas
vezes o salvador pode alegar que “não quer nada em
troca”, mas isso pode ser mais um artifício, até
mesmo inconsciente, para ser reconhecido pelos
outros pelo seu desprendimento, e assim, quando o
salvador precisar, alguém também possa vir em seu
auxílio e também se “sacrifique” por ele. Fica claro
que o salvador faz para o outro sempre esperando
algo em troca. Ele fica sempre na expectativa de algo
que as pessoas nunca vão lhe dar, o reconhecimento
de sua bondade. Essa sensação de ser taxado como
uma pessoa “boa” alimenta seu ego, e ao menos por
alguns instantes ele se sente alguém importante, que
fez a diferença na vida de outros. O sentimento de
autoimportância pode ser uma forma de compensar
uma vida bastante desinteressante, sem graça e
cheia de decepções. O salvador pode não se sentir
relevante ou interessante, e por isso ele necessita
que os outros digam que ele foi importante na vida
deles para que, somente assim, ele possa sentir seu
valor.

Um fato que precisa ser exposto aqui é uma faceta


preponderante da dinâmica psicológica de algumas
pessoas que vestem a capa do salvador. É certo que,
muitas vezes, uma pessoa que apresenta uma bon-
dade um pouco exagerada pode conter dentro de si
ao menos alguns resquícios de uma raiva reprimida.
No entanto, o salvador repele essa raiva e a vê como
algo terrível e vergonhoso. Ele pode se enxergar
como sendo “bom demais” para conter aquela raiva.
Por esse motivo, para que essa raiva ou mágoa não
se sobressaia, ele se dedica a provar a si mesmo que
é bom, e nesse sentido, precisa de todas as formas

190
demonstrar a si mesmo e a outros o quanto é bon-
doso, altruísta, caridoso e solidário.

A insegurança e a falta de autoestima do salvador


muitas vezes podem leva-lo a tentar compensar tudo
isso com a percepção de que é alguém muito bene-
volente. Nesse processo, ele pode tentar compensar
a baixa estima com um complexo de superioridade.
Essa inclusive é uma característica muito comum de
pessoas arrogantes e soberbas. Muitas delas, lá no
fundo de si mesmas, são pessoas inseguras, frustra-
das e cheias de fraquezas, que visam ocultar esses
atributos sob a capa da soberba, com a crença do “eu
sou melhor do que você” ou principalmente “Ele não
é tão bom como parece”.

Nesse sentido, o salvador também possui um com-


plexo de superioridade, mas como ele encara como
bastante difícil sentir-se melhor pela via do mérito
pessoal, ele tenta sentir-se superior pela via de uma
suposta benignidade. Ele pensa “sou melhor porque
sou uma pessoa boa e ajudo os demais”.

O salvador quase sempre vê os outros como ingratos,


posto que ele sempre acredita que merecia mais elo-
gios e mais reconhecimentos pelo seu trabalho em
prol de alguém. Como muitas vezes os outros não o
reconhecem, ele fica sempre com a impressão de que
o outro não agradeceu o suficiente, ou que o outro
pensa apenas em si mesmo. O salvador sempre acre-
dita que o outro é muito egoísta e autocentrado para
reconhecer os bons feitos praticados por ele. Nesse
sentido, o salvador vive sempre frustrado, pois ele
faz algo visando o reconhecimento, o agradecimento,
e o status de “bom”.

191
O salvador ajuda os outros também para tentar mol-
dar o outro a sua vontade de como o outro deve ser,
mas faz isso sempre exalando o agradável perfume
das melhores intenções do mundo. O salvador tenta
fazer o outro acreditar que suas intenções são puras
e cristalinas, e caso ele cometa algum erro, isso não
tem valor, pois sua intenção era boa e isso que im-
porta. Com essa atitude, o salvador procura algumas
vezes se isentar de qualquer responsabilidade no
auxílio prestado.

O papel de salvador é muito frequentemente encon-


trado em religiosos fanatizados por suas crenças.
Alguns fiéis podem se comportar como verdadeiros
salvadores no trato com outras pessoas a fim de se-
guir a risca seus dogmas religiosos. O salvador reli-
gioso acredita que, caso ele seja uma pessoa boa e
caridosa, seu lugar estará bem guardado no céu, ou
ele conquistará um bom karma para na próxima vida
evitar o sofrimento desta. Algumas vezes os salvado-
res religiosos fazem uma negociata com Deus pen-
sando, até mesmo de forma inconsciente “Deus, eu
ajudei fulano de tal, agora você me ajude em tal situ-
ação”.

Existem muitos salvadores em diversas profissões,


principalmente nas profissões relacionadas a saúde e
ao bem estar humano. Médicos, enfermeiros, psicó-
logos, assistentes sociais, terapeutas, etc, são muitas
vezes vítimas de sua própria neurose salvacionista.
Estes podem acreditar que precisam de todas as
formas salvar, curar e ajudar outras pessoas, e so-
frem quando não conseguem seu intento. Aqui tam-
bém existe um sentimento de superioridade incons-

192
ciente que nos convence de que só seremos bons
profissionais se conseguirmos ajudar todas as pes-
soas em todas as condições, o que obviamente é fan-
tasioso e irreal. Esse instinto salvacionista das pro-
fissões acomete principalmente jovens recém-for-
mados que querem mostrar serviço e se firmar como
profissionais bem sucedidos e com boa reputação.

É muito comum também encontrarmos homens que


querem salvar mulheres e assim obterem benefícios
juntos a elas, e também mulheres que acreditam
serem capazes de ajudar os homens, principalmente
maridos ou namorados cujo relacionamento não vai
bem. A esposa pode fantasiar-se salvando o marido
de algum mal que ele possua, e assim evita enxergar
que o problema não está no marido em si, mas sim
no relacionamento de ambos ou mesmo nela. Querer
salvar o outro pode indicar uma covardia em não
admitir que nosso casamento acabou e em tomar a
decisão devida com o divórcio, ou o fim do na-
moro. Muitas mulheres se enganam de que os par-
ceiros podem ser salvos para evitar um término in-
desejado o qual elas por medo tentam de todas as
formas evitar.

Fica claro que o papel de salvador é um completo


atraso de vida. Nele se confunde altruísmo com co-
vardia, caridade com desejo de superioridade, auxílio
com mimo e superproteção, prestar a ajuda necessá-
ria com “resolver” a vida da pessoa. O salvador fica
encarcerado no desejo de evitar sua própria vida
tomando parte na vida dos outros, e assim perde
aquilo que é essencial: ele mesmo.

193
O MAL ESTÁ SEMPRE NO OUTRO?

Sempre vejo algumas pessoas dizerem que precisam


“proteger” seus filhos, seus pais, seus irmãos, ou seus
amigos dos males que existem no mundo. Como se a
pessoa que estivéssemos protegendo fosse sempre a
vítima de algum mal que sempre lhe vem externa-
mente, mas nunca é gerada por ela própria.

A questão é bem mais profunda, pois o ser humano


quer sempre acreditar que o outro é o mal e que nós
somos os bons. Querem acreditar que devem prote-
ger seus filhos, que são bons, do mundo, que é mal;
protegerem a si mesmos dos perigos do mundo,
quando na verdade o perigo está dentro de nós; que-
rem proteger o familiar das más companhias,
quando na realidade é nosso familiar que busca es-
pontaneamente as más companhias, pois se identi-
fica com elas e deseja algo que elas ilusoriamente
podem dar.

Esse é um dos problemas das pessoas: acreditarem


sempre que o mal é externo; que o mundo é mal e
nós somos as vítimas de um mundo cruel. Nada mais
ilusório, pois o mal que nos vem de fora é sempre
atraído pelo mal que está dentro de nós, seja ele ori-
ginário do nosso karma, seja originário de nossos
desejos de buscar o mal acreditando que é algo bom.
É preciso parar de acreditar que somos “puros”, e
que é a sociedade que nos corrompe, nos degrada,
nos insere o mal sem nossa participação.

Quem pensa assim está se iludindo seriamente e


precisa rever sua visão de mundo. É melhor admitir
nossos defeitos, nossa maldade e admitir que somos

194
nós mesmos os criadores do nosso mal… Quando
nós, nossos filhos, nossos irmãos, nossos pais, etc,
passam por um problema, um sofrimento, mesmo
que provocado por outra pessoa, esse problema,
sofrimento ou mal não vem de fora, mas é atraído
pelo mal que carregamos dentro de nós em estado
potencial, dentro do grau evolutivo do nosso espí-
rito. Portanto, é preciso que cada pessoa vivencie as
trevas para, ela mesma, buscar a luz…

Não dá para proteger uma pessoa das trevas que ela


guarda em seu próprio íntimo. Não temos poder e
nem devemos retirar uma pessoa das provas que ela
precisa atravessar, pois são essas provas que purifi-
cam seu espírito.

195
O QUE É IMPORTANTE EM SUA VIDA?

Ronaldo namorava uma menina há 5 anos. Ela era


muito companheira, amável e sempre dizia o quanto
gostava dele. Certo dia, Ronaldo conheceu uma mu-
lher muito bonita e atraente num grupo de amigos.
Ela começou a se insinuar para Ronaldo e ambos
acabaram ficando e fazendo sexo. Passado algum
tempo, a namorada de Ronaldo descobriu a traição,
ficou arrasada e o deixou. Ronaldo chorou copiosa-
mente e sentiu que havia perdido a grande compa-
nheira de sua vida. Ronaldo percebeu que por causa
de uma noite de sexo jogara fora uma grande opor-
tunidade de ser feliz com uma pessoa que lhe era
muito especial. Ronaldo não soube valorizar o que
era importante em sua vida: uma moça tão gentil,
inteligente, amorosa… e só depois descobrir o
quanto a amava.

Patrícia e Ricardo se divorciaram e começaram a


brigar na justiça pela posse de seu patrimônio. Am-
bos não conseguiam se entender sobre qual patri-
mônio iria para quem e como ficaria a guarda de
seus filhos. O ex-casal passou anos brigando na jus-
tiça por patrimônio, pela guarda dos filhos e por
pensão alimentícia. Tudo isso causou problemas
psicológicos sérios nos filhos. Além disso, levou am-
bos a períodos de muito estresse e exaustão. Tanto
ele quanto ela cultivavam raiva e mágoa um do outro
e não se perdoavam pelas brigas e desentendimen-
tos. Patrícia e Ricardo perderam a paz, a tranquili-
dade, traumatizaram os filhos e ainda mantinham
dentro de si muitos sentimentos que acabaram por
se transformar em doenças. Nenhum dos dois soube
valorizar o que realmente era importante em suas

196
vidas: seus filhos, sua integridade física, emocional e
muito importante… sua paz.

Dois irmãos, Pedro e Marcelo, tiveram uma briga feia


há alguns anos. Eles discutiram muito e acabaram se
agredindo por algo que foi apenas um mau enten-
dido. Um deixou de falar com o outro durante muito
tempo. Toda essa situação deixou a família muito
triste, acabou dividindo a todos e causou um mal
estar generalizado. Após 2 anos, Pedro foi atropelado
e levado às pressas ao hospital. Marcelo, sabendo do
ocorrido, sensibilizou-se com o acidente do irmão e
desejou ardentemente pedir perdão por tudo e re-
tomar a convivência fraterna que ambos sempre
tiveram antes da briga. Assim que chegou ao hospi-
tal, Marcelo recebeu a notícia de que Pedro havia
falecido. Marcelo caiu de joelhos e mergulhou num
profundo sofrimento. Ficou se culpando por remoer
uma briga sem sentido durante tanto tempo. Gosta-
ria de poder voltar atrás e dizer ao seu irmão o
quanto o amava, mas agora era tarde. Marcelo não
soube valorizar o que era importante na sua vida: o
amor que tinha pelo seu irmão.

Roberto era um adolescente que passava boa parte


do seu tempo vendo televisão e jogando videogame.
Saía com os amigos e constantemente ficava bêbado.
Vivia em festas, em boates, bebendo, fumando e às
vezes usando drogas ilícitas. No período do vestibu-
lar, Ricardo estava totalmente despreparado, pois
não estudara o ano inteiro. Fez a prova e não foi nada
bem. Logo que o resultado saiu, percebeu que muitos
dos seus conhecidos passaram na universidade e ele
foi reprovado. Perdeu todo o ano e seu pai disse que
ele teria que começar a trabalhar, pois eles eram

197
pobres e Roberto teria que ajudar com as contas da
casa. Roberto não soube valorizar aquilo que real-
mente era importante em sua vida, e perdeu tempo
com futilidades e superficialidades que nada acres-
centam.

Pare por um minuto e pense como você está guiando


a sua vida. Você está cultivando brigas, confusões,
disputas, rixas, tudo motivado pelo orgulho, precon-
ceito, prazeres quiméricos, etc… ou está dando valor
aquilo que realmente importa… a paz, aos seus ir-
mãos humanos, a boa convivência, ao conhecimento,
a fé e ao amor?

Não perca seu tempo com aquilo que não tem ne-
nhum valor, que nada vai te acrescentar; algo que
nada mais é do que um reflexo do seu ego. Passe a
valorizar aquilo que é realmente importante…

Faça uma reflexão sobre o que é realmente significa-


tivo e relevante em sua vida… e não deixe mais isso
em segundo plano por conta de ego, vícios e prazeres
quiméricos.

198
QUEM É O OBSESSOR?

Muitas pessoas religiosas acreditam em espíritos


malignos, demônios e obsessores.
Essas seriam entidades espirituais que podem nos
prejudicar e sugar nossas energias.
No entanto, muitas vezes nós mesmos somos os ob-
sessores das outras pessoas.
Somos os obsessores quando desejamos fazer pre-
valecer nossas ideias e impor nossas verdades a ou-
trem.
Somos os obsessores quando criticamos, julgamos o
condenamos o outro sem pleno conhecimento de
causa.
Somos os obsessores quando temos ciúme e quere-
mos obter a posse do outro.
Somos os obsessores quando batemos o pé e força-
mos o outro a seguir a nossa vontade.
Somos os obsessores quando exigimos que o outro
faça por nós algo que nos cabe fazer.
Somos os obsessores quando desejamos vencer uma
discussão, instituir nossas verdades e firmar nosso
ponto de vista.
Somos os obsessores quando burlamos o livre arbí-
trio alheio e o fazemos trilhar o caminho que nós
julgamos correto.
Somos os obsessores quando tentamos ajudar sem
nos preocupar no que é melhor para o outro, mas
sim seguindo apenas o que nós acreditamos ser o
melhor.
Somos os obsessores quando desejamos comprar o
afeto das pessoas com presentes, regalias, benesses e
mimos, esperando sempre algo em troca.

199
Somos os obsessores quando não permitimos que o
outro cresça, se desenvolva, para não se tornar me-
lhor do que nós.
Somos os obsessores quando fazemos tudo pelo ou-
tro e não permitimos que ele faça, erre e aprenda
sozinho.
Somos os obsessores quando vomitamos um longo
falatório desordenado e fútil acreditando que o outro
tem obrigação de nos ouvir.
Somos os obsessores quando não damos espaço para
o outro, o prendemos, o sufocamos, podamos seus
movimentos, cobramos, oprimimos, sem permitir
sua independência.
Somos os obsessores quando acreditamos que o ou-
tro deve corresponder aos nossos padrões, nossos
modelos, nossa religião, nossos costumes, nossas
crenças e nosso ideal de ser.
Somos os obsessores quando geramos milhares de
conflitos, discórdias e desunião, quando criamos
confusão, intrigas, fofocas e distorcemos a realidade
para prejudicar o outro.
Somos os obsessores quando dissemos uma coisa ao
outro e fazemos outra, enganando, omitindo e dissi-
mulando.
Somos os obsessores quando vivemos reclamando e
acreditamos que o outro tem obrigação de aguentar
nossas lamúrias.
Somos os obsessores quando elogiamos para mani-
pular, louvamos para enganar, enchemos o ego do
outro para confundi-lo a fazer o que queremos.
Somos os obsessores quando fazemos do outro a
nossa vida e depois ficamos magoados quando ele se
afasta deixando um buraco em nossa peito, um vazio
existencial e uma profunda infelicidade.

200
Procure a vida em ti mesmo. Não seja mais um ob-
sessor do outro.
Não dependa de ninguém para ser feliz. Não fique
sugando as pessoas.
Não acredite que o obsessor é sempre o outro…
Há sempre algo de obsessor em nós mesmos.

201
O ÚLTIMO ABRAÇO

Um homem havia acabado de morrer repentina-


mente num acidente de carro. Ele subiu ao céu e se
colocou diante de um Anjo do Senhor. Esse anjo re-
cebia as almas recém chegadas no céu.

O homem resolveu pedir ao anjo que concedesse


apenas mais um momento com sua família, pois gos-
taria despedir-se de sua esposa, de seus filhos e de
seus pais, já velhinhos, assim como de seu irmão que
muito amava.

O anjo olhou o homem com amorosidade e disse que


esse pedido não poderia ser aceito por Deus.

O homem ficou muito bravo com o anjo. Ele disse: “É


absurdo Deus não nos conceder apenas mais alguns
minutos com as pessoas que amamos. O amor não é
algo divino? Por que não podemos amar nos últimos
momentos e despedir-nos de todos? Isso me parece
uma injustiça.”

O anjo, mais uma vez com olhar amoroso, disse:

– Meu filho… Se Deus sempre concedesse últimos


momentos para abraçarmos, dar carinho e nos des-
pedirmos de nossos entes queridos e amigos que
ficaram na Terra, isso acabaria contribuindo para
que nós não os valorizássemos enquanto ainda estão
vivos, pois sempre teríamos um momento último
para finalmente valorizar e amar. Observe bem isso,
meu filho, pois é na própria vida física onde devemos
abraçar aqueles que amamos, dar-lhes o devido valor
e, principalmente, ama-los como se fosse a primeira

202
e a última vez que fôssemos vê-los. É isso que Deus
espera de nós.

Você valoriza aqueles que ama, ou vai esperar a


morte para isso? Dê agora mesmo um abraço em
alguém que você ama como se fosse o primeiro ou o
último, pois nunca sabemos quando nós ou eles ire-
mos embora.

203
MIMAR OS FILHOS

Queria falar uma coisa relacionada a super proteção


dos pais em relação aos filhos. Esse é um tópico
muito delicado, pois muitos pais, mesmo sabendo
dos danos que os filhos podem sofrer com os mimos,
ainda assim incorrem nesse erro tão grave.

O filho que recebe durante boa parte da vida a su-


perproteção, os mimos, é colocado numa cúpula de
vidro e é sempre preservado do enfrentamento das
adversidades do mundo desenvolve sérios proble-
mas em conseguir se virar e se assumir no futuro.
Vejo muito no consultório, aqui no facebook e pes-
soas que me contam milhares de casos por e-mail de
filhos que têm imensa dificuldade de seguir na vida
por conta de terem sido mimados quando eram cri-
anças e adolescentes pelos pais.

Vejo muitos casos de pessoas que tiveram superpro-


teção na infância e adolescência e ao completar 17,
18, 19 ou 20 anos, e não conseguem iniciar sua vida.
Quando conseguem, tem sérios problemas em se
adaptar ao mundo do trabalho e das responsabilida-
des. Muitas vezes tornam-se pessoas sem limites,
com pouca noção de regras de convivência. Podem
ter também problemas de relacionamento, pois in-
ternalizaram a ideia de que o outro sempre deve
fazer tudo para ele, sempre se acham com a razão, e
acreditam que o mundo deve servi-lo. Tornam-se
pessoas egocentradas, preocupando-se na maioria
das vezes apenas com suas necessidades básicas e
imediatas. Ao primeiro sinal de dificuldade, não con-
seguem seguir em frente e ficam bloqueadas. A pri-
meira crise na vida parece tão grave que os paralisa.

204
Alguns chegam a culpar os pais e a sociedade pelos
seus problemas. Podem também se vitimizar siste-
maticamente, e não assumir a responsabilidade so-
bre si mesmos. As marcas da superproteção tendem
a continuar pelo restante de suas vidas, e são raros
os casos de pessoas que conseguem se libertar dessa
situação sem reflexos.

Não fique superprotegendo seus filhos. Você pode


ter a impressão que o está ajudando, mas cada mimo
que você o dá, cada vez que você tira sua mão da
tomada evitando que tome um choque; cada vez que
você o retira de uma situação dolorosa que iria lhe
fornecer aprendizado de vida; cada vez que você não
impõe limites a ele; cada vez que você não o ensina o
senso de sociedade, de coletivo, e só o ensina o indi-
vidualismo do conquistar apenas para si mesmo;
cada vez que você dá tudo que ele pede e não o frus-
tra com o que ele não pode obter; cada vez que você
deixa sua carência falar mais alto e tenta comprar o
afeto dele com presentes; cada vez que você faz to-
dos esses mimos diversos, você pode não perceber,
mas você está prejudicando imensamente seu filho,
impedindo que ele se desenvolva por si mesmo e
encare a vida como ela é. Olhando para o passado e
vendo tudo o que você como pai ou mãe fez, você vê
claramente seus erros e pensa que tudo poderia ser
diferente se você tivesse um maior desprendimento.
Mas agora você, que é mãe ainda de filhos pequenos
já sabe, pode evitar de cometer esse erro.

É tudo bem simples: se você não ensina e o protege, a


vida vai ensinar. É melhor que ele aprenda com você,
no laboratório do lar, onde ainda existe chance de
errar e aprender. No entanto, quando ele é impedido

205
de aprender por causa da sua proteção excessiva, a
vida vai ensina-lo, de uma forma ou de outra. E todos
sabemos, a vida não ensina com o mesmo amor.

Portanto, ensine-o a ser independente e a respeitar


as pessoas. Deixe ele se virar, ele é um espírito livre e
independente. Ele tem capacidade de conseguir ven-
cer todos os obstáculos que surgem, mas se você não
permitir que ele os vença, tudo será imensamente
mais difícil para ele e para pessoas de sua convivên-
cia.

206
MENSAGENS SOBRE EVOLUÇÃO
ESPIRITUAL E LIBERTAÇÃO

VOCÊ É ESPÍRITO

Há uma grande verdade na vida:


“Meu Reino não é deste mundo”, disse Jesus.
Assim como nenhum de nós é deste mundo, ou per-
tencemos a ele.
Estamos aqui apenas de passagem…
É como cruzar uma ponte, caminhar por uma es-
trada, percorrer uma via.
Este mundo nada é mais do que um acesso, um pas-
sadouro, uma viagem de um ponto a outro.
Dizem os sábios “Não fixe aqui sua morada. Não se
prenda nesse mundo. Não se apegue. Não pare aqui!”
Acaso um viajante deseja permanecer eternamente
na estrada que o leva ao objetivo?
Ou ele se conduz pela via que o permitirá culminar
em seu propósito?
Encantado pelas belezas do caminho, o homem se
perde nas veredas da matéria.
Distraído que está pelas seduções e dores do mundo,
ele se perde em caminhos tortuosos e ilusórios,
E esquece-se de sua natureza essencial, de seu espí-
rito, do divino que nele habita.
Procure lembrar-te de que não és matéria, mas espí-
rito;
Não és emoção, mas espírito, não és personalidade,
mas espírito.
Você cruza o vale do mundo, mas não pertence a ele;

207
passa pela matéria, mas não é matéria.
Você veste a roupagem humana, mas não é humano;
sente emoções, mas não é nenhuma emoção.
Convive com pessoas, mas elas não te pertencem;
vive na Terra, mas não é da Terra.
Você sente os prazeres do mundo, mas nada levará
daqui; Possui muitas coisas, mas tudo um dia se
desfaz.
Tua origem não é a Terra, mas o cosmos, o infinito, a
eternidade.
Você vive no mundo para se preparar para a jornada
sempiterna do espírito…
O que é do mundo, deixe no mundo; o que é do espí-
rito, você pode levar.
“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus”.
Traga o espírito para o mundo, mas não tente levar
coisas do mundo para a esfera da essência.
Você é o herdeiro do cosmos, não brigue pelas mi-
galhas desse mundo transitório. Não lute pelo copi-
nho de água diante de um inesgotável oceano.
Um dia tudo perece, tudo se desgasta, tudo se deteri-
ora, tudo morre,
Mas o espírito não tem começo nem sequer terá fim.
Você não é humano… Você é espírito. Tudo o que
você faz é o espírito que habita em ti que age e rea-
liza.
Tudo o que você tem é apenas um instrumento que
deve ser usado para o crescimento e o despertar do
espírito que você é.
Não pense que sua personalidade tem o poder, que
suas capacidades humanas te trazem tudo,
Que tua mente pode tudo revelar, que teu pensa-
mento pode tudo alcançar.
É o espírito que tudo dá e tudo tira; ele que vive em

208
você e não você que vive com ele.
Você não tem uma alma, não tem um espírito, você é
espírito.
Você não vive no tempo… Você vive na eternidade.
Você não vive no espaço… Você vive no infinito.
Você é o espírito da vida habitando momentanea-
mente um corpo enquanto se prepara para a vida
eterna.
Que é pura paz, puro amor, pura felicidade, onde
nada se esgota, nada deixa faltar e tudo é o que é.

209
A MENTE TRANQUILA

Um discípulo procura seu mestre para lhe fazer uma


indagação muito importante. Aproxima-se do instru-
tor e pergunta:

– Mestre, o que devo fazer para conhecer melhor a


mim mesmo?

O Mestre pediu que o discípulo o acompanhasse até


um lago que existia ali próximo. Tratava-se de um
lago bastante calmo, sem corredeiras e nenhuma
ondulação na superfície.

Assim que chegaram, o mestre pediu que o discípulo


olhasse a água do lago. O discípulo fez o que o mestre
pediu, aproximou-se das margens e olhou a água. Viu
sua própria imagem refletida na superfície da água.
Como o lago era bem calmo, pôde enxergar a si
mesmo nitidamente.

– Agora, pegue uma pedra e jogue nas margens do


lago, disse o mestre.

O discípulo pegou a pedra mais próxima, e atirou nas


margens, bem próximo onde ele enxergara seu pró-
prio reflexo.

– Agora observe novamente seu reflexo na água,


disse o mestre.

O discípulo olhou e quase não podia mais ver seu


próprio reflexo. As ondas formadas pela pedra ati-
rada no lago impediam qualquer visão nítida de sua
própria imagem.

210
– Não consigo mais me ver mestre. O que isso signi-
fica?

O mestre respondeu:

– Para que possas conheceres a ti mesmo, deves con-


servar tua mente tão calma como a água desta lago.
Observe que a água agitada e com ondulações per-
mite apenas uma visão distorcida de tua própria
imagem. O mesmo ocorre com uma mente agitada,
ansiosa, intranquila, dominada pelo medo e pelas
paixões. Ninguém pode enxergar a si mesmo numa
condição de nervosismo, de inquietação, sem que sua
consciência esteja serena como a calmaria das águas
deste lago. As ondulações da superfície do lago re-
presentam todas as dualidades que a nossa mente se
envolve, e estas formam um entrave ao autoconhe-
cimento. É preciso pacificar a mente para que se
torne possível a visão das coisas, tal como elas são, e
a visão de como nós somos em essência.

211
A ESCOLHA CERTA

Um homem estava se contorcendo para resolver uma


questão. Não sabia o que escolher em sua vida.
Estava em dúvida se continuava investindo em seu
trabalho atual, que lhe rendia pouco, ou se tentava
outra carreira. À noite, orou fervorosamente a Deus e
pediu que os anjos iluminassem seu caminho para
que pudesse tomar boas decisões.

Após adormecer começou a ter um sonho que lhe


parecia bem real. Involuntariamente viajou para uma
região celeste e se deu conta de que estava na pre-
sença de um anjo com uma luz maravilhosamente
bela e amorosa. O anjo disse:

– Suas preces foram atendidas. Você orou a Deus


pedindo que lhe ajudasse a fazer boas escolhas. Mas
precisas saber que na vida há uma escolha funda-
mental, que ajuda decisivamente em todas as outras,
e é isso que procurarei te mostrar agora, com a sua
permissão. Aceitas submeter-se a uma prova a fim de
verificar se estas pronto para uma escolha muito
importante?

O homem ainda estava um pouco mexido com tudo


aquilo. No entanto, sentiu um halo de amor e paz que
emanava do anjo, confiou nele e decidiu aceitar o
desafio proposto.

– Pois bem, disse o anjo. Que a prova comece!

Tão logo o anjo terminou de proferir estas palavras,


abriu-se a frente do homem uma estrada de terra. O

212
homem entendeu que deveria seguir por aquele ca-
minho e ver o que acontecia.

De repente, ele se depara com uma bifurcação no


caminho, parecida com um Y.

Ambos os caminhos parecem não levar a lugar algum


e se perdem no infinito. Ele começa então a seguir
por uma das estradas. Nesse caminho, ele percebe
que as pessoas vêm ao seu auxílio, tudo lhe parece
mais agradável e as coisas lhe são oferecidas de
forma mais sedutora, sem que seja necessário um
maior esforço da parte dele.

Ele começa então a percorrer o outro caminho. Ao


contrário do caminho anterior, neste outro tudo lhe
parece mais difícil, ele precisa se esforçar para con-
seguir as coisas, as pessoas já não vêm em seu auxílio
e não há qualquer facilidade. No entanto, neste ca-
minho ele enxerga as coisas de forma mais nítida e
clara, e tem uma forte impressão de ser mais ele
mesmo. Ainda neste caminho, não há tentações, as
coisas são mais difíceis e exigem uma atitude firme
da parte dele.

Ao se deparar com o fim dos dois caminhos, nada


parece existir ali, não há coisa alguma. Ele então vê
as duas opções e sente que precisa tomar logo uma
decisão, uma escolha definitiva por um dos cami-
nhos.

Por que não seguir o caminho que lhe pareceu mais


fácil, já que nada parece existir no final das estradas?
Por outro lado, no outro caminho, apesar de tudo ser
mais difícil inicialmente, ele consegue ser mais ele

213
mesmo e perceber as coisas com mais clareza. Então,
qual dos dois escolher? O caminho mais cômodo, ou
o caminho mais árduo, porém onde tudo é mais claro
externa e internamente?

O homem finalmente decide seguir pelo caminho


menos cômodo, onde tudo é inicialmente mais difícil,
mas tudo lhe parece mais claro e verdadeiro. Assim
que dá o primeiro passo no caminho escolhido, ele se
vê novamente no início da jornada, e novamente na
presença do anjo. O anjo então diz:

– Você obteve sucesso nesta prova! Escolheste o ca-


minho real, que leva mais rápida e diretamente a
meta suprema. O caminho onde tudo era fácil, cô-
modo, em que todos vinham ao seu auxílio, é o cami-
nho daqueles que cedem as tentações da vida, esco-
lhem o caminho de maior conforto, onde tudo é con-
solador, estável, mas tudo é ilusório e não há esforço
pessoal. O outro caminho, ao contrário, tudo é árduo,
pesado, difícil de início, mas ao mesmo tempo é mais
claro e estamos mais lúcidos a respeito das coisas.
No primeiro caminho, tudo é mais fácil de início, mas
depois se torna mais difícil. O outro caminho; a es-
trada real, é o contrário; tudo é mais pesado e exige
grande esforço, mas depois se torna mais fácil. É
muito comum se cair na tentação de seguir o pri-
meiro caminho, do comodismo e da ilusão. Esse é o
caminho que uma boa parcela da humanidade opta
em seguir.

O homem ouve tudo com muita atenção e percebe


que está descobrindo uma grande verdade ali, na-
quele momento. O anjo continua.

214
– O primeiro caminho, que tu não escolheste, é o
caminho daquele que, por exemplo, prefere passar
por cima dos outros, angariar facilidades, fazer nego-
ciatas; ser indicado a um cargo ao invés de merecê-
lo; colar na prova ao invés de estudar; comprar o
diploma ao invés de seguir numa faculdade séria;
permanecer num casamento que já terminou porque
é mais cômodo para ela e os filhos; ou a mulher que
se arranja com um homem rico que lhe dará todo
conforto material; ou a mulher obesa que precisa
fazer dieta pela sua saúde, mas pensa que mais um
docinho na festa “não fará diferença”; ou como o
fumante que precisa largar o vício, mas pensa sem-
pre em terminar o “último maço”; ou como o político
que desvia verba ao invés de lutar por justiça social;
ou o advogado que defende clientes comprovada-
mente culpados a fim de torná-los inocentes; ou o
pobre que envereda pelo caminho do crime, do trá-
fico de drogas e ganha muito dinheiro inicialmente,
mas depois é assassinado ou passa o resto da vida
estressado e infeliz; ou ainda o funcionário que per-
cebe patentes ilícitos em sua empresa e lhe é pedido
que “feche os olhos” para tudo isso, pois seu salário é
alto e ele consegue ter uma vida material bem está-
vel. Aqui está a resposta que pediste às tuas indeci-
sões sobre qual caminho seguir. Uma das escolhas
mais importantes, se não for a mais importante, é
esta que fizeste. Todas as outras são uma resultado
dessa escolha fundamental na vida dos seres huma-
nos.

215
O LOBO FEROZ

Certo dia um homem teve um sonho estranho. So-


nhou que estava num ambiente seco, com céu ver-
melho, parecido com um deserto.

Ele viu um homem e um lobo ao longe seguindo via-


gem. Esse homem parecia adorar o lobo, e por isso ia
colhendo alimentos, caçando animais e dando todo
tipo de comida ao lobo.

Conforme eles iam seguindo a viagem, o lobo ia co-


mendo. Então começou a ocorrer algo curioso. O lobo
ia ficando mais e mais exigente por comida. A im-
pressão que dava é que o animal estava cada vez
mais faminto e quanto mais comida o homem dava
ao lobo, mais o lobo sentia fome e mais exigia que ele
lhe desse cada vez mais. Isso continuou aconte-
cendo até chegar num determinado ponto em que o
animal estava tão faminto, que começou a morder o
homem que o alimentava. O lobo começou a investir
contra o homem, e este ficou com medo e tentou
fugir. No entanto, era tarde demais: o lobo o alcançou
e o devorou ali mesmo.

Assim que o lobo foi embora, o homem se aproximou


da carcaça do homem devorado e percebeu que ape-
nas a cabeça e o rosto foram preservados. Olhou com
atenção o semblante do morto, e começou a passar
mal com a revelação: o homem devorado pelo lobo
era ele mesmo.

O homem acordou assustado com o sonho e foi pro-


curar um sábio que era famoso por interpretar so-

216
nhos. O homem encontrou-se com o sábio e indagou
sobre o significado daquele sonho. O sábio explicou:

– Você teve um sonho de um sentido profundo. O


lobo representa os instintos e desejos humanos. Essa
trama do sonho nos ensina duas coisas:

Em primeiro lugar, quanto mais alimentamos nossos


instintos e desejos, maior se torna seu apetite. Não
adianta tentar satisfazer nossos desejos, pois eles
apenas aumentarão e pedirão sempre mais e mais.

Em segundo lugar, precisamos entender que, ou con-


trolamos nossos instintos sem alimenta-los tanto e
sem fazer todas as suas vontades, ou eles assumem o
controle sobre nós e vão aos poucos nos devorando e
nos fazendo perecer.

O homem agora compreendia que o sonho era uma


mensagem para ele mesmo, que há muito exagerava
na busca pelos desejos e prazeres do mundo. O sábio
completou:

Não se esqueça desse importante princípio da vida:


aqueles que consomem tudo que seus instintos e
desejos demandam, acabam sendo consumidos por
eles.

217
DEIXE TUDO FLUIR

Quando ocorre um acidente numa rua, a passagem


fica interditada e isso pode gerar um engarrafa-
mento.

Quando um rio é represado, forma-se um bolsão de


água retida que transborda por todos os lados e afeta
a vida no entorno, além de secar as paragens próxi-
mas.

Quando nosso sangue acumula toxinas, as veias fi-


cam entupidas e o sangue não flui conduzindo certos
nutrientes. Isso pode gerar patologias cardiovascula-
res e debilitar o organismo.

Quando muitas pessoas passam por uma via curta,


essa multidão pode impedir o trânsito de outras,
gerando uma concentração de pessoas que pode
prejudicar cada um desses indivíduos.

Quando uma pessoa retêm suas emoções e não per-


mite que elas se expressem, cria uma repressão que
vai estourar em algum momento no futuro. Quem
retêm perde o controle e causa danos a si mesmo.

Aquele que prende uma pessoa e não permite que


ela se expresse, está aos poucos aniquilando seu es-
pírito de vida. Quem prende a si mesmo em um ou
mais aspectos está cometendo um gradual suicídio
interior.

“Tudo flui”, dizem os sábios. Todas as coisas preci-


sam da fluidez para continuarem existindo. No fluxo
a vida continua e completa seu ciclo.

218
Tudo em nossa vida deve sempre fluir. Quando al-
gum aspecto de nossa existência perde sua fluidez,
acumulamos coisas desnecessárias e impedimos que
tudo corra naturalmente.

Tudo aquilo que acumulamos, ou que bloqueamos,


ou que não desejamos abrir mão, obstrui o movi-
mento, fecha a passagem, interrompe a expressão da
vida.

Libere de sua vida todas as acumulações desnecessá-


rias. Deixe tudo fluir… Permita que a vida siga seu
curso natural.

Quem impede o fluxo da vida, seja físico, emocional


ou coletivo, bloqueia o transcorrer natural que insu-
fla o sopro vital.

Quem se bloqueia pode ficar doente. O próprio blo-


queio já é a doença. Quem abre suas energias e deixa
tudo fluir, se cura. O fluxo é a cura.

Aquele que se detém demais numa situação, numa


pessoa, em algum período do passado ou numa visão
de mundo, fica paralisado, se engessa e quando bate
o vento inexorável das transformações, vai sendo aos
poucos destruído.

Não represe o córrego sagrado de sua vida. Refrear é


lutar contra. Bloquear é perecer.

Deixe sempre tudo fluir… Fluxo é liberdade.

219
MATERIALISMO ESPIRITUAL

Aqueles que fazem caridade dando comida aos po-


bres e por isso sentem-se superiores aos outros, es-
ses se rebaixam ainda mais.

Aqueles que divulgam ensinamentos espirituais, mas


em sua vida prática fazem o oposto do que ensinam,
estão piores do que os humildes que, sem conheci-
mento teórico, fazem o bem.

Aqueles que vão a igreja toda semana, seguem os


preceitos de sua fé, mas julgam seus irmãos, rotulam
e os condenam sem os conhecer bem, esses têm
ainda muito o que aprender.

Aqueles que praticam técnicas de meditação pro-


funda, e por isso seu ego fica inflado, sua meditação
só serve como passatempo sem valor.

Aqueles que colocam vestimentas ritualísticas em


sua organização religiosa ou esotérica e com isso
desejam impressionar os outros para se envaidecer,
já se perderam seriamente no caminho espiritual.

Aqueles que são escolhidos como dirigentes, líderes


ou instrutores de seu templo e passam a usar esse
cargo para exercer seu poder, impor seu jeito e não
respeitam a pluralidade de modos de ser, esses são
falsos líderes.

Aqueles que decidem engajar-se num projeto social,


viram vegetarianos ou fazem campanhas humanitá-
rias apenas para somar em seu currículo, para es-

220
banjar ou para sentirem-se na vanguarda de sua
época, esses estão ainda mais atrasados.

Aqueles que fazem yoga pensando apenas na firmeza


muscular, na beleza física e em demonstrar a todos o
quanto são fortes e esbeltos, esses estão caindo no
terrível abismo do autoengano.

Se você quer ser espiritual, mas não quer sacrificar


um centímetro de seus gostos e interesses humanos,
mude de caminho.

Se você quer ser espiritual, mas não quer permitir a


transformação íntima, largue o espiritual e volte para
o mundo.

Se você quer ser espiritual, mas intenta manter seus


desejos, seu ego e sua personalidade, está certa-
mente se iludindo.

Se você faz todas essas coisas, consciente ou incons-


cientemente, pare e reflita sobre suas atitudes.
Você pode estar caindo na lama do chamado materi-
alismo espiritual.

Materialismo espiritual é a utilização de aspectos da


vida espiritual apenas para embelezar e alimentar
seu ego.

A vida espiritual autêntica jamais pode aceitar de-


monstrações vãs, hipocrisia, fanatismo, egocen-
trismo, vaidade, ganância e soberba.

221
Quem segue o verdadeiro caminho espiritual deve
aceitar de bom grado o sacrifício de si mesmo em
prol da vida coletiva e divina.

Permita que o universo seja sua morada e não seu


corpo.

Permita que sua consciência interior o conduza e não


seus desejos.

Permita que Deus guie sua vida e não seu ego.


Seja espírito… e não uma mera personalidade.

222
O ERRO DO OUTRO

Não se importe com a hipocrisia, os fingimentos, as


farsas, a arrogância e os erros de outras pessoas.

Sempre vejo algumas pessoas reclamando dos erros


de outros em grupos espirituais, centros, templos,
em suas famílias, na escola na empresa, etc.

Reclamam que as pessoas falam uma coisa e fazem


outra; que as pessoas são dissimuladas e não dizem o
que pensam; que nos sorriem de manhã e puxam
nosso tapete a tarde; que falam mal dos outros pelas
costas; que criam intrigas e confusões por coisas
pequenas. Mas ninguém deve ficar se preocupando
com o que o outro faz ou deixa de fazer de errado.
Em nossa passagem pela Terra, a única coisa que
realmente importa é o que nós mesmos fazemos.

Que pode nos importar o que o outro faz de bom ou


mau? Se uma pessoa faz o mal, ela sofrerá as conse-
quências do mal que esteja praticando. Isso fará
parte do patrimônio espiritual dessa pessoa, será a
sua colheita mais cedo ou mais tarde. Por isso, nin-
guém deve ficar nervoso, revoltado, incomodado ou
querendo “dizer umas verdades” ao outro. Se fizer-
mos isso, o erro passa a ser nosso também e não
apenas do outro. Faculte a cada pessoa o direito que
ela tem de errar e aprender sozinha com seus erros.
Como diz Chico Xavier “Aos outros dou o direito de
ser como são; a mim dou o dever de ser cada dia
melhor”.

Quando tentamos apontar os erros de alguém e o


outro não quer ouvir, ele poderá se voltar contra nós,

223
além da possibilidade de se criar conflitos e confu-
sões desnecessárias. Vamos permitir que o outro seja
o que ele quer ser; que ele possa seguir o caminho
que escolheu; que ele possa viver as experiências
que determinou para si, mesmo que isso seja errado,
seja hipocrisia e mesmo que isso nos afete de alguma
forma. O choque de retorno ocorrerá na hora certa e
fará essa pessoa aprender com os erros do passado.

Portanto, deixe o outro errar o quanto quiser e não


se irrite com as faltas alheias. O que tem valor nessa
vida é o que fazemos diante da humanidade e diante
de Deus. Deus conhece nossa vida, nossos atos e co-
nhece profundamente nosso irmão em erro. Se o
outro quer insistir em suas incorreções e enganos,
quem somos nós para corrigi-lo? Isso é um problema
dele, é a escolha que sua alma fez e que o conduzirá a
um caminho tortuoso, que ele viverá ou talvez já viva
essa tortura em sua consciência. Além disso, sempre
há a possibilidade de olharmos mais para os erros
dos outros a fim de não enxergar os nossos próprios
erros.

Dessa forma, não permita que as faltas do outro afe-


tem seu trabalho na grande jornada humana. Como
diz Madre Tereza de Calcutá “No fim das contas, tudo
é entre você e Deus e não entre você e os outros”.
Cumpra as tarefas que lhe cabem sem olhar para o
lado, pois no final das contas, o que interessa é o que
nós plantamos… E nada nos acrescenta ficar obser-
vando a colheita de nosso irmão.

224
O CAMINHO DO MEIO

Aprenda a dosar todas as coisas da vida.


Usufrua com parcimônia os prazeres,
Sem mergulhar em deleites quiméricos.
Seja quem és,
Sem invadir o espaço do outro.
Seja humilde,
Sem ser submisso.
Seja tolerante,
Sem ser condescendente.
Seja corajoso,
Sem tornar-te imprudente.
Seja cauteloso,
Sem fechar os ouvidos às opiniões alheias.
Busca ser forte,
Sem te tornares inflexível.
Busca a compaixão,
Sem te transformardes num sentimentalista.
Pratique o perdão,
Sem esquecer-se dos erros passados.
Trabalha com afinco,
Mas guardes um tempo só para ti.
Conviva com os outros,
Mas não te esqueças de ficar contigo mesmo.
Seja sincero,
Sem dizer tudo o que der na telha.
Diga apenas o necessário,
Sem tornar-te um falador compulsivo,
Jogando a tua energia fora.
E o mais importante:
Não queira ser grande perante os outros,
Procura apenas ser inteiro para si mesmo.
Quem é inteiro para si mesmo,
Conquista seus objetivos.

225
Quem se faz grande perante o outro,
Cai por suas próprias fraquezas e enganos.

226
PAZ DE ESPÍRITO

Um homem foi procurar um monge e lhe perguntou


o que se pode fazer para ter paz. O monge apenas
disse:

– Esteja sempre exatamente onde você está.

O homem não compreendeu a frase do monge. “Eu


não sempre estou onde estou?” indagou-se. Aquilo
que não fez sentido para ele.

Voltou para casa e ficou refletindo sobre aquela mis-


teriosa frase, que parecia mais ser um enigma. De-
pois de muito refletir, lembrou que precisava, no dia
seguinte, ir à escola de seus filhos, pois um dos me-
ninos havia brigado com seu colega. Ficou preocu-
pado se ele seria expulso ou não. Foi então deitar-se,
pois o dia seguinte prometia ser bem estafante. Fe-
chou os olhos e lembrou-se de sua recente separação
conjugal e em como sua ex-mulher o havia maltra-
tado. Ficou pensando nisso por 20 minutos e logo
depois lembrou-se da apresentação que deveria fa-
zer na empresa na próxima semana e sentiu-se bas-
tante ansioso.

Acordou no dia seguinte já preocupado com a hora


do trabalho. Lembrou-se do filho que estava na es-
cola e tentou decidir, bastante tenso, como poderia
ser liberado da empresa para falar com a diretora da
escola. Saiu de casa e lembrou que as contas do mês
não estavam ainda todas quitadas. Ficou muito in-
quieto, pensando no que fazer para que um dinheiro
extra pudesse entrar e resolver essa dívida. Lem-
brou-se dos anos anteriores onde o dinheiro não foi

227
suficiente para arcar com as despesas mensais e isso
o deixou deveras apreensivo. Começou a sentir uma
pequena dor no estômago. Essa dor já o acompa-
nhara há alguns anos e sempre vinha em momentos
de angústia e incerteza sobre seu futuro e com as
mágoas de passado. Começou então a pensar que se
tivesse estudado mais em sua juventude, nada disso
precisaria estar acontecendo. “Perdi muito tempo
com bebida, mulheres, falsos amigos e futilidades
que nada me acrescentaram”, refletiu. Lembrou-se
das decepções amorosas que o levaram a uma vida
de gastança e carência e que o afastou dos estudos.
“Como será meu futuro daqui pra frente se eu não
melhorar?” pensou.

Chegado o fim de semana, mais uma vez o homem foi


ao templo falar com o monge, dizendo que o ensina-
mento recebido ainda não tinha feito sentido para
ele. O monge pediu então para o homem meditar em
tudo o que havia feito durante a semana.

O homem começou então a lembrar… e lhe veio um


insight, uma luz. A todo momento, o homem estava
ou preocupado com o futuro, ou preso ao passado;
ou estava na escola dos filhos, ou preso a decepções
e a perda do tempo do seu passado. Em nenhum
momento ele estava no lugar onde estava, ali mesmo,
dentro de si, observando-se e sentindo-se. Ele estava
sempre em outros lugares, mas nunca no lugar onde
ele se encontrava. Sua mente estava em todo lugar,
menos com ele.

“Agora entendi essa máxima” disse o homem.

O monge reafirmou:

228
“Para ter paz de espírito em nossa vida, esteja sem-
pre exatamente no lugar onde você está, pois ou es-
tamos onde estamos, ou nos perdemos em muitos
lugares e acabamos não estando em lugar nenhum.”

229
FUNDO DO POÇO

Uma mulher estava passeando com seu filho pe-


queno. O menino corria e brincava pelos campos
verdes das pradarias. A mãe olha um pássaro vo-
ando, e subitamente ouve um grito de desespero do
seu filho, que caiu num poço fundo e escuro. A mãe
corre até o poço e vê o menino lá embaixo, preso e
um pouco machucado.

Ela se desespera, fica nervosa e grita “Calma filho,


vou aí te buscar!”. Ela se atira no poço, cai lá em-
baixo, se machuca toda, e fere ainda mais seu filho.
Ela tenta subir, mas com o peso do filho, não conse-
gue subir pela corda. Ambos, mãe e filho, ficaram lá
por dias e dias. Gritavam, mas ninguém podia ouvi-
los, e acabaram definhando e morrendo de inanição.

Dois anos depois desse incidente, outra mulher tam-


bém estava brincando com seu filho no mesmo local.
Pela ironia do destino, o filho dela também caiu lá
embaixo e gritou pela sua mãe. A mulher viu seu
filho lá, no fundo do poço, todo ferido, mas procurou
ficar calma e refletir na melhor solução. Ao contrário
da outra mãe, ela não se jogou ou desceu ao fundo do
poço para salvar o filho. Ela pensou, pegou a corda
ao lado do poço, jogou ao menino, e disse alto: “Filho,
amarre essa corda em volta de sua barriga, que eu
vou te puxar daí”.

O filho atou a corda em si mesmo, e bem devagar a


mãe foi lentamente puxando o filho. Demorou um
pouco, mas ele conseguiu subir com alguns ferimen-
tos, mas são e salvo.

230
Quando uma pessoa que muito amamos se encontra
no fundo do poço, ou seja, numa situação compli-
cada, degradante, de sofrimento, vivendo uma
grande tribulação, dor e muito ferida, não devemos
nos desesperar e descer ao fundo do poço junto com
ela. Unir-se a ela na dor, no sofrimento, e passar a
sentir o que ela sente, nos envolvendo com a mesma
dificuldade, só fará com que afundemos no poço es-
curo em sua companhia, mas efetivamente não nos
permitirá ajuda-la.

A primeira mãe desceu ao fundo do poço com o filho,


e por isso não conseguiu mais sair de lá. Já a segunda
mãe, manteve distância do fundo do poço, não des-
ceu de sua posição para juntar-se ao filho, sofrendo
com ele, mas do ponto mais alto onde estava, ela
pôde lançar uma corda, e ajuda-lo a subir do “poço
do sofrimento” onde ele estava preso.

Isso vale não apenas para pais e filhos, mas para


qualquer relação humana. Quando nos envolvemos
nos problemas do outro, e nos deixamos contaminar,
sofrendo com a pessoa e por causa da pessoa, fica-
remos mal. Antes era apenas uma pessoa no fundo
do poço, mas depois viraram duas. A melhor atitude
é permanecer onde estamos, em nosso lugar, e sem
descer ao fundo do poço com a pessoa, e ajuda-la a
sair de lá. Quem se mantém onde está e não vai ao
fundo do poço com a pessoa, tem melhores condi-
ções de prestar ajuda, se de fato a pessoa quiser ser
ajudada.

Seja empático com o outro, compreenda a visão dele


dentro do contexto em que vive, mas não sofra junto
com ele.

231
COMO TRANSMUTAR NOSSO KARMA

Todas as pessoas, em algum momento de sua vida, já


ouviram falar do karma ou da lei do karma. No en-
tanto, são poucas aquelas que sabem o que fazer
para transformar seu karma negativo e se libertar
dele. Nessa oportunidade vamos dar algumas orien-
tações de como cada pessoa, em sua vivência diária,
pode se libertar de seu próprio karma.

Karma é a lei de causa e efeito. Tudo aquilo que você


faz, sente ou pensa você atrai para você mesmo.
Aquilo que realizamos como obra no mundo retorna
para nós como destino, criando acontecimentos e o
cenário de nossa vida futura. Como disse Jesus:
“Quem vive pela espada, perece pela espada” (Ma-
theus 26, 52). Como disse Buda: “Os seres têm como
patrimônio seu karma; são os herdeiros, os descen-
dentes, os pais, os vassalos do seu karma. É o karma
que divide os homens em superiores e inferiores”.
Quem cria uma teia acaba caindo e se prendendo a
ela. Vivemos no mundo que nós mesmos criamos,
experimentamos o céu ou o inferno que formamos
em nossa vida. Quem joga pedras pelo caminho, tro-
peça nessas mesmas pedras. Quem joga uma bola na
parede, vê a bola retornar a si com a mesma força
com a qual foi lançada. Por outro lado, quem vive
pelo bem, recebe as consequências do bem que pro-
duziu. Colhemos aquilo que semeamos. Ou como diz
a máxima: “A semeadura é livre, mas a colheita é
obrigatória”. Tornamo-nos escravos das consequên-
cias de nossas ações. Criamos no presente aquilo que
nos sucederá no futuro. Essa é a lei do karma, ou lei
de ação e reação. O karma vem tanto de nossas ações
presentes quanto das ações realizadas em nossas

232
vidas passadas. Esse é um pequeno resumo da lei do
karma.

Mas o que cada pessoa pode fazer para transmutar


seu próprio karma? Essa pergunta obviamente não é
simples de ser respondida, pois as implicações e a
complexidade da lei do karma são imensas e quase
insondáveis pela nossa mente objetiva. No entanto,
existem alguns caminhos que podem ser trilhados
que nos ajudam a amenizar ou mesmo transmutar
nosso karma. Vamos enumerar alguns desses cami-
nhos:

Em primeiro lugar, uma atitude que contribui para a


transmutação de uma parcela considerável do nosso
karma é o arrependimento. Quem bem compreendia
o valor do arrependimento era, como ele mesmo se
definiu, “a voz que clama no deserto”, ou seja, João
Batista. Antes do ministério de Jesus, João Batista
convidava o povo a se arrepender de seus pecados.
Ele gritava: “Arrependei-vos, pois que é chegado o
Reino dos céus” (Mateus 3, 2). As pessoas que procu-
ravam João Batista confessavam a ele seus pecados e
depois eram orientadas a se arrependerem desses
mesmos pecados, e logo depois eram banhadas nas
águas do rio Jordão no ritual que ficou conhecido
como “batismo”. Esse ritual seguia três passos im-
portantes: a confissão do pecado, o arrependimento
e o ato de ser banhado nas águas do rio Jordão. A
confissão dos pecados e o arrependimento eram uma
forma da pessoa lembrar dos seus pecados, dos atos
reprováveis que havia cometido e depois ser cha-
mada a arrepender-se deles. O ato de ser banhado
nas águas representava uma purificação das emo-
ções que impregnavam o pecado. Dessa forma, no

233
ritual, a pessoa se arrependia do mal que havia feito,
e esse arrependimento gerava uma libertação desse
mal. Alguns místicos ensinam que o arrependimento
pode transmutar uma parte do nosso karma, mas
não todo o karma. Dessa forma, a primeira atitude a
ser tomada para aqueles que desejam purificar seu
karma é o arrependimento do mal criado por si
mesmos. Há algumas passagens na Bíblia que pare-
cem confirmar esse ponto, em (Marcos 1:4), que diz:
“E apareceu João batizando no deserto, e pregando o
batismo de arrependimento, para remissão dos pe-
cados”. Vemos a mesma ideia em (Lucas 3:3): “E per-
correu toda a terra ao redor do Jordão, pregando o
batismo de arrependimento, para o perdão dos pe-
cados”. Nos Atos dos Apóstolos, há uma associação
entre arrependimento e remissão dos pecados:
“Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salva-
dor, para dar a Israel o arrependimento e a remissão
dos pecados” (Atos 5:31). Portanto, aqueles que qui-
serem seguir por esse caminho, devem fazer o se-
guinte: em primeiro lugar, pense em qualquer ati-
tude negativa que você haja feito. Em segundo lugar,
arrependa-se dessa atitude, admitindo o erro e
aprendendo com ele. Depois, entregue tudo isso a
Deus e pratique o autoperdão, ou seja, o perdão pe-
rante você mesmo e remova qualquer resquício de
culpa que você ainda possa ter. Aceite que o erro faz
parte do nosso desenvolvimento espiritual e entre-
gue seus pecados para serem transmutados pelo
plano divino. Esse é o primeiro ponto a ser buscado.

O segundo ponto é provavelmente o mais importante


de todos e se refere a “não reação” diante do karma
que nos chega. Quando os efeitos do nosso karma se
abatem sobre nós, eles não devem ser alimentados, e

234
precisam apenas ser observados em sua passagem.
Esse princípio da transmutação do karma foi clara-
mente ensinado por Jesus, no Sermão da Montanha,
quando disse: “Eu, porém, vos digo que não resistais
ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita,
oferece-lhe também a outra” (Matheus 5:39) e “se
qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com
ele duas” (Matheus 5, 41). Isso significa que, quando
o karma nos chega, devemos aceita-lo de bom grado,
abençoa-lo e não reagir ao malfeitor ou a situação
que nos oprime, pois tudo isso nada mais é do que a
ação do nosso karma sobre nós mesmos.

Isso significa que, quando uma pessoa te agredir, não


a agrida de volta; quando uma pessoa te ofender, não
devolva a ofensa; quando uma pessoa te fizer qual-
quer mal, não devolva esse mal a ela, pois assim você
estará permitindo que seu karma passe por você e se
esgote ali mesmo, sem ser alimentado. Mas se a pes-
soa ofendida devolve a ofensa, o karma se mantém;
se a pessoa agredida agride de volta, o karma é ali-
mentado e continua conosco (podendo até mesmo se
tornar mais forte e intenso).

Tudo isso está expresso com clareza no Sermão da


Montanha, que é um guia muito eficaz para a trans-
mutação de nosso karma. Jesus, que obviamente co-
nhecia a lei do karma e de reencarnação, ensinou um
modo eficiente para qualquer pessoa, em sua vida
diária, transmutar seu próprio karma. É como atirar
uma bola na parede. Se uma pessoa joga a bola na
parede, essa bola retorna a ela. No momento do re-
torno, se ela bater de novo nessa bola com a mesma
força que ela vem a nós, a bola novamente atingirá a
parede e retornará com a mesma intensidade, ou

235
talvez com intensidade ainda maior. O mesmo ocorre
quando uma pessoa reage diante de uma circunstân-
cia que lhe parece negativa. Quando a força do karma
vem e reagimos, nós estamos, mesmo sem querer,
alimentando o karma, dando força para ele, e aquela
energia karmática retornará novamente mais cedo
ou mais tarde no futuro. Ao reagir de forma emocio-
nal podemos até mesmo estar criando um novo
karma.

Vamos agora imaginar a energia do karma como uma


correnteza que nos arrasta. Quando uma pessoa vai
de encontro a uma corrente lutando contra ela, so-
frerá seus efeitos e permanecerá parada, ou será
arrastada ainda mais. Por outro lado, quando essa
pessoa se deixa levar sem nada fazer, talvez pelo
medo que a paralisa, a corrente a arrastará e ela será
conduzida rio abaixo. Mas se, de outro modo, ela se
colocar acima da correnteza, estará fora de seu raio
de influência e o arraste das águas não terá qualquer
poder sobre ela. O mesmo ocorre com a força do
nosso próprio karma. No entanto, é preciso dizer que
não basta apenas não reagir ao mal que é feito: é
necessário não se deixar levar pelas emoções que
eles nos suscitam. De nada adianta não reagir e per-
manecer com raiva do nosso agressor, daquele que
nos ofendeu, ou preocupado, com medo, magoado,
etc. É preciso deixar que a força do karma venha e
passe por nós, sem que haja qualquer reação de
nossa parte, seja física ou emocional. É como deixar
que a bola que atiramos na parede venha a nós e nos
atinja, sem que isso nos afete internamente. Ou tão
somente nos desviarmos da bola sem qualquer emo-
ção, apenas nos esquivando. Ao invés de bater no-
vamente na bola, deixe que ela venha e simples-

236
mente cumpra aquilo que a ela está destinada. Se a
pessoa deixa acontecer e não reage emocionalmente,
não se deixa abalar, não se permite atingir pelo mal
que lhe acomete, o karma vem e vai embora, sem
qualquer efeito sobre nós e acaba sendo neutrali-
zado: a energia se perde e deixa de existir. Aqui entra
o princípio da equanimidade, tal como ensinado pela
tradição Hindu. Esse princípio implica em agirmos e
sentirmos da mesma forma tanto na tempestade
quanto na bonança. O sábio não se deixa entristecer
nos tempos de crise e não se regozija nos tempos de
abundância. Ele permanece tranquilo diante do bem
e do mal que o atinge. Os acontecimentos simples-
mente passam por ele sem que fiquem nele, sem que
ele os guarde dentro de si, sofrendo ou se alegrando.
Alguns podem acreditar que isso implica numa frieza
profunda, mas isso não é verdade: a equanimidade
nos conduz além das alegrias e gozos mundanos,
para alcançar uma alegria espiritual que não de-
pende de nada que existe nesse mundo. Ao contrário
dos gozos do mundo, esta é uma felicidade muito
mais pura e real.

Quem soube usar muito bem esse princípio da


transmutação do karma foi Gandhi. O Mahatma con-
seguiu a libertação da Índia convidando o povo indi-
ano ao famoso método da não-violência, em Sâns-
crito “ahimsa”, ou seja, a não reagir à violência dos
ingleses, mas também a não cooperar com eles, não
obedece-los, não fazer o que eles mandavam. Quando
os ingleses agrediam o povo, Gandhi orientava as
pessoas a não revidar a agressão com outra agressão,
e assim deixar o mal apenas com os ingleses. É como
aquela parábola do presente: se você aceita o pre-
sente que te dão, ele fica com você, mas se você não

237
aceita o presente, ele fica com a outra pessoa. Aquele
que aceita uma agressão e não revida, deixa a agres-
sividade, a raiva etc, com o outro. Assim, se os india-
nos reagissem à agressão, o mal permaneceria com
eles, e não apenas com os ingleses. Com esse método
tão simples, Gandhi pôde conduzir a Índia a sua li-
bertação, graças a transmutação de uma parcela do
karma de toda a nação.

O terceiro ponto que nos ajuda a transmutar todo o


nosso karma de uma ou várias vidas passadas é a
reparação do erro cometido. Essa é a forma de
transmutação mais conhecida e compreendida pelo
público em geral. Vamos imaginar uma pessoa que
ao longo de várias vidas tenha sido um guerreiro que
matou, estuprou e torturou milhares de pessoas.
Numa vida futura a providência divina pode lhe con-
ceder um instrumento de transmutação desse
karma, que pode ser, por exemplo, uma profissão na
área de saúde, como a medicina, a enfermagem, a
farmácia, a psicologia, etc. Uma enfermeira pode
atender milhares de pessoas durante a sua vida, e
estas podem ser as mesmas pessoas que ela, em vi-
das passadas, cometeu várias crueldades. Outras
pessoas podem participar de campanhas beneficen-
tes visando reparar o mal que fizeram no passado;
outras podem realizar trabalhos em sua comuni-
dade; podem ajudar animais de rua; podem se enga-
jar em campanhas de diversos tipos; há muitos ins-
trumentos que a inteligência cósmica nos oferece
para que possamos consertar o mal pretérito. Alguns
dizem que a mediunidade é também um instrumento
de transmutação do karma passado. Muitos médiuns
vêm ao mundo com a missão de ajudar milhares de
pessoas a fim de diminuir um pouco, ou mesmo es-

238
gotar, uma dívida que foi gerada ao longo de várias
vidas passadas.

Uma pergunta que as pessoas podem fazer é: como


posso fazer o bem? Que ações devo iniciar? A res-
posta a essa pergunta varia de pessoa para pessoa,
mas há uma resposta geral que é bem simples: faça
aquilo que você acredita que seja o bem, dentro do
seu nível de consciência. Tornar-se uma pessoa boa
dentro do seu trabalho, de sua família, em suas rela-
ções sociais e diante de sua comunidade, expres-
sando em atos e sentimentos todo o bem que lhe for
possível, já é um grande feito. No entanto, é preciso
que esse bem realizado seja total e plenamente
isento de qualquer resquício de interesse pessoal.
Tudo o que fizer, faça pensando no bem estar do
outro e não na sua recompensa kármica. Isso inclu-
sive tem a ver com o quarto ponto a ser abordado.

O quarto ponto é muito bem conhecido pela tradição


hindu. Nos textos sagrados da tradição do “Sanatana
Dharma” (Hinduísmo), em especial num livro sa-
grado conhecido como “Bhagavad Gitá” (Canção do
Senhor), dos diálogos de Krishna com Arjuna, em
muitos momentos o avatar (Krisna) vai desenvol-
vendo a seguinte ideia: não espere qualquer resul-
tado de seus próprios atos. A expectativa de resulta-
dos é, sem engano, um grande gerador de novos
karmas e, no Hinduísmo, ao longo dos milênios, esse
princípio foi muito bem compreendido. Numa passa-
gem lemos: “Faze as tuas obras sem procurardes
recompensa, sem te preocupardes com teu sucesso
ou insucesso, com teu ganho ou com teu prejuízo
pessoal”. Em outra passagem está escrito “Quem
atingiu a consciência do yogui é capaz de elevar-se

239
acima dos resultados bons e maus”. A expectativa em
relação aos resultados de nossas ações é o substrato
da formação dos karmas em nossa vida. A não expec-
tativa dos frutos de nossa ações é mais uma atitude
preventiva para a criação de novos karmas do que
propriamente transmutadora, embora também ajude
nessa transmutação dos karmas já contidos em
nosso ser. Todo aquele que realiza uma ação espe-
rando uma recompensa está direcionando sua cons-
ciência para o futuro, onde se espera algo que supos-
tamente virá. No entanto, aquele que nada espera e
passa a viver apenas o presente, feliz com o que é no
presente, vive melhor e não cria qualquer fruto a
partir de suas ações, além de ir aos poucos transmu-
tando o karma que ainda se tem. A vivência plena do
momento presente, sem esperar algo no futuro, nos
ajudará a transmutar uma parcela considerável do
nosso karma. Esperar frutos de nossas ações é o
mesmo que criar um sofrimento futuro, pois esses
frutos nunca saem como nós os imaginamos, e sem-
pre geram angústia, frustração e infelicidade.

O quinto ponto, e não menos importante para a


transmutação de uma boa quantidade de nossa dí-
vida kármica, se refere a entrega consciente e abne-
gada de nossa vida nas mãos da consciência divina,
sem qualquer restrição, aceitando plenamente a von-
tade do cosmos sobre nós. Esse ponto é muito impor-
tante, pois ele afirma ou reafirma nossa fé numa in-
teligência superior que guia todos os acontecimentos
humanos, e assim nos liberta de karmas pesados.
Essa máxima pode ser expressa em quatro palavras
chave: “confio, entrego, aceito e agradeço”. Quem
confia em Deus, deve se entregar totalmente a Ele;
quem se entrega, aceita tudo o que nos ocorre com

240
total confiança nos planos divinos; e quem aceita
toda a obra cósmica em nossa vida, agradece a opor-
tunidade de desenvolvimento de nossa alma que
Deus nos concede nesse mundo, a fim de purificar
integralmente nosso espírito. Se tenho uma doença
grave, não importa, não sofra com isso, não duvide,
não se abale, apenas se entregue a Deus e diga “Que
seja feita a Sua vontade, e não a minha”. Quem está
desempregado, sem dinheiro, pronto para perder
sua casa e ser despejado, não se preocupe, não se
deixe abater, apenas entregue sua vida nas mãos de
Deus, tendo consciência que os planos do cosmos são
melhores que nossos planos humanos. Aquele que
está deprimido, sem rumo, sem ânimo, que apenas
vê os dias passarem, sem qualquer esperança, ape-
nas se entregue ao divino e acredite, do fundo de sua
alma, que tudo concorre a um bem maior, a um pro-
pósito divino, a uma harmonia universal, que um dia
será nossa realidade, e que precisamos apenas en-
tregar a Deus e esperar que sua vontade seja reali-
zada. Quem consegue fazer isso de forma pura e
plena, consegue uma libertação dos karmas. No en-
tanto, aquele que mentaliza se entregar, mas não o
faz com fé irrestrita, e age movido pelo interesse de
benefícios humanos e mundanos, não conseguirá a
libertação do karma. É preciso que essa entrega seja
completa e sem restrições, sem nada esperar, apenas
se colocando nas mãos de Deus. Aqueles que pensam
que é muito difícil seguir estas instruções, devem
entender que é muito mais difícil viverem suas vidas
entregues a severa e implacável trama do karma.

Algumas pessoas dizem: “Fiz todas essas coisas, mas


nada mudou em minha vida”. A quem profere tais
palavras devemos adiantar que elas estão violando o

241
quarto ponto explicado da transmutação dos karmas,
que prega a não expectativa dos frutos de nossas
ações. Aquele que faz esperando melhorar de vida,
nada consegue, pois ainda semeia esperando uma
abundante colheita, e quem pensa dessa forma, ainda
permanece com sua consciência presa na expectativa
dessa colheita, aprisionada aos frutos de suas ações,
enjaulada nas tramas da lei do karma e na roda do
samsara. É preciso deixar claro que esse trabalho
pode nem mesmo vir a se concretizar na vida atual. É
possível que um contexto mais favorável venha a se
expressar apenas em nossas vidas futuras, ou como
se diz nas tradições orientais, que a alma venha a
renascer em zonas cósmicas que são consideradas
paraísos celestiais, onde um nível de karma mais
denso não pode alcançar. Aqui devemos lembrar um
ditado popular que diz “Estrada de mil léguas co-
meça nos primeiros passos”. Em algum momento
devemos iniciar nossa jornada. Então, que esse mo-
mento seja agora e não no futuro, pois tudo na vida
só pode ter seu início no presente, e nunca no futuro,
pelo simples motivo de que o futuro não existe. Pro-
cure também não se preocupar com o karma alheio
dizendo “Mas tal pessoa fez o mal a vida inteira e ela
parece estar numa condição muito boa”. A resposta a
essa questão é bem simples: ela se encontra apenas
temporiamente numa condição favorável e confortá-
vel, e essa condição pode até mesmo durar sua vida
inteira.

Deus sempre permite que os seres vivam a plenitude


de suas escolhas, mesmo aqueles que fazem o mal.
Essas almas precisam fazer o mal para depois senti-
rem em si mesmos todo o mal que foi realizado a
outros, e só assim vão se libertar do mal que há em

242
seu próprios corações. No entanto, nas próximas
encarnações, ela deverá sentir em si mesma toda a
carga da semeadura que acumulou ao longo dessa
vida, renascendo em situações sofridas, com escas-
sez de recursos, muitas vezes em estado de miséria,
infortúnios e calamidades. Lembrando sempre que a
lei do karma jamais pode ser considerada punitivia,
mas educativa, pedagógica. Ela serve para ajudar a
alma em seu adiantamento, desenvolvimento e liber-
tação do jugo da matéria, e não para puni-la pelos
maus feitos praticados, posto que não existe algo que
podemos caracterizar como “punição” em toda a
criação de Deus.

243
A PEDRA NO CAMINHO

Um homem começou a seguir um caminho extrema-


mente tortuoso. Começou então a percorrer o cami-
nho. Foi caminhando, pulando alguns buracos, su-
bindo nas pedras e fugindo de alguns animais. No
entanto, ao subir em pedras maiores, ele passou a
observar o que o esperava mais à frente. Haviam
muitos animais ferozes, como lobos. Havia também
mais à frente areia movediça, assim como muita
lama no caminho. Haviam buracos fundos e bem
perigosos. O homem começou então a ficar preocu-
pado com os desafios que o esperavam. Foi atraves-
sar um barranco, mas estava pensando nos animais e
na lama à frente. Muito nervoso e pesaroso com o
que teria que enfrentar, não prestou atenção onde
pisava, desequilibrou-se e acabou caindo de cima do
barranco. Morreu ali mesmo.

Outro homem foi cruzar o mesmo caminho. Iniciou


desviando de algumas pedras e buracos. Subiu nas
pedras maiores e, tal como o outro homem, viu os
perigos que deveria enfrentar. No entanto, o homem
pensou “Por agora vou me concentrar em cada desa-
fio no momento em que eu o estiver cruzando. Deixe
o depois para depois”. Dessa forma, o homem passou
a prestar bastante atenção em cada perigo que es-
tava diante de si, sem se preocupar com o que acon-
teceria no futuro. Sempre que lhe vinha algum pe-
rigo, procurava focar sua mente apenas nele, e deixar
de lado o restante dos perigos que se encontravam à
frente no caminho. Foi então ultrapassando um a um,
e finalmente cruzou a longa e tortuosa estrada.

244
Qual a diferença desses dois homens? O primeiro
olhou adiante e ficou preocupado com o que teria
que enfrentar, deixando de prestar atenção no desa-
fio imediato. O segundo focalizou sua atenção no
desafio imediato, e deixou o futuro de lado para de-
ter-se sobre ele apenas quando ele chegasse.

Na vida humana, é necessário enfrentar sempre o


desafio que está diante de nós, sem se preocupar
com os problemas que ainda não se apresentaram.
Aqueles que ficam preocupados com as dificuldades
que se encontram posteriormente deixam de se con-
centrar naquelas que se encontram agora, e acabam
não fazendo o que precisam. É necessário vencer
sempre a pedra de cada momento, sem se importar
com o que ainda não veio. Quem age dessa forma,
caminha muito melhor pelas tortuosas estradas da
vida.

245
PRECISO MESMO DISSO?

Uma adolescente saiu com o seu avô e ambos decidi-


ram ir ao shopping.

Chegando lá no shopping, a adolescente disse que


iria comprar dois sapatos, duas camisetas, uma saia e
um kit de maquiagem.

O senhor, dos seus quase 75 anos, olhou para a neta


e disse:

– Querida, no meu tempo vivíamos na roça, com


muita escassez de recursos. Então, meu pai, seu bi-
savô, quando nos dirigíamos ao centro da cidade
para fazer algumas compras, ele me ensinou a sem-
pre fazer uma simples pergunta.

– A pergunta é: preciso mesmo disso?

A neta olhou para o seu avô e disse:

– Ah vô, precisar mesmo eu não preciso, mas vai ser


bom ter essas coisas a mais.

O senhor olhou para a jovem e disse:

– Veja querida, se você está adquirindo algo de que


não necessita, isso se chama “criar a própria necessi-
dade”. O ato da compra se transforma apenas num
ritual que gera prazer e satisfação momentânea, mas,
no fundo, é algo totalmente desnecessário e vazio.
Você está criando em você mesma a necessidade da
compra, mas na realidade você não precisa destas
coisas. Vamos lembrar que você já possui uma

246
grande coleção de sapatos em sua casa que eu já vi.
Você já tem muitas camisetas parecidas com essas
que você quer comprar. Você já tem várias saias, e já
possui um kit completo de maquiagem. De onde
nasce o desejo por mais compras de objetos que você
já possui?

A neta não sabia bem explicar o motivo de querer


comprar estas coisas. O avô continuou.

– Em sua vida, lembre-se sempre dessa simples per-


gunta: preciso mesmo disso que desejo comprar?
Pois, na maioria das vezes, nossa noção de necessi-
dade de compra nada mais é do que uma necessi-
dade criada apenas para satisfazer uma ânsia de
consumo passageira, e não é algo que precisamos,
que será útil, ou que fará alguma diferença em nossa
vida. O homem moderno sempre consome muito
mais do que precisa, sempre come muito mais do
que precisa, e quase sempre faz muitas coisas que
não são verdadeiramente necessárias, tudo para
corresponder a um instinto que foi criado por ele
mesmo ou pela mídia, mas que não encontra ne-
nhuma base em sua realidade.

A adolescente, ouvindo estas palavras, disse:

– De fato, não preciso destas coisas…

Ela voltou ao balcão da loja e devolveu cada um dos


itens que iria adquirir.

O idoso concluiu:

247
– Lembre-se sempre da pergunta chave, um questio-
namento muito importante: Isso realmente é neces-
sário? Preciso mesmo disso? Na maioria das vezes, a
resposta é não…

248
NÃO SE IDENTIFIQUE

Eu tenho um corpo físico, mas eu não sou esse corpo.


Eu tenho emoções, mas eu não sou nenhuma dessas
emoções.
Eu tenho uma personalidade, mas eu não sou essa
personalidade.
Eu tenho uma mente, mas eu não sou essa mente.
Eu vivo determinadas situações e acontecimentos no
mundo, mas eu não posso me identificar com eles.
Eu tenho um carro, mas esse carro não me pertence
de fato.
Eu gosto de comer arroz, mas quem gosta é o corpo
físico.
Eu gosto de viajar, mas quem viaja é o corpo, a mente
e as emoções, não o espírito.
Você pode ter um corpo, mas não se identifique com
ele.
Você pode ter emoções, mas se deixe escravizar por
elas.
Você pode ter prazer, mas não fique aprisionado
nele.
Você pode correr, mas não tenha pressa.
Você pode ajudar, mas não fique preocupado em
ajudar.
Você pode possuir, mas não fique apegado ao que
você possui.
Você pode ter dinheiro, mas não permita que o di-
nheiro tenha você.
Você pode buscar conhecimento, mas saiba que ele é
limitado e que, no final das contas, você nada sabe.
Você pode cultivar crenças, mas não sofra quando
elas forem destruídas pelo real.
Você pode viver bem, mas não fique triste quando
começar a viver mal.

249
Você pode buscar a paz, mas não perca a paz quando
não conseguir ter paz que é do seu desejo.
Você pode buscar ser bom, mas não se martirize
quando não conseguir ser tão bom quanto acredita
que deve ser.
Você pode ter sucesso, mas saiba que ele um dia terá
um fim.
Não viva por isso ou aquilo, apenas viva.
Não faça esperando resultados, apenas faça ou deixe
de fazer.
Não queira recompensas, pois elas sempre vão te
frustrar no final.
Não se identifique com as coisas do mundo.
Não pense “eu sou isto”, “eu sou aquilo”.
No momento em que você pensa “eu sou isso”, você
deixa de ser tudo e passa a se limitar.
No momento em que você tem, você deixa de ser.
No momento em que você pensa que é, você não é
mais.
Então, apenas deixe toda a vida fluir através de
você… e não se apegue a coisa alguma.
Seja o espírito em Deus… e Deus no espírito.
“Eu e o Pai somos Um” (Jesus)

250
VIVA PELO ESPÍRITO

O espírito é o ser eterno… o ego é passageiro.


O espírito é luz… o ego é a sombra.
O espírito existe, é real, é essência… o ego é falso, é
ilusório, é apenas uma aparência.
O ego é uma onda que vem e vai… O espírito é como
o mar.
Enquanto o ego diz: quero que seja feita a minha
vontade.
O espírito diz: entrego, tenho fé e agradeço ao divino.
Enquanto o ego diz: quero te possuir.
O espírito diz: quero que sejas feliz.
Enquanto o ego diz: quero ter.
O espírito diz: quero ser.
Enquanto o ego diz: sou mais eu,
O espírito diz: estou em harmonia com a vida univer-
sal.
Enquanto o ego diz: quero impor minha verdade.
O espírito diz: eu busco a verdade.
Enquanto o ego diz: não quero sentir.
O espírito diz: permito que a existência flua através
de mim.
Enquanto o ego diz: vou vencer o outro.
O espírito diz: vou vencer a mim mesmo e as minhas
imperfeições.
Enquanto o ego diz: eu sei de tudo.
O espírito diz: minha mente é limitada e por isso
tenho muito o que aprender.
Enquanto o ego diz: sou melhor do que você.
O espírito diz: somos filhos do universo e não há
superior ou inferior.
Enquanto o ego diz: preciso correr para atingir obje-
tivos.
O espírito diz: sou feliz com o que tenho.

251
Enquanto o ego diz: tenho pressa para realizar.
O espírito diz: tenho paciência.
Enquanto o ego diz: vivo no passado e no futuro.
O espírito diz: vivo no eterno presente, a fonte da
vida.
Enquanto o ego diz: o diferente é estranho e mau.
O espírito diz: é na diferença que reside a diversi-
dade e a riqueza.
Enquanto o ego diz: a culpa é sua.
O espírito diz: a responsabilidade é minha.
Enquanto o ego diz: eu julgo mesmo sem conhecer.
O espírito diz: procuro compreender sem julgar.
Enquanto o ego diz: busco a vida no exterior.
O espírito diz: eu encontro em meu interior.
Os sábios de todas as épocas sempre disseram:
O ego é a morte… o espírito é a vida.
O ego é a imagem… o espírito é a essência.
Não viva pelo ego…
Viva pelo espírito.

252
A FÁBULA DO PÁSSARO QUE APRENDEU A VOAR

Um passarinho acabara de romper a casca e nascer.


Ele viveu por um certo período no ninho, sendo dia-
riamente cuidado pela sua mãe. Após algum tempo,
ele começou a andar ao redor do ninho e foi reco-
nhecendo o local onde viveu até o presente mo-
mento.

Depois disso, começou a contemplar o céu… Viu sua


mãe e outros pássaros cortando a abóbada celeste
em esplendorosos voos, exercendo seu direito sa-
grado à liberdade. Após essa observação, o passari-
nho decidiu que queria também viver no céu e
aprender a voar como os outros pássaros, mas para
isso ele deveria renunciar à proteção, ao conforto e à
estabilidade do ninho.

Seu entusiasmo diante dos voos rasantes dos pássa-


ros e de tão promissora liberdade lhe parecia muito
mais animador do que o conforto do ninho. Dessa
forma, ele decidiu abdicar da proteção da casa que o
prendia e arriscar seu primeiro bater de asas. Come-
çou a treinar suas asas e aos poucos foi ascendendo
ao céu.

No entanto, assim que ele se deparava com a imensi-


dão da montanha diante dele, o temor passava a to-
mar conta de todo seu corpo e ele não conseguia
voar. Olhava para baixo e percebia um assustador
abismo que o conduziria inevitavelmente ao chão e a
morte caso se aventurasse nos voos. O passarinho
teve bastante medo de enfrentar aquele incomensu-
rável vazio, um espaço que parecia nada conter, ape-

253
nas a possibilidade de uma queda que o levaria a
morte.

Um pássaro mais antigo veio em sua assistência e


disse: “Para conseguir voar e conquistar a liberdade
do voo é necessário enfrentar o abismo e se deixar
cair. Depois, você deve abrir as asas e voar. Só assim
você poderá aproveitar o céu, como todos de sua
espécie um dia farão, e você só pode fazer isso sozi-
nho”.

O passarinho finalmente tomou coragem e deixou-se


cair no abismo. Ele foi caindo, caindo… mas não con-
seguia abrir suas asas e voar, pois ficou paralisado
pelo medo. O pássaro mais velho o acompanhou e
gritou: “Abra as asas e voe”. O passarinho estava
quase chegando ao chão. Iria morrer caso não se
libertasse do medo e não abrisse suas asas. Quando o
chão estava quase chegando, ele sentiu a morte che-
gando… abriu suas asas e, finalmente, deu um mag-
nífico voo rasante…

Bateu suas asas e, de forma sublime, voou a grandes


altitudes. Agora possuía a liberdade de ir onde qui-
sesse, de voar para qualquer lugar, além de uma vi-
são panorâmica do alto. Tinha toda a infinidade do
céu para existir.

Os seres humanos são como os pássaros. Muitos fi-


cam presos a proteção e ao conforto do ninho, o que
equivale a ficarem aprisionados em seus desejos,
apegos, conforto, dinheiro, crenças, etc. Num certo
momento, de tanto sofrerem a estagnação do ninho,
eles sentem que precisam se libertar e passam a ob-
servar o céu, que representa a ascensão e libertação

254
espiritual. Mas para atingir esse propósito, eles pre-
cisam vencer seus medos mais básicos, superar suas
dúvidas, soltar todo o passado que os prendem e
deixar-se cair no abismo vazio, que aqui representa o
desconhecido e a morte do ego nesse “nada”. Mas
esse vazio não é ausência de tudo, mas sim um es-
paço livre de qualquer obstáculo e que lhe dará li-
berdade para recomeçar em outro nível, além de
uma visão privilegiada do mundo visto “do alto”,
onde ele atinge o desprendimento das prisões do
mundo objetivo. Ele então deve fazer como o passa-
rinho, deixar-se cair no abismo e sentir que vai mor-
rer quando cair no chão, caso não abra suas asas e
voe. O chão aqui representa as referências de certo e
errado, bom ou mau, sucesso ou fracasso, alto e
baixo, tudo o que lhe dá uma noção de estar bem ou
estar mal. Mas se não existe o alto e o baixo, para
onde podemos cair? Se não existir o bom e o mau, só
uma entrega sincera a Deus com fé, não há mais chão
para o matar. Assim, ao chegar no momento de uma
aparente morte, esse é o momento em que ele re-
nasce, se liberta, e pode viver no “céu” de sua consci-
ência desperta.

255
IMAGEM E ESSÊNCIA

Aquele que precisa provar o seu valor a alguém, tal-


vez não confie tanto em si mesmo.
Aquele que precisa gritar para ser ouvido, talvez não
esteja ouvindo a si mesmo.
Aquele que precisa se autoafirmar para ser reconhe-
cido, talvez ele mesmo não se reconheça.
Aquele que sente necessidade de convencer alguém
de sua crença ou opinião, talvez ele mesmo não es-
teja convencido sobre isso.
Aquele que sente necessidade de mostrar a todos
que você é superior, talvez se sinta inferiorizado
diante do outro.
Aquele que sente necessidade de se apoiar em algo,
talvez não sinta nenhum apoio dentro de si mesmo.
Aquele que sente necessidade de demonstrar sua
independência, talvez seja mais dependente do que
supõe.
Aquele que sente necessidade de transmitir uma
imagem, pode sentir falta desse mesmo conteúdo, ou
dessa essência dentro de si mesmo.
Quem tenta provar algo, não está certo desse algo;
Quem tenta parecer, pode não ser o que tenta de
todas as formas transmitir.
Cada aspecto de nossa vida que tentamos provar,
demonstrar ou fazer parecer diante de outros,
Pode representar uma carência dentro de nós.
Não se preocupe em parecer algo; preocupe-se em
ser.
Viva com a verdade do ser que você é,
Assim toda a sua vida será mais verdadeira e feliz.

256
O CAMINHO DOS SÁBIOS

O homem medíocre é cheio de certezas… O sábio


duvida sempre de suas crenças.
O homem medíocre quer ser maior que o mundo… O
sábio quer servir o mundo deixando sua obra.
O homem medíocre é cheio de si mesmo… O sábio é
vazio de si mesmo e por isso se abre para a vida.
O homem medíocre é escravo dos seus desejos… O
sábio nada deseja para si e por isso, está feliz sem-
pre.
O homem medíocre quer sempre mais e mais e
mesmo com muito, nunca está satisfeito… O sábio
agradece o que tem e faz do pouco que tem, o sufici-
ente.
O homem medíocre acha que tem muitos direitos… O
sábio prioriza seus deveres.
O homem medíocre dá mais atenção ao individual…
O sábio vê primeiro o coletivo do qual é parte inte-
grante.
O homem medíocre ri dos outros, mas está sempre
de mau humor… O sábio ri de si mesmo e está sem-
pre de bom humor.
O homem medíocre nunca admite seus erros e im-
perfeições… O sábio reconhece seus enganos e por
isso aprende com suas falhas.
O homem medíocre quer sempre ser melhor que os
outros… O sábio busca apenas melhorar a si mesmo.
O homem medíocre quer tudo mudar… O sábio deixa
tudo fluir.
O homem medíocre sente ódio, mágoa, quer se vin-
gar, quer punições, julga e condena… O sábio sente
compaixão, não guarda ressentimentos, não pede
vingança, não se sente atingido, por isso não precisa

257
perdoar, tenta compreender e se colocar no lugar do
outro.
O homem medíocre busca o poder no exterior… O
sábio encontra seu poder no interior.
O homem medíocre fala muito e não escuta nem a si
mesmo… O sábio fala pouco e sabe escutar as pes-
soas e a vida.
O homem medíocre quer sempre levar vantagem e
no final, acaba perdendo… O sábio tira proveito ape-
nas de seu próprio esforço e no final, consegue avan-
çar.
O homem medíocre vive de aparências e formas… O
sábio procura ver a essência por trás das aparências.
O homem medíocre está sempre lutando contra o
mundo, e por isso se destrói… O sábio não luta, não
resiste, se harmoniza com tudo, e por isso, está sem-
pre em paz.
Deixe de lado a mediocridade.
Busque sempre, sem hesitação…
O caminho dos sábios.

258
PREOCUPAÇÕES

Quando estiver seguindo pela estrada da vida.


Procura evitar toda preocupação…
Preocupação é ocupar-se antes da hora, é pré-ocu-
par-se.
É se concentrar ou se deter em algo que ainda não
ocorreu.
As preocupações te prendem no passado ou no fu-
turo.
Estamos aqui e ali, perdidos no tempo ou no espaço,
mas nunca no momento presente.
Não duvide da máxima:
Se algo ainda não deu errado, não há motivo para
preocupação; e se algo já deu errado, nada há mais o
que se preocupar.
Ansiedade, inquietação, cansaço ou agitação mental:
a preocupação é fonte dos mais variados problemas,
Desde insônia até dores de cabeça, assim como do-
enças e depressão.
Acorda para a verdade… A preocupação só te gera
tensão,
E a tensão quase sempre te deixa paralisado e in-
consciente de si mesmo.
Atenta para o fato de que nenhuma preocupação
resolve um problema,
Pois a própria preocupação já é um problema.
O que resolve é a ação… e não a pré-ocupação.
Antecipamos um sofrimento que pode nunca aconte-
cer, e criamos um sofrimento até então inexistente.
Enquanto nos preocupamos, o tempo passa, a vida
segue, as coisas acontecem, e nossa vida pára.
Pior é quando nos preocupamos em não nos preocu-
par, ou quando sofremos por não querer sofrer.
A pessoa preocupada já vive no próprio sofrimento

259
que deseja a todo custo evitar.
Você pode acreditar que tem mil motivos para suas
preocupações, mas toda preocupação é vã e sem sen-
tido.
A mente preocupada viaja em diversos pensamentos
de perigo… Cria situações, agita emoções, erra nas
decisões e não enxerga soluções.
A pessoa preocupada tenta controlar as variáveis
mais improváveis para que tudo saia como ela es-
pera.
No fundo, ela quer ter o domínio daquilo que é im-
possível de se controlar.
Se você ainda não aprendeu que na vida nada se con-
trola, então permanecerá como a eterna vítima das
preocupações.
A mente sempre pode inventar mais e mais preocu-
pações, mesmo que sem base na realidade,
Todas criações baseadas em supostos riscos de cada
aspecto da sua vida.
Quem se preocupa, não precisa de motivo, basta sua
própria insegurança, medo e falsa expectativa.
Nada na vida humana é certo, tudo é imprevisível.
Por isso, quem se preocupa está iludido pela falsa
certeza de um caminho ideal que se supõe direto e
linear.
A pessoa preocupada sempre entrega sua vida na
mão das probabilidades.
Para ela, qualquer coisa pode dar errado, portanto,
sempre há algo a se evitar.
E de evitação em evitação, vamos perdendo nossa
vida e morrendo dentro dos possíveis perigos da
existência.
Mas o maior perigo de todos já está ocorrendo: pas-
sar pela vida com medo da própria vida, perdendo a
nós mesmos num sem-número de formulações pes-

260
simistas.
Não se preocupe… Não se deixe afundar no mar re-
volto das preocupações.
Viva de acordo com o acontecimento, e não de
acordo com o que pode acontecer.
Você pode se ocupar, mas não perca sua vida
se preocupando.

261
O PÁSSARO NA GAIOLA

Era uma vez um passarinho que viveu 6 meses numa


gaiola. Esse pássaro estava ansioso em retomar a sua
liberdade. Certo dia, seu dono abriu a gaiola e, num
momento de descuido, o pássaro conseguiu escapar.
Ele queria muito a liberdade e a conseguiu.

Havia outro pássaro que permaneceu quase 2 anos


numa gaiola. Esse pássaro também queria fugir e
voltar a ser livre, mas como já estava um pouco acos-
tumado à prisão, não tinha tanta disposição em es-
capar quanto o outro pássaro.

Havia também um terceiro pássaro que estava apri-


sionado numa gaiola. Ao contrário dos outros dois
pássaros, ele estava preso há 10 anos. Seu dono abria
a gaiola frequentemente, mas o pássaro não fugia.
Ele estava tão acostumado com a vida da prisão que
nem lembrava mais de como era a liberdade. Como
viveu a vida inteira no cativeiro, mesmo com a porta
totalmente aberta por muito tempo diante dele, não
era capaz de fugir, pois já não tinha consciência de
que estava preso. Para ele, todo o cosmos era aquela
gaiola.

O mesmo ocorre com os seres humanos. Estamos há


tanto tempo e tão acostumados a viver presos, que
esquecemos da liberdade verdadeira. Não mais bus-
camos nos libertar do cativeiro do mundo e do corpo
físico, pois não sabemos que estamos presos; esta-
mos há tanto tempo aprisionados, que nem sequer
vemos ou sentimos mais o cárcere. Para nós, a prisão
é algo natural e nada há além dela.

262
É necessário que o ser humano se liberte dos condi-
cionamentos do mundo, das crenças limitantes e dos
desejos que cerceiam a liberdade de nossa alma. So-
mente quando superarmos os nossos limites e os
limites do mundo é que poderemos lembrar da infi-
nita liberdade espiritual a que todos os seres podem
ter acesso.

263
SER E ESTAR

Um homem tinha uma história de vida muito sofrida.


Foi maltratado pelo pai, abusado pelo tio, sua mãe o
abandonou, e desde bem jovem ele já começara a
trabalhar como marceneiro. O serviço era duro e
muito desgastante. Por conta de todos estes aconte-
cimentos, ele sentia uma tristeza que quase sempre o
acompanhava.

Certo dia, o homem já não aguentava mais essa tris-


teza que persistia em seus sentimentos e não lhe
dava trégua. Foi então passear na cidade onde mo-
rava. Sentou num banco, e nele estava um senhor.
De repente, o senhor puxou conversa com ele e ini-
ciou-se um diálogo leve. O homem, que continuava
sentindo a tristeza recorrente, sentiu que podia se
abrir com o senhor, e disse:

– Na verdade, sou uma pessoa triste, disse ele.


O senhor, que parecia ser um homem sábio e vivido,
disse:

– Não, você não é uma pessoa triste…

O homem surpreendeu-se com essa afirmação.


“Como ele poderia saber o que sou e o que não sou?
Ele nem me conhece”, pensou. O senhor então conti-
nuou a falar:

– Eu também não sou um senhor… Sim, é isso


mesmo, e também não sou um professor, como eu
havia te falado agora. E você não é um marceneiro e
também não é um jovem…

264
O homem estava cada vez mais confuso. O senhor
disse:

– Preste atenção… Eu não sou um senhor, eu ESTOU


senhor. Você não é um marceneiro, você está marce-
neiro. Você não é jovem, você está jovem, da mesma
forma que eu não sou um professor, nem um pai,
nem sou deste país, nem nada disso. Eu estou essas
coisas, eu não sou essas coisas.

O homem agora começava a compreender. O senhor


continuou:

– Ninguém é alguma coisa, todos nós estamos. A vida


humana é apenas uma passagem, um processo. Nós
incorporamos determinadas posições sociais, papéis,
funções e modos de estar no mundo. Tudo na vida é
um estado, ou seja, é sempre “estar alguma coisa” e
nunca “ser alguma coisa”. Portanto, você jamais pode
admitir que é uma pessoa triste, você apenas está
triste momentaneamente, mas isso um dia, mais
cedo ou mais tarde, vai passar, assim como tudo
passa… e você verá como você apenas “estava algo”,
e não “era algo”.

O homem ouvia atentamente. O senhor concluiu:

– Tudo que existe nesse mundo é da natureza dos


estados, nunca da natureza do ser. O único que não é
da ordem do estar é Deus. Deus é da ordem do ser,
pois ele é eternamente. Ele é o ser que nunca deixará
de ser. Deus não conhece estados, ele simplesmente
é. Quando nós, seres humanos, compreendermos a
diferença entre estar e ser, que nada é, e que tudo
está, entenderemos que vamos vivendo diversos

265
estados até chegar ao ser essencial que somos no
infinito, pois em última instância, somos como Deus,
que não está, mas simplesmente é…

266
NINGUÉM NOS AFETA

Um homem procurou um sábio e lhe fez uma per-


gunta.

– Mestre, o que fazer com uma pessoa que nos coloca


pra baixo?

– Nada… Disse o mestre.

– Nada? Perguntou o homem. – Então devemos per-


mitir que a outra pessoa nos coloque para baixo?

– Não, pois ninguém nunca te coloca pra baixo. Você


é que se sente pra baixo.

O homem ficou admirado com a resposta. O mestre


continuou.

– Ninguém nos coloca pra baixo, nós é que nos sen-


timos pra baixo ou inferiorizados.

Ninguém nos humilha, nós é que nos sentimos hu-


milhados.

Ninguém nos persegue, nós é que nos sentimos per-


seguidos.

Ninguém nos ofende, nós é que nos sentimos ofendi-


dos.

Ninguém nos expõe, nós é que nos sentimos expos-


tos.

267
Ninguém tem o poder de nos fazer mal, nós é que
ficamos mal com o que os outros fazem.

Seja tão flexível a ponto de dobrar diante do mal que


alguém te fez, e tão firme a ponto de continuar bem
assentado na terra.

O sábio não se deixa abalar por nada, pois ele sabe


que ninguém pode verdadeiramente afeta-lo. Ele é
sereno na tempestade e sereno na bonança. Ninguém
tem qualquer poder sobre você se você não quiser
dar esse poder a alguém.

268
PENSAMENTOS OBSESSIVOS

Miguel havia sido traído pela esposa com aquele que


era seu melhor amigo. Pegou os dois juntos na cama,
e não conseguia esquecer essa traição. Ele lutava
contra esses pensamentos, mas parecia que, quando
mais ele lutava contra, mais os pensamentos inva-
diam sua mente e o atormentavam.

Ele resolveu procurar um sábio que talvez pudesse


ajuda-lo a evitar esses pensamentos, que já o esta-
vam deixando perturbado. Contou toda a história ao
sábio e este lhe disse:

– Está bem, vamos fazer então uma experiência para


te ajudar a se libertar desses pensamentos. Você
deve, a partir de agora, não pensar mais na cor azul.
Não importa o que aconteça, não pense de jeito ne-
nhum na cor azul.

Miguel achou estranha essa experiência, mas a pri-


meira coisa que fez foi pensar exatamente na cor
azul. Tentou não pensar no azul, mas a própria tenta-
tiva de evitar o pensamento na cor azul já o fazia ter
que pensar no azul para depois recusar esse pensa-
mento. O sábio perguntou a Miguel se ele havia con-
seguido não pensar no azul. Miguel Respondeu:

– Senhor, só de tentar negar o pensamento no azul já


me faz ter que pensar no azul para nega-lo, de modo
que eu acabei somente pensando na cor azul.

O sábio disse:

269
– Claro, pois quando tentamos evitar um pensa-
mento sobre algo, precisamos sempre pensar esse
algo para depois retira-lo de nossa mente. Isso signi-
fica que a própria força mental que fazemos para
recusar um pensamento acaba por nos envolver com
o próprio pensamento. Opor-se a qualquer pensa-
mento, ao contrário de afasta-lo, faz com que ele fi-
que ainda mais presente em nossa mente. Portanto, a
forma correta de agir não é a tentativa de afastar o
pensamento, mas permitir que ele venha, flua sem
intervenções, se esgote e vá embora naturalmente.
Isso se faz retirando todo o valor emocional deste
pensamento, ou seja, esvaziando o significado de dor
e nervosismo que ele contém. Em outras palavras, ao
invés de lutar contra, o correto é não se importar
com aquilo, não valorizar, não dar poder a ele. Faça
isso, e você verá como nenhum pensamento poderá
se tornar recorrente e que a partir deste momento,
você passará a controlar melhor o seu conteúdo
mental e não o contrário.

270
O SILÊNCIO INTERIOR

Um homem vai até uma praia onde um sábio costu-


mava passar as tardes observando a imensidão do
mar.

O homem fez várias perguntas, mas o mestre sempre


respondia com outras perguntas, ou com enigmas.
Após várias tentativas, o homem perguntou:

– Mestre, por que o senhor raramente responde a


uma pergunta objetivamente?

– Ouça… disse o mestre.

O homem tentou ouvir, mas nada podia escutar, ape-


nas o barulho das ondas do mar.

– Ouvir o que mestre?

– O silêncio… respondeu o mestre.

– E é possível ouvir o silêncio? perguntou intrigado o


homem.

O mestre respondeu:

– Sim meu jovem, e você precisa compreender o va-


lor do silêncio. No silêncio todas as respostas estão
contidas. No barulho e na confusão dificilmente se
encontra a sabedoria, mas na maioria das vezes,
apenas dúvidas e incertezas.

– Como assim mestre? perguntou o homem.

271
– Observe este grandioso oceano… – disse o mestre –
As pessoas são como esse mar. Quanto mais próximo
da superfície se encontram, mais barulho fazem.
Quanto mais profundas, menos confusão e agitação
elas apresentam. A grande maioria das pessoas está
no nível da superfície, onde se agitam e onde há bal-
búrdia, estresse, oscilação, oposição, inquietação e
confusão. Observe as ondas… Elas nascem no oceano
sem fim, crescem, começam a cair sobre si mesmas,
batem fortemente na areia e depois recuam para o
oceano de onde vieram.

O homem ouvia atentamente as palavras do sábio.


Este continua:

– As ondas são a imagem perfeita do mundo físico,


com seus contrários que geram conflito entre as par-
tes, que vem e vão, que nascem e morrem, que so-
bem e descem, ou seja, onde sempre há opostos, e,
consequentemente, barulho, confusão, e também
impermanência. Já o silêncio é como a profundidade
desse mar, é o local de paz e tranquilidade onde não
há barulho, não há oposição, e onde podemos ver o
fundo imperturbável de todas as coisas, e o mais
importante: a sua essência.

272
SOBRE A HUMILDADE

Humildade pode ser definida como um estado ou


condição de um ser humano, parte integrante de seu
caráter e de suas virtudes, que é o contrário do or-
gulho, da vaidade, da soberba e da prepotência. A
palavra humildade vem do latim húmus, que signi-
fica “terra” ou “filhos da terra”.

Nesse sentido, o humilde seria aquele que admite a


realidade de suas limitações e, por esse motivo, vive
mais tranquilo e satisfeito com o que é, sem ficar
desejando demonstrar algo que não é ou possuir algo
que não possui. O que faz a terra? Coloca-se sempre
abaixo de todos, em sua base de sustentação, e por
isso mesmo, é a coisa mais grandiosa do mundo.

A humildade verdadeira nada tem a ver com submis-


são. Humildade também não é um mero aspecto de
nossa personalidade, não é um traço psíquico. É,
antes de tudo, uma forma de encarar a vida. Jesus se
referiu aos humildes como mendicantes do espírito,
ou seja, aqueles que se submetem a harmonia uni-
versal e as leis naturais a fim de receber as graças do
infinito e do plano divino. Pessoas humildes valori-
zam mais o ser e não o ter.

Uma pessoa humilde não se coloca acima dos outros.


Ele procura sempre aceitar suas imperfeições e limi-
tes. Sabe que seu conhecimento não pode tudo abar-
car e vive num estado de simplicidade diante da vida.
Humildade pressupõe uma liberdade espiritual, pois
o humilde não precisa gastar energia para sustentar
suas máscaras e seu ego inflado. Aqui vale a máxima
“A pessoa mais livre é a que possui menos necessi-

273
dades”. O humilde admite apenas as necessidades
reais e não fica criando falsas necessidades. Sendo
assim, naturalmente é uma pessoa menos carente do
que aquela que fica criando muitas expectativas so-
bre a vida.

O humilde possui menos necessidade de demonstrar


algo para os outros e provar algo para si mesmo. Não
veremos uma pessoa humilde contando vantagem do
que possui ou do que é. A humildade sempre tem por
base o respeito a outras pessoas pelo que elas são, e
não pelo nós acreditamos que deve ser. O humilde
não se percebe superior a ninguém, pois reconhece
que a vida humana ainda é muito limitada e entreve
os grandes desafios que o progresso reserva aos se-
res humanos.

Pessoas arrogantes sempre enxergam o universo


como muito pequeno, sempre cabendo dentro do seu
nível de conhecimento e vivência. O humilde consi-
dera que seu conhecimento ainda é muito pequeno,
tímido, rudimentar e aspira ao desenvolvimento
pessoal e espiritual. Os indivíduos soberbos não são
apenas aqueles que se colocam acima dos outros;
para que mantenham sua condição de superioridade,
eles precisam, isso sim, rebaixar outras pessoas, para
que elas jamais estejam acima do soberbo. Julgar-se
superior não é suficiente para o prepotente, é neces-
sário também depreciá-las, humilhá-las, degradá-las,
para que jamais elas possam interferir na crença de
sua superioridade. Caso o orgulhoso não procurasse
rebaixar os outros, logo sua suposta superioridade
seria posta em cheque, e isso seria um desastre na
vida do arrogante. O humilde já não possui a neces-
sidade de exaltar ou de rebaixar quem quer que seja,

274
pois está mais ou menos liberto do jogo das afirma-
ções do ego dentro das relações sociais.

Jesus disse: “Bem aventurados os humildes, pois


deles é o reino dos céus”. Não por acaso Jesus profe-
riu essas palavras. Como sábio que era, Jesus tinha
plena consciência que os humildes estão muito mais
próximos de Deus do que os arrogantes e egoístas. A
humildade é uma precondição para a liberdade espi-
ritual. O ego sempre foi considerado, desde épocas
arcaicas o oriente místico, como a fonte de todos os
males do mundo. O ego deve ser transcendido, para
que a simplicidade, a tranquilidade e a naturalidade
possam despertar e se tornarem o caminho para a
libertação espiritual.

Uma vida simples é uma vida feliz. Uma vida sofisti-


cada sempre vem regrada de compromissos, neces-
sidades, peso, complexidade, confusão e, sem dúvida,
frustração e sofrimento. A felicidade tem como maté-
ria-prima a humildade. Se uma pessoa aspira a felici-
dade, não pode jamais aceitar o orgulho e o egoísmo
em seu coração. Como disse Confúcio: “A humildade
é a única base sólida de todas as virtudes”.

275
A FÁBULA DO PINTINHO E DO OVO

Uma galinha morava numa linda fazenda, junto com


os pintinhos. Um dos seus filhos, o pintinho mais
novo, era muito confiante, gostava de provocar seus
irmãos, desafiava os outros animais e era meio de-
sajuizado.

Certo dia, sua mãe, a galinha pôs vários ovos. Depois


reuniu todos os pintinhos e disse:

– Vocês não devem mexer nesses ovos, pois deles


vão nascer lindos pintinhos, como vocês. Deixem que
eles choquem e com o tempo, eles vão nascer.

Passados vários dias, já estava chegando o tempo do


novo nascimento. Os ovos já davam alguns sinais de
que estavam quase chocando, e próximos de nascer.
O pintinho desajuizado também era bastante ansi-
oso. Ele observava seus futuros irmãos no ovo e pen-
sou:

– Bom, talvez não seja preciso esperar que eles nas-


çam sozinhos. Eu posso ir até os ovos e quebra-los.
Assim eu os ajudo a nascerem mais rápido.

O pintinho foi até os ovos e quebrou o primeiro. Ele


acreditava que estaria ajudando seus irmãos a nas-
cerem, mas para sua surpresa, após quebrar o pri-
meiro ovo, ele viu um feto de pintinho morto lá den-
tro. A galinha ouvindo algo estranho foi ver o que
estava acontecendo, e descobriu o que ocorreu. Ela
brigou feio com o pintinho desajuizado e disse:

276
– Veja bem, tudo na vida tem um tempo próprio para
acontecer. Muitas vezes acreditamos que estamos
ajudando o outro a romper a sua casca, mas o esta-
mos matando. Isso ocorre porque, quando se rompe
a casca de fora para dentro, o resultado é a morte.
Mas quando se rompe a casca de dentro para fora, o
resultado é um novo nascimento.

Nesse momento, um dos ovos começou a romper. A


galinha e todos os pintinhos foram ver. Com muito
esforço, o ovo foi quebrado de dentro para fora, e o
resultado foi o nascimento. O pintinho desajuizado
olhou admirado e percebeu claramente a verdade de
que somente se pode quebrar a casca e se nascer de
dentro para fora.

Na vida humana ocorre o mesmo. Quando forçamos


alguém a romper seus limites de fora para dentro,
quebrando a “casca” de suas imperfeições, o resul-
tado pode ser a morte dessa pessoa, a morte interior
por termos forçado alguém a ir além do que era pos-
sível a ela. Mas quando a própria pessoa encontra
força dentro de si e rompe seus limites, como o pin-
tinho rompe sua casca, o resultado é sempre um
novo nascimento.

277
AS CINCO REGRAS DA RAIVA

Vamos explicar cinco regras simples a respeito da


raiva. Procure meditar nesses cinco aspectos para
evitar que a raiva te domine:

A primeira regra é bem simples e ela diz o se-


guinte: “a raiva bloqueia teu raciocínio”. Isso significa
que os momentos em que explodimos de raiva são os
piores para se tomar decisões, posto que as fortes
emoções restringem nossa razão e nosso pensa-
mento. Sempre que você fica com raiva e explode em
intenso fervor emocional, você pode fazer escolhas
que depois farão você se arrepender, e que podem
até te prejudicar. Muitas vezes, tomados que estamos
pela fúria, escolhemos, dizemos ou fazemos coisas
que depois, na tranquilidade, pensamos “se estivesse
calmo, não faria aquilo”. A trajetória de uma vida
inteira pode ser modificada e destruída em apenas
alguns minutos de ira.

A segunda regra diz o seguinte: “Quem está nervoso


muitas vezes deseja que outros fiquem como ele”, ou
seja, todos aqueles que estão num estado de tensão,
nervosismo e que vivem nas trevas da raiva e irrita-
ção compulsiva desejam que outras pessoas compar-
tilhem do mesmo sentimento e descontrole. Quem
está na escuridão quer que todos estejam na escuri-
dão, pois assim eles sentem que há muitas pessoas
como ele, e não se sente tão mal caso fossem os úni-
cos. Apagar a luz dos outros é a melhor maneira de
não enxergar sua própria escuridão. Em outras pala-
vras, quem está na lama, quase sempre quer trazer
os outros para a lama, pois assim eles têm “compa-
nhia”. O raivoso deseja ter alguém com quem com-

278
partilhar sua raiva, pois a raiva sozinha perde seu
“combustível”, e muito frequentemente se trans-
forma em depressão. Toda raiva não compartilha
com outros acaba tornando o raivoso depressivo,
com sentimentos de carência e vazio.

A terceira regra é a seguinte: “Não dê poder a quem


não tem”. Quando você se deixa levar pelos berros e
deixa a raiva te dominar, você está dando poder
àquela pessoa e permitindo a ela te desestabilizar.
Mas esse poder de desorganização emocional é a
própria pessoa que confere ao outro. No momento
em que você pára de dar poder a quem não tem po-
der, você não mais se envolve pelas ofensas e agres-
sões alheias e passa a ser mais neutro e menos vul-
nerável.

A quarta regra diz algo muito importante: “A raiva


prejudica a nós mesmos, e não ao outro”. Há uma má-
xima de sabedoria que diz o seguinte: “Ficar com
raiva de outrem é o mesmo que tomar veneno e es-
perar que o outro morra”. O maior prejudicado com
os acessos de raiva ou com a raiva prolongada somos
nós mesmos. A ira pode gerar doenças emocionais e
até físicas, em casos extremos, pode instalar quadros
depressivos numa pessoa. A raiva contida é ainda
mais prejudicial, pois vai aos poucos minando as
nossas estruturas psicológicas. Portanto, tua raiva
não prejudica o outro, ela afeta, em primeiro lugar, o
próprio raivoso.

E por fim, a quinta regra também é simples, mas


pode parecer difícil de ser aplicada para algumas
pessoas: “Não responda a uma ofensa, apenas silen-
cie”. Quando, por exemplo, algum parente está en-

279
volto pela ira e começa a agredir a todos, a melhor
resposta é o silêncio. Por que o silêncio? Pois é ape-
nas no silêncio que aquela pessoa conseguirá ouvir a
si mesma. Ela passará a ouvir seus próprios gritos,
suas ofensas, suas agressões e terá a chance de se
perceber, se sentir e se tocar do mal que está ema-
nando. A quinta regra diz: apenas silencie e deixe a
pessoa ouvir a si mesma. No momento em que não
correspondemos a raiva, a pessoa perde sua energia,
fica sozinha e passa a perceber a si mesma, e assim,
ela pode enxergar-se como é. Dessa forma, a chance
dela se ver e procurar se modificar é bem maior.

280
O QUE É O SUCESSO?

As pessoas costumam ter uma visão muito equivo-


cada sobre o sucesso.

Sucesso não é ter os melhores cargos, os melhores


salários, ser reconhecido, ter status e boa reputação.

Sucesso é conseguir retirar a alegria de viver nas


coisas simples da vida.

Sucesso é poder deitar no travesseiro a noite sem


preocupações e com a consciência tranquila.

Sucesso é viver sem mágoas, sem travas, sem repres-


sões, sem raiva e sem ressentimentos.

Sucesso é não ficar toda hora se cobrando, não ficar


se exigindo, não buscar uma perfeição inatingível,
mas aceitar nossos erros humanos.

Sucesso é olhar para si mesmo no espelho se acei-


tando e se amando do jeito que você é.

Sucesso é não ficar querendo sempre mais do que se


pode usar, mas estar satisfeito com o que é nosso. É
viver bem com o que se tem.

Sucesso é não viver tenso, vazio, carrancudo, ansi-


oso, inquieto, apreensivo, mas viver, isso sim, des-
pojado, natural, espontâneo e livre.

Sucesso é não apenas fazer o que gosta, mas princi-


palmente gostar do que faz.

281
Sucesso não é aprender a vencer sempre, mas prin-
cipalmente aprender a perder, a enfrentar a derrota,
a frustração e a depressão.

Sucesso é não ficar ruminando os fúteis infortúnios


da vida, mas ver sempre uma lição ou aprendizado
na mais dura dificuldade, tratando a crise como
oportunidade de transformação.

Sucesso é não ter de ficar manipulando outras pes-


soas com jogos psicólogos, mas ter a coragem de
dizer a verdade e expor nossos sentimentos sem
medo e sem culpa.

Sucesso é quando podemos ser quem somos, sem


desejar impressionar outros, sem projetar uma falsa
imagem, sem tentar causa sempre uma boa impres-
são, sem achar que o outro tem que gostar de nós
para que possamos nos amar.

Sucesso é um estado de espírito em que somos livres


para viver, desimpedidos para sentir e libertos para
ser.

282
MALEDICÊNCIA

Jamais fales mal de outra pessoa,


Nem em sua presença, e tampouco em sua ausência;
A maledicência sempre se vira contra o acusador.
Quando sua língua ferida ataca alguém,
O veneno pode regressar a ti.
Maldizendo outrem,
Abres espaço para que também o maldigam.
Quando falas mal dos outros,
As pessoas indagam a si mesmas:
“Acaso estaria ele também criticando a mim?”
Guarda para ti mesmo tuas impressões sobre as pes-
soas.
Não condenes aquilo que desconheces…
Por acaso contemplas todos os infortúnios,
Daqueles a quem destilas tuas calúnias?
Podes abranger a história completa de alguém,
Ou a dura e complexa educação a que foi submetido?
Consegues afirmar, com toda a convicção,
Que deste mesmo prato não comerás?
Tendes a certeza de que, em igual circunstância,
Não farias a mesma coisa?
Não desperdices tuas energias com outros…
Ressalta suas qualidades, e não seus defeitos.
Porém, sê sincero com os demais,
Mas não invadas um terreno subjetivo que desco-
nheces.
Preocupa-te apenas com os teus defeitos e carências.
No final das contas, tua consciência será teu guia,
E também o teu único juiz.
Deixa que a vida se encarregue dos males dos outros.
Se alguém te feriu ou atormentou,
Ele já vive na tormenta.
Não penses que seu sofrimento

283
É maior que do teu detrator.
Por detrás de uma ação dirigida contra ti,
Podes encontrar alguém instável e infeliz.
Atente bem para uma coisa:
Todo cuidado para não ver nos outros,
Aspectos que não deseja admitir em ti mesmo.
Reconheça a tua sombra como sendo apenas tua,
Antes que ela se exteriorize no próximo.
Cuida primeiro dos seus problemas;
Só assim poderás ajudar teus pares.
Purifica, antes de tudo, teu próprio interior,
Pois somente dessa forma serás feliz,
Sem a necessidade de rebaixar teu irmão.
Não queira sentir-se por cima,
Colocando os outros para baixo.
Não torça pela infelicidade alheia
A fim de não reconhecer,
O lamaçal escuro do teu íntimo.
Avança, mesmo que devagar, com tuas próprias per-
nas,
Sem invejar o sucesso alheio.
Cada passo dado é terreno seguro,
Na grande trajetória da tua existência.
Eleva-te, com coragem, a patamares superiores…
Assim estará liberto do orgulho que te degrada.

284
TEMPO DE DESPERTAR

Era uma vez um homem muito simples, chamado


João.

João nasceu e cresceu numa fazendinha pequena e


pouco produtiva no interior do Maranhão. Seus pais
eram pobres, e não podiam dar uma vida digna para
seus 6 filhos. João, o filho mais velho, amava cavalos.
O pai tinha apenas um pangaré, que João amava. Em
sua infância, João brincou muito com o pangaré,
eram amigos inseparáveis.

A infância de João foi bem simples, mas muito feliz.


Não tinha quase nada, mas sentia que os bosques, as
árvores, a brisa, as flores, e toda a extensão de terra
inóspita em que vivia lhe pertencia. Ficava horas
correndo livremente pelos campos, ou sozinho ou
acompanhado pelo seu fiel amigo cavalo.

João, ainda na infância e também na adolescência,


tinha muitos sonhos. Sonhava em ter sua própria
fazenda, criar muitos cavalos e ter muitos outros
amigos como seu pangaré de estimação. Queria con-
tinuar vivendo livre e levando uma vida simples,
mesmo que com poucos recursos.

O tempo passou, e o pai de João acabou falecendo.


João estava agora com 20 anos. A família se encon-
trava num dilema. O provedor havia lhes deixado e
alguém precisava assumir os negócios. Certo dia, um
homem de terno aparecera em sua fazendinha, e lhe
ofereceu um trabalho. Em troca, João, como filho
mais velho e agora responsável pelo patrimônio fa-
miliar, venderia a fazenda. O homem de terno expli-

285
cou que se tratava de um negócio muito lucrativo, e
que João deveria apenas revender uma nova subs-
tância alucinógena que era proibida pelo governo.
João a princípio recusou, não queria fazer nada ile-
gal. Sempre fora um homem honesto e de valores
cristãos.

Passados alguns meses, João e sua família perderam


toda a colheita com uma praga que devastou sua
plantação. Haviam perdido tudo. João sentiu muito
medo e decidiu então que iria procurar o homem de
terno novamente. Mas faria isso apenas por um
tempo, para que pudesse se reerguer, e tão logo ga-
nhasse um pouco de dinheiro, voltaria a sua vida
normal. Após procurar o homem de terno e acertar
tudo, voltou para casa, deu boa noite a sua família e
foi dormir…

Foi uma longa noite…

Amanheceu no dia seguinte. João abriu a cortina de


sua casa e percebeu que estava em outra casa. Estava
numa residência bem grande, ampla e muito luxuosa.
Pensou consigo mesmo: Como posso dormir num
local e acordar em outro? João olhou-se no espelho e
tomou um grande susto. Estava com uma aparência
de um homem de 70 anos de idade. Começou a sen-
tir-se muito angustiado, teve falta de ar e começou a
transpirar. Por que isso estaria acontecendo? Como
pode alguém dormir aos 20 anos e acordar aos 70
anos, sem que o tempo tenha passado? A sensação
que lhe dava é que havia dormido no paraíso e acor-
dado no inferno. Mas como? Como isso foi ocorrer?
Por que Deus me fez dormir na minha fazendinha

286
aos 20 anos de idade, e acordar numa mansão com
70 anos?

João jogou água no rosto e começou a acordar di-


reito… Aos poucos foi se lembrando do acordo que
fez com o homem de terno aos 20 anos. Era um trafi-
cante de uma nova substância, que João começou a
revender e foi ganhando bastante dinheiro. Para
expandir o negócio, João cooptou outros jovens a
venderem a substância. Alguns jovens se viciaram,
outros foram presos, outros foram assassinados por
rivais, e muitas famílias foram destruídas com isso. O
tempo passou, o João se tornou um homem muito
rico e poderoso. Tinha medo de perder o que já havia
conquistado, e por isso fazia de tudo para manter-se
no mesmo padrão. Aos poucos os anos foram pas-
sando, passando, passando… até que João chegou aos
70 anos, nesse momento em que “acordou” e se per-
cebeu nessa situação decadente. Estava solitário,
deprimido, e sentindo um vazio interior.

Lágrimas começaram a rolar de seus olhos. E a fa-


zenda grande, que tanto sonhava ter? E seu amigo
pangaré, onde estava? E a criação de cavalos, que era
a coisa que ele mais amava na vida? Em que mo-
mento seus sonhos foram jogados fora? Em que mo-
mento ele deixou de sentir o gosto do pão de cada
manhã? Em que momento ele deixou de correr pelos
campos junto com seu amigo cavalo? Em que mo-
mento ele renunciou a si mesmo, quem ele era de
verdade, para viver uma vida de ilusão, sem valores,
sem virtudes e sem princípios, apenas por dinheiro e
estabilidade? Em que momento ele deixou de sentir a
brisa, de beber água da cachoeira, de brincar com
seus irmãos menores? Como ele simplesmente foi

287
dormir, numa noite de sua juventude, e acordou sem
ter nada vivido e aproveitado ao longo de 50 anos?
Era tão capaz, tinha tantos sonhos, tanta vitalidade.
Tudo era possível… Eu seria capaz de ter dado uma
reviravolta em minha vida sem precisar me render
as quimeras e vícios do mundo.

João acordou, e lembrou que estava com câncer. Ha-


via formado metástase, e estava perto da morte. No
dia anterior ele havia recebido a notícia, e esse foi o
motivo do súbito despertar. Mas infelizmente agora
era tarde. Perdera toda a sua vida, e não podia mais
voltar…

Ele então pediu que sua história fosse contada aqui,


para que ninguém cometa o mesmo erro que ele co-
meteu. Que erro é esse? O maior erro do mundo, que
é abandonar a si mesmo, quem somos de verdade,
nossos tesouro interior, em troca das migalhas da
ilusão…

288
O SENTIDO DA VIDA

Havia uma mãe que amava muito seu filho, e vivia


repetindo para todos que conhecia a mesma frase:

– Meu filho é a minha razão de viver. Eu o amo muito.

Certo dia, ela procurou um monge, pois desejava se


tornar uma pessoa melhor. O monge então pergun-
tou a ela qual era o significado de sua vida. A mulher
tinha a resposta na ponta da língua e, como sempre,
disse:

– O sentido de minha vida é o meu filho. Por ele luto,


acordo todas as manhãs e sou o que sou.

O monge, ouvindo a resposta, indagou a moça:

– Me diga uma coisa. E se por acaso seu filho morrer,


qual será o sentido de sua vida?

A mulher ficou muda. Ainda não havia pensado nisso.


Era tão assustadora a ideia de perder seu filho que
ela sequer cogitava tal hipótese. O monge prosse-
guiu:

– Se você faz de algo ou de alguém a sua razão de


viver, o sentido ou significado de sua vida, no caso de
você perder isto, você perde todo o sentido de sua
existência, sua razão de viver. Ninguém pode fazer
do outro seu motivo de vida, pois caso isso nos seja
tirado, nossa vida perde o sentido, e tudo a nossa
volta segue em ruínas, num profundo vazio existen-
cial. Você mesma deve ser o seu sustentáculo, e não
algo ou alguém externo a ti, por mais importante que

289
isso seja. O sentido da vida é a própria vida. Viva pela
própria vida, e não por outros.

290
O VELHO E O NOVO

Patrícia era uma moça que gostava muito de com-


prar de tudo. Ela fazia compras sempre que podia.
No entanto, Patrícia tinha uma particularidade: ela
não gostava de se desfazer de nada que adquiria. Por
esse motivo, armazenava todas as suas coisas em
casa.

Dez anos se passaram e Patrícia foi envelhecendo


aos poucos, mas ainda não deixara de lado sua mania
de guardar tudo o que adquiria. Sua casa, com quatro
quartos, já continha dois quartos onde se amontoa-
vam milhares de coisas que a moça adquiriu ao longo
do tempo. Ela se recusava a jogar fora alguns destes
itens. Patrícia sempre pensava que um dia poderia
precisar de algumas daquelas coisas, e por isso tudo
continuava devidamente guardado em sua casa.

Passados mais 10 anos, Patrícia agora já ocupava


dois quartos, a sala e metade da cozinha com todo
seu afã pelo armazenamento. Sua mãe sempre dizia
que a filha precisava se desfazer do que é velho, caso
contrário, daqui a um tempo não caberia mais nada
dentro de sua casa. A filha sempre rebatia alegando
que um dia poderia precisar de algumas coisas, e por
isso não jogaria nada fora.

Mais 10 anos se passaram e Patrícia continuava a


mesma, só que agora quase toda a sua casa estava
tomada de bugigangas, cacarecos, caixas, tralhas e
objetos dos mais variados tipos. A moça já quase não
conseguia andar em sua própria casa, às vezes pisava
em quinquilharias e não raro objetos caiam em cima
dela. Ninguém mais queria ir a sua casa e Patrícia foi

291
se isolando cada vez mais. Um dia aconteceu que
Patrícia sem querer tropeçou numa caixa. A moça
caiu no chão batendo a cabeça, não resistiu a uma
pancada tão forte e morreu ali mesmo, no chão, ro-
deada de milhares de objetos.

Na vida humana, todas as pessoas precisam se desfa-


zer do velho para permitir que o novo entre em nos-
sas vidas, tanto externamente quanto internamente.
Decretar o fim de algo e jogar fora é essencial para a
renovação de nossa vida. Caso contrário, ficaremos
como a Patrícia, que vivia acumulando tudo e não
tinha espaço para mais nada.

Perdeu sua liberdade e o novo não tinha mais espaço


em sua vida. Quem age dessa forma acaba ficando
preso dentro de seu próprio apego e acaba perdendo
o precioso patrimônio da sua liberdade.

Não fique acumulando mais e mais coisas por apego,


sejam externas ou internas. Desfaça-se do velho para
que o novo possa entrar em sua vida. Da mesma
forma, desfaça-se de tudo… para que a essência da
vida desperte em seu interior.

292
RÓTULO E EMBALAGEM

Um rapaz acaba de fazer várias compras do mercado


da esquina. Ele trouxe comidas e bebidas para uma
comemoração do reencontro com seu avô, que não
via há 3 anos. “Trouxe um vinho tinto maravilhoso
para você vô”, disse o rapaz. O senhor de idade pe-
gou a caixa do vinho, agradeceu e perguntou como
ele estava indo no novo trabalho. O rapaz respondeu:

– Estou indo bem vô, mas existem alguns problemas


no trabalho. Colocaram uma mulher para o cargo de
chefia e, você sabe, mulher não foi feita para ser
chefe…

O avô estava ouvindo, bastante interessado, o seu


neto falando. O rapaz continuou:

– Recentemente colocaram também um homem de


55 anos para trabalhar conosco. Respeito muito os
idosos, mas acho que um homem dessa idade já não
tem o mesmo pique para trabalhar que pessoas jo-
vens. Além disso, uma colega minha saiu da empresa
porque seu desejo é se tornar policial, mas acho isso
complicado, pois as mulheres não têm a mesma du-
reza e coragem que os homens para enfrentar a cri-
minalidade nas ruas.

Após ouvir estas declarações, o avô pegou uma caixa


de vinho tinto e começou a toma-la, como se tivesse
tomando o próprio vinho e disse:

– Você tem razão, concordo com você.

293
Ao presenciar aquela cena inusitada, o rapaz achou
que seu avô estava ficando senil, e perguntou:

– Vô, o que está havendo? Por que você está pegando


a caixa do vinho e tomando como se estivesse to-
mando o vinho?

O avô respondeu:

– Estou fazendo a mesma coisa que você, confun-


dindo o rótulo de um conteúdo com o conteúdo em
si. Ler ou experimentar o rótulo do vinho não me
fará sentir o sabor do vinho e tampouco ter a mínima
noção do seu conteúdo. Da mesma forma, não se
pode rotular uma pessoa pelo que ela aparenta ser e
crer estar desvendando quem ela é por dentro, suas
capacidades, seu caráter, suas virtudes ou sua essên-
cia. Ao longo de minha vida conheci mulheres mais
corajosas que homens; conheci velhos com mais
energia que jovens e conheci pessoas sem instrução
mais sábias do que muitos professores. Além disso,
diga-se de passagem, quando você compra um pro-
duto, a embalagem é a primeira coisa que você des-
carta. Ou será que alguém fica guardando a embala-
gem por causa de sua beleza?

O rapaz ficou um pouco envergonhado com a fala do


avô, pois sentiu verdade em suas explicações. O avô
completou:

– Não confunda jamais a embalagem com a substân-


cia ou a natureza interna de algo ou alguém com suas
formas exteriores.

294
ACEITAR A VIDA

Felicidade não é ter tudo o que desejamos e gosta-


mos.
Felicidade é viver na adversidade, na desordem, no
caos, e mesmo assim ser feliz.
Perfeição não é um modelo ideal de ser e estar no
mundo.
Perfeição é encontrar a felicidade e o amor mesmo
dentro da imperfeição.
Coragem não é a ausência de medo.
Coragem é aceitar o temor e enfrentar cada situação
mesmo sob a influência do medo.
Paz não é inexistência da guerra ou a derrota sobre
os conflitos.
Paz é o estado de tranquilidade interior mesmo di-
ante da mais dura batalha.
Aprender não é adquirir mais e mais conhecimento e
experiência.
Aprender é despojar-se de todo o suposto saber e
desobstruir nossa consciência.
Equilíbrio não é estabilidade de condições fixas e
garantidas.
Equilíbrio é caminhar mesmo sob o predomínio do
caos e resistir a mais vigorosa tempestade.
Fé não é acreditar que Deus vai nos favorecer e su-
prir nossas vontades e necessidades.
Fé é a convicção íntima de que, mesmo na derrota,
tudo é regido pela harmonia e perfeição divina.
Viver não é passar a existência evitando o sofrimento
e a morte.
Viver é aceitar a morte, a dor, a falibilidade humana,
a incerteza e ainda assim estar bem.
Quem vive bem aceita a vida, aceita as pessoas e
aceita a si mesmo tal como é.

295
Ninguém pode ser feliz buscando o primor, forçando
uma mudança, perseguindo condições impecáveis.
Viver implica em aceitar, acolher, permitir, entregar-
se… Ser espontâneo, soltar-se e admitir o real tal
como ele é.
Aceitar a vida em sua inteireza e não lutar contra o
mundo…
Esse é o caminho da paz e da felicidade.

296
EU ESTOU CERTO

Uma das coisas mais importantes para o ser humano


é demonstrar que ele está certo.
O ser humano quer provar que ele tem razão; que ele
sabe mais; que ele é mais esperto.
Numa conversa comum, numa discussão teórica, ao
ver televisão, ler jornais, ou simplesmente pensar
sobre uma questão.
O que desejamos é estar certos e demonstrar de al-
guma forma que o outro está errado.
Nosso mundo gira em torno dos nossos pensamen-
tos, das nossas crenças, do nosso conhecimento.
Quando alguém diz que estamos errados, nos apres-
samos em negar o erro e ansiamos declarar que: “Eu
estou certo”.
Nossa insegurança se ativa, nos sentimos ameaçados,
nos sentimos rebaixados e isso provoca um senti-
mento de inferioridade.
Uns sempre querendo estar com a razão, e os outros
querendo eles estarem com a razão. Uns tentando
tomar do outro o precioso ouro da razão. Um rou-
bando do outro a sagrada razão. Um digladiando
contra o outro para obter a tão desejada razão. Mas
esse ouro nada mais é do que um ouro de tolo.
Discussões teóricas intermináveis, com argumentos
distorcidos, artifícios persuasivos, estratégias de
convencimento: forçamos o máximo para rebaixar o
outro ao erro e nos sentirmos por cima, verdadeiros
donos da razão que almejamos ser.
Acreditamos na ilusão de que existe uma razão a ser
defendida, e acreditamos, além disso, na ilusão de
que somos os donos dela.
Ninguém pode ser dono de algo que não pode per-
tencer a ninguém, simplesmente por ser a razão uma

297
criação humana.
Se num dado momento nos convencermos de que
estamos certos e que sabemos uma coisa, logo depois
essa coisa já mudou, e não sabemos mais tanto assim
sobre ela quanto imaginamos.
O conhecimento sobre algo depende da época, das
circunstâncias, do consenso e do nível de entendi-
mento das pessoas que o percebem. Depende tam-
bém do que eu quero acreditar ou do que eu não
quero acreditar.
Algumas pessoas veem algo e enxergam a verdade
que o outro vê; outros veem a mesma coisa e não
conseguem ver o que o outro percebe e nem enxer-
gar a verdade que o outro consegue captar.
Você pode explicar pormenorizadamente, em deta-
lhes, por horas e horas, e uma pessoa não compreen-
der nada: entrar por um ouvido e sair pelo outro;
enquanto outros nem precisam de qualquer explica-
ção e já percebem rápida e profundamente.
Certo e errado são apenas posições momentâneas, e
que dependem dos observadores externos. Para uns
estamos certos, e para outros estamos errados.
Mas que confirmação queremos de ter razão ou não
ter razão?
A maior confirmação que desejamos é o outro afir-
mar que estamos certos, ou admitir nossa razão, ou
se esquivar e deixar de lado, confirmando, assim, a
exatidão de nossa opinião.
Mas a palavra do outro sobre nossa razão é a certeza
da razão?
Não, não pode ser. A confirmação do outro é apenas
a visão do outro, não é a razão em si.
E o que é uma opinião senão uma opinião? O que é
uma percepção, senão tão somente uma mera per-
cepção?

298
Liberte-se do desejo de estar certo perante outros, e
liberte-se do medo de estar errado diante de alguém.
O outro não está mais certo que você, e você não está
mais errado do que outros. Você nunca obterá a cer-
teza ou a incerteza de coisa alguma.
E caso alguém confirme sua certeza, o que fará você
com ela? Isso te fará feliz? Serás melhor? Serás
grande?
A energia que colocamos em estar certos, isso sim,
nos desgasta, nos rebaixa e nos degrada. Perdemos
tempo e vitalidade tentando provar algo para nós
mesmos, na ilusão do: “Eu sei mais do que ele”.
A única forma de nos sentirmos melhor, não é to-
mando a razão dos outros, mas sim nos libertando da
necessidade de ter razão. Libertando-nos do desejo
de ter razão e do medo de não ter razão.
Liberte-se do desejo pela razão, por estar certo, por
saber mais, e isso te fará mais tranquilo e feliz.

299
A PORTA DA VERDADE

Um homem era apaixonado por uma mulher há mui-


tos anos, mas ela não parecia corresponder. Há tem-
pos ele vinha esperando por ela, guardando alguma
esperança dela acordar e perceber o quanto ele era
um homem bom. A moça já havia demonstrado al-
gumas vezes que não o queria, mas ele ainda manti-
nha uma chama acesa.

Seus amigos diziam que ele estava se enganando, e


que para o seu bem, largasse essa ilusão que o estava
prejudicando e fazendo sofrer. No entanto, apesar de
sentir uma forte dor no peito, ele admitia que tinha
medo de encarar a verdade, pois saber que não havia
chance de uma união era por demais doloroso para
ele.

Certo dia, após chorar por horas a fio, o homem es-


tava muito deprimido, e resolveu fazer uma oração a
Deus pedindo uma ajuda sobre seu caso.

Ele adormeceu e começou a sonhar… Sonhou que


estava numa sala ampla e toda branca. Olhou em
volta e viu um anjo ao lado de duas portas. Na porta
da esquerda estava escrito “Verdade” e na porta da
direita estava escrito “Ilusão”. O anjo olhou para o
homem e disse:

– Escolha uma das portas e veja por si mesmo qual


das duas portas é a melhor.

O homem então escolheu primeiro a porta da ver-


dade. Abriu a maçaneta e começou a caminhar num
local estranho. Subitamente, sentiu uma dor muito

300
forte, quase insuportável. Caiu no chão e ficou se
contorcendo de dor. Alguns minutos depois, a dor foi
diminuindo, diminuindo, até que após mais um
tempo, passou completamente. O homem agora sen-
tia-se bem e em paz.

Saiu pela porta da verdade e entrou agora na porta


onde estava escrito “Ilusão”. Adentrou na porta e
saiu num local aberto que parecia muito bonito,
como nos filmes de ficção. Subitamente, começou a
sentir uma dor, não tão forte quanto a dor da porta
da verdade, mas uma dor que latejava e doía mais
profundamente. O homem pensou que, da mesma
forma que a dor da porta da verdade passou, a dor
da porta da ilusão também iria passar, mas não foi o
que ocorreu. Passaram-se minutos, horas, e um dia
inteiro, e a dor permanecia exatamente a mesma,
com oscilações em maior ou menor grau. Passou-se o
equivalente a vários dias, e a dor continuou, não pas-
sava de jeito nenhum.

O homem resolveu então sair da porta da ilusão e foi


falar com o anjo. “Por favor anjo, me explique o que
isso significa” disse o homem. O anjo respondeu:

– É simples. Isso se aplica ao que está ocorrendo en-


tre você e essa moça. A porta da verdade é aquela
onde todas as pessoas encaram a verdade de frente,
sem cultivar ilusões. A dor da descoberta da verdade
é muito forte e devastadora, mas depois de um
tempo passa… Mas a dor da porta da ilusão é um
pouco mais leve, mas não importa quanto tempo
passe, ela continua latejando dentro de nós e acaba
sendo muito, mas muito pior do que a porta da ver-
dade. Encare a verdade que essa moça não quer nada

301
com você, e quando você fizer isso, vai sofrer uma
vez só, e depois vai passar… ao contrário de conti-
nuar cultivando ilusões.

O homem compreendeu, e agradeceu ao anjo pelo


ensinamento.

A verdade pode inicialmente doer muito, mas depois


tudo passa. No entanto, quem cultiva ilusões perma-
nece com uma dor que jamais passa, pelo simples
motivo de que a própria ilusão é a grande causa do
sofrimento humano.

302
VIVER FUGINDO

Os seres humanos, de uma forma geral, vivem fu-


gindo de tudo.

Entram em relacionamentos de cabeça e ficam


cheios de cobranças e exigências do outro para fugir
um pouco da carência.

Tornam-se verdadeiros viciados em trabalho para


não sentir a insegurança e a instabilidade da vida.
Vivem fugindo da tristeza e da depressão comendo
muito, fazendo sexo com várias pessoas, bebendo,
fumando e se viciando em muitas coisas.

Correm sempre para chegarem o mais rápido possí-


vel em tudo o que é lugar apenas para não sentirem
o momento presente…

Não olharem para a natureza…


Não entrarem em contato consigo mesmos…
Vivem correndo para nunca chegarem a lugar ne-
nhum…

Estamos sempre andando, em movimento, ansiosos,


cansados, angustiados, desejando, buscando sempre
algo que parece que está fora, e não dentro de nós.
Se parássemos por um momento, talvez fôssemos
capazes de sentir a nós mesmos.

Seríamos capazes de sentir quem somos, sentir as


coisas a nossa volta, olhar para as pessoas, sentir o
que se esconde além do mundo, ouvir nossa voz inte-
rior, escutar um pouco a nós mesmos, observar nos-

303
sos passos, nossa correria, nosso barulho interno e
externo…

Ver o vazio e encontrar um sentido.

Aquele que para, senta e olha para si mesmo, se en-


xerga, se reconhece, se aceita e quando faz isso, não
precisa mais fugir…

Não passe a vida fugindo de si mesmo.

Olhe para você, escute a sua voz interior, entre em


contato com o espírito universal e eterno que você é.

304
FELICIDADE E PAZ

A maioria das pessoas acredita firmemente que para


se ter uma vida de paz e felicidade é necessário di-
nheiro, sucesso e patrimônio, assim como se faz ne-
cessário reunir certas condições de beleza física,
atividade sexual regular e satisfação dos principais
prazeres materiais. No entanto, hoje em dia algumas
pesquisas recentes em neurociência vem na contra-
mão dessa crença popular, e fazem esse questiona-
mento em dois casos particulares. Estas são pesqui-
sas realizadas com dois indivíduos que levam uma
vida bastante simples, com poucos recursos e quase
nenhum dinheiro. Estamos falando de Matthieu Ri-
card, monge budista e de Dadi Janki, uma yoguini
indiana.

Matthieu Ricard recebeu formação ocidental e é filho


de um renomado filósofo francês. Quando não é con-
vidado para palestrar em diversos lugares do
mundo, Matthieu vive no monastério Shechen, no
bairro tibetano Bouda, onde tem a rotina típica de
um monge budista. Ele não tem quase nenhuma
posse ou dinheiro, a não ser aquele que recebe como
rendimento de alguns dos seus livros. Mesmo assim,
Ricard doa boa parte do lucro para obras de cari-
dade. Sua vida é extremamente simples, ele quase
nada possui, mas interiormente ele possui a pleni-
tude e a felicidade sem medidas.

Muitas pessoas têm a ilusão de acreditar que a felici-


dade está sempre ligada ao usufruto dos prazeres
materiais, a condições externas estáveis e confortá-
veis, assim como a muito dinheiro e patrimônio. Mas
a vida de Matthieu Ricard prova exatamente o con-

305
trário. Ele é feliz sem necessitar de quase nada para
viver. Mas como saber se Matthieu é mesmo feliz?
Quem faz essa afirmação sobre sua felicidade não é o
autor deste texto, mas sim os pesquisadores da Uni-
versidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, que
fizeram um mapeamento da atividade cerebral de
Matthieu em meditação e descobriram que o monge
produz uma alta quantidade de ondas gama, associa-
das à felicidade, que jamais foram vistas na neuroci-
ência mundial. Esse fato sugere que Matthieu é pos-
sivelmente um dos homens ou o homem mais feliz
do mundo. Apesar disso, é um monge que vive num
mosteiro em condições muito simples.

Outra personalidade espiritual que também se carac-


teriza não apenas pela felicidade, como pela estabili-
dade e tranquilidade mental é a yoguini Dadi Janki.
Janki realizou uma série de exames científicos para
medir sua atividade cerebral. O Instituto de Pesquisa
Médica e Científica da Universidade do Texas consta-
tou que Janki possui a “mente mais estável do
mundo”. Os cientistas verificaram, após vários testes
de mapeamento cerebral, que as ondas mentais de
Janki não se alteram nem mesmo quando ela é sub-
metida às condições mais desesperadoras.

Os pesquisadores ficaram impressionados com a


estabilidade e paz mental que Dadi Janki apresentou
nos testes. Eles concluíram que sua paz interior era
imperturbável e que nada no mundo material pode-
ria tirar a paz e tranquilidade da yoguini.

Este homem e essa mulher têm muitas coisas em


comum, mas a principal é que ambos levam uma vida
muito simples e são adeptos de práticas espirituais

306
meditativas. Eles falam do amor, da paz e da frater-
nidade entre os homens. Quase não tem posses, não
ocupam altos cargos em empresas, não são pessoas
de sucesso, nem celebridades que aparecem em ca-
pas de revistas de moda. Eles não são bonitos, não
fizeram cirurgias plásticas, não colocaram silicone,
não veem televisão, não bebem, não fumam e nem
tem vida sexual ativa. No entanto, Matthieu foi con-
siderado o homem mais feliz do mundo, enquanto
Dadi Janki foi considerada a mente mais estável do
mundo e provavelmente a pessoa que atingiu a
maior expressão da paz interior já conhecida na neu-
rociência. Ambos ensinam que a felicidade não pode
ser encontrada em condições exteriores do mundo, e
que o caminho da felicidade e da paz é, em geral,
cuidar do espírito e não precisar de quase nada para
se viver.

307
TUDO TEM UM FIM

Ninguém deve jamais perder de vista um princípio


muito importante da vida: tudo aquilo que temos,
um dia vamos necessariamente perder.

Sim, muitas pessoas acreditam, ou querem acreditar


que tudo o que possuem é eterno, inclusive elas
mesmas no sentido de sua personalidade terrena,
mas obviamente essa é uma ideia falsa que nada
mais é do que uma projeção de nosso desejo.

Sabemos inclusive que essa não é uma ideia popular


e muito aceita, inclusive temos consciência que este
post não será muito compartilhado justamente por
isso. Mas não se pode negar que tudo o que existe na
vida humana tem sempre um começo e um fim. Ga-
nhamos algo e depois necessariamente vamos per-
der esse algo. Isso ocorre porque todas as coisas do
universo são passageiras, e a única coisa imutável é a
própria mudança.

E qual o sentido prático disso em nossas vidas?


Devemos sempre ter consciência que tudo na vida
tem um prazo de validade, nada é eterno, tudo co-
meça e termina, tudo se manifesta e depois deixa de
se manifestar, nascemos, vivemos e morremos, para
depois renascer e continuar nossa caminhada rumo
ao infinito.

Portanto, você pode até imaginar e desejar uma casa,


mas não se apegue a essa casa, pois um dia você vai
perde-la; você pode desejar um carro, mas não se
apegue ao carro, pois um dia você vai perde-lo; você
pode desejar se casar, mas nunca esqueça que o ca-

308
samento um dia vai acabar, e tudo isso pode acabar
até mesmo antes do que você supõe. Tudo no mundo
um dia vai ter um fim. Não devemos cultivar nenhum
tipo de dependência de algo que o mundo nos ofe-
rece.

Mas então em que se apoiar? Apoie-se na única coisa


real: no ser espiritual que você é desde o princípio
dos tempos até a eternidade. Você nunca foi um ser
humano, mas apenas um espírito que temporaria-
mente precisa de experiências no mundo material
para desenvolver e purificar seu espírito. O espírito
eterno e imortal que você é nunca será perdido. Po-
dem destruir todo o seu corpo, mas o espírito é pe-
rene…

Podem te atacar, te caluniar, destruir toda a sua vida,


tirar tudo o que você tem, mas o espírito que você é e
a sua essência jamais serão sequer tocados por tudo
isso… O espírito daquele que encontrou sua essência
é totalmente inabalável… Ele não se deixa abater por
coisa alguma. Então, ao invés de passar a vida ten-
tando conquistar apenas bens terrenos, busque a sua
essência, pois ela é a única coisa que você levará da-
qui para frente.

309
MEU INIMIGO

Atenção, você que se julga meu inimigo…

Eu não sou inimigo de ninguém. Para mim, eu não


tenho inimigos. Mas se você não gosta de mim e por
isso quer me prejudicar, considerando-se meu ini-
migo, tenho uma coisa a lhe dizer.

Você não é meu inimigo de verdade. Preste atenção


nisso, pois seu maior inimigo é o seu desejo de me
prejudicar para poder se sentir melhor consigo
mesmo. Seu maior inimigo é o ódio que você carrega
dentro de si quando vê o outro bem e você mal.

Seu maior inimigo é seu sentimento de superiori-


dade que vem de um complexo de inferioridade que
você precisa compensar tentando se ver melhor do
que os outros. Sim, seu maior inimigo está dentro de
você mesmo, não sou eu, não são outras pessoas,
mas é você… É seu desejo por uma posição de desta-
que, é sua vaidade, é sua mania de não aceitar seus
erros, é sua eterna negativa de não aceitar sua pró-
pria imperfeição.

Esse é o seu verdadeiro inimigo, não eu e não os ou-


tros. Reflita, meu amigo, que não existe inimigo ex-
terno a você… Mesmo que você pense no meu mal e
queira me destruir, isso não te fará meu inimigo…
Pois aqueles que querem destruir os outros só vão
conseguir a sua própria destruição. Não tenha inimi-
gos… Não veja o mal externamente a você. O único
mal verdadeiro é aquele que reside oculto no
coração humano, na inveja, na arrogância, no desejo
de poder, na ira e na defesa de se autoconhecer.

310
Você aí, que pensa em me destruir, reflita por um
instante… Nada em tua vida vai valer a pena en-
quanto você conservar essa raiva dentro de si e to-
mar o outro como inimigo… Você pensa em destruir
o outro, mas na verdade você está se autodestruindo.
Quando você coloca as dinamites da raiva, da mágoa
e da vingança para implodir o prédio alheio, na ver-
dade isso acabará implodindo seu próprio prédio.
Preste bastante atenção, pois o inimigo de verdade é
o ego, é o desejo de viver as aparências, é o orgulho,
o egoísmo e a vaidade…

Por isso eu digo, meu amigo, que eu não tenho inimi-


gos… Meus únicos inimigos estão dentro de mim.
Esses sim, eu preciso vencer…

311
SABEDORIA E IGNORÂNCIA

Prefira sempre a investigação ao invés da acomoda-


ção do conhecimento.
Prefira sempre aprofundar-se num tema do que
aceita-lo de pronto.
Prefira sempre a pesquisa ao invés da adoção de uma
verdade pronta.
Prefira sempre o questionamento de uma ideia do
que absorver tudo sem inquirir.
Prefira sempre a dúvida ao invés da certeza.
Prefira sempre debater ideias, e não debater pes-
soas.
Prefira sempre a reflexão ao invés da dogmatização.
Prefira sempre observar atentamente do que sequer
ver e passar a acreditar que já se sabe.
Prefira sempre rever seu próprio conhecimento do
que aceita-lo como parte de sua identidade.
Prefira sempre ouvir os outros do que falar desme-
didamente.
Prefira sempre aprender ao invés de ensinar.
Prefira sempre calar a voz do falatório da mente e
adentrar na voz do teu íntimo.
Prefira sempre o conhecimento simples que faz a
síntese de uma verdade do que exposições longas e
complexas.
Prefira sempre ouvir o humilde; fuja o quanto puder
daqueles que ostentam presunçosamente tudo saber.
Prefira sempre a sabedoria; nunca se deixe levar pela
alienação e pela ignorância.
Prefira sempre estar errado, aceitar e aprender, do
que ficar insistindo no erro por puro orgulho.
É sempre melhor admitir que há algo que não sabe-
mos que ficar arrogando do nosso escasso conheci-
mento.

312
CONTRADIÇÃO HUMANA

Não queremos ver enchentes e alagamentos na ci-


dade, mas muitas vezes continuamos jogando lixo
nas ruas.
Não queremos ver o desmatamento das florestas,
mas muitas vezes não conferimos se a madeira que
compramos é legalizada.
Não queremos ver animais sendo torturados em tes-
tes científicos, mas muitas vezes compramos sham-
poos e outros produtos que testam em animais.
Não queremos ver nossos rios poluídos, mas muitas
vezes não cuidamos de tratar o esgoto de onde mo-
ramos.
Não queremos ver a natureza suja com nosso lixo,
mas muitas vezes não o separamos para reciclagem.
Não queremos sofrer acidentes de trânsito, mas mui-
tas vezes não evitamos altas velocidades em nossos
veículos.
Não queremos ver artistas de má qualidade, mas
muitas vezes não incentivamos os bons artistas
comprando CDs piratas.
Queremos que todos façam o correto, mas muitas
vezes não queremos nós mesmos fazer o correto.
Queremos que a sociedade melhore, mas muitos se
recusam a se tornar pessoas melhores.
Queremos honestidade para conosco, mas em muitos
casos não cuidamos de nossa própria honestidade.
Queremos paz, mas muitas vezes tiramos a paz de
outras pessoas, não perdoamos e não aceitamos.
Queremos amor, mas muitas vezes não damos o
mesmo amor que desejamos para nós.
Queremos viver no paraíso, mas não queremos
abandonar nossos demônios interiores.
E finalmente…. queremos ardentemente que o

313
mundo mude, mas não queremos nós mesmos mu-
dar.
Se você muda, o mundo muda com você…
O mundo se torna melhor a partir do momento em
que as pessoas se tornam melhores.
Dê ao mundo tudo aquilo que você gostaria que o
mundo te desse, e assim, tudo vai melhorar.

314
HOJE EM DIA

Hoje em dia temos a tecnologia de veículos muito


velozes que percorrem imensas distâncias, mas pa-
rece que estamos cada vez mais distantes uns dos
outros.

Hoje em dia vivemos na era digital, onde podemos


nos conectar com muitas pessoas. No entanto, nunca
fomos tão solitários.

Hoje em dia temos muitas possibilidades de entrete-


nimento na TV e internet, mas vivemos numa contí-
nua tristeza e melancolia.

Hoje em dia nossas redes sociais digitais têm milha-


res de conhecidos, mas temos a impressão de
que nos faltam aqueles amigos de verdade.

Hoje em dia temos uma variedade imensa de alimen-


tos nos supermercados, mas nunca ingerimos tantos
alimentos tóxicos.

Hoje em dia passeamos em shoppings consumindo


milhares de produtos numa multiplicidade de lojas,
mas nunca sentimos que tanta coisa nos falta.

Hoje em dia somos bombardeados por uma infini-


dade de informações midiáticas, mas nunca estive-
mos tão perdidos e desorientados.

Hoje em dia existem milhares de medicamentos a


nossa disposição em cada farmácia, mas nunca esti-
vemos tão doentes e debilitados.

315
Hoje em dia há uma intensa proliferação de cultos e
novas religiões, mas estamos a cada dia perdendo
mais e mais a nossa verdadeira fé .

Hoje em dia tivemos dezenas ou centenas de eleições


democráticas como nunca na história, mas os políti-
cos parecem não nos representar.

Hoje em dia existe um sem-número de clubes, asso-


ciações, organizações e grupos humanos, mas nunca
fomos tão carentes e vazios.

Hoje em dia existe uma vasta diversidade de ideolo-


gias, correntes, filosofias e modos de pensar, mas
nunca estivemos tão incertos de tudo.

Hoje em dia contamos com aparelhos de alta tecno-


logia em segurança, com abundância de radares,
câmeras e alarmes, mas nos sentimos cada vez mais
inseguros em sociedade.

A modernidade pode ter nos trazido conforto, facili-


dades e conveniências materiais, mas talvez tenha-
mos perdido o essencial.

Vamos resgatar tudo aquilo que ficou perdido pelo


caminho materialista que trilhamos, os nossos valo-
res mais fundamentais:

Nossa humanidade, a nossa alegria, a nossa naturali-


dade, a nossa simplicidade, a nossa espontaneidade,
a nossa ternura, a nossa fé, o nosso amor e nossa paz
de espírito. Sem o essencial, a vida não faz sentido.

316
INÍCIO E FIM

Um bebe de 1 ano e meio parou de mamar no peito


da mãe. Ele achou que nunca mais iria se alimentar
novamente e que a comida havia chegado ao fim, até
que sua mãe começou a lhe dar uma papinha.

O bebe cresceu e se tornou um menino. Esse menino


perdeu sua bola e achou que nunca mais iria ter ou-
tra bola. Até que seu pai apareceu com um presente,
que era uma bola nova.

O menino cresceu e virou adolescente. Ele começou a


namorar, apaixonou-se e a moça terminou o namoro.
Ele acreditou que nunca mais iria se apaixonar e
encontrar outra pessoa. Mas após 2 anos encontrou
uma moça, se apaixonou e ficaram juntos.

O adolescente virou agora um adulto. O homem viu


sua empresa ir a falência e acreditou que nunca mais
conseguiria montar outra empresa. Após cinco anos
de luta e esforço, ele conseguiu juntar dinheiro e
abriu outro negócio.

O homem agora estava bem velho. Estava prestes a


morrer e começou a acreditar que nunca mais vive-
ria, que havia chegado o seu fim. Passado um tempo,
ele finalmente faleceu…

Quando se deu conta, percebeu que estava se ele-


vando do seu próprio corpo. Viu-se como um ser
espiritual luminoso e constatou que continuaria vi-
vendo. Morreu para o plano físico, mas renasceu
para o plano espiritual. Descobriu que ele mesmo
não tinha um fim…

317
A existência universal é um constante morrer e re-
nascer. Quando acreditamos que algo chegou ao seu
fim, um novo começo surge, num outro nível e den-
tro de uma nova etapa, onde se abre uma nova pers-
pectiva de existência. Não acredite na perpetuação
eterna de algo, ou mesmo no fim, pois o que chama-
mos de fim é sempre um novo começo…

318
O FALATÓRIO PESSOAL

Para ter mais tranquilidade em sua vida,


Aquieta o falatório desordenado de boca e mente.
Expresse-se com serenidade e paz, sem pressa e an-
siedade.
Reflita sempre naquilo que se propõe a dizer.
Quem fala muito, costuma escutar bem pouco, e
quem escuta pouco, costuma falar muito.
Quem só fala e não escuta, perde a noção do real,
E passa a viver no mundo dos próprios pensamentos.
Já parou para pensar que o outro pode não estar
interessado em seu discurso aleatório?
Muitos ouvem apenas por educação, outros já se
imaginam bem longe do falador.
Para que ficar jogando conversa fora falando ameni-
dades de forma impensada?
Não há qualquer ganho prático e pessoal na falação
desmedida.
As palavras têm poder criador, elas geram energia
quando proferidas.
Por isso, não perca sua vitalidade falando mais do
que deveria.
Que prazer pode existir na fala descontínua e irrefle-
tida?
Falar sem pensar é apenas soltar palavras ao vento,
Que se perdem e se esvaem em sua própria ausência
de significado.
Exprimir-se sem ponderação é aderir ao impulso das
emoções,
Que afetam nossa reflexão e tornam nossas ideias
supérfluas e pueris.
Quem fala muito, costuma falar muito de si mesmo.
Comenta suas preferências, seus gostos, sua forma
de ser e agir: tudo gira ao seu redor.

319
O frívolo prazer de expressar seus pensamentos na
mesma hora que eles vêm,
Sem pensar, sem dosar, sem entender o sentido e a
profundidade do que se diz,
É notadamente um gradual aniquilamento da subs-
tância profunda de nossa vida.
Já tentou perceber se o outro está interessado em tua
tagarelice?
Na maioria das vezes, quem fala muito não recebe a
atenção do outro.
E muitas vezes nem se importa com isso.
Para o falador compulsivo, o importante é atirar pa-
lavras ao vento,
Mesmo que o tema não interesse aos demais.
Fala menos, reflete mais; siga tua vida com mais re-
flexão e com menos vozearia.
Quem fala muito, medita pouco na essência do pró-
prio pensamento.
Não permita que sua essência seja capturada pelo
discurso vazio que é proferido por ti.

320
NÃO CRITIQUE

Em vez de criticar os desonestos, seja você um sím-


bolo de honestidade.
Em vez de criticar os mentirosos, cultive você
mesmo a verdade sempre.
Em vez de criticar os falsos, seja você mesmo uma
pessoa sincera.
Em vez de criticar os picaretas, seja você mesmo uma
pessoa que preza pela integridade.
Em vez de criticar os despudorados e indecorosos,
seja você mesmo casto e decente.
Em vez de criticar os impuros, seja você mesmo o
maior exemplo de pureza.
Em vez de criticar os que têm ódio, plante as boas
sementes do amor.
Em vez de criticar quem faz o mal, seja o modelo do
bem que você almeja.
Muitas pessoas criticam, atacam e desmerecem tudo
aquilo que não concordam.
A atitude do sábio, no entanto, é conservar uma con-
duta de retidão e virtudes.
Quem leva uma existência correta, não precisa pas-
sar a vida inteira criticando o incorreto.
Seus atos já demonstram, com naturalidade e cla-
reza…
A mensagem do melhor ideal a ser seguido.

321
MUDANÇA EXTERNA E INTERNA

Não acredite que as condições externas devem mu-


dar para somente depois você conseguir mudar.
Você é quem deve mudar para que tudo a sua volta
se transforme.

Não acredite que a passagem do tempo vai trazer a


mudança. Você é quem deve mudar para não ficar
preso ao tempo que se passou.

Não acredite que o outro precisa mudar para você se


sentir melhor e tudo se transformar. Você é quem
precisa mudar para dar um bom exemplo ao outro e
mostra-lo a importância da reforma interior.

Não acredite que você deve mudar seus relaciona-


mentos para que tudo se corrija e se encaixe. Você é
quem deve melhorar a si mesmo, e assim, seus rela-
cionamentos vão dar um salto de qualidade.

Não acredite que seu trabalho precisa mudar para


você melhorar de vida. Você é quem deve mudar sua
forma de trabalhar, e como consequência, seu tra-
balho mudará e você vai começar a reestruturar sua
vida.

Não acredite que seu filho precisa mudar para a rela-


ção se renovar. Você é quem precisa mudar a si
mesmo(a), e somente então seu filho vai sentir sua
mudança e pode também se transformar.

Não acredite que sua comunidade precisa mudar


para você se sentir melhor. Você é quem precisa mu-

322
dar para melhorar a vida em sua comunidade e sen-
tir-se mais tranquilo onde você mora.

Não acredite na ilusão de que o exterior pode mudar


algo em seu interior.

Toda mudança começa lá dentro, no fundo de você


mesmo, quando você toma a decisão de ser diferente
e começa a praticar.

Muda-te a ti mesmo… Transforma quem você é. De-


sapegue-se do seu eu do passado. Assim, sua forma
de ver o mundo, assim como o mundo, também mu-
dará.

323
A VAIDADE

Em tua passagem pelo mundo, não cultives jamais a


vaidade.
A vaidade empobrece teu espírito com preocupações
vãs
O vaidoso quer ser admirado pelos outros,
Ele valoriza mais a visão coletiva de si do que a sua
própria.
A vaidade é apenas uma imagem que alguém quer
transmitir para ser apreciado e estimado.
Que forma fútil de se conquistar o amor!
O vaidoso vive pela imagem, e não pelo que guarda
em seu âmago.
Quer sempre fazer parecer, e dessa forma, ele se
isenta de simplesmente ser.
É o predomínio da imagem sobre a essência.
Em algum momento, terás que se perguntar:
Quero plantar imagens e colher decepções, ou quero
plantar a essência e colher realidades?
O vaidoso vê a vaidade em todos os vaidosos, mas
nunca vê a sua própria.
É mais fácil enxergar no outro do que em si mesmo.
Vaidade e amor próprio são frequentemente e erro-
neamente confundidos,
Posto que o vaidoso quer sempre modificar algo em
si,
E aquele que cultiva o amor próprio se aceita e se
ama.
O vaidoso busca o progresso sem ter méritos,
O humilde entende que o progresso é um resultado
natural do mérito e do esforço.
O vaidoso quer estar sempre por cima, e despreza
aqueles que ele vê por baixo.
Aqueles que o ameaçam, por mérito próprio, ele pro-

324
cura rebaixar e desdenhar.
O vaidoso quer ser apreciado e considerado, e se
irrita quando outros se vangloriam em seu lugar.
“Eu deveria ser exaltado, e não ele”, pensa ele.
A vaidade vive de rótulos, de formas, de imagens,
É como degustar a casca da banana e jogar o restante
fora.
Quem vive de imagens, não vive de verdade;
Preocupa-se mais com a visão de outros sobre sua
vida, do que com sua vida em si mesma.
A roupagem dá boa impressão inicial, mas o que será
mostrado com o tempo?
Pessoas vaidosas falam muito, mas ouvem pouco;
Interessam-se demasiado por suas experiências, mas
pouco valor dão as experiências alheias.
Mal sabe o vaidoso que o mesmo desprezo que ele
tem pelos outros, outros têm por ele e por sua vai-
dade.
Regozija-se em enaltecer seus feitos, mas é cego em
reconhecer os feitos de outrem.
Purifica tua mente e teu coração de toda a vaidade,
pois a imagem é tão efêmera quanto as ondulações
de um rio.
Compreende que ninguém controla sua própria ima-
gem, e outros vão pensar o que quiserem de ti.
O povo é volúvel e paradoxal, cada hora pensa uma
coisa.
Desista de cultivar tua imagem perante outros, o
amor do público só vem naturalmente de um coração
puro.
Desapega-se, dessa forma, do desejo de conservar
uma imagem impecável.
Além de ser impossível de mante-la, gastarás toda a
tua vida perseguindo uma sombra,

325
Acende, portanto, uma luz, que ilumina e traz ver-
dade a tua vida.

326
OS TRÊS OBSESSORES

Um homem chegou a um centro espírita muito des-


confiado de que estava com vários obsessores.

Ele contou sua história para o médium do centro.


Revelou sua crença de que os obsessores haviam
convencido sua esposa a terminar com ele. Revelou
que os obsessores estavam travando sua vida e que
ele não conseguia mais seguir em frente pois estava
sentindo muito medo. Revelou também que não que-
ria mudar, pois sua vida estava confortável do jeito
que estava, e que os obsessores estavam fazendo de
tudo para desestabiliza-lo.

O médium resolveu iniciar os trabalhos. Fechou os


olhos e ficou alguns minutos concentrado para fazer
a desobsessão. Depois abriu os olhos, olhou para o
homem e disse:

– De fato, há três obsessores com você, mas eles são


muito poderosos e não posso tira-los.

O homem ficou com medo e pensou que estava ar-


ruinado, pois se nem o médium conseguia tira-los,
sua vida seria arrasada pelos espíritos negativos.

“Quem são esses obsessores?” perguntou o homem.

O médium respondeu:

– São três os seus obsessores:

– O primeiro obsessor é o apego. Sim, o apego que


você tem em relação a sua esposa. Ela já terminou

327
com você e mesmo assim você fica insistindo num
casamento que já deu claros sinais de término. O
apego é um grande obsessor, um dos maiores dos
seres humanos.

– O segundo obsessor é o medo. Esse é um obsessor


fortíssimo, pois paralisa nossa vida e não nos deixa
caminhar. É outro grande obsessor do ser humano.

– O terceiro obsessor que está em você é a acomoda-


ção. Sim, a acomodação vem da preguiça ou de uma
fuga dos problemas, e a acomodação nos faz estag-
nar, parar e até mesmo morrer por dentro. Uma pes-
soa acomodada costuma abdicar de suas forças para
lutar e fica presa dentro do próprio conformismo
que criou.

– Esses são os seus três obsessores. Eles não são es-


píritos e não havia nenhum desencarnado com você.
Esses e outros obsessores vivem no coração do ser
humano, e somente ele pode dissolve-los para sem-
pre. Se vier algum espírito sombrio, ele só poderá
agir em você ativando alguns desses obsessores in-
ternos. Por isso que eu disse que nada posso fazer
para remove-los, pois somente você é capaz de gerar
essa transformação em ti mesmo.

Quais são seus maiores obsessores? Não importa


quais sejam. Você pode vence-los através da liberta-
ção e do despertar espiritual.

328
CONSELHOS DE VIDA

Todos devem refletir nestes conselhos de vida.


Cuidado para não cometer os erros mais básicos:
Não mude, fique estagnado, e a derrota virá.
Seja egoísta, e será solitário.
Não perdoe, e ficará doente.
Preocupe-se, e viverá tenso.
Acumule bens e dinheiro, e desejará sempre mais.
Seja impulsivo, e errará com mais facilidade.
Viva nervoso, e não conseguirá tomar boas decisões.
Seja preguiçoso, e não sairá do lugar.
Crie expectativas, e se frustrará.
Deseje muito, e muito te faltará.
Viva no passado, e perderá o presente.
Seja medroso, e ficará paralisado.
Siga estes preceitos, e ficarás bem:
Pesquise, busque, e uma hora a resposta virá.
Seja humilde, e te sentirá leve.
Doe seus bens em excesso, e nada te faltará.
Liberte-se do supérfluo, e sua vida será mais pro-
funda.
Seja solidário, e estará satisfeito.
Tenha compaixão, e será forte.
Tenha esperança, e nada poderá te abalar.
Tenha fé, e ela iluminará teu caminho.
Viva com simplicidade, e sentirá melhor a vida.
Seja você mesmo, e será feliz.

329
ONDE FOI QUE EU ERREI?

É bem curioso isso. As pessoas mergulham num


mundo materialista, consumista, ilusório, sem amor,
sem vida, sem contato com a natureza…

Os relacionamentos são superficiais, não há afeto,


não há reciprocidade, somente se usa o outro, se
mente ao outro, se tenta controlar o outro.

As pessoas valem mais pelas palavras que proferem,


do que pelas atitudes que têm; valem mais pela ima-
gem que projetam, do que pela sua essência, valem
mais pelo que possuem do que pelo que são.
Preferem ouvir músicas altíssimas para não ouvir a
si mesmos e os anseios mais íntimos do seu coração.

Depois de envolver-se intensamente nesse mundo


materialista e vazio, sentem-se insatisfeitas, ficam
doentes, e vão se entupir de remédios alopáticos e
antidepressivos, que não vão resolver o problema,
mas apenas criar uma falsa sensação de saúde e uma
ilusória sensação de alegria.

E depois de tudo isso, ainda querem ser felizes…


Acham que a felicidade será encontrada no próximo
jogo de futebol de domingo, no churrasco do fim de
semana, nas novelas, em reality shows e em outras
futilidades efêmeras. Consolam-se no mundo da mí-
dia e do entretenimento acreditando que é possível
fugir do real…

E depois ainda perguntam: onde foi que eu errei?


A resposta é muito clara:

330
Você errou em valorizar as coisas banais, transitórias
e vazias ao invés daquilo que é real. Você errou em
optar pela ilusão consoladora ao invés da verdade
impactante. Você errou ao tratar o ser humano como
algo a ser manipulado, e não como um parceiro evo-
lutivo. Você errou em acreditar na arrogância ao
invés de acreditar na humildade. Você errou em bus-
car no passageiro algo da ordem do eterno. Você
errou em trocar o amor pela ilusão.

Mas não se preocupe, ainda dá tempo de consertar


tudo isso.

Como?

Escolha a verdade, e não a ilusão. Escolha o amor, e


não a indiferença. Escolha a humildade, e deixe de
lado a soberba. Escolha relacionamentos profundos e
amorosos, e não meras conveniências humanas. Es-
colha viver de acordo com sua natureza, e não a re-
negando o tempo inteiro.

Escolha… finalmente… ser você mesmo e despertar a


essência que sempre esteve presente em ti.

331
O QUE TE FAZ FELIZ?

Um mestre oriental estava reunido com um grupo de


pessoas, que vinham vê-lo a fim de receber um
pouco de sua sabedoria. O mestre sempre ouvia as
perguntas das pessoas e procurava responde-las de
acordo com o nível de entendimento de cada um.

Uma das pessoas virou-se para o mestre e pergun-


tou:

– Mestre, o que é a felicidade?

– Antes de responder essa pergunta – disse o mestre


– vou fazer uma pergunta a todos. O que te faz feliz?

– Meus filhos são a minha felicidade, disse uma moça.

– Minha estabilidade financeira me dá tranquilidade,


e consequentemente, me faz feliz, disse um comerci-
ante.

– Minha esposa, disse um homem que amava muito


sua mulher.

– Penso que serei feliz quando encontrar meu grande


amor, disse um jovem.

E cada uma das pessoas foi dizendo aquilo que a fa-


zia feliz.

Por último, sobrou um senhor mais idoso, dos seus


mais de sessenta anos. O mestre perguntou:

332
– Só falta o senhor responder a pergunta. O que te faz
feliz?

O senhor parou, pensou um pouco, olhou para o céu,


e respondeu:

– Nada…

Todos ficaram surpresos com a resposta, o homem


completou.

– Nada me faz feliz. Não consigo encontrar alguma


coisa que me traga felicidade. Eu simplesmente sou
feliz.

Todos olharam uns para os outros e se deu um silên-


cio no ambiente. O mestre disse:

– Prestem atenção no que esse homem acabou de


dizer, pois dentre todos aqui, ele é o único que en-
controu a felicidade verdadeira. Só há felicidade ou
realização quando esse sentimento não está ligado a
coisa alguma, não depende de nada e não precisa de
nada. Quando nossa felicidade está vinculada a algo,
ela será sempre incompleta e sujeita a terminar a
qualquer momento. Se você disser, meus filhos me
fazem feliz, ou sou feliz por este ou aquele motivo,
caso você venha a perder isto, sua felicidade se es-
gota, se perde, e você não mais a terá. Mas quando
nossa felicidade não depende de coisa alguma, ela
vem apenas de dentro de nós, sem nenhuma explica-
ção e causa. Essa é a felicidade mais pura e real.

333
GRANDES CORPORAÇÕES

As indústrias farmacêuticas lucram com a doença.


Quanto mais enfermidades, maior o lucro.
Os grandes bancos lucram com a dívida. Quanto mais
pessoas endividadas e desesperadas pagando juros,
maior o lucro.
As empresas de marketing lucram com a suscetibili-
dade. Quanto mais pessoas sugestionáveis e aliena-
das, maior o lucro.
As indústrias de cosméticos lucram com a insegu-
rança e a baixa autoestima. Quanto mais pessoas
inseguras e com baixa autoestima ansiando por be-
leza, maior o lucro.
As empresas de fast-food lucram com os transtornos
alimentares e com a carência. Quanto mais pessoas
suprem suas faltas e angústias com a comida, maior
o lucro.
As indústrias da moda lucram com a solidão. Quanto
mais pessoas desejando ajuste e aceitação, maior o
lucro.
As empresas de bebida e cigarro lucram com a de-
pendência química. Quanto mais pessoas viciadas e
intoxicadas, maior o lucro.
É neste mundo que você quer viver?
Não se deixe seduzir pelas promessas daqueles que
só visam o lucro irrestrito.
Você não precisa de nada disso, você é perfeito do
jeito que é. Você é luz em desenvolvimento na Terra.
Liberte-se de suas carências e apegos e descubra a
felicidade infinita que existe latente em você. Liber-
tar-se não é uma questão de capacidade, mas de es-
colha.

334
ORGULHO NOS FAZ PERDER

Você entra num debate e percebe que seu opositor


está certo, mas por orgulho não dá o braço a torcer, e
assim, perde uma grande chance de aprender.

Você quer voltar a falar com seu amigo, com sua ex


ou com algum parente, mas por causa de uma briga,
ambos ficam esperando o outro tomar a iniciativa da
reconciliação. Os dois perdem um ao outro por conta
do orgulho.

Uma pessoa simples e humilde descreve sua vida e


suas experiências, mas por você se sentir superior a
ela, não lhe dá ouvidos. O orgulho te faz perder uma
grande chance de ouvir bons ensinamentos de vida.

Quando alguém nos diz que estamos errados e por


orgulho nos recusamos a admitir o erro, perdemos
uma grande oportunidade de aprender com nossas
falhas.

Quando uma pessoa faz um comentário sobre al-


guma atitude incoerente nossa que precisa ser mo-
dificada, e não aceitamos nem refletir a respeito por
puro orgulho, estamos perdendo uma boa ocasião
para o autoconhecimento.

Uma pessoa que perde uma competição, e coloca a


culpa em algo externo por orgulho, está perdendo
um bom momento para avaliar seus próprios erros e
melhora-los para competições futuras.

Um homem precisa realizar um trabalho que será


apresentado a várias pessoas, mas por orgulho de

335
querer parecer bom, inteligente e capaz acaba se
cobrando tanto em fazer algo impecável que não
consegue concluir o trabalho. O orgulho estagnou
sua produtividade.

O orgulho entrava nossa vida, nos traz derrotas e


perdas na vida a todo instante.

Não permita que o orgulho te cerceie, te cegue, de


iluda ou faça você se perder.

Pare e pense: O que o orgulho já trouxe de positivo a


sua vida?

Quem se sente superior aos outros, cessa seu apren-


dizado e se fecha para a vida.

Quantas vezes você já perdeu coisas que realmente


valem a pena pela passional soberba?

Não permita mais que sua vida seja devastada pelo


orgulho.

A humildade é o melhor caminho para a felicidade e


a paz.

336
MENSAGENS SOBRE RELIGIÃO E

SER E ESSÊNCIA

Nesse momento…
Pare de se distrair com o exterior
E volte sua atenção para seu interior.
Deixe de lado a televisão, o trânsito, os problemas, as
preocupações, o estresse…
Largue todas as ilusões efêmeras desse mundo…
E fique sozinho… apenas consigo mesmo.
Nesse momento… pare…
Pare por um instante… pare tudo… Não faça mais
nada…
E procure apenas sentir a si mesmo.
Sinta a tensão em seu corpo, sinta suas angústias, seu
vazio, sua tristeza, seu desespero, seu cansaço…
Sinta tudo e apenas deixe fluir…
Não bloqueie mais o sentimento, não interrompa o
pensamento, não resista ao que ocorre dentro de
você…
Apenas deixe acontecer… e solte tudo.
Solte… deixe estar… deixe acontecer… e continue
sentindo a si mesmo.
Não prenda a corrente… deixe ela fluir livremente…
Não apresse nada… tudo segue no tempo devido…
Não tente controlar coisa alguma… Ninguém con-
trola nada…
Não se preocupe em fazer ou não fazer… em ser ou
não ser… Não espere resultados…
Nesse momento… você com você mesmo… em seu
interior… você é livre…

337
Sim… livre de tudo… nada há que possa te fazer
mal… nada te afeta… nada te oprime… nada ha para
perder…
Você está aqui e agora… não está longe… não está no
passado nem no futuro… está aqui… presente em si
mesmo.
O pensamento vem e vai… deixe ele ir e vir… deixe a
roda da vida continuar a girar… mas não se mova
com ela… apenas observe seu movimento… e sinta a
liberdade do seu espírito…
O espírito é puro… ele não pode ser maculado. Ele é
paz… nada pode abala-lo.
Nesse espaço interior… o além de dentro… a profun-
deza de sua alma… é o seu lugar no cosmos…
Deixe ser o que é… não seja isso ou aquilo… seja
apenas o que é o ser… O ser ja é por si mesmo…
Entregue-se com toda a confiança ao ser que é… Co-
loque-se com toda a fé nas mãos de Deus…
Quem está aqui… no além interior… não precisa de
nada…
Vê com os olhos internos… escuta a voz interior…
sabe com a sabedoria da vida…
O ser é eterno… ele não tem tempo. O ser é infinito,
ele não tem fim… O ser é tudo… e ao mesmo tempo
nada…
Em teu ser existe uma essência… não é possível sen-
tir a essência… pois nós somos a essência… nós so-
mos o ser essencial… o ser que é… O ser que é apenas
e simplesmente o ser…
Ser… Ser…. Ser…. Aqui tudo é plenitude…

338
A ORAÇÃO DE DEUS

Um homem estava orando a Deus fervorosamente


dizendo:

– Deus, escute o meu pedido. Faça com que o meu


chefe, ó Deus, me dê uma promoção, preciso ter um
salário melhor. Faça também com que minha esposa
me dê mais atenção e me trate bem. Faça com que
meu filho, ó Deus, estude e consiga aquela bolsa de
estudos para a faculdade. Ajude-me também na do-
ença do meu pai, que já está bem velhinho e o ajude a
sobreviver meu Deus. Faça também, ó Deus, que eu
seja uma pessoa mais feliz.

Do outro lado do cosmos, Deus, o Senhor de tudo o


que existe, ouviu a oração do seu filho… Ele também
está, nesse mesmo momento, fazendo uma oração a
este mesmo filho. Deus diz:

– Meu filho, escute você este meu pedido. Ao invés de


querer sempre que Eu te escute, procure você escu-
tar mais a Mim, a natureza, as pessoas e a vida.

Ao invés de ficar sempre orando para que eu te dê


tudo, entenda que existem coisas que iriam mais te
prejudicar do que te beneficiar caso você as conse-
guisse. Entenda que crescemos interiormente mais
com a falta do que com as conquistas mundanas, e
que o mais importante não é o que se ganha, mas o
que se ganha interiormente quando há algo que se
perde exteriormente.

Quanto ao seu chefe, ó meu filho, procure não ser


uma pessoa tão arrogante diante do seu chefe, e pare

339
de ficar disputando com ele. Aprenda a lição da hu-
mildade, e assim, você poderá conseguir coisas muito
mais importantes em sua vida do que tão somente
uma promoção.

Quanto a sua esposa, ó meu filho, de nada adianta me


pedir que ela te trate bem se você não dá atenção a
ela e a relega a um segundo plano. Afinal, fui Eu
mesmo que coloquei vocês dois juntos para que,
nessa convivência, um ajude o outro a enxergar os
seus próprios defeitos, e num auxílio mútuo de amor
incondicional, vocês possam crescer conjuntamente
como seres humanos.

Quanto ao seu menino, ó meu filho amado, não mime


ele como você vem fazendo. Pare de descontar nele a
sua carência dando tudo o que ele lhe pede para re-
ceber o pouco do carinho que ele lhe dá. Ao contrá-
rio, ensine-o o valor do esforço pessoal e pare de
paparica-lo e de dar milhares de benesses, pois as-
sim ele terá mais espaço para crescer por si mesmo.
Se eu que sou Deus não dou tudo o que vocês pedem,
para ajudar vocês a se desenvolverem, tampouco
vocês, seres humanos, devem dar tudo a seus filhos
terrenos, pelo mesmo motivo.

Quanto a seu pai, ó meu filho, entenda que ele já


cumpriu sua missão na Terra. Entenda que você pre-
cisa se desapegar dele e permitir que ele possa partir
ao plano espiritual e retornar ao seu lar cósmico. A
morte do seu pai é um exercício de desapego que eu
coloco diante de você, e que também ajudará em seu
melhoramento espiritual.
Quanto a ser feliz, ó meu filho, por favor entenda de
uma vez por todas que nem mesmo eu, o Senhor de

340
toda a Criação, posso fazer isso por vocês, caso con-
trário, como vocês iriam aprender e se melhorar se
eu tudo lhes concedesse? Entenda, meu filho, que
nada é por acaso, que tudo ocorre por um propósito
superior, e que não adianta me pedir coisas que, caso
eu lhes desse, iriam prejudicar vocês. Se há algo que
vocês não receberam, é porque é exatamente isso
que vocês precisam, nem mais nem menos. Não creia
que vou te proteger retirando-o das provas ou ame-
nizando esta ou aquela situação de sofrimento, pois
muitas vezes você está mais protegido passando pela
provação do que se eu a evitasse. Entenda, princi-
palmente, que tudo na vida são provas que visam
aperfeiçoar e purificar o seu espírito.

Por outro lado, meu filho, entenda que a verdadeira


felicidade não depende de coisa alguma, e que para
ser feliz é necessário ser feliz por si mesmo, sem que
qualquer coisa possa te tirar essa felicidade ou
mesmo te dar essa felicidade. Reflita, ó meu filho,
nestas palavras e receba meu amor incondicional.

Esta é a minha oração para ti.

341
O QUE É ESPIRITUALIDADE?

Espiritualidade não é uma religião, não é uma dou-


trina, não é o sacerdócio, não é uma crença e nem
uma opinião.

Espiritualidade é um modo de vida, é um estado de


espírito, é uma abertura mental, é uma aspiração à
transcendência.

Espiritualidade é sentir arder uma chama interior


que ilumina nosso caminho no caos e nas trevas que
vivemos no mundo.

Espiritualidade é a confiança expressa nas palavras


“Ainda que eu ande pelo vale da sombra e da morte,
nada temerei.”

Espiritualidade é entender que somos como crianças


tomando uma vacina, que machuca muito na hora,
negamos, gritamos e esperneamos, mas que depois
imuniza nosso espírito.

Espiritualidade é ir além, é a consciência de que a


vida não se encerra na morte, de que é preciso haver
continuidade dentro da descontinuidade. De que
tudo que começa, termina; tudo que nasce, morre;
tudo que vai, volta. De que para cada problema há
uma solução, para cada lágrima derramada há sem-
pre um consolo e para cada perda há sempre um
ganho.

Espiritualidade é reconhecer um propósito em todas


as coisas, e recusar a existência da sorte, do azar e do

342
acaso. É ter paciência e confiar que, um dia, o signifi-
cado de tudo será desvendado.

Espiritualidade é dar de si mesmo, é renunciar ao


pequeno para obter algo maior, é abdicar de nossas
pequenas posses para ganhar tudo o que sempre nos
pertenceu. É fazer das florestas do mundo nosso
jardim, é fazer do céu o nosso teto, é fazer dos mares
e rios a nossa piscina, é fazer da Terra a nossa casa. É
cuidar do tudo, de cada ser e coisa, e não apenas de
nossos escassos bens terrenos.

Espiritualidade é ver por dentro, é não se deixar le-


var pelas aparências, é reconhecer o essencial em
cada mínimo aspecto da vida, é satisfazer-se com
pouco para obter muito, é rasgar o véu da ilusão e
desejar entender o mistério da vida.

Espiritualidade é pedir pouco e agradecer muito. É


dar muito e nada pedir em troca. É fazer sem esperar
retribuições. É perdoar, é arrepender-se, é refazer, é
renovar, é reaprender a ver o mundo e a si mesmo.

Espiritualidade é fazer do seu professor o lírio do


campo, as árvores ao vento, a tempestade nebulosa,
o orvalho numa flor, a borboleta esvoaçando, o rio
fluindo, os pássaros cantando. É aprender com a
mais insignificante criatura.

Espiritualidade é deixar o humano morrer para o


divino nascer. É trazer o céu para a Terra. É viver na
Terra o céu que desejamos após a morte. É debruçar-
se no inferno resgatando as almas perdidas e erran-
tes. É ser uma luz no meio da escuridão.

343
Espiritualidade é dormir quando se tem sono, é co-
mer quando se tem fome, é olhar a montanha e ver a
montanha, é molhar as mãos no rio e sentir o frescor
das águas, é ver aquilo que está ali, é não intelectua-
lizar tudo, é sentir a essência das coisas e mergulhar
na essência da vida.

Espiritualidade é estender a mão aos que sofrem, é


dar conforto aos que choram, é dar abrigo aos sem
teto, é dar conselhos aqueles que se perderam, é
esclarecer aqueles que têm dúvidas, é dar de si
mesmo em prol de todos, é fazer o bem pelo bem, é
morrer pela verdade para renascer na plenitude.

Espiritualidade é dispensar as palavras e os discur-


sos fúteis e navegar nas paragens do silêncio inte-
rior. É aprender a ouvir a vida, a ouvir a si mesmo, a
diminuir a corrente dos pensamentos, é tranquilizar
o turbilhão das emoções, é fazer circular as energias,
é deixar tudo fluir.

Espiritualidade é viver na simplicidade, naturalidade


e na espontaneidade. É libertar-se de tudo o que é
passageiro, perecível, transitório. É mergulhar na
vida sem medo, sem travas, sem amarras, sem cor-
rentes, sem bloqueios. É viver, e apenas viver, sen-
tindo a vida como ela é. É não precisar de nada, não
depender de coisa alguma, não se deixar influenciar
pelas marés agitadas da confusão.

Espiritualidade é libertação, é humildade, é fé, é


amor e é esperança.

344
RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Não fiquem adorando a personalidade de líderes


religiosos, adorem os ensinamentos que eles propa-
gam.

Não fiquem se fanatizando por doutrinas e dogmas,


sigam os preceitos sagrados na prática diária.

Não fiquem repetindo rituais de forma fria e vazia,


mas façam de vossas vidas um ritual pelo bem e pela
paz.

Não orem com fórmulas prontas e sempre pedindo


coisas, tenham a fé em Deus de que tudo sempre dá
certo.

Não frequentem cultos barulhentos que mais pare-


cem shows, mas busquem o silêncio do seu interior.

Não entrem em longas e desgastantes discussões


teóricas sobre Deus, mas creia no Deus do seu íntimo
e de sua consciência.

Não comprem milhares de livros por curiosidade ou


apenas para arrogar erudição, alguns minutos da boa
meditação vale mais do que a leitura de 100 obras
espirituais teóricas.

Não fiquem decorando os textos sagrados apenas


para repeti-los a outros, a experiência do sagrado
transcende qualquer decoreba.

Não sigam apenas uma religião, mas vivam princi-


palmente a espiritualidade em vossas vidas.

345
Religião é conhecimento, espiritualidade é sabedoria.

Religião é dogma sobre o sagrado, espiritualidade é


experiência do sagrado.

Religião é crença, espiritualidade é ver diretamente.

Religião pode ser uma prisão, a espiritualidade te


liberta e te dá asas.

Religião é orar fria e mecanicamente, Espiritualidade


é entregar-se a Deus com fé.

Religião é ficar pedindo a Deus, Espiritualidade é


agradecer.

Religião é como a lagarta, sempre presa a terra, espi-


ritualidade provoca a metamorfose na borboleta e
faz você sair do casulo.

Religião é culto do Deus externo, Espiritualidade é


encontrar Deus dentro de nós.

346
A PAZ ESPIRITUAL

Rogério era um homem muito preocupado com sua


estabilidade material. Era empresário e seu maior
objetivo de vida era ganhar muito dinheiro, ter uma
conta bancária opulenta e conquistar muitas posses,
tudo isso para não ficar preocupado com sua condi-
ção de vida. Rogério queria ter muitas coisas para
que nada lhe faltasse, e para que pudesse dar a sua
esposa e seus filhos toda a tranquilidade e estabili-
dade. No fundo, Rogério queria ficar em paz consigo
mesmo, e sentia que só conseguiria essa paz se dedi-
casse sua vida a busca de segurança financeira. Es-
tando resguardado do ponto de vista material, ele
acreditava que teria tranquilidade e sossego no fu-
turo. No entanto, Rogério vivia sempre preocupado
em ganhar mais e mais, para que o dinheiro e as boas
condições de sua vida nunca faltassem. Vivia estres-
sado e com medo de perder. Por esse motivo, não
conseguia ficar em paz…

Álvaro já era diferente de Rogério. Viveu boa parte


de sua vida trabalhando para outras pessoas. Tinha
como profissão e enfermagem e usava boa parte do
seu tempo cuidando de pessoas pobres e doentes
numa organização social que ele fundou no início da
década de 80. Álvaro quase não juntava dinheiro,
pois tudo o que tinha era usado para ajudar a manter
essa organização. Passou boa parte de sua vida
dando cuidado e assistência a pessoas que tinham os
mais variados problemas. No entanto, esse trabalho
lhe dava muita satisfação interior. Álvaro era muito
feliz em poder auxiliar seu próximo e considerava
isso um compromisso espiritual. Mesmo tendo pas-
sado por algumas graves crises financeiras ao longo

347
de sua vida, Álvaro sentia-se feliz com seu trabalho e
em paz consigo mesmo.

Rogério e Álvaro morreram no mesmo dia e chega-


ram juntos ao plano espiritual. Um anjo acompa-
nhava os dois e viu o que aconteceu com cada um
deles.

Rogério chegou ao plano espiritual e ninguém veio


falar com ele. Sentiu-se sozinho e preocupado com
sua nova condição. Como ele havia passado boa
parte de sua vida preocupado e estressado com di-
nheiro, com posses, com estabilidade financeira… no
plano espiritual as preocupações e o estresse se
mantiveram. O tempo foi passando e o espírito de
Rogério sentia-se inquieto, inseguro, estressado e
solitário, pois havia passado praticamente toda sua
vida pensando apenas em si mesmo e em sua
estabilidade material, preocupado com contas, com
posses, com patrimônio, com segurança, com renta-
bilidade, com aposentadoria etc. Rogério sentiu que,
no plano espiritual, não tinha paz. Sentiu que havia
desperdiçado boa parte de sua vida e que agora não
tinha mais volta. Percebeu que nada fez de bom e
que não deu nenhuma contribuição significativa para
a humanidade.

Álvaro chegou ao plano espiritual e foi recebido com


muita festa e júbilo pelos espíritos amigos. O clima
era elevado, excelso, sublime e pacífico. Muitos des-
ses espíritos eram pessoas que Álvaro havia ajudado
durante a sua vida e estavam muito gratos pelo am-
paro que receberam. Álvaro fez muitos amigos em
sua existência terrena, justamente pela disposição
que tinha em fazer o bem ao próximo e também pela

348
justeza do seu caráter e pela retidão em suas atitu-
des. Os anjos de luz disseram a Álvaro que ele havia
cumprido sua missão e que agora ele poderia des-
cansar em paz no plano infinito. Álvaro estava com
uma maravilhosa sensação de missão cósmica cum-
prida e de ter aproveitado bem a sua encarnação
para um propósito superior. Não fez quase nada
pensando apenas em si mesmo e em seus interesses
pessoais e, por isso, conquistou um tesouro interior.

Rogério quis dominar o mundo para ter paz, mas


percebeu que, no fim das contas, nada possuía no
âmbito espiritual… Álvaro quis doar-se e sentiu que,
por não desejar nada para si mesmo, tinha paz pro-
funda no pós-morte.

O anjo, observando a condição espiritual das duas


almas, de Rogério e de Álvaro, resolveu transmitir o
mesmo ensinamento para ambos:

– Quanto mais trabalhamos pelo bem no mundo,


mais paz temos no plano espiritual. Não assente ja-
mais a sua paz em bases puramente mundanas. A paz
do nosso espírito só pode existir quando nasce de
dentro de nós mesmos… sem qualquer posse e sem
qualquer suporte externo.

349
DEUS E PERFEIÇÃO

Deus é perfeito, disso ninguém duvida. Todas as pes-


soas que creem em Deus sabem que seria uma im-
possibilidade lógica imaginar Deus sendo imperfeito.
Se Deus fosse imperfeito, simplesmente não poderia
ser Deus. Deus e a perfeição são duas ideias que se
confundem e uma não poderia existir sem a outra. Se
algo é perfeito, está com Deus, e se imaginamos algo
como sendo Deus, esse algo só pode ser perfeito.

Se Deus é perfeito, Ele deve necessariamente ser


eterno e infinito. É certo que Deus, sendo a própria
essência do cosmos, não pode ter qualquer tipo de
limite. Se por um momento imaginamos apenas um
limite para Deus, já não estamos imaginando Deus,
mas outra coisa. A perfeição deve ser infinitta e
eterna, e sendo assim, não pode ter qualquer limita-
ção. Deus, sendo perfeito, não pode aceitar, pela ló-
gica, qualquer forma de limite. O divino portanto é
perfeito e absolutamente ilimitado, sem quaisquer
fronteira, divisão ou demarcação. Nesse sentido,
Deus é um, não pode ser dois, três ou mais. Para ser
Deus é necessário ser uma unidade, apenas um, pois
a unidade não admite divisões.

Diante desses fatos, que são lógicos em si mesmos,


admitindo que Deus é perfeito e por isso, ilimitado,
precisamos reconhecer também que Deus está em
tudo. Essa ideia pode surpreender algumas pessoas,
mas reconhecemos que não pode ser de outra ma-
neira. Vamos entender isso… Se Deus é perfeito e
ilimitado, não pode ter qualquer limite. Se não tem
um limite, ele se estende a tudo, está em tudo, parti-
cipa de tudo, faz tudo e principalmente… é tudo. Diz-

350
se corretamente que Deus é onisciente, onipotente e
onipresente, ou seja, tudo sabe, tudo pode e em tudo
está presente. Isso não significa que Deus seja tudo,
mas que Deus não pode estar ausente de qualquer
coisa, posto que é ilimitado.

Aqui há uma diferença sutil, mas real: Deus está na


rocha, mas Ele não é apenas a rocha; Deus está na
água, mas Ele não é apenas a água; Deus está na
planta, mas Ele não é apenas a planta; Deus está no
universo, mas ele não é apenas o universo; e tam-
bém, Deus está no ser humano, mas ele não se limita
ao ser humano, Ele é algo mais, infinito, eterno, su-
premo e absoluto. Portanto, se Deus é infinito, não
tem limites… Se não tem limites se estende a tudo e
está em tudo… Se está em tudo, está também dentro
de nós. Vale dizer dizer que, não apenas Deus está
dentro de nós como é evidente dizer que nós e o di-
vino somos um. Assim como o galho faz parte da
árvore, nós estamos ligados a Deus. Mas ao contrário
do galho que pode ser quebrado ou cair por si
mesmo, nós estamos conectados a Deus de forma
indissociável, posto que não há qualquer limite entre
nós e Deus.

Dizem que Deus criou todas as coisas e isso nos pa-


rece correto. Como já vimos, Deus é perfeito, e tam-
bém, é o eterno criador de tudo. Se Deus é perfeito e
criou todas as coisas: as estrelas, os planetas, as ne-
bulosas, os seres, o tempo, o espaço, o movimento,
etc, tudo o que foi criado também é perfeito. Essa
ideia pode igualmente parecer estranha a alguns. É
possível perguntar: como pode tudo ser perfeito se
todas as coisas nos parecem desordenadas, caóticas
e muitas vezes sem sentido? Vamos pensar sobre

351
isso por um momento… Como já vimos, Deus só pode
ser Deus se for perfeito, quanto a isso não há dúvida.
Todos admitem que Deus é o criador de tudo, e isso
também nos parece correto.

Mas se Deus é infinitamente perfeito, como seria


possível que o perfeito criasse o imperfeito? Será que
a perfeição, sendo perfeição, poderia gerar a imper-
feição? O imperfeito só gera o imperfeito, assim
como o perfeito só pode gerar o perfeito. Se algo é
perfeito, como pode do perfeito nascer aquilo que
conhecemos como imperfeição? Aliás, se não conhe-
cemos a perfeição, como podemos saber o que é a
imperfeição?

No momento em que paramos e refletirmos com


calma nessa questão, concluímos que a ideia “perfei-
ção gera imperfeição” é uma impossibilidade lógica,
posto que a perfeição só pode criar a perfeição. No
caso da perfeição criar a imperfeição, não seria pos-
sível admitir que a perfeição é mesmo perfeição..
pois teria de haver algum tipo de falha ou limite que
produziu o que chamamos de imperfeito. Mas isso é
impossível, pois o perfeito não tem erros, não tem
limites, não pode ter qualquer distorção. Perfeito é
perfeito. Assim, só podemos concluir que do perfeito
só o perfeito pode surgir. Portanto, a criação divina
por inteira, em todos os seus aspectos, nada mais é
do que perfeição, tal como a perfeição divina que a
engendra.

Tendo em vista que tudo é perfeição, como acabamos


de ver, é preciso também assumir que nada pode
estar separado de Deus, pois como já vimos Deus não
pode ter qualquer limite. Se Deus não tem limite,

352
também é verdadeiro o axioma que prega a existên-
cia de todas as coisas dentro de Deus e não fora. Essa
é outra ideia que pode causar espanto em muitos,
pois na ilusão de nossa mente, estamos “fora de
Deus”. Acreditamos que Deus é um ser cósmico que
existe “fora do universo” e nós, aqui na matéria, es-
tamos muito distantes de Deus, mas isso não é cor-
reto. A verdade é que tudo o que existe, todas os se-
res e coisas do universo, como já dissemos, estão
dentro de Deus e são parte Dele.

Algumas pessoas podem dizer “Mas eu não me sinto


dentro de Deus: eu sofro, eu fico triste, eu caio e me
sinto só”. A resposta a essa questão é simples: existe
um processo chamado de ilusão da separatividade.
Temos a ilusão de estar fora de Deus, mas em essên-
cia, nunca estivemos ausentes do seio divino, esti-
vemos, estamos e sempre estaremos dentro da vida
universal, que é Deus. O que acontece é que somos
inconscientes de nós mesmos e de nossa natureza
divina e por isso não nos sentimos parte de Deus.
Alguns podem dizer que isso seria então uma sepa-
ração, um limite e que Deus não pode ter um limite, e
que por isso nós somos imperfeitos. Isso também
não é verdadeiro. O limite que existe entre nós e
Deus é apenas criado por nós mesmos. Em outras
palavras, é o limite que julgamos existir que nos dá a
sensação da separação, mas não há nem nunca houve
essa divisão. Qual é o limite entre a areia e o mar?
Qual é o limite entre o céu e a terra? Qual o limite
entre uma cor e outra cor no arco íris? Não há qual-
quer limite em tudo, a não ser aqueles que julgamos
existir, que acreditamos estarem ali. Em essência,
todas as coisas estão interligadas e tudo faz parte de
tudo. Quem procura o limite, jamais o encontrará,

353
posto que ele é apenas um produto da fragmentação
de nossa mente e de nossa inconsciência. Dessa
forma, somos seres inconscientes de Deus e da per-
feição, e por esse motivo vemos limites onde não
existem. No entanto, em essência, tudo é perfeição,
inclusive nós mesmos.

Ja vimos que tudo é perfeição, que estamos dentro de


Deus e que nós mesmos somos perfeitos, embora
cultivemos limites que simplesmente não existem.
Agora vamos afirmar que, se tudo é perfeição, qual
seria o motivo de nosso sofrimento? Se tudo é Deus e
Deus está em tudo, qual o motivo de nossas mágoas,
de nossas dores, de nossa solidão? Qual o motivo de
nossas preocupações conosco e com outras pessoas?
Se tudo é perfeição, verdade, harmonia, essência e
Deus está em tudo, por que devo me preocupar com
uma pessoa que me magoou? Por que devo sofrer
pelo filho que me abandonou? Por que devo me pre-
ocupar com minha pobreza material? Por que devo
ter medo da morte? Será que Deus em sua perfeição
nos deixaria perdidos no cosmos? Deus nos largaria
jogados no universo a nossa própria sorte? Deus
permitiria uma situação que julgamos ruim se ela
não fosse necessária para a tomada de consciência
de nossa perfeição interior? Se tudo é perfeito, qual a
causa do sofrimento? Se Deus está em tudo, onde
está o mal? Como diz o ditado “Se Deus é por nós,
quem será contra nós?”. Se estamos em Deus, o que
pode nos afetar? Se somos Deus, somos infinitos,
envolvidos eternamente na essência cósmica univer-
sal.

Tudo é perfeição… tudo está absolutamente per-


feito… Nada está fora do lugar. Todas as coisas têm

354
um propósito que nossa inconsciência espiritual não
consegue compreender. Quem toma consciência des-
sas verdades e as aplica na vida, se aproxima da
consciência divina, e se liberta de qualquer sofri-
mento.

355
A MELHOR RELIGIÃO

Um homem desejava entender a verdadeira religião.


Procurou um mestre e lhe fez várias perguntas.

– Mestre, procurei-te, pois desejo que me instruas


sobre a verdadeira religião.

– Sim. – disse o mestre. – O que desejas saber?

O homem, que aspirava ao verdadeiro conhecimento,


fez as seguintes perguntas:

– Mestre, qual o melhor ritual religioso?

– O melhor ritual é a caridade… Respondeu o mestre.


Colocar-se no lugar do outro, ver Deus em nosso
semelhante e ajudar em seu soerguimento é, sem
dúvida, o melhor ritual que existe. Só a caridade li-
berta e edifica o ser humano.

– Qual o melhor templo?

– O melhor templo é a natureza… A natureza nos


ensina a todo momento. Nela nascemos, crescemos,
nos provemos, temos nossa existência e depois re-
tornamos ao seio da Terra. O sol e a lua brilham sem
nada pedir em troca. A terra forma seus pilares. O
céu expressa o infinito e o movimento celeste o ritmo
contínuo da eternidade. Os rios e mares são o nosso
melhor batismo.

– Qual o melhor livro sagrado?

356
– O Melhor livro sagrado é a nossa consciência… Nela
estão inscritas as leis e os princípios sagrados da
vida. Nossa consciência é nosso melhor guia e juiz.
Ela registra cada ato bom ou mal que praticamos. O
código de conduta, a moral, as revelações celestes e
os axiomas de sabedoria, tudo isso está em nossa
consciência e nela encontra terreno fértil para desa-
brochar.

– Qual o melhor dogma?

– O melhor dogma é o amor… Esta é a mais verda-


deira sabedoria religiosa. É a maior verdade irrefu-
tável das relações humanas. “Ama teu próximo como
a ti mesmo”. “Não faça com os outros o que não gos-
taria que fizessem com você”. É a lei áurea da justiça
e da reciprocidade das relações entre todos os seres.

– Qual a melhor oração?

– A melhor oração é o silêncio… É no silêncio que


ouvimos a vida e principalmente ouvimos a nós
mesmos. Lançar palavras ao vento, ainda mais com
fórmulas repetidas, é dispensável. O silêncio acalma
a mente, abranda as paixões, ameniza as emoções
descontroladas e tranquiliza o espírito. A oração
sagrada do silêncio nos permite ouvir o infinito, sen-
tir o cosmos e receber a graça divina.

– E, finalmente, qual a melhor doutrina?

– A melhor doutrina é a esperança… A esperança


daquele que erra; daquele que é imperfeito; daquele
que se queda diante das dificuldades; daquele que
sofre, e daquele que não conhece o amanhã. A me-

357
lhor doutrina nos concede a fé e a esperança de se-
guir em frente, atravessar este mundo de trevas,
cruzar o vale de lágrimas da existência humana, na-
vegar pelas marés mais agitadas da vida e vislum-
brar a luz. A melhor doutrina é sentir arder uma
chama interior de fé, que ilumina seu caminho, e te
conduz a um porto seguro de perfeição.

358
A RELIGIÃO MAIS VERDADEIRA

Há mais de cem anos atrás, havia um mestre oriental


que vivia peregrinando e levando sua mensagem a
algumas partes do mundo. Muitas pessoas o procura-
vam para as mais diversas questões. Certo dia, uma
pessoa foi ao seu encontro e lhe disse:

– Mestre, escolhi seguir a religião hinduísta, o que o


senhor acha?

– Boa escolha, respondeu o mestre. O Hinduísmo é a


religião mais elevada.

Passadas algumas semanas, outra pessoa procura o


mestre e afirma algo parecido:

– Mestre, acredito que a religião cristã é a que mais


nos aproxima de Deus. Estarei eu seguindo a religião
correta?

– Sim, afirmou o mestre. A religião cristã é a que


mais nos aproxima de Deus.

Duas semanas depois, outra pessoa encontra o mes-


tre e lhe faz, mais uma vez, uma afirmação seme-
lhante:

– Mestre, resolvi seguir o budismo. Estarei trilhando


um caminho correto?

– Sem dúvida, disse o mestre. Continue neste cami-


nho, pois o budismo é a religião mais verdadeira.

359
Um discípulo, que sempre acompanhava o mestre
onde quer que fosse, ficou bastante inquieto com as
respostas do mestre. Pediu um tempo para falar-lhe
em particular e disse:

– Mestre, não compreendo. Nas últimas semanas


surgiram três pessoas falando de sua escolha religi-
osa, e para as três o senhor deu respostas diferentes
sobre a religião mais correta. Como isso é possível?

O mestre respondeu:

– As respostas que dei não se referem à religião mais


verdadeira, mas sim a melhor religião para aquela
pessoa. Entenda uma coisa: no mundo existe toda
uma diversidade de religiões, e a razão disso é que
cada pessoa possui uma necessidade religiosa dis-
tinta. Em outras palavras, existem diferentes religi-
ões para diferentes pessoas. Cada religião está adap-
tada a um determinado grupo humano; esses indiví-
duos precisam de uma mensagem religiosa especí-
fica, enquanto outros precisam de outro modelo de
ensinamentos. Não se espante quando dou respostas
diversas a um e outro, pois cada indivíduo tem uma
demanda de fé, de ação no mundo, e de conheci-
mento. Por esse motivo cada pessoa se sente atraída
por um segmento religioso determinado. Esta deno-
minação alimentará sua consciência dentro do nível
em que cada uma delas se encontre. Mas essencial-
mente todas podem levar ao mesmo objetivo. De-
pende de como cada pessoa utiliza uma religião para
o seu despertar espiritual.

360
FÉ EM DEUS

Numa palestra sobre os ensinamentos de Jesus, o


palestrante resolveu falar um pouco de fé em Deus.

Ele perguntou a multidão que o ouvia como cada


pessoa expressava sua fé em Deus.

“Eu tenho fé em Deus que meu filho vai vencer na


vida”, disse uma mãe.

“Eu tenho fé em Deus que minha esposa vai se curar


de uma doença”, disse outro homem.

“Eu tenho fé em Deus que vou passar na faculdade, e


Deus vai me ajudar a passar”, disse um jovem.

“Eu tenho fé e Deus vai me trazer um bom marido


para que eu possa me casar”, disse uma jovem.

Cada pessoa foi descrevendo sua fé em Deus e como


o divino se manifestaria em sua vida na forma de
bênçãos.

Um senhor de idade, bem velhinho, foi a última pes-


soa a se pronunciar sobre sua fé em Deus. Todos o
observaram e ele disse:

“Eu não passei na faculdade, não consegui uma casa


própria, não me curei de uma doença que tenho há
anos e perdi duas esposas, ambas faleceram após 10
anos de casamento. Deus seja louvado por eu não ter
conseguido nenhuma destas coisas, pois tenho fé que
os planos de Deus são melhores do que os meus pla-
nos e minhas vontades.”

361
O palestrante, após ouviu estas palavras do senhor,
disse:

“Todos precisam entender que Deus não é nosso


servo, ou aquele que deve fazer todas as nossas von-
tades humanas, como muitos acreditam. E digo a
vocês que esse homem, ele sim, demonstrou a ver-
dadeira fé em Deus, pois a despeito de todos os dis-
sabores de sua existência, ele agradece e louva a
Deus por tudo isso, pois sabe, e isso é verdade, que
os planos de Deus são melhores do que os nossos
planos humanos.”

Sempre que você não ganhar algo de Deus, diga:


“obrigado meu Deus, pois seus planos são melhores
do que os meus”. Essa é a verdadeira fé.

362
UMA LUZ NA ESCURIDÃO

Havia um rapaz que possuía um dom especial. De vez


em quando ele conseguia se desprender do seu
corpo físico e, em espírito, visitar outros locais. Ele se
deslocava com seu corpo espiritual a distâncias con-
sideráveis, utilizando apenas a força do pensamento.
No entanto, esse dom era utilizado de uma forma
positiva; assim que saía do corpo, ele percorria locais
onde as pessoas precisassem dele, e assim fazia o
bem.

Certo dia, ele visitou um local que muitos poderiam


chamar de “inferno”. Neste submundo encontravam-
se espíritos errantes, viciados, apegados, raivosos,
perturbados e ignorantes. Havia muita desgraça,
fome, desespero, dor, sofrimento, conflitos e medo.
Tratava-se de uma zona inferior para onde eram
atraídas muitas almas endividas com o plano divino.
Tudo era escuro, cálido, lamacento, asqueroso e feio.
Vez por outra ouviam-se gritos de terror e deses-
pero. A atmosfera era pesada, densa e hostil.

Era possível ver as almas presas a lama, correndo,


caídas no chão, sujas, maltrapilhas, sangrando, fa-
lando sozinhas ou ofendendo umas as outras. Uma
visão aterradora de um local imerso em profundo
sofrimento. Esse espaço interminável de trevas re-
presentava todo o clima negativo que permeia o
nosso mundo.

O rapaz estava ali, mais uma vez, para tentar ajudar


as almas em intenso sofrimento. Ele caminhava pelo
“vale da sombra e da morte” e escolhia um e outro
espírito que estivesse mais apto a ser socorrido.

363
Num certo momento, percebeu um homem diferente.
Estava limpo, caminhando tranquilamente e com
olhar sereno.

O rapaz se aproximou deste homem que destoava do


todo aquele entorno de escuridão. Chamou-o e per-
guntou o que fazia ali. O homem abriu sua camisa e,
subitamente, uma luz branca e dourada se irradiou
pelo ambiente, obrigando todas as almas próximas a
fecharem os olhos por não suportarem aquele forte
clarão repentino. O homem se surpreendeu com ta-
manha luminosidade e perguntou:

– Quem é você?

– Sou o Anjo Gabriel – disse o homem.

O rapaz se surpreendeu muito com a resposta. No


entanto, ele sabia que alguém com toda aquela ilu-
minação espiritual seria incapaz de mentir. O rapaz
então disse:

– Senhor, vejo que estás aqui, neste vale sombrio de


intensas trevas. Mas aqui não é um lugar apropriado
a um ser de tanta luz e bondade. O senhor não deve-
ria estar nas regiões celestes?

O anjo respondeu:

– Não… É exatamente aqui, neste local de erro, trevas


e destruição, onde mais precisam de mim. É justa-
mente onde há escuridão que um anjo deve levar a
sua luz.

364
ENCONTRAR DEUS

As pessoas querem sempre buscar a Deus e a felici-


dade no divino. Muitas vão a igreja, dirigem até a
mesquita, andam ao templo ou se encaminham a um
lugar sagrado. Algumas fazem peregrinações religio-
sas, de milhares de quilômetros, para visitar santuá-
rios antigos. Há aqueles que viajam a outros países
para encontrar um mestre, um guru, um yogue fa-
moso. Muitos acreditam que encontrarão Deus nas
montanhas do himalaia ou no misterioso rio Jordão.
Outros após anos ou décadas de práticas meditativas
e exercícios espirituais.

Viram de cabeça para baixo em posições de yoga,


recitam mantras indianos, rodopiam em volta de si
mesmos como os dervixes sufis, fazem terços e no-
venas como os católicos, acendem velas e incensos
para seu anjo da guarda ou louvam seu santo de de-
voção. Alguns fazem promessas e até autoflagelação.
Todos esses atos revelam uma atitude básica: o ser
humano acredita que precisa sair de onde está, do
lugar onde se encontra, para ir ao encontro de Deus.

Como as pessoas não encontram Deus onde estão,


sentem que Ele deve estar “em outro lugar”. Mas
vamos pensar nisso com calma. Boa parte das religi-
ões do mundo concordam que Deus se encontra den-
tro de nós mesmos. Então, a pergunta que cabe é:
para que deslocar-se de um lugar ao outro a fim de
encontrar Deus em algum lugar? Para que sair do
momento presente para encontrar Deus apenas no
futuro, em algum dia daqui em diante que talvez Ele
finalmente se manifeste em nossa vida?

365
Todos devem entender um princípio fundamental:
aquele que precisa ir a algum lugar encontrar o di-
vino, aquele que precisa percorrer um caminho espi-
ritual qualquer, esse já deixa de reconhecer que a
essência da vida está em tudo e está presente aqui e
agora. Não está no passado nem no futuro, está aqui,
nesse momento, presente em tudo e dentro de nós e
de todos. Quem precisa ir a algum lugar encontrar
Deus supõe que Deus possa estar em lugar diferente
do que aqui. Mas não… Deus está exatamente aqui,
está agora, está sempre e eternamente em ti.

A essência divina não poderia estar em outro lugar a


não ser em nosso interior. O fogo divino não poderia
estar fora do universo, mas sim no coração do cos-
mos, que nada mais é do que o âmago de cada ser.
Quem necessita se deslocar fisicamente está apenas
se atrasando. Aquele que crê que “só encontrará
Deus quando estiver com o guru”; ou “só encontrará
Deus quando estiver na igreja”; ou “só encontrará
Deus nas montanhas do Himalaia”, esse já acabou de
dar um passo para estar mais distante de Deus.

Essa ideia é semelhante à estória do homem que


percorreu o mundo inteiro para encontrar seu ta-
lismã perdido, e após chegar ao final do caminho,
tendo procurado em todos os lugares possíveis neste
mundo, descobre que, esse tempo todo, o talismã
estava dentro de um colar, em volta de seu próprio
pescoço. O talismã sagrado estava com ele o tempo
todo, e ele sequer desconfiou de sua presença, pois
estava muito ocupado procurando em todos os luga-
res algo que não está em lugar nenhum.

366
Assim são os seres humanos: seguimos um caminho
imenso, percorremos milhares de quilômetros, pere-
grinamos pelos quatro cantos do mundo, e ao final
percebemos que o divino, ou a essência da vida,
sempre esteve conosco. Estávamos procurando em
milhões de lugares o que sempre esteve presente.
Procuramos no exterior aquilo que sempre esteve no
mais profundo do nosso ser, esperando a hora de ser
descoberto.

Dessa forma, se você deseja encontrar Deus, a felici-


dade suprema, a eternidade, o amor maior, etc, saiba
que ninguém precisa ir além desse momento, ir atrás
de algo ou correr para encontrar… A vida universal
já está aqui, ela já é…

Tudo é divino e o divino está em tudo.

367
FÉ NA VIDA

Mesmo escondido no subsolo,


Por milênios incontáveis,
O carvão se torna diamante.
A flor lótus, que nasce na lama,
É o branco mais puro da natureza.
A banana, com sua casca,
Ao ser jogada no solo,
Aduba a terra infértil,
Trazendo a boa colheita.
A água que cai no rio,
Ao evaporar com o calor,
Volta à nuvem, e quando chove,
Retorna ao seio dos riachos.
Após uma escura madrugada,
Sempre ressurge o áureo alvorecer.
Após o enregelado frio do inverno,
O calor do verão compensa as nevascas.
A semente, esquecida embaixo da terra,
Faz brotar uma linda planta.
A pedra, que não serviu na construção,
Retorna a terra, e serve como seu sustentáculo.
Para que preocupar-te com a vida?
Preocupa-te se a Terra continuará a girar?
Se o sol vai brilhar?
Se o pássaro vai cantar?
Se o vento vai soprar?
A matemática perfeita da existência,
Nada deixa faltar, acabar ou extinguir.
A única coisa a fazer, é deixar fluir.
Não permita que nada o abale,
Tudo se encaixa com perfeição,
No eterno vai e vem da Criação.

368
UM OBSESSOR NO CENTRO ESPÍRITA

Num centro espírita famoso e muito frequentado,


senhor Raimundo estava iniciando os trabalhos de
desobsessão. Seu Raimundo, como bom doutrinador
espírita há mais de 30 anos, fez uma prece de aber-
tura e pediu a Jesus que ajudasse a libertar todos os
irmãos que viessem a sala de desobsessão do sofri-
mento que atravessavam.

Raimundo viu o médium incorporar um espírito que


dizia estar no umbral, sofrendo muito por conta da
raiva e mágoa que sentia de um desafeto. Senhor
Raimundo iniciou então os procedimentos da desob-
sessão clássica e disse que o espírito deveria perdoar
o desafeto, pois a lei do amor é a nossa salvação.

O espírito incorporado, com olhar penetrante, disse:

– E porque devo confiar em você?

– Ora meu irmãozinho – disse Seu Raimundo – Esta-


mos aqui num centro espírita, onde os ensinamentos
de Jesus são praticados. Nós aqui ajudamos todos os
espíritos sofredores e necessitados.

– E você também ajuda a si mesmo, ou só pensa em


ajudar os outros? Perguntou o espírito. Seu
Raimundo ficou surpreso com pergunta, mas como
doutrinador experiente sabia que não podia cair nas
artimanhas dos obsessores, e disse:

– Irmão… não estamos aqui para falar de mim. Você


está no umbral e precisa de ajuda. Você não quer sair
do umbral?

369
– Sim, eu quero. – disse o obsessor – Eu só fico me
perguntando como existem tantas pessoas vivendo
no nível ou no estado umbralino e não percebem,
mesmo estando encarnados. Pois afinal, como o se-
nhor mesmo ensina em suas palestras aqui no cen-
tro, o umbral é um estado de consciência e não um
lugar ou espaço físico. Alguns espíritos vivem no
umbral porque não conseguem se desprender da
raiva e mágoa que sentem de um desafeto. Mas o
senhor, seu Raimundo, perdoa todas as pessoas? Não
sente também raiva e mágoa de alguém?

Senhor Raimundo estava ficando irritado com o ob-


sessor. Estava pensando numa resposta, mas o espí-
rito completou:

– Não é verdade que o senhor também sente raiva e


mágoa da sua ex-esposa, que te traiu com um dos
seus amigos há aproximadamente 10 anos? Não é
verdade que até hoje você não consegue perdoa-los?
Senhor Raimundo ficou assustado com aquelas colo-
cações. “Como o espírito poderia saber disso?” pen-
sou. Começou a sentir raiva do obsessor, e não muito
confiante, disse:

– Não vou entrar na sua cilada. Você como obsessor


experiente deve atacar as pessoas em seus pontos
fracos. Portanto, saiba que…

– Eu sou um obsessor, senhor Raimundo? – pergun-


tou o espírito interrompendo seu Raimundo.

– Eu me pergunto se todos nós não somos um pouco


obsessores das pessoas que dizemos amar, mas que

370
no fundo as tentamos controlar e ganhar seu afeto a
força. Não é verdade que você tem sido quase um
obsessor da sua filha adolescente? Quantas vezes por
dia você liga pra ela perguntando onde ela está?
Quantas vezes você proibiu os namoros dela? Quan-
tas vezes você tolheu a liberdade da sua menina por
conta dos próprios medos e incertezas que guarda
em seu íntimo? Você pode estar sendo um grande
obsessor encarnado dela e nem perceber…

Seu Raimundo ficou atônito com aquelas revelações.


Aquele espírito parecia saber tudo a seu respeito, e
estava ali desnudando seus defeitos um a um. Seu
Raimundo ainda não queria dar o braço a torcer e
ficou com mais raiva. Resolveu fazer uma oração,
dizendo:

– Senhor Jesus, peço que sua equipe conduza esse


irmãozinho perturbado a um local de tratamento no
plano espiritual. O espírito disse:

– Por que me chamas de irmãozinho, se nesse mo-


mento você quer, na verdade, pular no meu pescoço?
De que adianta fazer uma oração a Jesus com toda
essa raiva que quase transborda de você? Não, Jesus
não vai te atender nesse momento… Você precisa,
Seu Raimundo, parar de fugir dos seus problemas e
emoções, olhar para as impurezas do seu ser, e parar
de achar que é o outro sempre o sofredor e você é o
“salvador”. Na verdade, todos nós precisamos de
ajuda, todos somos sofredores em maior ou menor
grau. E orientar o outro a praticar aquilo que nós
mesmos não realizamos em nossa vida é, nada mais
nada menos, do que hipocrisia. É da hipocrisia que o
ser humano precisa se libertar… Ensinar aquilo que

371
pratica, ou apenas praticar, sem precisar orientar os
outros a fazer aquilo que nós mesmos não fazemos.
Quando se vive a vida espiritual, nem precisamos
ficar ensinando-a a outros, nossos atos já demons-
tram os princípios que desejamos transmitir…

Seu Raimundo sentiu uma imensa vontade de chorar


e desabou em prantos… O espírito incorporado veio
falar com ele. Colocou as mãos em seu ombro e disse:

– Calma meu irmão. Você precisava dessa terapia de


choque para poder enxergar a si mesmo e parar de
ver os defeitos apenas nos outros. Precisava também
parar de se ver como o “salvador” e os outros como
“sofredores”, pois isso nada mais é do que uma
forma de orgulho e soberba; é uma forma de se sen-
tir superior e de ver os outros como inferiores.
Chore, coloque tudo isso que você sente para fora,
faça uma revisão desses pontos que eu te apresentei,
e a partir de agora você poderá se tornar um verda-
deiro ser humano, renovado, e pronto para ajudar ao
próximo, realizando a verdadeira caridade… E dessa
vez, sem hipocrisia.

Seu Raimundo, após alguns minutos de choro in-


tenso, olhou para o espírito e perguntou:

– Mas afinal... Quem é você?

O espírito olhou para seu Raimundo com todo o


amor e carinho e disse:

– Meu filho, você não pediu a Jesus, em sua prece de


abertura dos trabalhos, que libertasse os espíritos
dessa sala do sofrimento? Então meu filho, Jesus me

372
pediu que viesse aqui e mostrasse tudo isso a você,
para que você pudesse ver a si mesmo, saísse do
“umbral” de sua mente, e se libertasse de tudo aquilo
que te causa sofrimento. Sou um enviado de Jesus, e
a partir de agora, você será um novo homem…

Seu Raimundo chorou ainda mais. Agradeceu imen-


samente a Deus e a Jesus aquela sagrada lição de
autoconhecimento… Depois desse episódio, tornou-
se uma pessoa muito melhor…

373
CAIR E LEVANTAR

Pior do que cair é não querer levantar


Pior do que a derrota, é desistir.
Pior do que não ver, é não querer enxergar.
Pior do que sofrer, é render-se ao sofrimento.
Pior do que se decepcionar, é viver com mágoa.
Pior do que perder, é não tentar melhorar.
Pior do que errar, é não aprender com o erro.
Pior do que algo chegar ao fim, é não querer recome-
çar.
Pior do que não dar certo, é achar que tudo deu er-
rado.
O problema não é algo dar errado, não é sofrer, não é
perder
Não é pecar, não é afundar…
O problema grave e real existe apenas quando al-
guém sofre tudo isso e desiste de viver.
Não importa o que aconteceu, o quanto você se frus-
trou, o quanto você sentiu dor…
Não importa quanto tempo você ficou no chão.
O que importa de verdade é você levantar
E continuar caminhando…
A vida não acaba quando você sofre,
Mas sim quando você se abandona, se entrega, se
rende…
A vida acaba mesmo quando você desiste de conti-
nuar.

374
CONTATO COM O ANJO

Uma dona de casa de 57 anos, chamada Maria da


Conceição, estava muito preocupada com a sua sa-
úde. Ela era obesa, diabética, e estava ficando cega de
um dos olhos. Também tinha problemas cardíacos,
pressão alta e tonturas horríveis. Estava carente e
sentindo uma tristeza profunda.

Certo dia, estava bastante agitada e ansiosa. Sua


pressão havia subido muito. Ela então resolveu orar
a Deus pedindo a intervenção de um anjo do Senhor.
Estava buscando uma explicação para toda aquela
doença e a razão de estar passando por todo esse
sofrimento.

Maria, demonstrando forte inquietação, começou


então a orar em voz alta, declarando:

– Jesus, por favor, envie um anjo para me ajudar, eu


não aguento mais essa situação.

Logo que ela orou fervorosamente, um anjo relu-


zente foi a sua presença. O ser angelical começou a
estabelecer contato com ela.

– Maria, há uma razão para tudo isto… a razão é…

Maria, no entanto, continuou rezando forte e em voz


alta:

– Jesus, mande um anjo me ajudar, eu lhe suplico.


Você é o cordeiro de Deus, tudo pode. Eu não
aguento mais essa dor, essas noites em claro, essa
obesidade. Estou triste por que minhas filhas não

375
vêm me visitar há quase um ano. Parece que fiquei
esquecida. Me ajuda Jesus…

O anjo, mais uma vez, tentou lhe transmitir paz e


disse:

– Maria, fique calma, tudo tem um propósito… No


seu caso, você precisa…

E Maria continuou seu falatório…

– Jesus, te peço encarecidamente, ilumina minha


vida, ilumina meus passos, tira de mim esta doença,
quero voltar a ter saúde, quero que minhas filhas
voltem a me ver, quero que essas dores diminuam,
me ajuda Jesus…

O anjo tentou novamente:

– Maria, me escute, fique tranquila, o seu problema


pode ser resolvido com…

– Jesus, me ajuda! – disse Maria. Tudo está escuro na


minha visão, me ajuda a melhorar, me ajuda a voltar
a andar. Quero que fique tudo em paz entre meus
irmãos. Não quero mais essas brigas, não quero mais
essas confusões…

– Maria… disse o anjo.. Para resolver estes conflitos


entre irmãos, é preciso…

– Jesus! Por favor… me dê uma orientação! – disse


Maria. Sinto essa angústia, essa ansiedade, esse va-
zio. Minha vida parece não fazer sentido. Não con-

376
sigo mais sentir alegria em nada, me ajuda Jesus, me
ajudem anjos do senhor!

O anjo, percebendo que Maria não a ouvia, ficou ape-


nas irradiando energias positivas. Nos meses seguin-
tes o mesmo quadro se repetiu, sem que o anjo ti-
vesse sucesso no contato com Maria.

Passados mais alguns meses, Maria perdeu 90% da


visão, sua pressão aumentou e finalmente ela faleceu
num fulminante ataque cardíaco.

Ela se percebeu saindo do corpo e chegando ao plano


espiritual. Assim que chegou, foi recebida pelo
mesmo anjo que tentou ajuda-la. O anjo se apresen-
tou, e ela, muito brava, disse:

– Puxa vida! Pedi tanto em minhas orações para vo-


cês me ajudarem, me darem uma orientação, e vocês
nada fizeram!

O anjo, pacientemente, respondeu:

– Maria, por diversas vezes eu me aproximei de ti


tentando lhe dar uma orientação, mas você estava
tão agitada e tão envolvida nos seus problemas que
não me ouvia. Os seres humanos precisam entender
uma coisa: todo aquele que deseja uma resposta do
céu deve se colocar receptivo às mensagens superio-
res, e desligar um pouco a mente e o falatório desor-
denado dos pensamentos. Você poderia ter me ou-
vido se estivesse mais tranquila, e se estivesse ver-
dadeiramente aberta à comunicação conosco e ao
contato com você mesma. Mas sua excitação, sua
turbulência interior lhe impediu de ter clareza e de

377
ouvir as mensagens do plano divino. Algumas pes-
soas acreditam que Deus não responde as suas súpli-
cas, mas são as pessoas que não ouvem ou não cap-
tam seus desígnios e sinais. A oração deve ser, antes
de tudo, um ato de ouvir a Deus e a nós mesmos, e
não apenas um ato de falar ou pedir.

378
A BENZEDEIRA E A MELHOR ORAÇÃO

Um homem tinha várias ambições em sua vida. Que-


ria conseguir muitas coisas, e desejava encontrar
uma forma eficiente de abrir seus caminhos. Resol-
veu procurar uma benzedeira muita conhecida na
região. Seu objetivo era descobrir a prece mais efici-
ente que poderia ser dirigida a Deus.

O homem deslocou-se até o lugar que a benzedeira


fazia as suas rezas para ajudar as pessoas. Muitos a
procuravam para resolver os mais diversos proble-
mas, desde vida afetiva e profissional até doenças
físicas e psíquicas. Existiam vários relatos de curas
ministradas por ela. Era uma senhora muito simples,
humilde e de muito bom coração, e procurava ajudar
a todos que recorressem a ela.

Tão logo chegou ao local de atendimento, entrou


numa fila grande e esperou ser atendido. Assim que
sua vez chegou, explicou resumidamente a benze-
deira a sua situação e pediu que ela lhe ensinasse a
prece mais eficiente para se dar bem na vida, assim
como para abrir seus caminhos. A benzedeira notou
a grande ambição do rapaz e seu afã de encontrar
rapidamente uma fórmula religiosa que chamasse a
atenção do plano divino. O rapaz perguntou a benze-
deira:

– Minha boa senhora, já li muitos livros de oração e


me consultei com vários líderes religiosos, mas ainda
não encontrei a forma correta de orar e suplicar a
Deus, para que Ele me ouça. Por favor, oriente-me:
A senhora humilde pensou por um instante e per-
guntou:

379
– Em sua vida, quantas vezes você agradeceu o que já
tinha, ao invés de apenas pedir e suplicar pelo que
você ainda não possuía?

O rapaz ficou surpreso com a pergunta, e resolveu


responder a pergunta com toda a sinceridade:

– Nunca… Jamais, em toda a minha vida, eu agradeci


a Deus o que tenho e o que sou. Todas as vezes que
orei, eu apenas pedi.

A benzedeira olhou para o rapaz com ar de afeição e


bondade e disse:

– Então essa é a oração que transmito a você, e uma


das mais importantes: a sagrada oração do agrade-
cimento. Toda vez que receber uma graça divina,
agradeça a Deus pela dádiva recebida. E caso nada
receba, agradeça de qualquer forma pela oportuni-
dade de desenvolvimento a partir da ausência das
coisas. Você tem dois braços, duas pernas, enxerga
bem, tem um emprego, uma namorada, e sua saúde é
boa. Há muitos motivos para agradecer a Deus. A
maioria das pessoas só pensa em pedir, pedir e pe-
dir, mas esquecem de valorizar as bençãos já recebi-
das. Quando uma pessoa dá valor ao que já tem,
mesmo que seja pouco, e agradece a Deus, há satisfa-
ção, há alegria e há felicidade; uma felicidade natural,
e não um gozo efêmero de uma conquista mundana.
Portanto, use com fé a sagrada prece do agradeci-
mento, e sua vida vai melhorar sensivelmente.

380
OS FALSOS PROFETAS

Um homem, indiano, buscava com determinação seu


crescimento espiritual. No entanto, pela segunda vez
havia caído nas garras dos falsos profetas. Ele acredi-
tou cegamente nos falsos mentores e teve grandes
decepções.

Mais uma vez, resolveu procurar um guru a quem


diziam ser um mestre autêntico, e não um falso pro-
feta. Procurou este homem, que vivia na beira do rio
Ganges, na Índia. Apresentou-se e começou a conver-
sar com ele. Disse que queria muito encontrar um
mestre de verdade e não um oportunista ou aprovei-
tador. Então perguntou:

– Mestre, muitos dizem que o senhor tem grande


conhecimento a respeito dos homens santos e dos
líderes espirituais. Seria possível o senhor me dizer
como podemos identificar os chamados falsos profe-
tas?

– Sim, respondeu o mestre. Na maioria das vezes é


uma tarefa difícil conseguir identificar os falsos pro-
fetas, pois seu discurso pode ser muito semelhante
aos mestres autênticos. Porém, existem algumas
orientações gerais a esse respeito, que todos deve-
riam considerar.

– Que orientações são estas, senhor? Perguntou o


homem.

– Em primeiro lugar, você jamais deve perder de


vista que o único mestre a que devemos seguir com
toda nossa dedicação é o nosso mestre interior. O

381
mestre externo nada mais é do que um canal para a
expressão do seu mestre interno. O mestre externo
funciona tal como um espelho que visa refletir a sa-
bedoria que já existe latente em teu próprio interior.

– Acho que entendi mestre, e o que mais?

– Além desta, existem sete orientações gerais que


podem ajudar qualquer pessoa a reconhecer ou iden-
tificar um falso profeta.

– A primeira orientação, e talvez a mais importante, é


procurar perceber se o mestre ou líder religioso co-
loca sua própria personalidade em destaque. Os fal-
sos profetas sempre colocam seu ego acima da sabe-
doria da mensagem que propagam. O mestre autên-
tico expõe sempre o ensinamento em primeiro
plano, e seu ego fica sempre em segundo plano, ou
quase não aparece. Os falsos mestres sempre dese-
jam o culto ao ego.

– Entendi mestre, respondeu o homem. E a segunda


orientação?

– A segunda orientação diz respeito a imposição de


dogmas e ao livre pensamento. Um falso mestre
sempre dirá que você deve aceitar as verdades que
ele ensina de forma cega e total. Seu livre pensa-
mento não é respeitado, e você precisará adotar a fé
cega, sem que possa refletir sobre o dogma imposto.

– Verdade mestre, e a terceira orientação?

382
– A terceira orientação diz respeito ao ensinamento e
sua prática. Os falsos mestres sempre ensinam uma
coisa, mas na praticam fazem outra coisa. Seus atos
não correspondem aos seus ensinamentos. Eles pre-
gam grandes verdades, mas quase não as praticam.
Um mestre autêntico ensina mais pelo exemplo, pela
sua história de vida, do que meramente por palavras.
Uma vida de pureza e virtudes é o melhor tratado de
sabedoria que uma pessoa pode “escrever” e deixar
registrado para as gerações futuras.

– A quarta orientação aborda sobre o respeito ao


livre arbítrio do fiel ou seguidor. Um falso profeta,
sempre que puder, dirá ao fiel o que ele deve fazer
em sua vida. Um mestre autêntico apenas orienta e
deixa o seguidor refletir e ele mesmo escolher como
agir. Os falsos profetas gostam muito de controlar os
seguidores, e uma das melhores formas para isso é
sempre dizer a eles o que fazer e como se comportar.
Mas a escolha do seguidor deve sempre ser respei-
tada, pois o fiel é quem deverá colher os frutos das
boas ou más ações que praticar. Embora possam
receber orientações e recomendações, cabe apenas a
própria pessoa decidir quais serão suas ações no
mundo.

O homem ouvia atentamente as palavras do guru.


Este continua:

– A quinta orientação diz respeito à dependência e a


independência. Os falsos profetas desejam sempre
que seus seguidores dependam dele. Nenhum mestre
deve criar uma relação de dependência entre ele e
seu seguidor. O mestre verdadeiro deseja que o fiel
se torne independente do próprio mestre, e num

383
futuro breve possa guiar sozinho a sua vida e seu
caminho espiritual. Um motorista jamais aprenderia
a dirigir se o professor sempre guiasse o veículo. O
mestre ajuda o discípulo para que futuramente o
discípulo não mais precise de ajuda. Apenas os falsos
mestres querem manter seus discípulos dependen-
tes dele, pois essa é uma excelente forma de domina-
ção.

– A sexta orientação versa sobre a ilusão da exclusi-


vidade de um conhecimento. Os falsos profetas sem-
pre dirão aos seguidores que eles (os supostos mes-
tres) são os únicos detentores de uma verdade, e que
apenas eles ou a doutrina que eles pregam podem
conduzir os fiéis à verdade ou a Deus. Desconfie
sempre dos falsos profetas que afirmam serem os
únicos canais de um conhecimento, e que aquela
sabedoria é exclusividade de uma pessoa ou um
grupo.

– E finalmente a sétima e última orientação, que fala


sobre a responsabilidade e a culpabilização. Os falsos
profetas quase sempre colocam a culpa do sofri-
mento do fiel em algo externo a ele, sejam demônios,
entidades, família, sociedade, etc. O mestre verda-
deiro sempre coloca a responsabilidade de tudo o
que ocorre com o seguidor nele mesmo. Em última
instância, somos responsáveis pelo céu ou o inferno
que vivemos, que nada mais é do que uma criação
nossa. É verdade que existem milhares de influências
neste mundo, mas a forma como nós encaramos ou
enfrentamos as adversidades depende de nós mes-
mos. Portanto, tudo o que nos acontece tem a nossa
participação ativa, mesmo que não tenhamos consci-
ência das causas. Estas são as orientações gerais para

384
não se deixar levar pelos falsos profetas. Quem me-
dita nestes pontos, dificilmente será enganado.

385
PARA SER FELIZ

As pessoas não precisam de coisa alguma para serem


felizes.

Basta se harmonizar com a vida, os seres e as coisas.

No momento de despertar, agradeça a Deus o novo


amanhecer que surge com o sol dispersando a escu-
ridão da madrugada.

É um novo dia que desponta, trazendo nova oportu-


nidade de fazer tudo diferente, uma nova vida, um
recomeço.

Sem pressa, tranquilo e em paz, dê bom dia às pes-


soas que você ama.

Abençoe todas as pessoas que passam pelo seu ca-


minho. Veja a vida em tudo. Considere que todos os
seres são de uma inteligência e sabedoria infinita.

Responda de forma amorosa a todos aqueles que te


causarem mal; reaja com paciência a todos os apres-
sados e ansiosos; não ignore as pessoas e aprenda a
arte de ouvir o outro.

Não fale desordenadamente, vomitando as palavras.


Mas entre dentro de você e procure se entender
melhor.

Visualize o bem em todas as coisas. Procure ver a paz


em todo esse maravilhoso mundo de Deus.

386
Não responda ofensa com ofensa, mas ofereça uma
flor para aqueles que te agredirem.

Pense o bem daqueles que falam mal de ti. Não se


envolva em intrigas, fofocas ou maledicências. Não
fale o que você não sabe ou não viveu.

Duvide sempre das impressões que lhe vem à mente.


Não cultive certezas sobre nada. O sábio duvida, o
ignorante é cheio de certezas e cheio de si mesmo.

Não fique impondo suas verdades aos outros; não


imponha uma noção de certo e errado; não queira
mudar ninguém; aceite cada pessoa em sua forma de
ser e aceite a vida como ela é.

Observe cada coisa que existe no mundo como uma


expressão do ser eterno. As coisas não são como
percebemos, mas como são. Cada ser e objeto tem
um espírito em seu interior. Procure ver a essência
em tudo. Tudo é espírito, tudo é essência.

Não se importe com o bom e o ruim. Nada é total-


mente bom nem totalmente ruim. Há muito de bom
no ruim e muito de ruim no bom. Bem e mal são me-
didas humanas e sempre são relativas.

Tudo muda o tempo todo. Não queira que algo per-


maneça tal como é. Um dia tudo se vai e nada será
como antes. Siga com o rio; siga com as correntes da
vida. Quem pára no meio do rio, é arrastado pelas
águas.

Tudo que sobe desce e tudo que desce, pode depois


subir. Não olhe para outros com ar de superioridade.

387
Se hoje estás por cima, amanhã estarás por baixo. E
se hoje você está por baixo, amanhã poderá estar por
cima. Mas o em cima e o embaixo são apenas medi-
das humanas que não tem qualquer realidade no
plano espiritual. Se não existe em cima e embaixo,
para onde podemos cair? Se não existe alto e baixo,
quem poderá subir?

Não fique buscando o sucesso. Sucesso além de pas-


sageiro, é sempre relativo. O maior sucesso é viver
em paz e ser feliz. As pessoas trocam sua felicidade
por qualquer dinheiro.

Entregamos nossa felicidade ao outro e depois re-


clamamos que o outro não nos faz feliz ou tira nossa
felicidade. Entregamos nossa felicidade as coisas e as
pessoas para que, se algo der errado, tenhamos a
quem culpar pela nossa infelicidade.

As pessoas dão sua vida aos outros e depois recla-


mam que os outros jogaram sua vida fora. Não deixe
de ser você mesmo para se adaptar ao outro e não
deixe de ouvir o que o outro pensa de você.
Muitas vezes o outro é a voz do cosmos nos dizendo
as verdades que precisamos ouvir sobre nós mes-
mos.

Não culpe a ninguém pela sua desgraça. Cada um é


responsável pela sua vida e não há nada que o outro
possa fazer para nos derrubar. Cada um se queda
sozinho.

Responda a ódio com amor; a agressão com ternura;


a raiva com tranquilidade; a mentira com a verdade;
a escuridão com a luz. Não brigue com ninguém. Não

388
guerreie com o outro. Não há vencedores e perdedo-
res, jamais. O vencedor é quem não luta para vencer.
O vencedor é aquele que renunciou a glória da vitó-
ria e se libertou do medo da derrota.

Não queira ser melhor do que ninguém. Não há su-


periores nem inferiores. Todos os seres são filhos do
cosmos, filhos da vida, herdeiros do infinito… Nin-
guém está acima de ninguém e ninguém está abaixo
de quem quer que seja.

Não se apegue a nada e nem a ninguém. Quem só tem


olhos para uma coisa, perde a visão de todo o resto.

Aceite-se como você é. As pessoas não mudam, não


se tornam diferentes. Elas apenas aceitam quem são
e, assim, se libertam de suas prisões emocionais e
psíquicas. Deixe de lado essa mania de querer acer-
tar a todo custo, de querer ser bem visto, de projetar
uma imagem positiva. Quem vive de imagem afunda
na própria imagem. O homem nasceu, construiu uma
imagem e ficou preso a ela. Liberte-se da imagem de
si mesmo. Transcenda a si mesmo, vá além de seu
ego. Não há outra forma de ser feliz.

Não tenha medo do vazio, da falta ou do nada. O va-


zio é liberdade, é o espaço da criação e da renovação.
É no vazio que tudo começa, pois antes de algo ser
alguma coisa, ela era coisa alguma. Quem não é nada,
pode ser tudo, e quem acredita ser tudo, nada é.

No final das contas, nada sabemos, não nos conhe-


cemos. Somos uma partícula, um grão de areia num
infinito deserto. Somos um pé de grama num campo
verde sem fim… Mas nascemos no infinito, vivemos

389
no infinito e somos o próprio infinito, o ilimitado. No
infinito, nada nos falta, tudo se completa, tudo é para
sempre…

390
O QUE É DEUS?

Um homem virou-se para um monge e perguntou:

– Venerável, o senhor passou boa parte de sua vida


meditando para encontrar Deus. Tendo em vista que
Deus ainda é incompreensível para a maioria das
pessoas, qual a imagem mais próxima de nós, seres
humanos, a qual pode representar Deus?

O monge respondeu:

– Observe o sol. – disse o monge – Deus é muito pare-


cido com ele.

– Como assim senhor? Perguntou o homem.

– O sol brilha e irradia luz a tudo que está a sua volta.


Ele não depende da luz de ninguém, mas gera sua
própria luz, seu calor e sua energia.

Ele tudo dá e nada recebe. Sua luz não descansa, não


se esgota, é uma fonte infinita e eterna, e está perma-
nentemente vibrando. Não se pode dar qualquer
coisa a Ele, pois Ele é quem tudo dá e não pede coisa
alguma em troca, pois para Ele é algo absolutamente
natural emanar sua luz.

Todas as coisas que estejam sob seu raio de influên-


cia se clarificam. O que antes estava oculto sob a es-
curidão, se revela. Quando há penumbra, mesmo que
seja a mais densa e profunda obscuridade, ele não
faz coisa alguma, mas apenas lança sua luz, mesmo
que apenas um pequeno raio, e todas as trevas se
dissipam imediatamente.

391
Ele é esférico, ou seja, brilha em todas as direções, e
não faz distinção entre um lado ou outro lado, entre
o norte e o sul, o leste ou o oeste, mas expande sua
luminosidade em todos os sentidos. Traduzindo em
nível humano, ele brilha sob todas as ideologias, to-
dos os segmentos, todos os países, todas as formas
de fé, enfim, não importa a orientação do seu pensa-
mento, sua classe social, sua religião, seu partido
político, sua orientação sexual, etc, ele brilhará do
mesmo jeito.

O sol dá a vida, e sem ele, a vida na Terra não existi-


ria. Assim é Deus, dá vida a tudo, e sem Ele, nenhuma
vida sobreviveria e sequer seria formada. Sentimos a
sua presença em forma de luz física, mas não pode-
mos toca-lo. Deus também é assim: não pode ser
tocado, mas podemos senti-Lo por meio de sua luz
espiritual.

Aqueles que estão distantes dele, só o veem como


uma estrela bem longínqua, e ficam na escuridão.
Aqueles que estão mais próximos a Ele, o veem como
o sol, e são iluminados e conseguem enxergar tudo a
sua volta.

Mesmo que vastas e escuras nuvens estejam bloque-


ando sua luz, Ele jamais deixa de brilhar.

Por mais longa e sofrida que seja a madrugada de


nossas lágrimas, sofrimentos e derrotas, nunca deixa
de amanhecer no dia seguinte, e sempre o sol apa-
rece dissipando toda a escuridão.

Da mesma forma que ninguém se preocupa se o sol


vai nascer todos os dias, por que haveria alguém se

392
preocupar se Deus vai, um dia, iluminar a nossa
vida?

393
A CHUVA DIVINA

Há uma lenda muito antiga que conta uma estória


importante. Deus, o Senhor supremo do universo,
residia acima de imensas nuvens. Ele enviava à Terra
bênçãos celestes em forma de chuva cósmica. De vez
em quando caía um grande temporal e toda a huma-
nidade se apressava em tentar receber a água sa-
grada que caía do céu.

Nessa época, a terra era muito seca, e assim que cho-


via, o solo sugava toda a água enviada por Deus. Por
isso, as pessoas levavam copos para poder receber a
água divina e bebe-la.

O curioso é a forma como as pessoas recebiam a


chuva de Deus. Alguns levavam copos bem pequeni-
ninhos, onde quase não cabia a água da chuva. Ou-
tros levavam copos um pouquinho maiores, e po-
diam beber melhor. Outros ainda levavam copos
grandes, bebiam a água e matavam sua sede. Outros,
no entanto, construíram grandes baldes, largas ba-
cias para que em tempos de seca jamais faltasse a
água celeste.

Aqueles que levavam apenas um minúsculo copinho


diante da chuva de Deus acabavam ficando com
muita sede depois. Os que traziam copos maiores
ficavam com menos sede. Aqueles que traziam bacias
maiores conseguiam armazenar a água, e não tinham
mais sede, pois possuíam água à vontade.

Pessoas que levavam copos diminutos quase sempre


reclamavam que Deus não lhes dava nada, que eles
eram injustiçados e que o plano divino os havia es-

394
quecido. Os sábios anciãos, cujas bacias eram enor-
mes, alertavam essas pessoas de que Deus não os
havia esquecido e que não existia qualquer injustiça,
mas que tudo dependia do tamanho do copo que eles
usavam para armazenar a água. Um copo pequeno
guardaria menos o líquido divino e um copo maior,
obviamente, recolheria uma maior quantidade das
dádivas divinas. Mas parece que poucos ouviam e
compreendiam esse princípio. O resultado era a sede
de coisas materiais e uma sensação de falta, de tris-
teza e de vazio.

Pare e reflita qual o tamanho do copo que você está


utilizando para receber a água divina. Não adianta
reclamar da ausência de sentido em sua vida, pois é
necessário abrir-se por inteiro para receber as dádi-
vas divinas. Não é Deus que não está presente, o seu
copinho é que pode ser muito pequeno.

395
A ASCENSÃO CELESTIAL

Por toda a minha vida sempre quis elevar meu espí-


rito a Deus, mas não sabia como faze-lo.

Certo dia, sonhei que estava em um campo aberto


imenso, com muito verde e um céu bem azul. Olhei
para o céu e vi uma luz maravilhosa, que parecia algo
divino, e quis subir aos céus. Vindo de lugar nenhum,
um anjo aparece em minha frente e pergunta se eu
quero me beneficiar daquela luz divina. Eu respondi
que sim.

De repente, aparece a minha frente um balão


enorme, cheio de coisas dentro. O anjo me diz que o
balão é um veículo de ascensão celeste.

Sem mais delongas, subi rapidamente no balão para


ascender ao reino celeste e encontrar aquela luz tão
maravilhosa de Deus. No entanto, por mais que eu
enchesse o balão com ar, ele não subia. O anjo, que
me observava de longe, disse que eu deveria retirar
todo o peso do balão para alçar o voo sublime. “É
mais importante soltar todo o peso acumulado para
ascender, do que encher o balão com ar quente”,
disse o anjo.

Então olhei para o chão do balão e vi muitos sacos,


malas, bolsas e pesos diversos. Então segurei um dos
sacos e de súbito apareceu em minha mente muitas
mágoas do meu antigo casamento. Aquele saco pe-
sado representava toda a carga das feridas, mágoas e
ressentimentos da minha ex-esposa. Peguei o saco e,
em nome da minha liberdade, o joguei fora do balão.

396
Nesse momento, o balão saiu do chão, mas ainda
assim não estava subindo.

“Preciso me desfazer de outras cargas” pensei. Vi


uma mala no chão e quando a peguei me veio um
forte sofrimento pela morte do meu pai. Essa mala
representava todo o peso que eu estava carregando
da dor por essa perda. Num ato de desapego, joguei
fora do balão esse sofrimento que ainda carregava, e
o balão subiu um pouco mais.

Mas ainda existiam muitas coisas para jogar. Come-


cei a lançar fora todos os sacos. Joguei o saco do
apego ao dinheiro; depois joguei do apego aos filhos,
depois soltei toda a carga de preocupações. Uma que
me doeu muito, foi jogar fora a carga do perfeccio-
nismo, de admitir meus erros e aceita-los, soltando
todo o desejo de ser perfeito e de passar uma ima-
gem impecável. Outro que me doeu muito foi jogar
fora a carga do medo e do desejo pelo conforto, de
todo o comodismo que eu tinha.

Finalmente o balão começava a subir mais rápido e,


quando percebi, estava voando pelos céus e ascen-
dendo. Senti uma sensação de vazio pelas perdas de
tudo o que soltei, mas esse vazio logo foi preenchido
pelo primeiro contato com aquela luz divina que
descia do céu e que, agora, eu começara a ter contato.

Sacos, malas e outros pesos que criavam uma carga


em minha vida foram, um a um, jogados lá de cima, e
cada vez que eu jogava um deles, ascendia mais e
mais e me via mais próximo do reino celeste. Olhei
então para os pesos e vi que sobraram apenas quatro
sacos. Segurei o primeiro e senti que era a carga da

397
vaidade, de toda a minha preocupação com as apa-
rências. Foi bastante sofrido me desfazer deste, mas
finalmente o joguei fora, soltando aquele peso. Pe-
guei o outro saco e senti que era o do orgulho. Foi tão
difícil quanto, mas também o soltei. O terceiro era o
do egoísmo. Soltei-o após bastante tempo, e só aí
percebi o quanto eu era orgulhoso, vaidoso e ego-
ísta… Não apenas eu, mas toda a raça humana.

Finalmente, a última coisa e a mais pesada, por incrí-


vel que pareça, eram as roupas que eu estava ves-
tindo. Sim, eu precisava também e principalmente
tirar toda a minha roupagem. Era necessário me
despir completamente, ficar totalmente nu e estar
apenas comigo mesmo, sem coisa alguma. Essa rou-
pagem é o que chamamos de ego. Mas essa última
soltura eu não queria fazer de jeito nenhum, pois
tudo o que eu era, toda a imagem sobre mim mesmo
e a minha personalidade, parecia estar ali. Pensei em
desistir da busca e retornar, pois como poderia abrir
mão de mim mesmo? Será que assim eu não me tor-
naria nada? Como posso viver sem mim mesmo? Mas
dentro de mim pulsava uma forte aspiração pela
libertação de tudo, como se um fogo divino ardesse
dentro de mim indicando o caminho.

Então, após um longo tempo e muito sofrimento,


finalmente me despi por inteiro e joguei fora toda a
minha roupa, soltando o último peso que ainda me
impedia de ascender. Assim que joguei a roupagem
do ego, o balão ascendeu acima das nuvens. Vi-me
entrando no reino celeste e sendo recebido por um
coro angélico que cantava melodias celestiais e tam-
bém por uma luz maravilhosamente bela, calorosa,

398
acolhedora e divina. Eu havia finalmente encontrado
a paz profunda que tanto busquei.

399
DEUS EM NOSSA VIDA

Se algo deu errado ou não saiu como você queria


diga “Essa foi a vontade de Deus”.

Nos momentos de dúvida e incerteza diga “Eu confio


plenamente em Deus”.

Nas horas de duro sofrimento, quando você desco-


brir que não tem controle sobre nada, diga “Eu en-
trego tudo nas mãos de Deus”.

Quando quiser um guia para sua vida diga “Eu per-


mito que Deus dirija minha vida”.

Quando estiver desorientado, sem saber para onde


ir, diga “Deus é quem vai me mostrar o caminho”.

Quando sentir que tudo está contra você diga sim-


plesmente “Se Deus é por nós, quem será contra
nós?”.

Em momentos de total ausência de sentido, quando


parece que estamos mergulhados no vazio diga
“Deus está presente”.

Quando você contemplar todas as obras da criação


pense que “Tudo é Deus e Deus está em tudo”.

Nos tempos em que tudo que é sólido e concreto em


sua vida pareça se dissolver, diga “Deus é o meu su-
porte e o meu sustento”.

Quando quiser fazer o bem diga “Deus me usa como


um instrumento de Sua obra na Terra”.

400
Não se deixe enganar… Nada em nossa vida seria
possível sem Deus.

Deus está em nós e nós não somos nada sem Ele.

Sirva a Deus e não a Mamom;

Sirva ao mundo espiritual e não ao mundo material;

Sirva ao essencial e não a ilusão.

Esteja sempre com Deus, pois dessa forma…

Deus estará sempre contigo.

401
A FÉ

Fé é quando não vemos nada, mas enxergamos bem.

Fé é quando por fora nada faz sentido, mas interna-


mente tudo faz sentido.

Fé é saber que tudo tem um tempo certo para acon-


tecer, como nascer, crescer, envelhecer e morrer.

Fé é ter paciência e esperar o tempo de Deus, e não o


nosso tempo.

Fé é ter a certeza de que, da mesma forma que o sol


nasce todos os dias, Deus irá iluminar a madrugada
de nossa vida a cada manhã.

Fé é ter consciência do ciclo da natureza, onde tudo


se renova, tudo começa, termina e recomeça, tudo se
encaixa, tudo se harmoniza, tudo é perfeição.

Fé é quando tudo caiu em escuridão, não sabemos


onde estamos pisando, não sabemos para onde va-
mos, mas seguimos em frente mesmo assim.

Fé é quando a razão se esgota e precisamos ir além


do intelecto para compreender o desconhecido e o
indescritível.

Fé é acreditar em todas as obras de Deus, inclusive


acreditar em nós mesmos, que também somos obras
de Deus.

402
Fé é saber que todo mal vem para o nosso bem; toda
a ignorância se transforma em sabedoria e na mais
escura treva sempre brilha uma luz.

Fé é manter-se calmo dentro da tempestade; é bus-


car ordem em meio ao caos; é encontrar sentido em
meio a confusão; é entender a morte como uma parte
da vida.

Fé é agradecer a perda, agradecer o desprezo, agra-


decer o sofrimento, agradecer o fim, agradecer a
noite que nos faz vislumbrar as estrelas no céu.

403
DEUS ESTÁ EM NOSSO PRÓXIMO

Deus se manifesta diante de nós através do nosso


próximo. E nos concede preciosas lições de desen-
volvimento interior.

Quantas vezes Deus nos enviou um aprendizado que


saiu da boca de um desafeto mostrando claramente
os pontos em que devemos nos modificar.

Diversas vezes Deus falou através dos brutos e arro-


gantes, que nos deixam vermelhos de cólera, para
que possamos identificar a extensão e a natureza de
nossa raiva.

Em várias ocasiões Deus se disfarça daquele que


machucamos e nos arrependemos, para com isso
aprendamos lições importantes de respeito ao pró-
ximo.

Deus se transveste das crianças abandonadas, que


com seus olhares tímidos nos observam, para testar
nosso acolhimento e amor à humanidade.

Deus se faz presente no homem que nos deixa espe-


rando muito tempo para testar nossa paciência e
perseverança.

Deus fala através dos grosseiros e estúpidos, que nos


abordam com a marca de sua impolidez, e assim tes-
tam nosso melindre e nos ajudam a desenvolver
nossa humildade.

Deus está presente em cônjuge, companheiro ou


namorado que muito amamos, a fim de verificar se

404
nas brigas comuns do dia a dia vamos deixar preva-
lecer o amor ou a irritação.

Deus está presente no filho mimado e mandão, para


ver se vamos ceder a tentação de tudo lhe dar e re-
solver, ou se vamos impor a disciplina necessária ao
seu amadurecimento e a sua independência futura.

Deus está presente no chefe rude e autoritário a que


somos obrigados a conviver, a fim de pôr à prova o
mesmo autoritarismo e rudeza que cultivamos em
nosso íntimo.

Deus está sempre presente naqueles que amamos,


para aprendermos a tornar esse amor incondicional,
e naqueles que odiamos, para aprendermos o dom
de perdoar e aceitar o outro.

Deus está em tudo, mas está principalmente naque-


les que convivemos.

Estes vêm contribuir com nossa caminhada humana


e nosso aperfeiçoamento espiritual.

Ninguém pode amar a Deus e não amar o próximo.

O próximo não precisa estar com Deus, mas Deus,


sem nenhuma dúvida, está no próximo.

405
RESGATE DE SI MESMO

Existem algumas perguntas fundamentais que você


deve se fazer caso queira desvendar a si mesmo e
encontrar sua essência mais profunda. Essas pergun-
tas são:

O que te faz levantar todas as manhãs?

O que você era quando ainda não haviam dito quem


você era?

Você passa a vida inteira no piloto automático, só


reagindo aos estímulos externos, buscando o prazer
e suprindo suas necessidades básicas, ou você olha
para si mesmo e tenta desvendar sua natureza es-
sencial?

Se você perdesse tudo o que você tem, todos os bens,


todas as crenças, toda sua personalidade, incluindo
todas as pessoas que você gosta, e nada mais te res-
tasse a não ser você mesmo, o que sobraria de você?

Onde está aquela pessoa que contemplava o céu, que


amava sem medo, que olhava para a vida com ino-
cência, que apreciava o pão de cada manhã, que be-
bia água e apenas bebia água?

Onde você estava quando se encontrava em total


silêncio comungando com o infinito há um tempo do
qual resta apenas um pequeno fragmento de memó-
ria?

Onde está sua inocência de olhar para algo e ver


apenas esse algo e mais nada?

406
Onde está a sua alegria de viver, aquela alegria que
você sentia que transbordava de dentro de você,
como se fosse uma chama sagrada que ardia em seu
interior?

Onde está aquela pessoa livre, totalmente livre, que


não tinha medo de olhar para a infinidade do céu e
sentir a eternidade a cada momento?

Para onde você deseja ir em sua vida? Que caminho


você quer seguir? No final desse caminho a sua es-
sência mais profunda estará te esperando?

Onde está aquela pessoa que ficava refletindo por


horas e sentia como se estivesse em contato com o
universo inteiro?

Qual seu grande objetivo de vida? O que você mais


deseja? E onde está você mesmo no meio do grande
turbilhão da vida humana?

Onde você estava quando o ser era mais importante


do que o ter?

Quem é você no mais íntimo e profundo de você


mesmo?

407
INFERNO E PARAÍSO

Havia um homem que vivia no paraíso e era muito


feliz.

Certo dia, ele visitou o inferno, e viu que lá muitas


pessoas eram tristes, deprimidas, vazias, rancorosas,
etc.

Mas esse homem, apesar de estar no inferno, era


feliz. A sua felicidade não dependia de nada e ele se
sentia livre.

Conforme ele foi caminhando no inferno, e foi


olhando mais atentamente, ele começou a ver ali não
o inferno, mas o paraíso.

Sim, era inacreditável. Ele estava no inferno, mas via


o paraíso no inferno.

As pessoas estavam brigando, se digladiando, com


ódio e sofrimento, choro e ranger de dentes. Mas ele,
ao contrário, estava no paraíso, por um motivo muito
simples: ele era feliz e sua felicidade não dependia de
nada, não estava vinculada a nada, não precisava de
coisa alguma. Ele era livre interiormente, seu espí-
rito era dotado de um maravilhoso desprendimento,
e ele não ficava apegado ou encarcerado nem mesmo
no inferno.

Essa é a estória do homem que, mesmo no inferno,


vivia no paraíso… Essa é, com efeito, a estória de
todos nós.

408
A POBREZA

Alguns acreditam que ser pobre é viver destituído de


bens, serviços e necessidades fundamentais.
Quanto menos dinheiro se tem, mais pobre se é, pen-
sam alguns.
Mas pobreza não consiste na ausência de capital, de
salário ou de patrimônio.
A pobreza existe e se instala quando necessitamos de
muitas coisas para viver.
O pobre pode ser pobre por precisar de muito, por
muito desejar e por criar muitas dependências.
O rico pode igualmente ser pobre, pois mesmo tendo
muito, ainda quer mais e mais, e sente que tem
pouco.
Se tens muito e sente que tens pouco, serás pobre.
Se possuis o necessário e sentes que tem muito, se-
rás rico.
Há muitos pobres mais ricos que os ricos.
E muitos ricos mais pobres que muitos pobres.
Pois a pobreza é desejar além do que a vida pode te
dar.
A pobreza é um estado de espírito, e não a ausência
de bens e dinheiro.
É pobre todo aquele que, tendo muito, está sempre
insatisfeito.
E é rico aquele que, tendo pouco, está sempre satis-
feito.
Quem considera pouco o suficiente vive sempre na
infelicidade e insatisfação.
Quem considera o suficiente com satisfação, pode
viver tranquilo e feliz.
Nada te satisfará se não estiveres satisfeito e em paz
contigo mesmo.
As satisfações e prazeres humanos duram bem

409
pouco,
O júbilo espiritual e a paz interior podem durar uma
eternidade.
O rico que quer muito além do que possui, nada pos-
sui.
Vive mendigando mesmo dentro de um monumental
palácio.
A maior riqueza é interior, é aquela que nada externo
pode acrescentar ou diminuir.
O maior tesouro é aquele que não pode ser destru-
ído,
Aquele que está eternamente guardado no mais im-
penetrável cofre do mundo: nosso coração.
De que nos adianta esmolar as migalhas deste
mundo de ilusão e transitoriedade?
Contenta-te com o que tens, sede feliz com o que já
possuis,
Alegra-te com a gratuidade da vida, que nada cobra e
nada deixa faltar.
Quanto maior a tua ambição com o supérfluo, mais
pobre serás.
Quanto maior a tua felicidade com o necessário, mais
rico serás.
A maior riqueza é tudo aquilo que dinheiro nenhum
no mundo pode comprar
E que tu não venderias por coisa alguma.
Nossa família, nossos amigos, nossos amores, nossa
paz, nossas virtudes e nosso caminho espiritual.
Qualquer um pode ser tão rico quanto sua alegria
espontânea de viver
E tão pobre quanto sua carência, sua mágoa, e seus
intermináveis desejos materiais.
A solidão num imenso palácio pode ser maior do que
a solidão num pequeno casebre.
Atenta para a verdade: nunca teu vazio interior será

410
preenchido por ganhos mundanos.
Preferes ser o mendigo de tudo o que você não pos-
sui?
Ou o rei de tudo o que ganhaste com trabalho duro e
honesto?
Cultive a paz, a graça, a verdade e o amor,
Estes são os maiores tesouros que terás acesso.

411
O QUE VAMOS LEVAR DESSA VIDA?

A maioria das pessoas não pensa naquilo que elas


podem levar dessa vida.

Por mais que você se esforce em manter a boa forma


de seu corpo, em se produzir com maquiagens da
moda ou em tomar milhares de suplementos para
enrijecer os músculos, todo esse trabalho terminará
quando você morrer, pois você não levará seu corpo
depois da morte.

Aquele que trabalha muito para comprar o carro do


ano, sofisticado, de última geração, deve saber que
não poderá estar com ele no além-túmulo.

Aquele que possui uma recheada conta bancária,


com excelentes investimentos, com boa rentabili-
dade, deve entender que o dinheiro ficará aqui na
Terra, e não tem qualquer valor no plano espiritual.

Toda a fama humana, a reputação, o bom nome, a


popularidade, tudo o que foi conquistado com uma
ótima imagem para os homens, pode não ter qual-
quer valor diante de Deus e não nos sera útil após
cruzarmos o limiar entre a vida e a morte.

Você não pode levar sua casa, seu carro, seu di-
nheiro, suas posses, seu patrimônio, nem qualquer
coisa composta de matéria perecível.

A matéria retorna a matéria. Como diz Eclesiastes (3,


20): “Do pó viemos e para o pó retornaremos”. A
terra vai absorver nosso corpo e tudo o que um dia
nos pertenceu. Todas as coisas pelas quais lutamos,

412
brigamos, exigimos, desejamos, ansiamos… Tudo
aquilo que nos deixou tristes ou deprimidos, tudo
isso ficará no mundo.

O que é do mundo, fica no mundo… O que é do corpo,


fica no corpo da terra, o que é material, se resolverá
em seus componentes fundamentais. Tudo o que um
dia possuímos será dado.

Nem mesmo seus prazeres você poderá levar. As


noites impregnadas de sexo selvagem; o vinho de
boa safra; as festas com os amigos; nossos progra-
mas favoritos; nossa comida predileta; todas as delí-
cias e tentações desse mundo: tudo isso ficará aqui e
nada disso irá conosco ao outro lado da vida.

Não levamos nem os prazeres e nem as dores desse


mundo. Tudo passa… e tudo será descartado na
Terra, assim como a casca da banana é solta na
terra após ser consumida pelo macaco.

Tampouco nossas emoções serão levadas. O que res-


tará é apenas uma impressão, um apego, uma memó-
ria fugidia que pode nos tornar presos ao mundo.
Nosso ego se desvanescerá. Nossas ideias serão des-
consideradas. Nosso conhecimento será substituído.
Nossa percepção do real será dissolvida.

O que podemos levar então?

Você poderá levar tudo de bom que tenha feito a


outras pessoas. Todo amor dado. Toda palavra
amiga. Toda ajuda desinteressada. Toda doação ab-
negada. Todo trabalho no bem te trará paz espiritual
profunda. Toda luz que você acendeu no coração de

413
outras pessoas. Toda fé que você teve iluminará seu
espírito no pós-morte. Toda sabedoria disseminada.
Todas as experiências que geraram aprendizado de
vida. Toda harmonia, toda mão estendida, as ações
que não esperam nada em troca… toda paz transmi-
tida. Tudo isso você levará consigo após a sua morte.

Tudo aquilo que você deu na Terra, você terá em


espírito. Como dizem os mestres: “O que temos, dei-
xamos. O que somos, levamos”.

Não guie sua vida pelos valores materiais, que vão se


dissolver com a morte, perecer em meio ao caos da
matéria ilusória. Guie sua vida pelos valores espiri-
tuais, pelos princípios perenes… Aquelas verdades
que não morrem, que não se degradam, que serão do
nosso espírito para sempre… por toda a eternidade.

414
SEJA VERDADEIRO

Deus enxerga seu coração, não suas atitudes hipócri-


tas.
Deus observa seu pensamento sobre uma pessoa, e
não o que você diz a ela.
Deus entrevê sua verdadeira intenção egoísta,
mesmo que você se engane que está sendo altruísta.
Deus reconhece suas imperfeições, mesmo que você
tente acoberta-la de ti mesmo.
Deus vê a causa de sua angústia e de sua depressão,
mesmo que você não queira enxerga-la.
Deus conhece as mentiras que você conta até para ti,
mesmo quando a farsa é bem convincente aos ou-
tros.
Deus te conhece melhor do que você, mesmo quando
você procura fingir ser uma pessoa que não é.
Não adianta querer enganar a Deus ou aos outros.
A única pessoa que você está enganando, é você
mesmo.
De que adianta parecer o que não é, mentir sobre
algo ou alguém,
Se no futuro, tudo será desvendado?
Seja sincero, honesto, transparente, cristalino, origi-
nal e autêntico agora mesmo…
Seja o que você é.
Ou você é o que é, ou não é nada…
É melhor ser o que se é, pois só você pode fazer isso.

415
VIDA SIMPLES

Viver com simplicidade é o caminho para ser feliz

Ser simples é sorrir diante as ondas do mar, é beber


da água do rio, é cantar com a chuva, é sujar-se na
lama, é perder a hora, é aceitar o mistério da vida.

Uma vida simples é uma vida espontânea, natural,


onde deixamos tudo fluir.

Na simplicidade nada nos preocupa, nada nos faz


perder, nada nos irrita, tudo segue em harmonia,
tudo acontece desembaraçadamente.

Ser simples é olhar o mundo e a natureza com os


olhos das crianças, com doçura, inocência e vitali-
dade.

O homem que vive de extravagâncias e intemperan-


ças torna-se um escravo do próprio peso que carrega
para sustentar seus excessos e seu orgulho.

Simplicidade é o instante que não cabe em mil pala-


vras. Quem pode explicar a beleza do pôr do sol?

Os homens se debruçam sobre seus problemas em


mil preocupações; enquanto isso, as folhas caem, a
relva cresce, o vento sopra, o rio flui, o pássaro
canta…

Quem consegue sentir a alegria de um simples mo-


mento? Da visão da lua? Do estrondo do trovão? Da
beleza do raio que corta o céu? Ou numa nuvem

416
cinza num dia chuvoso?

Ser simples é viver despojado de tudo o que nos


prende, de todos os fardos que carregamos. É desa-
tar todos os nós.

Ser simples é contentar-se com a menor obra da cri-


ação e dela retirar a alegria do momento.

Simplicidade é viver no presente sem desejar estar


aqui ou ali, no passado ou no futuro, com isso ou
aquilo.

O homem superficial olha e não vê, faz e não sente; o


homem simples não vê, mas enxerga, não faz, mas
sente.

O homem simples é feliz mesmo sem nada possuir; o


homem superficial mesmo tudo possuindo, não con-
segue ser feliz.

É na ausência de tudo que enxergamos melhor a nós


mesmos e a vida; é com pouca ou nenhuma bagagem
que caminhamos mais rápido…

Ver a beleza no feio; ver a profundidade no vazio; ver


a fé na dúvida; ver a alegria na tristeza; entender
sem que ninguém precise explicar: assim é virtude
da simplicidade.

O homem simples percebe o diferente, o novo, o belo


mesmo na mais repetitiva rotina; o homem superfi-
cial vê tudo igual, chato e monótono, mesmo nas
mais surpreendentes novidades.

417
Quem gosta de discursos rebuscados, de difícil com-
preensão só expõe sua soberba.

Mas aqueles que conseguem esclarecer com simpli-


cidade, esses foram mais fundo no coração da vida.

A simplicidade aceita tudo como é, ao invés de sofrer


pelo que não é.

Simplicidade é liberdade, é desapego; é mergulhar de


cabeça; é dizer não ao medo; é soltar o que está
preso e acolher a vida como ela é.

Seja simples… seja feliz… viva em paz… apenas viva…

418
O TEMPO DE DEUS

A plantinha começa existindo apenas como uma se-


mente…
Cresce… e após um tempo, começa a dar seus frutos.
A Terra demora 365 dias para dar um volta ao redor
do sol.
A gestação de uma criança dura nove meses e depois,
um novo ser vem ao mundo.
A Terra demorou bilhões de anos até estar pronta a
abrigar a vida.
O ser humano nasce, cresce, se reproduz e muitos
anos depois, morre de velhice,
Completando, assim, o ciclo de sua vida humana.
Há sempre um período, um tempo, uma duração
para tudo em nossa vida.
Como diz a Bíblia:
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo
para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de
plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.”
Há uma máxima que diz: A natureza não dá saltos;
Tudo ocorre no momento que tem que ocorrer,
Dentro das condições que foram aos poucos sendo
lapidadas pela sabedoria do tempo.
Alguém puxaria uma plantinha do solo para ela cres-
cer mais rápido?
Alguém quebra um ovo para que o pintinho nasça
mais veloz?
Ninguém deve apressar o rio, ele simplesmente flui
como tem que ser.
Ninguém apressa uma criança a se tornar adulta. No
tempo certo, ela será…
Ninguém pode obrigar o sol a se pôr ao meio dia.
Ele volverá ao horizonte no tempo certo…

419
Colocamos um pé após o outro para poder caminhar,
Caso contrário… caímos no chão.
Da mesma forma que a natureza possui um tempo
para cada coisa,
Tudo em nossa vida tem um tempo para acontecer.
Querer apressar certas coisas, ou prolonga-las de-
masiadamente,
Pode causar algum dano, ou fazer com que nada
aconteça.
Tenha paciência para colher os frutos maduros do
tempo…
Cada coisa tem a sua hora; cada pessoa tem seu mo-
mento.
Deixe sua vida fluir no tempo do infinito; sem pressa,
sem ansiedade.
Somos luz em estado de formação; somos anjos em
treinamento na Terra.
O ser humano nasceu, mas ainda não se completou.
Tudo se realiza no tempo que precisa.
Espere com paciência o tempo de Deus…
E não o seu tempo humano.

420
LIÇÃO DE VIDA

Um homem procura um grande sábio e lhe conta sua


história. Ele diz que existe um homem que inventou
várias mentiras a seu respeito.

Ele pergunta ao sábio o que deve ser feito com uma


pessoa que dá falso testemunho. O sábio responde:

– É simples: deve-se vencer a mentira com a verdade.

O homem ouve as palavras do sábio e resolve per-


guntar outras coisas:

– E quando esse homem tem ódio de você?

O sábio responde:

– Deve-se vencer o ódio com amor.

O homem volta a perguntar.

– E quando essa mesma pessoa age de forma injusta


com você?

O sábio responde:

– A mesma coisa: deve-se combater a injustiça com a


justiça;
Deve-se combater a mentira com a verdade;
A única forma de combater o ódio é com amor;
É preciso combater a violência com a paz;
A raiva com a tranquilidade;
E finalmente… Deve-se neutralizar o mal com o bem.
O homem ouvia atentamente. O sábio completou:

421
– Não há outra forma de combater as mazelas do
mundo. Não adianta opor violência com mais violên-
cia, ou mentiras com mais mentiras, ou ódio com
mais ódio. O fogo só alimenta o fogo. É preciso dar
amor àqueles que nos odeiam; ser verdadeiros com
aqueles que mentem a nosso respeito; ser pacíficos
com aqueles que nos são violentos, e seremos muito
mais felizes quando fizermos o bem àqueles que nos
fazem mal. Reflita sobre isso, pois esta é uma das
mais sagradas lições dos sábios e da vida.

422
MENSAGENS SOBRE BEM E
CARIDADE

A JOIA DA CARIDADE

Alberto era um homem muito bondoso. Estava an-


dando pela rua, quando viu um mendigo passando
fome. Alberto então sentiu seu coração se aquecer de
compaixão pelo ser humano que estava ali, a sua
frente, em estado de completa necessidade e decidiu
lhe dar uma joia que ganhara de seu falecido pai, que
valia muito dinheiro.

O mendigo ficou muito tocado pela atitude daquele


homem e pensou: “Este homem nem me conhece e
me deu uma joia de extremo valor sentimental”.

Quando o mendigo foi numa joalheria trocar a joia


por dinheiro, soube que o dono da joalheria tinha
uma doença muito grave, e não tinha dinheiro para
pagar a cirurgia e o tratamento médico. O mendigo
compadeceu-se do homem e, num ato de desapego,
deu a joia ao joalheiro, que em troca lhe deu comida
por duas semanas.

O joalheiro pegou a joia e sentiu muita compaixão,


pureza e desapego. Após um tempo fez exames de
saúde e percebeu que havia se curado completa-
mente da doença. Decidiu então dar a joia a alguém
necessitado.

423
Cada pessoa que recebia a joia se sentia tocada com
aquela atitude de pureza e benevolência, e sentia-se
inspirada a fazer o mesmo a outra pessoa: a doar
aquela joia que parecia ter se tornado um símbolo de
fé e desapego.

Muitas pessoas receberam e doaram a joia. Certo dia,


Alberto, o dono original da joia, estava andando pela
rua e foi atropelado por um carro. Muitas pessoas
foram socorre-lo. Um homem em particular perce-
beu a dor de Alberto e sentiu compaixão por ele. Co-
locou a mão no bolso, tirou algo e deixou em sua
mão. Alberto fez um esforço e ficou muito surpreso
ao contemplar, na palma de sua mão, a joia de seu
pai que há mais de 1 ano havia dado a um mendigo
na rua. “Isso te ajudará a pagar todo o serviço mé-
dico após o acidente”, disse o estranho. Após tanto
tempo, a joia dada havia agora retornado a ele
mesmo, justamente na hora em que mais precisava.
Alberto começou a chorar e pensou:

“Como são perfeitos os planos de Deus”.

No momento em que doamos algo, com o necessário


desprendimento, criamos uma corrente de bem e luz
que beneficia a outras pessoas. No entanto, após um
tempo, essa ação acaba sempre retornando a nós das
mais variadas formas. Ninguém deve ter medo de
dar ou doar-se ao próximo, pois nossos esforços
sempre tocam as pessoas e criam um mundo melhor
que beneficia a todos, inclusive a nós mesmos.

424
A CHAMA SAGRADA

Os anjos, arcanjos e querubins mais elevados na es-


cala angélica estavam começando a ficar preocupa-
dos com a situação trágica do nosso mundo.

A humanidade passava por muitas guerras, fome,


doenças, sofrimento, desespero e vazio espiritual.
Foi então que decidiram recrutar anjos iniciantes
para dar conta de realizar todo o trabalho do plano
divino na Terra. Mas antes de estrear suas tarefas
nas plêiades angélicas do bem, os anjos nascentes
deveriam passar por uma prova a fim de demonstra-
rem suas capacidades. Analogamente aos estudos
humanos, uma espécie de prova final para poder
cursar a série seguinte.

Um dos anjos iniciantes deveria então atravessar


uma provação, uma iniciação ao reino angélico, que o
faria galgar ao status de Anjo do Senhor. Ele estava
ansioso por se tornar logo um anjo e começar sua
jornada no bem, mas antes precisava provar a sua
glória e sabedoria. Após o início da provação, vários
arcanjos, serafins e querubins se reuniram e invoca-
ram o gênio do fogo, que trazia a chama sagrada para
o aspirante a anjo. Os anjos pediram ao aspirante
que colocasse suas mãos em forma de concha e esti-
vesse pronto para receber o fogo divino.

Nesse momento, o Gênio do fogo concedeu uma par-


cela do fogo sagrado ao aspirante, sem que a chama
do gênio se apagasse. O gênio foi embora e os anjos
disseram: “Esta chama representa a luz da sabedoria,
que ilumina as trevas e dá alento a vida espiritual
das almas. Agora vá seguindo o teu caminho e faça o

425
uso desta chama sagrada, desta luz divina como você
achar melhor”.

O aspirante a anjo viu uma estrada se abrindo a sua


frente e foi seguindo por um caminho bastante es-
curo. Esse caminho representava boa parte da at-
mosfera espiritual do nosso mundo; um clima es-
curo, pesado e hostil. Mesmo percorrendo esse ca-
minho de trevas, ele sentia-se bem e orientado, pois
enxergava tudo a sua volta com clareza e lucidez
graças a chama que carregava em suas mãos. Foi
então percorrendo por estradas e vales, e no cami-
nho começaram a aparecer várias pessoas necessita-
das, carentes e em sofrimento, lhe pedindo um pouco
da luz da chama. Conforme as pessoas iam passando
e pedindo luz, ele ia dando um pouquinho da chama
sagrada a cada alma carente. Foi prosseguindo e
mais e mais pessoas vinham a ele e pediam um
pouco da chama em suas mãos.

No entanto, o anjo observou que, após algum tempo,


quanto mais dava o fogo sagrado que iluminava seu
caminho, mais a chama ia diminuindo de tamanho. O
anjo aspirante deu mais algumas porções de luz e
agora caminhava apenas com uma pequena faísca, e
quase não podia ver o caminho. As trevas começa-
vam a tomar conta de tudo, e ele sentiu um certo
temor. Então iniciou-se um diálogo interno “Devo
dar a última faísca de luz que ainda possuo? Não
seria melhor guardar essa porção luminosa para que
eu também não mergulhe nessa escuridão aterra-
dora?”. Com a possibilidade de perder sua última
partícula do fogo, que o aquecia e iluminava nas den-
sas trevas que percorria, ele começou a cogitar ficar
com a faísca, mas ainda estava em dúvida.

426
Este dilema foi sufocando o aspirante conforme ele
seguia sua jornada. De repente, surgiu uma velha
senhora a sua frente, e lhe pediu a luz que sobrara. O
anjo titubeou, refletiu, lembrou-se dos ensinamentos
espirituais, e num ato de sacrifício e desapego, deu
sua última parcela do fogo, o último ponto luminoso
que restara. Ficou então em escuridão total.

Eis que, dentro de si mesmo, começou a brilhar uma


chama, a mesma chama sagrada que havia recebido
do gênio do fogo na presença dos anjos. Sentiu uma
espécie de calor sutil em seu peito, e notou que o
fogo, que antes estava em sua mão, começara a nas-
cer de dentro dele; seu próprio interior era agora a
fonte da chama sagrada. Nesse momento, tudo a sua
volta começou a ficar maravilhosamente iluminado e
aquecido.

Percebeu então que, ao seu redor, estava rodeado de


um coro repleto de centenas de anjos que acompa-
nhavam todos os seus passos, do início ao fim desta
jornada. O aspirante entendeu que os anjos jamais o
abandonaram, mas estiveram ali o tempo todo, ze-
lando por ele e observando suas reações diante do
desafio imposto. O Anjo do Senhor proferiu as se-
guintes palavras:

– Venceste a prova do egoísmo e entregaste tudo o


que lhe restava da chama sagrada da sabedoria para
quem lhe pediu, mesmo tendo a impressão que fica-
ria sem ela. Se o egoísmo tivesse vencido, cairias
neste vale escuro e ficarias sem luz, tal é o estado de
boa parte da humanidade. Confiaste em Deus e pro-
vaste a ti mesmo que quem se entrega completa-

427
mente no caminho do bem, jamais fica desassistido e
sem luz. A chama sagrada, que antes era exterior a ti,
agora arde em teu próprio interior, pois demons-
traste a superação diante do egoísmo que impera em
quase toda a humanidade. Observe que todos nós,
anjos, arcanjos e todas as hostes celestiais, possuí-
mos uma chama sagrada em nosso coração. Da
mesma forma que uma vela, ao acender outra vela,
não perde a sua chama, também os seres humanos e
os anjos, quando transmitimos nossa luz, não a per-
demos, ao contrário – a luz só se expande. Vamos
acendendo a luz de cada pessoa com eles. Quanto
mais damos sabedoria e amor, mais eles se intensifi-
cam. A sabedoria e o amor são diferentes das coisas
materiais. Quando damos um objeto a alguém, fica-
mos sem ele. Mas quando doamos amor e sabedoria,
não os perdemos. Agora possuis algo que nenhum
ladrão pode roubar; que ninguém pode destruir; que
as correntezas do tempo não degradam. Podem levar
tudo de ti, até mesmo tua vida física, mas a sabedoria
e o amor, jamais pode ser perdida. Cuida apenas,
como disse Jesus, em não dar pérolas aos porcos.
Mas distribua tua luz entre todos, sempre dentro de
capacidade individual de cada pessoa em acolhê-la.
Agora finalmente és um anjo na Terra.

428
SEMEANDO O BEM

Há alguns anos conheci uma pessoa chamada Valé-


ria. Essa moça realmente me surpreendeu pela sua
alegria de viver, seu sorriso contagiante, sua energia
e pelo caráter quase imperturbável de suas emoções.
Valéria estava sempre de bom humor. Mesmo nas
piores fases de sua vida ela conseguia manter uma
rara equanimidade, difícil de encontrar nos seres
humanos.

Certa vez resolvi perguntar a Valéria qual era o se-


gredo de tanta alegria e disposição, e sua resposta
me surpreendeu, ela disse: “Meu querido, sempre
que alguma circunstância desagradável, hostil, pe-
nosa ou desfavorável me acomete, eu procuro aben-
çoar aquela situação e envio amor a ela”.

Esse comportamento de Valéria muito me surpreen-


deu, pois nunca tinha ouvido falar de alguém que
“abençoasse” um acontecimento ruim. Ela exemplifi-
cou para que eu pudesse entender melhor: “Quando
algo negativo me acontece, eu sei que isso tem um
propósito, e por isso eu mentalizo a situação e envio
energias boas e positivas para ela. Quando fui demi-
tida, eu enviei amor e paz a essa situação; quando fui
traída, eu enviei o bem e o amor a essa pessoa;
quando eu fiquei sozinha, eu enviei bem, amor paz e
tranquilidade a isso, e sempre me sentia bem e em
paz”.

Valéria me explicou como fazia: “Vejo uma luz branca


ao redor de todo aquele contexto ou daquela pessoa,
e isso me faz sentir muito melhor. Eu passo a irradiar
amor e agradecimento pelo mal que chega até mim, e

429
aí está o mais importante, pois quando eu vibro o
bem para uma situação ruim, ela passa a ser boa, e
consequentemente, eu me sinto muito melhor”.

Houve uma ocasião em que Valéria foi roubada e


agredida por um ladrão na rua. O ladrão roubou boa
parte do seu salário. Ela ficou triste com isso, mas
chegou em casa e começou a vibrar positivamente ao
agressor. Mentalizou que as bênçãos de Deus des-
ciam sobre ele e que o homem se arrependia do que
fez. Valéria também usou a frase de Jesus, que dizia
“Pai, perdoa-o, pois ele não sabe o que faz”. Logo
após irradiar o bem ao ladrão, Valéria se sentia tran-
quila, despreocupada, sem raiva e com quase ne-
nhuma tristeza mais. Ela repetia esse procedimento
algumas vezes e depois de um tempo ficou se sen-
tindo bem melhor.

Para mim, qualquer pessoa que fosse roubada e


agredida por um ladrão ficaria triste, com raiva, irra-
diando ódio ao ladrão, mas Valéria fazia justamente
o contrário. Em vez de pensar o mal e com isso ali-
mentar o mal, ela pensava o bem àquela pessoa e
isso parecia neutralizar todo o mal e as emoções
ruins.

Ela me dizia “Isso é algo que qualquer pessoa pode


fazer. O que é do outro, deixe com ele… Você não
precisa ficar com o mal que não lhe pertence. Por
isso, irradie o bem mesmo a quem te fez muito mal.
O resultado disso é o bem que nascerá de dentro de
ti, te libertando-te de todo o mal”.

430
Depois de um tempo de convivência, comecei a imi-
tar esse método da Valéria. Abençoava o mal que me
faziam, abençoava as situações ruins, e via tudo
ficar bem, harmonizado e tranquilo. O resultado foi
um sentimento de bem estar e serenidade que há
muitos anos eu não sentia. Por isso, comecei a fazer
isso sempre, e hoje ensino as pessoas a realizar esse
ato tão simples que me foi transmitido, que é não
aceitar o mal dentro de mim e mandar o bem a pes-
soa ou situação que te fez sentir mal. Isso anula tudo
de negativo em nós e só fica o bem em nosso interior.
Mesmo que o outro queira meu mal e pense em me
destruir, a única coisa que ofereço a ele é o envio de
energias e emoções benéficas e elevadas.

Tente realizar isso em sua vida, e você verá como um


lindo e sublime despertar do bem nascerá de dentro
de você.

“Envie o bem a qualquer mal que te sobrevenha. O


bem que você emana e distribui é o mal que você
anula”.

“Pai, perdoa-os, pois eles não sabem o que fazem.”


(Lucas 23, 34)

431
O TRABALHO NO BEM

Havia um templo que era reverenciado como um dos


locais onde a vida espiritual era praticada em sua
forma mais elevada. Era um templo bem grande
onde havia muita paz e energias positivas. Só de en-
trar no local as pessoas já se sentiam tranquilas e
alegres.

Certo dia, um dos mestres do templo reuniu seus


discípulos e disse que transmitiria uma sabedoria
secreta para aquele que conseguisse realizar o maior
feito espiritual. Cada um dos discípulos foram então
demonstrando aquilo que, para eles, era algo muito
sagrado.

O primeiro discípulo iniciou a entoação do mantra


OM.

O segundo discípulo proferiu os ensinamentos mais


sábios dos livros sagrados.

O terceiro começou a meditar e conseguiu parar por


alguns segundos as batidas do seu coração, demons-
trando incrível autocontrole.

Um após o outro, os discípulos foram demonstrando


suas realizações.

Ao final, sobrou apenas um discípulo, que sempre


ficava deslocado da turma. Todos observaram qual
seria o grande feito espiritual que, por último, ele
resolveria fazer.

432
O discípulo, no entanto, despediu-se de todos, e foi
saindo do templo. Um dos discípulos, antes que sa-
ísse, perguntou:

– Espere. Onde você está indo? Não fará o feito mais


espiritual que o mestre pediu?

O discípulo respondeu:

– Sim, estou deixando este elevado templo para, a


partir de agora, viver entre os homens mais pobres e
ignorantes. Pois é entre eles que poderei realizar o
que, para mim, é o maior feito espiritual, que é levar
um pouco de sabedoria ao mundo.

O mestre, ouvindo o discípulo, disse:

– Este foi verdadeiramente o maior feito espiritual


realizado hoje: a renúncia de si mesmo em benefício
da humanidade.

433
AS SETE PEDRAS PRECIOSAS

Um sábio estava bem velho e sentiu que iria morrer


em breve. Por isso, chamou seu discípulo e disse que
lhe daria o seu maior patrimônio, que consistia em
sete diamantes muito raros e muito valiosos no
mundo. O discípulo ficou radiante, pois se tornaria
um homem muito rico.

O sábio então pegou sete pedras e entregou todas ao


seu discípulo. O discípulo observou as pedras e viu
que se tratavam de pedras comuns e não de diaman-
tes. O sábio disse:

– Preste atenção no que vou te dizer, pois essas pe-


dras que te entregarei são muito mais valiosas do
que diamantes, pois os diamantes te concedem bens
terrenos, que são passageiros, mas as sete pedras
preciosas da sabedoria não podem jamais perecer ou
morrer.

A primeira pedra preciosa é a coragem. Sem cora-


gem, você nada conseguirá fazer neste mundo. A
coragem é o motor de todas as realizações, até
mesmo da realização espiritual. A coragem impede
que o ser humano fique estagnado e preso, pois ela
sempre nos permite ir além sem medo. O medo nos
paralisa e nada é conquistado.

A segunda pedra preciosa é o respeito. O mesmo


respeito que você deseja que outras pessoas tenham
com você, tem também para com elas. O respeito é
pré-requisito fundamental para o bem viver; é a base
de qualquer tipo de relacionamento e convivência
entre as pessoas. Respeite para ser respeitado.

434
Mesmo que o outro não te respeite, respeite-o
mesmo assim.

A terceira pedra preciosa é a compaixão. Não acre-


dite naqueles que afirmam ser a compaixão uma
virtude dos fracos. Todo ser compassivo é forte por
natureza, pois a compaixão nos permite colocar-se
no lugar do outro, deixando momentaneamente
nossa visão limitada, e entrando no mundo de al-
guém. A compaixão nos propicia dar de nós mesmos,
sem que percamos aquilo que demos. Quem dá amor,
aumenta seu amor, quem transmite paz, aumenta
sua paz. Compaixão é desprendimento e força inte-
rior.

A quarta pedra preciosa é a fé. Aqui não falo de fé


cega, de obediência subserviente, de submissão por
medo de guiar a própria vida. Fé é entregar-se ao
poder superior com absoluta confiança de que a vida
tem um sentido, de que tudo tem um propósito, de
que todas as coisas são harmonia e ordem cósmica,
de que um ser superior, com vários nomes, jamais
nos abandonaria. Fé é certeza naquilo que não se
pode ver nem tocar, mas que sentimos como uma
chama de vida dentro de nós que serve como farol
mesmo na mais aterrorizante escuridão.

A quinta pedra preciosa é a equanimidade. Equani-


midade é o equilíbrio diante das oscilações e contra-
riedades da vida. É a tranquilidade na tempestade e
na bonança. É ser jogado pra lá e para cá pelo movi-
mento incessante da vida e não se abalar com isso.
Quem atinge a equanimidade não teme mais nada,
pois está sereno nos bons e maus momentos. Não se
deixa seduzir pela aparente estabilidade de cada

435
instante, e não se verga ao caos que se instala. Ser
equânime é cultivar uma força e uma fé inabalável
em qualquer situação.

A sexta pedra preciosa é a humildade. Ser humilde é


ter consciência de que sabemos muito pouco, que
ainda temos muito a aprender e que não somos me-
lhores do que ninguém. Humilde é aquele que ven-
ceu seu orgulho, sua vaidade e seu egoísmo. É aquele
que não despreza os outros e que sabe que a roda do
mundo gira, e se hoje estamos por cima, amanhã
podemos estar por baixo e vice versa. Humildade é a
consciência dos nossos limites; é a aceitação e a re-
signação diante da realidade da vida. Ser humilde é
ser simples… É olhar a vida com respeito e deixar
que tudo siga sem tentar barrar o fluxo incessante da
existência.

E finalmente, a sétima pedra preciosa. A sétima não


poderia ser outra senão o amor. É muito difícil de
definir o amor, pois é mais algo que nós sentimos do
que algo que podemos explicar. O amor é a união de
todas as anteriores, de modo que, aqueles que têm
amor, têm todas as outras pedras preciosas. O amor
deve ser incondicional, senão não é amor. O amor é
puro e claro, não tem preferências, não tem gosto,
não visa vantagens, não se queda, não tem interesses
nem limites. O amor é o objetivo da vida. Amor não é
sentimentalismo barato, não é chororô. Amor é li-
berdade, ternura, ajuda, tranquilidade, fraternidade
e bem.

Cuide bem dessas sete pedras, pois elas não se es-


vaem com o tempo e permanecerão com você por
toda a eternidade…

436
FAZER O BEM

Praticar o bem não é fazer tudo pelo outro.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos contrariar


uma pessoa e deixar que ele faça algo sozinha.

Para fazer o bem, algumas vezes precisamos deixar


que a pessoa caminhe por si mesma.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos saber di-


zer não na hora certa, e não nos submetermos aos
caprichos do outro.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos deixar


nossos filhos errarem sozinhos, pois só pela dura
experiência do erro cometido é que virá o aprendi-
zado e o amadurecimento.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos não res-


ponder uma pergunta, mas estimular uma reflexão e
deixar que o outro chegue a resposta sozinho.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos mostrar a


verdade ao outro, por mais doloroso que seja para
ela.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos dizer a


pessoa que ela está sendo invasiva e impor alguns
limites.

Para fazer o bem, algumas vezes devemos terminar


uma relação que já está desgastada e dissolver anti-
gas raízes de apego ao outro.

437
Para fazer o bem, algumas vezes devemos elucidar
comportamentos inoportunos que o outro insiste em
praticar.

Para fazer o bem, algumas vezes é necessário retirar


regalias, privilégios e confortos, para provocar um
movimento que levará a pessoa sair do comodismo.

Fazer o bem é dar com amor, mas o amor também


pressupõe retirar algo para que a pessoa aprenda a
conquistar sozinha.

438
A REAL NECESSIDADE

Um cristão estava desejoso por iniciar um trabalho


no bem, a fim de provar seu valor e vivenciar a pleni-
tude da máxima “Ama teu próximo como a ti
mesmo”. Por isso, decidiu que iria começar prati-
cando uma boa ação.

Estava caminhando tranquilamente na rua quando


olhou para uma velhinha que estava na faixa de pe-
destres olhando para o outro lado. Prontamente o
cristão se apressou em ir na direção da senhora, pe-
gar-lhe o braço e ajuda-la a atravessar a rua. Foi ca-
minhando com a senhora no sinal fechado e a deixou
sã e salva do outro lado da rua.

Assim que soltou seu braço, o cristão foi se despedir


da velhinha e estava esperando um “muito obrigado”
pela ajuda. No entanto, a velhinha olhou para o jo-
vem e disse:

– Meu querido, eu não queria atravessar a rua, ape-


nas parei próximo a faixa e olhei para o outro lado,
tentando ler um cartaz.

O cristão ficou envergonhado. Mas a senhora disse:

– Meu filho, não se preocupe. Você tem vontade de


ajudar o próximo e isso é muito bom. Porém, a partir
de hoje, sempre que você for se mobilizar para o
auxílio do seu próximo, procure, antes de qualquer
coisa, compreender o que o outro precisa realmente,
e não aquilo que você julga ser o melhor para ele.
Muitas vezes, o que nós acreditamos que o outro
precisa, não é o que ele necessita de fato. Não im-

439
porta se é parente, amigo ou desconhecido, o olhar
atento diante da real necessidade dos nossos seme-
lhantes é imprescindível para aqueles que desejam
ajudar.

440
CARIDADE

A caridade é parte da natureza das coisas.


Tudo o que existe vive dando de si.
As flores exalam seu perfume…
E nada pedem em troca.
O sol brilha e aquece os planetas…
E nada lhe podemos dar.
As árvores oferecem suas frutas,
Para o consumo de animais e homens.
A terra faz brotar a grama,
Que serve de alimento.
As nuvens regam a terra de água,
Impedindo que ela seque.
O universo é uma cadeia perpétua,
Um mecanismo ordenado de dar e receber.
Há uma verdade essencial,
Que não pode ser esquecida:
Quem dá, cresce;
Quem retém, perece.
Aprenda isso cedo, e viverás bem.
Aqueles que dão suas sobras, têm seu mérito redu-
zido.
Aqueles que dão de si mesmos
Esses são realmente virtuosos.
Observe um homem em posse de dois pães,
Que vê alguém passando fome,
Dá um pão e fica com outro.
Que mérito ele possui?
Observe outro homem faminto que tem somente um
pão,
Ele o reparte com outro faminto,
Que mérito ele tem?
Este último, sim, praticou a verdadeira caridade.
Quem tem pouco, e dá muito, é caridoso,

441
Quem tem muito e dá pouco, nada fez de digno.
Atente bem para isso:
Caridade, antes de dar algo,
É doar-se ao próximo, é dar de si mesmo.
Não reclame solicitando dádivas divinas,
Faça o que Deus e a natureza fazem,
Dê a outros, sem nada esperar em troca.
Assim estarás em harmonia com o ritmo da existên-
cia.
Tome a iniciativa e dê mesmo que nada possuas.
Acaso pensas que Deus te deixa faltar algo?
A inteligência divina te tira, para que aprendas a dar.
Não precisas dar algo que se tem,
Dê, antes de tudo, o que se é.
Mais do que provisões e coisas
Muitos precisam de amor e sabedoria.
Não te sacrifiques no ato de dar,
Se sentes a caridade como um exímio esforço,
Não ofertas com amor, e nenhum mérito conquistas.
Quem dá com amor, não sente qualquer sacrifício,
E tampouco qualquer perda.
Ninguém é tão pobre que não possa dar algo.
Não fique com medo das vacas magras,
Quem muito dá, muito receberá.
Quem pouco dá, pouco receberá.
Quem quer tudo para si, jamais estará satisfeito.
Viverá procurando nas posses,
O que elas não podem oferecer.
Quem faz uma oferta esperando receber seu qui-
nhão,
Deu para si mesmo, e não ao outro.
A caridade só é completa,
Quando é incondicional, sem qualquer expectativa.
Não faça como o orgulhoso que ostenta suas coisas,
E as perde, todas, após a morte.

442
Se a morte traz a perda forçada de nossas posses,
Antecipa-te a morte, e dê o que tens em vida.
Sê caridoso enquanto tens as coisas,
Não espere a vida lhe retirar o que não necessitas,
A vida nos faz perder o que temos,
Para nos ensinar o valor da caridade.
Não reclames que outros roubam teus bens,
Deixai, isso sim, de ter bens em excesso.
Se tu acumulas o supérfluo sem qualquer necessi-
dade,
Não precisa do que já possui,
Mas de algo que tu mesmo desconheces.

443
RESPEITO

Respeito é tratar o outro com a atenção que ele me-


rece.
É considerar que ele é um ser humano e tem o di-
reito de guiar sua própria vida.
O outro tem livre arbítrio e devemos permitir que ele
conduza sua vida como melhor lhe aprouver.
Respeito é dar espaço para que o outro caminhe na
direção que ele quer, e não pela via que nós julgamos
mais adequado.
Respeitar é deixar a vida fluir, sem ficar interferindo
na vontade do outro. Respeito é fazer ao outro exa-
tamente aquilo que esperamos que o outro faça co-
nosco.
Respeito é se colocar no lugar do outro e tentar en-
xergar um pouco a vida pela sua perspectiva.
Quem respeita não se sente superior a outras pes-
soas a ponto de decidir o que elas devem fazer.
Respeitar é não invadir o espaço do outro, não cer-
cear sua liberdade, não lhe ditar regras que vão con-
tra seus valores.
Respeitar é não impor, é não forçar, mas conceder
liberdade às escolhas pessoais.
Respeitar é não invadir aquilo que não nos pertence
ou não nos compete.
O respeito mútuo entre duas ou mais pessoas deixa a
vida mais leve, menos opressora.
Respeito é saber que todas as pessoas caem, todas
erram, todas fraquejam, todas tem limites, e por isso
todos devemos tratar com consideração e atenção
cada pessoa dentro de sua estrada.
Respeito é tratar com naturalidade as diferenças,
sem nos chocar com elas.
Respeito é reconhecer que todos somos diferentes e

444
que é na diferença onde reside o nosso desenvolvi-
mento e amadurecimento.
Portanto, vamos entender regras simples e perenes
da convivência humana:
Respeite para ser respeitado…
Ame para ser amado…
Faça o bem para se sentir bem…
O bem traz o bem, o mal traz o mal…
Cada um no seu canto, sem tentar mudar, impor,
obrigar, constranger, decretar ou mover o outro e o
mundo dentro da nossa visão.
Quando cada pessoa pratica a semeadura do res-
peito, tudo fica mais fluido, belo e tranquilo.
Respeito… é a pedra angular da sociedade humana e
da espiritualização da humanidade.

445
REFLEXÕES SOBRE A CARIDADE

Vamos expor alguns dos pontos mais importantes


para se compreender no que consiste a verdadeira
caridade. Esse guia serve para todos aqueles que
desejam enveredar por este caminho, ou que já reali-
zam algum trabalho ou projeto em benefício do seu
próximo.

Em primeiro lugar, a caridade deve ser sempre de-


sinteressada, sem se esperar coisa alguma em troca
pelo trabalho que se fez. Aqueles que fazem o bem e
desejam com isso obter algum tipo de compensação
ou gratificação não estão fazendo pelo outro, mas
sim para si mesmos; estão fazendo com seu olhar
voltado apenas aos benefícios futuros que vão rece-
ber. Esse princípio inclui religiosos que usam a cari-
dade para “comprar” quinhões no céu, ou para acu-
mularem um “bom karma”. Caridade deve ser sem-
pre totalmente desinteressada.

Como diz a sabedoria judaica, a caridade deve ser,


sempre que possível, anônima, caso contrário, será
apenas uma forma de vaidade, de projeção do pró-
prio ego ou de nossa imagem pessoal. Esse caso ex-
clui obviamente projetos em que seja necessária a
divulgação do nome dos envolvidos, ou quando al-
guém precisa se responsabilizar pelo trabalho em-
preendido. Mas tirando algumas exceções, é preciso
saber que, aqueles que ficam divulgando a caridade
podem estar mais preocupados com uma propa-
ganda em cima do seu próprio nome apenas para
impressionar os outros, sem estarem tão preocupa-
dos com seus semelhantes.

446
Caridade não deve ser uma atividade que gera pra-
zer, pois se gerar prazer, não é para o outro, mas
para nós mesmos. Isso significa que, se você faz algo
porque gosta do trabalho, a pessoa pode estar fa-
zendo apenas porque gosta, e não pelo trabalho em
si. Não que a pessoa precisa desgostar do que faz,
mas, como dissemos, se é uma atividade que gera
prazer, é preciso refletir se estamos trabalhando
pelo prazer de realizar esse projeto, ou pelo bem
estar do outro.

Não se deve fazer caridade apenas porque acredita-


mos ser “o certo” a se fazer, pois se acreditamos, por
exemplo, que toda pessoa boa precisa fazer caridade,
estamos fazendo apenas por julgar o certo, e não por
uma consciência verdadeira, por um desejo nascido
de dentro do nosso coração.

Qualquer sentimento de importância pessoal no ato


da caridade já tira qualquer valor da caridade.
Aqueles que procuram fazer o bem e se sentem me-
lhores do que aqueles que não o fazem, estão se dei-
xando levar pelas seduções do ego, e essa gratifica-
ção para o ego, que gera orgulho e vaidade, já é algo
contrário ao espírito de total desprendimento que
deve estar contido em todo ato de caridade.

Caridade exige sacrifício. Se uma pessoa não tira algo


de si mesma, e dá apenas o que está sobrando, ou o
que não precisa mais, isso não pode ser considerado
caridade. É como a história de Jesus e da pobre viúva,
que lançou como oferta apenas duas moedas. Jesus
disse: “Em verdade vos digo que lançou mais do que
todos, esta pobre viúva; Porque todos aqueles deita-
ram para as ofertas de Deus do que lhes sobeja; mas

447
esta, da sua pobreza, deitou todo o sustento que ti-
nha” (Lucas 21:3-4). Ela deu mais porque tirou de
tudo o que tinha, enquanto que outros deram apenas
o que lhes sobrava. Quanto maior o sacrifício pes-
soal, maior o valor espiritual da caridade.

Um ponto importante é o seguinte: a caridade deve


ser em todos os momentos, e não apenas em mo-
mentos específicos. Quem marca hora para fazer
caridade deveria saber que a caridade só é autêntica
quando está dentro de nós, em todas as nossas ações,
pensamentos e sentimentos. Ela não precisa ter hora
e lugar para acontecer. Por outro lado, não pode ser
considerado caridade as pequenas gentilezas do dia
a dia, como abrir a porta para uma mulher, ou ajudar
um idoso a carregar as compras. Caridade é algo
mais profundo do que ser prestativo em momentos
determinados.

Caridade não é ficar criticando tudo aquilo que não


concordamos, mas sim fazer aquilo que temos como
o melhor. Ao invés de destruir o que julgamos nega-
tivo, vamos construir do que julgamos positivo. Ao
invés de atacar aquilo que nos parece errado, vamos
promover aquilo que nos parece o correto. É melhor
plantar as sementes da árvore do bem do que tentar
destruir a árvore que, para nós, não dá bons frutos.

Caridade não é fazer o que você julga ser o melhor ao


outro. Caridade é investigar ao máximo o que real-
mente é o essencial ao próximo, e fazer o que é ne-
cessário. Muitas vezes temos uma visão pessoal e
fixa do que o outro precisa e na maioria das vezes
não temos a visão correta das necessidades reais do
outro. Por outro lado, muitas vezes acreditamos es-

448
tar fazendo o certo, mas estamos mais atrapalhando
a pessoa do que a ajudando.

Não é caridade ajudar pessoas que gostamos. A cari-


dade verdadeira está em ajudar as pessoas que não
gostamos. Ajudar pessoas que gostamos nada mais é
do que agir pelo nosso amor ao outro, e que mérito
há em se fazer o bem aqueles que nos fazem bem? Há
mérito, isso sim, em fazer o bem aqueles que nos
fazem mal. Aqui vemos um desprendimento que
pode ser considerado a essência de uma caridade
verdadeira.

Não acredite que sua ajuda é fundamental ao outro,


pois o que podemos fazer pelo outro é sempre muito
pouco. Somente a própria pessoa pode fazer algo
mais fundamental por si mesma. Aqueles que acredi-
tam que o outro não é capaz de fazer, e por isso pre-
cisam de ajuda estão se enganando, e também po-
dem estar caindo num jogo do próprio ego querendo
se sentir superior. Por isso que se diz que a melhor
ajuda é ajudar a pessoa a se ajudar. Conseguimos
fazer a diferença quando tornamos a pessoa inde-
pendente de nós e de outros. Quanto mais autonomia
conseguirmos dar a pessoa, mais próximos estare-
mos da verdadeira caridade. Ajudamos a pessoa para
que o mais rápido ela não mais precise de ajuda. Por
esse motivo, não faça caridade vendo o outro como
“coitadinho”, pois isso nada mais é do que outro ar-
tifício do ego.

Não faça caridade acreditando que você está bem e o


outro está mal, e por isso você deve ajuda-lo. Muitas
vezes quem ajuda está pior do que quem é ajudado, e
está apenas querendo desviar o foco das adversida-

449
des de sua vida e preocupando-se mais com os ou-
tros do que consigo mesmo. Quem tenta de todas as
formas ajudar os outros, e se coloca na posição de
“salvador”, muitas vezes pode estar fugindo da re-
solução dos seus próprios problemas usando uma
falsa “caridade” como subterfúgio.

Mas afinal de contas, quem faz caridade? Faz a ver-


dadeira caridade aqueles que não sabem exatamente
porque a estão fazendo, mas simplesmente fazem.
Como disse Jesus: “Mas, quando tu deres esmola, não
saiba a tua mão esquerda o que faz a tua di-
reita” (Mateus 6, 3). Eles praticam algo que está den-
tro deles mesmos, que sentem que devem fazer, ou
que tem essa certeza no fundo do seu coração. Faz a
caridade aquele que ajuda, mas nem sabe ou reco-
nhece que ajudou. Aquele que ajuda apenas por que-
rer ver o outro bem, sem esperar qualquer tipo de
recompensa…

450
O BEM CURA

Quando uma pessoa ataca a outra, pode ser que ela


tenha sido tão atacada na vida, que a única atitude
que conhece é o ataque.

Quando uma pessoa resolve assassinar a outra, pode


ser que ela já tenha sido assassinada e morta dentro
de si mesma, e por isso queira matar outros.

Quando uma pessoa é indiferente a outros, pode ser


que ela tenha medo da indiferença, e por isso, ela
resolva ser indiferente com outros para que outros
não sejam indiferentes com ela mesma.

Quando uma pessoa machuca a outra, ela pode se


sentir muito machucada dentro de si, e por isso sente
a necessidade de machucar outros para que fiquem
como ela.

Quando uma pessoa ofende a outra, ela pode ter sido


muito ofendida no passado, e por isso quer ofender
para que não se sinta ofendida.

O mal que alguém lança em nossa direção pode vir


de muitas experiências negativas, dores, ressenti-
mentos, traumas e feridas interiores.

Uma pessoa que pratica o mal pode ter o mal dentro


de si mesma, e por isso, quer fazer os outros senti-
rem esse mesmo mal que ela própria já sente.

Isso é como um pedido de ajuda feito da forma er-


rada.

451
As pessoas fazem a outros àquilo que elas experi-
mentaram e continuam experimentando de si mes-
mas.

Essa pessoa que faz o mal precisa mais de ajuda do


que de agressões; precisa de compreensão e não de
reclamação; precisa de cuidado e não de ofensas;
precisa de compaixão e não de massacre.

Ela já está doente, e por isso, quer passar essa do-


ença a outros. Ela já está ferida, e por isso, quer ferir.
Ela está mal e por isso, quer o mal dos que a ro-
deiam.

Não tenha raiva daqueles que praticam o mal. Antes


de tudo, tente compreender seus motivos, as causas
de tudo, as batalhas interiores que elas travam diari-
amente.

Se um dia você errar, gostaria de que alguém o per-


doasse; se um dia você cair, gostaria de ter alguém
para te ajudar a levantar; se um dia você perder, gos-
taria de ter alguém para te consolar.

Vamos responder ao mal com o bem. O bem cura


todas as feridas e neutraliza o mal.

452
O AMOR TRANSFORMA

João quase sempre chegava em casa e era recebido


por sua esposa com mau humor. O homem regres-
sava cansado de seu trabalho e sua mulher o tratava
com irritação. Certo dia, após a esposa brigar com ele
aos berros, João disse: ” Meu amor, não me importa a
sua irritação, o seu nervosismo. Eu te amo e te aceito
como você é. Você é muito importante para mim e
sou grato a Deus por ter enviado uma mulher tão
maravilhosa na minha vida”. A esposa de João ficou
atônita com aquelas palavras, desculpou-se com ele e
nunca mais o tratou com irritação.

Sueli e Juliana eram madrasta e enteada. Sueli era


uma pessoa neurótica com arrumação e sempre re-
clamava da falta de ordem na casa. Juliana, que era
adolescente, ficava em casa e sofria com a neurose de
Sueli. Por mais que Juliana arrumasse suas coisas,
Sueli sempre encontrava algo fora de lugar e vinha
reclamar. Juliana estava ficando muito nervosa com
essa situação e muitas brigas se iniciaram. Juliana viu
que essas confusões não levariam a lugar nenhum.
Certo dia, Sueli estava quase bufando de raiva com
um copo deixado sem querer por Juliana em cima da
mesa. Sueli reclamou, gritou e Juliana, calma, disse:
“Sueli, eu considero você como uma mãe pra mim.
Depois que minha mãe faleceu, você procura cuidar
de mim do seu jeito. Por isso, eu quero dizer que te
amo e quero seu bem”. Juliana abraçou Sueli, que
começou a chorar. O relacionamento de ambas co-
meçou a mudar a partir desse dia.

Paulo e Roberto trabalhavam na mesma empresa,


mas não se entendiam. Um Paulo vivia jogando tra-

453
balho a mais para Roberto e reclamando dele ao
chefe. As brigas viraram rotina e estavam atrapa-
lhando a produtividade da empresa. Roberto já não
sabia mais o que fazer com essa situação. Certo dia,
Paulo veio reclamar de um trabalho atrasado que
Roberto ainda não tinha entregado, embora ainda
estivesse dentro do prazo de entrega. Roberto virou-
se para Paulo e disse: “Paulo, você pode não perce-
ber, mas eu o respeito muito como profissional e
apesar de tudo, acho você uma pessoa boa. Eu gosto
de você e sei que você tem um bom coração”. Ro-
berto abraçou Paulo, que ficou surpreso com sua
reação. Paulo agradeceu e nunca mais houve conflito
entre ambos.

A melhor forma de quebrar a raiva, a irritação e o


mau humor de alguém que vem brigar e reclamar
conosco, é responder amorosamente, de forma tran-
quila e afetuosa. Mudamos nossa sintonia e dissol-
vemos as emoções negativas, tanto nossas quanto do
outro. Quando alguém vier brigar com você, te des-
respeitar, tentar de tirar do sério, haja com carinho,
com amor e respeito. Mesmo que o outro insista em
te agredir, trate-o com amor e respeito. O amor des-
faz qualquer desavença e cura nossas feridas.

454
AMOR INCONDICIONAL

O amor verdadeiro, o único que existe, é o amor in-


condicional.
Amor incondicional é aquele que não depende de
nenhuma condição para existir.
Este é o amor dos santos, dos sábios, dos avatares,
do Cristo e de Deus.
É o amor de Deus e o amor que nos aproxima de
Deus.
Quando o amor depende de condições externas, ele
pode ser tudo… menos amor.
Quem ama por alguma condição, verá seu suposto
amor acabar,
Pois todas as condições externas um dia perecerão…
Ninguém pode amar uma pessoa e querer que ela
mude ou que ela seja diferente do que ela é.
Pois se você quer que ela mude, já não ama a pessoa,
pois a pessoa é do jeito que é.
Se você acredita que ama uma pessoa, mas só a ama
se ela fizer o que você quer, isso não é amor, é ego-
ísmo.
Só existe amor quando há aceitação plena do que a
pessoa é.
O amor verdadeiro, que é sempre incondicional,
Não se importa com forma, com condições, com situ-
ações agradáveis ou desagradáveis.
O amor não cobra nada, não exige, não quer algo.
Quem cobra mudanças de alguém que crê amar, não
ama a pessoa em si,
Ama apenas a idealização criada de como a pessoa
deve ser.
Se você quer que alguém corresponda ao seu desejo,
Você não ama a pessoa, você ama o seu desejo; você
ama o que existe de seu no outro.

455
Quando você ama e quer que o outro se encaixe em
seus padrões,
Você não ama o outro, você ama a si mesmo no ou-
tro.
Amor incondicional também não é sacrificar-se pelo
outro e sofrer, pois quem ama não sofre por não es-
perar nada do amor.
Entenda que: quem ama, nada espera…
E por isso, não sofre esperando por recompensas
que podem não vir.
Quem ama, não quer possuir o outro, nem tirar sua
liberdade,
Pois é na liberdade que o ser amado mais expressa
quem ele é.
E quem diz “Eu te amo, mas somente se você me
amar.”
Esse já não ama, mas quer uma troca.
O amor não pode ser regulado por barganhas…
Pois esperar qualquer benefício pelo amor, não é
amor, é ganho pessoal,
É para o ego… e não para a alma.
Por outro lado, se você ama alguém e despreza a si
mesmo.
Isso não é amor, é submissão.
Pois não se pode amar o outro e não gostar de si
mesmo.
O amor incondicional quer ver sempre o outro feliz,
O amor ilusório quer que o outro nos faça felizes.
A paixão pode ou não dar certo,
O amor incondicional já deu certo desde sempre.
O amor recebe quando dá…
E dá quando recebe.
O amor apenas dá e nada espera receber.
Ele apenas sente e não pede explicação.
Ele apenas é… sem nenhuma preocupação.

456
O amor não é do ser humano, mas do espírito imor-
tal.
Se um dia você tiver dúvida sobre como agir,
Não tenha receio, apenas ame…

457
DAR E RECEBER

Para receber o amor, dê o amor.


Para receber a paz, transmita paz.
Para receber a luz, seja luz.
Para receber o perdão, perdoe.
Para receber a riqueza interior, abra mão das rique-
zas ilusórias.
Para receber o respeito, respeite.
Para receber o carinho, dê carinho.
Para receber o mérito, faça por merecer.
Faça ao outro aquilo que você espera receber do
outro.
Seja no mundo aquilo que você acredita que o
mundo deve ser.
Deixe a vida fluir através de você…
Deixe o universo se expressar por seu intermédio…
Permita que Deus ecoe dentro de você…

458
PREOCUPAÇÃO COM OS OUTROS

Um dos comportamentos mais comuns no ser hu-


mano é a preocupação com os outros.

Há muitas mães que se preocupam com seus filhos.


Há pais com a mesma preocupação. Há o irmão que
se preocupa com a irmã. Há avós que se preocupam
com seus netos. Há filhos preocupados com seus
pais. Há também pessoas que se preocupam com
seus amigos. Não sabemos se o outro está seguindo
um bom caminho e por isso nos preocupamos. Mui-
tas vezes nossos filhos entram em situações negati-
vas, que vão prejudica-los imensamente, e nós sen-
timos que devemos intervir, mas muitas vezes não
podemos. Em outras ocasiões, projetamos no outro
nossos próprios carências e preocupações, e tolhe-
mos sua vida com base em nossos medos e incerte-
zas.

É muito comum ver pais preocupados com os filhos


que chegam tarde em casa, que usam drogas, que
viajam, que se relacionam com um grupo de pessoas
que consideramos “barra pesada”, que estão mal na
escola, ou que atravessam qualquer outro tipo de
situação. Na visão dos pais, eles estão trilhando um
caminho que irá destruir suas vidas. Mas será que
isso é mesmo verdade?

Do ponto de vista da lei do karma e da reencarnação,


nenhuma dessas preocupações se justifica. Ninguém
deveria se preocupar com ninguém, por um motivo
muito simples: cada pessoa vive as experiências que
precisa viver. Cada pessoa está sintonizada, dentro
das leis naturais, com as situações que são as mais

459
propícias de gerarem um aprendizado para seu espí-
rito. Não há ninguém nesse mundo que esteja vi-
vendo uma circunstância de vida que não precise
viver, pelo simples fato de que as almas encarnadas
precisam experimentar tudo aquilo que necessitam
para seu aprendizado. As pessoas que se preocupam
precisam, em primeiro lugar, ter fé em Deus, desper-
tar a convicção íntima de que Deus está em tudo e
que tudo o que acontece é uma manifestação da rea-
lidade divina. Ninguém deve se preocupar com o
outro, pelo simples fato de que, se o outro está
imerso numa condição de vida, é exatamente dessa
condição que ele necessita para crescer e evoluir. Se
é assim, para que se preocupar?

Aqueles que estudam o espiritualismo sabem o


quanto é comum ver espíritos de pessoas que acaba-
ram de desencarnar super preocupados em deixar
seus entes queridos abandonados ou “desprotegi-
dos” aqui nesse mundo. A preocupação do espírito
recém desencarnado com os familiares que ficaram
na Terra pode até mesmo leva-lo a se prender ao
mundo, tornando o que se denomina de “espírito
preso a Terra”, que fica vagando pela matéria ten-
tando “salvar” seus filhos, irmãos, pais, amigos, etc.
Nesse caso, a preocupação com eles é um forte ob-
jeto de apego, que pode prejudicar imensamente
tanto o espírito quanto o encarnado.

Uma mãe que desencarna e fica preocupada com o


filho pode se ligar a ele por laços obsessivos, e pode
transmitir preocupações, pensamentos negativos,
tentar guiar e manipular inconscientemente seu filho
e até mesmo transmitir-lhe doenças. Tudo isso pela
“preocupação” em deixar o filho abandonado e des-

460
protegido aqui nesse mundo. O fato é que ninguém
nunca está desprotegido; ninguém fica sozinho; nin-
guém fica nunca abandonado; ninguém está necessi-
tado ou destruído no mundo material: os espíritos
que aqui ficaram vivem as experiências que preci-
sam, que escolheram viver, e que são necessárias ao
seu adiantamento, além de viverem aquilo que me-
recem viver com base na lei do karma.

As preocupações, além de não ajudarem, ainda po-


dem nos fazer intervir no caminho que uma pessoa
escolheu para si mesma, e prejudica-la ainda mais.
Por outro lado, ninguém pode ajudar alguém que não
quer ajuda. Por mais que tentemos, se a pessoa qui-
ser continuar sofrendo, é isso que deverá ocorrer até
que ela mesma decida se libertar de seu cárcere.
Muitas pessoas têm a ilusão de terem algum tipo de
poder sobre as outras. Elas acreditam que podem
ajuda-las de diversas formas, ou mesmo evitar certos
conflitos e sofrimentos, mas isso é falso, e muitas
vezes essa ideia vem de um orgulho de nossa parte:
primeiro por julgar que sabemos melhor do que o
outro o que é bom ou ruim para ele, segundo porque
julgamos ter um poder que não possuímos. É preciso
compreender, de uma vez por todas, que ninguém
tem poder de mudar a vida de ninguém. Só a própria
pessoa tem esse poder sobre si mesma.

Portanto, jamais se esqueça de que toda preocupação


com o outro é vã, sem sentido, vazia e desnecessária.
Cada espírito que vem ao mundo vive as experiên-
cias que precisa e merece, sem qualquer desvio, e
mesmo que haja algo que possamos chamar de “des-
vio”, se a pessoa enveredou por esse caminho, é por-
que ela assim quis, e se ela o escolheu, é porque pre-

461
cisa das experiências que se encontram no final do
caminho escolhido. Não perca sua tranquilidade com
milhares de preocupações. Tenha fé em Deus e nas
leis divinas. Preocupação com o outro é falta de fé
em Deus, é ausência de entrega ao plano infinito e
divino no qual tudo está inserido. Ninguém fica des-
protegido nesse mundo, assim como ninguém está
protegido de si mesmo e das experiências que são
necessárias para seu espírito. O que chamamos de
desproteção, abandono ou sofrimento são apenas
fases de uma alma que precisa passar pelo vale de
lágrimas do mundo físico para amadurecer e seguir
em frente em sua preparação para a vida eterna.
Liberte-se de todas as preocupações e viva em paz.

462
A ESTRADA DA VIDA

Certa vez eu tive um sonho muito revelador…


Sonhei que estava num vale lamacento meio escuro e
de uma extensão que os olhos eram incapazes de
abarcar. Neste vale eu vi atravessarem dezenas de
milhares de almas, cada uma delas caminhando por
cima de uma lama de cor marrom-escura. O local era
meio lúgubre, obscuro, tétrico.

Comecei a caminhar por toda a sua extensão, por


horas e horas a fio. Vi as almas peregrinando pelo
vale e cada uma levando consigo alguma bagagem,
uma espécie de sacola com alguns dizeres. Vi pessoas
carregando um saco escrito “crenças”; outras estava
escrito “carreira”; em outras se podia ler “filhos” ou
“esposa” ou “pais”; algumas continham a palavra
“comida”, “bebida” ou “vícios”; cada qual carregava
um saco, maior ou menor, onde continha a imagem
de seus apegos. Os sacos mais pesados que pude ver
estavam escrito “medos”; outros estava escrito “má-
goas”; nos sacos maiores e mais pesados estava es-
crito “orgulho”, “egoísmo” e vi vários escrito “vai-
dade”. Tudo isso que essas almas carregavam lhes
criava uma carga maior ou menor, com mais peso ou
menos peso.

O drama que elas viviam era ter que atravessar todo


aquele lodo com sacos ou bagagens tão pesadas, e
conseguir seguir em frente. Pude notar almas cru-
zando a lama que começavam a afundar; outras, que
carregavam sacos mais pesados, submergiam ainda
mais; havia algumas almas que, de tanto fardo que
levavam consigo, já não podiam sequer prosseguir, e
acabavam afundado até o pescoço, incapazes de se

463
mover. Mas mesmo essas almas que estavam no
fundo da lama não soltavam o saco pesado que con-
duziam pelo vale. Quanto mais pesado era o saco,
mais a alma afundava e mais presa ficava.

Continuei caminhando e vi almas nas mais diversas


situações. Vi também miríades de focos de luzes que
desciam do céu e se aproximavam das almas no
fundo da lama, pedindo que largassem o saco, para
que ficassem mais leves e pudessem ser resgatadas.
Muitas delas, mesmo presas até o pescoço, se recu-
savam a soltar sua carga pesada. “Você ficará presa
até soltar seu peso” disse um foco de luz. “Não quero
soltar” disse a alma cujo saco estava escrito “orgu-
lho” e que estava totalmente envolvida pela lama e
incapaz de se mexer. Mesmo estagnada e presa, elas
se agarravam fortemente ao seu objeto de apego e
ficavam lá, paradas, afundando.

Algumas almas tentaram construir casas, palácios e


fixar moradia definitiva. No momento em que termi-
navam suas construções, sua residência começava a
afundar, e elas passavam a sofrer pelo sentimento de
perda. Algumas eram tomadas pela lama junto com
suas criações. Outras ficavam com medo de andar e
afundar, mas, por incrível que pareça, mesmo para-
das elas afundavam lentamente. Quem não seguisse
em frente, naufragava inevitavelmente no excruci-
ante lamaçal.

Caminhei mais e mais, por dias ou até semanas, e vi


também umas poucas almas que não levavam coisa
alguma consigo. Essas andavam bem mais rapida-
mente, deixavam as outras para trás, e nessa condi-
ção, não afundavam. Observei outras almas que leva-

464
ram seus sacos por muito tempo, mas num certo
momento se cansaram de carregar tamanho peso e
soltaram tudo pelo caminho, conseguindo assim sair
da lama e avançar mais rapidamente. Pude perceber
que essas almas mais desprendidas começavam a
chegar num local onde existia mais luz, um espaço
infinito, com grama verde, muitas flores, pássaros
cantando, uma brisa suave e impregnado de muita
paz e alegria.

Continuei andando e ouvi uma voz suave, nem mas-


culina nem feminina, dizendo: “Este é o nosso
mundo…”

Fiquei espantado com aquela revelação. “Por que


seria o nosso mundo?” perguntei.

O ser luminoso me respondeu:

“As almas que aqui caminham erráticas pelos firma-


mentos efêmeros, movediços e oscilantes do mundo
material, não adquiriram a compreensão de que o
mundo físico é instável e sujeito a transformações
constantes. A inexorável transformação do universo
composto de matéria captura as almas que nele se
apegam e as prende até que elas decidam soltar toda
a carga ilusória acumulada.”

Isso parecia fazer todo o sentido. Perguntei aquele


ser de luz que lição se podia tirar de tudo aquilo, e
ele respondeu:

– Em pouco tempo você vai acordar deste sonho, mas


lembre-se desse ensinamento: a vida é uma traves-
sia, não tente montar acampamento nem conduzir

465
cargas pesadas, pois você se prenderá e sofrerá.
Apenas cruze o vale do mundo, todo ele. Não fixe,
neste local transitório, a sua morada.

466
O CONSOLO ESPIRITUAL

Muitas pessoas pensam que o caminho espiritual


deve ser apenas consolador.
O espiritual deveria, nessa visão, servir apenas para
dar conforto, equilíbrio, proteção ou sustentação
emocional.
No entanto, a verdade é que a espiritualidade deve
promover uma transformação íntima na pessoa.
Deve promover uma revisão de conceitos, uma que-
bra de condicionamentos, um rompimento com
crenças ou uma soltura de apegos.
Muitos sonham com a paz espiritual, com as belezas
do bem maior, idealizam hostes celestiais que nos
amparam.
A maioria quer apenas receber energias positivas,
mas não quer dá-las a outros e nem gera-las em si
mesmas.
Se desejamos a luz, devemos acender a luz dentro de
nós, e não esperar que ela venha de fora.
Se desejamos a paz, devemos cultivar a paz interior,
e não esperar que seres espirituais nos insuflem com
o sopro da paz.
Se desejamos o bem, devemos ser a expressão e a
personificação do bem, e não apenas pedir a Deus
que tudo fique bem em nossa vida.
Quem sonha apenas com seres de luz acaba ficando
cego diante de sua própria escuridão interior.
Mas é necessário encarar nossa obscuridade, para
que ela se dissipe, e se faça a luz.
Espiritualidade não é conseguir coisas do mundo,
não é orar para Deus resolver nossos problemas.
Espiritualidade é viver uma eclosão de energias que
provocam uma catarse que nos liberta e nos eleva.
Quem espera que Deus o acolha em seus braços e o

467
tire das provações, está vivendo uma ilusão espiri-
tual.
O espiritual deve mexer profundamente dentro de
nós, abrir nossos olhos, ser a luz no meio das trevas
que são esse mundo.
O espiritual deve nos fazer ascender, e não nos aco-
modar; deve nos fazer avançar e não parar; deve nos
jogar no real e não nos tirar dele.

468
MEU QUINTAL

Faça um buraco para outros caírem,


E cairás nele.
Construa uma barreira de pedra no caminho,
E ficarás impedido de passar.
Dê veneno a uma pessoa,
E o envenenado serás tu.
Bote fogo em outro, e te queimarás.
Coloque uma pedra no caminho,
E tropeçarás nela.
Fira outrem, e serás ferido.
Viva com ódio, e te odiarão.
Mergulhe na cobiça,
E tudo começará a te faltar.
Tome a iniciativa de ajudar,
E serás ajudado.
Peça algo para outrem,
E tu o receberás.
Prenda, e serás preso.
Solte, e te soltarás.
Quanto mais espalhas o amor,
Mais amor retorna a ti.
Pense no mal, e te sentirás mal.
Pense no bem, e te sentirás bem.
Do que plantares em teu quintal,
A colheita será abundante.

469
MENSAGENS SOBRE AS LEIS
NATURAIS DA VIDA

PRINCÍPIOS ESPIRITUAIS DA VIDA

Vejamos alguns dos mais importantes princípios


espirituais da vida:

O primeiro princípio espiritual da vida nos revela


que tudo o que existe faz parte de Deus, está dentro
de Deus, vive com Deus e principalmente é Deus.
Todas as coisas possuem uma natureza divina que
reside latente dentro de si mesmas. Do ser mais infe-
rior ao mais superior, da bactéria ao sol, da molécula
ao anjo, dentro de toda a escada da evolução univer-
sal, tudo faz parte da perfeição divina. Estamos ainda
inconscientes dessa divindade que carregamos nos
recônditos mais profundos de nós mesmos, mas essa
essência existe, ela está lá, esperando a hora de se
manifestar em toda a sua pureza e plenitude. Saber
que a perfeição reside latente em nosso ser é um
alento que devemos levar para sempre.

O segundo princípio nos informa que tudo faz parte


de tudo. Temos o todo dentro de nós mesmos, somos
formados pelo mesmo material cósmico das estrelas,
das galáxias, dos universos visíveis e invisíveis. Toda
a composição universal está presente em nós. Somos
um todo em miniatura. Somos uma partícula de todo
o universo e temos todo o universo dentro de nós. O
espírito que somos é infinito e eterno.

470
O terceiro princípio espiritual da vida nos mostra
que todas as coisas tem um propósito, uma finali-
dade, um ideal mais profundo a ser alcançado que
nem sempre percebemos em nossa limitada visão.
Qualquer sofrimento, qualquer situação difícil, dores,
provações, tudo isso tem um sentido mais profundo
que ainda somos incapazes de compreender mais
profundamente. Despertar a consciência de que tudo
na vida tem um sentido, um significado divino, um
propósito superior nos assegura uma vida de fé, de
confiança total nos planos de Deus. Uma criança não
entende porque faz certas coisas, como se alimentar,
se vestir, tomar remédios, etc. Mas quando crescer e
se tornar adulta, entenderá tudo o que seus pais fize-
ram com ela. Assim também são os planos de Deus
para seus filhos humanos, onde tudo sempre tem um
sentido, e nada ocorre por acaso.

O quarto princípio da vida nos faz compreender que


tudo está interligado. Não estamos separados uns
dos outros. Há um fio da vida, um tecido cósmico que
une todos os seres do universo, formando uma uni-
dade inquebrantável. É como se todos os seres do
universo fossem como pedras preciosas num infinito
colar divino. Todas as pedras do colar, que é o espí-
rito de cada ser, está ligado a todas as outras pedras
preciosas por um fio inconsútil. Esse fio passa pelo
centro eterno e espiritual de cada um de nós e nos
conecta a tudo e todos igualmente. Não há um só ser
ou coisa em todo o cosmos que esteja separado de
tudo e não esteja ligado a todos por esse colar di-
vino. Esse princípio nos leva a uma consideração
muito verdadeira. Se eu não estou separado de você,
não posso te agredir, pois estarei agredindo a mim

471
mesmo; não posso te ofender, pois estarei ofendendo
a todos; não posso te matar, pois estarei matando a
mim mesmo e também um plano maior da Criação.
Vivemos numa infinita multiplicidade cujo elo é uma
unidade essencial.

O quinto princípio fala da verdade das transforma-


ções do cosmos. Tudo no universo muda, se trans-
forma, se move e vibra. Nada está parado, estagnado
ou preso. Tudo corre, tudo flui, todas as coisas exis-
tem numa torrente de vibrações que nunca se esgota.
Por esse motivo, ninguém deve paralisar ou imobili-
zar sua vida, pois a corrente sempre nos leva que-
rendo ou não. Devemos sempre acompanhar o
eterno fluir da existência e seguir em frente, mesmo
diante do maior sofrimento. Quem para, perece.
Quem flui com a corrente cósmica, vive e renasce.

O sexto princípio nos fala da consciência de que tudo


está em seu devido lugar; tudo é sagrado e em tudo
existe uma ordem, mesmo na aparente desordem. Os
gregos chamavam esse princípio de “cosmos”, a
harmonia universal, a ordem da vida. Não há coisa
alguma que esteja fora do seu lugar. Todos os seres e
coisas estão exata e matematicamente onde deve-
riam estar. Havendo outro lugar melhor para você
em todo o universo, a inteligência divina trata de
retira-lo de onde você estiver e colocado-lo em outro
local. Você vive a vida que tem que viver; você faz o
que tem que fazer; o que te acontece é exatamente o
que você precisa e merece dentro de tudo o que você
criou ao longo da eternidade. Portanto, não acredite
que as coisas estão erradas para você, pois tudo está
exatamente como deveria estar. Não existem erros,
tudo está absolutamente correto e perfeito.

472
O sétimo princípio fala sobre as aparências que re-
vestem as essências. Cada ser e coisa que existe no
cosmos possui uma aparência que esconde a sua
essência real, aquilo que ela é de verdade. As aparên-
cias encobrem o mundo real, a verdade que reside
em tudo. Nossos sentidos nos enganam. Eles criam
formas, imagens, sonhos, quimeras e dissimulações.
A mente nos ludibria criando exterioridades e ex-
pressões diversas. O ser humano vê a aparência e
acredita que ela seja a realidade, mas não é. É preciso
ver além das aparências, e buscar a essência mais
profunda de todas as coisas. Somente indo além do
véu, da túnica, do manto ilusório da existência é que
poderemos ver as coisas como realmente são. Não
somos uma aparência humana num mundo de apa-
rências, somos uma essência infinita que reside no
seio do infinito.

473
O OUTRO LADO DA VIDA

Um discípulo procurou seu mestre e perguntou:

– Mestre, como posso saber se existe mesmo vida


após a morte?

O Mestre olhou para ele e respondeu:

– Encontre-me novamente após o sol se pôr.

O discípulo, meio contrariado, esperou algumas ho-


ras, ansioso pela resposta.

Logo que o sol se pôs, o discípulo voltou à presença


do mestre. Assim que o discípulo apareceu, o mestre
afirmou:

– Você percebeu o que houve? O sol morreu…

O discípulo ficou sem entender nada. Julgou que se


tratava de uma brincadeira do mestre.

– Como assim mestre? Perguntou o discípulo. O sol


não morreu, ele apenas se pôs no horizonte.

O mestre disse:

– Exatamente. O mesmo ocorre com todos nós após a


morte. Se confiássemos apenas em nossa visão física,
nos pareceria que o sol deixou de existir atrás da
montanha. Mas no instante em que ele “morreu” no
horizonte para nós, ele nasceu do outro lado do
mundo, e se tornou visível para outras pessoas. O
mesmo princípio rege a nossa alma. Após a morte do

474
corpo, nossa alma parece desaparecer aos nossos
olhos, mas ela nasce no plano espiritual. A chama do
espírito não se apaga, ela apenas passa a brilhar no
outro lado da vida.

475
A PARÁBOLA DO DESERTO E DO MUNDO

Uma das parábolas mais significativas sobre a condi-


ção humana neste mundo é chamada parábola ou
alegoria do deserto. O deserto possui um simbolismo
vasto e muito importante, mas em linhas gerais ele
representa o local desprovido de vida, de água, onde
tudo é hostil, onde há carência de recursos naturais,
onde há muito calor e muita sede.

O deserto é o local das provações, das situações-li-


mite, da exacerbação dos sentidos e do vazio. O lugar
onde nossa natureza material e instintiva fala mais
alto do que nossa natureza mental ou espiritual. Pelo
mesmo motivo, é considerado o espaço da provação
e de posterior purificação do espírito humano. Jesus
passou 40 dias e 40 noites do deserto. Segundo o
relato bíblico, ele teria passado esse tempo no de-
serto para sofrer determinadas provações, e assim,
se purificar e ascender espiritualmente.

Assim, a parábola diz que haviam pessoas muito in-


teligentes e sábias que viviam num país de exube-
rante beleza e abundância de recursos naturais. As
pessoas viviam muito bem, eram muito felizes e nada
lhas faltava. Elas experimentavam uma plena har-
monia com o meio natural, com as plantas e com os
animais da criação. Num dado momento, essas pes-
soas sentiram certo tédio nesse local, pois nada
ocorria de diferente ali. Decidiram então que iriam
viajar para conhecer novos lugares. Juntaram bas-
tante comida e água para os próximas semanas e
meses em suas bagagens e partiram. Começaram a
conhecer muitos lugares, percorreram terras próxi-

476
mas e depois adentraram em terras muito distantes
do seu país de origem.

Penetraram num local deserto, que eles nunca ha-


viam visto antes. Era um lugar ermo, de temperatura
muito elevada de dia e muito frio durante a noite.
Foram caminhando por esse local desconhecido e
começaram a sentir muita sede. Beberam toda a água
que tinham trazido e após algum tempo, a sede vol-
tou e ficou muito forte.

Eles encontraram um abrigo embaixo de uma rocha.


Havia uma pequena quantidade de água, porém im-
pura, que eles passaram a beber para sobreviver.

Conforme o tempo foi passando, eles ficaram ma-


gros, pois a alimentação era escassa, e precisaram se
alimentar de pequenos animais, insetos e a beber a
água impura dessa fonte. O tempo passou em anos e
depois décadas. Essas pessoas foram obrigadas a
ficar muito tempo nesse deserto, e por isso, esquece-
ram de seu local de origem, um país rico, próspero,
com muitos recursos naturais, muito verde, muitos
animais, flores e pessoas felizes.

Depois de certo período, perderam os últimos res-


quícios de memória. Passaram a acreditar que só
existia aquela região vazia e que a vida e sua reali-
dade se resumia apenas àquele seco, severo e inós-
pito deserto. Muitos tentaram se movimentar e pro-
curar melhores condições, mas como no deserto o
espaço é muito semelhante, tudo é muito parecido,
eles acabavam andando em círculos e quase sempre
retornavam ao ponto de partida.

477
Qual o significado deste conto? O país rico e de natu-
reza exuberante é o plano divino, que é a origem de
todos os seres. Num dado momento, os seres senti-
ram o tédio da repetição e por isso desejaram explo-
rar outras regiões cósmicas, para conhecer algo que
fosse diferente e variado. Com essa escolha, foram
criando zonas cósmicas diversas e assim começaram
a se afastar cada vez mais do plano divino. Chegaram
a uma região do cosmos onde tudo faltava, era es-
casso, vazio e hostil, que é o nosso mundo, simboli-
zado na parábola como o deserto. A sede provocada
pelo deserto representa a ânsia dos desejos e nossa
necessidade de satisfazer os prazeres do mundo. O
calor representa a exacerbação dos sentidos que a
experiência no mundo provoca e o frio da noite re-
presenta a frustração e a depressão que sempre vem
em decorrência dessa não satisfação daquilo que
desejamos.

Já a falta de memória no deserto representa o afas-


tamento de Deus e o esquecimento do espírito de sua
origem divina, ou o rompimento de sua ligação com
sua essência. Os seres passam a acreditar que só
existe aquele deserto, pois não conseguem mais sair
de lá e ficam presos. Com a perda de memória, não
conseguem imaginar outro lugar melhor e creem que
toda a vida está ali, naquele deserto. O mesmo ocorre
em nosso mundo: com a perda de nossa percepção
espiritual, passamos a crer que só existe o nosso
mundo e que não há outras dimensões e realidades
em todo o cosmos.

O fato do espaço no deserto ser muito parecido num


local e em outro local representa nossa dificuldade
de aprender coisas novas, por conta de nossa mes-

478
mice de crenças, comportamentos e atitudes, cau-
sado por um bloqueio autoimposto em nossa consci-
ência. Quando se tenta caminhar, vemos tudo igual,
pois em nossa consciência tudo é basicamente igual.
Por isso, cometemos os mesmos erros, não apren-
demos com eles, e assim se diz que andamos em cír-
culos. Para escapar do deserto e dessa vida de total
ausência, é necessário seguir em frente sem cami-
nhar em círculos. Isso implica abrir nossa consciên-
cia e seguir firme em nosso propósito espiritual.
Quem caminha num firme propósito, aprendendo e
seguindo em frente, sem apego, consegue finalmente
sair do deserto.

479
ENSINAMENTOS DE VIDA

Qual a maior realização? O encontro consigo mesmo.


Qual a melhor forma de aprender? Com os próprios
erros.
Qual a melhor orientação de certo e errado? A cons-
ciência.
Qual a maior virtude? A humildade.
Qual a melhor forma de tratar o outro? Deixando-o
livre para escolher sua própria vida e suas respecti-
vas consequências.
Qual o sentido da vida? A própria vida.
Qual o maior inimigo? O ego (o egoísmo, o orgulho e
a vaidade).
Qual a melhor conduta? Amar a Deus sobre todas as
coisas e ao próximo como a ti mesmo.
Qual a maior mentira? Acreditar no transitório e na
ilusão e mesmo assim ser feliz.
Qual o maior erro? Abandonar a si mesmo em prol
do mundo.
Qual o melhor relacionamento? Aquele que é recí-
proco.
Qual o melhor caminho? Aquele que te faz melhor.
Qual o melhor momento? O presente.
Qual a melhor forma de sentir a vida? A simplicidade.
Qual o maior atraso de vida? Enganar a si mesmo.
Qual a maior liberdade? Necessitar do mínimo para
viver.
Qual o maior desafio? Aprender a amar incondicio-
nalmente
Qual a melhor forma de viver em sociedade? O res-
peito às diferenças.
Qual a melhor forma de evoluir espiritualmente? A
renúncia de si mesmo.
Qual o maior patrimônio? A paz interior.

480
AH SE EU SOUBESSE

Quando chegamos ao plano espiritual, a maioria dos


espíritos pensa algo muito parecido:

– Ah se eu soubesse…

Se eu soubesse que a vida real não era na matéria…


se eu soubesse que a realidade não é de sofrimento,
mas de paz e liberdade… se eu soubesse que nada
que existia na matéria é permanente, que lá é tudo
passageiro, eu não teria brigado no trânsito, batido
nos meus filhos, me apegado a tantas coisas efême-
ras…

Ah se eu soubesse…. teria ajudado muito mais gente,


teria me enriquecido com amor e luz, teria deixado
de lado esses problemas pequenininhos, teria feito
caridade aos necessitados, teria deixado o amor fluir,
teria me atirado no bem sem nenhuma preocupação,
teria sido mais humilde, teria vivido em paz…

Ah se eu soubesse… teria passado mais tempo com


aqueles que amo, teria me preocupado menos, teria
tido mais paciência, teria me soltado mais, me des-
prendido mais, teria vivido mais livre, de forma mais
espontânea, mais natural, teria visto o lado bom de
tudo, teria valorizado as coisas simples da vida.

Ah se eu soubesse… se soubesse que a vida na Terra


vai e vem, que tudo se esvai, que nada é permanente,
que não existe algo fixo, imutável. Se eu soubesse
que tudo começa e termina, que os relacionamentos
começam e terminam, que a dor lateja e depois vem
o alívio.

481
Ah se eu soubesse… se soubesse que os arrogantes
sobem, ficam no topo e caem por si mesmos; caem
pelo seu próprio castelo de cartas da ilusão que cria-
ram. Se eu soubesse que os ricos podem se tornar
pobres de espírito, e que os pobres podem ser muito
ricos de espírito. Se soubesse que as diferenças soci-
ais se extinguem, que na morte todos somos filhos do
universo, que a fome é saciada, que a sede é aliviada,
que a violência só traz mais violência, que os injusti-
çados são compensados, que os perdidos sempre se
encontram, e quem está demasiadamente seguro de
si acaba se perdendo.

Ah se eu soubesse… que a vida espiritual é a vida


real, que as mágoas corroem o espirito, que a cobiça
gera insatisfação, que a lisonja só cria humilhação,
que a preguiça gera estagnação. Se eu soubesse que o
medo é sempre maior do que a mente engendrou eu
teria me arriscado mais, teria ousado, teria tido a
coragem de ser o que eu sou, teria retirado essa más-
cara que encobria minha verdade, teria desatado o
compromisso com o logro, com a burla, teria assu-
mido minha integridade sem divisões, sem fragmen-
tos.

Ah se eu soubesse… não teria cortejado o sucesso,


não teria me atirado ao poço fundo, vazio e solitário
da avidez, não teria me enganado de que, ao atingir o
topo, a descida é o único caminho. Se eu soubesse
que o mundo é uma doce miragem eu rejeitaria a
pueril busca pela sensualidade. Largaria com afinco
os prazeres e vícios da juventude. Se soubesse que
tudo muda e nada se encerra, teria posto de lado as
moléstias da nostalgia.

482
Ah se eu soubesse, teria menos pressa, olharia mais
para a vida, veria mais o nascer do dia, comeria com
calma o pão de cada manhã, teria plantado uma ár-
vore, corrido no jardim, deitado no chão e rolado na
grama. Teria mergulhado e me perdido no tempo,
solto em reflexões sobre os mistérios da vida. Teria
me desimpedido de autocobranças, teria me aceitado
como sou e aceitado o milagre da vida como ele é.

Ah se eu soubesse… que o mar espiritual é infinito de


bençãos, não teria digladiado por um copo de água
ao lado do grandioso oceano da plenitude. Teria dei-
xado todas as quimeras de lado, e vivido mais a vida,
a existência, o cosmos, a liberdade, o eterno presente
e a eterna aurora.

Ah se eu soubesse… teria renunciado aos hábitos


arraigados, as discussões estéreis, a especulação
teórica. Se eu soubesse, teria permanecido mais na
natureza, observando os pássaros, molhando as
mãos no rio, sentindo o vento, me aquecendo ao sol
da manhã, sujado as mãos na lama e sentido o fres-
cor da chuva. Se eu soubesse que sou um ser em de-
senvolvimento na essência inesgotável e eterna da
vida, teria sido infinitamente mais livre e feliz.

483
OS SINAIS DA VIDA

Um homem, chamado Paulo, fez uma oração e pediu


uma resposta a Deus. Ele queria se decidir sobre três
questões que estavam se impondo em sua vida.
Tinha muitas dúvidas sobre que caminho seguir.
Então, em sua oração, ele tentou se comunicar com
Deus e disse:

“Senhor, me mostre que o caminho que devo seguir.


A primeira questão é: devo iniciar uma faculdade ou
devo trabalhar para me sustentar? A segunda ques-
tão é: devo terminar meu namoro para me dedicar
seriamente ao meu trabalho atua? A terceira questão
é: devo perdoar a minha irmã que me negou ajuda
quando mais necessitei, ou devo continuar evitando-
a para que aprenda uma lição? Deus, por favor, peço
que me dê uma luz.”

Paulo permaneceu mais alguns minutos em oração,


apagou a vela e foi dormir. No dia seguinte, acordou
atrasado para o trabalho e saiu rapidamente de casa.
Pegou o ônibus e sentou numa cadeira. Assim que
levantou para descer do ônibus, ouviu duas moças
conversando, e uma delas disse: “Hoje em dia a for-
mação profissional é muito importante, por isso to-
dos precisam ter um diploma para subir na vida”.

O homem ouviu aquilo, mas não deu importância.


Chegou ao trabalho e começou a realizar as tarefas
diárias. Na hora do almoço, Paulo encontrou com um
amigo e conversou um tempo com ele. Contou que
estava um pouco estressado e cansado. O amigo
disse “Sabe o que eu acho Paulo? Acho que você está
precisando de uma namorada, para relaxar e curtir

484
um pouco”. Paulo também não deu atenção ao amigo
e voltou para a repartição.

Saiu do trabalho e chegou em casa. Ligou a televisão


e viu que estava passando um filme. Na história, um
rapaz pede ajuda para sua mãe, mas ela se nega a
auxilia-lo, e afirma que ele precisa aprender a se vi-
rar sozinho, pois na vida nem sempre há alguém
para nos socorrer nos momentos difíceis.

Paulo ouviu essa fala, ficou mais um tempo vendo TV


e logo depois se recolheu para dormir. Ele resolveu
fazer outra oração e dessa vez ser mais enfático e
pedir uma resposta a Deus. Enquanto estava em ora-
ção, sentiu-se mais leve e subitamente ouviu uma
voz que dizia:

“Paulo, pare e relembre o que ocorreu no dia de hoje.


Seus três questionamentos foram respondidos, mas
você estava tão ávido por uma resposta pronta e tão
mergulhado na pressa do dia a dia que foi incapaz de
absorver as mensagens do infinito. Aprenda a ouvir e
perceber a linguagem da existência, ela emite cons-
tantemente sinais que guiam os seres apontando o
melhor caminho. O universo sempre fala conosco de
muitas formas, mas nem sempre as pessoas estão
dispostas a ouvi-lo, e isso ocorre por que a maioria
está excessivamente mergulhada em seus problemas
e confusões. Cabe a cada pessoa estar atenta a esses
sinais e compreender o sagrado diálogo que a vida
tem para conosco.

485
O PRISMA ESPIRITUAL

Algumas pessoas acham difícil de aceitar a violência,


a perda dos entes queridos, o sofrimento, as doenças,
as guerras, as misérias e outros flagelos que assis-
timos diariamente em nosso mundo. Isso é compre-
ensível do ponto de vista humano, mas do ponto de
vista espiritual, tudo isso é perfeitamente natural, e
está de acordo com as leis cósmicas da existência.

O ser humano costuma definir tudo em termos de


certo e errado, bom ou mau, positivo ou negativo,
normal e anormal, e o faz sempre de acordo com seu
ponto de vista. Mas o que todos precisam entender é
que o ponto de vista humano, o qual enxergamos
tudo nesse mundo, é algo extremamente limitado,
impreciso e imperfeito. Nada sabemos sobre a ver-
dade, vemos tudo sob uma ótica muito, muito pe-
quena, nossa visão é sempre distorcida, embaçada e
nos mostra apenas as aparências das coisas. No
plano espiritual, tudo é muito mais próximo da reali-
dade, as almas conseguem ter uma visão mais global,
mais panorâmica; conseguem enxergar tudo sob o
prisma do infinito. É como comparar a visão de um
pássaro voando a visão de uma lagarta presa ao solo.
O pássaro pode vislumbrar todas as coisas numa
amplitude muito maior. A lagarta vê o solo e tão so-
mente seu ambiente imediato. Não há para o espírito
as limitações e distorções do mundo humano. Ele vê
tudo com olhos libertos da matéria, e assim pode
formar juízos mais claros sobre sua condição.

É discurso corrente em nosso mundo que atraves-


samos uma época de caos, destruição e sofri-
mento. Todas as coisas do mundo que conhecemos

486
parecem estar desabando. Sentimos que não temos
mais controle sobre o que nos ocorre e tampouco
poder de mudar algo. Assim, do ponto de vista hu-
mano, é certo que o mundo está aos poucos desmo-
ronando, seus pilares estão indo ao chão, tudo pa-
rece caótico e desordenado. Mas sob o prisma espiri-
tual, o mundo está decaindo para que outro mundo
possa nascer. Trata-se de uma fase de queda, des-
truição, para o posterior nascimento de algo novo,
um mundo renascido e renovado. O que para nós é
algo muito ruim, para o espiritual é uma coisa natu-
ral e positiva, pois está ocorrendo uma renovação,
uma troca do velho pelo novo. Por outro lado, para o
ser humano tudo parece eterno enquanto está acon-
tecendo; mas sob o prisma espiritual, não existe
tempo, há apenas a eternidade. Dessa forma, tudo
passa e nada há que possa prende-lo na sucessão
temporal do mundo.

Ocorre o mesmo com nossa ideia sobre a violência


urbana. A maioria das pessoas reclama da violência e
pede respostas dos governos. Do ponto de vista hu-
mano, o governo pode dar um fim na violência. Mas
sob o prisma espiritual, a violência nada mais é do
que o resultado da lei de causa e efeito, ou lei do
karma. Enquanto o ser humano chora e sofre pela
violência no mundo, as almas que encarnam para
experimentar situações de violência comemoram sua
vinda, ficam animadas com a possibilidade dessa
experiência, pois para elas é uma oportunidade de
limparem seu karma, transmutarem suas mazelas
espirituais, purificarem seu ser através das provas
impostas. O que é uma tragédia do ponto de vista
humano… é um acontecimento sublime para o espí-

487
rito, pois representa uma chance de subir um mais
um degrau da imensa escada da imortalidade.

Isso ocorre com tudo em nossa vida. A perda, por


exemplo, também faz parte desse processo. O ser
humano pode sentir que está perdendo um emprego;
sentir que está perdendo um filho, sentir que perde
uma parte de seu corpo, sentir que perdeu uma fase
de nossa vida (com o envelhecimento), pode enten-
der que perdeu um casamento, seu dinheiro, ou que
teve qualquer outro tipo de perda. Para a personali-
dade humana, a perda é sempre algo terrível, motivo
de prantos e desespero. Mas para a alma imortal a
perda nada mais é do que o encontro com algo mais
profundo. Para a personalidade humana, a perda
representa um retrocesso, um passo para trás; para
o espírito, a perda é um sublime encontro consigo
mesmo. O ser humano se apoia naquilo que julga
possuir e assim sente-se confortável e estável. Já o
espírito, sente que precisa deixar de lado tudo aquilo
que parece ser uma sustentação nesse mundo e
apoiar-se apenas em si mesmo, em sua essência
eterna e infinita. Isso significa que, para a personali-
dade, a perda é má; para o espírito, a perda é uma
celeste libertação.

O mesmo ocorre com o sofrimento. Para o ser hu-


mano, o sofrimento é algo a ser evitado ao máximo.
Para o espírito, o sofrimento é a chave para a mu-
dança de rumo; é o momento de rever suas posições;
é a possibilidade de abrir sua consciência, de enten-
der melhor a vida e a si mesmo; é um portal sagrado
de libertação espiritual. Do ponto de vista humano, o
sofrimento e a perda são as piores coisas que ele
pode enfrentar; mas sob o prisma da consciência

488
espiritual, o sofrimento e a perda são as melhores
opções para seu amadurecimento e desprendimento.
Para o humano, o sofrimento rebaixa… Para o espí-
rito, o sofrimento eleva.

O mesmo ocorre com a solidão. Para a personalidade,


a solidão é péssima, pois nos afasta das pessoas e nos
sentimos incompletos. Para o espírito, a solidão é
maravilhosa, pois é a oportunidade do encontro con-
sigo mesmo. Quando estamos sozinhos, isolados,
podemos mais facilmente mergulhar em nós mes-
mos, conhecer e sentir nosso interior. A solidão nos
ajuda a sentir o infinito e a eternidade. O vazio segue
o mesmo rumo: o ser humano sente-se vazio e crê
que nada faz sentido. Para o espírito, o vazio interior
é o chamado para o espaço da criação de algo novo
mais sutil, e dessa vez sem as prisões e apegos mate-
riais. Ninguém cria nada no espaço cheio… É so-
mente no vazio que algo pode ser criado, que o novo
pode emergir. Ninguém produz uma pintura numa
tela já pintada, mas qualquer um pode criar uma
pintura numa tela em branco. Antes de algo existir, é
necessário que nada ali exista. Assim, o vazio é o
espaço sagrado da renovação para o espírito, mas
para o ser humano, é uma ausência daquilo que ele
estava acostumado.

Não se deixe enganar pelo limitado ponto de vista


humano, pela diminuta percepção da personalidade
transitória. Para o espírito, tudo está sempre cami-
nhando como deveria, de forma natural e harmoni-
osa, dentro da perfeição divina.

489
UM HOMEM MAU NO CÉU

Um anjo estava recebendo as almas que acabavam de


morrer. Uma fila foi formada e aos poucos foram
separando aqueles que iriam para os planos eleva-
dos e aqueles que iriam as zonas inferiores.

Um homem, que estava na fila reservada aqueles que


deveriam descer as zonas inferiores ficou revoltado e
gritou: INJUSTIÇA!

Todos ouviram o grito e prestaram atenção ao ho-


mem. O anjo também olhou para ele. O homem pros-
seguiu:

– Isso nada mais é do que uma grande injustiça! Por


que apenas os “escolhidos” podem ir a zonas celes-
tes, e nós, os marginalizados, vamos para zonas infe-
riores? Somente por causa dos nossos erros na Terra
Deus deixou de nos amar? Desafio os anjos de Deus a
darem um tratamento igual a todos os seus filhos,
aqueles que fizeram o bem e também aqueles que
fizeram o mal! Onde está o perdão divino?

O anjo foi na direção do homem e disse:

– Meu filho, já que você está questionando isso, per-


mitirei então que você vá aos planos celestes, você
quer?

– Sim, respondeu o homem.

O anjo então deu a mão ao homem e o conduziu a um


plano elevado do cosmos infinito, para onde vão as
almas bondosas, caridosas, compassivas e humildes.

490
Assim que chegou lá, o anjo desapareceu. O homem
pensou: “Puxa, consegui vir a um local melhor, sem
que eu precise ficar sofrendo, que bom!”

Começou a caminhar pelo local. Sentiu uma energia


muito calma, tranquila, pacífica. Ele estava acostu-
mado com agitações, barulho, confusões, etc, e por
isso começou a sentir um pouco de saudade dos ba-
res, das boates e casas noturnas onde frequentava.
Continuou caminhando, e viu um homem tocando
uma melodia belíssima, bem calma. Começou a ouvir
um pouco da música, mas rapidamente achou aquela
melodia muito chata e monótona. Saiu de lá e conti-
nuou caminhando.

Logo depois, viu um senhor ensinando filosofia a um


grupo de almas. Parou para ouvir os ensinamentos: o
mestre falava de amor, caridade, meditação, paz, e
outros princípios sagrados da vida. O homem ficou
muito entediado com aquela conversa, não concor-
dava com quase nada do que era dito, sentiu uma
certa ansiedade e saiu de lá rapidamente.

Continuou caminhando, mas dessa vez estava sen-


tindo-se mal com toda aquela atmosfera benéfica.
Viu a sua volta que se irradiavam pelo espaço cor-
rentes de luz branca, e todas as almas que passavam
por lá eram transpassadas por aquela vibração di-
vina. Assim que teve contato com essas correntes de
pura bondade e harmonia, sentiu-se ainda pior do
que antes. Não estava acostumado com energias
boas, elevadas, pacíficas. Começou a sentir-se muito
angustiado com tudo aquilo. Chegou num ponto em
que não estava mais aguentando aquelas vibrações
luminosas, aquela paz e bondade. Chegou ao seu

491
limite e resolveu então clamar pelo anjo dizendo:
“Ser angélico, por favor, estou me sentindo péssimo
aqui. Suplico-te, leve-me para outro lugar!”

O anjo apareceu e o conduziu a uma zona inferior.


Mostrou ao homem que lá havia sexualidade desre-
grada, prazeres, barulho, energias densas, pessoas
tomando as coisas das outras, confusão, agitação, etc.

O homem olhou para o anjo e disse:

– Obrigado!

O anjo disse:

– O local onde vivemos e nos sentimos atraídos,


tanto na vida física quanto na vida espiritual, tem
total relação com nossos desejos, afinidades e nosso
modo de ser. As almas vão para onde seus desejos,
crenças e afinidades as guiem. Cada qual está no lu-
gar que tem que estar, de acordo com a lei das afini-
dades e vibrações. Não há qualquer discriminação
nem injustiça na perfeição do plano divino.

492
O QUE VOCÊ QUER?

Quer ser uma pessoa melhor? Siga o exemplo dos


sábios e mestres. Estude seus ensinamentos. Imite
seu comportamento e sua vida. Seja um aprendiz da
vida. Não seja pedante. Ouça a natureza e a si
mesmo. Não se venda. Tenha fé. Não perca nunca a
esperança…

Quer estabilidade material? Trabalhe. Seja útil aos


demais. Não fique exigindo da vida. Não crie necessi-
dades ilusórias. Não creia que o dinheiro vai resolver
a sua vida. Saiba usar o poder em benefício dos de-
mais. Não acredite em estabilidade exterior. Acre-
dite, isso sim, na estabilidade interior…

Quer se curar? Encare a si mesmo. Torne-se uma


pessoa melhor. Não acredite em soluções fáceis.
Cuide de si mesmo e cultive a tranquilidade. Deixe
suas emoções fluírem. Não fique remoendo conflitos
sem importância…

Quer viver em paz? Não tire a paz de ninguém. Não


brigue com outros. Não critique. Não fique se de-
tendo nos erros alheios. Não desperdice energia com
o supérfluo. Não acredite que conquistas mundanas
trarão tesouros interiores. Respeite os demais…

Quer ser amado? Ame em primeiro lugar. Seja pres-


tativo. Sirva sua comunidade. Seja leal, honesto e
caridoso. Vise o coletivo e não o individual. Queira o
bem da comunidade. Dê a si mesmo sem nada espe-
rar em troca…

493
Quer ser equilibrado? Agradeça o bom e o mau que
te chegam. Seja feliz na saúde e na doença. Não fique
remoendo pequenas contrariedades. Não acredite
em sorte, azar ou acaso. Não crie dependências de
nada nem de ninguém. Cultive o silêncio interior.
Reflita, medite e deixe estar…

Quer ser feliz? Não procure agradar a todos. Não


queira muitas coisas. Não ligue para as críticas. Não
se bloqueie. Não crie expectativas. Não siga os passos
de outros. Siga sua orientação interior. Seja você
mesmo. Busque a felicidade no eterno e não no tran-
sitório. Deixe a vida fluir através de você. Não sofra
por antecipação. Não sofra pelo que você não tem,
mas retire alegria do que você tem. Louve a vida e a
simplicidade do momento presente…

E, finalmente, aprenda a grande lição: Preocupe-se


menos com o querer, e mais com o ser…

494
A VIDA PASSA

Há mais de 100 anos, um sábio estava ensinando a


uma multidão quando um homem fez a seguinte per-
gunta:

– Mestre, o que é a vida?

O sábio olhou para ele e respondeu:

“Vida é aquilo que passa enquanto estamos presos ao


passado… aos nossos apegos, nossos traumas e nos-
sas lembranças tristes.

Vida é aquilo que passa quando estamos preocupa-


dos com o futuro… Preocupados com o que pode
acontecer e com o que devemos fazer no momento
vindouro.

Vida é aquilo que passa quando estamos preocupa-


dos em ganhar dinheiro, em comprar uma casa, em
não perder dinheiro, em adquirir mais bens, em
acumular mais e mais ou em ser uma pessoa de “su-
cesso”.

Vida é aquilo que passa quando estamos pensando


no que nossos filhos estão fazendo, onde eles estão,
com quem estão e que horas vão voltar para casa.

Vida é aquilo que passa quando estamos sonhando


com o que não temos, com o que nos falta, com o que
desejamos e não possuímos.

Vida é aquilo que passa quando você está magoado


com alguém, sentindo raiva, ressentimento e dese-

495
jando que o outro fique mal por você também estar
mal.

Vida é aquilo que passa quando estamos sempre


insatisfeitos, reclamando, carrancudos, fechados e
infelizes, ao invés de aceitar a vida e as pessoas como
elas são.

Vida é aquilo que passa quando você faz de tudo para


conseguir a felicidade e não a conquista… e o que
você precisava não era buscar a felicidade, mas sim-
plesmente ser feliz.

Vida é aquilo que passa quando você fica perdendo


tempo preocupado com a vida do outro, querendo
viver a vida do outro, e não cuida de sua própria
vida.”

A multidão ouviu atentamente o sábio. Este comple-


tou:

“Não deixe sua vida ficar passando enquanto tudo


isso acontece. A vida é apenas viver, sem estar no
passado ou no futuro, sem ficar se preocupando
sempre com os outros, sem ficar frustrado com o que
perdemos ou não temos, sem ficar preso a qualquer
sentimento negativo. Por isso, independente de
qualquer coisa, seja feliz. Viver o agora, o momento
presente, é o mais importante… Senão sua vida
passa, você a perde… e tudo se esvai de repente e
termina, sem que você se dê conta.”

496
EU SOU UNIVERSAL

As pessoas não precisam obter nada para serem


perfeitas, pois essa perfeição já faz parte delas, e já é
de sua natureza. Por essa razão, tome consciência de
que:
Você não precisa aprender tudo, pois você já é tudo.
Você não tem uma vida, você é a vida.
Você não vive no infinito, você é o infinito.
Você não vive dentro da eternidade, você é a eterni-
dade, você é eterno.
Você não possui a sabedoria, você é a própria sabe-
doria.
Você não tem inteligência, você é a inteligência uni-
versal.
Você não tem um espírito, você é espírito.
Você não tem uma essência dentro de si, você é a
essência da vida.
Você não vive dentro de Deus, você é Deus em ma-
nifestação…
Você não tem uma luz, você é luz em desenvolvi-
mento na Terra.
Você não está dentro do universo, você é universal.
Você não precisa de nada, pois você já é tudo dentro
da infinita e eterna essência da vida.

497
LEI DA AFINIDADE

Uma das leis mais importantes do universo é a lei da


afinidade ou sintonia.
Essa verdade foi expressa no esoterismo na frase
“Semelhante atrai semelhante”.
Buscamos as pessoas, os lugares e as atividades que
correspondem a nossas afinidades, desejos, vibra-
ções e aspirações.
Cada pessoa está no local que se sente atraída, sinto-
nizada e satisfeita. Ninguém nos envia para um ou
outro local, mas cada alma naturalmente vai para o
lugar que sente afinidade.
Se quiser conhecer a si mesmo, pergunte-se quais
são suas afinidades e com que você se sintoniza.
Quando sentimos afinidade por uma pessoa, há al-
guma coisa em nós que é semelhante a algo que
existe nessa pessoa. Há uma ressonância de modos
de ser, personalidade e vibração.
Por outro lado, quando uma pessoa sente repulsa
pela outra, uma antipatia gratuita, uma ojeriza pelo
comportamento e personalidade, pode haver algo
semelhante em você.
Aqueles que buscam o negativo, possuem algo den-
tro de si que se sente atraído pelo negativo.
Nesse âmbito, não existe o certo e o errado, o bom e
o mau, existe apenas aquilo que uma pessoa atrai ou
repele dentro de suas afinidades.
Não acredite ser necessariamente mau ou errado
aquilo que não está de acordo com sua sintonia.
Aquele que assiste programas sensacionalistas na TV
que só promovem a violência, deve se perguntar
porque a violência o atrai. Talvez essa mesma vio-
lência esteja de alguma forma presente dentro dele.
Uma mulher que só se relaciona com homens cafa-

498
jestes, que a maltratam, deve refletir no motivo de se
sentir atraída por esse tipo de homem. O que ela está
buscando nesse modelo masculino?
Não culpe um grupo de jovens por terem levado seu
filho às drogas, mas antes se pergunte porque ele
sentiu afinidade com esse grupo e permitiu que o
levassem as drogas. Que recompensa ele estava bus-
cando?
Se você gosta de estilos musicais pesados, com letras
banais, de sexualidade exacerbada, essa é a sua vi-
bração, ao menos em algum nível do seu ser.
Mas se você gosta de musicas mais tranquilas, com
letras edificantes, de sonoridade profunda, com ins-
trumentos mais refinados, há algo em você que busca
ou já está em conformidade com essa vibração.
É como um rádio: quem com sua vibração só sinto-
niza frequências AM, recebe o som todo distorcido; e
quem sintoniza com FM, já recebe o som mais puro e
claro.
Renascemos nos abismos infernais mais profundos,
ou nos mais elevados paraísos celestiais graças aos
nossos desejos que criam as afinidades e sintonias.
Cada ser gera uma vibração, que se encontra em res-
sonância com aquilo que atrai ou repele. E tudo o
que atraímos ou repelimos gera emoções e cria ex-
periências de vida que trazem lições e amadureci-
mento espiritual.
Não adianta proibir uma pessoa de encontrar-se com
o objeto de sua afinidade, pois cada um precisa expe-
rimentar tudo o que existe de positivo e negativo em
sua sintonia e vibração, pois é assim que evoluímos.
Para mudar seu destino, mude sua sintonia; para
mudar sua sintonia, encontre suas afinidades; para
mudar suas afinidades, reconheça seus mais profun-
dos desejos e aspirações, inclusive aqueles que você

499
quer ocultar de si mesmo.
Não reprima sua vibração, apenas mude sua afini-
dade, como se muda de sintonia AM para FM na rá-
dio.
Sintonize com o amor, a paz e bem, e você expressará
o amor, a paz e o bem em sua vida.

500
A ETERNA AURORA

Ao longo de tua existência física,


Busca apenas o que é essencial.
O movimento da vida, o vai e vem contínuo;
Distrai os sentidos e burla a mente.
Coloca a tua consciência numa região além,
Que não pode ser tocada pelas correntezas da ilusão.
Lembra-te que só os desapegados conquistam o real,
E permita que a vida flua livremente em ti.
Aproxima um objeto ante teu olhar,
E logo ele bloqueará tua visão.
Mas também não olhes com ansiedade para o sol,
Pois teus olhos ficarão escurecidos!
Onde antes construías edifícios,
Nada há além de uma passagem…
Que vos conduzirá de um ponto a outro do teu cami-
nhar.
O destino é tecido pela livre escolha,
Mas onde se planta maçã, não colherás outra fruta.
Cada aspecto da vida é um portal aberto,
Para um manancial infinito de liberdade e comple-
tude;
A consciência deve se abrir e o coração deve estar
em paz.
Não creias no homem vaidoso e egoísta,
Ele deseja algo que a vida nunca o dará.
O arrogante se nutre do vácuo,
E persegue as bolhas que se formam e estouram em
suas mãos.
Sê humilde, diante da imensidão insondável da exis-
tência,
A natureza sempre terá algo a lhe ocultar e revelar.
Pára e contempla as coisas simples,
É na simplicidade onde Deus é sentido,

501
E no silêncio ele se faz presente.
O homem que se embrenha na pressa e na luta,
Vai encontrar apenas estresse e conflitos.
Procura ter o mínimo de necessidades,
Não te incrementes com o supérfluo.
Seja você mesmo, somente você,
E a alegria virá com naturalidade.
O sábio aprende com todas as coisas,
Por mais insignificantes que possam parecer.
O pequeno tem a sua grandeza,
E o simples uma profundidade que só o sábio en-
xerga.
Jamais forces uma atitude que não é tua,
Nem te identifiques com uma máscara;
A vida se encarrega se desnudar,
O que um dia alguém dissimulou.
Não cultives preocupações…
Preocupar-te gera tensões que criam inconsciência.
Concentra-te na tua vida, não te compares a outros.
Cada pessoa conhece o céu e o inferno de ser o que é.
Ninguém menospreza a rosa vermelha,
Em detrimento da rosa branca.
Cada flor é bela da sua forma,
Com sua cor e seu perfume.
Não te deixes ludibriar pela aparente estabilidade
humana,
Só Deus conhece os recônditos mais escuros da alma
humana.
Por detrás da capa do sucesso,
Pode estar oculta uma escuridão interior.
O amor incondicional é o porto seguro,
Dentro das marés turbulentas,
Desse oceano de miragens mundanas.
Molha as mãos na água, sinta a brisa,
Ouça o canto dos pássaros e rola na grama.

502
A inocência nos aproxima de Deus.
Não fiques vendo o mal em tudo,
Atenta apenas para as sombras do teu íntimo.
Não há ninguém tão bom que não precise dos de-
mais,
E ninguém tão ruim que não possa ser útil.
Não tentes controlar o mundo,
Nem faça outros a sua imagem e semelhança.
Quem quer conquistar as coisas,
Acaba sendo conquistado por elas.
Jamais esqueças: todo fim é sempre um novo co-
meço…
E cada dia pode ser um novo amanhecer de nossa
existência:
O primeiro dia do resto de nossas vidas.
Mas não deixes jamais de cultivar a esperança.
Sem esperança, morremos em vida.
Ser feliz não é uma meta, mas uma escolha.
Continues a grande jornada da vida com fé.
E por maior que sejam os sofrimentos e as tormen-
tas,
Eles nada representam, diante da Eterna Aurora…
Que a todos aguarda.

503
METAMORFOSES DA VIDA

Duas lagartas estavam rastejando no chão. Uma de-


las era um pouco mais jovem enquanto a outra era
um pouco mais velha. Estavam em um dia frio de
inverno com uma leve neblina. A lagarta mais velha
virou-se para a mais jovem e perguntou:

– Estava pensando. Será que um dia nós, lagartas,


poderemos voar?

A outra lagarta, mais jovem, fica um pouco inquieta


com a pergunta e diz.

– Claro que não! Nós, lagartas, somos seres rastejan-


tes. Vivemos nos arrastando pela terra e essa é a
nossa realidade.

A lagarta mais velha pensou por um momento e


disse:

– Mas será que um dia, quem sabe, não poderemos


deixar essa condição limitada aqui no solo e nos tor-
narmos mais livres? – Especulou.

– Te afirmo que não! – disse, confiante, a lagarta mais


jovem. – Nossa vida é esta aqui mesmo, neste estado
larval. Caminhar pela terra, subir em algumas árvo-
res, alimentar-se de pequenas folhas de plantas, e
viver dentro dos limites de nossa espécie. Essa é a
nossa realidade. Você precisa abrir os olhos e aceitar
a realidade das coisas, ao invés de ficar matutando
nestes sonhos de liberdade, independência e leveza.
Isso nada mais é do que uma expressão do seu de-
sejo.

504
A lagarta mais velha ficou um pouco envergonhada
de ter soltado tanto sua imaginação. Mas ao mesmo
tempo pensou como seria bom ao menos poder so-
nhar com uma condição melhor no futuro. Então,
mesmo temendo a iminente incompreensão de sua
companheira, arriscou-se e disse:

– Mas pense bem. Mesmo que nós estejamos subme-


tidos e presos sempre em terra firme, ou subindo e
descendo de plantas e limitados em nossa percepção,
talvez existam membros de nossa espécie que, futu-
ramente, possam estar num estado mais livre. Não
sei se você sabe, mas há algumas histórias de lagar-
tas que passaram por uma espécie de transforma-
ção…

– Sim, eu já ouvi algumas destas histórias – disse a


lagarta mais jovem – mas não passam de mentiras
para enganar os incautos. Querem que acreditemos
em fantasias de asas, leveza, vôo, visão panorâmica,
mais rapidez, e outras ilusões. Se existem mesmo
essas lagartas de asas, onde elas estariam?

A lagarta mais velha ficou em dúvida. Isso parecia


ser verdade. Jamais havia visto uma lagarta de asas,
voando. No entanto, retrucou:

– Mas veja só. Talvez, pela nossa própria condição de


seres rastejantes, estejamos tão presos
e acostumados a olhar apenas para o solo, ou para o
próximo passo, que sequer prestamos atenção ao
céu, ou contemplamos o alto, para que, talvez, algum
dia pudéssemos vislumbrar a liberdade e a rapidez
de uma suposta lagarta voadora. Não se esqueça que,

505
daqui de baixo, não conseguimos enxergar direito as
coisas que ocorrem no céu.

A lagarta mais jovem começou a pensar nessa possi-


bilidade, mas logo rechaçou seus pensamentos e
disse:

– Não! Se isso fosse mesmo possível, nós já sabería-


mos. Já teríamos visto essas lagartas voadoras!

A lagarta mais velha refletiu e, com toda sinceridade,


questionou:

– Ou será que o nosso orgulho, e nossa presunção de


tudo saber, não nos impede de admitir que podem
haver outras formas de vida mais desprendidas? Não
se esqueça que há muitas minhocas que não acredi-
tam na vida acima do solo, creem apenas na vida
dentro da terra.

– De jeito nenhum! Estou apenas falando de nossa


realidade observável, de nossa vida, de nossa reali-
dade. Não há nenhuma prova de que isso seja verda-
deiro. Aceite-se tal como é, e será mais feliz. – disse a
lagarta mais jovem.

As duas lagartas encerraram o diálogo, e depois


desse dia não se falaram mais.

Passado algum tempo, a lagarta mais velha sentiu


algo de diferente. Subiu num local mais alto e formou
um casulo. Dentro do casulo, sentiu uma forte
transformação, e logo que rompeu a casca, saiu como
uma linda e colorida borboleta.

506
Voando por sobre seu antigo lar pôde avistar, lá em-
baixo, sua amiga mais jovem, a lagarta que, um dia,
havia duvidado da liberdade e da leveza. A borboleta
planou bem próximo de sua antiga amiga, mas a la-
garta não pôde vê-la. Ela então pensou:

– Ah, se ela soubesse…

507
O PODER

Uma das coisas mais difíceis da vida é lidar com o


poder.
Muitos dizem que o poder corrompe, o poder de-
grada.
Mas o poder apenas mostra como cada pessoa é.
As pessoas não mudam quando ganham poder,
Elas apenas têm espaço de manifestar quem sempre
foram.
Todo poder mundano é passageiro, efêmero e ilusó-
rio.
O verdadeiro poder é apenas um: o poder sobre si
mesmo.
O único poder que você pode ter na vida é o de con-
trolar a si mesmo.
Mas quando você concede esse poder a pessoas ou
coisas,
Esse poder conferido passa a te controlar, e até, por
vezes, a te subjugar.
Entenda que o outro só tem o poder que a ele é do-
ado.
Quando isso ocorre, a pessoa que recebeu seu poder
passa a ter domínio sobre ti.
Mas tudo isso é sugestão, é ilusão, posto que você
acreditou no poder externo,
E acreditando no poder que vem do exterior, deu seu
poder ao outro e perdeu o seu.
Pegue seu poder de volta, retome aquilo que lhe per-
tence,
Assim, o poder do outro sobre ti se anula, se perde,
se esvai.
Mesmo quando dominam seu corpo, sua mente pode
permanecer intacta a qualquer influência.
Quem adquire poder externo, nunca está satisfeito,

508
É necessário sempre mais e mais para se suprir.
O poder externo é apenas um sonho, um devaneio
passageiro.
Pois o único poder real é aquele que habita dentro de
ti.
Ninguém tem poder de impedir uma tempestade,
Mas sim de resistir bravamente quando chega a tor-
menta.
O maior poder do mundo não é o de quebrar, rom-
per, impor nossa força.
Mas sim de construir, unir, agregar e amar.
Uma ideia pode ter mais poder que mil exércitos.
O maior poder do ser humano não reside em sua
personalidade,
Mas na disposição de superar a si mesmo, seus hábi-
tos arraigados, seus limites, sua consciência.
Poder tem aquele que mesmo nas maiores adversi-
dades, continua caminhando.
Aquele que tem força, mas desiste de caminhar, não
tem o verdadeiro poder.
O poder está em perseverar, em enfrentar as tor-
mentas, em continuar seguindo em meio ao caos.
A flexibilidade e a adaptação às circunstâncias tam-
bém são fontes de poder.
O poder de vencer os outros é ilusório;
O poder de vencer a si mesmo é real.
O grande poder está em resistir ao golpe, e não se
abalar com nada.
O que mais te tira o poder? Tudo aquilo que você
acredita ser definitivo, indiscutível e fechado.
A pessoa que crê num dogma imutável, perde seu
poder de ir além.
A pessoa que crê na infalibilidade de algo ou alguém,
perde seu poder ao menor sinal de falha.
A pessoa que coloca sua vida nas mãos de outro,

509
perde igualmente seu poder.
A pessoa que se sente vazia quando não faz algo,
perde seu poder ao fazer esse algo.
Aquilo que não te dá espaço para ir além, te tira o
poder.
Qualquer crença de necessidade te tira o poder.
Quanto mais precisamos de algo, menos poder te-
mos.
Quanto mais fragmentado ou dividido você estiver,
menos poder tem.
Quanto mais unido for dentro de si, mais poder terá.
O poder vem da união, e essa união também se faz
reunindo as partes divididas dentro de si.
Se um lado teu quer uma coisa e outro quer outra,
você está dividido.
Junte suas partes perdidas e esteja reunindo para ti
mesmo.
Recupere seu poder, nada externo a ti deve ter mais
poder do que teu interior.
Somente resgatando seu poder, você será íntegro e
forte.

510
O QUE É A VIDA?

Certa vez sonhei que estava caminhando por uma


estrada de terra batida. Estava contemplando a pai-
sagem em volta, com pássaros cantando, o mato dan-
çando com a passagem do vento e as nuvens no céu.

Olhei para a estrada e não via seu fim. Parecia ser um


caminho quase infinito. Observei que existiam outras
pessoas ao meu lado e todas elas começavam a cru-
zar um grande portal. No topo do portal havia uma
inscrição que fazia uma simples indagação: “O que é
a vida?”

Após cruzar o portal, as estradas iam se dividindo, e


cada pessoa começava a percorrer a sua estrada in-
dividual. Caminhando pela minha estrada, eu olhava
para os lados e podia observar outras pessoas pere-
grinando pelo seu caminho individual.

Subitamente, aparece um monstro no meio da es-


trada. O monstro era bem feio, forte e amedrontador.
Ele começou a caminhar na minha direção dando
sinais de que iria me atacar. Olhei para os lados e
percebi, surpreso, que havia um monstro para cada
pessoa e assim como o meu monstro, o monstro dos
outros também começavam a ataca-los.

Fui observando a reação de várias pessoas ao se de-


parar com o monstro. Algumas saiam correndo, ou-
tras o atacavam com ódio, outras ficavam paralisa-
das, outras desmaiavam, e outras ainda ofendiam o
monstro, que devolvia as ofensas e partia para cima
delas.

511
O monstro em minha estrada começou a me dar gol-
pes, e na medida do possível fui tentando desviar.
Num certo momento, o monstro me agarrou e disse
que iria me consumir, e que em breve eu estaria na
barriga dele. Fiquei muito nervoso, mas depois fui
me acalmando e consegui refletir com calma. Foi
quando me veio a consciência de que tudo aquilo era
apenas um sonho, não podia ser real. Olhei para o
céu e procurei me libertar de tudo aquilo, fixando a
consciência de que tudo aquilo era um sonho e eu
precisava despertar. O monstro, pronto que estava
para me morder, começou aos poucos a desaparecer,
ficando invisível. Segundos depois, ele sumiu, e so-
brou apenas a estrada e a paisagem.

Olhei para os lados, e as pessoas ainda estavam en-


frentando seus monstros. Cada um tinha um monstro
específico. Depois compreendi que o monstro nada
mais era do que o nosso inconsciente, nossos medos,
nossas inseguranças, nosso orgulho, nosso egoísmo,
nossa vaidade, as dificuldades e sofrimentos no ca-
minho, e tudo aquilo que temos de negativo dentro
de nós que um dia acaba sempre nos consumindo,
assim como os apegos da vida material.

Percorri mais alguns quilômetros de estrada quando


observei outro portal gigante, mas dessa vez ele con-
tinha a resposta a pergunta inicial “O que é a vida?”.
A inscrição dizia:

“A vida humana é uma prova, nada mais. A forma


como enfrentamos nosso monstro é que vai demons-
trar o quanto estamos preparados para viver no
plano infinito. Quem consegue despertar dos sonhos

512
do mundo pode finalmente se elevar e viver na eter-
nidade.”

Depois de ler essa inscrição, acordei do sonho…

513
PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Quem vive apenas no passado, acaba não vivendo.


Quem vive no presente, recebe um presente a cada
sopro de vida.
Passado, presente e futuro são uma e mesma coisa.
O passado e o futuro encontram sua existência ape-
nas no momento presente.
Quando pensamos no passado, estamos no presente,
e quando projetamos o futuro, estamos no presente.
Passado existe como apenas memória, e o futuro
existe apenas como expectativa.
Viver no presente não é esquecer-se do passado, não
é sofrer de amnésia escapista.
Viver no presente é desatar os nós do passado e dei-
xar a vida fluir integralmente hoje.
Ninguém fica preso ao passado, mas sim as lembran-
ças do passado no presente.
O próprio nome já diz: o passado é aquilo que passa,
e tudo na vida passa…
Vivendo como uma estátua de sal voltada para o pas-
sado deixamos de viver, nos paralisamos e morre-
mos.
O presente cria o passado, pois tudo que é presente
um dia será passado.
E tudo o que é passado, um dia sempre foi o pre-
sente.
O presente é o único momento onde reside toda a
criação e a vida, o calor e o fluxo.
Quando o passado não passa, quem passa somos nós.
Viver no presente não é viver apenas o momento
atual, o imediato.
Viver no presente é existir no agora, no momento
que flui, que gera a vida: a fonte de tudo.
O idoso preso aos traumas da infância pode ainda ser

514
um menino.
O adulto apegado às seduções da juventude pode não
ter amadurecido.
A criança que deseja ser adulta perde sua infância no
que ela tem de essencial.
Não deixe para depois aquilo que deve ser feito
agora, pois a vida só existe no agora.
Quem deixa a vida passar, continua passando por
uma vida onde nada se passou.
O presente, sem passado nem futuro, não é outra
coisa senão a eternidade.
Eternidade não é bilhões ou trilhões de anos.
Eternidade é viver no aqui e agora, num momento
que sempre flui, num estado de consciência atempo-
ral.
Na atemporalidade da vida, estamos vivendo sem
qualquer apego ao que se foi, ou ao que será.
Sem a ansiedade pelo futuro, e sem o apego ao pas-
sado, vivemos no único momento possível.
O momento presente é onde encontramos o real,
onde encontramos a nós mesmos,
É onde vivemos sem sermos influenciados pelas cor-
rentezas do tempo…
Tudo aquilo que é existe no presente, no eterno
agora, na vida eterna que é neste instante:
O presente.

515
INDIVIDUALISMO E COLETIVISMO

Era uma vez uma cidade onde todos os seus habitan-


tes só se locomoviam de trem. O trem urbano atra-
vessava boa parte da região. Apesar de ser um trans-
porte lento, era bem eficiente e todos sempre chega-
vam ao seu destino sem maiores contrariedades. Ao
usarem o transporte coletivo, as pessoas conversa-
vam, faziam amigos e eram solidárias umas com as
outras. O trem era como um ponto de encontro co-
munitário, além de ser um meio de transporte bom e
barato.

Certo dia, um homem chegou a cidade trazendo uma


inovação tecnológica. Ele trazia a invenção do auto-
móvel. Muitas pessoas ficavam admiradas com esse
novo invento. O vendedor dizia “Este é um meio de
transporte onde ninguém precisa depender dos
trens. Você pode andar sozinho, para onde quiser,
sem dividir seu espaço com outras pessoas.”

O vendedor dos carros fez um discurso que impres-


sionou a muitos. Em sua fala, ele sempre enfatizava a
independência que o automóvel trazia em relação ao
coletividade. Algumas pessoas julgaram que essa era
uma atitude um pouco egoísta, onde os interesses
individuais eram colocados acima dos interesses
coletivos. Mesmo assim, quase todos adoraram a
ideia e muitos já foram comprando seu carro.

Os anos foram passando e mais pessoas foram ad-


quirindo seus automóveis. As pessoas que andavam
nos trens observavam os motoristas nos carros, co-
meçaram a se comparar a eles, e desejaram também
ter o seu “transporte individual”. Esse novo veículo

516
conferia um certo status, pois destacava algumas
pessoas do coletivo, dando uma ideia de vanguarda,
distinção, elegância, sucesso, sofisticação e até supe-
rioridade de uns sobre os outros.

Décadas foram passando e cada vez mais e mais pes-


soas foram adquirindo seu carro. Começou então a
ocorrer um fenômeno curioso: foi o início dos engar-
rafamentos. Muitas pessoas passaram a usar o
transporte individual e, com isso, as ruas da cidade
começaram a ficar lotadas de automóveis. O trans-
porte coletivo foi diminuindo, até que quase acabou.
Todas as pessoas passaram a ter seu próprio carro e
não querer mais andar de transporte comunitário.
Com o passar do tempo, os engarrafamentos viraram
rotina e ninguém mais passou a conseguir se loco-
mover na cidade. Quanto mais as pessoas pensavam
em usar o transporte individual, mais as ruas fica-
vam engarrafadas e cada vez mais ninguém conse-
guia se deslocar pela cidade.

Vendo a situação catastrófica, o homem chamou to-


das as pessoas da cidade e fez um discurso enfático
dizendo:

“Caros amigos, desde que começamos a pensar no


individual em detrimento do coletivo, as ruas fica-
ram lotadas de indivíduos disputando seu espaço,
concorrendo pela locomoção na cidade. Parece que
nosso individualismo e egoísmo nos levou a abando-
nar o coletivo e buscar algo melhor nos interesses
individuais. Da mesma forma que quando mais pes-
soas buscam um automóvel e as ruas ficam lotadas e
ninguém consegue se deslocar, quando todos bus-
cam apenas seus próprios interesses de forma egoís-

517
tica, o interesse de um vai anulando o do outro e
todos se anulam mutuamente. Quanto mais trans-
porte individual, menos pessoas conseguem andar.
Da mesma forma, quanto maior nosso egoísmo, mais
bloqueada e conflituosa fica nossa sociedade. Isso
nada mais é do que uma consequência do nosso
egoísmo e individualismo.

Precisamos novamente valorizar o coletivo em de-


trimento do individual, pois assim, voltamos a ser
uma comunidade, uma fraternidade, tudo flui melhor
e seremos mais felizes.”

A população da cidade compreendeu a mensagem e


todos passaram a dar mais valor ao coletivo em de-
trimento dos interesses puramente individuais.

518
AS APARÊNCIAS DO MUNDO

Se você ainda não percebeu isso,


Um dia você despertará para essa verdade.
Tudo nessa vida é apenas uma aparência, nada é real.
As aparências revestem o nosso mundo e lhe em-
prestam um caráter ilusório.
E o mais grave é que as pessoas gostam de viver das
aparências.
Isso ocorre porque a maioria não aceita encarar a
realidade.
A aparência é a fuga do enfrentamento dos proble-
mas que podem nos levar a verdade.
Como muitos já descobriram, as pessoas preferem a
mentira confortável do que a verdade reveladora.
No entanto, você nunca pode se resolver enquanto
não optar em soltar o véu das aparências,
E começar a entrever a verdade sobre si mesmo e
sobre o mundo.
A verdade pode ser chocante, dolorosa, aguda, pene-
trante, desagradável,
Mas não duvide disso:
A mentira que consola sempre dói muito mais a
longo prazo do que a verdade.
A verdade pode doer a princípio, mas ela possui um
caráter libertador.
“Conhecereis a verdade e ela vos libertará” disse
Jesus.
Quais são as verdades em sua vida que você se re-
cusa a enxergar?
Duvide de tudo, pois estamos num mundo onde to-
dos dissimulam tudo o que podem.
Mas um dia, por mais que demore,
As mentiras sempre são descobertas, as aparências
sempre se quebram, a casca que encobria a verdade

519
sempre se rompe.
O que está subliminar sempre virá à tona, trazendo o
real que não desejamos ver.
O real sempre se impõe, justamente por ser o real.
Não adianta fechar os olhos, a vida o obrigará a abri-
los, seja pelo amor, seja pela dor.
Minta hoje, e amanhã você será descoberto.
Quem quer parecer diferente do que é sempre re-
vela, em alguns sinais, suas reais intenções.
Seja o mais autêntico possível, seja você mesmo, pois
quem é o que é, torna-se livre de tudo.
Quem não vive de mentiras é muito mais feliz, é mais
espontâneo, mais livre, mais tranquilo.
Uma mentira pode custar sua paz interior por toda a
vida,
Mas a verdade pode te dar a paz que você sempre
buscou.
Um dia as ilusões serão todas destruídas, por que
então não desfazer-se delas agora?
Toda ilusão tem um prazo de validade, que mais
cedo ou mais tarde revelará seu intento.
Ninguém precisa defender a verdade, ela se impõe
por si mesma.
Seria como defender o sol das nuvens de chuva. Por
mais densa que seja a nuvem, o sol sempre volta a
brilhar.
Há uma essência por detrás de todas as aparências,
assim como há um autor por detrás de toda a obra.
A essência é sempre una e indivisível, embora infin-
dáveis sejam suas formas de se manifestar.
É como um conjunto de lâmpadas de diferentes co-
res, formas, tamanhos e intensidades.
Todas são diferentes e expressam a luz de maneiras
diversas,
Mas cada um delas está ligada a uma corrente elé-

520
trica que vem de uma mesma fonte.
Da mesma forma, tudo no cosmos se expressa em
diferentes formas, mas há apenas uma essência di-
vina.
Na verdade a essência da vida nunca esteve oculta,
ela está aberta para qualquer um que deseje aprecia-
la.
Mas é preciso ter “olhos para ver e ouvidos para ou-
vir”.
Não se deixe enganar pelas ilusões do momento,
pelas sombras que encobrem a essência.
Viva com a verdade, com a essência da vida, e tua
liberdade durará para sempre.

521
UM DIA VOCÊ VAI MORRER

Vou te contar uma coisa muito importante.


Preste bastante atenção no que vou lhe dizer.
Você pode ter se esquecido disso,
Mas um dia, inevitavelmente, você vai morrer…
Muitas pessoas vivem como se a morte nunca fosse
chegar,
Como se sua vida fosse eterna, como se tudo a sua
volta fosse sempre permanecer intocado.
Mas não, um dia tudo vai embora e você vai morrer.
Um dia você perderá seu corpo físico e tudo de mate-
rial que você tem.
Um dia suas posses serão tragadas pela terra, seus
animais perecerão,
Sua casa cairá, seus móveis serão destruídos, seus
familiares vão embora,
Seus dogmas religiosos vão a falência, suas crenças o
abandonarão,
Seu canteirinho não será mais seu: tudo o que um dia
fez parte de ti desaparecerá.
Assim vemos o quanto tudo é passageiro, tudo é fu-
gaz e supérfluo nesse mundo.
Quando chegar o momento derradeiro, quando você
se despedir deste mundo,
Você vai se perguntar três coisas:
O que eu fiz de bom? O que posso levar daqui? Quem
sou eu lá no fundo?
Que respostas você daria? Fez algo de bom? Deixou
uma boa obra?
O que vai levar da vida humana que seja imperecí-
vel?
E quem é você lá no mais fundo e essencial de si
mesmo?
Não viva como se nunca fosse morrer.

522
Aceite que a morte vem para todos, e que tudo o que
você é nesse mundo um dia acaba.
Aceite a morte como parte da vida, e não perca seu
tempo com futilidades.
Entenda que esse mundo é de aparências e um dia o
véu cairá.
Entenda que os sonhos, os desejos, os anseios huma-
nos, as ilusões, as lutas desse mundo,
A correria, a pressa, a tensão, as disputas, tudo isso
perde o sentido.
Lutamos tanto para tudo um dia se esgotar.
Para que tudo isso? Vale a pena o desespero de que-
rer tudo para si?
Quem vive apenas por si mesmo, sofre muito na hora
da morte e depois dela.
O sofrimento se instala quando conferimos um valor
de permanência a algo que nunca foi real.
Mas lembre-se: quanto menos buscamos o ilusório e
mais bem fizemos no mundo,
Mais paz teremos no plano espiritual.
Por outro lado, quanto mais você busca tudo so-
mente para si mesmo, mais você morre a cada dia.
Quem vive pelo bem, pelo amor, pela paz, por Deus,
esse morre bem para o humano,
E renasce no eterno que foi, é e sempre será…

523
NOSSOS APEGOS

Um homem chegou para um guru espiritual e per-


guntou:

– Mestre, por que Deus nos tira as pessoas e coisas


que amamos?

– Por causa do nosso apego as pessoas e coisas. –


respondeu o guru. – O apego nos prejudica muito… e
por isso, Deus nos solta dos nossos apegos para que
possamos nos tornar mais livres.

– Pode explicar um pouco melhor mestre?

– Claro… – respondeu o guru. – Imagine que você


tem um filho que passa o dia inteiro em casa, sem
sair, sem fazer mais nada, apenas brincando com um
ursinho de pelúcia. O menino se recusa a brincar
com outros brinquedos… Recusa-se a sair, a fazer
amizades e fica apenas em sua casa, em seu mundi-
nho particular, viciado em seu ursinho, quase sem
vida fora do seu brinquedo favorito.

- Agora me diga, o que um pai sensato faria neste


caso? O pai pode conversar com o filho, mostrar a ele
a rua, outros meninos, outras coisas para fazer e toda
a liberdade que ele terá caso largue seu ursinho e
saia de casa. Caso o menino ainda assim se recuse a
largar seu ursinho e continue vivendo apenas em sua
simbiose com o ursinho, não resta outra alternativa…
É preciso que o pai tire o ursinho do filho para que o
menino passe a sair, interagir com outras crianças e
finalmente retomar a sua liberdade.

524
- O mesmo Deus faz com os seres humanos. Os seres
humanos são como esse menino, apegado que está
ao seu brinquedo e vivendo em simbiose com ele,
privado de sua liberdade espiritual e vivendo num
mundo de ilusões por conta de seus apegos. Dessa
forma, Deus nos mostra toda a liberdade espiritual
que temos caso abandonemos nossos apegos terres-
tres. Ele nos mostra as maravilhas que a vida na
eternidade pode nos conceder, com suas infinitas
possibilidades, numa felicidade indescritível. Mas
como na maioria das vezes os seres humanos se re-
cusam a seguir o caminho espiritual no rumo da li-
berdade cósmica, Deus nos faz perder nossos objetos
de apegos, vícios ou dependências emocionais para
que possamos, finalmente, nos tornar livres, desim-
pedidos, desprendidos de tudo, sem depositar nossa
carga afetiva em apenas uma pessoa ou em uma
coisa.

Quando Deus nos tira dos nossos apegos, nos torna-


mos mais livres para pensar, viver, amar e despertar
para o infinito que somos em essência.

525
O VALOR DO VAZIO

Para receber algo novo, esvazie-se do antigo.


Para pegar algo diferente, suas mãos precisam estar
livres.
Para conhecer alguém novo, é necessário não estar
preso a relacionamentos passados.
Para receber pessoas em sua casa, é preciso que sua
porta não esteja congestionada.
Para caminhar livremente, retire tudo que é velho de
tua estrada.
Para conhecer mais e melhor, esvazie sua mente de
todas as ideias e crenças obsoletas.
Para expressar livremente o amor, abdique de todas
as mágoas, ciúmes, ressentimentos e culpas passa-
das.
Solte tudo o que você possui, libere sua consciência
de todos os resíduos antigos, esvazie-se de qualquer
roupagem passada.
O diferente, o novo, o inabitual, o inesperado só sur-
gem quando nos libertamos do que já passou.
Abra mão do que já se foi, do que teve sua época mas
está defasado, pois só assim a renovação virá.
A flauta só toca no espaço vazio, o rio só flui sem
barragens e destroços, um caminho só pode ser per-
corrido quando o encontramos vazio de obstáculos.
Esvazie-se do supérfluo para dar lugar ao essencial.
O vazio é o espaço da receptividade e da criação. Não
se pode criar onde algo já existe.
É necessário desconstruir o antigo, abrir espaço ao
vazio e depois construir o novo.
Não deseje sempre abarrotar sua vida com milhares
de coisas.
Pois isso pode ser uma tentativa de evitar o vazio.
Ninguém pode preencher seu vazio sem antes aceita-

526
lo dentro de si.
Mas é no vazio onde tudo se faz, se cria e se desen-
volve.
Aceite o vazio sem medo… acolha a ausência sem
apego.
É no vazio que encontramos a verdadeira liberdade;
É no vazio que enxergamos melhor a vida e a nós
mesmos.
E quando nada mais te sobrar; quando você abrir
mão de tudo, se desprender de tudo,
E tua vida cair num profundo e pleno vazio,
Entregue-se com fé, pois aí estará tudo… aí estará
Deus.

527

Centres d'intérêt liés