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GEOGRAFIA DO PODER EM GOFFMAN: VIGILÂNCIA E


RESISTÊNCIA, DOMINAÇÃO E PRODUÇÃO DE
SUBJETIVIDADE NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO *

GEOGRAPHY OF POWER IN GOFFMAN: SURVEILLANCE


AND RESISTANCE, DOMINATION AND PRODUCTION
OF SUBJECTIVITY AT THE PSYCHIATRY HOSPITAL

Sílvio José BENELLI1


Abílio da COSTA-ROSA2

RESUMO

Neste artigo, estamos procurando recuperar alguns estudos de Goffman,


lidos a partir das discussões atuais da análise institucional, das contribuições
de Michel Foucault relativas à microfísica do poder e das investigações de
alguns pesquisadores quanto à produção de subjetividade nas instituições
de Saúde Coletiva. Goffman, apesar de não estar munido dos recursos
teóricos de tais pesquisadores, já era capaz de explicitar em suas análises
muito mais do que provavelmente imaginava articular. Acreditamos que
Goffman já produz acuradas cartografias do dispositivo manicomial,
descrevendo toda uma geografia do poder na instituição total, atento
aos detalhes da rotina cotidiana. Suas investigações da dimensão
intra-institucional desses dispositivos continuam atuais e eficazes para a
compreensão da produção da subjetividade no contexto institucional.
Também encontramos muitas ressonâncias notáveis entre Goffman e
Foucault.
Palavras-chave: análise institucional, instituição total, microfísica do poder,
cartografia, produção de subjetividade.

(*)
Este artigo é parte da pesquisa de mestrado: “Pescadores de Homens. A produção da subjetividade no contexto
institucional de um Seminário Católico”, que está sendo desenvolvida por Sílvio José Benelli, sob orientação do Prof. Dr.
Abílio da Costa-Rosa, com financiamento da FAPESP.
(2)
Aluno do Curso de Pós-Graduação, Mestrado em Psicologia - Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Assis, SP.
Endereço para correspondência: Av. Tarumã, 577. Centro. Tarumã, SP, CEP 19820-000 Fone: (18) 3329-1234.
E-mail: sjbewelli@yahoo.com.br
(3)
Professor Assistente Doutor junto ao Departamento de Psicologia Clínica e do Curso de Pós-Graduação em Psicolo-
gia - Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Assis, SP.

Rev. Estudos de Psicologia, PUC-Campinas, v. 20, n. 2, p. 35-49, maio/agosto 2003


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ABSTRACT

In this article, we are looking into some Goffman´s studies, lead by currently
discussions of institutional analysis, Michel Foucault´s contributions upon
microphysics of power and some other researchers from the production of
subjectivity at the Collective Health. In spite of not having those theoretical
resources from the later, Goffman was already able to explain in his analysis
further than he could suppose. We believe that Goffman produces accurately
mappings of the psychiatry hospital devices, by describing the geography of
power into the total institution, and concerned to the details of everyday life.
His investigations of the intra-institutional dimension from such mechanisms
are still at present and efficient for the comprehension of production of
subjectivity at institutional context. Also, we have come across many
remarkable echoes between Goffman´s and Foucault´s works.
Key words: institutional analysis, total institutional, microphysics of power,
mapping, production of subjectivity.

ANATOMIA POLÍTICA DO Goffman (1987), em seu artigo “A vida


DETALHE EM GOFFMAN íntima de uma instituição pública”, realiza uma
perspicaz análise das práticas sociais que se
Foucault (1999b, p. 120), ao estudar a produzem no contexto institucional de um hospital
disciplina, indica que uma nova “microfísica do psiquiátrico, denominado “Hospital Central”. Ao
poder” - constituída por “técnicas sempre deter-se nos detalhes da organização intra-insti-
minuciosas, muitas vezes íntimas, importantes tucional do dispositivo manicomial, mapeia,
porque definem um certo modo de investimento cartografa com meticulosidade toda uma
político e detalhado do corpo” - emergiu no “geografia” do poder, detectando com precisão
mundo moderno e espalhou-se por todo o corpo seus diversos deslocamentos: estratégias de
social. “A disciplina é uma anatomia política do dominação, de produção de subjetividade, focos
detalhe”: trata-se de “pequenas astúcias dotadas de resistência, táticas de subversão do instituído
de um grande poder de difusão, arranjos sutis, e movimentos instituintes.
de aparência inocente, mas profundamente Para além de uma linguagem de certo
suspeita, dispositivos que obedecem a modo ainda funcionalista - utilizada por Goffman
economias inconfessáveis, ou que procuram (1987, p. 148), por exemplo, em expressões tais
coerções sem grandeza.” Para descrever os como: “a participação numa entidade social
mecanismos disciplinares, é preciso demorar- impõe compromisso e adesão”, dando a entender,
se sobre os detalhes e na atenção às minúcias, inicialmente, que indivíduo e instituição são
duas coisas distintas - podemos perceber em
buscando detectar sua coerência tática.
suas análises, se lidas com atenção, como
Acreditamos que Goffman (1987) tenha sujeitos e instituições se produzem mutuamente,
como programa justamente proceder a uma numa completa implicação: as práticas
observação minuciosa do detalhe, buscando, ao institucionais produzem sujeitos como efeito
mesmo tempo, um enfoque político dessas dessas práticas, que por sua vez são tomados
pequenas coisas do cotidiano, utilizadas para o como alvos de manutenção delas ou se organizam
controle, dominação e – diremos também – pro- como focos de resistência à ordem institucional.
dução de subjetividade no contexto institucional Podemos aprender com Goffman, como o poder,
(Costa-Rosa, 2002). ao enformar práticas sociais que visam o corpo

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do homem, transformam-no num indivíduo e Podemos observar nessa definição os


também num objeto científico, ao aprisioná-lo vários elementos que compõem nosso atual
em uma certa “natureza” ou “identidade”, fruto conceito de instituição: as práticas discursivas,
das relações poder/saber, caracterizando-o plano lógico ou “formal” (“os objetivos explícitos
como louco, delinqüente, etc. e globais”); plano das práticas não-discursivas
A vida no contexto institucional produz (“instrumental”, “sistema de atividades inten-
“suposições” referentes à natureza, aos modos cionalmente coordenadas”); um “produto” que
de ser e agir dos seus diversos habitantes: pode ser material ou imaterial; uma distribuição
costuma ser normativa e normativizante. Esses desse “produto”, que para nós não se distingue
atores institucionais podem enfrentar de modo da própria produção de subjetividade: por
variável essa “definição de si mesmos” que a exemplo, consideramos a produção “saúde
instituição produz: podem resistir abertamente mental” como produção de subjetividade. O
“e desafiar com desfaçatez os olhares de redefini- aspecto “fechado” do estabelecimento indica o
ção que as pessoas lhes dirigem” (Goffman, caráter totalitário das práticas institucionais. Os
1987, p. 149); podem recusar veladamente esse termos podem não ser os mesmos, mas não é
assujeitamento; podem, finalmente, reconhe- possível lermos aí a instituição enquanto
cer-se nessa definição institucional do seu ser, dispositivo produtor de subjetividade?
“sendo, diante de si mesmos, aquilo que os Goffman (1987, p. 150) chega a notar que
outros participantes acham que devem ser” “as organizações sociais podem ter muitos
(Idem). Podemos destacar aqui a relevância da objetivos oficiais conflitivos, cada um deles com
sutileza efetiva do poder enquanto olhar e seus partidários próprios e pode haver alguma
visibilidade, que será objeto de discussão em dúvida quanto à facção que fala oficialmente em
Foucault (1982, 1984, 1999b). nome da organização”, detectando que o
funcionamento institucional expressa os movi-
mentos diversos de um conjunto segmentar e
GOFFMAN COMO ANALISTA
articulado de pulsações e ações instituintes e
INSTITUCIONAL
efeitos instituídos (Costa-Rosa, 2002). Os
Goffman (1987, p. 149) se posiciona como diversos atores que emergem no contexto
um analista institucional, armado com os institucional são produtos e produtores do
instrumentos sociológicos de que dispõe, para mesmo, movidos por pulsações e necessidades
conceituar a instituição: as mais diferentes.
Uma ‘organização formal instrumental’ pode As instituições totais, “muradas”, têm como
ser definida como um sistema de atividades característica o fato de que “parte das obrigações
intencionalmente coordenadas e destina- do indivíduo é participar visivelmente, nos
das a provocar alguns objetivos explícitos momentos adequados, da atividade da
e globais. O produto esperado pode ser: organização, o que exige uma mobilização da
artefatos materiais, serviços, decisões ou atenção e de esforço muscular, certa submissão
informações; pode ser distribuído entre os do eu à atividade considerada” Goffman (1987, p.
participantes de maneiras muito diversas. 150). Essa é uma técnica clara de produção de
Aqui interessar-me-ei principalmente pelas sujeitos, por meio de uma coerção pelo poder:
organizações formais localizadas nos “esta imersão obrigatória na atividade da
limites de um único edifício ou complexos organização tende a ser considerada como
de edifícios adjacentes, e, por comodidade, símbolo do compromisso e da adesão do
a essa unidade fechada darei o nome de indivíduo; além disso, indica a aceitação, pelo
estabelecimento social, instituição ou indivíduo, das conseqüências da participação
organização. para uma definição de sua natureza” (Idem). O

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poder que age sobre o corpo, obrigando à pode cooperar quando seus objetivos coincidam
docilidade participativa e visível, controlável pela ou se identifiquem com os da instituição;
observação, incide na criação de uma “natureza”, considera que a participação também pode ser
de um certo indivíduo tomado como objeto, obtida por meio de “incentivos”: “prêmios ou
diríamos. pagamentos indiretos que francamente atraem o
De acordo com Goffman, as instituições indivíduo como alguém cujos interesses finais
sobrevivem por que são capazes de apresentar não se confundem com os da organização”
contribuições úteis para a atividade de seus (Goffman, 1987, p. 152); finalmente, supõe que
participantes, para o que precisa instrumentar seja possível obter a cooperação do indivíduo por
os meios adequados com vistas às finalidades meio das “sanções negativas”: “ameaças,
buscadas. Já sabemos que elas sobrevivem castigos, reduções nos níveis usuais de bem-
também por vários outros motivos: produção de estar”(Idem), etc. “O medo do castigo pode ser
mais-valia e de subjetividade capitalística, adequado para impedir que o indivíduo realize
reproduzindo as relações sociais dominantes determinados atos, ou deixe de realizá-los; no
(Costa-Rosa, 1987, 1995, 2000, 2002). entanto, os prêmios positivos parecem
necessários para que se consiga um esforço
Uma organização pode se identificar com
prolongado, contínuo e pessoal.” (Ibidem).
a equipe dirigente que a administra e esta pode
“reconhecer limites de confiança para a atividade A concepção de que um homem age ou
adequada de cada participante” (Goffman, 1987, deixa de agir movido por castigos (punições)
p. 151): tende a considerar o homem como um e/ou por prêmios implica uma suposição teórica
ser “notoriamente fraco”, portanto, tem que de que esse objeto funciona, por exemplo, a
“aceitar soluções intermediárias”, “mostrar partir do princípio do prazer e da evitação da dor.
consideração”, “tomar medidas de proteção”. Assim se produz o saber, a partir de práticas
institucionais.
Podemos observar que estudos tipicamente
funcionalistas sobre instituições e seus diversos A partir dessas considerações, Goffman
atores (agentes institucionais e clientela) tendem afirma que a instituição, além de
a um raciocínio particularizante, numa perspectiva usar a atividade de seus participantes (...),
sociologizante ou psicologizante, remetendo ao também delineia quais devem ser os
sujeito individual questões que são de ordem padrões oficiais de bem-estar, valores
coletiva: as relações de poder que constituem a conjuntos, incentivos e castigos. Tais
realidade institucional tendem a ser mascaradas, concepções ampliam um simples contrato
os conflitos e lutas são tomados como distúrbios de participação numa definição da natureza
psíquicos do indivíduo, sendo reduzidos a ou do ser social do participante. (...)
problemas individuais. Trata-se mesmo de uma Portanto, nas disposições sociais de uma
psicologização do político e também de uma organização, se inclui uma concepção
particularização de fenômenos coletivos, numa completa do participante – e não apenas
“difusão capilar dos mecanismos de controle uma concepção dele como e enquanto
social na comunidade”. (Rotelli, 1990). participante – mas, além disso, uma
A partir da concepção de uma fraqueza concepção dele como ser humano
natural do objeto institucional, a lógica (Goffman,1987, p. 152-153).
institucional costuma considerar que o ser Isso quer dizer que as instituições
humano deve ser tratado a partir de “padrões de produzem indivíduos (objetos) e saberes, definem
bem-estar” superiores ao mínimo exigido para a seus participantes num processo de objetifica-
simples sobrevivência: conforto, saúde e ção. Trata-se de sujeitos “dessubjetivados” (Jorge,
segurança, etc.; supõe que um participante 1983), reduzidos a objetos materiais e teóricos

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manipuláveis por meio de certas técnicas e Ora, se qualquer estabelecimento social


instrumentos. O que podemos caracterizar como pode ser considerado como um lugar onde
o modo de produção típico das instituições sistematicamente surgem suposições a
numa sociedade inserida no Modo Capitalista de respeito do eu, podemos ir adiante e
Produção (MCP): subjetividade serializada, considerar que é um local onde tais
capitalística (Costa-Rosa, 2000). suposições são sistematicamente
As instituições lidam com os indivíduos a enfrentadas pelo participante. Adiantar-se
partir da concepção que criam a respeito de nas atividades prescritas, ou delas partici-
suas identidades: a de serem capazes de colabo- par segundo formas não-prescritas, ou por
rar motivados por prêmios ou castigos, indepen- objetivos não-prescritos, é afastar-se do
dentemente de se identificarem ou não com os eu oficial e do mundo oficialmente
objetivos oficiais daquelas. Há até mesmo uma disponível para ele. Prescrever uma
“naturalização” da possibilidade de que os atividade é prescrever um mundo; eludir
indivíduos considerem corretas e aceitáveis tais uma prescrição pode ser eludir uma
suposições, a ponto de torná-las imperceptíveis, identidade (Goffman, 1987, p. 158).
invisíveis, mas reais e efetivas. É “nos pequenos Assim como toda instituição inclui uma
atos de vida” (Goffman, 1987, p. 153) que disciplina de atividade, inclui também uma
podemos observá-las em sua incidência. No “disciplina de ser” (Goffman, p. 159), uma
nível microfísico, portanto (Foucault, 1999b). obrigação de ser um determinado habitante de
Goffman (1987, p. 157) explicita claramente um certo mundo. Produz subjetividade, que
que as instituições não se limitam a um discurso pode até ser entendida como uma certa noção
sobre a suposta natureza do seu objeto, mas de identidade psicológica internalizada (capitalís-
sua ação também se produz especificamente a tica), mas também como transubjetividade
partir do conceito que têm do participante. O (singularizada), englobando outros elementos
discurso (“ideologia explícita e verbal”) e a prática da realidade, remetendo ao coletivo social. Mas
(“ação”) exprimem uma concepção do objeto o indivíduo, a despeito da imagem que apresenta,
sobre o qual atuam. Por outro lado, com relação pode resistir e produzir uma vida no sentido
ao indivíduo, “participar de determinada atividade contrário e/ou diverso das forças institucionais
com o espírito esperado é aceitar que se é um hegemônicas.
determinado tipo de pessoa que vive num tipo
determinado de mundo” Goffman (1987, p. 158).
OS AJUSTAMENTOS PRIMÁRIOS E
Ou seja, implica um determinado tipo de
SECUNDÁRIOS: MOVIMENTOS DE
posicionamento subjetivo, no caso, posição de ADAPTAÇÃO E RESISTÊNCIA NA
objeto de uma ação institucional. INSTITUIÇÃO TOTAL
Vemos como estratégias de poder
(técnicas) mais toscas e brutais (castigos) e O indivíduo que coopera com as atividades
outras mais refinadas e sutis (prêmios) são institucionais sob as condições exigidas é um
utilizadas a partir de concepções (conceituações, colaborador: um indivíduo “normal”, “programado”,
teorias): relações de poder e saber se produzem “interiorizado”. “Em resumo, verifica que,
mutuamente, instantaneamente (Foucault, oficialmente, não deve ser não mais e não
1999b). Goffman (1987) nos mostra como saber menos do que aquilo para o que foi preparado, e
e poder estão imbricados num único processo é obrigado a viver num mundo que, na realidade,
que produz subjetividade. Mas Goffman, longe lhe é afim. Isso se dá através dos ajustamentos
de qualquer ingenuidade desavisada, percebe primários (Goffman, 1987, 159) do indivíduo à
que onde há poder, há contrapoder, há resistên- instituição e desta a ele. Nós dizemos adaptação,
cias, coincidindo com Foucault (1982): “sobrecodificação da subjetividade”, normati-

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zação, dessubjetivação: processos de mútua intra-institucional no seu plano propriamente


produção. microfísico.
A possibilidade de o sujeito resistir às Os ajustamentos primários são importan-
manobras dessubjetivantes do poder, ou de tes para manter a coesão institucional, são
objetificação, é denominada por Goffman (1987, elementos de manutenção do status quo, já que
idem) ajustamentos secundários. Eles englobam se trata de um conjunto de práticas que o pólo
qualquer disposição habitual pela qual o subordinado desenvolve ao se identificar de modo
participante de uma organização emprega alienado com o pólo dominante. Por outro lado,
meios ilícitos, ou consegue fins não-autori- os ajustamentos secundários podem ser
zados, ou ambas as coisas, de forma a perturbadores (implicando a saída da instituição
escapar daquilo que a organização supõe ou sua completa subversão) ou contidos
que deve ser e obter (...) representam (exercitados no contexto institucional, sem
formas pelas quais o indivíduo se isola do pressionar na busca de mudanças radicais).
papel e do eu que a instituição admite para Os ajustamentos secundários expressam
ele. um conjunto próprio de interesses específicos
Consideramos que os ajustamentos do pólo subordinado (que podem apresentar-se
secundários são estratégias de resistência dos de modo passivo, contido, inclusive inadvertido).
indivíduos-alvo das práticas de poder no contexto Além disso, apontam também para várias práticas
institucional. São manifestações de forças de alternativas que algumas vezes chegam a aspirar
contra-hegemonia, podendo ter um caráter à elaboração de uma hegemonia dos interesses
propriamente disruptivo e instituinte. subordinados, em contraposição à dominante
então vigente (perturbadores da ordem vigente)
Goffman (1987, p. 165) também não deixa
(Costa-Rosa, 2000, 2002).
de notar como as instituições são capazes de
tolerar, “de adaptar-se a ajustamentos Goffman (1987, p. 168) limita sua análise
secundários, não apenas através da disciplina aos ajustamentos secundários contidos, cuja
cada vez maior, mas também por legitimar finalidade é obter vantagens pessoais individuais,
seletivamente tais práticas, esperando, dessa não necessariamente conspiratórias ou
forma, reconquistar o controle e a soberania, revolucionárias. Mas essas práticas são bastante
mesmo com a perda de parte das obrigações semelhantes aos ajustamentos secundários
dos participantes.” Há movimentos estratégicos perturbadores: se a microfísica do poder constitui
de “recuperação” de ações instituintes pelo pólo sujeitos e saberes, teorias, técnicas disciplinares
instituído, que manobra a partir de concessões e instrumentos de trabalho, a resistência também
táticas para manter sua hegemonia (Costa-Ro- se verifica no plano microfísico dos detalhes
(Yasui, 1999, p. 201-202; Nicácio, 1994, p. 132)
sa, 1987, 2002). Trata-se de uma estratégia
quase que insignificantes do cotidiano, da
típica das instituições sociais em geral: manter
intimidade intra-institucional.
o controle sobre os participantes, ao legitimar,
como primários, alguns ajustamentos
secundários, nem que seja apenas de modo
CARTOGRAFIAS DA LIBERDADE NA
temporário, para depois subtraí-los novamente.
INSTITUIÇÃO TOTAL
No contexto institucional de um estabeleci-
mento específico, os ajustamentos secundários Ao cartografar a “geografia da liberdade”
podem ser considerados como práticas relativas (Goffman, 1987, p.191) na instituição total,
à vida íntima da instituição, “correspondendo ao Goffman nos revela os pontos de resistência, os
que o submundo é para uma cidade” (Goffman, focos de contrapoder que se produzem no
1987, 167). Lemos aqui a referência à dimensão contexto institucional como fenômenos de

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contraposição à ordem vigente. É toda uma Essa distância entre o projeto psiquiátrico
tecnologia constituída por detalhes do cotidiano e o programa propriamente dito fica mais clara
que (re)produzem uma subjetividade capitalística. quando localizamos o hospital psiquiátrico no
Portanto, conhecer a engenharia institucional contexto sócio-histórico mais amplo (Foucault,
que os produz é importante para desmontá-la: 1999a; Amarante, 1994,1998, 2000a, 2000b;
do mesmo modo que práticas cotidianas podem Castel, 1978): o modelo hospitalocêntrico é
reprimir, modelar, coibir, dominar e produzir uma pautado pela norma de exclusão do convívio
subjetividade alienada na reprodução das familiar e social, cultivando uma série de
relações sociais dominantes, entendemos que procedimentos de controle que abrangem a
serão outras tantas práticas microfísicas sexualidade, o espaço de deambulação, o que é
instituintes que produzirão implicação subjetiva, possível ou não fazer – inclusive, ser – operando
autonomização do sujeito e uma subjetividade basicamente por subtração. O projeto psiquiátrico
singularizada (Rotelli, 1990; Costa-Rosa, 2000). pode ser entendido como parte de uma estratégia
Goffman (1987, p. 172) optou por mapear global de controle e manutenção da atual ordem
os ajustamentos secundários especificamente social dominante (Costa-Rosa, 1987, 1999,
do pólo subordinado, do grupo dos internados de 2000).
um hospital psiquiátrico. Nisso Goffman também Já há uma percepção, em Goffman, da
parece intuir que o aspecto mais valioso da semelhança, talvez mesmo da identidade entre
produção institucional é aquele que diz respeito uma ordem jurídica normativa e o “ato terapêutico”,
às aspirações do pólo subordinado, portadoras relação claramente explicitada por Foucault
de inéditas e criativas relações sociais, diferentes (1999a) na “sanção normalizadora” e na consi-
e inclusive contraditórias com relação às relações deração de que há um “microtribunal penal” em
sociais dominantes (Costa-Rosa, 2000). Os funcionamento nas diversas instituições
ajustamentos secundários da equipe dirigente e modernas. Goffman (1987) revela a existência
dos profissionais e técnicos empregados no de um “esquema de disciplina” autoritário que
estabelecimento tendem a ser insignificantes e estabelece um conjunto relativamente completo
reforçadores do padrão vigente (Goffman, 1987, de meios e fins que os pacientes podem
p. 169-172). legitimamente obter (normatização), que tem
Goffman (1987, p. 173) parte da hipótese como efeito tornar ilícitas toda uma série de
de que os hospitais psiquiátricos não funcionam atividades dos pacientes. É o estatuto normativo
de acordo com a “doutrina psiquiátrica” (nível do que cria o permitido e produz também toda a
projeto, do ideário, de metas de transformação região das ilegalidades (Goffman, 1987, p. 231;
Foucault, 1999b).
abertas ao devir), pois também constata que na
prática a teoria é outra. É o que ele denomina No plano microfísico (íntimo) da instituição,
“sistema de enfermarias” que se observa há fontes materiais (Goffman, 1987, p.173)
organizando o manicômio, numa defasagem empregadas nos ajustamentos secundários;
evidente entre o projeto oficial e o programa (nível substituições (Goffman, 1987, p. 173-175), nas
do plano enquanto conjunto de propostas e quais os internados utilizam artefatos disponíveis
instrumentos de implementação) efetivamente de um modo diferente daquele para o qual foram
desenvolvido: “condições muito limitadas de vida previstos; e exploração do sistema (Goffman,
são distribuídas como prêmios ou castigos, 1987, p. 175-188), ampliando a extensão das
apresentados mais ou menos na linguagem das fontes existentes de satisfação legítima, ou
instituições penais.” É esse “esquema” (lógica) explorando uma rotina completa de atividade
de “ações” (práticas) e de “palavras” (discursos) oficial para fins particulares. O que podemos
que a equipe dirigente utiliza para lidar com o afirmar é que se o sujeito é silenciado, ignorado,
cotidiano do estabelecimento. reduzido a uma “doença” pela lógica médica

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(Jorge, 1983) predominante na instituição, essas instituições cuja autoridade está concentrada
pequenas e inumeráveis práticas, nas quais ele num grupo completo da equipe dirigente, “e não
subverte de alguma forma os diversos “materiais” num conjunto de pirâmides de comando”.
disponíveis, são o testemunho de que o sujeito Verificamos que a “vigilância hierárquica”
resiste, insiste, se insinua, produzindo o máximo (Foucault, 1999b) organizada como um poder
de vida possível, apesar das condições escalonado e difuso se contrapõe à existência
ambientais bastante adversas. de tais espaços de liberdade. Isso explica porque
Além das fontes, há locais ou regiões onde em “Vigiar e Punir” (Foucault, 1999b) não há
ocorrem os ajustamentos secundários. Goffman escapatória para o sujeito, inserido numa máquina
(1987, p. 191) mapeia então “a geografia da panóptica sem falhas, sem espaço para a
liberdade”, ou os locais livres no contexto resistência.
institucional. De um modo amplo, na “geografia Esses “locais livres” do hospital eram
institucional”, há o espaço situado fora dos utilizados como ambiente para atividades
limites do estabelecimento, portanto, inacessível especificamente proibidas, para escapar da
para os internados. Há também o “espaço da vigilância e do controle rígido da equipe dirigente
vigilância” (nada mais foucaultiano!!), área em e do “stress” da convivência institucional forçada
que o paciente pode estar, ficando sujeito à e obrigatória: “aí, a pessoa podia ser ela mesma”
autoridade e às restrições usuais do estabele- (Goffman, 1987, p. 193). Há “locais livres” que
cimento. Finalmente, há um terceiro tipo de podem ser utilizados por diversos internados,
espaço: espaço não-regulamentado pela sem sentimento de posse ou de exclusividade
autoridade usual da equipe dirigente. por parte deles. Há também os “territórios de
As práticas visíveis de ajustamentos grupo” (Goffman, 1987, p. 197), “nos quais um
secundários costumam ser ativamente proibidas grupo acrescentava ao seu acesso a um local
no hospital psiquiátrico e nas demais instituições livre, um direito de manter afastados todos os
totais. Para realizá-las, é preciso estar “longe outros pacientes”. Um terceiro tipo de lugar, o
dos olhos e dos ouvidos da equipe dirigente” “território pessoal”, “espaço onde o indivíduo cria
(Goffman, 1987, p. 190); basta estar fora de sua alguns elementos de conforto, controle e direitos
linha de visão. tácitos que não compartilha com outros pacien-
tes, a não ser quando os convida” (Goffman,
Mas além dessa evitação da vigilância,
1987, p. 200).
os internados e a equipe dirigente
O “território pessoal” constitui um contínuo
tacitamente cooperavam para permitir o
que pode estender-se do “ninho” ao “refúgio”,
aparecimento de espaços físicos limitados,
locais “em que o indivíduo se sente tão protegido
onde se reduziam marcantemente os níveis
e satisfeito quanto isso seja possível no ambiente”
usuais de vigilância e restrição – espaços
(Goffman, 1987, idem). O quarto de dormir parti-
em que o internado podia ter livremente
cular é o tipo básico de território pessoal: “uma
uma certa amplitude de atividades proibidas
vez obtido, um quarto particular poderia ser
e, ao mesmo tempo, certo grau de
provido de objetos que dariam conforto, prazer e
segurança (Goffman, 1987, p. 190).
controle à vida do paciente” (Goffman, 1987, p.
A equipe dirigente pode saber ou ignorar a 201). Mesmo numa enfermaria coletiva, os
existência de tais espaços, “mas deles se pacientes tendem a construir um “território
afastava ou tacitamente deixava de exercer sua pessoal” e sua formação parece obedecer à “lei
autoridade ao neles entrar”. Comportamento do mais forte”, que tende a se impor sobre os
ambíguo e algo enigmático, esse “desconheci- demais. “Talvez o espaço mínimo que se
mento” tático. transformava em território pessoal fosse dado
Goffman (1987, p.191) adverte que esses pelo cobertor de um paciente” (Goffman, 1987, p.
“locais livres” podem ser encontrados em 202).

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GEOGRAFIA DO PODER EM GOFFMAN 43

Depois de estudar as fontes e os locais geralmente escondido, para levar e trazer os


utilizados nos ajustamentos secundários, objetos significativos – é preciso ter um sistema
Goffman (1987, p. 203) mapeia também os de transporte” (Goffman, 1987, p. 208). Num
recursos disponíveis. As pessoas tendem a microcosmo onde as condições de vida são
guardar bens legitimamente possuídos, que lhes extremamente limitadas e padronizadas, bens
produzem gratificações e bem-estar, com os triviais e correntes da vida civil não estão à
quais se identificam e, inclusive, produzem sua disposição dos internados e são muito desejados
vida. Elas costumam ter locais especiais onde e valorizados. Sistemas de transporte
armazenam e protegem seus bens, manten- clandestinos permitem a circulação de “corpos,
do-os longe dos demais. “(...) tais locais podem artefatos ou coisas, mensagens verbais ou
representar uma extensão do eu e de sua escritas” (Idem). O contrabando é uma estratégia
autonomia, tornando-se mais importante na de contra-hegemonia, disponibilizando bens e
medida em que o indivíduo perde outros objetos dos quais estão privados os internados.
‘reservatórios’ de seu eu. Se uma pessoa não No hospital psiquiátrico, recursos extra-oficiais
pode guardar nada para si mesma, e se tudo que costumam ser muito tolerados, de acordo com
usa pode ser também usado por outros, há Goffman.
possibilidade de pouca proteção quanto à conta- “Sistemas ocultos de comunicação
minação por outros” (Goffman, 1987, p. 204). constituem um aspecto universal das instituições
De acordo com Goffman (1987, p. 24-27), totais” (Goffman, 1987, p. 210). Isso se deve
o ingresso numa instituição total implica um também ao “silenciamento” de fato produzido
processo de despojamento de bens, emprego, pelo discurso médico (Jorge, 1983).
carreira, inclusive de identidade pessoal, Alguns pacientes, segundo o autor, manti-
caracterizando o que atualmente denominamos nham a tática de não receber e não apresentar
“invalidação pessoal através da tutela institu- comunicação de tipo explícito. Seu afastamento
cional” (Nicácio, 1994). O indivíduo é despojado silencioso era uma forma de defesa contra
de suas roupas e pertences pessoais, dinheiro, auxiliares e outros internos inoportunos. Mas
documentos, relógio de pulso, etc. “Os cosmé- isso acabava sendo interpretado como sinal de
ticos necessários para que a pessoa se apresente doença mental. Para se manter tal forma de
adequadamente diante dos outros eram afastamento do ambiente, permanecendo no
coletivizados e acessíveis aos pacientes apenas “papel” de surdos, cegos, ou loucos, tinham que
em certos momentos” (Goffman, 1987, p. 205). desempenhar à risca o personagem, simulando
Se, por um lado, essa técnica de despojamento desinteresse pelo que acontecia na enfermaria,
aumenta a agilidade e eficiência institucional, sofrer abusos sem responder, privando-se de
facilitando manusear um indivíduo reduzido a um “muitas das pequenas transações da vida social
corpo, também expropriado pelo saber médico diária de dar e receber” (Goffman, 1987, p. 211).
(Jorge, 1983), por outro lado, o sujeito excluído Mas eles se comunicavam através de um conjunto
aí insiste e cria invariavelmente “esconderijos” quase que imperceptível de convenções:
onde possa depositar seus bens, extensões de exploravam meios disfarçados de comunicação
si mesmo. direta. Outros pacientes exploravam os sistemas
Goffman (1987, p. 206-207) descreve a rica estabelecidos de comunicação, como os
e criativa gama de “esconderijos portáteis ou telefones do estabelecimento.
fixos” que os internados criam para guardar e Os sistemas ilícitos de transporte podem
proteger seus bens amealhados no contexto começar de modo inocente, mas uma vez
institucional. construídos, tornam-se capazes de transmitir
“Para conseguir ajustamentos secundários material altamente proibido ou perigoso para a
eficientes, é preciso criar um meio não-oficial, instituição. Os “transportadores” são recrutados

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espontaneamente ou por meio de coação entre proibido, a prostituição, a drogadição e a usura


quaisquer pacientes que circulem normalmente vinham em seguida. Havia também muitos
pelo estabelecimento. serviços “menos proibidos” que se podiam
comprar: roupas lavadas e passadas, corte de
cabelo, consertos de relógios, sapatos, mensa-
RELAÇÕES SOCIAIS NA INSTITUIÇÃO geiro, etc. Alguns pacientes se tornavam
TOTAL: REPRODUÇÃO DO PADRÃO vendedores exclusivos, por exemplo, de fósforos,
DOMINANTE E PRODUÇÃO DE LAÇOS objeto formalmente ilegal, mas cuja posse era
SOLIDÁRIOS ignorada, sendo utilizado principalmente para
acender cigarros.
Goffman (1987, p. 214) deduz, a partir da
Lavar e encerrar carros dos funcionários do
criação de ajustamentos secundários, a
hospital era a principal fonte de renda dos
construção de uma estrutura social subterrânea
pacientes, além do que era autorizada como
(nós dizemos: microfísica, plano do invisível,
“mesada” ou trazida por parentes visitantes.
passível de enunciação) na instituição total: a
Essa atividade tornou-se uma prerrogativa legítima
utilização do outro pode potencializá-los. Se as
por parte dos pacientes, que procuravam conci-
práticas da equipe dirigente tendem a transformar
liá-la com o trabalho que tinham que fazer no
o homem num “objeto-doença” (Amarante, 1998),
hospital, criando inclusive uma certa divisão de
o grupo dos pacientes reage, procurando criar
trabalho (Goffman, 1987, p. 219).
um outro mundo dentro das condições impostas,
apesar de acabarem reproduzindo muito das Outras formas de obter dinheiro eram:
próprias relações de dominação às quais estão engraxar sapatos, revender produtos e materiais
submetidos, com seus pares. ganhados: presentes, cigarros, roupas, além
dos jogos de azar. No hospital pesquisado por
Para utilizar o outro em benefício próprio,
Goffman (1987, p. 222), o cigarro era o principal
os pacientes podem se valer de “coerção
substituto para o dinheiro.
particular” (Goffman, 1987, p. 215) expressa por
meio de “expropriação aberta, extorsão, técnicas A posse do dinheiro significava para os
de força, submissão sexual imposta”. Outra pacientes a possibilidade de “pretender obter
forma possível é estabelecer com o outro uma bens fora do hospital – podiam falar numa
relação de “intercâmbio econômico” (Goffman, linguagem que seria compreendida fora dali,
1987, p. 216). No hospital pesquisado, o autor embora oficialmente não tivessem licença para
afirma que os pacientes, despojados do seu falar” (Goffman, 1987, p. 219). Atualmente
dinheiro, recebiam uma mesada que podiam falamos em recuperar a contratualidade social e
gastar na cantina local, mas tinham dificuldade econômica dos pacientes (Rotelli, 1990; Nicácio,
em obter bens e seu gasto era muito limitado. 1994; Yasui, 1999; Costa-Rosa, 2000).
Mas “os pacientes criavam meios para superar A venda e inclusive a barganha, os
tais restrições ao uso de dinheiro” (Goffman, elementos de organização social paralela, além
1987, p. 217-218), por exemplo, tentando da troca econômica, visavam claramente ao
conservar seus recursos fora do controle da intercâmbio social, em que predominam as
equipe dirigente. trocas afetivas. Trata-se do desenvolvimento de
“No hospital Central, os objetos e serviços “elos de solidariedade” (Goffman, 1987, p. 226ss)
ilicitamente comprados pelos pacientes, bem entre grupos de internados, que podem fazer
como as fontes de fundos ilicitamente parte dos ajustamentos primários, mas também
empregadas, eram ilegais em diferentes graus” podem ser elementos característicos do
(Goffman, 1987, p. 218): contrabando e/ou submundo institucional. Relações pessoais de
consumo de bebidas alcoólicas era altamente companheirismo, de interação não-sexual,

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relações de namoro heterossexual, formação de pacientes desenvolviam relações de proteção


“panelinhas” foram detectadas por Goffman. com estes. A direção do hospital reforçava o
“Bens rituais” eram obtidos por meio de sistema de proteção por intermédio da
ajustamentos secundários para trocas simbó- distribuição gratuita de cigarros aos funcionários,
licas e afetivas entre os pacientes (Goffman, que os utilizavam como prêmios para seus
1987, p. 228). O cigarro era também um elemento grupos de pacientes. As festas institucionais
importante desses bens rituais. ocupam um lugar importante nesse sistema
A internação numa instituição totalitária (Goffman, 1987, p. 234ss).
torna a informação um bem decisivo para a Além do controle formal e informal que a
sobrevivência psicológica do indivíduo, por isso equipe dirigente mantém sobre o grupo dos
condições restritivas de vida tendem a criar bens internados, Goffman (1987, p. 242-243) verifica
para intercâmbio econômico e social. A os movimentos de contracontrole destes últimos:
solidariedade também se produz na transmissão provocar “acidentes” para uma pessoa da equipe
de instruções dos veteranos para os novatos, o da administração, a rejeição maciça de um certo
que leva a equipe dirigente a desejar manter tipo de alimento, diminuir o ritmo de trabalho ou
esses grupos separados. Procura-se evitar que de produção, sabotagem de sistemas de água,
os ingressantes não aprendam os “truques, luz e comunicação, “gozação coletiva”. O espectro
manhas e vícios” dos mais experientes. se estende destas (re)ações inofensivas até
Um outro tipo de relações sociais extra- greves ou rebeliões, quando a administração
oficiais importante é denominado por Goffman ameaça globalmente o sistema clandestino em
(1987, p. 233ss) “relações de proteção”. O operação no estabelecimento. Percebemos que
paciente internado no hospital estava localizado o grupo dos internados não é apenas um objeto
numa grade constituída basicamente por dois passivo que pode ser manuseado interminavel-
elementos: a sua enfermaria e o “sistema de mente ao bel-prazer da equipe dirigente. Se
trabalho”. Este inclui trabalhos de manutenção muitos pacientes são de fato impotentes para
do próprio estabelecimento: faxina, serviços esboçar alguma reação, “pequenos grupos de
gerais e vários tipos de terapia. líderes informais” são capazes de organizar
“A teoria do hospital era que, desde que o astutos ajustamentos secundários.
estabelecimento atendia a todas as necessi-
dades dos pacientes, não havia razão para que
fossem pagos pelo trabalho que faziam” (Goffman, CRIAÇÃO DE “MUNDOS” ALTERNATIVOS
NO CONTEXTO INSTITUCIONAL
1987, p. 233). A disposição de trabalhar
TOTALITÁRIO: MOVIMENTOS DE
gratuitamente para o hospital era considerada
LIBERDADE
sinal de convalescença e o próprio trabalho era
considerado terapêutico. “A regra tradicional no Em suas conclusões, Goffman (1987, p.
hospital era que a liberdade para andar pelos 246) afirma que:
pátios era dada apenas aos que, com seu
Sempre que estudamos um estabeleci-
trabalho, pagavam por ela” (Idem). Observamos
mento social, verificamos uma discrepância
como o hospital mimetiza a realidade social
com esse primeiro tema: verificamos que
mais ampla na qual está inserido. Mas os os participantes se recusam, de alguma
pacientes, espertamente, obtinham liberdade de forma, a aceitar a interpretação oficial do
circulação pelo estabelecimento por meio de um que devem dar e retirar da organização, e,
trabalho meramente simbólico! além disso, quanto ao tipo de eu e de que
Os membros da equipe dirigente e os mundo que devem aceitar para si mesmos.
diversos técnicos que trabalhavam com os Onde se espera entusiasmo, haverá apatia;

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onde se espera afeição, há indiferença; uma forma de evasão (!), pois “o contato com o
onde se espera freqüência, há faltas; onde psiquiatra da equipe dirigente é tão singular”,
se espera robustez, há algum tipo de que a própria sessão é um espaço que
doença; onde as tarefas devem ser presumivelmente permite ao paciente distan-
realizadas, há diferentes formas de ciar-se da realidade do hospital. Paradoxalmente,
inatividade. Encontramos inúmeras “ao realmente receber aquilo que a instituição
histórias comuns, cada uma das quais é, diz oferecer, o doente pode conseguir afastar-se
a seu modo, um movimento de liberdade. daquilo que o hospital realmente dá” (!) (Goffman,
Sempre que se impõem mundos, se criam 1987, p. 252).
submundos. Goffman sugere que os ajustamentos
Essa constatação se torna precisa ao secundários são superdeterminados, utilizados
considerarmos uma instituição “como formação para combater e derrotar o mundo hospitalar:
material constituída por um conjunto de saberes “tais práticas dão às pessoas mais do que aquilo
e práticas articulados por um discurso de tipo que aparentar dar; independentemente do que
ideológico (lacunar). Aquilo que o discurso procura dêem, tais práticas parecem demonstrar – pelo
articular não são os saberes às práticas, mas menos para o praticante – que ele tem
sim, saberes contraditórios e práticas contra- individualidade e autonomia pessoal que
ditórias entre si” (Costa-Rosa, 2000). Assim escapam às garras da instituição” (Goffman,
como a sociedade pode ser entendida como 1987, p. 254). São claramente estratégias que
uma articulação de interesses divergentes, esta visam manipular poder ou resistir a ele.
tende a ser a forma como se configura também
cada instituição em particular. As lacunas do
discurso indicam justamente as tensões oriundas A PRODUÇÃO DA SUBJETIVIDADE NO
da demanda social que a instituição procura CONTEXTO INSTITUCIONAL
metabolizar.
Consideramos a sociedade como um tecido
Quanto mais absoluta a privação, mais os
formado por uma rede de instituições sociais: a
bens, pequenos e ilícitos, se tornam “recursos
simbólicos” de resistência contra o sistema “saúde pública” é uma delas. Os supostos
conflitos entre sujeito e sociedade, indivíduo e
totalitário, “refúgios para o eu”, segundo Goffman
grupo, sujeito e instituição, psique e ambiente
(1987, p.248).
são falsas dicotomias. Trata-se de falsos
Além disso, os pacientes costumam problemas: só há real social, coletivo, e o indivíduo
descobrir que é possível fugir de um lugar, é apenas um terminal de produção social. Os
mesmo sem sair dele: utilizam como técnicas sujeitos são produzidos socialmente, no bojo de
de resistência diversas estratégias: “atividades
processos e práticas concretas, de práticas
de evasão” (Goffman, 1987, p. 248-251), nas
discursivas, na intersecção entre poderes e
quais se desconectam temporariamente de si e
saberes.
do ambiente (diversões e passatempos em geral,
cursos de línguas, de artes, esportes, bailes e A subjetividade (modos de ser, sentir,
festas institucionais, namoro, atividades de pensar e agir constitutivos do sujeito em
representação teatral, práticas religiosas, jogos determinado momento histórico) é tecida, no
de quebra-cabeças, livros de aventuras, baralhos, contexto institucional, pela rede de micropoderes
adaptação exagerada ao trabalho, etc.). “Os que sustenta o fazer cotidiano (institucional),
meios individuais de criação de um mundo eram operando efeitos de reconhecimento/desconheci-
notáveis” (Goffman, 1987, p. 251). mento dessa ação concreta.
A psicoterapia individual, “privilégio raro Instituição não é uma instalação material
em hospitais públicos”, também acaba sendo na qual se encarnam entidades poderosas. Uma

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instituição é uma prática social que se repete e numa relação em que dirigentes e pacientes se
se legitima enquanto se repete. As instituições instituem mutuamente por meio de um jogo de
implementadas em organizações e estabeleci- forças (ativas e reativas) que visam à normatização
mentos não apenas realizam – quando reali- da conduta do outro.
zam – os objetivos oficiais para os quais foram
criadas, mas também produzem determinada
subjetividade em seus vários atores, sujeitos CONCLUSÃO
são fundados no interior das práticas, sujeitos
ao mesmo tempo constituídos no e constituintes Goffman (1987) estudou detalhadamente a
do cotidiano institucional. O pensamento estrutura, a natureza e a dinâmica psicossocial
costuma reificar objetos e sujeitos que só existem das “instituições totais”, e sua análise mos-
enquanto se produzem e são produzidos dentro tra-se um instrumento valioso para estudar a
de determinadas práticas institucionais. produção da subjetividade no contexto
A produção de subjetividade remete institucional. Quando situamos as sofisticadas
fundamentalmente ao plano micropolítico, e minuciosas análises de Goffman num campo
microfísico das relações instituintes e instituídas mais geral da evolução da análise das
da formação no contexto institucional. Nesta instituições, campo de referências históricas
perspectiva, as relações pedagógicas, tera- que encontramos, por exemplo, na obra de
pêuticas, educativas entre a equipe dirigente e Michel Foucault, então elas ganham um sentido
pacientes não se configuram como relações mais pleno e o que parecia apenas implícito
estáticas entre pólos constituídos, mas pode se articular claramente.
apresentam-se em permanente constituição e Foucault é conhecido por não citar suas
ordenação – plenas de vicissitudes – em fontes e, inclusive, chegou a comentar a importân-
constante transformação dos lugares e posições cia do estudo das instituições asilares realizado
no interior das relações, numa pulverização dos por Goffman (Foucault, 1984, p. 110-111).
lugares instituídos e instituintes. Pensamos que há mais semelhanças entre
Desse modo, não podemos conceber “Manicômios, prisões e conventos” (publicado
práticas e/ou sujeitos autônomos, pois toda originalmente em 1961) e “Vigiar e Punir”
prática é efetivada por relações nas quais se (publicado originalmente em 1975) do que se
configuram sujeitos. Essa é a principal condição poderia suspeitar à primeira vista. Isso não
para que as instituições existam concretamente. parece evidente, mas uma leitura atenta de
A solidez institucional residiria nos vínculos ambos pode indicar pontos de contato, temas,
entre os sujeitos que as fazem cotidianamente, problemas e achados comuns nos dois autores,
vínculos invisíveis, microfísicos, que se plasmam como tentamos demonstrar. Com isso, não
em relações instituintes e instituídas no contexto negamos suas diferenças e distâncias, nem as
institucional, podendo ser mapeadas a partir das especificidades de cada obra em si mesma.
forças e dos poderes moleculares que as Mas as ressonâncias de um livro no outro nos
permeiam. pareceram bastante notáveis.
O hospital psiquiátrico parece ter seu núcleo Talvez pudéssemos afirmar que há mais
subjetivizante centrado numa formação vida no “Panopticon” do que Bentham
disciplinar, ao mesmo tempo moral e psicológica. (Foucault, 1984, 1999b, 1999c) poderia – ou
A ação institucional, entre reconhecimentos e gostaria de – acreditar. O projeto de controle e
desconhecimentos incide normativamente sobre visibilidade total de Bentham falha, pois focos de
as condutas. A subjetividade produzida neste resistência tendem a se apoderar de todo e
contexto seria caracterizada por traços qualquer espaço vulnerável do dispositivo
essencialmente nomatizados/normatizadores, institucional. “Esses são os recantos úmidos

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onde nascem os ajustamentos secundários e de sentimentos; reconstituir os direitos civis


onde começam a infestar o estabelecimento” eliminando a coação, as tutelas jurídicas e
(Goffman, 1987, p. 247). o estatuto de periculosidade; reativar uma
Uma leitura “foucaultiana” de Goffman base de rendimentos para poder ter acesso
(1987) revela um “genealogista”, pois nos permite aos intercâmbios sociais (Rotelli, 1990,
verificar como as relações de poder/saber p. 32).
produzem práticas não-, discursvivas e subjetivi- O sujeito (singularidade desejante) está
dade na instituição total. Com Goffman, excluído e/ou silenciado pelo dispositivo
aprendemos que o manicômio possui estrutura
institucional totalitário (e asilar), que se pauta
física e simbólica, em que poderes e saberes se
pelo discurso médico (Jorge, 1983). Sua
produzem, gerando modelos profissionais e um
emergência costuma ser apreendida no registro
clima cultural específico. Desmontá-lo implica a
do desvio, do patológico, da subversão da ordem
invenção de novas instituições, partindo da ruptura
instituída. Seu advento é invariavelmente
epistemológica produzida pela instituição
negada: a desinstitucionalização exige a interpretado como um obstáculo que emperra o
elaboração de um novo paradigma (Nicácio, funcionamento adequado e efetivo do processo
1994; Costa-Rosa, 2000). institucional. Ora, por mais que se negue,
descarte o sujeito, ele persiste teimosamente
Novas instituições exigem, para sua
em aparecer e tumultuar o ambiente, resiste ao
criação, um exercício cotidiano de elaboração
próprio alijamento da cena institucional:
contínua de um projeto a partir da reflexão
manifesta-se nas disfunções e falhas que
permanente sobre as práticas, num esforço de
transformar a lógica e ação asilares. Nesse acometem as práticas microfísicas no contexto
trabalho, Goffman (1987) tem uma grande do estabelecimento. Ou como diz Goffman (1987,
contribuição a nos oferecer. p. 259), nas “fendas”.

A “experiência italiana” na área da Saúde


Coletiva propõe a superação do tratamento
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