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Universidade Católica de Brasília

Pró-Reitoria de Graduação

Curso de Ciências Econômicas

Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles

Marcelo Teixeira da Silveira

Brasília – DF

Novembro de 2003
Universidade Católica de Brasília

Pró-Reitoria de Graduação

Curso de Ciências Econômicas

Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles

Marcelo Teixeira da Silveira

Monografia apresentada ao Curso de


Ciências Econômicas da Universidade Católica
de Brasília como parte dos requisitos para a
obtenção do título de Bacharel em Ciências
Econômicas.

Prof. Dr. Elvino de Carvalho Mendonça – Orientador.

Prof. Msc. Rogério Boueri Miranda – Co-orientador.

Prof. Msc. Carlos Wagner Mesquita – Examinador.

Prof. Msc. Mariano César Marques – Examinador.

Brasília – DF

Novembro de 2003
FOLHA DE APROVAÇÃO

Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de Couros e Peles

Brasília, 22 de novembro de 2003

Matrícula № 98/5248-4

Orientador:

Co-orientador:

Examinador:

Examinador:
DEDICATÓRIA

Em nome de Deus o Clemente o Misericordioso

Como muçulmano, dedico esta monografia a Deus, por ter criado os Céus e a Terra,

e o que há entre eles para servir ao ser humano e ter concedido ao homem o prazer e a

responsabilidade de preservar o meio ambiente. Aos homens de boa vontade, que

dedicaram e ainda dedicam a sua vida em prol da preservação da natureza e de seus

habitantes.

Disse o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com Ele): “... e remover o

mal do caminho é uma caridade”. Este texto indica a importância da preservação do

ambiente em que a pessoa habita. E o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com

Ele) proibiu o muçulmano de cortar árvores, poluir nascentes, destruir plantações ou

demolir casas. Ele disse “Nem prejuízos, nem represálias”, isto porque o Islam, com a sua

sublime legislação, proíbe aos seus adeptos prejudicarem os outros, sejam os humanos ou a

natureza.
AGRADECIMENTOS

Seria difícil agradecer aqui a todos que participaram ou ajudaram, de alguma forma,

a conclusão desta monografia, ou aqueles que deram suas opiniões certamente de grande

valor. Portanto, começarei agradecendo primeiramente a Deus, a quem dedico também esta

monografia, pela saúde e inteligência na proposição desta; aos meus pais, Raimundo

Morais da Silveira e Solange Gomes Teixeira da Silveira; aos meus avós, Américo José

Teixeira e Arlette Gomes Teixeira, pelo apoio no decorrer deste curso de graduação. A

minha namorada e companheira Valéria Gentil Almeida, pela viva força e auxílio em todas

as fases da atividade coordenada e que, sem ela, esta não seria a mesma.

Agradeço, ainda, aos professores Alexandre Coelho Teixeira, Elvino de Carvalho

Mendonça, Rogério Boueri Miranda, meu mestre e orientador neste trabalho, e Sérvulo

Vicente Moreira, pela ajuda e incentivo; aos amigos Adriana dos Reis, Arlim Manoel

Prados Ribeiro, Elmar Rodrigues da Cruz, Fernando César Fonseca, Nasser Farah Abou

Jokh e Sônia Maria Teixeira, pelo fornecimento de material e formatação do texto.

A todos, muito obrigado pelos conselhos e paciência em tirar minhas dúvidas, o

que, certamente, foi de grande importância para uma exitosa conclusão do trabalho aqui

apresentado.
“Nem todo pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau...”
Imperatriz Leopoldinense
Samba Enredo do Carnaval 2003

“... porque tão importante quanto o equilíbrio econômico é o equilíbrio ecológico”.


Propaganda Banco do Brasil
SUMÁRIO

Resumo..................................................................................................................................p .

1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................9

1.1. Objetivos...................................................................................................................13

1.1.1. Objetivo Geral....................................................................................................13

1.1.2. Objetivos Específicos ........................................................................................13

2. REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................14

2.1. Comércio Legal e Meio Ambiente............................................................................14

2.1.1. Teoria das Vantagens Absolutas e Comparativas..............................................14

2.1.2. Comércio Ambiental e Abertura Comercial ......................................................17

2.1.3. Investimento Direto Externo..............................................................................22

2.1.4. A Premiação ISO 14.000 ...................................................................................24

2.2. Comércio Legal de Couros e Peles ...........................................................................25

2.2.1. O Setor Coureiro................................................................................................25

2.2.2. Problemas das Empresas Exportadoras de Couro..............................................28

2.3. Comércio Ilegal e Meio Ambiente............................................................................31

2.3.1. O Tráfico do Meio Ambiente.............................................................................31

2.3.2. A Evolução do Tráfico.......................................................................................35

2.3.3. Dificuldades no Combate ao Tráfico de Animais Silvestres .............................38

2.3.4. Biopirataria e Monopolização da Vida ..............................................................38

2.4. O Comércio Ilegal de Couros e Peles .......................................................................44

2.5. Direito de Propriedade Intelectual Versus CDB.......................................................48

2.6. O Bem-Estar Econômico e o Meio Ambiente ..........................................................54


3. METODOLOGIA............................................................................................................57

3.1. Método ......................................................................................................................57

3.2. Coleta de Dados ........................................................................................................57

3.3. Regressão Econométrica...........................................................................................60

3.3.1. Benefícios de Usar “Panel Data” .......................................................................60

3.3.2. Limitações do “Panel Data”...............................................................................61

4. RESULTADOS ...............................................................................................................63

4.1. Equações do Modelo.................................................................................................63

4.2. Hipóteses Adotadas...................................................................................................64

4.3. Análise dos Resultados .............................................................................................66

5. CONCLUSÕES ...............................................................................................................69

6. BIBLIOGRAFIAS ...........................................................................................................71

APÊNDICES ..........................................................................................................................i

APÊNDICE A – Endereços da Internet.............................................................................ii

APÊNDICE B – Lista de Siglas e Abreviaturas ...............................................................iii

APÊNDICE C – Regressão Econométrica .......................................................................vi

ANEXOS .............................................................................................................................vii

ANEXO A – Lista de Tabelas ........................................................................................viii


RESUMO

SILVEIRA, Marcelo Teixeira da, Comércio Legal e Ilegal do Meio Ambiente: o Tráfico de
Couros e Peles. Universidade Católica de Brasília. Professor Orientador: Dr. Elvino de
Carvalho Mendonça. Novembro de 2003.

A natureza é agredida todos os dias sem a mínima consciência da população de que


os recursos naturais são esgotáveis e de que a nossa sobrevivência no planeta depende
deles, devendo ser protegidos por acordos internacionais rigorosos que impeçam a
exploração descontrolada, a biopirataria entre outros crimes que ferem a biodiversidade.
Os investimentos podem ajudar no manejo correto da natureza, contudo, é preciso
verificar se as indústrias ambientalmente sensíveis estão aproveitando esses recursos de
maneira sustentável. Uma maneira legal de controlar essas indústrias é a implantação dos
selos ambientais, como uma forma de premiar as boas indústrias quanto ao manejo do
meio ambiente.
O tráfico da fauna silvestre vem tomando o lugar de antigas formas de comércio
ilegal como as drogas; entre as atividades ilegais mais lucrativas no Brasil, devido
principalmente à falta de fiscalização, esse comércio movimenta uma quantia incalculável
na economia do país, sem deixar parcela alguma para os cofres públicos. O Tráfico de
couros e peles é uma das formas mais rentosas, pois esses produtos podem se transformar
em artigos de luxo como bolsas e sapatos. Por meio do “panel data”, foi comprovado
econometricamente que o tráfico é mais intenso na região nordeste, contudo, é necessário
sugerir propostas e identificar erros quanto ao combate do comércio ilegal nessa e em
outras regiões geográficas.
No entanto, promover a igualdade social é de vital importância para que as
comunidades carentes não se aproveitem da falta de fiscalização para roubar a natureza em
favor de colecionadores e laboratórios, a fim de, dessa forma, complementarem suas
rendas familiares.
9

1. INTRODUÇÃO

O vínculo entre o comércio e o meio ambiente é uma questão que impregnará as

relações entre os países durante o século XXI. Os elos que levam a uma

complementariedade positiva estão sendo construídos, as boas experiências e as pesquisas

frutuosas se multiplicam a cada dia. Não é apenas importante que o comércio e o meio

ambiente não se contradigam, mas é necessário também que eles sejam complementares na

pesquisa para um desenvolvimento sustentável.

De acordo com o pensamento econômico clássico, “As riquezas naturais são

inesgotáveis; e não podendo ser multiplicadas, nem esgotadas, não constituem objeto das

ciências econômicas”.1 Contudo, é a partir de 1960 que se constata uma tomada de

consciência coletiva crescente sobre os problemas ambientais, incitando os agentes a

buscarem soluções. Desde o início da década de 90, houve um entendimento maior sobre a

biodiversidade, que possui um valor comercial nada desprezível. Hoje, estes agentes estão

de acordo que é preciso agir, e todos buscam determinar qual é a melhor forma de abordar

esses problemas.

Devido à crescente depauperação dos biomas brasileiros, impossibilitar o

prosseguimento da degradação da biodiversidade e tentar estruturar o Brasil e suas

vantagens ambientais comparativas e absolutas ao comércio mundial é uma forma

econômica viável de proteção ao meio ambiente. Favorecer a criação de mercados que

possibilitem a troca lícita de produtos ambientais, para viabilizar o desenvolvimento

sustentável e inibir a permutação ilegal, é o desafio propositivo desta pesquisa.

1
SAY, Jean Baptiste (1767 – 1832).
10

A compra e venda de produtos ambientais geram riqueza e crescimento econômico,

em contrapartida o meio ambiente o desacelera em termos sustentáveis. Os tratados de

liberação comerciais aumentam o intercâmbio entre especialistas dos setores de comércio e

meio ambiente, com diminuição dos custos de produção e combate a barreiras comerciais,

entretanto, os tratados de proteção ambientais restringem o tráfico e aumentam os preços

dos produtos devido aos custos ambientais.

Este trabalho emerge de questões que propõem verificar o desempenho do

comércio legal e ilegal de ativos ambientais, verificar se o tráfico provoca aumento ou

diminuição nos preços daqueles produtos cujo valor é declarado, observar se os

investimentos são favoráveis ou desfavoráveis às diversas indústrias relacionadas direta ou

indiretamente com o meio ambiente entre outras questões que serão discutidas mais

detalhadamente.

Também as diversas formas de comércio legal e ilegal demonstram como a teoria

das vantagens comparativas pode ser inserida no mercado de produtos ambientais e como a

arrecadação de investimentos estrangeiros pode ajudar a manter o meio ambiente saudável.

E, ainda, como as premiações podem ser de grande utilidade quando se fala em

desenvolvimento sustentável.

É preciso demonstrar o quanto é prejudicial à saúde do meio ambiente, bem como

as somas altíssimas que o país deixa de arrecadar sendo até mesmo roubado, quando o

assunto é tráfico da fauna e flora. É preciso entender que a história do tráfico de animais

silvestres não é apenas de desrespeito à lei, mas também de devastação e crueldade. E a sua

comercialização sempre foi uma atividade deletéria para a fauna, independente de ser legal

ou ilegal. Os animais sempre foram tratados de uma maneira desrespeitosa, vistos apenas

como simples mercadorias, utilizados como fonte de renda.


11

Nesse contexto, deve ser inserido a biopirataria, outra maneira de roubar a natureza,

onde o Brasil só tem a perder quando se monopoliza a vida em favor das grandes

multinacionais, não obstante, é de interesse relatar os principais acordos em que o Brasil é

signatário, acordos que nem sempre são benéficos ao país. Também serão abordadas as

conseqüências sociais relacionadas ao comércio legal e ilegal do meio ambiente,

mostrando que o bem-estar econômico relacionado à natureza combina com a justiça

social.

Em artigo veiculado em jornal, um economista e ex-deputado federal ataca a

fiscalização ambiental brasileira só porque esta prendeu um traficante de animais de

nacionalidade alemã. Segundo o deputado, esse “pobre coitado” só queria ajudar o Brasil a

se livrar dessas pragas que são as aranhas e outros animais venenosos. Nesse artigo,

observa-se que, quando se trata de crimes contra o meio ambiente, a ignorância não é

apenas uma característica de iletrados.

Neste trabalho, inicialmente são abordadas algumas questões teóricas relevantes

que surgem quando são consideradas as repercussões do comércio internacional sobre o

meio ambiente. Apresenta-se um modelo que mostra a inter-relação entre comércio e meio

ambiente, de forma que se possa responder à questão fundamental: O comércio ilegal de

couros e peles está relacionado com o comércio legal do mesmo? O tráfico de couros e

peles provoca aumento ou redução de preços para os mesmos produtos não traficados?

Será mostrado que a resposta a essas perguntas depende de vários fatores, não sendo

possível afirmações simplistas e genéricas a este respeito. Os resultados da econometria,

bem como a conclusão do trabalho, responde a essas e outras perguntas relacionadas ao

tráfico de couros e peles em todas as regiões do território brasileiro.

Existindo a possibilidade de identificar a necessidade de controle ambiental para

garantir a maximização do bem-estar, por que as políticas de crescimento econômico não


12

incorporam estes condicionantes desde a sua gênese? Ou melhor, por que o próprio sistema

econômico naturalmente não otimiza os usos dos recursos naturais?

Por último, procura-se identificar soluções que poderiam ser engendradas e

motivadas pelo governo e que pudessem reverter tendências ambientais restritivas à

melhoria do bem-estar da população brasileira e harmonizá-las num contexto de

desenvolvimento sustentável.

É neste contexto que a presente monografia busca compreender o relacionamento

entre comércio e meio ambiente, levando em consideração a existência de mercados

ilegais. Evitar a manifestação e a proliferação desta permuta ilegal sugere um movimento

cíclico de sustentabilidade econômica.


13

1.1. Objetivos

1.1.1. Objetivo Geral

Aprofundar o conhecimento vinculativo entre o comércio legal e ilegal do meio

ambiente e estudar o caso do tráfico de couros e peles à luz das ciências econômicas.

1.1.2. Objetivos Específicos

Trazer maior entendimento das conseqüências do tráfico de couros e peles sob os

ângulos:

social;

da possibilidade de obtenção de preços diferenciados;

da potencialização das vantagens comparativas e absolutas;

da atração de investimentos;

de redução dos custos;

da comercialização da fauna silvestre e

da impotencialidade dos órgãos competentes.


14

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Comércio Legal e Meio Ambiente

2.1.1. Teoria das Vantagens Absolutas e Comparativas

A Riqueza das Nações, principal obra de Adam Smith, publicada em 1776, é

considerada como o primeiro trabalho a tratar com exclusividade de economia e a incluir

uma visão sistemática acerca do comércio entre os países. Suponha que cada país se

especialize2 na produção daquele bem em cuja produção possua vantagem absoluta, ou

seja, que conseguisse produzir alguma mercadoria a um custo mais baixo do que outros

países e tirar proveito da especialização e das trocas. Ainda assim, essa teoria não

conseguiria explicar e justificar todas as possibilidades de comércio.

Sabe-se que existem países pobres, sem tecnologia e nem recursos para produzir

mercadorias a custos reduzidos em relação ao das grandes potências e é nesse contexto que

David Ricardo, em 1817, instituiu a economia como ciência, apresentando a teoria das

vantagens comparativas, que explica o comércio entre as nações, sem vantagem absoluta

na produção de nenhum bem. A fronteira de possibilidades de produção3 nos indica as

quantidades máximas que um país pode produzir de cada bem, claro que essas quantidades

dependerão da disponibilidade de fatores de produção e dos coeficientes técnicos de

produção. Um importante pressuposto da teoria das vantagens comparativas é que os

coeficientes técnicos são constantes e, como temos apenas um fator de produção – o

2
Especialização significa alocar todas as unidades disponíveis do seu fator de produção relevante, o trabalho,
na produção do bem em que esse fator é mais produtivo.
3
Mostra as quantidades máximas de bens que um país pode produzir a partir de sua dotação de fatores.
15

trabalho – as funções de produção têm retornos constantes de escala. A fronteira de

possibilidade de produção também é útil para ilustrar os ganhos com o comércio, que

podem ser representados como um deslocamento da fronteira de possibilidade de produção

de um país. Esse deslocamento representa a quantidade máxima que pode ser produzida do

bem em cuja produção o país tem vantagem comparativa e, conseqüentemente, especializa-

se. Os pontos da fronteira de possibilidade de produção de consumo são superiores, em

termos de bem-estar, aos da fronteira de possibilidade de produção porque representam

maior disponibilidade dos bens. É como se o comércio provocasse um aumento da

produtividade do trabalho (CARVALHO; SILVA, 2002).

As interações entre comércio e meio ambiente estão relacionadas a diversos efeitos

que são os da dinâmica comercial sobre o meio ambiente: efeitos diretos relacionados ao

transporte se apresentam sob diversas formas como consumo energético, poluição

atmosférica e acidentes ecológicos; efeitos indiretos relacionados às vantagens

comparativas estáticas4; dinâmicos como efeito escala, em razão do aumento dos “inputs”

demandados e dos “outputs” gerados, associado ao maior nível de produção e consumo;

efeito composição que depende da contribuição dos diferentes setores para o valor

adicionado total e efeito tecnológico referentes às mudanças da intensidade de poluição de

cada indústria.

A evolução dos problemas ambientais, numa economia em expansão, depende,

portanto, em que medida o efeito escala pode ser compensado pelo efeito tecnológico e se

o efeito composição tende a reforçar o efeito escala ou compensá-lo.

Segundo a visão tradicional, há um conflito entre ganhos ambientais e econômicos,

que deriva do conceito de externalidade negativa.5 O agente microeconômico procura

4
Os efeitos ambientais, em curto prazo, de um aumento nos fluxos comerciais.
5
Também pode ser visto como os efeitos do comportamento de pessoas ou empresas no bem-estar de outras
pessoas ou empresas são chamados de externalidades, positivas quando o comportamento de um indivíduo
ou empresa beneficia involuntariamente os outros, e negativa em caso contrário (TOLMASQUIM, p. 325).
16

maximizar lucro com custo mínimo, cuja escolha não leva em conta os danos ambientais

correlatos, as regulações que o levam a internalizar as externalidades ambientais acarreta-

lhe acréscimo de custo. A abordagem revisionista, conhecida como a hipótese de Porter,

enfatiza os efeitos sinérgicos entre regulações ambientais e competitividade. Segundo esta

visão, não existe um conflito inevitável entre ganhos econômicos e ambientais. Ao

promoverem melhorias ambientais, as empresas podem economizar insumos, racionalizar

o processo produtivo, aproveitar resíduos, diferenciar o produto final e, com isso, ganhar

em competitividade (ALMEIDA, 2002).

O índice de Vantagem Comparativa Revelada (VCR) se calcula como VCRij =

(Xji/Xjt)/(Xit/Xtw)6, onde j = um produto ou indústria, i = país e w = o mundo. Esse índice

mede alterações na participação das exportações de um país em um produto j sobre as

exportações mundiais desse produto j, comparando com as alterações na participação das

exportações totais do país sobre as exportações totais mundiais. Se a VCR > 1, o país

possui vantagem comparativa no produto, ou seja, sua participação no mercado mundial é

superior a sua participação total nas exportações mundiais; se o índice da VCR < 1, o país

carece de vantagem comparativa nesse produto.

O Brasil registra a maior e crescente VCR em polpa, papel, ferro e aço. Entre 1990

e 1998, sua VCR em polpa e papel aumentou de 3,1 para 6,2 e em ferro de 20,4 para 23,5.

Em geral, a importância do Brasil no comércio internacional ampliou seu desempenho em

fins da década de 90 no grupo das indústrias limpas.7 O sucesso dos níveis de

competitividade no mercado mundial trouxe a VCR crescimento significativo, que passou

de 0,46 em 1990 para 0,53 em 1998. Tal aumento se deve, principalmente, à indústria

6
Conforme as Nações Unidas e Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), tendo
como referência de mercado os países da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento
(Organisation for Economic Cooperation and Development – OECD).
7
Segundo Wheeler e Mani (1997), utiliza-se um ranking de intensidade de contaminação do Banco Mundial
para identificar as indústrias mais limpas. Trata-se principalmente das têxteis, maquinária elétrica e não
elétrica e equipamentos de transporte.
17

automobilística, na qual, apesar de o consumo dos produtos desta indústria não serem

limpos, ela apresenta melhores tecnologias e reduções das emissões de poluentes por

unidade (SCHAPER; VÉRÈZ, 2001).

2.1.2. Comércio Ambiental e Abertura Comercial

O Brasil possui um padrão atípico no que se refere à importação de produtos

primários; a fortíssima dependência das importações de petróleo que, no meio da década de

70 chegou a representar dois terços do total das importações, torna bastante alto o índice de

importação de produtos primários no final da década de 70. O esforço de prospecção

interna e a adoção de programas de fontes alternativas de energia acabaram resultando na

redução substancial da participação de produtos primários na pauta de importação (mas

que, de toda forma, ainda é mais alta que a das exportações).

O comportamento das exportações de produtos primários segue uma tendência

similar ao das importações, com uma redução acentuada no final da década de 70, mas que,

depois, atenua-se até atingir praticamente uma estabilidade no final da década de 90. A

expansão das atividades industriais, principalmente após a conclusão dos investimentos do

II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND)8 na década de 80, diversificando as pautas

de exportação e importação, certamente foi um dos elementos que mais contribuiu para

esse desempenho.

8
Em fins de 1974, como uma alternativa à dicotomia de ajustamento ou financiamento, lançou-se o II PND,
colocando-o como uma estratégia de financiamento, mas promovendo-se um ajuste na sua estrutura de oferta
em longo prazo, simultaneamente à manutenção do crescimento econômico, sua meta era manter o
crescimento econômico em torno de 10% a.a., com crescimento industrial em torno de 12% a.a. Essas metas
não conseguiram ser cumpridas, porém, manteve-se elevado o crescimento econômico, apesar de em níveis
mais baixos do que os anos anteriores. O plano significou uma alteração completa nas prioridades da
industrialização brasileira do período anterior conhecido como milagre econômico (GREMAUD;
VASCONCELLOS, 2002).
18

Os resultados referentes ao índice de toxicidade são os que mais claramente

mostram uma tendência persistente de redução da toxicidade de importações, que vão se

tornando cada vez mais “limpas”, em contraste com o aumento considerável no potencial

contaminante das exportações, ambientalmente cada vez mais complicadas. Essa tendência

está claramente associada à conclusão da etapa “pesada” da industrialização, quando a

indústria de insumos básicos (metalúrgica, química e petroquímica, papel e celulose) se

estabelece no país, que passa de importador a exportador líquido desses produtos de alto

potencial contaminante.

Deve-se ter claro que esse exercício considera apenas o potencial de contaminação

da produção do bem exportado final, ignorando a poluição causada nas etapas

intermediárias (produção de insumos). Como grande parte do esforço de industrialização

foi exatamente no sentido de completar as cadeias produtivas “para trás”, na fabricação de

bens intermediários, o índice de toxicidade potencial das exportações deve ser bem maior

quando considerada toda a cadeia produtiva. De qualquer forma, é evidente que a indústria

brasileira adotou um comportamento de especialização crescente na exportação de

produtos com maior potencial contaminante e, portanto, correm maiores riscos, caso

medidas de restrição de comércio de cunho ambiental sejam adotadas.

Contudo, buscou-se mostrar que a relação entre comércio e meio ambiente é

extremamente relevante para o Brasil, visto que a sua inserção tem se caracterizado cada

vez mais ao retorno do padrão primário-exportador, e que o potencial contaminante de suas

exportações tem crescido em relação ao dos produtos comercializados pelos países

desenvolvidos.

O caso do Brasil apresenta problemas sérios, apesar de ter ocorrido uma forte

redução na dependência de produtos primários. É preocupante a forte tendência de


19

especialização na exportação de produtos industriais de maior potencial contaminante

(ALMEIDA, 2002).

Conforme sugere dados da CEPAL, durante a década de 90, o volume exportado de

produtos com reconhecido impacto ambiental, tais como os produtos intensivos em

recursos naturais e os produtos provenientes de Indústrias Ambientalmente Sensíveis

(IAS)9 ou potencialmente intensivas em contaminação, tem registrado um aumento

significativo não só no Brasil, mas também em todo Mercado Comum do Sul

(MERCOSUL) e na Comunidade Andina (SCHAPER; VÉRÈZ, 2001, p. 15).

Com a abertura comercial10, a privatização das empresas estatais e a re-

regulamentação da economia constituem o fim de um ciclo de políticas

desenvolvimentistas, iniciadas no governo Vargas (1930 – 1945) com o Processo de

Substituição de Importações (PSI).

Segundo a teoria evolucionista, a firma aparece como agente central do processo de

desenvolvimento tecnológico, seja mediante a absorção de conhecimentos produzidos

externamente e/ou por meio do desenvolvimento interno. Neste sentido, o ambiente

econômico e institucional em que a firma opera é determinante na forma como esta se

articulará com os sistemas nacionais de Ciência & Tecnologia (C&T).

O sistema nacional de C&T no Brasil foi desenvolvido a partir de instituições de

pesquisas criadas ao longo dos últimos quarenta anos. A criação do Ministério da Ciência e

Tecnologia nos anos 1980 visou articular estas instituições e criar mecanismos

permanentes de fomento à pesquisa e formação de recursos humanos de alto nível.

9
São aquelas que proporcionam os mais altos gastos com redução e controle de contaminação.
10
Em março de 1990, o programa de abertura foi consideravelmente aprofundado e acelerado. Naquele ano,
foi instituído o mercado flutuante de taxas de câmbio e anunciada a eliminação dos controles não-tarifários às
importações. No início do segundo semestre do mesmo ano, o desmantelamento dos controles
administrativos às importações já havia sido completado (MARINHO; PIRES, 2002, p. 43).
20

Os investimentos em C&T no Brasil evoluíram 68% no período compreendido

entre 1990 e 1997, atingindo cerca de US$ 10 bilhões. Evidenciando, conseqüentemente,

uma tendência de aumento da aplicação de C&T às atividades produtivas.

No governo Itamar Franco, foi reintroduzida a concessão de benefícios fiscais para

a capacitação tecnológica de empresas industriais e agropecuárias que investissem em

atividades de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). No entanto, tais incentivos foram

praticamente anulados em 1997 e foi alterada a política de propriedade industrial,

principalmente nas áreas de software e farmacêutica.

As alterações mais importantes nas políticas tecnológicas, pós-liberalização

comercial, ocorreram nas áreas da regulação dos contratos de transferência de tecnologia.

Houve uma profunda desregulamentação, reduzindo o prazo de averbação dos contratos

pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Este, por sua vez, deixou de

elaborar qualquer tipo de análise de “similaridade” em relação a produtos de fabricação

nacional, que constituía o principal instrumento de apoio à tecnologia nacional. Essas

alterações provocaram um aumento no número de contratos de transferência tecnológica,

provocando o crescimento das remessas de divisas entre as subsidiárias no Brasil e as suas

matrizes no exterior.

Um importante contraste entre a tendência dos Países Desenvolvidos (PDs) e o caso

brasileiro se refere ao engajamento do setor empresarial nos esforços de P&D, enquanto no

Brasil a participação atinge 30%, nos PDs ela chega a alcançar, no Japão, por exemplo,

70%.

No Brasil, o sistema de patentes como indicador das atividades inovadoras suscita

uma série de problemas, entre eles, por exemplo, o sistema não diferencia entre inovações

radicais e incrementais, atribuindo a ambas o mesmo valor econômico. É importante


21

ressaltar que, mesmo considerando que existe uma relação entre os gastos de P&D e o

patenteamento das firmas, percebe-se muitas vezes a ausência de tal relação.

No Brasil, o setor produtivo consumiu em 1990 apenas 22,6% dos recursos, mas

patenteou 63,87% do total, no entanto, os gastos em C&T do setor não produtivo não tem

como finalidade a apropriação dos conhecimentos gerados por meio de patentes, mas sim

produzir conhecimentos científicos de domínio público.

A comparação entre patentes e gastos em C&T mostra que, embora as empresas

estatais tenham gasto mais do que o conjunto de empresas privadas, elas patentearam

menos, a explicação pode ser porque as inovações realizadas pelas estatais, possivelmente,

têm um conteúdo tecnológico maior; os gastos com P&D é pequeno quando comparado

com as empresas privadas e parte do patenteamento por empresas privadas é feito por

firmas estrangeiras, em muitos casos, essas patentes têm o objetivo de reservar o mercado

de determinados produtos ambientais ou processos contra a eventual exploração da

inovação por concorrentes locais.

Houve uma queda da média de patenteamento das empresas estrangeiras no

escritório norte-americano de patentes. Observa-se que há estratégias diferentes quanto ao

patenteamento pelas filiais brasileiras de transnacionais. Há corporações que registram a

patente em nome da matriz e não da filial, diminuindo a importância das patentes de

residentes no Brasil.11

De acordo com o INPI, dentre as instituições de pesquisas que patentearam no

período compreendido entre 1990 e 1995, pode-se destacar o Instituto de Pesquisas

Tecnológicas de São Paulo (IPT-SP) com 24 patentes registradas e a Empresa Brasileira de

Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) com 17, de um grupo seleto composto por seis firmas

11
Existe caso de patentes concedidas a não-residentes no Brasil, cuja equipe de inventores era constituída
apenas por brasileiros (TIGRE; CASSIOLATO; SZAPIRO, 2000).
22

que conseguiram obter, pelo menos, um registro de patente (TIGRE; CASSIOLATO;

SZAPIRO, 2000).

Os efeitos ambientais da abertura comercial levantam a hipótese de que as

regulações ambientais menos rigorosas dos Países em Desenvolvimento (PEDs), vis-à-vis

a dos PDs, representam VCR para os PEDs nas indústrias com maior potencial de

poluição. Portanto, a liberalização comercial tende a provocar impactos ambientais

adversos, outra visão argumenta que, para as VCR, a decisão locacional do Investimento

Direto Externo (IDE) é mais importante do que o grau de rigor das regulações ambientais e

as indústrias devem se beneficiar ambientalmente desta vantagem.

Alega-se que as economias mais abertas têm maior acesso às novas tecnologias,

favorecendo a difusão de tecnologias ambientais mais rapidamente, mas também pode

induzir as empresas a adotarem estratégias de racionalização de custos, cortando gastos

com melhorias ambientais (ALMEIDA, 2002).

Os subsídios para P&D, oferecidos pelo governo e agências internacionais à

empresas, instituições e centro de pesquisas, são políticas que podem aprofundar essa

associação positiva entre investimento e meio ambiente (GITLI; MURILO, 2002).

2.1.3. Investimento Direto Externo

O cálculo do Índice de Especialização (IE) para medir a incidência das empresas

estrangeiras no setor das IAS é feito da seguinte maneira: IE = (Vendas das IAS

estrangeiras/Vendas totais estrangeiras)/(Vendas das IAS/Vendas totais estrangeiras)12, se

o índice é maior do que a unidade, considera-se que existe uma especialização de IDE no

setor e, desta maneira pode-se calcular os índices de especialização de indústrias distintas.

12
Idem a nota de rodapé número 5.
23

A amostra brasileira é bastante ampla, consiste em 307 empresas, das quais 196 são

internas e 111 são de capital estrangeiro. O setor mais importante é o setor petróleo/gás

com 18% das vendas totais realizadas pela amostra, estas incidem no total de US$

168,778.00, dos quais as empresas estrangeiras realizam 44%. As vendas no setor das IAS

representam 44%; a participação das empresas estrangeiras nesta é menor do que as vendas

totais, chegando a 29%. As vendas estrangeiras têm uma importante participação no setor

petroleiro, que supera 20% das vendas totais neste setor.

Calculando o IE, não surpreende que, no Brasil, não se pode observar uma

especialização das empresas estrangeiras; no grupo das IAS, o valor de 0,658 está

claramente abaixo da unidade. As vendas por empresas estrangeiras estão muito

diversificadas no Brasil, não há uma clara especialização destas nas IAS e a especialização

se observa tanto no setor ambientalmente sensível como nos setores tradicionais.

Aos efeitos ambientais do IDE, pode-se atribuir uma maior eficiência no uso dos

recursos, por exemplo, o provável uso de melhor tecnologia. Sem embargos, poderia ser

também que o IDE promova a exploração de recursos naturais a um ritmo mais acelerado.

Também existe a possibilidade de que as empresas estrangeiras tenham maior interesse em

cumprir com as normas ambientais, mas pode-se constatar que a pressão sobre as empresas

estrangeiras, para cumprir com as normas ambientais, nos países receptores é muito fraca

(SCHAPER; VÉRÈZ, 2001).

No caso brasileiro, demonstra-se que o consumo de capital natural no Brasil estaria,

no mínimo, acima de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e que os investimentos

necessários para a recomposição do seu nível de estoque não estão sendo realizados

(MOTTA, 1997, p. 8).


24

2.1.4. A Premiação ISO 14.000

A premiação ISO 14.000 foi articulada em 1992 pelas Nações Unidas, na

Conferência para Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, com o

comprometimento de responder ao complexo desafio do desenvolvimento sustentável. É

nesse contexto que surge, visando o meio ambiente à rotulagem ambiental, ou seja, parte

de um processo pelo qual a proteção aos recursos naturais se converte em um valor social.

Nos PDs, à medida que as empresas perceberam que as preocupações ambientais podiam

se converter em vantagens mercadológicas para alguns produtos, inúmeras declarações

surgiram no mercado. Em virtude da proliferação de rótulos e selos ambientais no mercado

e da necessidade de se estabelecerem padrões e regras para o seu uso adequado é que a

Organização Internacional de Normalização (International Organization for

Standardization – ISO) desenvolveu normas para a rotulagem ambiental.

Os programas de rotulagem ambiental consistem, portanto, em uma moderna

ferramenta de mercado, necessariamente voluntária, utilizada para se alcançar diversos

objetivos ambientais e tecnológicos. Em alguns mercados com maior sensibilidade

ambiental dos consumidores, os selos ecológicos estão se tornando um importante fator de

competitividade, adicionando valor agregado aos produtos. O Sistema de Eco-Gestão e

Auditoria (Eco-Management and Audit Scheme – EMAS) da União Européia foi adotado

pelo Conselho da União Européia, em junho de 1993, e aberto à participação das indústrias

desde abril de 1995. Trata-se de um sistema aberto a todos os Estados-Membros da União

Européia e da Associação Ambiental Européia (EEA), mas é crescente o número de outros

países que se candidatam para a implementação do EMAS com a finalidade de se

prepararem para o acesso ao mercado europeu (ALMEIDA, 2002).


25

Quanto aos selos e rótulos, o importante é saber avaliar a empresa anualmente, para

que haja um processo de contínuo aperfeiçoamento. Desde 1980, a premiação é uma boa

promoção para muitas empresas, entretanto, deve-se avaliar se esta atual onda de prêmios e

certificações não está apenas promovendo as empresas patrocinadoras em detrimento das

ganhadoras, e se a rotulagem ambiental realmente beneficia ou prejudica a relação entre

comércio e meio ambiente (MOURA, 2003).

Neste contexto, o número de empresas com certificação ISO 14.000 no Brasil

aumentou de 2 em 1995 para 165 em 1999 (SCHAPER; VÉRÈZ, 2001, p. 22).

2.2. Comércio Legal de Couros e Peles

2.2.1. O Setor Coureiro

O setor de couros, englobando todas as suas ramificações e atividades afins,

constitui um expressivo segmento social e econômico no Brasil. Além de sua presença no

atendimento do mercado interno, é no mercado externo que o setor de couros e peles vem

demonstrando sua força, a ponto de ocupar posição destacada na pauta de manufaturados

do País.

O couro é o único material conhecido que absorve até 75% de umidade e mantém o

tato seco. Por isso, é considerado o melhor material para estar em contato com o corpo. Na

verdade, o material que o curtume trabalha é chamado de pele, esta, após o curtimento, é

que recebe o nome do produto final couro.

Curtir significa conservar. E, para conservar a pele do animal, seja ele réptil ou

mamífero, é necessário retirar alguns elementos que compõem esta pele. Isto é possível por
26

meio da utilização de substâncias orgânicas e/ou inorgânicas. Existem três grandes

processos de curtimento classificados de acordo com o agente curtente:

com gorduras;

com substância vegetal e

com sais de metal, processo que atinge 90% do mercado mundial.

O curtimento por meio da gordura é um processo mais artesanal e circunscrito ao

universo das comunidades dos esquimós, a fim de atender suas necessidades mais

peculiares. No caso do uso de substância vegetal (tanino), o couro se torna mais endurecido

e armado, o que permite apenas o lixamento como acabamento, por isso, é usado para

solas. No caso dos sais de metal, podendo ser cromo (o mais usado), zircônio ou ferro,

além de permitir um acabamento mais refinado, o couro adquire maior maleabilidade e

maciez para o uso.

No caso em tela, tanto no curtimento ao tanino quanto no uso dos sais de metal, os

dois processos consistem em retirar a epiderme ou queratina (pêlo e unhas) e a hipoderme

(glândulas de gordura), para deixar apenas a derme ou colágeno (fibras). Os espaços vagos

deixados pela epiderme e hipoderme são ocupados pelos agentes curtentes. Desta forma,

todas as operações dentro do curtume objetivam este fim.

Todos os produtos químicos envolvidos no processo produtivo e seus resíduos

(pêlos, carne e sangue) são despejados nos córregos das cidades, causando danos tanto

imediatos, quanto mau cheiro e outros prejuízos, em longo prazo, devido ao acúmulo

destes efluentes no meio ambiente, o que inviabiliza a captação de água para o

abastecimento dessas cidades, bem como qualquer outro tipo de utilidade, seja paisagística

que para o lazer.

Nenhuma intervenção foi feita até agora, pois os córregos comprometidos pelos

curtumes deságuam na jusante dos mananciais dos rios que abastecem as cidades.
27

Malgrado isto, este já não está suprindo mais as demandas de alguns municípios, o que está

obrigando o poder público a recorrer à captação de água de rios mais distantes,

aumentando, assim, o preço da água.

Neste sentido, a legislação atende somente a pontos elementares, ficando apenas na

aparência, sem sequer tocar a essência. No caso do tratamento dos resíduos e efluentes,

pode-se notar que a lei é seguida. Entretanto, a única preocupação do empresário da

indústria de curtimento de couro é garantir o funcionamento do processo produtivo,

esquivando-se de outras obrigações (CAMPOS, 2002).

Segundo Cezar Müller13, no ano de 2002, o Brasil exportou mais de 1 bilhão de

dólares em couros para uma centena de países, com um acréscimo de 9% com relação ao

ano anterior. Somente em couros bovinos, foram exportados mais de US$ 930 milhões no

ano. Apesar do enorme potencial, o couro brasileiro precisa avançar em qualidade para ser

vendido com valor mais alto no mercado internacional e gerar ganhos ao longo de toda a

cadeia produtiva. Agregar valor ao couro significa priorizar a qualidade, principalmente

nas etapas iniciais do processo.

A substituição do volume atual de exportações de “wet blue”14, por couros semi-

acabados, geraria um acréscimo de divisas para o país da ordem de aproximadamente US$

527 milhões/ano. Se a opção fosse por couros acabados, o aumento seria de

aproximadamente US$ 749 milhões anuais. A substituição do volume atual de exportações

de “wet blue” por couros semi-acabados geraria um acréscimo imediato para o país de

aproximadamente 15 mil postos de trabalho. Se a opção fosse por couros acabados, o

aumento seria de 21 mil e 310 empregos, conforme tabelas 1 e 2 em anexo.

13
Ver revista Courobusiness junho de 2003.
14
O processamento da pele, quando atinge o primeiro estágio de curtimento, resulta no couro “wet blue”.
Este tipo de couro deixa de atribuir valores quando a transformação em couro semi-acabado e acabado
resultam em maior valor agregado à economia; a comercialização do “wet blue” se realiza a preços menores,
quando comparado aos couros de melhor qualidade.
28

Apesar de ser pouco divulgado, ou ocupar a mídia com noticiários sobre guerras e

disputas, o Paquistão é um dos maiores exportadores de couro de cabra e carneiro do

mundo. Não obstante a grande distância entre Brasil e Paquistão, os dois países exportaram

quase o mesmo valor em couro no ano de 1999, mostrando que o Brasil tem muito a

aprender com aquele país, para garantir uma melhor vantagem comparativa no setor de

couros e peles. A participação do Paquistão no total de couro exportado no mundo é de 3%

(o quinto do ranking). A China lidera com 40%, seguida pela Índia com 10% e Turquia e

Itália com 8%.

O setor, incluindo outros tipos de couros e peles, contribui com 7% do total

exportado pelo país, e apresenta 5% do PIB. Como acontece no Brasil, o Paquistão possui

uma economia baseada na agricultura e tem uma enorme área de pastagem. Essa é uma

vantagem natural para o aumento na quantidade de cabeças disponíveis, como registrado

na última década. O rebanho de cabra aumentou de 36 milhões em 1990 para 45 milhões

no final da década.

2.2.2. Problemas das Empresas Exportadoras de Couro

A pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresenta informações

que ajudam a entender as diferenças e semelhanças entre o setor de couros e o conjunto da

indústria brasileira.

O setor de couros emerge como uma importante vitrine dos problemas que afligem

as empresas exportadoras. A tradição exportadora, a presença em vários estados da

federação e o porte variado das empresas permitem que o exame dos seus problemas sirva

como um guia para o entendimento dos obstáculos ao desenvolvimento da atividade

exportadora no Brasil. A análise das semelhanças dos problemas com o restante da


29

indústria e as nuances nas diferenças podem revelar um roteiro para a estratégia de atuação

do setor.

Em primeiro lugar, os entraves. A pesquisa para a indústria geral aponta que as

dificuldades do exportador não terminam quando a mercadoria entra no porto. Os custos

portuários e a burocracia alfandegária são considerados como os dois mais importantes

obstáculos à atividade exportadora. O setor de couros também identifica as mesmas

restrições dentre os seus três principais obstáculos para exportar. Mas o seu principal

problema é a dificuldade de ressarcimento de créditos tributários, diferenciando o setor de

couros, de forma significativa, dos demais setores da indústria. Em nenhum outro setor, a

magnitude do problema é tão expressiva. O setor que mais se aproxima é o de calçados,

seguido do de móveis.

A dimensão do ressarcimento dos créditos no setor de couros é reflexo do seu

próprio sucesso exportador, medido pela participação das exportações no faturamento, e da

conseqüente acumulação de créditos fiscais. Uma outra área em que os problemas do setor

de couro são mais graves que a média da indústria são as dificuldades de financiamento da

produção.

O segundo ponto é a ação do governo. Nesta pesquisa, a demanda por ações do

governo apresenta coerência com os obstáculos apresentados, mas surgem interessantes

diferenças entre o setor de couros e a indústria geral. As duas principais ações propostas

para a ação de governo identificadas na pesquisa, desoneração tributária e condições de

financiamento à produção são semelhantes entre os setores de couros e a indústria geral.

Mas a terceira prioridade do setor de couros, sistemas de garantias ao financiamento, é a

quinta da indústria geral. E a terceira prioridade da indústria geral, a eliminação de

barreiras externas, apresenta-se como uma prioridade menos importante para o setor de

couros.
30

Em seguida, aparecem as questões relativas ao financiamento. As dificuldades na

obtenção de financiamentos para as exportações são uma das principais restrições

enfrentadas pelas empresas brasileiras. No exame comparativo do setor couros com a

indústria geral, surge a seguinte evidência: o setor de couros é o setor da indústria

brasileira que mais conhece os mecanismos de financiamentos disponíveis.

O setor de couros é o que tem o maior número de empresas que utiliza o Programa

de Financiamento às Exportações (Proex) equalização (18% das empresas), mas é

expressivo o registro que 47,1% das empresas conhecem o mecanismo, mas não

conseguem utilizá-lo. Um número equivalente de empresas utiliza o Proex financiamento.

O quarto ponto é tributação. O sistema tributário brasileiro é complexo e prejudicial

à competitividade. Para as empresas do setor de couros, os tributos que mais afetam a

competitividade são a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e

o Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social

(PIS/COFINS), seguidos pelo Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços

(ICMS). Os problemas do setor com o ICMS são mais expressivos do que a média da

indústria. As empresas do setor assinalam que o maior grau de dificuldade dos mecanismos

de desoneração de tributos está localizado, por ordem de importância, no PIS/COFINS,

ICMS e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

No PIS/COFINS, a principal dificuldade do setor de couros é a demora de

ressarcimento em espécie (assinalado por 72,2% das empresas contra 33,3% da indústria

geral) e o não recebimento do crédito em espécie (44,4% das empresas contra 19,6% da

indústria geral). No ICMS, as principais questões são o não recebimento do crédito em

espécie e a transferência de crédito para terceiros. No primeiro caso, é um problema que se

apresenta de maior magnitude do que para o restante da indústria. O conjunto de problemas

tributários enfrentados pelas empresas do setor de couros tem, naturalmente, um efeito


31

sobre a decisão de exportar das empresas. 72% das empresas do setor couros assinalam que

o crédito fiscal acumulado tem um efeito negativo sobre a sua decisão de exportar. A

média para a indústria é de 34,6%.

Por fim, a comparação dos resultados do setor couros com o resto da indústria, feito

com base na pesquisa da CNI, revela que o desempenho do setor exportador é afetado

pelos entraves operacionais encontrados no processo de exportação (sobretudo

procedimentos alfandegários e custos portuários), no financiamento e pelas disfunções do

sistema tributário. Um exame mais detalhado revela várias características do setor de

couros. Uma curiosidade é que o setor é aquele que mais conhece os mecanismos fiscais e

de financiamento que estão disponíveis ou afetam a empresa exportadora. A intensidade e

característica dos seus problemas estão, em parte, associados ao seu próprio sucesso

exportador. Um exemplo é a dimensão dos créditos fiscais acumulados. Por essa pesquisa,

uma eventual solução da desoneração fiscal dos tributos cumulativos teria um impacto

sobre a decisão de exportar do setor couros maior do que na indústria geral. Este é um bom

motivo para a ativa mobilização do setor nas discussões da reforma tributária

(FERNANDES, 2003).

2.3. Comércio Ilegal e Meio Ambiente

2.3.1. O Tráfico do Meio Ambiente

Para a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS),

na pessoa de seu coordenador, Dener Giovanini15, o Brasil, desde o seu descobrimento,

15
Ver comissão parlamentar de inquérito destinada a “investigar o tráfico ilegal de animais e plantas
silvestres da fauna e da flora brasileiras”.
32

despertou a cobiça mundial por sua fauna e flora, e o processo de desenvolvimento cultural

da população brasileira foi singular, possibilitando o encontro entre os conquistadores e os

que mantinham uma estreita relação com a natureza e o meio ambiente. Ainda hoje,

observamos nos grandes centros urbanos, ou nos mais distantes rincões do nosso território,

a presença de vários animais silvestres convivendo com o ser humano, numa relação de

domínio e admiração, o olhar estrangeiro de cobiça se perpetua até hoje; os indivíduos

ricos ou pobres, de alguma maneira, contribuíram para que os recursos faunísticos do

Brasil se encontrassem gravemente ameaçados pelo comércio ilegal.

A fauna silvestre sempre foi um importante elemento cultural das diversas tribos

indígenas brasileiras e era realizada com critérios, sem ameaçar a sobrevivência das

espécies. Por exemplo, não abatiam fêmeas grávidas ou animais em idade reprodutiva.

Entretanto, esses índios mudaram após o contato com os colonizadores e exploradores

europeus. Começaram a explorar os recursos naturais mais seletivamente e intensamente e,

em muitos casos, eram usados como agentes depredadores desses recursos. Começa aí a

história da exploração comercial da fauna silvestre brasileira que, pela sua diversidade,

gerava a idéia de ser abundante e inesgotável.

O comércio ilegal envolve muitas e variadas atividades fraudulentas, que mudam de

ano para ano. Assim que um tipo de fraude é detectado, outro já está emergindo. Todavia,

há quatro principais categorias:

o contrabando de animais e produtos não declarados por meio das fronteiras é,

freqüentemente, considerado mais um problema alfandegário do que de polícia;

o uso de documentos legais para encobrir produtos ilegais onde os traficantes,

freqüentemente, usam esse método para detectar apenas quando os produtos entram

no país importador;
33

o uso de documentos falsos que tem se desenvolvido consideravelmente nos anos

recentes, provavelmente por causa do aumento de controle e

outras atividades fraudulentas, pois é impossível listar todos os tipos conhecidos

dessas atividades, e a lista das que ainda não são conhecidas é, provavelmente,

grande.

O comércio de animais silvestres, como jacarés e sucuris, oriundos da região

amazônica, já era realizado pelos Incas, no Peru, mas só atingiu proporções maiores depois

da chegada da exploração européia. Esse comércio se desenvolveu paralelamente com o

crescimento do interesse das pessoas por esses animais.

O tráfico de plantas e animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do

mundo16, no entanto, surgiram dados preocupantes, como o envolvimento dos traficantes

de animais com os traficantes de drogas. Esse comércio movimenta cerca de US$ 10

bilhões ao ano, sendo o Brasil responsável por aproximadamente 10% desse mercado. Por

se tratar de uma atividade ilegal e por não existir uma agência centralizadora das ações

contra o tráfico no país, os dados reais sobre esse comércio ilícito são difíceis de ser

calculados, o tráfico de animais silvestres é uma atividade ilegal e, portanto, não conta com

registros exatos. Estima-se que o tráfico seja responsável pela retirada anual de 38 milhões

de espécimes da natureza.

Além de ter a sua biodiversidade ameaçada, o país perde, anualmente, com o

tráfico, uma quantia financeira incalculável e ainda uma gama irrecuperável de seus

recursos genéticos. Só o mercado mundial de hipertensivos movimenta, anualmente, cerca

de US$ 500 milhões, e o princípio ativo desses medicamentos é retirado de algumas

serpentes brasileiras, como a Jararaca. A cotação internacional dos venenos ofídicos é

16
Perdendo apenas para o tráfico de armas e drogas.
34

altíssima: um grama de veneno dessa espécie de cobra vale US$ 433.70 e o da Cascavel

US$ 301.40.

O mercado interno de animais comercializados ilegalmente movimenta muito

pouco, se comparado ao mercado externo. Os valores alcançados internamente dificilmente

ultrapassam a casa dos US$ 200.00 por animal, enquanto, no mercado internacional, esses

mesmos animais atingem facilmente valores na casa de dezenas de milhares de dólares.

O comércio ilegal da fauna silvestre se divide, claramente, em duas modalidades

básicas: o tráfico interno, que tem como característica a desorganização, sendo praticado

principalmente por caminhoneiros, direcionados para colecionadores e zoológicos

particulares17, sem licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos

Naturais Renováveis (IBAMA); e o comércio internacional que, por ser sofisticado, inclui,

subornos e condescendência de funcionários do próprio governo, de empresas aéreas e até

de políticos, direcionados a “pet shops”18 de outros países e para fins científicos

(biopirataria), sabe-se que, quanto mais raro for o animal, maior é o seu valor de mercado.

Animais para fins científicos – neste grupo, encontram-se as espécies que fornecem

a química base para a pesquisa e produção de medicamentos. É um grupo que, devido à

intensa incursão de pesquisadores ilegais no território brasileiro, em busca de novas

espécies, aumenta a cada dia.19

Animais para “pet shops” – a modalidade que mais incentiva o tráfico de animais

silvestres no Brasil. Devido à grande procura, a maioria das espécies da fauna brasileira

está incluída nessa categoria, os preços praticados dependem da espécie e da quantidade

demandada, de acordo com tabelas 5 e 6.20

17
Ver tabela 3 em anexo.
18
São lojas especializadas em comercializar animais.
19
Ver tabela 4 em anexo.
20
Quando o assunto é tráfico ou (bio) pirataria, a busca por um preço justo deixa de ser a manifestação, no
plano do comércio, de um valor antropológico e ético central na cultura da sociedade contemporânea.
35

2.3.2. A Evolução do Tráfico

O combate ao tráfico de animais silvestres passa, necessariamente, pela

conscientização da nossa sociedade, pela disponibilidade de informações, e pela

organização dos órgãos de controle ambiental. Os traficantes se especializaram, contam

com estruturas eficientes e com apoio de outras atividades ilegais.

Após a perda do habitat, a caça para subsistência e comércio é a segunda maior

ameaça à fauna silvestre brasileira. O Brasil participa com cerca de 5% a 15% do total

mundial do comércio ilegal de vida silvestre, o qual inclui a fauna e seus produtos.

Apesar de todos os problemas, legislações e restrições, o comércio ilegal de fauna

silvestre, suas partes e produtos vêm aumentando, possuindo variadas e novas técnicas de

contrabando, porque o lucro obtido é gigantesco. Os principais motivos pelos quais essa

atividade cresce no Brasil e no mundo são:

o tráfico de drogas está cada vez mais arriscado e difícil devido aos recursos

empregados para combatê-lo. O tráfico de fauna silvestre possui menos risco e

quase igual lucro para o traficante, além de menor investimento em seu combate.

Os traficantes de animais são, freqüentemente, conhecidos pela polícia, por seu

envolvimento nas atividades de armas, drogas, pedras preciosas e álcool;

uma parte das polícias, alfândegas e autoridades judiciais ainda, freqüentemente,

consideram que o comercio ilegal de fauna silvestre não é um crime sério. O

recurso destinado para combater esse comércio é muito pequeno e, quando os

violadores são pegos, não são punidos severamente e

nos últimos cinqüenta anos, o comércio internacional (em que se inclui a fauna)

cresceu catorze vezes. Esse crescimento acarretou aumento no volume de cargas


36

nas alfândegas, o que implica menos possibilidades de fiscalizar toda a mercadoria

que é movimentada.

O comércio ilegal de animais silvestre também está associado a problemas

culturais, de educação, pobreza, falta de opções econômicas, pelo desejo de lucro fácil e

rápido, pelo status e a satisfação pessoal de manter animais silvestres como de estimação.

Estima-se, com base no comércio registrado dos Estados Unidos que, a cada ano, o

tráfico de vida silvestre movimente em todo o mundo os seguintes números:

primatas: 25.000 – 40.000 animais vivos;

répteis: 3 milhões de tartarugas criadas em cativeiro;

2 – 3 milhões de outros répteis vivos;

10 milhões de peles e

30 – 50 milhões de produtos manufaturados.

O tráfico de animais silvestres é responsável pela retirada de cerca de 38 milhões de

espécimes da natureza no Brasil por ano. Pode-se dizer que são comercializados, de forma

ilegal, aproximadamente 4 milhões de animais silvestres. O preço dos animais

comercializados possui diversas variações de acordo com: a demanda e a necessidade do

mercado consumidor, o status da espécie (quanto mais raro e ameaçado, mais caro), as

restrições legais ao comércio da espécie e as implicações sócio-econômicas da sociedade.

Com base nos dados dos animais apreendidos e seus respectivos preços, foi

estimado que a cada ano, o Brasil movimente em torno de R$ 2.500.000.000,00, o

equivalente a US$ 900,000,000.00, no câmbio (R$ 2,70 = US$ 1.00). Relacionando esses

dados, pode-se dizer que as apreensões abrangem, aproximadamente, apenas 0,45% dos

animais envolvidos no tráfico. O gráfico abaixo representa o número de animais silvestres

apreendidos no Brasil.
37

Gráfico 1 - Total de animais apreendidos no Brasil - 1992 a 2000

60.000

45.000

30.000

15.000

0
1992 1993 1995 1996 1997 1998 1999 2000

Fonte: RENCTAS

O número de espécimes apreendidos por ano dependerá da intensidade de

fiscalização e das apreensões realizadas em cada estado brasileiro, pelas instituições

responsáveis. Um outro fator que dificulta essa atividade é a falta de centros de triagem,

para onde possam ser encaminhados os animais apreendidos.

A fauna é um recurso utilizado no turismo ecológico, que movimenta

mundialmente cerca de US$ 12 bilhões a cada ano. De acordo com o Ministério do Meio

Ambiente do Brasil, só a região amazônica tem um potencial turístico que pode render

US$ 13 bilhões por ano. Em geral, quem lucra com o comércio ilegal são as grandes

empresas que utilizam produtos da fauna silvestre e os grandes traficantes. A população

vende esses animais e seus produtos a preços mínimos que, posteriormente, alcançam altos

valores nos mercados internacionais. A Traffic Sudamérica mostrou que, no Chaco

Argentino, um caçador vende um couro cru a US$ 2.00 a peça para um intermediário, este

a vende a US$ 4.00 para os curtumes que, por sua vez, vendem a peça por US$ 6.00. O

couro, depois de curtido, no mercado internacional, é vendido a US$ 10.00 e um sapato

fabricado com esse couro pode chegar a US$ 300.00.


38

2.3.3. Dificuldades no Combate ao Tráfico de Animais Silvestres

O gráfico abaixo demonstra as principais dificuldades e problemas do combate ao

tráfico de animais silvestres no Brasil. Todos os fatores se relacionam e estão diretamente

ligados a muitos outros; sendo assim, se o país sofre com problemas ecológicos,

diretamente resultará problemas econômicos.

Gráfico 2 - Principais dificuldades no combate ao tráfico de animais silvestres no Brasil

6% 1% 15%
12%

6% 18%

8%

8% 10%
16%
Falta de contingente Falta de veículos
Falta de treinamento adequado Falta de equipamentos
Falta de material de estudo Falta de apoio por parte do governo estadual
Falta de integração com demais órgãos públicos ambientais Falta de lugar para destinar animais apreendidos
Entraves na legislação Outros
Fonte: IBAMA
Batalhões de Polícia Florestal

O atual quadro da degradação ambiental que o país enfrenta é o resultado de anos

de exploração descontrolada de seus recursos naturais. Essa atividade ilegal vem

crescendo, especializando-se e se tornando-se um dos principais problemas ambientais e

econômicos a ser resolvido no Brasil e no mundo.

2.3.4. Biopirataria e Monopolização da Vida

A biopirataria é a coleta de material biológico para exploração industrial de seus

componentes genéticos, em desacordo com as normas vigentes e sem o consentimento

prévio das partes interessadas. Entretanto, o oposto pode ser avaliado como bioprospecção,

uma atividade que pode ser economicamente interessante ao país e que pode possibilitar a
39

busca por novas colônias a serem exploradas e, dessa forma, dar continuidade ao processo

de acumulação.

No plano do direito internacional, assinou-se na Eco 92 por 180 países membros o

reconhecimento da soberania dos países sobre a exploração de seus recursos genéticos e

garantiu às comunidades locais o direito de decidirem e se beneficiarem dessa exploração,

haja vista a biopirataria ser uma violação desta convenção (HATHAWAY, 2002), portanto,

resistir à biopirataria é resistir à colonização final da própria vida, é a luta pela conservação

da diversidade, tanto cultural quanto biológica (SHIVA, 1997).

No Brasil, apenas uma medida provisória regulamenta o acesso ao patrimônio

genético (MP nº 2.186-16, republicada em 23/08/2001), que determina qualquer

bioprospecção feita por estrangeiros no Brasil, precisa estar associada a um instituto de

pesquisa nacional. Contudo, a violação desta não é crime, portanto, a biopirataria traz

benefícios econômicos apenas para alguns empresários.

Em 1994, o Congresso Nacional ratificou a Convenção sobre Diversidade

Biológica (Convention on Biological Diversity – CDB) que assegura direitos ao país e às

comunidades indígenas, tradicionais sobre a exploração de seus recursos genéticos. Mas a

convenção precisa ser regulamentada por lei ordinária, contudo, permanece parado um

projeto de lei na Câmara dos Deputados que, se aprovado, incluiria o patrimônio genético

entre os bens da União. No entanto, o decreto nº 3.945, 28/09/2001, cria o Conselho de

Gestão do Patrimônio Genético, cujos membros são apenas todos os funcionários de

ministérios federais.

A medida provisória 2.186 assegura formalmente o direito das comunidades de

decidirem sobre o uso por cientistas ou empresas de seu conhecimento tradicional, de

maneira que o interessado no acesso precisa conseguir, com antecedência, a sua anuência.

Como o termo anuência é vago, os direitos de comunidades tradicionais e locais não


40

indígenas ficam subordinados à possibilidade de o Conselho de Gestão do Patrimônio

Genético invocar o subjetivo critério de relevante interesse público, para autorizar o acesso

a seus conhecimentos sem consentimento.

Grupos indígenas e comunidades isoladas são o principal foco de atenção de

pesquisadores interessados em males que possam ter características hereditárias, que

buscam a cura pela genética. Sem qualquer informação, as pessoas se deixam enganar,

acreditando que a intenção seja diagnosticar para, depois, curar possíveis doenças na

comunidade.

A falta de uma legislação que regulamente o artigo 231, que são reconhecidos aos

índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos

originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,

proteger e fazer respeitar todos os seus bens e o 225 da Constituição, que também assegura

a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do

povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Executivo e à

coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações

(JÚNIOR, 1995). O mecanismo mais utilizado neste roubo é a patente, esta sim, com

legislação forte de proteção em nosso país.

De acordo com o INPI, é patenteável a invenção que atenda aos requisitos de

novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, portanto, não é permitida patente

sobre plantas no Brasil, só sobre microorganismos transgênicos, segundo o artigo 18 da Lei

de Propriedade Industrial (lei nº 9.279, 14/05/1996). Mas esta “lei de patentes” só vale no

Brasil, e não pode controlar a freqüente concessão de patentes sobre recursos genéticos

extraídos do Brasil para serem explorados em outros países.

Também pode ser usada dentro do Brasil a chamada patente virtual, quando a

patente sobre um processo que usa um certo material biológico acaba dando os mesmos
41

direitos de patente sobre seu produto. Por outro lado, a lei brasileira pode reconhecer a

patente de uma empresa estrangeira sobre o uso de uma determinada substância vegetal

nacional, mesmo sem patentear a planta original como tal. São formas típicas de

biopirataria das riquezas genéticas alheias.

Ainda não há uma fórmula jurídica, mas uma forma de superar, ou ao menos

compensar essas patentes, seria a criação dos Direitos de Propriedade Intelectual Coletivos

(DPICs). A atual ministra do Meio Ambiente Marina Silva apresentou emendas ao projeto

de lei sobre patentes em 1995, propondo que a lei respeitasse os DPICs, não obstante,

foram rejeitados. Assim, apesar da nossa gigantesca biodiversidade21 e do movimentado

mercado mundial de produtos farmacêuticos e biotecnológicos (entre 400 a 700 bilhões de

dólares por ano), não dispomos de uma legislação adequada que regulamente o acesso aos

recursos genéticos e assegure a justa repartição de benefícios econômicos ou tecnológicos

(HATHAWAY, 2002).

O estímulo à criatividade está nos Direitos de Propriedade Intelectual (DPI), regra à

monocultura do conhecimento que leva ao empobrecimento intelectual, sufocando outras

maneiras de saber, favorecendo as corporações transnacionais em detrimento dos

camponeses, sendo a reivindicação dos seus direitos ao conhecimento transformada em

“pirataria” e “roubo”. Uma das restrições dos DPI é que eles são reconhecidos apenas

quando o conhecimento gera lucro, ao mesmo tempo em que exploram a criatividade,

acabam com sua fonte, os livres intercâmbios de idéias são decisivos para a produtividade

e os processos de inovações, contudo, as patentes se tornam mais importantes como

ferramenta de controle de mercado.

21
O Brasil se caracteriza por ser o país com maior diversidade biológica do mundo, com cerca de 55 mil
espécies de plantas, perto de 22% do total aproximado de 250 mil existentes no planeta.
42

Os monopólios22 ligados aos DPI impedem o desenvolvimento de práticas

ecologicamente seguras e socialmente justas. A imposição dos monopólios e dos produtos

geneticamente modificados encontra-se no cerne do sistema de “livre comércio”.

Legalmente, a Rodada Uruguai do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General

Agreement on Tariffs and Trade – GATT)23, está forçando todos os países a terem DPI na

agricultura. Em termos econômicos, os produtos geneticamente modificados estão sendo

impostos e tendo por base o “livre comércio”.

Quando os direitos de propriedade para formas de vida são reivindicados, isto se faz

sob a alegação de que elas são novas, entretanto, no momento de os “proprietários”

assumirem a responsabilidade pelas conseqüências de liberar no meio ambiente Organismo

Geneticamente Modificado (OGM), as formas de vida deixam de ser novas, sendo a

questão da biossegurança tratada como improcedente (SHIVA, 1997). Por outro lado, a

polêmica em torno dos OGM não considera que a engenharia genética aplicada ao

melhoramento vegetal provoca mudanças no sistema de produção agrícola, gerando

alternativa criativa para o aumento da produção e produtividade de alimentos com

segurança ambiental e redução de custos de produção. A competitividade do agronegócio,

presente e futuro, estará, portanto, vinculada à capacidade de incorporar novas tecnologias

aos processos de produção (SALGAR, 2001, p. 72).

22
Forma de organização de mercado, nas economias capitalistas, em que uma empresa domina a oferta de
determinado produto ou serviço que não tem substituto (SANDRONI, 2000, p. 409).
23
Entre 1986 e 1993, os países membros do GATT estiveram envolvidos com a Rodada Uruguai de
negociações multilaterais, a maior e mais ousada Rodada de negociações, desde que foi assinado o GATT em
1947. Esta foi lançada em meio a um novo contexto internacional, que exigia a implementação de novas
regras e disciplinas. Assim, entraram na pauta das negociações o setor agrícola, que era objeto de “waivers”
resultantes de negociações em rodadas anteriores, e o setor têxtil, para o qual vigorava o Acordo Multifibras,
totalmente contrário às disposições e ao espírito do GATT. Outros setores não diretamente relacionados ao
comércio internacional, mas, com efeito, sobre ele, deveriam ser incluídos nas regras e disciplinas do GATT:
a propriedade intelectual, as medidas relacionadas aos investimentos, e o setor serviços. As negociações
agrícolas na Rodada Uruguai se pautaram por duas tarefas básicas: discussão e definição das novas regras
que passariam a reger o comércio agrícola internacional, identificação e classificação das políticas praticadas
pelos países. Firmado em 1947, o Acordo passou por constantes revisões, por meio das chamadas rodadas de
negociações, nas quais eram acertadas novas reduções tarifárias e se aprofundavam as discussões sobre
assuntos relacionados a práticas de proteção comercial e ao uso de barreiras comerciais não-tarifárias. A
Rodada Uruguai foi a última dessas rodadas, caracterizada como a maior e mais abrangente e a que incluiu os
temas mais polêmicos.
43

A agricultura sustentável se baseia na reciclagem dos nutrientes do solo, a

manutenção da fertilidade do solo se baseia na lei do retorno, que reconhece a terra como

fonte de fertilidade. O paradigma da revolução verde substitui o ciclo regenerativo de

nutrientes, a fertilidade passa a ser uma propriedade de produtos químicos, constituindo

mercadorias agrícolas, a criação de doenças do solo e a desertificação indicaram uma

agricultura que produzia apenas visando o mercado, a monocultura transgênica reduz a

biodiversidade ao eliminar culturas variadas, que proporcionam fontes variadas de

nutrientes, as tecnologias não podem fornecer um substituto para a natureza, nem os

mercados podem fornecer a única medida de produtividade.

O que era visto como improdutivo no contexto comercial da revolução verde está

emergindo como produtivo no contexto ecológico e como único caminho à agricultura

sustentável. Os fertilizantes químicos têm contribuído para a redução da segurança

alimentar por meio da poluição da terra, da água e da atmosfera.

“Pode-se registrar a proteção de algumas variedades de culturas, suas macropartes (flores,


frutas, sementes e assim por diante), suas micropartes (células, genes, plasmídeos e semelhantes) e
quaisquer processos originais que sejam desenvolvidos para trabalhar essas partes, tudo isso
utilizando uma única concessão múltipla” (DIEPENBROCK, apud SHIVA, 1997, p. 80).

A revolução biotecnológica rouba das sementes sua fertilidade, esta apresenta ao

capital um empecilho biológico simples: dadas às condições elas se reproduzem. As novas

biotecnologias transformam em matéria-prima o que é meio de produção e produto, e a

proteção de patentes transforma lavradores em fornecedores de matéria-prima grátis,

desabilita-os como competidores e os torna dependentes de suprimentos industriais.

As principais causas da deterioração da biodiversidade são a destruição dos habitats

e a pressão econômica e tecnológica para substituir diversidade por homogeneidade, que

dá início a uma reação em cadeia ligando-se ecologicamente nas teias e cadeias

alimentares. Sua conservação consiste em ampliar o alcance da ação de economias

baseadas na diversidade, eliminando incentivos concedidos a sua destruição: se sua


44

estrutura guiar o pensamento econômico em vez do contrário, a alta produtividade de

sistemas homogêneos e uniformes é uma medida artificial, dessa forma, reduz-se o alcance

das economias baseadas nas monoculturas e na não sustentabilidade (SHIVA, 1997).

2.4. O Comércio Ilegal de Couros e Peles

A maior figura no comércio de animais selvagens é a pele de répteis, tanto em

termo de quantidade como em valor monetário. As peles de crocodilos, cobras e lagartos

são utilizadas para uma variedade de artigos: sapatos, bolsas, roupas, malas, pulseiras de

relógio, cintos e outros. O couro dos répteis é considerado fino e seus produtos alcançam

alto valor no mercado, sendo por isso uma atividade muito lucrativa. Centros de couro

exótico importam, anualmente, milhões de peles de cobras e lagartos e nenhuma das

espécies, por eles utilizadas, é criada em cativeiro em números comerciais.

Nos últimos dez anos, a demanda de répteis para “pet shops”, pesquisas

educacionais e científicas, zoológicos e aquários e, para alimentação, cresceu

drasticamente em todo o mundo. Entre 1983 e 1992, o mercado americano de répteis

aumentou de 28% para 82% do total do mercado mundial. Em 1995, mais de 2,5 milhões

de répteis vivos foram importados pelos Estados Unidos, como a iguana, Iguana iguana,

correspondendo a mais de 45% desse total. Em 1996, o país reexportou 9,5 milhões de

répteis para Europa e Ásia.

A maioria dos lagartos teiús é destinada ao mercado internacional de couro exótico,

sendo a Argentina a principal fonte legal de abastecimento dessa espécie, e pequenos

volumes são exportados ilegalmente da Colômbia, Peru, Uruguai, Brasil e Panamá. Entre

os anos de 1957 a 1958, foram exportadas, legalmente do Brasil, 46 mil peles de teiú.

Somente de origem Argentina, mais de 1 milhão de peles, cerca de US$ 15 a 20 milhões,


45

abastece o mercado mundial a cada ano. Em 1985, mais de US$ 24 milhões em peles de

teiú e seus produtos foram importados pelos Estados Unidos, sendo a Argentina o principal

exportador.

As serpentes sempre tiveram suas peles comercializadas, sendo exportadas para a

fabricação de artigos de vestuário e acessórios, muito em moda na década de 70. A

demanda mundial por cobra é enorme e, a cada ano, ocorre o comércio internacional de

centenas de milhares de cobras vivas, milhões de peles e dezenas de milhões de sapatos,

cintos, e outros artigos de moda feitos com couro de cobras.

A pele de crocodilo vem sendo usada pela indústria da moda desde o final do

século XIX, quando a moda do couro exótico inundou a Europa. O pico do couro dos

crocodilianos se deu nas décadas de 50 e 60, com cerca de 5 a 10 milhões de peles desses

animais, por ano, entrando no mercado internacional.

Na América do Sul, a indústria de couro se voltou para o jacaré-de-papo-amarelo,

Caiman latirostres, e o jacaré-açu, Melanosuchus niger. Quando essas duas espécies

começaram a se tornar escassas para atender ao mercado de couro adequadamente, o

jacaré-do-pantanal, Caiman crocodilus, começou a ser caçado para suprir a demanda. De

1950 a 1965, 7,5 milhões de peles de jacarés (a maioria de jacaré-açu) foram exportadas do

Estado do Amazonas, o que teve um efeito devastador nas populações naturais. O número

anual de jacarés explorados na América do Sul, durante os anos 80, foi estimado em mais

de 1 milhão. Atualmente, estima-se que 1,5 a 2 milhões de peles de crocodilos abastece o

mercado mundial por ano, com ¾ desse total sendo de Caiman crocodilus, virtualmente

todos eles capturados na natureza. Segue abaixo o destino dos répteis apreendidos.
46

Gráfico 3 - Destino dos répteis apreendidos no Brasil - 1999 a 2000

5% 1%
1% 3% 0%
7%
0%

Soltura
Criadouros Comerciais
Centros de Triagem
Criadouros Científicos
Zoológicos
Morte
Termo de Guarda Voluntário
Institutos de Pesquisas 83%
Fonte: IBAMA

Muitas espécies de mamíferos têm suas peles e couros como objeto de comércio

para atender ao mercado de moda europeu. Nas décadas de 40, 50 e 60, a demanda de peles

proveniente de espécies tropicais foi tão grande que suas populações reduziram-se a níveis

alarmantes. Os carnívoros também têm destaque entre os mamíferos, pois são os

produtores das peles mais apreciadas. Nas décadas de 50 e 60, a demanda de peles de

carnívoro foi tão acentuada, que várias espécies tiveram suas populações reduzidas a níveis

elevados.

A lontra, Lontra longicaudis, tem sua pele considerada luxuosa e tem sido caçada

excessivamente ao longo dos séculos. Entre os anos de 1980 a 1984, entrou no mercado

mundial, mais de 63 mil peles de lontra. Apesar de ter diminuído substancialmente nas

últimas décadas, a caça para o comércio ilegal ainda é um fator que ameaça a espécie, a

ariranha, Pteronura brasiliensis, também sofre grande pressão de caça por sua pele, que

tradicionalmente é a mais valiosa entre todas a lontras. A maior demanda dessas peles é

para atender ao mercado de moda europeu.

Os felinos têm sido caçados por suas peles e outras partes. De 1968 a 1970, foi

estimado 1,4 milhão de peles de pequenos felinos no mercado mundial, uma média

aproximada de meio milhão de peles por ano. O comércio de pequenos felinos tem sido

marcado por excessiva caça ilegal e contrabando, especialmente as espécies latino-


47

americanas. As onças tiveram grande demanda comercial no meio da década de 60, quando

caçadores e traficantes tiravam mais de 15 mil peles da Amazônia brasileira a cada ano. No

final dessa década, era possível comprar um casaco de pele de onça em Nova York por

US$ 20,000.00.

Gráfico 4 - Destino dos mamíferos apreendidos no Brasil - 1999 a 2000


1%
18%

1%
49%

Soltura
Morte
Zoológicos 24%
Termo de Guarda Voluntário
Criadouros Científicos
Centros de Triagem
7% 0%
Criadouros Comerciais
Fonte: IBAMA

Os gráficos 3 e 4 demonstram quais são os principais destino dos animais silvestre

apreendidos no Brasil. A maior parte é solta. Na maioria das vezes, o que ocorre é a soltura

sem critério científico algum, apenas liberando os animais no próprio local de apreensão.

Os animais oriundos do tráfico também são encaminhados a outras instituições, tais como:

zoológicos, instituições de pesquisa, criadouro científico, criadouro conservacionista,

criadouro comercial, ou termo de guarda voluntário gratuito (ex-fiel depositário). Todos

esses destinos são paliativos e controversos, pois algumas dessas instituições podem

participar ativamente do comércio ilegal. O termo de guarda voluntário gratuito também é

controverso, podendo ser considerado um estímulo ao tráfico, pois o infrator passa a

possuir os animais legalmente.


48

2.5. Direito de Propriedade Intelectual Versus CDB

O acordo sobre Direitos de Propriedade Intelectual Relacionado ao Comércio

(Trade Related Aspects of Intelectual Property Rights – TRIPs)24 estabelece o padrão de

proteção aos direitos de inovação – na forma de direito autorais, patentes ou de outros

instrumentos para todos os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os pontos de interface desse acordo com as questões ambientais se encontram nas

prescrições do TRIPs que versam sobre a transferência de tecnologia e a proteção da

biodiversidade. Ambos constituem preocupações centrais dos PEDs, sobre as quais, em

geral, há divergência de posições entre estes países e os PDs.

A transferência de tecnologia, na teoria econômica dominante, oferece suporte para

a argumentação de que há uma forte correlação entre as garantias dos DPI e a taxa de

geração e difusão das inovações tecnológicas. Precisamente, são os autores das Novas

Teorias do Crescimento que argumentam em favor dessa tese, entre eles, destaca-se Romer

(1986). Esta tese está por detrás das posições defendidas pelos PEDs em favor do TRIPs,

que ressaltam as vantagens desse acordo para geração e transferência de novas tecnologias.

Os ganhos para a sociedade de uma inovação, geralmente, excedem os ganhos

individuais do inovador, isto é, a inovação gera externalidades positivas ou efeitos de

trasbordamento. Os custos de desenvolvimento de uma inovação geralmente excedem os

custos da sua reprodução, onerando o inovador original e beneficiando o autor da cópia, de

modo que, quanto maior o incentivo à inovação, na forma de garantias dos direitos

individuais de propriedade intelectual, maior o potencial de geração de inovações, com

ganhos para o inovador individual e para a sociedade como um todo.

24
Segundo o INPI, o que determina a propriedade de uma pessoa sobre o que tenha sido criado ou inventado,
constituindo o instrumento correto para proteger um produto ou um processo com possibilidades de
industrialização.
49

Os DPI assegurados também favorecem a difusão de novas tecnologias, uma vez

que a sua transferência, por meio de IDE, licenciamentos e consultorias, tende a ocorrer

mais facilmente quando o país hospedeiro oferece garantias aos inovadores de que as suas

inovações não serão livremente reproduzidas.

Os PEDs, por sua vez, avaliam criticamente o TRIPs e se preocupam com os efeitos

negativos potenciais desse acordo. Os DPI rigorosamente estabelecidos, por exemplo, um

período muito longo de vigência de patentes, pode onerar a sociedade com encarecimento

do produto em questão.

Por fim, podem prejudicar ou até mesmo eliminar a indústria doméstica de “pet

shops” formada com base na fabricação de produtos patenteados no exterior. Este risco se

eleva com o TRIPs, pois esse acordo toma por base uma legislação de patentes mais

restritiva, que exige patentes de processos produtivos e de produtos, colocando

constrangimentos notadamente a indústrias farmacêuticas desses países, que se valiam da

liberdade de produzir um mesmo produto por meio de processos produtivos distintos do

original, sem ferir a legislação de patentes doméstica que protegia somente o processo

produtivo.

No que diz respeito às tecnologias ambientais, as preocupações dos PEDs com

relação ao TRIPs se justificam, primeiro, pelo fato de que a capacitação endógena para a

geração, absorção e difusão dessas tecnologias constitui condição essencial para mover as

estruturas produtivas domésticas em direção a uma trajetória tecnológica compatível com a

construção do desenvolvimento sustentável. A preocupação dos PEDs com as implicações

do TRIPs para o acesso às tecnologias ambientais se justifica também pela interface desse

acordo com a proteção da biodiversidade.


50

As questões ambientais são explicitadas no TRIPs em meio às exceções previstas

por este acordo, precisamente. Assim, o artigo 27.2 permite aos países membros excluírem

do patenteamento:

“... aquelas invenções cuja prevenção da exploração comercial dentro do seu território, seja
necessária para proteger a ordem pública ou a moralidade, incluindo a proteção da vida ou saúde
humana, animal ou vegetal, ou ainda para evitar sérios prejuízos ambientais, desde que a exclusão
não seja realizada apenas porque a exploração comercial seja legalmente proibida”.

O artigo 27.3 (b) reza que os países membros podem excluir do patenteamento:

“... as plantas e os animais, excetos os microorganismos e procedimentos essencialmente biológicos


para produção de plantas e animais, que não sejam procedimentos não biológicos ou
microbiológicos. No entanto, os membros devem assegurar a proteção a todas as variedades vegetais
mediante patentes, mediante um sistema eficaz ‘sui generis’, ou mediante uma combinação de
ambos. As provisões deste subparágrafo devem ser revisadas quatro anos após a entrada em vigor do
acordo que estabelece a OMC”.

A ambigüidade apresentada por essas exceções do TRIPs, bem como as suas

evidentes interfaces com a CDB, explica o teor de conflito entre esses dois acordos, cujas

negociações conjuntas ainda não alcançaram um consenso. Destacam-se dois pontos

polêmicos principais:

a CDB assegura às partes o direito soberano sobre seus recursos genéticos e a

possibilidade de proibir o uso de DPI sobre organismos vivos. O TRIPs, em seu

artigo 27.3 (b), permite DPI sobre microorganismos, processos não biológicos e

microbiológicos, assim como patentes e/ou mecanismos “sui generis” de proteção

de variedade de plantas e

a CDB assegura o direito das comunidades indígenas e outras comunidades locais,

principalmente nos PEDs, ao controle sobre a participação nos lucros obtidos por

intermédio das inovações informais e dos seus conhecimentos tradicionais

relacionados à biodiversidade. Nesta matéria, há um número expressivo de

interpretações conflitantes referentes ao alcance do TRIPs que são, freqüentemente,

diferenciadas entre PDs e PEDs.


51

O acordo TRIPs exige que os países membros exerçam seus DPI sobre todas as

tecnologias, inclusive aquelas tais como variedade de plantas e microorganismo, embora os

seus artigos 27.2 e 27.3 (b) permitam aos países membros excluírem certos recursos

biológicos do patenteamento.

O TRIPs versa somente sobre inovação formal, resultante de esforços de P&D

realizados nos setores formais de pesquisa, notadamente intra-empresas privadas, logo, a

“inovação informal” e o conhecimento tradicional não estariam cobertos por esse acordo.

O TRIPs reconhece o DPI de um indivíduo ou empresa, mas não de uma comunidade ou

grupo humano. Por outro lado, esse acordo estabelece padrões mínimos e não-idênticos

para a garantia de DPI nos países membros da OMC, com isto, países individuais podem

adotar padrões mais altos do que os exigidos pelo TRIPs com a finalidade de torná-lo

compatível com os objetivos visados pela CDB.

Com a rapidez de avanço da biotecnologia, os PEDs estão preocupados com a perda

de domínio sobre os seus recursos genéticos decorrentes da substituição do uso de

variedades livres para as variedades protegidas sobre as quais há que se pagar pelo uso. Os

conhecimentos tradicionais, por sua vez, não são protegidos, mas existe um fluxo de

germoplasma de Norte a Sul pelo qual não se paga. Em alguns casos, são feitos

descobrimentos posteriores que são protegidos nos países industrializados, restringindo o

comércio de tais cultivares provenientes de seus verdadeiros países de origem. Os PDs

consideram a diversidade biológica e o conhecimento tradicional como patrimônio comum

da humanidade, os pesticidas, medicamentos e “sementes” melhoradas são considerados

como propriedade privada.

A referência ao sistema “sui generis” no artigo 27.3 (b) do TRIPs, de fato, tem

suscitado muitas polêmicas entre PDs e PEDs, porque as propostas dos últimos para

implementação efetiva de sistemas peculiares não reconhecem os direitos emanados dos


52

conhecimentos tradicionais, o que eventualmente pode acarretar atos de biopirataria. Os

DPI se dividem em: direitos autorais e patentes25, os direitos “sui generis” são aqueles que

compreendem tanto características dos direitos de propriedade industrial como dos direitos

autorais, de modo que seria impreciso enquadrá-los dentro de qualquer dessas duas

classificações (ALMEIDA, 2002).26

A afirmação dos DPICs cria uma oportunidade para definição de um sistema

peculiar de direitos centrados no lavrador para a proteção e aperfeiçoamento dos recursos

fitogenéticos. Esse sistema de proteção aos DPICs devem, necessariamente, basear-se na

biodemocracia em contrapartida aos acordos TRIPs que se baseiam no conceito de

bioimperialismo (SHIVA, 1997).

Destacam-se duas questões de interesse dos PEDs relacionadas ao acordo TRIPs:

capacitação endógena para a geração e a difusão de tecnologias ambientais e a

compatibilidade desse acordo com a CDB. Uma vez que o alcance de desenvolvimento

sustentável exige transformações produtivas e tecnológicas, segue-se que a capacidade dos

países em desenvolvimento para responder aos desafios ambientais depende, em grande

extensão, do seu acesso às tecnologias ambientalmente apropriadas, de modo a favorecer a

geração endógena dessas tecnologias.

O Princípio 9 da Declaração do Rio e a Agenda 21 colocam ênfase na necessidade

de promover condições de acesso e transferência dessas tecnologias. Um dos objetivos do

TRIPs (Artigo 7) é a promoção e difusão das tecnologias, com um equilíbrio adequado

entre os direitos e obrigações dos produtores e dos usuários das tecnologias. Os PEDs

clamam por maior atenção a esse artigo, que também deve ser lembrado quando se trata

das exigências tecnológicas previstas nos Acordos Ambientais Multilaterais (Multilateral

Environmental Agreements – MEAs).

25
Um conceito mais amplo do que este é conhecido como direitos de propriedade industrial.
26
Conhecimentos tradicionais são aqueles que foram gerados através do tempo por grupos coletivos, cujos
aportes individuais são muito pouco perceptíveis.
53

As tecnologias são largamente difundidas por meio de transferências entre

empresas, e não por intermédio de operações intragovernamentais. No entanto, cabem

alguns compromissos por parte dos governos, em particular, dos PDs, onde se concentra a

maior parte do conhecimento tecnológico mundial.

Os PEDs defendem uma abordagem integrada da questão do acesso às tecnologias

nos acordos da OMC, pois se trata de um tema transversal, presente em diversos acordos

como TRIPs, MEAs, acordos sobre subsídios, medidas compensatórias e acordos sobre

agricultura.

O expressivo avanço da moderna biotecnologia tem revelado a crescente

importância estratégica e o potencial valor de tal patrimônio, pois, com o avanço da ciência

na identificação, isolamento e controle da expressão dos genes de interesse industrial em

vários setores estratégicos, novas rotas tecnológicas se abrem na direção da melhoria da

qualidade de vida da população mundial. Em tal processo, grandes oportunidades

comerciais são criadas para os setores agrícola e farmacêutico, com a geração de produtos

detentores de mercado expressivo internacionalmente, sem que, até o momento, tenha sido

gerada a repartição justa e eqüitativa dos benefícios advindos da exploração comercial

desses recursos. A CDB reconhece que os Estados têm o direito soberano de explorar seus

próprios recursos genéticos e ter a possibilidade de participar da repartição dos benefícios

oriundos da exploração econômica de tais recursos.

O governo brasileiro já deu passos no sentido de regulamentar por lei interna o

acesso aos recursos genéticos. Assim, tendo em vista que o Brasil é signatário tanto do

TRIPs como da CDB, recomenda-se as seguintes propostas para reforçar a consistência

entre esses dois acordos:


54

soberania dos Estados sobre os recursos biológicos (como na CDB) e a

incorporação de princípio da autoridade governamental para controlar o acesso aos

recursos genéticos;

assegurar a identificação da origem de conhecimentos tradicionais, recursos

genéticos nas solicitações de patentes e o material da fonte biológica no país de

origem e

precisar o conceito de comunidades locais nativas, com relação aos detentores do

material da fonte biológica e seus conhecimentos (ALMEIDA, 2002).

A estrutura TRIPs foi concebida pelo Comitê de Propriedade Intelectual

(Intellectual Property Committee – IPC), Keidanren e União das Confederações da

Indústria e dos Trabalhadores (UNICE), juntos, esses grupos introduziram a proteção da

propriedade intelectual no GATT, antes da Rodada Uruguai, cada país tinha suas próprias

leis de DPI, o maior impulso à internacionalização das leis de DPI foi dado pelas

multinacionais, utilizando o GATT para proteger o que definem como “seus direitos”. A

questão da patenteabilidade da vida não se relaciona apenas com o comércio, é uma

questão ecológica ligada à injustiça social da biopirataria.

2.6. O Bem-Estar Econômico e o Meio Ambiente

A concessão de DPI e monopólios de patentes é justificada pela melhora e

acréscimo no valor econômico. Entretanto, melhorar espécies de árvores, por exemplo,

significa uma coisa para uma empresa de papel e outra para o lavrador. A maior parte das

pesquisas biotecnológicas está se voltando para as multinacionais químicas, a estratégia é

aumentar o uso de pesticidas e herbicidas por meio do desenvolvimento de cultivares

tolerantes, pois é mais barato adaptar a planta ao produto químico que o contrário. As
55

companhias agroquímicas, atualmente, estão desenvolvendo plantas com resistência à

marca de herbicida que elas próprias produzem, resultando maior concentração econômica

na área da agroindústria, aumentando o poder das multinacionais (SHIVA, 1997).

O teorema da impossibilidade de Arrow27 mostra que não há uma forma ideal de

agregar as preferências individuais em preferências sociais, no entanto, os economistas

utilizam com freqüência funções de bem-estar de um tipo ou de outro para representar

julgamentos distributivos sobre alocações. A biodiversidade agrícola, por exemplo, é

conservada apenas quando os agricultores têm controle total das suas sementes, a alienação

desse direito ameaça a sobrevivência ecológica e o bem-estar econômico. Esse último,

enquanto for crescente na utilidade de cada indivíduo, o máximo de bem-estar será

eficiente de Pareto28. Quando os bens são produzidos de maneira tão eficiente quanto

possível, a taxa marginal de transformação entre dois bens indica o número de unidades de

um bem de que a economia tem de abrir mão para obter unidades adicionais do outro bem.

A eficiência de Pareto exige que a taxa marginal de substituição de todas as pessoas seja

igual à taxa marginal de transformação. Além disso, toda alocação eficiente de Pareto pode

ser considerada como maximizadora de alguma função de bem-estar, a idéia de alocações

justas proporciona um meio alternativo de realizar julgamentos distributivos. Esse conceito

enfatiza a idéia de tratamento simétrico. Mesmo quando a alocação inicial for simétrica, os

métodos arbitrários de trocas não produzirão, necessariamente, uma alocação justa, no

entanto, o mecanismo de mercado proporcionará uma alocação justa (VARIAN, 1999).

27
Esse teorema mostra que três características muito desejáveis e plausíveis (dado um conjunto completo, o
mecanismo de decisão social deveria resultar em preferências sociais que satisfizessem as mesmas
propriedades; se todos preferissem a alternativa x à alternativa y, as preferências sociais deveriam classificar
x à frente de y; as preferências entre x e y deveriam depender apenas de como as pessoas classificam x em
relação à y e não de como classificam as outras alternativas) de um mecanismo de decisão social são
incompatíveis com a democracia: não há forma “perfeita” de tomar decisões sociais, nem de “agregar” as
preferências individuais para construir uma preferência social (KENNETH, Arrow, – 1921).
28
PARETO, Vilfredo (1848 – 1923).
56

Nestes tempos de “limpeza étnica”, à medida que as monoculturas se espalham por

toda a sociedade e natureza, fazer as pazes com a diversidade está rapidamente se tornando

um imperativo para a sobrevivência.

Há 500 anos, centenas de outras espécies vivas perderam o direito de existir durante

a primeira onda de globalização, a estruturação da nova economia internacional,

mobilizada pelo GATT com o nome de “livre comércio” pode ser uma metáfora dominante

para a globalização nos dias de hoje. A diversidade pode ter sido transformada num

problema no mundo globalizante e homogeneizador, sua intolerância é a maior ameaça à

paz, o cultivo da diversidade implica a recuperação do direito à auto-organização e abrir

mão do desejo de controle representa um imperativo enraizado no medo daquilo que é livre

e que gera violência.

Temos que aprender que a diversidade não é uma receita para o caos e sim uma

chance de um futuro mais sustentável e justo em termos sociais, políticos, econômicos e

ambientais. A “semente” se tornou o lugar e o símbolo da liberdade nesta época em que

sua manipulação cria monopólios, ela incorpora a diversidade e a liberdade de

continuarmos vivos. Questões econômicas e ambientais relacionadas se combinam com

justiça social, paz e democracia (SHIVA, 1997).


57

3. METODOLOGIA

3.1. Método

Toda a ciência é identificada com seu método que lhe confere segurança e é fator

de economia na pesquisa. A direção descendente própria do método racional é denominada

dedução, ou seja, o pensamento é dedutivo quando, a partir de enunciados mais gerais

dispostos ordenadamente como premissas de um raciocínio, chega-se a uma conclusão

particular ou menos geral.

Este trabalho utiliza o método dedutivo, abordando análise de procedimentos

históricos do comércio e do meio ambiente para verificar a sua influência na sociedade

contemporânea; comparativo, com a finalidade de verificar semelhanças e explicar

divergências entre o comércio legal e ilegal do meio ambiente; econométrico,

fundamentado na utilização de observações para alcançar a construção de resultados; e

estudo de caso, que consiste em analisar o caso específico – tráfico de couros e peles –

com a finalidade de obter generalizações.

3.2. Coleta de Dados

Para a análise empírica, ao se utilizar de um modelo econométrico de dados em

painel, considerou-se o período compreendido entre 1992 e 2000. Devido às grandes

dificuldades para colher os dados estatísticos sobre o comércio ilegal de couros e peles –

justificado pela ausência de policiamento e inexistência de uma estimativa oficiosa dos

órgãos competentes – utilizou-se o total de apreensões como proxy para o volume de


58

comércio ilegal, haja vista a suposição de uma correlação positiva entre as apreensões e o

tráfico da fauna silvestre.

Cumpre ressaltar, ainda, que, para a análise dos resultados, observa-se hoje em dia

– acerca da baixa fiscalização, que se mantêm inalterada – que os dados estatísticos são um

tanto quanto imprecisos ou inexistentes devido à impossibilidade do pessoal treinado estar

em todos os lugares onde seja possível averiguar comércio ilegal da fauna silvestre,

atualmente existe falta de contingente policial e pessoal habilitado para trabalhar na área

ambiental de combate ao tráfico, com a finalidade de coletar dados. Portanto, havendo um

aumento de pessoal nas áreas de maior sensibilidade a esse comércio ilegal,

conseqüentemente, maiores serão os números de dados e variáveis, podendo, desta forma,

obter dados mais consistentes acerca do comércio ilegal da fauna silvestre, futuramente.

Ao analisar o comércio legal, foram levantados dados de couros e peles, com

valores de índice de preços e quantum de exportação com base média de 1996 = 100,

coletados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (FUNCEX).29 Nas

pesquisas desenvolvidas, as bases de dados utilizadas como fontes são provenientes da

Secretaria de Comércio Exterior/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio

Exterior (SECEX/MDIC) que disponibiliza as séries de estatísticas nacionais de comércio

exterior. Esta divulgou, recentemente, uma revisão das estatísticas básicas de comércio

exterior do ano de 1996.

Esta revisão se deu tanto nos dados em valor FOB “free on board”30, quanto nos

dados de peso, que são utilizados pela FUNCEX para efeito de cálculo dos índices de

preço e quantum. Nos dados de exportação, as diferenças existentes entre os novos dados

da SECEX e aqueles até hoje utilizados são insignificantes, não alterando o valor e o peso

29
Ver tabela 7 em anexo.
30
Expressão do comércio internacional que significa posto a bordo, seguida da indicação do porto de
embarque. Nessa modalidade, o exportador é obrigado a colocar a mercadoria a bordo do navio designado no
contrato de venda, cessando sua responsabilidade sobre a mesma no momento em que ela transpõe a amurada
do navio. As formalidades de exportação são executadas pelo vendedor (SANDRONI, 2000, p. 247).
59

total do ano. Portanto, não foi necessário realizar qualquer mudança nas séries já existentes

de preço e quantum.

Pela metodologia de cálculo dos índices de preço e quantum, uma alteração como

esta modifica os índices calculados tanto para o ano considerado, quanto para o ano

seguinte (uma vez que os dados do ano anterior são utilizados como base de comparação).

Sendo assim, a mudança de dados afetou os índices relativos a 1996 e 1997.

Entretanto, como os índices são encadeados e utilizam exatamente o ano de 1996

como base 100, a mudança nos índices daquele ano alterou o nível de toda a série, embora

as taxas de variação anuais só sofram mudanças quando calculadas em relação a algum

dado de 1996 ou 1997.

Não obstante, para o comércio ilegal foram levantados dados de animais

apreendidos no Brasil com valores de uma estimativa oficiosa da Associação dos Amigos

de Petrópolis – Patrimônio, Proteção aos Animais, Defesa Ecológica (APANDE). A

estimativa se baseou em informações pessoais obtidas por Amado (op. Cit.) na

Superintendência do IBAMA/RJ e no Batalhão Florestal do Estado do Rio de Janeiro

(Colagrossi, F., com.pes.).

Com base nos dados oficiais das apreensões de fauna silvestre realizadas pelo

IBAMA no Brasil e nos números registrados das feiras do Estado do Rio de Janeiro no

trabalho de Braga et al. (1998), a RENCTAS realizou uma projeção, utilizando-se de

métodos estatísticos, e chegou aos valores em anexo na tabela 8.

Os valores encontrados neste trabalho, tanto para o número de espécimes, quanto

econômico, levaram em consideração apenas os espécimes animais registrados nas

apreensões e encontrado nas feiras. É importante ressaltar que não estão sendo levados em

conta, por falta de dados, os invertebrados e peixes, que representam grande volume de

nosso tráfico. Deve-se ressaltar também que os produtos e subprodutos da fauna silvestre
60

são traficados e contribuem para a retirada de animais de seus ecossistemas. No entanto,

até o momento, não é possível realizar uma estimativa sobre os mesmos. Dessa maneira,

pode-se dizer que esses números são ainda muito maiores. Qualquer iniciativa de

quantificar uma atividade ilegal corre o risco de cometer erros.

3.3. Regressão Econométrica

Para a regressão dos dados em painel, foi utilizado o sistema SAS. Para efeitos de

análise fixa, o termo “panel data” é referente a uma seqüência de observações de seção

transversal (cross-section) que cruza diferentes séries como: ano, quantidade de animais

traficados nas cinco regiões, índice de preço e quantum de exportação em vários períodos

de tempo. Isto pode ser conseguido examinando as séries sobre um período de tempo.

3.3.1. Benefícios de Usar “Panel Data”

Um dos benefícios de se usar os dados do painel é que as diversas séries temporais

do modelo são heterogêneas. Se, por determinada razão, esta heterogeneidade não for

controlada, a série de tempo e os estudos da seção transversal terão um risco elevado de

obter resultados diagonais.

Com o painel, é possível obter mais informações, mais variabilidade, menos

colinearidade entre as variáveis, mais graus de liberdade (gl) e maior eficiência. Dados de

série de tempo são flagelados com multicolinearidade, dados de seção transversal, por

outro lado, são menos prováveis de o ser.

Geralmente, há uma multidão de mudanças escondidas na distribuição da seção

transversal relativamente estável. Conseqüentemente, os dados do painel são servidos para


61

toda esta dinâmica de ajuste. Para o exemplo – tráfico de animais – os dados da seção

transversal podem estimar que proporção de animais é traficada em um determinado

tempo. Os “cross-sections” repetidos podem mostrar como esta proporção muda o

excedente no tempo. Somente os dados do painel podem estimar que proporção daqueles

que são traficados em um período remanesça traficados em um outro período.

Os modelos dos dados em painel permitem a construção e os testes para modelos de

conduta mais complicados do que dados puramente de seção transversal ou série de tempo.

Assim, existe uma melhor eficiência técnica estudada e modelada com painéis. Poucas

limitações podem ser impostas nos painéis em um modelo de retardação distribuída do que

puramente em uma série de tempo estudada.

Os dados do painel são recolhidos geralmente em micro unidades. Muitas variáveis

podem ser medidas mais exatamente no nível micro, e as polarizações, resultando das

regiões ou dos animais excedentes do agregado, são eliminadas.

3.3.2. Limitações do “Panel Data”

Podem surgir alguns problemas quando se faz projetos em painel, assim como a

gerência e levantamento de dados. Para o caso couros e peles, podem incluir problemas de

cobertura (números do tráfico incompleto se interessar à população faunística), do período

de referência, da limitação das variáveis e da polarização do tempo-em-amostra.

A distorção dos erros de medida pode se levantar por causa das respostas

defeituosas devido a perguntas capciosas.31

Problemas de seletividade, onde as pessoas escolhem não traficar porque o salário

para não traficar é mais elevado do que o salário para traficar. Nesse caso, observa-se a

31
Ver McMillen de Kalton, de Kasprzyk, 1989.
62

característica destes indivíduos, mas não de seu salário, desde que somente seu salário

falte, a amostra é censurada. Entretanto, se não forem observados todos os dados destas

pessoas, esta seria uma amostra truncada.

Curtas dimensões das séries de tempo, o painel típico envolve os dados anuais que

cobrem uma extensão curta de tempo para cada traficante da fauna. Aumentar a extensão

de tempo do painel não é sem custo. De fato, isto aumenta as possibilidades de atrito e

aumenta a dificuldade computacional para limitar a variável dependente do modelo do

“panel data”.
63

4. RESULTADOS

4.1. Equações do Modelo

Para avaliarmos o comportamento do tráfico de couros e peles no Brasil, estimamos

a seguinte equação:

CIrt = α0 + α1Nt + α2NEt + α3COt + α4SEt + β1Prt + β2Qrt + urt, (1)

onde CIrt é o logaritmo do número de animais silvestres apreendidos na região “r” e no

ano “t” nas diversas regiões geográficas brasileiras; α0 é o intercepto, Nt é a variável

“dummy”32, que designa observações da região norte, NEt é a variável “dummy” da região

nordeste, COt é a “dummy” para a região centro-oeste e SEt a “dummy” para a região

sudeste; Prt é o índice de preços de couros e peles; Qrt é o índice do quantum de couros e

peles exportados e urt é o distúrbio aleatório que comporta todas as forças não diretamente

explicitadas no modelo econométrico, mas que possuem influência sobre o tráfico de

couros e peles.

Conforme a tabela 9, podemos dizer que o intercepto representa as características

particulares da região sul (S). Utilizamos as variáveis regiões geográficas para “dummy”

graus de apreensões, quando essas variáveis assumem valores de 1 e 0 (ou suas

transformações lineares) representam um meio de introduzir regressões qualitativas na

análise dos Mínimos Quadrados Ordinários (MQO), no entanto, os coeficientes estimados

por MQO não são adequados para o “panel data”, sendo apenas para efeito comparativo.

32
Variáveis “dummies” são um expediente classificatório de dados, uma vez que elas dividem uma amostra
em vários subgrupos com base em suas qualidades ou atributos (regiões geográficas brasileiras) e,
implicitamente, permitem-nos rodar regressões para cada subgrupo. Se houver diferença na resposta do
regressando à variação nas variáveis quantitativas dos diferentes subgrupos, elas vão se refletir nas
diferenças, nos interceptos ou nos coeficientes de inclinação, ou em ambos, das regressões dos diferentes
subgrupos (GUJARATI, 2000, p. 533).
64

Tabela 9 - Parâmetros estimados


Variável Estimativa Erro Valor t Pr > | t | Rótulo
Norte 1,138417 0,5643 2,02 0,0519 Efeito 1 da seção transversal
Nordeste 2,193198 0,5643 3,89 0,0005 Efeito 2 da seção transversal
Centro-Oeste 0,472068 0,5643 0,84 0,4089 Efeito 3 da seção transversal
Sudeste 1,195312 0,5643 2,12 0,0418 Efeito 4 da seção transversal
Sul (intercepto) -40,9568 26,1469 -1,57 0,1268 Intercepto
LogPreço 6,414684 2,889 2,22 0,0334
LogQuantum 1,702984 2,0337 0,84 0,4084
Fonte: Elaboração própria

Portanto, as variáveis “dummies” podem assumir valor 1, se as observações se

referem, respectivamente, às regiões N, NE, CO, SE e S e valor 0, em caso contrário.

Concluímos a análise da equação estimada obtendo os seguintes valores com seus

respectivos erros entre parênteses.

CIrt = – 40,9568St – 39,818383Nt – 38,763602NEt – 40,484732COt – 39,761488SEt +


(0,5643) (0,5643) (0,5643) (0,5643) (26,1469)

+ 6,414684Prt + 1,702984Qrt + urt (2)


(2,8890) (2,0337)

4.2. Hipóteses Adotadas

A interpretação dos parâmetros pode ser avaliada como o impacto das variáveis

explicativas sobre a variável dependente, contudo, a principal hipótese adotada é que

quanto maior forem os preços dos animais silvestres a fornecedores de couros e peles,

maiores serão os incentivos à comercialização ilegal desses produtos. Tal hipótese foi

comprovada empiricamente conforme veremos na seção de análise dos resultados.

Para analisarmos o tráfico de couros e peles, continuaremos com algumas

conjecturas com base nas variáveis utilizadas no modelo, tais como; as regiões norte,

nordeste, centro-oeste, sudeste e sul; índice de preço e quantum de exportação, daremos

continuidade à análise do modelo adotando as seguintes hipóteses:


65

H 0 = 0, se não houver diferença entre as regiões e,



H 1 ≠ 0, se houver diferença entre as regiões,

ou seja,

H 0 : N = NE = CO = SE = S = 0 e,

H 1 : N ≠ NE ≠ CO ≠ SE ≠ S ≠ 0,

na estatística, ao rejeitarmos a hipótese nula (H0), dizemos que o achado é estatisticamente

significante e a probabilidade de cometer um erro do Tipo I33 é pequena, geralmente de

1%.

Aceitando que os efeitos dos preços de couros e peles são os mesmos em todas as

regiões brasileiras, o parâmetro se mostra significante a um nível de 5% (α = 0,05) com

elasticidade ε = 6,414684. O índice do quantum, apesar de apresentar valor t de 0,84 e

elasticidade ε = 1,702984, mostra-se não significante, no entanto, podemos inferir

hipóteses a respeito. Apesar de cada região obter seus próprios dados, trabalhamos com o

quantum total de exportação, ou seja, estamos cogitando que é melhor para o modelo lidar

com estoque e não com fluxo. Portanto, pode-se proferir, hipoteticamente, que quanto

maior for o comércio de couros e peles, maior deverá ser o número de animais

apreendidos.

Conforme a metodologia, podemos ressaltar que o número de fiscais na ativa é

constante, ou seja, no período analisado, a suposição adotada é que não houve contratação

nem dispensa de policiais e/ou fiscais. Finalmente, podemos concluir que a hipótese

adotada de câmbio é (R$ 2,70 = US$ 1.00), de acordo com referencial teórico.

33
Um erro do Tipo I significa que há a probabilidade de rejeitar a hipótese nula sendo ela verdadeira, por
outro lado, um erro do Tipo II significa que há a probabilidade de aceitar a hipótese falsa.
66

4.3. Análise dos Resultados34

O modelo tem como objetivo explicar as variações do tráfico de couros e peles no

Brasil. Para isso, o logaritmo do número de animais foi colocado como variável

dependente para as equações de cada região brasileira, ou seja, o número de animais

silvestres apreendidos é a variante mais importante da regressão econométrica.

Com o intuito de verificar o método de estimação mais apropriado “panel data”,

realizamos o teste de Hausman.35 Neste caso, foi comprovado que podemos rejeitar o

Modelo de Efeitos Aleatórios e inferirmos que o Modelo de Efeitos Fixos36 é o mais

apropriado para explicar as variações do comércio ilegal de couros e peles nas diferentes

regiões. Pode-se concluir que a heterogeneidade dos preços da amostra analisada é

significativa ao modelo, não há muita correlação entre quantidade do comércio legal com o

ilegal, mas a correlação entre os preços desses dois comércios é alta.

O coeficiente de determinação (R2), ao qual mensura a proporção ou porcentagem

da variação total na variável dependente, explicada pelas variáveis explicativas, indicou

que o grau de ajuste da equação se situou em 40,63% para o setor de animais silvestres

apreendidos. Contaremos com 40 observações menos 7 variáveis que resulta em 33 gl, da

fórmula (n – 1) gl obtivemos 6 gl para o numerador N1 e 33 gl para o denominador N2,

sendo os pontos percentuais superiores ao da distribuição F: Pr (F > 3,47) = 0,01, portanto,


34
Conforme equação (2), referente à regressão econométrica no apêndice C.
35
Segundo Gujarati, o teste de especificação de Hausman pode ser usado para testar explicitamente a
simultaneidade. Na maioria dos casos de simultaneidade, o método dos MQO em geral não é aplicável.
Embora na prática decidir se uma variável é endógena ou exógena seja uma questão de bom senso, podemos
também usar este teste para determinar se uma variável ou grupo de variáveis é endógena ou exógena. Apesar
de serem da mesma família, os conceitos de causalidade e exogeneidade são diferentes e um pode não
necessariamente implicar o outro. Na prática, é manter esses conceitos em separado.
36
Nestes modelos, considera-se que as diferenças entre os dados de seção transversal analisados são
capturadas por diferenças no termo constante, αr, definido como parâmetro ou efeito não observado. Essa
modelagem usa uma transformação em que a meta é eliminar o efeito não observado, αr, a priori da
estimação, sendo que quaisquer variáveis explicativas, que sejam constantes no período amostral, serão
removidas. Assumindo uma estrita exogeneidade das variáveis explicativas, os estimadores dos modelos com
efeitos fixos são não viesados. Isto é, aproximadamente, os erros idiossincráticos, εrt são não correlacionados
com as variáveis explicativas durante todo o tempo. Contudo, esses modelos admitem que haja correlações
arbitrárias entre αr e as variáveis explicativas em qualquer período de tempo.
67

significante a 1%, como mostra a área hachurada do gráfico 5. Os resultados da estatística

F: mínimos quadrados restritos, para as estimativas nas regiões, rejeitou-se H0, ou dos

parâmetros estimados não serem significativos para o modelo.

Gráfico 5 - Distribuição F

área 1%

0 3,47 F

Comprovando a principal hipótese adotada, foi realizada a avaliação da

significância individual dos coeficientes das variáveis, a estatística t-student indicou que a

um nível de significância de 1% (α = 0,01), é significante a região nordeste com

elasticidade ε = 2,193198; ao nível de significância de 5% (α = 0,05), é significante a

região sudeste com elasticidade ε = 1,195312, já a um nível de significância de 10% (α =

0,10), é significante a região norte com elasticidade ε = 1,138417. Por outro lado, as

regiões centro-oeste e sul se mostram não significantes ao modelo, portanto, para essas

regiões não rejeitamos H0, pois estão acima dos níveis de significância de 1%, 5% e 10%,

com valor t apresentando 0,84 e – 1,57 e elasticidade ε = 0,472068 e ε = – 40,9568,

simultaneamente.

Sendo assim, quanto aos animais apreendidos, os resultados indicam que cada

região possui peculiaridades quanto ao tráfico de couros e peles de animais silvestres,

tendo a região nordeste maior expressividade. As variáveis explicativas do modelo

mensuram características distintas.

Foi verificado, conforme regressão, que os trabalhos voltados ao combate do

comércio ilegal de couros e peles devem ser mais concentrados na região nordeste,
68

significante a 1%, local onde é identificado por meio do modelo descrito, de acordo com

tabela 9, o maior volume de apreensões. O impacto do comércio ilegal na economia

brasileira cresce em detrimento do comércio legal de couros e peles, pois nos PEDs o

aumento nos preços e/ou nos impostos tendem a reforçar o comércio ilegal.

A fim de estabelecer as principais dificuldades no combate ao tráfico de couros e

peles, foi constatado, segundo o IBAMA e Batalhões de Polícia Florestal37 que o número

de policiais é a primeira característica na dificuldade de combate ao tráfico, seguido

respectivamente por: falta de veículos, treinamento adequado e equipamentos. Nas demais

regiões a incidência de apreensões é menor, mas não menos importante.

Em suma, os parâmetros estimados na tabela 9, por meio do Modelo de Efeitos

Fixos, constatamos que o comércio ilegal de couros e peles no Brasil é mais expressivo nas

regiões NE, SE e N, respectivamente. No entanto, as estatísticas estimadas pelo

RENCTAS, conforme tabela 8 em anexo, mostraram que o total de animais silvestres

apreendidos no Brasil, no período analisado, teve maior expressividade nas regiões NE, N,

SE, CO e S, concomitantemente. Observa-se que existe uma discrepância entre os

resultados da regressão econométrica e a fonte de dados.

37
Vide 1º relatório nacional sobre o tráfico de fauna silvestre.
69

5. CONCLUSÕES

Podemos advertir que aumentar impostos e preços não resolve o problema do

tráfico, aliás, apenas dificulta, pois haverá uma tendência a se traficar mais. A provável

resposta está na melhoria dos couros produzidos no Brasil, com incentivo governamental

em C&T e P&D, garantindo melhor qualidade e preço adequado à demanda. Deste modo,

o Brasil pode ser visto como um país que fornece subsídios implícitos às suas exportações

(ecodumping), uma vez que os custos da degradação ambiental não são internalizados nos

produtos exportados por adotar padrões ambientais menos rigorosos ou mal fiscalizados.

Podemos afirmar que tanto o tráfico da fauna silvestre como o de couros e peles

têm uma forte concentração na região nordeste, que possui pouca fiscalização e diversas

rotas de fuga para os traficantes, que se aproveitam da baixa renda per capita da região

para subornar os poucos policiais e aliciar as populações mais carentes para apanhar os

animais nas áreas de maior perigo como o sertão nordestino, a fim de complementarem

suas rendas familiares.

As principais rotas para retirada de couros e peles são as estradas e rodovias cujo

policiamento é insuficiente; os aeroportos são outra rota bastante eficiente, pois os

traficantes aproveitam do forte potencial turístico da região para suas atividades ilícitas. O

litoral nordestino, que abrange toda a área do sul do Estado da Bahia até o extremo norte

do Estado do Maranhão, possui uma extensa faixa de terra que serve aos traficantes

principalmente para compra e venda daqueles animais e seus subprodutos. Contudo,

podemos sugerir que os portos e aeroportos dessa região devem ser fortemente

fiscalizados.
70

Os Estados da Paraíba e Pernambuco concentram o maior número de apreensões,

porém, o rio São Francisco, principal via fluvial que corta os Estados da Bahia,

Pernambuco e divide os Estados de Alagoas e Sergipe não deve ficar fora do alcance das

autoridades, tendo em vista sua importância fundamental tanto cultural como econômica na

região.

Apesar de ainda em grande parte preservados, a Floresta Amazônica e o Pantanal

contribuem significativamente para a preservação de um patrimônio genético único no

planeta e ainda geram serviços de estabilização climática que, hoje, perfazem as maiores

questões ambientais globais. Não menos importante que a região nordeste, as demais

regiões também apresentam tráfico de animais silvestre e de couros e peles, cujo principal

destino é o exterior. Dessa forma, o Brasil continua sendo um país exportador de

sustentabilidade para o resto do mundo.

As áreas de difícil acesso como Amazônia e Pantanal Mato-grossense, bem como

os limites de fronteiras devem ser rigorosamente fiscalizados. Porém, o policiamento

nessas regiões é quase inexistente podendo ser sugerida a contratação de policiais

especializados e devidamente equipados, pois os poucos agentes que ali trabalham correm

risco de vida, visto que os caçadores, sabendo da sua ilegalidade nessas áreas, atentam

contra a vida dos poucos agentes que lá tentam proteger a natureza.

Asseguramos que controlar e reprimir esse tipo de comércio é necessário, todavia, o

mais importante é desenvolver trabalhos educativos e de esclarecimento da sociedade,

lembrando que as questões econômicas e ambientais devem, obrigatoriamente, estar

relacionadas à justiça social. Apenas dessa forma, obteremos um meio ambiente

despoluído, economicamente sustentável e ecologicamente saudável.


71

6. BIBLIOGRAFIAS

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73

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VARIAN, Hal R. Microeconomia: princípios básicos. 4. ed. Rio de Janeiro: Campus,


1999. cap. 29: A produção.
i

APÊNDICES
ii

APÊNDICE A

Endereços da Internet

Entidades Endereços
INPI – Instituto Nacional da http://www.inpi.gov.br/
Propriedade Industrial.
MMA – Ministério do Meio http://www.mma.gov.br/port/sds/rotulage/doc/baena2.p
Ambiente. pt
Prof. Francisco S. Ramos, http://fsramos.virtualave.net/ProgEcon-meio-
Universidade Federal de ambiente.pdf
Pernambuco – Departamento de
Economia.
Comércio internacional e meio http://www.copa.qc.ca/forces/portugais/article7.html#1
ambiente um equilíbrio difícil
porém indispensável.
Ministério da Agricultura, http://www.agricultura.gov.br/html/acordo_agricola/gat
Pecuária e Abastecimento. 01.htm
RENCTAS – Rede Nacional de http://www.renctas.org.br
Combate ao Tráfico de Animais
Silvestres.
iii

APÊNDICE B

Lista de Siglas e Abreviaturas

II PND II Plano Nacional de Desenvolvimento

APANDE Associação dos Amigos de Petrópolis – Patrimônio, Proteção aos

Animais, Defesa Ecológica

CDB Convenção sobre Diversidade Biológica

(Convention on Biological Diversity)

CEPAL Comissão Econômica para América Latina e Caribe

C&T Ciência & Tecnologia

CNI Confederação Nacional da Indústria

CPMF Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira

DPI Direitos de Propriedade Intelectual

DPICs Direitos de Propriedade Intelectual Coletivos

EEA Associação Ambiental Européia

EMAS Sistema de Eco-Gestão e Auditoria

(Eco-Management and Audit Scheme)

EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

FUNCEX Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior

GATT Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio

(General Agreement on Tariffs and Trade)

gl Graus de liberdade

H0 Hipótese nula
iv

IAS Indústrias Ambientalmente Sensíveis

IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais

Renováveis

ICMS Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços

IE Índice de Especialização

IDE Investimento Direto Externo

INPI Instituto Nacional da Propriedade Industrial

IPC Comitê de Propriedade Intelectual

(Intellectual Property Committee)

IPI Imposto sobre Produtos Industrializados

IPT (SP) Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo

ISO Organização Internacional de Normalização

(International Organization for Standardization)

MEAs Acordos Ambientais Multilaterais

(Multilateral Environmental Agreements)

MERCOSUL Mercado Comum do Sul

MP Medida Provisória

MQO Mínimos Quadrados Ordinários

OECD Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento

(Organisation for Economic Cooperation and Development)

OGM Organismo Geneticamente Modificado

OMC Organização Mundial do Comércio

PDs Países Desenvolvidos

PEDs Países em Desenvolvimento

P&D Pesquisa & Desenvolvimento


v

PIB Produto Interno Bruto

PIS/COFINS Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da

Seguridade Social

PROEX Programa de Financiamento às Exportações

PSI Processo de Substituição de Importações

R2 Coeficiente de determinação

RENCTAS Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres

SECEX/MDIC Secretaria de Comércio Exterior/Ministério do Desenvolvimento,

Indústria e Comércio Exterior

TRIPs Direitos de Propriedade Intelectual Relacionado ao Comércio

(Trade Related Intellectual Property Rights)

UNICE União das Confederações da Indústria e dos Trabalhadores

(Union of Industrial and Employees Confederations)

VCR Vantagem Comparativa Revelada


vi

APÊNDICE C

Regressão Econométrica

The SAS System

The TSCSREG Procedure

Dependent Variable: LANIMAL

Model Description

Estimation Method FixOne


Number of Cross Sections 5
Time Series Length 8

Fit Statistics

SSE 42.0388 DFE 33


MSE 1.2739 Root MSE 1.1287
R – Square 0.4063

F Test for No Fixed Effects

Num DF Den DF F Value Pr > F

4 33 4.33 0.006

Parameter Estimates

Standard
Variable DF Estimate Error t Value Pr > | t | Label
CS1 1 1.138417 0.5643 2.02 0.0519 Cross Sectional Effect 1
CS2 1 2.193198 0.5643 3.89 0.0005 Cross Sectional Effect 2
CS3 1 0.472068 0.5643 0.84 0.4089 Cross Sectional Effect 3
CS4 1 1.195312 0.5643 2.12 0.0418 Cross Sectional Effect 4
Intercept 1 - 40.9568 26.1469 -1.57 0.1268 Intercept
LPRICE 1 6.414684 2.8890 2.22 0.0334
LQUANTUM 1 1.702984 2.0337 0.84 0.4084
vii

ANEXOS
viii

ANEXO A

Lista de Tabelas

Tabela 1 - Exportação de couros


Estágios de Exportação Número de Empregos Valor da Exportação
Em wet blue 300 US$ 31.58 milhões
Em semi-acabado 1.500 US$ 73.56 milhões
Em acabado 2.000 US$ 91.33 milhões
Em calçados e Manufaturados 30.000 US$ 300 - 350 milhões
Fonte: Estimativas da Associação de Curtumes do Sul

Tabela 2 - Composição aproximada de empregos


Estágios de Exportação Exportação em Nº de Couros Empregos
Em wet blue 12.535 3.760
Em semi-acabado 2.318 3.477
Em acabado 3.983 7.966
Fonte: Estimativas da Associação de Curtumes do Sul

Tabela 3 - Espécies procuradas por colecionadores e zoológicos


Nome Comum Nome Científico
Arara Azul de Lear Anodorhynchus leari
Arara Azul Anodorhynchus hyacinthinus
Arara Canindé Ara ararauna
Papagaio da Cara Roxa Amazona brasiliensis
Flamingo Phoenicopterus ruber
Harpia Harpia harpyja
Mico Leão Dourado Leontopithecus rosalia
Uacari Branco Cacajao calvus calvus
Jaguatirica Leopardus pardalis
Surucucu Pico de Jaca Lachesis muta muta
Fonte: RENCTAS

Tabela 4 - Espécies procuradas para fins científicos


Nome Comum Nome Científico
Jararaca Bothrops jararaca
Jararaca Ilhôa Bothrops insularis
Cascavel Crotalus durissus
Sapos Amazônicos Dendrobates sp.
Aranha Marrom Loxoesceles similis
Aranha Várias Espécies
Besouros Várias Espécies
Vespas Várias Espécies
Fonte: RENCTAS
ix

Tabela 5 - Espécies mais procuradas para "pet shops"


Nome Comum Nome Científico
Jibóia Boa constrictor
Periquitambóia Coralus caninus
Teiú Tupinambis sp.
Cágado Pseudemys dorbygnyi
Arara Vermelha Ara macao
Tucano Toco Ramphastos toco
Araçari Pteroglossus beauharnaesii
Melro Gnorimopsar chopi
Saíra Tangara seledon
Sagüi de Cara Branca Callithrix geoffroyi
Fonte: RENCTAS

Tabela 6 - Valor em grama das substâncias extraídas de alguns animais brasileiros


Nome Comum Nome Científico Utilização Valor US$/Gr.
Jararaca Bothrops jararaca Hipertensivos 433.70
Cascavel Crotalus durissus Cola Cirúrgica 301.40
Surucucu Pico de Jaca Lachesis muta muta Homeopatia 3,200.00
Coral Verdadeira Micrurus frontalis Medicamentos 31,300.00
Aranha Marrom Loxosceles sp. Soro e Pesquisas 24,570.00
Escorpião Tityus serrulatus Soro e Pesquisas 14,890.00
Fonte: RENCTAS

Tabela 7 - Índices de preço e quantum de exportação


Ano Preço Quantum
1992 365,3 350,1
1993 332,6 480,9
1994 368,1 388,9
1995 395,0 360,2
1996 400,1 400,0
1997 389,5 413,8
1998 366,4 389,8
1999 321,7 420,2
2000 345,3 476,7
Fonte: FUNCEX
Base: Média 1996=100

Tabela 8 - Número de animais silvestres apreendidos no Brasil - 1992 a 2000


Ano Brasil Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul
1992 17.848 13.394 1.220 583 2.058 593
1993 37.132 16.950 13.105 784 6.077 216
1994 n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d.
1995 30.110 8.617 13.329 1.977 3.930 2.257
1996 58.698 14.435 19.768 17.206 4.911 2.378
1997 51.161 26.358 16.315 1.943 4.843 1.702
1998 24.304 1.633 15.733 1.897 3.640 1.401
1999 28.298 432 18.768 2.418 5.196 1.484
2000 16.421 82 9.803 1.504 3.070 1.962
Total 263.972 81.901 108.041 28.312 33.725 11.993
Fonte: RENCTAS