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A POPULAÇÃO PORTUGUESA

NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Fernando d e Sousa
Universidade do Porto

"Toute science h u m a i n e , sa ns u n e pu issa nte base d é m ogra p h i q u e ,


n 'est q u ' u n fragile château de ca rtes, toute l ' h istoire, q u i ne recou rt p a s à
la d é m ogra p h i e , se prive du m e i l l e u r i nstru ment d'a n a lyse".
"Toute l ' h istoire est là, dans la vie qui s'éco u l e , dans l a vie qui m e u rt.
L ' h istoire, l a v ra ie , se p l a ce nécessa i re m e n t au temps d e la v i e , et a u
temps d e l a m o rt".

(Pierre Chaunu, Histoire, Science Socia/e, Paris, 19 74, p. 291-292)

1. I ntro d u çã o

Este trabalho, que tem por tema a população portuguesa em princípios do século XIX,
b a s e i a - s e , fu n d a m e nta l m e n t e , n o s rece n s e a m ento s efect u a d o s e m 1 8 0 1 e 1 8 0 2 ,
constitui n d o pa rte da nossa tese d e doutoramento, defendida em 1 9 7 9 1_
Do censo de 1 80 1 , conheciam-se já os seus resu ltados globais, desde as pri m e i ras
décadas d o século XIX.
Logo e m 1 8 0 4 , M a n u e l Araúj o , fu n c i o n á r i o d a Secreta ria d e Esta d o da Faze n d a ,
a p resentou á Sociedade Rea l Ma ríti ma, M i l ita r e G eográ fica, a " povoaçã o" existente e m
1 8 0 1 , especifica n d o , por comarcas e concelhos, os fogos e " a l m a s " e regista ndo, p o r
comarcas, os h o m e ns, m u l h e res, nasci mentos e óbitos. Este trabalho, q u e se ma nteve
i nédito até 1 94 8 , ano em que foi publicado pelo I nstituto Nacional de Estatísti ca, revela,
porém, n u me rosas lacunas, d e q u e a coma rca d e La mego é exemplo notório 2_
A l g u n s a n os m a i s t a r d e , e m 1 8 1 1 , o v o l u m e I d o In vestigador Portu g u ez e m
Inglaterra 3 p u b l i cava os resu ltados do censo d e 1 80 1 , p o r bispados, i n c l u i n d o os isentos
d o Pri o ra d o do Crato, d e sa nta cruz d e Co i m b ra e d e G rij ó, i n d icando o n ú m e ro d e
freguesias q u e formava m as dioceses, a população p o r sexos e grupos d e ida des, os
nasci m entos, óbitos e saldo fisiológico.
No ano segu i nte, Marino Miguel Franzini, no Roteiro das Costas de Portugal 4 , serviu-se
das "excellentes ta boas estadisticas que se formarão em 1 80 1 ", para fornecer a população
dos portos d o Reino. E nas suas Reflexões sobre o actual Regulamento do Exercito de
Portugal5, a presentou u m mapa com os dados d o recensea mento d e 1 80 1 , i n d i ca n d o o
n ú mero de fogos e habitantes, por coma rcas e províncias. Em 1 8 20, as Instrucções que
devem regular as Eleições dos Deputados que vão a formar as Cortes Extraordinarias
Constituintes no anno de 1 82 1 6 , a presenta ra m um mapa dos eleitores e deputa dos que
ca b e m a os conce l h o s e coma rcas d o Reino, basea d o n o censo d e 1 8 0 1 , d o q u a l se
referem o número das fregu esias, fogos e habita ntes, por coma rcas.
o mesmo a co ntece com a Lei sobre a Liberdade de Imprensa, d e 1 2 d e j u l h o de
1 8 2 1 , a qual i n d i ca , por coma rcas, o n ú mero d e fogos apurado em 1 80 1 .

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FERNANDO DE SOUSA

Finalmente, Adrien Ba l bi, no seu va l ioso Essai Statistique sur Je Royaume de Portugal
et d'Aigarve 7, fornece os resu ltados globais do censo de 1 80 1 , apresenta n d o o n ú mero
de paróquias, fogos e habita ntes, por comarcas e províncias.
contudo, para além destes resu ltados globais, descon hecia-se o gra u de confiança
que tais fontes nos merecia m , pois, não só se ignorava m os dados originais q u e teri a m
permitido chega r a ta is resu ltados, c o m o a críti ca i nterna d a s referidas fontes, p o n d o
e m evidência lacunas graves e erros grossei ros, l eva ntava sérias d úvidas qua nto aos
cá lculos a p resenta dos.
Do censo de 1 80 2 , desconhecia-se qualquer referência ou notícia relativa a o mesmo,
tendo perma necido, até ao momento, inéd ito.
o essencial d o fu ndo docu m e nta l constituído por a m bos os recensea m e n tos, faz
pa rte do Arq u ivo da Assembleia da Repú blica , uma vez que, em 1 8 2 1 , os "mappas e
papeis relativos á povoação do Reyno", que se e ncontrava m na secreta ria de Estad o
dos Negócios da Faze nda, fora m remetidos às Cortes Gerais e Extraordinárias a fi m d e
servirem d e base às instruções q u e deviam regu lar as eleições d o s d eputados às cortes
Constitu intes s .
o l eva n ta m e n to e xa u stivo das fi chas q u e i ntegra m ta i s censos reservo u - n os a
d esagradável su rpresa de verifi ca rmos que, se as lacunas do recensea mento de 1 80 1
era m menosprezáveis, o mesmo não acontecia com o recensea mento d e 1 80 2 , uma
vez que, deste, a pesar de ter sido, como o censo do a n o a nterior, d e â m b ito nacional,
n ã o e n contra m os as fontes relativas às fregu esias d e a lgumas d i oceses d o R e i n o ,
sobretudo, d o Portuga l meridional. A s pesq uisas efectuadas no Arq uivo da Assembleia
da República, no sentido de, eventua lmente, detecta rmos a pa rte d o recensea mento d e
1 802 q u e fa ltava, revelara m -se i núteis. Inglória, ta mbém, se demonstrou a i nvestigação
que fize m o s n o A rq u ivo H i stó rico d o M i n istério das F i n a n ça s , c o m o m e s m o fi m .
Posteriormente, viemos a e n contrar, n a Torre d o Tombo, o s dados origi nais relativos à
Di ocese de Braga nça. E nada mais.
Assi m e no que diz respeito ao censo de 1 80 2 , dispomos de dados q u e apenas nos
permitem a cobertu ra parcia l do país 9 , facto ta nto mais lamentável quanto este censo
co m p l eta , e m m u i tos aspectos, o recensea m e nto d e 1 8 0 1 , p r i n ci pa l m ente, n o q u e
respeita à com posição da população portuguesa p o r grupos de idades e estado civ i l , à
n u pcialidade, à d istri b u i ção da m o rta l i dade por grupos etá rios, e às causas das m o rtes.
o n osso tra b a l h o não se l i mitou, contudo, a o levanta m e nto e exploração d estes
r e c e n s e a m e n t o s , u m a vez q u e n o s s e rv i m o s , i g u a l m e n t e , de t o d a s as f o n t e s ,
manuscritas ou i m p ressas, q u e d izem respeito à popu lação portuguesa d o s fi nais d e
Setecentos e primeiros a n o s de Oitocentos, nomeada mente, d o s recensea mentos d o
M i n h o , Trás-os-Montes e Algarve, levados a ca bo n a s ú ltimas décadas d o sécu lo XVII I ,
fo ntes q u e n o s o b riga ra m a u m l a b o r c r í t i c o c o n s i d e rá v e l , m a s q u e fo r n e c e ra m
preci osos contri butos qua nto a o estado e movi mento da popu lação, permiti ndo utéis
a n á l ises comparativas.
Desde cedo, todavia, nos apercebemos que o nosso trabalho, de índole essencial­
m e nte d e m ográfica, exigia o levanta m e nto siste mático da d i visão a d m i n i strativa e
eclesiásti ca do Reino, nos princípios de Oitocentos, a fi m de conhecermos as freguesias
e conce l h os q u e i ntegravam as coma rcas, províncias e d i oceses, já para d etectarmos
possíveis lacunas, já para podermos compara r os dados relativos a u m a mesma regiã o
o u circu nscrição a d m i nistrativa, e m a n os d i fe re ntes, já, ai nda, para evita rmos o cá lculo
erra d o da popu lação, a nível regi onal e nacional. Esse levanta m e n to a d m i n i strativo­
eclesiástico, q u e nos vimos obrigados a elabora r, dada a i n existência d e estudos d este
carácter para o Antigo Regi me, exte n uante e complexo por razões q u e se a p o nta m
mais adia nte, constitu i u o a pêndice da nossa tese de doutora m e nto.

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A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

A necessidade de avaliarmos a natureza e importância das fontes de que nos servimos


e de. por outro lado, situarmos historicamente os rece nsea m entos de 1 80 1 - 1 80 2 - os
qua is, sem esquecer a influência dos censos espanhóis de 1 78 7 e 1 79 7 , este, p u b l i cado
e m 1 8 0 1 , e dos censos fra ncês e i nglês rea lizados, ta m b é m , e m 1 8 0 1 , representa m ,
sobretudo. o co roa r de esforços contínuos, p o r pa rte do Estado português, no sentido d e
se ca lcular a população portuguesa-, levou-nos a efectua r u m a ligeira ca racterização
socioeco n ó m i ca dos anos e m que se p ro cessa ra m os censos, e a proce d e r a u m a
rigorosa crítica histórica e demográfica d o s mesmos, em ordem a podermos ava l i a r a
sua importâ ncia.
Segu i d a m e nte, a b o rd a m os o esta d o da popu lação p o rtuguesa , por p rovíncias e
coma rcas, a nível naciona l. com efeito, pensamos q u e é útil e necessá rio a n a l isar, por
p roví n c i a s , a rea l i d a d e d e m ográ fica . pois, desse modo, n ã o s ó t ra b a l h a m o s com
efectivos c o n s i d e rá v e i s . q u e r a n í v e l d o esta d o , q u e r a nível d o m o v i m e nt o da
população, o que reduz significativamente as variações aleatórias, como ta m b é m não
podemos ignorar a d iversidade regional q u e o nosso País (no passado. mu ito mais q u e
n o presente). m a u gra d o a sua reduzida exte nsão, e n ce rra . N u m e rosos, va r i a d os e
complexos factores exercem a sua i nfl uência, positiva ou negativa sobre a popu lação,
sua evo l ução, d i n â m ica, menta l i d a d e , etc. Regiões d i ferentes, ge ográ fi ca , h istó ri ca ,
e co n ó m i ca e s o c i a l m e n te, a p re s e n ta m , s o b o a s p e cto d e m ográ f i c o . estru t u ras e
ca racterísti cas próprias.
Será que assi m era. já no dealbar do sécu lo XIX?

2. Divisão A d m i n i strativa e Eclesiástica de Portugal nos i n í c i o s d o


século XIX

" A s divisões das Provin cias. q u e j á d e s e u s ã o a rbitra ria s, e raras


vezes regu l a d a s por limites n a t u ra es , assim m e s m o , não q u a d rã o
pe rfeita m e nte com a s dos Governos milita res. n e m c o m o s districtos
exa ctos de h u m ce rto n u m e ro de Co m a rc a s , ou de Prove d o ria s , a o
mesmo t e m p o q u e o s districtos d 'estas d u a s u l timas ta m b é m s e n ã o
aj ustão entre si; se a isto se aj u ntão novas irregu l a ridades q u e resu ltão
d a s e n c r a v a ç õ e s , e as a n o m a l i a s . q u e as a n tiga s j u ris d i c ç õ e s d e
D o n a ta rios tin h ã o c re a d o , e q u e a u l ti m a l egis l a çã o a este r e s p eito
contin uou a consagra r. .. "

(Câ ndido josé Xavier, ··considerações sobre a Statistica ", Annaes das Sciencias.
das Artes. e das Letras, t.X, Paris. 1 820, p. 150).

2.1. Divisão Administrativa

Portuga l, ao começar o séc. XIX, encontrava-se d ividido em 43 coma rcas de correição,


das quais. 27 pertencentes à Coroa, 9 à casa do l n fantado, 4 à casa d e B ragan ça e 3 à
Casa das Ra i n has (quadro nº 1 ).
Lisboa e seu termo gozava de um estatuto j u rídico-a d m i n istrativo especia l , e m bora ,
ge ra l m e nte, fosse considerada como u m a coma rca.
A d ivisão regional tradicional do te rritório português, em seis p rovíncias, - a i nda
que, até ao séc. XVI, a província tivesse existência a d m i nistrativa, pois constituía uma

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FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N." 1 - DISTR I B U I ÇÃO D O S CONCELHOS POR COMARCAS- 1 8 0 1 - 1 8 0 2

COM A RCAS CID VIL CON c ou HON JU L REG TOTA L

ALCOBAÇA (Coroa) -
13 - - - - -
13
ALENQUER (Casa das Rain has) -
7 - - - - -
7
ARGANIL (Coroa) -
21 -
2 - - -
23
AVEIRO (Coroa) 1 35 -
2 - - -
38
AVIS (Coroa) -
18 - - - - -
18
BARCELOS (Casa de Braga nça) -
9 8 6 2 - - 25
BEJA (lnfa n ta d o) 1 13 - - - - -
14
BRAGA (Coroa) 1 - -
16 - - -
18
BRAGANÇA (Casa de Braga nça) 1 11 - -
7 - - 19
CASTELO BRANCO (Coroa) 1 24 - - - - -
25
CHÃO DE COUCE (lnfa n ta d o) -
5 - - - - -
5
COIMBRA (Coroa) 1 21 -
24 - -
4 50
CRATO (lnfa ntado) - 14 - - - - -
14
ELVAS (Coroa) 1 6 - - - - -
7
ÉVORA (Coroa) 1 16 - - - - -
17
FARO (Casa das Ra in has) 2 1 - - - - -
3
FEIRA (lnfantado) -
6 -
4 - - -
10
GUARDA (Coroa) 1 31 - - - - -
32
GUI MARÃES (Coroa) -
2 10 13 2 - -
27
LAG OS (Coroa) 1 6 - - - - -
7
LAM EGO (Coroa) 1 57 4 1 1 - -
64
LEIRIA (Coroa) 1 9 - - - - -
10
UNHARES (lnfantado) -
7 - - - - -
7
LISBOA 1 1 - - - - -
2
M I RANDA (Coroa) 1 13 - - - - -
14
MONCORVO (Coroa) -
20 - - - - -
20
OURÉM (Casa de Bra h a nça) -
2 - - - - -
2
OURIQUE (Coroa) -
17 - - - - -
17
PENAFIEL (Coroa) 1 -
7 5 3 - -
16
PINHEL (lnfa ntado) 1 3 - - - - -
4
PORTALEG RE (Coroa) 1 11 - - - - -
12
PORTO (Coroa) 1 1 9 18 9 3 -
41
RIBATEJO (lnfantado) -
7 - - - - -
7
SANTARÉM (Coroa) -
17 - - - - -
17
SETÚBAL (Coroa) -
19 - - - - -
19
TAVIRA (Coroa) 1 3 - - - - -
4
TOMAR (Coroa) -
23 - - - - -
23
TORRES VEDRAS (Coroa) -
11 - - -
1 2 14
TRANCOSO (Coroa) -
46 - -
1 - -
47
VALENÇA (lnfantado) -
2 1 1 - - -
4
VIANA (Coroa) -
6 13 12 - - -
31
VILA REAL (lnfa n tado) -
15 5 3 1 - -
24
VILA VIÇOSA (Casa de Braga nça) -
12 - - -
1 -
13
VISEU (Coroa) 1 18 30 8 - - -
57
TOTAL 22 579 88 1 15 26 5 6 841

CID - Cidades
VIL - Vilas
CON - concel hos
cou - Coutos
HON - Honras
J U L - ju lgados
REG - Reguengos

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A POPULAÇÃO PORTUG UESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

coma rca à frente da qual se encontrava um magistrado -, não tinha outro significado
q u e não fosse o de natu reza histórico-geográfica e , parcia l mente, m i l ita r:

a) os seus l i mites não correspondiam aos l i mites das coma rcas; u nidades territo riais
demarcadas, umas vezes, por acide ntes naturais, outras vezes, arbitra riamente, as
l i nha s d i visórias ignorava m os concelhos, fregu esias, povoações até, que s e
distri buíam, não ra ras vezes, por d i ferentes províncias;

b) não havia qualquer magistrado, quaisquer orgãos a d m i nistrativos responsáveis


pelas m esmas.

A coma rca era, assi m , a ci rcu nscrição administrativa (e judicial) básica, constitu i n d o
a á rea d e j u risdição do corregedor, o q u a l , c o m atri buições civis ( e cri mina is), h a bitava ,
norma l m e nte, a "capital" da mesma e, "em correição", percorria, todos os a nos, o seu
território.
Circu nscrição mu ito i rregu lar, que estava longe de obedecer a quaisquer p ri n cípios
de eficácia administrativa , de homoge neidade geográfica , demográ fica ou sociocultu ra l ,
a co m a rca , o ra c o b r i a vastas regi ões - coma rcas d e B raga n ça , Co i m b ra , T o m a r -,
dispersas por mais de uma província - coma rcas de Barcelos, La m ego, Crato, Beja -,
sem qualquer conti nuidade geográfica - Va lença, Porto, Coi m b ra , Avis -, ora se reduzia
a pequenas á reas, como as comarcas d e Chão d e Couce, Elvas ou Ri batejo.
o mesmo aco ntecia no que d iz respeito à sua população, a q u a l va riava entre 6 000
e 200 ooo a l mas.
A lei de 1 9 de julho de 1 790 e o alvará de 7 de janeiro de 1 792, tendo em consideração
a extensão de a lgumas comarcas, de tal modo que os corregedores não podiam cumprir
com as suas o brigações, "nem o povo haver a j usti ça , q u e se l h e deve" - os h a bitantes
_ de a lgumas coma rcas demorava m 3 dias a chega r à sede das mesmas -, expressa ­
m e nte determ i naram u m a nova dema rca ção das coma rcas, a a b o l ição de coutos e
honras e a a n exação das ouvidorias, e ntão exti ntas, às coma rcas em q u e se e n contra­
vam situadas, ou com as quais confinava m , sempre que o território das ouvidorias não
pud esse formar novas co marcas 10.
A l e i , p o r é m , n ã o se c u m p r i u e a c o m a rca, até à reforma de M o u s i n h o da S i l ve i ra
- decreto nº 2 3 , de 1 6 de Maio de 1 8 3 2 -, ma nteve a sua estrutu ra tradicional:

a) Concelhos, vilas, honras e coutos, faze ndo pa rte de uma coma rca , conti nuara m
"encravados" noutras coma rcas, suj e itos a várias j u risdi ções, já p o r p a rte d o s
donatários - como Águeda, na Beira , q u e sofria 4 senhorios -, já por pa rte dos
magistrados - como Alhandra , na Estremadura , onde entravam 3 correged o res, o
da Corte, por ser a vila compreendida no termo dela, o da coma rca do Ri batejo,
po Alha n d ra l h e ter sido adj u d i cada pela novíssima l e i das j u risdições e o d e
To rres Vedras, " p o r lhe s e r assinada na demarcação a ntiga" 11.

b) Igua lmente se ma ntiveram correições a nexas a outras comarcas, como a de M i ra ,


da Casa d a s Rai n has, anexa à coma rca de Avei ro; a de Odemira , a nexa à coma rca
e provedoria de Beja; e até, a correição das terras do d u q u e de Cadava l , a n exa à
coma rca de Beja, na qual o d onatá ri o "dá ca rta ao m i nistro q u e l h e parece", n o
fu ndo, uma a utêntica ouvidoria 1 2 .

c) Por fi m , pequenas ouvidorias, inca pazes de darem origem a novos territórios d e


c o r r e i ç ã o , n ã o fora m i n tegra d a s o u a n e x a d a s a q u a l q u e r c o m a rca , a ss i m
pe rma necendo, desga rra das, su btra i ndo-se tota l me nte à d ivisão a d m i n i strativa

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FERNANDO DE SOUSA

do território português, ignoradas pelos corregedores e, não ra ras vezes, p e l a


própria a d m i nistraçã o centra l:

- Vila de Ficalho, no Alentejo, ouvidoria do conde de Ficalho, i ntegrada por nós,


para efeitos popu lacionais, na comarca de Beja.

- Vila de Álvaro, na Estremadura , ouvidoria do marquês de Marialva, Casa de Can­


ta nhede, constitui n d o com a vila de Oleiros uma comenda da Ordem d e s. João
de Jerusalém, i ntegrada por nós na coma rca de Crato.

- Vilas do Ra baça l , Arega e Alvaiázere, a pri m e i ra , da Beira , as o utras duas, da


Estremadura , ouvidoria d o duque de Cadava l, i ntegra das por nós na coma rca d e
Tomar.

- Vila d e Va l e da Coel ha, na Beira , raia de Espa nha, " p ropria" do Mostei ro d e Sa nta
Cruz, ouvidoria dos coutos da U n iversidade de Coi m b ra , integrada por nós na
coma rca de Pi nhel.

Lisboa e seu termo e ncontrava-se dividida em 1 3 ba i rros e 4 5 julgados. Os bai rros


agrupava m , i n d istintamente, freguesias da cidade e d o termo - Alfa m a , Andal uz, Bairro
Alto, Belém, Castelo, Limoeiro, Mocambo, Moura ria, Remo/ares, Ribeira , Rocio, Rua N ova
e Santa Cata rina -, tendo, como magistrados, corregedores ou juízes do cri m e .
As coma rca s eram constituídas p o r concelhos, d esignação ge n é r i ca q u e , d es d e o
séc. XVI I I , a b ra ngia as cidades e vilas, com os s e u s res p e ctivos termos - Algarve,
Alentejo, Estre madura - concelhos propri a m ente d itos - M i n h o e B e i ra -, coutos e
honras - Minho, Beira e Trás-os-Montes -, julgados - Minho, Estrem a d u ra , Alentej o -,
reguengos - Beira e Estremadura - e à frente dos quais se encontravam , d e a cordo com
a i mportâ ncia dos mesmos, j uízes de fora , ou juízes ordiná rios.

QUADRO N."2 - D I S TR I B U I ÇÃO DOS CONCELHOS POR PROVÍNCIAS - 1 8 0 1 - 1 8 0 2

PROV Í NCIAS CID VIL CON c ou HON JUL REG TOTA L

MINHO 3 15 46 67 15 3 - 1 49

TRÁS - OS - MONTES 2 62 5 5 8 -
- 82

BEIRA 7 270 37 43 3 - 4 364

ESTREMADURA 2 1 22 - - -
1 2 1 27

ALENTEJO 4 99 - - -
1 - 1 04

ALGARVE 4 11 - - - -
- 15

TOTAL 22 579 88 115 26 5 6 841

P o r v e z e s , j u lgado a p a re c e c o m o s i g n i fi c a d o d e conce lho, e m s e n ti d o l a t o ,


classificado, de acordo com o magistrado q u e o preside, como j u lgado d e va ra b ra n ca
uuiz de fora) ou j u lgado ordinário uuiz ordinári o).
Co utos, honras, julgados e reg uengos, a d m i n i strativa m e nte, e ra m consi d e ra d o s
c o m o concelhos propriamente ditos, d o s q u a i s a penas d i feriam na o rigem e privi légios.
Existiam concelhos que não ti nham casa da câ mara , pelourinho, ou ca deia; e, m u i to
menos, moradores que soubessem ler e escrever para servirem nos cargos da governação.

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A POPULAÇÃO PORTUG UESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

QUADRO N ."3 - CONCELHOS SEM F R E G U ESIA PRÓPRIA - 1 8 0 1 - 1 8 0 2

PROVÍNCIAS COM A RCAS CONCELHOS

MINHO BARCELOS couto d e Casa is


G U IMARÃES couto da Lajeosa
couto da Pousa dela
PENAFIEL couto d e Vila Boa d e Qui res
PORTO h o n ra d e G osende
couto d e Loriz
TRÁS-OS-MONTES BRAGANÇA ho n ra dos Misticos
VILA REAL vila d e canelas
cvi la de G a l egos
BEIRA ARGANIL couto d e M i d ões
AVEIRO vila d a Aguieira
vila da Anadia
vila d e Assequins
vila d e Brunhido
vila d e Casa l de Álvaro
couto da Ermida
vila de Paredes do B a i rro
vila do P i n h e i ro
vila do Serém
vila d e Sorães
COIMBRA reguengo das Abiture i ras
couto d e Arazed e d e St." cruz
couto de Monte Redondo
couto d e Urmar
couto d e Vale d e Todos
couto d e Za m buj a l
FEIRA vila de Pere i ra Susã
LAMEGO vila d e Burgo
vila de Ca m p o Benfeito
vila de Medeio
vila de Raiva
h o n ra d e Ribelas
vila d e Rução
vila d e Soutosa
TRANCOSO vila d e casa l d o Monte
VISEU vila de Aguieira
couto de Arcoze lo
conce lh o d o Barre i ro
couto do covelo
conce l h o d o Folhada!
couto de G oj e
v i l a da Perse lada
concelho de Ranhados
auto d e Rio d e Mel
ESTREMADU RA TORRES VEDRAS vila de Enxara dos Cava l e i ros
ALENTEJO BEJA vila de Água de Peixes
ELVAS vila de Ca pelins
ÉVORA vila d e Vila Nova d o Principe Regente
VILA VIÇOSA vila de Reguengo

13
FERNANDO DE SOUSA

M u itos deles eram m i n úsculos, constituídos por u m a ou duas freguesias. N u m e ­


rosos, sobretudo na Beira , e ra m aqueles q u e n ã o integrava m , sequer, uma freguesia,
circunscritos a uma ou mais vi ntenas ou povos, e dos quais, por vezes, a a d m i nistração
centra l , nem o nome conhecia.
A confusão tornava-se inevitável, de tal modo que as informações de corregedores e
p rovedores, ati ne ntes aos conce l h os de u ma mesma comarca , n e m sempre concor­
davam.
Em 1 80 1 - 1 802, o seu n ú mero atingia os 841 (quadros nº 1 e 2), dos quais, 4 9 , sem
"fregu esia propria" (quadro nº 3).
Os concelhos, em sentido lato, por sua vez dividia m-se e m vi ntenas, e m princípio,
constituídas por 2 0 fogos, vizinhos o u casa is, à fre nte das quais se e n co ntrava m os
juízes de vintena ou juízes vinteneiros, chamados quadri/heiros na coma rca d o Porto, o u
j u lgados - ra ra mente, apenas n o s casos em q u e os termos d a s cidades o u v i l a s eram
mu ito extensos, como acontecia e m Lisboa, Barcelos e Braga nça.
Ainda que o livro ( tt. 6 5 , pa rágrafo 74 das Ordenações determinasse a existência
de juízes de vi ntena nas aldeias com mais de 2 0 vizi n h os, que d istassem, no mínimo,
uma légua da ca pital do concelho, a verdade é que, nos i n ícios d o séc. XIX, ta l se não
cum pria. os termos dos concel hos dividiam-se em vintenas, pequenos distritos de uma só
freguesia, quando esta tinha uma á rea signifi cativa , ou a b rangendo toda u m a freguesia,
se esta e ra pequena, mas, e m a mbos os casos, sem qualquer relação com a d istâ ncia a
q u e fi cava m da sede do concelho. As vi ntenas definiam-se, assi m , em fu nção de u m
certo território e n ã o dos luga res ou povoados; e, p o r ta l , o s j u ízes d e vintena passa ra m
a exercita r a sua j u risd ição em todos os luga res de que o seu distrito se com p u n ha.
As vi ntenas tomava m o nome do luga r principal do d istrito, de uma povoação, da
freguesia, de uma ca pela, etc. Acontecia mesmo que, por vezes, a vi ntena, compreen­
dendo uma freguesia, tivesse o nome da povoação mais populosa - p. ex., a vintena do
Padrão, na coma rca do Crato, correspondia a toda a fregu esia d o Esteva l.
Alguns conce l h o s , porém, enco ntrava m-se d i v i d i dos, n ã o e m vi ntenas, m a s em
a l d eias, povos ou povoações, como na coma rca de Vila Rea l.

2.2. Divisão Eclesiástica

Eclesiastica m e nte, Po rtuga l encontrava-se dividido em 1 7 d i o ceses, ou sej a , três


a rcebispados - o Patriarcado, Braga e Évora - e 1 4 bispados sufragâ neas dos a nteriores.
A freguesia de Tourém, coma rca de Bragança, pertencia à d i ocese de Orense.
Bispados e arcebispados e m bora homogéneos geografi ca mente, contava m á reas e
populações muito diversas, criados, por vezes, a rbitrariame nte, como na época pomba­
lina, mais ao ca pricho do governante, com fi ns políticos, q u e das rea is n e cessidades
rel igiosas do povo.
Dioceses havia que não tinham 5 0 freguesias - Elvas, Porta l egre - e m oposição a
o u t r a s c o m m a i s d e 3 0 0 - P a t r i a rca d o , Po rto , B ra ga n ça e M i ra n d a . o i m e n s o
a rcebispado de Braga a b ra ngia 1 2 90 freguesias, estendendo-se d o Alto M i n h o ao leste
trasmonta n o , com regi ões q u e , d u ra nte largas dezenas de a nos, não e ra m visitadas
pelos a rcebispos.
As d i oceses e n contrava m-se d ivididas e m a rc i p resta d os, viga rarias ou coma rcas
eclesiásticas que, por sua vez, integravam um n ú mero variável de freguesias.
Os seus l i m i tes não coincidiam com os l i m ites das circu nscrições a d m i n istrativas,
pelo q u e , fregu esias de u m mesmo conce l h o , povoações d e uma só fregu esia re p a r­
tiam-se por d ioceses diferentes. Por outro lado, era vu lga r uma só freguesia pertencer a
vários concelhos, como Santa Maria Alta de Meinedo, no Minho, repa rtida pelos coutos
de C a s a i s e B u s t e l o , p e l o c o n c e l h o de L o u s a d a e p e l a h o n ra d e M e i n e d o .

14
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

As dioceses não so mava m todas as freguesias do Rei n o , pois, a lgumas delas, não
d e p e n d i a m d o s bispos o u a rc e b i s p o s , m a s d e a ba d e s o u p re l a d os q u e , n�o só
detinham a j urisdição religiosa das mesmas, como dependiam di recta mente da Santa Sé.
Era m os isentos, n ullius diocesis, os quais, espa l hados u m pouco por todo o terri­
tório, en cravados nas dioceses, su btraíam-se não só à h i e ra rquia eclesiástica nacional, a
que não estava m vinculados, co mo, até, à a d m i nistração central q u e , não ra ra m e nte, os
descon hecia. Criados, norma lmente, pa ra privilegiar a lgumas ordens m i l itares o u mos­
tei ros, formados por uma ou várias freguesias, atingi n d o n u m ou outro caso d i mensões
consideráveis - o isento do Crato , d istribuído por duas províncias, i d e ntifi cava-se com a
coma rca do mesmo nome -, os isen tos constituíam em Portugal - como na Espa n h a ,
p o i s o i s e n to é u m a rea l i d a d e i b é r i ca - , u m sério o bstá c u l o a o c o n h e c i m e nto d o
n ú mero tota l das freguesias do Reino.
E não é fá c i l conhecer a s fregu esias d e Portuga l nos fi n a i s d o Antigo Regi m e e
pensar-se que o seu número, n u m dado momento, conti nua válido passados alguns a n os.
Não nos referimos, é evidente, às novas freguesias que surgiam q u a n d o o cresci­
me nto da população, o isolamento dos povos, ou outras razões assim o j u stifi cava m .
M a s às fregu esias a nexas, às fi liais das igrejas pa roq uiais q u e , os bispos, por sua livre
vontade, a n exavam ou desanexava m, aumenta ndo ou d i m i n u i ndo o n ú m e ro das fre­
guesias das suas d i oceses. Referimo-nos, a i n d a , às paróquias que os prelados d i o ce­
sanos p u ra e s i m p l esme nte s u p ri m i a m , e m d e fi n itivo, o u só d u rante algum t e m p o ,
co mo aconteceu, em 1 80 1 - 1 8 02 , na diocese de Elvas, d e v i d o , possivel mente, às pertu r­
bações origi nadas pela Guerra das Laranjas, a q ua l determ i n o u a perda d efi nitiva d e
Olivença e d a s sete freguesias que integrava m esse co ncelho.
Em 1 80 1 - 1 802, o número de freguesias existentes no Reino era de 4 092, pertencendo
3 976 às 1 7 dioceses, 1 1 5 a 1 8 isentos e uma freguesia à d iocese de Orense (qua d ro nº 4).

QUADRO N." 4 - DIVISÃO ECLESIÃSTICA DE P O R T U G A L- 1 8 0 1 - 1 8 0 2

N." DE N." DE
DIOCESES FREG UESIAS ISENTOS FREG U ESIAS

ALGARVE 70 BARRANCOS 1
AVEIRO 70 CRATO 36
BEJA 1 19 FIÃES 1
BRAGA 1 290 FONTES 3
BRAGANÇA E M I RANDA 332 G RIJÓ 7
CASTELO-BRANCO 81 LEÇA D O BALIO 5
COIM BRA 282 MONTOUTO 1
1
ELVAS 38 POIARES 9
ÉVORA 1 44 REFÓIOS DE LIMA 2
G UARDA 205 ROMEU 1
LAMEGO 24 1 STA. CRUZ DE COIMBRA 6
LEIRIA 50 STA. CRUZ DE LAMEGO 1
LISBOA 334 S. CRISTÓVÃO DE LAFÕES 2
PINHEL 1 49 S. JOÃO DE SALZEDAS 5
PORTALEGRE 41 S . JOÃO D E TAROUCA 4
PORTO 330 S. PEDRO DAS ÁGU IAS 8
VISEU 200 SOALHÃES 2
ORENSE 1 TOMAR 21
TOTAL 3 977 TOTAL 115

1 sem as 7 freguesias do concelho de Ol ivenca. perd ido em 1 801.

15
FERNANDO DE SOUSA

Uma defeituosa e a rcaica orga nização administrativa do território, na q u a l , sistema


a d m i n istrativo e judicial se confundiam, ca racterizada pela i nexistência de " u m centro
comum de a d m i nistração", por uma m u ltiplicidade e "m istura " de j u risdições e por u m
excessivo s e não desconhecido n ú mero de concelhos, a l iada a u m a desigual repartição
e c l e s i ásti ca do R e i n o , fragm e n t a d a p e l o s i s e n to s . e x p l i ca m . em gra n d e p a rt e , os
" p o d e rosos i n conve n i e ntes" com que o Esta d o d e p a rava, s e m p re que se prete n d i a
e fectiva r u m recensea mento da popu lação, o q u a l , n ecessa ria m e nte, passava pelas
a utoridades eclesiásticas.
Mau grado as tentativas reformistas da última década d o sécu lo XVII I , Portuga l , nos
i n í ci o s de O i toce ntos, m a n t i n h a a i n d a , p ra t i ca m e nte i n ta cta , sob p o nto de vista
a d m i nistrativo e eclesiástico, a estrutu ra pesa da e inoperante d o Antigo Regi me.

3. Os Recensea m e ntos d e 180 1-180 2

"As noticias Estatisticas de qua lquer genero poucas vezes se podem


a l ca nçar com a lguma segura nça ... h e só a authoridade d o Governo quem
as pode sub m i n i stra r; e quanto m a i s capas h e esta auth o r i d a d e d e se
fazer respeitar, e obedecer, tanto maior co n fi a n ça m e recem as relaçoens
que se coll igem··.

(Manuel Travaços da costa Araújo, na introd ução às Ta boas Topogra[icas e


Estatisticas de 1 8 0 1 ).

" L a c r i t i que d e s sources d e m eure la d is c i p l i n e fo n d a m e nta l e d e


l ' h istorien qui s'i nte résse à l a dém ogra p h i e a ncienne; toutes les astuces
statistiques et les théories mathé matiques d emeurent secondes, s i n o n
supe rflues. Ce qui i m po rte, ce n ' est pas l ' a b o n d a nce d es c h i ffres e t l a
co m p l esité savante d e s gra p h i ques, c'est la valeu r critiquée des sources;
hors d e là, i i n 'est aucune vérité".

(Pierre Goubert, " La morta lité en Fra nce sous I 'Ancien Régi me. Problémes et
hypothéses", Actes du Col/oque Internacional de Démographie Historique,
Paris, 1965, p. 84).

Como já tivemos oportunidade de referir, os anos de 1 80 1 e 1 8 02 d e ra m lugar a dois


recensea m entos com ca racterísticas diversas, mas com u m o bjectivo idêntico, q u a l é o
da contagem rigorosa da população portuguesa.
Não i remos. agora . explicar o com plexo e moroso ca m i n h o que levou à elaboração
destes censos. uma vez que já o fizemos no a rtigo i ntitu lado A População Portuguesa
em finais do Século XVJ/113, demo nstra n d o q u e estes rece nsea m e ntos constituem o
c o r o l á r i o d os esforços desenvolvidos nas ú l t i m a s d é c a d a s d o sécu l o XVI I I p a ra s e
c o n h e c e r o esta d o e o m o v i m e n to da p o p u l a çã o d o R e i n o - sem esq u e ce r m o s , é
evi dente, a i n flu ência dos censos espa nhóis, como já referimos.
Va mos, isso sim. apresentar, por coma rcas e por províncias. a população portuguesa
e m 1 80 1 , preced i d a . e m ordem a uma m e l h o r compreensão dos resultados obtidos,
pela ca ra cte riza ção s u m á ri a dos a n os d e 1 8 0 1 - 1 8 0 2 , pelas o p e ra ções que estão n a

16
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

origem dos censos efectuados nesses a n os e pela anál ise crítica das fontes, q u e r sob o
ponto de vista histórico, q u e r sob o ponto de vista d e mográfico.

3.1. os anos dos recenseamentos (1801-1802)

Os recensea me ntos dizem respeito aos a n os de 1 801- 1 8 0 2 . Anos q u e se i nscrevem


na d i fícil conju ntura do séc. XVI I I e princípios do sécu lo XIX, que afectou gra n d e pa rte
dos países da Europa ocidental ( 1 790- 1 8 1 5) e que, demogra fi ca m e nte, se ca racte riza,
numa pri m e i ra fase, por u m cresci mento da população mu ito lento e , numa segu nda
fase, pela estagnação, senão recuo populacional.
A subida mundial dos preços que, e m Fra n ça , se agrava a partir d e 1 79 7 , sobretu d o
no sul-sudoeste e ati nge o seu máxi mo, como aliás e m I nglaterra , e m 1 80 1 , d etermi n a ,
na Penínsu la, a m p l a s flutuações d o s mesmos, a pa rti r da ú l t i m a década d o sécu l o XVII I ,
flutuações ta nto m a i s violentas qua nto os preços d o trigo v ã o a l ca n ça r o s níveis mais
elevados de todo o sécu lo.
É a crise da "escassez de pão", como a definiu Pierre Vilar para a Catalunha ( 1 7 9 3 - 1 8 1 2),
intensifi cada na Península pelas i nvasões fra ncesas, que se prolonga , embora desconti­
nuamente, até 1 8 34- 1 8 3 6 , coi ncidindo, assi m , com as várias fases da l i q u idação política
d o Antigo Regi me, a determinar u m forte acrésci mo de morta l i dade.
Essa série de más colheitas ( 1 784- 1 79 3 e 1 79 3 - 1 804) origi nadas, segu ndo tudo l eva a
crer, por más condições cli máticas, provoca um agrava mento d ra mático das condições d e
v i d a d o ca m pesi nato e sa lda-se por várias epidemias, as quais, a pa rti r de 1 800 - feb re
a m a rela em Cá diz -, fazem a sua apa riçã o, d izimando as p o p u l a ções su b -a l i m e nta das.
Em Portuga l , a s m á s c o l h e itas parecem i n i c i a r-se por 1 7 9 0 . A carestia do p ã o
opri m i u todo o M i n h o e m 1 79 1 . N a Beira Litora l , o s anos de 1 78 9- 1 7 9 3 fora m a n o s d e
p e n ú ria. Em 1 79 3 - 1 794, uma seca excepcional a fecta todo o R e i n o , sobretu d o o S u l ,
p e l o q u e , o " p ã o d o mar", t e m de s e r enviado para o Alentej o. Em 1 796, a i m portação
de grão ati nge os va lores mais elevados da última década d o sécu lo. o ano de 1 79 7
ca racteriza -se p o r u m verão excessivo. Pelo contrá rio, 1 799 revelou-se mu ito ch uvoso e
com u m verão fri o, colhendo pou cos ce rea is. "Conti nuas ch uvas" ma ntivera m -se no
i nverno e primavera de 1 800. Em janeiro, choveu "como não havia mem ória". Coi m b ra
f o i d eva sta d a p o r u m fu ra cã o . o A l e ntej o s o f r e u gra n d e s p r ej u íz o s , os ca m p o s
assolados, a s casas destruídas. j u l h o foi u m mês de "ardentissimo ca lor". o a n o é d e
esteri l idade, c o m baixa produção de trigo e cevada. Lisboa sofre u m d u ro inverno, com
fa lta de lenha e ca rvão. Em 1 80 1 , a escassez dos cereais permanece. Em 1 80 2 , o mês de
janeiro, rigoroso, foi comparado aos "frios d e 1 7 62". A pri mavera, seca, exigi u preces,
m a n d a d a s fa z e r p e l o p a t r i a rca de L i s b o a , i m p l o ra n d o c h u v a s . o a n o f o i p o u co
abundante e a carestia de cereais conti nua em 1 80 3 - 1 804, origi nando neste último a n o
uma violenta i m portação de p ã o , superior às de 1 796 e 1 80 1 14.
É ce rto que u m mau ano agrícola nu nca se revela mau para todas as produções.
Alguns destes a nos fora m , de certo modo, compensados por boas colheitas de azeite e
vinho ( 1 80 1 e 1 803). Mas o pão é a produção fu ndamenta l , o a l i m e nto quase ú n i co d o
Portuga l rural de i nícios do sécu lo XIX.
A carne de vaca ía apenas à mesa das fa mílias que vivia m "com a lguma a bastança".
A população das cidades e vilas d o interior comia apenas a lgu m chi bato. Mas a "classe
í nfi ma, que he a mais numerosa ", sustentava-se de broa de m i l h o nas províncias do

2 17
FERNANDO DE SOUSA

norte, de pão de trigo ou centeio no Alentej o, Beira e i nterior trasmontano. Na B e i ra e


no Minho via-se comer "com a d m i ração m etade de h u ma boroa com uma sard i n ha". N o
Alentej o, a gente d o ca mpo tinha "por comida ordina ria a çorda d'alho, e m igas. cuj o
m a i o r valor" consistia no p ã o . Em Trás-os-Montes. c o m i a -se " m u ito pão s ê c o e e m
sopas" , ·até 8 e 1 o a rráteis diários p o r pessoa . Pão e legumes constituem "o a l i m e nto
mais comum da gente pobre das a ldeas. vil las. e cidades" 1s.
E o q u e era esse Portuga l , na viragem do sécu lo XVI I I pa ra o século XIX, senão u m
país d e ca mponeses? A miséria a lastrava. "principa l mente nos ca mpos, o n d e n a verdade
tudo he pobreza ". "As vi l las. os l ugares. e as a l d eas deste Reino. q u e formão os tres
quartos da sua população. devem a ntes chama r-se domicil ias de pobres". Nas terras
dos senh ores ou d o natários. "a condição dos colonos he tão miserável como a dos
a ntigos servos da Russia. Rações de terço, e quarto; j ugada; oitavas. d izimas. coi mas;
i n n u meraveis i mposições; d u reza dos exactores; usura dos rendeiros"; "tudo isto i mpede
a popu lação, e m quanto defra uda os meios de su bsistir" 16.
Su bsistência d i fíci l , regu l a d a p e l o pão, s o b retu d o o pão d e trigo q u e , segu n d o
Rodrigues d e Brito, consti t u i " o preço d e todos os ge n e ros", n ã o só d os prod utos
agrícolas como dos prod utos m a n u facturados. ainda q u e o m i l h o fosse com u m nas
províncias d o norte, o centeio no Alentejo, o figo no Algarve. e as batatas e fa ri nha d e
pau na lgu mas regi ões 1 7 .
o ra . o pão consu mido em Portuga l , sobretudo em Lisboa, e ra i m portado, em gra n d e
parte, da Rússia , Berbéria, Sicília, G récia e Estados Unidos. o Alentejo, e m a nos normais,
não s u s t e n ta v a L i s b o a por 6 m e s e s . c i d a d e q u e , nos m a u s a n o s . t i n h a de s e r
praticamente a bastecida pelo grão vindo de fora; e o Portuga l d o i nteri o r e ra obriga d o a
i m portar cereais vindos de Espa nha. Ass im. não é de estranhar q u e o trigo i m porta d o
desse o preço ao trigo n a c i o n a l . Preço m u ito e l eva d o a pa rti r da última d éca da d o
sécu lo XVI I I : o preço m é d i o do trigo, e m Lisboa, q u e , entre 1 78 2 - 1 794, fora d e 4 3 7 réis,
salta para 6 4 7 réis entre 1 794- 1 80 1 . O trigo, em Lisboa, vai atingir os mil réis e m 1 80 1 ,
a rrasta n d o consigo o u tros p reços: a ceva da a 6 5 0 ré i s , a l i m p a d u ra a 4 0 0 réis, os
"fa relos" a 360 réis, etc. 1 s.
No Porto, Coi m b ra , Vila Rea l , Braga nça, Abra ntes. Sa nta ré m , Setúba l , Évora , o trigo
e m 1 80 1 , u ltrapassa , ta mbém, os mil réis.
A s i t u a ç ã o ge ra l fo i agrava d a , de fa cto, n esse a n o , p e l a G u e rra das La ra nj a s ,
ca m p a n h a i n fe l i z p a ra o e x é rc i t o p o rt u g u ê s q u e t e v e c o m o p r i n c i p a l t e a t r o d e
operações o Alentejo e o n d e Ol ivença , j u romenha, ca mpo Maior. Arronches. Portal egre e
Castelo de Vide caí ra m nas mãos dos espa nhóis. sem com bate . ou m e d i a nte u m a
s i m b ó l i ca resistê n c i a . ca m p o M a i o r. uma das m e l h o res v i l a s d o A l e ntej o , fi cou e m
esta do lasti moso. com as suas casas a ba ladas ou a rruinadas. Po rta legre. u m a cidade
" d a s d e m a i s n o b reza d o Re i n o . ri ca e p o p u l oza " , s o b re u ru d e m e n t e a o c u p a ç ã o
espa n h o l a . N o t e r m o d e A r ro n c h e s , d a s s u a s 3 0 0 h e r d a d e s , a p e n a s u m a n ã o fo i
ro u ba d a e as sea ra s d estru ídas ou c e i fa d a s p a ra a cava l a ri a . os p rej uízos fora m
ca lculados em mais de 1 8 m i l hões de cruzados, e a ri ca vila de Ol ivença , com o seu
termo. passou defi n i tivamente para domínio espa nhol 19.
É curioso verifi ca r q u e o plano de acção das nossas tropas em ca mpanha p rete ndia
segu i r o plano c o n ce b i d o p o r Vi las-Boas. e m 1 7 9 6 , o qual precon izava uma acção
defensiva no Alentejo - província por onde os espanhóis necessaria me nte i n i ciaram as
hosti lidades-. e u ma forte ofensiva sobre a Gal iza por pa rte das tropas estacionadas a
n o rte do Douro, como manobra de dive rsão, a fi m de o b riga r as forças espa nholas a

18
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SECULO XIX

acudirem ao noroeste e d i m i n u í re m a pressã o no Sul, ofensiva essa q u e se adivin hava


fácil, tendo em consi deração:

a) a de bilidade das defesas e forças existentes na Ga liza;

b) o espírito ga lego predisposto a uma simpatia natura l pelos portugueses, tendo


e m atenção o grande número de ga legos que trabalhava m em Portuga l;

c) o desconte nta mento dos ga legos fa ce a o gove rno centra l de Madrid, devido à
p o i b i ção q u e sobre e l es i m pe n d i a de exporta re m o ga d o para Po rtuga l e d e
i m porta re m o sa l português, o q u e originava u m grande contrabando p o r Va lença,
Me lgaço, Montalegre, Chaves, etc.

Mas, na prática , n a d a se fez. A l i á s , é notável a i n d i fe re n ça q u e Po rtuga l e x i b e


pera nte a hosti lidade que s e faz senti r de Madrid e o s prenú ncios de uma gue rra q u e ,
p e l o menos desde 1 7 86, como salie nta ra m Vi las-Boas e outros vultos esclarecidos da
epoca, se tem por i n evitável.
P e ra n t e a n o s s a n e g l i g ê n c i a e a p a t i a r e s s a l ta a i n d a m a i s a e s t ra t é g i a
verdadeira mente moderna q u e o s espa nhóis demonstra m nesta guerra, q u e conti n u a
p o r estu d a r, m a s na q u a l s o b ressa i e m alg u n s a s p e ctos a i n d a n ã o d e v i d a m e n t e
referidos:

a) estu do prévio da situação m ilita r portugu esa, nomeada mente, das c o n d i ções
o p e ra c i o n a i s das n ossas praças d e a rm a s , p o r C o rn i d e , q u e , e m 1 7 9 9 - 1 8 0 0 ,
inspeccionou e descreveu minuciosamente todo o País;

b) licenciamento de tropas portuguesas, mesmo a pós a reti ra da das forças britâ n i cas
que, desde 1 7 9 7 , se e n contrava m no nosso território, pois, a Espa n h a - p e l o
menos, assim o ga ra nte a corte de Madrid à corte portuguesa - n ã o fará guerra a
Portuga l;

c) declaração de gue rra por pa rte da Espa nha a Portuga l , nos i nícios de Feverei ro de
1 8 0 1 , e m b o ra não acompanhada d e q u a i s q u e r a cções militares, reforça n d o a
su posição do governo português de q u e ta l declaração não é m a i s q u e u m a
satisfação fo rma l às exigências fra ncesas;

d) i nício das operações do Alentejo, por pa rte dos espan hóis, nos fi nais de Março, ou
seja, a tempo de colher o trigo e a l i m e nta r os seus homens e as cava lga d u ras,
priva n d o , sim u ltaneamente, Lisboa de pão no período da "solda d u ra " , ou sej a ,
n o s meses mais d i fíceis do ano, qua nto a cereais;

e) ca mpanha relâ mpago, de ta l modo que o i nício da mobil ização gera l dos recrutas
em Portuga l é posteri o r ao tratado de paz luso-espa n h o l de Badaj oz, n egoci a d o
sob a a m eaça da i nte rve nção das forças fra ncesas.

"Em tempo de gue rra - escreveu soa res Fra nco reportando-se à ca mpanha d e 1 80 1
- o povo, q u e precisar a bsolutamente d os estra ngei ros e m objectos d e agri cultura , a
não ser huma grande potencia ma ríti ma, pode ser reduzido por assedio, como se fosso
uma simples praça. E ainda que lhe seja possível com prar, qua nto carecer, q u e somma
i m m e nsa d e n u m m e ra rio n ã o s e rá o b ri ga d o a d i s p e n d e r, p a ra fo r n e c e r a rm a zens
m i l itares, e a s p ra ç a s , o n d e se extra v i a , corro m p e , e p e r d e ta n ta q u a n t i d a d e d e
generos" 2o .

19
FERNANDO DE SOUSA

ora, no caso português, o abasteci m ento do pão por via maríti ma não e ra tão fácil
como à primeira vista se pode supôr, uma vez q u e , a guerra com a Fra nça, i mpedia o
trá fego dos navios portugueses com o Bá ltico; corsá rios fra nceses percorriam a n ossa
costa , sobretudo j u nto do Porto e Lisboa - segundo Godechot, o m ontante dos navios
p o rtugueses ca p t u r a d o s e n t re 1 7 8 3 - 1 8 0 1 a t i n g i u os 2 0 0 m i l h õ e s -; e, n o s u l , os
ca rregam entos de trigo saídos de Mértola, através d o Guadiana e com destino a Lisboa,
são apresados pelos corsários argelinos, no alto mar, obrigando à escolta dos mesmos 2 1 .
Assi m , o a basteci me nto d o pão depende, fu ndamenta l m e nte, dos navios estra ngei ros
que a parta m a Lisboa e Porto.
Em 1 80 1 , grandes quantidades de grão são i m portados dos Açores, da Berbéria - as
i m portações mais elevadas desde 1 796 , dos E.U.A., da Rússia, sobretudo deste país, que
-

se mantém neutro qua nto a o conflito q u e então envolve as nações e u ropeias. G ra n d es


carrega mentos de trigo e cevada continuam a chega r a Portuga l em 1 80 2 . ·

I M P O RTAÇÃO DE G RÃO E FARINHAS EM TODO O R E I N O ( 1 7 9 6- 1 8 0 5 ) 22

A NOS Q U A NTI D A D E A NOS Q U A NTI D A D E

1 79 6 8 4 1 94 maios 1 80 t 1 45 0 5 3 m a i os

1 79 7 1 5 9 6 6 1 moias 1 802 1 09 6 8 3 m a i os

1 79 8 1 1 1 9 3 7 maios 1 8 03 9 5 763 moias

1 79 9 8 8 8 7 5 maios 1 804 1 78 891 m a i os

1 800 69 3 1 1 maios 1 80 5 1 86 9 2 6 maios

PREÇO MÉDIO D O ALQUEIRE D E CEREAL, N A CAPITAL, EM RÉIS ( 1 7 9 6- 1 8 0 5 ) 23

A NOS TRIGO CEVADA M I LHO CENTEIO

1 796 518 280 350 320

1 797 525 300 420 -

1 79 8 660 340 530 -

1 79 9 629 430 soo 400

1 800 894 65 1 588 560

1 80 1 1 000 665 -
926

1 802 63 1 280 380 -

1 80 3 649 440 580 520

1 8 04 775 468 600 -

1 8 05 645 496 440 -

20
A POPULAÇÃO PORTUG UESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

PREÇO DO ALQUEIRE DE T R I G O , EM RÉIS ( 1 7 9 8 - 1 8 0 2 ) 24

LOCALIDADES 1 798 1 799 1 800 1 80 1 1 802

LISBOA 660 630 893 1 000 630

PORTO 800 960 1 200 1 400 1 250

SETÚBAL 550 490 680 1 1 00 590

ABRANTES - -
88Ô 1 000 -

SANTARÉM 560 540 830 1010 500

CASTELO BRANCO - -
640 920 626

ÉVORA 540 540 900 1 060 480

ELVAS 478 440 658 808 434

BRAGANÇA - -
1 75 0 - -

VILA REAL 850 860 1 00 0 1 2 00 900

o p reço da ca rne acusa, igua l mente, nos últimos anos d o sécu lo XVII I , u m a gra n d e
s u b i d a , causa d a , segu n d o Rod rigues d e Brito, pela escassez d o ga d o e p e l o gra n d e
consu mo q u e d e l e fizera m as tropas inglesas estacionadas e m Lisboa. A Beira , q u e n ã o
se ressa rci ra d a s perdas sofridas na guerra de 1 76 2 , p o r 1 80 1 , tinha a i n d a o seu gado
vacum d evastado.
N o Minho e Trás-os-Montes, a escassez de gado vacu m era ta m b é m significativa , se
bem que compensada pela entrada de cabeças de gad o vindas, por contrabando, da
Galiza.
o vi nho, que e m Sete m b ro de 1 800 atinge, no Minho, os 1 40 réis por ca nada, " p reço
n u n ca visto", sa lta para 200 réis e m 1 802. As fá bri cas de aguardente do Alentej o e Beira
para l isa m .
A ca restia dos gén e ros repercute-se d e modo d o l o roso e gera l nas p o p u lações,
sendo n u m e rosos os teste m u n hos q u e comprova m o agravam ento das condições d e
vida d a s populações n o s ú ltimos a n o s d o séc. XVII I .
Nos i nícios de 1 790, no Alto-Douro, não há p ã o , ainda q u e procurado com d i n h ei ro e
"penhores", a l i m e ntando-se os rurais de ca ldo e uvas passas.
Por 1 7 9 7 - 1 7 9 8 , no Alto - D o u ro, Trás-os-Mo ntes e B e i ra , os ca m p o n eses passa m
muitos dias sem pão, pelo q u e os mais pobres comem os gomos das vides e col h e m
pelos ca mpos os p é s d a s couves gal egas q u e fica ra m d o a n o a nterior, i ngeri n d o-os crus.
Entre 1 798- 1 8 0 2 , no Minho, a miséria pública é gerai.No mosteiro de Tibães, e ntre Maio
d e 1 7 9 8 e M a i o d e 1 7 9 9 , r e p a rti ra m - s e 2 4 0 4 a l q u e i re s d e p ã o cozi d o " a i n crível
m u ltidão d e gente m i s e rave l " , v i n d a dos conce l hos d o Pra d o , V i l a r, d a s freguesias
circumvizi nhas, dos ba rros mais remotos da cidade de B raga 26 . D. Frei Caeta no B ra n d ã o ,
a rcebiso de Braga , não sa be c o m o é q u e o Minho, " o n d e a população h e i m mensa, e se
não vê senão fa rra pos e miséria ", pode viver com o alqueire de m i l h o a dois cruzados
novos e o a l q ueire de trigo a três e mais cruzados, "de maneira q u e se não vê por toda
a pa rte senão quadros tristíssimos de miseria, e de prostitu ição", "hum povo i mm e n so
grita ndo a fome" 2 7. À fome, em j u n h o de 1 80 1 , morrem os pobres no Porto. E, e m 1 80 2 ,

21
FERNANDO DE SOUSA

o pá roco da fregu esia de M a n celos. couto do mesmo n o m e . i n q u i ri d o àce rca d a s


enfermidades q u e ca usara m a morte a o s s e u s fregueses. responde. s i m plesme nte, q u e
" a s mais das pessoas morrem a fo me e fri o, p e l a mu ita pobreza nesta freguesia".
Coi m b ra sofre ta mbém a penúria do pão e proíbe a saída do milho existente no seu
termo. o qual só podia ser vendido no terre i ro da cidade, medida semelhante à tomada
por muitos outros concelhos. que i m pediam a saída das "mercadorias dos territórios da
sua j u risdição" nos a nos de fome. agrava ndo a i nda mais a ca restia do pão nas regiões
necessitadas 28
Lisboa, desde 1 7 9 9 , sobre as " m a n o b ras o d i osas" dos usurários m o n o p o l istas e
negocia ntes de má fé. Em 1 800, a ca restia das ca rnes e do azeite é manifesta e, devido
à fa lta de gã o. o pão é ra cionado. distri buído ao povo, "por conta ".A escassez d o pão
leva ao embargo do trigo e ceva da nos anos de 1 800- 1 80 1 . Neste último ano. d evido
aos a nos a nteriores. "fa m i ntos" e à guerra europeia, os géneros conti n u a m e m preço
"mu ito excessivo". o ed ita l d e 3 1 de Ma rço de 1 8 0 1 , proíbe o fa brico d o pão d e luxo.
restri ção levanta d a a p e n a s e m 6 ·de A b r i l d e 1 8 0 2 . A fa lta de pão e a m i s t u ra d e
fa rinhas origi n a , mesmo, a 8 de Abril de 1 80 1 . u m "alarido" l eva nta d o pelos padeiros e
moleiros no merca do do Terrei ro Pú bl ico. o edita l de 20 de Abri l de 1 8 0 1 dá o prazo d e
3 dias aos monopolistas pa ra declara re m os cerea is em a rmazém e p r o í b e a factu ra e
venda de toda a qualidade de bolos e biscoitaria, a qual durou até 2 7 de j u n ho. o decreto
de 24 de Abril ise nta dos " d i reitos chamados do porto" todas as e m b a rca ções q u e
trouxerem trigo, m i l h o e cevada ao porto d e Lisboa. o edital de 1 7 d e j u l h o regu la a
venda do pão a peso, tendo em atenção "os cla mores do povo". A regu l a m e ntação
revela-se. porém, inefi caz. Embargos e taxas beneficiara m a penas os monopol istas.
Em 1 8 00 - 1 8 0 1 . no Alga rve . não há pão. E , n o A l e ntej o , southey , em 1 8 0 1 . n ã o
e n contra pão. leite ou v i n h o que possa compra r. o povo morre à fom e 29
o d ecreto de 8 de feverei ro de 1 80 3 recon hece uma gra n d e ca restia de frutos d e
todo o gé nero devido à escassez d o s a nos a nteri ores. A fom e d evasta o Alentejo e m
1 8 03 e, no a n o segu i nte, este nd e-se a todo o Reino.
Fome acompanhada ou segu ida d e epidemias. As tropas q u e ti n h a m chega d o a
Lisboa encontrava m-se atacadas de escoburto e com febres. Nos fi nais de 1 800 reza m-se
p reces pa ra i m p e d i r q u e a peste de Cá d i z e n tre em P o rtuga l e o a l va rá de 4 d e
Nove m b ro do mesmo a n o manda abrir u m emprésti mo d e 40 contos d e réis. a o j u ro d e
5 % , para q u e , entre a Trafa ria e a torre do Bugio se estabeleça uma laza reto, m e d i d a d e
prevenção i m itada, em breve. p e l a c i d a d e do Porto. A s e p i d e m i a s conti n u a m e m 1 8 0 1 .
D e bexigas. e m Lisboa. que ataca os infantes rea is e viti ma D . António, príncipe d a Beira .
e m j u n h o . M o l éstias e p i d é m i ca s no conce l h o d e A l m a d a l a n ç a m a p o p u l a çã o " e m
gra n d e consternação". o d ecreto d e 1 2 de Dezembro de 1 80 1 manda comuta r as penas
de ga lés, perpétuas ou te mporá rias e até as penas d e morte. e m trabal hos p ú b licos na
ca pita l , a fi m de os condenados l i m parem e desentu p i ra m os canos da cidade d e lamas
e lixos e varrerem d i a ra m e nte as suas ruas. Nos fi nais do a n o . as e p i d e m ias alastra m
no Ale ntejo, onde morre muita gente e continuam em 1 802. Os a n os de 1 80 3 - 1 804 vão
conhecer u m recrudesci mento gera l d e epidemias e peste , mesmo no Norte d o Reino.
Po rtuga l começava mal o sécu lo XIX.

3.2. As operações dos recenseamentos

Vejamos. agora de que modo se processa ra m as operações de recensea m e nto, a s


d i ficuldades sentidas p e l o s protago nistas dos mesmos e as especifidades próprias d o s
censos de 1 80 1 e 1 802.

22
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

3 . 2 . 1 . R ecenseamento de 1801

Terminada a Guerra das Laranjas, e m j u n h o d e 1 80 1 , i n iciara m-se os prepa rativos


p a ra se proce d e r aos tra ba l hos d o l eva nta m e nto gera l da p o p u lação do R e i n o . Em
N ov e m b ro d esse a n o , fo ra m i m p ressas n a t i p ogra fia d a Aca d e m i a das C i ê n ci a s as
"certidões das desobrigas", o u "mappas da povoação", tendo i mporta d o a composição e
i m p ressão das mesmas em 5 800 réis 3o .
o aviso de 3 de N ovembro da secreta ria de Estado da Fazenda i n c u m b i u os bispos
das vá rias d i o ceses d e fo rnecerem "com toda a lega l i d a d e os m a p pas exa ctos da
popu lação d e cada hua das freguesias", a fim de se conhecer a população portuguesa e
dar as mais j ustas providências para o adiantamento da mesma.
o bispo do Porto, por ordem de 2 5 d e Novem bro d e 1 80 1 , manda aos reverendos
pá rocos do seu bispado, que ponham todo o seu cuidado, d i l igência e exactidão e m ta l
tarefa , a fi m de os mapas serem preenchidos com "clareza ", fazen d o os ecl esiásticos,
p a ra ta l e fe i t o , a s n e ces s á r i a s a v e r i g u a ç õ e s p e l o s l i v ro s de a s s e n t o s , r ó i s d o s
confessados e i n q uirindo dos seus fregueses a verdade das suas idades.
Em 1 1 d e j a n e i ro d e 1 802, Pina Manique enviou aos corregedores das coma rcas,
uma ordem, no sentido d e aqueles magistrados ped i rem a todos os pá rocos d e cada
comarca , os mapas dos fregueses das suas respectivas pa róqu ias, especifi ca n d o o seu
n ú me ro por gru pos d e idades (menores d e 7 a nos, 7-1 5 anos, 1 5-20, 20-30 e mais de
30 a nos), forma ndo-se, assim, 5 relações d i ferentes, tanto para o sexo mascu l i n o como
para o sexo fem i n i no.
Igualmente, deviam os corregedores pedir aos bispos, vigários gerais, o u à q u e l es em
quem os bispos tivessem d e l egad o as operações d o rece nsea m e nto, os mapas d a
população das freguesias d o s respectivos bispados, i n c l u i n d o os casa m entos, ó bitos e
nasci mentos relativos a 1 80 1 .
F i n a l m e n te, c o m p etia a ta i s magistra d os , e l a b o ra r o s m a p a s d a s pessoas q u e
a ndava m no mar, tanto das q u e andava m nas tri pulações como das q u e serviam nas
pescarias; o mapa das fá bricas esta be l ecidas e m ca da coma rca , com o n ú m ero de
i n d ivíd uos que aí trabalhavam e, se possível , o estado de ca da u m dos operá ri os; e um
mapa d e todos os eclesiásticos,. tanto regulares como secula res, declara n d o os nomes
ou invocações dos respectivos conventos e terras onde estavam localizados.
Po d i a m os co rrege d o res dar com issão aos magistra d o s de vara b ra n ca p a ra se
d es l o c a r e m à s j u ri s d i çõ e s dos mag is t ra d o s l e igos e a p u ra r e m t u d o o q u e fosse
necessário. Pina Manique, por sua vez, dava "comissão" aos correged o res para e ntrarem
e m todas as te rras dos d o natá rios "tud o afim d a boa execução e brevi d a d e d esta
d i l igê ncia".
Por a qui se concl u i que, para além do recensea mento gera l da população d o rei n o e
dos dados relativos ao movimento da popu lação, o Estado vai mais longe, procurando,
simu ltaneamente, efectuar o levantamento dos pescadores, d o clero regular e secu lar e
proceder a um inquérito i n dustrial.
Descon hecemos, qua nto aos pescadores, os resultados o btidos. Mas sabemos que
os a p u ra m e ntos relativos à s ordens rel igiosas e a o c l e r o s e c u l a r, assim como às
i n d ústrias e operariado, fora m , na verdade, rea lizados, dispondo nós d e tais fontes.
s e rá q u e ta i s i n q u é ritos p r o c u ra v a m c apta r g r u p o s s o c i a i s q u e , à pa rti d a , se
suspeitava não consta rem do recenseam ento da população em curso?
Seja como fo r, p a ra o rece nsea m e nto d e 1 80 1 contri b u i ra m m i n istros h á b e i s e
respeitáveis prelados, q u e preenchera m as tá buas com "exemplarissimo zelo, e m uita
i ntel l igencia", em ordem ao a p u ramento da popu lação portuguesa , agru pada, já pelas
d ioceses, já pelas coma rcas, e distri buida por d i fe rentes gru pos d e idades.

23
FERNANDO DE SOUSA

Daí que, Balbi e, i n fl u enciados por ele, outros h istoriadores, tenham erra d a m e nte
fa lado de dois recenseamentos para l elos, um, levado a efeito pelo aparelho a d m i n i s­
trativo estata l , o outro, rea lizado pela Igreja.
o ra , só se conhecem os resultados do rece nsea m ento efectuado pelas d i oceses,
pois, os dados populacionais por coma rcas não chegaram a ser coligidos, pela sim ples
razã o de q u e mu itos dos corregedores não conheciam as freguesias q u e i n tegravam as
suas circunscrições. E, ai nda que os corregedores tivessem conseguido apura r a população
das comarcas, ta l não sign i fi cava, de modo a lgu m, u m segu ndo recensea m ento, mas
um d i fe re nte reagru p a m e nto da p o p u l a çã o , que teri a , a i n da e s e m p re , n a base, a
i n formação do pároco.
É o que acontece, j usta mente, com as Taboas Topograficas e Estatísticas, de Manuel
Travaços Araújo, oficial da Secreta ria de Estado da Fazenda, q u e procurou agru par, por
comarcas, os mapas das freguesias enviadas pelo clero.
Sob este aspecto, a efi <::á cia da Igreja sobrepujava larga mente a eficácia d o Estado,
sendo ponto assente q u e só por meio dos sacerdotes se poderia o bter "alguma certeza"
no cômputo da popu lação.
se as medidas e os meios necessá rios pa ra a execução d o recensea m ento ti n h a m
sido acci onados c o m brevi dade, o s resu ltados do m e s m o ta rdava m a ser enviados à
Secretaria de Estado da Fazenda.
A 30 de junho de 1 802, foi enviada uma ci rcu lar aos bispos, para estes mandare m o
cá lculo da povoação de cada uma das freguesias das suas dioceses.
A 2 4 de j u l h o , outra circular, desta vez, pedindo aos corregedores que remetessem
os mapas da d ivisão civi l de cada coma rca .
A 5 de Nove m b ro , u m a o r d e m s o l i ci ta dos correge d o res o n ú m e ro d e ciga n o s
existentes n a s áreas d a s s u a s j u risdições.
A 1 5 d e N o ve m b ro , nova ci rcu l a r aos prelados das o r d e n s regu la res, p a ra s e r
enviada à q u e l a Secreta ria a povoação d a s respectivas casas religi osas.
A 20 de Novembro, outra ordem aos co rregedores para estes e ntrega rem as tá buas
a dmi nistrativas das suas coma rcas.
Finalmente, por aviso de 23 de Nove m b ro de 1 802, recom enda-se ao patria rca q u e
procurasse activar o levantamento d o clero regu lar d o Reino.
As d i ficuldades, com efeito, revelam-se d i fíceis de superar, já a nível a d m i nistrativo,
já a nível ecl esiástico. os mapas i m p ressos, suficie ntes p a ra a c o b e rtu ra tota l d a s
fregu esias do R e i n o , ou ti nham s i d o enviados e m pequeno número para as d ioceses, o u
ti nham s i d o extraviados e / o u i n utilizados p e l o s pá rocos, p o i s , centenas d e l e s , s u rgem ­
n o s i n te i ra m e nte m a n u scritos, c o p i a d os d a s f i c h a s i m p ressas. P o r o u tro l a d o , o s
pá rocos, ou dem orava m a exped ição d o s mapas preenchidos, ou enviava m-nos d e ta l
m o d o ras u rados q u e , na sede do bispado, exigi a m novos ma pas, ou copiava m , e m
c ó d i c e s , os re s u l ta d o s ge ra i s d o l e va n ta m e nto d e m ográ f i c o d a d i o c e s e . A l g u n s
eclesiásticos, co m o n a d i oceses de Évora , senti a m gra n d es escrú p u l os e m j u ra r n o s
m o l d es q u e as fichas exigia m , pela i m possi b i l idade de a p u ra re m , com exa cti dão, a s
i d a d e s d o s s e u s fregueses.
A n ível a d m i n istrativo, os corregedores demo nstravam-se ignora ntes das freguesias
e vintenas existentes em ca da coma rca e lamentavam não poder concretiza r as ordens
rece b i d a s , como os co rrege d o res d a s c o m a rcas d e V i s e u e La m e g o , a l ega n d o o
pequeno n ú mero dos j u ízes de va ra bra n ca e o facto de os j u ízes ord i n á rios, q u e m a l
sa biam de lavoura , não entenderem, sequer, o q u e por escrito se lhes e nviava e/ou
solicitava. Assim, a lguns corregedores, só em 1 803 manda ra m à Secreta ria da Fazenda
as tá buas administrativas, e muitos nunca chega ra m a enviá-las.
Apesar de tudo, os ma pas da popu lação começara m a dar e ntrada na Secreta ria de
Esta do a partir do segu ndo semestre de 1 802 e conti nuara m a chegar até aos princípios

24
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

de 1 80 3 , agru pados por d ioceses - norte e centro de Portuga l -, ou comarcas - s u l d o


R e i n o -, em a mbos os casos, conte ndo apenas as fichas q u e ti n h a m s i d o distri buídas
pelos pá rocos.
Todas as d i oceses enviara m os mapas da população das suas freguesias, i m p ressas
ou man uscritas.
As l a c u n a s d e ste rece n s e a m e nto ge ra l do R e i n o l i m i ta m - s e a u m a ou o u t ra
freguesia de que se extraviou a ficha e, sobretudo, aos isentos, u m a vez q u e só temos
dados relativos às freguesias dos isentos de G rijó, Sa nta Cruz d e Coim bra , Prelazia de
Tomar e Crato.
os mapas i m p ressos, por freguesias, procurava m a p u ra r o n ú m e ro d e pessoas vivas
a 3 1 de Dezem b ro 1 80 1 , d isti ngu indo homens e m u l h e res, por grupos etá rios d e 1 - 7
a nos, 7-2 5 , 2 5-40, 40-60, 60-80, 80- 1 00 e mais de 1 00 a nos (na prática , 0-6 anos, 7-2 4 ,
2 5-39, 40-5 9 , 60-79, 80-99, 1 00 e m a i s a n os). Pediam, ainda, o n ú mero d e fogos, o s
n a s c i m e ntos e os ó b itos o c o r r i d o s e m 1 8 0 1 e o n ú m e ro d e p e sso a s q u e n ã o s e
desobrigava m na paróq uia.
D e u m m o d o gera l , podemos afirmar q u e se e n contra m pree n c h i d a s com mais
cuidado as fichas q u e d izem respeito ao sul de Portuga l.
D o n o rte - d i oceses d e B raga e B raga nça -, s u rge u m maior n ú m e ro d e fichas
rasuradas e os pá rocos esbarra ra m com mais dificuldades na contagem das a l mas d o
q u e os ecl esiásticos do Portuga l meridional.
A d iocese do Porto, e ntão, como já foi referido, exibe todas as i n formações pedidas
e m fichas manuscritas.
Na B e i ra , e n q u a nto as fi chas relativas à d i ocese d e La m e go acusam u m a c e rta
n eg l i g ê n c i a no s e u p r e e n c h i m e n t o , as d i oceses de Ave i ro e C o i m b ra , e m fi c h a s
i m p ressas e m a n uscritas, reve l a m preocupação na a p resentação d o s res u l ta d os. o
bispado de Viseu reúne todos os dados n u m códice manuscrito, de modo u n i forme,
visto os origi nais se encontra ra m , na sua maior pa rte, "em estado d e não poderem ser
r e m e t i d o s " . E a d i o c e s e d a G u a rd a , ta m b é m em c ó d i c e m a n u s c r i t o , a p re s e n ta
i m pecave l mente a sua população.
Frequentemente, ta m b é m , os pá rocos desconhecem os concelhos a que as suas
freg u e s i a s p e rt e n c e m e , por vezes, a s p r ó p r i a s c o m a rca s , p e l o q u e , o u nos d ã o
i n formações e rra das - i n d i ca m d o i s concelhos, c o n c e l h o s i n ex i stentes, co n fu n d e m
provedoria e coma rca , etc.-, ou nada i n formam. E muitas vezes, fo rnecem a p e nas o
o rago da sua freguesia.
Aqui, são a i nda o centro e o norte do País q u e oferecem maiores d i ficuldades, já
pelo grande n ú mero de concelhos sem freguesia própria , já pela exte nsão d e o utros, já
pela confusão que se fazia senti r e m m uitas freguesias, com "fogos meeiros", o u sej a ,
com á reas d istri buídas por mais de u m concelho.
Tornava -se, pois, mais fácil, conta r os habitantes no sul - onde as freguesias eram
mais esparsas, menos populosas e com u m tipo de povoa mento concentrado -, q u e n o
Norte, onde as paróquias, m a i s n u m e rosas e m a i s povoa das, ti n h a m os fogos m u ito
d ispersos ?
S ej a c o m o for, p a r e ce - n o s evi d e nte q u e e m n u m e rosas d i oceses h o u v e u m a
reorga nização e revisão dos dados demográficos constantes dos ma pas das freguesias,
a reve lar u m ce rto cuidado, por pa rte dos bispos, qua nto aos resultados fi nais d o censo.
De q u a l q u e r m o d o e a t í t u l o de m e ra h i p ó t e s e , t e n d o em c o n s i d e ra ç ã o o
preenchime nto das fichas, a soma a ritmética dos habita ntes q u e i ntegra m os gru pos d e
idades d a s pessoas e a assi natura d o s pá rocos, tanto no recensea m ento d e 1 80 1 como
no d e 1 802, parece-nos que o nível médio cultura l do clero secu lar d o Sul ultra passava
o nível médio cultural do clero da Beira , Minho e Trás-os-Montes.

25
FERNANDO DE SOUSA

C E R T I D l O.
C Ertifico c u o P.C1J/4p � ·
.
. � · ·

Parocho Ja F rc gue2ia nf{-nciOllaàa ; que das antecedentes


Dedaraçó::s a das Pessoas de hum a té sete annos he
contormc aos Livros dos Assentos dos Bapt ismos e Obi­
tos n os seis annos qu: findao hoj� : a D�daraçâo das
Pessoas de sete Jlnnos para sima he quanto ao nlimcro
.con forme ao Rol da Desobriga da Qg.aresma. deste anno ,
e quanto :ís id.1dcs á LlOti c ias fidedignas : e a Dedara;..

çáo dos Nasc imentJs e Obiros he con forme aos Livros


dos Assentos dos Bap tismos . e Obitos deste anno. Tam­
bem tenho noticia , que além das Pessoas ditas ha n :t
Frcguezia

i/)�1� : Alr�Iberes

'JlUt por seretn �, k�


nâo se desobrigâo na meSJia Freo uezia. O que tudo :lf..
firmo in verbo Sac-crdotiJt. /.��1"
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3 I de Dezem-
bro de z 8o z.
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o Pilrocbo t7Jtr!l"��,� �

R. E C O N H E C I M E N T O.

P OttoJaneiro
a de
por fé ser verdadeiro
de 1 8 o•· _
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O Escriwo . da . Cam·ara 'l/r. LÇ- ; './ 1 :, '·�


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Ecclestasttca /{ . / · e
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NA TYPOGRAFiA DA ACADE MIA R. DAS .S CI.EN CI,AS.


Por Ordem dt ,f. .A. �

26
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Idades. Ib m e ns : Mu1 h eres.


DE I .m�no até 7 (/J/5'7 � / 36'
De 7 �nnos �té 2) (!) ::1 32 (/W S"�
De l) annos até 40 (b ;3.-/'lr (!)2-?6
Dt! 40 aRnos até 6o i/>2-f/ �:)26
De 6o annos ate 8o �<1�'.} ii>�-'�
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27
FERNANDO DE SOUSA

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28
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

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Númc:n dos Focos de roda ·a Frcgt�e·ziJ � - - -

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Allinado o Paroco �/t?u (...aa n.c ,ú / ·.it k
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29
FERNANDO DE SOUSA

3 . 2 . 2 . Recenseamento de 1 8 0 2

N o s fi n a i s d e 1 8 0 2 , a pesa r d e a i n d a não terem s i d o rece b i d o s n a secreta ria d e


Estado d a Fazenda todos o s resu ltados do censo de 1 80 1 , activava-se j á a preparação
d e u m novo recenseamento.
Por aviso de 2 2 e Novembro de 1 80 2 , di rigido aos prelados d i o cesa nos, pede-se u m
novo censo d o s povos, regu lado pelos exemplares q u e se remetiam para ta l fi m.
De acordo com o aviso, tornava-se necessá rio:

a) Em benefício dos "amados povos", orga n iza r a enumeração d isti nta dos povos das
freguesias de cada bispado, acrescenta ndo-se nas fi chas i m p ressas o n ú mero de
pessoas ausentes e/ou d e fo ra , de a m bos os sexos.

b) I n d i ca r o n ú mero d e recolhidas, os expostos de a m bos os sexos, os nasci m entos e


óbitos relativos a 1 802.

c) bar notícia das enfermidades que causavam as mortes e , caso não fosse possível
i n d i cá-las em 1 80 2 , fazê-lo a partir do ano segu i nte.

dJ Preencher as tá buas com o mais correcto escrúpulo, já que "numerosos aritméticos


de muitas das tabellas do anno passado", preenchidas pelos pá rocos, revelavam-se
i n i ntelegíveis.

As tá buas da população e ra m , agora , tota l mente difere ntes das usadas n o recen­
seamento de 1 80 1 , mais complexas, au mentando, ass i m , as d i ficuldades n o preenchi­
m ento integral e correcto das mesmas.
Homens e m u l h eres dividia m-se em três classes, soltei ros/as, casa dos/as, viúvos/as.
s u rgiam colunas i n d e pendentes para os eclesiásticos secu l a res, eclesiásticos regu lares e
frei ras.
A população distri buía-se por gru pos etá rios quinq uenais, desde zero a 1 00 a nos.
Além dos nasci me ntos, procurava m-se averiguar os pa rtos si ngelos, d u plos o u tri pl os.
Os ó bitos era m discri m i nados por tá buas que permitiam averiguar a morta l i d a d e por
gru pos d e i d a d e s q u i n q u e n a i s e a m o rta l i d a d e i n fa n t i l , ass i m como d iscri m i na r as
ca usas das mortes.
o recensea mento de 1 8 0 2 , referido ao ú ltimo dia do mesmo a n o , efectu ou-se, te n d o
sido remetidos à secreta ria da Fazenda os m a p a s d o mesmo.
I n fel izmente, não se conhecem os dados relativos à população d e todas a s d i o ceses
do Reino. Apenas se enco ntra m recolhidas nos arqu ivos da Assembleia da República -
p a ra o n d e fora m tra nsferidos os pri n c i p a i s fu n d o s d o c u m e n t a i s a t i n e n tes a o s d o i s
recensea me ntos, e m 1 8 2 1 , conforme i nformámos já noutro trabalho, as fi chas relativas
às fregu esias de nove d i oceses e a lguns isentos que cobrem , fu ndamenta l m e nte, o
centro e norte de Po rtuga l: dioceses de Avei ro, Braga, castelo Bra n co, Elvas, La m ego,
Leiria, Portal egre e ise nto d e Grijó.
A d i o cese d e La mego refere a população d e a lguns isentos e ncravados na sua á rea.
o recensea mento, contudo, cobriu todo o territó rio. U m ofíci o d e 25 d e Maio de
1 8 03 i n forma que o maço dos mapas populacionais do bispado d e B raga n ça , ainda não
tinha sido remetido, o que veio a acontecer, uma vez q u e acabamos por o e n co ntra r na
Torre d o Tombo. E uma pequena relação, assinada pelo provisor d o bispado d e Beja,
datada d e 25 d e Feverei ro d e 1 8 0 3 , fo rnece a ta b e l a d a s fregu e s i a s que fa ltava m
n a q u e l e b i s p a d o , prova e v i d e nte d e q u e as t á b u a s d a p o p u l a ç ã o d e sta d i o ce s e
a l entejana t i n h a m sido a p u radas e enviadas à Fazenda, e que, p e l o menos, esses mapas

30
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

fo ra m extraviados do núcleo documental q u e constitui o rece nsea m ento de 1 80 2 , o


q u e não é de a d m i rar, te ndo em consideração as vicissitudes por q u e passou aquela
documentação.
Mas ta mbém é provável que nem todas as d ioceses ten ham re metido para Lisboa
os mapas da população das suas freguesias.
com efeito, e m 1 803, D. Rod rigo d e Sousa Couti nho ca i n o d esagra d o d o Príncipe
Regente, e a o v e r a s suas i n i c i a t i v a s s i ste m a t i ca m e n te m a rgi n a l i za d a s , m e s m o
recusadas, acaba p o r ser obrigado a ped i r a dem issão d e Presi d e nte do Rea l Erário e d e
Secretá rio d e Estado da Fazenda.
Com a sua saída, exti nguem-se as preocupa ções estatísti cas d a secreta ria q u e ,
Sousa Couti nho, desde 1 80 1 , chefiara c o m ta nta i nteligência e a u dácia. A parti r d esse
a n o e até 1 8 2 0 , n ã o m a i s se e fectiva rá q u a l q u e r r e ce n s e a m e nto da p o p u l a ç ã o ,
i n c l u i n d o o d e 1 8 0 3 , já p revi sto n a s i nstruções d e Nove m b ro d e 1 8 0 2 , m a s n u n ca
concretizado.

3.3. A n á l ise crítica das fontes

Passemos, agora , à a n á l i se crítica das fontes, te n d o em atenção as i n fo rmações


constantes das fichas dos recensea mentos. Qual a validade dos n ú me ros q u e nos são
o fe r e c i d o s a nível d e fregu e s i a ? E n c o n trava m - s e o s pá r o c o s das fregu e s i a s e m
condições d e poderem fornecer, com rigor, os dados d e natureza demográfi ca q u e l h e
e r a m pedidos?

3 . 3 . 1 . Fogos

A contagem dos fogos por pa rte dos pá rocos apresenta re mota tradição em Portuga l
e, nos princípios do séc. XIX, não oferecia quaisquer d i ficuldades.
os dízi mos pagos à Igreja - ainda que o levantamento de ta l tri buto fosse normal­
m e nte executado por re ndeiros ou a rremata ntes -, exigiam q u e o prela do d i o cesa n o
conhecesse c o m exa ctidão o n ú mero de fogos d a s freguesias da s u a d iocese. P o r outro
l a d o , a o b rigação d a d e s o b ri ga a n u a l , na Qua resma e a c o b ra n ça das p resta ções
exigidas pelos eclesiásticos aos seus fregu eses, d e acordo com os "usos e costu mes"
das igrejas, l evava m a q u e os pá rocos registasse m , n o rol dos confessa dos, todas as
fa mílias das suas fregu esias, registo m i n u ci oso, pelo menos nos fi nais do Antigo Regi m e ,
onde os fogos, regra gera l , era m n u merados e escalonados a t é , n o caso dos gra n d es
aglomerados populacionais, por arruamentos.
Jacques M a rca d é , para o Baixo A l e ntej o , refere q u e , em p o u cos a n o s e p a ra as
m esmas fregu esias, na segu nda meta d e d o séc. XVI I I , o n ú m e ro de fogos se revela
m u ito variável e que ta i s variações se tornam d i fi c i l m e nte e x p l i cáveis, levanta n d o
problemas qua nto à validade de ta is n ú m e ros ao pretendermos detecta r o cresc i m ento
ou contracção da população das freguesias e m estu do.
E põe mesmo a hi pótese d e o n ú mero de fogos ser arbitrariamente i n d icado pelos
pá rocos, e m fu nção dos seus i nteresses, ou dos i nteresses dos povos, o que levaria
aquele a reduzi r o n úmero d e fogos tendo em atenção as côngruas pagas pelos seus
fregu eses, o recruta mento m i litar e até, o levantamento do i m posto da décima 31 .
Antó n i o de A l m e i d a , nos i n ícios do séc. XIX, referi n d o-se a Penafi e l , afirma q u e
n i ng u é m i g n o ra " o m e t h o d o i m p e rfe ito d a d esignação d o s fogos a d o pta d o p e l o s
parochos", em bora conclua que se trata da "unica fonte onde se p o d e recorrer, e o n d e
se p o d e encontrar alguma veraci dade". Segu ndo ele, o a u mento dos fogos é, por vezes,
a p a rente, nascido do modo como o pároco conta os fogos no rol dos confessados,

31
FERNANDO DE SOUSA

considerando "como fogo á pa rte qualquer pessoa existente e mesmo unida a h u m a


fa mília, huma v e z q u e n ã o seja m u l her, fi lho, ou domestico d o chefe de fa m í l i a , d o n d e
se occasiona q u e p e l a morte de h u m chefe de fa mília q u e fazia somente h u m fogo, se
escrevem dahi por dia nte no mesmo rol tres, quatro, e ás vezes mais fogos, pratica
nascida para multiplica r os benesses, que os freguezes pagão como chefe de fa m í l i a , o u
fazendo h u m fogo separado. s e n d o este m otivo com m u m a todos os parochos, está
m a n i festa a o r i g e m da i m p e rfe i ç ã o d o s m a p p a s esta t í s t i c o s d e Po rtuga l n e ste
particular" 32
Ass i m , a hipótese de Marcadé e ntra, de certo modo, em contrad ição com a i n forma­
ção de Antó n i o de Almeida. ou os pá rocos exage rava m o n ú m e ro d e fogos, q u a n d o
estava m e m j ogo os s e u s d i reitos e reduziam o seu n ú mero quando i n formava m as
autoridades a d m i nistrativas ou eclesiásticas sobre tal rea lidade?
Não nos parecem vá lidas tais críti cas, pelo menos para os inícios d o sécu l o XIX.
N u m a é p o ca e m que o p a ga m e n to de ce rtos d i re i to s e c l e s i á st i c o s e ra j á b e m
contestado, tornava-se d i fíci l , s e não impossível , multi p l i ca r o s fogos com a facilidade
q u e António de Almeida dá a entender.
E ta mbém não e ra natural q u e os pá rocos i n d i cassem u m nú mero de fogos i n ferior
a o rea l . sempre q u e se efectivasse o l evanta m ento do contingente m i l i ta r, i n stru i d o
p e l a s a utoridades a d m i n i strativas, feito "á proporção" - i sto é , d e ta l m o d o q u e a
redução de a lgumas dezenas de fogos à freguesia se traduzia por u m ou dois recrutas a
m e n o s - e fa c i l m e n te c o n t r o l á v e l , já p e l o s povos d a s fregu e s i a s l i m ítrofes, j á e
sobretudo, pelo corregedores e j u ízes de fora , através dos livros das ordenanças e da
décima.
Finalmente, o i m posto da décima não era tri butado por fogos, como Marcad é supõe,
mas por prédios e através das câ maras q u e , para ta l , a n u a l me nte, a bria m livros d e
registo da décima, por a rrua mentos, destri nçando os prédios rústicos e u rba n os.
Regra gera l , o n ú m ero de fogos i n d i cados p e l os pá rocos merece-nos confiança.
compara ndo o numera m ento de Pina Ma nique, os levanta mentos de Col u mbano para
Trás-os-Montes, de Vilas Boas pa ra o Minho e numerosas outras fontes d e fi nais d o
sécu lo XVII I , com o s dados fornecidos p e l o s rece nsea m entos d e 1 80 1 e 1 80 2 , salvo e m
ce rtos casos, fa ci l m ente detectavéis. verifi ca mos q u e o n ú mero dos fogos d a s d iversas
freguesias concorda m exemplarmente ou de modo m uito satisfatório.
A própria evolução da cidade de Penafi e l através do n ú mero d e fogos, e ntre 1 7 7 1 e
1 8 2 3 , p o r A n tó n i o d e A l m e i d a , i n fi rm a as s u a s reservas q u a nto a o p r o b l e m a d a
contagem d o s m e s m o s , e e l e p r ó p r i o reco n h e c e q u e n ã o h á o u tro m e i o p a ra s e
conhecer o número de fa mílias existentes n u m a freguesia.
Por vezes, não e ra fácil ind i ca r exacta mente o n ú m e ro d e fogos de uma paróq u i a ,
j á que, s o b retu d o n o M inho e na B e i ra Litora l , m u itas fregu e s i a s , a l é m d o s fogos
"i ntei ros", tinham fogos "meeiros" isto é, fogos pertencentes a mais que uma freguesia
e que d i s p u n h a m mesmo d e "sacerd otes m e e i ros". Ora, os párocos, n o s recensea­
m entos de 1 80 1 e 1 80 2 , regista m , escru p u l osamente, o n ú m e ro de fogos i ntei ros e os
fogos meeiros, pelo que, nestes casos, i n corpora mos os fogos meeiros na freguesia em
que estã o i n d i cados, à semelhança do critério usado no censo de Pina Ma n i q u e e no
l evanta m ento da popu lação do Minho por Vilas Boas.
o número de fogos de cada freguesia pode ser confi rmado, d i recta me nte, através
dos l ivros de registo das ordenanças e , i n d i recta mente, pelos l ivros da décima, uma vez
que, estes, ao m e n ci onarem os prédios, regista m os chefes d e fa mília que n e l es vive m .
Mas n ã o p o d e m os confu n d i r fogos com p r é d i o s , n e m s e q u e r a p u ra r o n ú m e ro
daqueles a parti r do nú mero destes, ou vice-versa , pois. a relação entre o n ú m e ro d e
fogos e o n ú mero de prédios de uma mesma freguesia varia d e m o d o m u ito i rregu lar,
a penas nos permiti n d o afi rmar que, nos fi nais do Antigo Regi me, no m u n d o ru ra l , os

32
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

fogos parecem ser numericamente inferiores aos prédios, enquanto que nos aglomerados
u rbanos parece regista r-se o contrá rio.

3.3.2. Homens e M u l h eres

Joaq u i m Va rela, por 1 8 1 6 , reco n h ecia q u e " n i ngu é m m e l h o r do q u e os pastores


eclesiásticos póde dar a perfeita e ca ba l d escripção d e hum pequeno circuito, aonde
tem a sua effectiva residencia para d i rigir as al mas, e aonde h u m espí rito d e recre i o e
curiosidade os póde leva r ao mais miudo conhecime nto daquella pa rte do seu reba n h o ,
q u e l h e f o i confiada" 33 .
Antó n i o de A l m e i d a , porém, a lguns anos mais ta rde, ceptica m e nte, cons i d e rava
i m pe rfeitas as i n formações d os mapas estatísti cos d a p o p u l a ç ã o , p o i s , os róis d o s
confessa dos, fonte d e q u e os pá rocos se socorri a m para a p u ra r o n ú m e ro dos s e u s
fregueses, não registava m os menores d e 7 anos 34.
Cepticismo retomado por alguns historiadores que se têm preocupado com a sociedade
do Antigo Regi me, como, e m Espa nha, Domi nguez Ortiz, o qual, reportand o-se ao censo
de 1 7 6 8 , se i nte rroga s obre os meios d e que se serviram os pá rocos a o ca l c u l a r a
popu lação i n fa ntil não sujeita ao cumprimento pascal e se ta is cá lculos não terão si d o
feitos a rbitrariamente 3 5 .
Não nos parecem fu ndamentadas ta is suspeitas, já porq u e os róis dos confessados,
e m fi nais do séc. XVI I I regista m , muitas vezes, os menores d e 7 a n os, como todas as
o utras pessoas q u e i ntegra m cada fogo, já porque os pá rocos tinham poss i b i l i dades d e
conhecer a popula ção i n fa nti l através d o s livros d e registo paroq u i a l , ou por conheci­
me nto d i recto.
o rol dos confessados, livro do estado das almas, devia mencionar, por a rrua mentos,
bai rros, l uga res, a l d e i a s o u q u i ntas - conforme se tratava d e freguesias u rbanas e
p o p u l osas ou de freguesias ru ra i s-, as pessoas existentes em ca da fogo , respectivo
sexo, i d a d e , esta d o civi l , profissão e , n o caso dos " m e n o res i m p u b e res, que são os
homem até aos 1 4 a n nos e as mulheres até aos 1 2", pelo m enos, as idades 36 .
Pa ra ta l , em ca da a n o , o pároco, acompa n h a d o de u m sacerd ote " o u d e a lg u m
freguez v e l h o e honrado", d evia correr toda a fregu esia, " i n formand o,se m u i particular­
m ente do numero, idade e qualidade das pessoas, q u e em cada casa houver" 3 7.
o rol dos confessados regista , assi m , de u m modo preciso e sistemático todas as
pessoas q u e habita m cada fogo, incluindo até as crianças, " mesmo as d e mais ten ra
idade", como acontece, no rol dos confessa dos da freguesia da Sé, cidade de Castel o
Bra n co, e m 1 794 3B
Q u e as p r e o c u p a ç ões d o s pá rocos, no q u e d i z res p e i to ao n ú m e ro d os s e u s
fregueses n ã o s e l i m itava m, apenas, aos maiores de 7 ou 1 2 a nos, prova m-no, ta m b é m ,
os livros de visitas d e fi nais d e setecentos, os q u a i s , q u a s e sempre, mesmo q u a n d o
d i z e m respeito a freguesias ru rais, a ponta m as pessoas d e sacra mento e os menores d e
7 a n os, d i stingu i n d o , a t é , por vezes, dentro d e c a d a u m d esses dois gra n d es gru pos
etá rios, os va rões e as fêm eas.
Mas, a i nda que o rol dos confessa dos não i n d i casse os m e n o res de 7 a n os, os
pá rocos podiam recorrer aos livros de registo paroqui a l para a p u ra m ento daqueles.
Os " m a p pa s d a povoaçã o " do rece nsea m e n to de 1 8 0 1 reco m e n d a m q u e , s e a
declaração das pessoas maiores de 7 anos d eve ser conforme ao rol da desobriga da
quaresma do mesmo ano, o n ú m e ro d e menores d e 1 a 7 anos seria conforme aos .
livros dos assentos de ba ptismos e óbitos dos últimos 6 anos.
Nós sa bemos das lacunas que os l ivros d e óbitos a p resentam no que diz respeito às
cri a n ças. Mas, uma vez c o n h e c i d o o n ú m e ro d e cri a n ças ba ptiza das d u ra n te esse

33
FERNANDO DE SOUSA

período, seria d i fíci l averiguar as que ti nham morrido, ou aquelas q u e , j u nta me nte com
os seus fa miliares, tinham deixado de viver na freguesia?
Pensa mos que não. Relacionando os nomes das crianças ba ptizadas com os seus
pais, o pá roco fa ci lmente detectava as crianças existentes e que a i nda não se confes­
sava m .
E, se a lgumas d úvidas se l h e levantava m - a lgu n s pá rocos esta r i a m h á p o u c o
tempo nas paróquias, à data d o s recensea mentos-, facilmente p o d i a m ser e l i m i nadas,
através dos o utros sacerdotes, d o sacristão, dos j u ízes d e vintena, e n fi m , d e qualquer
pessoa i dosa da freguesia.
H á q u e ter e m l i n h a de conta, na v e rd a d e , p a ra a c o m p re e n s ã o g l o b a l d este
problema, qual o de sa ber as possi b i lidades d e apuramento d o número d e m e nores de
com u n h ã o , nas d i ve rsas freguesias, através dos párocos, o v o l u m e d e mográ fico das
pa róq u ias, os eclesiásticos nelas existentes, o enquadramento das populações por pa rte
da Igreja -, enfi m , a i m portâ ncia do conhecimento d i recto das pessoas e das coisas q u e
i ntegra m o m icrocosmos paroquial.
Na freguesia, o padre conhece bem todos os seus habitantes, desde as crianças que
ele ba ptiza até aos velhos invá l idos q u e visita.
N o Portuga l d e fi ns d o Antigo Regi m e , são raras as freguesias que u ltra passam as
2 ooo a l mas, como são raras as paróquias com u m só sacerdote. A u m maior n ú mero
de fregueses ou a um povoamento mais d isperso, corresponde, proporciona l m e nte, u m
maior n ú mero de eclesiásticos.
Numa é poca em que a vida dos povos é pautada e mesmo d eterm i nada pela Igreja
(pelos seus ritos, procissões e festas religiosas, pela prática religiosa, etc.), o contacto d o
pároco, d o s sacerdotes, c o m os s e u s fregueses, incluindo as crianças, era constante e
profundo, robustecido por uma convivência q u otidiana, diária, q u e i d entifi ca as cri a n ças,
fi l has d este o u d a q u e l a , mesmo q u a n d o a m ã e é uma p o b re v i ú v a , o u d e " m a u s
costu mes", mesmo quando o p a i é u m eclesiástico se n ã o o próprio pároco.
Os cá lculos efectuados pelo pároco, relativa mente aos menores d e confissão, e ra m
exa ctos o u a proxi mar-se-ía m muito d a rea lidade e dependiam mais d a sua boa vontade
que, propriamente, de quaisquer outras d i ficuldades.
Alguns pá rocos i n di ca m , nas fichas d o recensea mento d e 1 80 1 , n o gru po de idade
0-6 a nos, u m n ú m ero de rapazes ou raparigas m u ito superior à rea lidade, o q u a l , em
nosso parecer, resu ltou da contagem das crianças ba ptizadas e ntre 1 79 5 - 1 80 1 , sem ter
e m l i n ha d e conta as q u e tinham morri d o , u m a vez q u e o l ivro dos ó bitos os não
regista ria.
Por outro lado, nalguns mapas, parece constata r-se no mesmo gru po etá ri o , para
1 80 1 , ou no gru po 0-4 a nos, para 1 802, um sub-registo dos menores - embora , por
vezes, os números a p resentados, como adve rti u o prior da freguesia d e Fri e las, termo
d e Lisboa, não sejam mais q u e a expressão de uma epidemia que, nesse a n o , o u e m
a n o s a nteriores, tenha dizimado as crianças.
Tais casos, poré m , são ra ríssimos. A crítica dos números apresentados por a m bos os
rece nsea me ntos demonstra que os pá rocos procurara m fo rnecer c u i d a d osa m e nte a
p o p u l a ção mascu l i na e fe m i n i n a das suas paróq uias, i n c l u i n d o os m e n o res d e 7 a nos.
Mesmo e m situações excepcionais, o zêlo d os eclesiásticos é l o uvável , como no
caso d o prior da fregu esia d o Ca i a , conce l h o d e Elvas, uma vez que, o fa cto d e os
espa nhóis, na guerra de 1 80 1 , l h e profanarem a Igreja e rou ba re m o u d estruirem as
i magens, vestes, vasos sagra dos e os l ivros d e registo paroq u i a l , n ã o o i m pe d i u de
forn ecer a popu l a çã o da fregu esia, o u sej a , "os n ú m e ros" dos que co n h e ce u "com
i n d ividuação".
Algumas d i ficuldades su rgi ria m , sem dúvida, numa ou noutra freguesia u rbana mais
popu losa, em Lisboa ou no Porto, onde os pá rocos teriam mais d i ficuldade e m a p u ra r o

34
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

número de crianças menores de comunhão e, também, a popu lação fl utuante, existente


nos gra ndes aglomerados urbanos, sobretudo, em Lisboa.
Mas, mesmo nas fichas da população das grandes freguesias da ca pita l , os pá rocos
m e n c i o n a m , m u itas vezes, as p e s s o a s q u e não s e d es o b ri ga m n a fregu e s i a , os
" rebeldes", os va d i os, os protesta ntes ou de com u n hão estra n h a , os estrange i ros, os
desobedientes, os irreligiosos, os "vaca ntes", enfi m , todos aqu eles que não cumpriam o
preceito pasca l.
S i m p l e s m e nte, como ta i s i n fo rm a ções nem s ã o s i s t e m á t i c a s nem e x a u s t i v a s ,
concl u i m os que a popu lação d a s paróq uias registada nos recensea m entos co rresponde
à população "de facto", estável, logo, e m número l igei ra m ente i n feri o r à população tota l
das mesmas.
Na verdade, o n ú m ero de portugueses apurado pelo recensea mento de 1 80 1 d eve
ser i n ferior ao número rea l dos habitantes do Reino existentes nesse ano. Vários grupos
sociais e n u m e rosas pessoas, por razões várias, não terão sido regista das pelos pá rocos:

a) Forças armadas - Grande parte dos militares que integravam o exército e a mari n ha
terão escapado aos recenseamentos. As u nidades m i l i ta res, os navios de guerra
ti nham ca pelães, q u e assegu ravam a desobriga dos seus efectivos ou guarn i ções.

b) Clero regular e população estudantil - A população dos conventos, reco l h i m entos,


Un iversidade de Coi m b ra , colégios, semi nários - incluindo fa m i l i a res, a l u n os/as e
criados/as -, ta mbém não fez pa rte do recensea mento, uma vez q u e os privi lé­
gios de que gozava m os religi osos e pessoas deles dependentes, os isentava m da
sujeição paroquiaL

c) Expostos - Terão sido contadas as crianças abandonadas, existentes nas rodas ou


e n tregu es às a m a s ? o rece nseame nto d e 1 8 0 2 procurou suprir esta l a c u n a ,
pedindo a o s prelados d iocesa nos q u e apurasse m , n a s s u a s d ioceses, o n ú m e ro
das crianças expostas.

d) A numerosa população flutuante e os ma rgi nais - vad i os, desertores, mend igos,
pedidores, ermitães, ciganos, etc.

e) os pescadores que a ndavam como tri pula ntes no a lto mar e, até, pa rte dos pesca­
dores da costa , "gente grosseira, fugitiva da Igreja".

f) Os funcionários públicos, em comissão de serviço nas colón ias.

g) G ra n d e pa rte dos operários que trabal hava m nas fá bricas - fora m o bjecto d e um
rece nsea m e nto i n d ustria l , cujos dados a p rove i ta m os p a ra este tra b a l h o - e
criad os/as, s o b retudo nos gra n d e s centros u rbanos, q u a n d o prove n i e ntes d o
mundo rura l .

h) Os recolhidos/as e m casas de polícia.

I) Os presos nos cá rce res do Reino.

j) os doentes dos hospitais, casas de m isericórdia, alberga rias e laza retos.

k) As pessoas d e outras religiões que não a catól i ca , ateus e católicos "dispensados"


ou "privilegiados ".

I) os "mentecaptos ", doentes me ntais, que não podiam comu nga r.

35
FERNANDO DE SOUSA

m) os estrangeiros, entre os quais avu ltava m os m i l ha res de ga l egos q u e trabal ha­


vam em Po rtuga l .

H o m e n s e m u l h e res encontravam-se d istri buídos, c o m o já foi referido, por grupos


de idades. A averiguação das idades, d e acordo com as instruções d o recensea m ento
d e 1 80 1 , d evia basea r-se e m "noticias fided ignas".
É ce rto que os pá rocos, não ra ras vezes, n o ro l dos confessa dos, registava m as
idades das pessoas. Mas, na esmagadora maioria das freguesias, só a pergunta d i recta
permitiria sa ber a idade de cada u m . ora, acontecia que m uitos a d u ltos descon heciam a
idade, como os pescadores da Póvoa de Va rzim, por serem - afirma o pá roco-, " m u ito
rusticos".
Alguns padres, como o prior de Sa ntos-o-Velho, freguesia de Lisboa, esclarecem q u e
a i d a d e e ra ind icada pelas pessoas, ou ca lculada, q u a n d o as mesmas ignorava m o a n o
do s e u nasci mento.
A l g u m a s pessoas, por m a l ícia ou i g n o râ n c i a . e n c o b r i a m a s i d a d e s , p e l o q u e a
distri bu ição por gru pos etá rios se tornava menos precisa. As notícias - conti nua o prior
-. não era m , assi m , "de ordinario, fi dedignas" (para esta época , só as reconstituições por
fa mílias podem averigua r, com exactidão, as idades das pessoas).
A distri bu ição por grupos de idades é, apesar de tudo, relativa m ente correcta , u m a
v e z que, ta l distri buição, ao agru pa r a informação, neutra liza , de certo modo. a i mpre­
cisão e as flutuações observadas a nível individual.
N o recensea m ento de 1 802, e m que a população se d istri bui por grupos d e idades
q u i n q uenais. detecta-se, por vezes, u m empola mento do gru po 6- 1 0 anos (5-9 a nos)
e m relação ao gru po 0-5 anos (0-4 anos), fenómeno semel hante ao "observad o noutros
países com baixo nível de desenvolvi mento económico e social", mas que, nos recen­
seamentos e m q uestão (no caso do censo de 1 80 1 , para o gru po de 0-6 a n os). pode
traduzir u m sub-registo dos menores de 7 anos.
Fenómeno semelha nte se observa no gru po de idade de 3 6-40 anos, o qual aparece
ligeira mente e m polado e m relação aos gru pos de idades 3 1 -3 5 e 4 1 -4 5 a nos, o q u e
trad uzi ria a repugnância por pa rte d a s pessoas em ultra passa r eta pas simbolica m e nte
i m p o rta ntes da vida, como os 30 ou 40 a nos - como Manuel Naza reth observa e m
recensea mentos portugueses do séc. XX, chamando a atenção para este " fe n ó m e n o
sociológico m uito ca racterístico de países c o m u m siste ma sociocultura l semelha nte a o
portugês" - 40 , ou u m a rredondamento feito p e l o pá roco, numa tentativa de si m p l i fi­
ca çã o da distri buição das pessoas pelos grupos d e idades.
Acima dos 60 anos constituí m os um só gru po etá rio, pois, a partir d essa idade. os
cá lculos ou as esti mativas vão sendo cada vez menos dignas de crédito.
F i n a l m ente, o recensea m e nto d e 1 8 02 distri buía homens e m u l h e res segu n d o o
estado matrimonial, especifica ndo soltei ros/as, casados/as e vi úvos/as.
Ta mbém, neste caso, nos parecem vá lidas as informações paroquiais, ainda que ta l
" registo civil" não considere as pessoas casa das que se separava m , nem tenha em l i n ha
de conta a população celi batária - sobretudo as m u l h e res solteiras-. q u e vivia, p u ra e
s i m p l e s m e n t e , " c o m e s ca n d a l o " , " e m m a n c e b i a " . E n ã o e ra m p o u co s o s casa i s
"divididos" ou ama ncebados n a sociedade portuguesa de fi ns d o Antigo Regi m e , q u e r
n o s centros u rbanos, quer no mundo ru ra l !
N o A l e n tej o , a m o b i l i d a d e d a m ã o d e o b ra , q u e s e d e s l oca a t é regi õ e s b e m
d i sta ntes d a s fregu esias d e o rige m , permite, espora d i ca m ente, novo casa m e nto e ,
práti ca mais corrente, o concubi nato. o casa mento, naquela província, de m o d o a lgum
se revela ind ispensável aos olhos dos seus habita ntes. D. Manuel do cenácu l o , nos fi nais
· de Setecentos, convenceu muitos casa is d o seu bispado a regu la riza rem a situação e
entregou outros, dada a sua impenitência, ao braço secu lar 41.

36
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

No Norte de Portuga l , os l ivros de visitas e das devassas demonstra m o q u e os livros


dos expostos exe m p l i ficam d e modo bruta l , o u sej a , que o concu b i nato, m a n c e b i a ,
adu ltério e i ncesto se encontrava m amplamente d i fu n d i dos, n a s regiões rurais, c o m o
no Ba rroso ou na região do Douro - em 1 79 5 ,os " m a o s costu mes" s ã o responsáveis por
90% das 332 pessoas culpadas pela d evassa , nas 40 fregu esias da Visita da p ri m e i ra
pa rte de Villa Real 42.
Em conclusão, podemos afirmar que os párocos portugueses, nos inícios do século XIX,
à semelhança d o que Le Roy Ladurie afirma em relação aos pá rocos fra n ceses de fi ns
do séc. XVII I , são "bons conhecedores dos seus efectivos paroqu ia is".
Os dados relativos ao volume da população, sexo e estado dos habitantes revelam-se,
e m princí p i o , exa ctos ou basta nte a proximados da rea l i d a d e , n o que diz respeito à
popu lação estável e catól i ca. Conta r os habita ntes é contar as a l mas.
Nas freguesias m u ito p o p u l osas, s obretu d o as u rbanas, essa co ntage m ignora a
popu lação fl utuante, todos a q u e les q u e vivem à m a rgem da com u n i d a d e catól i ca e
acusa, possivelmente, um l igei ro sub-registo dos menores de 7 a n os.
A d i stri b u i çã o d a p o p u l a ç ã o p o r g r u p o s de i d a d e s , q u a n d o tra n s fo r m a d a e m
estrutu ras relativas é , sem d úvida, utilizável e passive i d e i nterpretação, q u e r n u mérica,
quer grá fica.

3 . 3 . 3 . Nascimentos, casamentos e ó b itos

Tanto num como noutro recenseamento, os párocos deviam declara r os nasci mentos
e óbitos ocorridos nas suas freguesias e, ai nda, no caso do censo de 1 802, os casa mentos.
Que confiança nos merecem tais declarações?
Efectua r-se a análise crítica de tais dados i m p lica, de certo modo, aferi r o valor dos
registos paroq uiais portugueses, nos fi nais do Antigo Regi me, va lor esse que está l onge
d e ser u n i forme para todo o país - em bora , mais uma vez, n este caso, a participação
d i recta dos pá rocos em ta is operações perm itisse ultra passar, facilmente, as fragi lidades
d a q u e les. os registos paro q u i a i s portugueses, nos i n ícios d o sécu l o XIX, va riam de
d iocese para di ocese, de região pa ra região, de pároco para pároco, uma vez q u e os
asse ntos d e baptismos, casa m e ntos e ó b itos não são mais que o refl e x o do z e l o ,
menta l i dade, hábitos e grau de cultura d o s pá rocos.
N ã o c o n h e ce m o s q u a l q u e r estu d o crítico s o b re os registos p a ro q u i a i s de u m a
d i o ce s e o u d e u m a regi ã o . La m e ntave l m e n t e , e a p es a r d o s m e ri t ó r i o s e s f o r ç o s
desenvolvidos nos últi mos a n o s , nem s e q u e r temos reco l h i d os e / o u i nventa riados, d e
m o d o exaustivo, o s l ivros de registo paroquial, o s qua is, dispersos pelo Arq uivo Nacional
Torre do Tombo, pelos a rq uivos d istritais - onde deviam ser reco l h idos - o u d iocesa nos,
se e ncontra m , ta mbém, pelas freguesias, atirados para qualquer canto da igreja o u da
residê ncia pa roqu i a l , em b i b l i otecas pa rticulares e, mesmo, pelos a l fa rra bistas.
Sem esta prévia e sistemática recolha, como fazer o estudo dos registos paroquiais
das diversas d ioceses?
José António de Sá, nos fi nais d o sécu lo XVII I , chamava a atenção para a "i ncerteza"
dos extractos paroquiais, já "porque são d i m i n utos os assentos; já por falta de notícias,
principalmente nas terras maiores; já porque os de d i fferente religião se não a l i stão nas
parochias; já porq u e a pobreza de muitos dá causa a descu i d os n o officio d e que se
não percebe uti l i dade", pelo que, não só precon izava o Alista mento G e ra l d o Reino, por
fa mílias, como a chava n ecessá rio enviar aos bispos e repa rtições com petentes, u m
modelo por onde s e deviam regu lar o s assentos paroquiais 43.
o a lva rá de 2 7 de A b r i l de 1 8 0 2 exp ressa m e nte dete r m i n o u q u e os l i vros d o s
assentos d o s baptismos, casa mentos e óbitos de todas as paróquias seriam selados,

37
FERNANDO DE SOUSA

medida que foi com unicada aos prelados d iocesa nos. E por 1 8 1 7, José varela sugeria
que, para evita r enga nos e torna r mais fácil e cómodo o registo pa roq u i a l , os livros
devia m conter "os dizeres communs impressos" 44.
Mas nada se con cretizou. se a Igreja, em gera l , ou os preladQs em pa rticular não se
preocupavam com a u n i formidade e rigor dos assentos, o Estado ta mbém não tom o u
qualquer iniciativa para solucionar a questão,pelo q u e , ao longo de boa parte do século XIX,
os registos paroq uiais conti nuara m a ser a rbitrariamente preenchidos pelos pá rocos ou
seus coadjutores.
De um modo geral, podemos afirmar que os livros de registo paroquial nos aparecem
mais cedo e de uso mais regular no Norte de Portugal e se encontram conservados e preen­
chidos mais cuidadosamente - o que poderá não ter a ver com rigor o u exactidão -,
nas freguesias u rbanas que nas freguesias rurais.
No Alentejo, muitos livros de registo paroquial teriam sido iniciados, apenas, nos finais
de Setecentos, nomeadamente, na d iocese d e Beja, devido á i n i ciativa de D. Manuel d o
cenácu lo ( 1 7 70- 1 802). Pa ra a lgumas paróquias, n ã o a pa rece, seq uer, u m livro paroquiaJ 4S.
N o Patri a rca d o , n o m e a d a m e n te, para a região d e Lisboa, o n ú m e ro d o s l i v ro s
paroq uiais desa parecidos é consi derável.
Nas dioceses d e Braga e Braga n ça-Miranda. surgem , igual mente, m uitas lacunas nas
séries dos l ivros de registo de numerosas paróq uias rurais.
Poré m , co mo já referi, muitos d estes códices encontra m-se, ainda, nas freguesias,
to rnando provisório qualquer cá lculo qua nto a o número dos l ivros q u e chega ra m até
aos nossos dias.
A elaboração dos asse ntos revela-se mu ito i rregu l a r. Na é poca e m q uestã o , os livros
q u e d izem respeito ás pa róq uias a l entejanas encontra m -se mal preenchidos, com a ctos
omissos, erros cronológicos, registos copiados alguns a nos mais ta rde, etc. ..
Jo sé va rela, nos i n ícios de O i tocentos, chama a ate nção p a ra a fragi l i d a d e d o s
registos paroquiais da região de Montemor-o-Novo, "encontra n d o e ntre as folhas d o s
livros dos nascidos e mortos pequenos papeis, que conti n hão algumas l e m b ra n ças e
decla rações que não forã o la nçadas no luga r com petente" 4 6 . o cu ra de Santo Antó n i o
d e Vendas Novas " patenteava ", então, " a s consideraveis omissões d o seu antecessor,
q u e havia negado o devido assento a m uitos nascidos e mortos" 47.
No Patria rcado, mesmo para a região de Lisboa, a qualidade dos registos paroq uiais
não é a melhor.
Alterações cronológicas, laconismo de form ulário, folhas a rra ncadas, o u , por vezes,
i m pla ntadas posteri ormente, surgem-nos, d e igual modo, nos livros d e registos paro­
q u i a i s d o bispado d e B ragança-Mira n d a , refe rentes á segu nda meta d e d o século XVI I I .
M a s passemos à a n á l ise d o s três tipos d e l ivros de registo pa roq uial.

a) Livros de baptismos - O recensea m e nto d e 1 8 0 1 decla ra q u e o n ú m e ro d o s


nasci mentos relativos a esse ano d evia ser conforme aos respectivos assentos d e
ba ptismos.
É certo que o número de nascimentos não coincide com o número de baptismos
mas, em d e m ogra fi a histórica, pouco mais se pode fazer do que despreza r a
m a rgem de e rro q u e a i d e ntificação nasci m e ntos/baptismos necessa ria m e nte
i m p l i ca.
Com efeito, os livros d e baptismos ignoram os nados-mortos e os nados-vivos
que morriam a ntes de receberem o baptismo, o qual e ra a d m i n istrado n o p razo
concedido pelas constituições d iocesa nas, de 8 a 1 o dias após o nasci me nto das
crianças.
Mas nem sem pre e ra cumprido d e ta l prazo, como na d iocese d e Beja, q u e
chegava a i r a t é a o s 20 d i a s . D. M a n u e l do cenácu lo verbera este baptismo ta rd i o

38
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

e l e m b ra aos páro cos a necessidade de ba ptiza rem as cri a n ças o m a i s cedo


possível , pois, muitas morriam sem este sacramento 4 8 .
" Descuido" que, no Alentejo, é menos da responsabilidade dos pá rocos q u e
dos p a i s , pouco preocupados com o baptismo d o s s e u s fil hos, c o m o recon hece o
pá roco da freguesia de s. G regório, coma rca de Vila Viçosa, d iocese d e Évo ra ,
i n forma ndo, em 1 80 1 , que, pa rte das cria nças de 1 a 7 a nos s ó consta p o r i n for­
mação, u ma vez que não era costu me baptizá-los.
Até que po nto este costu me se e n contrava ge n e ra l izad o nas p o p u l a ções
daquela província, ou, mesmo, de outras regiões?
o não registo das crianças ba ptizadas em casa e que viera m a m orrer a ntes
de receberem na igreja os santos óleos, pa rece ser prática com u m , mesmo nas
d ioceses d o norte de Portugal .
Final mente, temos de considerar as pertu rbações causadas pelo registo d o s
e nj eitados n os l ivros d e baptismos das c i d a d e s e vilas q u e ti n h a m c a s a s d e
expostos e às quais concorriam as crianças abandonadas de o utras freguesias o u
concelhos, a u mentando, s e m qualquer com pensação n o s ó b itos, os ba ptismos,
determinando u m acréscimo de nata lidade loca l , que é, a final, aparente.
Pe rtu rbações tanto m a i s sensíveis q u a nto gra n d e pa rte d esta s c r i a n ç a s
baptizadas à s u a entrada na roda s e encontravam já registadas n a s freguesias
em que tinham sido encontradas.

b) Livros de casamentos - o recensea mento de 1 80 2 fornece, por freguesias e por


grupos de idades q u i nquenais, o número de casa mentos efectuados n esse a n o ,
assi m c o m o o número tota l de homens e mulheres casados.
Teorica mente, os livros de registo de casamentos são fidedignos, a pesar de
uma ou outra imprecisão, lacuna ou omissão que, necessariamente, contêm. Temos
d e ate n d er, p o r é m , à s formas d e casa me nto não regista d a s , à s " p ro m essas,
pa ctos e c o n v e n ções espo nsa l i ci a s " , que o ri g i n a v a m " m u itos e gra v i s s i m o s
a b usos", leva n d o à " c l a n d esti n i d a d e dos matri m o n ias", fre q u e ntes n a lgumas
regiões d o país, sobretudo, no sul, os quais, numerosas vezes, não mais e ra m
sacra lizados pela Igreja 49. Temos de atender, a i nda, a q u e estas fontes registam ,
a penas e num d a d o momento, um Ç!Cto, o casa mento, n ã o s e p reocu pando mais
com a vida d o casal , a não ser, em caso de viuvez seguida de segu ndas n ú pcias,
ou de morte e que, portanto, através de tais fontes, nunca se poderão surpreender
as a lterações surgidas na vida dos cônj uges.

c) Livros de óbitos - Estes l ivros leva nta m p ro b l e mas m u ito mais graves q u e os
livros de baptismos ou casamentos, pois o número de mortos aí registados e ra
" m u i i n ferior ao verdadeiro", por ser " p rática gera l m e nte segui d a não se fazer
assento dos menores de sete a n nos" que fa leciam a ntes de completa rem aquela
idade 50 , p rática essa que estava longe de ser exclusiva dos registos paroquiais
portugueses.
Nos finais do século XVIII, em França, os curas, sobretudo na França d o Meio-Dia,
negligenciam, volu ntá ria e sistematica mente, o registo das cria nças m ortas a ntes
da primeira comunhão, de ta l modo que Pie rre Goubert se i nterroga até q u e
ponto as d i ferenças de vitalidade entre a lgumas regiões da Fra n ça não trad uzem
senão d i ferenças na qualidade d os registos paroquiais, princi palmente nos l ivros
de óbitos 51.
Em I nglaterra , os registos paroquiais só se tornam dignos de confiança a pa rtir
de 1 8 20 5 2.

3<J
FERNANDO DE SOUSA

Em Espa n h a , ta l o m issão é, ta m b é m , ca ra cterística d o s l ivros de ó b itos.


Mauleón lsla constata p a ra Bilbau e à sem e l h a n ça d o q u e a contecia n outras
paróquias do norte de Espa nh a , que são ra ríssimos os assentos dos m e n o res,
pretexta ndo os curas das freguesias daquela cidade, nos i nícios d o séc. XIX, não
ser costu me o seu registo. Os grá ficos relativos a o s ó b itos d a q u e l a c i d a d e ,
adverte Mauléon lsla, dizem respeito, quase u n i camente, a o s fa lecidos c o m idade
superior aos 1 7 anos, pelo que, os óbitos não registados, a p roximar-se-iam dos
5 0% do tota l dos óbitos 53.
o Almanach para 1 7 8 8 , referind o-se a Lisboa , advertia que as "computações
dos nascime ntos e ba ptiza d os e ra m exactas, mas não os "fa l ecime ntos", pois,
m u itos m o rtos, " e s p e ci a l m ente os m e n o res", e ra m exp ostos à s p o rtas d o s
conventos ou igrejas d o s regu lares, o n d e s e n ã o fazia assento d o s sepulta d os.
Lamentável prática que, os pá rocos da capita l , nas tá buas da populaçã o de
1 80 1 , confi rmam.
o padre da freguesia da Aj uda adverte que, no número dos ó bitos, não entram
muitas cria nças mortas, expostas a fi m de se l hes dar sepultura , ignora ndo-se a
identidade desses menores e os nomes dos pais.
o padre de sa nta Mari n ha lem bra não haver assentos de óbitos até à idade
de 7 a n os, pois os m e n i nos eram sepu lta d os i n d evida mente, nas igrejas d o s
religiosos, a q u e m pagavam, acrescenta o pá roco de Nossa Senhora da Encarnação,
"contra todo o d i reito, e em prej u ízo notavel dos parochos".
Os fa m i l i a res das crianças que morri a m , "por h u m a buso tão i ncompatível
com a civil isação, como com a h u ma nidàde", depositava m os cadáveres daq uelas
"nos ad ros e no i nterior de todas as Igrejas, para serem enterra d os por ca ridade",
quer fossem "fi l hos reconhecidos, ou expostos", ou levava m-nos aos conventos,
onde os religiosos, por uma pequena qua ntia , q u a n d o não gratu ita mente, os
enterrava m, evitando, assi m, as despesas que as ceri mónias fú nebres, por pa rte
d os clérigos secula res, ocasionavam.
Despesas o b rigató rias, mesmo para os pobres, pelo q u e os cadáve res dos
indigentes, ainda que adultos, eram levados a alguma Misericórdia ou a ba ndonados
á porta de uma igreja, à mercê da discrição ou caridade eclesiásticas. o corpo aí
ficava , para espa nto e h o rro r dos estra ngei ros que viviam e m Lisboa, m u i tas
vezes, com uma bacia j u nto dele, para rece ber as esmolas q u e o padre consi­
derava necessá rias pa ra cobri r as despesas do ente rro 54.
o não registo sistemático dos menores de 7 a nos constitu ía p rática frequente
da mai oria das freguesias do Reino, nas primeiras décadas d o séc. XIX.
Na di ocese de Évora , o pároco da freguesia de s. Marcos da Abóbeda i n forma,
em 1 80 1 , q u e morrera m, a l é m das q u e regista , mais 9 crianças, ignora n d o se
mascu linas ou fe mininas.
Na diocese do Porto, a partir de 1 7 79, começara m a ser registados os ó bitos
dos menores, mas a penas espora d icamente, como se verifica , por exe mplo, nas
cidades de Penafiel e Porto.
Rebelo da costa , na descrição que faz da cidade do Porto, em 1 78 7 , declara
que, nos "catá logos pa roquia nos", não se exa ra "o numero dos meni nos e meni nas
que não chega m aos sete a n os de idade" 55 . As i rrisórias taxas de mortalidade
que esta cidade acusa nos fi ns do século XVI I I , princípios do século XIX, demons­
tra m um nítido sub-registo dos menores de 7 a n os. Bastava o não registo das
crianças expostas que morriam, anual mente, a ritmo i m p ressiona nte, no Porto,
como nos gra ndes centros urbanos, para os livros de ó bitos acusa rem , q u a nto
aos menores de comunhão/confissão, um número su bstancialmente i n ferior a o
número rea l de mortos.
António de Almeida, por 1 8 30, escreve que, em Penafiel, nos livros de ó bitos,
não se costu mavam lançar os termos de todos os menores fa lecidos 56.

40
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Mas os livros de ó bitos não a p resenta m , apenas, ta l lacuna, que é, poré m ,


qua ntitativa mente, a m a i s grava.
Ignora m , ta mbém, os rel igiosos e " pessoas a n n exas" - fa m i l i a res, d o n atos,
fâ m u los, criados, etc -, sepu ltados nos conventos, doentes que m o rr i a m n o s
hospita i s e misericórdias - a Misericórdia d o Porto, nos fi n a i s d e setecentos,
enterrava, todos os a nos, "pelo amor de Deus mais de quatrocentos pobres" 5 7 -,
pescadores que sucumbiam nos naufrágios, etc.
Os livros de óbitos desconhecem, fi nalmente, muitos daqueles q u e viviam à
ma rgem da sociedade ou da Igreja católica , os "vagos", mendigos, os " i rreligiosos"
ou " rebeldes" e os que professavam outra rel igião. E, se estes últimos não eram
n u m e rosos, o mesmo já não se podia d izer dos vaga b u n d o s e d os ateus ou
i n d iferentes à religião.
Neste secto r, vo lta novamente a destaca r-se a especificidade do Alentej o ,
o n d e a Iaicisação da morte é, n o s fi nais de Setecentos, prática corrente, não só
nos povoados do Baixo Alentej o - justificável pela ignorância dos camponeses e
pelo fraco enquadramento clerica l -, como em Beja, onde se verificam e nterra­
mentos sem cruz, pad res ou toque de sino, numa cidade episcopal q u e contava
a lgumas dezenas de padres. Esta indiferença pera nte a religião tem a sua o rige m ,
segu ndo o bispo de Beja, na miséria 5 8 .
Pa ra se perte ncer à comunidade católica, para se pa rticipar dos ritos e festas
re l igiosas, p a ra se c u m p ri re m os p receitos q u e as constituições d i ocesa n a s
esti pulam, enfi m , pa ra s e ter d i reito ao registo paroquial, é preciso pagar. E o s
" miseráveis", n ã o o podendo fazer, ma rgi nais perante a sociedade, depressa s e
a fasta m da Igreja.
congratu lámo-nos, pois, com o facto de os pá rocos, em 1 80 1 , terem a p resen­
tado o número de óbitos, não de acordo com os seus l ivros de registo pa roquial,
outross i m , te n d o em ate n ç ã o a s m o rtes efectiva m e nte ocorridas n a s suas
freguesias.

3.4. Aná l ise demográ fica da quali dade dos dados

Uma vez efectuada a crítica das fontes, entendemos que seria útil proceder a uma
a n á l ise dos dados, ainda que elementa r, numa pespectiva demográ fi ca.

3.4. 1 . Relação de mascu l ini dade dos nascimentos

Um dos índices frequentemente util izados para se verifica r a qualidade do esta d o


civi l é constituído p e l a relação de mascu l i nidade dos nascimentos, ou seja, p e l a relação
existente entre os nasci mentos masculi nos e os nasci mentos fem i n i nos. Essa relaçã o ,
que apresenta u m a grande esta b i l idade no tempo e no espaço, é de 1 .0 5 , isto é, para
1 0 0 na scime ntos fe m i n i nos temos 1 0 5 nascim entos mascu l i nos, o q u e n o s l eva a
c o n cl u i r q u e os n ú m e ros e ncontrados, sign i fi cativa me nte a fasta dos d estes va l o res
correntes, possa m ser i m putados a defeitos de registo dos nasci mentos.
Sabe-se que a re lação de mascu l i nidade dos nascimentos anda à volta d e 1 0 5 , de
tal modo que, em cada 1 ooo nascimentos temos, em princípio, 5 1 2 nascimentos masculinos
e 488 nasci mentos femini nos. Os l i mites do i nterva lo de confiança a 9 5 o/o são os que a
seguir se indicam:

0,5 1 2 ± 1 ,96 \j 0,5 1 2 X 0,488


n
em que n = nú mero de nascimentos.

41
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N ." 5 - RECENsEAMENTO DE 1 8 0 1

Relações d e mascu l i n i d a d e dos nascimentos e intervalos d e confiança a 9 5 %

R E LAÇÕES I NTERVALOS
C O M A R CAS
DE MASCU L I N I D A D E D E CONFIANÇA

ALCOBAÇA 1 1 5 .3 98.0/ 1 1 6.5


ALENQUER 1 2 0.7 9 3 . 8/ 1 1 7.4
ARGANIL 1 02.8 9 3 . 0/ 1 1 8. 3
AVIS 92.8 9 1 .6/ 1 20.3
BEJA 1 0 5.9 96.9/ 1 0 5 . 9
BRAGA 1 09.4 9 5 . 3/ 1 1 5 . 5
BRAGANÇA 1 0 7.4 9 6. 1 / 1 1 4.6
CASTELO - BRANCO 1 0 1 .4 96.9/ 1 1 3. 7
CHÃO DE COUCE 88.0 76.0/ 1 45 . 0
COIMBRA 1 06.5 9 9 . 2/ 1 1 1 .0
ELVAS 96.0 9 2 . 3/ 1 1 9.3
ÉVORA 1 00.0 9 5 . 7/ 1 1 5 .0
FARO 1 09.5 94.6/ 1 1 6.4
G UARDA 1 02.2 98.0/ 1 1 2 .3
G U IMARÃES 1 02.3 98.8/ 1 1 1 .4
LAGOS 89.7 9 3 . 8/ 1 1 7.4
LAMEGO 1 06.7 9 7.6/ 1 1 2.8
LEIRIA 1 1 0.3 9 5 . 7/ 1 1 5 .0
U N HARES 9 7.4 89.0/ 1 2 3 . 7
LISBOA 9 7.3 1 00.0/ 1 1 0. 1
'
MIRANDA 1 05 . 7 9 2 . 3/ 1 1 9. 3
MONCORVO 1 03.0 9 5 . 7/ 1 1 5 .0
OURÉM 1 1 0.0 90.5/ 1 2 1 . 7
OURIQUE 1 05 . 3 94.9/ 1 1 6.0
PINHEL 9 7.3 88.0/ 1 2 5 . 2
PORTALEGRE 1 00.9 9 3 . 4/ 1 1 7.9
RIBATEJO 1 0 1 .7 8 7. 3 / 1 26.2
SANTARÉM 1 03.5 96.9/ 1 1 3. 7
SETÚBAL 1 09.2 96.5/ 1 1 4. 1
TAVI RA 1 1 1 .2 94.6/ 1 1 6. 5
TOMAR 1 0 7.2 96.9/ 1 1 3 . 7
TORRES VEDRAS 1 1 3 .9 9 3 . 8/ 1 1 6.5
TRANCOSO 1 02.3 96.9/ 1 1 3. 7
VALENÇA 1 0 1 .0 9 1 .2/ 1 20.8
VIANA 1 08.0 9 8 . 2/ 1 1 1 . 7
VILA REAL 1 06.4 9 7.6/ 1 1 2.8
VILA VIÇOSA 1 09.0 93. 1 / 1 1 8.3
VISEU 1 0 1 .9 9 3 . 4/ 1 1 7.9

42
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Se a re l a çã o d e mascu l i n i d a d e o b s e rvada se situa no exte ri o r d o i n t e rva l o d e


confiança, podemos, e m princípio ... atri b u i r o d esvio à existência d u ma subdeclaração
o u dum registo i m p e rfe ito mais acentuado por u m sexo d o q u e por outro. Inversa­
me nte, se a re lação d e mascu l i nidade se situa no i nterior deste i nterva lo, podemos
concl u i r que os dados são d e confia nça.
Face a tudo isto, res o l v e m o s a p l i c a r este í n d ice a o recensea m e nto de 1 8 0 1 e
verificar até q u e ponto estava mos pera nte u m registo de nascimentos de q u a l i d a d e .
o q u a d ro nº s a p rese nta as relações de mascu linidade e os i nte rva los d e confi a n ça
ca l c u l a d o s por coma rcas. G l o b a l m e nte, podemos a fi rm a r q u e se constata u m a boa
qualidade dos dados. Flutuações a leatórias u m pouco acentuadas parecem dever-se
aos efectivos reduzidos d e a lgumas coma rcas. E só as comarcas d e Alenquer e Lisboa
a p resentam va lores que u ltra passa m , l igeira mente, os i nterva los de confiança : no caso
d e A l e n q u e r d ete cta -se um l i gei ro s u b - registo das m u l h e res; e q u a nto a L i s b o a
verifica mos um pequeno sub-registo ou subdeclaração das crianças d o sexo mascu l i n o ,
facto d e m o d o a lgum invu lgar, uma v e z que a mesma a n o m a l i a se detecta nos d a d o s
relativos à mesma região, e m p l e n o sécu lo XX.
A re lação global d e mascu l i n i dade dos nasci mentos observada é d e 1 04.4, o u sej a ,
pratica me nte igual a o v a l o r teórico e o i nterva lo d e confiança , d e 1 0 3.4/ 1 06.4, o q u e ,
segu n d o o m é t o d o u t i l i za d o , p a rece c o n fi r m a r u m a b o a q u a l i d a d e n o registo o u
declaração dos nasci mentos, - a n ã o ser que o fenómeno d e su b-ava liação fosse igu a l
para os dois sexos, o q u e não é n a d a provável.

3.4.2. Relações de mascu l inidade

uma maneira sim ples de a preciar a qualidade dos dados o btidos através dos recen­
seame ntos "consiste e m observa r o desvio e m relação a 1 oo da relação global d e mas­
culinidade. Com efeito, uma relação d e mascu linidade dos nasci mentos que se situe por
volta d o va l o r 1 os, combinada com uma relação d e mascu l i n i d a d e dos m o rtos, q u e
varia entre 1 o s e 1 2 5 , i m p lica a existência de uma relação global d e mascu l i n i da d e no
recensea mento sensivelmente igual a 1 oo desde q u e os movimentos m igratórios n ã o
sejam mu ito importantes" 59.
o quadro q u e se segue, apresenta as relações globais de mascu l i n i d a d e calculadas
por províncias.

RELAÇÕES G LOBAIS ( X 1 0 0 ) D E MASCULI N I D A D E - 1 8 0 1

PROVÍ NCIAS HOMENS MULHERES RM

MINHO 3 1 4 1 66 3 5 2 00 1 89,3

TRÁS - OS-MONTES 1 29 763 1 36 0 8 9 95,4

BEIRA 4 4 6 294 487 090 9 1 ,6

ESTREMADURA 335 5 3 4 336 646 99,6

ALENTEJO 1 3 7 035 1 33 739 1 02 , 5

ALGARVE 50 088 53 2 1 9 94, 1

PORTUGAL 1 4 1 2 880 1 498 784 94,3

43
FERNANDO DE SOUSA

Verificamos, assim, com excepção do Alentejo, que as relações globais de mascu l i ­


n i d a d e d a s províncias do R e i n o a p resentam va lores que se situam a baixo de 1 00.
S e estivesse m o s p e ra n te u m a p o p u l a çã o fe c h a d a e sem m i grações i n t e r n a s
sign i fi cativas, as osci l a ções o bserva das seri a m , a penas, e x p l i cáveis p e l a s a lte ra ções
existentes na qualidade das estatísticas dos nascimentos e ó bitos.
ora, no capítu lo anterior, acabamos de verificar que, segu ndo a metodologia utilizada,
a q u a l i d a d e dos registos dos nascime ntos pa rece ser b o a , p e l o m e n os , n o que diz
respeito ao equi líbrio entre os sexos. Assi m, uma vez que parecem não existi r gra ndes
problemas na qualidade dos dados d o movimento natural da popu lação é de ad mitir
q u e a variável mi cro-demográfica responsável pelas flutuações observadas não pode
deixar de ser outra senão os movi mentos migratórios.
Por outro lado, ta mbém se sabe que, de uma maneira gera l , nas migrações i nternas,
os sexos são relativa mente equilibrados, por oposição às emigrações externas em q u e
existe, sempre, uma grande preponderâ ncia d o sexo mascu lino, r]l e s m o nos casos em
que ocorre uma posterior reconstituição das famílias nos países de desti no da emigra ção.
N este contexto , é n o Minho q u e verifica mos as relações de mascu l i n i d a d e mais
a fastadas d o seu va l o r teórico, segu i n d o-se- l h e a Beira, o Alga rve e Trás-os-Montes,
s e q u ê n c i a q u e c o n c o rd a i n te i ra m e nte com a s i n fo rm a çõ e s q u e t e m o s s o b re a
i nte n s i d a d e da e m igra ç ã o p o r províncias: é na p ri m e i ra q u e a i nte n s i d a d e d e ste
fenómeno é maior e é na ú ltima que ele é menor. A Estremadura , ao a p resenta r uma
relação de mascu l i nidade pratica mente igual a 1 00.0, a ponta-nos para a existência de
uma emigração reduzida, o que pa rece confi rmar a q u i l o que sabemos sobre o desti n o
d o s fl u x o s m i gra t ó r i o s d esta proví n c i a , q u ase exc l u s i v a m e n te d i ri g i d o s a L i s b o a .
Final mente, o Alentejo, a ú n i ca província cuja relação de mascu l i n idade u ltra passa 1 00 ,
parece ignorar a emigração e, até, a atracção urbana da ca pital.
o facto deste va lor nos aparecer relativa mente elevado não significa a existência de
uma deterioração da qualidade dos dados nesta região, pois, o empola mento d o sexo
mascu l i n o q u e a l tera o e q u i l í b r i o da relação d e m a scu l i n i d a d e é p rovoca d o p e l a
existência da importa nte praça m i l ita r de Elvas. C o m efeito, nesta cidade, o censo d e
1 8 0 1 regista 7 6 1 4 homens para 5 2 5 8 mulheres, fazendo s u p ô r q u e os efectivos da
guarnição fora m i n corporados no tota l daqueles. o recensea me nto de 1 80 2 confirma
esta suposição, uma vez que nos dá u m n úmero proporcionado de homens e m u l h e res
casa dos, u m número de vi úvas tri plo dos viúvos mas, no que diz respeito à população
cel i batária, o número de soltei ros é superior ao número de solteiras em 2 240.
E, assi m, uma vez excl uída dos nossos cá lculos a coma rca de Elvas, a relação d e
mascu l i n i dade surge-nos igual ao s e u val or teórico ( 1 00. 1 ).
Em conclusão, pensamos que existe uma i n d iscutível liga çã o entre a relação global
de mascu l i nidade e a em igraçã o, embora não nos seja possível deduzir automatica­
mente q u e a emigração explique todas as osci lações observadas.

3 . 5 . Concl usão

Os a nos em que se efectivara m os recenseamentos são a nos de ca restia e de fom e ,


devid o a m a u s a n os agrícolas e à guerra c o m a Espanha, em 1 80 1 . Não s ã o , poré m , a n os
excepcionais, uma vez que, tanto nos fi nais de Setecentos 1 79 3 , 1 794, 1 796, 1 800 ,
- -

co mo nos inícios de Oitocentos 1 80 3 , 1 804, 1 806 , nos surge m anos q u e igua lam e ,
- -

p o r vezes, ultrapassa m as difíceis condições de vida que s e fizera m senti r em 1 80 1 - 1 802.


Assim, pensamos que os resu ltados o btidos através dos recensea mentos, expri m e m ,
sign ificativamente, o estado e movimento da população portuguesa de então.

44
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Os recenseamentos, de i n i ciativa do Estado, mas assegu rados pela Igreja - e, p o r


i s s o , fornecendo resu ltados mais fidedignos -, s ã o fruto de u m labor s é r i o , cuidado e,
sob o aspecto qual itativo - sobretudo o rece nseamento de 1 80 1 -, podem enfi l e i ra r a o
l a d o do recenseamento espanhol de 1 78 7 e d o s recensea mentos fra ncês e i nglês q u e
tivera m l uga r em 1 80 1 .
o rece nseamento i nglês d e 1 8 0 1 , d e todos o s censos d e fi n a i s d e Setecentos e
pri n cípios de Oitocentos, o mais rico em i n formações no que toca à populaçã o loca l ,
exige critica m i n u ciosa, s o b pena de reserva r ao i nvestigador, desagradáveis surpresas.
ora, o m e s m o se passa q u a nto aos rece nsea me ntos p o rtugueses, q u e exigiram o
conheci mento prévio e rigoroso do quadro a d m i nistrativo-eclesiástico a fi m de se deter­
m i n a r a i ntegri dade geográfi ca e demográfica dos mesmos e detecta rem as lacunas
existentes; o leva nta mento sistemático dos dados em bruto, das fichas o rigi nais, pa ra
c r i t i ca r m o s , severa m e n t e , t o d a s as p a rc e l a s e v e r i fi c a r m o s da s u a c re d i b i l i d a d e ,
comparando, sempre q u e possível , o s números oferecidos pelos recensea mentos com
os dados dos recenseamentos locais ou regionais de que d ispunha mos para a época
em q uestão.
Os p ro b l e mas suscita d o s pela efectivação d o s rece nseame ntos, d estitu í d o s de
qualquer objectivo de natu reza fisca l ou m i litar, os longos meses gastos na execução
dos mesmos e na recolha críti ca dos resu lta dos, o ca rá cter u n i forme das fichas q u e
serv i ra m de m o d e l o pa ra a concretização dos mesmos, a i n d i v i d u a l i d a d e d a s l i stas ,
a utentica d a s pelos párocos o u pelas a utoridades re l igiosas, as ras u ra s e o s e rros
a ritméticos que as l i stas exi be m , comprova n d o as d i fi cu l da d es e n contra d a s para o
exacto preench imento das mesmas, a i n existência ou extre ma raridade dos números
red o n d o s o u pa res q u e , q u a n d o frequ entes, d e n u n c i a m cá lculos o u esti mativas de
base, a referência dos censos a uma mesma data , confi rmam-nos, por o utro lado, q u e
estamos pera nte verdadeiros recenseamentos.
os n ú m eros que trad uzem os fogos, o volume da população e sua d i stri b u i çã o por
sexos, idades e estado civi l , em nosso pa recer, são correctos e constituem, pa ra já, os
ú n i cos e l e m e ntos n u m é ri cos vá l i d os de que dispomos pa ra to d o o Antigo Regi m e
portugês, a cobrir todo o território, reveland o-se, assi m, de excepcional importâ ncia.
Os números que d izem respeito aos nasci mentos e casa mentos revelam-se seguros.
Qua nto aos óbitos, sabemos que, tanto nas cidades como nos ca mpos, o sub-registo
d a s pessoas q u e m o r ri a m , p r i n c i p a l m e n te , d o s m e n o res de 7 a n os , i n c l u i n d o o s
expostos, é u ma consta nte.
Não somos partidários da estimativa fácil, mas em fu nção dos elementos reco l h idos
qua nto à morta l idade i n fa ntil e das percentagens encontradas qua nto à m o rta lidade
d a s p r i m e i ra s i d a d e s n a m o rta l i d a d e ge ra l (ver ca p ítu l o r e l a t i v o à m o rta l i d a d e) ,
pensamos q u e a m o rta l i da d e n ã o regista d a , e m relação a o s i n d ivíd u os ba ptiza d os ,
poderá osci lar, pa ra a época em estudo, entre os 2 5 e os 40%. P o r exem plo, no q u e d i z
respeito à freguesia de Rebordões, no nordeste trasmontano, região que acusa u m forte
enquadrame nto clerica l , a morta l i dade não registada, para o sécu lo XVI I I , relativa mente
aos ind ivíduos ba ptizados, seria de 40. 7%.
De q u a l q u e r m o d o , s e m p re q u e os va l o res regista d o s n a s fi c h a s de 1 8 0 1 se
reve l a r a m i m p rova v é i s ou a b s u rd o s , n ã o tivemos q u a l q u e r d ú v i d a em corrigi - l o s ,
servindo-nos d o s numerame ntos provi nciais efectuados em fi nais d o século XVII I , d o s
recenseamentos de 1 80 2 e 1 8 20 e de outras fontes existentes para a época.
Apesar de tudo e mesmo no que concerne aos óbitos, as i n fo rmações colh i das nos
recenseamentos qua nto ao movimento natural da popu lação, são, parece-me, de uma
qualidade superior aos registos pa roquiais, na medida em que o pároco, a o fornecer ta is
i n formações, de modo d i recto e imed iato, entraria em l i nha de conta com a conteci­
mentos que não se encontrava m la nçados nos livros de registos, incluindo os menores

45
FERNANDO DE SOUSA

de 7 a n os; e são de um va lor i nesti mável, pela vastidão de i n formações, i m p resci ndíveis,
em mu itos casos, devido à inexistência de livros de registo paroq uial, em 1 80 1 - 1 8 0 2 ,
n a l g u m a s fregu esias e à d estru ição o u d e sa p a reci m e nto s u b s e q u e nte dos registos
paroq uiais de mu itas outras.
A aná lise demográfica da qualidade dos dados, quer para os nasci mentos, quer para
a popu lação, confi rma, de modo sobrema neira satisfatório, tudo o que acabou de se
afi rmar.
S u b l i n he-se, fi n a l m e nte, a modernidade das fi chas utilizadas nos d o i s rece nsea­
mentos, ao pretenderem apura r o número d e homens e d e m ulheres e não d e a l mas
como e ra , então, ainda, prática corrente em Portuga l , e ao d istri b u í re m a população por
gru pos de idades, com o objectivo claro de se recensear a popu lação menor, a população
nas pri m e i ras idades, a qual esca pava, quase sempre, à contage m das almas.
Assim, não podemos, de modo algum, corroborar o cepticismo de alguns historiadores,
- Pie rre Cha u n u , Albert Silbert, Jacques Marcadé, etc. -, os quais, baseados, fu ndamen­
ta l m e nte, e m B a l b i , q u e consi d e rava as l i stas da população portuguesa d e fi n a i s d o
sécu lo XVI I I e primeiras décadas do sécu l o X I X " m u ito i nexactas" e n ã o oferecen d o mais
q u e resu ltados " m u ito i ncertos" 60 , cepticismo só equiva lente ao desconhecimento e m
q u e até agora se t e m mantido a rea lidade demográfica do Portuga l d e fi ns d o Antigo
Regime.
o atraso d e Portuga l "em matéria de estatísticas demográ ficas", como nós sa b e m os,
e já referido por Cha u n u , acentua-se, sobretu do, a pa rti r do segu ndo quartel do séc. XIX.
É bem menos evidente na viragem d o século XVII I para o sécu l o XIX, u m a vez q u e as
imperfeições, as lacunas, os erros que se d etecta m nos censos nacionais ou regionais
d e então, são extensivos, d e u m modo gera l , a mu itos dos países da Europa Ocidenta l ,
c o m o a Espa nha, Itália, França e Inglaterra 6 1 .
No ca mpo da estatística, como em mu itos outros, a evolução histórica não foi linear 62 .

4. A Popu lação Portuguesa e m 180 1-180 2. Efectivos e d i stri b u i çã o


p o r sexos, grupos d e i d a d es e esta d o civi l .

''La conna issa nce d u chiffre de population tota le est d 'une i m porta nce
u n i q u e en d é m o g ra p h i e . De la c o n n a i s s a n c e de c e t t e d o n n é e
fo n d a m enta l e d é p e n d , pour une b o n n e pa rt, l 'uti l i té des i n v estigations
d é m ogra p h iques ulté rieurs".

(Roge r Mo ls, lntroduction a la Démographie Historique des Vi lles d 'Europe


du XIV au XVIII Siéc/e, 1 1 , Louvai na 1955 , p. 500).

Uma vez efectuada a análise crítica dos recensea mentos de 1 80 1 - 1 80 2 , va mos agora
a p resentar o estado da população portuguesa em inícios do sécu lo XIX, isto é, os seus
efectivos e a sua estrutura , tendo e m atenção o sexo, idade e esta d o civil.
Pa ra ta l , servi mo-nos, fu nda mentalmente, do censo de 1 80 1 , por ser o ú n i co d e que
dispomos d e i n formação a cobri r todo o País e por se revelar d e superior qualidade.
I n d e p e n d e nte m e n te d e a p resentarmos a p o p u lação p o rtuguesa, agru p a d a por
coma rcas, as circunscrições a d m i n istrativas básicas d o nosso te rritório, o nosso quadro
d e referê n c i a , p o r razões d e natu reza geográ fi ca , h i st ó r i ca e d e m ográfica s e rá a
província, o q u e nos permitirá, em vários casos, util iza r outros censos efectuados e m
fi nais d e Setecentos, e a pa rti r deles, proceder a úteis a n á l ises comparativas.

46
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

4. 1 . M inho

o Minho, entre o Atlâ ntico, a Galiza e o Douro, estava l i m itado, a este, pelas serras
d o Gerez-Marão e rio Tâmega , que o separavam de Trás-os-Montes.
A fronte i ra com a Espa nha enco ntrava-se i n d efi n i d a na regiã o do L i n d oso o n d e ,
d e s d e s é c u l o s , os l i m ites fro nte i ri ços - terras e m q u estã o , paga n d o os d ízi m os a o
a rce b i s p a d o d e B raga , mas i n tegra d a s n o territó rio d o p a í s vizi n h o -, fo rnecera m
contínuas q uerelas entre portugueses e ga legos.
A província, em 1 80 1 , era constituída por 1 1 8 8 freguesias, i ntegradas em 1 49 conce­
lhos distri buidos por 7 coma rcas.

C O M A R CAS FREGUESIAS CONCELHOS

VALENÇA 49 4

VIANA 274 31

BARCELOS • 265 17

B RAGA •• 73 16

G U IMARÃES 244 27

PENAFIEL 99 16

PORTO 1 84 38

TOTAL 1 1 88 1 49

• sem 8 concelhos pertencentes à Beira .


• • s e m Dornelas e Ervededo pertencentes a Trás-os· Montes.

S o b o a s p e cto e c l es i á s t i c o , o s e u territó r i o e ra a b ra n g i d o p o r d u a s d i o ce se s e
4 isentos.

DIOCESES E ISENTOS FREGUESIAS

BRAGA 949

PORTO 229

ISENTOS 10

TOTAL 1 1 88

Nos fi nais de Setecentos, o Minho constitu ia a região mais povoada do Reino. Nos
vales, viajava-se sempre entre gente. As habitações suced iam-se. As a ldeias e luga res
eram tantos, que parecia haver " h u ma povoação conti nuada".
Em 1 7 9 4 , segu n d o o rece n s e a m e nto d e V i l a s - B o a s , o M i n h o c o n tava 6 3 6 55 7
habitantes, dos quais, 294 7 7 5 homens e 3 4 1 7 8 2 mulheres (quadro n2 6).
o recensea mento de 1 80 1 somou 666 1 6 7 pessoas, com 3 1 4 1 66 homens e 3 5 2 00 1
mulheres (quadro nº 7).
se o rigor dos dois censos fosse o mesmo, a província teria aumentado a sua população,
nos últimos sete anos do século XVI II, em 3 0 6 1 9 almas, à média anual de 4 3 74 pessoas.

47
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N -"6 - POPULAÇÃO DO M I N H O 1 7 9 4 - 1 7 9 5

( n ú m e ros absolutos e %)

C O M A R CAS FREG. FOGOS HAB. A!F HOMENS M U LHERES

VALENÇA 49 7 549 28 449 3.8 13 099 1 5 350


4.4 4.5 2.1 2.4
VIANA 276 32 1 44 1 23 797 3.9 5 7 225 66 5 7 2
1 8. 7 1 9.4 9.0 1 0. 5

BARCELOS 262 28 5 1 8 1 04 3 5 6 3,7 48 758 35 598


1 6.6 1 6.4 7.7 8.7

BRAGA 73 1 2 088 46 8 1 0 _3.9 22 1 5 1 2 4 659


7.1 7.4 3.5 3.9

GUIMARÃES 245 32 788 1 2 5 523 3.8 5 7 603 67 920


1 9. 1 1 9. 7 9.0 1 0.6

PENAFIEL 1 00 1 4 797 54 1 2 3 3.7 25 032 29 09 1


8.6 1 8.5 3.9 4.6

PORTO 1 82 43 74 1 1 5 3 499 3.5 70 907 82 592


25.5 24. 1 1 1.1 1 3 .0

TOTAL 1 1 82 1 7 1 625 636 5 5 7 3.7 294 7 7 5 3 4 1 782


1 00.0 1 00.0 46.3 53.7

NOTA - Quadro constituído e rectificado (encontra ram-se ligeiros erros na soma d a s parcelas) a partir da versão
final do censo do Minho (datado erradamente de 1 800, nalgumas cópias da carta geográfica do Minho, de Vilas-Boas,
elaborados nos inícios do século XIX), a ú nica que corresponde ao cadastro da província, por freguesias.

QUADRO N.07 - POPU LAÇÃO D O M I N H O 1 8 0 1

( n ú m e ros a b s o l u tos e %)

C O M A R CAS FREG. FOGOS HAB. A/F H O MENS M U LHERES

VALENÇA 49 7 806 28 350 3.6 12 96 1 1 5 389


4.5 4.3 2.0 2.3

VIANA 2 74 32 055 1 24 446 3.9 57 933 66 5 1 3


1 8. 7 1 8.7 8.7 1 0.0

BARCELOS 265 2 7 828 1 1 1 516 4.0 51 985 59 531


1 6.2 1 6. 7 7.8 8.9

BRAGA 73 1 1 506 47 3 2 1 4.1 2 2 846 24 475


6.7 7. 1 3.4 3.7

GUIMARÃES 244 34 0 1 6 1 29 592 3.8 60 5 8 7 6 9 005


1 9.8 1 9.4 9.1 1 0.4

PENAFIEL 99 14 872 55 631 3.7 26 1 8 7 29 444


8.6 1 8.4 3.9 4.4

PORTO 1 84 43 923 1 69 3 1 1 3.9 81 667 8 7 644


25.5 25.4 1 2.3 1 3. 1

TOTAL 1 1 88 1 72 006 666 1 6 7 3.9 3 1 4 1 66 352 001


1 00.0 1 00.0 47.2 52.8

48
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

E a sua taxa de crescimento anual médio seria de 0, 7o/o, valor l igei ramente i nferior
a o regista d o para Trás-os-Montes, n o mesmo perío d o , com taxas m í n i mas p a ra a s
coma rcas de Viana - O, 1 4o/o -, Va lença e Braga O , 1 6o/o -, taxas l igei ramente i n feriores á
-

média pa ra Penafiel - 0,4o/o - e Guimarães - 0,46o/o -, e taxas de cresci mento bastante


elevadas para as coma rcas de Barcelos O, 9 5 o/o - e d o Porto - 1 ,4o/o -.
-

Apesar de o censo de 1 794 acusar u m certo sub-registo de habitantes, a população


m i n h ota , nos últimos anos de setecentos, pa rece revelar u m ligeiro cresci mento demo­
gráfi co, i nsignifica nte para o Alto Minho, considerável em re lação à zona d o centro,
importante em relação à região sul, principa l mente, para o Porto e seu termo.
População em que o n ú mero de homens é m uito i n ferior ao n ú mero de m u l heres,
com a relação global de mascu l i nidade mais baixa do Rei no - 86,2 em 1 794, 8 9 , 3 em
1 80 1 -, a a pontar para a existência de uma emigração que a fectava toda a província, de
u m modo mais agudo, as coma rcas de Va lença, Viana e Penafiel.
A distri bu ição da população por dois grandes grupos de idades, menos de 14 anos e
mais de 1 4 a nos, através do censo de 1 794, demonstra u ma sign ificativa importâ ncia d o
gru po dos j ovens, 2 5 ,8o/o, no tota l da populaçã o m i n hota, ati ngi n d o u m m á x i m o d e
2 8 , 9o/o, na coma rca de Barcelos e um valor mínimo, 20,8o/o, na comarca d o Porto.
A repa rti ção da população por 5 gru pos de idades, através d o recensea mento de
1 80 1 , a p rese nta , pa ra o grupo 0-6 anos, u m va lor de 1 6,8o/o, igual ao encontrado a nível
global nacional; a proporção mais baixa do Reino no grupo etá rio de 2 5- 3 9 a nos, que é
de 20, 8o/o e o peso relativo mais elevado do país, de 9,5o/o, no grupo das pessoas idosas,
va lores estes que nos parecem típicos de uma população a fecta da consideravelmente
pela emigração, a qual, normal mente, provoca u m " rej uvenesci mento na base" e u m
"envel hecimento no topo" 63 .
A anál ise por coma rcas não revela i rregu laridades dignas de monta . No gru po etá rio
de 0-6 a nos constata-se uma maior i m portância relativa da coma rca de B raga , com
1 7,8o/o, logo segu ida das coma rcas de Va lença e Via na, respectiva mente, com 1 7, 1 o/o e
1 7 ,0o/o e uma menor porporção na coma rca do Porto, com 1 6 ,4o/o, a confi rm a r, n este
último caso, os va lores fornecidos pelo recensea mento de 1 794.
o gru po das pessoas idosas tem os va lores mais elevados nas coma rcas d e Val e n ça ,
Viana e Penafiel (va lores iguais ou superiores a 1 O,Oo/o), coma rcas essas que s ã o as mais
pobres e as menos densamente povoadas da província,e o va lor mais baixo, 7,9o/o na
coma rca do Porto. Ta is n ú meros são confirmados pelo recensea mento de 1 80 2 , uma
vez q u e , neste, os va l o res perce ntuais, por comarcas, osci l a m e n tre 7 , 9 o/o e 1 1 ,3o/o
(quadro nº 2 0).
A repa rtição da popu lação por sexos e grupos de idades confi rma, ta nto pa ra homens
como para mulheres, tudo o que já foi d ito: primazia das coma rcas d e B raga , Va lença e
V i a n a na p r o p o rç ã o d a s c ri a n ça s ; i n d i v i d u a l i d a d e da c o m a rca d o P o rt o , c o m a s
porporções m a i s baixas da província, n o s grupos de idades 0-6 a n o s e m a i s de 6 0 a n os.
Em todas as coma rcas, no gru po 0-6 a nos, o número de homens é su perior ao
número de mulheres, enqua nto que, nos resta ntes gru pos etá rios, com excepção de
B raga , no gru po das pessoas com mais de 6 0 a nos, o número de homens é i n ferior a o
número de mulheres (quadros 1 8 e 2 1 ).
A d i stri b u i çã o da p o p u l a çã o p o r esta d o civi l a p resenta a l tas p e rcentagens d e
população solteira, osci lando, p o r comarcas entre 59,8o/o � 6 9 , 3 o/o , sendo o n ú mero de
m u l h e res solte i ras u m pouco superior a o dos h o m e ns. o n ú mero de h o m e n s e d e
m ulheres casadas é sensivelmente igual, o mesmo n ã o a contecendo entre os vi úvos,
em que o elemento feminino se revela superior ao elemento masculino, principalmente,
nas coma rcas do Alto Minho e Ba rcelos (q uadro nº 2 1 ).

49
FERNANDO DE SOUSA

MINHO - 1 7 9 4

População e m n ú m e ros absolutos e e m percentagem

HOMENS MULHERES
C O M A R CAS ALMAS
- de 14 anos + de 14 anos - de 14 anos + de 14 anos

VALENÇA 3 496 9 603 3 372 1 1 978 2 8 449


1 2 ,3 33,8 1 1 ,8 42,1 1 00,0

VIANA 1 7 46 1 39 764 1 7 523 49 049 1 23 797


1 4, 1 32,1 1 4,2 39,6 1 00,0

BARCELOS 1 5 1 84 33 574 14 962 40 6 3 6 1 04 3 5 6


1 4,6 32,2 1 4,3 38,9 1 00,0

BRAGA 6 571 1 5 580 6 511 1 8 1 48 46 8 1 0


1 4,0 33,3 1 3 ,9 38,8 1 00,0

G U IMARÃES 1 6 544 41 059 16 4 3 8 51 482 1 25 523


1 3,2 32,7 1 3, 1 4 1 ,0 1 00,0

PENAFIEL 7 038 1 7 994 7 1 85 2 1 906 54 1 2 3


1 3 ,0 33,2 1 3 ,3 40,5 1 00,0

PORTO 1 5 953 54 954 16 040 66 5 5 2 1 53 499


1 0,4 35,8 1 0,4 43,4 1 00,0

TOTAL 82 2 4 7 2 1 2 528 8 2 03 1 259 751 636 557


1 2,9 3 3 ,4 1 2 ,9 40,8 1 00,0

4.2. Trás-os-Montes

Província i nterior, Trás-os-Montes era l i m itada a sul pelo rio Douro, confi nava a este
com Castela, a norte com a Galiza e, a ocidente, o ri o Tâ mega e as serras do Alvã o ,
Marão e Gerez, separavam-na d o Minho.
A fronte i ra com a Galiza encontrava-se ainda mal definida n o Ba rroso, onde o couto
" m í stico", constitu ído pelas povoações de Santiago, Meãos e Rubiães. e ra h a b i ta d o
i n d iscri m i nada mente p o r ga legos e portugueses.
A província, em 1 80 1 - 1 80 2 , contava 705 freguesias que i ntegrava m 82 conce l h os . .
d istri buídos por 6 coma rcas.

COMARCAS FREG UESIAS CONCELHOS

MIRANDA 1 29 14

MONCORVO 1 64 20

BRA GANÇA 264 19

VILA REAL 1 38 24

BRAGA * 3 2

LAMEGO * * 7 3

TOTAL 705 82

• concelhos de Dornelas e Ervededo.


• • conce l hos de Mesão Frio, Barqueiros e Teixeira.

50
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Eclesiastica mente, Trás-os-Montes e ra a bra ngido por 3 d i oceses e 3 isentos, sem


conta r com a d iocese d e orense, à qual pertencia a freguesia d e Tourém.
A população trasmontana, segundo o censo de Columbano Pinto Ribeiro de Castro, em
1 794, totalizava 2 5 1 5 2 1 a l mas, sendo 1 2 2 966 homens e 1 2 8 555 m u l heres (quadro nº 8).
o recenseamento d e 1 8 0 1 ass i n a l o u - l h e 2 6 5 852 h a bitantes, dos q u a i s , 1 2 9 763
homens e 1 3 6 089 m u l heres (quadro nº 9).

D IOCESES E ISENTOS FREGUESIAS

BRAGANÇA 332

BRAGA 341

PORTO 18

ORENSE 1

ISENTOS 13

TOTAL 705

A província, a fazer fé nos resultados d e 1 794, teria a u mentado a sua população,


d u ra n te 7 a n os , e m 1 4 3 3 1 a l m a s , à m é d i a a n u a l de 2 0 4 7 p e s s o a s . A t a x a d e
cresci m e nto a n u a l m é d i o fo i d e 0 , 8 %, com v a l o res m í n i m os p a ra a s c o m a rcas d e
Moncorvo e M i randa - respectiva mente, O, 1 3% e O, 1 4% - . 0 , 5 % para a coma rca d e
Braga n ça e uma alta taxa. 1 ,8o/o, para a rica coma rca d e Vila Real 64 .
A popu lação da província, à excepção da região do Douro, regista , assi m, em fi nais
do século XVI I I , u m l igei ro cresci me nto demográ fico. Populaçã o em q u e o n ú mero d e
h o m e n s é p o u c o i n fe r i o r a o n ú m e ro d e m u l h e re s , fa cto v e r i fi ca d o p a ra t o d a s a s
coma rcas, com u m a relação d e mascu l i nidade de 9 5 , 7 , em 1 9 74 e d e 9 5 ,4 e m 1 80 1 , a
teste m u n h a r u m a p e q u e n a e m igração mascu l i na q u e se fazia s e n t i r na p roví n c i a ,
sobretudo, n a s coma rcas de Braga n ça e V i l a Rea l . A repa rtição da população por gru pos
d e i d a d es, d e u m modo ge ra l , a p roxi ma-se dos va l o res percentuais nacionais e dos
va lores enco ntrados para o Minho, exceptuando o gru po 25 - 3 9 a n os, mais e q u i l i b ra d o
quando comparado c o m a província do l itora l norte.
A a n á l i se regi o n a l , p o r coma rca s , mostra - n os q u e V i l a R e a l é a c o m a rca m a i s
afectada p e l a emigra ção e que, ta nto no grupo etá rio 0-6 a nos, 1 7, 7% c o m o no gru po
das pessoas com mais d e 60 a n os, a cusa os valores percentuais m a i s e l evados d a
província, em contraste c o m Miranda que, n o s mesmos gru pos etá rios. a p resenta o s
níveis percentuais m a i s baixos - respectiva mente, 1 6,0% e 8 ,4%.
A distri buiçã o por sexos e grupos d e idades confirma, pra os gru pos d e idades já
referidos, a primazia da coma rca d e Vila Rea l , ta nto nos homens como nas m u l h e res.
Em todas as comarcas. no primeiro gru po d e idade, o n ú me ro d e homens é superi o r
a o número de mulheres. No grupo etá rio d o s 7 - 2 4 anos constata-se u m igual n ú mero d e
h o m e n s e mulheres, equilíbrio q u e logo se rompe nos gru pos d e i d a d e s 2 5-39 e 40- 5 9 ,
a favor das mulheres que, em todas as coma rcas, se encontra m em maior n ú mero. N o
gru po d e idades das pessoas c o m m a i s d e 60 anos, o número d e h o m e n s é su perior a o
n ú mero d e m u l heres n a s coma rcas d e M i randa e Moncorvo.
A re partiçã o da populaçã o por estad o civil dá-nos, q u e r para homens, q u e r para
m u l h e res, uma percentagem de populaçã o solteira su perior a 60, 5%, uma percentage m
d e p o p u l a çã o casada com pree n d i d a e ntre os 2 6 , 1 % e os 2 9 , 3% e, fi n a l m e nte, u m
estrato d e populaçã o viúva e m q u e o elemento feminino sobreleva, consid e ravel mente,
o elemento mascu l i n o (qua d ros 1 8 e 2 1 ).

51
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N." 8 - POPU LAÇÃO DE TRÁS-OS-MONTES - 1 7 9 4 - 1 7 9 5

( n ú m e ros a bsolutos e %)

C O M A R CAS FREG. FOGOS HAB. A/F HOMENS M U LHERES

MIRANDA 1 29 8 388 31 364 3.7 15 379 1 5 985


1 2.3 1 2. 5 49.0 5 1 .0
MONCORVO 1 64 1 4 446 51 6 1 1 3.6 2 5 684 25 9 2 7
2 1 .2 20.5 49.8 50.2
BRAGANÇA 264 21 4 7 8 8 2 686 3.8 40 430 42 256
3 1 .6 32.9 48.9 51.1
VILA REAL 1 38 2 1 976 79 6 7 3 3.6 3 8 466 4 1 207
32.3 3 1 .7 48.3 5 1 .7
BRAGA 3 359 1 323 3.7 675 652
0.5 0.5 50.7 49.3
LAMEGO 7 1 470 4 864 3.5 2 336 2 528
2.1 1 .9 48.0 52.0
TOTAL 705 68 054 251 5 2 1 3. 7 1 22 966 1 28 5 5 5
1 00.0 1 00.0 48.9 51.1

QUADRO N." 9 - POPU LAÇÃO D E TRÁS-OS-MONTES - 1 8 O 1

( n ú m e ros a b s o l u tos e %)

C O M A R C AS FREG. FOGOS HAB. AIF HOMENS M U LHERES

MIRANDA 1 29 8 312 3 1 682 3.8 1 5 664 16 0 1 8


1 2. 1 1 1 .9 5.9 6.0
MONCORVO 1 64 1 4 448 5 2 065 3.6 25 3 1 7 2 6 748
2 1 .0 1 9.6 9.5 1 0. 1
BRAGANÇA 264 22 0 1 7 85 596 3.9 41 694 4 2 3 902
32.0 32.2 1 5. 7 1 6. 5
VILA REAL 1 38 22 2 1 8 9 0 1 26 4.0 44 0 1 9 46 1 07
32.3 33.9 1 6. 5 1 7. 3
BRAGA 3 377 1 519 4.0 733 786
0.6 0.6 0.3 0.3
LAM EGO 7 1 407 4 864 3.5 2 336 2 528
2.0 1 .8 0.9 1 .0
TOTAL 705 68 779 265 8 5 2 3.9 1 29 763 1 36 089
1 00.0 1 00.0 48.8 5 1 .2

4.3. Bei ra

A Beira, a p rovíncia mais extensa do Reino, entre os rios Dou"ro e Tej o , a Espa nha e o
Atlâ ntico, constituía , como a Estremadura , uma zona de tra nsição entre o Norte e o Sul,
nela se distinguindo três regiões disti ntas, a Beira Alta i nterior, a Beira Baixa e a Beira Ma r.
A frontei ra com Leão e a Estremadura espa n hola era a a ctua l , embora , a vila d e
Bouça, no rei no de Leã o, ju nto da raia, pertencesse a o convento de Nossa senhora de

52
A POPULAÇÃO PORTUG UESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Agu i a r , s e n d o p o rtugueses os s e u s h a b itantes; e no termo de caste l o B r a n c o , o s


moradores da freguesia de Malpica lavrassem as terras da v i l a espa nhola d e Ferre i ri m ,
aí moendo o s e u p ã o , no estio.
A Beira , em 1 80 1 , contava 1 284 freguesias, q u e i ntegravam 3 64 concelhos, d istri­
buídos por 1 4 coma rcas.
Da comarca de Barcelos, pertenciam a esta província os concelhos de castelo de Paiva,
Ferre i ros dos Tendais. Eixo, óis da Ri beira, Pa ús, Sobra d o , Tendais e Vi l a ri n h o d o Bai rro.
Sob o as pecto eclesiástico, o seu territó rio repa rtia-se por 8 d i oceses e 8 isentos.
o recenseamento de 1 80 1 a p u rou, para a Beira , 933 384 h a bitantes. dos quais, 446
2 9 4 homens e 487 090 m u lheres (quadro nº 1 0).
E m todas as coma rcas , o n ú m e ro d e h o m e n s rev e l a -se i n fe r i o r a o n ú m ero d e
m u l heres, regista n do-se, para a província, u m a baixa relação de masculinidade, 9 1 ,6%, a
comprova r u ma importa nte em igra ção.
A d i stri b u i çã o da p o p u lação p o r gru pos etários reve l a , nos gru p o s 0-6 e 7 - 2 4 ,
va l o res percentuais superiores aos enco ntrados para o p a í s e, nos resta ntes gru pos,
va lores i n feriores aos registados a nível nacional. Com excepção d o Alga rve, a i mpor­
tâ ncia relativa dos dois primeiros grupos de idades é, até, a mais elevada do Reino.

COMARCAS FREGUESIAS CONCELHOS

LAMEGO 1 46 61

AVEIRO 68 38

VISEU 1 85 57

PINHEL 40 4

G UARDA 1 98 32

FEIRA 72 10

UNHARES 40 7

ARGANIL 47 21

COIMBRA 1 43 50

TRANCOSO 1 95 47

CASTELO BRANCO 99 25

TOMAR * 5 1

PORTO * * 21 3

BARCELOS 25 8

TOTAL 1 284 364

* Rabaça l .
• • Grijó, Avintes e v. N. de Gaia

53
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO NY 1 O - POPU LAÇÃO DA B E I R A - 1 8 0 1

( n ú m eros a bsolutos e %)

C O M A RCAS FREG. FOGOS HAB. A/F HOMENS M U LHERES

LAMEGO 1 46 24 306 94 6 5 4 3.9 46 1 6 1 4 8 493


1 0.2 1 0. 1 4.9 5.2

AVEIRO 68 23 6 6 6 91 559 3.9 4 2 872 48 687


9.9 9.8 4.6 5.2

VISEU 1 83 36 609 1 52 861 4.2 72 999 79 8 6 2


·1 5.3 1 6.4 7.8 8.6

PINHEL 40 4 266 15 043 3.5 7 1 04 7 939


1 .8 1 .6 0.8 0.9

G UARDA 1 98 26 5 3 5 1 04 0 3 9 3.9 49 5 1 0 5 4 529


1 1.1 1 1.1 5.3 5.8

FEIRA 72 1 7 590 71 1 1 4 4.0 33 947 37 1 67


7.4 7.6 3.6 4.0

U N HARES 40 4 825 18 5 1 4 3.8 8 767 9 747


2.0 2.0 0.9 1 .0

ARGANIL 47 8 44 1 34 8 9 7 4. 1 16 510 1 8 387


3.6 3,7 1 .8 2.0

COIMBRA 1 43 43 098 1 6 1 891 3.7 76 940 84 9 5 1


1 8.0 1 7.3 8.2 9. 1

TRANCOSO 1 95 1 9 959 73 488 3.7 3 5 236 38 252


8.3 7.9 3.8 4.1

CASTELO BRANCO 99 1 5 79 1 59 6 9 7 3.8 28 822 30 875


6.6 6.5 3.1 3.3

TOMAR 5 965 3 748 3.9 1 81 1 1 937


0.4 0.4 0.2 0.2

PORTO 21 7 503 29 201 3.9 14 804 14 3 9 7


3. 1 3.1 1 .6 1 .5

BARCELOS 25 5 69 1 22 6 7 8 4.0 10 8 1 1 1 1 867


2.4 2.5 1 .2 1 .3

TOTAL 1 284 239 245 933 384 3.9 446 294 4 8 7 090
1 00.0 1 00.0 4 7.8 52.2

A a n á l ise regional, por coma rcas, i n dica, no gru po etá rio d e 0-6 anos, a proporção
mais a lta para a Feira , 2 0,0% e a proporção mais baixa pa ra as coma rcas d e Pinhel e
Avei ro , respectiva mente, 1 5 ,6% e 1 5 ,8%. os va l o res pe rcentuais m a i s eleva d os, nos
grupos d e idades 7-24 e 2 5-39 a nos, encontra m-se nas comarcas d o i nterior - G ua rd a ,
U n h a res, castelo-Bra nco, Tra ncoso e Pi nhel -, ao passo q u e as coma rcas d e Lamego,
para os 7-24 a nos, e da Fei ra , para os 2 5-3 9 a nos, têm os valores percentuais mais
baixos da província.

54
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

DIOCESES E ISENTOS FREGUESIAS

AVEIRO 70

CASTELO BRANCO 54

COIMBRA 249

G UARDA 202

LAMEGO 241

PINHEL 1 49

PORTO 83

VISEU 200

ISENTOS 36

TOTAL 1 284

No grupo das pessoas com mais de 60 anos, as proporções mais elevadas loca l iza m ­
se n a B e i ra M a r - c o m a rcas d a Fe i ra , A rga n i l . C o i m b ra e Ave i ro - . c o m va l o re s
percentuais que andam à volta dos 9,0%, enquanto que as proporções m e n o s elevadas
d izem respeito às coma rcas d o i nterior - Pinhel, Guarda, Tra n coso -. rondando os 6 , 5 %
e atingi ndo até 5 ,9% na coma rca de castelo-Branco, proporção esta que se situa a nível
das e n co ntradas para as coma rcas d o Alentej o . Os va l o res percentuais encontra d o s
através d os resultados parcia is do recenseamento de 1 80 2 , parecem confirmar, de u m
modo gera l , pa ra o grupo das pessoas idosas, o quadro regional definido.
A distribuiçã o da população por sexos e grupos' de idades comprova a primazia da
coma rca da Feira no p rimeiro gru po etá rio, e a posição especial da coma rca de castelo­
B ra n co no grupo das pessoas com mais de 6 0 anos.
Em todas as coma rcas, n o gru po 0-6 anos, o n ú m e ro d e homens é superior ao
n úmero de mulheres - à excepção de Pinhel e Guarda, em que as m u l heres estão e m
n ú m e ro l i ge i ra m e nte s u p e r i o r a o s h o m e n s -. a o passo q u e , n o s resta ntes grupos
etá ri o s , à s e m e l h a n ça d o M i n h o , o n ú m e ro d e h o m e n s é i n fe r i o r a o n ú m e ro de
mulheres.
A repartição da população por estado civil indica, pa ra as coma rcas de que dispomos
de dados, percentagens de popu lação solte i ra compreendidas e ntre 5 2 ,6% e 6 1 ,8%,
valores ligeiramente i n feriores aos encontrados para o M i n h o e Trás-os-Montes, sendo,
p r o p o rci o n a l m e nte, o n ú m e ro d e m u l h e res s o l te i ra s igu a l a o n ú m ero d e h o m e n s
soltei ros. Encontra-se a i nda u m a proporção idêntica de homens e m u l heres casados; e ,
fi nalmente. u m número de viúvos muito inferior ao número de viúvas (quadros 1 8 a 2 1 ).

4.4. Estremadura

A Estremadura , no centro litora l de Portugal , a b ra ngia uma á rea bastante superior à


actua l, estendendo-se desde as imediações do Mondego até G rândola, bem ao sul do Tejo.
A província, em 1 80 1 , contava 5 0 5 freguesias que integravam 1 2 7 concelhos, d istri­
buidos por 1 3 coma rcas.

55
FERNANDO DE SOUSA

Da coma rca do Crato, dividida pelo Tejo entre a Estremadura e o Alentejo, pertenciam
à q u e l a , os c o n c e l h os d e Álva ro, Belver (só a fregu esia d o mesmo n o m e) . cardigos,
ca rvoe i ro, Envendos, Oleiros, Ped rógão Peq ueno, Proença-a-Nova e Sertã .

C O M A R CAS FREGUESIAS CONCELHOS

LISBOA 76 2

TORRES VEDRAS 46 14

ALENQUER 55 7

ALCOBAÇA 22 13

RIBATEJO 11 7

LEIRIA 44 10

OURÉM 17 2

SETÚBAL • 48 18

SANTARÉM 88 17

TOMAR •• 66 21

CHÃO D E COUCE 5 5

CRATO 23 9

ARGANIL ••• 4 2

TOTAL 505 127

• sem o Torrão.
• • Sem Rabaçal e Ponte de Sor.
• • • Alva res e Pampilhosa da Serra.

Sob o aspecto eclesiástico, a província era a b ra ngida por 7 d ioceses e dois isentos, o
isento do Crato e a prelazia de Tomar.

DIOCESES E ISENTOS FREGUESIAS

CASTELO BRANCO 27

COIM BRA 33
ÉVORA 16

G UARDA 3
LEIRIA 50

PATRIARCADO 334
ISENTOS 42

TOTAL 505

56
A POPULAÇÃO PORTUG UESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

A província da Estremadura, segundo o recenseamento de 1 8 0 1 , contava 6 7 2 1 80 habi­


ta ntes, dos quais, 3 3 5 534 homens e 336 646 mulheres (quadro nº 1 1 ).
o n ú mero d e homens era , pois, l igeira mente inferior a o n ú m e ro d e mulheres, sendo
a relação d e mascu l i n i d a d e , d e 99,8%, à excepção do Ale ntejo, o va lor mais a lto do
Reino. A nível d e coma rcas, a dive rsidade é evi d ente, pois, enquanto nas comarcas de
Alenquer, Alcobaça, Ribatejo, Setúbal, santarám e Torres Vedras, o n ú me ro d e homens
é superior a o n ú m e ro d e m u l h e res, nas coma rcas d e Chão d e Couce, Crato, Leiria,
Lisboa, O u rém e Toma r se passa o contrário. De uma maneira gera l , podemos a fi rmar
que, n a Alta Estre m a d u ra , m a i s p o b re e a fecta d a p o r fe n ó m e n o s ( e) m i grató r i o s ,
predominam as mulheres, à semelhança da Beira l itora l , enquanto q u e , na Estrem a d u ra
média e, sobretudo na Estremadura transtaga na , como no Alentejo, são os homens q u e
estão em maior n ú m e ro.

QUADRO N." 1 1 - POPU LAÇÃO D A EST R E M A D U R A - 1 8 O 1

( n ú m e ros a bsol utos e %)

COMARCAS FREG. FOGOS HAB. AIF HOMENS M U LHERES

LISBOA 76 52 350 206 523 3.9 101 197 1 05 3 2 6


30.0 30.7 1 5.0 1 5.7

TORRES VEDRAS 46 12 1 1 3 48 7 3 2 4.0 2 5 534 2 3 1 98


7.0 7.3 3.8 3.4

ALENQUER 55 10 902 42 2 1 3 3.9 2 2 022 20 1 9 1


6.3 6.3 3.3 3.0

ALCOBAÇA 22 5 843 22 2 3 1 3.8 1 1 244 10 9 8 7


3.3 3.3 1 .7 1 .6

RI BATEJO 11 3 412 1 2 963 3.8 6 764 6 1 99


2.0 1 .9 1 .0 0.9

LEIRIA 44 16 864 61 777 3.7 29 747 32 030


9.7 9.2 4.4 4.8

OURÉM 17 6 324 2 3 soo 3.8 1 1 469 1 2 03 1


3.6 3.5 1 .7 1 .8

SETÚBAL 48 1 6 308 6 3 400 3.9 34 1 5 1 2 9 249


9.4 9.4 5.0 4.4

SANTARÉM 88 20 989 77 391 3.7 3 8 695 3 8 696


1 2 .0 1 1 .5 5.8 5.8

TOMAR 66 20 5 3 2 78 860 3.8 3 8 308 40 5 5 2


1 1 .8 1 1 .7 5.7 6.0

CHÃO DE COUCE 5 1 496 5 8 72 3.9 2 779 3 093


0.9 0.9 0.4 0.5

CRATO 23 5 683 23 302 4.1 10 976 12 326


3.3 3.5 1 .7 1 .8

ARGANIL 4 1 1 39 5 416 4.8 2 648 2 768


0.7 0.8 0.4 0.4

TOTAL SOS 1 73 955 6 7 2 1 80 3.9 335 534 3 3 6 646


1 00.0 1 00.0 49.9 50. 1

57
FERNANDO DE SOUSA

A d istri buição da população por grupos de idades mostra q u e o conj u nto dos gru pos
de 0-6 e 7-24 anos a p rese nta uma importâ ncia relativa, 46,0%, i nferio r ao va lor global
d o país, 4 8 , 1 o/o, e constitui , mesmo, a proporção mais baixa do Reino, enqua nto que, nos
resta ntes grupos etá rios, os va lores percentua is se revelam acima dos va lores médios
naciona is. A proporção do gru po das pessoas mais idosas, 9 , 3%, é igu a l à de Trás-os­
- M o ntes, m u ito a p roximada do va l o r percentual e n contra d o para as p o p u l a çãoes a
n o rte do Douro e da Beira Mar, sendo a importância relativa d este gru po etário compro­
vada pelos resulta d os do recensea mento d e 1 802.
A análise regional, por coma rcas, acusa, para o gru po 0-6 a nos, o va l o r percentual
mais baixo para Lisboa, 1 5 , 1 % - a i n d i ca r, porventu ra , como no Porto, além d e uma
m o rta l i d a d e a centuada nas pri m e i ra s idades, um ligeiro sub-registo dos m e n o res de
comunhão -, e os va lores percentuais mais elevados pa ra as coma rcas d o Crato, Torres
V e d ra s e A l e n q u e r - respectiva m e n t e , 1 8 , 4%, 1 7 , 5 % e 1 7 , 1 %. No gru p o etá ri o d e
7-24 a n os, o s va lores percentuais osci lam e ntre 2 8 ,6% para a coma rca d e Lisboa e 3 2 ,
4 % para a coma rca d e Tomar. No grupo d e idades 2 5-39 a n os, e n contramos para a s
coma rcas d e Alcobaça e Leiria as proporções mais baixas, respectiva mente, 1 9, 7 % e
2 1 ,2% e as proporções mais signi ficativas para as comarcas de Lisboa e Ri batejo, o u
seja, 2 5 ,0D/o e 2 8 , 5%. No gru po etá rio das pessoas c o m m a i s d e 60 a n os verifi ca-se a
preeminên cia das coma rcas de Ourém, Alcobaça, Chão de Couce, Leiria e Torres Vedras,
todas com va l o res p e rce ntu a i s s u periores a 1 0,0°/o e q u e , nas coma rcas de Lisboa ,
Setú bal, Sa nta rém e Crato, se en contra um menor peso relativo da populaçã o idosa, a
constitu í re m , por assi m dizer, a zona de tra nsição para a provín cia do Ale ntejo.
A d i stri buição da população por sexos e grupos d e idades confi rma q u a nto já foi
referido. No gru po etá rio de 0-6 a n os, o número de homens é superior ao n ú mero d e
m u l h e res em todas as coma rcas, à excepção do Crato. N o s resta ntes grupos d e idades ,
a s c o m a rcas d e Estre m a d u ra reflectem u m a gra n d e va ri e d a d e d e s i t u a ç õ e s , s e m
d úvida , i nfluenciadas p o r Lisboa - migrações i nternas para a ca pita l , q u e r d e homens,
quer d e m u l h e res. Registe-se, n a s coma rcas d e Li s b o a , Torres V e d ra s , A l e n q u e r e
Setúbal, pa ra o gru po etá rio de mais de 60 a n os, um discutível n ú m e ro de homens
s u perior a o das m u l heres.
A repartição da população segu ndo o estado civi l , para a s coma rcas de que temos
i n fo rmações, fo rnece-nos uma percentagem d e população solteira que oscila entre os
5 4 , 3 o/o e os 59, 3%, logo, com va lores inferiores aos registados nas coma rcas do Norte e
em q u e a proporção dos celi batários é s u perior à das celi batá rias. A percentagem d a
p o p u l a çã o casada ro n d a os 3 6 , 4 7% e , como s e m p re , o n ú mero d e v i ú v a s é m u ito
su perior a o número d e viúvos (quadros 1 8 a 21 ).

4.5. A lentejo

o Alentej o, nos inícios do séc. XIX, entre a serra alga rvia , a Espanha e o Tejo, a p re­
sentava uma superfície i nferior à actual, pois, a Estremadura , a b ra ngen d o a coma rca de
Setúbal, estendia-se até G rândola, li m ita ndo a fachada atlântica da província a o Baixo
Alentejo, o u seja, à coma rca d e Ourique e a o concelho d e Odemira , da corre i ção a nexa
à p roved oria de Beja.
A fronte i ra com a Espa n h a , i ndefinida na lgu mas á reas, sofre a lterações e m 1 80 1 ,
quando, o Alentejo, n a sequência d a Guerra das La ra njas, é a mputa d o d o rico conce l h o
d e Oivença , o q u e não impediu os habita ntes d e J u romenha d e conti nuare m a cu ltivar
a s terras a l é m - G u a d i a n a . Na c o m a rca d e B ej a , o território d a c o n te n d a d e M o u ra

58
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

e n contrava-se " m istico" e ntre portugueses e espa nhóis, origi n a n d o confl itos e ntre os
povos frontei riços. Os moradores d e Ba rra ncos, na sua gra n d e parte, e ra m d e orige m
espa n h o l a . E m u itos espa nhóis, tra b a l h a d ores ru ra i s , e n co n trava m-se "servi n d o n a s
fa bri cas d e lavoura " d e Ol ive nça e outras freguesias da coma rca d e Elvas.
A p roví nc ia e ra constituída por 340 fregu esias, que i n tegrava m 1 os c o n c e l h o s ,
d istri buídos por 1 o coma rcas:

C O M A R CAS FREGUESIAS C O N CELHOS

CRATO 12 5

ÉVORA 68 17

PORTALEGRE 37 12

ELVAS • 22 7

VILA VIÇOSA 48 13

AVIS • • 37 18

BEJA 61 14

OURIQUE 50 17

SETÚBAL • • • 3 1

TOMAR • • • • 2 1

TOTAL 340 1 05

• Sem as 6 freguesias de Olivença.

• • sem a freguesia de Vila Rea l.


· · · Torrão.
• • • • Ponte de Sor.

Sob o aspecto eclesiástico, o Alentejo era a b ra ngid o por 4 d ioceses e 3 isentos:

DI OCESES E ISENTOS FREGUESIAS

ELVAS • 38

ÉVORA 1 28

PORTALEGRE 41

BEJA 1 19

ISENTOS 14

TOTAL 340

• Não incluidas as 7 freguesias de Olivença.

59
FERNANDO DE SOUSA

Em 1 80 1 , a população do Alentejo era de 2 70 7 74 habita ntes, sendo 1 3 7 0 3 5 homens


e 1 3 3 739 m u l h e res, a ú n i ca p roví n c i a d o Re i n o e m que o n ú m e ro d e h o m e n s se
revelava superior a o n ú m e ro d e m u l h e res, com u m a relação d e mascu l i n i da d e de
1 02 ,6o/o, a i n d icar, ass i m , q u e a província não se encontrava afectada por movi mentos
emigratórios (quadro nº 1 2); e que, pelo contrá rio, recebia popu lação a ctiva mascul i n a
d e o utras regi ões d o território português. o n ú me ro d e homens reve lava-se l igeira­
m ente superior a o n ú mero d e m u l h eres nas coma rcas d e Avis, Évo ra e Vila Viçosa ,
forteme nte su perior na coma rca de Elvas e i n ferior nas coma rcas do Crato, Porta l egre,
Beja e Ourique.

QUADRO N." 1 2 - POPU LAÇÃO D O ALENTEJ O - 1 8 O 1

( n ú m eros a bsolutos e %)

C O M A R CAS FREG. FOGOS HAB. A/F HOMENS MULHERES

CRATO 12 2 052 6 981 3.4 3 288 3 693


2.7 2.6 1 .2 1 .4

ÉVORA 68 14 096 5 2 1 86 3.7 2 6 1 74 26 0 1 2


1 8.6 1 9. 3 9.7 9.6

PORTALEGRE 37 8 503 31 669 3.7 1 5 509 1 6 1 60


1 1 .2 1 1 .7 5.7 6.0

ELVAS 22 8 046 26 7 0 5 3.3 14 9 1 5 1 1 790


1 0.6 9.8 5.5 4.3

VILA VIÇOSA 48 8 567 30 7 8 1 3.6 1 5 748 15 033


1 1 .3 1 1 .4 5.8 5.6

AVIS 37 6 526 22 983 3.5 1 1 977 1 1 006


8.6 8.5 4.4 4.0

BEJA 61 1 3 529 49 9 3 1 3.7 2 4 748 25 183


1 7.9 1 8.4 9.1 9.3

OURIQUE 50 13 343 45 585 3.4 2 2 63 1 22 9 5 4


1 7. 7 1 6.8 8.4 8.5

SETÚBAL 3 643 2 413 3.8 1 228 1 1 85


0.9 0.9 0.5 0.4

TOMAR 2 412 1 540 3.7 817 723


0.5 0.6 0.3 0.3

TOTAL 340 75 7 1 7 2 70 7 74 3.6 1 3 7 035 1 33 739


1 00.0 1 00.0 50.6 49.4

A d istribuição da população por grupos d e idades a presenta, nos gru pos etá rios 0-6,
7 - 2 4 e m a i s de 60 a n o s , va l o re s p e r c e n t u a i s i n fe r i o re s às m é d i a s n a c i o n a i s , à
semelhança , para o gru po das cria nças, da Estremadura e, para o último gru po etá rio,
d o Alga rve.
A a ná l ise regional por grupos d e idades reflecte, nos grupos etá rios d e 0-6 e mais
d e 60 a nos, uma certa individualidade do Baixo Alentejo - comarcas d e Beja e Ourique -,
uma vez q u e se detecta m, n o primeiro, a proporção mais e l evada da província 1 9, 3 o/o -

p a ra B ej a e 1 7 , 7 o/o p a ra O u r i q u e - e n o ú l t i m o g r u p o etá r i o , a p r o p o r ç ã o m a i s b a i xa
- respectiva mente, 6 , 1 o/o e 6,6o/o - , o q u e faz a p roxi mar a estrutu ra da população d o
Baixo Alentej o da estrutu ra da população alga rvia.

60
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

A importâ ncia relativa mais baixa, terrivel m ente baixa, no grupo das cri a n ças, d e
1 1 , 6 % , regista-se na coma rca de Elvas, a a cusar, porventura , uma gra nd e m o rtalidade
n a s p ri m e i ra s i d a d es , o ca s i o n a d a pela ca m p a n h a d e 1 8 0 1 , h i pótese que p a re c e
confi rmar-se p e l o pouco peso relativo que este gru po etá rio demonstra , de igual modo,
na coma rca d e Avis, 1 4 ,5%, a coma rca mais a fectada, logo a segu i r a Elvas, pela G u e rra
das La ra njas. No gru po de i d a d es 2 5- 3 9 a n os, os va l o res p e rcentuais osci l a m e ntre
2 1 ,5% para as coma rcas d e Évora e Vila Viçosa e 24,0% para a coma rca d e Elvas. No
gru po etá rio 40-59 a nos, os valores percentuais mais baixos, 2 0 , 3 % e 2 0 , 7o/o são, a i n d a ,
das coma rcas d e Beja e O u rique. os d a d o s d e 1 80 2 , para o gru po das pessoas m a i s
i d osas parecem corrobora r a reduzida impo rtância relativa q u e este gru po etário tem
no conj u nto tota l da população.
A com posição da população por sexos e grupos de idades reafirma uma i m p o rtâ ncia
relativa mais acentuada do primeiro grupo de idade, n o Baixo Alentejo e u ma i m po r­
tâ ncia relativa mais sign ifi cativa, do ú ltimo gru po etá rio, no Alto Alentejo.
Em todas as comarcas, n o gru p o 0-6 a n os, o n ú m e ro d e h o m e n s é su perior ao
n ú mero de m u l heres, à excepção da coma rca de Avis, onde homens e m u l h e res a p res­
e nta m n ú m e ros a bsolutos iguais. Nos resta ntes gru pos etá rios e constitu i n d o o caso
mais acentuado a nível de províncias, o n ú mero de homens é, n u m e rosas vezes, supe­
rior ao nú mero de mulheres, como nas comarcas de Elvas, em todos os grupos de idades,
devido à guarnição mi lita r da praça d e Elvas, na coma rca de Évora , nos grupos 7-2 4 e
40-5 9 a nos, em Avis, onde, a penas no gru po das pessoas mais i dosas, o sexo mascu l i n o
iguala o sexo fem i n i n o , etc. No contexto a l entejano, só a coma rca d e Porta legre regista ,
para além dos 7 a nos, um número de homens i n ferior ao n ú me ro de m u l h e res.
A repa rti ção da população segu n d o o esta d o civi l , d e acordo com a s red u z i d a s
fo ntes d e q ue dis pom os p a ra 1 8 0 2 , i n d i ca - n o s fo rtes pe rcentage n s d e p o p u la ç ã o
celi batá ri a , compreendidas entre 4 8 , 7% e 66,9% - va lores, de q u a l q u e r m o d o , i n feriores
aos registados para as populações do Norte, em que a proporção de homens soltei ros é
superior à proporção das mulheres solteiras. o volume percentual da população casada
varia entre 30,2 para os homens e 40,6 para as mulheres, verifica ndo-se, pa ra os viúvos
e vi úvas, um violento d esnível entre os homens, 2,9% para a coma rca d e Elvas e as
m u l h e res, 1 0,7% para as coma rcas de Elvas e Porta legre (quadros 1 8 a 21 ).

4.6. A l garve

o Alga rve, situado n o extremo s u l de Po rtuga l , e ra a província mais pequena d o


Reino, entre o Atlânti co e o Guadiana, separada a n o rte, do Alentejo, pela ri b e i ra d e
Odeceixe, serras d e Monchique e Ca l d e i rão, e p e l o r i o Vascã o.

COMARCAS FREGUESIAS CONCELHOS

LAGOS 25 7

FARO 21 3
TAVIRA 18 4

BEJA ' 6 1

TOTAL 70 15

• Concelho de Alcoutim.

61
FERNANDO DE SOUSA

A província, em 1 80 1 , era constituída por 70 freguesias que integravam 1 5 concelhos


distri b u ídos por 4 coma rcas.
Sob o aspecto ecl esiástico, caso único n o Portuga l d e então, o bispa do d o Algarve,
com sede e m Faro, tinha os mesmos l i m ites que a província, conta n d o , d o mesmo
modo, 70 freguesias.
A popu lação d o Alga rve, e m 1 78 7 , "por conta exacta feita pelos livros das parochias",
e ra d e 9 3 3 7 7 habita ntes, dos quais. 4 5 540 homens e 47 8 3 7 m u l h e res (qua d ro nº 1 3).
o censo da sua popu lação, l evado a cabo em 1 79 7 pela Sociedade Real Maríti ma,
a p u rou 9 6 0 2 5 a lmas, o u seja, 46 9 2 5 homens e 49 1 00 mulheres 6 5 .
o recensea mento de 1 80 1 registou 1 03 3 0 7 habita ntes, com 50 0 8 8 homens e 5 3
2 1 9 m u lheres (qua d ro n º 1 4).
A província teria , assi m, aumentado a sua população, nos últimos 1 5 a n os d e Sete­
centos, em 9 930 a l mas, ou seja, à média a n u a l d e 662 a l mas. A taxa d e crescimento
anual médio foi d e 0,68% para todo esse período, mu ito reduzida para a primeira década
- 0,2 8%-, consideravelmente elevada para o período compreen d i d o e ntre 1 79 7- 1 80 1 ,
o u seja, d e 1 ,4 7%, o que, à pa rtida, n os l eva a suspeita r d e u m l igeiro sub-registo da
populaçã o no caso d o censo d e 1 79 7 , o ú n ico d e que a penas conhecemos os totais, d e
a m bos o s sexos, para a província. É possível que o censo da Sociedade Maríti ma n ã o
tenha s i d o efectivad o através d a s a utoridades eclesiásticas e q u e , porta nto, a o contrá rio
dos recenseamentos d e 1 78 7 e 1 80 1 , não revestisse u m ca rácter tão sistemático como
estes. o facto d e a relação d e mascu l i nidade do censo d e 1 79 7 - 95,6 -se r exacta mente
igua l à d o censo d e 1 78 7 não i nvalida a hi pótese apontad a , uma vez que poderá ter
havi do u m sub-registo em a mbos os sexos 6 6 .
A taxa de cresci mento da província, 1 , 1 % em 1 80 1 , contrasta , em a bsoluto, com a
taxa de cresci mento referida a 1 78 7 , fortemente negativa.
A popu lação a lga rvia , na segu nda meta d e de setecentos, teria , pois, crescido m u i to
lenta m ente até á última década do sécu l o e, a pós 1 79 5 - 1 7 9 7 , i ntensifi ca ria o seu ritmo
d e cresci mento.
Cresci me nto i n egáv el , sem d ú v i d a , assi n a l a d o para todas as coma rcas a lga rvias,
a i nda q u e mu ito débil para a coma rca d e Tavira . A a n á l ise da população por concelhos,
e m 1 7 8 7 e 1 80 1 (q u a d ro nº 1 6) , confi rma a p re d o m i n â n cia d e Faro, a p rosp e ri d a d e
d e m ográfica d e Castro Mari m , Alcouti m , Po rti mão e Lagos. u m i nsign i fi ca nte sa l d o
fisiológico positivo d o s d o i s gra ndes concelhos agrícolas da província, Loulé e Si lves, o
marasmo de Monchique, a decadência acentuada de Tavira. Em fi nais do século XVI I I ,
c o m excepção d este último, s ã o o s concelhos local izados na costa, economica m e nte
ca ra cteriza d o s p e l a s a ctivi d a d e s m a ríti mas, q u e parecem ga ra nti r a vita l i d a d e e a
renovação da popu lação alga rvia.
Po p u l a çã o q u e , globa l m e nte, regista u m n ú m e ro d e h o m e n s signifi cativa m e nte
i n fe r i o r ao n ú m e ro de m u l h e re s , fa cto v e r i fi ca d o p a ra t o d a s as c o m a rca s , n o s
recensea mentos d e 1 78 7 e 1 80 1 - em bora, neste último, a relação d e mascu l i n i d a d e ,
9 4 , 1 , sej a i n ferior à d e 1 7 8 7 , 9 5 , 6 e a afecta r, pa rti cu l a rmente , os c o n c e l h o s da o r l a
maríti ma, s i n ó n i m o da emigração mascu lina que se faz, e ntã o, s e n t i r n o Algarve.
A d i stri b u i çã o da p o p u l a çã o p o r gru p o s de i d a d e s , e m b o ra n ã o d e m o n s t r e
i rregu laridades dignas d e monta , tem, no enta nto, uma particularidade q u e a d isti ngue
das demais províncias: a existência d e uma a centuada importâ ncia relativa dos grupos
d e idades 0-6 e 7-24 a n os em relação a o tota l da popu lação (5 1 ,6%, enqua nto a média
gera l d o país é d e 4 7 , 1 %) , bem como u m a fra ca proporção d a p o p u l a çã o n o último
gru po d e idades ( 5 , 7% contra a média nacional d e 8 , 7%).
Semelha nte situação é observável em todas as coma rcas, o q u e , l ogo à p a rti d a ,
excl ui a hipótese d e os números médios a p resentados a nível da p rovíncia poderem
oculta r p rofundas assi metrias n o espaço alga rvio. Ta l não i m pede. poré m , a existência

62
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

QUADRO N." 1 3 - POPU LAÇÃO DO A L G ARVE - 1 7 8 7

( n ú m e ros absol utos e %)

C O M A R CAS FREG. FOGOS HAB. AIF HOMENS M U LHERES

LAGOS 25 5 943 2 2 645 3.8 1 1 045 1 1 600


24.4 24.3 1 1 .8 1 2 .4

FARO 21 9 003 34 569 3.8 1 7 026 1 7 543


3 7.0 3 7.0 1 8.2 1 8.8

TAVIRA 18 8 013 3 0 492 3.8 14 702 1 5 790


32.9 32.7 1 5 .8 1 6.9

BEJA 6 1 386 5 671 4.0 2 767 2 904


5.7 6.0 3.0 3.1

TOTAL 70 24 3 4 5 93 377 3.8 4 5 540 47 837


1 00.0 1 00.0 48.8 5 1 .2

QUADRO N." 1 4 - POPU LAÇÃO DO A L G A R V E - 1 8 0 1

( n ú m e ros a b s o l u tos e %)

COMA RCAS FREG. FOGOS HAB. AIF HOMENS M U LHERES

LAGOS 25 6 783 2 5 996 3.8 1 2 749 1 3 247


24.4 25.2 1 2.4 1 2. 8

FARO 21 1 0 764 3 9 1 69 3.6 1 9 035 2 0 1 34


38. 1 3 7.9 1 8.4 1 9. 5

TAVIRA 18 8 732 31 1 4 7 3.6 14 9 1 3 1 6 234


3 1 .0 30. 1 1 4.4 1 5. 7

BEJA 6 1 939 6 995 3.6 3 391 3 604


6.9 6.8 3.3 3.5

TOTAL 70 28 2 1 8 1 03 307 3.7 50 088 53 2 1 9


1 00.0 1 00.0 48.5 5 1 .5

de algumas d i ferenças e ntre as coma rcas, d i ferenças essas q u e j ustifi ca m a lgumas


considera ções suplementares. Assim, na coma rca d e Lagos, e n co ntra mos os m a i o res
va lores qua nto aos gru pos etá rios da população mais jovem e das pessoas com mais de
6 0 a nos, a o passo que, na coma rca d e Tavira, se observa o i nverso. com base em
tra b a l hos já ela borados 6 7 , é possível afirmar q u e o declínio d a fecu n d i d a d e provoca
uma contração dos grupos mais j ovens (envel hecimento na base) e u m a u m e nto no
gru po das pessoas i d osas (envelhecimento n o topo). Por outro lado, ta mbém sabemos
que a e m igra ç ã o , e m b o ra o rigi n e , igua l m e nte, u m a u m e nto p r o p o rci o n a l n a q u e l e
ú lti mo gru po etá rio provoca , n o enta nto, e ao contrário da fecu ndidade, u m rej uvenes­
c i m e n to na base, o u sej a , um a u m e nto proporci o n a l nos p ri m e i ros grupos de i d a d es.
Neste contexto e sa bendo nós q u e a comarca d e Lagos é a menos a fe ctada pela
e migração e a coma rca d e Tavira pa rece ser a mais atingida pelo fenómeno emigra­
tório, os resultados obtidos não são mais q u e o reflexo dos princípios já e n u n ci a d os, ou
seja, o efeito da emigração nas estruturas etá rias.

63
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N." 1 5 - A L G A R V E

População e m 1 7 8 7 e 1 8 0 1

H A B ITANTES T.V.
C O M A R CAS CONCELHOS
1 787 1 80 1 'lo

LAGOS Albufe i ra 4 1 93 4 530 + 8.0

Aljezu r 1 375 1 773 + 28.9

Lagos 8 330 9 790 + 1 7. 5

Monch i q u e 4 725 4 653 - 1 .5

Portimão 3 335 4 1 53 + 24.5

Sagres 1 72 413 + 1 40. 1

Vila do Bispo 515 684 + 32.8

FARO Faro 1 9 690 2 3 754 + 20.6

Lagoa 4 674 4 903 + 4.9

Si lves 10 205 10 5 1 2 + 3.0

TAVIRA Castro Marim 3 317 5 020 + 5 1 .3

Loulé 1 3 038 1 3 498 + 3.5

Tavira 12 219 1 0 547 - 1 3. 7

V . R . Sto. António 1 918 2 082 + 8.6

BEJA Alcoutim 5 671 6 995 + 23.3

TOTAL 15 9 3 377 1 03 3 0 7 + 1 0.6

QUADRO N." 1 6 - POPULAÇÃO D E PORTUG A L - 1 8 0 1

( n ú meros a bs o l u tos e %)

PROVÍNCIAS FREG. FOGOS HAB. AIF HOMENS M U LHERES

MINHO 1 1 88 1 72 006 667 1 6 7 3.9 3 1 4 1 66 3 5 2 00 1


22.7 22.9 1 0.8 1 2. 1

TRÁS-OS-MONTES 705 68 779 265 852 3.9 1 29 763 1 36 0 8 9


9. 1 9. 1 4.5 4.7

BEIRA 1 284 2 3 9 245 933 384 3.9 446 2 9 4 4 8 7 090


3 1 .6 32.0 1 5. 3 1 6. 7

ESTREMADURA 505 1 73 9 5 5 6 7 2 1 80 3.9 335 5 3 4 3 3 6 646


23.0 23.1 1 1 .5 1 1 .6

ALENTEJO 335 75 7 1 7 2 70 7 7 4 3.6 1 3 7 035 1 33 739


9.9 9.3 4.7 4.6

ALGARVE 70 28 2 1 8 1 03 3 0 7 3.7 50 088 53 2 1 9


3.7 3.6 1 .7 1 .8

TOTAL 4 092 757 920 2 9 1 1 664 3.8 1 4 1 2 880 1 498 784


1 00.0 1 00.0 48.5 5 1 .5

64
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

A especificidade referida verifica-se, quer nos homens q u e r nas m u l heres, ta nto n o


q u e d iz respeito a o s gru pos d e idades d e 0-6 e 7 - 2 4 a nos, quer n o gru po das pessoas
mais i d osas.
Em todas as coma rcas, no gru po etá rio d e 0-6 anos, o n ú mero de ra pazes é sempre
superior ao número de rapa rigas. Nos grupos de idades de 7-2 4 , 2 5- 3 9 e 40-59 a n os,
ainda em todas as coma rcas, o n ú m e ro d e homens revela-se i n ferior a o n ú me ro de
mulheres, a com provar, tanto qua nto sabemos, a emigração q u e afe ctava , então, esta
província meridional (quadros 1 8 a 2 1 ).

4.7. C o n c l u s ã o

o recensea mento de 1 80 1 conta bi l izou 7 5 7 920 fogos e 2 9 1 1 6 6 4 habita ntes, d o s


qu ais, 1 4 1 2 880 homens e 1 4 9 8 784 m u l heres (quadros n.05 1 6 e 1 7).
A comparação, a nível nacional e provi ncia l , dos números globais relativos a fogos e
h a b itantes, de 1.80 1 , com o n u me ra m e nto de Pina Ma n i q u e , o censo d e 1 8 2 0 e os
levanta m e ntos populacionais d e fi nais d e Setecentos, nomeadamente, pa ra o M i n h o ,
T r á s - o s - M o n t e s e A l g a r v e , p e r m i t e - n o s regista r u m a n o t á v e l c o n v e rgê n c i a d o s
resulta d os estatísticos reforçada pelos testes d e concordâ ncia efectua d os.
Q u a nto à r e p a rtição d a p o p u la ç ã o por sexos, v e r i fi ca m o s q u e , à e x c e p ç ã o d o
Alentej o, em que o s homens s e encontram em maior n ú mero q u e a s m u l h e res, todas
as provínCias d o Reino acusam uma relação d e mascu linidade inferior a 1 00 , a d e n u n ­
ciar os efeitos d e i m p o rta ntes fl uxos emigratórios q u e se fizera m senti r nas últimas
décadas d e Setecentos. com efeito, se no gru po etá rio 0-6 a nos o n ú m e ro d e cria n ças
d o sexo mascu l i n o nos a p a rece i nvariave l m e nte superior a o n ú m e ro d e cria n ça s · do
sexo feminino , a demonstra r a existência da sobre-mascu linidade dos nasci mentos, nos
resta ntes grupos d e i d a d es , á excepção d e a l g u m a s c o m a rcas d a Estre m a d u ra e
Alentejo, o número de homens revela-se, sempre, i nferior ao n ú me ro de m u l h e res.
Qua nto à d istribuição da população portuguesa por grupos d e idades e n contra mos
u m a sign i fi cativa i m p o rtâ ncia relativa das crianças n o conj u nto d a p o p u l a çã o tota l
( 1 6,8o/o para o gru po etá rio de 0-6 a n os) i m p o rtâ ncia tanto mais signifi cativa q u a nto
pa rece não terem sido recenseadas algumas dezenas d e m i l h a res d e expostos. Este
valor percentual é superior ao registado para a Fra n ça de fi ns do sécu l o XVI I I , 1 6, 1 o/o e
a p roxima-se dos va lores percentuais encontrados para a Espa n h a , 1 8 ,2o/o em 1 76 8 - 1 769,
1 8 ,2o/o em 1 78 7 e 1 8 , 7o/o em 1 79 7 (quadros n. o s 19 a 26).
A i m p o rtâ n cia re lativa da população jovem portuguesa, nos grupos etá rios 0-6 e
7-24 a nos, a proxima-se, também, das proporções encontradas para outros países e u ropeus
(nestes, 0-24 anos), como a Suécia , e do Portuga l de 1 864 6 8 .

O - 2 4 ANOS + DE 2 4 A N O S
PAI SES AN O S
% %

PORTUGAL 1 80 1 48,1 5 1 ,9

PORTUGAL 1 864 50,7 49,3

ESPANHA 1 768 5 1 ,2 48,8

ESPANHA 1 78 7 5 1 ,8 48,2

ESPANHA 1 79 7 50,4 49,6

FRANÇA 1 7 75 5 1 ,8 48,2

SU ÉCIA 1 800 49,6 50,4

65
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N." 1 7 - POPULAÇÃO DE PORTUGAL - 1 8 O '

C O M A RCAS FREG. FOGOS HOM ENS MULHERES TOTAL AIF


ALCOBAÇA 22 5 843 1 1 244 10 987 22 231 3.8
ALENQUER 55 10 902 22 022 20 1 9 1 42 213 3.9
ARGANIL 51 9 580 19 1 58 21 155 40 313 4.2
AVEIRO 68 2 3 666 42 872 48 687 91 559 3.9
AVIS 37 6 526 1 1 977 1 1 006 22 983 3.5
BARCELOS 290 33 5 1 9 6 2 796 71 398 1 34 1 94 4.0
BEJA 67 15 468 28 1 39 28 787 56 926 3.7
BRAGA 76 1 1 883 2 3 5 79 25 26 1 48 840 4.1
BRAGANÇA 264 22 0 1 7 4 1 694 4 3 902 8 5 596 3.9
CASTELO-BRANCO 99 1 5 79 1 28 8 8 2 30 875 59 697 3,8
CHÃO DE COUCE 5 1 496 2 779 3 093 5 872 3.9
COIMBRA 1 43 43 098 76 940 84 9 5 1 161 981 3.7
CRATO 35 7 735 14 267 16 0 1 6 3 0 283 3.9
ELVAS 22 8 046 14 9 1 5 1 1 790 2 6 705 3.3
ÉVORA 68 1 4 096 26 1 74 26 0 1 2 5 2 1 86 3.7
FARO 21 1 0 764 1 9 035 2 0 1 34 39 1 69 3.6
FEIRA 72 1 7 590 33 947 37 167 71 1 14 4.0
G UARDA 1 98 26 5 3 5 49 5 1 0 5 4 529 1 04 0 3 9 3.9
G U I MARÃES 244 34 0 1 6 60 587 69 005 1 29 592 3.8
LAGOS 25 6 783 1 2 749 1 3 247 2 5 996 3.8
LAMEGO 1 53 25 7 1 3 4 8 497 51 0 2 1 99 5 1 8 3.9
LEIRIA 44 1 6 864 2 9 747 32 030 61 777 3.7
U N HARES 40 4 825 8 767 9 747 18 5 1 4 3.8
LISBOA 76 52 350 101 197 1 05 3 2 6 206 5 2 3 3.9
MONCORVO 1 64 1 4 448 25 3 1 7 2 6 748 5 2 065 3.6
M I RANDA 1 29 8 312 1 5 664 16 0 1 8 3 1 682 3.8
OURÉM 17 6 324 1 1 469 12 03 1 23 500 3.8
OURIQUE 50 1 3 343 2 2 63 1 22 9 5 4 45 585 3.4
PENAFIEL 99 1 4 872 26 1 8 7 2 9 444 55 631 3.7
PINHEL 40 4 266 7 1 04 7 939 1 5 043 3.5
PORTALEGRE 37 8 503 1 5 509 16 1 60 3 1 669 3.7
PORTO 205 51 4 2 6 96 4 7 1 1 02 04 1 1 98 5 1 2 3.9
RI BATEJO 11 3 412 6 764 6 1 99 1 2 963 3.8
SANTARÉM 88 20 989 38 695 38 696 77 391 3.7
SETÚBAL 51 1 6 95 1 35 3 7 9 30 434 65 8 1 3 3.9
TAVIRA 18 8 732 14 9 1 3 1 6 234 31 1 4 7 3.6
TOMAR 73 21 909 40 936 43 2 1 2 8 4 1 48 3.8
TORRES VEDRAS 46 12 1 13 25 5 3 4 2 3 1 98 48 7 3 2 4.0
TRANCOSO 1 95 1 9 959 35 236 38 252 73 4 8 8 3.7
VALENÇA 49 7 806 1 2 96 1 1 5 389 28 350 3.6
VIANA 274 32 055 57 933 66 5 1 3 1 24 446 3.9
VILA REAL 1 38 22 2 1 8 44 019 46 107 9 0 1 26 4.0
VILA VIÇOSA 48 8 567 15 748 1 5 033 30 7 8 1 3.6
VISEU 1 85 36 609 72 999 79 862 1 5 2 86 1 4.2
TOTAL 4 092 757 9 2 0 4 1 2 880 1 4 9 8 784 2 9 1 1 664 3.8

66
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

Constata-se, também,um peso relativo considerável da população com mais de 60 anos


(8, 7%, segu ndo o recensea mento de 1 80 1 , 8, 3%, de a cordo com os dados parciais do
censo d e 1 802), proporções superiores às encontradas para a Finlândia, 6,4% e m 1 800,
mas, curiosamente, igual à registada para a Suécia , 8 , 6% e m 1 800. Proporção ligeira­
m e n te s u p e ri o r à e n contra d a para a p o p u l a çã o p o rtuguesa , d e 1 8 6 4 , 7 , 3%, fa cto à
p r i m e i ra vista s u r p re e n d e nte, mas q u e deve ter em l i n ha de conta a estrutu ra d a
popu lação, igua lmente afectada pela emigração, ta nto em 1 80 1 como e m 1 8 64, m a s d e
modo diverso, e a violenta mortalidade q u e s e fez senti r n o Reino, entre 1 804- 1 8 1 3 , a
ceifa r, sobretudo, a população das primeiras idades, a q u a l , em 1 864, constitu i o grupo
das pessoas com mais d e 60 a nos.

QUADRO N." 1 8 - P O P U LAÇÃO - 1 8 0 1

D i stri b u ição d a p o p u lação p o r grupos d e i d a d e s

H o m e n s e M u l heres (%)

PROVÍNCIAS o -6 7 - 24 25 - 39 40 - 59 + de 60 TOTAL

MINHO H 1 8.3 32.4 1 9.2 20.7 9.4 1 00.0


M 1 .5 30.8 22.3 2 1 .9 9.5 1 00.0

TRÁS-OS-MONTES H 1 7.5 3 1 .5 21.1 20,8 9.1 1 00.0


M 1 6.0 29.5 23.3 2 1 .7 9.5 1 00.0

BEIRA H 1 8.3 33.0 20.4 20.3 8.0 1 00.0


M 1 6.2 3 1 .6 22.8 20.9 8.5 1 00.0

ESTREMADURA H 1 6.2 30.2 22.6 2 1 .8 9.2 1 00.0


M 1 5.7 29.8 23.9 2 1 .3 9.3 1 00.0
ALENTEJO H 1 6.8 3 1 .2 22.0 22.5 7.5 1 00.0
M 1 6.5 31.1 22.7 2 1 .5 8.2 1 00.0
ALGARVE H 1 9.4 33.4 20.5 20.9 5.8 1 00.0
M 1 6.9 33.6 23.4 20.6 5.5 1 00.0
TOTAL H 1 7.6 3 1 .9 20.9 2 1 .0 8.6 1 00.0
M 1 6.0 30.8 23.0 2 1 .3 8.9 1 00.0

É preciso ter e m consideração que os va lores percentuais nacionais, e ncontra dos


para os vários grupos d e idades, não representa m situações d e h omogeneidade, a ntes
pelo contrá rio, são o resu ltado d e uma certa diversidade regional.
A p roví nc ia d o Alga rve é , s i m u ltâ n e a m e nte, a q u e l a que a p re s e n ta uma m a i o r
j uventude, q u e r na base q u e r no topo, ou seja as maiores proporções n o s p ri m e i ros
grupos etá rios, facto q u e o recenseamento d e 1 864 confi rma, uma vez que o d i strito de
Faro regista a maior proporção d e jovens d o Conti n e n te - 4 7 , 3 % para o gru p o 0- 1 9
a nos-, e u ma baixa proporção d e pessoas i dosas, 5 , 3 % para o gru p o etário d e mais d e
6 0 a n os. Todas as outras províncias se revelam, i ncontestavelmente m a i s envelhecidas,
varia ndo, n o enta nto, d e caso para caso, o nível d e envelhecime nto.
o Minho, a pesa r d e ser a p rovíncia que maior proporção d e pessoas i d osas regista,
encontra-se, no entanto, em conj u nto com o Alentejo, com va lores i d ênticos à média
d o país no q u e diz respeito à importâ ncia relativa dos primeiros grupos d e idades. Por
outro lado, a Estremadura , embora sendo a província q u e tem menores p roporções d e
população n o s primeiros grupos d e i d a d e s a presenta , n o e nta nto, u m peso d e pessoas
idosas igual a o Minho e a Trás-os-Montes.

67
FERNANDO D E SOUSA

QUADRO N." 1 9 - PORTU G A L - 1 8 0 1


D i stri b u i çã o d a p o p u lação p o r gru p o s d e i d a d e s
H o m e n s e M u lheres (%)

PROVINCIAS o -6 7 - 24 25 - 39 40 - 59 + d e 60 TOTAL

ALCOBAÇA H 1 7.0 32.4 1 8.5 2 1 .7 1 0.4 1 00.0


M 1 5.5 30.0 21.1 2 1 .9 1 1 .5 1 00.0

ALENQUER H 1 7.2 30.4 2 1 .0 32.0 9.4 1 00.0


M 1 7. 1 29.7 22.0 2 1 .9 9.3 1 00.0

ARGANIL H 1 9.5 32.6 1 9. 7 1 9.9 8.3 1 00.0


M 1 7.5 30.4 22.2 20.2 9.7 1 00.0

AVEIRO H 1 7.3 32.8 20. 1 2 1 .2 8.6 1 00.0


M 1 4. 5 31.1 22.9 22.3 9.2 1 00.0

AVIS H 1 3.9 29.8 2 1 .8 24.8 9.7 1 00.0


M 1 5.2 31.1 2 1 .5 22.6 9.6 1 00.0

BARCELOS H 1 8.4 3 1 .7 1 9. 1 2 1 .0 9.8 1 00.0


M 1 5 .4 30.8 22. 1 21.7 1 0.0 1 00.0

BEJA H 1 9.8 3 1 .2 22.4 20.8 5.8 1 00.0


M 1 8.8 3 1 .5 23.5 1 9.9 6.3 1 00.0

BRAGA H 1 9.5 31.1 20.0 1 9.8 9.6 1 00.0


M 1 6.3 31.1 22.7 2 1 .4 8.5 1 00.0

BRAGANÇA H 1 6.8 32.5 1 9.8 2 1 .4 9.5 1 00.0


M 1 5.2 29.6 22.9 2 3.0 9.3 1 00.0

CASTELO-BRANCO H 1 9.4 34.3 20.5 20.0 5.8 1 00.0


M 1 7.5 3 3.9 22.7 1 9.8 6.1 1 00.0

CHÃO DE COUCE H 1 6. 7 3 1 .7 22.9 1 8.2 1 0.5 1 00.0


M 1 5. 1 29.8 24.0 1 9.9 1 1 .2 1 00.0

COIMBRA H 1 7.5 3 1 .6 22.2 1 9.9 8.8 1 00.0


M 1 4.9 30.6 24.4 20. 1 1 0.0 1 00.0

CRATO H 1 9.0 32.4 1 9.5 20.6 8.5 1 00.0


M 1 7.9 28.9 23.3 20.8 9. 1 1 00.0

ELVAS H 1 0.9 32.2 246 23.9 8.4 1 00.0


M 1 2.5 3 1 .9 23.1 23.2 9.3 1 00.0

ÉVORA H 1 6. 7 30.5 2 1 .2 23.6 8.0 1 00.0


M 1 5.8 30.2 2 1 .8 22.9 9.3 1 00.0

FARO H 1 9.4 33.9 1 9.9 20.7 6.1 1 00.0


M 1 7.3 3 1 .8 24.0 21.1 5.8 1 00.0

FEIRA H 21.1 3 1 .6 1 5.9 2 1 .4 1 0.0 1 00.0


M 1 9. 1 32.4 1 8. 7 20.6 9.2 1 00.0

G UARDA H 1 7.7 35.8 20.6 1 9.6 6.3 1 00.0


M 1 6.3 3 3.4 22.8 20.6 6.9 1 00.0

G U IMARÃES H 1 8. 1 3 1 .9 1 9.4 20.7 9.9 1 00.0


M 1 5.6 29.7 22.8 22.0 9.9 1 00.0

LAGOS H 2 1 .0 33.5 2 1 .0 1 9.5 5.0 1 00.0


M 1 8.9 34.9 22. 1 1 9.3 4.8 1 00.0

(Cont.)

68
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

(Cont. do quadro n.' 1 9)

PROVINCIAS o - 6 7 - 24 25 - 39 40 - 59 + de 6 0 TOTAL

LAMEGO H 1 8.5 3 1 .7 2 1 .2 20. 1 8.5 1 00.0


M 1 6.8 30. 1 2 3.2 20.8 9. 1 1 00.0
LEIRIA H 1 7. 1 3 1 .3 20.2 2 1 .6 9.8 1 00.0
M 1 5.3 29.7 22.2 2 1 .8 1 1 .0 1 00.0
UNHARES H 1 8.4 35.1 1 9. 1 1 9.4 8.0 1 00.0
M 1 6.0 3 3.6 2 1 .9 2 1 .2 7.3 1 00.0
LISBOA H 1 5.4 27.7 24.6 23.1 9.2 1 00.0
M 1 4.8 29.5 25.5 2 1 .8 8.4 1 00.0
MIRANDA H 1 6.3 3 1 .9 2 1 .9 2 1 .3 8.6 1 00.0
M 1 5.9 31.1 23.4 2 1 .4 8.2 1 00.0
M ONCORVO H 1 7.4 31.1 22.7 20.7 8. 1 1 00.0
M 1 5 .8 28.8 24.3 22. 1 9.0 1 00.0
OURÉM H 1 7.0 31.1 20.2 20.6 1 1.1 1 00.0
M 1 5.6 29.5 2 3.2 1 9.5 1 2.2 1 00.0
OURIQUE H 1 8.0 3 1 .6 22.5 2 1 .2 6.7 1 00.0
M 1 7.4 3 1 .3 24.6 20.2 6.5 1 00.0
PENAFIEL H 1 7.9 32.8 1 6.4 22.3 1 0.6 1 00.0
M 1 5.8 3 1 .6 1 9.9 23.0 9.7 1 00.0
PINHEL H 1 6.2 33.3 2 1 .7 22.2 6.6 1 00.0
M 1 5.1 32.7 2 3.8 22.2 6.2 1 00.0
PORTALEGRE H 1 6.8 34.3 21.1 2 1 .5 6.3 1 00.0
M 1 5. 1 34.0 22.2 20.8 7.9 1 00.0
PORTO H 1 7.5 3 5.0 1 9. 7 20. 1 7.7 1 00.0
M 1 5.4 3 3.4 22.3 20.8 8.1 1 00.0
RIBATEJO H 1 7. 1 2 3.8 29.0 22.0 8.1 1 00.0
M 1 5.6 25.6 28.0 20.6 1 0.2 1 00.0
SANTARÉM H 1 6.3 32.3 22.3 20.5 8.6 1 00.0
M 1 6.3 30. 1 24.2 20.7 8.7 1 00.0
SETÚBAL H 1 4.9 29.9 24.7 22. 1 8.4 1 00.0
M 1 7.0 30.6 23.5 2 1 .2 7.7 1 00.0
TAVIRA H 1 8. 1 3 3.2 20.2 22.2 6.3 1 00.0
M 1 4.8 34.6 23.5 2 1 .2 5.9 1 00.0
TOMAR H 1 6. 7 33.3 2 1 .5 20.0 8.5 1 00.0
M 1 4.8 3 1 .5 23.1 20.6 1 0.0 1 00.0
TORRES VEDRAS H 1 7.2 30.0 21.1 2 1 .5 1 0.2 1 00.0
M 1 7.9 28.5 2 1 .9 2 1 .5 1 0.2 1 00.0
TRANCOSO H 1 8.3 34.3 20.4 20.7 6.3 1 00.0
M 1 6.4 32.7 23.1 20.9 6.9 1 00.0
VALENÇA H 1 9.2 3 1. 8 1 9.0 20.5 9.5 1 00.0
M 1 5.3 29.6 23.5 2 1 .2 1 0.4 1 00.0
VIANA H 1 8.6 30.6 1 9.7 20.8 1 0.3 1 00.0
M 1 5.6 28.5 22.5 22.9 1 0.5 1 00.0
VILA REAL H 1 8.5 30.5 2 1 .2 . 20 . 1 9.7 1 00.0
M 1 6.9 29.3 2 3.2 20.3 1 0.3 1 00.0
VILA VIÇOSA H 1 7.4 28.2 2 1 .2 23.6 9.6 1 00.0
M 1 6.6 28.9 2 1 .8 22.7 1 0.0 1 00.0
VISEU H 1 8 .8 32.5 20.2 20.0 8.5 1 00.0
M 1 6.3. 30.4 23.3 2 1 .5 8.5 1 00.0
TOTAL H 1 7.6 3 1 .9 20.9 2 1 .0 8.6 1 00.0
M 1 6.0 30.8 23.0 2 1 .3 8.9 1 00.0

69
FERNANDO DE SOUSA

QUADRO N.2 20 - PO RTU G A L - 1 8 0 2

Distr i b u i çã o d a p o p u lação p o r g r u p o s d e i d a d e s (%)

COM ARCAS o - 20 21 - 59 + de 6 0

AVIS 32.5 6 1 .5 6.0

BARCELOS 36.7 53.5 9.8

BRAGA 39.9 48.8 1 1 .3

BRAGANÇA 40. 1 54.4 5.5

CASTELO - BRANCO 45.8 48.5 5.7

ELVAS 32.9 59.1 8.0

G U I MARÃES 4 1 .8 50.8 7.9

LAMEGO 35.3 55.2 9.5

LEIRIA 40.9 50.7 8.4

MIRANDA 40.5 52.8 6.7

MONCORVO 38.0 55.4 6.6

OU RÉM 42.9 4 7.6 9.5

PENAFIEL 39.8 50.9 9.3

PINHEL 44.9 50.2 4.9

PORTALEGRE 42.3 5 1 .3 6.4

PO RTO 39.2 50.2 1 0.6

TOMAR 44.5 48.9 6.6

TRANCOSO 4 1 .2 52.2 6.6

VALENÇA 39.7 50.9 9.4

VIANA 3 7.8 50.9 1 1 .3

VILA REAL 38.6 52.4 9.0

TOTAL 39.8 5 1 .9 8.3

70
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS /N{C/OS DE SÉCULO XIX

QUADRO N." 2 1 - PORTU G A L - 1 8 0 2

Distribuição d a p o p u l ação p o r esta d o civil

SOLTEIROS (%) CASADOS (%) VIÚVOS (%)


CO MA RCAS
HOMENS MULHERES HOMENS MULHER ES HOMENS M ULHERES

AVEIRO 6 1 .3 58.7 32.5 3 1 .4 6.2 9.9

AVIS 6 1 .3 5 5.9 33.2 33.7 5.5 1 0.4

BARCELOS 69.3 70 ..8 26.7 22.9 4.0 6.3

BRAGA 66.4 6 7.4 2 7. 7 25.1 5.9 7.5

BRAGANÇA 69.0 67.2 2.1 25.5 4.9 7.3

CASTELO-BRANCO 54.4 53.1 42.3 3 7.9 3.3 9.0

ELVAS 66.9 48.7 30.2 40.6 2.9 1 0. 7

GUIMARÃES 60.9 62.0 33.8 30.5 5.3 7.5

LAMEGO 6 1 .0 6 1 .6 3 5 .0 34. 1 4.0 4.3

LEIRIA 58.3 5 7.4 3 7.4 34. 1 4.3 8.5

MIRANDA 65.9 64.9 29.3 2 7.9 4.8 7.2

MONCORVO 60.5 60.7 34.4 28.4 5.1 1 0.9

OURÉM 59.3 56.6 36.2 34.7 4.5 8.7

PENAFIEL 62.� 6 1 .8 32.9 3 1 .2 4.9 7.0

PINHEL 52.6 6 1 .8 32.5 29.5 3.8 8.7

PORTALEGRE 55.8 5 3.8 39.8 35.5 4.4 1 0. 7

PORTO 6 1 .7 65.1 33.5 28.3 4.8 6.6

TOMAR 58.1 54.3 38.6 36.6 3.3 9.1

TRANCOSO 58.3 56.4 36.3 33.7 5.4 9.9

VALENÇA 62.0 60.7 33.6 30.9 4.4 8.4

VIANA 59.8 63.4 34.8 28.5 5.4 8. 1

VILA REAL 64.5 65.4 3 1 .4 26.8 4. 1 7.8

71
FERNANDO DE SOUSA

Assi m , podemos dizer q ue, de uma maneira gera l , a proporção das pessoas idosas
a u menta d e sul para norte, e do i nterior para a costa , com as proporções mais e l eva das
nas coma rcas d o Minho, Beira-Mar e Estremadura. Os gru pos d e idades j ovens a cusa m ,
igua lme nte, u m a ce rta orientação geográ fica, pois, à medida q u e ca minhamos d e S u l
para Norte, va mos encontra n d o uma progressiva d i m i n uição na i m p o rtâ ncia relativa
d estes grupos d e idades, 0-6 e 7-24 anos, se bem que, tanto para estes como para o
ú ltimo gru po etá rio, as p rovíncias cfa Estremadura e da Beira fu ncionem, sempre , como
região d e transição e ntre o Norte e o sul.
A proporçã o mais baixa dos primeiros grupos d e idades constata-se na coma rca de
Lisboa, 4 3 , 7%, posição relativa q u e o distrito de Lisboa mantém, igualmente, e m 1 864,
3 7 ,2% para o gru po d e 0- 1 9 a nos.
No que diz respeito à repa rtição da população por estado civi l , verificamos que a
população cei i batá ria a cusa va lores percentuais muito a ltos, da ord e m dos 60%, mas,
d e modo a l gu m , i nvu lgares e m sociedades d e Antigo Regi m e . Os va l o res m á x i m os
fora m o bse rvados na coma rca de castelo-Bra nco, 70,8o/o para as m u l heres, 5 2 ,6% para
os homens. De um modo gera l , a proporção de homens soltei ros e m u l he res solte i ra s
parece s e r m a i s elevada .nas províncias d o Norte d e Portuga l q u e na Estre m a d u ra e Alto
Alentej o (qua d ro nº 2 1 ).

N OTAS

Fernando de Sousa , A População Portuguesa nos inícios do Século XIX, 2 vols., Porto, 1 9 79.

Taboas Topograficas e Estatisticas de todas as comarcas de Portugal e das Terras de cada huma em ordem
al[abetica, com a Povoação existente no anno de 1 8 0 1 , tra balho de Manuel Travaços da Costa Araújo, d e
que existe outro exemplar na Biblioteca Pública e Arqu ivo Distrita l de Ponta Delgada, Biblioteca Ernesto do
canto, códice 1 5 3 .

Londres, 1 8 1 1 , p. 1 06- 1 2 1 .

4 Lisboa . 1 8 1 2 .

Reflexões sobre o actual Regulamento do Exercito de Portugal publicado em 1 8 1 6; ou analyse dos artigos
essencialmen te defeituosos e nocivos· à Nação: com o Projecto de um Plano de Organisação para o mesmo
Exercito, i/lustrado com Mappas da Povoação do Reino. Lisboa, 1 8 20.

6 Lisboa , 1 8 20.

Vo/. 1, Pa ris, 1 8 2 2 , p. 1 9 2 - 1 93.

Consu lte-se Fernando de Sousa , Portuga l nos fins do Antigo Regime (Fontes para o seu Estudo), Braga,
1 9 7 7 , (separata da Revista Bracara A ugusta).

9 Para 1 80 2 , tra balhamos com 852 freguesias e 7 3 1 583 habitantes.

10 ver, de Fernando de Sousa, Portugal nos fins do An tigo Regime. (Fontes para o seu Estudo). Braga, 1 9 7 7 .

11 Joaquim José Ferreira Gordo, Memorias sobre a Vil/a de Alhandra . . . , cod. 1 6 6 2 da B.N.L.

12 Subsídios para a História da Estatística em Portugal. 11 - Taboas Topográficas e Estatisticas, 1 8 0 1 , Lisboa,


1 94 8 , quadro relativo à comarca de Beja.

72
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INÍCIOS DE SÉCULO XIX

13 Ferna n d o d e Sousa - "A Popu l açã o Portuguesa ern fi na i s d o sé cu l o XVIII", População e Sociedade, vo l . 1 ,
CEPFAM, Porto, 1 995.

14 Consu l te W i l h e l m A b e l , Crises Agraires en Europe (XIII-XX siécles), Par i s, 1 9 7 3 ; Pa u l Ba i roc h , commerce


Extérieur et Déve/oppement Économique de /'Europe au XIX siéc/e, Par i s, 1 9 76; Le Roy La d u ri e Le Territoire
de L'Historien, Par i s, 1 9 77; B.R. M i tc h e l l , European Historical Statistics, New York , 1 9 7 5 ; Josep h j. Spengl er,
"Demogra p h i c Factors an d Ear ly Mo d em Econom i c Deve l opment", Popu/ation and social Change, Lon d res,
1 9 7 2 , p. 8 7-98; The Fontano Economic History. The Industrial Revolution, G l asgow, 2• e d . , 1 9 7 5 . Para Espan h a ,
v e r Gonza l o A l vares Anes, Las Crises Agrarias e n l a Espana Moderna, Ma d r id , 1 9 7 4 , (re i m p ressã o). Para
França, J . Meuvret, "Demograp h i c Cri s i s i n France from t h e S i xteenth to th e E i g h teenth Century", Popu/ation
in History, L o n d res, 2' e d . , 1 9 7 4 , p. 5 0 7 - 5 2 2 ; d o m e s m o a u to r , " L e s c r i ses d e s u b s i sta n c e s et l a
D é mograp hi e d e l a France d 'Anci en Régi me", Études d'Histoire Économique, Paris, 1 97 1 , p. 2 7 1 -278; e Ernest
Labrousse, Ruggiero Romano e F. -G. Drey[us, Le Prix du froment en France au temps de /a Monnaie Stable
( 1 7 2 6- 1 9 1 3), Pari s, 1 9 70.
Para Portuga l , ver Antó n i o d e A l me id a, História da Febre que grassou na Cidade de Penafiel em 1 7 9 1 e
1 792, Co i m b ra, 1 792; Memorias sobre o stado actual da Vil/a de Recardaens e Annexas, 1 794, cód i ce ms. d o
A.A.R.; Dietario do Mosteiro de S. Bento da Saudade de Lisboa ( 1 798- 1 8 1 2), códices 73 1 e 732 da B.N.L.; Li n k
e H o ffm a n segg, Voyage en Portugal .. . , I I I , Pa r i s, 1 8 0 5 , Jos é A l vares d a S i l va, "O b servaç õ e s Bota n i co­
Meteoro l ogi cas d o Anno d e 1 800 . .. ", Memorias Economicas, V, L i s b oa, 1 8 1 5 , p. 1 38 - 1 44; A lb ert S i l b ert, Le
Portugal Méditerranéen à la [in de I'Ancien Régime... , Par i s, 1 966, p. 54 1 ; A l bert S i l b ert, "Contri b u i t i o n a
l ' é tu d e d u Mouvement d u Pr i x d es cerea l es à Li s bonne", Revista de Economia, V I , L i s b oa, 1 9 5 3 , p. 65-80;
V i tor i no Maga l hã es Go di n h o, Prix et Monnaies au Portugal, Pa r i s, 1 95 5 .

15 Ro d r i gues d e Br i to, o b . e vo l . c i ts., nota (a) à p. 3 3 ; e Jos é Antó n i o d e Sà , Memoria Academica da Provincia
de Traz-os-Montes, passagem tra nscr i ta por Antó n i o Pere i ra Cout i n h o, Annaes Agricolas do Districto de
Bragança, Porto, 1 8 78, p. 2 7 - 2 8 .

16 Os Frades julgados no Tribunal da Razão, p. 3 6 e 3 8 - 3 9 .

17 Ro d r i gues d e Br i to, o b . e vo l . c i ts., nota ( b) à p. 2 2 e notas (b ) e (c) à p. 34.

18 I d e m , p. 6 5 , 69 e 90.

19 Henr i que José d a S i l va, "Re l açã o d a entra d a e su cessos d os h espan h o i s na provi nv i a d o A l entej o ... ", Boletim
do Arquivo Histórico Militar, 6" vo l ., Li s boa, 1 93 6 , p. 2 1 1 .

20 Diccionario de Agricultura.. . , I , L i s boa, 1 804, p. VIl.

21 "Le Portuga l et l a Ré vo l ut i on ( 1 789- 1 9 1 4), Arquivos do Centro Cultural Português, VIl, Pa r i s, 1 9 7 3 , p. 2 8 5 ; e


A.H.U., vo l . Re i no, mç. 3 3 .

22 Diario d o Governo d e 9 d e Fevere i ro d e 1 8 56.

23 I d em.

24 Qua d ro constru id o a parti r d a o b . ci t. d e V i tori no Maga l hã es Go d i n h o, d e i n formaçõ es fornecid as por David


Justi no - A b rantes, Caste l o Branco, Santaré m e E l vas - e reco lhid as por n ó s p ró pr i os, para V i l a Rea l , preços
re fer id os aos meses d e J u n h o o u Ju l h o.

25 Lu i s d e Ol i ve i ra Ramos, Inéditos do cardeal Saraiva, Braga , 1 9 76, p. 58-59.

26 Antó n i o Caetano d o Amarai, Memorias para a Historia ... do Arcebispo de Braga, 11, Braga, 2' e d ., 1 86 8 , p. 4 3 8 e
4 4 5 - 446.

27 Jos é jac i nto d e Sousa, ms. c i t.; e fi c h a d o recenseamento d e 1 802, re l ati va a Mance l os.

28 ]ourna/s o[ a Residence in Portugal 1 800- 1 8 0 1 , Ox ford , 1 960, p. 3 9 a 5 5 .

73
FERNANDO DE SOUSA

29 Livro das Férias e Recibos da Typographia da Academia; e Livro das Férias da Typographia, códi ces ms. d a
A.C. L.

30 une comarque Portugaise .. . , Pa r i s, 1 9 7 1 , p. 48-50.

31 "Descri pçã o ... d e Pena fi e l ", Historia e Memorias da Academia, X, parte 11, L i s b oa. 1 830, p. 48 e 7 1 .

32 Joaqu i m Vare l a , "Memor i a ... d e Monte Mor o Novo", Historia e Memorias d a Academia, V , parte I , L i s b oa,
1 8 1 7, nota ( b) à p. 70.

33 "Descr i pçà o ... d e Pena fi e l ", o b . e vo l . c i ts., p. 7 1 .

34 Sociedad y Estado e n el Siglo XVIII espaiiol, Barce l ona, 1 9 76, p . 384.

35 Antó n i o Sousa Monte i ro, Manual de Direito Ecclesiastico Parochial, 11, Co i m b ra, 1 868, p. 3 74 - 3 7 5 .

36 I d em, I , Co i m b ra, 1 86 7 , p. 1 5 4.

37 Vasco Sa l ema, "caste l o Branco n o fi na l d o S é cu l o, XVI I I " , Estudos de castelo Branco, n" 20, caste l o Branco,
1 966, p. 58

38 C f. os Livros de Visitas ex i stentes no A.D.B. ou A.E.B.; ver, Fernan d o d e Sousa , subsídios para a História
Social do Arcebispado de Braga, Braga, 1 9 76.

39 "Análi se Regi ona l d o Dec li n i o d a Fecun dida d e .", Análise Social, segun da s é ri e, XIII, 1 977, 4", p. 94 1 .

40 Jacques Ma rca de , o b . c i t., p . 1 1 4.

41 Fernan d o d e Sousa, Subsídios...

42 Cadastro do Reino 1 80 1 - 1 8 1 2, L i s b oa, 1 94 5 , p. 6-7.

43 "Memoria ... de Monte Mor o Novo", o b . e vo l . c i ts., nota ( b) à p. 70.

44 Jacques Ma rca de , Frei Manuel do cenáculo. . . , Par i s, 1 9 7 8 , p. 1 2 2 e nota 1 5 6 à mesma p á gi na.

45 "Memoria ... de Monte Mor o Novo", o b . e vo l . c i ts., nota (a) à p. 70.

46 I d em. p. 70.

47 Jacques Ma rca de , "Les Hommes et l a v i e d ans ! 'A l entej o . .. ", Arquivos do Centro Cultural Português, X, Par i s,
1 9 76, p. 209.

48 carta d e l e i d e 6 d e Outu b ro d e 1 784. Cf. Antó n i o Gouve i a P i nto, Exame critico ., L i s b oa, 1 8 2 8 , p. 7 3 - 74; e
Joaqu i m Vare l a, "Memor i a d e Monte Mor o Novo", o b . e vo l . c i ts., p. 1 4: "a l guns mance b os l eva d os a o
esta d o conj unga l , s e m vergon h a nem pej o d esprezã o s u a s m u l h eres, ate na prox i m id a d e d os d i as d as
b o d as".

49 Mar i no Fra nz i n i , "Noti c i as esta d i st i cas .. ", Almanach Portuguez, L i s b oa, 1 8 2 5 , p. 1 1 .

50 "La Morta l i te en France ... ", o b . e vo l . c i ts., p. 84.

51 J . T. Kra use, "Th e C h a ng i ng a d equacy o f Eng l i s h Regi strat i on, 1 690- 1 8 3 7", Population in History, Lon d res, 3'
e d ., 1 9 74, p. 3 79- 3 9 3 .

52 La Poblacion de Bilbao en e/ siglo XVIII, Va l l a d o lid , 1 96 1 .

53 J . B . carré re, Tableau de Lisbonne e n 1 796, Pa r i s, 1 797, p . 2 2 5 - 2 2 6 .

74
A POPULAÇÃO PORTUGUESA NOS INíCIOS DE SÉCULO XIX

54 Agostinho da Costa, Descrição .. da cidade do Porto, Porto, 2' ed., 1 945, p. 79.

55 "Descripção ... de Penafiel", ob. e vol. cits., p. 1 64.

56 Idem, p. 1 3 3

57 Jacques Marcadé, "Les Hom mes et la V i e. . ", o b . e v o l . cits., p. 209-2 1 0.

58 J. Manuel Nazareth, o Envelhecimento da População Portuguesa, Lisboa, 1 9 79, pp. 62-64 e 74.

59 Essai Statistique ... , I, Pa ris, 1 82 2 , p. 1 8 5 e 2 1 1 -2 1 2.

60 La Civilisation de I 'Europe C/assique, Paris, 1 96 1 , p. 1 79.

61 ver Fernando de Sousa, História da Estatística em Portugal, Lisboa, 1 995.

62 os dados relativos ao censo do Minho, em 1 794, são os do recenseamento de Vilas Boas, publicado por
António cruz, Geografia e Economia da Província do Minho nos fins do Século XVIII, Porto, 1 9 70.
63 A expressão "rejuvenesci mento na base" significa u m a u mento da proporção do grupo das idades jovens
e a expressão "envel hecimento no topo" traduz um aumento da proporção do grupo das idades mais
avançadas.

64 Os dados relativos ao censo de Trás-os-Montes, em 1 794, foram extraídos do Mappa do Estado actual da
Provín cia d e Trás -os-Mon tes, de Co l u m b a n o P i n to R i b e i ro de castro, cód i c e ms. da B i b l i oteca d a
Assembleia d a República.

65 Link e Hoffmansegg, Voyage en Portugal depuis 1 797 jusq u 'en 1 799, III, Paris, 1 80 5 , p. 3 1 5.

66 os dados relativos ao censo do Algarve, em 1 78 7 , pertencem ao Mappa geral de di[[erentes objectos, e


noticias do Reyno do Algarve, códice ms. da B.N.L., que i rá ser publicado, brevemente, por nós.

67 consu lte J. Manuel Nazareth, O Envelhecimento da População Portuguesa, Lisboa, 1 9 79.

68 Para os grupos de idades relativos aos vários paises europeus, consultar B.R. Mitchell, European Historica/
Statistics, New York, 1 9 75; Mols, ob. cit.; jordi Nadai, La Población Espaiiola, Ba rcelona, 4" ed., 1 976; Pedro
Romero de Solis, La Población Espano/a en /os Siglas XVIII y XIX, Madrid, 1 9 73.

69 Para os dados relativos a 1 864, consu ltar J . Manuel Nazareth, o Envelhecimento d a População Portuguesa,
cap. 1.

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