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14/06/2018 Fonte

Estudos de Sociologia - ISSN: 2317-5427, v. 1,


n. 18 (2012)

DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA LOUCURA À
REFORMA PSIQUIÁTRICA: as sete vidas da
1
agenda pública em saúde mental no brasil

FROM INSTITUTIONALIZATION OF MADNESS


TO PSYCHIATRIC REFORM: THE SEVEN LIVES
OF THE PUBLIC AGENDA ON MENTAL HEALTH
IN BRAZIL

Eliane Maria Monteiro da Fonte

_______________________________________________________________________

Resumo

Este artigo tem por objetivo examinar, de forma


sucinta, a estruturação das políticas de saúde mental no
Brasil, desde os seus primórdios até o período atual. As
políticas de saúde mental são aqui consideradas como
um acordo político-jurídico que se estabelece numa
determinada sociedade sobre a concepção e respostas
aos problemas da loucura/doença mental. C om base
em fontes secundárias e em trabalhos de terceiros,
buscou-se esboçar as principais tendências na trajetória
das políticas para esse setor, que tem sua origem em
1830, com o projeto de medicalização da loucura e se
materializa com a criação dos primeiros hospícios para
alienados, no final da segunda metade do século XIX,
culminando no processo que se convencionou chamar
de reforma psiquiátrica, no final do século XX. Este
exercício sobre a história da agenda pública no cuidado
com a saúde mental no Brasil nos permitiu identificar
sete fases nessa trajetória, as quais são discutidas por
etapa desta evolução, apresentando ao final algumas
das principais tendências nas políticas de saúde mental
no Brasil na atualidade.

Palav ras-chav e

Loucura. Políticas de Saúde Mental. Instituição


Psiquiátrica. Reforma Psiquiátrica.

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Abstract

This article aims to analyse, briefly, the structuring of


mental health policies in Brazil, from its beginnings to
the current period. The mental health policies are
considered here as a legal-political agreement that is
established in a particular society on the conception and
answers to the problems of madness/mental illness.
Based on secondary sources and other’s studies, we
attempted to outline the main trends in the trajectory of
policies for this sector, which has its origin in 1830, with
the project medicalization of madness and it is
materialized with the creation of the first hospices for
the insane, at the end of the second half of the
nineteenth century, culminating in what has been called
the psychiatric reform, in the late twentieth century.
This exercise on the history of the public agenda in
mental health care in Brazil allowed us to identify seven
phases in this trajectory, which are discussed by stages
of this evolution, presenting at the end some of the
main trends in mental health policies in Brazil today.

Keywords

Madness. Mental Health Policy. Psychiatric Institution.


Psychiatric Reform.

Introdução

A construção da loucura como doença mental e a


propagação de instituições asilares especialmente
destinadas aos alienados, assinalando “a formulação de
políticas públicas de tratamento e/ou repressão dos
doentes mentais, identificados com base nos limites
cada vez mais abrangentes da anormalidade”,
distingue-se como um processo desencadeado no Brasil
entre os anos 1830 e os anos 1920, marcado por
continuidades e descontinuidades (ENGEL, 2001, p.
330). Este artigo, de caráter exploratório, baseado em
fontes secundárias e em trabalhos de terceiros, tem por
objetivo examinar, de forma sucinta, a estruturação e
transformações das políticas de saúde mental no Brasil,
desde os seus primórdios até o período atual. As
políticas de saúde mental são aqui consideradas como
um acordo político-jurídico que se estabelece numa
determinada sociedade sobre a concepção e respostas
aos problemas da loucura/doença mental. O foco da
análise são as transformações da instituição psiquiátrica
no Brasil, constituída historicamente em seu modelo
asilar como o lugar de confinamento e tratamento
especialmente destinado aos loucos. O que se
convencionou denominar como “reforma psiquiátrica”,

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que está em curso no país nos últimos 35 anos, poderia


deixar transparecer a ideia de reformas que
caracterizam os rearranjos institucionais sem
transformá-los em sua essência. Entretanto, este é um
processo multifacetado e muito mais complexo do que a
mera reorganização dos serviços de assistência em
saúde mental, extrapolando o campo da psiquiatria
enquanto um saber-fazer especializado (AMARANTE,
1998b). O caráter abrangente e radical que dá
significado a essa expressão se deve aos
desdobramentos que o processo de reforma psiquiátrica
adquire, a partir de 1978, como um movimento social
de base ao adotar o lema “Por uma sociedade sem
manicômios”,

[...] que significou abraçar a


bandeira da eliminação
progressiva dos hospitais
psiquiátricos e sua
substituição por outros tipos
de equipamentos
comunitários, territorialmente
circunscritos e voltados para
a inserção social dos
usuários, como passam a ser
chamados os “doentes
mentais”, no contexto de
recuperação de sua
cidadania, identidade e
condições de sujeitos
(PASSOS, 2009a, p. 159).

Não se pretende empreender aqui uma exaustiva


reconstituição histórica das práticas de cuidados à
loucura, entendida também como “um tipo especial de
existência-sofrimento, que faz apelo a saberes
2
especializados para seu alívio” , mas esboçar as
principais tendências na trajetória das políticas de saúde
mental no Brasil. Este exercício sobre a história da
agenda pública no cuidado com a saúde mental nos
permitiu identificar sete fases nessa trajetória, as quais
são discutidas a seguir, por etapa desta evolução. Na
seção final são apresentadas algumas das principais
tendências nas políticas de saúde mental no Brasil na
atualidade, apontando os progressos nos modelos de
cuidados que estão sendo criados, mas também as
dificuldades e obstáculos que ainda persistem.

1. A institucionalização da loucura no Brasil

A loucura só vem a ser objeto de intervenção por parte


do Estado no início do século XIX, com a chegada da
Família Real ao Brasil, depois de ter sido socialmente
ignorada por quase trezentos anos. Nesse período de
modernização e consolidação da nação brasileira como

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um país independente, passa-se a ver os loucos como


“resíduos da sociedade e uma ameaça à ordem
pública”. Aos loucos que apresentassem
“comportamento agressivo não mais se permitia
continuar vagando nas ruas, principalmente quando sua
situação socioeconômica era desfavorável, e “seu
destino passou a ser os porões das Santas C asas de
Misericórdia, onde permaneciam amarrados e vivendo
sob péssimas condições de higiene e cuidado”
(PASSOS, 2009a, p. 104).

Em 1830, a recém-criada Sociedade de Medicina e


C irurgia lança uma nova palavra de ordem: “aos loucos
o hospício”. Para Machado (1978, p. 376), só é possível
compreender o nascimento da psiquiatria brasileira a
partir da medicina que incorpora a sociedade como
novo objeto e se impõe como instância de controle
social dos indivíduos e da população. O hospício,
considerado na época o principal instrumento
terapêutico da psiquiatria, aparece como exigência de
uma critica higiênica e disciplinar às instituições de
enclausuramento e ao perigo presente em uma
população que começa a ser percebida como desviante,
a partir de critérios que a própria medicina social
estabelece.

O projeto de medicalização da loucura, esboçadas nos


textos médicos deste período, que defendiam novos
parâmetros para a loucura e a necessidade de reclusão
dos loucos, começaria a ser concretizado a partir da
criação dos primeiros hospícios nas décadas seguintes.
Entretanto, as funções saneadoras dos primeiros
hospitais psiquiátricos fornecem às origens da
assistência psiquiátrica brasileira um caráter bastante
peculiar, que é “o da precedência da criação de
instituições destinadas especificamente para abrigar
loucos sobre o nascimento da psiquiatria , enquanto
3

corpo de saber médico especializado” (RESENDE, 2007,


p. 39).

Pode-se situar o marco institucional da assistência


psiquiátrica brasileira com a fundação do primeiro
hospital psiquiátrico, o Hospício D. Pedro II,
explicitamente inspirado no modelo asilar francês
(elaborado por Pinel e Esquirol), que ocorreu em 1852,
no Rio de Janeiro. De acordo com Machado (1978, p.
431), o isolamento foi uma “característica básica do
regime médico e policial do Hospício Pedro II” e era o
próprio hospício, concebido como o lugar do exercício
da ação terapêutica, que deveria realizar a
transformação do alienado. Nesse primeiro momento, o
isolamento em relação à família é prioritário e
indispensável apenas para um tipo especifico de louco:
o caso do louco que vaga pela rua, pois a família pobre
não tem possibilidade alguma de garantir a segurança e
o tratamento. Para famílias ricas, que quisessem
manter junto dela o alienado, o internamento não
deveria ser imposto, pois, ainda que com limitações,

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acreditava-se que ela poderia reproduzir um hospício no


interior de sua ampla residência.

Durante o Segundo Reinado (1840-1889), foram criadas


outras instituições, que se denominavam “exclusivas
para alienados” em São Paulo (1852), Pernambuco
(1864), Pará (1873), Bahia (1874), Rio Grande do Sul
(1884) e C eará (1886). C onforme aponta Resende,
4

...as primeiras instituições


psiquiátricas surgiram em
meio a um contexto de
ameaça à ordem e à paz
social, em resposta aos
reclamos gerais contra o livre
trânsito de doidos pelas ruas
das cidades; acrescentem-se
os apelos de caráter
humanitário, as denúncias
contra os maus tratos que
sofriam os insanos. A recém-
criada Sociedade de Medicina
engrossa os protestos,
enfatizando a necessidade
dar-lhes tratamento
adequado, segundo as teorias
e técnicas já em prática na
Europa (RESENDE, 2007, p.
38).

Entretanto, a ênfase no caráter religioso e caritativo das


instituições criadas durante este período acabaria por
restringir o caráter medicalizado destes hospícios, onde,
até o fim do Império, não havia presença significativa
de médicos. Não só a nosologia psiquiátrica estava
ausente das instituições, como também eram leigos os
critérios de seleção dos pacientes, a juízo da autoridade
pública em geral. Os poucos médicos existentes nas
instituições tinham pouca influência nas questões
administrativas e, somente no início do século XX, os
médicos conseguiram desmontar as poderosas
administrações leigas das Santas C asas, bem como as
ordens religiosas que prestavam serviços nestes locais,
instalando-se na direção dessas instituições (ENGEL,
2001; ODA e DALGARRONDA, 2005).

[...] por mais parciais e


ambíguas que tenham sido as
primeiras conquistas dos
alienistas brasileiros, elas
estiveram pautadas, desde o
início, na ampliação do
significado da moléstia mental
que, ultrapassando em muito
os limites da loucura
associada ao delírio,
procurava legitimar a
reclusão de indivíduos que
manifestassem os mais

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diversos comportamentos
considerados moral e/ou
socialmente perigosos, ao
mesmo tempo em que
viabilizava as perspectivas de
ampliação de poder do
alienista (ENGEL, 2001, p.
331).

Nas análises dos relatórios dos presidentes das


províncias estudadas, Oda e Dalgarronda (2005, p.
1005) identificam “uma clara contradição entre o
discurso que enunciava um projeto de assistência oficial
e moderno aos loucos e uma prática realmente
efetivada”. De fato tratava-se de pessoas pobres
submetidas a uma reclusão forçada e a péssimas
condições de vida. Nos documentos analisados por
estes autores há claras indicações da existência de
pressão para internação dos portadores de transtorno
mental, de sua retirada das ruas, ação operacionalizada
através das autoridades policiais. Para eles, o processo
de institucionalização dos alienados no Brasil foi
marcado pela construção de uma opinião pública
consensual quanto à necessidade e legitimidade de sua
reclusão em hospícios próprios.

2. A medicalização da loucura

C om o advento da República, em 1889, tem início um


período que se caracteriza pelo “redimensionamento
das políticas de controle social, cuja rigidez e
abrangência eram produzidas pelo reconhecimento e
pela legitimidade dos novos parâmetros definidores da
ordem, do progresso, da modernidade e da civilização”
(ENGEL, 2001, p. 331). Asilo de alienados, quartel de
polícia, hospital psiquiátrico, hospício, asilo de
mendicidade e casa de correção tinham como função
principal realizar a exclusão social do louco, garantindo
que ele não ficasse perambulando pela rua, à vista dos
passantes, o que era incompatível como nosso pretenso
grau de civilidade. Entretanto, se os arranjos realizados
nas distintas unidades da Federação foram
diferenciados, uma tendência geral serviu de pano de
fundo para todas as respostas distintas e práticas
diferenciadas no tratamento da loucura pelo poder
público: a exclusão em instituições asilares de milhares
de ‘homens livres’, “onde só aguardavam o dia de sua
morte, encarcerados nesses imensos cemitérios dos
vivos” (JABERT, 2005, p. 714).

Em 1890, o Hospício Pedro II é desvinculado da Santa


C asa, ficando subordinado à administração pública,
passando a denominar-se Hospício Nacional de
Alienados, primeira instituição pública de saúde
estabelecida pela República. Para Resende,

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Pode-se estabelecer
grosseiramente o período
imediatamente posterior à
proclamação da república
como o marco divisório entre
a psiquiatria empírica do vice-
reinado e a psiquiátrica
científica, a laicização do
asilo, a ascensão dos
representantes da classe
médica ao controle das
instituições e ao papel de
porta-vozes legítimos do
Estado, que avocara a si as
atribuições da assistência ao
doente mental, em questões
de saúde e doença mental tal
como a gravidade da situação
exigia (RESENDE, 2007, p.
43).

Nesse período, a loucura é gradativamente


medicalizada e o tratamento psiquiátrico continua a ter
como principal fundamento o isolamento do louco da
vida social. “Os hospícios e as colônias agrícolas,
destinadas aos loucos curáveis, para tratamento
através da práxis ou da ergoterapia, foram surgindo e
se multiplicando pelos principais centros urbanos do
país como ícones de sua modernização” (PASSOS,
2009a, p. 107). Para Amarante (1998a, p. 76), “este
conjunto de medidas caracterizam a primeira reforma
psiquiátrica no Brasil, que tem como escopo a
implantação do modelo de colônias de assistência aos
5
doentes mentais” .

Nesta época, a maioria dos Estados brasileiros


incorpora colônias agrícolas à sua rede de oferta de
serviços, seja como complemento aos hospitais
psiquiátricos tradicionais, seja como opção única ou
predominante. De acordo com Resende (2007, p. 47), o
entusiasmo na adesão “à política de construção de
colônias agrícolas não se deu apenas por exclusão de
outras estratégias terapêuticas, de eficiência duvidosa,
mas por ter encontrado um ambiente político e
ideológico propícia ao seu florescimento”.

C omo a prática psiquiátrica


não existe num vazio social,
era de se esperar que ela
assimilasse aos seus critérios
de diferenciação do normal e
do patológico os mesmos
valores da sociedade onde se
inseria, e se empenhasse em
devolver à comunidade
indivíduos tratados e curados,
aptos para o trabalho. O
trabalho passou a ser ao
mesmo tempo meio e fim do

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tratamento (RESENDE, 2007,


p. 47).

Entretanto, apesar das intenções de recuperação dos


doentes mentais, nas propostas de seus criadores, as
colônias continuaram a manter na prática a mesma
função que caracterizava a assistência ao alienado no
Brasil desde a sua criação: a de excluir o louco de seu
convívio social e de escondê-lo dos olhos da sociedade.
Este período, que se encerra em 1920, mantém
“inalterada a destinação social do hospital psiquiátrico a
despeito da substituição da psiquiatria empírica pela
cientifica” (RESENDE, 2007, p. 52) e se destaca pela
ampliação do espaço asilar.

3. Da higiene mental à psiquiatria


comunitária

A década de 1920 é marcada pela “ampliação e o


aprofundamento da influência dos princípios eugênicos
no âmbito da psiquiatria brasileira, que sem romper
com os referenciais organicistas, passaria a
caracterizar-se, cada vez mais, pela presença de
perspectivas preventistas” (ENGEL, 2001, p. 175). Em
1923, com a fundação da Liga Brasileira de Higiene
Mental (LBHM), se cristaliza o movimento de higiene
mental, como um programa de intervenção no espaço
social com características marcadamente eugenistas,
xenofóbicas, antiliberais e racistas. A psiquiatria passa
também a pretender a recuperação das raças e a
constituição de coletividades sadias, colocando-se
definitivamente em defesa do Estado, levando-o a uma
ação rigorosa de controle social e reivindicando um
maior poder de intervenção (AMARANTE, 1998a, p. 78).

As palavras de ordem da Liga eram “controlar, tratar e


curar” e os fenômenos psíquicos eram vistos como
produtos da raça ou do meio, decorrentes de obscuros
fatores biológicos ou orgânicos. A visão da vertente
mais radical da Liga, liderada por Gustavo Riedel, seu
fundador, guiava-se por um princípio moralizador e
saneador dos comportamentos, pregando a pureza da
raça ainda que fosse à custa da esterilização dos
“tarados e degenerados”. A vertente higienista
propunha melhorias sanitárias e modificação dos
costumes e dos modos de vida da população como
forma de prevenir as doenças mentais, pois embora
tivessem origem em fatores individuais, as condições
sanitárias, tais como “o aumento do alcoolismo e da
sífilis”, eram consideradas como “fatores
desencadeantes” (C OSTA, 1989 apud PASSOS, 2009a,
p. 108).

De acordo com Venâncio (2007), as ações político-


assistenciais para a área da psiquiatria, iniciadas na

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década de 1940, foram organizadas no contexto de um


processo de modernização, centralização e
nacionalização da assistência mais ampla em saúde.
Esse processo foi iniciado em 1930, articulado a uma
reforma das políticas de saúde, com a criação de
serviços nacionais por doenças produzindo uma
verticalização das ações, atreladas a enfermidades
especificas. Em 1941, foi criado o Serviço Nacional de
Doenças Mentais (SNDM), vinculado ao Ministério da
Educação e Saúde . Neste período predominavam os
6

hospitais públicos responsáveis por 80,7% dos hospitais


psiquiátricos no Brasil. Os famosos asilos, como o
Juqueri (em São Paulo), o Hospital de Alienados (no Rio
de Janeiro) e o São Pedro (em Porto Alegre), exerciam
um papel orientador da assistência psiquiátrica,
consolidando a política macro-hospitalar pública como o
principal instrumento de intervenção sobre a doença
mental. Embora existissem alguns hospitais privados e
ambulatórios, estes eram bastante incipientes diante do
vigor dos hospitais públicos (PAULIN e TURATO, 2004).

As décadas de 1940 e 1950 se caracterizam pela


expansão de hospitais públicos em vários estados
brasileiros, cujo crescimento foi propiciado pela
aprovação do decreto-lei 8.555, de 3 de janeiro de
1946, que autorizava o SNDM a realizar convênios com
os governos estaduais para a construção de hospitais
psiquiátricos. O C ódigo Brasileiro de Saúde, publicado
7

em 1945, condenava as denominações ‘asilo’, ‘retiro’ ou


‘recolhimento’, reconhecendo a categoria ‘hospital’, se
afirmando o espaço de atuação do hospital psiquiátrico.
Naquela época a psiquiatria buscava se estabelecer
como especialidade médica e os instrumentos mais
avançados da psiquiatria biológica foram introduzidos
no país, como o choque cardiazólico, a psicocirurgia, a
insulinoterapia e a eletroconvulsoterapia (SAMPAIO,
1988; AMARANTE, 1998a).

A criação de novos hospitais não amenizou a situação


caótica dos hospitais públicos que, na década de 1950,
viviam em total abandono e apresentando excesso de
pacientes internados, continuando os hospitais
psiquiátricos a terem basicamente a função social de
exclusão. A assistência psiquiátrica pública apresentava
enorme lentidão em tomar conhecimento das
importantes transformações que ocorriam na prática
psiquiátrica na Europa e Estados Unidos no período pós-
segunda guerra e as drogas psicóticas, parcialmente
responsáveis por grandes transformações nas práticas
terapêuticas dos asilos, só fariam sua aparição no
mercado em 1955. Segundo Resende (2007, p. 56), o
descrédito que os hospitais públicos atingiram junto à
população, “expressada em marchinhas de carnaval,
anedotas e rótulos pejorativos atribuídos a
determinados hospitais”, seria utilizado posteriormente
como “evidência incontestável de sua incompetência e
um forte argumento em favor da excelência da
iniciativa privada”.

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3. O surgimento da “indústria da loucura”

O tratamento asilar foi sendo modificado, questionado e


mesmo substituído desde o pós-guerra em vários
países. Neste período vários movimentos de
contestação ao saber e prática psiquiátrica instituída se
fizeram notar no cenário mundial, dos quais se
destacam os movimentos denominados Psiquiatria de
Setor, na França; as C omunidades Terapêuticas, na
Inglaterra; e a Psiquiatria Preventiva, nos EUA . Esses
8

movimentos se caracterizaram por visar uma reforma


do modelo de atenção psiquiátrica, propondo rearranjos
técnico-científicos e administrativos da psiquiatria.
Apesar disso, observa-se uma grande expansão da
rede de hospitais psiquiátricos no Brasil a partir da
década de 1960.
9

O período que se seguiu ao golpe militar de 1964 foi o


marco divisório entre uma assistência eminentemente
destinada ao doente mental indigente e uma nova fase,
a partir da qual se estendeu a cobertura à massa de
trabalhadores e seus dependentes. Foram os governos
militares que consolidaram a articulação entre
internação asilar e privatização da assistência, com a
crescente contratação de leitos nas clínicas e hospitais
psiquiátricos conveniados, que floresceram rapidamente
para atender a demanda. As internações passaram a
ser feitas não apenas em hospitais públicos (que, dadas
as suas precárias condições, permaneceram reservados
aos indivíduos sem vínculos com a previdência social),
mas em instituições privadas, que eram remuneradas
pelo setor público para isso. Na maioria das vezes, as
10

clínicas contratadas funcionavam totalmente as


expensas do Sistema Único de Saúde (SUS) – antes via
INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). Sua
única fonte de receita era a internação psiquiátrica,
remunerada na forma de diária paga para cada dia de
internação de cada paciente.

C omo na psiquiatria, ao contrário de outras


especialidades da medicina, a indicação de internação
nem sempre é clara ou indiscutível, a decisão, com
grande margem de escolha, fica a critério do médico ou
da família do paciente. C omo o pressuposto
disseminado no meio especializado e na sociedade era
de que lugar de louco é no hospício, e diante da
inexistência de dispositivos de assistência intensiva
alternativos ao modelo asilar, o sistema impulsionava a
internação, mesmo onde havia boa fé (TENÓRIO, 2002:
34). O sistema e a mentalidade vigentes estavam
organizados em torno da internação (e da internação
prolongada), as empresas hospitalares auferiam
benefícios significativos com as internações (sua única
fonte de lucro), com total falta de controle pelo estado,
observando-se um verdadeiro empuxo a internação,

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razão pela qual este sistema veio a ser chamado de


“indústria da loucura”.

A discussão acerca da necessidade de humanização do


tratamento do doente mental teve início na década de
1970, momento em que diversos setores da sociedade
brasileira se mobilizaram em torno da redemocratização
do país. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP),
em ações políticas para defender médicos que haviam
sido presos e torturados, revitalizou, no cotidiano
profissional, discussões éticas acerca dos direitos
humanos e da necessidade de ampliação dos direitos
individuais no país. Apelos para que "ninguém fosse
submetido à tortura, a tratamento ou castigo cruel,
desumano e degradante" e nem "arbitrariamente preso,
detido ou exilado" foram estendidos para a condição de
opressão do doente mental nos manicômios e sua
humilhação moral na sociedade em geral (FIRMINO,
1982, p. 35). Os hospitais psiquiátricos, centralizando a
assistência e sendo praticamente únicos na oferta de
serviços psiquiátricos no contexto nacional, tiveram as
condições internas de maus-tratos aos internados,
desnudadas e denunciadas no processo social brasileiro
de "abertura democrática". A discussão acerca da
violência, dos maus tratos e da tortura praticada nos
asilos brasileiros produziu, em grande parte, a
insatisfação que alimentou o Movimento Antimanicomial.
Entretanto, ainda não estava muito claro qual deveria
ser o modelo de cuidado e nem havia uma proposta
estruturada da intervenção clínica.

3. A deflagração da reforma psiquiátrica

A derrocada da denominada “indústria da loucura”,


capitaneada pelo Movimento de Trabalhadores em
Saúde Mental (MTSM), dá início a quinta fase, que se
inicia em 1978, identificada por Amarante e Torre
(2010: 119), como “fase de crítica institucional”, que
deflagra a reforma psiquiátrica. Segundo os autores
mencionados, foi neste ano que culminaram as
denúncias e a mobilização de atores sociais decisivos
para a transformação do sistema psiquiátrico vigente.
Para eles, o acontecimento decisivo foi a “crise da
DINSAM”, órgão do Ministério da Saúde responsável
pela formulação das políticas de saúde do subsetor
saúde mental. Vários fatores, tais como, a precarização
das condições de trabalho, e as frequentes denúncias
de agressão, estupro, trabalho escravo e mortes não
esclarecidas, nas grandes instituições psiquiátricas
brasileiras, provocaram a união dos trabalhadores da
saúde mental para a luta pelas as mudanças
necessárias no sistema. A partir daí começam a
ocorrer, em diversos estados brasileiros, congressos e
encontros decisivos na militância do MTSM, dando
origem à trajetória da Reforma Psiquiátrica Brasileira
(AMARANTE e TORRE, 2010: 117-118).

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A influência dos movimentos de crítica à psiquiatria


começou a se fazer sentir no contexto social brasileiro,
principalmente a partir da década de 1980, no ocaso da
ditadura militar e aguda crise econômica que
caracterizaram o período (OLIVEIRA e ALESSI, 2005). A
sociedade reencontrava as vias democráticas de
expressão e reivindicação e, neste contexto, as ideias
de Foucault (2005), Goffman (1996), Szasz (1961),
Laing (1969, 1982), Scheff (1966), Basaglia (1985) e
outros tiveram uma forte influência. A situação crítica
em que se encontrava a assistência psiquiátrica
brasileira era favorável à crítica proposta por esses
pensadores e por esses movimentos sociais.

Alguns grupos de técnicos de saúde, acadêmicos,


militantes sociais, organizações comunitárias e afins,
influenciados pela Psiquiatria Democrática Italiana –
especialmente o pensamento de Franco Basaglia -
começam a criar uma sistematização de pensamento
contra hegemônico na assistência em Saúde Mental. No
final da década de 1980, surgem os primeiros C entros
de Atenção Psicossocial – C APS e fecham-se alguns
manicômios e se inicia um embate epistemológico,
político e técnico em prol de “uma sociedade sem
manicômios”. Em 1987 foi realizada, no Rio de Janeiro,
a I C onferência Nacional de Saúde Mental e, em 1989,
foi dada a entrada no C ongresso Nacional do Projeto de
Lei do Deputado Paulo Delgado (PT/MG), que propunha
a regulamentação dos direitos da pessoa com
transtornos mentais e a extinção progressiva dos
manicômios no Brasil, marcando “o início das lutas do
movimento da Reforma Psiquiátrica nos campos
legislativo e normativo” (DELGADO et al, 2007, p. 41).

Entre os protagonistas desse movimento contra-


hegemônico surge o Movimento Nacional da Luta
Antimanicomial como um movimento social deveras
heterogêneo, mas com um importante consenso entre
seus integrantes: não é mais aceitável que o infortúnio
do acometimento de um transtorno mental leve
qualquer indivíduo ao encarceramento num manicômio
por décadas de sua vida, muitas vezes sem cuidados
integrais a sua saúde e com desrespeito a seus direitos
Humanos e civis.

3. A “institucionalização” da reforma
psiquiátrica

Em função do compromisso firmado pelo Brasil na


Declaração de C aracas e pela realização da II
11

C onferência Nacional de Saúde Mental, passaram a


entrar em vigor no país, a partir da década de 1990, as
primeiras normas federais regulamentando a
implantação dos serviços de atenção diária, fundadas
nas experiências dos primeiros C APS, NAPS e Hospitais-

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dias. Também foram aprovadas as primeiras normas


para fiscalização e classificação dos hospitais
psiquiátricos. As macro mudanças legislativas, jurídicas
e administrativas foram, no período de
institucionalização da Reforma Psiquiátrica,
consideradas necessárias e, até mesmo, as garantias
de operacionalização de novas práticas terapêuticas.

Nesta fase a Reforma Psiquiátrica efetivamente


começou a se materializar em serviços extra-
hospitalares, sejam intermediários ou substitutivos ao
manicômio e os novos serviços de saúde mental são
normatizados, estabelecendo-se algumas definições
administrativas e operacionais. Se, por um lado, isso
assinala a inclusão da questão na agenda
governamental, definindo legalmente sua existência
como uma nova forma de assistência oficial, por outro
lado, há uma homogeneização dos serviços pela criação
de um modelo único, denominado nos documentos
como “NAPS/C APS”, limitando “a criação de
experiências inovadoras, induzindo à criação de novas
formas de assistência estritamente sanitárias e
tecnologias de tratamento e organização de serviços
padronizados sob um modelo operacional” (AMARANTE
e TORRE, 2010, p. 122).

No contexto da reforma psiquiátrica, duas leis


solidificaram a direção da política de saúde mental no
Brasil, no sentido da desospitalização da assistência
psiquiátrica, atendimento na comunidade e respeito aos
direitos humanos do paciente: a Lei Federal nº. 10.216,
de abril de 2001, com base na famosa "Lei Paulo
Delgado", sobre a extinção dos manicômios, criação de
serviços substitutivos na comunidade e regulação da
internação psiquiátrica compulsória (aprovada no
C ongresso após 12 anos de tramitação); e a Lei Federal
nº. 10.708, de julho de 2003, instituindo o Programa De
Volta para Casa (conhecida como "Bolsa-Auxílio"), que
assegura recursos financeiros que incentivam a saída
de pacientes com longo tempo de internação dos
hospícios para a família ou comunidade . Outras
12

Portarias importantes foram também a nº 106, de 2000,


que dispõe sobre as residências terapêuticas e a
Portaria de nº 336, de 2002, que regulamenta os novos
serviços e o modelo assistencial, introduzindo as
modalidades C APS I, II e III, C APSi e C APSad.
Entretanto, apesar do processo de expansão dos C APS
e NAPS (que em 2002 já somavam 424 serviços em
todo o país), as normas para fiscalização e classificação
dos hospitais psiquiátricos não previam mecanismos
sistemáticos para a redução de leitos e cerca de 80%
dos recursos do Ministério da Saúde ainda eram
destinados aos hospitais psiquiátricos (BRASIL, 2007).

Nesse período merece destaque ainda a realização da


III C onferência Nacional de Saúde Mental, ao final de
2001, em Brasília, com ampla participação dos
movimentos sociais, de usuários e seus familiares que,
segundo Delgado et al (2007, p. 43) “consolida a

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Reforma Psiquiátrica como política de governo, confere


aos C APS o valor estratégico para a mudança do
modelo de assistência e estabelece o controle social
como garantia da reforma Psiquiátrica”, fornecendo “os
substratos políticos e teóricos para a [atual] política de
Saúde mental no Brasil”.

3. A consolidação da reforma psiquiátrica

A partir de 2003, na gestão presidencial do Governo


Lula, o processo de desinstitucionalização vem
avançando significativamente, graças à criação de
alguns mecanismos para a redução de leitos
psiquiátricos no país e a expansão de serviços
substitutivos como os C entros de Atenção Psicossocial
(C APS), levando ao fechamento de vários hospitais
psiquiátricos. A reflexão sobre essas medidas, que será
feita a seguir, apresenta um breve balanço da
implantação dos principais programas, dos novos
serviços e dos modelos assistenciais.

No que se refere à Atenção Psiquiátrica Hospitalar,


salienta-se o Programa Nacional de Avaliação do
Sistema Hospitalar/Psiquiatria (PNASH/Psiquiatria),
instituído em 2002, que é essencialmente um
instrumento de avaliação que permite aos gestores um
diagnóstico da qualidade da assistência dos hospitais
psiquiátricos conveniados e públicos existentes na rede
de saúde, descredenciando os hospitais considerados de
baixa qualidade. De fato trata-se da instauração do
primeiro processo avaliativo sistemático dos hospitais
psiquiátricos. O Programa Anual de Reestruturação da
Assistência Hospitalar Psiquiátrica no SUS (PRH),
aprovado em 2004 pelo Ministério da Saúde, tinha como
principal estratégia a redução progressiva e planejada
de leitos de macro-hospitais (acima de 600 leitos) e
hospitais de grande porte (240 a 600 leitos
psiquiátricos), evitando a falta de assistência. Para
tanto, foram definidos os limites máximos e mínimos de
redução anual de leitos para cada classe de hospitais
(definidos pelo número de leitos existentes, contratados
pelo SUS). Além disso, se deveria garantir que os
recursos que deixassem de ser utilizados nos hospitais,
com a progressiva redução dos leitos, fossem
redirecionadas para incremento das ações territoriais e
comunitárias de saúde mental (BRASIL, 2005). Dados
do Ministério da Saúde mostram, no final de 2011, uma
clara reversão dos recursos gastos com hospitais
psiquiátricos para os serviços extra-hospitalares,
quando mais de 70% dos recursos são destinados aos
gastos destes serviços (BRASIL, 2012).

Outro dado importante com relação à atenção hospitalar


é a mudança do perfil dos hospitais psiquiátricos que,
desde 2002, vem ficando menores. C om o
PNASH/Psiquiatria e o Programa de Reestruturação da

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Assistência Psiquiátrica (PRH), observa‐se uma


mudança do perfil dos hospitais psiquiátricos a partir da
redução de leitos. Tal cenário foi reforçado com a
publicação da Portaria GM 2.644/09, de 28 de outubro
de 2009, que vem induzindo o sistema, a partir do
reagrupamento dos hospitais psiquiátricos em quatro
classes , a remunerar melhor os hospitais de menor
13

porte, buscando-se a redução dos problemas presentes


nos macro hospitais e se configurando como uma
estratégia, em contextos mais difíceis de fechamento de
leitos. Dados de 2011 mostram que 49,53% dos leitos
psiquiátricos estão situados em hospitais de pequeno
porte (até 160 leitos), enquanto em 2002 apenas
24,11% estavam nestes hospitais. Os leitos em
hospitais de grande porte (acima de 400 leitos)
reduziram-se, no período 2002-2011, de 29,43% para
10,48% (BRASIL, 2012, p. 18). A expansão de leitos
psiquiátricos nos Hospitais Gerais é ainda um problema
para a rede de saúde mental, necessitando-se
investigar suas causas. Enquanto o número total de
leitos SUS em hospitais psiquiátricos, em 2011, era de
35.426 leitos, a estimativa de leitos habilitados de
psiquiatria em Hospitais Gerais era de apenas 3.910
leitos, distribuídos em 646 Hospitais Gerais, localizados
de forma muito desigual no território nacional (BRASIL,
2012, p. 20).

A implantação e o financiamento de Serviços


Residenciais Terapêuticos se constituem em
componentes decisivos para a concretização da
superação do modelo de atenção centrado no hospital
psiquiátrico. As Residências Terapêuticas são casas
localizadas no meio urbano, que devem ser utilizadas
para resolver o problema de moradia de pessoas com
transtornos mentais graves, preferencialmente as
egressas de hospitais psiquiátricos, devendo auxiliar o
morador em seu processo de construção progressiva de
autonomia, como também de reintegração na
comunidade. Para aquelas pessoas que passaram anos
de suas vidas hospitalizadas o significado de habitar
uma residência terapêutica não significaria apenas o
uso da casa, mas “um processo de (re)apropriação da
própria vida”, a passagem do lugar de “pacientes” para
o de “residentes” A metáfora “retorno para casa” pode
ser considerada “a primeira referência simbólica de um
rito de passagem que sinaliza uma nova vida, uma nova
identidade, uma nova referência” (ROEDER, 2010, p.
319). No final de 2011 existiam 779 residências em
funcionamento, com um total de 3.470 moradores, e
ainda 154 residências em implantação (BRASIL, 2012,
p. 11). Vale salientar que a cobertura deste serviço
ainda é muito baixa em relação às necessidades
existentes, e a oferta desses serviços no território
nacional também é muito desigual (até 2011 não
existiam residências terapêuticas em quatro dos
estados brasileiros).

O Programa de Volta para C asa tem como objetivo


contribuir para o processo de reinserção social e

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resgate da cidadania das pessoas com longa história de


internações em hospitais psiquiátricos, através do
pagamento mensal de um auxílio-reabilitação pago aos
seus beneficiários. Entretanto, o programa tem
encontrado algumas dificuldades na sua implementação.
A grande maioria dos beneficiários, sendo egressos de
longas internações psiquiátricas, não possui a
documentação pessoal mínima para cadastramento no
programa. Muitos não possuem certidão de nascimento
ou carteira de identidade (BRASIL, 2005; DELGADO et
al, 2007). A inclusão de beneficiários no programa
depende de vários fatores, entre os quais se destacam
o ritmo efetivo da desinstitucionalização, da organização
de Residências Terapêuticas e da reinserção de
pacientes em suas famílias, o que explica a disparidade
no número de beneficiários por estado da federação.
Dados desagregados por estado mostravam que, em
2010, os estados do Sudeste, com um total de 2.347
beneficiários, concentravam 65,7% do total de
beneficiários, enquanto nos estados do Norte apenas
quatro pessoas recebiam o auxílio (BRASIL, 2010, p.
12).

A substituição do modelo hospitalocêntrico tem se dado


através da criação e fortalecimento de uma rede de
serviços substitutivos, como os C entros de Atenção
14
Psicossocial (C APS) , Núcleos de Atenção Psicossocial
(NAPS), Hospitais-Dia, C entros de C onvivência, Serviço
de Urgência e Emergência Psiquiátrica em Pronto-
Socorro Geral, etc. C ompete aos C APS o acolhimento e
a atenção às pessoas transtornos mentais graves e
persistentes, procurando preservar e fortalecer os laços
sociais em seu território. São serviços de saúde
municipais abertos, comunitários, que oferecem
atendimento diário, que buscam realizar “o
acompanhamento clínico e reinserção social” de seus
usuários “por meio de acesso ao trabalho, ao lazer,
exercício de dos direitos civis e fortalecimento dos laços
familiares e comunitários ” (DELGADO et al, 2007: 59).

Embora os primeiros C APS tenham surgido no país


desde meados da década de 1980, só a partir de 2002
passaram a receber uma linha específica de
financiamento do Ministério da Saúde, quando se
observa uma grande expansão destes serviços. C om o
cadastramento de 122 novos C APS em 2011, entre eles
cinco C APSad 24h, a cobertura nacional em saúde
mental chegou a 72%, com 1.742 C APS em
funcionamento (BRASIL, 2012). Apesar do crescimento
numérico extraordinário dessas unidades de serviço,
estes números ainda estão aquém do parâmetro
estabelecido pelo Ministério da Saúde, que é de um
C APS para cada 100.000 habitantes. Além disso, a
distribuição espacial desses serviços no território
nacional também é bastante desigual (BRASIL, 2010).
Embora o perfil populacional seja um dos principais
critérios para o planejamento da rede de atenção à
saúde mental nas cidades, este é apenas um critério
orientador para o planejamento das ações.

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Tendências atuais das políticas de saúde mental


no Brasil: começo de uma nov a história?

Em uma rápida avaliação do processo aqui historiado,


pode-se perceber que a reforma psiquiátrica brasileira
tem se apresentado, de forma geral, bem sucedida e os
fatos e dados aqui apresentados demonstram que ela
vem alcançando alguns de seus objetivos,
especialmente no que tange à provisão de recursos
extra-hospitalares e redução da internação asilar. Um
dos êxitos da política de saúde mental atual foi ter
conseguido o redirecionamento do financiamento
público e um maior controle sobre o funcionamento dos
hospitais. Entretanto, os dados discutidos apontam
também para desigualdades regionais na inserção da
Reforma Psiquiátrica nos estados da federação.

Pode ser temerário afirmar que a era asilar tenha sido


suplantada no Brasil, considerando que, em muitos
casos, o internamento psiquiátrico como ato de
exclusão e isolamento ainda persiste em muitas
localidades. O que se pode afirmar é que a assistência à
saúde mental no Brasil apresenta uma clara tendência
para a perda de hegemonia institucional do hospital
psiquiátrico e aponta para uma nova convergência no
modelo assistencial. Mas, o fato de um serviço ser
externo não garante sua natureza não-manicomial e
sua qualidade. Uma das críticas mais contundentes da
Reforma Psiquiátrica diz respeito à identificação de
certo processo de “reinstitucionalização” nas políticas de
saúde mental, que é demonstrado pela configuração de
uma “C APScização” do modelo assistencial, na forma
como os C APS são colocados como “centro do sistema”
(AMARANTE e TORRE, 2010, p. 130).

Integra ainda o processo de reforma psiquiátrica


brasileira a disseminação do recurso dos psicofármacos
nos tratamentos terapêuticos, o que pode ser
corroborado pelo aumento vertiginoso nos gastos de
recursos federais destinados ao pagamento de
medicações “antipsicóticas atípicas”, que se amplia de
35.817 milhões, em 2002, para 263.440 milhões em
2009, valores excessivamente altos, se aproximando do
custeio federal para toda a rede C APS no período
considerado (BRASIL, 2010, p. 23). Se não se pode
negar que os médicos são, de modo geral, levados a
receitar remédios (por uma série de fatores que não
cabe aqui discutir), é verdade também que grande
parte dos usuários dos serviços espera do médico
exatamente isso e, por vezes, identifica a boa consulta
ou o bom tratamento à prescrição de medicamentos.

Mas, mesmo considerando-se alguns possíveis exageros


nessa medicalização em massa dos usuários dos
serviços de saúde mental, deve-se reconhecer a
enorme importância dos psicofármacos como

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instrumentos terapêuticos. C omo afirma Perrusi (2010:


102-103), o uso de psicotrópicos produziu um processo
de diferenciação na clientela psiquiátrica, que não
precisa mais ser identificada como reclusa no asilo,
produzindo internamentos intermitentes (com duração
limitada) e possibilitando a boa parte dos pacientes o
uso de serviços extra-hospitalares. Atualmente no
Brasil, assim como em muitos outros países, os serviços
psiquiátricos e de atenção psicossocial são utilizados
voluntariamente pelos pacientes, identificados como
“usuários”, no papel de doentes, ou seja, “num papel
reconhecido e sancionado socialmente, como qualquer
outro serviço de saúde pública ou privada”, contribuindo
para minimizar o estigma da intervenção psiquiátrica.
C omo resultado conjunto da reforma institucional
(hospitalização do asilo + instituições extra-
hospitalares), o portador do sofrimento psíquico pôde
deixar de ocupar uma linha biográfica, a carreira moral
de paciente psiquiátrico, cujo resultado era a
cronicidade do paciente, se transformando em usuário.

“Assim, os estados psicóticos


cronificados estão deixando
de povoar os hospitais
psiquiátricos e um bom
número de pacientes
reencontrou o meio social,
embora muitos sejam
dependentes de uma
assistência extra-hospitalar e
sofram de uma socialização
precária. Talvez, a
dependência dos serviços
extra-hospitalares e da ajuda
social seja a grande
contrapartida da reforma
psiquiátrica” (PERRUSI, 2010,
p. 103).

Atualmente, a visão do louco e da loucura como algo a


ser excluído do convívio social tem sido amplamente
questionado na medida em que a proposta de
desinstitucionalização vem sendo incorporada na
agenda pública. Mas, interessa saber também qual é a
visão dos profissionais de saúde, da população em geral
e dos familiares dos portadores de sofrimento psíquico
e como estes atuam neste processo.

Perrusi (2010, p. 103) salienta que o portador de


transtorno mental, mesmo deixando de ser um recluso
no asilo, pode perseverar num estado de invalidez
permanente ou sucumbir a uma exclusão social “aberta”
ou outras formas de exclusão, e até sofrer um processo
de mendigação. Um dos maiores desafios da reforma
psiquiátrica parecer ser ainda a superação do estigma
do “louco” como pessoa perigosa ou incapaz no
imaginário social. A permanência do estigma em
relação ao portador de sofrimento psíquico pode
colaborar na perpetuação da exclusão social, na

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dificuldade de inserção no mercado de trabalho e na


comunidade, na construção de relações afetivas e no
isolamento, muitas vezes levado a efeito pela própria
família, na intenção de proteger seus membros do risco
da chacota e do escárnio social.

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Inte rnacional da Associação Latino-Am e ricana de
Sociologia (ALAS), R e cife , se te m bro de 2011.

* Unive rsidade Fe de ral de Pe rnam buco, Brasil.

2Se gundo Passos (2009b, p. 35) e ssa é a e x pre ssão


utilizada pe los praticante s da de sinstitucionalização
italiana, com o form a de re nom e ar a doe nça m e ntal
por criticar o se u conte údo m é dico-patológico original
e e strito.

3Se gundo Machado (1978, p. 382), e m m e ados do


sé culo XIX surge m no Brasil os prim e iros trabalhos
te óricos sobre alie nação m e ntal, e ntre tanto, a
te orização psiquiátrica não re fle te qualque r
articulação com a prática, se constituindo e m “um
e x e rcício de cunho unive rsitário, e scolar e
burocrático”. Ape nas e m 1881 é que se ria criada a
cade ira de Psiquiatria na Faculdade de Me dicina do
R io de Jane iro.

4C onform e inform açõe s de More ira (1905) e Me de iros


(1977, apud O DA E DALGAR R O NDA, 2005).

5No âm bito da assistê ncia foram criadas as C olônias de


São Be nto e de C onde Me squita (para tratam e nto de
alie nados indige nte s do se x o m asculino) na cidade
do R io de Jane iro, as duas prim e iras colônias de
alie nados do Brasil e da Am é rica Latina. Logo de pois
foram criadas as C olônias de Juque ri, e m São Paulo,
e a de Varge m Ale gre , no inte rior do R io de Jane iro.
Em 1911, foi criada a C olônia de Alie nadas de
Enge nho de De ntro (para m ulhe re s indige nte s) e , e m
1920, são iniciadas as obras da C olônia de Alie nados
de Jacare paguá e as obras do m anicôm io Judiciário
(AMAR ANTE, 1998a, p. 76).

6O SNDM m ais tarde se constituiu na Divisão Nacional de


Saúde Me ntal (DINSAM) e hoje é a C oorde nadoria
Ge ral de Saúde Me ntal do Ministé rio da Saúde .

7Entre 1841 e 1954 foram criadas 56 instituiçõe s


psiquiátricas, conce ntradas principalm e nte na re gião
Sude ste (pre dom inante m e nte no R io de jane iro e
São Paulo), Norde ste e Norte (PASSO S, 2009a,
p.107).

https://periodicos.ufpe.br/revistas/revsocio/rt/printerFriendly/235235/28258 23/25
14/06/2018 Fonte

8Para um m ape am e nto dos m ovim e ntos re form istas da


psiquiatria na conte m porane idade consultar
Am arante (1998b).

9Em 1961 e x istiam 140 hospitais psiquiátricos no Brasil,


dos quais 54 pe rte nciam à e sfe ra pública e 86 à
e sfe ra privada. De z anos de pois, quando se de u a
m ais am pla privatização de se rviços de saúde da
história do país, 340 hospitais distribuíam -se pe lo
te rritório nacional, se ndo 277 privados e 63 públicos.
Em 1981, a re de hospitalar privada havia cre scido
ainda m ais, alcançando 425 hospitais. Ne nhum
hospital público foi abe rto e ntre 1971 e 1981
(MESSAS, 2008, p. 93).

10O dire cionam e nto do financiam e nto público para a


e sfe ra privada durante o re gim e m ilitar pode se r
pe rce bida no fato de que e ntre 1965 e 1970 a
população inte rnada em hospitais públicos
pe rm ane ce u inalte rada, e nquanto a clie nte la das
instituiçõe s privadas re m une radas pe lo se tor público
saltou de 14 m il para 30 m il, che gando a um a
proporção de 80% de le itos contratados junto ao
se tor privado e 20% dire tam e nte públicos (TENÓ R IO ,
2002, p. 34).

11O principal docum e nto norte ador das políticas adotadas


pe lo gove rno brasile iro ne sta áre a foi a de claração de
C aracas, aprovada e m 1990. Este docum e nto
e stabe le ce u a dire triz da saúde m e ntal, ce ntrando-a
na com unidade e de ntro de sua re de social. O s
re cursos, cuidados e tratam e ntos de ve m
salvaguardar a dignidade pe ssoal, dire itos civis e
hum anos, propiciando a pe rm anê ncia do doe nte e m
se u m e io com unitário. O principal e fe ito nocivo do
siste m a asilar e ra diagnosticado com o o isolam e nto,
a de sinte gração social e a e x clusão do portador de
transtorno m e ntal (DUNKER e KYR ILLO S NETO , 2004,
p. 119) .

12O pe ríodo 1990-2003 conce ntra a m áx im a inte nsidade


política e norm ativa do que cham am os, no Brasil, de
R e form a Psiquiátrica. Para um a visão do conjunto de
norm ativo no pe ríodo, ve r publicação do Ministé rio da
Saúde (BR ASIL, 2004a), que se constitui e m um a
antologia de docum e ntos le gais, capaz de ajudar na
com pre e nsão do e sforço de construção da age nda de
saúde m e ntal do SUS.

13Macro hospitais (acim a de 600 le itos); hospitais de


grande porte (240 a 600 le itos psiquiátricos);
hospitais de m é dio porte (161 a 240 le itos) e
hospitais de pe que no porte (até 160 le itos).

14O s C APS e stão e stabe le cidos e m trê s níve is: C APS I e


C APS II (para ate ndim e nto diário de adultos) e C APS
III (para ate ndim e nto diário e noturno de adultos),
de finidos por orde m cre sce nte de porte ,
com ple x idade e abrangê ncia populacional. O s C APSi
são de stinados ao tratam e nto de crianças e
adole sce nte s com transtornos m e ntais e os C APSad
são de stinados à população de pe nde nte de álcool e
outras drogas. O s C APSad III ou C APSad 24h, que
com e çaram a se r im plantados e m 2012, são se rviços
de stinados ao cuidado de pe ssoas que faze m uso
abusivo do álcool e outras drogas, que funcionam 24
horas, nos se te dias da se m ana, inclusive finais de
se m ana e fe riados.

https://periodicos.ufpe.br/revistas/revsocio/rt/printerFriendly/235235/28258 24/25
14/06/2018 Fonte

https://periodicos.ufpe.br/revistas/revsocio/rt/printerFriendly/235235/28258 25/25